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Apontamentos das Aulas Teoria do Processo

Estudos de Direito (Universidade Nova de Lisboa)

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Teoria do Processo- Professor Doutor Jorge Morais Carvalho


Apontamentos das Aulas- 3ºano /2º Semestre
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Soia Batista Linguíça nº004023

Aula de dia 13 de fevereiro de 2017


Apresentação do programa e do planeamento das aulas.

Processo: Sequência de atos jurídicos, que são ordenados em fases sucessivas com
vistas a um objetivo, nomeadamente a resolução de um litígio. Que atos são estes
que entram nesta sequência do processo?

Exemplo: o professor celebrou um contrato e incumpriu-o e, entretanto, uma das


partes no processo mata a outra, vai ser um facto que vai dar origem a outros atos
jurídicos. Uma das partes morre, e isto é um facto que pode ter implicações no
processo. (se for no processo penal, sendo este o único arguido, o processo
termina). Não se deve confundir atos processuais com factos relevantes ao
processo.

Num processo em tribunal, qual é o primeiro ato? Num processo cível, o primeiro
ato é a propositura da acção, seguindo-se depois todo um conjunto de atos que
culmina na decisão proferida pelo Juiz, podendo haver recurso ou outros meios de
resolução. (Incidentes processuais- quando algo não segue toda a linearidade do
processo normal).

Direito substantivo e direito processual: regulação das relações jurídicas entre as


pessoas (direito substantivo), e o que resulta dessas normas para as pessoas, e as
normas de direito processual destinam-se a regular o direito processual. Quando a
norma regula aspetos relativos ao processo: direito adjetivo.

Como é que vamos deinir cada um dos tipos de processo? Tendo em conta a
matéria.

Princípio da presunção de inocência- só é possível condenar em processo penal sem


dúvida razoável. A aplicação subsidiária do processo civil a todos os outros tipos de
processo supracitados.

Aula de 14 de Fevereiro de 2017 – Aula sobre Negociação


Equipa: 18- 144 pontos

Em que situações é que negociamos? Negociamos para a celebração de um


contrato; quando as partes têm um conlito, um litigio e vão negociar, geralmente
com interesses conlituantes.

Os interesses poderão não ser incompatíveis apesar das posições serem. As


posições são a parte visível do litígio, mas são a parte mais pequena do litígio. A
grande vantagem da negociação é que vamos avaliar os interesses de ambas as
partes, enquanto que no tribunal nos focamos na parte legal da situação.

Conceitos fundamentais: legitimidade; credibilidade; Interesses e preparação.

Apontamentos do Manual de Resolução Alternativa de litígios de Mariana


França Gouveia

1. A noção de negociação

A negociação pode ser deinida como um processo de RAL através do qual uma ou
ambas das partes modiicam as suas exigências até alcançarem um compromisso
aceitável para ambas. De acordo com esta deinição, somos todos negociadores. A
deinição de negociação aplica-se a qualquer meio de resolução de litígios não

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Soia Batista Linguíça nº004023

adjudicatório, quer seja mediação, conciliação ou outros. Em todos estes


mecanismos se tenta chegar a um acordo através do diálogo. Na realidade, a
diferença entre negociação e mediação pode estar apenas na existência do terceiro
imparcial. Enquanto na mediação é essencial a existência de um mediador, terceiro
imparcial que conduz as partes no caminho do consenso, na negociação as partes
podem estar sozinhas a negociar. As próprias partes em conlito podem utilizar as
técnicas da negociação sem intervenção exterior. Há quem defenda, por esta razão,
que a negociação não passa de uma mera, embora essencial, componente destes
outros meios de resolução alternativa de litígios. E que, por isso, não devia ser
autonomizada como um meio de resolução de conlitos. Mas, mesmo os autores que
assim pensam entendem que os conhecimentos das técnicas e estilos de
negociação é essencial a qualquer proissional. Parece-me, assim, importante dar a
conhecer, ainda que de uma forma muito introdutória, alguns conceitos básicos de
negociação, na medida em que podem ser usados autonomamente ou no âmbito de
outro mecanismo de RAL.

2. Modelos de negociação

Há essencialmente dois modelos de negociação: competitiva e cooperativa. A


diferença entre um e outro está essencialmente no resultado pretendido e
consequentemente na atitude assumida para o alcançar. Enquanto que no modelo
competitivo o negociador pretende ganhar a discussão, no modelo cooperativo o
foco está na resolução do problema. É este último o célebre modelo de Fisher, Ury e
Patton, verdadeiramente inovador quando surgiu nos anos 80. Este método foi
designado de negociação de princípios, centrando-se no mérito do problema. O
método dos princípios centra-se em quatro grupos de ideias: pessoas, interesses,
opções e critérios. Quanto às pessoas, o método defende a separação destas do
problema, isto é, que se tome consciência de que o problema em discussão é
diferente da pessoa que discute, de que os aspetos estritamente pessoais não
devem ser mais importantes que o assunto sobre o qual se negoceia. Mas, para
conseguir esta separação deve, primeiro, perceber-se o ponto de vista do outro. A
capacidade de olhar a situação sob o ponto de vista alheio, por mais difícil que seja,
é uma das mais importantes competências que um negociador pode ter. o essencial
é perceber-se que a verdade não é suiciente para resolver o problema, na medida
em que cada uma das partes escolhe da verdade aquilo que lhe interessa. As partes
podem concordar que um perdeu o relógio e que o outro o encontrou, mas
divergirem em quem deve icar com ele. A perceção do outro, o que se consegue
através da comunicação e da descentralização da sua posição é essencial neste
separar as pessoas do problema. Sem comunicação, não há negociação. A grande
inovação deste modelo foi a focagem nos interesses em detrimento das posições.
Os interesses estão claramente subjacentes às posições. Uma posição ou, numa
linguagem mais jurídica é o resultado da relexão de um determinado interesse. A
tarefa de procurar os interesses por detrás das posições, pode, porém, ser bem
complexa. Implica perguntar porquê, obriga a falar sobre os interesses, levando
cada uma dar partes a perceber os seus e os da outra parte. E, estabelecidos os
interesses objetivamente, os autores defendem uma sua defesa intransigente,
enérgica. Os negociadores devem ter uma ideia clara e irme sobre os interesses e
ser lexíveis quanto ás posições. Em relação ás opções, este método defende uma
atividade criadora: a capacidade de inventar opções é das qualidades mais úteis
que um negociador pode ter. as opções devem ser obrigatoriamente discutidas e
nunca colocadas de lado, permitindo-se assim aprofundar as possibilidades de se
encontrar uma solução melhor para as duas partes. Por último, é importante o foco
em critério objetivo. Ou seja, ultrapassar as questões da vontade, necessariamente
objetivas, procurando padrões técnicos ou critérios neutrais que mais facilmente
conduzam ao acordo. Quando uma das partes persistir numa ideia, revelando-se
intransigente, deve insistir-se que o acordo obedeça a critérios objetivos de forma a

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ser justo para todos. É a melhor forma de ultrapassar impasses baseados numa
postura agressiva ou defensiva das partes.

Aula de dia 20 de fevereiro de 2017: Negociação, mediação e


arbitragem
1. Mediação

Deinição (art. 2.º LM): “forma de resolução alternativa de litígios, realizada por
entidades públicas ou privadas, através do qual duas ou mais partes em litígio
procuram voluntariamente alcançar um acordo com assistência de um mediador de
conlitos”.

 Mediação é uma negociação assistida por um “terceiro, imparcial e


independente, desprovido de poderes de imposição aos mediados, que os
auxilia na tentativa de construção de um acordo inal sobre o objeto do
litígio”.

Mediação: o mediador é um terceiro imparcial numa negociação, sendo que não


tem qualquer poder decisório. As principais formas de vinculação à mediação
prendem-se com a vinculação à lei e a vinculação contratual. Na perspetiva do
docente, nenhuma parte deve ser obrigada a participar na mediação, mas poderá
haver lugar a responsabilidade civil por incumprimento da convenção de mediação
(Artigo 12º nº4 da Lei da Mediação: consequência é a suspensão da instância,
icando o processo aberto). Se a convenção de mediação não for invocada pelo réu,
o processo judicial continua aberto e o caso continua a ser julgado, como que uma
espécie de acordo tácito entre as partes, na medida em que ninguém invocou a
convenção de mediação. O juiz pode em qualquer momento da causa de remeter o
processo para mediação.

Se a parte propôs uma ação sabendo da existência de uma convenção de


mediação, a parte basicamente procura “Atrasar o processo”.

É o primeiro diploma que veio regular de forma sistemática a mediação: Lei nº


29/2013 de 19 de Abril. (transposição de uma diretiva europeia pela lei da
mediação, o que signiica que os estados-membros terão regras semelhantes à lei
da mediação portuguesa). No entanto, o docente considera que a mediação deve
ser lexível, na medida em que quanto mais se regula, menos lexibilidade terá este
processo de RAL.

 Participação de um terceiro imparcial (mediador);


 “Acordo”: na arbitragem não se visa apenas um acordo, no entanto, na
mediação só se visa um acordo, nunca havendo uma decisão que vincule as
partes que não seja um acordo, ao contrário da arbitragem.
 A mediação é uma negociação assistida por um terceiro imparcial e
independente desprovidos de poderes de imposição aos mediados, que ao
auxilia na tentativa de construção de um acordo inal sobre o objeto do
litígio.
 Distinção entre imparcialidade e independência: a imparcialidade relaciona-
se com uma abstenção valorativa relativamente ao litígio em causa (tomar
partido empático por uma das partes); a independência resulta da relação
que se tenha com uma das partes ou com algum interesse relativo ao litígio
em causa.
 “Empowerment” – domínio do processo pelas partes. As partes têm que
sentir que são elas que são donas do processo. Por exemplo, se na
decorrência da mediação as partes não sentirem necessidade da presença

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Soia Batista Linguíça nº004023

do mediador, podem passar para uma negociação para acordo, decorrendo


isto do princípio da voluntariedade.
 Têm ou não uma maior intervenção o mediador? O modelo português é
adepto de uma mediação facilitadora, em que o mediador tem menos
intervenção no processo ao contrário do modelo “Evaluative Mediation”. O
mediador pode/ deve fazer propostas? O docente considera que não se deve
ser radical, no entanto, com cautela. O mediador, na sequência da mediação
pode fazer uma sugestão às partes, desde que o Empowerment não se
perca, podendo ter um pouco mais de intervenção em determinados casos.
Sendo as partes livres de aceitar ou não.
 Princípios da mediação: Voluntariedade; Igualdade e Conidencialidade.
 Igualdade: não é possível mediar com desigualdade. Uma das técnicas pode
ser através da intervenção de advogados na mediação, no entanto, não é
desejável que sejam os advogados a mediar, no entanto, a presença de um
advogado pode colocar um equilíbrio. Caso não haja igualdade, o mediador
deve terminar a mediação.
 Conidencialidade: porque se pretende que as partes revelem os seus
interesses que não querem que estejam disponíveis fora daquele círculo.
Nenhuma das partes pode utilizar a informação que obteve da outra parte
num processo judicial ou arbitral posterior.
 O mediador pode em qualquer momento decidir terminar o processo de
mediação. O mediador pode ser responsabilizado nos termos gerais da
responsabilidade civil.

A pepsi tem que provar que obteve aquela informação por outra via para efeitos
indemnizatórios por incumprimento da conidencialidade da mediação.

A mediação em Portugal

 Sistemas públicos de mediação (mediação familiar, laboral, penal);


 Mediação penal: entre o arguido e a vítima, no entanto, para casos de crimes
privados, desde logo de crimes que dependam de queixa.
 Julgados de paz;
 Mediação privada: pouco utilizada em Portugal. Existem mais regras para os
sistemas de mediação pública.
1. Convenção de mediação: (12º da LM): suspende-se a instância até ao acordo
ou não acordo das partes. A desistência também pode terminar com o
processo judicial sem estar ligado com a própria mediação. Na mediação não
há nenhum prazo ixo para a suspensão da instância, no entanto, a parte
pode por termo à mediação;
2. Mediabilidade: que litígios são mediáveis (Artigo 11º) – Quais são os critérios
de transação? 1249º e ss. Critério da disponibilidade da situação jurídica. Se
puder pode haver mediação, ainda que não tenha caráter patrimonial. Se
não tiver caráter patrimonial não pode existir mediação.
3. Homologação do acordo: é um contrato. Serve para que eu o possa executar
de imediato. (artigo 14º da LM). A homologação só acrescenta o seu caráter
executivo em comparação ao acordo. O artigo 14º nº3 prevê que o juiz deve
homologar, no entanto o professor não considera correto, na medida em que
não podemos considerar em que as partes possam estabelecer no contrato
normas ilícitas, mesmo que não violem a ordem pública, alargando os
fundamentos de recusa de homologação, nos casos em que esta é contrária
à lei. – Ver artigo 21º.

Apontamentos do Manual de Resolução Alternativa de litígios de Mariana


França Gouveia (páginas 17-25;47-52;78-100)

a) Noção

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Os meios de resolução alternativa de litígios, tradução livre de designação inglesa


alternative dispute resolution podem deinir-se como o conjunto de procedimentos
de resolução de conlitos alternativos aos meios judiciais. A deinição é
propositadamente vaga, na medida em que não existe qualquer tipologia fechada.
Tem vindo lentamente a irmar-se uma tipologia de mios que compõem a resolução
alternativa de litígios, mas não é, nem pretende ser deinitiva. Daí que a inserção de
um método nos meios de resolução alternativa de litígios se faça pela negativa, ou
seja, não é judicial. Esta distinção não é, porém, suiciente para enquadrar como
meio de RAL a conciliação judicial, tal como regulada no artigo 594º do CPC. A
tentativa de conciliação aí prevista é, evidentemente, conduzida por um juiz no
âmbito de um processo judicial. Não se trate, portanto, de um meio de resolução
alternativa de litígios não judicial, embora se funde no consenso, apartando-se da
clássica forma de resolver o litígio através do tribunal. Ainda que decorra em
ambiente judicial, faz sentido, no meu entender, estudar a conciliação judicial ao
lado dos outros meios de RAL, primeiro, porque se trata de uma resposta alternativa
ainda que em ambiente judicial e, segundo porque em mais nenhum lado se estuda
e o seu exame é importante em termos de oferta de Justiça. A deinição de
resolução alternativa de litígios, deve ser assim, alargada a todos os meios de
resolução de conlitos que sejam diferentes da decisão por julgamento em tribunal
estadual. Pode qualiicar-se os meios de resolução alternativa de litígios consoante
três critérios: voluntário ou obrigatório; adjudicatório ou consensual; centrado nos
interesses ou nos direitos; os meios de RAL são por regra, voluntários, dependendo
unicamente de a vontade das partes aderir ou não a um mecanismo de RAL. Esta
sua característica permitia diferenciá-los dos meios judiciais de resolução de litígios,
sempre obrigatórios. No entanto, ainda dentro dos meios de resolução alternativa
de litígios podemos encontrar meios obrigatórios. Desde logo a arbitragem
necessária, imposta por lei. Em segundo lugar, os Julgados de Paz, se entendermos
que a sua jurisdição não está na disponibilidade do autor. Por im, discute-se hoje
internacionalmente a bondade de soluções de mediação obrigatória. Qualquer uma
destas formas alternativas de resolução de litígios quando tornadas obrigatórias
tem sido fonte de dúvidas quanto à sua constitucionalidade. O Tribunal
Constitucional pronunciou-se por duas vezes pela inconstitucionalidade da
arbitragem necessária em matéria desportiva, embora o fundamento seja apenas
relativo à impossibilidade de recurso para os tribunais estaduais e não quanto à
possibilidade de a lei estabelecer a arbitragem necessária. Embora saliente o facto
de se tratar de matéria de direito público que, por si só, exigiria a possibilidade de
controlo estadual ao nível de recurso, na segunda decisão o Tribunal assume que a
arbitragem necessária só é conforme à CRP se for previsto um mecanismo de
reexame da decisão arbitral. Outro regime de arbitragem necessária que tem
suscitado uma grande polémica foi o instituído pela lei nº62/2011, de 12 de
dezembro, relativos aos litígios de propriedade intelectual quando estejam em
causa medicamentos de referência e medicamentos genéricos. Apesar de várias
questões de constitucionalidade estarem em debate o diploma ainda não foi objeto
de decisão pelo tribunal constitucional. Quanto aos julgados de paz, o STJ decidiu
em acórdão de uniformização de jurisprudência de 24 de Maio de 2007 que a
competência dos Julgados de Paz é alternativa, estando na disponibilidade do autor
a opção entre estes tribunais ou os tribunais judiciais. Se se optar por este
entendimento, os julgados de paz serão um meio voluntário de RAL. São, portanto,
voluntários a negociação, a mediação, a conciliação e a arbitragem voluntária. É
obrigatória a arbitragem necessária. Os julgados de paz serão voluntários ou
obrigatórios conforme a posição que se tome sobre a sua competência. Por im, os
meios de resolução alternativa de litígios podem partir de duas perspetivas
completamente diferentes: a dos direitos ou a dos interesses. A ótica dos direitos é
claramente a tradicional, a dos tribunais estaduais. É a que surge na arbitragem e,
em regra, na conciliação. Baseia-se na discussão dos argumentos legais de cada

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parte. A outra perspetiva de tratamento do problema é verdadeiramente nova para


os juristas, e por isso de difícil perceção. Tem como ponto de vista os interesses das
partes, individualmente considerado, desconsiderando que o Direito determina
sobre o seu caso. Tenta conciliar interesses e não direitos, procurando a paciicação
do conlito em detrimento da solução juridicamente correta. A mediação na sua
vertente facilitadora é claramente um meio de RAL baseado nos interesses. Há
doutrina que utiliza esta distinção, acrescentando ainda outra categoria: a baseada
no poder. Poder é aqui considerado a capacidade de coagir alguém a fazer algo que
voluntariamente não faria. O poder também é utilizado em resolução de conlitos
quando existe uma relação de dependência entre as partes, quer se trate de
relações familiares, laborais, comerciais ou internacionais. O detentor do poder
tentará sempre coagir a parte mais fraca a tomar determinada decisão que o
favoreça. Podemos fazer referência a outros métodos de RAL que parecem ser
bastante interessantes: o mini-julgamento, a avaliação neutral prévia, a decisão não
vinculativa e o painel de resolução de conlitos.

Mediação

 A lei da mediação deine mediação, logo no seu artigo 2º como: “a forma de


resolução alternativa de litígios, realizada por entidades públicas ou
privadas, através do qual duas ou mais partes em litígio procuram
voluntariamente alcançar um acordo com a assistência de um mediador de
conlitos”.

Mais acrescenta a lei no mesmo artigo que o mediador é um terceiro, imparcial e


independente, desprovido de poderes de imposição aos mediados. Importante para
a deinição do meio de resolução alternativa de litígios ainda outra regras, em
especial aquelas onde se deinem princípios essenciais da mediação. Assim, o artigo
4º LM relativo ao princípio da voluntariedade esclarece que só ás partes cabe a
responsabilidade pelas decisões tomadas no decurso da mediação e o artigo 26º b)
LM impõe ao mediador que se abstenha de impor qualquer acordo aos mediados. A
concepção de mediação é sucedânea daquela que consta da Diretiva 2008/52/CE do
Parlamento Europeu e do Conselho relativa a certos aspetos da mediação em
matéria civil e comercial, transposta para o nosso ordenamento jurídico,
precisamente através da lei da mediação. A deinição constante da diretiva é a
seguinte: “ a mediação é o processo estruturado, independente da sua designação
ou do modo como lhe é feita referência, através do qual duas ou mais partes em
litigio procuram voluntariamente alcançar um acordo sobre resolução do seu litígio
com a assistência de um mediador. Este processo pode ser iniciado pelas partes,
sugerido ou ordenado por um tribunal ou imposto pelo direito de um Estado-
Membro”. O ponto essencial da mediação não resulta, porém, de uma primeira
leitura das normas. O essencial na mediação é o pleno domínio o processo do
processo pelas partes, princípio que é o seu fundamento e, naturalmente, uma sua
característica permanente. A mediação assenta na ideia de que é nas partes que
reside a solução do problema, que é através delas, as donas do litígio, que se
encontra a solução adequada e justa. Este princípio fundador da mediação consta
de regras legais de mediação se se atentar bem na lei: ao referir-se voluntariedade
na procura do acordo e a responsabilidade das partes nas suas decisões (artigo 4º
LM), ao deinir-se o mediador como alguém que apenas assiste e não impõe (artigo
2º b) LM), ao estabelecer-se como dever do mediador que se abstenha de impor
qualquer acordo é claríssima a nota da mediação. Relexo, por isso, deste princípio
essencial da mediação é a postura do mediador, o mediador auxilia, o mediador
assiste: não dirige, não impõe qualquer acordo. A sua função é simplesmente a de
ajudar as partes, primeiro, a restabelecer a comunicação e, segundo, a encontrar a
solução adequada. A doutrina tem debatido se a mediação deve ser meramente
facilitadora ou se deve também ser interventiva. A mediação facilitadora centra o

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trabalho do mediador na reabertura das pessoas aos diálogos, tentando que a sua
intervenção seja o menos visível possível, embora determinante. Quanto menos se
notar a presença do mediador no que diz respeito ao conteúdo do litígio, melhor
este seria. Já o modelo interventor pressupõe uma postura mais ativa do mediador,
não se limitando a trazer as partes ao diálogo, mas agindo também ao nível do
mérito da questão. Um dos pontos de discórdia é possibilidade de o mediador
apresentar propostas de acordo. Na mediação facilitadora tal não é admissível.
Quando a lei, o Estado ou os juristas se referem a mediação, estão a falar de
mediação facilitadora. Esta opção resulta da nova lei de mediação quando
determina como dever do mediador, no artigo 26º b) LM, que este se abstenha de
impor qualquer acordo aos mediados. Por esta razão, porque o sistema adquiriu ou
tem vindo a adquirir o conceito desta forma, parece-me melhor restringir a
mediação à mediação facilitadora, deixando de fora outros modelos mais
interventivos. A mediação praticada nos Julgados de Paz e nos sistemas públicos de
mediação obedece a este modelo, assim como a formação obrigatória a que os
mediadores estão sujeitos para poderem exercer a proissão de mediadores (Artigo
24º LM). Mediação será assim apenas o método de RAL em que o mediador auxilia
as partes a comunicarem, conduzindo-as ao caminho do acordo que entendam
como possível ou adequado. O mediador é essencialmente um facilitador, alguém
que coloca as partes no trilho seguro e não as deixa desviar dos seus reais
interesses. É a descoberta dos interesses que permite chegar a um acordo
verdadeiramente paciicador. Repare-se que esta restrição não é uma crítica aos
modelos mais interventivos de mediação. Pelo contrário, no entendimento de
Mariana França Gouveia parece que conforme as situações concretas em disputa
poderá fazer sentido que o mediador assuma uma postura de maior ingerência.
Estes outros modelos de mediação não deixam de ser bons, apenas constata que o
nosso sistema jurídico assumiu que não são mediação.

b) Pleno domínio das partes e interesses

Um dos princípios básicos da mediação é o controlo destas partes, o denominado


Empowerment. Em tribunal, os poderes decisórios estão na mão de advogados, a
linguagem é técnica, o procedimento é formal e opaco, o regime das declarações
das partes formal e limitado. O afastamento das partes do seu caso é enorme e é
pretendido. Na mediação, a postura é exatamente a oposta: parte-se do princípio
que as partes são as pessoas que melhor colocadas estão para resolver o seu litígio.
Há uma ideia de responsabilidade pessoal que se traduz na atribuição às partes do
domínio do problema e do processo. Enquanto em tribunal tudo lhes é afastado, na
mediação tudo lhes é entregue, dependendo delas o início o decurso e ao im da
mediação. Assim o estabelece claramente a lei da mediação ao estatuir no artigo 4º
da LM que cabe às partes a responsabilidade pelas decisões que tomam, assim
como lhes reconhece a possibilidade de saírem quando entenderem sem qualquer
consequência processual. O mediador não deve de todo intervir quanto ao mérito,
limitando-se a conduzir as partes no caminho do diálogo e da mútua compreensão,
como o im que estas reúnam as condições para encontrarem, por si, o acordo. Este
aspeto pode parecer estranho à primeira vista, mas é muito importante na dinâmica
da mediação. A característica do Empowerment é, assim, essencial na mediação.
Uma mediação em que as partes não no centro da discussão e da iniciativa não
será verdadeira. E mesmo tendo sucesso, este poderá ser meramente aparente. O
acordo resultante da mediação tem de vir das partes e estas têm de aderir-lhe
plena e convictamente. O segundo pilar da mediação relaciona-se com o seu im. Ao
contrário dos meios clássicos de resolução de conlitos, que são construídos para a
resolução da disputa apresentada pelas partes, a mediação dá preferência à
paciicação social, isto é, tem como objetivo sanar o problema, restabelecendo a
paz social entre os litigantes. Este im sobrepõe-se inteiramente à questão do
direito. Não importa saber quem tem razão, mas antes procurar resolver os

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problemas subjacentes ao aparecimento do litígio. Trata-se, portanto, de um método


de resolução de litígios assente nos interesses e não nos direitos. Assim, como se
viu acontecer na negociação cooperativa, é necessário averiguar os interesses,
afastando, se necessário, as posições. É usual utilizar- se a imagem do iceberg
como metáfora do litígio: as posições estão na ponta visível deste e os interesses na
base submersos. Num conlito, as pessoas extremam as suas posições, deixando
submersos os seus verdadeiros interesses e necessidades. É à base que a
mediação pretende chegar, porque só a composição dos interesses permitirá a
duração do acordo e a manutenção do entendimento entre os litigantes. O resultado
da mediação é, por isto, de vitória para ambas as partes, do win-win, nunca
havendo um vencedor e um vencido. Daqui também se explica que a homologação
do acordo tenha como critério de exame apenas e tão só princípios gerais de
direito, como a boa-fé e a ordem pública (artigo 14º nº3 LM).

c) As convenções de mediação

Uma questão importante e muitíssimo importante e muitíssimo atual é a dos efeitos


da celebração pelas partes de uma convenção de mediação. É certo que as partes,
na sua autonomia privada, podem acordar, no âmbito de um litígio ou previamente
à sua existência contratual, o recurso à mediação. Essa convenção tanto pode estar
sozinha como acompanhar uma convenção de arbitragem. Neste caso, é conhecida
como multi-step clause, querendo com esta expressão indicar-se que os contraentes
acordam na resolução do litígio em várias fases. Assim, numa cláusula deste tipo,
de acordo com a vontade das partes, o litígio deve ser resolvido em primeiro lugar
por mediação e, se esta não for bem-sucedida, por arbitragem. A admissibilidade de
uma cláusula deste género é inquestionável, porque, como disse, se funda na
autonomia privada das partes. Ponto já eventualmente mais discutível é o dos seus
efeitos, designadamente quando há incumprimento. Numa situação em que uma
das partes não inicia a resolução do litígio pela mediação, partindo logo para a
arbitragem ou para o tribunal judicial, coloca-se a questão de como deve este
tribunal decidir caso a parte contrária levante a questão. A lei da mediação veio
resolver, no direito português, este problema, estabelecendo como consequência da
propositura da acção sem início prévio de um procedimento de mediação a
suspensão da instância. De acordo com o artigo 4º do artigo 12º LM, o tribunal,
judicial ou arbitral, no qual seja proposta acção relativa a questão abrangida por
uma convenção de mediação deve, se requerido pelo réu, suspender a instância e
remeter o processo para mediação. Este é um regime inovador na nossa ordem
jurídica, e, parece-me que adequado à mediação. É certo que, no lugar paralelo da
arbitragem, a consequência é a absolvição da instância, conforme estipula o artigo
5º da LAV, mas a realidades são diversas por duas razões. Em primeiro lugar,
porque em arbitragem o litígio ica deinitivamente resolvido pela sentença arbitral,
pelo que não faz sentido manter pendente o judicial; enquanto na mediação é
possível que não haja acordo e se tenha de retomar a resolução do caso por via
judicial. Em segundo lugar, na homologação pelo tribunal, conforme impõe o nº5 do
artigo 273º do CPC e depois ao artigo 45º da LM. Ou seja, independentemente do
resultado do processo de mediação, é sempre necessária uma intervenção do
tribunal onde a acção se iniciou, pelo que a solução da suspensão da instância é
boa. A lei estabelece requisitos formais e materiais de validade da convenção de
mediação. O requisito formal diz respeito á forma e o material ao objeto. Quanto á
forma, a lei exige forma escrita, adotando o nº2 do artigo 12º da LM a noção ampla
de forma prevista para a convenção de arbitragem (artigo 2º nº2 da LAV), pelo que
se remete para considerações a esse propósito aduzidas. Por im, estatui-se que a
nulidade da convenção de mediação caso não obedeça à forma escrita ou o seu
objeto não seja legalmente mediável. A lei nada diz sobre a análise destes
requisitos pelo juiz quando suspende o processo e o remete para mediação. Em
arbitragem, a alegação de uma convenção de arbitragem em processo judicial

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impede o tribunal de se pronunciar para além da manifesta nulidade, o que foi


especiicamente consagrado no artigo 5º da LAV. Esta regra, conhecida como a
eicácia negativa da convenção de arbitragem, decorre da prioridade da
competência jurisdicional do tribunal arbitral para decidir da sua própria
competência. Ora, não me parece que o problema se coloque na mediação, na
medida em que o mediador não tem qualquer tipo de competência jurisdicional. O
mediador não tem poder decisório sobre o litígio, limitando-se a sua competência a
conduzir o espaço de diálogo que é a mediação. Assim sendo, o tribunal judicial tem
competência plena para avaliar a validade da convenção de mediação, se ela for
inválida ou ineicaz deve declará-lo, indeferir o requerimento de suspensão e
prosseguir com o processo.

d) A Mediabilidade

Uma questão diferente desta é a do âmbito dos litígios mediáveis. A diretiva, no seu
artigo 1º nº2, restringe os litígios mediáveis àqueles que respeitem a direitos
disponíveis. Inicialmente, a legislação portuguesa que a transpôs para o Código de
Processo Civil não incluiu qualquer restrição: o artigo 249º-A nº1 CPC admitia a
mediação de qualquer litígio. A mediação é, aliás, aplicável em domínios de clara
indisponibilidade como o Direito Penal ou o Direito da Família. Defendi, então,
que o critério da Mediabilidade se reconduzia ao da disponibilidade, visto
entender que se aplicava o critério estabelecido para a transação judicial no artigo
289º. Esta posição ica, porém, prejudicada com a alteração introduzida pela LM,
que regula expressamente esta matéria no artigo 11º. De acordo com este preceito,
são mediáveis os litígios de direito civil e comercial, deixando em aberto, portanto,
a possibilidade de mediação de conlitos de outras áreas que não tenham caráter
patrimonial. Assim acontece, por exemplo, com a mediação penal porque prevista
em lei especíica, a Lei nº20/2007 de 12 de junho; com a mediação familiar porque
prevista no artigo 1774º CC e no despacho que a regulamenta. Já a mediação
laboral está limitada, nos termos do protocolo que a criou, aos litígios relativos a
direitos disponíveis. Fora destes casos, e de outros previstos em legislação em
legislação extravagante, a mediação só pode ocorrer em litígios que respeitem a
interesses de natureza patrimonial. É este também, desde a LAV de 2011, o
critério da Arbitrabilidade, conforme o artigo 1º nº1 LAV. O critério da
patrimonialidade foi importado das leis de arbitragem suíça e alemã, visando
precisamente resolver as diiculdades de aplicação que o critério da disponibilidade
colocava. No fundo, no âmbito privado da disponibilidade (a liberdade) é o valor
regra e a circunstância de, em certos casos, ser necessário um reforço de proteção
individual (através de normas imperativas) nada tem a ver como modo como o
litígio se resolve. Este raciocínio é seguramente válido para a arbitragem onde os
árbitros decidem de acordo com o direito constituído, não havendo qualquer
intervenção da vontade das partes no conteúdo da decisão.

 Já para a mediação, este ponto de vista pode ser rebatido se se


considerar que esta se destina a celebrar um acordo entre as
partes, acordo que, do ponto de vista jurídico, nada é mais do que
um contrato.

Ora, esse contrato estará limitado aos direitos que as partes podem dispor, ou seja,
aos direitos disponíveis. Desta linha de pensamento se retiraria que não podia
haver mediação em litígios representantes a direitos indisponíveis, na medida em
que o acordo das partes nenhum valor jurídico tem. Este raciocínio não é, porém,
correto.

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Ele parte de um pressuposto errado: o de que certas categorias de direitos,


chamados direitos indisponíveis, são plena ou absolutamente indiferentes aos
negócios que as partes podem celebrar. Como refere desde cedo Carlos Ferreira de
almeida salientou, os direitos indisponíveis de direito privado não são classiicações
em bloco, antes resultam de caso a caso. Com efeito, direitos tidos como
indisponíveis, desde logo os direitos de personalidade, podem ser objeto de
negócios jurídicos, desde que respeitados determinados limites e regras.

 Por esta razão, a aplicação do critério da disponibilidade aos meios de RAL


implicava uma restrição não justiicável. Certos litígios não podiam ser
mediados por supostamente respeitarem a direitos indisponíveis, mas na
verdade os acordos que se poderiam aí eventualmente obter, seriam válidos
por se enquadrarem no âmbito disponível desses direitos.
 Por outro lado, a aplicação do critério da disponibilidade aos meios de RAL
criava diiculdades práticas de concretização.

Mariana França Gouveia considera que a importação da LAV do critério da


patrimonialidade para a mediação é muito positivo, na medida em que permitiu
alargar o âmbito da mediação, facilita a sua aplicação prática, dispensa questões
teóricas inúteis. Regressando à mediação, hoje em dia são mediáveis os litígios em
matéria civil e comercial que respeitem a interesses de natureza patrimonial. O que
é patrimonial é muito simples: sempre que estiver em causa um interesse
pecuniário ou económico, a mediação é sempre admissível. Inclui, portanto,
todas as pretensões que se expressem em quantia pecuniária, mas vai
naturalmente para além destas situações, compreendendo disputas relativas a
transações económicas ou mesmo quando se pretenda o cumprimento de
prestação de facto ou de declaração de validade ou invalidade de actos
negociais. O que determina a Mediabilidade, tal como a Arbitrabilidade é a
natureza patrimonial ou económica da relação jurídica e não o conteúdo do
eventual acordo. Para além do critério da patrimonialidade e também à semelhança
da LAV (Artigo 2º nº2), a LM permite a mediação de litígios respeitantes a interesses
não patrimoniais desde que as partes possam celebrar transação sobre direito
controvertido (Artigo 11º nº2 LM). São passíveis de transação os direitos
disponíveis, conforme estabelece o artigo 289º CPC. Assim, fora da área da
patrimonialidade o critério é o da disponibilidade. Assim, distinguiram-se
dentro da indisponibilidade, a indisponibilidade absoluta da relativa, concluindo que
os negócios processuais são válidos se estiverem em causa direitos relativamente
indisponíveis e inválidos se versarem em absoluto sobre direitos em absoluto
indisponíveis. Com esta distinção, a que se fará longa referência a propósito da
arbitragem, se limita enormemente o que não pode ser sujeito a mediação. Assim,
em relação aos direitos relativamente indisponíveis é possível a mediação, mas,
como já se veriicava na arbitragem, o controlo faz-se posteriormente na
homologação. Em conclusão, perante a nova LM são mediáveis todos os litígios civis
e comerciais que respeitem a interesses patrimoniais, sejam ou não disponíveis.
Para além destes, são ainda mediáveis os litígios não patrimoniais desde que
relativamente disponíveis.

e) Homologação e executoriedade do acordo obtido em mediação

Se da mediação resultar um acordo, as partes podem requerer a sua homologação


por um juiz (Artigo 14ºLM). O preceito não tem correspondência na diretiva que
apenas trata, no trata, no artigo 6º, da executoriedade dos acordos obtidos por via
de mediação. Nos termos desses preceitos, os Estados têm de garantir que o
conteúdo de um acordo reduzido a escrito seja declarado executório. Ora, a
transformação do acordo em título executivo pode surgir de diversas formas. A Lei
da Mediação prevê duas delas: a homologação que transforma o conteúdo do
acordo em sentença ou, em homologação, se preencher os requisitos dos artigos

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9ºLM. Mas para além destas há outras formas de conferir força executiva a um
acordo obtido em mediação, de que tratarei mais à frente. Falaremos mais
separadamente de cada uma destas questões, homologação(1) e
executoriedade(2), começando pela primeira.

(1) Querendo as partes ver o acordo homologado, devem pedi-lo um tribunal


competente em razão da matéria, de acordo com as regras a deinir em
Portaria do Ministério da Justiça. Essa portaria não existe à data, o que não
deve impedir, no entendimento de Mariana França Gouveia, que as partes
submetam o pedido de homologação. O pedido tem de ser subscrito
pelas duas partes, conforme expressamente esclarece o artigo 14º
nº2 LM, eliminando qualquer dúvida sobre a natureza deste
instrumento de homologação: não serve para uma das partes impor
à outra o acordo ou até a sua eventual invalidade, mas tão para
conferir força executória especial ao acordo ou uma força
executória reforçada. Poderá ter uma função apenas pedagógica, isto é,
mesmo que nenhuma das partes pretenda a sua execução, ica seguro caso
se torne no futuro necessária. Também é certo que a lei não estabelece
qualquer prazo para este pedido de homologação, pelo que ele pode ser
feito a todo o tempo, designadamente imediatamente antes da entrada da
execução. A homologação de acordo obtido em mediação tem natureza
urgente sendo decidida sem necessidade de prévia distribuição (artigo 14º
nº4 da LM).
 Importa saber se a homologação é facultativa também nos casos em que a
mediação se iniciou na pendência de um processo estadual ou arbitral. Em
segundo lugar, há que determinar o nível de controlo judicial do acordo. No
direito português, a LJP obriga à homologação do acordo obtido em
mediação (artigo 56º nº1). De acordo com o artigo 273º nº3 CPC, o acordo é
enviado para tribunal, seguindo-se os termos deinidos na Lei da Mediação.
Ora, esta matéria está regulada no artigo 45º da LM, mas não sem antes
impor essa homologação. O que signiica, portanto, que o acordo obtido em
mediação em processo pendente é obrigatoriamente sujeito a homologação
judicial.

Mariana França Gouveia considera que esta obrigatoriedade é de certo modo


contraditória se atentarmos nas restritas exigências de conidencialidade previstas
no artigo 5º da LM. Se é verdade que aí se estipula como excepção ao dever de
sigilo a divulgação do acordo, só se admite precisamente quando tal seja necessário
para a sua aplicação ou execução. Ora, na mediação em processo pendente, tal
conidencialidade é sempre quebrada por via da homologação obrigatória,
independentemente de ser condição necessária de execução.

 Em termos internacionais, o padrão da homologação é o da ordem pública. A


lei dos julgados de paz nada diz sobre esta homologação. Já a lei da
mediação inovou nesta matéria, ao estabelecer no artigo 14º nº3 LM que a
homologação judicial tem por im veriicar se o acordo respeita litígio que
possa ser objeto de mediação, a capacidade das partes para a sua
celebração, se é conforme aos princípios gerais de direito e à boa-fé, se não
constitui um abuso do direito e o seu conteúdo não viola a ordem pública.

Esta formulação é inteiramente nova e vem substituir o anterior critério, mais


amplo, da conformidade com a legislação em vigor (artigo 249º-B nº3 CPC), mas
também aplicável à mediação em processo pendente que consistia na remissão
para as regras da transação. Ora, o artigo 290º CPC estabelece que o juiz determina
a validade do acordo em função do seu objeto e da qualidade dos seus
intervenientes, o que criava alguma diiculdade de coerência interna do sistema
jurídico. Este parecia estabelecer critérios de homologação diversos consoante o

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acordo fosse obtido em mediação pré-judicial ou em mediação judicial (processo


pendente). Por esta razão, a coerência do OJ, Mariana França Gouveia defendeu que
o melhor entendimento era que os padrões de análise para a homologação eram
idênticos qual fosse a circunstância do acordo. Assim, quer a mediação fosse pré-
judicial, quer contemporânea do processo, os requisitos de análise de homologação
seriam os mesmos, os constantes do artigo 290º do CPC. Este entendimento ica
em parte validade com a nova lei e em parte modiicado. Passa a haver uma
identidade de critérios para a homologação do acordo obtido em mediação,
independentemente das circunstâncias da sua obtenção. Assim o determina a dupla
remissão do artigo 273º nº5 CPC para o artigo 45º LM e deste para o artigo 14º. Por
outro lado, porém, a formulação adoptada pela Lei da Mediação afasta-se da letra
dos índices da homologação da transação judicial, consagrada no artigo 290º do
CPC. Enquanto o artigo 14º LM optou por uma lista extensa de critérios de
homologação, o artigo 290º CPC mantém os tradicionais. A doutrina tem
interpretado esta norma sem grandes controvérsias.

