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LITERATURA

BRASILEIRA IV

LETRAS|149
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LITERATURA BRASILEIRA IV
ELISALVA DE FÁTIMA MADRUGA DANTAS



Carosalunos,

Nessanovaetapadeestudos,vamosmergulhar,atravésdaleituradetextosliteráriosecríticos,nas
águas agitadas de um dos momentos mais ricos e importantes da nossa literatura: a primeira fase do
ModernismoBrasileiro,momentoconhecidocomofaseheroicadessemovimento,porcontadabravurae
daousadiadesuaspropostasnoqueconcerneàrupturaimplementadaporseusmentoresàmaneiracomo
a arte vinha sendo realizada no Brasil, tendo como meta principal, segundo Oswald de Andrade, no
ManifestodaPoesiaPauͲBrasil,“acertarorelógioimpériodaliteraturanacional”1.
Antes, porém, de adentrarmos nas veredas modernistas brasileiras, faremos um breve passeio
pelosprincipaismovimentosdaVanguardaEuropeia,ocorridosnoiníciodoséculo,devidoàressonânciade
suaspropostasemnossomovimentoModernista,marcadastambémporumprofundodesejodeinovação,
pelanecessidadesentidadeadequaraexpressãoartísticaàsmudançasensejadaspelodesenvolvimentoda
tecnologia,daindústriaepelasinquietaçõespolíticasqueeclodemnaEuropadoiníciodoséculoXX.
Para que entendamos também como se deu, dentro da literatura brasileira, a transição da
concepção artística que vigorava no início do nosso século, embasada nos princípios ideoͲestéticos do
realismo, do naturalismo, do parnasianismo e do simbolismo, os quais, por sua vez, se nutriam,
ideologicamente,docientificismodaépoca,sobretudododeterminismoedopositivismoe,esteticamente,
deumexcessivorigorformalquesetraduzianapreocupaçãoparnasianadaartepelaarte,doretoricismoe
do rebuscamento da linguagem, abordaremos, ainda que de passagem, alguns textos literários e críticos
configuradoresdoqueéreconhecido,dentrodenossahistórialiterária,comomomentoPréͲModernista.
Assim sendo, para melhor consecução do que pretendemos trabalhar junto com vocês,
estruturamosnossocursoemtrêsunidades.Sãoelas:

I Unidade: Vanguarda Europeia

Nessa, como já frisamos acima, iremos conhecer as propostas dos principais movimentos da
VanguardaEuropeiaquetiveramrepercussãoentreosidealizadoresdoModernismoBrasileiroequedizem

1
ANDRADE,Oswaldde.ManifestodapoesiapauͲbrasil.In:DoPauͲBrasilàantropofagiaeàsUtopias..RiodeJaneiro:Civilização
Brasileira,2.ed.1978,p.9
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respeito ao Futurismo, Expressionismo, Cubismo, Cubofuturismo, Dadaísmo, Espiritonovismo e
Surrealismo.

II Unidade: Pré-Modernismo Brasileiro

Nesse momento, pelo qual passaremos, como já assinalamos, de forma muito rápida, veremos
algumas manifestações literárias e críticas indiciadoras das fissuras que começam a abalar os alicerces
ideológicoseestéticosquefundamentavamaconstruçãoartística.

III Unidade: A Semana de Arte Moderna e seus desdobramentos

Aqui, entraremos no cerne propriamente dito de nosso curso, ou seja, em seu objetivo principal,
queconsistenoestudodosanos20doModernismoBrasileiro.Começaremosentãoenfocandooevento
que  marca o início desse momento, ocorrido entre os dias 13 e 18 de dezembro de 1922. Em seguida,
passaremos,atravésdaleituradosmanifestosdosdiversosgrupossurgidosapósaSemanaedosprincipais
textos literários e críticos produzidos pelos modernistas, ao estudo da poética explícita e implícita que
assinalaumanovavisãodemundoeumanovavisãodearte.
Para que o aproveitamento seja o melhor possível, desnecessário se faz dizer que precisamos
caminharjuntosnamesmadireção,emcontínuodiálogo.Assimagindo,certamente,iremosampliarnosso
conhecimentoacercadaLiteraturaBrasileira.
Bomproveitoparatodosnós!

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UNIDADE I

VANGUARDA EUROPEIA




Considerações Preliminares


Abalada em suas estruturas socioeconômicas e políticas, em decorrência dos conflitos
desencadeadospela1ªGuerraMundial,quevaide1914a1918,aEuropadosanos20étambémmarcada
porumasériedemudançasimplementadaspelodesenvolvimentodaindústriaedatecnologia.Oiníciodo
século XX é tido como apogeu da época industrial e técnica. VerificaͲse, nesse período, o crescimento
aceleradodaindústriaautomobilística,que,detrêsmilcarrosproduzidosnoanode1900,passaem1913a
mais de cem mil; o surgimento de grandes transatlânticos; o aeroplano, a realização dos primeiros voos
extensos,umsobreocanaldaManchaeoutrosobreosAlpes,realizados,respectivamente,em1909,por
Louis Blériot e, em 1910, por George Chávez; a construção de grandes estradas de ferro, como a
Transsiberiana, que ligava a Rússia Ocidental à costa do Pacífico, finalizada em 1905, a Transafricana e a
Transandina, a qual, ligando Buenos Aires a Valparaíso, era apontada como “uma grande proeza da
engenharia,poisostrilhosseerguematrêsmilmetros,nosAndes,nafronteiraargentina”2;asprimeiras
experiências de transmissão radiofônica, de transmissão de imagens e da radiotelegrafia, entre outras
invenções,que,encurtandodistâncias,agilizandoosmeiosdecomunicações,imprimiramaonovoséculo
umnovoritmomaisveloz,maisdinâmico.
Diante desse cenário de tanta agitação, os artistas e intelectuais europeus da época começam a
sentiranecessidadederompercomospadrõesestéticosemvigor,porconsideráͲlosnãomaisadequados
para expressar esse novo tempo. A necessidade de inovar, de imprimir também às artes um ritmo mais
dinâmicolevaͲosaumarupturamuitasvezesbastanteradicalcomosvaloresestéticoseideológicosque
norteavamaarteatéentão.Surge,assim,emváriospontosdaEuropa,umasériedemovimentosacujo
conjunto se dá o título de Vanguarda Europeia, do qual fizeram parte o Futurismo, o Expressionismo, o
Cubismo, o CuboͲFuturismo, o Dadaísmo, o Espiritonovismo e o Surrealismo, e sobre os quais faremos

2
In:PERLOFF,Marjorie.Omovimentofuturista.SãoPaulo:EditoradaUniversidadedeSãoPaulo,1993,p.11.
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algumasconsideraçõesemfunçãodesuaressonâncianosprojetosideológicoeestéticoquenorteavama
poéticaexplícita(manifestosetextosteóricos)eimplícita(textosliterários)dosnossosmodernistas.



Origem e significado do termo vanguarda



Segundo os dicionários etimológicos, o termo vanguarda provém do francês – avantͲgarde – e é
empregadoparadesignaratropadefrentedeumaunidademilitar.Emfrancês,ostermosavantegarde,
entreoutrossignificados,indicamtambém,respectivamente,“oquevemantesouprimeiro”e“guarda”,
nosentidodecorpomilitar.Possui,portanto,essetermoumsemadeorigembélica,namedidaemque,
dentrodeumcontextomilitar,remeteparaumconflito,paraqueminiciaumaação,umaofensiva.Porisso
mesmo,porextensão,vanguardapassouadesignar,naarte,aquelesmovimentosquetinhamcomometa
combaterasvelhasformaseiniciarumanovaconcepçãoartística.
Comotendênciasinovadorasdaarte,osmovimentosdeVanguardasãoimpulsionadospelodesejo
deruptura,demudança,dechoque,deabertura.Daíanegaçãodosmodelosanterioresedosvaloresque
ossustentam.
Emtermosbemgenéricos,vanguardaremetea“todoequalquerinovadorpregresso–deDantea
Cervantes,deLeonardoaBeethoven,deCruzeSousaaOswalddeAndrade”.3
No entanto, “se todas asépocas conheceram suas “vanguardas”, só uma conheceu a ´Vanguarda
Histórica`,commaiúscula,títuloforjadoparadesignarosáureosanosde1905a1935”.4Eéessaaquenos
interessa.
Imbuídos,pois,desseespíritodeinovação,osartistasdessaépocarompemcomatradicionalideia
deharmonia,debelezaedeverossimilhança.Paracombateroblocosolidificadodasconcepçõesartísticas
vigentes, advindas da herança cultural recebida, partem eles, muitas vezes, para a agressividade, para o
radicalismo.“Acusaçãoprecisa”,“insultobemdefinido”estavamnabasedeseusdiscursosepropostas.
ContrapondoͲse à ideia de perenidade que norteava a concepção clássica da arte, eles, em
consonânciacomseudesejodeabertura,sevoltamparaoexperimentalismo,paraoautogoverno,paraa
autorreflexão.Nãoéporoutrarazãoque,aofalarsobreomodernismobrasileiro,oumelhor,sobreanossa
Vanguarda, Mário de Andrade destaca como um dos grandes ganhos o direito permanente à pesquisa
estética.



3
PATRIOTA,MargaridadeAguiar.Vanguarda,doconceitoaotexto.BeloHorizonte:Itatiaia;Brasília:INL,FundaçãoNacionalPróͲ
Memória,1985,p.18.
4
_____Op.Cit.p.18/19
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Futurismo

Em 20 de fevereiro de 1909, Filippo Tomasso Marinetti publica, no jornal francês Fígaro, o
manifesto do primeiro movimento vanguardista europeu, o movimento Futurista, através do qual, de
maneira bastante violenta e precisa, critica a forma de expressão vigente, presa à tradição clássica.
Segundoele,
A terra se estreita pela velocidade, por novos meios de comunicação, transporte e informação e
exige uma arte verbal completamente nova, que pode expressar a completa renovação da sensibilidade
humanatrazidapelasgrandesdescobertasdaciência.
É esse entusiasmo pela velocidade, pelo dinamismo advindo dos novos inventos, que mobiliza o
projetoideológicoeestéticodofuturismo.
Paraimprimiràarteessemesmoritmovelozedinâmico,Marinetti,emseuManifestoTécnicoda
LiteraturaFuturista,apresentacomopropostasestéticas:aboliçãodoadjetivoedoadvérbio,considerados
poreleamortecedoresdodiscurso;nolugardoadjetivo,propõeousodosubstantivoparaimprimirmaior
vigoràanalogiacriada,ecita,comoexemplos,multidãoͲressaca,homemͲtorpedeiro,etc;preferênciapelo
verbonoinfinitivo,umavezqueomaisimportanteeraofoconaação;quebradasintaxetradicionalpresa
aosmoldesclássicos,inadequadosa“essanovalinguagemdetelefones,fonógrafos,aeroplanos,cinema”;
substituição da pontuação convencional por sinais da matemática e da música, evitando as pausas que
atrapalham a vivacidade do discurso;  palavras em liberdade e imaginação sem fios, ou seja, criação de
imagens, de analogias expressas em palavras livres, soltas, totalmente libertas de qualquer convenção
sintáticaoulógica.
Oentusiasmopelatecnologia,pelamáquinarefleteͲsenomanifestopelaprioridadedadaàmatéria
na poesia em detrimento do eu. Para Marinetti, faziaͲse necessário “substituir a psicologia do homem,
agoraexaurida,pelaobsessãolíricadamatéria.”5
Esse entusiasmo exacerbado leva, por outro lado, a uma rejeição exagerada do passado,
evidenciada pela proposta radical de destruição das bibliotecas, museus e academias, considerados por
Marinetti“cemitériosdeesforçosperdidos”.


Expressionismo

Contemporâneo do Futurismo, o Expressionismo, movimento de origem alemã, em consonância
com o vanguardismo da época, também se encontra norteado pelo mesmo espírito de ruptura e de

5
MARINETTI,F.T.ManifestoTécnicodaLiteratura.In:TELES,GilbertoMendonça.VanguardaEuropeiaeModernismoBrasileiro.
Apresentaçãoecríticadosprincipaismanifestosvanguardistas.12.ed.Petrópolis,RJ:Vozes,1994,p.97
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aberturaparaimplementaçãodenovasformasdeexpressão,vazadasnaquebradasintaxeconvencional,
na eliminação das palavras supérfluas, tendo em vista o enxugamento e a precisão da linguagem, para
melhoratingiraessênciadoquesequerexpressar.Essapreocupaçãocomaessênciaadvém,sobretudo,
doviésespiritualistaquenorteiaoExpressionismo.
Diferentemente do Futurismo, cuja motivação tem por base a admiração pela máquina, pela
tecnologia,oExpressionismonãovêcomomesmoolharotimistaosurgimentodessesavançostécnicos,
sobretudo no que tange à supremacia dada à máquina em detrimento do homem. Daí a necessidade
sentidadeapreenderomovimentointeriordascoisasedosseres.Aosexpressionistas,nãointeressaofato
emsi,masaformacomooartistaopercebe,comoeleovê,pois,paraeles,arealidadeestariadentrode
nós,ecabeͲnosexpressaroquepercebemos,vemosesentimos.Atravésdesuasproduçõesartísticas,nos
damoscontadainquietude,daangústiahumanafrenteaovaziocomoqualsedefronta,anteacoisificação
a que é reduzido o homem dentro daquele universo tecnológico, conforme bem o demonstram estes
versos do poema No terraço do café Josty, do alemão Paul Boldt, que assim diz, segundo tradução feita
peloportuguêsJoãoBarrento:

Praça de Potsdam: eternos gritos
Dos glaciares das lavinas febris
Pelas ruas fora: carros em carris
Os automóveis e os homens-detritos.

