Você está na página 1de 16

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

DEPARTAMENTO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS


CURSO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS

BEATRIZ DO PIAUÍ BARBOSA

A BAIXA REPRESENTATIVIDADE FEMININA NA DIPLOMACIA BRASILEIRA: UMA


VISÃO CONSTRUTIVISTA SOBRE A DESIGUALDADE DE GÊNERO

SÃO CRISTÓVÃO
SETEMBRO/2018
BEATRIZ DO PIAUÍ BARBOSA

A BAIXA REPRESENTATIVIDADE FEMININA NA DIPLOMACIA BRASILEIRA: UMA


VISÃO CONSTRUTIVISTA SOBRE A DESIGUALDADE DE GÊNERO

Projeto de Pesquisa para a conclusão do curso de


Metodologia em Relações Internacionais do
Departamento de Relações Internacionais.

Orientador: Prof. Me. Corival Alves do Carmo Sobrinho

SÃO CRISTÓVÃO
SETEMBRO/2018
RESUMO

A questão de gênero é um problema secular dentro das sociedades, a desigualdade afeta


não somente o comportamento para com as pessoas de determinado gênero como também dita a
(não) aceitação em diversas carreiras por haver uma construção social sexista pautada em cima de
cada setor. Considerada uma profissão de cunho masculino, a carreira diplomática possui uma
incidência de mulheres diplomatas muito inferior a quantidade de diplomatas homens no
Itamaraty. Nesse contexto, esse projeto de pesquisa busca demonstrar como a participação da
mulher e seu papel social mudaram, além de expor os fatores que norteiam a baixa
representatividade feminina na diplomacia brasileira e como esta foi influenciada por aspectos
sócio-culturais através de uma perspectiva construtivista das Relações Internacionais.
Palavras-chave: Desigualdade de gênero; Diplomacia Brasileira; Construtivismo.
SUMÁRIO

1- Introdução e Justificativa................................................. 2

2- Objetivos........................................................................... .4
2.1- Objetivo Geral........................................................................ .4
2.2- Objetivos Específicos.............................................................. 4
3- Revisão Bibliográfica........................................................ 4
4- Metodologia....................................................................... 9
5- Plano de Trabalho........................................................... 10
6- Cronograma.................................................................... 10

Referências Bibliográficas......................................................... 11
2

1 INTRODUÇÃO E JUSTIFICATIVA
A sociedade brasileira ainda é muito segregada e desigual em diversas esferas sociais por
conta de sua construção historicamente patriarcal. No entanto, desde o incentivo do executivo
brasileiro motivado por movimentos feministas e organizações pró-igualdade de gênero, as
mulheres têm alcançado uma maior abrangência dentro da sociedade brasileira. Sem a busca pela
igualdade de gênero em esferas públicas e políticas, não há como haver uma cultura que não
espelhe uma nação sexista.
Sendo assim, instituições brasileiras também passam a retratar a mudança no pensamento
social sobre a igualdade de gênero no Brasil. O Itamaraty é uma das instituições de maior renome
do Brasil no mundo, os diplomatas brasileiros costumam ser reconhecidos por sua competência e
alta habilidade diplomática. Entretanto, assim como na maior parte das carreiras de prestígio, a
desigualdade de gênero dentro da diplomacia brasileira se faz evidente.
Segundo Balbino, “entre os 1.126 diplomatas do Ministério das Relações Exteriores
(MRE) em janeiro de 2005, 219 (19,45%) eram mulheres” (BALBINO, 2011, pp. 35), um
percentual menor do que o de países vizinhos como o Paraguai e a Bolívia aonde os percentuais
chegam a aproximadamente 40% de representação feminina. Logo, fica clara como há uma
representação muito baixa referente às mulheres no Itamaraty.
A falta de participação da mulher nesse setor ocorre por diversos fatores, entre eles estão
as perspectivas históricas, sociais e culturais do papel da mulher dentro da sociedade. A mulher é
estereotipada como sensível, dócil, maternal e submissa, assim, são atribuídas a elas as profissões
que tenham esses traços dentro de seu perfil profissional. A diplomacia é uma carreira que requer
independência e competitividade, características atribuídas em geral ao gênero masculino. Ou
seja, há uma construção social dos gêneros que favorece a falta de interesse feminino na carreira
diplomática.
Além disso, por haver poucas referências femininas dentro da profissão de diplomata, as
mulheres não se veem representadas na área. Há uma falta de incentivo de forma subconsciente
por parte da sociedade e das próprias mulheres que dificulta a aproximação do gênero feminino
nas carreiras de poder.
Alguns autores como a Viviane Rios Balbino, diplomata no Itamaraty desde 2003,
estudam sobre a questão de gênero dentro do Ministério de Relações Exteriores. No seu livro
“Diplomata. Substantivo comum de dois gêneros – um retrato da presença feminina no Itamaraty
3

