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As Humanidades Greco-Latinas e a Civilizacao do Universal

Autor(es): Instituto de Estudos Cássicos, Faculdade de Letras de Coimbra, ed. lit.


Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Instituto de Estudos
Publicado por: Cássicos
URL URI:http://hdl.handle.net/10316.2/9712
persistente:
Accessed : 18-May-2019 02:56:28

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(Página deixada propositadamente em branco)
AS HUMANIDADES GRECO-LATINAS
E A CIVILIZAÇÃO DO UNIVERSAL

LES HUMANITÉS GRÉCO-LATINES


ET LA CIVILISATION DE L'UNIVERSEL
Título
AS HUMANIDADES GRECO-LATINAS E A CIVILIZAÇÃO DO UNIVERSAL - ACTAS

1.' edição, 1988

Editores
INSTITUTO DE ESTUDOS CLÁSSICOS DA FACULDADE DE LETRAS DE COIMBRA
e Livraria MINERVA

Capa
Athena Lemnia de Fídias.
Desenho de Louro Fonseca
a partir de uma cópia romana.

Tiragem
1 500 exemplares

Composição e impressão
BARBOSA & XAVIER, LDA.
Rua Gabriel Pereira de Castro, 31-C
4700 BRAGA - PORTUGAL

Distribuidor
Livraria MINERVA
Rua dos Gatos, lO-ri c
3000 COIMBRA - PORTUGAL

© Instituto de Estudos Clássicos

N.O Depósito Legal 24660/88


CONGRESSO INTERNACIONAL
CONGRES INTERNATIONAL

AS HUMANIDADES GRECO-LATINAS
E A CIVILIZAÇÃO DO UNIVERSAL
, ,
LES HUMANITES GRECO-LATINES
ET LA CIVILISATION DE L'UNIVERSEL

ACTAS
ACTES

COIMBRA· 1988
(Página deixada propositadamente em branco)
íNDICE GERAL

Prólogo 11

Prologue 13

Manifesto .. ........ ... ... ............... ..... ... .. .... .... ... ... ........ ...... ........ .. .. ... .. ...... ..... .. 15

Manifeste ......... ............ ... ..... ..... .. ..... ..... ...... ............. .. .. .................... ...... .... 17

Comissão de Honra 19

Comissão Executiva 21

PatroCÍnios . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 22

Programa das Sessões 23

Lista dos Participantes 35

Sessão de Abertura .......... ..... .. .... .. ......... ......... ..... .......... ....... .. ..... .. .. .. ...... .. 71

Alocução da Presidente da Comissão Executiva, Prof: Doutora Malia


Helena da Rocha Pereira .. ............. ... ... ....... ... ...... ..... ...... ...... .... .. 73

Alocução do Presidente do Congresso, Presidente Léopold S. Senghor 77

Alocução do Embaixador de Portugal na UNESCO, Prof. Doutor


José Augusto Seabra .... .... .. ........ ............ ..... ........ .......... .. ...... ... .. 85

Alocução do Reitor da Universidade de Coimbra, Prof. Doutor Rui


de Alarcão . . . . . .. . . . . .. . .. . . . . .. . . . . .. . . . . . . . . . . . . . .. . .. . . . . . . . . . . .. . . . . .. . . . . .. .. . . . . . . . . . 89
8

COMUNICAÇÕES

I. Apreciação do Mundo Antigo 93

O. Tsagarakis, Homer and Classical Studies .... ... ..... ........ ....... ..... .... 95

M. Helena Urefía Prieto, Politique et éthique dans la Grece du IV'


siecle avant J. C. (la leçon de la paideia d'Isocrate) ............. ........ 103

G. Pascucci, Il contributo deI s. XIX aI progresso degli studi classici 125

E. Cizek, Pour une nouvelle histoire de Rome, pour une nouvelle


histoire de la littérature latine ... .... ... ...... ............. .... ... ......... .. .... 143

H. Bauzá, Roma y el destino de Occidente .... .......... .... .............. .. .. 157

II. Permanência da Cultura Clássica 169

A. Costa Ramalho, Literatura novilatina em Portugal .. ................... 171

C. Montemayor, Los poetas neolatinos de México en el siglo XVIII


y su contribución ideológica e histórica ....................................... 181

Gladstone Chaves de Melo, A Antiguidade na obra de Machado de Assis 193

M. Baptista Pereira, Modos de presença da Filosofia Antiga no pen-


samento contemporâneo ......................................... .. ................. 209

P. Grimal, Optique contemporaine dans l'étude des classiques ......... 311

J. Leclant, Regards d'un historien contemporain sur les cultures antiques 317

V. Poschl, Les causes de la décadence des langues anciennes ............ 323

III. Pensamento e Humanismo: Ética, Direito, Ciência e Técnica ......... 335

A. W. Adkins, Human nature in the philosophical ethics of ancient


Greece and today ......... . . ..... . ........ . ..... . ..... ... ..... . ... .. ...... ......... ..... . 337

R. M. Rosado Fernandes, Homem antigo e homem de hoje perante


a Natureza, a Técnica e o Progresso ............................ .............. 371

G. Dorival, L'originalité de la patristique grecque ........ ................... 383

J. 1mbert, La place du droit romain dans la pensée juridique moderne 421


9

IV. Igreja e Latinidade .... ..... .......... ... ... ...... .... ...... .. .. ... .............. ........ .. ... 431

R. Schilling, Ce que le christianisme doit à la Rome antique .......... .. 433


Amadeu Torres, Paul~ Orósio, ~~st?rióf5.rafo romano-bracarense e a sua
mensagem neste fIm de mIlemo ................ .......................... .. ...... . 465
J. Geraldes Freire, Da filologia clássica do séc. XIX à filologia cristã
(grega e latina) e ao latim tardio, especialmente no ocidente
hispânico (séc. IV-VII) ... ... .... ... .. .. .... ..... ... .. .. ... .. ......................... 483
C. Gnilka, La conversione della cultura antica vista dai Padri della
Chiesa ............ ..... ......... ...... ... ... ..... ............... .. ............................ .. 509
A. Melloni, La Veterum Sapientia di Giovanni XXIII e le Disposizioni
deI Vaticano II sull'uso deI Latino ............................................. 531
Abbé Jean Pierre-Bassene, Pourquoi 1'Assemblée des Évêques de l'Afri-
que no ire frallcophone a recommandé fortement l' enseignement du
latin et du grec dans les Séminaires ... ..... ... .... ....... ... ... .... .... .... .. 561
Dom Jean Clain:, Le latin et le chant grégorien ............. .. ............... 571

V. O humanismo greco-Iatino ante o mundo oriental, a Africa e a América 583

M. Amorós, La cultura greco-Iatina y el Japón ........ .. .......... .......... 585


B. Pinto-Bull, As humanidades greco-Iatinas face à Africa: Incompa-
tibilidade? Compatibilidade? ... ... .. .. ..... .... .. .. ... ....... ..... ........ ... ..... ... 595
Abbé P. Dovi N'Danu-Alipui, L'humanisme gréco-Iatin et l'Afrique ...... 607
Ch. Minguet, Le monde antique et l'Amérique Latine au XIX' siecle:
du néo-classicisme au pan-Iatinisme . .... .. ...... ............................ . 627

Sessão de Encerramento ....... ......... ... .. ............ ......... .. ...... .... ...... ............... 643

Relatório e conclusões pela Presidente da Comissão Executiva, Prof.'


Doutora Maria Helena da Rocha Pereira ........................ .. ............. 645
Proposta dos Professores de Latim, Grego e Português do 8.° Grupo A,
do Ensino Secundário ...... ...... .. .. ...... ... ..................... ........... ...... ... 653
Alocução do Presidente do Congresso, Presidente Léopold S. Senghor 655
Alocução do Vice-Presidente da União Latina, Embaixador de Itália
na UNESCO, Ivancich Biaggini .................. .. ............................... 657
Alocução do Sr. Ministro da Educação, Eng.o Roberto Carneiro .... .. 661
íNDICE DAS FOTOGRAFIAS

entre as pp.

1. o Presidente da República cumprimenta o Presidente do Congresso 16/17

2. Vista parcial da assistência ...... ...... ... ... ....... .. ... ... .... .. .... ......... ....... . 34/35

3. Vista parcial da assistência .. .. ...... ................. .. .. ........ ........ ..... ....... . 34/35

4. Vista parcial da assistência ...................... ......... .. .......................... . 34/35

5. Sessão de abertura - mesa da presidência ... ........ .... ...... .. .. ..... .. .. .. 72/73

6. Sessão de encerramento - mesa da presidência .................... ..... .. 644/645

7. Visita das mínas romanas de Conimbriga .. ...... ........ ...... .......... .. .. 668/669
PRóLOGO

o Congresso Internacional ((As Humanidades Greco-Latinas e a


Civilização do Universal» decorreu na Universidade de Coimbra, de
11 a 16 de Abril de 1988, por iniciativa conjunta do Instituto de Estudos
Clássicos da mesma Universidade e da Association Archives du xx e
Siecle, sediada em Paris. Os princípios que nortearam esta organização
podem ler-se no manifesto assinado por Léopold S. Senghor, seu ilustre
Presidente, e transcrito nestas Actas, pelo que se torna desnecessário
repeti-los aqui. Diremos antes que os temas a tratar se ordenaram por
cinco rubricas, segundo as quais agrupámos as comunicações: ((Apre-
ciação do mundo antigo», ((Permanência da Cultura Clássica», ((Pensa-
mento e humanismo: ética, direito, ciência e técnica», (dgreja e lati-
nidade», ((O humanismo greco-latino ante o mundo oriental, a Africa e
a América». Em cada uma delas falaram vários especialistas, para o
efeito c011.vidados, que representavam diversos países de quase todas
as partes do mundo. Dois dos mais ilustres, o Prof. Pierre Grimal, da
Universidade de Paris e o Prof. A. W. H. Adkins, da de Chicago, à última
hora nã,o puderam comparecer, por motivos de saúde, mas foram lidas
as comunicações que enviaram, respectivamente, pelo Prof. Ch. Minguet
e pela Prof.a Maria Irene Ramalho de Sousa Santos. Também por
motivos de saúde, não pôde estar no Congresso o representante da
Espanha, Prof. Manuel Fernández Galiano, um dos grandes helenistas
da actualidade. Dificuldades administrativas não permitiram a vinda do
Prof. Lloyd-Thompson, da Universidade de Ibadan, Nigéria, um dos
países africanos onde se publica uma revista de estudos clássicos.
Mesmo assim catorze nações deram o seu contributo a este aconteci-
mento cultural.
Queremos salientar o alto significado da presença, na sessão de
abertura, do Senhor Presidente da República, Dr. Mário Soares, do
Senhor Embaixador de Portugal na UNESCO, Dr. José Augusto Seabra,
e do Senhor Reitor da Universidade, Dr. Rui Alarcão. E, na de encer-
12 PRóLOGO

ramento, do Senhor Ministro da Educação, Eng.o Roberto Carneiro, e


do Senhor Vice-Presidente da União Latina, Embaixador Biaggini.
Também as alocuções proferidas nessas sessões solenes ficam arqui-
vadas nestas Actas.
Não o fica, porém, um dos momentos mais altos do Congresso,
aquele em que Sophia de Mello Breyner Andresen declamou, em por-
tuguês e em francês, alguns dos seus mais belos poemas inspirados
pela Grécia antiga. Tão-pouco pode ficá-lo o interesse e o entusiasmo
com que cerca de quatro centenas de participantes provenientes de
diversas áreas do saber, além da clássica, acompanharam as sessões
e intervieram nos debates.
É aqui também o lugar para referir a cerimónia de recepção, na
tarde do dia 11, do Presidente Senghor na Câmara Municipal de Coimbra,
cujo presidente teve a gentileza de oferecer em seguida um «pôr-do-sol»
nos Claustros de Santa Cruz, nesse evocativo local onde a vocação
universitária da cidade se afirmou quase desde os alvores da naciona-
lidade; para realçar o valor da notável exposição bibliográfica, com
raros espécimes, que incluíam vinte e cinco incunábulos e edições
quinhentistas de autores gregos, latinos e humanistas, a qual se ficou
a dever à erudição e saber do Director da Biblioteca Geral da Univer-
sidade, Prof. Aníbal Pinto de Castro; para recordar a lição de arqueo-
logia que foi a visita ao Museu Monográfico e ruínas romanas de
Conimbriga, orientada pela sua Directora, Dr. a Adília Moutinho; para
registar o encantamento da audição do coro dos Antigos Orfeonistas
do Orfeão Académico, no dia 13, e, no dia 15, do do actual Orfeão
Académico este, na capela do Palácio de São Marcos, em concerto
memorável em que merece menção à parte a estreia de um órgão
histórico acabado de restaurar, tocado por um artista como o Prof.
Gerhard Doderer.
A todas estas entidades, e não menos àquelas que concederam o
seu valioso patrocínio a uma inicativa que, de outro modo, não teria
podido ser levada a efeito, a Comissão Executiva do Congresso renova
aqui a sua muita gratidão.

MARIA HELENA DA ROCHA PEREIRA


Presidente da Comissão Executiva
PROLOGUE

Le Congres International «Les Humanités Gréco-Latines et la Civi-


lisation de l'Universel» s' est déroulé à l'Université de Coimbra, du 11
au 16 avril 1988, sur l'initiative conjointe de l'Institut des Études Clas-
siques de cette même Université et de l'Association Archives du XX'
Siecle, siégeant à Paris. Les principes qui ont régi cette manifestation
peuvent être lus dans le manifeste signé par Léopold S. Senghor, son
illustre Président, et transcrits dans ces Actes, ce qui rend inutile
de les répéter ici. Nous dirons. plutôt que les themes à traiter se sont
ordonnés sur cinq rubriques, d'apres lesquelles nous avons regroupé
les communications: «Appréciation du monde antique», «Permanence
de la culture classique», «Pensée et Humanisme: éthique, droit, science
et technique», «Église et latinité», «L'humanisme gréco-Iatin face au
monde oriental, à l'Afrique et à l'Amérique». Divers spécialistes, invités
à cet effet, et représentant plusieurs pays du monde entier, se sont
exprimés sur chacune d' elles. Deux des plus illustres, le Prof. Pierre
Grimal, de l'Université de Paris, et le Prof. A. W. H. Adkins, de celle
de Chicago, se sont trouvés dans l'impossibilité, en derniere minute,
de se déplacer pour des raisons de santé. Mais les communications
qu'ils avaient envoyées ont été lues, respectivement, par le Prof. Ch.
Minguet et par Mme. le Prof. Maria Irene Ramalho de Sousa Santos.
Le représentant de l'Espagne, le Prof. Manuel Fernández Galiano, l'un
des grands hellénistes de l'actualité, n'a pas pu, lui non plus, être présent
au congres pour les mêmes raisons. Des difficultés administratives n'ont
pas permis la venue du Prof. Lloyd Thompson, de l'Université d'Ibadan,
Nigéria, l'un des pays africans ou est publiée une revue d'études clas-
siques. Quoi qu'il en soit, quatorze nations ont apporté leur contri-
bution à cet événement culturel.
Nous tenons à signaler la haute signification de la présence, lors
de la session d' ouverture, de Monsieur le Président de la République,
14 PROLOGUE

Mário Soares, de Monsieur l'Ambassadeur du Portugal à l'UNESCO, José


Augusto Seabra, et de Monsieur le Recteur de l'Université, Rui Alarcão.
Et, à la session de clôture, de Monsieur le Ministre de I'Education,
Roberto Carneiro, et de Monsieur le Vice-Président de l'Union Latine,
Ambassadeur Biaggini. Les allocutions proférées durant ces sessions
solennelles sont elles aussi incluses dans ces Actes.
Ce qui malheureusement n'y figure pas représente pourtant l'un
des plus élevés moments du Congres: lorsque Sophia de Mello-Breyner
Andresen déclama, en portugais et en français, quelques-uns de ses
plus beaux poemes inspirés par la Grece antique. On n'y retrouve pas
non plus l'intérêt et l' enthousiasme avec lesquels environ quatre cerlts
participants provenant des divers domaines du savoir, outre le domaine
classique, ont suivi les sessions et ont participé au débat.
Il y a aussi tout lieu de mentionner ici la cérémonie de réception,
dans le courant de l' apres-midi du 11, du Président Senghor à la Mairie
de Coimbra dont le maire a ensuite eu la gentillesse d'offrir un
«coucher de solei!» dans les Clo'itres de «Santa Cruz », en ce lieu évocatit
ou la vocation universitaire de la ville s' est affirmée presque depuis le
début de la nationalité; de réhausser la valeur de la notable exposition
bibliographique composée de rares spécimens, qui comprenaient vingt
cinq incunables et des éditions du XVIe siecle d'auteurs grecs, latins
et d'humanistes, laquelle est due à l'érudition du Directeur de la Biblio-
theque Générale de l'Université, Prof. Aníbal Pinto de Castro; de rappeler
la leçon d'archéologie de Conimbriga, orientée par sa Directrice, Mme.
Adília Moutinho; d'évoquer l'enchantement de l'audition du choeur des
«Antigos Orfeonistas» de l'«Orfeão Académico» le 13, et, le 15, celui
de l'actuel «árfeão Académico», ce dernier dans la chapelle du «Palácio
de São Marcos», durant un concert mémorable ou i! faut mentionner à
part la premiere d'un orgue historique récemment restauré, dont jouait
un artiste comme le Prof. Gerhard Doderer.
C'est à toutes ces entités, ainsi qu'à celles qui ont concédé leur
précieux parrainage à une inicia tive qu'il n'aurait pas été possible de
mener à bien autrement, que le Comité Exécutif du Congres renouvelle
ici loute sa gratitude.

MARIA HELENA DA ROCHA PEREIRA


Présidente du Comité Exécutif
MANIFESTO

A Antiguidade Greco-Latina está, como todos sabem, na base da


civilização europeia, e os seus padrões modelaram, durante séculos,
a maior parte da cultura ooidental, quer sob o ponto de vista literário,
como sob o artístico, científico, filosófico e até político, e pode afir-
mar-se que não cessou ainda de o fazer. Mas o alargamento de hori-
zontes iniciado a paTt1r da grande eX!pansão europeia dos séoulos XV
e XVI traz àquela herança cultural novos dados que são avidamente
absorvidos, primeiro procurando integrá-los nos esquemas dos antigos
(preocupação de identificar novas terras e povos com os referidos pelos
clássicos), depois orgulhando-se das novidades que aqueles nunca haviam
pressentido. O achado de continentes desconhecidos, insuspeitados por
um lado, o encontro com o Oriente, por outro, vêm demonstrar a
existência de novos valores que merecem estudo e consideração.
No nosso século de comunicações aceleradas, este quadro geral
da humanidade aparece oada vez mais como um vasto mosaico, em
que cada peça tem o seu valor próprio. CamÍlIlha-se para a civilização
do universal, onde, aliás, o entendimento não deve impedir a diver-
sidade, mas apenas harmonizá-la. Por todos estes motivos, é chegada
a ocasião, quando se aprlOxirrna o teJ1mo do segundo milénio, de pro-
mov<er uma reflexão sobre o papel que desempenharam e devem conti-
nuar a desempenhar as humanidades greco-Iatinas no quadro deste
v,a sto e complexo contexto em que hoje nos movemos .
É essa, preoisamente, a razão do Congresso Internacional As Huma-
nidades Greco-Latinas e a Civilização do Universal, e, por isso, em cada
um dos gu:andes temas em que se divide, só um é completamente
voltado para o passado, a1iás próximo (Contribuição do séc. XIX para
a apreoiação do mundo antigo). Os outros quatro encaram sucessiva-
mente a permanência da cultura clássica (designadamente na literatura
e no pensamento contemporâneo), pensamento e humanismo (compa-
rando a v,i são antiga da natureza humana, do direito romano, da natu-
16 MANIFESTO

reza e da técnica, com a actual), novas directrizes da Igreja e da


latinidade, e tradição e modernidade: encontro e pennuta com o
Oriente, a África, a América.
Esta perspectiva universalista levou-nos a pedir a colaboração de
especialistas de diferentes áreas, certos de que a interdisciplinaridade
é uma garantia imprescindível do bom êxito deste encontro.

Léopold S. Senghor
1. Presidente da República cumprimenta o Presidente do Congresso
(Página deixada propositadamente em branco)
MANIFESTE

L'Antiquité gréco-Iatine est, comme chacun sait, à la base de la


civilisa.tion européenne. Ses modeles ont façonné, pendan:t des siecles,
la cU'lture occidenrt:ale dans sa plus grande parrt, aussi bien du point
de vue Jiottéraire que des points de vue al'tistique, sdentif.ique, philo-
sophique et mêrne politique, et on peut affiirmer qu'elle n'a jamais
cessé de le faire. Mais l'élargdlssemenrt d'horizons, co:rmnencé à partir
de la grande expansion européenne des xve et XVle siecles, a emichi
cet héritage cUilturel de nouveLles dorunées, qui ont été absorbées avec
avidité en essayant de les inrt:égrer, d'abord. cLans les schémas hérités
(préoccupation d'identifier les nouvelles terres et les nouveaux peuprles
avec ceux mell'tionm.és par les «class1iques») et, ensuMe, en s'enorgueil-
lissant de nouveautés que les Anciens n'avaient jamais pressenties
auparavant. La découverte de nouvealUx conrt:inents insoupçonnés et La
rencontre diJ1ecte avec l'Orient OI1It démOl1Jtré l'existence d'autJres valeurs,
qui méritent étude et considéIlation.
Dans notre siecle de co:rmnunications accélérées, ce cadre général
de l'Humanité apparaít, de plus en plus, comme une vas:te mosaique
dans laqueNe chaque piece a sa valeuT propre. Naus nous ooheminons
vers la civilisation de l'Universel ou, d'ailileurs, la compréhension ne
doit pas empêoher la diversité, mais l'hanrnoniser. Pour toutes ces
raisons, le moment est venu, alors que le second miUénaire touche
à sa fin, de promouvoir une réflex~on sur le rôle qu'ont tenu, eil: doivent
continuer à tenir, les humanités gréco-Iatines dans le cadre de ce con-
texte vas1te et complexe ou nous évoluons aujourd'hui.
C'est là, justement, la raison du Congres International Les Humanités
Gréco-Latines et la Civilisation de l'Universel et c'es1: pau r cela que,
parmi les grands themes en lesquds il se divise, un seul est comple-
tement tourné vers le passé, récent au demeurant (contribution du
XIxe siecle à l'appréciation du monde ancien). Les quatre aUJtres themes
s'attachent successivement à la permanence de la cu]ture classique
18 MANIFESTE

(en littérature et dans la pensée oontemporaine), aux relations entre la


pensée et l'humanisme (comparant la vision ancienne de la nature
humaine, du droit romain, de la nature et de la technique avec la vision
actuelle), aux nouvelles orientations de l'Église et de la latinité, et aux
rapports entre tradition et modernité: rencontre et échange avec l'Orient,
l'Afrique et l'Amérique.
Cette perspective universaliste nous a amenés à solliciterr la colla-
boration de spécialistes eles différents secteurs, l'interdisciplinarité nous
paraissant une garantie fondamentale pour le succes de notre rencontre.

Léopold S. Senghor
COMISSÃO DE HONRA
COMITÉ D'HONNEUR

Dr. Mário Soares


Presidente da República

Dr. Aníbal Cavaco Silva


Primeiro Ministro

Dr. João de Deus Pinheiro


Ministro dos Negócios Estrangeiros

Eng." Roberto Carneiro


Ministro da Educação

Dr. Alberto Ralha


Secretário de Estado do Ensino Superior

Dr. José Augusto Seabra


Embaixador de Portugal na UNESCO

Dr. Britaldo Rodrigues


Presidente do Instituto Nacional de Investigação Científica

Dr. Fernando Cristóvão


Presidente do Instituto de Cultura e Língua Portuguesa

Dr. José Mariano Gago


Presidente da Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica

Dr. Rui Alarcão


Reitor da Universidade de Coimbra

Dr. Virgílio Meira Soares


Reitor da Universidade de Lísboa
20

Dr. José Bacelar e Oliveira


Reitor da Universidade Católica

Dr. Ludwig Franz Scheidl


Presidente do Conselho Dir ectivo da Faculdade de Letras de Coimbra

Dr. Charles Minguet


Presidente da Association Archives du XX' Siecle

Eng." António Moreira


Presidente da Câmara Municipal de Coimbra

Dr. Fernando Aguiar Branco


Presidente da Fundação Eng.o António de Almeida

Fundação Luso-Americana

PRESIDENTE DO CONGRESSO
PR~SIDENT DU CONGR~S

Presidente Léopold Sédar Senghor


COMISSÃO EXECUTIVA
COMITÉ EXÉCUTIF

M. H. Rocha Pereira
Professora da Universidade de Coimbra, Presidente

R. Schilling
Presidente da Universidade de Estrasburgo

A. Segala
Secretário da Association Archives

Sebastião T. Pinho
Professor da Universidade de Coimbra

J. Ribeiro Ferreira
Professor da Universidade de Coimbra

M. F. Sousa Silva
Professora da Universidade de Coimbra

Francisco de Oliveira
Professor da Universidade de Coimbra
PATROCíNIOS
PATRONAGE

- Ministério dos Negócios Estrangeiros

- Ministério da Educação

- Secretaria de Estado do Ensino Superior

- Instituto Nacional de Investigação Científica

- Instituto de Cultura e Língua Portuguesa

- Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica

- Reitoria da Universidade de Coimbra

- Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra

- Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra

- Association Archives du XX' Siec1e

- Câmara Municipal de Coimbra

- Região de Turismo do Centro

- Fundação Eng." António de Almeida

- Fundação Luso-Americana

- Museu Monográfico de Conimbriga

- Banco Pinto e Sottomayor

- Livraria Minerva

- Regisconta

- Sistmatic - Sistemas Informáticos,Lda.


PROGRAMA DAS SESSõES

PROGRAMME DES SÉANCES


24

11 de Abril de 1988
Segunda-Feira

PROGRAMA

11 H - Sessão solene de abertura, sob a presidência de Sua Excelência o


Senhor Presidente da República, Dr. MARIO SOARES.

Abertura do Congresso pela Presidente da Comissão Executiva,


Prof.' Doutora M. H . ROCHA PEREIRA.

Alocução do Presidente do Congresso,


Presidente LÉOPOLD SÉDAR SENGHOR.

Alocução do Embaixador de Portugal na UNESCO,


Prof. Doutor JOSÉ AUGUSTO SEABRA.

Alocução do Reitor da Universidade de Coimbra,


Prof. Doutor RUI ALARCAO.

15 H - Presidente da Sessão: R. SCHILLING (Univ. de Estrasburgo)


Secretário: ANA PAULA QUINTELA (Univ. do Porto).

P. GRIMAL (Univ. de Paris IV - SorbOlme),


Optique contemporaine dans l'étude des classiques.

G. PASCUCCI (Univ. de Florença),


Contribution du XIX' siecle au progres des humanités gréco-latines.

J. GERALDES FREIRE (Univ. de Coimbra),


Da Filologia Clássica à Filologia cristã (grega e latina) e ao latim
tardio, especialmente no ocidente hispânico (sécs. IV-VII).

17.30 H - Sessão de cumprimentos na Câmara Municipal de Coimbra.

18 H - Pôr-do-sol nos claustros de Santa Cruz, oferecido pela Câmara Municipal


de Coimbra.
25

11 avril 1988
Lundi

PROGRAMME

11 H - Séance solennelle d'puverture, sous la présidence de San Excellence le


Président de la République, M. MARIO SOARES.

Ouvertllre dll Congres par la Présidente du Comité Exécutif,


M.me le Prof. M. H. ROCHA PEREIRA.

Allocution par le Président du Congres,


Président LÉOPOLD SÉDAR SENGHOR.

Allocution par l'Ambassadeur du Portugal aupres de l'UNESCO,


Prof. JOSÉ AUGUSTO SEABRA.

Allocution par le Recteur de l'Université de Coimbra,


Prof. RUI ALARCÁO.

15 H - Président de la Séance: R. SCHILLING (Univ. de Strasbourg)


Secrétaire: ANA PAULA QUINTELA (Univ. de Porto).

P. GRIMAL (Univ. de Paris IV - Sorbonne),


Optique contemporaine dans l'étude des classiques.

G. PASCUCCI (Univ. de Florence),


Contribution du XIXe siecle au progres des humanités gréco-latines.

J. GERALDES FREIRE (Univ. de Coimbra),


Da Filologia Clássica à Filologia cristã (grega e latina) e ao latim
tardio, especialmente no ocidente hispânico (sécs. IV-VII).

17.30 H - Séance de compliments à la Mairie de Coimbra.

18 H - Réception dans le Cloítre de Santa Cruz, offerte par la Mairi e de


Coimbra.
26

12 de Abril de 1988
Terça-Feira

PROGRAMA

9H - Presidente da Sessão: WALTER DE MEDEIROS (Univ. de Coimbra)


Secretário: BELMIRO FERNANDES PEREIRA (Univ. de Aveiro).

H. BAUZA (Univ. de Buenos Aires) ,


Roma y el destino de occidente.

CH. MINGUET (Univ. de Paris X - Nanterre),


Le monde antique et l'Amérique Latine au XIX' s.: du neoclassicisme
au panlatinisme: Simon Bolivar, Alexandre Humboldt, Napoléon III.
V. PbSCHL (Univ. de Heidelberg),
Les causes de Za récession des Zangues anciennes.