ObserveͲseque,emmeioàagitaçãonervosa,frenéticae,aomesmotempo,indiferentedapraça,
assinaladapeloslexemasgritos,glaciaresefebris,quemprimeiroassomaaoespaçopoéticosãooscarros,
osautomóveis,enfim,asmáquinas,comoademarcaraprioridadedestassobreoshomens,que,alémde
viremnomeadosporúltimos,aparecemreferidoscomohomensͲdetritos,ouseja,comorestos,coisassem
valor.
Aocontrário,pois,dosfuturistas,osexpressionistasquerem,antesdetudo,destacarosaspectos
negativosdamodernidadesobreoshomens.Paraisso,recorremàestéticadofeio,dochoque,atravésda
deformação das imagens e da utilização de palavras abjetas. A tensão, o conflito e a subjetividade
presentes em suas realizações levam os críticos a ver neles aproximação com a estética barroca e a
romântica.Nãoesqueçamosqueofeioresultantedasdeformaçõesefetivadasnarepresentaçãotambém
fazpartedaestéticadogrotesco,exploradapelosbarrocosquando“tudooqueeracertosecontorce”.Por
outro lado, semelhantemente ao romantismo, o expressionismo, como já vimos, além de ter a mesma
origemalemã,temcomoveículodesuasideiasarevistaDerSturm(ATempestade),oquelembraoespírito
préͲromânticodaSturmundDrang(ouseja,TempestadeeÍmpeto).


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Cubismo

Otermocubismosurgiuapartirdoquadro“Casasenl´Estaque”,deGeorgesBraque,expostono
SalãodeOutonode1908,qualificadopelopintorMatisse,quefaziapartedojúri,como“caprichoscúbicos”
pela semelhança de suas formas com elementos geométricos desmembrados em facetas que se
superpõemeintervêmumasnasoutras.BraqueePabloPicassosãoconsideradososcriadoresdoCubismo
na pintura. Na literatura, Apollinaire é um dos responsáveis por sua introdução, cujo texto de 1913,
intitulado Meditações estéticas. A pintura cubista, segundo Gilberto Teles, “pode ser tomado como um
dessesmanifestos”6.
Como já foi mencionado, a estética cubista privilegia o geometrismo, mas dele também fazem
parteadescontinuidade,adecomposiçãoerecomposição,asimultaneidade.Naspalavrasdocríticodearte
JeanCassou,trazidasporGuillermodeTorre,“ocubismoéumestiloderupturaintelectual,eassuaobras
assumemoaspectodeumacombinaçãodeformasdescontínuas.Éporissoqueseaproximamdapoesia
moderna, que foge ao discurso, à regularidade métrica, à pontuação e que se manifesta sob a forma de
fragmentosouinstantâneos”7.
É, também de 1913, o texto A antitradição futurista, de Apollinaire, cujo título por si só já deixa
entreverarelaçãodocubismocomasideiasfuturistasderupturatotalcomopassado.Paraalémdisso,o
texto se encontra em profunda consonância com as propostas cubistas, sobretudo no que tange à sua
estruturação pelo fragmentarismo, pela simultaneidade das ideias apresentadas, quebrando assim com
qualquersequêncialógica.Logonoiníciodomanifesto,temͲseumafraseconstituída,emsuamaiorparte,
por palavras sem sentido, cujas primeiras letras terminam formando a palavra “passadismo”, através da
qualnoséapresentadaarejeiçãoaopassado.Eisafrase:

ABAIXO OPominir Aliminé SSkprsusu otalo ADIScramir MOnigme.

Depois disso, o texto segue estruturado de forma justaposta, com palavras grifadas das mais
diversas maneiras, em termos de tipos ou tamanhos gráficos, dispostas na horizontal e na vertical,
homologando através da forma de expressão o que apresenta em termos de destruição e construção.
RegistreͲse que, no bloco no qual se encontram alocadas as propostas de destruição das formas
consideradaspassadistasdeexpressão,entreosváriospontoselencados,temosasupressãodaharmonia

6
TELES,G.OCubismo.In:Op.Cit.,p.109
7
TORRES,Guillermo.Cubismo.In:_____HistóriadasLiteraturasdeVanguarda,Lisboa:Presença;Santos,SP:MartinsFontes,1972,
p.100
TORRE,G.Op.Cit.,p.100
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tipográfica,dassintaxesjácondenadaspelousoemtodasaslínguasedapontuação.Aspectosquejánão
fazemmesmopartedomanifesto.
Por sua vez, no bloco em que se encontram as propostas de construção de uma nova forma de
expressão artística, encontramos no item 1, referente a Técnicas ou ritmos renovados sem cessar,
encabeçandoalista,apropostadeLiteraturapurapalavrasemliberdadeInvençãodepalavras,seguidadas
ideias, entre outras, de Plástica pura (5 sentidos), Simultaneidade em oposição ao Particularismo e à
divisão, os quais são perceptíveis na organização textual do manifesto; já no item 2, relacionado com
intuição, velocidade e ubiquidade, podemos destacar também como elementos corroboradores dessa
relação, entre o que se diz e o que se faz, proposições como Analogias e trocadilhos trampolins líricos e
única ciência das línguas calicó Calicut Calcutá cachacia Sofia o Sofos suficiente oficiar oficial ó fios
Aficionado DonaͲSol Donatello Doador dei erradamente topedeiro, por meio da qual a propositura
apresentadaéaomesmotemporealizadae,ainda,aparódiamusical,resultantedeumaanalogiasonora,
dafrasemelódicaconstituídadeMER........DE......quesignificaMar.....de....comotermoMERDE,queem
francêséMerda,portanto,excrementos.E,nasequência,éissoqueéoferecidoatodososguardiãesda
tradição,aexemplodepegadogos,professores,museus,etc.,emcontraposiçãoàrosaqueéofertadaaos
responsáveis pela renovação artística, começando por Marinetti, Picasso e o próprio Apollinaire, entre
tantosoutros.Exaltaçãocomaqualseencerraotexto.


Cubo-Futurismo

OCuboͲFuturismotemsuaorigemnaRússia,maisprecisamente,emMoscou,apartirde1913.Esse
movimentovanguardista,comosedepreendedoprópriotítulo,temcomosubsídiosestéticoseideológicos
muitodoquefoipropostopeloFuturismodeMarinettiepeloCubismodePicassoeBraque,sobretudo,no
que tange ao empenho em imprimir à arte uma maior dinamização, o que, em termos de concretização
artística, leva também à adoção das técnicas futuristas e cubistas de libertação total da palavra,
fragmentação,decomposição,recomposição,simultaneidade.

Como o cubismo, o cuboͲfuturismo começou com a pintura. Entre os pintores cuboͲfuturistas,
KazimirMalevichéapontadocomoresponsávelpelodesenvolvimentodesseestiloentreosrussos,tendo
sidooprimeiroaempregarotermoCuboparafalardesuaspinturas.

Diferente,porém,dosfuturistas,osartistasrussosinvestiammaisnapráxisdoquenateoriaenão
compartilhavam da apologia futurista da máquina e da guerra. AutoͲintitulandoͲse de “comunistasͲ
futurista, se encontravam ideologicamente vinculados aos movimentos revolucionários que culminaram

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com a Revolução de Outubro, de 1917, ocorrida na Rússia. Para eles, a palavra era vista também como
instrumentodetransformaçãosocial.

Em seu único manifesto coletivo, assinado pelos poetas David Burliuk, Krutchônikh, Vladimir
Maiakovski e Khlebnikov, de 1912, os cuboͲfuturistas se colocavam como arautos do novo tempo e se
insurgiamcontraopassado,criticandoduramente,sobretudo,ospoetassimbolistas,cujasobrasvazadas
emuma“perfumadasensibilidade”nãotraduziamavirilidadedoseutempo.

“A todos esses Kuprin, Block, Sologúb, Remizov, Avertchenko, Cherny, Kusmin, Bunin, et., etc.,* só está
faltando uma casa uma casa à beira de um rio. Tal recompensa o destino reserva também para os alfaiates.

Do alto dos arranha-céus discernimos sua nulidade!”8

Realizadodeformamuitosintética,opoemaBalalaica,abaixotranscrito,deautoriadeMaiakovski,
traduz bem o viés estético do cuboͲfuturismo no que diz respeito à assimilação dos procedimentos
futuristasecubistaseovínculodapoesiacomosanseiosrevolucionáriosdaépoca.

Vejamosopoema:

BALALAICA

Vladimir Maiakóvski

Balalaica

[como um balido abala


a balada do baile
de gala]
[com um balido abala]
abala [ com balido]
[ a gala do baile]
louca a bala
laica
(1913)


*
SãotodosnomesdepoetassimbolistasrussosacusadospeloscuboͲfuturistasdemisticismo,abstraçãoeartificialismoda
linguagem..
8
BURLIUK,D.etalii.Bofetadanogostopúblico.In:TELLES,G.Op.Cit.p.121
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Para início de conversa sobre este poema, registreͲse que o termo Balalaica designa  um
instrumento musical de cordas, parecido com um bandolim ou com um cavaquinho, usado na música
popularrussa.
Paraalémdeintitularopoema,otermoBalalaicapodetambémservistocomomatrizgeradorado
mesmo.Atravésdeumprocessodedecomposição,comumaoscubistas,otermosedesmembraemvários
outros,jogando,sobretudo,comaspalavrasbalaelaicaecomosfonemasnelaspresentes,comosquais
cria o poeta outros termos, valendoͲse  para isso das analogias e trocadilhos trampolins, proposto por
ApollinaireemAantitradiçãofuturista,comosepodeperceberembala,baile,gala,abala,balido,balada,
laica,louca.
Emtermosdeconteúdo,opoemanosfaladeumbailedegala,ouseja,umbailedanobreza,uma
vez que gala, segundo Aurélio, remete para trajes solenes, ornamentação ou enfeites ricos e preciosos, o
qualfoiabaladoporumabalalaica,ouseja,umabalaqueveiodefora,umabalaestranhaàquelemeio.Em
termos sonoros, os últimos vocábulos do poema bala/laica recompõem o termo balalaica. E, se
consideramosqueeste,enquantoinstrumento,seligaaopovo,podemosinferirqueveiodopovo,oqual
não teria vez em um baile de gala, a bala que detona esse baile. É o povo, portanto, que, de forma
irreverente,barulhenta(comoumbalido/comumbalido,termoquetantopodeserlidocomobarulhoe
comoprojetil),abalaanobreza.Istotudo,porém,nosépassadoatravésdosrecursosfuturistasecubistas
adotadospelopoeta:fragmentarismo,decomposição,recomposição,liberdadedeexpressão,criatividade,
concisãoesimultaneidade.

Comoobservaçãofinalemtornodessemovimento,valeapenaregistrarque,apesardesuacurta
duração,oCuboͲFuturismofoidegrandevaliaparaaarterussa.

Dadaísmo

Considerado o mais radical de todos os movimentos que constituíram a Vanguarda Europeia, o
Dadaísmo nasce em Zurique, na Suíça, tendo como mentores cinco artistas que lá se encontravam
refugiados por conta da guerra, contra a qual se insurgiam, pela sensação de que todo um sistema de
civilizaçãosedesmontavabruscamente,equenada,nemFilosofia,nemReligião,nemCiência,nadapôde
impedir a catástrofe da guerra. São eles: os alemães HUGO BALL e RICHARD HUELSEMBECK; o alsaciano
HANS HARP E OS ROMENOS, Marcel Jango e Tristan Tzara. Posteriormente, a eles se juntaram o francês
FRANCISPICCABIAeochilenoVICENTEHUIDOBRO.

