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UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA

DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL


JORNALISMO

VIVIANE GOMES DE LIMA

A AUSÊNCIA CORPORAL NO COTIDIANO MARGINAL:


SEMIÓTICA, IMAGEM E MINORIAS.

Boa Vista

2004

1
UNIVERSIDADE FEDERAL DE RORAIMA
DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
JORNALISMO

VIVIANE GOMES DE LIMA

A AUSÊNCIA CORPORAL NO COTIDIANO MARGINAL:


SEMIÓTICA, IMAGEM E MINORIAS.

Monografia apresentada ao Departamento


de Comunicação social como requisito
para a obtenção do grau de bacharel em
Comunicação Social, com habilitação em
Jornalismo, sob a orientação do professor
Maurício Zouein.

Boa Vista

2004

2
Dedico esta monografia a minha família,
em especial à minha mãe e minha irmã, e
a meus amigos que me apoiaram em
todos os momentos difíceis da pesquisa.

3
AGRADECIMENTOS

Ao Senhor criador, por proporcionar um momento tão especial em minha


vida, pela força e coragem para alcançar este objetivo.
À Maria V. Lima Souza, mãe maravilhosa, que em todos os momentos está
ao meu lado, sejam eles bons ou ruins.
À minha irmã Liduina Guilarducci, meu cunhado Everaldo Guilarducci e
meus sobrinhos Yan, Ytallo e Ygor que mesmo distantes estão presentes no meu
coração, obrigada pelo incentivo.
Aos meus amigos Roque Facioni, Robson Oliveira, Andréia Cruz, Newton
Leite e Denise Cristian pelo apoio e pela força.
Aos colegas e amigos Isa Wanderley, Cynthia Rodrigues, Eliane Rocha,
Rodrigo Baraúna, Fernando Quintella e Humberto Almeida. Obrigada por todos os
momentos felizes que vocês me proporcionaram, pela ajuda e força.
Ao meu (por enquanto) namorado Alberto Júnior, obrigada de coração por
estar ao meu lado nesse momento tão especial, obrigada pelas palavras de
otimismo, pela força e incentivo que me destes e principalmente por ouvir meus
lamentos nas horas de desespero e de tanta ansiedade. Suas palavras foram todas
perfeitas e na hora certa.
A todos os colegas e professores do curso em especial aos professores
Vângela Moraes, Damião Marques, Goretti Leite, Noujain Pereira e Áurea Lúcia.
Ao saudoso Professor Alexandre Borges, dono de uma das vozes mais
lindas que já ouvi, meu primeiro contato na UFRR e no curso, suas primeiras
palavras estão guardadas no meu coração. Que Deus o conserve em um lugar
especial.
Ao meu orientador Maurício Zouein, que mais que isso foi amigo e
conselheiro, falava as coisas nas horas certas e quando eu mais precisava ouvir.
Obrigada pelo apoio, pela paciência, incentivo, força, idéias, por tudo.

4
À comunidade do Bairro Caetano Filho.
A todas as pessoas que estiveram ao meu lado e me ajudaram de forma
direta ou indireta, em especial Rodrigo Ávila e Ana Paula Vasconcelos, na
montagem do trabalho escrito e Vicente de Paula e Ana Paula Cruz por todas as
informações prestadas.

5
“Quando você ganhar, comemore: é importante um
rito de passagem.”
Esta vitória custou momentos difíceis, noites de
dúvidas, intermináveis dias de espera. Desde os
tempos antigos, celebrar um triunfo faz parte do
próprio ritual da vida.
A comemoração marca o final de uma etapa. Se a
evitarmos – por incrível que pareça, muita gente a
evita por medo de decepção, de atrair mau-olhado –
não estaremos nos beneficiando do melhor presente
que a vitória nos dá: a confiança.
Celebre hoje suas pequenas vitórias de ontem, por
mais insignificantes que pareçam. “Amanhã uma
nova luta se aproximará e irá exigir toda sua atenção
e esforço.” A “lembrança de uma vitória sempre
ajuda a ganhar a próxima batalha”.
(COELHO,1999, p.21)

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A AUSÊNCIA CORPORAL NO COTIDIANO MARGINAL:

SEMIÓTICA, IMAGEM E MINORIAS.

TERMO DE APROVAÇÃO

Banca examinadora:

Prof. Mauricio Zouein (Orientador)

Prof.ª Especialista Áurea Lúcia Melo Oliveira Corrêa

Profª Mestra Vângela Maria Isidoro de Morais

7
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO 10

1 – UMA REALIDADE LOCAL 12

1.1 - A CRIAÇÃO DO TERRITÓRIO 12

1.2 – SURGE BOA VISTA 16

1.3 - DERENUSSON E A CIDADE PLANEJADA 18

1.4 – A BOA VISTA DOS TEMPOS MODERNOS 23

1.5 - FRANCISCO CAETANO FILHO – UM BAIRRO? 25

1.6 – PERFIL ESTATÍSTICO DO BAIRRO CAETANO FILHO 31

2 – A BUSCA DO SENTIDO 39

2.1 – A SENSAÇÃO DA REALIDADE 39

CONSIDERAÇÕES FINAIS 54

REFERÊNCIAS 57

ANEXOS 58

8
LISTA DE FOTOS

FOTO 1 – Vista aérea do Rio Branco

FOTO 2 – Início de Boa Vista

FOTO 3 – Casa onde morou Francisco Caetano Filho

FOTO 4 – Primeiro contato com o Bairro

FOTO 5 – Casa de Maria Euvina

FOTO 6 – Banheiro isolado pela enchente

FOTO 7 – Rotina das crianças do Bairro

FOTO 8 – Manhã de uma quarta-feira no Bairro

FOTO 9 – Entrada do Bairro Francisco Caetano Filho: ausência de pessoas

FOTO 10 – Esgoto a céu aberto

FOTO 11 – Crianças próximo ao esgoto

FOTO 12 – A vida continua no Bairro Francisco Caetano Filho

9
APRESENTAÇÃO

O Estado de Roraima é uma das mais novas unidades federadas do Brasil.

Sua criação, em outubro de 1988, representou um passo definitivo pela independência

administrativa, como relatam diversos autores.

Em pouco mais de cem anos de existência, a capital, Boa Vista, se transformou

de uma pequena vila em cidade planejada, que recebe elogios de todos que a visitam.

Mesmo assim, os problemas existem, muitos deles bem perto do centro da cidade e

não na periferia, como é comum acontecer.

O caso mais falado é o do bairro que não é bairro. Ele fica no centro da cidade,

perto de onde nasceu Boa Vista, como veremos adiante. Ganhou o nome de Francisco

Caetano Filho em homenagem a um morador, assassinado na campanha política de

1958. Mas também é conhecido como Beiral, porque fica na beira do Rio Branco.

O bairro tem muitos problemas, sendo o principal deles as enchentes que

alagam as poucas ruas e acabam fazendo com que os moradores tenham que sair de

lá, porque as casas ficam inundadas. Mas o que mais aborrece as pessoas que moram

lá é a falta de atenção das autoridades com o bairro. Junto com a fama de lugar de

gente envolvida com problemas policiais, como tráfico de drogas e prostituição, vem a

ausência do olhar das autoridades oficiais para aquela comunidade.

