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Avaliação da qualidade de projetos –

uma abordagem perceptiva e


cognitiva
Evaluation of design quality – a perceptive and cognitive
approach

Antônio Tarcísio da Luz Reis


Maria Cristina Dias Lay

Resumo
ste artigo trata da avaliação da qualidade de projetos urbanos e de

E edificações, através da abordagem perceptiva e cognitiva adotada na


área de estudos Ambiente-Comportamento. Os conceitos de percepção
e cognição são definidos e relacionados à avaliação de projetos. A
importância de tal abordagem para a qualificação do ambiente construído é
salientada. São apresentados exemplos de sucesso e de insucesso em projetos
urbanos e em edificações, em função, respectivamente, da consideração e da
desconsideração de uma abordagem de projeto e de avaliação da qualidade de
projetos que estivesse caracterizada pela percepção dos usuários de tais projetos ou
de projetos similares. São propostas categorias definidoras da qualidade urbana
que servem para estruturar os aspectos físicos associados à qualidade do espaço
construído. Essas categorias propostas estão fundamentadas na natureza de tais
Antônio Tarcísio da Luz aspectos físicos quanto à estética, ao uso e à estrutura do espaço construído.
Reis
Programa de Pós-Graduação em Palavras-chave: avaliação; qualidade de projetos, abordagem perceptiva, abordagem
Planejamento Urbano e cognitiva; percepção ambiental; desempenho do ambiente construído.
Regional
Universidade Federal do Rio
Grande do Sul Abstract
Praça Carlos Simão Arnt 21, ap.
202, Bela Vista
This paper deals with evaluation of quality of urban and building design through
Porto Alegre – RS – Brasil the perceptive and cognitive approach, adopted in the area of Environment-
CEP 90450-110 Behaviour Studies. The concepts of perception and cognition are defined and
Tel.: (51) 3316-3152
Fax.: (51) 3316-3145 related to design evaluation. The importance of such approach for the
E-mail: tarcisio@orion.ufrgs.br qualification of the built environment is emphasized. Successful and unsuccessful
urban and building designs are exemplified as consequences, respectively, of the
Maria Cristina Dias Lay consideration and disregard of design and evaluation of design quality approach
Programa de Pós-Graduação em characterized by the users’ perception of such designs or similar designs. A set of
Planejamento Urbano e
Regional categories that define urban quality are proposed, helping to structure the physical
Universidade Federal do Rio aspects associated to the quality of the built environment. These proposed
Grande do Sul
E-mail: cristina.lay@ufrgs.br
categories are based on the nature of such physical aspects concerning aesthetics,
use, and the structure of the built environment.
Recebido em 17/04/06 Key-words: evaluation; design quality, perceptive approach, cognitive approach;
Aceito em 22/05/06 environmental perception; performance of the built environment.

Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 6, n. 3, p. 21-34, jul./set. 2006. 21


ISSN 1415-8876 © 2006, Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído. Todos os direitos reservados.
Introdução
A abordagem perceptiva e cognitiva é adotada na Com base nos argumentos precedentes, são
área de estudos Ambiente-Comportamento, que propostas as categorias definidoras da qualidade
tem por objetivo investigar as relações entre as urbana, que servem para estruturar os aspectos
características físico-espaciais do ambiente físicos associados à qualidade do espaço
construído e o comportamento dos indivíduos, construído. Essas categorias estão fundamentadas
focando, principalmente, na aplicação de métodos na natureza de tais aspectos físicos, quanto à
das ciências sociais para analisar e avaliar a estética, ao uso e à estrutura do espaço construído.
qualidade do ambiente construído (LAY; REIS,
2005; MITCHELL, 1993).
Percepção, cognição e a
A abordagem perceptiva e cognitiva na avaliação
da qualidade de projetos urbanos e de edificações, avaliação da qualidade de
ao considerar o usuário de tais projetos, assume projetos
que a qualidade deles está diretamente ligada às
atitudes e aos comportamentos de seus usuários, Embora os conceitos de percepção e cognição
como conseqüência das experiências espaciais tenham sido empregados numa variedade de
possibilitadas pelos projetos. Considerando que situações, nem sempre consistentes, por psicólogos
projeto diz sobre a organização espacial para a e outros cientistas sociais (por exemplo,
realização das atividades previstas, não se pode GOLLEDGE; STIMSON, 1997), tenta-se, a
falar em qualidade de projeto ou de projeto seguir, esclarecer as principais características deles
qualificado sem saber se as atividades previstas e relacioná-los à avaliação da qualidade de
são realizadas de maneira satisfatória. projetos e desempenho do ambiente construído.
Logo, a avaliação da qualidade de projeto
relaciona-se diretamente à avaliação de Conceito de percepção
desempenho de edificações e de espaços urbanos,
através de seus usuários. Edificações e espaços O conceito de percepção tem sido compreendido e
urbanos que apresentam um desempenho definido, fundamentalmente, de duas maneiras
satisfatório, como resultado de avaliações (ver, por exemplo, RAPOPORT, 1977): uma cujo
envolvendo os usuários, podem ser considerados conceito é relacionado à interação entre o espaço e
projetos qualificados. Contudo, considerando a o usuário, exclusivamente, através dos sentidos
possibilidade de determinados aspectos relevantes básicos (visão, olfato, audição, tato e paladar) (por
(como, por exemplo, financeiros, ecológicos, exemplo, WEBER, 1995); outra, relacionado à
energéticos) não serem incluídos numa avaliação interação entre o espaço e o usuário, através dos
de desempenho envolvendo os usuários, parece sentidos básicos e de outros fatores tais como
mais apropriado dizer que projetos julgados como memória, personalidade, cultura e tipo de
qualificados devem, necessariamente, apresentar transmissão (por exemplo, GIBSON, 1966).
um desempenho satisfatório como resultado de A primeira foi considerada até o final dos anos
avaliações envolvendo os usuários, embora esta 1950 por alguns psicólogos (por exemplo, Hull e
possa não ser uma condição suficiente, em Skinner) que entendiam ser os cinco sentidos
determinados casos, para qualificar o projeto. básicos os únicos determinantes das respostas
Portanto, partindo da premissa de que qualidade de humanas, com um enfoque exclusivo, em muitos
projeto, assim como avaliação da qualidade de casos, na percepção visual. Sabe-se que, embora as
projeto, relaciona-se diretamente à avaliação de respostas humanas não estejam baseadas
desempenho de edificações e de espaços urbanos, exclusivamente nos sentidos, elas também podem
através de seus usuários, este artigo aborda um ser o resultado direto dos estímulos sensoriais
conjunto de pontos considerados como relevantes provocados pelo ambiente construído. Esse é o
para o entendimento e a importância da abordagem caso de muitas reações humanas a composições
perceptiva e cognitiva na avaliação da qualidade arquitetônicas nos espaços urbanos. Por exemplo,
de projetos. São exemplificados sucessos e muitas cidades históricas, em diversos locais do
insucessos de projetos urbanos e de edificações, mundo, tendem a provocar uma reação positiva em
em função, respectivamente, da consideração e da seus usuários em função da consistência formal
desconsideração de uma abordagem de projeto e existente entre os elementos constituintes das
de avaliação da qualidade de projetos similares que edificações, assim como entre as edificações. Isso
estivesse caracterizada pela percepção dos usuários se explica pelo fato de os estímulos visuais
de tais projetos ou projetos similares. apresentarem ordem, considerada uma necessidade
fisiológica humana, independentemente da cultura

