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Jean Mabillon

BREVES REFLEXÕES SOBRE


ALGUMAS REGRAS DA HISTÓRIA
tradução, apresentação e notas de Fernando Nicolazzi
APRESENTAÇÃO

O ano é 1685. Após uma experiência de viagem não muito agradável, dois anos
antes, por algumas regiões germânicas, encontramos um monge da
congregação de Saint-Maur trafegando por terras italianas. Pela manhã do dia
15 de junho, o religioso chega a Roma, depois de ter passado por diversas
outras cidades tais como Turin, onde assistiu às cerimônias da semana santa,
Veneza, onde conheceu conventos, arquivos e igrejas, além de Milão, Pádua e
algumas outras. As razões do beneditino para tal viagem, entretanto, não se
resumem apenas a motivações religiosas. Tampouco sua viagem se assemelha
a um périplo literário através do qual se desse uma espécie de encontro com
algum mundo perdido, visível ainda na concretude majestosa dos restos de
construções antigas, a exemplo do que ocorrera mais de três séculos antes com
Francesco Petrarca ao descobrir para si e para os modernos as ruínas de Roma
em 1337.1

1
FORERO-MENDOZA, Sabine. Le temps des ruines. Le goût des ruines et les formes de la
conscience historique à la renaissance. Seyssel: Champ Vallon, 2006, p. 39 e ss.
Pelo contrário, a viagem do monge assumia um caráter menos ocioso do que
se poderia supor, pois em Roma ele se encontrava como um enviado oficial do
rei de França; um funcionário estatal, portanto, incumbido de “visitar
bibliotecas, procurar livros e manuscritos, adquiri-los para a biblioteca real”. Tal
prerrogativa lhe fora concedida em função da notoriedade que sua prática
erudita assumiu após a publicação de diversas obras versando sobre a história
religiosa da sua ordem e, especialmente, da obra pela qual seu nome ecoaria
ao longo dos séculos como precursor da crítica historiográfica, o De re
diplomatica libri, publicada quatro anos antes de sua chegada à cidade eterna.
A eficácia de sua empreitada italiana se torna visível por um dado significativo:
ela rendeu à biblioteca do rei mais de 4.000 livros, estampas e manuscritos,
ciosamente coletados pelo beneditino, cujo nome, entre historiadores, já não é
difícil de adivinhar, posto que passou a ocupar um lugar fundamental na história
da disciplina. Nas palavras de um dos seus mais notórios praticantes, que se
definia como um “leitor curioso pelo método”, o ano de 1681 é “uma grande
data, de fato, na história do espírito humano”, pois foi nela que Jean Mabillon
(1632-1707), o nosso monge, publicou suas considerações sobre a investigação
de diplomas. Ainda segundo as palavras de Marc Bloch, com ela “a crítica dos
documentos de arquivos foi definitivamente fundada”.2 Menos impressionista é
a formulação de um dos biógrafos do monge, que salienta de forma mais
coerente que “aquilo que se nomeia crítica, em matéria de história, não deve a
ele [Mabillon] sua existência, mas sim os progressos que fizeram dela um
instrumento metódico e necessário de investigação e de controle, uma ciência,
em uma palavra, com suas regras certas e imutáveis”.3 Afinal, havia já mais de
dois séculos que fora elaborado o libelo do humanista italiano Lorenzo Valla,
atestando e confirmando, por meio de um procedimento retórico e erudito, a
falsidade do decreto que supostamente concedia ao papado uma porção
considerável do império romano.4
Cerca de meia década antes da publicação de seu tratado de diplomática,
Mabillon havia escrito um pequeno texto no qual ele procurava se defender dos

2
BLOCH, Marc. “Apologie pour l’histoire ou le métier d’historien”. In: L’histoire, la guerre, la
résistance. Paris: Gallimard, 2006, p. 906. As informações sobre as viagens de Mabillon foram
retiradas de KRIEGEL, Blandine. L’histoire à l’Age classique 1. Jean Mabillon. Paris:
Quadrige/PUF, 1996, p. 77-102. A citação se refere à página 84. Ver ainda MOMIGLIANO,
Arnaldo. “Mabillon's Italian disciples”. In: Terzo contributo alla storia degli studi classic e del
mondo antico. Tome 1. Roma: Edizioni di Storia e Letteratura, 1966, p. 135-152, e, para uma
vista geral do contexto, THOMPSON, James Westfall. “The Age of Mabillon and Montfaucon”.
In: The American Historical Review, vol. 47, n. 2, 1942, p. 225-244.
3
LECLERCQ d’ORNANCOURT, Dom Henri. “Dom Mabillon”. In: MABILLON, Jean. Le moine et
l’historien. Dom Mabillon, oeuvres choisies. Édition établie par Odon Hurel. Paris: Robert Laffont,
2007, p. 65.
4
VALLA, Lorenzo. De falso credita et ementita Constatini donatione. Edição traduzida para o
inglês por G. W. Bowersock. The I Tatti Renaissance Library. Cambridge: Harvard University
Press, 2007.
ataques cometidos por diversos letrados, inclusive beneditinos mauristas como
ele próprio, após a divulgação dos primeiros tomos da coleção das Acta
Sanctorum Ordinis Sancti Benedictini (1668-1701), onde o monge e seu
superior, D. Jean-Luc d’Achery, empreendiam uma história “crítica” da ordem
fundada por São Bento no século V.5 O título do manuscrito redigido em francês
é significativo: Brèves réflexions sur quelques règles de l’histoire.6 Segundo
Blandine Kriegel, trata-se de um “escrito de circunstância do fundador da
história erudita”7 ou ainda, nas elevadas palavras da estudiosa da obra do
monge, do “Galileu da histoire savante”.8
As “breves reflexões sobre algumas regras da história” foram escritas em
meados da década de 1670, muito provavelmente em 1677, estima Kriegel,
momento em que as disputas entre os religiosos beneditinos a respeito da
história de sua congregação ainda mantinham sua chama acesa. Neste texto de
ocasião, com um evidente teor de disputa, Mabillon expõe de forma clara e
inequívoca sua própria compreensão das dimensões éticas e epistemológicas
do ofício do historiador. Assim, se do ponto de vista moral, o dever de todo juiz
é alimentado por um sincero amor pela justiça, a prática dos historiadores,
segundo o beneditino, deveria também ser pautada por um declarado amor
pela verdade. A correlação, que não era uma novidade no século XVII e manter-
se-á em voga ainda no século XX, entre a atividade jurídica e a historiográfica,
justificava-se pelo fato de ambos, o juiz e o historiador, serem figuras públicas
e, como tais, deverem prestar contas socialmente de suas condutas
profissionais. Nas palavras do autor, “como nem todo mundo dispõe de tempo
para examinar os fatos da antiguidade, faz-se uso do julgamento que deles
estabelece o historiador: e ele engana o público se não realiza todas as
diligências possíveis para formar um justo julgamento das coisas”.9 Todavia,
correlato a este preceito ético, há ainda um pressuposto fundamental a orientar
o trabalho dos historiadores: o recurso às fontes originais. Como afirmou o
monge, “desde há muito compreendi que se queria dar os originais das vidas
[dos santos] a fim de apoiar solidamente nossa história e afim de que esses
monumentos antigos servissem como arquivos, nos quais estejam contidas as

5
O termo “crítica” diz respeito aos cuidados metódicos utilizados pelos seus realizadores.
Segundo Kriegel, “il s’agit d’appliquer aux écrits des pères, les méthodes de la philologie
humaniste”. Sobre as relações entre o método de Mabillon e a crítica erudita dos humanistas
italianos dos séculos XV e XVI, ver KRIEGEL, Blandine. L’histoire à l’Age classique 2. La défaite
de l’érudition. Paris: Quadrige/PUF, 1996.
6
Cito a partir da edição transcrita por M. N. Baudouin-Matusezk, prefaciada e anotada por
Blandine Barret-Kriegel. MABILLON, Jean. Brèves réflexions sur quelques règles de l’histoire.
Paris: P.O.L, 1990. O prefácio de Kriegel situa o contexto dos debates dos quais resultou o
escrito de Mabillon.
7
Ibid, p. 11.
8
KRIEGEL, Blandine. L’histoire à l’Age classique 1. Jean Mabillon, op. cit., p. 25.
9
Ibid, p. 104.
peças autênticas sobre as quais nossa história se apoia”.10 É, pois, nessa dupla
dimensão que envolve a pesquisa histórica, o dever ético pela verdade sincera
por um lado e, por outro, a necessidade epistemológica de fundar o
conhecimento sobre evidências autênticas, que Mabillon situa as bases de seu
trabalho historiográfico, pormenorizado na obra de 1681. Dessa maneira, ele
consegue conjugar sem maiores contradições as duas feições que conformam a
sua figura, formada tanto pelo religioso como pelo erudito, o monge e o
historiador. Afinal, para ele não há como desvencilhar a fé da ciência, a piedade
da verdade.
Enfim, colocando num mesmo plano três personagens singulares, o juiz, o
religioso e o historiador, o método historiográfico defendido por Mabillon com
o intuito de instaurar o recorte que separa a verdade do erro, assim como o
autêntico do falso, faz eco a toda uma tradição crítica que remonta ao
humanismo italiano desde o século de Petrarca, assumido em terras francesas
pelas gerações de letrados, entre eles Jean Bodin, que, na segunda metade do
século XVI, incorporaram os preceitos das artes historicae para expor com afinco
as relações entre jurisprudência e historiografia.11 Duas práticas aparecem,
então, como correlatas: a filologia e o antiquariato. Para Arnaldo Momigliano
elas estabeleceram os critérios fundamentais que caracterizam a historiografia
moderna.12 Segundo Blandine Kriegel, “filólogos ou antiquários, os humanistas
italianos foram considerados por diversos historiógrafos de sua disciplina como
os fundadores parciais, mas incontestáveis, da erudição moderna”, erudição
sobre a qual, cabe complementar, foi erigida a prática historiográfica na
modernidade.13 Entre os pilares que sustentam tal edifício, o próprio texto de
Lorenzo Valla. Como já sugeriu Carlo Ginzburg, “Mabillon não teria existido sem
Valla”.14

O texto aqui traduzido encontra-se entre os Papiers Mabillon dos manuscritos


franceses da Biblioteca Nacional da França (Bibliothèque Nationale, ms. fr.
17696, fol. 294-304). Para a tradução, consultei duas transcrições: 1) MABILLON,
Jean. Brèves réflexions sur quelques Règles de l’histoire. Texte transcrit par M.