12 H - Exposição bibliográfica.

15 H - Presidente da Sessão: JORGE OSóRIO (Univ. do Porto)


Secretário: EDUARDO BRAGA (Univ. do Porto).

G. DORIVAL (Univ. de Tours),


L'originalité de la Patristique grecque.

J. LECLANT (Académie des Inscriptions et Belles Lettres),


Regards d'un historien contemporain sur les cultures antiques.
E. CIZEK (Univ. de Bucareste),
Pour une nouvelle histoire de Rome, pour une nouvelle histoire
de la littérature Zatine.

M. BAPTISTA PEREiRA (Univ. de Coimbra),


Modos de presença da filosofia antiga no pensamento contemporâneo.
27

12 avril 1988
Mardi

PROGRAMME

9H - Président de la Séance: WALTER DE MEDEIROS (Univ. de Coimbra)


Secrétaire: BELMIRO FERNANDES PEREIRA (Univ. de Aveiro) .

H. BAUZA (Univ. de Buenos Aires),


Roma y el destino de occidente.

CH. MINGUET (Univ. de Paris X - Nanterre),


Le monde antique et l'Amérique Latine au XIX' s.: du neoclassicisme
au panlatinisme: Simon Bolivar, Alexandre H umboldt, N apoléon II I.

V. PbSCHL (Univ. de Heidelberg),


Les causes de la récession des langues anciennes.

12 H - Exposition bibliographique.

15 H - Président de la Séance: JORGE OSóRIO (Univ. de Porto)


Secrétaire: EDUARDO BRAGA (Univ. de Porto).

G. DORIVAL (Univ. de Tours),


L'originalité de la Patristique grecque.
L. LECLANT (Académie des Inscriptions et Belles Lettres) ,
Regards d'un historien contemporain sur les cultures antiques.
E. CIZEK (Univ. de Bucareste),
Pour une nouvelle histoire de Rome, pour une nouvelle histoire
de la littérature latine.

M. BAPTISTA PEREIRA (Univ. de Coimbra),


Modos de presença da filosofia antiga no pensamento contemporâneo.
28

13 de Abril de 1988
Quarta-Feira

PROGRAMA

9H - Presidente da Sessão: AN1BAL PINTO DE CASTRO (Univ. de Coimbra)


Secretário: VIRGíNIA SOARES PEREIRA (Univ. de Braga).

A. W. H. ADKINS (Univ. de Chicago),


Rumem nature in the phiZosophicaZ ethics of ancient Greece and today.

A. MELLONI (Istituto per le scienze religiose - Bolonha),


La Veterum Sapientia di Giovanni XXIII e i suoi rapporti con le
disposizioni deZ Vaticano II sull'uso del latino.

J . IMBERT (Univ. de Paris),


La place du droit romain dans la pensée juridique moderne.

O. TSAGARAKIS (Univ. de Creta),


Romer and ClassicaZ Studies.

14.30 H - Partida para Conimbriga.

15 H - Visita às ruínas romanas de Conimbriga.

21 H - Recital pelos Antigos Orfeonistas do Órfeão Académico de Coimbra,


no Auditório da Reitoria.
29

13 avril 1988
Mercredi

PROGRAMME

9H - Président de la Séance: ANlBAL PINTO DE CASTRO (Univ. de Coimbra)


Secrétaire: VIRG1NIA SOARES PEREIRA (Univ. de Braga).

A. W. H. ADKINS (Univ. de Chicago),


Human nature in the philosophical ethics of ancient Greece and today.

A. MELLONI (Istituto per le scienze religiose - Bologne),


La Veterum Sapientia di Giovanni XXIII e i suoi rapporti con le
disposizioni del Vaticano II sull'uso del latino.

J . IMBERT (Univ. de Paris),


La place du droit romain dans la pensée juridique moderne.

O. TSAGARAKIS (Univ. de Crete),


Homer and Classical Studies.

14.30 H - Départ pour Conimbriga.

15 H - Visite des ruines romaines de Conimbriga.

21 H - Récital des Anciens Orphéonistes de l'Orphéon Académique de Coimbra,


dans l'Auditorium.
30

14 de Abril de 1988
Quinta-Feira

PROGRAMA

9H - Presidente da Sessão: ANíBAL PINTO DE CASTRO (Univ. de Coimbra)


Secretário: MARIO HÉLDER (Univ. dos Açores) .

CH. GNILKA (Univ. de Münster),


La conversione della cultura antica vis ta dei padri della Chiesa.

R. SCHILLING (Univ. de Estrasburgo),


Ce que le Christianisme doit à la Rome antique.

M. H. URENA PRIETO (Univ. de Lisboa),


Politique et éthique dans la Grece du IV- siecle avant J. C.
(La leçon de la paideia d'Isocrate).

AMADEU TORRES (Univ. Católica Portuguesa),


Paulo Orósio: o historiógrafo latino-peninsular e a sua mensagem
universalista neste fim de milénio.

15 H - Presidente da Sessão: VíTOR JABOUILLE (Univ. de Lisboa)


Secretário: CARLOS MORAIS (Univ. do Porto).

PINTO BULL (Guiné-Bissau),


L'humanisme gréco-latin face à l'Afrique:
Incompatibilité? Compatibilité?
A. DOVI N'DANU-ALIPUI (Conférence Episcopale de Togo),
L'humanisme gréco-latin et l'Afrique.

J.-P. BASSENE (Senegal),


Pourquoi l'Assemblée des Évêques de l'Afrique Noire francophone
a recommandé fortement l' enseignement du grec et du latin dans
les Séminaires.

C. MONTEMAYOR (Academia Mexicana de Língua Espafiola),


Sobre as humanidades greco-latinas e o México.
GLADSTONE CHAVES DE MELO (Univ. Federal Fluminense - Brasil),
A presença da Antiguidade na obra de Machado de Assis.
31

14 avril 1988
Jeudi

PROGRAMME

9H - Président de la Séance: ANtBAL PINTO DE CASTRO (Univ. de Coimbra)


Secretaire: MARIO HÉLDER (Univ. de Açores).

CH. GNILKA (Univ. de Münster),


La conversione della cultura antica vista dei padri della Chiesa.

R. SCHILLING (Univ. de Strasbourg),


Ce que le Christianisme doit à la Rome antique.

M. H. URENA PRIETO (Univ. de Lisboa),


Politique et éthique dans la Grece du IV' siecle avant J. C.
(La leçon de la paideia d'Isocrate).

AMADEU TORRES (Univ. Católica Portuguesa),


Paulo Orósio: o historiógrafo latino-peninsular e a sua mensagem
universalista neste fim de milénio.

15 H - Président de la Séance: VtTOR JABOUILLE (Univ. de Lisboa)


Secrétaire: CARLOS MORAIS {Univ. de Porto).

PINTO BULL (Guiné-Bissau),


L'humanisme gréco-Iatin face à l'Afrique:
Incompatibilité? Compatibilité?
A. DaVI N'DANU-ALIPUI (Conférence Episcopale de Togo),
L'humanisme gréco-Iatin et l'Afrique.
J.-P. BASS:BNE (Sénégal),
Pourquoi l'Assemblée des Evêques de l'Afrique Noire francophone
a recommandé fortement l'enseignement du grec et du latin dans
les Séminaires.
C. MONTEMAYOR (Academia Mexicana de Língua Espafiola),
Sobre as humanidades greco-Iatinas e o México.

GLADSTONE CHAVES DE MELO (Univ. Federal Fluminense - Brasil),


A presença da Antiguidade na obra de Machado de Assis.
32

15 de Abril de 1988
Sexta-Feira

PROGRAMA

9H - Presidente da Sessão: MANUEL DE O. PULQUÉRIO (Univ. de Coimbra)


Secretário: JOÃO BEATO (Univ. de Lisboa) .

R. M. ROSADO FERNANDES (Univ. de Lisboa),


Homem antigo e homem de hoje perante a Natureza, a Técnica
e o Progresso.
A. COSTA RAMALHO (Univ. de Coimbra),
A literatura novilatina em Portugal.
Dom J. CLAIRE (Abbaye de Solesmes),
Le latin et le chant grégorien.
15 H - Presidente da Sessão: AIRES DO NASCIMENTO (Univ. de Lisboa)
Secretário: MARTA VARZEAS (Univ. do Porto).
SOPHIA DE MELLO-BREYNER (Lisboa),
Leitura de poemas sobre temas clássicos.
A. SEGALA (Association Archives du XX" Siecle),
Le Programme Archives: un exemple de convergences panlatines
à l'horizon du 3e millenaire.
17 H - Sessão de encerramento.
Relatório e conclusões pela Presidente da Comissão Executiva,
Prof.' Doutora M. H. ROCHA PEREIRA.
Alocução do Presidente do Congresso,
Presidente LÉOPOLD SÉDAR SENGHOR.
Alocução do Vice-Presidente da União Latina,
Embaixador da Itália, GIACOMO IVANCICH BIAGGINI.
Alocução do Senhor Ministro da Educação,
Prof. Doutor ROBERTO CARNEIRO.
19.30 H - Concerto de órgão em S. Marcos.
20.30 H - Recepção em S. Marcos.

16 de Abril de 1986
Sábado

PROGRAMA

9.30 H - Visita à cidade de Coimbra.


33

15 avril 1988
Velldredi

PROGRAMME

9H - Président de la Séance: MANUEL DE o. PULQUÉRIO (Univ. de Coimbra)


Secrétaire: JOAO BEATO (Univ. de Lisboa).

R. M. ROSADO FERNANDES (Univ. de Lisboa),


Homem antigo e homem de hoje perante a Natureza, a Técnica,
e o Progresso.
A. COSTA RAMALHO (Univ. de Coimbra),
A literatura novilatina em Portugal.
Dom J. CLAIRE (Abbaye de Solesmes),
Le latin et le chant grégorien.
15 H - Président de la Séance: AIRES DO NASCIMENTO (Univ. de Lisboa)
Secrétaire: MARTA VARZEAS (Univ. de Porto).
SOPHIA DE MELLO-BREYNER (Lisboa),
Leitura de poemas sobre temas clássicos.
A. SEGALA (Association Archives du XIX' Siecle),
Le Programme Archives: un exemple de convergences panlatines
à l'horizon du 3' millenaire.
17 H - Séance de clôture.
Aperçu et conclusions par la Pré si dente du Comité Exécutif,
Prof." Doutora M. H. ROCHA PEREIRA.
Allocution par le Président du Congres,
Président LÉOPOLD SÉDAR SENGHOR.
Allocution par le Vice-Président de l'Union Latine,
Ambassadeur de l'ltalie, GIACOMO IVANCICH BIAGGINI.
Allocution par M. le Ministre de l'Éducation,
Prof. Doutor ROBERTO CARNEIRO.
19.30 H - Concert d'orgue à S. Marcos.
20.30 H - Réception à S. Marcos.

16 avril 1988
Samedi

PROGRAMME

9.30 H - Visite de la ville de Coimbra.


(Página deixada propositadamente em branco)
(Página deixada propositadamente em branco)
LISTA DOS PARTICIPANTES

ABRANTES, Maria Gabriel de Castro


Aguada de Cima
3750 Agueda
PORTUGAL

ADKINS, A. W. H.
University of Chicago
5801 South Ellis Avenue, Chicago Illinois 60637
U.S.A.

AFONSO, Alberto da Conceição


Av. Almirante Reis, 83 - 4.° Esq."
1100 Lisboa
PORTUGAL

AFONSO, Maria Edviges P. A. Ferreira


Av. Almirante Reis, 83 - 4." Esq."
1100 Lisboa
PORTUGAL

ALBINO, Anabela Tavares


Rua Carlos Chartel, 25 - 3." Esq.o
2735 Cacém
PORTUGAL

ALMEIDA, Adelino Cardoso de


Departamento de Linguas, Lit. e Culturas - Univ. de Aveiro
3800 Aveiro
PORTUGAL

ALMEIDA, Ana Paula Oliveira de


Externato Aguiar da Beira
3570 Aguiar da Beira
PORTUGAL
36 LISTA DOS PARTICIPANTES

ALMEIDA, Maria de Fátima Araújo


Av. Dias da Silva, 212 - 3.° B
3000 Coimbra
PORTUGAL

ALMEIDA, Maria Laura Casais


Figueirosa
3660 S. Pedro do Sul
PORTUGAL

ALMEIDA, Maria Luísa Alves Ferreira de


Av. Afonso Cerqueira, Bl. 2A - 6.° Dt.o
3500 Viseu
PORTUGAL

ALMEIDA E SOUSA, Maria do Carmo


Trav. da Ladeira do Seminário, 7
3000 Coimbra
PORTUGAL

ALVAREZ MENDtVIL, Mónica


Guillermo Estrada, 7 _10.° E
33006 Oviedo
ESPANHA

ALVELOS, Maria Manuela Pereira Pinto Dourado


Rua Prof. Egas Moniz, 13 - r/c Esq.o
3800 Aveiro
PORTUGAL

ALVES, Eusébio Augusto Pimentel


R. Frei Heitor Pinto, 138
4300 Porto
PORTUGAL

ALVES, Manuel dos Santos


Rua Eng.o José Justino de Amorim, 120-2.o E
4700 Braga
PORTUGAL

ALVES, Maria José Corriça


Rua António Borges, 180 - 5.° Esq.o Ft.
4200 Porto
PORTUGAL

ALVES, Paula Cristina Ferreira Dias da Cunha


Rua Olavo Billac, 6 - 2.° Dt.o
2900 Setiíbal
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 37

AMARAL, Ana Lúcia Carmo Almeida do


Rua da Matemática, 10
3000 Coimbra
PORTUGAL

AMARAL, Maria Augusta Gomes Conde


Largo do Figueiredo, 1 - 1.0 Esq.o
1400 Lisboa
PORTUGAL

AMORcóS, M.
Jesuit Residence - 6-15-2 Hongo. Bunkyo Ku
113 Tokyo
JAPÃO

ANDRADE, Fernando Guilherme da Costa


Rua Jacinto Nunes, 17 _1.0 De
1100 Lisboa
PORTUGAL

ANDRADE, Maria CesaItina Costa Rebelo de


Rua da Granja, lOA - Monte Estoril
2765 Estoril
PORTUGAL

ANDRl!, Carlos M. B. Ascenso


Instituto de Estudos Clássicos - Faculdade de Letras
3000 Coimbra
PORTUGAL

ANDRl!, Maria de Jesus Reinas


Rua D. José Alves Matoso, 16 _1.0
6300 Guarda
PORTUGAL

ANTÓNIO, José Barata


Rua Fernando Pessoa, 31
2330 Entroncamento
PORTUGAL

ANTÓNIO, Maria de Deus Ramos Pinheiro Barata


Rua Fernando Pessoa, 31
2330 Entroncamento
PORTUGAL

ANTUNES, António
Lagares
3400 Oliveira do Hospital
PORTUGAL
38 LISTA DOS PARTICIPANTES

ANTUNES, Maria dos Anjos


Casais da Borralha (Escola Sec. Adolfo Portela - Águeda )
3750 Águeda
PORTUGAL

ANTUNES, Maria do Carmo Faria Garcia Gaspar


Bairro S. Miguel, 20 - 2.°
3000 Coimbra
PORTUGAL

ARAúJO, Maria Eduarda de Almeida Miranda


Rua de Mira Gaia - Aguada de Cima
3750 Águeda
PORTUGAL

AYME, Marie Louise


Faculté de Lettres - Section Français
3000 Coimbra
PORTUGAL

AZEVEDO, Adriana Manuela de Mendonça Freire Nogueira


Rua da Estação, 7 - 2.° Dt.o
2725 Mem-Martins
PORTUGAL

AZEVEDO, Maria Teresa Schiappa de


Rua do Brasil, 222D - 2.° E
3000 Coimbra
PORTUGAL

BANDEIRA, Ana Maria Leitão


Arquivo da Universidade de Coimbra
3000 Coimbra
PORTUGAL

BARÃO, Maria José Mendes de Lemos


Alto do Forno, Lote 7A - 3.° Dt.o Buarcos
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL

BARBOSA, Jorge Morais


Universidade de Évora - Apartado 94
7001 Évora
PORTUGAL

BARBOSA, José Severo Biscaia de Abreu


Rua Padre António Vieira. 48 sub/cave
3000 Coimbra
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 39

BARBOSA, Maria Augusta Oliveira


Rua Heróis da Pátria, 56 - Miramar
4405 Valadares
PORTUGAL

BARRADAS, Alda Maria Margarido


Rua da Matemática, 10
3000 Coimbra
PORTUGAL

BASTOS, João Manuel Moreira


Br.o do Fomento da Habitação da Vergada, Bl. IV _1.0 Esq.o
4535 Lourosa
PORTUGAL

BAUZÁ, H.
Jorge Newbery 2411
1426 Capital Federal
ARGENTINA

BEATO, Agostinho Pires


Escalos de Baixo
6005 Alcains
PORTUGAL

BEATO, João
Rua Vale do Pereiro, 17 - 2.°
1200 Lisboa
PORTUGAL

BECHARA, Evanildo
Rua Castro Matoso, 12 - 4.° Esq.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

BERTONCINI, Elena
Via dell'Aeroporto, 68
Pisa
ITALIA

BESSA, António Augusto Ribeiro


Rua Capela do Telheiro, 227 - 2.° Esq.o
4465 S. Mamede de Infesta
PORTUGAL

BIAGGINI, Giacomo Ivancich


Ambassadeur Déléghé Permanent d'Italie aupres de l'UNESCO
Paris
FRANCE
40 LISTA DOS PARTICIPANTES

BÓIA, Maria de Fátima Rocha Pereira


Rua Dr. Mário Sacramento, 111- 1.0 Esq.o
3800 Aveiro
PORTUGAL

BORRALHO, Maria Louisa Maiato da Rosa


Rua Dr. Mário de Vasconcelos e Sá, 28A - 4.° Esq.o
4000 Porto
PORTUGAL

BRAGA, José Eduardo Teixeira Pereira


Rua de Montarroio, 49
3000 Coimbra
PORTUGAL

BRAGA, Maria Luísa


INIC - Av. Elias Garcia, 137 _7. 0

1093 Lisboa Codex


PORTUGAL

BRANCO, Isabel Rodrigues


Alameda Calouste Gulbenkian, 81 - 4.° C
3000 Coimbra
PORTUGAL

BRASÃO, José Ruivinho


Rua Vila de Ca tió, Lt. 400 - 4.° Ft.
1800 Lisboa
PORTUGAL

BRASETE, Maria Fernanda Amaro de Matos


Universidade de Aveiro - Depart. de Línguas, Lit. e Culturas
3800 Aveiro
PORTUGAL

BRITO, Maria Filomena de Andrade S. Carvalho Pereira de


Rua Feliciano de Castilho, 111- 2.° Esq.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

BRONNER, A. M.
14 avo du G.al de Gaulle
67000 Strasbourg
FRANÇA

BULL, Benjamim Pinto


Rua Dr. Manuel de Arriaga, 11 - 3.° Dt.o
2670 Loures
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 41

CABRITA, Maria Inês C. P. Bastos Inácio


Rua Oudinot, 58 - 2.°
3800 Aveiro
PORTUGAL

CAEIRO, Maria da Conceição César


Prol. Rua Verde Pinho, 30 - r/c Esq.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

CAETANO, Lucüia de Jesus


Rua Brig. Correia Cardoso, 288 - 3.°
3000 Coimbra
PORTUGAL

CAMELO, José António Fernandes


Rua Gomes Freire, 121- 3.° Dt.o
1100 Lisboa
PORTUGAL

CAMPOS, José Lemos de


Casa de Rica-Fé
5300 Bragança
PORTUGAL

CAPELO, Rui Grilo


Rua Dr. Augusto Rocha, 23 - 3.° Esq.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

CARDOSO, João Corrêa


Praceta S. Sebastião, 59 - 1.0 De
3000 Coimbra
PORTUGAL

CARDOSO, Palmira Rodrigues


Av. Dias da Silva, 162 - 1.0 Dt .o Posto
3000 Coimbra
PORTUGAL

CARNEIRO, Manuel Cerejeira Abreu


Universidade de Aveiro - Depart. de Línguas, Lit. e Culturas
3800 Aveiro
PORTUGAL

CARRIÇO, Maria Teresa dos Santos


Rua da República, 49
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL
42 LISTA DOS PARTICIPANTES

CARTAXO, João Augusto da Costa dos Santos


Rua Joaquim Sotto Mayor- Bloco B/C 1.0 Dt.o
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL

CARVALHO, Amélia Maria Botelho de


Freixo - Bencanta
3000 Coimbra
PORTUGAL

CARVALHO, António Borges de


Nogueira do Cravo
3400 Oliveira do Hospital
PORTUGAL

CARVALHO, Laura Arminda Duarte de Almeida


Av. da República, 88 - 1.0 E
1600 Lisboa
PORTUGAL

CARVALHO, Maria José Barreiros de


Rua Fernandes Coelho, 19
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL

CARVALHO, Maria Leonor Santa Bárbara de


Quinta do Borel, Lt. 59 - 6.° D
2700 Amadora
PORTUGAL

CASTELO BRANCO, António Teodósio


Banco Pinto Sotto Mayor
3000 Coimbra
PORTUGAL

CASTRO Aníbal Pinto de


Cernache
3000 Coimbra
PORTUGAL

CASTRO, Inês Luísa de Omellas de Andrade da Silva


Rua Tristão Vaz, 49 - 3.° Dt.o
1400 Lisboa
PORTUGAL

CASTRO, Maria da Graça Brandão e


Rua Visconde de Ovar, 247
3880 Ovar
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPA NTES 43

CERQUEIRA, Luís Manuel Gaspar


Rua Comércio, 7 - 3.° Dt.O - Porto Salvo
2780 Oeiras
PORTUGAL

CIZEK, E.
Rue Pasteur, 21- Secteur 6
Bucarest
ROMÉNIA

CLAIRE, Jean
Maitre de Choeur de Solesmes
72300 Sablé-Sur-Sarthe
FRANÇA

COELHO, Eduardo Fernando Jesus


Av. Calouste Gulbenkian, Bl. 1 - 4.° Dt."
3750 Águeda
PORTUGAL

COELHO, Manuel Marques


Rua Senhora da Encarnação, 28 - Buarcos
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL

COELHO, Maria Helena da Cruz


Av. João de Deus Ramos, 158 - 5.° D
3000 Coimbra
PORTUGAL

CONCEIÇÃO, Helena Maria dos Santos


Casal de Santo Elói - Rua Dr. Almada Guerra, 1 r/c
2710 Coimbra
PORTUGAL

CONCEIÇA.O, Manuel Joaquim dos Santos da


Gândara - Milheirós de Poiares
3700 S. João da Madeira
PORTUGAL

CORDEIRO, Adriano Milho


Rua de Santo António - Moita do Norte - Zona de Expansão
2260 V. N. da Barquinha
PORTUGAL

CORREIA, Agueda Graça Loureiro de Lemos


Rua Calouste Gulbenkian, Bl. 5A - 4.° C
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL
44 LISTA DOS PARTICIPA NTES

CORREIA, Francisco Carvalho


Rua Dr. Alexandre Lima Carneiro - Areias
4780 Caldas da Saúde
PORTUGAL

CORREIA, Maria de Lurdes Miguel Ferreira


Rua Nova de S. Sebastião, 38
3000 Coimbra
PORTUGAL

COSTA, Eugénia Maria de Jesus


Rua Mártires da Pátria, 10 - L"
2400 Leiria-Gare
PORTUGAL

COSTA, Felismina Martins


Av. Fernão de Magalhães, 508 - 4.° De
3000 Coimbra
PORTUGAL

COSTA, Helena Maria Ribeiro Almeida


Vildemoinhos - Cubo
3500 Viseu
PORTUGAL

COSTA, Isabel Maria de Jesus Gonçalves


Av. Afonso III, 78 _1.0 Dt.o
1900 Lisboa
PORTUGAL

COSTA, Manuel Tomás Gaspar da


Rua dos Biscoitos
9950 Madalena do Pico (Açores)
PORTUGAL

COSTA, Maria Manuel Veiga Pimentel d'Abreu Amorim da


Quinta do Sobreiro, Lt. 8 - 1.0 Dt.· - Olivais
3000 Coimbra
. PORTUGAL

COUTO, Aires Pereira do


Rua do Soito, 13, 2.° - Bairro de Guimarães
3500 Viseu
PORTUGAL

CRISTÓVÃO, Maria do Rosário


Rua de Olivença, 10
6000 Castelo Branco
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 45

CUNHA, Luís da Luz e


Estrada Velha de Abraveses, 99
3500 Viseu
PORTUGAL

CUNHA, Maria da Glória Andrade da


Rua Verde Pinho, 123 - 2.° Dt.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

CUNHA, Mário R. de Sousa


Rua Sá da Bandeira, 612 _1.0 Dt.o
4000 Porto
PORTUGAL

CUNHA, Paulo Jorge Fonseca Ferreira da


Rua Dr. Mário de Vasconcelos e Sá, 28A - 4.° Esq.o
4000 Porto
PORTUGAL

DANU-ALIPUI, D. N'
4409 Lomé
TOGO

DAVID, Almerinda Luís


Rua dos Combatentes, 99 _1.0
3000 Coimbra
PORTUGAL

DAVID, Maria Teresa Marques


Urbanização da Quintinha, Lt. 488 - Cotovia
2970 Sesimbra
PORTUGAL

DELGADO, Isabel Maria Cabral Teles dos Santos Lopes


Rua Joaquim António de Aguiar, 104A _1.0
3000 Coimbra
PORTUGAL

DELGADO, Luzia da Conceição Moreira


Rua Carlos Alberto P. Abreu, Bl. Sul- 6.° B
3000 Coimbra
PORTUGAL

DESERTO, Jorge Pereira Nunes do


Trav. do Cabaço, 7 - Moita do Norte
2260 Vila Nova da Barquinha
PORTUGAL
46 LISTA DOS PARTICIPANTES

DIAS, Aida Fernanda


Rua António José de Almeida, 255 - 6.° E
3000 Coimbra
PORTUGAL

DIAS, Amélia da Encarnação Sousa Pinto Simões


Rua General Humberto Delgado, 40 - 2.°
3000 Coimbra
PORTUGAL

DIAS, José Oliveira de Sousa


Rua Luís de Camões, 27 - 2." E
2490 Vila Nova de Ourém
PORTUGAL

DIAS, Maria Teresa Morgado


Quinta do Prado
3600 Castro Daire
PORTUGAL

DORIVAL, G.
1 rue Samson
75013 Paris
FRANÇA

DUARTE, Ana Paula Fonseca


Rua Dr. Henrique Seco, 52 - 3.° E
3000 Coimbra
PORTUGAL

DUARTE, Helena Maria Vaz


Rua 25 de Abril, 25 - 1.0 Dt."
2330 Entroncamento
PORTUGAL

DUARTE, Maria Mercedes Beirão B.


Rua Lopes Guimarães, 8 - 3.° E sq."
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL

DUARTE, Rosa Maria Pereira Esteves Dias


Prol. da Rua Pedro Alvares Cabral, Lt. C - 4." A
3000 Coimbra
PORTUGAL

DUARTE-SANTOS, Luís Augusto


Quinta de S. Nicolau
3000 Coimbra
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 47

EIRó, Filomena Maria Esteves


Rua 25 de Abril, 19
2330 Entroncamento
PORTUGAL

ESPiRITO SANTO, Arnaldo Monteiro


Av. Salvador Allende, 31
2780 Oeiras
PORTUGAL

ESTEVES, Maria Luísa N. Carvalho Costa Sanches


Av. S. João de Deus, 58 - 6.° A
8500 Portimão
PORTUGAL

FARIA, Maria do Céu Novais de


Av. 5 de Outubro, 254 - 5.° Di."
1600 Lisboa
PORTUGAL

FERNANDES, José Sílvio Moreira


Caminho Velho da Igreja - S. Gonçalo - Apt. 2521
9000 Funchal
PORTUGAL

FERNANDES, Maria da Conceição Romão M.