no início do século XXI.” ela traz diversas entrevistas com mulheres de várias carreiras e
profissões dentro do MRE que demonstram a dificuldade enfrentada pela mulher em todos os
setores que envolvem tanto o interesse e admissão no CACD como a falta de respeito às mulheres
dentro do próprio Itamaraty.
Outro autor que escreveu recentemente sobre o tema foi o ministro Guilherme José
Roeder Friaça, em sua obra “Diplomatas no Itamaraty (1918-2011): uma análise de trajetórias,
vitórias e desafios”. Friaça, de forma colaborativa com Balbino e outras pesquisadoras da questão
de gênero no MRE, busca uma perspectiva histórica e social do ingresso de mulheres dentro da
diplomacia brasileira através da trajetória de várias mulheres que passaram pela instituição.
Sendo assim, ambos os autores concordam entre si sobre a importância do estudo da
desigualdade de gênero na esfera diplomática no Brasil. A discrepância entre gêneros no MRE
como um todo prejudica não somente suas instituições como também impossibilita a
solidificação de uma sociedade mais homogênea e democrática.
Esse projeto de pesquisa compreende a importância do tema da desigualdade de gênero
para com todas as mulheres que ainda sofrem como uma minoria nas instituições. O período a ser
abordado será predominantemente entre o início do governo FHC até os dias atuais para que haja
uma melhor exposição das mudanças sócio-culturais que ocorreram nesse período.

2 OBJETIVOS
2.1- Objetivo Geral
Esse projeto de pesquisa tem como objetivo geral demonstrar como as transformações
culturais na sociedade brasileira – através das mudanças na visão social do papel da mulher, das
organizações não-governamentais pró-mulher, do aumento na adesão aos movimentos feministas
e das campanhas em prol da inserção feminina na vida pública – têm influência nas políticas
institucionais para com as mulheres dentro do Itamaraty.
2.2- Objetivos Específicos
- Identificar as mudanças dentro da sociedade que levaram a priorização do tema sobre a
questão de gênero.
- Avaliar por meio de fontes estatísticas o aumento quantitativo na aderência de
participação em ONGs, campanhas e instituições com propósito de alcance da igualdade de
gênero.
4

- Determinar a desconstrução nos papéis sociais de cada gênero e como isso influenciou
no aumento da adesão à carreira diplomática.
- Analisar através de dados quantitativos o ingresso de mulheres em cargos de poder e
quais mudanças já podem ser visualizadas dentro desses cargos.

3 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
As construções sociais definem os papéis de gênero em todas as esferas da sociedade,
incluindo suas instituições. Com o avanço da igualdade de gênero, o aumento dos movimentos
feministas e das organizações pró-igualdade, as políticas internas e externas referentes ao
Itamaraty começam a mudar positivamente a um caminho de maior representação feminina na
diplomacia brasileira.
Assim sendo, a revisão bibliográfica será focada em quatro pontos que norteiam o projeto
de pesquisa: os conceitos do Construtivismo e sua conexão com a questão de gênero; definições
dos papéis de gênero dentro das sociedades; a desigualdade de gênero dentro do mercado de
trabalho e a representação feminina dentro do Itamaraty. Também serão ressaltados alguns dos
autores utilizados na bibliografia relevantes para cada um desses pontos.
Inicialmente será abordada a teoria Construtivista das Relações Internacionais, a qual é
comumente relacionada a Alexander Wendt. O construtivismo busca explicar os fenômenos
internacionais e analisar o Sistema Internacional através da sociedade e dos fatos sociais. “O
objetivo principal do construtivismo é (...) fornecer explicações tanto teóricas quanto empíricas
de instituições sociais e da mudança social (...)” (Adler, 1999).
Para Wendt, os fatos sociais possuem uma forte influência sobre as atitudes dos Estados.
O autor põe em questão a soberania estatal, esta seria socialmente construída, assim como toda a
ideia de Estado moderno (Wendt, 1992). De acordo com Biersterker e Weber, ao se considerar a
soberania uma construção social, isso aparece como resultado de uma composição realizada por
humanos, cidadãos, teóricos e diplomatas (Biersterker e Weber, 1996).
Assim, partindo da premissa que a soberania estatal e suas decisões partem de uma linha
de demandas vindas da sociedade para o Estado e não o oposto, os interesses estatais podem vir a
ser modificados de acordo com as mudanças da sociedade. As ONGs, movimentos sociais,
organizações internacionais e instituições domésticas são atores importantes para que ocorra uma
melhor compreensão da realidade internacional e sua construção social (Adler, 1999).
5

