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SAEB 2001

SISTEMA NACIONAL DE AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO


BÁSICA – SAEB

Relatório Saeb 2001 – Língua Portuguesa

Brasília

2002
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ii
SUMÁRIO

Lista de tabelas .......................................................................................................................................... viii

Lista de gráficos ........................................................................................................................................ viii

Lista de quadros ........................................................................................................................................ viii

Apresentação ................................................................................................................................................ 1

Carta ao professor........................................................................................................................................ 3

1 Introdução .......................................................................................................................................... 6

2 O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica – Saeb ....................................................... 10

3 Apresentando os Resultados do Desempenho dos Alunos Avaliados no Saeb 2001 ...................... 14

3.1 O Ensino da Língua Portuguesa: uma Reflexão sobre a Prática ..................................................... 15

3.2 Conversando sobre os Resultados.................................................................................................... 15

4 Análise dos Itens do Teste de Língua Portuguesa – 4ª série do Ensino Fundamental .................... 18

4.1 Interpretação dos Resultados do Desempenho dos Alunos da 4ª série do Ensino Fundamental em
Língua Portuguesa – Brasil, Regiões e Unidades da Federação ..................................................... 46

5 Análise dos Itens do Teste de Língua Portuguesa – 8ª série do Ensino Fundamental .................... 50

5.1 Interpretação dos Resultados do Desempenho dos Alunos da 8ª série do Ensino Fundamental em
Língua Portuguesa – Brasil, Regiões e Unidades da Federação ..................................................... 80

6 Análise dos Itens do Teste de Língua Portuguesa – 3ª série do Ensino Médio ............................... 86

6.1 Interpretação dos Resultados do Desempenho dos Alunos da 3ª série do Ensino Médio em
Língua Portuguesa – Brasil, Regiões e Unidades da Federação ..................................................... 97

7 Análise do Desempenho dos Alunos em Língua Portuguesa ........................................................ 102

7.1 Considerações sobre o Desempenho dos Alunos da 4ª série do Ensino Fundamental em


Língua Portuguesa .......................................................................................................................... 103

7.2 Considerações sobre o Desempenho dos Alunos da 8ª série do Ensino Fundamental em


Língua Portuguesa .......................................................................................................................... 103

7.3 Considerações sobre o Desempenho dos Alunos da 3ª série do Ensino Médio


em Língua Portuguesa .................................................................................................................... 104

7.4 Conclusões. .................................................................................................................................... 104

Bibliografia. .............................................................................................................................................. 105

iii
LISTA DE TABELAS

1 Relação dos níveis com a proficiência ............................................................................................. 16

LISTA DE GRÁFICOS

1 Exemplo de gráfico com o percentual de alunos nos níveis de desempenho nas Regiões
e Unidades da Federação – 2001 ..................................................................................................... 14

2 Exemplo de gráfico com médias de desempenho ............................................................................ 15

3 Percentual de alunos nos níveis de desempenho no Saeb, em Língua Portuguesa da 4ª série


do Ensino Fundamental – Brasil, Regiões e Unidades da Federação – 2001 ................................. 46

4 Médias de desempenho no Saeb, em Língua Portuguesa da 4ª série do Ensino Fundamental –


Brasil, Regiões e Unidades da Federação – 2001 ............................................................................ 47

5 Percentual de alunos nos níveis de desempenho no Saeb, em Língua Portuguesa da 8ª série do


Ensino Fundamental – Brasil, Regiões e Unidades da Federação – 2001 ...................................... 81

6 Médias de desempenho no Saeb, em Língua Portuguesa da 8ª série do Ensino Fundamental


– Brasil, Regiões e Unidades da Federação – 2001 ......................................................................... 82

7 Percentual de alunos nos níveis de desempenho no Saeb, em Língua Portuguesa da 3ª série


do Ensino Médio – Brasil, Regiões e Unidades da Federação – 2001 ............................................ 98

8 Médias de desempenho no Saeb, em Língua Portuguesa da 3ª série do Ensino Médio – Brasil,


Regiões e Unidades da Federação – 2001 ....................................................................................... 99

LISTA DE QUADROS

1 Evolução da amostra efetiva do Saeb .............................................................................................. 10

iv
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 1

APRESENTAÇÃO

O Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb), criado em


1990, tem procurado, a partir dos ciclos de avaliação realizados a cada dois
anos, oferecer subsídios para que gestores de políticas públicas, em todos os
níveis, diretores e professores efetuem as mudanças necessárias à melhoria da
qualidade da educação.
A partir das informações coletadas pelo Saeb, podem ser definidas ações
que possibilitem a correção de distorções ainda evidentes na educação brasileira,
reduzindo-se as desigualdades historicamente presentes em nossa sociedade.
Mudanças para tornar a escola mais eficaz não podem prescindir do levan-
tamento de indicadores que forneçam informações válidas e confiáveis, não ape-
nas sobre o desempenho dos alunos, mas também sobre os fatores contextuais
associados a esse desempenho.
Os resultados do Censo Nacional, realizado pelo IBGE, e, também, do
Censo Escolar, realizado pelo Inep, mostram o esforço empreendido pelo País na
democratização do acesso à escola. Quase todos aqueles em idade escolar a fre-
qüentam e nela permanecem. Finalmente, 500 anos após o descobrimento, pode-
se falar em acesso real de praticamente toda a população de 7 a 14 anos à
escolarização formal.
A partir da década de 90, verificou-se uma evolução positiva das taxas de
matrícula, com acentuada melhoria no fluxo escolar. Como reflexo das melhores
taxas de aprovação nas quatro primeiras séries do Ensino Fundamental, aumen-
taram, também, as taxas de matrícula no segmento de 5ª a 8ª série, estabilizan-
do-se o número de concluintes desse grau de ensino. No momento, diante da
correção de antigas distorções no fluxo escolar, pode-se observar um aumento
significativo de matrículas no Ensino Médio. Os reflexos deste movimento são
notados, também, no Ensino Superior.
No Brasil, vencido o desafio do acesso da grande maioria de crianças,
adolescentes e jovens à escola, é imperativo construir uma escola verdadeira-
mente eficaz, que possibilite condições satisfatórias de ensino para todos.
Após a realização da análise dos dados coletados pelo Saeb, observam-se
grandes disparidades no desempenho dos alunos nas diversas regiões brasileiras.
Todas as análises reforçam o fato de que não se pode discutir resultados de
avaliações educacionais de forma descontextualizada, já que as desigualdades
sociais também têm reflexos no plano educacional. Deve-se deixar claro, no
entanto, que fatores intra-escolares têm peso no desempenho dos alunos, e uma
escola comprometida com seus alunos, apesar de condições adversas, pode fazer
diferença.
Neste documento são apresentados os resultados da avaliação realizada
por meio do Saeb, em 2001, em Língua Portuguesa, em amostra representativa
do alunado brasileiro de 4ª e 8ª séries do Ensino Fundamental e da 3ª série do
Ensino Médio. São apresentados, também, exemplos de itens dos testes aplica-
dos em 2001, com a sua análise pedagógica, tendo por objetivo levar os profes-
sores à reflexão sobre as dificuldades encontradas pelos alunos e a perceber a
dinâmica do processo de construção do conhecimento.
Os resultados do Saeb 2001 mostram uma certa estabilidade em relação
aos resultados da avaliação realizada em 1999, mas evidenciam, também, que,
embora muito se tenha feito, muito ainda há a fazer. A escola brasileira, neste
novo milênio que se inicia, necessita dar um salto de qualidade, possibilitando
àqueles que a freqüentam a construção de conhecimentos e valores que lhes per-
mitam transitar com desenvoltura no mundo contemporâneo.

João Batista Gomes Neto


Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
Presidente
2 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 3

CARTA AO PROFESSOR

Aos Diretores e Professores

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), por meio


da Diretoria de Avaliação da Educação Básica (Daeb), cumpre o compromisso
assumido com os professores e diretores das escolas brasileiras de fazer chegar
a cada um daqueles que fazem a educação em nossas escolas a análise dos
resultados obtidos pelos alunos de 4ª e 8ª séries do Ensino Fundamental e da 3ª
série do Ensino Médio que realizaram os testes de Língua Portuguesa e de Ma-
temática, do Saeb, aplicados em outubro de 2001.
Os resultados do Saeb não são particularizados; portanto, não são apre-
sentados resultados específicos de alunos ou escolas, mas do sistema educacio-
nal brasileiro e dos diferentes sistemas estaduais de educação.
Além de serem apresentados os resultados do desempenho dos alunos
nas séries e disciplinas acima referidas, são discutidos os conhecimentos e habi-
lidades por eles demonstrados a partir das respostas aos itens de testes propos-
tos. São analisados itens de Língua Portuguesa, apontando-se os caminhos to-
mados pelos alunos para resolvê-los e as dificuldades observadas em face das
respostas assinaladas.
Esperamos, com este documento, não só dar mais transparência às avali-
ações realizadas, como, também, apoiar os diretores e professores em suas prá-
ticas pedagógicas, criando-se um espaço de diálogo e reflexão que contribua
para a melhoria da qualidade do ensino.

Iza Locatelli
Diretora de Avaliação da Educação Básica
Introdução
6 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

1 INTRODUÇÃO

O Ministério da Educação, desde 1995, defi- Em que pese a magnitude dos números de alu-
niu como prioridade de sua atuação o Ensino Funda- nos matriculados no Ensino Fundamental, um gran-
mental. O propósito era o de enfrentar os obstáculos de contingente desses alunos encontra-se atrasado em
sinalizados desde o início da década de 1990: a res- relação à série ideal para sua idade.2 De acordo com
trição do acesso à escola; os altos índices de repetência os dados do Inep/MEC, cerca de 39% dos alunos
e de distorção idade-série; o reduzido número de alu- matriculados nas oito séries do Ensino Fundamental
nos que completavam o Ensino Fundamental e, em apresentam distorção idade/série. Já no Ensino Mé-
conseqüência, o baixo número de alunos que ingres- dio, dos 8.398.008 alunos matriculados, 53% não es-
savam no Ensino Médio e o concluíam. tão na série adequada para sua idade. As Regiões
A primeira observação a ser feita é que, com- Norte e Nordeste ainda mantêm taxas bem acima
parados ao longo da década e, especialmente, a par- da média nacional e das demais regiões, notando-se,
tir de 1995, os indicadores expressam melhora mais uma vez, o desequilíbrio entre as regiões do
gradativa em nível nacional e em cada região per se. País.
O primeiro ponto sempre destacado, observado in- Os dados da matrícula, aliados a outros indi-
clusive nos resultados anuais do Inep/MEC e da cadores de movimentação e fluxo escolar, apontam
Pnad/IBGE, é a conquista da universalização do para diferenças entre as regiões brasileiras. Enquan-
acesso à escola no Ensino Fundamental, com o aten- to em algumas regiões os sistemas educacionais es-
dimento da população de 7 a 14 anos, acompanhada tão em estágio avançado de correção do fluxo esco-
pela expansão do atendimento no Ensino Médio. Nos- lar, especialmente em relação à matrícula na 4ª série
sas crianças, jovens e adultos estão chegando ou vol- do Ensino Fundamental, em outras regiões esse pro-
tando à escola, nela permanecendo e avançando ao longo cesso é, ainda, lento.
das séries. Quanto à permanência na escola, os dados
Constata-se, também, que as taxas de mostram que mais estudantes nela permanecem e
escolarização e de escolaridade dos brasileiros au- avançam em seus estudos. Houve, entre os anos de
mentaram na última década. No Brasil como um todo, 1995 e 2001, uma redução de 2% nas matrículas de
e especialmente nos Estados das Regiões Norte e 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental e uma amplia-
Nordeste, amplos segmentos que estavam privados ção de 23% nas matrículas de 5ª a 8ª série do Ensino
de oportunidades educacionais foram incorporados Fundamental, sinal de que o fluxo escolar vem me-
à escola. Grandes contingentes de jovens e adultos lhorando gradativamente. Em todas as regiões do
têm retornado à escola em busca da ampliação de País, houve significativo aumento nas matrículas e
sua escolaridade diante das exigências cada vez mai- decréscimo nas taxas de repetência. Entre 1995 e
ores do mercado de trabalho. 1999, a repetência caiu de 30% para 22% no Ensino
Quando se fala em educação no Brasil, mere- Fundamental e de 27% para 19%, no mesmo perío-
ce destaque o tamanho da rede escolar do Ensino do, no Ensino Médio.
Fundamental: 35.298.089 alunos matriculados em No entanto, entre o ingresso e a conclusão do
2001.1 A rede pública responde pelo atendimento de curso no Ensino Fundamental, manifestam-se, tam-
32.089.803 (91%), ou seja, a maioria inconteste de bém, as mesmas desigualdades entre as regiões bra-
atendimento ao Ensino Fundamental. Os números sileiras: o tempo médio esperado para conclusão do
relativos à rede privada, 3.208.286 (9%), compro- Ensino Fundamental é de 11,1 anos nas Regiões Norte
vam que a escolarização em massa dos brasileiros e Nordeste; já nas Regiões Sudeste e Sul esse nú-
ocorre em escolas da rede pública. mero reduz-se para 9,2 e 9,6 anos, respectivamente,
No entanto, deve-se considerar que a matrícu- e na Região Centro-Oeste é de 10,5 anos.3
la no Ensino Fundamental é bem maior do que a po- No Ensino Fundamental e Ensino Médio, pra-
pulação na faixa etária de 7 a 14 anos: são cerca de ticamente universalizou-se a matrícula na faixa que
26.000.000 de crianças nesta faixa, contra cerca de vai dos 7 aos 14 anos: 97% da população nessa faixa
35.300.000 matrículas. etária está na escola. No entanto, anomalias como

1
Os dados apresentados nesta “Introdução” são fornecidos pelo Inep/MEC. Outras fontes são citadas no próprio texto.
2
Além da população de 7 a 14 anos, deve-se considerar, também, a existência de crianças com menos de 7 anos e com mais de 14 anos
matriculadas no Ensino Fundamental.
3
Cf. Inep/MEC, 1999. O tempo médio esperado para um aluno concluir o Ensino Fundamental e o Ensino Médio, o percentual esperado
de conclusão e o número médio de séries concluídas são estimativas definidas para um coorte de alunos, supondo as taxas de transição
entre séries relativas a um ano constantes e que o aluno só entra na escola pela 1a série do Ensino Fundamental.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 7

as já citadas indicam que ainda não se atingiu a eqüi- de diferentes programas, como os de aceleração, cor-
dade entre as regiões brasileiras. rigir o fluxo escolar. A atenção à formação de pro-
Por outro lado, no Brasil e em todas as regi- fessores com Ensino Superior foi observada, a des-
ões – ainda que de forma diferenciada –, houve um peito da grande distância que ainda preside a com-
aumento significativo de matrículas de jovens e adul- paração entre regiões.
tos. Cada vez mais a educação vem sendo conside- Apesar de as regiões mais pobres terem se
rada necessária pela população que acorre em mas- empenhado na universalização do acesso e na ampli-
sa à escola. Essa modalidade de ensino responde ação da rede, a expectativa de mais e melhor educa-
atualmente por 3.777.989 matrículas, com um cres- ção deixa transparecer as limitações dos próprios
cimento de 37% entre 1995 e 2001. estados, especialmente dos que menos recursos pos-
A qualificação dos professores também me- suem, em responder com pessoal qualificado para a
lhorou, mas, ainda assim, apenas 27,1% dos profes- tarefa (principalmente o corpo docente), com estru-
sores que lecionam nas quatro séries iniciais do En- turas ágeis para responder à diversificação e amplia-
sino Fundamental possuem formação em nível supe- ção dos serviços exigidos e com capacidade de ges-
rior, sendo que, no Ensino Médio, essa proporção sobe tão de um sistema mais complexo que o anterior.
para 88,8%. Os grandes desafios da educação brasileira se
Será preciso um grande esforço dos estados e referem em grande parte às já citadas e conhecidas
municípios para que as determinações da nova Lei desigualdades regionais, à baixa eficiência do siste-
de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) ma, à deficiência na formação de professores, para
– Lei nº 9.394, de 20/12/1996 –, relativas a esse mencionar apenas alguns. Faz-se certamente neces-
aspecto, sejam cumpridas. A LDB estabelece que sário ressaltar tais desafios; no entanto é fundamen-
até o fim da “Década da Educação”, final de 2006, a tal que se faça também o exercício de identificar as
formação exigida para docentes que atuam na edu- conquistas da educação brasileira ao longo do tempo.
cação básica far-se-á em nível superior, em curso A década em que se alcançou a universalização
de licenciatura, de graduação plena, em universida- do Ensino Básico no Brasil teve como pano de fundo
des e institutos superiores de educação. Para o exer- a criação do Fundo de Manutenção e Desenvolvi-
cício do magistério na educação infantil e nas quatro mento do Ensino Fundamental e de Valorização do
primeiras séries do Ensino Fundamental, admite-se como Magistério (Fundef) e o lançamento da campanha
formação mínima a oferecida em nível médio, na mo- “Toda criança na escola”. A partir daí, houve uma
dalidade Normal. grande mobilização das três esferas de governo para
Visando garantir o cumprimento de tal deter- matricular as crianças que ainda estavam fora da
minação e assegurar aos professores leigos o prazo escola. Com esses esforços, foi ampliada e supera-
de cinco anos, a partir de 1997, para obtenção da da a meta estabelecida pelo Plano Decenal de Edu-
habilitação necessária ao exercício das atividades cação para Todos, que previa elevar para 94%, pelo
docentes, principalmente para aqueles que não atin- menos, a cobertura da população em idade escolar
giram a formação mínima, o Governo Federal lan- até 2003.
çou o Pró-Formação , curso de nível médio, com ha- Uma das medidas de maior impacto nos últi-
bilitação em magistério, na modalidade de educação mos anos em educação, o Fundef se caracteriza pelo
a distância. Criou-se também a TV Escola, que des- seu caráter redistributivo de recursos, com o objeti-
de 1996, transmite diariamente programação dirigida a vo de diminuir as diferenças regionais e os déficits
professores do Ensino Fundamental e do Ensino na oferta do ensino obrigatório, além de diminuir as
Médio. diferenças entre escolas municipais e estaduais, me-
Os resultados do Saeb 2001 devem ser obser- lhorar a eficiência dos sistemas de ensino e aumentar
vados, à luz desses que podem ser considerados os o salário dos professores.
indicadores gerais de maior preocupação. A questão Impulsionadas pela redistribuição de recursos do
posta no início dos anos 90 permanece desafiando a Fundef, as redes municipais tiveram um crescimento
sociedade brasileira: a qualidade da educação não deu significativo em suas matrículas de Ensino Fundamen-
mostras de progressão, entre as regiões, na mesma tal no período 1995-2001: 98% na Região Norte; 83%
proporção da expansão de oportunidades abertas nos na Região Sudeste; 62% na Região Nordeste; 51% na
sistemas educacionais. Região Centro-Oeste; e 19% na Região Sul.
Ampliou-se a rede pública até praticamente o Nesses anos de funcionamento, o Fundef já
pleno atendimento, ampliou-se o tempo de escolari- contribuiu para gerar resultados significativos.
dade dos estudantes na primeira fase do ciclo funda- Estimulou-se o aumento de matrículas nas escolas,
mental e, gradativamente, os estados de todas as re- já que os recursos desse fundo estão condicionados
giões brasileiras investiram no sentido de absorver ao número de matrículas existentes. Os municípios
crianças e jovens na escola, procurando, por meio mais beneficiados com a complementação da União
8 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

foram, sem dúvida, os do Nordeste. Embora ainda para a Educação Indígena, além da criação do
não se tenham conseguido condições de eqüidade Proinfo, destinado a introduzir novas tecnologias de
em educação e a Região Nordeste apresente os mais informação e comunicação na escola pública. Mais
baixos indicadores educacionais, pode-se perceber um recentemente, foi implementado o Programa Nacional
esforço direcionado no sentido de reversão desse de Garantia de Renda Mínima, que provê recursos para
quadro. que famílias de baixa renda mantenham os filhos na
Com o objetivo, ainda, de diminuir as desigual- escola.
dades regionais, foi lançado, também, o Fundescola, Além dos aspectos financeiros e legislativos,
um dos maiores programas do MEC e que visa à outra dimensão que permeou grande parte das políti-
melhoria do desempenho dos sistemas públicos de cas educacionais do governo federal foi a de chama-
Ensino Fundamental nas regiões mais pobres do País da à participação. Tanto o Fundef como o Programa
(Norte, Nordeste e Centro-Oeste). O Fundescola Dinheiro Direto na Escola (que destina recursos fi-
financia ações que tenham como finalidade melho- nanceiros diretamente a cada escola, sem interferên-
rar o desempenho do Ensino Fundamental, amplian- cia de outras esferas de governo) exigiram a criação
do o acesso e a permanência das crianças em idade de conselhos para fiscalizar a aplicação desses re-
escolar nas séries correspondentes, melhorando a cursos. Apesar de algumas deficiências naturais em
qualidade da escola e os resultados educacionais e programas recém-implementados, ocorreu grande
aprimorando a gestão das escolas. mobilização em todo o País, gerando o envolvimento
Buscando, ainda, ampliar o direito constituci- da comunidade na melhoria da qualidade do ensino.
onal ao Ensino Fundamental, o governo federal lan- Ficam evidentes os esforços do País, porém
çou o programa Recomeço, voltado à educação de evidencia-se, também, que, embora o panorama edu-
jovens e adultos. De acordo com o Censo Escolar, cacional brasileiro tenha apresentado expressiva
houve um aumento de 147% de alunos matriculados melhoria na última década, com a redução da taxa
em cursos de educação de jovens e adultos nos 1.244 de analfabetismo, o significativo aumento do número
municípios atendidos pelo programa. de matrículas em todos os níveis de ensino e o cres-
Foi criado, também, para corrigir a defasagem cimento da escolarização média da população, o País
idade/série, o Programa de Aceleração da Aprendi- ainda precisa vencer muitos obstáculos para superar
zagem, que permite ao aluno avançar rapidamente as desigualdades historicamente acumuladas.
nos estudos até alcançar a série compatível com a
sua idade.
Mudanças introduzidas com a nova Lei de Di-
retrizes e Bases da Educação Nacional representa-
ram da mesma forma um grande avanço. A LDB
estabeleceu, mediante vinculação constitucional, um
gasto mínimo em educação da ordem de 25% das
receitas totais de Estados e Municípios e de 18%
das receitas da União. Além disso, flexibilizou a or-
ganização da educação básica, permitindo alternati-
vas no ensino seriado e, conseqüentemente, dando
espaço para propostas como a de aceleração da
aprendizagem e a progressão continuada.
Da mesma forma, os programas de Merenda
Escolar e o do Livro Didático foram aperfeiçoados: o
programa de Merenda Escolar teve um aumento de
cerca de 100%, enquanto no segundo houve um au-
mento de cerca de 83% em relação à quantidade de
livros didáticos distribuídos, passando a oferecer, tam-
bém, livros para os alunos de 5ª a 8ª séries do Ensino
Fundamental, além de dicionários e livros de literatura
às escolas.
Nesse período houve também a reforma do
Ensino Médio, o lançamento do Programa de
Expansão da Educação Profissional (Proep), a
implementação dos Parâmetros Curriculares
Nacionais, dos Referenciais Curriculares Nacionais
para a Educação Infantil e da Proposta Curricular
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 9

O Sistema Nacional de
Avaliação da Educação
Básica – Saeb
10 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

2 O SISTEMA NACIONAL DE AVALIAÇÃO DA EDUCAÇÃO BÁSICA – SAEB

O Sistema Nacional de Avaliação da Educação definida por alunos de 4ª e 8ª séries do Ensino


Básica (Saeb), criado em 1990, se constitui um Fundamental e alunos da 3ª série do Ensino Mé-
relevante instrumento para subsidiar e induzir po- dio matriculados em 2001 nas escolas constantes
líticas orientadas para a melhoria da qualidade da do Censo Escolar de 1999, excetuando-se os alu-
educação brasileira. nos das escolas federais, rurais ou de turmas
O Saeb avalia a qualidade, a eqüidade e a eficiên- multisseriadas. Para o universo da 4ª série, fo-
cia do ensino e da aprendizagem no âmbito do ram mantidos os alunos das escolas rurais do Nor-
Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Aplica- deste, de Minas Gerais e do Mato Grosso do Sul.
do a cada dois anos, utiliza testes e questionários A população de referência das escolas foi dividi-
para analisar o desempenho dos alunos e os fato- da nos estratos para os quais se deseja obter re-
res associados a esse desempenho. sultados separadamente: séries, unidades da Fe-
No Saeb 2001, realizado na última semana de ou- deração, dependência administrativa (estadual,
tubro, os alunos foram submetidos a testes de municipal, particular), localização (capital, interi-
Língua Portuguesa e Matemática, com ênfase em or) e tamanho das escolas, segundo o número de
leitura/compreensão de textos e na resolução de turmas. Da combinação desses critérios resulta
problemas. um determinado número de estratos de interesse
Alunos, professores e diretores responderam, tam- entre os quais foram selecionadas as amostras
bém, a questionários que, aliados às informações de alunos, por série.
coletadas sobre escolas e turmas, forneceram ele- As escolas são sorteadas, de forma aleatória. Den-
mentos para que se possam analisar os resulta- tro de cada estrato, todas as escolas têm as mes-
dos obtidos, levando-se em conta fatores contex- mas chances de ser sorteadas. Dentro das esco-
tuais associados ao desempenho dos alunos. Os las, são sorteadas as turmas, por amostragem ale-
testes e questionários do Saeb foram aplicados a atória simples. Nas turmas sorteadas, todos os
uma amostra significativa de alunos de todas as alunos são pesquisados, distribuindo-se, aleatori-
unidades da Federação. amente, os testes de Língua Portuguesa e Mate-
A população de referência, isto é, o conjunto to- mática entre os alunos.
tal da população para a qual se realizaram A seguir, pode ser observado o quadro evolutivo
inferências a partir da amostra construída foi da amostra efetiva do Saeb nos últimos ciclos.

Quadro 1
Evolução da amostra efetiva do Saeb

ANO DE REALIZAÇÃO
PARTICIPANTES
1995 1997 1999 2001
Escolas 2.839 1.933 6.890 6.935
Diretores 2.839 1.933 6.890 6.820
Funções Docentes 4.967 18.077 53.815 21.754
Alunos 90.499 167.196 279.764 287.719
Séries avaliadas 4ª, 8ª, 2ª e 3ª 4ª, 8ª e 3ª 4ª, 8ª e 3ª 4ª, 8ª e 3ª
Disciplinas avaliadas Matemática Matemática Matemática Matemática
Língua Portuguesa Língua Portuguesa Língua Portuguesa Língua Portuguesa
Ciências Geografia
História
Ciências
na 3ª Biologia
série, = Física
Ciências Química
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 11

O que o Saeb Avaliou em 2001 que os resultados das três séries avaliadas sejam
apresentados em uma escala única, são utiliza-
Em Língua Portuguesa, foram avaliadas as com- dos blocos e itens comuns entre anos e séries.
petências e habilidades descritas nos tópicos a
seguir: O que Informam os Questionários Contextuais
• Procedimentos de leitura;
• Implicações do suporte, do gênero e/ou Durante a realização dos testes, os alunos respon-
enunciador, na compreensão dos textos; dem a um questionário que coleta informações
• Relação entre textos; sobre alguns aspectos da sua vida escolar e fami-
• Coesão e coerência no processamento de liar, hábitos de estudo, nível socioeconômico e ca-
textos; pital social e cultural.
• Relações entre recursos expressivos e efei- Professores e diretores também são convidados a
tos de sentido; responder a questionários que coletam informa-
• Variação lingüística. ções sobre formação profissional, práticas peda-
Em Matemática, os testes constituíram-se, gógicas, nível socioeconômico-cultural, estilos de
prioritariamente, por situações em que a resolu- liderança e formas de gestão.
ção de problemas era significativa para os alu- São coletadas, ainda, informações sobre o clima
nos, sendo avaliados os seguintes temas: acadêmico e disciplinar da escola, recursos pe-
• Espaço e Forma; dagógicos disponíveis, infra-estrutura e recursos
• Grandezas e Medidas; humanos, entre outras variáveis.
• Números e Operações/Álgebra e Funções;
• Tratamento da Informação. Como são Analisados os Resultados do Saeb e
Construídas as Escalas de Desempenho
Como são Construídos os Testes do Saeb
Utilizando itens comuns entre ciclos de aplicação
Os testes aplicados aos alunos contêm itens que e entre séries, por meio da Teoria da Resposta ao
avaliam os descritores relacionados nas Matrizes Item, utilizada desde 1995, pode-se comparar o
de Referência do Saeb. Cada item é construído desempenho dos alunos nas séries e disciplinas
para avaliar um único descritor. Nesses testes, avaliadas. Os testes do Saeb 2001 contêm itens
são utilizados itens de múltipla escolha. Os itens que foram aplicados em 1999 e, por sua vez, os
são construídos por professores especialistas nas testes aplicados em 1999 continham itens comuns
áreas de Língua Portuguesa e Matemática e pas- com os aplicados em 1997. A escala de desempe-
sam por uma revisão pedagógica, técnica e nho permite, portanto, um posicionamento justo dos
lingüística. alunos em função do seu desempenho, em diferentes
Os testes do Saeb contêm 169 itens para cada uma ciclos, por meio de uma medida comum (itens co-
das séries e disciplinas avaliadas. Esse total é dis- muns aplicados entre séries e ciclos diferentes).
tribuído em 13 blocos de 13 itens que, quando As escalas do Saeb, em Língua Portuguesa e
são combinados três a três, por meio de um deli- Matemática, ordenam o desempenho dos alunos
neamento denominado Blocos Incompletos Balan- (do nível mais baixo ao mais alto) num continuum.
ceados (BIB), possibilitam a organização de 26 Interpretar uma escala de desempenho significa
cadernos de testes diferentes para Língua Portu- escolher alguns pontos ou níveis e descrever os co-
guesa e para Matemática, para cada uma das sé- nhecimento e habilidades que os alunos demonstram
ries (4ª e 8ª séries do Ensino Fundamental e 3ª possuir quando situados em torno desses pontos.
série do Ensino Médio). A metodologia para interpretação da escala in-
Como cada caderno contém três blocos com 13 clui dois procedimentos: identificação de itens ân-
itens, significa que cada aluno responde, no má- cora e apresentação desses itens a um painel de
ximo, a 39 itens. Esta metodologia empregada na especialistas. Um item é considerado âncora em
organização dos cadernos permite que se avalie um um determinado nível quando:
amplo espectro do currículo, sem cansar os alunos. • o percentual de acerto do item no nível con-
São utilizados itens com dificuldades ou nível de siderado e nos níveis acima dele é maior que
exigência cognitiva variados, de forma que se 65%;
possa cobrir uma amplitude razoável de níveis de • o percentual de acerto do item nos níveis an-
competência e habilidades construídas. Os itens, teriores é menor que 65%.
nos blocos, são organizados em ordem crescente Depois de identificados os itens âncora de cada
de dificuldade. Para possibilitar a comparação nível, especialistas de cada uma das áreas avalia-
com os resultados de anos anteriores e permitir das procuram explicar o significado pedagógico
12 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

das respostas dadas pelos alunos àqueles itens.


Os especialistas fazem uma descrição do que os
alunos demonstram saber por meio da análise das
respostas dadas aos diferentes itens de cada nível.

Como são Apresentados os Resultados do Saeb

Os resultados da avaliação da educação básica


são apresentados em uma escala de desempe-
nho capaz de descrever, em cada nível, as com-
petências e as habilidades que os alunos são ca-
pazes de demonstrar.
A escala do Saeb é única para cada disciplina e
permite apresentar, em uma mesma métrica, os
resultados de desempenhos dos estudantes de to-
das as séries (4a e 8a séries do Ensino Fundamen-
tal e 3a série do Ensino Médio) e anos de aplica-
ção dos testes (1995, 1997, 1999 e 2001).
Pela escala, pode-se verificar que percentual de
alunos já construiu as competências e habilidades
desejáveis para cada uma das séries avaliadas,
quantos ainda estão em processo de construção,
quantos estão abaixo do nível que seria desejável
para a série e quantos estão acima do nível que
seria esperado. Como cada nível traduz pedago-
gicamente as habilidades e conhecimentos iden-
tificados no processo de avaliação, é importante
que gestores, professores e diretores direcionem
o olhar não para a média do Estado, mas, sim,
principalmente, para o percentual de alunos situ-
ado em cada nível.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 13

Apresentando os Resultados
do Desempenho dos Alunos
Avaliados no Saeb 2001
14 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

3 APRESENTANDO OS RESULTADOS DO DESEMPENHO DOS ALUNOS AVALIADOS NO SAEB 2001

Os resultados do Saeb 2001 denotam uma ten- diferentes níveis em cada série, possibilitando, ainda,
dência de estabilidade em relação à avaliação reali- um olhar mais crítico para as competências e as
zada em 1999, em todas as séries e disciplinas, à ex- habilidades que já deveriam ter sido mas não foram
ceção da 4ª série do Ensino Fundamental, que obte- construídas nas séries avaliadas.
ve, tanto em Matemática quanto em Língua Portu- O gráfico exemplificado a seguir apresenta o
guesa, resultados ligeiramente inferiores em algumas percentual de alunos nos níveis da escala de desem-
regiões. penho do Saeb para o Brasil, regiões e unidades da
Esses resultados foram interpretados em esca- Federação. O comprimento da barra de cada nível é
las de desempenho em Língua Portuguesa e em Ma- proporcional ao percentual de alunos no nível.
temática. Cada escala é comum às séries avaliadas:
4a e 8a do Ensino Fundamental e 3a do Ensino Médio.
Para compreensão dessa escala e dos resultados de
aprendizagem do Saeb, alguns pontos ou níveis da
escala foram escolhidos para interpretar o que os
alunos nesses níveis sabem ou são capazes de fazer.
A análise das escalas permite observar o
percentual de alunos posicionados em cada nível de
desempenho. Esse percentual oferece informações
importantes sobre a ação pedagógica que vem sendo
realizada, informando sobre os aspectos curriculares
que necessitam ser melhor explorados. Em
contrapartida, acrescentou-se à escala um exemplo
de um item em cada nível, para possibilitar a melhor
compreensão do que está sendo avaliado e das for-
mas de avaliação empregadas.
A escala de desempenho em Língua Portugue- Gráfico 1
sa foi descrita em oito níveis, a saber, 1, 2, 3, 4, 5, 6, Exemplo de gráfico com o percentual de alunos nos
7 e 8, enquanto a escala de desempenho em Matemá- níveis de desempenho nas Regiões e Unidades da
tica foi descrita em 10 níveis, de 1 a 10. Esses níveis Federação – 2001
são cumulativos, isto é, os alunos posicionados em
um nível dominam as habilidades descritas no(s) ní- O Saeb é uma pesquisa baseada em uma
vel/níveis anterior(es) da escala. Em cada nível é amostra de alunos, e os resultados apresentados são
apresentado o percentual de alunos que dominam as estimativas dos verdadeiros valores para a popula-
habilidades nele descritas para cada série. ção. Dessa maneira, é importante haver uma medi-
Em Língua Portuguesa, em cada nível, as habili- da do grau de imprecisão das estimativas. Essa me-
dades de leitura foram distribuídas nos seis tópicos da dida é dada pelo erro padrão (e.p.) da estimativa. O
Matriz de Referência do Saeb, a saber: Procedimen- uso de intervalos de confiança permite construir in-
tos de leitura; Implicações do suporte, do gênero e/ tervalos que contenham o verdadeiro valor estimado
ou do enunciador na compreensão dos textos; Re- para a população, com uma certa precisão. O inter-
lação entre textos; Coesão e coerência no proces- valo de confiança de 95% significa que, para cada
samento do texto; Relações entre recursos expressi- amostra retirada e cada intervalo de confiança
vos e efeitos de sentido; Variação lingüística. construído, em 95% das vezes, esse conterá o ver-
Em Matemática, as habilidades foram dadeiro valor para a população.
distribuídas nos quatro temas da Matriz de Referência Pode-se testar se o verdadeiro valor para a
do Saeb: Espaço e Forma; Grandezas e Medidas; população difere de um determinado valor dado ve-
Números e Operações; Tratamento da rificando se esse valor está fora do intervalo de con-
Informação. fiança. Neste caso, diz-se que o verdadeiro valor para
Neste Relatório, além da escala comum, serão a população difere significativamente do valor dado.
apresentados os níveis interpretados para cada uma Se este valor estiver dentro do intervalo, diz-se que o
das séries isoladamente, tanto para Língua verdadeiro valor para a população não é significati-
Portuguesa quanto para Matemática. Esta forma de vamente diferente do valor dado.
apresentação atende a pedidos de professores de No Saeb, freqüentemente há interesse em tes-
todo o Brasil, servindo para uma análise mais acurada tar se as médias dos desempenhos dos alunos de
das habilidades já desenvolvidas pelos alunos nos duas UFs ou de duas regiões são diferentes.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 15

Pode-se testar essa igualdade de médias verificando relação ao trabalho do professor. Este, que antes tinha
se seus intervalos de confiança se cruzam. o objetivo de “transmitir conhecimentos”, passa agora
Para verificar se há diferenças significativas a objetivar o desenvolvimento de habilidades. Então
entre duas médias, como, por exemplo, se a média muda o foco, muda a prática escolar, pois trabalhar
de desempenho dos estudantes de 4a série do Ensino habilidades lingüísticas implica trabalhar o
Fundamental da Região 1 é significativamente dife- funcionamento da língua.
rente da média da Região 2, traçam-se linhas hori- Ademais, os Parâmetros Curriculares Nacio-
zontais nos limites superior e inferior do intervalo de nais, que traduzem as diretrizes do Ministério da
confiança da média da Região 1. Como uma das li- Educação, consideram que:
nhas cruza o intervalo de confiança da Região 2, não ... o ensino da Língua Portuguesa deve voltar-se para a
se pode dizer que existam diferenças significativas função social da língua como requisito básico para que o
entre as médias dessas duas regiões. Essa situação indivíduo ingresse no mundo letrado e possa construir seu
está exemplificada no gráfico a seguir. processo de cidadania.
Nesse sentido, o texto deve ser entendido
como unidade comunicativa – e significativa – por
excelência. Tanto o estudo da gramática como o das
estruturas lingüísticas que compõem o texto exigem
um redirecionamento do enfoque da prática pedagó-
gica no ensino da Língua Portuguesa. O domínio da
língua culta não é mais o único objetivo. A esse do-
mínio deve aliar-se a busca consciente de comporta-
mentos lingüísticos compatíveis com as diversas si-
tuações de uso lingüísticos, privilegiando-se o uso so-
cial da língua nas suas mais diversas manifestações.
A Matriz de Referência4 que subsidia a cons-
Gráfico 2 trução dos itens dos testes de Língua Portuguesa do
Exemplo de gráfico com médias de desempenho Saeb por meio de seus descritores está estruturada
sobre o foco Leitura. Esse foco requer a competência
Também podemos verificar se há diferenças de apreender o texto como construção de conheci-
significativas entre as médias da Região 1 e da Re- mento em diferentes níveis de compreensão, análise
gião 3. Analisando o gráfico anterior, como o inter- e interpretação. Os objetos de conhecimento ou con-
valo da Região 3 não toca a linha traçada a partir do teúdos, por sua vez, constituem instrumentos de aces-
limite inferior do intervalo da média da Região 1, so às competências lingüísticas que o aluno/leitor
pode-se dizer que há diferenças significativas entre demonstra por meio de um conjunto de habilidades
as médias das Regiões 1 e 3. específicas reunidas no foco Leitura.
Para testar se a média de uma UF é diferente Considerando-se que a Leitura é condição es-
da média de sua Região ou da média do Brasil, como sencial para que o aluno possa compreender o mun-
a UF está contida na Região e no Brasil, este proce- do, os outros, suas próprias experiências e a neces-
dimento não é exato, mas pode ser utilizado como sidade de inserir-se no mundo da escrita, torna-se
uma aproximação, a partir do mesmo procedimento imperativo desenvolver no aluno a capacidade da lei-
descrito acima. tura e fazê-lo ir além da simples decodificação de
palavras. É preciso levá-lo a captar por que o es-
3.1 O ENSINO DA LÍNGUA PORTUGUESA: UMA critor está dizendo o que o texto está dizendo, ou
REFLEXÃO SOBRE A PRÁTICA seja, ler as entrelinhas. Podemos ir mais além: o
aluno deve ser levado não só a assimilar o que o
Nos últimos anos, surgiram alguns questiona- texto diz, mas também como e para que diz (Kato,
mentos sobre o ensino da Língua Portuguesa que re- 1990).
sultam, em última análise, em dois níveis de exigên-
cias: 1) que o aluno seja um usuário competente da 3.2 CONVERSANDO SOBRE OS RESULTADOS
língua; 2) que ele seja um aluno crítico, reflexivo e
independente. A análise dos resultados dos itens dos testes
Assim, no que se refere ao ensino da Língua de Língua Portuguesa (4ª e 8ª séries do Ensino Fun-
Portuguesa, surge também uma nova exigência em damental e 3ª série do Ensino Médio) apresentada

4
Saeb 2001 – Novas Perspectivas, p. 35–37.
16 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

neste relatório está apoiada em alguns fatores. En- construção do conhecimento, considerada a totalidade
tre esses, os mais observados são: a) os elementos dos itens apresentados no teste.
estruturais (indicadores sobre a forma, a função e
a estrutura sintática do texto); b) as pistas lingüís-
ticas (elementos verbais e não-verbais); e c) a
complexidade textual (familiaridade com o conteú-
do e fatores lingüísticos – o vocábulo, a sentença e
o texto).
Os itens serão apresentados obedecendo a um
critério de complexidade de construção do conheci-
mento. Os graus de complexidade foram definidos a
partir dos níveis de abrangência e abstração dos con-
teúdos abordados pelos itens.
Dos 169 itens que constituíram os testes de
Língua Portuguesa do Saeb 2001, distribuídos entre
seis tópicos representativos da Matriz de Referência
de Língua Portuguesa, foram selecionados alguns
descritores e itens. Todos os itens analisados são
acompanhados de uma tabela com percentual de res-
postas para cada alternativa.
A análise do item foi realizada levando-se em
consideração o texto-base, os objetos de conhecimento
e o desempenho dos alunos. A partir disso, foi possí-
vel evidenciar o nível de habilidades desenvolvidas e
os conteúdos construídos pelos alunos.
O desempenho dos alunos avaliados pelo
Saeb está representado em escalas. As escalas
de desempenho do Saeb não têm limites determi-
nados, ou seja, elas não têm um valor numérico
inicial e final definidos como as escalas adotadas
para avaliação dos alunos em sala de aula, onde o
limite é fixo e, geralmente, assumem o valor de 0
a 10 ou de 0 a 100.
A escala de desempenho de Língua Portugue-
sa do Saeb 2001 apresenta-se em um continuum com
intervalos que possuem valores demarcados que va-
riam de 1 a 8, assim traduzidos:

Tabela 1 – Relação dos níveis com a proficiência

Níveis Proficiência Níveis Proficiência


1 125 5 250
2 150 6 300
3 175 7 350
4 200 8 375 ou mais

Por meio das escalas de desempenho, é possí-


vel fazer uma leitura e compreender os resultados da
avaliação. A interpretação de cada nível indica o que
os alunos demonstram saber a partir do desempenho
em cada item.
Esta análise revela que, à medida que os níveis
de desempenho dos alunos aumentam, os itens vão
se tornando mais complexos. Desta forma, serão
apresentadas as escalas para cada série que
representarão o comportamento dos alunos na
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 17

Análise dos Itens do Teste de


Língua Portuguesa – 4ª Série
do Ensino Fundamental
18 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

4 ANÁLISE DOS ITENS DO TESTE DE LÍNGUA PORTUGUESA – 4ª SÉRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL

Antes de prosseguir com a análise dos itens Portanto, os itens analisados e comentados
de 4ª série do Ensino Fundamental, será apresentada permitem avaliar a competência requerida pelo tópi-
a escala de desempenho dos alunos dessa série em co e demonstrada pelos alunos testados, na medida
Língua Portuguesa, com as devidas interpretações. em que demonstraram o desenvolvimento de um con-
A análise dos itens foi realizada levando-se junto de habilidades específicas e a construção dos
em consideração o critério de complexidade de cons- conteúdos. Os resultados obtidos indicarão em que
trução do conhecimento demonstrado na escala de fase da construção do conhecimento esses alunos se
desempenho. encontram.

