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ELIZABETH D’ANGELO SERRA (ORG)

30 ANOS DE LITERATURA
PARA CRIANÇAS E JOVENS

ALGUMAS LEITURAS
DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)
(CÂMARA BRASILEIRA DO LIVRO, SP, BRASIL)

30 anos de literatura para crianças e jovens: algumas leituras / El,zabeth


D’Angelo Serra (org.). — Campinas SP : Mercado de Letras •. Associação
de Leitura do Brasil, 1998. Coleção Leituras no Brasil)
Vários autores.
ISBN 85 85725-31.1
1. Crianças — Livros e leitura 2. Literatura infanto-juvenil brasileira — História e
crítica 3. Poesias escolares brasileiras 1. Serra, Elisabeth D’Angslo. II. Série.
98.3277 CDD-869.9099282

Índice para catálogo sistemático:

1. Literatura infanto-juvenil brasileira — História e crítica 869.9099282

Capa: Vande Rotta Gomide


Ilustração da capa (detalhe): Manoel Victor Filho,
da obra Serões de Dona Benta de Monteiro Lobato.
15 ad., 1984, Editora Brasiliense
Revisão dos originais: Ninfa Parreiras
Copidesque: Marília Marcello Braida
Revisão: Roberta Mazia Munhoz

COLEÇÃO LEITURAS NO BRASIL


Coordenação: Luis Percival Leme Brilto
Conselho Editorial: Gláucia MolIo Pécors.
Valdir Heitor Barzotso, Maris José Nóbrega
Wilmar da Rocha D’Angalis e Márcia Abreu

ESTA OBRA TEM O APOIO DO FINEP


DIREITOS RESERVADOS PARA A LÍNGUA PORTUGUESA:
MERCADO DE LETRAS
13023-191 — Campinas SP Brasil
Telefax: 019) 234-1214
http: //mercado-de.letras.com
E-mail: m_letras@uol.com.br
ASSOCIAÇÃO DE LEITURA DO BRASIL
Faculdade da Educação/Unicamp
Cidade Universitária “Zeterino Vaz”
13081970— Campinas SP Rrasil

Proibida a reprodução dessa obra


sem a autorização prévia doe editores.
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO
Elizabeth D’Angelo Serra 7
1. DE LOBATO À DÉCADA DE 1970
Laura Sandroni 11
2. BALANÇO DOS ANOS 60/70
Maria Antonieta Antunes Cunha 27
3 A LITERATURA INFANTIL NOS ANOS 80
Maria da Glória Bordini 33
4. A LITERATURA INFANTIL DOS ANOS 80
Ana Lúcia Brandão 47
5. A LITERATURA PARA CRIANÇAS
E JOVENS NOS ANOS 90
Nilma Gonçalves Lacerda 59
6. CEM ANOS DE POESIA NAS
ESCOLAS BRASILEIRAS
Graça Paulino 75
7. UM PANORAMA DA LITERATURA PARA
CRIANÇAS E JOVENS
Elizabeth D’Angelo Serra 89
8. TEXTO E IMAGEM: DIÁLOGOS E LINGUAGENS
DENTRO DO LIVRO
RicardoAzevedo 105
7

APRESENTAÇÃO

Este livro reúne algumas das palestras do 1° Seminário sobre Literatura


para Crianças e Jovens, ocorrido no 11º Congresso de Leitura, promovido
pela Associação de Leitura do Brasil (ALB), em julho de 1997, na cidade
de Campinas.
O seminário foi planejado e organizado pela Fundação Nacional do Livro
Infantil e Juvenil (FNLIJ), seção brasileira do International Board on Books
for Young People (IBBY), órgão ligado à UNESCO para o livro infantil
ejuvenil e apromoçãoda leitura, como parte da programação do 11º COLE
que compreendia 14 encontros com temáticas diferentes sobre a leitura. O
convite da ALB para organizar esse 1º Seminário, no COLE, reflete a
importância da literatura infantil e juvenil para o desenvolvimento da
habilidade leitora e o reconhecimento do trabalho que a FNLIJ realiza,
desde 1968, pioneiramente, no país.
Em 1985, 1987 e 1989 a FNLIJ organizou três congressos nacionais de
literatura infantil ejuvenil, no Rio de Janeiro, com enorme sucesso,
demonstrando que a presença da literatura infantil e juvenil, nas escolas e
nas bibliotecas brasileiras, existe de maneira forte apesar de sua utilização
ainda representar uma minoria. Em geral, a literatura
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infantil e juvenil é reduzida a exercícios de ensino da gramática, perdendo-


se a oportunidade de o contato com a língua ser provocador, crítico,
original e prazeroso, potencial que a literatura, como arte, oferece.
Infelizmente, com a ação destruidorado governo ColIor na área da cultura,
a FNLIJ não conseguiu dar seqüência a seus congressos.
Assim, para a FNLIJ, o 11º COLE trouxe a possibilidade de retomar o
encontro com especialistas, professores e bibliotecários a fim de discutir e
refletir sobre o tema, bem como conhecer as inúmeras experiências
existentes hoje no país.
O encontro apresentou um panorama crítico sobre as três décadas de
produção de literatura infantil e juvenil brasileira, considerando o objeto-
livro portador de literatura quanto à qualidade de texto, ilustração e projeto
gráfico, quanto à sua função social, avaliando a sua relação com a educação
e a cultura, a produção e as condições de acesso a ela. Também analisou o
seu valor como bem para a conquista da cidadania, para a maioria da
população brasileira. Inserido dentro da programação geral do congresso, o
Seminário sobre Literatura para Crianças e Jovens reuniu o maior número
de participantes, como também o maior número de comunicações inscritas.
Foi utilizada para a reflexão a palestra de AnaMaria Machado, proferida no
encerramento do 21° Congresso do IBBY, ocorrido em Sevilha, na
Espanha, em outubro de 1994, intitulado “Ideologia e Livro Infantil”, e que
se encontra publicado na Revista Latino-Americana de Literatura Infantil
n° 1, das seções Latino-Americanas do IBBY. Essa palestra apontou na
direção de um olhar em que a contradição é elemento importante do viver e
criar. E como tal é um importante vetor de transformações.
Todos os particípantes receberam uma cópia do texto que não será
publicado neste livro, já que se encontra na revista mencionada acima. A
escritora Ruth Rocha, autora pioneira de livros infantis e juvenis, travou
com Ana Maria Machado um interessante debate sobre a dimensão
profissional do escritor de literatura infantil e juvenil, que muitas vezes não
é considerado como tal. Esta publicação
9

inicia-se com a palestra de Laura Sandroni, cuja história está ligada à


história da FNLIJ, como sua fundadora e crítica pioneira, bem como grande
incentivadora do gênero no país, tendo sido a criadora do 1° Projeto de
Promoção de Leitura do Pais, quando estava na FNLIJ, o “Ciranda de
Livros”, detentor de um prêmio internacional.
O texto “De Lobato à década de 1970” é baseado na sua tese de mestrado
De Lobato a Bojunga, publicada pela editora Agir. O segundo artigo é de
Maria Antonieta Antunes Cunha, também uma das pioneiras da defesa da
literatura infantil e juvenil, tendo sido secretária de Cultura de Belo
Horizonte, editora e autora. Sob outro enfoque, Antonieta aborda os anos
que precederam o chamado boom da literatura infantil e juvenil, ocorrido
em 1970.
Para tratar da literatura infantil e juvenil dos anos 80, contamos com Maria
da Glória Bordini, da PUC do Rio Grande do Sul, especialista que se
dedica ao tema há três décadas. E Ana Lúcia Brandão, representando o
trabalho da Biblioteca Infantil Monteiro Lobato, em São Paulo, que produz
análises da literatura infantil e juvenil, através das publicações de
bibliografias analflicas. A professora e escritora Numa Lacerda, do Rio de
Janeiro, autora e especialista em literatura infantil ejuvenil, votante do
prêmio da FNLIJ, traz sua reflexão literária sobre a produção dos anos 90.
Para falar da poesia para crianças, Graça Paulino, da UFMG de Minas
Gerais, traz uma preciosa reflexão sobre os 100 anos de poesia nas escolas
brasileiras.
A imagem no livro de literatura infantil e juvenil assume uma dimensão
especial. Para tratar do tema, o ilustrador e autor Ricardo Azevedo
apresenta uma importante contribuição. No seminário, a ilustradora Ciça
Fittipaldi partilhou a mesa com Ricardo, também traçando um perfil do
trabalho do ilustrador como um criador de imagens e não como um
descritor de textos, apresentando a dimensão da ilustração como
linguagem. Infelizmente, este livro não contempla o texto de Ciça, que
ficamos a dever.
De nossa autoria, o último texto tenta traçar um panorama geral da
literatura infantil ejuvenil produzida no Brasil, sua dimensão
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artística e sua importância na escola, além de apresentar algumas


estatísticas referentes aos anos de 1995 e 1996. Ao final do livro trazemos
urna síntese das 75 comunicações apresentadas sobre literatura infantil e
juvenil.
O 11º Congresso da Associação de Leitura do Brasil, sob o tema “A letra e
a palavra dos excluídos” marcou mais um importante trecho da caminhada
dos profissionais que lutam pela democratização do acesso à leitura e à
escrita, críticas e criadas, em nosso país.
Se nos primeiros congressos esses profissionais representavam a classe de
educadores, hoje, refletindo o caráter abrangente da responsabilidade social
de formar uma sociedade leitora, eles representam a variedade de áreas
afins que, trazendo suas visões particulares e próprias sobre o problema da
leitura, contribuem para desenvolver uma atuação crftica e interdisciplinar
de todos os envolvidos no processo de leiturização da sociedade brasileira.
A literatura infantil e juvenil, parte integrante do processo formador de
leitores se faz presente, como tema de destaque, nos congressos de leitura.
A Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, completando 30 anos
neste ano de 1998, vem acompanhando o trabalho da ALB como parceira
na luta pelo mesmo objetivo — promover a democratização da leitura em
nosso país, participando de todos os congressos e divulgando-os entre seus
associados. Agradecemos à ALB e à editora Mercado de Letras a
oportunidade de vermos publicadas as palavras dos especialistas que
gentilmente cederam seus direitos dos textos para a FNLIJ. Assim,
gostaríamos de encerrar rendendo-lhes nossa homenagem.

Elizabeth D’Angelo Serra


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1. DE LOBATO À DÉCADA DE 1970 1

Laura Sandroni

Embora o tema deste artigo se intitule De Lobato à década de 1970,


considero importante lembrar alguns autores, que podemos chamar,
genericamente, de precursores de uma literatura infantil brasileira.
Como deve ser do conhecimento de todos vocês, até fins do século XIX a
literatura destinada a crianças e a jovens que se encontrava no mercado —
acessível apenas à elite brasileira era toda importada, constituindo-se
principalmente de traduções feitas em Portugal. Não havia aqui editoras e
os autores brasileiros tinham seus textos impressos na Europa.
No primeiro decênio do século XX nota-se o início de uma reação a esse
estado de coisas. A literatura escolar talvez tenha sido a primeira etapa.
Autores brasileiros já começavam a ser incluídos em seletas preparadas e
impressas em Portugal. Alguns deles dedicaram-se a esse tipo de literatura
do qual ficaram poucos livros de

1.Este texto é um resume dos capítulos iniciais do livro De Lobato a Bojunga, da


Editora Agir.
12

valor, como por exemplo Através do Brasil, de Manuel Bonfim e Olavo


Bilac, Contos pátrios, deste último e Coelho Neto ou Saudade, de Tales de
Andrade. No gênero destacam-se as edições Garnier com uma contribuição
decisiva para nosso desenvolvimento cultural.
Também na área da tradução as coisas começaram a mudar. Escritores
brasileiros já eram chamados para esse trabalho, se bem que por serem
muito mal remunerados não permitiam que seus nomes constassem no
livro.
Aí, a livraria Quaresma Editora teve grande importância. O velho
Quaresma chamou Figueiredo Pimentel encomendando-lhe uma coleção
especialmente destinada às crianças. A escolha deveu-se ao fato de que o
escritor já havia publicado, em 1894, os Contos da Carochinha, pela
mesma editora, reunindo histórias de Perrault, Grimm e outros.
Outro tradutor de mérito foi Carlos Jansen, que se dedicou à tradução de
obras clássicas da literaturajuvenil. Olavo Bilac,já poeta consagrado,
traduziu muito para a editora Lammert, sob o pseudônimo de Pantásio.
Jura e Chico, relançado há alguns anos, é sua obra mais conhecida nessa
área.
Em 1915, quandojá está caracterizada, nitidamente, uma fase de transição,
a Weiszflog Irmãos Editores, de São Paulo, hoje Melhoramentos, encarrega
Arnaldo de Oliveira Barreto da organização de uma “Biblioteca Infantil”
que se inicia com O patinho feio, de Andersen. O caráter revolucionário
dessa coleção está, sobretudo, em seu aspecto gráfico. Ilustrações em cores,
de Francisco Richter, da mais alta qualidade, impressão e acabamento
primorosos.
Esse esforço de Quaresma e alguns poucos não chegou a modificar o
aspecto geral pois, ainda em 1925, dizia Monteiro Lobato em carta a
Godofredo Rangel publicada em A barca de Gleyre:

Estou a examinar os contos de Orimm dados pelo Garnier. Pobres crianças brasileiras!
Que traduções galegais! Temos que refazer Ludo isso — abrasileirar a línguagem.
13

A importância da literatura oral para as crianças, num país onde apenas


uma pequena elite cultural dominava o código escrito, é fácil de se
imaginar. Os depoimentos de nossos escritores em seus livros de memórias
mostram o quanto a própria ama teve influência na formação cultural e
ampliou a imaginação. Alguns deles chegaram a transcrever, mais tarde,
essas histórias ouvidas na infância, como José Lins do Rego em Estórias da
velha Totônia,

Monteiro Lobato, o inovador

Com a publicação de A menina do narizinho arrebitado, em 1921, José


Bento Monteiro Lobato inaugura o que se convencionou chamar de fase
literária da produção brasileira destinada a crianças e ajovens. Como
veremos, sua obra foi um salto qualitativo comparada aos autores que o
precederam,já que é quase toda permeada do ânimo de debates sobre temas
públicos contemporâneos ou históricos, que problematiza de modo a ser
compreendido por crianças e expressa em linguagem original e criativa, na
qual sobressai a busca do coloquial brasileiro antecipatória do
Modernismo.
Zinda Vasconcellos, autora do excelente livro O universo ideológico da
obra infantil de Monteiro Lobato, afirma:

A partir do exame da vida de Lobato e da leitura dos seus Prefácios e enrrevisras,


poderíamos resumir sua ideologia econômico-social, por um lado, como a de alguém
rebelde contra aestrutura oligárquica do poder vigente; nacionalista; cada vez mais
preocupado com a miséria do povo e consciente de que a prosperidade das elites dela
dependia; adversário de idéias, crenças, valores — principalmente os da educação
católica — que favorecessem a manutenção do status quo; vago defensor, em teoria, de
idéias socializantes
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contra o obscurantismo autoritário do poder. Mas, por outro lado, poderíamos definir
essa ideologia como a de uma pessoa que na prática acreditava no desenvolvimento
econômico capitalista para a resolução dos problemas brasileiros e na ação da iniciativa
privada — de preferência a de indivíduos bem intencionados, modernos e arejados,
iluminados pelo conhecimento científico; que tinha profundo horror à estatização,
associada por ele à ineticiente e corrupta máquina burocrática brasileira, que estaria
irremediavelmente ligada à velha ordem de coisas e que queria libertar o país; presa, de
um modo geral, aos termos liberais (liberdade, democracia etc.).

Desiludido com os adultos, acredita que só as crianças poderão modificar o


mundo, torna-as suas interlocutoras privilegiadas. Por isso trata em sua
obra de temas sérios e complexos que até então não eram considerados
apropriados à infância como: guerras, política, ciência, petróleo. Os
problemas são apresentados de maneira simples e clara, por vezes didática,
de modo adequado à compreensão do leitor. A simplicidade da linguagem,
marcada pelo coloquialismo e por “brasileirismos” inovadores, visa a
tornar agradável a leitura.
Com Lobato os pequenos leitores adquirem consciência crítica e
conhecimento de inúmeros problemas concretos do país e da humanidade
em geral. Ele desmistifica a moral tradicional e prega a verdade individual.
Instaura, portanto, a liberdade. Sem coleiras, pensando por si mesma, a
criança vê, num mundo onde não há limites entre realidade e fantasia, que
ela pode ser agente de transformação.

As características do literário
e a brasilidade na obra de Lobato

Podem-se observar em Lobato alguns aspectos básicos que evidenciam o


nível de criação artística. O primeiro diz respeito à
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linguagem, cujo registro é predominantemente coloquial e na qual se nota a


busca da fala brasileira, o tom de oralidade que pouco depois o
Modernismo iria consagrar. Como observa Maria Teresa Gonçalves Pereira
em sua dissertação de mestrado:
Lobato busca constantemente uma renovação nas possibilidades inúmeras que a língua
oferece, dinamizando-a, explorando ao máximo suas potencialidadcs, as suas diversas
realizações, não se prcndendo ao convencional, mesmo quando dele precisa para
reavaliá-lo ou reaproveitá-lo.

Além desses aspectos com que Lobato procurava despir seu estilo de toda
“a literatura” no sentido da retórica tradicional, a criatividadc que
demonstra é marcada pelo humore aponta no sentido da modernização que
preconiza.
Ele foi o primeiro a fazer do folclore tema sempre presente em suas
histórias através das personagens do Sítio, como Tia Nastácia e Tio
Barnabé. A primeira, ponte de ligação entre o mundo racional repi-
esentado por Dona Benta, c as superstições e as crendices próprias das
populações analfabetas; o segundo, conhecedor dos mistéiios, dos mitos
que habitam o folclore.
Em alguns livros como O saci e Histórias de Tia Nastácia, o folclore é a
temática central. Não se trata mais aqui de um pesquisador que registra a
tradição oral como fizeram Alexina de Magalhães Pinto e os demais já
citados, mas de buscar nessa fonte inesgotável da literatura, que é o
folclore, os elementos necessários a uma criação original.
Outra das grandes inovações de Lobato é a de trazer para o universo da
criança os grandes problemas, até então, considerados como parte exclusiva
do mundo adulto. Assim, discutem-se no Sítio as terríveis conseqüências
das guerras em A chave do tamanho, os problemas do desenvolvimento
brasileiro em O poço do Visconde, o conhecimento intuitivo ti-ente ao
predomínio da lógica e da razão em O saci.
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Lobato acreditava profundamente na democracia como forma de governo e


não se contentava em transmitir suas convicções de maneira abstrata. O
sítio do Picapau Amarelo é um microcosmo onde cada um é livre para
expressar sua opinião e onde as decisões são tomadas pelo voto.
Ao lado dessa realidade evidente no texto e que reflete o contexto histórico
e social de seu tempo e do ambiente rural em que se criou, Lobato mostra-
nos um mundo mágico do qual a fantasia é parte integrante. Nele reina o
faz-de-conta, solução para todos os problemas, o pó de pirlimpimpim, que
permite viagens através do tempo e do espaço. Convivem aí personagens
do mundo real, ou seja, os habitantes do Sítio e personagens do mundo das
maravilhas, protagonistas dos contos tradicionais, na mais perfeita
harmonia, seja através de deslocamentos do bando, como, por exemplo,
quando vão ao país das fábulas em Reinações de Narizinho ou quando em
O sítio do Picapau Amarelo recebem o mundo encantado de príncipes e de
princesas que se muda para o Sítio em terras especialmente compradas por
Dona Benta.
Interessante é notar como Lobato estabelece a relação real/mágico numa
ótica perfeitamente adequada à psicologia infantil.
É importante salientar, no entanto, que em Lobato a fantasia é sempre uma
forma de iluminar a realidade, nunca ela é alienante.
Outros meios empregados pelo escritor para levar à reflexão são o humor, a
ironia, a crítica. Nesse aspecto Emília é seu porta-voz. Personagem
transgressora por excelência, sempre contestando as verdades estabelecidas
em busca de suas próprias verdades, Emília é a “independência ou morte”
na sua autodefinição em Emília no país da gramática.
Monteiro Lobato foi o primeiro escritor brasileiro a acreditar na
inteligência da criança, na sua curiosidade intelectual e capacidade de
compreensão. Seus textos estão cheios de citações e de alusões que
remetem a outros personagens, a outras épocas históricas e seus
protagonistas. Ele foi um autor engajado, comprometido com os
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problemas de seu tempo. Tinha um projeto definido: influir na formação de


um Brasil melhor através das crianças. A partir dele, no Brasil, a literatura
infantil perde uma de suas principais características, a de ser um
instrumento de dominação do adulto e de uma classe, modelo de estruturas
que devem ser reproduzidas. Patsa a ser fonte de reflexão, de
questionamento e de crítica.

A década de 1970 e suas raízes lobateanas

A obra de Lobato revestiu-se de tanta importância e conheceu tão grande


sucesso de público, concretizado em sucessivas reedições que, durante
largo tempo, o panorama da literatura destinada a crianças e a jovens
permaneceu semi-estagnado, com várias e frustradas tentativas de tmitação.
Destacam-se alguns autores que souberam manter sua originalidade e
escreveram livros que, até hoje, permanecem nos catálogos das editoras
enquanto os demais foram rapidamente esquecidos. Entre os primeiros não
podemos deixar de citar Menotti DeI Picchia, Malba Tahan, José Lins do
Rego, Viriato Correia, EriDo Veríssimo, Vicente Guimarães, Ofélia e
Narbal Fontes, Francisco Marins, Orígenes Lessa, Lúcia Machado de
Almeida e Maria José Dupré que, em maior ou menor grau, realizaram
obras nas quais o imaginário e o lúdico encontraram uma linguagem
adequada para expressar-se, abordando temas históricos ou de inspiração
folclórica ou ainda criando aventuras maravilhosas.
A partir dos anos 70 notam-se algumas modilicações nesse quadro, que se
vai alterando no sentido de uma grande diversificação da produção com o
aparecimento de novos autores para atender ao crescimento do público
leitor provocado pela lei da refirma de ensino que obriga a adoção de livros
de autor brasileiro nas escolas de 1º
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grau. Mais uma vez a literatura infantil se vê ligada ao sistema de ensino.