10
Ibid, p. 105.
11
KELLEY, Donald. Foundations of modern historical scholarship. Language, law, and history in
the French Renaissance. New York: Columbia University Press. 1970.
12
MOMIGLIANO, Arnaldo. “Ancient history and the antiquarian”. In: Contributo alla storia degli
studi classic. Roma: Edizioni di Storia e Letteratura, 1979; MOMIGLIANO, Arnaldo. “O
surgimento da pesquisa antiquária”. In: As raízes clássicas da historiografia moderna. Bauru:
Edusc, 2004.
13
KRIEGEL, Blandine. L’histoire à l’Age classique 2. La défaite de l’érudition, op. cit., p. 23.
14
GINZBURG, Carlo. “Introdução”. In: Relações de força. História, retórica, prova. Companhia
das Letras, 2002, p. 40.
N. Baudouin-Matusezk. Préface et notes de Blandine Barret-Kriegel. Paris:
P.O.L., 1990, p. 103-132. 2) MABILLON, Jean. “Brèves réflexions sur quelques
règles de l’histoire”. In: Le moine et l’historien. Dom Mabillon, oeuvres choisies.
Édition établie par Odon Hurel. Paris: Robert Laffont, 2007, p. 932-951. Mantive
entre parênteses vários termos ou trechos no original francês em função das
possíveis ambiguidades da tradução. As notas acrescidas por mim (NT) situam a
forma como utilizei ambas, além de tentar precisar o sentido de alguns termos
ou passagens do texto. Para informações complementares, acresci uma série de
notas retiradas das duas mencionadas edições. Os parágrafos também foram
por mim numerados de modo a facilitar a referência e a consulta.
Expresso minha gratidão a Pedro Telles da Silveira, pela revisão feita tanto da
apresentação quanto da tradução. O projeto de pesquisa de que resultou este
texto teve apoio financeiro do CNPQ.

Fernando Nicolazzi
Departamento de História/UFRGS
BREVES REFLEXÕES SOBRE
ALGUMAS REGRAS DA HISTÓRIA

§1. Eu não teria jamais pensado em falar das regras da história, se eu nelas não
estivesse engajado pela necessidade de me defender. Há muito tempo que
queixas são feitas contra mim em viva voz e por escrito, e eu sempre resisti às
solicitações que me fizeram para respondê-las, visto que eu acreditava que isso
seria inútil. Acusam-me de ter suprimido (retranché1) vários santos tomados até
o presente como pertencentes à Ordem. Esclareço que eu os não suprimi, pois
apresentei suas Vidas, mas que eu apenas testemunhei que não era certo que
eles dela faziam parte, e que eu era obrigado a esta confissão. Mas como ainda
se continua a depreciar cada vez mais minha conduta, considerei que era enfim
necessário esclarecer que não estou totalmente enganado como se pretende, e
que eu teria pecado contra as regras da história se as utilizasse de outra maneira.
Eu não espero, contudo, convencer todas as pessoas daquilo que direi; todos
os espíritos não estão dispostos de forma igual para receber as mesmas
verdades. Mas espero, ao menos, que as pessoas que julgam as coisas sem
preconceitos e de boa fé concordarão com minhas razões, e que aqueles que
trabalharão depois de mim com os mesmos desígnios estarão seguros (affermis)
nos mesmos verdadeiros conhecimentos (sentimens2) que deve possuir aquele
que trata da história.

1
Os trechos em francês colocados entre parênteses são retirados da edição de Blandine Kriegel
(BK), na qual não houve atualização ortográfica. Todavia, a transcrição principal utilizada foi a da
edição organizada por Odon Hurel (OH), atualizada ortográfica e gramaticalmente (NT).
2
Em virtude dos contextos em que o termo sentimens (sentiments) aparece na obra, optei por
traduzir invariavelmente por conhecimento (NT).
O amor pela verdade

§2. Como o amor pela justiça é a primeira qualidade de um juiz, do mesmo


modo a primeira qualidade de um historiador é o amor e a procura (recherche)
da verdade das coisas passadas. Um juiz é uma pessoa pública estabelecida para
fazer a justiça, todas as pessoas seguem seu julgamento sobre os fatos que lhe
são colocados à mão e ele é culpado de um grande crime quando não faz seu
possível para dar a cada um aquilo que lhe pertence. É também obrigação de
um historiador, que é uma pessoa pública sobre a qual se ampara para examinar
os fatos da antiguidade. Como todo mundo não dispõe de tempo para examiná-
los, confia-se no julgamento que ele faz deles, e engana o público se não realiza
todas as diligências (diligences3) possíveis para formar um julgamento justo das
coisas.

§3. E não se deve acreditar que esta justeza (justesse) de julgamento seja sem
consequências. Pois, como o verdadeiro conhecimento da história é a regra da
prudência humana nas coisas civis, o fundamento da tradição da Igreja nas
coisas de fé, o modelo da conduta dos homens nos costumes (moeurs), é
bastante condenável aquele que faz profissão de dar estas regras, estes
fundamentos e estes modelos e que, todavia, não faz esforços de procurar a
verdade das coisas que são seu fundamento.

§4. Estando, então, engajado em tratar da antiguidade, eu me propus como


primeira das minhas regras o amor da verdade. Mas eu vejo nisso ainda um
engajamento particular em dar os originais das coisas.4 Pois aqueles que tratam
a história desta maneira fazem profissão particular de procurar a verdade, e dão
testemunho de não querer avançar sobre nada que não esteja fundado na
própria antiguidade, e que não querem parar no julgamento dos seus
contemporâneos (aux jugemens des recens), mas no conhecimento dos antigos,
aos quais compete dar testemunho sobre aquilo que se passou em seu tempo.

3
Como indica o dicionário de Furetière, o termo diligences, quando empregado particularmente
no plural, como é o caso de Mabillon, remete, além da exatidão com que se realiza uma
pesquisa, à dimensão da investigação (poursuite) em um processo jurídico. Nesse sentido, o
trabalho do historiador assemelha-se tanto ao do juiz, em sua posição pública de arguidor da
verdade, como à prática daquele que recolhe as peças do processo que servirão para a decisão
do juiz. FURETIÈRE. Antoine. Dictionaire universel contenant generalement tous les mots
françois tant vieux que modernes, & des termes de toutes les sciences et des arts. Paris, 1690
(NT)
4
Originaux des choses, ou seja, fontes autenticadas que servirão ao trabalho de busca da
verdade na prática da história (NT).
§5. Diz-se sobre isso que a obra da qual fui encarregado não seria senão para
a piedade, e não para a crítica,5 e que o desejo de nossos padres era apenas
oferecer a Vida dos santos a ser imitada e não a ser discutida. Mas eu respondo
a isso que a ideia que sempre me foi dada desta obra foi totalmente contrária.
Eu sempre entendi que se queria dar os originais das Vidas a fim de apoiar
solidamente nossa história e para que esses antigos monumentos servissem
como arquivos,6 nos quais estão contidas as peças autênticas sobre as quais
nossa história está apoiada.

§6. Mas mesmo se não me fosse dada, de início, esta ideia, a natureza do
desígnio e da obra necessariamente me inspirariam. Pois, por que relatar
(rapporter) os originais das Vidas de nossos santos, se é por piedade, e não pela
pesquisa da verdade (recherche de la vérité) que se faz esta compilação
(recueil)? Não valeria mais, neste caso, dar as Vidas dos santos em um bom
estilo, a fim de dar o gosto das coisas de edificação (donner du goust des choses
d’edification) que ali são relatadas, do que deixá-las em um estilo bárbaro, no
qual a maior parte delas foi composta? Não se trata de dar antes a aversão do
que seu atrativo?

§7. Mas por que separar a piedade do amor pela verdade!7 Não são elas duas
companhias inseparáveis, e podemos ser verdadeiramente religiosos sem amar
a verdade? Diz-se que saber se um santo pertence ou não à Ordem não interessa
para a piedade. Não se deve, portanto, restringir-se aos santos da Ordem nesta
compilação, mas deve-se dar todas as Vidas dos santos monges e religiosos; ou
se, restringindo-se aos santos da Ordem, a verdadeira piedade demanda que
não se lhe atribua nada que não esteja apoiado sobre a verdade.

§8. Acrescenta-se que esta crítica é contrária mesmo à piedade, que um


beneditino será tocado sensivelmente pelo exemplo de um santo que ele crê
pertencer a sua Ordem, pela razão segundo a qual, ordinariamente, se é mais
comovido (frappé) pelos exemplos domésticos e que, se ele chega a duvidar
disso, ele não será tão sensibilizado. E que, assim, valeria mais deixar as coisas
na boa fé a respeito de alguns santos que se acredita pertencerem à Ordem,
ainda que não seja assegurado que eles assim o fossem.