1) O juiz tem, primeiro, de veriicar a qualidade das partes para aferir se estas têm
capacidade e legitimidade para concluir o acordo, o que se analisa nos termos
gerais. Depois tem de examinar o objeto da transação, primeiro determinando se
pode ser transacionado e de seguida se tem idoneidade negocial.

2) o critério de adminissiblidade de submissão de conlitos a conciliação é,


conforme o preceito do artigo 289º do CPC, a disponibilidade do direito em litígio.
Quanto à idoneidade negocial do objeto do acordo, a doutrina entende que o acordo
não pode ser contrário à ordem pública ou ofensivo dos bons costumes, por
aplicação do artigo 280º CC. Há, assim, duas diferenças importantes no regime da
homologação do acordo obtido através da conciliação (transação) e no regime da
homologação do acordo obtido em mediação.

 A primeira diz respeito ao critério da admissibilidade do acordo: a


patrimonialidade para a mediação e a disponibilidade para a conciliação;
 A segunda com os índices de idoneidade negocial: ordem pública, bons
costumes na conciliação; princípios gerais de direito, boa-fé, abuso de direito
e ordem pública na mediação

Se quanto à primeira é evidente a diferença, parece-me que uma análise atenta


implica a conclusão de que os critérios materiais de homologação são diferentes. O
critério da homologação da transação é, como vimos, a obediência à ordem pública
e aos bons costumes. A ordem pública aparece também elencada no artigo 14º da
LM, pelo que há sobreposição. Mas, se virmos bem, os outros índices de
homologação inserem-se no que a doutrina tem considerado ser de ordem pública.
Seguramente que integram a ordem pública os princípios gerais de direito, assim
como nestes se inserem o princípio da boa-fé e nesta o abuso de direito. A lei
pormenorizou o conceito de ordem pública relativamente à boa-fé, o que não é
incorreto. Na verdade, mesmo que o normativo não especiicasse que um acordo
contrário à boa-fé não poderia ser homologado, seria esse o resultado que se
alcançaria por aplicação da cláusula geral de ordem pública. Assim, os índices de
homologação do acordo obtido em mediação ou em conciliação são os mesmos: os
da ordem pública. Mas a questão relativamente ao padrão da homologação não é
esta. O ponto difícil nesta questão é o de saber se esta limitação permite ou impede
que o acordo afaste regras imperativas.

 De acordo com JORGE MORAIS CARVALHO1 o resultado da mediação


corresponde, em regra, a um negócio jurídico, que pode ser unilateral, no
caso de apenas resultarem obrigações para uma das partes, ou bilateral,
sempre que resultem obrigações para as duas partes. Neste caso, o acordo é

1 “A consagração Legal da Mediação em Portugal”- Jorge Morais Carvalho

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um contrato, que será em regra de transação, através do qual “as partes


previnem ou terminam um litígio mediante recíprocas condições (1248ºCC)”
a homologação do acordo não é inócua quanto aos efeitos, uma vez que
confere mais força ao título executivo. O título executivo deixa de ser um
documento particular, passando a ser uma sentença, pelo que os
fundamentos de oposição à execução são muito mais limitados (artigo 814º
CPC), não podendo ser alegados quaisquer fundamentos que pudessem ser
invocados no processo declarativo (artigo 816º). Tratando-se de um negócio
jurídico, a sua validade deve ser aferida nos termos gerais, não estando
sujeito a um controlo menos intenso pela circunstância de o acordo ter sido
obtido em mediação. O acordo não é conforme com a legislação em vigor,
nomeadamente quando não se encontrarem preenchidos os requisitos do
objeto negocial, previstos no artigo 280º do CC. Assim, é nulo e portanto,
não pode ser homologado, o acordo que consista num negócio jurídico com
objeto física ou legalmente impossível, indeterminável, contrário à lei ou à
ordem pública ou ofensivo dos bons costumes. A invalidade do negócio, e a
consequente não homologação do acordo, também pode resultar de uma
contrariedade direta à lei, quando se veriique que, embora o conteúdo
imperativo de um preceito legal não é diretamente posto em causa, o
objetivo passa por contornar a limitação prevista nesse preceito, veriicando-
se uma situação de fraude à lei. O controlo feito pelo juiz não pode limitar-se
à conformidade à ordem pública, sob pena de as partes poderem obter
através da mediação um resultado contrário á lei, que não poderiam obter
através de negociação. O mediador não tem qualquer tipo de controlo sobre
o conteúdo do acordo, pelo que o processo de mediação não oferece
qualquer garantia acrescida que permita dispensar o controlo dos demais
requisitos do objeto negocial, nomeadamente a contrariedade à lei, por via
do desrespeito pelo conteúdo imperativo de alguma norma, e a ofensa aos
bons costumes. Acrescente-se ainda que a inexistência de controlo a este
nível teria como previsível consequência a utilização da mediação com
objetivo de contornar uma situação de contrariedade à lei, não abrangida
pela cláusula geral de cláusula geral da ordem pública, colocando em causa,
o prestígio deste meio de RAL.

 Mariana França Gouveia discorda da Posição de Jorge Morais Carvalho,


considerando que se no artigo 249º-B do CPC era certo que o legislador tinha
em mente a proibição de acordos em que fossem afastadas regras
imperativas, já antes a sua análise sistemática teria de conduzir-nos à
conclusão oposta, tal entendimento resulta diretamente da letra do nº3 do
artigo 14ºLM.

Repare-se que o artigo 594º nº3 do CPC relativo à conciliação determina que o juiz
tenha em vista a solução de equidade mais adequada ao litígio.
Independentemente da noção de equidade que se adote, é seguro a solução a que
se chega hoje através da equidade não é idêntica extraída do direito positivo. Por
outro lado, a norma sobre transação na LAV, o artigo 41º, estabelece
posteriormente como limite a ordem pública, conceito que não inclui todas as
normas imperativas do nosso OJ, mas apenas aquelas que lhe são essenciais. Por
estas razões, o padrão de análise do juiz nunca pode ser senão o da ordem pública.
O juiz pode não saber se não estão a ser aplicadas normas imperativas porque não
é possível aplica-las não havendo uma versão factual determinada. Assim, em
conclusão, o juiz deve limitar-se a analisar se o conteúdo do acordo viola a ordem
pública, entendendo-se essa como o conjunto dos princípios fundamentais do nosso
OJ. Estabelece, por im, a LM que, caso haja recusa de homologação, o acordo não
produz efeitos e é devolvido às partes. Estas podem, num prazo de 10 dias renovar
o pedido de homologação, supridos os aspetos que implicaram a não homologação.

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Esta disposição implica, assim que a decisão de não homologação tenha de ser
fundamentada.

 Homologado o acordo, ele passa a revestir natureza de sentença de


homologação, sendo título executivo de valor reforçado. Não é esta, porém,
a única via de conseguir a executoriedade de um acordo obtido em
mediação. A LM prevê, no seu artigo 9º, sob epígrafe principio da
executoriedade, certos requisitos para que o acordo de mediação tenha
força executória. A questão da executoriedade do acordo de mediação não
se colocava em Portugal até à publicação do novo Código de Processo Civil,
que restringiu o leque de títulos executivos. Como vimos, essa
executoriedade pode resultar de homologação, assim como do
preenchimento dos requisitos do artigo 9º LM. Mas também pode resultar da
subsunção desse acordo numa das outras categorias de título executivo, isto
é, pode transformar-se o acordo obtido em mediação num documento
exarado ou autenticado por notário ou outra entidade ou proissional com
competência para tal. O artigo 9º LM não impõe, portanto, a exclusão de
outras formas de conferir executoriedade ao acordo, o acordo obtido em
mediação é um negócio privado, um contrato, cujos efeitos jurídicos não
dependem do preenchimento dos requisitos aí previstos. O preceito serve,
tão só, para prever mais uma hipótese de conferir força executória a um
contrato celebrado entre as partes, nada mais do que isso. Neste regime
especíico para atribuir força executória a um acordo obtido em mediação, a
lei estabelece seis requisitos, relativos à ilicitude do objeto do acordo, à
capacidade das partes, ao mediador e ao procedimento de mediação.
1) Em primeiro lugar, a lei exige que o acordo seja relativo a direitos que
possam ser objeto de mediação, matéria regulada pelo artigo 11º, quanto à
mediação civil e comercial e pelos regimes especíicos noutras áreas. Assim,
nos termos do artigo 9º nº1 a) LM, a força executiva do acordo depende de o
conlito sobre que ele versa ter natureza patrimonial ou não tendo, ser
relativo a um direito disponível.
2) A lei exige ainda que a homologação judicial não seja obrigatória. Como
vimos antes, esta homologação é obrigatória em todos os casos em que a
mediação se tenha iniciado na pendência da propositura da acção, conforme
resulta dos artigos 273º CP e 45ºLM, e do artigo 56º/1 LJP.
3) É necessário que as partes tenham capacidade para a celebração do acordo,
um requisito que vimos também ser da homologação quer do acordo obtido
em mediação, quer do acordo obtido em conciliação (290ºCPC);
4) De seguida a lei exigir que a mediação tenha sido realizada nos termos
legalmente previstos (alínea c) do nº1 do artigo 9ºLM. Esta exigência remete
para a obediência da própria lei da mediação, assim como para legislação
sobre mediação em especíico, por exemplo, a Lei da Mediação Penal. Mais
importante, na opinião de Mariana França Gouveia é a obrigação de
cumprimento dos princípios da mediação, em principal do princípio da
voluntariedade, da conidencialidade e da igualdade. Não deixa de ser
interessante referir que este cumprimento não está expressamente
consagrado no preceito relativo à homologação. Não pode, porém, deixar de
ser atendido pelo juiz caso seja lagrante a sua não observação. Neste caso
integrar-se-ia na ordem pública processual.
5) O conteúdo do acordo não pode violar a ordem pública. Há, de novo, no
entender de Mariana França Gouveia, uma discrepância, agora de sentido
negativo relativamente à norma da homologação. Enquanto esta (14º nº3)
estabelece com padrões de homologação, para além da ordem pública, os
princípios gerais de direito, a boa-fé e o abuso do direito; a norma sobre
executoriedade limita-se a referir a ordem pública. Esta discrepância não
tem, porém, qualquer importância na medida em que, como vimos, os

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índices previstos para a homologação reconduzem-se ao conceito de ordem


pública. Esta discrepância não tem, porém, qualquer importância na medida
em que, como vimos, os índices previstos para a homologação reconduzem-
se ao conceito de ordem pública, apenas de decidiu descrever parcialmente
o conceito de ordem pública, talvez com receio de incompreensão por parte
do aplicador. Assim, o acordo obtido em mediação tem força executiva
quando, entre outros requisitos, não viole a ordem pública.
6) Por último, a lei estabelece um requisito relativamente ao mediador, exige
que esteja inscrito numa lista de mediadores organizadas pelo ministério da
justiça.

Assim, a sentença de homologação segue sempre o processo sumário, nos termos


do artigo 550 º nº2 a) CPC, enquanto nos restantes casos a execução do acordo
segue a forma sumária se disser respeito a obrigação pecuniária vencida de valor
inferior a 10.000 e a ordinária em todos os outros casos. Há também diferenças no
regime de oposição à execução: quando baseada em sentença de homologação
está limitada aos fundamentos previstos nos artigos 730º e ss; quando baseada
noutro título não há limitação de fundamentos, consoante o artigo 731º do CPC.

f) Conidencialidade

O processo de mediação é conidencial: o mediador não pode revelar o que se


passou na mediação, não pode ser chamado como testemunha em processo judicial
posterior. A conidencialidade permite que as partes falem á vontade, com
tranquilidade e sem medo de desagradar ao mediador. Há que distinguir a situação
das partes da do mediador. A obrigação das partes, se não houver norma legal é
apenas contratual. A do mediador decorre do exercício da sua proissão, trata-se de
sigilo proissional. No nosso OJ há regras legais que impõem essa conidencialidade.
A lei da mediação erige a conidencialidade como um princípio da mediação no seu
artigo 5º. A transposição da diretiva europeia foi feita para o artigo 5º LM onde se
estabelece que o dever de conidencialidade só pode cessar por razões de ordem
pública, exempliicando depois algumas questões que podem ser integradas na
cláusula geral. Parece claro, se compararmos esta norma com a da diretiva, que o
legislador português não quis consagrar a possibilidade de as partes afastarem a
conidencialidade, tornando-a, portanto, uma regra imperativa. O que signiica,
então, que a obrigação de conidencialidade abrange as partes tendo fonte legal e
não contratual. A conidencialidade é essencial à plena coniança no processo de
mediação, ou seja, se as partes souberem que o mediador pode posteriormente
revelar o que ali foi dito, terão uma postura completamente diferente na mediação,
colocando em risco a sua utilização como meio de resolução alternativa de litígios.
A conidencialidade é, assim, uma questão de enorme importância na mediação e
tem sido objeto de vivo debate noutros ordenamentos jurídicos.

2. Arbitragem – Tribunais Arbitrais

 Artigo 209.º, n.º 2, da CRP: são considerados tribunais.


 Fonte contratual / Função jurisdicional;
 Regime próprio: Lei de Arbitragem Voluntária – LAV (Lei n.º 63/2011, de 14
de dezembro).

É a própria CRP que determina que existem tribunais arbitrais e o poder jurisdicional
dos árbitros (artigo 209º nº2). Os poderes que são conferidos aos árbitros resultam
de um contrato.

 Litígios de pequeno valor: particularmente de consumo; (para as partes os


custos podem chegar a ser 0€); Existe um árbitro apenas pago pelo estado
para resolver os litígios de baixo custo.

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Os litígios de baixo valor nunca chegariam ao tribunal, porque as partes nunca


estariam dispostas a ir a tribunal por um valor tão reduzido. O professor considera
que a arbitragem serve essencialmente para proteger o consumidor bem como as
empresas. Há uma maior proximidade com as pessoas (arbitragem) ao invés de um
tribunal judicial, que não tem tanta lexibilidade.

 Litígios de grande valor: particularmente comerciais ou relativos a grandes


obras ou operações inanceiras e com incidência em relações internacionais.

A celeridade é uma das razões para as grandes empresas recorrerem à arbitragem,


bem como a conidencialidade, ao contrário do processo judicial, que se rege pelo
princípio da publicidade. Num tribunal judicial, as partes não podem escolher o juiz,
no entanto na arbitragem podem escolher os árbitros. Neste tipo de arbitragem, os
números de árbitros são ímpar, sendo em regra 3 árbitros. Cada uma das partes
nomeia um árbitro, sendo estes designados de árbitros de parte. Se as partes não
escolherem as regras de processo aplicável, serão aplicadas as escolhidas pelos
árbitros. A parte tem muito maior poder em muito mais coisas.

Porque é que pode ser importante escolher os árbitros? Especialização.

Será mais barato? Em muitos casos torna-se mais caro esta arbitragem do que o
processo judicial. A opção à arbitragem seria a designação de outro foro. No
entanto, a arbitragem confere muito mais liberdades às partes, e em determinados
casos, muito mais cómodas. Regra supletiva é a de que não há recurso.

Aula de dia 21 de fevereiro de 2017


Existe arbitragem necessária, ou seja, obrigatória, e arbitragem voluntária cuja
fonte decorre da lei. Arbitragem Ad hoc (fora de um centro de arbitragem) e
Arbitragem institucionalizada (decorre num centro de arbitragem, dentro de uma
câmara arbitral; tem mais vantagens, na medida em que há todo um apoio
administrativo.).

A Arbitragem será ad hoc ou institucionalizada dependentemente da estipulação


das partes. Compromisso arbitral: num momento em que ainda não há litígio,
cláusula compromissória, para litígios eventuais futuros; Compromisso arbitral:
litígio atual.

É muito mais difícil que as partes cheguem em acordo se já existir efetivamente em


litígio. Uma cláusula compromissória incompleta ou mal redigida pode originar
conlitos. A convenção de arbitragem é fundamental pois atribui poderes
jurisdicionais a um terceiro, neste caso, os poderes jurisdicionais resultam de um
contrato e não da lei, apesar de a permissão de contrato estar explanada na lei.

Arbitrabilidade: que litígios podem ser sujeitos à arbitragem? (Artigo º1 nº1):


interesses de natureza patrimonial e transigibilidade (nº2 do Artigo 1º da LAV)

 O Estado e outras pessoas coletivas de Direito público podem celebrar


convenções de arbitragem se a lei o permitir. A Arbitrabilidade subjetiva
relaciona-se com que partes podem celebrar convenções de arbitragem;
 As questões de Arbitrabilidade objetiva relacionam-se com os litígios cujo
objeto pode ser alvo de uma arbitragem.
 Artigo 180º CPTA: permissão de arbitragem de administrativa, nos casos
aqui previstos. O tribunal arbitral é constituído e funciona nos termos da lei
sobre arbitragem voluntária, com as devidas adaptações (181º);
 A outorga de compromisso arbitral por parte do Estado é objeto de despacho
do membro do Governo responsável em relação da matéria, a proferir no
prazo de 30 dias, contado desde a apresentação do requerimento do
interessado (artigo 184º nº1).

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Soia Batista Linguíça nº004023

 O efeito negativo da convenção de arbitragem: artigo 5º da LAV – há uma


excepção constante do CPC (excepção de preterição de tribunal arbitral). A
regra do CPC é que se não for invocada a convenção de arbitragem pelo réu,
a ação procede no tribunal estadual (revogação tácita da convenção de
arbitragem).
 Dever de Ofício: Não é de conhecimento oicioso, ou seja, o tribunal não tem
o dever de conhecer que há uma convenção de arbitragem, simplesmente
prosseguindo o processo no tribunal judicial;
 Convenção de Arbitragem Nula: quem avalia se a convenção é nula? Cabe
ao tribunal arbitral se é competente ou não para avaliar se a convenção é ou
não nula, com uma excepção, ou seja, o tribunal judicial só pode avaliar a
convenção de arbitragem se a sua nulidade for manifestamente percetível.
 Em regra, cada parte designa um árbitro, e esses dois designam um árbitro
presidente. Há dois réus e um autor, por exemplo. Como resolver? Terá que
haver apenas a escolha de um árbitro de cada uma das partes. Há regras
que procuram resolver esta situação, e última análise o tribunal estatual
pode ser chamado a resolver esta situação, designando um árbitro.

Processo arbitral: Artigo 30º da LAV

 Estão em causa todos os princípios fundamentais de processo civil, ou de


processo administrativo, se a arbitragem for no âmbito de direito público.
Não é necessário cumprir as regras do CPC, mas sim que os princípios
fundamentais de processo civil sejam cumpridos.
 Porque é que só podem chegar a acordo relativamente às regras processuais
até à escolha do primeiro árbitro, ou seja, até antes do primeiro árbitro
aceitar? O árbitro tem de saber que regras vão reger aquele processe que
ele terá de decidir.
 Imaginemos que não há acordo (nº3): O tribunal arbitral conduz a
arbitragem do modo que considerar apropriado. Por exemplo, os árbitros se
quiserem que se aplique o CPC tem de indicar, situação com a qual o
docente discorda.
 É possível impugnar a decisão arbitral? O recurso está previsto (artigo 39º
nº4 da LAV) – o recurso é interposto para um tribunal da relação. A
arbitragem não tem alçada ao contrário dos tribunais judiciais. A regra
atualmente é de que não há recurso, exceto se as partes o quiserem. Se as
partes nada tiverem dito ou se tiverem dito que não há recurso, não há
recurso;
 A acção de anulação existe sempre: não pode ser afastada pelas partes,
sendo que as partes podem recorrer a esta acção de anulação, estando em
causa neste caso uma anomalia no processo. A Competência para a acção
de anulação é dos tribunais da relação (artigo 46º);

Oposição à execução- uma decisão arbitral constitui título executivo. No processo


executivo, há formas que vir invocar algumas anomalias no título, que se
consubstancia na acção de oposição à execução.

Apontamentos do Manual de Resolução Alternativa de litígios de Mariana


França Gouveia (páginas 119-126;135-143;233-240)

a) Noção e natureza jurídica da Arbitragem

A Arbitragem pode ser deinida como um modo de resolução jurisdicional de


conlitos em que a decisão, com base na vontade das partes, é coniada a terceiros.
A arbitragem é assim, um meio de resolução alternativa de litígios adjudicatório, na
medida em que o litígio é resolvido por um ou vários terceiros (os árbitros). A
arbitragem aproxima-se do padrão judicial tradicional, sendo jurisdicional nos seus
efeitos: não só a convenção arbitral gera um direito potestativo de constituição do

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Soia Batista Linguíça nº004023

tribunal arbitral e a consequente falta de jurisdição dos tribunais comuns, como


também a decisão arbitral faz caso julgado e tem força executiva.

A teoria adoptada na deinição de arbitragem tem sido a teoria mista, que defende
que a arbitragem voluntária está a meio caminho entre o julgamento da autoridade
judicial e o contrato livremente consentido pelas partes: o árbitro julga, mas não
exerce as funções públicas de um juiz. A doutrina atual tem adotado esta última
tese, na media em que falamos de algo que tem, sem qualquer dúvida, um
fundamento contratual (a convenção de arbitragem), mas constitui uma atividade
jurisdicional e conduz a uma decisão com eicácia jurisdicional. Prova deste caráter
misto é a eicácia executiva da decisão arbitral, por um lado, e a limitação da
competência do tribunal arbitral, por outro, à convenção de arbitragem. Marca
ainda, desta qualidade jurisdicional são garantias que a lei da arbitragem voluntária
estabelece para o processo arbitral, um processo arbitral só será reconhecido com
todos os seus efeitos se cumprir as regras mínimas do processo justo. Como se
vem tornando habitual dizer, a arbitragem voluntária é contratual na sua
origem, privada na sua natureza e jurisdicional na sua função.

 A arbitragem pode ser institucionalizada ou ad hoc. A primeira realiza-se


numa instituição arbitral (Centro, Câmara) com caráter de permanência
sujeita a um regulamento próprio. Já na segunda modalidade, o tribunal é
constituído especiica e unicamente para um determinado litígio. Antes da
execução da convenção de arbitragem o tribunal não existe e após o
proferimento da decisão arbitral extingue-se. O caráter efémero da
arbitragem ad hoc pode trazer diiculdades, designadamente no tratamento
da matéria das consequências da anulação da decisão arbitral e também em
certos aspetos do princípio da competência da competência.
 A Arbitragem institucionalizada em Portugal foi regulamentada pelo DL
nº425/86 de 27 de setembro, que determina, em síntese, a necessidade de
reconhecimento pelo Ministério da Justiça dos centros de arbitragem
institucionalizada. Este tipo de diploma não é usual a nível internacional,
podendo colocar- se dúvidas quanto à sua necessidade. Repare-se que a
arbitragem ad hoc é controlada apenas pelos tribunais posteriormente à
prolação da sentença, isto é, o controlo é feito casuisticamente.
 Convenção Arbitral: a convenção arbitral é o acordo das partes em submeter
a arbitragem um litígio atual ou eventual. Tem natureza contratual, na
medida em que é um negócio jurídico bilateral. É a convenção arbitral que
determina a jurisdição do tribunal arbitral, isto é, o tribunal arbitral só tem
competência quando o litigio que lhe é submetido está integrado na
convenção de arbitragem. Por esta razão, o estudo da convenção arbitral
tem na arbitragem um lugar central. É uma espécie de foco de luz que
ilumina a área de competência. O que estiver na escuridão, mesmo que
relacionado com o litígio inserido na convenção, não pode ser decidido pelo
tribunal arbitral. Se houver decisão sobre matéria não incluída na convenção
essa decisão é anulável, por ser proferida por tribunal incompetente (Artigo
46º nº3 a) iii LAV); no entanto, para que o tribunal seja competente é
preciso que o litígio em causa esteja contemplado na convenção
arbitral.
 A convenção arbitral pode revestir duas modalidades: cláusula
compromissória e compromisso arbitral. Nos termos do artigo 1ºnº3 da LAV,
é compromisso arbitral a convenção que tenha por objeto um litígio atual e é
clausula compromissória a que tem por objeto conlitos eventuais
emergentes de uma relação jurídica contratual ou extracontratual. Se se
tratar de um litígio eventual, falamos de cláusula compromissória, se se
tratar de um litígio existente, falamos de compromisso arbitral. A convenção
arbitral pode ser celebrada na pendência de acção judicial, implicando, nos

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termos do artigo 280º do CPC, extinção da acção. Neste caso será um


compromisso arbitral e o juiz terá de veriicar se o compromisso é válido em
relação ao seu objeto e à qualidade das pessoas. O efeito da celebração de
uma convenção arbitral é essencialmente processual: a celebração de uma
convenção arbitral implica a falta de jurisdição dos tribunais estaduais sobre
o caso. Se for proposta em tribunal estadual uma acção que tenha
como objeto um litígio sobre o qual incida uma convenção arbitral,
veriica-se a excepção dilatória de preterição do tribunal arbitral.
 A competência do tribunal arbitral pressupõe uma convenção de arbitragem
válida e eicaz. Se a convenção for nula, anulável ou ineicaz existe
incompetência do tribunal, o que se traduz num fundamento de anulação
da decisão arbitral. À validade da convenção de arbitragem são aplicáveis
as regras, em especial aos contratos. Apenas o que está previsto na LAV ou
em legislação especíica afasta a aplicação daqueles preceitos gerais.

A validade da convenção arbitral deve ser analisada de acordo com os seguintes


parâmetros: acordos das partes, Arbitrabilidade, forma e conteúdo e, por
im, autonomia.

 No que diz respeito à Arbitrabilidade dos litígios de consumo não tem sido
fonte de problemas em Portugal, até porque proliferam os centros de
arbitragem com esta competência. Mas aí, na maioria dos casos, o que tem
atribuído competência ao tribunal é a adesão unilateral e prévia do
consumidos. O que signiica que a existência e sucesso destes centros não
tem passado por cláusulas compromissórias celebradas com consumidores.
Por outro lado, tem sido reconhecida a possibilidade de convenção de
arbitragem não exclusiva, mesmo em litígios civis ou comerciais. Face a
estas considerações, Mariana França Gouveia considera que o mais
adequado face ao espírito da LCCG, embora não a sua letra, é admitir que a
convicção de arbitragem em cláusulas contratuais gerais com consumidores
não é exclusiva para o consumidor, ou seja, este poderá optar entre propor
acção no tribunal estadual ou no tribunal arbitral.
 Nos termos do artigo 2º nº1 LAV, a convenção de arbitragem deve adotar
a forma escrita. A falta de forma escrita da convenção arbitral gera a sua
nulidade nos termos do artigo 3º LAV. Esta nulidade implica a
incompetência do tribunal arbitral para dirimir o litígio, pelo que é
fundamento de anulação de sentença arbitral -Artigo 46º nº3 a) i)
LAV. Importa perceber a razão de exigência de forma escrita, repare-se que
a convenção arbitral tem necessariamente forma escrita, mesmo que o
contrato a que diga respeito não esteja a ela sujeito e tenha inclusive, sido
celebrado oralmente. Mariana França Gouveia considera que as razões de
forma são várias, todas elas tendo importância e sendo suicientes para
justiicar a regra especial. Em primeiro lugar e evidentemente, a gravidade
dos efeitos da celebração de uma convenção de arbitragem. O direito
potestativo de constituição de tribunal arbitral implica a renúncia ao direito
de acção judicial, trata-se do efeito negativo do princípio da competência da
competência. A constituição imediata de um direito potestativo justiica a
maior exigência de forma. Parece, a Mariana França Gouveia, que a
exigência de forma se explica pela necessidade de clareza quanto á
existência, objeto e conteúdo da convenção. Embora a renúncia a parte do
direito de acção, que na sua totalidade é totalmente indisponível, seja
importante, julgo que a questão da segurança na existência e execução da
convenção é mais relevante para a existência da forma escrita. Assim, o que
interessa é que haja possibilidade de determinação quanto a estes aspetos
ainda que não seja inteiramente claro, como se alcançou essa clareza ou se
houve realmente adesão de ambas as partes à convenção. A precisão que a

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Soia Batista Linguíça nº004023

nova LAV incorpora no seu artigo 2º nº3 vai justamente nesta direção. A falta
de forma escrita da convenção arbitral, gera a sua nulidade, nos termos do
artigo 3º da LAV. Esta nulidade implica a incompetência do tribunal arbitral
para dirimir o litígio, pelo que é fundamento de anulação da sentença
arbitral, de acordo com o artigo 46º nº3 a) i) LAV. Esta nulidade pode, porém,
ser sanada pela sua não invocação. Nos termos do artigo 18º nº4 LAV a
nulidade tem de ser invocada até à apresentação da defesa, icando depois
precludido o fundamento de anulação (46º nº4 LAV). A convenção de
arbitragem tem um conteúdo essencial ou obrigatório e um conteúdo
facultativo. O conteúdo essencial é determinado pela lei, como constante do
artigo 2º nº6 da LAV. O não cumprimento deste requisito gera a nulidade da
convenção de arbitragem. O necessário para esta determinação é mais, uma
vez, a segurança na atribuição de jurisdição do tribunal arbitral, pelo que
não se trata aqui de qualquer precisão do objeto da acção, mas tão só
identiicação da situação jurídica. O não cumprimento deste requisito gera a
nulidade da convenção (artigo 3º LAV)
 A nulidade do contrato em que se insira uma convenção de arbitragem não
implica a nulidade desta. Esta é a regra geral da autonomia da convenção
arbitral face ao contrato onde ela está inserida e consta do artigo 18º nº3
LAV. Esta questão tem muita importância, pois impede a invocação da
nulidade do contrato como expediente de desaforamento do tribunal arbitral.
Isto não signiica que essa invalidade não possa ser alegada, assim como a
invalidade especíica da convenção de arbitragem. Mas, nestes casos, o
próprio tribunal arbitral tem competência para decidir sobre a sua
competência.

b) Arbitrabilidade

Só pode ser sujeito a arbitragem um litígio arbitrável. De acordo com os artigos 1º e


2º LAV não são arbitráveis os litígios que estão sujeitos a arbitragem necessária e
aqueles que sejam de competência exclusiva dos tribunais arbitrais; são arbitráveis
todos os litígios respeitantes de natureza patrimonial e ainda os respeitantes a
interesses não patrimoniais se forem transacionáveis.

A Arbitrabilidade distingue-se em objetiva e subjetiva. A primeira cuida das


limitações da arbitragem em função do conteúdo do litígio, a segunda pretende
tratar de a possibilidade de entidades públicas serem partes em processo arbitral. A
Arbitrabilidade subjetiva encontra-se prevista no artigo 1º, nº5 da LAV, nos termos
do qual tal participação é admissível em duas situações: autorização por lei especial
e litígios respeitantes a relações de direito privado. Há assim que distinguir as
relações privadas da administração, onde não há dúvidas quanto á Arbitrabilidade
dos litígios, das relações regidas pelo Direito Público. Nos termos do artigo 1º, nº 1 e
2, são arbitráveis os litígios respeitantes a direitos patrimoniais e, ainda os direitos
não patrimoniais transacionáveis. O critério da patrimonialidade é o utilizado pelas
leis suíça e alemã e é atualmente o da lei portuguesa. Esse é talvez o conceito de
Arbitrabilidade que permite, na sua concretização, maior amplitude. Um litígio é
arbitrável se envolver qualquer tipo de interesse económico, não sendo relevante se
a relação subjacente é comercial ou privada, civil ou administrativa, de direito
nacional ou de direito internacional. Nos termos dos artigos 1ºnº/nº2 LAC são
arbitráveis os litígios respeitantes a direitos patrimoniais e, ainda, os direitos não
patrimoniais transacionáveis O critério da patrimonialidade é de aplicação muito
simples: sempre que estiver em causa um interesse pecuniário ou económico a
arbitragem é admissível. Inclui, portanto, todos os pedidos de condenação em
quantia pecuniária, mas evidentemente vai muito mais além, admitindo disputas
relativas a transações económicas, mesmo quando o pedido seja de cumprimento
de prestação de facto ou de declaração da validade ou invalidade de actos

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negociais. O que determina a Arbitrabilidade é a natureza patrimonial ou económica


da relação jurídica e não a sua direta consequência em termos de pedido. A lei
introduz ainda mais duas pormenorizações: uma, de cariz genérico, que alarga
ainda mais o campo da Arbitrabilidade, uma segunda que o restringe. O legislador
utiliza o mesmo critério para ampliar e para restringir: o conceito de
indisponibilidade. Por outro lado, o critério da disponibilidade continua a ser usado
enquanto segundo critério de Arbitrabilidade, na medida em que nos termos do nº2
do artigo 1º da Lav, é ainda admissível convenção de arbitragem relativamente a
direitos não patrimoniais que sejam transacionáveis. Ora, como já se viu a propósito
da mediação e da conciliação, não podem ser objeto de transação, nos termos do
artigo 289º CPC, os litígios relativos a direitos indisponíveis. O critério da transação
é, pois, o da disponibilidade.

c) O Processo Arbitral

A LAV regula apenas alguns aspetos relativos ao processo arbitral. O Artigo 30º LAV
determina que as partes podem escolher a tramitação desde que o façam até à
aceitação do primeiro árbitro. O acordo pode consistir na criação de um processo
especíico ou na simples remissão para regulamentos de centros de arbitragem
institucionalizados, legislações nacionais ou quaisquer outros instrumentos
normativos. Na falta de elaboração pelas partes, as regras são determinadas pelos
árbitros que têm as mesmas opções: criação de regras próprias ou remissão para
regras pré-estabelecidas (artigo 30º nº3 LAV). A lei não estabelece em que
momento devem os árbitros criar as regras de tramitação processual, nem o modo
de o fazer. Tal omissão só nos pode levar a concluir que a competência processual
do tribunal arbitral é permanente, isto é, que subsiste durante toda a arbitragem.
Claro que é aconselhável a elaboração de regras num momento inicial, na primeira
reunião dos árbitros ou dos árbitros com as partes. Diicilmente se poderá
prosseguir o processo arbitral sem essas regras. A sua falta pode geral instabilidade
grave no processo arbitral, constituindo violação das regras processuais mínimas e,
logo, do princípio do processo equitativo. É, portanto, aconselhável que se elaborem
as regras de tramitação processual no momento inicial do processo, de preferência
na primeira oportunidade. Questão diferente desta é o modo de elaboração dessas
regras. A LAV atribui a competência aos árbitros, mas é também recomendável que
se procure a sua colaboração neste trabalho. Conseguir a sua cooperação e acordo
pode ser importante para afastar a posterior invocação de vícios geradores de
anulabilidade da sentença arbitral. A doutrina tem sugerido a marcação de uma
reunião preliminar entre os árbitros e as partes precisamente para a escolha e
elaboração das regras de tramitação processual. A escolha de regras do CPC é
contraditória com a natureza alternativa da arbitragem. Uma das vantagens deste
meio de resolução de RAL é, precisamente a possibilidade de criar regras
processuais lexíveis, quase casuísticas, que permitam um tratamento célere e
adequado do caso. Um dos dilemas do processo civil é ser uma forma rígida, onde
têm de caber todos os casos da vida, independentemente das suas diferentes
características. De acordo com o novo dever de gestão processual, hoje consagrado
no artigo 6º do CPC e o princípio da adequação formal, constante o artigo 547º do
mesmo código, o juiz, enquanto diretor do processo, tem o dever de adotar a
tramitação processual adequada à causa, adaptar o conteúdo e a forma dos atos
processuais ao im que visam atingir, garantir que não são praticados atos inúteis e
adotar os mecanismos de agilização processual previstos na lei. Este dever de
gestão processual estabelece um poder-dever que consiste na obrigação do juiz
fazer uma aplicação criteriosa das regras processuais. O juiz ica obrigado a uma
relexão crítica sobre toda a tramitação. Assim, o acento tónico nas regras
processuais arbitrais é a lexibilidade. É pressuposto que se procure o melhor
conjunto de regras processuais para o que se antecipa que venha a ser aquele
conlito, tendo em conta também os advogados que representam as partes e a sua

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prática habitual. A criação de regras não signiica, obviamente, uma incerteza


quanto ao processo ou ás regras essenciais, muito pelo contrário, a ixação inicial
de regras é uma garantia de segurança e eiciência do processo arbitral, sem
prejuízo, evidente, de alterações posteriores que se mostrem necessárias. A LAV
estabelece no artigo 30º nº3, que os árbitros devem indicar a lei processual
subsidiariamente aplicável, visando com este normativo afastar em deinitivo a
aplicação subsidiária do nosso Código de Processo Civil. Com esta regra apenas
será aplicável subsidiariamente o CPC se o tribunal arbitral expressamente o disser.
O intuito é de louvar e de interpretar devidamente, porque o teor a regra pode
conduzir ao equívoco de se entender que é sempre necessário indicar uma
legislação processual subsidiariamente aplicável. Não é o conteúdo da norma. O
que ela estabelece é que pode não existir qualquer legislação processual aplicável.
Parece-me, aliás, que essa é a melhor opção é preferível inserir uma regra no
regulamento arbitral que indique serem os árbitros os competentes para decidir
dúvidas e lacunas desse regulamento do que remeter para o nosso ou outro Código
de Processo Civil. esta solução é seguramente maios importante mais conforme à
arbitragem. Também é comum a remissão para um regulamento institucional em
arbitragem ad hoc.

A Organização Judiciária Portuguesa2

Os tribunais são os órgãos de soberania com competência para administrar a justiça


em nome do povo (artigo 202º/1 da CRP). Na administração da justiça incumbe aos
tribunais assegurar a defesa dos direitos e interesses legalmente protegidos dos
cidadãos, reprimir a violação da legalidade democrática e dirimir os conlitos de
interesses públicos e privados (202º/2 da CRP). OS tribunais têm direito, no
exercício das suas funções, à coadjuvação de outras autoridades (202º/3 da CRP),
nomeadamente das forças policiais.

 Nos termos dos artigos 202º são órgãos de soberania com competência para
administrar a justiça em nome do povo (nº1, nº2 e nº3);
 Artigos 209º a 214º da CRP;
 Tribunais Constitucional; tribunais judiciais, tribunais administrativos e
iscais, tribunais de contas, tribunais marítimos, tribunais arbitrais e julgados
de paz;

Característica da Organização judiciária portuguesa: Pluralidade de jurisdições

1.1 Tribunais de
Primeira Instância
(Comarca)
1. Supremo Tribunal de
Jusiça
1.2 Tribunais de
Segunda Instância
2. Supremo Tribunal (relação)
Categorias de Tribunais Administraivo e
(Arigo 209º CRP) demais tribunais
administraivos

3. Tribunal de Contas

Na versão originária, a CRP previa apenas a existência de tribunais judiciais de


primeira instância, de segunda instância e o Supremo Tribunal de Justiça, de
Tribunais militares e de um tribunal de contas, podendo haver tribunais

2 “A Organização dos Tribunais e a Proissão de Juiz” (Jorge Morais Carvalho)

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administrativos e iscais. Na versão atual (Artigo 209º da CRP), a constituição


estabelece que para além do tribunal constitucional, existem as seguintes
categorias de tribunais: o Supremo Tribunal de Justiça e os tribunais de primeira e
de segunda instância; o supremo tribunal administrativo e os demais tribunais
administrativos e iscais; o Tribunal de contas. Admite ainda a constituição que
possam existir tribunais marítimos, tribunais arbitrais e julgados de paz. A
pluralidade de jurisdições é uma marca da nossa organização judiciária, tal como é
a independência, consagrada no artigo 203º da CRP. A existência de várias
jurisdições supõe um critério de repartição de competências jurisdicionais entre
elas, sendo igualmente necessário distinguir dentro de cada jurisdição, parcelas de
competências. Portanto, a competência traduz-se na medida de jurisdição atribuída
a cada um dos tribunais integrado numa certa jurisdição.

 Repartição de competências jurisdicionais e, dentro de cada jurisdição,


parcelas de competência; não há poderes jurisdicionais fora da respetiva
competência;
 Competência: medida de jurisdição atribuída a cada um dos tribunais
integrado numa certa jurisdição. Em traços muitos gerais, eu tenho um litígio
de família, eu não posso ir ao tribunal penal de vinhais, apesar de ser um
tribunal de jurisdição judicial, não trata matéria de família;
 Distinção característica da família de direitos romano-germânica: divisão
entre judicial e administrativa;
 Common law: não existe distinção vincada entre tribunais judiciais e
tribunais administrativos
 Competência residual dos tribunais judiciais: (artigo 211º CRP), se
relativamente a determinado litígio não se souber a que jurisdição aplicar,
este cai num tribunal judicial.
 Lei da organização do sistema judiciário: Aprovada pela Lei nº62/2013, de 26
de agosto; alterada pela lei nº 40-A/2016 DE 22 de Dezembro.
 Entre 2008 e 2013 tivemos duas leis em simultâneo em locais diferentes.