Esse fato que, por um lado, põe em risco a leitura como fonte de prazer e
de fruição, quando a escolha do professor recai sobre textos que não
conseguem prender a atenção da criança, por outro lado, tem propiciado um
clima favorável ao aparecimento de autores que voltando às raízes
lobateanas, vêm produzindo obras que, sem perder de vista o lúdico, o
imaginário, o humor, a linguagem inovadora e a poética, tematizam os
atuais problemas brasileiros levando o pequeno leitor à reflexão e à crítica.
Tentou-se aqui reunir esses autores em torno de algumas das inovações
introduzidas por Lobato, buscando-se estabelecer paralelos e analogias que
levem a uma visão geral do caminho percorrido pela literatura infantil na
década de 1970, até nossos dias. Uma das principais conquistas de Lobato
foi trazer para o universo infantil a discussão de temas atuais, antes
pertencentes exclusivamente ao mundo adulto. Essa representação da
realidade pode se dar de várias maneiras, sob diferentes enfoques e
tratamentos e, talvez, por isso, aí encontramos um maior número de obras
significativas.
Seguindo uma ordem cronológica quanto às primeiras edições dos títulos
citados, tem-se em 1971 A fada que tinha idéias e Soprinho, de Fernanda
Lopes de Almeida. Aqui se retoma a linha de ficção lobateana na qual
realidade e fantasia se interpenetram com absoluta naturalidade, para a
discussão de temas tais como os abusos do poder totalitário, no primeiro
caso, ou a alegórica caminhada do universo psicológico infantil em direção
à maturidade e ao mundo adulto, no segundo. ComO reizinho mandão
(1978), Orei que não sabia de nada (1980) e O que os olhos não vêem
(1981), especialmente, Ruth Rocha retoma a discussão, decompondo os
elementos do conto de fadas tradicional para reconstruí-los, invertendo as
relações do poder.
Ana Maria Machado realiza o que talvez seja o texto exemplar desse grupo
de autores com História meio ao contrário (1978), em que mantém, para
desmistificá-los através da paródia, alguns dos clichês da linguagem típica
da tradição oral. Assim, por exemplo, começa discutindo o conceito dc “E
foram felizes para sempre”, fecho
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comum de tantos contos tradicionais, para terminar com o conhecidíssino


“Era uma vez...”. Desta forma está também, como Lobato, retomando
personagens conhecidos do leitor, parte de suas referências culturais, para
renová-los, enriquecê-los, reinventá-los. O rei de quase tudo (1974), de
Eliardo França, e Onde tem bruxa, tem fada (1979), de Bartolomeu
Campos Queirós, situam-se na mesma vertente, guardando-se os diferentes
estilos e as particularidades de cada um dos autores. Claro está que neles
encontramos, em maior ou menor grau, outras qualidades como o humor, o
lúdico verbal, a linguagem poética, mas todos dão à criança um papel ativo
e transformador, identificando-a com as personagens. No gênero contos de
fadas e explicitando na aprcsentação do livro — ‘meu interesse e minha
busca se voltam para aquela coisa temporal chamada inconsciente” —,
Marina Colasanti redescobre em Uma idéia toda azul (1979) e Doze reis e
a moça no labirinto do vento (1982) o encanto de um gênero desgastado
por incontáveis pastiches.
Longe das fadas, mas com muita fantasia, a obra de Lygia Bojunga Nunes
situa-se ainda nesse mesmo grupo de escritores que tematizam os
problemas da sociedade contemporânea, seja no aspecto das relações
humanas, seja nas implicações psicológicas de que a criança é vítima. Com
altíssimo nível de criação e originalidade de linguagem, a autora se coloca
entre os grandes autores brasileiros contemporâneos e mesmo
internacionais, como o comprova o Prêmio Internacional Hans Christian
Andersen que recebeu em 1982 pelo conjunto de sua obra.
Outro tratamento dado à representação da realidade na literatura destinada
a crianças e ajovens e que muito tem a ver com Lobato é ode Viriato
Correia era Cazuza (1938). Nelly Novaes Coelho nota nesse livro:

O paralelismo entre a experiência de vida do menino em sua evolução para a idade


adulta e a do progresso brasileiro. Evolução ou progresso que, em ambos, radicam em
um dado comum: a conquista da cultura através da Educação, em clima de aberto
otimismo, apesar de não ignorar o lado precário ou limitado da realidade.
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A intenção iluminista portanto liga os dois autores além da linguagem


simples e ágil, aproximada do coloquial.
Na mesma linhagem situam-se Cabra das rocas (1966), de Homero
Homem, e Justino, o retirante (1970), de Odette de Barros Mott, ao
incorporar a seca nordestina aos temas tratados pela moderna literatura
infantil brasileira.
Carlos Marigny, com Lando das ruas (1975) e Detetives por acaso (1976),
e Eliane Ganem, com Coisas de menino (1978), acrescentam à amplitude
dos temas do momento histórico nacional o personagem do pivete, o menor
abandonado, que vive em grupos nas áreas urbanas constituindo um dos
mais graves problemas sociais de nosso tempo. Ambos aprofundam uma
das aberturas de linguagem inauguradas por Lobato: o uso da gíria. Aqui,
como não poderia deixar de ser para obtenção da verossimilhança, o
vocabulário é tão marginal quanto os personagens retratados, correndo o
risco de ver comprometido o tempo de vida desses textos que, no entanto,
são vigorosos e belos na denúncia que fazem.
Há ainda uma corrente que se quer realista mas cuja filiação ao naturalismo
é evidente na escolha temática de situações problema da sociedade
contemporânea e dos temas considerados tabus para o público infantil. Ela
está representada na “Coleção do Pinto” que contava em 1970 com mais de
30 títulos de qualidade desigual e que tem entre seus autores nomes já
consagrados nas letras nacionais. É o caso de Wander Piroli, com O menino
e o pinto do menino (1975) e Os rios morrem de sede (1976). Escritos
numa linguagem direta e concisa, despida de adjetivações, transmitem, no
entanto, a tristeza de uma sociedade que se afasta cada vez mais da
natureza, contribuindo para sua destruição. Na mesma coleção, abordando
diferentes temas tabus, encontram-se Eu vi mamãe nascer (1976), de Luiz
Fernando Emediato, que trata das tentativas de uma criança de procurar
entender a morte de sua mãe ou O primeiro canto do galo, de Domingos
Pellegrini, em que um menino descobre sua sexualidade, mesmo tema de
Rita está acesa, de Teresinha Alvarenga, ambos de 1979. As injustiças
sociais por demais flagrantes em nossa época
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são tematizadas por Henry Corrêa de Araújo, em Pivete (1977), e os


preconceitos em relação às diferentes raças por Ary Quintelia, em Cão
vivo, leão morto (1980).
A revalorização da cultura popular através de suas raízes orais, uma das
vertentes do modernismo como busca de valores nacionais trazida por
Lobato para a literatura infantil, é retomada na década de 1970 por alguns
autores que fazem do folclore ponto importante de sua obra. Ziraldo, com
sua Tunna do Pererê (1972-1973) é, sem dúvida, um momento
significativo, pois realiza a simbiose de traço e de palavras através da
linguagem dos quadrinhos, trazendo a problemática rural para esse
moderno meio de comunicação de massa. Antonieta Dias de Moraes, entre
outros temas que aborda em seu trabalho, reconta lendas da mitologia
indígena em A varinha do Caapora (1975) e posteriormente em Contos e
lendas dos índios do Brasil (1979). Joel Rufino dos Santos dedica muitos
de seus livros à reelaboração de contos folclóricos ou ainda à criação
oiiginal inspirada na tradição oral. O caçador de lohisom,m (1975), O
curumim que virou gigante (1980) e Histórias do Trancoso (1983) são bons
exemplos de seu fazer literário em que a poesia se alia a uma linguagem de
cunho marcadamente oralizante. Poesia e folclore são também fios com que
Walmir Ayala tece seu texto. Vejam-se Histórias dos índios do Brasil
(1971) e O burrinho e a água (1982), entre outros.
Ana Maria Machado faz constantemente alusões e citações de elementos
colhidos do folclore como em Bem do seu tamanho (1980) ou reconta em
histÓrias cumulativas por ela descritas como “as que a nossa gente gosta de
inventar, contar e ouvir” na “Coleção Conte Outra Vez” (1980-1981) e em
vários outros contos. Vale lembrar ainda seu De olho nas penas, que
recebeu o Prêmio Casa de Las Américas de 1980, onde o folclore transpõe
as fronteiras do país e abarca o continente sul-americano e a África. Para os
jovens com o hábito da leitura já enraizado há dois textos primorosos de
Haroldo Bruno nos quais prepondetam elementos do folclore nordestino: O
viajante das nuvens (1975) e O misterioso rapto de Flor-de-Sereno (1979).
22

O humor, como instrumento de desmistificação e reflexão crítica sobre


dados do contexto histórico e social, foi, como já visto, outra das inovações
lobateanas. É claro que tais elementos são fartamente encontrados nas
histórias da tradição oral, desde aquelas que remontam ao romance
picaresco ibérico, como as aventuras de Pedro Malasartes, até a literatura
de cordel. No entretanto, os textos que no início do século traziam o rótulo
de “literatura infantil” eram sisudos e exemplares, o que faz do criador da
irreverente Emilia o reintrodutor do riso como arma da crítica, nos livros
destinados às crianças. Edy Lima em uma série iniciada com A vaca
voadora (1972) mistura o insólito de uma vaca não-antropomorfizada à
personagem que faz uso da magia e da alquimia para obter o riso e ainda
questionar as várias faces de uma sociedade consumista, alheia ao mágico e
à fantasia. Elvira Vigna, escritora e artista gráfica criou Asdrúbal, o terrível
(1978), um engraçado monstrinho para exorcizar o medo. Mesmo quando
apenas ilustra, como em O sofá estampado, seu desenho cria uma história
paralela ao texto em que o humor é fundamental. Sylvia Orthof, embora
questione a autoridade constituída, como em Mudanças no galinheiro
mudam as coisas por inteiro (1981), estrutura sua narrativa em situações
inesperadas ou absurdas que provocam riso e reflexão. Os bichos que eu
tive (1983) talvez seja o texto em que melhor desenvolve suas
potencialidades de humorista. João Carlos Marinho, escrevendo para
jovens adolescentes, expressa através do humor e da ironia, como em O
gênio do crime (1969) e O caneco de praia (1971) ou ainda da sátira, como
em Sangue fresco (1982) uma severa crítica social, inovando ainda na
estrutura narrativa muito fragmentada.
Na prosa poética, Bartolomeu Campos Queirós é o primeiro a ser lembrado
com O peixe e o pássaro (1974) e os premiados Pedro (1977) e Ciganos
(1983). Neles, a ambigüidade e a imprecisão são estímulos à imaginação
criadora do leitor. A rima, as aliterações, a sonoridade da língua, sua
possibilidade de jogo, ou seja, o lúdico na linguagem, campo em que
Monteiro Lobato também abriu novas possibilidades, estão presentes não
só na obra de Campos Queirós,
23

como na de Ruth Rocha em livros destinados a crianças bem pequenas


como Palavras, muitas palavras e Marcelo, marmelo, martelo, ambos de
1976. Ana Maria Machado trabalha igualmente seus textos sob este
aspecto, Um avião e uma viola (1982) é um bom exemplo, entre vários
outros. 1-lá ainda os livros de Maria Mazzetti, precursora dos autores aqui
lembrados e cuja obra para o pequeno leitor é exemplar, graças à
linguagem poética e coloquial adequada às suas histórias simples e
encantadoras, como O casacão mágico (1966) ou as histórias da “Coleção
Curupira” (1968-1969).
A poesia pós-modernista destinada às crianças até então resumia-se a
quatro poetas. Dois precederam a década de 1970: Sidônio Muralha e
Cecflia Meireles; os outros situam-se dentro dela: Vinícius de Moraes e
Mário Quintana. Sidônio Muralha, poeta português da geração néo-realista,
exilou-se por motivos políticos e viveu no Brasil de 1962 até sua morte, em
1982. Aqui lançou, logo de chegada, A televisão da bicha rada,
inaugurando a “Coleção Giroflê-Giroflá” e sua editora, na qual em 1964
Cecília Meireles publicava Ou isto ou aquilo, um clássico da lírica infantil.
Sidônio Muralha e Cecília Meireles fazem de seus versos brincadeiras
sonoras e encantam crianças e adultos com a redescoberta da beleza das
coisas simples. Não consideramos poesia a quantidade de versos
reproduzidos em livros didáticos e que se destinam a comemorar datas
cívicas ou festas do calendário escolar. A poesia que aqui referimos é
aquela que só tem compromisso com a beleza, a emoção e a reinvenção da
linguagem. Nessa linha, Vinícius de Moraes destaca-se com A arca de Noé
(1971), onde os versos captam a sensibilidade e o lirismo que perpassa toda
sua obra: a graça da exploração lúdica dos sons atinge plenamente a alma
infantil. Mário Quintana, com Pé de pilão (1975), inova na forma poética
com narrativa em que o non sense e o humor prevalecem. Seu livro Lili
inventa o mundo (1983) é também prova de que, como Lobato, acredita na
inteligência e na sensibilidade das crianças.
Muitos dos grandes poetas brasileiros têm em suas obras poemas que
poderiam ser amados pelas crianças se as editoras
24

acreditassem que a poesia é necessária. Em Bandeira e Drummond, por


exemplo, encontram-se vários poemas que fariam a delfcia da garotada à
espera de uma adequada edição, que agora começa a ser publicada. No
mesmo caso está o belo O menino poeta, de Henriqueta Lisboa, já editado.
Esta dificuldade, no entanto, vem sendo aos poucos vencida. Alguma
poesia começa a ser publicada e podem-se citar entre os novos autores Elza
Beatriz com Pare no P da poesia (1980), Elias José com Um pouco de
tudo, Antonieta Dias de Moraes com Jornal falado, Sérgio Caparelli com
Boi da cara preta, todos de 1983.
Outro componente importante na produção editorial para crianças e jovens
é a ilustração. Num mundo em que o visual tem função preponderante
sobre o texto através dos meios de comunicação de massa, o livro infantil
não poderia deixar de aperfeiçoar seus aspectos gráficos a fim de competir
no mercado, como objeto de consumo que é. Por outro lado, é importante
lembrar que num país onde o analfabetismo continua desafiando planos e
campanhas governamentais e em que a maior parte dos que ingressam na
rede oficial de ensino provém de famílias que não aprenderam a ler, a
linguagem pictórica tem valor próprio e, no processo de elaboração da
linguagem, tem papel primordial. Também nesse aspecto Lobato foi
antecipador. Suas primeiras histórias, hoje reunidas e mal editadas
constituem o volume Reinações de Narizinho, eram inicialmente álbuns
ilustrados em cores por Voltolino. Assim, ele foi fiel à sua idéia: fazer
livros em que as crianças quisessem morar dentro.
Também aí existem precursores e dos mais notáveis. Paulo Werneck, Santa
Rosa e Luís Jardim concorreram ao primeiro concurso de álbuns ilustrados
promovidos, em 1937, pelo Ministério da Educação e Saúde. Seus livros
foram editados e hoje são raridades bibliográficas à espera da atuação de
órgãos que preservem a memória literária nacional. Portinari foi resgatado
com seu belo trabalho para Maria Rosa, da americana Vera Kelsey, em
tradução de Laura Sandroni, em 1983. Os desenhistas de humor e de
quadrinhos que brilhavam nas páginas de O Tico-Tico como Renato de
Castro, Luís
25

Gomes Loureiro, Alfredo Storni, Max Yantock, Angelo Agostini, Luiz Sá e


J. Carlos foram rapidamente postos de lado com a invasão do produto
norte-americano mais barato.
A qualidade do desenho nos livros infantis brasileiros voltou a crescer em
conseqüência da ampliação do mercado que se situa na década de 1970.
Data de 1972 a ilustração de Gian Calvi para Os colegas, de Lygia Bojunga
Nunes e de 1973 A toca da coruja, de Walmir Ayala, ambos premiados no
concurso promovido pelo Instituto Nacional do Livro. Eliardo França, já
com alguns livros publicados, recebeu em 1975 menção honrosa da Bienal
de Ilustrações de Bratislava — a mais importante mostra internacional do
setor— com O rei de quase tudo. Já em 1980, Rui de Oliveira recebe o
Prêmio Noma do Centro Cultural da UNESCO, em Tóquio, por seu
trabalho para A menina que sabia ouvir, de Michael Ende. A mesma láurea
é ganha por Gian Calvi, em 1982, com Um avião e uma viola, de Ana
Maria Machado. A Câmara Brasileira do Livro dá outro impulso à
produção de nossos artistas, instituindo o Prêmio Jabuti para ilustração,
ganho por Angela Lago e Regina Yolanda em 1982 e 1983. Mas são
poucos os prêmios e muitos os artistas. Entre eles citamos Gê Orthof,
Patrícia Gwinner, Ana Raquel, Gerson Conforti, Flávia Savary, Walter
Ono, Humberto Guimarães, Ivan e Marcelo e ainda Ricardo Azevedo —
premiado em Bratislava em 1983 — e Eva Furnari, que vem se
especializando em livros sem texto especialmente destinados ao pré-leitor.
O teatro infantil é outro gênero em que as editoras tradicionalmente não
gostam de investir. Embora existam no país inúmeros grupos amadores
necessitando de bons textos para seu repertório, são poucos os autores que
têm sua obra publicada. Maria Clara Machado, é a exceção. Realizando há
mais de 30 anos seu trabalho artístico no Tablado, tem nos cinco volumes
do Teatro de Maria Clara Machado editadas quase todas as suas peças.
Dentre elas destacamos Plufi, o fantasminha e O cavalinho azul, duas
pequenas obras-primas traduzidas e publicadas em vários países. Ambas
foram adaptadas pela autora em forma de narrativa e encontram-se entre os
mais bem
26

editados livros infantis brasileiros. Sylvia Orthof teve seus primeiros


sucessos como escritora através do teatro com A viagem do barquinho
(1975) e Eu chovo, tu choves, ele chove (1976), nas quais sua inventividade
já era marcante. Ilo Krugli com sua bela História de lenços e ventos é outro
importante autor do gênero que Ana Maria Machado também domina.
Por trás desse crescimento que se pode ainda aferir através das muitas
livrarias especializadas que surgem nessa época por todo o país, está um
trabalho fecundo realizado nas universidades através dos cursos de
literatura infantil, nos seminários, nas mesas-redondas e nos congressos
promovidos por entidades públicas, como as Secretarias de Educação, e
privadas, Como a Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, dos quais
participam centenas de professores e de bibliotecários que atuam no
primeiro grau de ensino. E ainda nas colunas de crítica que começavam a
ocupar espaços em vários jornais.
O trabalho na área da cultura é lento e o que agora se denomina
impropriamente boom do livro infantil nada mais é do que o resultado da
semeadura não tão recente, aliada ao crescimento natural do público leitor e
ao crescimento da classe média urbana. Muito há, ainda, a ser feito
especialmente ria área do acesso ao livro, seja através da melhor
distribuição comercial, na qual Lobato também interferiu, seja através da
melhoria da rede de bibliotecas públicas e escolares.
Conscientes de que o bom leitor adulto é aquele que cedo teve a
oportunidade de leitura, todos os envolvidos no processo de produção, do
autor ao livreiro, passando pelo editor e pelo crítico, devem trabalhar para
permitir o acesso cada vez maior ao livro destinado a crianças e a jovens e
o permanente processo de melhoria do produto.
27

2. BALANÇO DOS ANOS 60/70

Maria Antonieta Antunes Cunho

O primeiro ponto que gostaria de enfatizar é que quase todas as trilhas mais
interessantes da literatura infantil brasileira foram ensaiadas na segunda
metade dos anos 60 e dos anos 70. Muitos dos melhores nomes de nossa
literatura infantil de 1997 estavam lançando-se àquela época, prenunciando
trajetórias vitoriosas.
Se na poesia contávamos com obras primorosas de Cecília, Sidônio,
Quintana e Vinícius, também a prosa poética nos oferecia Bartolomeu
Campos Queirós e Luiz Raul Machado, com seu nem sempre louvado
quanto mereceria João teimoso, sem falar numa obra especialíssima de
Jorge Amado, com as melhores qualidades da produção do escritor para
adultos, e que cabe magnificamente nesse caso: O gato malhado e a
andorinha Sinhá, uma história de amor.
No caso do teatro, além da prodigiosa obra de Maria Clara Machado, vale
sublinhar a importância de Lúcia Benedetti, cujas peças há muito —
infelizmente — não são reeditadas. Sua obra, clássica como a da autora de
Pluft, o fantasminha, também entende o teatro como uma forma de
participação afetiva, pessoal e “interna” da criança nos acontecimentos do
drama, sem a preocupação com a
28

“participação” muitas vezes forçada, sem sentido e histérica da criançada


no desenvolver da ação dramática.. Também à época aparecia com seu
Vento forte a inventiva de Ilo Krugli.
Os contos de fadas, retomados de maneira absolutamente ímpar, (mesmo
considerando a literatura estrangeira) por Marina Colasanti, eram
revisitados já, sobretudo em forma de paródias, com Ruth Rocha, Ana
Maria Machado, Fernanda Lopes de Almeida e Chico Buarque. Tínhamos
ainda a produção de Érico Veríssimo. Hoje, inspiradas ou não na idéia do
“politicamente correto”, são várias as propostas desse tipo. A comicidade, o
non sense e a irreverência, juntos, ganharam um nome definitivo e
iluminado: Sylvia Orthof.
E o livro de imagens já apresentava obras-primas de Juarez Machado: Ida e
volta e Domingo de manhã, este inexplicavelmente fora de circulação há
muitos anos. Mas gostaria de ressaltar alguns pontos do legado de Monteiro
Lobato e de seus herdeiros. Lembro uma frase de Nietzsche que ele gostava
muito de citar, como o fez na Barca de Gleyre: “Se quiser me seguir, seja
você mesmo”. Pois há grandes autores que, influenciados certamente por
Lobato, criaram obras originalíssimas.
Lobato, por exemplo, criou uma boa quantidade de narrativas com as
mesmas personagens, sem qualquer concessão (o que é muito comum hoje
em dia) à “produção em série”. Ao contrário, sem se repetir, as personagens
criam um universo surpreendente a cada obra propriamente sua, além da
intromissão sempre interessante na sua “releitura” das narrativas da
literatura mundial. Nisso, podemos dizer com toda segurança que Lobato é
único no mundo.
Nesse item, João Carlos Marinho segue as pegadas de Lobato e cria a
turma do Gordo, envolvida em aventuras policialescas e de mistério, com
altas doses de originalidade, de humor e de sátira. Outro ponto importante
da obra de Lobato é seu gosto pela aventura aliada ao questionamento. Era,
sem dúvida, um grande contador de casos cheios de ação buscando novas
interpretações para os fatos.
29

Nesse aspecto ao nome do próprio Marinho deve-se acrescentar o de


Orígenes Lessa. Amigo de mestre Taubaté e como ele também começando
a escrever tardiamente para crianças (depois de premiadíssimo romancista e
contista para adultos), Lessa surpreendeu o público com Os homens de
cavanhaque de fogo, Jasão e os centauros invisíveis, Confissões de um
vira-latas, entre muitos outros títulos. Cito obras de Orígenes porque tenho
percebido certo esquecimento do autor, o que em parte se explicará pelo
que se dirá mais adiante. Um terceiro ponto para mim fundamental para
caracterizar a obra de Lobato é a criação de narrativas longas. É até
interessante notar que sua obra para adultos se notabilizou sobretudo pelo
conto. No entanto, para crianças escreveu em geral romances.
Essa última característica, sem dúvida das mais positivas, acabou por
colaborar em grande parte com seu pequeno aproveitamento na escola
fundamental brasileira e, conseqüentemente, com a sua ausência no lar
brasileiro. De certo modo, nossa escola não tem conseguido encontrar o
espaço e o tempo adequados para a leitura de suas obras. Muitos
educadores o consideram extremamente difícil e “pesado” para as nossas
crianças, hoje. Outros consideram-no ultrapassado — como se isso
ocorresse com as grandes obras de arte. Com relação a essa opinião,
vivemos em Belo Horizonte uma situação exemplar, que gostaria de relatar
aqui. Preparávamos diretores e técnicos das escolas de Belo Horizonte
(notem: da capital mineira) para uma feira de livros onde cada escola
escolheria, de uma seleção feita por equipe de especialistas, os livros de
literatura infantil que comporiam o Cantinho de Leitura de cada sala das
escolas da rede estadual onde funcionassem turmas até 4a série. Pois uma
diretora, ao consultar a lista de obras selecionadas, quis ir embora, com a
seguinte frase: “Não tenho o que fazer aqui. Eles ainda estão no tempo do
Lobato!”.
Pois bem: nessa característica Lobato não tem muitos seguidores, a não ser
Marinho e Lessa e um que outro autor em alguma obra isolada.
Não se trata, evidentemente, de desvalorizar obras menos extensas, que
podem ser excelentes e importantíssimas Trata-se, isso
30

sim, de considerar que a criança alfabetizada pode e deve ter acesso


também a narrativas de maior fôlego. Afinal, a nossa geração e outras
leram Lobato na 3ª e 4ª séries ‘do Grupo” (antes o tinham ouvido na
leitura dos pais). Não há por que nos considerar mais inteligentes do que a
geração de crianças de hoje. Certamente, mudou a cultura da leitura — e é
exatamente isso que se deveria discutir.
Essa ausência de Lobato e de outros autores de narrativas mais alentadas
tem a ver com uma política equivocada, ditada ou seguida pela produção
editorial, que optou por uma atitude extremamente paternalista no
tratamento da leitura: a de “ganhar” o leitor (mesmo o que deveria ter o
domínio da leitura) com livros de textos curtos (às vezes, ruins) e muitas
ilustrações, de preferência em quatro cores, mesmo que eventualmente sem
qualidades estéticas.
Aqui, a importante idéia do “desafio”, que mobiliza as pessoas e as leva
para frente, desaparece, no campo da leitura. Não há desafios para a
criança, como não há também para o professor, que tem “a vida facilitada”
não só pela obra pouco instigadora e muito curta, além de vir acompanhada
de ficha de leitura com “sugestões”, nem sempre criativas e interessantes e
que viram dicas infalíveis para o uso do livro. Parece-me que essa questão,
de enorme significado para uma pedagogia da leitura, tem de ser enfrentada
rapidamente. Convém lembrar que os anos 60 e 70, como não poderiam
deixar de ser, apresentaram os “desbravadores” também na área da
pesquisa, da crítica e de uma divulgação mais refinada da literatura infantil.
Autores e estudiosos da área enfrentavam o “nariz torcido” e a
incredulidade da universidade, da escola, da crftica e até das editoras.
Foi necessário muito debate, em encontros e em seminários, muito curso,
até que as instituições percebessem a seriedade da literatura infantil e suas
possibilidades estéticas.
Hoje, solidificado esse reconhecimento (ou quase), temo que estejamos
vivendo um outro preconceito, tão prejudicial como o que combatíamos
naquele primeiro momento: o crescimento da área, como o melhor filão do
mercado editorial (com menos riscos do que os do
31

livro didático), acaba deixando de certa fonna implícita a idéia de que toda
obra que chega às crianças corno literatura tem o mesmo valor literário.
Talvez o maior problema não seja a sua indicação (normalmente,
obrigatória) para leitura. Os maiores problemas talvez sejam sua leitura
acrítica, como boa literatura, e a tendência dos educadores (pais e
professores, por exemplo) a priorizarem de maneira quase exclusiva esse
típo de obra, não possibilitando pela experiência diversificada o
cotejamento entre propostas literárias, para a escolha cada vez mais
sensível e inteligente de leituras pessoais.
33