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e/ou de outros fatores. “Ordem perceptiva é uma Comportamento como dependente ou como um
conseqüência de processos fisiológicos que estão subconjunto ou função da cognição. Percepção
baseados em princípios biológicos natos” seria afetada pelas estruturas cognitivas do
(WEBER, 1995, p. 110). A Gestalt já identificara indivíduo através da seleção do que perceber,
padrões formais que tendiam a provocar estímulos sendo tratada como um subsistema da cognição
visuais e reações similares em pessoas com (ver, por exemplo, MOORE; GOLLEDGE, 1976,
distintas formações culturais (por exemplo, PRAK, referindo-se a WAPNER; WERNER, 1957).
1985). Conforme salientado por Weber: Portanto, o conceito de percepção é compreendido
Percepção pode ser considerada como um tanto como uma experiência exclusivamente
processo autônomo da aplicação de conceitos sensorial do indivíduo quanto como uma
adquiridos por experiência prévia. [...] embora experiência caracterizada pelo conjunto de
iniciado através de comportamento individual, o informações e valores que o indivíduo dispõe
próprio processo físico de percepção é
independente de qualquer influência exercida
sobre o ambiente. Enquanto uma teoria da
pelo conjunto de esquemas cognitivos de um percepção enfatiza a primeira definição, outras
indivíduo e, portanto, é também independente de teorias enfatizam a segunda. Todavia, é importante
tais processos cognitivos internos como a diferenciação da experiência exclusivamente
imaginação, memória, e reconhecimento. sensorial da experiência cognitiva, já que estas
(WEBER, 1995, p. 74, 76, 77). apresentam implicações para as intervenções
Independentemente das diferentes definições arquitetônicas e urbanas e para a avaliação da
aplicadas ao conceito de percepção, por diferentes qualidade de projetos e desempenho do ambiente
psicólogos e outros cientistas sociais e construído; por exemplo, as características
comportamentais, Moore e Golledge (1976) morfológicas podem ser percebidas da mesma
afirmam que percepção está, intrinsecamente, maneira por indivíduos com diferentes
ligada ao imediato e é dependente dos estímulos, experiências, memórias, valores e motivações.
de suas propriedades físicas. Assim, o conceito de
percepção, entendido dessa maneira, possibilita Conceito de cognição
explicar, por exemplo, por que uma determinada
composição arquitetônica ou partes de uma cidade Cognição é o processo de construção de sentido na
provocam respostas estéticas satisfatórias por parte mente, cumulativo, que se forma através da
de seus observadores ou não. Ainda, o termo experiência cotidiana (conforme Piaget), sendo
“percepção” tende a ser associado à percepção complementar à percepção, quando esta é tratada
visual, em função de a visão ser o sentido como exclusivamente sensorial, relacionada à
dominante nos seres humanos, fornecendo bem experiência direta com o ambiente. É através da
mais informação do que todos os outros sentidos cognição que as sensações adquirem valores,
combinados: som, cheiro e tato não respondem por significados, e formam uma imagem no universo
mais de 10% de nosso estímulo sensorial, enquanto de conhecimento do indivíduo, envolvendo
mais de 80% é estímulo visual (PORTEOUS, necessariamente reconhecimento, memória e
1996). pensamento (por exemplo, WEBER, 1995), e
gerando expectativas sobre o ambiente, que se
A segunda maneira, adotada por autores de
traduzem em atitudes e comportamentos dos
diversas disciplinas (por exemplo, DOWNS;
usuários.
STEA, 1973; ITTELSON, 1973, 1978;
RAPOPORT, 1977), trata do conceito de A cognição ambiental está relacionada com o
percepção como a totalidade do processo de aprendizado e a memória, através do
interação do usuário com o ambiente construído, armazenamento, organização, reconstrução e
envolvendo a etapa relacionada aos estímulos de chamamento de imagens dos atributos ambientais
nossos sentidos, e a etapa relacionada ao que não estão disponíveis no ambiente físico num
envolvimento de vários fatores registrados na primeiro momento. Os processos de aprendizado,
nossa memória e de nossa personalidade (por memória e generalização são fundamentais no
exemplo, GOLLEDGE; STIMSON, 1997). Nesse desenvolvimento da capacidade dos indivíduos de
sentido, o conceito de percepção pode ser adaptar suas atividades a um dado ambiente
entendido como a totalidade do processo de construído e/ou adaptar o ambiente construído,
interação entre usuário e espaço, e tende a ser através de intervenções físicas, às suas
confundido com o conceito de cognição. Ainda, a necessidades. A maneira como edifícios e cidades
percepção pode ser entendida por alguns são usados depende, em grande parte, da
pesquisadores (por exemplo, DOWNS; STEA, intensidade com que suas estruturas são
1973; ITTLESON, 1973, 1978; NEISSER, 1976; memorizadas e lembradas. A importância da
RAPOPORT, 1977) na área de estudos Ambiente- cognição como um fator mediador entre o