ESCALA DE DESEMPENHO – LÍNGUA PORTUGUESA, 4ª SÉRIE


Na 4ª série do Ensino Fundamental, os alunos dominam as seguintes habilidades: (continua)
NÍVEIS E PERCENTUAIS DE ALUNOS BRASILEIROS NOS NÍVEIS
TÓPICOS * HABILIDADES 1 – 17,77% 2 – 18,99% 3 – 17,33% 4 – 18,85% 5 – 4,42%
125-150 150-175 175-200 200-250 250-300
Localizam • em um texto. • em textos narrativos curtos como histórias infantis (contos de fada e
informações fábulas).
explícitas • em outros gêneros textuais como comunicado da escola aos pais e
pequenos poemas descritivos e narrativos.
• em textos mais complexos mais longos e não
narrativos (texto publicitário).
• em textos publicitários de
revistas e jornais.
• em textos
poéticos não
descritivos
(poema narra-
tivo simples e
canção popular).
I. Inferem o • de palavras em textos simples (história em quadrinhos).
Procedimentos sentido • de palavra ou expressão em texto narrativo (história
de Leitura infantil).
• de expressão de uso corrente em
textos informativos.
Identificam • acompanhada de ilustrações em histórias em quadrinhos e em texto
informação narrativo simples (prosa ou em verso).
implícita • em texto descritivo (fábula).
• em narrativa curta com material
ilustrativo.
Identificam o • de texto narrativo simples (histórias infantis) com apoio de elementos
tema explícitos (figuras).
• de um texto informativo (em revista).
• de texto poético de baixa comple-
xidade (poema descritivo).
• em narrativa curta (fábula) com
base em material ilustrativo.

Distinguem fato • em textos narrativos simples (histórias em quadrinhos) e texto com ou


de opinião sem ilustrações.
relativa a esse
fato

Interpretam • com auxílio de recursos gráficos (em histórias em quadrinhos).


II. Implicações texto
do Suporte, do
Gênero e/ou do
Enunciador na
Compreensão Identificam a • de texto narrativo simples.
do Texto finalidade • de textos de diferentes gêneros.

(*) O Tópico Relação entre textos não foi contemplado na escala de desempenho – Língua Portuguesa, 4ª série do Ensino Fundamental.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 19

ESCALA DE DESEMPENHO – LÍNGUA PORTUGUESA, 4ª SÉRIE


Na 4ª série do Ensino Fundamental, os alunos dominam as seguintes habilidades: (conclusão)
NÍVEIS E PERCENTUAIS DE ALUNOS BRASILEIROS NOS NÍVEIS
TÓPICOS HABILIDADES 1 – 17,77% 2 – 18,99% 3 – 17,33% 4 – 18,85% 5 – 4,42%
125-150 150-175 175-200 200-250 250-300
Identificam • que constroem uma narrativa simples (espaço).
elementos • constitutivos da narrativa (personagens).
• que identificam o conflito gerador do enredo.
• espaço (em crônicas), persona-
gens, conflito e desfecho (em
histórias infantis).

Estabelecem • em histórias em quadrinhos.


relações de • por meio de relações anafóricas
continuidade em textos curtos e simples.
IV. Coerência e
• por meio de
Coesão no
relações
Processamento
anafóricas e
do Texto
textos de
complexidade
média.

Estabelecem • entre partes e elementos do texto.


relação causa/ • em poemas curtos.
conseqüência • em textos poéticos.
• em textos de complexidade média (fábula).

Estabelecem • presentes no texto marcadas por conjunções.


relações lógico-
discursivas

Identificam o • decorrente da disposição gráfica


efeito de sentido das palavras em um texto.
• decorrente do
V. Relações
uso expressivo
entre Recursos
da pontuação
Expressivos e
(ponto de
Efeitos de
interrogação) e
Sentido
da repetição de
uma letra em
uma palavra.

Identificam • próprias do meio rural e urbano.


VI. Variação marcas lingüísti- • que caracterizam o locutor e o interlocutor do texto.
Lingüística cas • próprias de textos comerciais.

ANÁLISE DOS ITENS DO TESTE DE demonstrar um conjunto de habilidades lingüísticas


LÍNGUA PORTUGUESA que se estendem desde a habilidade de decodificar
4a SÉRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL – SAEB 2001 palavras escritas até a capacidade de compreender
textos escritos de gêneros variados e em diversas
TÓPICO I – PROCEDIMENTOS DE LEITURA situações. Os alunos devem, pois, demonstrar habili-
(DESCRITORES 01, 03, 04, E 06) dades que vão desde a localização de uma informa-
ção explícita até a inferência de uma informação
Este tópico requer dos alunos estratégias de implícita; devem ler as “entrelinhas” e identificar a
leitura para identificar as informações que se encon- idéia central de um texto, ou seja, apreender o senti-
tram no próprio texto e aquelas que, ao extrapolar do global do texto e fazer abstrações a respeito dele.
esse texto, vão exigir do leitor um conhecimento do Para avaliar as competências requeridas por
mundo letrado. este Tópico, foram selecionados os descritores (01,
O leitor competente será capaz de, por meio 03, 04 e 06) e itens que ilustrassem bem as habilidades
dos itens referentes aos descritores deste Tópico, desenvolvidas por aqueles alunos que se revelassem
20 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

leitores competentes. Ao mesmo tempo, hipóteses NÍVEL 2


foram levantadas no sentido de se refletir sobre as
causas reveladoras do pouco domínio de Leia o texto.
procedimentos de leitura.
Em relação ao Descritor 01, que requer tare- Senhores Pais ou Responsáveis:
fas simples de localizar informações em um texto, a Como é de conhecimento de todos, nossa es-
variação no percentual de acertos é de ordem de- cola promove habitualmente uma festa junina que,
crescente (71% a 42%), à medida que os textos se neste ano, será realizada no próximo dia 15, a partir
tornam mais complexos. Segundo Kato (1990), “(...) das 10h.
o leitor imaturo procura interpretar localmente o tex- Haverá barracas de comes e bebes, churras-
to, negligenciando o plano mais geral e global”. co, cachorro quente, pipoca, algodão doce, quentão,
Os itens do Descritor 03 vão exigir do aluno vinho quente e refrigerantes. Haverá também bar-
tarefas inferenciais de sentido de palavras ou ex- racas para divertimentos, especialmente das crian-
pressões. Apresentam um desempenho quase ho- ças, pescaria, argolas, tiro ao alvo, coelhinho, e todas
mogêneo (79%, 65% e 60%); a exceção deve-se ao aquelas brincadeiras tradicionais.
item que apresentou um poema cuja resposta reme- Cada uma das classes apresentará uma dança
tia à interpretação de linguagem figurativa (34%). apropriada para a ocasião e, no final, após a coroa-
Quanto ao Descritor 04, este exigiu do aluno ção da Miss Caipira, faremos uma grande quadrilha,
tarefas inferenciais desde as mais simples às mais com os Professores e Funcionários.
complexas. Aqui, novamente, o nível de desempe- Solicitamos a colaboração de Pais e Alunos.
nho foi quase homogêneo (65%, 55% e 54%). O Quanto maior for a arrecadação com a venda de
índice menor (42%) aconteceu também num item votos, oferecimento de prendas e movimentação das
cujo texto-base é um poema. Verifica-se, portanto, barracas, maior será o benefício para a escola. Pre-
uma recorrência na dificuldade de o aluno lidar com tendemos ampliar nossa área de esportes, com a
a leitura de textos poéticos, pois estes exigem do lei- construção de uma quadra polivalente, o que, sem
tor dois níveis de domínio: o cognitivo e o afetivo. dúvida, trará benefícios para os alunos.
O último descritor selecionado para o Tópico Contando com a participação de todos,
I foi o Descritor 06, que exige do aluno a identifica-
ção do tema de um texto. Dos três itens analisados, Antecipadamente agradece,
os dois primeiros apresentam homogeneidade no A Direção
percentual de acertos (65% e 62%), enquanto que o
terceiro apresenta uma discrepância muito grande O texto faz um convite para
em relação aos dois primeiros.
A seguir, serão analisados os itens para avali- (A) o aniversário do diretor.
ar as competências e habilidades dos alunos, no que (B) a festa junina.
se refere aos procedimentos de leitura. (C) um baile de máscaras.
(D) uma reunião de pais e mestres.

DESCRITOR 01 Percentual de respostas às alternativas


LOCALIZAR INFORMAÇÕES EXPLÍCITAS EM UM TEXTO. A B C D Em branco e nulas
10 71 4 9 6
A informação a que este descritor se refere
pode ser localizada a partir de marcas que o texto O texto-base deste item faz parte do conteú-
traz; isto é, a partir da base textual, o leitor encontra do comunicativo entre escola e família. A estrutura
uma informação explícita quando responde a per- é simples, e os vocábulos são fáceis. Todos esses
guntas desse tipo: O quê? Quem? Onde? Como? fatores contribuem para o alto nível de desempenho
Quando? Qual? Para quê? alcançado pelos alunos.
Pretende-se, portanto, com este descritor, ve- O item requer dos alunos habilidades de loca-
rificar a capacidade dos alunos de localizar uma ou lizar determinada informação explícita no texto. Para
mais informações objetivas marcadas no texto. isso, é necessário que eles, após uma leitura geral do
A dificuldade dessa tarefa vai variar de acor- texto e da questão proposta, saibam retornar ao pon-
do com a quantidade de informações que precisarão to do texto em que se encontra a resposta que, neste
ser localizadas. Depende, também, da relevância da caso, está facilitada, pois se encontra na primeira
informação e da familiaridade do leitor com o gêne- linha do primeiro parágrafo.
ro textual e com o assunto nele tratado, bem como Os alunos (71%) que escolheram a alternativa
do tamanho do texto. correta “B” demonstraram competência de leitura
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 21

de textos simples e souberam encontrar informações a expressão “muita sabedoria”. Esses alunos tiveram,
de fácil localização no texto. Os que se dispersaram pois, dificuldades para interagir com o texto.
pelas alternativas erradas não dominam, ainda, o
processo de leitura de textos simples.
NÍVEL 4

NÍVEL 3 Leia o trecho.

O Menino Maluquinho Era uma vez, no mês de janeiro, muitos índi-


Era uma vez um menino os. E ativos: caçavam, pescavam, guerreavam.
maluquinho Mas nas tabas não faziam coisa alguma: deita-
Ele tinha o olho maior que a vam-se nas redes e dormiam roncando. E a co-
barriga mida? Só as mulheres cuidavam do preparo dela
tinha vento nos pés para terem todos o que comer.
umas pernas enormes (que Uma vez elas notaram que faltava milho
davam para abraçar o mundo) no cesto para moer. Que fizeram as valentes mu-
e macaquinhos no sótão lheres? O seguinte: sem medo, enfurnaram-se nas
(embora nem soubesse o que matas, sob um gostoso sol amarelo. As árvores
significava macaquinho no rebrilhavam verdes e embaixo delas havia som-
sótão) bra e água fresca. Quando saíam de debaixo das
Ele era um menino impossível copas encontravam o calor, bebiam no reino
Ele era muito sabido das águas buliçosas. Mas sempre procurando mi-
ele sabia de tudo lho porque a fome era daquelas que as faziam
a única coisa que ele não sabia comer folhas de árvores. Mas só encontravam es-
era como ficar quieto. pigazinhas murchas e sem graça.

Texto e ilustração Ziraldo, O Menino Clarice Lispector


Maluquinho, Círculo do Livro, 1980.
De acordo com o texto, quem encontrava as espi-
O Menino Maluquinho tinha gazinhas murchas e sem graça eram
(A) pernas enormes e cabelos longos. (A) os índios. (C) os animais.
(B) muita sabedoria e braços compridos. (B) as mulheres. (D) os garotos.
(C) macaquinhos e braços compridos.
(D) pernas enormes e muita sabedoria. Percentual de respostas às alternativas
A B C D Em branco e nulas
Percentual de respostas às alternativas 30 48 7 6 9
A B C D Em branco e nulas
13 10 9 59 9 O texto é um fragmento e tem estrutura com-
plexa, pois estabelece relações anafóricas que, prova-
A leitura de poemas requer o uso de procedi- velmente, não são tratadas na 4ª série do Ensino Fun-
mentos específicos, relacionados com as particularida- damental. O enunciado remete os alunos ao segundo
des lingüísticas e semânticas da linguagem poética. Ape- parágrafo, porém a resposta correta “B” (48%), mu-
sar dessas particularidades dos textos poéticos, este item lheres, encontra-se no primeiro parágrafo e terá que
trabalha com um poema de estrutura simples e de ser resgatada a partir da desinência verbal de 3ª pessoa
temática bastante conhecida. do plural dos verbos usados no 2º parágrafo (notaram,
Os alunos que escolheram a alternativa correta enfurnaram-se, encontravam).
“D” demonstraram perspicácia de leitores que sabem É possível que a familiaridade com a temática,
interagir com o interlocutor/escritor. Esses (59%) sou- que é trabalhada desde as primeiras séries do Ensino
beram lidar com o lúdico e perceberam as pistas deixa- Fundamental, tenha funcionado de duas maneiras dis-
das pelo escritor no texto. tintas: 1ª) a aproximação com o tema propiciou a esco-
No entanto, pode-se partir da hipótese de que os lha da alternativa correta, apesar da complexidade tex-
alunos que escolheram as alternativas erradas tiveram tual; 2ª) a alternativa errada “A” que se mostrou mais
dificuldade de duas ordens: a) localizar duas informa- atraente aponta como resposta o vocábulo “índio”, de
ções separadas e juntá-las para formar a resposta cor- conhecimento comum dos alunos.
reta; b) localizar as informações “sabido” e “sabia de Os (48%) dos alunos que selecionaram a
tudo”, para estabelecer a relação lógico-semântica com resposta correta souberam “mapear” o texto e
22 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

identificaram o referente pessoal de “mulheres”(elas), aparece uma palavra difícil. O sentido para uma palavra
o que facilitou a escolha da resposta requerida pelo ou expressão pode ser construído pelo leitor que tenha
item. Os que foram atraídos pela alternativa errada habilidade de perceber outras marcas que o texto traz.
“A” (30%) são leitores superficiais, que podem ter Neste sentido, uma inferência plausível preci-
seguido pistas verbais falsas como “índio”. sa manter relações lógicas internas com o item, en-
quanto “sentido de uma palavra ou explicação” para
relevar competência cognitiva e cultural e não fan-
NÍVEL 5 tasia, contradição interna ao texto, etc.
Há algumas estratégias que o leitor pode utili-
Leia o trecho. zar para produzir significado para uma palavra des-
conhecida. Ele pode observar marcas fonológicas
Desde que o astrônomo Galileu Galilei apontou, (semelhança de som com outras palavras conheci-
em 1610, sua luneta em direção a Júpiter e desco- das); morfológicas (explorando as partes de que a
briu quatro de seus 16 satélites, este planeta tem palavra se compõe, como prefixos, sufixos, radicais,
sido a maior fonte de fascínios para os cientistas. etc.); sintáticas (a posição e função da palavra na
Fonte: ISTO É , nº.1403, p.43, ago.1996. frase, ou seja, o contexto sintático em que ela apare-
ce); semânticas/pragmáticas, ou seja, o sentido de
O texto afirma que outras partes do texto, o contexto.
(A) em 1610 Galileu Galilei descobriu quatro As palavras ou expressões novas, quando es-
satélites de Júpiter. trategicamente colocadas, não devem, pois, retardar
(B) Galileu Galilei descobriu os 16 satélites a leitura ou prejudicar o seu entendimento.
de Júpiter.
(C) Júpiter tem sido motivo de preocupação
de Galileu Galilei. NÍVEL 1
(D) os 16 satélites de Júpiter foram desco-
bertos em 1610. Leia os quadrinhos

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
42 22 7 20 9

Este item requer do aluno habilidades de leitu-


ra de texto com informações que envolvem núme-
ros. Embora a informação esteja explícita, é de se
supor que os alunos que foram atraídos pelas alter-
nativas erradas “B” (22%) e “D” (20%) tiveram di-
ficuldades de duas ordens: a) interpretar o número
cardinal por extenso (quatro), o algoritmo (16) e en-
tender o significado de ambos; b) interpretar a no-
ção de fração subjacente à informação.
Aqueles alunos que selecionaram a alternati-
va correta “A” (42%) demonstraram domínio de lei-
tura de textos curtos e souberam seguir pistas que
se apresentaram em linguagem matemática.

DESCRITOR 03
INFERIR O SENTIDO DE UMA PALAVRA OU EXPRESSÃO
A palavra “Uai”, na historinha, significa
Inferir significa realizar um raciocínio a partir
de informações já conhecidas, a fim de se chegar a (A) susto. (C) emoção.
informações novas, que não estejam explicitamente (B) alegria. (D) coragem.
marcadas no texto. Neste descritor, pretende-se
verificar se o leitor é capaz de inferir o significado Percentual de respostas às alternativas
de uma palavra ou expressão que ele desconhece. A B C D Em branco e nulas
Nem sempre é preciso recorrer ao dicionário quando 79 5 4 6 6
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 23

Este item permite avaliar se o aluno sabe in- texto facilita a aproximação do leitor, pois os contos
ferir o sentido de uma palavra ou expressão em um de fadas são de domínio do público infantil.
texto. Os alunos demonstram familiaridade com his- Apesar disso, 15% dos alunos escolheram a
tórias em quadrinhos, talvez porque estas represen- alternativa errada “A”, possivelmente porque segui-
tem uma feliz combinação de texto escrito e ilustra- ram a pista falsa da informação contida na primeira
ções. Aqui, os quadrinhos funcionam como pistas linha do texto (... se apaixonou a bruxa horrenda...).
não-verbais que os auxiliam no levantamento do sen- Os demais que se dispersaram quase homogenea-
tido do vocábulo desejado. mente pelas alternativas “B” (6%) e “D” (6%) de-
Sabe-se que as interjeições são de uso cotidi- monstraram pouca aproximação com textos dessa
ano do falante, especialmente a requerida no enun- natureza.
ciado. O contexto apresentado pela história em qua- No entanto, a maioria dos alunos (65%) que
drinhos facilitou a escolha da alternativa correta “A” escolheram a alternativa correta “C” souberam fa-
(79%) demonstrando o entendimento pelo leitor do zer inferência de significado a partir do contexto e
valor da interjeição “uai”, no contexto dado. demonstraram excelente poder de discriminação
As alternativas de resposta apresentam subs- quando colocados diante de alternativas semantica-
tantivos que, mesmo abstratos, representam um con- mente opostas (furiosa/calma).
teúdo semântico familiar aos alunos desde as pri- Pode-se presumir, também, que esses alunos
meiras séries, o que deve ter colaborado na facilita- têm conhecimento prévio sobre o assunto do texto e
ção da escolha da resposta correta. familiaridade com os “contos de fadas”, ainda que
numa contextualização moderna.

NÍVEL 2
NÍVEL 3
Leia o texto.
O Saber da Vovó
O sapo
Na noite chuvosa, Dona Carmelita se preo-
Era uma vez um lindo príncipe por quem todas cupava com Maurinho: febre alta, diarréia, boca
as moças se apaixonavam. Por ele também se apai- seca, suores frios. O médico estava longe daque-
xonou a bruxa horrenda que o pediu em casamen- le sertão e remédios não havia em casa.
to. O príncipe nem ligou e a bruxa ficou muito O que fazer? – pensou Dona Carmelita.
brava. “Se não vai casar comigo não vai se casar Logo ela se lembrou de como sua avó fazia
com ninguém mais!” Olhou fundo nos olhos dele e quando ela era criança. Preparava um remedinho
disse: “Você vai virar um sapo!” Ao ouvir esta fácil: água, açúcar, sal, limão e amido de milho
palavra o príncipe sentiu estremeção. Teve medo. misturadinhos, e oferecia-lhe em bons goles. E as-
Acreditou. E ele virou aquilo que a palavra feitiço sim foi feito...
tinha dito. Sapo. Virou um sapo. Amanheceu. Maurinho dormia tranqüilo e
Dona Carmelita preparava, no fogão-a-lenha, um
ALVES, Rubem. A alegria de ensinar. bom mingau de fubá e dizia:
Ars Poética, 1994 – Esse é forte e dá sustança!

Na frase “O príncipe nem ligou e a bruxa ficou Que sentido tem a expressão usada por Dona
muito brava”, a palavra brava significa Carmelita?
“– Esse é forte e dá sustança!”
(A) apaixonada.
(B) calma. (A) Certeza do efeito do alimento para
(C) furiosa. fortalecer seu filho.
(D) horrenda. (B) Dúvida de que o mingau recuperaria o
menino.
Percentual de respostas às alternativas (C) Incerteza do valor nutritivo do fubá.
A B C D Em branco e nulas (D) Satisfação em atender a vontade de
15 6 65 6 8 Maurinho.

O item apresenta um texto ficcional de estru- Percentual de respostas às alternativas


tura simples. A temática é de conhecimento dos alu- A B C D Em branco e nulas
nos e o vocabulário é de fácil acesso. Ademais, o 60 14 10 9 7
24 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

Pela percentagem de acertos (alternativa Este item apresenta o poema de Ziraldo, bas-
“A”), verifica-se que o item foi bem respondido, o tante familiar aos alunos. Como foi dito anterior-
que significa que 60% dos alunos, em contato com mente, a estrutura é simples, apesar da linguagem
textos que apresentam referenciais antigos, demons- figurada presente no texto. Para executar a tare-
tram bom conhecimento de mundo. Pode-se obser- fa exigida pelo enunciado, os alunos deveriam iden-
var, ainda, que esses alunos sabem fazer associação tificar uma das características do Menino
simples entre palavras (água, açúcar, sal, limão e Maluquinho a partir da inferência de significado
amido de milho), como, por exemplo, para inferir da expressão “tinha vento nos pés”. Pelos resul-
que as palavras referem-se a ingredientes de uma tados apresentados, percebe-se que uma maioria
receita de remédio caseiro. expressiva escolheu a alternativa errada “C”. Pre-
É bem possível que as dificuldades surgidas sume-se que esses alunos não souberam seguir a
tenham sido causadas pelo vocábulo “sustança”, pista não-verbal (asas) do desenho e fazer a rela-
que pode não fazer parte do universo semântico das ção semântica com a resposta correta (andava rá-
crianças de séries iniciais e que exigiu a inferência a pido, pulando). Por outro lado, pode-se levantar,
partir do contexto. Neste caso, o vocábulo pode ter ainda, hipóteses como: a) houve uma associa-
sido obstáculo à compreensão da expressão. ção semântica com o tamanho das pernas (re-
A escolha das alternativas erradas “B” (14%) forçada pelo desenho); b) houve a interferên-
e “C” (10%) sugere que, além do desconhecimento cia da informação explícita no poema (...per-
do vocábulo “sustança”, a pouca familiaridade com nas enormes...).
o assunto (remédio caseiro) levou os alunos à dis- Os alunos (34%) que escolheram a
persão verificada nos resultados apresentados. alternativa correta “A” demonstraram maturidade
de leitor competente que apreende o contexto, e
sabe fazer inferências, a partir da linguagem
NÍVEL 4 figurativa, para encontrar o significado de
vocábulos e expressões.
O Menino Maluquinho
Era uma vez um menino
maluquinho DESCRITOR 04
Ele tinha o olho maior que a INFERIR UMA INFORMAÇÃO IMPLÍCITA EM UM TEXTO
barriga
tinha vento nos pés As informações implícitas no texto são aque-
umas pernas enormes (que davam las que não estão presentes claramente na base
para abraçar o mundo) textual, mas podem ser construídas pelo leitor, por
e macaquinhos no sótão meio da realização de inferências que as marcas
(embora nem soubesse o que significava do texto permitem.
macaquinho no sótão) Além das informações explicitamente enun-
Ele era um menino impossível ciadas, há outras que podem ser pressupostas e,
Ele era muito sabido conseqüentemente, inferidas pelo leitor. O leitor
ele sabia de tudo perspicaz é aquele que consegue ler o que está
a única coisa que ele não sabia por trás das linhas.
era como ficar quieto. Neste descritor, pretende-se que o leitor
faça inferências, necessárias para que significa-
Texto e ilustração Ziraldo, O Menino dos importantes e decisivos sejam produzidos; des-
Maluquinho, Círculo do Livro, 1980. cubra os pressupostos e os subentendidos.
A dificuldade desse tipo de tarefa depende
A expressão “tinha vento nos pés” significa que da inferência exigida, ou seja, existem vários níveis
o menino maluquinho de informações implícitas, ou não ditas, no texto.
Dependendo do texto, o leitor pode ter de fazer
(A) andava rápido, pulando. inferências mais simples ou mais complexas,
(B) era muito sabido. como pode ser observado nos itens a seguir.
(C) tinha pernas enormes. Pode-se verificar que os itens representati-
(D) sabia de tudo. vos deste descritor apresentam resultados cujo de-
sempenho é equilibrado, numa demonstração de
Percentual de respostas às alternativas que os alunos apreendem bem o sentido de textos
A B C D Em branco e nulas mais complexos.
34 17 30 12 7
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 25

NÍVEL 2 O contexto exige, pois, do aluno, certa reflexão.


Para inferir a informação requerida pela questão, o
leitor tem que ter um bom nível de letramento, para
ler as “entrelinhas”, entender a posição filosófica do
personagem e, então, apontar uma de suas
características psicológicas.
No entanto, a interlocução direta (posso falar
Nome, coleira e liberedade com franqueza?) e as pistas verbais e não-verbais
do texto podem ter auxiliado os alunos (65%) que
Eu sempre me orgulhei da condição de vira-lata. escolheram a alternativa correta “B”. Esses demons-
Sempre fui um cachorro de focinho para cima. traram ser leitores competentes com conhecimento
Fujo de pedrada, que eu não sou besta. de mundo e aproximação com o texto.
Fujo de automóvel, que não sou criança.
Trato gente na diplomacia: de longe! NÍVEL 3
Não me deixo tapear.
Comigo não tem “não-me-ladres”... O cão e o lobo
Se preciso, eu ladro e mordo! Um cão passeava pela floresta quando topou com
E coleira, aceitar eu não aceito, de jeito nenhum! um lobo magro. Aos poucos os dois fizeram amizade.
Quando vejo certos colegas mostrando com or- – Puxa, cachorro! Como você está gordo e bem-
gulho aquela rodela imbecil no pescoço, como se fos- tratado...
se não coleira, mas colar, chego a ter vergonha de – É que eu tenho um dono. Meu dono me dá três
ser cão. boas refeições por dia, escova meu pêlo, me dá uma
Palavra de honra! casa de madeira... Em troca disso, pede que eu lhe
A coleira é o dono! guarde a casa dos assaltantes e lhe faça uns agrados
A coleira é escravidão! de vez em quando.
Coleira é o adeus à liberdade! – Só isso? Mas deve ser maravilhoso ter um dono
Dirão vocês: a coleira pode livrar o cachorro da – concluiu o lobo.
carrocinha. O cão então convenceu o lobo a acompanhá-lo,
Posso falar com franqueza? certo de que seu dono gostaria de ter mais um ani-
Cachorro que não sabe fugir da carrocinha pelas mal de estimação.
próprias patas, que não é capaz de autografar a ca- Os dois andaram por um certo tempo, até que o
nela de um caçador com os próprios dentes, não tem lobo percebeu uma coleira no cachorro.
direito de ser cão. – O que é isso? – perguntou o lobo.
E é por isso que eu sempre fui contra o nome que – Ah, isto é uma coleira. Às vezes, meu dono se
os homens me impingem. Porque é símbolo, tam- irrita e me prende numa corrente. Mas é por pouco
bém, de escravidão. tempo, logo eu estou solto de novo.
O lobo parou, pensou um pouco... e voltou atrás.
LESSA, Orígenes. Podem me chamar de baca- De longe, ainda falou para o cachorro:
na. Rio de Janeiro: Tecnoprint, 1977, p. 25-28. – Não, cachorro. Não sirvo para essa vida. Eu sei
que mais vale a liberdade com fome do que o luxo na
No texto, o cão é prisão.
(A) covarde. (C) tolo.
(B) livre. (D) envergonhado. Fábula recontada por Marcia Kupstas,
Sete faces da fábula.
Percentual de respostas às alternativas São Paulo, Moderna, 1993. (Texto adaptado)
A B C D Em branco e nulas
10 65 6 10 9 O que aconteceu com o lobo quando soube que o
cachorro usava coleira?
A temática deste texto faz parte do cotidiano (A) Desistiu da liberdade.
das crianças. Apesar de ter uma estrutura simples, (B) Desistiu de ter um dono.
com frases curtas, pode-se verificar que há certa (C) Resolveu conhecer seu dono.
complexidade devido a fatores lingüísticos como vo- (D) Resolveu tirar a coleira do cachorro.
cábulos abstratos e distantes do cotidiano dos alunos
da 4ª Série: diplomacia, honra, escravidão, liber- Percentual de respostas às alternativas
dade. Isso pode explicar a dispersão homogênea das A B C D Em branco e nulas
alternativas erradas “A” e “D” (10%). 15 55 10 12 8
26 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

Este texto narrativo (fábula) apresenta uma es- O contexto apresentado no texto-base deste
trutura simples e de pouca complexidade. Mesmo no item, de certa forma, é familiar aos alunos. A dificul-
conhecimento de mundo de alunos de 4ª série, há uma dade maior, no entanto, pode ser atribuída ao gênero
infinidade de exemplos vivenciados no dia-a-dia e que textual escolhido. A crônica é pouco trabalhada nas
podem ser resgatados por meio dos ensinamentos con- séries iniciais, e o assunto (reminiscência de infân-
tidos nas fábulas. cia) também dificulta a aproximação do leitor de 4ª
De uma forma lúdica, mas nem por isso menos série com o texto, a menos que ele utilize conheci-
séria, o leitor é levado a perceber as mensagens nas mento de mundo.
entrelinhas e, portanto, inferir as informações requeridas. Pode-se levantar a hipótese de que, a partir
Os alunos com bom domínio de estratégias de da apreensão de fatos acontecidos num passado re-
leitura escolheram a alternativa correta “B” (55%). A cente, os alunos tiveram que inferir a informação
dispersão significativa pelas alternativas “A”, “C” e “D” requerida, ou seja, lembranças de fatos ocorridos num
identifica os alunos com certo grau de dificuldade de passado remoto. A falta de compreensão global do
leitura de textos fabulares. texto pode, também, ter levado um contingente signifi-
cativo de alunos a escolher a alternativa “B” (21%).
NÍVEL 4 No entanto, os alunos que responderam acer-
tadamente à questão (54%) proposta pelo item de-
O Retrato monstram habilidades de leitura de textos mais com-
Outro dia encontrei, na portaria do meu prédio, uma plexos e são capazes de inferir deles informações
meninazinha de blusa branca, saia azul, laço no ca- implícitas que exigem um processo inferencial mais
belo e sorriso nos lábios. Conversamos enquanto complexo, próprio de leitor maduro.
esperava o ônibus do colégio. Perguntei-lhe se esta-
va com saudades das férias. Confessou que sim, mas
disse que o colégio também era ótimo, que adorava o NÍVEL 4
colégio. Abrindo a pasta reluzente, mostrou-me os
livros novos, cuidadosamente encapados, os cader- Porquinho-da-índia
nos limpinhos, a caixa de lápis. Falou entusiasmada Quando eu tinha seis anos
sobre a professora, que era um amor, e as colegas, Ganhei um porquinho-da-índia.
camaradíssimas, todas suas amigas. Contou-me sua Que dor de coração me dava
resolução de estudar muito, de fazer os deveres di- Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
reitinho, de portar-se muito bem e tirar notas boas. Levava ele pra sala
Estava cheia de interesse, contente, de fato, de ir Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
para o colégio, e foi dos mais alegres o adeusinho Ele não gostava:
que me deu quando entrou no ônibus. Queria era estar debaixo do fogão.
Sorri com ela, e, quando voltei para casa, fui direto Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
olhar o retrato de uma meninazinha de seus sete, oito – O meu porquinho-da-índia foi a minha primeira
anos de idade, vestida com uma saia azul e blusa [namorada.
branca de um uniforme escolar. E tive uma saudade BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira.
imensa, infinita, daquela menina que tão atenta olha- Rio de Janeiro, José Olympio, 1986.
va o livro, tão confiante esperava a vida, aquela
meninazinha que fui eu. Na frase “Não fazia caso nenhum das minhas
ternurinhas”, o menino quer dizer que o porquinho
OURO PRETO, Maluh de. O Retrato, (A) não gostava dele.
in: Antologia escolar de crônicas. (B) só queria ficar na sala.
Rio de Janeiro, Ed. de Ouro s.d., 147-8 (C) não ligava para as delicadezas dele.
(D) gostava de lugares bonitos e limpinhos.
A meninazinha despertou na narradora lembran-
ças de quando Percentual de respostas às alternativas
(A) era criança. A B C D Em branco e nulas
(B) estava de férias. 17 11 42 22 8
(C) ganhou uma caixa de lápis.
(D) tinha uma pasta reluzente. O poema de Manuel Bandeira, apesar de ter
uma estrutura simples, vocábulos fáceis e apresen-
Percentual de respostas às alternativas tar uma temática familiar aos alunos, exige do leitor
A B C D Em branco e nulas um nível de interpretação mais elaborado, porque o
54 21 10 9 6 texto alterna sentimentos e atitudes contraditórias
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 27

entre o autor (1ª pessoa) e o personagem, um ani- NÍVEL 2


mal. A inferência sobre o sentido de uma informa-
ção relativa ao sentimento do autor depende da Os rios precisam de um banho
interlocução com o autor e da compreensão do con- A população das cidades esquece a importância
junto do poema. dos rios e os utilizam como cestas de lixo. O re-
A preferência pela alternativa correta “C” sultado muita gente já deve conhecer: enchentes!
revela que a maior parte dos alunos (42%) pode ter- Com tanto entulho, os canais de drenagem – isto
se apoiado em pistas verbais para inferir a informa- é, o caminho que as águas percorrem morro abai-
ção pedida. Eles também demonstraram habilidade xo, acabam ficando entupidos e causando inunda-
de seguir as pistas reais oferecidas pelo texto. ções em dias de chuvas fortes. Para evitar as en-
Os que se dispersaram pelas alternativas er- chentes – que, além da destruição, trazem doen-
radas “A”, “B” e “D” apresentaram dificuldades de ças –, a solução é não jogar lixo nos rios. O lugar
leitura de textos poéticos, especialmente na interpre- das coisas que não queremos mais, sejam chine-
tação do diálogo entre o poema e eles, ou seja, entre los, garrafas ou até eletrodomésticos, é a lata de
autor e o leitor. lixo!