Nossa pesquisa procurou retratar os problemas a partir do depoimento

daquelas pessoas e o contato pessoal da autora com a comunidade pesquisada.

10
Dedicamos vários dias de pesquisa de campo, onde pudemos colher a opinião

de quem mora num bairro onde todos os problemas acabam sem solução imediata,

quando conseguem encontrar uma solução ideal.

A autora usou a semiótica e seus pensadores para analisar todos os fatos

apurados durante a pesquisa. Procuramos ver como a base teórica da semiótica

enquadra a situação dos moradores do bairro e quais as perspectivas de futuro que

eles podem ter a partir de seu próprio posicionamento.

Com a orientação do professor Maurício Zouein, trabalhamos com o foco da

ausência. Procuramos ver como essa ausência é sentida pelos moradores e como ela

se manifesta nos problemas existentes no bairro.

O bairro é pequeno, tem poucos moradores, mas não encontra apoio nas

autoridades tanto do estado quanto do município. A ausência é mesmo sentida.

A autora ficou emocionada com os depoimentos daquelas pessoas pobres,

mas que têm muita vontade de ter apenas uma vida feliz, com o respeito das

autoridades que têm a responsabilidade de dar àquelas pessoas uma estrutura que

garanta a sua dignidade enquanto cidadãos.

11
1 – UMA REALIDADE LOCAL

1.1 - A CRIAÇÃO DO TERRITÓRIO

Os primeiros anos da República trouxeram uma novidade em termos de divisão

da base física do país: a figura do território federal, unidade federada ainda sem

condições de independência econômico-financeira, como os estados membros da

Federação.

O primeiro território criado foi o do Acre. Em 13 de setembro de 1943, o então

presidente Getúlio Vargas criou, através do Decreto nº 5.812, cinco Territórios Federais

de uma só vez: Rio Branco (depois Roraima), Guaporé (depois Rondônia), Amapá,

Iguaçu e Ponta Porã1.

O objetivo da criação dos territórios federais visava ocupar os espaços vazios do

território nacional, em especial aqueles localizados na Amazônia. Entendiam os

administradores do Brasil de então que a consolidação dos estados em tais regiões se

daria com um modelo especial, mais do que município e menos que estado.

O Território Federal de Roraima está situado no extremo setentrional do país

com uma área de 230.104 Km². A região que hoje compreende o Estado de Roraima

abrigava apenas dois distantes municípios, ambos pertencentes ao Estado do

Amazonas: Boa Vista do Rio Branco e uma parte de Moura e Barcelos.

1
MAGALHÃES, 1997, p. 84

12
Como vimos antes, o Território Federal do Rio Branco foi criado em 1943. Mas

somente no ano seguinte teve sua instalação concretizada, mais precisamente no dia

20 de junho de 1944.

A princípio, teve dois municípios: Boa Vista, escolhido para ser a capital, e

Catrimani, que nunca foi instalado. Em seu lugar foi criado o município de Caracaraí,

pela Lei federal nº 2.495, de 28 de maio de 19552.

De 1943 a 1964, Roraima teve 15 governadores titulares, entre militares e civis,

nenhum deles eleito pelo povo. Afinal, os administradores dos territórios federais eram

nomeados pelo presidente da República, sem qualquer necessidade de participação do

povo nesse processo de escolha. O presidente nomeava e pronto.

Tal processo de escolha recebia a influência de políticos ligados a quem estava

no poder. Um dos maiores exemplos foi o senador Vitorino Freire, do Maranhão, que

indicou, direta ou indiretamente, dez desses governadores, numa prova de sua

influência política junto ao governo federal3.

Cada governador, no entanto, ficou pouco tempo (média de 16 meses). Nesse

espaço de tempo, aliado ao desconhecimento do Território, o governante quase nada

podia realizar. Com tal descontinuidade, o Território Federal de Roraima teve uma de

suas piores fases nesse período, graças à má-administração da maioria dos

governantes. Poucos trabalharam com a competência desejada.

2
FREITAS, 2001, p. 73
3
________, ______, p. 115-116

13
Em 1960, o deputado federal Valério Caldas de Magalhães apresentou o Projeto

de Lei nº 1.433-A-1960, na Câmara dos Deputados, onde propunha a mudança do

nome do Território Federal do Rio Branco para Território Federal de Roraima.

Essa mudança teve como maior justificativa a grande confusão que era feita em

todo o Brasil com a capital do Estado do Acre – Rio Branco – e o Território Federal de

mesmo nome. Somente dois anos depois o PL foi transformado na Lei nº 4.182, de 13

de dezembro de 1962.

Político da mais alta seriedade, tendo sido, anteriormente, governador do Acre,

Valério Magalhães contrariou seu próprio pensamento em atenção ao apelo dos

eleitores: para ele, o Território Federal do Rio Branco não mudaria o nome. Mas seu

compromisso com os que o elegeram, em campanha política onde até morte houve,

como veremos adiante, foi mais forte. 4

O antigo Território Federal foi transformado no atual Estado de Roraima, pelo Art.

14, do Ato das Disposições Transitórias, da Constituição Federal do Brasil, promulgada

em 1998. Terminava ali a tutela federal. Depois de 45 anos, surgia o estado membro da

federação, com estrutura independente e poderes constituídos. Um novo tempo

chegava. Se seria melhor, só o futuro poderia dizer.

Como forma de baratear o custo da implantação do novo estado, o mesmo ato

constitucional previu a instalação do estado para o dia 1º de janeiro de 1991,

justamente quando todos os demais governadores e deputados estaduais eleitos no

ano anterior tomariam posse.

4
MAGALHÃES, 1997, p. 98.

14
Eleito com vitória em dois turnos, o brigadeiro Ottomar de Sousa Pinto, ex-

governador nomeado de 9 de abril e 1979 a 9 de abril de 1983 e deputado federal de 15

de março de 1987 a 31 de janeiro de 1991, renunciou ao mandato no legislativo e

assumiu o governo de Roraima. Para cumprir os 31 dias restantes do mandato

parlamentar de Ottomar Pinto, a Justiça Eleitoral convocou o primeiro suplente, Júlio

Augusto de Magalhães Martins5.

O segundo governador do estado foi o engenheiro civil Neudo Ribeiro Campos,

empresário da construção civil nascido em Roraima. Sua posse ocorreu no dia 1º de

janeiro de 1995.

Apoiado pelo então governador Ottomar Pinto, Neudo derrotou nas urnas o ex-

governador Getúlio Cruz, em dois turnos eleitorais disputados no ano anterior.

Beneficiado pela emenda constitucional que passou a prever a reeleição para os

detentores de mandato executivo, ele foi reeleito em 1998, ao vencer a ex-prefeita e ex-

deputada federal Teresa Jucá, também em dois turnos6.

