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LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS

Unidade 5

Veridiane Pinto Ribeiro

Univali • EaD
Língua Brasileira de Sinais

5
OBJETIVOS

Ao concluir esta unidade, você deverá ser capaz de:

• reconhecer a língua brasileira de sinais como língua;

• descrever os elementos gramaticais da língua brasileira de sinais;

• relacionar os elementos gramaticais das línguas orais e das línguas de sinais.

APRESENTANDO A UNIDADE

Nesta unidade, você irá conhecer os aspectos gramaticais que constituem a língua
brasileira de sinais. Assim como as línguas orais-auditivas, as línguas visuo-espaciais
também são compostas de sujeito, verbo, objeto e complementos. Esta natureza visuo-
-espacial atribui à língua aspectos peculiares como iconicidade, arbitrariedade e classi-
ficadores. Estudos como fonética, fonologia, morfologia, sintática, semântica, pragmá-
tica e variação linguística conferem às línguas de sinais o mesmo status linguístico das
línguas orais.

Unidade 5
INICIANDO O TEMA

A língua de sinais brasileira vive hoje um momento histórico, porém, a concepção a


respeito dessa língua visual-espacial nem sempre recebeu status linguístico. As línguas de
sinais eram consideradas, até bem pouco tempo, como uma mímica. Segundo Pedreira
(2007), a partir dos estudos do linguísta norte-americano Willian Stocke, em 1960, as
línguas de sinais começaram a ser reconhecidas, e mais linguistas em todo o mundo
passaram a se interessar em pesquisar suas peculiaridades. No Brasil, as contribuições
dos estudos linguísticos sobre a Libras, a exemplo dos de Ferreira Brito (1995), Felipe e
Monteiro (2001) e Quadros (1997), fortaleceram os movimentos em favor do seu reco-
nhecimento, oficializado em 2002 pela Lei de Libras (Lei 10.436/02).

Essas pesquisas comprovaram que as línguas de sinais apresentam elementos em sua


constituição que as identificam como língua. Esses elementos são as categorias gramaticais.
Toda língua possui palavras que são classificadas em classes ou paradigmas em relação a seus
aspectos morfológicos, sintáticos, semânticos e pragmáticos.

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Embora todas as línguas não possuam as mesmas classes gramaticais e muitas línguas não possuam algumas
delas, isso não implica carência ou inferioridade, pois as línguas têm formas diferenciadas de expressão.

5.1 O que é LIBRAS?

Libras é a Língua Brasileira de Sinais. Alguns a chamam de LSB –Língua de Sinais Brasileira.

Na Lei de Libras nº 10.436, de 24 de abril de 2002, define-a como:

a forma de comunicação e expressão, em que o sistema lingüístico de natureza visual-motora, com


estrutura gramatical própria, constitui sistema lingüístico de transição de ideias e fatos, oriundos de
comunidades de pessoas surdas do Brasil. (BRASIL, 2002).

Algo que precisa ficar bem definido também é que esta língua visuo-espacial é uma língua e não linguagem,
portanto, é incorreto chamá-la de linguagem de sinais.

Tomando por base os estudos da ciência linguística, que estuda as línguas naturais e humanas, partimos do princípio
de que língua é um sistema de regras abstratas, composto por elementos significativos inter-relacionados, e linguagem são
códigos que envolvem significação, não precisando necessariamente abranger uma língua. Goldfeld (2002) argumenta
que se pode reconhecer que as línguas de sinais, que são línguas naturais, apresentam características em sua estrutura que
conferem a elas o status de língua.

Quadros e Karnopp (2004), em seus estudos sobre a linguística da Libras, afirmam que:

O vocábulo linguagem, em português, é mais abrangente que o vocábulo língua, não só porque é usado
para se referir às linguagens em geral, mas também porque é aplicado aos sistemas de comunicação,
sejam naturais ou artificiais, humanos ou não. (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 24).

Porém, há distinção e, pelo fato de a língua de sinais ser produzida por movimentos corporais, muitos podem
classificá-la como linguagem.

É importante ter a noção de que o termo “fala” não se refere ao ato motor de articulação dos fonemas e sim
à produção do falante, que deve ser sempre analisada na relação de interação, no diálogo. O termo linguagem
tem um sentido bastante amplo, linguagem é tudo que envolve significação, que tem um valor semiótico e
não se restringe apenas a uma forma de comunicação. É pela linguagem que se constitui o pensamento do
indivíduo. Assim, a linguagem está sempre presente no sujeito, mesmo nos momentos em que ele não está
se comunicando com outras pessoas. A linguagem constitui o sujeito, a forma como ele recorta e percebe o
mundo e a si próprio. É a capacidade natural que o ser humano tem de se comunicar, por meio de palavras,
gestos, imagens, sons, cores, expressões, etc. O código Braille também é considerado uma forma de linguagem.

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Dessa forma, podemos ter três tipos de linguagem: a verbal, a não-verbal e a mista. A verbal é aquela em que utilizamos
as palavras para comunicar e a não-verbal pode ser comunicada por símbolos convencionados socialmente, como sons,
gestos, símbolos, ícones, a própria linguagem musical e artística, entre outros. Na linguagem mista aparecem, ao mesmo
tempo, a verbal e a não verbal, muito utilizada em placas de publicidade.

Figura 01: Linguagem verbal

Fonte: <http://www.plastcolor.com.br/pagina%20placa.htm>

Figura 02: Linguagem não-verbal

Fonte: <http://www.plastcolor.com.br/pagina%20placa.htm>

Figura 03: Linguagem mista

Fonte: <http://www.plastcolor.com.br/pagina%20placa.htm>

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Já a língua é o conjunto de regras abstratas, que determinadas comunidades usam para se comunicar. São
as regras gramaticais.

Pode-se então afirmar que a Libras é uma língua, assim reconhecida pelo fato de constituir-se por elementos
gramaticais semelhantes às línguas orais. Quadros e Karnopp (2004, p. 30) afirmam que “as línguas de sinais
são, portanto, consideradas pela lingüística como línguas naturais ou como um sistema lingüístico legítimo e
não como um problema do surdo ou como uma patologia da linguagem.” Para uma efetiva comunicação em
língua de sinais é necessário que o usuário tenha competência linguística em seus níveis: fonológico, morfológico,
sintático, semântico e pragmático.

No lugar das palavras, para expressar esses níveis gramaticais, a comunidade falante da língua visuo-espacial
utiliza os sinais. “O sinal, ou seja, o item lexical da língua de sinais, é um signo lingüístico da mesma forma
que as palavras da língua portuguesa.” (GOLDFELD, 2002, p. 24).

Goldfeld (2002) resume alguns conceitos introdutórios ao nosso estudo da seguinte forma:

Língua (Saussure) – sistema de regras abstratas composto por elementos significativos inter-relacionados.
Língua (Bakhtin) – sistema semiótico criado e produzido no contexto social e dialógico, servindo
como elo de ligação entre o psiquismo e a ideologia.
Linguagem – códigos que envolvem significação não precisando necessariamente abranger uma língua.
Fala (Vygotsky) – produção da linguagem pelo falante nos momentos de diálogo social e interior, pode
utilizar tanto o canal audiofonatório, quanto o espaço-viso-manual. (GOLDFELD, 2002, p. 25).

E complementa:

Oralização – utilização do sistema fonador para expressar palavras e frases da língua.


Sinalização – fala produzida pelo canal viso-manual.
Sinal – elemento léxico da língua de sinais.
Signo – elemento da língua marcado pela história e cultura de seus falantes, possui inúmeras pos-
sibilidades de sentidos, sendo estes criados no momento da interação, dependendo do contexto e dos
falantes que o utilizam. (GOLDFELD, 2002, p. 25).

A Língua Brasileira de Sinais é originária da Língua de Sinais Francesa. Isso se deve à vinda do professor francês
Eduard Huet ao Brasil, em 1855, para a fundação de uma escola para surdos no Rio de Janeiro, o Instituto Nacional
de Educação de Surdos – INES.

A comunicação em línguas de sinais pode dar-se por meio do alfabeto manual e pelos sinais. O alfabeto
manual é utilizado para digitalizar nomes, endereços, marcas ou outras informações que não tenham um sinal
próprio.

Na figura 04 apresentam-se o alfabeto manual da língua brasileira de sinais.

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Figura 04: Alfabeto Manual

Fonte: Veloso e Maia Filho (2010)

Para os numerais cardinais, ordinais e quantitativos, vale ressaltar algumas peculiaridades: observe, na figura
5, que, entre os números cardinais (A) e quantitativos (C), há diferença pela configuração de mão até o número
“4”. Números cardinais são representados pela mão inclinada para o lado direito ou esquerdo (dependendo
da mão que está produzindo o sinal) e os dedos apontam para o lado do corpo do falante. Já com os números
quantitativos, os dedos permanecem “em pé”, apontam para cima. Não há diferença depois do número “5”.

Figura 05: Números Cardinais, ordinais e quantitativos

Fonte: Dada (2012)

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Os números ordinais (B) apresentam a mesma configuração de mão dos números cardinais, mas diferenciam
deles por apresentarem movimento. O movimento é retilíneo, de baixo para cima.

5.2 Sinais icônicos e arbitrários

Os sinais das línguas de sinais podem ser icônicos e arbitrários ou convencionais.

Com base em Strobel e Fernandes (1998), podemos dizer que:

A modalidade gestual-visual-espacial pela qual a LIBRAS é produzida e percebida pelos surdos leva, muitas
vezes, as pessoas a pensarem que todos os sinais são o ‘desenho’ no ar do referente que representam. É claro
que, por decorrência de sua natureza lingüística, a realização de um sinal pode ser motivada pelas característi-
cas do dado da realidade a que se refere, mas isso não é uma regra. A grande maioria dos sinais da LIBRAS
são arbitrários, não mantendo relação de semelhança alguma com seu referente.

O conhecimento da Libras em nossa sociedade é recente e ainda bem pouco difundido, o que, muitas vezes,
leva-nos a criar mitos em relação à sua produção. Muitos acreditam que, para comunicar-se em língua de sinais,
basta aprender o alfabeto manual, e outros acreditam que todos os sinais têm relação com seu significado. A Libras
compartilha com as línguas orais dos mesmos fenômenos linguísticos de arbitrariedade e isso corrobora para que ela
seja incluída no mesmo patamar linguístico de qualquer outra língua oral-auditiva.