TORRES, João Paulo Machado. Os rios preci-


DESCRITOR 06 sam de um banho. Ciência Hoje das Crianças,
IDENTIFICAR O TEMA DE UM TEXTO Rio de Janeiro: nº 98, p. 21, dez 1999.
(fragmento)
O tema é o eixo sobre o qual o texto se estru- O texto trata
tura. A percepção do tema responde a uma questão (A) da poluição dos rios.
essencial para a leitura: “o texto trata do quê?” Em (B) da poluição das indústrias.
muitos textos, o tema não vem explicitamente mar- (C) da reciclagem do lixo.
cado, mas deve ser percebido pelo leitor quando iden- (D) do desperdício de água.
tifica a função dos recursos utilizados, como o uso
de figuras de linguagem, de exemplos, de uma deter- Percentual de respostas às alternativas
minada organização argumentativa, entre outros. A B C D Em branco e nulas
Espera-se, com esse descritor, verificar a 65 6 12 9 8
capacidade do aluno de construir o tema do texto a
partir da interpretação que faz dos recursos utiliza- O item oferece um texto informativo sobre um
dos pelo autor. O leitor deve considerar o texto como problema ecológico bastante discutido nas escolas e
um todo, buscando um nível mais abstrato de leitura, muito difundido pela mídia. É um texto curto, sintati-
a fim de construir um significado global para ele, a camente simples e com vocabulário de fácil com-
partir de uma síntese que deve ser elaborada por ele, preensão. Pelo desempenho observado, este item
leitor. O grau de dificuldade dessa tarefa depende de pode ser considerado fácil. O vocábulo mais difícil
como estão marcadas as informações mais relevantes (drenagem) foi apoiado por uma nova informação
do texto e, também, de como o tema foi exposto, pois, presente na seqüência do texto.
às vezes, ele não está marcado claramente. O que se quis avaliar foi a capacidade dos
A familiaridade com o tema é um elemento alunos de reconhecer, entre as opções dadas pelas
facilitador para a resolução dos itens, como pode ser alternativas, as informações implícitas em um texto
observado no primeiro item, a seguir. e, a partir de inferências textuais, abstrair aquela que
identifica a idéia central.
Verifica-se que o item foi respondido correta-
mente por 65% dos alunos. Estes demonstraram ter
capacidade de identificar a idéia central de gêneros
textuais que tratam de assuntos ecológicos.
28 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

NÍVEL 3 O item apresenta um texto descritivo de es-


trutura simples, mas que apresenta certo nível de
Carnaval à moda da selva. dificuldade para leitura. Apesar de o texto referir-
“Sou anil, sou azulante,
Sou amante, sou galante,
“Em plena
amazônia, a festa
se ao folclore da região Norte do País e, portanto,
Sou daqui dessas paragens,
Parintins pode te querer”
do boi-bumbá,
esbanja luxo e apresentar uma temática regionalista, os alunos
tradição para 60
TRECHO DA TOADA DO CAPRICHOSOS mil turistas” que acertaram o item conseguiram inferir algu-
mas informações implícitas, outras explícitas e che-
gar à identificação do tema central. Alguns vocá-
“Surge uma paixão, luz na
escuridão, branco como as
bulos têm aproximação semântica com aqueles uti-
nuvens, plumas de algodão,
dança nesse chão meu boi-bombá” lizados em descrições de festas carnavalescas, e
TRECHO DA TOADA DO CAPRICHOSOS o próprio título do texto remete a isso.
Embora a questão proposta não esteja apoi-
ada no título, as marcas lingüísticas distribuídas
Parintins, no coração da Amazônia, explode ao longo do texto podem ter facilitado a escolha
em cores e paixões para comemorar o boi-bumbá, da resposta requerida pelo item e acertada por
uma festança de rara beleza que encanta os turistas. 62% dos alunos.
É noite na floresta. A 420 quilômetros de
Manaus, pelas águas do Rio Amazonas, um cal-
deirão azul e vermelho, com o formato estilizado
de um boi, acende em Parintins. Tudo ao redor
está escuro. Tum-tum-tum. Os surdos começam
a marcar o ritmo. Entra na arena a marujada de
guerra, a bateria do boi Caprichoso. As 15 mil pes-
soas que estão de azul cantam, gritam, agitam-se
como as águas de uma pororoca. Na metade de
lá das arquibancadas, a galera de vermelho, que
torce para o outro boi, o Garantido, mantém-se
num silêncio amazônico. É o início da festa do boi-
bumbá, realizada todos os anos, entre 28 e 30 de
junho, no coração da selva. Nas três noites de es-
petáculo, os dois bois revezam-se no bumbódro-
mo. E, num respeito assustador, há sempre silên-
cio de uma turma quando o adversário está evolu-
indo. Terminada a festa, o suspense: quem vence-
rá a disputa? O resultado foi anunciado: deu Ca-
prichoso na cabeça. Apesar dos descontentes, a
folia pede passagem e garante mais um dia de
animação.
É quase um milagre que, numa cidade pobre
como Parintins, com renda per capita de apenas
um salário mínimo, se realize o magistral espetá-
culo de cor, luz e som do boi-bumbá.

ÉPOCA, Rio de Janeiro: Globo, n. 7,6 julho,


1998. (Fragmento)

Qual é o tema central do texto?

(A) Festa do boi-bumbá.


(B) Lazer na Amazônia.
(C) Noite na floresta.
(D) Riquezas do Amazonas.

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
62 8 16 7 7
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 29

NÍVEL 5 Comparado aos dois textos anteriormente apre-


sentados para o Descritor 06 (Identificar o tema de
Micróbios - amigos ou inimigos? um texto), este se revela mais complexo devido à
Matam ou engordam? interação entre diversos fatores: a) trata-se de um
texto complexo, difuso e mais longo; b) a informa-
Tem uma coisa ção cobrada pelo enunciado terá que ser decodificada
que os adultos dizem que a partir da apreensão global do texto, exigindo do
eu tenho certeza de que leitor um nível de abstração maior; c) em relação à
aborrece as crianças: temática, o texto versa sobre assunto menos atraen-
“Vá lavar as mãos antes te para crianças e, talvez, pouco trabalhado nessa
de comer! Ela está cheia série; d) a presença de vocabulário científico (fun-
de micróbios. Não coma gos, bactérias, vírus, protozoários, moléculas);
esse troço que caiu no e) a referência a doenças como tifo, malária e fe-
chão! Lave logo o ma- bre amarela, pode justificar a dificuldade dos alunos
chucado, senão os mi- de 4ª série em lidar com o texto.
cróbios tomam conta!” A atração para a alternativa errada “A” (44%)
Daí a criança vai logo pensando: “Coisa chata aponta para leitores com pouco conhecimento de
essa de micróbio!” E os micróbios vão ficando vocábulos específicos do mundo letrado e pouca apro-
com essa fama de monstrinhos, sempre prontos a ximação com este tipo de texto. Somente 21% dos
atacar em caso de desleixo. alunos com um bom nível de letramento obtiveram
Mas sem micróbios e bactérias também não dá sucesso neste item.
para viver, porque há um montão deles que são
essenciais para manter vida em nosso planeta.
Quando a gente vai lavar as mãos antes de co-
mer fica até meio desapontado, pois não vê mi- CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O TÓPICO I – PROCE-
cróbio nenhum. E acha aquilo um exagero. É que DIMENTOS DE LEITURA
os micróbios são microscópicos. Atualmente são
considerados micróbios ou microorganismos os Analisados os itens que compõem o universo
fungos, as bactérias, os vírus, algumas algas e os representativo deste tópico, verifica-se que é exigi-
protozoários. do do aluno/leitor um conjunto de habilidades lingüís-
Os micróbios - não há como negar - são respon- ticas e psicológicas. Magda Soares (1998) afirma
sáveis por uma série de aborrecimentos: gripe, sa- que “a leitura estende-se da habilidade de traduzir
rampo, tifo, malária, febre amarela, paralisia in- em sons sílabas sem sentido a habilidade cognitivas
fantil e um bocado de coisas mais. e metacognitivas; inclui, dentre outras: a habilidade
Mas também há inúmeros micróbios benéficos, de decodificar símbolos escritos; a habilidade de cap-
que decompõem o corpo morto das plantas e ani- tar significados; a capacidade de interpretar seqüên-
mais, transformando suas moléculas complexas em cias de idéias ou eventos, analogias, comparações,
moléculas pequenas, aproveitáveis na nutrição das linguagem figurada, relações complexas, anáforas;
plantas. e ainda a habilidade de fazer previsões iniciais sobre
O vilão de nossa história, portanto, não é total- o sentido do texto, de construir significado combi-
mente malvado. Se ele desaparecesse, nós tam- nando conhecimentos prévios e informação textual,
bém acabaríamos junto com ele. de monitorar a compreensão e modificar previsões
iniciais quando necessário, de refletir sobre o signifi-
Adaptado: CIÊNCIA HOJE DAS CRIANÇAS. cado do que foi lido, tirando conclusões e fazendo
Rio de Janeiro: SBPC, ano 6. n.30, p.20-23. julgamentos sobre o conteúdo”.
Da análise efetuada, verifica-se que alguns
O tema do texto é gêneros textuais, especificamente os textos informa-
tivos de caráter científico e os poemas, ofereceram
(A) a chatice dos micróbios. maior grau de dificuldade. Quanto às tarefas
(B) a falta dos micróbios. inferenciais, estas poderão ser desenvolvidas e apri-
(C) o papel dos micróbios. moradas à medida que o aluno comece a ter intimi-
(D) o desaparecimento dos micróbios. dade com os diversos gêneros textuais, o que desen-
volverá seu nível de conhecimento de mundo para
Percentual de respostas às alternativas que aprenda a analisar o texto e o contexto. Isso
A B C D Em branco e nulas também contribuirá para as inferências de significa-
44 9 21 20 6 do vocabulares.
30 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

Vale ressaltar que o texto poético merece es- 73%), até que se apresente um texto poético em fun-
pecial cuidado ao ser trabalhado nas aulas, para que ção do qual o desempenho sofre uma queda brusca
o aluno aprenda a decodificar a linguagem poética. (37%). Especificamente em relação ao último item deste
“A imagem do poema é responsável pela força sig- descritor, o poema se apresenta em um nível acentuado
nificativa das metáforas e das outras figuras de lin- de dificuldade para a leitura. Os itens selecionados a
guagem” (Maia, 2001). É necessário que o aluno seja seguir demonstrarão as competências dos alunos.
levado a estabelecer a relação texto/leitor e a de-
senvolver o imaginário. DESCRITOR 05
Nesse contexto, a variedade de gêneros tex- INTERPRETAR TEXTO COM AUXÍLIO DE MATERIAL GRÁFICO
tuais será a porta de entrada para o desenvolvimen- DIVERSO

to de um processo de letramento em sua dimensão (PROPAGANDAS, QUADRINHOS, FOTOS, ETC.).


social.
Num texto, podem ser usados, além de pala-
vras, elementos não-verbais (fotos, desenhos, tabe-
TÓPICO II – IMPLICAÇÕES DO SUPORTE, DO las, gráficos, quadros), que visam contribuir para a
GÊNERO E/OU ENUNCIADOR NA COMPREENSÃO construção dos sentidos. Às vezes, a imagem dis-
DO TEXTO pensa as palavras e, se o leitor tem habilidade em
(DESCRITORES 05 E 09) lidar com os elementos não-verbais, pode estabele-
cer relações, economizando recursos cognitivos e
Este tópico requer dos alunos a competência aumentando o grau de compreensão.
de interpretar textos de gêneros variados com ou sem Espera-se, com esse descritor, verificar se o
auxílio de recursos gráficos e identificar os objetivos leitor é capaz de relacionar e perceber como se com-
do texto. Além do texto escrito, a ilustração permite pletam informações advindas de fontes verbais e não-
ao leitor engajar-se em várias atividades de constru- verbais, na construção de significados para o texto.
ção de significados. O leitor, por meio da imagem, é O grau de dificuldade dessa tarefa dependerá
estimulado a formular e reformular hipóteses da quantidade de informações que o leitor deverá
interpretativas, antecipar as informações ou fazer considerar e da familiaridade do leitor com o tipo de
associação de idéias. Os elementos gráfico-visuais recurso gráfico e com o assunto tratado, bem como
auxiliam fortemente o leitor na interpretação do tex- da saliência da informação relevante tanto no texto
to e na construção de significados, se ele for capaz quanto no material gráfico, como se pode perceber
de passar do figurativo (imagens captadas pela per- nos dois itens apresentados a seguir.
cepção) para o operativo, que requer operações
cognitivas, como classificar, seqüênciar, estabelecer
comparações, etc. NÍVEL 1
O conhecimento da variedade de gêneros tex-
tuais também contribui para que o leitor possa O rótulo abaixo é de um frasco de álcool. Leia, com
decodificar vocábulos próprios do mundo letrado e muita atenção, as recomendações nele contidas.
realizar tarefas voltadas para a compreensão do
mundo que o cerca.
As competências requeridas por este tópico
II estão presentes nos Descritores 05 e 09, cujos
itens analisados dão-nos idéia aproximada das habi-
lidades desenvolvidas pelos alunos que tiveram um
bom desempenho, ao mesmo tempo em que forne-
cem indicadores daqueles que não foram construídos. Economize energia.
Recicle materiais e
Mantenha fora do alcance
de crianças e, em caso de
Inflamável. Mantenha
afastado do fogo ou
No que se refere ao Descritor 05, que mede preserve
o meio ambiente.
ingestão acidental,
procure um médico
calor. Não perfure a
tampa. Não derrame
urgentemente. sobre o fogo.
as habilidades de interpretar textos com auxílio de
material gráfico diverso, os dois itens selecionados O rótulo mostra que o álcool deve ser usado
apresentam uma oscilação no percentual de acertos
entre 75% e 65%. Percebe-se que, mesmo com auxí- (A) perto do fogo e perto das crianças.
lio de material gráfico, a competência para a leitura está (B) longe do fogo e próximo das crianças.
fortemente associada à complexidade textual.O último (C) próximo das crianças e perto do fogo.
item apresenta uma queda brusca no desempenho (D) longe das crianças e longe do fogo.
(33%).
Quanto ao Descritor 09, que requer a habili- Percentual de respostas às alternativas
dade de identificar a finalidade do texto, o nível de A B C D Em branco e nulas
desempenho mantém-se num patamar ótimo (77% e 5 8 5 75 7
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 31

O texto-base deste item constitui-se de sím- Os alunos que acertaram (65%), apontando a
bolos que funcionam como recursos gráficos que alternativa “A”, souberam selecionar a resposta a
apóiam a construção do significado do texto. Esses partir de recursos visuais (figuras simples, ilustra-
símbolos funcionam também como pistas não-ver- ções). Os que foram atraídos para a alternativa “B”,
bais para auxiliar a compreensão do significado de provavelmente não dominam as estratégias de leitu-
palavras mais difíceis. ra e se deixaram enganar por pistas falsas, como,
A competência requerida pelo item exige do por exemplo, a informação da segunda linha do texto
aluno habilidades mais complexas, como a de esco- (...fazendo uma algazarra enorme).
lher, entre três instruções, duas que atendem à exi- A figura do pato em primeiro plano é ressalta-
gência do enunciado. da pela expressão dos olhos e é a pista sinalizadora
Pode-se observar, por conseguinte, que os da resposta esperada.
75% dos alunos que acertaram o item demons- Embora seja um item fácil, apresentou um re-
tram habilidade em entender, com propriedade, re- sultado mediano. Era de se esperar que os alunos,
comendações contidas em um texto instrucional, apoiando-se na ilustração, apresentassem um me-
quando apoiados por material gráfico e pelo co- lhor desempenho.
nhecimento prévio (perigos do álcool). Portanto,
apesar de o item ser de dificuldade média, os alu-
nos, após analisarem o rótulo, puderam fazer NÍVEL 5
inferências sobre o texto e foram capazes de dis-
criminar a resposta requerida.

NÍVEL 2
Lá se foram eles. À beira do lago, meteram-
se na água fazendo uma algazarra enorme. Por úl-
timo, pulou no lago também o patinho feio, com
uma alegria ainda maior.
– Quá-quá-quá! – faziam os patinhos.
Só que o quá do patinho feio era... Era horrí-
vel! Era um grasnido desafinado, alto, qua assus-
tou todos os outros patinhos, que trataram de
nadar para longe dele.

Entre os hábitos dos cachorros apontados na


pesquisa, o mais comum é
BANDEIRA, Pedro. Ler é gostoso!
São Paulo: Moderna. 1994. (A) deitar sobre os tapetes.
(B) subir na cama.
Pela ilustração, podemos afirmar que (C) comer sobre a mesa.
(D) subir no sofá.
(A) o patinho feio está muito triste.
(B) os patinhos estão fazendo uma algazar- Percentual de respostas às alternativas
ra enorme. A B C D Em branco e nulas
(C) o patinho feio está chamando pela mãe. 45 8 8 33 6
(D) os patinhos estão muito assustados.
O texto deste item constitui um gráfico de
Percentual de respostas às alternativas barras (deitadas). Embora o assunto “hábitos de ca-
A B C D Em branco e nulas chorro” faça parte do universo infantil, a forma como
65 15 7 7 6 foi apresentado (tabela) exige do leitor familiaridade
com esse gênero textual.
O índice de acertos mostra que este item Para responder acertadamente à questão,
apresenta um pouco mais de dificuldade que o era necessário associar o texto aos percentuais
anterior, embora a estrutura do texto seja simples e o das barras. Os índices mostram um percentual de
vocabulário de fácil acesso. O objetivo do item é levar acerto muito baixo (33%), enquanto a alternativa
o aluno a construir inferências a partir da relação “A” foi a responsável pelo desvio observado, o
entre pistas verbais e não-verbais. que revela pouca intimidade dos alunos com esse
32 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

tipo de texto. NÍVEL 1


A dificuldade do item, evidenciada pela esco-
lha significativa da alternativa “A”, pode ser Soluções Caseiras
explicada pela combinação de vários fatores, tais
como: a) os alunos não souberam ler o enunciado; b)
foram atraídos pela informação colocada em primei-
ro lugar; c) têm mais aproximação semântica com a
informação “deita sobre o tapete” (alternativa “A”)
do que com a informação da resposta correta sobe
no sofá”.
Fica evidente que os alunos que não acerta-
ram a resposta não souberam “ler” os percentuais,
elementos facilitadores para a localização da infor-
mação requerida, nem seguiram a pista fornecida
pelo tamanho das barras. Outra possibilidade é a de
que os alunos se basearam na própria experiência Se você já se ligou na importância de economizar
com o bicho de estimação e desconsideraram a in- energia, tome nota de dicas muito simples do que
formação contida no texto, o que pode explicar a é possível fazer em casa para evitar o desperdício
atração pela alternativa “A”. de eletricidade:

• Durante o dia, procure abrir as cortinas e as ja-


nelas para não ter de acender a luz. E na hora de
DESCRITOR 09 escolher uma lâmpada, as fluorescentes são bem
IDENTIFICAR A FINALIDADE DE TEXTOS DE DIFERENTES mais econômicas que as incandescentes, aquelas
GÊNEROS redondinhas comuns em qualquer lugar.

Textos diferentes normalmente têm intenções Ciência Hoje das crianças. Rio de Janeiro:
comunicativas distintas. Algumas vezes, a finalidade SBPC, Ano 11, jul., 1998.
do texto, ou seja, sua função na situação de interlo-
cução, é definida no próprio gênero textual que o Nesse texto, o autor faz recomendações sobre
autor escolheu. Por exemplo, em geral, espera-se
que uma bula de remédio tenha como objetivo infor- (A) a economia de energia.
mar o leitor sobre as propriedades do remédio, suas (B) as fontes de energia.
indicações, a posologia e efeitos colaterais, e não que (C) as vantagens da eletricidade.
ele seja um texto que vise a convencer o leitor dos (D) os riscos da eletricidade.
benefícios do medicamento.
É comum que os gêneros textuais tenham mais Percentual de respostas às alternativas
de uma função ou que um gênero seja usado para A B C D Em branco e nulas
outros fins que não aquele que lhe era característico 77 6 7 6 4
originalmente.
Reconhecer a finalidade do texto é uma tare- O índice de respostas à alternativa correta “A”
fa simples e pode ser considerada fácil. A falta de (77%) mostra que o item é fácil. A questão não ofe-
familiaridade do leitor com o tipo ou gênero de texto receu grandes dificuldades, visto que o texto versa
pode ser um fator de dificuldade. Os itens seleciona- sobre um assunto que faz parte do cotidiano de adul-
dos para exemplificar esse descritor refletem bem a tos e também das crianças, qual seja, a economia de
afirmação acima, pois o percentual de acertos dos energia elétrica. Além disso, as “dicas” claramente
alunos varia de 77% a 37%, sendo que este último permitem o reconhecimento do tipo de recomenda-
se refere a um item que contém um poema ção. O entendimento de vocábulos mais desconhe-
regionalista, gênero e temática pouco familiares aos cidos como “fluorescente” e “incandescente” deu-
alunos. se a partir do contexto em que aparecem.
A ilustração auxiliou a construção de inferên-
cias sobre o conteúdo informativo do texto, em fun-
ção da coerência entre a figura e o conteúdo do
texto.O teto da casa remete à captação da energia
solar e, apesar de a TV estar ligada, a janela encon-
tra-se aberta e sem cortinas.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 33

NÍVEL 2 NÍVEL 5

Saudade Asa Branca


(Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)
Filisbino Matoso andava que era uma tristeza
só. Não queria nada com a vida nem aceitava con- Quando olhei a terra ardendo,
solo de ninguém. Qual fogueira de São João,
Quem passasse lá pelas bandas do Sítio da Eu perguntei a Deus do céu, ai,
Purunga Sonora ia ouvir os lamentos do moço. Porque tamanha judiação.
– Ai! Como sofro! Sem minha querida Floris-
belta não posso viver. De que me vale este lindo 5 Que braseiro, que fornalha,
sítio com lago, se estou nadando em lágrimas? Nenhum pé de plantação.
Todos que moravam no Purunga Sonora e nos Por falta d’água perdi meu gado
arredores sabiam da história da Florisbelta. Era o Morreu de sede meu alazão.
grande amor de Filisbino Matoso. A choradeira
havia começado com o raiar do sol, quando a tal Até mesmo a Asa Branca
Florisbelta, sem avisar ninguém, resolvera tomar 10 Bateu asas do sertão.
o caminho da cidade. Então eu disse adeus, Rosinha,
Guarda contigo meu coração.
SALLOUTI, Elza Césari. O bilhete que o
vento levou. São Paulo: Salesiana Dom Bosco, Hoje longe muitas léguas,
1991. Numa triste solidão,
15 Espero a chuva cair de novo
A finalidade do texto é Pra eu voltar pro meu sertão.

(A) ensinar uma receita. Quando o verde dos teus olhos


(B) ensinar um jogo. Se espalhar na plantação,
(C) contar uma piada. Eu te asseguro não chore não, viu?
(D) contar uma história. 20 Que eu voltarei viu, meu coração.

Percentual de respostas às alternativas Do Disco Luiz Gonzaga, o novo espaço para a


A B C D Em branco e nulas música. São Paulo, RCA, 1978.
8 6 8 73 5
O objetivo principal do texto é chamar a atenção
Este item, em relação ao anterior, do mesmo para a
descritor, também não apresenta dificuldades, o que fica
comprovado pelo percentual de 73% de acertos. (A) saudade do nordestino.
A estrutura do texto é simples e o vocabulário (B) morte do Alazão.
comum, embora a temática não desperte interesse (C) partida da Asa Branca.
em alunos de séries iniciais. (D) seca do Nordeste.
Entretanto, pode-se observar, pelos índices de
acerto, que os alunos souberam identificar a finali- Percentual de respostas às alternativas
dade do texto pedida no enunciado. As outras alter- A B C D Em branco e nulas
nativas atraíram alunos que ou não leram o texto até 15 15 27 37 6
o final ou não estão familiarizados com a variedade
de gêneros textuais citados nas alternativas. O processo de leitura de poemas na escola
tem-se revelado, em sua grande maioria, uma ta-
refa difícil, especialmente quando envolve a parti-
cipação do leitor na construção de inferências mais
elaboradas.
O poema “Asa Branca” contém temática
regionalista, com vocábulos específicos de regi-
ões do sertão (interior do País), e o processamen-
to da linguagem figurativa da poesia vai requerer
do leitor, principalmente, a interpretação das me-
táforas e a transferência de imagens e conceitos.
34 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

Neste item, o leitor deverá interagir com TÓPICO IV – COERÊNCIA E C OESÃO NO


interlocutor/escritor e encontrar as pistas deixa- PROCESSAMENTO DE TEXTOS
das no texto para que possa identificar o objetivo (D ESCRITORES 02, 07 E 08)
do autor ao escrever o poema. Os 37% dos alu-
nos que acertaram o item conseguem identificar a Por coesão textual entendem-se as relações
finalidade do texto em textos poéticos, demons- de sentido que se estabelecem entre os enunciados
trando uma competência de leitura própria de alu- que compõem o texto, fazendo que a interpretação
nos acostumados a analisar textos poéticos e a de um elemento qualquer seja dependente da inter-
identificar o sentido do texto como um todo. pretação de outro(s). Essas relações de sentido po-
Os alunos que foram atraídos pela alterna- dem ser: a) anafóricas, isto é, quando um elemento
tiva errada “C” (27%) não souberam apreender o se refere a outro elemento anterior no texto; b)
sentido global do texto para, a partir disso, inferir catafóricas, ou seja, quando um elemento se refere
o objetivo principal do texto. A dispersão homo- a outro elemento posterior no texto.
gênea verificada nas alternativas “A” e “B” reve- A coerência, por sua vez, revela a maneira
la leitores que têm dificuldades de ler textos poé- como as idéias ou bloco de idéias são organizados no
ticos mais complexos. texto, ou a maneira como a seqüência de idéias foi
construída.
A competência requerida por este tópico vai
CONSIDERAÇÕES F INAIS SOBRE O TÓPICO II – exigir do leitor habilidades que o levem a identificar
IMPLICAÇÕES DO S UPORTE, DO GÊNERO E/OU a linha de coerência do texto.
ENUNCIADOR NA COMPREENSÃO DO TEXTO Neste 4° tópico, foram enfatizados, por meio
dos descritores 02, 07 e 08, as competências relaci-
Percebe-se, pelos itens analisados, que os onadas às marcas das relações de coerência e coe-
alunos demonstram pouca familiaridade com tex- são textuais, à identificação de elementos da estru-
tos que contêm elementos gráficos-visuais, pois tura esquemática da narrativa e às relações de cau-
demonstram certa dificuldade em trabalhar com o sa/conseqüência entre elementos e fatos do texto.
figurativo. Percebe-se, ainda, que os alunos lêem As questões relativas ao Descritor 02, que re-
com relativa facilidade textos não-verbais cujo quer do aluno a construção da coerência interna dos
conteúdo faça parte do cotidiano comunicativo, ex- textos, apresentaram uma oscilação no percentual
pressos por meio de símbolos e desenhos. de acertos entre 62% e 32%. No que se refere ao
No entanto, quando eles deparam com grá- Descritor 07, que trata dos elementos da narrativa, o
ficos e tabelas, o grau de dificuldade aumenta em índice de percentual de acertos começa com 47%,
função não só do conteúdo mas, principalmente, cai para 37% e retorna para 43%. O último descritor
do recurso gráfico apresentado. Urge, portanto, selecionado, que vai exigir do aluno operações
que esse tipo de texto seja mais trabalhado em inferenciais que reconheça as relações de causa/
sala de aula, visto que a comunicação, hoje, se conseqüência presentes em vários tipos de textos,
faz, em grande parte, pelos estímulos não-verbais. apresentou uma oscilação que vai de 65% a 44%.
Percebe-se, também, que os alunos detec-
tam com relativa facilidade a finalidade dos textos
e a intencionalidade do autor. Aqui, novamente, DESCRITOR 02
esbarra-se na análise do texto poético. Necessá- ESTABELECER RELAÇÕES ENTRE AS PARTES DE UM
rio se faz incorporar a prática da análise de poe- TEXTO, IDENTIFICANDO REPETIÇÕES OU SUBSTITUIÇÕES
mas ao cotidiano da sala de aula com foco na aná- QUE CONTRIBUEM PARA A CONTINUIDADE DE UM TEXTO
lise de sentido como um todo.
É oportuno que a escola analise a importân- O leitor constrói coerência para os textos a
cia, apontada pelos PCNs, de se incorporar o tra- partir das marcas de relações de continuidade que
balho com o texto literário e, conseqüentemente, os textos sugerem. Os objetos aos quais o texto faz
com o texto poético, ao cotidiano da sala de aula. referência (pessoas, coisas, lugares, fatos, etc.) são
É oportuno, também, atentar para a necessidade introduzidos e, depois, retomados para se relaciona-
de se deslocar o foco da análise do poema e, em rem à medida que o texto vai progredindo. Para tan-
vez da análise do aspecto estrutural (rimas, ver- to, recursos lingüísticos utilizados com essa finalida-
sos, estrofes, etc.) e da análise gramatical, que de são chamados de recursos coesivos referenciais.
se passe à análise mais vertical da relação en- Para compreender um texto, o leitor deve ser
tre texto e leitor, levando-se em conta a unida- capaz de (re)construir o caminho traçado pelo escri-
de de sentido e propiciando o desenvolvimento tor e estabelecer as relações que foram marcadas
do imaginário. no texto.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 35

Pretende-se, com este descritor, verificar a de história em quadrinho. Provavelmente, relacio-


capacidade dos alunos de relacionar uma informa- naram a palavra que completaria o balão do ter-
ção dada com outra informação nova, introduzida ceiro quadrinho ao vocábulo “líder” para, então,
por meio de uma repetição, de uma elipse, do uso de substituí-la por “chefe”.
um pronome. A alternativa “A” (18%) mostrou-se mais
O grau de dificuldade desse descritor pode ser atraente, talvez, em função da aproximação se-
aumentado em função do número de antecedentes mântica dos vocábulos líder e chefe. Isso, no en-
possíveis para um termo, da distância dos antece- tanto, demonstra que os alunos que foram atraí-
dentes, da familiaridade do leitor com o assunto e dos para essa alternativa não desenvolveram, ain-
gênero textual utilizados e da relevância da(s) da, habilidades de leitura que possam incluí-los na
informação(ões) que o leitor tem a considerar. categoria de leitores competentes. Outra possibi-
Isso fica evidenciado pelo índice de acertos lidade para essa atração é que os alunos se deti-
dos alunos nos itens escolhidos para exemplificar este veram na informação da imagem e consideraram
descritor. No primeiro, uma história em quadrinhos, o pato adulto como sendo o pai dos outros compo-
gênero bastante conhecido pelos alunos, o índice de nentes do grupo.
acertos dos alunos é bem superior ao dos demais
itens.
NÍVEL 5

NÍVEL 2 Leia o trecho

Leia os quadrinhos “Por ter uma visão apurada o cão consegue,


mesmo que a certa distância, perceber altera-
ções nos movimentos de uma pessoa amedron-
tada. O animal descende do lobo e dele herdou
o instinto de caça. Se alguém passa a andar
furtivamente com uma postura submissa, ele
identifica logo uma presa fácil.”

A palavra grifada no texto refere-se

(A) a alguém.
(B) ao cão.
(C) ao instinto.
(D) ao lobo.

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
27 39 8 20 6

No terceiro e último quadrinho, a palavra que com- O texto informativo, pequeno e de estrutura
pleta os balões é simples, apresenta uma temática não muito familiar
aos alunos, o que pode dificultar a leitura.
(A) pai. O percentual de 39% de acertos (alternativa
(B) irmão. “B”) inclui este item na categoria difícil talvez por-
(C) vizinho. que os alunos não conseguiram estabelecer relações
(D) chefe. anafóricas no texto. A distância entre o referente
“ele” e o antecedente “cão” pode representar ou-
Percentual de respostas às alternativas tro fator de dificuldade.
A B C D Em branco e nulas As alternativas incorretas “A” (27%) e “D”
18 7 5 62 8 (20%) apresentam informações verdadeiras, retira-
das do texto, mas que não tomam a referência do
Como já foi dito, os alunos lêem bem histó- pronome “ele”.
rias em quadrinhos. Os que escolheram acertada-
mente a alternativa “D” (62%) são leitores madu-
ros e que demonstram aproximação com esse tipo
36 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

NÍVEL 5 A temática costuma ser tratada nas escolas, em


função do conteúdo ecológico. Apesar de tudo, o
Observe a figura e leia o texto. item apresenta certa dificuldade para alunos de 4ª
série, como se pode depreender da análise a seguir.
O objetivo do item é verificar se os alunos
conseguem efetuar operações de substituição
lexical, reconhecendo o contexto em que elas se
efetuam. Os alunos precisam retomar o texto para
resgatar os termos que substituem “mico-leão”.
A alternativa “B” correta (32%) é a única
que traz elementos que se referem especificamente
a “mico-leão”. As alternativas incorretas apre-
sentam termos que ora se referem a “mico-leão”,
ora se referem a outros elementos do texto.
Esta tarefa requer habilidades de leitura que
vão além da simples inferência vocabular, pois
exige dos alunos operações que envolvem domí-
nio de todo o texto e domínio de elementos de co-
esão lexical.

O mico-leão atinge, no máximo, 73 cm de


comprimento - a metade, e às vezes até mais, DESCRITOR 07
pertence à cauda. IDENTIFICAR O CONFLITO GERADOR DO ENREDO E OS
Esse pequeno macaco tem hábitos curio- ELEMENTOS QUE CONSTROEM A NARRATIVA
sos: o recém-nascido, por exemplo, passa ape-
nas cerca de quatro dias agarrado à mãe. De-
pois disso, é o pai que o carrega, cuida, limpa e O leitor deve identificar, numa narrativa, os
penteia. A mãe só aparece na hora da mamada. elementos que a constroem: personagens, enredo
Ela estende os braços e o pai lhe entrega o fi- (ou fatos), foco narrativo, espaço (ambiente).
lhote, para uma mamada de cerca de 15 minu- Ele deve ser capaz de apontar: a) as perso-
tos. Mas, mesmo nessa hora, o pai não se dis- nagens e a relação entre elas, o tipo de persona-
tancia. A amamentação dura cerca de três me- gens (se são reais ou inventadas, seres animados
ses. Depois, começa sua alimentação normal: ou inanimados); b) no enredo, o fato que gerou o
insetos, pequenos invertebrados, aranhas, les- conflito, como ele se organizou e de que forma ele
mas, pássaros, ovos, frutos. se resolveu, os tipos de enredo (aventura, de ter-
ror, suspense, ficção científica, de amor); c) no
VEJA. São Paulo: Editora Abril, jul. 1997. foco narrativo, o ponto de vista em que a história
ENCICLOPÉDIA NOVA CULTURAL. está sendo contada; d) no espaço, o quando e onde
São Paulo: Abril, 1995. v.1. p.14. a história aconteceu.
A dificuldade dessa tarefa depende da
As palavras usadas pelo autor para se referir ao explicitação das informações e da familiaridade
mico-leão são do leitor com aquele contexto, o que pode ser ob-
servado nos itens a seguir. Outra característica
(A) filhote, mamífero, vertebrado. que pode dificultar a tarefa é a complexidade do
(B) pequeno macaco, filhote, recém-nascido. texto, como, por exemplo, a exposição dos fatos
(C) pequenos invertebrados, macaco. numa ordem não-linear (não cronológica) e o nú-
(D) recém-nascido, curioso, mamífero. mero de personagens e de fatores que geram o
conflito e resultam dele.
Percentual de respostas às alternativas O enunciado da questão, quando de forma
A B C D Em branco e nulas pouco familiar ao aluno, também pode contribuir
26 32 11 24 7 para a dificuldade de resolução do item, por não
lhe permitir estabelecer a relação entre a narrati-
O texto deste item possui estrutura sintática va e as alternativas apresentadas, seja para per-
simples e contém vocábulos de fácil entendimento. sonagens ou para conflito gerador.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 37

NÍVEL 3 NÍVEL 4

Porquinho-da-índia O leão apaixonado

Quando eu tinha seis anos Certa vez um leão se apaixonou pela fi-
Ganhei um porquinho-da-índia. lha de um lenhador e foi pedir a mão dela em
Que dor de coração me dava casamento. O lenhador não ficou muito ani-
Porque o bichinho só queria estar debaixo do mado com a idéia de ver a filha com um mari-
fogão! do perigoso daqueles e disse ao leão que era
Levava ele pra sala muita honra, mas muito obrigado, não queria.
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos O leão se irritou; sentindo o perigo, o homem
Ele não gostava: foi esperto e fingiu que concordava:
Queria era estar debaixo do fogão. – É uma honra, meu senhor. Mas que
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas... dentões o senhor tem! Que garras compridas!
– O meu porquinho-da-índia foi a minha primei- Qualquer moça ia ficar com medo. Se o se-
ra namorada. nhor quer casar com minha filha, vai ter de
arrancar os dentes e cortar as garras.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. O leão apaixonado foi correndo fazer o
Rio de Janeiro, José Olympio, 1986. que o outro tinha mandado; depois voltou à casa
do pai da moça e repetiu seu pedido de casa-
O dois personagens principais de “Porquinho-da- mento. Mas o lenhador, que já não sentia medo
Índia” são daquele leão manso e desarmado, pegou um
pau e tocou o leão para fora de sua casa.
(A) o menino e a namorada.
(B) o bichinho e o porquinho. Fábulas de Esopo. Compilação de Russel Ash
(C) o menino e o porquinho. e Bernard Higton, tradução de Heloísa Jahn.
(D) a namorada e o porquinho. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 1994.p. 20

Percentual de respostas às alternativas O problema, na história, é resolvido quando


A B C D Em branco e nulas
19 11 47 16 7 (A) o leão se apaixonou pela filha do
lenhador.
Como foi analisado anteriormente, o poema (B) o lenhador concordou com o pedido de
narrativo de Manuel Bandeira tem uma estrutura casamento do leão.
simples e vocábulos fáceis, o que poderia justifi- (C) a moça ficou com medo do futuro
car a classificação fácil para o item. A temática é marido.
familiar aos alunos, o que facilita a aproximação (D) o leão arrancou os dentes e cortou as
do leitor com o texto. garras.
No entanto, a leitura de texto poético traz
sempre dificuldades de ordem estrutural e de aná- Percentual de respostas às alternativas
lise das metáforas do texto e o efeito produzido no A B C D Em branco e nulas
sentido do poema. Apesar disso, 47% dos alunos 35 11 8 37 9
selecionaram a alternativa correta, numa demons-
tração de que são capazes de identificar persona- Este item apresenta um texto fabular
gens principais em textos simples, ainda que um narrativo (fábula), que tem estrutura simples e o
deles seja o menino/autor. Isso demonstra, vocabulário bem acessível à compreensão de
também, que o aluno tem familiaridade com alguns crianças nessa série. A aproximação do leitor é
elementos da narrativa e que sabe reconhecer o facilitada pela temática, já conhecida e
foco narrativo em 1ª pessoa, ou seja, quando o trabalhada desde cedo nas escolas.
autor participa da narrativa. Entretanto, um item aparentemente fácil,
Os alunos que assinalaram as alternativas revelou um índice muito baixo de acertos (37%),
incorretas “A”, “B” e “D” demonstram dificulda- como se pode perceber na alternativa correta “D”.
des de leitura, pois não foram capazes de identifi- Os alunos que foram atraídos pela alternativa
car e articular índices textuais e contextuais na errada “A” (35%) não souberam ler o texto e
construção de referências sobre elementos da es- podem ter seguido a pista falsa na primeira linha
trutura esquemática da narrativa. do texto (... se apaixonou pela filha de um
38 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

lenhador...). Uma outra razão pode ser a pouca assim habilidades de leitura, pois conseguiram,
intimidade dos alunos com outros elementos da a partir do contexto, localizar a informação
narrativa, além de personagem e espaço. requerida.
Os que foram atraídos pelas alternativas in-
corretas mostram dificuldade de leitura. Selecio-
naram respostas cujas informações não se encon-
NÍVEL 5 tram explícitas no texto e nem permitem inferências
que pudessem remeter ao ambiente em que se
Leia o texto. passa a história. Outra possibilidade é que os alu-
nos não decodificaram o sentido das palavras “am-
A Costureira das Fadas biente” e “residência” constantes no enunciado.