Com a renúncia de Neudo Campos, em abril de 2002, para disputar um mandato

no Senado Federal, o vice-governador Flamarion Portela assumiu o cargo de

governador, ao qual concorreu à reeleição naquele mesmo ano. No primeiro turno, o

ex-governador Ottomar de Sousa Pinto conseguiu ser o mais votado de todos os

candidatos, seguido por Flamarion.

5
A GAZETA DE RORAIMA
6
FOLHA DE BOA VISTA,

15
Como não atingiu o percentual de 50% mais um dos votos válidos, houve

necessidade de segundo turno, quando Flamarion se recuperou e venceu a eleição7.

1.2 – SURGE BOA VISTA

Foto 1 - Vista aérea do Rio Branco (1925, Hamilton Rice)

A Freguesia Nossa Senhora do Carmo do Rio Branco surgiu em 1858, através

de lei provincial. Construída em faixa de terra estreita, entre o rio e a baixa alagadiça na

época das chuvas, ficava na proximidade da sede da fazenda Boa Vista (foto 1),

fundada em 1830, pelo capitão Inácio Lopes de Magalhães. A freguesia era pertencente

ao município de Moura, no Estado do Amazonas.

7
FOLHA DE BOA VISTA.

16
Foto 2 - Início de Boa Vista (1925, Hamilton Rice)

No dia 9 de julho de 1890, o Governador do Estado do Amazonas, Augusto

Ximeno de Ville Roy, assinou o Decreto n° 49/AM, elevando a Freguesia de Nossa

Senhora do Carmo do Rio Branco à categoria de Vila, com a denominação de Vila de

Boa Vista do Rio Branco (foto 2), mantendo os mesmos limites da antiga freguesia, com

uma área total de 5.711,9 Km².

Em 25 de julho de 1980, em uma sala do prédio pertencente a José Francisco

Coelho, tomaram assento o capitão doutor Fabio Barreto Leite, comissionado para

instalar a Intendência desta Vila e os cidadãos João Capistrano da Silva Mota como

prefeito (superintendente), José Francisco Coelho e José Joaquim de Souza Junior

como vereadores (intendentes), todos nomeados pelo Governador do Amazonas.

A Lei Estadual nº 1.262, de 27 de agosto de 1926, elevou o distrito sede do

município de Boa Vista do Rio Branco à categoria de cidade. Através do Decreto-lei

17
Estadual, de 1º de dezembro de 1938, o município teve sua denominação definida para

Boa Vista.

Com a instalação do Governo de Território, em junho de 1944, o primeiro

governador, capitão do Exército Brasileiro Ene Garcês dos Reis, convidou o urbanista

Darcy Aleixo Derenusson para elaborar a planta da cidade de Boa Vista.

Na época da criação do Território Federal do Rio Branco a cidade de Boa Vista

tinha os seguintes bairros: Porto da Olaria (Francisco Caetano Filho), Rói-couro (São

Pedro), Caxangá (Centro), Praça da Bandeira e Centro.

1.3 - DERENUSSON E A CIDADE PLANEJADA

O capitão Ene Garcez instituiu um concurso público para selecionar o melhor

projeto para Boa Vista. Ele queria um novo tempo em matéria de urbanismo. Para

surpresa geral, o vencedor foi o engenheiro civil carioca Darci Derenusson, com apenas

28 anos de idade. Só para chegar ao território ele levou 30 dias viajando, desde o Rio,

então capital da República.

Na edição especial de 9 de julho de 1991, centenário da cidade, o jornal A

GAZETA DE RORAIMA publicou entrevista com Derenusson, onde ele contou à

repórter Kátia Brasil os detalhes de seu trabalho e a realidade boa-vistense daquela

época:

18
Quando ele veio a Boa Vista pela primeira vez, em 1944,
passava pouco mais de um ano que o governo federal transformara o
município de Boa Vista, mais um pedaço de Moura, Estado do
Amazonas, em Território Federal do Rio Branco. O engenheiro civil
Darcy Aleixo Derenusson, então com 28 anos, conhecia uma pequenina
cidade picheira, plantada às margens do Rio Branco, no extremo norte
do Brasil e abrigando esparsos 1.800 brasileiros, pouco mais, pouco
menos. Ruas de terra batida, vida pacata e tardes bucólicas, ‘Boa Vista’
- conta ele – ‘tinha umas oito casas cobertas com telhas, outras de
zinco e a maioria com telhas de palhas de buritis.

Sua preocupação foi sentir aquela cidade pacata, a qual deveria transformar no

início de uma metrópole para o futuro, como explicou à repórter da GAZETA:

Quando cheguei em Boa Vista – conta Darcy Derenusson -,


passei sete meses fazendo levantamentos sobre as necessidades da
cidade e colhendo dados das carências da população, ouvindo a
comunidade. Depois voltei ao Rio, formei uma equipe de técnicos e
começamos a trabalhar.

O eixo do trabalho do engenheiro visava dotar Boa Vista de estrutura moderna

de serviços básicos, como informa a mesma reportagem:

As prioridades básicas eram os projetos para o abastecimento


de água, energia elétrica, esgotos e Código de Obras. Darcy lembra

19
que a principal medida adotada pelo governo da época foi baixar um
decreto proibindo qualquer construção na cidade até que fosse
entregue o Plano Diretor de Urbanismo. Ele e sua equipe terminaram os
projetos em 1946 e permaneceram em Boa Vista até 1951 para
acompanhar sua execução.

O orgulho de fazer um projeto de sucesso permaneceu com Derenusson por

quase cinco décadas, como podemos perceber em suas palavras naquela entrevista:

Boa Vista manteve uma simetria horizontal e vertical, porque


foram seguidas as linhas da planta que fiz’ – explica o engenheiro,
lembrando que ‘qualquer obra de construção para moradia e comércio
obedecia ao Código de Obras. Ele estabelecia que as construções só
podiam ter dois andares e em terrenos de 15 x 40 e 20 x 40 metros.
Isso explica porque Boa Vista apresenta essas belezas de jardins e não
tem favelas, como ocorre nas principais capitais do país’, enfatiza
Derenusson.

O segredo da qualidade de vida existente desde aqueles tempos da Boa Vista do

pós-guerra, e até recentemente ainda disponível ao boa-vistense, estava na infra-

estrutura essencial a qualquer cidade que se pretenda desenvolver com respeito à

saúde e ao bem-estar da comunidade. Derenusson assim definiu seus passos no

projeto:

20
Ele ressalta que o principal fator para o sucesso de seu trabalho
em Boa Vista foi ter concluído antes o projeto da rede de águas pluviais
e esgotos sanitários antes das construções. ‘Rasgamos todas essas
ruas existentes hoje e colocamos canos de águas e esgotos. É por isso
que não temos as valas negras. Na década de 70, Boa Vista chegou a
ser apontada como a cidade de melhor qualidade de vida em todo o
Brasil’ orgulha-se o engenheiro.