§9. Mas eu não vejo outra razão que esta para mostrar que era necessário
fazer a crítica e o discernimento dos santos que são seguramente de nossa
Ordem, daqueles cujo pertencimento não é garantido. Pois, já que somos mais

5
No sentido de julgamento crítico, erudição (NT).
6
Segundo o Furetière, arquivo é “tesouro, câmara onde se guarda os títulos ou papéis de uma
casa, de uma comunidade” (NT).
7
Neste trecho como em outros, percebe-se o esforço de Mabillon em tentar conciliar fé religiosa
e crítica erudita (NT).
comovidos (touché) pelos exemplos domésticos do que por aqueles que são
estrangeiros,8 é necessário que sejamos convencidos de que um santo é
seguramente da Ordem para ser por ele solidamente comovido. Ora, no pouco
de discernimento que se trouxe até o presente na escolha dos santos que nos
pertencem é impossível que, lendo suas Vidas, nós sejamos bem persuadidos.
Cada um sabe que os estrangeiros nos tiram (ôtent) mais santos que nós nos
atribuímos e, por um princípio geral, eles duvidam dos verdadeiros pelo fato de
que se atribui muitos que não pertencem à Ordem. É impossível que essas
dúvidas não causem impressão sobre o espírito de um jovem religioso que lerá
estas Vidas. E, como ele não é capaz de resolvê-las, é necessário se fazer esta
discussão para que estas dúvidas não se estendam até os santos que são
seguramente da Ordem e que assim ele não seja comovido nem pelos
verdadeiros santos da Ordem nem pelos duvidosos, pois ele não estará seguro
sequer de um, na falta de provas que não pode encontrar facilmente.

§10. Mas, enfim, já que são atribuídos os originais, seria necessária uma
discussão para atribuí-los, seja para suprimir aqueles que não merecem sê-lo,
seja para esclarecer aquilo que é obscuro, seja para apoiar aquilo que parece
extraordinário, seja para corrigir aquilo que é falso. Se estes originais serviam
apenas como memórias para as pessoas eruditas,9 poder-se-ia dispensar esta
crítica,10 visto que elas são capazes de fazer por elas mesmas as reflexões
necessárias sobre os originais. Mas como esta compilação deve servir a toda
sorte de espírito, e mais ainda à juventude do que às pessoas esclarecidas, era
absolutamente necessário fazer observações (remarques). E se se fizesse sobre
um ponto, por que não fazer sobre o discernimento dos santos da Ordem que
são a matéria e o fundo desta compilação?

A sinceridade

§11. Não é suficiente a um homem que se envolve com história (mesle


d’histoire) possuir o amor pela busca da verdade, ele deve ainda ter a
sinceridade para dizê-la e escrevê-la de boa fé como ele a crê. A mentira não é
jamais permitida aos cristãos nem aos religiosos. Há, contudo, certas mentiras
que não causam mal a ninguém e que servem a alguns. Mas não há, em
absoluto, mentira ou erro em um historiador que não possam ser, de algum

8
Estrangers no sentido de não pertencentes à ordem beneditina (NT).
9
O termo utilizado por Mabillon, em sua grafia original, é scavantes, de difícil tradução para o
português. Optei pelo termo erudito, ao invés de sábio, para destacar melhor a ideia colocada
pelo autor, corrente no século XVII. Segundo o dicionário de Furetière, scavante é aquele que
“muito leu, meditou e estudou, ou trabalhou em alguma arte ou ciência”, no caso, a ars historica
(NT).
10
Cf. nota 5 (NT).
modo, perniciosos. E como ele deve fazer todo o possível para evitar o erro, ele
deve fazer o mesmo para evitar a mentira e para nunca pecar contra a
sinceridade. As faltas que comete um historiador escrevendo uma história fazem
com que uma infinidade de outras pessoas que se fiam em sua palavra tomem
o erro ou a mentira pela verdade. Que estas regras da prudência cristã e humana
sejam corrompidas, e a falta que ele comete é seguida, frequentemente, por
uma infinidade de outras que a ela estão ligadas.

§12. Ora, a sinceridade demanda que se relatem as coisas certas como certas,
as coisas falsas como falsas e as duvidosas como duvidosas; e nada dissimular
daquilo que pode reforçar ou enfraquecer um ou outro partido, a afirmativa ou
a negação.11

§13. E não se deve acreditar que não seja pecar contra a sinceridade fazer
passar por certas coisas duvidosas para alguns em favor de sua Ordem ou por
alguma outra consideração de honra ou de interesse. Pois não é menos
verdadeiro que uma coisa duvidosa é duvidosa enquanto ela o é
verdadeiramente, que uma coisa certa seja verdadeira, e peca-se quase
igualmente assegurando uma dúvida como uma coisa certa, como fazendo
passar uma falsidade por uma verdade. Pois, é preciso representar as coisas tal
como as acreditamos e, ainda que se possa confundir-se duvidando de uma
coisa que é certa em si mesma (certaine en soy), não se pode, todavia, culpar
um historiador de, duvidando dela, assegurar sua dúvida de forma racional.
Porque nós não pecamos por não conhecer a verdade das coisas, desde que
nós realizemos todas as diligências para conhecê-las. Mas nós pecamos ao
testemunhar que nós cremos em tais coisas, quando que efetivamente
duvidamos delas.12

§14. É sobre este princípio que acreditei ser obrigado, após ter examinado
as coisas o melhor que me foi possível, fazer o discernimento dos santos
duvidosos da Ordem daqueles que pertencem a ela verdadeiramente e, ainda
que eu possa ter me enganado, não se pode, entretanto, condenar esta
conduta, pois fazendo de outro modo eu teria pecado contra a sinceridade.

§15. Diz-se sobre isso que eu não devia ser o primeiro a subtrair à Ordem os
santos que se acreditava, até o presente, pertencerem a ela, que é bem pouco

11
Como notou Blandine Kriegel, aqui Mabillon se afasta da posição de René Descartes, notório
por sua desconfiança em relação ao saber histórico, para quem tudo aquilo que é duvidoso é
por si mesmo falso. (NT).
12
Note-se a importância que Mabillon confere não apenas ao resultado da investigação
histórica, isto é, à verdade do fato, mas também ao próprio procedimento de atestação da
verdade, o qual pode, porventura, não ser bem-sucedido. O bom historiador é, nesse sentido,
não tanto aquele que atesta o verdadeiro, mas aquele que domina todos os mecanismos para
tal atestação (NT).
decente a um beneditino escrever em prejuízo da sua Ordem, ele que não
deveria ter inclinação senão para salientar sua honra.

§16. Eu respondo a isso, primeiro que não sou o primeiro a ter colocado estes
santos de que se trata na categoria (rang) dos duvidosos. Aqueles que tratam
da história atualmente escrevem todos os dias contra nós por nos atribuirmos
santos que não nos pertencem. Não nos subtraem apenas aqueles que
poderiam parecer duvidosos, contestam-nos mesmo os verdadeiros. Sabe-se o
que Baronius13, Bollandus14 e seus companheiros, e o padre Le Cointe15
escreveram sobre este tema. Era preciso, então, responder a eles sobre o que
diz respeito aos nossos santos verdadeiros e isso não poderia ser feito senão
com o discernimento dos santos duvidosos. Pois, quando se trata de formar uma
disputa regrada, é preciso apoiar-se naquilo que é certo e enfraquecer de boa
fé aquilo que não o é; de outra forma, ao querer tudo ganhar, perde-se tudo e
coloca-se no lugar de não ser acreditado naquilo que é certo, quando se quer
assegurar igualmente o incerto.

§17. Segundo, aqueles que me precederam neste tipo de obra, usaram-na


da mesma maneira que eu. Basta olhar ao que o padre Yepez16, Wion17 e o padre

13
Cardeal Cesar Baronius (1538-1607). Oratoriano, compôs, para responder aos Centuries de
Magdebourg, os Annales ecclesiastici (1588-1607, 12 vol.), uma história da Igreja que se estende
até o ano 1198, grande obra de polêmica erudita (BK).
14
Bollandus ou Jean Bolland (1596-1665). Jesuíta, chamado a continuar a obra projetada por
Heribert Rosweyde após sua morte, uma compilação em 17 volumes das Acta Sanctorum, ele
fez disso um monumento de erudição: cada Vida é precedida por um comentário apresentando
e discutindo os documentos relativos à Vida dos santos. Seu colaborador Papenbroeck iniciará,
com sua crítica das atas merovíngias depositadas no monastério de Saint-Denis, a discussão que
está na origem do De re diplomatica. Os Bolandistas constituíram em Flandres uma equipe de
valor comparável ao dos mauristas (BK).
15
Charles Le Cointe (nascido em 1661). Oratoriano, professor de retórica, historiador, participa
na Bella Diplomatica [batalha diplomática] e notadamente no tratado de Münster. Bibliotecário
do Oratório em Paris, é sua obra, os Annales ecclesistici Francorum, Paris, 8 vol. in-fol., (tomo I,
lançado em 1609), que ocasionara a disputa com Dom Philippe Bastide (BK).
16
Dom Antoine d’Yepez. Erudito beneditino espanhol (morto em 1621), membro e depois
superior geral da Congregação de Valladolid, autor das Chroniques de l’Ordre de Saint Benoît
(o primeiro volume lançado em Pampelune, em 1609) em 7 volumes, traduzidas para o francês
por Dom Martin Rhetelois (7 vol., in-fol.), superior geral da Congregação de Saint-Vennes (BK).
17
Arnold de Wion (nascido em 1577 em Douai). Beneditino no monastério de Saint-Justice de
Padoue, publicou notadamente um Nécrologe de l’Ordre de Saint-Benoît, reeditado por Dom
Ménard em 1629, e compôs, à glória da Ordem, o Lignum vitae, ornamentum et decus Ecclesiae,
Venise, 1595, 2 vol. in-fol., descrição bibliográfica dos personagens ilustres da Ordem
beneditina. É nesta obra, na notícia ‘Malachie’, que se encontram as célebres profecias
concernentes à sucessão passada e vindoura dos papas, as quais fizeram gastar muita tinta (BK).
Menard18 escreveram sobre vários santos que Tritheme19 nos atribuíra e se
perceberá que eles não têm dificuldades em renunciar ao seu conhecimento
quando duvidam da verdade daquilo sobre o que ele avança.