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Em decorrênciadoespíritoderevolta,defrustraçãoque norteavaogrupo,aspropostasdadaístas
sãomarcadaspeloceticismo,pelonihilismo.Paraeles,DADA,palavracomaqualbatizaramomovimento,
escolhidaporacasoemumdicionário,nãosignificavaNADA.Oobjetivoera,segundoTristanTzara,“criar
umapalavraexpressivaque,mediantesuamagia,fechassetodasasportasàcompreensãoenãofosseum
–ismoamais”9DaíavalorizaçãodononͲsense,doabsurdo,dacontradição,doanarquismo,dadestruição
que se depreende das ideias apresentadas em seus manifestos, sobretudo, no Manifesto Dada 1918. Eis
algumasdelas:

x Eu redijo um manifesto e não quero nada, eu digo portanto certas coisas e sou por princípio contra os
manifestos, como sou também contra os princípios...

x Assim nasceu DADÁ de um desejo de independência, de desconfiança na comunidade./.../ Nós não


reconhecemos nenhuma teoria.

x Nós rasgamos, vento furioso, o linho das nuvens e das preces, e preparamos o grande espetáculo do
desastre, do incêndio, da decomposição.

x Eu destruo as gavetas do cérebro e as da organização social: desmoralizar por todo lado e lançar a
mão do céu ao inferno, os olhos do inferno ao céu, restabelecer a roda fecunda de um circo universal
nos poderes reais e na fantasia de cada indivíduo.

EmtermosideoͲestéticos,assinaleͲseaindaqueoDadaísmoemsuacríticaexacerbadanãopoupa
nemosprópriosmovimentosvanguardistasprecedentes,emborasejapelacríticavistocomo“umvértice
deconfluênciasvanguardistas”10;aludicidade,ohumorestãonabasedassuasrealizaçõesassimcomoa
técnica do ready made, estratégia que, em termos gerais, consiste em criar em cima de material já
existente, sendo, portanto, de grande valia, a arte dadaísta, empenhada na desconstrução, na
dessacralizaçãodaarte,emconsonância,pois,comsuapropostadeantiarte,antiliteratura.Nessesentido,
sãoexemplaresascriaçõesdodadaístaMarcelDuchamp,realizadascomobjetoscomobaciasanitária,roda
debicicleta,osquaissãoporele,irreverentemente,transmudadosemobjetosartísticos.

Entretanto,pormaisparadoxalquepareçatodaessanegaçãodadaísta,elaterminaserevertendo
empositivoparaaarte.Razãopelaqual,paraoescritorefilósofoAndréGide,“Dadaéodilúvioapóso
qualtudorecomeça”11

ParafraseandoFernandoPessoa,acreditamospoderdizerqueDADÁfoionadaqueétudo.

9
ApudTELLES,G.Op.Cit.p.124/125
10
TORRES,G.Op.Cit..p.254.
11
TORRES,G.Dadaísmo.In:_____Op.Cit.p.237.
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Espiritonovismo

Conformesugereopróprionome,bemdiferentedaposturaiconoclasta,destruidoradoDadaísmo,
esse movimento, de origem francesa, surge em 1918, portanto, no final da I Guerra Mundial, motivado
realmente por um espírito novo de reconstrução.  Assim sendo, procedem a uma verdadeira revirada
ideológica na medida em que retomam a ordem, o bom senso, o sentido do dever, a clareza, a
sistematizaçãoeoequilíbrio.
Aocontráriodeseuspredecessores,reconhece,demodobastanteconciliatório,aimportânciada
tradição clássica; ao mesmo tempo, exalta as mudanças implementadas nas artes pelos movimentos
anteriores, referentes às rupturas estéticas, à liberdade de expressão, à valorização dos artifícios
tipográficosresponsáveispelonascimentodeumlirismovisualeàconcisãopoética.Vejamos,emtermos
ilustrativos,umtrechodaconferênciaOEspíritoNovoeosPoetas,deApollinaire:

As pesquisas relacionadas com a forma tomaram desde então uma grande
importância. Importância legítima.
Como poderia esta pesquisa não interessar ao poeta, ela que podia
determinar novas descobertas no pensamento e no lirismo?
A assonância, a aliteração, tanto quanto a rima, são convenções que têm,
isoladamente, os seus méritos. Os artifícios tipográficos levados muito longe, com
uma grande audácia, tiveram a vantagem de fazer nascer um lirismo visual que
era quase desconhecido antes de nossa época. Estes artifícios podem ir muito
longe ainda e consumar a síntese das artes, da música, da pintura, da literatura.
Tudo isso não é mais que uma pesquisa para chegar a novas expressões
perfeitamente legítimas.
Quem ousaria dizer que os exercícios de retórica, as variações sobre o tema
de: Eu morro de sede ao pé da fonte não tiveram uma influência determinante
sobre o gênio de Villon? Quem ousaria dizer que as pesquisas de forma dos
retóricos e da escola marótica não serviram para apurar o gosto francês até sua
perfeita florescência no século XVII?

Ressaltamaindaosespiritonovistasaimportânciaparaaartedoriso,que“forneceaopoetaum
lirismo novo”; do ridículo, por ser inerente à própria vida; da surpresa, “grande mecanismo do mundo
moderno”,queadvémdainvenção,daimprevisibilidade,doestranhamentoprovocado.Segundoeles,“só
devemos chamar de poeta àquele que inventa, àquele que cria. E, ainda, a importância da alegria,

LETRAS|162
consideradaumvalorcaracterísticodapoesiaedocotidiano,dascoisasprosaicascomomatériadepoesia,
pois“umlençoquecaipodeserparaopoetaaalavancacomaqualelelevantarátodoumuniverso”.
Alémdessesaspectos,oEspiritonovismovêcomoimprescindíveloviésnacionalistanasproduções
artísticas.Paraeles,

A arte só deixará de ser nacional no dia em que o universo inteiro, vivendo sob
um mesmo clima, em casas edificadas sobre o mesmo modelo, falar a mesma
língua, com o mesmo sotaque, ou seja, nunca.

Nessa perspectiva, exaltam por demais a França, conforme se pode ver em afirmações como
estasabaixotranscritas:

O espírito novo que dominará o mundo inteiro não se evidenciou na poesia
de nenhum país como na França.
Segundo o que podemos saber, não há quase poetas hoje que não sejam de
língua francesa.
Todas as outras línguas parecem fazer silêncio para que o universo possa
escutar melhor a voz dos novos poetas franceses.
Os franceses levam a poesia a todos os povos.12

EmboraaVanguardaBrasileiradialoguecomquasetodosessesmovimentoseuropeus,écomo
Espiritonovismoqueseusintegrantesmaisseidentificam,sobretudo,noqueconcerneàvalorizaçãoda
tradição,dopassado.Masissoveremosdepois.



Surrealismo

Insatisfeitocomoviésanárquicodosdadaístas,AndréBreton,que,atéentão,sevinculavaao
movimento, terminou rompendo com o Dadaísmo e criando o  Surrealismo, cujo manifesto data de
1924.Daíporquevamosencontrarnahistóriadomovimentoafirmaçõesdequeele“nasceude uma
costeladeDada”oudeque“nasceudascinzasdeDada”13.
Umdospontosprincipaisdorompimentodizrespeitoaoceticismo,aoniilismoquenorteavam
aspropostasdadaístas.BretonconcordavacomopensamentodeRimbaudde,atravésdaarte,mudara
vida.E,comoMarx,eletambémqueriacontribuirparaatransformaçãodomundo.Aoniilismodadaísta,

12
TodasessaspassagenscitadasforamextraídasdeAPOLLINAIRE,G.OEspíritoNovoeosPoetas.In:TELES,G.Op.Cit.p.155/166.
13
Aprimeiradasafirmações,segundoGuillermodeTorreéatribuídaaRibemontͲDessaignes,umdadaístaquedepoissetorna
tambémsurrealistaeasegundaaTristanTzaraqueeraolíderdoDadaísmo.Cf.TORRE,G.In:Op.Cit.vol.3,p.9
LETRAS|163
opunhamossurrealistasoconhecimentototaldohomem,paraoquetantoapoesiacomoapinturanão
passavam de meios de investigação que lhes permitiam como “cientistas” explorar o inconsciente, o
sonho, o maravilhoso. Para facilitar seu trabalho, Breton, tomando por base as teorias freudianas,
chegou inclusive a criar um laboratório destinado a investigações oníricas – o Bureau des Recherches
Surrealistes(Birôdepesquisassurrealistas).
Diferentementedavisãoescatológica,apocalípticadosdadaístas,ossurrealistas,acreditandona
vida,napossibilidadedemudança,exaltavamoAMOReoEROTISMO.
A dissidência, entretanto, não lhes impediu manterem alguns traços dadaístas, a exemplo do
amoraoprotesto,davalorizaçãodoimprovisoedaespontaneidadedalinguagem.
Protestoquantoàrepressãoaqueerasubmetidoohomem,minandoasuaverdadeiraessência,
impedindosuaascensãocomosujeitodesimesmo,dasuahistória.Daíavalorizaçãodainfância,fase
também privilegiada pela psicanálise de Freud, por remeter para um período de liberdade, em que,
segundoossurrealistas,seencontraausente“todorigorconhecido”;
Avalorizaçãodoimprovisoedaespontaneidadedalinguagemeradefendidapelossurrealistas
poracreditaremser,atravésdoimprovisoedaespontaneidade,queoinconscienteafloraria.Poressa
razão,Bretondefinesurrealismocomo“automatismopsíquicopeloqualalguémsepropõeaexprimir
seja verbalmente, seja por escrito, seja de qualquer outra maneira, o funcionamento real do
pensamento. Ditado do pensamento, na ausência de todo controle exercido pela razão, fora de
qualquerpreocupaçãoestéticaoumoral.”14
À semelhança dos futuristas, para quem as imagens mais poderosas são aquelas que ligam
realidades distantes, aparentemente diversas e hostis, os surrealistas também definem como imagem
forteaquelaqueapresentaomaiorgraudearbitrariedade,ouseja,aquelaquelevamaistempopara
sercompreendida.
Outro ponto do ideário surrealista que o aproxima dos futuristasdiz respeito à valorização da
imaginação,pelaliberdadequeelapropicia.ParaBreton,aimaginaçãodácontadoquepodeser.Eisso
é o suficiente para suspender um pouco a terrível interdição a que está sujeito o homem. Por
extrapolaremoníveldoreal,sãotambémvalorizadosomaravilhosoealoucura:oprimeiro,porincidir
nosobrenatural,eosegundopelocomprazimentonodelírio.Enfim,peloqueapresentamdeilógico,de
quebracomoracional,comointerdito.
Comoocubismo,osurrealismoseapresentadeformavigorosanapintura,tendocomofiguras
expressivasSalvadorDalieMiró,entreoutros.

14
ApudTELES,G.Op.Cit.,p.191
LETRAS|164
psíquico,SalvvadorDali15 adotao“méétodoparano
Na linhadoauttomatismop oicoͲcrítico”,,ouseja,
o espontâneeo de conheecimento irraacional, base
um método eado na asssociação inteerpretativoͲccrítica de
fenômenosdelirantes.166
Junttamente com Luis Buñuel, cineasta, Salvador Dali envereedou pela aarte cinemattográfica,
levando atéé ela o surrrealismo. Deessa atividad
de conjunta,, resultaram
m dois filmess que são íccones do
surrealismo
o no cinema: O cão anda
aluz(1928) e
e A idade dee Ouro(1930)). Para conseecução das películas,
p
adotarameelesomesmoprincípiod
daescritura automática e,emcomu
um,concordaaramemnãoaceitar
nenhuma id
deia, nenhum
ma imagem que pudesssem dar lugaar a uma exxplicação raccional, psicollógica ou
cultural.
Emb
boratambém Mirósedistiinguedade Salvador
mvinculado aosurrealissmo,apinturadeJoanM
Dali por seu
uabstracion
nismo. Seus personagenss: seres hum
manos, animaais, elementtos da paisaggem, etc.
foram se reeduzindo a formas
f mínimas e a sign
nos permeados de umaa vitalidade ee uma impu
ulsividade
própriasdeeumdesenh
hoinfantil,o quelhecon
nfereumaap nsíveleingênuaque,entretanto,
parênciasen
umaprofundaintrospecççãoedesuacapacidadevvisionáriadeeindagarosubjetivo.17
advémdeu


SUGESTÃODELEITTURA:
Leiaossmanifestossdosmovim
mentosmen
ncionadosn
nessaUnidaade.
Procurenainterneet.