Quando concedeu a entrevista, aos 74 anos de idade, Derenusson continuava

convicto da importância da rede de esgotos como ponto de partida para qualquer

projeto urbanístico bem sucedido.

Esse é um serviço essencial para propiciar melhor qualidade de vida. Foi isso

que tornou Boa Vista uma cidade sadia e agradável. O núcleo da capital planejada em

1944 contou com um sistema de abastecimento de água e coleta de esgotos e de

águas pluviais. Foi por isso que a população teve e tem uma melhor qualidade de vida

do que em outras cidades da região Amazônica.

Uma cidade que nasce sob o signo do respeito à história e com aproveitamento

de sua estrutura já existente, só pode dar certo.

Pelo menos foi com esse pensamento que o engenheiro carioca executou seu

trabalho, como ele mesmo enfatiza ainda na reportagem já citada.

Hoje sou grato à população daquela época, que cobrou dos


governantes a execução do projeto. Cobrou e fiscalizou o que resultou
numa Boa Vista com traços urbanísticos modernos, sem deixar para

21
trás suas origens. Minha preocupação foi de não destruir os prédios já
existentes e, com isso, destruir a memória de uma cidade.

Derenusson planejou a cidade com um traçado em que rasgava radiais,

cortadas por perimetrais, ligando os vários extremos da cidade. Segundo ele explicou

ao jornal, o epicentro do desenho foi a Praça do Centro Cívico, com a construção do

antigo Palácio 31 de Março, hoje Palácio Senador Hélio Campos.

E o que Derenusson quis dizer com seu desenho? Ele mesmo respondeu, em

texto por ele escrito, na mesma página de A GAZETA DE RORAIMA:

Partindo de um cinto gerador, buscam os confins de Norte de


nosso território, irradiando a energia de seu povo, como a protegê-lo.
Roraima, guardião do Norte.
Lembrem-se: na época em que foi projetada a planta da cidade
de Boa Vista (1944/1946) estávamos no fim de uma guerra. E já muito
antes disso, não poucos olhos gulosos invadiam nossas fronteiras, com
missões exploradoras e uma variedade de expedientes, para se
firmarem e ocupar nossa terra.
Mais do que simples radiais, mais do que um simples leque
seria a própria alma brasileira, presente, com o corpo e o coração, a
integridade de nossos limites. É, portanto, o sistema radial o símbolo de
união territorial, social, lingüístico e ideário do povo brasileiro do
Extremo Norte. 8

8
Artigo “O que representam as radiais” - Darcy Aleixo Derenusson

22
Darcy Derenusson morreu há pouco mais de dois anos, no dia 27 de maio de

2002, no Rio de Janeiro, aos 85 anos. Falando em homenagem póstuma ao idealizador

da Boa Vista moderna, o então vereador Flávio dos Santos Chaves assim se

manifestou ao plenário da Câmara Municipal de Boa Vista, em trecho de seu discurso:

No necrológio publicado em O Globo, na seção Obituária, foi


destacada, como sua maior obra, exatamente a elaboração do Plano
Urbanístico de Boa Vista. Muito antes de Juscelino Kubistcheck sequer
pensar em ser presidente da República e, muito menos, transferir a
capital do Rio de Janeiro para uma Brasília encravada no Planalto
Central onde nada havia, senão a esperança dos brasileiros que lá
moravam, Derenusson já criava uma cidade planejada, com um
desenho moderno até para os dias de hoje. Uma cidade humanizada,
horizontal, privilegiando os espaços ainda existentes.

1.4 – A BOA VISTA DOS TEMPOS MODERNOS

A cidade de Boa Vista possuía, no ano 2000, exatos 200.383 habitantes 9. Os

dados estatísticos do IBGE mostram a miscelânea de origens de seus atuais

habitantes.

Formada por indígenas de diferentes etnias, imigrantes de vários estados da

Federação e alguns estrangeiros que aqui fixaram residência, agrega traços culturais

de todas as tendências.

9
Censo IBGE - 2000

23
Desde 1981 temos o Centro de Tradições Gaúchas Nova Querência, implantado

pelos imigrantes vindos do Rio Grande do Sul, a grande maioria constituída por

profissionais formados pela Universidade Federal de Santa Maria, que mantinha em

Boa Vista um campus avançado, desativado logo após a implantação dos cursos de

nível superior no então território.

Os nordestinos também fundaram centros de tradição, além de grupos artísticos

de músicas e danças típicas, como “Os Cangaceiros do Tianguá”. São tentativas de

manter os laços com suas origens, mesmo à distância.

Infelizmente, o plano urbanístico de Darci Derenusson acabou descaracterizado,

a partir da BR-174. Os novos bairros ali implantados (Liberdade, Buritis, Tancredo

Neves e outros mais afastados) não levaram em consideração os cuidados tomados

pelo engenheiro carioca ao planejar a capital.

O sistema de esgotos só recentemente chegou à parte da periferia da cidade.

Grandes valas abertas nas ruas substituíam o sistema de águas pluviais. Os lotes de

terreno ficaram cada vez menores, reduzindo o conforto das famílias e criando um novo

agrupamento de imóveis com menor espaço físico para o lazer (áreas externas)

Graças à disponibilidade de terrenos vazios, ainda não temos uma tendência de

verticalização dos imóveis, registrando um ou outro edifício de apartamentos de até três

andares, o máximo permitido pelo Código de Postura do município.

Mesmo assim, a urbanização de Boa Vista continua sendo uma das melhores da

região, senão a melhor. O aproveitamento das áreas públicas tem sido feito com

habilidade pelos administradores municipais.

24
Obras como os Complexos Sócio-Esportivos Aírton Sena (no centro) e Mané

Garrincha (no bairro Caimbé) ou a Praça das Águas, também no centro, criaram novas

opções de lazer para o boa-vistense, além de revitalizar áreas até então abandonadas

à própria sorte.

1.5 - FRANCISCO CAETANO FILHO – UM BAIRRO?

O bairro Francisco Caetano Filho é quase um segmento do núcleo inicial da

cidade de Boa Vista. Seu início fica a menos de duzentos metros da sede da antiga

Fazenda Boa Vista, já referenciada anteriormente.

Mas, nos primeiros tempos, a cidade cresceu mesmo para o outro lado, em

direção à Praça da Bandeira. Somente uns anos mais tarde os pescadores iniciariam a

ocupação do bairro então chamado de Olaria, por concentrar aquela atividade

industrial, implementada de forma artesanal.

Na verdade, o regime de chuvas determinava quando e onde os moradores

poderiam construir e/ou permanecer em suas casas. Por estar localizado num baixão, o

bairro constantemente era alagado pelas águas do Rio Branco. Mesmo em décadas

recentes tal quadro permanecia.

Também por causa da proximidade com o rio, o Francisco Caetano Filho ganhou

outra denominação, pela qual é até mais conhecido: Beiral. Ocupado depois do

planejamento da cidade por Derenusson, não ganhou, nos primeiros anos, rede de

esgotos e águas pluviais.