Depois do jantar, o príncipe levou


Narizinho à casa da melhor costureira do rei-
no. Era uma aranha de Paris, que sabia fazer DESCRITOR 08
vestidos lindos, lindos até não poder mais! Ela ESTABELECER RELAÇÃO CAUSA/CONSEQÜÊNCIA ENTRE
mesma tecia a fazenda, ela mesma inventava PARTES E ELEMENTOS DO TEXTO
as modas.
– Dona Aranha – disse o príncipe – que-
ro que faça para esta ilustre dama o vestido Entende-se como causa/conseqüência todas
mais bonito do mundo. Vou dar uma grande as relações entre elementos e fatos do texto em
festa em sua honra e quero vê-la deslumbrar a que uma é resultado da outra. Para avaliar esse
corte. descritor, pode-se pedir ao leitor para reconhecer
Disse e retirou-se. Dona Aranha tomou relações de causa e efeito, problema e solução,
da fita métrica e, ajudada por seis aranhinhas objetivo e ação, afirmação e comprovação/justifi-
muito espertas, principiou a tomar as medidas. cativa, motivo e comportamento, pré-condição,
Depois teceu depressa, depressa, uma fazen- entre outras.
da cor-de-rosa com estrelinhas douradas, a A relação de causa/conseqüência costuma
coisa mais linda que se possa imaginar. Teceu estar presente em vários tipos de texto e deve ser
também peças de fita e peças de renda e de percebida pelo leitor sobre aquele assunto e sua
entremeio – até carretéis de linha de seda fa- familiaridade com o tipo de texto, bem como o grau
bricou. de explicitação tanto de causa quanto de conse-
qüência, isto é, quanto mais inferências forem
MONTEIRO LOBATO, José Bento. exigidas do leitor na re(construção) dessa relação,
Reinações de Narizinho. São Paulo: maior o grau de dificuldade. Isso pode ser obser-
Brasiliense, 1973 vado nos itens a seguir.
Enquanto estrutura operatória, relacionar
O ambiente em que se passa a história é causa e conseqüência se apresenta com nível ela-
borado de competência cognitiva. As “relações
(A) a residência da costureira. possíveis” podem ser levantadas, mas deve-se eli-
(B) a casa da avó de Narizinho. minar as ilógicas e as contraditórias para concluir
(C) uma fábrica de roupas. pela única plausível.
(D) um castelo encantado.

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
43 16 12 21 8

Reinações de Narizinho é obra bem co-


nhecida e trabalhada nas escolas. O item pode ser
classificado como fácil, porque, apesar de tratar
do elemento da narrativa “ambiente”, esta infor-
mação encontra-se explicitamente evidenciada na
primeira linha do texto.
Entretanto, somente 43% dos alunos
acertaram a resposta requerida, demonstrando
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 39

NÍVEL 2 NÍVEL 3

Os lobos e os cordeiros Princesa Linda Laço-de-fita

Alguns lobos queriam surpreender um re- Sempre foi linda, vestiu roupas lindas e mo-
banho de cordeiros. Como não podiam pegá- rou num quarto lindo, de um castelo lindíssimo, no
los, porque havia cães tomando conta deles, vi- reino de Flax. Passou a vida na janela desse
ram que seria preciso usar uma artimanha para quarto, recebeu visitas de príncipes que vinham
fazer isso. E, tendo enviado representantes de- de muito longe e de bem perto também para
les aos cordeiros, diziam que os cães eram os pedi-la em casamento. Mas, sendo linda como
culpados de sua inimizade e que, se eles lhes era, e muito vaidosa da própria lindeza, não acei-
entregassem os cães, haveria paz entre os lo- tava nenhum pedido, pois nenhum príncipe era
bos e os cordeiros. Os cordeiros, sem imaginar forte, rico ou... lindo o suficiente para se casar
o que lhes iria acontecer, entregaram os cães com ela. Com o passar dos anos, os príncipes
aos lobos, que, desse modo, facilmente acaba- cansaram desse papo-furado e desistiram de
ram com o rebanho, que ficara sem guarda. pedi-la em casamento. Hoje em dia, ela já está
bem velhinha, ainda linda, uma linda velhinha.
Esopo: fábulas completas / tradução direta do Sozinha, na janela, espera algum príncipe pas-
grego, introdução e notas por sar e parar para conversar.
Neide Cupertino de Castro Smolka. São Paulo :
Moderna, 1994. p.124. SOUZA, Flávio de. Príncipes e princesas,
sapos e lagartos. São Paulo: FTD, 1989.
Os lobos não conseguiam apanhar os cordeiros
porque eles A princesa do reino de Flax era muito exigente em
relação aos seus pretendentes, por isso ela ficou
(A) viviam muito longe.
(B) eram guardados por cães. (A) sozinha.
(C) não sabiam o que ia acontecer. (B) tranqüila.
(D) não tinham representantes. (C) rica.
(D) vaidosa.
Percentual de respostas às alternativas
A B C D Em branco e nulas Percentual de respostas às alternativas
12 65 12 5 6 A B C D Em branco e nulas
66 5 9 15 5
Esta fábula é uma narrativa curta, de estrutu-
ra simples, e possibilita aproximação do leitor com o Este fragmento do livro Príncipes e prince-
texto. Este é um item fácil, e os alunos (65%) de- sas, sapos e lagartos tem estrutura textual com-
monstraram familiaridade com o conectivo “porque”, pacta, porém o vocabulário é de fácil assimilação. O
de uso comum para marcar as relações de causa/ item apresenta-se fácil, e o nível de desempenho foi
conseqüência. satisfatório.
Os que foram atraídos pelas alternativas in- Os alunos que acertaram o item (66%) de-
corretas “A” e “C” demonstram poucas habilidades monstraram entendimento global da narrativa e sou-
de leitura e podem ter seguido pistas falsas. A dis- beram estabelecer a relação causa/conseqüência
persão homogênea (12%) dessas alternativas revela marcada pela locução conjuntiva “por isso”. O pró-
total desconhecimento do leitor das relações lógico- prio enunciado funcionou como pista para o estabe-
discursivas, notadamente as de causa/conseqüência, lecimento da relação lógica.
como a antecipada no enunciado da questão. Os que escolheram as demais alternativas
demonstraram poucas habilidades de leitura e des-
conhecimento da função dos conectivos como
marcadores textuais.
40 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

NÍVEL 4 NÍVEL 4

Lá se foram eles. À beira do lago, meteram- A raposa e as uvas


se na água fazendo uma algazarra enorme. Por úl-
timo, pulou no lago também o patinho feio, com
uma alegria ainda maior. Uma raposa passou por baixo de uma par-
– Quá-quá-quá! – faziam os patinhos. reira carregada de lindas uvas. Ficou logo com
Só que o quá do patinho feio era... Era horrí- muita vontade de apanhar as uvas para comer.
vel! Era um grasnido desafinado, alto, qua assus-
tou todos os outros patinhos, que trataram de Deu muitos saltos, tentou subir na parreira,
nadar para longe dele. mas não conseguiu.
Depois de muito tentar foi-se embora, dizendo:
– Eu nem estou ligando para as uvas. Elas
estão verdes mesmo...

Ruth Rocha. Fábula de Esopo.


São Paulo, FTD, 1992.
BANDEIRA, Pedro. Ler é gostoso!
São Paulo: Moderna. 1994. O motivo por que a raposa não conseguiu apanhar
as uvas foi
O problema entre o patinho feio e seus irmãos
começou porque (A) as uvas ainda estavam verdes.
(B) a parreira era muito alta.
(A) eles meteram-se na água fazendo algazarra. (C) a raposa não quis subir na parreira.
(B) o quá do patinho feio era desafinado e (D) as uvas eram poucas.
alto.
(C) o patinho feio nadou o mais depressa que Percentual de respostas às alternativas
pode. A B C D Em branco e nulas
(D) o patinho feio foi o último a pular. 32 44 8 6 10

Percentual de respostas às alternativas Geralmente os alunos demonstram competên-


A B C D Em branco e nulas cia na leitura de narrativas fabulares. Entretanto, esta,
19 48 7 20 6 especificamente, apresentou-se difícil, a julgar pelos
índices de acertos.
O texto é um fragmento, tem estrutura simples e Observa-se que, entre as incorretas, a alter-
conta com a ajuda da ilustração. O item é fácil e, por- nativa “A” foi a mais atraente (32%); os alunos que
tanto, enseja um melhor desempenho. O percentual de a escolheram não conseguiram apreender o signifi-
48% de respostas à alternativa correta “B” revela alu- cado global do texto e seguiram a pista verbal falsa
nos com domínio do uso de conectivos que estabele- (Elas estão verdes mesmo...) expressa no final do
cem relações de causa/conseqüência. Além disso, es- texto.
ses alunos demonstraram ser capazes de seguir pistas Por outro lado, os 44% de alunos que esco-
corretas e inferir a relação causal do conflito entre par- lheram a alternativa correta “B” o fizeram porque,
tes e elementos do texto. provavelmente, dominam o uso do valor das conjun-
As alternativas incorretas “A” e “D” apresen- ções na marcação das relações causais. Pode-se
taram-se atraentes, possivelmente em virtude de os alu- afirmar que esses alunos estabelecem relações cau-
nos não terem conseguido identificar o conflito gerador sa/conseqüência entre partes e elementos do texto
do problema e terem seguido pistas falsas. narrativo simples.
A dispersão ocorrida pode ter causa também na É de se supor que a dificuldade maior resida
dificuldade de os alunos identificarem a personagem no fato de que o aluno deveria realizar uma inferência
principal e seu problema. mais complexa para traduzir a intencionalidade do
discurso da raposa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O TÓPICO IV –


COERÊNCIA E COESÃO NO PROCESSAMENTO DE TEXTOS

Feita a análise dos itens que representam este


tópico, nota-se que a competência requerida vai exigir
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 41

do aluno habilidades que o levem a identificar a linha pontuação e outras notações exercem sobre o texto
de coerência do texto. e sua interpretação. Analisando os itens, verifica-se
Pelo desempenho observado, evidencia-se a que o desempenho não é satisfatório, pois a oscilação
importância e a necessidade de se trabalhar com os do percentual de acertos varia entre 48% e 33%,
alunos a textualidade, que, segundo Koch e Fávero, como se pode observar na análise dos itens a seguir
é “aquilo que faz com que um texto seja um texto” e e que espelham as competências requeridas e o índice
que “depende, em grande parte, de certos fatores de acertos verificados.
responsáveis pela coesão textual”. Sabe-se que “a
coesão é trabalhada parcialmente através da gra-
mática e principalmente através do léxico”. DESCRITOR 14
Na 4ª série, sugere-se trabalhar, principalmen- IDENTIFICAR O EFEITO DE SENTIDO DECORRENTE DO USO
te, a referência pessoal, representada pelos prono- DA PONTUAÇÃO E DE OUTRAS NOTAÇÕES
mes pessoais, e a coesão lexical, através da reitera-
ção de termos sinônimos ou palavras afins que per- Por meio da pontuação e de outros mecanis-
tençam a um mesmo campo semântico. mos de notação (como o itálico, o negrito, caixa alta,
Fica evidenciada, também, a necessidade de tamanho da fonte, etc.), efeitos de sentido podem
se trabalhar com textos narrativos para identifica- ser criados no texto.
ção dos elementos da estrutura da narrativa. O uso de diferentes fontes e estilos costuma ser
A competência sobre as relações lógicas encontrado em vários gêneros de textos, como propa-
estabelecidas no texto está bem construída pelos alu- gandas, notícias, reportagens, didáticos, quadrinhos, ro-
nos de 4ª série. Provavelmente isso faz parte do co- teiros para peças de teatro, filmes, entre outros.
tidiano do falante, que demonstra intimidade na iden- Este descritor requer que o leitor perceba efei-
tificação das marcas lógico-discursivas no texto. tos particulares gerados pelo uso da pontuação e de
outras notações, e pode se tornar mais complexo à
medida que são usados recursos não convencionais
TÓPICO V – RELAÇÃO ENTRE RECURSOS e à proporção que os efeitos provocados por esses
EXPRESSIVOS E EFEITOS DE SENTIDO mecanismos gerem informações contrárias às ex-
(DESCRITOR 14) pressas pelos recursos verbais, ou seja, as palavras
dizem uma coisa e a pontuação gera outro efeito,
O uso de recursos expressivos é um poderoso por exemplo. Esse grau de complexidade pode ser
auxiliar do leitor na construção de significados que observado nos itens a seguir.
não estão na superfície do texto. Nesse sentido, o
conhecimento de diferentes gêneros textuais possi-
bilita ao leitor antecipar a compreensão desses signi-
ficados. Além dos textos publicitários que se utilizam
largamente dos recursos expressivos, os poemas tam-
bém se valem deles, exigindo, na exploração do tex-
to poético, atenção redobrada e sensibilidade do lei-
tor para perceber os efeitos de sentido subjacentes
ao texto literário.
No entanto, é preciso observar que determi-
nados sinais de pontuação (e outros mecanismos de
notação, como o itálico, o negrito, caixa alta, tama-
nho da fonte, etc.) nem sempre expressam o mesmo
sentido, o que vale dizer, por exemplo, que o ponto
de exclamação nem sempre expressa surpresa. É
imprescindível, portanto, que o leitor, ao explorar o
texto, verifique como esses elementos constroem a
significação.
Neste tópico foram enfatizadas as competên-
cias de perceber a importância dos valores expressi-
vos da pontuação e de outras relações utilizados no
texto pelo autor.
Os itens representados neste tópico referem-
se apenas ao Descritor 14, que requer do aluno
habilidades de perceber os efeitos que os sinais de
42 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

NÍVEL 4 O texto narrativo do item é longo e exigiu do


aluno releitura para que pudesse apreender o efeito
Leia o texto abaixo de sentido da repetição da frase “– Você é o bicho
homem?”. O significado dos vocábulos mais difíceis
O Touro e o Homem (brenha e bacamarte) pode ter sido inferido a partir
Um touro, que vivia nas montanhas, nunca das pistas verbais oferecidas pelo texto.
tinha visto o homem. Mas sempre ouvia dizer por Os 48% dos alunos que acertaram a resposta
todos os animais que era ele o animal mais valen- requerida “D” demonstraram habilidades de leitor
te do mundo. Tanto ouviu dizer isto que, um dia, se competente. Como leitores perspicazes, apreende-
resolveu a ir procurar o homem para saber se tal ram o sentido global do texto e perceberam que a
dito era verdadeiro. Saiu das brenhas, e, ganhan- repetição da pergunta traduz o sentimento de aflição
do uma estrada, seguiu por ela. Adiante encon- do touro. A dispersão ocorrida pelas alternativas er-
trou um velho que caminhava apoiado a um bas-
tão. radas (“A”, “B” e “C”) indica que esses alunos de-
Dirigindo-se a ele perguntou-lhe: monstram dificuldade com leituras de textos fabulares,
– Você é o bicho homem? não conseguindo, portanto, seguir pistas lingüísticas
– Não! – respondeu-lhe o velho – já fui, mas que levem à alternativa correta, nem ler nas “entre-
não sou mais! linhas” para apreender o significado do texto como
O touro seguiu e adiante encontrou uma velha: um todo.
– Você é o bicho homem?
– Não! Sou a mãe do bicho homem!
Adiante encontrou um menino: NÍVEL 4
– Você é o bicho homem?
– Não! Ainda hei de ser, sou o filho do bicho A bruxa
homem.
Adiante encontrou o bicho homem que vinha Mariana comentou:
com um bacamarte no ombro. – Aí aparece a bruxa.
– Você é o bicho homem?
– Sim...
– Está falando com ele!
– Estou cansado de ouvir dizer que o bicho – Mas uma bruxa tão bonita, tão bonita, que só
homem é o mais valente do mundo, e vim procurá- você vendo.
lo para saber se ele é mais do que eu! Foi aí que Rogerinho soltou:
– Então, lá vai! – disse o homem, armando o – Bruxa bonita assim só podia ser fada, né?
bacamarte, e disparando-lhe um tiro nas ventas.
O touro, desesperado de dor, meteu-se no BLOCH, Pedro. O menino falou e disse.
mato e correu até sua casa, onde passou muito
tempo se tratando do ferimento. RJ, Bloch, 1974
Depois, estando ele numa reunião de animais,
um lhe perguntou: O travessão foi usado nesse texto para indicar
– Então, camarada touro, encontrou o bicho
homem? (A) a descrição do ambiente.
– Ah! meu amigo, só com um espirro que ele (B) a fala das personagens.
me deu na cara, olhe em que estado fiquei! (C) a emoção das personagens.
CASCUDO, Luís da Câmara. Contos tradicio- (D) a beleza da bruxa.
nais do Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia;
São Paulo: Editora da USP, 1986, p. 185. Percentual de respostas às alternativas
A B C D Em branco e nulas
“Você é o bicho homem?” 7 40 6 38 9
A repetição dessa frase em todo o texto demosntra
Este item apresenta um texto que faz refe-
(A) alegria e entusiasmo do touro ao encon-
trar o homem. rência a uma das personagens mais conhecidas da
(B) desespero e aflição do touro ao defron- literatura infantil, o que deveria facilitar a aproxi-
tar-se com o homem. mação do aluno com o texto. No entanto, o
(C) enorme susto do touro ao ver o homem. percentual de acertos foi mediano (40%). Os alunos
(D) grande curiosidade do touro em conhe- que selecionaram a alternativa correta “B”
cer o homem. demonstraram competência para identificar o
efeito de sentido decorrente do uso do travessão
Percentual de respostas às alternativas para indicar a fala das personagens.
A B C D Em branco e nulas A escolha significativa da alternativa errada
19 12 13 48 8 “D” (38%) revela que os leitores menos
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 43

competentes seguem pistas erradas quando estas Como já foi comentado, a leitura de histórias
se encontram no final do texto. Revela, ainda, que em quadrinhos é de conhecimento comum do leitor
esses alunos desconhecem o valor expressivo do das primeiras séries do Ensino Fundamental, pela
uso do travessão. combinação de texto e ilustração. No entanto, quan-
do se trata de perceber o efeito de sentido da pontu-
ação (notadamente nesse tipo de texto), surgem al-
NÍVEL 5 gumas dificuldades.
Neste item, os alunos devem demonstrar o
Leia os quadrinhos conhecimento das diversas funções do ponto de in-
terrogação, o que vai além da função genérica de
fazer perguntas.
Talvez a alternativa errada “A” (29%) tenha
sido mais procurada que as outras porque a idéia de
pergunta é muito acentuada quando se trata do ponto
de interrogação. As alternativas erradas “C” (13%)
e “D” (17%) mostraram-se atraentes de modo qua-
se igual, o que denuncia a pouca intimidade com a
análise de efeito de sentido do ponto de interrogação
no texto.
Em resumo, pela análise dos resultados dos três
itens deste descritor, pode-se hipotetizar que os alunos
desta série (4ª) não dominam os valores expressivos
dos sinais de pontuação e de outras notações.

CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O TÓPICO V –


RELAÇÃO ENTRE RECURSOS EXPRESSIVOS E
EFEITOS DE SENTIDO

Uma das competências deste tópico está pre-


sente nos itens do Descritor 14, que vai exigir do
aluno uma leitura mais voltada para a identifica-
ção do uso dos sinais de pontuação expressos e
que efeitos eles geram para o sentido do texto.
Pelos resultados obtidos, percebe-se que os
alunos apresentam desconhecimento dos valores
expressivos, especialmente do ponto de interro-
gação, do ponto de exclamação e do travessão na
marcação das relações de sentido associado a
outros sentidos do texto.
É importante considerar que o domínio do
valor expressivo desses recursos é de suma im-
portância para o desenvolvimento das habilidades
de leitura. Seria oportuno que fossem trabalhados,
com os alunos, textos em que esses recursos se-
No último quadrino, o ponto de interrogação serve jam utilizados.
para

(A) dar uma resposta. TÓPICO VI – VARIAÇÃO LINGÜÍSTICA


(B) expressar uma dúvida. (DESCRITOR 10)
(C) mostrar interesse.
(D) mostrar admiração. O conceito de língua é bastante amplo e en-
globa todas as manifestações da fala, com inúmeras
Percentual de respostas às alternativas possibilidades. Nesse universo ilimitado, surgem va-
A B C D Em branco e nulas riações que são decorrentes de fatores que interfe-
29 33 13 17 8 rem nessas manifestações.
44 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

Bortoni-Ricardo, em Bagno (2000), propõe um O grau de dificuldade dessa tarefa vai vari-
modelo de análise em que as variedades lingüísticas ar de acordo com a quantidade e saliência das
são apreendidas ao longo de três categorias: 1) a marcas usadas no texto. Se houver muitas mar-
rural-urbana, em que é possível situar o/a falante em cas e elas estiverem em destaque, a tarefa será
função da zona de nascimento e residência de infân- mais fácil para o leitor do que se houver poucas
cia, mobilidade geográfica, rede de relações sociais, ou se elas não forem facilmente perceptíveis. Em
área de residência ao longo da vida, etc. (antece- suma, quanto mais explícitos forem os sinais que
dentes sociológicos); 2) a oralidade-letramento, que indicam o locutor e o interlocutor, mais simples será
tem, em um de seus pólos as atividades de oralidade a tarefa do leitor.
e, no outro, as atividades de letramento (situação ou
evento); 3) a monitoração estilística, que leva em
consideração o grau de atenção e de planejamento
que o falante confere à sua interação. NÍVEL 2
Portanto, é oportuno salientar que o aluno deve
entender uma linguagem em uso, ou seja, com todas
as variáveis possíveis da fala. Por isso, é importante Texto do caipira
evidenciar para eles que um mesmo fato requer tra-
tamento lingüístico diferenciado, em situações e con- O caipira andava ao longo da estrada segui-
textos também diferentes, descaracterizando-se, in- do de dez cavalos. Nisso, veio um automóvel e o
clusive, a noção de “certo” e do “errado”, privilegi- motorista gritou para o caipira:
ando-se a noção de adequabilidade aos interlocutores – Você tem dez. Mas eu tenho duzentos e
e à situação de comunicação. cinqüenta cavalos! – E – vrruuum! – saiu em dis-
Bagno (2000) defende um ensino crítico da parada!
norma-padrão. Para ele, a escola deve dar espa- O caipira continuou seu passo. E lá na fren-
ço ao máximo possível de manifestações lingüís- te estava o carro virado dentro do rio, ao lado
ticas concretizadas no maior número possível de da ponte.
gêneros textuais e de variedades de línguas: ru- Aí, o caipira falou pro motorista:
rais, urbanas, orais, escritas, formais, informais, – Oi, cumpadre! Dando água pra tropa, é?
cultas, não-cultas, etc.
Neste último tópico, deve-se observar a im- Trecho retirado do livro “As últimas anedotinhas
portância do domínio das competências de identifi- do bichinho de maçã”, de Ziraldo.
car e reconhecer as marcas lingüísticas expressas
no texto. Observando-se o resultado do desempe- Que palavra do texto indica o modo de falar de
nho dos alunos nos itens do Descritor 10 deste tópi- uma pessoa que mora no meio rural?
co, verifica-se que há uma oscilação dos percentuais
de acertos entre 70% e 27%. (A) Cumpadre.
É interessante destacar que a maior ou menor (B) Disparada.
facilidade que o aluno encontra para identificar as (C) Passo.
marcas lingüísticas pode depender da intimidade que (D) Tropa.
tem com gêneros textuais variados e da quantidade
de sinais indicativos do locutor e do interlocutor. Percentual de respostas às alternativas
Podem ser observados, a seguir, os itens que A B C D Em branco e nulas
representam o Descritor 10 deste tópico. 70 8 5 10 7

DESCRITOR 10 O título do texto deste item já antecipa uma


IDENTIFICAR AS MARCAS LINGÜÍSTICAS QUE EVIDENCIAM variação no uso da língua. O item é fácil e foi acer-
O LOCUTOR E O INTERLOCUTOR DE UM TEXTO tado por 70% dos alunos. Além disso, este gêne-
ro textual é bastante difundido entre crianças
O leitor deve ser capaz de identificar quem dessa idade, o que, provavelmente, auxiliou no
fala no texto e a quem este se destina, reconhecen- desempenho.
do as marcas lingüísticas expressas. Como pode ser Os alunos que acertaram a resposta requerida
observado nos itens a seguir, muitos elementos do demonstram domínio do emprego de vocábulos e
texto podem indicar o locutor e o interlocutor. Entre expressões em seus diferentes níveis de formalida-
eles, podemos citar a variante lingüística e o registro de e em função do contexto de cada falante, ou seja,
usados, o vocabulário, o uso de gírias e expressões, identificam marcas lingüísticas próprias da variação
o suporte, os aspectos gráficos, etc. rural-urbana.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 45

NÍVEL 4 NÍVEL 5

São Paulo, 23 de Junho de 2000. O Saber da Vovó


Na noite chuvosa, Dona Carmelita se preo-
Prezado Senhor, cupava com Maurinho: febre alta, diarréia, boca
seca, suores frios. O médico estava longe daque-
Comunicamos que já foi providenciado o en- le sertão e remédios não havia em casa.
cerramento da sua conta corrente, conforme sua O que fazer? – pensou Dona Carmelita.
solicitação. Logo ela se lembrou de como sua avó fazia
Colocamos a nossa equipe à sua disposição quando ela era criança. Preparava um remedinho
para esclarecer possíveis dúvidas. fácil: água, açúcar, sal, limão e amido de milho
Atenciosamente, misturadinhos, e oferecia-lhe em bons goles. E
Édson Perin assim foi feito...
Superintendente Comercial Amanheceu. Maurinho dormia tranqüilo e
Dona Carmelita preparava, no fogão-a-lenha, um
bom mingau de fubá e dizia:
A pessoa que enviou a carta poderia fazer outra – Esse é forte e dá sustança!
muito semelhante para
Qual das frases abaixo apresenta o registro de
(A) contar como foram as férias. linguagem informal?
(B) matar as saudades do filho ausente.
(C) comunicar o fechamento da loja. (A) “Dona Carmelita se preocupava com
(D) xingar o compadre pela usência. Maurinho.”
(B) “Esse é forte e dá sustança.”
Percentual de respostas às alternativas (C) “Maurinho dormia tranqüilo.”
A B C D Em branco e nulas (D) “O que fazer? – pensou Dona
23 18 47 7 5 Carmelita.”

Este item apresenta como texto-base uma Percentual de respostas às alternativas


carta comercial que, embora pequena e de estrutura A B C D Em branco e nulas
simples, trata de assunto desconhecido do cotidiano 31 27 18 16 8
comunicativo de crianças de 4ª série.
Presume-se que os alunos que assinalaram a O texto aqui apresentado é de estrutura sim-
alternativa correta “C” (47%) ou estão habituados a ples e de vocabulário fácil. No entanto, o contexto
este tipo de texto ou conhecem o universo semânti- remete a uma época distante ou a situações vividas
co de transações bancárias. É também provável que no interior e, por conseguinte, comum apenas aos
os alunos bons em leitura tenham assinalado esta al- alunos que vivenciam essas experiências ou àqueles
ternativa em função do distanciamento semântico que têm familiaridade com uma grande variedade de
entre as outras alternativas e o texto, o que demons- textos. Em conseqüência, a resposta requerida pelo
tra a capacidade de organizar o pensamento item exige domínio de registro de variação lingüísti-
logicamente. ca em contextos variados. O vocábulo “sustança” é
Os alunos que assinalaram as alternativas er- uma variante popular de “sustância” e própria do
radas “A”, “B” e “D” não desenvolveram as habili- linguajar do interior.
dades básicas de leitura nem de conhecimento de A alternativa incorreta “A” mostra um
linguagem bancária. percentual de 31% de respostas, superior à alterna-
tiva correta “B” (27%), o que denota, por parte dos
alunos que a escolheram, desconhecimento da ex-
pressão contida na resposta requerida pelo item ou,
ainda, do que seja a linguagem informal pedida no
enunciado.

CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O TÓPICO VI –


VARIAÇÃO LINGÜÍSTICA

As competências requeridas por este tópico


dizem respeito às variações lingüísticas identificadas
46 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

na nossa língua, resultados da influência de diversos fator determinante para auxiliar o aluno na identifi-
fatores, como o grupo social a que o falante perten- cação dessas variações.
ce, o lugar e a época em que ele nasceu ou vive.
Da análise dos itens do descritor deste tópico,
pode-se observar que os alunos apresentam um de- 4.1 I NTERPRETAÇÃO DOS R ESULTADOS DO
sempenho insatisfatório, sendo necessário que a DESEMPENHO DOS ALUNOS DA 4ª SÉRIE DO
escola lhes proporcione um contato mais intenso com E NSINO F UNDAMENTAL EM L ÍNGUA
todas as variações possíveis da fala, para que eles PORTUGUESA – BRASIL, REGIÕES E UNIDADES
possam perceber a riqueza e as possibilidades lin- DA FEDERAÇÃO
güísticas oferecidas pela Língua Portuguesa, dadas
a dimensão e as diversidades regionais de nosso País. O Gráfico 3 apresenta a distribuição dos alunos
Como o melhor índice de acertos verificou-se da 4a série nos níveis de desempenho em Língua
num texto em que o título já enunciava essa varia- Portuguesa no Brasil, Regiões e Unidades da
ção, é de se supor que o gênero textual é também Federação.

Gráfico 3
Percentual de alunos nos níveis de desempenho no Saeb, em Língua Portuguesa
da 4ª série do Ensino Fundamental – Brasil, Regiões e Unidades da Federação – 2001
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 47

Pode-se notar que os melhores resultados da De todas as UFs, o Distrito Federal apresenta
4ª série do Ensino Fundamental em Língua Portu- a melhor distribuição de alunos nos níveis da escala.
guesa encontram-se nas Regiões Sul e Sudeste e no O Gráfico 4 traz as médias de desempenho
Distrito Federal, que apresentam maiores percentuais para Brasil, Regiões e Unidades da Federação, com
de alunos situados nos níveis mais altos da escala (4 os respectivos intervalos de confiança.
e acima). Em relação às Regiões Norte e Nordeste,
percebe-se que mais de 80% dos alunos encontram-se
no nível 3 ou abaixo.

Gráfico 4
Médias de desempenho no Saeb, em Língua Portuguesa da
4ª série do Ensino Fundamental – Brasil, Regiões e Unidades da Federação – 2001

Notas:
Intervalos de confiança simultâneos 2 a 2 de 95% pelo procedimento de Bonferroni.
Limite entre níveis de desempenho.

Acima da média do Brasil, encontram-se as Gerais, Espírito Santo e Goiás. (Há pontos em
médias das Regiões Sul e Sudeste, os Estados do comum entre o intervalo de confiança da média
Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, brasileira e os intervalos desta região e destes
Rio Grande do Sul e o Distrito Federal. Pode-se afir- Estados).
mar isso porque o limite superior do intervalo de con- Abaixo da média do Brasil estão as Regiões
fiança da média do Brasil ainda é menor que o limite Norte e Nordeste e os Estados do Acre, Pará,
inferior dos intervalos destas regiões e destes esta- Tocantins, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do
dos. Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe,
No mesmo nível da média do Brasil, Bahia, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso. (Se
encontram-se a Região Centro-Oeste e os Estados fosse traçada uma linha horizontal passando pelo
de Rondônia, Amazonas, Roraima, Amapá, Minas limite inferior do intervalo da média brasileira,
48 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

poder-se-ia verificar que todas essas localidades avançados e com os referidos programas melhor
têm os seus intervalos completamente localizados consolidados.
abaixo desse valor). Deve-se considerar que, em educação, o pra-
É importante esclarecer que as escolas da zona zo para a aquisição efetiva de conhecimentos e ha-
rural da Região Norte foram as únicas que não par- bilidades é lento, em comparação ao período de dois
ticiparam da amostra do Saeb 2001, em função da anos que é a periodicidade do Saeb, não se colhendo
dificuldade de acesso às escolas rurais da região, no resultados imediatos dos projetos implementados, por
curto período de cinco dias determinados para apli- melhores que sejam seus objetivos, formas de ges-
cação do Saeb. Para se comparar, adequadamente, tão e montante de recursos empregados.
as médias de desempenho dos alunos das Regiões
Norte e Nordeste, devem ser consideradas apenas
as médias da zona urbana. A média da Região Nor-
deste somente na zona urbana sobe para (151,7) em
relação à média geral, aproximando-se da média da
Região Norte (156,9), com diferença significativa.
Os dados do Saeb 2001 demonstram que, no
Brasil, a média de desempenho dos alunos em Lín-
gua Portuguesa na 4ª série das escolas das capitais
é significativamente superior à das escolas do interi-
or. O mesmo ocorre no nível regional, com exceção
da Região Sudeste, onde as médias nas duas locali-
zações não podem ser consideradas diferentes. As
diferenças mais acentuadas para as regiões ocor-
rem nas Regiões Nordeste e Centro-Oeste.
No Brasil e nas suas regiões, a média de de-
sempenho dos alunos de 4ª série das escolas parti-
culares em Língua Portuguesa é superior à das es-
colas estaduais e municipais. Deve-se considerar que
nas escolas particulares, em geral, estudam alunos
de nível socioeconômico mais elevado, e todas as
pesquisas congêneres, inclusive internacionais, apon-
tam para uma correlação positiva entre desempenho
e nível sócioeconômico. Em termos de Brasil, as mé-
dias dos alunos da rede estadual são maiores do que
as dos alunos da rede municipal. No entanto, a única
região onde a diferença entre as redes estadual e
municipal é significativa é a Região Nordeste. Nas
outras regiões, os dados não permitem afirmar que
há diferenças significativas.
Com base nos dados, pode-se afirmar ainda
que na 4ª série do Ensino Fundamental houve uma
queda nas médias de desempenho em Língua Portu-
guesa entre 1995 e 1999. Comparando-se os resul-
tados entre 1999 e 2001, observa-se que no Brasil
ainda ocorre queda significativa no desempenho.
No período 1995-2001, foi imensa a
incorporação de alunos ao primeiro segmento do
Ensino Fundamental, e foi principalmente a partir
desse período que a maioria dos estados iniciou
projetos para melhoria do fluxo escolar,
implementando, em alguns casos, os ciclos básicos,
programas de aceleração e de incorporação de jovens
que estavam excluídos da escola formal. Deve-se
observar que esses programas foram iniciados em
momentos distintos nas diferentes unidades da
Federação, já encontrando-se alguns em estágios mais
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 49

Análise dos Itens do Teste de


Língua Portuguesa – 8ª Série
do Ensino Fundamental
50 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

5 ANÁLISE DOS ITENS DO TESTE DE LÍNGUA PORTUGUESA – 8ª SÉRIE DO ENSINO FUNDAMENTAL

Antes de prosseguir com a análise dos itens de habilidades específicas e a construção dos con-
de 8ª série do Ensino Fundamental, será apresen- teúdos. Os resultados obtidos indicarão em que
tada a escala de desempenho dos alunos dessa fase da construção do conhecimento esses alunos
série em Língua Portuguesa, com as devidas in- se encontram.
terpretações.
A análise dos itens foi realizada levando-se TÓPICO I – PROCEDIMENTOS DE LEITURA
em consideração o critério de complexidade de (DESCRITORES 01, 03, 04 E 06)
construção do conhecimento demonstrado na es-
cala de desempenho. Este tópico requer dos alunos estratégias de
Portanto, os itens analisados e comentados leitura para identificar as informações que se encon-
permitem avaliar a competência requerida pelo tó- tram no próprio texto e aquelas que, ao extrapolar
pico e demonstrada pelos alunos testados, já que esse texto, vão exigir do leitor um conhecimento do
demonstraram o desenvolvimento de um conjunto mundo letrado.

ESCALA DE DESEMPENHO – LÍNGUA PORTUGUESA, 8ª SÉRIE


Os níveis interpretados da escala de Língua Portuguesa, especificamente para a 8ª série do Ensino Fundamental, vão do 2 ao 7.
Na 8a série, além das habilidades descritas para a 4a série, os alunos também dominam as seguintes habilidades:
(continua)
NÍVEIS E PERCENTUAIS DE ALUNOS BRASILEIROS NOS NÍVEIS
TÓPICOS HABILIDADES 2 – 7,22% 3 – 12,86% 4 – 36,37% 5 – 28,40% 6 – 9,55% 7 – 0,67%
150-175 175-200 200-250 250-300 300-350 350-375
Localizam • em textos mais complexos (notícias de revistas e jornais).
informações • comuns em dois textos de jornais.
explícitas
Inferem o * *
sentido • de informações contidas em gráficos e tabelas.
• em textos de baixa complexidade.
I. Procedi- * * *
mentos de Identificam
informação • que implica conceito mais abstrato.
Leitura
implícita • em texto poético de maior
complexidade.
Identificam o * *
tema • em textos poéticos.
• e os sentidos metafóricos em
textos narrativos longos
(contos) e em material
gráfico.
Distinguem * * * *
fato de • em matéria jornalística (texto
opinião informativo contendo análise
relativa a esse
de dados).
fato
II. Implica- Interpretam
ções do texto * * *
Suporte, do • com auxílio de material
Gênero e/ gráfico diverso e em vários
ou do níveis de abstração que
Enunciador extrapolam o sentido
na Compre- convencional.
ensão do Identificam a • de um texto * *
Texto finalidade informativo.
Reconhecem • como texto narrativo e provérbios.
diferentes • como no
formas de caso de um
III. Relação tratar a boletim
entre informação meteorológico
Textos sobre o com
mesmo tema informações
pictóricas,
em tabelas e
gráficos.

(*) Habilidades descritas na escala de 4ª série do Ensino Fundamental e construídas, também, pelos alunos de 8ª série em cada nível.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 51

ESCALA DE DESEMPENHO – LÍNGUA PORTUGUESA, 8ª SÉRIE


Os níveis interpretados da escala de Língua Portuguesa, especificamente para a 8ª série do Ensino Fundamental, vão do 2 ao 7.
Na 8a série, além das habilidades descritas para a 4a série, os alunos também dominam as seguintes habilidades:
(conclusão)
NÍVEIS E PERCENTUAIS DE ALUNOS BRASILEIROS NOS NÍVEIS
TÓPICOS HABILIDADES 2 – 7,22% 3 – 12,86% 4 – 36,37% 5 – 28,40% 6 – 9,55% 7 – 0,67%
150-175 175-200 200-250 250-300 300-350 350-375
Estabelecem * *
relações de
continuidade • identificando repetições e substituições em um texto.
• relacionando uma palavra de sentido mais genérico a outra de
sentido mais específico.
• reconhecendo a mesma idéia expressa em
duas partes de um mesmo texto, com apoio
de figuras.
• reconhecendo a transforma-
ção do referente ao longo do
texto narrativo.
IV. Coerência Estabelecem * • em textos simples (bilhetes).
e Coesão relação entre
no Proces- tese e
samento do argumentos
texto
Identificam • distinguindo narrador e personagem em
conflito pequenos textos.
gerador do
enredo e
elementos que
constroem a
narrativa

Estabelecem * * • em textos poéticos.


relação causa/
conseqüência • com base em
pistas
lexicais.
Estabelecem * • mais complexas pelo uso de conjunções.
relações
lógico-
discursivas

Identificam • em história em quadrinhos


efeitos de pelo uso de recursos
ironia ou morfossintáticos (humor).
humor em
textos • em textos poéticos descriti-
variados vos simples (ironia).

Identificam o • gerado pela repetição de sons e palavras em texto poético descritivo.


V. Relações
efeito de
entre • pela relação
sentido
Recursos forma/
Expressivos conteúdo em
e Efeitos de textos
Sentido poéticos de
autores
modernistas.
Identificam • visuais (tamanho e formato de letras).
efeito da
exploração de • como o uso de caixa alta para
recursos enfatizar uma palavra.