§18. Terceiro, eu digo que pertence principalmente aos Beneditinos de fazer


o discernimento de seus santos duvidosos daqueles verdadeiros. Eles são os
únicos que podem possuir o conhecimento daquilo que diz respeito a sua
Ordem. Eles têm todos os monumentos (monumens) necessários para
estabelecer um julgamento verdadeiro de sua história. Quando os estrangeiros
querem se informar sobre isso, eles possuem o socorro daquilo que eles
escreveram. E, se eles não dizem de boa fé as coisas, distinguindo as incertas
daquelas que são certas, eles enganam o público dando-lhe falsas ideias das
coisas e se é responsável das faltas que se seguem destes falsos princípios que
foram dados.

§19. Quarto, eu sustento que a honra da Ordem deve obrigar um verdadeiro


beneditino a fazer este discernimento. Pois eu pergunto, por exemplo, se não
seria mais vantajoso aos padres carmelitas serem os primeiros a se desenganar
desta falsa ideia que eles conceberam sobre a antiguidade de sua Ordem, e se
um religioso desta Ordem não mereceria muito, o qual tornaria menos fabulosa
sua história (lequel tireroit de la fable leur histoire) representando as coisas com
mais discernimento.20 Eu sei bem que nós não temos na Ordem conhecimentos
que sejam tão distantes da verdade assim, mas é certo que há muitas coisas
duvidosas e falsas misturadas entre as verdadeiras e certas, e que esta mistura
faz perder o gosto e o conhecimento das verdadeiras; daí a razão dos
estrangeiros não acreditarem em quase nada daquilo que nós lhes dizemos, já

18
Hugues-Nicolas Menard (1585-1644). Beneditino francês, professado na abadia de Saint-Denis
em 1608. Autor de um martirológio dos santos da Ordem de Saint Benoît (Martyrologium
Sanctorum Ordinis Sancti Benedicti, Paris, 1629, 1 vol. in-fol), revisto segundo o de Wion, de
uma concordância de regras (Concordia regularum...), 1628, 1 vol., e de um sacramentário do
papa Gregório, o Grande (Divi Gregori Papae hujus hominis primi... liber sacramentorum, Paris,
1624, 1 vol.) (BK).
19
Jean Trithème, erudito beneditino, abadia de Spanheim na diocese de Mayenne (1462-1519),
publicou mais de 52 obras. Obras de história eclesiástica, notadamente a Chronique d’Hirsen
contendo detalhes importantes sobre a história da Alemanha e que se estende de 830 a 1513
(2 vol. editados em 1559, 1601, 1690), escritos ascéticos, obras científicas e cabalísticas (BK).
20
A controvérsia sobre a origem dos carmelitas foi um episódio importante da controvérsia
histórica e erudita em matéria de história das ordens religiosas e de suas origens. Esta disputa
conheceu no século XVII o seu apogeu, sem dúvida em razão dos progressos do método
histórico. Alguns carmelitas consideravam que o carmelo tinha por origem direta os profetas
Elias e Eliseu. Na suas Acta sanctorum, em 1668, os bolandistas colocaram em causa esta
concepção afirmando as origens medievais da Ordem. A querela entre carmelistas e bolandistas
prosseguiu até 1695 (condenação destes últimos por Roma) e 1698 (silêncio imposto às duas
partes). É interessante notar, sobre isto, a posição tomada por Mabillon em favor da tese dos
bolandistas, desde a década de 1670 (OH).
que não fazemos de todo um justo discernimento das coisas. E, portanto, não
devemos de modo algum considerar mal que, para tornar nossa história mais
verossímil, descartemos aquilo que é duvidoso distinguindo-o do que é certo:
visto, principalmente, que não se suprima absolutamente as Vidas dos santos
duvidosos, mas que se as represente apenas tal como as acreditemos, deixando
a liberdade a cada um de julgar pela inspeção das razões e dos fundamentos
que se há de uma parte e de outra. Eu rogo àqueles que lerão estas páginas de
refletirem bem sobre este ponto, que eu não suprimo em absoluto os santos
que considero evidentemente estrangeiros ou duvidosos, mas que testemunho
apenas que há razão para duvidar, seja pelas razões que trago, seja pela
diferença do caráter que marca minha dúvida, sem me erguer sobre isto como
juiz soberano das coisas ao suprimi-las absolutamente.

§20. Quinto, enfim, um historiador, sendo uma pessoa pública, deve se


despojar (dépoüiller) de todos os tipos de afeição e de preconceitos (prejugéz)
que são contrários ao amor pela verdade e pela sinceridade. E, se lhe pode
restar alguma inclinação particular por sua pátria ou por aqueles de seu estado
e de sua condição, ela não deve ser senão para examinar as coisas com mais
curiosidade e exatidão do que os outros que não são tão próximos, e para
dissimular certos fatos particulares, os quais, não podendo em nada servir ao
público, podem-lhe, ao contrário, muito prejudicar. Digo certos fatos, pois há
outros fatos públicos os quais, ainda que não pareçam tão vantajosos à
reputação de alguns particulares, devem, contudo, ser marcados para a
instrução e a precaução da posteridade. Foi assim que foram usados todos os
santos que falaram das desordens que havia na Igreja de seu tempo. Eles
marcaram as causas, a origem e as consequências, a fim de que a posteridade
aproveitasse das desordens dos antigos, assim como de seus bons exemplos.
Eis até onde nos deve levar a verdadeira sinceridade. Pois, enfim, quando se
tratar de toda a honra de uma Ordem, nós não a devemos estabelecer em
prejuízo da sinceridade. Nós não devemos ter mais amor por nossa Ordem do
que pela Igreja, pela conversão ou salvação dos Infiéis. E santo Agostinho faz
ver claramente que quando se tratasse da conversão de uma província inteira, e
para isso bastasse uma mentira, não deveríamos cometê-la. E não é menos uma
mentira, como eu disse sobre assegurar uma dúvida como coisa certa, fazer
passar uma mentira por verdade, além de que se peca contra a modéstia
atribuindo a sua Ordem aquilo que não lhe pertence, ou querendo atribuir-lhe
positivamente o que é duvidoso. Pois não se deve imaginar que não é pecar
contra a modéstia sob pretexto que esta honra não é para nós em particular,
mas para a Ordem. Trata-se de um requinte do amor próprio, que se pode
facilmente descobrir por pouco que se dedique a isso.
A autoridade

§21. Após ter falado das duas regras que retificam o entendimento e a
vontade pela pesquisa da história, é preciso falar das regras sobre as quais está
apoiada a verdade das coisas passadas.

§22. A primeira, que é quase única, é a autoridade. Nós não podemos


conhecer as coisas passadas senão por tê-las visto ou por tê-las ouvido de
testemunhas dignas de fé ou por tê-las lido. Ora, quando se trata de coisas
antigas, não há propriamente senão a autoridade dos escritores que nos
precederam que nos podem prestar um testemunho seguro.

§23. Estes autores são ou contemporâneos ou próximos dos


contemporâneos, ou posteriores ou recentes.

§24. Ainda que o testemunho dos autores contemporâneos deva ser de um


grande peso, nós não devemos recebê-los cegamente. Nós aí devemos trazer
uma precaução semelhante àquela que trazemos aos discursos que nos fazem
todos os dias, e cabe à prudência de um homem de bom senso julgar, pelas
circunstâncias das coisas, se aquilo que lhe é dito é verossímil (vraysemblable)
ou não. É preciso, todavia, confessar que não devemos carregar a mesma
severidade21 no discernimento do que escreveu um autor antigo, em relação
àquilo que nos dizem todos os dias na conversa cotidiana (discours familier).
Enquanto um homem escreve, ele se dedica com muito mais circunspecção a
examinar a verdade das coisas que ele deve deixar à posteridade do que ao que
ele não diz senão de passagem (en passant). Entretanto, não se deve receber
tudo de forma cega, sob o pretexto de que um autor contemporâneo o disse. É
preciso ver se se trata de um homem que seja aliás exato, se ele não é
apaixonado (passioné) por um país ou por um estado particular do qual ele fala,
e se ele não é contradito por outros historiadores coetâneos (du tems) ou pelas
circunstâncias das coisas, sobre as quais nós temos, aliás, um certo
conhecimento.

§25. Aqueles que começam a estudar a história algumas vezes se espantam


em ver os diferentes conhecimentos dos autores, mesmo contemporâneos,
sobre um mesmo assunto. Mas isto não deve, de modo algum, surpreender,
uma vez que esta diversidade de conhecimentos não é, na maioria das vezes,
senão no tocante ao fundamento dos fatos (le dedans des faits), quer dizer, no
tocante às intenções, os motivos e as causas de alguns fatos particulares que
são as coisas que não são fáceis de penetrar a não ser que se saiba o segredo
do gabinete (le secret du cabinet). Que se essa diversidade aparece mesmo a

21
A edição de Blandine Kriegel traz a palavra sinceridade (sincerité). Pelo contexto da frase,
pareceu-me mais adequada a transcrição da edição de Odon Hurel (sévérité) (NT).
respeito dos fatos, não será difícil saber qual partido devemos tomar. Há um
certo brilho na verdade que se faz aparecer de uma maneira que não se pode
exprimir. E pela assiduidade com que se lê os autores, tem-se certo gosto que
nos faz discernir aqueles que devemos preferir, o que se reconhece
principalmente quando são exatos e sem paixão, que são as duas melhores
qualidades dos historiadores contemporâneos.

§26. Para aquilo que diz respeito aos autores vizinhos destes, é necessário,
para julgá-los, ver se são sensatos (de bons sens) e se são exatos ao marcar os
nomes das pessoas das quais eles aprenderam aquilo que escrevem; e então
eles são dignos de fé quando não são de modo algum combatidos pelo
testemunho dos bons autores que lhes são contemporâneos ou que os sucedem
imediatamente.