Caminho Velho da Igreja - S. Gonçalo - Apt. 2521
9000 Funchal
PORTUGAL

FERNANDES, R. M. Rosado
Trav. da Palmeira, 2 - 1.0
1200 Lisboa
PORTUGAL

FERNANDES, Teresa Maria Lopes Abreu Leitão


Rua Estados · Unidos da América, 3 _1.0 Dt.o
2330 Entroncamento
PORTUGAL

FERRAO, Cristina Maria Gomes


Rua Miguel Bombarda, 48 - 1."
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL

FERREIRA, António Manuel dos Santos


Rua Hintze Ribeiro (Ed. Barrocas), 4.° C/Sul
3800 Aveiro
PORTUGAL
48 LISTA DOS PARTICIPANTES

FERREIRA, Ermelinda Adelaide Carvalhal Mouco Costa


Rua Pedro Alvares Cabral, 57 - r/c-B
6300 Guarda
PORTUGAL

FERREIRA, João Vale


Mosqueiro - Lijó
4750 Barcelos
PORTUGAL

FERREIRA, José Ribeiro


Rua General Humberto Delgado, 82 - 2.° Esq.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

FERREIRA, Manuel
Av. D. Pedro V, 11- 2.° De
2795 Linda-a-Velha
PORTUGAL

FERREIRA, Maria Cândida Freire Nunes


Rua Dr. Henrique Sêco, 48 - 2.° Dt.
3000 Coimbra
PORTUGAL

FERREIRA, Maria Fernanda


Vila Nova de Anços
3130 Soure
PORTUGAL

FERREIRA, Olga de Almeida


Aguada de Cima
3750 Agueda
PORTUGAL

FERREIRA, Paula Manuela Pinto


Av. Fernão de Magalhães, 470 - 3.°
3000 Coimbra
PORTUGAL

FERRO, Manuel Simplício Geraldo


Rua dos Coutinhos, 38 - 1.0 Dt.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

FIALHO, Maria do Céu


Av. Elísio de Moura, 397 _7.° A
3000 Coimbra
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 49

FIGUEIREDO, Maria Ivone Mendes da Silva Barreto de


Av. Dr. José Eduardo V. Neves, Lt. 1 - 3.° Dt.O
2330 Entroncamento
PORTUGAL

FONSECA, Carlos Alberto Louro


Rua dos Combatentes da Grande Guerra, 100 - 10.° De
3000 Coimbra
PORTUGAL

FONSECA, Maria de Lurdes Dias da


Vale - Molelos
3460 Tondela
PORTUGAL

FONTES, Hilário
Rua da Vila, 185
Avelar
PORTUGAL

FRADA, Maria Isabel Jerónimo Dias


Rua do Molhe, 113 - 2.° Esq.o
4100 Porto
PORTUGAL

FRAGA, Maria do Céu Amaral Fortes


Rua Vitorino Nemésio, 23
9500 Ponta Delgada
PORTUGAL

FREIRE, José Geraldes


Rua Guerra Junqueiro, 132
3000 Coimbra
PORTUGAL

FREIRE, Maria Teresa de Almeida Gouveia Geraldes


Ladeira das Alpenduradas. 39
3000 Coimbra
PORTUGAL

FRóIS, Maria da Conceição


Centro de Estudos e Formação Autárquica
Rua do Brasil, 131
3000 Coimbra
PORTUGAL

FUTRE, Marília Pulquério


Urbanização da Portela, Lt. 117 _7.° Esq.o
2685 Sacavém
PORTUGAL
50 LISTA DOS PARTICIPANTES

GABRIEL, José Alberto M. J.


Rua dos Combatentes, 151 A - c/v Dt.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

GAGO, Alda Maria da Silva


Rua Dr. José de Mascarenhas, () - 1.0 Esq.o
2800 Alhada
PORTUGAL

GALVAO, João Paulo


Rua Afonso de Albuquerque, 8
3000 Coimbra
PORTUGAL

GAMA, Maria Celeste Abreu Teixeira da


Rua Dr. Alberto de Oliveira, 53 - 1.0 Dt.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

GARC:iA TRABAZO, José Virgílio


Av. Pedro Masaveu, 29 - 6.° Izq.
33007 Oviedo
ESPANHA

GIL, Isabel Maria de Sá Nogueira Osório Santos


Trav. do Cabaço, 7 - Moita do Norte
2260 Vila Nova da Barquinha
PORTUGAL

GIL, Maria de Lurdes


Av. Fernão de Magalhães, 495 C - 5.° E
3000 Coimbra
PORTUGAL

GIRÃO, Suzana Fernandes Nóbrega Silva


Quinta de Fora
3670 Vouzela
PORTUGAL

GNILKA, C.
Mauritz - Linden - Weg 40, D
4400 Münster
R. F. ALEMANHA

GOMES, Maria de Jesus


Rua de Entrecampos, 46 - 1.0 Esq.o
1700 Lisboa
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 51

GONÇALVES, João Magalhães


Av. 22 de Dezembro, 19
2900 Setúbal
PORTUGAL

GONÇALVES, Madalena Morna


Av. 25 de Abril, 10 - 5. Dt.
0 O

2400 Leiria
PORTUGAL

GON'ÇALVES, Maria Isabel Rebelo


Av. do Brasil, 132 - 5. Esq.o
0

1700 Lisboa
PORTUGAL

GOUVEIA, Helena Igreja Ferreira


Rua dos Covões, 67 r/c - S. Martinho do Bispo
3000 Coimbra
PORTUGAL

GRIMAL, P.
30, rue des Fonds
78350 Jouy-en-Josas
FRANÇA

GUERREIRO, Maria Henrique Alves


Rua Barão de Sabrosa, 252 - 3. D 0

1900 Lisboa
PORTUGAL

GUILLERMO, Putzeys Alvarez


Ambassade du Guatemala, 73 rue de Courcelles
75008 Paris
FRANÇA

IMBERT, J.
12, place du Panthéon
75005 Paris
FRANÇA

JEREZ PRADO, Cristina


Perez de la Sala, 51 - 5. D 0

33007 Oviedo
ESPANHA

JABOUILLE, Victor
Rua Projectada à Av. D. Sebastião, 5, 703
2825 Costa da Caparica
PORTUGAL
52 LISTA DOS PARTICIPANTES

JESUS, Maria Saraiva de


Quinta do Olho d'Água, Bl. A9 _11. 0 Dt.o- Esgueira
3800 Aveiro
PORTUGAL

JORDÃO, Francisco Vieira


Urbanização da Quinta do Sobreiro, Lt. 7 - r/c Dt.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

JOURDAN, Pierre
Rua Correia Teles, 17
3000 Coimbra
PORTUGAL

JULIÃO, Maria de Fátima dos Santos Barbosa da Silva


Urbanização D. João, 27 _7.0 De
3000 Coimbra
PORTUGAL

JúNIOR, Manuel Alexandre


Rua A/B, Lt. 4 - V Esq.o
2745 Queluz
PORTUGAL

JUNQUEIRO, José Adelmo Gouveia Bordalo


Univ. de Aveiro - Dep. de Didáctica e Tecnologia Educativa
3800 Aveiro
PORTUGAL

KOCHANOWSKI, Vania Gila


Associat. Romano - Yekhipé, 20 rue Ortolan '
Paris
FRANÇA

LAGES, Elda Quintão


Pr. Almirante Reis, 18 - 1.0
2900 Setúbal
PORTUGAL

LEAL, Maria Celeste


Estrada da Buraca, 8
1500 Lisboa
PORTUGAL

LECLANT, J.
77, rue Georges-Lardennois
75019 Paris Cedex
FRANÇA
LISTA DOS PARTICIPANTES 53

LEMOS, Fernando José Patrício de


Calçada da Fonte - Igreja Nova
2640 Mafra
PORTUGAL

LÉRIAS, Graça Maria Miranda


Rua Tomás Ribeiro, 14 - Quinta do Meio
2900 Setúbal
PORTUGAL

LIMA, Maria Teresa Moya de Araújo


Rua António Bessa Leite, 1562 - 3.°
4100 Porto
PORTUGAL

LOPES, Fernando Alexandre de Matos Pereira


Bairro das Mesuras, Lt. 9 - 1.0 F
3500 Viseu
PORTUGAL

LOPES, Fernando Vieira


Casa Paroquial de Seroa
4590 Paços de Ferreira
PORTUGAL

LOPES, João de Oliveira


Faculdade de Letras
3000 Coimbra
PORTUGAL

LOPES, Maria Teresa Pestana


Rua Dr. Fernandes Martins, Lt. 3 - r/c Dt.O
3000 Coimbra
PORTUGAL

LOUREIRO, Ana de Melo


Rua António José de Almeida, 208 - Cave C
3000 Coimbra
PORTUGAL

LOURENÇO, Maria Esteves Ferreira


Rua da Fosforeira, lB
7700 Almodôvar
PORTUGAL

LUCAS, Maria Manuela


Av. Fernão de Magalhães, 470 - 3.°
3000 Coimbra
PORTUGAL
S4 LISTA DOS PARTICIPANTES

LUíS, Mário Helder José Gomes


Rua Vitorino Nemésio, 6 - 1.0
9500 Ponta Delgada
PORTUGAL

MACEDO, Isabel Maria Estelita de


Rua do Zaire, 129 - 1.0 Esq.o
4200 Porto
PORTUGAL

MACHADO, António da Purificação


Rua Padre Américo, 42 - 3.° Dt.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

MAIA, Clarinda de Azevedo


Rua Combatentes da Grande Guerra, 72 - 2.° Dt:
3000 Coimbra
PORTUGAL

MALÇA, Maria Alice Nogueira


Av. Calouste Gulbenkian, 107 - 2.° A
3000 Coimbra
PORTUGAL

MANTAS, Vasco Gil da Cruz Soares


Rua do Teodoro, 14 - 1.0
3000 Coimbra
PORTUGAL

MARGARIDO, Ana Paula Santana Rodrigues


Faculdade de Letras
3000 Coimbra
PORTUGAL

MARQUES, AntlÓnio de Figueiredo


Rua António Joaquim Araújo, 34 - 3.° E sq .o
2300 Tomar
PORTUGAL

MARQUES, António Soares


Fornos do Dão
3530 Mangualde
PORTUGAL

MARQUES, Arnaldo Lopes


Rua 1.0 de Dezembro, 63 B
2330 Entroncamento
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 55

MARQUES, Manuel Luís


Seminário do Varatojo
2560 Torres Vedras
PORTUGAL

MARQUES, Maria Alegria Fernandes


Inst. de História Económica e Social- Faculdade de Letras
3000 Coimbra
PORTUGAL

MARQUES, Maria Luísa Costa Sousa Ferreira


Av. 25 de Abril
3460 Tondela
PORTUGAL

MARQUES, Paulo Jorge Albernaz Leite


Largo Anselmo F. de Carvalho, 9
3460 Tondela
PORTUGAL

MARTINHO, Maria Cristina S. Carvalho Lopes


Rua Parto à Poeta Cavador, 17 - 3.° Dt.O
3780 Anadia
PORTUGAL

MARTINS, Isaltina das Dores Figueiredo


Prol. Av. Elísio de Moura, 99 - 2.° Di."
3000 Coimbra
PORTUGAL

MARTINS, Maria Helena Esteves Mendes


Rua Dr. Eustáquio Picciochi Garcia, 4 - 1.0 Di."
2330 Entroncamento
PORTUGAL

MARTINS, Norberto Manuel Marques Henriques


3720 Pinheiro da Bemposta
PORTUGAL

MARTINS, Paula Maria de Avelar Fernandes


Av. D. Afonso Henriques, 36 _1.0
3000 Coimbra
PORTUGAL

MATEUS, Daniel Mendes Ferreira


Escola C+S
3220 Miranda do Corvo
PORTUGAL
56 LISTA DOS PARTICIPANTES

MATOS, Albino de Almeida


Rua Dr. António José de Almeida, 155 - 2.°
3000 Coimbra
PORTUGAL

MATOS, Maria Adelaide Pereira Almeida


Rua Pedro Alvares Cabral, 57 - r/c B
6300 Guarda
PORTUGAL

MATOS, Paulo Manuel Vieira de


Alqueidão da Serra
2480 Porto de Mós
PORTUGAL

MEDEIROS, Walter de
Rua Infanta D. Teresa, 20 - 2.°
3000 Coimbra
PORTUGAL

MELLO-BREYNER, Sophia de
Travessa das Mónicas, 57 - 1.0
1100 Lisboa
PORTUGAL

MELLONI, A.
Istituto per le scienze religiose- via S. Vitale, 114
40125 Bologna
ITALIA

MELO, Gladstone Chaves de


Rua Cosme Velho, 354, C.lO
22241 Rio de Janeiro
BRASIL

MENDES, Ana Bela Martins de Almeida


Rua Mário Augusto Almeida, 25 _1.0 Esq." - B.o N. de Matos
3000 Coimbra
PORTUGAL

MENDES, Dulce Geraldes


Av. Dias da Silva, 101
3000 Coimbra
PORTUGAL

MENDES, Maria Manuela Teixeira de Sá


Rua do Flower, 130 - Canidelo
4400 Vila Nova de Gaia
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 57

MENDES, Maria Teresa Sousa


Transv. Poente à Rua J. Sotto Mayor, 2" 2.° D
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL

MINGUET, C.
Univ. de Paris X" Nanterre "200, rue de la République
92001 Nanterre
FRANÇA

MIRANDA, Maria Margarida Lopes de


Bairro de S. José, 2
3000 Coimbra
PORTUGAL

MOITA, João Gonçalves


Rua da Escola Primária, 17" 3.° Dt.O
2800 Cova da Piedade
PORTUGAL

MONTEIRO, António Amaro


Quinta da Fonte, Lt. 2" 3.° Esq .o
3000 Coimbra
PORTUGAL

MONTEIRO, Ofélia Paiva


Rua Dr. José Alberto dos Reis, 98
3000 Coimbra
PORTUGAL

MONTEMAYOR, C.
Alumnos, 14" Dpto. 17" CoI. San Miguel Chapultepec
11850 Mexico D. F.
MÉXICO

MORAIS, Carlos Manuel Ferreira


Rua da Igreja, 42" Serzedo
4405 Valadares
PORTUGAL

MORUJAO, Maria do Rosário Barbosa


Rua Pinheiro Chagas, 16" 3.°
3000 Coimbra
PORTUGAL

NASCIMENTO, Aires Augusto


Av. Visconde de Valmor, 56
1000 Lisboa
PORTUGAL
58 LISTA DOS PARTICIPANTES

NASCIMENTO, Jaime Pereira


Estrada de Alapraia - Quinta de St." Teresinha, Lt. 8
2765 S. João do Estoril
PORTUGAL

OLIVEIRA, Francisco de São José de


Rua Padre Américo, 42 - 2." Esq.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

OLIVEIRA, Maria de Fátima Henriques


Rua José Henriques Coelho, 7 - 6.° F
2780 Paço d'Arcos
PORTUGAL

OLIVEIRA, Maria Fernanda Soares de


Rua Padre Américo, 42 - 2.° Esq."
3000 Coimbra
PORTUGAL

OLIVEIRA, Maria de Lourdes Nunes Flor de


Rua Pascoal de Melo, 67 - r / c
1000 Lisboa
PORTUGAL

OSÓRIO, Alberto Cerqueira Caldeira


Rua de Angola, 67 - 1."
3000 Coimbra
PORTUGAL

OSÓRIO, Jorge Alves


Rua Paula Vicente, 31
4400 Vila Nova de Gaia
PORTUGAL

PAIXAO, José António de Carvallio


Beco do Capitão - Cruzes - S. Martinho do Bispo
3000 Coimbra
PORTUGAL

PASCUCCI, G.
17 via Pier Capponi, I
50132 Firenze
ITALIA

PATO, Maria Cremilde


Rua João Pinto Ribeiro, 11- r/c Esq ..
3000 Coimbra
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 59

PATRÃO, Helena Maria da Mota Barbosa


Rua do Cruzeiro, 128 - 2.° A
3720 Oliveira de Azeméis
PORTUGAL

PATRíCIO, Maria de Lurdes da Costa Henriques


Pr aceta Fernando Alcobia, 10 - 2.° Esq.o
2900 Setúbal
PORTUGAL

PEREIRA, Artur Pais


Largo da Luz, 11
1699 Lisboa Codex
PORTUGAL

PEREIRA, Belmiro Fernandes


Quinta do Carramona, D-23 - r/c Dt.O
3800 Aveiro
PORTUGAL

PEREIRA, Maria Helena da Rocha


Faculdade de Letras
3000 Coimbra
PORTUGAL

PEREIRA, Maria Isabel Valente


Escola Secundária Adolfo Portela
3750 Agueda
PORTUGAL

PEREIRA, Marta Isabel de Oliveira Várzeas Seabra


Rua António Jardim, 103 -Lo
3000 Coimbra
PORTUGAL

PEREIRA, Miguel Baptista


Faculdade de Letras
3049 Coimbra Codex
PORTUGAL

PEREIRA, Teresa Maria Bettencourt


Rua Rio de Janeiro, 3-A A
9000 Funchal
MADEIRA

PEREIRA, Virgínia Soares


Av. D. Afonso Henriques, 863 - 8.° Dt.o Trás
4450 Matosinhos
PORTUGAL
60 LISTA DOS PARTICIPANTES

PEREIRA PINTO, José Nuno


Rua Fradique Morujão, 145 - Senhora da Hora
4450 Matosinhos
PORTUGAL

PERICAO, Maria da Graça


Biblioteca Geral
3049 Coimbra Codex
PORTUGAL

PINHO, Jorge Manuel Tomé Martins de


Rua Dr. Luís Carrisso, 12· 2.° De
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL

PINHO, Sebastião Tavares de


Ladeira do Seminário, 5 - c/v
3000 Coimbra
PORTUGAL

PINHO DA CRUZ, Maria da Graça G. Mendes


Av. Camilo de Matos, 102 - 2.°
3730 Vale de Cambra
PORTUGAL

PINTO, Clotilde dos Anjos Cardoso Machado Correia


Rua Fernandes Tomás, 308 - 4.° D
4000 Porto
PORTUGAL

PINTO, Isabel Maria dos Santos


Rua Conselheiro Santos Viegas, 137
4760 Vila Nova de Famalicão
PORTUGAL

PIRES, Isabel Maria Gomes


Rua de Moçambique, 5 - 2.° Dt.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

PISSARREIRA, Augusto
Av. Bombeiros Voluntários, 35 - 2.° Dt.o - Algés
1495 Lisboa
PORTUGAL

POESCHL, V.
Seminar fur Klassische Philologie, Marstollhof
6900 Heidelberg
R. F. ALEMANHA
LISTA DOS PARTICIPANTES 61

PONTES, Maria do Rosário Gomes Nogueira


Faculdade de Letras do Porto - Rua do Campo Alegre
4000 Porto
PORTUGAL

PORTUGAL, Maria Antónia Alegre


Av. Afonso Henriques, 7
3000 Coimbra
PORTUGAL

PORTUGAL, Maria Teresa Alegre


Av. Afonso Henriques, 7
3000 Coimbra
PORTUGAL

PRATA, Rosa Maria da Silva Sardo


Bairro Novo - Azurva
3800 Aveiro
PORTUGAL

PRAZERES, Maria Augusta Óliveira


Rua Heróis da Pátria, 56 - Miramar
4405 Valadares
PORTUGAL

PULQUÉRIO, Manuel de Oliveira


Rua Frei Tomé de Jesus, 7 - r/c Esq.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

QUINTAL, Graça Maria de Jesus


Rua de Diu, 356
4465 S. Mamede de Infesta - Matosinhos
PORTUGAL

RAMALHO, Américo da Costa


Rua António Nobre, 4 - 1.0
3000 Coimbra
PORTUGAL

RAMOS, Esperança do Céu Simões Peixinho


Quinta do Carramona, 27 - 4.° Esq.o
3800 Aveiro
PORTUGAL

REBELO, António· Manuel Ribeiro


Largo da Sé Velha, 18 - 2.° F
3000 Coimbra
PORTUGAL
62 LISTA DOS PARTICIPANTES

REGEDOR, Maria Enúlia Marques Gomes


Av. Dr. Elísio de Moura, 417 - 5.° B
3000 Coimbra
PORTUGAL

REIS, Lillian Santos


Urbanização do Salgueiral, lO-B
4800 Guimarães
PORTUGAL

REIS, Manuel Augusto da Encarnação


Urbanização do Salgueiral, 10-B
4800 Guimarães
PORTUGAL

REIS, Maria Augusta Geraldo Pires Tavares dos


Praceta R. Falcão de Resende,!- r/c
3000 Coimbra
PORTUGAL

REIS, Pedro José da França Pinto dos


Rua do Brasil, 277
3000 Coimbra
PORTUGAL

REIS TORGAL, Luís Manuel Soares dos


Faculdade de Letras
3000 Coimbra
PORTUGAL

RIBAS, Tomaz
Gabinete de Etnografia - Inatel- Calçada de Santana
1000 Lisboa
PORTUGAL

RIBEIRO, Cristina de Lurdes Soares


Av. Dr. António José de Almeida, 412 _1.0 Esq.o
3500 Viseu
PORTUGAL

RIBEIRO, Maria Aparecida


Ladeira do Seminário, 5 c/v
3000 Coimbra
PORTUGAL

RIBEIRO, Maria Manuela de Bastos Tavares


Trav. Alberto de Oliveira, 6 - 2.° Dt.o
3000 Coimbra
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 63

RISCADO, Maria Leonor Crespo Ramos


Rua General Humberto Delgado, 82 _7.° C
3000 Coimbra
PORTUGAL

ROCHA, Maria Dália de Matos Ribau Cerqueira da


Travessa do Mato, 21 - 1.0 Dt.o
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL

RODRIGUES, Alice Correia Godinho


Arquivo da Universidade de Coimbra - Rua de S. Pedro
3000 Coimbra
PORTUGAL

RODRIGUES, Filomena Maria de Matos Ala


Rua dos Combatentes da Grande Guerra, 188 - r/c Esq.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

RODRIGUES, Lucinda dos Santos Ribeiro Manso Tavares


Av. Dias da Silva, 162 - 3.° B
3000 Coimbra
PORTUGAL

RODRIGUES, Manuel Augusto


Arquivo da Universidade de Coimbra
3000 Coimbra
PORTUGAL

RODRIGUES, Maria Alcida Barbosa Leão Campos


R. E. - Av. Bissaia Barreto, 22 - 2.°
3000 Coimbra
PORTUGAL

RODRIGUES, Maria Manuela


Rua Luís de Camões, 29 - 2.°
3000 Coimbra
PORTUGAL

ROSA, Leonel Melo


Rua Sebastião Magalhães Lima - Torre 5 - 1.0 A
3800 Aveiro
PORTUGAL

SA, José António


Rua Cândido Guerreiro, 4 _1.0 Esq ..
1000 Lisboa
PORTUGAL
64 LISTA DOS PARTICIPANTES

SACADURA, Amílcar Alexandre


Rua Manuel Mendes, 37 - 1.0
3800 Aveiro
PORTUGAL

SALDANHA, Maria Cesarina B. E. Branco


Rua Direita - Benfica do Ribatejo
2080 Almeirim
PORTUGAL

SANTANA, Maria Helena


Rua Instituto Maternal,l - 2.°
3000 Coimbra
PORTUGAL

SANTOS, Custódio Lopes


Univ. Católica Portuguesa (Centro 'R egional de Viseu)
3500 Viseu
PORTUGAL

SANTOS, Joaquim 'José Moreira dos


Codal
3730 Vale de Cambra
PORTUGAL

SANTOS, M. Alvaro dos


3070 Mira
PORTUGAL

SANTOS, Maria Fernanda Guimarães


Espargo
4520 Feira
PORTUGAL

SANTOS, Maria Helena Duarte


Quinta de S. Nicolau
3000 Coimbra
PORTUGAL

SANTOS, Maria Margarida Moreira Aives dos


Rua Padre Afonso Soares, sln.o
4490 Póvoa de Varzim
PORTUGAL

SANTOS, Maria Olinda Alves dos


Rua Dr. Nogueira de Carvalho, 1- rlc
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 65

SCHEIDL, Ludwig Franz


Faculdade de Letras
3000 Coimbra
PORTUGAL

SCHILLING. R.
20, rue d'Oslo
67000 Strasbourg
FRANÇA

SEABRA, José Augusto


Délégation Permanente du Portugal aupres de l'UNESCO
1, rue Miollis
75732 Paris Cedex 15
FRANÇA

SEABRA, Maria Judite de Carvalho Ribeiro


Rua Padre Estêvão Cabral, 72 - 5.° Dt.o
3000 Coimbra
PORTUGAL

SEGALA, A.
5, rue Chabanais
75002 Paris
FRANÇA

SEGORBE, Isabel
Rua Prof. Dr. José Alberto dos Reis, 138 - 4.° E
3000 Coimbra
PORTUGAL

SEMEDO, Alice Lucas


Rua Afonso Costa, 106
7750 Mértola
PORTUGAL

SENGHOR, L. S.
1, Square Torqueville
75017 Paris
FRANÇA

SEQUEIRA, Serafim
Praceta do Montebelo, 10 _1.0 Dt.o
2900 Setúbal
PORTUGAL

SERAFIM, Eduardo Rui Pereira


Rua Maria e Oliveira, 25 - Vestiária
2460 Alcobaça
PORTUGAL

5
66 LISTA DOS PARTICIPANTES

SERRA, José Pedro


Av. do Restelo, 24
1400 Lisboa
PORTUGAL

SEVERINO, E.
Via Antonio Callegari
25121 Brescia
ITALIA

SILVA, AdíUa Alarcão


Museu Monográfico de Conimbriga
3250 Condeixa
PORTUGAL

SILVA, Ana Cristina Rui L. Almeida de Lacerda e


Av. Dr. António José de Almeida, 220 - 5.° A
3500 Viseu
PORTUGAL

SILVA, Ana de Jesus de Olazabal Correia da


Calçada de Santo Amaro, 112 - 5.°
1300 Lisboa
PORTUGAL

SILVA, António Jorge


Rua Comandante Sacadura Cabral, 22
3000 Coimbra
PORTUGAL

SILVA, Celina
Rua da Restauração, 239 _1.0
4700 Braga
PORTUGAL

SILVA, Helena Maria A. Correia da


Rua Nova da Bolsa, Bl. E - 2.° C
3500 Viseu
PORTUGAL

SILVA, Lino Moreira da


Rua de Santa Maria, 86
4800 Guimarães
PORTUGAL

SILVA, Maria de Fátima Sousa e


Prolongo da Av. Elísio de Moura, 99 - 3.° Dt.o
3000 Coimbra
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 67

SILVA, Maria de Lourdes Dias da


Couraça de Lisboa, 39A - 2.°
3000 Coimbra
PORTUGAL

SILVA, Maria Margarida P. P. Brandão Gomes da


Rua Mendes dos Remédios, Lt. 3 - 2.° Dt.O
3000 Coimbra
PORTUGAL

SILVA, Vanda Maria Victor


B.0 Caixas de Previdência, Bl. C-1-7.0 Esq.o - B.0 N. de Matos
3000 Coimbra
PORTUGAL

SOARES, Carlos Martins


Rua de Angola, 36 - 2.° Di."
2735 Cacém
PORTUGAL

SOARES, João Silva


Rua de Santa Catarina, 16 - 1.0
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL

SOARES, Maria Luísa de Castro


Bairro Norton de Matos, H. E. Bl. B-2 _7.° Dt.O
3000 Coimbra
PORTUGAL

SOARES, Nair de Nazaré de Castro


Prolongo da Rua Pedro Álvares Cabral, Lt. C - 3.° B
3000 Coimbra
PORTUGAL

SOBRAL, Maria Clara Andrade de Lemos


Ladeira das Alpenduradas, 48
3000 Coimbra
PORTUGAL

SOTTOMAYOR, Ana Paula Quintela Ferreira


Rua do Breiner, 102 _1.0
4000 Porto
PORTUGAL

SOUSA, Maria José Mendes d'Almeida e


Rua Jorge Colaço, 16 - 3.° Dt.o
1700 Lisboa
PORTUGAL
68 LISTA DOS P ARTICIPANTES

TANNUS, Carlos António Kalil


Rua Prudente de Morais, 101 - Apt. 102
C. E. P. 22420 Rio de Janeiro
BRASIL

TAVARES, António Augusto Rodrigues


Domus Amicis Alpolentim - Terrugem
2710 Sintra
PORTUGAL

TEIXEIRA, Maria Odete Sampaio de Almeida Nunes


Av. Gaspar de Lemos, 17 - 2.0 Esq.o
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL

TENGUY
20, rue Ortolan
Paris V
FRANÇA

TERRA, Isabel
Rua dos Combatentes, 100 - 6.°
3000 Coimbra
PORTUGAL

THEMUDO, Marina Ramos


Prol. Rua P. Alvares Cabral, Lt. C - 6.° E - B.0 Norton de Matos
3000 Coimbra
PORTUGAL

THOMPSON, L.
Department of Classics - Univ. af Ibadan
NIGERIA

TIQUE, Rosalina Maria Caeiro


Bairro das Condeixeiras, 7 - 3.° E
3000 Coimbra
PORTUGAL

TORRA.O, João Manuel Nunes


Faculdade de Letras
3000 Coimbra
PORTUGAL

TORRES, Amadeu
Faculdade de Teologia
4700 Braga
PORTUGAL
LISTA DOS PARTICIPANTES 69

TRIGO, Salvato
Rua Clube dos Caçadores, 648
4400 Vila Nova de Gaia
PORTUGAL

TSAGARAKIS, O.
University of Crete
Hellas
GRÉCIA

URE:NA PRIETO, Maria Helena Dinis de Teves Costa


Rua José Lins do Rego, 26 - 4.° De
1700 Lisboa
PORTUGAL

VARGUES, Isabel Nobre


I. H. T. I. - Faculdade de Letras
3000 Coimbra
PORTUGAL

VAZ, Maria Odette


Av. Gaspar de Lemos, 13 - 2.° Dt.O
3080 Figueira da Foz
PORTUGAL

VAZ, Maria Teresa da Silva


Eiras (Farmácia)
3000 Coimbra
PORTUGAL

VAZ, Virgínia Gabriel


Rua José Bento Costa, 9 _l.0 Esq.o- Portela
2710 Sintra
PORTUGAL

VELOSO, Aida Maria Lima Medeiros Marques


Rua Prof. Narciso Costa, 19 - Lt. 25 - 2.° A
2400 Leiria
PORTUGAL

VENTURA, José Manuel Rodrigues


R. Ten. Cor. Alfredo P. Conceição, 4
2330 Entroncamento
PORTUGAL

VENTURA, Zélia Sampaio


Instituto de Estudos Clássicos - Faculdade de Letras
3000 Coimbra
PORTUGAL
70 LISTA DOS PARTICIPANTES

VERtSSIMO, Maria Manuela Franco


Av. Dias da Silva, 115.1.° Dt.O
3000 Coimbra
PORTUGAL

VIANA, Maria Mafalda O. Melo NWles


Rua Egas Moniz, 255
2775 Parede
PORTUGAL

VIDAL, António Dias da Silva


Rua António Luís Gomes
3720 Oliveira de Azeméis
PORTUGAL

VIEIRA, Eudoro dos Santos


Bairro Santa Sofia, Lt. 19.5.° B
2600 Vila Franca de Xira
PORTUGAL

VIEIRA, Isabel Maria Rodrigues Coelho


Rua Armando Ramos, 4
Quatro Estradas
PORTUGAL

VILHENA, António Mateus


Rua Ten. Jean Raymond, 16.3.° E
2900 Setúbal
PORTUGAL

VIZEU, Margarida Maria Salazar A.