Logo, os interesses voltados para a questão de gênero começam a ter mais espaço dentro
das instituições públicas com a demanda por igualdade de uma parcela considerável da
sociedade. “O construtivismo mostra que mesmo nossas instituições mais duradouras são
baseadas em entendimentos coletivos” (Adler, 1999).
Assim como o Estado é um ente socialmente construído, a representação dos gêneros
também o é. A ideia de gênero é construída de acordo com a cultura social referente a
determinado gênero dentro daquela sociedade. Há uma divisão binária onde as diferenças entre
homem e mulher ultrapassa as diferenças biológicas e partem para o âmbito público e privado
(Farah, 2004).
Outro aspecto onde a questão de gênero pode ser identificada com a teoria Construtivista
está no que se refere à inclusão do tema na agenda não apenas no governo brasileiro como
também de suas instituições (Farah, 2004). As influências decorrentes dos movimentos sociais e
de organizações internacionais voltadas para a igualdade de gênero garantem um espaço de fala
que antes não havia dentro de instituições predominantemente masculinizadas.
Entretanto, ainda que as mudanças sociais com relação à questão de gênero estejam
ocorrendo, as mulheres, na maioria das sociedades, costumam ser taxadas como femininas,
prestativas, subservientes, delicadas, entre outros estereótipos. Essas características são atribuídas
por conta da construção de uma sociedade patriarcal, onde as características tidas como
masculinas tendem a ser os atributos que em geral são remetidos a características de liderança
(Balbino, 2011).
Estimuladas a buscar a maternidade, a constituição familiar, a atratividade física, a
construção do papel feminino na sociedade atrasa a mulher no que se refere a posições de poder
dentro da sociedade (Balbino, 2011). Enquanto os homens são motivados a estudar, serem
provedores e arranjar empregos desafiadores de alta capacidade intelectual as mulheres ainda são
muito vinculadas a ideia de matrimônio e cuidados domésticos.
Em uma das entrevistas de Balbino a algumas das oficiais de chancelaria do MRE em seu
livro “Diplomata. Substantivo comum de dois gêneros - Um estudo sobre a presença das
mulheres na diplomacia brasileira”, muitas afirmam sentir que o homem é criado para se arriscar,
buscar mais do que a vida privada, conhecer o mundo (Balbino, 2011). Não há a mesma pressão
que é colocada em cima da mulher com relação a formar uma família e cultivar um casamento
porque nunca houve esse tipo de construção social dentro da sociedade brasileira.
6

Para Bourdieu, a dominação masculina se encontra intrínseca nas estruturas sociais