Muitas vezes, iniciantes em Libras manifestam a dificuldade em aprender essa língua, pois acreditavam
que produzindo gestos naturais e apontamentos poderiam se fazer entender. Um dos primeiros mitos a serem
quebrados quando se ensina língua de sinais é apresentar sua iconicidade e arbitrariedade.

5.2.1 Sinais icônicos

As línguas de sinais são produzidas no espaço e essa peculiaridade faz com que elas sejam entendidas como línguas
visualmente concretas, levando à ideia de iconicidade. De fato, as línguas de sinais constituem-se, também, por sinais
que fazem alusão à imagem do seu significado, como o desenho do objeto no espaço.

Brito (1998) afirma que as línguas de sinais

Usam o espaço e as dimensões que ele oferece na constituição de seus mecanismos “fonológicos”,
morfológicos, sintáticos e semânticos para veicular significados, os quais são percebidos pelos seus
usuários através das mesmas dimensões espaciais. Daí o fato de muitas vezes apresentarem formas
icônicas, isto é, formas lingüísticas que tentam copiar o referente real em suas características visuais.
Esta iconicidade mais evidente nas estruturas das línguas de sinais do que nas orais deve-se a este fato
e ao fato de que o espaço parece ser mais concreto e palpável do que o tempo, dimensão utilizada
pelas línguas orais-auditivas quando constituem suas estruturas através de sequências sonoras que
basicamente se transmitem temporalmente. (BRITO, 1998, p. 19).

Strobel e Fernandes (1998) afirmam que “uma foto é icônica porque reproduz a imagem do referente, isto
é, a pessoa ou coisa fotografada.” Na Libras podemos dizer que o mesmo fenômeno acontece.

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Figura 06: Sinal de telefone Figura 07: Sinal de borboleta

Fonte: Strobel e Fernandes (1998) Fonte: Strobel e Fernandes (1998)

As autoras afirmam ainda que “isso não significa que os sinais icônicos são iguais em todas as línguas”. Em
cada cultura, em cada sociedade, há um olhar diferente diante dos significados, portanto, o fato de um sinal
ser classificado como icônico no Brasil não significa que ele será o mesmo no mundo todo, como mostra o
exemplo que segue.

Figura 08: Sinal de telefone Figura 09: Sinal de borboleta

Fonte: Strobel e Fernandes (1998) Fonte: Strobel e Fernandes (1998)

Nesse exemplo, temos o sinal de “árvore” primeiramente em Libras e depois em Língua de sinais americana
– ASL. Esse sinal é considerado um sinal icônico, porém não é o mesmo sinal para os dois países. Para uma
comunidade convencionar um sinal há que se considerar suas peculiaridades culturais, seus diferentes olhares.

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5.2.2 Sinais arbitrários

Ao contrário dos sinais icônicos, os sinais arbitrários são aqueles que não mantêm nenhuma semelhança
com o dado da realidade que representam. “Uma das propriedades básicas de uma língua é a arbitrariedade
existente entre significante e referente”. (STROBEL; FERNANDES, 1998, p. 09).

As autoras afirmam, ainda, que durante muito tempo as línguas de sinais não eram consideradas línguas
por serem icônicas e porque não apresentavam conceitos abstratos. Pesquisas comprovaram que isso não é
verdade. As línguas de sinais são capazes de expressar qualquer intenção comunicativa, independentemente da
sua complexidade.

Figura 10: Sinal de conversar Figura 11: Sinal de depressa

Fonte: Strobel e Fernandes (1998) Fonte: Strobel e Fernandes (1998)


Os sinais apresentados, “conversar” e “depressa”, são exemplos de arbitrariedade ou sinais convencionais. Observe
que eles não fazem nenhuma alusão ao seu significado. Quem não é conhecedor da Libras não identifica o que o
sinal quer dizer.

5.3 Variação linguística

Gesser (2009) afirma que a crença de que as línguas de sinais são iguais em todo o mundo é muito comum.
A língua de sinais não é universal, por isso, quando nos referimos às usadas em diferentes países, chamamos
“as línguas de sinais”, pois são línguas diferentes. Cada país tem sua própria língua de sinais. Gesser (2009)
apresenta o seguinte exemplo para o sinal de “mãe”.

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Figura 12: O sinal de “mãe” em diferentes países.

Fonte: Gesser (2009)

Strobel e Fernandes (1998) afirmam ainda que:

Na maioria do mundo, há, pelo menos, uma língua de sinais usada amplamente na comunidade
surda de cada país, diferente daquela da língua falada utilizada na mesma área geográfica. Isto se dá
porque essas línguas são independentes das línguas orais, pois foram produzidas dentro das comuni-
dades surdas. (STROBEL; FERNANDES, 1998, p. 04).

Há que se destacar, ainda, as variações existentes na língua de sinais dentro de um mesmo país. Da mesma
forma que as línguas orais (no nosso caso, o português) apresentam dialetos, em que há diferentes formas de
dizer o mesmo significado, a Libras também tem algumas variações linguísticas, em que se pode expressar o
mesmo significado utilizando diferentes sinais. Dentre as variações, pontuamos três:

Variação regional: representa as variações de sinais de uma região para outra, no mesmo país.

Figura 13: Variação regional para o sinal de “mas”. O primeiro é usado no


Rio de Janeiro, o segundo, em São Paulo e o terceiro, em Curitiba.

Fonte: Strobel e Fernandes (1998)

Variação social: refere-se a variações na configuração das mãos (forma da mão) e/ou no movimento, não
modificando o sentido do sinal.

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Figura 14: Variação social para o sinal de “avião”.

Fonte: Strobel e Fernandes (1998)

Mudanças históricas: com o passar do tempo, um sinal pode sofrer alterações decorrentes dos costumes da
geração que o utiliza.

Figura 15: Mudança histórica para o sinal de “azul”.

Fonte: Strobel e Fernandes (1998)

Não podemos afirmar que há homogeneidade nem mesmo no uso individual de um mesmo sinal que deveria
ser igual. Isso pode variar de época para época, de região para região, de classe social para classe social, assim como
acontece com as línguas orais-auditivas. O que vai determinar a forma como o falante irá se expressar no discurso
vai depender de sua intenção comunicativa, do contexto, ou mesmo da faixa etária.

A variação é um aspecto de uma língua de sinais que, ao invés de torná-la mais difícil de adquirir proficiência,
confere a ela o status linguístico de língua por compartilhar com as línguas orais-auditivas dos mesmos fenômenos
linguísticos.

5.4 Sistema de transcrição da Libras

Com base em Felipe (2007), apresentamos, nas unidades 01, 02, 03 e 04 de nosso caderno de estudos, alguns
diálogos em Libras para que pudéssemos praticar. Esses diálogos apresentam uma estrutura diferenciada em relação à
estrutura da Língua Portuguesa porque foram elaborados da forma como são expressos em Libras. Porém, nem todos
os aspectos de transcrição em Libras foram contemplados nesses diálogos. Complementaremos esse conhecimento a
partir do estudo do sistema de transcrição da Libras.

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No quadro a seguir, apresentamos a forma escrita de se produzir textos em Libras, podendo, em seguida,
traduzi-los em sinais.

Quadro 1: Sistema de transcrição da Libras


CONCEITOS EXEMPLOS
Para efeito de simplificação, os itens lexicais da Língua Portuguesa
ESCOLA, PROFESSOR, SURDO
aparecem em letras maiúsculas.
A datilologia (alfabeto manual), que é usada para expressar nome
de pessoas, localidades e outras palavras que não possuem um
P-A-U-L-O / A-L-I-N-E
sinal, é representada pela palavra separada, letra por letra, por
hífen.
Quando um sinal é traduzido por duas ou mais palavras em
língua portuguesa, é representado pelas palavras correspondentes NÃO-É, LEMBRAR-NÃO, FICAR-À-VONTADE (livre)
separadas por hífen.
Na Libras, não há desinência para gênero (masculino e
feminino) e número. O sinal, representado por palavra da
língua portuguesa que possui essas marcas, será terminado AMIG@, MUIT@, TOD@, EL@.
com o símbolo @ para reforçar a ideia de ausência, evitando
confusão.
Um sinal composto, formado por dois ou mais sinais, é
CAVALO^LISTRA “zebra”
representado por duas ou mais palavras com a ideia de uma
CASA^ESTUDAR “escola”
única coisa, separadas pelo símbolo ^ .
O sinal soletrado, ou seja, uma palavra da língua portuguesa que,
por empréstimo, passou a pertencer à Libras por ser expressa pelo N-U-N-C-A “nunca”
alfabeto manual com uma incorporação de movimento próprio M-A-I-O “maio”
dessa língua, é representado pela datilologia do sinal em itálico.
Tradução da Libras: serão utilizadas aspas (“ ”) para tradu- NOME SEU? “qual seu nome”?
ção da Libras para o português. IDADE VOCÊ? “quantos anos você tem?”
a) tipos de frases: interrogativa ou... i ... negativa ou ...
neg ... Também pode-se usar: !, ? e ?!
NOME-SEUinterrogativa ou
Os traços não-manuais, expressões facial e corporal, que são NOME-SEU?
feitos simultaneamente com um sinal, são representados LINDOexclamativa ou
acima do sinal ao qual está acrescentando alguma ideia, que LINDO!
pode ser em relação ao: b) advérbio de modo ou um intensificador:
LONGEmuito
ANDARrapidamente
MORRERespantado
Os verbos que possuem concordância de gênero (pessoa, pessoaANDAR
coisa, animal) através de classificadores são representados veículoANDAR
pelo classificador em subscrito. coisa-arredondadaCOLOCAR

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a) a variável para o lugar:


i = ponto próximo à 1a pessoa
j = ponto próximo à 2a pessoa
k e k’ = pontos próximos à 3a pessoa
e = esquerda
d = direita
Os verbos que possuem concordância de lugar ou número-pessoal
através do movimento direcionado são representados pela palavra b) as pessoas gramaticais:
correspondente, com uma letra em subscrito que indicará: 1s, 2s, 3s = 1a, 2a e 3a pessoas do singular
1d, 2d, 3d = 1a, 2a e 3a pessoas do dual
1p, 2p, 3p = 1ª, 2ª e 3ª pessoas do plural

2sPERGUNTAR3P “você pergunta para eles/as”,


kdANDARk’e “andar da direita (d) para à esquerda (e)
1sENSINAR2s “eu ensino você”
Às vezes há uma marca de plural pela repetição do sinal.
GAROTA+
Esta marca é representada por uma cruz no lado direito do
ÁRVORE+
sinal que está sendo repetido.
Muitas-pessoasANDAR (md)
Usamos a representação (md) para sinais produzidos pela
PESSO@-MUIT@ANDAR (me) IGUAL (me)
mão direita e (me) se forem produzidos pela mão esquerda.
PESSOA-EM-PÉ (md)
Fonte: Produzido pela autora para fins didáticos

Apresentada a transcrição da Libras, passaremos ao conhecimento dos aspectos linguísticos fonológicos,


morfológicos, semânticos e pragmáticos.