Atualmente vigora da Lei da Organização Judiciária aprovada pela lei nº62/2013, de


26 de Agosto. No que respeita aos tribunais judiciais, o STJ é o órgão superior da
hierarquia, funcionando como tribunal de instância apenas nos casos determinados
na lei (Artigo 31º/2 LOSJ). Tem sede em Lisboa, apenas conhece matéria de Direito,
o que acaba por signiicar que a decisão de icado ica cristalizada nos tribunais da
relação. O Supremo Tribunal de Justiça compreende secções em matéria cível, em
matéria penal e em matéria social, havendo ainda uma secção para julgamento dos
recursos das deliberações do Conselho Superior da Magistratura. O Supremo
Tribunal de Justiça funciona, sob a direcção de um presidente, em plenário do
Tribunal, em pleno das secções especializadas e por secções.

Os Tribunais da relação, são, em regra, os tribunais de segunda instância designam-


se pelo nome do município a que se encontram instalados (Coimbra, Évora,
Guimarães, Lisboa e Porto). Funcionam, sob a direcção de um presidente, em
plenário e por secções, compreendendo secções em matéria cível e em matéria
penal, e se ou volume ou a complexidade do serviço o justiicar, em matéria social,
em matéria de família e menores, em matéria de comércio, em matéria de
propriedade intelectual e de concorrência, regulação e supervisão (Artigo 67º/3
LOSJ).

a) Tribunais de Primeira Instância


 Em regra, tribunais de comarca;
 Os únicos casos em que há tribunais que tem competência mais do que
uma comarca são os Tribunais de Competência Territorial Alargada
(Tribunal da Propriedade Intelectual; Tribunal da Concorrência, Regulação
e Supervisão, Tribunal Marítimo, Tribunal de Execução das Penas, Tribunal

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Central de Instrução Criminal). Por exemplo: a ANACOM aplica uma coima


à NOS, a NOS terá de fazer a contestação no Tribunal da Concorrência,
Regulação e supervisão.

Com as alterações realizadas no âmbito da aprovação da lei nº62/2012, podemos


analisar as seguintes alterações:

a) Extintos os círculos judiciais, extingue-se também o cargo de juiz do círculo,


bem como que ao serem extintas as velhas comarcas, a estas sucederam-
lhe 23 comarcas novas em que se dividiu o território nacional. Cada uma
destas comarcas possui um tribunal de primeira instância, regra geral, com
competência territorial equivalente à da área administrativa de matriz
distrital de que colhe o nome;
b) Os tribunais de competência genérica, os tribunais e juízos de competência
especializada e as varas e os juízos de competência, as novas comarcas
passaram a integrar secções de instância central, localizadas nas capitais
dos distritos administrativos, e secções de instância local, incluindo secções
de proximidade.
c) No que respeita à competência em função da matéria, a alteração levada a
cabo pela lei nº62/2013 determina que os tribunais podem ser de
competência genérica, de competência especializada e de
competência mista. Ou seja, há que fazer aqui uma importante destrinça.
Por um lado, os Tribunais de Comarca abrangem não só os tribunais de
primeira instância bem como os tribunais de competência territorial
alargada, e por outros estes também se desdobram em instâncias centrais e
instâncias locais.
d) As instâncias centrais integram secções de competência especializada, a
saber, cível, criminal, de instrução criminal, de família e menores, de
trabalho, de comércio, e de execução, podendo ainda ser criadas secções de
competência genérica e secções de proximidade, admitindo a lei que as
secções de competência genérica se desdobrem em secções cíveis,
criminais ou de pequena criminalidade.

 Desde o início de 2017: tribunais de comarca desdobram-se em


juízos.

Principais alterações da Lei nº40-A/2016 de 22 de dezembro: Os Tribunais de


Primeira Instância desdobram-se em juízos, sendo estes designados pelo nome do
município em que se encontram instalados e pelas competências que lhe estão
atribuídas (Artigo nº81/2). Assim:
Juízos Centrais Cíveis
(Anigas instâncias centrais -
Arigo 117º LOSJ)- Juízos de
Competência especializada
Tribunais de Comarca
Juízos Locais Cíveis (Anigas
Tribunais de primeira instâncias locais- Arigo
instância 130ºLOSJ)- Juízos de
competência Genérica
Tribunais de Competência
territorial Alargada (Arigo
83º LOSJ)
Desde o início de 2017, os tribunais de comarca desdobram-se em juízos,
que podem ser:

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 Competência especializada;
 Competência genérica;
 Proximidade (principal novidade da reforma de 2016).
 Juízos designam-se pela competência e pelo nome do município em que
estão instalados.

Juízos de Competência especializada

 Central cível (valor > a € 50 000; central criminal (crimes mais graves); Local
criminal; Local de pequena criminalidade (crimes menos graves); Instrução
criminal; Família e menores; Trabalho; Comércio; Execução.
 Podem ser criados juízos de competência especializada mista (haver um
juízo de competência cível, não se distinguindo entre o central cível e o local
cível)
 Juízo local cível: processos de valor inferior a 50 mil euros.
 Pode proceder-se à agregação de juízos.

Aula de dia 06 de março de 2017


Tribunais de competência territorial alargada: apresentação de acções em razão da
matéria.

Juízos de competência especializada: central cível (alçada superior a 50 000 euros);


Local cível (valor inferior ou igual a 50 000 euros); central criminal (crimes mais
graves); local de pequena criminalidade (crimes menos graves); instrução criminal;
família e menores, Trabalho; comércio e execução;

Limites da competência:

 A competência reparte-se pelos tribunais judiciais segundo a matéria, o


valor, a hierarquia e o território (independentes e cumulativos);
 Ordem jurídica interna: competência reparte-se pelos tribunais judiciais
segundo a matéria, o valor, a hierarquia e o território
 Competência internacional dos tribunais judiciais é ixada pela lei de
processo.

Competência em função do território:

 Tribunais da Relação e tribunais de primeira instância (com exceção dos


tribunais de competência territorial alargada) têm competência na área das
respetivas circunscrições.

 Supremo Tribunal de Justiça tem competência em todo o território nacional

1.Competência em
razão da Matéria
(Arigo 40º)

2. Competência em
razão do valor
(Arigo 41º)
Competência
3.Competência em
razão da hierarquia

4. Competência em
razão do território

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Caso Prático: Contrato celebrado entre Sociedades Comerciais

 Critério da competência e do valor: Contratos celebrados entre sociedades


comerciais a competência não é dos juízos de comércio, mas sim dos juízos
centrais cíveis, pois já analisámos a matéria (matéria cível) e o valor
(superior a 50.000 euros)
 Temos ainda de saber qual é a comarca. Podemos calhar numa comarca que
não existe especialização. Vamos ter de veriicar a competência em função
do território e pressupõe a competência em função da hierarquia.
 Neste caso, hierarquicamente serão competentes os tribunais de primeira
instância.
 Competência em valor do território: ordem jurídica interna, estamos a
atribuir competência a determinado tribunal. Competência a determinado
Juiz naquele tribunal. (Artigo 80º CPC+ artigo 71º CPC- regra geral com
alternatividade)
 Competência internacional dos tribunais judiciais é ixada pelas leis de
processo (artigo 62º+63º CPC) – em primeiro lugar, veriicar se os
tribunais portugueses são competentes e só depois é que
veriicamos os quatro requisitos acima explanados.

Em princípio, o melhor para o réu é ser demandado no seu território.

Os tribunais da relação e tribunais de primeira instância, com excepção dos


tribunais de competência territorial alargada têm competência na área das
respetivas circunscrições;

O supremo tribunal de justiça tem competência em todo o território nacional.

Exemplo: Convenção de arbitragem entre o autor e uma sociedade comercial.

A Classiicação das Acções consoante o im (Artigo 10º do CPC): estas


podem ser declarativas, executivas e mistas (têm uma parte declarativa e uma
executiva)

1. Acções declarativas

Formas de Processo: Artigo 546º do CPC

 De acordo com o artigo em questão, o processo pode ser comum ou


especial. Se for especial, aplica-se aos casos apenas expressamente
indicados na lei, como constante do nº2 do artigo em questão. Se for
comum, é aplicável a todos os casos a que não corresponda processo
especial. a) Acções de
simples
apreciação

1. Acções b)Acções de
Declaraivas Condenação
Acções Cíveis
2.Acções c)Acções
Execuivas Consituivas

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a) Acções de simples apreciação: pede-se a simples declaração, simples


declaração de determinado facto jurídico.
b) Acções de condenação: além de o tribunal declarar determinado facto
jurídico, há uma condenação do réu.
c) Acções constitutivas: criação, modiicação, extinção de determinado facto
jurídico. A decisão vai modiicar a ordem jurídica existente.

Que espécie de acção declarativa?

1. Pedido: declaração de nulidade de um contrato por falta de forma: Acção de


Simples Apreciação;
2. Pedido: anulação de um contrato com base em erro: acção constitutiva;
3. Pedido: indemnização no valor de 15000: Acção de condenação;
4. Pedido: prescrição de determinado direito – que acção é esta? Acção de
simples apreciação;
5. Pedido: restituição da posse de que se é proprietário- acção de condenação;
6. Pedido: aquisição da propriedade por usucapião: Acção constitutiva.

Forma do Processo

 Processo comum / Processo especial


 Processo comum segue forma única (com o novo CPC, deixou de haver
forma ordinária, sumária e sumaríssima; v., no entanto, art. 597.º do CPC).
 Processos especiais regem-se: (i) disposições que lhes são próprias; (ii)
disposição gerais e comuns do CPC; (iii) disposições do processo comum.

2. Acções executivas:

Qual é a inalidade da acção executiva?

a) realização coativa de uma prestação devida;


b) pressupõe a existência de um título que determina o im e os limites da
acção executiva. Se no título se prevê o pagamento de 5000 Euros, será
esse o pagamento, não podendo ser superior nem inferior. Espécies de
títulos executivos: artigo 703º do CPC.

Espécies de Títulos executivos

1. Sentença condenatória
2. Documento exarados ou autenticados ou por outras entidades proissionais
com competência para tal, que importam constituição ou reconhecimento da
obrigação;
3. Títulos de crédito, ainda que meros quirógrafos, desde que, neste caso, os
factos constitutivos da relação subjacente constem do próprio documento ou
sejam alegados no requerimento executivo.
4. Documentos a que, por disposição especial, seja atribuída força executiva;

Fim da execução:

1. Pagamento de quantia certa;


2. Entrega de coisa certa;
3. Prestação de um facto, positivo ou negativo.

Forma do processo aplicáveis à acção executiva (artigo 550º CPC)

 Processo comum/Processo Especial;


 Processo comum para pagamento de quantia certa: duas formas (ordinário
ou sumário);

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 Processo comum para entrega de coisa certa e para prestação de facto


segue forma única;

Disposições reguladoras (551º CPC)

 (Artigo 551º/1): Aplicação subsidiária das disposições do processo de


declaração que sejam compatíveis com a natureza da acção executiva;
 (Artigo 551º/4): aos processos especiais são aplicáveis
subsidiariamente as disposições do processo ordinário. – Regime mais
densiicado no código.
 (Artigo 551º/2): as disposições relativas à execução para pagamento de
quantia certa são aplicáveis subsidiariamente às acções executivas.
 (Artigo 551º/3) à execução sumária aplicam-se subsidiariamente as
disposições do processo ordinário.

No caso de não existir regulamentação em determinadas partes do processo


sumário, aplicam-se as regras relativas ao processo ordinário.

No processo sumário não há citação judicial do executado, no caso de pagamento


de quantia certa, em oposição ao processo ordinário.

Casos práticos:

1. Imagine que não há disposição que regule um determinado aspeto


de um processo executivo especial. A que conjunto de disposições
se deve recorrer?

Aplicam-se as disposições relativas ao processo ordinário (551º nº1+551 nº4)

Se não houver em processo especial de acção executiva se não houver disposições


próprias que o regulem, aplicam-se subsidiariamente as do processo ordinário. Se,
as do processo ordinário não se aplicarem, vai se aplicar as regras da acção
declarativa. Dentro deste, aplica-se primeiro as disposições gerais do CPC e só
subsidiariamente é que se aplica as de processo comum.

Dentro do processo de declaração, a que regras vou recorrer primeiro? Regras


gerais do processo comum;

2. Imagine que não há disposição que regule um determinado aspeto


de um processo sumário. A que conjunto de disposições se deve
sucessivamente recorrer?

Normas relevantes: ao o que não é regulado pelo processo sumário, aplica-se o


processo ordinário. Se este não se aplicar, aplica-se o processo declarativo.

Apontamentos do Manual “Acção declarativa comum” (páginas 17-24)

1. Acção e Processo

A garantia da norma de direito civil que, como toda a norma jurídica requer a
possibilidade de ser imposta coativamente ser feita respeitar, postula a
recorribilidade aos tribunais para reintegrar as situações jurídicas afetadas pela sua
violação, prevenir violações ainda não consumadas ou exercer direitos potestativos
que não possam ser feitos valer extrajudicialmente. O recurso ao tribunal faz- se
mediante a propositura de uma acção. Por ela, o sujeito de direito privado, o autor,
deduz contra o outro, o réu um pedido, normalmente airmando-se como titular de
determinada situação jurídica para a qual requer a tutela do tribunal. Consoante o
tipo de pedido deduzido, a acção proposta diz-se declarativa ou executiva: é
declarativa quando o autor pede ao tribunal que declare a existência ou inexistência
de um direito ou de um facto jurídico (acção de simples apreciação), que condene o

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réu na prestação de uma coisa ou de um facto a que o autor tem direito (acção de
condenação), ou que altere as situações jurídicas das partes em conformidade com
um direito potestativo do autor (acção constitutiva). É executiva quando visa a
reparação material de um direito violado, no pressuposto da sua existência.

 O direito processual civil é o conjunto das normas, com natureza


instrumental, relativamente às normas primárias de direito civil, que visam,
direta ou indiretamente, regular as atuações dos sujeitos de direito privado e
dos tribunais conducentes à concretização da garantia dessas normas de
conduta do direito civil. Estas atuações inserem-se, em primeiro lugar, num
processo jurisdicional, segundo uma sequência predeinida na sua estrutura
essencial: os atos jurídicos aí praticados (pelas partes) são, naturalmente,
atos processuais, como tais se demarcando dos atos de direito material,
ainda que possam produzir efeitos de direito material ou combinar-se, em
termos doutrinariamente controvertidos, com atos de direito material, mas
há também atos das partes que, embora praticados fora dessa sequência, se
destinam a conformar os requisitos (constitutivos ou impeditivos) dos
pressupostos processuais.

2. Processo comum e processo especial

A deinição dos atos essenciais da sequência processual, mediante a sua


identiicação e caraterização, é feita pela lei, embora o juiz deva fazer as
adaptações que as especiicidades da causa aconselhem, quando a deinição legal
abstrata dos atos da sequência a elas não se adequem (artigo 547ºCPC). Não há um
modelo legal único de processo civil, mesmo considerando apenas a ação
declarativa. Quer esta, quer a acção executiva, podem, em casos expressamente
designados na lei (546º nº2), normalmente em função do tipo de pretensão
deduzido pelo autor, dar lugar a formas de processo especiais, isto é, sequências
ordenadas de atos especiicamente predispostas para se fazer valer esse tipo de
pretensão. O CPC trata de várias form56as de processos contenciosos especiais,
nomeadamente os constantes dos artigos 878º e ss. O processo especial para
cumprimento de obrigações pecuniárias emergentes de contratos utiliza-se quando
o credor pretende obter a condenação do devedor no cumprimento de obrigação
pecuniária de origem contratual cujo montante não exceda 15.000 Euros,
correspondentes a metade da alçada da relação. O valor do crédito cujo pagamento
se pretenda ou a natureza das partes intervém assim, respetivamente, como o
principal fator de delimitação do ãmbito de utilização deste processo especial no
campo vastíssimo das obrigações pecuniárias, constituídas por contrato, em que
não haja título que permita logo o recurso à acção executiva ou, havendo, o credor
opte pela acção declarativa (535º nº2). Não havendo lugar a processo especial,
emprega-se o processo comum (artigo 546º nº2), cuja forma é única. Se a matriz
consignada na base da opção do novo CPC não se adequar ás especiicidades da
causa, ao juiz caberá fazer as adaptações que se imponham, usando o meio da
adequação formal (547º), isto é, tornando a forma processual mais complexa ou
mais simples, ou apenas diversa, consoante essas especiicidades concretas.

Apontamentos do Manual “Introdução ao Processo Civil” (páginas 29-35)

1. Espécies de acções

A sequência processual dirige-se a inalidades diversas, consoante o tipo de pedido


que o autor formula ao instaurar o processo. Sob a epígrafe espécies de acções,
consoante o seu im, o artigo 10º do CPC distingue as acções declarativas das
acções executivas, e dentro das primeiras, as acções de simples apreciação, de
condenação e constitutivas.

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 Na acção de simples apreciação, o autor pede ao tribunal que declare a


inexistência ou existência de um direito ou de um facto jurídico.
 Na acção de condenação, vai-se mais longe, sem prejuízo de o tribunal dever
ainda emitir aquele juízo declarativo, dele se pretende também, e
fundamentalmente que, em sua consequência, condene o réu na prestação
de uma coisa ou de um facto;
 Pela acção constitutiva, exerce-se um direito potestativo. O juízo do tribunal
já não se encontra limitado, como nas duas subespécies anteriores, pela
situação de direito ou de facto pré-existente: perante o pedido de alteração
das situações jurídicas das partes, o juiz, pela sentença cria novas situações
jurídicas entre elas, constituindo, impedindo, modiicando ou extinguindo
direitos e deveres que, embora fundados em situações jurídicas anteriores,
só nascem com a própria sentença;
 Diferentemente da acção declarativa, a acção executiva tem por inalidade a
realização coativa de uma prestação devida. Não se trata já de declarar
direitos, pré-existentes ou a constituir. Com ela passa-se da formulação
concreta da NJ para a sua atuação prática, mediante o desencadear do
mecanismo da garantia. Pode ter como inalidade a reintegração de um
direito real, mediante a entrega da coisa sobre que incide ao respetivo titular
ou a realização especíica de uma prestação obrigacional não pecuniária;
mas visa, frequentemente a realização coativa de uma obrigação pecuniária,
primária ou de indemnização, tenha-se esta última constituído como
sucedâneo de uma relação primária de obrigação incumprida ou na
sequência da violação de um dever genérico de conduta.

Aula de 07 de março de 2016


Processos especiais: Formas de Processo (Artigo 546ºCPC)

 Processo pode ser comum ou especial.


 Processo especial aplica-se aos casos expressamente designados na lei.
 Processo comum é aplicável a todos os casos a que não corresponda
processo especial.
 No CPC e fora do CPC;
 Formas especiais de acção declarativa, de execução ou mistas;

Alguns processos especiais previstos no CPC:

 Processo de tutela da personalidade (arts. 878.º e ss. do CPC)


 Processo de prestação de caução (arts. 906.º e ss. do CPC). Envolve
atuações executivas: art. 912.º.
 Processo de divórcio e separação sem consentimento do cônjuge (931º e ss
do CPC) - procura realçar a tentativa de conciliação constante do artigo 931º,
pretendendo-se que seja a primeira acção levada a cabo pelo juiz.

Processos Especiais fora do CPC/noutros diplomas:

1. Processo especial para cumprimento de obrigações pecuniárias emergentes


de contratos (DL 269/98- regime relacionado com a injunção: Não confundir
as normas do diploma preambular com o regime aprovado em anexo);
2. Processo da insolvência e da recuperação de empresas (CIRE DL 53/2004)

Insolvência: Impossibilidade de cumprir as obrigações já vencidas. A situação de


insolvência pode ser atual ou futura, ou seja, suscetibilidade de não conseguir
cumprir as obrigações cumpridas. Teve 8 alterações, tendo sido a mais recente em
2015.

Características principais do processo de insolvência:

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 Carácter de urgência: os prazos e recursos correm em férias judiciais (artigo


9º);
 Prazos muito curtos: prazos de 5 dias tanto para o juiz como para as partes.
Os prazos que o CPC para as partes é deinido como preclusivos, ou seja, se
a parte não apresentar a contestação dentro do prazo já não o pode fazer
depois, os prazos dirigidos ao juiz não são preclusivos;
 Existência de menção de todos os meios de prova necessários ao processo;
 Consagração do princípio do inquisitório: o juiz pode decidir sem atender às
partes, ou seja, pode ter em conta na sua decisão factos que não foram
alegados pelos factos no processo.
 Recursos: artigo 14º- em princípio, só se pode recorrer para a relação.
 Obrigação da publicação das sentenças e dos despachos;

O tribunal competente é o do domicílio do insolvente. A regulação do processo de


insolvência tem como objetivo a satisfação dos credores através da dissolução do
património, bem como tentar recuperar o insolvente. Artigos 209º e ss: pode ter
como objetivo não só a recuperação, bem como a liquidação e a insolvência.

Figura que se aplica apenas a pessoas singulares: a exoneração do passivo restante


(Artigo 236º).

3. Processo de inventário (Lei nº29/2009);


4. Processo de Despejo (Artigo 14º do NRAU- lei 6/2006)

A acção de despejo pode processar-se de duas formas: acção judicial e extrajudicial


(balcão nacional do arrendamento).

Jurisdição Contenciosa e Jurisdição Voluntária (páginas 15-44 António José


Fialho)

1. A jurisdição contenciosa e a jurisdição voluntária

O processo civil visa a composição de um conlito de interesses privados cuja


resolução é requerida pelos interessados (partes) a um terceiro imparcial (juiz) o
qual, através de uma decisão (sentença) realiza a tutela dos direitos subjetivos ou a
composição do litígio em conformidade com a lei substantiva aplicada ao caso. Este
conceito de processo transmite a ideia de uma determinada sequência de atos ou
operações tendentes a produzir um determinado resultado através de um conjunto
de normas que deinem a atuação dos sujeitos de direito privado e do tribunal
(processo civil), quando este é chamado a fazer valer os direitos subjetivos,
prevenir a violação desses direitos ou decidir sobre a existência ou conteúdo de
determinadas situações jurídicas. Enquanto a manifestação imediata da soberania
dos órgãos do Estado aos quais compete a função de administrar a justiça (os
tribunais), a jurisdição é entendida igualmente e essencialmente como a atividade
exercida pelos juízes destinada à revelação e aplicação do direito num caso
concreto. É através do processo que os particulares exercem o seu direito
constitucional à acção, ou seja, o direito de exigir que o Estado, através dos
tribunais, examine as pretensões deduzidas em juízo com vista à obtenção de uma
decisão de mérito. Esta atividade de deinir o direito, exercida tradicionalmente
pelos órgãos jurisdicionais, tem o seu critério deinidor na resolução dos litígios à
luz de normas, mas também ao decidir se uma regra ou um princípio, de
qualiicação mais incerta, resolve também o caso concreto que lhe é submetido.
Apesar disso, a aplicação da justiça ao caso concreto, não ica dependente do
reconhecimento do direito ou interesse invocado pois, ainda que seja declarada que
o requerente não beneicia do direito à efetivação da sua pretensão, a função
integradora da ordem jurídica icará garantida com a decisão que resolva o litígio.
Havendo conlito de interesses, a posição jurídica de uma das partes tem do outro
lado a oposição de outras pessoas e, neste caso, a atividade jurisdicional dirigida à

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composição desse conlito faz-se através de processos de natureza contenciosa.


Noutras situações “a atividade do tribunal visa promover apenas a um determinado
interesse ou feixe de interesses previstos na lei, um certo interesse ou feixe
controlar uma autocomposição processual das próprias partes”, exercida através
dos processos de jurisdição voluntária. Não existe, na doutrina uma delimitação
nítida e clara entre a jurisdição contenciosa e a jurisdição voluntária. Para alguns, “a
jurisdição voluntária tem um im essencialmente constitutivo, ou seja, tende à
constituição de relações jurídicas novas ou coopera na constituição e no
desenvolvimento de relações existentes”. Contudo, esta deinição também não é
suscetível de nos fornecer qualquer distinção quando é sabido que, quer no CPC,
quer noutros instrumentos processuais a que são subsidiariamente aplicáveis as
regras daquele diploma, existem processos de jurisdição contenciosa que também
têm um im essencialmente constitutivo, mas também existem processos de
jurisdição voluntária que não se limitam a estabelecer mudanças na ordem jurídica
existente. Numa outra perspetiva, baseada na existência de um conlito de
interesses, “ a jurisdição contenciosa supõe sempre duas partes, uma das quais
pretende obter um determinado efeito jurídico contra a outra ou, pelo menos, em
relação à outra enquanto que na jurisdição voluntária não há partes, há requerentes
a quem provoca o exercício desta espécie de jurisdição não pretende que lhe seja
reconhecido um direito contra outra pessoa, mas apenas constituir um estado
jurídico novo a quem não pode surgir ou desenvolver-se sem a intervenção do
Estado.” A jurisdição contenciosa desenvolver-se-ia entre pessoas que não estão de
acordo, ao passo que a jurisdição voluntária desenrolar-se-ia entre pessoas que
estão de acordo. Também esta deinição não se mostra adequada a ixar, com
nitidez, a linha de demarcação entre a jurisdição contenciosa e a jurisdição
voluntária já que, por um lado, a inexistência de conlito não é exclusivo dos
procedimentos de jurisdição voluntária e, por outro, existem situações em que na
própria jurisdição pode não haver conlito. Ciente desta diiculdade, Alberto dos Reis
reconheceu a impossibilidade em delimitar, de forma segura e precisa os processos
que se iniciem na jurisdição contenciosa e aqueles que se incluem na jurisdição
voluntária. Por isso, absteve-se de inserir “qualquer conceito sobre a matéria” uma
vez que no “estado de incerteza em que ainda se encontra o assunto, seria
rematada imprudência resolver o problema mediante uma fórmula legal, lançando a
doutrina e a jurisprudência numa querela fatal, criando uma fonte inesgotável de
controvérsias e questões, resolvendo, pois, adotar o sistema de enumerar
taxativamente os processos de jurisdição voluntária, reconhecendo ser arbitrária e
defeituosa a classiicação mas com a vantagem de oferecer à jurisprudência
segurança e certeza. No espírito de quem organizou esta classiicação, esteve
presente um certo critério de distinção entre as duas jurisdições, designadamente
no im prosseguido pela jurisdição que consiste na justa composição dos litígios e
no im prosseguido pela jurisdição voluntária de regulamentação de ins de
situações anómalas de interesses, mas que não são litígios. Em suma, para realizar
essa distinção, foi adotado um critério formal: são processos de jurisdição voluntária
apenas aqueles que a lei classiica como tal e, ainda assim, esta enumeração está
longe de ser inteiramente satisfatória, uma vez que se encontram incluídos naquele
leque de processos de natureza contenciosa e, fora deles, existem processos que
bem poderiam ser classiicados como de jurisdição voluntária. Assim, de acordo
com o critério formal, são processos de jurisdição voluntária aqueles que se
encontram enumerados no título XV do Livro V do CPC (986º a 1081º), mas também
aqueles que se encontram qualiicados como processos de jurisdição voluntária me
diversa legislação processual civil avulsa. Ao escolher os processos que foram
classiicados como de jurisdição voluntária, o legislador selecionou interesses de
natureza privada, mas relativamente aos quais é interesse público que sejam
prosseguidos por entidades dotadas das garantias e características que são
exigidas aos outros processos por entidades dotadas de garantias e características

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que são exigidas aos outros processos, embora esperando que o tribunal resolva
sempre, de forma imparcial, e segundo a estrita observância das normas jurídicas
os conlitos de interesses, subordinando todos os interesses envolvidos à
salvaguarda ou defesa do interesse primordial que lhe cabe assegurar.

2. A prevalência do princípio inquisitório

Estabelece o artigo 986º nº2 do CPC que, nos processos de jurisdição voluntária, o
tribunal pode investigar livremente os factos, coligir as provas, ordenar inquéritos e
recolher as informações convenientes, apenas sendo admitidas as provas que o juiz
considere necessárias. O princípio do inquisitório contrapõe-se ao principio
dispositivo. No primeiro caso, o poder de iniciativa e de direcção do processo cabe
ao juiz, o qual pode utilizar factos que ele próprio capte e descubra, sendo o
material de facto sobre o qual há de assentar a resolução, não só a que as partes
ofereçam, senão também o juiz conseguir trazer para o processo pela sua própria
atividade, disponde de um largo poder de iniciativa na colheita dos factos e nos
meios de prova. No segundo caso, são as partes que dispõem do processo. No
âmbito dos processos de jurisdição contenciosa, o juiz tem o dever de realizar ou de
ordenar, mesmo oiciosamente, todas as diligências necessárias ao apuramento da
verdade e á justa composição de litígio quanto aos factos de que lhe é lícito
conhecer; para este efeito, o juiz apenas pode conhecer os factos essenciais da
instrução da causa, os factos que sejam complemento ou concretização dos que as
partes tenham alegado e resultem da instrução da causa, desde que sobre eles
tenham tido a possibilidade de se pronunciar e os factos notórios e aqueles de que
o tribunal tem conhecimento pelo exercício das suas funções. Diversamente, no
âmbito dos processos de jurisdição voluntária, o tribunal não está dependente dos
facto direta ou indiretamente alegados pelas partes, seja qual for a função que os
mesmos desempenhem no processo, dispondo de ampla iniciativa probatória (989º
nº2 CPC). Esta prevalência do princípio inquisitório não signiica exclusividade pelo
que o mesmo deve ser complementado com o ónus de alegação da matéria de
facto e na fundamentação do pedido por parte dos sujeitos interessados, libertando
o tribunal da fundamentação exclusiva da matéria de facto alegada por estes e na
medida em que pode socorrer-se de factos que o juiz tenha apurado livremente.
Paralelamente ao reforço dos poderes de direção do processo por boa parte do juiz,
o princípio do inquisitório é também um dever de boa gestão processual, exigindo
ao juiz uma postura ativa na condução do mesmo processo, devendo diligenciar o
seu andamento célere, promovendo para tanto oiciosamente as diligências
adequadas ao normal desenvolvimento da lide e recusando o que for impertinente
ou dilatório, tudo com vista a alcançar uma justa composição do litígio em prazo
razoável. Nesta perspetiva, o princípio do inquisitório é um dos elementos de uma
lexibilidade processual, consagrada no princípio da adequação e no dever de
gestão processual. Existindo para colocar o processo civil ao serviço do cidadão.
Todavia, esta prevalência do principio do inquisitório na jurisdição voluntária é mais
evidente na iniciativa de recolha do material probatório e na amplitude do
conhecimento e da aplicação dos fundamentos de facto em que assentam as
questões submetidas à apreciação do órgão jurisdicional do que na condução ativa
do processo. Deste modo, o critério da prevalência do princípio do inquisitório
signiica que, comparativamente à jurisdição voluntária, na jurisdição contenciosa,
os poderes do juiz em matéria de instrução têm caráter subsidiário em confronto
com os poderes das partes, a quem sabe o impulso processual, a deinição exata e
concreta do litígio trazido a juízo, o oferecimento material de facto e as provas que
permitirão ao juiz conhecer o mérito da causa.

3. O predomínio da conveniência e da oportunidade sobre a legalidade estrita

Estabelece o artigo 987º do CPC que, nas providências a tomar, o tribunal não está
sujeito a critérios de legalidade estrita, na medida em que deve adotar em cada

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caso a solução que julgue mais conveniente e oportuna. Em regra, ao exercer a sua
atividade jurisdicional, o juiz deve aplicar aos factos o direito, julgando de acordo
com as normas jurídicas que se apliquem ao caso concreto. Esta adopção da
solução mais conveniente e oportuna que o julgador pode adotar nas providências a
tomar na jurisdição voluntária é usualmente qualiicada pela doutrina como
conigurando uma situação de prevalência da equidade sobre a legalidade estrita.
Em determinadas situações, os tribunais podem resolver a questão submetida à sua
apreciação segundo a equidade quando haja disposição legal que o permita,
quando haja acordo entre as partes e a relação jurídica não seja indisponível ou
quando as partes tenham previamente convencionado o recurso á equidade, nos
termos aplicáveis à cláusula compromissória. Deste modo, o julgamento pode
orientar-se em dois critérios diferentes: o critério da legalidade e o critério da
equidade. Enquanto que no primeiro caso o juiz tem de julgar aplicando aos factos
da causa direito constituído, ainda que em sua consciência, entenda que a
verdadeira justiça exigiria outra solução, seguindo outro critério. Esta julgamento de
acordo com a equidade não exige se oriente por conceitos abstratos de justiça, mas
sim a solução mais adequada ao caso concreto. Por ser turno, a expressão em casa
caso signiica que o julgador em vez de se orientar por conceitos abstratos de
humanidade e de justiça, deve olhar para o caso concreto e procurar descobrir a
solução mais conveniente para os interesses em causa. A decisão segundo critérios
de conveniência e de oportunidade não se resume à compatibilização do critério
geral e abstrato da lei vigente com a necessidade de uma justiça individualizadora.
Não existindo dois casos iguais, o julgador deve atender às circunstâncias objetivas
e subjetivas que a lei, geral e abstrata, não atende, recorrendo à equidade para
procurar a solução baseada na justiça do caso concreto, fazendo uso das regras da
boa prudência, do bom senso prático, da justa medida das coisas e da criteriosa
ponderação das realidades da vida. Nos procedimentos de jurisdição voluntária,
existem questões que devem ser resolvidas segundo critérios de estrita legalidade,
ainda que não estejamos perante questões relacionadas com os atos e formalidades
do processo ou com a idoneidade do meio processual. Embora a equidade se funde
também em razões de justiça concreta, mas de acordo com diretrizes jurídicas
dimanadas pelas normas positivas estritas, na jurisdição voluntária, o uso dos juízos
de conveniência e de oportunidade segundo um critério não normativo, está mais
próximo do conceito de discricionariedade. Na equidade, o julgador deve fazer
apelo aos critérios de adequação e de proporcionalidade à justa repartição dos
encargos e dos benefícios entre as partes, procurando procurar os interesses
globais. Ao aplicar os critérios de conveniência e da oportunidade na adopção de
uma solução em providências de jurisdição voluntária, o juiz não tem de estar
necessariamente sujeito aos critérios de adequação ou de proporcionalidade ou
proceder a uma justa repartição dos encargos e benefícios, especialmente quando
tenha que fazer prevalecer um interesse sobre os demais interesses em presença. O
juízo de conveniência implica que a solução adoptada satisfaça o interesse
prosseguido ao passo que o juízo de oportunidade implica que essa solução é
adoptada no momento adequado à satisfação da discricionariedade. Este critério de
prevalência da discricionariedade concede ao órgão jurisdicional uma certa margem
de liberdade de decisão perante o caso concreto quando possa por optar por uma
entre várias soluções possíveis. Ao fazer uso destes critérios, o julgador está
igualmente obrigado a fundamentar a sua decisão, explicando os motivos que
conduziram a essa margem de decisão, bem como à adopção de uma entre várias
das opções que considerou serem aplicáveis ao caso concreto. Em conclusão, na
jurisdição voluntária não estamos perante uma prevalência da equidade sobre a
legalidade, mas sim uma prevalência da discricionariedade judiciária sobre a
legalidade estrita.

4. Modiicabilidade das resoluções baseada em circunstâncias supervenientes

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Dispõe o artigo 988º do CPC que as resoluções podem ser alteradas, sem prejuízo
dos efeitos já produzidos, com fundamento em circunstâncias supervenientes que
justiiquem a alteração, dizem-se supervenientes tanto as circunstâncias ocorridas
posteriormente à decisão como as anteriores tanto as circunstâncias que não
tenham sido alegadas por ignorância como por outro motivo ponderoso. As decisões
ou resoluções proferidas nos processos de jurisdição voluntária não ganham, em
regra, a força de caso julgado, podendo ser alteradas desde que se modiiquem as
circunstâncias que determinaram essas decisões. Em sentido diverso, nos processos
de jurisdição contenciosa, depois de proferida a sentença, ica esgotado o poder
jurisdicional do juiz. No entanto, esta possibilidade de livre modiicabilidade das
decisões não é absoluta, já que o caso julgado forma-se nos mesmos termos em
que se formam nos processos de jurisdição contenciosa, mas aqui, não possui o
dom da irrevogabilidade na medida em que qualquer resolução pode ser livremente
alterada, embora haja transitado em julgado. Livremente alterada não signiica
alterada arbitrariamente, pois o tribunal tem de fundamentar a sua decisão e esta
instabilidade do caso julgado não vai até ao ponto de prejudicar os efeitos que
tenha produzido, a resolução anterior: esses efeitos subsistem. A nova resolução só
exerce a sua eicácia em relação ao futuro. Assim, este princípio da livre
modiicabilidade das resoluções não implica um menor valor, uma menor eicácia
de decisão, pois, na verdade, enquanto esta não for alterada nos termos e pela
forma processualmente adequada, a decisão impõe-se às partes, mas também a
terceiros afetados pela mesmo como até ao próprio tribunal. A avaliação das
circunstâncias supervenientes que podem justiicar uma alteração da decisão
anterior pressupõem necessariamente uma análise comparativa entre o estado
atual das coisas e aqueloutro que existia aquando do acordo ou da prolação da
decisão em vigor, apenas sendo possível concluir por uma alteração anormal e não
apenas uma mera evolução natural e previsível, obrigando o requerente a indicar a
factualidade que sustente essa alteração de circunstâncias e devendo fazê-lo de
forma concludente e inteligível. Contudo, a revogabilidade não pode constituir um
elemento caracterizador da jurisdição voluntária, uma vez que existem processos
não contenciosos que a não contemplam e atos ou processos de jurisdição
contenciosa que são revogáveis. Na verdade, esta regra deve ser restringida às
situações em que, pela sua própria natureza, admitem modiicações.

5. a inadmissibilidade de recurso para o STJ das resoluções proferidas segundo


critérios de conveniência e oportunidade.

Estabelece o artigo 988º nº2 do CPC que das resoluções proferidas segundo
critérios de conveniência ou oportunidade não cabe recurso para o STJ. O supremo
tribunal de justiça é um tribunal de revista, e o fundamento especíico do recurso de
revista é a violação de lei substantiva ou processual pelo que que, não estando em
causa qualquer violação de lei substantiva ou adjetiva, nos casos em que as
resoluções tenham sido proferidas segundo critérios de conveniência ou de
oportunidade, não será admissível recurso para o Supremo Tribunal de Justiça.
Assim, a intervenção do Supremo Tribunal de Justiça nos processos de jurisdição
voluntária cinge-se à apreciação dos critérios normativos de estrita legalidade
subjacentes à decisão, de modo a veriicar se se encontram preenchidos os
pressupostos ou requisitos legalmente exigidos para o decretamento de certa
medida ou providência, em aspetos que não esgotem na formulação de um juízo
prudencial ou casuístico, iluminado por considerações de conveniência ou
oportunidade a propósito do caso concreto. Com efeito, a escolha das soluções mais
convenientes está intimamente ligada à apreciação da situação de facto em que os
interessados se encontram. Não tendo o STJ o poder de controlar a decisão sobre tal
situação, a lei restringiu a admissibilidade de recurso até à relação. A verdade,
todavia, é que esta limitação não implica a total exclusão da intervenção do STJ
nestes recursos, apenas a conina à apreciação das decisões recorridas enquanto

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aplicam a lei estrita. É nomeadamente, o que se veriica, quer quanto á veriicação


dos pressupostos, processuais ou substantivos, do poder de escolher a medida a
adotar, quer quanto ao respeito do im com que esse poder foi atribuído. Deste
modo, a recorribilidade, em sede de revista nos processos de jurisdição voluntária
limita-se à legalidade estrita.