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indivíduo e o ambiente é reconhecida de sua história, suas motivações, expectativas e
(GOLLEDGE; STIMSON, 1997). valores individuais, não podendo ser explicado em
Embora os processos de percepção e cognição termos de respostas condicionadas a um estímulo.
A importante contribuição dessa teoria é o
sejam parte de um mesmo evento, funcionalmente
percepção ocorre antes de o indivíduo se tornar reconhecimento de que a experiência prévia
consciente do significado e do valor de um objeto, determina em que os indivíduos prestam atenção
no seu meio, e qual a sua importância
isto é, antes do processo de cognição. Logo, a
distinção, por exemplo, entre forma e significado (ITTELSON, 1973). Nesse caso, o conceito de
justifica-se com base na distinção entre percepção cognição parece ser mais adequado para explicar
os pressupostos teóricos.
e cognição; significado, ao contrário da forma, não
resulta diretamente de um padrão de estímulo e A Teoria da Gestalt argumenta que existe uma
trata-se de interpretação através da qual valor é experiência direta e imediata das qualidades
atribuído com base em conceitos extramórficos, expressivas na percepção de linhas, planos,
independentes da forma (WEBER, 1995). volumes ou massas. Essa experiência seria o
Ainda, os conceitos de percepção e cognição resultado não de uma associação intelectual, mas
remetem a uma diferenciação em termos de de uma ressonância entre processos neurológicos e
padrões ambientais; edifícios pareceriam vibrantes,
extensão geográfica ou escala espacial e
simultaneidade temporal; enquanto percepção serenos ou pesados como resultado de um processo
refere-se a algo dentro do nosso campo de visão, a biológico, remetendo ao conceito de isomorfismo.
Este explica a experiência perceptiva e os
algo imediato, cognição refere-se a um contexto
espacial mais amplo, quando os espaços de processos neurológicos inerentes ao ser humano,
cujas associações de padrões visuais não são
interesse estão obstruídos visualmente ou quando
são tão extensos que não podem ser percebidos ou subjetivas (LANG, 1987). A Teoria da Gestalt e as
apreendidos de uma única vez (GOLLEDGE; suas leis sobre organização visual permitem a
compreensão da percepção visual do ambiente
STIMSON, 1997). Esses espaços de grande escala
têm que ser registrados na memória e organizados construído, na medida em que as relações formais
cognitivamente para conter eventos e objetos que entre os elementos arquitetônicos, que compõem
as edificações e o cenário urbano, podem ser
estão fora do campo sensorial imediato da pessoa
(WEBER, 1995; GOLLEDGE; STIMSON, 1997). analisadas através de tais leis, revelando a maior
ou menor ordem compositiva existente no
Assim, na relação entre o ambiente construído e os ambiente. O conceito de percepção, entendido
seus usuários, o conceito de percepção serve para como experiência sensorial, se adapta a essa teoria.
explicar reações ao ambiente construído imediato
baseadas, exclusivamente, nos sentidos, enquanto A Teoria Ecológica desenvolvida pelos psicólogos
o conceito de cognição serve para explicar reações James Gibson e Eleanor Gibson (1960) está
baseada na informação ambiental (por isso,
ao ambiente construído mais amplo baseadas, além
de nos sentidos, nos valores, conhecimento, ecológica) e tenta responder às questões de como
personalidade, etc. Contudo, é importante também nós conhecemos o ambiente e quais as relações
existentes nele (LANG, 1974). O processo de
considerar que, muitas vezes, incluindo este artigo,
por uma questão de adequação ou familiaridade de percepção ambiental é explicado em termos da
linguagem, é utilizado um termo relativo à natureza das propriedades dos estímulos
ambientais (GIBSON, 1950, 1960, 1966, 1979). A
percepção, e não à cognição, para designar a
interação entre o espaço construído e o usuário, atenção é seletiva: indivíduos prestam atenção no
que já é conhecido e naquilo em que estão
como, por exemplo, quando se fazem referências
às “percepções dos indivíduos no espaço urbano” e motivados a reconhecer, o que depende de suas
não às “cognições dos indivíduos no espaço experiências anteriores. A percepção é guiada por
um esquema mental antecipatório: indivíduos
urbano”, ao “processo de percepção” ou à
“percepção ambiental”. percebem aquilo que sabem como encontrar. O
esquema mental direciona a exploração, enquanto
a experiência pode modificar o esquema mental.
Teorias da percepção e da cognição De acordo com a teoria ecológica, os significados
dependem de associações aprendidas pelos
As teorias associadas aos processos de percepção e indivíduos, assim como as atitudes destes em
de cognição refletem as distinções entre esses relação aos significados também são aprendidas
conceitos. A Teoria Transacionalista ou Empirista (LANG, 1987). Introduz-se o conceito de
(por exemplo, Helmhotz, Titchner, Carr, Adelbert affordance (GIBSON, 1979), aquilo que é
Ames, Hadley Cantril e William Ittelson) defende proporcionado pelo ambiente, e o conceito de
que o que é percebido por um indivíduo depende ambiente comportamental (behavior setting),