25
A geografia do lugar era incompatível com ocupação por moradias. Com tanto

espaço físico disponível à época, seria inconcebível imaginar construções naquele lugar

onde as inundações eram, como vimos, uma constante em períodos de chuvas fortes.

O nome do bairro é homenagem ao antigo morador Francisco Caetano Filho

(foto 3), assassinado durante a campanha eleitoral de 1958, por um pistoleiro

contratado pelo então deputado federal Félix Valois, general do Exército e segundo

parlamentar federal roraimense, para intimidar seus adversários políticos, como

veremos adiante.

Foto 3 - Casa onde morou Francisco Caetano Filho (Viviane Lima, 2004)

26
Em 1946, o Território Federal do Rio Branco passou a ter um representante na

Câmara Federal, já que até 1943 toda essa área pertencia ao Estado do Amazonas. O

primeiro deputado federal eleito pelo povo foi Antônio Augusto Martins, na época

gerente da filial da firma J.G. Araújo, localizada onde hoje se encontra a Loja Esquina

do Rio (no final da Avenida Jaime Brasil com a Rua Floriano Peixoto).

Em 1950, foi eleito o tenente-coronel Felix Valois de Araújo, depois reeleito em

1954. Este jamais apresentou ao Congresso Nacional qualquer projeto. No pleito

eleitoral de 1958, com o abuso de poder do então general-deputado Felix Valois,

pistoleiros foram trazidos de Goiás, exclusivamente para intimidar, bater, espancar e

até matar, caso as coisas não acontecessem como previstas pelo parlamentar.

Um daqueles pistoleiros, de nome Claudionor, andava com uma lista de 32

nomes de pessoas que, em comícios ou em reuniões, falariam contra Valois. A ordem

recebida (e sempre rigorosamente cumprida) era surrar, cortar uma orelha ou, se a

vitima oferecesse resistência, matar todo aquele que se atrevesse contestar o

deputado.

Segundo informações de quem viu a tal lista da época, o pistoleiro Claudionor

vinha agindo pela ordem numérica decrescente. Contava ainda, com a ajuda de alguns

elementos da antiga Guarda Territorial (que posteriormente seria transformada na

Polícia Militar).

Claudionor, um outro comparsa e alguns elementos da Guarda agiam de

surpresa. O "escolhido" era conduzido em um jipe do governo para algum lugar ermo.

Uma versão antiga do atual local para desova de corpos conhecidos como "Banho da

Tieta".

27
O primeiro a passar pelo suplício foi o senhor Manoel dos Passos. O segundo

da lista levou somente uma surra. "Mas uma surra caprichada", como disseram os

agressores em tom de deboche. O terceiro da lista era o velho conhecido como

Pingarrilho, uma figura folclórica, considerado boa pessoa. Pingarrilho, além da surra

que levou, ainda teve uma das orelhas cortadas pelo pistoleiro Claudionor, a quem teve

de jurar que manteria segredo do que ocorrera.

Passou-se a usar o estratagema da clandestinidade para as reuniões políticas.

A oposição adotou a espionagem e conseguiu infiltrar um elemento da coligação

oposicionista no grupo adversário, a fim de ouvir tudo e repassar as informações para

outro lado.

Este era o clima político em Boa Vista nos anos de 1957 e 1958.

Determinado dia, um dos espiões conseguiu embriagar o pistoleiro e copiar a

lista dos perseguidos. Rapidamente, repassou-a aos que estavam nela relacionados.

Todos eles, então, passaram a andar armados, como forma de proteção pessoal. Não

era uma eleição, era mesmo uma guerra sem quartel.

Quando o pistoleiro descobriu a armadilha de que fora vítima, determinou a três

guardas territoriais que, na Avenida Jaime Brasil, segurassem o "relacionado" de

número 4 na lista (José Pereira Maia).

O pobre infeliz, seguro pelo pescoço – no conhecido golpe de luta denominado

gravata - e arrastado pelos três policiais, foi colocado contra uma parede, ali, bem no

centro da cidade. O pistoleiro Claudionor chegou pelo outro lado, sacou um revólver

Taurus, calibre 38, e o usou como porrete na cabeça de José Pereira. Este, depois da

sétima pancada, conseguiu reagir. Numa sacudidela, jogou a arma do pistoleiro para

longe. Mas o pistoleiro não desanimou: puxou uma faca-peixeira. Os relatos assim
28
definem a luta entre os dois: “Foi briga de macho de verdade”. No meio da confusão, os

guardas correram.

Nesse ínterim, chegou o "listado" de número 5. Sem pensar duas vezes, ele

disparou dois tiros de pistola no coração do pistoleiro Claudionor. Quando o

relacionado de número 6 chegou para ajudar, o pistoleiro já estava morto.

Na noite seguinte, houve um comício no local onde hoje é a entrada do bairro

Francisco Caetano Filho (no final da Avenida Sílvio Botelho, próximo ao terminal de

ônibus). Com poucas casas, para se chegar lá se atravessava uma pequena ponte de

madeira, onde havia um grande terreno baldio. Ali mesmo morava o Chico Caetano.

Apesar de todo o medo existente na cidade, Francisco Caetano cedeu às

pressões de alguns moradores do bairro, alinhados com o candidato da oposição, para

permitir uma reunião no quintal de sua casa. No início ele até descartou a idéia. Depois,

concordou. Na reunião, discutiram sobre a atuação dos pistoleiros e do deputado

Valois.

A partir daí, conseguimos duas versões da história, com o mesmo final: Chico

Caetano baleado e morto na porta de casa.

A primeira versão, contada pela Pesquisa Qualitativa feita pelo Programa

Braços Abertos, da Prefeitura de Boa Vista, informa que, alguns dias depois da reunião,

Caetano estava na porta de sua casa, como já dissemos localizada na entrada principal

do bairro, quando foi baleado e morto pelo simples fato de ter abrigado aquela reunião

política.

29
A outra foi relatada em depoimento pessoal do economista Valério Caldas de

Magalhães Sobrinho, como o próprio nome indica, sobrinho do candidato da oposição,

concedido à autora deste trabalho.

Ele era menino quando ocorreu o crime. Sua versão é de que a esposa de

Caetano estava na porta de casa quando passou um correligionário de Valois e a

ofendeu. O marido saiu de dentro de casa e devolveu a ofensa ao adversário político.

Este sacou de um revólver e disparou contra Chico Caetano.

O crime abalou toda a cidade de Boa Vista. O medo que as pessoas sentiam do

general transformou-se em revolta. Se já havia brigas constantes entre partidários de

oposição e situação, com a morte de Caetano o ambiente ficou muito pior.

Como única forma de conter a violência chegaram à capital do território algumas

figuras políticas importantes da época. Entre elas o senador Juracy Magalhães, o

deputado federal Antônio Carlos Magalhães (hoje senador da República) e o deputado

Carlos Lacerda, um dos mais combativos jornalistas de todos os tempos. A viagem do

grupo foi chamada de "Caravana da Liberdade".