(Bourdieu, 1995). Essa definição desigual dos papéis de gênero em sociedade está enraizada de
tal forma que já não é mais vista de forma simples. Há uma internalização subconsciente sobre a
concepção dos gêneros de tal maneira que é necessária a vigilância constante sobre nossa forma
de agir e pensar (Friaça, 2018).
Entretanto, no mundo contemporâneo, os estereótipos já não mais são tidos como
adequados por uma parte da sociedade. A mulher moderna busca ser tão atuante
profissionalmente quanto o homem e “vai de encontro à subserviência esperada do gênero
feminino” (Balbino, 2011).
Mesmo com as transformações referentes à visão dos papéis sociais, homens e mulheres
ainda não têm a mesma inserção no mercado de trabalho. As mulheres se encontram em maior
parte em profissões menos organizadas, possuem menor presença em sindicatos e menos
estabilidade dentro da suas carreiras (Balbino, 2011). Além desses fatores, a desigualdade de
salários entre homens e mulheres ainda é uma situação muito atual, muitas mulheres que exercem
as mesmas funções que os homens chegam a ganhar até a metade do que um homem que realiza
as mesmas atividades no mesmo cargo e posição (Balbino, 2011).
Como resultado de entrevistas feitas por pesquisadoras do Banco Mundial com mulheres e
homens de 20 países diferentes, a preferência no momento da escolha de carreira mostra que as
definições de “masculino” e “feminino” influenciam no mercado de trabalho. As limitações
construídas de gênero induzem as mulheres a escolha de profissões consideradas “femininas” ou
até mesmo a não-escolha de uma carreira, escolhendo assim a vida doméstica (Boudet, Petesche,
et al, 2012).
As carreiras consideradas femininas são apenas extensões do estereótipo do gênero
feminino. Professoras, enfermeiras, cozinheiras, todas essas são profissões que são vistas como
carreiras aceitáveis para o gênero feminino. Ademais, além de serem profissões compatíveis com
o papel social atribuído a mulher, também são profissões onde há a compatibilidade com a vida
doméstica e o matrimônio (Boudet, Petesche, et al, 2012).
Em uma pesquisa realizada pelo SIAPE/Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão
em junho de 2014 divulgada pela Escola Nacional de Administração Pública – ENAP, dentro do
percentual de cargos de alto nível dentro dos ministérios brasileiros, o segundo menor índice
percentual se encontra no Ministério das Relações Exteriores, com somente 21% de
7

representação feminina em 2014, perde somente para o Ministério da Defesa, com 15% de
presença feminina. Os ministérios com maior representatividade são o Ministério de
Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Ministério da Educação e Ministério da Cultura. Ou
seja, esses dados reforçam a ideia exposta na obra de Boudet, Petesche, et al, pois refletem como
a construção social sobre os gêneros determina o percentual participativo em Ministérios que são
compatíveis com a ideia criada sobre cada gênero.
No que se diz respeito à carreira diplomática, a imagem da carreira é sempre associada a
uma carreira masculina. A dificuldade de conciliação entre casamento e as constantes mudanças
de país, a manutenção familiar e o trabalho excessivo que a carreira diplomática exige são os
principais motivos de a profissão ser analisada como de cunho masculino. Os homens não
possuem pressões familiares dentro de seu estereótipo de gênero enquanto as mulheres sim. Além
do mais, quando há alguma publicidade positiva sobre ações diplomáticas brasileiras, sempre é
um diplomata que aparece na televisão, não uma diplomata, a mulher não se vê na diplomacia.
“Mulher nunca está em cargo-chave” (Balbino, 2011).
O estudo realizado por Fox e Lawless sobre a ambição política das mulheres nos Estados
Unidos também confirma como os papéis de gênero levam a desigualdade dentro das carreiras
públicas. Quando universitários estadunidenses foram questionados sobre concorrerem a cargos
políticos, a maior parte das mulheres afirmou que nunca nem consideraram a possibilidade de se
candidatar ou almejaram alguma profissão pública (Fox, Lawless, 2013).
Outro fator apresentado nas entrevistas foi a falta de incentivo familiar por parte dos
parentes das mulheres quando estas apresentavam interesse na carreira política. A qualificação
feminina para com a vida pública sempre é posta em dúvida pelos pais e isso não ocorre com a
maior parte dos homens (Fox, Lawless, 2013). Esse acontecimento também pode ser observado
no livro de Balbino com relação a prova do CACD, grande parte das diplomatas entrevistadas
afirmam que a família não acreditava muito na possibilidade delas ingressarem na carreira
diplomática (Balbino, 2011).
No Brasil, as taxas referentes à desigualdade de gênero no âmbito político chegaram a
ocupar o septuagésimo nono lugar no Índice de Desenvolvimento Humano, uma situação mais
agravante do que países como Filipinas e Arábia Saudita (Jurema, 2000).
Ou seja, quanto maior o poder de decisão, menor é a participação feminina (...) até 1998,
só existiram no Brasil sete Ministras – número que deixa o Brasil em situação inferior ao
restante da América Latina e da África (JUREMA, 2000).
8