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referindo-se às propriedades físicas da (1974) e de Marans e Rodgers (1975), nos quais
configuração de um ambiente, que o capacitam a são exploradas as inter-relações existentes entre
ser usado de uma forma particular, por comportamento e qualidades ambientais
determinado grupo de usuários, significando aquilo percebidas pelos moradores. Modelos conceituais
que o ambiente oferece de positivo ou negativo em têm o propósito de proporcionar um quadro
função das propriedades físicas de sua simplificado e inteligível da realidade, para poder
configuração, limitando ou estendendo as escolhas melhor compreendê-la, e permitir previsões com
estéticas e comportamentais do usuário potencial. base nessa compreensão. A maior diferença entre o
Portanto, além de reconhecer a importância do modelo proposto e os demais está na ênfase dada
ambiente em determinar oportunidades e restrições ao processo interativo e dinâmico da avaliação
em função de suas características, assume-se que comportamental, com base na premissa de que
diferentes padrões ambientais proporcionam indivíduos e o ambiente construído continuamente
diferentes comportamentos e experiências formam e influenciam um ao outro por meio de
estéticas. O ambiente construído é considerado respostas ativas dos indivíduos, adotando o
como um meio de comunicação não verbal, comportamento manifesto pelos indivíduos como
provendo pistas para o comportamento. Rapoport principal indicador de desempenho; por exemplo, a
(1973) confirma que propriedades físicas e maneira e a freqüência com que os espaços
espaciais do ambiente construído podem carregar externos de um conjunto habitacional são usados e
significados, que servem como comunicadores, o nível de manutenção desses espaços indicam,
codificados na forma construída e decodificados simultaneamente e de modo mensurável, as
pelo usuário, dando pistas com respeito aos percepções, atitudes, comportamentos e avaliações
padrões comportamentais esperados ou adaptados, de seus usuários.
facilitando ou inibindo seus usos. Assim, a Teoria Embora a literatura relevante na área Ambiente-
Ecológica considera o conceito ou o processo de
Comportamento (por exemplo, PROSHANSKY et
percepção não como uma experiência al., 1970; HOLAHAN, 1978; MICHELSON,
exclusivamente sensorial, mas como influenciado 1975) indique que a avaliação ambiental feita
por aspectos incluídos no conceito ou no processo
pelos usuários é mediada pela percepção de
de cognição. atributos ambientais, a qual está sujeita a filtros
socioculturais e psicológicos que influenciam os
Implicações dos conceitos de percepção padrões de comportamento, existem diversas
e cognição e das teorias para a posições com relação ao grau com que o ambiente
afeta o indivíduo. A posição dominante
avaliação da qualidade de projetos e correntemente afirma que existem importantes,
desempenho do ambiente construído mas não determinantes (ao contrário do chamado
Através dos conceitos de percepção e cognição, e determinismo arquitetônico), efeitos da forma
das teorias acima expostas, pode-se inferir que a construída sobre o comportamento e que esses
análise e a avaliação do ambiente físico são efeitos têm a ver com o ambiente construído, na
realizadas por meio dos processos de percepção e medida em que este pode apoiar, facilitar ou inibir
cognição, que permitem o estabelecimento de comportamentos. Por exemplo, o ambiente físico-
relações, entre o indivíduo e o ambiente físico, espacial pode facilitar ou inibir a ocorrência de
baseadas num conjunto de transações entre os crime, mas não determina a ocorrência dele, que
estímulos sensoriais percebidos e as experiências depende da atitude prévia do potencial criminoso.
prévias dos usuários, e os seus valores e Essa posição também pode ser chamada de
motivações, que vão influenciar as reações físicas “influencismo”, termo utilizado por Darke (1982)
(comportamento) e mentais (atitudes) dos usuários como um conceito oposto ao de determinismo.
em relação ao ambiente físico. Portanto, para A modelagem das relações entre indivíduo e
avaliar a qualidade de projetos e o desempenho ambiente, a consideração do efeito do ambiente
ambiental, faz-se necessário não somente medir as sobre as atitudes e o comportamento do indivíduo
atitudes dos usuários em relação a componentes têm implicações para o projeto e para a avaliação
ambientais específicos, como também identificar da qualidade do projeto de edificações e de
como o seu comportamento é influenciado pela espaços abertos. As decisões de projeto deveriam
percepção da presença, da ausência ou do grau de considerar os resultados de pesquisas na área
responsividade desses componentes. Ambiente-Comportamento, partindo do
Para definir medidas válidas para a avaliação da pressuposto de que as predições são mais acuradas
qualidade de projetos e de desempenho do quando refletem um conhecimento do existente, e
ambiente construído, foi desenvolvido um modelo que é possível aferir os erros (patologias) e acertos
conceitual (LAY, 1992) baseado nos de Bandura no projeto construído em uso, a ser avaliado a

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partir do ponto de vista do usuário (REIS; LAY, arquitetura, e demolido em 1972, a pedido dos
1995; ZEISEL, 1986). Portanto, o projeto do residentes, em função da total inadequação das
espaço deveria estar sustentado num conjunto de edificações às suas necessidades (MITCHELL,
características físico-espaciais que respondessem 1993; GREGER; STEINBERG, 1988), trazem à
às necessidades de seus usuários, características tona a importância em se conhecer as necessidades
estas que podem ser descritas como categorias dos usuários.
definidoras da qualidade do projeto do ambiente
A falta de resposta adequada às necessidades dos
construído, a serem apresentadas neste artigo. usuários também pode ser exemplificada em outros
projetos premiados de arquitetos conhecidos
A importância da abordagem internacionalmente. Por exemplo, o projeto
vencedor para o State of Illinois Center (Centro do
perceptiva e cognitiva para a Estado de Illinois; Figura 2) em Chicago, projetado
qualificação do ambiente por Helmut Jahn, apresenta uma série de
problemas relatados pelos usuários tais como
construído aqueles relacionados à falta de conforto térmico no
A década de 50 é um momento de reação e verão e no inverno em função da extensa área
reflexão, com críticas sobre problemas oriundos da envidraçada voltada para sul, à falta de conforto
aplicação dos modelos propostos pelos acústico em função do vasto átrio ou hall, que
planejadores modernistas, tais como: seu permite a penetração do som gerado em tal espaço
distanciamento do mundo real, o planejamento nos escritórios com planta livre nos vários andares,
urbano nos moldes do zoneamento de funções, o à falta de privacidade e à “acrofobia” (medo ou
conceito de homem-tipo, e modelos construtivos ansiedade excessiva e persistente devido à altura)
que priorizavam grandes áreas coletivas, sem em função do grande pé-direito e vazio do átrio
controle e avaliação do que vinha sendo produzido. central e da proximidade dele com os seus locais
É criticada a subdivisão da cidade em unidades de trabalho (MITCHELL, 1993).
distintas, o que impõe uma disciplina rígida Ainda, o Bronx Development Center (Centro de
comparável à estrutura de galhos de árvores, Desenvolvimento do Bronx), em Nova York,
impedindo a criação de laços, o que distinguiria completado em 1976 por Richard Meier e
cidades “naturais” de cidades “artificiais” Associados, consiste de um conjunto com blocos
(ALEXANDER, 1966). Constata-se falta de de quatro pavimentos revestidos com chapas de
consistência formal e variedade articulada entre as alumínio polidas, destinado a abrigar crianças com
edificações, de caracterização dos espaços necessidades mentais especiais em “uma atmosfera
urbanos, de flexibilidade, de inclusão de elementos caseira e acolhedora”. Além de citações lisonjeiras
socioculturais apropriados – como em relação às de críticos americanos de arquitetura, o projeto
casas projetadas por Le Corbusier em Pessac, recebeu vários prêmios de arquitetura, alguns dos
França (BOUDON, 1972) –, de animação urbana e quais do Instituto Americano de Arquitetos em
de oportunidades diversificadas de serviços, 1977, um pouco mais de um ano antes do edifício
comércio e lazer. Problemas decorrentes de muitos ser ocupado. Contudo, após sua ocupação,
projetos modernistas, tais como o conjunto apareceram opiniões negativas relacionadas, por
habitacional Killingworth (Figura 1), Inglaterra, exemplo, à falta de segurança em função de
demolido em 1988, após aumento de vandalismo e determinadas soluções arquitetônicas tais como
outros problemas sociais (KELLET, 1987), e caixas de escada e guarda-corpos muito abertos e
Pruitt-Igoe em St. Louis, Estados Unidos, um uso de vidro não temperado em muitas áreas; e à
projeto de habitação social de 1951, por Minoru aparência não aconchegante (MITCHELL, 1993).
Yamasaki, vencedor de um concurso de