Chegou o dia da eleição. Nas urnas, a chamada Coligação (eram vários

partidos contra Valois) saiu vitorioso Valério Caldas de Magalhães. Este, enquanto foi

parlamentar, apresentou mais de vinte projetos importantes, entre estes o que permite

a transferência do servidor público do Território para qualquer unidade da Federação,

com o mesmo salário.

O mais conhecido de todos foi o projeto que mudou o nome de Território

Federal do Rio Branco para Território Federal de Roraima (sancionado em 13 de

setembro de 1962). Por sua obra em benefício desta terra, Valério Magalhães foi

30
homenageado pela Câmara Municipal de Boa Vista, dando seu nome a uma rua no

bairro São Francisco.

Como vimos, o bairro Francisco Caetano Filho sempre teve uma trajetória

difícil. Até mesmo seu nome tem relação com uma tragédia. Mesmo assim, as pessoas

que lá residem valorizam o lugar.

Quando, em final de 1988, o então prefeito José Maria Carneiro, preocupado

com a situação do bairro ante um dos mais rigorosos invernos já vistos na cidade,

tentou transformar o bairro em espaço público, transferindo seus moradores para

outras áreas, a pesquisa por ele feita entre os que lá moravam apontou a resistência ao

projeto, que foi descartado.

1.6 – PERFIL ESTATÍSTICO DO BAIRRO CAETANO FILHO

Com objetivo de melhor apresentar o bairro Caetano Filho realizou-se um

levantamento estatístico em campo, tendo como base dados de 2001, do programa social

da Prefeitura de Boa Vista, denominado ‘Braços Abertos’.

Nele foi possível avaliar aspectos relevantes sobre a população da comunidade,

faixa etária, escolaridade, nível de renda, conforme os gráficos a seguir10:

10
Fonte: Banco de Dados do Programa Braços Abertos - 2001

31
POPULAÇÃO

32
CHEFES DE FAMÍLIAS

33
FAIXA ETÁRIA DOS HABITANTES

34
ESCOLARIDADE DA POPULAÇÃO ACIMA DE 07 ANOS DE IDADE

35
SITUAÇÃO OCUPACIONAL ACIMA DE 16 ANOS

36
FUNÇÃO DA POPULAÇÃO ACIMA DE 16 ANOS

37
NÍVEL DE RENDA

38
2 – A BUSCA DO SENTIDO

2.1 – A SENSAÇÃO DA REALIDADE

O primeiro contato da pesquisadora com o bairro Francisco Caetano Filho (foto

4) foi marcado por grande emoção. Começávamos ali a parte prática do trabalho de

conclusão de curso, sentindo de perto a vida das pessoas que moram lá, por opção ou

por necessidade.

Foto 4 - Primeiro contato com o Bairro (Viviane Lima, 2004)

39
Procuramos entrar sem idéias preconceituosas sobre os moradores. Todas as

informações que recebemos antes serviriam apenas como um alerta para aquela

realidade, mas sem interferir na avaliação final.

Já conhecíamos o bairro. Passamos por lá algumas vezes, sempre de

passagem. Agora era diferente. Nosso olhar deveria estar atento para os detalhes.

Antes nem nos preocupávamos com aquela realidade. A pesquisa nos obrigou a mudar

a forma de olhar para as pessoas que lá encontramos.

A princípio, a pesquisadora sente, ao olhar o ambiente pesquisado, a ausência

de uma preocupação dos que moram fora para com a comunidade. A própria

comunidade sente a ausência dessa preocupação.

Vários moradores acreditam que os políticos dedicam pouca atenção ao bairro.

Também a má fama do Francisco Caetano Filho incomoda seus moradores, como se

todos que lá moram fossem traficantes ou prostitutas (o noticiário dos jornais registra,

toda semana, casos de prisões por tráfico na área).

Algumas pessoas com as quais tivemos um contato mais próximo, são pessoas

simples, e também atenciosas para com quem busca informações sobre o bairro. Elas

procuram mostrar, de maneira bem clara, o que realmente é viver naquela comunidade

e isso nos deixou surpresos.

Já vimos que o bairro não existe oficialmente. Mas as pessoas que moram lá não

se incomodam com isso. Elas têm certeza de que moram no bairro Francisco Caetano

Filho, mesmo que algumas vezes algumas sintam vergonha de admitir isso, por causa

da má fama da área. O fato de não ter lei criando o bairro não impede os moradores de

ter identidade com ele.

40
Todos nós esperamos ter no bairro onde moramos alguns serviços essenciais,

como água, luz, esgoto, saneamento básico, transporte fácil, segurança, escolas,

postos de saúde e bom comércio. Alguns desses serviços não existem no Francisco

Caetano Filho.

O problema das enchentes, por exemplo, marca a vida de todos por lá. Foi assim

em nossa primeira visita ao bairro para esta pesquisa. Choveu muito naqueles dias e 11

famílias estavam alojadas no Ginásio Hélio Campos. Apesar de aborrecidos com o

problema, mostravam-se conformados. Eles sabiam que morar lá tem seus riscos.

Fomos ao ginásio entrevistar as pessoas.

Elisamar Mafra dos Santos, 25 anos, foi com quem primeiro falamos. Ela saíra

da região do Apiaú (Mucajaí) com o marido e três filhos, havia um ano e nove meses,

vindo direto para Boa Vista. A família construiu um pequeno barraco, sobre palafitas,

em uma das partes mais críticas do bairro, no leito do igarapé Caxangá onde existe

uma ponte onde está entendido que o bairro termina. Eles não eram donos de nenhum

terreno. Invadiram a área para morar próximo à mãe dela, mesmo sabendo dos riscos

que correm.

Pelo segundo ano consecutivo, Elisamar é obrigada a deixar seu bairro e

mudar-se para o alojamento do Ginásio Hélio Campos, onde a Defesa Civil aloja os

desabrigados das enchentes ocorridas na cidade.

Como dissemos antes, naquela época estavam lá 11 famílias vindas do bairro

Francisco Caetano Filho.

Se chover muito, o acesso ao seu barraco é feito através de canoa. Fomos lá

para ver a situação no local. Tivemos que embarcar numa canoa para chegar. Após

41
alguns minutos de travessia, chegamos à casa de sua mãe, dona Maria Euvina Mafra

dos Santos, que não trabalha.

Foto 5 - Casa de Maria Euvina (Viviane Lima, 2004)

Ela mora com o marido, seu pai e também com sua irmã, que é deficiente. Seu

barraco, sobre palafitas (foto 5), mede uns 9m². Um espaço muito pequeno para tanta

gente. O terreno também fica no leito do igarapé e é invasão.

Para eles, a situação é quase normal. Já estão acostumados em enfrentar as

dificuldades da vida. Há anos lutam por coisa melhor, mas ainda não deu para

melhorar.