5.5 Fonologia

Nas línguas de sinais, a fonologia “objetiva identificar a estrutura e a organização dos constituintes fonológicos,
propondo modelos descritivos e explanatórios.” (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 47).

É o ramo da linguística das línguas de sinais que determina quais são as unidades mínimas que formam os
sinais. Da mesma forma que unimos unidades mínimas, que são letras, para formar sílabas, e sílabas para formar
palavras, nas línguas orais, as línguas visuo-espaciais também têm uma estrutura definida para a formação de
sinais. A diferença é que nas línguas orais essas unidades são baseadas nos sons da fala, e nas línguas de sinais são
baseadas nos Parâmetros que são produzidos no corpo do sinalizante e no espaço em que sinaliza.

O primeiro a pesquisar sobre a fonologia das línguas de sinais foi Willian C. Stokoe. Em 1960, suas pesquisas foram
um “divisor de águas”. As pessoas acreditavam que as línguas de sinais eram gestos sem possibilidade de abstração e
Stokoe provou que poderiam ser “analisados em termos de um conjunto de propriedades distintivas (sem significado) e
de regras que manipulam tais propriedades.” (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 48). A partir das pesquisas de Stokoe,
outros linguistas, em todo o mundo, interessaram-se em pesquisar os aspectos gramaticais da língua de sinais de seu país.

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Os parâmetros definidos por Stokoe são chamados primários: configuração da mão, ponto de articulação
e movimento.

Configuração da mão: é a forma da mão quando se realiza um sinal. Não há um consenso na quantidade
exata de configurações de mão, mas, baseando-se na obra de Brito (1995), apresentamos, neste caderno de
estudos, 46 configurações. Algumas delas se modificam durante o sinal, começando com uma configuração e
terminando com outra, e outras são estáticas.

Figura 16: Configurações de mão

Fonte: Ferreira Brito (1995)

Ponto de Articulação: é o local onde o sinal será realizado. Poderá ser em algum ponto do corpo ou em
um espaço neutro, que é fora do corpo em um local não específico.

Movimento: os sinais podem apresentar algum tipo de movimento ou ser estáticos. São considerados com
movimento quando se deslocam no espaço e quando apresentam alguma alteração na configuração de mãos.
Muitas vezes o mesmo movimento em direção oposta pode significar uma ideia contrária. Eles podem ser
unidirecionais, bidirecionais ou multidirecionais.

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a) Unidirecional: movimento em uma direção no espaço.


Ex.: SENTAR, MANDAR, SOL, PROIBID@.

b) Bidirecional: pode ser realizado por uma ou ambas as mãos em direções diferentes.
Ex.: Uma mão – TER-NÃO; Duas mãos – ESCOLA, FENEIS, ENCONTRAR.

c) Multidirecional: exploram várias direções no espaço.


Ex.: AJUDAR, DIALOGAR, ENSINAR.

Os movimentos também podem ser: retilíneo, helicoidal, circular, semicircular, sinuoso, angular. Tomando
por base os estudos de Strobel e Fernandes (1998), Schmitt, Silva e Basso (2002, p. 52) elaboraram o seguinte
quadro:

Quadro 2: Tipos de movimento

Fonte: Schmitt, Silva e Basso (2002)

Os parâmetros secundários foram definidos por outros pesquisadores. A orientação de mão ou direção foi
definida por Battison (1974) e as marcas não manuais ou expressões não-manuais são contempladas no trabalho
de Baker (1983).

Orientação de mão ou direção: a direção da palma da mão durante a realização do sinal, que pode mudar
seu sentido dependendo da sua direção. Em Schmitt, Silva e Basso (2002), encontramos contribuições como
a apresentação de sinais que podem sofrer mudanças de orientação durante sua execução.

Ex.: MONTANH@, INTÉRPRETE, FRITAR.


Strobel e Fernandes (1998) pontuam outras variações na direção da palma da mão:
Para cima: ESCREVER, BASE, GARÇOM.
Para baixo: BAIX@, MENIN@, DEVAGAR.
Para o lado: PEIX@, BRASIL, GRÁTIS.
Para frente: EMPURRAR, MOSTRAR, PROMETER.

Marcas não-manuais ou expressões não-manuais: são as expressões faciais ou o movimento do corpo. A


expressão facial traz as marcas gramaticais de pontuação, como: afirmação, negação, interrogação e interjeição.
É através da expressão que traduzimos diferentes sentimentos e damos significado ao que estamos comunicando.

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A seguir apresentamos alguns sinais em que são identificadas as unidades mínimas da Libras, os cinco parâmetros,
os aspectos fonológicos estudados nesta unidade:

TRISTE

Configuração de mão:
Orientação de mão: para o lado do sinalizador.
Movimento: semicircular, de fora para dentro
Ponto de articulação: no queixo
Expressão: de tristeza

SABER

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Configuração de mão:
inicial final

Orientação de mão: para o lado do sinalizador.


Movimento: retilíneo, da cabeça para fora
Ponto de articulação: na lateral da cabeça, altura da testa
Expressão: depende do contexto

LIMPAR
Configuração de mão:

Orientação de mão: para baixo.


Movimento: retilíneo, do meio para as extremidades
Ponto de articulação: ponto neutro, na frente do tronco
Expressão: bochechas chupadas

5.6 Morfologia

A Morfologia “é a parte da gramática que estuda a estrutura e a formação das palavras.” (SCHIMTT; SILVA;
BASSO, 2002, p. 59).

Em português, existem os morfemas livres, também chamados de raiz, que são palavras que constituem
significado isoladamente. Há também os afixos, que podem ser prefixos e sufixos. Esses são morfemas presos,

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que se unem ao morfema livre para transformar seu significado. Como exemplo, utilizando o morfema livre ou
raiz “feliz”, podemos formar outras palavras utilizando o prefixo “in” (infeliz), mudando o sentido da palavra,
ou o sufixo “mente” (felizmente), transformando a palavra em um advérbio de modo.

A formação dos sinais origina-se dos parâmetros de configuração de mão, ponto de articulação, movimento,
expressão facial e corporal, sendo unidades mínimas com significado. Os processos de formações de sinais podem
ser por derivação, composição ou empréstimo linguístico.

Na derivação, juntamos um afixo a uma raiz. A raiz é um sinal que permanece inalterado, mas com alguma
modificação que lhe atribui outro significado. Assim, temos:

OLHAR para – movimento para frente


OLHAR fixo – parado
OLHAR incessante – movimento para frente e para trás
OLHAR contemplando – movimento circular
OLHAR várias vezes – movimento repetido

Na composição, pode-se criar um novo sinal a partir de dois ou mais sinais que se combinam e dão origem
a outra forma, com outro significado.

Para formarmos o sinal de:

ZEBRA, precisamos unir = CAVALO^LISTRAS-PELO-CORPO


MÃE, precisamos unir = MULHER^BÊNÇÃO

No caso de empréstimos linguísticos, temos os lexicais, os de inicialização, bem como sinais de outras
línguas de sinais, entre outros.

Os lexicais são a soletração da palavra quando ela não tem um sinal específico. Assim, temos:

P-A-R-A-L-E-L-E-P-I-P-I-D-O (não há sinal para esta palavra, é preciso soletrá-la ou digitalizá-la).

Nos empréstimos lingüísticos de inicialização, são utilizadas as configurações de mão do alfabeto manual
com a primeira letra da palavra escrita em português. Por exemplo:

[ B ] para produzir o sinal de BRASIL

[ C ] para produzir o sinal de CONFIAR

Na Libras, o empréstimo de outras línguas de sinais se dá quando adotamos um sinal utilizado em outro
país, como nestes casos:

ANO (próprio da língua de sinais americana)

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UNIDADE 5 - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS

LARANJA (língua de sinais francesa)


FALAR (língua de sinais francesa)

O estudo da morfologia das línguas de sinais vai bem além do que apresentado nesta unidade. Nesta oportunidade,
cabem os conhecimentos básicos que possam nos embasar para estudos mais profundos no futuro.

Conhecemos o sistema de formação de sinais na fonologia e morfologia, passaremos, a seguir, ao conhecimento


da classificação gramatical desses sinais na formação de sentenças.

5.7 Classes gramaticais

Da mesma forma como classificamos as palavras na língua portuguesa posicionando-as nas sentenças conforme
a convencionalidade da nossa língua, há, nas línguas de sinais, a classificação gramatical para os sinais conforme sua
função na produção das sentenças.

Para produzirmos sentenças em língua portuguesa, precisamos de pronomes, substantivos, verbos, adjetivos, advér-
bios, enfim, palavras que têm uma função na frase, na sentença. Em língua de sinais, temos essas mesmas categorias,
além de classificadores, verbos direcionais e não-direcionais, topicalização e outras peculiaridades pertencentes a esta
modalidade visuo-espacial.

Tomando por base Felipe (1997), apresentamos as classes gramaticais da língua brasileira de sinais, iniciando
pelos verbos que não possuem marca de concordância, embora possam ter flexão para aspecto verbal, e pelos
verbos que possuem marca de concordância.

Quando se faz uma frase com verbos do primeiro grupo, é como se eles ficassem no infinitivo, por exemplo:

a) EU   ESTUDAR FENEIS   “eu estudo na FENEIS”;


b) EL@ ESTUDAR FENEIS  “ele/a estuda na FENEIS”;
c) EL@ ESTUDAR FENEIS  “eles/as estudam na FENEIS.