§27. A respeito dos autores posteriores, é necessário ainda considerar se são


hábeis e se eles tomaram cuidado de apoiar aquilo que adiantam pela leitura
dos antigos. E, se neles são notadas todas essas características, pode-se bem
confiar em sua palavra, no caso de não possuirmos mais os monumentos dos
quais eles se serviram para compor sua história ou bem para adiantar certos
fatos particulares cuja antiguidade não nos deixou memórias.

§28. Enfim, é preciso que os [historiadores] recentes possuam todas estas


qualidades, além de citar os autores dos quais eles se serviram; e assim, deve-
se com isso ter condições (recours) para saber se eles escolheram corretamente
o sentido e não confiar plenamente no julgamento que sobre eles firmaram. Mas
se, pela experiência, nota-se que um autor recente avança muitas coisas sem
autoridade ou que, ao relatá-las, ele não escolheu bem o sentido, ou se ele não
viu as memórias que eram necessárias para formar um bom julgamento das
coisas que ele adianta, então seu testemunho deve ser suspeito e sujeito à
revisão.

§29. Quando os autores posteriores e recentes estão divididos com relação a


algum ponto da história, é preciso recorrer aos originais para julgá-lo. Ou, caso
não haja luz suficiente para formar este julgamento, consultar os autores de
nosso século que trataram profundamente desta matéria.

§30. Eis, aproximadamente (a peu pres), as regras que me propus na escolha


dos autores dos quais me servi. Recorri, tanto quanto me foi possível, ao
testemunho dos autores contemporâneos ou daqueles que os sucederam de
perto. Mas não me prendi a eles cegamente, principalmente quando notei que
eles eram contraditos, em certos pontos, pelos autores do tempo cuja
autoridade era mais admissível. Na ausência de autores contemporâneos, recorri
àqueles que lhes sucederam e eu não renunciei ao seu conhecimento quando
nada tinha para combatê-los. Eu utilizei do mesmo procedimento com relação
aos autores mais afastados do tempo das coisas que relatam. É verdade que eu
não acreditei poder assegurar com a mesma certeza aquilo que eles adiantavam
quando eu não via que seu conhecimento fosse bem amparado (for appuyé).
Mas tudo que fiz neste encontro foi deixar o julgamento aos leitores.

§31. Enfim, eu confesso que não confiei muito nos autores recentes, que
recorri a peças originais para verificar aquilo que eles diziam e, bastante
recorrentemente, encontrei muito pouca exatidão e fidelidade, que me decidi
de não seguir seu conhecimento senão após tê-los bem examinado. Excluo,
entretanto, deste número alguns grandes homens dos nossos dias, com a estima
dos quais assegurei-me tanto mais que tive o recurso dos originais para verificar
aquilo que escreviam.

§32. É com base nisto que examinei Tritheme e Wion, que foram os primeiros
que fizeram o catálogo dos nossos santos. É verdade que um e outro merecem
muito de nossa Ordem, por terem sido os primeiros a tentar este desígnio e que
era difícil, visto o estado das coisas, de ser mais bem-sucedido. A imprensa não
era de grande uso no tempo de Tritheme, ela estava apenas começando então.
Quase não havia outros livros senão os manuscritos e era difícil ver tudo aquilo
que era necessário para tão grande plano. Além disso, a cronologia e muitas
outras dificuldades da história não estavam ainda esclarecidas ao ponto que elas
estiveram atualmente. E é por isso que era então quase impossível fazer tão bem
o discernimento de nossos santos, sem cometer tantos erros. Todavia, é certo
que Tritheme conferiu a isso muito diligência. Ele acumulou todos os
manuscritos que conseguiu para este intento e enviou Paulus Langius22 aos
Monastérios de nossa Ordem para ver as bibliotecas e fazer os resumos
(Extraicts) que lhe eram necessários para isso. Mas é preciso confessar, contudo,
que ele cometeu uma quantidade de erros que não podemos dissimular.

§33. Wion, que escreveu quase cem anos após ele e quem primeiro redigiu
nosso martirológio, reconhece, não obstante o trabalho que Tritheme realizou
antes dele, que as coisas lhe pareciam tão confusas e obscuras, que com muito
custo podia ele julgar se os santos que ele inseriu em seu martirológio eram
monges ou não, seja pelo fato de que não conseguiu encontrar suas Vidas, seja
porque não pareceu muito claramente, nem pelas Vidas mesmas nem pelos
autores que tinha em mãos, que estes santos fossem monges. Estava muito
longe de ser assegurado que fossem beneditinos.

22
Beneditino alemão que se tornou discípulo de Lutero. Percorreu, em 1515, os conventos
alemães à procura de documentos. Autor da Chronique des événements de Zeitz (que se passa
em Saxe, entre 968 e 1515) (BK).
§34. Entretanto, critica-se o fato de que eu nem sempre segui os
conhecimentos de Tritheme e de Wion, e se diz que eu não tenho mais luz do
que eles para despojar da Ordem aquilo que eles lhe atribuíram.

§35. Mas eu respondo:

§36. Primeiro, que eu não subtraio nada à Ordem daquilo que eles lhe deram,
mas simplesmente que eu assinalo as razões que há para duvidar quando existe
fundamento para isso.

§37. Segundo, que jamais foi a intenção de Wion de inserir apenas monges
em seu martirológio. Ele ali quis dar lugar também àqueles que foram mais
afeiçoados a ela, mesmo sem ter trajado o hábito. É por esta razão que ele
colocou S. Geraud23, conde fundador da abadia de Aurillac, e Guillaume24,
duque da Normandia, os quais seguramente não vestiram jamais o hábito de
São Bento, mesmo tendo sido bastante afeiçoados a sua Ordem.

§38. Terceiro, teriam querido que eu seguisse cegamente o que estes autores
escreveram? Seria necessário, então, manter temerariamente que S. Romain e
S. Lupicin25 eram religiosos de São Bento, mesmo sendo certo que eles
morreram antes mesmo de São Bento se tornar religioso.26 Seria necessário
tornar beneditino o arcebispo de Arles, S. Cesaire,27 ele que já era bispo antes
que São Bento fundasse seus monastérios. Seria necessário dar nosso hábito a
S. Equice,28 a S. Jean Damascene29 e a muitos outros que é certo jamais terem
pertencido a nossa Ordem.

§39. Por outro lado, se fosse necessário se deter no catálogo que estes
autores realizaram, seria preciso também suprimir do número de nossos santos,
muitos grandes homens que eles jamais conheceram. Por exemplo, S. Martin,
religioso de Corbie e confessor de Charles Martlel,30 S. Bento, abade de Aniane

23
Saint Géraud (855-909). Barão d’Aurillac e patron da Haute-Auvergne, funda em 894 o
monastério d’Aurillac (BK). A edição OH grafa o nome como Gérard.
24
Guillaume, duque da Normandia (1027-1087) (OH).
25
Irmão de São Romain., morto por volta do ano 480, fundador de monastérios na região de
Franche-Comté e na Suíça (BK).
26
Lupicin e Romain viveram, com efeito, na segunda metade do século V (antes de 500),
enquanto que Bento viveu entre os anos 580 e 640, ou seja, um século mais tarde (OH).
27
S. Césaire (470-542). Bispo de Arles, fundador do monastério de Saint-Jean, dito mais tarde
Saint-Césaire. Desempenhou um grande papel de evangelização e de pacificação (BK).
28
Equitius, abade (morto antes de 571) (OH).
29
S. Jean Damascène (ou Jean de Damas). Padre e doutor da Igreja, primeira metade do século
VIII. Tomou a defesa do culto das imagens no momento da perseguição iconoclasta (BK).
30
S. Martin, monge de Corbie, foi o confessor de Charles Martel. Nasceu no começo do século
VIII e morreu em 726 (BK).
e reformador da Ordem na França,31 S. Adon, arcebispo de Viennes,32 S. Gerard,
abade de Seauve,33 S. Guillaume, abade de Dijon,34 e uma infinidade de outros
que Tritheme não colocou junto destes homens ilustres.

§40. Diz-se sobre isso que seria preciso ao menos um argumento positivo
para dar o desmentido a estes autores e que um argumento negativo não é
suficiente para rejeitar seu conhecimento.

§41. Sobre isso eu respondo:

§42. Primeiro, que se estes autores tivessem tido boas provas positivas tiradas
da antiguidade para apoiar seu conhecimento, confesso que um argumento
negativo não bastaria para contradizê-los.

§43. Segundo, que mesmo se fosse constante que eles tivessem tido outros
monumentos35 que estes que nós temos para julgar as coisas, seria preciso, com
efeito, suspender seu julgamento até o ponto em que se os tivesse encontrado
para os examinar. Mas não apenas Tritheme não teve outras peças antigas senão
as que nós possuímos para julgar sobre o gênero de vida de S. Colomban36, por
exemplo, mas mesmo ele confessa que não viu a regra que este santo compôs,
nem seu penitencial, que são, todavia, as peças necessárias para saber se S.
Colomban não tem mesmo um gênero de vida diferente do de São Bento.