6. Critério de distinção entre a jurisdição contenciosa e a jurisdição voluntária

Muitos outros critério tem sido avançados para distinguir a jurisdição contenciosa
da jurisdição voluntária, designadamente a irrevogabilidade do caso julgado
perante a revogabilidade das decisões proferidas na jurisdição voluntária, o maior
ou menor formalismo dos procedimentos, o relevante papel conferido ao MP ou ao
juiz relativamente aos poderes inquisitórios, o caráter constitutivo da maioria dos
procedimentos de jurisdição voluntária, o interesse público ou social da jurisdição
contenciosa face ao interesse privado da jurisdição voluntária, o caráter preventivo
da jurisdição voluntária face ao caráter eminentemente repressivo da jurisdição
contenciosa. Esta heterogeneidade da jurisdição voluntária faz com que se possa
airmar que não existe só uma jurisdição voluntária, mas várias em que são
diversas as funções do juíz, diversos os seus poderes, as atividades que nele
exerce, os graus de estabilidade das decisões, os procedimentos. Por outro lado,
apesar do seu vasto campo de aplicação, a jurisdição voluntária é normalmente
considerada como misteriosa, desprovida de uma orientação cientíica própria,
difícil de entender, ignorada pela doutrina e para alguns, devido a essa falta de
deinição metodológica, uma criação artiicial do direito, o que o legislador poderia
facilmente eliminar do ordenamento jurídico. Ao incluir na competência dos
tribunais o julgamento de processos de jurisdição voluntária, o legislador pretendeu
que a prossecução de determinados interesses, em si mesmo de natureza privada,
mas cuja tutela é de interesse público, fosse iscalizada por entidades cujas
características são garantia de uma proteção adequada à natureza daqueles
interesses. Com essa inalidade, conferiu-lhes os poderes necessários para o efeito,
afastando, quando conveniente, certos princípios, conformadores do processo civil
em geral, que disciplinam a sua intervenção enquanto órgãos incumbidos de
resolver litígios que se desenrolam em partes iguais, perante as quais tem de
adotar uma posição de rigorosa imparcialidade. Assim, no domínio da jurisdição
voluntária, os tribunais podem investigar livremente os factos que entendam
necessários à decisão mais acertada, recolher as informações e as provas que
entendem como pertinentes, rejeitando as demais, proferindo decisões segundo
critérios de conveniência e oportunidade e, na generalidade dos casos, adaptar a
solução deinida à eventual evolução da situação de facto. Da própria natureza dos
procedimentos de jurisdição voluntária decorre a falta de rigidez da tramitação
processual, podendo o tribunal realizar atos ou formalidades não especiicamente
previstas ou omitindo aquelas que se revelem destituídos de interesse para o
exame ou decisão da causa. No entanto, se por um lado cabe às relações proferir a
última palavra quanto às medidas tomadas de acordo com critérios de conveniência
e oportunidade, por outro permite-se que a decisão assim que tenha sido proferida
possa ser modiicada de acordo com a evolução da situação de facto, em
afastamento da imutabilidade do caso julgado que, em regra, cabe ás decisões
judiciais transitadas que conheçam do mérito da causa. O objetivo, como facilmente
se alcança é o de possibilitar que, em cada momento, o interesse que a lei quer
proteger seja prosseguido da forma mais adequada. A existência de processos cuja
decisão é baseada na lexibilidade própria da conveniência e na oportunidade e que
não se adapta à rigidez da justiça e de normas gerais e abstratas, ainda que
contendo conceitos indeterminados, apelando ao bom senso do julgador e à
capacidade inventiva e ao talento improvisado do juiz, é uma realidade social
indubitável, especialmente no domínio das relações familiares, mas também
noutras relações em que estejam em causa interesses sociais relevantes como as

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relações de vizinhança relações negociais ou comerciais ou de tutela de certas


funções ou atividades socialmente relevantes. No âmbito da jurisdição voluntária,
estamos especialmente num domínio em que as decisões podem ser tomadas
segundo um critério não normativo, assente numa verdadeira discricionariedade
judiciária, pressupondo o uso de juízos de equidade. Podemos deinir a jurisdição
voluntária como uma das formas do exercício da atividade jurisdicional, na qual o
órgão que a exerce, fazendo uso da iniciativa probatória que considere necessária e
com recurso a critérios de conveniência e oportunidade, tutela interesses privados,
com vista à constituição, formação, eicácia, validade ou extinção de uma relação
ou situação jurídica ou, em determinados casos, e perante circunstâncias
supervenientes que o justiiquem, alterar essa relação ou situação jurídica.

Os processos de jurisdição voluntária são regidos por princípios diferentes dos


processos de jurisdição contenciosa.

 Não é fácil delimitar de forma clara a jurisdição contenciosa e a jurisdição


voluntária;
 É uma solução que sai da legalidade estrita, buscando-se a solução que se
julgue mais conveniente;
 Os processos de jurisdição voluntária são processos de jurisdição especial.
Antes de se aplicar o processo comum, aplicamos a este processo especial
as regras relativas aos processos de jurisdição voluntária. Só na ausência de
resposta após a consulta destas normas é que vamos recorrer às regras de
processo comum;
 Artigos a analisar: 986º a 988º do CPC
 Em processo de jurisdição voluntária, os processos não ganham força de
caso julgado.
 Inadmissibilidade de recurso para o STJ (988º do CPC);

“uma das formas de exercício da atividade jurisdicional, na qual o órgão que a


exerce, fazendo uso da iniciativa probatória que considere necessária e com
recurso a critérios de conveniência e de oportunidade, tutela interesses
privados, com vista à constituição, formação, eicácia, validade ou extinção de
uma relação ou situação jurídica ou, em determinados casos e perante
circunstâncias supervenientes que o justiiquem, alterar essa relação ou
situação jurídica” (António José Fialho, Conteúdo e Limites…, Petrony, 2017, pp.
43 e 44)”

Princípios caracterizadores da jurisdição voluntária:

1. Prevalência do princípio inquisitório (art. 986.º-2 do CPC).


2. Predomínio da conveniência e da oportunidade sobre a legalidade estrita
(art. 987.º do CPC).
3. Modiicabilidade das resoluções baseada em circunstâncias supervenientes
(art. 988.º-1 do CPC).
4. Inadmissibilidade de recurso para o STJ das resoluções proferidas segundo
critérios de conveniência e de oportunidade (art. 988.º-2 do CPC).

Julgados de Paz

Julgados de Paz -Manual de Mariana França Gouveia (páginas 317-336)

Os julgados de paz, criados em 2001, pela lei nº78/2001 de 13 de julho, iniciaram a


sua atividade no ano de 2002. Nesta altura eram apenas 4, a título experimental.
Hoje, em 2014, são 24, distribuindo-se irregularmente pelo país. Aliás, uma das
críticas apontadas ao sistema é precisamente não haver uma lógica compreensível
na expansão da rede dos julgados de paz. Os julgados de paz são verdadeiros
tribunais inseridos na oferta da justiça pública. São órgãos de soberania do poder

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judicial, previstos na CRP (209º nº2). A distinção dos tribunais comuns decorre de
diversos aspetos, devendo realçar-se a sua teleologia, o que tem depois
repercussão na sua forma de atuação e regime. Isto é, os julgados de paz praticam
uma justiça alternativa muito marcada pela proximidade e pela tentativa de,
através das fases de mediação e de conciliação alcançar uma solução por acordo.
Os julgados de paz são então, tribunais não judiciais ou mistos, tendo e, conta a sua
natureza obrigatória e os métodos que utilizam na resolução do conlito, procurando
sempre o acordo e afastando a concepção adversarial de litígio. A questão da
competência assume aqui papel importante. Desde a publicação da lei dos julgados
de paz se coloca a dúvida se a competência dos julgados de paz é ou não
obrigatória, isto é, se o autor é obrigado a propor a acção no julgado de paz quando
ele exista no concelho e tenha competência na matéria. O acórdão de
uniformização de jurisprudência de 24 de maio de 2007 decidiu no sentido da
alternatividade da competência dos julgados de paz. Os argumentos são vários,
desde a análise puramente normativa das regras aplicáveis até aos trabalhos
preparatórios da LJP, passando pela possibilidade de a acção inicialmente proposta
nos julgados de paz ser remetida aos tribunais judiciais. Este, aliás, parece ser o
argumento decisivo. Não faz sentido, de acordo com o acórdão, airmar que os
tribunais judiciais não têm competência para aquelas acções, se podem vir a tê-la
posteriormente, bastando que uma das partes deduza um incidente ou requeira a
prova pericial. O argumento deixou, porém, de fazer sentido face às as novas
redações, dadas pela lei 93/2013 de 31 de julho, ao artigo 41º, nos termos dos
quais o juiz de paz é competente para os incidentes processuais suscitados pelas
partes; e ao artigo 59º da LJP, nos termos do qual que a prova pericial é produzida
junto do tribunal judicial, mas o processo regressa depois ao juiz de paz. O acórdão
não foi tirado por unanimidade, tendo havido 3 votos contra esse sentido, um deles,
da Conselheira Maria dos Prazeres Beleza, deu lugar a voto de vencido. Nessa
declaração a conselheira rebate os argumentos da posição vencedora,
acrescentando uma ideia importante. Trata-se da circunstância de a alternatividade
ser unilateral, isto é, de caber ao autor escolher o julgado de paz ou o tribunal
comum, sendo obrigado o réu a segui-lo. Esta alternatividade unilateral é estranha
a qualquer meio de RAL, na medida em que estes procedimentos são por regra
voluntários, sendo exigida a adesão de ambas as partes. A solução consagrada pelo
acórdão de uniformização é difícil de entender, enquadrando-se mal no princípio da
igualdade das partes. Miguel Teixeira de Sousa rebateu, porém, este argumento,
fechando o ciclo: a voluntariedade é alargada ao réu, podendo este opor-se à
competência do julgado de paz onde a acção foi proposta. Embora defenda que os
julgados de paz não pertencem à jurisdição comum, inserindo-se numa outra,
diferente e própria, o autor entende que obrigar as partes a escolher uma justiça
alternativa é contraditório precisamente com a ideia própria da justiça de
proximidade oferecida por um julgado de paz. Miguel Teixeira de Sousa, entende,
por esta razão, que os julgados de paz terão apenas competência para a acção se
demandante e demandado concordarem nessa atribuição. Assim, numa acção
proposta num julgado de paz, o demandado poderá opor-se à submissão do seu
caso a essa jurisdição, impedindo, portanto, o julgado de decidir. Há uma clara
aproximação do regime dos julgados de paz à arbitragem, a jurisdição de paz passa
a ser uma jurisdição voluntária, dependendo para vontade consensual das partes.
Em coerência com o exposto, Miguel Teixeira de Sousa entende que as partes
podem celebrar um pacto de competência, atribuindo, nos termos do artigo 94º do
CPC, competência aos julgados de paz.

 Parece a Mariana França Gouveia que essa norma não é diretamente


aplicável ao caso, na medida em que esta se dirige à competência e
aqui estamos a falar de jurisdição. Apenas um mês e meio após a
prolação do AUJ é proferida pela relação de Lisboa outra decisão em sentido
contrário que não só discorda da decisão do supremo tribunal de justiça,

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como entende que ela é inconstitucional. Reiro-me ao acórdão de 12 de


Julho de 2007 que contraria, ponto por ponto, os argumentos do STJ. Os
argumentos em disputa são diversos e da mais variada índole. Julgo que os
mais importantes se podem resumir em 3: o modo de interpretação das
regras legais de competência, a consequência de a primeira opção da
alternatividade resultar numa violação do princípio da igualdade, a
interpretação das regras de relação entre julgados de paz e jurisdição
comum. Mariana França Gouveia pensa que do ponto de vista da coerência
do sistema, a solução mais adequada é a da exclusividade. Vejo com alguma
diiculdade a criação de tribunais pelo Estado numa lógica concorrencial, por
outro lado, porém, o argumento da violação do princípio da igualdade- ao
obrigar-se o réu a sujeitar-se á vontade do autor- não pode ser ignorado. Há
aqui um desequilíbrio que não tem qualquer justiicação. Este desequilíbrio
não se veriica em nenhum outro meio de RAL, pois em todos eles se exige a
adesão das duas partes envolvidas. A reversão desta crítica através da
aproximação da justiça de paz à arbitragem, tornando-a dependente da
vontade das partes, coloca problemas não despiciendos de regime. Antes de
mais, parece-me mais adequado aplicar aos julgados de paz as regras sobre
a convenção de arbitragem, trata-se, na verdade de um problema, se assim
colocado, de jurisdição voluntária alternativa. O mais próximo desta situação
é a arbitragem e não a competência convencional. Seja qual for a norma
aplicável, a celebração de uma convenção de justiça de paz seria
necessariamente de excluir a competência dos tribunais judiciais, como
acontece com a convenção arbitral. Teria de ter efeitos potestativos sob
pena de trazer novamente a questão da igualdade das partes. Repare-se: se
adotar a posição de Miguel Teixeira de Sousa, na falta de convenção, o autor
continua a ter possibilidade de optar pelos tribunais judiciais ou pelos
julgados de paz, mas o réu não. Porque, se o autor optar por propor a acção
nos tribunais judiciais, o réu não pode opor-se tendo de aceitar a
competência dos tribunais judiciais. Não há, pois, igualdade entre as partes.
Adotar a posição de Miguel Teixeira de Sousa signiica, ainda, que
inexistindo tal convenção o demandado poderia sempre arguir a
incompetência do Julgado de Paz, obrigando este a extinguir o
processo. Este resultado não me parece, do ponto de vista da
administração da justiça, a aceitável. Mariana França Gouveia entende,
portanto, que a competência dos julgados de paz é exclusiva e que tal
conclusão de se retira facilmente da letra da lei, da coerência do
sistema e da solução mais adequada à lacuna legal. Por outro lado,
porém, numa ótica de sistema diversiicado é interessante colocar os
julgados de paz como uma opção ao lado dos restantes meios de RAL. Até
porque o seu modelo de resolução se adequa a certos tipos de disputas – os
litígios de proximidade-, mas não a outros. Há, porém, uma regra que joga
contra esta autonomia- a da recorribilidade das decisões dos julgados de paz
para os tribunais judiciais, quando o valor da acção seja superior a metade
da alçada da primeira instância – artigo 62º. Acresce que este recurso é para
os tribunais de primeira instância e não para a relação, o que não permite
sequer uma equiparação dos julgados de paz aos tribunais de primeira
instância. Ao invés, faz parecer que eles são uma pré ou sub-instância. Esta
menorização é ainda mais evidente com a recente alteração da lei dos JP,
operada pela Lei 93/2013, de 31 de julho, ainda que por via indireta. A
competência dos julgados de paz em razão do valor foi aumentada para
15.000 Euros, mas manteve-se tal qual a regra da recorribilidade para o
tribunal de primeira instância. Isto signiica, assim, que acções de valor entre
5.000 e 15.000 Euros, que seriam julgados entre recurso na relação, caso
tivessem valor superior a 5.000 euros, são julgados em recurso nos tribunais

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judiciais de primeira instância. O outro aspeto de conexão entre os julgados


de paz e jurisdição comum era o envio dos processos quando era deduzido
algum incidente ou é requerida a prova pericial. Estas normas foram, porém,
alteradas pela recente alteração da Lei dos Julgados de Paz. Assim, nos
termos do artigo 41º e 59º nº3 LJP, suscitado algum incidente, o juiz de paz
mantém-se competente; requerida prova pericial, o juiz de paz remete o
processo para o tribunal de judicial apenas para a produção de prova,
regressando depois o processo para decisão pelo juiz de paz. As regras
deixaram, assim, de poder ser utilizadas como argumentos, na medida em
que a alargaram a competência dos julgados de paz, deixando estes de estar
dependentes dos tribunais judiciais. A tudo isto nos levou a problemática da
competência exclusiva ou alternativa ou alternativa dos julgados de paz.
Porque o argumento essencial tem precisamente a ver com estas regras –
com a interpretação de que elas retratam uma espécie de sujeição dos
julgados de paz aos tribunais comuns. E que a competência destes está
latente. A explicação destas regras e em parte a sua recente alteração
demonstram, porém, que não é evidente a sua razão de ser. Se a regressa
do recurso pode indiciar uma sujeição, as alterações das regras dos
incidentes clariicam a plena competência dos julgados de paz. É certo que a
regra da recorribilidade parece indiciar um diferente estatuto face aos
tribunais de primeira instância, mas, embora, discorde desse da regra, não
me parece que seja decisiva quanto à questão da exclusividade ou
alternatividade da competência. Até poderia ser entendida a favor da
exclusividade, visto que é mais garantística que a regras que estão
submetidas as acções sujeitas aos tribunais comuns quando tenham valor
inferior a 2500 Euros. Nos tempos atuais, porém, julgo que o único
entendimento coerente é o da obrigatoriedade da competência dos julgados
de paz. Sendo estes tribunais públicos constitucionalmente previstos, retira-
se da lei que a sua jurisdição não se funda na vontade das partes. É uma
jurisdição pública, legal – tem como fonte a lei e é, nessa medida obrigatória
para ambas as partes. Se as partes quiserem, poderão excluir a competência
dos julgados de paz, poderão fazê-lo previamente à propositura da acção,
através de convenção. Poderão fazê-lo através da propositura da acção nos
tribunais judiciais, desde que o réu aí não invoque a incompetência do
tribunal judicial. À semelhança da convenção de arbitragem, tal
incompetência dos tribunais judiciais não deve ser de conhecimento oicioso,
pelo só haverá absolvição da instância se o réu a arguir. Parece-me que o
sistema tem de admitir esta possibilidade- se possível celebrar convenção de
arbitragem, então também se tem de admitir a celebração de convenção
atributiva da competência à jurisdição comum. Nenhuma regra ou princípio
de organização judiciária impede esta atribuição de competência. A
competência dos julgados de paz é, assim exclusiva, mas supletiva – as
partes poderão optar, expressa ou tacitamente, por outra jurisdição- a
judicial ou arbitral. Esta solução é coerente com os dados do sistema jurídico
e, em simultâneo, com a alternatividade consensual postulado do direito
privado e da RAL.

a) Princípios

Os princípios que regem os julgados de paz estão inscritos no artigo 2º da Lei


nº78/2001, de 13 de julho. Este é o artigo mais importante deste diploma, devendo
ser padrão de interpretação de todas as suas regras. Os princípios estabelecidos
são os da participação, do estímulo ao acordo, da simplicidade, de adequação, da
informalidade, da oralidade e da economia processual.

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 O princípio da participação cívica dos interessados pretende trazer os


cidadãos para os julgados de paz, tornando-o parte ativa do processo.
Através do procedimento judicial, onde a parte nunca ou raramente fala, nos
julgados de paz a presença das partes é essencial ao desenvolvimento da
sua ilosoia. Só pode haver justiça de proximidade se os litigantes estiverem
presentes. O afastamento dos utentes do sistema judicial tradicional é uma
das marcas da crise da justiça. O processo, criado para dar garantias de
igualdade e de imparcialidade, tornou-se num ritual gasto, opaco, labiríntico
e incompreensível para quem nele não trabalha. A excessiva formalidade,
aliada a uma grande tecnicidade, não permite que as pessoas entendam o
que se passa. Por outro lado, este afastamento é propositado, é consciente,
já que se entende que as partes não são as pessoas mais indicadas para
tratar do seu litígio. A intermediação por um advogado, proissional
deontologicamente demarcado por uma certa distância das partes e das
suas posições pessoais, é explicada precisamente por esta teleologia. Não é
sequer suposto que as partes comuniquem diretamente com o juiz.
 Ora, os Julgados de Paz partem precisamente da direção oposta,
propugnando que as partes são as pessoas melhor colocadas para resolver o
seu problema. O princípio da participação cívica está diretamente
relacionado com o estímulo ao acordo, à autocomposição dos litígios.
Signiica que a parte não é mera espetadora do desenrolar do seu caso, mas
participante informada da sua resolução. Em concretização a tramitação nos
julgados de paz contém dois momentos para a obtenção deste acordo: a
mediação extrajudicial e a conciliação judicial. A mediação é feita por um
mediador, escolhido pelas partes ou indicado pelos serviços do julgado de
paz. A conciliação é tentada por um juiz, no início da sessão do julgamento.
No processo, as partes podem passar pelas duas tentativas de obtenção do
acordo ou só por uma, a conciliação, se prescindirem da fase da mediação.
Fase que é, sempre, de adesão voluntária. Nota-se que nos julgados de paz
há uma motivação para o acordo muito mais forte do que nos tribunais
judiciais. Criou-se de alguma forma uma dinâmica de conciliação, na medida
em que se sabe que o juiz vai esgotar todas as possibilidades de obtenção
do acordo. No entanto, também é necessário ter alguma cautela nessa
procura de acordo, de forma a não incomodar intoleravelmente as partes,
nem a comprometer em relação a algo que, ainal, não querem. É
importante que os juízes tenham a sensibilidade para perceber quando é e
quando não é alcançável a transação e, por outro lado, que não utilizem o
poder judicial para forçar esse consenso.

Os restantes princípios dizem respeito especiicamente ao procedimento nos


julgados de paz. São princípios comuns ao processo civil, com a excepção da regra
da informalidade, mas que assumem particular importância nos julgados de Paz.

b) Competência

Para além da questão da competência alternativa ou obrigatória, é importante


referir os critérios de atribuição de competência territorial e material nos julgados
de paz. Tal matéria está regulada nos artigos 8º e seguintes da Lei dos Julgados de
Paz. Em razão do valor, os Julgados de paz têm competência para acções cujo valor
não exceda 15.000 Euros. Este valor resulta da recente alteração á LJP, que triplicou
o anterior limite. Trata-se sem dúvida, de um valor considerável para a maior parte
das pessoas, que deixa de poder chamar-se aos julgados de paz tribunais de
pequenas causas. O artigo 9º contém as matérias que são da competência dos
julgados de paz. As áreas de competência são descritas individualmente através da
sua caracterizada jurídica, pelo que o que não se encontra aqui especialmente

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previsto não cabe na jurisdição destes tribunais. Podemos agrupá-las em dois


grandes grupos: matéria civil e matéria criminal.

 Na matéria civil estão previstas algumas questões tratadas nos direitos reais
e no direito das obrigações; no entanto é importante tomar em consideração
a restrição prevista na alínea a) nº1 do artigo 9ºLJP que sofreu alteração com
a nova lei. Até 2013, não havia competência do julgado de paz para apreciar
e decidir acções destinadas a efetivar o cumprimento de obrigações
pecuniárias de que seja ou tenha sido credor uma pessoa coletiva. O im
desta restrição era para impedir a invasão dos julgados de paz pelos
chamados litigantes de massa.
 A relação de Lisboa analisa em primeiro a questão da exclusividade ou
alternatividade da jurisdição de paz e só depois o problema interpretativo do
artigo 9º. Consagra uma nova interpretação da inalidade da norma em
questão, determinando que a norma não tem em vista afastar os grandes
litigantes, mas antes aqueles para quem não faz sentido a composição por
acordo. No entanto, Mariana França Gouveia não concorda com este
entendimento, reiterando novamente que a ratio legis do artigo 9º era, sem
qualquer dúvida, o afastamento dos litigantes de massa. Isto porque o
essencial da Justiça de Paz é a sua ilosoia de proximidade, algo impossível
de realizar se o número de processos for avalassador. Certo é, porém, que a
letra da lei acabou por excluir muito mais acções, na medida em que
abrange toda a litigância de comercial, seja ou não de massa. Nos dias em
que correm, toda a atividade económica, por mais pequena que seja, se
desenvolve através de uma sociedade comercial, e esta opção acabou por
signiicar uma exclusão importante e um algo injustiicada. Assim, a própria
justiça de paz foi, paulatina, mas irmemente, admitindo toda a litigância
comercial.
 O Problema foi resolvido na nova redação do artigo 9º nº1 a) da LJP que
determina agora que os julgados de paz são competentes para as acções se
destinem a efetivar o cumprimento de obrigações com a excepção das que
tenham por objeto o cumprimento de obrigação pecuniária e digam respeito
a um contrato de adesão. Desaparece, portanto, qualquer referência à
pessoa coletiva, interessando tão só se a dívida decorre ou não de contrato
de adesão. Se decorrer, então o julgado de paz terá competência, se não
decorrer terá. Este critério é ainda adequado porque nos casos em que não
há contrato de adesão, terá havido uma negociação individual das
obrigações, o que faz presumir a conformidade da justiça de proximidade.
 Em relação à matéria penal, a competência está prevista no nº2 da LJP,
incluindo apenas os pedidos de indemnização cível pelos crimes aí previstos
(ofensas corporais simples, difamação, injúrias, furto simples, dano simples).
O julgado de paz só tem competência para aceitar o pedido de indemnização
cível quando não haja sido apresentada participação criminal ou após a
desistência do mesmo. As matérias procuram claramente um determinado
tipo de litigância: conlitos entre pessoas singulares, disputas de
proximidade, problemas entre cidadãos. São estas, realmente as áreas de
litigância a que os julgados de paz melhor se ajustam, pela questão da
proximidade da justiça.

Quanto á competência territorial, a LJP estabelece no seu artigo 11º que as


acções referentes a direitos reais ou pessoais de gozo sobre imóveis e as acções
de divisão de coisa comum devem ser propostas no julgado de paz da situação
dos bens. Já as acções relativas ao cumprimento e ao incumprimento contratual
podem ser propostas, à escolha do credor, no julgado de paz do lugar em que a
obrigação devia de ser cumprida ou no julgado de paz do domicílio do
demandado (artigo 12º). O artigo 13º da LJP estabelece como competência

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territorial do julgado de paz do domicílio do réu. Repare-se que estas regras têm
ainda a função de delimitar a jurisdição dos julgados de paz. Na medida em que
estes não têm cobertura nacional, a aplicação destas regras determinará se
acção pode ou não ser proposta num julgado de paz, conforme este esteja
instalado nesse conselho ou não. Por im, os julgados de paz têm, desde a
alteração de 2013 à lei nº 78/2001, competência cautelar. Esta competência
cautelar está dependente da competência material deinida nos artigos 9º e
seguintes da LJP. Os julgados de paz só podem, assim, decretar medidas
cautelares relativamente a litígios que caibam no seu ãmbito de competência.

c) Tramitação processual

A tramitação nos julgados de paz é muito simpliicada e pouco regulada. O processo


inicia-se com um requerimento inicial que pode ser apresentado oralmente ou por
escrito (artigo 43º). Segue-se, depois, a citação do demandado, que nunca pode ser
edital (46º) É certo que não pode haver processo sem direito de defesa e não há um
direito de defesa sem citação. Um processo judicial, qualquer que ele seja, não pode
prosseguir sem citação. Mas também é certo que a citação edital é, por si só, uma
icção, um simulacro de citação, um cumprimento formal do direito de defesa, que
no fundo não o garante e até o diiculta. Por estas razões, Mariana França Gouveia
defendeu para o processo civil a eliminação da citação edital. Assumindo, então
essa eliminação na lei dos JP, o que é importante em termos de regime é aplicar a
estes processos o regime da falta de citação e não da citação pessoal. Isto é a
consideração de todas as formas de citação como citação pessoal e logo o
alargamento do regime já consagrado no Código de Processo Civil da falta de
citação pessoal face às situações normalmente reconduzidas à citação edital. Na
citação do demandado marcar-se logo a data pré-mediação (45º nº2 LJP), ou se o
demandante tiver prescindido dessa fase, do julgamento. Entramos, então na fase
da mediação que se inicia com a pré-mediação, sessão destinada a explicar às
partes em que consiste a mediação e a veriicar a sua predisposição para resolver o
caso através da celebração de um acordo (49º). Se as partes aderirem, passa se à
mediação propriamente dita, que pode ter lugar no mesmo dia e com o mesmo
mediador. Se as partes alcançarem o acordo na mediação, este é homologado pelo
juiz na presença das partes (artigo 56º LJP). A sentença homologatória tem força
executiva. Se a mediação não tiver sucesso, o processo é encaminhado para
marcação de julgamento. Entretanto, corre o prazo para contestar (10 dias a contar
da citação, nos termos do artigo 47º). Na contestação o demandado pode deduzir
reconvenção, mas em termos bastante limitados: apenas é admissível para obter a
compensação e para tornar o efetivo o direito a benfeitorias ou despesas relativas à
cuja entrega lhe é pedida. Se for deduzida reconvenção, o demandante responde no
mesmo prazo de 10 dias (artigo 48º nº3). Uma das diiculdades do regime
processual dos julgados de paz é o efeito da revelia. Isto porque, de acordo com o
artigo 58º nº2, tal efeito apenas se veriica quando o demandado para além de não
ter contestado, não tenha comparecido no julgamento e não tenha justiicado esta
falta. Isto é, para que se deem como provados os factos não base a não
contestação, é ainda necessário a falta não justiicada do demandado à audiência
inal. Esta norma tem conduzido ao entendimento de que o demandado não
contestante pode impugnar os factos na audiência inal. Aliás, pode apresentar
prova, na medida em que os meios probatórios são oferecidos na audiência. A
grande diiculdade reside na possibilidade de deduzir, apenas na audiência, as
excepções ao pedido. Há aqui dois valores conlituantes que produzem resultados
contraditórios. Tendo em conta o princípio da verdade material, deveria permitir-se
a alegação de factos novos na audiência. Ao contrário, se atentarmos no princípio
do contraditório, não é legítimo sujeitar o demandante à alegação de factos
surpresa, sem lhe conceder hipóteses de defesa, nomeadamente de apresentação
de prova. Acresce que a possibilidade de alegar factos novos esvazia de sentido a

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regra da contestação e do seu prazo. Mariana França Gouveia defende que a


solução para esta situação tem de passar pela conciliação dos dois valores. Em
situações que o justiiquem, se deve permitir que o juiz admita os novos factos e
em simultâneo, convide o demandante a apresentar prova em audiência posterior,
suspendendo-se aquela sessão. Na audiência do julgamento, o juiz faz uma nova
tentativa de resolução do litígio por consenso, através da conciliação. Não sendo tal
possível, produz-se a prova e, por im, é proferida a sentença. A lei manda que a
sentença seja oral, proferida em audiência de julgamento. As sentenças que
excedam metade da alçada da primeira instância são recorríveis para os tribunais
judiciais (artigo 62º LJP). O recurso tem efeito meramente devolutivo e segue o
regime geral da apelação.

Tribunais do Estado, aspeto que distingue os julgados de paz dos tribunais arbitrais,
mas que estão fora da organização judicial, tal como os tribunais arbitrais

 Estão previstos na CRP no artigo 209º nº2 regido pela lei nº 78/2001 de 31
de Julho, apenas alterada uma vez;
 Os julgados de paz não cobrem todo o território nacional;

As matérias sobre as quais os julgados de paz incidem estão explanadas no artigo


9º da lei acima referida. Outro dos problemas com os julgados de paz
consubstancia-se no facto de que se a competência dos julgados de paz fosse
exclusiva acabaria por trazer graves assimetrias de acesso à justiça em todo o
território nacional, na medida em que não existem julgados de paz em todos os
municípios. O entendimento maioritário da doutrina é de que a competência dos
julgados de paz é alternativa.

A competência dos julgados de paz é exclusiva ou alternativa em relação aos


tribunais judiciais?

 Se a competência for exclusiva, obrigatoriamente, a teria de existir uma


propositura da ação apenas em julgados de paz.
 Se a competência for alternativa, a parte pode escolher onde propor a acção.

Não existe nenhuma norma legal que determine a competência dos julgados de
paz, e por outro lado, a diiculdade que existe em enquadrar os julgados de paz na
organização judiciária.

Acórdão uniformizador de jurisprudência de 24 de maio de 2007 TRL: a


competência deveria ser alternativa. Em primeiro lugar, o facto de na CRP a
referência aos julgados de paz estar separada da aos tribunais judiciais, indiciando
no entender da doutrina, uma clara relação de hierarquia e separação entre estes
dois, e em segundo lugar pela questão dos recursos, ou seja, das decisões dos
julgados de paz cabe recurso para a primeira instância.

Voto de vencido: se a competência for alternativa, está a dar-se a oportunidade de


escolha a uma das partes. No entanto, a partir do momento, que o autor propõe
escolhe onde propor a acção, o réu não tem qualquer opção de escolha
relativamente á jurisdição escolhida, o que pode levantar problemas no que diz
respeito a violações ao princípio da igualdade de acesso à justiça.

Princípios dos Julgados de Paz

 A atuação dos julgados de paz é vocacionada para permitir a participação


cívica dos interessados e para estimular a justa composição dos litígios por
acordo das partes” (n.º 1);
 “Os procedimentos nos julgados de paz estão concebidos e são orientados
por princípios de simplicidade, adequação, informalidade, oralidade e
absoluta economia processual” (n.º 2)

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Competência dos Julgados de Paz (ver Mariana França Gouveia)

 Valor: € 15000; Matérias: art. 9.º da LJP (referência aos litigantes de massa);
 Competência territorial (arts. 11.º a 14.º da LJP)
 Critérios de atribuição de competência territorial e material dos JP

Aula de dia 13 de março de 2017


Distinção entre jurisdição voluntária e jurisdição contenciosa: existência de
interesses superiores às partes do que os interesses das partes e que justiicam que
existam algumas regras especíicas para regular determinado litígio (Artigos 986º e
988º- é muito difícil o STJ avaliar um processo oriundo da jurisdição voluntária);

 O princípio do inquisitório: contrapõe-se ao princípio do dispositivo, ou seja,


determina que o juiz pode ter em conta para tomar a sua decisão não só os
factos alegados pelas partes.
 Característica da alterabilidade que distingue do processo comum ordinário
que é o contrário.

Injunção:

De acordo com José Lebre de Freitas3 o DL 269/98 contém disposições comuns aos
meios da acção declarativa especial e da injunção, após o que, em regime anexo,
disciplina separadamente um e outro. De entre as disposições comuns, sobressaem
as relativas à estipulação de domicílio que determina regimes de citação não
coincidentes. O processo de notiicação tira o seu nome da notiicação que nele é
feita ao devedor para que pague ou se oponha à pretensão do credor. No esquema
do DL 269/98, recebido o credor o requerimento de injunção, o secretário judicial
envia ao devedor uma carta, intimando-o em 15 dias, a pagar ao credor a quantia
certa ou a deduzir oposição à pretensão (12º/1 do regime anexo). A notiicação
interrompe a prescrição, esclarece o artigo 13/2 do regime anexo, embora já tal
resulte do artigo 323º/1 do CC (A notiicação é um ato judicial, ainda que feita num
processo não jurisdicional).

 Se o requerido não deduzir oposição, o secretário judicial escreverá no


requerimento de injunção que “este documento tem força executiva (artigo
14/1 do regime anexo), a menos que o pedido seja superior ao valor-limite
do processo de injunção ou não esteja em causa obrigação pecuniária
emergente de contrato, caso em que recusará a aposição da fórmula
executória (14º/3) do regime anexo, sem prejuízo do direito de reclamação
do requerente para o juíz (14º/4 do regime anexo). Aposta aquela fórmula, o
requerente pode propor uma acção executiva com base no título executivo
assim formado.
 Se o requerido se opuser, irá fazê-lo por contestação, que não carece de ser
articulada (artigo 16º do regime anexo). Quando requerente tenha indicado
que pretende que o processo seja apresentado à distribuição do caso de
oposição do devedor, seguem-se, após distribuição, os termos do processo
especial de acção declarativa criado pelo mesmo diploma (17º do RA). O
mesmo acontece se tiver frustrado a notiicação do requerido, sempre
condicionadamente à manifestação da vontade do requerente no
requerimento de injunção. O artigo 17º/3 do regime anexo é expresso em
prever o despacho de aperfeiçoamento, particularmente útil quando o credor
não haja descrito a causa de pedir no requerimento de execução;
 Como se vê, o processo judicial de injunção não é um processo jurisdicional,
visto que o juiz nele, em princípio, não intervém, a sua utilização é
especialmente interessante para as grandes empresas fornecedoras de bens

3 José Lebre de Freitas (A Acção Declaraiva Comum – páginas 352 a 361)

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e serviços com base em contratos não escritos ou com base em contratos


escritos que não determinem a quantidade do bem ou serviço fornecido. O
seu risco, embora estatisticamente diminuto, reside em , com base na
invocação de contratos verbais, ser conseguido título executivo contra
requeridos que, não sendo notiicados na própria pessoa, não venham a ter
conhecimento da notiicação, feita em pessoa diversa ou por simples
depósito de uma carta simples ou de um aviso na sua caixa do correio, visto
não lhes ser proporcionada a então a arguição da falta de citação; ainda que
notiicados na própria pessoa, não tenham sido advertidos de que a não
dedução de oposição à injunção preclude a possibilidade de oposição, por
inexistência de dívida, a um futuro processo de execução. Esse risco não é,
porém, muito grande, enquanto se entenda que o executado com base no
título formado no processo de injunção pode ainda opor-se à execução,
deduzindo qualquer fundamento que lhe seria lícito deduzir no processo de
declaração (816º). Este entendimento leva, por imposição constitucional, a
interpretar a norma do artigo 857º, como tendo, quanto muito aplicação aos
casos em que o devedor, na execução, se conforme com a diminuição de
garantias registada no seu anterior processo de injunção. O Tribunal
Constitucional, pelo seu acórdão 388/2013, preferido em 9 de julho,
declarou, com força obrigatória geral, a inconstitucionalidade do artigo
814º/2 do código revogado, que igualmente, limitava os fundamentos de
oposição à execução fundada em título formado no processo de injunção. O
mesmo aconteceu ao artigo 857º.

 O regime da injunção está pensado para os litígios de massa, como


constante do artigo 269/98, de 1 de setembro;
 Obrigação incumprida que resulta de um contrato celebrado entre as partes;
 “É aprovado o regime dos procedimentos destinados a exigir o cumprimento
de obrigações pecuniárias emergentes de contratos de valor não superior a
(euro) 15 000, publicado em anexo, que faz parte integrante do presente
diploma” (art. 1.º do diploma preambular)
 Duas hipóteses para se poder recorrer à injunção independentemente do
valor: OU OS CASOS QUE CABEM NO AMBITO DE APLICAÇÃO DO ARTIGO 1º
DO DIPLOMA PREAMBULAR (ARTIGO 1º DO DIPLOMA PREAMBULAR);
OBRIGAÇÕES EMERGENTES DE TRANSACÇÕES COMERCIAIS (DL 62/2013);

Procedimento para-judicial: dá entrada no balcão nacional da injunção

 Notiicação do requerido para pagar ou para deduzir oposição à pretensão


(art. 12.º-1)
 “Se, depois de notiicado, o requerido não deduzir oposição, o secretário
aporá no requerimento de injunção a seguinte fórmula: 'Este documento tem
força executiva ‘” (art. 14.º-1). Este é o principal título executivo em número,
ou seja, centenas de milhares de injunções iniciadas anualmente.

Caso o valor da acção seja muito reduzido, sendo frustrada a injunção do ponto de
vista da empresa, tomando em consideração a vida prática, muito poucas empresas
decidem enveredar para uma verdadeira acção judicial.

 Chave importante: Consequências da natureza do título executivo e


fundamentos da oposição à execução: Obtenção pelo credor, de forma célere
e simpliicada, de um título executivo;
 O procedimento de injunção tem natureza administrativa: título executivo –
requerimento da injunção com fórmula executória;
 Processo de execução: obtenção do credor

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 Oposição à execução- ato processual através do qual o executado reage


contra a pretensão executiva (já na perspetiva de acção declarativo
especial);

Fundamentos de oposição à execução.

 Artigo 729º e artigo 731º;


 Caráter taxativo dos fundamentos vs. Amplitude dos fundamentos:
limitação dos meios de defesa do executado;
 Abrangido pelo artigo 816º do antigo CPC/ artigo 731º CPC: devido ao
carater sui generis e não jurisdicional do procedimento;
 Artigo 814º nº2 do antigo CPC : não oposição do requerimento no âmbito
do procedimento da injunção, efeito preclusivo quanto aos fundamentos
invocáveis;
 Acórdão do TC nº 388/2013: declara, com força obrigatória geral, a
inconstitucionalidade da norma constante do artigo 814º do antigo CPC,
quando interpretada no sentido de limitar os fundamentos de oposição à
execução instaurada com base em requerimentos de injunção à qual foi

Reforma do Código de Processo Civil de 2013.

Atenuar o efeito preclusivo decorrente da falta da oposição em sede da injunção;

 Artigo 857º- fundamentos de oposição à execução baseada em


requerimento de injunção;
 Limitação dos fundamentos de oposição à execução só é admissível
em caso de acção declarativa prévia:
 Restrição revela-se desproporcional e afeta o direito do requerido a
uma tutela jurisdicional efetiva
 AC TC 264/2015: inconstitucionalidade com força obrigatória geral, da
norma constante do artigo 857º nº1, quando interpretada no sentido
de limitar os fundamentos de oposição à execução instaurada com
base em requerimentos de injunção à qual foi aposta a fórmula
executória, por violação do princípio da indefesa, consagrado no
artigo 20º da CRP;
 Quanto aos fundamentos, aplicaríamos os fundamentos do artigo
731º;
 Notiicação: Artigos 12º e 13º: conteúdo e a forma – 13 nº1 c) do RA

Ausência de indicação expressa quanto à consequente limitação de fundamentos


em sede de oposição à execução;

Notiicação por via postal registada, à qual segue a notiicação por via postal
simples com exclusão da notiicação por contacto pessoal ou editais (Artigo 12º nº1
a 7 do RA). A via postal simples surge como modalidade exclusiva quando existe
convenção de domicílio (12º-A do RA).

A oposição, em termos teóricos, leva à abertura de uma acção declarativa especial


para o cumprimento de obrigações pecuniárias. No entanto, para que o processo
possa prosseguir, o requerente terá de pagar as taxas da acção para que esta
prossiga. Em dívidas de baixo valor não compensa as empresas continuarem a
acção, no entanto, se existir esta ideia, pode gerar-se uma ideia de impunibilidade
“geral”, o que é perigoso pois pode favorecer os incumprimentos. Por vezes as
empresas prosseguem com acções, mesmo que sejam prejudicados
inanceiramente, de modo a servir como exemplo.