42
Naquele dia, faltavam uns 20 centímetros para a água entrar no barraco. Se

isso acontecesse, eles seriam transferidos para o Ginásio Hélio Campos, como ocorreu

com a filha, Elisamar.

A falta de saneamento básico também é um problema. Sem esgoto ou fossa

nas casas, os dejetos vão direto para o rio (foto 6). Com a enchente, os contatos com

esses dejetos provocam a contaminação do ambiente, com risco de doenças de pele e

outros tipos de moléstia.

Foto 6 - Banheiro isolado pela enchente (Viviane Lima, 2004)

Essa situação poderia criar um ambiente infeliz e de revolta na família. Mas

não foi isso que encontramos. Mesmo aborrecidas com os problemas enfrentados, elas

sabiam que aquele espaço representa uma conquista para quem não tem patrimônio.

43
Não pagam aluguel, estão próximos ao centro da cidade, os filhos têm onde

estudar, e mais uma série de vantagens que talvez não tivessem antes.

A explicação para esse quadro está em:

A vila, a cidade e a metrópole são construções humanas feitas a


partir das necessidades, interesses e condições objetivas e que se
revelam, pelo menos, em duas esferas distintas, porém interligadas: em
sua estrutura física e na articulação das relações que ocorrem em seu
interior.11

A vida dessas pessoas que, ao nosso primeiro olhar e contato, parece

representar algo triste, infeliz, nos faz mudar de idéia quando passamos a conviver com

as crianças que ali estão. Seu mundo se resume no que vivem, pois muitas não saem

nunca do próprio bairro.

Na sua inocência de crianças, brincam com seus mais simples brinquedos, a

maioria por eles inventados na medida do que precisam. São felizes; o sorriso é

estampado em suas faces como se nada de ruim, nenhuma necessidade complicasse

suas vidas.

Muitas delas passam a maioria do dia sozinhas em casa. Seus pais saem para o

trabalho e os mais velhos são responsáveis pelos mais novos (foto 7). Às vezes um

vizinho mais amigo colabora, com uma “olhada” de vez em quando. Como vimos antes,

as relações da comunidade também são solidárias.

11
SANTAELLA,1996, p. 282

44
Foto 7 - Rotina das crianças do Bairro. (Viviane Lima, 2004)

Elisamar serviu de cicerone em nossa segunda visita. A convite da autora, ela

acompanhou-nos até o bairro. Não foram poucas as pessoas que procuraram saber o

que fazíamos por lá.

Senti medo, pois percebi que a preocupação deles era impedir que a autora

falasse mal do bairro em seu trabalho. Os olhares são de desconfiança, coisa bastante

natural para quem vive sendo visto com olhos de reprovação e repúdio pela sociedade.

Outra moradora, dona Maria das Graças, 49 anos, costureira, está no bairro

desde 1979. Para ela, o Francisco Caetano Filho necessita de algumas coisas, porém

não pensa em sair dele, pois lá se sente bem, lá conheceu o seu esposo, casou-se,

teve seus filhos, hoje todos criados. Ela avalia o local e sua vida.

45
O bairro é tranqüilo, pelo menos para nós. Moro aqui por todo
esse tempo e nunca nos aconteceu nada de ruim. Todos nós nos
conhecemos. Mas falta algo; os políticos devem olhar mais por nós.
Eles só aparecem aqui na época da campanha; depois eles somem até
outra eleição.

Outro problema enfrentado por dona Maria e por outros moradores é a questão

da discriminação. Como dissemos antes, o bairro é discriminado pela má fama, por

conta das ocorrências policiais.

Quando tentam matricular seus filhos nas escolas de Ensino Médio do centro da

cidade (lá só existe uma escola de ensino fundamental), percebem a rejeição das

pessoas que não moram no Francisco Caetano Filho, como se as crianças fossem uma

influência ruim para os filhos daquelas pessoas.

Outro morador da comunidade que ajudou na pesquisa tem 18 anos, é estudante

e filho da dona Maria das Graças. Ele gentilmente se dispôs a percorrer todo o bairro

conosco, enquanto fazíamos as fotos para este trabalho.

Conhecedor de vários detalhes do bairro, sua ajuda foi de grande valia para nós.

Contou-nos, sob o mais absoluto sigilo, de como a maioria das pessoas ganha suas

vidas de maneira fácil.

46
Foto 8 - Manhã de uma quarta-feira no Bairro (Viviane Lima, 2004)

Eles vivem assim: passam o dia todo e até a noite nos bares
(foto 8), jogando, bebendo e jogando conversa fora. ‘Se envolvem’ em
brigas constantemente e o motivo são as drogas. Aqui, quem você
menos imagina vende drogas. Para eles é o único meio de
sobrevivência. Na verdade, querem ganhar a vida facilmente. As
mulheres usam seus corpos. Isso você pode observar pela maneira que
elas se vestem e os lugares que costumam freqüentar.

O morador quando fala nas mulheres que se prostituem em seu bairro reflete a

linguagem de que fala Lúcia Santaella12:

12
SANTAELLA, 1996, p. 313.

47
Se levarmos o termo linguagem tão longe quanto possível, não
é difícil chegarmos à conclusão de que tudo é linguagem. A mais
esquemática definição de linguagem seria a de qualquer coisa que é
capaz de tornar presente um ausente para alguém, produzindo nesse
alguém um efeito interpretativo.

A autora também teve a mesma sensação. Chegamos no bairro e vimos três

mulheres sentadas debaixo de um cajueiro, vestidas com roupas provocantes, tendo

como companhia uma garrafa de cachaça 51.

Conseguimos ouvir um pouco da conversa. Falavam de futilidades, com

palavras de baixo calão, às gargalhadas. Quem estivesse procurando um programa

sexual nem precisaria perguntar se elas o fariam. Seus gestos, suas roupas e suas

atitudes demonstravam isso.

Seu comportamento era bem diferente das senhoras ‘de família’ com quem

tivemos contato no bairro. Duas formas de viver num mesmo bairro. Elas convivem,

mas não se misturam. Daí a revolta das moradoras que não se prostituem com a fama

que, sem querer, recebem da sociedade.

2.2 – O BAIRRO QUE NÃO EXISTE

Ao iniciar a pesquisa, muitas foram as surpresas. Porém, uma das que mais

marcou foi quando fomos ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em

busca de informações sobre o bairro Francisco Caetano Filho e descobrimos a não

existência do bairro.

48
Por mais absurdo que possa parecer, o bairro não existe. Para que isso ocorra

é preciso que conste do Plano Diretor do Município, conforme preceitua a Lei nº 244, de

06 de Setembro de 1991. A Câmara Municipal de Boa Vista jamais aprovou qualquer

projeto nesse sentido. Nem por iniciativa própria, nem por mensagem do Executivo

Municipal.