3. A LITERATURA INFANTIL NOS ANOS 80 1

Maria da Glória Bordini

Não é possível compreender a literatura infantil ou a juvenil da década de


1980 sem um retrospecto aos anos 70, marcados por uma sociedade
estrangulada, dividida entre contradições radicais, iludindo-se com grandes
empreendimentos desenvolvimentistas, enquanto os problemas seculares
das relações campo-cidade, latifundiários e camponeses, capitalistas e
operários continuavam a se reproduzir sem nenhuma perspectiva de
solução.
Desde os anos 60, para a burguesia industrial, mais progressista do que a
agrária, o país devia alinhar-se ao capitalismo internacional e as estruturas
arcaicas teriam de ser abandonadas. Houve por isso uma tolerância atípica
ante reivindicações nacionalistas e anti- imperialistas que deu abertura ao
governo Jango, com suas propostas de reformas de base (reforma agrária e
impedimento da remessa de lucros para o exterior). A necessidade de
modernização da sociedade,

l. Este
texto deve muito ao artigo de Regina Zilberman, “Literatura para crianças dos
últimos 20 anos”. Litterature D’America, Roma: Buizoni, v.8, no 35, 1987, pp. 45-56.
34

para atingirem-se os patamares de riqueza dos países do Primeiro Mundo,


requeria a diminuição das desigualdades sociais crônicas que sempre
assolaram o Brasil.
Sabe-se o que aconteceu: os movimentos intelectuais e populares de
esquerda tentaram a mudança, que atemorizou as classes conservadoras, as
quais, aliadas ao Exército, puseram rápido fim a tais esperanças. O
nacionalismo é substituído por um alinhamento com as posições políticas
norte-americanas para a América Latina, de ordem colonialista e
anticomunista, o regime democrático se torna ditatorial, as medidas
impostas à força passam a ser combatidas também pela força da guerrilha,
o clima de terror se instala, as relações trabalhistas são engessadas e o
sistema educacional é desmantelado pelo acordo MEC/Usaid, cujo espírito
é falsamente profissionalizante e decididamente contrário ao cultivo das
idéias.
Nos anos 70, surge o chamado ‘milagre brasileiro”, que eleva a dívida
externa a níveis inauditos. Constroem-se obras faraônicas como a
Transamazônica e a Itaipu, que nada resolvem das questões de base. Os
benefícios do crescimento do mercado interno, à custa do endividamento
individual pelos crediários fáceis e pelo progressivo achatamento dos
salários, as manipulações financeiras que produzem uma espiral
inflaciorária compensada artificialmente pela correção monetária levam o
país ao fundo da crise social: arrocho salarial, carestia, empobrecimento da
classe média, falta de investimentos na industrialização para pagar a dívida
externa, tortura e morte de presos políticos denenciadas internacionalmente
desgastam a imagem desenvolvimentista da ditadura militar.
O movimento operário e o estudantil tentam se rearticular em face da
miséria econômica e caltural insuportáveis e as próprias elites empresariais
percebem que conseguiram apenas uma riqueza volátil, sem o lastro de um
mercado consumidor sólido. Há uma crise econômica internacional, a
ciptação de recursos se torna difícil, e a saída prevista é a redemocratitação,
para que a própria sociedade trate de cuidar de si e de enfrentar
cagravamento dos problemas que meras soluções tecnoburocráticas não
conseguem superar.
35

Os governos Geisel e Figueiredo efetuam uma transição do regime


ditatorial para o democrático e entregam o país ao governo Sarney, um
seguro velho aliado, partidário das mesmas velhas soluções, uma vez que
não se pode pensar no governo Tancredo como algo que tenha se
concretizado além do plano das aspirações idealistas de certos segmentos
políticos nacionais. Ou seja, os anos 80 vêem o país anistiado
politicamente, com novos partidos — de ideologias ambíguas, é verdade —
disputando o poder, mas inviável na esfera econômica, como os sucessivos
planos e pacotes antiinflacionários vieram a provar. A industrialização do
campo, com as facilidades de empréstimos, determina a migração dos
camponeses para as cidades, nas quais a industrialização não avança e o
desemprego progride.
Se a cultura nos anos 80 parece atingir a mais pessoas, com a escolarização,
apesar de sua debilitação em termos de qualidade, espalhando-se pelo país
e recebendo o apoio de veículos de massa e mesmo de fundações de
grandes empresas internacionais como a Hoescht e sua Ciranda de Livros, a
produção cultural começa a padecer da doença de seu contexto: querendo-
se emancipatória, libertária, não obstante depende dos mecanismos do
mercado, Torna-se bem de consumo, a ser propagado, para a sobrevivência
da indústria e dos produtores culturais, da mesma forma que outros
produtos, ou seja, dirigindo-se para necessidades reais ou criando na
maioria das vezes necessidades artificiais, para aplacá-las, com a
conseqüente perda de sentido crítico.
Tudo isso tem sentido quando se pensa que a literatura, como objeto
cultural produzido num sistema capitalista, depende das macroestruturas
econômicas tanto quanto do ímpeto criativo de seus cultores. Foi
especialmente no cenário contraditório dos anos 70 que a indústria editorial
expandiu-se, confiante nos ganhos com a inflação da moeda e com o
surgimento de um público cativo, o único efetivamente forçado a comprar,
o das escolas, que se multiplicaram em massa pelo país, oferecendo,
evidentemente, uma educação também massificada e alienante.
36

A resistência ao regime discricionário entre as elites intelectuais, por seu


lado, manifestou-se sobretudo como luta contra a censura e em favor das
novas causas humanistas mundiais: os direitos humanos, a ecologia, o
antibelicismo, a recusa à racionalidade instrumental do capitalismo
avançado. Campanhas pela leitura, o fortalecimento do Instituto Nacional
do Livro, que se torna co-editor de grandes casas editoriais, incentivando
novas publicações e novos talentos, o deslocamento dos escritores para
áreas afins, como o jornalismo e a publicidade, proporcionam outros níveis
de profissionalização, o que por sua vez demanda leitores e canais mais
amplos de circulação, numa cadeia expansionista contínua.
Com o aumento do mercado e a demanda incipiente de idéias, o número de
escritores aumentou, assim como as estratégias de apelo ao público. Trata-
se de conquistar leitores em todas as faixas etárias, desde a criança até o
operário. A literatura abandona o esteticismo existencialista dos anos 50, a
rigidez ideológico-pedagógica dos anos 60, vale-se da ironia e da fantasia
para driblar a censura nos 70 e, finalmente, nos anos 80, lança-se à
apropriação dos meios da cultura de massa, então já garantida pelo
agigantamento das redes de televisão, parodiando-os. As obras tornam-se
ilusoriamente mais leves, brincam com a História, com os gêneros
populares, com o estilo jornalístico e televisivo, abandonam a dificuldade
narrativa dos anos 70 — aqueles textos fragmentários alineares e
fantásticos que fizeram a fama de Callado ou J.J. Veiga — e, na poesia,
antes adepta das técnicas de alta comunicabilidade da literatura marginal e
da música popular brasileira, os novos expoentes voltam-se para os pilares
do vanguardismo internacional, Eliot e Mallarmé, em termos de
procedimentos, e aos temas do cotidiano citadinu ou provincial.
A euforia da redemocratização e da expansão mercadológica para o livro
continua. Como a base econômica assenta sobre a especulação financeira, a
indústria editorial, em expansão nos anos 70, agora nos 80 se consolida, a
partir das facilidades de capital de giro oferecidas pela inflação. A
concorrência cresce na mesma medida que o número de lançamentos o que
obriga a especializarem-se
37

mais as fatias de mercado; os incentivos oficiais para a compra de papel se


mantêm e, se os órgãos de fomento ao livro esgotam suas campanhas de
divulgação assim que os parceiros da iniciativa privada se desinteressam
pelo processo de democratização, ainda persistem algumas iniciativas em
que a demanda da sociedade se tornou habitual, como a distribuição de
livros em massa às escolas e o contato entre autores e estudantes. Publica-
se mais nas áreas da moda internacional: biografia, viagens, auto-ajuda;
assim como nas áreas de retorno seguro: clássicos literários brasileiros em
edições escolares, autores já consagrados.
Os adultos e os adolescentes lêem sempre menos, com o advento de novos
meios de lazer e de conhecimento, como os programas de cuidado físico
em academias, os espetáculos televisivos, especialmente desportivos e
telenovelísticos, os shopping centers, verdadeiros quadros-vitrine da
produção industrial esteticizada, os videogames e os computadores
pessoais, que começam a fascinar os mais jovens nas famílias abonadas.
A demanda por livros se torna bem mais especializada. Compram os que
precisam ler por razões de atualização profissional ou de formação geral e
profissional. Livros de entretenimento tradicionais, como romances
picantes e vertiginosos, são quase a única forma de leitura das horas
ociosas, cada vez menores, da classe média. As classes ditas populares
ficam restritas aos livros de bancas de revista, versões degradadas dos
gêneros chamados de triviais, e aos livros da escola, uma vez que o sistema
de bibliotecas públicas e escolares no país sofre da mesma contradição que
cerca o objeto que o justifica: os livros ali estão para serem guardados e
utilizados devotamente. Embora produtos industriais como qualquer
sabonete ou sapato, são o receptáculo sagrado de idéias e de sonhos da
humanidade e devem ser contemplados à distância, com reverência. Não
admira que alunos da Y série em diante, perdida a relação lúdica que suas
professoras de Currículo por Atividades sabiam emprestar à leitura, deixem
de ler e tornem-se adultos desinformados. Esse público, com essa
(de)formação, não reconhece
38

nem procura qualidades artísticas. Quando consome literatura, faz parte do


grupo que Roman Ingarden classifica de leitor egotista, ou seja, aquele que
procura no texto o seu prazer, não o da obra.
No caso da literatura infantil, a situação não evolui de maneira muito
diversa. Também nas águas do processo de modernização empreendido
tecnoburocraticamente nos anos 70, o gênero, que sempre, desde seu
nascimento, vinculou-se à sociedade burguesa industriaL, beneficiou-se
dessas condições de incremento capitalista. Foi, porém, um tanto
paradoxalmente, o lugar em que muitas mentes progressistas puderam
exercer um trabalho de caráter humanístico e emancipatóriO mais claro
num país sob regime de força. Como se escrevia para crianças, um
segmento social historicamente ignorado pela assimetria de poder entre
adulto e infante, este no máximo encarado como futuro material humano da
nação, foi nesse setor que a resistência ao regime militar passou
despercebida e plantou sementes de liberdade. Autores como: Ruth Rocha e
seu O reizinho inandão, Ana Maria Machado com De olho nas penas e Do
outro lado tem segredo, Lygia Bojunga Nunes com Os colegas, Angélica e
A bolsa amarela, Carlos de Marigny, com Lando das ruas, Fernanda Lopes
de Almeida com sua fadinha contestadora, Sérgio Caparelli e seus meninos
da Rua da Praia, a “Coleção do Pinto” e outros tantos, através do universo
mágico dos livros infantis, puderam desacreditar os valores que
sustentavam a política de linha dura dos militares, de certo modo induzindo
uma geração a pensar por si e a desconfiar de idéias que matam.
A reforma de ensino dos anos 70 aumentara o número de professores, de
alunos e de escolas, incentivara os cursos universitários e instituíra os
cursos depós-graduação, favorecendo o incremento da produção industrial
de livros, os quais passavam a contar com um segmento de demanda
bastante segura. Entretanto, a maior parte dessa imensa rede escolar
atend[ia populações de baixa renda, sem recursos para material didático e
muito menos livros. Foi esse o motivo dos programas oficiais de fomento
ao livro, como o Plidef e o Plidem, que nos anos 80 foram desativados e
substituídos pela ação
39

da FAE, com suas Salas de Leitura, sempre, porém, com a finalidade de


baratear a produção das obras, ou de levá-las diretamente às escolas e às
bibliotecas escolares, através de compra aos editores.
Esses programas tornaram o governo o principal cliente da indústria
editorial, em especial nos anos 80, em que a rede escolar foi fartamente
abastecida de livros não apenas didáticos e paradidáticos, mas de literatura
infanto-juvenil, determinando um novo panorama na produção e recepção
nessa área. Novos autores surgiram, gêneros proliferam, e alguns até se
aperfeiçoam, como poesia infantil, que desde 1980 se reformula, cresce em
número de autores e títulos e se afasta em definitivo do modelo bilacquiano
do poema cívico-exortativo.
Se o processo de redemocratização exigiu essa reformulação nas relações
entre indústria e público, a presença forte do governo como principal
cliente não alterava em muito o relacionamento unilateral vigente na
década anterior, Os órgãos continuam a ditar regras, afeiçoando os acervos
a serem postos à disposição do público infantil. Todavia, nesses árgãos a
antiga tecnoburocracia encontrou a resistência de funcionários de mentes
abertas e, em especial no Programa Salas de Leitura, a seleção de títulos foi
da melhor qualidade, por meio de um sistema de consultores da sociedade
civil, especialistas em literatura infantil, o que igualmente incentivou a
permanência no mercado de autores de boa qualidade e de ideologias
progressistas.
Como afirma Regina Zilberman, todo esse movimento de reação se deveu à
constatação de que o ensino oferecido pelo regime militar nos anos 70
visava apenas a qualificar uma mão-de-obra egressa do meio rural,
ignorante, para as tarefas menos exigentes do sistema industrial urbano. A
denúncia da crise deformação, refletindo-se sobre a leitura, espalhou-se
como um incêndio social:

as crianças [...] estão submetidas à escravidão do livro didático, este é autoritário e


expressa a ideologia conservadora. Várias instituições e associações criticaram o
modelo vigente,
40
revelaram suas fraquezas e propuseram alternativas. Como uma delas confundia-se com
o aproveitamento da literatura infantil pelo professor em sala de aula e o trabalho
pedagógico com leitura, ficaram bastante prestigiadas as que lidavam com aquele
gênero: a Fundação Nacional dio Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ), o Centro de Estudos
de Literatura Infantil e Juvenil (CELIJU), a Associação de Leitura do Brasil (ALB),
entre outras. Estas entidades, e outras, oficiais, como o Instituto Nacional do Livro e a
Fundação de Assistência ao Estudante (FAE), adotaram políticas de estímulo à leitura,
especialmente do texto literário, concebendo—o como motivador de posicionamento
lúcido perante o imundo e favorecedor de habilidades de escrita e reflexão na escola. A
literatura infantil, principal iniciadora ao ritual da leitura, colocou-se em posião
privilegiada; e seu consumo foi considerado positivo.” 2

Essa explosão orientada da literatura infantil nos anos 80 trouxe


conseqüências que perduram até hoje. Suas motivações incidiram mais no
plano ideológico, em que conservadores e progressistas viam o papel da
arte literária — pragmaticamente — ou como civilizatório ou como
emancipatório, do que no plano estético. Apesar disso, o gênero adquiriu
uma identidade própria, renovou estilos e conteúdos, penetrou em regiões
onde antes a palavra em estado de arte jamasis alcançara e produziu efeitos
benéficos: atraiu jovens para a leiturat literária. Pensando-se esta como uma
simulação do mundo, como queir o semioticista eslavo luri Lotman, muitas
crianças e muitos adolescentces conheceram pelos livros de literaturaem
suas escolas aspectos da realidade que antes nem imaginavam poderem
existir.
Se ao fim dos anos 70 a tendência dominante no gênero era a contestatória,
expressando as insatisfações populares ou humanistas com os resultados da
política desenvolvimentista do rregime militar, nos anos 80, mais
liberalizados, tudo podia ser matériáa para a ficção infanto-juvenil.
Pesquisando uma amostra de 300 títullos publicados

2. Id., ibid.
41

nessa década, encontram-se as seguintes linhas de ação: 30% de obras


sobre o cotidiano infantil (vida doméstica, curiosidade infantil, brinquedos
e travessuras, relações com pais e irmãos, aquisição de noções ou desejo de
crescer), sejam de características fantásticas ou realistas; 27% incidem no
âmbito do conto fantástico, especialmente antropo- mórfico, em que
animais substituem a criança como herói, objetos ou elementos naturais são
animados ou se propõem remos encantados e seres egressos do conto de
fadas, sob vestes modernas; 17% dedicam-se à representação da vida de
pessoas, meninos e meninas, velhos e tolos, e 10% a questões de História e
da modernidade recente (ecologia, vultos históricos, veículos, guerras,
violência urbana); 7% referem-se a gêneros de massa, em especial mistério
e detecção e honor; 5% são dedicados no folclore e à religião; e os
percentuais restantes a adaptações paródicas ou a clássicos simplificados.
Nos anos 80, o modelo criança vence o adulto dos anos 70, originário do
conto de fadas compensatório, torna-se menos militante e mais dúctil.
Tanto pode retrabalhar e inverter esse conto de fadas, como em A fada
enfadada, de Eliane Ganen, ou em Uxa, ora fada, ora bruxa, de Sylvia
Orthof (1985), quanto o conto policial, como em João Carlos Marinho, em
Sangue fresco, ou Paulo Rangel, em O assassinato do conto policial
(1989), como a literatura social, como em Meg foguete (1985), de Sérgio
Caparelli, ou Ciganos, de Bartolomeu Campos Queirós. O que distingue
essas obras de suas respectivas tradições é o predomínio da
verossimilhança sobre a veracidade, o emprego da fantasia sem hesitações
e com caráter metafórico e não apenas compensatório e a criação de
personagens infantis fortes, mesmo diante de barreiras sociais
intransponíveis.
Também em contigüidade com a década de 1970, há na de 1980 a ficção
realista, seguindo o modelo do Romance de Trinta, de denúncia dos
problemas sociais, encontrável em obras contundentes como Cão vivo, leão
morto (1980), de Ary Quintella, Porã (1980), de Antônio Hohlfeldt ou
Você viu meu pai por aí? (1987), de Charles Kiefer. Essa tendência não
elege o modelo criança versus adulto e sim criança e/ou adulto versus
condições sociais adversas, como a
42

degradação da natureza, o genocídio das nações indígenas, a


desestruturação familiar.
Nessa corrente de continuidades, mantém-se igualmente o modelo intimista
que Lygia Bojunga Nunes praticara nos anos 70 e que em Corda bamba, de
1979, atinge seu ápice de exploração da interioridade infantil. Na década de
1980 a própria Lygia escreve obras como Tchau (1985), sobre a
emancipação da mulher-mãe e encara temáticas dificultosas, como o
entendimento infantil sobre a separação dos pais, o abandono dos filhos, os
desníveis gerados pela má distribuição de rendas, ao lado de uma defesa da
fantasia como refúgio e sentido para a vida, na história da amizade do
pescador com seu barco ou do ciúme que impulsiona positivamente a
criatividade. Seus novos textos, porém, beiram à depressão e se afastam do
público infantil. Quem sustenta a narrativa intimista, num clima fantástico,
abordando os temas existenciais da emancipação feminina é Marina
Colasanti em obras como Doze reis e a moça no labirinto do vento, de
1982. Também Ana Maria Machado, com Bisa Bia, Bisa Bel (1982),
mergulha fundo e liricamente nas relações infância-velhice, sem a tentação
do sentimentalismo ou do realismo de exterioridades. O curumim que virou
gigante (1980), de Joel Rufino dos Santos, O short amarelo da raposa
(1980), de Maria Heloa Penteado, Pinote o fracote e Janjão o fortão
(1980), de Fernanda Lopes de Almeida, As muitas mães de Anel (1980), de
Mima Pinsky, A viagem de Clarinha (1984), de Maria Clara Machado, O
dicionário de Serafina (1984), de Cristina Porto, O galo maluco (1985), de
Sônia Junqueira, A menina de sol e areia (1989), de Ana Maria Bobrer,
são outros textos que tematízam, de modo sjmbólico, o mundo interior da
criança, procurando expressar suas necessidades e apresentar soluções a
seu alcance.
Duas outras tendências avultam nos anos 80. A primeira delas aproveita o
folclore nacional, não como antes, com seu componente crítico ou
anedótico muitas vezes reprimido ou substituído por um sentido
pedagógico. Joel Rufino dos Santos, desde Histórias do
43