AECOP: Análise da acção declarativa (anexo ao DL 269/98)

 Petição e contestação simpliicadas (art. 1.º)

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 “Se o réu, citado pessoalmente, não contestar, o juiz, com valor de decisão
condenatória, limitar-se-á a conferir força executiva à petição, a não ser que
ocorram, de forma evidente, exceções dilatórias ou que o pedido seja
manifestamente improcedente” (art. 2.º); se ele não contestar, há uma
sentença automaticamente, sendo o réu condenado ao pagamento do valor
em dívida, por exemplo. A sentença constitui-se como título executivo;
 Artigo 1º-A: artigo problemático – “o domicílio convencionado”. Problema
geral no processo civil: a citação. O que aqui se estabelece se houver um
domicílio convencionado no contrato, esse domicílio é o domicílio relevante
para efeito do processo. Se a pessoa pode ser citada nesse domicílio,
independentemente de o réu mudar ou não.
 Tramitação subsequente simpliicada (arts. 4.º e 5.º)

Os incidentes processuais: Espécies de Processo 4

A ideia que está na base do incidente processual é a de que, no processo de uma


determinada acção ou e um recurso, se incrustam questões acessórias e
secundárias, que implicam a prática de atos processuais que extravasam do núcleo
processual da espécie em que se inserem. No centro do incidente processual, está,
pois, uma questão controvertida surgida no decurso do processo que, em regra,
deve ser decidida antes da questão principal objeto do litígio, cuja sede própria é,
em regra a decisão inal.

O incidente processual é, portanto, a ocorrência extraordinária, acidental, estranha,


surgida no desenvolvimento da relação jurídica processual, que origine um processo
próprio, isto é, com um mínimo de autonomia, ou noutra perspetiva, a interferência
processual secundária, conigurada como episódica e eventual em relação ao
processo próprio da acção principal do recurso. O incidente verdadeiro e próprio
pressupõe, pois, em regra, a existência de uma questão a resolver que se conigure
como acessória e secundária face ao objeto da acção ou do recurso face ao objeto
da acção ou do recurso, e como ocorrência anormal e adjetivamente autónoma em
relação ao processo principal. Como resulta do exposto, uma das características do
incidente verdadeiros e próprio inserido na causa é sequência anómala de atos
processuais com signiicativa tramitação própria, independência de arguição e de
resposta em relação a outros atos das partes, com decisão autónoma quanto ao
seguinte da arguição ou ao mérito. Há, todavia, situações que a lei conigura como
incidentes, até mesmo como incidentes típicos, mas em que não se veriicam todos
os referidos pressupostos. A lei tipiica e nomina vários incidentes, como é o caso
daqueles que designa como incidentes da instância, mas prevê outros que não são
nominados nem tipiicados como tal. Face às características da panóplia dos
incidentes suscitáveis no processo, são os mesmos suscetíveis de ser classiicados,
por exemplo, segundo os critérios do momento em que se processam, dos
respetivos efeitos da denominação e da matéria sobre que versem.

Estabelece o artigo 260º, que se reporta ao princípio da estabilidade da instância


que, citado o réu, a instância deve manter-se a mesma quanto ás pessoas, ao
pedido e à causa de pedir, salvas as possibilidades de modiicação consignadas na
lei.

Os incidentes, tais como os procedimentos cautelares, têm algumas


especiicidades na tramitação processual.

 Ocorrência estranha ao curso normal do processo, dando lugar a uma


tramitação própria dentro do processo;
 O processo judicial pode decorrer sem aquele incidente;

4 SALVADOR DA COSTA (Incidentes da Instância: páginas 7-10)

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Apontamentos das Aulas- 3ºano /2º Semestre
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Soia Batista Linguíça nº004023

 Caráter acessório em relação ao processo principal: se não existir processo


principal, o processo cai.
 Disposições gerais (292º a 295º CPC)

1. Veriicação do Valor da Causa (296 e ss)


2. Suspeição de Juíz (119 e ss)
3. Habilitação (Artigos 351º e seguintes)
4. Liquidação (Artigos 358º e seguintes)
5. Procedimento cautelar (364º nº1);
6. Falsidade de Documento (Artigo 450º);

Incidentes exclusivos à acção executiva.

1. Dispensa de citação prévia (Artigo 727º);


2. Oposição à execução (artigos 728º e seguintes);
3. Comunicabilidade da dívida (artigo 741º): pelas dívidas comuns, respondem
em primeiro lugar os bens comuns e só depois os bens próprios dos
conjugues. No processo executivo, o exequente vem fundamentar a
comunicabilidade da dívida, e no inal deste incidente temos uma decisão: a
dúvida é declarada comum ou não;
4. Oposição à penhora (Artigos 784º e seguintes)

Intervenção de Terceiros: pessoa que não é parte no processo judicial

1. Intervenção principal: intervenção espontânea; Intervenção provocada

A intervenção principal distingue-se da intervenção acessória signiica que aquele


terceiro vai passar a intervir no processo como parte, seja do lado do réu ou do lado
do autor. Pode ser uma partir a pedir que alguém seja parte no processo ou pode
ser a pessoa a dizer que ser parte no processo.

2. Intervenção acessória: Intervenção provocada; Intervenção acessória do


Ministério Público; Assistência.

Litisconsórcio: casos em que necessariamente tem de estar mais do que uma parte
na acção. Há casos em que não é possível propor a acção contra uma parte apenas,
sendo necessário propor a acção contra mais do que uma parte. (artigos 32º e 33º
do CPC).

Intervenção de Terceiros: Oposição

Oposição espontânea, oposição provocada e oposição mediante embargos de


terceiro.

Aula de dia 14 de Março de 2017


Conceito: Providências cautelares e procedimentos cautelares.

As providências são as medidas que podem ser tomadas na sequência de um


procedimento cautelar. Um procedimento é aquilo que se passa no âmbito do
processo e no termo do qual o tribunal pode decretar uma providência cautelar.
Uma coisa é o procedimento e outra são as medidas tomadas em concreto,
nomeadamente, as providências.

Art. 2.º-2 do CPC: “A todo o direito, exceto quando a lei determine o contrário,
corresponde a ação adequada a fazê-lo reconhecer em juízo, a prevenir ou reparar a
violação dele e a realizá-lo coercivamente, bem como os procedimentos necessários
para acautelar o efeito útil da ação”. As providências e os procedimentos cautelares
não visam a composição deinitiva do litígio, tendo uma função instrumental face à
causa de pedir.

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Apontamentos das Aulas- 3ºano /2º Semestre
50
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 Medidas provisórias, que podem ser antecipatórias ou


conservatórias.

As medidas antecipatórias têm como objetivo conservar determinada situação


jurídica até à decisão judicial. Exemplo: Embargo de obra nova. Também podemos
ter medidas antecipatórias, que são medidas que antecipam a decisão principal.
Nas medidas antecipatórias, têm que existir uma urgência e uma probabilidade
séria de o autor vir a ter razão, na medida em que a prova para ser decretada uma
providência cautelar é menos exigente do que a prova que é necessária produzir
para a sentença.

Pressupostos da providência cautelar:

1. Periculum in mora: situação de perigo/urgência fundada, sendo a lesão


qualiicada como grave e diicilmente reparável (artigo 362º nº1 do CPC);
2. Fumus boni iuris (Artigo 368º nº1 CPC): Aparência do bom direito, fazendo o
juiz uma análise prévia e necessariamente sem todos os elementos que terá
no momento da decisão inal, o juiz deve analisar a situação e perceber se
existe ou não possibilidade de ser dada razão ao autor na acção principal.

Estes requisitos são cumulativos

A probabilidade séria impõe mais do que a incerteza, sendo as providências muito


agressivas para o réu.

Espécies:

 Procedimento Cautelar Comum (Artigos 362º e ss do CPC)

Medida provisória: Título IV do Livro II do CPC

Este procedimento tem uma aplicação genérica, ou seja, só se irá aplicar quando
não se veriica a existência de um procedimento nominado especíico para o efeito
pretendido (362º nº3). A estrutura é simpliicada, sendo o procedimento de
natureza urgente (363º nº1). Há uma aplicação subsidiária aos procedimentos
cautelares nominados (376º nº1 do CPC); Se os prazos não forem cumpridos, não há
efeito preclusivo.

 Procedimentos cautelares especiicados (v. arts. 377.º e segs. do


CPC)

Exemplos:

a) Restituição provisória de posse (arts. 377.º e segs.)

Para que haja o decretamento: tem que existir a posse (1251º nº1), podendo ser
decretada por um possuidor em nome próprio ou alheio. Para que possa existir este
pedido, tem que existir esbulho. Outro requisito é a violência (nº2 do artigo 1261º);

b) Suspensão de deliberações sociais (Artigos 380º e ss)


c) Alimentos provisórios (Artigos 384º e seguintes)

Critérios: o requerente tem que ter a possibilidade; o requerente deve carecer, a


título provisório do direito a alimentos provisórios. É possível recorrer de uma
medida cautelar. E o recurso pode subir de imediato, não icando à espera da acção
principal. Tem que existir direito a alimentos para pedir, nomeadamente a
possibilidade de direito a alimentos.

d) Arbitramento de reparação provisória


e) Arresto (artigos 391º e seguintes)

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Apontamentos das Aulas- 3ºano /2º Semestre
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No plano substantivo, basicamente funciona como um meio de conservação da


garantia patrimonial. No plano adjetivo, consubstancia-se numa “antecipação da
penhora”. O arresto é uma apreensão judicial de bens. Pressupostos: probabilidade
de existência de um crédito e outro é o justo receio de perda do património.

f) Arresto (arts. 391.º e segs.)


g) Embargo de Obra Nova (397º e ss)
h) Arrolamento (arts. 403.º e segs.)

Inversão do Contencioso

Artigo 373º CPC- Inversão do contencioso. Há muitas medidas cautelares que se são
formalmente medidas cautelares, são materialmente medidas deinitivas. Com este
regime procura-se evitar a utilização dos mesmos pressupostos de facto e de direito
por parte dos autores nas causas de pedir e nas medidas cautelares. Este princípio
acaba por ser uma excepção aos princípios da instrumentalidade/ acessoriedade
das medidas cautelares, bem como que uma airmação do princípio da gestão
processual. (Artigo 16º DL 108/2006). O objetivo deste regime é evitar que o
requerente volte a colocar uma acção principal com os mesmos pressupostos da
medida cautelar. Parte da doutrina determina que este artigo tem de ser
interpretado de um modo restritivo, na medida o juiz só o pode aplicar se pudesse
concluir se o caso pudesse ser resolvido pela medida cautelar.

A parte que requereu (369º) a providência é que pode pedir a inversão do


contencioso, só podendo ser feito no caso de medidas cautelares antecipatórias, e
não no que diz respeito a medidas conservatórias.

A medida cautelar não caduca no sentido em que se converte em acção principal.


Quem possui legitimidade para requerer a inversão do contencioso é o requerente,
havendo meios de defesa por parte do requerido, como por exemplo, recurso da
medida cautelar+ inversão do contencioso.

369º nº2: o Juiz tem que ter os elementos necessários para tomar a decisão. E se
tem todos estes fundamentos, para quê estar a obrigá-lo a tomar uma decisão
provisória e uma deinitiva, quando pode fazer tudo de uma vez, através da igura
da inversão do contencioso.

Só há interposição do recurso conjuntamente, ou seja, há recurso da medida


cautelar e da inversão do contencioso. Se não houver inversão do contencioso, e o
autor não pode recorrer desta decisão, tendo de propor nova acção.

Aula de dia 27 de março de 2017


a. Tramitação Processual do Processo Declarativo
 A tramitação tem, em qualquer processo civil declarativo, traços comuns;
 Variações no sentido de simpliicar ou adequar as regras ao tipo de litígios.

b. Fases do processo:

Alegar Organizar Provar Decidir

 Fase de alegação: petição inicial e contestação, no fundo, as partes trazem a


questão que as divide ao tribunal;

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 Fase de Organização: a tendência, nos nossos tribunais, é que esta fase de


organização seja centrada no juiz. Uma boa organização é fundamental para
que o processo corra até ao seu termo. O juiz vai olhar para o processo e ver
se consegue decidir alguma coisa nesse momento. Neste momento, o juiz
pode pedir, tendo em conta que foram apresentados factos novos pelo réu,
pode pedir ao autor que faça um terceiro articulado. Organizar signiica por
em ordem tudo aquilo o que está para trás. No entanto, organizar é olhar
para o passado, para o presente e para o futuro. Por exemplo, é nesta parte
que o juiz pode tentar uma conciliação. Organização em termos de
calendarização, por exemplo. O docente considera ser uma fase central do
processo, pois vai deinir se aquilo que levamos para a terceira fase é o não,
algo organizado. Na fase de organização, o juiz vai dividir os factos entre
provados e controvertidos (factos em relação aos quais é preciso produzir
prova)
 Provar: Fase em que as partes irão produzir prova relativamente aos factos
controvertidos.
 Decidir

A principal diferença entre os dois modelos (modelo português e anglo-saxónico) é a


característica da preclusão. No modelo português é mais evidente o destaque para
a parte da alegação. No entanto, o docente considera que o modelo alemão seria o
mais proporcional, na medida em que todas as fases terão

As medidas cautelares podem ser pedidas logo no momento de alegação, mas o


mais comum é que seja antes de a própria acção inicial ser proposta. As medidas
cautelares e os incidentes processuais surgem dentro do processo principal como
uma acção autónoma.

Há determinados pressupostos que tem de estar veriicados: competência,


veriica

Principais traços do modelo português:

1. Excessiva rigidez;
2. Ónus da preclusão da alegação dos factos;
3. Desconiança entre (em relação aos) operadores judiciários, em particular os
juízes.

c. Fase dos articulados (Correspondente à parte da alegação)


 Apresentação do litígio ao tribunal (petição inicial e a contestação) só em
casos excecionais é que se admite a réplica (584º), nomeadamente quando
haja reconvenção (artigo 552º CPC e seguintes); A contestação é muito
importante para o exercício constitucional do direito de defesa, para que as
contrapartes saibam que estão a ser demandadas.
 Citação;
 Alegações

d. Fase da gestão do processo (Correspondente à parte de organização


do processo)
 Decisão imediata do que for possível;
 Delimitação do âmbito do processo;
 Preparação da produção de prova.
 Despacho pré-saneador:(artigo 595º CPC) / audiência prévia (591º)

Os temas da prova, que é uma novidade no código com a nova alteração, são os
temas controvertidos, ou seja, aqueles nos quais as partes não concordam.

e. Fase da instrução e da discussão:

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 Produção de prova: audiência inal ou antes da audiência inal;


 Discussão da matéria de facto e de direito, agora em simultâneo (na
audiência inal)

f. Sentença (artigo 607º): Estrutura


 Relatório: resumo das circunstâncias do processo;
 Fundamentação: normalmente distinguindo entre a de facto e a de direito.
 Decisão;
 Extinção do poder jurisdicional e as suas excepções: retiicação de erros
materiais (Artigo 614º CPC); suprimento de nulidades (artigo 615º CPC);
reforma da sentença (Artigo 616º CPC).

Um dos principais efeitos da decisão é o caso julgado (Artigos 619º e seguintes)

 Caso julgado formal: apenas produz efeitos naquela relação jurídica


processual (artigos 620º)- tem menos peso, podendo voltar-se a propor uma
acção com aquele aspeto.
 Quando é que a acção transita em julgado? quando a deinição se torna
deinitiva, isto é, quando não é passível de recurso ordinário (Artigo 828º
CPC)

Justiça Económica em Portugal: O novo modelo processual

1. Princípios processuais do Processo Civil Português

O Direito de acesso aos tribunais garante, no essencial, a suscetibilidade de propor


uma acção e de obter, em tempo razoável, uma decisão judicial, inal. As acções
cíveis podem ter natureza declarativa ou executiva. Esta distinção está na base da
divisão deste capítulo em duas partes principais, tendo a primeira por objeto a
acção declarativa e a segunda a acção executiva.

Em concretização de tal direito e no que respeita aos princípios fundamentais do


processo civil português, importa referir, num primeiro momento, o artigo 20º da
CRP, nos termos do qual “todos têm direito a que uma causa em que intervenham
seja objeto de decisão em prazo razoável e mediante processo equitativo”. O
processo equitativo constitui, assim, a base de referência da qualidade de qualquer
processo, cumprindo-lhe densiicar as garantias essenciais que se enquadram neste
conceito e constituem um limite geral de atuação do juiz na gestão dos processos. A
doutrina constitucional tem densiicado o conceito de processo equitativo,
considerando que engloba diversos princípios e direitos, designadamente os
seguintes: igualdade, defesa, contraditório, razoabilidade dos prazos,
fundamentação das decisões, admissibilidade da prova, transparência e orientação
para a justiça material.

a) O princípio da igualdade das partes, consagrado no artigo 4º do CPC, proíbe


qualquer tipo de diferenciação injustiicada, sendo que, na sua manifestação
enquanto princípio de igualdade de armas ou igualdade processual, implica
o equilíbrio entre as partes no que respeita designadamente nos meios
processuais disponíveis, tendo em conta a posição que cada uma daquelas
ocupa no processo.
b) A garantia do direito de defesa pressupõe que o réu seja chamado ao
processo para que lhe possa ser concedida a possibilidade de se defender
assumindo as notiicações e, em especial, a citação, carácter fundamental
no âmbito de qualquer processo. Juntamente com a citação devem ser
facultados ao réu todos os elementos necessários para que este possa
defender-se de forma efetiva. A citação edital é aquela que concede menos
garantias de que o réu tomou efetivo conhecimento de que foi proposta
contra ele uma acção. A compatibilidade deste tipo de citação já foi objeto

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de ponderação pelo Tribunal Constitucional, tendo-se este pronunciado no


sentido de não considerar inconstitucional a citação edital;

c) Nos termos do princípio do contraditório, à parte tem que ser concedida


oportunidade de se pronunciar sobre qualquer decisão relativa ao conteúdo
do processo antes de ser proferida uma decisão pelo tribunal. O princípio
manifesta-se no âmbito das alegações, da prova e de qualquer questão
relacionada com a causa. No que respeita às alegações, o respeito pelo
princípio do contraditório não tem necessariamente que passar pela
admissão de peças processuais sucessivas, podendo admitir-se que sejam
feitas em audiência, preliminar ou inal, consoante o caso;

d) No que respeita à razoabilidade dos prazos, podem distinguir-se os prazos


para a prática de atos pelas partes em primeira instância e recurso, bem
como o prazo para a decisão. A razoabilidade do prazo para a decisão,
elemento essencial para a sua verdadeira e real eicácia prática, depende
da complexidade da causa e do comportamento das partes durante o
processo, não devendo desvalorizar-se a necessária compatibilização deste
princípio com o respeito por outros princípios que integram o processo justo,
designadamente o princípio do contraditório ou o da orientação para
realização da justiça material;

e) O dever de fundamentação das decisões tem consagração expressa e


autónoma no artigo 205º/1 da CRP. Esta não pode ser dispensada, apenas
podendo a lei estabelecer a forma do cumprimento do dever. Constitui uma
garantia das partes contra o arbítrio do julgador;

f) O direito à apresentação à prova constitui um direito fundamental, na


medida em que é essencial para que a parte possa trazer ao processo todos
os elementos eventualmente relevantes para o julgamento dos factos. O
direito a produzir prova pode, contudo, ser limitado quando a produção de
prova seja requerida com o objetivo de atrasar o processo ou diicultar a
realizar da justiça material. A não concessão do direito a produzir prova
constitui, numa hipótese, uma forma de garantir da observância de outros
princípios fundamentais, nomeadamente o princípio da economia
processual, de obter a modo a obter uma decisão favorável.

g) Do princípio da transparência decorre que as partes devem poder ter acesso


a todos os elementos ao longo do processo. Este princípio encontra-se
ligado aos princípios da igualdade e do contraditório, na medida em que às
partes deve ser assegurado o acesso às mesmas informações acerca de
todos os elementos do processo e o direito a pronunciar-se sobre eles.

h) As partes têm ainda “direito a um processo orientado para a justiça material


sem demasiadas pelas formalísticas”. Este direito assegura a realização do
objetivo inal do processo, que consiste em resolver, de forma adequada, as
questões jurídicas relevantes, não aplicando regras processuais que se
revelem incompatíveis (ou dilatórias) da realização desse im. Nos limites da
lei, o juiz deve gerir o processo de forma adequada ao litígio, procurando,
sobretudo, que a decisão inal seja materialmente justa.

i) Através do princípio do dispositivo concedem-se às partes poderes de


intervenção processual, e, nessa medida, de disposição do processo. O
Conteúdo e extensão de tal disposição variará consoante o grau de
liberdade de atuação que se pretende conceder às partes, designadamente

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no que respeita à necessidade de iniciar ou por termo a um processo e de


deinir o seu objeto e partes. No artigo 3º do CPC prevê-se que o tribunal
não pode resolver o conlito de interesses que a acção pressupõe sem lhe
seja pedida por uma das partes. Em suma, o objeto do processo é limitado
pelas partes, apenas podendo o juiz utilizar e julgar a matéria que as partes
lhe apresentam. Tal limitação decorre do princípio da autonomia privada, na
medida em que os litígios regulados pelo CPC são privados; mas ainda é um
resquício do período liberal do processo.

j) Os princípios da preclusão e da auto-responsabilidade encontram também


relexo normativo no CPC, não constituindo, embora, princípios que
integram o núcleo do processo equitativo. Do princípio da preclusão resulta,
designadamente que, em caso de inobservância dos ónus de contestar se
considerem provados os factos alegados pelo autor na petição inicial. A
preclusão funciona ainda sempre que a lei estabelece um prazo perentório,
na medida em que o seu incumprimento extingue o direito a praticar o ato.

k) As partes também estão sujeitas a deveres processuais, nomeadamente


decorrentes dos artigos 7,8º e 9º do CPC, sendo que o seu incumprimento
pode importar a produção de consequências negativas para a parte. O
princípio da cooperação desdobra-se na vertente material, ligada ao dever
de colaborar para que o processo se oriente no sentido da descoberta da
verdade material, associada ao impedimento da criação de obstáculos ao
normal desenrolar do processo. Do princípio da cooperação se traduz uma
nova concepção de processo civil, bem afastada da velha liberal de uma luta
arbitrada pelo juiz. As partes têm, contudo, interesses diferentes na acção e,
na maioria dos casos, interesses antagónicos no que respeita ao andamento
do processo. Em muitos casos, uma das partes pretende que o processo
decorra a bom ritmo, no sentido de uma obtenção de uma decisão razoável,
e a outra tem como objetivo retardar o processo, criando entraves para que
a decisão seja tomada o mais tarde possível. Razão pela qual a efetiva
aplicação do princípio da cooperação, na vertente que diz respeito às
partes, nem sempre seja de fácil implementação na prática judiciária.

Aquilo a que o processo civil deve almejar é á constituição de condições para a


correta aplicação do direito material, sendo desejável a mínima intervenção
possível. Razão por que no artigo 547º do CPC permite que “o juiz deve adotar a
tramitação processual adequada às especiicidades da causa e adaptar o conteúdo
e aforma dos atos processuais ao im que visam atingir, assegurando um processo
equitativo”. De espírito semelhante se encontra imbuído o artigo 6º do CPC, nos
termos do qual se prevê que o juiz deve dirigir o processo, providenciando pelo seu
andamento regular é célere, tendo assim um efetivo poder de direcção. O dever de
gestão processual constitui um dos aspetos centrais do RPCE. A gestão processual
consiste na “direcção ativa e dinâmica do processo tendo em vista, quer a rápida e
justa solução do litígio, quer a melhor organização do trabalho do tribunal”.
Representa, simultaneamente, um dever e um poder, que “reúne num normativo o
poder de direcção e o princípio da adequação formal”, sendo que com a sua
consagração se pretender assegurar a realização da justiça material, bem como a
obtenção de uma decisão em um prazo razoável. Evita-se que “o processo seja
encarado como um im em si mesmo, mero ritual que se observa, sem se atentar
nos verdadeiros objetivos ou inalidade que devem nortear um pleito ou litígio”.
Acresce o princípio da publicidade consagrado no artigo 206º CRP: “as audiências
dos tribunais são públicas, salvo quando o próprio tribunal decidir o contrário, em
despacho fundamentado, para salvaguarda da dignidade das pessoas e da moral
pública ou para garantir o seu normal funcionamento”. A deinição do nosso modelo
de processo civil português, num sentido mais liberal ou mais inquisitorial, depende

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em grande medida da conciliação alcançada entre o princípio dispositivo, o dever


de gestão processual e o princípio da cooperação, aqui entendido na vertente da
relação entre as partes e o juíz, como dever dele. Constituem igualmente princípios
do processo civil português os princípios da imediação, oralidade, da concentração,
e da livre apreciação da prova, todos eles relevantes no sistema em causa, mas não
fundamentais, no mesmo grau, para a deinição de um processo como equitativo.
Por força do princípio da imediação, o juiz que decide a causa deve ter contacto
direto com os elementos da prova. A produção da prova deve, portanto, ser feita
perante o juiz que julga a acção e não perante outro juiz, mais distante do processo.
Os princípios da oralidade e da concentração são instrumentais em relação ao
princípio da imediação e deles resulta que os depoimentos devem ser produzidos
oralmente e de forma concentrada no tempo, com a menor dilação possível entre
as diversas fases do processo.

(1)- Ariculados
(2)- Citação
Fase Inicial (3)- Revelia

(4)- Despacho Pré-Saneador


(5)- Audiência preliminar
Fase
Intermédia
(6)- Despacho Saneador

(7)- Instrução : Prova Documental; Prova por Conissão; Prova Testemunhal e Prova Pericial
Fase Final-
Instrução

(8) Audiência Final


Fase Final- (9) Sentença
Audiência e
Julgamento

O que é um recurso5?

Meio de
impugnação de
uma decisão

Recurso

Decisão
principal meio de
reapreciada por um
impugnação de
tribunal
uma decisão
hierarquicamente
jurisdicional
superior

O que é um recurso?

 Meio de impugnação de uma decisão;


 Principal meio de impugnação de uma decisão jurisdicional;
 Decisão apreciada por um tribunal hierarquicamente superior.
 Enquanto o recurso ordinário em matéria civil pressupõe que ainda não
ocorreu o trânsito em julgado da decisão, devolvendo-os aos tribunais de

5 No que diz respeito à matéria dos recursos, recomenda-se a leitura de partes do Manual “Recursos no
CPC” de Abrantes Geraldes.

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recurso a possibilidade de anular, revogar ou modiicar a decisão, os


recursos extraordinários são interpostos depois daquele trânsito, recaindo o
poder decisório sobre o tribunal que proferiu a decisão

Aula de dia 28 de março de 2016


Sistemas de Recurso:

1. Apreciação por um tribunal hierarquicamente superior;


2. Garantia de um duplo grau de jurisdição;
3. Artigo 32º/1 CRP
4. Recursos ordinários (Apelação e revista) e recursos extraordinários (recurso
para uniformização da jurisprudência e revisão)
5. Noção de trânsito em julgado artigo 628ºCPC

Admissibilidade de recurso ordinário (artigo 629.º): Pressupostos

1. Causa de valor superior à alçada do tribunal de que se recorre (o valor é


indicado na petição inicial);
2. Sucumbência em valor superior a metade da alçada do tribunal de que se
recorre.
3. Em alguns casos é sempre admitido o recurso.

Para existir recurso:

- Valor da ação – maior ao valor da alçada.

- Valor da sucumbência – superior a metade do valor da alçada.

Apesar disso, é sempre admissível recurso nos termos do nº2, do artigo 629.º
(sendo estes casos excecionais, na medida em que a regra geral é que só exista
recurso nos termos do n.º1).

Segundo o artigo 44.º/1, da Lei da Organização do Sistema Judiciário

Alçada de tribunal de primeira instância – 5000€ (as ações com valor inferior a
5000€, terão decisão deinitiva, não existindo recurso nesse caso).

Alçada do tribunal da relação – 30000€

Casos práticos

1. Valor da ação (por exemplo, pedido de indemnização): 4500€.

Tribunal de primeira instância condena o réu ao pagamento de uma indemnização


no valor de 200€.

O autor pode recorrer para um tribunal da Relação?

A ação não tem valor superior ao valor da alçada do tribunal, na medida em que
não é recorrível, no âmbito do artigo 629.º, sendo o valor da sucumbência de 4300€
(4500-200), vendo o valor da sucumbência superior a metade do valor da alçada,
apesar disso não é possível recorrer pelo facto dos critérios serem cumulativos.

2. Valor da ação (pedido de indemnização): 12500€.

Tribunal de primeira instância condena o réu ao pagamento de uma indemnização


no valor de 8000€.

O autor pode recorrer para um tribunal da relação?

Valor da sucumbência: 12500-8000, sendo 4500 (superior a metade do valor da


alçada), de modo que é possível recorrer da decisão.

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3. Valor da ação (pedido de indemnização): 40000€.

Tribunal da relação condena o reu ao pagamento de uma indemnização no valor de


30000€.

O autor pode recorrer para o Supremo tribunal de Justiça.

O valor da ação é superior ao valor da alçada (30000€), o valor da sucumbência é


de 10000€, sendo que não é possível recorrer pelo facto da sucumbência não ser
superior a metade do valor da alçada, sendo que apenas o réu poderia recorrer para
o Supremo Tribunal de Justiça.

Recurso independente e subordinado (artigo 633.º)

1. Ficando ambas as partes vencidas, podem recorrer as duas;


2. Neste caso, o recurso pode ser independente ou subordinado;
3. O recurso subordinado caduca se o primeiro recurso icar sem efeito
por alguma razão.

Nos termos do artigo 633.º, caso ambas as partes forem vencidas, cada uma delas
pode recorrer da parte que lhes seja desfavorável. A parte pode recorrer através de
um recurso independente (que é independente do recurso da outra parte), ou
através de um recurso subordinado (possível de ser interposto em casos em que
não se aplica artigo 629.º, superando a sucumbência – casos em que uma parte
pode recorrer e a outra não por insuiciente de valor de sucumbência) que ica
dependente do recurso que foi interposto em primeiro lugar, neste âmbito o recurso
subordinado caducará se o primeiro recurso icar sem efeito por alguma razão.

Renúncia ao recurso

A renuncia ao recurso, nos termos do artigo 632.º é possível e licita, sendo que a
renuncia antecipada só é valida nos casos em que seja vontade de ambas as partes
do processo. Nos casos de aceitação da decisão, as partes perdem o direito de
recorrer, sendo a «aceitação da decisão» uma declaração negocial, podendo esta
ser expressa ou tacita, podendo ser tacita nas situações de cumprimento da
decisão (pagamento ser reservas – implica uma aceitação tacita da decisão, e por
isso a renuncia ao direito de recorrer).

Interposição de recurso (artigo 637.º)

1. Requerimento dirigido ao tribunal que proferiu a decisão recorrida;


2. Contém obrigatoriamente a alegação (639º e 640º)

- Requerimento dirigido ao tribunal que proferiu a decisão, e interposto ao tribunal


para o qual se recorre, contendo obrigatoriamente a alegação e as conclusões que
se pretende que sejam alteradas (cf. Artigos 639.º e 640.º), no prazo geral de 30
dias, ou em caso de processo urgente (processos de insolvência, procedimentos
cautelares – a lei atribui caracter de urgência), em 15 dia a contar da data de
notiicação da decisão (artigo 638.º).

O requerimento será analisado e segue-se despacho do juiz (artigos 641.º). Caso


não seja admitido o recurso, o recorrente poderá reclamar do despacho proferido
pelo juiz (indeferimento de recurso), para o tribunal que seria competente para
conhecer do recurso no prazo de 10 dias.

Prazo:

 Regra-geral:30 dias;
 Processos Urgentes: 15 dias

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Posteriormente segue-se despacho do juiz sobre o requerimento. Se não for


admitido o recurso, pode o recorrente reclamar para o tribunal que seria
competente para reconhecer do recurso num prazo de 10 dias (149º/1)

Subida de recurso (imagem de subida do processo para tribunal


hierarquicamente superior)

Os recursos poderão subir de duas formas distintas, podendo a subida ser nos
próprios autos (artigos 645.º/1 e 675.º/1), sendo que o processo sobre todo, ou
poderá ser uma subida em separado (artigos 645.º/2 e 675.º/2), onde de todo o
processo, será apreciada apenas uma parte que poderá «subir» em separado, tendo
independência suiciente para tal, como é o exemplo da decisão de uma
providência cautelar na medida em que se poderá recorrer da decisão que
concedeu providência cautelar, subido de forma autónoma da ação principal (não
sendo necessário esperar pela decisão da ação principal para se recorrer da decisão
da providência cautelar).

a) Recurso de apelação

Trata-se de um recurso para um tribunal da relação, que se encontra regulado nos


artigos 644.º a 670.º, sendo o efeito da apelação meramente devolutivo (artigo
647.º), podendo ter efeito suspensivo nos casos que são especiicados da lei.

É necessário entender se o recurso tem efeito suspensivo, na medida em que


suspende os efeitos da decisão, apesar disso a regra geral é a de que os recursos
de apelação tenham apenas efeito devolutivo.

Para que os efeitos deixem de se produzir, é possível que seja exigida à parte a
prestação de caução, para que não seja colocada em causa a situação jurídica da
outra parte (ex. Réu tem que pagar 10000€, mesmo que exista recurso, o réu tem
de pagar o valor na mesma).

b) Recurso de revista

Recurso para o Supremo Tribunal de Justiça que apenas aprecia matéria de direito
(cf. Artigo 674.º), não sendo admitido recurso de revista de acórdão de relação que
conirma sem votos de vencidos a decisão do tribunal de primeira instância (regra
da dupla conforme – artigo 671.º/3), pois já existiram duas decisões no mesmo
sentido, não havendo fundamentação diferente, não será possível recorrer para o
Supremo Tribunal de Justiça, com exceção dos recursos de revista excecional que
são elencados no artigo 672.º. O sistema é de substituição, em contraposição de ao
sistema de cassação francês, sendo que a decisão proferida será deinitiva (artigo
682.º/1).

 Apenas Matéria de Direito (674º);


 Regra da dupla conforme (671º/3)

Recursos extraordinários

1.Recurso para uniformização de jurisprudência (artigos 688.º e ss.) – os tribunais


inferiores podem decidir de forma contrária a anteriores decisões do Supremo
Tribunal, tendo sido revogada a igura dos «assentos», sendo possível recorrer para
o pleno das secções cíveis do Supremo (quase existindo um quarto grau de
jurisdição, na medida em que é possível recorrer de decisão do Supremo Tribunal
para o pleno do Supremo Tribunal, não existindo para tal alçada, sendo necessário
estarem preenchidos os requisitos dos artigos 688.º e ss. Caso este recurso seja
indeferido, ainda é possível reclamar para a conferência do despacho liminar do
juiz.

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2.Recurso de revisão (artigos 696.º e ss) – a sentença transitada em julgado pode


ser objeto de revisão em situações excecionais. Nos casos de sentença transitada
em julgado, em casos absolutamente excecionais poderá ser possível rever a
sentença nos termos dos artigos 696.º (exemplos de corrupção de juiz).

Recurso para o Tribunal Constitucional

Artigos 69.º e ss da Lei Orgânica do Tribunal Constitucional. O sistema de


iscalização de constitucional é concreto e difuso, na medida em que a
constitucionalidade será apreciada no âmbito de um caso concreto e difusa pelo
facto de todos os tribunais poderem apreciar a constitucionalidade.

As decisões recorríveis estão previstas no artigo 80.º da Lei Orgânica do Tribunal


Constitucional, podendo o tribunal decidir em sentido positivo, onde é declarada a
inconstitucional ou em sentido negativo que determina que não existe ilegalidade
ou constitucionalidade.

Para que exista recurso para o Tribunal Constitucional, a constitucionalidade terá de


ser suscitada no âmbito do processo, para que o juiz se possa pronunciar acerca
dela, e que a questão possa ser levantada no Tribunal. No caso de declaração de
inconstitucionalidade de aplicação de determinada norma por três vezes, existirá
recurso para o pleno do tribunal constitucional, que apreciará a questão de forma
abstrata neste caso.

O prazo para recorrer ao Tribunal Constitucional será de 10 dias a contar da


notiicação da decisão (prazo muito mais curto relativamente aos prazos para
recurso de decisões cíveis), e os recursos para o tribunal constitucional têm efeito
suspensivo da decisão, ao contrário do que acontece nos recursos para hierarquia
cível. O Tribunal Constitucional apenas apreciará a questão de constitucionalidade,
na medida em que em transito em julgado, o julgado será apenas nos termos da
constitucionalidade.

→ A Normatividade dos Princípios (À luz do pensamento de Humberto Ávila) por


Micael Teixeira.

No processo civil a possível «normatividade» dos princípios tem bastante


importância pratica, na medida em que o Código Processo Civil português é
complexo e intenso em termos de regras e regulações, que em consequência
rigidiica bastante o processo civil.

A reforma de 2013, marcou uma viragem no processo civil português, na medida


em que se deu bastante importância aos princípios, de modo que coexistem regras
complexas e intensas e princípios de direito processual civil, sendo até paradoxal a
sua «coabitação».

Segundo a posição de Humberto Ávila, as regras são normas que regulam


diretamente certo comportamento, descrevendo-o como impositivo, permissivo ou
proibitivo ou atribuindo-lhe certos efeitos jurídicos e indiretamente visam, através
dessa regulação, contribuir para a realização de determinada inalidade.

Os princípios são as normas que apresentam uma estrutura inversa: impõem


diretamente a inalidade que deve ser promovida, da qual decorre, indiretamente, o
comportamento que deve ser regulado para que aquela, tendencialmente se
realize.

Os princípios também são normas suscetíveis de, na ausência de regras, regular


comportamentos, fazendo-o apenas de forma diferente das regras e não sendo
necessário que alguma regra intermedeie essa regulação.

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Os princípios têm a potencialidade de apresentar as desvantagens contrárias às


vantagens daquelas: imprevisibilidade, subjetividade e desigualdade.

A regulação pelo direito de qualquer realidade não pode adequadamente prescindir


da utilização conjunta de regras e de princípios.

A utilização exclusiva de princípios originaria um regime legal demasiado


imprevisível, potencialmente desigualitário e sujeito à arbitrariedade do julgador.
Sendo que o atual regime de processo civil se apresenta dominado por regras, o
que pode ser explicado pela circunstância histórica do CPC que remonta ao ano de
1939, onde a desconiança quanto à atividade dos juízes levava a que se
pretendesse controlar ao máximo a sua atividade. As posteriores alterações,
contribuíram para o agravamento da acumulação de regras processuais. No âmbito
da ultima reforma, deu-se mais destaque aos princípios processuais.

Apesar disso, e face ao excesso de regras, torna-se especialmente importante


compreender o signiicado e o alcance dos princípios processuais, de forma a
conceder-lhes um lugar de destaque na determinação do regime processual
aplicável, nomeadamente em resultado da função integrativa dos próprios
princípios.

Aula de dia 03 Abril de 2017: Responsabilidade Civil do Estado


(Ricardo Pedro)
 A Administração da justiça pode ser danosa; A verdade é que nos dias que
correm, quer na complexidade dos atores, quer na complexidade das
matérias tratadas, podem ocorrer danos, que claramente tem que ser
ressarcidos;
 Atores importantes: médicos forenses, juízes, árbitros, membros das forças
policiais;

Se os autores causarem danos, como é que se irá resolver esta questão? Antes de
2008 não existia quadro legal que permitisse resolver este tipo de danos, passando
de uma lógica de irresponsabilidade para responsabilidade. (Lei nº67/2007 de 31 de
Dezembro).

