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A vida de Platão de Atenas


Debra Nails

Platão morreu no primeiro ano da centésima será escrito nas listas tribais – nasceu em
oitava Olimpíada, no décimo terceiro ano 424/3, quarto filho de Aríston de Colito, fi-
do reinado de Filipe da Macedônia – 347 lho de Arístocles, e de Perictione, filha de
a.C. pela contagem contemporânea – e foi Gláucon; Aríston e Perictione haviam se
enterrado na Academia.1 A reputação do fi- casado em 432. Deixando de lado origens
lósofo era tão venerável e tão difundida que divinas remotas, ambos os pais tinham as-
uma mitologia foi inevitável e prolongada: cendentes que os ligavam aos arcontes ate-
Platão teve como genitor Apolo e nasceu da nienses dos séculos sétimo e sexto e, no
virgem Perictione; nasceu no sétimo dia do caso de Perictione, a parentesco com Sólon,
mês de Targelião, no dia de aniversário de o sábio legislador (Ti. 20e1). Aríston e sua
Apolo, e as abelhas do Monte Himeto pu- jovem família provavelmente estavam entre
seram mel na boca no bebê recém­‑nascido. os primeiros colonizadores de Egina que
Platônicos na Renascença celebravam o mantinham a cidadania ateniense, quando
nascimento de Platão em 7 de novembro, Atenas expulsou os nativos de Egina em 431
no mesmo dia em que sua morte era lem- (Tucídides 2.27). Quando Aríston faleceu,
brada. Em seu O Filho de Apolo, de 1929, por volta do nascimento de Platão, a lei
Woodbridge escreve no início: “a exigência ateniense proibia a independência legal da
da história para que sejamos precisos vem mulher, de modo que Perictione foi dada em
de encontro à exigência de admiração para casamento ao irmão de sua mãe, Pirilampo,
que sejamos justos. Presos entre as duas, os um viúvo que tinha sido recentemente feri-
biógrafos de Platão têm escrito não a vida do na batalha de Délio. Casamentos entre
de um homem, mas tributos a um gênio”. tios e sobrinhas, assim como entre primos
Gênio certamente ele era, mas ele merece de primeiro grau, eram comuns e úteis em
mais do que um tributo e mais do que uma Atenas, preservando antes que dividindo
vita padrão feita na medida do bibliotecário as propriedades familiares. O pai adotivo
alexandrino Apolodoro, que dividiu as vidas de Platão, Pirilampo, tinha sido amigo ín-
dos antigos em quatro períodos de vinte timo de Péricles (Plutarco, Per. 13.10) e
anos, com uma akmê na idade de 40 anos.2 várias vezes embaixador na Pérsia (Chrm.
Por este esquema, Platão nasceu devida- 158ª2-6); trouxe à família pelo menos um fi-
mente em 427, encontra Sócrates quando lho, Demos (Grg. 481d5, 513c7), cujo nome
tinha 20 anos (e Sócrates tinha 60), funda significa “povo”: um tributo à democracia
a Academia aos 40, viaja para a Sicília aos sob a égide da qual Pirilampo floresceu na
60 e morre na idade de 80. Ampla evidência vida pública. Quando Pirilampo e Perictione
refuta a bela cadência. tiveram outro filho, fizeram o que havia de
Platão de Colito, filho de Aríston – mais convencional, dando­‑lhe o nome de
pois este era o seu nome legal, com o qual seu avô, Antifonte (Prm. 126b1-9). Assim,
tinha direito de cidadania ateniense e que Platão cresceu em uma família de pelo
18 Hugh H. Benson & cols.

menos seis crianças, sendo ele o número e Gláucon, lutaram bravamente na batalha
cinco: um enteado, uma irmã, dois irmãos e de Megara (R. 368a3).
um meio­‑irmão. Pirilampo morreu por volta A despeito da guerra e das turbulên-
de 413, mas o filho mais velho de Aríston, cias, Platão e seus irmãos teriam recebido
Adimanto, já tinha então idade suficiente, uma educação formal em ginástica e músi-
cerca de 19 anos, para tornar­‑se guardião ca, mas por “música” devemos entender os
(kurios) de sua mãe. domínios de todas as Musas: não somente
dança, lírica, épica e música instrumental,
mas também leitura, escritura, aritméti-
A juventude de ca, geometria, história, astronomia e mais
Platão em Atenas ainda. A condução informal de um menino
à vida cívica ateniense era responsabilida-
Quando Platão era um menino com idade de fundamentalmente do irmão mais ve-
suficiente para prestar alguma atenção à lho da família. Como se vê no Laques e no
vida política que afetava sua família, a cida- Carmides, um jovem era socializado por seu
de de Atenas estava enredada na Guerra do pai, por seus irmãos mais velhos ou pelo
Peloponeso, provocando e sofrendo uma se- tutor, os quais ele acompanhava na cidade
quência horripilante de desastres. Em 416, – enquanto as mulheres permaneciam dis-
quando Platão tinha cerca de 8 anos e a Paz cretamente no interior das casas. Na com-
de Nícias, assinada entre Atenas e Esparta panhia de seus irmãos, Platão era então
em 421, tinha fracassado completamente, provavelmente uma jovem criança quando
Atenas comportou­‑se com uma crueldade conheceu Sócrates. Tanto o Lísis, que se pas-
desconhecida em relação a Melos, servindo­ sa no início da primavera de 409, quando
‑se dos argumentos “o­‑poder­‑faz­‑o­‑direito” Platão teria 15 anos, quando o Eutidemo,
que terão eco no Trasímaco da República que se passa alguns anos mais tarde, forne-
I (Tucídides 5.84-116). No ano seguinte, cem uma visão dos anos escolares de Platão,
quando a cidade embarcou na catastrófica já que as personagens jovens destes diálo-
expedição à Sicília, um grupo político oligár- gos eram exatos coetâneos de Platão na vida
quico destruiu, à noite, os bustos da cidade, real. Lísis de Exone, acerca de quem temos
insultando o deus da viagem e dando início a sorte de possuir evidência contemporânea
a uma histeria supersticiosa que levou à exe- para corroborar, independente dos diálogos
cução sumária, prisão ou exílio de cidadãos de Platão, provavelmente permaneceu um
acusados de sacrilégio, inclusive membros amigo íntimo do filósofo, pois sabemos que
da família de Platão. Um dos três coman- chegou a ser avô, tendo pelo menos 60 anos
dantes da frota, o carismático Alcibíades, es- quando morreu.