(a) Vista passarelas e blocos (b) Vista passarelas e blocos (c) Vista demolição bloco
Figura 1 – Conjunto Habitacional Killingworth – Inglaterra

26 Reis, A. T. da L.; Lay, M. C. D.


(a) Elevação Sul – acesso principal (b) Átrio interior (c) Átrio interior

Figura 2 – State of Illinois Center (Centro do Estado de Illinois), em Chicago, por Helmut Jahn
Foi constatado que muito do que era percebido fortemente pelos trabalhos de Roger Barker e
pelos arquitetos/urbanistas como “bom” era Wright, iniciados em 1947 (BARKER; WRIGHT,
percebido pelos usuários como “frio, impessoal e 1949). Pioneiros no estudo da psicologia
indesejável” (MICHELSON, 1968; COOPER- ambiental, esses autores propunham que o
MARCUS; SARKISSIAN, 1986). A partir dessas ambiente construído fosse estudado a partir da
críticas são dados os primeiros passos à procura da percepção de seus usuários (ver BARKER, 1968).
recuperação das formas tradicionais do urbanismo São ainda divulgados nessa época os trabalhos de
e à procura de novas abordagens sobre o Lynch (1960), Hall (1966), Sommer (1969),
planejamento urbano, resultando em produção Proshansky, Ittelson e Rivlin (1970), Tuan (1974),
intensiva de pesquisa. É retomada a defesa da entre muitos outros. Os perceptualistas (por
restituição da rua como espaço social exemplo, Cullen, Hall, Sommer, Terence Lee,
(LEFEBVRE, 1964), da diversidade, da Lynch, Newman, Rapoport, Alexander, Tuan,
necessidade de demarcação clara entre público e Down, Stea, Canter) enfatizam o caráter
privado, da necessidade de uso intenso do espaço multidisciplinar, decorrente da moderna geografia
urbano e controle visual dele, também, a partir da e da psicologia do comportamento, estudando
orientação e localização de edifícios para aumentar como a cidade é percebida pelos seus habitantes e
a segurança das ruas, da necessidade de rever o as relações entre o espaço construído e tipos de
dimensionamento das áreas verdes, etc. (JACOBS, comportamento. Ainda, a proposta projetual é
1984). decorrente do conhecimento do ponto de vista do
habitante, considerado interlocutor entre o objeto e
Emerge em meados da década de 60, na procura de
um caminho para adaptar o planejamento físico às o planejador, e reforçando o caráter democrático do
espaço a ser construído.
necessidades humanas, através do entendimento
das relações entre o ambiente e o comportamento, Portanto, na abordagem perceptiva e cognitiva, ou
a área de estudo referida como Ambiente- da percepção ambiental, o espaço não é apenas
Comportamento. Esta também é denominada, por descrito nos seus aspectos formais, mas é analisado
alguns autores, de psicologia ambiental (por quanto ao efeito de suas características físico-
exemplo, PROSHANSKY et al., 1970; CANTER, espaciais sobre os indivíduos, tentando-se entender
1977), psicologia ecológica (por exemplo, como as percepções desses aspectos afetam as
BARKER, 1968; GIBSON, 1979) ou percepção atitudes e os comportamentos dos usuários do
ambiental (por exemplo, LYNCH, 1960; espaço urbano. O conhecimento de tais atitudes e
RAPOPORT, 1977). Essa área de estudos envolve comportamentos passa a ser fundamental para
diversas disciplinas que lidam com o planejamento qualificar o projeto e, conseqüentemente, para
ambiental, tais como arquitetura e geografia, e com avaliar a qualidade de projetos e o desempenho do
o comportamento, tais como sociologia, psicologia, ambiente construído.
antropologia, psiquiatria e ciências políticas,
levando a estudos interdisciplinares. A geografia, Projetos qualificados,
assim como a psicologia, descontente com o uso do percepção e cognição
laboratório, ainda, como única abordagem para
estudar o comportamento, é influenciada Resultados de vários estudos sustentam as
argumentações apresentadas e revelam os impactos