Qual o contexto do "mau funcionamento da administração da justiça". No âmbito do


processo, podem surgir danos provocados pela administração da justiça. Todos os
agentes que ele falou podem causar danos. Juízes, árbitros, juízes de paz, agentes
de execução. Causando danos quem é responsável ? Antes de 2008 não existia
quadro legal que permitisse a responsabilização por este tipo de danos. Passou-se
de uma lógica de irresponsabilidade para uma de responsabilidade. Lei 67/2007 de
31 de Dezembro. É a lei que vem estabelecer o regime da responsabilidade civil do
estado e demais entidades públicas. Esta lei não trata apenas da responsabilidade
pelo mau funcionamento da administração da justiça. 3 funções do estado. A que
para aqui releva é a função jurisdicional, e em alguma medida a função
administrativa. É a responsabilidade no âmbito da função jurisdicional. A lei 67/2007
regula todas estas. Artigo 22 CRP. Estado é civilmente responsável. Até 2007
discutiu-se se esse artigo cobria a função jurisdicional. Para alguns cobria só a
função administrativa. Esta responsabilidade pela função jurisdicional vem
estabelecida nos artigos 12, 13, 14 daquele diploma. Normalmente consubstancia-
se numa indemnização em dinheiro dada a impossibilidade de restituir em espécie.
Na lei 67/2007 foi aproveitada a doutrina e a jurisprudência e foram adaptados os 4
requisitos às funções do estado em causa. Ao criar o regime partiu desses 4
requisitos. Artigo 12. pressupõe uma ilicitude mais dano. O que é que é
administração da justiça. Não é apenas a atividade de um juiz mas de um conjunto

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de autores. O juiz não exerce apenas funções jurisdicionais. Como por exemplo nos
processos de jurisdição voluntária. Pelo exercício da função jurisdicional pode haver
erro judiciário. Isso foi corrigido através do recurso da decisão. A partida vai ser
possível excluir o erro. Caso não detete o erro pode surgir responsabilidade civil.
Existem poucos casos. Porque a magistratura se protege. ( erro grosseiro, erro que
nenhum juiz normal praticaria. A responsabilidade pela má administração de justiça
ganha assim mais relevo sobretudo quando é a última salvação garantida pelo
estado de direito democrático. Que danos são estes. Agente de execução queria
penhorar as coisas de A, mas acabou a penhorar as coisas de B. quem é que vai
indemnizar isso? Outro caso. Estava em causa a penhora de 3000 euros e o agente
de execução decidiu penhorar o recheio da casa. Viveram varios dias sem bens.
Podem ou não ser indemnizados. Um queixoso foi tratado pelo MP como arguido por
erro. Caso típico de danos. Processo que demora muito tempo. Artigo 12 27 Rosana
Castanho | 2016/2017 | FDUNL apresenta este caso como. Surge por causa dos
atrasos na justiça. E porque antes de ser tipiicado PT já tinha sido responsabilizado
várias vezes. Designadamente, é a palavra usada. Para o prof é uma clausula
aberta que pode ser preenchida com os danos causados vistos naqueles exemplos
anteriores. Pex MP recolhe provas através das escutas e o naqueles exemplos
anteriores. Pex MP recolhe provas através das escutas e o MP adultera a voz que
passa de feminina a masculina para incriminar alguém. Isto vai levar a uma
ilegalidade. Não haverá responsabilidade pelo incumprimento das legis artis. O
artigo 12 manda aplicar o regime da responsabilidade pela função administrativa.
Isto acontece porque na altura, não estava bem estudo o tema. Hoje me dia a
tendência é airmar que no âmbito dos tribunais não há uma função administrativa.
O bem jurídico aqui em causa é a tutela de direitos. Para o prof de iure condendo,
os requisitos a aplicar devem ser requisitos próprios e não aplicados por remissão
para o regime da função administrativa. Para ele o MF deve absorver a ilicitude e a
culpa. O mau funcionamento corresponderá a situações de infração ou violação da
tutela de direitos. Seria um conceito indeterminado. Mais danos mais nexo de
causalidade. Um conceito próprio desta matéria serão os danos em massa. Um
hacker invade um tribunal e decide publicar todos os processos e todos os dados
pessoais. São danos em massa. Estão em causa direitos fundamentais. O juiz
deverá ter uma especial atenção para ver se realmente estão em causa direitos
fundamentais. Quanto ao nexo da causalidade. Teoria da perda de chance, ou perda
de oportunidade processual. Está a decorrer um processo crime que demora muito
e não emite decisão não administrado a justiça. Prescrição do processo por razão
imputável ao estado. Isto pode ser admitido no estado de direito ? Não tendo
decisão não sabemos que ganhou ou perdeu. Como se determinam os danos.
Avalia-se a probabilidade de cada um deles ganhar e calcula-se com base nessa
probabilidade. Esta teoria é aplicada na responsabilidade civil dos advogados.
Advogado deixa prazo passar. Artigo 13. salvo regimes especiais( responsabilidade
pela prisão preventiva ilegal, condenações penais injustas, prevê-se a
responsabilidade por erro judiciário. Pode ter lugar em todos os ramos do direito.
Erro judiciário será a violação manifestamente grosseira de normas, ou erro de
facto, na apreciação da prova. Erro judiciário só poderá ser praticado pelo juiz
porque só ele pode praticar a função jurisdicional. Apesar do nº 13 há tribunais que
ainda aplicam a jurisprudência restrita antiga que diz que erro é só violações
grosseiras. Antes da ação de responsabilidade tem que haver uma ação prévia que
venha revogar a decisão errada. Faz-se através do recurso. Mas há matérias que
não são objeto de recurso. E portanto não pode haver ação prévia. Para o TC não
houve violação nenhuma. O TJUE. Caso esteja em causa direito da EU,a norma do
13 nº2 não se aplica. Artigo 14. responsabilidade civil dos magistrados. Também
respondem os atores da administração da justiça ? Distinção entre os princípios
fundamentais e outros princípios. Os primeiros são sobretudo os constitucionais e
encontram-se em todos os estados de direito. Há alguns princípios que caracterizam

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o processo civil português mas que não são princípios fundamentais, ou seja
impostos pelo estado de direito democrático. Não há nenhuma ideia relativa a
justiça que o imponha. São decisões dos legisladores. São relevantes em
determinados contextos. O princípio da tutela jurisdicional efetiva é um princípio
fundamental. Vêm previsto artigo 20 de CRP. A todos é assegurado o acesso aos
tribunais. O nº 2 garante o direito a ter informação jurídica, ao acompanhamento
jurídico concreto ( com, e patrocínio judicial e acompanhar por uma advogado junto
de outras autoridades. O princípio geral vem no artigo 4. Quando menciona
processo equitativo ou due process of law. Todos tem direito à justiça, ao processo
equitativo. O prazo não é o único aspeto relevante no due process. Poderão haver
casos em que haja dúvidas sobre o princípio aplicável. O mais típico é que para
respeitar um determinado princípio outro não seja totalmente aplicável. Por
exemplo uma boa gestão processual pode implicar que o processo demore mais
tempo sem que isso viole o due process of law. Não se pretendem apenas decisões
rápidas. Principalmente devem ser boas. Até porque pode suscitar a paciicação
social. O artigo 10º da DUDH no artigo 10º também estabelece o princípio da
decisão equitativa. A CEDHC também consagra o princípio da tutela jurisdicional. A
tutela jurisdicional efetiva implica o direito de ação. Artigo 2 CPC. Direito de ação
declarativa, e executiva. Se tivermos o direito de ação declarativa não chega
porque a decisão não vai poder produzir os seus efeitos uteis. 28 Rosana Castanho |
2016/2017 | FDUNL Direito 52 nº3 reconhece a existência de um direito de ação
popular. Através da ação popular confere-se o direito ao particular quer diretamente
quer por associações de em nome de interesses que afetam toda a gente de
recorrer ao tribunal. Também vem previsto na lei 83/95 de 1 de agosto. Artigo 31.
ações para a tutela de interesses difusos. ( saúde pública, património cultural,
ambiente) particulares, associações, MP, Autarquias locais. Há várias regras que
tratam de saber quem está incluído ou excluído da ação. A regra é que todos estão
incluídos. Um dos problemas é que caso o réu vença e haja caso julgado nenhum
dos vencidos pode intentar uma ação com aquele fundamento. Estes são interesses
difusos, não há uma organização. Serão coletivos quando há uma comunidade
organizada.

Função
Administraiva

Funções do Função
Estado legislaiva

Função Judicial

A função que a lei procura regular relaciona-se essencialmente com a função


jurisdicional, especialmente no capítulo III. Anteriormente existia uma lei de 1967,
que apenas estava pensado para a responsabilidade civil administrativa e não para
a responsabilidade jurisdicional.

 Artigo 22º da CRP: parece cobrir as 3 funções do Estado, no entanto e


tomando em consideração a posição da doutrina e da jurisprudência, era
adoptada uma concepção restritiva desta norma, restringindo-a apenas aos
entes administrativos.
 Artigo 483º do CC: Serve de enquadramento dogmático a lei de 2007 –
Ilicitude, Culpa, Dano e nexo de causalidade. Houve uma adaptação dos

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requisitos gerais da responsabilidade civil às funções do Estado, como


constante da lei de 2007.
 Artigo 12º do DL: salvo o disposto nos artigos seguintes, é aplicável aos
danos ilicitamente causados pela administração da justiça, designadamente
por violação do direito a uma decisão judicial em prazo razoável, o regime da
responsabilidade por factos ilícitos cometidos no exercício da função
administrativa.

Este artigo pressupõe uma ilicitude pelos danos causados, e a pergunta que se
coloca a seguir é “o que é a administração da justiça?”

A função jurisdicional é aquela que é exercida pelo juiz tendo em consideração a


aplicação do direito aos casos concretos, e com força de caso julgado. Para além
desta função jurisdicional, existe dentro de um tribunal um outro tipo de funções,
como por exemplo, a atividade administrativa exercida por um funcionário judicial.
É importante distinguir entre função jurisdicional e função de administrar a justiça,
sendo que a primeira função apenas pode ser exercida pelo juiz, enquanto que a
segunda pode ser exercida por um funcionário judicial ou o ministério público.

Exemplo: Penhora de 3 mil euros. O agente de execução penhorou um casal de


idosos, nomeadamente no recheio da sua casa. Ficaram sem casa. Será que estes
tipos de danos são indemnizáveis?

Requisitos para a indemnização no âmbito da administração da justiça?

1. Mau Funcionamento: agrupa a ilicitude e a culpa. Existe mau funcionamento


quando se infringe ou se viola a tutela de direitos. É um conceito
indeterminado.
2. Dano
3. Nexo de causalidade

Teoria de perda da oportunidade processual: está a decorrer um processo crime,


que demora bastante e no inal não emite decisão, denegando justiça. Imaginemos
que este processo prescreveu por causa imputável ao Estado. Como é que se apura
os danos de cada uma das partes? Neste caso entramos numa lógica de perda de
oportunidade, como defendida por Ricardo Pedro.

Tirando duas situações que se encontram no CPP, o artigo 13º do DL em questão


trata da responsabilidade do Estado por erro judiciário – “violação de normas
constitucionais ou legais”.

Artigo 13º/2: só existe responsabilidade por erro judiciário se houver uma decisão
que revogue uma decisão errada. O que o legislador obriga é que haja uma acção
prévia a revogar esta decisão errada. No entanto, existem algumas matérias que
não há possibilidade de recurso, logo não há possibilidade de existência de uma
decisão que revogue aquela decisão errada.

 O TJUE decide-se ao abrigo do reenvio prejudicial, determinando que se o


erro judiciário for proveniente da aplicação de DTUE, não se pode aplicar o
artigo 13º/2, pois viola o direito á tutela jurisdicional efetiva do direito da UE.

O Princípio da tutela jurisdicional efetiva – Aula Prof. Doutor Jorge Morais


Carvalho

 Artigo 20º da CRP: “a todos é assegurado o acesso ao direito e aos


tribunais para a defesa dos seus direitos e interesses legalmente protegidos
não podendo a justiça ser denegada por insuiciência de meios económicos
(nº1);

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 “Todos têm direito, nos termos da lei, à informação e consulta jurídicas, ao


patrocínio judiciário e a fazer-se acompanhar por advogado perante qualquer
autoridade (nº2)”
 “Todos têm direito a que uma causa em que intervenham seja objeto de
decisão em prazo razoável e mediante processo equitativo (nº4)”
 “Toda a pessoa tem direito, em plena igualdade, a que a sua causa seja
equitativa e publicamente julgada por um tribunal independente e imparcial
que decida dos seus direitos e obrigações ou das razões de qualquer
acusação em matéria penal que contra ela seja deduzida” (artigo 10.º da
DUDH)
 “Qualquer pessoa tem direito a que a sua causa seja examinada, equitativa
e publicamente, num prazo razoável por um tribunal independente e
imparcial, estabelecido pela lei, o qual decidirá, quer sobre a determinação
dos seus direitos e obrigações de carácter civil, quer sobre o fundamento de
qualquer acusação em matéria penal dirigida contra ela. O julgamento deve
ser público, mas o acesso à sala de audiências pode ser proibido à imprensa
ou ao público durante a totalidade ou parte do processo, quando a bem da
moralidade, da ordem pública ou da segurança nacional numa sociedade
democrática, quando os interesses de menores ou a proteção da vida
privada das partes no processo o exigirem, ou, na medida julgada
estritamente necessária pelo tribunal, quando, em circunstâncias especiais,
a publicidade pudesse ser prejudicial para os interesses da justiça” (artigo
6.º-1 da Convenção Europeia dos Direitos do Homem.)

1. O Direito de acção (Artigo 2º CPC)


a) “A proteção jurídica através dos tribunais implica o direito de obter, em
prazo razoável, uma decisão judicial que aprecie, com força de caso julgado,
a pretensão regularmente deduzida em juízo, bem como a possibilidade de a
fazer executar” (n.º1)
b) “A todo o direito, exceto quando a lei determine o contrário, corresponde a
ação adequada a fazê-lo reconhecer em juízo, a prevenir ou reparar a
violação dele e a realizá-lo coercivamente, bem como os procedimentos
necessários para acautelar o efeito útil da ação” (n.º 2)

2. Direito de Acção Popular


a) “É conferido a todos, pessoalmente ou através de associações de defesa dos
interesses em causa, o direito de ação popular nos casos e termos previstos
na lei, incluindo o direito de requerer para o lesado ou lesados a
correspondente indemnização, nomeadamente para…
b) Promover a prevenção, a cessação ou a perseguição judicial das infrações
contra a saúde pública, os direitos dos consumidores, a qualidade de vida, a
preservação do ambiente e do património cultural;
c) Assegurar a defesa dos bens do Estado, das regiões autónomas e das
autarquias locais”.
d) Lei n.º 83/95, de 31 de agosto, alterada pelo Decreto-Lei n.º 214-G/2015, de
2 de outubro
e) “Têm legitimidade para propor e intervir nas ações e procedimentos
cautelares destinados, designadamente, à defesa da saúde pública, do
ambiente, da qualidade de vida, do património cultural e do domínio público,
bem como à proteção do consumo de bens e serviços, qualquer cidadão no
gozo dos seus direitos civis e políticos, as associações e fundações
defensoras dos interesses em causa, as autarquias locais e o Ministério
Público, nos termos previstos na lei” (art. 31.º do CPC).

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66
Soia Batista Linguíça nº004023

3. O que são interesses individuais generalizados?


 Interesses coletivos (comunidade organizada) e difusos (grupo de
pessoas não organizadas).
 “Nos processos de ação popular, o autor representa por iniciativa própria,
com dispensa de mandato ou autorização expressa, todos os demais
titulares dos direitos ou interesses em causa que não tenham exercido o
direito de autoexclusão previsto no artigo seguinte, com as
consequências constantes da presente lei” (art. 14 da LAP)
 “(…) os efeitos das sentenças transitadas em julgado proferidas no
âmbito de processo que tenham por objeto a defesa de interesses
individuais homogéneos abrangem os titulares dos direitos ou interesses
que não tiverem exercido o direito de se autoexcluírem da
representação” (art. 19.º-1 da LAP)

4. Patrocínio Judiciário (Trabalho Carolina Branco+ Aula Prof. Doutor


Jorge Morais Carvalho)
 Art. 40.º do CPC;
 Art. 38.º da Lei dos Julgados de Paz
 “As entidades de RAL devem também assegurar que as partes não têm
de recorrer a um advogado e podem fazer-se acompanhar ou representar
por terceiros em qualquer fase do procedimento” (art. 10.º-2 da Lei n.º
144/2015, de 8 de setembro)

Consequências da não constituição de advogado

 Sendo obrigatória a constituição, o juiz, oiciosamente ou a requerimento


da parte contrária, notiica a parte contrária para constituir advogado.

Se a parte não o izer, dependendo do caso:

 O réu é absolvido da instância (quando foi o autor que não constituiu


advogado);
 Não tem seguimento o recurso (quando o recorrente não constituiu
advogado);
 Fica sem efeito a defesa (quando o réu não constitui advogado).

5. Mandato Judicial
 Forma;
 Conteúdo;
 Alcance

Vicissitudes do mandato (Artigo 48º CPC)

 Falta, insuiciência e irregularidade do mandato;


 Consequência

Aula de dia 04 de abril de 2017


1. Acesso ao Direito aos tribunais

Não há uma ligação entre o artigo 51ºdo CPC e a insuiciência económica. São
situações distintas.

 É nomeado advogado “se a parte não encontrar na circunscrição judicial


quem aceite voluntariamente o seu patrocínio” (art. 51.º-1 do CPC);
 Este regime também se aplica à nomeação de solicitador (art. 52.º do CPC)

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 Lei n.º 34/2004, de 29 de julho, alterada pela Lei n.º 47/2007, de 28 de


agosto
 “O sistema de acesso ao direito e aos tribunais destina-se a assegurar que
a ninguém seja diicultado ou impedido, em razão da sua condição
social ou cultural, ou por insuiciência de meios económicos, o
Consulta jurídica
conhecimento, o exercício ou a defesa dos seus direitos” (art. 1.º-1)
(Aconselhamento
Protecção jurídica jurídico)
(No senido de acesso
à informação jurídica)
Apoio Judiciário
Acesso à Jusiça
(Recurso a tribunal)

Informação jurídica
Protecção jurídica: Critérios objetivos constantes do artigo 8ºA (Lei n º34/2004).

2. As custas processuais
 Regulamento das Custas Processuais – Aprovado em anexo ao Decreto-Lei
n.º 34/2008, de 26 de fevereiro (alterado pela última vez pela Lei n.º
42/2016, de 28 de dezembro)
 Todos os processos estão sujeitos a custas, considerando-se como processo
autónomo cada ação, execução, incidente, procedimento cautelar ou
recurso, corram ou não por apenso, desde que o mesmo possa dar origem a
uma tributação própria;
 A taxa de justiça é expressa com recurso à unidade de conta processual
(UC), a qual é atualizada de acordo com o indexante de apoios sociais (IAS)
 Art. 5.º do RCP.
 Regra geral: “A taxa de justiça corresponde ao montante devido pelo impulso
processual do interessado e é ixada em função do valor e complexidade da
causa de acordo com o presente Regulamento, aplicando-se, na falta de
disposição especial, os valores constantes da tabela i-A, que faz parte
integrante do presente Regulamento” (art. 6.º-1 do RCP)

Quem paga a taxa de justiça é quem inicia o requerimento de injunção, por


exemplo.

Consequências do não pagamento das custas:

 Recusa da petição inicial pela secretaria – art. 558.º-f) do CPC. V. art. 560.º.
(Se o autor não pagar, tem 10 dias para poder apresentar nova petição,
contando a data da primeira petição no que diz respeito à prescrição)
 Não pagamento pelo réu implica, após várias diligências no sentido de se
obter o pagamento, o desentranhamento da contestação (art. 570.º-6).

Princípio de Eiciência Processual - Professora Doutora Joana Campos


Carvalho

No que concerne ao princípio da eiciência processual, o processo deve atingir a sua


inalidade com o mínimo de gastos possíveis, tanto em tempo como em dinheiro. No

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68
Soia Batista Linguíça nº004023

entanto, o princípio da eiciência processual convive com todos os outros princípios


do processo civil. Por exemplo, o juíz não pode tomar uma decisão que permite
resolver muito rapidamente esse litígio se essa decisão violar o princípio do
contraditório.

O princípio da Eiciência Processual desdobra-se em 4 sub-princípios:

1. Princípio da Economia Processual;


2. Princípio da Razoabilidade dos prazos;
3. Princípio da Adequação procedimental;
4. Princípio da orientação para a autocomposição do litígio.

O princípio da Economia processual desdobra-se em duas vertentes:

 Economia de processos: cada litígio deve ser resolvido através do menor


número de processos possível (1)
 Economia de atos: dentro de cada processo deve haver o menor número da
actos e cada um destes o mais simples possível (2)

1. Economia de Processos
 Nesta vertente, o princípio impõe que o número de acções propostas para
resolver o mesmo conlito seja o menor possível.

Exemplos:

a) Litisconsórcio voluntário (Artigo 32º do CPC: permite que as acções sejam


propostas por vários autores ou contra vários réus, evitando a multiplicação
de acções quando o conlito envolve mais do que duas partes).
b) segundo exemplo é também importante destacar a coligação, constante do
artigo 36º do CPC.
c) Conjugação de pedidos (Artigos 553º a 555º CPC)
d) Outro exemplo importante será a reconvenção, permitindo que o réu
aproveite a mesma acção para formular ele próprio pedidos contra o autor
(583º CPC).
e) Ainda dentro do princípio da economia de processos temos alguns institutos
que permitem “salvar a acção”, nomeadamente, o incidente de intervenção
de terceiros, permitindo chamar pessoas que são importantes para a acção
num momento posterior à inicial, bem como o convite ao suprimento de
excepções dilatórias.

2. Economia de atos

A economia de atos encontra-se explanada nos artigos 130º e 131º do CPC.

 Impõe que sejam praticados apenas os atos indispensáveis em cada


processo e que o conteúdo desses atos seja o mais simples possível;
 O conteúdo deste princípio sobrepõe-se em grande medida ao do princípio
da adequação procedimental.

3. O princípio da razoabilidade dos prazos


 Diz respeito essencialmente à vertente temporal, dele resultando que o
processo deve ter a menor duração possível e nunca uma duração superior à
que é considerada razoável.
 Tem acolhimento constitucional (Artigo 20º nº4 CRP)
 O processo civil só cumpre a sua inalidade e o direito à justiça só ica
salvaguardado se determinado conlito for resolvido em tempo útil;
 O que justiica o acolhimento constitucional, no artigo com epígrafe “acesso
ao direito e tutela jurisdicional efetiva)

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Soia Batista Linguíça nº004023

 Deve ser uma preocupação do juiz, mas essencialmente do Estado;


 O Direito a uma decisão em prazo razoável é um direito fundamental a que
corresponde um dever por parte do estado;
 Tal signiica que a violação daquele direito pode gerar responsabilidade civil
do estado;

4. Princípio da orientação para a autocomposição do litígio

Sempre que possível, o litígio deve ser resolvido pelas próprias partes, poupando-se
recursos (tempo e trabalho dos tribunais);

 A solução é uma solução à medida daquele caso e não fruto da aplicação de


uma norma geral (que não tem em conta todas as circunstâncias do caso)

Este princípio tem duas orientações principais: a mediação (A) e a conciliação


judicial (B).

A. Mediação (Artigo 273º/1 CPC+ Artigo 13º/2 LM)

As partes podem recorrer à mediação sem que haja alguma ameaça á prescrição de
algum direito constante do processo judicial. O artigo 533º/4 do CPC procura
incentivar a resolução à mediação: “ o autor que, podendo recorrer a estruturas de
resolução alternativa de litígios, opte pelo recurso ao processo judicial, suporta as
suas custas de parte independentemente do resultado da acção”;

B. Conciliação Judicial

Será que mediação e conciliação são a mesma coisa? A distinção assenta na


existência de um terceiro, ou seja, trata-se de conciliação e não mediação quando o
terceiro tem posterior poder de decisão, seja esse terceiro um juíz, um árbitro, um
empregador num processo disciplinar ou por aí fora.

O poder de decisão posterior afeta duas das principais características da mediação,


nomeadamente a conidencialidade e o Empowerment. A conidencialidade é
essencial para que haja coniança e, muitas vezes, uma passagem das posições aos
interesses; parte nunca vai admitir nada que posso comprometer o futuro sucesso
da acção. O regime da conciliação apenas existe para a conciliação judicial.

 Enquadramento jurídico da Conciliação Judicial (artigo 594º do CPC)


 Momento para a conciliação: em qualquer estado do processo, ou seja,
pode ser uma das inalidades da audiência prévia (591º/1 a), pode
ser realizada na audiência inal(604º/1) ou em qualquer outro
momento.

A conciliação é obrigatória em algum momento?

 A professora Joana Campos Carvalho considera que a conciliação não é


obrigatória, apesar de o artigo 604º parecer impor a conciliação. No entanto,
tem de ser conjugado com o artigo 594º “quando o juiz considerar
oportuno”.
 Este entendimento está em linha com os princípios do atual processo civil,
designadamente com o princípio da gestão processual. É também o único
entendimento que se adequa à natureza da conciliação + (apenas é útil em
alguns casos, não deve ser encarada como um obstáculo processual a
ultrapassar rapidamente).
 É obrigatória sempre que as partes o requeiram conjuntamente.

Qual é que deve ser o papel do juiz na tentativa de conciliação judicial?

 Artigo 594º nº3;

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 O juiz controla o processo, as partes o conteúdo do acordo;


 O juiz controla também, em parte, o resultado: o juiz controla se as partes
poderiam celebrar aquele contrato fora do processo; Não controla se seria
aquele a solução que o direito tem para o caso, nem se uma das partes
cedeu mais que a outra.

Resultado da conciliação: Desistência do pedido, desistência da instância, conissão,


transação, sem sucesso.

 No caso de uma conciliação com sucesso, o juiz controla, o resultado de


acordo com o artigo 290º (homologação)
 O juiz controla apenas a validade daquela declaração/contrato: Capacidade,
legitimidade, objeto (280º do CC) - impossível, contrário à lei e à ordem
pública.
 Juiz controla se as partes poderiam celebrar aquele contrato fora do
processo;
 Não se seria aquela a solução que o direito tem para o caso, nem se uma
das partes cedeu mais do que a outra;

A principal razão para existir uma homologação é essencialmente a protecção das


partes, o processo termina com uma sentença, uma sentença homologatória, o que
tem mais força do que o acordo.

Notas Finais:

É uma fase que pode, nalguns casos e se bem conduzida ser muito útil para a
prossecução do objetivo do processo civil, resolver o litígio das partes. Como
instituto pode contribuir para a melhoria da qualidade da justiça.

 Motivos de insucesso da conciliação judicial: falta de preparação dos juízes,


mentalidades, falta de tempo;
 É uma fase que pode, nalguns casos e se bem conduzida ser muito útil para
a prossecução do objetivo do processo civil- resolver o litígio das partes;
 Como instituto pode contribuir para a melhoria da qualidade da justiça.

Aula de dia 24 de abril de 2017


Um dos aspetos importantes relativamente ao acesso à justiça consiste em saber se
os mecanismos de arbitragem necessária colocam ou não em causa esse princípio
de acesso aos tribunais. A questão foi recentemente testada no Tribunal Arbitral do
Desporto, como referido no trabalho da colega Maria Lima Ferreira (ler).

O TAD é uma entidade jurisdicional independente, e a sua particularidade é ter


matérias que são de arbitragem necessária, como disposto dos artigos 4º/5º da lei
nº74/2013.

Para além dos dois mecanismos de “tentativa de recorribilidade”, nomeadamente o


recurso para o Tribunal Constitucional e os pedidos de anulação nos termos da LAV,
não existia mais nenhum modo de recorrer das decisões do TAD. No acórdão
230/2013 esta questão foi julgada inconstitucional, por violação do princípio da

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tutela jurisdicional efetiva e violação de direito de acesso aos tribunais. Apenas os


litígios administrativos de direito público estão sujeitos a arbitragem necessária.
Esta arbitragem necessária tem um duplo objetivo: não é apenas acelerar a justiça
ou descongestionar os tribunais, mas está também relacionado com a grande
tensão que existe entre os órgãos de justiça desportivos e os órgãos de justiça
estaduais.

Problema de Constitucionalidade (artigo 20º): O problema é a imposição de


arbitragem sem existir a possibilidade de recurso das decisões em causa.

 Os negócios jurídicos processuais

Podem implicar/ ter efeitos na tutela jurisdicional. No entanto, ao ser um negócio


jurídico, brotam da autonomia privada, sendo que as partes podem limitar o seu
acesso à tutela jurisdicional efetiva.

a) Pactos privativos e atributivo de jurisdição (atribuição de


competência em termos internacionais): convenção através da qual as
partes designam como competente um determinado tribunal que à partida
não seria competente pelas normas de competência interna (artigos 91º a
95º do CPC). O pacto privativo é aquele que retira a competência a um ou
mais tribunais portugueses, conferindo a competência a tribunais
estrangeiros. O oposto ocorre com os pactos atributivos, ou seja, este pacto
confere competência a um tribunal ou tribunais portugueses cujo litígio,
pelas regras de competência interna, seria julgado nos tribunais de outro
estado.

As competências para estes pactos estão constantes nos artigos 94º. Relativamente
às matérias em competência em razão do território, é permitida a realização de
pactos de jurisdição, sendo que no que respeito à matéria, hierarquia e valor da
causa não podem ser afastados por vontade das partes (artigo 94º). Num primeiro
momento, temos de identiicar qual é jurisdição (nacional) competente. Veriicando
isso, é preciso veriicar dentro dessa jurisdição(estadual), qual é o tribunal nacional
com jurisdição para dirimir esse litígio.

b) Competência convencional: competência interna territorial – Ler trabalho


Bernardo e colocar anotações. Existem alguns casos em que não é possível
determinar que a competência territorial é de um tribunal nacional, como
por exemplo os casos constantes do artigo 104º. As próprias partes nestas
convenções limitam as suas possibilidades de onde propor acção, ou seja,
num primeiro momento delimitaram a sua jurisdição, e num segundo
momento qual será o tribunal que irá dirimir os litígios.

Requisitos tanto formais como requisitos de conteúdo (95º CPC)

Cláusulas contratuais gerais (Artigo 21º-H do DL 446/85)

 “São em absoluto proibidas, designadamente as cláusulas contratuais gerais


que (…) excluíam ou limitem de antemão a possibilidade de requerer tutela
judicial para situações litigiosas que surjam entre os contratantes”;

Princípio da Gestão Processual- Professor Doutor João Pedro Pinto Ferreira

Artigo 6º do CPC- Princípio da gestão processual

1. CPC de 1939:
 Princípio do dispositivo: o andamento do processo dependia do impulso
das partes e não podia ser promovido pelo juíz. Eram as partes que tinham a

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responsabilidade de propor a ação, mas mais do que isso, uma vez proposta
a acção, cabia às partes impulsionar o processo. Exemplo: a citação decorre
de acordo com determinadas regras. Quando havia diiculdade em citar o
réu, a secretaria deveria impulsionar a participação do autor, o que daria
origem a longas pausas no curso da relação jurídica-processual.
 Princípio da legalidade das formas: o juíz não podia alterar as regras de
tramitação do processo nem o conteúdo ou a forma dos atos processuais.

2. No ano de 1995/96 houve uma reforma no CPC, sendo que alguns


princípios foram alterados, nomeadamente mantendo-se essencialmente a
necessidade do impulso de inicial (Artigo 3º/1), ou seja, a propositura da
acção. Uma vez imposta a acção, cabe ao juiz providenciar pelo andamento
do processo, salvo quando a lei exija um impulso das partes (265/1º). No que
diz respeito ás formas processuais: a legalidade das formas manteve-se
como regra e introduziu-se o princípio da adequação formal (Artigo 256º-A),
no qual o juiz pode introduzir variações no esquema legal se este for
desadequado às particularidades da causa. É também de destacar a
intervenção ativa do juiz na sanação da falta de pressupostos processuais
sanáveis Artigo 265º/2), que procura a orientação para a decisão de mérito e
a economia processual, constante dos artigos 137º e 31º/2

3. Regime Processual Civil Experimental (2006): será que as bases


deste regime poderiam ser generalizados? Neste regime, o juiz assume
um papel determinante na direcção do processo. Por outro lado, a
instrumentalidade do processo civil face o direito substantivo conduz à
mitigação do formalismo processual, devendo o instrumento adaptar-se ao
im. A igura que foi utilizada neste sentido foi a igura da gestão processual,
apesar de na altura ela não ter todas as nuances que tem agora:
A) Vertente de Adequação da forma;
B) Vertente de Agilização;
C) Vertente de Eiciência;
D) Vertente de Adaptação.

4. Código de Processo Civil de 2013:


 Ao olhar para o artigo 6ºdo CPC veriicamos que este princípio é um dos
princípios fundamentais do Processo Civil Português.
 A epígrafe do artigo 6º é deveres de gestão processual e não “princípio de
gestão processual”. Por agora, o que parece relevante é analisar que a
gestão processual é um dos princípios fundamentais desde 2013.
 A gestão processual reparte-se por quatro poderes diferentes: (1) ónus de
impulso subsequente: uma vez proposta a acção, cabe ao juiz impulsionar
o processo, não pode o processo, salvo nos casos expressos por lei, icar
parado por ausência de impulso de alguma das partes.; (2)eiciência
processual: abrange não só os atos das partes como os do juíz;
(3)simpliicação e agilização do processo e a (4)sanação da falta de
pressupostos processuais sanáveis.

5. Direcção ativa do processo: o princípio da gestão processual implica uma


diferente abordagem das regras processuais pelo juiz.
 CPC 1939: Abordagem Passiva (“andamento regular e célere do
processo);
 CPC 2013: Abordagem Pró-ativa (“dirigir ativamente o processo e
providencial pelo seu andamento célere”)

6. Agilização e simpliicação:

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 O professor João Pedro Pinto Ferreira considera que esta vertente da


gestão processual não se diferencia das outras pela sua natureza
vinculada,
 A agilização e simpliicação do processo podem alargar ou encurtar o
guião processual: estes mecanismos podem encurtar o tempo do
processo, retirando um ato que estaria previsto, no entanto, estes
mecanismos também podem adicionar atos ao processo,
reconduzindo-se, no essencial, á adequação formal.

A primeira vertente do princípio da gestão processual: A Adequação


formal

A Adequação formal consubstancia-se com um equilíbrio entre a legalidade e a


liberdade das formas processuais. O juiz segue a forma legal podendo afastá-la
quando esta se veriicar desadequada ao caso concreto ou quando, apesar de
adequada, exista outra forma ainda mais adequada ao caso. As vertentes
essenciais da Adequação formal são a Tramitação Processual (A), a Forma
dos Atos Processuais (B) e o Conteúdo dos atos Processuais (C)

(A) Tramitação Processual: A adequação formal permite a inquirição de


testemunhas na audiência prévia; Alteração da ordem de produção de
prova na audiência prévia; Réplica fora dos casos previstos na lei;
(B) Forma e conteúdo dos atos processuais (substituição do depoimento oral,
de acordo com o princípio da oralidade, por depoimento escrito, evitando
que o processo se torne muito longo ou que as testemunhas tenham de
estar muito tempo à espera para depor); Sentença Oral (apesar o CPC
determinar uma sentença escrita)

Artigo 630º/2: Poder discricionário ou poder vinculado? A própria lei parece vir dizer
que independentemente da qualiicação, os despachos de gestão processual e de
adequação formal estão subtraídos à apreciação dos tribunais de recurso.

A Adequação formal equilibra a legalidade e a liberdade das formas processuais. O


juiz segue a forma legal, no entanto pode afastá-la quando esta for desadequada ao
caso concreto; ou quanto apesar a forma legal for adequada, exista outra forma
ainda mais adequada ao caso.

As inalidades da gestão processual:

 Prevalência da decisão de mérito sobre a decisão formal;


 Obtenção da decisão em prazo razoável
 Salvaguardar a instrumentalidade das regras processuais face ao direito
substantivo

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Aula de Dia 2 de Maio de 2017: Princípios do Dispositivo e da


Estabilidade da Instância
 A regra-geral é a de recorribilidade das decisões judiciais, não o sendo os
despachos proferidos no uso de um poder discricionário são irrecorríveis
(artigo 630.º/1) porque envolvem juízos de oportunidade (ex. Artigo 490.º).

Distinção entre Discricionariedade e Arbitrariedade:

1. os despachos proferidos ao abrigo de um poder discricionário são recorríveis


(Não se veriiquem os respetivos pressupostos (uso legal de um poder
discricionário e violação de princípios do processo equitativo)

Exemplo: Despachos de adequação formal – regra de irrecorribilidade dos


despachos de adequação formal (artigo 630.º/2), podendo ser recorríveis quando
coloquem em causa a igualdade, o contraditório, o direito à prova, etc.

Controlo pelo Tribunal de Recurso

Poder Discricionário Poder Vinculado


Controlo de legalidade- sem entrar O controlo de legalidade envolve a
no mérito; análise do mérito
Em caso de ilegalidade: juízo Em caso de Ilegalidade: juízo
cassatório substitutivo

A doutrina diverge na medida em que a gestão processual compreende poderes


vinculados e discricionários. Miguel Teixeira de Sousa considera que são proferidos
ao abrigo do poder discricionário.

Antes do CPC de 2013:

 Não existia regra especial, pelo que a conclusão dependia da qualiicação do


despacho (vinculado ou discricionário);
 A doutrina encontrava-se dividida;
 Reforma de 2013: Oscilação entre a irrecorribilidade (2011) e a
recorribilidade (2013);

A Recorribilidade Limitada no CPC: Artigo 630º/2

1. A regra consiste na irrecorribilidade dos despachos de adequação formal;


2. Estes despachos serão recorríveis coloquem em causa a igualdade, o
contraditório, a aquisição de factos ou o direito à prova;

As principais questões?

1. Ratio da solução legal de recorribilidade limitada;


2. Possibilidade de alargar esta solução a todos os despachos de gestão
processual;
3. Conformidade de solução com a cláusula constitucional do processo
equitativo.

1. Poder discricionário ou vinculado?


 A gestão processual compreende poderes vinculados e discricionários (Paulo
Ramos de Faria; Ana Luísa Loureiro; Abrantes Geraldes);
 Os despachos de adequação formal são proferidos ao abrigo de um poder
discricionário (Miguel Teixeira de Sousa)

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Apontamentos das Aulas- 3ºano /2º Semestre
75
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A Discricionariedade da ação (Artigo 547º CPC- O juiz tem ou não o dever de atuar;
artigos 6º e artigo 547º)

 A lei estabelece as circunstâncias em que o juiz deve exercer o poder de


gestão processual;
 Existe um dever de o exercer quando essas circunstâncias se veriiquem;
 Dever de gestão processual – artigo 6.º - quando seja necessário promover
diligencias ao normal prosseguimento da ação. O juiz deve providenciar
oiciosamente o saneamento de determinadas insuiciências.

2. Conceitos Indeterminados

Os artigos 6º e 547º recorrem a vários conceitos indeterminados (especiicidades da


causa; prazo razoável);

 O objetivo não é conferir poderes discricionários ao juiz, mas apelar a uma


ponderação técnica e objetiva faze ao caso concreto;

3. Discricionariedade de Decisão:
 Artigos 6º/1 e 547º: cabe ao juiz determinar o ato a praticar
(discricionariedade criativa);
 Em outros casos, a lei limita o conteúdo da gestão processual (tentativa de
conciliação- artigo 594º).

Conclusão:

 Quando se veriiquem os pressupostos dos artigos 6º e 547º o juiz deve gerir


o processo, poder de exercício vinculado;
 Os artigos 6º/1 e 547º atribuem ampla liberdade ao juiz na conformação do
conteúdo do despacho de gestão processual: discricionariedade da decisão;

Qual é a ratio do artigo 630º/2 e o seu âmbito de aplicação?

 A Recorribilidade limitada não decorre, pois, da discricionariedade;


 Fundamentos: Efetividade no exercício dos poderes de adequação formal;
maior proximidade do juiz de primeira instância em relação ao processo;
 O artigo 630º/2 só abrange, literalmente, os despachos de adequação
formal;
 Interpretação extensiva: solução da recorribilidade limitada justiica-se da
mesma forma para as restantes vertentes da gestão processual;
 A recorribilidade limitada não decorre, pois, da discricionariedade. O artigo
630º/2 só admite o recurso dos despachos de gestão processual quando
estes contendam com: igualdade, contraditório, aquisição processual de
factos e direito à prova.

Processo Equitativo (Artigo 20º CRP)

 Interpretação conforme à Constituição: os despachos de gestão processual


serão recorríveis sempre que esteja em causa um princípio do princípio
equitativo (Rui Pinto, José Lebre de Freitas);
 A Gestão Processual encontra o seu fundamento e limite no processo
equitativo

Controlo pelo Tribunal de Recurso:

 Despacho de Gestão Processual: Controlo limitado à violação do processo


equitativo; em caso de ilegalidade, juízo cassatório;
 Omissão de gestão processual: poder vinculado- o juiz tem o dever de gerir o
processo; a omissão conduz a nulidade processual

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O artigo 630.º/2 carece de interpretação conforme ao artigo 20.º/4 CRP).

A recorribilidade limitada não se justiica em consequência dos poderes


discricionários.

Solução de recorribilidade limitada, pode estender-se a todos os despachos de


gestão processual.

Tendo em conta, por um lado, que o processo equitativo é o limite da gestão


processual, e por outro lado, devemos limitar a recorribilidade em fase do processo
equitativo (é recorrível se violar o processo equitativo).

Despacho de Gestão Processual Omissão de Gestão Processual


Controlo limitado à violação do Poder vinculado:
processo equitativo a) O juiz tem o dever de gerir o
processo
Em caso de ilegalidade: juízo b) A omissão conduz a uma
cassatório nulidade processual

Controlo pelo tribunal de recurso

A única coisa que o tribunal de recurso pode controlar é a violação do processo


equitativo, caso o tribunal de recurso determinar que aquele despacho de
processo equitativo é de cassação e remete para o tribunal de primeira
instância.