Os verbos do segundo grupo podem ser subdivididos em: verbos que possuem concordância número-pessoal,
em que a orientação marca as pessoas do discurso. O ponto inicial concorda com o sujeito e o final com o objeto.
Exemplos:

a) 1sENSINAR2s  “eu ensino a você”;


b)  2sENSINAR1s  “você me ensina”

Há, também, os verbos que possuem concordância de gênero, definidos como verbos classificadores, porque
a eles estão incorporados, através da configuração de mão, uma concordância de gênero: PESSOA, ANIMAL ou
COISA. Utilizando os exemplos de Felipe (1997), temos:

a)  pessoaANDAR    (configuração da mão em G);

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LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS - UNIDADE 5

b)  veículoANDAR/MOVER (configuração da mão em 5 ou B, palma para baixo)


c)  animalANDAR (configuração da mão em 5 ou 5, palma para baixo);

Para os que possuem concordância com a localização, ou seja, verbos que começam ou terminam em um
determinado lugar que se refere ao lugar de uma pessoa, coisa, animal ou veículo, que está sendo colocado,
carregado, etc., o ponto de articulação marca a localização. Exemplos:

a) COPO  MESAk    coisa arredondadaCOLOCARk;


b) CABEÇAk   ATIRARk.

Segundo Felipe (1997), esses tipos de concordância podem coexistir em um mesmo verbo. Assim, há verbos
que possuem concordância de gênero e localização, como o verbo COLOCAR, apresentado no último exemplo;
e concordância número-pessoal e de gênero, como o verbo DAR.

Podemos esquematizar a concordância de verbo na Libras da seguinte forma:

Quadro 03: Concordância verbal na libras


1. concordância número-pessoal => parâmetro orientação
2. concordância de gênero e número => parâmetro configuração de mão
3. concordância de lugar => parâmetro ponto de articulação
Fonte: Felipe (1997)

5.7.1  Classificador na Libras

Ainda em Felipe (1997), podemos afirmar que, da mesma forma como podemos utilizar especificações em
português, esclarecendo ou detalhando aspectos relevantes para a informação, assim o fazemos com classificadores
na Libras.

Para que se compreenda melhor, os classificadores são configurações de mãos que, relacionadas a coisa,
pessoa e animal, funcionam como marcadores de concordância.

Para a pesquisadora, os classificadores para PESSOA e ANIMAL podem ter plural, que é marcado ao se representar
duas pessoas ou animais simultaneamente com as duas mãos ou fazendo um movimento repetido em relação ao número, e
os classificadores para COISA representam, através da concordância, uma característica desta coisa que está sendo o objeto
da ação verbal, como a seguir:

a) COPO   MESAk coisa arredondadaCOLOCARk;

b) 2 CARRO veículoANDAR-UM-ATRÁS-DO-OUTRO (md) veículoANDAR (me)

c) M-A-R-I-A  A-L-E-X  pessoaPASSAR-UM-PELO-OUTRO (md) pessoaPASSAR (me)

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UNIDADE 5 - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS

Felipe (2007) chama a atenção para que não se confundam, na libras, adjetivos com classificadores:

[...] não se deve confundir os classificadores, que são algumas configurações de mãos incorporadas
à raiz de certos tipos de verbos e que são obrigatórios, com os adjetivos descritivos que, nas línguas
de sinais, por estas serem gesto-visuais, representam iconicamente qualidades de objetivos. (FELIPE,
2007, p. 173).

A pesquisadora usa exemplos como cores e estampas de roupas para caracterizar adjetivos descritivos na
libras, pois estabelece uma relação de qualidade do objeto e não relação de concordância, que é a função do
classificador. Essa concordância pode ocorrer para pessoa, animal, coisa ou veículo.

Figura 17: Morfemas classificadores na Libras

Fonte: Felipe (2007)

A figura 17 apresenta alguns morfemas classificadores na Libras que utilizamos para produzir concordância
de pessoa, animal, coisa ou veículo.

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Figura 18: Classificador para PESSOA-ANDAR

Fonte: Felipe (2007)

Utilizando o classificador “V” apresentado na figura 17, podemos produzir ações de concordância como
“PESSOA-ANDAR”.

Figura 19: Classificador de CARRO-ANDAR

Fonte: Felipe (2007)

Utilizando o classificador “B1” apresentado na figura 17, podemos produzir a informação “VEÍCULO-
-ANDAR”.

Figura 20: Classificador para PESSOA-PASSAR-UMA-PELA-OUTRA

Fonte: Felipe (2007)

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Utilizando o classificador “G” apresentado na figura 17, podemos produzir uma concordância como “PESSOA-
-PASSAR-UMA-PELA-OUTRA”.

O estudo dos classificadores na Libras é amplo e recente, ainda há muito a se explorar nesta especificidade
desta língua. Para nossos objetivos nos limitamos ao conceito base, porém, iremos conhecendo mais exemplos
de seu uso em nossas tele-aulas.

5.7.2 Adjetivo na Libras

Os adjetivos, na Libras, apresentam a especificidade do substantivo, podendo ter sinais próprios ou ser descritos
por classificadores. Esses adjetivos com sinais próprios não precisam concordar com gênero (masculino e feminino),
e número (singular e plural), permanecem inalterados ao lado do substantivo. Podem sofrer alterações, caso haja
necessidade de especificidades que levem ao uso de classificadores.

Em português, quando uma pessoa se refere a um objeto como sendo arredondado, quadrado, lis-
trados, etc. está, também, descrevendo e classificando, mas na LIBRAS esse processo é mais “trans-
parente” porque o formato ou textura são traçados no espaço ou no corpo do emissor, em uma
tridimensionalidade permitida pela modalidade da língua. (FELIPE, 1997).

Na Libras, usam-se os adjetivos após os substantivos, como apresentam-se nas seguintes frases:

a) AGORA VOCÊ TRISTE MUITO-CHORAR, ANTES VOCÊ BONIT@, FELIZ, PRECISAR EVITAR
SOFRER

b) GAT@ COR CORPO AMAREL@ PREGUIÇOS@

c) MENINO@ PEQUEN@, COR CABELO VERMELH@, INTELIGENTE

5.7.3 Advérbios de tempo

Na Libras, a marca do tempo nas formas verbais acontece, sintaticamente, através de advérbios de tempo que
indicam se a ação está acontecendo no presente: HOJE, AGORA; aconteceu no passado: ONTEM, ANTE-
ONTEM; ou irá acontecer no futuro: AMANHÃ. Isso porque os verbos na libras apresentam a mesma forma
independente do tempo deste verbo, algo como os verbos no infinitivo na língua portuguesa. Por isso, os advér-
bios, geralmente, vêm no começo da frase, mas podem ser usados também no final. Quando queremos dizer no
PRESENTE ou ATUALMENTE, usamos o sinal de HOJE; se a intenção é falar do passado sem data definida,
basta usar o sinal de PASSADO; o mesmo ocorre com o futuro.

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5.7.4. Comparativo de igualdade, superioridade e inferioridade

Podemos fazer comparações em Libras do tipo: superioridade, inferioridade e igualdade. Para produzir os
sinais de superioridade e inferioridade, usam-se, primeiramente, os sinais MAIS, se o comparativo for para
mais, ou MENOS, se o comparativo for para menos e antes do adjetivo comparado, seguido da conjunção
comparativa DO-QUE, desta forma:

Para o comparativo de superioridade: (o que ou quem) sinal de MAIS e sinal de DO-QUE e (o que ou
quem);

Para o comparativo de inferioridade:  (o que ou quem) sinal de MENOS e sinal de DO-QUE (o que ou
quem).

Para o comparativo de igualdade, podem ser usados dois sinais: IGUAL (dedos indicadores e médios das
duas mãos roçando um no outro) e IGUAL (duas mãos em B, viradas para frente encostadas lado a lado),
geralmente no final da frase. (FELIPE, 1997). Veja nos exemplos:

a) VOCÊ MAIS BONIT@ DO-QUE EL@


b) VOCÊ MENOS ALTO@ DO-QUE EL@
c) VOCÊ-2 BONIT@ IGUAL (me) IGUAL (md)

5.7.5 Pronomes pessoais

Em Libras, também podem ser representadas a primeira, a segunda e a terceira pessoa do discurso, seja no
singular ou no plural.

Para primeira pessoa, temos:

• Singular (EU – dedo indicador apontando para o peito do próprio sinalizante);

• Dual (NÓS-2 – dedos indicador e médio formando a configuração da letra “k”, sendo que o dedo
médio aponta para o sinalizante e o indicador para o outro no discurso em movimento retilíneo de
um para o outro);

• Trial (NÓS-3 – dedos indicador, médio e anelar formando a configuração de mão da letra “w”, com
movimento circular passando pelos três sujeitos do discurso);

• Quatrial (NÓS-4 – dedos indicador, médio, anelar e mínimo formando a configuração de mão para o
número “4” com as pontas dos dedos para cima em movimento circular passando pelos quatro sujeitos
do discurso);

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• Plural (NÓS-GRUPO, NÓS-TOD@ - com as duas mãos encostando uma na outra através das pontas
dos dedos, formando um círculo, polegar com polegar, indicador com indicador e assim por diante.
Também é possível uma variação deste sinal ainda utilizando as duas mãos, sendo unidas pelos pulsos,
deixando os dedos separados. Um terceiro sinal também é usado com a configuração de mão em “d”,
em que o sinalizante aponta para seu próprio peito e inicia um movimento circular saindo do peito,
passando pelos sujeitos do discurso e parando no peito novamente);

Para segunda pessoa temos:

• Singular (VOCÊ – dedo indicador apontando para o receptor);

• Dual (VOCÊ-2 – dedos indicador e médio apontando para os dois receptores em movimentos repetidos
da direita para a esquerda);

• Trial (VOCÊ-3 – dedos indicador, médio e anelar apontando para os três receptores em movimentos
repetidos da direita para a esquerda);

• Quatrial (VOCÊ-4 – dedos indicador, médio, anelar e mínimo apontando para os quatro receptores
em movimentos repetidos da direita para a esquerda);

• Plural (VOCÊ-GRUPO, VOCÊ-TOD@ - dedo indicador na configuração de mão “d” apontando


para os receptores em movimento semicircular).