§44. Terceiro, com respeito mesmo às peças que estes autores dizem ter
visto, eles aí cometeram muitos erros. Eles se contentaram de ver o nome de
monge em uma vida para fazer dele um beneditino. E até mesmo, a partir do
fato de que parecia que algum santo teve comércio com um outro que eles
acreditassem ter sido beneditino, eles faziam dele imediatamente um monge. É

31
S. Bento de Aniane (750-821). Filho de um conde do Languedoc, copeiro de Pepino e Carlos
Magno. Professado em Dijon, em 772. Após uma vida de anacoreta na cidade de Saint-Saturnin,
no Languedoc, reforma o monastério de Provence de Languedoc-de-Gascogne, combate Félix
d’Urgel, povoa o monastério de Saint-Guilhem-le-Désert e redige os cânones do concílio d’Aix-
la-Chapelle, em 817 (BK).
32
Adon (799-875). Bispo de Vienne en Dauphiné, aluno do monastério de Terriers, pároco de
Saint-Romain perto de Vienne. Autor de um Martyrologe e de uma Chronique universelle (BK).
33
Abadia de Seauve-Bénite, Haute-Loire. Século XII. Abadia de Cisterciennes (BK).
34
S. Guilaume (960-1031). Abade de Saint-Begnigne de Dijon, nascido na Itália por volta de 960,
de uma família de nobres de Souabe. Nomeado abade de Saint-Begnigne de Dijon, reformou
este monastério assim como um grande número de outros entre os quais Saint-Germain-des-
Prés, em Paris (BK).
35
O termo “monumento” encontra-se à margem do manuscrito original. Ele ocupa o lugar de
“memórias”, palavra riscada no corpo do texto (BK).
36
S. Colomban, abade nascido por volta do ano 543 na Irlanda, morto em Bobio, em 615.
Fundador de monastérios (notadamente em 600, em Luxeuil) na França e em Auvergne. Um dos
principais patriarcas da vida monástica para a qual ele estabeleceu uma regra e um penitencial
(BK).
sobre este princípio que eles colocaram S. Faron37 e S. Eloy38 entre os nossos
santos, ainda que eles jamais tenham sido religiosos. Eles fizeram o mesmo com
Burchard,39 Bispo de Worme, o qual bem foi discípulo de Olbertus, monge de
Gembloux e beneditino, mas nunca foi religioso; e S. Jean de Damas, por ter
tido como mestre um monge que foi pego no litoral da Itália, não devia ter sido,
por isto, travestido de beneditino, já que ele e seu mestre se entregaram ao
monastério de Santo-Sabas, na Palestina, em um século no qual a regra de São
Bento não havia chegado em tais lugares.

§45. Se, então,40 tais autores tiveram tão frágeis conjecturas para atribuir
santos à Ordem, os quais não pertencem a ela, era muito justo examinar seus
conhecimentos e ver se isso podia ser provado pelas Vidas destes santos, que
são as melhores provas que nós podemos ter para julgá-los, ainda que não
sejam as únicas. E se não se encontra nada disso na Vida destes santos, mas
mesmo caracteres diferentes da Regra de São Bento, regras e observâncias
particulares tais como se encontra na vida de S. Colomban, então não apenas
não se deve defender obstinadamente os conhecimentos destes autores, mas,
pelo contrário, pode-se, razoavelmente, renunciá-los.

§46. Não obstante tudo isso, eu não pretendi absolutamente. Eu trouxe todas
as provas que pude encontrar para fortalecer seus conhecimentos e estou
bastante seguro que assinalei que eles não as viram. Mas como eu não as
considerei tão fortes quanto aquelas que sustentam a parte contrária, eu disse
sinceramente o que pensava, sem, contudo, diminuir a Vida do santo, para
mostrar que eu não queria [me] pronunciar definitivamente, mas sim que eu
submetia meu julgamento ao julgamento de outros.

§47. Poder-se-ia acrescentar a isto que não era o forte de Tritheme ser muito
exato na história, que ele não é muito justo no caráter que dá dos autores, que
isso não são senão superlativos e elogios a perder de vista sem muito
discernimento, por exemplo, quando ele discorre sobre o Comentário de
Angelome41 a respeito dos reis que ele jamais leu nada de parecido, ainda que,
à verdade, não se trata de uma peça tão excelente. E que, enfim, ele
desconsiderou coisas que eram de seu próprio tempo, como quando ele nos

37
S. Faron (592-672). Bispo de Meaux, conselheiro de Clotaire II antes de ser bispo de Meaux.
Funda estabelecimentos religiosos e notadamente o monastério de Saint-Eloy, próximo de
Meaux (BK).
38
S. Eloi (588-659). Bispo de Noyon. Após uma formação como ourives, torna-se o conselheiro
de Dagobert; fundador da abadia de Solignac para onde faz vir monges de Luxeuil. Ocupa-se,
em seguida, com a conversão de flamengos (BK).
39
Burchard, bispo de Worms (morto em 1025) (OH).
40
À margem deste parágrafo, Mabillon cita em latim uma passagem de Cassiodoro, capítulo 24
de sua De Institutione divinarum scriptuarum (OH).
41
Angelomus Luxoviensis, Super libros Regnum (OH).
traz dois Thomas, cônegos regulares de Montagne, e que ele atribui ao antigo
a obra da Imitação de Jesus Cristo.42

§48. Mas eu não pretendo aqui desacreditar este autor mais do que os outros
que não acreditei dever seguir, ainda que seja desejável que se conheça seus
erros, a fim de evitá-los e assim como se me dizem, tanto como se quer, que
não tenho mais luz do que estes grandes homens para rejeitar seu
conhecimento. Confesso que não possuo tanta penetração como eles e que, se
eu não tivesse senão minhas luzes, eu não poderia facilmente me defender das
muitas faltas cometidas por eles. Mas como estou em um século mais adiantado
e que muitas pessoas hábeis há cem anos estão ocupadas a esclarecer a história,
seria cegar-se voluntariamente não enxergar de forma mais clara uma infinidade
de pontos que não foram esclarecidos no tempo de Tritheme. Mas, enfim, ainda
que Tritheme tivesse sido mais hábil e mais inteligente do que ele foi, eu não
deveria seguir de maneira cega seus conhecimentos, pois, seguindo a excelente
máxima de santo Agostinho,43 não existem senão autores canônicos aos quais
nós devemos esta submissão cega. Para os outros, tão esclarecidos e tão santos
que eles possam ser, nós devemos pesar suas autoridades e suas razões antes
de aceitar seu conhecimento.

§49. Pois como, enfim, Deus nos deu dois olhos para nos conduzir, ele nos
deu entendimento e razão para julgar as coisas. E é sabido que comumente
espíritos muito medíocres descobrem muitas coisas que espíritos mais elevados
não descobriram, seja por falta de aplicação, seja por um efeito da providência
divina, que retoma suas luzas da forma como lhe apraz.

§50. Eis tudo o que tenho a dizer sobre a autoridade dos autores. Eu poderia
ainda dizer uma palavra sobre o padre Yepez, sobre o padre Bucelin44 e sobre o
padre Menard, mas creio que o que disse é suficiente para pessoas razoáveis e
que tudo o que poderia acrescentar não serviria em nada para os outros. De
resto, é certo que padre Menard foi um excelente homem, mas também é certo
que o Martirológio é sua primeira obra e que ele não se caracteriza pela exatidão
(il n’est pas dans la derniere exactitude). Ele, contudo, não deixou de corrigir em
muitos lugares Tritheme e Wion, suprimindo alguns santos que eles colocaram
como nossos. Ele começou a corrigir e retocar o que escreveu no Martirológio
antes de morrer. E pelo pouco que fez, vê-se correções que fez concernentes a

42
Em 1671, Mabillon se envolveu em uma controvérsia que o opunha aos cônegos regulares
sobre a atribuição do autor do livro Imitação de Jesus Cristo. Segundo os beneditinos, a obra
era da pena do beneditino Gérsen que teria vivido dois séculos e não da de Thomas A. Kempis,
e Mabillon expôs este ponto de vista, que a erudição mais tarde não ratificará, nas suas
Animadversiones in Vindicias kempenses, de 1677 (BK).
43
Mabillon remete, na margem, ao livro 2 do De Baptismo, de santo Agostinho (OH).
44
Padre Gabriel Bucelin (1599-1691). Beneditino historiador da Ordem, autor notadamente dos
Annales Benedictini, Viena, 1655, in-fol (BK).
alguns santos atribuídos à Ordem. Como quando ele diz sobre Gregoire II que
não parecia em absoluto, pela leitura de sua Vida em Anastase, que ele tenha
sido Beneditino. De onde se vê que ele se serviu dos mesmos meios que eu
para examinar as coisas, quer dizer a Vida de nossos santos que são as melhores
peças que possuímos para julgar sobre seu gênero de vida, a menos que não
tenhamos, aliás, outras boas provas.

A tradição e a possessão

§51. Se se distingue a tradição da autoridade escrita, ela não é uma regra tão
segura para apoiar a história.

§52. Ela pode bem servir como alguma abertura para examinar as coisas,
tanto que é certo que não há tradição, tão fabulosa que seja, que não possua
alguma verdade como fundamento; mas tomá-las sem discernimento seria
querer fazer passar a fábula por verdade. Conhece-se suficientemente a
infidelidade que se encontra na narração que se faz das coisas pelo discurso,
que em pouco tempo um fato que teria sido debitado por muitas pessoas não
é mais o mesmo.45 Muda-se, acrescenta-se, suprime-se sempre alguma coisa. E,
em menos que nada, acontece de não ser mais o mesmo. Que acontecerá,
então, quando se tratar de coisas que se passaram há oitocentos, novecentos e
mil anos? Como se poderia fazer que, se as coisas não foram escritas, elas
tenham chegado a nós todas puras, visto que nós sabemos por uma experiência
cotidiana (journaliere) que, se as coisas não são ligadas e fixadas pela escrita em
certas palavras e em certas circunstâncias, elas se alteram e se corrompem por
nada? Do mesmo modo, não há tradição assegurada senão aquela que nos foi
transmitida por meio da escrita; e querer que se estime aquela que não possui
outra garantia senão o discurso e a língua dos homens, significa expor-se
visivelmente à ilusão. Pois, mesmo quando as coisas puderem se perpetuar
desta maneira sem alteração, quem nos garantirá que aquilo que dizemos ser
uma tradição antiga, não nasceu há cem anos? Quem nos fará ver seu
nascimento e sua origem se ela não foi escrita? Mas quando se percebe que um
autor não está afastado senão por dois ou três séculos do tempo no qual se

45
Discurso, aqui, no sentido da oralidade. Segundo o dicionário de Furetière, discours significa
“expressão feita de viva voz dos seus pensamentos sobre alguns pontos, sobre qualquer matéria
que se quer fazer entender por diversas pessoas”. Quanto à posição de Mabillon em relação ao
registro oral, comparar com o verbete histoire escrito em 1765 por Voltaire para a Encyclopédie
de Diderot e D’Alembert, onde se lê que “os primeiros fundamentos de toda história são os
relatos dos pais aos filhos, transmitidos em seguida de uma geração a outra; em sua origem,
eles são no máximo prováveis, quando não entram em choque com o senso comum, e perdem
um grau de probabilidade a cada geração. Com o tempo, a fábula cresce e a verdade se perde:
vem daí que todas as origens dos povos são absurdas” (NT).
passou aquilo que ele relata, e que ele não é contradito por autores mais antigos
ou de seu tempo, e que ele foi seguido por aqueles que o sucederam, então,
seria uma temeridade rejeitar absolutamente este tipo de tradição, ainda que o
fato não tenha sido estabelecido por autores contemporâneos.