tava entre os acusados, e uma consequência O diálogo Eutidemo, que se passa no
terrível da histeria em massa de Atenas foi o momento em que Platão estaria ele próprio
abandono, por parte de Alcibíades, da expe- pensando a respeito de suas perspectivas de
dição e sua traição à cidade. Com a derrota formação, ilustra a moda educacional da
total de Atenas na Sicília em 413, Esparta época: a transferência pretendida da exce-
recomeçou a guerra. Platão devia ter 12 lência (aretê, também traduzida por “virtu-
anos quando Atenas perdeu seu império por de”) do professor ao estudante. A educação
causa da revolta de seus aliados; 13 anos, mais refinada em Atenas no final do quinto
quando a democracia foi, por breve período, século era dominada por sofistas, residentes
derrubada pela oligarquia dos Quatrocentos estrangeiros que obtiveram fama e riqueza
e quando o exército, ainda sob direção dos professando técnicas de persuasão e expo-
democratas, persuadiu Alcibíades a retornar sição, platitudes revestidas de alto estilo
e a comandá­‑lo novamente; 14 anos, quan- retórico, o tipo de habilidades que poderia
do a democracia foi restaurada; 15 anos, ajudar os jovens a se tornarem excelentes
quando seus irmãos mais velhos, Adimanto qua exitosos na vida pública por falar com
Platão 19

eficácia na Assembleia ateniense (ekklêsia) uma milícia da cidade, embora confinado


e nos tribunais. Mesmo os mais respeitá- ao serviço dentro dos limites da Ática. Mais
veis dentre eles – Górgias de Leontino e tarde, quando chamado, terá servido em
Protágoras de Abdera, que aparecem em outros lugares. Tanto pela lei quanto pelo
diálogos homônimos (ver a representação costume, era necessária maior maturidade
por Sócrates de Protágoras no Teeteto) – são para participar em vários outros aspectos da
representados, contudo, como tendo feito vida cívica. Um cidadão deveria ter 20 anos
ofício pífio ao transferir qualquer excelência para entrar na vida pública sem se tornar
que tivessem, pois seus estudantes parecem objeto de derrisão, e 30 anos para que seu
sempre ter dificuldade em reter e defender nome entrasse nas loterias que determina-
o que seus professores professavam. No vam o Conselho ateniense (boulê), os júris
Eutidemo, dois sofistas de caráter questioná- e os arcontes, e para que pudesse ser eleito
vel alegam ser capazes de tornar qualquer general e se esperasse que se casasse.
homem bom chamando­‑o à filosofia e à ex- Quando Platão chegou à maturidade,
celência (274d7-275a1), mas sua produção naturalmente imaginou para si próprio uma
é nada menos que um uso hilário de falá- vida nos assuntos públicos, como diz em
cias com vistas a enganar seus responden- uma carta escrita em 354/3 (VII. 342b9). A
tes. O final do diálogo (a partir de 304b6) autenticidade da carta foi por certo tempo
é uma lembrança grave de que, no tempo muito discutida, mas mesmo seus detratores
do amadurecimento de Platão, os atenien- concedem que seu autor, se não tiver sido
ses estavam cada vez mais desconfiados Platão, era íntimo do filósofo, possuindo
dos sofistas, retóricos, oradores e filósofos, conhecimento de primeira mão dos eventos
igualmente. relatados. Muitos dos detalhes da carta são
Estes eram os últimos anos antes da esmiuçados e corroborados por historiado-
derrota de Atenas para Esparta em 404, res contemporâneos da Grécia e da Sicília e
quando a Assembleia prestava cada vez me- seu estilo – diferentemente de outras carta
nos atenção às leis escritas e agia cada vez desta série – é similar ao das Leis e Epínomis
mais irracional e emocionalmente, e em bus- (Ledger 1989: 148-51).3 A família de Platão
ca de vingança. Um Platão mais velho dis- em sentido mais largo já incluía dois ho-
tinguirá entre democracia legal e ilegal (Plt. mens na órbita de Sócrates, personagens
302d1-303b5) com boa razão. Contudo, as dos diálogos Protágoras e Carmides, que
tradições eram mantidas quanto aos dis- tiveram papel proeminente na vida pública
tritos ou demos de votação, 139 dos quais ateniense: Crítias, o primo mais velho de se-
estavam em Atenas. A cidadania era passa- gundo grau de Platão (o primo mais velho
da estritamente de pai para filho, de modo de Perictione) e Carmides (o irmão mais jo-
que os filhos do falecido Aríston, quando vem de Perictione), que estava sob a tutela
chegam aos dezoito anos, são apresenta- de Crítias. Ambos estavam entre os cinquen-
dos aos cidadãos de Colito em cerimônias ta e um homens em quem Platão depositava
de dokimasia, após as quais estariam intei- grande esperança em 404, quando, depois
ramente emancipados. Foi no ano seguinte dos fracassos e dos excessos da democracia
à dokimasia de Platão que Sócrates tentou por vezes ilegal, a derrota de Atenas para
sem sucesso impedir que a Assembleia le- Esparta levou à eleição dos Trinta, encar-
vasse a julgamento e condenasse inconsti- regados de formular uma constituição pós­
tucionalmente seis generais, entre os quais ‑democrática que faria a cidade retornar aos
o filho de Péricles e Aspásia, sob a acusação princípios de governo da pátrios politeia, a
de não terem assegurado o recolhimento constituição ancestral de Atenas. Crítias era
dos corpos após a vitória na batalha naval um dos líderes dos Trinta e Carmides era um
de Arginusa, em 406. Nos dois anos seguin- dos Dez chefes municipais do Pireu; os Onze
tes à sua cerimônia, Platão terá atuado em chefes municipais da Atenas urbana comple-