* *
Identificam • que evidenciam o locutor e o interlocutor em textos
marcas informativos.
VI. Variação lingüísticas
• que caracterizam a linguagem
Lingüística
formal e informal, e o nível
de adequação do uso em
relação ao interlocutor.
52 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

O leitor competente será capaz de, por meio NÍVEL 2


dos itens referentes aos descritores deste tópico, de-
monstrar um conjunto de habilidades lingüísticas que Texto I
se estendem desde a habilidade de decodificar Exposição de arte para cegos
palavras escritas até a capacidade de compreender
textos escritos de gêneros variados e em diversas Cegos e deficientes visuais de Sorocaba, es-
situações. Os alunos devem, pois, demonstrar habili- tado de São Paulo, estão podendo “ver” uma ex-
dades que vão desde a localização de uma informa- posição de artes plásticas, constituída por quadros
ção explícita até a inferência de uma informação e montagens.
implícita; devem ler as “entrelinhas” e identificar a Todas as obras, num total de dezesseis, cria-
idéia central de um texto, ou seja, apreender o senti- das por artistas plásticos especialmente para essa
do global do texto e fazer abstrações a respeito dele. exposição, foram feitas em alto-relevo para per-
Neste tópico, são enfatizadas competênci- mitir que os deficientes deslizem as mãos sobre
as ligadas às estratégias de leitura, aqui represen- elas para percebê-las em todos os detalhes.
tadas pelos descritores 01, 03, 04 e 06 da Matriz Ao lado de cada obra, em que foram utiliza-
de Referência de Língua Portuguesa da 8ª série dos materiais como tinta, madeira, gesso, pregos,
do Ensino Fundamental. folhas secas, serragem e flores, há uma placa em
Para o Descritor 01, que requer do aluno ha- braile (o alfabeto dos cegos) com o nome do artis-
bilidade para localizar informações explícitas em um ta que a criou.
texto, foram selecionados dois itens, com índices de Loniel da Neves Júnior, 33, que nasceu cego,
acerto de 88% e 76%, respectivamente. visitou a exposição e afirma que um deficiente vi-
No que se refere ao Descritor 03, que trata sual pode apreciar uma obra de arte tanto quanto
de inferência de sentido de palavras ou expressões uma pessoa de visão total. Ele diz que “vê” as
ao longo do texto, observa-se uma variação de acer- obras com as “mãos” e afirma que quem não en-
tos de 66% a 45%. xerga desenvolve melhor outros sentidos, como o
O Descritor 04 requer habilidades para reali- tato, por exemplo.
zar operações inferenciais de informações implícitas
em um texto. O desempenho dos alunos apresenta Adaptado de: Folha de S. Paulo, 16 mar. 1995.
uma variação de acertos que oscila entre 82% e 52%.
Já o Descritor 06 avalia a percepção dos alu-
nos para saber de que trata o texto. Os itens seleci- Texto II
onados para este descritor apresentam variação de Deficiente vai parar veículo sem ajuda
acertos de 73% a 48%.
A seguir serão analisados os itens que repre- O deficiente visual e professor de História
sentam os descritores deste tópico. Arnaldo Godoy [...] trabalha no desenvolvimento
de uma placa portátil na qual os deficientes visu-
ais poderão afixar o número do ônibus para poder
DESCRITOR 01 pará-lo no ponto.
LOCALIZAR INFORMAÇÕES EXPLÍCITAS EM UM TEXTO. Segundo o professor Godoy, é uma grande
dificuldade para o deficiente visual pegar ônibus à
A informação a que esse descritor se refere noite, quando não há ninguém no ponto. O jeito é
pode ser localizada a partir de marcas que o texto parar todos os ônibus e perguntar aos motoristas
traz, isto é, a partir da base textual, o leitor encontra para onde eles estão indo. “Isso é muito compli-
uma informação explícita quando responde a per- cado”, afirma o professor.
guntas desse tipo: O quê? Quem? Onde? Como?
Quando? Qual? Para quê? Adaptado de: Folha de S. Paulo, 10 out. 1995.
Pretende-se, portanto, com esse descritor,
verificar a capacidade dos alunos de localizar uma As duas notícias fazem referência a pessoas com
ou mais informações objetivas marcadas no texto. A deficiência
dificuldade dessa tarefa vai variar de acordo com a
quantidade de informações que precisarão ser loca- (A) tátil. (C) auditiva.
lizadas. Depende, também, da relevância da infor- (B) visual. (D) olfativa.
mação e da familiaridade do leitor com o gênero tex-
tual e com o assunto nele tratado, além do tamanho Percentual de respostas às alternativas
do texto. Os itens a seguir mostram esses níveis de A B C D Em branco e nulas
complexidade. 7 88 2 1 2
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 53

Adaptado da Folha de S. Paulo, os dois textos mudança de classe gramatical – de verbo para
que compõem este item possuem vocabulário aces- substantivo –, os alunos que acertam são 76%,
sível, pois, além de informativos, levam o leitor a fa- maioria, portanto.
zer uma comparação e localizar uma informação A alternativa errada “C”, que atraiu os alu-
comum e explícita nos dois textos. Além disso, a in- nos em segundo lugar, ainda que em número bas-
formação requerida encontra-se no primeiro pará- tante reduzido em relação ao de acerto (apenas
grafo de cada texto. 10% dos alunos), talvez possa ser explicada pela
O excelente nível de desempenho alcançado atração que a palavra de um mesmo campo se-
pela expressiva maioria dos alunos (88%) revela que, mântico exerceu. Esses alunos assinalaram que
neste nível, os alunos identificam facilmente dados um dos piores crimes é “a receita de remédios
explícitos e de fácil localização no texto. falsos”.

NÍVEL 4 DESCRITOR 03
INFERIR O SENTIDO DE UMA PALAVRA OU EXPRESSÃO
Como opera a máfia que transformou o
Brasil num dos campeões da fraude de Inferir significa realizar um raciocínio a par-
medicamentos tir de informações já conhecidas, a fim de se che-
gar a informações novas, que não estejam explici-
É um dos piores crimes que se podem come- tamente marcadas no texto. Neste descritor, pre-
ter. As vítimas são homens, mulheres e crianças tende-se verificar se o leitor é capaz de inferir o
doentes – presas fáceis, capturadas na esperança significado de uma palavra ou expressão que ele
de recuperar a saúde perdida. A máfia dos medi- desconhece. Nem sempre é preciso recorrer ao
camentos falsos é mais cruel do que as quadrilhas dicionário quando aparece uma palavra difícil. O
de narcotraficantes. Quando alguém decide chei- sentido para uma palavra ou expressão pode ser
rar cocaína, tem absoluta consciência do que co- construído pelo leitor que tenha habilidade de per-
loca corpo adentro. Às vítimas dos que falsificam ceber outras marcas que o texto traz. Os níveis
remédios não é dada oportunidade de escolha. de complexidade deste descritor podem ser ob-
Para o doente, o remédio é compulsório. Ou ele servados nos itens a seguir.
toma o que o médico lhe receitou ou passará a Há algumas estratégias que o leitor pode uti-
correr risco de piorar ou até morrer. Nunca como lizar para produzir significado para uma palavra
hoje os brasileiros entraram numa farmácia com desconhecida. Ele pode observar marcas
tanta reserva. fonológicas (semelhança de som com outras pala-
vras conhecidas); morfológicas (explorando as
PASTORE, Karina. O paraíso dos remédios partes de que a palavra se compõe, como prefi-
falsificados. xos, sufixos, radicais, etc.); sintáticas (a posição e
Veja, nº 27. SP: Abril, 8 jul. 1998. p. 40-41. função da palavra na frase, ou seja, o contexto
sintático em que ela aparece); semânticas/
Segundo a autora, “um dos piores crimes que se pragmáticas,ou seja, o sentido de outras partes do
pode cometer” é texto, o contexto. As palavras ou expressões no-
vas, quando estrategicamente colocadas, não de-
(A) a venda de narcóticos. vem, pois, retardar a leitura ou prejudicar o seu
(B) a falsificação dos remédios. entendimento.
(C) a receita de remédios falsos.
(D) a venda abusiva de remédios nas
farmácias.

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
7 76 10 04 3

Retirado de uma revista semanal, o texto


deste item atende a uma das indicações das atu-
ais tendências de ensino de língua quanto ao uso
de textos do cotidiano comunicativo.
Do texto para a alternativa correta “B”, ain-
da que a informação a ser localizada sofra uma
54 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

NÍVEL 5 NÍVEL 5

Como opera a máfia que transformou o Os Asteróides


Brasil num dos campeões da fraude de
medicamentos Entre Marte e Júpiter encontramos uma fai-
xa de pequenos corpos, provavelmente originados
É um dos piores crimes que se podem co- em explosões planetárias, que gravitam em torno
meter. As vítimas são homens, mulheres e cri- do Sol. O maior destes asteróides pode ser visto a
anças doentes – presas fáceis, capturadas na olho nu e recebe o nome de Vesta.
esperança de recuperar a saúde perdida. A Calcula-se em mais de 1.600 o número de
máfia dos medicamentos falsos é mais cruel do asteróides existentes.
que as quadrilhas de narcotraficantes. Quando
alguém decide cheirar cocaína, tem absoluta Novo Atlas Geográfico Mundial. São Paulo:
consciência do que coloca corpo adentro. Às Editora Michelany Ltda, 1993.
vítimas dos que falsificam remédios não é dada
oportunidade de escolha. Para o doente, o re- De acordo com o texto, a definição de asteróide é
médio é compulsório. Ou ele toma o que o mé-
dico lhe receitou ou passará a correr risco de piorar (A) corpos formados por restos de planetas.
ou até morrer. Nunca como hoje os brasileiros entra- (B) planetas situados entre Marte e Júpiter.
ram numa farmácia com tanta reserva. (C) atividade de gravitar em torno do Sol.
(D) explosões de gases existentes na Terra.
PASTORE, Karina. O paraíso dos remédios
falsificados. Percentual de respostas às alternativas
Veja, nº 27. SP: Abril, 8 jul. 1998. p. 40-41. A B C D Em branco e nulas
53 16 22 7 2
“Para o doente, o remédio é compulsório”.
O termo grafado pode ser substituído por Apesar de o texto deste item ser pequeno,
sua temática exige do leitor certa familiaridade com
(A) caro. (C) obrigatório. o assunto, para que ele, utilizando seu conheci-
(B) forte. (D) controlado. mento de mundo, possa inferir o significado de “as-
teróide”. É interessante observar a dispersão para
Percentual de respostas às alternativas as alternativas “B” (16%) e “C” (22%), o que tal-
A B C D Em branco e nulas vez se justifique pelo fato de o vocábulo destaca-
9 7 66 17 1 do no enunciado não pertencer ao repertório
lingüístico dos alunos da 8ª série do Ensino Fun-
Também aqui os alunos foram instados a infe- damental, o que inviabilizou a escolha da alterna-
rir para dar sentido a expressões que não pertencem tiva correta.
usualmente a seu repertório lingüístico, desta feita Era de se esperar que alunos da 8ª série, nes-
mediante um procedimento apontado pelo próprio te nível, soubessem selecionar a melhor resposta à
enunciado do item, que apresenta possibilidades de definição do vocábulo asteróide e não se deixassem
substituição de um termo por outro equivalente. O levar por pistas falsas. No entanto, um contingente
contexto em que ocorre o uso desses termos já é a de apenas 53% acertou o item.
grande pista, pois fica bem marcado que não há sa-
ída para o doente: ele tem de tomar o remédio.
Dessa forma, 66% dos alunos assinalaram a
alternativa “C”, em que consta a substituição ade-
quada: “Para o doente, o remédio é obrigatório”. A
alternativa “D” atraiu 17% dos alunos, o que talvez
se deva ao fato de ser o termo “controlado” bastan-
te usado pela mídia escrita e falada quando o assun-
to é o deste item.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 55

NÍVEL 6 Já os que optaram pela alternativa “C” (10%)


podem ter associado, semelhantemente à reflexão
Observe a propaganda. anterior, sonho à invenção, por conta das significa-
ções dessas palavras que também poderiam estar
num mesmo campo conceptual (“no sonho, a gente
inventa”, já dizia o poeta na canção).
A plausibilidade dessas outras alternativas tal-
vez se justifique, também, pela própria natureza da
operação de inferência, que, entre os processos
constitutivos da coerência textual, se configura como
a operação que realizamos para suprir as lacunas
que porventura o texto apresente.

DESCRITOR 04
INFERIR UMA INFORMAÇÃO IMPLÍCITA EM UM TEXTO

As informações implícitas no texto são aque-


las que não estão presentes claramente na base tex-
tual, mas podem ser construídas pelo leitor por meio
da realização de inferências que as marcas do texto
permitem.
Além das informações explicitamente enun-
ciadas, há outras que podem ser pressupostas e, con-
seqüentemente, inferidas pelo leitor. O leitor perspi-
caz é aquele que consegue ler o que está por trás
das linhas.
Neste descritor, pretende-se que o leitor faça
inferências, necessárias para que significados impor-
tantes e decisivos sejam produzidos, e descubra os
“... a Petrobras abastece o sonho e a imaginação pressupostos e os subentendidos.
de mais de 390 mil crianças.” A dificuldade desse tipo de tarefa depende de
A palavra sublinhada significa inferência exigida, ou seja, existem vários níveis de
informações implícitas, ou não ditas, no texto. De-
(A) fantasia. pendendo do texto, o leitor pode ter de fazer
(B) ilusão. inferências mais simples ou mais complexas, con-
(C) invenção. forme pode ser observado nos itens a seguir.
(D) realidade.

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
45 19 10 23 3

A análise deste item é bastante interessante,


uma vez que os alunos se dispersam significativa-
mente pelas alternativas, embora 45% tenham fica-
do com a alternativa correta “A”.
Os alunos que optaram pela alternativa “D”
(23%) talvez tenham considerado que o projeto, ao
oferecer bibliotecas itinerantes e outros eventos di-
reta ou indiretamente às crianças, estaria abastecen-
do a realidade carente de cultura das crianças.
Os que optaram pela alternativa “B” (19%)
talvez tenham estabelecido a correlação entre sonho
e ilusão, por serem esses termos próximos quanto
aos campos semânticos de que fazem parte.
56 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

NÍVEL 4 NÍVEL 4

O bicho A Fabrudaxa
Stella Carr
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
– Será aqui mesmo, Olhorão? Eu nunca vi
Catando comida entre os detritos.
bruxa morar em prédio de apartamentos. Ainda
Quando achava alguma coisa, por cima no 20º andar!
Não examinava nem cheirava: – Deve facilitar a voagem da vassoura – res-
Engolia com voracidade. pondeu Olhorão.
O bicho não era um cão. Quando eles, minutos depois, disseram isso
Não era um gato. pra Fabrudaxa, ela morre de rir.
Não era um rato. – Francamente, rapazes. P, meu aspirador
de pó a jato, não precisa dessas coisas pra levan-
O bicho, meu Deus, era um homem. tar vôo. Bem se vê que vocês andaram lendo his-
tórias do tempo em que as fadas eram boas e as
BANDEIRA, Manoel. Poesias reunidas. bruxas más.
Rio de Janeiro: Ática, 1985 – E não são mais? – perguntou Joãozinho.
– Claro que não! Hoje em dia ninguém faz
O que motivou o bicho a catar restos foi mais só maldades horripilantes ou bondades ma-
ravilhosas. Todo mundo é bom-e-mau ao mesmo
(A) a própria fome. tempo, dependendo da hora e dos interesses. Não
(B) a imundice do pátio. existem mais bruxas nem fadas.
(C) o cheiro da comida. – E você, o que é então?
(D) a amizade pelo cão. – Eu sou uma fabrudaxa e minha maior pre-
ocupação é ver se consigo acabar com a burrice
Percentual de respostas às alternativas humana. Tenho feito tudo que é magia, simpatia,
A B C D Em branco e nulas bruxaria, fadaria e tá difícil!
82 9 5 3 1
In: Olhorão olhorundo. São Paulo,
A interpretação solicitada requer que o aluno Melhoramentos, 1982.
aponte o que levou esse “bicho” a catar restos, o
que não deixa de ser, também, a percepção de uma As palavras que indicam que a bruxa da história é
relação de causa/conseqüência. Parece que os alu- moderna são
nos respondem certo sem muita dificuldade, uma vez
que 82% assinalam a alternativa “A”, que corres- (A) prédio de apartamentos – aspirador de
ponde à causa – a fome do “bicho” – , que teve, pó a jato.
como conseqüência, a ação de pegar os restos de (B) prédio de apartamentos – vassoura.
comida. (C) bruxa boa e má ao mesmo tempo –
Note-se que no texto de Manuel Bandeira não magia.
há menção literal à palavra “fome”. Isso nos induz a (D) magia, simpatia, bruxaria, fadaria.
descrever a operação mental por meio da qual os
alunos puderam acertar como decorrente da articu- Percentual de respostas às alternativas
lação entre conhecimentos prévios e informações A B C D Em branco e nulas
textuais (“catando comida”, “engolia com voracida- 68 10 9 11 2
de”), incluindo, para tanto, informações que dependem
de pressuposições e inferências autorizadas pelo texto. Neste item, a habilidade requerida foi inferir
uma informação implícita no texto. A inferência que
os alunos tiveram de fazer se baseou em conheci-
mentos prévios de várias ordens, tais como: conhe-
cimento sobre outros textos, que é a intertextualida-
de, conhecimento lingüístico, conhecimento de mun-
do, etc. A maioria dos alunos (68%) fizeram correta-
mente a conexão dos dois indicativos que caracteri-
zam a bruxa como moderna: prédio de apartamentos
e aspirador de pó a jato.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 57

O conhecimento intertextual dos alunos leva- NÍVEL 5


os a admitir a presença de elementos do mundo
da ficção dos contos de fada como verossímeis Brinquedos incendiados
(daí eles entenderem o porquê da presença de um
“aspirador a jato”); o conhecimento lingüístico Uma noite houve um incêndio num bazar. E
permite a identificação do que o item propõe (veja- no fogo total desapareceram consumidos os
se, por exemplo, o significado da palavra “moder- seus brinquedos. Nós, crianças, conhecíamos
na”, um significado que é a base para os meninos aqueles brinquedos um por um, de tanto mirá-
acertarem); o conhecimento de mundo, por fim, los nos mostruários – uns, pendentes de longos
que extrapola o lingüístico e desempenha papel barbantes; outros, apenas entrevistos em suas
decisivo no estabelecimento da coerência, pois é caixas.
por meio do conhecimento adquirido que armaze- (...)
namos informações, na memória, em blocos – as O incêndio, porém, levou tudo. O bazar ficou
chamadas estruturas cognitivas. sendo um famoso galpão de cinzas.
Reunir todos esses fatores quando se lê e Felizmente, ninguém tinha morrido – diziam em
se constrói sentido é operacionalizar, é uma ope- redor. Como não tinha morrido ninguém? – pen-
ração que aplica os meios disponíveis com vista à savam as crianças. Tinha morrido um mundo, e,
construção de sentido, e essa é uma característi- dentro dele, os olhos amorosos das crianças, ali
ca da mentalidade estratégica, ou seja, a capaci- deixados.
dade de representar e analisar os problemas e a E começávamos a pressentir que viriam outros
flexibilidade para encontrar soluções. incêndios. Em outras idades. De outros brinque-
dos. Até que um dia também desaparecêssemos
sem socorro, nós, brinquedos que somos, talvez,
de anjos distantes!

MEIRELES, Cecília. Janela Mágica. São


Paulo: Moderna. p. 13-14

Os outros incêndios a que a autora se refere, no


último parágrafo, podem ser entendidos como

(A) descobertas que se fariam ao longo da


vida.
(B) perdas e decepções que ocorreriam ao
longo da vida.
(C) acidentes com fogo em estabelecimen-
tos comerciais e residenciais.
(D) violentas transformações na cidade em
que morarava.

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
18 52 22 06 2

O texto de Cecília Meireles é construído com


bastantes metáforas.
Como sabemos, a metáfora é a figura que
designa algo pela transferência de uma palavra para
um âmbito semântico que não é o da palavra que ela
designa, fundamentando-se numa relação de seme-
lhança entre o sentido próprio e o figurado.
Se o enunciado do item quer saber como os
“outros incêndios” do último parágrafo podem ser
entendidos, é claro que há a referência a algum
tipo de incêndio antes disso, que, na verdade, é
um incêndio no sentido literal, o da loja que vende
de um tudo.
58 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

A inferência requerida aqui, neste item, de- NÍVEL 4


pende de um grau de abstração mais exigente, razão
pela qual tenha havido uma certa dispersão dos Irene no céu
alunos. Para o estabelecimento de todo esse pro- Irene preta
cesso inferencial, os alunos tiveram de perceber, Irene boa
também, a grande outra metáfora criada por Ce- Irene sempre de bom humor.
cília acerca de nós seres humanos, também consi- Imagino Irene entrando no céu:
derados brinquedos, como se joguetes do destino, – Licença, meu branco!
ou coisa que o valha. E São Pedro bonachão:
Outros incêndios, então, são as perdas e as – Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
decepções que ocorreriam ao longo da vida de “ou-
tros brinquedos”, os indivíduos, e esta é a alternativa Manuel Bandeira
que o gabarito apontou como a certa, assinalada por
52% dos alunos. O assunto do poema é
Os alunos que não perceberam a metáfora dos (A) a revolta de Irene com São Pedro.
homens-brinquedos por terem levado em conta o (B) o encontro de Irene com São Pedro.
sentido literal de “outros binquedos” assinalaram a (C) a impaciência de São Pedro com Irene.
alternativa “C” (22%). (D) a discussão de Irene e São Pedro.

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
DESCRITOR 06 7 73 12 5 3
IDENTIFICAR O TEMA DE UM TEXTO
Os alunos identificam o tema deste texto poé-
O tema é o eixo sobre o qual o texto se estru- tico simples sem maiores problemas, pois a maioria
tura. A percepção do tema responde a uma questão (73%) apontou que o assunto do texto é o encontro
essencial para a leitura: “o texto trata do quê?” Em de Irene com São Pedro, conforme o que consta na
muitos textos, o tema não vem explicitamente mar- alternativa correta “B”.
cado, mas deve ser percebido pelo leitor quando iden- Talvez os 12% que responderam de acordo
tifica a função dos recursos utilizados, como o uso com a alternativa errada “C” – a impaciência de São
de figuras de linguagem, de exemplos, de uma deter- Pedro com Irene – tenham considerado essa alter-
minada organização argumentativa, entre outros. nativa como a certa por terem tomado a fala de São
Espera-se, com esse descritor, verificar a ca- Pedro como um índice de impaciência, como se Irene
pacidade do aluno de construir o tema do texto a já soubesse que poderia entrar no céu e ainda assim
partir da interpretação que faz dos recursos utiliza- pedisse licença.
dos pelo autor. O leitor deve considerar o texto como
um todo, buscando um nível mais abstrato de leitura,
a fim de construir um significado global para ele a
partir de uma síntese que deve ser elaborada por ele,
leitor. O grau de dificuldade dessa tarefa depende
de como estão marcadas as informações mais rele-
vantes do texto e, também, de como o tema foi ex-
posto, pois, às vezes, ele não está marcado clara-
mente. Isso pode ser observado nos itens a seguir.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 59

NÍVEL 5 os animais simbolizam – a índole do escorpião e a


natureza do lobo.
A rã e o escorpião Duas outras alternativas (“D” e “A”) chama-
A rã ia atravessar uma lagoa quando o es- ram a atenção dos alunos mais significativamente. O
corpião pediu carona. provérbio da alternativa “D” – Nem tudo que reluz é
– Por favor, rã, me leva pro outro lado. Eu ouro – pode ter atraído os alunos (19%), por eles o
preciso com urgência ir para lá e não sei nadar. terem associado ao engodo da rã que acreditou na “apa-
Quebra essa pra mim. rência” mudada do escorpião. Quem tudo quer, tudo
A rã era legal, mas ficou com medo. perde, o provérbio da alternativa “A”, pode ter sido
– Nem pensar, escorpião. Se tu me pica, eu preferido por 15% dos alunos que talvez tenham julga-
morro. do a rã como presunçosa por ter presumido errada-
O escorpião implorou: mente que o escorpião estava mudado; com isso, a rã
– Claro que eu não vou fazer isso, rã. Se eu acabou perdendo tudo, ou seja, a própria vida.
te picar, tu morre e afunda. E eu afundo junto e
morro também. NÍVEL 5
A rã pensou, o argumento fazia sentido. É,
não havia perigo. O homem de meia-idade
– Monta aí, escorpião. E vamos que vamos. (Lenda chinesa)
O escorpião montou e a rã começou a atra-
vessar a lagoa. No meio do caminho, o escorpião Havia outrora um homem de meia-idade que
picou a rã. Desesperada, cheia de dor, ela berrou: tinha duas esposas. Um dia, indo visitar a mais
– Que idiota, escorpião! Eu vou morrer! E jovem, esta lhe disse:
você vai também. – Eu sou moça e você é velho; não gosto de
Chorando, o escorpião se desculpou: morar com você. Vá habitar com sua esposa mais
– Me perdoa, rã. Eu não pude resistir. É a velha.
minha índole.[...] Para poder ficar, o homem arrancou da ca-
beça os cabelos brancos. Mas, quando foi visitar
MARCOS, Plínio. Magazine. Belo Horizonte, a esposa mais velha, esta lhe disse, por sua vez:
Julho 1998, p.5. – Eu sou velha e tenho a cabeça branca; ar-
ranque, pois, os cabelos pretos que tem.
A idéia central da fábula “A rã e o escorpião” Então o homem arrancou os cabelos pretos
tem seu equivalente em para ficar de cabeça branca. Como repetisse sem
(A) “Quem tudo quer tudo perde.” tréguas tal procedimento, a cabeça tornou-se-lhe
(B) “O lobo muda de pele, mas não de inteiramente calva. A essa altura, ambas as espo-
natureza.” sas acharam-no horrível e ambas o abandonaram.
(C) “Mais vale um pássaro na mão do que
dois voando.” FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda,
(D) “Nem tudo que reluz é ouro.” RÓNAI, Paulo, (orgs.) Mar de histórias. 3. ed.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978. v. 1, p. 119.
Percentual de respostas às alternativas
A B C D Em branco e nulas A idéia central do texto é
15 59 5 19 2 (A) O problema da calvice masculina.
(B) a impossibilidade de agradar a todos.
Os alunos que acertaram, apontando a alter- (C) A vaidade dos homens.
nativa “B”, provavelmente se apoiaram em seus co- (D) a insegurança da meia-idade.
nhecimentos prévios sobre universo temático e so-
bre gêneros textuais, pois, neste item, há uma dife- Percentual de respostas às alternativas
rença em relação a outros itens que solicitam a A B C D Em branco e nulas
detecção do tema de um texto. Aqui o diferencial é o 10 48 10 30 2
saber fazer duas operações: a primeira, identificar o
tema do texto; a segunda, encontrar correspondência Alguns fatores fazem com que a identificação
desse tema com outro texto, no caso, um provérbio. de um determinado assunto se torne uma atividade
Foram 59% os alunos que conseguiram reali- mais ou menos complexa para o leitor, que terá de
zar essas duas operações, intertextualizando a fábu- recorrer a crenças e conhecimentos partilhados sobre
la e o provérbio. O conhecimento de mundo também o que está sendo focalizado para poder entender o
deve ter exercido papel fundamental a partir do que texto de modo adequado.
60 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

Para a identificação do tema, os alunos preci- TÓPICO II


saram realizar um trabalho ativo de compreensão e IMPLICAÇÕES DO SUPORTE, DO GÊNERO E/OU
interpretação da lenda, tomando em consideração ENUNCIADOR NA COMPREENSÃO DO TEXTO
uma série de procedimentos, dentre os quais se evi- (DESCRITORES 05 E 12)
dencia o emprego de estratégias não-lineares que
ocorrem durante o processamento de leitura, como, Este tópico requer dos alunos a competência
por exemplo, a articulação entre conhecimentos pré- de interpretar textos de gêneros variados, com ou
vios e informações textuais. Essas informações tex- sem auxílio de recursos gráficos, e identificar os ob-
tuais, em alguns casos, dependem de pressuposições jetivos do texto. Além do texto escrito, a ilustração
e inferências que o próprio texto autoriza, para dar permite ao leitor engajar-se em várias atividades de
conta de sentidos figurados e para perceber opiniões construção de significados. O leitor, por meio da ima-
e valores implícitos. gem, é estimulado a formular e reformular hipóteses
Como se percebe, não se trata de tarefa tão interpretativas, antecipar as informações ou fazer
simples, especialmente se a interação entre o texto e associação de idéias. Os elementos gráfico-visuais
os leitores não compartilhar as mesmas referências. auxiliam fortemente o leitor na interpretação do tex-
Neste item foram 48% os alunos que assina- to e na construção de significados, se ele for capaz
laram a alternativa correta “B”. Talvez esse resulta- de passar do figurativo (imagens captadas pela per-
do revele que a interação texto-leitor não tenha sido cepção) para o operativo, que requer operações
tão adequada por conta de os alunos não comparti- cognitivas, como classificar, seqüenciar, estabelecer
lharem as mesmas referências presentes na lenda comparações, etc.
chinesa, como valores e conhecimento de mundo, o O conhecimento da variedade de gêneros tex-
que se explicaria pela faixa etária preponderante tuais também contribui para que o leitor possa
numa 8ª série de Ensino Fundamental, um tanto dis- decodificar vocábulos próprios do mundo letrado e
tante de problemas da idade adulta. Esta última pers- realizar tarefas voltadas para a compreensão do
pectiva tornaria possível, também, entender por que mundo que o cerca.
30% dos alunos acreditaram que o tema do texto Os itens apresentados neste tópico referem-
fosse a insegurança na meia-idade (alternativa “D”). se aos descritores 05 e 12. Para o Descritor 05, fo-
ram escolhidos quatro itens para que se pudesse ana-
lisar melhor o nível de intimidade dos alunos com os
diversos gêneros textuais. O percentual de acertos
CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O TÓPICO I apresentou uma variação decrescente de 57% a 18%.
Em relação ao Descritor 12, que trata do re-
A análise dos itens que representam o Tópico conhecimento da finalidade dos textos, o percentual
I revela que os alunos apresentaram um nível de de- de acertos aos itens apresentou-se estável nos dois
sempenho entre bom e médio. Pode-se perceber que primeiros (84% e 74%) e observou-se uma queda
eles demonstram certa competência para a leitura acentuada de desempenho no terceiro (38%).
de textos simples informativos, de propaganda e lite- Os itens analisados a seguir ilustram a descri-
rários, inclusive os poéticos simples. ção do comportamento do desempenho observado.
As dificuldades observadas situam-se no pla-
no inferencial tanto de vocábulos e expressões quanto DESCRITOR 05
de informações implícitas e podem ser localizados INTERPRETAR TEXTO COM AUXÍLIO DE MATERIAL GRÁFICO
em gêneros textuais variados, o que pode ser atribu-
DIVERSO (PROPAGANDAS, QUADRINHOS, FOTOS, ETC.)
ído tanto à falta de intimidade com alguns gêneros
quanto ao grau de conhecimento de mundo do leitor.
Vale relembrar a distinção entre gênero tex- Num texto, podem ser usados, além de pala-
tual e modalidades discursivas. Em Meurer (2000), vras, elementos não-verbais (fotos, desenhos, tabe-
as modalidades discursivas constituem as estruturas las, gráficos, quadros), que visam contribuir para a
e as funções textuais tradicionalmente reconhecidas construção dos sentidos. Às vezes, a imagem dis-
como narrativas, descritivas, argumentativas, pensa as palavras e, se o leitor tem habilidade em
procedimentais e exortativas. Para Meurer, gêneros lidar com os elementos não-verbais, pode estabele-
textuais são tipos específicos de textos de qualquer cer relações, economizando recursos cognitivos e au-
natureza, literários ou não (Swales, 1990). mentando o grau de compreensão na construção de
É de se supor, portanto, que quanto maior a significados, caso seja capaz de passar do figurativo
variedade de gêneros textuais trabalhada em sala de (imagens captadas pela percepção) para o operativo,
aula, tanto mais condições terão os alunos de se tor- que requer operações cognitivas, como classificar,
narem leitores perspicazes e competentes. seqüênciar, estabelecer comparações, etc.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 61

Espera-se, com esse descritor, verificar se o No caso da leitura deste item, o conhecimento
leitor é capaz de relacionar e perceber como se com- de mundo ganha uma especial relevância, pois é a par-
pletam informações advindas de fontes verbais e não- tir dele que o aluno pode perceber os efeitos de sentido
verbais, na construção de significados para o texto. desencadeados pela figura e pelo texto da propaganda,
O grau de dificuldade dessa tarefa dependerá a ponto de poderem apresentar uma mesma idéia.
da familiaridade do leitor com o tipo de recurso grá- A presença do conectivo porque implica, tam-
fico e com o assunto tratado, bem como da saliência bém, que os alunos têm de possuir mais uma habili-
da informação relevante tanto no texto quanto no dade, que é a de detectar uma explicação que não se
material gráfico. Dependerá também da quantidade encontra explícita.
de informações que o leitor deverá considerar. Isso Aqueles que escolheram a alternativa correta
fica evidenciado no baixo índice de acertos nos itens “A” (57%) perceberam o sentido metafórico da pró-
dos níveis 7 e 8 desse descritor. pria figura que retrata o esforço e o empenho dos
jovens ao escalar a “montanha” de livros. A alterna-
NÍVEL 5 tiva “C” atraiu 30% dos alunos que fizeram uma lei-
tura superficial do texto e da imagem e não soube-
Observe a propaganda. ram captar a mensagem da propaganda.

A figura e o texto apresentam uma mesma idéia


porque ambos

(A) buscam a valorização da leitura.


(B) mostram a fragilidade do leitor.
(C) destacam a curiosidade das crianças.
(D) capacitam professores.

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
57 5 30 6 2

A leitura como construção de sentido requer


do leitor não só a mobilização de recursos propicia-
dos pela língua, mas também a ativação de outros
conhecimentos.
62 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

NÍVEL 6 Os alunos que acertaram a alternativa corre-


ta “A” (42%) demonstram excelente nível de leitura
crítica e, sobretudo, foram capazes de estabelecer
comparações e perceber a intencionalidade dos au-
tores, que manifestaram opiniões divergentes a par-
tir da constituição da linha de tempo entre a produ-
ção dos dois textos.
A dispersão ocorrida nas alternativas erradas
(“B”, “C” e “D”) revela leitores que não foram capa-
zes de perceber as relações intertextuais e a intenção
paródica do Ziraldo.

A pátria
Olavo Bilac

Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!


Criança! não verás país nenhum como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos,
Vê que vida há no chão! Vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!

O quadrinho de Ziraldo faz uma paródia do co-


nhecido poema de Olavo Bilac. Para alterar o sen-
tido original do poema, dando-lhe um tom humo-
rístico, o cartunista

(A) reinterpretou a idéia de “multidão de


insetos”.
(B) transformou os versos em fala corrida.
(C) omitiu as rimas do poema.
(D) mudou a ordem dos versos.

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
42 20 21 14 3

Os dois textos escolhidos para compor este item


apresentam conteúdos semelhantes. A paródia do poe-
ma de Bilac é apresentada em forma de quadrinhos,
gênero textual familiar aos alunos e que, por isso mes-
mo, pode ter ajudado na compreensão do poema.
A fala do personagem dos quadrinhos de Ziraldo
retoma os versos do poema e, ao final, deforma o sen-
tido nacionalista de Olavo Bilac.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 63

NÍVEL 6 Este item requer que o aluno interprete o tex-


to com auxílio de material gráfico. Para acertar este
Observe os quadrinhos abaixo item, seria preciso o estabelecimento das relações
necessárias entre o texto de Ziraldo e outros níveis
de conhecimento dos recursos de natureza suplemen-
tar que o acompanham, neste caso, o que os mapas
estariam representando, para que se desse o pro-
cesso de compreensão e interpretação do texto como
um todo.
Este processo envolveu mais de um nível de
abstração, o que justificaria o baixo nível de desem-
penho, pois apenas 28% acertam este item (alterna-
tiva correta “D”). A escolha da alternativa errada
“A”, que atraiu 47% dos alunos, talvez tenha sido
feita por ser a que aparece em primeiro lugar, ou
pelo fato de os alunos terem se prendido à enumera-
ção dos mapas, considerando isso como uma orde-
nação dos problemas indicados.

ZIRALDO, Lição de Geografia: cinco mapas do


Brasil. Manchete.
Rio de Janeiro. p. 22, 20 set. 1996.

Explorando a linguagem e o material gráfico des-


se texto, é correto dizer que

(A) a ordem dos mapas representa a ordem


da gravidade dos problemas indicados.
(B) no mapa 2, a relação com a figura é
dada pelas palavras “Todos os dias”.
(C) entre os problemas destacados, faltou
incluir o da divisão das terras.
(D) no mapa 5, o autor sugere o problema
da má distribuição do bens.

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
47 10 14 28 1
64 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

NÍVEL 7 Para acertar o item, os alunos tiveram de uti-


lizar uma estratégia de leitura que envolveu o conhe-
Observe as informações sobre o tempo. cimento de outros componentes além dos relativos
ao domínio da língua e ao conhecimento de mundo,
considerando as características do gênero textual e
do suporte, no caso um boletim meteorológico publi-
cado no jornal.
Para localizar no gráfico o que pediu o enun-
ciado do item, os alunos que acertaram provavel-
mente se valeram dos fatores de contextualiza-
ção, que ancoram o texto em uma situação comu-
nicativa determinada. Valeram-se, então, da data,
do local, dos elementos gráficos, do timbre, etc.,
que ajudam a situar o texto e, portanto, a estabe-
lecer coerência a ele.
Além desses fatores contextualizadores, os
alunos precisaram recorrer a outros recursos e pro-
cedimentos de construção de sentido que a leitura
compreende: pré-leitura, identificação de informa-
ções, articulação de informações internas e ex-
ternas ao texto, realização de inferências, além da
apropriação das características do gênero, como
já foi dito.
Por requerer uma operação mental mais com-
plexa, o item só foi acertado por 18% dos alunos. A
maioria (53%) ficou com a alternativa “C”, talvez
por registrar uma temperatura inscrita no gráfico, com
certo destaque. Os alunos (20%) que optaram pela
NAS CAPITAIS alternativa “A” provavelmente foram atraídos pelo
Rio Branco 22o/30o Porto Velho 24o/33o mesmo motivo.
Belém 22 /30 São Luís
o o
23o/30o
Salvador 23 /31 Belo Horizonte 19o/31o
o o

Manaus 29o/30o João Pessoa 23o/31o DESCRITOR 12


Teresina 21o/32o Curitiba 18o/26o IDENTIFICAR A FINALIDADE DE TEXTOS DE DIFERENTES
Vitória 21 /32 Campo Grande 21o/31o
o o
GÊNEROS
Boa Vista 23o/33o Recife 21o/31o
Fortaleza 23o/31o Florianópolis 23o/28o Textos diferentes normalmente têm intenções
Rio de Janeiro 20o/37o Goiânia 20o/35o comunicativas distintas. Algumas vezes, a finalidade
Macapá 23 /39 Aracaju
o o
21o/31o do texto, ou seja, sua função na situação de interlo-
Natal 19o/31o Porto Alegre 22o/27o cução, é definida no próprio gênero textual que o
São Paulo 20o/30o Palmas 22o/34o autor escolheu. Por exemplo, em geral, espera-se
Cuiabá 23 /35 Maceió
o o
21o/32o que uma bula de remédio tenha como objetivo infor-
CORREIO BRAZILIENSE, Distrito Federal, Do- mar o leitor sobre as propriedades do remédio, suas
mingo, 25 de março de 2001. indicações, a posologia e efeitos colaterais, e não que
ele seja um texto que vise convencer o leitor dos
Para responder a esta questão, você deverá ob- benefícios do medicamento.
servar o gráfico sobre a temperatura. A tempera- É comum que os gêneros textuais tenham mais
tura máxima, em Brasília, no dia 18 de março de de uma função ou que um gênero seja usado para
2001, foi de outros fins que não aquele que lhe era característico
originalmente.
(A) 19º graus. (C) 29º graus. Reconhecer a finalidade do texto é uma tarefa
(B) 26º graus. (D) 35º graus. simples e pode ser considerada fácil. A falta de
familiaridade do leitor com aquele tipo ou gênero de
Percentual de respostas às alternativas texto e a quantidade de marcas textuais com que a
A B C D Em branco e nulas finalidade do texto está finalizada são fatores de
20 18 53 6 3 dificuldade.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 65

NÍVEL 3 NÍVEL 5

Servidão Humana Como opera a máfia que transformou o


Brasil num dos campeões da fraude de
A maior migração forçada da História co- medicamentos
meçou lentamente e acompanhou a expansão
européia de conquista e comércio. Os primei- É um dos piores crimes que se podem co-
ros escravos africanos chegaram ao Novo Mun- meter. As vítimas são homens, mulheres e cri-
do em 1509, mas foram poucos até 1530, quan- anças doentes – presas fáceis, capturadas na
do Portugal, primeira nação européia a negoci- esperança de recuperar a saúde perdida. A
ar com os reinos negros da África Ocidental, máfia dos medicamentos falsos é mais cruel do
começou a mandar escravos para as plantações que as quadrilhas de narcotraficantes. Quando
de cana-de-açúcar no Brasil. O sofrimento da alguém decide cheirar cocaína, tem absoluta
travessia era imenso. Arrancados às famílias, consciência do que coloca corpo adentro. Às
acorrentados e levados a pé até o litoral, amon- vítimas dos que falsificam remédios não é dada
toados em barracões para o embarque, a de- oportunidade de escolha. Para o doente, o re-
gradação dos escravos não tinha fim. Ficavam médio é compulsório. Ou ele toma o que o mé-
semanas, meses, acorrentados em porões de dico lhe receitou ou passará a correr risco de
navios, lado a lado com doentes e agonizantes, piorar ou até morrer. Nunca como hoje os bra-
sem saber que destino teriam. sileiros entraram numa farmácia com tanta re-
serva.
Revista VEJA. Especial do Milênio. São Paulo:
Editora Abril, ano 31, n. 51, dez.1999. p.110 PASTORE, Karina. O Paraíso dos Remédios
Falsificados.
A finalidade desse texto é Veja, nº 27. SP: Abril, 8 jul. 1998. p. 40-41.