§53. Vejamos então, neste capítulo, um pouco sobre o que se reclama de


mim. Objetam-me que eu não segui a tradição da Ordem, que sustenta que
seus santos que eu situei entre os duvidosos são seguramente da Ordem.

§54. Primeiro, como se me provará que, na Ordem, acreditou-se sempre nisso


de forma segura? Não se sabe que, em uma história, não se avança sobre tudo
com igual certeza? E se uns não fazem o discernimento do que é certo em
relação ao que não é, pode-se culpar aqueles que o fazem? Ora, eu sustento
que Tritheme e Wion e os outros não pretenderam que se acreditasse com igual
certeza em tudo que avançaram. E quando eles o pretenderam, sua pretensão
seria injusta, pois ela seria contra a natureza das coisas.

§55. Segundo, é constante que o que disseram estes autores que são
recentes, não apenas não é uma tradição da Ordem, mas que a tradição da
Ordem é toda ela contrária. Orderic Vital46 diz que S. Colomban não fazia parte
da Ordem, mas que seus discípulos sim. Adson, abade de Monstier-en-Der,47
diz que a Regra de São Bento não foi recebida na França senão no tempo de
Santo Odon, abade de Cluni. Alberic, religioso de Troisfontaines,48 também
assim acreditou junto com muitos outros e Glauber49 não está tão longe disso.
Não possuímos senão uma única passagem de S. Odilon50 e, talvez, de algum
outro, do qual eu não me recordo, que dizem em geral que a Regra foi recebida
na França no tempo de S. Maur. Chamar-se-ia, então, de uma tradição da
Ordem dizer que S. Colomban pertencera à ordem de São Bento já que, do
contrário, autores mais antigos que Tritheme dizem que ele não pertencia.

§56. E, confesso, não serve de nada dizer que estes autores se enganaram.
Mas é questão de saber aquilo que eles acreditaram sobre S. Colomban. E eu
desafio quem quer que seja de me mostrar um só autor, antes de trezentos anos,

46
Orderic Vital (1075-1143), originário da França, nascido na Inglaterra em 1075, trazido para a
França em 1175, simples religioso, editou uma Histoire ecclésiastique (13 vol.) que Duchesne
inseriu na Historiae Normannorum scriptores, Paris, 1619, in-fol., e que contém elementos
importantes para a história da Inglaterra e da França (BK).
47
Adson foi abade de Montier-en-Der de 967 a 992. Ele redigiu a Vida de Berchaire (Vita sancti
Bercharii martyris) de onde é tirada a afirmação feita por Mabillon (OH).
48
Abadia de Trois-Fontaines (no Marne) (OH).
49
Raoul Glaber, monge beneditino do século XI, autor de uma história universal, as Histoires,
terminada em 1048 e dedicada a Odilon de Cluny, biógrafo de Guillaume de Volpiano e autor
de uma crônica de sua abadia, Saint-Bénigne de Dijon (OH).
50
Saint Odilon (962-1049), abade de Cluny, reformador da Ordem (BK).
que diz que S. Colomban pertenceu à nossa Ordem. E, pelo contrário, eu mostro
quem o nega positivamente, autores da Ordem. Não é, portanto, uma tradição
para se crer.

§57. Mas para fazer perceber o quanto são pouco garantidos estes tipos de
tradições, é preciso relatar um pouco um exemplo considerável desta matéria.
Tem-se que se trata de uma tradição bem assegurada da Ordem que Jean XXII
mandara fazer pesquisa de todos os santos da ordem de São Bento e que ele
achava que o número de santos canonizados subira para quinze mil como dizem
alguns, outros dizem cinquenta e cinco mil. Entretanto, aprendemos com um
autor beneditino que viveu um pouco após Jean XXII, isto é, Guillaume, abade
de S. Paul de Roma, francês de nação, o qual diz em um catálogo que fez de
todos os santos monges de toda a Igreja, no ano 1372, que esta pesquisa feita
por Jean XXII era de todos os santos monges sem distinção de ordem nem de
estado, e que ele não encontrou mais do que cinco mil, quinhentos e trinta
canonizados. E este autor, após toda a diligência possível que fez em seu
calendário, achou muita dificuldade em encontrar os nomes de mil e quinhentos
ou dois mil. Isto faz ver o quanto estes tipos de tradições verbais são pouco
seguros e que elas não podem servir de fundamento para a história. [Nós temos
ainda um ilustre exemplo da pouca solidez que há neste tipo de tradições,
naquela que se sustenta há muito tempo em Jumieges, a respeito do martírio
de 900 monges que se diz terem sido mortos pelos normandos. Esta tradição é
antiga, ela é retratada e explicada em versos latinos no claustro deste
monastério. Todavia, é bastante constante que ela é falsa, e que mesmo o Padre
Menard não teve dificuldade para rejeitá-la. Que diriam de mim se eu tivesse
subtraído 900 mártires de um golpe só, como ele fez?]51

§58. Aquilo que se me objeta, sobre a possessão na qual se diz que estava a
Ordem, no tocante a estes santos que coloquei no número dos duvidosos, não
tem grande força. A possessão, em matéria de história, consiste na persuasão
que se tem sempre da verdade de algum fato.52 Mas, muito distante do que

51
Na edição BK, consta uma nota salientando que esta passagem se encontra no manuscrito
com uma letra distinta do restante (“écrit d’une main plus cursive”). A edição OH não traz
qualquer menção ao fato (NT).
52
Neste ponto, Mabillon oferece uma concepção que lhe é cara sobre a verdade da história: a
relação que se mantém com ela não é da ordem da possessão, tal como se pode possuir um
objeto, mas sim da ordem da persuasão, de uma convicção efetivada com discernimento crítico.
Como sugere Blandine Kriegel, “se a verdade não é uma possessão, isto significa que ela não é
nem um bem do qual se possa ter uma fruição efetiva, nem um título de que se possa desfrutar”.
Mabillon mantém esta noção no manuscrito das Mémoires pour justifier le procédé que j’ay tenu
dans l’édition des vies de nos saintes, texto também de controvérsia crítica e religiosa: “a
possessão em matéria de história não é muito diferente, em meu modo de ver, da tradição.
Pode-se dizer que é uma persuasão comum que se tem de alguns fatos vantajosos a um corpo
ou a uma sociedade”, apud. BK, p. 162 (NT).
sempre se assegura que S. Colomban pertenceu a nossa Ordem, eu acabo de
fazer ver todo o contrário.

§59. Esta convicção e esta confissão devem ser não apenas em relação às
pessoas hábeis da Ordem, mas mesmo em relação aos seculares (seculiers), afim
que ela [a convicção] possa ser chamada justamente de uma possessão, e se ela
é contestada por estrangeiros, não é uma verdadeira possessão. E é isto que
seria fácil de fazer ver com respeito a S. Colomban e outros santos que coloquei
entre os duvidosos e que se pretende pertencerem à Ordem por título de
possessão. As mais hábeis pessoas dentre os seculares zombam disso e somos
os únicos a acreditar. Chame-se a isso de uma possessão e não é antes uma
usurpação e uma pretensão que não é nem bem fundada nem bem recebida.
Eu nada mais digo sobre este artigo. Acrescento apenas que estas formas de
preconceitos (prejugez) que se chama possessão não deveriam causar tanto
chiado (faire tant crier) quando alguém dela se aparta, pois nós somos os únicos
a recebê-los e que a Ordem não sofre nenhum prejuízo se alguém da Ordem
os abandona, já que os seculares não acreditam neles.53

Do argumento negativo

§60. É certo que o argumento negativo não é bom em todas as oposições


(rencontres). Ele tem suas regras e seus limites fora dos quais ele não é
admissível. Mas é também certo que ele é bastante útil e mesmo necessário em
muitas ocasiões, e não existe pessoa de bom senso que não fique comovido
(ému) quando ele é bem aplicado. De onde vem a ser um ardil grosseiro
(chicanerie) dizer em todas as ocasiões, como fazem muitos: é um argumento
negativo, isto não conclui nada. Pois se essas pessoas se desembaraçassem um
pouco deste falso preconceito e considerassem um pouco as coisas em
particular de boa fé, estou seguro que elas ficariam impressionadas, tanto
quanto as outras, se o interesse ou o calor da disputa não as impedissem de
bem julgar.