Avaliação da qualidade de projetos 27


positivos de projetos urbanos e de edificações casos e análises), de Cherulnik (1993), estão
decorrentes da aplicação de conhecimentos mencionados diversos exemplos de aplicação
produzidos na área Ambiente-Comportamento, satisfatória, em edificações e espaços urbanos, de
com a percepção e a cognição espaciais atuando resultados de estudos envolvendo os conceitos de
como instrumentos eficazes no planejamento e na percepção e cognição na área Ambiente-
construção de tais projetos e, logo, na avaliação da Comportamento. Entre os exemplos de projetos de
qualidade de projetos e desempenho do ambiente edificações satisfatórios estão o: Contra Costa
construído. County Main Detention Facility (Presídio Central
A aplicação dos diversos métodos integrantes da do Condado de Contra Costa), em Martinez,
Califórnia, aberto em 16 de janeiro de 1981 para
metodologia científica na área Ambiente-
Comportamento tem proporcionado a aplicação 386 presidiários, que tem tido uma larga influência
dos resultados em diversos projetos urbanos assim no projeto de presídios nos Estados Unidos; e o
Federal Aviation Administration Northwest
como em recomendações de projeto (design
guidelines), que servem como orientações para Regional Headquarters (Escritório Central da
intervenções que venham a responder Região Noroeste da Administração da Aviação
Federal), em Seattle, Washington, ocupado em
satisfatoriamente aos seus usuários, especificando
como os espaços podem ser projetados ou 1973 por mais de 300 funcionários, que
melhorados com base em pesquisas anteriores, proporcionou uma ênfase crescente na importância
de o projeto de escritórios responder às
como, por exemplo, Housing as if People Mattered
(Como se as Pessoas Importassem na Habitação necessidades dos funcionários e na possível ligação
Social), por Clare Cooper Marcus e Wendy entre projeto de escritório baseado nas
Sarkissian (1986); People Places - Design necessidades dos usuários e na produtividade dos
Guidelines for Urban Open Space (Lugar das funcionários (CHERULNIK, 1993).
Pessoas - Guia de Projeto para Espaços Abertos Entre os exemplos de projetos de espaços abertos
Urbanos), editado por Clare Cooper Marcus e satisfatórios está o Exxon Minipark Redesign
Carolyn Francis (1990); e The Social Life of Small (Novo projeto do Exxon Miniparque) por William
Urban Spaces (A Vida Social dos Pequenos H. Whyte e colegas da Project for Public Spaces
Espaços Urbanos), por William H. Whyte (1980). (Projetos para Espaços Públicos), onde foram
Recomendações de projeto assim como critérios de incorporados, por exemplo, vegetação (aparência,
desempenho estão sendo utilizados, por exemplo, conforto e privacidade); assentos moveis (áreas
nos Estados Unidos para a programação e o projeto ensolaradas, formar grupos ou escolher vistas) e
de espaços abertos (FRANCIS, 1987). muretas servindo como assentos; e abrigos,
Com base nos resultados produzidos através do também através de árvores, mesas e dois novos
cafés, baseados em estudos anteriores de praças e
estudo comparativo de espaços abertos comunais,
realizado por Francis et al. (1984), foram propostas pequenos parques em Nova Iorque, desde 1971,
recomendações de desenho e de gerenciamento por Whyte e colegas. Como conseqüência, o uso
em geral aumentou, particularmente por mulheres e
para cada projeto, assim como recomendações para
as políticas municipais e nacionais, além de uma idosos, ainda que tenham sido eliminadas
conferência realizada para discutir os resultados de atividades relacionadas ao comércio de drogas
(CHERULNIK, 1993; WHYTE, 1980). Logo,
pesquisa que redundou no estabelecimento de uma
organização municipal envolvida em implementar esses exemplos reforçam a relação entre o projeto
as recomendações do estudo. O Central Park, em qualificado e a abordagem perceptiva e cognitiva.
New York, tem sido estudado e renovado nas
últimas décadas através de resultados obtidos em Categorias definidoras da
pesquisas aplicadas. Alguns administradores de qualidade do projeto
parques reconhecem que os usuários se alteram
com o tempo e que os parques urbanos podem As categorias definidoras da qualidade do projeto
necessitar uma constante reprogramação e do ambiente construído servem para estruturar os
redesenho. Como condição para aprovação dos aspectos físicos associados à qualidade do projeto
projetos, cidades como New York, Cleveland, do espaço construído e, logo, para avaliar a
Chicago e Los Angeles agora requerem dos qualidade de tal projeto e o desempenho do espaço
incorporadores que mostrem como as praças construído. Essas categorias propostas estão
contribuirão para a vitalidade geral do centro da fundamentadas na natureza de tais aspectos físicos
cidade (FRANCIS, 1987). quanto à estética, ao uso e à estrutura do espaço
construído em relação à malha urbana.
No livro Applications of environment-behavior
research, case studies and analysis (Aplicações de Aqui, são selecionadas e analisadas as
pesquisas ambiente-comportamento, estudo de características ou atributos físico-espaciais