Prol. Rua Verde Pinho, 17· r/c Dt.o
3000 Coimbra
PORTUGAL
sEsslo DE ABERTURA
/

SEANCE D'OUVERTURE
(Página deixada propositadamente em branco)
(Página deixada propositadamente em branco)
ALOCUÇÃO DA PRESIDENTE DA COMISSÃO EXECUTIVA

PROF.' DOUTORA MARIA HELENA DA ROCHA PEREIRA

Senhor Presidente da ~epúbli'Üa


Senhor Presidente Léopold Sédar Senghor
Senhor EmbaiX!ador de Portugal na UNESCO
Senhor Reitor da Universridade de Coimbra
Senhor Director-Geral do Emsino Superior, em representação do
Senhor SecI'etário de Estado do Ensmo Superior
Senhor Presidente da União Latina
Senhor Presidente do Instituto de Cultura. e Língua Portuguesa
Senhor P,r esidente da Assoc:iation Archives du xxe Siecle
Exoe1entísSÍlInaJS Autoridades
Senhores Congressistas

É meu grato dever saudar, na qualdood.e de Presidenrte da Comi,s são


Executiva, as altas autoridades que nos ,demtm a honra da sua pre-
sença, e entre esrtas seja"me peiI1m.i1Üida UIIl1a pa:1av,r a especial de admi-
ração e respeito pelo Senhor }>ireSlÍdente da Repúblioa, que, com a sua
vmda ,a té nós, sublinha a dimensão nacional des,t e aoto de cultura;
outm ainda para o P'oosidente Léopold Sédar Senghor, o grn.nde ilIlspi-
rador deste Congresso, ele meSllIlJ() notável CU/lúor ,das hUlIl1anidades
greco-Iartrlnas e paradigma, oom a sua .acção e o seu exemplo, daquele
ideal de universalddade que será o Lema dos noSlSOS trabalhos desta
semana.
Qu~semos que este nos's o encontro decorres'se sob o signo do uni-
versal, lançando os olhos para o passado com a 'mna1idade de 'a quilatar
do seu enraizarrnento no presente e da sua projecção no futuro. Efecti·
vamente, se a cultum greco-I,a't1na sobrevive há qutalSe três miléruios,
é porque merece sobreviv,e r. Não ,i móvel e ,i:1ossi!lii mda, oomo pensam
74 SESSÃO DE ABERTURA

algums, mas enriquecendo-se no contacto com out,r as formas de saber,


e assim se transformando, como é próprio do ser vivo.
A grande transformação começou, como todos sabem, na era dos
desoobrimentos, e operou-se numa Europa renascentista toda imbuída
do saber reencontrado da Antiguidade. Esse afeiçoar da antiga à nova
mundividência exprime-se de forma magnífica num poema' como Os
Lusíadas, que se desenro,l a na perspectiva de um desafio constante
entre a virtus dos antigos e a dos portugueses . O que se passa no plano
literário tem paralelo na ciência, e aqui também peço vénia para
apontar outro exemplo nacional, o livro de um amigo de Camões,
Garcia de Orta, que havia de alargar a medicina pelas plantas, iniciada
por Dioscórides, à profusão de novos simples e drogas que a sua perma-
nênc1a no Oriente dia a dia revelava ao seu espírito observador e arguto.
Os seus Colóquios apresentam-se como uma tensão contímua entre o
saber de um interlocutor enldito e livresco, Ruano, e o do próprio
autor, que lhe oontrapõe a nov.a experiência: «Não me ponhais medo
com Dioscórides nem Galeno, porque não hei-de dizer senão a verdade».
E, mais adiante, de roI1ma ainda mais incisiva: ({A tudo vos responderei:
digo que se sabe mais em um dia agora pelos POTtugueses do que se
sabia em cem anos pelos Romanos». Quem lesse só estas frases julgaria,
equivocamente, que os Colóquios dos Simples e Drogas, que, quando
difundidos em versão latina, deles derivados, haviam de alcançar
audiência universal, abjuravam definitivamente do saber antigo. Não
é assim. Todo o conhecimento é confrontado com o das fontes greco-
-latinas Ce árabes também), que é ponto de partida e aferição de
qualquer novidade que se apresente. Aliás, era esta a tendência geTal,
que o mesmo Garcia de Orta deixa entrever, ao referir, com inegável
simpatia, aquele Visorei da índia que, «muito curioso de saber, e posto
que não sabia latim, em toscano erutendia Plínio» . Eram ainda as
desorições e informações dos antigos que procuravam lugar mos novos
mapas, e é curioso registar a preocupação com que, em 1502, o fiamoso
e iII1fluente planisfério dito de Cantino colocava a legenda «Taprohana»
sobre a ilha de Ceilão, enquanto algUll'1s autores quinhe!OJt,i s,t as discutiam
se a Taprobana de Plínio era aquela ilha ou antes Samatra - Samatra,
já às portas do Pacífico __ ,
As novas terras haviam de ser motivo de uma curiosidade sempre
renovada, que deixou a sua marca em dezenas ou mesmo centenas de
livI'Os, Repetia-se então, à escala planetária, o que os historiógrafos
gregos tinham feito no decurso dos séculos VI e V a. C. O motivo é
sempre o mesmo: a humana sede de saber. Registam-se usos, crenças,
SESSÃO DE ABERTURA 75

línguas desconhecidas. Nem tudo é feito sob o signo da tolerância e


da compreensão. Mas um vasto contributo positivo veio alargar e caldear
o saber do velho mundo.
Este processo, que durou séculos, não está ainda concluso. Mas
desse conglomerado cultural chegou até nós uma herança que devemos
continuare haI1lTlonizar. É esse desejo que nos congrega aqui, em espí-
rito de interdisdplinaridade, em que conviverão classicistas com filó-
sofos, juristas, musicólogos.
Um acto de reflexão em comum durante os dias desta semana, em
que tomarão a palavra especialistas de diversos países e continentes,
desde o México ao Japão, desde a Alemanha à Argentina, ao Togo e ao
Senegal. Quisérarmos que ainda fossem mais. Por razões de vária ordem,
não puderam vir o representante dos Estados Unidos (que, no entanto,
mandou uma comunicação que vai ser lida), o da Inglaterra, da Espanha,
da Colômbia e da Nigéria (onde a tradição olásls ica é suficientemente
forte para nela se publicar a revista Museum Africum). Mesmo assim,
estão presentes doze países, pertencentes à Europa, Africa, Asia e Amé-
rica. De todos esperamos uma colaboração frutuosa, um diálogo fecundo
que nos aproxime cada vez mais.
Quero ainda saudar, muito calorosamente, os Congressistas que
aqui aoorrel1am em tão elevado número, vindos dos mais variados
pOl1Jtos do n0'sso País, quer do continente, quer das ilhas. E quero
agmdeoer-vos o acto de oonfiança que a vossa presença significa.

J'ajoute maintenant quelques mots de salutation à l'adresse des


participants de l'a ngue étrangere, qui sont accourus nombreux à notre
appel. C'est un plaisir et un honneur de vous avoir ici, et j'ose espérer
que, quaud vous rentrerez dans vos pays, vaus remporterez un souvenir
agréable de votre court séjour parrni nous, dans ceUe ville remplie
de monmnents historiques, à l'ombre d'une des universités les plus
anóennes du monde.
(Página deixada propositadamente em branco)
ALOCUÇÃO DO PRESIDENTE DO CONGRESSO
PRESIDENTE LlWPOLD SÉDAR SENGHOR

Monsieur le Président de la Répuhlique,


Messieurs les Am:bass,a deurs,
Monsieur l'e Recteur,
Mesdames, Mes,s ieurs les Profes's eurs,
Mesdames et MessieuI's,

Je voudrais, taut d 'abord et ab imo pectore, remercier le Président


Má'r io Soares d'honorer de sa presençe l'inauguration soleIllI1elle de notI'e
Congres dans l'enceinte d'une des universités les plus prestigieuses
d'Europe, qui, depuis 700 ans, à recueilli et fécondé l'héritage des
humanités gréco-Iatines. Cest grâce à son sans de l'Histoire et à sa
fidele amitié que nous avons pu résoudr,e les problemes complexes
posés par l'organisation de ce Congres, aloI's que d'autres pays latins
n'ont pas su peI'Cevoir, pour l'avenir de notre Civilisation, l'enjeu des
themes proposés.
C'est aussi 1e moment de rendre un hommage particulier à la vision
prospective et à l'acHon, effioace et persévérante, déployée par l'Ambas-
sadeur du Portugal aupres de l'UNESCO, Monsieur 'J osé Augusto Seabra.
Celui-ci s'est fait [lotre interprete vigHamrt, d'abord, aupres de Monsieur
Cavaco Silva, Premier Ministre, ensuite, aupres des Ministres des
Affaires Étrangeres et de l'Éducation. Je n'oublierai pas la compréhen-
sion et l'appui concretque de hauts responsables du Gouvernement
portugais nous ont donnés à travers notamment l'LC.A.L.P. et l'I.N.I.C.
78 SESSÃO DE ABERTURA

Evidemment, rien n'aurait été possible sans l'adhésion et la parti-


cipation de l'Université de Coimbra ni surtout de Madame da Rocha
Pereira, Président du Conseil Scientifique, que je tiens à remercier
personnellement pour son aotion, discrete et savante, aussi bien dans
la définition des themes du Congres qu'en ce qui concerne son orga-
nisation matérielle.
Je ne voudrais pas passer sous silence la participation tres impor-
tante de la Fondation de Almeida de Porto et de la Fondation luso-
brésilienne de Lisbonne aux charges de ce Congres. C'est ainsri que
nous avons pu recueilHr les analyses de nombreux spécialistes venus
du monde entier et appartenant aux disciplines les plus diverses.
Last, but not least, le Président que je suis n'aurait pu réunir ce
Congres si les grandes aides que voiJlà et d 'autres, v,e nues d'Europe,
d'Amérique et d'Afrique, n'avaient pas pu être susdtées, organisées
par le Professeur Amos Segala, le SecrétaJire général de l'Association
Archives, et le Professeur Robert Schilling, un des plus grands latinistes
de France.
Vouz le savez, la bataille n' est pas perdue, encore que nous soyons
loin, aujourd'hui, des années d'apres la Premiere Guerre mondiale.
Alo'r s, dans des pays développés, à commencer par l'Europe occiden-
tale, pour fonner d'honnêtes gens, c'est-à.dire des hommes de oulture,
on enseigna·i t, dans les écoles secondaires, les Studia humanitatis: les
humanités gréco-Iatines . Et cela même en Afrique, il faut le souligner.
11 est vrai que, depuis 10rs, exactement depuis la Deuxieme Guerre
mondiale, on avait constaté, même dans les pays latins d'Europe et,
naturellement, chez les Latino-Américains, un recul de l'enseignement
du latin et du grec. A y réfiléohir, ce dédain était du essentiellement à la
plus grande place qu'occupaient, daoJis la vie des hommes, les sdences
et les techniques. Paradoxalement, c'est le développement de celles-ci,
mais surtout leurs applications dans les servires, d'un mot dans la vie,
qui est en train de donner un nouvd élan aux Humanrités gréco4atines.
Le cas des f.tats Unis d'Amérique est, à cet égard, révélateur.
Quand, dans les années 1970, j'ai été fait docteur honoris causa de
Harvard, la doyenne 'des universités d'U.S.A., son Président m'a expliqué
la raison pour laquelle l'enseignement du latiu, mais surtout du grec,
avait beaucoup progressé depuis la fin de la Deuxieme Guerre mondiale.
«C'est, m'a+il précisé, qu'en développant l'imagination, ,l'enseignement
du grec permet de mieux fOJ:1mer de bons businessmen». C'est pour
des raisons semblables ou, mieux, complémentaires que les éleves de
l'enseignement secondaire choi·s issent la section olassique, qui a, depuis
SESSÃO DE ABERTURA 79

quelques années, augmenté dans un pays comme la France, sans oublier


l'Afrique fnmcophone. Je vous renvoie à l'artide qui signalait le fait
dans le journal Le Figaro du 14 aout 1987. Ce n'est pas par hasard si l'on
constate, dans les pays francophones d'Afrique, un phénomene sem-
blable. C'est ainsi qu'en son temps, il y a quelques années, l'assemblée
des év.êques de l'Afnique de l'Ouest franoophone a rendu obligatoire,
dans les sémmaires, l'enseignement du latin et du gI1ec.

*
* *

Rlappelés, pour commencer, ces faits significatifs, H nous reste à


en chercher les raisoos profondes. Nous les trouverons, par de là les
faits grammaticaux et stylistiques, dans le génie prorfond des peuples
latiu et grec. Pour cela, il nous faut remonter l'mstoire jusqu'aux siecles
d'avant notre ere, ou l'Empire romain s'étendait, du Nord au Sud,
depuis le milieu de la GeI1manie jusqu'au sud de l'Egyp1le et, de l'Ouest
à l'Esrt, depuis l'Océan Atl,a ntique jusqu'à l'Arabie Pétrée.
Que l'on se gaI1de surtout d'exolure de cet Bmpire rom ain , avec
toutes ses conséquences, l'AfI1ique. C'est le moment de vous rappeler
les deux écoles oulturelles qui ont joué un rôle si important dans les
Humanités gréco-latines: l'école grecque d'Alexandrie avec Plotin, du
lHe siecle apres J. C., et l'école latine d'Rippone avec Saint-Augustin,
au IVe siecle apres J. C. Déjà, ces deux écoles, avec leurs apports
mystiques africains, apport,a ient, une fois de plus la 'contribution du
oontinent noir à la Civilisation de l'Universel.
Or donc, dans cet Empire I1omain, Ílmmense pour l'époque, ou se
cotoya~ent des Européens, des Africainset des Asiatiques, le latin était
la langue de l'Administration. Mais, et cela mérite d'être souligné, les
hommes de culture s'écrivaient en grec. Rien n'est plus significatif
à cet égard que ,l a traduotionde la Bible. En effet, c'est aux IHe·IP siecles
avant J. C. que la Bible a été traduite de l'hébreu en grec, d'une langue
sérnirtique en u:ne langue albo-européenne. J e vois, dans oette traduction
et pour l'histoire de la civilisation humaine, UJll fait majeur. C'est qu'à
tmvers 1e grec, l'âme, la spiritualité des civilisations sémitiques est
passé aux peuples grec et latin, puis, à travers eux, aux peuples albo·
européens, puis, siecle apres siecle, à tous les continents de notre
planete Terre. Ce n'est pas tout, le style sémitique de La Bible, fait de
répétitions qui ne se I1épet,e nt pas, comme j'aime à le dire, aHait modi-
80 SESSÃO DE ABERTURA

fier le style et, partant, -l a s)llIl'taxe du gree PUtS du latin o En effet, e'est
au IV e siecle ~pres J. C. que la Bible fut tradui-t e du gree en latim par
Saint-Jérôme et devint la Vulgate.
C'est aim:si que les deux langues classiques que voilà sont devenues
capables de tout traduire: depu is les mathématiques et la pensée la
plus abstraite jusqu'aux sensations les plus subtiles et les pures effu-
sians de l'âme.
Paur revenir aux peuples latm et gree, je voudrais montrer com-
ment, à traveJ:1S Ietl.TS Il angues, pertectionmées de -s iede en siecle, ils ont
développé cet esprit de méthode et d'organisation qui, en cette fin du
XXC sliecle, constitue l'appoI1t majeur de l'Erurope, plus préoisément de
l'Euramérique, à la Civilisat,i on de l'Universel. RaPlpelez-vous la phrase
du pI1ési,dent de l'Université de Harvard que je VIOUS ai citée plus haut.
Je voOudmis y ajoUJter la fameuse phmse d'Aristote, lJirée de l'Ethique
à Nicomaque: «II y a dOI1Je ,tI'Ois facUiLtés qui [lOUS permettent de con-
naj,tre et d'agir: la sensibi,Hté (aisthésis) , la raison (nous) et le désir
(orexis)>>. Je sai,s qu'en général, les professeurs traduisent Je moOt gree
orexis par «volonté». En vérité, e'es,t une imemprétation à I'européenne ,
et c'esrt là son intérêt, qui fait du désir l.liI1e volonté. Une autre interpré-
tation, fameuse, mais dans 1e même -SeI1!S, est oeLle de René Descartes.
Dans une de ses Méditations metaphysiques, .Ia sensibilité, la raison
et .J.e désir sont devenus, sous sa oplume frél[}çaise, «le penser, Je vouloir
et le sentir». C'est dire que DescaI1tes, -l,e oPere du rationalisme, a mis l-a
raó.son à la prem:iere pIare et la sensibilité à ladern1ere tout en réif,iant
le «désir» en «vouloir». Pour revenk aux grecs, ,l eur mér1ite a été, entre
le VIle et le ve siecle avant J. C., d'aHer prendre, des ma!Í.ns des
Egy.ptiens, le flambeau de la oiviHsatian hllil1lJaline. Je songe à d'illustres
voyagetuI1S OOIffiIffie Platon, le pmlosophe, Thales, le mathématicien,
Budoxe, l'astronome, .sans oub1ier Hérodote, le opere de I'Hi's toire. C'es,t
ainsi qu'ils om ajouté la sensibi:lité afr1ioaine à la ,r aisonalbo-européenne.
Comme le prouveIllt les veI1ttliS de lear langue, que nous allons maim-
tenant essayer de définir avec les quaHtés de la langue lavine.
La premiere q'1la1ité de la langue greoque est la -I1ichesse nuancée
de san vocabUilaiTe. Pamdoxalement, on Je doi>t, en gmnde paI1tie, aux
sophistesoomme Protagoras et Prodicos, qui ont beaucoup enrichi la
langue, mais -surtOUlt ,e n oTIJt f.ait la langue la plus precise du mOIlide.
II suffit, pour s'en convairncre, de cornparer Jes deux diotrionnai'r es
«Grec-Français» par Anatole BaHly et «Latin-Français» par Félix Gaffiot.
Le premier a 2.300 pages quand le seoond, ma:1gI1é ses ,iJhl.ustratiOIl!s, m'en
comporte que 1.702. n s'y ajoute, etce [l'est pas Je moins !important,
SESSÃO DE ABERTURA 81

que nombre de mots latins, simples, mais surtout composés, sont em-
pruntés du grec. Et c'est, le plus souvent, l'emprunt, non d'un mot,
voire d'une racine mais d'un affixe, c'est-à-dire d'un préfixe, infixe ou
suffixe. Depuis qu'avec le dévdoppement des scienoes et techniques,
l'Europe, puis l'Amérique sont, au XIxe siecle, entrées dans l'ere
industriel1e, ces emprunts sont de plus eu plus courants. Je n'en veux
pour preuve que la liste des néologismes techniques que le Ministre
français des Postes et Télécommunications m'a adressée l'an dernier.
Le document est d'autant plus intéressant qu'à côté des mots français,
iI y ales mats anglo-américains. II reste que le pIus significatif me
semble être, non pas un de ces mots trop techniques et pour minitel,
mais un mot plus courant - j'aUais dire: plus maniable - , comme
Mirapolis ou orthokinetics.
Quand, l'aUJtre sair, j'ai vu et entendu ces deux mats à la Télévi-
sion française, j'ai tout de suite identifié, d'une part, les racines mir-,
«merveilleux», et poli-, «ville», d'autre part, les racines ortho-, «droit»
et kine-, «mouvement» . J'ai d()[lc traduit, «ville des merveilles» et «qui
permet de se tenir droit». C'est qu'il s'agissait d'un «paJ:1C d'attractions»
et d'un «fauteuil mobile».
La deuxieme qualité des langues à flexian que sont le grec et le
latin est qu'eUes ont essentiellement une syntaxe de subordination
quand nos langues agglutinantes d'Afrique et d'Asie du Sud, comme
l'égyptien anoien, le sumérien et le dravidien, ant, par nature, une
syntaxe de juxtaposition et de coordinati'o n. Ce qui mérite explicatio01.
Dans les langues à flexion, la fonction du mot dans la propositian est
indiquée par sa désinenoe. L'écrivain est done plus lribre, qui place le
mm à la pIaoe ou il fera l'effet voulu. Je songe, ici, à certains effets
de construction comme l'anacoluthe.
Cependant, la caractéristique maj,e ure du grecet du latin est sur-
tout dans leur syntaxe desubordination quand ·1es langues agglutinantes
d'Afrique et d'Asie pratiquent, de préférenoe, la syntaxe de juxtapo-
sition et de coordination. L'exemple que voici nous penmettra de mieux
comprendre. Voiei un texte wolof du Sénégal, tradUJit mot à mot! «Je
suis un guérisseur et j'habite le village de Djilor avec mon ami Waly.
Vn malade voulait me vair. II s'adressa à ,luÍ». Vn Fmnçais aurait dit,
plus exactement, iI aurait écrit: «Comme je suis un guérisseur et que
j'habite le village de DjilOT, ou j'ai un anni, Waly, un malade, voulant
me voir, s'adressa à oelui-ci» . Dans le premier cas, celui du style africain,
nous avons deux propositions indépendantes ooordonnées, puis deux
propositians indépendan,t es juxtaposées. Dans le deuxiffine cas, par can-

6
82 SESSÃO DE ABERTURA

tre, eelui du style albo-européen, nous avons un texte solidement, logi-


quement avticulé eomme suit: deux propositions subordonnées de cause,
coordonnées, une proposition subordonnée de lieu, une proposition
SUbOTdol1'née de cause, enfin, une proposition principale.
Curieusement, ce style afrioain ressemble à cdui de la Bible, dont
la traduction de l'hébreu en grec, par les Septante, les 70 rabins, qui
étaienrt: 72 en réalité, a exercé une influence durable sur la civiHsation
gréco-latine, et d'abord sur la langue. C'était aux III"-IIe siecles avant J. C.
lê dis: sur les deux langues, ear e'est à partir du texte grec qu'a été
faite la traduction la1line. Et ee latin va devenir ainsi, et pendant tout
le Moyen-Age, la langue liturg,i que de l'Europe chrérienne, mais aussi la
langue culturelle de l'Empire d'Oecident, héritier de l'Empire romrun.
Comme vous le sav,ez, c'est de ce l,a tin de la vulgate que naitrant les
langues néo-latines d'Europe, qui devi,e ndront, entre autres et par ordre
alphabétique, l'espagnol, le français, l'italien et le portugais.
Le faü mérite qu'on s'y arrête. C'est ainsi, pour prendre un exemple
significatif, qu'au XllIe siecle, sur 3.000 mots du f.mnçais élémentaire,
le quart, c'eslt-à~dire quelque 25% étaient des mots savants, tirés du
latin ou, mieux, du grec. Fait plus caractéristique encare, 1es deux tiers
des mots anglais ou, plus e:x:actement, anglo-arrnéricain:s d'aujourd-hui,
provi,e nnent, par ordre historique, du f,rançais, du latin ou du grec.
01" donc, nous sommes, actue1lement, en train de eréer la «Civili-
sation de l'Universel», pour parler comme le Pere Pierre Teilhard de
Chardin. C'est pourquoi, j>e voudrais, avan-í de conclure, vous apporter
le témoignage de l'Afrique noire latinophone. En effet, tout en gaI'dant
les vertus de oe que nous appelons la Négritude, les intellectuels de
cette partie du continent ont tenu à assimiler et faire assimi,l er, des
l'école primaire, mais surtout dans l',e nseignement secondaire, l,e s vertus
de la civi1isation gréco-latine. Nos intellectuels y sont d'autant pIas
encouragés qu'ils savent, maintenant, le fait oulturel majeur que voiei.
On nous a arppr1Ís, en son teIl1JpS, dans les manuels européens de
musique, que le plain-chant et la polyphonie avaient été apportés à
l'Europe oocidentale, chrétienne, par les Arabes et par l'Andalousie,
au VlIle siecle apres J. C. Le fait est vrai, mais il est plus vrai encore
que les Arabes ont pris, en Afrique et en passant, le plain·ehant et la
polyphonie, qui y sorrt nés. C'est, au demeurant, ce que soutiendront
de grands afri.canistes comme 1e Révérend Pere Henri Gravrand, de la
Congregation des Peres du Saint-Bsprit et du Saint-Coeur de Marie.
Ce que confirme ce fait, ,mcontestable, que les dix millions de Négro-
Africains deportés aux Amél1iques pendant trois sieoles -la moitié
SESSÃO DE ABERTURA 83

étaient morts dans les navires négriers - ont gardé, dans leur coeur
et leur tête, la polyphorüe et le plain-chant africains. Comme on le
sai'Í, en effet, les Negro-spirituals sont chantés en plain-chant polypho-
nique. Cependant, comme en Afrique, les consonnances ou accompagne-
ments ne sont pas à l'octave, à la quinte et à la quarte ainsi qu'en
EUTope, mais à l'octave, à la quinte et à la tierce. Je sou1igne: à la tierce,
qui est l'accompagnement sensible -les Européens disent «sensue1»,
qui sont obsédés par le péché.
Or done, et pour vevenir aux humamités gréco-latines, 1'assemblée
des évêques de l'AfTique de 1'Ouest francophone, sinon latine, a décidé,
iI Y a qudques années, de rendre obligatoire, dans les séminaires,
l' enseignement des humanités gréco-latines. II y a mieux, au lendemain
de 1'indépendance, nous avons, au Sénégal, créé, dans 1'enseignement
secondaire, une section classique ou ,1es éleves ont à choisir entre 1'arabe
d'une part, le latin et le gvec d'autre part. C'est ainsi que, dans ce pays,
musulman à 80%, si quelque 65'% des éleves de la section classique
choisissent 1'arabe, environ 35%, et surtout des jeunes filles, préferent
le latin et 1e grec. La raison majeure de celles-oi est, comme me l'a dit
notre premiere temme professeur de grec à l'université de Dakar, que
nos intellectuelles négro-afvioaines se sentent moins dépaysées dans le
monde de 1'humanisme gréco-latin, qu'on leur a fait assimiJler.