companhia de seus camaradas de demo em tavam o total de cinquenta e um. Embora
20 Hugh H. Benson & cols.

Platão tenha sido imediatamente chamado violência muito fácil de infligir sem puni-
para participar da administração, ele era ção. Contudo, os democratas que retorna-
ainda jovem (VII. 324d4) e postergou a de- ram, segundo o relato de Platão, mostraram
cisão, participando de perto e esperando aparente contenção durante este período de
testemunhar o retorno de Atenas à justiça revoluções (VII. 325b1-5). E mesmo, se os
sob a nova liderança. diálogos com datas de drama variando entre
Os Trinta o desapontaram amarga- 402 e 399 (especialmente o Mênon, Teeteto,
mente; contudo, ao tentar implicar Sócrates Eutifro e Fédon) podem ser tomados como
na captura do general democrata Leon de fontes para os tipos de conversa que Platão
Salâmis para execução sumária. Platão diz experimentou, quando tinha pouco mais de
desta oligarquia que ela fez o governo da 20 anos, na companhia de Sócrates, então
democracia anterior parecer, por compara- pelo menos algumas coisas da vida atenien-
ção, uma época áurea (VII.324d6-325a5). se tinham voltado ao normal. Talvez por
Segundo Xenofonte de Erquia, o projeto da isso Platão descreva como tendo sido “por
constituição era continuamente postergado sorte” (VII.325b5-6) que Anito e Lícon, cujo
(HG 2.3.11), e Isócrates de Erquia descre- amigo Leon Sócrates tinha anteriormente se
ve os Trinta como tendo rapidamente caído recusado a entregar aos Trinta, consegui-
em abusos e em excessos de autoridade, ram montar um processo contra Sócrates
executando sumariamente 1.500 cidadãos por impiedade e obtiveram ganho de causa
e levando outros 5.000 ao Pireu durante em sua proposição de pena de morte. Para
nove meses no poder (Aeropagiticus 67). Platão, este evento devastador, bem como
Porém, os democratas no exílio puderam sua opinião sobre que a ordem ateniense es-
reagrupar­‑se em File, de onde, em 403, vol- tava deteriorando­‑se em um caos, puseram
taram a entrar no Pireu e enfrentaram as um fim ao desejo de ser politicamente ativo
forças dos Trinta na batalha de Muniquia, que se reacendeu brevemente nele com a
onde Crítias e Carmides foram mortos. restauração da democracia (VII. 325a7-b1).
Após meses de mais levantes, a democra- Embora continuasse a considerar como ain-
cia foi restaurada. Apesar de uma anistia da poderia realizar uma melhora nas leis e
negociada com arbitragem de Esparta em na vida pública em geral, com o tempo ele
403/2 para reduzir casos de vingança na se deu conta que todo Estado existente so-
sequência imediata da guerra civil, a con- fria de mau governo e de leis quase insa-
fusão continuou. Uma cláusula do acordo náveis, tendo sido forçado, lá pela metade
de reconciliação dizia que todos os simpati- dos seus vinte anos, a admitir que, sem “reta
zantes da oligarquia remanescentes teriam filosofia”, se é incapaz de
seu próprio governo em Elêusis, que eles
teriam previamente assegurado para si ao Determinar o que é a justiça na polis
pôr à morte a população sob a acusação de ou no indivíduo. Os males sofridos pela
terem apoiado a democracia (Xenofonte, humanidade não cessarão até que ou
HG 2.4.8-10; Diodoro Sículo 14.32.5). O bem os filósofos genuínos e verdadeiros
acordo teve vida curta: assim que os espar- governem a polis, ou bem os governan-
tanos tiveram sua atenção desviada para tes nas poleis, por alguma graça divina,
uma guerra com Élis, os oligarcas começa- se tornem verdadeiramente filósofos.
ram a alugar mercenários; Atenas retaliou (VII.326a5-b4; cf. R. V 473c11-e2)
anexando Elêusis e matando todos os sim-
patizantes remanescentes da oligarquia no Neste momento, ou logo depois, Platão
início da primavera de 401. determinou­‑se a fazer sua contribuição à
Assim como em outras revoluções vida pública como um educador. Ele devia,
que saíram fora de controle, o nível geral neste papel, suplantar os sofistas e retóricos
de desordem tornou os atos de retalia- itinerantes, que estiveram por tanto tempo à
ção muito fáceis de serem perpetrados e a frente da alta educação ateniense.
Platão 21

A primeira viagem de aproximadamente 3 km ao norte do muro


Platão à Sicília e a da cidade, na margem oriental do rio Cefiso.
fundação da academia O sobrinho de Platão, Eurimédon, outro
executor, possuía as propriedades adjacen-
Após a execução de Sócrates, Platão per- tes ao norte e ao leste. Embora o demo de
maneceu em Atenas por talvez três anos. Platão fosse Colito, dentro dos muros da ci-
Durante este tempo, ele passou a conviver dade havia três irmãos com os quais devia
com Crátilo, seguidor de Heráclito, e com dividir a propriedade de Aríston, e as leis de
Hermógenes, meio­‑irmão bastardo do cé- sucessão visavam a manter intactas as pro-
lebre Cállias de Alopece, que gastou uma priedades. Normalmente, a ausência de um
fortuna com sofistas (veja Cra., Prt. e Ap.). testamento requeria uma divisão dos bens
Então, com a idade de 28 anos em 396, da propriedade (terras em cultivo, estrutu-
Platão residiu por um período em Megara, ras, rebanhos, metais preciosos, dinheiro,
distante meio dia de caminhada de Atenas, etc.) em partes iguais; quando se estava de
em companhia de Euclides e de outros so- acordo que eram iguais, os irmãos podiam
cráticos, na busca de matemática e filosofia sortear ou escolher a herança (MacDowell,
(Hermodoro, citado em Diógenes Laércio 1978, p. 93).
