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SAMIR HUSSEIN AZIZE ABRAHIM NOGUEIRA

A VALORAÇÃO DA PALAVRA DA VÍTIMA NOS CRIMES CONTRA A DIGNIDADE


SEXUAL

RIO DE JANEIRO
2019
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SAMIR HUSSEIN AZIZE ABRAHIM NOGUEIRA

A VALORAÇÃO DA PALAVRA DA VÍTIMA NOS CRIMES CONTRA A DIGNIDADE


SEXUAL

Projeto de Pesquisa do Trabalho de


Conclusão de Curso apresentado à
Disciplina Metodologia da Pesquisa como
requisito para aprovação na disciplina,
sob a orientação do Professor Carlos
Eduardo Gonçalves..

RIO DE JANEIRO
2019
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A VALORAÇÃO DA PALAVRA DA VÍTIMA NOS CRIMES CONTRA A DIGNIDADE


SEXUAL

Samir Hussein Azize Abrahim Nogueira1

SUMÁRIO: 1 INTRODUÇÃO; 2 TEORIA GERAL DA PROVA; 2.1 CONCEITO E


FUNÇÃO DA PROVA; 2.2 SISTEMAS DE VALORAÇÃO DA PROVA; 2.3 ÔNUS
PROBATÓRIO; 3 DAS PROVAS EM ESPÉCIE; 3.1 CORPO DE DELITO; 3.2 A
PALAVRA DO OFENDIDO; 3.3 CONJUNTURA PROBATÓRIA; 4 DA NATUREZA
HEIONDA E A VIOLAÇÃO DE PRECEITOS FUNDAMENTAIS; 4.1
ENTENDIMENTO JURISPRUDENCIAL; 4.2 A (IM) PARCIALIDADE DOS
JULGADORES 4.3 CASOS CONCRETOS E A BUSCA PELA VERDADE REAL; 5
CONCLUSÃO

1 INTRODUÇÃO
Os crimes contra a dignidade sexual em geral são aqueles que apresentam
maior repulsa da sociedade como os moralmente menos aceitos.
Partindo desse ponto dos crimes moralmente mais condenáveis, encontra-se
no topo da cadeia do senso comum o crime de estupro contra vulnerável, previsto no
TÍTULO VI – DOS CRIMES CONTRA A DIGNIDADE SEXUAL DO CÓDIGO PENAL
que, como se extrai, não está em posição adequada, haja visto a repulsa que se
apresenta perante a sociedade do delito, objeto do estudo, em decorrência do
defasado códex de 1940, o que hoje não retrata os anseios e a evolução da
sociedade.
O delito em tela configura-se como crime hediondo e quando falamos do
estupro de vulnerável devemos salientar que este prescinde de uma avaliação
subjetiva (presunção), pois com o advento da Lei nº 12.015/09, esse critério passou
a ser objetivo (pela idade). Em suma, com o advento da Lei não importa mais se a
vítima consentiu à conjunção carnal ou se porventura se prostituiu. Esta é a posição
em diversos julgados do STJ.
Vale salientar que o estupro de vulnerável não é somente ter conjunção carnal
ou praticar outros atos libidinoso com o menor de 14 anos. Incluem-se neste tipo
penal os enfermos ou os deficientes mentais que não possuem discernimento para a

1 Aluno da Unidade Tijuca da Universidade Cândido Mendes, Matrícula 115021086


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prática do ato, bem como aqueles que, por qualquer motivo, não puderem oferecer
resistência.
A problemática nesta espécie de delito fica a cargo da colheita e produção de
provas no processo, a fim de embasar, motivar e justificar possível condenação por
este delito, pois as vítimas, por conta de sua condição e da natureza do tipo penal,
levam meses senão anos para denunciar tais práticas ou, então, a família, por outro
meio, vem a ter conhecimento dos fatos quando falamos do vulnerável.
Com isto vem a questão dos tipos de provas utilizadas na ação penal, a fim
de esclarecer os fatos e motivar a decisão do magistrado.
Não raro o réu é condenado única e exclusivamente com base na palavra da
vítima, o que pode levar a inúmeras injustiças, pois há notícias em território nacional
do fato, a ser demonstrado em momento oportuno.
Com isso posto, como hipóteses para evitar tais absurdos que ocorrem no
âmbito processual deve-se avaliar e conjugar os sistemas de provas existentes
admitidos na doutrina e que estão em consonância com a Constituição Federal, a
fim de que se busque a verdade jurídica e que o processo não fique eivado de
nulidades.
Como exposto, por ser um crime com alto índice de reprovabilidade, seja no
íntimo moral do julgador, seja pelo senso comum social há um anseio de se
interpretar o Direito Penal de forma extensiva, ampliativa, o que leva a decisões
imotivadas.
Por ser um crime praticado na clandestinidade, às escondidas, em locais
ermos etc., há uma dificuldade em se produzir provas, sejam materiais ou
testemunhais, tendo em vista que a vítima, na maioria das vezes, não procura
denunciar o fato e ceifa a oportunidade de produzir elementos informativos que
possam embasar futura ação penal.
Por ser um crime não transeunte, ou seja, aquele que deixa vestígios, leciona
o artigo 158, do Código de Processo Penal: quando a infração deixar vestígios, será
indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a
confissão do acusado.
Como exposto, não é isso que vem sendo feito em âmbito processual, em
razão da natureza excepcionalíssima do delito. O dispositivo vem sendo mitigado
com a justificativa de perseguir a verdade processual e por razões de política
criminal.
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Com isso tem-se condenado acusados com prova una, baseada única e
exclusivamente na palavra da suposta vítima.
Assim, no âmbito processual desta espécie de delito é que se notam os mais
absurdos error in procedendo de que se tem notícia em todo ordenamento jurídico
pátrio. O réu compõe o polo passivo da relação processual muitas vezes sem
estarem presentes as condições da ação, os pressupostos processuais e justa
causa que justifique e de fundamentos para a ação.
É notório que, não raras vezes, o acusado senta-se no banco dos réus já com
a sentença pré-determinada e com isso decorre a mitigação dos direitos e garantias
fundamentais acarretando nulidade que praticamente nunca é revertida.
Assim, o presente artigo tem como objetivo geral analisar o sistema de
valoração das provas adotado no ordenamento jurídico brasileiro nos crimes contra
a dignidade sexual, e como tal error in procedendo e in judicando influencia no livre
convencimento do magistrado frente à repulsa do senso comum do delito em tela.
No primeiro capítulo procurei conceituar e analisar a função da prova, os
princípios que a norteiam, avaliar o sistema de valoração da prova utilizados pelos
magistrados e verificar o ônus probatório no processo penal.
Já no segundo capítulo, tratei das provas em espécie, com ênfase no corpo
de delito na palavra da vítima e o conjunto probatório que, em tese, deve norteia o
livre convencimento do julgador.
Por fim, no terceiro capítulo, entramos na seara da reprovabilidade do delito e
sua natureza hedionda, bem como a violação de preceitos fundamentais garantidos
na constituição cidadã e a violação a preceitos infraconstitucionais, entendimentos
jurisprudenciais, a parcialidade dos julgadores e, por fim, a análise de casos
concretos e a busca pela verdade real que, não raras vezes, estão eivadas de
nulidades, pela necessidade do punitivismo estatal frente a natureza do delito.

2 TEORIA GERAL DA PROVA