*
* *
J,e voudrais conclure sur oette eoneordance entre le reoteur de
l'Université de Harvard et la premiere jeune fille négro-afrieaine l'eçue,
en France, au concours de 1'Agrégation des Lettres olassiques. Ce double
témoignage est significatif, qui caractérise notre temps, e'est-à-dire ce
dernier quart du XXe siecle, qui voit naitre, vrali.ment, la Civilisation
de ['Universel.
Bien s11r, celle-ei l'eposera essentiellement sur le roe solide des
Humanités gréco-latines. C'est ce que prouve l'option qu'a faite, dans
ce sens, l'Afrique latine. Et e1le l'a faite avec d'autant plus d'enrt:hou-
siasme que ses éHtes ont été, comme moi, nourries, en grande partie,
par la leeture et le chant en latin de la Bible. De cette Bible dont la
traduction a gaI'dé, avee le s.tyle, le charme des langues sémitiques:
de leur musique, singulierement de leur poésie, faite, comme en Afrique,
d'images analogiques et de répétitions qui ne se répetent pas.
84 SESSÃO DE ABERTURA

PO'llr tinir, je voudrais, de nouveau, reo.nercier le grand homme


de culture qu'est le Président Mário Soares et, avec lui, le peuple
portugais. Ce peuple qui, plus que tO'llt autre en Burope, ignore les
haines de race ou de culture. Ce peupte qui, depuis les Iberos, a réalisé
l'une des symbioses, biologique et culturelle, 1es plus completes, présent
qu'il a été, au cours des SlÍeoles, sur tous les continents de notre planete
Terre. II reste qu'il a toujours éclairé cette riche symbiose à la lumiere
de l'humanisme gréco-Iatin.
ALOCUÇÃO DO EMBAIXADOR DE PORTUGAL NA UNESCO
PROF. DOUTOR JOSÉ AUGUSTO SEABRA

Senhor Presidente da República


Senhor PI'esidente Léopold Sédar Senghor
Senhor Director-Geral do Ensino Superior
Magnífico Reitor da Universidade de Coimbra
Senhor Presidente do Conselho Científico da Faculdade de Letras
Digníssimas Autoridades
Senhoras e Senhores Congressis,t as

A realização em Portugal e nesta velha Universidade de Coimbra,


nossa alma mater, de um Congresso Internacional sobre «As Humani-
dades Greco-Latinas e a Civilização do Universal», presidido pela alta
e nobre figura carismática de Léopold Sédar Senghor, é para nós, Portu-
gueses, uma subida honra, assinalada aqui pela presença nesta sessão
inaugural de Sua Excelência o Senhor Presidente da Repúblioa. Por ter
aoompanhado desde o início, em representação do Estado e do Governo,
uma iniciativa cultural de tão largo alcance, não posso deixar de teste-
munhar aos seus organizadoI'es e participantes a satisfação das auto-
ridades portuguesas pelo empenhamento que tooos puseram na sua
realização, desejando-lhes o maior sucesso.
Portugal é, desde a sua origem, uma pátria de universalidade. Cioso
da sua independência e da sua liberdade, das suas tradições e da sua
história, ele deu ainda, corno escveveu Camões no auge da primeira
gvande Renascença do Classicismo e do Humanismo, «novos mundos
ao mundo», abrindo a EUTopa cristã, herdeira da civilização greco-latina,
a outras civilizações e oulturas, no limiar da Idade Moderna.
Apegado à sua língua, que n'Os Lusíadas Vénus «oom pouca oor-
rupção crê que é latina», ele soube, como anteviu o poeta e humanista
António Ferreira, fazê-la florescer, falar, cantar, ouvir-se e viv,e r a toda
86 SESSÃO DE ABERTURA

a ,r osa dos ventos, até tornar-se o idioma de vários países indepen-


dentes, do Brasil à África, dispersando-se ainda como língua franca e
através dos crioulos e do papiá cristão, pelos continentes e ilhas onde
2. nossa Diáspora se disseminou.
Como não havia pois o nosso País de acolher de braços abertos
aqueles que, hoje, se lançam nesta outra exaltante aventura de em-
preender uma «Nova Renascença» das novas civilizações matriciais,
em demanda de uma «civilização do universal», insistentemente anun-
ciada por Léopold Sédar Senghor, que só ela permitirá superar esta
cri,s e de civüização de que estamos a sair, na viragem do segundo para
o te:rceiro milénio da nossa Era?
Civilizações matriciais: a da Grécia e a da Latinidade, prolon-
gando-se do Mediterrâneo ao Atlântico, pda Europa, pela Africa, peIa
América, sem esquecer o Oriente, onde retornaram.
Uma civiHzação nova, renascente: feirt a de polflogo entre povos,
línguas, culturas, enlaçando-se numa mestiçagem tolerante e proliferante.
Que sejam os poetas a prefiigurá-Ia, eis o que lhes é próprio, como
entre nós aoonteceu, neste século, com Fernando Pessoa, cujo cente-
nário este amo celebramos. Ao multiplicar-se em heterónimos, ele não
se esqueceu de enviar Ricardo Reis, «latinista por educação alheia» e
«semi-helenista por educação própria», para o Brasil, na América Latina,
como medianeiro da tradição e da modernidade. E não reclamava
Pessoa para o «Portugal futuro», a exemplo da «Grécia antiga», o dom
dos deuses de ser ao mesmo tempo uma nação e todas as outras, já
que para ele cada uma é «todo o mundo a sós», universal pO'rtanto por
e~celência, oomo escreveu na Mensagem?
É 'e ssa igualmente, hoje, a mensagem de Léopold Sédar Senghor.
O poeta da «negritude», mas também da «lIl1estiçagem cuhural», o
derensor da francofonia, mas também das demais línguas latinas,
a oomeçar pelO' Português, tomou sobre si a missão de fazer das
Humanidades, actualizando-as, o fundalIl1ento de uma nova «civilização
do universal», à medida do nosso tempo e dos tempos a vir.
Remmdando livrelIl1ente ao cargo de Chefe de um Estado de que
foi fundador, depois de ter sido um resistente e um político devotado
à oausa da democracia e do socialismo humarrlJista, mantendo-se fiel à
sua ré católica e à educação que recebera dos padres do Espírito Santo,
com o culto do latim e do grego que apurou com a sua «agrégation
de gI1ammaire», Léopold Séda·r Senghor tornou-se assim um cidadão do
mundo, um paradigma da fraternidade entre os povos, as línguas, as
cuLturas.
SESSÃO DE ABERTURA 87

É como rnn Amigo, um Irmão que ele está uma vez mais entre
nós, a presidir a este Congresso. Não esquecemos, não esqueceremos
nunca os versos repassados de emoção que a Portugal dedicou:

Escuto no fundo de mim o canto em voz de sombra das saudades.


Será a voz antiga, a gota de sangue português que sobe do fundo das idades,
O meu nome que remonta às origens?
Gota de sangue ou então Senhor ...

o sangue, o nome português. Eis os leitimotive da sua Elegia das


Saudades, onde Coimbra, que UIIl1 dia vis Ltou, aparece como símbolo
emblemático desse regresso às origens:

Reencontrei o meu sangue, descobri o meu nome há anos em Coimbra,


sob a floresta dos livros.

evoca ele nostálgico, reiterando o seu saudosismo:

Sorver todos os livros, os dourados, todos os prodígios de Coimbra,


Lembrar·me, simplesmente lembrar· me .. .

Sim, estes vel'SOS de Senghor ecoam aÍlnda e sempre, hic et nunc,


com os seus acentos, os seus ritlIllos africanos e latinos, a provar que
a grande poesia é tanto mais universal quanto mais enraizada, como
as civili:mçães e as culturas de que emerge. Saibamos escutar, através
dos poetas, as vozes dessas civilizações e culturas, projectadas do pas-
sado para o futuro , o «futuro do passado » de que fala Pessoa.
Numa época em que a ciência e a técnica, de que os gregos lança-
ram os fundamentos longínquos , conhecem uma vertiginosa expansão,
sendo a condição necessária, embora não suficiente, para a libertação
do homem das suas carências básicas, a techne poietike pode e deve
renascer, como a dimensão plenamente humana da liberdade criadora:
das Humanidades clássicas ao Humanismo moderno e contemporâneo,
é dessa «libel'dade livre» cantada por Rimbaud, que essencialmente
se trata.
Este Congresso, pelo plurali-smo dos seus participao.ltes, vindos de
todos os horizontes, pela aJlta qualidade cientifica e Hterária das comu-
nicações pJ1evisnas, pelo espírito elevado e e~igeI1ite que o anima, será
uma .m anifestação significativa da renascença do estudo das línguas e
culturas cláss,k as, que em inúmeros países de quadrantes diversos está
88 SESSÃO DE ABERTURA

a ter lugar. As&im. os responsáv,e is da Educação saibam oomproonder-


-lhes o alcance, que é complementar e não larutagÓIlico da formação
científica, técnioa e profissional próprj,a da época actual.
Enquanto Embaixador de Portugal junto da UNESCO e Vioe-Presi-
dente da União Latina, aqui também representada pelo lSeu Vioe-Pre-
sidente italiano, Embaixador Ivancich, congratulO{[l1e com este momento
ímpar de cultura e de espiritualidade que vamos VlÍver, sob a égide
desta Universidade de CoilIIlbra, uma das marisantigas da Europa,
pmstes a oomemorar enl 1990 os seus 700 anos, e pela qual de novo
perpassa, hoj,e oomo ontem, um sop:ro de universalidade viv.a, enoarnada
por Léopold Sédar Senghor.
ALOCUÇÃO DO REITOR DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA
PROF. DOUTOR RUI DE ALARCAO

Senhor Pres,i dente da República Portuguesa


Senhor Presidente Léopold Senghor
Senhor Embaixador de Portugal na UNESCO
SenhOT Secretário de Estado do Ensino Superior
Senhor Pres1dente da ASls ooiation ATChives du xxe Siecle
Senhor PTesidente da COIIl1'Í'ssão Executiva do Congres,s o
Exoolentíssümas Autooidades
SenhoI1es Congressistas
Senhores Professores e Estudantes
SenhO'rase Senhores

A razão fundamental do CongressO' «As Hurmanidades Greco-Latinas


e a Oivilização do Universal» é - cito - a de «pJ:1OII1over uma reflexão
sobre o palpeI que desempenharann e devem cOIlltinuaJI" a desempenhar
as hlllIIlJal1idades greco-Iatinas no quadro ( ... ) do v.aSlto e complexo con-
texto em que hoje nos movemos».
Isto quer dizer, desde logo, duas coils as. A primeira é que o objectivo
do Congresso não se oonfina ta urna área oiocunscruta do pensamento ,
mas antes se estende ta vári'a s delas, desde a ciência à religião, da ética
ao dio:"eito, ptassrundo pela arte, a fiJIosofia, a política. A segunda está na
circUJIlistârncia de que o Congres1so não tem um sentido passadista, mas
verdadeiramente prospectivo, proouI1ando esolaJI"ecer o presente e pers-
pectivar o futuro. Tem-se desta problemática, por conseguinte, uma visão
pluralista e actualista, as duas se .fundindo numa visão universalista.
Assim conceberam os organizadores este congresso. A:SSli m o esboçou
o grande humanista Presidente LéopoLd Senghor, que dele tomou a
iniciativa e a ele preside, e tanto nos dig;nrifica com a sua presença.
Assim o plam.eaI1am - oom o lélIpoio do itlus1Jre Bmbaixador de Portuga,l
na UNESCO - os organizadores da relu1Jião, nomeadamente a insigne
90 SESSÃO DE ABERTURA

Presidente da Comissão Executiva, Senhora Doutora Maria Helena da


Rocha Pereira.
Sendo esta a ideia e este o plano, não foi decerto uma casuaJidade
ou um for1Juito que ditou a escolha da Universidade de Coimbra para
lugar do encontro. Pois não é verdade que a Universidade de Coimbra
se conta como uma das mais antigas do mundo latino? Não é a sua
Faouldade de Letras, e em especial o Instituto de Estudos CJásskos,
com o Centro de Estudos Olássicos e Humanísticos, uma sede presti-
giosa de estudo das humanidades greco-Iatinas? Não é Portugal um
país que, a mais da conrtribuição que deu para a grande expansão
europeia da idade moderna, pode ufanar-se de uma clara vocação
universalista?
Seja como for, a escolha de Coimbra e da sua Universidade para
lugar deste enoontro internacional honra-nos e sensibiliza-nos. Como
muito nos honra e sensibiliza a presença de Sua Ex. a o Senhor Presidente
da República, que desta forma continua, na sua «magistratura de
infiluência», a amar e a cuidar da cultura como peça fundame:nrtal que
é no progres,s o espiritual e no desenvolvimento e equilíbrio socio-político.

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores:

A antiguidade greco-latina está na base da civilização europeia e


da cultura ooiclental. Bem sabemos isso. Só não sabemos tão bem como
ela se misturou e harmoil1izou com os outros elementos dessa civiH-
zação e dessa cultura, em especiaJ com o germani's mo, e como se
comportou a antiguidade clássica em confironto com o Oriente, a Mrica
e a América. E não são poucas, por outro lado, nem são de somenos, as
interrogações sobre o devir da cultura clássica num contexto civili-
zadonaJ que só agora se constrói verdadeiramente planetário.
Dúvidas e questões que são, ou podem ser, de grande, e mesmo
decisiva, importância. Pois têm a ver com o nÜ'sso destino colectivo,
a rem'a tar no destino político. Um destÍlIlo onde não falte uma inces-
sante procura da democracia, também ela de raiz dásslÍca, mas agora
entend1da como regra de jogo, onde se ambiciona, mais que o domínio
da maioria, o apaziguamento de conflitos pelo alcance de consensos.

Senhores Congressistas:

Na arte de inventar o futuro, as vossas comunicações e debates,


de cientistas e homens de cultma, têm o seu lugar e o seu papel.
Desejo-vos êxito nessa 'ars in'lleniendi'. E aceitai as melhores saudações.
COMUNICACÕES
J

CO~IMUNICÂTIONS
(Página deixada propositadamente em branco)
I

APREOIAOÃO
-'
DO ~{UNDO ANTIGO
/

APPREOIATION DU MONDE ANTIQUE


(Página deixada propositadamente em branco)
HOMER AND CLASSICAL STUDIES

O. TSAGARAKIS
University of Crete

ln dealing with the theme «Optiques contemporaines dans l'étude


des classiques», I thought it wise to limit myself to a specific subject
which I Carl claim to have some good knowledge. However, within
the limited time and scope of the paper the discussio'l1 will be rather
general but illuminating.
Homer has always been an important subject of research and
instruction, and his work, the Iliad and the Odyssey, has been much
discussed since ancient times. Homer is in the mainstream of Greek
literature which, optirmists will say, continues to have an educational
effect upon contemporary man.
Nowadays the educational priorities of our societies lie mainly in
the tra1ning of mau to become more productive and efficient. Now,
while this utilitarian concept of education, which threatens the very
foundations of our civilization 1, is certainly not new, today it simply
has assumed large proportions, mainly because of the complexities of
modem life and the pressure upon the individual.
Modem man is too much preoccupied with the present and has
little or no time to let himself be taught by Homer ar, for that matter,
by Greco-Roman literature which, in the words of mlbert Highet,
contains «much of the best art and thought in the possession of the

1. See in this context L. Sedar Senghor, «'H à.t;Ca 't'fíc; ô~ôaO'xa)'Lac; 't'wv
x).aO'O'~xwv
O'1tovowv», I1)'á't'wv 36 (1948), 3 ff.
96 HOMER AND CLASSICAL STUDIES

human race» 2. Modem man begins to realize that his educational


training may secure him a good job but does not educate him.
Yet it is rather encouraging to see at least that classical studies
are still available to students at our universities and research goes on.
Qur knowledge is thus enriched and others may also benefit from it.
Classical studies are relevant to contemporary world and should be made
available to alI. 3
Greek and European literature begins with Homer. The Homeric
epics, which were composed some time in the eighth century B. C.,
are therefore significant in the history of Westem civilization. Their
influenoe and fame have been enduring 4, and it is no won der why we
are still studying Homer today and even more so now than before 5.
We have discovered the truth of Plato's words «1tcip' 'O(.l.1Ípou XPD
(.l.!l.vMvWIi (Cratyl. 391 C). Homeric scholarship has not yet fathomed
all the secrets of Homer's poetry, but it has ma de much progress, in
the last two centuries, towavd solving some vexed · problems about
composinon and Sltyle.
The basic problem has been, since anoient t:io:nes, to explain
Homer 6, and there developed two opposing approaches to the study
of the Homeric epics: the unitarian and the anaJytical approach. It was
important to understand how the epics caone to be, and research at

2. Cf. G. Highet, The Classical Tradition (Repr.), London 1966, p . 497 n . 45.
3. According to W. Nikolai, «Wirkungsabsichten des Iliasdichters », Gnomosyne
(1981), p. 82, there is «ein neues Interesse rur die gesellschaftliche Relevanz kultu-
reller Phanomene, die wiedererwachene Begeisterung für littérature engagée ... »
4. Cf. A. Heubeck, «Blick auf die neuere Forschung» in Homer (ed. J. Latacz) ,
Darmstadt 1979 (Wege der Forschung CDLXIII), pp. 556ff. On Homer's influence
on epic poetry see C. M. Bowra, From Virgil to Milton, London 1945, passim and
G. S. Kirk's remarks, Homer and the Oral Tradition, Cambridge 1976, pp. 85 ff.
5. The large quantity of publications is sufficient proof to this claim. David
W. Packard - Tania Meyers, A Bibliography of Homeric Scholarship, Malibu 1974,
list some 384() items for the period 1930-1970, without claiming completeness af
their survey. Cf. also A. Heubeck Die homerische Frage, Darmstadt 1974, pp. 243-304
and his remarks in his article «Homeric Studies Today», in Homer, Tradition and
Invention (ed. B. C. Fenik), Leiden 1978 (Cincinnati Classical Studies, II), p. 1.
J. Latacz, op. cit., pp. 18 ff. claims that there are 12.000 titles of Homeric biblio·
graphy from c. 1770 to 1977.
6. Cf. R. Pfeiffer, History of Classical Scholarship, Oxford 1968, passim,
G. Finsler, Homer in der Neuzeit von Dante bis Goethe, Leipzig-Berlin 1912, passim.
See also in this context Henrietta v. Apfel, «Homeric Criticism in Fourth Century
B. C.», TAPA 69 (1938), pp. 245 ff.
HOMER ANO CLASSICAL STUDIES 97

first concentrated on their genesis. This was the so-called «Homeric


Question» which was launched in modem times by August Wolf's
Prolegomena ad H omerum (Halle 1795) and which was destined to
trouble scholars for a long time. Yet it now has lost much of its
original force, owing mainly to a more careful study of Homer in the
light of new advances in archeology, linguistics and related areas
of research. On the other hand, new approaches have been made to
the study of Homer's poetry.
The analysts of the 19th century made an important contribution
to Homer with their study of his language, which had begun earLier in
the 18th century with the work of R. Bentley who discoveroo the digao.nma
and gave a historical perspective to the study of the Homeric language
and to the Greek language in general. Older linguistic fonns were
distinguished from younger ones 7 and so were the parts of the poems
in which those forms occurred more frequently (Iliad II, X, XXIII and
XXIV; Odyssey I-IV, VIII, XI and XXIV). Wilamowitz, despite his
criticism of Lachman and others, also adopted the analytical approach,
finding contradictions and various peculiarities which he then tried to
remove in an attempt to discover the «genume» Homer 8. ln the struggle
between poetry and rationalism the latter wins.
It was only recently that we have leamed that we should not apply
literary criteria to the Homeric epics, mainly because they were com-
posed in the style of the traditional technique of oral composition
(1 t is another question whether the Homeric epics as we know them,
were composed oral1y or with the aid of writing in a traditional style).
But already in the Renaissanoe theories of the literary epic had affected
reading and understanding of Homer 9. The criticism of Homer was,
more or less, an elaboration of Byzantine schoHa and of the commen-
taries of Aristotle's Poetics and Horace's Ars poetica.
Critics looked for rational explanations for the creation and function
of poetry and later the search for illogicalities, contradictions etc.
continued and even increased in the age of «rartionaUsm» !O. It shou1d
also be noted that there was at the same time, a growing reaction

7. ln this context see P. Chantraine, Grammaire homérique, Paris 1948 and


G. P. Shipp, Studies in the Language of Homer, Cambridge 1972, passim. Cf. also
D. L. Page, History and the Homeric Iliad, Berkeley 1959.
8. U. v. Wilamowitz-Moellendorf, Die !lias und Homer, Berlin 1920.
9. Cf. M. Mueller, The Iliad, Boston 1984, p. 185.
10. Criticizing Lachman's theory Wilamowitz, op. cit., p. 16, says that his
theory was «ein seltsames Gemish von Rationalismus und Romantik».

7
98 O. TSAGARAKIS

against this position. For Herder, for example, poetry was not exactly
a scholarly treatise; it was ill-suited fo'f that kind of criticaI anaIysis.
Poetry was «life», a mirror of a people's strength and shortcomings,
an expression of its ideaIs li.
The analytical approach was perhaps unavoidable under the circwn-
stances (lack of knowledge of the historical process of the making of
epic poetry) and perhaps also necessary in order for the truth to come
out: the composition of the poems reveals such a degree of artistry
and planuing that canIlJot possibly be achieved by the compilation of
various poetic materiaIs and by many poets. This fact was strongly
emphasized by the unitarians and W. Schadewaldt was convinced that
the Iliad was composed by a single poet 12. But as early as 1794 Herder
had pointed out that only a great poet could compose a poem around
a central theme, which in the case of the Iliad is the menis 13. The fact
must be duly emphasized that analysts, especially those of an earlier
date, failed to consider the artistry of the Homeric epics. We may
still not know who Homer was, when and where he lived, but to-day
for us he is no longer a shadow figure 14; he is a comprehensible perso-
nality produced by a specific culture. The belief also prevailing in the
eighteenth century that Homer was primitive, singing artlessly seems
«strange to us to-day» 15.
Recent studies in folk epics have shown clearly that the language
of the Homeric epics is oral, not literary, and the technique of com-
position is basically that of orally composed epics 16, but some scholars
continue to study Homer along traditional lines in order to discover
what part of the poem is «genuine» and what is n01. The neo~malysts,

11. Cf. E. Drerup, «Homer und die Volksepib, in Homer (ed. J. Latacz), p . 154 f.
12. Cf. W. Schadewaldt, Iliasstudien, Leipzig 1948.
13. Cf. E. Drerup, op. cit., p. 158. ln his book Homer ein Günstling der Zeit,
1795, Herder criticized Wolf for missing the important point that the Homeric
epics are great poetry and were therefore created by a single poeto
14. Wilamowitz had already tried to show that Homer was a real person and
composed the Iliad (cf. E . Bethe, «Homerphilologie heute und künftig», Hermes 70
(1935), p. 47) .
15. Cf. W. F. Jackson Knight, Many-Minded Homer Cedo J. D. Cristie), London
1968, p. 133. The belief has its origin in romanticism on which see, in this context,
Ruth Finnegan, Oral Poetry, Cambridge 1979, p. 31 f.
16. Cf. J. Latacz, «Tradition und Neuerung in der Homerforshung» in Homer
(op. cit.), pp. 25 ff., who refers to Herman and even 'Wolf, without underestimating
of course the work of Milman Parry and his successors (cf. A. Lord, The Singer
of Tales, Cambridge Mass. 1971).
HOMER AND CLASSICAL STUDIES 99

on the other hand, try to explain discrepaneies in plot and strueture


in terms not of many poets but of many sourees 17.
The rather modem theory of oral eomposition, which has indeed
illuminated some dark sides of the «Homerie Question», has not yet
sueeeeded in explaining satisfaetorily sueh important matters as origi-
nality, individuality and unity 18 which are still a foeus point of Homerie
seholarship. The relationship of oral poetry to the Homerie epics needs
further study but I do not think that such a study should beeome
the «Homerie Question» of our time as Lesky put it 19 .
Nowadays the historieal approaeh to Homer is in full swing and
rightly soo Inereasing arehaeologioal disooveries, hnguistic studies, espe-
eially the deeipherment of Linear B 20, as well as recenrt developments
in related fields of study 21 have made it possible to consider the
problem of composition, and Homer's work in general, in a wider,
historically speaking, contexto
It is important that we know more about the hisrtorical faetors
whieh sustained and favored the development of oral eomposition since
Greek epic tradition passed through many ehanges, adopting new themes
and fOI1mulas as well asnew linguistic forms 22. We should also know
what factors influeneed the transition from oral to literary form and
when it oceurred.

17. Cf. esp. W. Kullmann, «Oral Poetry Theory and Neoanalysis in Homeric
Research», GRBS 4 (1984), pp. 307 ff.
18. Parry argued that the traditional style makes tmity, individuality and
originality irrelevant (d. his paper «Studies in the Epic Technique of Oral Verse·
Making», HSCP 41 (1930), p. 138). Cf. also Lord, op. cit., p . 148, and M. F. Com-
pellack, «Some Formulary Illogicalities in Homer», TAPA 96 (1965), p. 55.
19. Cf. A. Lesky, Geschichte der griechischen Literatur, 2nd ed., Bem 1963, p. 34.
ln this context d. also A. Parry, «Have We Homer's Iliad?», YCS 20 (1966), pp. 177 ff.
20. Cf. M. Ventris - J . W. Chadwick, Documents in Mycenaean Greek, 2nel ed.,
Cambridge 1973. This script put the language of the Homeric epics in a new
perspective as it proved that some cultural elements in Homer's poetry are very
olel indeed (d. in this context my study Nature and Background of Major Concepts
of Divine Power in Homer, Amsterdam 1977, passim).
21. Oriental studies in epic poetry are, for example, helpful if they are valued
carefully. Cf. T. B. L. Webster, «Homer and Eastem Poetry», Minas 4 (1956), pp . 104 ff.;
R. O. Bamett, «Ancient Oriental Influences on Archaic Greece» (Studies Presented
to H. Goldman, N. Y. 1956, pp. 212 ff.) and also C. Starr, The Origins of Greek
Civilization, passim.
22. Cf. G. F. EIse, «Homer anel the Homeric Problem», Univ. of Cincinnati
Classical Studies (Semple Lectures) 1 (1967), pp. 315 ff.
100 O. TSAGARAKIS

While the interest in the historical background of Homer's work 23


is growing nowadays, it is certainly not new. Already in the eighteenth
century there emerged an interest in the historical causes, underlying
the production of a work of art 24, and even before that time Pope had
asked his readers to take into consideration the poet's background.
Yet romanticism with its emphasis on the naturalness of poetry was
too strong to allow any real historical interest to grow. There was,
at the same time, an interest in the standards of poetic excellence in
Homer.
Today we know more about Homer's medium of expression (lan-
guage, style, themes, portrayal of characters), owing to the work done
by previous generations of scholars. We now know enough about the
technical aspects of this traditional medium to be able to understand
much better the role the poet played in the composition of his poems.
More people are now convinced that even a traditional medium of
expression allows a gifted poet to create and to be original 25. ln the
light of the new understanding, which was made possible by the contri-
bution of previous research, especially in the last fifty years, we can
now study anew old problems such as unity of plot and authorship.

II

But it is certainly not only the technical, so to speak, aspects of


Homer's poetry that Homeric scholarship has dealt with and made

23. The background extends from Mycenaean times down to the Dark Ages .
Cf. G. S. Kirk, Homer and the Oral Tradition, Cambridge 1976, pp. 19 ff. The picture
the poet gives of the heroic world is a composite one containing elements fram
different epochs. On the cultural continuity across the ages see Webster, From
Mycenae to Home r, London 1958, passim. The eighth century B. c., the time af
composition of the Homeric epics, marks a turning point in Greek history.
Cf. recent1y R. Hligg (ed.), The Greek Renaissance of the Eighth Century B. C.
(Proceedings of the Second International Symposium ot the Swedish Institute
in Athens), Stockholm 1981.
24. See Kirsti Simonsuuri, Homer's Original Genius, Cambridge 1979, pp. 77 ff.
A new sense of history was developing and spreading in the nineteenth century.
Cf. also Highet, op. cit., p. 448.
25. Cf. A. Pope, Preface to the Iliad, 1715, who praised Homer as an inventive
poet, and M. 'W. M. Pope, «The Parry-Lord Theory of Homeric Composition»,
Acta Classica 6 (1963), pp. 1 ff., esp. pp. 20 f. On the subject more recent1y see m y
study Form and Content in Homer, Wiesbaden 1982 (Hermes Einzelschriften, voI. 46),
passim.
HOMER AND eLASSleAL STUDIES 101

progress in reeent deeades 26 - which of eourse advanced classical


studies. There has also been a study of Homerie culture and art TI which
is more interesting to ordinary readers of Homer. Ordinary readers enjoy
the poems and do not eare much about the problems of composition.
The importanee of understanding the culture of the poems was
pointed out in modem times by Dacier who praised Homer for depicting
the moral values and customs of an early society 28. The poet entertains,
and, at the sarne time, teaehes us (deleetat and doeet).
ln Classical Athens the Homeric poems were highly esteemed as
an outstanding achievement of poetic art and hlliIIlan wis dom , and the
judgement of the ancients has not been challenged; it is still valido
Matthew Arnold, the 19th century translator of Homer, discovered for
himself that Homer is rapid, simple in thought and expression and
noble 29, and this is so whatever we may now say about the «formulaic
method» that provides the key to the style 30. We note of course that
there have been those who critidzed the poet for failing to do what
they wanted him to do 31, but that kind of eriticism has not made any
real contribution to our understanding of the poet's art 32.
Homer has not ceased to be a valuable source of inspiration and
he continues to educate us alI 33. His interpretation of life has a universal
appeaI. We may interpret his poetry according to our own indiv1idual
or national experiences but the problem of suffering is, for example,
common to all men everywhere, and it is basically this problem that
underlies the pIot of both epics, though the Iliad is a menis poem and
the Odyssey, a nos tos poen1.

26. See also in this context C. Segal (ed.), The Heroic Paradox, Ithaca and
London 1982, p. 2 for the «sociologically and linguistically oriented criticism of
the past decade».
27. Cf. J. Redford, Nature and Culture in the Iliad, Chicago-London 1975, passim.
On the eighteenth century views about nature and culture in Homer see Robert
Wood, An Essay on the original Genius and Writings of Homer, London 1775.
28. Cf. Simonsuuri, op. cit., pp. 6 f.
29. Cf. F. Codino, Einführung in Homer, Berlin 1970, p. 19. Plato refers to
Homer as frE~6'ta't6v 'tE xat CTOqJw'ta'tov (Alcib. II, 147B). Cf. also Rep. 606 c. See
further W. Jaeger, Paideia (transl. by G. Highet), Oxford 1968, pp. 35 ff.
30. M. Arnold, On Translating Homer, London 1861, p. IV. See also Highet,
op. cit., pp. 479 f.
31. Cf. EIse, op. cit., p . 347.
32. Cf. S . Shepard, «Scaliger on HomeI' and ViI'gil. A Study in Literary
Prejudice», Emerita XXIX (1961), pp. 313 ff.; G. Finsler, Homer in der Neuzeit
von Dante bis Goethe, 1912; D. M. Foerster, Homer in English Criticism, 1947.
33. Cf. J . B. Hainsworth, «Criticism of an Oral Poet», JHS 90 (1970) , pp. 90 ff.
102 O. TSAGARA KIS

The poetic theme of suffering raises questions like: why do people


suffer (and great heroes, like Achilles or Odysseus, are also people) ,
who is responsible for their sufferings and what can be done about it 34 .
ln the Iliad, basically a war poem, man caIlJIlot escape death, but the
poet teaches us that there are things worth fighting and dying for,
honor, loyalty, family and country. Human life is short, but there is
enough time for man to prove his wo-rth and to accomplish great deeds.
The history of Western man has proved Homer right.
The enduring love o-f husband and wife, which gives the Odyssey
its physiognomy, is also universal. The emphasis on intimacy and settled
home life constitutes a rema.rkable change and points to a new outlo-ok
of life and to an ideal that can be attained by man·.
Of all the scenes that impress us deeply for their humanity l only
need mention two. ln the first Odysseus alone, shipwrecked, is sitting
on the rocks of a distant is,l and gazing at the open sea; tears running
fram his eyes in his desire to see his home again (E 82ff.). This scene
gains in significance and power when we consider that the hero has
rejected the offer of a goddess to live with her and even become
immortal (vv. 215 ff .). The hero refused to exohange his troublesome
life with the conforts and carefree life away from home 35.
The other scene presents King Priam on his knees pleading with
Achilles to release Hector's body for burial (O 477ff.). The sight of the
broken father sets Achilles think o-f his own father and in the end he
achieves through suffering a new understanding of life. The old heroic
view of glory and honor exemplified by Diomedes in E is now permeated
with the spirit of compassion and humanismo
Homer still speaks to contemporary mau and helps keep the flame
of classical studies alive in a world in which new winds of change
and progress threaten its very existence.