Desde a reabertura para ingresso de mulheres no Itamaraty, em 1950, a representação


feminina na diplomacia brasileira tem sido ampliada a passos lentos e graduais. Nos anos 90,
cerca de 20% dos diplomatas aprovados eram mulheres, em 2010 esse número não aumentou
muito, cresceu apenas 5% totalizando 25% de representação feminina dentro dos aprovados
naquele ano (Balbino, 2011).
No entanto, movimentos sociais como o feminismo cresciam desde os anos 80. A mulher
vinha adquirindo direitos em diversas áreas, porém no Itamaraty ainda havia empecilhos sexistas
como o impedimento do exercício da carreira diplomática em casos de matrimônio com um
diplomata (Friaça, 2018).
Com o passar de uma década, os anos de 1990 são fortalecidos com a demanda da
sociedade para soluções de longo prazo com relação à igualdade de gênero (Friaça, 2018). A
Declaração de Beijing acontece em 1995, propondo a “harmonização do trabalho e das
responsabilidades familiares para homens e mulheres” (Balbino, 2011), no entanto, para Balbino,
as reformas decorrentes dentro do MRE foram apenas paliativas, ou foram esquecidas ou não
serviam para a maior parte das mulheres. “Todos os critérios que foram criados ao longo da
carreira pra você progredir foram postos no papel e foram esquecidos” (Balbino, 2011).
Entretanto, no ano de 2002, os pensamentos referentes às relações de gênero dentro da
diplomacia brasileira voltam a ter destaque sócio-político. Ainda que a diplomata de carreira,
Thereza Quintella, tenha afirmado que o MRE possuía uma história de desfavorecimento
feminino (Friaça, 2018), alguns dados presentes na obra de Friaça demonstram que entre 2002 e
2011, a participação feminina total na carreira diplomática cresceu mais de 27% e “o percentual
de 15,30% de mulheres na classe mais alta da carreira, de embaixadora, aponta, conforme visto,
para um incremento de 278,59% no período de 2003 a 2010, o que é um indicativo importante”
(Friaça, 2018).
Outro fator importante para a questão de gênero e a representatividade feminina no
Itamaraty foi a criação do Grupo de Mulheres Diplomatas. Com as pautas sobre feminismo e
direitos da mulher ressurgindo na sociedade após “uma primavera feminista no Brasil”,
influenciada também pelo movimento “Ni Uma Menos” da Argentina (Friaça, 2018), os debates
sobre igualdade de gênero se voltam também para o âmbito do Itamaraty.
Assim, tanto Balbino quanto Friaça concordam sobre o benefício de uma criação de
espaço para debates sobre questões de gênero dentro da diplomacia no Brasil como também se
9

deve buscar uma mudança na cultura institucional do Itamaraty (Balbino, 2011). Ao buscar
maneiras com que fortaleçam a igualdade de gênero dentro do Itamaraty, a sociedade brasileira
segue para um caminho de maior valorização democrática (Friaça, 2018).

4 METODOLOGIA
Este projeto de pesquisa terá como base os conceitos construtivistas das Relações
Internacionais. Será utilizada a análise qualitativa de conteúdo como método de interpretação dos
dados pautada nos conceitos de Flick refletindo a “exposição da análise do conteúdo, resumo da
análise de conteúdo, estruturação da análise de conteúdo, [utilização de] procedimento
rigorosamente baseado em regras para a redução de grandes volumes de dados” (Flick, pp. 334,
2004). Tais dados serão retirados de dois tipos de pesquisa: a pesquisa bibliográfica e a pesquisa
documental. A escolha por esses tipos de pesquisa vêm da ideia de que esses meios oferecem
fortes embasamentos teóricos ao projeto, além de abrir espaço para um acompanhamento mais
próximo da prática através da pesquisa documental, a qual abre espaço para análise de periódicos
e dados de organizações focadas no tema da questão de gênero.
As variáveis independentes a serem analisadas serão as mudanças na visão da sociedade
sobre a questão de gênero, o aumento das organizações e campanhas feministas desde os anos 80
e a transformação das perspectivas/ações governamentais e institucionais com relação à
desigualdade. Assim sendo, algumas das variáveis dependentes correlacionadas com as variáveis
independentes seriam: a maior demanda por igualdade de gênero dentro de diversas esferas
sociais, inclusive a esfera pública; reformas institucionais que permitem uma maior mobilidade e
inserção feminina, como a inserção de cotas femininas em concursos públicos de altos cargos, as
propostas de reformulação da cultura organizacional e institucional dentro do Itamaraty, além dos
dados sobre a crescente redistribuição das mulheres dentro da carreira diplomática; implantação
de leis que buscam corresponder aos pedidos sociais de igualdade de gênero como a lei do TSE
de distribuição de recursos de forma igualitária pelos partidos políticos para as mulheres.
Já com relação à revisão bibliográfica e as escolhas referentes à bibliografia, encontram-se
obras sobre a teoria construtivista, artigos que trazem dados e pesquisas sobre a visão social das
questões de gênero e livros que trazem debates e entrevistas sobre a cultura organizacional
interna do Itamaraty. A bibliografia foi retirada de bibliotecas virtuais como a biblioteca virtual da
FUNAG, de revistas como a Revista de Estudos Feministas e a Revista Lua Nova e de periódicos
10