Omissão de gestão processual

Se o juiz está vinculado a atuar, caso não geria o processo, a omissão de gestão
processual é recorrível quando o poder será vinculado, não o será quando o
poder será discricionário e aí atua consoante juízos de oportunidade e de
conveniência, se ao omitir o despacho se violar o processo equitativo, conduziria
a nulidade processual. A omissão tenderá a violar alguma dimensão do processo
equitativo. O professor Pinto Ferreira considera que a omissão estará sempre
associada a uma violação do processo equitativo, na medida em que se nega a
gestão processual e se violará o processo equitativo. Em caso de ilegalidade, o
juízo é cassatório, remetendo para a instância inferior, ordenado que decida
(mas não como decide).

Previsto no artigo 6º do Código de processo civil.

Nota histórica sobre a gestão processual. No CPC de 1939. principio do dispositivo.


São as partes que tem a responsabilidade de propor a ação e de fazer andar o
processo. Por exemplo na citação. Em caso e diiculdade na citação a secretaria
devia impulsionar a citação. O processo icava parado à espera que o autor se
pronunciasse. Legalidade das formas. O juiz não podia alterar as regras de
tramitação do processo nem o conteúdo ou a forma dos atos processuais. O juiz
possuía uma espécie de guião que deveria seguir. Certeza e previsibilidade.

Na reforma processual de 95/86 alguns destes aspetos foram modiicados. Mantêm-


se a necessidade de impulso inicial (por via do direito de ação). Uma vez proposta
cabe ao juiz providenciar pelo andamento do processo salvo exceções m que se
requer o impulso das partes. E quanto às formas processuais? Continua a haver um
guião? Sim, essa é a regra, mas introduz-se uma igura, a ada adequação formal
(265º A) que permite que o juiz introduza variações nesse guião. Pode afastar-se
dele em determinadas situações. Um exemplo. No código de 39 era sempre

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necessário convocar uma audiência na fase intermédia. Agora deixa de ser


obrigatória.

Orientação para a decisão de mérito (decisão que aprecia o pedido) -decisão ativa
do juiz. O juiz deve convidar a parte a suprir a falta de patrocínio judiciário. Ou
outros pressupostos sanáveis.

Economia processual (137. numa perspetiva de se analisar todos os pedidos quando


possível.

A gestão processual incluir essas dimensões-1 o juiz é que tem o poder de andar
com o processo. Na economia (economia de atos e de processos).

A gestão processual começou como experimental aplicável em alguns tribunais.


Mitigação do formalismo do processo. Serve para um im, o instrumento (o
processo) tem que se adequar ao im quando esse formalismo possa prejudicar esse
im. A tutela do direito substantivo.

Surge assim a gestão processual. No inicio não possuía todas as dimensões que
estão atualmente estabelecidas no artigo 6 do CPC. Primeiro havia. Agilização,
adequação, eiciência, adaptação. Falta a oiciosidade (atos sanáveis pelo juiz) e a
sua capacidade de dar andamento ao processo.

A epígrafe aponta para um dever. Independentemente de se tratar ou não


de um dever, é um princípio.

4 vertentes:

1. ónus de impulso subsequente-compete ao juiz dirigir o processo e


providenciar pelo seu andamento (pode em situações excecionais recair
sobre o juiz ) uma vez proposta a ação cabe ao juiz impulsionar o processo.
Não pode icar parado por ausência de impulso de uma das partes. Há
exceções. Habilitação de herdeiros.
2. vertente de eiciência processual- recusando o que for impertinente ou
meramente dilatório (aplica-se mesmo aos atos do próprio juiz. Pode ser
legal, mas naquele caso pode não ser útil
3. simpliicação e agilização processual
4. sanação de falta de pressupostos sanáveis pelo juiz.

Gestão processual como macro princípio que abarca varias ideias fundamentais.

Este principio implica uma diferente abordagem das regras processuais pelo juiz. Se
antes tinha que assegurar o andamento célere e regular, agora exige-se uma
abordagem pro ativa. Um exemplo. Chegando aos autos informação que uma das
partes faleceu. Antes tinha que se pedir as partes uma certidão de óbito. Agora é
necessário que o próprio juiz consiga obter essa certidão de óbito.

Na simpliicação e agilização e adequação formal. Há duas posições. São duas


coisas diferentes. A segunda posição é que defende que são uma tradução da
adequação formal prevista no 547 do CPC. Para o Prof estes mecanismos não
acrescentam nada à adequação formal. O regime é o mesmo. A simples previsão
autónoma não acrescenta nada. Para ele a distinção, obtenção de um conteúdo
autónomo não passa por aqui. Também não é adequado dizer que se distinguem
porque estes podem tornar o processo mais rápido. Mas estes podem passar por
acrescentar atos ao processo (acrescentando algo ao guião). Podem encurtar o
guião, mas também aumentá-lo. São então uma remissão para o 547

Os poderes do juiz como poderes deveres, tornam a discussão sobre a sua natureza
inútil.

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Adequação formal artigo 547-na tramitação processual. Por regra as testemunhas


são inquiridas na audiência inal. Isto permite que sejam ouvidas antes. Pode ser
necessário por exemplo que para decidir uma questão processual ela seja ouvida na
audiência prévia. A adequação formal neste caso faz-se mela movimentação de um
ato para outro momento. Pode o juiz também determinar que os peritos sejam
ouvidos anteriormente à produção do depoimento de parte, quando a única questão
no litígio é uma questão técnica. Aqui altera-se a ordem pela qual os atos são
praticados. Outro caso. O da admissão do terceiro articulado (réplica). Se
entendermos que é um poder vinculado, a sua omissão pode ter consequências
(nulidade processual) . Caso pratique e não se justiique? Pode ser uma violação da
gestão processual. Em principio será também uma nulidade. Se for discricionário, a
sua não adoção não vai produzir consequências. O 630 nº2 vem resolver a questão
de saber é vinculativo ou discricionário. Independentemente de ser vinculativo ou
discricionário, não está nas mãos de um tribunal superior. (630 Nº2). Quanto à
forma e o conteúdo dos atos processuais. Substituição do depoimento verbal pelo
depoimento escrito. Permite-se ao abrigo da adequação processual substituir a
forma do depoimento. A parte contrária confrontada com o depoimento escrito pode
insistir no depoimento verbal. Outro exemplo é a possibilidade de uma sentença
oral. Pode acontecer em face da causa ser simples em função do valor, da sua
natureza. Permite aproximar a justiça dos cidadãos. Fica registo dela obviamente.
Depende do momento em que é proferida. A adequação formal permite assim
compatibilizar a legalidade com a liberdade das formas. Esse equilíbrio faz-se
através do uso da forma legal, havendo momentos em que a pode afastar. Quando
ela é desenquadrada do caso concreto. Apesar de adequada, exista outra forma
ainda mais adequada ao caso. Pode haver um afastamento maior ou menor desse
guião. Há na doutrina divergências neste ponto. Ou podem apenas fazer-se
pequenas modiicações ou é lexível o suiciente para se

Finalidades da gestão processual:

1. Prevalência da decisão de mérito sobre a decisão formal


2. Obtenção da decisão em prazo razoável (eiciência processual, eliminação
do ónus de impulso subsequente
3. Salvaguardar a instrumental idade das regras processuais face ao direito
substantivo.

Principal questão que se coloca na gestão processual. Poderes vinculados e poderes


discricionários. Limites a recorribilidade quando se está no âmbito de um despacho
proferido no uso de poderes discricionários (630 Nº1). Em princípio serão
irrecorríveis porque o legislador atribui o juízo de oportunidade a um tribunal de
primeira instância. Deverá manter-se esse juízo feito pelo tribunal de primeira
instância. Ver 490 Não é sinónimo de arbitrariedade e tem limites. Se o despacho
colocar em causa a intimidade por exemplo, ele já é recorrível. 20 nº4 se o poder
exceder esses limites do processo equitativo. 630 nº2 não tem todos os princípios.
Chegam-se a eles por via de uma interpretação conforme à constituição.

Controlo dos poderes discricionários e dos poderes vinculados pelo tribunal de


recurso. O tribunal de recurso, analisa apenas a legalidade no que diz respeito ao
uso de poderes discricionários. Se esta violar esses limites não há substituição da
sentença, mas produz-se a sua cassação e esta é proferida pelo tribunal de primeira
instância. O anteprojeto consagrava a solução da irrecorribilidade. O grande
argumento a seu favor era que a irrecorribilidade era a única forma de garantir que
o juiz prosseguiria pela gestão processual. Desde 2013, estes passaram a ser
recorríveis, dado o impacto que tem nos direitos das partes. O 630 nº2 vem
estabelecer uma recorribilidade limitada. A regra que tem nos direitos das partes. O
630 nº2 vem estabelecer uma recorribilidade limitada. A regra consiste na

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irrecorribilidade dos processos de adequação formal. 630 nº2 4 limites à


irrecorribilidade. Suscitam algumas questões.

Qual a razão de ser desta irrecorribilidade limitada. Estamos perante um poder


discricionário, ou um poder vinculado. Para uma parte da doutrina a gestão
processual compreende poderes das duas naturezas. Miguel Teixeira de sousa,
considera que a vertente da adequação formal é proferida ao abrigo de poderes
discricionários. O juiz tem ou não a possibilidade de atuar (juízos de conveniência)
ou se está vinculado a essa atuação. Decidindo atuar é determinado ou não
conteúdo do ato que vai adotar. Artigo 6º 547. a lei estabelece as circunstâncias em
que o juiz dever fazer uso da gestão processual. Estabelece também o dever
efetuar essa gestão processual. O juiz está vinculado a tomar essas diligências.
Veriicando-se a falta desse pressuposto, ele deve superá-lo oiciosamente. Gestão.
Não há discricionariedade. Artigo 273. já prevê uma certa discricionariedade. Outra
questão. O recurso a conceitos indeterminados. (especiicidades da causa, prazo
razoável.) a sua utilização não implica automaticamente discricionariedade. Ao
analisar o artigo 6º e 547. mais uma vez não. São usados para adaptar ao caso
concreto. Ou seja, diferente do juízo de conveniência. Na discricionariedade de
decisão. Artigo 6º e artigo 547. cabe ao juiz determinar o ato a praticar. Veriicadas
as circunstâncias previstas, depende da discricionariedade criativa. Aqui sim, já há
juízos de conveniência. No 6nº2 já não há discricionariedade criativa. O exercício do
poder é vinculado. Atribuem ao juiz a discricionariedade na decisão. Está vinculado
a gerir o processo mas o conteúdo dessa gestão depende de juízos de conveniência.
Estando perante um poder vinculado temos que encontrar outra justiicação para a
recorribilidade. Uma possível ideia. Se os despachos fossem todos recorríveis, o juiz
ia ter medo de os proferir. Ou seja haveria um grande risco de a sua decisão vir a
ser substituída em sede de recurso. Nesse caso, se o despacho fosse ilegal, ou o
substituísse, tudo o que se passou a partir desse momento poderia cair. Esse é o
grande problema da recorribilidade. Outro dos fundamentos é a maior proximidade
do juiz de 1ª instância em relação ao processo.

1. Pode-se alargar a todas as vertentes da gestão processual. O âmbito de


aplicação do 630 Nº1. não há uma diferença fundamental entre a adequação
formal e as outras vertentes da gestão processual. Os fundamentos são
extensíveis aos restantes casos de gestão processual. Justiica-se. Mas
resulta de uma interpretação extensiva.
2. Conformidade com a clausula constitucional. Já vimos que o 630 nº2 só
admite quando violem a igualdade, contraditório, aquisição processual de
factos, direito à prova, admissibilidade dos meios de prova. A clausula do
processo equitativo do artigo 20 nº4 tem mais princípios que os que estão
presentes no 630. esta clausula é uma clausula aberta. É ou não conforme. À
CRP uma recorribilidade limitada que de acordo com o 630, se baseie, em só
alguns princípios e não noutros como direito de fundamentação por exemplo.
Uma parte da doutrina defende uma interpretação conforme à CRP. Se
estiver em causa uma determinada vertente do processo equitativo, há
então possibilidade de recurso. Tem subjacente a ideia que a gestão
processual tem o seu limite no processo equitativo. Assegurar esses
princípios.
3. Questão do controlo pelo tribunal de recurso. Neste caso o tribunal de
recurso pode apenas controlar a possível violação do equitativo. É um juízo
cassatório. Anula o despacho e remete ao tribunal de primeira instância

Quanto à omissão de gestão processual. Comete uma nulidade processual. A


omissão de gestão é recorrível. Tem que estar em causa a violação de cada um
daqueles princípios. Caso seja discricionário já não é recorrível. Na omissão também

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vai ser cassatório. Sendo discricionário. Só vai dizer que tem que proferir. Não
profere o de 2º instância.

O principal aspeto que marca a diferença é a existência do principio do dispositivo


em sentido restrito e o princípio. Princípio da controvérsia. Cabe ao autor instaurar a
ação. É dada as partes a possibilidade de as partes suspenderem a instância.
Determinar por acordo a suspensão do processo, da instância. A favor-principio do
dispositivo strictu senso. Não faz sentido sendo o processo das partes, que as
partes não possam suspender o processo. Períodos que não excedam 3 meses. 3
meses e não pode ser num período que resulte o adiamento da audiência inal já
marcada. A suspensão associada à pendência dos processos. Impacto negativo já
marcada. A suspensão associada à pendência dos processos. Impacto negativo.

Desistência da instância. Ato unilateral do autor que expressa a vontade de


renunciar à ação mas não aos direitos que estão em causa. É preciso a aceitação do
réu. Vai implicar que aquele pedido possam ser repetidos ( não preclude ) Na
desistência do pedido, é produzido caso julgado. Fica resolvido ali. A desistência do
pedido é sempre favorável ao réu.

Ónus de alegação dos factos que lhe são favorável . Facto de conhecimento
oicioso. Factos que são notórios, outros que o tribunal tenha conhecimento no
exercício das suas funções. Inquisitório é o contrário do dispositivo. É no seu
equilíbrio que se encontram as soluções para o processo cível.

Causa de pedir e o pedido. A formulação do pedido ocorre com a propositura da


ação. 147-deine articulado. A petição inicial é uma forma do pedido. Porque é que
são articulados? Porque são feitas por artigos. Para mais facilmente identiicar o
pedido em causa. Fundamentos de facto e de direito. Causa de pedir-o facto jurídico
de que depende a pretensão do autor. Engloba factos e razões de direito. Há um
monopólio das partes em relação a esta fase. Não tem o direito de mentir. Não
podem trazer outros factos (em muitos casos pode acontecer isso) para contrariar
este comportamento das partes existe a litigância de má fé ( em sentido objetivo
-comportamento honesto). Exemplos da causa de pedir. Nulidade. Responsabilidade
civil extracontratual (alegam-se os factos que permitem cumprir os pressupostos da
responsabilidade civil. Nas ações reais é o facto de onde o autor retira o seu direito
real.

Deinição de articulados

1. Os articulados são as peças em que as partes expõem os fundamentos da ação e


da defesa e formulam os pedidos correspondentes.

2. nas ações, nos seus incidentes e nos procedimentos cautelares, havendo


mandatário constituído, é obrigatória a dedução por artigos dos factos que
interessem à fundamentação do pedido ou da defesa, sem prejuízo dos casos em
que a lei dispensa a narração de forma articulada. Coloca-se a. O tribunal absolve o
reu do pedido.

É possível voltar a propor uma ação com esse pedido. Não, se o pedido for idêntico.
É difícil saber se o pedido em causa já foi alvo de uma decisão ou se são factos
novos. Litispendência-exceção, signiica que o processo já está a correr. (mesmos
sujeitos, pedido e causa de pedir). O caso julgado é sempre relativamente a essas 3
dimensões. Pode haver exceção de caso julgado ou exceção de litispendência.

O pedido-é a tutela jurídica pedida. Deve corresponder ao resultado lógico dos


factos e do seu enquadramento legal.

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O pedido vai limitar fortemente os poderes que o juiz tem. Mesmo que o juiz
veriique que os danos são de 100000, só vai poder limitar no valor do pedido. E se
a sentença ultrapassar quantidade pedida. 615. é nula.

1. Pedidos alternativos -Artigo 553.º (art.º 468.º CPC 1961) Pedidos alternativos
 É permitido fazer pedidos alternativos, com relação a direitos que por sua
natureza ou origem sejam alternativos, ou que possam resolver‐se em
alternativa
 Quando a escolha da prestação pertença ao devedor, a circunstância de
não ser alternativo o pedido não obsta a que se proira uma condenação em
alternativa.

2. Pedidos subsidiários
 Podem formular‐se pedidos subsidiários. Diz‐se subsidiário o pedido que é
apresentado ao tribunal para ser tomado em consideração somente no caso
de não proceder um pedido anterior.
 A oposição entre os pedidos não impede que sejam deduzidos nos termos
do número anterior; mas obstam a isso as circunstâncias que impedem a
coligação de autores e réus. Quando o autor não tem a certeza. O segundo
pedido só é analisado se o primeiro não tiver sucesso. Para o autor não veja
o seu direito precludido.

3. Cumulação de pedidos
 Pode o autor deduzir cumulativamente contra o mesmo réu, num só
processo, vários pedidos que sejam compatíveis, se não se veriicarem
as circunstâncias que impedem a coligação. Nos processos de divórcio
ou de separação sem consentimento do outro cônjuge é admissível a
dedução de pedido tendente à ixação do direito a alimentos. São
pretensões simultâneas.

4. É permitido formular pedidos genéricos nos casos seguintes:

a) quando o objeto mediato da ação seja uma universalidade, de facto ou de


direito; estabelecimento comercial por exemplo. Aqui já compreende o imóvel. A
herança também é uma universalidade.

b) quando não seja ainda possível determinar, de modo deinitivo, as


consequências do facto ilícito, ou o lesado pretenda usar da faculdade que lhe
confere o artigo 569.º do Código Civil;

c) quando a ixação do quantitativo esteja dependente de prestação de contas


ou de outro ato que deva ser praticado pelo réu

5. Pedido de prestações vincendas

1 ‐ Tratando‐se de prestações periódicas, se o devedor deixar de pagar, podem


compreender‐se no pedido e na condenação tanto as prestações já vencidas
como as que se vencerem enquanto subsistir a obrigação. Para evitar que tenha
que propor múltiplas ações.

Quando chegar a altura de o réu cumprir, o autor já tem um título de execução.


Quer o pedido quer a causa de pedir podem ser alteradas. O 264.Alteração do
pedido e da causa de pedir por acordo. Havendo acordo das partes, o pedido e a
causa de pedir podem ser alterados ou ampliados em qualquer altura, em 1.ª ou
2.ª instância, salvo se a alteração ou ampliação perturbar inconvenientemente a
instrução, discussão e julgamento do pleito. As partes têm que estar de acordo.

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O tribunal pode não admitir tal mudança. Exige-se que também as partes
cooperem.

Aula de dia 08 de Maio de 2017: Princípio da Cooperação


1. Introdução: cooperar para assegurar a realização do im do
processo;

 Teoria do negócio jurídico: dever principal (prestação) e deveres anexos e de


protecção;
 Os deveres anexos visam assegurar o cumprimento da prestação de forma a
que o credor possa retirar dela o benefício esperado: visa assegurar-se o
cumprimento de acordo com a inalidade que subjaz à prestação; os deveres
de protecção visam evitar a protecção de danos, e portanto, visam também
no cumprimento de acordo com tal inalidade;
 A fonte destes deveres anexos e de protecção é a boa-fé (Primazia para
materialidade subjacente);
 Os deveres anexos e de protecção implicam a cooperação entre as partes,
nomeadamente impondo-lhes deveres de esclarecimento, de lealdade e de
protecção;
 A distinção entre dever principal e deveres anexos e de proteção pode, com
vantagem, ser transplantada para o direito processual;
 Também no âmbito processual é possível identiicar um “dever”, um
objetivo, principal, a “justa composição do litígio”, bem como deveres
anexos (e de proteção) relativamente ao principal mas essenciais para
assegurar a realização daquele; neste âmbito os deveres anexos e de
proteção são aqueles que decorrem do princípio processual da cooperação.
 Porquê? Porque ao se procurar atingir qualquer objetivo através do
cumprimento de determinadas regras (algo que ocorre tanto nos negócios
jurídicos como no processo) é possível perverter o cumprimento das regras
de modo a que o objetivo não seja cumprido.

2. Deveres decorrentes do princípio da cooperação:

A semelhança entre deveres anexos e de proteção (teoria do negócio jurídico) e


deveres decorrentes do princípio processual da cooperação permite aproveitar a
classiicação dos primeiros para compreender os segundos:

 Dever de esclarecimento;
 Dever de lealdade;
 Dever de proteção.

Vejamos as regras em que se traduz cada uma destas classes de deveres;

Note-se que cada regra que veremos é simultaneamente a decorrência de mais do


que um destes deveres (pois todos eles estão ligados em função da sua origem
comum, a boa-fé), mas é possível identiicar uma dimensão essencial, um dever
que é principalmente assegurado em cada regra, ainda que sem excluir os demais.

a) Dever de esclarecimento;

Dever de esclarecimento - trata-se de um dever do juiz. Este deve:

 Procurar esclarecer (alertar) as partes relativamente a quaisquer aspetos de


facto ou de direito que, no seu entendimento, elas não conheçam e devam
passar a conhecer, para que se possam pronunciar (vertente ativa);

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 Esclarecer-se junto das partes relativamente a quaisquer questões de facto


ou de direito alegadas pelas partes de forma obscura ou incompreensível
(vertente passiva).

Vertente ativa:

 Convite dirigido ao suprimento de pressupostos processuais (arts. 590.º,


n.º2, al. a) e 6.º, n.º2);
 Convite dirigido ao suprimento de irregularidades e à clariicação ou
concretização das peças processuais (arts. 7.º, n.º 2 e 590.º, n.º 2, al. b)
e n.os 3 e 4 e ainda o art. 639.º, n.º 3):
 Suprimento de irregularidades dos articulados: art. 590.º, n.º3;
 Suprimento das insuiciências ou imprecisões na exposição ou
concretização da matéria de facto alegada: art. 590.º, n. º4;
 Suprimento de irregularidades, insuiciências ou imprecisões no âmbito
das conclusões de recurso: art. 639.º, n.º 3.
 Convite dirigido à correção do enquadramento jurídico do caso, diferente
do discutido pelas partes (cfr. art. 3.º, n. º3 – princípio do contraditório).

Vertente passiva:

Dever de o juiz questionar as partes de modo a tornar claro ao juiz qual o sentido
que a parte pretende atribuir a certa alegação de facto ou de direito ou a um pedido
(art. 7.º, n. º2).

Um exemplo jurisprudencial relativo à necessidade de formular um convite dirigido


à correção do enquadramento jurídico:

Tribunal da Relação de Coimbra de 13/11/2012 (Avelino Gonçalves):

«Estaremos perante uma decisão surpresa quando ela comporte uma solução
jurídica que as partes não tinham obrigação de prever, quando não fosse exigível
que a parte interessada a houvesse perspetivado no processo, tomando
oportunamente posição sobre ela, ou, no mínimo e concedendo, quando a decisão
coloca a discussão jurídica num módulo ou plano diferente daquele em que a parte
o havia feito.»

b) Dever de lealdade;

Dever de lealdade – é um dever essencialmente dirigido às partes e a terceiros, mas


indiretamente também ao juiz. Visa assegurar que os sujeitos processuais:

 Não adotem um comportamento que impeça ou onere desnecessariamente


o correto apuramento da verdade e/ou do direito aplicável (vertente
negativa);
 Adotem um comportamento que promova ativamente o correto apuramento
da verdade e/ou do direito aplicável (vertente positiva).

1. Vertente negativa: traduz-se na proibição da chamada litigância de má-fé,


que ocorre se a parte, com dolo ou negligência grave:
 “Tiver deduzido pretensão ou oposição cuja falta de fundamento não devia
ignorar”: art. 542.º, n. º2, al. a);
 “Tiver alterado a verdade dos factos ou omitido factos relevantes para a
decisão da causa”: art. 542.º, n. º2, al. b);
 “Tiver feito do processo ou dos meios processuais um uso manifestamente
reprovável, com o im de conseguir um objetivo ilegal, impedir a descoberta
da verdade, entorpecer a ação da justiça ou protelar, sem fundamento sério,
o trânsito em julgado da decisão”: art. 542.º, n. º2, al. d).

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2. Vertente positiva:
 Dever genérico de todas as pessoas (as partes também, naturalmente)
colaborarem com a descoberta da verdade “respondendo ao que lhes for
perguntado, submetendo-se às inspeções necessárias, facultando o que for
requisitado e praticando os atos que forem determinados”: art. 417.º, n. º1;
concretizações particulares nos arts. 482.º, n. º1 (exame de reconhecimento
de letra) e 490.º, n. º1 (inspeção judicial);
 Obrigações especíicas das partes colaborarem ativamente na descoberta
da verdade: arts. 429.º a 431.º (documentos em poder da parte contrária),
452.º, n. º1

c) Dever de proteção.

Dever de proteção – trata-se de um dever do juiz. Este deve:

 Promover ativamente a descoberta da verdade, não se limitando à iniciativa


probatória das partes (vertente inquisitorial);
 Auxiliar as partes no que toca ao exercício dos seus direitos, faculdade,
deveres e ónus processuais (vertente assistencial).

1. Vertente inquisitorial:
 poder-dever de o juiz requer oiciosamente a produção de prova,
sempre que achar necessário:
 411.º (dever genérico de inquisitoriedade), 436.º, n.º1 (documentos), 452.º,
nº1 (prova por conissão das partes), 466.º, n.º2, in ine (prova por
declarações de parte), 467.º, n.º1, 468.º, n.º1, al. a) e 487.º, n.º2 (prova
pericial), 490.º, n.º1 (inspeção judicial), 501.º, 516.º, n.º4 e 526.º, n.º1
(prova testemunhal);

2. Vertente assistencial:
 7.º, n.º4: “Sempre que alguma das partes alegue justiicadamente
diiculdade séria em obter documento ou informação que condicione o eicaz
exercício de faculdade ou o cumprimento de ónus ou dever processual, deve
o juiz, sempre que possível, providenciar pela remoção do obstáculo”.
 O dever de esclarecimento traduz-se em regras que têm
simultaneamente por inalidade assegurar o dever de proteção.
Todas as regras que visam o dever de esclarecimento visam também o dever
de proteção (na vertente assistencial), mas nem todas as regras que visam o
dever de proteção (nomeadamente na vertente inquisitorial) visam o dever
de esclarecimento.

3. Alcance do princípio da cooperação;

O princípio da cooperação, enquanto princípio jurídico, não se limita a enquadrar


soluções já previstas nas regras legais, podendo ser fonte de soluções não previstas
na lei (função integrativa) e pode mesmo justiicar a inaplicação de soluções
previstas na lei (função bloqueadora).

Exemplos:

1. Função integrativa do princípio da cooperação:


 Convite dirigido à correção do enquadramento jurídico do caso, diferente do
discutido pelas partes - dever de esclarecimento (vertente ativa) e de
proteção (vertente assistencial).

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2. Função bloqueadora do princípio da cooperação:


 O art. 637.º, n. º2, 2.ª parte, in ine prescreve a recusa imediata das
alegações de recurso caso não sejam acompanhadas da cópia do acórdão
fundamento, o que é incompatível com o princípio da cooperação (dever de
esclarecimento, na vertente ativa, e dever de proteção, na vertente
assistencial), impondo-se a emissão de convite à junção da cópia antes da
rejeição;
 A apresentação de documentos em língua estrangeira que as partes e o
tribunal não compreendam pode implicar que o juiz ordene a apresentação
de tradução parcial, apenas das partes relevantes, caso seja patente que só
estas interessam ao caso (cfr. art. 134.º, n. º1, que parece exigir a tradução
total) - dever de proteção, vertente assistencial (Está também em causa a
função integrativa do princípio da economia processual).

4. Consequências do incumprimento;

Quais as consequências do incumprimento de alguma das regras decorrentes do


princípio da cooperação?

 Se quem incumprir for uma parte, deverá ser condenada em multa: art.
542.º, n.º2, al. c);
 Se a irregularidade inluir no exame ou decisão da causa, gera-se uma
nulidade processual: art. 195.º, n. º1);

Problema: as nulidades têm, em regra, que ser arguidas pelo interessado no prazo
de 10 dias desde o momento em que, depois de cometida a nulidade, a parte
interveio em algum ato no processo (arts. 199.º, n. º1 e 149.º, n. º1), mas a violação
de muitas (não todas) das regras decorrentes do princípio da cooperação só é
“descoberta” aquando da sentença. O Professor Teixeira de Sousa avança uma
solução: considerar que tal nulidade está “consumida” pela nulidade da sentença
por “excesso de pronúncia” (art. 615.º, n. º1, al. d) e n. º4);

 Por vezes, a lei prevê consequências especíicas: exemplo: art. 417.º, n. º2


(apreciação livre da recusa para efeitos probatórios e, caso a recusa implique
a impossibilidade da prova, inversão do ónus da prova – 344.º, n. º2 do CC).

5. Cooperação e imparcialidade do juiz;

O princípio da cooperação, nomeadamente o dever de esclarecimento na vertente


ativa e o dever de proteção na vertente assistencial, pode por em causa a
imparcialidade do juiz relativamente à parte a quem é dirigida a assistência do juiz?

O critério que devemos utilizar para determinar se o juiz foi imparcial no exercício
destes seus deveres é o seguinte:

 Se o aspeto sobre o qual incide a assistência do juiz às partes


(nomeadamente o convite) for suscitado por algum elemento, implícito ou
explícito, que as partes mencionaram, então não há violação do dever de
imparcialidade; o juiz estará apenas a auxiliar as partes;

Exemplo: o autor fundamenta o seu pedido em incumprimento contratual, mas os


factos que alega indiciam a existência de enriquecimento sem causa e o juiz
convida as partes a discutirem esta possibilidade.

 Se o aspeto sobre o qual incide a assistência do juiz às partes


(nomeadamente o convite) for completamente novo, a que as partes não
aludiram de todo, então o juiz estará a ser imparcial; o juiz estará a tomar
partido por uma das partes.

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Exemplo: o réu não alude à igura do abuso de direito nem alega quaisquer factos
do qual este possa resultar e o juiz convida as partes a discutirem esta questão e
alegar os eventuais factos respetivos.

6. Cooperação e caracterização do modelo processual atual.

Os dois modelos processuais típicos são o adversarial (predomínio da liberdade e


autonomia das partes e respetiva responsabilização) e o inquisitorial (predomínio
dos poderes do juiz);

O atual regime processual civil é orientado por interesses, por um lado, de natureza
privada (princípio do dispositivo) e, por outro, de natureza pública (cooperação e
economia processual);

Assim, o regime processual civil segue um modelo intermédio mais equilibrado e


justo: o modelo cooperativo;

Neste modelo as partes devem ter o controlo sobre a coniguração do processo


(interesses privados - dispositivo) mas devem encontrar nos tribunais as condições
reais para conseguirem que essas pretensões sejam asseguradas (interesses
públicos - cooperação e economia processual).

Aula de dia 09 de Maio de 2017: O Princípio da Igualdade/Princípio


do Contraditório
1. O Princípio da Igualdade: A igualdade como princípio
processual
 Princípio da igualdade das partes (ou “igualdade de armas”):
 Tradução do princípio constitucional da igualdade no plano processual;
 Princípio fundamental do processo civil.

Duas conceções de igualdade processual (Igualdade Formal e Substancial):

a) Igualdade formal: identidade de meios, cominações e sanções processuais;


b) Igualdade substancial: além da igualdade formal, envolve a correção de
assimetrias extraprocessuais.

Exemplos de Igualdade Substancial:

 Convite ao aperfeiçoamento dos articulados (art. 590.º-4): não depende da


assimetria entre as partes;
 Redução ou dispensa de multa em caso de carência económica (art. 139.º-
8).

No que diz respeito à igualdade substancial, a doutrina maioritária rejeita a


intervenção assistencialista do juiz com base na neutralidade e equidistância do
julgador. Há outros mecanismos (como o apoio judiciário) que visam salvaguardar a
igualdade substancial.

Exemplos de Igualdade Formal:

Impõe tratamento diferenciado para situações distintas:

 O autor pode escolher o momento para propor a ação;


 O réu dispõe de um prazo para contestar, eventualmente prorrogável (art.
569.º)
 Diferente posição das partes no processo;

A posição do Ministério Público:

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 Antes da reforma de 95/96, as partes representadas pelo MP tinham um


estatuto processual próprio.
 Fundamento: organização interna do MP; circunstância de este não ser
livremente escolhido pela parte.
 Eliminadas, na sua maioria, na sequência da reforma.

Declarações de Parte:

 Meio de prova que se caracteriza pela prestação de declarações pela parte,


a seu pedido (art. 466.º).
 Uma das partes requer o seu depoimento na audiência inal. A outra parte
não se encontra presente. Quid iuris?

a) Prosseguir com a audiência e admitir o depoimento de parte;

b) interromper a audiência para que a outra parte também tenha a


possibilidade de depor

2. Princípio do Contraditório
 O princípio do contraditório visa conferir às partes a possibilidade de
inluenciar a decisão.
 Indissociável do direito de defesa nas dimensões de conhecimento do
processo e de audição prévia;

Conhecimento do Processo:

1. Modo de comunicar o processo ao requerido:


 Citação (ação declarativa e ação executiva);
 Notiicação (procedimento de injunção).
2. Conlito entre duas vertentes do processo equitativo: direito de defesa e
obtenção de decisão em prazo razoável.

Forma e conteúdo da notiicação (art. 12.º DL 269/98):

 Notiicação postal registada para a morada indicada pelo requerente;


 Notiicação postal simples para as moradas constantes de bases de dados
oiciais.
 Conteúdo da notiicação: entre outros, prazo de oposição e consequências
da falta de oposição

Limitação dos meios de defesa na Acção Executiva

 Art. 857.º: tendencial equiparação entre os meios de defesa na execução de


sentença e de requerimento de injunção com fórmula executória.
 A forma e conteúdo da notiicação é substancialmente distinta da citação.
 Será a notiicação postal simples um meio idóneo para assegurar a
cognoscibilidade do requerimento?
 A notiicação não deveria aludir expressamente à limitação dos meios de
defesa na ação executiva? O TC declarou inconstitucional o art. 857.º por
violação do direito de defesa.

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Audição Prévia:

1. Regra: audição prévia do réu (art. 3.º-2).

Fundamentos:

 Assegurar o exercício do contraditório em condições de igualdade com o


autor,
 Permitir uma decisão mais esclarecida e informada.

2. Dispensa da audição prévia (art. 3.º-2):


 Depende de previsão legal expressa (“casos excecionais previstos na
lei”);
 O contraditório é diferido (ocorre depois da decisão) e não suprimido.

Providências Cautelares:

Procedimento cautelar comum (art. 366.º-1):

 A audiência prévia do requerido é a regra;


 Pode ser dispensada para salvaguardar o im ou eicácia da providência ou
caso a citação pessoal não seja viável.
 Dispensa automática da audiência na restituição provisória da posse (378.º)
e no arresto (393.º-1).

Acção Executiva

1. Forma sumária:
 Regra: o executado não é citado antes da penhora (art. 855.º-3);
 O contraditório é diferido para depois da penhora (art. 856.º-1).
 Maior segurança dos títulos executivos abrangidos por esta forma
processual; valor reduzido da obrigação exequenda.

Factos

Contraditório Direito

Prova

É preciso ter em conta outros princípios processuais, como o dispositivo, a oralidade


e o conhecimento oicioso do direito.

Contraditório e razões de facto:

a) Momento e forma:
 Por escrito, na petição inicial e na contestação (arts. 552.º e 572.º);
 A resposta a exceções é, por regra, oral e tem lugar em audiência.

b) Fundamento: simpliicação do processo e prevalência da oralidade.

Contraditório e razões de direito:

a) Momento e forma:
 Por escrito, na petição inicial e na contestação (arts. 552.º e 572.º);
 Oralmente, na audiência inal (art. 604.º-3-e).

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b) As alegações de direito correspondem a um ónus das partes.

Princípio do conhecimento oicioso do direito: o juiz não está limitado pelas


alegações das partes em matéria de direito (art. 5.º-3).

c) Limites:
 Princípio dispositivo;
 O conhecimento da questão dependa da sua invocação pelas partes
(prescrição; anulabilidade).

A Proibição de Decisões Surpresa

 O juiz entende que o contrato é de depósito (e não de comodato, como


assumido pelas partes). Quid iuris?
 Art. 3.º-3: salvo manifesta desnecessidade, o juiz não pode decidir questões
de direito sem ouvir as partes.
 Conceção ampla: o contraditório impõe-se sempre que o juiz considere outra
qualiicação jurídica ou a aplicação de regra jurídica distinta.
 Conceção restrita: o contraditório impõe-se caso a alteração não seja
previsível de acordo com critérios de razoabilidade.
 Conceção ampla:
 Elemento literal do art. 3.º-3 (“salvo caso de manifesta desnecessidade”);
 Lógica de diálogo e cooperação entre as partes e o juiz subjacente ao
princípio do contraditório.
 O juiz deve promover o contraditório se considerar alterar a qualiicação
jurídica (depósito em vez de comodato).

Apontamentos Rosana:

Arigo Arigo Arigo


600.º 195.º 199.º
Casos em que o juiz não praicou determinado ato.

Em caso de exisir uma omissão – e nada a parte poder fazer, não poderá a parte recorrer
posteriormente.

Igualdade («Igualdade de armas», concreização do arigo 13.º da Consituição da Republica


Portuguesa).

1. Formal – igualdade de meios/mesmo «estatuto processual» - a doutrina considera que existe


essencialmente igualdade formal.
a. Quando o juiz intervém para assisir nos casos de carência económica, o juiz perde a
neutralidade e equidistância, na medida em que a doutrina maioritária considera que a
igualdade substancial só existe nos casos em que a lei estabeleça e não através da
aplicação de um principio geral.

A consideração do principio da igualdade substancial como um principio de aplicação geral levaria ao


confronto com outros princípios processuais, assim como se considera que não é relevante a existência
de uma formulação substancial deste principio, na medida em que a lei criou mecanismos desinados a
suprir certas inferioridades das partes, como o apoio judicial, que vista por si só salvaguardar a igualdade
substancial.

2. Substancial – correção de assimetrias extra-processuais (ex. carências económicas – arigo 139,


nº8).
a. Convite ao aperfeiçoamento dos ariculados:

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i. Poderá ser para corrigir assimetrias extra-processuais – arigo 590.º/4, ao


corrigir assimetrias no âmbito do princípio da cooperação, poderá ser um
caso de igualdade substancial.

A possibilidade de intervenção de «juízes assistencialistas» poderá levar ao surgimento de juízes


«jusiceiros», de tal como que poderá ser perigoso a introdução de tal subjeividade no processo.

Representação – obrigatória em processos de valor superior a 5000€.

Igualdade formal:

1. Ariculadores supervenientes – arigo 588.º - mesmo prazo.


2. Meios de prova – arigo 552.º + 572.º - mesmo prazo.

Tratamento diferenciado – situações disintas:

a) Autor – propõe a ação sem prazo – Iniciaiva processual.


b) Reu – 30 dias para contestar – Arigo 599.º.

Ministério publico

a) Antes de 2013, partes representadas pelo MP inham estatuto processual próprio – ónus de
impugnação – dispensava-se em tomar os factos como admiidos, estas regras foram eliminadas
com a alteração em 2013.

Declarações de parte – são as partes que pedem para prestar declarações.

Arigo 466.º no caso de uma parte requerer a «declaração de parte» e a outra parte não esiver
ressente: o juiz tem a possibilidade:

1. De prosseguir com o depoimento.


2. De interromper a audiência e remarcar audiência para outra que a outra parte também possa
depor.

PRINCIPIO DO CONTRADITÓRIO

● existe uma possibilidade de inluenciar a decisão;

● O principio do contraditório é indissociável do direito de defesa

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Forma e conteúdo da notiicação:

1. Notiicação postal registada (sempre com aviso de receção)


2. Notiicação via postal simples.

Artigo 857.º - Requerimento de injunção com formula executória.

Contraditório – Audiência previa do reu – artigo 3.º/3 – só pode ser dispensada


expressamente. Não sendo possível existir decisão sem audiência previa, ex.
Penhora, Restituição Provisória da Posse, Procedimento Cautelar Comum (caso
citação pessoal não seja eicaz).

O executado – não é citado antes da penhora (artigo 855.º/3).

Contraditório – Diferido para depois da penhora (artigo 865.º/1).

O principio do contraditório tem que ter em conta o principio do dispositivo e o


principio da oralidade.

Principio do contraditório

1. Factos
2. Direito
3. Prova

Factos – por escrito, na petição inicial e na contestação (artigo 552.º + artigo 572.º).
O reu defender-se-á por impugnação ou por exceção (invocando determinada
exceção).

Simpliicação – processo e prevalência de oralidade.

Replica – artigos 594.º e seguintes, nos casos de representação e no caso de Ação


de Simples Apreciação Negativa (provar que A não deve determinado valor).