3.6-2-6). Indicações duvidosas de outras via- Mais ou menos na mesma época em
gens aparecem somente em fontes tardias. que estava estabelecendo­‑se, Platão e os
Quando alcança 30 anos em 394, matemáticos Teeteto de Sunio, então com
espera­‑se de Platão que se estabeleça como 19 anos e que morrerá cinco anos mais
proprietário e, embora não haja nenhuma tarde, Árquitas de Tarento, um pitagórico,
indicação neste sentido, que se case (apesar teórico da música e líder político esclare-
de Leis IV. 721a­‑e e VI. 772d). Nunca esteve cido, que permanecerá próximo de Platão
entre os cidadãos mais ricos de Atenas, mas durante sua vida, Leodamas de Taso e tal-
as rendas provenientes de suas propriedades vez Neoclides (Proclo, citado em Euclides,
agrícolas fora dos muros da cidade parecem Elementos 66.16) passaram a encontrar­‑se
ter sido adequadas para suas necessida- na parte nordeste urbana de Atenas no bos-
des pessoais e para obrigações familiares que do herói Hecademo, entre os rios Cefiso
como dotes e funerais. O financiamento da e Erídano, com vistas a continuar seus estu-
Academia, ainda a ser fundada, era prova- dos. Espeusipo de Mirrino, filho de Potone,
velmente complementado por doações; que irmã de Platão, uniu­‑se ao grupo por volta
as finanças da Academia eram distintas das de 390. O número de nomes de matemáti-
contas pessoais de Platão é atestado pela cos presentes em uma lista originalmente
ausência de menção da Academia no tes- compilada por Eudemo na última parte do
tamento de Platão. Platão tinha uma pro- século quarto a.C. é uma forte indicação
priedade no demo dos Ifistíadas, cerca de que o grupo de estudiosos amigos cresceu
10 km ao norte­‑nordeste do antigo muro da firmemente nos primeiros anos. É somente
cidade e 2 km das margens do rio Cefiso, quando Eudoxo de Cnido chega, no meio
uma propriedade que provavelmente ele dos anos 380, que Eudemo reconhece for-
herdou (seu testamento não menciona ne- malmente uma Academia. O bosque que iria
nhuma soma paga por ela). A propriedade mais tarde ser a Academia, todavia, tinha um
pode ser localizada com precisão porque ginásio e amplos espaços abertos frequenta-
Platão a descreve como limitada ao sul pelo dos por jovens intelectuais – e não salas de
templo de Hércules, tendo sido descober- aula ou anfiteatros para conferência.
to em 1926 um de seus marcos de pedra. Platão já gozava de celebridade fora de
Platão viria a comprar outro terreno, no Atenas por volta de 385, quando foi convida-
demo dos Eresidas, de Calímaco, um exe- do à corte do tirano de Sicília, Dionísio I, que
cutor nomeado no seu testamento, de ou- convidava regularmente atenienses célebres
tro modo desconhecido; sua localização era ao seu palácio real fortificado em Ortigia, a
22 Hugh H. Benson & cols.

península que se lança no porto de Siracusa. primeira viagem de Platão à Sicília, embora
Isto é uma indicação cogente que, ao lado concordem todas que a fala franca de Platão
de seus estudos matemáticos e filosóficos, irritou a tal ponto o tirano que ele foi pos-
Platão tinha começado a escrever diálogos to de volta em um navio e vendido como
que eram copiados e difundidos. Há evi- escravo. Quando foi comprado e posto em
dência substancial que uma proto­‑República liberdade por Aníceres de Cirene, no relato
– que compreendia a maior parte dos li- de Diógenes, os amigos de Platão tentaram
vros II­‑V do nosso texto atual da República devolver o dinheiro, mas Aníceres o recusou
– foi publicada antes de 391, quando e comprou para Platão um jardim no bosque
Ecclesiazusae, a ousada peça de Aristófanes, de Hecademo.
parodiou seus elementos centrais (Thesleff A Academia – um centro ateniense
1982: 102-10). A Apologia, uma primeira para estudos avançados, reunindo homens e
versão do Górgias, e o que é agora República mulheres de todo o mundo grego –, os diá-
I, estava provavelmente também entre os logos, que eram seus manuais, e os métodos
diálogos que foram publicados neste pri- filosóficos exemplificados neles constituem
meiro grupo. De tempos em tempos, Fedro o brilhante legado de Platão. Fundada após
e Lísis foram considerados como também aí o retorno de Platão da Sicília em 383 e
figurando – sobretudo em tradições fora da com uma sucessão contínua até 79 a.C., a
filosofia analítica anglo­‑americana desde a Academia é, por vezes, considerada a pro-
década de 1950. Há evidência abundante genitora da universidade moderna, embora
de revisão em vários diálogos, um obstáculo Isócrates tivesse estabelecido uma escola
insuperável para uma análise computacio- permanente para retórica em Atenas em
nal definitiva do estilo de Platão e, portan- 390. O programa da Academia, baseado na
to, para a certeza acerca da ordem em que matemática e na busca do conhecimento
os diálogos foram escritos, exceção feita as científico – antes que em seu fechamento
últimos (Ledger 1989: 148-51). Contudo, a – tornou­‑a a primeira em seu tipo. Porém,
impressão de três períodos maiores em sua o que pode significar sua “fundação”?