15
RegistreͲsequeapinturad
deSalvadorDalinãoseprendeeapenasaosurrrealismo.Suaoobraapresentaaquadrosfeitossàluzdo
impressionism mo,docubismo,,dofauvismo.
16
NÉRET,Gillees.SalvadorDali1904Ͳ1989.G
German:BenediktTaschen,1994,p.66
17
Cf.BERNÁRDEZ,Carmen.H nguardias.Barccelona,Espanhaa:Palneta,1994
HistoriaDelArtee.PrimerasVan 4,p.114.
LLETRAS|16
65
UNIDADE II

PRÉ-MODERNISMO BRASILEIRO

Para além do sentido cronológico indicador do que ocorre antes do Modernismo propriamente
dito, o vocábulo préͲmodernismo, criado pelo crítico Tristão de Ataíde, em termos ideoͲestéticos, foi
utilizadoparadesignaraquelasobrasquenoiníciodoséculoXXapresentavamsinaisderupturacomoque
norteava o fazer literário brasileiro da época. AntecipavamͲse, então, como afirma Alfredo Bosi,18 alguns
aspectos formais e temáticos que serão propostos e implementados pelos modernistas. São obras,
portanto,que,emboraaindavinculadasàscorrentesestéticasdofinaldoséculo–Realismo,Naturalismo,
ParnasianismoeSimbolismoͲ,sobreasquaispairavamocientificismoeorigorformal,problematizamde
maneira mais contundente a realidade brasileira, questionandoͲa sob o ponto de vista social, político e
cultural.Aoprocederemassim,conformebemoassinalaAlfredoBosi,emOPréͲModernismo,osescritores
estãorompendocomaculturaoficial,alienadaeverbalista.
Contrariandoospadrõesestéticosvigentes,percebeͲsequealgumasdessasobras,aexemplodas
deLimaBarreto,abandonamoviésretoricistapredominantena épocaemfavordeumalinguagemmais
simples, mais próxima do falar cotidiano, por se achar que assim se torna inteligível a todos. Aliás, Lima
Barreto vai ser um dos escritores mais críticos do que ele chama de grecoͲmania da época, conforme o
reitera a afirmação que se segue, extraída do texto Amplius!: “Implico solenemente com a Grécia, ou
melhor, implico solenemente com os nossos cloróticos gregos da Barra da Corda e pançudos helenos da
praiadoFlamengo.”19Emsuaobra,vamosencontrarseverascríticasaopreconceitoracial,aoeruditismo
da época, aos pseudosͲintelectuais da época, ao academicismo vigente, entre outros pontos que mais
adiantetambémserãocombatidospelosmodernistas.Valeapenaconferiralgunsdeseustextoseobras,
comoosromancesRecordações doescrivãoIsaíasCaminha,TristeFimdePolicarpoQuaresma,Clarados
Anjosoumesmooscontos,sobretudoosreunidosemBruzundangasouHistóriaseSonhos,e,ainda,seus
textoscríticosqueseencontramemImpressõesdeLeitura.
Outro autor considerado préͲmodernista por alguns críticos, entre eles, Alfredo Bosi, na obra já
referida,bemcomoemHistóriaConcisadaLiteraturaBrasileira,éAugustodosAnjos,emdecorrênciade
umasériedeprocedimentosporeleadotadosquevãodeencontroaospredominantesnaépoca.CitemͲse
entre eles a adoção de uma sonoridade áspera (A criptógama cápsula se esbroa/ ao contacto de bronca

18
Cf.BOSI,Alfredo.OpréͲModernismo.5.ed.SãoPaulo:Cultrix,s/d.
19
BARRETO,Lima.Amplius!In:HistóriaseSonhos.Contos.SãoPaulo:Brasiliense,1956.
LETRAS|166
destra e forte)20; do rompimento com a estética do belo, através da utilização de palavras abjetas como
pus, vermes, larvas, podridão e tantas outras; mistura de formas coloquiais e eruditas, introdução de
elementosapoéticos,defrasesnominaisparecendomaisflashscoordenados,contrariando,dessemodo,o
rigor formal que imperava no fazer literário daquele momento, como podemos ver nos versos de vários
poemas,aexemplodopoemaOMorcego21:

Meia noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

“Vou mandar levantar outra parede...”


- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
- E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
- Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego


A tocá-lo. Minh’alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!


Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

Vale acrescentar ainda a aproximação da poética de Augusto dos Anjos com a estética
expressionistapeloquetrazdeumavisãoapocalíptica,negativa,angustiantedavida.
Outros nomes vistos pelos críticos, entre eles, Alfredo Bosi, na obra já mencionada, como préͲ
modernistas são Monteiro Lobato (Urupês), Graça Aranha (Canaã), Euclides da Cunha (Os Sertões) por
desenvolverem temas ligados à realidade brasileira cotidiana, questionando o descaso do governo, o
anacronismo da sociedade brasileira, e, ainda, os regionalistas Valdomiro Silveira e Simões Lopes Neto,
cujas obras, respectivamente, Os caboclos e Lendas Gaúchas, focalizam os costumes interioranos, sem
descaracterizáͲlos, contribuindo, assim, para o conhecimento do Brasil como um todo, conforme mais
adiante será uma preocupação fundamental da Antropofagia e que Mário de Andrade com maestria irá
consolidaremMacunaíma.Oheróisemcaráter.
Os sinais de ruptura aos quais nos referimos quando iniciamos essas considerações sobre o préͲ
modernismo não se restringem apenas a obras literárias. Em outros campos das artes, eles também

20
VersosdopoemaBudismoModerno.Cf.ANJOS,Augusto.EU,31ªed.RiodeJaneiro:LivrariaSãoJosé,1971,p.84.
21
In:ANJOS,Augusto,Op.Cit.,p.59
LETRAS|167
começamaasemanifesttar,reveland
doascontraadiçõesdom
momentomaarcadopelo apegoàtrad
diçãoepelaa
adesãoàmodernidade.
Umdosfatosm
marcantesdeesseperíodo
ofoiaexposiçãorealizad
daporAnita Malfatti,em
m1917,cujaa
pintura,queebrandototaalmenteofiggurativismo quenorteavvaaartepicttórica,mostrraumanovaamaneiradee
expressãoaartística,filiadaàsnovasformasvangguardistas.
A atitude
a inovaadora de Malfatti provo
ocou reações bem antaggônicas: críticas ferrenhas e críticass
elogiosas.EEntreasprim
meiras,registtreͲseadeM obato,que,aaosecolocaremdefesadatradição
MonteiroLo o
clássica na pintura, claassifica a arrte modernaa como “anormal” ou “teratológica
“ a”, que “nasceu com a
a
paranoiaeccomamistifficação”,ecu
ujosdefenso
oresveem“anormalmentteanaturezaa,einterprettamͲnaàluzz
de teorias efêmeras,
e ob a sugestãão estrábica de escolas rebeldes, su
so urgidas cá ee lá como fu
urúnculos daa
culturaexceessiva.”22
De outro lado, temͲse o teexto de Oswaald de Andrade, intitulado a exposiçção Anita Malfatti,
M cujo
o
teoréaltam
menteelogio ueapinturadeAnitaap
oso,exatameente,peloqu presentadem
modernidade,ousadiaee
originalidad
de.
Emb
boraacríticaadeLobatotenhaprovo
ocadogrande
eimpactoem
mAnita,trau
umatizandoͲaademodoaa
“perturbar aevoluçãod
daartista,ab
balarͲlheaconfiançaem
msiprópria, pôͲlaemcho
oquemaisaindacomoss
queéprincip
seus–eoq omesma”,ccomoregistraaMáriodaSSilvaBrito23,,podeͲsedizzerquetevee
pal–consigo
como efeito
o positivo agregar os in
ntelectuais da
d época mo
ovidos pelo espírito com
mum de ren
novar a artee
brasileira. Segundo
S  Mário de And
drade, foi grraças a Anitaa Malfatti que se deu ““ a primeira consciênciaa
coletiva,ap
primeiranecessidadedearregimentaação...“Foie
ela,foramo
osseusquadros,quenossderamumaa
elamodernizzaçãodasarttesbrasileiraas.”24
primeiraconsciênciadeerevoltaedeecoletividadeemlutape
Umdosfrutosd
dessaarregim
mentaçãofoiarealização
odaSemanaadeArteMo
oderna,quevveremosem
m
seguida.


Agoraaé
com
m
vocêê Proccurelerumco
ontoouumadasobrasdeeLimaBarreto.
LeiamaispoemassdeAugusto
odosAnjos.

22
LOBATO,Mo onteiro.Aprop APUD.BATISTA
pósitodaexpossiçãoMalfatti.A A,MartaRossettietalii.Brasil:1ºTempoMod dernista–
1917/29docum mentação.SãoPaulo–Institu utodeEstudosB
Brasileiros,197
72,p.45/48.
23
BRITO,MáriiodaSilva.Histtóriadomodern nismobrasileiro
o.AntecedentessdaSemanadeeArteModerna a.5.ed.RiodeJJaneiro:
CivilizaçãoBraasileira,1978,p
p.59.
24
Apud.BRITOO,MáriodaSilvva.Op.Cit.,p.7
71.
LETRAS|16
68
UNIDADE III

A SEMANA DE ARTE MODERNA E SEUS DESDOBRAMENTOS





A Semana de Arte Moderna

Fruto, como dissemos, desse grupo de intelectuais que sentem a necessidade de imprimir à arte
brasileiraumafeiçãomaisautênticaemaismoderna,aSemanadeArteModernaaconteceentreosdias13
e18defevereirode1922,noTeatroMunicipaldeSãoPaulo,espaçodaelitepaulistana.Suaprogramação
inclui conferências, palestras, recitais poéticos e musicais, danças, exposições de pintura, escultura e
arquitetura.Asexposiçõespermaneceramdurantetodaasemanaabertaaopúblico.
Asconferências,palestraseosrecitaispoéticosemusicaisaconteceramduranteostrêsprimeiros
dias–13,14e15defevereiroͲcomopartedochamadoFestivaldaSemanadeArteModerna.CitemͲse
entreasapresentaçõesasconferênciasepalestraproferidassobreAEmoçãoEstéticanaArteModerna,de
GraçaAranha;ApinturaeaesculturamodernanoBrasil,deRonalddeCarvalho;ArteModerna,deGraça
Aranha.
Entreosváriospoetasemúsicosparticipantesdofestival,seencontravamMáriodeAndrade,que
recitou Ode ao Burguês; Ronald de Carvalho, que declamou o poema Os Sapos, de Manuel Bandeira; e
Guilherme de Almeida, que recitou Nós, poema de sua autoria; o maestro e compositor Villa Lobos, que
tevesuaobramusicalinterpretadaporváriosmúsicos,sendoinclusivehomenageadonaterceiranoitedo
festival,quefoitodadedicadaaapresentaçõesdemúsicasdesualavra;e,ainda,entreoutrosmúsicos,a
pianistaGuiomarNovais,queexecutouváriasmúsicasmodernas.Merecetambémregistroaapresentação
naprimeiranoitedoespetáculoOtteto,constituídodetrêsdançasafricanas,domaestroVillaͲLobos;e,na
segunda noite, da dançarina Yvonne Daumerie, que interpretou trecho de Debussy, compositor
responsávelpelaintroduçãodenovaseestranhassonoridades,portanto,tambémmovidopeloespíritode
rupturaquepresidiaosrealizadoresdaSemanadeArteModerna.
Dasexposiçõesdepintura,esculturaearquitetura,participaramosmaisrepresentativosartistasda
época, empenhados na renovação da arte, como Victorio Brecheret, na escultura, Anita Malfatti, Di
CavalcantieVicentedoRegoMonteiro,napinturaeAntonioMoya,naarquitetura.
Para termos uma ideia mais concreta do espírito inovador, questionador, iconoclasta dos
idealizadoresdaSemana,vejamosalgunscomentáriosfeitospordeles:
LETRAS|169
x Para o pintor Di Cavalcanti, a Semana iria ser “de escândalos literários e artísticos, de meter os
estribos na barriga da burguesiazinha paulistana”25
x Rubens Borba de Morais, sobre a semana, assim se pronuncia: “Nós, como o caboclo, ‘tacamos fogo
na mataria’, porque não se planta sem derrubar. As chamas sobem altíssimas, fogem assoviando,
serpentes fascinadoras. Só ficam os jequitibás, jacarandás, guajuçaras, cabreúvas, timburis. E à
sombra das árvores enorme a plantação cresce. Felizes os que vierem depois de nós para colher o que
plantamos.”26
x Segundo Oswald de Andrade, “qualquer apreciação das letras brasileiras deve ser hoje precedida do
exame de revolta manifesta de 1922. Essa famosa Semana foi uma parada de conjunto, feita para
protestar contra a decadência da literatura e da arte no Brasil em fevereiro daquele ano, no Teatro
Municipal de São Paulo, com a presença de importante delegação do Rio de Janeiro.”27
x Comentando sobre os participantes da Semana, Mário de Andrade assim diz: “São moços de
tendências múltiplas, às vezes contrárias, moços apenas iguais pela liberdade com que usam das
possibilidades técnicas da música. Reuniram-se apenas porque união é força, e nestes tempos de
sindicalismo, o ente solitário dispersa-se e empobrece. Assim somos os rapazes da Semana de Arte
Moderna.”28

Naverdade,naquelemomento,oqueimportavaeraoobjetivocomumderenovaraartebrasileira
libertandoͲadopassadismoqueaindaaaprisionava.



