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AS REVOLUÇÕES NA AMÉRICA LATINA

CONTEMPORÂNEA. ENTRE O CICLO


REVOLUCIONÁRIO E AS DEMOCRACIAS
RESTRINGIDAS
EDITORA UEM/PGH/HISTÓRIA

Programa de Pós-Graduação em História


Coordenador: Prof. Dr. Lúcio Tadeu Mota
Coordenador Adjunto: Prof. Dr. João Fábio Bertonha
Secretária: Márcia Satie Kutsunugi Fujikawa

CONSELHO EDITORIAL

Alexandre Fortes (UFFRJ)


Angelo Priori (UEM)
Cláudia Viscardi (UFJF)
Carlos Alberto Sampaio Barbosa (UNESP)
Francisco Carlos Palomanes Martinho (USP)
Gilmar Arruda (UEL)
Lúcio Tadeu Motal (UEM - Coord. Editorial)
João Fábio Bertonha (UEM)
José Cal Montoya (Universidad de San Carlos de Guatemala – USAC)
José Luiz Ruiz-Peinado Alonso (UB, Espanha)
Solange Ramos de Andrade (UEM)
Marcela Cristina Quinteros
Luiz Felipe Viel Moreira
(Organizadores)

AS REVOLUÇÕES NA AMÉRICA LATINA


CONTEMPORÂNEA. ENTRE O CICLO
REVOLUCIONÁRIO E AS DEMOCRACIAS
RESTRINGIDAS

Medellín Maringá
Pulso & Letra UEM-PGH-História
2017 2017
EQUIPE TÉCNICA
Apoio Técnico:
Rosane Gomes Carpanese
Revisão Textual e Gramatical:
Os Autores
Tradução:
Marcela Cristina Quinteros
Normalização Textual e Referências:
Rosane Gomes Carpanese
Projeto Gráfico, Diagramação e Capa:
Jeferson Gonçalves de Lima

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Biblioteca Central - UEM, Maringá, PR, Brasil)

As revoluções na América Latina contemporânea:


M454 entre o ciclo revolucionário e as democracias
restringidas / Marcela Cristina Quinteros, Luiz
Felipe Viel Moreira (organizadores). – Maringá,
PR : Ed. UEM-PGH-História ; Medellín, CO : Pulso
& Letra : Universidad de Antioquia, 2017.
381 p. : il.

ISBN 978-958-09-0005-4 (Pulso & Letra Editores)


ISBN 978-85-88613-13-3 (Editora UEM-PGH-História)

1. Revoluções - América Latina - História.


2. América Latina - História. I. Quinteros, Marcela
Cristina, org. II. Moreira, Luiz Felipe Viel, 1959-,
org. III. Universidade Estadual de Maringá. IV.
Universidad de Antioquia.

CDD 23.ed. 980.03

Ficha Catalográfica: Glaucia Volponi de Souza - CRB-9/948

Copyright © 2017 para os autores


Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, mesmo parcial, por
qualquer processo mecânico, eletrônico, reprográfico etc., sem a autorização,
por escrito, dos autores.

EDITORA UEM/PGH/HISTÓRIA
Editora UEM/PGH/História
Universidade Estadual de Maringá
Av. Colombo, 5790 - Bloco H-12 - sala 16
CEP 87020-90 - Maringá - PR
Sumário
Apresentação ............................................ 9

Capítulo 1 - Colombia en un siglo. Caudillos,


violencias y procesos políticos
inconclusos (1917-2017).......................... 15
Rafael Rubiano Muñoz

Capítulo 2 - O stronismo: uma gestão autoritária bem


sucedida ................................................... 67
Lorena Soler / Marcela Cristina Quinteros

Capítulo 3 - Política y violencia en la Argentina del


último tercio del siglo XX ...................... 121
Damián H. Antúnez

Capítulo 4 - Pacto e violência política na Venezuela


de Punto Fijo (1958-1998) .....................177
Anatólio Medeiros Arce

Capítulo 5 - El Salvador 1960-1992: reformas, utopía


revolucionaria y guerra civil .................237
Carlos Gregorio López Bernal

Capítulo 6 - Palimpsestos y paradojas. Itinerarios


histórico-políticos en Bolivia
(1952-1993) ............................................ 291
Magdalena González Almada
Rosario Barahona Michel
Capítulo 7 - Que Estado é esse? A perene
criminalização das lutas populares e a
violência estatal na América Latina .... 333
Vera Lúcia Vieira
Héctor Hernán Mondragón Báez
APRESENTAÇÃO

“As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo


revolucionário e as democracias restringidas” é o segundo volume de uma
trilogia sobre a temática das revoluções na América Latina. Mas a coleção
não foi inicialmente pensada como tal, mas se impôs por uma avaliação da
necessidade de haver desdobramentos.
O que agora se tornou o primeiro volume era, a princípio, para
ser um livro único. “As revoluções na América Latina Contemporânea”
foi publicada em 2016, e sua introdução era uma justificativa a limites
conceituais e a escolha de alguns estudos de países.
E foram essas experiências, independente do potencial
transformador das estruturas sociais que as mesmas puderam alcançar,
que tratamos naquele livro. No primeiro capítulo, o professor colombiano
Rafael Rubino Munõz justamente trabalhou um período relativamente
longo, um século. Em Colombia de un siglo a otro: Modernidad elusiva,
revolución, contrarevolución y procesos políticos inconclusos (1853-1953), o
autor, no marco de duas conjunturas, a de 1863 a 1886 e de 1934 a 1953,
procura ver como se buscou transformar as estruturas e as mentalidades
do país.
A temática da violência política é que permeou o segundo estudo,
sobre o Paraguai. Seus autores, a professora argentina Marcela Cristina
Quinteros e o brasileiro Luiz Felipe Viel Moreira, abordaram em A violência
política na história do Paraguai (1904-1954), meio século crucial na história
deste país mediterrâneo, com seus cenários de guerras civis, golpes e
“revoluções”.
No terceiro trabalho, Movimento peronista y revolución, o
professor argentino Damián H. Antúnez não trabalhou um “acontecimento
revolucionário em si”, ou um “ciclo revolucionário”, algo problemático na
discussão historiográfica argentina. O estudo de caso veio pelo “discurso
sobre a revolução”, feita por um movimento político que foi um divisor de
águas na Argentina contemporânea, o peronismo, no período que vai de
1955 a 1976.

9
O quarto capítulo foi sobre a Venezuela, do professor brasileiro
Gilberto Maringoni. Em Venezuela, turbulências de uma economia
petroleira, o autor enfatizou a história econômica contemporânea deste
país exportador de petróleo, para podermos entender dois momentos de
quase rupturas estruturais, 1989 e 2002, e suas marcas na atualidade com
o chavismo.
O quinto e o sexto estudos de caso, sobre a Nicarágua e a Bolívia,
retomaram as revoluções paradigmáticas consagradas pela historiografia.
Em Pela Pátria e pela Liberdade: a Nicarágua e o sandinismo no século XX, o
professor brasileiro Raphael Nunes Nicoletti Sebrián analisou o movimento
sandinista, desde seu início nos anos 1920-1930 até os acontecimentos de
1979, com a derrubada por guerrilheiros esquerdistas da longa ditadura de
Somoza.
Por fim o caso boliviano. O professor brasileiro Everaldo de Oliveira
Andrade, em A revolução boliviana abordou como a revolução de 1952
significou uma mudança histórica para o país. E embora tenha alcançado
desdobramentos nos limites do reformismo nacionalista, o processo
revolucionário teve perspectivas socialistas concretas.
O resultado final dessa produção coletiva, imediatamente levou a
uma proposta de continuidade nas análises feitas em um segundo volume.
Isto é, seria complementarmos os debates para os mesmos seis países,
com seus autores avançando os estudos até a década de 1990, com o corte
cronológico dado agora pelas mudanças políticas desse final de século, que
em toda América Latina trouxe à ação novos movimentos e atores sociais,
num marco de profundas transformações globais.
Dentro das especificidades de cada um dos países, estaríamos
abarcando uma etapa cronologicamente mais centrada na segunda metade
do século XX, período onde se desdobram tanto um ciclo revolucionário
como um contra-revolucionário, bem como os problemas e limites da
retomada da democracia. Assim surgiu “As revoluções na América Latina
Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as democracias restringidas”.

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Novamente um coletivo com professores de diversos países
latino-americanos ficou a cargo do livro. Tanto quanto o primeiro volume,
este segundo leva a marca dessa Nossa América. Se no primeiro volume
houve uma maior presença de autores brasileiros, isto se inverteu agora
nesse segundo livro. Cabe destacar que desde o primeiro volume, houve a
determinação de não fazermos a tradução dos textos, forçando os leitores
a terem que ler em duas línguas – espanhol e português. A aposta que
fizemos numa publicação dessa natureza nos indicou ser apropriada, pois
sua boa aceitação redundou agora num projeto em coedição, brasileira
e colombiana. O apoio para que isso se efetivasse veio da Universidade
Estadual de Maringá (Brasil), da Universidad de Antióquia (Colômbia) e da
Editora Pulso & Letra (Medellín).
Houve do primeiro para o segundo volume uma única alteração nos
estudos de casos, sendo a Nicarágua substituída por El Salvador. Isto se
deu pela perspectiva de olharmos os acontecimentos na América Central
de forma mais ampla e dando ênfase a desdobramentos que ao final foram
denominadores comuns a vários países. Assim El Salvador entra nesse
segundo volume pelo que significou a retomada das lutas guerrilheiras de
esquerda na região, que ganham combustão com os acontecimentos de
1979.
O livro que vocês agora tem em mãos ficou então assim organizado.
No primeiro capítulo, o professor colombiano Rafael Rubiano Muñoz retoma
um período relativamente longo de análise, um século. No capítulo Colombia
en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos (1917-2017),
o autor busca compreender como as variadas formas de violência, desde
institucionais e de grupos, bem como problemas políticos recorrentes,
mostram o panorama de um país que ainda não alcançou a democracia, a
modernidade e uma integração nacional adequada aos desafios do século
XXI.
A temática da violência política novamente permeia o segundo
estudo, sobre o Paraguai. Suas autoras, agora as professoras argentinas
Lorena Soler e Marcela Cristina Quinteros, abordam em O stronismo: uma

11
gestão autoritária bem sucedida como que, com o golpe de Estado de 1954,
a violência ganhou uma nova roupagem institucionalizando-se no cotidiano
da sociedade paraguaia, expressa no mais longo governo militar da história
da América, ultrapassando a própria queda do ditador Stroessner em 1989.
No terceiro trabalho, Política y violencia en la Argentina del último
tercio del siglo XX, o professor argentino Damián H. Antúnez analisa a relação
entre política e violência no marco do processo histórico argentino. Isto
desde as revoltas populares que inaugurou canonicamente o “Cordobazo”
em 1969, passando pela última ditadura militar, até as novas tensões sociais
com a retomada da democracia, canalizadas nas revoltas sociais de 2001
que levaram a renúncia do presidente De la Rua.
O quarto capítulo é sobre a Venezuela, de autoria do professor
brasileiro Anatólio Medeiros Arce. Em, Pacto e violência política na
Venezuela de Punto Fijo (1958-1998), o autor analisa os quarenta anos
do Pacto, quando instituições relativamente democráticas e eleições
relativamente competitivas conviveram com a persistência de um exercício
autoritário de poder. Todo um período marcado pela continuidade do uso
da violência como uma forma dos dois partidos dominantes enfrentarem
seus adversários.
O quinto estudo trata do caso de El Salvador. No capítulo El
Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil, o
professor salvadorenho Carlos Gregorio López Bernal analisa o longo e
tortuoso caminho do reformismo à revolução. Um percurso que vai dos
sonhos reformistas frustrados de progresso e modernização conservadora
dos anos 50 e 60, até seu desenlace na opção revolucionária, com a guerra
civil da década de 1980.
O sexto trabalho, de autoria da professora argentina Magdalena
González Almada, e da professora e escritora boliviana Rosário Barahona
Michel, trata da Bolívia. Em, Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-
políticos en Bolivia (1952-1993), as autoras postulam um desenvolvimento
histórico para a Bolívia que não pode desconhecer as heterogêneas
estruturas sociais e políticas do país andino-amazônico. Ao fazerem

12
uma análise do período que vai de 1952 até o início das reformas
neoliberais, tanto no plano de uma política estatal republicana quanto
do desenvolvimento histórico dos movimentos indígenas, observam seus
processos revolucionários intrínsecos: o da própria revolução de 1952 com
seu alcance nacional e as micro revoluções protagonizadas pelos sujeitos
indígenas.
Por fim para este segundo volume agregamos mais um capítulo, mas
longe de se tratar de analisar outro país. A proposta de sua inclusão veio
da perspectiva de se trazer aos leitores uma reflexão sobre os caminhos da
democracia na América Latina. Se os trabalhos aqui apresentados seguem
tendo como eixo a temática da “Revolução”, e cronologicamente se situam
em grande medida entre o último ciclo ditatorial do século XX e a retomada
das democracias, caberia não apenas se fazer um balanço do período, mas
também indagar sobre as relações entre sociedade e Estado
E a isso se dispuseram dois professores, a brasileria Vera Lúcia
Vieira e o colombiano Héctor Hernán Mondragón Báez. Em Que Estado é
esse? A perene criminalização das lutas populares e a violência estatal na
América Latina, os autores fazem uma reflexão sobre a natureza da nossa
democracia e a situação aparentemente paradoxal que se passou a viver
nessas últimas décadas do século XX, pois para os professores, ao mesmo
tempo em que esteve em curso um “processo(s) democratizador(es)”,
ampliou-se a criminalização das lutas sociais.
De alguma forma foi este debate que acabou definindo o próprio título
desse segundo volume: As revoluções na América Latina Contemporânea.
Entre o ciclo revolucionário e as democracias restringidas. Esperamos
como organizadores deste livro contribuir a um debate historiográfico,
enfatizando o compromisso social de todos seus pesquisadores. É essa
tomada de posição que possibilitará uma análise crítica para o terceiro
volume, que trabalhará o tempo presente. Não pouco coisa, tendo em vista
os acontecimentos que estamos vivendo, em que os “que sonharam com
um avanço progressivo no continente, desencantaram-se com um século
banhado pelo sangue e um final pleno do neoliberalismo”.

13
Por fim um agradecimento à Universidad de Antióquia (Colômbia)
e à Editora Pulso & Letra (Medellín), por acreditarem neste projeto em
coedição. Agradecemos também o apoio da Universidade Estadual de
Maringá (Brasil), na figura dos professores Lúcio Tadeu Mota, Coordenador
do Programa de Pós-Graduação em História da UEM, e Angelo
Priori, Coordenador Editorial da UEM/PGH/História, por facilitarem a
concretização desta experiência acadêmica. A todos uma boa leitura.

Marcela Cristina Quinteros


Luiz Felipe Viel Moreira
(Organizadores)

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1
Capítulo
COLOMBIA EN UN SIGLO.
CAUDILLOS, VIOLENCIAS
Y PROCESOS POLÍTICOS
INCONCLUSOS (1917-2017)

INTRODUCCIÓN
Rafael Rubiano Muñoz

El presente capítulo busca realizar un


análisis de los principales problemas históricos y
políticos de Colombia en un siglo1. A través de una
larga coyuntura (1917-2017) el escrito busca hacer
comprensible cómo en un siglo formas variadas de
violencia desde las instituciones y grupos; caudillos
que ejercieron sus liderazgos con lenguajes y con
actitudes diversas y finalmente, una variedad de
problemas políticos que no se lograrían resolver y

1 El capítulo es resultado de la investigación de tesis doctoral: Bal-


domero Sanín Cano: un intelectual liberal, transeúnte y humanis-
ta del siglo XX, realizada en Flacso-Argentina en el Doctorado en
Ciencias Sociales (2011-2016).
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

que se tornan inconclusos muestran el panorama general de un país que


entre otras no ha alcanzado la democracia, la modernidad y una integración
nacional adecuada a los retos del siglo XXI. De igual forma el capítulo busca
hacer una reflexión histórica de la política en el país planteando nuevas
preguntas y construyendo hipótesis de análisis que confronten los relatos
que de nuestro territorio se han legitimado desde las elites o desde las
formas de poder y dominación ejercidas por las clases dominantes.

LOS VAIVENES DE UN PAÍS POLÍTICO. DESDE LOS


EXTREMOS A LAS MEDIACIONES. REPUBLICANISMO
(1910-1930), CONCILIACIÓN, INTEGRACIÓN Y FRACASOS
POLÍTICOS EN COLOMBIA

Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos constituyen


algunos referentes – adecuados quizás – para brindarle al lector de hoy un
panorama, obviamente general de la larga coyuntura de Colombia de 1917 a
2017. En el capítulo, inicialmente analizaremos varias décadas del siglo XX
del país, en la que es posible observar cómo se transitó de una política de
reconciliación y mediación nacional con una propuesta que se denominó
Republicanismo (1910-1914), en la que se buscó impulsar una modernización
“reaccionaria” por las consecuencias que trajo la peculiar combinación
entre el liberalismo económico y una conservadurismo humanizado y
católico tolerante hasta arribar al proceso de paz con las FARC-EP y los
dos gobiernos de Juan Manuel Santos de 2010 a 2017.
Colombia entra al siglo XX a través de la Guerra de los Mil Días
(1899-1902) y de allí a los años treinta se sucedieron variados gobiernos
conservadores. Justamente, de los años treinta en que se produce la
Revolución en Marcha (1934-1938), se buscó una transformación política
que produjera una sacudida de las estructuras y estamentos retrógrados
y reaccionarios del país, para empujar a Colombia a una revolución
social y política, que fracasó con la “pausa” que impuso el gobierno de

16
CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

Eduardo Santos (1938-1942) y por el papel que tuvieron en esa coyuntura


los protofascistas – de izquierda y de derecha – Jorge Eliecer Gaitán
y Laureano Gómez. El ciclo se cierra con la llamada Violencia clásica de
los años 40, la muerte-asesinato de Jorge Eliecer Gaitán el 9 de abril de
1948, el golpe de Estado del militar Gustavo Rojas Pinilla (1953-1957), el
exilio de Laureano Gómez quien conspiró desde el exterior para volver al
poder y junto con Alberto Lleras Camargo (liberal tibio) se firmó el pacto
del Frente Nacional (1956-1957), en la que una nueva forma de violencia,
segregacionista y exclusiva empleada por un pacto bipartidista condujo al
cierre de las alternativa y opciones políticas.
Pretendemos mostrar que la violencia clásica no fue consecuencia
de la muerte-asesinato el 9 de abril de 1948 de Jorge Eliecer Gaitán y menos
aún que el surgimiento de las guerrillas principales – Las FARC-EP, ELN Y
EPL – se debió más allá de las influencias que tuvo la Revolución Cubana
de 1959, al cierre y a la violencia política que ejerció el Frente Nacional en
1957. Además agregamos en nuestra perspectiva analítica que fenómenos
como el narcotráfico, el paramilitarismo, las nuevas violencias urbanas y
rurales son constitutivas del modo de mentalidad y de la conformación
de las instituciones del país y hacen parte de los fenómenos de la nación,
que no son ajenos o externos del orden social, de las costumbres y
estructuras de la sociedad colombiana. Cerramos el capítulo con algunas
observaciones sobre la firma de Paz en el país por parte del gobierno
Juan Manuel Santos y las FARC-EP (ahora Partido político denominado
Fuerza Alternativa Revolucionaria del Común), en un contexto donde el
neopopulismo de Álvaro Uribe Vélez y sus dos gobiernos de 2002 a 2010,
incidieron en el marco de los procesos políticos inconclusos. La intención
es contribuir de manera alternativa, al análisis político del país, de igual
manera, procuramos establecer un punto de comparación y contraste con
el ámbito Latinoamericano e invitar al lector a una discusión y debate de los
argumentos expuestos en el escrito.
Iniciemos con las siguientes consideraciones. No constituye
una casualidad, que en dos coyunturas políticas del país hayan sido dos

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

poetas modernos quienes abordaron mediante reflexiones disímiles – pero


comprendiendo de la misma manera – los procesos políticos de transición
más determinantes de Colombia en un siglo. El bogotano y poeta moderno
José Asunción Silva, con su novela-diario titulada: De Sobremesa (SILVA,
1993), quien a través de este relato – novela viaje, se podría decir – publicada
póstumamente en 1925, encaró con audacia, el autoritarismo del régimen
ultraconservador que dominó al país de 1885 a 1904.
Y justamente, el otro poeta, nacido en Pamplona, una ciudad
intermedia del país, por lo demás, de tradición liberal, Jorge Gaitán Durán,
mediante artículos, publicados en el semanario, La Calle, un impreso de la
época, escribió en 1959 una serie de textos, publicados luego con el título:
La Revolución invisible. Apuntes sobre la crisis y el desarrollo de Colombia
(GAITÁN DURÁN, 1999), donde descifra con minuciosidad, cómo fue que
el país pasó de la Dictadura militar de Gustavo Rojas Pinilla (1953-1957) a
la firma tratado del pacto bipartidista llamado Frente Nacional (1956-1957),
en medio de dos sucesos trágicos: el fracaso de la Revolución en Marcha de
Alfonso López Pumarejo (1934-1938) y la muerte asesinato del líder popular
Jorge Eliecer Gaitán el 9 de abril de 1948.
Partimos de estos dos registros para elaborar algunas reflexiones
sobre la larga coyuntura del país (1917-2017) y pretendemos con las
siguientes notas analíticas familiarizar al lector – colombiano y foráneo – en
el conocimiento de los procesos políticos inconclusos de nuestra nación en
un siglo. De igual manera, el objetivo es mostrar cuáles fueron los sucesos
determinantes y cuáles han sido las problemáticas que han marcado la
historia política reciente del país, al iniciarse el siglo XX y al mismo tiempo,
al comenzar el siglo XXI.
Bajo la anterior temporalidad – una larga coyuntura – se busca
abordar con una percepción crítica pero ante todo pedagógica, la
dinámica relación entre revolución y contrarrevolución, reforma y reacción,
progresismo y conservadurismo, que según se coligue de la bibliografía
que se citará aquí, han sido los resortes dicotómicos de un país, o de una
nación atrapada entre los intentos de alcanzar la modernidad o contenerla

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

a un mismo tiempo. Por décadas, Colombia no se ha podido integrar como


nación moderna, su proyecto ha sido elusivo como se verá aquí, inclusive,
las elites y las masas han buscado resolver muchos de sus obstáculos o
de sus adversidades apilados en un siglo, sin solución posible en múltiples
ocasiones, o postergadas a partir de propuestas diversas que se han
convertido en programas de gobierno, sin logros definitivos y sin respuestas
conclusivas.
En De Sobremesa, José Asunción Silva, novela-diario, se pueden
examinar las condiciones sociales y políticas de un país que bajo el dominio
de la Regeneración – católica, hispánica, presidencialista y autoritaria
–, impidió, entre muchas circunstancias, en nuestro territorio, avances
políticos como la democracia y cerró las fronteras a las corrientes y formas
de pensamiento de vanguardia en esa época (1885-1910). En la obra de
Gaitán Durán se aborda un análisis de coyuntura política que explica la
temporalidad que va de la República Liberal de López Pumarejo (1934-
1938) al Frente Nacional y la posterior violencia armada (1956-1957).
Estas dos obras como se ha expresado son fundamentales para
entender el largo ciclo de extremismo político del país entre 1885 a 1957.
No obstante, si se escoge una fecha, la más adecuada es la de 1910. Con
esa fecha justamente se cumplían cien años de las independencias en
nuestro continente, que llevaron a las elites en medio de las celebraciones,
a un escrutinio que se dirigió al examen y la auto-observación de sus
naciones. En este encuadre es significativo empezar este capítulo. En
consecuencia, es menester recordar, que en 1910, el militar, periodista,
ensayista, intelectual, diplomático y viajero liberal antioqueño, Rafael Uribe
Uribe, quien fue un contradictor de la Regeneración y un líder del liberalismo
social en el país, hizo un balance de los problemas políticos después de un
siglo de emancipación.
Según su análisis, el país tenía un déficit de integración del territorio,
pero además, experimentaba una vulnerabilidad y además, un atraso frente
a los demás países del continente. Su texto titulado: Problemas nacionales
(URIBE URIBE, 1979), fue una conferencia expuesta en la ciudad de Cali

19
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

ante empresarios y obreros. Emplea en esta exposición oral, una óptica de


disección donde afronta reflexivamente, una a una, los problemas políticos
del país, que van a ser en últimas, los problemas que Colombia incluso no
ha resuelto hasta el 2017.
El texto conferencia de Uribe Uribe escudriña con detalle y mediante
28 problemas específicos, los múltiples asuntos políticos del país, desde el
proceso de la colonia española y la conquista de nuestros territorios hasta
la Guerra de los Mil Días (1899-1902), dando cuenta con escrutinio agudo y
riguroso de los déficits del país y de los escenarios de posible cambio. En
su análisis, encuentra que la integración y por ende la construcción de una
nación moderna no ha sido posible, pese al lánguido esfuerzo de sus elites
y al ineficaz proyecto de educación popular en un siglo.
Su mirada no congelada en el tiempo, penetra el largo siglo y
no está exenta de angustias y avatares. La conferencia está dividida en
28 apartados, cada uno de los cuales, dependiendo de la magnitud del
problema a encarar, son comentados con detalle y minuciosidad, con una
aguda profundidad, a veces utiliza el humor o la ironía. En algunos párrafos
se desliza Uribe Uribe con el comentario fugaz y hasta con pesimismo, por
cuenta de las luchas y contiendas partidistas o por el analfabetismo y la
ignorancia generalizada del pueblo colombiano. Para poder desentrañar con
destreza la lectura del texto de Uribe Uribe entonces es necesario primero
leer en conjunto todos los 28 singulares problemas políticos que conforman
la conferencia e ir deteniéndose en cada uno tratando de descubrir sus
alcances reflexivos y sus recursos analíticos. Bajo la anterior exigencia se
podrá realmente tener una evaluación de lo que significó para un intelectual
militar el enfoque de “Colombia como problema”, en una época en que se
celebraba el centenario de las independencias latinoamericanas y que
los países del continente se aprestan a ser incorporados en el mercado
mundial.
Entre los problemas principales, elije Uribe Uribe analizar, el de la paz
interna; los problemas diplomáticos; las fronteras y las relaciones exteriores;
el problema del ejército y lo militar en Colombia; el problema monetario y

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

tributario; la educación y la cultura; y primordialmente, el problema electoral


y el de los partidos políticos. Agrega asuntos relacionados con la prensa,
los medios de comunicación, la ciudadanía; el problema del trabajo y del
tiempo libre, entre lo más destacados. Algunos tienen una vigencia que
resulta sorprendente, por lo que vale la pena decir, cómo hace más de un
siglo sigan esos problemas existiendo en el país. Por ejemplo, frente al tema
de la beligerancia, el estado de guerra y la confrontación, dice Uribe Uribe:

En estos mismos días han circulado por todo el país


rumores de próximos trastornos. ¿De qué procedencia?
¿Con qué fundamento? ¿Para alejar a los ciudadanos
de las urnas? ¿Para imponerse al gobierno por el terror?
Sea como fuere, es absurdo, es criminal difundir alarmas
perjudiciales a la tranquilidad, a la industria y al trabajo,
solo para alcanzar ruines resultados políticos; y-denota
muy escasa capacidad reconocer que sólo se puede
dominar apelando a las amenazas de la violencia o a la
invención de complots. No creo, por supuesto, que aún
haya en Colombia quienes piensen en guerra civil abierta.
Para ello se necesitaría no tener memoria para recordar,
ni juicio para comprender, ni oídos para escuchar, ni ojos
para ver, ni corazón para sentir y amar a la patria y a
nuestros hermanos. Pero es evidente que si hay quienes se
deleitan todavía con la idea de maquinar cambios rápidos
que suponen incruentos, y que amenazan con ellos como
arma política, que sería de ningún uso si el sentimiento
pacífico estuviera más arraigado. El prurito guerrero ha
desaparecido del espíritu público. Lo que sabemos es que
todavía hay algunos que buscan por la sublevación militar
y los golpes de mano, lo que ya no pueden esperar de la
revolución popular (URIBE URIBE, 1979, p. 222).

Desde otro lente, Uribe Uribe sitúa uno de los problemas políticos
de mayor raigambre en el país, el del orden interno siempre inestable y una
sociedad que en su constante beligerancia, ha puesto en cuestión por las
confrontaciones civiles y armadas, sus instituciones y su estructura social.
La vulnerabilidad del orden interno y el cuestionamiento permanente del
poder del Estado y de su legitimidad, son – y han sido – los dos problemas
esenciales que hasta el día de hoy han determinado la integración nacional
de Colombia. Una década más tarde, el ingeniero civil Alejandro López,

21
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

desde Londres, escribió un tratado que tituló: Problemas Colombianos


(LÓPEZ, 1927), una obra que coloca a Colombia como problema político
y sitúa bajo las mismas líneas de Uribe Uribe, los déficits y las carencias
que han llevado a la falta de integración nacional moderna en el país. En
consonancia con Alejandro López que ve que una nación sin “educación”
y sin científicos y “profesionales” – aseguró López –, no logrará la paz y
el control interno. Años más tarde esta misma reflexión la abordó Gaitán
Durán y ya la había considerado el poeta Silva, cuando argumentaba la falta
de intelecto en los asuntos políticos. Por eso es pertinente lo que expresó
Uribe Uribe:

El problema educativo.
Acerca del cual, por ser el más grave, me extenderé
algún tanto. Hablar de soberanía popular en un país de
ignorantes es pura música celestial. La ignorancia, opone
un obstáculo invencible al desarrollo de las virtudes
cívicas. ¿Qué fe puede depositarse en una opinión pública
desorientada y corroída de todos los vicios y defectos
inherentes a la más absoluta ausencia de educación
cívica que pueda imaginarse? Solo el que nunca trató
con peones y soldados y demás gente iletrada, deja de
saber la inconsciencia que los aflige y que causa tedio
al menos patriota. Lo que en todo y para todo nos hace
falta, es la materia prima de la República, que no es otra
que la educación del pueblo, de la cual apenas tenemos
rudimentos. Mientras dure la falta de cooperación
moral colectiva y especialmente el ausentismo de
las clases acaudaladas y dirigentes, de las opiniones
medias y jerárquicas, de las tendencias genuinamente
conservadoras de la sociedad, y de los intereses
económicos, que son el contrapeso moderador y como
el volante de la máquina política, el vacío se llenará con
elementos demagógicos, que traen consigo fatalmente
a los caudillos. Con una opinión pública apática, que
nos encuentra unas veces tristes y resignados y otras
rebeldes y convulsos, y con una acción cívica discontinua,
espasmódica y mal orientada, que no sabe colocar por
sobre todo los intereses vitales del país, no puede haber
buen gobierno ni puede haber libertad.
Nadie duda de que el progreso político consiste en
controlar más y más los pueblos la obra de los gobiernos,
y en retener aquéllos dentro de sus propias manos una
suma cada vez mayor de las libertades y derechos
definidos y garantizados por las constituciones Pero ese

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

avance de los pueblos a expensas de los gobiernos, o


sea disminuyendo las atribuciones de éstos en la misma
medida en que aumentan las suyas, requiere un progresivo
adelanto en la capacidad de manejarse a sí mismos, a la
manera que los padres deben ir entregando a los hijos
la administración de los bienes, en la proporción en que
crezca la experiencia que, bajo la dirección de los mismos
padres, vayan adquiriendo para desempeñarse en esa
ardua labor. Todo lo cual se resume en una sola palabra:
educación (URIBE URIBE, 1979, p. 229).

Ilustrar al pueblo será la base del proyecto que en las dos primeras
décadas del siglo XX, propondrá el gobierno Republicano de Carlos E.
Restrepo, quien retomó muchos de los asuntos abordados por Uribe Uribe.
Carlosé – como se le llamaba – enarboló la bandera de la reconciliación
nacional bajo una perspectiva de des-radicalizar los partidos y fundada en
su convicción de aumentar la intervención del Estado en la ciudadanía a
partir de la creación de “virtudes cívicas” mediante la educación técnica
y nocturna de las clases proletarias. Así mismo propuso atacar el juego y
los vicios consecuencia del tiempo libre, – el alcoholismo, la criminalidad,
la prostitución y otros fenómenos sociales – pero sus concepciones
políticas de “frenar” el desorden fracasaron porque en un país dominado
por la ira política y por la visión de los extremos políticos que se heredaron
de la Regeneración y de la Guerra de los Mil Días, no se desactivaron con
las políticas gubernamentales, unido a la intolerancia religiosa que aún
subsistía.
Volviendo al relato conferencia de Uribe Uribe nos muestra una
época en extremos – La Regeneración conservadora y ultra-católica de la
Constitución de 1886 – y a la par que las fuerzas políticas del país retrógradas
y recalcitrantes se impusieron de 1885 a 1910, describe paralelamente,
cómo fueron apareciendo desde la provincia y otras regiones, nuevos
actores políticos, empresarios y universitarios, que contra dichos extremos
políticos, plantearon la conciliación, el consenso y una transición hacia la
paz y pacificación del territorio nacional, que se depuró en el ya comentado
gobierno del Republicanismo.

23
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

No es casualidad que Uribe Uribe plantee que si bien muchos


problemas políticos del país irresueltos se pueden afrontar y solucionar,
si se transforman y cambian las mentalidades del país con una reforma
radical de sus instituciones, en últimas era necesario variar las instituciones,
racionalizarlas y mejorarlas sustancialmente, pero ante todo, estaba
convencido de la exigencia de educar e ilustrar al pueblo, desintegrar
los prejuicios religiosos y en especial, atacar las raíces intolerantes de la
mentalidad católica y en particular cambiar las costumbres y dirigirlas hacia
la modernidad. Sin embargo, los criterios de este proyecto de Republicanismo
– paz, conciliación, virtudes cívicas y públicas, ciencia y técnica, educación
popular ilustrada – los sectores eclesiales, conservadores y católicos vieron
con horror el hecho que su dominación y poder se desvanecía, por lo que
los alertaba y les imponía el desafío de la guerra y la impronta de impulsar
la “cruzada religiosa” (ABEL, 1987).
Ahora, no es una casualidad ni menos vano argüir que mucho de
la Regeneración se vive en la actualidad, a través del caudillo neopopulista
Álvaro Uribe Vélez (DE LA TORRE, 2005) y el ex procurador de la nación,
el católico ferviente Alejandro Ordoñez (HERNÁNDEZ VÁSQUEZ,
2014). Más adelante observaremos estos dos personajes convertidos
en caudillos populares en el país. Un rasgo singular entonces, de estos
enconos y rivalidades, se presenciaron en las tres primeras décadas, las
que no obstante, ciertos procesos de cambio en el marco de profundas
continuidades en las prácticas y en las relaciones políticas, redefinieron,
las contiendas ya no en un espeso contexto ideológico, sino más bien,
en el terreno de los nuevos procesos socioeconómicos y culturales que
exigieron a las elites como a las masas un nuevo estilo de liderazgo y de
direccionamiento del país en los años procedentes.
Un nuevo estilo político se perfiló en las elites nacionales o regionales
emergentes, esto es, la combinación entre una concepción práctica de la
política con una nueva forma de expresión del conservatismo, esto es, el
asistencialismo estatal con caridad, acuñado con el auge de la exportación
del café con un modelo económico progresista, el de la exportación, pero,

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

especialmente preocupado por los azotes y las consecuencias de la vida


capitalista. De modo que, la denominada época del Republicanismo sorteaba
las herencias frustrantes del estancamiento del país prolongado por el
siglo XIX, con el impulso al menos formal de darle a Colombia la entrada al
siglo XX en una simbiosis de modernismo tradicional o reaccionario, esto
es, artificios discursivos, pomposidad verbal, diletantismo con practicismo
económico, lo que se denominó como “la cultura de viñeta”, de quien fue
ejemplo ineludible Guillermo Valencia, implicado promotor de la Guerra de
los Mil Días (1899-1903) (GUTIÉRREZ GIRARDOT, 1989, p. 350).
Inicialmente el mayor impacto que se produjo en la coyuntura de
1910 a 1930 fue el desenlace de los procesos acumulados que ya venían
gestándose en el gobierno del Quinquenio Reyes (1904-1909), un régimen
que atacó los pilares de la Regeneración con una moderada propuesta
de inclusión política y reconciliación nacional, liderada por el empresario
militar Rafael Reyes. Con este caudillo militar se consolidó una nueva
generación de líderes políticos provenientes de la exportación del café y
quienes plantearon ya no más “retórica” en la política sino “administración”.
En este punto hay un nivel de concordancia, Reyes inició un proceso
latente e incipiente de administración racional del Estado, al que no pudo
asistir en su completa realización – pues dimitió de su cargo en 1909 –,
siendo capitalizado por el gobierno republicano de los años 20, que fue
confrontado por los gobiernos de nuevo tinte conservador, basta señalar; el
de Marco Fidel Suárez (1918-1921); Pedro Nel Ospina (1922-1926); y Miguel
Abadía Méndez (1926-1930).
Sobre esta época de “reconciliación” y “beligerancia” dan cuenta
dos extraordinarios trabajos; Carlos Uribe Celis con su obra: Los años veinte
en Colombia (1985), quien traza los vaivenes del país entre los deseos de
modernidad y quienes de modo retrógrado se opusieron para mantener
el tradicionalismo. Y el de María Tila Uribe, titulado: Los años escondidos
(URIBE, 1994), obra en la que muestra la variabilidad de las ideologías, en
especial, la introducción de las ideas socialistas y marxistas en el país,
la aparición de los movimientos obreros y campesinos, así también, los

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

cambios culturales y sociales de un país donde crecía el conflicto de la


“cuestión social”.
En el anterior sentido, es muy oportuno citar aquí a Marco Palacios,
para quien, el Quinquenio estableció las bases de lo que serían las más
importantes medidas administrativas y reformas jurídicas que llegarían
hasta los años 20, especialmente, la instrucción, la administración, la
justicia, lo urbano e incluso en lo electoral. Para comprender la medida de
las consecuencias que dejó el “Quinquenio” a los posteriores gobiernos
comenta Marco Palacios:

El régimen del quinquenio buscó crear un clima de


convivencia para emprender el desarrollo económico,
proceso en el cual se estimaba que las empresas
norteamericanas jugarían un papel central. Entre sus
saldos quedaban el autoritarismo, el parroquialismo
cultural y la visible corrupción de una rosca de favoritos
y amigos políticos que sin remordimiento confundieron la
hacienda pública con la privada. El gobierno transicional
de González Valencia restableció la libertad de prensa
y convirtió al Banco Central en un banco privado
más. El colapso del quinquenio fue capitalizado por la
corriente republicana, frente bipartidista que surgió en
vigor en Bogotá y Medellín a comienzos de 1909, con
la bandera de una reforma constitucional que limitara
el poder presidencial y fortaleciera el Congreso y los
departamentos. Sus huestes, capitaneadas por el concejo
municipal de Bogotá, lograron suficiente respaldo de
las municipalidades y el vacilante González Valencia
debió convocar una Asamblea Nacional que reformaría
la constitución y elegiría presidente para el siguiente
periodo (PALACIOS, 2000, p. 93).

Capitalizó en términos políticos esos alcances timoratos de la


política, el líder Carlosé, quien fue el primer mandatario de una región
cafetera y de comerciantes. Procedente de Antioquia este personaje nació
en Medellín, una capital de Colombia que en el siglo XX, se convirtió en
urbana e industrial, pero era una provincia estancada pues comulgaba
con una mentalidad profundamente piadosa en lo católico. Carlosé buscó
desarmar al país por todos los medios y des-fanatizarlo, es decir, quitarle
a los militantes religiosos, la concepción inveterada que la política era un

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

arma subordinada a los preceptos de la religión y confrontó el prejuicio de


quienes concebían que al estar amenazada la religión, era imprescindible
luchar a través de todos los medios por su restauración y redención.
El Republicanismo se basó en una nueva interpretación de la nación.
Esa concepción de bases claras, de transparencia en el juego político,
de despolitizar la constitución, afirmar la democracia dentro del Estado,
depurar a los partidos de las pasiones, de las polarizaciones, de la argucia y
construir un concepción de la política bajo los contornos del debate franco,
la educación y el respeto por el adversario y el contradictor, fueron las líneas
que más tarde definirán la concepción política de esta nueva dirigencia del
país en el siglo XX, por lo menos en dos décadas. La noción de ilustración
en la política y de liberarla de las armas religiosas, es decir de secularizar
la país y de orientarlo hacia la modernidad se tropezó con una sociedad
cuya mentalidad – amigo-enemigo – era contraria al empuje de una idea
republicana de sociedad.
Educación, tolerancia y respeto resultaban consignas progresistas
para un país donde la chispa de la guerra se desataba en cualquier
acontecimiento. Política con educación, política con argumentos, política
con administración, entre otras formulaciones aparecieron emergiendo en
las “Juntas patrióticas” que formarían luego “La Unión Republicana”, base
social del proyecto del Republicanismo. Es necesario indicar que el fraude,
la corrupción, el pactismo, la conspiración, el complot, la transacción, como
la beligerancia, la enemistad, la intolerancia, el fanatismo concurrieron
indiscriminadamente, entre la institucionalidad y lo extra-institucional y el
sello de una identidad nacional fundada en los odios y la polarización no se
pudo desterrar.
¿Cómo explicar esta cultura política del odio y de la polarización?
Censurar, perseguir, señalar y silenciar al opositor político constituyó la
manera corriente de hacer política en el país. Hay que recordar además,
que durante la Regeneración se impuso la denominada “Ley de los caballos”
de 1881 y con el artículo “K” – transitorio – de la Constitución de 1886, se
imponía un autoritarismo que impedían las voces y las opiniones diferentes

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

al dominio de los gobiernos. La ley se impuso contra las minorías y contra los
opositores, incluso constituían las armas efectivas a la que recurrieron los
gobiernos de la Regeneración para desactivar y para aniquilar al opositor,
que en este caso fueron atacados y señalados, en particular los liberales y
algunos conservadores, los llamados históricos.
Basta recordar que en abril de 1899, Carlos E. Restrepo, manifestó
lo que sería para él, una las posturas fundamentales de su concepción
política, esto es, la necesidad de la tolerancia como vía de la paz y la
limitación de las pasiones partidistas como medio para construir la unidad
nacional. En medio de la apertura de la Guerra de los Mil Días, el periódico El
Correo de Antioquia que dirigía Restrepo, insistía en 1899, en la necesidad
de la concordia y la reconciliación nacional. Durante esta época, el embrión
republicano se constituía en lo que se conoció como las “Juntas patrióticas”
en las que se extendió un activismo político que iba contra la dictadura de
Reyes, quien había cerrado el Congreso y planteó una Asamblea Nacional
Constituyente, para emular a Porfirio Díaz – el dictador mexicano y
convertirse en jefe absoluto del Estado.
Los sectores progresistas del país vieron con extrañeza y malestar
esta actitud de Reyes y se construyó una intensa propaganda política
de opinión pública que limara las asperezas de la confrontación y de la
enemistad consecuencia de las posiciones del presidente Rafael Reyes y de
las herencias de odios y enconados tras décadas de luchas y de combates
acumulados entre liberales y conservadores. Reyes se había tornado un
presidente autoritario y recalcitrante después de experimentar un atentado
infructuoso en 1896, lo que le indujo a medidas como la pena de muerte y la
censura a la prensa, bajo una concepción de reconciliación nacional, lo que
daba muestras de las incoherencias de las elites políticas del país.
En conjunción con el autoritarismo presidencialista de Reyes –
quien con la Asamblea Nacional exigía poderes extraordinarios – hay
que rememorar que tras la Guerra de los Mil Días se había incentivado en
Colombia la sed separatista de las regiones y una inclinación a la secesión
territorial. Por la experiencia de la pérdida del “Canal de Panamá” en 1903, se

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

cultivó la incitación a la separación de las secciones departamentales como


vía pragmática a resolver los conflictos con la centralidad de la nación. La
fracturación o la vía separatista podían culminar en guerra que se tornaría
más irracional, de igual manera con costos mayores y desastrosos para el
país. Frente a este otro reto, Carlos E. Restrepo y sus seguidores, llamaban
a la concordia nacional, a la unión de todos los ciudadanos y en efecto en
el año de 1904 ofrecían un panorama del país, bastante desolador y con las
preocupaciones que delinearían los antecedentes del Republicanismo:

El sector dirigente de Antioquia en un documento titulado


‘Manifiesto de la Junta Patriótica de Antioquia al país’,
identificaba tres males que en ese momento quejaban al
país: el ‘ incesante malestar’ de las distintas secciones,
que las inclina ‘ a romper lazos que las unen con la Nación’;
‘la continua desesperación’ de los partidos políticos, que
hace que ‘apelen frecuentemente a la rebeldía y aun a la
guerra civil’ y el ‘creciente desaliento de los ciudadanos’,
que, ‘ cada vez más persuadidos de que sus derechos son
vanos y vanos sus esfuerzos legales para mejorar la suerte
de la patria’, van dejando el campo de la política ‘ en poder
de los intransigentes, cuya fuerza y audacia aumentan a
medida que los buenos patriotas lo abandonan (CORREA,
1996, p. 62).

El balance no podía ser más diciente. Colombia fue un país


dominado en extremos e inclinado a los bandos. La cultura política se
desenvolvió a través de la polarización y la relación amigo-enemigo, por
ello, la llamada violencia clásica de los años cuarenta sólo es posible
explicarla bajo el encuadre de rivalidades ideológicas y políticas que incluso
se personalizaban. El secreto, la conspiración, los pactos, las conveniencias
personales, los caudillos emergentes fueron las características políticas de
esta época en el país. Rojos contra azules (DELPAR, 1994), las banderas
ideológicas se izaron de modo que rojos encendidos y azules erizados
convocaron a la beligerancia y la confrontación, pasando de las palabras
a las armas hasta producir el desastre que se sintetizó con la Guerra de
los Mil días y décadas después se intensificó con la guerra civil del campo
a la ciudad hasta llegar a la muerte asesinato de Jorge Eliecer Gaitán, el

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Bogotazo y una variedad de violencia desde el Estado y la ciudadanía. De


hecho la violencia clásica de los cuarenta produjo la experiencia que llevaría
a las otra violencia entre guerrillas y paramilitares, herencia adquirida y
cristalizada de generación en generación.
Contra el conservadurismo romántico, base de la Regeneración
del siglo XIX, que apeló al pasado para superar las contradicciones de la
modernidad capitalista, de modo reaccionario e irracional, fundado en
la tierra, la sangre, la raza y la religión como elementos ineludibles de la
nacionalidad colombiana, en el Republicanismo, los referentes fueron
otros, por ejemplo, Carlosé comprendió que progreso y orden se conjugan
mediante una nueva fórmula: el civismo. Virtudes cívicas significa en el
plan republicano: disciplina, obediencia, entrega, compromiso, respeto,
tolerancia, concordia, conciliación y mediación entre los ciudadanos y
con ellos, vinculación con el Estado, ilustración y educación popular, las
consideró esenciales de una nueva forma de gobierno donde las garantías
para la prensa libre, el sufragio universal, control jurídico de las acciones del
presidente, división de poderes, imperio de la ley contra el imperio de los
gobiernos o de los hombres, constituían en fin, un programa de gobierno
que estaba orientado hacia una desactivación de los extremos políticos y
de paso permitiría una política de las mediaciones.
Es necesario insistir que la noción republicana de intervencionismo
de Estado como asistencialismo, difiere de la concepción intervencionista
del conservadurismo radical del siglo XIX, en especial, el de la Regeneración
de Caro. Para los republicanos – el intervencionismo estatal – se trata de
modelar la “conciencia” de los ciudadanos y prepararlos para la democracia
y el capitalismo; mientras el intervencionismo estatal de la Regeneración se
comprendía como una imposición ideológica cultural, autoritaria donde se
esculpía la “consciencia” de los ciudadanos a imagen de un referente moral
rígido, católico, colectivista y corporativista.
Sin embargo, antes de analizar algunos de los contenidos políticos
del programa del Republicanismo, propuesto por su líder Carlosé, es
imprescindible señalar de qué modo evalúo la situación del país y como

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

concibió mediante su programa político, cuáles eran las posibles soluciones


de Colombia a las contradicciones que vivía al entrar el siglo XX. En una
serie de artículos escritos en la Revista titulada Colombia Revista Semanal
fechada el día 26 de mayo de 1916, ya indicó Restrepo cuáles eran los males
del país y exploró cuáles eran sus causas y efectos en el contexto de la
transición política de los años 20 del siglo XX:

Tiempos difíciles alcanzamos para recomenzar esta


propaganda republicana de tolerancia y caridad, de
reconciliación y apaciguamiento, de concesiones mutuas
y de transacciones racionales. Tiempos difíciles porque,
como tantos lo habíamos previsto y publicado, con la
concentración de los partidos se ha quintaesenciado el
espíritu de partido, que no sabe de caridad, que no se
reconcilia nunca y que con nada se acomoda. Tal es la
mentalidad de la política dominante, agravada de modo
singular por el hecho de que las más altas autoridades de
la República se hayan creído en el deber de abajarse a la
lucha partidista inmisericorde, y que las más prominente
de ellas en el orden civil emplee las únicas energías que
nos ha hecho el honor de revelar, en denigrar a parte de
sus gobernados, en declararlos excluidos hasta de las
luchas por la libertad y poco menos que excomulgados
y fuera de la ley y de la patria (RESTREPO, 1984, p. 203).

Estas mismas apreciaciones fueron argumentadas por Uribe Uribe,


vale la pena reiterar. De modo que, una de las más relevantes posturas
del Republicanismo fue el de la reconciliación que se unía a la concepción
política de des-absolutizar las posiciones partidistas, o mejor, desactivar
los espíritus de contienda ideológica política vinculada con las pasiones, la
ira, la rivalidad, la revancha o el desquite. Esa despartidización dogmática y
absolutista, la desactivación partidista extrema, la comenta con claridad al
referirse Restrepo a los partidos políticos de Colombia: “La consolidación de
un tercer partido moderador, que viva tan alejado del liberalismo jacobino
como del conservatismo fanático a riesgo, o mejor, en la seguridad de sufrir
el choque de los batalladores contrapuestos, pretendemos servir como el
algodón que separa dos vidrios y les impide romperse” (RESTREPO, 1984,
p. 204).

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Lo que lo caracterizó el Republicanismo entonces, fue la


conciliación y el pactismo cuya orientación ha de desestimular el carácter
bélico ideológico del bipartidismo decimonónico y dirigirlo hacia una
unificación partidista sin pasiones, odios, o venganzas. Observando la
situación política del país, en las dos primeras décadas del siglo XX, no
deja de criticar la fórmula republicana el sectarismo político, la animosidad
beligerante y la introyección del dogmatismo o fanatismo partidista de los
liberales y conservadores, para asegurar que entre los males de Colombia,
la confusión entre partidos y gobierno, o mejor, entre programas políticos y
prácticas políticas ha sido lo que ha incrementado el desorden y la violencia
de nuestra nación. En el ensayo programa del Republicanismo, Restrepo lo
propuso con claridad:

El espíritu sectario arrastra a los partidos, cuando están en


la oposición, a ser pródigos en promesas inconsideradas,
para ganar popularidad y conquistar el poder. De ahí que
ellos no pongan de acuerdo sus obras con sus palabras.
Son unos en la oposición, donde prometen mucho, y son
otros en el poder, donde no pueden o no quieren cumplir
todo lo prometido. No es raro el caso de que ofrezcan una
cosa y hagan exclusivamente lo contrario. Casi todos los
gobiernos de Colombia habrían sido excelentes, si no se
hubieran guiado por la política de partido; la oposición
habría sido fecunda casi siempre, si el espíritu de secta
no la hubiera desnaturalizado con frecuencia; y apenas
hay problema público que no se hubiera resuelto si no lo
hubiera estorbado el sectarismo. Es curioso notar cómo
surge éste y cómo se yergue en el seno de los partidos
que son o creen ser numerosos (RESTREPO, 1984, p.190).

La pobreza y la desigualdad, una sociedad de desvalidos no


podía formar virtudes y República. Por eso arguyó Carlosé que: “Los
males que allá padecen, son propios de naciones ricas y populosas; los
que padecemos nosotros son propios de regiones pobres y despobladas.
No habiendo paridad en los males, ni en sus causas y circunstancias, no
puede haberla en los problemas que esos males originan, ni tampoco en
los remedios aplicables. Quiere esto decir que en Colombia carecería
de fundamento la llamada revolución social, que rompe los vínculos de

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

solidaridad entre los ciudadanos, que los divide en grupos enemigos y que
proclama el antagonismo irreductible y la lucha a muerte entre esos dos
grupos” (RESTREPO, 1984, p. 192).
Desde otras perspectivas, entre las definiciones del Republicanismo
como programa o fórmula, establece una solución al antagonismo político
ideológico de los partidos y prevé la contienda social natural del desarrollo
de la modernidad capitalista, la lucha de clases entre la burguesía y
el proletariado, entre las elites y las masas. Sin embargo su centro y su
composición es menguar o disminuir las contradicciones del desarrollo
a escala nacional, pues, su apelación cívica o reconciliadora, supone, la
suspensión de las batallas que se desenvuelven en el centro de la sociedad
que transita hacia el crecimiento industrial, la urbanización y la explosión
demográfica. De modo que el Republicanismo se ofrece como mediación a
las contradicciones propias del proceso de industrialización, del desarrollo
económico, de avance cultural y de las contiendas económicas en una
sociedad estratificada y proclive a intensificar la desigualdad social.
La definición del Republicanismo bajo el anterior aspecto es muy
claro, la reconciliación no solamente filosófica de las contradicciones de
la modernidad capitalista, la conciliación entre ideologías, prácticas y
programas políticos, la mediación entre el Estado y la sociedad civil, sino
también, la mediación entre elites políticas y masas. Por ello, en el contenido
programa del Republicanismo se lo entiende como lo escribió el mismo
Carlosé refiriéndose al “Programa” que llevó a la Unión Republicana al poder,
esto es, la confluencia de lo mejor del liberalismo y del conservadurismo,
o sea, ni jacobinismo político, ni revolución radical, ni lucha armada, ni
batallas políticas, sino progreso económico sin fanatismo reaccionario, es
decir liberalismo económico y cultura cívica republicana.
Así entonces se define el Republicanismo: “Conviene llamar la
atención a dos de las diferencias que distinguen específicamente al
Republicanismo de otras agrupaciones colombianas: es la primera, que él
no es una escuela filosófica sino un partido de índole neta y exclusivamente
política; y es la segunda, que para él es base fundamental la solidaridad
de todos los colombianos, por lo cual plantea todos los problemas en el

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

campo de las conveniencias generales, con exclusión rigurosa de los


intereses de partido. Dadas esas dos premisas, hay pocas cuestiones de
alguna importancia en que la actitud de los republicanos pueda coincidir
exactamente con la de los conservadores o con la de los liberales”
(RESTREPO, 1984, p. 185).
La fórmula Republicana, estima en alto grado, el problema de
la relación entre elites y masas, partidos y clases, ideologías y posturas
políticas bajo el tamiz mediático de la reconciliación nacional, es decir,
patria, nación, unidad nacional, identidad y civismo. Resulta peculiar del
Republicanismo no la preocupación en si misma de los personajes, los
partidos, los programas ideológicos, sino la ejecución, la practicidad, la
realización de la política teniendo en frente primordialmente la educación
de los ciudadanos y su relación con la participación política.
Por ello, la crítica a la apología ideológica de los partidos, al
sectarismo partidista, al caudillismo político, a las contiendas ideológicas,
al absolutismo y al dogmatismo se entrecruza con la valoración de la
política como escenario de educación, de tolerancia, de respeto, de
vitalidad e incluso de civilización. La política en contra de la barbarie y a
favor de la civilización quiere expresar en el Republicanismo, la capacidad
racional y practica del hombre para entrar de lleno en la concordancia y en
el acuerdo de la civilización. Para ello, el Republicanismo sintetiza varios
esfuerzos en el que la mediación política reúne aspectos que pueden
parecer contradictorios, liberalismo con el conservadurismo, ciencia y
religión, pacifismo con activismo político, educación con practicismo, entre
muchos otros.
El que más llama la atención es el entrelazamiento que el
Republicanismo establece entre ciencia, política y religión. Y uno de los
aspectos más significativos de esa convergencia es el papel que se le
da al cristianismo como humanismo, a la religión cristiana como sostén y
resorte de las contradicciones del mundo moderno capitalista e industrial
con el avance científico, técnico e industrial. La religión no ya como
coerción e integración social, sino más bien, la religión como soporte de
las contradicciones que experimenta el individuo en la sociedad moderna,

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

como elemento de moderación, obediencia, entrega, fidelidad y ante todo,


como sentimiento humanizado de ayuda al desvalido, al desposeído, al
desprotegido, al desamparado. La religión no como imposición sino como
creencia universal humana.
Volviendo entonces a la triada, cristianismo, humanismo y
Revolución social, la primacía que se le otorga al cristianismo se da
porque se utiliza como medio, como freno a los azotes trágicos del mundo
moderno capitalista, en la que se incentivan ya no los valores sociales
como el egoísmo, la profanidad, el hedonismo y el placer, sino más bien,
la virtud, la moral y la obediencia. El humanismo se establece como
referente de consolación frente a la secularización que produce los vacíos
desde los cuales, los seres humanos pierden en cuanto seres genéricos,
por ello, virtudes cívicas son ciudadanas, y los valores más reconocidos o
representativos son la solidaridad, la fraternidad, la ayuda mutua. Por ello,
en el Republicanismo se construye la virtud política y social como caridad,
junto a ella, la Revolución Social se considera como progreso, pero no
solamente el económico, el social, el político, sino más bien, el cívico de la
civilización. Al respecto en esa conferencia de 1890, ya define Carlosé, los
contornos del Republicanismo bajo esos criterios y nociones:

Sin profanarse y sin que se presente a la liza en mundanas


contiendas, puede esta sociedad, humilde y religiosamen-
te, cumplir misión como factor social. Repito: acaso San
Vicente jamás tuvo tal mira en sus acciones ni allá va el
más ahincado empeño de las nuestras… Hablo señores,
de los efectos puramente sociales que nuestras obras de
caridad están llamadas a producir en la clase proletaria.
¡Bella misión es ésta de civilizar a los desvalidos, socor-
riéndolos! Que nadie extrañe mis palabras. Si el Cristia-
nismo es un elemento de progreso, ¿Por qué no ha de ser
también la Caridad, su hija predilecta? La llamada Revolu-
ción social no es un movimiento torpe, que entonces sería
vencida por la fuerza: es una idea temible, que fascina por
la verdad que parcialmente entraña: es el reclamo del tra-
bajador que no alcanza a sustentarse y necesita vivir; del
padre, para verse obligado por la escasez a desgastar en
ruda labor las fuerzas de las mujeres y niños de la familia;
del obrero, que ve llegar, con la vejez, la miseria. Uno de
los caracteres que distinguen a la Caridad es la justicia:
se da pan al menesteroso porque ésta es obra justiciera;

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

porque es justo se enseña al que no sabe. La justicia de la


Caridad se hermana con la parte que de justicia tiene la
idea social; así unidos, el amor cristiano endereza a la hija
de la Revolución, aleccionándola en el progreso (RESTRE-
PO, 1984, p. 131).

¿Pero se logró la conciliación y la unidad nacional? De 1910 a


2002, Colombia transitó de nuevo por los extremos, porque en décadas la
política fue lucha y contradicción, además de combate y rivalidad, desde
las palabras a las armas. La manera más adecuada para concluir esta parte
será con el año de 1910, y por ello, volvemos de nuevo a Uribe Uribe, quien,
como se ha dicho, tras analizar cada uno de los factores y aspectos de la
fallida integración nacional, en un aparte de modo casi premonitorio expresó
que los colombianos seguiremos durante el siglo XX – y el XXI, también –,
en confrontación y que la violencia no podrá desterrarse del país sino se
cambia la mentalidad, más allá de las transformaciones institucionales, por
ello en un aparte advirtió que:

El pueblo de Colombia es el pueblo más polemista de la


tierra; su natural es propenso a la agresión, a la crítica y a
la burla. En el mundo que tengo recorrido, no he hallado
raza más quimerista y amiga de peloteras que la nuestra.
Siempre que dos colombianos se encuentran, conózcan-
se o no desde antes, lo primero que hacen inmediatamen-
te después de saludarse – si se saludan – es contrade-
cirse; esto es, averiguar en qué disienten para ponerse a
discutir. Aun acontece las más veces que, enunciada una
opinión por el uno, aunque el otro, en su fuero la admita,
de palabra la combate, como si le pareciera signo de infe-
rioridad resultar de acuerdo con su interlocutor, o como si
gozara en mortificarlo (URIBE URIBE, 1979, p. 254).

Los intentos por construir un país liberal, democrático, popular y


revolucionario fracasaron en dos coyunturas: de 1885 a 1930 y de 1934 a
1957, pues, si se examina con cierto cuidado, el país pasó de gobiernos
liberales a gobiernos conservadores que se derechizaron hasta culminar
en 1953 con una dictadura militar, la dictadura de Gustavo Rojas Pinilla
y en 1957 con la firma de un tratado pacto bipartidista llamado: Frente
Nacional, que se legitimó en el país hasta el año de 1974, siendo otra forma

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

de dictadura institucional esta vez, concebida por los partidos tradicionales


y en la aparente “conciliación” y “acuerdo” que buscaba, acabar con la
violencia de los años 40-50. Pese al Republicanismo, el Frente Nacional
fue un proyecto político que en sus alcances limitados, le cerró el paso a
ideologías como las socialistas o las comunistas en auge en toda América
Latina. ¿Cómo explicar esa larga coyuntura de 1934 a 1957?
Es ineludible analizar el largo siglo y diseccionarlo a partir de
ciertas coyunturas, por eso, como se inició en este capítulo, la destreza y la
versatilidad que tienen las notas críticas y reflexivas del escrito publicado
en 1959, en el auge de la revolución comunista cubana en Colombia por
el poeta, Jorge Gaitán Durán, a quien seguiremos a continuación y según
sus argumentos contiene ideas pertinentes que resultan de una actualidad
inevitable.
En las siguientes reflexiones, empezaremos mostrando que en
el siglo XX, la violencia clásica, los populismos y la emergencias de las
guerrillas en el país si bien fueron sucesos singulares, están atados a un
fracaso y a un proceso político inconcluso, el de la Revolución en Marcha
propuesta por el primer gobierno de Alfonso López Pumarejo en 1934 y
– bajo este fracaso – se destruyó la posibilidad de las democracia, en los
sucedáneos gobiernos hasta el año de 1957 con el Frente Nacional. De
modo que en lo que sigue nos ocuparemos con el poeta de Pamplona y
crítico literario-político y el objetivo es desenmascarar la coyuntura de 1934
a 1957.

DEL FRACASO DEL LIBERALISMO SOCIAL-POPULAR AL


PACTO BIPARTIDISTA DEL FRENTE NACIONAL. CAMBIO,
REVOLUCIÓN Y NUEVAS VIOLENCIAS (1934-1957)

De 1910 a 1934, es decir de los gobiernos liberales conservadores al


gobierno liberal popular y social de López Pumarejo, el país había cambiado
poco en mentalidad, pero había avanzado en los procesos de urbanización,

37
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

masificación e industrialización. Lo cierto fue que focos de ideas socialistas,


de sindicalismos y de agrupaciones de izquierda iban ganando terreno en
un país ultragodo, conservador y autoritario. Los años 20, como lo hemos
citado del libro, Los años Escondidos (URIBE, 1994), han venido mostrando
la efusión de una nueva ola de procesos políticos inconclusos, por ejemplo,
la emergencia de las masas populares y del mundo rural en el país, que se
decantaría en las nuevas formas de representación y participación en la
era de la Revolución en marcha (1934-1938) hasta la firma pacto del Frente
Nacional (1956-1957).
Alertamos y nos movemos con un suceso. El año de 1928, entre
el 5 y 6 de diciembre, ocurrió el suceso de la Masacre de las Bananeras
(ARCHILA, 1999), un acontecimiento que se relata en la novela épica de
Colombia, Cien años de Soledad del novel Gabriel García Márquez. Las
contiendas entre elites y masas se intensificarían llevado a la relación
conflictiva entre pueblos y caudillos. ¿Pero inició la violencia en Colombia
con la Masacre de las Bananeras? Fue un piñón más en la escala ascendente
que se intensificó en los años 40 al 50.
Ahora, normalmente y en la historia oficial se ha asociado la
violencia clásica en Colombia con el 9 de abril de 1948 cuando se dio la
muerte asesinato del líder popular – acaso protofascista (GREGOR, 2005)
– Jorge Eliecer Gaitán. Pero si una relación es imprescindible establecer
es aquella según la cual, las huellas que dejó La Guerra de los Mil Días
(SÁNCHEZ; AGUILERA, 2001) – no solamente en la experiencia militar y
la beligerancia – en la mentalidad de la nación, a partir de los enconados
odios y resentimientos de clase y de partidos (bipartidismo) no cesó pese
a los muchos proyectos de reconciliación, o los intentos de consenso
o frentes nacionales. El fracaso del Republicanismo es otro nivel de los
procesos inconclusos del país, así mismo habría que decir de la decepción
del programa gobierno de la Revolución en Marcha de López Pumarejo
y de modo sucedáneo del ascenso de gobiernos de derecha en el país,
insuficientemente estudiados e investigados.
Es bien cierto, que las guerras del siglo XIX en Colombia fueron
propiciadas por las élites, se podría decir que fue excepcional, el

38
CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

levantamiento artesanal con José María Obando en 1848 (GUTIÉRREZ


SANÍN, 1995). En general, las conflagraciones armadas fueron de elites
– políticas, comerciales o empresariales – que lo hicieron en nombre del
pueblo, la nación y el poder estatal. No obstante, con la guerra de los mil
días, el componente campesino y rural, las clases populares por lo demás
se vieron implicadas, al punto que no pocos ascendieron en la escala
social, como consecuencia de la contienda armada. En el siglo XX, la
transmutación de la violencia, entre elites, masas y partidos será el cambio
más visible entre 1928 y 1958.
Con lo anterior podemos asegurar que de 1917 al 2017, es cierto
que las formas de violencia se han modificado en el país, pero en esencia
tienen su sustancia fundamental en las relaciones políticas entre elites y
masas, ya que en esos nexos se han propiciado las mayores disonancias
como los mayores consensos autoritarios, que si se ven bajo un periscopio,
esos consensos mayoritarios – o dictadura de las mayorías para decirlo
con Alexis de Tocqueville – se han dado en sucesivos procesos políticos
inconclusos de Colombia. De La Regeneración (1885-1904); al Frente
Nacional (1957-1974); y los dos gobiernos de Álvaro Uribe Vélez con
la bandera Seguridad democrática (2002-2006; 2006-2010), se han
impuesto gobiernos autoritarios que no dieron espacio a las alternativas
y las opciones políticas. ¿Habría acaso una línea de continuidad de Caro-
Núñez a Uribe Vélez-Ordoñez?
No se pretende aquí la generalidad, menos aún, la imprecisión,
pero una lectura aguda al largo siglo XX en el país, podrá hacer notar
que en las diversas violencias – civiles, de grupos armados, de criminales,
del Estado, del narcotráfico, entre otros – la relación amigo-enemigo, el
carácter dicotómico (uno contra todos, todos contra uno), “el que no está
conmigo está contra mí”, ha sido un modelo que en extremos o polarizado
ha constituido la esencia de la beligerancia política, cultural y social de
Colombia entre 1917 al 2017. De la lucha bipartidista – rojos contra azules
– se pasó a la contienda entre caudillos populares (López, Gaitán, Santos
y Gómez), en los años 70 al 80 del siglo XX, las guerrillas contra el Estado,

39
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

en los 90 Estado contra narcotraficantes (Estado contra Pablo Escobar) y


en el siglo XXI, guerrillas, Estado y Paramilitares; en ultimas Juan Manuel
Santos contra Uribe Vélez.
La hipótesis podría ser que los fracasos de los proyectos políticos,
unido a la fragilidad y las condiciones inconclusas de los gobiernos en el país,
además de las debilidades institucionales y una mentalidad cristalizada en
el siglo XIX, han constituido los referentes de una “imposible” democracia,
de una incapacidad en la profundización de la democracia social y de
las opciones más adecuadas para la construcción de un espacio político
democrático.
Democracia y autoritarismo, dictadura mayoritaria y estados de
excepción, segregación y exclusión de las minorías, han convivido durante
décadas profundizados a partir del Frente Nacional, porque no basta que
un gobierno acabe su periodo – o por fuerza mayor no pueda terminar
– cuando su sucesor propone un gobierno radicalmente adverso y ante
todo, arrasa las buenas políticas de su sucesor. La democracia no es
proceso solamente, requiere tiempo, pero en Colombia esos tiempos son
discontinuos y fraccionados por la a veces improvisación y por la contienda
constante o permanente.
¿Qué hubiese sucedido en el país si las reformas liberales de la
Revolución en Marcha se hubiesen logrado? ¿Acaso si el liberalismo hubiese
integrado al Estado las demandas populares de los años 30, no hubiese
sido necesario la emergencia de las derechas, los grupos armados y la
violencia política en general? ¿Hubiese sucedido lo mismo si Jorge Eliecer
Gaitán hubiera triunfado con su populismo de derecha y con él la inclusión
del pueblo al poder hubiera transformado la faz política del país y por ende
las violencias no se hubiesen expandido y concretado?
Lo probable en la dimensión del pasado histórico es una quimera,
que si bien podría ayudar a la comprensibilidad del pasado histórico y
político, la realidad política histórica la contiene, pues, en nuestro caso,
la verdad es que Colombia no ha podido realizar una revolución social y
política, ampliamente democrática y ha sido un sistema de democracia

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

segregacionista, exclusivista y extremista en bandos que hoy son


personalizados. Las explicaciones frente a los fracasados intentos
democráticos y a la construcción de un régimen ampliamente plural y
tolerante, las podemos inicialmente encontrar, si se analiza con detalle el
tránsito del liberalismo de López a los protofascismos de Jorge E. Gaitán y
Laureano Gómez (GREGOR, 2002) hasta el Frente Nacional y desde esos
contornos a Uribe Vélez y Juan Manuel Santos.
En 1988, en el número 261 de marzo, el profesor Rafael Gutiérrez
Girardot concedió un entrevista a profesores y estudiantes de la Universidad
Nacional de Bogotá bajo el título: Conversación con Rafael Gutiérrez Girardot:
vida civil y crisis política en Colombia, en la que señalaba la importancia del
ensayo de Herbert Marcuse escrito en 1934 con el título: La lucha contra el
liberalismo en la concepción totalitaria del Estado (MARCUSE, 1970), texto
que mediante un fino análisis histórico filosófico y político trazaba las líneas
de investigación sobre la política europea de los años 30 y 40.
En el ensayo indicó Marcuse que en el liberalismo ya estaban
configuradas las tendencias de las ideologías de derecha, que luego
se convirtieron en los regímenes del totalitarismo y que entre otras
circunstancias, estas ideologías alimentarían las raíces de los autoritarismos
del siglo XX. Liberalismo y fascismo combinaba una serie de nociones –
el heroísmo, la raza, la sangre, la tierra – entre democracia y mesianismo,
personalismo y absolutismo que no negaba el capitalismo y por el contrario
afianzaba sus estructuras básicas, como por ejemplo la propiedad privada,
la gran industrial y el gran capital, la Iglesia y el ejército, así mismo la
propaganda estatal y el monopolio de los medios masivos de comunicación.
El miedo a la revolución social hacía retroceder a los más declarados
liberales y los empujaba hacia el totalitarismo. Marcuse cita el caso de
Gentile en Italia y cómo este ante la política de Mussolini denostaba de
sus ideas liberales por las ideas fuerza del fascismo. Así, el tránsito del
liberalismo al fascismo destacaba Gutiérrez Girardot – siguiendo a Marcuse
– no fue una experiencia exclusiva de Europa, ya que tendría su correlato
en la sociedad colombiana. Lo anunciaba Gutiérrez con las siguientes
observaciones al argüir que:

41
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

De manera análoga sucede con una versión del liberalismo


colombiano, inspirado por Eduardo Santos, que es un
liberalismo que se muestra identificado con unos ideales
democráticos hacia el exterior, pero hacia dentro es un
liberalismo que mantiene la estructura social-feudal,
jerárquica. Así, Santos suprimía las conquistas impulsadas
durante la primera administración de López Pumarejo.
En esa medida se acercaba a su enemigo más íntimo,
Laureano Gómez. En esa situación se enfrentaron dos
dogmas y no dos posiciones políticas sustanciadas
y racionalizadas. Y así, la élite colombiana aplazó su
experiencia de la modernidad y, en consecuencia, de esta
manera, alentó la violencia política (GÓMEZ GARCIA,
2006, p. 39).

Del desenfreno popular al repudio elitista, o desde otra perspectiva,


de la dominación elitista a la contienda popular, entre 1928 a 1958, la
transición política y la cultura del país se movilizaron a partir del odio,
la venganza, el revanchismo y el desquite. Estos constituían los modos
corrientes en que los líderes partidistas, los caudillos personalistas, los
partidos fragmentados y los pueblos fraccionados en Colombia se lanzaron
a la contienda ideológica en el país que no estuvo exento de las armas y la
violencia. ¿No ha sido esa la bandera del neopopulismo de derecha de la
Seguridad Democrática?
Del campo a la ciudad, de los barrios a las veredas, de las
localidades a las regiones, se tranzaron relaciones políticas, que iban del
discurso a la acción política, sin que en ello mediara la construcción de un
espacio político razonable y argumentado mediante la contienda pública
pensada, pues, todos ellos, entre líderes caudillistas y masas populares,
encauzaron premeditadamente sus resentimientos políticos y convirtieron
la vida civil en un campo de enemistades irreconciliables, en un escenario
de contiendas a muerte, herencia quizás despertada por los muchos años
en que perduró la Regeneración en Colombia.
El periodo de 1885 a 1904, se reeditaba entre 1928 y 1958, pues, si
en el primero se gestó un proyecto que iba de la mano autoritaria de Miguel
Antonio Caro, en el segundo se acentuó con el gobierno de Laureano Gómez
(1949-1953) y cristalizó en la dictadura militar – espuria quizás, remedo del

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

peronismo en Argentina – de Rojas Pinilla (1953-1957), hasta llegar a la


nefasta conclusión del Frente Nacional. Con el sistema “pacto” bipartidista,
se sellaba la continuidad de dominio de los dos partidos tradicionales en
Colombia, pero se decantaron variadas transiciones políticas, que en su
mezcla y colisión generaron mutaciones políticas que se exaltaron a partir
de otros fenómenos políticos que dieron como resultado, la aparición de las
guerrillas – grupos armados campesinos o semi- urbanos o urbanos – que
desde el campo y luego hacia la ciudad, llevaron a un periodo de violencia
que se cerró parcialmente, con la desmovilización de algunos – M-19, EPL ,
CRS – y con la firma este año entre el gobierno de Juan Manuel Santos y las
FARC-EP, agrupación de más de cincuenta años de existencia.
Estas agrupaciones armadas y guerrilleras, las dos principales
FARC-EP y el ELN, no fueron compactas y una mutación más cristalizó
en otros modos de violencias, denominadas milicias populares o grupos
de autodefensa y paramilitares, que generaron otras formas de luchas,
integración, acumulación de capital, ordenes, dominios y soberanías – en lo
barrial, local, regional y nacional – lo que se entreveró con la corrupción, el
clientelismo y el auge de caudillos políticos personales y el desdibujamiento
cada vez más intenso de los partidos políticos.
En este escenario turbulento, aparece la criminalidad en aumento
en las ciudades, pero de modo singular hace su estreno en la vida pública,
después de años en el ámbito privado, del narcotráfico, inicialmente con
la marihuana, luego con la cocaína y otras drogas prohibidas. Los años
80 y 90, unas décadas luego del último presidente del Frente Nacional
(1974), el auge del tráfico de drogas con una variedad de sub-fenómenos,
radicalización de la pobreza y la desigualdad, abrieron el espacio a una
nueva variedad de violencias en el país.
Guerrillas, narcotráfico y en los 90, el paramilitarismo, azotaron
diversos lugares de Colombia y de las fronteras del territorio nacional. ¿Cómo
explicar esos variados escenarios violentos y turbulentos? ¿Bajo qué óptica
se podría comprender el nacimiento de esas violencias finalizando el siglo
XX, a comienzos del XXI y en especial en la era del llamado “Postconflicto”

43
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

debido a la firma de paz y la reinserción de las FARC-EP a la vida política y


civil del país?
Resentimiento y arribismo fueron los componentes que convirtieron
la política en Colombia en tres décadas del 28 al 58, en un espacio de
oportunismo, en el que se utilizaron la frustración, la desdicha, la desilusión
y la desgracia como el caldo de cultivo, para que desde las clases altas
hasta las más bajas, se explotara sin freno, la violencia como instrumento
de inclusión, como bandera de exigencias, como plataforma de visibilizar,
para excluir, marginar y destruir la figura del otro, la del oponente y la
del contradictor – y fueron así con los fundamentos o los postulados del
neopopulismo de derecha de los gobiernos de Uribe Vélez (2002-2010),
incluso ya como senador de la República y ex-presidente hasta el día de
hoy.
De modo que ya antes del asesinato de Gaitán – hoy se conmemoran
69 años de ocurrido –, elites, masas y pueblos se entremezclaron en esos
momentos, hicieron de la ilusión política el delirio irracional, por lo que la
violencia irrumpió en el espacio político de la nación sin sospechar lo que
dejaba atrás y lo que generaría en más de seis décadas hasta la actualidad.
Por ello, a la mirada cortoplacista, obviamente coyuntural, en la que no se
enlazan los diversos y múltiples pasados con la realidad inmediata, esto es,
no se siguen los rasgos de la continuidad en el marco de las diversidades
del siglo XX, debe ser interrogada desde otros lentes de la reflexión
sociopolítica, preguntando con sentido histórico y sin sentimentalismos
patrióticos que ha sido lo usual entre estudiantes, profesores, investigadores
y especialistas de Colombia.
Una de las claves de las violencias de Colombia en un siglo se podría
sintetizar en los fracasos de la revolución social y en los procesos políticos
inconclusos. De ahí que debemos retornar al análisis de Jorge Gaitán Durán
de 1959. Gaitán Durán inicia sus análisis mostrando las condiciones y las
causas que condujeron al nacimiento del Frente Nacional (1957), retrocede
sin perspectiva nostálgica a evaluar los intentos de reforma de López
Pumarejo en su primer gobierno (1934-1938), indaga en las circunstancias

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

que llevaron a la muerte de Jorge Eliécer Gaitán (9 de abril de 1948),


explora con serenidad el fracaso del comunismo y el sindicalismo en
Colombia desde los años 20 y por ende, acentúa su reflexión acerca de
la debilidad de la formación del proletariado colombiano en perspectiva
moderna, para concluir con el papel que cumplieron dos personajes
políticos – el protofascista de derecha, Laureano Gómez y el ambiguo y
liberal conservador, Alberto Lleras Camargo –, quienes tuvieron sin duda
una injerencia incuestionable en los desastres y catástrofes políticas
nacionales.
En esas transiciones políticas se produjo una transformación del
político clásico del siglo XIX y aparece una nueva clase de político. El paso
del intelectual político al político empresario y de propaganda, argumenta
Gaitán Durán constituirá el contexto de mayor transformación social de la
cultura política de Colombia a lo largo del siglo XX. La desintelectualización,
o la distancia con el “poder de los gramáticos” del siglo XIX, constituyó
el marco más propicio para las sucesivas crisis de Colombia en el siglo
XX, porque como lo hace notar, en su texto análisis de coyuntura, según
afirma, el proceso de masificación, es decir, de la estratificación social y
la transición de una sociedad rural a una sociedad urbana, en continua
expansión, sumado a los efectos de la industrialización, produjo un cambio
en las generaciones de políticos colombianos que dirigieron y lideraron el
país de los años 40 a los años 50.
La intelectualización política se vio desplazada por la formación
de una tecnocracia, en la que se especializó el campo de la política como
se notaba, bajo un proceso de disposición en las diferentes ramas del
poder y del Estado, respondiendo con ello, a las nuevas exigencias de
los liderazgos políticos. La frase más reveladora de la desfilosofización o
desintelectualización de la política la manifiesta Gaitán Durán para la época
cuando en algunos de los apartes de su obra aseguró que el país derivó en
el escenario de Burgueses especulando a la política (GAITÁN DURÁN, 1999,
p. 13).
En Colombia poco se ha investigado sobre la tecnocracia política
y cómo han incidido la clase empresarial en el complot y la conspiración

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

política e incluso en el poder del Estado. Ahora, en los primeros capítulos


del libro muestra Gaitán Durán – quien fue director de la Revista Mito (1955-
1962), un impreso ultraliberal y crítico – que la política entre 1928 y 1958,
no es programa o pensamiento, doctrina o no se compone de discursos
regidos por principios morales o filosóficos, sino más bien, se ha convertido
en Slogan, frases y propaganda – lo que hizo cambiar su naturaleza e hizo
transformar las relaciones entre caudillos y pueblos – que se desenvolvieron
con actitudes, ligadas a la estrategia, las alianzas, las posiciones ventajosas,
la astucia de la acción política práctica, entre otras.
Con lo anterior, Gaitán Durán alude al proceso de transición en
Colombia, donde el juego – o la lucha y contienda – por el poder político
pone en entredicho la relación de los “caballeros” de la política y lo coloca
en el marco de los ajustes de poder en medio de los intereses de las luchas
de clases bajo una competencia estrictamente económica. Para ser más
exactos, Gaitán Durán descubre el velo de la relaciones que durante años
se estableció entre las élites y las masas en Colombia, para encontrar
allí un escenario de rivalidades, combates, contiendas y luchas donde lo
significativo fue el oportunismo, la vindicación, las conveniencias y la
astucia.
Con una claridad, Gaitán Durán desentraña el sentido de la caída de
Gustavo Rojas Pinilla, el dictador militar y lo que entre paréntesis significó
el Frente Nacional en Colombia. En su escrito titulado El proyecto en el
vacío o la historia de una tragedia, aborda con contundencia Gaitán Durán
el tipo de desprecio a la política retórica del siglo XIX y se ensalza según
la perspectiva de los innovadores políticos de la época, el pragmatismo
político, la estrategia como oportunismo, la alianza como utilidad según los
intereses personales y particulares, por lo que expresó que:

Los dirigentes de los partidos, a costa de muchas penas,


no insisten ya en los programas de tipo antiguo, abandono
muy positivo si no hubieran resbalado hacia el otro
extremo: una suerte de practicismo, de “inmediatización”
de los problemas nacionales que los lleva a concebir la
política como una táctica, sometida a las circunstancias

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

del momento, a las falaces apariencias de la Historia, a


los azares de una habilidad que a la larga puede revelarse
superficial e inútil. Se diría que el excelente trabajo
de coordinación que aceleró la caída de la dictadura
militar los ha convencido de que la acción se reduce a
contactos entre personalidades o grupos, cuando en
verdad en los primeros días de mayo de 1957 asistimos a
uno de esos raros instantes en que culminan y coinciden
privilegiadamente imperceptibles cambios de estructura
(GAITÁN DURÁN, 1999, p. 36).