produção, com limites cinzentos, persiste na Presumivelmente, a Academia tornou pú-
maior parte das tradições de interpretação blico seu interesse em receber estudantes,
(Nails, 1995, p. 97-114). embora não houvesse taxas. Membros que
Platão nos diz que tinha quase 40 anos estudaram juntos por alguns anos estavam
quando viajou para a Itália, onde provavel- agora talvez prontos para partilhar o que
mente visitou Árquitas em Tarento, e para a haviam aprendido e aplicar seu conheci-
Sicília, onde foi hospedado por Dionísio I, ti- mento em novas áreas. A Academia conti-
rano de Siracusa. A viagem foi memorável, a nuou a atrair filhos de líderes políticos, que
despeito do desgosto de Platão pela tirania e estavam mais interessados em governar do
pela sensualidade decadente que encontrou. que estudar matemática, que era um pré­
Não tinha nenhuma intimidade com o tirano ‑requisito, mas todo início é turvo e é difícil
(muito semelhante ao tirano da República não importar de modo anacrônico catego-
IX), mas encontrou Díon, o jovem cunhado rias atuais (professor, aluno) – como, em
de Dionísio. Eis aqui um jovem de 20 anos, outros séculos, “mestre” e “discípulo” se im-
admirável, ainda que austero, pronto para puseram. De qualquer modo, Platão parece
aprender o que quer que Platão consideras- ter passado o período que vai de 383 a 366
se que pudesse ajudá­‑lo a obter a “liberdade em relativa calma, estudando, discutindo,
sob as melhores leis” para o povo da Sicília escrevendo e contribuindo, de modo geral,
(VII. 324b1-2). Sua amizade – renovada com para a educação na Academia. É a este perí-
as visitas de Díon à Grécia – durará trinta odo também que se atribui a maior produção
anos (VII. 324a5-7). Fontes tardias (Diodoro dos diálogos de Platão e que os membros e
Sículo, Plutarco, Diógenes Laércio) nos dão as atividades da Academia começaram a ser
diferentes detalhes a respeito do final da ridicularizados no teatro cômico de Atenas.
Platão 23

Deve­‑se notar a chegada de Aristóteles de inclusive com a paixão do jovem tirano pela
Estagira em 367; os fragmentos dos diálo- filosofia e pela educação em geral. Platão
gos escritos por Aristóteles sugerem que era não menciona se tinha lembrança do ado-
típico dos membros da Academia exercitar­ lescente Dionísio em sua primeira visita,
‑se em escritos deste gênero. declarando somente que as paixões de um
jovem podem mudar radicalmente. Díon
insistiu, exortando Platão a ajudá­‑lo a in-
As expedições de Platão fluenciar Dionísio II, argumentando inter
na Sicília em favor de alia que a morte do velho tirano poderia
Díon e da filosofia ser aquele “destino divino” necessário para
que enfim se realizasse a felicidade de um
Na Carta VII, Platão descreve minuciosa- povo livre sob boas leis, que havia algumas
mente suas viagens subsequentes para a outras pessoas em Siracusa que esposavam
Sicília. O breve sumário a seguir pode ser opiniões corretas, que seus jovens sobrinhos
de interesse tendo­‑se em mente a imagem necessitavam igualmente de treinamento
do filósofo do Teeteto, objeto de derrisão por em filosofia e que o novo tirano poderia ser
ser perfeitamente inapto em assuntos práti- levado à verdadeira filosofia por Díon com
cos (172c3-177c2); Platão se mostra como a ajuda de Platão, da mesma maneira como
inocente no exterior, manipulado em toda aquele fora levado à verdadeira filosofia
ocasião, completamente incompetente para por este, efetuando, deste modo, reformas
ajudar seu amigo, ainda mais para tornar o e pondo fim aos males longamente sofridos
governante um filósofo. pelo povo. Além disso, Díon acrescentou, se
Platão não desejava retornar quando Platão não viesse, homens piores estavam
chamado de volta a Siracusa por Dionísio II ansiosos para realizarem a educação do jo-
em 366. O velho Dionísio morrera em 367, vem tirano. Confiando mais no caráter firme
logo após ter sabido que sua peça, O Resgate e nas intenções de Díon do que na esperança
de Heitor, tinha recebido o primeiro prêmio de ter sucesso com Dionísio, temendo pela
no festival das Lenaias em Atenas. Apesar de segurança de Díon, sentindo que o débito
sua reputação como erudito e culto, ele não em relação ao seu primeiro anfitrião pesava
se preocupou com a educação de seu filho e mais que suas presentes responsabilidades
herdeiro. Quando criança, Dionísio II passou na Academia, uma dupla razão mostrou­‑se
a maior parte do tempo sem contato com finalmente decisiva: seria vergonhoso aos
o pai, ocupado em fabricar brinquedos de olhos do próprio Platão e uma traição à fi-
madeira, mas, quando chamado à presença losofia caso se mostrasse, ao final, um ho-
dele, ele era inspecionado em busca de ar- mem de palavras que se acovardava diante
mas escondidas como todo aquele que tinha dos atos. Platão por fim embarcou, no início
uma audiência com o tirano. Adulto por da estação de navegação de 366, para uma
volta dos 30 anos quando chamou Platão, o segunda viagem à Sicília.
jovem Dionísio tinha casado com a sua meia­ Facções dentro da corte real suspeita-
‑irmã paterna, Sofrosine, com quem teve ram desde o início de Díon e Platão, ima-
um filho, e que recentemente tinha recebido ginando que o objetivo secreto deste era
a cidadania honorária ateniense. Enquanto colocar a Sicília, então em guerra contra
isso, Díon casou com sua sobrinha, Arete, fi- Cartago, sob o controle de Díon. No intui-
lha do velho tirano, e tinha um filho de sete to de testar a influência do filósofo, fizeram
anos, de modo que Díon era cunhado e por com que o hábil Filisto, um historiador ba-
vezes conselheiro do novo tirano. nido pelo antigo tirano, fosse chamado de
Díon, a pedido de quem o chamado volta do exílio. Após alguns meses durante
tinha sido feito, teve dificuldade para su- os quais Platão e Díon tentaram incessante-
perar a relutância de Platão em viajar para mente tornar a vida de moderação e sabedo-
Siracusa. Ele insistiu com vários argumentos, ria atrativa a Dionísio, que eles consideraram