Foto 9 - Entrada do Bairro Francisco Caetano Filho: ausência de pessoas (Viviane Lima, 2004)

Na verdade ele existe mais dentro de um outro bairro, o Centro. Recentemente

a PMBV, através da Secretaria Municipal de Gestão Participativa, vem desenvolvendo

um trabalho nos bairros periféricos da cidade e, para nossa surpresa, o “bairro”

Francisco Caetano Filho, mesmo não sendo oficialmente um bairro, recebeu a equipe

49
da secretaria onde foi feito um trabalho em cima do que, para eles, moradores, se

resume no bairro.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), como vimos

anteriormente, não tem o bairro como existente em seu cadastro. Nem poderia ser

diferente, pois também não há aprovação de sua criação pela Prefeitura ou pela

Câmara de Vereadores.

Como o IBGE só trabalha com a situação formal da sociedade, suas pesquisas

mantêm a área onde se localiza o Francisco Caetano Filho como bairro Centro, mesmo

que os moradores, a sociedade, a imprensa e todos os demais segmentos saibam que

o Francisco Caetano Filho exista como bairro no imaginário popular. Poderíamos defini-

lo como a presença da ausência.

Na época das enchentes, a ausência existe mesmo (foto 9), pois os moradores

são obrigados a deixar suas casas por causa das águas do rio invadindo as ruas e até

chegando ao telhado das casas situadas na parte mais baixa do bairro. É quando o

Francisco Caetano Filho deixa de existir não apenas oficialmente, mas também pela

saída de seus moradores, até que o nível das águas volte ao normal.

Quando isso acontece, o bairro volta a ter seus moradores, embora continue a

não existir na burocracia municipal. Porque ninguém quer sair de lá, apesar de todos os

problemas que o bairro enfrenta.

No final deste mês de julho e início de agosto, o bairro está envolvido em mais

uma polêmica, onde fica bastante clara a ausência de responsabilidade das autoridades

locais nos problemas do bairro.

50
O jornal Folha de Boa Vista publicou reportagem denunciando uma rede de

esgotos clandestina, jogando os detritos direto no Rio Branco (foto 10), criando um foco

de poluição.

Foto 10 - Esgoto a céu aberto (Folha de Boa Vista, 2004)

O local foi fotografado pela equipe de reportagem, inclusive com crianças

brincando próximo à saída do esgoto, na margem do rio (foto 11). A Prefeitura de Boa

Vista diz que o caso é da alçada da Companhia de Águas e Esgotos de Roraima

(CAER), a quem caberia a responsabilidade de cuidar das redes de esgotos da cidade.

51
Foto 11 - Crianças próximo ao esgoto (Folha de Boa Vista)

A CAER acusa a prefeitura de tentar se livrar de sua responsabilidade de

cuidar da rede de águas pluviais, onde teria sido conectada a rede clandestina.

No meio da polêmica, apareceu o ex-prefeito Barac Bento confirmando que

construiu, em 1989, uma rede de águas pluviais, porque pretendia transformar a área

em espaço de lazer. Disse que os comerciantes de peixe tomaram conta do lugar. Ele

não sabe quem construiu a rede clandestina, mas garante que a rede pluvial tem até

placa de inauguração.

Entre tantas acusações e omissões, surge uma palavra de bom senso, vinda

de uma comerciante do bairro. Perguntou ela, na reportagem publicada na Folha de

Boa Vista do dia 31 de julho de 2004: “Quem teria dinheiro aqui para construir uma rede

de esgotos onde gastamos 80 reais só para desentupir quando entope?”

52
Até o momento em que a autora encerrou sua pesquisa, ninguém havia tomado

providências para resolver o problema. Enquanto isso, a comunidade do bairro

Francisco Caetano Filho continuava exposta à poluição gerada pelo despejo dos

detritos das fossas direto para o Rio Branco, onde as crianças brincam.

53
CONSIDERAÇÕES FINAIS

O bairro Francisco Caetano Filho não é um bairro. Como bairro, é considerado

Centro. Mas seus moradores insistem que o bairro existe com aquele nome, ou como

Beiral, sua outra denominação.

Para eles, não interessa se as autoridades deixaram de oficializar o que o povo

considera certo. Os moradores não têm ilusão sobre os políticos. Eles sabem que

poucos cumprem o que prometem, como aconteceu com o prefeito que prometeu

mudar o nome do bairro para Francisco Caetano Filho e nunca tomou as providências

que a lei exige para tornar oficial o ato.

Os moradores continuam acreditando que a vida vai melhorar no bairro (foto

12). Eles insistem em ficar por lá mesmo depois das enchentes que alagam o bairro e

fazem com que eles tenham que sair para abrigos improvisados, como o que

encontramos no ginásio Hélio Campos, com as famílias dividindo espaço, enquanto as

águas cobriam suas casas. Eles têm identidade com o bairro e querem continuar

mantendo essa identidade, apesar dos problemas.

A imagem que a sociedade faz do bairro incomoda seus moradores. Eles não

gostam de ser comparados a traficantes ou prostitutas, também moradores do bairro.

Fazem questão de dizer que todo lugar tem bons e maus elementos. O

Francisco Caetano Filho não é diferente. Quando os jornais divulgam notícias com

crimes ocorridos no bairro, os cidadãos de bem ficam chateados, porque acabam sendo

atingidos pela notícia, mesmo sem ter nada a ver com o caso. A maioria da sociedade
54
passou a acreditar que todo morador do bairro está envolvido com problemas policiais,

de tanta notícia ruim que sai de lá.

Os moradores se orgulham de seu bairro, pelo que vimos em todas as visitas

que fizemos. A diferença de comportamento entre os que cumprem a lei e os que levam

uma vida marginalizada já foi explicada por Lúcia Santaella, citada anteriormente.

Foto 12- A vida continua no Bairro Francisco Caetano Filho (Viviane Lima, 2004)

O grupo social determina seus limites de ação, para o bem ou para o mal. O

grupo cria as condições que acha adequada para seu bairro. Se houver diferença de

comportamento entre as pessoas do grupo, poderemos ter duas realidades diferentes.


55
No caso do bairro Francisco Caetano Filho, encontramos um bairro feliz lá

dentro, mas com má fama do lado de fora, porque o noticiário sempre dá destaque ao

que de ruim acontece lá dentro.

A vida daquela comunidade poderia ser melhor se as autoridades dessem mais

assistência ao invés de empurrarem os problemas uns para os outros nos jornais e

resolverem a situação das pessoas.

São administradores também ausentes no que se refere ao cotidiano de um

bairro ausente no projeto urbano estadual e municipal

O tempo passa e os moradores continuam ausentes das políticas públicas, em

especial, durante o inverno por suas residências e ruas estarem sob as águas do Rio

Branco.

Porém a história de homens, mulheres e crianças não está ausente da história

de Roraima.

56
REFERÊNCIAS

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Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001.

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JORNAL A GAZETA DE RORAIMA

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______.______.4. ed. Rio de Janeiro, 1997.

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VIEIRA, Leocicléia Aparecida. Projeto de Pesquisa e Monografia: O que é?


Como se faz? 3. ed. Curitiba: Editora do Autor, 2004.

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ANEXOS

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