Para terceira pessoa temos:

• Singular (EL@ - dedo indicador apontando para o receptor. Caso seja necessário identificar o sexo a
quem se refere, faz-se antes o sinal de Homem ou Mulher. Isto vale para todas as situações em que se
encontre esta necessidade);

• Dual (EL@-2 – dedos indicador e médio apontando para os dois receptores em movimentos repetidos
da direita para a esquerda);

• Trial (EL@-3 – dedos indicador, médio e anelar apontando para os três receptores em movimentos
repetidos da direita para a esquerda);

• Quatrial (EL@-4 – dedos indicador, médio, anelar e mínimo apontando para os quatro receptores da
direita para a esquerda);

• Plural(EL@-GRUPO, EL@TOD@ - dedo indicador na configuração de mão “d” apontando para os


receptores em movimento semi-circular).

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LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS - UNIDADE 5

5.7.6 Pronomes demonstrativos e advérbios de lugar

Na Libras, os pronomes demonstrativos (este, esta, aquele, aquela, isto, aquilo) e os advérbios de lugar
(aqui, ali, lá) têm o mesmo sinal. Para utilizá-los, diferenciando seus significados, basta que relacionemos o
contexto e a expressão facial.

A configuração de mãos destes pronomes e advérbios é a mesma dos pronomes pessoais (mão em “d”),
modificando os pontos de articulação e a direção do olhar. Estes pronomes utilizam o apontamento que se
direciona conforme a distância e local sobre a perspectiva do sinalizante.

EU   olhando para o receptor     EST@ / AQUI  olhando para o lugar apontado, perto do emissor   (perspectiva do emissor)
VOCÊ   olhando para o receptor ESS@ / AÍ  olhando para o lugar apontado, perto da 2a. pessoa   (perspectiva do emissor)
EL@     olhando para o receptor AQUEL@ / LÁ  olhando para o lugar  convencionado para 3a pessoa ou coisas afastadas

Por esses exemplos de Felipe (1997), é possível compreender essa perspectiva.

5.7.7 Pronomes possessivos

Os pronomes possessivos têm, na Libras, a mesma função que na língua portuguesa: apresentar o possuidor:
meu, seu, teu, nosso.

Para a primeira pessoa (ME@), utilizamos a mão aberta batendo a palma da mão no peito ou configuração de
mão em “p”, ponto de articulação inicial encostando na testa e ponto de articulação final encostando no peito.

Para a segunda pessoa (SE@, TE@), utilizamos a configuração de mão em “p”, orientação de mão inicial
de frente para o sinalizante e final de costas para o sinalizante. O movimento é retilíneo, do sinalizante para o
receptor.

Para primeira e segunda pessoa (NOSS@), utilizam-se os dois sinais, primeiramente ME@ e em seguida
SE@ ou TE@, sejam eles no singular ou plural.

5.7.8 Pronomes interrogativos: QUE, QUEM, ONDE

Os pronomes interrogativos, na Libras, aparecem sempre acompanhados da expressão facial de pergunta.

Geralmente, os pronomes interrogativos QUE e QUEM são usados no início da frase, mas o pronome
interrogativo ONDE e QUEM (quando está sendo usado com o sentido de “quem-é” ou “de quem é”) são
mais usados no final.

QUEM VIVER AQUI?


QUEM TIRAR ISSO?

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PESSOA, QUEM-É?       “Quem é esta pessoa?”


CARRO, QUEM-É        “De quem é este carro?”
Já dentro de um contexto, se o telefone TDD tocar, usa-se “QUEM-É?”

5.7.9 QUAL, COMO, PARA-QUE e POR-QUE

Os pronomes interrogativos QUAL, COMO e PARA-QUE, são usados, geralmente, no final das frases, mas,
não está incorreto usá-los no início. Quando o emissor percebe a necessidade de dar ênfase a esses pronomes,
coloca-os, então, no final da frase, para dar notoriedade aos olhos do receptor.

O pronome interrogativo QUAL pode ser utilizado em duas situações: uma, para questionar objetivos que
não se podem ver, e outra, para fazer seleção entre objetos que se podem ver ou visualizar imaginariamente.
Para cada situação, há um sinal distinto. No caso:

QUAL-DESTES LÁPIS VOCÊ QUER?


CASA MAIS BONIT@. BRANC@ OU AZUL. QUAL?
SE@ CARRO QUAL?
VOCÊ TER NAMORAD@? QUAL NOME?

O pronome interrogativo COMO é utilizado para solicitar detalhes de uma informação.


VOCÊ IR ESCOLA AMANHÃ CARRO ÔNIBUS A-PÉ? COMO?
EL@ COMPRAR CASA? COMO TER DINHEIRO?
EL@ TER NAMORAD@. COMO-É?

O pronome interrogativo PARA-QUE é utilizado para solicitar uma justificativa.


FALAR MAL EL@ PRA-QUE?
IR-EMBORA CEDO, PRA-QUE?

POR-QUE: é usado o mesmo sinal para pergunta e para resposta, fazendo-se a distinção na expressão facial.
POR-QUE FALTAR ONTEM AULA?
POR-QUE VIAJAR.

5.7.10 QUANDO, DIA, QUE-HORA, QUANTAS-HORAS

Estes também são pronomes interrogativos. Em Libras, para produzirmos uma frase interrogativa, sempre
usamos expressão facial e expressão corporal. Dessa forma, produzimos esses sinais junto com a expressão.

A pergunta com QUANDO está relacionada a um advérbio de tempo na resposta ou a um dia


específico. Por isso há três sinais diferentes para “quando”. Um que especifica passado: QUANDO-
PASSADO (palma da mão com um movimento para o corpo do emissor), outro que especifica
futuro: QUANDO-FUTURO (palma da mão com um movimento para fora do corpo do emissor),
e outro que especifica o dia: DIA. (FELIPE, 1997).

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LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS - UNIDADE 5

Alguns exemplos:
EL@ VIAJAR SANTA CATARINA QUANDO-PASSADO?
EL@ COMEÇAR TRABALHAR QUANDO-FUTURO?
EU TER PROVA JÁ MARCAD@ DIA 5 ABRIL.

5.7.11 QUE-HORAS e QUANTAS-HORAS

Para nos referirmos a horas, em Libras, usamos os mesmos sinais dos números quantitativas em que, de 1 a
4, a posição dos dedos fica para cima, seja para sinalizar a hora do relógio ou a quantidade de horas.

A expressão interrogativa QUE-HORAS? (sinalizada através do apontar para o pulso onde se usa o relógio),
está relacionada ao tempo cronológico. Exemplo:

a) AULA COMEÇAR QUE-HORAS?


b) EL@ TRABALHAR COMEÇAR QUE-HORAS?
c) CURSO TERMINAR QUE-HORAS?
d) VOCÊ ACORDAR QUE-HORAS?
e) VOCÊ DORMIR QUE-HORAS?

Para a expressão interrogativa QUANTAS-HORAS (a configuração de mão é em “d” ou o número “1” quan-
titativa, o ponto de articulação é no rosto, a orientação de mão é com a palma da mão para baixo em relação ao
sinalizante e o movimento é circular repetidas vezes ao redor do rosto). Este sinal é usado para perguntar o tempo
gasto para realizar alguma atividade.

Vejamos alguns exemplos:

a) VIAJAR SANTA CATARINA QUANTAS-HORAS?


b) TRABALHAR ESCOLA QUANTAS-HORAS?

5.7.12 Expressões idiomáticas relacionadas ao ano sideral

A expressão da ideia de “dia”, em Libras, é produzida de três formas diferentes, dependendo da intenção
comunicativa. O sinal digitalizado D-I-A é usado para expressar dia do calendário, dia do mês. O sinal DIA
é usado para expressar uma data específica ou a condição do dia. O sinal DIA com a incorporação de sinais
numerais é usado para expressar a duração do tempo.

a) Para D-I-A:
D-I-A ONTEM?
ONTEM D-I-A 19
b) Para DIA:
FELIZ DIA MÃ@
HOJE DIA LINDO

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c) Para DIA como duração:


VIAJAR ITAJAÍ ÔNIBUS EU CANSAD@ DIA-2
“Eu estou cansada porque viajei 2 dias de ônibus para o Itajaí.”
EL@ ATRASAD@ DIA-5
“Ele está atrasado 5 dias.”

Também podemos incorporar numerais de 1 a 4 aos sinais de SEMANA, MÊS, ANO e VEZ, por exemplo:

a) MÊS-1, MÊS-2, MÊS-3, MÊS-4:


EL@ GRÁVIDA MÊS-4
VOCÊ TRABALHAR ESCOLA MÊS-1

b) SEMANA-1, SEMANA-2, SEMANA-3, SEMANA-4:


EU VIAJAR SEMANA-2
EL@ QUERER FÉRIAS SEMANA-4

c) ANO-1, AN0-2, ANO-3:


NÓS-2 CASAD@ ANO-2
CURSO TER ANO-3

d) VEZ-1, VEZ-2, VEZ-3, MUIT@-VEZ@:


EU ESTUDAR PROVA VEZ-1
NÓS PERDER AULA VEZ-3

Os numerais aparecem incorporados ao sinal até o número 4; do número 5 em diante, faz-se o sinal e, em
seguida, o número desejado. Por exemplo:

DIA 5, DIA 23, SEMANA 10, ANO 8

Caso a intenção seja referir-se a vários dias, ou seja, a frequência, basta incorporar movimentos repetidos ao
sinal, o mesmo sinal repetidas vezes:

a) TODOS-OS-DIAS  -  movimento repetido do sinal DIA

Caso a intenção seja referir-se ao dia todo, faz-se um movimento alongado depois do sinal DIA.

a) DIA: configuração de mão em “d”, ponto de articulação lateral superior da cabeça, orientação de mão de
costas para o sinalizante, movimento retilíneo da lateral da cabeça para fora. Em seguida, o sinal INTEIRO:
configuração de mão em “b” nas duas mãos, mas com o polegar ao lado da mão e não na frente; ponto de
articulação na frente do tronco, orientação de mão inicial, palmas das mãos para baixo, movimento deslizando
uma mão sobre a outra até o punho, partindo para um movimento circular para cima, parando no mesmo
ponto inicial sobre a mão parada. Na orientação de mão final, a mão que ficou parada permanece com a palma
para baixo e a outra, que fez o movimento circular, encerra com a palma para cima. Assim, termos:

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LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS - UNIDADE 5

a) DIA INTEIRO  - “o dia todo”

Caso a intenção seja referir-se ao mesmo dia da semana repetidas vezes, faz-se o sinal deste dia: SEGUNDA-
-FEIRA, TERÇA-FEIRA, etc. e, em seguida, faz-se o sinal de frequência TOD@: configuração de mão em “b”,
ponto de articulação na frente do corpo, orientação de mão com a palma de lado para o sinalizante, movimento
retilíneo de cima para baixo, lembrando a linha do calendário em que, de cima para baixo, a mesma linha repre-
senta o mesmo dia.

a) SEGUNDA TOD@ - “todas as segundas”


b) DOMINGO TOD@ - “todos os domingos

5.7.13 Numeral na Libras

Assim como em outras línguas, a Libras também apresenta formas diferentes para expressar numerais cardinais,
ordinais, quantitativos, para medida, idade, dias da semana ou mês, horas e valores monetários.