Trancoso, de 1984, atua na recuperação do elemento cômico-satírico dos


contos populares — seu A botija de ouro (1984) é modelar —-e Ricardo
Azevedo, com ênfase na linguagem das quadras populares, igualmente
retoma seres e causos lendários. A série da Editora Ática dedicada ao conto
de fadas de origem nacional — na verdade, ibérica
—ganha espaço com obras cativantes como A caranguejinha de ouro
(1986), de Aramis Ribeiro Costa. Também Ana MariaMachado, com Uma
boa cantoria (1980) e O barbeiro e o coronel (1984), renova a narrativa
com os recursos de repetição das trovas populares. Na poesia, Guriatã
(1980), de Marcus Accioly, recria o estilo dos cantadores nordestinos. e
autores como José Paulo Paes, Sérgio Caparelli, Ciça e Tatiana Belinky
desenvolvem poemas a partir de fragmentos de poesia folclórica nacional e
internacional.
A segunda dessas correntes adapta os gêneros da literatura de massa. O
conto de horror, o conto policial, a história de aventuras, a novela
sentimental, a de ficção científica proliferam em geral com os mesmos
traços de trivialidade dc seus modelos, destinados a um entretenimento
fácil e descartável. Todavia, essa área da produção também tem dado
abertura à criatividade solta, freqüentemente lúdica e paródica, resultando
em obras inovadoras e cativantes, como o Jacaré cosmonauta, de Ayaia, A
operação do tio Onofre (1985), de Tatiana Belinky, ou O barulho fantasma
(1984), de Sônia Junqueira.
Antes de 1980, poucos livros com poemas para crianças tinham sido
editados, embora o gênero já contasse com exemplares de qualidade
indiscutível: O menino poeta, de Henriqueta Lisboa, A arca de Noé, de
Vinícius de Moraes, e Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles. Essas obras
resultaram da incursão ocasional de nossos grandes poetas na literatura
infantil; mas estimularam escritores como Sérgio Caparelli, Elias José, José
Paulo Paes, Bartolomeu Campos Queirós, Roseana Murray, a dedicarem
sua poesia exclusivamente ao público infantil, fortalecendo uma áreade
criação literária e respondendo a uma demanda que se revela convidativa.
A par dessas tendências de renovação ou de uma continuidade produtiva e
instigante, as necessidades de atender a um
44

mercado com características de consumo e de profissionalizar os autores


conduziram a literatura infanto-juvenil dos anos 80 por outros caminhos às
vezes nem tão recomendáveis. Multiplicaram- se as séries ou coleções,
freqüentemente de autoria única, ameaçando os escritores com os
inevitáveis altos e baixos. A demanda gulosa por novidades conduziu a
uma pulverização temática e estilística em que muito se escreve, mas
sempre sobre o mesmo. A massa da produção se apresenta como
redundância anódina, viciada pela ânsia de agradar, mesmo que isso
signifique reapresentar sempre o mesmo prato cnm outra decoração.
Multiplicam-se os autores caudatários, com obras sem nenhuma relevância,
salvo a de poder alimentar um impulso para a leitura mais exigente, quando
a náusea dos assuntos e dos heróis repetidos se torne insuportável.
Todavia, pelas mesmas razões, algumas vantagens em termos de
emancipação do leitor criança vieram à tona, à medida que a década
avançava. A necessidade de esteticização do produto livro para uni
mercado em larga escala determinou uma melhoria significativa na
produção gráfica, com excelentes ilustradores e programadores visuais. As
séries proporcionaram o aumento quantitativo de clássicos adaptados — no
geral com fidelidade e ótimo estilo —, colocando o acervo da literatura
ocidental ao alcance das mãos dos jovens. Bons autores estrangeiros
voltaram a ser traduzidos, rompendo-se uma espécie de xenofobia que se
insinuara nos meios educacionais e culturais na década anterior.
Solidificando-se, nos anos 80, a partir do novo processo de modernização
da sociedade, com sua débil redemocratização e contínuas tentativas de
chegar a uma economia de escala, sem inflação e com a aspiração de
garantir o bem-estar social a setores mais amplos da sociedade, a literatura
infantil brasileira detiniu seu próprio sistema de produção e de circulação
de bens culturais, a partir da demanda de um público cativo — o escolar—
e do estímulo estatal à empresa privada. Com isso, assumiu o risco das
oscilações dos modelos econômicos governamentais, o comprometimento
com os valores
45

pseudo-emancipatórios da burguesia urbana e com sua representan


educacional, a pedagogia de massa, o que a ameaçou de perder em
qualidade artística e força transformadora.
Associando-se aos mesmos aparatos que sustentam a cultura de massa,
embora evitando modelar-se por ela, passou a depender entretanto, dos
gostos voláteis dos setores cada vez mais segmen tados do público infanto-
juvenil, que a obrigaram a diversifícars, em busca da perpétua novidade
que alimenta o mercado de consu. mo, e a produzirem ampla escala, o que
determina a estética d repetição, de que desde então vem se ressentindo.
Faça-se, porélr[, a reserva devida aos criadores realmente originais que
nessa década propuseram às crianças um olhar não mais “protegido” às
mazelas nacionais e às angústias pessoais, mas souberam direcionar essas
visões com elevada dose de humor, de sinceridade e de esperança nos
próprios jovens
47

4. LITERATURA INFANTIL Dos ANOS 80

Ana Lúcia Brandão

O grande marco da literatura infantil e juvenil dos anos 80 acontece por


duas vias em diálogo: produção e reflexão. Primeiramente vamos tecer
considerações sobre as mais importantes características dessa produção.
Bem, de uma forma geral, a produção de livros infantis e juvenis na década
de 1980 cresce vertiginosamente e consolida-se em termos de mercado
editorial, em quantidade e também em qualidade de propostas em ficção,
poesia e livro de imagem.
De 1980 a 1985 são publicados inúmeros títulos de literatura infantil,
apresentando uma grande diversidade de autores e de propostas e poucos
tftulos juvenis, com exceção a ser feita a famosa “Série Vaga-lume”, da
Editora Ática, fenômeno de comunicação de massas, que já veio vindo dos
anos 70.
Um bom número de escritores que vinham se dedicando à literatura infantil
se consolidam no mercado pela qualidade de suas propostas e seus
questionamentos, como Ana Maria Machado, Ruth
48

Rocha, Joel Rufino dos Santos, Sylvia Orthof, Maria Heloísa Penteado,
Ziraldo e Elvira Vigna, por exemplo.
De 1985 a 1990 a vasta produção de livros infantis mantém-se,
consolidando um novo número significativo de bons escritores na área,
como: José Arrabal, Tatiana Belinky, Ciça Fittipaldi, Rogério Borges,
Anna Flora, Ana Maria Bohrer, Márcia Kupstas, Terezinha Alvarenga e
outros.
Nessa mesma fase, de 1985 a 1990, os livros de literatura juvenil são
publicados em maior número, por diversas editoras, fazendo emergir nesse
campo conhecidos autores de literatura infantil como Luiz Galdino, Ana
Maria Machado, Sylvia Orthof, Lygia Bojunga Nunes, Terezinha Éboli.
Paralelamente a isso, novos autores e novas propostas dedicadas ao público
jovem surgem através de obras de Luiz Antonio Aguiar, Liliana Iacocca,
Paulo Rangel, Álvaro Cardoso Gomes, Ivan Ângelo, Marcelo Carneiro da
Cunha e outros.
O livro de imagem, inserido no mercado editorial como proposta única e
inovadora por Juarez Machado em Ida e volta nos anos 70, consolida-se
como gênero na literatura infantil, graças aos livros que realizam
visualmente idéias inteligentes e sensíveis de Angela Lago, Eva Furnari,
Rogério Borges, Maria José Boaventura e Regina Coeli Rennó.
No campo da poesia, encontramos o novo diálogo prosa e poesia, dando
vazão ao gênero prosa poética tão bem exemplificada nas obras de
Bartolomeu Campos Queirós, no humor questionador de Ruth Rocha,
Sylvia Orthof e Ana Maria Machado, por exemplo.
No campo da poesia ainda contamos com a presença preciosa de Roseana
Murray, Sérgio Caparelli, José Paulo Paes, Wania Amarante, Elias José,
Ciça Alves Pinto, MônicaVersiani, Antônio Barreto e Dilan Camargo. Nos
anos 80, percebe-se que algumas editoras abrem espaço para os
coordenadores editoriais que sejam profissionais que vêm burilando um
questionamento lúcido sobre a literatura infantil e juvenil, seja em trabalho
como educadores atuantes, seja
49

como especialistas, junto à imprensa ou ao mercado editorial, ou mesmo


aqueles que levaram em conjunto várias dessas atuações.
Logo, no começo dessa década encontramos publicações com coordenação
editorial de Ziraldo e Jaguar com a “Coleção Pasquinzinho” no Rio de
Janeiro (editora Codecri); de Edmir Perrotti com a “Coleção Ponto de
Encontro” (Edições Paulinas), de Fanny Abramovitch com as coleções
“Sem-vergonha” (Editora Escrita) e “Cometa” (Salesiana Dom Bosco), de
Ruth Rocha com “Coleção Peixinho” (Cultrix), Regina Mariano com as
coleções “Lagarta Pintada”, “Série Pique”, “Boca de Forno” e “Curupira”
(Ática) e lone Meloni Nassar com as coleções “Primeiras Histórias”,
“Segundas Histórias”, “Terceiras Histórias” e “Falas Poéticas” (FTD), em
São Paulo; de Maria da Glória Bordini com a “Coleção Infantil Ilustrada”
(L&PM), Regina Zilberman com a “Série Menino Poeta” (Mercado
Aberto), em Porto Alegre.
Vale registrar as editoras que nessa época apresentaram um trabalho
inovador como a Miguilim e a Vigília, em Belo Horizonte; Memórias
Futuras, Agir, José Olympio, Nova Fronteira, Berlendis & Vertecchia e
Salamandra, no Rio de Janeiro; Melhoramentos e Epopéia, em São Paulo;
Mercado Aberto e L&PM, em Porto Alegre. Não resta dúvida que todas
essas coleções e essas editoras têm hoje o privilégio de dizer que foram as
primeiras a abrir as portas ao trabalho inovador de diversos escritores e
ilustradores que estão até hoje no mercado de livros infantis e juvenis.
Um campo muito interessante de atuação das editoras nessa década foram
as traduções. Talvez essa conscientização de um trabalho mais profissional
nessa área seja resultado das inúmeras discussões trazidas pelo livro de
Bruno Bettelheim, A psicanálise dos contos de fadas, e ode Marie Louise
Von Franz, A interpretação dos contos de fadas, sobre a importância de se
contar os contos de fadas nas suas versões originais, como também pela
exposição comemorativa de 200 anos dos Irmãos Grimm em 1984, que
resultou inclusive na difusão do contar histórias nas mais diferentes
instituições culturais, livrarias, escolas e creches nos grandes centros
urbanos.
50

Logo, registram-se nessa época excelentes traduções de contos de diversas


culturas feitas diretamente da língua em que a obra foi escrita
originalmente.
Desse modo as crianças tiveram acesso, por exemplo, aos contos dos
Irmãos Grimm em publicações traduzidas diretamente do alemão, com
texto integral, por Tatiana Belinky, Contos de Grim para as Edições
Paulinas, por Verônica Sônia Kühle para a “Coleção Era uma vez Grimm”
para a editora Kuarup, por Maria Heloisa Penteado para Contos de Grimm
da Ática ou as de Ana Maria Machado para Chapeuzinho e outros contos
de Grimm feitas para a Nova Fronteira.
Essa conscientização se estendeu também à coordenação e consultoria a
profissionais da área para organizar e publicar coleções de contos
específicas como “Contos Orientais de Hauff” com tradução feita
diretamente do árabe por Naumin Aizem e coordenação da professora
Samira Chalhub e de Samir Meserani, publicados pela Kuarup; a tradução
do original inglês de Alice no país das maravilhas, por Ana Maria
Machado para Ática, a “Coleção Contos, Mitos e Lendas para Crianças da
América Latina” com coordenação de lone M. Artigas de Sierra, uma co-
edição da Ática com o Cerlalc (Centro Regional para o Fomento do Livro
na América Latina e Caribe); a “Coleção Contos da velha Europa”, com
tradução de Naumim Aizem, pela Ebal; a reunião de lendas indígenas feita
por Antonieta Dias de Moraes, em “Contos e Lendas de Índios do Brasil”
pela Editora Nacional; e a releitura de mitos e lendas indígenas feita pela
escritora Ciça Fittipaldi para a “Série Morená”, publicada pela
Melhoramentos.
Para os adolescentes vale apontar a “Coleção Aventuras Mitológicas”, onde
vários autores consagrados escrevem sobre diversos episódios da mitologia
grega. como José Arrabal, Luiz Galdino e Antônio Hohlfeldt, publicada
pela FTD.
A década de 1970 é conhecida por ter sido o grande boom da literatura
infantil, pois um enxame de livros e de autores foram
51

publicados, sem que houvesse a possibilidade de uma reflexão sobre o que


se publicava, por quê e para quê. Era a época do chamado espontaneísmo
apontado pelo pedagogo Paulo Freire em seu livro Ação cultural para a
liberdade, onde o ensino não-repressor abriu espaço para a expressão dos
alunos de forma assistemática, fruto de uma ideologia que, fugindo do
autoritarismo, mostrava-se sem direções, sendo anárquica por excelência.
Esse espontaneísmo também se refletiu no mercado de livros infantis e
juvenis, inclusive porque essa produção entra de sola na indústria cultural,
tornando-se produto de leitura de entretenimento nas escolas.
Já nos anos 80 percebe-se que os profissionais da área começam a sentir
necessidade de refletir sobre o papel da literatura infantil e juvenil,
apontando caminhos e começando a detectar tendências, o que vai
ajudando a esboçar possíveis diretrizes.
Paralelamente a essas preocupações com análise de textos, de análise e
crítica sobre a produção e de tecer arcabouços teóricos que dessem conta
do objeto literatura infantil e juvenil, vivíamos no país a abertura política,
após 20 anos de regime político militar. Isso significa que a opinião própria
e a reflexão começam a ser exercitadas. 1 Primeiro de forma muito
melindrada, e, depois de algum tempo, passam a ser aceitas, valorizadas e
conseqüentemente ouvidas. Foi um tempo em que a barreira do medo de
opinar começa a ceder e dar lugar a diversidade de opiniões e de
posicionamentos. E o pensar, o dizer, o refletir, o concordar e o discordar
passa a ser exercício de construção do conhecimento, fazendo dos anos 80
um tempo de amadurecimento de idéias e de posicionamentos sobre a
literatura, a política democrática que se iniciava e a sociedade em seus
acertos e desacertos.
Entre os teóricos que refletiam sobre a questão temos o professor Edmir
Perrotti, que faz a distinção fundamental entre texto utilitário e estético em
O texto sedutor na literatura infantil. Ele diz

1. A professora Maria da Glória Bordini inclusive tem um artigo sobre o panorama da


literatura nos anos 70 e 80, em Literatura infantil: um gênero polêmico.
52

ser o texto utilitário aquele que apresenta objetivos pedagógicos, de


ensinamento, útil aos propósitos imediatistas na sala de aula. Ou seja, se
você quer que seu filho não fique na rua até tarde, dá para ele ler a história
de um gato que se perde dos pais e sofre muito, tendo aprendido através da
leitura o quanto é perigoso ficar longe de casa, em uma visão
empobrecedora sobre a fundamental questão da liberdade.
Já o texto estético tem um compromisso com a Arte, onde o autor apropria-
se do imaginário através de uma linguagem de elaboração literária
incontestável, de conteúdo imaginativo no tratar de questões pertinentes ao
universo da infância ou da adolescência. São textos que respeitam a
infância e a adolescência como fases de transformação, onde esses seres
possam se sentir aptos a modificar uma realidade dada e a atingir uma nova
realidade conquistada.
A professora Laura Sandroni afirma que todo livro traz em si um projeto de
criança conformista ou transformador ante a uma realidade dada em De
Lobato a Bojunga: as reinações renovadas. E, realmente, esse “projeto de
criança” evidencia a relação subjetiva que o próprio autor tem coma
infância ou a adolescência: se ele tem uma visão romântica e cor de rosa, se
ele apresenta um profundo respeito a esses seres enquanto seres que se
abrem para o mundo em busca de novas experiências, cheios de buscas,
dúvidas e inseguranças, ou se apresenta uma visão desses seres como
pobres sofredores de um mundo cão que está por vir.
Foram importantes para a época também os questionamentos levantados
em Literatura infantil: autoritarismo e emancipação, escrito pelas
professoras Regina Zilherman e Ligia Cadermatori Magalhães, que retoma
o papel da crança diante da sociedade de diversos tempos, onde cada época
apresenta uma ideologia vigente ou ideal, pondo ainda em diálogo essas
idéias evários textos de literatura infantil instigantes.
Foi marcante também o questionamento levantado pela professora Marisa
Lajolo sabre a história da leitura no Brasil, cheia de
53

atropelos, de acertos e de erros, sempre tendo como paradigma a relação


entre Educação e Política vigente.
Vale registrar que nos anos 80 a literatura infantil e juvenil é comentada
com certa freqüência na mídia impressa, em artigos de Laura Sandroni,
Edmir Perrotti, Fanny Abramovich, Tatiana Belinky, Marisa Lajolo e
outros.
Nessa década a professora Nelly Novaes Coelho publica o seu dicionário
de literatura infantil e juvenil, um trabalho de fôlego que registra autores,
sua formação, resenhas e comentários sobre suas obras. É a primeira obra
de consulta na área.
É nos anos 80 que a literatura infantil e juvenil é tida como produção
cultural em processo de consolidação. Nota-se então um bom grupo de
autores dedicados a escrever somente textos da literatura infantil e juvenil.
Entre os autores que se destacam pela qualidade e pela quantidade de textos
publicados estão Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Sylvia Orthof, Lúcia
Pimentel Góes e Elvira Vigna. O reconhecimento da existência do
autoritarismo despótico, assim como a sua superação, é preocupação latente
em diversos textos como em Uma boa cantoria e Era uma vez um tirano,
de Ana Maria Machado, em O que os olhos não vêem, prosa poética contra
a insensibilidade do poder do rei que não enxerga os problemas sociais de
seu reino, escrito por Ruth Rocha, ou em Mudanças do galinheiro mudam
as coisas por inteiro, de Sylvia Orthof, onde em um galinheiro é chegada a
vez dos fracos e dos oprimidos como a galinha e o dragão Severino.
Os papéis sociais da mulher e do homem são postos em cheque em
Procurando firme e Faca sem ponta, galinha sem pé de Ruth Rocha, no
menino Daniel que aprende a expressar sua dor pelo choro, acabando com
o machismo em Zero zero alpiste, de Mima Pinsky. Nessa mesma linha,
mas em uma narrativa mais longa e mais complexa, coberta de humor,
Sylvía Orthof, com A gema do ovo da Ema, apresentanos Josefa, uma
adolescente, filha de um coronel machista
54

que deseja casá-la com um bom partido, expondo para o leitor o quanto a
menina tinha sua autoexpressão cassada. Pouco a pouco, Josefa apaixona-
se e vai adquirindo a sua personalidade e seu o querer.
Em O equilibrista, Fernanda Lopes de Almeida põe os opostos para
conviver: o equilibrista que tem o prazer de viver e que vai construindo sua
vida, dia após dia e o desiquilibristra, o materialista. Sylvia Orthof faz o
mesmo em Gato pra cá, rato pra lá, que revela que os eternos inimigos
admiram-se mutuamente, apesar de enxergarem a vida de modo diverso.
Logo, esses são exemplos que englobam grande número de textos que
evocaram a questão emergente da relatividade de valores, num tempo em
que nossa sociedade se abria para a democracia.
Entre os autores estreantes na literatura infantil quejá deixam marcas por
sua criatividade e estilo estão Angela Lago, com a exploração bem-
humorada do folclore em Sangue de barata; Lúcia Miners, que escreve de
forma poética sobre o amor filial em Tião que morou num bumbo; Eva
Furnari, com suas narrativas visuais Zuza e Arquimedes, Filó e Marieta,
revelando perfeita sintonia com a curiosidade infantil.
Ciça Fittipaldi, com João Lampião, que em um estilo literário próximo à
linguagem oral, conta a história de um homem que vai mudando de
profissão conforme vai vivendo, enfrentando assim as adversidades e
tornando-se um homem experiente.
Marina Colasanti descobre a linguagem literária belíssima com que tece
verdadeiros contos contemporâneos em Ofélia, a ovelha e A mão na massa,
assim como José Arrabal em A princesa Raga-Si.
Lia Zatz, expõe facetas nada santas do modelo de mãe em Suriléia, mãe
monstrinha. Luís Camargo dá um tratamento lúdico original aos objetos
cotidianos em Maneco chapéu, chapéu de funil; Lino de Albergaria em
Túlio e a chuva, que conta a história de um
55

menino entediado em um dia de chuva, evidenciando que nem sempre a


infância é fase fácil de ser vivida.
Entre os autores que se mantêm no mercado temos por exemplo: Ziraldo,
Joel Rufino dos Santos, Fernanda Lopes de Almeida e Maria Heloísa
Penteado.
Ziraldo vive um período extremamente criativo com a publicação de A
bela borboleta, onde os personagens dos contos de fadas avisam do seu
desaparecimento se as crianças não lhe derem vida, ou O menino mais
bonito do mundo, onde texto e imagem acompanham a passagem de um
menino para a puberdade.
Muitos textos parodiam os contos de fadas, ora com humor, ora com ironia,
outros fazem mesmo uma releitura de sua existência, como Pedro Bandeira
em O mistério de Feiurinha, releitura do conto tradicional A moura torta,
recolhido por Câmara Cascudo, e A bela borboleta, de Ziraldo.
Sylvia Orthof questiona o casamento como valor social por meio da
paródia Uxa, ora fada, ora bruxa, onde Uxa, uma bruxa que sai fazendo
“fadices” quando encontra o noivo a ela destinado opta por não se casar,
vivendo feliz com sua nova paixão: a tecnologia, ou seja, o computador. E
inúmeras outras paródias foram publicadas nessa linha de desconstrução
dos contos ou das releituras. Nessa primeira etapa da década nota-se ainda
um grande número de livros em duas cores, com um projeto gráfico
acanhado, ou, ainda, projetos em que as capas dos livros são em quatro
cores e o miolo em duas. Algumas coleções destacam-se por empregar
quatro cores, como é o caso da “Lagarta Pintada”, “Boca de Forno” e “Gato
e Rato” com texto para crianças recém-alfabetizadas escritos por Mary
França e ilustrações de Eliardo França, belíssimas em quatro cores, a série
“Ponto de Encontro”, a “Menino Poeta,” a produção infantil de Ziraldo pela
Melhoramentos.
Merece menção o trabalho inovador e de extrema qualidade de texto e
gráfica da “Coleção Arte para Crianças”, com a coordenação
56

de Donatela Berlendis, que começou publicando a paródia de Chapeuzinho


vermelho feita por Chico Buarque de Holanda chamada Chapeuzinho
amarelo, quando a menina transforma em bolo bobo o terrível lobo,
terminando assim com o seu poder repressor e ameaçador. Toda a coleção
apresenta um trabalho gráfico impecável, capas duras, revelando que o
diálogo entre texto, imagem e qualidade deveria ser uma constante na
literatura infantil.
Entre os autores estreantes que deixam marcas por sua criatividade e estilo
estão Rogério Borges, que fala da amizade de Bernardo e Bronto, um
dinossauro muito divertido e amável; Márcia Kupstas com Mata vermelha,
um dos primeiros textos ecológicos sobre a relação entre a aventura de
caçar e a morte dos animais e o posterior remorso sentido pelo menino-
caçador; Anna Flora com Ariovaldo, o bode espiatorio; Terezinha
Alvarenga com A mãe da mãe da minha mãe, onde a ilustração de Angela
Lago apresenta a porta como elemento vazado, elemento simbólico da
entrada da bisneta na vida da bisavó; Liliana lacocca com a ‘Série
Labirinto”; Tatiana Belinky com a divertida história policial A operação do
tio Onofre, onde Onofre é o cofre que está sendo assaltado e que o menino
avisa o pai sobre o assalto graças ao fato de chamarem o cofre de casa de
Onofre.
Nessa época os projetos gráficos melhoram, o papel empregado em várias
publicações é de melhor qualidade, começam a surgir projetos gráficos para
as coleções, que facilitam a visualização do leitor, as ilustrações em quatro
cores começam a dominar o mercado e ilustradores como Walter Ono,
Gerson Conforti, Rui de Oliveira, Helena Alexandrino, Rogério Borges,
Ana Raquel, Ziraldo, Angela Lago, Tato Gost e outros começam a criar um
diálogo entre texto e imagem tão originais a ponto de criar uma nova
expressão do livro infantil brasileiro, onde esse diálogo torna-se
fundamental e enriquecedor como experiência estética.
E entre os autores que se mantêm estão Marina Colasanti, Lúcia Miners,
Ricardo Azevedo, Luís Galdino, Vivina de Assis
57