Elites y masas conjuntamente constituyeron un binomio que se


entrecruzaron bajo banderas, slogans y frases publicitarias en la que se
puso en juego, más bien, en continua disputa, la institucionalidad y lo extra-
institucional de la sociedad colombiana, manifestándose en el conflicto de
la construcción del Estado y la consolidación de la sociedad civil. Una de
las características de la violencia fue la agitación – mediante los medios de
comunicación – de masas ingentes, descoordinadas y furiosas, alentando el
revanchismo o el desquite, utilizando para ello, frases cortas, tendenciosas,
como igualmente conmovedoras.
El cambio en el lenguaje político, su utilidad y ante todo, su incidencia
marcaron una de las facetas de la época de la violencia en Colombia. Es
notable en López, Santos, Gómez, Gaitán, Rojas Pinilla y Lleras Camargo, la
utilización – en el discurso político – más que de contradicciones analíticas,
de esquemas prefijados mediante conceptos de oposición, es decir, pueblo
u oligarquía, país político o país nacional, líder o masas, restauración moral
o catástrofe, pueblo y oligarquía, clases y castas, entre muchos otros. Ese
cambio en el lenguaje lo hizo notar Gaitán Durán cuando afirmó cómo
esa herencia en el lenguaje empobreció a un más, el campo político de
Colombia, de hecho más empobrecido por los políticos tradicionales y los
nuevos políticos:

Frente a este lenguaje de nuestro tiempo, los discursos,


los editoriales, los manifiestos de los sectores políticos
que tradicionalmente han dirigido la opinión colombiana
son de una pobreza y un anacronismo aterradores,
siguen inmovilizados en el reino de los slogans, de las
generalidades, del sentimentalismo, de la retórica. Esta

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

notoria disparidad expresiva no es gratuita. Explica por


qué la presidencia de Alberto Lleras no ha sido impuesta
por los liberales y los desconcertados partidarios de
Laureano Gómez, sino por elites industriales y bancarias,
cuyos intereses coinciden hoy con los de las clases
trabajadoras (GAITÁN DURÁN, 1999, p. 21).

No es casualidad la incidencia que los medios masivos de


comunicación y en la actualidad las redes virtuales y el internet tienen en
la configuración de los imaginarios, las prácticas, las concepciones de la
participación y la representación política en un siglo. Como lo desenmascara
Gaitán Durán, ya desde la época de la violencia entre caudillos populares
(López, Gaitán, Santos y Gómez), el pragmatismo y el uso de lenguaje
político, más allá del debate público se desplazó hacia el descalificativo, el
señalamiento, la vulneración de los argumentos, como también derivó hacia
la gestualidad, las imágenes e incluso las palabras sinuosas, las mentiras
y la propaganda. Esta popularización violenta de la política mediante el
lenguaje ha sido perceptible de fenómenos como el de las guerrillas, los
paramilitares, el narcotráfico y los últimos gobiernos de Uribe y de Juan
Manuel Santos.
Revanchismo, venganza, mesianismo y absolutización del espacio
político, marcaron los procesos políticos del siglo XX en Colombia. En
nombre del pueblo se procedió al odio y al exterminio que en regiones,
localidades y ciudades llevó a miles de asesinatos y masacres, en la que
fue primordial este lenguaje de limpieza y de cruzada misional contra los
adversarios: liberales contra conservadores; lopistas contra laureanistas;
laureanistas contra los pecadores de todas las tendencias; gaitanistas
contra los santistas, o todos mezclados en una contienda inconclusa e
irresoluble. Una vez más lo hace notar Gaitán Durán, al referirse a uno de
los rasgos de continuidad a partir de los aparentes cambios sociopolíticos
del siglo XX, cuando habla del fracaso de los partidos y el auge de caudillos
personalistas.
Al fracaso de los partidos políticos se unió una política personalista
y caudillesca. ¿Pero de qué partidos políticos? Ya se adujo que la

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

“tecnocratización” política de los 20 extendió una recomposición de las


relaciones líderes, organizaciones políticas y masas que condujo a un nuevo
estilo de personalismo y caudillismo, ya no decimonónico (LYNCH, 1982),
sino más bien entretejido con las presiones que generaba la masificación,
la explosión urbana y la densidad demográfica.
La caída de la dictadura militar de Rojas Pinilla el 10 de mayo de 1957
– hace 60 años – no fue episódico, sino más bien, constituía el vaivén político
en que se fueron definiendo los rasgos de las formas de participación y de
representación política en esos años. Fracaso partidista y nuevo caudillismo
entrelazaban las viejas prácticas políticas con discursos innovadores frente
a los retos del siglo XX. La explicación del fracaso de los partidos y el
auge del caudillismo se manifestaba en la laxa configuración social, en las
amorfas bases de las clases sociales de la sociedad colombiana, en la que
si bien, a lo largo del siglo XIX, las elites políticas se transmitían el poder
mediante el otorgamiento de puestos públicos y a partir de una dominación
burocrática de estirpe patrimonialista, antiweberiana, los fenómenos de
ascenso social y económico provocados por una incipiente modernización
industrial acentuaron el fenómeno del arribismo que el mismo Gaitán Durán
ubica como el fenómeno sociopolítico que se conjugaba con la violencia
bipartidista, retratado magistralmente por Jorge Eliécer Gaitán, Gabriel
Turbay, Silvio Villegas y Laureano Gómez. Por eso basta señalar con Gaitán
Durán que:

No me sorprende la mal disimulada exasperación que


han causado estas reflexiones sobre Colombia. Como
anota Hernando Téllez, a propósito de cierta revista que
yo fundé hace tres años y que dicho sea de paso fue la
única publicación colombiana en protestar de modo
inequívoco cuando el Gobierno de las Fuerzas Armadas
clausuró El Tiempo y El Espectador: “Cuanto en estas
páginas se ha impreso ha resultado sumamente fastidioso
e intranquilizador o incomprensible para la opinión vulgar
y corriente” (MITO, No. 18, p. 390). No podía esperarse
otra cosa de un ambiente en donde para “hacer carrera”
hay necesidad de cumplir inexorablemente determinados
requisitos de servilismo, adulación e hipocresía y donde
ingenuamente las gentes confunden estos trámites, esta

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

ascensión exacta y previsible, con la política. Sin duda


el fenómeno del arribismo se produce en todas partes
y no solo en el ajetreo electoral y administrativo, sino
también en la vida económica y en la vida cultural, pero
aquí ha tomado en los últimos tiempos características
exacerbadas y mórbidas, cuyo estudio sería interesante
y tendría quizás que empezar por la influencia que la
aguda crisis de estructura del país y consiguientemente
de los partidos políticos ejerce sobre el trato social,
sobre la comunicación en la existencia cotidiana. Resulta
significativa la frase que un político de las nuevas
generaciones usa a menudo “Voy a cometer mi acto
diario de abyección”, fórmula que exhibe la decisión – en
otros casos furtiva – de obtener a todo trance un puesto
de ministro, de parlamentario, de orientador de la opinión
pública, en fin, de ser alguien, de parecer. Su humor es una
coartada; intenta cubrir el desarrollo ético con el confort
ambiguo y efímero del lenguaje (GAITÁN DURÁN, 1999,
p. 16).

Arribismo y abyección, sumisión, servilismo, adulación e hipocresía,


fundamentos de los populismos, vaciaron la frustración y el resentimiento
político, en los odios caldeados de la violencia política del país. Otro tipo de
violencias se han gestado a lo largo de los últimos tiempos, enmascarados
tras el ropaje del patriotismo y del nacionalismo eufórico, con la exaltación
del antagonismo no como consciencia histórica de las contradicciones
sino más bien como producto natural de las polarizaciones políticas, que
antepusieron una alianza como el Frente Nacional en la que la violencia se
constituyó en la justificación de la emergencia de los liderazgos y de las
direcciones personalistas de la política, basta señalar cómo los acuerdos
firmados en España entre Laureano Gómez y Alberto Lleras Camargo se
constituían en el oportunismo político que cuaja mediante la destrucción
de cualquier sentido histórico de la política y de las contradicciones de
clases, entre los años 60 y 70.
En ese encuadre del acuerdo de continuidad de los partidos
tradicionales y del encerramiento de la realidad política del país emergieron
los grupos armados, cuyo lenguaje es cierto de revolución social y política,
la que se engarza con la de los caudillos populistas de viaja data (López,

50
CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

Gaitán, Santos y Gómez) y que una vez reiteramos, esas reivindicaciones


sociales y políticas serán medios o herramientas para los caudillos
neopopulistas del siglo XXI, Álvaro Uribe Vélez (Mano firme y Corazón
grande) y Juan Manuel Santos (el estratega y jugador de la política).
Para el caso del neopopulismo de derecha de Uribe, se fundamenta
en un lenguaje y en una actitud que busca desactivar las razones históricas
de las contradicciones (de clases, ideologías, de partidos y de debates
públicos) y emplear mediante un lenguaje cifrado, de predica canónica,
de advertencia y de amenaza, lo que le ocurrirá al país si sigue por el
sendero de la controversia política, de la confrontación y de la pluralidad
ideológica, eso sí, sin masas en la plaza pública y a través de los medios de
comunicación.
Volviendo entonces, no obstante, de las reformas sociales y políticas
de López Pumarejo, se transitó hacia un populismo socialista facistoide en
Gaitán – líder héroe popular y de izquierda – quien en su autosacrificio,
quizás fue ese su redención, fue asesinado en medio de la IX Conferencia
Panamericana realizada en Bogotá (ARIAS TRUJILLO, 1998). De la muerte
asesinato de Gaitán se pasó a un discurso de persecución y de señalamiento
con el programa protofascista y derechista, del franquista Laureano
Gómez, quien fue adalid de las legiones católicas contra cualquier asomo
de ideología moderna y este ciclo se cerró con la subida al poder del militar
populista Gustavo Rojas Pinilla, quien mediante la censura a la prensa, el
debilitamiento de la opinión pública y la violencia institucional, cayó el 10 de
mayo de 1957, derivando el país a una nueva violencia institucional, la del
Frente Nacional (1957). El balance sería el siguiente:

En efecto, en el Plebiscito del 1º. de diciembre de 1957


[plebiscito contra el régimen militar de Rojas] se consa-
gra la exclusiva existencia de los partidos liberal y conser-
vador, sosteniendo la evidente falacia del peor idealismo
al suponer que la sociedad está compuesta de partidos
políticos y no por clases sociales objetivamente determi-
nadas […] con ello [el plebiscito de 1957] se logró no sólo
la expresa renuncia a la defensa de las minorías políticas,
lo cual es evidente, sino que esa enmienda se consti-
tuye en la culminación de la retractación ideológica del

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

reformismo progresista en Colombia y del pensamiento


social que lo hizo característico. En tercer lugar, pero no
menos importante, el Frente Nacional hace parte de las
soluciones infortunadas que abundan en América Latina
con el fin de intensificar en sentido conservador las po-
líticas económicas… como anota Halperin Dongui en su
Historia Contemporánea de América Latina […] la historia
misma ha puesto en evidencia que este punto de vista es
el correcto. Los obstáculos que se pudieron allanar con
la salida frentenacionalista, a saber, la violencia política,
la desigualdad social y el atraso material, se encuentran
después de treinta años intactos. Esto es, se han encua-
drado en sus debidos términos, agudizándose todo tipo
de conflictos, sin víspera de solución. El legado ha sido de-
masiado conclusivo: el de recorrer estas tres décadas in-
fructuosamente. El paso de una democracia formal a una
social, en consecuencia, debe ser encontrado esta vez en
las fuerzas que estén comprometidas sinceramente con
un impulso revolucionario hacia una sociedad diferente
(CASTILLA, 1989, p. 44).

VIOLENCIAS CRUZADAS, DEMOCRACIA EN ADJETIVOS Y


PROCESOS POLÍTICOS INCONCLUSOS EN COLOMBIA. DE
LAS VIOLENCIAS GUERRILLERAS Y EL NARCOTRÁFICO AL
PROCESO DE PAZ CON LAS FARC-EP. (1957-2017)

En 1999, se publicó un libro con el título: ¿Para dónde va Colombia?


(GÓMEZ BUENDIA, 1999) producto de un seminario promovido por
Colciencias (Entidad estatal que promueve la ciencia y la tecnología en el
país) en la que se reunieron los más destacados científicos del país con
el objetivo de hacer una radiografía de la nación – en variados aspectos
y factores – y responder al interrogante sobre los posibles escenarios
de cambio en un territorio de violencias cruzadas – de las guerrillas, el
narcotráfico, la criminalidad urbana, los grupos paramilitares entre otros
– de democracia fallida, restringida, limitada y abstencionista, con una
muy baja legitimidad de las instituciones estatales, los partidos políticos
y los políticos y con una variedad de problemas políticos inconclusos
acumulados en un siglo.

52
CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

En el prólogo del libro, elaborado por el analista político Hernando


Gómez Buendía, utilizando la teoría funcionalista, plantea la noción de la
Hipótesis del Almendrón, en la que analiza cómo algunos problemas del país
y la mentalidad que representan, antes que ser negativos, son funcionales
e integradores. Por el contrario, a lo que se piensa de común, la eficacia,
la eficiencia, la racionalidad, el cálculo, la previsión, la planeación, en fin,
algunos de los valores de la modernidad no son funcionales, para un país
que en sus mentalidades e instituciones, lo disfuncional constituye un
modo de organización social (la corrupción, el clientelismo, la violencia del
Estado y las violencias extra estatales, la trampa, la mentira, en fin), Gómez
Buendía postula que en el país, lo funcional y los disfuncional, pese a una
imagen de desorden y caos, genera un “equilibrio inestable” permanente.
Al revisar los años que van desde la firma del Frente Nacional al
presente, nos encontramos con una temporalidad que se puede señalar, al
menos bajo los siguientes criterios: a) la aparición de los grupos guerrilleros
– algunos como las FARC-EP fueron campesinos y autodefensas nacidas
de la época de la dictadura militar de Rojas Pinilla – que bajo las ideologías
marxistas que llegan a América Latina y la incidencia de la Revolución
cubana de 1959, cuestionan la institucionalidad del país y se dirigieron
a destruir las estructuras e instituciones de la nación bajo emblemas
de igualdad y justicia social; b) el auge del tráfico de marihuana en los
años 70 impulsa una generación de criminales, que irrumpe en los años
80 del siglo XX, generando en los barrios marginales y pobres del país,
el fenómeno del sicariato y la aparición de carteles de la droga quienes
bajo el enriquecimiento rápido, generaron las variadas violencias difusas
que con el tiempo llevaron al enfrentamiento con el Estado colombiano
por la extradición; c) en los años 90 se crearon los grupos paramilitares
que organizados como grupos extra estatales fueron promovidos por leyes
desde el Estado – las Cooperativas de Vigilancia y Seguridad Privada para
la autodefensa agraria (CONVIVIR) – que generaron las guerras rurales y
urbanas que azotaron al país en la primera década del siglo XXI.
Junto a estos nuevos fenómenos de violencia, el debilitamiento
del Estado, la incredulidad frente a las instituciones públicas, la creciente

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

desigualdad social y la pobreza, el desdibujamiento de los partidos políticos,


el abstencionismo, como la corrupción de los poderes públicos (justicia,
empresas privadas, organizaciones sindicales y otras), dan la apariencia de
un país fallido y en declive. No obstante, la prosperidad económica tocó
muchos sectores del país, en especial, la construcción, la minería (explotada
por multinacionales) y en parte la agricultura de lácteos o de cárnicos. Una
“modernización reaccionaria” se podría decir, fue la que dominó el modelo
social de Colombia de los años que fueron de 1957 a 2017, ya que si bien
en términos materiales e infraestructurales el país creció, las violencias, no
desaparecieron, por el contrario se incrementaron. En un estudio reciente
sobre el país se dice:

En segundo lugar, la violencia, que disminuyó mucho en-


tre 1958 y 1970, comenzó nuevamente a crecer hacia 1977,
impulsada por el enfrentamiento entre la guerrilla y el Es-
tado y por la expansión del negocio de la droga, primero
de marihuana y, desde mediados de la década de 1970,
de cocaína. En conjunto, entre 1948 y 2000 unos 600.000
colombianos murieron víctimas del enfrentamiento arma-
do, la delincuencia o incidentes causales o inesperados de
violencia. Y en tercer lugar, además de buscar explicar los
éxitos económicos como consecuencia del narcotráfico o
de la explotación sin límite de los sectores bajos, los crí-
ticos subrayaron la rigidez en la distribución del ingreso y
la riqueza: en estos cincuenta años no cambió percepti-
blemente la distribución del ingreso y probablemente au-
mentó la concentración de la propiedad de la tierra o los
recursos financieros o industriales. Democracia limitada,
corrupción, narcotráfico, violación de derechos humanos,
violencia generalizada y concentración creciente de la
riqueza son para muchos analistas rasgos que matizan
cualquier historia de estos años, aunque haya sido posible
mantener el funcionamiento de un sistema políticos de-
mocrático y respetuoso, en última instancia, de principios
y criterios legales (MELO, 2016, p. 15).

La turbulencia y las violencias cruzadas, así mismo, la debilidad de


la democracia en Colombia, asociado a problemas políticos inconclusos
como los de la tierra, la inclusión de sectores vulnerables del país, la
falta de una política de igualdad social, los problemas vinculados con la

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

educación pública, la universidad la ciencia y la tecnología, se intensificaron


con eventos que sacudieron la sociedad colombiana; en 1985 el grupo
guerrillero M-19 se tomó el Palacio de Justicia, catástrofe que hasta el
día de hoy no se ha resuelto en desaparecidos y en muertos. A la par que
esto sucedía, la guerra contra Pablo Escobar hasta el día de su muerte,
generó tanto riqueza como miseria en variados sectores del país, dejando
lo que se denominó la “cultura fácil del dinero” y “la cultura de la violencia”.
Todo ello unido al aumento de la criminalidad en las ciudades principales e
intermedias y al repliegue de la guerrilla más antigua del mundo, las FARC-
EP, que tras la subida al poder de Álvaro Uribe Vélez (2002-2010), con su
programa-gobierno de Seguridad democrática, las arrinconaba pero no las
derrotaba.
El neopopulismo de derecha de Uribe fue eficaz en términos políticos
de la reducción de la guerra contra las guerrillas, pero no se detuvieron las
otras violencias, de los paramilitares, de las bandas criminales (Bacrim) –
residuos de grupos de narcos, guerrillas, paramilitares, delincuencia común
– y de focos de delincuencia y criminalidad, que todavía azotan los barrios,
lugares, regiones y localidades del país. Con la subida al poder de Juan
Manuel Santos (2010-2018), el hecho más evidente fue la negociación en la
isla de Cuba – La Habana – y por ende el fin del conflicto con esta guerrilla
y una nueva realidad que se ha denominado la era del postconflicto, esto
es, las FARC-EP, han bajado las armas y se convertirán en un nueva fuerza
política mediante un partido político que ahora se llama Fuerza Alternativa
Revolucionaria del Común (FARC), que abre nuevos interrogantes, en los
procesos políticos inconclusos del país.
¿Vendrá de nuevo un Frente Nacional, por el efecto de la creación del
partido político de la ex–guerrilla de las FARC? ¿Se intensificará la violencia
cruzada bajo la inevitable mentalidad del odio y del revanchismo producto
de décadas de contiendas y de luchas armadas? ¿Es posible la democracia
en un país en extremos o polarizado por ideologías y personajes? ¿Con
las FARC como partido acaso no podrá constituirse una nueva política en
el país donde la oposición y las diferencias ideológicas sean toleradas y

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

aceptadas? En fin, otros temas, el de las tierras, la explotación minera, los


grupos minoritarios – los afrodescendientes, los indígenas – en el juego
político, los temas como el del matrimonio gay, el aborto, la eutanasia, se
entreverán con un panorama político que hacia el 2018 se verá definido
por cuatro ejes: la relación de Colombia con Venezuela, el papel de las
FARC, las relaciones con Estados Unidos y el gobierno Donald Trump, y los
desafíos de la globalización y la economía internacional.

CONCLUSIÓN

De 1917 a 2017, son más los procesos políticos inconclusos y menos


los escenarios de cambio y transformación de la sociedad colombiana.
Un postulado sería utilizando a Alexis de Tocqueville (DE TOCQUEVILLE,
1996) que, un cambio de régimen o institucionalidad no generará de
manera automática o semejante un cambio de mentalidad. Después de
una multiplicidad de violencias cruzadas, de las singulares y particulares
condiciones del sistema político colombiano, de las progresivas y crecientes
tasas de criminalidad y delincuencia; así mismo de un país que se ha
integrado en mayor grado a la tecnología y las telecomunicación, el proceso
de paz con las FARC – ya como partido – abren nuevas perspectivas de
análisis y de reflexión sobre el país.
En ese sentido, evaluando esa larga coyuntura, volvemos a algunos
puntos de reflexión sobre esa temporalidad abordada en el análisis de
Francisco Gutiérrez Sanín, del libro citado sobre Colombia, cuando dice
sobre los procesos políticos acumulados e inconclusos que:

El periodo comprendido entre 1958 y 2008 ha sido


para Colombia de atormentados contrastes. El país ha
mostrado una vigorosa evolución. Dejó de ser la “república
agraria” a la que se refiriera Alfonso López Pumarejo
durante su primer mandato (1936-1940) y se convirtió en
un complejo país urbano. Si en 1958 vivía en las ciudades
solamente el 30 por ciento de la población, hoy lo hace
el 80 por ciento. Creció demográfica y económicamente;
pasó de algo más de 10 millones a cerca de 45 millones

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

de habitantes, su producto interno bruto per cápita se


triplicó. El analfabetismo se redujo sustancialmente.
La esperanza de vida aumentó en casi quince años. Si
a comienzos de la década de 1960 prácticamente no
había tecnocracia, y las políticas públicas eran diseñadas
básicamente por abogados de los grandes partidos
tradicionales, hoy tenemos toda una serie de estructuras
y vasos comunicantes que permiten que una aún pequeña
capa de especialistas alimente las decisiones públicas.
Éramos un país bastante cerrado, y algunos analistas
estadounidenses – entre los pocos que se fijaban en el
país – nos llamaban el “Tibet de América” […] En la década
del 2010 en Colombia persistían el desafío armado al
Estado y un enorme problema de criminalidad organizada;
asimismo, agentes ilegales habían podido penetrar de mil
maneras distintas al Estado. Las expresiones concretas
de esto son fáciles de enumerar. Primero, Colombia es
uno de los países con mayor número de desplazados
internos, más de siete millones, según la principal base de
datos estatal. Segundo, la criminalidad común – medida
por homicidios – ha sido de las más altas del mundo
durante más de tres décadas: incluso con los descensos
significativos que se produjeron entre 1991 y 1995 y entre
2003 y 2007, en los que tuvo peso el comportamiento
de Medellín y Bogotá, el país seguía en la categoría más
violenta (GUTIÉRREZ SANIN, 2016, p. 31).

En un rango de cuatro décadas, de los años 30 a los años 70,


del fracaso de los intentos de reforma de la Revolución social de López
Pumarejo se derivó a un sistema de partidos, cuyo emblema El sagrado
derecho a la continuidad cerró las vías y las puertas, a las alternativas
políticas, a las opciones ideológicas provenientes de otras tendencias
políticas hasta los años 80 del siglo XX. Al cerrarse el espectro del espacio
institucional político, el Frente Nacional que duró hasta 1974, condujo a una
lucha política que pasó de los emblemas, slogans y palabras a las armas.
Los retos y los desafíos del país, los escenarios de cambio parecen
todavía opacos y oscuros, sin embargo los actores que podrían propiciar
esos cambios, tanto en la mentalidad como en la institucionalidad están
delineando los contornos de nuevos espacios políticos que si se aprovechan
– con inteligencia – empujaran a Colombia, a una democracia auténtica,
real y eficaz, no solamente procedimental, nominal e imaginaria.

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

A través de este escrito hemos procedido, más allá de construir un


relato riguroso y sometido a fuentes del orden oficial, a los lugares comunes
y corrientes, a reflexionar desde otros lugares y otros sentidos, la coyuntura
última del país, de 1917 a 2017. Si bien, quedan muchos asuntos por abordar
adecuadamente, piénsese lo que ha significado la Constitución de 1991 –
que se convocó mediante una Asamblea Nacional Constituyente – y que
hundía muchos de las normas y leyes que existían desde la Constitución de
1886, la emergencia de los nuevos actores como las Bacrim y fenómenos
económicos que como los TLC (Tratado de Libre Comercio) y la economía
de la globalización vienen derogando las estructuras tradicionales y las
tenuemente modernas del país.
Con ser pesimistas ilustrados, los escenarios de cambio son muy
difusos en el país: a) la vida política sumida todavía en los extremos; b) la
vida social, anclada en una mentalidad católica y fanática militante – sin
esperanzas de secularización; c) la vida económica entrelazada entre la
pobreza y la desigualdad con una integración a la globalización; y d) la vida
científica, tecnológica y universitaria destruida por una pobre infraestructura,
recursos y financiación, empujando, al menos las universidades públicas, a
luchar en condiciones de desigualdad – piénsese el programa SER PILO
PAGA, una política criminal desde el Estado que fortalece la Universidades
privadas – con el incremento de las universidades de “garaje” que se llevan
la mayor parte del presupuesto del Estado.
En fin, podemos cerrar este escrito volviendo a Rafael Uribe Uribe
(asesinado en 1914) que, en su conferencia de 1910 titulada Los problemas
nacionales, vio con horror los problemas políticos colombianos y se aventuró
a expresar que de todos ellos, los más difíciles de transformar – más allá
de los de la institucionalidad – son los de la mentalidad de los colombianos,
porque como diría Albert Einstein, parodiando la intención analítica de
Uribe Uribe, “es más fácil desintegrar un átomo que un prejuicio”, frente a lo
cual para el caso de nuestro territorio, valga concluir:

No hay mayor virtud que la sinceridad, ni tampoco una


más rara en Colombia. Ansío verle una estatura de país
más civilizado a esta tierra donde reposan los huesos de

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CAPÍTULO 1 | Colombia en un siglo. Caudillos, violencias y procesos políticos inconclusos...

hombres como Santander y Mosquera, que cualquier na-


ción, aun de las más poderosas y opulentas, se enorgulle-
cería de llamar hijos suyos. Pero querer un régimen mo-
derno con almas cristalizadas en una barbarie secular, es
peor que una utopía, una monstruosidad. Proclamar de-
mocracia y libertad, y mantener condiciones sociales de
la época colonial y absolutista, es más insensato, funesto,
pues, siendo democracia el gobierno del pueblo (demos,
pueblo, cratos, gobierno) mal puede haber democracia
sin pueblo, y no hay pueblo si es ignorante. Ochentas años
hemos gastado llevando en los labios esos nombres de li-
bertad y democracia sin que su reinado haya venido. ¿Por
qué? Porque es imposible conciliar términos antagónicos
como democracia y libertad de un lado e ignorancia del
otro. Edificar sobre arena: al menos soplo de viento, todo
se derrumba. El progreso no se obtiene con invocaciones
estériles: para progresar se necesita instruirse, educar al
pueblo para la libertad, para el deber, para la ciencia, para
la moral, para el arte (URIBE URIBE, 1979, p. 231).

Y no deja dudas, violencias, caudillismos, procesos políticos


inconclusos, de 1917 a 2017, han constituido algunos de los referentes de
la integración colombiana en dos siglos de independencia, por ello, no es
banalidad casual, dejar este registro de 1888, escrito por Fidel Cano cuando
se enfrentó al régimen de la Regeneración, quien nos dejó un testimonio y
nos define los rasgos o mejor hereda una descripción – premonitoria quizás
– del país que hoy en el 2017 no ha podido superar esos problemas políticos
inconclusos:

Y como en el campo en que las emulaciones, los odios,


las iras, los intereses, los choques y las pasiones son más
hondos es en el campo político, es en este campo en el
que debemos desconfiar más de lo que digan de su propia
conducta los que se disputan el público poder. No sois mis
jueces sino mis verdugos, dicen los vencidos; y olvidándo-
se de las retaliaciones, vehementes y sangrientas las más,
a que apelaron en servicio de lo que un día fue su causa,
o fue su momentáneo interés, o fue su capricho, su aven-
tura, muestran, como los niños, la herida que recibieron,
pero se guardan bien de hablar de las descalabradura que
llevó su contendor en la riña. Claman por sus fueros, pero
violan el fuero ajeno. Alardean de su derecho, pero olvidan
el derecho de los demás. La sangre de los suyos vertida en
la contienda es una sangre sagrada, que no sea orea nun-

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democracias restringidas

ca; la del contrario es una sangre de perro, que manchó la


tierra. Se creen atacados con rabia y se defienden a más
y mejor; pero niegan a los otros el derecho a defenderse a
su vez. Si ellos rompen las leyes, están bien rotas; si ellos
faltan al pudor social, está bien hecho; si ellos derrocan
gobiernos, está bien derrocarlos; y si ellos disponen de los
tesoros públicos y asaltan las arcas nacionales, merecen
¡galardón! (PÉREZ, 1937, p. 56).

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65
2
Capítulo
O STRONISMO: UMA
GESTÃO AUTORITÁRIA BEM

INTRODUÇÃO
SUCEDIDA
Lorena Soler
Marcela Cristina Quinteros

O Partido Colorado paraguaio – atualmente


no governo – chegou ao poder em 1946 por caminhos
pouco convencionais: a longa ditadura do general
Higinio Morínigo (1940-1948), pressionada externa e
internamente, abriu seu gabinete para a incorporação
de civis, entre eles, membros do coloradismo, em
vista de uma futura abertura democrática. Desde
então e excetuando a presidência de Fernando
Lugo (2008-2012), o Partido Colorado domina a
cena política nacional. A tradicional imagem de
um Paraguai instável contrasta com uma realidade
histórica de permanências.
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Localizado no “coração da América do Sul”, equidistante das


capitais das nações vizinhas, o país mediterrâneo representou a estabilidade
na região durante a segunda metade do século XX. A longevidade do
regime de Alfredo Stroessner (1954-1989) se explica por inúmeros
fatores. O historiador inglês Andrew Nickson (2014) enumerou cinco:
uma fachada democrática, um eficiente sistema repressivo, a corrupção
institucionalizada, o uso de uma ideologia nacionalista e o apoio norte-
americano. Outros autores, como Neri Farina (s/d), salientam o poder da
aliança entre exército/partido/governo. Porém, alguns pesquisadores
tem se questionado se estes elementos são característicos apenas do
stronismo.
Com intensidades diferentes, eles estão presentes no Paraguai
anterior e posterior a Stroessner, e tem suas raízes na violência política
da primeira metade do século XX. Algumas práticas dessa violência
política levaram à perda dos direitos políticos e sociais, repressão, exílios,
assassinatos, desaparições, guerras civis... Outras, levaram à construção
de certo “consenso” que deu legitimidade à violência política e institucional
em geral, e ao stronismo em particular1.
A biografia de Stroessner (1912-2006) escrita pelo argentino
Alberto Carbone e pelo boliviano Walter Sotomayor, ambos jornalistas, e
publicada no Brasil em 1996, retrata não apenas uma faceta muito difundida
do stronismo, como constitui um dos escassos escritos que fazem um
balanço geral desse período da história paraguaia. Assim como boa parte
dos trabalhos publicados logo após a queda de Stroessner em 03/02/1989,
eles confirmam o carácter autoritário e, incluso, desconcertante de seu
governo:

A ditadura – Stroessner governou com mão de ferro o


Paraguai – fora derrubada pelos militares que, dias antes,
identificavam-se com o regime. O chefe da insurreição,
o general Rodríguez, era sogro de um dos filhos de
Stroessner (CARBONE; SOTOMAYOR, 1996, p. 13).

1 Não é objetivo deste trabalho, mas é necessário prestar especial atenção aos mecanismos de
recriação de consensos com participação da sociedade civil. Ver: SOLER, 2017.

68
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

O desafio de explicar a longevidade do stronismo, muitas vezes,


conduz a colocar o acento no seu aspecto repressivo. Para Carbone e
Sotomayor, o importante era demonstrar que “o Paraguai pode enveredar
pelo caminho irreversível da transição à democracia”, apesar dos percalços
do percurso. Daí a condenação do regime a partir de seu rasgo mais obscuro.
Outros trabalhos publicados no Brasil durante o final do século passado
mantinham o mesmo perfil. Alguns deles, como o texto publicado pelo
também jornalista Julio José Chiavenato em 1979, quando Stroessner ainda
estava no poder, tiveram uma ampla circulação entre o público brasileiro. Já
trabalhos como o do historiador Alfredo da Mota Menezes (1987) tentaram
oferecer um estudo acadêmico das relações internacionais do stronismo
com o Brasil, mas oferecendo uma análise mais geral e convertendo-se, por
tanto, em referência obrigatória de outros trabalhos. Neste mesmo sentido,
deve ser considerado o texto de Ceres Moraes (2000), também orientado
a brindar um panorama geral do stronismo.
Textos deste tipo foram escritos nas últimas duas décadas do
século XX, em um clima generalizado de condenação das ditaduras latino-
americanas e de valorização dos processos de redemocratização. Em
grande medida, esse clima acabou influenciando e orientando a seleção dos
objetos de estudo das pesquisas acadêmicas feitas recentemente no Brasil,
principalmente, no que se refere às dissertações e teses dos programas de
pós-graduação. O número de investigações vinculadas ao stronismo vem
mostrando um franco crescimento nos últimos anos, sobre temas diversos
e com resultados notáveis. Os trabalhos de pesquisa transitam por temas
como a) as relações bilaterais entre o Brasil e o Paraguai; b) a construção da
represa de Itaipu; c) a Operação Condor; d) a política externa do stronismo;
e) os brasiguaios; f) a realidade social e econômica nas regiões de fronteira;
g) as lutas pela terra; entre outros.
Porém, as especificidades dos temas se diluem nessa perspectiva
orientada a reafirmar o carácter autoritário, repressivo e corrupto do
stronismo, observando-se a ausência de trabalhos que ofereçam um
balanço geral deste período da história paraguaia e que incluam a análise

69
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

dos fatores que viabilizaram uma constante renegociação entre Stroessner


e os diversos setores de poder econômico, social, militar, religioso e político
do Paraguai, facilitando a permanente reconstrução de um consenso social
e político que deu sustento e legitimidade ao regime.
O argumento geralmente utilizado para explicar o stronismo, além
do carácter personalista do exercício do poder e de uma sociedade civil
disciplinada pela presença histórica e reiterada de tiranos, tem sido a
centralidade dada ao Partido Colorado e às Forças Armadas como base do
andaime institucional e político sobre o qual se organizou a dita ditadura mais
longa da América Latina (LEWIS, 1986; MORÍNIGO, 1989; LEZCANO, 1989;
ARDITI, 1992; NICKSON, 2010). As análises feitas a partir do resultado final
do regime tem provocado a extrapolação de algumas conclusões. As mais
difundidas tem presentado o Partido Colorado como um partido-Estado,
fusão que teria possibilitado, através de prebendas, o funcionamento
de um regime autoritário como uma configuração de fato para uma
sociedade “atrasada” (PALAU, 1991; YORE, 1992). Também somou-se a
função coercitiva implementada pelas Forças Armadas em um contexto de
crescimento econômico causado pelo giro nas relações internacionais e a
“nova” orientação que Stroessner imprimiu, especialmente, na relação com
o Brasil.
Porém, no caso de aceitarmos uma leitura do regime a partir de seu
resultado final, o logro é bastante posterior a sua chegada já que, em sua
longa temporalidade, produziram-se profundas mudanças e tensões que
excederam claramente uma legitimidade assentada nas prebendas ou na
coerção. Em um país pouco frequentado pelas ciências sociais, e partindo
das leituras realizadas na abertura democrática, acabou primando uma
análise feita desde o último resultado de um regime de 35 anos, sem refletir
sobre o processo pelo qual se chegou nesse resultado. Por tanto, deveria se
desconstruir o que muitas vezes foi apresentado como naturalizado e dar
espaço ao processo que viabilizou um resultado fortuito e não necessário
de uma ordem política determinada.
Consideramos que a estrutura do regime é o último dado de um
processo político e econômico que refletiria os modos de conquistar o

70
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

poder e de mantê-lo legitimamente, em relação direta com a estrutura


social e política, interna e externa, na que se inscreve toda ordem política.
Nesse sentido, superestrutura e estrutura social estariam, em um processo
histórico, condicionadas reciprocamente.
O objetivo não é pensar o stronismo como uma ordem que veio
para garantir a estabilidade política a partir do estrito controle da figura
do tirano, mas, sem desconsiderar os elementos coercitivos para a
construção de uma ordem, entende-se que o processo significou um
profundo processo de mudança das estruturas econômicas e políticas.
Esse processo de mudança trouxe elementos inovadores e a busca de
outros “autênticos”, sob um jogo dialético de conservação e mudança, no
qual o resultado final foi a construção de um regime político. O stronismo
constituiu efetivamente uma bem-sucedida e inédita forma de construção
de uma nova ordem social, que incluso é possível de observar na criação
de uma nova linguagem política compartilhada pela “sociedade civil”, como
se reflete na existência do Diccionario usual del stronismo (BOCCIA PAZ,
2004).
Em seu célebre trabalho, Barrington Moore (2002) utilizou o conceito
“revolução desde cima” para analisar os processos de mudança social e
política em que os aparelhos estatais e as burocracias públicas, em aliança
com classes ou setores sociais que não estavam em condições de leva-
los adiante por si mesmos, desempenharam papéis protagônicos centrais.
A modernização conservadora consistia em modernizar a economia por
meio da iniciativa estatal, ao mesmo tempo em que eram preservadas
as formas de vida e valores tradicionais. Geralmente, os processos bem-
sucedidos dessa modalidade de mudança social foram levados adiante por
meio da utilização de formas autoritárias de regulação do sistema político
e cooptação de classes sociais ou elites políticas. Nos lugares onde essa
revolução teve sucesso, articulou-se um controle dos aparelhos estatais,
coerentes em termos técnicos, com um alto grau de legitimidade de suas
metas perante a sociedade. Como sua conceptualização assim o indica,
isso esteve acompanhado de altos índices, até inauditos, de crescimento
econômico.

71
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Partindo desta conceptualização, o stronismo será estudado


através da análise da transformação de algumas instituições estatais
e políticas, tais como os partidos e os órgãos de representação política,
considerados centrais para a reprodução do regime e para o sucesso da
modernização conservadora implementada por meio de uma revolução
desde cima que traria consigo as reformas constitucionais de 1967 e 1976,
como as mudanças operadas no sistema político e na estrutura social. Dita
“revolução de cima” esteve acompanhada tanto pela ideologia ou valores
que alimentaram a ordem política, quanto pelas representações utilizadas
na busca de uma imagem política que projetara legalidade e outorgara
recursos de legitimidade diante de uma ordem que exibia uma fachada
democrática como parte da modernização e da mudança que promovia.

REGIME POLÍTICO E APARELHO REPRESSIVO

O General Alfredo Stroessner Matiauda obteve a presidência da


República após profundas modificações no sistema político. O triunfo na
Guerra do Chaco (1932-1935) e a posterior crise tiveram seu correlato mais
nítido na autodenominada Revolução febrerista (pelo golpe de 17/02/1936).
Seu rápido fracasso e a posterior instabilidade da ordem, expressão de
uma crise de dominação política, colocou os militares em um cenário
propício para reivindicações nacionais e antiliberais. Como Gramsci tem
salientado, tais situações são o terreno propício para as soluções de força,
representadas por homens providenciais ou carismáticos. Deste modo, a
Guerra do Chaco converteu-se em provedora indiscutida de legitimidade
política para quem tivesse pretensões de governar o Paraguai nos seguintes
anos. As profundas mudanças na relação entre o Estado e a sociedade civil,
como a participação das Forças Armadas converteram o nacionalismo em
um elemento gravitante do sistema político que nem o próprio Partido
Liberal, que esteve no poder durante a guerra, conseguiu evitar.
A instabilidade política advinda após o fim da guerra com a Bolívia,
que teve seu ponto mais intenso na Guerra Civil de 1947, foi tão grave ou

72
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

mais intensa que a que seguiu o pós 1870, quando do término da Guerra
contra a Tríplice Aliança. A tão ansiada ordem política e a restituição do
monopólio da coação – nos termos de Weber – e da decisão – segundo
Schmitt –, inesperadas até para as próprias elites políticas locais, seriam
proporcionadas pela lenta mas efetiva construção do regime stronista.
Em rigor, Stroessner chegou ao governo após a queda de Federico
Chaves, o último dos presidentes eleitos “democraticamente”, e da
provisória presidência do arquiteto Tomás Romero Pereira, presidente do
Partido Colorado.2 Depois de um desempenho militar pouco destacado
na Guerra do Chaco e de uma filiação muito recente ao coloradismo
(1951), Stroessner foi promovido como candidato presidencial.3 Após o
golpe de 04/05/1954, o governo provisório convocou a eleições nas que
se apresentou como único candidato. Eleito presidente, completou um
primeiro período até 1958, tal como era estipulado na Constituição de 1940.
A vida política paraguaia esteve dominada pelos partidos políticos
e sua centralidade tem que ser explicada pela presença de um Estado,
certamente débil e debilitado, e pela fragilidade da instituição militar
após duas guerras internacionais, o que “consolidou a hegemonia civil e
fortaleceu os partidos que apoiavam lideranças civis” (ABENTE BRUN, 1996,
p. 45) e, em um contexto de crise de dominação, inabilitou a constituição
das Forças Armadas como um ator político autônomo.
A tardia profissionalização das Forças Armadas também contribuiu
a este processo. Se bem a primeira Escola Militar tinha sido criada em 1915,

2 Ao longo da primeira metade do século XX, o jogo eleitoral ficou praticamente circunscrito
à participação de apenas dois partidos: o Liberal e o Colorado. Porém, as inúmeras irregula-
ridades impediram a realização de eleições transparentes e, na maioria das vezes, um dos
dois partidos era excluído do cenário eleitoral nacional. Após a ditadura de Higinio Morínigo
(1940-1948), foram convocadas várias eleições para a presidência nas que somente o Partido
Colorado pôde apresentar candidatos (QUINTEROS; MOREIRA, 2016).
3 Em diversos textos destaca-se a carreira militar meteórica de Stroessner – desde seu batismo
de fogo na Guerra do Chaco com 19 anos de idade, até sua nomeação como general em 1949,
com 36 anos, e como comandante em chefe das Forças Armadas em 1951, com 39 anos. Mais
do que salientar o carácter “quase prodigioso” de Stroessner, os autores buscam mostrar a
“astúcia” do militar para permanecer no exército ininterruptamente, proeza rara numa época
em que os militares eram “presa fácil dos incessantes vaivéns políticos”. Essa mesma astúcia
do jovem militar explicaria, segundo alguns autores, a habilidade política para permanecer no
poder por tanto tempo (NERI FARINA; BOCCIA PAZ, s/d).

73
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

em grande medida, a formação dos oficiais paraguaios continuava sendo


feita no exterior ou através da presença de delegações estrangeiras no país
(MENDOZA, 2011). A própria história militar pessoal de Stroessner – que na
década de 1940 fez um curso de artilharia no Brasil e nos anos de 1950 fez
outro nos EUA – é uma evidência desse mecanismo de profissionalização
que, por sua vez, contribuía a estabelecer vínculos com os países onde era
feito o adestramento (NICKSON, 2014).
A Associação Nacional Republicana (ANR ou Partido Colorado)
providenciou uma base institucional de legitimidade política e colaborou na
organização da dominação mediante a estrutura partidária, possibilitando
um ordenamento político apoiado nas instituições típicas da democracia
liberal através das eleições presidenciais e legislativas como da reforma
constitucional de 1967, realizada por meio de uma assembleia constituinte
eleita segundo os mecanismos eleitorais vigentes e contando com a
presença dos principais partidos políticos.
Por outra parte, o Partido Colorado teve sob sua responsabilidade
a execução de outras funções sociais de cooperação e controle, que iam
desde a participação em clubes de bairros até a identificação de possíveis
opositores. Assim, a organização territorial também abria as pontes da
política com o mundo dos dominados. Uma complexa rede partidária, que
se fazia presente até nos confins rurais mais distantes, instituída ainda
durante a ditadura de Morínigo e consolidada após a Guerra Civil de 1947
durante as presidências de González e de Chaves, garantiu ao stronismo
um eficiente serviço de informação, a cooptação da população civil
através da filiação obrigatória ao partido para poder aceder a trabalhos na
administração pública e às políticas sociais do Estado como a distribuição
de terras, e uma onipresença do partido na vida cotidiana das pessoas
(GÓMEZ FLORENTÍN, 2013).
Porém, esta representação do Partido Colorado como partido-
Estado que temos hoje foi uma construção histórica que só é possível
vislumbrar a partir da década de 1960 ou quando o regime estava
chegando na metade de sua longa vida. Stroessner afirmou sua liderança e

74
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

hegemonia no partido após de transcorridos pelo menos dois períodos de


governo. Inclusive, é possível alegar que sua chegada ao poder obedeceu
mais a uma profunda crise dos partidos e à incapacidade do Partido
Colorado, como do resto das classes dominantes, em resolver a dita crise
de dominação em um clima de conflito social e político. De fato, depois da
Guerra Civil de 1947, vastos setores do partido apostaram por um período
de normalização interna do país por meio da denominada “unificação
partidária”, que não seria outra coisa que uma trégua entre os movimentos
internos. Na posterior convocatória a eleições, triunfou a ala democrática
do partido que, com maioria no Parlamento, reclamaria insistentemente
pela normalização institucional do governo, o que significava, entre outros
aspectos, levantar o estado de sítio.
Na realidade, nos começos do regime, o Partido Colorado foi um
dos frentes opositores mais difíceis que Stroessner teve que enfrentar.
Sem âncora política em nenhuma das linhas internas e sem militância
política prévia nessa estrutura partidária, o exílio dos principais referentes
internos e ex presidentes Juan Natalicio González – líder dos guiones rojos
– e Federico Chaves – referência dos democratas –, nas embaixadas de
México DF e Paris, respetivamente, não foi suficiente para silenciar as vozes
contrárias. Assim, longe daquela imagem de uma “ditadura” que sempre
controlou cada um dos redutos do funcionamento social, a estabilização
construída por meio da cooptação das elites políticas foi acompanhada
de momentos nos que a continuidade política de Stroessner no governo
esteve em risco.
Stroessner adotou a tipificação dos governos colorados que
lhe precederam, diferenciando entre inimigos – traidores/legionários/
antiparaguaios – e adversários – que apesar de opositores, podiam ser
incluídos na categoria de “paraguaios”, o extremo positivo do binomio – do
regime.4 Enquanto os primeiros não podiam ser tolerados dentro do território
paraguaio, os segundos geralmente pertenciam à estrutura partidária do

4 Andrés Colmán Gutiérrez (2014) denomina esta diferenciação como a oposição “perseguida”
e a “tolerada”.

75
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

governo e com eles devia estabelecer uma articulação e negociação para


se manter no poder. Para Alfredo Seiferheld, o triunfo político de Stroessner
radicava nos erros de seus adversários políticos, “vítimas” de Stroessner
que foram “convertidas em uma sorte de cúmplices de seus vitimários por
obra do silêncio” (SEIFERHELD; TONE, 1988, p. 17). Esta cumplicidade, que
estava longe de ser passiva, operou favoravelmente para a construção do
“consenso” e do “apoio” ao stronismo. Para chegar neste ponto, os dois
primeiros anos de Stroessner na presidência foram fundamentais para a
neutralização de seus potenciais rivais políticos dentro do coloradismo.
Rápidos e certeiros movimentos no tabuleiro partidário garantiram
a Stroessner uma nova relação de forças dentro do partido. Manter os
principais adversários em embaixadas distantes de Assunção era uma
prática instaurada nas administrações liberais, no início do século. A
novidade foi a sua sistematização. Assim como Chaves e González, todos
os adversários com uma liderança suficientemente sólida como para
disputar o poder de Stroessner foram enviados ao exterior, numa sorte de
“exílio assalariado”, nas palavras de González. A primeira destas manobras
foi aplicada a Epifanio Méndez Fleitas, figura carismática identificada como
o “Perón paraguaio” que, enviado para Europa em uma missão cultural,
nunca mais pode regressar ao país.5 A prática, além de manter as figuras
opositoras longe do Assunção (as nomeações sempre aconteciam em
países que não fossem limítrofes com o Paraguai), garantia o silêncio e uma
vigilância constante de todos seus atos, além da exigência de defender a
imagem de Stroessner no exterior.
Deslocadas as principais lideranças das diferentes correntes
internas do coloradismo, as autoridades do partido – a Junta de Governo –

5 Méndez Fleitas era considerado o sucessor “natural” de Chaves na presidência do Paraguai


e o candidato capaz de disputar a liderança de Stroessner. A sua equiparação com Perón
obedecia a várias características comuns a ambos: o carisma, a popularidade e a progressiva
acumulação de cargos que lhe outorgaram um poder invejável, provocando temores e intrigas
entre seus adversários. Segundo Flecha (2014), Stroessner conseguiu isolá-lo de sua base
de apoio militar e dentro do coloradismo. Destituído de todos os seus cargos, o enviou para
a Europa, mas não foi beneficiado com uma embaixada. Tratou-se apenas de uma tática de
expulsão “pacífica”.

76
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

convocaram um “reencontro” partidário em 25/10/1955, que não foi mais


do que um pacto de não agressão entre guiones e democratas, cedendo
espaço à nova etapa do “coloradismo com Stroessner” (PRIETO YEGROS,
s/d). Segundo Neri Farina (s/d), a estratégia de Stroessner era preparar a
desarticulação do Guión Rojo, dos democratas e dos epifanistas, o que de
certa forma obteve com a expulsão das lideranças e com o “reencontro”
de figuras que, até então, tinham sido dirigentes de segunda linha e que
passariam tanto a dirigir o partido como ocupariam lugares chave dentro
do gabinete de Stroessner durante prolongados períodos – como os
ministros de Interior, Edgar Ynsfrán (1956-1966) e o de Relações Exteriores,
Raúl Sapena Pastor (1956-1976).
Após quatro anos no poder, Stroessner aceitou iniciar um programa
de institucionalização do país que implicava que os partidos políticos
voltassem à legalidade e levantar o estado de sítio. Em 29/05/1959, porém,
a Câmara de Representantes aprovou, por uma maioria de 36 contra 21, uma
declaração de repúdio à violência policial contra manifestantes estudantis,
da que foi responsabilizado Ramón Duarte Vera, Chefe da Polícia. A medida
também dispunha enviar os antecedentes da causa para a justiça comum.
No dia seguinte, Stroessner dissolvia o Congresso.
Desse modo, completava-se a “faxina” partidária. Para Neri Farina
e Boccia Paz (2011), a dissolução do parlamento foi um autogolpe como
resposta também à “ousadia” dos dirigentes colorados que apresentarem a
“Nota dos 17”, de 12/03/1959, em que solicitavam o levantamento do estado
de sítio, uma lei de anistia geral e a liberdade de imprensa, entre outros
pontos necessários para implementar o programa de institucionalização.
Os 17 assinantes da nota partiram para o exílio e Stroessner eliminou o
último vestígio de oposição interna do Partido Colorado.
Porém, a debilidade de Stroessner para disciplinar o partido, diante
da ausência de forças próprias, também se evidenciavam no fato de que
os presos e torturados dos primeiros anos pertenciam, em um 90%, ao
Partido Colorado e às Forças Armadas (BLANCH, 1991). Por outro lado,
com a “limpeza” partidária, os opositores colorados no exílio formaram o

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Movimento Popular Colorado (MOPOCO), o Movimento Popular Colorado


Nacional (MOPOCONA) e a Associação Nacional Republicana no Exílio e
a Resistência (ANR-ER). Entretanto, o resto dos filiados que continuaram
no país foram distribuídos em 240 seções, para reeleger uma Junta de
Governo do partido por meio de uma lista única.
Os ditos “inimigos”, empurrados ao exílio, prisão e/ou persecução,
se valeram de outras estratégias. Em primeiro lugar, e incluso após os
deslocamentos internos, os partidos políticos opositores levaram adiante
duas tentativas de golpes de Estado em 14/11/1956 e em 09/05/1957. Mais
tarde, surgiram as ações das guerrilhas clandestinas encabeçadas pelo
Movimento 14 de Maio (1958)6 e pela Frente Unida de Libertação Nacional
(FULNA, 1959-1960), organizações lideradas pelos setores políticos
tradicionais – liberais, febreristas, colorados dissidentes e ex militares da
Guerra do Chaco expulsos do exército ou no exílio – que pugnavam pela
abertura do sistema democrático.
Assim, a dificuldade em criar uma ordem política, diante da ausência
de forças próprias e leais no partido, e a presença enfraquecedora dos
oponentes ao regime, se cristalizava nos “jogos” de abertura e fechamento
do sistema político, segundo o modo em que eram apresentadas as
impugnações políticas internas ou externas.
Em uma década especialmente convulsionada, na que se inscreveram
desde o Maio Francês e a Revolução Cubana até a Doutrina Social da Igreja,
suscitaram-se manifestações políticas transcendentais para a vida do país.
O movimento sindical urbano, organizado na Confederação Paraguaia de
Trabalhadores, liderou uma greve geral em 19587, por conta da decisão de
congelar os salários, contemplado no programa de “estabilização”.

6 Em 12/12/1958, a primeira coluna desta guerrilha, que seria totalmente aniquilada pelas tro-
pas do Governo, entrou no território paraguaio. Seus últimos membros sucumbiram em 1962.
A repressão adquiria rasgos de crueldade insuspeitados. O líder do 14 de Mayo, Juan José
Rotela, foi executado em 30/06/1960 na fazenda Tapyta, onde também foram assassinadas
Juana Peralta, Antonia Perruccino e Julia Solalinde, após sofrerem bárbaras torturas por or-
dem do general Patricio Colmán.
7 Após este fato, o sindicato ficou sob a liderança de Enrique Volta Gaona, líder de uma as-
sociação paralela – a Organização Republicana Operaria – criada em 1946 para combater a
influência do comunismo no movimento sindical. Para uma exaustiva história das origens do
movimento operário paraguaio, ver: GAONA (2007).

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CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

A persecução também afetou à Igreja. Em 1958, Ramón Talavera,


um sacerdote de Assunção, foi expulso e condenado ao exilio no Uruguai
por pregar uma visão crítica do regime. Em 1959, somava-se o movimento
estudantil contra o aumento o preço da passagem no transporte público.
Ao longo de todo o regime, os estudantes foram protagonistas de diversas
ações. Entre elas, a manifestação de repúdio de 1956, a greve de estudantes
da Faculdade de Medicina da Universidade Nacional de Assunção (UNA) –
também em 1956 – e a manifestação estudantil de 28/05/1959.
Nesse clima, a abertura restringida para conduzir à oposição
dentro de um marco de legalidade foi o mecanismo mais eficiente para
assegurar a subsistência do regime. Sob essa lógica performativa, que
fomentou a presencia partidária por meio de sua desarticulação8, o regime
permitiria a participação dos partidos a partir de seu terceiro governo
(1963) o que, para Nickson (2010), representa a conclusão da fase de
consolidação do stronismo. Para isso, foram ditadas as leis eleitorais que
regulamentavam a convocatória para eleições e seria a primeira vez na
história em que as mulheres paraguaias poderiam votar e ser eleitas em
função do direito outorgado em 1961. No caso de se apresentar somente
um partido, assumiria a totalidade dos cargos. Entre as restrições, figurava
que o Partido Comunista, “como qualquer outro gênero de organização
totalitária” (Lei nº 600, art. 16, cap. III), não teria direito em se inscrever na
disputa nem em ser reconhecido como força partidária.
Embora todos os cargos eletivos (presidente, representantes
legislativos, juntas municipais, juntas eleitorais) eram eleitos pelo voto
direto e secreto, o sistema de representação adotado outorgava dois terços

8 A partir de 1963, o Partido Liberal incorporou-se ao processo eleitoral. Entretanto, o Parti-


do Revolucionário Febrerista também participaria nas eleições municipais de 1965. Um bom
exemplo da manipulação sobre a oposição o brinda o papel desempenhado pelo Partido Libe-
ral (PL). Em 1962, a ditadura reconheceu o PL e, em 1967, ao Partido Liberal Radical (PLR), ou-
tro grupo dentro do Partido Liberal que não coincidia com os separatistas. Ambos os partidos
se encontravam no Parlamento e participavam nas eleições. Quando em 1977, o PL e o PLR
combinaram não se apresentarem no processo eleitoral, o general Stroessner pactuou com
um grupo opositor interno do PL, com o qual os abstencionistas, para se diferenciarem, come-
çaram a se denominar Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), denominação que conserva
até hoje.

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

dos cargos ao partido que tivesse obtido o maior número de votos válidos.
Dessa forma, era muito provável que as juntas eleitorais ficassem nas mãos
do Partido Colorado, responsável do escrutínio como da confecção das
atas que eram enviadas para a Câmara de Representantes.
A partir de 1963, os rituais eleitorais de partido único foram
substituídos pelas eleições semi-concorrentes ou por um sistema de
pluralismo restringido no qual alguns partidos ou fações destes foram
legalizados lentamente, qualidade necessária no horizonte da Assembleia
Constituinte de 1967.
Em efeito, o formato da democracia liberal foi a fórmula política
capaz de manter a setores sociais e organizações políticas sob a lógica
da dominação, uma forma de organização da dominação que permitia
assegurar a participação dos partidos políticos de oposição no próprio
regime político, ao mesmo tempo em que desarticulava os espaços para a
construção destes como sujeitos políticos com capacidade de impugnar a
ordem política em formação.
Três anos mais tarde da instauração da ditadura no Brasil, o
stronismo convocou uma Assembleia Constituinte na qual participaram
todos os partidos do espectro político paraguaio, previamente legalizados
para as eleições presidenciais de 1963, os que não se privariam de
apresentar seus respectivos projetos constitucionais:

A los veintisiete años de la sanción de la Constitución


de 1940, el Paraguay se rige por una nueva constitución
elaborada por los representantes de los cuatro partidos
políticos […] como corresponde al régimen democrático
y republicano que nos rige (Acta de Asamblea General
Constituyente, 1967, p. 53).

A Constituição de 1967 e a Lei de Defesa da Democracia (294/55)


pretendiam somar mais argumentos sobre a “efetiva democracia”
outorgando reconhecimento político e legal à oposição partidária. Essa
legislação também facilitava se apresentar perante o mundo como uma
democracia efetiva. Por outro lado, objetivava prover novas engenheiras

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CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

legais para a reprodução do regime, tais como a possibilidade de duas


reeleições presidenciais consecutivas a mais para Stroessner, após ter
utilizado a instância de reeleição prevista na Constituição de 1940, além do
reconhecimento político e legal para a oposição partidária. Desse modo, o
stronismo buscou dotar ao regime de figuras e andaimes “democráticos”,
além de encerrar uma demanda histórica ao se apresentar como a primeira
experiência de estabilidade política “democrática” no Paraguai.
Alguns setores opositores acreditaram que pelo fato de serem
reconhecidos legalmente tinham o caminho liberado para acessar à esfera
governamental e, por tanto, poderiam participar nas eleições nacionais
imediatas (1968), concorrer e disputar as eleições com o Partido Colorado9.
Houve três pontos de maior controvérsia nas discussões da
Assembleia Constituinte. Por um lado, a regulamentação da implementação
do estado de sítio, que conviveria com um Congresso que seria um
legislador constante graças à supressão do recesso parlamentar. A
presença permanente do Congresso evitaria os decretos presidenciais e a
faculdade de estabelecer o estado de sítio “quando as circunstâncias assim
o exigirem” lhe seria exclusiva. Por fim, o Conselho de Estado mereceu um
capítulo aparte.
Contudo, o que mais chamou a atenção foi o respaldo dado ao
recurso de amparo e ao de habeas corpus, pelo fato de que os constituintes
assumiam a possibilidade de sua efetividade.
A eleição que levou Stroessner a seu quarto mandato (1968-
1973), com todos os partidos inscritos na legalidade após a Constituinte
de 1967, foi realizada sem maiores inconvenientes para o triunfo oficialista.
Na hipótese de Jorge Lara Castro (1987), este fato poderia se considerar
como “o início da consolidação da ditadura sob a forma de um governo
de democracia representativa”. Durante dez anos, os partidos de oposição
ocuparam suas bancas nas câmaras de deputados e de senadores como
minoria, discutindo em silêncio, sob as normas stronistas, os projetos do
Executivo e lutando com uma maioria colorada aliado ao novo regime.

9 Nessa direção, o PLR confeccionou um manual com as instruções e diretrizes que seus votan-
tes, fiscais e presidentes de mesa deveriam considerar para controlar o escrutínio.

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Assim, legalizando lentamente alguns partidos ou fações deles,


o regime conseguiu recriar um sistema de pluralismo restringido. O
funcionamento dotado pelo regime para este sistema de partidos foi definido
como hegemônico pragmático (ABENTE BRUN, 1996) ou bipartidismo com
partido hegemônico (MORÍNIGO, 1998). Ou seja, concebeu-se a presença
formal de outros partidos – que incluso o próprio regime alentava – mas
sem garantir as condições de igualdade para a concorrência e, por tanto,
para o acesso ao governo.
A recriação do partido teve outra função primordial na reprodução
do regime político. Devido à debilidade do Estado paraguaio para se
apresentar como uma instituição com capacidade para a reprodução das
relações sociais em um território determinado, os partidos políticos sempre
tinham tentado se apresentar como o Estado mesmo mais que como partes
em disputa pelo poder político ou a dominação. Desse modo, além de uma
base de identidade nacional, os partidos subministravam a penetração
institucional e territorial que o próprio Estado-nação não possuía. Mas,
neste sentido, com o regime stronista, a relação inverteu-se e o Estado
converteu-se no instrumento do partido.
O agora reorganizado Partido Colorado cumpriu com a dupla função
de cooptação e controle político. Foi o principal agente de recrutamento
das burocracias estatais, que tinham terminantemente proibido protestar
e/ou realizar greves (art. 55, cap. V). Para poder trabalhar no funcionalismo
público – tanto na administração pública quanto nas forças policiais –
determinou-se como requisito legal estar filiado ao partido. Por outro lado,
o Estado era o provedor de ajuda social para a população, compreendendo
de escolas até postos de saúde, passando pelos serviços fúnebres e
assessoria jurídica.
O partido também dava assistência para as Forças Armadas por
meio de milícias cívicas conformadas pelas organizações do partido e dos
vizinhos que informavam sobre possíveis opositores. Assim, a estrutura
partidária brindava a capacidade institucional para a articulação das
relações sociais. As denúncias efetuadas pelos “vizinhos” evidenciavam

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CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

essa construção subjetiva de todo o corpo social que não fosse normalmente
colorado.
Está claro que a aliança entre o Partido Colorado e os militares não
teve somente como consequência a “partidização” das Forças Armadas,
mas também – o que foi o fato menos mencionado e mais grave – a
militarização do partido a partir da nomeação de generais como presidentes
da Junta de Governo10.
Essa aliança tem sido uma prédica constante nos discursos de
Stroessner. Antes mesmo de assumir a presidência em 1954, em uma
convenção partidária em Paraguarí, explicava:

Espero contar con el cariño del Partido y el espíritu de


la Patria, porque entiendo que la Asociación Nacional
Republicana no es otra cosa sino la poderosa organización
civil que, a la par de las Fuerzas Armadas de la Nación,
sólo se inspiran en la felicidad y grandeza de la patria
paraguaya (MENSAJES Y DISCURSOS, PRESIDENCIA DE
LA NACIÓN, p. 82).

Porém, vários autores (GATTI CARDOZO, 1990; RIQUELME, 1992;


1993; YORE, 1992) tem assinalado que esse recurso discursivo, embora
presentado como uma estratégia pessoal de Stroessner – o que constitui
uma crença generalizada em muitas análises –, obedecia a alianças prévias
e a transformações ocorridas nas Forças Armadas desde 1947 e que o
“aporte de Stroessner consistiu em formalizá-lo” (RIQUELME, 1992, p. 53).
A crise de 1947 e o levantamento militar de Concepción, no norte do
país, tinha provocado um reordenamento das forças políticas e militares11, a

10 Após a Guerra Civil de 1947, diante da situação adversa do coloradismo nas Forças Armadas
cujos oficiais tinham se levantado contra Higinio Morínigo, o governo passou a exigir a filiação
ao partido dos integrantes das Forças Armadas. A situação se institucionalizou nos governos
de González e de Chaves, e, quando Stroessner chegou à presidência do Paraguai, esta práti-
ca foi mantida. Mas, durante o stronismo, o contrapeso à coloradização do Exército foi a mili-
tarização da ANR. Se antes eram as autoridades partidárias as que aprovavam a nomeação de
oficiais, agora era a cúpula militar a que dava sua aprovação para admissão de novos filiados
e/ou autoridades no partido (QUINTEROS; MOREIRA, 2016).
11 O Partido Colorado apoiou Higinio Morínigo, enquanto o Partido Liberal, ao setor revolu-
cionário. A purga militar de oficiais liberais e febreristas foi iniciada pelo então presidente
Juan Natalicio González, diante do fracasso da tentativa de golpe de Estado encabeça-
da por Stroessner que, como aconteceria mais tarde, em 1989, se exiliou em Brasil.

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

purga dos oficiais institucionalistas que tinham se sublevado contra Higinio


Morínigo. As consequências foram a devastação do exército profissional
do Chaco e o surgimento de um novo exército através da ascensão dos
oficiais de reserva, mobilizados e reincorporados pelo partido.
Porém, a ausência de forças próprias no exército – fato que ficou
evidente no levantamento de oficiais em 1955 – empurrou Stroessner a
continuar excluindo os últimos oficiais com prestígio, o que incluía também
os colorados12.
Os baixíssimos gastos efetuados em matéria militar foram
coerentes com a tentativa de desarticular todos os componentes e
valores próprios da instituição castrense – profissionalização, hierarquia
e corporativismo. Durante o stronismo (LEZCANO, 1989; LEZCANO;
MARTINI, 1994), a infraestrutura nunca foi modernizada e o preparo dos
soldados era sumamente precária devido à inexperiência dos oficiais recém
incorporados e promovidos. A desproporção radicava na quantidade dos
recursos humanos.
Como parte da desarticulação da instituição, a lealdade militar
deixou de se basear nos critérios próprios das instituições militares,
substituindo as promoções dos oficiais pela concessão da administração
de empresas estatais e pela adjudicação fraudulenta de grandes extensões
de terra.
Isto explica que o esquema repressivo tenha se apoiado na
formação da Polícia Nacional, especificamente no trabalho do III
Departamento de Investigações da Polícia da Capital (DIPC) e da
Direção Nacional de Assuntos Técnicos (DNAT), que realizaram tarefas
de inteligência, contra inteligência e operações. Estes órgãos repressivos
tinham a responsabilidade de defender a Lei da Democracia, promulgada

12 Não concordamos com Lezcano (1989) nem com Lezcano E Martini (1994) que, seguindo a
conhecida argumentação de Augusto Vargas, afirmam que as Forças Armadas paraguaias
sofreram um processo de encapsulamento com valores que lhe eram próprios e que não re-
fletiam aqueles que predominavam em suas respetivas sociedades. Manter este argumento
significaria outorgar às Forças Armadas um grau de autonomia que entra em contradição com
a obrigatoriedade da filiação à ANR e com a relação que as duas instituições mantinham. De-
veria ser lembrada a participação dos militares mais profissionais na Guerra Civil de 1947, que
tinham atuado na Guerra do Chaco, o que produziu um deslocamento nas fileiras castrenses.

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CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

em outubro de 1955, daqueles que transgredissem disposições tão vagas


como “difundir a doutrina comunista ou quaisquer outra doutrina que
tenha como objetivo destruir ou mudar pela violência a organização da
democracia republicana da Nação” (nº 294/55, art. 2).
Não obstante, o aparelho repressivo do stronismo foi muito mais
eficiente no estabelecimento de uma cultura do medo, desconfiança,
suspeita e autocensura que em um lubrificado mecanismo de repressão
ou no estabelecimento de um estado terrorista. A vigilância regular das
atividades dos opositores ao regime era realizada por uma rede extensiva
de informantes denominados pyrague, distribuídos na administração
pública, o serviço diplomático e no próprio partido oficial.
A descoberta dos Arquivos do Terror, em 1992, conformados
por duas toneladas de documentos vinculados ao Departamento de
Investigações da Polícia da Capital, novamente colocou em evidência esta
estratégia de violação dos Direitos Humanos13. Como afirmou José Carlos
Rodríguez (1991), o governo de Stroessner não se caracterizou pela extrema
violência e sim pela moderação em sua dose, sua falta de restrições éticas
e seu cálculo. Por essa razão, a Comissão Verdade e Justiça estimou que
20.090 pessoas sofreram atos de violação dos direitos humanos, incluídas
59 execuções extrajudiciais, 336 desaparições e 3.470 exílios. Porém,
foram consignados 19.862 arrestos arbitrários durante o stronato, dos que
não menos de 18.772 (94%) passaram por algum tipo de tortura14.

13 Como parte do Plano Condor, vários opositores ao regime foram sequestrados no estran-
geiro, especialmente na Argentina (em particular, em Buenos Aires e no nordeste do país).
O caso paradigmático foi o de Esther Ballestrino, paraguaia sequestrada em Buenos Aires,
militante do grupo de familiares de desaparecidos da Argentina. Sobre a descoberta de parte
da documentação do Plano Condor em Assunção e de suas sequelas simbólicas, ver o esti-
mulante trabalho de González Vera (2002). Cabe lembrar que, a maior parte dos documentos
pertencem ao período stronista, mas também contêm registros vinculados aos governos an-
teriores. Milda Rivarola (1995) analisou os prontuários do arquivo policial sobre investigação
de pessoas (1917-1952), chegando à conclusão de que muitos indivíduos vinham sendo inves-
tigados pelos governos anteriores. A vigilância contínua dessas pessoas – em sua maioria,
trabalhadores –, ao longo de várias décadas, permitiu o acúmulo de informações valiosas que
eram perpassadas de um governo a outro.
14 Aliás, calcula-se que as vítimas indiretas – familiares ou pessoas próximas – atingiram o nú-
mero dos 107.987. Ao analisar o informe da Comissão Verdade e Justiça, observa-se rapida-
mente que as detenções maciças e o exílio coincidiram com os períodos de maior conflitivida-
de política (1960, 1976, 1980).

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

A institucionalidade da Doutrina de Segurança Nacional esteve


consideravelmente retrasada, entre outras razões, porque as “FFAA
paraguaias não tiveram – assim como seus pares – que se involucrar
ativamente na persecução de subversivos” (RIQUELME, 1992, p. 63) e,
como tem se demonstrado (RIQUELME, 1992, p. 1993), ela não gerou um
novo tipo de profissionalismo militar como o originado nos outros países do
cone Sul.
Mas sim é necessário considerar o trabalho “técnico militar”
iniciado pelos Estados Unidos no território já que, depois de desconsiderar
geopoliticamente o Paraguai, passou a enxergá-lo como o eixo de alerta do
comunismo pela sua localização geopolítica.
A documentação recentemente desclassificada permitiu confirmar
o papel de doutrinamento que tiveram os órgãos superiores do Partido
Colorado na formação do discurso que legitimaria a repressão dos ditos
subversivos comunistas.
De fato, a começos da década de 1970 aconteceria uma virada
política importante para a região e para o regime stronista. Naquele tempo,
o panorama latino-americano exibia escassos rasgos democráticos.
Com o antecedente mais distante da ditadura brasileira iniciada em
1964 e com o posterior golpe de Estado na Bolívia, em 1971, a influência
autoritária mais decisiva para o Paraguai e a região chegaria depois de
1973, e muito especialmente, em 1976. Foram anos nos quais aconteceram
eventos determinantes que cristalizaram mudanças profundas: a queda
de Salvador Allende e o início da ditadura chilena15, o regresso de Perón e
sua inesperada morte, a chegada da ditadura uruguaia e, finalmente, sob o
nome de Processo de Reorganização Nacional, a instauração da ditadura
militar argentina. Tudo isto coincidiu, também, com a ruptura das relações
harmoniosas com os Estados Unidos que, entre 1971 e 1972, acusou o
Paraguai de participar no narcotráfico, especialmente de heroína. Andrés
Rodríguez, segundo no comando das Forças Armadas (quem encabeçaria

15 Stroessner foi o primeiro presidente em realizar uma visita oficial ao Chile do ditador Augusto
Pinochet. As relações entre o Chile e o Paraguai continuam sendo um campo inexplorado
pelas ciências sociais em geral e das relações internacionais em particular.

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CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

o golpe contra Stroessner em 1989), foi um dos maiores involucrados16.


Internamente, os discursos e argumentos se deslocariam cada
vez mais em direção da Doutrina de Segurança Nacional, quando seria
realizada a última reeleição stronista para o período 1973-1978, com a
participação dos partidos opositores. A começos da década de 1980, foram
formalizados os objetivos e as missões, assim como a organização geral
das Forças Armadas. Através da Lei nº 83, elas passaram a ter a missão de
“garantir a segurança interna em coordenação com outras instituições do
poder nacional”, o que implicava “organizar, equipar e adestrar forças para
enfrentar quaisquer tipo de agressão”.
Era o momento da reconfiguração do regime que, após as eleições
presidenciais de 1973, começava a clausurar cada vez mais o espaço para a
participação política. Enfrentava-se abertamente contra a Igreja e desafiava
publicamente ao Partido Liberal Radical, que seis anos antes tinha se oposto
sem maiores restrições ao projeto oficial da reforma constitucional de 1967.
Mediante um comunicado da Junta do Partido Colorado, de 02/07/1975,
manifestava:

La posición eminentemente subversiva adoptada por


esos mismos dirigentes radicales en sus exhortaciones
e incitaciones deterioran la normalidad democrática y el
ordenado y libre juego pluripartidario (…) en desmedro de
la claridad de su posicionamiento en el proceso democrá-
tico dentro del cual actúa con todas las garantías de la
constitución y las leyes (MEMORIA DE LA JUNTA DE GO-
BIERNO, 1975, p. 73-74).

Essa guinada culminou na emenda constitucional da Assembleia


Nacional, de julho de 1976, que modificava o art. 173 da Constituição

16 A partir do conflito diplomático, os Estados Unidos recortaram sua parcela de compra de


açúcar paraguaio. Como contrapartida, o governo do Paraguai se orientou ao Japão em busca
de ajuda financeira. A relação com o governo japonês remonta-se a 1934, quando uma lei no
Brasil limitou a entrada de imigrantes japoneses no país vizinho. O incidente deu lugar a que a
empresa Colonização Brasileira S.A. se radicasse no Paraguai e promovesse a entrada de 100
famílias de imigrantes japoneses que, com a compra de um terreno de 11.000 hectares, locali-
zado em uma planície a 130 km ao sudeste de Assunção, deram origem à colônia La Colmena.