A poética de Bandeira: o São João do Modernismo brasileiro.

OS SAPOS
Enfunando os papos,
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.

Em ronco que aterra,


Berra o sapo-boi:
- “Meu pai foi à guerra!”
- “Não foi!” – “foi!” – “Não foi!”.

25
Apud.AMARAL,Aracy.ArtesPlásticasnaSemanade22.SubsídiosparaumahistóriadarenovaçãodasartesnoBrasil.SãoPaulo:
Perspectiva,1979,p.123.
26
Idem,p.99.
27
ANDRADE,Oswald.Odivisordaságuasmodernistas.In._____EstéticaePolítica.SãoPaulo:Globo,1992,p.53
28
Apud.AMARAL,Aracy.Op.Cit.,p.137.
LETRAS|170
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: - “Meu cancioneiro
É bem martelado.

Vede como primo


Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.

O meu verso é bom


Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.

Vai por cinquenta anos


Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.

Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia,
Mas há artes poéticas...”

Urra o sapo-boi:
- “Meu pai foi rei” – “foi!”
- “Não foi!” – “foi!” – “Não foi!”.

Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
- “A grande arte é como
Lavor de joalheiro.

LETRAS|171
Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo.”
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
-“Sei!” – “Não sabe!” –“Sabe!”

Longe dessa grita,


Lá onde mais densa,
A noite infinita
Verte a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo


Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,


Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio.29

Ausente fisicamente da Semana de Arte Moderna, Manuel Bandeira, considerado por Mário de
Andrade o “São João do Modernismo”, nela se fez presente, por meio da declamação do seu poema Os
Sapos, feita por Ronald de Carvalho, através do qual Bandeira critica, de forma irônica, o retoricismo, o
tecnicismo,asupremaciadaforma,aspectostãodecantadospelospoetasparnasianosemdetrimentoda
poesia.
Aliás, é o próprio Bandeira que, em comentário sobre esse poema, afirma que, embora tenha
parodiadoOlavoBilacnosversosemquecomparaotrabalhoartísticocomodoourives(versos3e4da9ª
estrofes), o poema Os Sapos é uma sátira dirigida mais “contra certos ridículos do postͲparnasianismo”,
principalmente,oHermesFonteseoGoulartdeAndrade.Oprimeiro,porchamaratençãonoprefáciodas

29
PoemaextraídodeBANDEIRA,Manuel.Estreladavidainteira.Poesiasreunidas.19.ed.RiodeJaneiro:JoséOlympio,1991,p.
46.
LETRAS|172
Apoteosesparaofatodenãohaveremseusversosrimasdepalavrascognatas.Osegundo,porcolocar,sob
otítulodospoemas,adeclaraçãoentreaspas:“Obrigadoàconsoantedeapoio.”30
Contraesseretoricismo,essavaidadearrogantedosparnasianos,recorreBandeira,aexemplodo
“sapoͲcururu”,distanciadodetodaaqueladisputa,àsimplicidade,àhumildadepoética,procurandoextrair
dos elementos mais simples do dia a dia, seja em termos de linguagem, seja em termos de conteúdo,
materialparasuapoesia.Daíainsistentedefesadalinguagemdopovo,dasuaformadeser,(Avidanão
mechegavapelosjornaisnempeloslivros/Vinhadabocadopovonalínguaerradadopovo/Línguacerta
do povo/ Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil ...In: Evocação do Recife); a rejeição do
retoricismo,doengessamentopoético(Queroantesolirismodosloucos/Olirismodosbêbados/Olirismo
difícil e pungente dos bêbados/ O lirismo dos clowns de Shakespeare. In: Poética.); a crítica ao
aristocratismo poético, por acreditar que “a poesia está em tudo – tanto nos amores como nos chinelos,
tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas.” Fazem parte dos seus textos cantigas de roda, trovas
populares,enfim,tudoqueserelacionacomaculturavivadopovo.
Embora seu ingresso na literatura tenha se dado via parnasianismo, mesmo sem dele desligarͲse
inteiramente,percebeunãoseresse,pelaslimitaçõesqueimpunhaàcriaçãoartística,omelhorcaminho
para chegar à poesia propriamente dita, a qual necessitava, antes de tudo, de liberdade de expressão.
Motivopeloqualadereàsdefesasdoversolivre,darimalivre,doritmolivre,dapalavralivre.
Para ele,“no verso livre autêntico, o metro deve estar de tal modo esquecido que o alexandrino
maisortodoxofuncionedentrodelesemvirtudedeversomedido.”31
Contrariandoavisãotecnicistadoparnasianismo,valorizaarimapobre,porconsiderarque“aboa
rima é a que traz ao ouvido uma sensação de surpresa, mas surpresa nascida não da raridade, senão de
umaespéciederesoluçãomusical...”32Aliás,musicalidadeéoutroaspectopoéticobastantevalorizadopor
Bandeira e que assoma à sua poesia através das aliterações, das assonâncias e do que ele chama de
“ressonânciasanterioreseposteriores”provocadaspelosfonemas.
Como vemos, a concepção poética de Bandeira se encontra em perfeita consonância com o que
pensam os outros dois grandes nomes do modernismo: Mário e Oswald de Andrade, cujas poéticas
comentaremosaseguir.
Antes,porém,valeapenaregistrarocomentáriodeJoséGuilhermeMerquioracercadessatríade
modernista.Dizele:
Nossapoesiamodernistateveumbatedor,ummentoreumafonte.ObatedorsechamavaOswald
deAndrade.Omentor,MáriodeAndrade.Bandeirafoiafonte.“Todosbebemosnoteucanto”,deledisse
Murilo Mendes, outro modernista com quem privei. É que Bandeira, mais moderno que modernista,

30
Cf.BANDEIRA,Manuel.ItineráriodePasárgada.3.ed.RiodeJaneiro:EditoradoAutor,1966,p.59.
31
Idem.Ibidem,p.39
32
Idem.Ibidem,p.34.
LETRAS|173
chegara ma
ais espontan
neamente peela via do siimples despo
ojamento ao
o resultado querido pela
a renovação
o
literária:aeexpressividadesimpleseedireta,desp
pidadapom
mpaverbalpa
arnasianae daricaorqu
uestraçãodo
o
olista.33
versosimbo



Agoraaé
com
m
vocêê LeiaasobreaSem
manadeArteeModerna.





A poética
a de Márioo de Andra
ade

OS CORTEJJOS
Monotoniaas das minhaas retinas...
Serpentina
as de entes frrementes a see desenrolar....
Todos os sempres
se das minhas
m visõees! “Bom giorrno, caro”.

Horríveis as
a cidades!
Vaidades e mais vaida ades...
Nada de asas!
a Nada ded poesia! Na ada de alegri
ria!
Oh! Os tum multuários da as ausências!!
Paulicéia – a grande boca
bo de mil dentes;
de
e os jorross dentre a líng
ngua trissulca
a
de pus e de
d mais pus de d distinção....
Giram hom mens fracos, baixos, mag gros...
Serpentinaas de entes frrementes a see desenrolar....

Estes homeens de São Paulo,


Pa
todos igua
ais e desiguaiis,
quando viv
ivem dentro dos
d meus olhohos tão ricos,
parecem-mme uns macacacos, uns maccacos.34


33
MERQUIOR,,JoséGuilherm me.ManuelBan ndeira:afonted ARVALHOESILV
detodos.In:CA VA,Maximiano..(Org.)Homena agema
ManuelBandeeira.1986Ͳ1988 8.Niterói:SocieedadeSousadaaSilveira;RiodeJaneiro:MonteiroAranha:P PresençaEdiçõe es,1989,p.
357.
34
PoemadeMMáriodeAndrade,extraídodo olivroPaulicéiaaDesvairada.In n:ANDRADE,Máriode.In:______PoesiasCom mpletas.Edição
o
críticadeDileiiaZanottoMan
nfio.BeloHorizoonte:Itatiaia;SSãoPaulo:EdittoradaUniversidadedeSãoPaaulo,1987,p.8
84.
LETRAS|17
74
ParticipanteativodaSemanadeArteModerna,MáriodeAndradefoi,aoladodeManuelBandeira
e Oswald de Andrade, um dos maiores nomes do modernismo brasileiro. Além de músico, poeta,
romancista,contista,crítico,foitambémumgrandeestudiosodonossofolclore,dasnossasmanifestações
populares.
NomesmoanodaSemana,1922,Mário,lança,bemàmaneiralivreeirreverente,defendidapelos
modernistas, o livro de poemas intitulado Paulicéia Desvairada, precedido de um prefácio, intitulado
Prefácio Interessantíssimo, onde expõe suas idéias sobre poesia, revelando, assim, já nessa obra, uma
coerênciaentreconcepçãoepráxispoética.
Logo no início do prefácio, fica evidenciado, através do discurso irônico da dedicatória abaixo
transcrita,aposturaantiacadêmicaquepresidiránãoapenasoprefácio,mastodaaobra,noconcernenteà
rejeiçãoapadrões,aescolasliterárias.

A MÁRIO DE ANDRADE
Mestre querido,

Nas muitas horas breves que me fizestes ganhar


a vosso lado dizíeis da vossa confiança pela arte
livre e sincera... Não de mim, mas de vossa
experiência recebi a coragem da minha Verdade
e o orgulho do meu Ideal.
Permiti-me que ora vos oferte este livro que
de vós me veio. Prouvera Deus! Nunca vos
perturbe a dúvida feroz de Adriano Sixte...
Mas não sei, mestre, se me perdoareis a distância
Mediada entre estes poemas e vossas altíssimas
Lições... Recebei no vosso perdão o esforço
do escolhido por vós para único discípulo;
daquele que neste momento de martírio muito
a medo inda vos chama o seu Guia, o seu Mestre,
o seu Senhor.

Mário de Andrade
14 de dezembro de 1921
S. PAULO

ObserveͲse que a dedicatória é dele para ele mesmo, ressaltando assim uma atitude não vazada
nas ideias alheias, conforme ainda reiteram os possessivos empregados em primeira pessoa. RegistreͲse
tambémquetudogiraemtornodeuma“artelivreesincera.”

LETRAS|175
Outros pontos do Prefácio que merecem destaque dizem respeito à valorização do HUMOR, da
BLAGUE,daBRINCADEIRA,aosquaisosmodernistastantorecorrem,poracreditaremnaforçadestruidora
doriso.ParaMáriodeAndrade,aBRINCADEIRA,conformeobservaemAEscravaquenãoéIsaura,obra
publicada em 1925, por meio da qual apresenta de forma mais aprofundada e ampliada suas ideias
estéticas,entreoutrosbenefícios,trazodeirritaratéaexplosãoospassadistas.”35PronunciandoͲsesobrea
sátira, que é uma outra forma de riso, Oswald de Andrade afirma que “ a sátira é sempre a defesa
individualousocialcontraaopressão,oenfatuamentoeasusurpaçõesdequalquerespécie.”36
Comovemos,orisoé,pois,umaarmaeficazparapôrfimaditaduradanormatização,dospadrões
impostos,doconvencionalismo.
Lembrandoossurrealistasquepreconizamjogarnopapeltudooquevemdoinconsciente,Mário,
aofalarsobreacriaçãopoética,valorizaa“impulsãolírica”,dizendo“escrevosempensartudooquemeu
inconscientemegrita.”37Porém,distanciandoͲsedossurrealistas,faladanecessidadede,posteriormente,
pensar, corrigir, uma vez que para ele a arte consiste em “mondar mais tarde o poema de repetições
fastientas,desentimentalidadesromânticas,depormenoresinúteisouinexpressivos.”38
DaíporqueemaEscravaquenãoéIsaura,fazendoressalvasàfórmulacriadapelopoetafrancês
PaulDerméeparasimbolizarapoesiaqueconsistiaemLirismo+arte=poesia,Mário,visandoaumamaior
precisão,areelaboraparaLirismopuro+Crítica+Palavra=Poesia.Istoporqueparaele,PaulDermée,ao
utilizar o termo arte no lugar de crítica, não deixa claro o trabalho estético que o poeta deve ter com a
elaboraçãodoseutexto.Alémdisso,paraMário,PaulDerméetambémfalhoupornãofazerreferênciaà
matériaprimadapoesia–apalavra–semaqualasomaobtidanãoteriacomoresultadoapoesia,mas,
sim,asbelasͲartes.
Outro ponto interessante do Prefácio diz respeito à contestação que Mário faz ao futurismo de
Marinetti, afirmando “Não sou futurista (de Marinetti)” 39 E uma das razões de assim se colocar é que,
diferentemente dos futuristas, Mário reconhece a importância do Passado. Para ele, “O passado é lição
para se meditar e não para reproduzir”40 Aliás, em artigo que escreve no nº 3 da revista Klaxon, falando
sobreospontosquediscordadeMarinetti,reiteraoqueregistranoPrefácio,afirmando:“Respeitamoso
passadosemoqualKLAXONnãoseriaKLAXON.”41