tanto nacionais como internacionais. A bibliografia proporciona não apenas um meio teórico
confiável para a análise do tema do projeto, como também possibilita o estudo das pesquisas mais
recentes na área, o que é ideal para os estudos de gênero e de cultura que serão realizados dentro
desse projeto de pesquisa.
Os autores foram selecionados a partir da relevância de suas obras para o tema abordado.
Bourdier, por exemplo, é um dos autores mais renomados mundialmente no que se refere à ideia
dos papéis sociais dos gêneros na construção da sociedade. Boudet, Petesch, Turk e Thumala são
agentes do Banco Mundial e, apesar de terem perspectivas liberais sobre a questão de gênero,
contribuíram para a pesquisa com o livro “On Norms and Agency Conversations about Gender
Equality with Women and Men in 20 Countries” que traz dados estatísticos e entrevistas com
homens e mulheres de 20 países (incluindo o Brasil) sobre tópicos que envolvem os papéis de
cada gênero na sociedade. Balbino é um dos maiores nomes nacionais da questão de gênero
dentro do Itamaraty e colaborou no livro do ministro Friaça, também presente na bibliografia
selecionada para esse projeto de pesquisa.
Os resultados do projeto serão centrados no aumento da representatividade do tema dentro
da esfera social, nos âmbitos legais e trabalhistas, além da utilização de representações gráficas e
estatísticas desse aumento ao longo dos anos em questão.

5 PLANO DE TRABALHO
O projeto de pesquisa será dividido em três capítulos, o capítulo 1 focará nas mudanças
dentro da sociedade com relação a questão de gênero dentro de uma perspectiva construtivista. A
elaboração será feita através da utilização dos preceitos do Construtivismo nas RI dentro da
questão de gênero, assim sendo, a primeira etapa será a leitura da bibliografia voltada para a
definição do que é a questão de gênero nas Relações Internacionais e sua conexão com os
preceitos construtivistas, logo após será correlacionado os movimentos sociais e as mudanças
empíricas que ocorreram referentes às conquistas femininas no âmbito público.
O capítulo 2 abordará a transformação do papel social da mulher. Inicialmente será feita
uma comparação da sociedade com relação à desigualdade de gênero de forma histórica e como
as conquistas femininas e o papel de mulher vão se modificando de acordo com a evolução social
em referência às mudanças sociais vistas no capítulo 1.
11

Por fim, o capítulo 3 tratará da participação feminina dentro do Itamaraty, de que


maneira essas condições sociais e culturais acabam por esculpir o comportamento dentro da
instituição com relação às mulheres e de que forma a mudança da visão sobre a mulher na
sociedade influencia nas conquistas dentro da carreira diplomática.

6 CRONOGRAMA

MÊS/ETAPAS Set/18 Out/18 Nov/18 Dez/18 Jan/18 Fev/18 Mar/18 Abr/18 Mai/18 Jun/18
Pesquisa X X
Bibliográfica
Elaboração do X X
projeto
Apresentação X
do projeto
Coleta de X X
dados
Organização X
das partes
Redação do X X X
trabalho
Revisão e X X
redação final
Entrega da X
monografia
Defesa da X
monografia

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADLER, Emanuel. O construtivismo no estudo das relações internacionais. São Paulo. Lua
Nova [online]. N.47, pp. 201-246, 1999.