A configuração de mão difere em numerais como PRIMEIR@, PRIMEIRAMENTE, PRIMEIRO-ANDAR.


O numeral cardinal 1 é diferente da quantidade 1, que é diferente de dizer MÊS-1. Até o número 4, as confi-
gurações são diferentes para cardinais e quantitativos; a partir do numeral 5 são iguais. Os numerais cardinais e
ordinais têm a mesma configuração de mão, mas movimentos diferentes.

Para expressar números repetidos, como 11, 22, 33, 44 e assim por diante, basta repetir o movimento da
direita para a esquerda algumas vezes.

Quantidades como: medida, idade, dias, meses, horas e valores monetários apresentam a mesma configuração
de mão.

5.7.14 Utilização dos numerais para valores monetários, pesos e medidas

Em Libras, para expressar valores monetários, usamos os sinais de VÍRGULA e PONTO. As configurações
de mão são as mesmas usadas para os numerais quantitativos.

Como exemplo, 1 REAL e 50 CENTAVOS, faz o sinal UM (configuração de mão em “d”), sinal de VÍRGULA
(desenhada no ar), os sinais CINCO e ZERO e, finalmente, sinal de CENTAVOS (configuração de mão em “c”,
ponto de articulação na frente do tronco, orientação de mão de lado para o sinalizante e o movimento é o mesmo
usado para “ç”).

Para expressar milhar, usa-se o sinal de PONTO no ar, como, por exemplo: UM-MIL DUZENTOS.
UM-MIL - configuração de mão em “d”, ponto de articulação na frente do tronco, orientação de mão inicial
para baixo, movimento retilíneo do sinalizante para frente, orientação de mão final para cima; DUZENTOS
– configuração de mão em “v” e dois zeros, produzidos em seguida, um ao lado do outro.

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De um a quatro mil, a configuração de mão apresenta o número a que se refere; a partir de 5 mil, primeiramente
se faz o número e, depois, o sinal de PONTO.

Para MILHÃO e BILHÃO, faz-se o número e, em seguida, para MILHÃO, configuração de mão em “m”,
ponto de articulação na lateral do rosto na altura da bochecha, orientação de mão de costas para o sinalizante
e movimento retilíneo do rosto para frente. Para BILHÃO muda-se apenas a configuração de mão para “b”.

Para o sinal REAL, a configuração de mão é “r”, ponto de articulação na frente do tronco, orientação de
mão de costas para o sinalizante e movimento repetido da direita para a esquerda. Esse sinal aparece ao final
de toda numeração.

5.7.15 Português Sinalizado

Com base em Felipe (1997), foi possível conhecer alguns aspectos gramaticais da Libras, como as classes
gramaticais. Foi possível perceber que a Libras apresenta elementos gramaticais assim como qualquer outra
língua oral, porém, tem suas próprias formas estruturais, suas expressões idiomáticas e, portanto, não se pode
usar a Libras com base na estrutura da língua portuguesa.

Se confrontarmos algumas frases em português com as mesmas em Libras, perceberemos diferenças:

a) Português: Qual é o seu nome?


Libras: NOME? (expressão facial de perguntar)

b) Português: O supermercado é ali.


Libras: SUPERMERCADO ALI É.

c) Português: Ela é muito bonita.


Libras: EL@ BONIT@(muito)

Obs.: a intensidade do adjetivo (bonita) aparece na expressão. O sinal MUITO só é usado para quantidade
e não para intensidade. O verbo de ligação “é” não se usa em libras, esta língua não possui nenhum tipo de
verbo de ligação. A expressão “É” só aparece no final de frases em que há a necessidade de confirmação, como
no exemplo b.

Para falarmos em língua de sinais, precisamos conhecer sua estrutura, suas expressões idiomáticas, seu vocabulário
próprio. Ao darmos um sinal para cada palavra baseados na estrutura frasal do português, estamos fazendo português
sinalizado em não Libras.

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LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS - UNIDADE 5

5.7.16 Sintaxe

A sintaxe “é a parte da gramática de uma língua que estuda a disposição ou ordem das palavras na frase e a
disposição ou ordem das frases no discurso, bem como a relação lógica das frases entre si”. (SCHIMTT, SILVA
e BASSO, 2002).
Existem regras de construção sintática convencionadas socialmente nas línguas orais que caracterizam estas
línguas. Em português, por exemplo, seguimos basicamente a sequência: sujeito, verbo e objeto ou complemento
(S V O). Dessa forma, não se admite dizer: “quarto no brinca menino o” e sim “o menino brinca no quarto”.

Em Libras, a ordem básica é SVO também, com algumas variações. É possível observar essa peculiaridade
com relação às frases, onde o espaço tem uma função muito importante. Exemplo:

a) CARRO-BATER-POSTE. Nesse exemplo, toda a sinalização é simultânea, utilizando-se uma mão como
sujeito incorporando o verbo e a outra mão como objeto sofrendo a ação do sujeito.

A linearidade dessa ordem básica (SVO) e o uso do espaço encontram-se em alguns verbos, como DAR. O
sinalizante produz o sinal DAR iniciando o movimento de si em direção ao receptor. A variação de número de
pessoa aparece na exploração do espaço. Se o sinalizante diz DAR para mais de uma pessoa (dar para cada um),
irá direcionar esse sinal para cada pessoa que se encontra na informação, reproduzindo o mesmo movimento
tantas vezes quantas precisar.

O uso de expressões não manuais, ou seja, expressões faciais que representam interrogações, ironia, afirmações,
negações, dúvidas, espanto, etc., não estão expressas diretamente nos sinais, mas na sua execução simultânea com
o sinal.

Os verbos variam em verbos com concordância e sem concordância. Os verbos com concordância também
são chamados verbos direcionais, pois se produzem do sinalizante na direção do receptor. Alguns desses verbos
são: ENSINAR, AVISAR, AJUDAR, DAR, CUIDAR, VER, MANDAR, etc.

a) 1sAVISAR2s

b) 2sAVISAR3s

Os verbos que não possuem marcas de concordância não se direcionam ao receptor; independentemente do
número de pessoa, o verbo não muda seus parâmetros. A concordância se dá através do apontamento. Alguns
destes verbos são: CONHECER, GOSTAR, LEMBRAR, PERDER, AMAR, etc.

a) EU AMAR VOCÊ.
b) EL@ AMAR EU.
c) ME@ PAI AMAR MAMÃE.

A direção do olhar também constitui a concordância em língua de sinais. Não apenas o corpo e o sinal
devem dirigir-se ao receptor, mas o olhar acompanha este movimento.

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UNIDADE 5 - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS

5.7.17 Semântica

Semântica é “a parte da gramática que estuda os aspectos relacionados ao sentido de palavras e enunciados”.
(SCHIMTT; SILVA; BASSO, 2002).

Assim como nas línguas orais-auditivas, a Libras apresenta dois níveis nos estudos das relações de significado:

1. nível lexical – antonímia, sinonímia, polissemia e parônimos;

2. nível da sentença – significado da estrutura e ambiguidade.

Iniciando pelo nível lexical, a antonímia refere-se a sinais que apresentam significados opostos, também
chamados de antônimos.

a) GRAND@ - PEQUEN@
b) BONIT@ - FEI@
c) ALT@ - BAIX@

A sinonímia refere-se a sinais diferentes que apresentam o mesmo significado, também chamados de sinônimos.

a) FELIZ – existem diferentes sinais que expressam este mesmo significado.

b) POBRE – existem diferentes sinais que expressam este mesmo significado.

São inúmeros os sinônimos em libras. No dicionário Capovilla e Raphael (2001), podem ser encontrados
diversos exemplos.

A polissemia refere-se a sinais idênticos com significados diferentes.

a) SÁBADO / LARANJA / ALARANJADO


b) OCUPAD@ / PROIBID@ / NÃO-PODER
c) AÇÚCAR / DOCE / GUARDANAPO

Os parônimos referem-se aos sinais semelhantes na execução dos parâmetros com sentidos diferentes.

a) AMANHÃ e FÁCIL
b) PECADO e SALÁRIO
c) VIDA e NÚMERO

No nível das sentenças, estudamos o significado da estrutura, ou seja, a possibilidade de expressar o mesmo
significado de diferentes formas, tornando estas sentenças sinônimas:

a) JOÃO FELIZ SEMPRE;

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LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS - UNIDADE 5

b) JOÃO NUNCA TRISTE.

Vejamos outros exemplos:

a) M-A-R-I-A DOC@ COMPRAR


b) M-A-R-I-A BOMBO@ BAL@ COMPRAR
ou
a) INTELIGENTE VOCÊ
b) BURRO VOCÊ-NÃO

Como é possível observar, a mudança não alterou o sentido da frase.

Nas sentenças antônimas, ocorre que mudamos as palavras e também o sentido da sentença:

a) EL@ TER BLUSA BONIT@


b) EL@ TER BLUSA FEI@
ou
a) INTELIGENTE VOCÊ
b) BURRO VOCÊ

Em português, é comum algumas colocações apresentarem ambiguidade:

a) José contou a João que sua mulher saiu do emprego.

É impossível saber se a mulher que saiu do emprego foi a mulher de José ou a de João. Em libras, isso já não
ocorreria, pois José e João são referentes marcados no espaço, o que determina a direção da informação. Em
Libras teríamos explícitas as duas possibilidades:

a) JOSÉ CONTAR JOÃO MULHER DELE SAIR EMPREGO.