(A) convencer. O texto tem como finalidade


(B) informar.
(C) divertir. (A) convencer.
(D) recomendar. (B) informar.
(C) instruir.
Percentual de respostas às alternativas (D) recomendar.
A B C D Em branco e nulas
7 84 2 4 3 Percentual de respostas às alternativas
A B C D Em branco e nulas
A habilidade requerida pelo item é que o aluno 6 74 7 11 2
seja capaz de identificar a finalidade do texto. O tex-
to-base deste item não é dos mais simples, pois, além
de informar acerca de um aspecto histórico, critica e O texto-base deste item é informativo e trata
denuncia a crueldade com que se dava o tráfico de de assunto de interesse geral, além de ser bastan-
escravos. No entanto, a grande maioria (84%) que te veiculado pela mídia. Embora seja fiel à objeti-
acertou o item demonstra que é capaz de ler um tex- vidade exigida pelos textos jornalísticos, apresen-
to de certa complexidade e reconhecer o propósito ta certa complexidade no que diz respeito à inver-
com que ele foi escrito. são dos termos num período. Ao denunciar uma
A alternativa errada “A” atraiu aqueles alu- situação, o texto evidencia claramente o ponto de
nos que se detiveram na ênfase com que o texto vista do autor.
descreve os horrores da escravidão e confundiram Uma maioria expressiva de alunos (74%)
convencer com informar. Já as outras alternativas acertou a resposta requerida “B”. Esses alunos
atraíram alunos que não compreenderam o objetivo demonstram habilidades de leitura de textos
do texto e, portanto, ainda não construíram a compe- jornalísticos e capacidade de perceber a visão do
tência de leitura requerida. autor num texto que se quer objetivo.
Aqueles que foram atraídos pela alternativa
errada “D” (11%), podem não ter adquirido a ma-
turidade necessária para compreender o objetivo
de texto dessa natureza e, por isso mesmo, podem
ter confundido a finalidade do texto.
66 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

NÍVEL 6 Observe-se que esta seqüência contempla uma


variedade de gêneros textuais que passa pela propa-
ganda institucional (5,7%), pelo poema e quadrinhos
(intertextualidade – 4,2%), pela análise de mapas (28%)
e pela análise de gráfico sobre temperatura (18%).
Depreende-se da observação feita que a os-
cilação provavelmente está vinculada aos gêneros
textuais menos trabalhados com os alunos.
Vale, portanto, reforçar a importância da di-
versificação de textos na sala de aula para que os
alunos possam, a partir da aproximação com os tex-
tos e da familiaridade com os gêneros textuais,
interpretá-los com competência, uma vez que ser
competente no uso da língua significa interagir, por meio
Veja na Sala de Aula. A metodologia que de textos, em qualquer situação de comunicação.
transforma as matérias da Revista Veja em Conclui-se, então, que os gêneros textuais são,
matérias escolares. Veja. São Paulo: Abril, nº em última análise, material didático de grande impor-
24, jun. 1998, p. 33 tância, constituindo a espinha dorsal da competência
para leitura, porque eles são usados em contextos soci-
O texto tem a finalidade de ais específicos, constituindo processos e ações especí-
ficas e, portanto, práticas sociais específicas.
(A) transformar o conteúdo de Veja na sala
de aula.
(B) orientar as matérias didáticas da escola. TÓPICO IV
(C) incentivar o uso da revista Veja na COERÊNCIA E COESÃO NO PROCESSAMENTO DE TEXTOS
escola. (DESCRITORES 02, 10 E 11)
(D) avaliar as matérias da revista Veja.
Por coesão textual entendem-se as relações
Percentual de respostas às alternativas de sentido que se estabelecem entre os enunciados
A B C D Em branco e nulas que compõem o texto, fazendo que a interpretação
29 19 38 12 2 de um elemento qualquer seja dependente da inter-
pretação de outro(s). Essas relações de sentido po-
O texto-base deste item é uma propaganda dem ser: a) anafóricas, isto é, quando um elemento
que exige do leitor estratégias discursivas muito se refere a outro elemento anterior no texto; b)
requeridas em textos poéticos. catafóricas, ou seja, quando um elemento se refere
O aluno deve construir inferências a partir da a outro elemento posterior no texto.
relação entre pistas verbais e não-verbais apresen- A coerência, por sua vez, revela a maneira
tadas na propaganda. como as idéias ou bloco de idéias são organizados no
O desempenho dos alunos neste item não foi texto ou a maneira como a seqüência de idéias foi
satisfatório, o que pode ser explicado pela dificulda- construída.
de que encontram na leitura de textos publicitários. A competência requerida por este tópico vai
Os 38% dos alunos que optaram pela alternativa exigir do leitor habilidades que o levem a identificar
correta “C” demosntraram familiaridade com o mun- a linha de coerência do texto.
do letrado, o que representa um fator decisivo para Os descritores 02, 10 e 11 selecionados des-
inferir a finalidade do texto. crevem as competências e habilidades requeridas
Aqueles alunos (29%) que foram atraídos pela pelo tópico.
alternativa errada “A” podem ter tido dificuldade de Em relação ao Descritor 02, que trata da coe-
interagir com textos publicitários e não decodificaram são textual, observa-se que o nível de desempenho
a mensagem requerida pela propaganda. dos alunos mantém certa estabilidade (73% e 60%),
mas apresenta oscilação forte no terceiro (33%).
O Descritor 10, que trata da superestrutura
CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O TÓPICO II esquemática da narrativa, apresenta três itens com
variação de acertos que se situa entre 91% e 59%.
Neste tópico, a seqüência de itens apresenta- Já em relação ao Descritor 11, este requer dos
da para o Descritor 05 evidencia um decréscimo alunos habilidades para estabelecer relações causas/
acentuado no percentual de acertos. conseqüências entre as partes e elementos do texto.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 67

Os itens deste descritor apresentam um percentual de A maioria dos alunos (73%) que assinalaram a
acertos dos alunos que varia de 76% a 41%. A seguir, alternativa correta “D” podem tê-lo feito por algumas
serão analisados itens selecionados para descrever as razões. Uma delas diz respeito ao texto-base deste item,
competências dos alunos em relação ao tópico. que é informativo e pertence à área das ciências, mas
cujo assunto de que trata já é de domínio de alunos de
8ª série do Ensino Fundamental. Em outras palavras:
DESCRITOR 02 o grau de conhecimento prévio dos alunos é relevante
ESTABELECER RELAÇÕES ENTRE AS PARTES DE UM para a atribuição de significado aos conteúdos do texto.
TEXTO, IDENTIFICANDO REPETIÇÕES OU SUBSTITUIÇÕES Um outro fator que também pode ter contribuído para o
QUE CONTRIBUEM PARA A CONTINUIDADE DE UM TEXTO acerto dos alunos estaria no reconhecimento da rela-
ção de hiponímia estabelecida quando o primeiro ele-
O leitor constrói coerência para os textos a mento mantém com o segundo uma relação parte/todo,
partir das marcas de relações de continuidade que elemento/classe, como é o caso da relação entre rã,
os textos sugerem. Os objetos aos quais o texto faz palavra de sentido mais específico, e anfíbio, palavra
referência (pessoas, coisas, lugares, fatos, etc.) são de sentido mais genérico, que apresenta traços semân-
introduzidos e, depois, retomados para se relaciona- ticos comuns com a primeira palavra.
rem à medida que o texto vai progredindo. Para tan-
to, recursos lingüísticos utilizados com essa finalida-
de são chamados de recursos coesivos referenciais. NÍVEL 5
Para compreender um texto, o leitor deve ser
capaz de (re)construir o caminho traçado pelo escri- O homem de meia-idade
tor e estabelecer as relações que foram marcadas (Lenda chinesa)
no texto.
Pretende-se, com este descritor, verificar a Havia outrora um homem de meia-idade que
capacidade dos alunos de relacionar uma informa- tinha duas esposas. Um dia, indo visitar a mais
ção dada com outra informação nova introduzida jovem, esta lhe disse:
por meio de uma repetição, de uma elipse, do uso de – Eu sou moça e você é velho; não gosto de
um pronome. morar com você. Vá habitar com sua esposa mais
O grau de dificuldade desse descritor pode ser velha.
aumentado em função do número de antecedentes Para poder ficar, o homem arrancou da ca-
possíveis para um termo, distância dos anteceden- beça os cabelos brancos. Mas, quando foi visitar
tes, a familiaridade do leitor com o assunto e gênero a esposa mais velha, esta lhe disse, por sua vez:
textual utilizados e a relevância da(s) informação(ões) – Eu sou velha e tenho a cabeça branca; ar-
que o leitor tem a considerar. ranque, pois, os cabelos pretos que tem.
Os itens apresentados a seguir são exemplos Então o homem arrancou os cabelos pretos
significativos da variação do grau de dificuldade que para ficar de cabeça branca. Como repetisse sem
o descritor pode assumir, como se pode observar pela tréguas tal procedimento, a cabeça tornou-se-lhe
diferença entre os índices de acertos dos alunos. inteiramente calva. A essa altura, ambas as espo-
sas acharam-no horrível e ambas o abandonaram.

NÍVEL 4 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda,


RÓNAI, Paulo, (orgs.)
Leia o trecho. Mar de histórias. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1978. v. 1, p. 119.
“A rã é um animal que vive à beira dos lagos, pan-
tanais ou rios. Ela tem as pernas de trás bem com- No trecho: “Mas, quando foi visitar a esposa mais
pridas, por isso pode dar grandes saltos. O filhote velha, esta lhe disse...”, a palavra grifada refere-se à
desse anfíbio chama-se girino.”
(A) cabeça branca.
O termo grifado refere-se (B) cabeça calva.
(A) à cobra. (C) ao girino. (C) esposa jovem.
(B) ao filhote. (D) à rã. (D) esposa velha.

Percentual de respostas às alternativas Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas A B C D Em branco e nulas
2 9 14 73 2 25 6 8 60 1
68 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

A interpretação do pronome esta teve de ser se observa é que aqui os alunos não foram tão bem,
buscada em expressões localizadas antes desse seg- pois só 33% acertaram. Vejamos:
mento, no interior do mesmo texto, por ser essa uma No item anterior: a palavra grifada refere-
peculiaridade da própria função do pronome: reto- se à “Mas, quando foi visitar a esposa mais velha,
mar algo já mencionado no texto anteriormente. Neste esta lhe disse...”
item, 60% dos alunos que reconheceram que o pro- Neste item: a palavra pleito, no texto, refe-
nome demonstrativo esta faz referência à esposa re-se a ... solicitando a reposição da antena, pleito
velha dependeram de uma habilidade leitora que vin- que me foi negado dois dias após, por telefone.
cula o pronome a seu referente, configurando esse Em ambas as situações, o referente está ime-
elemento como um dos recursos de coesão sintáti- diatamente antes. A diferença de resultados talvez
co-semânticos, isto é, um dos operadores responsá- se explique pelo gênero ou pelo assunto dos textos.
veis pela articulação do texto. No primeiro caso, já vimos que há uma maior empatia
Os alunos que foram atraídos pela alternativa dos alunos com o texto narrativo e, a isso, acrescen-
errada “A” provavelmente estabeleceram uma rela- te-se uma maior familiaridade dos alunos com o uso
ção metonímica entre “cabeça branca” e “esposa dos pronomes demonstrativos. Já no segundo caso,
velha”, ou seja, escolheram a alternativa que pode- na carta de reclamação de um leitor enviada e
ria designar a partir da relação da parte pelo todo. publicada no jornal, a linguagem e a situação se dis-
tanciam mais dos alunos.

NÍVEL 6

Prejuízo em estacionamento DESCRITOR 10


Sou freqüentador quase que diário do estacio- IDENTIFICAR O CONFLITO GERADOR DO ENREDO E OS
namento de um shopping explorado por uma empre- ELEMENTOS QUE CONSTROEM A NARRATIVA
sa. No último dia 21 estacionei à tarde e à noite.
Quando saí à noite, notei que o rádio do meu carro O leitor deve identificar, numa narrativa, os
estava funcionando mal, motivado pelo roubo da an- elementos que a constroem: personagens, enredo (ou
tena. No dia seguinte, preenchi um formulário ane- fatos), foco narrativo, espaço (ambiente).
xando os dois comprovantes do pagamento, solici- Ele deve ser capaz de apontar: a) as persona-
tando a reposição da antena, pleito que me foi nega- gens e a relação entre elas, o tipo de personagens
do dois dias após, por telefone. Fiz outro requerimen- (se é real ou inventada, se são seres animados ou
to solicitando uma justificativa da negação e não fui inanimados); b) no enredo, o fato que gerou o confli-
atendido. Qual o direito que temos ao estacionar em to, como ele se organizou e de que forma ele se re-
um shopping pagando R$ 2,50? solveu, os tipos de enredo (aventura, de terror,
suspense, ficção científica, de amor); c) no foco nar-
Texto adaptado. O GLOBO: 21 de jan. de 2001, rativo, o ponto de vista em que a história está sendo
pág. 32. contada; d) no espaço, o quando e onde a história
aconteceu.
A palavra “ pleito”, no texto, refere-se A dificuldade dessa tarefa depende da
explicitação das informações e da familiaridade do
(A) ao roubo da antena. leitor com aquele contexto. Outra característica que
(B) à reposição da antena. pode dificultar a tarefa é a complexidade do texto,
(C) à justificativa da negação. como, por exemplo, a exposição dos fatos numa or-
(D) ao comprovante do pagamento. dem não-linear (não-cronológica) e o número de per-
sonagens e de fatores que geram o conflito e resul-
Percentual de respostas às alternativas tam dele. Isso pode ser observado nos itens a seguir.
A B C D Em branco e nulas
15 33 35 14 3

Para responder a essa questão, não seria ne-


cessário conhecer o sentido da palavra pleito, mas
ter a habilidade de reconhecer que, nesse tipo de
estrutura, a retomada de um antecedente está se
dando por um expediente da coesão textual. Opera-
cionalmente, o raciocínio requerido é bastante se-
melhante ao exigido para o item anterior. Mas o que
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 69

NÍVEL 2 NÍVEL 4

Leia o texto. Leia o texto.

Ariel chega suado na classe. D. Maria Ariel chega suado na classe. D. Maria
Luísa está colocando nas carteiras a prova de Luísa está colocando nas carteiras a prova de
ciências já corrigida. Inda bem que ela colocou ciências já corrigida. Inda bem que ela colocou
a nota para baixo. Ariel acha que deu vexame, a nota para baixo. Ariel acha que deu vexame,
o pior é que vai ter que levar a prova para a o pior é que vai ter que levar a prova para a
mãe assinar. Senta-se devagarinho e olha a pro- mãe assinar. Senta-se devagarinho e olha a pro-
va. O Jair, ao lado, deve ter tirado um notão va. O Jair, ao lado, deve ter tirado um notão
porque está rindo sozinho. Também, grande coi- porque está rindo sozinho. Também, grande coi-
sa! O Jair só faz estudar! É tão grosso no fute- sa! O Jair só faz estudar! É tão grosso no fute-
bol, que nem o professor de ginástica tem cora- bol, que nem o professor de ginástica tem cora-
gem de escalar ele pra algum time! Vê que Irene gem de escalar ele pra algum time! Vê que Irene
tirou dois, mas ela não está nem aí. A mãe dela tirou dois, mas ela não está nem aí. A mãe dela
deve ser dessas que não enchem muito. Se ele deve ser dessas que não enchem muito. Se ele
tirasse dois, ai dele. Vira a ponta da prova bem tirasse dois, ai dele. Vira a ponta da prova bem
devagar. É, só se fosse milagre. devagar. É, só se fosse milagre.
Mas milagre não ia acontecer com ele e jus- Mas milagre não ia acontecer com ele e
to na prova de ciências. Estava lá, bem grande, justo na prova de ciências. Estava lá, bem gran-
em vermelho, no alto da página: Três. Pronto, es- de, em vermelho, no alto da página: Três. Pron-
tava azarado. to, estava azarado.

PINSKY, Mirna. As muitas mães de Ariel. São PINSKY, Mirna. As muitas mães de Ariel. São
Paulo: Melhoramentos, 1980. p. 22-23. Paulo: Melhoramentos, 1980. p. 22-23.
(fragmento) (fragmento)

A personagem principal é A frase que mostra o problema de Ariel é:

(A) Ariel. (A) “É tão grosso no futebol, que nem o


(B) D. Maria Luísa. professor de ginástica tem coragem de
(C) Irene. escalar ele...”
(D) Jair. (B) “... o pior é que vai ter que levar a prova
para a mãe assinar.”
Percentual de respostas às alternativas (C) “Vê que Irene tirou dois, mas ela não
A B C D Em branco e nulas está nem aí.”
91 4 1 3 1 (D) “O Jair, ao lado, deve ter tirado um notão
porque está rindo sozinho.”
Este item requer que seja apontada a per-
sonagem principal do fragmento narrativo, o que Percentual de respostas às alternativas
foi conseguido por 91% dos alunos ao assinala- A B C D Em branco e nulas
rem a alternativa correta “A”. Pode-se conjeturar 8 84 3 4 1
que esse acerto, quase maciço, tenha ocorrido por
conta do início do texto, com o relato de uma ação Ainda a partir do mesmo fragmento de tex-
cujo sujeito é o próprio Ariel, o personagem prota- to do item anterior, aqui o que se requer do aluno
gonista. Mas é provável, também, que tantos alu- é que ele se valha de uma habilidade leitora mais
nos tenham acertado em função da familiaridade proficiente, pois a questão está voltada à detecção
que eles têm com o texto narrativo e com seus de algo que extrapola a superfície textual e as
elementos, como já se observou por itens anterio- marcas lingüísticas mais formais: qual o problema
res. Há também um fator de contextualização com de Ariel. Note-se que a palavra “problema” não
o qual os alunos podem contar para responder está no texto, demandando do aluno a mobilização
adequadamente, que é o título do livro de onde foi de outros tipos de conhecimentos para perceber
retirado o fragmento. que a aflição do menino diz respeito à necessida-
de da assinatura da mãe.
70 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

Embora num grau maior de dificuldade em A identificação das personagens do diálogo


relação ao item anterior, os alunos também dão a partir de suas falas é feita sem maiores problemas
conta da solicitação do enunciado (84%), o que por 59% dos alunos, mas 31%, um número significa-
poderia reiterar a perspectiva de que a familia- tivo, assinalaram a alternativa errada “C”, o que nos
ridade com o texto narrativo, aliada a um as- leva a refletir acerca do porquê de tanta distração.
sunto muito próximo do universo de experiên- A possibilidade de não terem lido o texto tam-
cia deles, leva-os a interpretar o texto com mais bém pode ter levado os alunos a apontarem as per-
facilidade. sonagens do diálogo em ordem invertida. Será que
só leram o título do texto? Os alunos que só se pren-
NÍVEL 5 deram ao título poderiam estar entre esses 31%.
As alternativas em que o dono é incluído são
O cão e o lobo
praticamente esquecidas, o que desencadeia outras
Um cão passeava pela floresta quando to- possibilidades. Se os alunos de 8ª série já têm um
pou com um lobo magro. Aos poucos os dois fize- bom domínio de leitura em relação ao texto narrativo
ram amizade. simples, especialmente em relação às fábulas me-
– Puxa, cachorro! Como você está gordo e nos complexas, pode ser que o desconhecimento do
bem-tratado... que significa a palavra “respectivos” tenha sido o
– É que eu tenho um dono. Meu dono me dá fator que os distraiu.
três boas refeições por dia, escova meu pêlo, me
dá uma casa de madeira... Em troca disso, pede
que eu lhe guarde a casa dos assaltantes e lhe DESCRITOR 11
faça uns agrados de vez em quando. ESTABELECER RELAÇÃO CAUSA/CONSEQÜÊNCIA ENTRE
– Só isso? Mas deve ser maravilhoso ter um PARTES E ELEMENTOS DO TEXTO
dono – concluiu o lobo.
O cão então convenceu o lobo a acompanhá- Entende-se como causa/conseqüência todas as
lo, certo de que seu dono gostaria de ter mais um relações entre elementos, fatos, do texto em que uma
animal de estimação. é resultado da outra. Para avaliar esse descritor, pode-
Os dois andaram por um certo tempo, até se pedir ao leitor para reconhecer relações de causa
que o lobo percebeu uma coleira no cachorro.
e efeito, problema e solução, objetivo e ação, afir-
– O que é isso? – perguntou o lobo.
mação e comprovação/justificativa, motivo e com-
– Ah, isto é uma coleira. Às vezes, meu dono
portamento, pré-condição, entre outras.
se irrita e me prende numa corrente. Mas é por
A relação de causa/conseqüência costuma
pouco tempo, logo eu estou solto de novo.
O lobo parou, pensou um pouco... e voltou estar presente em vários tipos de texto e deve ser
atrás. De longe, ainda falou para o cachorro: percebida pelo leitor sobre aquele assunto e sua fa-
– Não, cachorro. Não sirvo para essa vida. miliaridade com o tipo de texto, bem como do grau
Eu sei que mais vale a liberdade com fome do de explicitação tanto de causa quanto de conseqü-
que o luxo na prisão. ência, isto é, quanto mais inferências forem exigidas
do leitor na (re)construção dessa relação, maior o
Fábula recontada por Marcia Kupstas, grau de dificuldade, como pode ser observado no
Sete faces da fábula. decréscimo do índice de acertos dos alunos, que va-
São Paulo, Moderna, 1993. (Texto adaptado.) ria de 76% a 41%.

– Como você está gordo e bem-tratado...


– É que eu tenho um dono.

O trecho acima nos mostra um diálogo. Quais são


os respectivos personagens dessas falas?

(A) O lobo e o dono.


(B) O dono e o cão.
(C) O cão e o lobo.
(D) O lobo e o cão.

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
2 6 31 59 2
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 71

NÍVEL 4 NÍVEL 4

Niterói
Liliane Schowb

Passear em Niterói pode ser muito divertido


para as crianças, principalmente nos fins de se-
mana, quando as barcas estão vazias. O trajeto
leva 20 minutos e as saídas são entre 6h e 23h. As
embarcações têm capacidade para 2.000 pessoas
e a passagem custa R$ 3,00. Este serviço regular
entre as duas cidades completou 155 anos no mês
passado e, no Museu das Barcas, em Niterói, foi
A função da arte organizada uma mostra comemorativa que con-
tou um pouco de sua história.
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago (“Curtindo perto do Rio”.
Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Jornal do Brasil, 05/12/97)
Viajaram para o Sul.
Ele, o mar, estava do outro lado das dunas De acordo com o texto, os passeios em Niterói serão
altas, esperando. mais agradáveis nos finais de semana porque
Quando o menino e o pai enfim alcançaram
aquelas alturas de areia, depois de muito cami- (A) há mais saídas à tarde.
nhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi (B) as barcas estão vazias.
tanta a imensidão do mar, e tanto fulgor, que o (C) as embarcações têm capacidade para
menino ficou mudo de beleza. 2.000 pessoas.
E quando finalmente conseguiu falar, tremen- (D) a viagem é mais longa.
do, gaguejando, pediu ao pai:
— Me ajuda a olhar! Percentual de Respostas às Alternativas
A B C D Em branco e nulas
ROXO, Maria do Rosário e Vitória Wilson. 6 68 16 7 3
Entre textos. V. 4, Editora Moderna
Solicitados a estabelecer a relação causa/con-
O menino ficou tremendo, gaguejando porque seqüência a partir do texto de jornal, 68% dos estu-
dantes acertam. Podemos dizer que este índice se
(A) a viagem foi longa. deve ao conhecimento prévio dos alunos, pois, como
(B) as dunas eram muito altas. usuários da Língua Portuguesa, estão em contato
(C) o mar era imenso e belo. permanente com os conectivos. Entre os principais
(D) o pai não o ajudou a ver o mar. mecanismos responsáveis pela coesão seqüencial,
destacam-se os conectivos. Neste item, o conectivo
Percentual de respostas às alternativas porque, bastante empregado na linguagem corren-
A B C D Em branco e nulas te, talvez seja o ponto principal em que os alunos se
3 10 76 10 1 ancoram para acertar.

A razão do que levou o menino a tremer e a


gaguejar é percebida por 76% dos alunos, uma per-
centagem bastante alta para uma questão que exige
um pouco mais do que o texto-base oferece. No pro-
cesso da leitura, são ativados vários tipos de conhe-
cimentos que temos na memória, em busca do que
for relevante para dar conta da construção de senti-
do do texto. Neste item, parece evidenciar-se a im-
portância do conhecimento de mundo dos alunos para
responder e acertar.
72 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

NÍVEL 5 NÍVEL 6

Viva o povo brasileiro Por causa de uma vírgula


mal-encarada
O país tem fama de não cuidar da ecolo- José Cândido de Carvalho
gia. Vide as queimadas na Amazônia. Além disso,
em reciclagem de vidros o Brasil foi reprovado E na tarde que o Dr. Feitosa de Castro,
num ranking do Instituto Worldwatch. Assim, pa- diretor das Águas e Encanamentos de São João
rece soar estranho o país bater o recorde mundial da Laje, pediu que o escrevente Porfírio
em reciclagem de latas. De cada 100 latinhas de Freixeiras retirasse certa vírgula de certo ofí-
bebida, 65 voltam para a indústria. É que há cio, Freixeiras tremeu nos borzeguins. Espumou
125.000 brasileiros suando na coleta de latas usa- gramática, pronomes e crases. Em vinte anos
das. Esse exército de subempregados embolsou de Águas e Encanamentos, de ofícios e pare-
80 milhões de dólares em 1998. ceres, nunca chefe algum, em tempo algum,
mandou que ele extraísse essa ou aquela vírgu-
VEJA. São Paulo: Ed. Abril. Ano 32, la de seus escritos. Com o papel na mão, ficou
n.º 17, 28 abr. 1999. remoendo, remoendo, tira-a-vírgula, não-tira-a-
vírgula. Até que tomou uma decisão definitiva.
O sucesso na reciclagem de latas tem como causa Chegou junto da mesa de Feitosa de Castro e
expediu o seguinte ultimato:
(A) o problema das queimadas na Amazônia. – Ou o doutor deixa a vírgula ou eu peço
(B) a reciclagem nacional de vidros. transferência de repartição.
(C) o trabalho das pessoas subempregadas. Feitosa, que era homem de pontos de vista
(D) o investimento em moeda estrangeira. firmados, foi claro:
– A vírgula sai e o distinto amigo também.
Percentual de respostas às alternativas O resto veio no Diário Oficial. Vejam que
A B C D Em branco e nulas barbaridade! Por causa de uma simples vírgula,
16 9 62 12 1 de uma inútil vírgula, Freixeiras foi redigir ofíci-
os em Barro Amarelo. Lugar que não dava a
Mais uma vez, não podemos negar a inques- menor importância às crases, quanto mais às
tionável importância da ativação do conhecimento vírgulas.
prévio para a compreensão da leitura, pois é pela
utilização de seus esquemas mentais que o leitor O verdadeiro motivo da transferência do
vai recuperando da memória conhecimentos acu- Freixeiras foi o fato de
mulados ao longo de sua experiência de vida para
o processamento do texto. O texto é da revista (A) ele não saber escrever.
Veja, que, também pertencente ao cotidiano co- (B) a vírgula não ser importante para ele.
municativo, toca em assunto que já faz parte de (C) ele ter desafiado o diretor.
nossas vidas, o que deve ter contribuído para a (D) ele saber pontuar.
leitura dos estudantes. Um contingente de 62%
dos alunos acertaram o item. Percentual de respostas às alternativas
Para indicar a causa do sucesso da reciclagem A B C D Em branco e nulas
de latas nesse texto, os 62% de alunos que acerta- 12 34 41 11 2
ram precisaram ativar a capacidade de representar
e analisar os problemas e a flexibilidade para encon- Aqui também, como no item anterior, o que os
trar soluções. Por não haver uma pista mais explíci- alunos têm de apontar é a causa de algo. O que
ta, como um conectivo, por exemplo, é do conteúdo teria levado Freixeiras a ser transferido? O que
textual que eles têm de retirar elementos para reco- causou sua transferência? Neste item, porém, o
nhecer a relação de natureza lógica que os enuncia- resultado indica que os alunos não se saíram tão bem
dos guardam entre si. quanto nos outros que igualmente estavam testando
a capacidade dos alunos acerca da relação causa/
conseqüência, pois só 41% acertaram ao escolher a
alternativa “C”. Além disso, muitos alunos (34%)
foram atraídos pela alternativa “B”, além dos 12%
que optaram pela alternativa “A” e dos 11% que
ficaram com a “D”. Por que tantos não acertaram,
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 73

se a mesma relação de causa/conseqüência foi ser muito difícil, o índice de acerto está mostrando
requerida como nos outros itens? que esses fatores só ajudam se acompanhados de
Talvez seja por conta da natureza do texto, outros facilitadores.
que, embora narrativo, apresenta uma situação não Foram 45% dos alunos os que assinalaram de
tão familiar aos alunos, com o diálogo que transcorre acordo com o gabarito, indicando que a relação de
numa repartição pública, na verdade uma discussão causa/conseqüência presente no texto-base se dá en-
metalingüística, isto é, discute-se sobre a linguagem, tre corte e formação de bactérias (alternativa “C”).
mais especificamente sobre o uso de uma vírgula. Outros 27% apontaram a alternativa “B” como
Como isso não costuma ser do interesse dos alunos, a que apresenta a relação causa/conseqüência. Tal-
daí um possível impedimento para a compreensão vez tenham pensado que se um indivíduo se corta e
efetiva do texto. não se cuida, passando mel, infecções à vista.
Além disso, na formulação do item, ao con- Mas há outro fator que pode ter influído tam-
trário do anterior, não há uma marca mais explícita, bém nas distrações dos alunos: a falta de familiari-
como o conectivo porque. A alternativa correta “C” dade com alguns aspectos, que, talvez, sequer per-
não é a primeira, o que torna menos simples a opera- tençam ao universo dos alunos – ter um anti-séptico
ção de relacionar causa e conseqüência que indica a por perto, comer mel com iogurte, por exemplo.
idéia de causa e introduz a oração causal. Observe-
se que esse conector não se encontra na
materialidade lingüística do texto, mas do enunciado. CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O TÓPICO IV

A análise dos itens deste Tópico configura um


NÍVEL 6 quadro positivo no que se refere às competências e
às habilidades por eles requeridas. Percebe-se cla-
Melthiolate ramente que os alunos identificam e processam as
relações de sentido entre os enunciados que com-
A próxima vez em que você sofrer um corte põem o texto.
pequeno e não tiver um anti-séptico por perto, Com relação aos elementos coesivos do texto
corra para o armário da cozinha. Cientistas da Uni- (Descritor 02), houve uma queda no desempenho dos
versidade Penn State, na Pensilvânia, descobri- alunos, no item que representa o nível 6.
ram que o mel (aquele mesmo que você come No que se refere às competências requeridas
com iogurte e aveia) age como barreira contra pelos itens representativos dos níveis 6 e 7 do
possíveis infecções causadas pelo corte. Além de Descritor 11 (relação causa/conseqüência), verifica-
impedir a formação de bactérias, acelera o pro- se que a dificuldade também reside nos dois textos
cesso de cicatrização. Lave bem o corte, lambuze apresentados: o primeiro, por sua temática, contexto
com um pouco de mel e cubra com uma gaze. e vocábulos que não são de uso cotidiano dos alu-
Repita três vezes. nos; o segundo, por ser um texto de informação na
área de ciências.
VOCÊ S.A. São Paulo: Editora Abril, Abril de Percebe-se, portanto, mais uma vez, que o
2000, p. 131 conhecimento de textos variados é determinante para
que os alunos se tornem leitores competentes.
Pelo texto, pode-se perceber uma relação de cau-
sa-conseqüência entre
TÓPICO V
(A) anti-séptico e gaze. RELAÇÔES ENTRE RECURSOS EXPRESSIVOS E EFEITOS
(B) mel e possíveis infecções. DE SENTIDO
(C) corte e formação de bactérias. (DESCRITORES 17 E 18)
(D) cozinha e iogurte e aveia.
O uso de recursos expressivos é um poderoso
Percentual de respostas às alternativas auxiliar do leitor na construção de significados que
A B C D Em branco e nulas não estão na superfície do texto. Nesse sentido, o
14 27 45 11 3 conhecimento de diferentes gêneros textuais possi-
bilita ao leitor antecipar a compreensão desses signi-
Este item também se volta à relação causa/ ficados. Além dos textos publicitários que se utilizam
conseqüência, o que já é anunciado literalmente no largamente dos recursos expressivos, os poemas tam-
próprio enunciado da questão. Apesar do tom colo- bém se valem deles, exigindo, na exploração do tex-
quial da linguagem e do conteúdo do texto-base não to poético, atenção redobrada e sensibilidade do
74 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

leitor para perceber os efeitos de sentido subjacentes NÍVEL 3


ao texto literário.
No entanto, é preciso observar que determi-
nados sinais (sinais de pontuação e outros mecanis-
mos de notação, como o itálico, o negrito, caixa alta,
tamanho da fonte, etc.) nem sempre expressam o
mesmo sentido, o que vale dizer, por exemplo, que o
ponto de exclamação nem sempre expressa surpre-
sa. É imprescindível, portanto, que o leitor, ao explo-
rar o texto, verifique como esses elementos constro-
em a significação.
Neste tópico, foram enfatizadas as competên-
cias relativas ao uso de recursos expressivos e efei-
tos de sentido decorrentes da escolha de determina-
das palavras ou expressões utilizadas pelo autor. Para
representar este tópico, foram selecionados os Veja na Sala de Aula. A metodologia que trans-
descritores 17 e 18. forma as matérias da Revista Veja em matérias
O Descritor 17 vai exigir do aluno habilidades escolares. VEJA. São Paulo: Abril, no. 24,
para reconhecer o efeito de sentido no texto, da pon- jun.1998, p. 33
tuação e de outras notações com itens cujo percen-
tual de acertos dos alunos varia de 88% a 43%. A palavra VEJA está escrita, no quadro-negro,
Quando se trata do Descritor 18, que trata do num tamanho maior
efeito de sentido gerado no texto pela escolha de
palavras ou expressões, percebe-se que os alunos (A) por exigência do leitor.
apresentam um desempenho médio que varia entre (B) por descuido do redator.
86% e 51%. A seguir, serão analisados itens seleci- (C) por displicência do editor.
onados para descrever as competências dos alunos (D) para chamar a atenção do leitor.
em relação ao tópico.
Percentual de respostas às alternativas
DESCRITOR 17 A B C D Em branco e nulas
RECONHECER O EFEITO DE SENTIDO DECORRENTE DO USO 4 2 4 88 2
DA PONTUAÇÃO E DE OUTRAS NOTAÇÕES
Como a maioria dos alunos assinalou a alter-
Por meio da pontuação e de outros mecanis- nativa correta “D” (88%), não restam dúvidas de
mos de notação (como o itálico, o negrito, caixa alta, que eles reconhecem o efeito de sentido produzido
tamanho da fonte, etc.), efeitos de sentido podem pelo tamanho aumentado das letras que compõem o
ser criados no texto. nome da revista.
O uso de diferentes fontes e estilos costuma Usado como um recurso para chamar a aten-
ser encontrado em vários gêneros de textos, como ção do leitor, o conhecimento sobre esse tipo de re-
propagandas, notícias, reportagens, didáticos, quadri- curso da linguagem escrita pode ter recebido contri-
nhos, roteiros para peças de teatros, filmes, entre buições de outros setores da aprendizagem não-for-
outros. mal, pois podemos considerar que o conhecimento
Observa-se, pelos itens a seguir, que este prévio de diferentes textos que circulam socialmen-
descritor requer que o leitor perceba efeitos particu- te também tenha influído para com esse índice de
lares gerados pelo uso da pontuação e de outras no- acerto, uma vez que manchetes de jornal, pichações
tações, e pode se tornar mais complexo à medida de muros e tantos outros gêneros de textos se valem
que são usados recursos não-convencionais e à das letras garrafais para atrair a atenção do leitor.
proporção que os efeitos provocados por esses meca-
nismos gerem informações contrárias às expressas pe-
los recursos verbais, ou seja, as palavras dizem uma
coisa e a pontuação gera outro efeito, por exemplo.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 75

NÍVEL 5 NÍVEL 6

Os sinais de pontuação podem sugerir uma infini-


dade de emoções. Na frase:
“O gaúcho das missões era um errante, um solitá-
rio, um Dom Quixote...”

(Revista Escola, ano XIV, número 119. 2/1999).

Empregou-se a reticência para indicar o quê?

(A) Ênfase no sentido.


(B) Prolongamento da idéia.
(C) Ironia no contexto.
(D) Inversão das idéias.

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
17 53 17 10 3

No funcionamento do texto, a pontuação atua


na construção do sentido, o que implica uma rela-
ção: o escritor “sinaliza” os caminhos que o leitor
deve tomar para a produção de sentido. Essa re-
lação escritor-leitor revela um outro tipo de traba-
lho com a matéria em questão, desta feita no que
se refere à associação dos sinais de pontuação
com as intenções dos usuários da língua, nas mais
diversas situações de interação, e isso foi perce-
bido por mais da metade dos estudantes (53%).
Esses alunos perceberam para que a reticência
foi usada nesse texto: indicar a interrupção inten-
cional do pensamento, por ficar subentendida a
idéia de continuidade da descrição das caracterís-
ticas do gaúcho das missões.
Mas houve uma atração numericamente
igual pelas alternativas “A” e “C”. Para cada uma
dessas alternativas, registrou-se a preferência de
17% dos alunos. No caso da “A”, talvez os alunos
tenham considerado que o uso da reticência se deu
para enfatizar o sentido, entendendo que esse si-
nal de pontuação estaria servindo para indicar mais
acentuadamente que os atributos do gaúcho das
missões iriam continuar a ser descritos. Já no caso
da alternativa “B”, quem sabe, os alunos foram
influenciados pelo sentido que a metáfora da per- A frase “O álcool é uma droga” está em negrito
sonagem do escritor espanhol Miguel de Cervantes no texto para
desencadeou. Usada na acepção de indivíduo in-
gênuo e generoso, que luta inutilmente contra as (A) reforçar uma idéia.
injustiças, talvez os alunos tenham tomado isso (B) iniciar o texto.
como uma ironia. (C) apresentar um argumento.
(D) finalizar um ponto de vista.

Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas
43 10 23 20 4
76 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

O gabarito indicou como correta a alternativa NÍVEL 3


“A”, escolhida por 43% dos alunos, que interpretaram
o negrito como um recurso usado para reforçar a idéia Leia atentamente o poema.
do álcool como droga. Muitos alunos optaram pelas al-
ternativas erradas “B”, “C” e “D”, numa demonstra- A onda
ção de leitura desatenta, característica de alunos sem
domínio de conhecimento básico de análise textual, es- A onda
pecialmente no que se refere à diferença entre argu- A onda anda
mento e ponto de vista. aonde anda
a onda?
a onda ainda
DESCRITOR 18 ainda onda
RECONHECER O EFEITO DE SENTIDO DECORRENTE DA ainda anda
ESCOLHA DE UMA DETERMINADA PALAVRA OU EXPRESSÃO onde?
aonde?
A seleção lexical usada na construção do texto a onda a onda
diz muito sobre as intenções comunicativas de quem o
produziu. A escolha de determinadas palavras ou ex- BANDEIRA, Manoel. Poesia completa e prosa.
pressões, bem como o uso de figuras de linguagem, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, p. 245
deve ser percebida pelo leitor como mais uma maneira
de o autor manifestar suas intenções comunicativas. Conforme a estrutura do texto, o “ir e vir” na re-
Esse descritor visa verificar a capacidade de o leitor petição das palavras simboliza
refletir sobre a forma do texto e de perceber sutilezas
da linguagem que interferem na construção de senti- (A) o colorido da onda.
dos. Compare-se, por exemplo, a diferença de efeito (B) o movimento da onda.
que pode gerar o uso de diferentes expressões para (C) o barulho da onda.
referir um garoto que tenha cometido uma infração (D) o tamanho da onda.
qualquer: “o pivete”, “o menor”, “o marginal” serão
expressões usadas por quem quer condená-lo; porém, Percentual de respostas às alternativas
as expressões “o desprovido da sorte”, “o menor aban- A B C D Em branco e nulas
donado”, “o pequeno infrator” marcarão posição de 4 86 4 3 3
quem tenta defendê-lo.
Este item teve como objetivo avaliar a habili-
dade do leitor em identificar os recursos estilísticos
utilizados pelo autor e os efeitos de sentido que eles
produzem no texto.
Neste poema de Manuel Bandeira, a
temática apresentada, a repetição de palavras e a
própria disposição gráfica sugerem ao aluno a es-
colha da alternativa correta “B”. O alto índice de
acertos (86%) pode ser explicado a partir da arti-
culação entre conhecimentos prévios e informa-
ções textuais para dar conta desse efeito estilístico
(aliteração) e chegar à interpretação do “ir e vir”
das palavras repetidas no texto simbolizando o
movimento das ondas do mar.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 77

NÍVEL 5 A maioria dos alunos concorda com o gabari-


to, que tem como certa a alternativa “B”: o último
período do texto expressa um pedido. Para a análise
deste item, não podemos deixar de relevar o acerto
desses alunos em decorrência de uma noção de or-
dem gramatical sobre período.
Como sabemos, período e uma unidade lin-
güística que faz referência a uma experiência
comunicada, que se configura como uma mensagem
completa de acordo com a situação de interlocução.
Trata-se da expressão material que evoca a modali-
dade de intenção comunicativa que o enunciado quer
transmitir ao interlocutor. No caso do texto-base em
questão, essa intenção é a de apelar ao seu leitor
para que ele leve em consideração que o álcool, na
medida certa, é um charme.
Se os alunos que acertaram não conhecem ca-
balmente período nessa acepção, pode ser que o reco-
nheceram, aqui, com a ajuda do adjetivo “último”.
Uma outra perspectiva de ordem gramatical
pode ter feito com que 10% dos alunos assinalassem
a alternativa “A”, desta feita acerca da função do
modo imperativo como o paradigma de formas ver-
bais que exprimem ordem, pedido ou exortação, o
que não tiraria a plausibilidade destas respostas.

NÍVEL 6

A bicicleta era uma só. Era uma velha bici-


cleta, meio desconjuntada, pintada de “azul che-
guei” e, SOBRETUDO, era minha. Os adultos
queriam jogar bridge, ou sei lá, enfim, não deseja-
vam crianças na sala, sobretudo, porém, por cau-
sa do bridge. Então, os adultos diziam assim:
– Vão andar de bicicleta, queridinhas!
Eu morava na Lagoa Rodrigo de Freitas, Rio.
Naquele tempo quase não havia automóvel por ali,
lugar ideal para levar a gorda, bonita, rosada e louçã,
no selim, enquanto eu, magra, arrepiada e exausta,
suava, nhec, nhec, pedalando a MINHA bicicleta...
a gorda, só tomando brisa, cantarolava, louçã.
(In: O sadismo da nossa infância, Summus)

A expressão “nhec, nhec”, que procura imitar o


ruído da bicicleta, foi usada para reforçar a idéia
(A) da fragilidade física da menina.
O último período do texto expressa (B) do esforço que a menina fazia para
pedalar a bicicleta.
(A) uma ordem. (C) da irritação da menina por ter de levar
(B) um pedido. outra pessoa na bicicleta.
(C) uma dúvida. (D) de alegria da menina por estar em sua
(D) um sonho. bicicleta.

Percentual de respostas às alternativas Percentual de respostas às alternativas


A B C D Em branco e nulas A B C D Em branco e nulas
10 60 19 8 3 10 51 22 12 5
78 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

Praticamente a metade dos alunos (51%) da vida, etc. (antecedentes sociológicos); 2) a


perceberam o uso da onomatopéia para reforçar oralidade-letramento, que tem, em um de seus pólos
a dificuldade da menina ao pedalar a bicicleta. as atividades de oralidade e, no outro, as ativida-
Para a apreensão de que a pronúncia de des de letramento (situação ou evento); 3) a
nhec, nhec imita o som da bicicleta, os alunos que monitoração estilística, que leva em consideração
leram o texto todo com mais cuidado talvez te- o grau de atenção e de planejamento que o falante
nham tido mais elementos para acertar, pois a des- confere à sua interação.
crição da bicicleta (velha, meio desconjuntada) Portanto, é oportuno salientar que o aluno
daria mais subsídios para que os alunos associas- deve entender uma linguagem em uso, ou seja, com
sem a onomatopéia ao ranger de algo já bastante todas as variáveis possíveis da fala. Por isso é
usado. importante evidenciar para eles que um mesmo
Alguns outros alunos (22%) relacionaram a fato requer tratamento lingüístico diferenciado, em
onomatopéia à irritação da menina ao dar carona situações e contextos também diferentes,
à garota gorda, pois o peso na garupa, para esses descaracterizando-se, inclusive, a noção de “cer-
alunos, estaria provocando o ranger da bicicleta. to” e do “errado”, privilegiando-se a noção de
Observe-se que, em ambos os casos, pode- adequabilidade aos interlocutores e à situação de
mos notar um outro tipo de habilidade dos alunos comunicação.
por conta da relação causa/conseqüência, pois o Bagno (2000) defende um ensino crítico da
ruído nhec, nhec é resultado de algo. norma-padrão. Para ele, a escola deve dar espa-
ço ao máximo possível de manifestações lingüís-
ticas concretizadas no maior número possível de
gêneros textuais e de variedades de línguas: ru-
CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O TÓPICO V rais, urbanas, orais, escritas, formais, informais,
cultas, não-cultas, etc.
A análise dos itens escolhidos para repre- O Descritor 13 é representativo deste últi-
sentar este Tópico, cujas competências vão exigir mo tópico que trata da linguagem em uso, ou seja,
o conhecimento de diferentes gêneros textuais, as variáveis possíveis da fala. Os itens seleciona-
mostra-se positiva. dos apresentam uma variação no percentual de
É de se supor que os textos escolhidos acertos que oscila entre 77% e 24%, mostrando
possibilitaram a aproximação do leitor e que os um comportamento descendente muito acentua-
alunos se desempenharam bem no reconheci- do, como se pode observar pela análise dos itens
mento do efeito gerado no texto por recursos a seguir.
convencionais.
Vale reforçar, por conseguinte, a importân-
cia de se trabalhar em sala de aula com uma gran- DESCRITOR 13
de variedade de gêneros textuais que, certamen- IDENTIFICAR AS MARCAS LINGÜÍSTICAS QUE
te, ampliarão a visão de mundo dos alunos e pos- EVIDENCIAM O LOCUTOR E O INTERLOCUTOR
sibilitarão sua inserção no contexto social. DE UM TEXTO

O leitor deve ser capaz de identificar quem


TÓPICO VI fala no texto e a quem este se destina, reconhe-
VARIAÇÃO LINGÜÍSTICA cendo as marcas lingüísticas expressas. Muitos ele-
(DESCRITOR 13) mentos do texto podem indicar o locutor e o
interlocutor. Entre eles, podemos citar a variante
O conceito de língua é bastante amplo e en- lingüística e o registro usados, o vocabulário, o uso
globa todas as manifestações da fala, com inúme- de gírias e expressões, o suporte, os aspectos grá-
ras possibilidades. Nesse universo ilimitado, sur- ficos, etc.
gem variações decorrentes de fatores que inter- O grau de dificuldade dessa tarefa vai vari-
ferem nessas manifestações. ar de acordo com a quantidade e saliência das
Bortoni-Ricardo, em Bagno (2000), propõe marcas usadas no texto. Se houver muitas mar-
um modelo de análise em que as variedades lin- cas e elas estiverem em destaque, a tarefa será
güísticas são apreendidas ao longo de três cate- mais fácil para o leitor do que se houver poucas
gorias: 1) a rural-urbana, em que é possível situar ou se elas não forem facilmente perceptíveis. Em
o/a falante, em função da zona de nascimento e suma, quanto mais explícitos forem os sinais que
residência de infância, mobilidade geográfica, rede indicam o locutor e o interlocutor, mais simples será
de relações sociais, área de residência ao longo a tarefa do leitor.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 79

NÍVEL 4 NÍVEL 6

Viva!!! Férias!!! Melthiolate


Que tal juntar a galera e preparar uma via-
gem divertida sem gastar muito dinheiro? Arrume A próxima vez em que você sofrer um corte
as mochilas e corra para um camping. Além do pequeno e não tiver um anti-séptico por perto,
descanso e da bagunça, você curte cachoeiras, corra para o armário da cozinha. Cientistas da Uni-
praias e trilhas. O site Acampar dá o telefone e versidade Penn State, na Pensilvânia, descobri-
endereço de campings em todo o país e manda ram que o mel (aquele mesmo que você come
sugestões de roteiros com fotos e previsão de tem- com iogurte e aveia) age como barreira contra
po. Para os marujos de primeira viagem, há uma possíveis infecções causadas pelo corte. Além de
seção que ensina a preparar a bagagem. Divirta-se! impedir a formação de bactérias, acelera o pro-
cesso de cicatrização. Lave bem o corte, lambuze
(www.acampar.net/(português) com um pouco de mel e cubra com uma gaze.
(Revista da Web, dez. 1999. p. 140.) Repita três vezes.

O texto se destina a um grupo de VOCÊ S.A. São Paulo: Editora Abril,


Abril de 2000, p. 131
(A) viajantes marinheiros.
(B) biólogos marinheiros. Pela linguagem usada no texto, pode-se perceber
(C) agentes de viagens. que ele se destina a
(D) estudantes jovens.
(A) cientistas americanos.
Percentual de respostas às alternativas (B) chefes de cozinha.
A B C D Em branco e nulas (C) proprietários de farmácia.
9 3 9 77 2 (D) pessoas comuns.

Talvez pela familiaridade com o assunto do Percentual de respostas às alternativas


texto ou com a proximidade dos alunos em relação à A B C D Em branco e nulas
linguagem usada, 77% acertaram este item, pois fo- 37 12 10 39 2
ram de opinião que o texto se destina a um grupo de
estudantes jovens. É possível que tal índice de acer- A partir da linguagem do texto, o enunciado des-
to se deva à observação da língua em uso, com o te item solicitou que fosse assinalada a alternativa que
que se pôde perceber a variação lingüística no pro- fizesse referência aos destinatários do texto, e somente
cesso lingüístico em questão, mais especialmente em 39% dos alunos indicaram a alternativa correta “D”.
relação aos fatores sociológicos, isto é, ao reconhe- Um número bastante alto de alunos (37%) jul-
cimento das marcas lingüísticas específicas da lín- gou que o texto é destinado a cientistas americanos (al-
gua em uso da geração jovem. ternativa “A”), talvez devido ao distanciamento da rea-
Também pode ter auxiliado o fato de se ter lidade de muitas crianças brasileiras que não têm fami-
levado em conta o título, que, por ser a primeira por- liaridade com certos aspectos presentes no texto, como
ta cognitiva do texto, já estaria levantando algumas é o caso de comer mel com iogurte e aveia, aos fatores
expectativas quanto ao conteúdo, ao nível de forma- geográficos (variedades regionais, variedades urbanas
lidade, à finalidade do texto e, por conseguinte, ao e rurais), históricos (linguagem do passado e do presen-
destino do texto. te), sociológicos (gênero, gerações, classe social), téc-
nicos (diferentes domínios da ciência e da tecnologia).
80 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

NÍVEL 6 de variação lingüística e, portanto, não façam distin-


ção entre linguagem formal e informal.
Por causa de uma vírgula mal-encarada
José Cândido de Carvalho
CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O TÓPICO VI
E na tarde que o Dr. Feitosa de Castro, dire-
tor das Águas e Encanamentos de São João da A competência deste tópico está presente no
Laje, pediu que o escrevente Porfírio Freixeiras Descritor 13, que vai requerer do aluno a identifica-
retirasse certa vírgula de certo ofício, Freixeiras ção da variação lingüística que ocorre com a língua
tremeu nos borzeguins. Espumou gramática, pro- em funcionamento.
nomes e crases. Em vinte anos de Águas e Enca- A análise dos itens selecionados para este tó-
namentos, de ofícios e pareceres, nunca chefe al- pico revela uma queda acentuada no percentual de
gum, em tempo algum, mandou que ele extraísse acerto. Especificamente em relação aos itens que
essa ou aquela vírgula de seus escritos. Com o representam o nível 6, o percentual de acertos (39%
papel na mão, ficou remoendo, remoendo, tira-a- e 24%) demonstra claramente a dificuldade dos alu-
vírgula, não-tira-a-vírgula. Até que tomou uma nos em reconhecer a linguagem em uso e identificar
decisão definitiva. Chegou junto da mesa de as variáveis possíveis da fala.
Feitosa de Castro e expediu o seguinte ultimato: É importante lembrar que os diferentes gêne-
– Ou o doutor deixa a vírgula ou eu peço ros textuais trabalhados em sala de aula possibilita-
transferência de repartição. rão aos alunos o reconhecimento de que um mesmo
Feitosa, que era homem de pontos de vista fato requer tratamento lingüístico diferenciado, em
firmados, foi claro: situações e contextos também diferenciados. É im-
– A vírgula sai e o distinto amigo também. portante também descaracterizar a noção de “cer-
O resto veio no Diário Oficial. Vejam que to” e “errado” e enfatizar a noção de adequabilidade
barbaridade! Por causa de uma simples vírgula, aos interlocutores e à situação de comunicação.
de uma inútil vírgula, Freixeiras foi redigir ofícios
em Barro Amarelo. Lugar que não dava a menor
importância às crases, quanto mais às vírgulas. 5.1 I NTERPRETAÇÃO DOS R ESULTADOS DO
DESEMPENHO DOS ALUNOS DA 8a SÉRIE DO
Analisando a forma como Porfírio Freixeiras e o E NSINO F UNDAMENTAL EM L ÍNGUA
Dr. Feitosa de Castro se dirigem um ao outro, pode- PORTUGUESA – BRASIL, REGIÕES E UNIDADES
se afirmar que se trata de um diálogo: DA FEDERAÇÃO

(A) informal, apesar de profissional. O Gráfico 5 apresenta a distribuição dos alu-


(B) familiar e coloquial. nos da 8a série do Ensino Fundamental nos níveis de
(C) formal, ainda que não cerimonioso. desempenho em Língua Portuguesa. Essa análise in-
(D) informal e descontraído. forma, para cada região do País, a proporção de alu-
nos que possuem as habilidades descritas em cada
Percentual de respostas às alternativas nível.
A B C D Em branco e nulas
54 6 24 15 1

Este item requer que o aluno reconheça as


marcas lingüísticas próprias de situações contextuais
de uma repartição pública, com o emprego de alguns
vocábulos em desuso, como borzeguins, e fora de
seu contexto comunicativo, como ofício, ultimato, re-
partição. Isso só seria possível a partir do conheci-
mento de mundo e de aproximação com textos que
abordem esta temática.
Somente 24% dos alunos, que escolheram a
resposta correta “C”, perceberam o tom formal do
diálogo, ainda que não-cerimonioso, e revelam certa
familiaridade com os níveis de linguagem.
É possível que os alunos que foram atraídos
pela resposta “A” (54%) não dominem o processo
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 81

Gráfico 5
Percentual de alunos nos níveis de desempenho no Saeb, em Língua Portuguesa da
8ª série do Ensino Fundamental – Brasil, Regiões e Unidades da Federação – 2001

No Gráfico 5, observa-se que se destacam com Pará e de Rondônia. Já na Região Nordeste desta-
maior percentual de alunos, situados nos níveis mais ca-se o posicionamento dos alunos do Rio Grande
altos da escala (6 e 7), as Regiões Sul e Sudeste. Em do Norte e do Piauí.
especial nestas Regiões, os melhores desempenhos Qualquer comparação de resultados entre Re-
situam-se, respectivamente, nos Estados do Rio giões, Unidades da Federação, séries ou anos não
Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo. deverá ser somente pontual, devendo-se observar se
Na Região Centro-Oeste destaca-se o Distri- as diferenças efetivamente apresentam significância
to Federal, que apresenta os maiores percentuais de estatística, como descrito nas páginas 14 a 16 deste
alunos situados nesses níveis, enquanto na Região Relatório.
Norte o melhor posicionamento é o dos alunos do
82 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

Gráfico 6
Médias de desempenho no Saeb, em Língua Portuguesa da 8ª série do Ensino Fundamental
– Brasil, Regiões e Unidades da Federação – 2001
Notas:
Intervalos de confiança simultâneos 2 a 2 de 95% pelo procedimento de Bonferroni.
Limite entre níveis de desempenho.

Em relação à média do Brasil, em Língua Por- Outros dados do Saeb 2001 demonstram que,
tuguesa, na 8ª série do Ensino Fundamental, as mé- no Brasil, nas Regiões Nordeste, Sul e Centro-Oes-
dias das Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Norte não te, a média das capitais é significativamente superior
apresentam diferença significativa. A Região Nor- à do interior. Essas diferenças ocorrem, especialmen-
deste está significativamente abaixo da média do te, nessas três Regiões. Já nas Regiões Sudeste e Nor-
Brasil, e significativamente acima, a Região Sul. te tal diferença não é estatisticamente significativa.
Com desempenho médio, sem diferença sig- Deve-se considerar que nas capitais se en-
nificativa com a média do Brasil, estão os seguintes contram, em geral, universidades e cursos de forma-
Estados: Rondônia, Roraima, Pará, Amapá, Tocan- ção de professores mais qualificados, que as escolas
tins, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe, Bahia, possuem melhor infra-estrutura, e tanto alunos quanto
Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo, Paraná, professores têm acesso à maior variedade de bens
Santa Catarina, Mato Grosso e Goiás. culturais.
Significativamente abaixo da média situam-se É possível observar, ainda, que no Brasil, em
os Estados do Acre, Amazonas, Maranhão, Ceará, todas as regiões, os resultados das escolas particula-
Paraíba, Pernambuco e Alagoas. res são significativamente superiores aos das esco-
Significativamente acima da média estão os las estaduais e municipais. É necessário levar em
Estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Mato conta que nas escolas particulares, em geral, estu-
Grosso do Sul e o Distrito Federal. dam os alunos de nível socioeconômico mais alto,
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 83

com pais que possuem maiores níveis de escolarida-


de, que são considerados fatores associados ao bom
desempenho dos alunos.
Em todas as regiões brasileiras, os resultados
das escolas estaduais não apresentam diferenças es-
tatisticamente significativas em relação aos das es-
colas municipais.
Em Língua Portuguesa, na 8a série do Ensino
Fundamental, observam-se resultados estáveis en-
tre 1999 e 2001 no Brasil e em todas as regiões. Isso
implica não haver diferenças estatisticamente signi-
ficativas das médias nesse período.
É importante ressaltar que, no período 1995-
2000, foi muito grande a incorporação de alunos nes-
se segmento, não só em função das correções do
fluxo escolar, como também do retorno à escola de
jovens que dela estavam excluídos. Os reflexos so-
bre o desempenho se fazem sentir quando se com-
param esses períodos. No entanto, deve-se conside-
rar o esforço do Brasil em oferecer escolaridade a
toda a população, ainda que, num primeiro momento,
isso possa se traduzir numa aparente queda no de-
sempenho desses estudantes.
84 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 85

Análise dos Itens do Teste de


Língua Portuguesa – 3ª Série
do Ensino Médio
86 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

6 ANÁLISE DOS ITENS DO TESTE DE LÍNGUA PORTUGUESA – 3ª SÉRIE DO ENSINO MÉDIO

Antes de prosseguir com a análise dos itens Portanto, os itens analisados e comentados
de 3ª série do Ensino Médio, será apresentada a es- permitem avaliar a competência requerida pelo tópi-
cala de desempenho dos alunos dessa série em Lín- co e demonstrada pelos alunos testados, na medida
gua Portuguesa, com as devidas interpretações. em que demonstraram o desenvolvimento de um con-
A análise dos itens foi realizada levando-se junto de habilidades específicas e a construção dos
em consideração o critério de complexidade de cons- conteúdos. Os resultados obtidos indicarão em que
trução do conhecimento demonstrado na escala de fase da construção do conhecimento esses alunos e
desempenho. encontram.

ESCALA DE DESEMPENHO – LÍNGUA PORTUGUESA, 3ª SÉRIE DO ENSINO MÉDIO


Na 3a série do Ensino Médio, além das habilidades descritas na 4a e 8a séries do Ensino Fundamental, acrescentam-se as
seguintes habilidades:
(continua)
NÍVEIS E PERCENTUAIS DE ALUNOS BRASILEIROS NOS NÍVEIS
TÓPICOS HABILIDADES 5 – 32,11% 6 – 20,43% 7 – 3,91% 8 – 1,44%
250-300 300-350 350-375 375 ou acima
Localizam informa- • em fragmentos de textos narrativos simples.
ções explícitas
Inferem o sentido • de palavras de uso cotidiano em provérbios, notícias de jornal.
• de expressões de maior complexidade, pelo grau de abstração.
• em textos narrativos simples (relatos jornalísticos, histórias e poemas).
I. Procedimentos • de texto, recorrendo a estruturas gramaticais (o apelo no uso do imperativo).
de Leitura
Identificam • em textos narrativos simples.
informação • em textos poéticos mais complexos (poemas modernistas).
implícita • em texto dissertativo-argumentativo de média complexidade
(editoriais de jornais e revistas).
• em texto de divulgação científica.

Identificam o tema • de textos narrativos, informativos e poéticos.

Distinguem fato de • diante de um fragmento de texto.


opinião relativa a
esse fato

Interpretam texto • publicitário com auxílio gráfico, correlacionando-o com enunciados verbais.
• de jornal, com informações em gráficos (boletins meteorológicos).
• jornalístico, diferenciando informação principal de secundária.
II. Implicações do
Suporte, do • com informações quantitativas.
Gênero e/ou do
Enunciador na
Compreensão do Identificam a • de texto informativo simples em revista de divulgação científica.
Texto finalidade
• de textos curtos de natureza diversificada (anúncio publicitá-
rio, classificado de jornal).
• de textos argumentativos simples (trecho
de capítulo de livro) e de paródias,
reconhecendo a intencionalidade presente
em uma fábula modificada (refábula).

* Habilidades descritas nas escalas de 4ª e 8ª séries e construídas também pelos alunos de 3ª série E.M., em cada nível.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 87

ESCALA DE DESEMPENHO – LÍNGUA PORTUGUESA, 3ª SÉRIE DO ENSINO MÉDIO


Na 3a série do Ensino Médio, além das habilidades descritas na 4a e 8a séries do Ensino Fundamental, acrescentam-se as
seguintes habilidades:
(continuação)
NÍVEIS E PERCENTUAIS DE ALUNOS BRASILEIROS NOS NÍVEIS
TÓPICOS HABILIDADES 5 – 32,11% 6 – 20,43% 7 – 3,91% 8 – 1,44%
250-300 300-350 350-375 375 ou acima
Reconhecem * • em textos jornalísticos.
diferentes formas
de tratar a informa- • em textos ficcionais, tendo por base a caracterização de
ção em textos sobre personagens.
III. Relação entre o mesmo tema
Textos • em textos argumentativos mais
complexos, identificando posições
distintas entre duas opiniões sobre o
mesmo fato.
• em função das
condições de sua
produção e
daquelas em que
será recebido.
Estabelecem * • em textos narrativos com maior grau de complexidade
relações de (contos), identificando repetições ou retomadas anafóricas.
continuidade • pela substituição de palavra de mesmo
valor semântico, no texto.
Identificam a tese • narrativo e argumentativo de média complexidade.
de texto
• em pequenos textos jornalísticos de baixa complexidade.
Estabelecem relação
entre tese e • em textos mais
argumentos longos e comple-
xos.
Identificam as
IV. Coerência e • em textos jornalísticos.
partes principais
Coesão no das secundárias
Processamento Identificam • em textos narrativos mais longos e complexos (trechos de
*
do Texto conflito gerador autores românticos e naturalistas).
do enredo e
elementos que
constroem a
narrativa
Estabelecem • entre partes e
relação causa/ elementos do
conseqüência texto poético.
Estabelecem * • pelo conhecimento referente a processos de formação de
relações lógico- palavras e funcionamento de conectores.
discursivas • marcadas por conjunções e locuções
conjuntivas, reconhecendo a relação
temporal estabelecida por conectores.
Identificam efeitos * * • como poemas e
de ironia ou humor cartuns.
em textos variados
V. Relações entre
Recursos Identificam o efeito * * * • decorrente da
Expressivos e de sentido escolha de uma
Efeitos de palavra ou
Sentido expressão.
• decorrente do uso
da pontuação
(travessão).
Identificam efeito • como a repetição de estrutura sintática e a composição de palavras.
da exploração de
recursos ortográ-
ficos/ morfossin-
táticos
88 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

ESCALA DE DESEMPENHO – LÍNGUA PORTUGUESA, 3ª SÉRIE DO ENSINO MÉDIO


Na 3a série do Ensino Médio, além das habilidades descritas na 4a e 8a séries do Ensino Fundamental, acrescentam-se as
seguintes habilidades:

(conclusão)
NÍVEIS E PERCENTUAIS DE ALUNOS BRASILEIROS NOS NÍVEIS
TÓPICOS HABILIDADES 5 – 32,11% 6 – 20,43% 7 – 3,91% 8 – 1,44%
250-300 300-350 350-375 375 ou acima
Identificam marcas * • em diálogos simples diferenciando o nível formal e informal
lingüísticas de linguagem.
• próprias da faixa etária do locutor.
• que evidenciam o nível de escolaridade,
a adequação à situação comunicativa e
nível de linguagem empregada em
textos formais e informais.
• usadas intencionalmente como recurso
do autor para aproximar o texto da
VI. Variação linguagem popular.
Lingüística • próprias do
código lingüístico
de um grupo
social.
• próprias da
linguagem pro-
fissional usada
em diálogo
informal em
repartição
pública.

TÓPICO I DESCRITOR 04
PROCEDIMENTOS DE LEITURA INFERIR UMA INFORMAÇÃO IMPLÍCITA EM UM TEXTO

Este tópico requer dos alunos estratégias de As informações implícitas no texto são aque-
leitura para identificar as informações que se encon- las que não estão presentes claramente na base tex-
tram no próprio texto e aquelas que, ao extrapolar tual, mas podem ser construídas pelo leitor, por meio
esse texto, vão exigir do leitor um conhecimento do da realização de inferências que as marcas do texto
mundo letrado. permitem.
O leitor competente será capaz de, por meio dos Além das informações explicitamente enuncia-
itens referentes aos descritores deste tópico, demons- das, há outras que podem ser pressupostas e, conse-
trar um conjunto de habilidades lingüísticas que se es- qüentemente, inferidas pelo leitor. O leitor perspicaz é
tendem desde a habilidade de decodificar palavras es- aquele que consegue ler o que está por trás das linhas.
critas até a capacidade de compreender textos escritos Neste descritor, pretende-se que o leitor faça
de gêneros variados e em diversas situações. Os alu- inferências, necessárias para que significados impor-
nos devem, pois, demonstrar habilidades que vão desde tantes e decisivos sejam produzidos, descubra os pres-
a localização de uma informação explícita até a supostos e os subentendidos.
inferência de uma informação implícita; devem ler as A dificuldade desse tipo de tarefa depende de
entrelinhas e identificar a idéia central de um texto, ou inferência exigida, ou seja, existem vários níveis de
seja, apreender o sentido global do texto e fazer abstra- informações implícitas, ou não ditas, no texto. De-
ções a respeito dele. pendendo do texto, o leitor pode ter de fazer
Os itens escolhidos para representar esse tó- inferências mais simples ou mais complexas. Isso
pico referem-se ao Descritor 04, que vai requerer pode ser observado nos itens a seguir.
dos alunos operações inferenciais.
A análise do desempenho revela que os dois
primeiros itens (níveis 5 e 6) mantiveram uma
homogeneidade no percentual de acerto aos itens.
Já o último item (nível 7) apresenta uma queda acen-
tuada no desempenho. Observando-se estes itens,
apresentados a seguir, pode-se perceber uma varia-
ção decrescente no percentual de acerto aos itens
de 68% para 23%.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 89

NÍVEL 5 item requer do aluno habilidades de selecionar as


informações mais relevantes e, a partir das
O mensageiro da vida informações já localizadas e relacionadas, proceder
Rio São Francisco garante alimento do povo. a operações de síntese para realizar as inferências
de informações implícitas em um texto.
Em pleno sertão mineiro, o rio São Francisco O item apresenta um texto informativo, reti-
é mais que uma bênção. Atravessando a região rado do Jornal do Brasil. Sua leitura requer habili-
Norte do estado, de muita seca e poucas chuvas, dades simples e, pela análise dos resultados, pode-
ele garante o alimento de quem não tem o que mos observar que 68% dos alunos assinalaram a res-
comer e, generoso, é um porto seguro para o tu- posta correta “C”. Estes alunos demonstraram um
rismo nas cidades por onde corre. Todos os anos, bom domínio de estratégias de leitura e habilidade
entre maio e outubro, aparecem as praias. para realizar as inferências propostas pelo item. Os
É bom não ter pressa. A espera para a balsa que optaram pelas alternativas erradas “A”, “B”, “D”
sair é de 15 minutos após a entrada do primeiro e “E”, provavelmente não dominaram, ainda, a com-
carro. Isto, no papel. Na prática, a espera pode petência para ler textos informativos e relacionar as
se estender por quase uma hora. No Norte de informações essenciais para realizar tarefas que en-
Minas, o tempo é sempre relativo. Faz parte da volvam atividades de inferências textuais.
cultura e vale a pena tentar entrar nesse ritmo,
que segue um compasso perfeito para quem
busca descanso.
Os passeios de barco são sempre possíveis. Há
opções para pequenas viagens, com barcos melho-
res saindo de Pirapora, até uma voltinha de canoa. O
preço, que depende do tempo e percurso, é combi-
nado na hora com os barqueiros e, com um pouco de
conversa, pode até sair por um cafezinho.

GOUTHIER, Juliana. Paraísos. Jornal do


Brasil. Rio de Janeiro, 1998.
Minas Turismo, p. 182.

No trecho “O rio São Francisco é mais que uma


bênção”, percebemos que
(A) o rio São Francisco interessa ao turista
por causa de suas praias desertas que
aparecem às vezes.
(B) travessias em canoas para as cidades
da margem do Velho Chico levam
pouco mais de cinco minutos.
(C) o rio São Francisco, além de atração
turística, favorece a vida da população
ribeirinha.
(D) o Velho Chico não só favorece a chuva
como também propicia um tempo
relativo para seus habitantes.
(E) em grandes viagens pelo rio São Fran-
cisco, são usadas balsas que levam em
média 15 minutos para sair.

Percentual de Respostas às Alternativas


A B C D E Em branco e nulas
10 4 68 6 10 2

É condição essencial para a resolução de


questões que envolvam processos de inferência, que
o leitor tenha uma compreensão global do texto. Este
90 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

NÍVEL 6 tiveram de desenvolver um raciocínio de síntese para


acertar a resposta requerida. Somente 58% dos
Um fotógrafo invisível passou por São alunos demonstraram essa competência.
Paulo um século atrás Os alunos que se dispersaram pelas outras
alternativas erradas fizeram um leitura superficial e
Não era habitual, no início do século 20, fo- não souberam seguir as pistas que se encontram já
tografar o cotidiano de gente comum. Que valor no primeiro parágrafo.
podia ter aquilo? O fotógrafo italiano Vincenzo
Pastore, imigrante que veio para São Paulo “fazer NÍVEL 7
a América”, pensava diferente. Não se sabe que
motivos o levaram a fotografar esse universo da Meu ideal seria escrever...
cidade, por volta de 1910. “Ele foi intuitivo, reco-
nheceu que aquilo merecia registro”, diz Ricardo Meu ideal seria escrever uma história tão en-
Mendes, pesquisador do Centro Cultural São Paulo. graçada que aquela moça que está doente naque-
O conjunto de imagens, recentemente reve- la casa cinzenta quando lesse minha história no
lado, é o único painel que mostra o dia-a-dia das jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e
ruas paulistanas do período: crianças jogando bola dissesse – “ai meu Deus, que história mais engra-
de gude; vendedores ambulantes; caipiras ofere- çada”. E então contasse para a cozinheira e tele-
cendo produtos da roça. Ninguém parecia se dar fonasse para duas ou três amigas para contar a
conta de que estava sendo fotografado, ninguém história; e todos a quem ela contasse rissem muito
olhava para a câmara nem fazia pose. Pastore e ficassem alegremente espantados de vê-la tão
devia se camuflar. É intrigante imaginá-lo carre- alegre. Ah, que minha história fosse como um raio
gando um caixote de meio metro quadrado, com de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua
tripé, sem ser notado. Morto a 18 de janeiro de vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela
1918, Pastore deixou fotos nas quais se respira o mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e
ar, ouve-se o burburinho da cidade de outros tem- depois repetisse para si própria – “mas essa histó-
pos. Duma São Paulo de que só se ouviu falar. ria é mesmo muito engraçada!”
Que um casal que estivesse em casa mal-
Almanaque Brasil de Cultura Popular. humorado, o marido bastante aborrecido com a
São Paulo: Companhia Lithographica Ypiranga, mulher, a mulher bastante irritada com o marido,
nº 22, janeiro 2001. p. 11. (Adaptado) que esse casal também fosse atingido pela minha
história. O marido a leria e começaria a rir, o que
O objetivo de Pastore como profissional era evi- aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que
denciar esta, apesar de sua má-vontade, tomasse conhe-
cimento da história, ela também risse muito, e fi-
(A) a sua intuição como fotógrafo. cassem os dois rindo sem poder olhar um para o
(B) o trabalho dos vendedores ambulantes. outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso
(C) o cotidiano de São Paulo. do outro, se lembrasse do alegre tempo de namo-
(D) a diversidade das profissões. ro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de
(E) os movimentos de São Paulo. estarem juntos.
Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as
Percentual de Respostas às Alternativas salas de espera, a minha história chegasse – e tão
A B C D E Em branco e nulas fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e
12 8 58 9 10 3 tão pura que todos limpassem seu coração com
lágrimas de alegria; que o comissário do distrito,
A operação inferencial aqui é mais comple- depois de ler minha história, mandasse soltar aque-
xa do que a exigida no item anterior, uma vez que, les bêbados e também aquelas pobres mulheres
nesta questão, o aluno deverá apreender o texto colhidas na calçada e lhes dissesse – “por favor,
como um todo e, depois, selecionar as informa- se comportem, que diabo! eu não gosto de pren-
ções essenciais sobre o que constituía o foco de der ninguém!” E que assim todos tratassem me-
trabalho do fotógrafo para, então, proceder a uma lhor seus empregados, seus dependentes e seus
operação de síntese que o possibilite realizar a semelhantes em alegre e espontânea homenagem
inferência textual objetivada pelo item. à minha história.
Pela análise do desempenho, verifica-se que E que ela aos poucos se espalhasse pelo
o item apresenta um nível de dificuldade mediana. mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse
Pode-se atribuir isso à dificuldade que os alunos atribuída a um persa, na Nigéria, a um australiano,
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 91

em Dublin, a um japonês em Chicago – mas que O texto apresenta estrutura sintática mais
em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, complexa que os anteriores e exige do leitor um
a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que conhecimento de mundo e alto nível de letramento,
no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito o que justifica sua inclusão na categoria difícil.
pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca Para realizar essa operação inferencial, o
ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa leitor precisa ler todo o texto, fazer uma síntese e,
em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até a partir da leitura das entrelinhas, inferir a posição
hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido do autor nos dois últimos parágrafos.
inventada por nenhum homem; foi com certeza Pelos resultados obtidos, verifica-se que
algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de apenas 23% dos alunos acertaram a alternativa
um santo que dormia, e que ele pensou que já es- correta “A”. É bem possível que essa dificuldade
tivesse morto; sim, deve ser uma história do céu tenha sido causada pela complexidade textual
que se filtrou por acaso até nosso conhecimento; verificada (familiaridade com o conteúdo e alguns
é divina”. fatores lingüísticos como, por exemplo, a estrutu-
E quando todos me perguntassem – “mas ra dos parágrafos, a presença de discurso direto e
de onde é que você tirou essa história?” – eu indireto e de alguns vocábulos mais difíceis) e o
responderia que ela não é minha, que eu a ouvi tamanho do texto.
por acaso na rua, de um desconhecido que a As alternativas erradas “B” (15%) e “C”
contava a outro desconhecido, e que por sinal (23%) foram responsáveis pela dispersão obser-
começara a contar assim: “Ontem ouvi um su- vada. Presume-se que aqueles alunos que seleci-
jeito contar uma história...” onaram essas alternativas não dominam, ainda, a
E eu esconderia completamente a humilde competência necessária para realizar operações
verdade: que eu inventei toda a minha história em de inferência em textos literários mais complexos.
um só segundo, quando pensei na tristeza daquela
moça que está doente, que sempre está doente e CONSIDERAÇÕES F INAIS SOBRE O TÓPICO I
sempre está de luto e sozinha naquela pequena
casa cinzenta de meu bairro. Levando-se em conta a diversidade de tex-
tos selecionados para o Descritor 04, verifica-se
BRAGA, Rubem. In: Elenco de cronistas que o texto-base do terceiro item (Nível 7) apre-
modernos. 15. ed. Rio de Janeiro: senta características que exigiram do aluno com-
J. Olympio, p. 197-199. petência de leitor experiente.
O esquema de compreensão textual fica
condicionado a tipos específicos de envolvimento
O teor da crônica revela, por parte do autor, entre leitor e texto. No entanto é bom lembrar que
a dificuldade de leitura de um texto pode não es-
(A) consciência da função social do escritor. tar situada apenas nas variantes estruturais, mas
(B) convicção de suas limitações como também na relação texto objeto.
agente motivador. Observa-se, mais uma vez, portanto, a ne-
(C) certeza de que escrever bem é algo cessidade de se trabalhar em sala de aula com
divino, não humano. uma maior variedade de gêneros.
(D) alienação em face da dor dos seme-
lhantes.
(E) certeza em relação às possibilidades da TÓPICO V
R ELAÇÕES ENTRE RECURSOS EXPRESSIVOS E
sua história. EFEITOS DE SENTIDO
Percentual de Respostas às Alternativas O uso de recursos expressivos é um pode-
A B C D E Em branco e nulas roso auxiliar do leitor na construção de significa-
23 15 23 22 13 4 dos que não estão na superfície do texto. Nesse
sentido, o conhecimento de diferentes gêneros tex-
O que se pretende com este item é avaliar tuais possibilita ao leitor antecipar a compreensão
também a capacidade do aluno de compreender e desses significados. Além dos textos publicitários
deduzir informações implícitas, a partir do contex- que se utilizam largamente dos recursos expressi-
to apresentado no texto de Rubem Braga. Para vos, os poemas também se valem deles, exigindo,
tanto, ele deve recorrer a um conhecimento de na exploração do texto poético, atenção redobra-
mundo e/ou dominar operações de construção de da e sensibilidade do leitor para perceber os efei-
sentido lógico. tos de sentido subjacentes ao texto literário.
92 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