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Nacional e permitia a reeleição indefinida17. Os partidos políticos decidiram


não apresentar candidatos e apelaram abertamente por uma posição
abstencionista nos seguintes comícios (1978, 1983, 1988), que se realizariam
sem maior transcendência18.
Este novo ordenamento político teria sua contrapartida na gestação
de um novo padrão de acumulação. Em 26/04/1973, foi assinado o tratado
para a construção da represa de Itaipu, o que marcaria o fim de um ciclo
e o nascimento de outro. A assinatura coincidiu com um dos momentos
mais claros da crise do regime e recebeu críticas de seus aliados como
dos opositores através de uma reivindicação nacional na que não faltaram
leituras permeadas pelo prisma da Guerra da Tríplice Aliança. As forças
opositoras, que incluíam setores da burguesia urbana, setores industriais, o
movimento estudantil, a igreja e a imprensa nacional, denunciaram o tratado
– que se traduziu na entrada de capitais transnacionais e, especialmente,
na consolidação das estratégias geopolíticas de Brasil no país – como uma
violação da soberania paraguaia.
Finalmente, Itaipu – como todo milagre – desmoronou-se logo,
apenas iniciada a década de 1980, e exibiu as consequências de um
crescimento econômico desigual e transnacionalizado. Era o momento em
que a modernização conservadora encontrava seu limite, em coincidência
com o início do longo declínio stronista. Itaipu modificou a fisionomia
econômica e, em consequência, a distribuição urbana, dando espaço a
novos atores que experimentariam outros percursos políticos e sindicais.

UMA OUTRA ORDEM: A CONSTRUÇÃO SIMBÓLICA

A ordem stronista produziu, pelo menos, duas operações de sentido


significativas. Recriou os heróis nacionais e lhes outorgou um forte arraigo

17 Pelo mencionado art. 173, estabelecia-se que: El Presidente de la República será elegido en
comicios generales directos que se realizarán por lo menos seis meses antes de expirar el
período constitucional que estuviere en curso, y podrá ser reelecto. In: Convenção Nacional
Constituinte. Documentos oficiales, Enmienda Nº 1 de 1976.
18 Já em 1973, o Partido Revolucionário Febrerista decidiu deixar de participar nos comícios,
decisão imitada pelo PLRA, em 1977.

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CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

popular, apresentando o regime como o portador de uma estabilidade


política através de um formato democrático legitimado por uma nova
ordem jurídica.
Estas duas destrezas semânticas permitiram vincular a
modernidade política provida pela “democracia” com uma herança
nacional que brindava ingredientes “autóctones” para a construção de uma
ordem “democrática e representativa”. Por tanto, essa ordem era alheia a
outros possíveis projetos democráticos apegados a ideias externas, ou
seja, comunistas ou subversivas. As velhas imagens, relidas à luz dos novos
tempos, terminariam assimilando o ser nacional com o ser colorado, até se
converterem em sinônimos durante a nova pátria.
Embora não fosse uma novidade que os regimes autoritários e
militares invocassem mitos e figuras nacionais, nem que reformassem os
marcos jurídicos do Estado – com maior ou menor sucesso –, considera-
se que a singularidade do caso reside no resgate de imagens de um
passado clausurado pelos resultados da Guerra contra a Tríplice Aliança e
o posterior regime político que permitiu ao stronismo, após o fim da Guerra
do Chaco, reencontrar os “autênticos” heróis da nação. Paradoxalmente, o
apelo aos heróis da guerra habilitou a construção da paz interna mas em
uma ordem política moderna, diante da evidência histórica do fracasso dos
mecanismos da democracia liberal para a instauração de uma organização
política estável para o Paraguai.
Seria possível afirmar que o reordenamento político e econômico
do regime materializou-se na Constituição de 1967. Em efeito, os novos
marcos jurídicos permitiram somar argumentos sobre o funcionamento da
“democracia” e, especialmente, subministrou novas fontes de legitimidade.
Assim, as imagens históricas disponíveis possibilitaram vincular a
democracia com a ordem (estabilidade política), o progresso (crescimento
económico) e a paz (eliminação do conflito).
A releitura do passado tinha começado com o século XX, quando
um grupo de intelectuais, vinculados direta ou indiretamente com o
coloradismo, resgataram a figura de Francisco Solano López – que de

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

“assassino da pátria” passou a herói – e construíram um relato histórico


sobre a Guerra contra a Tríplice Aliança que permeou todas as lutas
políticas da centúria. Após o golpe de 1936, essa história se oficializou com
leis e monumentos que exaltavam López e outros heróis – como o general
Bernardino Caballero, fundador da ANR.
A essa operação consagradora de heróis se opunha uma campanha
de estigmatização dos ditos “traidores” ou “legionários” – em alusão aos
paraguaios que tinham se somado às tropas aliadas durante a guerra
oitocentista. A partir de então, conceitos binários como patriota/traidor,
paraguaio/legionário, colorado/antiparaguaio seriam resignificados
constantemente. Assim, no marco da Guerra Fria – coincidente com o
stronismo –, os opositores do regime, em particular, os comunistas, foram
identificados como legionários.
Ainda na década de 1930, à história revisionista, somou-se um
discurso anti-imperialista que completava a orientação nacionalista e que
integrava-se em uma rede de discussão mais ampla em que a questão do
imperialismo como tema de debate sobre a identidade latino-americana
se impunha aos intelectuais do subcontinente (PITA GONZÁLEZ;
MARICHAL SALINAS, 2012). Assim, a Guerra Grande foi interpretada
como consequência dos interesses econômicos da Inglaterra na região.
A formação de redes intelectuais, como a Força de Orientação Radical
da Jovem Argentina (FORJA) que também convocou escritores latino-
americanos, favoreceu a difusão desta interpretação, convertendo-se em
hegemônica na escrita da história latino-americana.
A primeira década de Stroessner, no auge da Guerra Fria e com
o adicional triunfo da Revolução cubana, foi propícia para a leitura nessa
clave imperialista da Guerra do Paraguai, inscrita no movimento revisionista
rio-platense das décadas de 1960 e 1970, e finalmente fortalecida pela

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CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

teoria da dependência19. Desse modo, consolidou-se um relato histórico


em que Solano López deixava de ser um tirano para ser enxergado como
vítima de uma conspiração internacional. Esta corrente atacou duramente
o liberalismo, denunciando a ação imperialista e criticando o desempenho
dos chefes militares aliados.
Assim, o clima antiliberal e nacionalista militarista foi propício,
quando não ideal, para a reivindicação de Stroessner como sucessor das
“famílias fundadoras” e um defensor da identidade autóctone diante do
avanço do que se considerava um novo tipo de imperialismo, o “perigo
vermelho”.
De alguma maneira, ainda não tinha acontecido de que um
presidente se transformasse no herdeiro dessa tradição. As imagens que
estavam disponíveis desde fins da década de 1930 foram materializadas
e projetadas, com sucesso, como simbologia de um novo regime político:

Y porque tales herederos somos, que nuestro pueblo ha


reeditado en la Guerra del Chaco las páginas de la epo-
peya del 70. Los que fuimos actores de esa guerra y so-
brevivimos a las batallas, sentimos hoy la satisfacción del
deber cumplido a la altura de nuestra tradición (MENSA-
JES Y DISCURSOS, PRESIDENCIA DE LA NACIÓN, p. 84).

Stroessner reforçou o nacionalismo revisionista, com suas


adaptações para o momento de Guerra Fria, através de medidas que
cativavam à população em geral e a às elites em particular. Em 01/03/1955,

19 Entre os expoentes desta teoria, podemos mencionar Atilio García Mellid, José Maria Rosa,
Léon Pomer, Milcíades Peña e Júlio José Chiavenato, entre outros. Para uma revisão de alcan-
ce explicativo desta teoria, ver: Abente Brun (1989). Interpretações recentes sobre a Guerra
contra a Tríplice Aliança (DORATIOTO, 2004) questionaram profundamente essas interpre-
tações em clave imperialista, demonstrando, entre outros aspectos, o escasso aporte de ca-
pitais ingleses no conflito, bem como as tentativas diplomáticas inglesas para evitar a defla-
gração bélica. Desse modo, essas interpretações desestimam a “incompatibilidade” entre a
política liberal de estilo europeu e o capitalismo estatal paraguaio da época. Nos originais das
cartas roubadas durante a Guerra Grande, é possível ler a posição da Inglaterra, assim como
foi demonstrado por Francisco Doratioto. Uma cópia dos epistolários, reunidos sob o original
título de Papeles del Tirano del Paraguay por los aliados en el asalto del 27 de diciembre de
1868, propriedade de uma biblioteca pessoal, pode ser consultada no Centro de Documenta-
ção e Informação Regional da Faculdade de Humanidades e Ciências Sociais da Universidade
Nacional de Misiones (Argentina). Uma resenha crítica de velhas e renovadas interpretações,
pode ser lida em: Brezzo (2007).

91
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

no aniversário da morte de Solano López, Stroessner descerrava do lado


do Panteão dos Heróis, na área mais importante de Assunção e local
da memória por excelência, o busto em bronze de Juan O’Leary. Dessa
maneira, consagrava não apenas o revisionismo paraguaio, mas também
seu mentor como abandeirado da nacionalidade.
Em 1974, o 24 de fevereiro foi consagrado como o Dia da Mulher
Paraguaia em homenagem à luta e à coragem femininas durante a Guerra
Grande. A data lembra a realização de uma assembleia de mulheres,
em 24/02/1867, na que se comprometeram a entregar suas joias para
contribuir com a luta contra os aliados (BARRETO, 2011). A lei foi aprovada
pelo Congresso, a partir de um projeto apresentado pela deputada liberal
Carmen de Lara Castro. A origem partidária e a militância a favor dos
Direitos Humanos da deputada proponente chamam a atenção pelo fato
da data estar associada à liturgia nacionalista defendida pelo coloradismo.
Mas, por trás da data havia a controvérsia sobre qual mulher
homenagear: a residenta ou a destinada. Durante a guerra oitocentista,
às mulheres que doaram suas joias lhes foi permitido “residir” em suas
respectivas cidades; aquelas que não aceitaram colaborar – ou eram
suspeitas de crimes “políticos” – foram “destinadas” a um desterro interno
e acusadas de traidoras. Assim como no século XIX, em que se valorizava a
mulher “leal a López” e se silenciava às mulheres vítimas da guerra, durante
o stronismo se fortaleceu uma memória positiva da mulher paraguaia no
conflito, a da residenta, caracterizada como uma mulher trabalhadeira,
corajosa, dedicada, forte, perseverante, defensora da família e da pátria
(SILVA, 2016).
A data continua vigente e é continuamente resignificada20,
evidenciando seu peso simbólico como o reconhecimento de um
determinado modelo de mulher. Com essa conceptualização era possível,

20 Recentemente o Livro de Ouro, onde constam as doações de joias, foi transferido da Casa de
Governo para o Arquivo Nacional num ato que requereu da presença policial como da impren-
sa. A solenidade do mesmo confirma a heroicização das mulheres do século XIX como não
teve parâmetro em nenhum outro país do continente. Ver: Libro de Oro pasará..., 2017.

92
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

sob o stronismo, resgatar um tipo de mulher e “silenciar” seu oposto. Para


Boccia Paz (2010), o lado positivo do binômio de gênero correspondia à
dona de casa, esposa e, fundamentalmente, à mãe, o que de certa forma
respondia ao modelo de sociedade patriarcal imperante. O lado negativo
estava integrado pelas feministas, sindicalistas, defensoras dos Direitos
Humanos e, obviamente, as desprotegidas do poder público e o alvo
mais vulnerável de uma sociedade machista, as mulheres pobres.21 A este
extremo da dicotomia cabia a discriminação e/ou o exílio.
O discurso nacionalista-revisionista também mediava no âmbito
das relações internacionais. Com a Argentina, as aproximações simbólicas
atingiram sua concretude – em parte, como consequência do revisionismo
histórico difundido em ambos os países – na entrega do grau de General
da Divisão Honoris Causa do Exército Paraguaio ao presidente argentino
Juan domingo Perón, o que se somava à cidadania paraguaia, outorgada
durante a presidência de Chaves, em ocasião da devolução dos troféus de
guerra ao Paraguai22.
Em termos simbólicos, o Brasil não teve a mesma sorte da
Argentina. Embora o Estado brasileiro tenha desenvolvido estratégias
de integração geopolítica que efetivamente possibilitaram romper com

21 Uma das práticas do stronismo mais difíceis para seu estudo tem a ver com as meninas po-
bres, convertidas em escravas sexuais, fato de público conhecimento em seu momento. Ma-
lena, filha do economista e historiador colorado Washington Ashwell e esposa de um oficial
da Armada paraguaia, denunciou a existência de um “harém” de crianças próximo de sua
residência. A influência de seu pai não evitou sua detenção e tortura – sob a acusação de
tentativa de assassinato de Stroessner –, mas garantiu sua sobrevivência e posterior exílio,
quando pôde dar seu testemunho. Ver: Desgarradora historia de..., 2008; e Malena Ashwell…,
2016. Neri Farina e Boccia Paz (s/d) confirmam a vulnerabilidade das mulheres humildes que
sofriam maiores ameaças e perseguições por parte do regime, como as vítimas das Ligas
Agrarias Camponesas.
22 Em 1955, após o golpe de Estado que provocou sua queda, Perón refugiou-se em um buque
canhoneiro paraguaio que, até a presidência de Lugo, encontrava-se na porta do Palácio dos
López (atual sede do poder executivo). Perón também foi homenageado com uma rua de
Assunção que leva seu nome. Em 02/11/1955, em virtude das pressões do governo militar
argentino, Perón foi levado até o Panamá em um avião das Forças Armadas. Stroessner tam-
bém concedeu asilo político a Anastasio Somoza quando este fugiu da Nicarágua em 1979.
Somoza foi assassinado no Paraguai, pouco tempo depois, por ação de um grupo comando.
Até meados da década de 1990, quando foram destruídos os símbolos da ditadura, Somoza
também era recordado com um monumento.

93
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

a hegemonia econômica argentina, as resistências simbólicas tem sido,


além de duradouras, muito mais complexas23. Brasil teve que esperar até
a década de 1970, na antessala do tratado de Itaipu, quando reavivou-se o
passado no contexto do aniversário de Cerro Corá e do natalício de Solano
López24.
A legitimidade nacional do regime colorado era a legitimidade dos
pais fundadores. A partir de então, o ser nacional (todos somos) implicava
o ser colorado, unificação que respondia a um mandato histórico mas
também divino:

La doctrina nacionalista del Partido nos une a todos los


colorados bajo la bandera de la patria […] y como ciuda-
dano, como soldado y como Gobernante, expreso ante
la Nación Paraguaya […] que me hago cargo con voso-
tros ante la historia de la consigna que recibiéramos de
Francia, de los López y del General Bernardino Caballero
(MENSAJES Y DISCURSOS, PRESIDENCIA DE LA NA-
CIÓN, p. 83-87).

Stroessner não falseava a realidade quando, ao falar sobre a


soberania política, referia-se à “grande família” já que as novas tradições
políticas eram também tradições privadas. Ou, em rigor, o privado devia
ser público.
Embora o crescimento econômico alentado pelo intervencionismo

23 Os rastros do conflito bélico continuam influenciando os debates atuais sobre a integração


regional e alimentando as identidades nacionais. Prova disso são as declarações da ex-pre-
sidenta argentina Cristina Fernández, em ocasião da assinatura do tratado do Banco do Sul,
de 09/12/2007, quando se referiu ao conflito oitocentista como a “Guerra da Tríplice Infâ-
mia” – denominação dada à guerra por Milcíades Peña. Pouco tempo antes, mas em um outro
sentido, o jornal Clarín reproduzia parte de um artigo da Folha de São Paulo, sob o título “A
Guerra da Tríplice Aliança ficará em segredo” (Clarín, 17/12/2004, p. 48-49), anunciando que o
governo de Luiz Inácio da Silva tinha decidido não disponibilizar para o público a consulta dos
arquivos secretos da guerra, dado que só contribuiria a reavivar antigas disputas. A decisão é
mais do controvertida se considerarmos que esse mesmo governo tinha entregue ao Arquivo
Nacional os documentos secretos, anteriores a 1975, da Agência Brasileira de Inteligência, de-
pendentes do Serviço Nacional de Inteligência (SNI), para a Comissão Geral de Investigações
e ao Conselho de Segurança Nacional. Na visita oficial do Governo Paraguaio ao Brasil, em
18/10/2008, Martín Almada solicitou novamente a abertura e devolução dos arquivos profa-
nados pelo Brasil em ocasião da guerra.
24 Sobre a disputa simbólica nas imprensas brasileira e paraguaia, em ocasião do momento
prévio às tratativas por Itaipu, ver: Colman (2016).

94
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

estatal se mantivesse, pelo menos, até a crise da dívida em 1982, o regime


stronista sofreu profundas modificações no novo contexto da década de
1970. Nesse sentido, com a consolidação do Plano Condor se produziu
uma viragem importante nas formas de organizar a ordem. Essa mudança
pode ser constatada tanto na Emenda Constitucional de 1976 para a
reeleição indefinida, quanto nas mais estendidas práticas repressivas e nos
deslocamentos dos argumentos utilizados pelo regime.
Por tanto, se a figura de Solano López era factível de ser
imortalizada, igualmente poderia acontecer com a figura de Stroessner
que, independentemente de sua longeva vida, fez de tudo para formar
parte do Panteão. Mas, a prática de se auto imortalizar dando seu nome
a um bairro, um distrito ou um aeroporto; construindo monumentos em
honor a si mesmo que o equiparavam ao grande prócer López e incluindo
seu aniversário no calendário oficial, teria que afrontar ainda o processo de
transição para a democracia e a sua desoladora morte em Brasília.
Se a nível nacional, Stroessner procurava se erigir como o herdeiro
natural dos López, a nível internacional tentou, do modo sistemático,
se converter no principal referente sul-americano do anticomunismo
hemisférico. Neste sentido, muitas foram as operações simbólicas que
conciliavam o lopismo com os discursos de paz, amizade e liberdade
dominantes no clima da Guerra Fria Cultural.
Se bem a União Soviética promovia iniciativas em torno da
reivindicação da “paz” e o bloco ocidental liderado pelos Estados Unidos
centrou seus esforços na criação de encontros e organizações em defesa
da “liberdade” (BERGHE, 1997), o stronismo levantou o estandarte da
“paz” e da “amizade” no cone sul para mostrar um Paraguai que tendia
“pontes” a seus vizinhos mais próximos (seus antigos inimigos nas guerras
internacionais) e assumia compromissos de solidariedade continental.
A apropriação e ressignificação de conceitos chamarizes
possibilitava não apenas um diálogo identitário com os aliados ocidentais,
como abria caminhos para uma integração em diversos campos (militar,
econômico, político) com os vizinhos rio-platenses. As estratégias eram

95
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

variadas e iam da identificação genérica dos ditos inimigos internos como


“comunistas” à propaganda ideológica própria da Guerra Fria Cultural. Tais
estratégias contemplavam tanto a criação de publicações e agrupações
anticomunistas quanto um rigoroso seguimento dos exilados paraguaios
no exterior através das ações do governo paraguaio que, quase uma
verdadeira “gestapo”25, seguia os movimentos de seus cidadãos e trocava
informações com os governos ditatoriais da região.
Enquanto as práticas culturais promoviam a criação da imagem de
um Paraguai “pacificado” e pretendiam “projetá-lo ao ‘mundo’” na ideia de
um país integrado nas “nações unidas” (SOLER, 2015), superando o mito
do histórico isolamento do Paraguai, os serviços de inteligência paraguaios
em coordenação com os de seus vizinhos – que viabilizaram ações como
a Operação Condor – permitiram a “faxina” dentro e fora do território
nacional dos ditos “legionários” – traidores, vermelhos, perigosos, inimigos
e tantos outros apelativos utilizados para espionar os opositores do regime.

MODERNIZAÇÃO ECONÔMICA E MUDANÇA NOS PATRÕES


DE ACUMULAÇÃO

Em termos históricos e comparativos com outros países da


América Latina, o Paraguai não foi um cenário privilegiado de intervenção
dos Estados Unidos. Sua localização geopolítica marginal, a ausência de
conflitos sociais e políticos radicalizados que colocaram em risco a região,
a ausência de enclaves econômicos rentáveis e estratégicos, e a presença
quase monopólica de capitais e comércio argentinos, primeiro, e brasileiros,
depois, não converteram este país em um mercado especialmente atrativo
para a inversão estrangeira.

25 A expressão pertence a Víctor Morínigo, guión rojo que desempenhou-se como ministro “exi-
lado” do stronismo e era um crítico dos “longos braços da nossa gestapo que podem nos
seguir aonde formos”. In: Carta de Víctor Morínigo a Juan Natalicio González de 30/12/1964.
In: Arquivo Nacional de Assunção, Natalicio Gonzalez Collection, MSE 192v2_2. A espionagem
nas embaixadas paraguaias respondia à política de Sapena Pastor, à frente do Ministério das
Relações Exteriores durante duas décadas.

96
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

Porém, a situação começou a se reverter no final da década de 1930,


aprofundando-se após a Segunda Guerra Mundial a partir de mudanças
importantes, tanto no plano interno como no contexto internacional. Desde
então, o Paraguai nutriu-se dos princípios da escola cepaliana (ESPÍNOLA
GONZÁLEZ, 2010, p. 46) e avançou em um “Plano de Desenvolvimento”
criado para combater o “atraso”26.
Como já foi exposto, desde a década de 1940 começava a ser
dominante no Paraguai – ao igual que em outros países – a premissa
de que o Estado devia ser o principal agente de todo processo de
transformação social, ideia tomada pela Revolução febrerista de 1936
e que termina plasmada na Constituição de 1940. Por outro lado, como
parte do compromisso do Tratado de Paz subscrito após o fim da Guerra
do Chaco, os Estados Unidos outorgaram vários empréstimos financeiros
que, constituído em primeira potência após a Segunda Guerra Mundial,
seguiu promovendo como parte da estratégia para afirmar sua presença na
região. Assim, o aporte externo cumpriria um papel gravitante no processo
de modernização que começou a meados dessa década.
O processo de modernização da economia stronista foi viável na
medida em que contou com as condições internas e externas favoráveis
(BORDA, 1989)27. Entre as primeiras figuram a abundância de terras fiscais,
o declínio da produção extrativa (a florestal como a pecuária extrativa) e o
excedente de mão-de-obra camponesa; entre as segundas, os créditos e as
doações externas abundantes e o estímulo dos organismos internacionais
que alentavam um novo tipo de intervenção estatal.
Até a construção de Itaipu, no início dos anos de 1970, quando
a economia paraguaia se orientou para uma escandalosa proliferação
e especulação financeira, as políticas econômicas do regime estavam
dirigidas a ativar o modelo de crescimento e, através de obras de

26 Com o nome de Plano Decenal de Desenvolvimento, o documento foi publicado na Revista


Estudios Paraguayos da Universidade Católica de Assunção. Ver Vol. II, nº 2.
27 A primeira etapa de crescimento econômico e de estabilidade política do stronismo coincidiu
com o governo de Emílio Garrastazu Médici (1969-1974) e com o “milagre brasileiro”, ponto
culminante do crescimento econômico e da modernização impulsada pelos militares.

97
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

infraestrutura, romper com o isolamento interno causado pela ausência de


um mercado nacional (FORMENTO, 2003).
As obras públicas orientadas ao desenvolvimento e à integração do
próprio território favoreceram a abertura de novos mercados e produziram
um sustenido aumento da atividade econômica. A unificação do território
implicava também a criação de um mercado nacional, indispensável para
qualquer país exportador integrado ao capitalismo mundial, a possibilidade
de pôr em circulação não apenas os bens materiais, mas também os
simbólicos para dar lugar tanto à presença do Estado quanto da nação,
em sua dupla função simbólica e de disciplinamento. O crescimento
experimentado foi, por tanto, “orientado para fora”, mas partindo da
integração e do controle interno.
Com a implementação do Estatuto Agrário, foram criados o Instituto
de Bem-estar Rural (1963)28 – responsável pela criação do Fundo Pecuário
(1969) –, o Programa Nacional de Investigação e Extensão Pecuária, e o
Plano Nacional de Trigo (1968). Com estas políticas, dava-se início a um
plano de mecanização dos processos de produção agrícola e pecuária.
Para os setores camponeses foi implementada uma ampla política
agrária dirigida a consolidar a base de sustentação social do regime que,
sem afetar a dominação estrutural, conseguiria ampliar suas bases sociais.
Com o objetivo de regular a tenência da terra, foi posto em marcha um
vasto programa de colonização (reparto de terras em lotes)29 e se avançou
na regulamentação do regime de propriedade das terras comunitárias
(FORMENTO, 2003, p. 57).
A abertura para novos mercados significou o nascimento de um novo

28 Sobre os diferentes programas de reforma agrária, tanto os impulsados pelo Estado quanto os
apresentados pelos partidos políticos para a Assembleia Constituinte de 1967, ver: PASTORE
(1972, p. 461-518). Quando Stroessner chegou ao poder, ainda estava em vigência o Estatuto
Agrário (aprovado em 28/03/1940), implementado pelo Instituto de Reforma Agrária. Depois
de 1962, estabeleceu-se outro estatuto que deu lugar à criação do Instituto de Bem-estar
Rural.
29 Os programas de colonização iniciaram-se a começos do século XX com a intencionalidade
de promover políticas de povoamento. Algumas iniciativas que serviram como antecedente
podemos mencionar os programas para colonos procedentes do Canadá (1926), da União
Soviética (1930) e do Japão (1945).

98
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

perfil exportador, a partir da venda de produtos agrícolas primários como


a soja e o algodão. Essa mudança deu origem a uma peculiar modificação
dos termos de intercâmbio como da própria estrutura produtiva: para 1970,
o cultivo da soja incrementou-se em um 700% e o do algodão, em um
800%30.
O Instituto de Bem-estar Rural controlou vastos recursos
econômicos devido à grande quantidade de terras fiscais ainda existentes no
país, além das grandes extensões de bosques já explorados pelos enclaves
extrativos, que não tinham possibilidades de reconversão econômica, e das
terras que o Estado adquiriu a um custo muito baixo. De fato, a região mais
afetada foi a zona inexplorada, inóspita e menos densamente povoada no
leste do país, receptora do reassentamento de camponeses nacionais e
de contingentes de imigrantes brasileiros. O incremento da imigração nas
fronteiras deu lugar à expansão da produção agrícola e à ocupação de
terras por parte de colonos e proprietários brasileiros.
O processo de colonização da terra esteve acompanhado pela
mobilização da população no duplo sentido Brasil-Paraguai, o que acabou
aliviando a pressão pela terra e a demanda de trabalho. O resultado final
deste processo foi que a colonização implementada incluiu a participação
econômica, mas acabou excluindo a participação política. É compreensível,
então, “a estreita relação existente entre o processo de modernização
capitalista e a estabilidade do sistema social” (DELICH, 2004, p. 55).
Todos os autores que tem estudado o problema da terra e
os camponeses (FOGEL, 1986; FORMENTO, 2003; RIVAROLA, 1982;
GALEANO, 1982; PASTORE, 1972; GARCÍA, 1982), com os dados
disponíveis, coincidem em salientar que a política agrária dirigida a alentar
o processo de colonização não alterou a propriedade da terra ou a estrutura
da propriedade, na medida em que não se traduziu em um processo de
desapropriação de terras improdutivas ou dos latifúndios.

30 Historicamente, o comércio exterior assentava-se na venda de recursos meramente extrati-


vos (madeira, erva-mate, tanino) e dos produtos pecuários que incluíam de animais vivos até
produtos derivados que exigiam certa industrialização.

99
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Em um país consistentemente rural, foram impulsadas modificações


na estrutura agrícola-ganadeira através de um programa de colonização,
segundo a especialização e mecanização dos processos de produção
agrícola e ganadeira que a demanda dos novos mercados internacionais
requeria. Porém, somente os latifúndios tiveram a capacidade econômica e
foram receptivos aos incentivos estatais para a incorporação de tecnologias
avançadas, o que levou à alcançar a “capitalização da estrutura agrária”
(FOGEL, 1989) e a produzir mudanças inusitadas na economia global do
país.
Em virtude disso, a estrutura agrária começou a experimentar a
presença de um sistema de médias e grandes propriedades, de origem
externo, nas terras disponíveis na zona leste e noroeste do país, assim
como a introdução de inovações tecnológicas nos processos produtivos.
Tratou-se de um processo de “modernização agrária autoritária
inconclusa” (GALEANO, 2010) que, sobre o final do stronismo, começou
a se manifestar na perda relativa de 20 a 100 hectares por proprietário,
no caso das explorações administradas por empresas familiares. Estas
últimas, conjuntamente com as grandes extensões de terras em mãos de
estrangeiros – vendidas pelo Estado após a Guerra da Tríplice Aliança –
tinham caracterizado a estrutura da tenência de terras no Paraguai. Desse
modo, trocava-se a relação latifúndio-minifúndio pela relação grande
propriedade-pequena propriedade. A incorporação de tecnologia no
campo, a transformação de uma agricultura familiar em empresas agrárias
e o incremento da média e grande empresa colocaram em xeque a forma de
funcionamento tradicional do setor. Por isso, e ainda no marco de ditadura,
o regime não conseguiu impedir a reaparição de organizações camponesas
e a ocupação de terras, através das Ligas Agrárias, que exibiam níveis de
conflitividade social inéditos.
Em consequência, a modernização da estrutura agrária terminou
por incentivar a criação incipiente de um tímido empresariado nacional
vinculado ao regime e configurar “os inícios da formação da classe
empresarial stronista, que floresceu vigorosamente a partir de Itaipu”

100
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

(BORDA, 1993, p. 71). Francisco Delich (1981) já tinha observado esta


tendência que conduzia à criação de uma nova classe social e o papel
que desempenharia a relação entre o bloque agrário e o regime político
como parte de uma nova reconfiguração ou suporte hegemônico. Não é
casual, então, que o recente informe final da Comissão Verdade e Justiça
(2008) tenha denunciado o abrupto processo de concentração da terra
durante o stronismo, acontecido a partir da adjudicação maciça das
terras, originalmente destinadas para a reforma agrária, para pessoas que
estavam impedidas legalmente a recebê-las. A Comissão também declarou
que as Ligas Agrárias e os movimentos camponeses foram os grupos mais
perseguidos durante esse processo31.
O outro grande capítulo da época seria a reconfiguração das
relações com o Brasil e a Argentina. A ingerência que, desde a Guerra
Grande, estes países tiveram na política e na economia locais não tinha
sido saldada, apesar do perdão da incomensurável dívida em 1942 e
1943, respectivamente. De fato, quase que paralelamente com este
acontecimento fundante para toda a região, instalavam-se em Assunção o
Banco do Brasil (1941), inaugurado por Getúlio Vargas, e o Banco da Nação
Argentina (1942).
Em rigor, os “novos vínculos” políticos entre o Brasil e o Paraguai
tinham sua origem nos acordos assinados entre Getúlio Vargas e o
presidente José Félix Estigarribia (Acordo sobre a Base de um Intercâmbio
Ferroviário, Cultural e Econômico) e na visão dos militares brasileiros –
que vinculavam a segurança nacional a um projeto de desenvolvimento
econômico –, baseada nos teóricos da Doutrina de Segurança Nacional e
Desenvolvimento, que fora elaborada na Escola Superior de Guerra (ESG),
criada em 1949 pelo presidente Eurico Dutra. Por outro lado, somaram-se a
Guerra do Chaco e o papel que a queda de Perón em 1955 desempenhou
no Brasil, além das históricas intrigas sobre a hegemonia disputada por
estes dois Estados.

31 Entre 1954 e 2003, de um total de 12.229.594 hectares adjudicadas, 7.851.295 foram distri-
buídas irregularmente. Considerando o total da superfície do território paraguaio, as terras
entregues ilegalmente representavam um 19,3%.

101
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Como tem demonstrado Melisa Birch (1988), a tendência foi a de


uma política pendular32 entre a Argentina e o Brasil. Segundo a autora, a
política exterior do Paraguai não variava de acordo aos partidos políticos
que se sucediam no poder, o que refutaria a conhecida premissa que
assimilava o Partido Liberal com a Argentina e o Partido Colorado com
o Brasil. Todos os dados indicam que a política externa do Paraguai tem
sido flutuante, na medida em que tem se construído como uma resposta
às condições econômicas e políticas públicas impulsadas pelos países
vizinhos em função de seus próprios interesses.
Por tanto, a primazia final do Brasil se explica tanto pela busca de
se consolidar como referente da América do Sul quanto pelo crescimento
econômico constante obtido, ao contrário das recorrentes crises argentinas.
A nova orientação econômica do Brasil, alentada desde a década
de 1940, permitiu ao Paraguai romper com a subordinação e hegemonia
argentina, que historicamente tinha favorecido a radicação de capitais para
o exercício do comercio e tinha assegurado e fortalecido a dependência
econômica. Um dos pontos centrais foi um conjunto de tratados e acordos
para desenvolver obras destinadas à integração geoeconômica. Ela se
expressaria na mais importante concessão de privilégios como o porto
livre de Paranaguá, mas também através da anterior construção da Ponte
da Amizade sobre o rio Paraná (inaugurado 1965 pelo presidente brasileiro
Castelo Branco) e a pavimentação da rota que conecta Assunção com
Foz do Iguaçu33. Isso, somado à fundação da cidade Puerto Presidente
Stroessner (hoje Ciudad del Este), iniciava a chamada “marcha para o leste”,
levada adiante como parte da política territorial e de integração regional.
Stroessner reconhecia publicamente a ajuda brindada tanto pelos
Estados Unidos quanto pelo Brasil, e apropriava-se dos “novos” vínculos
externos:

32 Carlos María Lezcano (1993) o caracterizou como “equilíbrio instável”. Ceres Moraes (2007)
também reconstruiu a bidirecionalidade das relações durante o stronismo, demonstrando o
papel predominante de Getúlio Vargas na recriação do que derivaria na “nova orientação”.
33 A Argentina só reconheceu a livre navegação do rio Paraná após o Paraguai obter esta outra
saída pelo porto de Paranaguá.

102
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

Nuestra política de buena vecindad sigue rindiendo sus


mejores frutos, merced de una comprensión exacta de
los destinos comunes que ligan a nuestros pueblos […]
Cabe señalar el espíritu de solidaridad que distingue a la
gran nación brasileña y a su gobierno, con la que hemos
firmado acuerdos y convenios […] Mi gobierno reconoce
que los Estados Unidos han habilitado con su concurso
las ejecuciones en que descansa el progreso de Paraguay
(Mensajes y Discursos, Presidencia de la Nación, febrero
de 1956, p. 268).

A consolidação das novas relações com o Brasil se traduziu na


implementação do maior empreendimento hidrelétrico do mundo, a partir
do acordo subscrito por ambos os países em 196634. A nova matriz de
acumulação, embora reconhecesse seus antecedentes nas modificações
operadas na década anterior e nas mudanças regionais e internacionais,
ficaria mitificada com a assinatura do tratado de Itaipu, em uma conjuntura
internacional favorável pelo aumento dos preços da soja e do algodão.
Pelo acordo, projetado como um condomínio integrado pelas duas
nações, o Brasil comprometia-se a financiar – através de um empréstimo
suave de 50 milhões de dólares – o capital inicial que o Paraguai
precisava para a execução de sua parte da obra (mão-de-obra, materiais,
equipamento), de forma que fosse aportado em partes iguais. Porém, logo
ficou demonstrado que os recursos paraguaios foram insuficientes em
magnitude, tecnologia e desenvolvimento como para contribuir em forma
equitativa para a obra. De fato, embora fosse uma quantidade impensável
para a economia nacional, o Paraguai acabou aportando 10.000 operários,
de baixa qualificação, de forma permanente entre 1976 e 1982, impulsando
a proliferação da indústria da construção, que passou de 20 empresas
de baixo nível de capital a 250 quando a obra foi finalizada (BIRCH, 1988;
BORDA, 1989).

34 A assinatura do tratado foi demorada por um incidente diplomático pelos limites fronteiriços,
cuja disputa remonta-se à Guerra da Tríplice Aliança. Durante o altercado, Brasil não se privou
de enviar tropas para a área em questão, provocando protestos entre a população paraguaia
(COLMAN, 2016). Este obstáculo foi superado com a Ata das Cataratas, assinado por ambos
os países, entre o 21 e o 22/06/1966.

103
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

O “milagre de Itaipu”, apresentado como o maior triunfo


diplomático do stronismo e o maior provedor de divisas de toda a
história do Paraguai, na verdade, colocava o país, mais uma vez, em uma
situação de dependência. A construção da obra em sociedade significava
assumir índices de endividamento escandalosos. Também implicava o
co-financiamento de uma obra que, embora estipulasse dividir em partes
iguais a produção de energia elétrica, não permitia a venda do excedente
para outros países. Portanto, devido à escala do mercado nacional, o
Paraguai terminaria custeando uma obra que subsidiaria a eletricidade
brasileira. O grande problema, que até a década de 1950 representava a
subordinação à economia argentina e as disputas pelo monopólio do porto,
seria substituído pela conflitiva regulação do preço da energia elétrica que
devia ser negociado com o governo brasileiro do momento35.
A cláusula que permitia ao governo paraguaio, em consorcio com
outras companhias internacionais, produzir equipamentos mecânicos mais
sofisticados foi bem aproveitada pelo regime na medida em que foi capaz
de rearticular o conjunto da pequena burguesia interna em torno do grande
capital e da classe política governante. Um indicador permite visualizar
nitidamente estas novas alianças. Em efeito, a partir da promulgação da
Lei da Banca Especializada se criaram, entre 1973 e 1981, 12 bancos, 26
financeiras, 6 sociedades de poupança e empréstimos, e 30 companhias
de seguro. Paraguai converteu-se no paraíso da especulação financeira
(BORDA, 1993).
Neste marco, o Estado implementou a Lei de Fomento Industrial
(216/70 e 550/75), segundo a qual comprometia-se a financiar a atividade
industrial através de empréstimos suaves. O capital estrangeiro foi
investido preferencialmente nos rubros de maior dinamismo como o
financeiro e o agroexportador de soja e algodão. Desde cedo, era possível

35 Não é casual que uma das pautas urgentes na agenda de governo de Lugo tenha sido modi-
ficar o valor da energia elétrica que o Paraguai vende ao Brasil. Porém, as pequenas interven-
ções de Lugo estão longe de alterar substancialmente os termos de intercâmbio devido a que
não é possível uma renegociação das condições da tenência da terra, localizada em uma zona
majoritariamente ocupada por capitais brasileiros que a utilizam para a produção de soja.

104
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

observar como os grupos econômicos financeiros (formados por capital


nacional e estrangeiro) diversificavam parte de seu capital com a compra
de grandes extensões de terra, como os casos de Agriex (54.000 hectares),
AGROPECO (60.000 hectares) e PARAGRO (301.000 hectares).
Dessa forma, as grandes empresas agrícolas transformariam
uma economia agrária de escassa capacidade produtiva em outra de alta
rentabilidade e produtividade. O capital seria canalizado para os setores da
produção e as finanças, aumentaria a capacidade de absorção da força de
trabalho e cresceria o deslocamento do campo para a cidade.
Todos os índices macroeconômicos são contundentes na hora
de demonstrar o inédito crescimento econômico experimentado sob o
regime stronista até a década de 1980. As tentativas de modernização
produziram a entrada da tecnologia no campo, mas com o custo de uma
maior concentração da terra que alimentou o regime para instaurar sua
nova ordem social.
Os processos de mudança substantiva descritos nas estruturas
de acumulação econômica tiveram sua contrapartida na composição
da estrutura social. Durante a década de 1970, a sociedade paraguaia
encontrava-se imersa em um processo de mudanças aceleradas e
profundas. O impacto manifestou-se primordialmente na área urbana,
especificamente na capital e, mais uma vez, ficou demonstrada sua
capacidade histórica para se apropriar dos recursos nacionais. De fato,
um dos efeitos mais notórios foi a “descamponização” (RIVAROLA,
1982, p. 54), observado na periferia de Assunção como consequência do
aumento da mão-de-obra, serviços e insumos, mas também pela brutal
diminuição da emigração paraguaia para a Argentina a partir da década
de 1970. Em termos demográficos, Assunção conseguiu crescer a um 3,4%
anual, cifra recorde em relação a toda sua história. O sistema de esgoto
e de água corrente, como a construção dos primeiros prédios de altura
acompanharam esta modernização urbana.
A construção de Itaipu, ao que somou-se o tratado com a Argentina
para a construção da represa hidrelétrica de Yacyretá, gerou uma

105
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

demanda de mão-de-obra especializada e não especializada incomum na


história econômica do Paraguai. Isto, mais o fracasso da política agrária
de colonização, obrigou muitos agricultores a migrarem para os bairros
periféricos de Assunção em busca de novas oportunidades de vida.
De fato, o impacto do processo econômico mudou a histórica
composição da estrutura social que passou a ser prioritariamente urbana
e assalariada (formal e informal). Este abrupto processo de urbanização,
assalariamento e transformação da estrutura social e econômica se frenaria
repentinamente e daria lugar a um inédito ciclo de conflitividade sindical.
Em poucos meses, as organizações operárias duplicaram o número de
filiados e triplicaram a quantidade de organizações36.
O regime produziu uma modificação da estrutura econômica onde
a agricultura passou a ter um menor peso relativo no P.B.I. (42% em 1954,
32% em 1970, 37% em 1975 e 29% em 1989), enquanto que a indústria e
a construção mantiveram-se constantes em uma média de 20% para todo
esse mesmo período37.
Porém, o peso da agricultura nunca deixaria de ser dominante na
composição do P.B.I., especialmente após ocupar o 50% da P.E.A. Por tanto,
produziu-se um processo de transformação da estrutura que responde às
características de uma modernização conservadora (FOGEL, 1993, 1989),
impulsada pelo Estado através de uma modernização tardia que não foi
precedida por um desenvolvimento industrial urbano.
O fenômeno histórico substantivo foi a reversão da tendência do
crescimento demográfico, pela primeira vez favorável ao setor urbano,
e da presença – embora minoritária – do setor industrial no PBI. Isso

36 Assim, se passou de 202 a 400 organizações e de 19 a 75 mil sindicalizados. Isso foi possível
pela criação, nesse período, do Movimento Intersindical de Trabalhadores (MIT), central pa-
ralela à paraestatal Confederação Paraguaia de Trabalhadores. O conflito salarial do Hospital
das Clínicas (dependente da UNA) foi um caso paradigmático porque aglutinou os dirigentes
estudantis que havia optado por uma militância sindical, renovando assim à classe política na
condução do espaço opositor durante a transição para a democracia.
37 Segundo a CEPAL, nesse período, o crescimento para América Latina foi de 25-28$, sendo
que o México, a Argentina e o Brasil os países que conseguiram índices mais altos. Porém,
comparando o Paraguai com o Equador e a Bolívia, observamos índices similares ou, incluso,
positivos a favor do primeiro.

106
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

não significou que a estrutura agrária não continuasse exercendo sua


supremacia econômica na esfera da produção e da população rural.

A DECOMPOSIÇÃO DA ORDEM

Se bem as continuas renegociações económicas, sociais, políticas


e simbólicas outorgaram um sucesso e uma sobrevida inéditos ao
stronismo, se comparado com seus vizinhos rio-platenses, isso não pode
supor a ausência de conflitos como de resistências com certo margem de
ação e efetividade. Além dos movimentos sociais, políticos e armados que
questionaram o regime, as críticas de membros da Igreja católica foram in
crescendo a partir da década de 1960 e foram adotando medidas de aberto
confronto com Stroessner – tais como excomunhões de membros do
governo, críticas sobre a situação social do país, suspensão de atividades
conjuntas entre o Estado e a Igreja, correspondentes a datas fundantes
da nação, como as procissões n. 8 de dezembro, do Te-déum no 15 de
agosto e do discurso natalino no Palácio dos López, entre outros. Quando
da visita do papa João Paulo II, em 1988, se enxergou um gesto para
pressionar o regime e vislumbrar o início do fim do ciclo stronista (NERI
FARINA; BOCCIA PAZ, 2011, p. 91). As críticas estavam associadas com o
aprofundamento das diferenças sociais, assim como as excomunhões eram
uma manifestação pública da hierarquia eclesiástica de sua desaprovação
dos rumos autoritários e repressivos do stronismo.
As pressões provinham também de outros setores, tanto internos
quanto externos. A retórica defensora dos Direitos Humanos do presidente
norte-americano Jimmy Carter não foi precisamente uma condenação das
ditaduras latino-americanas, mas as obrigou a mudar as táticas discursivas
oferecendo uma imagem mais cuidada de suas gestões de governo.
Isso facilitou certa visibilidade internacional dos organismos defensores
dos Direitos Humanos, obrigando o stronismo a “suavizar” suas práticas
repressivas.

107
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Por outro lado, apesar de preservar seu eficaz sistema de


inteligência, o stronismo não soube abortar algumas ações armadas
opositoras que tiveram grande repercussão mundial. Tal o caso da investida
do grupo armado que acabou com a vida Anastasio Somoza, em 1980. Além
destes sinais de debilitamento do poder onipresente stronista, o Paraguai
começava a ficar isolado diante do processo de abertura democrática de
seus vizinhos, como pela progressiva perda de apoio econômico e político
por parte dos EUA.
Assim, ao longo da década de 1980, o regime dava indícios de
esgotamento, paralelo ao natural envelhecimento de seu líder Alfredo
Stroesner. Longe de tratar o fim do regime como uma “morte natural”, alguns
indicadores assinalam um estancamento das condições de reprodução da
modernização conservadora. A queda do preço internacional da soja e do
algodão, e a finalização das obras de Itaipu em 1982 marcaram o fim da
bonança dos anos setenta. A crise econômica ocasionou a desvalorização
da moeda paraguaia, o guarani que, junto ao crescimento da mão-de-
obra desempregada, provocariam não somente uma merma no apoio
popular como uma ruptura no próprio Partido Colorado. Os setores
produtivos afetados pela crise, como os industriais, também manifestaram
publicamente seu descontentamento.
Neri Farina (2014, p. 20) identifica o ano de 1982 como o início
do “desgaste lento mas persistente” que conduziu o stronismo à sua
queda, em um golpe militar liderado por antigos stronistas. A pressão
internacional permitiu o regresso de integrantes de MOPOCO, voltando
a se enfrentar com a estrutura partidária stronista. Entretanto, diferentes
médios começaram a se questionar o que aconteceria após Stroessner,
verbalizando o declínio do regime e a necessidade de discutir a sucessão
governamental, enquanto os exilados – de diferentes origens partidárias –
se organizavam para uma transição democrática.
A divisão do coloradismo foi inevitável e alguns setores
castrenses, preocupados com o grau de autonomia de certos grupos do
partido, começaram a refletir sobre a possibilidade de uma ação militar,

108
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

especialmente após 1987, considerando que Stroessner já tinha perdido


o controle tanto do partido quanto em relação aos ditos inimigos. Nos
últimos dois anos do stronismo, o amplo descontentamento da sociedade
impulsionou a formação de diversas agremiações e movimentos que
começavam a manifestar suas reclamações abertamente.
Quando da reeleição de Stroessner em 1988, a fidelidade dos oficiais
do exército se diluía ao passo que se fragilizava o regime. O protagonismo
do sogro do filho de Stroessner no golpe de fevereiro de 1989 é atribuída,
em parte, às medidas que Stroessner tomou em prejuízo de Rodríguez.
Independentemente de se poderia ter sido outro oficial além de Rodríguez
quem encabeçara o golpe, Stroessner chegou ao fim de seu longo governo
pela falta de uma renovação das forças que o tinham impulsado. Porém,
as práticas autoritárias permaneceram, apesar da alegria popular pela
queda de Stroessner. Apenas três meses após o golpe de Rodríguez, foram
convocadas eleições presidenciais nas que Rodríguez saiu vencedor com
74% dos votos de um padrão eleitoral com 900.000 nomes duplicados
(ABENTE BRUN, 2010, p. 25). Não obstante a fraude, a oposição entendeu
que iniciava-se um novo processo, alentador, no Paraguai.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Embora ainda prevaleçam as interpretações que colocam o acento


nas práticas repressivas e autoritárias para explicar a permanência do
stronismo, a inovação das pesquisas das últimas décadas permite refletir
sobre outros aspectos que relativizam as primeiras. Ditas pesquisas abrem
caminhos de reflexão sobre a construção de uma ordem que assentava-se
em equilibrados “jogos” de abertura e fechamento do sistema político, que
ora permitia a participação restringida da oposição, ora a clausurava.
O sucesso da gestão autoritária do regime se apoiou na eficácia
de uma cultura do medo e de autocensura que, fortalecida com um longo
período de bonança econômica como consequência do alargamento das

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

exportações de produtos primários e da construção de Itaipu, e conciliada


com a política de coloradização do exército e da administração pública,
como da militarização do partido, permitiu que Stroessner se apropriasse e
aperfeiçoasse uma maquinaria autoritária que já estava em funcionamento
desde antes de 1954.
Porém, para a década de 1980, o stronismo era um regime
anacrônico (RODRÍGUEZ, 2014) que já não contava com o apoio daqueles
que o tinham alavancado na década de 1950 – ANR, Forças Armadas,
Igreja. A perda de suas bases teria favorecido a reorganização do
movimento operário, do camponês como do estudantil, assim como abria
o caminho para a expressão pública da oposição e para que a imprensa
se perguntasse abertamente sobre o “pós stronismo”. A crise econômica
iniciada em 1982 eliminou o sustento econômico do regime, agudizando o
descontentamento social.
A tendência em explicar o stronismo a partir de seu resultado final
levou a considera-lo uma ditadura, sem defini-la conceitualmente. Porém, a
observação dos fatos históricos à luz de uma lupa deixam mais incertezas do
que certezas para a definição dos governos anteriores a Stroessner como
democráticos e o stronismo como ditatorial. As práticas autoritárias dos
diferentes protagonistas para se manterem no poder – González, Chaves,
Stroessner, Rodríguez – são as mesmas. Elas apenas se tornaram mais
eficazes sob o stronismo graças a sua sistematização e à consolidação de
um sistema político restritivo e autoritário.
A queda de Stroessner de 1989 não representou o fim do
autoritarismo no Paraguai. Pelo contrário, muitas instituições preservaram
toda uma legislação e práticas de controle social, político e econômico que
paulatinamente – e com muitos obstáculos – tentam ser erradicadas pela
sociedade. Talvez, uma das expressões mais enérgicas da população tenha
sido sua oposição à mudança constitucional que permitiria a reeleição do
presidente, no início de 2017, na tentativa de erradicar velhos fantasmas.

110
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

ARTIGO Malena Ashwell: “Vi cuerpos inertes de 3 niñas desnudas, de 8


y 9 años”. In: Última Hora, 03/06/2016. Disponível em: <http://www.
ultimahora.com/malena-ashwell-vi-cuerpos-inertes-3-ninas-desnudas-8-
y-9-anos-n996696.html>. Acesso em: 12 set. 2017.

ARTIGO Brasil: La guerra de la Triple Alianza quedará em secreto. In: Clarín,


17/12/2004. Disponível em: https://www.clarin.com/ediciones-anteriores/
brasil-guerra-triple-alianza-quedara-secreto_0_HyplFj51AFg.html. Acesso
em: 07 jun. 2017.

CARTA de Víctor Morínigo a Juan Natalicio González de 30/12/1964. In:


Arquivo Nacional de Assunção, Natalicio Gonzalez Collection, MSE
192v2_2.

COMISIÓN Verdad y Justicia. Informe Final, Assunção, 2008.

CONVENCIÓN Nacional Constituinte. Documentos oficiales, Enmienda n.


1 de 1976.

DISCURSO Pronunciado por Alfredo Stroessner, Cámara de Diputados


1968-1972. Publicación Oficial, Assunção.

DOCUMENTOS para el Futuro, Agosto-Septiembre de 1984. Partido


Colorado, Assunção.

ENMIENDA constitucional de 1976 y actas independentistas disponibles


en: http://www.tsje.gov.py/.

MEMORIA de la Junta de Gobierno, Ejercicio 1966-1969, Partido Colorado,


Assunção.

MEMORIA de la Junta de gobierno, Ejercicio 1972-1975, Partido Colorado,


Assunção.

MEMORIA de la Junta de Gobierno, Principios y Métodos para combatir al


Comunismo Internacional, Partido Colorado, Assunção, 1976.

118
CAPÍTULO 2 | O Stronismo: uma gestão autoritária bem sucedida

MENSAJES y Discursos del Excelentísimo Señor Presidente de la República


del Paraguay, General de Ejército Don Alfredo Stroessner, Mayo de
1954-Diciembre de 1959, Presidencia de la República, Subsecretaría de
Informaciones y Cultura. Volumen I, agosto de 1979.

MENSAJES y Discursos del Excelentísimo Señor Presidente de la República


del Paraguay, General de Ejército Don Alfredo Stroessner, Febrero de
1960-Diciembre de 1964, Presidencia de la República, Subsecretaría de
Informaciones y Cultura. Volumen II, agosto de 1979.

MENSAJES y Discursos del Excelentísimo Señor Presidente de la República


del Paraguay, General de Ejército Don Alfredo Stroessner, Marzo de
1965-Diciembre de 1972, Presidencia de la República, Subsecretaría de
Informaciones y Cultura. Volumen III, agosto de 1979.

MENSAJES y Discursos del Excelentísimo Señor Presidente de la República


del Paraguay, General de Ejército Don Alfredo Stroessner, Enero de 1973-
Mayo de 1979, Presidencia de la República, Subsecretaría de Informaciones
y Cultura. Volumen IV, agosto de 1979.

MENSAJES y Discursos del Excelentísimo Señor Presidente de la República


del Paraguay, General de Ejército Don Alfredo Stroessner, Julio de 1979-Abril
de 1981, Presidencia de la República, Subsecretaría de Informaciones y
Cultura. Volumen V, abril de 1981.

PLAN Quinquenal de reconstrucción nacional (1943-1948), Biblioteca


Asociación Republicana, Assunção.

PRINCIPIOS y métodos para combatir el comunismo internacional,


Asociación Nacional Republicana, ANR, 1976.

VEINTE años de labor de un gobierno Patriota y Progresistas (15 de agosto


de 1954-15 de agosto de 1974), Presidencia de la nación, Assunção, 7 de
agosto de 1974.

119
3
Capítulo
POLÍTICA Y VIOLENCIA EN
LA ARGENTINA DEL ÚLTIMO
TERCIO DEL SIGLO XX

INTRODUCCIÓN
Damián H. Antúnez

Si para 1971 las organizaciones o movimientos


armados de la Argentina habían pasado a ocupar las
portadas de la prensa nacional y se convertían en
un tema controversial de primer orden para el poder
instituido era porque había logrado consolidarse en la
escena pública un nuevo actor político que se dejaba
entrever desde 1968 y aún con mayor nitidez desde
el Cordobazo. En este sentido se inscribe la portada
de la revista Cristianismo y Revolución de abril de
1971 con su “Reportaje a la guerrilla argentina”, o
bien la de Primera Plana de julio del mismo año con el
sugestivo título editorial “Argentina: los herederos del
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Che”.1 En esta misma línea y en ese mismo año la agencia Opinómetro IPSA
publicaba una encuesta sobre la aceptación de la guerrilla en Argentina
dando lugar a un “Índice de actitud hacia el terrorismo”. El resultado de este
trabajo asestó una daga a las más altas esferas del poder al develar que el
porcentaje de aprobación o justificación iba desde un 45,5% en el Gran
Buenos Aires, un 49,5% en el Total Interior, un 51% en Rosario a un 53% en
Córdoba (O’DONNELL, 1996, p. 463-466).
Evidentemente, la cuestión de la violencia y sobre todo cómo su
plano más visible, el subjetivo, se objetivaba tanto en lo simbólico como
en lo sistémico comenzaba a ser un tema crucial en aquella Argentina
de los años setenta. A su vez, impactaba en unas prácticas políticas
cuyas relaciones era necesario desentrañar para recién entonces poder
comprender y posicionarse frente al escenario político (ZIZEK, 2013,
p.9-18). Una violencia que se escondía detrás de una serie compleja de
procesos socio-históricos y que serán abordados en este trabajo. Así,
vamos a comenzar retrotrayéndonos de manera ambivalente a los años
1968 y 1969 para analizar la construcción de nuevas subjetividades y
con ellas renovadas formas de concebir las relaciones de poder como
precondiciones para la emergencia de la acción colectiva y, en particular,
para aquellas que adoptan estructuras inherentes a la lucha armada.
En torno a la discusión o al debate sobre la violencia -y en particular
su relación de necesidad con la lucha armada en Argentina- encontramos
en Cristianismo y Revolución una suerte de “revelación de la palabra”.

1 Se trata de dos publicaciones de época de fuerte significación política. En el caso de Cristia-


nismo y Revolución, ícono editorial de lo que diera en conocerse como la Nueva Izquierda en
Argentina, donde confluyeron expresiones políticas de tipo cristiano revolucionarias, antiim-
perialistas y pro-guevaristas, fue dirigida en sus 22 primeros números por el ex seminarista je-
suita Juan García Elorrio y, tras su fallecimiento, por su compañera, Casiana Ahumada. Por su
parte, Primera Plana, una publicación innovadora que por su planteamiento periodístico y de
la mano de su fundador Jacobo Timerman buscaba asimilarse a revistas de prestigio interna-
cional como Time, estuvo originalmente (desde 1962) vinculada al denominado sector Azul de
las Fuerzas Armadas. No obstante, una vez avanzada la dictadura de Onganía, comenzaría a
tomar otro perfil al entrar en colisión con el gobierno. Con su reaparición en 1970, la revista se
convertía en un auténtico éxito de ventas, dada la variedad de temáticas que entrecruzaban
lo político nacional e internacional con el análisis social y cultural contando entre sus colabo-
radores a las más importantes plumas del momento. En este caso hacemos referencia a los
siguientes números: Cristianismo y Revolución, Año IV, n. 28, abril de 1971; Primera Plana,
Año IX, n. 442, 30 de julio de 1971.

122
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

Una palabra que, en su edición de la primera quincena de mayo de 1969,


parecía preconizar el Cordobazo que tendrá lugar el 29 del mismo mes.
Concretamente nos referimos al análisis de actualidad titulado “Violencia
en la violencia” y al concerniente al 1° de mayo rotulado “La violencia es
natural”. Ahora bien, si este espacio editorial dotaba de sentido con mayor
proyección y nitidez que otros al significante revolución-lucha armada en
el trienio posterior a la muerte del Che, también fue necesario poner en
marcha toda una serie de dispositivos organizativos para que las denuncias
sobre las políticas de asfixia socio-económicas en el marco represivo del
Onganiato encontraran un eficaz canal de circulación.
Desde comienzos de 1968 encontramos una plataforma que
permitió activar la protesta y el descontento social: la conformación de
la CGT de los argentinos (CGTA). Esta central obrera, surgida a partir de
la crisis del movimiento obrero peronista al atravesar el primer bienio de
la dictadura de la Revolución Argentina, procuró reunir en su seno a los
denominados sindicatos combativos, por oposición a colaboracionistas
y participacionistas de la dictadura. Y si bien no logró aunar tras de sí al
movimiento obrero peronista dado que esta batalla la ganará la ortodoxa CGT
Azopardo, en lo político conseguirá avanzar sobre una asignatura pendiente
para los sectores combativos del peronismo y, fundamentalmente, de la
naciente Nueva Izquierda. Estamos frente a una plataforma que se propuso
apelar a la lucha del pueblo contra la dictadura y que, reactualizando el
programa socioeconómico de impronta obrerista de La Falda (1957) y
Huerta Grande (1962), se plasmó en lo que se diera a conocer como el
Programa de la CGTA del 1° de Mayo de 1968. Un programa que definió
a ese pueblo combativo en clave de obreros, estudiantes, intelectuales,
artistas, religiosos, empresarios nacionales, pequeños comerciantes e
inclusive militares nacionales, cuyo común denominador fue ese anhelo
de liberación nacional y social de una patria presa de una situación semi-
colonial.
Entre 1968 y 1969 fueron tomando forma tanto las estructuras de
oportunidades políticas como las estructuras movilizadoras en un clima
de ideas donde la violencia de arriba parecía habilitar la organización de
la violencia de abajo. En un país y una región -Latinoamérica- donde se

123
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

venía corroborando la persistente obturación de la más mínima posibilidad


de transformación social por la vía democrático-burguesa de parte de
los sectores dominantes, dado que la proscripción del peronismo volvió
imposible el normal desarrollo de la política democrática, la violencia
tomaba el relevo de la política.
En este ensayo, a partir del referido escenario socio-político, se
analizará la relación entre política y violencia en el marco del proceso
histórico de la Argentina del último tercio del siglo XX. Un trabajo que
tendrá dos momentos o etapas bien diferenciadas. De una parte, la que
comienza con los estallidos sociales o revueltas populares que inaugura
de forma canónica el Cordobazo en 1969 y que se prolonga hasta su
definitiva aniquilación con el terrorismo de Estado de la última dictadura
cívico-militar-eclesial (1976-1983). De otra parte y como secuela del
terrorismo de Estado y del desmantelamiento de lo que sociológicamente
podríamos categorizar como la Argentina peronista, veremos emerger
en esa democracia recuperada nuevas tensiones sociales. Un fenómeno
que habilitará formas de lucha y estructuras organizativas de nuevo tipo
frente a ese creciente nihilismo propio de una violencia social que aparece
canalizada en estallidos sociales como los que despuntaron hacia 1989
pero que tomarán forma definitiva en el estallido de 2001. Para esto nos
remitiremos a dos marcos teórico metodológicos: por un lado y en lo que
se refiere a la cuestión de las prácticas sociales y políticas, a la teoría
sociológica de la acción colectiva y por el otro, en lo que respecta al análisis
y estrategias discursivas, a los denominados estudios culturales en el marco
del denominado giro lingüístico de la disciplina histórica.

DE LAS REVUELTAS POPULARES AL FINAL DE LA


REVOLUCIÓN ARGENTINA

Entre 1969 y 1970 las relaciones entre política, sociedad y Estado


sufrieron profundas transformaciones que se tradujeron en una pérdida
continua por parte del Estado tanto del monopolio de la violencia como de

124
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

su papel de referente-árbitro del escenario político. En este sentido baste


analizar la secuencia cronológica de los azos y puebladas entre 1969 y 1973
realizada por Inés Izaguirre (2009) para formarnos una idea preventiva
acerca de la envergadura, persistencia temporal y diversidad regional de
la confrontación política y social2. La más inmediata lectura de este cuadro
cronológico de las puebladas y revueltas sociales que emergen hacia 1969
nos habla de una espiral de movilizaciones populares y de la emergencia de
un ciclo de violencia tanto institucional como colectiva. Por otra parte cabría
incorporar al cuadro en su renglón de inicio el denominado correntinazo que
tuvo su epicentro a mediados de mayo de 1969. Con esto se hace referencia
a la revuelta estudiantil de la Universidad Nacional del Nordeste -con sedes
en las ciudades de Resistencia y Corrientes- contra las políticas represivas
del rector Walker -disolución de los centros de estudiantes, incremento de
los precios y posterior cierre del comedor universitario- que acabó con el
asesinato del estudiante Juan José Cabral.

Argentina 1969-1973. Secuencia cronológica y espacial de los Azos y


puebladas
(Continua)
Nº Fecha Lugar Nombre

1,2 Mayo de 1969 Rosario y Córdoba 1er.Rosariazo y Cordobazo

3 Septiembre de 1969 Rosario 2º Rosariazo

4 Febrero de 1970 Río Limay, Neuquén Choconazo

5 Marzo de 1970 Río Negro Cipolletazo

6 Noviembre 1970 Catamarca Catamarcazo

2 Hay autores que lo extienden hasta marzo de 1974 al incluir también la protesta de Villa Cons-
titución. A mi criterio, esta extensión nos coloca en un escenario político, social y económico
indudablemente distinto, comenzando por la distinción que cabe formular acerca del marco
político institucional; es decir, cuando ocurre el conflicto de Villa Constitución estamos en el
marco de un gobierno constitucional surgido del proceso electoral realizado entre marzo y
septiembre de 1973. En este mismo sentido podría cuestionarse la pertinencia de incluir al
Devotazo (mayo de 1973), el San Franciscazo (julio de 1973) y el Carmelazo (agosto de 1973)
dado que, si bien pueden entenderse como una proyección conflictiva del periodo dictatorial,
ocurren ya en el período del gobierno constitucional. Véase: (FERNÁNDEZ, 2013).

125
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

(Conclusão)
Nº Fecha Lugar Nombre

7 Noviembre de 1970 Tucumán 1er.Tucumanazo

8 Marzo de 1971 Santa Fe Casildazo

9 Marzo de 1971 Córdoba 2º Cordobazo o Viborazo

10 Abril de 1972 Mendoza Mendozazo

11 Junio de 1972 Tucumán Quintazo o 2º Tucumanazo

12 Julio de 1972 Mendoza Malargüinazo

13 Julio de 1972 Gral. Roca, R. Negro Rocazo

14 Octubre de 1972 Trelew, Chubut Trelewazo

15 25 de mayo 1973 Cap. Federal y otros Devotazo

16 Julio de 1973 Córdoba San Franciscazo

17 Agosto de 1973 La Carmela, Tucumán Carmelazo

Fuente: IZAGUIRRE, 2009: 81

En este sentido, si bien las jornadas del correntinazo podrían en


cierta forma escapar a la categorización de pueblada o revuelta social, las
mismas actuaron como detonante para contagiar el espíritu de revuelta a
otros centros urbanos universitarios. Fue en estas circunstancias cuando la
movilización y protesta estudiantil se trasladó a Rosario, donde también se
recogían los reclamos salariales de los trabajadores azucareros de Tucumán.
Así, en la tercera semana de mayo, tuvieron lugar dos movilizaciones de
los estudiantes de la Universidad Nacional de Rosario con apoyo de la
CGTA, las que fueron violentamente reprimidas y supuso el asesinato del
estudiante universitario Bello y del estudiante y obrero Blanco de 15 años,
ambos a manos de las fuerzas represivas.
De esta manera, los estallidos anticipatorios de Corrientes,
Tucumán y Rosario acabaron agitando el tenso clima social cordobés. En
esta oportunidad, la punta del ovillo del conflicto vino desde la esfera de los
trabajadores de las automotrices, en torno a dos reclamos sindicales que
implicaban rebajas salariales respecto de sus homólogos de Buenos Aires:
se buscaba acabar con el régimen de las quitas zonales que autorizaba a

126
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

las automotrices radicadas en Córdoba pagar salarios bases por debajo de


lo fijado en el convenio nacional del sector para determinadas categorías y
a su vez dar marcha atrás con la reciente derogación de la ley del sábado
inglés, una conquista empresarial de IKA-Renault.
Si bien en mayo de 1969 el conflictivo cordobés emergía de los
trabajadores de las automotrices, la tensión social contra la dictadura de
Onganía se remontaba a septiembre de 1966 cuando estallara un potente
movimiento en defensa de la autonomía universitaria que acabó con el
asesinato del obrero y estudiante universitario Santiago Pampillón. En
cualquier caso, será ese encuentro socio-histórico de estudiantes y obreros
-o bien de estudiantes/trabajadores o hijos de trabajadores urbanos que
veían crecientemente restringidas las vías de ascenso social herederas
de la Argentina peronista- lo que marcará a fuego la nueva dinámica del
conflicto social de finales de la década del sesenta.
En este contexto la dictadura de Ongania había acabado por
imponer una sociedad de orden, pero de un orden que bajo el hálito del
nacionalismo católico escondía un “orden económico” liberal-capitalista
que excluía y castigaba ya sin disimulo a los sectores medios urbanos,
desplazados por el avance del capital transnacional. El propio Estado
acompañó ese proceso, visible a través de un notorio incremento de la
presión tributaria que impactaba especialmente en los sectores medios
dependientes de empleos públicos, trabajadores de la educación, de la
salud, profesionales independientes y pequeños y medianos comerciantes
y empresarios.
Así, se había ido forjando una estructura de oportunidades políticas
favorable a la acción colectiva, que ya estaba madura en los inicios de
1969. Digamos que se había ido tejiendo una red de vinculaciones entre
diversas organizaciones sociales, principalmente las estudiantiles y las de
los gremios más combativos que resultarían de suma eficacia a la hora de
articular la protesta en un movimiento que se visualizaba como unitario.
En su ayuda vinieron distintos sectores medios urbanos que, en términos
de Sidney Tarrow, actuaron como “aliados externos o influyentes”. Por otra
parte y si bien aún no habían caído las barreras represivas levantadas por
el onganiato, pronto comenzarían a hacerse realidad las “disidencias en las

127
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

alturas” (TARROW, 1997); es decir, las disputas internas en las más altas
esferas del gobierno de la denominada Revolución Argentina.
En este sentido, las prácticas organizativas conjuntas que desde
tiempo atrás venían desarrollando estudiantes, trabajadores e inclusive
sectores de la Iglesia seguidores de la Teología de la Liberación que se habían
sumado al denominado Movimiento de Sacerdotes para el Tercer Mundo
(MSTM) resultaron una condición sine qua non para explicar el éxito de la
revuelta. No obstante, tampoco hay que perder de vista los denominados
“aliados externos” -intelectuales, profesores universitarios, abogados de
sindicatos y presos políticos e inclusive hasta simples vecinos y amas de
casa- en su apoyo a la logística de la protesta, cada uno desde su lugar.
En definitiva, estamos frente a todo un dispositivo de apoyo y contención
que acabará explicando por qué las nutridas columnas de manifestantes
que se acercaban al centro de la ciudad pudieron transformarse en una
rebelión que pareció espontánea cuando, en horas de la mañana de aquel
29 de mayo de 1969, una brutal carga policial provocaba el primer muerto
de estas jornadas: el obrero automotriz Máximo Mena. A partir de allí la
revuelta tomó un giro que la desbordada policía provincial catalogó de
insurreccional.
Al día siguiente, este ciclo de acción-reacción entre trabajadores,
estudiantes y vecinos versus las fuerzas combinadas de la policía provincial
y los militares del III Cuerpo de Ejército llegaba a su fin. Pero el saldo de la
revuelta no se limitaría sólo al conteo de víctimas, damnificados y daños
materiales, de por sí impactante si se tiene en cuenta que a los doce muertos
de los registros oficiales habría que sumarle al menos noventa heridos
de gravedad y más de un millar de personas detenidas (BRENNAN, 1996:
201). El Cordobazo dejaba también como saldo inmediato una auténtica
declaración de rechazo por parte de una franja muy amplia de la población
al régimen autoritario de la Revolución Argentina. Un movimiento de
protesta y movilización obrera se había convertido en un movimiento bien
articulado de protesta política contra la dictadura. Una protesta política
que contenía además un mensaje palpable para quien estuviera dispuesto
a escucharlo: el repudio a un gobierno que no sólo había anulado toda
posibilidad de participación y representación política, sino que además

128
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

restringía y amordazaba la representación sindical de los trabajadores -en


el marco de un acelerado proceso de transnacionalización de la economía
argentina- a lo que se le sumaba un acelerado proceso de radicalización
política juvenil.
Desde esta perspectiva, el Cordobazo inauguraba un renacimiento
de la política pero en buena medida por fuera del sistema. En otros términos,
comenzaba a tejerse una poderosa e incontrolada trama de continuidad del
conflicto social que ya había conectado a Tucumán, Corrientes y Rosario con
Córdoba pero que, sobre todo, había llegado para quedarse y expandirse
en un ciclo de protestas y revueltas que atravesaba el ecuador de este
convulso 1969 para alcanzar el primer trimestre de 1970. Entonces, a los
nuevos episodios de protestas y manifestaciones en Rosario de tipo obrero-
estudiantil (segundo Rosariazo) se sumaban ahora los casos de Cipolletti
de tipo multisectorial y el del Choconazo, debido a un duro conflicto gremial
entre los trabajadores de la presa, las empresas constructoras y la Unión
Obrera de la Construcción de la República Argentina (UOCRA). Desde esta
plataforma de revueltas, 1970 acabaría con una contundente pueblada en
Tucumán (Primer Tucumanazo), que hundía sus raíces en una profunda
crisis de su sector azucarero y cuyas primeras estelas ya se habían dejado
ver en las manifestaciones de los días previos al Cordobazo (GORDILLO y
BRENNAN, 2008, p. 88-100; BRENNAN, 1996, p. 190-207).3
De todos modos, habrá que esperar a la explosión social de lo que
se conociera como el Viborazo o Segundo Cordobazo en marzo de 1971
para que la dictadura entrara en su fase de autoliquidación; circunstancias
por las cuales llegaría a su fin el postrero intento de salvar la Revolución
Argentina con el recambio presidencial de Onganía por el general Roberto
Marcelo Levingston a mediados de 1970. Entonces, este segundo estallido
cordobés -con un despliegue de violencia urbana mayor al de 1969- llevó al
comandante en jefe del Ejército, Gral. Alejandro Agustín Lanusse, a hacerse
cargo personalmente de la presidencia a finales de marzo de 1971.

3 Véanse también los siguientes trabajos: RAMÍREZ, 2009, p. 2-5; HEALEY, 2007, p. 207-208;
GORDILLO, 2007, p. 348-360; AUFGANG, 1986; PÉREZ y VIANO, 1994.

129
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

El apelativo Viborazo que inmortalizó a la revuelta cordobeza de


mediados de marzo de 1971 hacía alusión a la metáfora utilizada por el
entonces gobernador provincial designado por el presidente Levingston,
el ultramontano José Camilo Uriburu, para asociar el accionar de la
subversión en la provincia a “…una venenosa serpiente cuya cabeza quizá
Dios me depone el honor histórico de cortar de un solo tajo.”4 Una metáfora
política que actuó de detonante para activar una nueva revuelta social,
cuyos orígenes se remontaban a la negativa de los gobiernos nacional y
provincial a convalidar los aumentos salariales a los empleados públicos de
la provincia prometidos por el anterior gobernador Bernardo Bas, quien por
este motivo se había visto obligado a renunciar.
Aquella situación engendró un malestar social que se sumó al
prolongado conflicto que arrastraban los sindicatos SITRAM-SITRAC
con la empresa FIAT debido al estancamiento en la marcha de las
negociaciones colectivas en el complejo de Ferreyra, acrecentado por la
actitud provocadora del nuevo gobernador. Pero si estos fueron los motivos
que engendraron el clima general de malestar social, el detonante concreto
de esta nueva revuelta cordobesa fue el asesinato de un trabajador a
manos de la policía el viernes 12 de marzo. Entonces una huelga de cuatro
horas devino en los violentos disturbios del 15 de marzo, consagrando así
el estallido conocido popularmente como Viborazo. El saldo de esta nueva
oleada de huelgas, manifestaciones y protestas si bien no fue trágica en
términos de vidas humanas -hubo un solo muerto- fue importante en
destrozos materiales, muy superiores a los del Cordobazo de 1969 y, por
supuesto, su impacto político fue inmediato. Y allí radica la importancia
que adquiere el Viborazo en el marco de esta secuencia de protestas y
revueltas sociales. Este segundo Cordobazo acabó por sepultar lo poco
que aún quedaba de la Revolución Argentina como proyecto de Estado
Burocrático-Autoritario.
En el mes de abril, con la asunción de Lanusse como presidente de la
Nación, se inauguraba un proceso de reapertura democrática no exento de

4 La Nación, 08//03/1971, citado en POTASH, 1994, p. 225.

130
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

dificultades e incertidumbres. Su irrupción en el escenario político implicó


la puesta en marcha de un proceso de transición democrática, lo que abría
la vía legal para la participación y la lucha política. Recordemos que, hacia
finales de 1970, justicialistas y radicales junto a otros partidos menores habían
conformado una plataforma multipartidaria por la democracia que dieron
en llamar la Hora del Pueblo, al tiempo que desde algunas agrupaciones de
izquierdas se había constituido otro espacio multipartidario, el Encuentro
Nacional de los Argentinos (ENEA). Con estos antecedentes, el nuevo
presidente pretendió desplegar su programa de transición democrático
-que en principio no sólo no lo excluía del juego electoral sino que estaba
pensado para hacer converger una suerte de “alianza democrática” en torno
a su candidatura presidencial- reemplazando a los referidos encuentros
multipartidarios por su promocionado Gran Acuerdo Nacional (GAN).
En cualquier caso, este giro pro-democrático de 1971 no puede
dejar de leerse como un intento casi de última instancia por salvar el
decoro de unas Fuerzas Armadas (FFAA) que no veían otra salida que
reencauzar al país por la vía democrática teniendo que aceptar lo que venía
siendo un anatema desde 1955: la participación electoral sin restricciones
del peronismo. Ahora bien, esto ocurría cuando desde el año anterior
había hecho su incursión en el plano político un actor que, si bien había
mostrado indicios de crecimiento, había sido subestimado. Se trataba
de las organizaciones armadas bien sean peronistas como Montoneros,
Descamisados o Fuerzas Armadas Peronistas (FAP), o bien de izquierda
en proceso de peronización como las Fuerzas Armadas Revolucionarias
(FAR), o bien de izquierda revolucionaria no peronistas como el Ejército
Revolucionario del Pueblo (ERP). Todo esto sin que cesara el reguero de
pólvora de las revueltas sociales que para 1972 harían escala en Mendoza
(Mendozazo y Malargüinazo), Tucumán (Segundo Tucumanazo o Quintazo),
Río Negro (Rocazo) y finalmente en Chubut (Trelewazo).
Si las primeras revueltas tuvieron una impronta más bien socio-
económica para adquirir de forma ex-post un perfil político en sentido
estricto, las de 1972 lo tuvieron en su origen. De hecho, la última de estas

131
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

puebladas se produce en momentos de plena incertidumbre sobre la


candidatura del Frente Justicialista de Liberación (FREJULI) que postulaba
al líder justicialista exiliado en Madrid, General Juan Domingo Perón, a la
presidencia. Nos referimos a la contestación popular que se produjo en
esa ciudad de la provincia de Chubut a raíz de la denominada Masacre de
Trelew. Ya para entonces, la violencia política había llegado para quedarse
por lo cual cabe prestarle la debida atención a lo ocurrido en Trelew en la
segunda quincena del mes de agosto de 1972 como antesala de una ruptura
de los acuerdos político-sociales básicos que rigen a cualquier comunidad.
Los episodios de Trelew tendrían consecuencias devastadoras para las
aspiraciones políticas del presidente Lanusse en su pulseada personal con
el líder justicialista, al tiempo que validaba el sentido del planteamiento
revolucionario-guerrillero de las organizaciones armadas, induciendo
un giro cada vez más a la izquierda del propio Perón. Un escenario que
conducía al gobierno militar, sin más mediación, a una capitulación política.
La Masacre de Trelew hace referencia a la fallida fuga del 15 de
agosto de 1972 de los presos políticos (ERP, FAR y Montoneros) del penal
de Rawson. La tragedia comenzaba cuando sólo siete de los veintiséis
guerrilleros lograban embarcarse en un avión secuestrado en el aeropuerto
de Trelew rumbo a Chile y el resto quedaba atrapado en ese aeropuerto
a merced de los efectivos de la infantería de marina. Una situación que
acabará fatalmente el 22 de agosto con el asesinato de 16 presos políticos
a manos de la tropa que comandaba el capitán de corbeta Luis Sosa, en la
base naval de Almirante Zar, previa declaración de “zona de emergencia”
en la región.5

5 Los motivos que parecen justificar el fatídico fallo que produjo que no llegaran los vehículos
previstos a la puerta del penal para trasladar al resto de los guerrilleros huidos los explica en
primera persona uno de sus protagonistas, el sobreviviente Ricardo René Haidar en la película
documental Trelew, la fuga que fue masacre (Directora: Mariana Arruti, Argentina, 2004).
Por otra parte, los dirigentes que lograron embarcar en el avión rumbo a Chile fueron ade-
más del conductor del coche que los trasladó al aeropuerto Carlos Goldenberg (FAR): Mario
Roberto Santucho (ERP), Enrique Haroldo Gorriarán Merlo (ERP), Domingo Menna (ERP), Ro-
berto Quieto (FAR), Marcos Osatinsky (FAR) y Fernando Vaca Narvaja (Montoneros). Véase:
(BONASSO, 1997, p. 262-263).