24 Hugh H. Benson & cols.

não sem habilidades (VII. 338d7), Filisto segunda chamada chegou, Platão percebeu
convenceu Dionísio que Díon estava secreta- nela a ambição zelosa (philotimos) de não
mente negociando a paz com Cartago. Díon ser trazida à luz sua ignorância da filosofia;
foi deportado sumariamente para a Itália, e Platão recusou­‑se novamente a retornar à
separado de sua mulher, filho e parte de Sicília. Quando uma terceira chamada che-
sua propriedade lhe foi retirada. Os amigos gou, trazida por vários conhecidos sicilianos
de Díon temeram retaliação, mas o tirano de Platão, entre os quais Arquedemo, ligado
– cioso de sua reputação no estrangeiro e a Árquitas, o siciliano Dionísio pensou que
da necessidade de aplacar os que apoiavam Platão a teria em alta conta. Não somen-
Díon – pretensamente pediu a Platão para te vieram com uma trirreme para facilitar
ficar, ao mesmo tempo em que se assegura- a viagem de Platão, mas também Dionísio
va que não fugiria, instalando­‑o no interior escreveu uma longa carta, dizendo que os
de sua fortaleza (VII. 329d1-330a2). Platão negócios de Díon, caso Platão viesse, seriam
insistiu no projeto de educação e até esta- determinados como Platão quisesse, mas
beleceu relações entre Dionísio e Árquitas que, se não viesse, Platão não gostaria do
e outros tarentinos. Dionísio, porém, que desfecho a ser dado quanto à propriedade e à
se ligou a Platão, permaneceu invejoso pessoa de Díon. Neste ínterim, os conhecidos
da alta consideração que Platão tinha por atenienses de Platão lhe pediam vivamente
Díon. Dionísio buscava desesperadamente para que fosse imediatamente e cartas che-
o elogio de Platão, mas não trabalhava em gavam da Itália e da Sicília com novos argu-
busca da sabedoria, que era o único cami- mentos – Árquitas relatava que importantes
nho para obtê­‑lo. Platão serviu­‑se de todas assuntos de Estado entre Tarento e Sicília
as ocasiões para persuadir Dionísio a lhe dependiam da volta de Platão. Como antes,
permitir voltar para Atenas, o que resultou a decisão de Platão foi que seria uma traição
finalmente em um acordo: Platão prometeu a Díon e a seus anfitriões de Tarento se não
que, caso Dionísio o chamasse, assim como fosse; quanto à traição à filosofia, desta vez
a Díon, após ter­‑se assegurado da paz com Platão considerou (cegamente, como diria
Cartago, ambos voltariam. Nestes termos, mais tarde: VII. 340a2) que talvez Dionísio,
Platão partiu de modo publicamente ami- tendo agora discorrido com tantos homens
gável e Dionísio retirou as restrições postas acerca de temas filosóficos e tendo ficado
quanto ao recebimento por parte de Díon de sob a influência deles, de fato pudesse ter
ganhos de sua propriedade. abraçado a melhor vida. Pelo menos, Platão
Díon, entretanto, viajou para Atenas, iria descobrir a verdade.
onde havia comprado uma propriedade; Ficou claro, após sua primeira conver-
a cidade serviu­‑lhe de base e lhe permitiu sa, que Dionísio não tinha nenhum interesse
estudar na Academia e fazer amizade com em discutir filosofia; na verdade, o tirano
Espeusipo. Porém, ele viajou por toda a anunciou que ele já sabia o que importava
Grécia, tendo sido recebido calorosamente saber. Ademais, ele cancelou o pagamen-
em Corinto e em Esparta, onde recebeu a to dos ganhos das propriedades de Díon;
cidadania honorária. Quando Dionísio man- em consequência, Platão anunciou, irrita-
dou chamar Platão – mas não Díon – em do, que voltaria a Atenas, tendo intenção
361 e Díon implorou para que Platão fos- de embarcar em qualquer barco no porto.
se, pois tinha escutado que Dionísio tinha Dionísio, cioso de sua reputação, rogou­‑lhe
desenvolvido uma impressionante paixão que ficasse e, vendo que não conseguiria
pela filosofia (VII. 338b6-7). Então Platão persuadir o irritado filósofo, ofereceu­‑se a
recusou, irritando a ambos ao alegar idade cuidar ele próprio da passagem de Platão.
provecta. Havia rumores provenientes da Contudo, ele encolerizou Platão ainda mais
Sicília que Árquitas, certos amigos de Díon e no dia seguinte, ao prometer que, se Platão
muitos outros haviam dado a Dionísio o gos- ficasse durante o inverno, Díon receberia
to pelas discussões filosóficas. Quando uma excelentes propostas, que ele detalhou, na
Platão 25

primavera. Platão, sem confiar nestas pro- na Sicília (VII. 350d4-5). A primeira reação
messas, passou a noite considerando várias de Díon foi clamar por vingança, querendo
alternativas e se deu conta que já tinha le- que os amigos, a família de Platão e o pró-
vado um xeque­‑mate. Aceitou ficar sob uma prio velho filósofo se unissem a ele. Platão
condição: que Díon ficasse a par das propos- tinha vários argumentos para recusar e ofe-
tas de modo que o acordo pudesse ser feito. receu em troca seu auxílio no caso de Díon
Não somente a estipulação não fui honrada, e Dionísio desejarem ser amigos e fazer bem
como tampouco as propostas foram dis- um ao outro. Isso nunca ocorreu, embora
criminadas: assim que o porto foi fechado as ações posteriores de Díon mostrem que
e Platão não podia mais escapar da ilha, seu desejo de vingança tinha­‑se extinguido
Dionísio vendeu as propriedades de Díon. antes da liberação de Siracusa, uma missão
Em evento decisivo, porém, envolven- que ele perseguiu “preferindo sofrer o que é
do Heraclides, amigo de Díon e líder da fac- ímpio a causá­‑lo” (VII. 351c6-7).