35
ANDRADE,Máriode.AescravaquenãoéIsaura.In:_____ObraImatura.3.ed.SãoPaulo:Martins;BeloHorizonte:Itatiaia,
1980,p.231
36
ANDRADE,Oswaldde.Asátiranaliteraturabrasileira.In:_____Estéticaepolítica.SãoPaulo:Globo,1922,p.82.
37
ANDRADE,Máriode.PrefácioInteressantíssimo.In:_____PoesiasCompletas.EdiçãoCríticadeDiléiaZanottoManfio.Belo
Horizonte:Itatiaia;SãoPaulo:EditoradaUniversidadedesãoPaulo,1987,p.59
38
Idem.Ibidem.,p.63.
39
Idem.Ibidem,p.61.
40
Idem.Ibidem.,p.75
41
ANDRADE,Máriode.OHomenzinhoquenãopensou.In:KLAXON.MensáriodeArteModerna.SãoPaulo,Julhode1922,nº3,
p.10.
LETRAS|176
TeorizandosobreoBeloartístico,MáriodeAndradeestabelecenoPrefácioadistinçãoentreoBelo
da Natureza e o Belo da Arte, para assinalar que este último, diferentemente do primeiro, é arbitrário,
convencionaletransitório,contrariando,dessemodo,avisãoclássicadaimutabilidadedobeloartísticoe
docarátermiméticodaarte.Paraele:
Todos os grandes artistas, ora consciente (Rafael das madonas, Rodin do Balzac, Beethoven da
Pastoral,MachadodeAssisdoBrásCubas),orainconscientemente(agrandemaioria)foramdeformadores
danatureza.Dondeinfiroqueobeloartísticoserátantomaisartístico,tantomaissubjetivoquantomaisse
afastardobelonatural”.42
Nessalinhaderupturacomotradicional,merecetambémdestaqueavisãodeMáriodeAndrade
relacionada ao assunto poético, bem como ao que confere modernidade à literatura. Questões por ele
abordadas tanto no Prefácio como em A Escrava que não é Isaura. Segundo ele, “o assunto poético é a
conclusão mais antiͲpsicológica que existe./.../ Pode nascer de uma réstia de cebolas como de um amor
perdido.”43Com isso, na verdade, o que Mário quer sublinhar é que o poético advém  da forma como o
assunto é trabalhado. Essa  ênfase na elaboração estética norteia também a sua concepção de
modernidade,conformepodeͲsevernaafirmaçãoabaixo:

Escreverartemodernanãosignificajamaisparamimrepresentaravidaatualnoquetem
deexterior:automóveis,cinema,asfalto.Si(sic)estaspalavrasrequentamͲmeolivronão
porquepensecomelasescrevermoderno,masporquesendomeulivromoderno,elastêm
nelesuarazãodeser.44

O alicerce básico dessa modernidade artística reside na LIBERDADE DE EXPRESSÃO. Na recusa às
normaspremeditadaspeloslimitesaqueexpõeacriação,submetendoopoetaaumverdadeiroleitode
Procusto,45poisseasuaideianãocabiadentrodametrificaçãoestabelecida,elairiasofrerouumprocesso
dealongamentoouumamutilaçãoparaseinserirnanorma.VejamoscomoilustraçãootrechodoPrefácio
emqueMárioseexpressasobreisso:“Nãoachomaisgraçanenhumanissodagentesubmetercomoções
aumleitodeProcustoparaqueobtenhamemritmoconvencional,númeroconvencionaldesílabas.”46
Portanto,VERSOLIVRE,RIMALIVRE,RITMOLIVRE,VITÓRIADODICIONÁRIOéoqueMáriodefende,
em termos técnicos, para a elaboração da nova poesia. Vale, entretanto, frisar que isso não significa o
abandono total das métricas existentes. O fundamental consiste em que elas não mais se colocam
premeditadamente, mas pode ser utilizada, caso o que se quer dizer fica melhor dentro de determinada
métricaoudeterminadarima.Essaéagrandediferença!ComodizMário,“Oversocontinuaaexistir.Mas

42
Idem.Ibidem.p.65
43
ANDRADE,Mário.AescravaquenãoéIsaura,p.208
44
_____PrefácioInteressantíssimo,p.74.
45
LeitodeProcustoeraumacamadetortura,naqualaspessoaseramcolocadas.Seerammenoresqueacamaeramsubmetidosa
umdolorosoestiramento;seerammaiores,tinhamseusmembrosamputados.
46
ANDRADE,Mário.Op.Cit.,p.66.
LETRAS|177
corresponde aos dinam cimento de métrica quaalquer.”47 E,,
mismos inteeriores, brotados sem preestabelec
p
ma, como se sabe, uma identidade sonora,
sendo a rim s ela também
t sem
mpre existiu e existirá. O
O que Mário
o
sublinhaéq
quearimalivvreé“variad onointeriordoverso.”488
da,imprevistta,irregular,,muitasvezeesocorrendo
Jáaavitóriadod
dicionárioreesidenaposssibilidadedaadaàpalavraadeseliberttarda“rond
dasintática”..
Ou seja, as palavras nãão surgem mais o poético presas a uma construção fraseológica tradicional,,
m no texto
desujeito,veerboepredicado,como sepodeverrnoversoab
compostad baixo,dopoeemaTietê,constantedo
o
ada: “Arroubos... Lutas....  Seta... Cantigas...
livro Paulicceia Desvaira C P
Povoar!” AsssinaleͲse que
e Mário fazz
referênciaaaesseverso noPrefácio parailustrarateoriapo
orelecriada deversohaarmônico.VaalendoͲsedee
seus conheecimentos musicais
m (Márrio era profeessor de mú
úsica), ele classifica os vversos em harmônico
h e
e
Harmônicoéaqueleconsstituídodep
melódico.H palavrassoltaas,sobreposstas,“forman
ndo,nãomaaismelodias,,
masharmonias.”Emborapreservem
moseusenttidoparticulaar,aosesob
breporemum
masàsoutrass,noslevam
m
ultaneidade de idéias. O
a uma simu O verso meló
ódico, por su
ua vez, seriaa aquele con
nstruído den
ntro de umaa
estruturagrramaticalqu
ueremetepaaraumpensamentointe
eligível,nãod
dandomargemàsimultaaneidadedee
ideias.Eisumexemplod
dessetipodeeverso,dadopelopróprrioMárionoPrefácio:

“Mnezarette, a divina, a pálida Phyynea
Comparece
ce ante a austtera e rígida assembléia
Do Aéropa
ago supremo o...”

ObserveͲsequeacomp
preensãodessseversoéfaacilitadapelaalogicidadedaconstruçção,oquenããoocorreno
o
ual demandaará um exerrcício mental por parte do leitor paara captar o
mônico, o qu
verso harm o significado
o
sugerido po
or aquele conjunto
c de palavras. Ocorre,
O poiss, no verso harmônico,, o que Máário fala dee
“substituiçããodaordemintelectualpelaordemssubconsciente”e,ainda,,rapidezesííntese,traço
osmarcantess
dapoesiam
moderna.
Outrospontosdefendid
dosporMáriioemtermo
osideoͲestéticosdizemrespeitoàvaalorizaçãodo
ocotidianoee
dalínguabrrasileira,porreleconsiderada“dasmaisricaseso
onoras”.


Agoraaé
com
m
vocêê LeiaaoPrefácioInteressantísssimodeMáriiodeAndradeeoutrospo
oemasde
suaaautoria.




47
ANDRADE,M Mário.AEscravvaquenãoéIsa
aura,p.228
48
Idem.Ibidem
m.,p229
LETRAS|17
78
A poética de Oswald de Andrade


PRONOMINAIS

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro49

BemmaisirreverenteepolêmicodoqueMáriodeAndrade,mastãoimportantequantoeste,para
implementação das novas propostas poéticas, Oswald de Andrade é o responsável pelos Manifesto da
PoesiaPauͲBrasil,lançadoemmarçode1924,eManifestoAntropófago,lançadoemmaiode1928.
Atravésdeles,lançaOswalddeAndradeoseuprotestocontraoelitismo,opseudoͲintelectualismo,
oacademicismoquenosmantinhamaindabastanteaprisionados,estéticaeideologicamente,àsheranças
sócio/político/culturaiscolonizadoras.
ComobemoassinalaHaroldodeCampos,

O Brasil intelectual das primeiras décadas deste século, em torno à Semana de 22, era
ainda um Brasil trabalhado pelos “mitos do bem dizer” (Mário da Silva Brito, no qual
imperava o “patriotismo ornamental” (Antonio Candido), da retórica tribunícia,
contraparte de um regime oligárquicoͲpatriarcal, que persiste República adentro. Rui
Barbosa,“aáguiadeHaia”;Coelhoneto,“oúltimoheleno”;OlavoBilac,“opríncipedos
poetas”eram os deuses incontestes de um Olimpo oficial, no qual o Pégaso parnasiano
arrastava seu pesado caparazão metrificante e a riqueza vocabular (entendida num
sentido meramente cumulativo) era uma espécie de termômetro da consciência
ilustrada.”50

Tendocomoobjetivoprimeirodesuaspropostasaconsolidaçãodaidentidadebrasileira,anossa
independência cultural, as propostas dos manifestos oswaldianos voltamͲse para as nossas raízes,
buscandodelasextrairaseivabásicadanossabrasilidade.

49
PoemadeOswalddeAndrade,extraídodolivroPauͲBrasil,p.120
50
CAMPOS,Haroldo.Umapoéticadaradicalidade.In:ANDRADE,Oswald.PauͲBrasil.3.ed.SãoPaulo:Globo;SecretariadeEstado
daCultura,1990,p.8.
LETRAS|179
Ao nomear seu primeiro manifesto de Manifesto da Poesia PauͲBrasil, Oswald de Andrade vai
buscar,naquelaquefoiaprimeiramatériaͲprimabrasileiradeexportação,umametáforaparasintetizara
ideiacentraldeseutexto,queéadecriaçãodeumapoesiaverdadeiramentebrasileira,umapoesiaque
nãosejamaisdeimportação,mas,sim,deexportação.Umapoesialibertadevezdos“cipósmaliciososda
sabedoria”,das“lianasdasaudadeuniversitária”,conformeexortanoreferidomanifesto.Ouseja,liberta
devezdoacademicismoqueaaprisiona.
Emcontraposiçãoaesseacademicismo,OswalddeAndradeiniciaseutextosecolocandocontrao
assuntopoético,defendendoque

“Apoesiaexistenosfatos.OscasebresdeaçafrãoedeocrenosverdesdaFavela,sobo
azulcabralino,sãofatosestéticos.
OCarnavalnoRioéoacontecimentoreligiosodaraça.PauͲBrasil.Wagnersubmergeante
os cordões de Botafogo. Bárbaro e nosso. A formação étnica rica. Riqueza vegetal. O
minério.Acozinha.Ovatapá,oouroeadança.”.51

ObserveͲse que, ao se contrapor à visão poética elitista, Oswald, ao mesmo tempo, ressalta a
valorizaçãodarealidadebrasileira,sublinhandoanossariquezacultural,mineral,vegetal.
Acríticaaos“mitosdobemdizer”,à“retóricatribunícia”,ao“helenismoliterário”,ao“tecnicismo
parnasiano”, ao “mimetismo naturalista”, ao “eruditismo da linguagem” emerge de forma irônica e
contundentedoManifestoPauͲBrasil,empassagenscomoestas:

x TodaahistóriabandeiranteeahistóriacomercialdoBrasil.Oladodoutor,oladocitações,oladoautores
conhecidos. Comovente. RuiBarbosa: umacartola na Senegâmbia. Tudo revertendo em riqueza. A riqueza
dosbailesedasfrasesfeitas.Negrasdejockey.OdaliscasnoCatumbi.Falardifícil.”52

x Houve um fenômeno de democratização estética nas cinco partes sábias do mundo. InstituíraͲse o
naturalismo. Copiar. Quadro de carneiro que não fosse lã mesmo, não prestava. A interpretação no
dicionáriooraldasescolasdeBelasArtesqueridadizerreproduzirigualzinho...
................................................................................................................................
SónãoseinventouumamáquinadefazerversosͲjáhaviaopoetaparnasiano.53

Em contraposição a essa concepção ideológica e estética, Oswald de Andrade vai defender uma
poesia vazada na linguagem do povo, na “língua sem arcaísmo, sem erudição. Natural e neológica. A
contribuição milionária de todos os erros. Como falamos. Como somos.” Uma língua, portanto, sem
artificialismo,queexpressassenossamaneiradeser;defende,ainda,paraapoesiapauͲbrasil,emreaçãoà
cópia,aoretoricismo,aomecanicismodasestéticasemvigor,asíntese,ainvenção,asurpresa,oequilíbrio