132
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

Estos episodios estuvieron desde un primer momento rodeados


de confusión y secretismo, ya que la intervención inicial del juez federal
Alejandro Godoy en el propio aeropuerto -todo filmado por cámaras de
televisión, aunque luego las imágenes serían censuradas- suponía una base
de garantía para la integridad física de los guerrilleros fugados. Sin embargo,
la actuación de la comandancia de la Marina, bajo la responsabilidad del
capitán Sosa, acabó por consumar la tragedia. Años más tarde el propio
Lanusse se desligaba de la responsabilidad de esta masacre aduciendo
que había dado órdenes expresas para que los presos fueran reintegrados
al penal y no a la base militar, tal como se había acordado entre el juez y
los guerrilleros en el aeropuerto de Trelew (BONASSO, 1997: 260-269; DE
RIZ, 2000: 112).
En cualquier caso, fue evidente que las órdenes no se cumplieron
y a partir de entonces las consecuencias de la masacre traspasaban la
propia tragedia de un nuevo derramamiento de sangre a manos del Estado
para terminar de sepultar lo poco que quedaba del GAN y el plan político
de Lanusse. Pero Trelew no terminaba allí. Un episodio consecuente, de
gran impacto político, fue sin duda el velatorio de los guerrilleros Ana María
Villareal de Santucho (ERP), Eduardo Capello (ERP) y María Angélica
Sabelli (FAR) el 24 de agosto en la sede del Partido Justicialista en Avenida
La Plata de Capital Federal. Evidentemente el velorio era en sí mismo un
hecho político de alto nivel y el sector de lo que ya se denominaba como
Tendencia Revolucionaria del Peronismo (en adelante Tendencia) buscó
enseguida dotarlo de un más eficaz sentido político. Para ello comprometió
al Movimiento Peronista hasta el punto de arrancarle a regañadientes
al Consejo Superior Peronista la autorización para realizarlo en la sede
partidaria. Finalmente, todo acabaría con un escandaloso asalto policial a
la propia sede del Partido Justicialista (BONASSO, 1997: 273-274).
En este contexto se encuadran los episodios vividos por la
población de Trelew y zonas aledañas durante las dos semanas posteriores
al 11 de octubre de 1972. Fue entonces cuando un impactante operativo
militar sorprendía a los habitantes de Trelew, Rawson y Puerto Madryn

133
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

para acabar con la detención de 16 personas que posteriormente serían


liberadas. La respuesta de la población al operativo de búsqueda de
“elementos subversivos” fue la conformación de una Asamblea del Pueblo
en Trelew, manifestaciones con muy amplia participación social y dos
huelgas generales que paralizaron buena parte de las actividades de estas
poblaciones durante 15 días. (RAMÍREZ, 2009. 9-12).
Así, las posibilidades de un acuerdo que trajera la concordia y la paz
social se había transformado en una quimera para un gobierno que más
que apagar incendios parecía provocarlos expresamente. Agreguemos que
ya todas las miradas estaban puestas en el viaje del retorno de Perón a la
Argentina que habría de producirse el 17 de noviembre de ese mismo año
y por supuesto en la campaña electoral que desembocaría en el triunfo
justicialista del 11 de marzo de 1973 que llevaría a Héctor Cámpora, delegado
personal de Perón en Argentina, a la presidencia. En estas circunstancias,
si de una parte todo parecía indicar que se estaba frente a una transición
política que restauraría un orden constitucional pleno en Argentina -aún
cuando se había imposibilitado la candidatura presidencial del propio
Perón-, lo cierto es que esa reapertura democrática colisionaba con la
emergencia de un nuevo actor cuyos objetivos pasaban por construir una
patria socialista por vía revolucionaria. Veamos entonces cómo operó la
violencia política en clave de las organizaciones armadas revolucionarias al
iniciarse la década de 1970.

TIEMPO POLÍTICO, LUCHA ARMADA Y GOBIERNO POPULAR

Si el año 1969 condensaba la irrupción movilizadora en la Argentina


absorbiendo en cierta forma el impulso rupturista-revolucionario del ‘68
europeo, será en 1970 cuando queden resueltas las últimas dudas que
las clases dominantes podían tener acerca de la magnitud del fenómeno.
Ocurre que al año siguiente del estallido del “tiempo social” hacía eclosión
el “tiempo político” con la entrada en escena de un nuevo actor: la guerrilla

134
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

urbana que tomaba forma en las denominadas organizaciones armadas6. Y


una vez más, como también lo fuera en las revueltas sociales, el fenómeno
volvía a ser atravesado por el irresuelto problema político argentino: el
peronismo.
En sus orígenes, al tratarse de pequeños grupos cuyas acciones
fueron sistemáticamente desbaratadas por las fuerzas de seguridad del
Estado, sus integrantes perseguidos o detenidos y las células operativas
desactivadas, el fenómeno no trascendió más allá del activismo político
o de los medios periodísticos y grupos sociales más informados. Por este
motivo, la irrupción de Montoneros en mayo de 1970 -una organización
que recogía el legado de la resistencia peronista y decía querer vengar los
asesinatos de junio de 1956 a manos de la Revolución Libertadora- en medio
de la resonancia de puebladas y revueltas sociales resultó políticamente
impactante. A partir de una serie de acciones propias de la guerrilla urbana
de alto impacto se proponían forzar el regreso de Perón al poder como
cabeza de una revolución socialista. Así, estos actores irrumpían en la
vida política argentina con unos discursos radicalizados, que ponían en
cuestión las propias estructuras sociales, al tiempo que expresaban el
descreimiento y la frustración hacia unas estructuras políticas que impedían
deliberadamente la plena expresión de la voluntad popular.
Al más reciente nombre de Montoneros se les sumaban otros
que también levantaban las banderas del peronismo aunque con algún
desarrollo previo como las FAP y Descamisados, o de izquierdas en proceso
de acercamiento al peronismo como las FAR o directamente de filiación

6 En rigor de verdad, tampoco la cuestión de la guerrilla como tal constituía una


novedad. Los antecedentes se remontan a 1959 con la proto guerrilla peronista
instalada en la selva tucumana conocida con el nombre de Uturuncos. En 1964
tuvo lugar la efímera y también fallida incursión de la guerrilla marxista-gue-
varista del Ejército Guerrillero del Pueblo. Y todavía habrá un intento más de
guerrilla rural previo a 1970, cuando en 1968 las FAP intenten instalar un foco
en Taco Ralo (Tucumán), abortado rápidamente por las fuerzas de seguridad.
Entretanto, se desarrollaron también algunos episodios de guerrilla urbana, de
los cuales el más memorable ha sido, sin dudas, el asalto al Policlínico Bancario
de Capital Federal en 1963 por parte del Movimiento Nacionalista Revoluciona-
rio Tacuara (MNRT), una escisión por izquierdas de una organización de signo
falangista.

135
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

marxista-guevarista como el ERP y maoista en el caso de las Fuerzas


Argentinas de Liberación (FAL). Lo cierto es que en poco tiempo estos
nombres irían operando un tránsito veloz desde las páginas de sucesos-
policiales a las propias de la política.
Desde los medios de comunicación, una muestra significativa de
esa revalorización o reposición de la violencia como forma de hacer política
es la ya referida publicación Cristianismo y Revolución; una revista que
hacia 1970/71 parecía abandonar el interés por los debates o discusiones
relacionadas con la renovación teológica del cristianismo post-conciliar o
el debate entre cristianos y marxistas para ceder la palabra a las nuevas
organizaciones guerrilleras. En este sentido son emblemáticos sus números
de septiembre de 1970 donde aparece un “Reportaje a las FAP”, el de
noviembre-diciembre del mismo año donde uno de sus titulares es “Hablan
los Montoneros” o el de abril de 1971 dedicado enteramente al tema de
la lucha armada y cuya tapa se ilustra con las iniciales de las principales
organizaciones guerrilleras que actuaban entonces en el país.7
Recapitulando, digamos que no será hasta la rutilante presentación
pública de Montoneros en mayo de 1970 que las organizaciones armadas
pasaran a constituirse en ese nuevo actor central de la política argentina.
En definitiva, una nueva presencia en un nuevo escenario que, a su vez,
forzaba la definitiva apertura del “tiempo político”. Ahora bien, no se trató
de una apertura decidida desde aquello que en términos gramscianos
podríamos asociar al bloque histórico. Por el contrario, estamos frente a una
apertura impuesta desde fuera del sistema, en un contexto en el que ese
afuera tomaba un perfil cada vez más insurreccional al poner en cuestión
la viabilidad misma de cualquiera los proyectos de transición democrática
que ya comenzaban a barajarse. Comencemos entonces por situarnos
en esta presentación en sociedad de Montoneros con el secuestro del ex
presidente de facto Pedro Eugenio Aramburu, el 29 de mayo de 1970.
Muchas son todavía las dudas y los enigmas sobre el asesinato de
Aramburu. El episodio, según el relato que hicieran Mario Firmenich y Norma

7 Cristianismo y Revolución, Año IV, n. 25, septiembre de 1970; Cristianismo y Revolución,


Año IV, n. 26, noviembre-diciembre de 1970; Cristianismo y Revolución, Año IV, n. 28, abril de
1971.

136
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

Arrostito cuatro años más tarde en la publicación montonera La Causa


Peronista, aún hoy no deja de llamar la atención e inspirar una variada gama
de teorías conspirativas, pero sobre todo nos sigue provocando preguntas
sobre el trasfondo político que rodeó a este hecho.8 Las teorías conspirativas
que daban cuenta de la trama que acabara con la muerte del ex presidente
de facto surgieron desde los primeros instantes de su desaparición, dadas
las extrañas circunstancias en las que sucediera. El propio ministro del
Interior, General Francisco Imaz, quien al recibir al periodismo evitó en
todo momento calificar al episodio como secuestro, fue blanco inicial de los
ataques de quienes veían algún grado de implicación del gobierno, bien sea
como colaborador, bien sea como instigador de la desaparición de quién se
presumía cabecilla de una conspiración para suceder a Onganía a través
de un golpe palaciego destinado a forzar una transición democrática.9 Este
tipo de sospechas y acusaciones fueron propias de familiares y amigos
personales de Aramburu -en particular el General Bernardino Labayru y

8 En el relato de Firmenich y Arrostito, el operativo comenzó cuando dos integrantes de la


naciente organización político-militar Montoneros, Fernando Abal Medina y Emilio Maza, ves-
tidos como oficiales del Ejército, se hicieran presentes en el domicilio particular del ex presi-
dente de facto y su esposa los hiciera pasar y les ofreciera un café, mientras esperaban ser
recibidos por el Gral. Aramburu. En cuanto apareció Aramburu, los visitantes le comentaron
que el motivo de su visita era el ofrecimiento de una custodia personal, cuando a los pocos
minutos “…la voz cortante de Fernando [Abal Medina] dijo: -Mi general usted vienen (Sic.) con
nosotros. Así. Sin mayores explicaciones. A las nueve de la mañana.” Entonces es trasladado a
una estancia de la localidad de Timote (sudoeste de la provincia de Buenos Aires), propiedad
de la familia Ramus, para ser sometido a un juicio revolucionario por el cual sería condenado a
muerte y ejecutado a balazos presuntamente el 1º de junio de 1970. Véase: La Causa Peronis-
ta, Año 1, n. 9, 3 de septiembre de 1974, p. 27-29.
El historiador Ernesto Salas sostiene que la autoría del artículo de esta revista, donde se re-
lata la muerte de Aramburu titulado “Mario Firmenich y Norma Arrostito cuentan cómo murió
Aramburu”, pertenece enteramente a Mario Firmenich, ya que en ese entonces Norma Arros-
tito se encontraba clandestina y no fue consultada. Véase: SALAS, 2005: 69. Asimismo, cabe
aclarar que la autopsia contradice el relato de Firmenich y Arrostito en lo referente a la fecha
de la ejecución, al sostener que la misma habría tenido lugar entre las 22:00 hs. del día 30 de
mayo y las 10:00 hs. del día 31 de mayo. Véase (POTASH, 1994, p. 152).
9 La revista Confirmado es especialmente crítica con el ministro Imaz, a quien responsabiliza
de no haber actuado con debida celeridad en la creencia de que se trataba de un auto se-
cuestro con fines políticos destinado a debilitar al gobierno. También este medio señalaba que
recién a la tarde-noche el Ministerio del Interior comenzó a dar por cierto el secuestro cuando,
además, se conocía la noticia del intento frustrado de secuestro del ex presidente Frondizi en
su departamento de la calle Berutti de Capital Federal. Véase: Confirmado, Año VI, n. 259, 3
al 9 de junio de 1970, p. 14-15.

137
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

el Capitán de Navío Aldo Luis Molinari-, quienes pedían la creación de una


comisión de investigación para llegar inclusive al interior del peronismo.10
En lo que respecta al Movimiento Peronista las reacciones fueron
ambiguas y las sospechas de todo tipo revolotearon el ambiente. A modo
de ejemplo, podemos referir lo que nos trasmitiera en una entrevista
personal Santiago Murphy (2009), un dirigente histórico del Movimiento
Revolucionario Peronista muy cercano a Gustavo Rearte, al hablar de los
operativos armados de las organizaciones guerrilleras peronistas: “…en este
país existe la costumbre de matar muertos como en el caso de Aramburu.”
Esta aseveración se ubica en la línea de la teoría conspirativa desarrollada
por Eugenio Méndez, un autor que en 1987 publicó un relato que articulaba
de forma algo más verosímil parte de los argumentos que sostuvieron
en su momento los allegados de Aramburu. Sin embargo, más allá de la
circulación de teorías o explicaciones conspirativas a que el hecho diera
lugar, las sospechas recayeron inicialmente sobre elementos nacionalistas
del gobierno e inclusive se producía la paradoja de encontrar a un dirigente
justicialista de la relevancia política del delegado de Perón, Jorge Daniel
Paladino, emitiendo declaraciones por las que se desconocía a Montoneros
y se descartaba cualquier implicación del Movimiento Peronista.11
Por su parte, la historiografía académica ha descartado la
verosimilitud de aquellas teorías, hipótesis y versiones. En particular,
Robert Potash (1994: 147-153) ha insistido sobre la inverosimilitud de una
supuesta estrategia de eliminar a un presunto conspirador cuando el efecto
de la referida desaparición no hizo más que precipitar la propia caída de
Onganía; aseveración que a la luz de cómo se desarrollaron los hechos
posteriores resultaría verosímil, aunque también deberíamos tener en

10 La carga de sospechas vertida sobre elementos nacionalistas del gobierno de Onganía es


sostenida por Eugenio Méndez, quién menciona a dos funcionarios del Ministerio del Interior
como responsables de financiar al grupo que llevó a cabo el operativo. También Potash refiere
a una hipótesis sostenida en el periódico socialista La Vanguardia sobre presuntas visitas de
Mario Firmenich al Ministerio del Interior en días previos al 29 de mayo de 1970. Véase (PO-
TASH, 1994, p. 148-149; MÉNDEZ, 1987).
11 Declaraciones de Jorge Daniel Paladino a la revista Gente, 4 de octubre de 1970, citado en
(GALASSO, 2005, p. 1056-1058).

138
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

cuenta que los actores no tenían por qué, en principio, creer que ese sería
indefectiblemente el resultado final. Además, también podría pensarse
que dichos actores pudieron haber estado guiados por intereses que
sobrepasasen o estuviesen al margen del gobierno de Onganía como tal.
Del mismo modo, el historiador Ernesto Salas (2005) hace un
análisis minucioso de las distintas teorías conspirativas que se han
elaborado sobre el caso Aramburu, concluyendo que todas carecen de
rigor histórico. Sin embargo, aunque sostiene en todo momento que el
caso Aramburu constituye un “falso enigma” y que la proliferación de estas
teorías conspirativas estaría muy relacionada con el origen nacionalista
católico de los integrantes de los grupos originarios de Montoneros,
no deja de sorprender algunas de las vinculaciones entre el gobierno y
miembros de organizaciones políticas clandestinas. Nos referimos a los
muy estrechos vínculos que se mencionan en el propio trabajo de Salas
entre miembros del gobierno como Roberto Roth -Secretario Legal y
Técnico de la Presidencia y blanco principal de las acusaciones de los
amigos de Aramburu- y su colaborador Diego Muniz Barreto -en 1973
diputado adscripto a la Tendencia- con la organización Juventud Argentina
para la Emancipación Nacional (JAEN), en la que militaban dirigentes como
Rodolfo Galimberti y Ernesto Jauretche. Otro elemento a añadir son los
comentarios que circularon desde entonces señalando al propio Mario
Firmenich o a la futura diputada peronista -también de la Tendencia- Nilda
Garré como interlocutores de determinados estamentos del gobierno de
facto (SALAS, 2005, p. 70-71).
Sea como fuere, como bien lo distingue Salas, si bien las teorías
conspirativas que aún subsisten tienen su origen en los amigos y allegados
de Aramburu en tanto “parte interesada”, cuanto menos las dudas llegan
a la actualidad sin haber sido disipadas. Inclusive, un ensayista político
y escritor con buena sintonía respecto a las posiciones políticas de la
Tendencia como Norberto Galasso aún hoy se refiere al caso Aramburu
en términos de “…una polémica aún sin definir” (GALASSO, 2005, p.1056).
Más allá de la profusión de trabajos históricos y periodísticos
de investigación que reconstruyeron el modus operandi del asesinato

139
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

de Aramburu, no podemos dejar de replantearnos y analizar los fines y


objetivos que pudieron movilizar y viabilizar esta operación por parte de
quienes explícitamente reivindicaron su autoría, así como los efectos que la
misma desencadenó. De allí que si dejamos a un lado las justificaciones que
surgen del relato de Montoneros, al presentar el asesinato como un acto de
justicia reparadora de los crímenes, afrentas y atropellos cometidos por la
Revolución Libertadora12, podemos apreciar una serie de claves históricas
que encuadran este episodio en un punto focal de la coyuntura política de
entonces.
En esta instancia, considero preciso leer el operativo Aramburu
más en clave de punto de inflexión respecto a la capacidad de la incipiente
guerrilla urbana para asestar golpes políticos desestabilizadores antes
que en su poder abortivo respecto a una presunta política de acuerdos
entre los actores tradicionales de la política argentina de ese momento.
Sin embargo, fuentes de la época como la revista política Confirmado,
por entonces un medio cercano a los sectores más liberales de las FFAA,
no dejaba de insistir en la relación del secuestro y posterior asesinato de
Aramburu con sus propuestas de “gobierno de transición” para una salida
electoral que incorporase al peronismo al juego democrático. No sólo eso,
también Confirmado, que calificaba a Aramburu como un “…verdadero
factor aglutinador para las distintas corrientes del liberalismo”, ponderaba
unas declaraciones brindadas por el propio Aramburu dos días antes del
secuestro en donde reconocía que “La violencia que nos rodea no es sino
un síntoma de la situación.”13
De este modo, es notable la contraposición entre la preocupación y
frustración que develan los análisis políticos de entonces por los acuerdos
que podrían haberse alcanzado y la práctica totalidad de la historiografía
ocupada en la autoconfianza que el aramburazo le otorgaba a quienes
apostaban a una capitulación de la dictadura a manos de un pueblo en

12 Secuestros y fusilamientos de junio de 1956, desaparición y muerte de Felipe Vallese y desa-


parición y vejación del cadáver de Eva Perón, entre otros.
13 Confirmado, Año VI, n. 259, 3 al 9 de junio de 1970, p. 15.

140
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

armas. Esta lectura remite tanto al clima de revueltas y puebladas del


año anterior al aramburazo como a la disputa que venían entablando los
sectores más radicalizados del arco político con la denominada burocracia
sindical, dadora de paz social -no sin contraprestaciones- a la dictadura.
En ese marco, el asesinato de Aramburu irá a recoger como antecedente
el asesinato del líder metalúrgico Augusto Vandor, el 30 de junio de 1969,
a manos de un comando integrado por quienes tiempo después pasarían a
formar parte de la organización Montoneros.
El impulso que Montoneros le insuflaba a lo que podríamos
denominar como la opción política revolucionaria por la vía de operaciones
propias de la guerrilla urbana resulta incuestionable respecto a la
relevancia que adquiere en el proceso político del primer quinquenio de la
década del setenta. No obstante, si bien Montoneros va a convertirse en
el eje articulador de la denominada Tendencia entre 1972 y 1973, debemos
precisar que eso se producía luego de su errática trayectoria inicial;
concretamente a la decisión que adoptaba la organización cuando, a un
mes del secuestro de Aramburu -todavía no se había hallado su cadáver ni
se conocía a los autores del mismo-, irrumpía con la toma de la localidad
cordobesa de La Calera, en un símil de la célebre toma de la localidad de
Pando por los Tupamaros uruguayos en 1969.
En el caso de La Calera los protagonistas de la toma fueron los
integrantes del grupo cordobés de la organización y aunque acopiaron
armas y dinero, el final de esta historia acabaría siendo devastador para
Montoneros. La policía lograba detener a dos de los participantes cuyo
coche se había averiado y a partir de allí se producirían una serie de
detenciones en cadena hasta llegar a vincular la célula cordobesa con la
porteña y así dar con la identidad de los autores del secuestro y asesinato de
Aramburu. El fracaso de esta última operación acabó por provocar la virtual
desarticulación de la recién nacida organización, si a ello se le agrega el
episodio del 7 de septiembre en la pizzería La Rueda de William Morris en el
oeste de la provincia de Buenos Aires. Me refiero al enfrentamiento armado
entre tres de los principales dirigentes de la célula porteña de Montoneros

141
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

y la policía a partir de un encuentro fortuito que acabó con la muerte de


Fernando Abal Medina y Carlos Ramus y la detención de Luis Rodeiro. Pero
aún así, a pesar de estos desastres, la organización lograría recuperarse
gracias a la cobertura que le dieran sus redes originales provenientes
del cristianismo post conciliar y a la apoyatura que encontraron en otras
organizaciones del peronismo revolucionario como las FAP, para comenzar
una nueva andadura organizativa que convertiría a Montoneros en la
primera organización armada del país.
A partir de entonces y una vez pasada esta prueba de resistencia
como organización, Montoneros logró posicionarse en un lugar espectral
del escenario político. Esto nos habla de una organización ubicada en el
lugar preciso en el momento justo, al resultar ampliamente funcional a la
estrategia política de Perón que buscaba radicalizar el conflicto político
para arrinconar a la dictadura y, en particular, al presidente Lanusse y a
su intento de imponer una transición democrática que lo excluyera. Pero
si aquello fue una gracia de la coyuntura política, ese papel espectral se
completaba también con una cuota de mérito propio al haber logrado
articular tras su mística y arrojo revolucionario al conjunto del disperso y
aún minoritario espacio del peronismo combativo. Ya hacia comienzos de
1972, Montoneros se convertía en el referente por excelencia de una ya
muy nutrida Tendencia Revolucionaria del Peronismo; un verdadero imán
político para una juventud vinculada a los sectores medios urbanos que
buscaba acercarse al peronismo releído en clave de los movimientos de
liberación nacional del Tercer Mundo.
Del éxito de Montoneros habla su capacidad de volver operativa
una potente red de organizaciones de base de la Tendencia: Juventud
Peronista de las Regionales (con sus siete regionales a nivel país), Juventud
Universitaria Peronista, Juventud Trabajadora Peronista, Movimiento Villero
Peronista, Movimiento de Inquilinos Peronistas, etc. Inclusive, en 1972, su
peso e incidencia sobre los sectores juveniles llevará a Perón a proponer la
participación de un delegado de este sector en el Consejo Superior Peronista
y en invitarlos a sentarse a los distintos espacios de discusión de cara a la

142
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

conformación de candidaturas y equipos de gobierno para las elecciones a


celebrarse el 11 de marzo de 1973. De esta manera, a la tradicional división
de espacios de poder en el peronismo por tercios se paso al modelo de
cuartos. Ahora la juventud detentaba un espacio en los distintos niveles de
poder y si bien esa proporción no acabó respetándose como regla estricta,
no caben dudas que las decisiones y definiciones políticas adoptadas
por el justicialismo en sus Congresos del Savoy (mediados de 1972) y del
Crillón (a finales de ese mismo año) confirman la irrupción del espacio de
la Tendencia y con ella del tan mentado trasvasamiento generacional.
Un recambio que no sólo pasaba por lo etario sino también por lo socio-
político-ideológico. El peronismo parecía haber hecho propio, con un perfil
revolucionario antiimperialista pero también reviviendo sus planteamientos
políticos originarios, aquellas ideas o preceptos que asociaran el peronismo
a un movimiento de liberación nacional en clave de aquello que el propio
Perón redefinió como socialismo nacional. La candidatura presidencial
de Héctor Cámpora resuelta tras el tenso Congreso del Crillón y la de no
menos que cinco candidatos a gobernadores provinciales -más temprano
que tarde asociados a la Tendencia-, así como la participación de la
juventud revolucionaria en las listas de diputados nacionales, provinciales
y concejales municipales denotan un giro a la izquierda de la trayectoria
política del justicialismo argentino.
Sin embargo, este escenario que se condensará en los cuarenta y
nueve días de Cámpora como presidente, en el cual la Tendencia ocupó
un importante espacio de poder, sería tan sólo eso; apenas unos cuarenta
y nueve días. Toda la efervescencia juvenil revolucionaria, luego de años
de frustraciones y proscripciones políticas, de retrocesos sociales y de
represión abierta desembocaba como si de una avalancha se tratara en
el gobierno de Cámpora. Estamos frente a lo que diera en llamarse la
primavera camporista: ese efímero momento político entre el 25 de mayo y
el 13 de julio de 1973 durante el cual la Tendencia procuró tomar las riendas,
por acción o por omisión, del proceso político nacional. Esto se tradujo en un
proceso de hiper movilización y radicalización política, en el que podemos

143
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

incluir desde la amnistía general a los combatientes -presos políticos-


sancionada por el Congreso, pasando por la proliferación indefinida de
tomas de centros de trabajo, instituciones y organismos públicos de todo
tipo, al cuestionamiento abierto a la anquilosada burocracia sindical y
política del peronismo. Hablamos entonces de un ciclo político de menos
de sesenta días en el que Montoneros, como núcleo articulador del más
amplio y ecléctico espacio de la Tendencia, había optado o más bien había
sido llevado por las circunstancias a aparcar las armas para convertirse en
vanguardia del proceso de liberación nacional y social desde el gobierno
popular.
Ahora bien, si Montoneros arribaba a esa aparente toma del poder
casi sin proponérselo, más pronto que tarde descubriría la debilidad de
su construcción política si es que con ella pretendía tener algún grado de
autonomía respecto al líder justicialista. Si el Perón del primer regreso,
aquel 17 de noviembre de 1972 que pasara a ser recordado como día de la
militancia, era todavía quien enalteciera el arrojo combativo de esa “juventud
maravillosa”, el del segundo y definitivo retorno, el del tristemente recordado
20 de junio de 1973 como Masacre de Ezeiza, ya no era otro que un Perón
disgustado con el supuesto giro izquierdista del presidente Cámpora. En
realidad este Perón se parecía bastante más al de sus gobiernos de las
décadas de 1940 y 1950 y la decisión que adoptara, una vez que la sangre
tiñera lo que debería haber sido una gran fiesta por el definitivo retorno, no
fue otra cosa que un cierto retorno a las fuentes, lo que en un claro guiño
a los sectores ahora denominados ortodoxos -derecha peronista- pasará a
llamarse la patria peronista.
En definitiva, esta compleja lucha por dotar de sentido al
significante Perón no es otra cosa que el estallido de un profundo conflicto
intra-peronista en el que se entretejen fundamentalmente disputas de
poder en torno a la conducción de las masas peronistas, donde se debaten
posiciones ideológico-políticas pero siempre subordinadas a la más visceral
lucha por el poder. Ése, se puede decir, fue el primer plano de la crisis
política argentina que se teje prácticamente en el segundo semestre de

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CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

1973. Una crisis que conectó la masacre de Ezeiza en junio con la renuncia
de Cámpora en julio y todo ello con la ruptura de relaciones entre Perón y
Montoneros el 25 de septiembre -dos días después de haber sido electo
presidente por tercera vez con el 62% de los votos- cuando era asesinado
uno de los dirigentes de su más íntima confianza, el secretario general de
la CGT José Ignacio Rucci.
Convengamos que todo esto ocurría en el contexto de una sociedad
hipermovilizada, con una juventud en proceso de radicalización política
-lo que incluía una cierta aceptación tácita o expresa de la violencia de
abajo como instrumento de lucha y respuesta a la violencia de arriba- y
unas demandas sociales insatisfechas por años que ahora buscaban ser
atendidas. En consonancia con este espiral de violencia política, cabe
hacer explícito algunos de los tópicos más asentados en torno a este
proceso. Si existe en la actualidad un cierto acuerdo historiográfico sobre
las responsabilidades de la derecha peronista y del ministro y secretario
privado de Perón, José López Rega, quien en poco tiempo se transformará
en el principal sostén de la organización ultraderechista parapolicial Triple
A (Alianza Anticomunista Argentina) sobre la masacre de Ezeiza, también
lo hay sobre la responsabilidad o irresponsabilidad de Montoneros -aunque
esta organización nunca lo haya reconocido oficialmente- en el asesinato
de Rucci.
Ahora bien, este análisis político en términos de responsabilidades
se superpone a otro más bien sociológico que remite a que el conjunto
de las expectativas políticas y sociales depositadas en Perón no eran
directamente decodificables; más aún, era necesario algún tipo de
hermenéutica. Y es aquí donde la lucha por el poder entre la Tendencia y
su oponente, la Ortodoxia, deviene también en una disputa por la palabra,
por los nombres, cuya intensidad tiende a opacar las controversias más
específicas en torno a los proyectos políticos en disputa, al imponerse una
lucha definida antes bien en términos de poder. Lo cierto es que el ecuador
de 1973 mostraba también el de la Tendencia en el gobierno popular. En el
proceso de ruptura entre Montoneros y Perón se resquebrajaba también el

145
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

atributo social del proyecto de liberación.


Con Perón en la presidencia a partir del mes de octubre y cada vez
más recostado sobre los sectores ortodoxos del Movimiento, las cuotas de
participación de la Tendencia en el gobierno iban camino a la extinción.
Desde el propio poder Ejecutivo se puso en marcha un plan político para
acabar con la infiltración marxista en el gobierno; es decir, una “caza de
brujas” que a medida que traspasamos la barrera de 1973 para ingresar
en 1974 irá cobrando vida propia, lo que incluirá el accionar de grupos
parapoliciales, de los cuales el que desplegó un mayor poder de fuego fue
el de la referida Triple A.
En el marco de este proceso político serán desalojados del poder
los gobernadores de Buenos Aires, Córdoba, Mendoza, Santa Cruz y Salta.
Pero la razzia de los sectores juveniles radicalizados identificados con la
Tendencia, participaran o no en Montoneros como organización armada,
no cesó ahí; lo que incluyó la renuncia de diputados de esta extracción, de
legisladores provinciales, concejales municipales y funcionarios en todos
los niveles. Paralelamente, se ponía en marcha un proceso de blindaje
sobre la burocracia sindical peronista para hacer frente al desafío de los
gremios combativos, sean éstos peronistas revolucionarios o de izquierda
no peronista (SERVETTO, 2010; ANTUNEZ, 2015).
En este contexto, el conflicto político intraperonista Tendencia-
Ortodoxia no encontró remanso alguno ni pudieron articularse mecanismos
que convirtieran el enfrentamiento en algún tipo de estrategia cooperativa
a partir de intereses o proyectos que sumaran a las partes en disputa,
sobre todo a partir de julio de 1974, una vez acaecido el fallecimiento del
presidente Perón. Entonces, cuando su esposa y vicepresidenta Isabel
Martínez se hiciera cargo del gobierno, pero dejando los principales resortes
del poder en manos del ministro López Rega, los enfrentamientos tomaron
una dimensión superlativa. Si en vida de Perón el gobierno nacional había
sido cómplice de acciones terroristas como las que llevaron al secuestro y
destitución del gobernador cordobés Obregón Cano por la vía de la asonada
policial del 28 de febrero de 1974 -conocida como Navarrazo-, a partir del

146
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

segundo semestre el propio Estado nacional irá abonando el terreno para


la persecución y el aniquilamiento del “enemigo interno”. Entonces, el
espiral de violencia no hizo más que propagarse y para septiembre de 1974
Montoneros declaraba su pase a la clandestinidad. En estas circunstancias,
la persecución y el combate estatal a las organizaciones armadas tomarán
la forma de una virtual declaración de guerra a la subversión; categoría
en la cual la sospecha y el macartismo tendrán rienda suelta, siempre
asociados con una juventud contestataria, combativa y resistente. Todo
esto como contrapartida a los operativos que estas organizaciones
armadas intentaban poner en marcha en el marco de lo que ellas mismas
denominaban como “guerra popular prolongada” (ANTUNEZ, 2016).
Los decretos de la presidenta del mes de enero de 1975 que
autorizaba a las FFAA a intervenir militarmente la provincia de Tucumán
para acabar con el foco subversivo del ERP -Operativo Independencia- y
más aún, el del presidente interino Luder del mes de octubre que lo extendía
a todo el país con el objetivo de “aniquilar” la subversión, daban cuenta
de un deterioro institucional de carácter irreversible. En síntesis, podemos
constatar la puesta en marcha de un modelo de Estado Terrorista en el
transcurso mismo del año 1975 para adquirir su fisonomía definitiva, una vez
que los restos del Estado de derecho que aún subsistían desaparecieran,
con el golpe de Estado del 24 de marzo de 1976.
Recapitulando, en lo que respecta a la espiral de violencia política
desde la conformación de las principales organizaciones armadas debemos
distinguir cuanto menos tres momentos claramente diferenciados. El
primero de ellos se remonta a los primeros operativos por parte de células
guerrilleras más bien dispersas, inorgánicas o de agrupaciones en proceso
de formación, tal como fueron las que protagonizaron los asesinatos de
los sindicalistas Augusto Vandor en junio de 1969 o José Alonso en agosto
de 1970. En este mismo momento incluimos al aramburazo, a la toma de la
localidad cordobesa de La Calera y del pueblo bonaerense de Garín por
parte de las FAR o a los impactantes operativos de 1972 como el secuestro
y posterior asesinato del gerente general de FIAT en Argentina, Oberdan

147
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Sallustro por parte del ERP o el asesinato del General Juan Carlos Sánchez
en Rosario en un operativo conjunto del ERP y de las FAR e inclusive
en los prolegómenos mismos de la asunción de Cámpora en 1973, el
asesinato del Almirante Hermes Quijada a manos del ERP o del sindicalista
“participacionista” Dirck Kloosterman a manos de las FAP.
Previo a que despuntara el segundo momento de la lucha armada
tuvo lugar una suerte de “tregua de hecho” durante los cuarenta y nueve
días de Cámpora. Como hemos señalado, mientras Montoneros y el resto
de las organizaciones armadas peronistas suspendían la lucha armada, el
ERP proclamaba que no depondría las armas aunque no realizó operativos
durante la presidencia de Cámpora. Pero justamente con la renuncia de
Cámpora aquella tregua desaparecía y con ella retornaban los operativos.
En el mes de septiembre de 1973, días antes de las elecciones que
consagrarían a Perón como presidente por tercera vez, el ERP retomaba
sus operaciones con el frustrado asalto al Comando de Sanidad del Ejército
en Capital Federal. Por su parte, aunque de manera oficiosa, Montoneros
abría fuego con el asesinato del sindicalista Rucci dos días después de los
referidos comicios.
A partir de entonces, se desarrollaron dos frentes principales de
violencia. Por un lado, el que surgía de la lucha intraperonista Tendencia-
Ortodoxia, en el cual el gobierno nacional tomará parte activa en la
cuestión, clarificando la asociación entre esa lucha contra los infiltrados
en el Movimiento con la organización Montoneros y el amplio y difuso
espacio que gravitaba en torno a ella, la Tendencia. Por otro lado tenemos
la irrupción del ERP con el ataque a la guarnición militar de Azul en la
provincia de Buenos Aires en enero de 1974. Su fracaso llevará al ERP a
posponer nuevos operativos hasta mediados de ese año cuando ya hayan
decidido radicar un foco rural en la provincia de Tucumán. Entonces el ERP
comenzaba también a desplegar otros operativos -siempre frustrados-
como el ataque a la Fábrica militar de Pólvora y Explosivos de Villa María
y el intento de copamiento del Regimiento de Infantería Aerotransportada
de Catamarca -más conocido como la masacre de Capilla del Rosario- en

148
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

el mes de agosto.
El tercer momento de la guerrilla argentina lo podríamos identificar
a partir de septiembre de 1974 cuando Montoneros, en ruptura definitiva
con el gobierno peronista, anunciaba su “pase a la clandestinidad” y
lo hacía ese mismo mes con un nuevo operativo de tipo económico: el
secuestro de los hermanos Born, empresarios de la corporación alimenticia
Bunge&Born. Digamos que en esta tercera etapa, el Estado de manera
orgánica iba a colocarse al frente del “combate a la subversión” poniendo
toda una serie de dispositivos que combinaban una legalidad elaborada de
forma ex profesa para los fines del combate y un amplio espacio para operar
al margen de ésta. Allí se enmarcaban los referidos decretos presidenciales
de Isabel y Luder, que sostenían el denominado Operativo Independencia
para el combate de la guerrilla del ERP en Tucumán como así también
de otras operaciones, como el asalto de Montoneros al Regimiento de
Infantería de Monte de Formosa en octubre de 1975 o el ataque del ERP al
Batallón Depósito de Arsenales Domingo Viejobueno de Monte Chingolo
(Buenos Aires) en diciembre de 1975, con devastadoras consecuencias
para la organización.
Así, al atravesar la frontera que separa 1975 con 1976, podemos
afirmar que la capacidad operativa de las organizaciones armadas estaba
cuanto menos muy debilitada. Estas organizaciones no sólo habían fracasado
en lo militar, sino que no habían logrado cumplir con el objetivo base que
se habían propuesto: lograr el apoyo del pueblo a esa guerra revolucionaria
prolongada capitalizando los distintos conflictos sociales que atravesaban
a esa todavía muy movilizada sociedad. No obstante, si bien la guerrilla no
había logrado captar masivamente la simpatía y el apoyo popular, tampoco
debe leerse esto en un asentimiento de los sectores populares a los planes
represivos del gobierno de Isabel primero y de los militares golpistas
después. En cualquier caso, la radicalización tanto del conflicto social como
de su flanco político con sus debidos entrecruzamientos generó a su vez un
parte aguas social y político, volviendo a los sectores medios urbanos hacia
posiciones cada vez más reaccionarias.

149
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Pero aún así, importantes franjas de los sectores populares


no cesaron en radicalizar sus luchas hasta los albores mismos del
derrocamiento de Isabel. Ocurre que el Pacto Social, sustento por
antonomasia del programa económico desarrollado desde el 25 de mayo de
1973, garantizó hasta finales de 1974 un notable cambio distributivo a favor
de los asalariados urbanos con una creciente y dinamizadora presencia
del Estado en la economía. Con ello se había logrado uno de sus objetivos
iniciales pero al mismo tiempo había generado no pocas fricciones,
también alentadas por las complejas y cambiantes circunstancias políticas
tanto nacionales como internacionales en términos de empoderamiento y
crecimiento de las expectativas sociales. Esas fricciones hacen referencia
a la retracción y puesta en guardia de los sectores empresariales del
capital más concentrado, que atacaron por las tradicionales vías del
desabastecimiento, la retracción de inversiones y, hacia el final, con la
fuga de capitales. Por su parte, la desorientación y la pérdida de rumbo del
gobierno de Isabel una vez que se deshiciera del ministro de Economía José
Ber Gelbard en octubre de 1974 nos conduce -luego de un interludio de
poco más de seis meses- a una ruptura ex-profesa del Pacto Social por la
vía del denominado rodrigazo. Esto es, el fracasado ensayo “liberalizador”
de la economía, basado en la maxidevaluación del peso de junio de 1975,
que derivó en un estallido y una protesta social de tal magnitud que obligó
a la presidenta a pedirle la renuncia al ministro Rodrigo -de allí el nombre
que se le atribuyó al estallido- y también al mentor e “ideólogo” político del
gobierno, el ministro de Bienestar Social, José López Rega.
A partir de entonces, la crisis económica será otra de las herramientas
eficaces que utilizarán los referentes de la clase dominante junto a militares,
sectores civiles, eclesiásticos y distintos elementos de los poderes fácticos
para unir poder real -que en los inicios del gobierno de Cámpora se había
visto amenazado- con poder formal. No obstante, los sectores populares
no dejarían de movilizarse y defender las posiciones alcanzadas, aunque
no hayan logrado mecanismos eficaces desde lo político. Convengamos
que tanto el conflicto de los trabajadores del complejo metalúrgico de Villa

150
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

Constitución de 1974 y 1975, el paro y movilización general contra el rodrigazo,


como las diversas luchas estudiantiles contra las políticas reaccionarias del
ministro de Educación Ivanissevich y sus secuaces visibilizan unos sectores
populares que ni se habían entregado, ni estaban aún vencidos. Es que
tampoco lo estaba, en términos socio-históricos, la Argentina Peronista.
Justamente, la dictadura cívico-militar-eclesial instalada oficialmente en el
gobierno el 24 de marzo de 1976 dedicará todos sus esfuerzos a acabar con
esa irritante construcción política.

DERROTA POPULAR, ENDEUDAMIENTO EXTERNO Y


TERRORISMO DE ESTADO

¿Cómo volver inteligible la categorización derrota popular,


endeudamiento externo y terrorismo de Estado para la Argentina de la última
dictadura militar? Comencemos por puntualizar que la derrota popular es
a un tiempo variable explicativa y variable explicada de ese cambio radical
en la estructura socio-económica argentina de la segunda mitad de la
década del setenta. Unos cambios cuyos rasgos más sobresalientes son el
crecimiento exponencial del endeudamiento externo y un salto cualitativo
en el ejercicio de la dominación política por la vía del terrorismo de Estado.
Convengamos que se trata de una variable explicativa si atendemos a
que sólo la derrota infligida desde los sectores tradicionalmente dominantes
a una Argentina con organizaciones populares y expectativas sociales
ascendentes, habilitó profundos cambios estructurales en la distribución
social de los bienes tanto públicos como privados en poco menos de una
década. Pero a su vez, esa derrota popular es también producto de un
feroz embate contra un movimiento obrero combativo, contra una juventud
inconformista y desafiante, contra unos profundos anhelos emancipatorios;
en definitiva, contra todos aquellos sectores contestatarios e insumisos a
un modelo de país dependiente. Con esto nos referimos a ese primer gran
desmantelamiento -el segundo y definitivo tendrá lugar en la década de

151
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

1990- de lo que podríamos denominar el Estado benefactor peronista;


situación que podría bien condensarse en esa concomitante pérdida
de soberanía económica que se tradujo en un incremento del 364% del
endeudamiento externo entre 1976 y 1983.
También podemos plantear esa derrota como el resultado de un
programa político algo más global. Desde este enfoque, los militares actuaron
como operadores de los grandes grupos de poder en Argentina, entre los
que se reconocen las élites corporativas que atraviesan organizaciones
como la Sociedad Rural Argentina, la Bolsa de Comercio de Buenos Aires
y los principales grupos económicos vinculados a bancos extranjeros y
empresas transnacionales. A todo lo cual se le debe sumar la jerarquía de
la Iglesia Católica, así como también los diversos lobbies relacionados con
los intereses geopolíticos de EEUU en el marco regional de la denominada
Guerra Fría. En este sentido, el programa aludido demandaba la referida
violencia terrorista por parte del Estado que, en nombre de la doctrina de
la seguridad nacional, eliminara al enemigo interno -en el marco de una
“guerra contrainsurgente”- y disciplinara a la fuerza laboral, cambiando
de raíz la estructura socio-económica argentina. De esta manera, 1976
abría la posibilidad de aniquilar a ese “enemigo interno” que desde hacía
más de una década constituía la principal hipótesis de conflicto para los
militares latinoamericanos, corporizado en esas fuerzas sociales y políticas
emancipatorias que en 1973 parecían haberles ganado la pulseada. Por
cierto, un asalto que fue tan premeditado y planificado como ensayado,
con las FFAA en el papel de guardia pretoriana de los sectores dominantes.
Con estos antecedentes no debe sorprender que en julio de 1976
arribemos a una caída del poder adquisitivo salarial del 40% respecto a la
media de la primera mitad de la década. Entonces, prohibida la actuación
política y sindical y con una inflación que se mantuvo en niveles de tres
dígitos anuales entre 1976 y 1977, la definitiva liberalización financiera
implementada este último año vino a completar uno de los propósitos
claves que se propusieron los militares al margen de la eliminación física
de ese “enemigo interno” modelado a tales efectos: hacer lo propio con la

152
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

Argentina industrial. Cinco años después, la contrapartida más cruda del


explosivo endeudamiento externo no fue sino la reducción del número de
obreros industriales en un tercio del existente en 1976.
Todo este despliegue de violencia institucional en el marco del
dispositivo represivo de la dictadura no tuvo una verdadera contrapartida
en términos de contestación social. Sólo al asomar la crisis de la deuda en
1981 con el deterioro social concomitante en términos de desocupación,
pobreza e indigencia, comenzaron a sentirse las acciones de resistencia
y protesta social como corolario de los muy tímidos esbozos de los años
1977-1979. Nos referimos a los primeros emergentes de la protesta social
frente a ese Estado represivo que había establecido unas nuevas fronteras
entre lo moral y lo inmoral, lo permitido y lo prohibido, al hacerse dueño y
señor de la vida de las personas por la vía del terror. Dicho de otro modo,
estamos frente a una sociedad encorsetada en un Estado terrorista que
había dispuesto un plan sistemático de exterminio de personas que llegó a
contar con más de 600 centros clandestinos de detención, dejando como
resultado miles de muertos y desaparecidos.
Esta situación dio lugar a la conformación de diversas organizaciones
de DDHH y en particular, en 1977, a Madres de Plaza de Mayo. La figura
del desaparecido hacía su entrada en la escena nacional como producto
del terror desplegado desde las acciones represivas que los militares
justificaban en términos de enfrentamientos propios de sus “operativos
antisubversivos”. En síntesis, un plan sistemático de aniquilamiento y
desaparición de personas llevado a cabo por el gobierno militar siguiendo
una metodología que, tal como se desprende del Informe Nunca Más, se
basaba en tres elementos concomitantes: el secreto, la clandestinidad
y la impunidad. El secreto, en cuanto a las operaciones de inteligencia y
puesta en marcha de los operativos, la clandestinidad, en lo que se refiere
al ocultamiento de identidades ya sea de represores o reprimidos y la
impunidad como garantía de la posibilidad fáctica de la represión ilegal
sin consecuencias punitivas para sus responsables. Así, sostenemos con
Rubén Kotler que, frente al drama de las desapariciones cuando a poco

153
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

más de un año y medio de instalada la dictadura ya aparecían los reclamos


y denuncias de estas catorce mujeres que se constituirían como Madres
de Plaza de Mayo, para ciertos sectores de la sociedad la imposición
de un nuevo orden social autoritario dejaba a las denuncias sobre los
desaparecidos como un “dato menor”. Inclusive, podríamos agregar que se
lo consideraba una suerte de “daño colateral”, un “costo a pagar” en pos de
ese orden anhelado. En este sentido Kotler sostiene:

Desde la propaganda oficial se insistió que era necesario


extirpar el cáncer de la subversión, y por lo tanto no se
cuestionaba los métodos utilizados por las FFAA. El “por
algo será” se constituyó para esos sectores en una pre-
misa que explicaba la desaparición y no sólo no cuestionó
el golpe militar, sino que fue apoyado abiertamente, aún
a sabiendas del horror que producía. De esta manera los
militares legitimaron su accionar e incluso la Iglesia avaló
y justificó en más de una ocasión la represión, la tortura
y la desaparición de personas (KOTLER, 2006, p. 18-19).

En este contexto debemos leer la emergencia del movimiento de


DDHH, con las diversas organizaciones que le dieron forma, como una
expresión de contestación social frente al horror de la dictadura; pero
no como un horror masivamente repudiado y denunciado. Como se ha
dicho, el apoyo al gobierno militar, ya sea por acción en pos de ese orden
impuesto, imaginado o deseado, o por omisión, propio del despliegue del
terror represivo, constituyó un resorte importante del que se valieron
los militares para hacer frente a estos cuestionamientos, tanto internos
como a su postrera proyección internacional. Recién con el deterioro de
la situación económica que acarreó el inicio de la crisis de la deuda hacia
finales de 1981, las bases de sustento social de la dictadura comenzaron
a resentirse hasta verse diezmadas con posterioridad a la derrota en la
guerra de Malvinas (junio de 1982).
El derrumbe de la dictadura estuvo directamente asociado al
desastre de Malvinas antes que al fracaso de su programa político, a la crisis
económica o a las flagrantes violaciones de los DDHH. En este sentido, el
acelerado deterioro de la situación socio-económica que llevó a la jornada

154
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

de protesta y manifestación de la CGT en Plaza de Mayo el 30 de marzo de


1982 fue suficiente para cohesionar un movimiento eficaz de oposición a la
dictadura14. Aún con un acatamiento parcial, dado el despliegue represivo,
el paro general de marzo de 1982 volvía explícito un importante canal de
resistencia social en medio del terror de la dictadura. Además, la sucesiva
sumatoria de torpezas políticas -lo que incluiría los no natos proyectos de
creación de partidos oficiales en distintos momentos del septeto dictatorial-
y finalmente el descalabro económico de las políticas del ministro Martínez
de Hoz fueron ahondando la crisis. Pero, en todo caso, faltaba el golpe
de gracia político para agotar el ciclo de vida de ese Estado autoritario.
Una instancia que, como se ha sostenido, llegó de manos de la invasión
y posterior derrota en la Guerra de Malvinas, previa “plaza de Galtieri” en
apoyo a la invasión a las islas del 2 de abril; nada menos que setenta y dos
horas después de la mencionada plaza opositora de la huelga general de
la CGT.
Tampoco el amague “aperturista” de la malograda presidencia de
Viola en 1981, ni el surgimiento ese mismo año de la Multipartidaria -una
plataforma integrada por un amplio espectro político nacional destinada a
bregar por el retorno al Estado de derecho- lograron acelerar los tiempos.
Así, la salida democrática de 1983 no se parecería en nada a la de 1973.
Diez años habían pasado y con ellos un terremoto político-social. Si entre
1969 y 1973 se le había asestado un duro golpe a ese primer ensayo de
Estado burocrático-autoritario al punto de hacerlo retroceder en sus
intenciones continuistas y obligarlo a simular una retirada ordenada, ahora
en 1982-1983 los propios militares eran quienes abandonaban su fracasada
empresa frente a un país diezmado. Por cierto, un país muy diferente al
de 1973, donde tanto la idea como la práctica revolucionaria habían sido
extirpadas de los sectores más activos de la sociedad.

14 La sumatoria de protestas obreras que se remontan a épocas tempranas, cuando uno de


los grupos más combativos del sindicalismo peronista -la Comisión de los 25- organizara la
primera huelga general contra la dictadura del 27 de abril de 1979, o bien la del 22 de julio de
1981 o las emblemáticas marchas a San Cayetano, patrono del trabajo, lograron resquebrajar
el entramado dictatorial.

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

En síntesis, el fracaso militar en imponer con visos de continuidad


ese segundo proyecto de Estado burocrático-autoritario, reeditado en
clave de terrorismo de Estado, no vino de la mano de una derrota impuesta
desde los sectores populares sino a partir del desmoronamiento de su
propia construcción política, donde Malvinas se convertía en la última
ráfaga del vendaval que volaría el techo del edificio dictatorial. En cualquier
caso, el desmoronamiento del poder militar fue a su vez concomitante a ese
cambio estructural que se impuso sobre una sociedad argentina diezmada
en sus sectores más dinámicos y combativos.
El terrorismo genocida se cobró la vida de varios miles de jóvenes
encuadrados en importantes organizaciones populares con proyectos
políticos, sociales y culturales de avanzada, más allá del cuestionamiento
que merezcan las prácticas políticas de las organizaciones armadas.
En síntesis, las pérdidas en términos de cuadros sindicales, juveniles,
universitarios, referentes culturales e intelectuales o la militancia libertaria
en ámbitos como el feminismo o la diversidad sexual dan cuenta de una
franca derrota asestada a los sectores populares. Podríamos decir que la
dictadura logró acabar con el modelo socioeconómico -y con su proyección
cultural- que hundía sus raíces en aquel proceso histórico que tomaba
cuerpo hacia 1945 con la emergencia del fenómeno peronista. En palabras
de John William Cooke, digamos que el fenómeno maldito del país burgués
llegaba derrotado a 1983 en el marco de una Argentina vencida; esto es,
vejada en lo social y cultural, diezmada en su aparato productivo y privada
de su soberanía política.
Sin reservas políticas, morales y menos aún económicas -dado
el nivel de descalabro financiero del país- estamos frente a lo que Hugo
Quiroga denomina “el derrumbe del soberano militar” (QUIROGA, 2004).
Entonces, sólo restaba la convocatoria a elecciones sin proscripciones ni
restricciones políticas de ningún tipo. Ya no había margen alguno para un
plan político; es más, la dictadura como tal había sido incapaz de articular
una construcción política que se precie de tal más allá de grupos inconexos,
aunque no despreciables en cuanto a sus poderes fácticos, pero que no le

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CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

sirvieron para emular a los regímenes de Brasil, Paraguay o incluso Chile.


En este contexto, puede explicarse la recurrencia a esa desesperada auto-
amnistía previa a los comicios del 30 de octubre de 1983 en el marco de un
retiro que no fue producto de una negociación ni de una derrota del gobierno
autoritario frente al embate de los sectores populares ni tampoco producto
de una negociación claramente pautada. En este sentido coincidimos con
Hugo Quiroga cuando sostiene que:

El derrumbe del orden autoritario es el resultado de su


propia ineptitud política antes que el producto del acoso
sufrido por las movilizaciones sociales. Al no establecerse
un acuerdo explícito implícito, la transición democrática
es conducida unilateralmente por las Fuerzas Armadas
hasta el momento del traspaso del poder al gobierno ele-
gido por el sufragio popular. Los partidos no negociaban
con el régimen de facto la salida electoral, pero tampoco
tenían la iniciativa y la voluntad de conformar una alianza
antiautoritaria que fuera precipitando los pasos de su caí-
da (QUIROGA, 2004, p. 332).

En definitiva, el fracaso en todos los ámbitos, incluida la derrota


bélica, dejó a los militares sin el recurso a una transición pactada. Las
fuerzas sociales y los partidos políticos pudieron bien capturar grados
de autonomía funcional sin habérselos arrancado al régimen; pero aún
así esto no generó ni un corte abrupto con el pasado ni menos aún una
desmilitarización inmediata del poder estatal. Es importante subrayar esto
ya que el agitado clima antidictatorial, la conflictividad social y la crisis de
la deuda o la denuncia del pacto sindical-militar por parte de Raúl Alfonsín,
candidato presidencial de la UCR, pueden hacernos sobredimensionar el
desmoronamiento político de la dictadura al interior de los poderes que
operan en el Estado.
Esta prevención en el análisis es fundamental para comprender
cómo fue forjándose la institucionalización de la democracia argentina
posterior a 1983, con sus flujos y reflujos. Una dinámica histórica que nos
lleva del castigo a los genocidas, como es el caso del juicio a la juntas
militares de 1985, a las sucesivas leyes y decretos de impunidad para

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

retomar la vía del enjuiciamiento hacia el final del siglo. Algo así como un
ciclo parabólico, atravesado por fuertes resabios de un Estado dictatorial
en las sombras que nos remite a los acuartelamientos y planteos de los
“militares carapintadas” acaecidos entre 1987 y 1990 o a las actuaciones
de las fuerzas de seguridad interior en casos de gatillo fácil, torturas en
comisarías y hasta desapariciones de personas en plena democracia.15
No obstante, lo que sí cambió en la post-dictadura fue el carácter del
juego político: la sociedad como un todo internalizó a la democracia como
marco ineludible para el funcionamiento político institucional. También
podríamos plantearnos si esto llevó a consolidar paulatinamente una
cultura política menos autoritaria y con ello menos violenta. En fin, se trata
de un interrogante que encierra demasiadas aristas, pero cuyas posibles
respuestas pertenecen a la etapa de la historia argentina que se abre con la
construcción del Estado de derecho en la democracia recuperada a finales
de 1983.

EL NUEVO ESTADO DE DERECHO Y LOS LÍMITES DE LA


DEMOCRACIA FORMAL

Poco más de tres lustros de vida democrática con tres presidentes


civiles que se suceden por la vía de comicios regulares dan cuenta de cierto
avance institucional al clausurar el siglo XX. Eso sí, esto es más bien una
foto o, si se quiere, la foto previa al estallido; es decir, al colapso de unos
arreglos sociales y económicos inducido por la sobredosis de experimentos

15 En lo que respecta a las desapariciones en democracia (posteriores al 10 de diciembre de


1983) cabe hacer mención, a modo de ilustración, a los casos de Miguel Bru, joven estudiante
de comunicación social de la Universidad Nacional de La Plata desaparecido en dicha ciudad
el 17 de agosto de 1993 cuando tenía 23 años; a Jorge Julio López, trabajador jubilado y militan-
te peronista desaparecido en La Plata luego de declarar como testigo en el juicio por delitos
de lesa humanidad contra el ex represor Miguel Etchecolatz el 18 de septiembre de 2006 y
recientemente, el de Santiago Maldonado, joven artesano desaparecido en el marco de un
operativo de Gendarmería Nacional contra la comunidad mapuche de Cushamen (provincia
de Chubut) el 1 de agosto de 2017.

158
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

neoliberales, plasmados en los Planes de Ajuste Estructural que se


remontan a los inicios de la última dictadura. En rigor de verdad, se trató de
la explosión final de una crisis prolongada que conecta la dictadura militar
con la recuperación democrática. Sostenemos aquí que si 1983 marcó una
ruptura en el funcionamiento del sistema político argentino, al desaparecer
de la escena el actor militar como eje de un sistema de dominación político
tendiente a garantizar las relaciones capitalistas de producción, esto no
significó quiebre alguno en materia de políticas económicas.
Más bien, podemos afirmar que la recuperación de la democracia
no fue el resultado de una crisis de Estado; es decir, no se puso en cuestión
la matriz de dominación social. De allí que las políticas económicas de corte
neoliberal atravesaran en una escala progresiva la presidencia del radical
Raúl Alfonsín (1983-1989), las del peronista Carlos Menem (1989-1995 y
1995-1999) y finalmente la del radical Fernando De la Rúa (1999-2001). Todo
esto, por supuesto, en un marco de noble inestabilidad en el funcionamiento
del sistema económico, con momentos de fuertes turbulencias como
lo fueron la crisis inflacionaria de 1989-90, el impacto de la denominada
crisis del tequila en 1994 y la prolongada y agónica crisis recesiva de 1998-
2001. En todo este recorrido de neto deterioro social, las respuestas, tanto
desde la acción colectiva como desde la propia identidad y constitución
política de los actores contestatarios, se fueron reconfigurando en función
de los nuevos escenarios internacionales que debieron enfrentar, todos
ellos signados por el final de la Guerra Fría. Comencemos analizando la
gestación de la primera de estas crisis, la que se genera hacia el final del
gobierno de Raúl Alfonsín.
El gobierno de Alfonsín que nacía con un programa de cambio
político antes que socio-económico acabó, paradójicamente, malogrando
los proyectados avances democráticos en aras de “consolidar” la propia
democracia Ahí están las leyes de Punto Final y Obediencia debida que
daban por tierra con los juicios a los genocidas al claudicar frente a un
conglomerado de presiones corporativas. Presiones que conectaban los
reclamos de impunidad para los genocidas y los embates de la jerarquía

159
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

eclesiástica en materia educativa (fracaso del Congreso Pedagógico


Nacional) con las presiones por la desregulación económica y la reducción
drástica del sector público. Aquí convergen la apertura indiscriminada de
la economía con las privatizaciones en un programa unitario que la clase
dominante lograría consolidar con el final abrupto del gobierno de Alfonsín.
Nos referimos a la entrega anticipada del poder al presidente electo Carlos
Menem en julio de 1989, cuando los sectores del capital más concentrado
capturaron al Estado en plena crisis hiperinflacionaria.
La hiperinflación de 1989 es tributaria de la errática política
económica del gobierno radical que, más temprano que tarde, acabó
abrazando la hoja de ruta del neoliberalismo consagrado en el denominado
Consenso de Washington. A esta situación contribuyeron también los
sectores más concentrados de la economía argentina por la vía del golpe
especulativo que tuvo lugar en los primeros meses de 1989. De hecho, esta
crisis hiperinflacionaria superó con creces a la del primer trimestre de 1976,
tanto en lo que respecta a la estampida del nivel general de precios como
a su duración. En este sentido, baste señalar que si en el mes de marzo de
1976 los precios mayoristas habían registrado un incremento superior al
50% (GERCHUNOFF y LLACH, 1998, p. 349), en los primeros cinco meses
de 1989, los precios de los alimentos básicos aumentaron entre un 400% y
un 1000% mientras que los salarios aumentaron en promedio un 200% en
todo el año (AUYERO, 2007, p.101).
Esta situación marcó un quiebre en materia de crisis socioeconómica
debido al impacto que tuvo en su capacidad de profundizar y con ello
arrastrar un alarmante proceso de deterioro, segmentación y fractura
social. En este sentido, tuvieron lugar los primeros estallidos o disturbios
por alimentos de la Argentina actual. Nos referimos a los saqueos ocurridos
entre mayo y junio de 1989 con sus principales focos en las provincias de
Córdoba, Santa Fe, Buenos Aires, Mendoza y Tucumán y en febrero de 1990
con epicentro en la provincia de Buenos Aires (AUYERO, 2007, p.101-102).
El quiebre de la crisis de 1989-1990, al tiempo que renovaba el
impulso a la movilidad social descendente de los últimos tres lustros,

160
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

reformulaba la política en función del nuevo escenario finisecular. Me


refiero a esa nueva alianza o coalición política de los sectores dominantes
que vinculaba a los grandes grupos económicos con la dirigencia política
peronista. Digamos, en palabras de Maristella Svampa que:

[...] si el nuevo modelo de acumulación había hallado su


modelo constitutivo durante la última dictadura militar,
fue el gobierno peronista de Menem el que finalmente
asumiría sin ambages la remoción de todos los obstácu-
los que hasta el momento habían impedido su verdadera
consolidación, al tiempo que entregaría directamente el
diseño y ejecución de la política económica, primero a los
grandes grupos económicos (como Bunge y Born), lue-
go, a los expertos procedentes de las usinas ideológicas
más reconocidas del neoliberalismo vernáculo (SVAMPA,
2005, p. 107).

En este marco, me interesa adentrarme en algunas notas


constitutivas de las políticas socioeconómicas llevadas a cabo a lo largo
de la década de 1990, para poder en evidencia lo que denomino como
las condiciones de acondicionamiento del gran estallido social de 2001.
Comencemos entonces por señalar que si bien la Argentina atravesó
una sucesión de crisis económico-financieras a lo largo de la segunda
mitad del siglo XX, ninguna de ellas -ni siquiera la referida experiencia
hiperinflacionaria de 1989/1990- fue de la magnitud ni del impacto sobre la
estructura económica y social como la de 2001/2002.
Deberíamos entonces intentar responder al ¿por qué? de aquella
aseveración. Si concentramos el análisis en lo que se refiere a la estructura
económica, digamos que esta última crisis llevó al país a una bancarrota
financiera que condujo a declarar una cesación unilateral de pagos
internacionales en diciembre de 2001. Y si viramos la mirada hacia la
estructura social de la Argentina, nos encontramos con un estallido social
sin precedentes que arranca con los saqueos por alimentos ocurridos entre
el 14 y el 22 de diciembre. Se trató de una expresión descarnada de acción
colectiva derivada de la desesperación social frente al hambre y la miseria,
movida a su vez por las propias condiciones o estructura de oportunidades

161
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

políticas que habilitaron la posibilidad fáctica de estas acciones (TARROW,


1997).
También debiéramos subrayar que la crisis de 2001 puso fuertemente
en cuestión los paradigmas económicos neoliberales corporizados en los
Planes de Ajuste Estructural del FMI, el Banco Mundial y el Departamento
del Tesoro norteamericano. En otros términos, se puso en evidencia de una
manera tan cruda como efectiva que el modelo económico impuesto desde
la dictadura y consolidado en la convertibilidad monetaria de 1991 como
respuesta a la crisis hiperinflacionaria de 1989/1990 había llegado a su fin,
arrastrando tras de sí a la estructura social argentina de la segunda mitad
del siglo XX.
Quedaba al desnudo el engaño de la convertibilidad. Es decir, la
puesta en marcha de un sistema de caja de conversión entre la moneda
local y la estadounidense por el cual podía convertirse a la par el peso
con el dólar. Esto permitió, en lo inmediato, eliminar el problema de la
inflación; pero al mismo tiempo, detrás del efecto de desinflación, se
generó un cóctel explosivo compuesto de una brutal apertura financiera
con un nocivo diferencial de tipos de interés entre Argentina y los centros
financieros internacionales, un acelerado proceso de desregulación
económica y un festival inédito de privatizaciones de empresas públicas
a precio de saldo que auspició una avalancha de ingresos de capitales
especulativos. Estos capitales apreciaron la moneda local encareciendo
las exportaciones argentinas y dando lugar a sucesivos saldos negativos
de la balanza comercial. Además, se incentivó el endeudamiento externo
provocando crecientes saldos negativos en la balanza de servicios por el
pago de intereses; por último, se auspiciaron las denominadas inversiones
de cartera, auténticos fondos de muy corto plazo que ingresaban al país
para especular con bonos en dólares que emitía el gobierno.
De esta manera el Estado incrementaba exponencialmente su
deuda externa con lo que producía un círculo vicioso: una vez pasados
los efectos del crecimiento inicial de la economía impulsada por el ingreso
de capitales, la apreciación del tipo de cambio encareció raudamente

162
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

las exportaciones. Además, a partir de 1997, las exportaciones se vieron


todavía más perjudicadas por la caída de los precios de las materias primas
agropecuarias y por el incremento de la tasa de interés internacional que
acabó por ralentizar el ingreso de capitales deteriorando el crecimiento del
PIB hasta tornarlo negativo hacia 1998/1999. En este contexto, el Estado
quedó preso de un sistema financiero que permanentemente le exigía
mayores y mayores costes para financiarse. Un financiamiento que se
destinaba a cubrir un creciente déficit fiscal aumentado por la disminución
de la recaudación tributaria de los ingresos fiscales y agravado por un Estado
que se convertía en intermediario financiero de unas empresas privadas que
perdían rentabilidad en medio de la recesión. Entonces entraba en escena
la célebre prima de riesgo -riesgo de impago, de devaluación, etc.- y el FMI
tomaba la delantera para imponer al Estado un duro programa de ajuste
estructural para que reduzca su gasto público y evite un endeudamiento
cada vez más oneroso. Esta situación atravesó cuanto menos el último
bienio de Menem y los dos años de De la Rúa con un denominador común:
ambos gobiernos se mostraron decididos a seguir las recetas deflacionistas
del FMI abortando cualquier mínimo indicio de crecimiento, ya sea por la vía
del consumo, la inversión o por las exportaciones, ingresando en un espiral
recesivo que no hizo otra cosa que profundizar el déficit fiscal y con él un
endeudamiento astronómico.
Hasta aquí el mecanismo económico que llevó a la explosión. No
obstante, debemos subrayar que ese mecanismo funcionó a partir del
“combustible endeudamiento”, de la mano del incremento exponencial de
los intereses. Al final, cuando el riesgo de impago se convirtió en la más
palpable realidad, los ahorristas salieron en masa a retirar el dinero de sus
depósitos bancarios y los banqueros del exterior decidieron que ya no tenía
sentido prestarle un último dólar a la Argentina de De la Rúa. Entonces, se
acabó el “combustible endeudamiento” y con ello la posibilidad por parte
del gobierno de garantizar la paridad cambiaria con libre convertibilidad.
En estas circunstancias, entraba nuevamente en escena Domingo
Cavallo, el gurú vernáculo del neoliberalismo económico y autor de la

163
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

convertibilidad monetaria en 1991 y del festival de estatización de la deuda


privada durante la dictadura en 1981, fuente primigenia de la colosal deuda
externa argentina. En ese entonces, Cavallo intentaba convencer a los
argentinos que dada la gran evolución del sistema financiero ya no habría
más necesidad de operar mayormente con billetes en efectivo, por lo que a
partir de entonces sólo se iba a disponer de los depósitos bancarios por la
vía de unas cómodas tarjetas de débito, con unas autorizaciones de retiros
mínimos en efectivo. Nacía así el corralito financiero; el detonante por
excelencia del estallido social que haría volar por los aires el entero sistema
político y económico de la Argentina del último cuarto de siglo.
Con el corralito financiero hizo eclosión la propia trama de acuerdos
que se tejen en una sociedad, lo que a su vez dio paso a un tipo de acción
colectiva en sintonía con el acelerado deterioro político y económico de
los últimos años noventa. Una situación que, si para una muestra basta un
botón, puede bien condensarse en una tasa nacional de desempleo que
superaba el 20% de la población económicamente activa. El estallido social
fue a su vez la plataforma sobre la que maduraron cambios importantes
en el funcionamiento de la política que se venían incubando desde la
década del noventa. En síntesis, una prolongada crisis de representación
política que comprendía no sólo a unos partidos políticos que se vieron
prácticamente diezmados en su estructura militante, sino también a la
anquilosada burocracia sindical peronista.
Las respuestas a esta crisis fueron variadas y hasta contradictorias.
Por una parte, rotos los lazos básicos de solidaridad en un proceso histórico
que data de un cuarto de siglo, se observó una fuga al interior, al ámbito de
los “asuntos particulares” en detrimento de cualquier lucha comunitaria.
Por otro lado, comenzó a articularse un nuevo tipo de militancia social
contestataria de la mano de los excluidos del sistema; bien sea aquellos
que supieron reconocerse como clase obrera y pasaron a conformar el
ejército de desocupados, bien sea sectores medios/medio-bajos que fueron
paulatinamente arrastrados a la pobreza víctimas del funcionamiento
centrífugo de las políticas de ajuste estructural.

164
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

Entonces, a medida que transitamos el ecuador de la década del


noventa vemos emerger de un modo inconexo focos o estallidos de violencia
organizada por la vía de explosiones breves, aunque ya con formas más
permanentes de organización como fue el caso de los grupos piqueteros
y de trabajadores desocupados. Todo esto tuvo lugar mientras tomaba
un renovado impulso la vieja política clientelar, ahora especializada en el
manejo de los planes sociales; por cierto, un tipo de política social concebida
no a partir de criterios universalistas sino meramente asistenciales, como
paliativos o estrategias de contención del creciente deterioro de la situación
social. En definitiva, un desarrollo coherente con un Estado desmantelado
tanto en lo que respecta a sus funciones de contralor y regulador de las
relaciones económicas como a las de garante de los derechos sociales.
Al pasar de los diversos momentos de acondicionamiento de
la crisis al análisis preciso del estallido en diciembre de 2001, debemos
abocarnos tanto a las manifestaciones y revueltas -con el epicentro
neurálgico en lo que se conoció como la masacre de Plaza de Mayo del
19 y 20 de diciembre- que acabaron con la renuncia del presidente De
la Rúa en medio de una criminal represión que se cobró la vida de 36
personas, como a la imposición del referido corralito financiero y la casi
inmediata salida de la convertibilidad. Una situación que llevó a los sectores
medios a abandonar su consuetudinaria apatía social para tomar las calles
reclamando la devolución de sus ahorros confiscados y devaluados, una
vez abandonada la convertibilidad. No obstante, en este escenario tiende
a diluirse ese otro desborde constitutivo del ojo mismo del huracán que
merece ser estudiado: la sucesión de saqueos que atravesó la semana
del estallido de la crisis. Entonces deberíamos preguntarnos por qué es
importante estudiar los saqueos de diciembre de 2001. Y frente a esta
pregunta digamos en términos de los estudiosos de la acción colectiva
(TARROW, 1997; TILLY, 2003) que la crisis es inescindible de ese proceso de
activación de la protesta social que nos ubica en la parte “alta” del “ciclo”
de la acción colectiva. Pero aún así lo más importante de este fenómeno no
es tanto el ingreso en ese tramo alto de la acción como la modalidad que

165
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

ésta toma en clave de una violencia organizada por la vía de los saqueos.
De todos modos, ya hemos visto que esta modalidad de violencia
colectiva no es novedosa en la Argentina de las dos últimas décadas del
siglo XX. Tenemos los antecedentes de 1989-1990 y toda una serie de
ataques violentos contra edificios gubernamentales o cortes de rutas entre
otras expresiones de lo que podríamos llamar puebladas de nuevo tipo,
por contraposición a las del período 1969-1973. Ahora bien, en ninguno
de estos casos funcionó como un ataque masivo y coordinado contra
supermercados y pequeños o medianos comercios de alimentos tal como
ocurriera entre el 14 y el 22 de diciembre de 2001. También la magnitud de
estas acciones y su diversidad geográfica marcaron un distintivo respecto
a los de sus predecesores de una década atrás.
Pero si buscamos indagar en el proceso de incubación de estas
acciones de violencia colectiva así como en sus proyecciones político-
organizativas debemos remitirnos, una vez más, a la situación de exclusión
social de la década del noventa. Con esto me refiero al crecimiento
exponencial del fenómeno de la desocupación con el concomitante ingreso
de vastas franjas de la población en situaciones de pobreza e indigencia
y también al crecimiento de las referidas organizaciones piqueteras y
de trabajadores desocupados. Ya en el último quinquenio de la década,
las modalidades de acciones de protesta como el piquete, el corte de
rutas o avenidas, las marchas de desocupados a centros comerciales o
hipermercados para negociar el reparto de alimentos o los mecanismos que
tomaron las políticas sociales en lo que respecta a la concesión de planes
sociales por parte de punteros políticos está en la base de unas situaciones
de tensión social y política sobre las que operaron las organizaciones de
desocupados.
Sólo a partir de considerar estos antecedentes podemos
comprender cómo operó la activación de las acciones de protesta a
partir del desborde de la tensión social, el descontrol de la economía

166
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

y el deterioro de la situación política del gobierno de la Alianza16. Así, en


términos de Tarrow, sostenemos que en diciembre de 2001 había cambiado
radicalmente la estructura de oportunidades políticas a favor de la acción
colectiva en clave violenta. Esto quiere decir que ya eran enteramente
visibles las disidencias y rupturas en las altas esferas del gobierno, lo que
supuso tanto el debilitamiento y las disensiones dentro del oficialismo
como los desentendimientos entre oficialismo y oposición. En este sentido
también podía percibirse cierto debilitamiento en las barreras represivas,
sea por el propio desmoronamiento político del gobierno nacional como
por algún tipo de colaboración directa o indirecta por parte del peronismo
gobernante en la mayoría de los estados provinciales y de los municipales.
Por último, acabaron siendo claves tanto el fortalecimiento operativo de
las propias organizaciones sociales y barriales como el apoyo de aliados
influyentes que ampararon, facilitaron o rebajaron el costo del despliegue
de las acciones de violencia colectiva como podría ser la sospechosa
pasividad de las policías provinciales -en particular la bonaerense- frente
a los saqueos.
Lo que la teoría de la acción colectiva nos sugiere es que aún las
acciones de violencia colectiva que aparecen como puro desborde tienen
relaciones de sentido. Con ello nos referimos a los aspectos organizativos
que las acciones de este tipo suponen en medio de situaciones caóticas
y sumamente críticas. La forma en que convergen los factores antes
señalados nos hablan de las formas que adopta la violencia colectiva para
alcanzar su “éxito” operativo. Por último, cabe agregar que en el análisis
sociológico de los saqueos como tipología de violencia colectiva suele
primar, tal como lo hace el agudo trabajo de Auyero, el cómo sucedieron las
acciones casi disociado del contexto del por qué, buscando en ese cómo
respuestas que construyan el por qué.
En este sentido, es interesante analizar la hipótesis que plantea y
defiende Auyero en lo que respecta a la existencia de una zona gris, entendida

16 Alianza UCR y FREPASO, coalición electoral triunfante en los comicios presidenciales de


1999.

167
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

como una región concreta del espacio social y político en la que convergen,
negocian y actúan aquellos que de una u otra forma desarrollan acciones
violentas y los que, por su función, deberían impedirlas o combatirlas.
En el caso que nos ocupa, la zona gris es ese área del espacio político-
social en la que interactúan punteros y dirigentes políticos de diversas
jerarquías, policías y base social a partir de situaciones sociales de escasez
o necesidad en materia de bienes públicos y privados. Así, para el análisis
de los saqueos de 2001, con epicentro en lo ocurrido en el denominado
conurbano bonaerense, Auyero subraya el papel desempeñado por los
punteros políticos -legitimados como tales a partir de la capacidad que
fueron adquiriendo en el reparto de planes sociales- para la activación
de la violencia colectiva dado el rol de correa de trasmisión tanto con las
distintas esferas gubernamentales como con las policías:

Lejos de ser “organizadores externos”, los punteros...están


profundamente arraigados en la vida cotidiana de los po-
bres urbanos en la Argentina. Son parte de la vida diaria
de la comunidad. Pero también participan en actividades
menos habituales, como por ejemplo los saqueos, entre
otras. [...] Éstos ilustran también las conexiones (por lo
general ocultas) que unen a activistas partidarios y miem-
bros de la fuerza policial (AUYERO, 2007, p. 145).