34. See Jaeger, op. cit., passim; W. J. Verdenius, Homer the Educator of the
Greeks, Amsterdam 1970 and G. C. Vlachos, Les sociétés politiques homériques,
Paris 1974.
35. The sufferings of individual heroes (Achilles himself, Patroclus, Hector)
and families (Andromache, Hecabe and Priam) or entire people (Trojans) in the
Iliad are connected to the menis of Achilles, while those in the Odyssey are related
to the problem of a personal responsibility (on this point recently W. Kullmann ,
«Die neue Anthropologie der Odyssee und ihre Voraussetzungen», Didactica Classica
Gandensia 17-18 (1977-1978) , pp. 37 ff. More recently on the problem of suffering
W. Nicolai, op. cit. , pp. 87 ff.
POLITIQUE ET ÉTHIQUE DANS LA GR1tCE DU Ive SlECLE
AV ANT JÉSUS CHRIST
(la leçon de la paideia d'Isocrate)

MARIA HELENA URENA PRIETO


Universidade Clássica de Lisboa

Au cours des trente dennieres années du IVe siecle avant Jésus


Christ et pendant tout le IVe sieole, la Grece a été le théâtre des luttes
les plus sanglantes, dont l'écho s'est répercuté à Athenes sous forme
d'une bataille d'idées acharnée dans laquelle ont pris part des drama-
turges, des philosophes, des orateurs, etc. Des noms comme ceux d'Aris-
tophane, d'Euripide, de Gorgias, de Protagoras, de Soc:rate, de Platon,
d'Aristote, de Xenophon, d'Isocrate, nous viennent à l'esprit, parmi
d'autres.
L'éc1at du génie de quelques uns, comme Platon et Aristote, estampe
la renommée d'autres oomme Isocrate. II nous suffit de comparer, par
exemple, lia bibliographie dépouillée dans L'Année Philologique pendant
les dix dernieres années, pour constater que les études sur Isocrate
n'arrivent pas à remplir dix pages, tandis que les titres concernant
AI1iJstote, pendant la même période, atteignent les cent cinquante pages.
Une telle disproportion dénonce les gouts et les préférences des savants
modernes et surtout l'importance que le philosophe de Stagire a eu
et contmue d'avoir pour l'histoire de la pensée occidentale, mais elle ne
signifie pas pour autant que la personnalité et l'activité d'Isocrate soient
méprisables pour la compréhension des évenements de son siecle et
pour la culture des peuples de l'Occident européen.
Aristote aurait inauguré son cours de rhétorique à l'Académie
- dit-on - par cette boutade: «II serait honteux de se taire et de laisser
104 MARIA HELENA UREi'lA PRIETO

parler Isacrate» 1, parodie sans doure d'un vers d'Euripide 2. Si nous


n'avions pas d'autres indices de la notoriété d'Isacrate, l'émulation du
philosophe nous suffirait pour deviner le prestige et l'influence saciale
et politique du vieil professeur d'éloquence: le fondateur du Lycée, en
effet, n'était pas homme à gaspiller son temps en se battant contre des
moulins à vent.
Isocrate naquit en 436, dans le deme d'Erchia, comme Xénophon .
San pere, Théodoros, était le propriétaire d'un atelier de fllites, ce que
lui a permis de donne r à son fils une ooucation soignée. Pendant la
derniere pédode de la guerre du Pélopornnese, Isocrate a été disciple
de Gorgias, en Thessalie. Quant il revint à Athenes, en voyant sa fo,r tune
considérablement diminuée à cause de la guerre, il décida de tirer parti
des connaissances rhétoriques qu'il avait acquises; il gagne sa vie
comme logographe, c'est-à-dire, iI compose des discours juridiques que
les plaideurs récitent dans les tribunaux, comme s'ils en étaient les
auteurs. La renommée d'Isocrate comme logographe s'est vite répandue,
mais ce succes ne pouvait pas le contenter puisqu'il l'obligeait à effacer
sa personnalité derriere relle de ces clients. Depuis 393, semble-t-il, il a
renoncé au métier de logographe, qu'il méprisait, et iI a commencé
à exprimer ses propres idées, soit comme professeur d'éloquence, soit
comme publiciste politique. 11 a ouvert à Athenes une école qui a
COIlJnu un succes extl1aordinaire.
En suivant l'exemple de Gorgias et de Lysias, il a employé le
discours fictif pour faire la propagande de son idéal pol>itique, en
dévouant à oette tâche tout le reste de sa longue vie. 11 combinait
l'enseignement de la composition littéraire avec la réflexion et l'expres-
sion des idées fondamentales à l'homme et au citoyen, en organisant
de cette façon le cyde des disciplines que pendant des mi1looaires an
appelait et qu'on appelle encare aujourd'hui, les humanités.
Les anciens, Cicéron 3 parmi d'autres, par1aient avec admiration
des disciples qu'Isocrate avait formés. On sait que, parmi eux, il y en
avait qui lui v'e naient de pays lointains et que d'autres, atheniens, OIlt
reçu des honneurs de la polis, en récompense des services rendus au

1. Cic., De Oratore, III, 55; Quint., r. O., III , 14. Voir aussi Jean Aubonnet,
Introduction (in Aristote, Politique, Paris, Les Belles Lettres, 1960, tome I , p. XVI) .
2. Euripide, frag. 796 Nauck: ... IX.LO"XPÓV O"Lwltiiv, ~IX.p~ápovc; ~i'Éiiv À.ÉYELV ... (iI
serait honteux de nous taire et de laisser parler les barbares ... ).
3. Cicéron, De Oratore, II, 94; Brutus, 32; Orator, 40.
PO LIT IQU E ET ÉTHIQU E D ANS LA GR:bCE DU IVo SI ÉCLE AVA NT J ÉSUS CHRIST 105

bien commun 4. Parmi ses disciples se trouvaie nt des OTateurs, comme


Lycourgue et Hipéride; des historiens, comme Théopompe et Éphore;
un poete tragique, comme Thódecte; des hommes d'État, conune Thimo-
thée, fils de Conon, remarquable stratege athenien; des princes, comme
Nicodes de Chypre. Même si elle ne s'es,t pas exercée directement ,
l'influe nce d'Isocrate a été considérable par l'intermédiaire de t els
disciples.
Isocrate ambitionnait de jouer un rôle dans la politique de la
Grece, mai's la faible sse de sa voix et une certaine timidité le détour-
nereut de la tribune aux harangues: il eut done recours au discours
fictif, eu l'organisant définitivement comme un genre littéraire distinct,
dont les procédé s principaux, d'apres lui même, étaient l'union de 1'his-
toire, des idées générales (quaJ.ifiées de philosophie) et de la fiction
moralisatrice.
Pendant cinquante ans, inlassablement, il a lutté en faveur du
panhéllénisme, en essayant de convaÍncre les Grecs que 1e bonheur et
la paix n'étaient possibles que par l'union de tO'llS cont re le roi de Perse,
leur ennemi commun. Tout en conservant l'autonomie de chaque dté,
les Grecs devaieut prendre conscience de leurs intérêts communs et
comprendre que l'héllénisme était avant tourt une communauté de civi-
lisation. D'apres Isocrate, la COI1Jditipn prindpale du succes était que
les Greos acceptent de se soumettre à une seule direction: ou à l'hégé·
monie d'une cité (Athenes étant la cité 1a plus digne de 1'hégémonie,
selon lsocrate) ou à 1'autorité d'un souverain. Se pIiamt aux évenements,
Isocrate a eSlSayé de trouver un tel souverain, successivement, dans Jason
de Pheres, Denys de Siracuse, Nicocles de Chypre, Archidamos de Sparte
et, eu demier lieu, danoS Philippe de MaOOdoine, qu'i! espérait voir
diri,ger une expédition contre le barbare, non comme conquérant et
maítre de 1'Héllade, mais comme chef d'une confédération panhéllénique.
L'Histoire se chargea de réaliser les plans d'Isocrate, bien que d'une
façon tout à fait inattendue pour lui et sourtout d'une façon qu'il ne
saurait souhaiter: à la suite de la perte de l'indépendance de la Greoe,
sornnise à la Macédoine et, plus tard, à Rome, l'hélIénisme est devenu,
en effet, la civilisation commune aux peuples du bassin de la Méditér-
Talnée et plus lain encore, al,lx peuples de l'Inde, eu Orient, et à ceux

4. Antídosis, 93-94; 224. Toutes les citations, dans cette note et dans les
suivantes, sont faites d'apres le texte des Discours d'Isocrate de la collec. Budé
(Paris, Les Belles Lettres, 1956-66). Les traductions d'Isocrate, elles aussi, sont
des extraits du texte de cette éclition.
106 MARIA HELENA URENA PRIETO

de la Péninsule Ibérique et eles Iles Britanniques, en Occident. FiItré


par le génie de Rome, l'héllénisme a laissé des empreintes profondes
à travers les siecles dans la culture et dans la civili,sation européenne.
Par suite de l'expansion de l'Europe, grâce aux découvertes maritimes,
ceuvre du génie portuga~s et espagnol, l'héllénisme a répandu son
influence jusqu'en Amérique et en Afrique australe 5.
Isocrate lui-même n'aurait jamais pu l'imaginer, lui qui - dit-on-
est mort de ohagrin à quatre vingt dix huit ans, apres la bataille de
Chéronée, une fois perdues les illusions de voir Philippe se contenter
du rôle de général d'une confédération panhéllénique, au lieu de celui
de conquérant et maitre d'une Héllade soumi:se.
Isocrate oonoev:ait le panhéHénisme avant tout comme le produit
d'une réforme morale des dtés et surtout de la cité d'Athenes, qui
devrait être, selon lui, le guide par excellence du proces d'union de tous
les Grecs, droit qu'elle avait conquis par son passé héro'ique de rempart
de la Grece 6, et de foyer rayonnant de culture, si bien que Thucydide
avait pu l'appeler «la Grece de la Grece» et «l'éducatrioe de la Grece» 7.
Cette réforme mOTale de la cité et du citoyen était aus's i l'a tâche
de la phiIosophi'e socratique, mais Isocrate ne croit pas à l'adéquation
des méthodes socratiques puisqu'iI doute de la possibilité d'atteindre
la connaissance suprême (imcr·t1íll:r'j) et le bien absolu; ii estime que
seule l'opinion sagement modérée et probable (oóça) et le bien relatif
sont possibles d'atteindre. Là ou le philosophe critique la rhétorique
comme un formalisme vide, l'orateur y voit le moyen d'offrir aux poli-
ticiens non seulement des procédés pour exposer leurs idées et con-
vaincre les foules, mais surtout eles directrices générales pour le gouver-
nement et pour l'activité diplomatique.
Convaincu (d'ailleurs, tel que ses antagonistes de l'école socratique)
que toute éducation (qui aanbitionne de dépasser le niveau de la pure
spécialisation eu vue d'un métier) doit être une «culture politique», iI

5. Pour plus de détail sur la vie d'Isocrate et de ses idées, voir: G. Mathieu,
Les Idées Politiques d'Isocrate, Paris, Les BeBes Lettres, 1966 (11925); idem, Intro-
duction (in Isocrate, Discours, tome I, Paris, Les Belles Lettres, 1956); W. Jaeger,
Paideia, Die Formung des griechischen Menschen, 11936. Ce livre a plusieurs éditions
allemandes et est traduit en plusieurs langues; la traduction portugaise a été
publiée par l'Éd. Aster, s. d.
6. Isocrate, Paneg., 53, 76-81 et passim; Philippe, 146-148 et passim.
7. Thucydide, Oraison Funebre prononcée par Péricles, II, 7, 41. Dans ce
passage, l'historien appelle Athenes «l'éducatrice de la Grece». L'Antiquité lui
attribuait aussi la phrase: «Athenes est la Grece de la Grece».
POLITIQUE ET ÉTHIQUE OANS LA GRECE OU IV· SIECLE AVANT JÉSUS CHRIST 107

se bat pour l'union de la morale et de la vie politique 8. II combat sans


trêve la politique extérieure d'Athenes, son impérialisme, en préconi-
sant une confédération de cités, comme nous l'avons dit, sous l'hégé-
mCYl1ie d'Athenes, certes, mais dans le respect de l'autonomie de chacune
d'entre elles 9. II affirme que l'idéal des démocraties est une vie régie
par les vertus morales 10; il rappelle sans cesse les devoirs mÜ'raux de
l'État 11; iI a.pplaudit l'action politique alliée au Droit 12; il fait remar-
quer que la fidélité aux trai,t és, la justice et la douceur envers les
autres Grecs sont le fondement de la concorde 13; il considere le stratege
Timothée comme le modele du général, vu sa conception diplomatique
de la guerre 14, et fait remarquer, à ce propos, qu'un chef doit posséder
aussi des qualités de sociabilité et de charme 15.
Son analyse de la politique intérieure d'Athenes et des déficiences
du fonctiannement de la démocratie est implacable; elle dénonce par
surcroit la faillite de l'éducation du citoyen 16. Seule une réforme morale
permettra La réconciliation des Grecs et cette réforme devra avoir
comme soutien une paideia assise dans la conviction de la supériorité
des forces spirituelles sur les forces physiques, que l'orateur proclame
à plusieul's reprises 17. II soutient la these de la priorité des devoirs
moraux jusqu'aux dernieres conséquences, en admettant qu'une mort
glorieuse est préférable à une vie honteuse 18 et qu'une défaite juste
est supérieure à une victoire i!l1juste 19. II esquisse le portrait de l'hon-
nête homme, en signalant comme conditions indispensables un juge-
ment équilibré et réaliste en face des circonstallJ..ces, la bienséance et la
justice dans les rapports sociaux, la pondération et la mesure dans

8. W. Jaeger, Paideia, Liv. IV, passim.


9. Sur la Paix, 41-45. Dans ces paragraphes, Isocrate parle aux Atheniens sur
le combat pour la liberté des Grecs, sur le respect pour les alliés, sur la conduite
guidée par l'honnêteté et par la raison.
10. Paneg., 76-79.
11. Sur la Paix, 119-120; Panat., 185; Arch., 36-38.
12. Plat., 40.
13. Ibid., 39.
14. Antíd., 116.
15. Ibid., 131-138.
16. Dans I'Aréop., et passim.
17. II parle de la supériorité des forces spirituelles sur les forces physiques
dans plusieurs écrits, comme: Paneg., 1-2; Lettre aux Magistrats de Mytilene, 5;
Al1tid., 250, 302, 304, etc.
18. Paneg., 95
19. Panat. , 187.
108 MARIA HELENA URENA PRIBTO

l'action, la modestie et la maltrise de soi face au succes 20. Comme une


atmosphere enveloppant, pour ainsi dire, toutes les vertus et rendant
facile la cohexistence pacifique, il fait l'éloge de la bienveillance (Ei)VOt~)
entre Citoyens et entre États 21.
Bien que san langage sait différent de celui de Platon dans la
République 22, au fand ce qui définit la perfection mOTale pour Isacrate
ce sont aussi les quatre$ vertus que déjà les penseurs grecs pa'iens,
avant les chrétiens, réputaient de «cardinales» parce qu'elles sont comme
l'axe autour duque! se meut toute conduite valable du point de vue
éthique: la prudence ou sagesse, la force, la tempérance et la justice.
II parle à maintes reprises de la prudence ou sagesse, en vantant, comane
naus l'avons dit, la supériorité de la raison et du jugement droit.
Quant à la force, il va jusqu'à affirmer que le courage dans la guerre
ne vaut pas la constance et la force d'âme dans la paix 23. Parmi les
bienfaits de sa paideia, il compte les exhortatiorns efficaces à la tempé-
rance 24. Mais la vertu la plus haute, à laque!le il exhorte inJassablement
leso cités et Ies citoyens c'est la justice, qu'on atteirut pIus facilement
grâce à l'éducatiorn et aux moeurs s'a ins développés depuis l'enfance
que grâce à la multiplicité des lois répressives 25. L'enthousiasme dans
l' éloge de la justice le mene non seulement à 'vanter son excellence
intrinseque, mais aussi à signaler ses bénéfices: il parle des recom-
penses temporelles et éternelles de la justice u" aussi bien que de son
«utilité»: de pense» - affirme-í-il dans le discours Sur la. Paix n - «que
naus ne devons pas quitter cctte assemblée sans avoir nam seulement
voté la paix, mais encore pris des mesures pour la cornserver, au lieu
d'agir selon TIotre habitude: nous doruJ.er quelques irnlStants de répit
pour retamber dans les mêmes troubles; ce n'est pas une relâche,
mais une guérison complete de nos maux actueIs que naus devons
découvrir. Or rien de ceia ne peut se produire avant que nous ne soyons

20. Ibid ., 30-32.


21. Sur la Paix, 78; Panat., 116, 269; Lettre II à Philippe, 18, 21, 24 et pa~sim.
22. Quant aux vertus «cardinales», voir Platon, Rép., 487a-504a. II s'agit de la
sagesse ou prudence: sophia; de la force ou courage: andreia; de la tempérance:
sophrosyne; de la justice: dikaiosyne.
23. Panat., 198 (force).
24. Antid., 84 (tempérance).
25. Aréop., 41 et passim (justice).
26. Sur la Paix, 34 (récompense de Ia justice).
27. Ibid., 25-26; Plat., 25.
POLITIQUE ET ÉTHIQUE DANS LA GRÉCE DU IV· SIÉCLE A V ANT J ÉSUS CHRIST 109

persuadés qu'il y a plus d'avantage et de profit dans le calme que


dans l'agitatà.on, dans le droit que dans l'injustice, dans le souci de nos
propres aHaires que dans la oonvoitise visant le bien d'autrui.» Dans oe
discours Isocrate a composé, pour ainsi dir"e, un hymne à la Justice.
Par oeite préocoupation pragmatique de l'utilité de la justice et des
autres vertas, Isocrate se distingue de Blaton et de l'Aca:démie en
généraI. II sait qu'il s'adresse à une foule sur laquelle la cO\tltemplation
du bien suprême et idéal a peu de prise; il poursuit le bien possible,
dans un monde réeI.
Est-ce que l'orateur étailt vraiment coovaincu de l'utilité de la
vertu? 28 Était-il vraiment convai!Ilcu, dans soo optimisme, de la possi-
bilité d'atteindre par la vertu la richesse (1CÀ.OÜ'"COÇ) et le bonheur
(EUOa.q.W\lta.)~? Ou aspirait-il seulement à en persuader l'homme ordi-
naire, en aiguillonant son intérêt? Nous ne le savO!IlS pas au juste.
Néanmoins, il semble confier plus dans les bonnes dispositions natu-
relles et dans la réaction aux impulsions que dans l'enseignement de
la vertu, tel qu'on le prétendait dalI1JS l'école socratique. Isocrate ne croit
pas, en effet, à l'enseignement de la vertu, bien qu'il espere que l'étude
de l'éloquence et l'exercice sauront développer la vertu chez les natures
douées.
L'attachement d'Isocrate au régime démocratique d'Athenes, bien
que tres grand, ne l'empêchait pas de surmonter par la réflexio!Il les
étroites limites de la polis pour envisager d'autres régimes et pour
louer leurs aspects positifs. PaI1Il1i plusieurs discours et lettres adressés
à des souverains, on peut remarquer oeux qu'il a envoyés à Nicocles,
roi de Chypre 30. Dans le premier de ces discours (une exhortatio!Il à
Nioocles sur les devolÍrs du roi), il a inauguré, pour ainsi dire, la tradi-
tion des traités d'éducation des princes, qui était destinée à une vitalité
surprenante pendant le Moyen-Age, la Renaissanoe et les deux siecles

28. Sur la PatX, 25-40; Antid., 281-282.


29. Arch., 36.
30. Nicoc1es, roi de Salamine, ville de Chypre, était le fils d'~vagoras, qui
est mort (selon Diodore de Sicile, XV, 47) en 374/73. Nicoc1es naquit peut-être
dans les premieres années du IV· siec1e a. J. C. Le premier discours de la série
(A Nicocles) , a été écrit selon toute vraisemblance vers 370. L'authenticité de ce
discours n'a pas été contestée; malgré cela, on ades suspicions quant à quelques
interpolations qui ne suffisent pas, oependant, à altérer les lignes générales de
la pensée de l'orateur.
110 MARIA HELENA UREl'iA PRIETO

suivants 31. DalI1.'S ce discours, on voit se succéder les regles de conduite


qui, du fait de sa r6péti1lion pendant des siecles, nous semblent
aujourd'hui banales mais qui ne l'était pas autrefois: ces vénérables
lieux communs de la sagesse des peuples sur l'art de gouverner et sur
la sociabilité inter pares ohez un peuple civilisé.
11 appartient au gouvemant d'assurer à son peuple la justice, la
prospérité et la paix. En vue de cela, iI faut qu'il exerce sur soi-même
une discipline sévere. La supériorité du gouvemant lui exige une exoel-
lence dans la vertu qui puisls e égaler les honneul's dOlIlit H est objet.
«11 n'est pas d'athlete» - écrit Isocrate - «pour qui fortifier son corps
soit une obligation aussi grande que pour un roi ceUe de fortifier son
âme», car les prix qu'offrent les jeux ne sont rien à côté de la gloire
des roi,s 32.
Veiller au bien commun, en établissant des lois adéquates et cohé-
rentes; exeroer la justice avec impartialité; défendre les faibles contre
les forts et les oppresseurs, eu prenant soin de tous comme un pere;
punir avec sérénité et modération les délits; donner l'exemple de la
maitrise de soi et de la tempérance; se montrer toujours si épris de
vérité que ses paroles aient plus de crédit que les sel'lTIents des autres;
s'entourer de bons conseillers, en sachant distinguer entre ami et adula-
teur; exercer la justice eu politique i'llternationale, entretenant avec les
ttats plus faibles les relations qu'on souhaiterait avoir avec les ttats
plus forts - toutes ces nornles sont le fondement de la conduite d'un
souverain digne de ce nom 33. Mais si le gouvel'nant veut mériter une
gloire impérissable 34, et avoir des raisons pour nourrir «pour toute

31. Contemporain d'Isocrate, Xénophon a esquissé dans la Cyropédie le portrait


du souverain idéal. Dans la période romaine, Dion Chrysostome a composé quatre
discours sur la royauté. Dans la période byzantine, le diacre Agapétos a adressé
à l'empereur Justinien, à l'occasion de son ascension au trône (526) , une exhorta-
tion; le patriarche Photius a fait de même à l'adresse de son disciple, le prince
Michel, lors de son baptême (859). Manuel II Palaiologos a dédié à son fils Jean des
Regles de Vie (1415) . Pendant le Moyen-Age latin, ce son1 multipliés les traités
d'éclucation du prince, tels que le De Regimine principis de St. Thomas D'Aquin
et d'Égide Colonna. Depuis la Renaissance, ont proliféré des traductions et des
adaptations des discours d'Isocrate et d'autres anciens. Sur ce sujet, voir mon
article: «O 'ofício' de rei n'Os Lusíadas segundo a concepção clássica», in Actas
da IV Reunião Internacional de Camonistas, Ponta Delgada, 1984, pp. 767-805.
32. A Nicocles, lI.
33. Ibid., 16-3I.
34. Ibid., 32-37.
POLITIQUE ET ÉTHIQUE DANS LA GR:tCE DU IV' SIÉCLE AVANT JÉSUS CHRIST 111

l'éternité de plus douces espérances» 35, il doit encore remplir deux


conditions. Une de ces conditions est celle de rendre cuIte aux dieux,
non seulement avec les rites traditionnels, mais aussi avec un creur pur,
paroe que - affil1IIle l'auteur 36 - «te plus beau sacrifice, le plus noble
geste de déférence, ce s'e ra de se montrer l'homme le meilleur et le
plus juste. II y a plus de chance pour que de tels fideles - et non pas
ceux qui s'acquittent de multiples offrandes - , connalssent grâce aux
dieux la prospérité.» Une autre condition sera oelle d'aimer sa patrie
et ses semblables parce que - écrit Isocrate 37 - <<uul ue peut diriger
convenablemenrt des chevaux, des chiens, des hommes, ni quelque entre-
prise que oe soit, s'il ne prend plaisir dans la compagnãe des êtres ou
des choses sur lesquels il doit veiller.» Ce noble humanisme, que les
Grecs appelaient «philanthropie», explique la pérénité du succes des
exhortatioIlis d'Isocrate qui ont inspiré, comme nous le disions tout'à
l'heure, maints traités chrétiens d'éducation des princes et pouvait
couvrir de honte le pragmatisme froid et iJJ:npitoyable d'un Machiavel.
Dans le deuxieme di,s cours envoyé à Nicocles, vraisemblablement
prononcé par le roi de ChypI'e luilffiême, iI s'agit des devoiTs des sujets
envers leur souv,e rain et env,e rs leurs concitoyens. Ces devoirs sont la
contre-partie des devoirs du souv,e rain. Dans le dernier discours de
la série, Isocrate loue, dans la personne du roi Évagoras, le feu pere
de Nicoeles, 1e gouvernant idéa1 38 •
Avec ce , triptyque sur l,es devoirs des gouvernants et des sujets,
Isocrate elôt, pour ainsi dire, le cyele de la paideia, jetant les fondements

35. Paneg., 28; Sur la Parx, 34.


36. A Nicocles, 20.
37. Ibid., 15.
38. Le discours, dont le titre est Nicocles , le deuxieme de la sene, a été
envoyé au roi de ce nom, semble-t-il, en vue d'être prononcé par lui-même. Qu'iI
ait été ou non, iI s'agit d'une apologie du roi et de la monarchie adressée à ses
sujets, ou l'on expose des idées que quelques uns pensent invraisemblables sous
la plume d'Isocrate; cela pouvait nous faire douter de l'authenticité du discours
(sans raisons valables, selon G. Mathieu). Isocrate aurait composé ce, discours
pour fortifier l'autorité du monarche, contesté par ces sujets, et pour nourrir
des sympathies qui puissent servir les desseins de trouver un prince pour être le
chef de la confédération panhéllénique.
Le troisieme discours, avec le titre d'Evagoras, éloge en prose du feu pere
de Nicocles, écrit (semble-t-il) vers 365, est encore un hommage de l'orateur au
roi de Chypre, peut-être parce qu'il jugeait utile de maintenir l'amitié avec un souve-
rain vassal du roi de Perse, qu'il devienne ou non le chef d'une confédération
panhéllénique.
112 MARIA HELENA URENA PRIETO

de tous les programmes et de tous les régimes politiques sur l'exercice


des vertus morales.
Avouons, néamnOlins, que le prograunme politique de l'orateur n'est
pas tout à fait i,s ernpt de contradictions et de bornes. D'un côté il sacri-
fie au succes de sa propagande la cohérence des exigences morales
lorsque, des fois, iI prêche la vertu désintéressée et, d'autres fois, comme
nous l'avons dit, il fait de l'utilité de la vertu un appât pour le citoyen
et le gouvernant,' en la montrant toujours avantageuse et proHtable . .. 39
D'un autre côté, sa «philantropie» ne s'étend pas aux «barbares», auxque1s
il n'ootroie jamais le droit de oité mais la seule oondition de serf.
L'honneur lui revient, pourtant, si les siocles qui ont sUiÍvi (et
surtout notre siecle, lorsqu'i·l exige de tous les peuples et de toutes
les races le respect des droits de l'hO'ImIle) n'ont pas découvert des
devoirs et des droits plus sublimes que ceux qu'Isocrate a ensei gné,
inlassablement, pendant dnquante ans, au peuple grec.
Plüt au ciel qu'aujourd'hui nous tous (00 spécial les professionnels
de l'information, héritiers des orateurs politiques d'autrefois 40) nous
puissions répéter sans hypocrisie l'éloge de la parole, instrument de
paix et de civilisation; un éloge tel que l'a écrit lsocrate 41:

253 Ii faut dane avair sur la parole la même apmlOn que sur les
autres aeeupatians, ne pas juger différemment les ehases semblables
et ne pas mantrer d 'hastilité cantre celle des facultés naturelles de
l'hamme qui lui a valu le plus de bien. En effet, camme je l'ai déjà
dit, de taus nas autres caracteres aucun ne naus distingue des animaux.
Nous sommes même inférieurs à beaucoup sous le rapport de la
rapidité, de la force, des autres facilités d'action. 254 Mais, parce
que nous avons reçu le pouvoir de nous canvaincre mutuellement
et de faire apparaitre clairement à nous-mêmes l'objet de nos décisions,
non seulement nous nous sommes débarrassés de la vie sauvage, mais
nous nous sommes réunis pour construire des villes; nous avons fixé
des lois; nous avons découvert des arts; et, presque toutes nos inven-
tions, c'est la parole qui nous a permis de les conduire à bonne fino
255 C'est la parole qui a fixé les limites légales entre la justice et
l'injustice, entre le mal et le bien; si cette séparatian n'avait pas été

39. On trouve des contradictions parlois dans le même discours. Voir, par
exemple, le Panathéna'ique, 117-118, ou l'auteur préfere la survivance, bien qu'alliée
à l'injustice, et, ibidem, 185, ou il préfere la défaite avec justice à la victoire
injuste ...
40. W. Jaeger, Paideia, Liv. IV, Cap. III (Éducation politique et idéal panhél-
lénique).
41. Antid., 253-257.
POLITIQUE ET ÉTHIQUE DANS LA GRf::CE DU IV· SmCLE AVANT J ÉSUS CHRIST 113

établie, nous serions incapables d'habiter les uns pres des autres.
Cest par la parole que nous confondons les gens malhonnêtes et que
nous faisons l'éloge des gens de bien. C'est grâce à la parole que nous
formons les esprits incultes et que nous éprouvons les intelligences;
car nous faisons de la parole précise le témoignage le plus sur de la
pensée juste; une parole vraie, conforme à la loi et à la justice,
est l'image d'une âme saine et loyale. 256 C'est avec l'aide de la
parole que nous discutons des affaires contestées et que nous pour-
suivons nos recherches dans les domaines inconnus. Les arguments
par lesquels nous convainquons les autres en parlant, sont les mêmes
que nous utilisons lorsque nous réfléchissons; nous appelons orateurs
ceux qui sont capables de parler devant la foule, et nous considérons
comme de bon conseil ceux qui peuvent, sur les affaires, s'entretenir
avec eux-mêmes de la façon la plus judicieuse. 257 En résumé, pour
caractériser ce pouvoir, nous verrons que rien de ce qui s'est fait
avec intelligence, n'a existé sans le C011cours de la parole: la parole
est le guide de toutes nos actions comme de toutes nos pensées;
011 a d'autant plus recours à elle que l'on a plus d'intelligence.