Razões de direito – alegações de direito são escritas, as partes têm o ónus de alegar
de direito. «Juria Novit Curia» - o tribunal conhece de direito, juiz não esta sujeito às
alegações de direito (artigo 5.º/3).

Limites ao artigo 5.º/3:

PRINCIPIO DO DISPOSITIVO
(Matéria de facto, pedido)

Casos de prescirçao e anulabilidade - nestes casos a parte tem de invocar a prescirção e a


anulabilidade.

Decisões surpresa – O artigo 3.º, n.º3 estabelece a proibição de decisões surpresa –


ex. Juiz entende que o contrato é de comodato e não de dipositivo, de modo que

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deve promover o contraditório, caso não o faça, podemos obter uma decisão
surpresa.

Se o juiz decide alterar o enquadramento jurídico, deve promover o contraditório.


Neste âmbito há uma parte da doutrina que determina que nos casos em que
parece evidente, não seria necessário recorrer ao contraditório, contudo tal não
parece fazer sentido numa logica de cooperação e de dialogo entre as partes.

Em que casos podemos afastar o contraditório?

1. Casos em que não se coloque em casa os direitos ou interesses das partes,


onde seja manifesta a desnecessidade de recorrer ao contraditório (Artigo
3.º/3).

Aula de dia 15 de Maio de 2017: O Princípio da Persuasão racional


1. Introdução à atividade probatória
O Processo Civil visa, essencialmente, a resolução adjudicatória do litígio. A
determinação dos contornos do litígio pressupõe que se airam os factos que lhe
deram origem, e esses factos são, portanto, e necessariamente, factos passados. A
atividade probatória consiste na identiicação e análise dos vestígios que os factos
passados deixaram no mundo deles para inferir uma conclusão acerca da sua
ocorrência ou não ocorrência. Os meios pelos quais se analisam esses vestígios
chamam-se meios de prova:

i. Prova Testemunhal;
ii. Prova pericial ou prova por inspeção;
iii. Vestígio intencional- registo da ocorrência ou não ocorrência em algum
suporte durável-prova por documentos.

2. A apreciação da prova pelo julgador;


 Breve excurso histórico relativo à evolução da atividade probatória;
 Idade média e centralização do poder político: menos poder dos juízes;
 Tradução desta realidade na atividade probatória: a prova tarifada;
 Revoluções liberais e movimento de “democratização”;
 Tradução desta realidade na atividade probatória: julgamento por júri e
apreciação da prova totalmente livre;
 Posteriormente, chegou-se à conclusão de que esta forma de avaliar levava
a situações absurdas e assim se chegou ao atual modo de apreciação
probatória, mais equilibrado: o modelo da persuasão racional;

Atualmente, o modelo de persuasão racional tem uma consagração expressa na lei:


Artigo 607º/4:

“Na fundamentação da sentença, o juiz declara quais os factos que julga provados e
quais os que julga não provados, analisando criticamente as provas, indicando as
ilações tiradas dos factos instrumentais e especiicando os demais fundamentos
que foram decisivos para a sua convicção; o juiz toma ainda em consideração os
factos que estão admitidos por acordo, provados por documentos ou por conissão
reduzida a escrito, compatibilizando toda a matéria de facto adquirida e extraindo
dos factos apurados as presunções impostas pela lei ou por regras de
experiência”;

Vamos partir da análise deste artigo para compreender o processo de apreciação da


prova pelo julgador, nomeadamente pela análise da expressão “extraindo dos

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factos apurados as presunções impostas (...) por regras de experiência”, pois


nela se contém o essencial para compreender aquele processo.

Todo o processo de apreciação da prova pelo julgador assenta na lógica da


presunção. Em primeiro lugar, qual é a estrutura de uma presunção?

 Se se prova o facto-base da presunção, assume-se que ocorreu o facto


presumido;
 Excepto se não se provar que não ocorreu o facto presumido,
independentemente de ser provar o facto-base da presunção;
 Nas presunções previstas na lei, esta estabelece quais são os factos-base e
os factos presumidos.
 Nas presunções que ocorrem no âmbito da aplicação dos meios de prova
(presunções judiciais), os factos-base são os factos instrumentais e os
factos presumidos são os factos principais6.De

Dentro da categoria dos factos instrumentais podemos distinguir os factos


probatórios e os acessórios:

 Factos probatórios: são os factos diretamente relevados pelos meios de


prova;
 Factos acessórios: são os factos que atestam a verosimilhança da ocorrência
dos factos essenciais.

Como por exemplo:

 Facto Principal: A entregou X a B (necessário para veriicar o cumprimento


do contrato);
 Facto Probatório: o facto de uma testemunha referir ter visto A entregar X a
B;
 Facto acessórios: o facto de que a testemunha está próxima do
acontecimento (por exemplo, provado por uma fotograia), o facto de que o
depoimento foi coerente.

Conclusão: o que os meios de prova nos revelam diretamente não são os factos
essenciais/principais, mas antes e apenas os factos instrumentais; só
indiretamente, por meio de uma interferência, é que podemos concluir, ou não, dos
factos principais, logo, toda a prova é indireta.

Com que critério podemos airmar que os factos instrumentais, em particular os


probatórios, indiciam a ocorrência dos factos principais?

 Esse critério consiste nas máximas de experiência: estas são conhecimentos


da experiência de vida, da lógica, da regularidade ou da normalidade dos
acontecimentos que permitem airmar se certos factos ocorreram (factos-
base), então é provável que outros tenham ocorrido também (factos
presumidos).

Exemplos (Manual de Luís Pires de Sousa, prova por presunção no direito


civil)

1. Coerência do discurso, em si e em confronto com outros, indicia a sua


veracidade;

6 De acordo com José Lebre de Freitas (página 165 e 172): às partes, e só a elas cabe alegar os factos
principais da causa, isto é, os que integram a causa de pedir e os que fundam as excepções. A alegação
de uns e outros é feita nos ariculados. Por outro lado, os factos instrumentais são os factos que não
carecem de alegação e por isso são oiciosamente considerados na decisão de facto. Ponto é que
resultem da instrução da causa. Diversamente dos factos principais, não consituem condicionantes
diretas da decisão. A sua função é antes, a de permiir aingir a prova dos factos principais.

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2. Quanto maior for a improbabilidade dos factos probandos (eventuais factos


presumidos), em abstrato, maior será a necessidade de os factos-base
indiciarem fortemente a sua ocorrência para que se possa concluir por ela;
3. A prova do habitual modo de proceder de alguém indicia a improbabilidade
de um ato incoerente com esse modo de proceder;
4. A falta de necessidade para a prática de um ato indicia a existência de vícios
no consentimento para a prática desse ato;
5. A prova da destruição de um documento por quem poderia ser prejudicado
pela prova dos factos que esse documento poderia demonstrar indicia a
ocorrência desses factos;
6. O facto de um condutor percorrer todos os dias o mesmo percurso indicia
que ele conhecia bem os locais mais perigosos do mesmo;
7. A colaboração de alguém nalguma obra ou ato indicia o consentimento na
sua realização;
8. Se alguém que está em cadeira de rodas dá o seu cartão bancário e
respetivo código a certa pessoa e esta alega que lhe fez uma doação
avultada, tal indicia falta de consentimento na mesma, pois para fazer uma
doação avultada existem meios mais adequados.

O recurso, devidamente justiicado e explicitado (607.º-4), às regras da experiência


é o que garante a correta apreciação da prova e é nisso que se concretiza o traço
distintivo do modelo probatório da persuasão racional (o princípio caracteriza o
modelo probatório atual), que visa contribuir para a objetividade na apreciação da
prova e garante a possibilidade prática de recurso sobre decisões de facto.

3. Imediação da apreciação da prova;

A imediação da prova segundo as regras da experiência procura assegurar uma


decisão sobre a matéria do facto que se aproxime o mais possível da realidade
(além de ter o objetivo de explicitar e permitir o recurso-sindicabilidade- desta
decisão).

 Contudo, a apreciação da prova segundo as regras de experiência não é a


única forma de contribuir para aquele objetivo;
 Outra forma de contribuir para ele é procurar que o julgador esteja na
melhor posição possível para apreciar os meios de prova, ou seja, o mais
próximo possível deles para os analisar de forma o mais completa e precisa
possível; Nisso consiste o princípio da imediação na apreciação da prova.

Este princípio traduz-se nas seguintes regras:

1. Produção de prova e discussão de facto (e de direito) perante o mesmo juiz


que irá decidir acerca da ocorrência dos factos (art. 605.º);
2. Realização dos atos de produção de prova, discussão de facto (e de direito) e
julgamento num curto intervalo temporal entre eles, tendo lugar, os dois
primeiros, na audiência inal (art. 604.º-3 e 4), que deve ser contínua (art.
606.º), e o terceiro no prazo de 30 dias desde o encerramento de tal
audiência (art. 607.º-1);
3. Regras que podem ser uniicadas na ideia de que os meios de prova que
possam ser apresentados sob a forma de depoimento oral o sejam
realmente, perante o julgador (cfr., por exemplo, os arts 452.º-1, 466.º-2, 2.ª
parte, 486.º-1 e 526.º, n. º1). Especialmente relevante a este respeito é a
regra constante do art. 461.º-2, respeitante à prova por conissão, mas
aplicável ex vi arts. 466.º-2, 2.ª parte e 516.º-7 à prova por declarações de
parte e à prova testemunhal respetivamente, que determina a proibição de o
depoente levar o depoimento escrito e se limitar a lê-lo.

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Há a necessidade de compatibilizar este princípio com outros, como a economia


processual ou mesmo com a necessidade de análise de maior quantidade de
provas.

4. Medida da prova e falta de prova (ónus da prova)


Vimos que a atividade probatória consiste na análise dos vestígios que os factos
passados deixaram no mundo para poder aferir da sua ocorrência ou não
ocorrência, num raciocínio de estrutura presuntiva. Assim sendo, este raciocínio
baseado em indícios ou vestígios nunca pode levar a uma conclusão absolutamente
certa, mas apenas a uma conclusão provável. Mas pode acontecer que essa
conclusão seja altamente provável, quando os indícios são muito fortes, ou pouco
provável, quando os indícios são fracos. Por isso, terá sentido graduar a
probabilidade com que podemos airmar a conclusão: a essa graduação chamamos
de medida de prova, mas também são usadas as expressões graus de prova e
standard de prova.

 Dadas as várias medidas da prova, qual deve ser à medida que deve estar
atingida para que se possa decidir com base na ocorrência de certo facto?
Com que critério devemos decidir qual é a medida aplicável?
 Critério: diferença entre a gravidade de uma decisão condenatória (factos
principais considerados provados) e de uma decisão absolutória (factos
principais não considerados provados) se assumirmos que houve erro na
apreciação da prova (“erro judicial”), pois não podemos excluir essa
hipótese;

Quanto maior for essa diferença, maior deve ser a medida da prova para
assim se minimizar a probabilidade de erro judicial.

Vimos que o juiz ao começar a apreciar as provas, encontra-se no ponto de


ignorância. Mas deve o juiz decidir se, mesmo após a apreciação das provas
continuar no pronto de ignorância? É neste âmbito, e apenas neste âmbito, é
relevante o ónus da prova, enquanto critérios de decisão na dúvida sobre a
ocorrência de um facto. Funcionamento do ónus da prova: na dúvida deve decidir-se
como se tivesse ocorrido a versão factual (positiva/negativa) desfavorável à parte
que suporta o ónus da prova. Assim, o problema fundamental para compreender o
funcionamento deste critério de decisão é o de determinar a distribuição do ónus da
prova, ou seja, o problema de saber qual das partes deve suportar o OP de que
versão factual. O Critério legal de distribuição do ónus da prova e da alegação
consta do artigo 342º:

 Cabe ao autor o ónus a prova dos factos constitutivos do direito do autor;


 Cabe ao réu o ónus da prova dos factos impeditivos, modiicativos, extintivos
do direito do autor;
 Os factos constitutivos, impeditivos, modiicativos e extintivos foram o
conjunto dos factos principais/essenciais;
 Este é o critério regra, de origem alemã (teoria das normas de Leo
Rosenberg), usado em vários ordenamentos de civil law:

Segundo este critério a qualiicação dos factos depende da forma como as normas
estão escritas, ou seja, da forma como as normas, na sua literalidade, apresentam
os factos como constitutivos ou impeditivos.

Exempla do funcionamento da teoria das normas – art. 509.º, n.º1 do C.C.:

“Aquele que tiver a direcção efetiva de instalação destinada à condução ou


entrega da energia elétrica ou do gás (...) responde pelo prejuízo que derive da
condução ou entrega da eletricidade ou do gás (...) excepto se ao tempo do
acidente esta estiver de acordo com as regras técnicas em vigor (...)”;

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 Elementos literais que, em regra, prenunciam a indicação de factos


constitutivos: “aquele que”, “sempre que”, “desde que”, “apenas se”, e
outras de signiicado equivalente;
 Elementos literais que, em regra, prenunciam a indicação de factos
impeditivos: «a não ser que», «isto não vale se», «exceto se», «salvo se»,
«este preceito não se aplica quando», e outras de signiicado equivalente.

A aplicação do critério da teoria das normas apresenta vários problemas:

 Primeiro porque a identiicação de que factos são constitutivos, impeditivos,


modiicativos ou extintivos:
 Nem sempre é praticável – critérios de decisão sem base textual ixa, sem
que estejam consagrados em regras com previsão e estatuição deinidas
(exs.: abuso de direito, garantia bancária autónoma e cláusulas gerais);
 Nem sempre é coerente – o mesmo facto pode ser considerado como
constitutivo ou como impeditivo (ex.: os factos que consubstanciam a
nulidade de um contrato (ex.: falta de forma) podem ser impeditivos numa
ação em que se peça o cumprimento do contrato e podem ser constitutivos
numa ação em que se peça a declaração de nulidade);

Possível solução – procurar na compreensão dos vários institutos do direito material


a solução para a correta qualiicação dos factos como constitutivos ou como
impeditivos; Problema: o direito material não tem em conta os problemas relativos à
prova, que são os que interessam a propósito do OP.

Depois porque aquele critério é completamente formal, não visa atingir qualquer
inalidade materialmente valiosa ou justa, pois não é possível encontrar, na forma
como as normas estão redigidas ou no direito material, qualquer preocupação
relativa à distribuição do OP – este é o problema essencial.

Exemplo - art. 509.º, n. º1 do C.C.:

Aquele que tiver a direcção efetiva de instalação destinada à condução ou entrega


da energia elétrica ou do gás (...) responde pelo prejuízo que derive da condução ou
entrega da eletricidade ou do gás (...) excepto se ao tempo do acidente esta estiver
de acordo com as regras técnicas em vigor (...)

Mudando a redação da norma, “transformamos” um facto impeditivo num facto


constitutivo:

Aquele que tiver a direcção efetiva de instalação destinada à condução ou entrega


da energia elétrica ou do gás e que esteja, ao tempo do acidente, em
desconformidade com as regras técnicas em vigor, responde pelo prejuízo que
derive da condução ou entrega da eletricidade ou do gás.

Um critério alternativo à teoria das normas para a distribuição do OP: a


distribuição dinâmica do OP.

 O conceito (numa primeira abordagem):

Possibilidade de o juiz atribuir o ónus da prova à parte com maior facilidade relativa
de provar a versão dos factos que a favorece.

A origem (e as utilizações posteriores):

 Esta ideia esteve “latente” em vários autores (ex.: Jeremy Bentham);


 Tal como como a conhecemos hoje é atribuída a Jorge Peyrano (1981);
 Tem sido aplicada pela jurisprudência argentina, brasileira e espanhola e tem
atualmente consagração legal expressa em Espanha (art. 217.º n.º 7 da LEC)
e no novo CPC brasileiro.

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Modo de aplicação da distribuição dinâmica do OP: como identiicar qual a parte


que apresenta maior facilidade probatória? Existem alguns critérios que a indiciam:

1. A proximidade e o controlo dos factos;


2. Os conhecimentos técnicos e o exercício de uma atividade enquanto
proissional;
3. O acesso aos meios de prova.

 A veriicação destes critérios não implica que a parte onerada apresente


efetivamente maior facilidade probatória;
 O juiz deve ouvir as partes antes de decidir (na audiência prévia).

Exemplo da aplicação da distribuição dinâmica do OP:

 Prova de que o devedor e o terceiro (não) agiram de má fé, nos casos de


impugnação pauliana de ato oneroso:

Art. 612.º do CC: “O acto oneroso só está sujeito à impugnação pauliana se o


devedor e o terceiro tiverem agido de má fé”.

1. Teoria das normas: A má fé é apresentada como um facto constitutivo do


direito à impugnação pauliana – é o interessado na impugnação que tem o
ónus de provar a má fé do devedor e do terceiro.
2. Distribuição dinâmica: O devedor (e o terceiro) tem o controlo do facto:
praticou o ato que se visa impugnar – ele tem o ónus de provar que não agiu
de má fé.

Outro exemplo:

Prova de que a intervenção médica (não) foi efetuada de acordo com as boas
práticas médicas em casos de negligência médica (responsabilidade contratual;
obrigação de meios);

1. Teoria das normas: Art. 798.º do CC: “o devedor que falta culposamente ao
cumprimento da obrigação torna-se responsável pelo prejuízo que causa ao
credor” – o incumprimento apresenta-se como facto constitutivo, logo o
paciente suporta o ónus da prova de que a intervenção não respeitou as
boas práticas;
2. Distribuição dinâmica: o médico tem o controlo do facto que se visa provar;
o médico praticou esse facto enquanto proissional – o médico suporta o
ónus da prova de que a intervenção respeitou as boas práticas;

Vantagens da distribuição dinâmica (valores que ela promove):

 A procura verdade material (maior probabilidade de se provarem os factos e


de, na dúvida sobre a sua ocorrência, a decisão corresponder à verdade);
 Igualdade entre as partes (uma tem mais facilidade em provar, mas a outra
não suporta o ónus da prova);
 Economia processual.

Limitações:

Implica a existência e a identiicabilidade de um desequilibro nas capacidades


probatórias das partes, o que nem sempre se veriica.

5. Restrições à persuasão racional;


A atividade probatória encontra-se genericamente regulada pelo modelo da
persuasão racional, avaliando-se as provas de acordo com as regras da experiência
relevantes no caso concreto, sendo estas determinadas e aplicadas pelo julgador;

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Contudo, existem ainda alguns casos em que se podem ter em conta na decisão do
processo factos que não foram provados segundo o modelo da persuasão racional;

A primeira situação em que tal acontece corresponde a alguns casos de prova


tarifada (também chamada prova legal, pois o seu valor probatório está previsto na
lei) que ainda subsistem na legislação atual;

 Trata-se de casos em que a lei estabelece previamente quais os “factos


presumidos” que se devem considerar provados se se veriicarem certos
“factos-base”, também estes previstos na lei; nalguns desses casos a lei
admite prova em contrário (prova plena) e noutros não (prova pleníssima); a
sua justiicação é ainda as regras da experiência, mas determinadas pelo
legislador;

Exemplos:

 Admissão por acordo (prova pleníssima), art. 574.º, n. º2 - justiicada pela


regra de experiência de que se duas partes em litígio estão de acordo sobre
a ocorrência de um facto, ele corresponderá à verdade;
 Documentos autênticos e documentos particulares com assinatura
reconhecida (prova plena), arts. 371.º, 372.º e 375.º e 376.º do CC –
justiicada pela autoridade pública reconhecida à entidade documentadora
ou que reconhece as assinaturas;
 Todos os casos de presunções legais ilidíveis (prova plena) – justiicada pelas
regras da experiência.

O outro caso em que se podem ter em conta na decisão do processo factos que
não foram provados segundo o modelo da persuasão racional é o dos chamados
factos notórios (412.º, n. º1);

Os factos notórios são os factos do conhecimento geral, cuja ocorrência seja


indiscutível;

O facto de serem do conhecimento geral não signiica necessariamente que sejam


do conhecimento de toda a gente: podem ser apenas do conhecimento de certo
grupo de pessoas (por exemplo, os habitantes de certa localidade), desde que esse
grupo inclua as partes e o juiz;

Exemplos: a distância entre duas localidades, a ocorrência de um evento


meteorológico fora do comum (cheias, trovoada forte), etc.

6. Limites à apreciação probatória.


A apreciação da prova segundo o modelo da persuasão racional tem limites, dado
que os valores que este visa proteger não podem justiicar a apreciação de meios
de prova obtidos de forma ilícita (ex.: apresentação de documentos furtados,
testemunha ameaçada para depor em certo sentido, apresentação de um vídeo que
viole a intimidade da vida privada);

Trata-se de uma matéria muito estudada no âmbito do processo penal, onde o CPP a
regula expressamente (arts. 125.º e 126.º do CPP), tal como a CRP (art. 32.º, n. º8);

No processo civil não há regras diretamente aplicáveis que regulem esta questão,
pelo que se considera ser aplicável, por analogia, o regime do art. 32.º, n. º8 da CPR
à obtenção de provas no processo civil (Isabel Alexandre, Provas Ilícitas em
Processo Civil):

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“São nulas todas as provas obtidas mediante tortura, coação, ofensa da integridade
física ou moral da pessoa, abusiva intromissão na vida privada, no domicílio, na
correspondência ou nas telecomunicações.”

De acordo com JOSÉ LEBRE DE FREITAS7, o julgador da matéria de facto deve ter o
contacto mais direto possível com as pessoas ou coisas que servem como fontes de
prova e estas, por sua vez, devem estar na relação mais direta possível com os
factos a provar. O primeiro enunciado postula que os atos de produção de prova
constituenda tenham lugar perante o tribunal ao qual compete apreciar a prova e
pronunciar-se, consequentemente, sobre os factos provados e não provados (artigos
607º números 3 e 4º), só se excetuando os casos em que a produção de prova deva
ter lugar em tribunal diferente do da causa por via de expedição de carta precatória
ou rogatória, aqueles em que haja lugar à produção antecipada de depoimento
perante juiz diverso do da causa (artigos 419º/420º nº2) e ainda aqueles em que a
natureza do meio probatório implique que a produção tenha lugar antes da
audiência, como é o caso da prova pericial. O segundo enunciado postula que,
quando esteja disponível uma fonte de prova que implique menos ilações no iter
probatório, a ela se deve recorrer, em vez de a uma outra mais distante do facto
fundamental a provar.

Princípios instrumentais relativamente ao princípio da imediação são os da


oralidade e da concentração. O primeiro implica que a produção dos meios de prova
pessoal tenha lugar oralmente, perante os julgadores da matéria de facto, sem
prejuízo da sua gravação em registo adequado, para efeito de reprodução, sempre
que necessário, em primeira instância e no tribunal da relação. O segundo implica
que os atos de discussão e de instrução se façam seguidamente, com o menos
intervalo de tempo entre eles.

No que concerne à livre apreciação da prova, o princípio da livre apreciação da


prova signiica que o julgador deve decidir sobre a matéria de facto da causa
segundo a sua íntima convicção, formada no confronto com os vários meios de
prova. Compreende-se como este princípio se situa na linha lógica dos anteriores: é
porque há imediação, oralidade e concentração que ao julgador cabe, depois da
prova produzida, tirar as suas conclusões, em conformidade com as impressões
recém colhidas e com a convicção que através delas se foi gerando no seu espírito,
de acordo com as máximas da experiência aplicáveis. Estão, de acordo com essa
regra, sempre sujeitas à livre apreciação do julgador a prova testemunhal, a prova
por inspeção, a prova pericial, a prova por declarações de parte, a prova decorrente
da conduta da parte.

 Tem, pelo contrário, valor probatório ixado na lei os documentos escritos


autênticos ou particulares, e a conissão escrita, seja feita em juízo, seja
feita em documento autêntico ou particular, mas neste caso só quando
dirigida à parte contrária ou a quem a represente, mas, quer o documento,
quer a conissão, que não reúnam os requisitos exigidos para ter força
probatória legal icam sujeitos à regra da livre apreciação. Valor probatório
ixado por lei têm também as presunções legais (350ºCC) e a admissão.
 Em regra, a prova legal pode ser contrariada por meio de prova de que
resulte ser falso o objeto da prova, pelo que dela resulta então apenas a
inversão do ónus da prova, que passa a caber à parte que inicialmente não
estava onerada (344ºCC), ainda que, em determinados casos, só veriicados
outros requisitos legais. A prova diz-se plena. Mas o valor legal do meio de
prova é, em certos casos insuscetível de ser destruído. A prova diz-se então
pleníssima. É assim a admissão e pode sê-lo, nos casos em que a lei indique,
a presunção legal strictu sensu, dita então inilidível.

7 José Lebre de Freitas: Introdução ao Processo Civil (Páginas 193 a 201)

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 Em outros casos, a lei estabelece que a simples dúvida do julgador sobre a


realidade do facto, em princípio provado por imposição legal, é suiciente
para que cesse o valor probatório por ela ixado. A prova é então bastante.
Quer para a ilisão da força probatória legal plena, quer para a criação do
estado de dúvida no julgador, está de novo aberto o recurso a qualquer meio
de prova e também aos que estão sujeitos a livre apreciação judicial.
 Outro tipo de excepção ao princípio da livre apreciação da prova é
constituído pela imposição legal, direta ou indireta, de que a prova de
determinado facto se faça por certo meio probatório, normalmente
documental. A imposição é direta quando a lei exige o meio apenas para a
prova do facto: documento ad probationem de declaração negocial, aliás,
substituível por conissão em documento de igual ou valor superior ao
probatório, a conissão de não pagamento de dívida depois de decorrido o
prazo de prescrição presuntiva; é indireta quando a lei exige um documento,
autêntico ou particular, como forma de declaração negocial, o que implica o
ónus de conservação do documento e a sua apresentação pata a prova
dessa declaração, com consequente afastamento de outros meios de prova.
 A distinção entre meio de prova legal e meio de prova sujeito à livre
apreciação do julgador (meio de prova livre) pode levar a uma repartição de
funções entre o juiz ou o coletivo de juízes que julga a matéria de facto e o
juiz que profere a sentença. A este cabe então conhecer dos meios de prova
legal; àquele caberá conhecer apenas dos meios de prova livre. Esta nova
alteração ao CPC deslocou o julgamento de facto (baseado na convicção do
julgador) para a sentença e nesta passaram a ser apurados pelo juiz singular
todos os factos da causa, quer os provados através de meios de prova livre,
quer os provados por meio de prova legal.

No âmbito da livre apreciação da prova, não é exigível que a convicção do julgador


sobre a realidade dos factos equivalha a uma absoluta certeza, raramente atingível
pelo conhecimento humano. Basta assentar-lhe num juízo de suiciente
probabilidade ou verosimilhança, que o necessário recurso às presunções judiciais
por natureza implica, mas não dispensa a máxima investigação para atingir, nesse
juízo, o máximo de segurança. Quando no espírito do julgador, em vez da
convicção, se forma dúvida sobre a realidade dos factos a provar, nomeadamente
como resultado do confronto entre a prova produzida pela parte onerada com o
respetivo ónus e a contraprova produzida pela parte contrária (346ºCC), o facto não
pode ser dado como provado, em prejuízo da parte onerada, ou, na dúvida sobre a
determinação desta, em prejuízo da parte a quem o facto aprovaria (414º CPC).

Apontamentos Rosana:

Continuação do principio da cooperação por professor Micael Teixeira.

PRINCIPIO DA PERSUASÃO RACIONAL por Micael Teixeira – paginas 193 e seguintes


Introdução ao Processo Civil, José Lebre de Freitas.
Meios de prova: Prova por testemunhas, prova por perícias, prova por inspeção,
prova por documentos.

Atividade probatória:
1. A apreciação da prova pelo julgador.

O principio da persuasão racional é o principio que rege a apreciação da prova.


Todo o processo de apreciação da prova assenta numa certeza, numa logica de
presunção (a partir de um facto conhecido, airmamos um facto desconhecido).

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Logica da presunção – tem de se provar o facto-base da presunção, de modo que se


assume que ocorreu o facto presumido. A presunção é ilidível, caso não se prove a
veriicação do facto presumido.

Presunções:
1. Legais (presunções previstas na lei, na medida em que a lei estabelece quais
são os factos-base e os factos presumidos.
2. Judiciais – presunções que ocorrem no âmbito da apreciação dos meios de
prova, os factos-base são os factos instrumentais e s factos presumidos são
os factos principais.

Deinição dos factos instrumentais:


1. Factos probatórios – são diretamente revelados pelos meios de prova – facto
da declaração de uma testemunha que diz que A, matou B;
2. Factos acessórios – são os factos que atestam a verosimilhança dos factos
essenciais – a testemunha estava próxima do acontecimento, o arguido era
violente e tinha uma motivação, tudo isto são factos, que têm de ser
revelados por meios de prova e dão força à inferência dos factos probatórios
e essenciais.

Os meios de prova revelam diretamente os factos instrumentais, e só


indiretamente e por inferência, podemos concluir pela ocorrência ou não, dos factos
principais – de modo que a prova é indireta (o professor Micael considera que
toda a prova é indireta).

Regras ou máximas de experiencia – tratam-se de conhecimentos da experiencia,


da vida, da logica, da normalidade ou regularidade – que permitem airmar certos
factos ocorreram (factos-base), então é provável que outros tenham ocorrido
também (factos presumidos).

1. Coerência do discurso indicia a sua veracidade;


2. A falta de necessidade para a pratica de um ato indicia a existência de vícios
no consentimento para a pratica desse ato;
3. A prova de um documento por quem poderia ser prejudicado pela prova dos
factos que esse documento poderia demonstrar indicia a ocorrência desses
factos;
4. A colaboração de alguém nalguma obra ou ato, indicia o consentimento
dessa pessoa na realização desse ato.

A explicitação por parte do juiz, de quais foram as regras de experiencia que


utilizou, é o que permite ao juiz comprovar que esta a analisar de forma critica os
meios de prova. É nisto que se concretiza o traço distintivo do modelo probatório da
persuasão racional (o principio caracteriza o modelo probatório atual, que visa
contribuir para a objetividade na apreciação da prova e garante a possibilidade de
recurso sobre decisões de facto.

Imediação da apreciação da prova:


A apreciação da prova segundo regras de experiencia não é a única forma de
contribuir para aquele objetivo. O julgador deve procurar estar na melhor posição
para a apreciação dos meios de prova, estando o mais próximo possível dos meios
de apreciação de prova – que se traduz:
1. A produção de prova e discussão de facto deve ser realizada perante o
mesmo juiz que irá decidir acerca da ocorrência dos factos (artigo 605.º).
2. Realização dos atos de produção de prova, discussão de facto e julgamento
num curso intervalo temporal entre eles (Artigo 604.º, n.º 3 e 4) que deve
ser continua (artigo 606º) e o terceiro no prazo de 30 dias (Artigo 607.º).

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3. Os meios de prova possam ser apresentados sob a forma de depoimento oral


e serem realmente perante o julgador (o juiz está mais próximo da fonte das
declarações).

Entre os 90% e os 100% - prova para lá de toda a duvida razoável.


Entre os 75% e os 90% - prova clara e convincente.
Entre os 50% e os 90% - in dúbio pro reo

Ónus da prova – artigo 342.º do Código Civil, cabe ao autor o ónus da prova dos
factos constitutivos do direito do autor. Cabendo ao reu o ónus dos factos
impeditivos, modiicativos e extintivos do direito do autor – que formam o conjunto
dos factos essenciais/principais.

Teoria das normas – autor alemão.

Ónus da prova é atribuído à parte que tem maior facilidade em provar os factos.

Aula de dia 16 de Maio de 2017: o princípio da transparência do


processo e das decisões
De acordo com JORGE MORAIS CARVALHO, o princípio da transparência do processo
e das decisões subdivide-se em dois subprincípios muito importantes:

1. Princípio da
Publicidade
Princípio da
transparência do
processo e das decisões
2. Princípio da
fundamentação das
decisões

1. Princípio da Publicidade

O subprincípio da publicidade, posteriormente, ramiica-se em três vetores distintos:


Publicidade da audiência; Acesso ao Processo e Publicidade das decisões inais. Este
subprincípio deve articular-se com o artigo 206º da Constituição da República
Portuguesa: «As audiências dos tribunais são públicas, salvo quando o próprio
tribunal decidir o contrário, em despacho fundamentado, para salvaguarda da
dignidade das pessoas e da moral pública ou para garantir o seu normal
funcionamento».

Artigo 6º/1 da Convenção da Convenção Europeia dos Direitos do Homem:


«Qualquer pessoa tem direito a que a sua causa seja examinada, equitativa e
publicamente [...]. O julgamento deve ser público, mas o acesso à sala de
audiências pode ser proibido à imprensa ou ao público durante a totalidade ou parte
do processo, quando a bem da moralidade, da ordem pública ou da segurança
nacional numa sociedade democrática, quando os interesses de menores ou a
proteção da vida privada das partes no processo o exigirem, ou, na medida julgada
estritamente necessária pelo tribunal, quando, em circunstâncias especiais, a
publicidade pudesse ser prejudicial para os interesses da justiça»

O Princípio da publicidade é um princípio fundamental que permite o controlo social


do tribunal e do processo que conduziu a essa decisão evitando decisões arbitrárias

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ou injustas, procurando assegurar a transparência da justiça em geral e de cada


julgamento em particular, permitindo reforçar a legitimidade democrática de que se
revestem as decisões judiciais, contribuindo para a salvaguarda do princípio da
imparcialidade. Para além disso, este princípio releva bastante para o cabal
conhecimento do direito pela sociedade, assegurando a certeza e a uniformidade
jurídicas, e tendo uma crescente importância no avanço da ciência do direito.

a) Publicidade do Processo (163º do CPC)


1. “O processo civil é público, salvas as restrições previstas na lei”;
2. “A publicidade do processo implica o direito de exame e consulta dos autor
na secretaria e de obtenção de cópias ou de certidões que quaisquer peças
nele incorporadas, pelas partes, por qualquer pessoa capaz de exercer o
mandato judicial ou, por quem nisso revele interesse atendível (nº2).

No entanto, o subprincípio da publicidade consagra algumas limitações à


publicidade do processo, como constantes do artigo 164º do CPC:

1. “o acesso aos autos é limitado nos casos em que a divulgação do seu


conteúdo possa causar dano à dignidade das pessoas, à intimidade da vida
privada ou familiar ou à moral pública, ou por em causa a eicácia da decisão
a proferir”

b) Publicidade da audiência (Artigo 606º do CPC)


1. “A audiência inal é pública salvo quando o juiz decidir o contrário, em
despacho fundamentado, para salvaguarda da dignidade das pessoas e da
moral pública, ou para garantir o seu normal funcionamento (nº1)”
 Os jornalistas podem assistir e ilmar ou gravar em icheiro áudio;
 Articulação deste artigo do CPC com o do Direito à imagem, consagrado
no artigo 79º/2 do CC: “não é necessário o consentimento da pessoa
retratada quando (…) a reprodução da imagem vier enquadrada na de
lugares públicos, ou na de factos de interesse público ou que hajam
decorrido publicamente”

No que concerne à publicidade da decisão inal, segundo a jurisprudência do


Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, esta reveste caráter absoluto. Considera-
se suiciente o depósito da sentença, para que ique acessível ao público, não sendo
necessária a sua leitura pública. A importância da publicação da sentença na
internet, em Portugal no website da DGSI, revelando-se adequada a não divulgação
dos dados pessoais das partes e outros envolvidos, com vista a garantir o equilíbrio
dos interesses em questão, tendo em conta a protecção da intimidade da vida
privada e familiar (artigo 26º da CRP)

Arbitragem
E este princípio (30º/5) da LAV: “Os árbitros, as partes e, se for o caso, as entidades
que promovam, com carácter institucionalizado, a realização de arbitragens
voluntárias, têm o dever de guardar sigilo sobre todas as informações que
obtenham e documentos de que tomem conhecimento através do processo arbitral,
sem prejuízo do direito de as partes tornarem públicos os atos processuais
necessários à defesa dos seus direitos e do dever de comunicação ou revelação de
atos do processo às autoridades competentes, que seja imposto por lei”

No entanto, tal “não impede a publicação de sentenças e outras decisões do


tribunal arbitral, expurgadas de elementos de identiicação das partes, salvo se
qualquer destas a isso se opuser” (art. 30.º-6 da LAV)

2. Princípio da fundamentação das decisões

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 Artigo 205º/1 das CRP: “As Decisões dos tribunais que não sejam de mero
expediente são fundamentadas na forma prevista na lei”
 A protecção das partes contra o arbítrio do juiz e no sentido do controlo da
decisão, incluindo quando admitido, o recurso, enquanto meio de pôr em
causa a decisão junto de um tribunal hierarquicamente superior;
 Prestígio da oferta da justiça, escrutinada pelo poder público e pela opinião
pública, legitimando o poder judicial.

O princípio da fundamentação das decisões é um princípio transversal a todos os


tribunais estaduais, tendo apenas um papel mais signiicativo em no processo penal
e no processo administrativo. A sentença proferida nos julgados de paz deve conter
apenas uma sucinta fundamentação, de acordo com o artigo 60º-I-c) da LJP, e de
acordo com o regime da AECOP: A sentença deve ser sucintamente fundamentada,
de acordo com o artigo (4º/7º).

Relativamente ao código de processo civil:

 Artigo 154/1º: “As decisões proferidas sobre qualquer pedido controvertido


ou sobre alguma dúvida suscitada no processo são sempre fundamentadas”
 Artigo 154º/2º: “A justiicação não pode consistir na simples adesão aos
fundamentos alegados no requerimento ou na oposição, salvo quando,
tratando-se de despacho interlocutório, a contraparte não tenha
apresentado oposição ao pedido e o caso seja de manifesta simplicidade.”
 “Nos casos de revelia, pode “se a resolução da causa revestir manifesta
simplicidade, a sentença (…) limitar-se-à parte decisória, precedida da
necessária identiicação das partes e da fundamentação sumária do julgado
(567º/3)”

Relativamente ao Processo Arbitral:

 Artigo 42º/3 da LAV: “a sentença deve ser fundamentada, salvo se as partes


tiverem dispensado tal exigência (…)”
 Será este preceito conforme à CRP, questiona Jorge Morais Carvalho?

De acordo com José Lebre de Freitas8, o dever de fundamentação das decisões


decorre diretamente do artigo 205º/1 da Constituição da República Portuguesa. Em
decorrência do preceito constitucional, a fundamentação nunca pode, em primeiro
lugar, ser dispensada na sentença, tanto na parte que constitui a decisão sobre a
matéria de facto, quer na parte em que julga de direito, aplicando as normas
jurídicas aos factos nela própria julgados provados. Ao declarar os factos que julga
provados e os que julga não provados, o julgador deve analisar criticamente as
provas e especiicar motivadamente as que considera decisivas para a sua
convicção, formada normalmente por ilações retiradas de factos instrumentais. E as
que têm valor probatório ixado por lei (607º/3/4). Na aplicação do direito aos factos
assim provados, o julgador deve indicar, interpretar e aplicar as normas jurídicas
(607º3). Há assim lugar a uma dupla fundamentação, a de facto e a de direito. A
falta de fundamentação da decisão de facto pode, em caso de recurso, dar lugar à
baixa do processo á primeira instância para o efeito de a obter (662º/1/d). Mas, em
segundo lugar, o preceito constitucional vai mais longe, estendendo-se a qualquer
decisão duma controvérsia ou dúvida levantada (154º/1).

No que diz respeito ao princípio da publicidade, e de acordo com o artigo 206º da


CRP, repetido no artigo 606º/1 CPC, as audiências dos tribunais são públicas. A
exigência consta igualmente do artigo 10º da Declaração Universal dos Direitos do
Homem e do artigo 6º da Convenção Europeia dos Direitos do homem.

8 José Lebre de Freitas: Introdução ao Processo Civil (Páginas 141-144)

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 Pela publicidade realiza-se a transparência da função jurisdicional, a im de


evitar o arbítrio do secretismo e permitir o controlo público da boa
administração da justiça. Razões particulares do caso concreto podem,
porém, permitir algumas excepções:
a. O tribunal pode afastar a publicidade da audiência, desde que o faça
fundamentadamente e para salvaguarda da dignidade das pessoas e da
moral pública ou para garantir o seu normal funcionamento.

Estas excepções, consagradas na constituição e repetidas na lei ordinária,


conformam-se com o artigo 6º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, mas
o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e a doutrina têm entendido que só são
admitidas quanto à discussão e instrução da causa, mas não quanto á pronúncia e
do julgamento, cuja publicidade revesta caráter absoluto.

O princípio da publicidade manifesta-se ainda no direito de acesso ao processo, isto


é, de o examinar e consultar na secretaria e de obter cópias ou certidões de
quaisquer peças nele incorporadas, direito esse que o artigo 163º/2, concede, para
além das partes, a qualquer pessoa capaz de exercer o mandato judicial e a quem
revele interesse atendível. Embora sem consagração constitucional, esta derivação
do princípio da publicidade obedece à mesma ideia de transparência na função
jurisdicional.

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