Viana, Ronaldo Simões Coelho, Ciça Fittipaldi, Lúcia P. Góes, Luís


Camargo, Cora Ronaí, Ziraldo, Mima Pinsky;, Joel Rufino dos Sarntos,
Fernanda Lopes de Almeida, Maria Heloíísa Penteado.
Ainda em termos sociais há temas qtue passam a ser maids abordados na
literatura infantil e juvenil e que eram esquecidos até então, evidenciando o
princípio de uma comscientização sobre aas minorias étnicas e sociais
como a cultura indífgena, representada erm textos como Çarungaua e
Terra sem males, de Luís Galdino, a “Série Morená” de Ciça Fittipaldi e a
fantástica Aventura aventurosa die Acanai contra a grande cobra Sucuri
na terra: sem males de Antonio Hohlfeldt; a cultura do negro, presente na
“Coleção Curupira”, die Joel Rufino dos Santos e nos textos de Sônia
Demarquet. Ou mesmo a questão ecológica aponta já em O verde briliha
no poço, de Marinia Colasanti, em Araújo ama Ophélia, de Ricardo
Azevedo, no Mata vermelha, de Márcia Kupstas e O jacaré, cde Cora
Ronaí, comao denúncia e na “Coleção SOS Natureza”, de Luiz Gouvéa de
Paula enquanto valorização dos animais. Um tema extremamente explorado
pela literatura infantil ejuvenil por volta de 1988 até 1990.
A literatura juvenil, marcada como uma Iliteratura de hest-seller, começa a
ter novos ares com a presença de esccritores que vinham se dedicando à
literatura infantil, como Lygia Bojunga Nunes, Ana Maria Machado, Sylvia
Orthof, Luís Galdino, Lino de Albergaria e Vivina de Assis Viana.
Mas novos autores começam a despontar com trabalhos interessantes como
Sonata ao luar, de Álvaro Cardoso Gomes; O poderoso Zé, de Luiz
Antonio Aguiar; Manhas comuns, de Mônica Versiani; Indez, de
Bartolomeu Campos Queirós; A cor da ternura, de Geni Guimarães; A
medida do possível, de Eliane Gahem; Pé de guerra, de Sônia Robatto; O
diário do outro, de Ronald Claver e Na praia da Ferrugem, de Marcelo
Carneiro da Cunha, entre outros.
Os diários íntimos também são um destaque nessa época com inúmeras
confissões de adolescentes com seus acertos, suas inseguranças
58

e suas desilusões, momento em que um grande número de escritores se


dedicou a eles e as editoras os publicaram aos montes, e que mereceriam
um estudo mais aprofundado.
Enfim, procuramos detectar muitos dos elementos importantes dessa
produção editorial, revelando a dinâmica de suas propostas, a consolidação
de outras e apontamentos de questões que adentram os anos 90. Claro que
como todo panorama, nem todos os nomes estão presentes, nem todas as
obras citadas, apenas buscamos dar uma noção geral de um mercado até
então tão instável como as chuvas de verão.
59

5. A LITERATURA PARA CRIANÇAS E JOVENS NOS ANOS 90

Numa Gançaives L.acerda

Voltamos a Camus: o que alguém é e pensa aparece forçosamente no que


esse alguém escreve, apesar de si mesmo. A única maneira de mostrar
traços mais positivos numa obra não é se encher de boas intenções: é ser
uma pessoa melhor,
Ana Maria Machado

Maria Machado. Minhas filhas Cíntia e Lorena, já na casa dos 20 anos,


cresceram ouvindo, contadas por mim, as histórias que ela criou. E eu, já
adulta e crescida, tomei — e continuo tomando — um bocado das suas
vnaminas,Para Ana, então, é que dedico o pensamento, a criação que aqui
se produz. Para Apia, e ‘para aqueles de nós interessados na construção
de utopias...”, como diz o sociolingüista Gunther Kress. Do amor por
crianças e por histórias—-raiz forte na pessoa e na obra de Ana é que me
valho para começar a tessitura deste pensamento.
60
Uma menina de 11 anos morando
no cemitério da Consolação

Botou a menina de castigo, e ficou cheia de remorso. O pior castigo de uma


criança é não poder ser criança, lembrou da propaganda no rádio. A filha
dela não podia ser criança. Aí, essa culpa de mãe, que a mulher tanto
carrega. Não era culpa dela, não era mesmo culpa dela se tinham que morar
nos fundos de um cemitério, a menina brincando entre sepulturas,
convivendo com enterros, estátuas de mármore. Seu maior sonho era que o
marido arranjasse emprego de porteiro num edifício, um apartamentinho
que fosse para eles morarem, e vizinhança barulhenta, bem barulhenta,
assim um edifício onde morasse uma banda de rock inteirinha.
A menina ficou de castigo, e muito “p” da vida. Não podia ser criança.
Bem que o rádio tinha razão, naquela propaganda que diz que o pior
castigo para uma criança é não poder ser criança. Pois é: que criança no
mundo se chamava Florípedes, esse nome horroroso, e aindapor cima não
podia soltar pipa? Não via nunca a mãe tão brava como quando ela estava
correndo bem lá no finzinho do terreno,junto das covas rasas, a pipa
voando no alto, o fio na mão dela controlando pra lá e pra cá. Era estar
nessa alegria e o grito vinha na certa, aquele pides esticado, o flori se
perdia pelo caminho.
— Quantas vezes já te disse que não te quero aí pra trás, no meio dessas
covas recentes, desses buracos abertos?, a aflição da mãe era sincera.
— Mas pra onde é que eu posso ir, mãe? Eu quero soltar pipa.
Sempre a mesma coisa, e mais uma vez. Estava cheia de verdade, chamar-
se Florípedes e não poder brincar por entre as tumbas, correr sobre as
covas, acompanhando a pipa no céu, era mesmo o seu maior castigo.
Paciência, o nome ela não podia mudar. Agora, ficar sentada, parada,
naquele castigo, não ficava não. A mãe estava lá entretida com o irmão,
com as coisas da casa, e ela — ela
61

ia lá pra fora, correr, correr atrás da vida, atrás daquele papagaio lindo que
apareceu de repente, ela já está correndo atrás do papagaio estrelado de
roxo e abóbora, soltinho no céu, vai cair. Quem foi o besta que perdeu uma
pipa linda dessas? Nossa! Vai cair aqui perto, aqui dentro da Consolação,
se cair aqui eu pego, pego mesmo, não tem dúvida, que fôlego tem esse
papagaio, mas já está ficando cansado, tá caindo, tá caindo, já vejo ele na
minha mão, e daqui a pouco vou empinar ele de novo. Assim que fizer a
maior das rabiolas, boto ele de novo pra ir passear nas alturas.
De repente, o papagaio caiu por trás de umas árvores, Florípedes deu um
grito de vitória, o papagaio logo ali, atrás dos últimos carneiros.

A biblioteca, nos anos 90

Não podia acreditar. Florípedes não podia acreditar no que via. Na frente
dela, sentada em cima de uma campa antiga, uma menina que regulava com
o seu tamanho, usando umas roupas esquisitas, segurava o papagaio na
mão, o seu papagaio. “É meu”, foi logo dizendo, “me devolve por favor”.
“Seu?”, a menina fez uma cara de pouco caso, e disse, para surpresa de
Florípedes, “está bem, pode pegar”. Nossa, que mão mais quente, parece
que saiu do fogo. E afinal de contas o que estava aquela menina fazendo
ali? “Em que enterro você veio? Se perdeu da sua mãe? Não é bom ficar
atidando sozinha aqui pelos fundos do cemitério”, e respondendo ao olhar
crítico da outra, “bem, eu moro aqui, moro já tem muito tempo, estou mais
que acostumada, mas a minha mãe diz até hoje que isso aqui é muito
perigoso, imagina só”, falou, parecendo ter vislumbrado de súbito uma
parceria inusitada.
62

Não sabemos ainda quiem é essa menina que aparece a Florípedes, nos
fundos do cemitériio da Consolação. Reparem que as duas meninas podiam
estar em ouitros cemitérios, do Caju, do Catumbi, das***, mas elas estão
no cermitério da Consolação. Um cemitério é uma grande enciclopédia,
erm versão econômica, nome, datas de nascimento e morte dos verbeltes.
Viramos verbetes depois de mortos, e verbetes mínimos. Pode ser que a
menina vá dizer isso à Florípedes, se ela for uma humorista. Se não, vai é
dar a mão à nova colega, saindo pelas alamedas atrás de pandorgas,
papagaios, pipas.
Não podemos ficar atrás delas o tempo todo, é melhor que vamos também a
nosso destinio, supondo que as duas desobedeçam de vez aos bons
conselhos de todas as mães e saiam a dar um giro pelas ruas de São Paulo.
Uma jovem vê pelas ruas de São Paulo (a literatura vê pelas ruas de São
Paulo) — e de qualquer outra cidade do seu porte, se eu conhecesse um
cemitério semelhante no México, é lá que botava as duas para conversar —
vê outros jovens iguais a ela, menores, e maiores, famintos, violentos,
perdidos; vê o progresso, a produção da riqueza; vê dignidades perdidas,
faróis fechados. Vê grandes centros de consumo e diversão, vê o
aviltamento dos seres, a felicidade e a ruína estampada nas faces anônimas,
vê esperança, desesperança, a falta de perspectiva qiue leva a população,
majoritariamente, a apoiar o crime financeiro,1 duas jovens pelas ruas de
São Paulo vêem os tamagotchis chegando, vêem o pequeno traficante de
nove anos sendo preso, perguntando apavorado ao repórter: “O juiz vai me
bater?”, vê a vida e vê a morte, nisso Florípedes é craque.
Tenho motivos para cirer que as duas saíram a dar esse giro, talvez a outra
garota fosse de fora, e Florípedes quisesse levá-la a conhecer um pouco da
sua cidade. Quem sabe a gente não vai até a minha escola? Foram, na certa.
“Quem sabe você não dá uma olhadinha ali na Adriana, está dando aula na
5ª agora de tarde, é a melhor

1.Folha de S. Paulo, 12/7/1997, sobre programa da rede Globo ‘Você Decide” de


10/7/1997.
63

professora de História do mundo, precisa ver quando ela fala dos egípcios e
dos colonizadores espanhóis. E quem sabe a gente não passa pela cantina,
você tem uns trocados aí?, a cantineira faz um pastel do outro mundo — “,
e Florípedes sentiu que a menina dava um risinho meio estranho. Se
perguntou então se a outra seria um fantasma, não, fantasmas não sabem
segurar uma pipa tão bem como ela havia segurado, se a gente ficar amiga
(continuou a pensar), ela não tem cara de quem deve ter medo de ser amiga
de filha de coveiro, se a gente ficar amiga —, e a garota tinha mesmo uns
trocados meio amassados no fundo do bolso do vestido, e compraram dois
pastéis, e duas coca-colas, e foram lanchar sentadas no banco debaixo da
árvore, que a escola de Florípedes era uma escola antiga (antiga e amiga),
tinha dessas delícias: banco debaixo de árvore, pastel e coca-cola,
Florípedes pensou que preferia guaraná, e pensou “para uma visita a gente
sempre oferece coca-cola”, e cobriu a boca envergonhada, pois na verdade
a visita é que estava pagando a festa, de seu Florípedes só tem umas
moedinhas rastaqüeras, que é uma palavra do Mário de Andrade de que ela
gosta muito. “O Mário? Ah, é um escritor. Dos bons. Quer dizer, a Rosa diz
isso toda hora. Minha professora de Português. Assim, assim. Não é tão
boa como a Adriana, mas dá pro gasto. Meio chata, mas gosta de levar a
gente pra biblioteca.”
O lanche acabou, cada migalha catada com prazer, os beiços lambidos e
relambidos, não ficava bem Florípedes pedir à companheira para comprar
outro pastel. Irem à biblioteca implicava passar na frente da cantina, e
quem sabe, o cheiro da massa fritando...
O cheiro da letra deve ter sido mais forte. As duas meninas estão dentro da
biblioteca.

A Utopia não mora mais aqui

A ilha da Utopia, criação do inglês Thomas Morus (1516), tem servido à


humanidade como ideal de vida justa e livre. Não é o
64

paraíso e tem também suas contradições. É porém uma das melhores


conquistas do imaginário do homem rumo à consolidação da fratura capital
dentro da própria espécie. Seu maior mérito é o de apontar para a
construção possível de um modo de vida livre, atento às necessidades
individuais e aos projetos coletivos. Atravessando quase cinco séculos de
história, especulam agora certas fontes que a Utopia terá morrido há uns
bons sete, oito anos, por ocasião da queda dos governos socialistas do Leste
europeu. Que ingenuidade! Que construção do imaginário humano morre
assim tão facilmente? Um sonho, uma crença partilhada por muitos, não
são um muro, derrubado à picareta. Idéias não caem por terra à força de
marretadas. Dizemos ainda que o Sol nasce, o Sol se põe, embora saibamos
há muito que é a Terra que vive de visita ao dia ou à noite. Que má-fé
quererem nos fazer acreditar que a Utopia morreu. Mudou de endereço,
isso sim, coisa muito normal, com que vive sonhando a mãe da nossa
Florípedes. Vai acabar o cemitério da Consolação quando ela não morar
mais lá’? A questão é que mora dentro de cada um de nós a fábula de uma
pequena Géia que de dentro de seu quarto escuso escreve a história da
Astronomia à luz de uma vela bruxuleante. O muro caiu? Ah, foi a Utopia
que morreu — nem reparamos que a letra que assim escreve está borrada,
tremida.
Temos fortes razões para crer que a biblioteca é o endereço atual da ilha da
Utopia. Na biblioteca estão os teimosos, aqueles de que se costuma dizer
que não têm nenhum senso: professores, poetas, alguns intelectuais, que
não acreditam que os ideais da Utopia sejam uma quimera da qual devam
rir aqueles que dizem ter bom senso. Esses outros que apregoam ter bom
senso e que continuam a escrever sua astronomia dentro do quarto escuro,
sem nenhum instrumento de alcance.
Florípedes e sua companheira acabaram de pegar na estante O minotauro
(1939), de Monteiro Lobato. Sentam-se juntas para ler. Como o jovem
Krabat— que vira as costas à magia, cujos segredos tornavam suportáveis
as duras tarefas cotidianas, e opta pelo enfrentamento das dificuldades do
trabalho para poder ter na vida um projeto de liberdade, a se construir com
a luminosidade da razão —
65

vão as crianças do Picapau Amarelo atrás do monstro sanguinário para


encontrá-lo bem domado, derrotado antes pelas lições de democracia e de
arte grega, que pelos bolinhos de Tia Nastácia. Na atitude do protagonista
de Krabat, do alemão Otfried Preussler (1981), se reconhece o abandono de
um período histórico governado pelo misticismo e pela crença na magia (os
pactos com o Bem ou com o Mal, mulheres feitas bruxas para arderem nas
fogueiras) em prol da transformação que enha como molas propulsoras da
civilização o investimento na aventura de busca pessoal e no trabalho.
Krabat assinala o fim da Idade Média, o início da Idade Moderna: heróis
como ele precisam de muita coragem. Fim da Idade Prescritiva, início da
Idade Investigativa: os personagens de Lobato abrem à criança brasileira a
Era da Biblioteca, e o fazem tão bem, a maneira tão competente, que,
algumas décadas mais tarde, o leitor jovem no Brasil vai poder participair
da luta de Pedro Luís, que busca também a passagem do tempo da
Corrupção para o tempo da Ética. Pedro é protagonista de Atentado, de
Sonia Rodrigues Mota (1994), obra ccrajosa que traz à luz questões que
ojovem brasileiro, entre 13 e 18 anos, não quer ter apenas como distantes
referenciais tomados de empréstimo à conversa dos pais. Tratar corrupção,
escândalos financeiros, sexualidade juvenlil, como matéria de literatura,
visando à reepção também de um leitor jovem é sinal indubitável de que a
Utopia mora mesmo na Biblioteca, em cuja era entramos pelo trabalho de
Lobato e onde continuamos a ficar por conta de seus herdeiros literários.
Primeira conclusão crítica neste trabalho, esta de que os anos 90 trazem ao
jovem brasiileiro a possibilidade cada vez mais ampla de usufruto da
biblioteca — esta biblioteca em que Lobato acreditou e construiu —, é
também o reconhecimento de que a literatura aí pesente é literatura — e
ponto.
A literatura para crianças e jovens que remete para dentro da pópria
hilbioteca é uma dias grandes linhas de força na literatura para jovens
nestes anos 90. Não quero investir muito na enumeração de títulos mas vale
lembrar Amigos secretos (1996), de Ana Maria
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Machado, como exemplo de narrativa que põe em cena personagens recém-


criados, contemporâneos ao leitor de hoje, visitando outros personagens e
textos clássicos.

Visitas ao coração das trevas

Em artigo publicado no “Caderno Mais!” da Folha de S. Paulo, de


18/8/1996, o escritor Javier Marías, autor de Coração tão branco (1992),
chama, muito oportunamente, a atenção para as mudanças brutais que a
humanidade foi se oferecendo durante os últimos 80 anos — responsáveis
segundo o escritor por uma diferença que equivale à que há entre as vidas
de um homem do século V e outro do século XIX. A vertiginosidade das
mudanças culturais e sociais fazem, assim, de uma criança e de um jovem
de hoje, seres radicalmente diversos daqueles do início do século XIX,
quando se inicia o reconhecimento de sua própria identidade peculiar.
Dentre as mudanças que Marías enumera se destaca a relação dos homens
com o horror. O Mal se torna cotidiano, banal, vida e morte se equivalem
no desastre das ações cruéis. Todas as idades sentam-se juntas para tomar a
refeição do telejornal diário, assistir à indiferença com que redatores e
locutores ocupam-se da aventura humana, de sua dor e perplexidade. Em
meio ao desenho animado da tarde o Papa tomba ferido, a criança de quatro
anos vê misturadas às imagens simpáticas de gato e passarinho na
perseguição doméstica aquelas outras que lhe são estranhas, e para as quais
não tem ainda instrumentos de assimilaçào, um homem ferido, as vestes
brancas ensangüentadas.
Não é mais possível aos adultos baixar a voz quando tratam de seus
assuntos, de forma que apenas uma ou outra palavra chegue, sedutora e
libertina, ao ouvido da criança. Por outro lado, meios de comunicação de
massa são mesmo contrários à sensibilidade e sutileza, à idéia de quebra-
cabeça, de investigação. Viajar a viagem já
67

viajada — é toda a sua promessa. Pobres de nós, de nossas crianças e


jovens: cabe-nos a condenação à banalidade no espetáculo do mal?
Fernanda Lopes de Almeida tnvestiu na profissão de equilibrista (O
equilibrista, 1980). Muito necessários ao mundo, equilibristas devem ser
mesmo o sal da terra. Vivem a inventar suas próprias viagens, e fazem
perguntas, muitas perguntas. Não costumam se deter fácil. Gostam,
especialmente, de abrir gavetas onde estejam guardados temas e situações
que costumavam freqüentar tão-somente a literatura instalada nas
prateleiras mais altas das estantes. Abrem gavetas e encontram assuntos
como crime, tortura, suicídio, corrupção, estupro, Mefistófeles e Faustos.
Um problema, esses jovens, e os autores que lhe fazem sintonia.
O Mal. O Mal sempre me horroriza — sem que negue o tanto de atração
que também exerce sobre mim. Não quero dar a ele o olhar que dou a um
campo de cebolas, ou à poeira sobre os móveis.
O Mal é uma questão do homem. O jovem anseia por participar do debate
ético e espera encontrar uma posição edificante nas experiências que lhe
permitem essa participação. Não rejeita, porém, a consciência do abismo,
ciente de que esta é uma condição à qual o homem não foge e cuja
travessta, bem ou mal sucedida, é que melhor fala de sua condição.
Também as crianças e os jovens enfrentam tal travessia, e devem, portanto,
encontrar uma literatura que tome esses assuntos por tema, permitindo ao
leitor discutir o lado escuro, a sombra, do homem, Não para trazer
respostas, e sim para deixar perguntas — segundo Proust em seu belo
Sobre a leitura —,os livros oferecem a experiência do humano.
A problematização do Mal é provalmente a linha de força mais consistente
na literatura para jovens dos anos 90 e os títulos de obras de qualidade são
muitos. O abraço, Seis vezes Lucas, Lygta Bojunga (1996), o já citado
Atentado, o magnífico Grogue, de Toni Brandão (1993), dentre outros. É
tão consistente esta linha que se mostra até mesmo no livro de imagem.
Cena de rua (1994), de Angela Lago, traz nas cenas de rapina, da violência,
da exclusão, a própria estampa do Mal.
68

Passeio à roda da palavra morfina

Passeamos pelo Mal, olhando títulos que Florípededes e a amiga iam


tirando das estantes, colocando sobre as mesas. A amiga de Florípedes —
de quem ainda não sabemos o nome — mostrava-se bastante interessada
nessa história de “A literatura é o essencial ou não é nada”, expressão do
pensamento de Georges Bataille, filósofo francês. Quem lhe dizia isso por
outras palavras era Rosa, a professora de Português que apareceu por ali e
como sempre muito entusiasmada por literatura aproveitou para conversar
um pouco com as duas meninas. Mas Florípedes não prestava mais muita
atenção nela. Pensava no essencial, o essencial era o seu nome, e a amiga
que ganhara.
Talvez fosse isso o mesmo que pensava certo menino, indo à estação, pegar
o remédio que vinha pelo trem para aplacar a dor da mãe doente. Pegava o
pacote, e desobedecendo pai, professora, lia: morfina. Sentia um arrepio,
sentia vários arrepios: morfina, dor fina, Josefina. Não sabia ainda (era só
um menino), e estava lidando com a morfina —a maior fineza dentro da
língua.
Bartolomeu Campos Queirós mantém o denso investimento na produção
poética, buscando a constituição da grande aventura, não pelo viés heróico,
e sim pelo viés da existência. Pelas linhas da da herança, e daquilo que se é.
Por parte de pai (1995) e Ler, escrever e fazer conta de cabeça (1996) são
o deságüe natural de sua produção poética anterior. Escrevendo um mesmo
grande livro, o autor se insere na rica linhagem da literatura ocidental das
autobiografias literárias em que o escritor volta o olhar para sua juventude
e sua infância. Retrato do artista quando jovem, de James Joyce (1916); As
palavras, Jean-Paul Sartre (1964); Infância, Graciliano Ramos (1945);
Menino antigo, de Drummond (1973), são nutrientes, diretos ou indiretos,
dessa linha de saga poética que ganha força na literatura brasileira para
jovens, atualmente. Viver éfeito à mão/Viver é risco em vermelho, de minha
autoria (1989); Livro, um encontro com Lygia Bojunga Nunes (1991) e O
sonho no caroço do abacate, de Moacyr Scliar (1995), tematizam ím a
formação
69

desse pirata fin-de-siècle, torto e avesso: o poeta. Distribuindo — em vez


de roubar — emoções, percepções, o poeta cresce como ser caro na
biblioteca infantil e juvenil, cujos usuários vão percebendo que a poesia
veste várias fantasias.
Chifre em cabeça de cavalo (1995), de Luiz Raul Machado, borda em
prosa poética o ato, doloroso e emocionante, de adolescer. Roseana
Murray, Elias José, Ângela Leite de Sousa, José Paulo Paes continuam a
trazer, em sua forma tradicional — infelizmente não é em todos os
momentos que estes poetas investem na veia de corte mais criativo —, a
poesia que apesar de internets e afins não deixa de latejar nos corações e
nas mentes. Lateja ainda a poesia, apesar de sofis e de games. Lateja e se
puder latejar também no ciberespaço e na realidade virtual, tem-se
assegurado o mercado sensível.
33 Ciberpoenzas e uma fábula virtual (1996), de Sérgio Capparelli, investe
nessas antenas. A presença de uma contemporaneidade tecnológica aparece
no interessante Duda 2: a missão (1994), de Marcelo Carneiro da Cunha,
que vai navegar pela lnternet em Insônia (1996), obra em que se concentra
quase inteiramente nos cacoetes de um universo urbano e burguês
conectado virtualmente com o resto do mundo.
Marcelo bem poderia ter investido no nome da banda do garoto apaixonado
— Insônia, que dá título ao livro mas não tira o sono de ninguém.

Para ficar acordado

Rosa tentava dizer a Florípedes que o livro que puxava distraída da estante
era uma obra-prima, dessas que só aparecem de tempos em tempos. Não
era um livro brasileiro, mas isso não tinha a menor importância. Um
escritor chamado Ivanir Caliado tinha traduzido O doador, da americana
Lois Lowvry (1993).
70

“Você já pensou ficar sem lembrança de tudo o que aconteceu para trás?
Não saber como era a vida de antes, dos seus pais, dos seus avós, não saber
dos mitos e lendas que muitas crianças e muitos jovens ouviram antes de
você? Esquecer o Caapora, o Saci, a Uiara, o Boitatá, a Mula-sem-
Cabeça?” perguntava Rosa. A companheira de Florípedes deu um salto de
espanto para trás, arregalando os olhos. Um calor repentino, um bafo de
dragão passou por elas, no corredor estreito. Florípedes assustou-se, Rosa
brincou: “Vai ver uma mula- sem-cabeça acabou de passar por aqui
pertinho.” Brincou e emendou a conversa, resumindo O doador, que é a
história de uma sociedade futura onde as pessoas são inteiramente
destituídas de emoções e de lembranças. Um menino de 12 anos é
escolhido para ser o guardião dessas lembranças, dessas emoções,
suportando sozinho, no lugar de toda a comunidade, o regozijo, a dor e a
lição do passado.
A outra menina põe na mesa, encantada, Maria Teresa, de Roger Mello
(1996). Florípedes se entusiasma, pega Bumba meu boi, também do Roger,
Viva o Boi Bumbá, do Rogério Andrade (1996), Menino do Rio Doce, de
Ziraldo (1996) e Comadre Florzinha contra a Mula-sem-Cabeça, de
Regina Chamlian (1996).
Rosa exulta e nós também. Que facilidade falarmos assim dessa vigorosa
linha de força na literatura que analisamos: o imaginário popular brasileiro.
Liberação das vozes recalcadas (é a carranca humanizada que fala em
Maria Teresa), investimento no humor, no peculiar, na recuperação para a
sala de jantar e para a biblioteca daquilo que por tanto tempo ficou
confinado à cozinha, ao campo, à senzala. São inúmeras as publicações —
com destaque para as coleções — de contos populares, de mitos e de
lendas, muitas delas de esmerado cuidado. Parece que estamos descobrindo
que

....o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. 2

2.Fernando Pessoa. Ficções do interlúdio; poemas completos de Alberto Caiero.