Sin quitarle relevancia explicativa en el análisis de los saqueos


a esa zona gris, considero necesario matizar su fuerza explicativa. En
otras palabras, si colocamos un acento excesivo en este entramado de
vinculaciones entre policías, punteros y saqueadores con los segundos
como articuladores y cuasi organizadores de la acción, corremos el riesgo
de abonar una muy difundida teoría conspirativa que pretende explicar la
crisis de 2001 y la renuncia de De la Rúa a partir de una suerte de golpe
de Estado forjado por la estructura del peronismo bonaerense. Esta
explicación de neto corte politológico acaba ocultando el trasfondo mismo
de la crisis, su propia estructura; es decir, una situación de deterioro social
por sí misma explosiva, que se pone de manifiesto en la ya referida tasa
de desocupación superior al 20%, cuyo único paliativo eran los planes

168
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

sociales de emergencia que provenían de provincias y municipios, ya que


no existía una cobertura federal de tipo universalista. En este sentido,
encuentro apropiadas las reflexiones realizadas en diciembre de 2001 por
el entonces ministro de Trabajo de la provincia de Buenos Aires, Aníbal
Fernández, al sostener que desde la provincia se procuró hacer frente a
la explosión que se veía venir incrementando el reparto de alimentos e
inclusive pagando anticipadamente los subsidios de desempleo, pero,
como el propio funcionario relata “...estábamos haciendo esto en el nivel
provincial, mientras el gobierno federal se achicaba, estaban cortando,
cortando, cortando... y se venía el quilombo” (AUYERO, 2007, p. 152).
Nuevamente, esta hipótesis no es incompatible con la incidencia
de esa zona gris y el posible rol articulador de los punteros, aunque se
coloque el acento en el manejo -o desmanejo- político de la crisis. El propio
Aníbal Fernández al negar que el gobierno bonaerense conspirara para
derrocar al presidente no descarta el rol de los servicios de inteligencia
federales para deslizar la crisis hacia la vereda del peronismo bonaerense.
Del otro lado, en apoyo a la “fabricación de un golpe de Estado contra De
la Rúa” tenemos los argumentos del referente piquetero de la organización
Federación de Tierra y Vivienda -por cierto, opositor al gobierno y a partir
de 2003 alineado en la coalición kirchnerista-, aunque en sus declaraciones
no minimiza en absoluto la relevancia de la crisis social y económica.
Sea como fuere, estas teorías conspirativas no nos ayudan
demasiado a comprender la profundidad de la crisis de 2001. Además,
si hubieran habido deliberados propósitos conspirativos por parte de la
oposición peronista tampoco habrían faltado operaciones de inteligencia
por parte del gobierno nacional en sentido contrario como bien lo sugiere
Aníbal Fernández, por lo que nos colocaríamos en un escenario de “guerra
de operaciones”. En cualquier caso, poco importa la guerra conspirativa o
de servicios porque el desmoronamiento del sistema social y económico
forjado en un cuarto de siglo ya era una realidad insoslayable.

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

EPÍLOGO

Poco más de veinticinco años bastaron para que el sistema político,


el modelo económico y los acuerdos básicos que hacen a la convivencia
social estallaran por los aires. En este sentido, basta dar cuenta del vacío
de poder que se generó a partir del 20 de diciembre de 2001 con la forzada
renuncia de De la Rúa, rendido frente a la contundencia de la presión
social y la inoperancia misma de la represión dispuesta en el marco del
Estado de sitio. Frente a esta situación, un Congreso nacional en manos
de la oposición justicialista aceptaba esa renuncia y -dada la ausencia
de vicepresidente- asumía la titularidad provisoria del Poder Ejecutivo
Nacional el presidente provisional del Senado, Federico Ramón Puerta.
En esta instancia se convocaba, en aplicación de la Ley de Acefalía, a una
Asamblea Legislativa que el día 23 consagraba presidente al entonces
gobernador de San Luis, Adolfo Rodríguez Saa. La dimensión de la
crisis, que conllevó la declaración de default externo, devino en una falta
de acuerdos dentro del propio justicialismo que llevó a la renuncia de
Rodríguez Saa apenas una semana después de haber asumido. Entonces
se hacía cargo interinamente del Poder Ejecutivo Nacional el presidente
de la Cámara de Diputados, Eduardo Camaño, dada la renuncia de Puerta,
hasta entonces presidente provisional del Senado. Por último, una nueva
Asamblea Legislativa consagraría presidente interino al entonces senador
justicialista por la provincia de Buenos Aires, Eduardo Alberto Duhalde.
La inestabilidad política que desencadenó el estallido social del 19
y 20 de diciembre apenas dejaba traslucir la profundidad de la convulsión
acaecida. En rigor de verdad, lo que había estallado por los aires era el propio
pacto social post dictadura encarnado en el nuevo Estado de derecho de
1983 con la democracia recuperada y que los dieciocho años transcurridos
no habían logrado consolidar. En otros términos, una mayoría de edad
democrática ahora deglutida por el propio estallido. Un país quebrado,
desmantelado, socialmente devastado, que se encontraba al borde de una
posible guerra o conflicto civil de magnitud.

170
CAPÍTULO 3 | Política y violencia en la Argentina del último tercio del siglo XX

Si para 1976 la Argentina se debatía en una situación de violencia


genocida frente a la imposibilidad de resolver la dominación política por
la vía de los acuerdos, la cooperación y el consenso y donde la práctica
revolucionaria se validaba frente a la dominación autoritaria, el estallido
de 2001 mostraba a un país sumido en una explosiva violencia social. El
terrorismo de Estado y el accionar genocida de la última dictadura habían
sentado las bases de un quiebre social, de un modelo de devastación
nacional y ahogo de los anhelos propios de un modelo social ascendente
para los sectores populares cuya agonía atravesó la recuperación
democrática. Entonces el final del túnel llegó y el futuro devino presente
-emulando al Facundo de Sarmiento- en clave de guerra social. Una guerra
social que, tal como parecía predecir Sarmiento en los albores de nuestra
vida independiente citando a Lerminier, «... ce sont des hordes nouvelles qui
viennent se jeter dans la société antique avère une complète fraîcheur des
mœurs, d’âme et d’esprit...» (SARMIENTO, 1961, p. 129). En fin, los procesos
sociales y políticos que se fueron modelando con la salida de la crisis nos
dan un indicio de que aquellas hordas, aquella violencia social explosiva
no carecieron de sentido y, por el contrario, acabaron perfilando nuevos
consensos, nuevos acuerdos sociales.
Lo cierto es que recién en el escenario político posterior al
estallido de 2001, tanto los criminales de la dictadura genocida como
en el orden socioeconómico las devastadoras políticas neoliberales del
FMI, el BM y el Consenso de Washington con sus Programas de Ajuste
Estructural se colocaban definitivamente en el banquillo de los acusados.
Y nuevas políticas públicas junto a renovadas prácticas políticas y sociales
comenzaron a desarrollarse retomando y reactualizando parte de los
postulados de liberación nacional y social de comienzos de la década de
1970. No obstante, la revancha de los acusados y sus efectos narcóticos
sobre nuestras sociedades post-modernas permanecen al acecho y hasta
con posibilidades de éxito.

171
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

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175
4
Capítulo
PACTO E VIOLÊNCIA
POLÍTICA NA VENEZUELA
DE PUNTO FIJO (1958-1998)

INTRODUÇÃO
Anatólio Medeiros Arce

Em 1958, os líderes dos partidos Ação


Democrática (AD), Comitê de Organização Político-
Eleitoral Independente (Copei) e União Republicana
Democrática (URD) firmaram o Pacto de Punto Fijo1.
Este acordo suprapartidário buscava garantir o
respeito ao resultado das eleições presidenciais de
dezembro daquele ano e rechaçar o uso das Forças
Armadas para destituir presidentes. Construído pela
elite partidária venezuelana, o Pacto vigorou de

1 Assim denominado por ter sido assinado da residência Punto


Fijo, pertencente à família de Rafael Caldera (Copei), um dos
apoiadores do Pacto.
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

1958 a 1998 e durante décadas foi considerado a ‘gênese’ da democracia


venezuelana. Mas, ao longo do tempo, tornou-se uma forma dos partidos
AD e Copei se manter no poder.
Nestes quarenta anos, instituições relativamente democráticas
e eleições relativamente competitivas convieram com a persistência de
um exercício autoritário de poder, marcado pela continuidade do uso
da violência como uma forma dos partidos AD e Copei enfrentar seus
adversários, ou seja, o Partido Comunista da Venezuela (PCV) e a guerrilha,
formada por dissidentes dos partidos e grupos rebeldes que optaram pela
luta armada como forma de ascensão ao poder.
Além das perseguições ao PCV e o enfrentamento da guerrilha, a
violência política na Venezuela de Punto Fijo também era percebida nas
constantes suspensões às garantias constitucionais em momentos de
distúrbios e na ocupação, pelos militares, de bairros populares e universidades
venezuelanas. Tudo isso poderia ser agregado ao ‘desaparecimento’ de
adversários do regime, as torturas e mortes ocorridas nos centros de
detenção, a censura à imprensa e, principalmente, à manutenção de uma
aparelhagem responsável por reprimir e intimidar os críticos.
Nestas quatro décadas, a violência política atuou em duas frentes.
Nas duas primeiras, o foco estava no combate ao comunismo e no rechaço
à Revolução Cubana, por meio do enfrentamento armado com a guerrilha e
na perseguição aos membros dos partidos ou grupos políticos alinhados ao
marxismo-leninismo. Nas duas últimas, o combate à guerrilha deixa de ser
uma prioridade e o regime passa a atuar violentamente na repressão aos
distúrbios sociais que culminaram no Caracazo de 1989.
Este acontecimento tem sido importante à análise da história
contemporânea da Venezuela, pois, ao desnudar a crise estrutural do Pacto,
debilitou um de seus sustentáculos: a submissão dos militares a autoridade
civil. Em um país com amplo histórico de violência e predominância dos
militares na política, as tentativas de golpe de Estado em 1992 viabilizaram
a ascensão de uma nova liderança: o tenente-coronel Hugo Chávez, militar
insurgente e portador de uma retórica calcada na ‘refundação’ da República

178
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

e na defesa da violência como uma forma aceitável de participação das


massas na política.
Este capítulo se fundamenta em livros e artigos escritos por autores
que estudaram o fenômeno da violência política na Venezuela e em fontes,
produzidas no período de 1958 a 1998, recolhidas na Hemeroteca Nacional,
pertencente à Biblioteca Nacional da Venezuela, a exemplo de panfletos,
artigos jornalísticos e demais documentos públicos.
O texto está dividido em três itens. No primeiro faz-se uma breve
incursão na história venezuelana. Aponta-se a violência política como
marcante característica em sua trajetória. No segundo, destaca-se como
a formação do Pacto de Punto Fijo foi incapaz de diminuir o papel ocupado
pela violência na política, apesar de ter sido considerado o momento da
construção de um sistema democrático na Venezuela. Por fim, o terceiro
item analisa seu declínio, provocado pela crise econômica iniciada na
década de 1980, responsável por desencadear os distúrbios sociais de 1989
e incrementar a violência política. Da crise surge Hugo Chávez, liderança
que agregou o descontentamento popular, ao ascender à presidência, em
1998, com a proposta de refundar a República e promover o retorno do
protagonismo militar na política.

VIOLÊNCIA E LUTA POLÍTICA NA HISTÓRIA DA VENEZUELA

A história da humanidade é marcada pelo uso da violência como


uma estratégia nas disputas envolvendo o poder e controle do Estado. As
formas de manifestá-la se modificou e se sofisticou ao longo do tempo,
porém, sua finalidade na política e de todo o aparato que a sustenta se
manteve com os mesmos propósitos: alcançar e/ou se manter no poder.
Para Stoppino (1998), o conceito de violência está intimamente ligado à
política e, principalmente, ao poder e ao Estado, pois desempenha um
papel fundamental devido a eficácia das sanções físicas. O objetivo é, na
maioria das vezes, destruir os adversários para impossibilitá-los de reagir.

179
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Portanto, está na natureza do poder político se ancorar na violência como


uma forma de obter consenso (STOPPINO, 1998, p. 1291-1298).
Todas estas características também estão presentes na realidade
política da Venezuela. Nesse país, a violência desempenhou uma função
estratégica nas lutas pelo poder desde o período colonial, situação
intensificada após a Independência em razão do vácuo deixado pelo fim
do regime monárquico. Há uma relação entre os conceitos de violência e
luta política que se fundamenta além da díade Estado-sociedade, calcada
no Estado como o detentor do monopólio legítimo da violência, tal como a
literatura da sociologia atribui a Max Weber (WEBER, 2004). Na Venezuela,
a violência foi utilizada pelos grupos políticos como uma eficaz estratégia
de ascensão e permanência no poder. As constantes e abruptas derrubadas
de presidentes após a Independência formou um cenário político marcado
pela instabilidade e volatilidade.
Durante o período colonial, o processo de conquista pelos
espanhóis se ancorou no uso da violência contra os povos indígenas que
habitavam a região onde mais tarde se formaria o território da Venezuela.
Nos primeiros séculos, descritos como audaciosos em razão do rude esforço
dos desbravadores/colonizadores, a violência até poderia ser prescindível.
Mas, ao mesmo tempo, ela era descrita como necessária na sangrenta
luta em busca da paz (SALCEDO-BASTARDO, 1982, p. 47), desejada pelo
conquistador e justificada pela retórica da chamada guerra justa. Havia um
aparato sustentado por inúmeras formas de dominação e de submissão
mantidas por meio da violência, tais como a servidão, o banimento, o
degredo e a escravidão, essa última abolida oficialmente apenas em 1854,
com o pagamento de indenização aos donos de escravos.
O uso da violência desempenhou um papel igualmente importante
na conquista da Independência. A Metrópole e seus partidários na colônia
não aceitaram passivamente os Atos e Decretos que oficializaram a
emancipação política em 1810 e reagiram ao longo de mais de 13 anos
de sangrentas batalhas. A mais conhecida delas, a Batalha de Carabobo,
travada no campo de Carabobo em abril de 1821, foi curta, porém sangrenta
e teve mais de mil mortos (SALCEDO-BASTARDO, 1982, p. 250).

180
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

Entre 1810 e 1823, a violência foi um recurso utilizado tanto por


partidários da Metrópole quanto pelos da Independência. Execuções,
pilhagens e estupros eram praticados por ambos os lados como uma forma
de debilitar o inimigo, ou forçar uma tomada de posição de quem estivesse
indiferente ante o processo.
Simón Bolívar, o general das guerras em favor da Independência
que seria agraciado com o título de El Libertador, exercia seu domínio por
meio da violência, representada pelo uso simbólico de sua espada. Em 1813,
expediu um decreto, conhecido como Decreto da Guerra de Morte, em que
condenou a fuzilamento todo o espanhol que se recusasse a pegar em
armas contra a Metrópole (BOLÍVAR, 1813, p. 24).
Por outro lado, a história indica que Bolívar não conheceu apenas a
glória. Nestes momentos de infortúnios, a violência também dominou a ação
política. Entre 1814 e 1815, Bolívar e seus comandados foram derrotados pelas
tropas de José Tomás Boves, comandante de um contingente de llaneros,
assim denominados os habitantes dos llanos venezuelanos, conhecidos
por serem rústicos e pobres, além de serem indivíduos racialmente
identificados como pardos, negros e indígenas (SALCEDO-BASTARDO,
1982, p. 246-247). Quando os ‘homens de Boves’ dominavam uma cidade,
povoado, vila ou fazenda, as saqueavam, matavam os homens e estupravam
as mulheres. Foram inúmeras e sangrentas as batalhas que Boves travou.
Em 1816, chegou a exercer um brevíssimo domínio sobre Caracas. Porém,
em outubro do mesmo ano foi morto, supostamente atravessado por uma
lança (MORON, 1974, p. 291-292). O exército de Boves somente foi contido
pela ação de outro comandante llanero partidário da Independência, José
Antonio Páez, que também exercia domínio pela violência.
O desaparecimento físico de Bolívar permitiu à elite venezuelana
consolidar o processo de separação da Colômbia em 1831. O general
Páez se tornaria o presidente, comandante do exército e uma das figuras
políticas mais influentes por algumas décadas. Entretanto, Páez teve que
lidar com as disputas envolvendo os interesses dissonantes dos generais
que haviam lutado pela Independência, além de enfrentar a resistência dos

181
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

caudilhos locais em se submeterem à Caracas. A reconstrução econômica


do país na década de 1830 foi acompanhada pela persistência da violência
em razão destes focos revolucionários no interior. Isso fez da Venezuela
um território permanente de lutas intestinas entre o governo nacional e os
caudilhos locais. O cenário de instabilidade permitia a violência se sobrepor
a outras formas de luta política.
José Páez conseguiu eleger um sucessor, o prestigiado médico José
Maria Vargas, um civil, que tomou posse em fevereiro de 1835. Entretanto,
isso desagradou alguns militares. Eles não se conformavam com um
presidente civil e reagiram violentamente. Detiveram o presidente e o
forçaram a deixar o poder. Páez tentou reunir um exército para restituir
Vargas com o argumento de restabelecer a ordem constitucional, mas não
obteve sucesso. As hostilidades foram superadas em 1836 quando Páez
assumiu novamente o poder de forma provisória e anistiou os rebeldes
(MORON, 1974, p.373-387).
Aunque los gobiernos de la Oligarquía Conservadora tam-
bién estuvieron sujetos a las prescripciones constitucio-
nales y actuaron con sentido nacional, fue siempre la pre-
sencia del caudillo Páez la que ejerció un poder regulador,
aplacando a los militaristas y sometiendo a los ambiciosos
(MORON, 1974, p. 385).

Situações como esta, ou seja, saídas apressadas e violentas de


presidentes se tornariam corriqueiras na Venezuela do século XIX. As
rivalidades e divergências entre as facções militares e grupos partidários
incrustados no que se poderia denominar de Forças Armadas2 levaram a
Venezuela a um cenário de permanente guerra civil. Um destes conflitos, a
Guerra Federal, durou de 1858 a 1863 e praticamente destruiu a economia
nacional, fazendo com que a população fosse reduzida significativamente.
Estima-se que cerca de 350 mil pessoas morreram durante a guerra
(SALCEDO-BASTARDO, 1982, p. 380).

2 De acordo com Rouquié & Suffern (2009, p. 199-201), na maioria dos países latino-america-
nos, foi somente no começo do século XX que se tornou institucionalizada a formação de
oficiais de carreira, por meio de instituições militares (escolas e academias) responsáveis pela
instrução de quadros profissionais.

182
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

Os motivos do conflito eram as disputas envolvendo a oligarquia


dirigente, formada pelos donos de terras e comandada por José Páez,
contra os caudilhos federais (ou federalistas), grupo composto por
profissionais liberais e pequenos comerciantes e representada por
Antonio Guzmán Blanco, Juan Crisóstomo Falcón e Ezequiel Zamora. Os
federalistas reivindicavam maior autonomia às províncias para diminuir a
influência de Páez e seu grupo centralizador no comando da Venezuela. As
hostilidades entre ambos os grupos levaram o país mais uma vez à guerra
civil. Igualmente em outros momentos, neste conflito a violência permeou
a estratégia de luta de ambos os lados. Assim descreve Salcedo-Bastardo:

Ezequiel Zamora, el de la violencia inclemente, el experto


en el uso del “gallito de candela” – ingeniosa tea voladora,
señaló el camino; su sed de recónditas venganzas, unas
cuantas ideas primarias de redención social y de justicia
simple, su popularidad y firmeza, animan su presencia ac-
tiva al frente de la guerra (SALCEDO-BASTARDO, 1982,
p. 380).

As hostilidades entre ambos os grupos terminariam de fato apenas


em 1870 com a subida ao poder de um dos líderes do exército federalista,
o general Antonio Guzmán Blanco, e a saída definitiva da cena política do
prócer José Páez, que se exilou nos Estados Unidos.
Guzmán Blanco instalou uma ditadura personalista, mas
modernizante em razão da construção de estradas de ferro e melhorias
de portos por meio de empréstimos estrangeiros3. O general governaria
direta e indiretamente até 1888. Era um autocrata e agia no poder como
se estivesse em uma monarquia absolutista (MAZA ZAVALA, 1988, p. 245).
Nestes quase 20 anos de mando, combateu aproximadamente setenta
focos insurgentes, o que caracterizava a persistência de uma situação de
guerra civil. Guzmán Blanco reagiu fortemente aos opositores e fuzilou
praticamente todos os seus líderes (SALCEDO-BASTARDO, 1982, p. 383).

3 Embora a Venezuela tenha conhecido transformações econômicas positivas no período ‘fede-


ralista’ pós-1870, há autores que relativizam esta visão: “Em que contribuiu a Federação para o
desenvolvimento da nação venezuelana? Efetivamente, pouca coisa, sobretudo se se leva em
conta seu elevado custo em vidas e recursos materiais” (MAZA ZAVALA, 1988, p. 241).

183
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

O processo de afastamento de Guzmán Blanco do poder foi


marcado pela violência em razão da insurgência de seus antigos apoiadores.
Não haviam regras muito eficientes, o que provocava um vácuo no poder
e aumentava a instabilidade política. A Venezuela permanecia incapaz de
promover uma transição de governos pacificamente.
No entanto, a luta pela presidência se concentrou em torno dos
generais Joaquín Crespo e José Manuel Hernández. Ambos sustentavam
posições diferentes, sendo que o último, também conhecido como El mocho
Hernández, se autodenominava um “liberal-nacionalista”. Crespo arrebatou
a presidência de fato e governou de 1892 a 1897. Porém, acusações de
fraudes eleitorais e a pouca confiança depositada nos escrutínios não
secretos daquele período fizeram com que os descontentes optassem por
se insurgir militarmente contra Crespo (DEAS, 2008, p. 279).
O questionamento de sua liderança também era provocado pela
queda nos preços do café no mercado internacional. Esse motivo pôs a
economia venezuelana, já debilitada pela dura realidade de guerra civil,
em colapso. Sendo assim, a popularidade de El mocho crescia no interior
do país, ao alternar sua estratégia de ação entre campanhas eleitorais
e levantes armados. Joaquín Crespo foi morto em combate com um tiro
no coração em abril de 1898, mais precisamente na Batalha de La Mata
Carmelera. Ele enfrentava as tropas de El Mocho, que se recusavam a
aceitar sua autoridade e não reconheciam a eleição de Ignacio Andrade
(apoiado por Crespo) à presidência da República (DEAS, 2008, p. 280).
Em razão dos acontecimentos descritos acima, o século XIX
venezuelano do pós-Independência é denominado pela historiografia de
la violencia. O ‘caos’ intermitente que tomou conta do país – em razão das
inúmeras guerras e revoluções armadas – era a forma mais usual da elite
política e militar resolver suas diferenças no âmbito do poder. No século
XX, a situação de violência persistiu. Porém, este fenômeno sofreu um
processo de institucionalização, profissionalização das forças de segurança
e a derrota dos caudilhos locais, por meio da forte centralização do poder
estatal.

184
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

A morte do general Crespo em combate iniciou um novo ciclo de


guerras civis pelo domínio do poder na Venezuela que terminaria em 1903.
Destes conflitos, surge a denominada Revolução Liberal Restauradora.
O país foi sacudido por guerras, as quais marcaram o início de domínio
no cenário político dos generais Cipriano Castro e Juan Vicente Gómez.
A historiografia conferiu características ‘épicas’ a Revolução Liberal
Restauradora, pelo fato destes generais ter liderado tropas formadas
improvisadamente, escassamente armadas, mas que cresciam com a
adesão de prisioneiros e ‘traições’ ocorridas nas fileiras inimigas (MAZA
ZAVALA, 1988, p. 250).
Sendo assim, as tropas lideradas por Castro e Gómez conseguiram
tomar o poder em 1899, tornando-os presidente e vice, respectivamente.
O governo Castro consolidou o domínio dos militares oriundos da região
andina da Venezuela (estados Táchira, Lara, Mérida, Trujillo e Barinas). O
presidente e seu vice haviam nascidos nesta região. Até 1958, os militares
vindos da parte andina do país dominariam a política venezuelana e
ascenderiam de patente de forma mais rápida.
Cipriano Castro teve que vencer seus inimigos antes de se
consolidar no poder. Mas, eles não eram apenas venezuelanos. As
dificuldades financeiras da República levaram-no a suspender o pagamento
de dívidas contraídas por outros governos. Isso desagradou os credores. Em
dezembro de 1902, uma esquadra de sete navios ingleses e quatro alemães
foi enviada à Venezuela. Os fortes Libertador e Vigia em Puerto Cabello
foram bombardeados e posteriormente bloqueados pela esquadra. A
imprensa venezuelana apoiou o presidente, pois considerava o bombardeio
e o bloqueio uma intransigência. Parte da imprensa estrangeira também
considerou o envio de uma esquadra algo demasiadamente enérgico, mas
a contenda foi resolvida somente por meio da mediação do presidente
norte-americano Theodore Roosevelt (STUART, 2011, p. 33-52).
Internamente, Castro teve que lidar com revoluções armadas.
O general El Mocho fez um acordo com Castro e jurou apoiá-lo, algo
determinante para reverter a situação em favor do presidente. No entanto,

185
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

haviam outros descontentes, dentre eles o general Manuel Matos, que


também era banqueiro e contava com o apoio do governo colombiano. Em
1903, no que ficou conhecida como a “Revolução Libertadora”, uma tropa
de 10 mil homens foi formada com o propósito de atacar Caracas, destituir
Castro e retomar o pagamento dos credores internacionais. Entretanto, o
presidente reagiu energicamente e esmagou o movimento (STUART, 2011,
p. 53-56).
Tanto o bloqueio anglo-alemão quanto os rebeldes da “Revolução
Libertadora” foram derrotados, mas o questionamento da liderança de
Castro e as cisões entre seus apoiadores não haviam sido superadas. Em
1908, ao se ausentar da Venezuela para tratamento médico na Alemanha,
ele foi destituído por um movimento militar liderado pelo vice-presidente,
o general Juan Vicente Gómez. Os rebeldes baniram Castro, o impediram
de regressar à Venezuela e sufocaram qualquer insurgência em favor do
presidente deposto.
Gómez governou o país de fato por 27 anos, entre 1908 e 1935
quando faleceu. Neste período, exerceu um domínio quase absoluto na vida
política nacional. Ou seja, obteve êxito em perseguir, encarcerar, fuzilar e
exilar seus inimigos. “Nenhum outro governo latino-americano reprimiu de
maneira tão implacável seus inimigos no plano interno e vigiou-os tão de
perto no exterior” (DEAS, 2008, p. 285). Havia uma forte repressão do regime
para se contrapor às tentativas de derrubada do poder e as conspirações
ocorridas ao longo de 27 anos. Entre 1914 e 1915, o regime combateu três
rebeliões armadas, todas elas derrotadas e seus líderes e partícipes foram
assassinados. “A máquina militar, policial e política de Gómez demonstrava
sua eficácia com implacável consistência” (MAZA ZAVALA, 1988, p. 262). A
prisão de La Rotunda era o local onde se praticavam as mais abomináveis
práticas ditatoriais, como torturas e execuções, sendo fechada somente
em 1936 após a morte do ditador.
A era Gómez também foi marcada por uma grande transformação
na estrutura social venezuelana em razão do começo da exploração
petrolífera. O desenvolvimento proporcionado pelo petróleo e seus

186
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

dividendos permitiu ao ditador praticamente eliminar o poder dos caudilhos


locais. Eles haviam viabilizado sua influência por meio da posse das terras
agricultáveis. Mas, com a introdução do petróleo na economia nacional, o
café e o cacau (principais produtos da economia desde o período colonial)
perderam importância na cadeia produtiva e seus produtores influência
para os executivos das petrolíferas. Sendo assim, Gómez pôde eliminar
este ator muitas vezes incômodo àqueles que estavam no poder.
A combinação de forte repressão e desenvolvimento econômico
com modernização foi um dos principais motivos para Gómez se tornar
o presidente que mais tempo ficou no poder na história da República.
Todavia, isso não significou que seu regime tenha eliminado toda forma
de resistência. A modernização econômica provocou a urbanização do
país. Ao mesmo tempo em que o petróleo enriquecia um grupo restrito
de pessoas próximas ao presidente, formou-se um pequeno proletariado
de trabalhadores da indústria petroleira. Na década de 1920, este grupo
se tornou um ator político relevante, ao lado de militares ‘reformadores’
e estudantes universitários, motivo que levou a Universidade Central da
Venezuela a ser fechada em diversas oportunidades (MAZA ZAVALA, 1988,
p. 263).

Na data do centenário da morte do Libertador (Bolívar), 17


de dezembro de 1930, deu-se uma manifestação popular
pelas ruas de Caracas reivindicando a liberdade dos pre-
sos políticos, que foi dissolvida a balas diante dos muros
de La Rotunda com saldo de mortos e feridos” (MAZA ZA-
VALA, 1988, p. 274).

O regime estava em alerta. Dois anos antes (1928) houve uma


tentativa de derrubar Gómez mediante um golpe com participação militar
e uma conspiração de cadetes foi sufocada, com seus líderes encarcerados
e exilados. Entre os rebeldes havia filhos de militares próximos a Gómez, o
que indicava a existência de um conflito geracional nas Forças Armadas. Até
1928, os movimentos rebeldes foram neutralizados rápida e energicamente,
pois o regime era repressivo e exercia forte controle sobre os sindicatos

187
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

de trabalhadores e organizações estudantis (EWELL, 2002, p. 301-305).


Mas, na década de 1930, com a economia impactada pela crise de 1929,
o regime começou a envelhecer junto com seu ditador. Os complôs para
retirá-lo aumentaram e não vinham apenas de inimigos disfarçados. Em seu
séquito, muitos cobiçavam a presidência.
Em 17 de dezembro de 1935 o ditador faleceu de causas naturais.
Tinha 78 anos, idade avançada para a época. A morte de Gómez era um
acontecimento politicamente ruim, em razão das violentas disputas pelo
poder que se intensificariam a partir de seu sepultamento. A Venezuela
possuía um histórico de violentas disputas pelo poder que se acirravam
em períodos de transição. Salcedo-Bastardo sintetiza esta característica
da seguinte forma: “Desde 1830 a 1935, no hay en Venezuela ni siguiera un
solo lustro continuo de paz estable” (SALCEDO-BASTARDO, 1982, p. 377).
Gómez não chegou a indicar um sucessor. Também não estabeleceu
critérios para a escolha e o sistema político da época não privilegiava os
partidos. Ao contrário, os proibia de existir e os vinculava às velhas estruturas
caudilhistas do século XIX4. Sendo assim, o presidente foi escolhido entre
os generais mais antigos e o indicado foi Eleazar López Contreras, ministro
da guerra e marinha. Enquanto era empossado em janeiro de 1936, a
polícia e o Exército reprimiam fortemente as manifestações populares,
desencadeadas em Caracas em virtude das incertezas provocadas pelo
descenso do ditador. A mesma estratégia foi usada em relação as greves e
aos incêndios em campos petrolíferos (EWELL, 2002, p. 306).
Em 1937, López Contreras adotou medidas restritivas que impediam
a formação de partidos políticos e forçou o exílio daqueles que julgavam seus
inimigos. Criou por decreto a Guarda Nacional, Quarta Arma da República

4 A formação de partidos políticos na Venezuela teve início no século XIX, logo após a Indepen-
dência. Haviam duas agremiações: Liberais e Conservadores. Segundo Chacín (2015), neste
período, eles tinham estruturas personalistas, pois gravitavam em torno dos caudilhos locais,
possuindo bases ideológicas carentes. Porém, após a saída de Guzmán Blanco (1888), esta
estrutura partidária entrou em declínio e começou a ser combatida nas ditaduras de Castro
(1899-1908) e Gómez (1908-1935). Neste período, as disputas pelo poder ocorriam no âmbito
das Forças Armadas e os militares dominavam a indicação aos cargos públicos em todo o país
(CHACÍN, 2015, p. 93-108).

188
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

(junto com Exército, Armada e Força Aérea) com a finalidade de manter a


ordem dentro do território nacional e garantir a segurança das instituições
do Estado. Com o propósito de restringir as liberdades individuais, o
governo promulgou a Lei Lara, que formalizou a tendência repressiva do
regime, ao conferir poderes ditatoriais no tocante a manutenção da ordem
pública (MAZA ZAVALA, 1988, p. 287). Entretanto, o regime não chegava
a ser tão repressivo como o de Gómez. Havia a necessidade de certa
abertura, mas seria realizada vagarosamente e sem abrir espaços a um
sistema político plural. A proposta inicial de López Contreras era instituir
eleição direta à presidência e permitir a sucessão a um civil. Contudo, esta
ideia foi rapidamente abandonada por pressões de seus colegas militares.
Apesar disso, reduziu-se o mandato presidencial de sete para cinco anos e
se comprometeu a deixar o poder em 1941 (EWELL, 2002, p. 306).
Contreras indicou o general Isaías Medina Angarita como sucessor
que foi eleito indiretamente pelo Congresso em 1941, ao derrotar o
escritor Rómulo Gallegos. Para conter o crescente descontentamento
de estudantes, sindicalistas e grupos de militares, o governo de Medina
Angarita ampliou as concessões políticas estabelecidas por seu antecessor.
Libertou os presos políticos, permitiu a formação de partidos (inclusive os
comunistas com quem cooperou) e criou um partido oficial para o governo,
o Partido Democrático Venezuelano (EWELL, 2002, p. 307), sigla frágil que
desapareceu com o fim do governo em 1945.
Foi neste período que foram instituídos oficialmente os quatro
partidos que dominariam a política venezuelana a partir da década de
1960: Ação Democrática (AD), Comitê de Organização Político-eleitoral
Independente (Copei), União Republicana Democrática (URD) e Partido
Comunista da Venezuela (PCV)5. De acordo com Chacín (2015), eles já
existiam (enquanto grupos políticos) na ilegalidade desde a década de
1920 quando ocorreram as manifestações contra a repressiva ditadura de

5 No próximo item, as bases sociais destas agremiações serão descritas com mais detalhes,
pois se ocupará do momento em que estas legendas exerceram o protagonismo na política
venezuelana.

189
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Gómez. Paradoxalmente, essas concessões enfraqueceram o presidente


Medina Angarita, o que encorajou seus adversários a derrubá-lo. A visão
reformista sustentada pelo regime era insuficiente para conter o ímpeto
daqueles que desejavam mudanças mais rápidas e profundas na política
venezuelana.
A dificuldade em disciplinar os jovens oficiais de baixa patente,
reunidos na União Patriótica Militar (UPM), ruiu a estabilidade do regime
erigido pelos herdeiros de Gómez. O conflito geracional nas Forças Armadas
tornou-se irreconciliável, ao ponto de membros da UPM buscarem apoio de
civis (especificamente o partido Ação Democrática) para uma conspiração
que acabasse com o governo de Medina Angarita. Nem a prisão de alguns
jovens oficiais foi capaz de conter os insurgentes. Em 18 de outubro de
1945, tropas tomaram o palácio presidencial e forçaram a renúncia do
general-presidente.
Diferente de outros momentos históricos, os civis, em especial a
AD, desempenharam um papel fundamental no êxito do golpe de 1945.
Sustentava-se a ideia de que a entrega da presidência a alguém não
fardado permitiria a construção de um sistema político democrático. Esta
experiência foi levada a diante e o poder entregue a Rómulo Betancourt, um
dos fundadores do partido Ação Democrática (AD), que vinha fortalecendo
sua liderança desde os protestos contra Gómez em 1928. Betancourt
manteve os militares partícipes do golpe em postos estratégicos como o
ministério da defesa, entregue ao major Carlos Chalbaud (EWELL, 2002,
p. 310-315).
Entre 1945 e 1948, período conhecido na historiografia como el
trienio, os militares garantiram o domínio civil na presidência. Mas, isso
não significou o fim da violência política. A repressão, as perseguições e as
mortes continuaram. Dirigentes políticos e sindicais que haviam colaborado
com a administração Medina Angaria eram presos, torturados e expulsos do
país. Jornais não ligados ao novo governo foram fechados (MAZA ZAVALA,
1988, p. 299). Ainda assim, o regime conseguiu, em 1947, promulgar uma
nova Constituição. Eleições gerais foram convocadas e o escritor Rómulo

190
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

Gallegos, também pertencente a AD, eleito democraticamente presidente


da República. Tratava-se de uma das poucas mudanças de governo
‘pacíficas’ até aquele momento.
Porém, na Venezuela, qualquer aliança que mantivesse os militares
sob o controle dos civis seria uma experiência nova, portanto, frágil. Eles
haviam passado muito tempo no comando, isso proporcionou dificuldades
a Gallegos se manter no poder. Muitos oficiais o considerava fraco,
complacente com a oposição e pouco repressivo com os movimentos
de trabalhadores. Alguns deles acreditavam que Gallegos fortalecia seu
partido às custas da diminuição de poder das Forças Armadas.
Membros da UPM, que em 1945 haviam comandado o golpe contra
Medina Angarita, voltaram-se contra Gallegos e a AD. O presidente não
teve forças para prender os líderes conspiradores e fez um inócuo chamado
aos trabalhadores. Em 24 de novembro de 1948, os militares derrubaram
Gallegos e instalaram uma Junta-militar comandada pelo ministro da
defesa, Carlos Chalbaud.
A primeira tentativa de instalar um governo democrático na
Venezuela foi curta e abruptamente interrompida. Os partidos políticos e
os sindicatos de trabalhadores ligados a eles foram postos na ilegalidade
e seus líderes forçados a se exilarem. Muitos cidadãos e grupos políticos
apoiaram o golpe por enxergarem naquela oportunidade uma chance de
retorno aos tempos ‘pacíficos’ da repressão gomezcista. Mas, existiam
divisões na Junta-militar instalada em 1948 que provocariam mais
episódios de violência. Chalbaud havia construído sua liderança por meio
do descontentamento dos antigos partidários do trienio. Portanto, se
comprometeu a restabelecer eleições diretas assim que conseguisse o
mínimo de ordem ao país. Porém, isso desagradava alguns de seus colegas.
Em novembro de 1950, houve uma pouco esclarecida tentativa de
sequestro de Chalbaud. O presidente foi assassinado por um grupo armado
que interceptou o comboio presidencial (FOLHA DA MANHÃ, 1950, p. 1).
Um dos líderes da ação, Rafael Urbina, foi preso e morto sob circunstâncias
obscuras. As investigações nunca avançaram, mas as suspeitas recaíram

191
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

sob o general Marcos Pérez Jiménez, a quem supostamente a morte de


Chalbaud beneficiou (EWELL, 2002, p. 319). Pérez Jiménez refutou a tese
de ter se beneficiado com a morte do presidente e negava qualquer tipo de
participação no sequestro. Considerava-se igualmente prejudicado, pois
teria sido ‘obrigado’ a assumir a presidência e negligenciar as reformas
que pretendia implantar nas Forças Armadas. Referia-se ao sequestrador
Rafael Urbina como um vagabundo e negou que ele estivesse agindo a seu
comando (PÉREZ JIMÉNEZ, 1983, p. 97-99).
Contudo, em eleições fraudadas, realizadas em 1952, Pérez Jiménez
se elegeu presidente da República e governou até janeiro de 1958. O general
instalou uma ditadura com características restauradoras do período
de Gómez. Perseguiu seus opositores e reforçou lealdades nas Forças
Armadas. Pôs os partidos AD e PCV na ilegalidade e agiu com igual firmeza
contra a imprensa e os movimentos estudantil e obreiro. Neste período, “a
repressão mais brutal esteve a cargo de um corpo chamado Segurança
Nacional, composto por policiais, desviados mentais e criminosos natos”
(MAZA ZAVALA, 1988, p. 313). Por isso, os Estados Unidos enxergavam no
ditador venezuelano alguém confiável na luta contra os comunistas, ao
justificar a violência nas ações do regime. Durante alguns anos, na década
de 1950, o desenvolvimento econômico conseguiu amenizar o impacto
da brutalidade à imagem do regime. Porém, o preço disso foi alto. Os
estreitos e subordinados vínculos econômicos com os norte-americanos
desagradavam os militares de posições nacionalistas.
Em 1o de janeiro de 1958, aviões militares decolaram da Base Aérea
de Maracay e metralharam o Palácio de Miraflores (sede do governo).
Os militares responsáveis por esta ação foram identificados e presos. O
governo obrigou a imprensa a publicar notas de repúdio à insurgência, mas
estava difícil esconder o descontentamento com a ditadura. Empresários
venezuelanos, outrora entusiastas do regime, começaram a se incomodar
com o incentivo aos investidores norte-americanos, pois o crescimento
econômico beneficiava uma parte restrita da elite corrupta que rodeava
Pérez Jiménez. A população dos bairros se insurgiu contra o regime, por
meio de levantamentos promovidos nas periferias de Caracas. Uma das
residências do ditador na capital foi invadida e saqueada por um grupo de

192
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

pessoas vindas destas localidades, com a conivência de oficiais da guarda


presidencial (ESPINOZA, 2012, p. 105). Por fim, estudantes universitários,
cada vez mais ativos em razão do fortalecimento dos grêmios estudantis,
iniciaram uma série de protestos contra a ditadura.
Em 23 de janeiro de 1958, Pérez Jiménez foi destituído por um
movimento cívico-militar comandado pelo contra-almirante Wolfgang
Larrazábal, ao assumir interinamente o poder com a promessa de convocar
eleições e permitir o retorno dos partidos banidos pela ditadura (EWELL,
2002, p. 323-325). Pérez Jiménez foi o ‘último ditador’ da Venezuela.
Contudo, as práticas ditatoriais, marcadas principalmente pela violência
e cerceamento das liberdades individuais, estavam longe de terminar. A
exemplo do destacado ao longo deste item, a violência praticamente
dominou a história política da Venezuela.
Entretanto, a saída do ditador abriu caminho à uma nova fase. A
partir daquele momento, a governabilidade seria construída por meio da
conciliação e do pacto entre as elites partidárias. Não se tratou de uma
mudança fácil, mas começava-se um período denominado pela historiografia
como Pacto de Punto Fijo. Inovador nas estratégias, mas nem tanto em suas
práticas. A violência continuou a desempenhar um papel fundamental na
realidade política do país, mesmo sendo internacionalmente reconhecido
como uma democracia, conforme demonstra-se o próximo item.

O PACTO DE PUNTO FIJO E A ‘PACIFICAÇÃO’ DA VENEZUELA

A violência política metamorfoseava sua forma de se manifestar


ao longo do tempo. A modernização econômica, ocorrida após a década
de 1920, modificou sua característica. Antes predominantemente rural,
outras formas puderam ser identificadas como a guerrilha e as lutas sociais
urbanas. Estes dois tipos de violência política marcaram os governos
venezuelanos a partir de 1958 (BRICEÑO-LEÓN, 2006, p. 317). Até 1979,
o regime combateu avidamente os grupos guerrilheiros em operação no
país e desmantelou a maioria deles. Com o mesmo afinco, reprimiu os
protestos estudantis e as greves de trabalhadores. Aviões bombardearam

193
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

as montanhas onde se escondiam os insurgentes e tropas ocupavam os


bairros populares das cidades venezuelanas.
Contudo, na visão dos governos deste período, o país havia
sido pacificado. Mas, o que de fato ocorreu foi o desmantelamento das
atividades guerrilheiras por meio da forte repressão do Estado Nacional.
Houve também o enfraquecimento ideológico dos insurgentes em razão
do crescimento econômico obtido pela massiva chegada de petrodólares
na década de 1970. Por fim, o restabelecimento de relações diplomáticas
com Cuba, ocorrido na gestão de Carlos Andrés Pérez (1974-1979), deixou
a guerrilha sem seu principal financiador e inspirador ideológico.
Diferente de outros momentos históricos, após 1958 os governos
venezuelanos conseguiram reduzir as conspirações no interior das Forças
Armadas. Tornaram-na um corpo institucionalizado e isolou-se os oficiais
com postura pretoriana. A Constituição de 1961 consolidou a submissão
dos militares à autoridade civil e não os permitiu votar e nem serem
votados enquanto estivessem na ativa. Ou seja, os militares deveriam
ser os garantidores da ordem e da democracia, sem intervir diretamente
na presidência. Esta estratégia funcionou, pois, “desde o governo de
Betancourt até o começo dos anos 1990, as forças armadas venezuelanas
permaneceram caladas no tocante à política” (ROUQUIÉ; SUFFERN, 2009,
p. 240).
Contudo, todas estas conquistas, exaltadas pelos governos
puntofijistas, ocorreram após uma delicada articulação política, promovida
por três partidos venezuelanos: a União Republicana Democrática (URD),
fundada em 1945, agremiação de linha liberal, personalista e com postura
‘reformista’; a Ação Democrática (AD), formada em 1941, socialdemocrata e
com fortes bases nos sindicatos e campesinos; e o Comitê de Organização
Político-eleitoral Independente, partido democrata-cristão, fundado em
1946 e vinculado às ligas de jovens católicos (CHACÍN, 2015, p. 93-108)6.

6 O Partido Comunista da Venezuela (PCV), formado na clandestinidade em 1931, marxista-le-


ninista e também vinculado aos movimentos estudantil e campesino, foi excluído do Pacto.
Buscava-se, com este alijamento, reforçar o perfil anticomunista do acordo suprapartidário de
1958.

194
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

Em 1958, algumas reuniões foram realizadas em Nova Iorque com


a participação de líderes dos três partidos: Jóvito Villalba (URD), Rafael
Caldera (Copei) e Rómulo Betancourt (AD). Os motivos destes encontros
era a situação política da Venezuela. Com a iminente queda do ditador,
abria-se a possibilidade de formar um pacto suprapartidário, com o apoio
das Forças Armadas, que permitisse a formação de um sistema democrático
com eleições diretas à presidência. Ao regressarem à Venezuela em
outubro de 1958, Villalba, Caldera e Betancourt assinaram um documento
na Residência Punto Fijo em Caracas, propriedade pertencente à família de
Rafael Caldera.
Este é considerado o ‘documento-gênese’ da democracia
venezuelana. Nele, URD, Copei e AD se comprometeriam a estabelecer,
aperfeiçoar e respeitar os princípios democráticos. Isso significava que, a
partir daquela data, todos os planos de governo, elaborados pelos eventuais
candidatos dos partidos pertencentes ao Pacto, deveriam apresentar pontos
em comum, tais como manter as Forças Armadas constitucionalmente
sob o controle civil. Seria considerado um delito contra à pátria intervir,
por meio da força, em governos instalados democraticamente, utilizando
os militares como instrumento (DOCUMENTO, 1958). Começava-se uma
nova fase na história política da Venezuela. A partir daquele momento,
a atuação dos partidos (e não mais das Forças Armadas) comandaria a
vida política nacional (CABALLERO, 2004, p. 148). Mas, a importância do
Pacto não se restringiria a sua dimensão histórica. As metas estabelecidas
eram ambiciosas. Construir uma democracia estável em um país com um
histórico de ditaduras e instabilidade política não seria um processo fácil.
A saída de Pérez Jiménez havia trazido consequências. Ao assumir
o poder em março de 1958, o contra-almirante Wolfgang Larrazábal teve
que agir rápido. Em poucos meses, libertou os presos políticos, permitiu
o retorno dos exilados e sufocou todas as tentativas de golpe de Estado.
Embora não tenha assinado o Pacto, o apoio do contra-almirante foi
fundamental à sua viabilidade.
Os princípios estabelecidos em Punto Fijo foram ratificados no
processo eleitoral de 1958. Haviam 3 candidatos: Larrazábal, presidente

195
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

afastado e apoiado pela URD; Rómulo Betancourt da AD; e Rafael Caldera


do Copei. Os três postulantes sabiam da importância simbólica daquele
pleito. Por isso, em 6 de dezembro assinaram outro documento com o
qual se comprometiam a reconhecer os resultados das eleições, manter a
trégua política, elaborar uma constituição adequada à democracia e, por
fim, transformar as Forças Armadas em um corpo ‘apolítico’ (DOCUMENTO,
1958b).
Rómulo Betancourt venceu as eleições com 49% dos votos. Seu
mandato, de 1959 a março de 1964, teve que lidar com dois grandes desafios:
erigir um novo sistema político-partidário; e lançar as bases do processo de
pacificação que levaria o país a um cenário de paz e estabilidade política.
O primeiro foi eficazmente superado por meio da Constituição promulgada
em 1961, com a qual institucionalizou a supremacia dos partidos no sistema
e manteve os militares sob o comando dos civis. Já o segundo (pacificar o
país) seria mais complicado, pois demandaria ações contínuas em desfavor
dos conspiradores, o que exigiria o uso constante da violência.
Em janeiro de 1960, forças policiais detiveram 234 pessoas
acusadas de conspiração. Isso provocou uma onda de protestos,
promovida por entidades de classes ligadas a estudantes e professores da
Universidade Central da Venezuela (UCV), que enfrentaram a polícia. O
governo respondeu através da suspensão por 15 dias do direito de reunião
e de fazer manifestações públicas (ESPINOZA, 2012, p. 149-153).
Betancourt considerava aqueles que o criticava desqualificados e
desfrutadores de ditaduras (BETANCOURT, 1959, p. 114). Sendo assim, agiu
duramente contra os opositores, considerados inimigos da democracia,
principalmente ex-membros do governo anterior, militares simpáticos
ao comunismo e/ou discordantes da submissão aos civis e guerrilheiros
financiados por Havana. Por isso, o governo fez fortíssima propaganda
contra Pérez Jiménez, hostilizou e perseguiu os partidos de orientação
marxista, expulsou militares das Forças Armadas e exerceu pressões
nos proprietários dos meios de comunicações para demitirem jornalistas
‘suspeitos’. Um cenário de caça às bruxas havia tomado conta da Venezuela.

196
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

O presidente expulsou de seu próprio partido todos aqueles que


demonstravam algum tipo de simpatia à Revolução Cubana. Betancourt
possuía uma enorme antipatia por Fidel Castro, algo que extrapolava
o campo político e chegava a ser pessoal. Por isso, as manifestações
realizadas em solidariedade ao líder cubano foram reprimidas e seus líderes
presos.
Inspirados pelo êxito em Sierra Maestra, militantes expulsos da AD
solidários à Revolução Cubana optaram pela luta armada. Eles chegaram
a formar um partido político de ação rebelde, o Movimiento de Izquierda
Revolucionária (MIR), contra o qual os governos de Punto Fijo travaram
sangrentas batalhas. Em outubro de 1960, o semanário Izquierda, ligado ao
MIR, publicou um editorial conclamando à insurreição popular. Betancourt
entendeu o ato como uma declaração de guerra. A polícia fechou o
semanário e prendeu seus redatores (ESPINOZA, 2012, p. 163).
A postura intransigente de Betancourt, ao se posicionar como
o mais férreo e ‘democrático’ crítico de Fidel Castro da América Latina,
servia como um fator de coesão e incentivo à luta armada (MEZA ZAVALA,
1988, p. 318) entre os dissidentes da AD. Por isso, as duras medidas
tomadas não poderiam ser explicadas apenas pelo cenário da Guerra Fria,
em que a Venezuela se posicionou como aliada incondicional dos Estados
Unidos, ao ser vista pelos norte-americanos como uma alternativa a Cuba
no continente (MARINGONI, 2016, p. 185). É fato que a chamada Doutrina
Betancourt7 isolou Caracas no âmbito da América Latina na década
de 1960 e a levou à priorizar ainda mais suas relações com os norte-
americanos. Porém, o presidente acreditava ser realmente necessário
o uso de meios não democráticos como uma forma de sobrevivência do
regime e de consolidação do próprio sistema democrático (EWELL, 2002,
p. 326). Ainda que isso parecesse um paradoxo, explicava o porquê de uma
postura incisiva e autoritária ser respaldada pela retórica da democracia. A

7 Pressuposto inerente à política externa venezuelana, adotada pelas administrações de Ró-


mulo Betancourt e Raul Leoni (1959-1969), de romper relações diplomáticas com governos
instalados a partir de golpes de Estado e/ou alinhados ao comunismo.

197
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

forma como Betancourt governava possuía semelhanças com os regimes


ditatoriais, aqueles criticados com veemência pela retórica presidencial.
O próprio Congresso, algumas vezes pouco subserviente ao Executivo,
alertava no tocante a necessidade de melhor sintonia entre as instituições
e as aspirações populares.
Betancourt governava com mãos de ferro e a repressão aumentou
após sofrer um atentado em 24 de junho de 1960. Na ação, morreu o
chefe da casa-militar, coronel Ramón Armas Pérez. Betancourt teve
várias queimaduras e ficou com sequelas. Ainda em recuperação médica,
se dirigiu ao país e prometeu endurecer as ações contra os insurgentes.
Culpou o regime de Rafael Leónidas Trujillo (da República Dominicana), um
aliado Pérez Jiménez, como o responsável pelo atentado. Em sua visão, na
realidade do século XX não havia mais espaço às ditaduras (BETANCOURT,
1960, p. 208-210).
Após o atentado que vitimou o chefe da casa-militar, encontrou-se
a justificativa necessária para aumentar a repressão aos inimigos do regime.
A posição de firme rechaço às ditaduras levou ex-membros do governo
Jiménez, financiados pela ditadura dominicana, a impetrar ações violentas
contra o governo venezuelano. Por outro lado, as críticas à Revolução
Cubana e o esforço da diplomacia venezuelana em expulsar Cuba da
Organização dos Estados Americanos (OEA) trouxeram consequências.
Haviam grupos guerrilheiros apoiados por Havana, razão pela qual o regime
de Punto Fijo enxergava o castro-comunismo como um inimigo de sua
nascente democracia.
Betancourt havia chegado à presidência por meio de eleições
diretas e a repressão à dissidência encontrava justificativa neste fato. Em
novembro de 1960, houve um domingo de intensos distúrbios com veículos
incendiados em várias cidades da Venezuela. O governo respondeu com
a suspensão de todas as garantias constitucionais e decretou toque de
recolher. Unidades militares ocuparam os bairros de Caracas (ESPINOZA,
2012, p. 176).
Após estas medidas, aumentaram as denúncias de desaparecimento
de líderes campesinos, moradores de bairros populares de cidades

198
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

venezuelanas e de membros dos partidos banidos pelo sistema. Porém, as


informações sobre os confrontos entre as forças do Estado e guerrilheiros
ou demais insurgentes são pouco precisas, os documentos escassos e o
governo proibia os jornais de noticiarem os fatos sem prévia autorização.
Um Conselho de Guerra foi instituído para realizar os julgamentos de
líderes guerrilheiros capturados. Fabrício Ojeda, comandante do grupo
insurgente denominado Fuerzas Armadas de Liberación Nacional (FALN)8,
foi condenado a 10 anos de prisão em dezembro de 1962. Como reação, a
FALN assaltou a prefeitura de San Diego de los Altos para roubar armas
estocadas no prédio e sequestrou por 56 horas o jogador de futebol
argentino Di Stefano, em agosto de 19639 (ESPINOZA, 2012, p. 236-250). A
violência vinha de ambos os lados nas disputas políticas.
No fim do mandato, Betancourt havia consolidado o domínio dos
partidos de Punto Fijo no sistema. Porém, sua política de confronto com
os movimentos insurgentes manteve a Venezuela convulsionada. As
suspensões das garantias constitucionais eram frequentes, assim como
os toques de recolher, e os bairros de muitas cidades venezuelanas
permaneciam militarmente ocupados.
Todavia, o domínio dos partidos políticos no sistema se manteve,
sobretudo da Ação Democrática, partido de Betancourt e agremiação
hegemônica daquele momento. Nas eleições de 1963, o partido indicou
Raul Leoni como candidato. Havia o temor de esvaziamento das eleições
presidenciais, em razão do cenário de intensa violência política. Porém,
isso não aconteceu. O comparecimento ficou em torno de 91%, no entanto,
Raul Leoni foi eleito presidente com apenas 32,8% dos votos, beneficiado
pela fragmentação provocada pelo grande número de candidatos (EWELL,
2002, p. 332).

8 A FALN era um grupo guerrilheiro vinculado ao Partido Comunista da Venezuela e financiado


pelo governo cubano. Porém, o fracasso da estratégia de guerra prolongada na Venezuela
enfraqueceu o movimento. Em 1966, o PCV retirou seu apoio a FALN e a luta guerrilheira no
país.
9 O Real Madri, time pelo qual atuava na época, estava fazendo uma turnê de jogos na América
do Sul. Por isso, a equipe espanhola se encontrava em Caracas.

199
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Leoni era considerado confiável por Betancourt, pois se


posicionava contra o retorno do PCV e do MIR ao sistema político.
Continuaria descartada a volta dos partidos banidos pelo sistema de Punto
Fijo, tampouco a concessão de anistia aos membros destas agremiações
envolvidos em ações violentas, alternativa que chegou a ser apontada por
um grupo de intelectuais na época, para atenuar a violência política no
país. Em intervenções públicas, Leoni dizia que os governos venezuelanos
deveriam atacar a pobreza, em sua visão o principal motivo do apoio de
parte da população aos partidos vinculados ao comunismo e à guerrilha.
No governo de Raul Leoni (1964-1969) houve a continuidade da
política de enfrentamento com os movimentos guerrilheiros. Sendo assim,
os sequestros de políticos e empresários continuaram, assim como os
assassinatos e atos relacionados a táticas terroristas. Porém, na visão do
governo, a estratégia era eficaz. Entre 1964 e 1969, reduziu-se de dezesseis
para três os grupos rebeldes ‘oficialmente ativos’ no país. Contudo, isso
aconteceu também em razão da esquerda ter perdido a ‘guerra’, pois uma
revolução guerrilheira ao estilo cubano não apresentava êxito na Venezuela
(EWELL, 2002, p. 333).
Em 1965, vários líderes guerrilheiros, dentre eles Teodoro Petkoff,
Freddy Muñoz e Pompeyo Márquez, decidiram abandonar a luta armada
e acenaram ao governo pela obtenção de anistia. Alguns meses depois,
um grupo de intelectuais da UCV se pronunciou publicamente a favor de
uma solução negociada entre o governo nacional e os partidos banidos em
1958, com o propósito de diminuir a intensidade da violência provocada por
divergências políticas.
Mas, estes atos não significaram a extinção da guerrilha na
Venezuela, pois os ataques das forças de segurança com bombardeios
aéreos persistiram. Para o enfrentamento com a guerrilha continuar
vantajoso, a repressão não deveria diminuir, assim como os excessos da
polícia, da Guarda Nacional, do Exército e dos demais órgãos de repressão.
Em abril de 1965, agentes da Digepol (Dirección General de Policía)
ocuparam o prédio onde se localizava as redações dos jornais El mundo e

200
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

Últimas Noticias e prenderam seu proprietário, o empresário Miguel Angel


Capriles (DOCUMENTO, 1965).
Mas o acontecimento que ganhou notoriedade na época foi a morte
do professor Alberto Lovera. Membro do PCV, Lovera foi detido pela Digepol
provavelmente em 19 de outubro de 1965. Ao ser interrogado com métodos
de tortura acabou morrendo e seu corpo foi lançado ao mar. Entretanto,
alguns dias depois, seu cadáver acabou sendo encontrado boiando pelo
pescador José Calazans Narvaez na praia de Lechería, estado Anzoáteguei
(RANGEL, 1972, p. 76).
O aparecimento do corpo de Lovera despertou reações de
alguns deputados que instauraram uma comissão para investigar o fato.
O trabalho foi transformado no livro Expediente Negro, lançado em 1969
pelo deputado oposicionista José Vicente Rangel. A investigação seguida
pela colheita de depoimentos e visitas aos centros de detenções de presos
políticos, demorou praticamente um ano. Por fim, fizeram uma lista com o
nome de pessoas desaparecidas. Dessa forma, a figura do ‘desaparecido
político’ tornou-se algo de notoriedade na Venezuela, por mais que o
governo negasse o cometimento de assassinatos por motivos políticos
(RANGEL, 1972, p. 130).
Mas, no caso Lovera, as investigações avançaram ao ponto de
colocar os órgãos de repressão na defensiva. No início, os ministros do
presidente Leoni negavam que Lovera houvesse sido preso pela Digepol.
Todavia, as testemunhas arroladas pela comissão legislativa desmentiram
esta versão, ao afirmar que Lovera foi detido pelos agentes da Digepol. Eles
chegaram a entrar com a chave do próprio Lovera em seu apartamento
em Caracas. O carro pertencente ao líder do PCV foi encontrado no
estacionamento da divisão de inteligência. Após tais relatos, o governo
foi obrigado a mudar sua versão e afirmou que Lovera havia sido morto
por seus companheiros de partido, supostamente em uma briga. Mas, a
conclusão a que chegou a comissão foi essa: “Nadie en Venezuela pone
en duda que Lovera fue asesinado en desarrollo de una línea de exterminio
político, por una poderosa organización político-policial” (RANGEL, 1972, p.
156).

201
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Acontecimentos como os relatados acima provocaram


contundentes críticas ao governo. O presidente Leoni chegou a tolerar
alguns protestos vindos de estudantes, intelectuais e familiares dos
desaparecidos, não interferiu nas denúncias feitas no Congresso e na
imprensa. A comissão legislativa outorgou publicidade ao assassinato de
Lovera e aos demais presos ou desaparecidos políticos. Contudo, ninguém
foi formalmente apontado como culpado, nem chegou a ser processado
ou julgado por estes crimes. Tampouco os órgãos responsáveis por
investigar se esforçaram para isso. A guerra contra o comunismo, travada
sistematicamente pela Venezuela e demais países da América Latina
naquele momento, estava acima de qualquer investigação de assassinato,
ou excessos das forças de segurança.
No interior do país, o governo reagia às críticas oferecendo
recompensas em dinheiro aos habitantes locais em troca de informações
sobre esconderijos de guerrilheiros, ou indicações de depósitos de armas
e munições. Não havia distinção de localidade, poderia ser nas montanhas,
áreas rurais ou vilarejos. Os estados com atividades guerrilheiras mais
intensas (Trujillo, Lara, Portuguesa e Barinas) eram inundados por panfletos
despejados por aviões militares com os valores e fotos dos procurados
(ESPINOZA, 2012, p. 284).
O presidente Leoni permanecia irredutível no tocante aos presos
políticos e rechaçava qualquer acordo que pudesse anistiar guerrilheiros
ou demais insurgentes. No entanto, ao contrário de seu antecessor, foi
duramente pressionado para que reconsiderasse sua posição. A anistia era
defendida por integrantes dos partidos banidos em 1958 e, principalmente,
por pessoas ligadas ao meio acadêmico venezuelano, universidades e
centros de pesquisa.
A resposta a tais pressões veio em dezembro de 1966, quando Leoni
ordenou a suspensão das garantias constitucionais e tropas do Exército
ocuparam a UCV. O governo acusava os grêmios estudantis de esconderem
pessoas procuradas pela polícia. No entanto, a presença dos militares nas
universidades venezuelanas era motivada pelo fato de muitos estudantes e

202
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

professores demonstrarem simpatias pela guerrilha e criticarem o governo.


Muitos deles promoviam ações, tanto pacíficas quanto violentas, para
reivindicar o fim da repressão, a libertação dos presos políticos e a volta
dos partidos banidos pelo Pacto de Punto Fijo. Embora as tropas militares
tenham permanecido no campus, o presidente concordou em libertar 85
presos em 1967 e mais 239 em 1968 (ESPINOZA, 2012, p. 336-344), quando
estava prestes a deixar o poder.
Nos primeiros 10 anos do Pacto, o que significava uma década de
experiência democrática na Venezuela, as medidas tomadas nas gestões
de Betancourt e Leoni impediram o êxito de qualquer tentativa de derrubar
governos. Mas, esta pacificação foi conquistada por meio de uma intensa
repressão aos grupos políticos considerados subversivos pelo sistema. O
cenário mundial de Guerra Fria também contribuiu para que a repressão e a
violência se potencializassem. Buscava-se impedir a repetição de exemplos
como o de Cuba em outros países da América Latina.
Betancourt e Leoni tomaram medidas que impactaram a correlação
de forças no partido Ação Democrática. Os 10 anos no poder desgastaram
e dividiram a legenda em razão das expulsões dos integrantes que
discordavam dos rumos tomados pelas duas administrações, sobretudo no
tocante ao rechaço à Revolução Cubana. Ademais, havia um conflito entre
os integrantes mais jovens e aqueles pertencentes a geração que havia
lutado contra o ditador Gómez nos protestos de 1928.
Nas eleições presidências de 1968, a AD estava extremamente
dividida. A saída de Luis Prieto Figueroa, para formar o Movimento Eleitoral
do Povo (MEP), enfraqueceu o partido no pleito daquele ano. Sendo assim,
o candidato do Copei, Rafael Caldera, venceu com apenas 29,1% dos votos.
Tratou-se de uma disputa apertadíssima e os adversários que ficaram em
segundo e terceiro lugar, Gonzalo Barrios da AD e Miguel Rivas da URD,
conseguiram 28,2% e 22,2% dos votos, respectivamente.
Rafael Caldera governou a Venezuela de 1969 a março de 1974
e enfrentou uma oposição dura da AD no Congresso até 1970, quando
costurou um acordo de cooperação mínima com este partido no Legislativo,

203
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

capaz de sustentá-lo mais confortavelmente na presidência. Ao contrário


de seus antecessores, optou pelo tom conciliatório nos discursos e buscou
amenizar as tensões com Cuba no intuito de diminuir a ajuda de Havana
aos insurgentes. Por meio de funcionários, Caldera fez contatos com Fidel
e chegou a assinar um pacto bilateral contra o sequestro de aviões. A partir
de 1970, a Venezuela mudou de postura na OEA e passou a pressionar esta
instituição para que amenizasse as sanções à Ilha (EWELL, 2002, p. 336).
O presidente Caldera era considerado um político jovem e de
postura informal. Visitava os bairros populares das cidades venezuelanas
e sua principal promessa de campanha havia sido anistiar os guerrilheiros
dispostos a abandonarem a luta armada. Na presidência, continuou o
processo de pacificação do país por meio da manutenção da repressão,
mas oferecia maior abertura ao diálogo com os grupos insurgentes do que
Betancourt e Leoni. Esta postura permitiu a Caldera sustentar a retórica da
paz durante todo seu mandato e a denominou de “primeira preocupação
da nação” (CALDERA, 1974, p. 20).
Na gestão Caldera havia uma disposição do governo em dialogar
com aqueles grupos outrora considerados subversivos (guerrilheiros e os
partidos de orientação marxista-leninista), o que facilitou sua permanência
no poder sem passar por crises graves, tais como as enfrentadas por
Betancourt. Em março de 1969, dirigentes do MIR anunciaram a disposição
de conversar com o governo visando a paz.

[...] a chamada pacificação – no sentido de redução ao


mínimo inoperante da luta armada – era um fato e os par-
tidos de esquerda já estavam convencidos da necessida-
de de orientarem suas atividades pela via da legalidade
democrática condicionada pelo sistema (MEZA ZAVALA,
1988, p. 332).

Sendo assim, o presidente da República emitiu alguns decretos que


permitiram a volta dos partidos banidos durante a construção do Pacto
em 1958. O caso do Partido Comunista foi emblemático. O PCV retirou
seu respaldo a guerrilha em 1966 e muitos de seus membros já haviam se

204
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

desiludido com a luta armada. Porém, suas atividades continuaram a ser


vistas com desconfiança em razão do momento de Guerra Fria. Ainda assim,
foi beneficiado pela anistia, pois havia aceitado fazer parte das regras do
jogo, o que implicava disputar o poder por meio de eleições. Em 1971, o PCV
se dividiu e os descontentes fundaram o Movimiento al Socialismo (MAS), o
que contribuiu para sua força política diminuir significativamente (EWELL,
2002, p. 337).
Entretanto, a disposição do governo de Caldera ao diálogo com
a guerrilha influenciou pouco na intensidade da repressão. A Força Aérea
manteve os constantes bombardeios aos insurgentes nas montanhas e o
Exército permanecia no campus das principais universidades do país. Em
março de 1971, estudantes enfrentaram a polícia em um protesto para exigir
a desocupação militar da UCV. Como reação, a Guarda Nacional e a Polícia
Metropolitana intervieram militarmente em toda a instituição e mais de 100
pessoas foram presas. Bairros populares de Caracas, como 23 de Enero, El
Valle e Petare, continuaram ocupados por tropas e os protestos a presença
dos militares dissipados com violência.
Rafael Caldera utilizava a estratégia de dosar a violência com
medidas de flexibilização, como a retórica do diálogo, a volta dos partidos
banidos e, principalmente, por meio de indultos aos presos políticos.
Contudo, mantinha silencio no tocante aos desaparecidos e não forçava
a investigação das mortes de opositores do regime, ocorridas nas prisões
em razão dos métodos de tortura em interrogatórios. Ministros do governo
Caldera sustentavam publicamente a versão cínica de que a luta armada na
Venezuela era algo do passado. No entanto, o regime continuava repressivo,
prisões eram efetuadas e o cenário político permanecia violento. Ainda que
fossem em menor frequência, os sequestros de empresários e dirigentes
políticos por grupos rebeldes ocorreram na Venezuela entre 1969 e 1974.
Em uma tentativa de disfarçar a brutalidade do regime, Caldera
dissolveu a Digepol, acusada de inúmeras violações aos direitos humanos,
responsável por assassinatos (como o de Lovera) e desaparecimentos, com
quadros mal pagos e despreparados. Em seu lugar, criou-se a Dirección

205
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

de Servicios de Inteligencia y Prevención del Estado (Disip). Esta ‘nova’


polícia teve como primeiro desafio pôr ordem nos bairros de Caracas e
reduzir a delinquência por meio da Operación Vanguardia (EWELL, 2002,
p. 337-338). No entanto, uma mudança de postura não viria por decretos
e os excessos continuaram. A Operação mostrou-se desastrosa até ser
suspensa para preservar a imagem da recém-criada força policial. Porém,
o presidente Caldera reestruturou o sistema de segurança pública do país.
Unificou o comando das polícias, criou a Polícia Metropolitana de Caracas
e preencheu o comando das polícias estaduais com oficiais das Forças
Armadas (VENEZUELA, 1975, p. 234).
Em seu último ano de mandato, distribuiu indultos a presos políticos.
Em julho de 1973, 331 foram anistiados por meio de decreto presidencial
(ESPINOZA, 2012, p. 399). A cada soltura aumentava-se as pressões,
vindas principalmente dos parentes dos presos, para que fossem libertados
todos aqueles acusados de ‘crimes políticos’.
No final da gestão Caldera tornava-se cada vez mais evidente
que os partidos AD e Copei dominariam o cenário político na Venezuela.
Ambos despontavam como os únicos capazes de eleger presidentes, em
razão de dominarem a máquina administrativa e de possuir o maior número
de candidatos viáveis eleitoralmente. Os demais partidos, inclusive os que
haviam sido recém-admitidos no sistema, lançavam candidatos, realizavam
composições relativamente pragmáticas, porém, suas chances eleitorais
eram reduzidas. As cisões enfraqueceram eleitoralmente o PCV, que
deveria lutar contra o rechaço ao comunismo incentivado pela constante
propaganda estatal. No caso da URD, partícipe do Pacto de 1958, as lutas
internas a prejudicou na construção de uma liderança eleitoralmente viável.
A partir de 1978, a sigla optou por fazer alianças com o Copei nas eleições
presidenciais.
Em uma manobra arriscada, Rómulo Betancourt desistiu de concorrer
à presidência da República nas eleições de 1973. Ele era considerado
por muitos um candidato natural, mas apresentou um argumento pouco
esclarecedor de que deveria abrir espaço às novas lideranças do partido.

206
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

Sendo assim, um jovem e hábil político da AD conseguiu pavimentar sua


candidatura: Carlos Andrés Pérez.
Com experiência de ministro do interior e secretário-geral do
partido, Pérez comandou o sistema de repressão no governo de Betancourt
e, por isso, era odiado pelos setores vinculados à esquerda e pelos
movimentos estudantis. Por outro lado, possuía relativo carisma entre seus
partidários, construiu a fama de ser alguém com ‘vontade de trabalhar’ e de
ser enérgico para comandar a Venezuela. Isso foi amplamente explorado
naquela campanha eleitoral em um momento que a mídia ganhava cada
vez mais importância nas disputas (EWELL, 2002, p. 340-341).
Carlos Andrés Pérez foi eleito presidente com 47,7% dos votos em
dezembro de 1973 e governou a Venezuela de 1974 a março de 1979. Sua
gestão foi marcada pelo crescimento econômico, em razão das bruscas
subidas nos preços do barril de petróleo no mercado internacional.
Na década de 1970, a política de controle, imposta pela Organização
dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), fez subir os preços do barril
no mercado internacional, ajudado pelas guerras travadas no Oriente
Médio. Em 1970, o petróleo era negociado a US$ 2 o barril. Em 1974 passou
para US$ 14,26 e chegou a US$ 29,40 em 1982. País até então considerado
dócil pelas multinacionais do setor, a situação se inverteu. As pressões
pela nacionalização aumentaram e desde 1970 o governo vinha aprovando
“[...] um certo número de leis e decretos que lhe deu o efetivo controle
administrativo sobre cada fase da indústria, desde a exploração até a
comercialização” (YERGIN, 2010, p. 735-737). O momento era favorável
à nacionalização sem despertar a ira dos norte-americanos. Ao instalar a
comissão responsável por elaborar o projeto de ‘retomada’, o presidente
Pérez afirmou ser aquele ato o mais transcendental da República desde
a Independência (PÉREZ, 1974, p. 54). Em 1976, foi criada a Petróleos de
Venezuela Sociedad Anónima (PDVSA), empresa responsável por gerir este
setor.
Houve um impacto deste ato na popularidade do presidente e,
ajudado pela subida nos preços do petróleo, governou a Venezuela sob

207
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

condições econômicas amplamente favoráveis. A abundante entrada de


petrodólares permitiu ao Estado aumentar os investimentos em políticas
de distribuição, conceder bolsas de estudo aos universitários e fomentar
obras públicas para reduzir as taxas de desemprego.
Este sistema de distribuição clientelista das rendas petrolíferas
fez de Pérez um presidente popular. Todas estas medidas também
visavam desestimular o apoio da população mais pobre aos movimentos
guerrilheiros que ainda restavam no interior do país e manter os estudantes
longe das manifestações contra o regime. Conforme destacado acima, a
Ação Democrática mantinha estreitos vínculos com os sindicatos, isso
permitiu ao governo conter a realização de greves, ou movimentos de
trabalhadores que pudessem ser aproveitados pelos adversários a fim de
influenciar negativamente à estabilidade do sistema.
O presidente aliava a repressão com um estilo ‘populista’ de gerir os
petrodólares e possuía uma inegável habilidade política. Sabendo que era
odiado pela esquerda venezuelana, decidiu fazer uma manobra arriscada,
mas que, se exitosa, debilitaria ainda mais as atividades guerrilheiras.
Aproximou-se de Fidel Castro e se tornou ‘aliado’ do regime cubano. Em
dezembro de 1974, restaurou relações diplomáticas com Havana e iniciou
uma campanha, ainda que não exitosa, de retorno de Cuba à OEA (EWELL,
2002, p. 346). Essa atitude demonstrou sua eficácia no enfraquecimento
ideológico da guerrilha.
A elite de Punto Fijo construiu a imagem da ‘Venezuela saudita’,
próspera e petroleira, como uma forma de expor sua ‘vitória’ perante a
guerrilha e aos movimentos dissidentes. Porém, isto agia apenas como
um pano de fundo. Havia uma política, iniciada na gestão Betancourt
em 1959 e seguida por seus sucessores imediatos, que orientava a luta
contra a guerrilha e o comunismo. O enfrentamento armado e a repressão
eram as principais linhas de ação desta política. Foi na gestão Pérez que
a Venezuela testemunhou o aumento da violência provocada por crimes
contra a propriedade e roubo a bancos (BRICEÑO-LEÓN, 2006, p. 318).
Entre 1974 e 1979 a retórica da pacificação da Venezuela foi mantida
por meio de uma repressão maior do que a exercida pelos antecessores

208
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

de Pérez, pois a brutalidade do regime se potencializava em razão da alta


popularidade do presidente. Ele exercia uma liderança autoritária. Em
1976, mesmo ano em que nacionalizou o petróleo, o Executivo conseguiu
viabilizar no Congresso um conjunto de “leis de segurança” (que o ex-
presidente Caldera não havia conseguido em seu mandato) dando mais
poderes às forças policiais agirem de forma enérgica e com os recursos
tecnológicos de espionagem disponíveis na época.

En 1976 el secuestro de William Niehous, director general


de la empresa Owens-Illinois de Venezuela, hizo que au-
mentara la presión a que se veían sometidos los izquier-
distas. Casi cuatrocientas personas fueron detenidas y el
líder trotskista de la Liga Socialista de Venezuela, Jorge
Rodríguez, murió de un ataque al corazón mientras era
interrogado por la DISIP. En 1978, la investigación del ase-
sinato de un abogado de Caracas reveló que en el seno de
la Policía Técnica Judicial (PTJ) funcionaba un escuadrón
de asesinatos de elite (EWELL, 2002, p. 345).

O presidente Pérez foi duramente criticado por sustentar tais


posturas e acusado por seus críticos de formar uma estrutura de segurança
tão repressiva quanto a dos presidentes-militares dos países do Cone-Sul,
os temidos regimes de segurança nacional, que eram duramente criticados
pela elite político-partidária venezuelana do momento.
Com base no discutido ao longo deste item, de 1959 a 1979, a
Venezuela passou por um período de crescimento econômico em razão
das altas nos preços do petróleo no mercado internacional. O Pacto entre
as elites partidárias, responsável em pôr as Forças Armadas sob o controle
civil e garantir eleições presidenciais, fez a Venezuela ser conhecida como
uma “ilha de democracia” em meio as ditaduras nos vizinhos. A elite do
país orgulhava-se desta imagem e a fomentava constantemente. Porém,
a Venezuela estava pacificada em razão de um regime extremamente
repressivo que impôs ao país uma paz construída por meio de uma implacável
política de repressão, mortes e ‘desaparecimentos’ de opositores.
Desde a década de 1920, o bom andamento da economia nacional
depende dos preços do petróleo se manterem em alta. As próximas

209
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

décadas se mostrariam economicamente difíceis ao país, o que contribuiu


para ruir a estabilidade do Pacto de Fijo. Em razão disso, a violência política
aumentou e ocorreu o retorno do intervencionismo militar no poder,
conforme demonstra-se o próximo item.