ção democrática em Siracusa, tudo mudou. Platão manteve­‑se informado das tra-
Ele foi acusado de fracassar quanto ao paga- tativas de seu amigo e continuou a fornecer­
mento de mercenários e fugiu para proteger ‑lhe conselho durante os três anos para
sua vida, juntando­‑se a Díon. Uma inscrição angariar os fundos necessários e para alis-
do santuário de Asclépio em Epidauro os tar mercenários secretamente até que Díon
honra juntamente (Inscriptiones Graecae IV2 pôde, finalmente, embarcar em 357, deixan-
95.39-40). Neste ínterim, Dionísio prome- do a Espeusipo sua propriedade em Atenas.
teu a outros líderes democratas excelentes Parece que membros da Academia tinham
condições para Heraclides, se voltasse para muita esperança em um governante­‑filósofo:
ser julgado, e ocorreu que Platão serviu de Platão os descreveu como “empurrando­‑o” a
testemunha do juramento quanto à promes- uma terceira viagem (VII. 339d8-e1), e pelo
sa do tirano. Quando, no dia seguinte, o ti- menos um membro, Timônides de Leucas,
rano já parecia estar quebrando a palavra, acompanhou a expedição no intuito de fazer
Platão invocou prontamente a promessa que um relato para Espeusipo e para a História.
testemunhou na véspera, a qual o tirano Heraclides ficou de trazer tropas adicionais
prontamente negou, aguilhoando Platão no- e trirremes. A expedição de Díon, incluindo
vamente. Tomando a ação de Platão como trinta sicilianos exilados, chegou quando o
um ato de preferir Díon contra ele próprio, exército estava fora da cidade, de modo que
Dionísio transportou Platão para fora das Díon pôde entrar sem encontrar resistência
muralhas, à casa de Arquedemo, na área da e foi aclamado como o libertador dos gregos
cidade em que ficavam os mercenários do da Sicília. Foi eleito general e obteve o apoio
tirano. da Siracusa inteira – exceto da fortaleza do
Se Platão tinha sido antes um pri- tirano em Otígia, onde a esposa e o filho de
sioneiro virtual, ele agora estava em pe- Díon estavam retidos.
rigo: remadores mercenários atenienses Dionísio simulou uma abdicação, mas
contaram­‑lhe que alguns deles estavam mandou seu exército atacar enquanto nego-
planejando matá­‑lo, de modo que Platão ciava os detalhes: houve outros engodos e es-
passou a enviar desesperadamente pedi- caramuças militares que deram a Díon uma
dos de ajuda. Por meio da intercessão de reputação de heroísmo. Quando Heraclides
Árquitas, um barco tarentino foi enviado em chegou com vinte trirremes adicionais e
sua busca. Porém, Platão não retornou para com 1.500 mercenários, houve inicialmen-
Atenas. Ele desembarcou em Olímpia e se te uma cooperação. Contudo, a amizade se
encontrou com Díon nos jogos, relatando­ deteriorou, em função da nomeação oficial
‑lhe a notícia de mais uma intransigência do de Heraclides como general, pela fuga pelo
tirano: de fato, Platão fracassara em realizar mar do tirano sob a guarda deste e porque
algo digno de nota em favor de Díon ou da ele era mais popular do que Díon, causan-
filosofia durante os sete anos de desventura do lutas entre seus respectivos seguidores.
26 Hugh H. Benson & cols.

Heraclides e Díon foram obrigados a fazer nome, teve como herança a propriedade de
repetidas tentativas de pôr seus seguidores Platão. O velho Platão estava secundado
em uma mesma direção. Dois turbulentos também por colegas na Academia: muitos
anos se passaram até que Ortígia ficou final- nomes de seus associados nos foram trans-
mente aberta no verão de 354; a separação mitidos. Havia um registro detalhado na
de onze anos entre Díon e sua família termi- última década da vida de Platão e a suces-
nou e a assembleia dos cidadãos pôde deba- são dos líderes da Academia foi preserva-
ter temas internos: redistribuição da terra e da; portanto, é razoável supor que listas
da propriedade e se deveria haver ou não de estudantes eram de tempos em tempos
um Conselho. No espaço de alguns meses, estabelecidas durante os quase quaren-
porém, Heraclides foi assassinado por segui- ta anos de liderança de Platão. Além dos
dores de Díon, ele mesmo tendo sido assassi- que já foram mencionados – Aristóteles,
nado por um ateniense, Calipo, que o havia Eudoxo, Timônides e Espeusipo – há duas
recebido amigavelmente e o hospedado em mulheres entre os mais notáveis, Axioteia
366 e o acompanhara à Sicília. Calipo, que de Fliunte e Lastênia de Mantineia; o his-
não tinha, Platão insiste, nenhuma conexão toriador Heraclides de Ponto; o biógrafo
com a Academia, declarou­‑se imediatamen- Hermodoro de Siracusa; Filipe de Mende,
te tirano. Platão, escrevendo seis anos após também conhecido como Filipe de Opus,
o encontro em Olímpia e algumas semanas provável editor das últimas obras de Platão;
ou meses após a morte de Díon, compara e Xenócrates de Calcedônia, que sucederá a
seu amigo de trinta anos a um piloto que Espeusipo.