51
ANDRADE,Oswald.ManifestodaPoesiaPauͲBrasil.In:_____DoPauͲBrasilàAntropofagiaeàsUtopias.2.ed.RiodeJaneiro:
CivilizaçãoBrasileira,1978,p.5
52
Idem.Ibidem.
53
Idem.Ibidem.p,7
LETRAS|180
geômetro, o acabamento técnico, uma nova perspectiva e uma nova escala. Ou seja, que a nova poesia
brasileira, em consonância com a modernidade, assuma também uma feição concisa, criativa e
provocadora.
VoltarͲseparaasraízes,comosesabe,évoltarͲseparaopassado.Éolharparaumtempoanterior
aoquesevive,paramelhorcompreenderopresenteeconstruirofuturo.ComoMáriodeAndrade,Oswald
também reconhece e valoriza a contribuição do passado. Sua proposta de “acertar o relógio império da
literatura nacional”, ou seja, de adequar a arte ao novo ritmo da vida, modificado pelos avanços
tecnológicos,passa,nãopelarejeiçãodopassado,comooqueriaMarinetti,maspelafusãodopassadoe
do presente, do primitivo e do civilizado, da tradição e da modernidade, conforme o ratifica a passagem
abaixo,extraídadoreferidoManifesto:

Temos a base dupla e presente – a floresta e a escola. A raça crédula e dualista e a
geometria,aálgebraeaquímicalogodepoisdamamadeiraedochádeervaͲdoce.Um
mistode“dormenenêqueobichovempegá”edeequações.
Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas, nas usinas
produtoras,nasquestõescambiais,semperderdevistaoMuseuNacional.PauͲBrasil.”54

Uma visão, porém, liberta de qualquer fórmula, que permita ver com os olhos livres a
contemporâneaexpressãodomundo.
ÉcomesseolharlivrequeOswalddeAndradesevoltanãoapenasparaaliteratura,masparatoda
manifestaçãosócio/cultural/brasileiranoManifestoAntropófago,pormeiodoqual,deformaainda mais
ferrenhaesatírica,criticanossadependênciacultural,secolocando,comobemoobservaBeneditoNunes,
contra“oaparelhamentocolonialpolíticoͲreligiosorepressivosobqueseformouacivilizaçãobrasileira,a
sociedade patriarcal com seus padrões morais de conduta, as suas esperanças messiânicas, a retórica de
sua intelectualidade, que imitou a metrópole e se curvou ao estrangeiro, o indianismo como sublimação
dasfrustraçõesdocolonizado,queimitouatitudesdocolonizador.”55
Para Oswald, a conquista da nossa autonomia cultural implicava a reabilitação do índio não
catequizadoedoseuextraordinárioespíritoedênico.“Tupiornottupi,thatisthequestion”(Serounãoser
tupi, eis a questão), proclama Oswald no mencionado Manifesto, conclamandoͲnos a retomar a nossa
brasilidade, através do retorno simbólico ao mundo primitivo, pois, segundo ele, “antes dos Portugueses
descobriremoBrasil,oBrasiltinhadescobertoafelicidade.”56
Além disso, era preciso dar vez e voz àqueles que foram alijados da história Ͳ índios e negros Ͳ
através do desrecalcamento da sua cultura, abafada pela cultura colonizadora, retornando, para isso, às
fontesprimitivas.Razãopelaqualumadassuaspropostasfundamentaisresidena“transformaçãodotabu

54
Idem.Ibidem.,p.9
55
NUNES,Benedito.Antropofagiaaoalcancedetodos.In:ANDRADE,Oswald.Op.Cit.p.XXV.
56
ANDRADE,Oswald.ManifestoAntropófago.In:_____Op.Cit.,p.18.
LETRAS|181
emtotem”,ouseja,natransformaçãodoqueeraproibido,negado,porserconsideradoimpuro,nãodigno,
em algo permitido e, mais do que isso, valorizado, sacralizado. O que, na verdade, dentro da sociedade
brasileira,relacionavaͲsecomasmanifestaçõesculturaisindígenaseafricanas.Emcontrapartida,realizaͲse
aoperaçãoinversadedessacralizaçãodoqueatéentãosurgiacomosacralizadononossomeiocultural,a
exemplo da moral cristã, dos costumes europeus, da dominação estrangeira, do índio europeizado e de
figuras emblemáticas da cultura dominante. Por isso que para seu criador, a Antropofagia é ao mesmo
tempo: “culto à estética instintiva da Terra Nova e “redução a cacarecos dos ídolos importados, para a
ascensãodostotensraciais.”57
Vejamos,atítulodeilustração,algumaspassagensdoManifesto,confirmadorasdessasubversão
cultural,visadapelaAntropofagia.
x Contra todos os importadores de consciência enlatada. A existência palpável da
vida. E a mentalidade pré-lógica para o Sr. Lévy-Bruhl estudar.
x Queremos a Revolução Caraíba. Maior que a Revolução Francesa. A unificação de
todas as revoltas eficazes na direção do homem. Sem nós, a Europa não teria
sequer a sua pobre declaração dos direitos do homem.
x Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar
comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita
lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o
dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.
x Se Deus é a consciência do Universo Incriado, Guaraci é a mãe dos viventes. Jaci é
a mãe dos vegetais.
x Contra o índio de tocheiro. O índio filho de Maria, afilhado de Catarina de Médicis
e genro de António de Mariz.
x A alegria é a prova dos nove.
x No matriarcado de Pindorama.
x A nossa independência ainda não foi proclamada. Frase típica de D. João VI: -
Meu filho, põe essa coroa na tua cabeça, antes que algum aventureiro o faça!
Expulsamos a dinastia. É preciso expulsar o espírito bragantino, as ordenações e
o rapé de Maria da Fonte.

Como vemos, construção/destruição, sacralização/dessacralização, entronização/destronização
constituemasbalizasnorteadorasdaspropostasantropofágicasparaaviabilizaçãodanossaindependência
cultural.
Por esse motivo, consideramos muito pertinente a afirmação de Benedito Nunes sobre a
Antropofagia,vendoͲacomo:

x Metáfora orgânica, porque é inspirada na cerimônia guerreira da imolação pelos
tupis do inimigo valente, apresado em combate, englobando tudo quanto

57
ANDRADE,Oswald.NovaEscolaLiterária.In:_____OsDentesdoDragão.2.ed.SãoPaulo:Globo:SecretariadeEstadoda
Cultura,1990,p.43.
LETRAS|182
devería
amos repudia
ar, assimilar e superar pa
ara a conquista da nossa
a autonomia
a
intelectu
ual;
x Diagnó
óstico da sociedade brasileira
b co
omo socieda
ade traumattizada pela
a
represssão colonizad
dora que lhe
e condicionou o crescimeento, e cujo modelo terá
á
sido a repressão
r da
a própria antrropofagia rittual pelos Jessuítas;
x Terapêu
êutica, que, sob
s a forma
a de ataque
e verbal, peela sátira e pela crítica,,
empreg
garia o mesm
mo instinto antropofágic
a o outrora reecalcado, então liberado
o
numa catarse
c imag
ginária do esspírito nacion
nal. E esse m
mesmo remédio drástico,,
salvado
or, serviria de
d tônico reconstituinte para
p a convvalescença in
ntelectual do
o
país e de
d vitamina ativadora
a de seu desenvo uro.58
olvimento futu


Aggoraé
c
com
v
você LeiaoManifestodaPoesiaPauͲbrasileoManifesstoAntropofáágico.





A poética
a do verdee-amareloo

LADAINHA
A

tar de uma ilh


Por se trata lha deram-lhee o nome de
[ Ilha de
d Vera-Cruzz.

Ilha cheia de graça


Ilha cheia de pássaros
Ilha cheia de luz.

Ilha verdee onde havia


mulheres morenas
m e nu
uas
anhangáss a sonhar com
om histórias de
d luas
e cantos bárbaros
b de pajés
p em pora
racés
[ batendo os
o pés.

58
NUNES,Ben
nedito.Op.Cit.,,p.xxv/xxvi
LLETRAS|18
83
Depois mudaram-lhe o nome
pra Terra de Santa Cruz.
Terra cheia de graça
Terra cheia de pássaros
Terra cheia de luz.

A grande Terra girassol onde havia guerreiros de


[de tanga
e onças ruivas deitadas à sombra das árvores
[mosqueadas de sol.

Mas como houvesse, em abundância,


certa maneira cor de sangue cor de brasa
e como o fogo da manhã selvagem
fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,
e como a Terra fosse de árvores vermelhas
e se houvesse mostrado assaz gentil,
deram-lhe o nome de Brasil.

Brasil cheio de graça


Brasil cheio de pássaros
Brasil cheio de luz.59

 
Aoapresentarmos,napartereferenteàSemanadeArteModerna,algunscomentáriosfeitospor
seus protagonistas, registramos um em que Mário de Andrade fala das “tendências múltiplas, às vezes
contraditórias”,dosparticipantesalireunidos.
Emboratodoscomungassemdopropósitodeimprimirumseloefetivodebrasilidadeedeinovação
àsartesbrasileiras,ocaminhotomadonessadireçãonãosegueamesmarotatrilhadaporMárioeOswald,
osquais,apesardecertasdivergências,partilham,àmaneiradeles,asmesmasconcepçõesestéticas.Tanto
assimque,mesmotendorompidocomMário,quandoestelançaMacunaíma,oheróisemnenhumcaráter,
OswalddizqueéaobraexemplardaAntropofagia.E,secotejarmosostextosteóricosdosdois–Prefácio
Interessantíssimo, A escrava que não é Isaura e os Manifestos PauͲBrasil e Antropófago, veremos que
ambos,MárioeOswald,têmamesmaposturanoconcernenteaoassuntopoético,àvalorizaçãodalíngua

59
PoemadeCassianoRicardo,extraídodolivroMartinCererê.13.ed.RiodeJaneiro:JoséOlympio,1974,p.33.
LETRAS|184
nacional, do falar do povo, à crítica ao tecnicismo parnasiano, ao mimetismo naturalista, à criatividade
aliadaàprecisão,àconcisãoeoacabamentodalinguagem,àvalorizaçãodopassado“comoliçãoparase
meditarenãoparasereproduzir”.
Omesmo,porém,nãosepodedizerdosintegrantesdoVerdeͲAmarelo,conformesepodeinferir
daleituradeseuManifesto,escritoemmaiode1929.
Muito diferente do teor combativo dos manifestos de Oswald de Andrade, o manifesto VerdeͲ
Amarelosemostrabastanteconservador.ParaocríticoGilbertoVasconcelos,essegrupoé“avergonhado
movimentode22”eassimoconsiderapornelever“osgermestotalitáriosdadoutrinaintegralista”,60que
embasam o Integralismo Brasileiro, movimento de caráter fascista, surgido em 1932, sob o comando de
Plínio Salgado. Aliás, segundo Gilberto, é o próprio Plínio que reconhece que, no “verdeamarelismo,
movimentoliterário´maisdeaçãodoquedepensamento`,estavajácontido´todooprocessodeformação
dopensamentocomqueseapresentou,em1932,oIntegralismoBrasileiro.”61
Onacionalismoexacerbadodogrupo,característicabásicadasideologiastotalitárias,aexemplodo
fascismoedonazismo,ficaclaramenteevidenciadonoprópriotítulodomanifesto–ManifestoNhengaçu
VerdeͲAmarelo – não tanto pela referência à cultura indígena, esta também está presente
metaforicamentenotítulodoManifestoAntropófago,maspelarecorrênciaàscoresverdeeamarelodo
símbolo máximo de nossa nacionalidade – a bandeira brasileira. Como não poderia ser diferente, esse
ultranacionalismo incidirá também em uma visão ufanista e mistificadora da terra brasileira, por eles
exaltadacomoumasociedadesemnenhumpreconceito,nemracial,nemreligioso,nempolítico:

x Não há entre nós preconceitos de raças. Quando foi o 13 de Maio, havia negros ocupando já
altas posições no país. E antes, como depois disso, os filhos de estrangeiros de todas as
procedências nunca viram os seus passos tolhidos.
x Também não conhecemos preconceitos religiosos. O nosso catolicismo é demasiadamente
tolerante, e tão tolerante, que os próprios defensores extremados dele acusam a Igreja Brasileira
de ser uma organização sem força combativa.
x Não há também no Brasil, o preconceito político: o que nos importa é a administração, no que
andamos acertadíssimos, pois só assim consultamos as realidades nacionais.62

Afirmações, portanto, que não requerem muito esforço para serem reconhecidas como
mistificadoras da nossa realidade. Por elas, falam a discriminação racial, até hoje minando a nossa
sociedade, a intolerância para com as manifestações religiosas africanas e indígenas que até há pouco
tempoeramproibidasporlei,sendopresososseusmanifestantese,comosenãobastassem,aaversãoàs