BALBINO, Viviane Riosa. Diplomata. Substantivo comum de dois gêneros – um retrato da


presença feminina no Itamaraty no início do século XXI. Brasília: FUNAG, 2011.
12

BARSTED, L. O Direito Internacional e o Movimento de Mulheres. Revista Estudos


Feministas. Rio de Janeiro: IFCS/UFRJ – PPCIS/UERJ, v. 3, n. 1, p. 191-197, 1995.

BIERSTEKER, Thomas J.; WEBER, Cynthia. The social construction of state sovereignty. In:
BIERSTEKER, Thomas J.; WEBER, Cynthia (ed.). Cambridge, Cambridge University Press,
1996.

BOUDET, Ana Maria Munoz; PETESCH, Patti; TURK, Carolyn; THUMALA, Angelica. On
Norms and Agency: Conversations about Gender Equality with Women and Men in 20
Countries. Washington: The World Bank, 2012.

BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Educação e Realidade. Porto Alegre, v. 20, n. 11,
jul/dez 1995.

BRASIL. Decreto nº 4.248, de 23 de maio de 2002. Aprova o Regulamento que dispõe sobre as
Promoções da Carreira de Diplomata do Serviço Exterior. Diário Oficial [da] República
Federativa do Brasil, Brasília, DF, 24 de maio de 2002. Disponível em:
<https://intratec.mre.gov.br/cmor/dec4248.htm>. Acesso em: 03 set 2018.

_____. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Comunicado da Presidência, n. 31. PNAD


2008 – Primeiras Análises (Demografia, Trabalho, Previdência). Brasília: IPEA, 2009.

_____. Relatório Geral sobre a Mulher na Sociedade Brasileira – IV Conferência Mundial sobre a
Mulher: Ação para Igualdade, Desenvolvimento e Paz – Pequim 1995. Apresentação do Ministro
de Estado das Relações Exteriores, Celso Amorim, Brasília, dezembro de 1994.

_____. Lei 9.392, de 19 de dezembro de 1996. Disponível em:


<http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?
id=145189&tipoDocumento=LEI&tipoTexto=PUB>. Acesso em: 03 set 2018.

______. Lei 10.863, de 28 de maio de 2003. Disponível em: <https://


www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/2003/L10.683.htm>. Acesso em: 03 set 2018.

______. Lei 10.745, de 9 de outubro de 2003. Disponível em:


<http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?
id=237557&tipoDocumento=LEI&tipoTexto=PUB>. Acesso em: 03 set 2018.

BRASIL. Lei 11.292, de 26 de abril de 2006. Disponível em


<http://www6.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?
id=254004&tipoDocumento=LEI&tipoTexto=PUB>. Acesso em: 03 set 2018.

BURKE, P. História e Teoria Social. São Paulo: Editora UNESP, 2002.

COTTING, Naiane Ribeiro. A mulher nas relações internacionais e as relações internacionais


para as mulheres: algumas considerações e ações. Disponível em:
<http://internacionalizese.blogspot.com.br/2013/04/a-mulher-nas-relacoes-internacionaise.html>.
13

FARAH, M. Gênero e Políticas públicas. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 12, n. 1, jan.-abr.


2004, p. 47-71.

FLICK, Uwe. Introdução à pesquisa qualitativa. Porto Alegre: Bookman, 2009

FOX, Richard L.; LAWLESS, Jennifer L. Girls Just Wanna Not Run: The Gender Gap in
Young Americans’ Political Ambition. Washington: Women and Politics Institute, 2013.

FONTENELE-MOURÃO, Tânia M. Mulheres no topo de carreira. Flexibilidade e


persistência. Brasília: Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, 2006.

FRIAÇA, Guilherme José Roeder. Mulheres diplomatas no Itamaraty (1918-2011): uma


análise de trajetórias, vitórias e desafios. Brasília: FUNAG, 2018.

JUREMA, S. Ações e estratégias do CNDM para o “empoderamento” das mulheres. Estudos


Feministas, ano 9, 2º semestre de 2001, p. 207- 212.

QUINTELLA, Thereza Maria Machado. A presença feminina na diplomacia brasileira.


Boletim da Associação dos Diplomatas Brasileiros, Brasília, ano IX, n. 41, p.13-15, jul/set 2002.

SOIHET, Rachel. Pisando no sexo frágil. Nossa História. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional, v.
3, p. 14-20, jan. 2004

WENDT, Alexander. Anarchy is what states make of it: the social construction of power
politics. International Organization, vol. 46, n. 2, 1992, p. 391-425.