Contemporains d'Isocrate, les sophistes aussi ont fait l'éloge de


la parol,e e1: ont exercé et enseigné l'art de la parole, mais Isocrate a
voulu s'élaigner d'eux, soumet1lamt la rhétorique à une déonrtologie;
en faisant de la parole la servante de l'homme, au lieu de faire de
l'homme le jouet de la paro1e. Aussi a-t-il appelé l'éloquence ~< philo­
sophie», et de cette philosophie il s'est servi comme d'une paideia,
qui, pendant des siec1es, s'est traduite dans ce que nous connaissons
aujoul'd'hui COImIle la «cuItare générale» des peuples européens.

UN EXEMPLE DE LA SURVIVANCE DE LA PAIDEIA


POLITIQUE DES ANCIENS: LES LIVRES D'EMBLEMES

Les idées politiques d'Isocrate et d'autres auteurs grecs et romains


nous ont été tralllsmises par la littérature et par la tradition scolaire.
Dans ce dernier domaine nous pouvons signaler une méthode péda-
gogique, employée de façon systématique depuis le seizieme jusqu'au
dix-huitieme siocles: l'utilisation de la littérature emblématique.
L'embleme se composait d'une courte maxime qui servaJit de titre,
d~une gravure allusive au suJet et d'un texte bref, écrit en général eu
vers et en laJngue latine. De cette façon rapide et expressive, les éduca-
teurs éveillaient l'intérêt de leurs disciples et facilitaient la mémo-
risation, avec des moyens qui antéoipaient la moderne bande déssinée.
114 MARIA HELENA URENA PRIETO

Le fondateur de la littérature emblématique a é1té André Alciati,


juriste milanais, qui en 1531 a publié à Augsbourg son E111,blematum
libellus (Petit livre d' emblemes). Dans l'édition de Padoue, publiée
en 1661 (gravure 1: frontispice), figuraient anne emblemes politiques,
associées en trois unités thématiques:

- Premiere: Les devoirs du prince (princeps):

E. 144: Princeps subditorum incolumitatem procurans (Le Prince


qui prend des mesures pour le salut de ses sujets);
E. 145: ln senatum boni principis (Quelle doit être l'audience
du bon prince);
E. 146: Consiliarii principum (Quels doivent être les conseillers
des princes);
E. 147: Opulentia tyranni, paupertas subjectorum (Opulence du
roi; pauvreté des sujets);
E. 148: Quod non capit Christus, rapit fiscus (Ce que Dieu ne
reçoit pas, le fisc l' enleve).
E. 149: Principis clementia (La clémence du prince);

- Deuxieme: Les avantages de la république (respublica):

E. 150: Salus publica (Le salut de la république);


E. 151: Respublica liberata (La libération de la république);

Troisieme: Les dons de la paix (pax):

E. 177: Pax (La paix);


E. 178: Ex bello pax (La paix qui succede à la guerre);
E. 179: Ex pace ubertas (L'abondance de la paix).

Les ,e mblemes politiques traduisent, au moyen d'images al1egorico-


symboliques et de maximes mo ralisatrices, la dootrine des traités d'édu-
cation des princes, qui peuvent être envisagés comme des abrégés de
philosophie politique 42.

42. Cf. supra, note 31. On trouve une bibliographie abondante dans le livre de
Mario Praz: Studies in seventeenth-century imagery, Roma, Edizioni di Storia
POLITIQUE ET É TI-IlQUE DANS LA GRl?CE DU IVo SIECLE AVANT JÉSUS CHRIST 115

Le fondateur du gem'e ne se limitait pas aux enseignements poli-


tiques: iI transmettait au moyen des emblemes des maX'imes de morale
pratique, adéquates à n'importe quel citoyen, dans les différents domai-
nes de la religion, de l'amour, de l'amitié, de la vie civique, etc. Ses.
innombrab1es ünitateurs se sont spécialisés, en bornant leurs emblemes
à des sujets particuliers. Par la suite, sont parus des livPes d'emblemes
pieux, amoureux, politiques, etc. Même les sciences de la nature, la
physique et la chim1e ont été enseignées à travers les emblemes!
L'emblématique politique a été cultivée un peu partout en Europe,
mais la Péninsule Ibérique a été le terrain de choix pour les péda-
gogues désir·e ux de transmettI'e leur message 43 . L'emblématique pÜ'li-
tique était aunre chose qu'un jeu pour des hO/ffimes âgés, respectables
et ~nstruits: elle était une tâche eXiercée avec beaucoup de sérieux en
esprit de service pour le bien commun.
Les manifestes avantages pooagogiques du mot aHié à l'image ont
séduit des hommes remarquables, principalement des juristes, qui se
sont servis de l'emblématique dans l'éduoation des princes, surtout
de ceux qui se révelai,e nt plus contraires à des lectures sél1ieuses.
Parmi les plus fameux des livres espagnols d'emblemes, on peut
compter oelui de Don Juan de Solórzano Pereira qui est né en 1575 et
mort en 1655. II était docteur en lois par l'UIlIiversité de SalamMlJCa et
magistrat à Lima, au Pérou. II a finirt sra carriere comme membre du
Conseil Suprême de Cas,t ille. Ses ouvrages de jeunesse avaient oomme
sujet le Droit Romain; pendant son âge mur, il s'est consacré à la tâche
de compi1er et de commenter les lois et la jurisprudence du Pérou;
dans sa vieiUesse, iI a employé ses heuI'es de loisirs à la récLaction et
à la composition d'une centaine d'emblemes politiques qu'il a com-
mentés lui-même av,e c un immense s'a voir juridico-politique 44.
Le frontispice de la premiere éditioiJl. de son livre, publiée en 1653,
représente déjà une remarquable composition allégorioo-symbolique
concernant. l' empire espagnol.

e Letteratura, 1975. Utile aussi la consultation de: Yves Giraud et alii, L'Emb/eme
à la Renaissance, Paris, Société d'Édition d'Enseignement Supérieur, 1982.
43. CC au sujet de l'emblématique espagnole: Giuseppina Leda, Contributo
allo Studio della letteratura emblematica in Spagna (1549-1613), Pisa, 1970; Aquilino
Sánchez-Pérez, La Literatura Emblematica Espanola (siglos XVI e XVII), Madrid,
Sociedad General Espafiola de Libreria, S. A., 1977.
Voir aussi mon article: «O 'ofício de rei' n 'Os Lusíadas segundo a concepção
clássica», in Actas da IV Reunião Internacional de Camonistas, Ponta Delgada, 1984.
44. Emblemata centum regio-politica, Madrid, D. Garcia Morras, 1653. Voir
aussi: F. Javier de Ayala, Ideas Politicas de Juan de Solórzano Pereira, Sevilla, 1946.
116 MARIA HELENA URENA PRIETO'

Ce livre de SolórzanO' Pereira présente un intérêt tout spécial pour


les portugais car iI existe une paraphrase portugaise de l'O'uvrage, en
vers, illustl'ée par UJI1e centaine d'erullãl1!Ílnures, O'fferte au prilI1ce régent
Dom JoãO' en 1790. Le manuscrit appartient à la Bibliotheque NatiO'nale
de RiO' de Janeiro, provenarrt de la BibliO'theque Roya1e de notre roi
Dom JO'ão VI. SO'n éditiO'n fac-similée a été publiée en 1985 par l'Institut
de Culture et Langue PortugalÍse 45.
Le choix parmi les multiples images de ces deux livres est tres
malaisé à oause du charme des vieilles gravures d'Alcia:ti et des enlumi-
nures du manuscrit pO'rtugais, qui sont des copies tres libres de l'origi.Jnal;
mais; puisqu'H faut choisir, je me bornerai à trois gravures d'Alciati
et à cLix enluminures de SO'lórzano Pereira, qui illustrent les finallÍtés de
tO'us les gO'uvernements et les devoirs de tous les gouvernants, c'est-à-dire,
rendre culte à Dieu, d'un côté, et procurer à sem peuple la justice, la
prospérité et la paix, d'un autre côté.

- L'embleme IV de SP, avec le titre: Reges Deus habet quasi pilas


(Les rois dans la main de Dieu sont comme des balles), illustre la cO'n-
viction que les rois, tel que les autres hommes, sO'nt un jouet entre les
mains de Dieu Tres-Haut et Tout-puissant 46. De cette dépendance déri-
vent les devoirs de religion et les limitations du pouvoir absO'lu des
rois par la crainte de Dieu.
- L'embleme XXV de SP, avec le titre: Educationis uis (La force
de l'éducation) , rappelle le pouvoir de l'éducation. De la même façon
que les ohiem de chasse manifestent l'éducation reçue depuis leur
naissance, oelui-Ià en poursuivant un cerf, celui-ci sans bO'uger, ainsi
les citoyens dO'ivent être éduqués depuis l'enfance chacun pour son
métier, parmi lesquels O'n oompte le «(ffiétier de roi» 47.

45. Francisca Antónia de Navaes Campas, Príncipe Perfeito. Emblemas de


D. João de Solórzano. EdiçãO' fac-similada da manuscrita da Bibliateca Nacianal da
Ria de JaneirO', aferecida aO' Príncipe D. Jaãa em 1790. PrefáciO', introduçãO', camen-
tária e índices par Maria Helena de Teves Costa Drena Prieta, prafessara cate-
drática da Faculdade de Letras de Lisbaa, Lisbaa, ICALP, 1985.
46. La maxime est inspirée en Plaute, Captiui: Enim uero Di nos quasi pilas
homines habent.
47. Cf. Isocrate, A Nicocles, 12: «Ne t'imagine pas que l'applicatian sait utile
dans taus les autres domaines, mais sans farce paur naus rendre meilleurs et plus
raisannables. Et n'accuse pas l'humanité d'être assez disgraciée paur avoir trauvé
à l'égard des animaux des pracédés qui permettent d'adaucir leur caractere et
POLITIQUE ET ÉTHlQUE DANS LA GRECE DU IV· SIÉCLE AVANT JÉSUS CHRIST 117

- L'embleme LXIV de SP, avec le titre: Omnibus aequa (La Justice


doit être égale pour tout le monde), nous présente une allégorie de la
Justice. Le roi doit peser dans la balance de sa Justice l'hUiIllble autant
que le puiss3JIllt; s'il agit de cette façon, le peuple aura du respect et luí
sera soumis comme un lion apprivoisé.
- L'embleme CXLV d'Alciati (gravure 2), avec le titre: ln sena tum
boni principis (Quelle doit être l'audience du bon prince), représente le
com;eil du roi, ou leso magistrats ont les mains coupées en face d'un
roi qui n'a pas d'yeux. Les magistrats doivent être incorruptibles de
tel sorte qu'ils semblent ne pas avoir de mains, étant incapables de rece-
voir des présents pour se laisser suborner. Le roi lui-même doit pro-
noncer ses jugements comme s'il n'avait pas d'yeux, pour ne pas se
laisser séduire par l'affection ou les préférences. Et ils sornt tous assis
à fin qu'Hs pu1ssent refléchir longtemps avant de prendre une décision 48.
- L'embleme LXIII de SP, avec le titre Regum tribunal (Le tribunal
du roi), I1eprésente un roi darrs son tribunal entouré des muses. La
Sagesse coopere avec la Justice: en s'asseyant au tribunal comme juge
suproême, le roi dolÍt demander l'aide des neuf muses, prê·t resses de la
Sagesse, symboles des arts Hbéraux dans lesquels le roi doit être instruit 49 .
- L'embleme LXXVI SP, avec le titre: Pungat et ungat (Le roi doit
punir et récompenser), montre des ruches et des abeilles, pour rappeler
aux mis la vertu de la clémence. Que la dureté de la justice, comme
l'aiguillon de l'abeil1e, 50it compensée par la douceur du mieI. Que celui
qui peut blesser, aiane mieux guérir et récompenser.
- L'embleme CXLIV d'Alciati (gravure 3), avec le titre: Princeps
subdÚorum incolumitatem procurans (Le prince qui prend des mesures
pour le salut de ses sujets), représente un dauphin enlacé à une arrcre.
Tel que l'ancI1e fixe le bateau au fond, pendant la tempête, et 1e dauphin,

d'en augmenter la valeur tandis que nous restons sans secours vis-à-vis de nous-
mêmes pour acquérir la vertu. Au contraire, pense que l'éducation et l'application
sont capables plus que tout d'améliorer notre nature.»
48 . Cf. Isocrate, Aréopagitique. Ce discours tout entier est un éloge de l'inté-
grité et de l'indépendance morale des magistrats de l'Aréopage.
49. Cf. Isocrate, A Nicocles, 13: «Ne t'imagine pas que tu doives ignorer aucun
des poetes célebres ou des maitres de la sagesse; deviens l'auditeur des premiers
et le disciple des seconds; ". »
118 MARIA HELENA URENA PRIETO

ami de l'homme, l'enlace en la rendant pIus ferme - ainsi le bom roi


sera pour son peuple protection et refuge 50.
Cette image reproduit le revers d'une monnaie de l'empéreur Vespa-
sien et au XVIe siede fut adoptée comme vignette par l'imprimeur Aldo,
à Venise. Émsme l'a employée avec le proverbe Festina lente (Hâte-toi
lentement), qui met la fixité de l'ancre en face de la vitesse du dauphin 51.
- L'embleme LXVI de SP, avec le titre: Legum munia, urbium
moemia (Les lois servent de remparts aux villes) , nous présente une
ville entourée d'une palissade et ceinte par une file d'yeux, à fin de
rappeler le devoir de surveillance. Que le roi établisse des lois sages
et surveiUe san exécution de teI sorte qu'elles protegent le peuple
oomme des remparts et des sentineHes (teIs que des yeux attentifs)
protegent la ville 52.
- L'embleme LXXXIII de SP, avec le titre: ln principes insueta
tributa imponentes (Aux princes qui imposent des impôts extraordi-
naires), avertit les rois contre les impôts qui oppriment le peuple. Les
rois qui ilmposent au peuple des tributs extraordinaires sont semblables
à quelqu'un qui voudrait imposer des tributs aux omhres: du rien on
ne peut rien cueillir .. . Une telle extorsion est comtraire au soin paterneI
du roi envers ses sujets 53.
- L'embleme LXXXV de SP, avec le titre: Regum verus thesaurus
(Le vrai trésor des monarches), rappelle aux rois qu'ils doivent s'efforcer

50. Idem, ibidem, 23-24: «Montre-toi redoutable en prouvant que rien ne


t'échappe, mais indulgent en infligeant des sanctions qui restent au dessous des
fautes commises. Cherche à prouver ton art du commandement. non par la bruta-
lité ni par des châtiments excessifs, mais par la supériorité de ton intelligence
et en développant chez tous la conviction que tu sais mieux qu'eux préparer leur
propre détense.»
51. Idem, ibidem, 15-16: «Veille sur la masse de tes sujets et, par-dessus tout.
rends-Ieur agréable ton autorité. Sois convaincu que. parmi les oligarchies comme
parmi les autres formes gouvernementales, celles-Ià durent le plus longtemps qui
se font les servantes les plus zélées de la masse.»
52. Idem, ibidem, 17: «Cherche des lois pleinement justes, utiles, sans contra-
diction interne, capables de diminuer le plus possible les contestations et de
hâter le plus pour les citoyens la solution des conflits, car tels doivent être les
avantages des lois bien établies.»
53. Idem, ibidem, 21: Intéresse-toi aux biens de tes concitoyens; rappelle-toi
que les gens dépensiers consomment ton propre avoir tandis que les travailleurs
l'accroissent. Toutes les fortunes possédées par les habitants d'un État sont les
ressources domestiques de qui sait bien régner.»
POLITIQUE BT f:THIQUE DANS LA GRECE DU IVC SIECLE AVANT JÉSUS CHRIST 119

pour se faire aimer au lieu de se faire craindre. Le vrai trésor d'un


monarche est l'amour de som peupIe. Si le roi ne vexe pas son peupIe
par des i:mpôts excessifs et veille à sa prospérité pIus qu'à la sienne,
le peuple lui prêtera son aide spontanée au besoin. Dans l'image nous
voyons un oi1toyern quã porte des présents pour secourir son roi.
- L'emblE!ine LXXXVIII de SP, avec le tÍ'tre: Inglorium pro sola
gloria certamen (Lutter pour la gloire du seul triomphe), raprésernte un
combat de coqs. Faire la guerre par vaine gloire c'est faire comme
les coqs: on ne retireaucun pI10fit de la victoire et iI n'y a pas de lo~
morale qui pULsse la jusnifier 54. Cei embleme est un écho des innom-
brables controverses nées autour du probleme de la «guerre juste»,
soutenues pendant des siecles.
- L'embletne CLXXVIII d'Akiati (gravure 4), avec le titre: Ex bello
Pax (La paix qui succede à la guerre), nous parle de la paix com quise
par la guerre. Le guerre ne peut se justifier que si eUe est coooitiom
de paix. Alms, le casque guerrier devient une ruche d'abeiJ,les melliferes
qui font succéder à l'amel'tume de la lutte la douceur de la paix.
- L'embleme )«CIV de SP, avec le titre: Pacis commoda (Les avan-
tages de la paix), nous parle de l'abondance et des autres avantages de
la paix. La dées,s e de la paix, couroumée d'épis, avec le caducée, enseigne
salutaire d'Hermes, à la main droite, met le feu, avec la mam gauche,
aux armes et aux trophées guerriers, alors que, sur ses gernO'llX, la COTIle
d'abondanoe verse les fleurs et les fruits de la paix.

Les imagescommentées ne sont qu'Wl écharntillon des milliers de


cenes qui peuplent les pages de centaines de livres d'emblemes publiés
pendant trois siec1es. Ces livres représeutent uu des canaux de trans-
mission de la pensée politique d'oI'igine grecque et la tine qui, en
passant par les traités d'éducation des princes du Moyen Âge et de la
Rcenaissanoe, s'est prolongée par l'abondante littérature politique des
siecles postérieurs. Ces liwes ont joué un rôle remarquable darns la
divulgation d'un patrimoine d'idées qui est arrivé jusqu'à nos jours
camme une oonquête de la conscience des peuples dans leur réflexion
millénai'l'e.

54. Idem, ibidem, 24: «Prouve ton amour de la guerre par ton savoir et par
ton entrâInement, ton amour de la paix, par ton refus de tout avantage injuste.»
120 MARIA HELENA URENA PRIETO

GRAVURE 1
Frontispice de l'éd. D'Alciati de 1661.
POLITIQUE ET ÉTHIQUE DANS LA GRí;CE DU IV· SIí;CLE AV ANT JÉSUS CHRIST 121

I GRAVURE 2
~
122 MARIA HELENA URENA PRIETO

.
,ANDREA..
/

ALeIATl
\lBLEltlAT
CVJ\1
Comménl.:Jrys
ampl.[silllls .

GRAVURE 3
POLITIQUE ET ÉTHlQUE DANS LA GRtCE DU I VC SIECLE AVANT JÉSUS CHRIST 123

GRAVURE 4
(Página deixada propositadamente em branco)
IL CONTRIBUTO DEL SECOLO XIX
AL PROGRESSO DEGLI STUDI CLASSICI

G. PASCUCCI
Università di Firenze

L'Ottocento e una tappa fondamentale nel progresso degli studi


classici: il nome stesso di Alterthumswissenschaft, comprensivo delle
innumeri sfaocettature, secondo le quali la nuova scienza sarebbe dovuta
indagarsi, nonché il fine che ad essa veniva assegnato, sono formulati
aI principio deI seco lo XIX da Federico Augusto Wolf (1759-1824): «Alle
bisherigen Ansichten laufen zu diesen vornehmsten Ziele wie zu einem
Mittelpunkte zusammen. Es ist aber dieses Ziel kein anders aIs die
Kenntniss der alterthümlichen Menschheit selbst, welche Kenntniss aus
der durch das Studiwn der alten Ueberreste bedingten Beobachtung
ei,n er organisch entwickelten beduetungsvollen National-Bildung her-
vorgeht. Kein niedriger Standpunkt aIs dieser kann allgemeine und
wissenschaftliche Forschungen über das Alterthum begrunden» (cf. Dar-
stellung der Alterthums-Wissenschaft, 1807, p. 124). Ed allo stesso Wolf
va il merito di aver istituito nella sua università, ad Halle, sin daI 1786,
lo strumento specifico per la sua attività di maestro, quel 'seminarium'
per la formazione dei docenti di discipline classiche, ri.masto alla base
della tradizione universitaria tedesca e trapiantato da noi, in ltaHa,
solo alla fine deI primo conflitto mondiale.
Como si vede, cuore degli studi filologici nell'800 fu la Germania,
non tanto quale sede di nuove, sensazionali conquiste scientifiche o
di strabilianti innovazioni metodologiche, ma come luogo deputato aI
perfezionamento delle conquiste anteriori e all'unificazione sotto una
etichetta comune delle varie esperienze settoriali, che lo studio dell'
antichità era andato svolgendo daI sec. XV in poi, dapprima in Italia,
successivamente in Francia, Olanda e Inghilterra. Valga di esempio cio
126 G. PASCUCCI

che si intende sotto iI pomposo titolo di 'metodo deI Lachmann', ossia


l'insieme dei pI1incipi che regolano la 'constituti.o textus' di un autore
antico, che e operazione fondamentale e preliminare della nuova soienza,
in quanto le consente di attingere a fonti il piú po,s sibile corrette e sicure.
Orbene, il ripudi.o della vulgata e l'esigenza di porre a fondamento
dell'edizione di un testo i codici che lo trasmettono, con procedimento
non saltuario ma oontinuato, furono espressi, prima deI Lachmann
(1793-1851) nella prefazione dell'edizione di Lucrezio (1850), daI W.olf
nei Prolegomena ad Homerum (1795), ip . 4: «ab h.oc leviore et quasi
desultorio genere plurimum discrepat iusta, perpetua, et oertis artis
legibus nixa recensio. ln illo nihil prope aliud, quam passim extantia
aliquove libro prodita vulnera sanare volumus; transmittimus plura,
ad sensum quidern bona et tolerabilia, sed ad auctoritatem nihilo meliora
pessimis. lusta quidem reoensio, bonorum instrumentorum omnium
stipata praesidio, ubique veram manum scriptoris rimatur; scripturae
cuiusque, non modo suspectae, textes ordine interr.ogat,- et quam omnes
annuunt, non nisi gravissimis de causis loco movet; alia per se scriptore
dignissima, et ad veritatem seu elegantiam sententiae optima, non nisi
suffragatione textium recipit: haud raro adeo, cogentibus illis, pro
v,e nustis infert minus venusta; emplastris solutis, ulcera nudat; denique
non monstrata solum, ut mali mediei,sed ei latentia wtia curat». Qui iI
concetto di 'reoensio', aI posto di eià che si diceva 'emendatio ope
codicum', od anche 'recognitio', brilla di chiara luoe anche in virtü
della nobile formulazione latina. AI Lachmann va ascritto iI merito di
averlo riportato in luce, dopo l'oblio cui l'aveva relegato Gotttredo
Hermann (1769-1835), fautore di altro indirizzo nella filologia, e di
averlo r.iportato in luce, dopo l'oblio cui l'aveva relegato Gorttfredo
per motivi di carattere religioso, ancorché teorizzato, inizialmente, in
servigi.o di essa. Quanto alla sfidueia verso i codici piu recenti, iI
Lachmann presentava una posizione condivisa già daI Poliziano e daI
Vettori, ma specialmente dallo Scaligero, ed esasperata dall'olandese
Carel Gabriel Cobet (1813-1869) nel motto 'comburendi, non conferendi':
di averla ridotta entro limiti acoettabili spetta a questo seeolo, che per
voce di Pasquali (1934) praclamà 'recentiores non deteriores'. Ma la
caratteristica essenziale deI metodo deI Lachmann consiste, per la com-
munis opinio, nella ricostruzione della storia deI testo e particolarmente
dei rapporti genealogici che intercorrono fra i manoscritti giunti sino
a noi: eppure, sotto questo rispetto, iI contributo deI Lachmann e stato
scarso ed incerto: i veri fondatori della classificazione genealogica dei
manoscritti furano lo svedese Schlyter (in campo diverso dalla filologia
IL CONTRIBUTO DEL SECOLO XIX AL PROGRESSO DEGLI STUDI CLASSICI 127

classica), Karl Gottlob Zumpt (1793-1843), ii danese Iohan Nicolai Madvig


(1804-1886) IlieIle edizioni, rispettivamente, d~lle Verrine e deI De finibus,
ma sopra tuui Friedrich Wilhelm Ritschl (1806-1876) e Jakob Bernays
(1824-1881) neIle edizioni di Dionigi di Alicarnasso e di Plauto ed in
queIla di Lucrezio. Anche per l'esigenza di fissare la derivazione di tutti
i codici di un'opera da un unico archetipo si risale, oltre aI Lachmann,
sino ad Erasmo ed aIlo Scaligero, mentre per ii termine archetipo inteso
tecnicamente con lo specifico senso di capostipite medievale peI'duto,
si deve foc capo aI Madvig nella dissertazione De emendandis Ciceronis
orationibus pro P. Ses tio et in P. Vatinium (1833). Altra operazione, di
cui si e abusato neIl'Ottocento e purtroppo si continua ancÜ'Toggi a
fare uso incontI'ollato - per convincersene si veda la praefatio aIla
nuova edizione teubneriana deI Bellum Gallicum di Cesare (1987) ad
opera deIlo Hering - e quella che va sotto iI nome di 'eliminatio corucum
descriptorum' - troppo spesso ridotta acomodo espediente per rispar-
miare tempo e fatica aI filologo: indizi insufficienti o maga ri la semplice
constatazione di una massa di recenziori accanto ad un manoscritto di
conclamata antichità, hanno fatalmente portato a postulare la deriva-
zione dei piu reoenti da quel piu antko: ii primo ad applica-re questa
norma - sembra correttamente - fu iI Poliziano; se ne avvalsero poi
ii francese Boivin in un'annotazione autografa aI Parisinus Graeous 2306
contenente ii ITEpt ü~ouç e l'alsaziano Schweigaeuser per l'ediziorne deI
Manuale di Epitteto ~attivi entrambi nel sec. XVIII), ma CO'll acoentuato
rigore Hermann Sauppe (1809-1893) per queIle di Lisia e di Floro.
II Lachmann non oe ne ha lasciato menzione. Esplicita fu invece la sua
distinzione fra 'reoensio' e 'interpretatrio', che lo indusse a sostenere:
'recensere ... sine interpretatione et possumus et debemus', un principio
che a noi puõ parere paradossale, ma che aI Lachmann pote essere
suggerito daIl'urgenza di fornire edizioni rigorosamente diplomatiche,
riproducenti la tradizione manoscritta nella forma piu antica per noi
raggiungibile, senza prendere minimamente in con~iderazione ii senso
deI testo e le norme deIla grammatica. Quanto poi aI render conto
deIla storia di un testo neIl'antichità, iI primo esempio veniva daI Wolf
che nei suoi Prolegomena seppe attuare, grazie aIla utilizzazione degli
scolii veneti scoperti daI Villoison, un quadro deI Fortleben di Omero,
daIle origini dei due poemi sino ad Apione attraverso il passaggio
obbligato di Pisistrato: con ciõ preparava la via non aI Lachmann, ma
piuttosto aI concetto di Textgeschichte di Otto Jahn (1813-1869) e di
Ulrich Wilamowitz (1848-1931) e a tutti gli studi che neIlo Otto e Nove-
cento si sono fatti su «varianti antiche e antiche edizioni», per ripetere
128 G . PASCUCCI

iI titoIo di un capitoIo delIa Storia della tradizione di Pasquali. La stessa


questione omerica non era altro, per iI Wolf, che la prima fase, orale
e popolar·e, delIa storia deI testo dell'Iliade e delI'Odissea: come tale, e
non come problema storico-letterario a sé, essa e trattata nei ProZego-
mena. Infine va considerato genuino contributo deI Lachm.ann, pur senza
misconoscere il suo debito a predecessori e a contemporanei, la formu-
lazione dei criteri che permettono di determinare meccanieamente (cioé
senza ricorrere aI iudicium) quale, tra le varie lezioni di un testo, ris alga
all'archetipo. Codesta disarticolazione delle varie componentá che nel
loro camplesso costitu]soono il me todo deI Lachmam:l, cou relativa
attribuzione di ciaseuna a studiosi che lo preeedettero o lo seguirono,
e stata operata con suecesso daI nostro Timpanaro nel VII cap. di
La genesi deZ metodo deZ Lachmann, un'opera che ha avuto l'onore
di essere tradotta in tedesco (ho seguito la 3a edizione, Padova 1986):
e con lo stesso suo intento ce ne serviamo non alIo seopo di ridimen-
sionare la figura deI Laehmann, filologo d'ingegno meno acuto e profondo
di altri suo i contemporanei, ma piuttosto per far vedere come la costru-
zione, che va sotto il nome di lui, debba considerarsi il risultato di una
eollaborazione collettiva, cui hanno partecipato, oltre aI Lachmann, altri
insigni fil010gi, appartenenti a scuole diverse e ciascuno dotato di
proprie attitudini. Si sarà notato, credo, che nou si sia fatto ancora
parola dell'altra operazione, su cui si fonda la 'constitutio textus', cioé
1"emendatio' - o, come si esprimevano i nostri umru::u:isti, 'emendatio
ope ingenii'. Anch'essa fu praticata nei secoli anteriori: e sopratutto
nell'Inghilterra deI XVIII secolo, per es. daI grande Bentley, che forte
delle sue squisite conoscenze linguistiche e prosodico-metriche, la esercità
con genialissimo intuito, anche se a volte con temeraria audacia. Famosa
e la sua dichiarazione: 'nobis et ratio et res ipsa centum codicibus
potiores sunt' , e non meno quella sua pagina della prefazione alla
edizione di Orazio, in cui sostiene che la congettura, proprio perché
coinvolge integralmente le responsabilità dei filologo, finisce coJ dare
risultati piu sicuri che l'accettazione della lezione tramandata o la
scelta fra varianti. Siamo agli antipodi rispetto aI concetto lachm.an-
niano di 'recensio sine interpretatione'. Ma la critica congetturale fioriva
anche in Germania, per merito di Hermann: mirabile conoscitore di
língua e di stile greeo, autore di importanti contributi metrici, non ebbe
alcun interesse per ta tradizione manoscritta: le sue edizioni fondate
non sui codici, ma su edizioni precedenti, presentano come migliora-
mento dei testi studiati iI frutto delle sue congetture o comunque di
sue scelte basate soltanto sullo iudicium - i cosiddetti criteri interni
IL CONTRIBUTO DEL SECOLO XIX AL PROGRESSO DEGLI STUDI CLASSICI 129