60
VASCONCELOS,Gilberto.IdeologiaCurupira.AnálisedodiscursoIntegralista.SãoPaulo:Brasiliense,1979,p.81.
61
Idem.ibidem.
62
ExtraídodomanifestoVerdeͲAmarelo,constantedeTELES,G.Op.Cit.,p.364.
LETRAS|185
manifestações ideológicas de esquerda, responsáveis pelos regimes ditatoriais implantados no Brasil, nas
décadasde30e60.
Embora a referência à cultura indígena no título não seja suficiente para denotar o
conservadorismo do grupo, a forma como veem o índio também reitera esse viés mistificador.
DiferentementedeOswald,paraquemoíndiovalorizadoéorebeldeenãoo“filhodeMaria,afilhadode
CatarinadeMédicisegenrodeD.AntoniodeMariz”,oíndioexaltadopelosverdeamarelosseaproximado
índio romantizado de Alencar. Seu valor está em sua passividade, em sua colaboração com o elemento
colonizador:
x Os tupis desceram para serem absorvidos. Para se diluírem no sangue da gente
nova. Para viver subjetivamente e transformar numa prodigiosa força a
bondade do brasileiro e o se grande sentimento de humanidade.63

Emoposiçãoàcríticairreverente,debochada,dessacralizadoradaAntropofagia,oVerdeAmarelo
seconsagracomoarteenfática,reverente,laudatória,grandiloquenteeconformista:
x Somos um país de imigração e continuaremos a ser refúgio da humanidade por
motivos geográficos e econômicos, demasiadamente sabidos./.../ Na opinião
bem fundamentada do sociólogo mexicano Vasconcelos, é de entre as bacias do
Amazonas e do Prata que sairá a “quinta raça “ a “raça cósmica”, que realizará
a concórdia universal, porque será filhas das dores e das esperanças de toda a
humanidade. Temos de construir essa grande nação, integrando na Pátria
Comum todas as nossas expressões históricas, étnicas, sociais, religiosas e
políticas. Pela força centrípeta do elemento tupi.

Palavras,pois,quenãodeixamdúvidassobrealógicaufanistaqueregeodiscursodessegrupo.
ContrapõemͲsetambémosverdeͲamarelosaointelectualismodosoutrosmodernistas,aexemplo
de Mário e de Oswald de Andrade, afirmandoͲse, acima de tudo, como grupo pacífico, sentimental e
instintivo,avessoasistematizações,aoexperimentalismoestéticoeàsrupturasimplementadas.

x Convidamos a nossa geração a produzir sem discutir. Bem ou mal, mas produzir. Há sete
anos que a literatura brasileira está em discussão. Procuremos escrever sem espírito
preconcebido, não por mera experiência de estilos, ou para veicular teorias, sejam elas quais
forem, mas com o único intuito de nos revelarmos, livres de todos os prejuízos.

Através dessa afirmação,fica, mais uma vez atestada a visão reacionária do grupo, uma vez que,
comobemoobservaocríticoGilbertoVasconcelos,“orepúdioaoestágiodatécnica,aoexperimentalismo
artístico,fazparte,deummodogeraldasatitudespropensasaototalitarismo.”64

63
Idem.Ibidem.p.361
64
VASCONCELOS,Gilberto.Op.Cit.p.97
LETRAS|186
Osaaspectoscon
nformistaseeufanistasaq dospodemaaindaserobservadosnopoemaquee
quiassinalad
introduz no
ossos comen
ntários acerrca do Verd
deͲAmarelo. ObserveͲse que, difereentemente dos
d poemass
citadosdeM
MáriodeAndradeedeO
OswalddeA
Andrade,Lad
dainhaapresentaumdisccursovazado
onahistóriaa
oficialdonossopaís,seemnenhumacontestaçããoedeform
matãolaudaatóriaquanto
oaCançãod
doExílio,dee
Dias,ouotexxtodaCartadeCaminha
GonçalvesD a.


Agoraaé
com
m
vocêê LeiaaoManifesto
oVerdeͲAmaarelo.




a do grupoo Festa.
A poética

sinceridade
e
La
acerda Pinto
Eu não queero ser um agrupador
ag dee palavras,
Um combin
inador de son
noridades vaz
azias...

Quando a asa de seda,


a, mensageira
a da beleza,
Não roçar,
r, como um beijo,
be a minha
a fronte,
Ordenando
do que eu falee,
- Que eu não
n seja tenta
ado a brincar
ar com as sílab
abas cantantees de uma
pala
avra sem sen
ntido...
Que eu fiq
que mudo, en
nvolto na grav de do meu sililêncio...65
ave sinceridad


A amostra do poema
p acim
ma já nos permite perceber a distân
ncia ideoͲesttética que o
o separa doss
Andrade,emdecorrênciaadotomgraaveeantilúd
poemasde Márioede OswalddeA dicoqueope
ermeia.Paraa
Tasso da Siilveira, um dos
d principaiis mentores do grupo, Mário
M e Osw
wald são “prrosadores re
eformando a
a
poesia”. Co
omo tal, só poderia darr o resultado
o que aí vem
mos. A blag
gue. A jocosidade de mau gosto. A
A
ausência co ue os verdadeiros poeta
ompleta do sentimento, do ritmo qu as o possuem
m. O pastich
he de coisass

65
PoemaextraaídodaRevistaaFESTA,nº2,N
Nov.1927,p.9.
LLETRAS|18
87
européias e passadas. E ainda: a bolshevicação da língua, a desfiguração dos nossos mais característicos
sentimentos,aabsolutaexclusãodopensamentosérioesincero.Emsuma:arenovaçãomaisàsavessase
menosbrasileiraquesepudessedesejar.

Não rechaçam os integrantes do grupo Festa a alegria. No entanto, a alegria de que falam é de
outraordem.Éumaalegriaespiritual,poreleschamadadealegriacriadora,queconduzàintegraçãototal:
adocorpoedoespírito,adanaturezaeadosonho;adohomemeadeDeus.Eadvémdeumaatitudede
otimismoperanteavida.Umaalegriaqueficaevidenciadajánotítulodoprópriogrupo:Festa,vocábulo
que,comosabemos,remeteparaalegria,júbilo,regozijo,comemoração.Esseéosentimentoquepermeia
todoopoemaͲprogramacomoqualabremonº1darevistademesmonomeeondeexpõemaconcepção
estéticaeideológicadogrupo.
SeapropostadeOswalddeAndradeé“vercomosolhoslivres”arealidade,adogrupodeFestaé
“ver com olhos adolescentes”, ou seja, apaixonados, encantados novamente com a Vida. Mas, segundo
TassodaSilveira,
... com a Vida com V grande. A Vida com o seu esplendor de beleza e com o seu
esplendor de sofrimento, que afirma o espírito. E nessa visão da Vida é que está a
grande e pura alegria. A alegria, por exemplo, de um S. Francisco de Assis. O mais
é vacuidade e ceticismo. Fuga covarde. Lassidão.66

Vazios, céticos, clownescos, barulhentos, era assim que os integrantes de Festa viam os
modernistasdaquelemomento,paraelesde“tumultoedeincerteza;deconfusãodevalores;devitóriado
arrivismo e de grandes ameaças para o homem, conforme assinalam nos versos iniciais do seu poemaͲ
programa. Momento, pois, de instabilidade, de desequilíbrio, mas que, na opinião dos integrantes do
referidogrupo,fazempartedaeternadançadavida,cujacoreografiaésemprenorteadapordoisritmos:
equilíbrio/desequilíbrioeviceͲversa.
Éoolharadolescentequeoslevaadivisarentreasbrumasdodesequilíbrioonovotempo,marcado
peloretornoaoequilíbrio.

Nós temos a compreensão nítida deste momento.
Deste momento no mundo
E deste momento no Brasil.
Vemos, lá fora e aqui dentro, o rodopio dos senti-
mentos em torvelinho trágico.

...............................................................................

66
SILVEIRA,Tasso.Cateretênº5parasanfonaeviolão.In:RevistaFesta,nº9,junhode1928,p.8.
LETRAS|188
Mas vemos igualmente os espíritos legítimos no seu posto imutável.
E apuramos o ouvido ao brado de alerta das sentinelas perdidas.
E sentimos à flor do solo o frêmito das subterrâneas correntes de força viva,
Que serão captadas pela sabedoria divina na hora pró-
xima das construções admiráveis.67

RefutandoascríticasdopessoaldeFesta,MáriodeAndrade,emartigopublicadonaprópriarevista
do grupo, intitulado O grupo de “festa” e sua significação, reivindicando para si e para os demais
realizadores da Semana o mérito de primeiros agitadores da vida literária brasileira, defendeͲse dizendo
que,porhaveremcompreendidoque

“numa época de bulha e de chinfrim, carece não empregar surdina”, o seu grupo
“empunhou trombone e bombo e se fez valer./.../ Fez-se valer e dinamizou a
literatura brasileira. Coisa que o grupo de “Festa” jamais não conseguiu. Só porque
empregava surdina no meio da bulha do século. O erro do grupo de “Festa” foi um
erro de orchestração.”68

À DESORDEM, ao DESEQUILÍBRIO, ao MATERIALISMO dos “primitivistas”, o grupo Festa se coloca
comoagentedaORDEM,doEQUILÍBRIO,doESPIRITUALISMO.
Essa oposição fica bem assinalada no poemaͲprograma, pelo emprego recorrente da adversativa
“mas”.Vejamosalgunsexemplos:


Sabemos, que é de tumulto e de incerteza,


E de confusão de valores,
E de vitória do arrivismo,
E de graves ameaças para o homem.

Mas sabemos também, que não é esta a primeira
hora de agonia e inquietude que a humanidade vive.

....................................................................................

Então exsurgem das profundezas do ser ímpetos


bruscos e imprevistos,
que trazem a insatisfação,
a angústia,
a febre,
e quebram os compassos harmoniosos,
e fazem pensar, aos que se esqueceram de Deus, que
tudo está perdido,

67
_____Festa.In.O.Cit.p.1donº1.
68
ANDRADE,Máriode.Ogrupode“festa”esuasignificação”In:RevistaFesta,nº6,marçode1928,p.12.
LETRAS|189
- mas que são, em verdade, ondas desconhecidas de
energia
para a criação de um equilíbrio novo
e de outra mais alta serenidade...69
(Os grifos são nossos)


Para Tasso da Silveira, os grandes caracteres da arte moderna são: Velocidade, Totalidade,
BrasilidadeeUniversalismo.
Divisamos nessas características por ele apontadas alguns traços realmente marcantes da
modernidade,sobretudo,noqueconcerneàvelocidade,ouseja,aumaformadeexpressãomaisdinâmica.
Porém,emoposiçãoaos“meninosde22”,elefazquestãodeassinalarquevelocidadenãosetratade

“ dizer tudo muito ligeirinho, por versos dissilábicos e estrofes espichadas como
salsichas, como vocês tantas vezes fazem./.../ Um verso de vinte sílabas pode ser
mais veloz do que um de duas. E um romance em doze volumes mais rápido que o
outro em um”70

ABrasilidade,outroaspectoquepoderiaaproximarogrupodeFestadosprimitivistas,umavezque
tanto Mário como Oswald estão imbuídos do desejo de consolidação da identidade brasileira, portanto,
empenhados na brasilidade da arte, no abrasileiramento da nossa literatura, é buscada não nas nossas
raízesculturaisindígenas,masnas“obscurasenergiasquesecondensamatravésdemilêniosparaacriação
decadamaravilhosarealidadedanaturezaoudoespírito...”71
Totalidade, como já vimos, é marcada por uma filosofia metafísica, uma vez que implica a
integração das realidades humanas e transcendentes; das realidades materiais e espirituais: humildes ou
formidáveis.72
Porfim,aUniversalidadeseapresentacomoconsequênciadessaabrangênciatotalqueextrapolao
tempoeoespaço.
Por todos esses aspectos, podemos dizer que, bem diferentemente da postura revolucionária de
Mário e Oswald de Andrade, o grupo Festa apresenta uma postura moderadora que o colocaria mais
próximo dos verdeamarelos. Como estes, eles também preferem a ordem e são avessos aos
experimentalismosestéticos.
ComobemoassinalaocríticoGilbertoVasconcelos,

69
SILVEIRA,Tasso.Ibidem.
70
SILVEIRA,Tasso.Aenxurrada.In:RevistaFesta,nº4,janeiro,1928,pp.5/6
71
Idem.Ibidem.p.6
72
Idem.Ibidem.

LETRAS|190

“Há, em verdade, modernismo
mo e modernism mo. Isto é, u
uma ala rad dical, crítica,,
compromeetida com a pesquisa a literária; outra, passsadista, accademizante,,
reacionária
ia do ponto de
d vista polític
ico e diluidora de vista artísttico.73
ra do ponto d


Agoraaé
com
m
vocêê LeiaaopoemaͲm
manifestodoggrupoFesta.




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