§61. É verdade que o argumento negativo não é bom na segunda figura da


lógica, mas ele é bom na primeira. Ele é bom das espécies e das partes ao
gênero e ao todo, da causa ao efeito em muitas outras ocasiões similares, mas,

53
Blandine Kriegel: “no momento mesmo em que os legisladores (légistes) e os filósofos
políticos recusam a ideia de que a soberania é uma propriedade dos sujeitos, Mabillon coloca
em dúvida que a verdade seja uma propriedade das coisas. Nos dois casos, assiste-se ao
distanciamento da relação de propriedade. Pois um indivíduo pode bem se apropriar das coisas,
ele não pode possuir a natureza das coisas que pertencem a Deus”, apud. BK, p. 163 (NT).
em troca, ele não é bom do gênero e do todo às espécies e às partes.54 Por
exemplo, este argumento não é bom: “aquilo que não está na Escritura nem na
tradição não é crível (n’est pas de foy). Isto não está nem na Escritura nem na
tradição, então não é crível”. Não há pessoa que não confesse que este
argumento é bastante conclusivo e, se houvesse alguma coisa a repetir, isto não
seria na forma, mas, quando muito, no princípio. E quem quisesse responder a
este argumento poderia negar, quando muito, o princípio, mas não seria
admissível rejeitar este argumento porque ele é negativo.

§62. Ora, eu digo que este argumento é do mesmo valor e da mesma força.

§63. “Tudo aquilo que não é, em absoluto, atestado por nenhum historiador
digno de fé, não é certo. Ora, isto significa que um fato de mil anos que não é
relatado senão por um autor recente, sem prova antiga, não é atestado por
nenhum historiador digno de fé, então, ele não é certo”

§64. Sustento, digo eu, que este argumento é muito bom e bastante
conclusivo. A razão fundamental é que, como a Escritura e a tradição são os
princípios da fé, também a autoridade dos antigos é o princípio da história que
consiste em um fato que se passou há muito tempo. De onde que, quando um
autor recente, o qual, aliás, não sendo muito exato, vem a relatar um fato de mil
anos sem prova nem autoridade, não se é obrigado a crer em sua palavra, e se
pode ter isso por duvidoso. De outro modo, isso seria abrir a porta a todos os
tipos de fábulas e imposturas.

§65. Assim, faz-se ver a necessidade do argumento negativo, pois, como se


poderia refutar um autor que suporá um fato de mil anos, senão pelo silêncio
dos autores antigos, tanto contemporâneos, como seus vizinhos e os
posteriores. Também é dessa maneira que se serviram todos os bons
historiadores de nossos dias. Baronius e todos os outros. É por meio do
argumento negativo que o ministro Blondel55, assim como os católicos, fizeram
ver a falsidade do que escreveram alguns autores sobre a papisa Jeanne e
outras fábulas da mesma natureza que estava insinuada (glissées) na história
desde há quatrocentos ou quinhentos anos. E se trata de restituir o valor a estes
tipos de tolices (fadaises) rejeitar de todo o argumento negativo.

54
Mabillon utiliza aqui a lógica para explicar o argumento negativo. O que convém reter é a
comparação, de um lado, entre a Escritura-Tradição da Igreja e a fé, e, de outro, entre a certeza
de um fato e sua menção ou não na obra de um historiador do qual foi avaliado,
preliminarmente, o valor histórico. Este paralelo entre fato e fé coloca também em perspectiva
a dificuldade e, por vezes, o perigo virtual da utilização do argumento negativo (OH).
55
David Blondel (1591-1655), pastor da Igreja reformada. Polemista, foi um dos principais críticos
dos Annales de Baronius, de onde sua presença aqui sob a pluma de Mabillon (OH).
§66. Bem sei que é necessário ter moderação para se servir dele [do
argumento negativo], principalmente quando o autor recente que avança
novamente um fato antigo for um homem sábio e exato, e que não se deve
absolutamente condená-lo como falso, sob pretexto que os autores
contemporâneos nada disseram sobre isso. E que ainda que este autor recente
não relate prova antiga, se se é persuadido de sua exatidão e de sua suficiência
na matéria de que trata, deve-se, quando muito, tomar o que ele diz por
duvidoso. Eu digo que ele deve ser hábil na matéria de que trata. Pois, quando
ele for bastante forte na escolástica, por exemplo, ele não será, por isso,
admissível no tocante a um ponto novo de história antiga se ele não traz boas
provas. Pois, talvez, ele o terá tomado de um autor recente, como se faz
ordinariamente, o qual necessita de garantia tanto quanto ele.

§67. Mas quando se sabe por experiência que um historiador recente que
relata um fato novo não é muito hábil nem exato, e que se é moralmente seguro
de que ele não teve memórias particulares para avançar, então se pode e se
deve, sem medo de imprudência (sans crainte de temerité), rejeitar isso e ou,
ao menos, tomá-lo como coisa duvidosa.

§68. Mas afim de tratar este ponto, aqui, com mais vagar e extensão, é
preciso dar algumas regras para conhecer quando o argumento negativo é
válido ou não em fato de história.

§69. Primeiro, o argumento negativo tirado do silêncio de um ou dois


historiadores nada vale contra um fato que é apoiado sobre uma boa prova
positiva. A razão é clara e fundada no senso comum.

§70. Segundo, o argumento negativo não é admissível quando tomado do


silêncio de apenas um historiador contemporâneo contra um autor também
contemporâneo posto que este pode ter sabido seguramente o que o outro
terá ignorado.

§71. Terceiro, o argumento negativo tirado dos autores contemporâneos que


nos restam não é inteiramente conclusivo contra o relato de um outro vizinho
do seu tempo. Porque este pode ter apreendido o que avança pelo relato de
testemunhas oculares ou pela leitura de algumas memórias que estarão
perdidas.

§72. Quarto, pela mesma razão, ele também não é inteiramente infalível
contra o testemunho de autores posteriores e que estarão no meio dos dois
tempos, se estes autores, aliás, não podem ser refutados pelas circunstâncias
positivas das coisas que relatam os autores contemporâneos.
§73. Eis, aproximadamente, as ocasiões nas quais os argumentos negativos
não são inteiramente válidos.

§74. Mas quando, após setecentos, oitocentos, novecentos e mil anos, um


autor que, de resto, não será muito exato, vier nos assegurar positivamente
sobre uma coisa que não terá nenhum fundamento em toda a antiguidade que
se terá uma certeza moral (assurance morale) que ele não teve outras memórias
que estas que possuímos, [será] permitido àqueles que quiserem seguir seu
conhecimento, mas jamais poder-se-á impedir que o argumento negativo seja
conclusivo nesta disputa (rencontre) para ter o que ele diz, ao menos, entre as
coisas duvidosas.

§75. E é esta a razão pela qual eu não acreditei poder assegurar muitas das
coisas que Tritheme e Wion nos asseguraram no tocante a alguns santos que
eles colocaram na Ordem sem nenhuma prova antiga, quer mesmo contra o
conhecimento de alguns autores que os precederam em duzentos ou trezentos
anos, como eu fiz perceber sobre a questão de S. Colomban.

§76. Diz-se que se precisaria para isso de provas positivas e que um


argumento negativo não bastaria para abandonar o seu conhecimento. É
bastante engraçado que se me demande um fato antigo que não é apoiado em
nenhuma boa prova e que se não lhe demande a estes autores para assegurar
e para se enfileirar em seu partido.

§77. Mas pode-se ter uma prova melhor para fazer ver que alguns santos que
eles atribuem à Ordem não pertençam a ela efetivamente, que dizer que os
autores que escreveram suas Vidas, nem um outro antigo disse que eles teriam
sido monges mas, pelo contrário, que eles tiveram um modo de vida distinto.
Por exemplo, parecia pela vida de S. Faron que ele era casado, que S. Eloi era
ourives na corte de Dagobert antes que um e outro tenham se tornado bispo.
É constante pelo testemunho, mesmo de Gregoire de Tours, que ele jamais foi
um simples clérigo e que ele não viveu em um monastério antes do episcopado.
Contudo, fez-se deles monges beneditinos. Não preciso repetir que aqueles
que quiserem, creiam nisso. Mas eu lhes rogo, também, de não achar mal se eu
não o asseguro positivamente.

§78. O que engana muitas pessoas que declamam contra o argumento


negativo, é que elas confundem o possível com o fato, dizendo que uma coisa
pode ter sido, enquanto que os autores antigos nada falaram disso. Confesso
que ela pode ter sido, mas também pode não ter sido; e não se trata, em
matéria de história, se uma coisa pode ter sido, mas se ela o foi de fato. Ora, é
preciso que isto nos custe por boas autoridades para assegurá-lo. É verdade
que uma circunstância ou um fato da vida de um santo pode ter sido omitido
por todos os autores do tempo. Mas é moralmente impossível que, os autores
antigos não tendo nada dito, nós possamos ter certeza pelo testemunho de um
homem recente que não pode ter apreendido o que concerne à antiguidade
senão pelo testemunho dos antigos, não mais que nós. E, portanto, se não
estamos moralmente seguros que este autor recente teve outras provas dos
antigos que aquelas que nós lemos neles, nós podemos e devemos nos apartar
de seu conhecimento, quando elas [as provas] não nos parecem convincentes.

§79. Ainda me são feitas algumas objeções sobre alguns pontos em


particular, às quais não acho necessário responder. Espero que aqueles que
lerão o que disse até aqui com um pouco de equidade, me farão justiça ao
aplicarem os princípios gerais que estabeleci nestes pontos em particular. O
que será muito fácil a quem quer que seja que faça um pouco de atenção.

§80. De resto, rogo àqueles que ainda não estarão satisfeitos do que acabo
de dizer que, se eles continuam a escrever contra mim, que façam de duas
coisas, uma: ou que me deem uma demonstração moral do que eles querem
que eu tome como seguro fazendo-me ver que não há lugar para a dúvida; ou,
ao menos, que me façam ver que estas regras que eu segui são ruins. Mas se
eles não podem fazer nem isso nem aquilo, rogo-lhes para me dispensar de
tomar por seguro o que acredito ser manifestamente falso ou duvidoso.