No entanto é preciso observar que determi- NÍVEL 5


nados sinais (de pontuação e outros mecanismos
de notação, como o itálico, o negrito, caixa alta, Poema retirado de uma
tamanho da fonte, etc.) nem sempre expressam o notícia de jornal
mesmo sentido, o que vale dizer, por exemplo, que
o ponto de exclamação nem sempre expressa sur- João Gostoso era carregador de feira livre e mo-
presa. É imprescindível, portanto, que o leitor, ao rava no Morro da Babilônia num barracão sem
explorar o texto, verifique como esses elementos número.
constroem a significação. Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Os itens apresentados neste tópico são re- Bebeu
presentativos do descritor 19 que vai requerer dos Cantou
alunos as competências e habilidades para reco- Dançou
nhecer o efeito do uso de recursos expressivos no Depois se atirou na Lagoa Rodrigo de Freitas e
texto. morreu afogado
Observa-se que houve uma curva descen-
dente no percentual de acerto aos itens (67%, 48% BANDEIRA, Manoel. Estrela da vida inteira.
e 27%). 4 ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1973, p 117.
A análise destes itens possibilita o levanta-
mento de algumas hipóteses que poderão servir Observe no texto os verbos: “chegou”, “bebeu”,
para uma reflexão do trabalho com textos em sala “cantou”, “dançou”. Eles imprimem o efeito de
de aula.
(A) repetição
(B) sistematização
DESCRITOR 19 (C) seqüenciação
RECONHECER O EFEITO DE SENTIDO DECORRENTE DA (D) substituição
EXPLORAÇÃO DE RECURSOS ORTOGRÁFICOS E /OU (E) alteração
MORFOSSINTÁTICOS

O uso de recursos como diminutivos e/ou Percentual de Respostas às Alternativas


aumentativos, gradação (“Não já lutando, mas ren- A B C D E Em branco e nulas
dido, enfermo, prostrado, desfalecido, morrendo, 9 9 67 4 10 1
morto.” Vieira), repetição de palavras, inversões
na ordem das palavras, topicalizações, paralelismo Este item procura avaliar a habilidade de o
sintático (uso da mesma estrutura sintática com aluno refletir sobre a forma do texto e perceber
algum fim específico, por exemplo: “Bebeu e so- as marcas utilizadas pelo autor na construção dos
luçou como se fosse um náufrago/Dançou e gar- sentidos.
galhou como se ouvisse música” – Chico Buarque, O poema narrativo de Manuel Bandeira tem
Construção, 1971 – em que há ações paralelas ex- uma estrutura simples e apresenta uma temática
pressas através de uma estrutura sintática similar do cotidiano, o que facilita a aproximação do lei-
– mesmo tempo, modo e pessoa verbal e mesma tor. A própria disposição gráfica dos verbos de
organização sintática), entre outros, precisam ser ação no texto serve de pista para que o aluno se-
percebidos e compreendidos pelo leitor. Esse lecione a alternativa correta.
descritor visa verificar a capacidade do leitor de Os alunos que escolheram a alternativa cor-
refletir sobre a forma do texto e, ainda, se ele con- reta “C” (67%) perceberam a intencionalidade do
segue perceber as marcas utilizadas pelo autor na autor ao utilizar uma seqüência de ações que cul-
construção de sentido. O grau de dificuldade des- minou no desfecho trágico da narrativa. Os que
se descritor advém do uso, no item, de estruturas marcaram as alternativas erradas “A”, “B”, “D”,
mais complexas. Isso pode ser observado nos itens e “E” são leitores superficiais e desatentos ao que
a seguir. está veiculado pelo autor.
As ações seqüenciais expressas por meio
de uma estrutura sintática similar (verbos intran-
sitivos no mesmo tempo, modo e pessoa) exige do
leitor a capacidade de perceber marcadores tex-
tuais que traduzem a intencionalidade do autor para
produzir determinados efeitos de sentido.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 93

NÍVEL 6 Os demais alunos que selecionaram as alter-


nativas erradas “A”, “B”, “D” e “E”, especialmente
Além da Terra, além do Céu os que foram atraídos pelas alternativas “B” (17%)
e “E” ( 20%), são leitores superficiais que não con-
Além da terra, além do céu, seguiram perceber os recursos discursivos que en-
no trampolim do sem-fim das estrelas, volvem a construção de textos poéticos.
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar, até onde al-
cançam o pensamento e o coração, NÍVEL 7
vamos!
Vamos conjugar Ó tu
o verbo fundamental, essencial, Que és presidente
o verbo transcendente, acima das gramáticas Do Conselho Mu-
e do medo e da moeda e da política, nicipal,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar Se é que tens mu-
razão de ser e de viver. lher e filhos,
Manda tapar os bu-
ANDRADE, Carlos Drummond de. racos da rua dos Junquilhos.
Amar se aprende amando. Rio de Janeiro:
Record, p. 16, 1985. (Artur Azevedo)

Com a criação das palavras “sempreamar” e O elemento que prova duplo sentido nesse texto é
“pluriamar”, o autor quis expressar o desejo de
um amor (A) o uso de letras maiúsculas no início dos
versos.
(A) inacessível e unilateral. (B) a divisão do poema em duas estrofes.
(B) sincero e gratuito. (C) a propositada partição de algumas
(C) constante e abrangente. palavras.
(D) complacente e tolerante. (D) a preferência por palavras do vocabulá-
(E) delicado e fiel. rio comum.
(E) o uso de nomes próprios.
Percentual de Respostas às Alternativas
A B C D E Em branco e nulas Percentual de Respostas às Alternativas
6 17 48 7 20 2 A B C D E Em branco e nulas
11 30 27 16 11 5
Este item, da mesma forma que o anterior,
requer do leitor a capacidade de refletir sobre a Embora este texto poético apresente estrutu-
forma do texto e de perceber as marcas utilizadas ra simples, a questão revela-se mais difícil que as
pelo autor na construção de sentidos. duas anteriores, conforme mostra a análise de resul-
O texto aqui se apresenta mais difícil, por- tados. Somente 27% dos alunos foram capazes de
que avalia a capacidade do aluno de perceber o escolher a resposta correta “C”, demonstrando, as-
efeito da linguagem figurada. Especificamente sim, capacidade de reflexão sobre a intencionalida-
neste poema, ele deverá reconhecer o valor ex- de do autor ao usar o recurso de partir algumas pala-
pressivo de uma criação lexical (vocábulo) que vras do poema.
foge aos padrões convencionais das regras de for- Um percentual maior (30%) foi atraído pela
mação de novas palavras. O poeta cria os verbos alternativa errada “B”. As outras alternativas mos-
“sempreamar” e “pluriamar” para expressar o traram-se igualmente atraentes, constatando que os
desejo de um amor constante e abrangente. alunos apresentam dificuldade em refletir sobre o uso
A análise de resultados mostra que este item, de recursos discursivos.
embora trate do mesmo descritor, apresentou-se Em resumo, a expressiva maioria dos alunos
mais difícil que o anterior, pois 48% dos alunos optaram por alternativas erradas “A”, “B”, “D” e
escolheram a resposta correta “C”, revelando uma “E”, o que vale dizer também que eles não atingiram
proficiência significativa na competência requeri- uma proficiência mínima no campo da competência
da pelo item. proposta pelo item.
94 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O TÓPICO V Os itens apresentados neste tópico com-


põem-se de dois textos-base pra cada item, a fim de
Na exploração do texto, o reconhecimento dos atender às especificidades do Descritor 20, que re-
recursos expressivos utilizados pelo autor vai exigir quer dos alunos habilidades de leitura que vão da
do leitor familiaridade com uma gama variada de análise em separado de cada texto à comparação, à
gêneros textuais. síntese, para proceder às operações inferenciais das
Vale lembrar que os itens selecionados para informações contidas nos textos.
este Descritor 19 apresentaram três poemas como Dos três itens representativos deste tópico, ape-
texto-base, o que pode ter contribuído para o desem- nas o primeiro (Nível 6) apresentou resultados medi-
penho insatisfatório dos alunos. anos. Os dois itens seguintes, situados nos Níveis 6 e
Pesquisas têm revelado que, à medida que as 7, apresentam nível de desempenho insatisfatório
séries avançam, aumenta a dificuldade dos alunos (37% e 34%).
em relação à leitura de poemas.
É oportuno lembrar, também, que a leitura de DESCRITOR 20
poesias possibilita ao aluno exercitar formas de RECONHECER DIFERENTES FORMAS DE TRATAR UMA
interação social e reconhecer a utilização de recur- INFORMAÇÃO NA COMPARAÇÃO DE TEXTOS QUE TRATAM
sos cognitivos importantes também para a leitura de DO MESMO TEMA, EM FUNÇÃO DAS CONDIÇÕES EM QUE
outros textos, como charges, propagandas, notícias, ELE FOI PRODUZIDO E DAQUELAS EM QUE SERÁ RECEBIDO
editoriais e textos, de caráter científico.
Um mesmo fato pode ser apresentado de di-
ferentes formas. Por exemplo, um determinado acon-
TÓPICO III tecimento pode ser noticiado num jornal A e pode
RELAÇÃO ENTRE TEXTOS aparecer com uma versão completamente diferente
num jornal B, dependendo do público de cada jornal,
É comum um texto retomar passagens de ou- da linha política e ideológica do veículo, do momento
tro. Os textos científicos citam, de maneira explícita, histórico, dos interesses envolvidos, etc.
outros textos. O texto citado vem entre aspas, e em As diferentes formas de tratar uma mesma
nota indica-se o autor e o livro donde se extraiu a informação podem ser percebidas por meio da leitu-
citação. ra dos títulos e manchetes, da seleção lexical, do es-
Nos textos literários, a citação de outros tex- paço dado à informação em um e em outro veículo,
tos é feita de forma implícita. O autor e a obra donde da natureza dos argumentos. O leitor que lê critica-
são retiradas as passagens citadas não são indicadas mente consegue identificar características que o le-
pelo autor, pois pressupõe-se que o leitor tenha co- vam a perceber o viés do texto. A dificuldade desse
nhecimento de mundo e tenha informações a respei- descritor, a ser observada nos itens a seguir, pode se
to das obras que compõem um determinado acervo originar da complexidade do assunto, da escolha
cultural. lexical ou da omissão do portador do texto (nome do
Um texto cita outro com, basicamente, duas jornal, por exemplo) e do grau de sutileza com que
finalidades distintas: esses elementos são expressos no texto.
a) para reafirmar alguns dos sentidos do texto
citado;
b) para inverter, contestar e deformar alguns
dos sentidos do texto citado, para polemizar
com ele.
A percepção das relações intertextuais, das
referências de um texto a outro, depende do reper-
tório do leitor, do seu acervo de conhecimentos lite-
rários e de outras manifestações culturais. Daí a im-
portância da leitura, principalmente daquelas obras
que constituem as grandes fontes da literatura uni-
versal.
Quanto mais se lê, mais se amplia a compe-
tência para apreender o diálogo que os textos tra-
vam entre si por meio de referências, citações e alu-
sões. Por isso, cada livro que se lê torna maior a
capacidade de apreender, de maneira mais comple-
ta, o sentido dos textos (Platão e Fiorin, 1995).
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 95

NÍVEL 6 A habilidade requerida pelo item é a de reco-


nhecer diferentes formas de tratar uma informação
TEXTO I na comparação de textos que abordam o mesmo
tema. Esse reconhecimento deve ocorrer em fun-
O relator, Beni Veras (PSDB/CE), apresen- ção das condições em que os textos são produzidos
tará a proposta no mesmo dia da votação da emen- e daquelas em que serão recebidos. O item é com-
da da reeleição. A maior parte do texto original da posto de dois textos informativos que tratam de as-
proposta foi alterada, com a adoção de normas de suntos ligados à Previdência Social, com enfoques
transição para os que estão no atual sistema diferentes: a reforma da Previdência e o reajuste aos
previdenciário. O limite mínimo de idade para apo- aposentados. A diferença de enfoque está sendo
sentadoria para homens será 53 anos e de 48 para cobrada no item, cujo enunciado pede que esta seja
mulheres, desde que tenham contribuído por 35 e identificada. A alternativa correta “B” evidencia com
30 anos, respectivamente. A Procuradoria Geral clareza a diferença no tratamento da informação.
da República poderá impetrar uma nova ação na Analisando-se a dificuldade do item pelas in-
justiça para evitar que os ministros e funcionários formações dadas pelos gráficos e pelos percentuais
do Supremo Tribunal Federal reduzam os descon- de respostas às alternativas, percebe-se que uma por-
tos para a Previdência. centagem de 56% dos alunos responderam correta-
mente ao item, dando a ele um status de razoavel-
Tribuna do Ceará. Fortaleza, 26 mai. 1997. mente fácil, embora tenha havido uma atração pela
alternativa “C” por 13% dos alunos e pela alternati-
va “E” por 17% dos alunos.
TEXTO II

Os aposentados e pensionistas terão reajuste


de 7,76% de junho. Apesar do índice ser maior do
que o concedido para o salário mínimo, o dinheiro
embolsado será o mesmo. A diferença é que a cor-
reção dos benefícios dos aposentados e pensionistas
vai compreender um período maior, que será de 13
meses, e o reajuste do salário mínimo foi concedido
no prazo de 12 meses. A garantia do reajuste foi dada
ontem, em Brasília, por técnicos do Ministério da Pre-
vidência e Assistência Social.

O Povo. Fortaleza, 27 mai. 1997

Embora tratem de assuntos da mesma área, os


textos se diferenciam porque

(A) estão publicados em jornais distintos, que


circulam em diferentes regiões do país.
(B) o texto I trata da reforma da Previdên-
cia, e o II, do reajuste previsto para os
aposentados.
(C) o texto II mostra a diferença dos
benefícios dos aposentados e pensionis-
tas e o I dos descontos das pensões.
(D) estão dirigidos a leitores de diferentes
etnias e níveis sociais.
(E) ambos os textos traduzem a posição dos
técnicos da Previdência.

Percentual de Respostas às Alternativas


A B C D E Em branco e nulas
4 56 13 8 17 2
96 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

NÍVEL 6
O objetivo deste item é avaliar a capacidade
TEXTO I do aluno de reconhecer diferentes formas de apre-
sentar fatos relacionados a uma mesma temática.
Divorciadas são assassinadas São duas notícias apresentadas dentro dos padrões
em São Paulo e Fortaleza lingüísticos próprios de textos jornalísticos.
polícia crê em crime passional Os alunos que assinalaram a resposta correta
“A” (37%) demonstraram ter um bom conhecimen-
O assassinato de duas mulheres, uma em São to de mundo, certo nível de letramento, familiaridade
Paulo e outra em Fortaleza(CE), intriga a polícia, com textos jornalísticos e outros gêneros textuais que
que até a noite de ontem não havia prendido os não somente os literários, capacidade de análise e
autores. Apesar de não haver nenhuma relação síntese dos fatos apresentados e habilidade para iden-
entre os dois crimes, há muitas coincidências. tificar pistas lingüísticas que ajudem a localizar e a
As duas mulheres estavam na faixa entre os selecionar a resposta requerida.
30 e 40 anos. As alternativas erradas “D” (31%) e “E”
As duas trabalhavam na área médica (uma (18%) respondem pelo alto índice de dispersão da-
era alergista, a outra, bióloga). Ambas eram di- queles alunos que não construíram as competências
vorciadas, moravam sozinhas e nos dois casos há requeridas nem desenvolveram as habilidades de
suspeita de crime passional. comparação e síntese.
Folha de S. Paulo

TEXTO II NÍVEL 7

Médica é assassinada ao TEXTO I


deixar centro espírita
Os números divulgados pelo IBGE na quin-
A polícia já tem o suspeito do assassinato da ta-feira, 28, não deixam dúvidas: o desemprego
médica alergista do Hospital das Clínicas Isaura no país é crescente. E pode aumentar ainda mais
Virgínia Santos Rosa Pinczowski, de 35 anos. Ela se a recessão se agravar por conta das turbulên-
morreu ontem com um tiro no peito quando saía cias provocadas pela mudança na política cambi-
do centro espírita Seara Bendita, na rua al. A taxa de desemprego aberto no país saltou de
Demóstenes, em São Paulo, em seu Golf prata, 5,66% em 1997 para 7,59% no ano passado - o
placa CKC-5686, de São Bernardo do Campo. maior percentual desde l983. Mantida a tendência
Segundo testemunhas, Isaura teve seu veículo in- de crescimento observada nos últimos meses, essa
terceptado por um Vectra preto que subia na con- taxa atingiria, em janeiro, segundo o IBGE, 9,55%
tramão a rua Constantino de Souza, altura do nú- da população economicamente ativa.
mero 454. Infelizmente, ninguém está livre de perder o
O Povo emprego, mas quem souber se preparar para o
desemprego certamente viverá dias mais tranqüi-
Sobre os textos, pode-se afirmar que los. O planejamento financeiro pode ajudar a
minimizar a angústia do desemprego, quando o tra-
(A) o texto I divulga a morte de duas balhador se vê às voltas com um duplo desafio:
mulheres, ressaltando os pontos comuns garantir o sustento da família, sem a renda de an-
aos casos. tes, ao mesmo tempo que busca recolocação no
(B) os dois jornais noticiam a morte de duas mercado de trabalho. Para tanto, é preciso
mulheres. reaprender a gastar – e a poupar. Só assim será
(C) os jornais relatam assassinatos cuja possível formar uma reserva para os tempos difí-
violência revoltou os médicos. ceis sem sacrificar sua qualidade de vida.”
(D) o texto I é uma notícia e o texto II é um In: Revista Época, Ed. Globo, 1.2.99
artigo.
(E) os jornais enfatizam o crescente assas-
sinato de mulheres no país.

Percentual de Respostas às Alternativas


A B C D E Em branco e nulas
37 6 6 31 18 2
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 97

TEXTO II A alternativa errada “C” atraiu 28% dos alu-


nos, que apresentaram dificuldades de leitura de tex-
A fraternidade e os desempregados é o tema tos diferentes, ainda que tratando do mesmo tema.
da campanha da fraternidade deste ano, com o lema
‘Sem trabalho ... Por quê?’ A questão do desempre-
go é certamente uma das maiores preocupações dos CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE O TÓPICO III
brasileiros. E ela atinge em cheio os jovens, que se
preparam para entrar no mercado de trabalho. Cada Como foi sobejamente analisado neste relató-
um de nós é convidado a refletir e agir. rio, as competências e habilidades requeridas dos
A questão do desemprego é a questão cen- alunos na avaliação do foco Leitura passam pelo
tral do final do século XX e início do próximo. Cada conhecimento da variedade de gêneros textuais.
vez mais o trabalho, tal como o entendemos, está Os itens selecionados para este tópico sinalizam
em crise. Trata-se de uma crise que decorre da a dificuldade que o leitor-aluno encontra na leitura de
transformação socioeconômica que vivemos. (...) alguns gêneros textuais, sobretudo quando se trata de
compará-los para, então, responder o item.
In: Mundo Jovem, março/99 Observa-se que, além das habilidades
requeridas pelos descritores, o aluno têm de dominar
A frase do Texto I que justifica corretamente a as estratégias de leitura. Percebe-se claramente um
informação contida no trecho “ A questão do de- nível crescente de dificuldade em relação ao enten-
semprego é certamente uma das maiores preocu- dimento da organização do texto e os processos de
pações dos brasileiros.” (Texto II) é: articulação de elementos temáticos e elementos es-
truturais.
(A) “Ao mesmo tempo que busca recoloca- A partir das análises aqui oferecidas, poderá
ção no mercado de trabalho.” o professor analisar a sua prática, refletir sobre os
(B) “Só assim será possível formar uma paradigmas utilizados e, principalmente, repensar a
reserva para os tempos difíceis.” forma de trabalhar a leitura em sala de aula.
(C) “O planejamento financeiro pode ajudar
a minimizar a angústia do desemprego.”
(D) “É preciso reaprender a gastar e a 6.1 I NTERPRETAÇÃO DOS R ESULTADOS DO
poupar.” DESEMPENHO DOS ALUNOS DA 3ª SÉRIE DO
(E) “A taxa de desemprego aberto no país ENSINO MÉDIO EM LÍNGUA PORTUGUESA –
saltou de 5,66% em 1997 para 7,59% B RASIL , R EGIÕES E U NIDADES DA
(...)” FEDERAÇÃO

Percentual de Respostas às Alternativas O Gráfico 7 apresenta a distribuição dos alu-


A B C D E Em branco e nulas nos da 3a série do E.M. nos níveis de desempenho
15 9 28 12 34 2 em Língua Portuguesa. Essa análise informa, para
cada Região do País, a proporção de alunos que pos-
Os textos I e II são artigos publicados em re- sui as habilidades descritas em cada nível.
vistas diferentes e abordam o tema “desemprego”.
Este é um tema universal, presente no cotidiano de
leitores de qualquer idade. A estrutura não apresen-
ta maiores dificuldades, e o vocabulário é acessível
a alunos da 3a série do Ensino Médio.
Os dados apresentados no Texto I servem de
pista para a seleção da resposta requerida. No en-
tanto, o leitor tem que ler os dois textos para extrair,
do primeiro, dados que justifiquem corretamente a
informação dada no segundo.
Os alunos (34%) que acertaram a resposta
correta “E” demonstraram capacidade de leitura crí-
tica, pois conseguiram identificar características co-
muns aos dois textos e souberam selecionar a infor-
mação de um para justificar a informação contida no
outro.
98 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

Gráfico 7
Percentual de alunos nos níveis de desempenho no Saeb, em Língua Portuguesa
da 3ª série do Ensino Médio – Brasil, Regiões e Unidades da Federação – 2001

Verifica-se, pela observação do Gráfico 7, Observando-se o Gráfico 8, verifica-se que a


que os melhores resultados da 3a série do Ensino média da Região Sul é a única a superar a média do
Médio em Língua Portuguesa encontram-se nas Brasil (diferença com significância estatística), o que
Regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste, destacan- ocorre também com os Estados do Rio de Janeiro,
do-se nestas, respectivamente, o Estado do Rio Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do
Grande do Sul, o Distrito Federal e o Rio de Janei- Sul e o Distrito Federal.
ro. Seguindo a mesma linha de análise, destaca- Os Estados que não apresentam diferença
se na Região Nordeste, o Piauí e, na Região Nor- estatisticamente significativa em relação à média
te, o Estado de Rondônia. nacional são: Rondônia, Pará, Amapá, Piauí, Ceará,
Qualquer comparação de resultados entre re- Bahia, Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo,
giões, UFs, séries ou anos não deverá ser somente Paraná, Mato Grosso e Goiás, além das Regiões
pontual, devendo-se observar se as diferenças efeti- Sudeste e Centro-Oeste.
vamente apresentam significância estatística, como
descrito nas páginas 14 a 16 deste Relatório.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 99

Gráfico 8
Médias de desempenho no Saeb, em Língua Portuguesa da
3ª série do Ensino Médio – Brasil, Regiões e Unidades da Federação – 2001

Notas:
Intervalos de confiança simultâneos 2 a 2 de 95% pelo procedimento de Bonferroni.
Limite entre níveis de desempenho.

Finalmente, encontram-se abaixo da média do alunos de nível socioeconômico mais alto e que todas
Brasil as Regiões Norte e Nordeste e os Estados do as pesquisas, inclusive internacionais, demonstram
Acre, Amazonas, Roraima, Tocantins, Maranhão, Rio correlação positiva entre nível socioeconômico e
Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas e desempenho. Para todas as regiões brasileiras, a
Sergipe. tendência é a mesma.
As médias de desempenho em Língua Portu- Entre o anos de 1999 e 2001, verificou-se es-
guesa nas escolas da capital, para o Brasil e as Regiões tabilidade nos resultados de desempenho tanto para
Norte e Sudeste, não podem ser consideradas signifi- o Brasil como para todas as regiões. Deve-se levar
cativamente diferentes das médias das escolas do inte- em conta que à acentuada queda no desempenho
rior. Nas Regiões Nordeste, Sul e Centro-Oeste, por entre os anos de 1995 e 2001 correspondeu um acrés-
sua vez, o desempenho nas escolas das capitais é signi- cimo na matrícula de alunos da 3ª série do Ensino
ficativamente maior. Médio, de cerca de 81%.
Para os alunos que estudam em escolas Resultados em educação são obtidos em pra-
particulares, a média de desempenho é zos mais longos do que em outras áreas. Deve-se
significativamente maior do que a dos alunos que considerar o esforço que o País vem realizando para
estudam em escolas públicas. Deve-se considerar, no proporcionar acesso à escola.
entanto, que nas escolas particulares, em geral, estudam
100 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 101

Análise do Desempenho dos


Alunos em Língua Portuguesa
102 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

7 ANÁLISE DO DESEMPENHO DOS ALUNOS EM LÍNGUA PORTUGUESA

O resultado do desempenho dos alunos avali- em acrescentar algo de novo ao texto a partir de um
ados por meio da aplicação dos testes do Saeb em raciocínio. As inferências dependem naturalmente do
2001, em Língua Portuguesa, só poderá servir de ori- alcance de significados explicitados e de pistas verbais
entação para a melhoria da qualidade da educação e não-verbais disponíveis ao aluno. No entanto é o
no País se soubermos interpretar o que esses resul- nível de competência do leitor que lhe permitirá fazer
tados revelam em termos do domínio ou não de cer- ou não inferências lógicas. Exemplos do desempenho
tos conhecimentos ao final das diversas etapas do dos alunos nestes descritores podem ser observados
processo de escolarização. quando da análise dos itens nas páginas 20 a 27.
No caso específico de Língua Portuguesa, pro- Os diferentes níveis em que as competências
curou-se, por meio de testes voltados para a com- e habilidades estão situadas variam dentro de um mes-
preensão de textos, observar quais as competências mo descritor. As características dos itens compre-
que já foram construídas pelos alunos e quais as que endem a estrutura do texto, o vocabulário adotado,
estão em processo de construção, nas diversas sé- gênero e suporte que, se forem familiares aos alu-
ries avaliadas. nos, sem dúvida, podem facilitar as operações de sig-
O termo competência, por dar margem a sig- nificação (conceituais) necessárias às inferências.
nificados diversos, tem provocado discussões entre Durante a organização dos testes, estes fatores fo-
estudiosos da educação. Segundo o modelo teórico ram levados em consideração para que se pudesse
que embasa o Saeb, competência se refere à possi- observar diferentes momentos da construção de co-
bilidade de utilização de determinadas operações da nhecimentos pelos alunos.
inteligência que permitem aos alunos (sujeitos da Para interagir com o texto, os alunos preci-
aprendizagem) classificar, seqüenciar, estabelecer sam ter desenvolvido competência para apreensão
correspondências, fazer inferências, sínteses etc. de atributos e propriedades comuns que se constitu-
As competências e habilidades acima menci- em a partir de operações inerentes a estruturas
onadas se constituem requisitos do leitor que com- cognitivas capazes de realizar classificações, inclu-
preende o que lê e se desenvolvem a partir de cons- sões de classes, relações unívocas e biunívocas,
truções cognitivas próprias do pensamento operató- seqüenciações, permitindo identificar, por exemplo,
rio que é capaz de conservar determinados todos, elementos de uma narrativa, tais como cenários, tem-
tais como as palavras, os parágrafos, o texto, o frag- po da narrativa, contexto histórico, conflito gerador,
mento, etc. No entanto, não basta conservar o todo; fatos que o antecedem e as possíveis soluções, tal
é necessário que o leitor opere com a divisão do todo como é previsto no descritor, Identificar as marcas
em partes, desde a reprodução da ordem dos pará- lingüísticas que evidenciam o locutor e o
grafos até chegar à elaboração de sínteses que lhe interlocutor, da 4ª e 8ª séries do Ensino Fundamen-
permitam identificar a idéia central ou mesmo o tema tal, sob os nºs. 10 e 13, respectivamente. Os itens
de um texto. referentes a este descritor são demonstrados nas aná-
Sob essa perspectiva, um dos descritores da lises nas páginas 44 e 45 (4ª série) e 78 a 80 (8ª
Matriz de Referência de Língua Portuguesa do Saeb série).
– Identificar o efeito de sentido decorrente do Em contrapartida, o desenvolvimento da com-
uso de pontuação e de outras notações (D14) – petência que se revela na habilidade de compreen-
assume uma importância significativa relativa à ca- der a justificativa lógica é concomitante, no sujeito,
pacidade do leitor/aluno de compreender a seqüên- com a aquisição do pensamento socializado e
cia de um diálogo, as atitudes de dúvida e/ou espanto descentrado, ou seja, colocar-se no lugar do outro
que justificam a seqüência dos parágrafos que re- (autor e/ou personagem do texto).
produzem falas de personagens. Pode-se observar o Deve-se ressaltar, também, que qualquer lei-
desempenho dos alunos em relação a este descritor tor necessita, para entender o que está lendo, com-
verificando-se as respostas dadas aos itens dos ní- preender como as frases se ligam umas às outras.
veis 4 e 5 desse descritor, nas páginas 42 e 43. No entanto, não se pode esquecer que determinadas
Alguns descritores de Língua Portuguesa se relações lógico-discursivas dependem de fatores
referem a Inferir o sentido de uma palavra ou socioculturais e que a linguagem oral de muitos mei-
expressão (D3) e Inferir uma informação implícita os sociais não utiliza conjunções, advérbios, etc., para
de um texto (D4). É claro que estes descritores se marcar relações de causa-efeito, implicação, restri-
diferenciam, e muito, daquele que se refere a ção, concessão. As habilidades que as envolvem,
Localizar informações explícitas em um texto (D1). como as explicitadas no Descritor 12 da 4ª série ou
Neste último, é suficiente que o aluno identifique algo 15 da 8ª série: Identificar-estabelecer relações ló-
que está dito claramente no texto. Já Inferir consiste gico-discursivas presentes no texto, marcadas por
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 103

conjunções, advérbios, etc., necessitam do apoio de 4ª série do Ensino Fundamental e aptos para con-
de trabalhos práticos envolvendo não apenas a leitu- tinuar seus estudos no segundo segmento deste nível
ra, mas, também, a prática da oralidade. Todas estas de ensino.
considerações aparecem com muita nitidez quando Seria recomendável que as equipes pedagógi-
se analisam as habilidades demonstradas pelos alu- cas e os professores analisassem cuidadosamente
nos nas séries avaliadas, como se poderá observar as habilidades de leitura descritas nos níveis mais
nas descrições sobre o desempenho dos estudantes bra- altos da escala para estabelecer estratégias de ensi-
sileiros, apresentadas a seguir. no que favoreçam a aquisição de uma maior compe-
tência de leitura.

7.1 C ONSIDERAÇÕES SOBRE O D ESEMPENHO


DOS A LUNOS DA 4ª SÉRIE DO E NSINO 7.2 CONSIDERAÇÕES SOBRE O DESEMPENHO DOS
FUNDAMENTAL EM LÍNGUA PORTUGUESA A LUNOS DA 8ª SÉRIE DO E NSINO
FUNDAMENTAL EM LÍNGUA PORTUGUESA
A média dos alunos da 4ª série do Ensino Fun-
damental encontra no Nível 2 da escala de desem- A média dos alunos brasileiros da 8a série do
penho com proficiências ente os valores 150 e 175. Ensino Fundamental situa-se no Nível 4, entre 200 e
Neste nível estão posicionados 18,99% dos alunos 250. Os alunos posicionados nesse nível (36,37%)
brasileiros que demonstram, por meio dos itens ana- demonstram possuir, além das habilidades descritas
lisados, saber localizar informações básicas em tex- nos níveis anteriores da escala da 4a e da 8a séries,
tos narrativos curtos, em comunicados e em peque- outras, como inferir o sentido de informações conti-
nos poemas descritivos, sendo capazes, ainda, de lo- das em gráficos e tabelas e identificar o tema em
calizar informações explícitas em textos poéticos não- textos poéticos. São capazes de estabelecer relações
descritivos, como poemas narrativos simples. de causa/conseqüência e de identificar, também,
Esses alunos também reconhecem o tema de marcas lingüísticas que evidenciam o locutor e o
textos simples e são capazes de identificar informa- interlocutor em textos informativos.
ção implícita em texto acompanhado de suporte grá- Entre as habilidades que os 36,37% de alunos
fico em textos narrativos simples, em prosa ou ver- da 8a série do Ensino Fundamental que se situam no
so. Este grupo de alunos distingue, ainda, fato da Nível 4 já consolidaram encontram-se as de locali-
opinião relativa a este fato em textos narrativos sim- zar informações explícitas em textos mais comple-
ples, reconhece os elementos constitutivos da narra- xos, mais longos e não-narrativos, como textos pu-
tiva, estabelece relações de continuidade em históri- blicitários, e identificar o tema central de textos in-
as em quadrinhos e de causa/conseqüência em poe- formativos, localizando, ainda, informação implícita
mas curtos, sendo, também, capaz de identificar mar- em texto descritivo. São capazes de identificar a fi-
cas lingüísticas próprias dos meios rural e urbano. nalidade de textos de diferentes gêneros, o conflito
Ainda que distante de um patamar ideal de gerador do enredo e os elementos que constroem a
letramento, a realidade lingüística destes alunos de- narrativa, estabelecendo, ainda, relações lógico-
monstra que, se lhes forem dadas condições favorá- discursivas marcadas por conjunções.
veis para a prática de leitura, eles poderão, sem dúvida, A realidade lingüística dos alunos da 8a série
ascender aos níveis mais elevados descritos na escala. do Ensino Fundamental mostra as mesmas limita-
Os outros posicionados neste nível desenvol- ções já observadas nos alunos da 4a série. Seria de-
veram habilidades leitoras, mas deveriam adquirir sejável que um maior percentual de alunos se con-
outras competências explicitadas nos níveis seguin- centrasse nos níveis seguintes da escala, especial-
tes, especialmente aquelas descritas nos níveis 3 e 4, mente no Nível 5, em que se localizam 28,40% dos
em que se localizam, respectivamente, 17,33% e alunos, e no Nível 6, em que estão situados apenas
18,85% dos alunos. Nestes níveis, as competências 9,55%. Percebe-se, assim, que a competência para
de leitura estão mais consolidadas, como se pode ob- operar com textos mais complexos, identificando
servar na descrição da escala de desempenho. Há, o tema e os sentidos metafóricos em textos narra-
ainda, um pequeno grupo de alunos situados nos ní- tivos longos, como contos, só é adquirida por es-
veis 5 (4,42%) e 6 (0,42%), que apresentam habili- ses alunos situados no Nível 6 da escala. Um nú-
dades mais complexas de leitura. mero muito alto de alunos está, sem dúvida, con-
Em contrapartida, deve-se atentar para o fato cluindo a 8a série com um nível de letramento abai-
de que um grande contingente de alunos, situados no xo do que seria esperado.
Nível 1 (17,77%) e abaixo do Nível 1 (22,21%), não O maior problema, no entanto, é aquele refe-
apresenta habilidades de leitura compatíveis com o rente ao percentual de alunos que se encontra abai-
nível de letramento apropriado para alunos concluintes xo da média da 8a série. Pode-se notar que abaixo
104 RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA

do Nível 4 encontram-se 24,94% dos alunos. Embo- Em contrapartida, vale ressaltar que abaixo
ra demonstrem dominar algumas habilidades ainda do Nível 5, em que se situa a média da 3ª série do
não construídas pelos alunos da 4a série situados nos Ensino Médio, encontram-se 41,31% dos alunos
Níveis 2 e 3, esses alunos da 8a série necessitam, que não demonstram habilidades de leitura com-
ainda, construir habilidades de leitura mais comple- patíveis com a série cursada. Um grande esforço
xas que dêem melhores condições para a continuidade deve ser feito no sentido de serem revistas as es-
de seus estudos no Ensino Médio. tratégias de leitura empregadas, a fim de que es-
A observação do percentual de alunos brasi- tes alunos operem com textos mais complexos,
leiros situados nos níveis descritos na escala para a construam significados em relações intertextuais
8ª série do Ensino Fundamental leva à conclusão de e ampliem seu universo de leitura.
que apenas cerca de 11% dos alunos brasileiros (si-
tuados nos Níveis 4 e 5) apresentam habilidades de
leitura compatíveis e/ou avançadas para o fim da 7.4 CONCLUSÕES
escolaridade do Ensino Fundamental.
Espera-se que a articulação dos resultados
aqui apresentados, com a observação dos alunos, por
7.3 CONSIDERAÇÕES SOBRE O DESEMPENHO DOS parte dos professores, no cotidiano das salas de aula,
ALUNOS DA 3ª SÉRIE DO ENSINO MÉDIO EM permita uma reflexão sobre o ensino da Língua Por-
LÍNGUA PORTUGUESA tuguesa em nossas escolas. Atentos à lógica demons-
trada pelos alunos, os professores poderão colher
A média brasileira da 3ª série do Ensino Mé- subsídios para modificar a realidade da educação
dio é 262,33 e encontra-se no Nível 5, entre 250 e brasileira.
300, em que estão posicionados 32,11% dos alunos. Encontrar soluções que ultrapassem os resul-
Nesse nível, os alunos demonstram possuir várias tados do Saeb é, pois, uma tarefa que requer o com-
outras habilidades de leitura além daquelas descritas promisso de gestores e professores em todos os ní-
para os níveis e séries anteriores, tais como: locali- veis de ensino.
zar informações explícitas em fragmentos de textos
narrativos simples; inferir, tanto em provérbios como
em notícias de jornal, o sentido de palavras e ex-
pressões de maior complexidade, levando-se em con-
ta o grau de abstração; inferir o sentido de palavras
ou expressões em textos narrativos simples, relatos
jornalísticos, histórias e poemas.
Identificam, também, informação implícita em
texto narrativo simples; o tema de textos narrativos,
informativos e poéticos. Interpretam textos publici-
tários com auxílio gráfico, correlacionando-o com
enunciados verbais; gráficos sobre boletins meteo-
rológicos; e identificam a finalidade de texto infor-
mativo em revista de divulgação científica. São, ain-
da, capazes de estabelecer relação entre tese e ar-
gumento em pequenos textos jornalísticos de baixa
complexidade e de reconhecer o efeito de sentido de-
corrente da exploração de recursos morfossintáticos.
Sem dúvida, os alunos da 3ª série do Ensino
Médio situados no Nível 5 possuem mais consolida-
das as habilidades de leitura, no entanto ainda não se
apresentam como leitores críticos, aptos a participar
das práticas sociais de leitura do mundo letrado. Os
alunos posicionados no Nível 6 (20,43%) já são ca-
pazes de identificar recursos discursivos mais sofis-
ticados utilizados pelo autor; no Nível 7 (3,91%) e no
Nível 8 (1,44%) apresentam habilidades de leitura
mais compatíveis com a série cursada. Seria desejá-
vel desenvolver as habilidades relacionadas nesses
níveis entre todos os alunos da série em questão.
RELATÓRIO SAEB 2001 - LÍNGUA PORTUGUESA 105

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