DEBILITA-SE O PACTO E SE INCREMENTA A VIOLÊNCIA: DO


CARACAZO À ASCENSÃO DE HUGO CHÁVEZ

Na sucessão presidencial de 1978, a Ação Democrática continuava


dividida. Betancourt e Pérez disputavam o controle do partido. A forma
autoritária como o presidente governava, somado a forte repressão do
regime aos críticos, não o impediu de se tornar uma figura relativamente
poderosa dentro da AD, capaz de enfrentar a ‘velha guarda’ em assuntos
sensíveis. Um destes temas, ou seja, a aproximação com o regime cubano,
irritou o ex-presidente Betancourt que havia sido o principal avalista da
candidatura de Pérez em 1973. Contudo, em 1978, o velho líder da AD
expressava publicamente um profundo desagrado com seu indicado. Isso
ocorria não apenas pela aproximação com governos outrora inimigos
da democracia venezuelana, a exemplo de Cuba. A postura pragmática
adotada pelo presidente de liderar o bloco terceiro-mundista da época
e as acusações de corrupção que pairavam sobre Pérez e assessores
próximos desagradaram Betancourt, o fazendo retirar seu apoio partidário
ao presidente. Tratava-se de uma ruptura que influenciaria na sucessão
presidencial de 1978.
A Ação Democrática indicou Luis Piñerúa como candidato. Ele foi
bancado por Betancourt, ao vencer as disputas internas à indicação ao
pleito e demonstrar ainda ser uma figura poderosa na AD. Sendo assim,
o presidente Pérez manteve-se afastado da campanha, razão pela qual
não se esforçou em transferir sua popularidade e votos ao indicado de seu
partido. Esta cisão, que caracterizava a existência de um conflito geracional
dentro da Ação Democrática, pôde ser vantajosa ao Copei no intuito de

210
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

emplacar um candidato com chances de vitória. O afastamento do popular


presidente Pérez das eleições de 1978 foi um dos fatores a contribuir à
vitória da candidatura adversária, encabeçada por Luis Herrera Campins,
do Copei, com 46,6% dos votos (EWELL, 2002, p. 347).
A gestão Herrera Campins (1979-1984) não disporia das condições
favoráveis de seu antecessor. Ainda na transição, teve imensa dificuldade
em formar uma equipe de governo, além de não possuir maioria no
Congresso. O mais impactante à governabilidade naquele momento era
a situação econômica. Herrera Campins chegou a afirmar que assumiu a
presidência de uma nação penhorada, pois havia um crescente déficit nas
contas públicas, provocado pelos excessivos gastos e por compromissos
firmados durante a década de 1970. Além disso, a dívida externa, que durante
décadas os governos venezuelanos se jactavam em tê-la liquidado, voltou a
ser assunto nas discussões econômicas do país em razão de seu aumento
galopante. Em 1980, a inflação chegou a 20%, mas o governo continuou
a sustentar a pose de magnificência característica do presidencialismo
venezuelano.
O cenário econômico mundial também não era animador. Ao assumir
Ronald Reagan a presidência dos Estados Unidos em 1981, estabeleceu-se
o fim da paridade Dólar-Ouro. Isso provocou aumento na dívida externa
das economias subdesenvolvidas. Para piorar, Reagan tomou medidas
visando diminuir os preços do petróleo no mercado internacional, produto
que começou a sofrer baixas ao longo da década de 198010.
Sendo assim, a alternativa encontrada pela equipe econômica de
Herrera Campins foi adotar medidas impopulares, voltadas ao corte de
gastos públicos e a retirada de direitos conquistados por alguns setores,
como empresários, trabalhadores e estudantes. O governo utilizou de todos
os mecanismos disponíveis para convencer a opinião pública de que a era
da bonança havia acabado e estava na hora de pagar as contas. Porém,

10 Em 1980, o barril de petróleo no mercado internacional valia US$ 104,93. Dez anos depois
(1990) havia caído para US$ 52,09. Em 1998, quando Hugo Chávez venceu as eleições presi-
denciais valia US$ 18,14. Fonte: Crude oil price history.

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

tratava-se de um risco, pois medidas de corte de gastos impactariam na


estabilidade social do país. Isso forçaria o governo a intensificar a repressão
para reagir ao aumento das contestações em relação à política econômica
adotada. No caso da Venezuela, tratava-se de uma manobra ainda mais
arriscada, pois o Pacto de Punto Fijo se ancorava no intenso gasto público
como um dos sustentáculos de sua estabilidade, viabilidade e, sobretudo,
para manter as Forças Armadas longe das iniciativas golpistas.
A maioria das propostas sugeridas pela equipe econômica não
foram implantadas. A falta de uma base consistente no Congresso fez
com que aquelas medidas de ajuste dependentes da aprovação legislativa
fossem barradas. Além disso, grande parte das entidades organizadas de
trabalhadores que adotavam a estratégia de dialogar com o Estado eram
ligadas ao partido AD. Já aquelas com posturas radicais, a exemplo dos
sindicatos metalúrgicos de Guayana, se expandiam rapidamente com o
agravamento da crise, principalmente no meio urbano (EWELL, 2002, p.
348). Isso provocava um cenário de violência em razão das rivalidades entre
sindicados contrários e favoráveis ao governo. Por mais que se buscasse
manter a aparência de normalidade, a Venezuela tinha dificuldades em
honrar o serviço da dívida e o Fundo Monetário Internacional (FMI) fazia
crescentes pressões para que reduzisse os gastos públicos.
Com pouca margem de manobra no Congresso, o presidente
Herrera Campins adotou medidas paliativas, a exemplo de limitar a
aquisição de produtos como a gasolina. Porém, elas foram insuficientes.
Em 18 de fevereiro de 1983, o governo foi obrigado a desvalorizar o Bolívar
(moeda nacional), o que aumentou a dívida de cidadãos venezuelanos
com bancos estrangeiros. Essa medida provocou uma imensa fuga de
capitais, prejudicou a economia nacional, impactou negativamente nas
importações de bens de produção e consumo e encareceu os alimentos.
Segundo Caballero (2004), o cenário de crise que culminou com a
desvalorização cambial de fevereiro de 1983 expôs a falência do modelo
econômico, calcado na massiva intervenção do Estado na economia e
moldado pela relação clientelista entre Estado, setor privado e sociedade
civil (CABALLERO, 2004, p. 173-174).

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CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

Embora houvesse uma crise econômica, na gestão de Herrera


Campins a guerrilha continuou sendo combatida de forma enérgica pelo
Estado. Os poucos grupos que ainda restavam no interior do país – a
exemplo da Liga Socialista da Venezuela – buscavam realizar ações que lhes
conferissem visibilidade. A principal delas era o sequestro de autoridades e
figuras famosas, além de executivos das multinacionais norte-americanas.
Foi durante a presidência de Herrera Campins, em junho de 1979, que o
sequestro de William Niehous, industrial norte-americano, chegou ao fim.
Neihous estava com os guerrilheiros desde fevereiro de 1976 e tratou-se
do sequestro mais longo da história venezuelana. Sua libertação envolveu
uma ação militar com intensa troca de tiros e a morte de dois de seus
sequestradores.
Os sequestros de figuras famosas e executivos estrangeiros,
ocorridos entre 1958 e 1989 com o fim da Guerra Fria, são assuntos pouco
explicados até os dias atuais. As fontes são pouco confiáveis, mas haviam
fortes indícios do envolvimento de políticos venezuelanos. Muitos líderes
partidários sabiam mais sobre este assunto do que demonstravam às
autoridades teoricamente comprometidas em solucioná-las. Ademais, os
sequestros eram fontes de recursos para financiar as atividades insurgentes.

Dadas las sospechas generales que inspiraba la policía,


muchos venezolanos creyeron que se había encubierto
políticos que tenían más información sobre el secuestro
de la que habían revelado. A finales de 1982, el ejército
lanzó un ataque por sorpresa en el este y mató a veintitrés
guerrilleros que se encontraban comiendo en su campa-
mento. Los venezolanos se sobresaltaron al conocer la
importancia numérica del grupo de guerrilleros y al ver
que el ejército no había podido o querido hacer prisione-
ros (EWEEL, 2002, p. 348).

O assunto guerrilha não havia deixado a cena na política


venezuelana. O esforço feito pelo ex-presidente Carlos Andrés Pérez, ao
aproximar-se de Cuba com o propósito de reduzir o apoio de Havana aos
insurgentes, foi em parte perdido na gestão de Herrera Campins. Em 1980,
diplomatas venezuelanos e cubanos trocaram insultos na imprensa em

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

razão de vários cidadãos cubanos terem se refugiado na embaixada da


Venezuela. Eles desejavam fugir da Ilha e ingressar nos Estados Unidos.
Fidel Castro se negou a lhes conceder salvo-condutos para que saíssem
de Cuba e a relação entre Caracas e Havana voltou a viver momentos de
tensão. A guerrilha venezuelana enxergava nestas divergências um alento
para reorganizar-se logisticamente. Porém, isso acabou não ocorrendo.
Na década de 1980 o cenário geopolítico mundial havia se alterado e a
estratégia de financiar grupos insurgentes para desestabilizar governos
não demonstrava mais eficácia nem a Cuba e nem aos Estados Unidos.
As hostilidades ao regime liderado por Fidel Castro, o combate
a guerrilha e a propaganda estatal no tocante ao fim do sequestro mais
longo de sua história, não foram capazes de desviar o foco do impacto
provocado pela crise econômica. Na sucessão presidencial de 1983, a piora
dos indicadores na gestão Herrera Campins prejudicaram eleitoralmente
seu partido, o Copei. Na AD os ânimos permaneciam acirrados. Rómulo
Betancourt havia morrido em setembro de 1981, mas isso não pôs fim as
disputas internas com Carlos Andrés Pérez. Os partidários do falecido
ex-presidente conseguiram manter sua força no comando da legenda ao
isolarem, temporariamente, Pérez e seus aliados.
Apesar das dificuldades enfrentadas pelo sistema de Punto Fijo,
o cenário político venezuelano continuou a girar em torno das disputas
entre AD e Copei. Isso impossibilitava que um candidato de ‘terceira via’
concorresse com chances de vitória. Os partidos com posturas à esquerda
continuavam divididos e incapazes de encontrar um nome de consenso.
Havia pouquíssima união, muita rivalidade e um número excessivo de
postulantes entre os ex-guerrilheiros e líderes históricos dos partidos
que haviam sido readmitidos em 1970 (ou aqueles que surgiram a partir
das cisões ocorridas nestas legendas), como o MIR, PCV, Bandera Roja,
La Causa R, e outros. Essas disputas faziam dos partidos de esquerda
incapazes de transformar em votos o descontentamento popular e o
rechaço à truculência do Estado.
Nas eleições presidenciais de 1983 houve a prevalência de temas
econômicos no debate e os péssimos números do governo Herrera

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CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

Campins pavimentaram o retorno da AD ao poder. Jaime Lusinchi foi eleito


com 56,8% dos votos (EWELL, 2002, p. 351).
Lusinchi governou a Venezuela de 1984 a fevereiro de 1989 e dispôs
(ao menos em termos políticos) de condições mais favoráveis do que seu
antecessor. Sua vitória eleitoral havia sido numericamente expressiva e
a AD possuía maioria no Congresso. Sendo assim, conseguiu permissão
legislativa para emitir decretos sobre questões econômicas por um ano.
Lusinchi governava de uma forma autoritária e exercia pressões nos órgãos
oficiais e privados de comunicação. A transparência não era um propósito
deste governo. Proibia-se a divulgação de informações que teoricamente
deveriam ser públicas, a exemplo de estatísticas no tocante aos indicadores
socioeconômicos do país.
Com tais medidas, buscava-se conter a insatisfação vinda dos
setores sociais mais pobres, fortemente impactados pelas severas
medidas de ajuste econômico. A gestão de Lusinchi também estimulava
as privatizações das empresas públicas e a entrada cada vez maior de
capital estrangeiro como forma de estimular a atividade econômica. O
governo buscou focalizar-se na agenda da recuperação econômica para se
fortalecer e amenizar o crescente descontentamento popular. Entretanto,
elas não foram suficientes para impedir o aumento da violência urbana,
que se misturava com os protestos de entidades de classes, a exemplo de
professores e trabalhadores do setor petroleiro, os quais rechaçavam o
pacote de austeridade de Lusinchi e a proposta de privatização do setor
petroleiro do país.
Diferente das décadas de 1960 e 1970, na década de 1980 os
governos venezuelanos encaravam a violência urbana, o descontentamento
social e os levantes populares nas periferias das cidades como um problema
maior do que a guerrilha. Mas, isso não significou uma mudança de
postura destes governos em relação àqueles que os contestava. Lusinchi
reagiu fortalecendo os órgãos de segurança e repressão. Recrutou um
contingente maior de policiais e aumentou seus salários. Caracas começou
a ser patrulhada por várias divisões de segurança existentes na época

215
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

que incluíam a DISIP, a Polícia Metropolitana de Caracas e até mesmo


a Guarda Nacional. Como consequência, recomeçaram as detenções
em massa na Venezuela. Grupos religiosos vinculados a Igreja Católica
denunciavam torturas e o ‘desaparecimento’ de pessoas que teoricamente
se encontravam detidas. Em 1986, a Anistia Internacional estimava existir
um significativo número de pessoas presas no país sem o devido processo
legal, ou seja, desprovidas de acusação formal, direito a defesa e garantia
de segurança. Além disso, “[…] se descubrieron cadáveres en pozos de
petróleo abandonados cerca de Maracaibo y en octubre de 1988 fuerzas
especiales asesinaron a catorce pescadores desarmados en El Amparo”
(EWELL, 2002, p. 354).
O Congresso Nacional chegou a investigar estas denúncias, a
exemplo do que havia feito em 1966/1967 no caso Alberto Lovera. Porém,
o governo pressionou os meios de comunicações a não publicarem
crônicas, artigos e tampouco matérias que relatassem violações aos
direitos humanos, ou críticas a forma como o Estado combatia a violência
ou a praticava. Em outubro de 1985 e durante cinco meses do ano de 1988
as universidades venezuelanas entraram em greve, não mais motivadas
exclusivamente por questões políticas. Havia um descontentamento com
os salários e a degradação das condições de trabalho dos professores. Os
alunos estavam insatisfeitos em razão da extinção de bolsas de estudos no
exterior e os estudantes secundaristas se somaram ao descontentamento
de seus colegas do ensino superior.
O insucesso da gestão Lusinchi era contrabalançado por críticas à
suas decisões feitas por membros de seu partido11. Por isso, os revezes deste
governo acabaram por beneficiar seu colega e adversário na legenda, o ex-
presidente Carlos Andrés Pérez. Nas eleições de 1988, Pérez se colocou
como a única figura política capaz de devolver aos venezuelanos o padrão

11 No final do mandato, percebia-se que Lusinchi seria um presidente impopular na história da


Venezuela. Quando deixou o poder, se viu envolvido em um escândalo de corrupção ao lado
de Blanca Ibáñez, sua secretária e amante, com quem passou a viver em Miami após deixar a
presidência.

216
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

de vida que gozavam na década de 1970, quando os preços do petróleo


estavam altos. Percorreu a Venezuela, sobretudo os bairros populares das
cidades e os locais distantes na zona rural. Como a maioria dos líderes
dotados de carisma, fazia discursos inflamados, prometia realizar grandes
obras, abraçava e beijava as idosas e sorria para as câmeras. Mas, o mote
de sua campanha era a “volta aos áureos tempos” de bonança petrolífera.
Carlos Andrés Pérez venceu as eleições presidenciais de 1988
com 54,8% dos votos. Foi beneficiado pela desmobilização do Copei e
pela divisão existente nos partidos de esquerda, ainda mais fragmentados
em razão da crise vivida pelo bloco soviético. Havia enorme expectativa
em torno de seu segundo mandato, condizente com a intensidade da
crise econômica, política e social vivida pelo país. Toda esta expectativa
pôde ser percebida na cerimônia de posse. A forma pomposa como Pérez
tomou posse na presidência fez seus adversários e até mesmo alguns
aliados a chamarem de a coroação. De certa forma eles não exageraram.
A quantidade de convidados à cerimônia fez do Congresso Nacional um
espaço incapaz de receber o evento que foi transferido para o Teatro
Teresa Carreño. A posse contou com a presença de 24 chefes de Estado,
6 ex-presidentes, empresários do setor petrolífero e xeiques vindos do
Oriente Médio (JONES, 2008, p. 119).
Passada a euforia do retorno à presidência, havia chegado o
momento de cumprir as promessas, ou seja, devolver à prosperidade
aos venezuelanos. Contudo, a realidade era dura e o país continuava
depauperado, sem recursos para honrar suas dívidas, pagar os salários e
incentivar o setor produtivo. Para o governo, o corte de gastos seria um
remédio praticamente inevitável. No entanto, haviam resistências. Na visão
do senador Pompeyo Márquez, qualquer pacote de ajuste fiscal estaria
ferido de morte por ser incapaz de resolver os conflitos sociais do país.
Ao contrário, os acirraria a níveis preocupantes. Até mesmo apoiadores
das medidas econômicas do governo reconheciam seu alto custo social
(ALVAREZ,1989, p. 19). Os parlamentares, receosos da reação popular,
postergaram o quanto puderam as discussões acerca das medidas
econômicas do Executivo.

217
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Contudo, o governo parecia decidido a impor o pacote de ajustes


nas contas públicas, nem que para isso passasse pela autoridade legislativa
e implantasse medidas por decreto. Ao que tudo indica, o presidente Pérez
se equivocou ao apostar que conseguiria convencer a população melhor
do que seus antecessores da necessidade de um rigoroso pacote de ajuste
fiscal pelo fato dele ser um líder dotado de carisma.
Os primeiros meses de governo foram os mais convulsionados
da história recente venezuelana. Em 24 de fevereiro de 1989, a cidade de
Mérida foi totalmente ocupada pela polícia e pela Guarda Nacional para
reprimir uma onda de protestos estudantis. O saldo foi uma pessoa morta
e três gravemente feridas (ALVAREZ,1989, p. 44). Mas, o pior ainda estava
por vir.
O dia 27 de fevereiro de 1989 tornou-se marcado na história da
Venezuela pelo início de uma série de distúrbios sociais que mais tarde
seria denominado de Caracazo, ou F-27. Em praticamente um mês, a
Venezuela foi sacudida por uma onda de protestos, saques, invasões e
demais distúrbios, responsáveis por colocar o governo de Carlos Andrés
Pérez na defensiva em um espaço de tempo considerado extremamente
curto. O pacote de austeridade – elaborado por uma equipe econômica
formada na chamada Escola de Chicago12 e pouco concatenada à realidade
venezuelana – teve como efeito a subida nos preços dos combustíveis em
100%. Do dia para a noite o preço deste produto dobrou13, as passagens de
ônibus subiram de 8 para 15 Bolívares, os alimentos e demais mercadorias
ficaram mais caros, porém o salário mínimo continuou 4 mil bolívares.
Na manhã de 27 de fevereiro houve os primeiros sinais de distúrbios.
Em protesto contra o abusivo aumento das passagens, moradores de
Guarenas e Los Teques puseram fogo em ônibus. Logo, iniciou-se uma
intensa onda de saques ao comércio. O Caracazo foi marcado pela rapidez

12 Grupo de economistas, vinculados ao Departamento de Economia da Universidade de Chi-


cago (EUA), que se notabilizaram por defender o livre mercado e a participação mínima do
Estado na economia. Os principais expoentes desta Escola foram George Stigler e Milton
Friedman.
13 A Venezuela era conhecida por ter uma das gasolinas mais baratas do mundo.

218
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

com que atingiu proporções consideráveis, não oferecendo tempo aos


serviços de inteligência do governo, infiltrados em diversos movimentos
populares de bairros, identificarem um potencial distúrbio (GOTT, 2004,
p. 44). Rapidamente cidades venezuelanas como Mérida, San Cristóbal,
Marcaibo e outras, começaram a enfrentar problemas semelhantes.
Algumas destas localidades já se encontravam ocupadas por tropas da
Guarda Nacional, porém, o contingente era insuficiente para conter a
fúria (ALVAREZ,1989, p. 46-47). “La multitud manifestante devino en horda
incontrolable que arrasó con los comercios y todo lo que encontraba a su
paso” (REQUENA, 1989, p. 54).
Na tarde de 27 de fevereiro, Caracas estava mergulhada em
uma situação de ‘caos’. Não havia ônibus, o metrô fechou, milhares de
trabalhadores foram obrigados a retornarem a pé para casa. Carros
e ônibus foram incendiados nas ruas de Caracas e suas principais
avenidas tomadas por barricadas e pneus queimados (JONES, 2008, p.
124). Os saques ao comércio e supermercados se intensificaram, muitos
comerciantes perderam todas as mercadorias e a polícia montou uma
operação para recuperar parte dos produtos roubados usando de muita
violência (ALVAREZ,1989, p. 52). “The sackings of February 27 and 28, 1989,
were violent, not only in their expression […] but also in the repressive answer
on the part of security authorities and the armed forces”14 (BRICEÑO-LEÓN,
2006, p. 320).
Os líderes políticos venezuelanos não encontravam uma maneira
adequada de lidar com a situação. Ángel Zambrano, governador de Miranda,
acusou grupos insurgentes da periferia de promoverem os distúrbios
e incentivarem os saques. Pérez afirmou que não havia justificativa
para tamanha violência, segundo ele uma mistura de delinquência com
subversão. Para o presidente, a população não estava descontente com
o governo, mas com a desigualdade social, agravada após uma década

14 “Os saques de 27 e 28 de fevereiro de 1989 foram violentos não apenas em sua expressão [...],
mas também na repressiva resposta das autoridades de segurança e das Forças Armadas”.
Tradução livre.

219
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

de crise sem crescimento econômico (ALVAREZ,1989, p. 46-47). Ou seja,


tratava-se de um conflito de pobres contra ricos.
Contudo, a intensão do presidente Pérez era restabelecer a ordem
o mais rápido possível, a qualquer preço e sem se importar com os métodos.
Portanto, a reação do governo foi violenta. O Exército fechou as fronteiras
da Venezuela. Todas as forças de segurança disponíveis (polícias, divisões
de inteligência e Forças Armadas) foram utilizadas para pôr fim aos
distúrbios e restabelecer a ordem em todo o país. Um grande contingente
de tropas do Exército foi deslocado do interior da Venezuela à Caracas,
centro dos distúrbios (ALVAREZ,1989, p. 46-47). A capital permaneceu por
alguns dias militarmente ocupada, o governo decretou toque de recolher e
suspendeu as garantias constitucionais para conter a onda de saques.
A reação autoritária das forças estatais foi a ‘senha’ para que se
desatasse os atos de repressão desmedida, sobretudo contra os habitantes
das regiões mais pobres (MARINGONI, 2009, p. 72). Durante a vigência
destas medidas, foram registradas execuções nas ruas, corredores e vielas
de Caracas. Estima-se que somente o número de corpos encontrados com
perfuração à bala chegava a 256.
A violência parecia estar longe de terminar, pois a Venezuela
possuía um histórico de intensa violência em momentos de suspensão de
garantias constitucionais. Estimativas publicadas em 2 de março, ou seja, 4
dias após o início dos protestos, davam conta de 300 mortos, 1.500 feridos e
mais de 3 mil pessoas detidas (ALVAREZ,1989, p. 50-51). Dentre os mortos,
30 foram enterrados em valas comuns sem identificação, pois estavam
em adiantado estado de decomposição e não haviam sido reclamados por
suas famílias (ALVAREZ,1989, p. 54-55). Esse tipo de atitude tornou-se
frequente naqueles dias, pois os institutos de medicina legal de Caracas
não possuíam estrutura suficiente para armazenar, fazer autópsias e
perícias em tantos corpos ao mesmo tempo.
Todavia, extraoficialmente o número de mortos passou de 400,
pois a Venezuela ‘ardeu’ em dias seguidos de excessiva violência. Alguns
autores salientam a inexatidão das cifras sobre o Caracazo por ter sido um

220
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

acontecimento de proporções mais graves do que o mostrado na época


pelas emissoras de televisão (REQUENA, 1989, p. 14-15).
Os números poucos confiáveis refletem a magnitude da violência,
ao indicar a existência de mais mortes. Muitas pessoas simplesmente
‘desapareceram’. Denunciou-se a ação de esquadrões da morte, incumbidos
de aniquilar aqueles que faziam saques ou desrespeitassem o toque
de recolher. Em um cemitério de Caracas, grupos de direitos humanos
e familiares de desaparecidos denunciaram a existência de corpos de
pessoas executadas escondidas no local. O governo da época negou o fato
e não permitiu investigações. Mas, em 1999, a justiça autorizou a realização
de buscas no cemitério e foram encontradas ossadas sem identificação
com perfurações a bala na cabeça. Alguns deles estavam amarrados. Foram
contabilizados 68 corpos, mas somente três puderam ser identificados
(JONES, 2008, p. 130-131).
O Caracazo marcou o início do fim da segunda gestão Pérez, pois,

Quebrou-se, em fevereiro de 1989, a autoimagem que os


venezuelanos tinham de si mesmos. Nesta imagem, o país
seria um modelo de democracia e tolerância no continen-
te, com suas eleições regulares, suas instituições, seus
direitos civis, seus partidos com sólidas bases sociais, etc.
(MARINGONI, 2016, p. 191).

A partir do F-27, a opinião pública e a elite político-econômica


se mostravam cada vez mais descontentes com o presidente. Mas, esta
questão era até certo ponto contornável. O problema maior eram os
militares. Entre os oficiais questionava-se cada vez mais a eficácia do
domínio civil na política. Em 1989, a submissão constitucional aos civis
estava em vias de completar 30 anos, portanto, era um arranjo político-
institucional frágil. A ideia de colocá-los no patamar de garantidores da
democracia venezuelana, mesmo afastados da presidência, perdia força
em razão da crise econômica e do acirramento dos conflitos sociais, os
quais o Caracazo desencadeou.
O Pacto de Punto Fijo entrou na década de 1990 em crise. O
modelo sob o qual havia sido construído, ou seja, a distribuição clientelista

221
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

das rendas petrolíferas e a submissão dos militares a autoridade civil,


encontrava-se extremamente deteriorado. Sem o retorno do crescimento
econômico, ficaria cada vez mais complicado a Pérez – ou a qualquer
presidente vinculado aos partidos AD e Copei – manter os militares
distantes das tentativas intervencionistas. Dentro das Forças Armadas, era
possível identificar grupos com o nível de articulação suficiente para se
insurgirem contra o impopular governo Pérez. Estes movimentos vinham
‘silenciosamente’ se articulando e ganhando adesão entre oficiais, cadetes,
sargentos e soldados desde o início da década de 1980. Mas, o grupo que
atingiu a projeção suficiente originou-se no Exército e faziam parte oficiais
de baixa patente, sargentos e soldados. O intitulado Movimento Bolivariano
Revolucionário 200 (MBR-200) foi formado por volta de 1982 e agia como
uma célula rebelde dentro das Forças Armadas. Recrutava-se militares ao
movimento, realizava reuniões para discutirem a situação política do país e
mantinham contato com ex-membros da esquerda guerrilheira, a exemplo
de Douglas Bravo. O tenente-coronel Hugo Rafael Chávez Frías era um dos
líderes do MBR-200.
Em 4 de fevereiro de 1992, Chávez, seus comandados e um grupo
de oficiais pertencentes ao MBR-200 tentaram tomar o poder mediante um
golpe de Estado. Segundo o tenente-coronel, tratava-se de um processo
inevitável e de qualquer maneira a juventude militar se insurgiria contra o
regime de Punto Fijo (CHÁVEZ, 1995, p. 157). Diversos batalhões e unidades
militares do país se rebelaram. A cadeia de comando foi rompida pelos
oficiais comprometidos com o golpe que encarceraram seus superiores.
No entanto, a ação fracassou. Desde o princípio mostrou-se repleta
de equívocos, imprevistos e seus propósitos foram delatados por alguns
militares poucas horas antes de entrar em operação. Os insurgentes haviam
estabelecido como objetivo prender o presidente Pérez e o autocomando
das Forças Armadas; ocupar o Palácio de Miraflores e La Casona (residência
do presidente); comunicar ao país da existência do novo governo formado
por uma junta-militar; e, por fim, promulgar uma nova Constituição para
reformar o sistema político.

222
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

A tentativa de prender o presidente da República se viu


comprometida, pois os rebeldes não conseguiram alcançar o comboio
presidencial quando este saía do Aeroporto de Maiquetía. O grupo
responsável por tomar o Palácio de Miraflores e La Casona, ainda que
tivessem adentrado nas imediações com tanques de guerra, foram
cercados por tropas da Guarda Nacional e por militares responsáveis por
zelar pela segurança do presidente. Houve confronto entre os dois grupos
com soldados mortos e feridos. A tropa de paraquedistas, responsável por
tomar o Museu Militar e comandadas pelo tenente-coronel Chávez, foi
recebida com tiros de advertência. Eles conseguiram adentrar no prédio,
porém, não se apoderaram dos equipamentos de comunicação. Unidades
militares comprometidas com o governo cercaram o Museu Militar,
encurralando Chávez e sua tropa.
Em poucas horas, o presidente Pérez retomou o controle do país e
impôs uma derrota, do ponto de vista militar, ao movimento insurgente. Às
2 horas da madrugada, Pérez fez um pronunciamento em cadeia nacional,
desqualificou os militares rebeldes, os chamou de fascistas, genocidas,
ambiciosos e aventureiros (MARINGONI, 2009, p. 94). Prometeu punição
exemplar e os vinculou às ditaduras latino-americanas. Pérez também
denunciou esta ação não apenas como uma tentativa de destituí-lo, mas de
assassiná-lo. Chávez sempre negou que este seria o propósito da rebelião,
embora tenha admitido que a possibilidade de executar Pérez tenha sido
discutida durante o planejamento do golpe, sendo defendida por alguns
oficiais (CHÁVEZ, 1995, p. 147).
Mas, a violência empregada na forma como tentaram derrubar
o presidente em 4 de fevereiro “[...] deixou 14 soldados, cinco policiais e
um civil mortos. Dezenas de homens ficaram feridos. Um total de 1.089
soldados – entre os quais 130 oficias – foram detidos e acusados de motim
e de atos criminosos de violência” (JONES, 2008, p. 167).
Apesar de poucas horas após o enfrentamento em Caracas o
governo já ter controlado a situação, ainda haviam focos rebeldes no
interior da Venezuela. Ao que tudo indica, para pôr término definitivo ao

223
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

movimento golpista, o autocomando militar tomou a seguinte decisão em


conjunto com Chávez: o tenente-coronel apareceria ao vivo na televisão
para pedir aos rebeldes a deposição das armas, reconheceria a derrota e
assumiria a responsabilidade do ato perante a população. Assim foi feito.
Na manhã de 4 de fevereiro de 1992, ele apareceu ao vivo, fardado e com
boina vermelha, para toda a Venezuela.

[...] Companheiros: lamentavelmente, por enquanto, os


objetivos que nos colocamos não foram atingidos na ca-
pital. Ou seja, nós, aqui em Caracas, não conseguimos
controlar o poder [...] ouçam esta mensagem solidária.
Agradeço-lhes a lealdade, valentia, o desprendimento. Eu,
ante o país e ante vocês, assumo a responsabilidade des-
te movimento militar bolivariano. Muito obrigado (CHÁ-
VEZ, 1992).

Não se encontram fontes capazes de apontar de quem partiu


a ordem permitindo a Chávez aparecer ao vivo na televisão. Porém, as
consequências daquela “rendição midiática” foram politicamente negativas
a Pérez e ao regime erigido em 1958. Conforme pontuou Gott (2005): um
minuto no ar, em um momento de derrota pessoal, converteu Chávez em
um herói nacional (GOTT, 2005, p. 67). O termo herói nacional poderia até
ser exagerado, mas não para este caso. A partir daquela rendição midiática,
Chávez passou de um oficial-militar desconhecido a uma figura política
nacional, capaz de mobilizar um número considerável de pessoas em favor
da tentativa de golpe. Com o desgaste de AD, Copei e das legendas de
esquerda (MIR, MAS, Bandera Roja, La Causa R), Chávez ocupou o vácuo
deixado por estes partidos ao galgar ampla aceitação popular. Mas, a
popularidade angariada com a rebelião não o impediu de ser enviado à
prisão. Chávez e alguns de seus colaboradores cumpriram pena no presídio
militar de Yare, há alguns quilômetros de distância de Caracas.
No entanto, permanecia o descontentamento nas Forças Armadas.
Em 27 de novembro de 1992, Pérez teve que enfrentar outra tentativa de
golpe, comandada pelo almirante Hernán Grüber, ainda mais violenta que
a de fevereiro. O propósito da rebelião seria matar o presidente, instalar

224
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

uma junta-militar e libertar Hugo Chávez. O Palácio de Miraflores chegou a


ser bombardeado e foram registrados confrontos em Caracas e Maracay,
sendo que 170 pessoas morreram e mais de 840 foram presas. Mas, tratou-
se de outra ação mal planejada. No final da manhã, Pérez apareceu na
televisão para anunciar que a rebelião havia sido sufocada e Grüber e seus
colaboradores estavam presos (GOTT, 2005, p. 171-175), mas o governo
não deu visibilidade a nenhum de seus partícipes. Nesta tentativa de golpe,
houve participação civil por meio do partido Bandera Roja.
A punição aos insurgentes não eximiu Pérez das consequências
políticas. Desde 1989, o país estava política e socialmente convulsionado e
após fevereiro de 1992 começou-se a questionar a capacidade de reação
do presidente. A resposta imediata ao golpe foi manter a ordem por meio
de suspensão das garantias constitucionais. Para um governo cada vez
mais desacreditado, isto não estava sendo suficiente e iniciou-se uma onda
de protestos para exigir o fim do toque de recolher. Em março de 1992,
um destes protestos teve 32 pessoas presas e 24 feridas. No interior, os
saques reiniciaram. Caminhões carregados com alimentos eram parados e
esvaziados por uma multidão impactada pela inflação e desabastecimento.
Assim como havia acontecido na década de 1960, figuras políticas, a
exemplo do ex-presidente Rafael Caldera, defendiam a anistia – no caso
aos militares insurgentes – como uma forma de pôr fim à crise política,
conter o descontentamento popular e reduzir a violência (GARCIA, 1992,
p. 1).
O Estado venezuelano agia com excessos policiais em momentos
de distúrbios. A população dos bairros pobres era a mais impactada pelos
enfrentamentos. O jornal El Universal trouxe uma matéria relatando os
excessos cometidos pelas forças policiais, que entravam em residências
sem mandado e por motivos duvidosos. Um morador mostrou as paredes
de seu apartamento com mais de 200 impactos de fuzil FAL. Para ele, “[…]
cada vez que hay problemas de cualquier tipo en el país, la policía dispara a

225
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

mansalva contra los bloques del 2315, sin pensar que allí vive gente decente”
(GARNICA, 1992, p. 2).
A capacidade de Pérez governar estava cada vez mais reduzida e
seu segundo mandato vinha sendo marcado pela instabilidade política e
intensa violência. Muito diferente para quem havia ascendido ao cargo sob
excessiva expectativa no tocante à recuperação econômica. Com Pérez
politicamente debilitado, o Congresso Nacional abriu um processo de
impeachment e o destituiu em maio de 1993, sob acusação de corrupção e
evasão de divisas. Seu partido (AD) não se esforçou para mantê-lo no cargo
e formou-se um governo de coalização, comandado por Ramón Velásquez.
Ele governou por menos de um ano e, no tocante aos assuntos econômicos,
não tomou nenhuma medida impactante. Como parte do acordo com o
Congresso, não houve anistia aos militares responsáveis pelas rebeliões de
1992 e manteve-se a repressão e a violência.
Por outro lado, o MBR-200 continuou articulado. Da prisão, Chávez
se comunicava com membros de seu movimento e exercia influência no
cenário político. No segundo semestre de 1993, militantes do MBR-200
soltaram panfletos nas ruas de Caracas instando a população a se unir à
causa e denunciava a brutal repressão exercida pelo governo de coalizão
nas famílias dos militares presos (MBR-200, 1993). Havia um movimento
cada vez maior na sociedade venezuelana de apoio aos militares insurgentes
e os panfletos serviam para fazer o contraponto a visão dos grandes canais
de comunicação, os quais enxergavam Chávez e os militares rebeldes
como potenciais ditadores. Caminhadas e missas que exigiam a libertação
dos insurgentes também eram realizadas (AYALA; VIVAS, 1994, p. 1-2).
Falava-se em empunhar armas, se preciso fosse, ou mesmo perder a vida,
para angariar tais propósitos (FBL, 1994).
Tratava-se de uma capacidade de mobilização política não
desprezível. Na porta do presídio de Yare, um número considerável de
pessoas se concentravam no local para demonstrar apoio a Chávez e ao

15 23 de Enero, bairro popular de Caracas.

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CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

movimento. Muitos gritavam por ahora e chamavam o tenente-coronel


de ‘El comandante’. Por isso, mesmo na prisão, recebia visitas e concedia
entrevistas. Para Chávez, a violência tem sido a única forma de participação
política verdadeiramente popular na Venezuela, ou seja, a maneira mais
eficaz das massas reagirem aos atropelos da classe política. Ele se dizia
um ‘filho’ da violência e, em sua visão, a situação do país era gravíssima,
podendo chegar a um conflito de grandes proporções, ou até mesmo a
uma guerra civil, caso as autoridades o mantivesse na cadeia (CHÁVEZ,
1992b, p. 38-39).
Com Carlos Andrés Pérez fora da disputa e Chávez na prisão, houve
um fortalecimento da liderança do ex-presidente Rafael Caldera, que
passou a dividir as atenções com Chávez. Caldera havia se posicionado
de forma crítica, porém dúbia, no tocante às tentativas de golpe de
Estado. O ex-presidente não corroborou da tese oficialista de que os
militares insurgentes tinham o propósito de assassinar Pérez. Em discurso
pronunciado no Senado, pontuou que o governo também agia com
violência, não sendo uma exclusividade dos militares golpistas (SOBERO,
1992, p. 18). Esse posicionamento foi considerado uma absolvição pública
aos insurgentes, vinda de uma figura relevante da política venezuelana.
Com a imagem de presidente pacificador16, Caldera pavimentou
seu retorno ao Miraflores. Abandonou o Copei, partido que havia sido um
dos fundadores na década de 1940, e formou o Convergencia17. Durante
a campanha, sua plataforma de governo girava em torno da pacificação
do país por meio do indulto aos militares rebeldes de 1992. Mesmo assim,
Chávez se recusou a negociar com Caldera e instruiu seus partidários a se
absterem no pleito de dezembro de 1993. Naquele momento, o tenente-

16 Foi no primeiro governo de Caldera (1969-1974) que os partidos banidos em 1958 foram read-
mitidos no sistema, ao possibilitar o abandono da luta clandestina e guerrilheira.
17 A saída de Caldera não pode ser explicada apenas pelo fato de membros do partido discorda-
rem de sua posição em relação aos militares golpistas de 1992. Havia um desgaste no sistema
partidário venezuelano daquele momento que prejudicava eleitoralmente os candidatos das
legendas que vinham dominando o sistema político desde 1958. Para não se prejudicar no
pleito de 1993, Caldera decidiu abandonar o Copei e fundar outro partido para se viabilizar
eleitoralmente.

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

coronel não acreditava que um governo eleito nos termos da Constituição


de 1961 pudesse pôr fim aos conflitos na Venezuela e descartou postular
qualquer cargo eletivo em um futuro próximo (CHÁVEZ, 1995b, p. 163-
180)18.
Com apenas 30% dos votos, Rafael Caldera voltou à presidência
da República em dezembro de 1993. Seu segundo mandato (1994-1998)
pode ser considerado uma tentativa de reposicionar o Pacto de Punto Fijo e
superar o descrédito nas instituições do país (VILLA, 2005, p. 158), cenário
potencializado desde 1989.
Porém, o presidente teve que lidar com a popularidade de Chávez.
O líder do MBR-200 foi colocado em liberdade em 26 de março de 1994.
Neste momento, não havia como mensurar o impacto da libertação de
Chávez no cenário político, mas o fato de uma multidão de partidários e
jornalistas o esperar na porta do presídio apontava crescente popularidade.
Rafael Caldera era o presidente, porém, Chávez exercia um poder de
mobilização considerável, capaz de incomodar um governante eleito com
apenas 30% dos votos. Foi uma das poucas vezes na história venezuelana
que um presidente da República teve seu poder ‘reduzido’ pela ação de um
líder sem mandato.
Logo após sua saída da prisão, Chávez ainda apostava na estratégia
da insurreição militar para derrubar o governo. Tentou reestruturar o
comando do MBR-200 e se reinserir nas Forças Armadas para viabilizar
outra rebelião. Entretanto, a situação havia mudado. Por mais que Chávez
dissesse que a pacificação das Forças Armadas não se limitaria a libertação
física dos insurgentes de 1992 (CHÁVEZ, 1994, p. 67-96), ele e seus
colaboradores mais próximos haviam sido colocados na reserva.
Sendo assim, buscou se aproximar de alguns líderes da esquerda
venezuelana, sobretudo aqueles que não tinham aderido ao governo de
Caldera, a exemplo de José Vicente Rangel e Luis Miquilena. Ambos são
apontados como os responsáveis por dissuadir Chávez da ideia de chegar

18 O ex-militar chegou a dizer: “Si mañana yo ando de candidato para cualquier cargo político y
no se han dado los cambios suficientes, que me fusilen” (CHÁVEZ, 1995b, p. 291).

228
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

ao poder via rebelião armada. Em 1997, o ex-militar admitiu publicamente a


intensão de disputar a presidência da República em 1998. Desde o declínio
de Carlos Andrés Pérez, a Venezuela carecia de uma liderança carismática
e Chávez ocupou este espaço ao se tornar um potencial ‘salvador da
pátria’. Ademais, Caldera fazia um governo impopular, o país continuava
economicamente debilitado, refém dos atos de violência e da repressão.
Chávez construiu sua candidatura ao se colocar como um líder
antipartidário e bolivariano. Percorreu a Venezuela de carro, fazia comícios
em cima de caminhões ou de pé, conversava com a população nos bairros
das cidades e com os campesinos no interior. Sua plataforma de governo
girava em torno do combate à pobreza e a ‘refundação’ da República, por
meio de uma Assembleia Nacional Constituinte. Tratava-se de um líder
com um considerável potencial agregador. Em 8 de dezembro de 1998, o
ex-militar se elegeu presidente com 56% dos votos. Depois de 40 anos,
alguém vinculado as Forças Armadas retornava à presidência na Venezuela.
O Pacto de Punto Fijo havia terminado com a marca da crise econômica,
da corrupção e da violência política, contra as quais havia prometido lutar
em 1958.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com base no discutido ao longo do capítulo, na Venezuela de


Punto Fijo um sistema de governo democrático conviveu com instituições
autoritárias. Houve a persistência da violência política como estratégia,
utilizada pelos grupos vinculados aos partidos AD e Copei, a fim de
manter sua posição no comando do Estado. Neste momento, acreditava-
se que, para a consolidação da democracia, devia-se utilizar métodos não
democráticos, sobretudo no tocante a eliminação das ameaças vindas de
grupos de militares insurgentes, comunistas e ex-membros do governo
Pérez Jiménez.
Entre 1958 e 1998 a elite política venezuelana construiu, no âmbito
internacional, a imagem da Venezuela petroleira, próspera, pacífica e

229
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

democrática. A realização de eleições presidenciais a cada cinco anos, a


distribuição clientelista das rendas petrolíferas e a submissão das Forças
Armadas ao domínio civil, viabilizaram por um certo período à legitimação
desta imagem positiva no continente e no mundo.
Porém, tratava-se de uma construção frágil. A imagem que a elite
política possuía da Venezuela não condizia com a realidade. Distribuir
de maneira clientelista as rendas do petróleo somente atenuava o
descontentamento social, que também era contido pela intensa violência
do Estado em relação aos grupos que o contestava, a exemplo dos partidos
de orientação marxista-leninista, os movimentos estudantis e algumas
entidades de classes não atreladas à Ação Democrática.
Os governos deste período recorriam frequentemente aos
militares, aos policiais e as instituições incumbidas da repressão para
manter a ordem. A população dos bairros (favelas) sofria com as incursões
da polícia ao reprimir protestos contra as medidas do governo, com a
justificativa de estar combatendo a delinquência. Os estudantes, por sua
vez, conviveram com a ocupação das universidades pelo Exército e/ou
Guarda Nacional. Campesinos viam as forças de segurança perseguirem
guerrilheiros. Bombardeava-se as montanhas e oferecia recompensa por
informações sobre insurgentes ou locais onde haviam armas escondidas.
As incursões militares nem sempre vitimavam pessoas envolvidas com a
guerrilha. A imprensa não ficou imune a violência. Era constante a censura
nas redações dos jornais e havia pressão para jornalistas ‘suspeitos’ serem
demitidos. Como forma de intimidação, donos de veículos de comunicação
que publicassem matérias prejudiciais ao governo eram detidos pelas
divisões de inteligência.
Por outro lado, a violência do Estado enfrentava a resistência
a opressão que também vinha na forma de violência. Como pôde-se
observar, diversos grupos políticos com postura dissidente, a exemplo de
MIR, FALN, PCV, Liga Socialista e demais grupos guerrilheiros ou vinculados
à estratégia da insurreição, optaram pela luta armada nas décadas de
1960 e 1970. Estes dissidentes foram os responsáveis por sequestros de

230
CAPÍTULO 4 | Pacto e violência política na Venezuela de Punto Fijo (1958-1998)

empresários, políticos e de um jogador de futebol argentino (Di Stefano),


além de ataques a bomba e ações que vitimaram policiais e membros das
Forças Armadas.
A crise do Pacto de 1958 também foi um processo violento.
Conforme pontua Löwy e Sader (1976, p. 857), a América Latina foi,
nas décadas de 1960 e 1970, o continente dos pronunciamientos e das
juntas-militares, sendo frequente a imagem de generais sisudos com
óculos escuros, lendo discursos para anunciar a formação de governos
após derrubarem um constitucionalmente eleito. Porém, neste período, a
Venezuela era considerada uma notável exceção a esta ‘regra’. Sendo assim,
o golpe de Estado, liderado por Chávez em 1992, foi visto com rechaço por
inúmeros países, inclusive Cuba. A imagem do tenente-coronel rebelde ao
vivo na Televisão – ao passo que se tornava uma figura política capaz de
mobilizar uma parte significativa da sociedade em favor desta atitude –
evidenciava, atonitamente, que neste país a violência não é apenas uma
forma de participação política. É uma forma aceitável de luta pelo poder e
fundamental à compreensão de sua história política.

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236
5
Capítulo
EL SALVADOR 1960-1992:
REFORMAS, UTOPÍA
REVOLUCIONARIA Y

INTRODUCCIÓN
GUERRA CIVIL
Carlos Gregorio López Bernal

El Salvador inició la década de 1950 con una


nueva constitución surgida de la llamada “revolución
de 1948”, que inició un interesante proyecto de
modernización y reforma en el país. Dicha constitución
abandonaba los postulados liberales y se orientaba
hacia la intervención del Estado en la economía,
dándole además un importante papel en el diseño e
implementación de políticas sociales. A pesar de los
recurrentes problemas políticos, que a menudo se
traducían en golpes de Estado, durante dos décadas
el país logró avances considerables en términos
de crecimiento de la economía, diversificación de
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

la agricultura de exportación, industrialización, e integración ventajosa


a la economía regional centroamericana a través del Mercado Común
Centroamericano (MERCOMUN).
Dicho proyecto también incluyó una apertura política, que en el
contexto post segunda guerra mundial implicaba apostar al fortalecimiento
de la democracia y una preocupación por la amenaza de expansión del
bloque soviético. Esas iniciativas eran impulsadas por militares, empresarios
e intelectuales progresistas, pero obviamente los militares tenían mayor
capacidad de decisión; si tenían que escoger entre democracia y seguridad
nacional, sin dudarlo optaban por la segunda. Por lo tanto, la apertura
democrática de esos años, siempre dependió de su arbitrario criterio de
seguridad; las libertades políticas eran limitadas o suprimidas en cuanto los
militares detectaban, imaginaban o inventaban una amenaza a la seguridad
nacional.
Aun con esas limitaciones, las posibilidades de participación e
incidencia de la oposición política se ampliaron después de 1948, a tal punto
que esta llegó a ocupar espacios antes fuera de su alcance, por ejemplo
gobernar la capital o tener representación proporcional en la Asamblea
Legislativa, pero el acceso al poder ejecutivo le fue vedado sin más. Es
decir, los militares y sus aliados civiles, toleraron el juego democrático en
la medida en que pudieran conservar su capacidad de veto. Este modelo
funcionó mediante una compleja articulación de concesiones y represión
en diversos grados, pero se atascó cuando las contradicciones políticas
aumentaron y sobre todo, cuando la oposición política aumentó a inicios
de los setenta, y fue capaz de formar alianzas que retaron al partido oficial
en las elecciones.
La modernización en la economía funcionó mejor, los proyectos
fueron más coherentes y duraron más gracias a una combinación de
circunstancias favorables. Retomando las ideas de Raúl Prebisch y la
Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL), se apostó
por la industrialización de sustitución de importaciones, pero en lugar de
aventurarse en una ruptura con la tradición agroexportadora del país se

238
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

trabajó simultáneamente en dos vías: por un lado se promovió la industria, lo


cual implicó la intervención directa del Estado en rubros como construcción
de infraestructura, generación de energía eléctrica y educación, y por otro,
se apostó por la diversificación de la agricultura de exportación, impulsando,
además del café, el algodón, la caña de azúcar y la ganadería.
Esta apuesta se dio cuando los productos de exportación del país,
especialmente el café, tenían buenos precios en el mercado internacional.
Tal circunstancia permitió que se aumentaran los impuestos a la
exportación y la renta sin que hubiera mayor resistencia por parte de los
grupos de poder económico. Con más ingresos fiscales, el Estado pudo
invertir en infraestructuras, crear nuevas instituciones, financiar algunas
políticas sociales y, hacia 1968, iniciar una reforma educativa diseñada
básicamente para proveer de mano de obra cualificada a la industria. A
su vez, los productores de café, algodón y otros productos de exportación
invirtieron parte de sus ganancias en la industria y la banca.
En términos generales, las décadas de 1950 y 1960 fueron
promisorias: en un entorno de relativa bonanza económica y con un sistema
político dominado por militares y cafetaleros y tutelado por los Estados
Unidos, los grupos dirigentes apostaron por un nuevo modelo de desarrollo
concebido para darle un nuevo impulso al país.
Hacia mediados del siglo XX, la sociedad salvadoreña era una
curiosa mezcla de cambios y permanencias. La economía del país dependía
básicamente del café, cultivo que era la principal fuente de divisas desde el
último cuarto del siglo XIX, esto implicaba que buena parte de la riqueza y de
la fuerza del trabajo estaba en el campo. Pero los beneficios de la actividad
productiva no llegaban a los trabajadores agrícolas, porque los salarios
eran muy bajos y las políticas sociales se enfocaban preferentemente en
el medio urbano.
En 1950, la población total del país era de 1, 855,917; el 36.49%
vivía en zonas urbanas, el 63.51% vivía en zonas rurales, esta distribución
poblacional se correspondía con la actividad productiva eminentemente
agraria. El analfabetismo era muy alto, los servicios de salud pública

239
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

bastante deficientes y la seguridad social apenas comenzaba a implantarse


con un sesgo urbano que persiste hasta la actualidad. La expectativa de
vida de los hombres era de 41 años y la de las mujeres de 44; estos datos
estaban condicionados por las altas tasas de mortalidad infantil, muchos
de los nacidos morían antes de los cinco años, víctimas de enfermedades
infecto-contagiosas, ligadas al parasitismo, la desnutrición y falta de
higiene. No obstante, la población aumentaba a un ritmo acelerado, lo cual
obviamente incidió en el agravamiento de los problemas sociales, en un
país de poco más de 21,000 km2 de extensión y con alta concentración de
la propiedad de la tierra (WALTER FRANKLIN, 2015).

Cuadro 1: El Salvador, población urbana y rural (1930-2007)


AÑO Población total % en zonas urbanas % en zonas rurales

1930 1,437,611 38.3 61.7

1950 1,855,917 36.49 63.51

1961 2,510,984 38.51 61.49

1971 3,549,260 39.53 60.47

1992 5,118,599 50.44 49.56

2007 5,744,113 62.65 37.35

Fuente: Elaboración propia con base en (BARÓN CASTRO, 2002; PNUD, 2013).

Quienes apostaron por la modernización de la economía tenían


en mente tales problemas; habían llegado a la conclusión de que era
necesario intentar otras modalidades de desarrollo que bajaran la presión
sobre la tierra. Para entonces el país ya tenía altos niveles de deforestación
y deterioro de los recursos naturales, producto de la sobre explotación y
falta de planificación en el uso de la tierra. La industrialización buscaba
reducir el uso extensivo de la tierra y mejorar las condiciones de vida de los

240
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

trabajadores. A excepción de una parte de la planicie costera del Pacífico, el


país no tenía una “frontera agrícola” que pudiera absorber nuevos cultivos
o abrir frentes de colonización para campesinos sin tierra; por lo tanto,
la diversificación de la agricultura de exportación se hizo reorientando el
uso de tierras ya utilizadas para cultivos de subsistencia. La expansión del
algodón y la ganadería provocó la deforestación de la planicie costera; el
uso indiscriminado de insecticidas para combatir las plagas del algodón
contaminó suelos y aguas y diezmó la fauna terrestre y acuática. La salud
de los pobladores también fue afectada, dando lugar a que se abandonaran
lugares demasiado expuestos a los pesticidas lanzados con aviones.
Los grandes perdedores fueron campesinos y jornaleros para
quienes era cada vez más difícil acceder a la tierra y sembrar los cereales
básicos. Además, las actividades agrícolas orientadas a la exportación no
absorbían la fuerza de trabajo existente; solo requerían gran cantidad de
peones por temporadas, dejando a los trabajadores a la deriva el resto
del año. No es extraño entonces que muchos campesinos buscaran
alternativas a su precaria situación, la emigración campo-ciudad aumentó
considerablemente. Siguiendo una práctica iniciada en las primeras
décadas del XX, muchos salvadoreños se fueron a Honduras, en donde la
poca población y abundancia de tierras ofrecía mejores perspectivas. Por
años Honduras fue una especie de “válvula de escape” a los problemas de
sobre población y falta de oportunidades en el país, pero esta vía se cerró
abruptamente con la guerra entre ambos países en 1969 (PÉREZ PINEDA,
2014).
A lo largo de la primera mitad del siglo XX El Salvador vivió un
acentuado proceso de concentración de la propiedad de la tierra, cuyos
orígenes se remontan a la extinción de tierras ejidales y comunales en la
década de 1880. Hacia finales de la década 1950, el 1% de las explotaciones
más grandes absorbían en 47% de la superficie laborada del país. 2148
propiedades mayores de 100 hectáreas, sumaban 754,501 hts. Esta
superficie era 3 veces superior a la superficie de 247,378 hts, que abarcaban
193,000 explotaciones de menos de 5 hts. (TURCIOS, 2003, p. 166). Según

241
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Kirby, para 1961 el 11.8% de la fuerza laboral rural no tenía acceso a la tierra;
para 1975 el porcentaje había subido a 40.9% (KIRBY, 1992, p. 221). En la
década de 1970, a la concentración de la propiedad de la tierra, se añadió
el encarecimiento del alquiler y el alza de precios de los insumos agrícolas.
En 1969, El Salvador enfrentó a Honduras en una guerra breve
pero cruenta que marcó el inicio de la agudización de los problemas
económicos, sociales y políticos de la sociedad salvadoreña. A partir de
entonces las dificultades aumentaron y la capacidad e imaginación de los
grupos dirigentes se quedaron cortas frente a la magnitud de los retos. El
MERCOMUN colapsó, y el principal afectado fue El Salvador, pues Honduras
era su principal socio comercial en la región, pero además Honduras cerró su
frontera al paso de productos salvadoreños en ruta hacia el sur de la región.
El retorno obligado de miles de campesinos expulsados desde Honduras
empeoró el problema agrario, al punto de que unos meses después de
la guerra el gobierno salvadoreño convocó a un Congreso sobre reforma
agraria, lo cual alarmó sobre manera a los terratenientes.
El conflicto con Honduras también complicó el panorama político.
El país cayó en una espiral de problemas que las elites dirigentes no fueron
capaces de entender y enfrentar adecuadamente. Por primera vez en
décadas, el bloque dominante mostró fisuras imposibles de disimular. Por
ejemplo, el manejo del conflicto dividió a los militares, al punto que el general
Carlos Alberto Medrano, “héroe” de la guerra, fue destituido. Más grave
aún, las insinuaciones del Partido de Conciliación Nacional (PCN), entonces
en el poder de impulsar una reforma agraria afectaron negativamente sus
relaciones con los terratenientes y la empresa privada. Las consecuencias
se vieron en las elecciones presidenciales de 1972. La derecha apareció
dividida en tres partidos, mientras que la oposición se unificó en la Unión
Nacional Opositora (UNO); la evidencia disponible sugiere que la oposición
ganó las elecciones presidenciales de 1972, pero el partido oficial retuvo el
poder mediante fraude, lo cual se repitió en 1977.
En términos generales, la década de 1970 estuvo marcada por
un progresivo cierre de los espacios políticos. El fraude en las elecciones

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CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

presidenciales y el aumento de la represión provocó que los principales


partidos opositores paulatinamente desistieran de participar en las
elecciones legislativas y municipales; para finales 1976 el partido oficial
tenía 54 de los 60 diputados y controlaba todos los gobiernos municipales
(LINDO FUENTES; CHING, 2012, p. 172).
No es extraño entonces que fuera en la década de 1970 que la idea
de una revolución de izquierda por la vía armada tomara fuerza. A lo largo
de esa década surgieron cuatro organizaciones político-militares (OPM’s)
que retaron al sistema político imperante. Iniciaron como pequeños
grupos de radicales, organizados como células de guerrilla urbana, pero
crecieron rápidamente y se articularon exitosamente con un fuerte
movimiento popular, conformado principalmente por obreros, estudiantes
y campesinos. Esa efectiva vinculación entre organizaciones guerrilleras y
movimiento social es una de las claves que explican la fuerza del proyecto
revolucionario en El Salvador.
En un contexto de creciente conflictividad política y social,
Carlos Humberto Romero asumió la presidencia en 1977, a diferencia
de los gobiernos precedentes, el de Romero no era muy proclive a las
reformas e intentó enfrentar a la oposición política y las demandas de los
movimientos sociales a fuerza de represión. Pero el nivel de concientización
y de organización de los sectores populares y la creciente fuerza de las
organizaciones guerrilleras desbordaron los esfuerzos del gobierno.
Romero fue derrocado mediante un golpe de estado en octubre
de 1979 y reemplazado por una Junta Revolucionaria de Gobierno que
impulsó un polémico proyecto de reformas que fue un desesperado intento
por evitar una guerra civil inminente. Un año después, las organizaciones
político-militares de izquierda formaron una alianza mediante la cual
crearon el Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN) que
en enero de 1981 lanzó su primera gran ofensiva militar. Fue el inicio de una
sangrienta guerra civil de más de doce años que tuvo un final negociado
en 1992.

243
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

SUEÑOS DE PROGRESO Y MODERNIZACIÓN 1950-1969

Las reformas de las décadas de 1950 y 60 fueron producto de


una preocupación compartida por importantes grupos de militares y
civiles, incluyendo empresarios, que tenían un proyecto de desarrollo
nacional enmarcado por una visión de modernización de la economía y
democratización del sistema político, a la vez que sentaba las bases de
los principios de justicia social, aplicándolos incluso al régimen económico
(TURCIOS, 2003).
Además de impulsar un ambicioso programa de reformas, orientado
a diversificar la economía nacional a través de la industrialización por
sustitución de importaciones y la integración económica regional en el
marco del Mercado Común Centroamericano (MERCOMUN), se crearon
instituciones orientadas a impulsar el desarrollo de la economía con una
mayor intervención del Estado, por ejemplo la Comisión Ejecutiva del
Río Lempa (CEL) y la Comisión Ejecutiva Portuaria Autónoma (CEPA), la
primera dedicada a la explotación de energía hidroeléctrica y la segunda
a construir y modernizar la infraestructura aéreo-portuaria. También fue
en esa época que se impulsaron las primeras políticas sociales de Estado
realmente funcionales en la historia nacional, por ejemplo el Instituto
Salvadoreño del Seguro Social (ISSS), el Instituto de Vivienda Urbana (IVU)
y el Instituto de Colonización Rural (ICR).
Al impulso de ese inédito proyecto reformista, El Salvador vivió dos
décadas con la ilusión de que había encontrado el camino del progreso
e incluso adelantó en la modernización del sistema político. En 1960
se fundó el Partido Demócrata Cristiano (PDC) y en 1961 el Partido de
Conciliación Nacional (PCN); dos partidos de diferente signo ideológico,
pero preocupados por los cambios y la democracia. El primero nació ligado
al proyecto internacional de la Democracia Cristiana y a la Iglesia Católica,
y el segundo, era heredero del Partido Revolucionario de Unificación
Democrática (PRUD) formado por los militares y civiles progresistas que
impulsaron la llamada “revolución de 1948”. Pero la apertura no fue más allá

244
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

de lo que el grupo en el poder, conformado por militares y terratenientes,


estaba dispuesto a permitir; por ejemplo, se dio la representación
proporcional en la Asamblea Legislativa, pero no se permitía la participación
electoral de partidos con tendencias comunistas. Más importante por las
consecuencias a futuro: no había disposición a entregar la presidencia a la
oposición en caso de que esta ganara las elecciones.
Acompañando los esfuerzos por modernizar la actividad productiva,
a finales de la década de 1960, el gobierno de Fidel Sánchez Hernández
(1967-72) impulsó una audaz pero controversial reforma en el sistema
educativo, que por una parte buscaba ampliar la cobertura en educación
primaria (1º a 9º grado), y tecnificar la educación media con miras a formar
mano de obra calificada para la creciente industria. El componente que más
llamó la atención del proyecto fue la utilización de la televisión para impartir
las clases en los tres últimos grados de educación primaria. Cuando la
reforma iniciaba había 453,000 estudiantes en educación primaria, de los
cuales la mayor parte solo cursaba primero y segundo grado. Solo 31,300
llegaban a sexto grado. En educación media solo se matriculaban 32,000
estudiantes (LINDO FUENTES; CHING, 2012, p. 162).
La reforma educativa tomó medidas orientadas a mejorar la
formación de los maestros, hasta entonces dispersa y deficiente. Para 1963
en el país funcionaban 63 escuelas normales, entre públicas, privadas y
mixtas, que eran las encargadas de formar a los maestros. Todas fueron
cerradas y se creó la Escuela Normal “Alberto Masferrer” que centralizó
la enseñanza docente. Además, se diseñó un programa de selección
y formación intensa para los profesores que trabajaría en la televisión
educativa; estos debían tener altas calificaciones, pues serían el factor
clave para mejorar la calidad de la enseñanza. Una vez el proyecto
estuviera en marcha, gracias a la televisión, todos los estudiantes del país,
independientemente de donde residieran, recibirían las mismas clases con
los mejores maestros. El maestro en el aula complementaría el trabajo. Para
ampliar la cobertura del sistema educativa se introdujo la doble jornada
escolar, con turnos mañana y tarde.

245
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Lo audaz e inconsulto de la propuesta provocó la oposición del


magisterio. La reforma aumentó la carga laboral docente (doble jornada),
sin mejorar los salarios. Peor aún, los maestros se sintieron degradados y
sustituidos por aparatos de televisión. Todo lo cual provocó dos huelgas
de maestros, en 1968 y 1971. Independientemente, de esos problemas,
para 1977 la cobertura educativa había aumentado considerablemente. La
matrícula de primero a sexto grado ascendió a 690,287 estudiantes. Entre
séptimo y onceavo la matrícula llegó a 197,732. Paralelamente se impulsó
un programa de construcción de infraestructura escolar llamado “Una
escuela por día”. Al menos en términos de cobertura los resultados fueron
positivos (LINDO FUENTES; CHING, 2012, p. 233).
Los gobiernos reformistas de los años 50 y 60s, también
aumentaron el presupuesto de la Universidad de El Salvador, lo cual
coadyuvó a la ampliación y mejora del campus universitario, a la creación
de nuevas carreras, especialmente en el área de las ingenierías, economía
y administración de empresas, pero sobre todo a un inédito aumento de
la matrícula. La educación superior dejó de ser exclusiva de las clases
alta y media y se hizo accesible a sectores sociales bajos. Para 1960 el
presupuesto para educación superior fue de $800,00; en 1970 había llegado
a $6,5 millones. Las cifras ciertamente son modestas, pero permitieron un
aumento considerable de la matrícula estudiantil universitaria. En 1960,
había 2,229 estudiantes, para 1971 eran 12,392. Además, la Universidad,
que hasta entonces solo había funcionado en San Salvador, creó campus
en el interior del país, lo cual permitió el acceso a la educación superior a
estudiantes de otras regiones (ALMEIDA, 2011, p. 118). Por otra parte, en la
década de 1960, la Universidad vivió una reforma que no solo aumentó la
matrícula y amplió la oferta académica, sino que favoreció una creciente
toma de conciencia de los problemas del país por parte de docentes y
estudiantes. Independientemente de la carrera que cursaran, todos los
estudiantes debían cursar las “áreas comunes”, en las que recibían cursos
de filosofía, economía y sociología que los llevaban a discutir los problemas
del país. Asimismo, los programas de proyección social acercaban a

246
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

los jóvenes a involucrarse con los sectores populares; camino que en el


transcurso de unos años, llevó a algunos estudiantes a la lucha armada
(CHÁVEZ, 2014).
Las décadas de 1950 y 60 fueron realmente promisorias. En el primer
decenio, los productos de agro exportación, principalmente café y algodón,
tuvieron muy buenos precios en el mercado internacional y generaron
ingresos extraordinarios para el país, algunos de los cuales fueron reinvertidos
en la industria. El Estado aprovechó esa feliz circunstancia y aumentó los
impuestos a las exportaciones y la renta, sin encontrar mucha resistencia.
Según Héctor Dada, el producto del impuesto sobre las exportaciones pasó
de 4.5 millones de colones en 1946, a 46.24 millones en 1954. Para el último
año este impuesto representaba el 29.7% del total recaudado. Los ingresos
del Estado se elevaron de 36.72 millones de colones en 1946, a 156.9 en el 54
(DADA HIREZI, 1978, p. 39). Por otra parte, en la década de 1960, la Alianza
para el Progreso impulsaba la modernización y la democracia en América
Latina, como una manera de contrarrestar simpatías hacia la Revolución
Cubana; además, en ese decenio, el país comenzó a ver los beneficios de
la incipiente industrialización en el marco del MERCOMUN. Buenos precios
de los productos de exportación, aumento del intercambio comercial
regional y cooperación externa permitieron que el Estado contara con
mayores recursos, sin tensar en demasía las relaciones entre el gobierno y
el gran capital. Por otra parte, los trabajadores, especialmente los urbanos,
recibían algunas señales esperanzadoras de que sus condiciones de vida
podían mejorar gracias a la acción estatal, para entonces ya existía la
seguridad social, programas de vivienda popular y otras políticas sociales.
Fue necesario que transcurrieran un par de décadas para que los
resultados de las políticas sociales de estado fueran visibles. En 1950 la
esperanza de vida al nacer era de 45.3 años; para 1970 se había elevado
a 59.1 años. La tasa de mortalidad infantil (por mil niños nacidos vivos) era
de 81.2 en 1950, pero bajó a 66.6 en 1970 (PNUD, 2010, p. 287). El aumento
de la esperanza de vida y la disminución de la mortalidad infantil fueron
el resultado de una mejora en la salubridad, campañas de vacunación y

247
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

atención maternal y pre maternal. Para la década de 1970 comenzó una


leve pero constante reducción de la tasa de fecundidad, asociada a factores
culturales y al aumento de los niveles de escolaridad de la población.
Sin embargo, este proceso de reformas y modernización adoleció de
varias debilidades: los beneficios de la bonanza económica no alcanzaron al
grueso de la población; el crecimiento de la economía era obstaculizado por
la escasa capacidad de consumo de las clases trabajadoras, cuyos salarios
rondaban el límite de la sobre vivencia, por lo que la industria dependía del
crecimiento del MERCOMUN para vender sus productos. El MERCOMUN
buscaba crear una zona de libre comercio tendiente a la integración
económica regional, basada en la industria y el comercio, pero las notables
asimetrías entre las economías regionales limitaron su implementación.
Guatemala, El Salvador y Costa Rica tenían una industria más desarrollada
y se beneficiaron más. Por el contrario, Honduras y Nicaragua competían
en desventaja pues sus industrias estaban menos desarrolladas.
A nivel bilateral, el comercio entre Honduras y El Salvador favorecía
al último, que además tenía más de 300,000 salvadoreños viviendo
ilegalmente en Honduras. Estos emigrantes ocuparon tierras estatales por
años, pero en la segunda mitad de la década de 1960 organizaciones de
campesinos hondureños comenzaron a demandar una reforma agraria. Para
evitar problemas, terratenientes y gobierno, culparon a los salvadoreños
de apropiarse tierras ilegalmente. Comercio bilateral, migración y tierras
provocaron un creciente rechazo contra los salvadoreños en Honduras
que pronto dio lugar a una ola de xenofobia. Hubo persecución, abusos,
asesinatos y expulsión masiva. El Salvador denunció ante la Organización
de Estados Americanos (OEA) la violación a los derechos humanos de los
salvadoreños, pero ante la creciente presión de los medios de comunicación
y de la opinión pública, el ejército salvadoreño invadió Honduras, antes de
que la OEA emitiera una resolución.
Fue una guerra breve, solo duró cuatro días, pero provocó cerca
de cuatro mil muertes (SLUTSKY; CARÍAS, 1971, p. 313). El conflicto tuvo
graves consecuencias para El Salvador; no solo privó al país de su principal

248
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

mercado regional, sino que fracturó el proceso de integración económica


regional. Miles de campesinos salvadoreños que vivían en Honduras fueron
expulsados, obviamente regresaron sin posesión alguna. Esta situación
agravó la problemática económico-social del país, pues agregaba un
elemento más a la creciente problemática agraria. Altas tasas de natalidad,
estrechez territorial, sobre explotación de recursos naturales y extrema
concentración de la propiedad de la tierra creaban un escenario sombrío,
agravado por la poca disposición de los grupos dominantes a cualquier
reforma que pudiera afectar sus intereses. Además, el país tenía un sistema
político de tendencias autoritarias poco proclive a los intereses de los más
pobres.
Edelberto Torres hace un balance crítico de esos procesos
reformistas en la región centroamericana, y los considera el antecedente
de la crisis que se manifestó en los años setenta:

“La crisis política fue en lo inmediato un resultado del cre-


cimiento económico y el cambio social en las décadas de
los sesenta-setenta, de los efectos que la modernización
agrícola y la industrialización del mercado común intro-
dujeron en el medio oligárquico, y en consecuencia, en el
papel del Estado” (RIVAS, 2013, p. 21).

Los proyectos de reforma y modernización abrieron espacios


políticos y provocaron cierta movilidad social en los sectores medios, pero
fatalmente chocaron con la rigidez histórica del sistema político, agravada en
un contexto de guerra fría, y con la imposibilidad de llevar adelante procesos
de reforma en el agro, debido a la oposición de los terratenientes. Es decir,
la apuesta por la modernización del país colapsó porque no fue capaz de
superar tres constantes históricas: la tendencia a la concentración de los
beneficios de la actividad económica, la exclusión de los trabajadores del
campo de los beneficios económicos y de las políticas sociales del Estado,
y el autoritarismo que dominaba al sistema político salvadoreño. La década
de 1970 se caracterizó por el agotamiento de los proyectos reformistas
impulsados por los gobiernos liderados por militares en las dos décadas

249
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

precedentes, en las que el país había vivido momentos de relativa bonanza


y sobre todo de interesantes experimentos de reforma y modernización:
diversificación de la agricultura de exportación, industrialización e
integración económica regional en el marco del MERCOMUN (LÓPEZ
BERNAL, 2017).
Cuando se agotó la tendencia reformista el país entró en un
periodo de acumulación de tensiones que llevaron a la confrontación
político-ideológica que fatalmente conduciría a la vorágine de la violencia
política y a la guerra civil. El gobierno de Arturo Armando Molina (1972-
77) intentó un tímido proyecto de reforma agraria que fue tozudamente
rechazado por el capital. Aún tuvo fuerza para construir las últimas grandes
obras de infraestructura anteriores a la guerra civil, pero no pudo cambiar
el rumbo político; la represión apenas contenía a las cada vez más radicales
organizaciones de obreros, estudiantes y campesinos. Las organizaciones
guerrilleras aumentaban sus acciones y se vinculaban con los movimientos
sociales de los cuales engrosaban sus filas. A Molina, lo sucedió Carlos
Humberto Romero (1977-79), cuya ineptitud política no le permitió ensayar
otro tipo de respuestas a los problemas del país; insistió en la represión y
simplemente perdió el control de la situación. Para entonces, las denuncias
contra el Estado salvadoreño por violaciones a los derechos humanos eran
nota común.
Romero solo estuvo en el poder por dos años; la violencia
política aumentaba, y las demandas de los movimientos sociales crecían
proporcionalmente a la represión que sufrían. La guerrilla también aumentó
los secuestros de empresarios y funcionarios con un doble objetivo: obtener
fondos para financiarse y exigir la liberación de presos políticos; varios de
esos casos terminaron en asesinatos, lo que justificó la ya desmesurada
intransigencia de la derecha más reaccionaria que exigía acciones más
drásticas del gobierno en contra de la izquierda.
Con un escenario político tan conflictivo, en cierto momento fue
evidente que el gobierno había perdido el control de la situación y que
era necesario un cambio; este solo podía darse por la vía de un golpe de

250
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

Estado, el cual se produjo el 15 de octubre de 1979. En realidad, el golpe


estuvo condicionado por múltiples factores: la crítica situación interna,
la presión de los Estados Unidos por las recurrentes violaciones a los
derechos humanos y por el triunfo de la revolución sandinista en la vecina
Nicaragua el 19 de julio de ese año. Romero, ya era incapaz para enfrentar
esos problemas y tuvo que irse al exilio.
El golpe fue liderado por un grupo de civiles progresistas y militares
jóvenes. Este movimiento político lanzó una proclama que mostraba
la gravedad de los problemas que enfrentaba el país; en consecuencia
proponía medidas radicales: garantizar las libertades políticas, respeto
a los derechos humanos y la realización de importantes reformas socio-
económicas, entre ellas la reforma agraria y la nacionalización de la banca
y del comercio exterior. Inmediatamente, se creó una “Junta Revolucionaria
de Gobierno” conformada por tres civiles y dos militares, que se disolvió
pocos meses después en medio de agrias disputas por la continuidad de
la represión en contra de los movimientos sociales. Los miembros más
progresistas del gabinete renunciaron ante la incapacidad de la Junta de
gobierno para controlar a los cuerpos de seguridad y a los paramilitares
obstinados en el asesinato, la desaparición y tortura de cualquier persona
que consideraran militante o simpatizante de la izquierda. Hubo otras dos
Juntas más, hasta que el gobierno fue dominado por el conservadurismo,
cuya fachada democrática fue provista por la Democracia Cristiana.
El progresivo viraje hacia la derecha de las sucesivas Juntas de
Gobierno, el predominio de los militares más conservadores y represivos,
más el agravamiento de las violaciones a los derechos humanos, terminó por
alejar a los sectores progresistas del gobierno. Mientras tanto la izquierda
revolucionaria, entendida como OPM’s y organizaciones populares, se
encaminaba a un acercamiento ─ promovido desde La Habana por Fidel
Castro ─, esfuerzo que dio frutos cuando en octubre de 1980 se constituyó
el Frente Farabundo Martí para la Liberación Nacional (FMLN) conformado

251
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

por cinco organizaciones guerrilleras.1


La constitución del FMLN confirmaba la disposición de la izquierda
revolucionaria a lograr el poder por la vía de las armas, disposición que
había aumentado a raíz del triunfo sandinista en Nicaragua. En algunos
dirigentes del FMLN había tomado fuerza la idea de que la izquierda
armada podía provocar una insurrección popular, como había acontecido
en Nicaragua, pero otros pensaban que ese no era el camino y que debían
prepararse para una “guerra popular prolongada” al estilo vietnamita. En
esa coyuntura se impuso la tesis insurreccional y el recién constituido
FMLN lanzó una “ofensiva general” en enero de 1981, pero el gobierno
resistió y no hubo insurrección popular. Las fuerzas guerrilleras debieron
replegarse a zonas de control en el interior del territorio, especialmente en
los departamentos de Chalatenango, Morazán, Usulután y San Vicente, y
readaptar su estrategia a un conflicto militar que se prolongaría hasta 1992
y que costaría más de 70,000 víctimas, más el desplazamiento forzoso de
buena parte de la población, para 1984 se estimaba que medio millón de
personas habían salido de sus lugares de origen; a esto hay que agregar la
destrucción de buena parte de la infraestructura pública y productiva del
país.
Asimismo, la guerra civil provocó la emigración de miles de
salvadoreños al exterior, principalmente a los Estados Unidos, fenómeno
que persiste hoy en día y que ha transformado a la sociedad salvadoreña,
quizá mucho más que los procesos de reforma y la guerra civil. Se dice
que entre dos y medio y tres millones de salvadoreños viven en el exterior.
Para 2016, las remesas de dinero que los emigrantes enviaron al país,
fueron casi equivalentes al presupuesto de la nación. Este flujo de dólares
constituye un pilar fundamental de la economía del país, caracterizada por
el poco crecimiento y el alto consumo. Pero la emigración también provocó
la desintegración familiar y fue factor determinante para la eclosión de

1 Fuerzas Populares de Liberación Farabundo Martí (FPL), 1970; Ejército Revolucionario del
Pueblo (ERP), 1972; Resistencia Nacional (RN), 1975; Partido Comunista de El Salvador (PCS),
1930; y Partido Revolucionario de los Trabajadores Centroamericanos (PRTC), 1976.

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CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

las pandillas (“maras”) que han provocado una vorágine de violencia que
desangra al país hoy en día.
No hubo una victoria militar en la guerra civil y esta finalizó en 1992,
mediante negociaciones auspiciadas por las Naciones Unidas. El Acuerdo
de Paz suscrito entre el FMLN y el gobierno salvadoreño marcó el fin del
enfrentamiento militar y convino en una serie de reformas orientadas a
la democratización del país, la reinserción de la guerrilla a la vida civil y a
cesar la injerencia de la Fuerza Armada en la política.