José contou a João que sua mulher (de João) saiu do emprego.

b) JOÃO CONTAR JOSÉ MULHER DELE (de José) SAIR EMPREGO.

João contou a José que sua mulher saiu do emprego.

Em Libras, a direção do olhar e a marcação no espaço de cada pessoa a quem se refere impede a ambiguidade. Os
dêiticos (apontamento) e os pronomes possessivos (dele, dela) também são utilizados na informação, portanto, não
ocorre ambiguidade em língua de sinais.

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UNIDADE 5 - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS

5.7.18 Pragmática

Pragmática “é o estudo dos fatores contextuais que determinam os usos linguísticos nas situações de comunicação”.
(SCHIMTT; SILVA; BASSO, 2002).

Para Quadros e Karnopp (2004), “a pragmática envolve as relações entre linguagem e o contexto”.

A pragmática é um estudo recente no meio científico para a área da linguística. Entendia-se que os estudos da
pragmática estavam ligados aos estudos da semântica. No Brasil, a pesquisadora Ferreira Brito vem apresentando
importantes contribuições sobre os estudos da pragmática na libras, com foco nos atos da fala.

Quando usamos o termo “fala”, não estamos nos restringindo à fala que envolve produção de sons articulados,
como é o caso da fala oral.

Fala é entendida aqui como enunciação, discurso, diálogo. Por isso, não diz respeito apenas à fala
oral, mas também à fala gestual ou sinalização.
A Lingüística define atos de fala como sendo a análise de um enunciado em relação às intenções de
um falante (no caso dos surdos, de um sinalizador) e dos efeitos provocados no interlocutor (ouvinte
ou surdo).
Ferreira Brito (1995) enfatiza que os atos de fala “são fenômenos que podem ilustrar a relação entre
intenções, situações e significados e entre as regras de linguagem e sociais”. Para ela e para outros pes-
quisadores, a realização de um ato de fala não apenas procura comunicar um significado referencial, mas
também influenciar ativamente o destinatário de algum modo. (SCHIMTT; SILVA; BASSO, 2002).

O estudo da pragmática envolve a intenção comunicativa, ou seja, o objetivo do emissor é que vai deter-
minar a forma como ele vai se direcionar ao receptor. Nossa sociedade convencionou regras sociais para nos
dirigirmos às pessoas. Podemos adicionar a nossa fala tons de comando, ordem, pedido ou polidez, como no
seguinte exemplo:

a) As correspondências estão prontas. Envie-as para seus destinatários.

Essa mesma fala pode ser emitida em tom de pedido ou de ordem. Em muitos momentos, deparamos com
situações em que as pessoas falam conosco e, dependendo da forma como se dirigem, pensamos “pelo jeito que
ele falou já entendi o que quis dizer”. Ou, ainda, quando nos ressentimos com algo que nos dizem e argumen-
tamos “não foi o que você falou, mas sim o jeito que você falou”, ou seja, pela forma como a pessoa se dirige a
nós, podemos interpretar e perceber qual sua intenção comunicativa.

Ferreira Brito (1995) fez um estudo sobre o pedido e as estratégias de polidez na Libras. “Polidez é um
Adjetivo que indica delicadeza, cortesia, civilidade, urbanidade.” (SCHIMTT; SILVA; BASSO, 2002).

Em Lingüística, polidez significa a indicação dessas qualidades no discurso, através da escolha do tom
de voz (para ouvintes), de formas de tratamento mais ou menos formais (você X o senhor, o chama-
mento pelo pronome ou pelo sobrenome, etc.), ou de marcadores como, por favor, por gentileza,
obrigado, etc. Percebemos que nos pedidos e nas estratégias de polidez estão presentes elementos
como a auto-imagem (positiva ou negativa) dos interlocutores e o uso adequado das estratégias de
acordo com a situação e o contexto. (SCHIMTT; SILVA; BASSO, 2002).

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LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS - UNIDADE 5

Alguns determinantes dessas estratégias são as variáveis sociais. Estão presentes na nossa cultura quatro
tipos de variáveis, segundo Ferreira Brito (1995):

1ª) A Distância Social – reflete a classe social de cada interlocutor e os bens materiais ou não materiais que
possuem.

2ª) Poder – mostra a relação assimétrica (desigual) entre os interlocutores. Por exemplo, professores X alunos,
chefe X trabalhadores, mães e pais X filhos, etc. Na interação dentro da sala de aula o professor tem mais poder
que os alunos, por exemplo.

3ª) Escala de Imposição em Proporção ao Custo de Serviços e Bem ou Custo do Pedido: envolve o valor do
que é pedido ou o tempo gasto, etc. A pesquisadora inclui uma 4a variável social.

4ª) Intimidade ou Familiaridade: pode ser definida como a relação familiar existente entre os participantes
de uma interação e não depende das classes sociais a que pertencem. (FERREIRA BRITO, 1995).

Considera-se que os pedidos de desculpa, por favor, com licença, as expressões faciais, as formas de trata-
mento amigável, as demonstrações de interesse e simpatia também são estratégias de polidez, convencionados
em meio à cultura surda.

É sabido que as expressões faciais e corporais são fundamentais para a produção comunicativa em línguas
de sinais. Dessa forma, a intenção comunicativa do emissor (sinalizador ou sinalizante) está presente na sua
expressão facial ou corporal ou nas duas, se estiverem relacionadas. O que os ouvintes expressam através do
tom de voz, a pessoa surda expressa através das expressões facial e corporal. Os mesmos sinais usados de dife-
rentes formas, com diferentes expressões podem representar diferentes informações ou intenção comunicativa.

Quando a pessoa surda sinaliza:


COMPRIDA SAIA SUA!
Ou
COMPRIDA SAIA SUA.

Pode ser com expressão de afirmação ou ironia. O mesmo pode ocorrer nas línguas orais.

Dessa forma, concluímos que as línguas de sinais compartilham com as línguas orais dos mesmos fenômenos
linguísticos, o que confere a ela o mesmo status linguístico enquanto língua.

O assunto é bastante complexo, portanto, é imprescindível que você acompanhe nossas aulas postadas
no ambiente. Você poderá compreender melhor a linguística da Libras com os exemplos apresentados.
Não deixe de assistir aos vídeos que estão disponíveis no ambiente SOPHIA!

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UNIDADE 5 - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS

PARA SINTETIZAR

A Libras é a Língua Brasileira de Sinais. Alguns a chamam de LSB – Língua de Sinais Brasileira. Na libras,
no lugar das palavras, a comunidade falante da língua visuo-espacial utiliza os sinais.

Alem dos sinais, a Libras também se constitui por alfabeto manual, que é utilizado para digitalizar nomes,
endereços, marcas ou outra informação que não tenha um sinal próprio.

Os sinais da Libras podem ser icônicos, ou seja, que fazem alusão à imagem do seu significado, como o de-
senho do objeto no espaço; arbitrários, que não mantêm nenhuma semelhança com o dado da realidade que
representam; ou ter variação linguística, porque não podemos afirmar que há homogeneidade nem mesmo
no uso individual de um mesmo sinal que deveria ser igual. Isso pode variar de época para época, de região para
região, de classe social para classe social, assim como acontece com as línguas orais-auditivas.

A Libras apresenta uma forma de ser transcrita, em que os textos escritos podem ser, em seguida, traduzidos
em sinais, uma vez que foram convencionadas formas e símbolos que nos informam como produzi-los em
sinais.

A Libras também é constituída de fonologia, que vem a ser o ramo da linguística das línguas de sinais que
determina quais são as unidades mínimas que formam os sinais. Essas unidades mínimas são os parâmetros
primários definidos por Stokoe: configuração das mãos, ponto de articulação e movimento.

Configuração das mãos: é a forma da mão quando se realiza um sinal. Ponto de Articulação: é o local onde
o sinal será realizado. Movimento: os sinais podem apresentar algum tipo de movimento ou serem estáticos.
A orientação de mão ou direção foi definida por Battison (1974) e as marcas não manuais ou expressões não-
-manuais são contempladas no trabalho de Baker (1983). Orientação de mão ou direção: é a direção da palma
da mão durante a realização do sinal, que pode mudar seu sentido dependendo da sua direção. Marcas não-
-manuais ou expressões não-manuais: são as expressões faciais ou o movimento do corpo.

A Morfologia é a parte da gramática que estuda a estrutura e a formação das palavras, no caso da Libras, a
formação dos sinais.

Destacamos também que, da mesma forma como classificamos as palavras na língua portuguesa posicio-
nando-as nas sentenças conforme a convencionalidade da nossa língua, há, nas línguas de sinais, a classificação
gramatical para os sinais conforme sua função na produção das sentenças.

A comunicação em Libras também se constitui de classificadores, que são configurações de mãos que, rela-
cionadas à coisa, pessoa e animal, funcionam como marcadores de concordância.

Na Libras, a marca do tempo nas formas verbais acontece sintaticamente através de advérbios de tempo,
que indicam se a ação está acontecendo no presente, no passado ou no futuro.

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LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS - UNIDADE 5

Os adjetivos, na Libras, apresentam a especificidade do substantivo, podendo ter sinais próprios ou ser
descritas por classificadores.

Também podemos fazer comparações em Libras: superioridade, inferioridade e igualdade.

No caso dos pronomes pessoais, também podem ser representadas a primeira, a segunda e a terceira pessoa
do discurso, seja no singular ou no plural.

Na Libras, os pronomes demonstrativos (este, esta, aquele, aquela, isto, aquilo) e os advérbios de lugar
(aqui, ali, lá) têm o mesmo sinal. Para utilizá-los diferenciando seus significados, basta que relacionemos o
contexto e a expressão facial.

Os pronomes possessivos têm, na Libras, a mesma função que na língua portuguesa, que é apresentar o
possuidor: meu, seu, teu, nosso.

Os pronomes interrogativos QUE, QUEM, ONDE, QUANDO, DIA, QUE-HORA, QUANTAS-HORAS,


na Libras, aparecem sempre acompanhados da expressão facial de pergunta.

Os pronomes interrogativos QUAL, COMO e PARA-QUE são usados, geralmente, no final das frases,
mas, não está incorreto usá-los no início, sempre com a expressão facial de pergunta.

Para QUE-HORAS e QUANTAS-HORAS usamos os mesmos sinais dos números quantitativos em que,
de 1 a 4, a posição dos dedos fica para cima, seja para sinalizar a hora do relógio ou a quantidade de horas.