antecipa corretamente uma tempestade, Devemos rejeitar a imagem padrão do
mas subestima sua força de destruição: “que velho Platão consagrando seus anos tran-
eram perversos os homens que o puseram quilos a burilar seu estilo no Timeu­‑Crítias,
por terra, ele sabia, mas não a extensão de Sofista, Político, Filebo, Leis e Carta VII, pois
sua ignorância, de sua depravação e avidez” esta imagem é tão irrealista quanto desne-
(VII. 351d7-e2). cessária. Embora estas obras partilhem ca-
racterísticas estilísticas incontroversas do
ponto de vista estatístico que mostram que
Os últimos anos de Platão foram escritas ou editadas por uma única
pessoa, o Epínomis, que foi incontroverti-
Após 360, Platão permaneceu em Atenas, damente escrito e publicado após a morte
onde ocorreu um certo número de mu- de Platão, possui, porém, a reconhecível
danças em sua família e na florescente prosa enfatuada daqueles outros, sugerin-
Academia. Uma das letras com menor cre- do que Platão se valeu do auxílio de um
dencial de autenticidade menciona que escriba, cuja responsabilidade consistia em
duas sobrinhas morreram, levando Platão, reformular as produções da Academia no
por volta de 365, a aceitar a responsabili- estilo adotado pela Academia. Diz­‑se “pro-
dade parcial de quatro sobrinhas­‑netas, de duções” porque há boas razões para supor
menos de um ano à idade de casamento – que a Academia de Platão funcionava como
que em Atenas significava um ano após a as outras instituições antigas (p. ex., as es-
puberdade. A mais velha estava para se ca- colas de Hipócrates e de Aristóteles, os pi-
sar com Espeusipo, então no início dos qua- tagóricos helenísticos) ao elaborar projetos
renta anos e em vias de ser o segundo da de escrita em colaboração. As Leis são um
Academia (XIII. 361c7-e5). A mãe de Platão diálogo quase que certamente resultado de
havia morrido algum tempo depois de 365, um esforço coletivo, com um argumento
mas sua irmã Potone e pelo menos um de dialético contínuo limitado fundamental-
seus irmãos tinham casado e tido filhos e mente aos livros I­‑II e deixado incompleto
netos. Um “menino” Adimanto, provavel- quando do falecimento de Platão (Nails e
mente neto do irmão de Platão de mesmo Thesleff 2003). Um pequeno número de
Platão 27

breves passagens da República parece ter ______(2002). The People of Plato: A Prosopogra­phy of
sido alterado também pela mão do editor, Plato and Other Socratics. Indianapolis: Hackett.
sugerindo que este grande diálogo encon- Nails, D. e Thesleff, H. (2003). Early academic
trou sua presente forma somente muito editing: Plato’s Laws. In S. Scolnicov and L. Brisson
tarde na vida de Platão. (eds.) Plato’s Laws: From Theory into Practice (pp.
14–29). Sankt Augustin: Academia.
Similarmente, devemos rejeitar a
imagem de um Platão que educa iniciados Randall, J. H., Jr. (1970). Plato: Dramatist of the
oralmente ou que ministra conferências Life of Reason. New York: Columbia University
Press.
doutrinais (embora Aristoxeno atribua a
Aristóteles uma anedota acerca da confe- Riginos, A. S. (1976). Platonica: The Anecdotes
Concerning the Life and Writings of Plato. Leiden:
rência sobre o bem, Harmônica 30-1). Em
Brill.
fragmentos que nos foram transmitidos,
Ryle, G. (1966). Plato’s Progress. Cambridge:
os colegas de Platão não apelam ao que o
Cambridge University Press.
mestre disse, embora manifestem uma dis-
Taylor, A. E. (1956). Plato: The Man and his Work.
cordância sadia acerca da natureza da reali-
Cleveland: World.
dade e do conhecimento e acerca do sentido
Thesleff, H. (1967). Studies in the Styles of Plato.
de teses obscuras feitas por personagens nos
Helsinki: Suomalaisen Kirjallisuuden Kirjapaino.
diálogos (Cherniss 1945). Devemos rejeitar
_______ (1982). Studies in Platonic Chronology.
estas imagens por conta de uma razão epis-
Helsinki: Societas Scientiarum Fennica.
temológica forte. Platão
Westlake, H. D. (1994). Dion and Timoleon. In D.
M. Lewis et al. (eds.) The Cambridge Ancient His‑
permanece sempre convencido que o
tory, vol. 6: The Fourth Century BC (pp. 693–722).
que é admitido por crença, de segunda Cambridge: Cambridge University Press.
mão, seja de outros ou de livros, nunca
Woodbridge, F. J. E. (1929). The Son of Apollo:
equivale a um estado cognitivo válido;
Themes of Plato. Boston: Houghton Mifflin.
o conhecimento deve ser obtido pelos
esforços da própria pessoa. Platão bus-
ca antes estimular o pensamento que
Notas
transmitir doutrinas. (Annas, 1996, p.
1.190)
Todas as traduções são do autor, a menos
que haja outra indicação.
Referências e
leitura complementar 1. Muitos leitores resistem a serem soterrados
pelas exceções, qualificações, citações e co-
Annas, J. (1996). Plato. In S. Hornblower and A. mentários laterais que são necessários para
Spawforth (eds.) Oxford Classical Dictionary (pp. um relato completo; para argumentos mais
1190 –3). Oxford: Oxford University Press. matizados e mais abrangentes, bem como para
uma avaliação das fontes, ver Nails (2002),
Cherniss, H. F. (1945). The Riddle of the Early Aca‑
incluindo os verbetes sobre Platão e todas as
demy. Berkeley: University of California Press.
outras pessoas mencionadas aqui.
Davies, J. K. (1971). Athenian Propertied Families 2. O livro de Taylor, Plato the Man and his Works,
600–300 BC. Oxford: Clarendon Press. foi editado inicialmente em 1927 e seguiu de
Jacoby, F. (1902). Apollodors Chronik. Berlin: perto o modelo alexandrino. Ryle (1966) e
Weidmann. Randall (1970) questionaram a assim contada
Ledger, G. R. (1989). Re-Counting Plato: A Com‑ história de Apolodoro, mas não fizeram uma
puter Analysis of Plato’s Style. Oxford: Oxford reavaliação da evidência disponível.
University Press. 3. A carta é endereçada à família e aos amigos
de Díon. Somente no caso de outras cartas, o
MacDowell, D. M. (1978). The Law in Classical testamento e alguns poucos epigramas atribuí­
Athens. Ithaca, NY: Cornell University Press. dos a Platão serem autênticos é que haverá
Nails, D. (1995). Agora, Academy, and the Conduct informação autobiográfica suplementar a
of Philosophy. Dordrecht: Kluwer. respeito de Platão.