LA OPCIÓN REVOLUCIONARIA ARMADA EN EL SALVADOR:


UN CAMINO LARGO Y TORTUOSO

La conformación del FMLN en 1980, fue el resultado de un largo


proceso en que la vía armada, como mecanismo para la toma del poder,
fue gestándose entre grupos muy diferentes, pero que tenían como
denominador común las inquietudes por el cambio y la insatisfacción con el
sistema político y económico imperante en el país. La extracción social de
los miembros de estos grupos era muy diversa: algunos provenían del sector
obrero, pero los más eran de clase media: estudiantes, maestros y docentes
universitarios. En buena medida eran producto de los cambios acaecidos en
el país a partir de la década de 1950, ya fuera por la ampliación del sistema
educativo, especialmente a nivel universitario o de la industrialización que
permitió el crecimiento del sector obrero. En 1951, 51,738 trabajadores
laboraban en el sector industrial, para 1971, había 148,165. El crecimiento
de la industria más la apertura política, incrementó la organización sindical;
de 64 sindicatos con 21,185 afiliados en 1960, se pasó a 133 sindicatos con
47,403 afiliados en 1971 (ALMEIDA, 2011, p. 131).
Independientemente de su origen, los militantes de la izquierda
salvadoreña de la década de 1970 en algún momento estuvieron
relacionados con el Partido Comunista de El Salvador (PCS), con la
Universidad de El Salvador (UES), o con el trabajo pastoral de la Iglesia

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Católica. Las inquietudes políticas y sociales que condujeron al surgimiento


de las Organizaciones Político Militares (OPM’s) en la década de 1970
nacieron ya fuera de la militancia en el PCS, de la experiencia de estudio
y organización en la UES o el trabajo pastoral y social en alguna pastoral
eclesiástica (CHÁVEZ M., 2014).
El PCS fue fundado en 1930 por obreros e intelectuales radicalizados.
Dos años después el partido participó en una frustrada revuelta armada,
cuya represión terminó en el asesinato de miles de personas, principalmente
indígenas y campesinos. El PCS fue prácticamente desmantelado, los
sobrevivientes tardaron en reagruparse y por más de una década no
tuvieron actividad política significativa. En el marco de las aperturas
políticas de las décadas de 1950 y 1960, el partido se revitalizó y atrajo
militantes provenientes sobre todo del movimiento sindical y la universidad,
pero el control que ejercían los aparatos de seguridad del Estado, la
memoria de la matanza de 1932, más los conservadores lineamientos que
recibía de Moscú, impedían que el partido realizara acciones que retaran el
orden establecido.
En la sombra de la clandestinidad el Partido Comunista sobrevivía
a través del trabajo sindical, y trataba de superar la modorra de su
poca actividad con interminables debates teóricos sobre un proyecto
revolucionario que no encontraba rumbo ni viabilidad. Y aunque la narrativa
memorial y testimonial de la izquierda se esfuerza por mostrar una línea
constante de lucha popular contra lo que llaman la “dictadura militar”, la
evidencia sugiere que en la apertura política de las décadas de 1950 y
1960, favoreció el crecimiento del movimiento sindical con el cual el PCS se
vinculó preferentemente. El aumento del presupuesto universitario permitió
un incremento significativo de la matrícula universitaria. Movimiento
sindical y universidad fueron los espacios preferidos para el reclutamiento
de militantes del PCS. Sin embargo, esa izquierda no representó un desafío
al status quo, porque la lucha armada no estaba en su estrategia de lucha
(TURCIOS, 2003, p. 70-76).
En el decenio de 1950 el trabajo del PCS se limitaba a la discusión
teórica, la organización sindical, la participación en los procesos electorales

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CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

usando partidos de fachada, ya que constitucionalmente el comunismo


estaba proscrito. Como otros partidos comunistas de la época, el PCS
seguía al pie de la letra los lineamientos de Moscú, que entonces apostaba
a la “convivencia pacífica” con el capitalismo. Sin embargo, en 1959,
un variopinto movimiento revolucionario en Cuba derrocó al dictador
Fulgencio Batista; en el transcurso de unos años una facción liderada por
Fidel Castro se adueñó del poder, declarándose comunista e inició una
serie de medidas que afectaban el régimen político y la economía. Ante
los ataques estadounidenses los cubanos se acercaron cada vez a la Unión
Soviética.
El triunfo de la Revolución Cubana tuvo graves consecuencias
para la relación entre los Estados Unidos y América Latina. Washington
venía advirtiendo del peligro de la expansión comunista desde mucho
antes, y había intervenido descaradamente contra gobiernos que tildó de
comunistas, por ejemplo el de Jacobo Árbenz en Guatemala en 1954, pero
nada de lo visto hasta entonces tendría las consecuencias del caso cubano.
Y esto por una razón, el triunfo de Castro fue un cuestionamiento demoledor
a los planteamientos y acciones de la Internacional Comunista y de los
Partidos Comunistas, satélites de Moscú. Rompiendo con la ortodoxia y el
teoricismo marxista, los cubanos no sólo derrocaron a un temible dictador,
sino que implantaron un régimen que retaba abiertamente a los Estados
Unidos a pocas millas de su costa. Vale decir, que a excepción de la crisis
de los misiles en 1962, ese reto fue más bien moral y simbólico, pero tuvo
repercusiones en todo el continente.
La Revolución cubana atrajo inmediatamente a jóvenes
latinoamericanos con inquietudes políticas y revolucionarias y minó el
pretendido monopolio de los Partidos Comunistas sobre los proyectos
revolucionarios. Las imágenes barbadas de los líderes de la revolución
dominaron la imaginación de muchos jóvenes; la del “Ché” Guevara llegó
a ser una especie de ícono de la revolución. Muy pronto, el anquilosado
Partido Comunista Salvadoreño comenzó a sentir vientos de cambio que
amenazaban su discutible sitial revolucionario (MARTÍN; REY TRISTÁN,
2012).

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Y es que en la década de 1960, la Revolución Cubana fue el horizonte


al cual miraban todos aquellos que tenían ideales libertarios y progresistas.
Saenz de Tejada sintetiza magistralmente el impacto del triunfo de los
revolucionarios cubanos:

“Para la izquierda latinoamericana el triunfo de la Revo-


lución Cubana representó un parte aguas en tanto que
constituía un reto a la estrategia política que hasta el mo-
mento habían impulsado los partidos comunistas y des-
pertaba interrogantes respecto a su futuro. Más allá del
acontecimiento político, el hecho que un grupo de jóvenes
revolucionarios hubiera podido enfrentar y derrotar a un
ejército profesional se constituyó en un ejemplo a seguir
para los grupos de izquierda” (SAENZ de TEJADA, 2006,
p. 13).

Para inicios de la década de 1960, el PCS era una especie de


cofradía o cenáculo de militantes comunistas que vivían en una especie de
enclave místico, obnubilados por un marxismo esquemático y anquilosado,
rodeados de un aura de romanticismo proletario, y con poca incidencia
política práctica, a excepción de su vinculación con el movimiento sindical
y estudiantil universitario y de su participación encubierta en los procesos
electorales. La revolución cubana, quebró ese status quo y puso en el debate
temas hasta entonces ignorados. Uno de ellos fue el principio leninista de la
“situación revolucionaria” y sus adláteres condiciones objetivas y subjetivas;
poco a poco en el PCS fueron apareciendo quienes se preguntaban si era
posible impulsar otro tipo de luchas hacia la revolución. En otras palabras,
ser más audaces y dejar de hacer lo mismo, tal y cómo habían hecho los
cubanos.
Por las particularidades de su historia, en El Salvador esos
cuestionamientos fatalmente revivían la matanza de 1932, que fue el
bautismo de fuego del entonces recién fundado Partido Comunista. 1932
reapareció en la memoria de los comunistas, ya no como la narrativa
abnegada y sacrificial de un partido que aún en condiciones adversas había
acompañado las luchas populares, sino como un cuestionamiento que debía
determinar si en 1932 había habido una situación revolucionaria y si el PCS

256
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

había hecho la lectura correcta de la realidad y actuado en consecuencia.


En ese año, y por primera y quizá única vez, el Partido Comunista fue
extremadamente audaz y coherente al decidirse a acompañar una
insurrección que tenía muy pocas posibilidades de triunfo. El PCS pagó con
sangre su decisión, y no solo eso, la Internacional Comunista que muy poco
había apoyado, rápidamente abrió una investigación en la que se interrogó,
en términos muy duros, a los comunistas sobrevivientes sobre la manera
en que habían conducido el levantamiento. Desde entonces, el PCS se
cuidó mucho de no impulsar acciones radicales y violentas, para no caer en
situaciones parecidas a las de 1932 (CHING, 1998).
Cada vez que algún grupo — casi siempre compuesto de militantes
más jóvenes —, cuestionaba la pasividad del partido, el ala ortodoxa
replicaba que no se debía actuar sin antes hacer un análisis profundo de
la coyuntura, es decir de las condiciones objetivas y subjetivas que podían
conducir a una situación revolucionaria, única circunstancia que podría
justificar acciones más radicales (LINDO, et al., 2010, cap. 5). Sin embargo,
la Revolución Cubana mostró que la vía armada podía impulsarse con
éxito, al margen la inacabable discusión sobre la existencia o no de una
situación revolucionaria. La victoria de Castro entusiasmó a los militantes
jóvenes que comenzaron a soñar con seguir el ejemplo cubano, al punto
que el PCS montó por breve tiempo una estructura orientada a la acción
armada: el Frente Unido de Acción Revolucionaria (FUAR), pero la iniciativa
no prosperó, porque la tendencia más conservadora la bloqueó hasta
paralizarla (HANDAL, 2010, p. 19).
A pesar de las inercias que lo caracterizaban, el Partido Comunista
atraía a los jóvenes que buscaban en la organización un cauce para sus
inquietudes políticas e intelectuales. Después de todo, esta era una
experiencia de ruptura y reto que daba un aura de rebeldía. Ingresar al
Partido era un paso transcendental, pero el Partido no siempre llenaba las
expectativas de los reclutados. Al menos, no las del poeta Roque Dalton
que esperaba experiencias más intensas y menos formalismo; así lo dejó
ver en uno de sus escritos:

257
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

“Todo el mundo ahí parecía levemente aburrido


tal vez de la persecución y hasta de la tortura
diariamente soñada.
[…]
Y me dijeron que debía
escoger un seudónimo
que me iba a tocar pagar cinco pesos al mes
que quedábamos en que todos los miércoles
y que cómo iban mis estudios
y que por hoy íbamos a leer un folleto de Lenin
y que no era necesario decir a cada momento camarada”
(DALTON, 1983, p. 26).

Aburrimiento de una rutina que no llevaba a más, y sin los peligros


y sacrificios que la literatura bolchevique anunciaba. Formalismos vacuos
como llevar un seudónimo o pagar una cuota. Una formación que hacía
énfasis en folletos poco relacionados con la realidad nacional. En síntesis, el
PCS no se caracterizaba por el radicalismo, entendido este como la opción
por planteamientos y acciones orientados a cuestionar de raíz al sistema y
a buscar la revolución para impulsar transformaciones drásticas.
En una clara alusión a los hechos de 1932 y a las inquietudes que
la revolución cubana generaba entre los jóvenes, en las actas del Quinto
Congreso del partido, realizado en 1964, se consignó:

“La experiencia nos ha demostrado, en El Salvador, que


las acciones prematuras o aventureras pueden causar
daño al desarrollo del movimiento revolucionario, y por
ello consideramos el aventurismo y la impaciencia pe-
queñoburguesa como un peligro para el desarrollo con-
secuente del movimiento revolucionario en nuestro país”
(LINDO, et al., 2010, p. 237).

Al final, los argumentos del ala conservadora del PCS se impusieron


hasta lograr que en el Quinto Congreso del partido de 1964 se abandonara
el “izquierdismo romántico” suscitado por la revolución cubana y se
volviera a lo que entonces se decía “leninismo científico”. Por supuesto,
los “radicales” del partido quedaron inconformes con los resultados del
debate, pero no tenían fuerza ni convicción para romper con él.
Sin embargo, la coyuntura de la guerra entre El Salvador y
Honduras en 1969 reavivó los debates en el PCS. La dirección del partido

258
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

suscribió pronunciamientos en los que apoyaba al gobierno en el conflicto


con Honduras, los cuales fueron rechazados por Cayetano Carpio, un líder
obrero que había llegado a ser importante dirigente del partido. Carpio
criticó fuertemente el apoyo del partido a una guerra que él consideraba
era una disputa entre oligarquías y que nada tenía que ver con los intereses
nacionales y menos con los de las clases trabajadoras. Carpio renunció al
PCS en marzo de 1970; un mes después fundó las Fuerzas Populares de
Liberación Farabundo Martí (FPL) que desde su fundación manifestaron
su opción por la lucha armada como vía a la revolución. Tal planteamiento
contrastaba tajantemente con la línea del PCS que en el V Congreso,
realizado en 1964, calificó de inviable la lucha armada en El Salvador en tanto
que la pequeñez del territorio, el desarrollo de las vías de comunicación,
la alta densidad poblacional y las capacidades del ejército salvadoreño,
imposibilitaban la construcción de una “retaguardia guerrillera”.
Dos años más tarde se organizó el Ejército Revolucionario del
Pueblo (ERP), con miembros mucho más jóvenes, estudiantes y de clase
media. La mayoría de ellos había tenido experiencias organizativas previas
en la UES a través de Acción Católica Universitaria Salvadoreña (ACUS),
en la Juventud Demócrata Cristiana, y en la Juventud del PCS (CHÁVEZ,
2014, p. 460).
Además de las FPL y el ERP, en 1975 surgió la Resistencia Nacional
(RN) como resultado de una escisión del ERP en la cual fue asesinado el
poeta Roque Dalton, uno de los escritores más importantes y conocidos de
El Salvador. En 1976 surgió el Partido Revolucionario de los Trabajadores
Centroamericanos (PRTC), una organización que pretendió tener una
proyección regional, pero que solo funcionó realmente en El Salvador.
Esas cuatro organizaciones son conocidas como la “nueva izquierda”, en
contraposición al PCS. Esta nueva izquierda tenía un pensamiento político
heterogéneo, disperso y hasta contradictorio. Además, estos grupos
se formaron en la clandestinidad, en un contexto de mayor persecución
política; tuvieron fuertes pugnas entre sí y con el PCS. A diferencia del
PCS no tenían estructuras jerárquicas bien definidas, ni respondían a
lineamientos internacionales aunque todos tuvieron influencias externas.

259
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Para entender los orígenes de la nueva izquierda es preciso


remontarse a mediados de la década de 1960 cuando surgieron nuevos
espacios de discusión de la realidad que llevaron a nuevas formas
de organización: estudiantes universitarios, sacerdotes católicos y
campesinos se insertaron en una dinámica de reflexión, organización,
trabajo pastoral y comunitario (CHÁVEZ, 2017). Surgían entonces en el país
formas de organización de los sectores sociales subalternos diferentes a
las tradicionales impulsadas por la izquierda representada en el Partido
Comunista. Demasiado apegado a los sesudos análisis de las condiciones
del país, a las prácticas organizativas convencionales y actuando
preferentemente en el medio sindical, el PCS no era el espacio más idóneo
para encauzar las crecientes inquietudes políticas de jóvenes provenientes
de sectores sociales con los cuales el PCS había tenido poca vinculación.
Muy importante fue la radicalización estudiantil universitaria. Tal y
como aconteció en la política electoral, las relaciones entre la Universidad
y los gobiernos en las décadas de 1960 y 70 pasaron por momentos de
apertura y de conflicto. Los de apertura favorecieron el crecimiento de la
UES, los de conflicto condujeron a la represión. La Universidad sufrió varias
intervenciones militares (1960, 1972, 1977); cada una de ellas radicalizaba
a estudiantes y docentes. Además el 30 de julio de 1975, la represión de
una manifestación estudiantil terminó en el asesinato de decenas de
estudiantes, la mayoría universitarios. Ese descontento fue capitalizado
por las diferentes OPMs que ya operaban dentro de la Universidad, en cuyo
interior no solo reclutaban militantes, sino que disputaban la hegemonía del
proyecto revolucionario.
A lo largo de la década de 1970 hubo fuertes diferencias y conflictos
entre las OPM’s. En un primer momento, la principal disputa fue el recurso a
la vía armada para impulsar los cambios o hacer la revolución; después se
disputó sobre la estrategia que debía seguir el movimiento revolucionario,
y hubo dos posiciones antagónicas principales: la vía insurreccional y
la guerra popular prolongada. También hubo mucha discusión sobre
la formación de alianzas con otras fuerzas políticas, y las posiciones

260
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

cambiaban según el momento político que se viviera. Estas discusiones


eran apasionadas, y a menudo poco racionales. Primaba el sectarismo, los
recelos y la descalificación a priori del otro; a tal punto que por momentos
parecía que el enemigo no era el gobierno, los militares y la oligarquía sino
las otras organizaciones de izquierda que no asumían el planteamiento que
una defendía (ALVARENGA, 2016).
En la década de 1970, las OPM’s trabajaron simultáneamente en
varias vías. Por una parte dedicaron esfuerzos a su preparación militar,
realizaron numerosos secuestros de empresarios y terratenientes, cuyos
rescates financiaron la compra de armamento y sobre todo los gastos
del crecimiento de sus estructuras. Montaron una compleja red de apoyo
logístico que fue fundamental para dar cobertura a las acciones de la
guerrilla. También se mandó a militantes a formarse militarmente en el
exterior, principalmente Cuba, Vietnam y la Unión Soviética. Pero quizá
más importante, cada OPM fue construyendo su propio frente de masas.
Estos frentes de masas eran compuestos por organizaciones obreras,
estudiantiles y campesinas que acompañaban las luchas de los trabajadores
por medio de protestas de calle, huelgas, tomas de iglesias, ministerios y
embajadas. Asimismo, daban cobertura y apoyo a las células guerrilleras,
colaboraban en la logística, y llegado el momento formaban milicias de las
que se reclutaban a los combatientes guerrilleros.
En todo caso, es imposible desligar la evolución de las
organizaciones revolucionarias de la situación política del país, y sobre
todo, de la incapacidad del Estado para manejar los problemas nacionales
y de las valoraciones de la población al respecto. Es claro que para 1979,
no solo se había agotado el proyecto reformista, sino que para buena parte
de la población el Estado era el culpable, por acción u omisión, de los
problemas que enfrentaba. Además la escalada represiva impulsaba a las
organizaciones populares a vincularse cada vez con las OPM’s, en las que
encontraban la posibilidad de responder a la violencia estatal.

261
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

LA COYUNTURA DEL GOLPE DE ESTADO 1979 Y LA


CONFORMACIÓN DEL FMLN

En las elecciones presidenciales de 1977 se impuso en la presidencia


al general Carlos Humberto Romero. Estas elecciones marcaron el inicio de
la debacle del PCN y del proyecto reformista. La oposición denunció fraude
y montó una histórica protesta en la Plaza Libertad. A la semana el ejército
desalojó la plaza y mató a decenas de manifestantes. En los días siguientes
hubo numerosos enfrentamientos entre las fuerzas de seguridad y civiles.
Romero asumió el poder en un ambiente poco propicio y con fuerte
rechazo de las organizaciones populares. En la toma de posesión anunció su
disposición a impulsar “los cambios necesarios para alcanzar el bien común
que debemos disfrutar los salvadoreños”. La vaguedad de la afirmación
muestra que, a diferencia de los anteriores gobiernos del PCN, este no
tenía un proyecto político claramente definido; situación entendible, pues
Romero se había opuesto tajantemente a la reforma agraria, para entonces
la demanda más sentida en el campo. De allí que más adelante afirmase
que buscaría “mejorar la situación de todas las clases sociales, sin destruir
a nadie, procurando que la fuerza de los fuertes ayude a la promoción de los
débiles” (WALTER FRANKLIN, 2001a, p. 556). Su discurso, aparentemente
conciliador, no encontró eco entre los sectores populares organizados, ya
muy desencantados del estilo de gobierno del PCN.
Para 1978, el escenario político tomaba un cariz preocupante, cada
vez eran más frecuentes los enfrentamientos entre fuerzas guerrilleras y
cuerpos de seguridad, así como el secuestro de importantes hombres de
negocios. El gobierno aumentó la represión, y decretó una “Ley de defensa
y garantía del orden público”, con lo que se ganó la condena del gobierno
del presidente Carter, sin que pudiera disminuir las protestas populares ni
las acciones guerrilleras. La ley de defensa del orden público fue derogada
en marzo del 78, pero la violencia política no disminuyó. El gobierno había
perdido el control del país; la derecha más recalcitrante le reprochaba no
ser suficientemente eficaz y agresivo en la represión, la izquierda lo acosaba

262
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

con acciones más frecuentes y audaces, y los Estados Unidos veían con
suma preocupación cómo la situación en la región se complicaba sobre
manera.
No es de extrañar entonces que diversos grupos comenzaran a
considerar la posibilidad de derrocar a Romero, sobre todo después de la
caída de Somoza en Nicaragua en julio de 1979, la cual elevó los ánimos de la
izquierda salvadoreña. El golpe de Estado se dio el 15 de octubre, por medio
de una variopinta y volátil alianza entre militares y civiles, determinada
por el hecho de que solo los militares tenían posibilidad de echar abajo al
gobierno, pero dadas las condiciones de agitación política, necesitaban de
los civiles para gobernar con mínimas posibilidades de éxito y legitimidad
(MAJANO, 2009). Pero esas posibilidades solo podrían materializarse
si el nuevo gobierno garantizaba los derechos políticos de la población
y realizaba las reformas tanto tiempo pospuestas. Tan importantes eran
estos temas que fueron explícitamente tratados en la proclama que la
Fuerza Armada lanzó el mismo día del golpe.
Aparte de prometer libertades políticas y respeto a los derechos
humanos, la proclama contenía un paquete de reformas que afectaban
intereses económicos que hasta entonces habían sido intocables: reforma
agraria, nacionalización de la banca y nacionalización del comercio
exterior. Dichas reformas no se veían como un fin en sí mismas, sino como
medio para lograr “una distribución equitativa de la riqueza nacional”. La
proclama también planteaba medidas puntuales orientadas a mejorar las
condiciones de vida de los sectores sociales más vulnerables. La proclama
fue inmediatamente rechazada por las alas más radicales de la derecha y
de la izquierda. La primera porque veía en las reformas un atentado contra
su tradicional poder económico, y la segunda porque percibía que las
reformas le quitaban banderas de lucha.
Este fue un golpe anunciado, quizá por ello incruento. Romero no
intentó resistir y salió al exilio sin ofrecer ninguna oposición; él ya era parte
del pasado. El problema era el presente y sobre todo el futuro. Y el futuro
solo tenía dos desenlaces posibles: reforma o revolución. Los golpistas

263
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

optaron por el primero, la izquierda radical por el segundo. Siguiendo


una tradición de décadas, el PCS se alineó con la reforma y usando el
“Foro popular” y el partido Unión Democrática Nacionalista (UDN) como
fachada, formó parte del gabinete de la primera Junta de Gobierno. El Foro
Popular buscaba la formación de un “gobierno de amplia participación”. El
PCS apostó mucho al Foro Popular, pero la intransigencia de las extremas
bloqueó ese esfuerzo (MENJÍVAR OCHOA, 2008, p. 45-47).
Una vez más afloraron las diferencias entre las izquierdas; las OPM’s
más radicales rechazaron sin ambages el golpe, al cual calificaron como
una maniobra de la burguesía nacional y del imperialismo estadounidense
para detener el avance revolucionario. Un día después del golpe, el ERP
realizó fuertes acciones armadas en la periferia de la capital que trataron
de emular lo acontecido en Nicaragua. Las FPL entendieron que el golpe y
las reformas tenían el objetivo de “arrebatar las banderas de la revolución
y erosionar su base social en crecimiento”; en consecuencia intensificaron
“la lucha armada popular en todos sus escalones y formas” (HARNECKER,
1991, p. 101-102).
Había otros actores más que jugarían un papel importante: uno
era la Democracia Cristiana, en sus dos vertientes: una más tradicional y
conservadora — que se alió con el ejército y formó las siguientes Juntas
de Gobierno, hasta llegar a la presidencia en 1984 —, y otra que apuntaba
hacia una línea más progresista de corte social demócrata, y que terminó
siendo parte del Frente Democrático Revolucionario (FDR) creado en abril
de 1980, y que fue una especie de brazo político-diplomático del proyecto
revolucionario, pero sin optar por la vía armada. El otro era la Iglesia Católica,
cuyo sector tradicional conservador dominaba la Conferencia Episcopal
y veía con creciente preocupación como el ala progresista vinculada a la
Teología de la Liberación se acercaba cada vez más a las organizaciones
populares. Como una figura admonitoria y síntesis de la división de la
sociedad salvadoreña, el arzobispo de San Salvador, Monseñor Óscar
Arnulfo Romero hizo de la defensa de los derechos humanos la razón de su
ministerio, opción que fatalmente lo condujo al martirio el 24 de marzo de

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CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

1980, cuando fue asesinado por un “Escuadrón de la Muerte” de derecha,


no por su defensa de la fe — como eufemísticamente se dijo cuándo se
le beatificó — sino por su opción decidida a favor de las víctimas de la
violencia política.
Pero no se puede entender esa coyuntura política sin considerar
a la derecha, un tema que a menudo se pasa por alto. La aguda crisis de
gobierno que vivía el país desde 1977 mostraba no solo la ineptitud política
del presidente Romero, si no el agotamiento del régimen reformista y del
PCN como partido de gobierno. Los sectores de derecha más radicales
y reaccionarios habían comenzado a readecuar sus estrategias políticas
desde antes del golpe del 79; parte de esa readecuación fue organizar o al
menos financiar grupos paramilitares que actuaban desde los cuerpos de
seguridad o vinculados a ellos. Los asesinatos y desapariciones ejecutados
por estos auto llamados “Escuadrones de la muerte” contribuyeron
grandemente a la escalada de violencia de esos años.
Pero paralelamente a la vía violenta, la derecha apostó por una
recomposición política, para la cual era indispensable formar un nuevo
partido capaz de enfrentar simultáneamente la “amenaza comunista
revolucionaria”, y la “conspiración reformista” del sector progresista del
ejército, la Democracia Cristiana y los Estados Unidos. En el fondo, todo
este esfuerzo trataba de mantener el statu quo ya en crisis. Lo cierto es
que era una tarea titánica y a contra corriente. En un contexto en que como
ya se dijo solo parecía haber dos caminos posibles: reforma o revolución, la
derecha apostaba a todo lo contrario, y parecía dispuesta a todo para lograr
sus objetivos, aunque ello costara ríos de sangre, como efectivamente
aconteció.
La evidencia disponible apunta a que ambas modalidades de lucha
de la derecha radical fueron lideradas por el mayor Roberto D’Aubuisson,
un militar con una larga trayectoria en la Guardia Nacional y en la Agencia
Nacional de Seguridad Salvadoreña (ANSESAL) y que se retiró del ejército
luego del golpe de Estado de 1979. En los meses que siguieron al golpe
D’Aubuisson desplegó una intensa actividad cuasi clandestina tratando de

265
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

encontrar apoyos para su cruzada anticomunista; a menudo aparecía en


la televisión para hacer furibundas acusaciones contra personas a quienes
acusaba de comunistas, sus enemigos afirman que muchas de esas
denuncias terminaron con el asesinato o desaparición de los denunciados.
En la línea política, D’Aubuisson fundó la Alianza Republicana
Nacionalista (ARENA) en septiembre de 1981, partido que adoptó un
ideario liberal, nacionalista y anticomunista. El nuevo partido reclutó
su base social de entre los militantes en desbandada del PCN y de las
estructuras de Organización Democrática Nacionalista (ORDEN), una
estructura paramilitar fundada en 1962 que hacía labores de control social
y político a favor del gobierno y con un ideario nacionalista y anticomunista.
El Mayor D’Aubuisson conocía bien a esa organización porque había
trabajado en la Guardia Nacional, cuerpo de seguridad que tuvo fuertes
vínculos con ORDEN. Dicho personaje es más conocido por haber dirigido
los Escuadrones de la Muerte, responsables de la muerte muchos civiles
y simpatizantes de la guerrilla. Sin embargo, debe reconocerse que tenía
un carisma que hacía que mucha gente de los sectores populares y de
clase media y alta apoyara su causa. Es más, al menos ciertos sectores de
derecha consideran que en sus orígenes ARENA se caracterizaba por su
arraigo en los sectores de clase media y campesinos, aterrorizados por la
izquierda radical, pero que tiempo después fue cooptada por el gran capital
salvadoreño.
Entre octubre y diciembre de 1979, y conforme pasaban las
semanas, los militares reformistas y sus aliados civiles tenían cada vez
menos control sobre los militares conservadores; estos se alineaban cada
vez más con la derecha y se mostraban poco dispuestos a controlar los
excesos que cometían los cuerpos de seguridad, los “escuadrones de la
muerte” y el mismo ejército en contra de todos los que eran acusados
de ser miembros o simpatizantes de la guerrilla y sus organizaciones de
masas. Legado que fue el momento de poner las cartas sobre la mesa, la
posición de los militares fue clara: los civiles estaban en el gobierno por
concesión de la Fuerza Armada y no podían aspirar a controlar su accionar.

266
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

A los civiles no les quedó más camino que renunciar. Esta sería la primera
ruptura post octubre de 1979; habría dos más y cada vez el gobierno tendía
más hacia la derecha, hasta hacer un pacto con el sector más conservador
de la Democracia Cristiana, liderada por José Napoleón Duarte.
La agudización de la crisis política en 1979, el creciente empuje del
movimiento popular y el fortalecimiento de las OPM’s, llevaron al PCS a
reconsiderar su posición respecto a la lucha armada. En el último trimestre
del año 79, el partido se movió simultáneamente en dos vías: se incorporó
en el gobierno surgido del golpe de octubre, usando como fachada a la
UDN y el Foro Popular, pero también continuó negociando con las FPL
y la RN la conformación de una Coordinadora Político-Militar (CPM) con
miras a intensificar la lucha armada. En diciembre del 79, cuando la primera
Junta Militar se tambaleaba, se anunció la creación de la CPM. Su primer
comunicado no deja lugar a dudas sobre el viraje que se estaba dando:

“Ya nadie debe confundirse: la única alternativa verdadera


y eficaz de solución a la crisis nacional en beneficio del
pueblo, es la revolución popular armada, cuyas fuerzas
maduran aceleradamente” (MENJÍVAR OCHOA, 2008, p.
53).

La declaratoria era contundente, pero aún debían definirse el destino


de la primera Junta de Gobierno y la participación de sectores de izquierda
moderada en el gabinete. En una vorágine de acciones y reacciones, de
alianzas y recelos, el destino de la Junta se definió en el transcurso de tres
meses cargados de esperanzas, de contradicciones y de sangre.
Siguiendo un camino parecido al de las OPM’s, los frentes de
masas, también tuvieron acercamientos que pronto dieron resultados. El 11
de enero de 1980 se creó la Coordinadora Revolucionaria de Masas (CRM)
que el 22 de enero, realizó la mayor manifestación popular hasta entonces
vista, la que fue duramente reprimida por los cuerpos de seguridad y
paramilitares (MENJÍVAR OCHOA, 2008, p. 47-48). La masiva protesta fue
una muestra fehaciente de que el movimiento popular ligado a la izquierda
radical también estaba en camino de unir esfuerzos y que no podía ser
derrotado por la represión gubernamental imperante.

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

GUERRA CIVIL Y NEGOCIACIONES DE PAZ, 1981-1992

El triunfo de los sandinistas en julio de 1979, y el proyecto de reformas


surgido del golpe de Estado contra el presidente Romero en octubre de
ese año, más la creciente combatividad de las organizaciones populares,
crearon condiciones inéditas para la causa revolucionaria; aprovechar ese
escenario solo sería posible si las OPM’s se unían o al menos establecían
una alianza funcional.
Lograr esa alianza requería limar asperezas acumuladas en casi
una década de constantes confrontaciones entre las organizaciones de
izquierda, requería además que el PCS virara decididamente hacia la lucha
armada, lo que solo hizo en el VII Congreso realizado en 1979, pero volver
operativo ese acuerdo tomó su tiempo; las Fuerzas Armadas de Liberación
(FAL) que se convirtieron en el brazo armado del partido se fundaron en
marzo de 1980. A mediados de 1979, Cayetano Carpio, jefe de las FPL,
debió ir a Cuba para operarse de la vesícula, iba acompañado por Lorena
Peña. Los cubanos le dieron una casa de playa para que convaleciera.
Estando allí, le avisaron que tenía una visita; era Schafick Handal, máximo
dirigente del PCS, a quien no había visto por casi una década. Se saludaron
fríamente y en un ambiente tenso Handal le dijo que el PCS estaba por
incorporarse a la lucha armada. Lorena Peña cuenta en sus memorias que
Carpio respondió: “Ya era tiempo que lo hubieran pensado”, luego agregó:
“Esa cosa es seria, a la guerrilla no se juega” (PEÑA, 2009, p. 82).
No obstante el cúmulo de recelos y prejuicios existentes, los
acercamientos entre las OPM’s propiciados por La Habana dieron
resultados positivos. El FMLN se fundó el 10 de octubre de 1980, con cuatro
organizaciones, unos meses después de agregó el PRTC. La creciente
represión contra el movimiento popular y la guerrilla, el entusiasmo por el
triunfo sandinista en Nicaragua, más la indignación popular por el asesinato
de Monseñor Romero, creó un ambiente de radicalización en las masas que
hacía prever altas posibilidades de triunfo para una insurrección liderada
por el FMLN. Pero esas posibilidades disminuían a medida que los meses

268
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

pasaban. Además, en Estados Unidos estaba por tomar el poder Ronald


Reagan, que ya había manifestado su disposición a combatir a las izquierdas
centroamericanas.
Es claro entonces que la fundación del FMLN se hizo en un contexto
de urgencia. Entre octubre y diciembre de 1980, los dirigentes del FMLN
debieron enfrentar ingentes tareas: por una parte, tenían que convencer a
los militantes de las diferentes organizaciones de que debían luchar juntos,
por otra hacer un intenso trabajo logístico y de coordinación militar con
miras a las futuras acciones, que obviamente tendrían una magnitud muy
superior a las realizadas hasta entonces.
La llamada “ofensiva general” solo pudo lanzarse el 10 de enero del
81, pero no hubo insurrección popular. La feroz represión gubernamental
y paramilitar había diezmado al movimiento popular; además buena
parte de los cuadros dirigentes de las organizaciones de masas se habían
incorporado a la guerrilla, lo que dificultó la coordinación. Después de dos
semanas de combates, el FMLN debió replegarse y comenzar a construir
una retaguardia en el campo en una estrategia de guerra de más largo
plazo.
Debido a la pequeñez territorial de país y la densidad de la
población, el repliegue del FMLN al campo suponía un escenario muy
desfavorable. Y así hubiera sido de no haber existido un trabajo previo de
organización campesina que no solo garantizó la cobertura de la guerrilla,
sino que se convirtió en la base de una eficiente red de apoyo logístico y
de reclutamiento. Este es otro rasgo peculiar del proyecto revolucionario
en El Salvador, una guerrilla inicialmente urbana, que en cierto momento
establece relación con campesinos del interior del país, al punto de ser
capaz de montar estructuras guerrilleras rurales hasta convertir el campo
en su principal zona de acción.2 Sprenkels destaca la importancia de ese
proceso:

2 Hubo un debate académico sobre este tema. Hacia 1986 Jenny Pearce concluyó que la guer-
rilla salvadoreña era un movimiento esencialmente campesino, una especie de “rebelión rural”.
Por el contrario, en 1999, Yvon Grenier subrayó el carácter esencialmente urbano y de clase
media de la guerrilla salvadoreña. Un punto intermedio en esa discusión lo da Ralph Sprenkels
al dilucidar las maneras cómo se produjo esa vinculación urbano-rural; a su juicio el aporte
campesino al proyecto revolucionario fue determinante (PEARCE, 1986); (GRENIER, 1999);
(SPRENKELS, 2014a).

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

“Aunque su foco inicial era el ambiente urbano, lo que


distinguió a las organizaciones político-militares salvado-
reñas de la mayoría de sus contrapartes latinoamericanas
fue su capacidad de lograr incorporar a sus filas una can-
tidad considerable de campesinos” (SPRENKELS, 2014a,
p. 27).

Para la incorporación de campesinos al proyecto revolucionario


fueron muy importantes, por un lado, el trabajo pastoral de la Iglesia
Católica, desde las experiencias de las escuelas radiofónicas y la
promoción del cooperativismo en la década de 1960, hasta la organización
de Comunidades Eclesiales de Base (CEB’s) en el marco de la Teología
de Liberación para los años setenta. Pero también fue determinante la
capacidad de los dirigentes de la OPM’s para entender que ampliar su base
social hacia el campo era indispensable para el crecimiento del proyecto
revolucionario. Chávez destaca que la dinámica de organización campesina
de las décadas anteriores fue clave para la posterior alianza con las OPM’s
(CHÁVEZ, 2017).
Así, importantes zonas de los departamentos de Chalatenango,
Morazán, San Vicente, Usulután y Cabañas acogieron a las fuerzas
guerrilleras (SPRENKELS, 2014a, p. 29-30). Por supuesto, el ejército se
dio cuenta de que esas comunidades campesinas apoyaban al FMLN y las
diezmaron con operativos de “tierra arrasada” que despoblaron extensas
zonas y obligaron a sus habitantes a abandonarlas (HERNÁNDEZ RIVAS,
2015).
En los primeros años de la guerra se produjeron las mayores
masacres contra civiles, por ejemplo la del río Sumpul, en Chalatenango
(mayo de 1981) en la que se calcula murieron cerca de 600 personas, y
la del Mozote en Morazán (diciembre de 1981) que costó la vida a casi
1000. Surgieron entonces campos de refugiados, principalmente en
Honduras, pero también en Nicaragua, Costa Rica y Panamá. Otra parte
de la población se asentó precariamente en las barriadas de las ciudades
principales del país, y los que pudieron viajaron ilegalmente al exterior,
sobre todo a Estados Unidos, aunque muchos que no pudieron llegar hasta
allá se radicaron en México.

270
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

El FMLN debió garantizar un control funcional de sus zonas de


retaguardia, por eso en los dos años que siguieron a la ofensiva del 81,
concentró sus esfuerzos en expulsar de esas zonas a los cuerpos de
seguridad, especialmente la Guardia Nacional y la Policía de Hacienda,
que operaban en combinación con las fuerzas paramilitares de ORDEN
y del Servicio Territorial que agrupaban a reservistas del ejército. Estas
ofensivas locales eran ejecutadas principalmente por guerrilleros de la
OPM que dominaba esa zona y permitieron que cada una fuera definiendo
zonas de control. Así, las FPL tuvieron su principal zona de control en la
región nor-oriental de Chalatenango, aunque también tuvieron importante
presencia en San Vicente y Santa Ana. El ERP hizo de Morazán su bastión,
pero también tuvo fuerzas en Usulután. Aunque menos numerosas, la
RN y el PRTC tenían fuerzas en Cabañas, San Vicente, pero también en
zonas cercanas a las dominadas por las FPL y el ERP. Las fuerzas militares
del PCS no se implantaron en un territorio en particular, sino que fueron
acogidas en zonas en las que ya había un control por parte de las otras
fuerzas, pero con el tiempo se hicieron fuertes en Guazapa y Cabañas.
En el cerro de Guazapa convivieron todas las organizaciones; este tenía
una importancia estratégica: está muy cerca de San Salvador (30 kms.)
y permite comunicación con Chalatenango y Cabañas, lo cual favorecía
labores de abastecimiento, comunicaciones y sabotaje.
Para 1984, el FMLN había logrado el control de importantes franjas
de territorio que garantizaban a sus fuerzas apoyo logístico, entrenamiento
de reclutas y el establecimiento de hospitales para tratar a heridos de
gravedad. El territorio nacional quedó prácticamente dividido: zonas
de control del FMLN, en las que la guerrilla tenía su retaguardia y que a
menudo eran “invadidas” por el ejército, las zonas de disputa en las que
la guerrilla incursionaba para atacar puestos militares o realizar sabotajes,
y las zona de control del ejército que incluía las ciudades principales, el
centro y el sur-occidente del país. Para entonces, la izquierda también
contaba con una importante red de apoyos internacionales, asimismo,
muchos internacionalistas combatían en las filas insurgentes.

271
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Figura 1: Zonas de control del FMLN

Por su parte, el gobierno también debió adaptarse al desarrollo


del conflicto armado. Posterior al golpe de Estado del 79 hubo tres Juntas
de Gobierno. Cada una terminó con una crisis, que obligaba al gobierno
que las sucedía a tomar posiciones más conservadoras. Al final, hubo un
pacto entre la Fuerza Armada y el ala más conservadora de la Democracia
Cristiana, auspiciado por los Estados Unidos y Venezuela. Este pacto
permitió la implementación de las reformas anunciadas en octubre del 79,
a la vez que se avanzaba en un tortuoso proceso de democratización que
tuvo a la base la promulgación de la constitución de 1983 y la realización
de elecciones relativamente competitivas. Fue así como José Napoleón
Duarte, el histórico líder demócrata cristiano, llegó a la presidencia luego
de derrotar en las urnas al carismático Roberto D’Abuisson, candidato de la
derechista ARENA (WALTER FRANKLIN, 2001b).
Duarte gobernó de 1984 a 1989. A él le tocó enfrentar a un
FMLN fortalecido internamente y apoyado decididamente por Cuba y la
Nicaragua sandinista, que se convirtió en la retaguardia estratégica para

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CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

los revolucionarios salvadoreños. En realidad, el gobierno democristiano


solo sobrevivió por la creciente intromisión de los Estados Unidos en los
conflictos regionales, intervención que corría en varios ejes a la vez. Por
un lado, Ronald Reagan creó la “Contra”, una guerrilla entrenada, armada
y financiada por los Estados Unidos para derrocar o al menos estancar a
la revolución sandinista. Por otro, entrenó, apertrechó y asesoró al ejército
salvadoreño en su lucha contra el FMLN. Para ello, estableció bases de
entrenamiento y logístico en Honduras.
Para 1979, el ejército salvadoreño tenía 6,500 efectivos, más 3,000
agentes de los cuerpos de seguridad. Aunque la violencia política tenía casi
una década de existencia, ésta había sido enfrentada mayormente a los
cuerpos de seguridad. Una vez que el conflicto armado estalló fue evidente
que el ejército debía crecer y mejorar su entrenamiento y contar con más
recursos, especialmente aéreos. En este punto fue vital la ayuda militar
estadounidense, que no solo proveyó recursos materiales, sino que se
hizo cargo del entrenamiento de la tropa, primero en los Estados Unidos y
después en bases militares en Honduras. Asimismo, el número de asesores
militares se incrementó. Ya para 1987, el ejército sumaba 43,000 efectivos
y los cuerpos de seguridad 12,000 (WALTER FRANKLIN, 2001b). Además
habría que considerar a los paramilitares organizados en las “Defensas
civiles” locales cuyo número no se conoció. Obviamente, es muy difícil
calcular la cantidad de efectivos de la guerrilla; como se verá más adelante,
un estimado de sus fuerzas solo pudo establecerse cuando el FMLN se
desmovilizó en 1992.
La política exterior estadounidense hacia la región también
incorporaba a Guatemala, pero allí actuó más discretamente; las acciones
abiertamente genocidas del ejército contra los civiles dificultaban al
Departamento de Estado justificar su apoyo a Guatemala; pero el apoyo
fluyó por vía indirecta a través de Israel y Argentina (BALL, et al., 1999, p.
29). Asimismo hubo una gran inversión de recursos en Costa Rica, en el
entendido de que la estabilidad de este país probaba las bondades de la
democracia; pero cuando Costa Rica se distanció de los sandinistas apoyó

273
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

la construcción del frente sur de la Contra, para lo cual fue muy útil la
infraestructura que se había construido años antes en el norte costarricense.
Entre 1970 y 1989, los Estados Unidos dieron ayuda militar a El Salvador por
un monto de $3,638 millones de dólares, de los cuales $953 millones eran
ayuda militar, aunque la cifra puede ser mayor, ya que no había un estricto
control del uso de los fondos (WALTER FRANKLIN, 2001b, p. 581).
En los primeros años de guerra civil se impuso una dinámica de
ofensivas y contra ofensivas, en la que la iniciativa la llevaba la guerrilla.
Cada vez que el FMLN lanzaba una ofensiva, el ejército respondía con
grandes operativos militares que buscaban sacar a los guerrilleros de sus
zonas de control y a la vez minar el apoyo campesino. Fue la época en que
la guerrilla creó grandes unidades militares capaces de enfrentar al ejército
en combates de posiciones por varios días (LÓPEZ VIGIL, 1991).
Sin embargo, el creciente apoyo de los Estados Unidos al
ejército, que incluía la formación de batallones de contrainsurgencia y
el fortalecimiento de la aviación, más la posibilidad de una invasión a
Nicaragua que hubiera afectado a El Salvador, hizo que el FMLN cambiara
de estrategia: desmanteló las grandes unidades militares y las dislocó en
pequeñas unidades guerrilleras que actuaban con mayor autonomía y
dificultaban su ubicación por parte del ejército. Estos cambios se dieron
entre 1984 y 1987, y llevaron el conflicto a un virtual empate, ya que la
guerrilla debilitaba al ejército con pequeñas acciones en las que el uso de
francotiradores y explosivos antipersonales minaba la moral del enemigo, y
de vez en cuando agrupaba sus fuerzas para ataques de más envergadura.
Por su parte, el ejército concentraba sus esfuerzos en controlar zonas
estratégicas, proteger la infraestructura (red eléctrica, puentes y centros
importantes de actividad económica), y realizar recurrentes operativos en
el área rural, cuyos resultados eran mínimos debido a la alta movilidad de
las fuerzas insurgentes.
Fue esta condición la que propició que en medio de la vorágine
de la guerra también surgieran iniciativas que buscaban parar el conflicto
mediante el diálogo. La primera reunión de diálogo se dio en 1984; creó

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CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

muchas expectativas dentro y fuera del país, pero no dio resultados prácticos,
excepto una declaratoria de voluntad de continuar las conversaciones.
En realidad, para entonces ninguna de las fuerzas en conflicto tenía la
voluntad de negociar, los diálogos eran solo parte de una estrategia mayor
que buscaba la derrota militar del adversario.
Paralelamente al conflicto militar, El Salvador vivió en la década de
1980 varios procesos electorales. Para reestablecer el orden constitucional
después del golpe de Estado de 1979, se convocó a la elección de una
Asamblea Constituyente en marzo de 1982, la cual redactó una nueva
constitución que entró en vigencia en 1983. También hubo dos elecciones
presidenciales (1984 y 1989) y otras más para elegir diputados y gobiernos
municipales. La mayoría de esas elecciones fueron boicoteadas por la
guerrilla que las calificaba como una farsa montada por los Estados Unidos
para fortalecer al gobierno salvadoreño. En varias ocasiones los combates
entre el FMLN y el ejército impidieron la realización de las votaciones,
especialmente en pequeños poblados del interior. Los argumentos de
la guerrilla podían ser ciertos, pero también debe reconocerse que esos
procesos electorales abrieron el camino a la democratización del país, que
si bien tomó fuerza con el Acuerdo de paz de 1992, ciertamente no inició
entonces.
En todo caso, la guerra siguió su curso, independientemente de
quién gobernara el país. Entre 1986 y 1987, el FMLN cambió su estrategia.
Algunos analistas consideran que esos años fueron aprovechados por
el FMLN para fortalecerse militar y políticamente. En el primer caso, se
aprovecharon los campos de refugiados en Honduras para reclutar nuevos
combatientes y para apoyar el trabajo logístico. Posteriormente se estimuló
el regreso de refugiados a las llamadas “repoblaciones”; la primera se dio
en Chalatenango en 1986, y fue seguida por otras en los departamentos de
Morazán y Cabañas. Todas jugaron un papel importante como retaguardia
de la guerrilla y contaron el apoyo de iglesias y organizaciones no
gubernamentales (ONG’s). Simultáneamente se trabajó en la reactivación
del movimiento popular urbano, que había quedado bastante diezmado

275
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

después de la ofensiva de 1981. En el ámbito político, el FDR que había


asumido el trabajo político-diplomático en el exterior, desplegó un
intenso trabajo ante gobiernos amigos y la solidaridad internacional, con
miras a aislar cada vez más al gobierno salvadoreño y obtener apoyo
y financiamiento para el proyecto revolucionario. Al trabajo el FDR en el
exterior se agregó el que cada OPM hacía por cuenta propia. Y es que tal
y como aconteció en el campo militar, la diplomacia de la izquierda siguió
siendo en buena medida un trabajo que cada organización desarrollaba por
su cuenta, de lo cual no siempre se informaba a las instancias colegiadas
del FMLN.
En un primer momento la reactivación del movimiento popular
urbano estuvo en función de apoyar políticamente al proyecto
revolucionario, principalmente a través de movilizaciones cuyas demandas
desviaban la atención del gobierno y lo ponían en evidencia ante instancias
internacionales. Una vez que hubo una clara decisión de apostarle a
la salida negociada, el movimiento social hizo de la búsqueda de la paz
su bandera de lucha, yendo a veces más allá de lo que el FMLN hubiera
querido. Y es que si bien es cierto que hubo una clara vinculación entre
guerrilla y movimientos sociales, en determinados temas y circunstancias,
las organizaciones populares desarrollaron su propia agenda. Es decir,
tuvieron un margen de autonomía.
En realidad, para la segunda mitad de la década de 1980, los
costos económicos y sociales de la guerra pesaban mucho sobre el país.
Buena parte de la infraestructura pública (puentes, tendido eléctrico,
telecomunicaciones) y productiva (plantas de procesamiento de café y
algodón, vehículos, fábricas y otros negocios) había sido destruida. Las
pérdidas de vidas humanas, combatientes y civiles, eran cuantiosas; miles
de personas habían abandonado sus lugares de residencia. Además, se
tenía la impresión de que el conflicto militar se había estancado. Todo
ello hizo que crecieran las demandas para que se buscara una solución
negociada.
Lo cierto es que entre 1987 y 88 el movimiento popular creció
significativamente. Esto se debió por una parte a la decisión política del

276
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

FMLN que envió activistas políticos a trabajar en la ciudad, pero también a


que el nivel de represión del gobierno se había reducido por la presión de
los Estados Unidos y de otras instancias internacionales. La administración
Reagan apoyaba decididamente al gobierno salvadoreño pero enfrentaba
fuerte oposición en el Congreso, de tal modo que la ayuda militar era
otorgada con la condición de que se respetaran los derechos humanos; a la
larga esta presión tuvo resultados.
Las negociaciones entre la guerrilla y el gobierno pasaron por
diferentes momentos e intermediarios. En un primer momento fue la
Iglesia Católica, después surgieron iniciativas regionales, por ejemplo el
“grupo de Contadora” constituido en 1983 y en el que participaron México,
Panamá, Colombia y Venezuela, y que buscaba a una salida a los conflictos
regionales. La primera reunión de diálogo se realizó en 1984, fue seguida
por otras sin que se lograran resultados concretos. Las negociaciones
solo tomaron un rumbo más claro cuando en 1989 la derechista ARENA
derrotó a la Democracia Cristiana en las elecciones presidenciales. Alfredo
Cristiani asumió la presidencia afirmando que negociaría la paz con el
FMLN. Se definió una agenda de trabajo desarrollada en sucesivas rondas.
Sin embargo, los obstáculos eran muchos; por una parte el FMLN planteaba
demandas que obviamente no serían aceptadas por el gobierno, por
ejemplo, la supresión del ejército. El gobierno exigía que la guerrilla dejara
las armas sin dar garantías para sus miembros, ni seguridad de que habría
cambios políticos en el país.3
El 31 de octubre de 1989 explotó una bomba en el local de una
importante federación sindical. Aparentemente el atentado fue ejecutado
por un “Escuadrón de la muerte” de derecha y dejó nueve fallecidos y
decenas de heridos. Entre los muertos estaban varios dirigentes sindicales.
El FMLN suspendió las negociaciones y poco tiempo después lanzó una

3 Obviamente el proceso de diálogo y negociación de la paz fue mucho más complejo y paso
por diferentes momentos y además de la participación del FMLN y el FDR por parte de la
insurgencia y del gobierno salvadoreño, contó con la participación de diferentes actores inter-
nacionales. Para más detalles, véase (WALTER FRANKLIN, 2001b, p. 590-595).

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As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

ofensiva militar contra la capital. En un primer momento se dijo que la


ofensiva era una reacción por el atentado contra la central sindical. En
realidad, la ofensiva se venía preparando desde hacía más de un año, y
el atentado fue solo el pretexto para justificar una decisión tomada con
antelación. La ofensiva se lanzó el 11 de noviembre de 1989 y fue el último
gran esfuerzo del FMLN por darle una salida militar al conflicto siguiendo
la estrategia ensayada en 1981; es decir, se buscaba desencadenar una
insurrección popular que definiera el conflicto de una vez por todas. Este
sería el objetivo máximo de la ofensiva, de no lograrse se esperaba al
menos obligar al gobierno y al ejército a flexibilizar posiciones en la mesa
del diálogo. Se logró lo último.
Un periodista francés devela las paradojas del proyecto
revolucionario salvadoreño que parecía ir a contra corriente de lo que
acontecía en el mundo:

“Corrían los primeros días de noviembre de 1989. Cientos


de miles de alemanes protestaban en las calles de Ber-
lín-Este, Leipzig o Dresde contra el régimen comunista.
Al otro lado del mundo, impasible ante lo que ocurría en
el bloque soviético, la comandancia general de la guer-
rilla salvadoreña apuraba los últimos preparativos antes
de lanzar la mayor ofensiva militar de su historia” (DE LA
GRANGE, 2009, p. 40).

En realidad, la dirigencia del FMLN conocía bien lo que pasaba en


Europa, sabían que el declive del socialismo les afectaría. Pero ese proceso
también abría la posibilidad de que al disminuir la amenaza comunista,
los Estados Unidos flexibilizaran su política en la región centroamericana;
de hecho para entonces la Unión Soviética ya se había comprometido a
suspender el envío de armas a Centroamérica. Visto desde esa perspectiva,
lanzar una gran ofensiva tenía sentido.
Por dos semanas las fuerzas guerrilleras atacaron la capital y
otras ciudades importantes. En un primer momento, el ejército se replegó
y luego intentó recuperar el control. Al no poder hacerlo, bombardeó las
zonas residenciales populares causando muchas bajas civiles y daños a la

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CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

infraestructura, lo que obligó a la guerrilla a replegarse a los alrededores de


la capital, desde donde continuó sus ataques. En el marco de la ofensiva,
un comando militar asaltó la Universidad Centroamericana y asesinó a
seis reconocidos sacerdotes jesuitas y dos empleadas domésticas. Esos
asesinatos causaron gran indignación internacional y tuvieron un alto
costo político para el gobierno que salió de la ofensiva en franca desventaja
política, lo cual favoreció el proceso de negociación.
El desenlace de la ofensiva de noviembre condicionó el reinicio de
las negociaciones. Era claro que ambos bandos habían hecho su mayor
esfuerzo por derrotar a su enemigo y no lo habían logrado; por ende,
debían negociar seriamente la finalización del conflicto y eso implicaba
estar dispuestos a ceder algo a fin de obtener algo de la contra parte. Otro
hecho favoreció el curso de las negociaciones; el 25 de febrero de 1990, los
sandinistas perdieron las elecciones presidenciales en Nicaragua, un caso
inédito de una revolución que triunfó por la vía armada y dejaba el poder
derrotada en las urnas. Obviamente el descalabro sandinista trastocaba
de raíz el apoyo que el FMLN recibía de Nicaragua, otra razón más para
apostarle a la vía negociada.
En tales condiciones, el trabajo de mediación de las Naciones
Unidas tenía mejores posibilidades de éxito. Se logró depurar la agenda
de negociación acercándola a lo que realmente era posible alcanzar.
La izquierda dejó de exigir la desaparición del ejército, para aceptar su
reducción y depuración. Por su lado, el gobierno aceptó la eliminación de los
cuerpos de seguridad (acusados de la mayoría de violaciones a los derechos
humanos) y la creación de una nueva Policía Nacional Civil. Igualmente el
gobierno debió aceptar una profunda reforma al sistema político-electoral
y el órgano de justicia con miras a garantizar un mínimo de competitividad
electoral y acceso a la justicia. Por su parte la insurgencia se comprometía
a dejar las armas y convertirse en partido político legal.
Anteriormente se dijo que la guerra civil tuvo entre sus causas
problemas estructurales ligados a la pobreza, la marginación social y la
tierra. El Acuerdo de paz apenas tocó esos puntos. Quedó claro que la

279
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

derecha estaba dispuesta a transigir en temas políticos, pero no en las


cuestiones económicas. El FMLN debió aceptar que insistir en cambios
económicos bloqueaba la posibilidad de finalizar el conflicto armado. Desde
antes de las negociaciones el gobierno venía impulsando un proceso de
reformas económicas de corte neoliberal, enmarcadas en el “Consenso
de Washington”, que llevó a la privatización de activos del Estado, la
reprivatización de la banca y el comercio exterior, y ahogamiento de la
reforma agraria. Proceso que tomó más fuerza post Acuerdo de paz.
Es claro entonces, que la firma de la paz fue posible porque cada
parte aceptó ceder algo para ganar algo. En síntesis, el Acuerdo de paz
evidencia que el tema principal a resolver era básicamente político. Tenía
que ver con el acceso al poder por vías democráticas. El componente
económico fue introducido marginalmente. A la derecha no le interesaba
y la izquierda fue consciente de que insistir demasiado en ello ponía en
peligro el proceso de negociación.
Un componente importante de las negociaciones fue la creación
de una “Comisión de la verdad” encargada de investigar las violaciones
a los derechos humanos ocurridas durante el conflicto; su mandato
era “esclarecer con prontitud aquellos hechos de violencia de singular
trascendencia, cuyas características y repercusión, así como la conmoción
social que originaron, reclaman con mayor urgencia el conocimiento cabal
de la verdad”. Su informe fue presentado en marzo de 1993, y conmocionó
al país. Se confirmó que el Estado salvadoreño fue el mayor violador de los
derechos humanos durante el conflicto, pero también se señaló al FMLN de
graves abusos. Al investigar el asesinato de Monseñor Romero, determinó
que el “ex mayor D’Aubuisson dio la orden de asesinar al arzobispo y dio
instrucciones precisas a miembros de su entorno de seguridad, actuando
como ‘escuadrón de la muerte’, de organizar y supervisar la ejecución del
asesinato” (SPRENKELS, 2013, p. 71-72).
Algunos componentes del Acuerdo de paz requerían reformar
la constitución de 1983 por la legislatura presente y ser ratificados por
la siguiente. Entre estos estaban: sustituir al antiguo Consejo Central de

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CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

Elecciones, dominado por el ejecutivo, por un Tribunal Supremo Electoral


con representación de los principales partidos políticos y la sociedad
civil; las atribuciones de la Fuerza Armada que se limitaron a la defensa
de la soberanía nacional y la integridad territorial, la realización de obras
de beneficio público, el auxilio a la población en casos de desastres y,
excepcionalmente, colaborar en el mantenimiento de la paz interna
(WALTER FRANKLIN, 2001c, p. 626).
En síntesis, el Acuerdo de paz tuvo como objetivos: el cese del
enfrentamiento armado; la desmilitarización del Estado mediante la
subordinación del ejército a las autoridades constitucionalmente electas;
crear una nueva institucionalidad que fortaleciera la democracia y el
Estado de derecho; y garantizar la inserción del FMLN y sus miembros para
el ejercicio de su actividad política legal, el primero como partido político
legal y los segundos como ciudadanos en pleno ejercicio de sus derechos
políticos. La implementación de los acuerdos supuso el acompañamiento
de las Naciones Unidas y la creación de instancias complementarias, por
ejemplo la Comisión Nacional para la Consolidación de la Paz.
El Acuerdo de paz se firmó en el Castillo de Chapultepec en
México el 16 de enero de 1992; fue un acto esencialmente protocolario
con la presencia del presidente Alfredo Cristiani, la dirigencia del FMLN,
representantes de las Naciones Unidas y cuerpo diplomático. Se cerraba
así un conflicto que inició de manera muy diferente con las conspiraciones
de jóvenes radicalizados en las aulas universitarias, con la luchas de calle
de obreros, estudiantes y campesinos, con el compromiso de sacerdotes
y miembros de las comunidades eclesiales de base, pero también con
conjuras de militares y de civiles de derecha. Como en todo proceso
político la participación se da al menos en dos diferentes niveles: la de
los dirigentes que pretenden interpretar y representar los intereses de su
base social, y la de aquellos que sin tener la posibilidad de dirigir terminan
comprometidos en el conflicto, en este caso, soldados, guerrilleros,
colaboradores y simpatizantes de ambos bandos. Amén de que una buena
parte de la población no se comprometió en el conflicto, pero fue afectada
por este.

281
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

En todo caso, es plausible pensar que el fin de la guerra alegró a la


mayoría de salvadoreños. En El Salvador la paz fue celebrada con una gran
fiesta y había razones de sobra. En realidad, hubo dos celebraciones; la de
la izquierda en el Parque Barrios y la de la derecha en la plaza Libertad, en
pleno centro de la capital. A pesar de la cercanía no hubo ningún altercado.
En realidad, la que atrajo más la atención fue la primera, pues aparte de
que asistió la Comandancia General del FMLN, del interior del país llegaron
miembros de la guerrilla y pobladores de las zonas contraladas por la
guerrilla, algunos de ellos visitaban la capital por primera vez. Pocas veces
en su historia, los salvadoreños han sido tan efusivos al manifestar su júbilo
públicamente. Parecía que se había aprendido la lección, renunciando a
la aunque persistieran las diferencias político-ideológicas. En términos
generales, esa ha sido la tónica hasta hoy.
El Acuerdo de paz establecía un calendario para la ejecución de
lo pactado. FMLN y Fuerza Armada acuartelaron sus fuerzas en zonas
previamente definidas y con supervisión de observadores de las Naciones
Unidas. El FMLN desmovilizaría sus efectivos en tres fases, debiendo
terminar el proceso en diciembre de 1992. Por su parte la Fuerza Armada
debió eliminar varios batallones de contrainsurgencia. Los antiguos
cuerpos de seguridad fueron eliminados y sustituidos por una nueva Policía
Nacional Civil (PNC) que se comenzó a organizar inmediatamente, con un
porcentaje de miembros provenientes del FMLN, otro de miembros de los
cuerpos de seguridad que no tuvieran señalamientos de violación a los
derechos humanos y otro proveniente de la población civil. Asimismo, se
comenzó a implementar programas para la reinserción de excombatientes
a la vida civil, por ejemplo, transferencias de tierras, becas de estudio y
programas de formación.
La desmovilización del FMLN permite conocer un poco sobre su
composición al final del conflicto, como se en el siguiente cuadro:

282
CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

Cuadro 2: Resumen de la desmovilización del FMLN, 1992


Estructuras
END1 (fuerza militar Lisiados de
OPM de apoyo Total por OPM %
acuartelada) guerra
político

FPL 2,583 1,439 1,060 5, 082 34

ERP 2,583 463 814 3,930 26

RN 1,554 656 289 2,499 17

PCS 1,110 996 144 2,220 15

PRTC 652 429 167 1,248 8

Totales 8,552 3,983 2,474 15,009 100

Fuente: Elaboración propia con base en (SPRENKELS, 2014b).

El cuadro demuestra que las FPL y el ERP tenían mayor capacidad


militar y reunían la mayor cantidad de individuos haciendo trabajo político.
Asimismo, sus fuerzas militares tuvieron la mayor cantidad de lisiados de
guerra. Por otra parte, el 30 % de los desmovilizados eran mujeres, pero solo
muy pocas de ellas eran jefes militares o estaban en puestos de dirección;
la mayoría trabajaban en sanidad militar, comunicaciones o eran parte de la
tropa. El 80% de los desmovilizados eran campesinos; un dato que muestra
cuánto cambió la izquierda revolucionaria en el transcurso de los años. De
ser básicamente un proyecto político urbano, terminó siendo fortalecido y
sostenido por campesinos, algunos de los cuales “llegaron a convertirse en
mandos militares, e incluso terminaron siendo una fuerza dominante en la
dirección táctica de la guerra, sobre todo en las FPL” (SPRENKELS, 2014a,
p. 37). No es extraño entonces que ese 80% de los desmovilizados no
tuviera educación formal o solo alcanzara niveles básicos. Solo el 7% de los
desmovilizados tenía educación superior, y la mayoría de ellos ocupaban
puestos de dirección. En cierto modo, el FMLN, reproducía la estructura
social del país.
Estas características socioeconómicas marcaron el proceso de
reinserción de la izquierda. La dirigencia, que era básicamente urbana,
de clase media y con estudios medios o superiores, volvió a la ciudad;

283
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

prácticamente volvía a sus orígenes. La tropa y la militancia trataron de


rehacer su vida en sus comunidades de orígenes o en asentamientos en
zonas de control del FMLN. Una minoría se incorporó a la PNC u optó por
becas de estudios. Como la mayoría era de extracción campesina, muchos
se acogieron a los programas de transferencia de tierras que beneficiaban
no solo a excombatientes sino a habitantes de las zonas de control del
FMLN. Para muchos fue volver a la situación de pobreza en que habían vivido
antes de la guerra, solo que ahora en un ambiente de libertades políticas y
sin temor a sufrir represión a causa de sus ideas o militancia política. Algo
parecido aconteció con los desmovilizados de la Fuerza Armada y cuerpos
de seguridad, la mayoría provenía del campo y tenía bajos niveles de
escolaridad. No es extraño entonces que años después desmovilizados de
ambos bandos se unieran para exigir programas y beneficios que paliaran
en algo las dificultades que enfrentan en la vida civil.

EPÍLOGO

El FMLN se incorporó a la vida civil en 1992. Dos años después


participó en la primera elección presidencial de postguerra, quedando en
segundo lugar. La derechista ARENA mantuvo la presidencia hasta 2009;
en el entretanto, el FMLN se convirtió en la segunda fuerza política de la
Asamblea Legislativa, e iba gobernando una creciente cantidad de pueblos
y ciudades, incluyendo la capital.
La conversión del FMLN en partido político conllevó grandes retos.
Entre 1994 y 2005, vivió un tortuoso proceso de reacomodos internos que
implicó la salida o expulsión de dirigentes y militantes históricos. Al final,
el partido fue controlado por un ala ortodoxa, constituida por el PCS y
las FPL. Es así que ganó las elecciones presidenciales en 2009 y 2014. A
diferencia de lo que la derecha auguraba, los gobiernos del FMLN no se
han caracterizado por la radicalidad; más bien tienden a favorecer reformas
sociales, sin afectar la estructura socioeconómica. Los principales retos

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CAPÍTULO 5 | El Salvador 1960-1992: reformas, utopía revolucionaria y guerra civil

que enfrentan es la violencia, generada principalmente por las pandillas;


el escaso crecimiento de la economía y la vulnerabilidad ambiental. La
economía del país sobre vive gracias al constante flujo de remesas que
envían los salvadoreños que viven en el exterior, principalmente en los
Estados Unidos, las cuales son equivalentes al presupuesto del Estado.
El FMLN en el gobierno enfrenta una complicada realidad en sus
relaciones internacionales. Por afinidad político-ideológica apoya a los
gobiernos de Venezuela, Cuba y Nicaragua, pero debe cuidarse de no
incomodar a los Estados Unidos, pues El Salvador depende de cómo estén
los salvadoreños radicados allá, especialmente desde que Donald Trump
está en la Casa Blanca. La política anti inmigrantes de Trump amenaza
la permanencia de millones de salvadoreños en los Estados Unidos, y por
ende la estabilidad económica y social de El Salvador.

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(Footnotes)
Ejército Nacional para la Democracia, que fue el nombre que al final de la
guerra adoptó el FMLN para sus fuerzas militares.

289
6
Capítulo
PALIMPSESTOS Y
PARADOJAS. ITINERARIOS
HISTÓRICO-POLÍTICOS EN
BOLIVIA (1952-1993)

EN LA HISTORIA DE BOLIVIA
Magdalena González Almada
Rosario Barahona Michel

La historia boliviana muestra de manera conclusiva que


no existe una nación única, homogénea y avasalladora en Bolivia.
Emerge, más bien, una nación plural, heterogénea y contingente
en continuo proceso de construcción.

DE LOS PALIMPSESTOS Y LAS PARADOJAS

En el marco de las temporalidades que

de Bolivia, hemos pensado en dos figuras literarias


que contribuyen a la reflexión que nos convoca en
este capítulo.
El palimpsesto refiere a un texto en el que
conviven dos formas de escritura, una más antigua
PNUD, 2007

confluyen y se tensionan en el desarrollo de la historia

y una más reciente (Prosperi, 2016). En esta figura, la


convivencia, no siempre armónica de ambos textos,
permite la lectura de una escritura más evidente y
una oculta, tapada, borrada. Si bien en la Antigüedad
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

la utilización y reutilización de pergaminos impuso la forma del palimpsesto,


nos interesa la idea de enfatizar la heterogeneidad que supone el encuentro
de ambas escrituras y la potencialidad que la lectura, minuciosa y atenta,
permite realizar de ellas.
Entendemos que, para el caso boliviano, la figura del palimpsesto
aplicada al estudio historiográfico de la segunda mitad del siglo XX,
involucra un análisis detenido de las tensiones sociales y políticas que
conviven en un mismo plazo de tiempo. La cuestión de la visibilidad/
invisibilidad que supone el palimpsesto, en el sentido de aquella escritura
antigua que subyacía a la actual, funciona metafóricamente para pensar
la “contemporaneidad de lo no contemporáneo” que trazaremos en
nuestro trabajo. La reunión de los tiempos heterogéneos y de los relatos
que emanan de ellos, implica una conjunción problemática e inestable que
requiere del investigador una atención cuidadosa en cuanto a los diversos
acontecimientos que marcan la historia de Bolivia. Así, de esta manera,
nuestra aproximación al problema que plantea el estudio del devenir
histórico boliviano y de los sujetos que protagonizaron los acontecimientos
más relevantes, debe contemplar tanto los hechos que se desarrollaron en
el plano del estado-nación cuanto los que se manifestaron en el plano de
las diversas organizaciones indígenas que tensionaron a los primeros.
De estas tensiones, surge la segunda figura literaria que utilizaremos
en este capítulo: las paradojas. Entendidas como “una idea extraña, opuesta
a lo que se considera verdadero o a la opinión general” (Fedriani Martel,
2003:38) la paradoja adquiere relevancia en el trabajo que presentamos
en este capítulo. En el plano de la inestabilidad que ya hemos planteado,
se observan las paradojas como acontecimientos contradictorios, por
momentos opuestos, que, no obstante, cobran sentido en la reunión de sus
elementos. Así, los nuevos significados que emanan del encuentro de estas
contradicciones sostienen, desde nuestro punto de vista, la problemática
de la historia en Bolivia.
Más allá de los palimpsestos y paradojas, figuras a las que apelamos
en un sentido metafórico, este capítulo revisa documentos varios que dan

292
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

cuenta, a través de sus particulares narrativas, de los procesos históricos


que impactan en el relato histórico contemporáneo. Metros y metros lineales
de documentación que, en definitiva, conforman la identidad boliviana.
En este trabajo, recorreremos una parte de la historia boliviana,
que, a su vez, no puede comprenderse sin mirar retrospectivamente, esto
es, sin remitirnos a la idea de pasado colonial, quizá palimpsesto o paradoja,
pero documento, finalmente.

DESDE EL MUNDO COLONIAL HACIA EL PROYECTO DE


NACIÓN

El proceso de “asentamiento” cultural e identitario de la etapa


colonial fue más o menos lento. Como es ya conocido, la primera institución
“oficializada” por la corona española fue la Real Audiencia, que gozaba al
mismo tiempo del título de Cancillería Real de los Charcas. Ante la ausencia
de una curia eclesiástica -pues conocemos que comienza a funcionar
aproximadamente a mediados del siglo XVIII- es esta instancia la que
atiende todos los casos en su totalidad, llámense pleitos o querellas. Por
tanto, el derecho utilizado en este espacio charqueño es el español, que
según los casos fue determinándose individualmente, extendiéndose aún
a las comunidades indígenas y a los caciques principales de las mismas1.
Ahora bien, para el estudio del siglo XVIII, Rosse Marie Buechler
(1989), especialista en minería colonial, apunta que:

La introducción de las reformas borbónicas produjo


un incremento patente en el número de los individuos
que deseaban arrendar los ingenios potosinos. Como
muchas otras parecidas, esta no era una tendencia
predominantemente sana. El “Comercio Libre” atraía al
Alto Perú a un gran número de españoles desocupados,

1 Hay que comprender, sin embargo, que las comunidades indígenas poseían su propio dere-
cho, aunque en las más de ocasiones, sus problemáticas fueron llevadas a los estrados de la
Real Audiencia. En la actualidad en Bolivia se estudian diversos programas académicos sobre
derecho indígena, aunque lamentablemente no todos guardan una mirada histórica que se
remonte hasta este siglo.

293
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

con infladas esperanzas de hacer su fortuna por medio del


comercio. Luego que una creciente competencia indujo a
que las ganancias no correspondieran a las expectativas,
muchos de ellos decidieron dedicarse a la minería, y lo
hicieron no solamente con la mira de mejorar su suerte
futura, sino con frecuencia para evadir las consecuencias
de imprudencias o aun de desaciertos pasados. Pues
era un hecho que una vez incorporado en el Gremio, el
ex mercader podía contar con la protección del fuero de
minería contra cualquier intento de acción judicial por
parte de sus acreedores. Además, el ser miembro del
Gremio tenía la atracción del acceso a las facilidades
ofrecidas por el Banco” (340-341).

Tomando en cuenta que el Gremio al que se refiere no es otro que el


ilustre Gremio de azogueros, ubicado, como no podía ser de otra manera, en
Potosí, diremos que su existencia influía también en La Plata pues muchos
de sus casos se atendían en la Real Audiencia, como tribunal mayor de
justicia, pues es de suponer que los empresarios mineros generaban gran
cantidad de pleitos.

DE LA NACIÓN

Los proyectos nacionales latinoamericanos han resultado


conflictivos, desde sus inicios, debido a la inestabilidad social y política
vinculada a diversas heterogeneidades manifestadas a lo largo de sus
trayectorias históricas.
La imposición por generar un consenso muchas veces ligado a las
aspiraciones homogeneizadoras y estandarizadas de las elites dominantes,
llevan a estas naciones -en el marco de su situación colonial2- a someterse
a los proyectos nacionales hegemónicos.
Una de las dimensiones más problemáticas para evidenciar estas
inestabilidades, tiene que ver con la temporalidad. Tanto Partha Chaterjee

2 Entendemos que las naciones latinoamericanas, pese a encontrarse en un periodo histórico


que tiene como centro de la organización política a la república y al estado-nación, continúan
inmersas en una lógica colonial que las ubica en una condición desigual en cuanto a las rela-
ciones de poder que se establecen con los países centrales.

294
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

(2008) cuanto Rita Segato (2007), Silvia Rivera Cusicanqui (2010), Zavaleta
Mercado (2013) y Javier Sanjinés (2009) reconocen una temporalidad
inestable, por momentos confusa, en la que se desarrolla el devenir histórico
de las naciones coloniales.
En este sentido, en Latinoamérica, el problema de la temporalidad
se basa en una tensión con la modernidad y, en consecuencia, con la idea de
nación. Esta “idea de nación” (Heredia, 2005) se apoya en una posibilidad
de nacionalidad para los sujetos que aspiran a una ciudadanía plena en
el ejercicio de sus derechos. Sin embargo, el tiempo de la modernidad se
opone al pasado histórico de los sujetos que ingresan al tiempo de la nación.
Rita Segato (2007) propone que “afirmar la diferencia de las culturas
en un sentido denso es afirmar la posibilidad de que otros valores y otros
fines orienten la convivencia humana” (18). Esta afirmación problematiza
el hecho de que en el marco de una nación se considere que todos sus
componentes se identifiquen con los mismos valores culturales, con un
mismo tiempo y con un mismo territorio. En efecto, Segato en La nación y
sus otros sostiene que es preciso atender a la emergencia de “antagonismos
históricos complejos” (20) surgidos en el seno de cada nación que
evidencian las diferencias étnicas y culturales. En su investigación, la autora
entiende que

En mi utilización de la idea de heterogeneidad, mi énfasis


está colocado en la multiplicidad de los sujetos colectivos
que luchan por producir, en el sentido de retomar o dar
continuidad a, sus narrativas históricas propias como
urdimbres tramadas colectivamente en el tiempo,
originando “tiempos” históricos diferentes, aunque
articulados entre sí y compartiendo el mismo horizonte
nacional (21).

Partha Chatterjee en La nación en tiempo heterogéneo (2008)


plantea ciertas inestabilidades que se presentan en las naciones coloniales:
La homogeneidad se desintegra en un plano, tan solo para
reaparecer en otro. La heterogeneidad, imposible de ser negada en un
punto, es forzosamente suprimida en otro (77).
La propuesta teórica de Chatterjee se vuelve sugestiva porque
traza la noción de “política de la heterogeneidad” que

295
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

nunca puede aspirar al premio de encontrar una fórmula


única que sirva a todos los pueblos en todos los tiempos:
sus soluciones son siempre estratégicas, contextuales,
históricamente específicas e, inevitablemente,
provisionales (84).

Es decir que, en esta política de la heterogeneidad, la condición


histórica de los pueblos de las naciones coloniales es contemplada, incluso
cuando las presiones de los grupos dominantes pugnan por apartarlos de
los relatos históricos.
Para el caso boliviano, que es el que nos convoca en este capítulo,
observamos los estudios de Javier Sanjinés (2009) y Silvia Rivera Cusicanqui
(2010) quienes toman de Ernst Bloch ([1918]2000) la idea de que existen
“registros temporales diferentes, es decir, no coetáneos” (Sanjinés, 2009,
p. 164). En palabras de Bloch se trata de “la contemporaneidad de lo no
contemporáneo” (164). Para Rivera Cusicanqui las “contradicciones no
coetáneas” (2010, p. 11) indican una complejidad al momento de pensar
la historicidad boliviana. Rivera plantea “la coexistencia simultánea de
una multiplicidad de capas, “horizontes” o “ciclos” históricos” (11). Estos
horizontes3 coexisten, es decir, no se propone un ejercicio historiográfico
que plantee una historicidad lineal y consecutiva, sino que los diversos
horizontes se superponen: el horizonte colonial que se inicia en 1535 con
la llegada de los conquistadores españoles al territorio de la actual Bolivia;
el horizonte liberal que se inicia en 1870 y el horizonte populista desde
1950. Lo paradigmático de estos horizontes o ciclos históricos tiene que
ver con su continuidad desde el pasado hacia la contemporaneidad, lo
que explica las tensiones y contradicciones de la contemporaneidad de lo
no contemporáneo. Desde la perspectiva de Rivera Cusicanqui, cada uno
de los diversos horizontes encubre los mecanismos opresores del ciclo
anterior.
René Zavaleta Mercado, en su propuesta epistemológica
fundada en una teoría local, desarrolló una reflexión referida al horizonte

3 Rivera Cusicanqui (2010b) identifica tres horizontes o ciclos: el colonial, el liberal y el populista.

296
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

de posibilidades que presenta lo nacional en Bolivia. Sus primeras


aproximaciones parten de la certeza de que la boliviana es una sociedad
heterogénea y compleja. Su noción de abigarramiento o sociedad
abigarrada representa, para los estudios sociales referidos a la nación
altiplánico-amazónica, una herramienta teórico-metodológica de gran
potencialidad que contribuye al análisis de los fenómenos que caracterizan
a Bolivia. Para Zavaleta coexisten formas arcaicas y formas modernas que
se encuentran y se tensionan no solo en el ámbito económico, por ejemplo,
sino también en los planos sociales y políticos. En el marco de este planteo,
Zavaleta afirma que “la forma abigarrada y desigual de la sociedad impide
en una gran medida la eficacia de la democracia representativa como
cuantificación de la voluntad política” (2013, p. 103). Esto quiere decir, para
el sociólogo orureño, que las intermitencias políticas en Bolivia podrían
explicarse a partir de esta coexistencia de formas, de planos, de tiempos:

tenemos [en Bolivia] verdaderas densidades temporales


mezcladas, […], no solo entre sí del modo más variado,
sino que también con el particularismo de cada región,
porque aquí cada valle es una patria, en un compuesto
en el que cada pueblo viste, canta, come y produce de
un modo particular y habla todas las lenguas y acentos
diferentes sin que unos ni otros puedan llamarse por un
instante la lengua universal de todos (p. 105).