A Libras também apresenta expressões idiomáticas. Para as relacionadas ao ano sideral, destacamos a expres-
são da ideia de “dia”, que é produzida de três formas diferentes, dependendo da intenção comunicativa. O sinal
digitalizado D-I-A é usado para expressar dia do calendário, dia do mês. O sinal DIA é usado para expressar
uma data específica ou a condição do dia. O sinal DIA com a incorporação de sinais numerais é usado para
expressar a duração do tempo.

Assim como em outras línguas, a Libras também apresenta formas diferentes para expressar numerais cardinais,
ordinais, quantitativos, para medida, idade, dias da semana ou mês, horas e valores monetários.

Em Libras, para expressar valores monetários, usamos os sinais de VÍRGULA e PONTO. As configurações
de mão são as mesmas usadas para os numerais quantitativos.

Foi possível perceber que a Libras apresenta elementos gramaticais assim como qualquer outra língua oral,
porém, esta língua se constitui de suas próprias formas estruturais, suas expressões idiomáticas, o que nos leva
a não poder usar a libras com base na estrutura da língua portuguesa.

A sintaxe é a parte da gramática de uma língua que estuda a disposição ou ordem das palavras na frase e a
disposição ou ordem das frases no discurso, bem como a relação lógica das frases entre si, no caso da libras, a
ordem dos sinais na frase.

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UNIDADE 5 - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS

Semântica é a parte da gramática que estuda os aspectos relacionados ao sentido de palavras e enunciados,
no caso da libras, o sentido dos sinais dentro do contexto.

Pragmática é o estudo dos fatores contextuais que determinam os usos linguísticos nas situações de comu-
nicação.

Dessa forma, concluímos que as línguas de sinais compartilham com as línguas orais dos mesmos fenôme-
nos linguísticos, o que confere a elas o mesmo status linguístico enquanto língua.

REVISANDO O VOCABULÁRIO ABC

Semiótica: é o estudo dos signos, ou seja, as representações das coisas do mundo que estão em nossa mente.
A semiótica ajuda a entender como as pessoas interpretam mensagens, interagem com objetos, pensam e se
emocionam.

Sinalizante: é a pessoa que está falando em língua de sinais.

EXERCÍCIOS DE APRENDIZAGEM

1. Nesta unidade, conhecemos alguns aspectos da língua brasileira de sinais, dentre eles os sinais icônicos e
arbitrários e variação linguística. Baseando-se no que você estudou sobre esses tipos de sinais, descreva os que
se apresentam:

A) BICICLETA

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LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS - UNIDADE 5

B) FÁCIL FÁCIL

C) CONSEGUIR

D) VERDADE

E) PÁSSARO

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UNIDADE 5 - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS

Relacione os sinais apresentados aos tipos de sinais da desta coluna:

( ) icônico
( ) icônico
( ) arbitrário
( ) arbitrário
( ) variação linguística

Assinale a resposta correta:

a) A, B, D, E, C;
b) A, E, C, D, B;
c) B, A, D, E, C;
d) B, E, C, D, A.

2. A semântica é o estudo do significado da palavra. A semântica apresenta dois níveis: o lexical e o das
sentenças. No nível lexical, temos: antonímia, sinonímia, polissemia e parônimos. Relacione os sinais aos seus
níveis lexicais:

a) BONIT@ FEI@

b) CANTAR CANTAR

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LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS - UNIDADE 5

c) SÁBADO LARANJA

d) AMANHÃ FÁCIL

Relacione os sinais aos seus níveis lexicais:

( ) antonímia
( ) sinonímia
( ) polissemia
( ) parônimo

Assinale a alternativa correta:

a) D, C, B, A;
b) C, D, A, B;
c) B, D, C, A;
d) A, B, C, D.

3. A fonologia, nas línguas de sinais, estuda as unidades mínimas que compõem o sinal: configuração de
mão, ponto de articulação, orientação de mão, movimento e expressão. Descreva cada uma dessas unidades
nos sinais que seguem:

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UNIDADE 5 - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS

a) FELIZ
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________

b) QUERER
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________
___________________________________________________________________________________

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LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS - UNIDADE 5

COMENTÁRIO DOS EXERCÍCIOS

Questão 01:
A alternativa correta é a B. Os sinais icônicos podem ser facilmente identificados, pois representam a forma
de seu significado, portanto, os sinais de BICICLETA e PÁSSARO são icônicos. Os arbitrários só podem ser
identificados se já forem conhecidos pelo sinalizante, pois não representam a forma de seu significado. Nos
exemplos do exercício, referem-se a CONSEGUIR e VERDADE. A variação linguística ocorre com aqueles
sinais que têm o mesmo significado, que são usados no mesmo contexto, mas podem ser expressos de formas
diferentes. É o caso do sinal de FÁCIL, usado no Paraná de forma diferente do sinal de FÁCIL usado no Rio
de Janeiro. Os dois estão corretos, são regionalismos, um fenômeno linguístico presente também nas línguas
orais e algo perfeitamente natural.

Questão 02:
A alternativa correta é D. No nível lexical antonímia, os sinais relacionam-se por seus sentidos opostos, no
caso BONIT@ e FEI@ são antônimos. Na sinonímia, os sinais relacionam-se por seus sentidos iguais, apesar de
serem diferentes, como é o caso de CANTAR. A polissemia apresenta sinais idênticos, mas que têm significados
totalmente diferentes, dependendo do contexto em que se aplicam, como no caso de SÁBADO e LARANJA. Os
parônimos são sinais parecidos, mas com significados diferentes, como AMANHÃ e SABER-NÃO.

Questão 03:
O sinal de FELIZ apresenta configuração de mão em “f”, ponto de articulação ao lado da cabeça, orientação
de mão com a palma da mão de lado para o sinalizante, movimento de cima para baixo em zig-zag, e expressão de
felicidade, sorrindo. O sinal de QUERER apresenta a seguinte configuração de mão: , ponto de articulação
no ponto neutro – frente do tronco, orientação com a palma da mão para cima, movimento repetitivo para frente e
para trás, expressão dependendo do contexto em que se insere, isso porque se pode produzir esse sinal em intenção
comunicativa de pergunta, resposta, interjeição, negação ou outros.

SAIBA MAIS

Ainda são poucas as pesquisas sobre a linguística da língua brasileira de sinais, porém, além dos livros de
nossas referências, podemos encontrar mais informações em alguns sites:

1) http://www.feneismg.org.br/doc/Aspectos_linguisticos_Libras.pdf

2) http://www.periodicoseletronicos.ufma.br/index.php/littera/article/viewFile/299/227

3) http://www.ronice.cce.prof.ufsc.br/index_arquivos/Page435.htm

4) http://pt.scribd.com/doc/22653284/A-Gramatica-de-Libras-LUCINDA-FERREIRA-BRITO

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UNIDADE 5 - LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS

A internet é uma importante ferramenta na difusão da língua brasileira de sinais. Através do mundo virtual,
muitas pessoas podem ter acesso a cursos de libras gratuitos, informações sobre a história, cultura e identidade
surda, além de conhecimentos referentes à linguística desta língua.

REFERÊNCIAS

DADA, Zanúbia. Matemática em Libras. Revista Virtual de Cultura Surda e Diversidade – RVCSD. Editora
Arara Azul, 2007. Disponível em: <http://editora-arara-azul.com.br/novoeaa/revista/?p=991>. Acessado em:
08 out, 2012.

FELIPE, Tânia A. Introdução à gramática da Libras. 1997. Disponível em: <http://www.librasemcontexto.


org/index.php?option=com_content&view=article&id=55:introducao-a-gramatica-da-libras&catid=36:capit
ulo&Itemid=53> Acesso em: 26 jan. 2012.

______; MONTEIRO, Myrna. Libras em contexto: curso básico. Programa Nacional de Apoio à Educação
Surda. Secretaria Educação Especial. Brasília, DF. 2001.

______. Libras em contexto: curso básico: livro do estudante. 8. ed. Rio de Janeiro: WalPrint Gráfica e Editora,
2007.

FERREIRA BRITO, Lucinda. A Gramática de Libras. (Série Atualidades Pedagógicas). In: Brasil, Secretaria
de Educação Especial, Brasília, 1997.

Disponível em: <http://pt.scribd.com/doc/22653284/A-GramaticadeLibrasLUCINDAFERREIRA-BRITO>.


Acesso em: 26 jan. 2012.

______. Por uma gramática da de Língua de Sinais. Rio de Janeiro. Tempo Brasileiro. UFRJ-RJ. Departa-
mento de Linguística e Filosofia, 1995.

GESSER, Audrei. LIBRAS? Que língua é essa?: crenças e preconceitos em torno da língua de sinais e da
realidade surda. São Paulo: Parábola, 2009.

GOLDFELD, Márcia. A criança surda: linguagem e cognição numa perspectiva sócio-interacionista. 2. ed.
São Paulo: Plexus, 2002.

QUADROS, R. M; KARNOPP, L. B. Língua de sinais brasileira: estudos lingüísticos. Porto Alegre: Artmed,
2004.

PEDREIRA, Sílvia Maria Fangueiro. Educação inclusiva de surdos/as numa perspectiva intercultural.
Trabalho apresentado na 30ª Reunião Anual da Anped, sessão especial “Educação Especial”, Caxambu, 2007.
Disponível em: <www.anped.org.br/reunioes/30ra/trabalhos/GT15-3014--Int.pdf>. Acesso em: 12 abr. 2011.

46 - Univali • EaD Escola de Educação


LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS - UNIDADE 5

SCHMITT, Deonísio; SILVA, Fábio Irineu da; BASSO, Idavania Maria Souza. Curso de pedagogia para
surdos: Língua brasileira de sinais. Orientação em lingüística: Ronice Müller de Quadros. Florianópolis, SC:
UDESC: CEAD, 2002.

STROBEL, Karen Lilian; FERNANDES, Sueli. Aspectos linguísticos da língua brasileira de sinais. Secre-
taria de Estado da Educação. Superintendência de Educação. Departamento de Educação Especial. Curitiba:
SEED/SUED/DEE 1998.

NA PRÓXIMA UNIDADE

Conheceremos algumas teorias e experiências para o ensino de língua portuguesa para surdos. É o momento
para refletirmos sobre nossa prática pedagógica.

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