In: Fernando Pessoa. Obra poética, Org., introd. e notas de Maria Aliete Galhoz. Rio
de Janeiro: Aguilar, 1965. p. 215.
71

Estamos descobrindo também que o rio da nossa aldeia dá belos; cartões-


postais, que vendem bastante.
Não me incomoda essa coisa de comércio. A troca é uma coisa boa, e tem
lugar para ela na ilha da Utopia, no continente da Leitura. O ruim é trocar
um mau artigo por uma boa moeda. Ou pagar com má moeda um artigo de
boa qualidade.

A má moeda, a boa moeda

Se ainda paira qualquer dúvida sobre o lugar da literatura de entretenimento


na formação do leitor, a leitura de Infância e de As palavras há de dar conta
dela. Ler gratuitamente o que está fora das recomendações familiares ou
escolares está na base da constituição do sujeito-leitor. Ler sem ter que
prestar contas a ninguém da nossa leitura é a essência mesma da leitura.
A essencial gratuidade da leitura tem-se encontrado ameaçada pelo
casamento, às vezes espúrio, às vezes muito bem-sucedido, de leitura
literária e escola.
Passando a ser a grande mediadora entre livro e criança, entre livro e jovem
a escola terá sido responsável de um lado, pelo acesso de imuito leitor ao
livro, de outro pelo estabelecimento de uma industria de sucata livresca
para o consumo de crianças e de jovens. Encontram-se nessa indústria
obras repletas de clichês, construídas à base de cacoetes estilísticos,
obedecendo a receitas temáticas, e que primam por defeitos de vária sorte.
A fórmula de jovens detetives resolvendo mistérios por conta própria, de
sucesso com João Carlos Marinho em anos anteriores, esgota-se numa
repetição irritante, onde a verossimi1hança narrativa nada conta, e tomado
à conta de uma figura rasa e destituída de inteligência o leitor é
desrespeitado
72

flagrantemente, com a absoluta deatenção às técnicas narrativas e a


ostensiva ignorância à construção iterária
Anos cínicos, e banais, estes anos 90 vivem o tempo do descartável.
Descartável, uma grande parte da produção livresca para jovens, seja nas
páginas que se soltam à primeira leitura, na capa que supõe seja o leitor um
ser incapaz de apreciação estética, seja no texto que revela redatores de má
qualidade.
Uma das lutas a se travar ainda neste final da década de 1990 é fazer dos
livros de entretenimento um bom artigo, uma vez que os pagamos com boa
moeda: nossos reais suados, nosso tempo de leitura. Nessa luta, o respeito
ao leitor precisa ser substantivo. Respeito que se consegue em Caixa postal
1989, de Ángela Carneiro (1992); O Gato que amava Girl, de Antônio de
Pádua e Silva (1994); Um pai para Vinícius, de Maria Dinorah (1995);
Contos da infância e da adolescência, de Luiz Vilela; Marta & William, de
Álvaro Cardoso Gomes; Sardenta, de Mirna Pinsky; As senhoritas de Nova
York, de Daniel Piza, esses últimos presentes à lista de Acervo Básico de
1996, elaborada pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil.

Uma identidade, alguma confusão

Não falamos dos livros informativos que vêm crescendo em quantidade e


qualidade, com tradução de invejáveis produções estrangeiras. Uma rota
que se tem mostrado instigante é a que revela aproximação e
tangenciamento de informação e ficção, como nos recentes Democracia:
cinco princípios e um fim, organizado por Carla Rodrigues; Serafina e a
criança que trabalha de Jô Azevedo e outros, ou ainda Um fotógrafo
diferente chamcado Debret e Em cena Rex, apresentando
73

vida de cachorro; um passeio pela obra de Ángelo de Aquino, de Mércia


Leitão e Neide Duarte, publicações de 1997.
Essas investigações de gênero são uma das questões mais instigantes da
produção para crianças e jovens nesta década. Fazendo Ana Paz e
Paisagem, ambos de 1992 e da autoria de Lygia Bojunga Nunes, vêm diluir
fronteiras entre o ficcional e o teórico-crítico, sendo também uma abertura
do laboratório da escritora. À maneira do que fez José de Alencar em Como
e por que sou romancista (1893), Lygia faz — por meio da ficção — uma
declaração ao público-leitor sobre os métodos de sua construção literária,
sua relação com o livro e com o leitor, ambas contaminadas de um
erotismo vital.
Afastando-se dos lugares já estabelecidos na literatura de crianças e jovens,
Lygia, com O abraço, e Luiz Raul Machado, com Cartão- postal (ambos
de 1996), causam um desconforto à crítica habitual, na medida em que
apontam — percebo-o muito claramente — para sua instalação na
biblioteca misturadamente a outros livros, sem que os acompanhe qualquer
outra definição ou qualificação. São contos e estão no formato em que
estão por escolha do editor, para alcançar também os leitores crianças
ejovens. Como a obra-prima de Jean-Claude Bernardet, A doença: uma
experiência (1996), que vem num formato pequeno, semelhante ao do livro
para crianças, por mera escolha editorial.
Temos nisso uma expectativa produtiva, com a visão de Silviano Santiago
apontando os anos 90 como um tempo em que está latejando a
representação de um Brasil autêntico.

O Brasil é autêntico desde que falando pela voz individual


dos arquivos da memória afetiva. Voz tolerante, fragmentada
e epidérmica, livre das centralizações abusivas do poder
econômico e direcionada para os novos leitores e a platéia
jovem.3

3. Jornal do Brasil. ‘Caderno Idéias”. 22/2/1997 p. 5.


74

O Brasil é o Brasil, e não um arremedo de nostalgias do primeiro mundo, é


um país de violências, e que pode pactuar com seus monstros, sentando
para negociar um equilíbrio entre a força da terra e a força do fogo. É
justamente isso que a menina que entregou o papagaio à Florípedes quer
lhe propor. Primeiro quer lhe contar que é, na verdade, uma pequena mula-
sem-cabeça, uma mulinha que a mãe, arrependida por deixar destino tão
triste à filha, pediu à mucama de estimação que batizasse, e lhe pusesse por
nome Helena, Marilena. A mucama, na dúvida, chamou-a Lena e com
muitas promessas aos orixás conseguiu que a menina pudesse manter —
pelo tempo necessário — a forma humana, sempre que quisesse se
aproximar das pessoas para fazer amigos, só voltando a sofrer os efeitos do
encantamento quandojá estivesse assegurada a nova amizade. E Lena fazia
isso, para aquecer a vida dos amigos que fizesse, para que eles viessem, por
sua vez, a contar para jovens leitores, de sensibilidade fresca e corajosa, sua
história de monstro que cavalga pela noite, botando fogo pelas ventas, e
conhece este país como ninguém.
Lena corre por este país, vê a Cena de rua terminando da mesma forma que
começou — para dar à sociedade brasileira a chance de escrever essa
história, uma outra vez, de outra forma.
75

6. CEM ANOS DE POESIA NAS ESCOLAS BRASILEIRAS

Graça Paulino

Dizem os partidários de uma concepção cíclica da história que todos os fins


de século são iguais. Mais recomendável seria a pesquisa de suas
semelhanças e diferenças, sem dar, por outro lado, espaço à ilusão de que
nada se repete. Neste final de século XX, aliás, tudo é de fato
suficientemente estranho, quer seja pelos impactos tecnológicos, quer seja
pela anunciada morte da arte, da educação ou da filosofia, sob as leis
absolutizadas do mercado.
Especialmente no que diz respeito à arte, o trabalho de comparar as
apropriações e as leituras que se fizeram e se fazem sob um mesmo espaço
institucional — a escola, por exemplo — com 100 anos de distanciamento
cronológico, exige certas precauções dos analistas, visto que uma das
mitificações estéticas que presidiram nosso século é a da superioridade das
vanguardas estéticas, isto é, o império do novo.
Na literatura, é surpreendente, como exemplo desse preconceito
vanguardista contra a tradição, o esvaziamento de valor que a historiografia
literária promoveu com relação às manifestações denominadas “pré-
modernistas”. Textos da época foram considerados
76

redundantes ou banais, quando na verdade estavam ligados a uma proposta


de popularização da leitura, mal compreendida pelas elites intelectuais e
artísticas, que logo se apegaram às experimentações ligadas a movimentos
europeus.
Essa radicalização da crítica afastou consideravelmente os padrões
escolares de qualidade literária daqueles dominantes entre os chamados
“homens de letras”. A escola quase sempre continuou querendo textos bem
comportados lingüisticamente, textos de bom tom, que não chocassem os
pequenos leitores, e que não apresentassem propostas revolucionárias, nem
no âmbito das formas, nem dos costumes ou da organização política e
econômica. Isso provocou situações de exclusão e de recuperação de
escritores, como é o caso de Graciliano Ramos que, perseguido por Getúlio
Vargas, pôde finalmente ser lido por colegiais durante uma próxima
ditadura, a de 1964. Provocou também um comportamento típico de muitos
autores para crianças, que é o de escrever sobre um universo a-histórico,
afastado do cotidiano, repleto de bichinhos inocentes ou muito maus, sendo
estes invariavelmente castigados. Na verdade, a maior parte dos pedagogos
e professores permaneceu, aliás, como as camadas populares em geral, fiel
aos cânones românticos e parnasianos. O problema é que os especialistas
em literatura e os autores considerados de vanguarda estavam jogando
outro jogo, o da fragmentação, o da alogicidade, o da reinvenção radical da
língua.
NelIy Novaes Coelho, analisando essa especificidade da relação
literatura/escola, detém-se na caracterização do período entre-séculos,
quando o sistema escolar (se é que assim se poderia denominar a nossa
incipiente coexistência de estabelecimentos de ensino) passou a considerar
a leitura como “pedra-base da sociedade letrada”, sinal de civilização e
forma mais nobre de acesso ao verdadeiro conhecimento humano. Diz a
ensaísta:

Nessa ordem de idéias, compreende-se por que a literatura destinada a crianças e jovens
surgiu e se desenvolveu sob a tutela da escola. Por um lado, essa literatura sempre fora
77

entendida como agente mediador de valores, normas ou padrões de


comportamento exemplares. Isto é, consagrados pela sociedade, para
perpetuar, através das novas gerações, o sistema em que ela se organizara.
Por outro lado, a sociedade tradicional, consolidada no Romantismo,
valorizava a cultura, o saber, a leitura.., como índices da erudição que
deveria identificar o “homem culto” .1

Estabelecida essa ligação que se estreita sob razões ideológicas, vai-se


caracterizando uma produção literária com certos traços peculiares: pueril,
humanista, religiosa, “dramática”, moralizante, fantasista, nacionalista,
como assinala Nelly no mesmo texto.
Entretanto, seria necessário acrescentar às observações da autora outras que
se referissem às produçoes literárias para os adultos da mesma época. O
academicismo, o filosofismo ingênuo e o conservadorismo caracterizam o
gosto literário dominante no final do século XIX. Não caracterizam toda a
literatura, mesmo porque precisamos contextualizar produções como as de
Machado de Assis, Euclides da Cunha, Lima Barreto, Augusto dos Anjos e
as de outros “estranhos” escritores. Mas caracterizam o gosto dominante.
Assim, não é tão evidente a separação entre o gosto das crianças e o dos
adultos há 100 anos atrás.
Aliás, nunca seria possível separar inteiramente as preferências literárias
desses dois universos de leitores, porque as estratégias de condução e de
controle das leituras infantis são desenvolvidas pelos adultos. O que seria
necessário definir é a composição sociocultural dos grupos de adultos que
teriam maior poder de interferência sobre as práticas de seleção de leituras
escolares.
Cem anos de história da literatura, e eis-nos em outro período entre-
séculos. Os livros mais vendidos para adultos hoje tematizam o misticismo,
a violência, a sexualidade. Alguns componentes realistas

1Nelly Novaes Coelho. Dicionário crítico de literatora infantil e Juvenil brasileira.


São Paulo: Edusp, 1995. p. 22.
78

integram-se aos romances, como aconteceu no final do século passado.


Permanece forte, por outro lado, o filosofismo ingênuo, idealista.
Acrescenta-se a isso, ou permanece nisso, a retórica da consolação,
apontada por Umberto Eco nos anos 70 2 como o componente fundamental
para o mercado.
Vale a pena pesquisas o que aconteceu com a literatura infantil no rápido
pulo de um século. No que diz respeito às direções textuais e sociais da
recepção literária, Mansa Lajolo e Regina Zilberman fizeram um bom
trabalho, tanto em A leitura rarefeita, de l99l, 3 quanto no mais recente A
formação da leitura no Brasil.4 Através desse último livro podemos
acompanhar a história das primeiras reações e organizações de escritores
brasileiros na defesa de seus direitos, como marcas de fim do século XIX.
Textos cortados, textos republicados sem pagamento de direitos autorais,
textos usados na imprensa e em antologias sem ao menos a permissão do
autor, foram alguns fatos que levaram à criação, em 1896, da Academia
Brasileira de Letras. Hoje, 100 anos depois, seus objetivos já não são mais
tão claros, e os verdadeiros “homens de letras” não são tantos fazendo-se,
talvez por isso mesmo, acompanhar-se de fortes mulheres como: RacheI de
Queiroz, Lígia Fagundes Teles, Nélida Piñon. Fica evidente, todavia, que
objetivos materiais sempre estiveram ligados à produção literária. Uma
antologia, por isso, jamais é uma seleção inocente e desinteressada de
textos. E, como as antologias freqüentam amiúde as salas de aula, toma-se
muito importante axrnlisar seus critérios de seleção, seus direcionamentos
de leitura, seus interesses simbólicos, políticos, éticos, estéticos.
Nesse intuito, li e analisei uma antologia poética publicada em 1897:
Álbum das crianças, livro organizado por Figueiredo

2. Embora Umberto Eco tenha desenvolvido sua crítica a essa retórica da consolação em
Apocalípticos e integrados, já nos anos 60, em Obra aberta, sua própria definição dc
mensagem estética exclui o final feliz monológico e assertivo,
3. Marisa Lajolo e Rcgina Zilberman. A leitura rarefeita. São Paulo: Brasiliense, 1991.
4. Marisa Lajolo e Regina Zilberman. A formação da leitura no Brasil. São Paulo:
Ática, 1996.
79

Pimentel, sucesso de vendas entre as crianças braileiras — aliás, entre os


pais e os professores dessas crianças —e comparei-a com outra, de 1995,
publicada por uma pequena editora do Rio Grande do Sul, a Projeto: Poesia
fora da estante, organizada por Vera Aguiar. A importância dessa antologia
de fins nosso século cresceu com sua premiação pela Fundação Nacional
do Livro Infantil e Juvenil, como o melhor livro de poesia infantil do ano.
Se sua presença nas escolas ainda não é tão grande por faltar à editora um
bom esquema de distribuição, a possibilidade de sua aquisição pelo MEC
para as escolas públicas existe e deve ser considerada como sinal de
importância na área. Aliás, pouco se publica de poesia dirigida a pequenos
leitores, no Brasil. E, muito mais do que se publica, estraga-se a
experiência poética sobretudo nos livros didáticos. Zélia Versiani retoma a
constatação de Magda Soares de que os manuais praticamente ignoram os
textos poéticos, e, quando os incluem, usam-nos como pretextos para
exercícios gramaticais. Fixando-se nos livros de 5ª série, Versiani observa:

O número de poemas é bastante reduzido quando comparado


com outros gêneros. Quanto ao lugar que ocupam nos livros, percebemos que quase
nunca aparecem como texto principal da unidade. São eles, na maioria das vezes,
utilizados para memorizar gramática ou para marcar datas de circnstância, como o dia
dos pais, das mães, do índio etc. 5

Importa verificar como se caracterizava a situação da poesia na escola há


100 anos atrás. É importante assinalar que o trabalho de Figueiredo
Pimentel se dá antes da produção de Monteiro Lobato, numa fase que se
costuma considerar como a dos precursores da literatura infantil brasileira.

5.M. Zélia Versiani Machado. “Cadê a poesia que estava aqui?” Intermédio (cadernos
Ceale). Belo Horizonte, v. 2, ano 1, maio de 1996
80

Também do ponto de vista editorial, a publicação desse Álbum das


crianças, integrado à Biblioteca Infantil da Livraria do Povo, merece
especial atenção. Pedro da Silva Quaresma havia fundado em 1879 a
Livraria do Povo, que editava e comercializava livros de apelo popular, tais
como trovas, manuais de feitiçaria, guias de comportamento, modelos de
cartas. Laurence Hallewell, em O livro no Brasil, destaca a importância das
iniciativas de Pedro Quaresma no âmbito da literatura infantil: revoltado
com as dificuldades de leitura que as crianças brasileiras enfrentavam, às
voltas com livros importados de Portugal, o editor contrata um jornalista
brasileiro, Alberto Figueiredo Pimentel, para produzir, em português do
Brasil, a coleção que seria intitulada Biblioteca Infantil, e que se iniciaria
em 1894 com os Contos da carochinha. Diz ainda Hallewell:

Os tradicionalistas ficaram horrorizados, mas a inovação garantiu a Quaresma o virtual


monopólio do mercado de livros infantis. Após o falecimento de Quaresma, a série foi
reeditada, em 1967, pela editora de livros de bolso Edições de Ouro. 6

Embora a coleção misturasse os gêneros literários, o caso da poesia


manteria certas peculiariedades com relação à narrativa em prosa. Vários
poetas portugueses, como Antônio Feliciano de Castilho, Antônio Nobre,
Guilherme de Azevedo, Guerra Junqueiro, Júlio Diniz, estão presentes no
Álbum, e, ao que tudo indica, seus textos foram cortados, mas não foram
abrasileirados. Quando não se revela a nacionalidade portuguesa pelo
vocabulário, mostra-se ela pela percepção de espaço e de tempo do
hemisfério norte, como ocorre no poema ‘Velhos e crianças”, em que o
mês de abril está associado ao início da primavera, desorientando,
certamente, a seqüência das estações na mente dos leitores brasileiros:

6. L. Hallewell. O livro no Brasil. São Paulo: T. A. Queiroz/Edusp, 1985. p. 201.


81

(.... )
Cingiu-lhe o triste inverno um resplendor de neve,
na fronte que adormece a meditar na cruz!
Oh! quanto o doce abril fortalecer não deve
aquelas frias mãos, aquele olhar sem luz!...7

Entretanto, o que melhor distingue as propostas de leitura desse livro de


poesias das de outros livros da época são os objetivos que o organizador —
e, implicitamente, os pais e os educadores — projetam nos pequenos
leitores. A apresentação de Pimentel dirige-se claramente aos adultos que
irão comprar o livro. Começa falando das dificuldades na seleção de versos
para crianças, continua explicando a recusa de “moldes velhos”, de
“trechos clássicos e arcaicos”, e acaba por explicitar a utilidade de
formação moral e cívica que a poesia escolhida apresenta:

Na presente obra enfeixamos poesias modernas de notáveis poetas, escolhendo aquelas


que não só divertissem as crianças, como também lhes incutissem bons e generosos
sentimentos, fazendo vibrar nelas o amor dos pais, da família, do lar e da pátria; a
simpatia pelos velhos; a compaixão pelos desgraçados; a piedade pelos animais — todas
as virtudes de um coração bem formado. 8

Também se explicita, logo na página de rosto, o modo de ler poesia que era
julgado ideal na época: os poemas são próprios para serem decorados pelas
crianças, “que assim aprendem a recitar e declamar”. Hoje essa prática de
leitura caiu em desuso, e prova disso é a quase ausência dos chamados
“poemas dramatizados” nas escolas.

7.Guilherme Azevedo. “Velhos e crianças”. In: Figueiredo PtMENTEL (org.) Álbum


das crianças. Rio de Janeiro: Quaresma & Cia, 1897, p. 20.
8. Op. cit., p. 8.
82

Dos 137 poemas que se apresentam na coletânea de Pimentel, os que se


prestam à dramatização constituem a maioria. A intenção de emocionar as
crianças é flagrante também na escolha de temas. Mais de 20 poemas
tratam direta ou indiretamente da morte. São referidas mortes de parentes,
tais mo pais, filhos, avós; e também de animais, especialmente pássaros e
cães. A surpresa doída da perda de um ente querido é muito explorada nos
poemas. Até a avó de Chapelin (sic) Vermelho está grmente enferma:

Não embargam crentes esses teus temores, que me importa a noite, mais os seus
horrores, se a minha avozinha tão doente está? 9

São poucos os bons poemas que tratam da morte. Em geral muito


apelativos, sua linguagem sofre do mesmo mal que caracteriza toda a
poética parnasiana, e que destaca quando as obras são de poetas menores: o
discurso vazio, o gosto de ‘falar bonito”, o empolamento. Aliada ao
exagero patético do ultra-romantismo, tem-se exatamente a construção
dessa poesia feitapara declamar e chorar. Nesse sentido, é quase irônico
encontrar um poema de B. Lopes, apresentando uma seqüência de
metáforas sonoras que iria influenciar um dos poetas modernistas mais
cáusticos com relação ao Parnasianismo, que é Manuel Bandeira. Trata-se
do poema “Mauro”, que expressa primeiro a alegria depois a tristeza por
meio dos sons dos sinos, como faria depois Bandeira no poema “Os sinos”.
A temática voltada para formação moral e afetiva das crianças perpassa
também grande número de poemas. Os pequenos são considerados
símbolos da inocência e da perfeição. Mas sofrem, e muito, essas
criancinhas. Há as enjeitadas, as órfãs, as enfermas e as aleijadas. As
crianças más castigadas com dureza, mesmo fisicamente, e por Deus, como
é o caso do menino que se vê beliscado

9. Op,cit, p.48.
83

por um caranguejo. Na temática da relação das crianças com os velhos, da


qual tratam 10% dos textos, aquelas são exortadas a respeitar, a obedecer e
a enaltecer a estes. Compõe esse cenário de convocação à virtude infantil a
insistente referência à caridade, assim como a santos, a milagres e ao
próprio Deus criador e juiz maior.
As questões sociais ocupam poucos versos da antologia de Pimentel.
Quando aparece a fome, um milagre ou a caridade encarregam-se de
mitigá-la. O operário é retratado como um velho magro e cansado, de
cabeça branca, que ainda assim é convidado a não deixar o trabalho, para
evitar a miséria:

Ó nobre herói do trabalho,


Deus te há de abençoar!
VaL ergue o pesado malho,
que falta pão no teu lar! 10

Também o militarismo se faz presente nos poemas. Há inclusive uma


verdadeira convocação para a guerra, em meio a outras formas mais
amenas de fervor patriótico. Trata-se, na maior parte das vezes, de um forte
apelo retórico, que mistura chavões religiosos ao sentimento de dever e à
necessidade de defesa do Brasil, do lar e da família. Nesse ponto ficam bem
separados os meninos das meninas: para eles, hinos, conclamações à
coragem e ao heroísmo; para elas, histórias de bonecas, de gatinhos, preces
e conselhos pela obediência como instrumento de obtenção da felicidade.
Talvez possa ser considerado como o que haveria de melhor na antologia
de Pimentel alguns raros poemas satíricos. Um padre cruel, um médico
incompetente, alguns comiptos de plantão compõem a fauna selecionada
para perturbar a sisudez do encontro poético no século XIX. Bem pouco,
evidenciando que a educação da época era rígida e seus rituais costumavam
excluir o riso, sinônimo de falta de educação.