Ciertamente, estas relaciones abigarradas, que confluyen en


un mismo espacio y tiempo representan para Zavaleta un problema de
difícil solución a la hora de observar la distribución y administración del
poder. Para este autor, la falta de articulación entre estas “capas”4 es la
consecuencia de una “temporalidad trágica” que “está hecha de rutinas
y de crisis, que son a la vez los ritmos del (des) o (auto) conocimiento que
permiten” (Souza Crespo, 2013:19). Esta es la razón por la que

4 Zavaleta utiliza con frecuencia metáforas relacionadas con el ámbito de la geología: “la abi-
garrada es una formación que visualiza un trabajo del tiempo por el que diferentes materiales
geológicos son mezclados y estratificados muy distintamente” (Souza Crespo, 2013, p. 20).

297
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

la pretensión de una gramática universal aplicable a for-


maciones diversas suele no ser más que una dogmatiza-
ción. Cada sociedad produce un conocimiento (y una téc-
nica) que se refiere a sí misma (Zavaleta Mercado, 2013,
p.107).

La idea de Bloch, tomada por Sanjinés, de que

la historia no es una entidad que avanza en línea recta,


ni tiene al capitalismo como etapa final resolutoria de las
etapas previas; es, por el contrario, una entidad polirítmica
y multiespacial, con atajos no dominados, resueltos o re-
velados (Bloch, 2000, p. 62; Sanjinés, 2009, p.165).

Contribuye al debate de la construcción nacional desde lo étnico.


Esta cuestión es, posiblemente, una de las problemáticas más profundas
en la discusión referida a la nación boliviana y su devenir histórico. Para
abordar esta reflexión es preciso considerar el tiempo heterogéneo
(Chaterjee, 2008) y las tensiones y distensiones en las que se configuran
las dinámicas sociales y políticas. Es, de este modo, que las indagaciones
respecto al desarrollo de la historia boliviana de la segunda mitad del siglo
XX adquieren su potencialidad al momento de analizar esta narrativa y su
impacto en acontecimientos que pueden haber quedado marginados de la
“historia oficial” boliviana.
Por ello, este capítulo se propone como una indagación sobre la
historia boliviana que abarca el periodo comprendido entre los años 1952
hasta 1993 y los hechos más relevantes acaecidos en ese marco temporal.
En efecto, hemos estructurado este capítulo con una sección dedicada al
relato histórico desarrollado en el plano de una política estatal republicana
y otra sección en la que nos dedicaremos a indagar el desarrollo histórico
de los movimientos indígenas. Examinaremos, puntualmente, el más
relevantes de ellos para la época: el movimiento katarista. De esta manera,
el capítulo postula un desenvolvimiento histórico para Bolivia que no
puede desconocer las abigarradas estructuras sociales y políticas que, en
numerosas ocasiones, explican y evidencian las causas y consecuencias de
las crisis e inestabilidades que atraviesa el país andino-amazónico.

298
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

DE LA REPÚBLICA

Los albores decimonónicos y la guerra de independencia, nos


conducen hacia las ideas de revolución y ciudadanía. Esther Aillón afirma
que

Una primera cuestión es ¿cómo podemos entender la Ilus-


tración a inicios del siglo XIX? Debemos tomar en cuen-
ta que ha sido uno de los temas más tradicionales de la
historiografía, que la entendió como una esfera separada,
como la “alta cultura” […] Como veremos, en la época de
la independencia, en Charcas como en Hispanoamérica,
se leían obras que circulaban en el mundo atlántico, había
lecturas en común y también había un debate alrededor
de nuevos referentes políticos y sociales (2010, p. 2).

Paola Revilla dirige su mirada hacia los hechos revolucionarios y


postula que

A casi doscientos años de los primeros síntomas del mo-


vimiento subversivo y con miras revolucionarias de 1809
en Charcas, podemos afirmar que los jóvenes doctores
de San Francisco Xavier abrieron paso a la lucha por la
emancipación en otros países, siendo su dinamismo una
característica del fenómeno revolucionario charqueño.
Tal es el caso de Jaime de Zudáñez, abogado de los po-
bres en La Plata, quien se convirtió en uno de los revolu-
cionarios trashumantes en Charcas. Privado de la libertad
por Nieto, en 1810, se benefició con la amnistía que las
Cortes de Cádiz, en octubre de aquel mismo año, conce-
dieron a los participantes de las conmociones en América.
Entre 1811 y 1814 encontramos a Zudáñez en Santiago de
Chile, donde fue Canciller y asesor de Bernardo O’Higgins
(2010, p. 175).

Rossana Barragán, por su parte, reflexiona acerca del concepto de


ciudadanía:

La primera vez que se planteó el tema de la ciudadanía


en relación a nuestro país fue en 1812 es decir antes de
que Bolivia fuera independiente en el marco aun del impe-
rio español. Fue entonces la constitución liberal española
aplicada a toda américa que planteó el tema de la división
de los poderes de la representación y de la soberanía. La

299
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

ciudadanía implicaba por primera vez la concepción de


personas que podían tener derechos porque antes que
eran simples súbditos del rey (2006, p. 26).

Ahora bien, la primera mitad del siglo XIX en Bolivia estuvo marcada
por la obra de José María Dalence5 [1851] que además de constituirse en un
estudio completo sobre la sociedad y realidad bolivianas, nos transmite la
cosmovisión del hombre boliviano decimonónico. En este sentido, Dalence
escribió:

La libertad civil tiene todas las garantías de los bolivianos.


Juzgo que por estas noticias basten leyes de Bolivia invi-
tan a todos los hombres a venir a su territorio, donde su a
manifestare el espíritu protector que en nuestro sistema
de gobierno predomina; y que en él tiene la industria in-
dividual cuanto apoyo ha menester6, para desenvolver los
gérmenes de riqueza que intactos y casi ocultos existen
en el seno de la República. Lo que más consuela en este
particular es, que las doctrinas que enuncio van penetran-
do ya en las masas, embebiéndose en sus hábitos, y arrai-
gándose de tal modo que pronto formarán sus habituales
creencias. Por esta causa, ni los trastornos políticos, ni las
reformas de las constituciones, ni sus principios generales.
Con tales garantías solo falta, que dejándonos nosotros
de nuestras rencillas y de sus mezquinas ambiciones, los
gobernantes explotemos todos los intereses materiales
de nuestra patria para ser tan ricos y venturosos, como
los que más (Dalence, 1851; Finot, 1943, p. 247-248).

El siglo XIX boliviano culmina con dos importantes hechos: por una
parte, las luchas indígenas lideradas por Pablo Zárate Wilka, y por otra, la
Guerra Federal de 18997, que implicó la sustitución del partido conservador
por el partido liberal en el poder y cuya consecuencia política en lo posterior
fue el cambio de la sede de gobierno de la ciudad de Sucre a La Paz.
Por último, de acuerdo al apogeo de las ideas de “progreso” de
las sociedades occidentales, el gran acontecimiento que cierra el siglo es

5 José María Dalence (1782-1852), orureño de nacimiento, fue un abogado y político, quien por
mandato del entonces presidente José Ballivián fue nombrado presidente de la Junta de esta-
dística, por lo que le fue posible conformar el estudio del Bosquejo Estadístico de Bolivia.
6 Ha menester, ha de necesitar.
7 Sobre la temática, ver Mendieta, 2010.

300
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

el censo general de la población de la república, llevado a cabo en 1900,


durante la gestión del presidente José Manuel Pando8.
El periodo liberal conservador se extiende desde finales del siglo
XIX hasta los años 30 del siglo XX. Los hitos más importantes de la primera
mitad del siglo son la Guerra del Chaco (1932-1936) y la Revolución del
52. Bolivia atraviesa numerosos cambios en esta etapa. La mayoría de
ellos tienen que ver con las inestabilidades, los arrebatos en el gobierno,
las pujas por el poder y la preocupación constante acerca del lugar que
ocuparía el indígena en los diversos proyectos nacionales. Desde las
posturas ancladas en la perspectiva positivista de Alcides Arguedas hasta
las telúricas reflexiones de Franz Tamayo, Bolivia pugnaba por dialogar con
el mundo, incluso pese a su “enclaustramiento” ocasionado por la pérdida
de una salida al mar (1879).
La Guerra del Chaco transcurrió entre 1932 y 1935 y, en
consecuencia, Bolivia perdió territorio en favor de Paraguay. Entre las
causas de la guerra se encuentra el impulso dado por intereses extranjeros
(holandeses e ingleses) que procuraban encontrar yacimientos petrolíferos
importantes en la zona del sudeste boliviano. Se trata de una guerra que
pretendía ocultar la inoperancia política del gobierno de Daniel Salamanca,
una guerra que quería resarcir moralmente al país de lo anteriormente
perdido: los territorios del Litoral -y con él de la salida al mar- y del Acre
situado al norte del país y ganado por Brasil (KLEIN, 1995; GONZÁLEZ
ALMADA, 2014).
De estos procesos históricos y políticos, surge una nueva generación
que de vuelta de la guerra pretende cambiar el estado de cosas:
la Guerra del Chaco, especialmente al traer la fantástica
derrota y frustración, reveló a la nación todas sus notorias
faltas, y ciertamente no había excepción en esta reacción,
produciendo su propia “generación del Chaco” (KLEIN,
1995, p. 213).

8 Ver el nutrido trabajo que cuenta con estudios especializados, titulado Bolivia en 1900. Censo
general de la población de la República de Bolivia, según el empadronamiento de 1 de septiem-
bre de 1900, edición facsimilar reeditada por el Archivo y biblioteca Nacionales de Bolivia,
Sucre, 2012.

301
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

El modelo liberal conservador que imperaba desde 1880 se verá


agotado dando paso al gobierno de leve inclinación de izquierda liderado
por los militares héroes de la guerra David Toro y Germán Busch. Los
intelectuales y escritores también debatirán el presente y el futuro del país
al clausurarse un período que solo había acarreado pérdidas materiales y
simbólicas.
La urgencia por la redefinición del sujeto nacional nace como una
necesidad del momento. Atrás quedan las teorizaciones de Franz Tamayo
y Alcides Arguedas y surgen no solo las críticas propias de los nuevos
tiempos sino también las nuevas formulaciones y las nuevas miradas sobre
los hechos acaecidos en el Chaco:

El realismo de la novela de la guerra del Chaco tuvo un


profundo impacto en los hombres de esa época y en las
futuras generaciones intelectuales de Bolivia, al hundir el
análisis de la guerra profundamente en la conciencia de
la nación (214).

La Revolución del 52 implica para la historia de Bolivia un proceso


profundo de esperanzadas estrategias políticas que pretendían conducir
al país a un nuevo estadio de quiebre total con el pasado de desigualdad
social anterior. Dos bastiones importantes confluyen en este proceso: la
participación activa de la Central Obrera Boliviana y el sustrato intelectual
de los miembros del Movimiento Nacionalista Revolucionario, con la
destacada participación de Augusto Céspedes y Carlos Montenegro,
verdaderos artífices de los fundamentos movimientistas (Klein, 1995). Las
ideas principales del MNR son el resultado de las que empezaron a crecer
luego de la guerra del Chaco y se pueden encontrar en detalle en la obra
de Montenegro Nacionalismo y Coloniaje ([1943]1998). Una vez alcanzado
el poder en 1952, asume la presidencia Víctor Paz Estenssoro y al poco
tiempo comienzan a evidenciarse las fracturas en el movimiento. En el
marco de esta situación, y más allá de las críticas que puedan hacer de
estas circunstancias políticas e históricas los estudiosos del pensamiento
boliviano como Silvia Rivera Cusicanqui (2010b) -como veremos más

302
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

adelante- en el marco de la Revolución se lograron avances en lo que respecta


a acceso a derechos y a la ciudadanía. Fueron logros de la Revolución el
voto universal, el robustecimiento de la clase media, el fortalecimiento
de los sindicatos mineros y la sindicalización de los trabajadores rurales
reunidos en la Confederación Sindical Única de Trabajadores Campesinos
de Bolivia (CSUTCB), la Reforma Agraria, entre otras. Con respecto a
estos dos últimos acontecimientos, los movimientistas quisieron ocultar
el problema indígena en tanto problema de la tierra y en tanto problema
étnico, convirtiendo al indígena rural en campesino e intentando repartir
la tierra de forma igualitaria. Ambos intentos de “solucionar” el problema
del indígena y su postergación, no fueron exitosos en profundidad: no es
posible reducir al indígena rural a “campesino” sin que medie un proceso
de ocultamiento de la identidad del indígena y sus prácticas; y el reparto de
tierras tuvo, a largo plazo, consecuencias nefastas en la economía agrícola
y en la tenencia de tierras actual, viéndose más perjudicado el altiplano
boliviano en beneficio del oriente del país que mantuvo el latifundio.
Más allá de esta cuestión, es preciso destacar que la Revolución
impulsó la nacionalización de las minas que hasta entonces habían
pertenecido a los llamados “barones del estaño” (Klein, 2008; Mesa
Gisbert, 2003): Simón Patiño (1860-1947), Mauricio Hoschild (1881-1965)
y Carlos Víctor Aramayo (1889-1982). Con anterioridad al decreto de
la nacionalización firmado el 31 de octubre de 1952, las minas dejaban
escasas regalías en manos del Estado. Entre los meses de abril y octubre
se trabajó en una comisión que aspiraba a desestructurar el poder de los
barones del estaño y a entregar el control a la Central Obrero Boliviana.
La nacionalización devolvía al Estado todos los bienes de las empresas de
Patiño, Hoschild y Aramayo. Así, se creó la Corporación Minera de Bolivia
(COMIBOL) y, con ella, el Estado pudo transformar el control de la economía
con la nacionalización de las minas.
La propuesta del MNR auspicia el apartamiento de las oligarquías
de los sectores del poder político. La revolución del 52 desplazó a la clase
dominante que regía el país, expropiando minas y latifundios y, en general,

303
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

permitió el pasaje de una economía semifeudal, apoyada en la actividad


agrícola y en la minera, a una economía básicamente controlada por
el Estado en más del 70%. El éxito de la Revolución tuvo con ver con la
creación de una burguesía que sin haber logrado estructurarse realmente
como clase coherente, intentó industrializar al país (KLEIN, 1995).
Al colocar en los lugares de poder al sector burgués de la clase
media, el indígena es ubicado por los movimientistas y la COB en la categoría
universal “campesino”, acuñada por la Revolución para proletarizar al
trabajador rural. Sin embargo, las medidas políticas y sociales vinculadas
a lo rural como la repartición de tierras y la voluntad de proletarizar al
indígena, no fueron efectivas. Silvia Rivera Cusicanqui dirá a partir de
algunas de las medidas de la Revolución del 52:

los derechos humanos del indio solo se reconocen cuando


deja de ser indio y asume rasgos del ciudadano occiden-
tal: propietario, escolarizado, mestizo, productor y con-
sumidor mercantil, etc. (RIVERA CUSICANQUI, 2010b, p.
58).

De acuerdo a esta perspectiva, las medidas que pretendían


beneficiar al indio, acabaron, según la visión y análisis de Rivera Cusicanqui,
oprimiéndolo, normativizándolo y colonizándolo nuevamente.
Así, la Revolución también reproducirá un modelo de gobierno
que desplazará a los indígenas y a los cholos porque el sujeto nacional
será un intelectual de clase media. Sin embargo, y pese a las políticas en
beneficio de los indígenas, el auge del MNR como gobierno progresista y
obrero y sus intenciones de instalar la igualdad social decaen rápidamente
subyugándose a los intereses extranjeros principalmente (Klein, 1995).
Herbert Klein en Historia de Bolivia (2008) afirma que la Revolución del
MNR y de la COB no encontró demasiadas resistencias del gobierno de
Estados Unidos ya que “la embajada estadounidense recomendó proseguir
la ayuda a Bolivia y aceptó la posición de Paz Estenssoro en sentido de
que él y su régimen eran la única alternativa a la toma del poder por los
comunistas” (245).

304
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

De acuerdo a la Historia de Bolivia (2003) de José Mesa, Teresa


Gisbert y Carlos Mesa Gisbert, Víctor Paz Estenssoro (1907-2001) es la
figura política más relevante del siglo XX en Bolivia:

En 1941 fundó, junto a un destacado grupo de políticos e


intelectuales, el Movimiento Nacionalista Revolucionario,
partido del que fue jefe durante casi cincuenta años (1941-
1990). Fue ministro de Economía (1941) y ministro de Ha-
cienda y Estadística (1943-1945) (654).

Fue presidente de Bolivia en cuatro ocasiones. Entre los años 1952


y1956 y entre 1960 y 1964. En 1964 fue elegido por tercera ocasión, pero
no concluyó su mandato al ser derrocado por su vicepresidente, el General
René Barrientos. En 1985 fue elegido por cuarta vez y su mandato finalizó
en 1989.
Entre otras reformas que Estenssoro promovió en su primer
gobierno, se encuentra el robustecimiento de la oligarquía de Santa Cruz
de la Sierra:

la oligarquía cruceña pasó a ser una burguesía agraria, al


ser reconocidas por la reforma agraria las empresas agrí-
colas, beneficiadas además por la ayuda norteamericana,
las divisas fiscales y el uso de capital generado por la CO-
MIBOL (664)

Fotografía disponible em: <http://www.condistintosacentos.com/estados-unidos-y-las-


revoluciones-de-america-latina-el-caso-de-bolivia-1952-y-el-rol-de-la-argentina-peronista/>.

305
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Durante el primer gobierno de Hernán Siles Zuazo (1956-1960) las


tensiones en el cogobierno del MNR y de la COB se profundizaron y las
distancias en el entendimiento político se hicieron cada vez más evidentes.
Entre 1956 y 1957 la inestabilidad económica y el proceso inflacionario
fueron las causas del descontento sindical y la ruptura del cogobierno.
Asimismo, dentro del propio MNR surgieron enfrentamientos entre el ala
de izquierda y el ala de derecha: “al romperse la regla no escrita de una
sucesión alternada de los caudillos movimientistas en la presidencia, se
quebró el principio de unidad” (Mesa, Gisbert, Mesa Gisbert, 2003, p. 670).
Más tarde, durante el tercer mandato de Estenssoro en 1964,
los problemas en el seno del MNR ocasionaron el desmoronamiento del
partido lo que culminó con el periodo revolucionario y permitió el avance
de los gobiernos militares en Bolivia.
Los años del gobierno revolucionario tuvieron como consecuencia
que Bolivia no alcanzó la

ansiada industrialización al carecer de dos elementos


claves, un mercado interno fuerte con capacidad de con-
sumo y un ahorro interno significativo. La inserción del
campesinado a la vida política no logró convertirlo en
consumidor ni mejoró sustancialmente sus condiciones
de vida, marcadas por una economía de autoabasteci-
miento (677).

El primer gobierno del General René Barrientos (1919-1969)


transcurrió entre 1964 y 1965. Su presidencia estuvo marcada por
una profunda actitud hostil hacia los trabajadores de las minas y el
reordenamiento de la COMIBOL, lo que provocó una serie de huelgas y
tensiones con la COB. Sin embargo, el mayor gesto político de su gobierno
fue la creación del Pacto Militar Campesino, un instrumento de control
del ámbito agrícola respaldado por las Fuerzas Armadas. Las simpatías
generadas por Barrientos entre los grupos indígenas y el carisma que
emanaba al hablar en quechua con los campesinos resultaron decisivos
para ganarse la confianza de los pobladores del ámbito rural. Este pacto
“tuvo un valor inestimable de sustentación de este régimen militar y los que
le sucedieron hasta 1982” (682).

306
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

Los gobiernos militares transcurrieron en el periodo que comprende


los años 1964-1982. Este momento de la historia boliviana se caracteriza
por los fuertes enfrentamientos entre las masas obreras y el gobierno, la
violencia y las crisis económicas. En el año 1971, no obstante, surgen dos
movimientos de izquierda que intentarían pujar por el poder: el Movimiento
de Izquierda Revolucionaria (MIR) y el Partido Socialista (PS). El MIR, con
el devenir del relato político boliviano sería el más importante de ambos.
Entre los nombres que fundaron este movimiento se encuentra el de Jaime
Paz Zamora quien más adelante alcanzó la presidencia. En cuanto al PS,
su fundador Marcelo Quiroga Santa Cruz, fue el nombre más relevante
vinculado a este partido.
Durante este periodo se consolidó el crecimiento de Santa Cruz
de la Sierra, especialmente bajo el primer gobierno de Hugo Banzer
(1971-1978); se realizó un importante censo en 1976 que permite observar
comparativamente un periodo prerrevolucionario -con el censo de 1950-
y el posrevolucionario. El crecimiento de la población, el robustecimiento
de la economía cruceña, los procesos migratorios del campo a la ciudad y
la inestabilidad política son características de este momento de la historia
boliviana.
En 1977, Banzer convocó a elecciones. La crisis provocada por
la huelga de hambre de cuatro trabajadoras mineras, entre las que se
encontraba Domitila Chungara, se hizo masiva en pocos días. El agotamiento
del gobierno de Banzer se evidenció en el debilitamiento de la censura y de
las restricciones sindicales que había impuesto por más de cinco años.
En los años siguientes, sucesivos golpes de estado profundizaron
las crisis políticas y económicas en Bolivia. En 1980, el fundador del
Partido Socialista Marcelo Quiroga Santa Cruz fue apresado, torturado
y asesinado. Sus restos aún continúan desaparecidos. Los crímenes de
la calle Harrington en 1981 también marcan este periodo de violencia
institucional. El asesinato de ocho de los nueve dirigentes del Movimiento
de Izquierda Revolucionaria expandió el terror que caracterizó a esa época.

307
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Asimismo, en los años 80 se expandió el negocio del narcotráfico


en Bolivia. Durante el gobierno de Luis García Meza (1980-1981) los
negocios del narcotráfico se masificaron y, en consecuencia, el cultivo
de hoja de coca se propagó en las zonas del Chapare, los Yungas, Beni
y Santa Cruz (729). La corrupción emparentada con el comercio del
narcotráfico impactó en la economía boliviana.
A mediados de la década del 80 la crisis económica llegó a su
punto más alto con la espiral inflacionaria que acabó en un proceso
hiperinflacionario sin precedentes en Bolivia. Sucesivas devaluaciones
colocaron al peso en una disparidad frente al dólar que desmoronó el
nivel adquisitivo de la población.
En 1982 se abre el periodo de retorno a la democracia en
un contexto de inestabilidad política y económica: “el desafío más
importante fue buscar la institucionalización del sistema democrático y
garantizar su permanencia en el tiempo a través de reformas esenciales”
(735). La economía liberal que se imponía en el resto de los países
de América Latina y en Europa provocaron un plan de ajuste que se
implementaría en el marco del neoliberalismo en Bolivia a partir de 1985.
Paradójicamente, fue Víctor Paz Estenssoro en su retorno al gobierno,
quien como presidente implementó las medidas en el marco de la
economía de mercado. El cuarto gobierno de Paz Estenssoro (1985-1989)
se caracterizó por una profunda crisis económica y por la implementación
del decreto 21060. Este decreto “buscó la estabilización monetaria y la
derrota de la hiperinflación” (745). Fue el mismo Paz Estenssoro quien
cerró definitivamente el periodo del nacionalismo revolucionario que
él mismo había inaugurado desde el MNR y la Revolución de 1952. A
partir de este momento, sobrevienen fuertes olas de desempleo que
profundizan la pobreza en el país andino-amazónico. Las reacciones de
la COB provocaron mayores episodios de tensión entre los trabajadores
y el Estado.

308
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

El presidente Paz Estenssoro dando lectura del decreto 21060. Fotografía disponible em:
<https://econometria101.wordpress.com/2016/03/04/d-s-21060-en-bolivia/>.

La migración del campo a la ciudad se profundizó y la relocalización


de los trabajadores impulsó el descontento social. El estallido demográfico
de La Paz provocó la creación, en 1985, de la ciudad de El Alto que rodea
a la hollada. El Alto se convirtió en el lugar de llegada de los migrantes
indígenas y es una de las ciudades más dinámicas en términos sociales y
políticos de Bolivia hasta la actualidad.
El periodo que nos compete en este trabajo se cierra con el gobierno
de Jaime Paz Zamora (1989-1993). Su gobierno profundizó las medidas
neoliberales: se privatizaron la compañía de teléfonos ENTEL, la línea aérea
LAB (Lloyd Aéreo Boliviano), algunas empresas mineras, los ferrocarriles,
entre otras importantes empresas nacionales.

DE LAS REVOLUCIONES INDÍGENAS

Un método para el análisis de los acontecimientos históricos que se


han desarrollado en Bolivia, es el creado por Silvia Rivera Cusicanqui a partir

309
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

de las nociones de Ernst Bloch. Como ya mencionamos con anterioridad,


el postulado de Bloch refiere a lo que luego Rivera Cusicanqui (2010b)
llamará contradicciones no coetáneas. Con el afán de intentar resolver
esas contradicciones no coetáneas, es decir, estos tiempos “desplazados”
o “desencontrados”, en definitiva, con la “contemporaneidad de lo no
contemporáneo” (Sanjinés, 2009), Rivera Cusicanqui introduce, en sus
estudios referidos a la historia de Bolivia, las nociones de historia larga e
historia corta. Esta distinción entre historia larga e historia corta facilita
la comprensión del complejo devenir histórico boliviano ya que relaciona,
hace dialogar, acontecimientos ocurridos antes, incluso, del periodo
republicano iniciado en Bolivia en el año 1825 -con la emancipación de la
corona de España- y acontecimientos más próximos en el tiempo a nuestra
contemporaneidad. Se trata de un esfuerzo puesto en la organización de
eventos políticos y sociales que repercuten en acontecimientos posteriores.
Desde esta propuesta teórica, el ciclo colonial y el republicano no
quedan cristalizados en el tiempo, sino que contribuyen a la comprensión
de la compleja densidad histórica boliviana del siglo XX y del siglo XXI.
Los movimientos indígenas comienzan a articularse políticamente
desde los tiempos de Tupaj Katari y Bartolina Sisa en el siglo XVIII, los cuales
marcan una trayectoria de rebeliones que posibilita observar los nexos que
relacionan los acontecimientos del pasado con los de tiempos posteriores.
En efecto, las revueltas indígenas protagonizadas por Julián Apaza (Tupaj
Katari) y su esposa Bartolina Sisa, oriundos ambos de la provincia de
Aroma, se unen simbólicamente con el levantamiento de Pablo Zárate
Willka, también nacido en Aroma, quien fuera el promotor de la rebelión
indígena de 1899. Zárate Willka fue el líder del levantamiento que cercó
a la ciudad de La Paz, evento que clausuró el ingreso de provisiones para
los habitantes de la ciudad. El cerco a La Paz ha quedado grabado en la
memoria colectiva de los paceños, pero, también, de los bolivianos de otras
regiones que, en otros periodos históricos, recurren a ese recuerdo en la
medida en que las tensiones con los indígenas del Altiplano se agudizan
(González Almada, 2017).

310
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

Asimismo, en el devenir de la historia larga que diseña Silvia


Rivera Cusicanqui aparece el nexo que relaciona estos hechos con
acontecimientos que se articulan y diseminan en la segunda mitad del siglo
XX. El surgimiento del movimiento katarista-indianista en los años 1970
tiene su antecedente, desde esta vertiente teórica, con los eventos del
siglo XVIII y de fines del siglo XIX.
La historia corta del movimiento indígena se condensa en
un periodo de tiempo más circunscripto y atomizado en los años
posteriores a la Revolución del 52. Uno de los efectos de la Revolución,
como ya mencionamos, fue el desvanecimiento de la identidad indígena
metamorfoseada en identidades de clase:

la implementación del sindicalismo agrario paraestatal


de 1952 sobre los sistemas de autoridad comunal, generó
una “des-indianización” política que coincide sincrónica-
mente con procesos análogos en otros estados latinoa-
mericanos (ERREJÓN GALVÁN; ESPADÍN LÓPEZ; IGLE-
SIAS TURRIÓN, 2007, p. 130).

Esta “des-indianización” tiene que ver con la “subsunción de la


diferencia dentro de las categorías inclusivas de la nueva ciudadanía” (130),
es decir, que las propias políticas del Estado difuminaron las identidades
indígenas. No obstante, esto no impidió que los movimientos indígenas
adoptaran estrategias ligadas con la historia larga pero adaptadas a las
circunstancias que requerían los acontecimientos políticos del presente.
El abandono, por parte del gobierno, de la preocupación por el
problema étnico, produjo mayor tensión en la relación entre el Estado y
los indígenas. Más tarde, las consecuencias del Pacto Militar Campesino
iniciado en 1964 por el General Barrientos, y luego de la muerte de este
en 1969, aceleraron los procesos de descontento entre el gobierno y los
indígenas. En efecto, las complejas relaciones entre los diversos gobiernos
republicanos impactaron fuertemente en las acciones y articulaciones
políticas indígenas. En un repaso de estas dinámicas en torno al poder,
Silvia Rivera Cusicanqui en Oprimidos pero no vencidos (2010a) afirma que

311
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Las alianzas verticales entre la élite campesina y la élite


vecina de los pueblos asumen la forma del faccionalismo
sindical y político, con una facción nacionalista u oficialis-
ta, que se alía con el barrientismo y los regímenes milita-
res del 60 y 70, y una facción izquierdista que pugna en la
clandestinidad hasta el breve interludio democrático de
1970-1971, para volver a sumergirse durante la dictadura
de Banzer, aunque reteniendo un notable poder informal
de aglutinamiento de intereses políticos y económicos.
Así, la lucha por un acceso campesino autónomo al mer-
cado, que permita rearticular los intereses de clase del
campesinado, contra el poder mercantil y político de los
intermediarios y camioneros, tropezará durante la aper-
tura democrática de Torres (1971), con la alianza tácita de
todos los sectores que extraían excedentes del campesi-
nado pobre y medio mayoritario (LAGOS, 1988, p. 221 y
ss.). Poco después, esta alianza se sellará políticamente
con el golpe del Gral. Banzer (1971-1977) (46).

Uno de los conflictos que acentúan las fricciones entre el Estado y


los indígenas tiene que ver con el aspecto económico. El enfrentamiento
entre las formas de mercado y comercialización capitalista y los circuitos de
producción, distribución y comercialización de las comunidades indígenas
fue el detonante para la huelga en Tolata de 1974 y la posterior represión
por parte de las fuerzas estatales lideradas por el General Banzer. El
conflicto, profundamente emparentado con las relaciones establecidas en
el pacto militar campesino9, llevó a una masacre que exponía, como otras10,
la imposibilidad de establecer relaciones equilibradas entre las masas
indígenas y el Estado.
Estas tensiones revelan una problemática que atraviesa el planteo
de este apartado: la sindicalización de los indígenas, impuesta desde arriba

9 El pacto militar campesino suponía la subordinación de las organizaciones sindicales al Esta-


do acentuando una estructura vertical y autoritaria que se oponía a las formas de organiza-
ción política tradicionales.
10 En la historia de Bolivia existen numerosos ejemplos de enfrentamientos entre el Estado y mo-
vimientos mineros y/o campesinos en pugna por amplitud de consideraciones a sus reclamos
económicos y políticos.

312
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

y desde fuera de las comunidades, se opone a la estructura política


de los ayllus11 (Rivera Cusicanqui, 2010a; Platt, 1988). Asimismo,

el sindicalismo no constituyó -ni antes ni después de


1952- una modalidad universal de organización de la po-
blación rural. Salvo en el caso de Cochabamba, que de-
sarrolló una temprana actividad sindical para combatir el
dominio de la hacienda, en el Altiplano y en el Norte de
Potosí predominaban las formas comunales tradicionales
de organización (Rivera Cusicanqui, 2010a, p. 161).

De modo que, tanto el Pacto Militar-Campesino cuanto


la organización sindicalista que se propagó por las comunidades
aymaras, acarrearon graves problemas de organización política y social
entre sus integrantes. No obstante, “este control y subordinación del
movimiento sindical campesino a la institución militar, no pudo imponerse
homogéneamente y sin conflictos sobre la heterogénea población rural”
(170).
Impulsados por las necesidades económicas y los nuevos desafíos
que se presentan hacia fines de los años 60, jóvenes aymaras de la
provincia de Aroma se dirigen a la ciudad de La Paz a realizar sus estudios
secundarios y luego universitarios. El movimiento katarista surge a partir
de la reunión de varias circunstancias que conspiran positivamente para
su desarrollo. El primer desplazamiento tiene que ver con el tránsito de los
jóvenes aymaras por las escuelas secundarias de la ciudad de La Paz. Es
en la escuela Gualberto Villaroel donde se encuentran e, incipientemente,
comienzan a formar el movimiento “15 de Noviembre”12. Javier Hurtado en
El katarismo ([1986]2016) afirma que

11 El diseño territorial en la región andina responde a un complejo entramado que comprende a


markas, ayllus y suyus. El ayllu “es un sistema organizativo multisectorial y multifacético, una
institución andina […] siendo un espacio territorial unitario, se desdobla en dos parcialidades
de “Araja-Aynacha” (dualidad), en el encuentro y la unidad de ambos se expresa un tercer
elemento como “Taypi” (trilogía doble) […]. Este sistema está regido por una autoridad política
pareada (pareja) de “Tata-Mama Jilaqata”, coadyuvado por los “Yapu-Uywa Qamana” (auto-
ridades de la producción) y los “Yatiri/Chamakani” (autoridades de la cosmovisión andina)
(YAMPARA, 2001, p. 69).
12 Los jóvenes aymaras toman la fecha 15 de noviembre como denominación del grupo, en ho-
menaje a la fecha de fallecimiento del líder indígena Julián Apaza Nina mejor conocido como
Tupaj Katari muerto el 15 de noviembre de 1781.

313
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

este movimiento funcionaba como una especie de secta


secreta dedicada al estudio y discusión del pasado propio.
Empiezan a reinterpretar la historia boliviana criolla des-
de la perspectiva india; redescubren las figuras de Tupaj
Katari, Bartolina Sisa, Zárate Willka; reflexionan asimismo
sobre la discriminación cotidiana que sufren en el exilio de
la ciudad (62).

El movimiento “15 de Noviembre” estaba integrado por Constantino


Lima, Raymundo Tambo, Juan Rosendo Condon, Clemente Ramos, Antonio
Quispe Mamani, Justo Canaviri, Claudio Payvi, Irineo Apaza y Crispín Quispe
(64). Más tarde, al finalizar el bachillerato y ya en la Universidad Mayor de
San Andrés de La Paz

los estudiantes campesinos de Aroma impulsaron la for-


mación del Movimiento Universitario Julián Apaza (MUJA).
Este frente universitario tenía por objetivo luchar contra la
segregación racista del sistema universitario. Por su parte,
los catedráticos y los alumnos mestizos y criollos se pro-
pusieron asimismo divulgar los problemas del campo. El
MUJA viene a ser el brazo universitario del katarismo y re-
levó al Movimiento 15 de Noviembre, que desapareció (64).

De modo que los contextos educativos contribuyeron a que los


jóvenes aymaras se dedicaran a examinar y profundizar sus estudios sobre
el pasado de su cultura y, también, a estrechar lazos con la tradición de
las rebeliones indígenas del pasado. Como originarios de la provincia de
Aroma, que había sido el lugar de nacimiento de varios héroes y heroínas
indígenas como Zárate Willka, Bartolina Sisa, Tupaj Katari, entre otros,
los jóvenes robustecieron el imaginario rebelde de esta zona del altiplano
boliviano.
Un segundo desplazamiento contribuye a estrechar los lazos
entre los aymaras de Aroma: el retorno a las comunidades luego de haber
completado los estudios universitarios, profundiza los lazos políticos
y simbólicos con la comunidad. Así, pronto se convierten en líderes que
desarrollan sus actividades políticas en el marco del sindicato y en el marco
de las organizaciones políticas ancestrales que rige la comunidad:
a fines de los años sesenta, muchos de estos jóvenes que
habían salido bachilleres en la ciudad, realizado el ser-

314
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

vicio militar y estudiado en la universidad, regresaban a


sus comunidades de origen y formaban nuevas familias.
Con ello cumplían parte importante de los requisitos que
la tradición exige para poder ser dirigentes. Se iba, pues,
configurando imperceptiblemente una especie de ruptura
con el viejo sindicalismo del 52 (65).

El tercer desplazamiento tiene que ver con un retorno al ámbito


urbano, pero en calidad de dirigentes sindicales. Entre los líderes kataristas
se destaca Jenaro Flores. La trayectoria política de Flores se puede resumir
en unos pocos años de intenso trabajo militante. Nacido en 1941 en Collana,
provincia de Aroma en el departamento de La Paz, Flores realizó los
desplazamientos antes mencionados por los integrantes del grupo “15 de
Noviembre”. Si bien era más joven que aquellos, el accionar del grupo y de
Raymundo Tambo en particular, fue estratégico en el desarrollo de la figura
de Jenaro Flores. Su desempeño en el desarrollo sindical fue expandiendo
las fronteras de las comunidades del altiplano y el trabajo de Jenaro Flores
se difundió ampliamente.

A fines de 1969, Jenaro Flores es elegido Secretario Gene-


ral de su comunidad, Antipampa-Collana y al poco tiem-
po lo es de la subcentral. En marzo de 1970 se realiza un
congreso sindical de la provincia Aroma, en la localidad
de Ayo-Ayo. […] Aquel memorable congreso puede con-
siderarse como la cuna del katarismo a nivel sindical (67).

A partir del katarismo, los indígenas del altiplano comienzan a


resquebrajar el Pacto Militar Campesino y empiezan a cuestionar con
mayor énfasis el desarrollo de los gobiernos militares. Los kataristas, en
el plano de su organización, acertaron al no alejarse de sus respectivas
comunidades y al vincular los conocimientos adquiridos en las instituciones
académicas a las matrices de conocimiento ancestral. Esto provocó que
dos brazos de lucha se fueran fortaleciendo: la organización sindical y la
organización tradicional. Es, posiblemente, una de las singularidades que
distinguen a este movimiento de otros movimientos indígenas.

315
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Jenaro Flores fue uno de los dirigentes kataristas más carismáticos. (Hurtado, 2016:378)

Según el investigador Víctor Hugo Cárdenas (1988) el movimiento


katarista se funda a partir de tres corrientes que aparecieron sucesivamente:
la cultural, la sindical y la política. La primera tiene que ver con la creación
del Centro Campesino Tupaq Katari, fundado a mediados de 1971. En él se
reunieron los aymaras para

construir una gran sede social compuesta de albergues,


comedores, mercados para comercializar los productos
agropecuarios y conseguir una radio y un auditorio para
promover la música, arte y literatura oral aymara (523-
525).

En este contexto, dos años después, en 1973, jóvenes aymaras,


profesionales y universitarios, se reunieron en Tiwanaku y suscribieron

316
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

el Manifiesto de Tiwanaku que se distribuyó clandestinamente en todo


Bolivia. Este documento propone exponer la situación de explotación y
de colonialismo que las masas aymaras padecían. Lo interesante de este
Manifiesto es que exhibe la articulación política que los indígenas lograron
durante este periodo y el reconocimiento del cambio de circunstancias:

Bolivia está entrando en una nueva etapa de su vida polí-


tica, una de cuyas características es la del despertar de la
consciencia campesina. Al acercarnos a un periodo pree-
lectoral, una vez más se acercarán los políticos profesio-
nales al campesinado para recabar su voto y una vez más
lo harán con engaños y falsas promesas. La participación
política del campesinado debe ser real y no ficticia. Ningún
partido podrá construir el país sobre el engaño y la explo-
tación de los campesinos. Nosotros, los propios campesi-
nos, lejos de todo afán partidista y pensando únicamente
en la liberación de nuestro pueblo, queremos exponer en
este Documento aquellas ideas que juzgamos fundamen-
tales en el ordenamiento económico, político y social del
país (PRIMER MANIFIESTO DE TIWANAKU, 1973, p. 327).

De esta cita se desprenden dos cuestiones a destacar: la primera


tiene que ver con las denominaciones que permean la identidad indígena.
Es evidente que, luego de la Revolución del 52, hasta los propios sujetos
que se construyen como enunciadores en el Manifiesto se autodenominan
campesinos. Hay allí una autoadscripción que refiere a una actividad
económica, el trabajo agrícola, y a una región particular del país, el
altiplano. En segundo lugar, es preciso destacar que quienes firman el
documento son asociaciones o centros, es decir, que se privilegia el valor
de un sujeto colectivo y no de individualidades. Esta decisión política
robustece la oposición con las estrategias unipersonales muchas veces
puestas en práctica por lo que el documento denomina como “políticos
profesionales”. Por tanto, lo político se entiende de modo diferente desde
el accionar comunitario. Los firmantes del Manifiesto son el Centro de
Coordinación y Promoción Campesina MINKA, el Centro Campesino Tupaj
Katari, Asociación de Estudiantes Campesinos de Bolivia y la Asociación
Nacional de Profesores Campesinos.

317
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

La segunda corriente del movimiento katarista según el análisis


de Víctor Hugo Cárdenas (1988) es la sindical. Posiblemente es una de
las más fuertes y provocadoras líneas del katarismo condensada en la
figura de Jenaro Flores a partir de 1971. En junio de 1979, Flores fue elegido
en el Congreso de Unidad Campesina como secretario ejecutivo de la
Confederación Única de Trabajadores Campesinos de Bolivia (CSUTCB).
El congreso “significó la unidad del campesinado con los trabajadores
mineros, fabriles, petroleros, estudiantes y maestros del país agrupados en
la COB” (527).
Los orígenes de la CSUTCB se remontan a las primeras décadas
del siglo XX. A finales de los años ´30 y principios de los ´40, las diferentes
agrupaciones indígenas se unieron, creando una alianza que luego
acabaría en una incipiente formación sindical. Esta agrupación, no difiere
demasiado de las organizaciones ancestrales que ya existían en el seno de
las comunidades y que venían utilizando las estrategias de lucha que los
indígenas desde hace siglos implementaban (GARCÍA LINERA; CHÁVEZ
LEÓN; COSTAS MONJE, 2005).
En 1942, el movimiento indígena buscó establecer relaciones con la
Confederación Sindical de Trabajadores, incorporándose a las Federaciones
Obreras en una posición periférica ocupando la Secretaría de Asuntos
Indigenales. Más tarde, durante el período de las insurrecciones de 1952,
el movimiento indígena iniciará el Pacto Militar Campesino quedando bajo
la tutela del Estado lo que no implicará un decaimiento en su autonomía
organizativa, identitaria y discursiva a nivel regional. Sin embargo, los
movimientos abandonarán esta actitud para con el Estado, luego de que
el gobierno militar de Barrientos (1966-1969) intentara cobrar un Impuesto
Único Agropecuario (GARCÍA LINERA; CHÁVEZ LEÓN; COSTAS MONJE,
2005). De este modo, el movimiento comenzará a tomar una posición más
organizada, surgiendo diferentes asociaciones sindicales. La más fuerte de
ellas será el movimiento katarista e indianista, que, como ya mencionamos,
tuvo sus inicios en los años ´60-´70. Impulsado por un grupo de intelectuales
aymaras que habían disfrutado de los beneficios de la educación, pero que

318
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

también habían sufrido los embates de la discriminación en la ciudad de


La Paz, este movimiento tiene sus raíces ideológicas en el sindicalismo
tradicional y en las figuras simbólicas y es consecuencia de la reforma
educativa, la reforma agraria y la apertura política de participación.

El sindicalismo campesino asumió en gran medida los modos, prácticas y procedimientos del
sindicalismo obrero (HURTADO, 2016, p. 379).

La Confederación Sindical Única de Trabajadores Campesinos


de Bolivia (CSUTCB), surge en el marco del congreso convocado por
la Central Obrera Boliviana para la unidad campesina en 1979, lo cual
fortaleció aquellas formas de frágil sindicalismo. La CSUTCB plantea un
proyecto social-estatal alternativo, donde se rescatan los elementos
políticos, sociales y económicos de las comunidades, sin la exclusión del
no-indio y del mestizo. La CSUTCB plantea una “propuesta que busca
reemplazar el actual sistema por un régimen de poder indígena, en el que
se rescatan elementos de organización política, económica y social de las
comunidades” (GARCÍA LINERA; CHÁVEZ LEÓN; COSTAS MONJE, 2005, p.
194). Los grupos indígenas que integran la Confederación Sindical Única de
Trabajadores Campesinos conservan, en algún grado, sus características

319
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

culturales vinculadas a las comunidades. Como consecuencia de la


discriminación constante padecida desde el período colonial, la propuesta
de la CSUTCB fomenta el desocultamiento de las identidades al abandonar
el camuflaje lingüístico y cultural impuesto por el Estado-nación.
En esta corriente sindical, adquiere importancia el ala femenina
de la CSUTCB. La Federación Nacional de Mujeres Campesinas de Bolivia
“Bartolina Sisa” (FNMCB-BS), que se encuentra afiliada a la CSUTCB, surge
como una organización subsidiaria de esta, a nivel nacional, departamental
y regional y de centrales campesinas. Su nombre, Bartolina Sisa, lo toman
de la compañera de Tupaj Katari quien luchó en los enfrentamientos contra
el sistema colonial a fines del siglo XVIII. Esta federación de mujeres aspira
a una participación organizada e independiente del accionar masculino;
la organización sindical y política defiende la posición de sus integrantes
como mujeres y como campesinas. Surgió en 1979, a partir de numerosos
bloqueos de carreteras en los cuales tuvieron una participación activa.

La creación de la Federación de Mujeres Campesinas “Bartolina Sisa” representó una importante


innovación para el movimiento sindical campesino (HURTADO, 2016, p. 381).

320
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

Tanto en la CSUTCB cuanto en la FNMCB-BS los espacios de


discusión son horizontales. Anualmente, se realizan congresos, asambleas
y cabildos. El congreso es la instancia máxima de decisión y de elección
de dirigentes. Uno de los reclamos más importantes de la FNMCB-BS es
la obtención de tierras en igual número que para los hombres. Asimismo,
comparten con las otras Federaciones el pedido no solo de tierras, sino
también de la Asamblea Constituyente y el de la titulación que consiste en
nombrar esas tierras de manera legal para los nuevos propietarios (GARCÍA
LINERA; CHÁVEZ LEÓN; COSTAS MONJE, 2005).
Desde el punto de vista agrario, la Reforma de 1952 logró la
apropiación de tierras del altiplano y del valle, procediendo luego
a su parcelación y distribución entre los campesinos. Sin embargo,
esto no sucedió en todo el territorio boliviano. Las tierras bajas y del
Chaco quedaron aisladas de este proceso y protegidas por los grandes
terratenientes asociados al poder político. De este modo, con el pasar
de los años, esas tierras permanecieron intocables y en manos de unos
pocos. En los años que siguieron fue posible visualizar que, en el occidente
boliviano, las poblaciones campesinas-indígenas pugnaban por mayor
número de tierras, mientras que en el oriente y en el Chaco gran número de
hectáreas eran apropiadas por las élites oligárquicas de la región y por las
élites empresariales de occidente guiados por intereses de acumulación y
expansión del capital (GARCÍA LINERA; CHÁVEZ LEÓN; COSTAS MONJE,
2005). Alrededor de los años ´90, en el mapa de Bolivia se podían identificar
dos realidades diferentes con respecto a la tierra: en la parte occidental, en
el altiplano, un gran número de hectáreas estaban divididas en pequeños
sectores, para un gran número de familias campesinas; en la parte oriental,
de tierras bajas, grandes extensiones de tierra pertenecían a un reducido
número de propietarios13.

13 Según el Instituto de Reforma Agraria, hasta el año 2002, del total de la superficie distribuida,
el 50 % estaba en manos de empresas medianas y grandes, que representaban el 14 % de los
beneficiarios, en tanto que el 33% de los beneficiarios, campesinos parcelarios, controlaban
el 5% de la superficie. Entre propiedad comunitaria y Tierras Comunitarias de Origen (TCO)
que abarcan al 48% de los beneficiarios, tenían el 41% del total distribuido. Instituto Nacional
de Reforma Agraria, Estadísticas Agrarias, Tenencia de la Tierra en Bolivia (1953-2002), La Paz,
2002 en García Linera, Chávez León, Costas Monje, 2005, p. 544.

321
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

La tercera corriente dentro del katarismo que identifica Cárdenas


en “La lucha de un pueblo” (1988) es la política. A partir de este movimiento
comienzan a nuclearse pequeñas agrupaciones que luego, en algunos
casos, devendrán partidos políticos. Algunos de ellos son: el Partido Indio
de Bolivia (PIB), el Partido Indio de Aymaras y Qhishwas (PIAQ), Partido
Indio del Kollasuyu (PIK). Todas estas agrupaciones estaban integradas
por estudiantes y profesionales aymaras. Pese a que con el discurrir del
tiempo muchas de ellas se desarticularon, es preciso destacar el legado de
Fausto Reinaga, fundador del PIB, ya que sus escritos y tesis india influirán
en algunas líneas del pensamiento aymara posteriores.
Sin embargo, aunque el movimiento katarista se desenvolvió en
la articulación de las corrientes cultural, sindical y política, en el periodo
que tratamos en este capítulo, no estuvieron exentos de los abusos de los
gobiernos civiles y militares. En Oprimidos pero no vencidos (2010a) Silvia
Rivera Cusicanqui afirma que

Las masacres preventivas que han caracterizado la eta-


pa oligárquica pre-52 se reeditan nuevamente en Tolata,
Epizana y Melga en enero de 1974, en El Alto y las laderas
de La Paz en Todos Santos de 1979, en Amayapampa y
Capacirca en navidad de 1996 […] (34).

Por lo tanto, las tensiones con los movimientos indígenas fueron


una constante que interpelaba a los diversos gobiernos republicanos.
Durante los años 80 y 90 del siglo XX, la corriente sindical del
movimiento katarista se desarticuló e intentó ser cooptada por los diversos
movimientos de izquierda. Con el liderazgo de Felipe Quispe en la CSUTCB,
el movimiento da un vuelco que Silvia Rivera Cusicanqui (2010a) denomina
como “modernizante” que se plantea a partir del pedido al gobierno de
tractores y otros implementos para el trabajo agrícola. La corriente política
del katarismo, por su parte, se difuminó formando parte de las bases de
algunos partidos que “se apropiaron de sus símbolos y sus discursos” (24).
En 1990, se desplegó una masiva movilización indígena de las tierras
bajas que se denominó Marcha por el Territorio y la Dignidad. El objetivo

322
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

de esta marcha fue el reclamo de tierras que asumían como propias. De


acuerdo al análisis de Rivera Cusicanqui

las diversas organizaciones del campesinado andino y de


los pueblos indígenas del oriente parecían polarizadas en
dos corrientes: la de aceptar una ciudadanía de segunda
y un esquema subalterno de acceso a la esfera política,
a contrapelo de su propio itinerario de confrontaciones y
demandas hacia el Estado y la sociedad, o la de articular
su propia fuerza política en un proceso de autodetermi-
nación, que terminará por confrontar al país todo con el
dominio colonial del Imperio y sus corporaciones (35).

Finalmente, en la década del 90, el protagonismo de las


organizaciones indígenas se traslada del altiplano a la región del Chapare en
Cochabamba en organizaciones sindicales que se nuclean alrededor de la
actividad de plantación de la hoja de coca. Como consecuencia del decreto
21060 y de la explosión del comercio del narcotráfico, miles de campesinos
se trasladan a la zona del trópico en procura de nuevos recursos que
posibiliten una mejora en su calidad de vida. Estos movimientos migratorios,
su articulación sindical y política repercutirán a lo largo de la década del 90
y a comienzos del siglo XXI.

Culturalmente, el katarismo significó una denuncia de las prácticas racistas habituales, sobre
todo, en ámbitos urbanos (HURTADO, 2016, p. 381).

323
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

CONSIDERACIONES FINALES

En el periodo que hemos considerado para el estudio de la


historia de Bolivia del siglo XX, han quedado expuestas las tensiones y las
inestabilidades que componen el núcleo social y político boliviano. No se
trata de fenómenos sencillos de analizar y es por ello que, en este capítulo,
nos detuvimos en el desarrollo histórico en el marco del estado republicano,
pero, también, en la historización de los movimientos indígenas, sus luchas
y reivindicaciones.
Los procesos revolucionarios que se identifican en este periodo
son dos: la propia Revolución de 1952, con su alcance nacional -aunque de
manera desigual- y las microrevoluciones protagonizadas por los sujetos
indígenas. Pese a que es posible considerar a los movimientos indígenas
como interpeladores constantes del gobierno, ha quedado evidenciado en
este texto el modo en el cual las organizaciones indígenas se han articulado
entre ellas y han logrado generar un foco de poder que, de todos modos, los
diversos gobiernos no pudieron ignorar. Mediante instrumentos de violencia
muy arraigados en la relación Estado/sindicatos y movimientos indígenas,
los gobiernos republicanos intentaron desoír los reclamos del katarismo y
de la CSUTCB. Sin embargo, una nueva articulación política emanada de
los movimientos indígenas se avecina para la historia boliviana de fines del
siglo XX y principios del siglo XXI.
Asimismo, en este capítulo, hemos querido exponer la complejidad
que revisten los hechos histórico-políticos en Bolivia, dado no solamente
por el componente étnico que caracteriza al país andino-amazónico,
sino que también esta complejidad refiere a la organización teórico-
metodológica que los investigadores deben poner en juego a la hora de
analizar y organizar el devenir histórico de Bolivia. Un análisis riguroso del
periodo trabajado no podía desplazar el relato de las luchas indígenas, de
sus reclamos y de sus particulares formas de exponerlos en la palestra
política boliviana.

324
CAPÍTULO 6 | Palimpsestos y paradojas. Itinerarios histórico-políticos en Bolivia (1952-1993)

Luis Antezana en el prólogo que presenta a la primera edición


de Oprimidos pero no vencidos ([1984]2010a) de Silvia Rivera Cusicanqui
afirma
Habría nomás, como Alicia, que pasar al otro lado del es-
pejo: allí donde sucede la “otra” historia. Aquella que, más
aquí y más allá de la humillación, la derrota y el abandono,
busca y construye una pluralidad de sentidos donde se di-
semina la riqueza de la diversidad: “la fiesta de la plebe”
que tanto teme el poder (Antezana, 2010a, p. 11).

La densidad de los eventos que componen la historia de Bolivia


imponen a estos estudios un principio de creatividad en los métodos que
impactará en el análisis de los relatos históricos. En ese sentido, la apelación
que hemos realizado a dos figuras literarias como lo son el palimpsesto y
la paradoja robustecen la evidencia del complejo entramado histórico-
político que presenta Bolivia. La historia de las insurrecciones indígenas,
que subyace al relato “oficial” de la historia boliviana se metaforiza en el
palimpsesto, escritura que, como ya mencionamos, expone las escrituras
pasadas pese a su borramiento, al intento de desaparición. La paradoja
expone tensiones que conviven, que se contradicen pero que, en definitiva,
generan nuevos sentidos. La “contemporaneidad de lo no contemporáneo”
o las “contradicciones no coetáneas” son formas paradójicas de pensar el
particular modo en el que se organizan los tiempos, históricos y también
experienciales, que se presentan en Bolivia. Es por ello que postulamos,
en el marco de la historización que proponemos, una reunión tanto de la
historia del Estado republicano cuanto de los movimientos indígenas en
el periodo que nos compete en este capítulo. La lectura desde las figuras
de los palimpsestos y las paradojas en los eventos histórico-políticos de la
nación, posibilitarán develar los sentidos más profundos de la historia de
Bolivia.

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Adaptación de las fotografías para el texto: Jorge Peñaranda Álvarez.

331
7
Capítulo
QUE ESTADO É ESSE? A
PERENE CRIMINALIZAÇÃO
DAS LUTAS SOCIAIS E A
VIOLÊNCIA ESTATAL NA
AMÉRICA LATINA
Vera Lúcia Vieira
Héctor Hernán Mondragón Báez

O presente capítulo integra a coletânea de


textos que analisam revoluções contemporâneas
em países latino-americanos na segunda metade
do século XX, em particular na Argentina, Paraguai,
Bolívia, Venezuela, Colômbia e em El Salvador.
Este trabalho analisa como sistematicamente
as classes dominantes latino-americanas têm
enfrentado as lutas populares para evitar, frear
ou derrotar as revoluções na segunda metade
do século XX. Os que sonharam com um avanço
progressivo no continente, desencantaram-se com
um século banhado pelo sangue e um final pleno do
neoliberalismo.
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

A tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção no


qual vivemos é regra, o Angelo Novus de Klee com seu rosto voltado para
o passado

enxerga uma única catástrofe, que sem cessar amontoa


escombros sobre escombros… esse inimigo não tem
cessado de vencer…. O dom de atear ao passado a
centelha da esperança pertence somente àquele
historiador que está perpassado pela convicção de que
também os mortos não estarão seguros diante do inimigo,
se ele for vitorioso (BENJAMIN, 1987, p. 224).

Toma-se aqui o tema das revoluções como a resultante das


contradições inerentes à uma dada dinâmica histórica que gestam, em
seu interior, transformações capazes de eliminar, na radicalidade o modo
de sua produção, conforme vigentes anteriormente. Uma revolução ou a
sua potencialidade podem estar postas na dinâmica social, independente
das intencionalidades expressas pelos sujeitos sociais nelas envolvidos. A
premissa contrária também é considerada, ou seja, uma intencionalidade
revolucionária pode estar declinada no discurso, enquanto bandeira,
finalidade, mas não se explicitar nas ações efetivamente desencadeadas em
seu nome, configurando dinâmicas que levam a resultados reacionários, ou
mesmo contrarrevolucionários. E, finalmente, mesmo quando as intenções
e ações sejam coerentes, também há que se considerar as condições
objetivas para a sua efetivação, que podem não estar dadas na particular
concretude social em que estão postas a intenção e as ações.
Tal dinâmica que modifica, permanentemente, alternativas de
resistência à acirramentos de dominações espoliativas da maior parte
da força produtiva, dinâmica essa decorrente de uma dada forma de
desenvolvimento do capitalismo, nas particularidades vigentes na maior
parte dos países da região.
Configura-se assim, na diversidade latino-americana, nos países
apontados, aspectos identitários que, tanto advém de circunstancias
similares, quanto ajudam a explicar os desfechos comuns que tiveram,
ou seja, aponta para o tema da unidade na diversidade. Pois, conforme

334
CAPÍTULO 7 | Que Estado é esse? A perene criminalização das lutas sociais e a violência...

estudos em publicações anteriores, a historiografia revela que, durante


muito tempo, análises de autores europeus, norte-americanos e latino-
americanos que trataram das relações econômica e políticas na região,
a consideraram de forma homogênea, consolidando a existência de uma
identidade que parecia consolidar-se ante a falta de conhecimento da
diversidade. Estudos posteriores atentam para tal diversidade e/ou para
a fragmentação. Neste sentido, por exemplo, apontam quatro variáveis: a
interdependência com os Estados Unidos, a integração com a economia
mundial, a capacidade do Estado, a existência de instituições democráticas
fortes estáveis (LOWENTHAL, 2000). São inúmeros os trabalhos que se
dedicam a situar a heterogeneidade local, a partir também de vários
parâmetros, como os distintos níveis de desenvolvimento e estabilidade
política vigentes na região (ORTIZ, 2000), ou enfatizam as dificuldades
para a integração, analisando políticas de cooperação a partir de tratados
de cooperação regional e ante a ordem mundial, enfatizando as relações
comerciais, em particular. A evidência da persistente desigualdade
socioeconômica também suscita outros inúmeros estudos, muitos deles
voltados para o entendimento da posição relativa do continente na ordem
capitalista mundial, ás ingerências dos imperialismos desde a formação
dos Estados nacionais, os fatores do atraso sócio-político-econômico,
enquanto outros atribuem tais características a uma espécie de identidade
latino-americana, impregnada do essencialismo ibero americano, uma
certa tendência culturalmente fundamentalista, principesca, dicotômica,
classificatória e pouco flexível no que concerne à vida pública, a que se
soma uma forte hierarquização da vida social, autoritária, clientelista, de
preponderância patronal, de exclusão étnicas e/ou social (TOMASSINI
OLIVARES, 2010).
No computo final, atribui-se o atraso, tanto à característica de
uma estrutura econômica agrária e mineira, mono exportadora, quanto à
influência de uma religiosidade tutelar e autoritária, um método vertical de
educação, a censura como elemento normal da vida política, social, religiosa
e educacional desses países. Mas, conforme aponta Mariátequi, já em 1928,
mais que simples “atraso”, trata-se de uma estrutura de poder, capitaneada

335
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

por “donos do poder”, de que são exemplos os caudilhos, o “coronelismo”,


ou o “gamonalismo” peruano, fenômeno vinculado à grande propriedade
latifundiária, que detêm o poder local, controla as eleições, os parlamentos
e o poder legislativo. Porque el gamonismo no está representado sólo por
los gamonales propiamente dichos. Comprende una larga jerarquía de
funcionarios, intermediarios, agentes, parásitos… (MARIÁTEGUI, 2007, p.
26) sob a qual el indio analfabeto se transforma en un explotador de su
propia raza porque se pone al servicio del gamonalismo, (MARIÁTEGUI,
1927, s/p) resultando em que a maior parte da população fica submetida
ao explorador.
Outros historiadores observam uma tendência a confundir
problemas públicos e privados; a fraqueza da sociedade civil e da
participação dos cidadãos na gestão dos assuntos públicos e do exercício
do governo; hierarquização e exclusão no domínio público. Por outro lado,
reconhecem a valorização paternalista da magnanimidade, generosidade
e hospitalidade nas relações pessoais e sociais, fora dos quadros
institucional e jurídico. A avaliação do sofrimento e a expiação, como
formas espontâneas e íntimas de superação de problemas pessoais e de
determinadas situações sociais. Também uma notória atitude permissiva
da desigualdade social, talvez como antídoto para a formação essencialista
das consciências e da sociedade (SALVATORE; AGUIRRE; JOSEPH, 2001).
No entanto, tais fatores ficam subordinados à evidência da via
híper-tardia que gesta um capital atrófico, onde as burguesias, enquanto
classe incompleta, se mostra incapaz de liderar as forças necessárias para
o desenvolvimento do próprio capitalismo, fazendo alianças com as classes
sociais excluídas que, à semelhança das revoluções burguesas europeias,
as tornariam capazes para atingir a radicalidade necessária à consolidação
da democracia, mesmo que nos marcos alcançados pelas sociedades mais
desenvolvidas (CHASIN, 1994).
Como Florestan já o afirmara em 1970:

os países latino-americanos enfrentam duas realidades


ásperas: 1) estruturas econômicas, socioculturais e
políticas internas que podem absorver as transformações

336
CAPÍTULO 7 | Que Estado é esse? A perene criminalização das lutas sociais e a violência...

do capitalismo, mas que inibem a integração nacional e


o desenvolvimento autônomo; 2) dominação externa
que estimula a modernização e o crescimento, nos
estágios mais avançados do capitalismo, mas que impede
a revolução nacional e uma autonomia real. Os dois
aspectos são os lados da mesma moeda (FLORESTAN,
1998, p. 106).

Tal fragilidade e atraso tornam impeditivos quaisquer planos de


integração ou de definição de metas comuns de desenvolvimento político,
econômico e cultural (CONTRERAS, 1996), fazendo com que os Estados
se submetam a políticas homogeneizadoras ditadas pelo capitalismo
internacional, que sustentam a captação de recursos e, frente a qualquer
reação contrária que encontram e que evidenciam sua incoerência frente
ás expectativas da população, a responsabilizam pelo fracasso de tais
políticas, criminalizando as reações e as demandas sociais.
No interior de tais debates, a perspectiva analítica que norteia os
capítulos componentes do presente livro, é a de que os aspectos imanentes
que revelam o caráter da atividade humana são predicações sociais,
mediadas pelos sujeitos que integram a formação real sob clivagens de
inserções efetivas e óticas de adoção igualmente societárias (CHASIN, 1994,
p. 415). Pois as evidências dos conflitos sociais devem ser compreendidas
em sua lógica interna, que nos revelam as formas da interação humano-
societária as quais perpassam por representações ideológicas, ideias
e consciência plasmadas em interesses de classe. Os feitos humanos se
objetivam em circunstâncias históricas especificas, engendrando modos
determinados de vida, dramas e conflitos concretos, que não desaparecem
por imaginação ou pura interpretação e tampouco ocultação da vontade e
desejo dos dominantes (RAGO FILHO, 2004, p. 140).
Este traço ontológico foi utilizado por outros autores que resgatam o
pensamento de Marx, contrapondo-se às análises dos marxistas stalinistas
que atribuem aos escritos desse historiador alemão, uma teleologia,
acompanhada de reducionismos de cunho positivista, bem como de
afirmações sobre o desenvolvimento histórico apenas enquanto etapas, ou

337
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

seja, à semelhança da defesa de estágios históricos. Fundam-se também


nas críticas do filosofo húngaro George Lúkàcs, o qual sustenta que,
mesmo na dimensão das ideologias, as categorias sociais são intricadas
pelos modos de ser e afirmações da existência, ou seja, as formas de
consciência e as representações ideológicas possuem historicidade
imanente, pois são resultados da interatividade humano-societária.
Segundo esse autor, o alicerce das ações sócio ontológicas, manifesta-se
por meio do carecimento inerente em cada indivíduo, ou seja, um problema
concretizado por acontecimentos sociais ocasionais de origem de toda
ordem. Este mecanismo teleológico imediato é característico de toda ação
de cada sujeito, isto é, as respostas que damos aos problemas cotidianos
da vida.
Configura-se assim teleologias a partir da busca para solucionar
o carecimento habitual da existência humana, que cada ser humano é
capaz de projetar, mesmo que o percurso projetado inicialmente ganhe
contornos diversos do idealizado devido às circunstâncias da vida material
e subjetiva. O conjunto destes movimentos sociais que primeiramente
operam no âmbito individual, adquire proporções coletivas influenciando e
dando contornos à dinâmica de uma sociedade.
Neste diapasão, observadas as características intrínsecas da
dinâmica de cada um dos países indicados anteriormente, deduz-se que
o tema das revoluções, em que pesem as diversas particularidades que
as configuram, assume proporções nacionais enquanto perspectiva
alternativa de tentativa de ultrapassar situações em que as violências
estatais, ditadas por burguesias autocratas, se radicalizam, tanto em
períodos ditatoriais como nos de democracias restringidas. Genericamente
falando, com palavras de ordem que almejam o socialismo, expressam as
lutas por injustiças sociais, contra repressões orquestradas para romper
com os liamos da sociedade civil que assume posturas críticas a tais
situações ou que, por sua própria condição, não se coadunem com os
interesses já estabelecidos. Conforme Allan Wood,

338
CAPÍTULO 7 | Que Estado é esse? A perene criminalização das lutas sociais e a violência...

entre 1968 y 1978, más de 850 sacerdotes, religiosas y


obispos fueron arrestados, torturados y asesinados en
América Latina. El jesuita salvadoreño, Rutilio Grande,
antes de ser asesinado dijo: ‘Hoy en día, es peligroso
[...] y prácticamente ilegal ser un auténtico cristiano en
América Latina’ (WOODS, 2010, p. 35).

Tomemos como exemplo, como as características acima se revelam


em uma particularidade, no caso El Salvador. Á semelhança de outros países
latino-americanos, na década de 1960, o parque industrial tardiamente se
amplia em El Salvador e, com ele, emerge o proletariado. Mas, conforme já
ocorrera nos países centrais, o desenvolvimento das relações capitalistas
demanda a liberação de alterações radicais na produção agrária que deve
subordinar-se ás necessidades da produção industrial. Mudanças essas
que, entre outros fatores, libera as forças produtivas, particularmente a
força de trabalho até então, massivamente camponesa, fazendo emergir
o proletariado. Diferentemente dos países centrais do capitalismo a base
econômica monocultora em El Salvador continua a ser a única fonte de
divisas advinda dos compradores, hegemonicamente norte-americanos.
Nos idos de 1960, o proletariado industrial salvadorenho chegava a 11%
da população (dos 226 mil trabalhadores, 26 mil eram operários), mas a
degradação das condições de vida se estendia a toda a população de
trabalhadores, que, na década seguinte, representava 98% da população
(1.116.000 habitantes), enquanto a burguesia representava 2% da
população. Só para citar um dado, enquanto os 98% de trabalhadores
recebia um salário de ¢950.00 anuais, os 2%, organicamente articulados
com negociantes norte-americanos, aquinhoava ¢2,963 milhões anuais. A
concentração de renda se agudiza conforme a transformação do campo
gera o agronegócio e isto fica evidente quando se toma os dados de 1950,
época em que 4% dos proprietários possuía 67% da terra. O restante
estava dividido em pequenas propriedades, mas a grande maioria não
possuía absolutamente qualquer propriedade agrária, recebendo quantias
miseráveis por seu trabalho, quando não vivia em situação de servidão,
preso à terra.

339
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Ante tal situação não é de se estranhar os inúmeros levantes que


caracterizam a história daquele país, movidos mais pela fome e miserabilidade
do que por qualquer ideal. Contra tais levantes, o Estado reage com sua
forma habitual, no mesmo diapasão da criminalização da demandas sociais.
Dominado por tal burguesia autocrata associada ao capital internacional
do qual recebe recursos para fortalecer suas forças armadas, evidencia os
limites do liberalismo: coloca todo seu aparato burocrático, particularmente
o judiciário, amplia o monopólio sobre os meios de comunicação, cerceia
as liberdades de ir e vir, manifestar-se publicamente e organizar-se, em
defesa dos 2% que correspondem a burguesia. Sustenta militares no poder,
seja através de golpes de Estado (denominados sempre revoluções, como
o de 1948), ou eleições fraudulentas (1956) e os descarta quando arrogam
alguma autonomia (1960), reconduzindo ao poder a parcela mais atrelada
aos seus interesses (1961).
Neste momento observa-se naquela dinâmica histórica, o quanto
tal burguesia teme associar-se aos trabalhadores para romper a lógica.
Articulada com o arcaísmo agrário, desencadeia, através das forças
armadas, uma repressão brutal sobre as organizações dos trabalhadores,
enquanto fazia pequenas concessões aos segmentos médios urbanos.
A relativa estabilidade e desenvolvimento econômico obtidos
nos anos seguintes em que o governo foi assumido por uma coligação,
representada pelo Partido de Conciliación Nacional (PCN), não chegam
aos trabalhadores, sequer aos prestadores de serviços na máquina pública,
como os docentes que irrompem em greve em 1968. Nos anos seguintes,
a crise do capitalismo, o aumento dos problemas sociais decorrentes da
Guerra contra Honduras, fazem crescer a depauperação da maior parte da
população, atingindo os segmentos médios que cresciam lentamente. Daí
surgem as condições objetivas que levam à articulação de forças sociais
como uma força opositora (União Nacional Opositora). Mas a continuidade
dos mesmos setores arcaicos e vinculados ao capital internacional no poder,
sempre utilizando-se das forças armadas e do aparato estatal na defesa
de seus interesses, impede o rompimento do ciclo das fraudes eleitorais e

340
CAPÍTULO 7 | Que Estado é esse? A perene criminalização das lutas sociais e a violência...

da concentração autocrática que se respalda no bonapartismo. Como se


observa, tais evidências em nada distinguem a situação salvadorenha da
de muitos outros países latino-americanos. Será em fins da década de 1970
que a particularidade da dinâmica salvadorenha gesta as condições para o
surgimento da luta armada.
Trata-se a divisão no interior das burguesias mesmo, pois a
autocracia é autofágica, ou seja, anula sua própria força, por mais frágil que
se ponha ante a sociedade em geral. Ou seja, não pode, sob pena de perder
seu caráter autocrata, dividir ganhos com outros segmentos da própria
burguesia, aqueles que, por não estarem vinculados ao capital internacional,
não conseguem romper os freios impeditivos de seu desenvolvimento
enquanto capitalistas. Deixados à margem do poder, vêm seus lucros se
esvaírem ante as crises e suas empresas falirem. Tal correlação é observada
no período da presidência do General Molina que intenta alguma reforma
agrária. Embora se tratasse de aplica-la em apenas 4% das terras do país,
foi o bastante para reacender a sanha dos autocratas, resultando daí a sua
divisão que se estendeu ás forças armadas.
É neste contexto, desde 1972, que setores do proletariado e da
juventude estudantil deixam de confiar na via institucional para romper
a lógica autocrata e bonapartista e, tendo a vista a Revolução Cubana,
organizam-se em guerrilhas.
As evidências de novas fraudes nas eleições para o quinquênio
(1977-1982) geram uma reação massiva da população organizada em
sindicados, agremiações, partidos, etc. A greve geral se estende a todo o
país, mobilizando educadores, fábricas, comercio e transporte. A repressão
que se segue atinge a todos, centrais sindicais, igrejas, organizações
camponesas ou estudantis, aumentando em muito a insegurança quando o
Estado de sítio é decretado. O então general na presidência, Carlos Romero,
enfrentará um país com os segmentos sociais populares organizados,
perdendo a conotação de massas, a partir de suas agremiações, formando
frentes de lutas, como a que se compôs nas Forças Populares de Libertação
Nacional Farabundo Martí.

341
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

Nela se integraram os diferentes segmentos em armas para


lutar contra tal estado de espoliação a que estava reduzida a população
salvadorenha. A morte de um líder religioso, assim como a incapacidade
dos autocratas de alterarem a lógica dos golpes bonapartistas, levará o
país à guerra civil que durou mais de uma década, na qual pereceram mais
de 70 mil salvadorenhos. Conforme Inácio Martin Boró, os fatores internos
que levaram à emergência das organizações armadas contra tal descalabro
foram el cierre total del espacio político en El Salvador y la profunda crisis
interna que afecta al gobierno de la Junta militar demócrata-cristiana
(MARTÍN-BORÓ, 1981, p. 17). A isso se acresce, continua ele mais à frente:

la ‘contraofensiva general’ norte-americanas (que


se) planteó principalmente en tres frentes: militar,
propagandístico y diplomático. Militarmente, la
administración Reagan estableció inmediatamente varios
programas millonarios de ayuda militar, al mismo tiempo
que anunció que el programa incluía el envío de asesores
militares que entrenaran a las fuerzas saIvadoreñas en
labores de contrainsurgencia y en el uso del avanzado
armamento enviado (MARTÍN-BORÓ, 1981, p. 27).

Tais temas serão tratados por Carlos Gregório López Bernal, de San
Salvador (UES-El Salvador) o qual analisará as décadas de 1970 a 1990.
Todo um período que vai da retomada das lutas guerrilheiras de esquerda
na região e que ganharam combustão com a vitória sandinista em 1979, até
o início dos acordos de paz na década de 1990.

DAS LUTAS POR DIREITOS HUMANOS À SUA


CRIMINALIZAÇÃO

O que nos interessa destacar da dinâmica salvadorenha são os


fatores que fazem emergir as lutas armadas e as organizações que lutam,
primeiramente para fazer frente a tais descalabros e quando as vias
institucionais já se esgotaram, em defesa da preservação dos direitos de
cidadania. Mas, paulatinamente, conforme a ferocidade dos donos do poder

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CAPÍTULO 7 | Que Estado é esse? A perene criminalização das lutas sociais e a violência...

se acirra, gestam alternativas de organizações societárias mais radicais,


daí seu cunho revolucionário em busca da preservação, não apenas dos
direitos de cidadania, mas dos direitos humanos.
É de conhecimento geral como, desde fins do século XVIII na
Europa, a substituição dos direitos humanos conforme apregoado pelos
jacobinos no interior da Revolução Francesa, pela defesa dos direitos de
cidadania, indicou a emergência da ordem conservadora capitaneada pela
burguesia que sairá vencedora na Europa do século XIX.
Uma burguesia que, ante as demandas dos povos pelo cumprimento
das prédicas sobre direitos humanos e de cidadania, comporá com as
nobrezas fragilizadas pelo rompimento radical da ordem feudal e, por meio
de golpes bonapartistas, consolidará o Estado conforme os seus interesses.
No entanto, a liberação das forças produtivas, a manutenção de extração
de capitais de suas colônias no mundo,1 assim como a repressão às lutas
de classes do operariado que será mantido em condições miseráveis,
propiciará à Europa, apesar de tudo, ao longo do século XX, a expansão do
acesso aos direitos, seja do trabalho, seja da parcela dos bens produzidos
socialmente e por eles apropriado, resultando na implantação de uma dada
ordem liberal que abriga um Estado democrático de direitos de cidadania.
Neste contexto e diferentemente do processo de ascensão da
burguesia europeia e ordenamento do seu correspondente aparato estatal,
as burguesias nacionais latino-americanas mostram-se incapazes de
promover sua revolução, pois isso demandaria unificar-se internamente
e apoiar-se nas forças sociais que exclui. Nesta condição, esta classe,
no limiar das necessidades de promover reformas impostas pelo próprio
desenvolvimento do capitalismo, se vê impelida à manutenção das
estruturas vigentes nos períodos bonapartistas.
Longe ficamos do preceito que as leis são a exteriorização das
vontades dos indivíduos como um corpo único, isto é, cidadãos fazendo as

1 “A descoberta da América e a circunavegação da África ofereceram à burguesia ascendente


um novo campo de ação. Os mercados da Índia e da China, a colonização da América, o co-
mércio colonial, o incremento dos meios de troca e, em geral, das mercadorias imprimiram um
impulso, desconhecido até então, ao comércio, à indústria, à navegação e, por conseguinte,
desenvolveram rapidamente o elemento revolucionário da sociedade feudal em decomposi-
ção” (MARX; ENGELS, 1982, p. 9).

343
As revoluções na América Latina Contemporânea. Entre o ciclo revolucionário e as
democracias restringidas

leis e se reconhecendo nelas. As leis coagem arbitrariamente os indivíduos,


porque impostas de cima para baixo e apenas vigorando conforme a lógica
da dominação que expressa uma categoria social cuja potência auto
reprodutiva do capital é extremamente restringida, uma burguesia que é
incapaz de exercer sua hegemonia e, com isso, incorporar e representar
efetivamente os interesses das demais categorias sociais numa dinâmica
própria (RAGO FILHO, 2004).
Inverte-se, portanto, o sentido da violência nos moldes do que
apontavam Marx e Engels no século XIX, ao analisar a emergência do
Estado prussiano e a contraposição entre o corpo de leis que era erigido e
as atividades costumeiras do povo comum para garantir sua sobrevivência.
Deste confronto resulta em que o Estado coloca na ilegalidade o que é tido
como direito comum, resultando em que: quem faz o bandido é o Estado.
E quanto ao seu aparato institucional, refletem os autores, “O governo do
estado moderno não é senão um comitê para gerir os negócios comuns de
toda a classe burguesa” (MARX; ENGELS, 1982, p. 10).
Nas diversas especificidades latino-americanas, apenas
recentemente e porque impulsionadas pela lógica do capital internacional,
a burguesia passou a reconhecer que a absurda exclusão socioeconômica
e cultural a que se chegara, era impeditiva da instauração de qualquer
democracia, mesmo nos termos assumidos pelos liberais do século XIX.
Nestas circunstâncias, à contradição entre a democracia apregoada
pelos iluministas do século XVIII e o liberalismo adotado no século XIX2
europeu acrescem-se, para os países latino-americanos, os problemas da
subordinação e da dependência que se acentuaram como enclaves na
conformação dos Estados nacionais e seus desdobramentos ao lon