28 Reis, A. T. da L.; Lay, M. C. D.


definidores da qualidade de projeto de edificações cognição (ver, por exemplo, LANG, 1987). A
e de espaços abertos nas cidades, agrupadas em categoria estética refere-se não exclusivamente aos
categorias que guardam uma estreita relação com a elementos arquitetônicos de uma edificação ou de
análise e a prática de intervenção no espaço um espaço urbano, mas à relação estética destes
urbano, nomeadamente: estética – atributos formais com as edificações e espaços abertos adjacentes e
de setores e demais aspectos sensoriais associados; nas proximidades. Por exemplo, a qualidade
uso dos espaços nos diferentes setores urbanos; e estética da Pirâmide do Le Grand Louvre (1993),
estrutura – relações entre setores. Essas categorias caracterizada por uma composição simples, pela
remetem aos três aspectos de projeto tratados por textura dos losangos de vidro, pela transparência, e
Lynch e Hack (1984): o padrão da forma percebida pelo volume piramidal, depende da sua relação de
(estética), o padrão de circulação (estrutura) e o oposição, contraste (REIS, 2002), com o antigo
padrão de atividades (uso). Essas três categorias museu, caracterizado por uma composição
estão, respectivamente, mais relacionadas à Teoria complexa, pelos ritmos, grupamentos e hierarquia
da Gestalt, Ecológica e Transacionalista. A das aberturas, pela massa e pelo volume em prisma
característica complementar dessas teorias fica retangular em “U” (Figura 3).
mais evidente quando se verifica que uma
aparência satisfatória não é condição suficiente Uso
para qualificar o espaço urbano, sendo necessário
que o espaço esteja adequadamente conectado aos Nesta categoria estão aqueles elementos da
demais setores ou espaços urbanos e que seja morfologia urbana que afetam o uso das
utilizado satisfatoriamente. edificações e dos espaços urbanos. Além de uma
estética satisfatória, um espaço fechado ou aberto
Estética deve ter um uso adequado. O projeto de uma
edificação ou de intervenção urbana deve
Nesta categoria estão aqueles elementos da considerar essas categorias conjuntamente, pois a
morfologia urbana que estimulam os nossos desconsideração de uma delas pode afetar a
sentidos, incluindo as sensações não visuais, qualidade da intervenção. Uso é visto como um dos
embora as visuais sejam dominantes. O aspecto pré-requisitos para um espaço aberto satisfatório
visual de um projeto é um dos aspectos (por exemplo, a praça do Beaubourg, Paris, e a
considerados na análise de impacto ambiental de praça da Pirâmide do Le Grand Louvre, Paris,
projetos e é, muitas vezes, a base para iniciativas Figura 3; FRANCIS, 1987). Sem usuários, o
de políticas públicas nos Estados Unidos, assim espaço aberto público ou de uma edificação tende a
como de comitês de avaliação arquitetônica e ser de pouco significado e importância. Além da
associações de melhorias de centros urbanos. Por importância das características físicas de uma
exemplo, em 30 estados dos Estados Unidos, as edificação ou espaço aberto para proporcionar um
cortes estabeleceram que considerações estéticas uso adequado, salienta-se o efeito de tal uso sobre
são suficientes para o estabelecimento de o uso dos espaços abertos urbanos, já que as
regulamentações. Mais de 90% das grandes pessoas tendem a ser atraídas por espaços com
cidades americanas utilizam a análise de impacto pessoas e a evitar espaços desertos (GEHL, 1987).
visual aplicada a edifícios individuais. Ainda a Ainda, além dos atributos estéticos das edificações
Suprema Corte dos Estados Unidos tem citado o que delimitam o espaço aberto público de
critério estético como suficiente para uma base circulação de veículos e pedestres, o uso dado a
adequada para desenvolvimento. Para melhorar a tais edificações também tem um efeito sobre a
qualidade visual dos espaços urbanos é preciso experiência espacial dos usuários dos espaços
entender como as características visuais desses abertos, tornando-a mais ou menos provida de
espaços afetam os seus usuários diretos ou interesses e emoções. Exemplificando, na
indiretos. As cortes americanas sustentam que a comparação entre a circulação em ruas em Brasília
beleza ambiental é de legitimo interesse público e e em Praga (Figura 4), observa-se que a
que esse interesse deve estar baseado nas experiência espacial do pedestre nas ruas em
preferências do público em geral, e não nos gostos Brasília tende a ser bem menos interessante e
pessoais dos funcionários do governo (STAMPS, agradável do que em Praga, em função, por
1996; SANOFF, 1991). exemplo, de não haver uso proporcionado por
Embora mais associada à experiência estética edificações adjacentes a tais ruas, ao contrário de
sensorial visual, à estética formal e ao processo de Praga. Portanto, o uso dado a um determinado
espaço também tem o papel de possibilitar
percepção, esta categoria também diz respeito à
estética simbólica, em que associações com a associações e estimular os nossos sentidos e,
forma são estabelecidas através do processo de conseqüentemente, a nossa experiência estética.

Avaliação da qualidade de projetos 29


(a) Vista acesso Pirâmide com antigo museu (b) Vista antigo museu a partir do interior da
nas laterais e ao fundo Pirâmide

(c) Uso e detalhe do espelho d’água


junto à Pirâmide
Figura 3 – Pirâmide do Le Grand Louvre em Paris por Ieoh Pei

Figura 4 – Praga, República Tcheca

(a) Maquete com Ópera House à (b) Vista lateral (c) Conexão Ópera House com bares e
esquerda restaurantes nas proximidades
Figura 5 – Ópera House, Sydney, Austrália

As edificações e os espaços abertos podem ter um afetando positivamente o senso de identidade do


conjunto de características físicas de maneira a usuário com o local e fortalecendo o uso e a
contribuir para o uso dos espaços urbanos. Essas manutenção dos espaços e o controle das áreas
características podem afetar em distintos graus, por comunitárias.
exemplo, a definição e o controle de território, a
A diversidade de atividades disponibilizadas
segurança no espaço urbano, a privacidade dos aumenta a escolha, atraindo diferentes pessoas, em
usuários e a interação social. Estudos sobre os usos períodos diferentes, por razões variadas. O uso
de espaços públicos, que identificam relações entre
pode ser afetado pela flexibilidade e adequação
as qualidades físicas de um espaço público e dos espaços. A flexibilidade afeta o grau com que
interações sociais positivas (GEHL, 1987;
um determinado local pode ser utilizado para
WHYTE, 1980), indicam que uma clara definição diferentes propósitos; lugares mais flexíveis
física dos espaços promove uma clara percepção oferecem mais escolha do que lugares cujos
de definição de território, aumentando a segurança,
desenhos possibilitam um único tipo de uso

Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 6, n. 3, p. 21-34, jul./set. 2006. 30