10. Op. CII., p. 155.


84

Outra será a montagem formal, temática e interlocutória de Poesia fora da


estante. O selo da FNLIJ, com duas carinhas de crianças lendo juntas um
grande livro, prova, para os adultos, evidentemente, a qualidade da
publicação. Mas a apresentação tenta, logo no primeiro parágrafo,
questionar o leitor-modelo: “A idéia deste livro surgiu da certeza de que a
poesia não tem idade”.
Entretanto, faz-se, aparentemente, uma inversão na condução dos critérios
de valor poético. Em vez de assumir que os poemas coletados estão sendo
considerados pelos especialistas adultos como obras dirigidas às crianças,
as organizadoras — Vera Aguiar e suas auxiliares Simone Assumpção e
Sissa Jacoby — dizem que “a poesia de gente grande pode passar pelo
crivo dos pequenos leitores”. Logo adiante, fica claro que o objetivo que
norteou a escolha foi o de colocar ao alcance das crianças versos que
tradicionalmente não costumam ser indicados para elas, Alguns poetas
novos, alguns consagrados e considerados não destinados a leitores
infantis. Mas não deixa de estar presente o viés parnasiano, através de uma
citação de Olavo Bilac, segundo a qual o poeta exigia de si mesmo o
esforço de se colocar ao alcance das crianças com assuntos simples, versos
bons e ausência de complicações formais. Ora, sabemos, especialmente
através do trabalho de Mansa Lajolo, Usos e abusos da literatura na
escola, que o Bilac presente nas escolas brasileiras é o pior Bilac, dos
poemas de temática mais convencional e de linguagem mais hiperbólica.
Assim, a referência ao poeta vem apenas comprovar sua “respeitabilidade”
na história da poesia infantil brasileira.
De qualquer forma, os poemas escolhidos para estar fora da estante em
nada lembram Bilac. Mais restrita que a antologia de Pimentel, traz 75
poemas de 29 autores, dentre os quais Drummond, Oswald de Andrade,
Haroldo de Campos, Ferreira Gullar, Leminski, Jorge de Lima e outros que
podem ser considerados respeitáveis figuras da poesia brasileira de século
XX, sem nada de dedicação explícita às crianças como leitores.
Todavia, mesmo sem querer ser “infantis”, às vezes alguns poemas chegam
a ser bobinhos mesmo. Não só os parnasianos
85

menores, que queriam escrever bonito e caíam na mais estreita concepção


de poesia, deixavam os pequenos leitores sem muito nais que efeitos
retóricos para se apegarem. Também a negação do refinamento poético, em
nome de um ludismo fácil, vira brincadeira boba, trazendo aos leitores a
sensação de que tudo vale, de que é muito fácil fazer poesia, mesmo sem
ter nada ou quase na nada a dizer. Veja-se, como exemplo, este poema de
Milton Camargo: “Enquento peixe-martelo/ bate: toque, toque, toque/
peixe-serra vai serrando:/roque, roque, roque, roque.” Inevitavelmente,
lembra a história da babá e do bebê babando na cartilha...
Certas diferenças marcam bem claramente esses 100 anos entre as duas
antologias. Uma delas é a presença de muitos poemas que exigem uma
experiência visual e não oral de seus leitores. Na parte denominada “A
gente constrói com palavras’ aparecem poemas concretos que não são
legíveis em voz alta. Trata-se de um componente da poesia de vanguarda
da primeirira metade de nosso século, quase impensável para Figueiredo
Pimentel e os leitores de seu tempo. Somam-se a isso outros recursos que
foram conquistados pelos modernistas, tais como o emprego de versos
livres, a alogicidade, a ampliação do universo temático para esferas
anteriormente consideradas antipoéticas, a quebra de padrões da chamada
“língua culta” em nome do coloquialismo, a recriação de versos populares.
11. Tudo isso já “velho” para um aficcionado por poesia mas talvez novo
demais para alguns pedagogos que se restringem à poesia antológica
tradicional, aos poemas educativos de livros didáticos convencionais e a
uma concepção de poesia a serviço da formação lingüística, moral e cívica
dos pequenos cidadãos de nossa sociedade Se os críticos de arte e os
especialistas em lilteratura infantil e juveniI premiaram o livro, ainda nos
falta saber o que será dele nas escobolas As professoras sem formação
literária encontrarão nele algum mérito?
Talvez esses condutores escolares da leitura — que pouco lêem — possam
mais facilmente identificar-se com alguns temas

11.Há uma parte inteira do livro, intitulada Os poemas de sempre não têm dono, que
dedica espaço à “poesia que nasce do povo” e à sua recriação
86

presentes na antologia de Vera Aguiar. Estão bem cotados, no caso, os


poemas que falam das mães e os que tratam dos bichos, ocupando duas
partes inteiras do livro. Não se apresenta mais a trágica história de Veludo,
o cão que se sacrifica por fidelidade; são sete poemas brincando com os
bichos, de modo que os versos ficam leves e rápidos, entrando formalmente
nas brincadeiras. Quanto às mães, fica um resquício de seriedade e de
nostalgia, como a que existe no belo poema Para sempre, de Drummond:
‘Por que Deus permite/ que as mães vão-se embora?” 12 São cinco poemas
que nos fazem lembrar as mães distantes, doentes, carinhosas ou imortais
da antologia de Figueiredo Pimentel. Afinal, as rupturas modernistas para
com as poéticas do século passado não são tão radicais a ponto de cortar
todos os laços... Se os poetas não mais falam diretamente de religião como
um pregador, se a caridade deixou de ser a musa inspiradora, se a pátria
amada não se salva mais com heróis nacionalistas, os bichos e as mães
continuam movendo mentes e corações não só de pequenos leitores como
de antologistas, pesquisadores grandes.
Seria interessante também pesquisar se o universo de recepção poética
pressuposto em Poesia fora da estante estaria de fato compondo
harmoniosamente o universo mais amplo de textos poéticos que fazem
parte do cotidiano dos leitores em idade escolar. Quando vemos ser editado
um Fernando Pessoa 13 para leitores jovens, parece que o repertório textual
está mudando. Entretanto, as besteiras em versos são muito numerosas no
mercado editorial brasileiro. Os temas ecológicos ou metatísicos atraem
poetas medíocres em grande número. Não há uma formação poética
sustentada por leituras de grandes autores clássicos e contemporâneos. A
hanalização da linguagem é justificada pela intenção de atingir jovens
leitores. Apenas como exemplo de como se publica obra sem qualidade
literária:

12.Op. cO.. p. 103.


13.Fernando Pessoa. Mensagem. (Livro do professor). .São Paulo: FTD. 1992—
(Coleção Grandes Leituras).
Idem. Pedacinho de Pessoai. Ilustrações de Angela Lago. Belo Horizonte: RHJ, 1996
87

Coração

Coração tem pernas,


braços,
cabeça em euforia e
tronco em movimentos.
Tem olhos baços,
Nariz
Ouvidor
e boca abertos
a dizerem para Deus
em agradecimentos
o que calam as palavras
e o corpo estático
nos apoteóticos momentos.14

Evidentemente, esse poema separado dos outros que compõem o livro pode
ser lido de uma maneira menos condescendente que a esperada. De
qualquer modo, seria necessário que se fizesse uma leitura crítica desses
eventos poéticos pouco expressivos, saturados, gratuitos, que mal
compõem um texto, e que não ampliam os horizontes culturais e estététicos
de seus leitores. Com muito medo de julgar mal os textos que se publicam
no país, os adultos condutores da leitura infantil parecem aceitar
docilmente as banalizações do gosto. Nem seria necessário , esse
procedimento. Se a poesia não termina, felizmente, em Roseana Murray ou
Sergio Caparelli, exemplos de bons poetas que escrevem literatura infanto-
juvenil, pode começar com eles, para um leitor ir que está dando seus
primeiros passos e precisa mover-se para a frente. E, se todos nós sempre
lemos um texto em vez de outro, pois ninguuém consegue lê-los todos, as
práticas de seleção de leituras devem ser conscientes e críticas, seja no
âmbito escolar, seja na visitação pessoal a livrararias e a bibliotecas. Tal
procedimento, pelo visto, não caracterizou ainda a algum fim de século no
Brasil. As antologias, a seu modo, propõeõem-se, enquanto isso, a facilitar
a vida dos leitores iniciantes.

14. A Antonio Carlos Tórtoro. Estrelas no mar, são Paulo: Moderna, 1994, p43.
88

Referências bibliográficas

AGUIAR, Vera (orgi. Poesia fora da estante. Porto Alegre: Projeto, 1995.
CADERNOS de Teoria da Literatura: Ensaios de semiótica, v. 26, 1992-
1993.
COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico de literatura infantil e juvenil
brasileira. São Paulo: EDUSP, 1995.
HALLEWELL, Laurence. O livro no Brasil. São Paulo: T. A. Queiroz
JEDUSP, 1985.
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TÓRTORO, Antônio Carlos. Estrelas no mar. São Paulo: Moderna, 1994.
89

7. UM PANORAMA DA LITERATURA PARA CRIANÇAS E JOVENS

Eíizabeth D ‘Angelo Serra

No 11º Congresso de Leitura, da Associação de Leitura do Brasil, que tem,


como tema geral, A voz e a letra dos excluídos, o Seminário sobre
Literatura para Crianças e Jovens”, ao fazer uma avaliação da produção
cultural no livro para crianças e jovens no Brasil, nos últimos 30 anos,
visou discutir, também, a função social dessa literatura. Sobre a análise
literária, tratou o próprio seminário, trazendo a experiência de autores, de
ilustradores e de especialistas, pioneiros e estudiosos no assunto, num
processo crítico — cronológico de avaliação. A apresentação desses artistas
e desses especialistas aborda também a função social da leitura.
Acreditamos que o livro para crianças e jovens como produto cultural não
pode deixar de refletir a sociedade onde está inserido, com suias
contradições e suas influências, Ao mesmo tempo que serve aos interesses
de mercado, o livro, quando é resultado de criação artística, ou quando trata
de informação científica de maneira criteriosa, sem estereótipos ou sem
preconceitos, transforma-se em importanite instrumento de formação
intelectual e afetiva de nossas
90

crianças, na direção de uma educação libertadora. Vemos, portanto, o livro


de literatura para crianças e jovens inserido num contexto socioeconômico
cultural e educacional, com importante função social.
Falar do livro para crianças ejovens e sua função social é falar nos adultos
que estão entre o livro e a criança. O modo de proceder do adulto criador é
aquele que pensa e cria o texto e a ilustração.Há aquele que o produz e o
divulga e há o educador, o mais próximo à criança, aquele que apresenta o
livro e introduz ou não a atividade na sua vida. Para que o livro exerça a
sua função social é necessário que a criança se torne leitora. Isto se dá
quando o mediador de leitura — o adulto — é um leitor e quando o livro
oferecido a ela é uma criação artística e/ou científica e o editor trata esse
objeto com cuidado, sabendo o seu valor para as gerações em formação.
Porém, entre a criação e a produção, a criança e o educador, há o problema
do acesso ao livro. Para quem (criança) pode comprar o livro o problema é
resolvido pela vontade e decisão de um adulto. Para quem (criança) não
pode comprá-lo, há um entrave. Mesmo que haja vontade não há condição.
A alternativa é dada por adultos, que ela não conhece, e que decidem o que
ela deve principalmente ler. Em geral, o livro didático, embora não sejamos
contra o livro didático.

A avaliação escolar: texto escrito

A constatação da baixa qualidade da educação básica brasileira remete a


uma idéia de qualidade, que é medida pela avaliação anual do
desenvolvimento da capacidade da criança para expressar, através da
escrita, sua compreensão decorrente da leitura dos problemas apresentados
em diversas matérias. Vejamos quais as condições para ela desenvolver
essas duas habilidades tão poderosas que são a leitura e a escrita.
91

O desempenho escolar: responsabilidade de quem?

Até há pouco a escola responsabilizava as crianças pelos resultados do seu


desempenho formal. Hoje, felizmente, isto mudou. A criança, de maneiras
diferentes, cada uma, tem potencialidades e habilidades a serem
desenvolvidas que dependem principalmente de condições emocionais e
materiais externas a ela. Nesse sentido a sociedade reconhece que a família
e a escola exercem a função de agentes, de mediadores do sucesso ou do
fracasso da vida escolar de cada criança.
Esta é uma grande conquista para as crianças, pois tirou de seus ombros e
de seu coração a culpa pelo seu insucesso e abriu a possibilidade de mais
sucessos individuais e coletivos, e de corações mais alegres.
Conseqüentemente, de adultos mais felizes, esperamos — nada mais justo
—, já que os padrões sociais estabelecidos, que indicam o que é sucesso ou
fracasso da criança, na escola e em casa, são criados pelos adultos e,
portanto, de responsabilidade deles e não das crianças. Nesse
redirecionamento importante de responsabilidades sobre a educação de
nossas crianças o foco passou a centrar-se no adulto.

A clientela da escola pública

A criança

Ao falarmos sobre educação básica brasileira, suas dificuldades, seus


problemas e seu desempenho, teremos que conhecer qual a sua principal
clientela, para pensarmos alternativas que a tornem, de fato, democrática.
Felizmente, a cada dia que passa, a convivência familiar e da sociedade
quanto ao direito universal da criança freqüentar
92

a escola vem crescendo. Assim, a maioria das crianças, até então, excluída
do contato com os bens culturais e do ensino formal vem tendo acesso à
escola.

Porém, essas crianças, quando têm uma família que pode oferecer-lhes um
mínimo de segurança afetiva e material, não têm, em geral, contato diário
com o instrumento principal que avalia o seu desenvolvimento na escola, o
texto escrito. E, quando não têm o mínimo de estrutura familiar, a situação
é ainda pior. Assim, a criança entra com enorme desvantagem em relação a
uma minoria privilegiada que também passa pelo sistema escolar e que vai
competir com ela mais à frente, cuja cultura e o conseqüente processo
educacional têm, no texto escrito, sua principal expressão de comunicação,
de registro e de construção social.

O jornal diário, a revista semanal, o dicionário, uma pequena coleção de


livros, uma enciclopédia, o texto no computador, os livros de literatura
infantil, a literatura adulta não fazem parte do cotidiano dessas crianças,
distanciando-as do contexto que qualifica a educação para o convívio em
sociedade: o texto escrito variado e de qualidade. A maioria tem o primeiro
contato diário com o texto escrito ao entrar na escola. E, lamentavelmente,
esse contato é, somente, através do livro didático.

O livro didático, quando é o único livro, não contribui para uma


convivência instigadora e prazerosa com o texto, Assim, além de não ter
contato em casa, a convivência com a palavra na escola é desanimadora e
empobrecedora, não conquistando o aluno para a leitura e,
conseqüentemente, para a escrita.

Para não falarmos da falta de qualidade do livro didático (que vem, neste
momento, sendo questionado pelo Governo Federal no sentido de melhorá-
lo), falemos sobre o conceito pronto e acabado do conhecimento, que ele
apresenta, em oposição ao conceito dinâmico e mutável. Não há espaço, no
livro didático, para o questionamento, base do pensamento criador.
93

A vontade de perguntar, de questionar fica represada, sem alternativas que


motivem a aproximação com o texto e com o aprofundamento do
conhecimento. A relação é de pura obrigação sem um sentido afetivo.
Assim, a oportunidade de ter acesso ao conhecimento é direcionada pelo
ponto de vista do livro didático e da orientação pedagógica que está na
moda. No momento, uma visão deformada do construtivismo
O jeito é procurar respostas para as dúvidas, para os questionamentos,
próprios de qualquer criança ou jovem, onde a palavra surge mais fácil, na
televisão, no rádio, nos dramas da vizinhança, da cidade, onde não há texto
escrito explícito. Assim, a distância do texto escrito da medida da avaliação
escolar aumenta. Isto é injusto. Cada criança é um ser precioso que deve ser
cuidado e atendido, individualmente, com todo o carinho, paciência e amor.
A cada criança brasileira deve ser oferecida a variedade e a qualidade de
ofertas culturais em que o texto escrito tenha particular importância. As
dúvidas, as perguntas, as inseguranças que tomam conta de qualquer um de
nós para ser enfrentadas e terem condições de serem vencidas de maneira
inteligente, precisam ser elaboradas e entendidas, tanto emocional quanto
intelectualmente.
Sabemos que a inteligência humana, para ser desenvolvida em toda sua
potencialidade, tem que ser provocada, alimentada. E isto só pode
acontecer por meio do contato, da troca com o outro, pela ampliação do
conhecimento acumulado historicamente e pela alimentação constante do
imaginário, O principal instrumento para que essa interação de pessoas, de
experiências, de informações e de ficção aconteça é apalavra que, quando
escrita, ganha força para multiplicar- se e perpetuar-se. Apesar de não estar
claro para a maioria, é por este motivo que a avaliação escolar se faz pela
palavra escrita.
Essa força da palavra não é apresentada claramente para as famílias das
classes excluídas dos bem culturais e a maioria dos professores também
não tem, na sua formação, a dimensão do seu poder. Assim, a escola como
meio de ascenção social,para a maioria, é uma meia-verdade.
94

Essa maioria, sem a consciência de que o domínio crítico e criador do texto


só se consegue em contato permanente com ele, credita o seu fracasso à
incompetência pessoal e não luta para vencê-lo. A falta de competência
verbal para expressar o seu sentimento subjuga-a e ela não tem
instrumentos para enfrentar e questionar as razões das suas dificuldades.

Os professores

A saudosa escola pública que tinha qualidade não existe mais. Por que
será? Aquela escola, apesar de pública, atendia a uma classe média que
coinvivia com o texto escrito e tinha acesso à arte, tendo-a como valor
ciultural e, por isso, o processo educacional valorizava a palavra. Estarmos
falando dos anos 40 e 50, entrando pelos anos 60. Era uma minoria que
tinha direito à escola. Foi só com a Constituição de 1946 que a educação
básica passou a ser obrigatória e a construção de escolas pasou a ser
bandeira política nos anos 50 e 60.
Assim, entrou para a escola um contingente de crianças que estava excluído
dela, até então. Para atender a essa nova clientela, que chegava às escolas,
os cursos de magistério tiveram que formar mais professores. A
necessidade de atender à demanda e a falta de compromisso democrático
dos governantes e dos administradores de oferecer em ‘variedade e
qualidade à maioria contribuiu para uma formação diferente dos alunos das
escolas normais, não oferecendo uma formação de qualidade aos seus
professores e seus alunos. A abrangência do conceito de aprender a ler e a
escrever e quais as suas relações com a cultura não faziam parte do entorno
cultural dos novos professores que se formavam no magistério.
A expectativa era de cumprir a exigência do mercado de trabalho:
decodificar os signos escritos. A palavra escrita em suas formas variadas,
artísticas ou informativas, como instrumento para refletir e fazer pensar, foi
desaparecendo do contexto escolar. A educação básica era vista em sua
aparência menor, mais reduzida.
95

A clientela, sem clareza do que cobrar, insegura, aceitava o mínimo


apresentado. A memorização de conhecimento era a forma para passar pela
avaliação escrita. Assim, autonomia, criatividade, desenvolvimento do
raciocínio foram sendo desprezados.
Para atender ao aumento da demanda pela escola aligeirou-se a formação
do professor a tal ponto que se passou a considerar que para garantir a
escolaridade básica bastava o professor saber decodificar, ter noções
básicas de matemática, aprender técnicas e alguns métodos. A qualidade da
expressão oral e escrita não foi preocupação dessa escola que cresce nos
anos 60, durante o período ditatorial em que a técnica foi enfatizada em
detrimento de uma educação integral e humanista. A educação, como
direito de qualquer criança desenvolver, em condições de igualdade, suas
capacidades afetivas e cognitivas, não era praticada. O que norteou,
principalmente, a democratização das vagas foi o desenvolvimento do
mercado e não uma preocupação com o desenvolvimento da pessoa, como
direito.
As características do leitor em convivência diária com a arte, com o texto
escrito, de pesquisador, de estudioso afastaram-se da formação do
professor. Também ele não tem segurança sobre o instrumento pelo qual a
escola avalia seus alunos: o texto escrito. Porém, o conhecimento se tornou
dinâmico e a memorização perdeu a sua função. É a dialética de vida. A
mão e a contra-mão da história provocando o movimento, a mudança. O
mercado se sofisticou e a necessidade de pessoas criativas derrubou a
necessidade de memorizar. Tornou-se necessário que as pessoas pensem,
tenham iniciativa, se sintam seguras para opinar, falar, transformar.
E o que temos como resultado da educação oferecida para a maioria:
crianças, e seus professores, aprisionados a um único tipo de texto. Sem
autonomia de pensamento, que só a leitura variada e de qualidade oferece,
a interpretação e a aprendizagem ficam comprometidas pois a palavra
escrita não faz parte de suas vidas como algo de valor. As respostas, como
resultado do raciocínio individual, não existem. Fora dos modelos não há
saída!
96

Para respostas originais e criativas é necessário o contato com o texto


escrito, que entra em diálogo com o leitor e que o capacita a entrar em
diálogo com o seu pensamento, desenvolvendo-o, problematizando-o com
o do outro. Esse investimento no professor leitor e na escola não aconteceu
ao longo dos últimos 30 anos. Assim, a maioria do professorado brasileiro,
aquele que está na escola pública e, também, hoje, nas escolas particulares,
não domina o texto escrito, para ler ou escrever, da maneira como deveria
fazê-lo: crítica, criadora e autonomamente.

O que fazer?

Abolir o texto escrito da escola como meio de avaliação porque a maioria


de alunos e de professores não vive a cultura do texto escrito? Não. Pelo
contrário. Se o domínio do texto escrito é instrumento de poder em nossa
sociedade todos têm que ter o direito de ter contato com ele, de ter
oportunidades iguais de conhecê-lo e, assim, se apropriarem dessa cultura
que, como privilégio da minoria, subjuga a maioria. Questioná-la e pensar
alternativas a ela é tarefa que só acontecerá se tornando íntimo da sua
variedade. A palavra para ser libertadora e transformadora da sociedade
deve ser de todos com’o é de poucos. É pelo seu valor subversivo e
revolucionário, portador da liberdade, que ela está aprisionada e reservada.
Nosso trabalho é libertá-la para a maioria. É esta a tarefa do professor
leitor.

As políticas de educação

Como já vimos, as políticas. educacionais têm sido orientadas somente para


atender a demanda do mercado. Quando reconhecem a importância do
acesso democrático ao conhecimento e resolvem
97

considerar que o livro didático é o portador dessa informação não


consideram a falta de contato com o texto escrito da maioria de professores
e de alunos a que nos referimos aqui.
Despejar parâmetros curriculares e livros didáticos (texto e texto) sem que
a valorização da leitura, a condição de ser leitor, e de seu acesso à
biblioteca estejam dispostas, é não querer desatar o nó que impede o
desenvolvimento do leitor. Trata-se de uma incoerência por parte daqueles
intelectuais que pensam a transformação da escola básica não considerarem
a distância que há entre texto escrito e a maioria da população.
Não é suficiente mudar os métodos, as abordagens, os temas a serem
trabalhados em sala de aula. Não se trata de treinar professores ou de
reciclá -los. Não adianta aumentar o número dos livros didáticos e de fazê-
los chegar à escola no início do ano letivo. É necessário, como ponto de
partida, valorizar o texto escrito e dar as condições para tal, das quais
desfrutam a minoria da população.
Se o instrumento de avaliação da escola é o texto escrito, é ele que deve
permear a cultura de nossa sociedade através da sua valorização, nas
escolas e nas famílias, cotidianamente. Só assim, a educação pública
poderá ser, de fato, um instrumento importante e valioso de ascenção social
para a maioria.
O acesso através das bibliotecas públicas e escolares e das livrarias, para
aqueles que podem, é condição básica para que todos tenham contato
permanente com o instrumento que serve para avaliar a capacidade de
cada aluno na escola. o que lhe permitirá ser livre, autônomo e capaz.