ISSN 1415-8876 © 2006, Associação Nacional de Tecnologia do Ambiente Construído. Todos os direitos reservados.
(BENTLEY et al., 1987). A adequação determina física e padrão de atividades (LYNCH, 1981). A
o grau no qual a forma e a capacidade dos espaços, legibilidade de forma e uso é reduzida em espaços
canais e equipamentos combinam com o padrão e a modernistas em comparação aos espaços dos
quantidade de ações nas quais as pessoas séculos anteriores, onde os locais que pareciam
normalmente se engajam, ou que querem se importantes eram de relevância pública (prédios e
engajar (LYNCH, 1981). Essa adequação espaços abertos) e podiam ser reconhecidos
manifesta-se através dos já mencionados espaços facilmente, respeitando-se essa lógica na definição
ou ambientes comportamentais (behavior settings) da edificação como objeto ou tecido urbano.
(BARKER, 1968), que consistem em atributos Layouts inteligíveis possibilitam às pessoas formar
ambientais ou aspectos físico-espaciais específicos imagens claras e precisas da estrutura urbana.
que sugerem comportamento padrão ou padrão Ainda, a estrutura é afetada pela imageabilidade,
particular de comportamento (por exemplo, que também é uma das principais qualidades
pessoas sentadas nos bancos de uma praça ou
visuais da imagem urbana e pode ser definida
naqueles delimitando os espelhos d’água junto à como “aquela qualidade de um objeto físico que
Pirâmide do Le Grand Louvre, Figura 3), regras e lhe dá uma alta probabilidade de evocar uma forte
propósitos sociais (por exemplo, sala de concertos
imagem em qualquer observado” (LYNCH, 1960,
musicais) e aspectos temporais de ocorrência (por p. 9). Imageabilidade remete à qualidade
exemplo, pessoas sentadas na escadaria da Ópera “gestáltica” de “pregnância”, ou seja, a capacidade
da Bastilha, em Paris).
de uma imagem ser forte o suficiente para “saltar
fora”, impor-se na percepção e na memória do
Estrutura observador. A Ópera House, em Sydney (Figura
Nesta categoria estão aqueles elementos da 5), projetada por Jorn Utzon, é um exemplo de
morfologia urbana que auxiliam na conexão visual uma edificação com imageabilidade, além de estar
e funcional entre as distintas edificações e espaços conectada à estrutura urbana de modo a ser
abertos, e na conseqüente formação de uma facilmente acessível, o que reforça o seu uso.
imagem ambiental coerente dos distintos setores
urbanos. É necessário que os usuários possam
acessar e conectar as diferentes edificações e
Conclusão
espaços urbanos numa estrutura coerente que os Este artigo procurou apresentar e ressaltar a
possibilite utilizar e formar uma imagem do importância da avaliação da qualidade de projetos
sistema urbano ou de setores desse sistema. A urbanos e de edificações, e, conseqüentemente, do
estrutura determina a coerência das relações entre desempenho do ambiente construído, através da
as imagens ambientais, que são, ainda, afetadas abordagem perceptiva e cognitiva adotada na área
pela identidade e pelo significado das diferentes de estudos Ambiente-Comportamento. Os
áreas (LYNCH, 1960). exemplos de projetos urbanos e de edificações
A estrutura é determinada pela permeabilidade ou satisfatórios e insatisfatórios procuraram
acessibilidade funcional, a característica físico- evidenciar a relevância da consideração de uma
espacial que define onde as pessoas podem ir e abordagem de projeto e de avaliação da qualidade
onde não podem, sendo um fator crítico para a de projetos que estivesse caracterizada pela
qualidade do espaço aberto (FRANCIS, 1987). A percepção dos usuários de tais projetos ou projetos
permeabilidade de um sistema de espaços públicos similares. Procurou-se, também, conceituar e
depende do número de rotas alternativas oferecidas estabelecer as diferenças entre os termos
de um ponto a outro, com a permeabilidade visual “percepção” e “cognição”, assim como as
sendo importante para a identificação visual de tais implicações de tais diferenças para a avaliação da
alternativas. A permeabilidade pode ser qualidade de projetos urbanos e de edificações,
caracterizada por três aspectos importantes: assim como para o desempenho do ambiente
diversidade de atividades para as quais se tem construído.
acesso, a eqüidade de acesso a diferentes grupos da Foram propostas as categorias definidoras da
população e o controle do sistema de acessos qualidade do ambiente construído, que servem
(LYNCH, 1981). para estruturar os aspectos físicos associados à
A estrutura depende também da legibilidade, uma qualidade do projeto do espaço construído e,
das principais qualidades visuais da imagem portanto, para avaliar a qualidade de tal projeto e o
urbana, que diz sobre “[...] a facilidade com que as desempenho do espaço construído. Essas
partes podem ser reconhecidas e organizadas em categorias, nomeadamente, estética, uso e
um padrão coerente” (LYNCH, 1960, p. 2). estrutura, são consideradas como fundamentais
Legibilidade é importante em dois níveis: forma para a qualificação do espaço construído, já que
tanto uma edificação quanto o espaço aberto

Avaliação da qualidade de projetos 31


devem possuir uma estética satisfatória, um uso COOPER MARCUS, C.; SARKISSIAN, W.
apropriado e uma conexão adequada com os Housing as if people mattered. Berkeley:
demais espaços urbanos, para que possam University of California Press, 1986.
responder às necessidades dos usuários, fazendo
parte de suas imagens urbanas. Entende-se que: DARKE, J. The design of public housing:
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O conhecimento adquirido sobre os processos Tese (Ph.D) - Department of Town and Regional
perceptivos e cognitivos podem melhorar a
Planning, University of Sheffield, Sheffield.
qualidade dos ambientes humanos através de
políticas, planejamentos e projetos, na medida DOWNS, R.; STEA, D. Cognitive maps and
em que esse informa sobre como planejar e
spatial behaviour: process and products. In:
projetar ambientes que não interfiram com os
próprios funcionamentos destes processos. DOWNS, R.; STEA, D. (Ed.), Image and
Exemplos são os trabalhos de Appleyard (1976) environment: cognitive mapping and spatial
[Planning a pluralistic city] e Lynch (1960) behaviour. Chicago: Aldine, 1973.
[The image of the city], resultando em sugestões
em como fazer as cidades legíveis. (GARLING; FRANCIS, M. Urban Open Spaces. In: ZUBE, E.;
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Portanto, a abordagem perceptiva e cognitiva, 1987. p. 71-102.
incluindo as categorias definidoras da qualidade do
ambiente construído, fornece elementos FRANCIS, M., CASHDAN, L.; PAXSON, L.
importantes para avaliar a qualidade de projetos e Community open spaces. Washington, DC:
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