A importância do texto literário

Ao falarmos sobre o texto escrito e sua importância em nossa sociedade,


como instrumento de poder e de avaliação escolar, consideramos
98

a sua enorme variedade de formas: as revistas, os jornais, as enciclopédias


bem como os textos escritos para serem lidos, recitados, cantados, no rádio,
na televisão, no teatro, no cinema, nas músicas e, é claro, nos vários
gêneros de livros. A maioria tem contato com as formas ocultas desses
textos, mas não percebe que eles estão presentes, como é o caso dos textos
falados da TV, do rádio, do cinema, do teatro, dos shows etc.
Vamos, porém, aqui, destacar o texto literário. E, em particular, o texto
literário para crianças e jovens, O motivo é o aspecto artístico desse texto e
sua importância para ler os outros textos e expressar o próprio texto.
A arte é a expressão mais forte e importante da capacidade humana para
interpretar a realidade. Arte e ciência andam juntas nos grandes avanços
das sociedades. Dissociá-las é comprometer a individualidade e a
coletividade. Disso, infelizmente, sabem poucos. O artista é aquele que
sofre e vê, como ser humano que é, as angústias e as alegrias comuns a
todos. É ele que consegue melhor expressar os sentimentos humanos,
problematizando-os, projetando-os e pensando-os, de maneira diferente.
Ver, ouvir, ler, sentir uma obra de arte é ver a si próprio e à sociedade de
maneira mais clara e provocadora. É olhar perto e longe, ao mesmo tempo.
E isto nos ajuda a compreender o mundo à nossa volta. A literatura é o
melhor texto de auto-ajuda. A capacidade humana de fazer arte é preciosa e
revolucionária. Por isso os artistas, nos regimes ditatoriais, são os
principais atingidos.
A arte de mexer com as palavras e registrá-las através da escrita,
publicando-as em livros, é a mais poderosa das artes, já que ao multiplicar-
se em várias cópias possibilita a sua democratização. Porém, fazer arte é
elaboração, é trabalho, é reflexão e esforço. Assim, desfrutá-la não é
simples, requer, também, uma construção laboriosa daquele que toma
contato com o texto literário. Todos os intelectuais, os artistas que se
destacaram e se destacam têm na sua
99

formação básica de leitores a leitura literária. O exercício de pensar a vida


se enriquece com a leitura do texto literário.
Se queremos uma escola básica brasileira que tenha qualidade, o texto
literário tem que estar presente, com destaque, em meio a outros textos.
Deve ser trabalhado de maneira completa como obra de arte que é, dando
vida ao diálogo entre professores e alunos e não fragmentado como
exercício gramatical ou como pretexto para animação e dramatização que
acaba por encobrir a própria força do texto. A força e a importância do
texto literário devem ser apresentadas com clareza para os alunos,
contribuindo para que eles o desejem e dele apropriem-se, como seu.
O professor, para ser um leitor crítico dos vários textos com que trabalha,
precisa do texto literário para enriquecer seus argumentos, seu vocabulário
e para perceber e valorizar as diferenças de seus alunos e a relatividade dos
fatos, ampliando sua generosidade, sua compreensão e, assim, ser o
promotor do texto escrito na sua escola. Ciente da sua importância, porque
será um dos que vivem o texto escrito como seu instrumento de libertação,
o professor leitor será capaz de mudar a qualidade da escola ao
instrumentalizar, competentemente, seu aluno e cativá-lo para a leitura do
texto escrito. Além disso, o texto literário permitirá que a leitura da teoria,
que orienta a prática seja percebida do seu ponto de vista pois é ele — o
texto literário — que dá ao professor a autonomia de leitor. Assim, a
reflexão sobre a sua prática pedagógica emergirá em produção de
conhecimento ao escrever seu próprio texto.
E é deste professor que a criança brasileira e a escola brasileira precisam.
Aquele que domina o código escrito de maneira própria e original e que
instrumentaliza seu aluno para tal. O processo de domínio do conhecimento
é uma conseqüência da capacidade de melhor ler e melhor escrever. A
tarefa é longa e esse caminho não se constrói num estalar de dedos, em
poucos anos. É necessário calma, paciência e esforço. E às vezes dói. Não é
só prazer. Porém, há que se investir nele pois qualquer outra saída para a
educação básica será um paliativo e não resolverá o problema da falta de
qualidade e da incompetência profissional pelo qual passamos.
100

Alguns números

É interessante verificar, estatisticamente, como está a relação entre a


produção de livros e a formação de leitores. Para isto, utilizamos a pesquisa
encomendada pela Câmara Brasileira do Livro à Fundação João Pinheiro.
Desde 1990, a Fundação João Pinheiro vem pesquisando as informações
sobre a produção editorial no país. Trata-se de um esforço importante e
pioneiro, feito pela iniciativa privada, em que o governo ainda não investiu.
Tratar de pesquisa no campo da leitura deveria ser uma das prioridades do
governo, na área cultural e educacional, considerando a importância do
texto escrito para a ascensão social em nossa sociedade.
Os cruzamentos que fizemos merecem ser analisados, do
ponto de vista da formação cultural e educacional de nossa população
escolar. A produção de livros didáticos nos últimos três anos (1993
a 1996) cresceu 79%, enquanto a de livros não-didáticos aumentou
58% entre 1992e 1995.
O volume de faturamento em dólares de livros didáticos, entre 1990 e
1996, aumentou 195%. O de livros não-didáticos, 89%. Vejamos a
produção de 1996:
Por exemplares:
Do total de 386.747.134 exemplares publicados foram distribuídos, por
categoria:

Literatura infantil e juvenil 56.150.090 14%


Educação básica (EB) 276.398.644 71%
Literatura adulta 8.198.805 2%
Outros 13%

Por títulos:
Do total de 41.670 títulos, 1ª edição e reedições:
101
Literatura infantil e juvenil 11.669 28%
Educação básica (EB) 16.489 39%
Literatura adulta 3.158 7%
Outros 26%

Sem dúvida há uma prioridade na produção editorial brasileira para a


criança e, por conseqüência, para a educação básica, considerando-se que
tanto em títulos (67%) quanto em exemplares (85%) a literatura infantil e
juvenil e a educação básica, somadas, representam a maioria da produção
editorial brasileira. Porém, o número dos livros de educação básica
(didática e paradidática) é maior em relação à literatura infantil e juvenil,
principalmente em número de exemplares.
Vejamos:

• Título _ Educação básica = 39% / Literatura infantil e juvenil = 28%

• Exemplares _ Educação básica = 71% / Literatura infantil e juvenil = 14%

Constata-se, por outro lado, a baixa produção de literatura adulta:

 Exemplares = 2%

 Títulos = 7%

Ao considerarmos:

• que a formação do leitor crítico é básica pra atingirmos uma educação de


qualidade na escola fundamental;
• que a formação desse leitor se constrói através do acesso variado e
permanente da leitura de vários textos, com ênfase na leitura literária;
• que o livro didático não forma leitores, que sua função é a de informar,
suprindo, sofrivelmente, a falta de acervos;
• que o educador adulto, promotor da leitura, supostamente um leitor, não
tem demandado a leitura literária,
102

concluímos que a formação de uma sociedade leitora, crítica e criativa, não


está sendo considerada pela produção editorial brasileira.
A ênfase dada ao livro didático determina, sem dúvida, a qualidade da
formação cultural e educacional de nossas crianças e nossos jovens e, é
claro, de nossos adultos.
A baixa produção de literatura adulta apresenta-nos um quadro pouco
animador quanto ao perfil de leitor do nosso educador que, afastando-sede
uma convivência artística, está mais próximo de uma leitura técnica,
imediatista, o que vai refletir no tipo de formação de nossas crianças e de
nossos jovens.
Como esperarmos que a qualidade da educação brasileira vá atingir níveis
altos se a leitura, principal instrumento de trabalho de qualquer professor,
não está presente em sua mais forte expressão cultural, a leitura literária, e
que a prioridade dada ao tipo de livro, para a maioria, é o livro didático? O
futuro cultural de uma sociedade que privilegia a formação da maioria de
sua população, de maneira pontual e pragmática, sem considerar a
formação estética, integrada com a formação técnica, estará projetando uma
sociedade empobrecida culturalmente.
O enorme esforço que vem sendo feito por alguns autores, editores e
professores, no sentido de considerar o acesso à literatura infantil e juvenil
como decisiva para a formação do leitor, vem refletir, sem dúvida, um
aumento na produção e um cuidado maior na qualidade. E isto a Fundação
Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ) pode comprovar ao longo dos
seus 30 anos de existência e 23 anos de premiações. Porém, é ainda
pequeno o resultado diante do enorme volume de livros didáticos e a
enorme lacuna a ser preenchida quanto à oferta de qualidade e variedade
para todos.
A relação da produção percapita entre livros didáticos e literatura infantil e
juvenil considerando alunos matriculados é a seguinte:
103

Alunos matriculados produção per capta


Livro didático livro não-didático

1993 40.513.392 3,03 2,4

1994 42.576.123 3,42 2,3

1995 43.586.657 5,36 3,1

1996 44.204.154 4,98 3,7

Considerando os números de 1996, em que a produção de literatura infantil


e juvenil foi de 56.150.090 e o número de alunos matriculados de
44.204.124, encontramos o percentual de 1,2% per capita de literatura
infantil e juvenil, para unia relação de 4,98% per capita do livro didático. É
quatro vezes mais.
Esses são os números: 1 livro de literatura para 4 didáticos!

A questão da qualidade

Outro aspecto que resringe a oportunidade de contato com um universo


cultural variado e rico é a falta de qualidade. A pesquisa mostra que, em
1996, em primeira edição de literatura infantil e juvenil foram editados
2.563 títulos. A FNLIJ recebeu cerca de 703 títulos, um pouco mais que 1/5
dos títulos editados e dentre esses, só cerca de 300 foram considerados para
a pré-seleção. Para nós fica evidente que a maioria, provavelmente, não
tem qualidade.
Questionamos pois, qualitativamente, o investimento editorial na educação.
Apesar de expressivo quantitativamente, quanto à prioridade que é dada ao
livro didático (representou, em 1996,0 quádruplo da literatura infantil e
juvenil) a literatura infantil e juvenil de qualidade, além de ser minoria, não
chega à maioria de nossas escolas.
O que será de uma nação que oferece qualquer produto cultural, para
construir o futuro de seus jovens, sem estabelecer critérios de qualidade?
104

8. TEXTO E IMAGEM: DIÁLOGOS


E LINGUAGENS DENTRO DO LIVRO

Ricardo Azevedo

O fato de ser escritor e desenhista tem me possibilitado certas experiências


curiosas. Volta e meia, sou convidado a visitar escolas para conversar com
professores sobre literatura infantil. Nessas ocasiões, recebo muitas
perguntas sobre os textos: como surgiu a idéia de tal livro; como foi criado
tal personagem?; por que em certo texto a narrativa obedece determinada
ordem e não outra?; se tal assunto pertence ou não ao “universo infantil”?
(aliás, o que seria mesmo esse aparentemente tão nítido “universo
infantil”?) e coisas assim. Só quando chega o intervalo, na hora do
cafezinho, vêm as perguntas sobre ilustração: que técnica usei em tal
livro?; por que optei por usar duas linguagem visuais em certo trabalho?;
por que antecipei ou omiti tal cena em tal história?; qual o papel adequado
para a aquarela? E assim por diante.
Deve haver mil motivos originando essa situação, mas dois deles me
parecem bastante prováveis: a) as pessoas costumam ter uma formação
mais sólida em literatura que em artes plásticas, e b) as pessoas, talvez por
isso mesmo, acabam não valorizando muito os desenhos, acham que o texto
é mais importante, acham que ilustrações
106

são uma espécie de enfeite e que perguntar sobre o assunto não passa de
mera curiosidade pessoal.
Se o leitor perguntar a um professor quantos escritores ele conhece, vai
ouvir (com um pouco de sorte) uma lista de nomes, antigos e atuais. Se
perguntar sobre artistas plásticos a lista vai murchar completamente.
Essa falta de informação sobre imagens, claro, não contribui para o exame
e a avaliação das ilustrações de um livro, pois, afinal, se existe uma
frondosa, complexa e colorida árvore formada pelas artes plásticas (pintura,
escultura, desenho, gravuras, cenografia, fotografia etc.) a ilustração é, sem
dúvida, uma de suas ramificações.
Como o assunto é muito amplo, vou tentar colocar algumas questões e
adotar certas posições no intuito de, sem querer ser conclusivo, alimentar
uma discussão sobre o tema ilustração de livros. 1

1) Exposições importantes como a “Bienal de Ilustração de


Bratislava” ou a “Exposição da Feira de Bolonha” costumam expor e
premiar ilustrações sem tocar na questão do texto. Observamos
lindos desenhos mas não conhecemos os textos ilustrados. Como
saber, então, se essas ilustrações são boas ou não? Como saber como
dialogam, se é que dialogam, com o significado do texto? Como
saber se acrescentam, ou não, significado ao texto? Como saber, em
que pese serem tecnicamente bem realizadas, se são óbvias ou não?
Como saber a forma com que se relacionam com a mancha do texto
dentro da página? Como saber como tal situação, fundamental na
estrutura do texto, foi resolvida?

Na minha visão, se essas exposições são super interessantes no sentido de


mostrar originais, apontar novas técnicas etc., são, por outro lado,
incapazes de distinguir boas e más ilustrações.

1. Há outros tipos de ilustração, por exemplo, a publicitária.


107

Um desenho simples, feito com poucos traços, sem maiores pretensões


técnicas pode ser, sempre a meu ver, infinitamente melhor ilustração do
que um desenho rebuscado, construído apartirde uma técnica
requintadíssima, mas que em relação ao texto só consegue ser redundante.
Nada contra, evidentemente, que ilustrações sejam expostas como pinturas.
Esquecer, porém, as diferenças estruturais entre os dois gêneros me parece
um tremendo equívoco. Pinturas não têm textos como referência, não
foram feitas para ser impressas e nem para ocupar, antes de qualquer coisa,
páginas dentro de um livro.

2) Fica difícil falar em ilustração sem lembrar que, necessariamente,


um livro ilustrado, no nível da linguagem 2 é composto de, pelo
menos três sistemas narrativos que se entrelaçam: a) o texto
propriamente dito (sua forma, seu estilo, seu tom, suas imagens, seus
motivos, seus temas etc.); b) as ilustrações (seu suporte: desenho?
colagem? fotografia? pintura? e, também, em cada caso, sua forma,
seu estilo, seu tom etc.); c) o projeto gráfico (a capa, a diagramação
do texto, a disposição das ilustrações, a tipologia escolhida, o
formato etc.).

Examinando bem, há livros em que esses três sistemas têm autoconsciência


e procuram o diálogo e outros em que isso não ocorre.

3) É importante notar que um mesmo texto dado para 10 ilustradores


terá sempre 10 soluções diferentes. Caberá ao editor, e este, a meu
ver, é um de seus papéis mais importantes, escolher o ilustrador que,
com seu trabalho e sua criatividade, possa ampliar o potencial
significativo do texto.

2.Simplificando, um sistema de signos com função simbólica e capacidade de formar


discursos que transmitem vários tipos de mensagem.
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4) É impossível negar que todo texto ilustrado vai, necessariamente,


receber interferência de suas ilustrações. A energia, a linguagem, as
cores, o clima, a técnica, o imaginário, tudo o que o ilustrador fizer
vai alterar e interferir na leitura (e no significado) do texto.

Mal comparando, é como um pianista acompanhado pelo contrabaixo. Os


dois instrumentos, as idéias dos dois músicos, as referências e a cultura
musical de cada um, tudo vai entrar na construção do som. Dependendo da
música, o solo predominante será de um ou de outro instrumento. Mesmo
quando o solo é feito pelo piano tendo por trás o contrabaixo, este, de
repente, cresce enquanto o piano fica só na base. De repente, parece que
ouvimos dois contrabaixos tocando. É o piano imitando o baixo. Outras
vezes, o baixo vai para o agudo e finge ser um violão.
Algo parecido pode acontecer, em graus diferentes, entre o texto e as
imagens de um livro.
Um autor ou editor que pretenda publicar um texto sem interferências deve
publicá-lo sem ilustrações. O texto, em todo caso, continuará sujeito às
influências do formato, do papel, do tipo de letra (um livro sobre
computação e outro sobre floricultura não deveriam, em princípio, ter a
mesma tipologia), da capa etc.

5) Vamos agora imaginar a seguinte situação: o carro quebra numa


noite escura. O leitor acende a luzinha do teto, vasculha o porta-luvas
e acha o manual de instruções. Descobre, faz de conta, que o manual
não tem imagens mostrando as partes do painel, o motor, os pneus,
nada. Todas as informações vieram por escrito e ainda por cima em
corpo 8!

Eis um exemplo em que a linguagem visual ganha força. Uma descrição


verbal do painel, por remeter à abstração, é incomparavelmente mais
complicada do que um simples desenho esquemático com umas setinhas.
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Agora, suponhamos que a companhia telefônica decidiu fazer uma lista


diferente: no lugar do convencional texto com nomes e endereços, optaram
por colocar a foto do rosto é da casa de cada assinante. Imagine a confusão:
Fulano não usava barba? Antes ela era tão magrinha! Será que esse careca
de bigode é ele? Mas a casa dela não tinha uma árvore na frente?
Eis um caso em que a linguagem visual, concreta e direta, pode ser bastante
inadequada.
Tudo isso importa quando pensamos em iluistração de livros. Como, por
exemplo, identificar, dentro de um determinado texto, as situações que, em
princípio, não devem ser ilustradas (por serem literárias, 3 o ideal é deixar
sua construção para a imaginação do leitor), de outras onde as imagens
podem e devem crescer, deitar e rolar?

6) Na literatura infantil há textos que prescindem da imagem e outros


em que texto e imagem são indissociáveis. O que acontece quando
um texto que prescinde de imagem é ilustrado? Seu universo de
significação alterado? Como funciona a parceria da palavra com a
imagem na construção da narrativa? Falando de crianças: uma
criança de seis anos, recém-alfabetizada, precisa de ilustrações que a
ajudem a compreender o texto. Três anos depois, já lendo com
fluência, as ilustrações para ela teriam exatamente que função?

7) Outro aspecto vale a pena ser ressaltado: que tipo de texto, afinal,
vai ser ilustrado? A questão é imensa mas pelo menos uma
diferenciação bem genérica é possível fazer: a) há textos didáticos,
ou seja, textos com motivação utilitária, que pretendem transmitir
informações ojetivas sobre determinado assunto e necessitam de
atualização periódica (novas informações, métodos e teorias vivem
surgindo) e

3. imagine ilustrar, literalmente, ao pé da letra, a ‘virgem do lábios de mel”!


110

b) literários, ou seja, resumindo, 4 textos com motivação estética, que


pretendem abordar os assuntos de forma (sempre) subjetiva, através
da ficção e da linguagem poética e que, além disso, não são passíveis
de atualização a não ser ortográ apelando

Dois exemplos de textos nitidamente didáticos:

Aimorés ou Aimberés. Povo indígena extinto que, no século XVI, vivia em regiões hoje
situadas em Minas Gerias, Bahia e Espírito Santo. Os Aimorés usavam botoques e eram
mais altos e mais claros que os Tupinambás. Referidos genericamente como Tapuias,
supõe-se que falavam língua do tronco Macro-Jê. Bastante aguerridos, não se deixavam
seduzir e escravizar. Entraram em muitos conflitos com os colonos e índios a eles
aliados. 5

Ou então:

É muito grande a diversificação morfológica externa dos caules, sendo facilmente


reconhecidos os caules aéreos:
haste (cravo), prostrado (abóbora), estolho (morango), volúvel (campânula), colmo
(cana), estipe (palmeiras), tronco (mangueira, carvalho). 6

Textos desse tipo apresentam sempre um referencial nítido e objetivo. Para


ilustrá-los, em princípio, é necessário recorrer a imagens impessoais e
unívocas que não dêem margem a outras leituras,

4. Naturalmente não pretendo definir o que seja literatura, assunto complexo e cheio de
teorias antagônicas, mas sim apenas apontar algumas de suas características mais
evidentes.
5. LARROUSSE CULTURAL. Dicionário temático. São Paulo: Nova Cultural, 1995.
6. Sezar Cesar. Biologia 2. 4ª ed, São Paulo: Atual, 1984, p. 20.
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Apelando, em geral, para a linguagem fotográfica, desenhos


comprometidos com o “realismo” , com a documentação, esquemas etc.

Agora vejamos dois textos nitidamente literários:


Cheguei em casa e arrumei tudo que eu queria na bolsa amarela.
Peguei osnomes que eu vinha juntando e botei no bolso sanfona.
O bolso comprido eu deixei vazio, esperando uma coisa bem
magra para esconder lá dentro (...) Abri um zípe; escondi fundo
minha vontade de crescer; fechei. Abri outro zipe; escondi mais
fundo minha vontade de escrever; fechei. No outro bolso de
botão espremi a vontade de ter nascido garoto (ela andava muito
grande, foi um custo pro botão fechar). Pronto! A arrumação
tinha ficado legal. Minhas vontades tavam presas na bolsa
amarela, ninguém mais ia vr a cara delas. 7

Ou então

Amostra da poesia local

Tenho duas rosas na face


Nenhuma no coração
No lado esquerdo da face
Costuma também dar alface
No lado direito não. 8

Textos assim primam peela subjetividade, pela ambigüidade, pela


motivação estética, pelo estranhamento, pela plurissignificação, pela visão
poética e particular da realidade. Como desenhar “objetivamente” uma
bolsa amarela que guarda “vontades” coma a de crescer, ter nascido garoto
e ser escritora? A que referência recorrer, por outro lado, diante de um
poema que menciona uma certa “poesia local”? Local onde? Que significa
ter duas rosas na face e nenhuma nio coração?

7. Lygia Bojunga Nunes. A bolsa amarela 6ª ed. Rio de Janeiro: Agir, 1981, p.30.
8. Murilo Mendes, O menino experimental 2ª ed. São Paulo: Summus, 1979, p. 26.
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Diante do texto literário (= poético), cada um de nós vai ter um sentimento,


uma leitura e uma explicação. Imagine, agora, ilustrá-lo. As imagens, tal
como o texto, também sairão, necessariamente, creio eu, marcadas pela
subjetividade, pela ambigüidade, pela plurissignificação, pelo enfoque
poético, pela visão particularepessoal da realidade.
Distinguir livros didáticos de livros de literatura pode ser um
excelente começo para se pensar em ilustração de livros.
Para encerrar, proponho uma brincadeira. Como vimos, o ilustrador
costuma partir de textos para construir suas imagens. Vamos tentar fazer o
inverso e partir de imagens para criar textos?
Imagine, leitor, três imagens: a primeira é o Mapa-múndi.
Crie mentalmente, por favor, uma legenda para essa imagem.
Imagine, depois, a foto de uma praia, Ipanema por exemplo, em pleno
domingo de sol.
Crie mentalmente uma legenda para essa segunda imagem.
Imagine, agora, duas outras imagens: a) um homem sentado numa cadeira,
diante de uma tela, está pintando um quadro. Seu modelo, em cima de uma
mesinha ao lado, é um ovo. Na tela, entretanto, vemos um pássaro (e não
um ovo) pintado; 9 b) um sujeito de costas para nós olha para um espelho.
No espelho vemos que sua imagem refletida, paradoxalmente, também está
de costas. É como se ele estivesse olhando para trás de si mesmo.10
Tente criar, caro leitor, legendas para essas duas últimas imagens.
Tenho certeza de que se mostrarmos as imagens do mapa e da praia para
100 pessoas, vamos obter legendas bastante parecidas.
No caso das últimas imagens, se bobear, vão surgir 100 legendas
diferentes.
Diante do texto literário, poético, lúdico e singular, o ilustrador vê-se na
mesmíssima situação.
Textos e imagens, como se vê, podem ser lados dessa multifacetada,
essencialmente humana e valiosa moeda: a arte.

9. Refiro-me ao quadro La clairvoyance, de René Magritte.


10. Refiro-me ao quadro La reproduction interdite, de René Magritte.