'usus scribendi' dell'autore e 'lectio difficilior', già utilizzati dai gram-


matici antichi -: naturalmente, moltissime volte difficoltà testuali sino
allora insuperate, poterono essere da lui risolte, poiché conoscere a
fondo la lingua e stile di uno scrittore resta sempre condizione inde-
rogabile per ristabilirne iI testo. Tuttavia la completa indifferenza per
iI fondamento documentario dei testi classici costituisce non solo un
arretramento rispetto alla nuova critica testuale, ma anche un aspetto
essenziale della sua incomprensione e ostilità per la filologia ottocen-
tesca di Wolf e di August Boeckh (1785-1867).
Di qui quelIa dicotomia nella tradizione filologica tedesca, sanzio-
nata da Konrad Bursian (1830-1883) nelIa sua Geschichte der klassischen
Philologie in Deutschland (1883), che distingue la filologia di Hermann
- incline ad una conoscenza delI'antichità basata sulIo studio delle
strutture grammaticali e stilistiche delIa lingua e limitata alIa critica
formale dei testi - dalIa filologia del Boeckh, mirante alla compren-
sione globale delI'antico e fondata anche sull'apporto di discipline
antiquarie complementari: archeologia, storia, linguistica, epigrafia,
numiSimatica, metmlogia, etc. La 'magna charta' di questa piu aaupia
ricognizione delI'antico e costituita dalIe lezioni berlinesi raccolte e
pubblicate dopo la sua morte da uno dei discepolri, la Enzyklopiidie und
Methodenlehre der philologischen Wissenschaften (1877). La 'querelle',
aI tempo deI suo massimo fervore, parve rkhiamare le rivalità fra i
YP/l:!_I.'(.ux:nxol. alessandrini e i xpvnxoL pergameni deH'età elIeni,srtica; ma in
Germania ri! contrasto presto si attenuà, data la sostanziale validità
dei principi e dei metodi, nelIe rispettive deficienze integrantisi vicen-
devolmente, e Hnl per ridursi a dive:rsità di atteggiamenti inspirati · nei
successivi studiosi daI prevalere delle attitudini personali. Si ridestà,
agli inizi deI Novecento, sotto ahro cielo, in Italia, quasi pedaggio del
suo apprendistato filologico dana Germania, e pur ammantandosi di
nobili fini scientitici, nascose di fatto meschini interessi di parte o
di potel'e.
Ma lo spirito della concezione boeckhiana deI mondo antico pro-
dusse uel priu grande dei suoi discepoli, Karl Ottfried Müller (1797-1840),
il modelIo di scienziato aperto a tutte le discipline delI'antichità: editore
di Eschilo e di Varrone, illustratore di monumenti e di storia di singole
7tóÀ.w:; greche, archeologo, etruscologo, storico delI a letteratura greca.
Da Gottinga, dove insegnà prima scienze dell'antichità e poi storia
dell'arte antica, viaggià in Inghilterra, Francia, Italia, e in Grecia: qui
poco piu che quarantenne lo colse la morte, mentre copiava iscrizioni
delfiche: fu cremato ad Atene sul colle di Colono.
130 G . PASCUCCI

E assai probabile che la nuova critica deI Lachmann beneficiasse,


aI momento deI suo concretizzarsi, delI 'atmosfera comparativistica, diffu-
sasi nella cultura europea a metà delI'800, che provocà iI sorgere delIa
linguistica comparata. Analoghi i fini, ricostruire la lezione delI'arche-
tipo o il termine àl una lingua-madre perduto; analoghi i metodi,
procedere alIa classificazione genealogica dei codici di uno stesso testo
o delle lingue attestate di una stessa famiglia, con la sola differenza
che mentre l'archetipo non coincide per il filologo con l'originale, l'uno
e l'altro si identificano per iI linguista e che le corruttele di una tradi-
zione manoscritta si manifestano come elementi turbativi deI contesto
(e quindi, senz'altro, come errori), mentre l'innovazione linguistica,
riuscita ad imporsi, cessa ipso facto d'esser tale Ce quindi di doversi
considerare errore). Due linguisti sopra tutti, con velleità di filologi,
August Schleicher (1821-1868) e Georg Curtius (1820-1885), si adoprarono
anche daI punto di vista teorico, per il riavvicinamento delle due disci-
pline, che per un po' procedettero paralIelamente da un fase di incon-
cussa fede nel metodo genealogico a quelIa di totale sfiducia. Ché, se
non mancarono applicazioni di esso perfettamente riuscite, presto
apparvero i limiti delI a sua validità: tradizioni manoscritte troppo
semplici (rappresentate eioé da uno o due codici) o troppo complicate
(dove i copisti, oltre a trasorivere il testo, ebbero a confrontarlo con
altri codici o a correggerlo per oongettura, SI da os curare i rappOlTti di
parentela tra codiei - tradizioni dunque, come si dice, contaminate
o interpolate), restavano aI di fuori delI a sua portata. Era stato solo un
caso fortunato che il Lachmann avesse sperimentato con successo il
suo metodo sul testo di Lucrezio. Di fronte a tali difficoltà si ricorse
a rimedi estremi: si cercà di eliminare iI maggior numero possibile di
codici, come sospetti di interpolazioni o 'descripti', sino a ridurli a uno
o due soltanto, e cOSI svaniva ogni difficoltà genealogica (come fece
Wilhelm Dindorf - 1802-1883 - editore di troppi testi critiei di autori
greci) oppure si rinuncià aI criterio meccanico di scelta delIe varianti,
sostituendogli la rivalutazione dei criteri interni e dei codiei piu recenti;
iI migliore e piu indipendente degli scolari del Lachmann, lo J ahn,
nell'editio maior di Persio usciva con dichiarazioni polemiche verso il
maestro, constatando: 'non potuerunt quidem codioes eligi, ad quorum
normam verba scripto~is oonstituerentur, sed omnes semper respiciendi
erant', ma subito dopo specificava che in quelI'omnes non erano inclusi
tutti i 'recentiores'. Parimenti, in campo linguistico, si andava ricono-
scendo l'inadeguatezza deI metodo comparativo: anche qui, contro il
concetto delI a trasmissione verticale, la sola presa in considerazione
IL CONTRIBUTO DEL SECOLO XJX AL PROGRESSO DEGLI STUDI CLASSICI 131

dalla teoria genealogica, veniva via via aHermandosi iI concetto della


trasmissione verticale, la sola presa in considerazione dalla teoria
orizzontale, che riduceva ad effetto di contatto, piuttosto che di eredi-
tarietà, la piu parte di materiale comune a lingue apparentate. II Nove-
cento avrebbe escogitato altre misure per sopperire alle deficienze deI
metodo lachmanniano, sempre piu diffondendosi la convinzione della
sua inapplicabilità ai casi (che sono i piu frequenti!) di tradizione non
esclusivffi11ente meccanica.
Fuori della Textkritik, l'impegno per la filologia totale produsse
ingente mole di importantissime realizzazioni, alle quali parteciparono
in lavora di équipe validi studiosi, di cui la Germania era provvista in
gran copia e seppero provvedere con l'efficienza dell'organizzazione e
l'abbondanza delle risorse finanziade varie istituzioni sai.entifiche degli
studi tedeschi: prima fra tutte la Preussische Akademie der Wissen-
schaften, con sede a Berlino, sotto i cui auspici fu pubblicato tra il 1825
e il 1859 il Corpus Inscriptionum Graecorum, ideato daI Boeckh, che fu
anche editore dei due primi volumi, prontamente sostituito, a partire
daI 1873, della piu aggiornata raccolta delle Inscriptiones Graecae, nonché,
per impulso di Theodor Mommsen (1817-1903), iI Corpus Inscriptionum
Latinarum, la cui direzione dapprima offerta a Bartolomeo Borghesi
(1781-1860), insigne archeologo e epigrafista della minuscola repubblica
di S. Marino, alla sua morte fu assunta daI promotoJ1e, che daI 1869 lo
condusse quasi alla fine. Nasce nell'insegna di questa stessa temperie
culturale la prima edizione della famosa Realenziklopiidie der klassischen
Alterthumswissenschaft, fondata a Stoccarda nel 1839 da August Pauly
(1796-1845) e proseguita dallo storico della letteratura latina Wilhelm
Sigismund Teuff,el (1820-1878), ma dpubblioata in integralmente nuova,
amplissima rielaborazione daI 1894 e giunta a compimento soltanto
da pochi anni, $Otto la direzione di successivi filologi da G. Wissowa
a W. John. II suo titolo promette meno di quanto l'opera mantenga,
perché, se nella varietà e molteplicità degli aspetti dei mondo antico
insiste sulle res, sulle sue «cose», di fatto non esclude perà iI doveroso
interesse per le manifestazioni dei pensiera e della letteratura, cioe della
«parola». Né e possibile tacere, per quanto la sua pubblicazione abbia
avuto inizio soltanto daI 1900 e tuttora sia lungi dall'avvicinarsi alla fine,
della colossale impresa, che onora ,la lessicografia latina, il Thesaurus
Linguae Latinae, originariamente posto sotto gli auspici Academiarum
quinque Germanicarum, poi, dopo l'interruzione dei due conflitti mon-
diali, proseguito con iI concorso e l'aiuto di enti culturali europei e
132 G. PASCUCCI

americani, che rispecchia nel titolo opere famose, realizzate nell'età eroica
della filologia classica, ii peJ:1iodo umanistico, quando in ristrettissime
cerchie si condussero a ter:mine lavori, che oggi esigerebbero una coope-
razione internazionale. Ma iI suo piano ideato daI Wolf, aI principio
dell'800, sostenuto nel corso deI successivo cinquantennio daI fervore
di Mommsen, e progettato da Karl Helm (1809-1882), in collaborazione
eon Ritsehl e Alfred Fleckeisen (1820-1899), comincià a prender corpo
soltanto dopo il 1883 per iniziativa deI basiIeese Eduard Wülfflin (1831-
1906), che appunto in quell'anno fondà la rivista, daI Htolo significativo
Archiv für lateinische Lexicographie und Grammatik mit Einschluss der
iilteren Mittellateins aIs Vorarbeit zu einen Thes. L. Lat.; e il suo pro-
gramma, diversamente da ogni altra consimile opera, comportava l'inclu-
sione della cosidetta 'infima Iatinitas', vale a dire non solo il paziente
e minuto scandaglio di tutta la latinità dalle origini agli Antonini, ma
anche degli scrittori piu importanti sino aI VII sec. d. Cr.
ln questa atmosfera di fervoroso entusiasmo per l'antichità si deve
anche accennare alla collezione di testi piu ampia e piu nota, la Biblio-
theca scriptorum Graecorum et Romanorum Teubneriana, .pubblicata
a Lipsia sin daI 1824, in seguito alle istanze di Franz Passow (1786-1833),
tuttora instancabilmente volta a rinnovare le sue edizioni e ad ampliare
di continuo la sua già vastissima dotazione di testi: ad essa per tutto il
sec. XIX non si puà oontrapporreche la francese Scriptorum Grae-
corum Bibliotheca, cou traduzione latina, pubblicata a Parigi dall'editore
Ambroise Fermin Didot, sotto la direzione di Désiré Nisard (1806-1888)
e con la collaborazione deI tedesco Friedrich Dübner (1802-1867).
D'altra parte la consuetudine eon l'attività editoriale d'alto livello
promosse anche l'al1estimento di vocabolari particolari di singoli autori,
dove tutti i termini che compaiono in un dato scrittore (e i relativi
passi che li contengono) vengono o semplicemente registram (Indiei,
Concordanze) od anche distinti nella speeiale accezione semantica, cioé
sottoposti ad una prelimiri.are interpretazione sulla base deI contesto
che li ospita (Lessioi) . II nostro secolo ha continuato in gran parte
sulla traccia segnata, ma quando - neU'ultimo ventennio - ha voluto
rinnovare pTodotti antiquati o colmare precedenti lacune, giovandosi
di sofisticati sistemi alla moda, non ha saputo forniroi che 'indici'.
L'Ottocento, infiue, fu iI seooLo che, grazie anche aI progresso delle
comunicazioni e rdazioni fra i popoli, ha favorito il sorgere e molti-
plicarsi di pubblicazioni periodiche, contenenti sotto forme di memorie,
articoli, indicazi(jUi e resoconti bibliografici i nuovi contributi all'inda-
gine deI mondo antico, le polemiche e i dibattiti, le disoussiohi e inter-
lL CONTRIBUTO DEL SECOLO XIX AL PROGRESSO DEGLI STUDI CLASSICI 133

pretazioni di temi generali e specifici, cioé le riviste. Da a110ra gran


parte de11a produzione filologica e rimasta affidata a questo tipo di
pubblicistica, divenuto veicolo e mezzo di scambio . delI'attività de110
spirito umano anche nel settore antichistico. Apre la serie, come piu
antica fra le riviste di filologia classica sino ad oggi sopravvissute,
il Rheinisches Museum für die Philologie, fondato nel 1827 da Boeckh
e daI danes e Georg Niebhur (1776-1831) e in armonia con l'indirizzo di
scuola aperto a11a collaborazione anche di giuristi, storici ed archeologi:
la sua prima annata contiene la replica di Boeckh alIe aspre critiche di
HeI1mann sul primo volume deI Corpus epigrafico greco: dove sarebbero
state trascritte iscrizioni da copie inesatte, con rinuncia all'autopsia
o aI ricorso di calchi fedeli, sicché troppo spesso il senso verrebbe
restaurato a prezzo di drastiche congetture. Nell'impossibilità di ricor-
dare le altre riviste tedesche, successive a questa, passo a far menzione
di quelle degli altri paesi limitandone la rassegna alle piu antiche di
ciascuno di essi ,tuttora superstirti: Mnemosyne, edita a Leida daI 1852,
destinata a raccogliere scritti filologioi di stretta osservanZia; Transactions
and Proceedings della American Philological Association, attiVla a New
York daI 1869; Rivista di filologia e d'istruzione classica, pubblicata
a Torino daI 1873, che aCCOIlluna esd.genze scientifiche ed intenti didattici;
Revue de ph.ilologie, de littérature et d'histoire anciennes, edita a Parigi
daI 1877, il cui titolo già ostenta ampiezza e varietà di orizzoll1ti; Wiener
Studien, nata a Vienna nel 1879; Journal of Hellenic Studies, pubblicata
a Londra daI 1880, COlJ1 vivi ilnteressi, anche archeologici, e infine Eranos,
pubblicata a Upsala daI 1896.
Questo atteggiamento dell'animo tedesco verso il mondo antico
era stato preparato dall'entusiasmo della cultura settecentesca per gli
studi archeologici di J ohann J oachim Wincke1mann, per la sua convin-
zione profonda di ritrovare nella <<llobile semplicità e serena grandezza»
i segni della migliore arte greca, figurativa e letteraria. Di nuovo, i
capolavori della letteratura classica produssero l'attonito ridestarsi dello
spirito, come già aI tempo di Petrarca: solo che adesso fonte di ispira-
zione non eTalno piu né Virgilio né Cicerone, ma Omero, Sofocle,
P.latone. La cultura latinaappariva nierrt'altro che utile approccio alIa
greca. Quando Winckelmann scriveva «una statua romana sarà sempre,
aI confronto con un originale greco, cià che la Didone virgiliana e aI
confronto con la Nausicaa di Omero», egli non aveva ancora avuto
occasione di vedere alcun originale greco; ma era per lui pacifico che
la regina Vlirgiliana, quale piu tarda, stesse sopra un gradino piu basso
che l'omerica fanciulla . Si produsse cosi una grave frattura fra la
134 G . PASCUCCI

tradizione latina dell'umanesimo ed ii neoclassicismo tedesco, come


si chiamava una volta, o neoumanesimo greco, come oggi si preferisce.
DeI quale ii Winckelmann fu l'iniziatore, iI Goethe iI banditore e Wilhelm
von Humboldt iI teorico: e quando questi divenne ministro dell'istru-
zione del regno di Prussia, ed ebbe fondato l'università di Berlino e
istituito iI nuovo ginnasio umanistico, la sua teoria trovà piena attua-
zione e forza sufficiente da incidere profondamente sulla vita cultural e
della nazione. Ma intanto la sancita svalutazione della cultura latina,
che pure, come si e visto, fu tutt'altro che ripudiata, ricevette ulteriare
motivazione daI principio romantico della superiorità delle origini e
dell'idealizzamento di tutto cià che fosse primiero o magari primitivo.
Un secolo e mezzo durà, contrastata debolmente in ltalia da argomenti
retorici o nazionalistici, questa situaZlione di subalternità della cultura
latina rispetto alla greca, facendosene accanito assertore ii Mommsen
nei capitoli d'informazione letteraria della sua Romische Geschichte
(1854-56): soltanto ai primi deI Novecento, auspice Friedrich Leo, la
scuola di Gottinga, senza negare i molti debiti delIa letteratura latina
verso la greca, riconobbe doti di originalità e di capacità creativa ai
Romani, rintracciabili piuttosto che in un'utopistica disposizione a creare
daI nulla, in una congenita idoneità a trasfoI1IIlare elementi di cultura
e di arte stranieri in carne e sangue propri. Intorno agli anni '30 Ernst
Bickel definiva l'essenza della letteratura latina nel motto: 'romische
Litteratur aIs griechische Renaissance', accettabile non nel senso che egli
ne dava, ma in quello di una cultura greca che fu lievito alle energie
spirituali dei Latini, non diversamente da come in età umanistica per
la scoperta degli antichi autori la cultura europea fermentà nelle gran-
diose manifestazioni delle sue letterature nazionali.
AlIe connessioni della linguistica can la filologia, anzi con la parte
piu tecnica di essa, la critica dei testo, già abbiamo accennato. Non
meno importanti risultati nel corso delI'Ottocento furono conseguiti
dagli studi grammaticali. A non parlare delle tendenze manifestatesi
nel sec. XVII di considerare la grammatica come soggetta a leggi logiche,
per ovvie esigenze didattiche riducibili ad una serie di precetti e di
norme (la scuola francese di Port-Royal), si puà dire di questa disciplina
che assunse vera carattere di scienza soltanto con la rivoluzionaria
scoperta deI sec. XIX delI'unità linguistica del gruppo indeuropeo.
AlIa cosidetta gra.mmatica logica delI'età postumanistica si sostituI la
grammatica comparativa di Franz Bopp (1791-1867) e dei suoi discepoli,
nei quali tuttavia la coeva cultura positivistica si fece sentire con
l'imposizione di ferree leggi fonetiche. La nuova scuola, detta dei neo-
IL CONTRIBUTO DEL SFCOLO XIX AL PROGRESSO DEGLI STUDI CLASSICI 135

grammatici, trovo naturalmente iI sui piu adatto terreno sperimentale


nelI'applicazione alIe lingue olassiche, conseguendo risultati preziosi,
dai quali neppure oggi possiamo presdndere: basti citare i due volumi
delIa Ausführliche Grammatik der griechischen Sprache wissenschaftlich
und mit Rücksicht auf dem Schulgebrauch ausgearbeitet e gli altrettanti
Ausführliche Grammatik der lateinischen Sprache di RaphaeI Kühner
(1802-1878), che sottoposti a revisioni e parziali aggiornamenti ancor
oggi usiamo avere fra mano neIle nostre ricerche. La prima opera,
d'impostazione dichiaratamente scolastica, riduce la comparazione aI
solo latino, con poco felice prospettiva storica, e non distingue sufficien-
temente tra fenomeni cOilTIuni derivanti da eredità indeuropea e quelli
prooottisi nei posteriori contatti dei due ambienti linguistici già diffe-
renziati storicamente e geograficamente, mentre la seconda, di piu alto
livelIo sdentifico, elabora l'ampio materiale raccolto eon piu sicura
prospettiva storica.
Nello studio dei dialetti greci si segnalo Heinrich Ludolf Ahrens
(1809-1881), autore anche di lliIla celebre edizione di Teocrito e dei
bucolici greci, che ha tenuto il campo sino alI'avvento di quelIa oxoniense
deI Wilamowitz, all'inizio deI nostro secolo. Sul versante latino risul-
tarono privilegiate le ricerche sulIa lingua arcaica, quale preliminare
esigenza per la ricostruzione deI testo di Plauto, dopo la fortunata
scoperta deI palinsesto Ambrosiano, di cui il Ritschl, originariamente
partito da studi letterari greci, fu iI primo sicuro decifratore. I tanti
suoi meriti di critico deI testo, che gli valsero il titolo di sospitator Plauti,
non possono andare disgiunti daI riconoscimento delI'importanza delIe
sue indagini sul10 sviluppo stanco deI latino, sull'alfabeto e sul verso
saturnio, studiato suUe iscrizioni metriche arcaiche, anziché sui fram-
menti di Livio Andronico e di Nevio riportati dai grammatici. Viceversa
l'interesse per iI tardo latino e per il latino cristiano sono vanrto di
questo seco lo e segnatamente della scuola svedese deI LOfstedt e di quelIa
olandese di Nimega.
Nel campo del1a storiografia classica 10ttocento produsse studioSI
di altissima statura, primi fra tutti il Niebuhr: nelIa tradizione di Wolf
sgombro la storia delle origini di Roma dalI'intrico di leggende e di
miti tramandati dagli storici antichi; e sulle arme di Lorenzo ValIa
transformo la di lui critica testuale alI'opera di Livio in implacabile
critica storica. Scopritore di testi ancora ignoti, nei suoi viaggi per
l'Italia, oommisero la decadenza delIa Roma papale, «oggi coda, come
fu un tempo capo deI mondo»! Alla sua influenza, esercitata attraverso
saggi e corsi di lezione, anche di storia gI1eca, relativi alI'età fra la morte
136 G. PASCUCCI

di Alessandro e iI compimento deI dominio romano con la conquista


delI'Egitto, non fu insensibile Gus,t av Droysen (1808-1884), delIa cui
molteplice attiv:ità d'i l1Jterprete di teatro greco e di storico moderno
l

ci esimiamo daI far ricordo, per concentrare l'attenzione sul trittico,


composto tra iI 1833 e iI 1843: Storia di Alessandro, Storia dell'Ellenismo
e Storia della formazione deZ sistema statale ellenistico, ripubblicato
in due volumi nel 1877 come Storia dell'Ellenismo. Infatti la nozione di
ElIenismo, inteso come fase storica apertasi con le conquiste deI Mace-
done e caratterizzata da un'originale e nuova civiltà, risultante dalIa
cormpenetra:úone tra mondo greco e orientale, si e venuta affermando
con l'accrescersi deI prestigio di colui che la communis opinio identi-
fica con iI suo scopritore, iI Droysen, nel panorama culturale tedesco
e in misura riflessa nei paesi e negli ambienti piu soggetti alI'egemonia
culturale tedesca. Non e superfluo ricordare, ad es., che HelIénisme
nelIa storiografia antichistica francese ed HelIenism in quelIa anglo-
sassone - nonos't ante l'innovazione terminologioa connessa con la pre-
sunta sooperta deI Droysen - haIlillo continuato a indicare la grecità
in generale, piuttosto che l'epoca storica iniziatasi con Alessandro. II
fatto e che iI teruni:ne 'E),,),,'llvL<T[.LÓç sin per gli antichi non era di univoco
signifioato: valeva come 'grecità pura, corretta' rispetto alIa parlata
barbarizzante, ma anche 'greco comune', xowIÍ elaboratasi nelIa oonvi-
venza fra conquistatori e vinti, come si deduce daI titolo di un'opera
deI grammatico Ireneo, detto anche Pacato: I1epL "'t'fíç 'tWV 'AÀeç,cxvopÉwv
OLCX)"ÉX'tou ll1tEPL 'E),,),,'llVLCTfJ.OÜ, che ha senso so.lo se i due concetti di lingua
parlata ad Alessandria ed elIenismo coincidano. E se pure tra gl,i esempi
piu vistosi dei rapporto di influenza fra Greci e Orientali e lo scambi'o
linguistico, tanto l'imporsi e modificarsi deI greco - divenuto una specie
di lingua franca - entro un'area vastissima in analogia con la sorte di
lingue moderne metropolitane nelI'uso di coloni indigeni africani ed
asiatioi, quanto la costruzione di vas1Ji stati territoriali e in essi la pre-
senza di una corte e di un'amministrazione, espressione di una minoranza
che si sovrappOl1Je aI substrato, costituiscono un unico fenomeno, oltre
che linguístico, oulturale, cui si addioe lo stesso termine di Ellenismo:
ed 'E)"),,T}VL<T't'lÍc;, allo~a, e il suddito che corrisponde can te autorità
centr.ali in una lingua non sua, ii siro, l'egizio, o l'ebreo che parlano
l.ID greco inquinato dagli idiotismi delIa propria língua nativa. Sicché
falsa e l'accusa rivolta dai moderni aI Droysen di aver frainteso il
termine 'E),,),,'llvliCT'tcxC di Act. Ap. 6, 1, accreditando agli Ebrei un rapporto
privilegiato coi Greci: vera e invece che lo interpretà nel senso tra-
dizionale, con estrema esattezza illustrato già daI Salmasius, e cioé
IL CONTRIBUTO DEL SECOLO XIX AL PROGRESSO DEGLI STUDI CLASSICI 137

comprensivo di ogni realtà di non Greci parlanti iI greco. Questa


ricostruzione storioa dell'Ellenismo favorl la nascita di nuovi interessi
per un'età, non piu considerata di decadenza o di involuzione. Si sono
già ricordati gli studi di Ahrens per Teocrito e la sua lingua; accanto
vanno registrati gli interventi su Eratostene da parte di Gottfried
Bernhardy (1800-1875), autore anche di un Compendio di Letteratura
greca, la cui 2a edizione dà rilievo alIe novità emerse dalle ricerche
di Droysen sulI'ElIenismo, indicando in lui iI demolitore delle pro-
spettive classicistiche svalutatrici di quell'età; gli studi sulla poesia
alessandrina di Augusto Meineke (1790-1870), comprendenti una colle-
zione di monografie da Euforione a Partenio e un'ampia selezione
delI'Anthologia Graeca, anohe se la fama del filologo resta legata alIa
mirabile edizione dei Comici greci; l'edizione di Callimaco, approntata
da Otto Schneider (1815-1880), che ha resistito oltre settanta anni sino
a queUa di Pfeiffer. II fiorire di studi sulIa poesia elIenistica si e avvan-
taggiato di due altre oircostanze: iI numero sempre crescente di reperti
papiracei, che ne riportano alla luce nuovi frammenti e la convinzione
che alcuni filoni di essa agirono direttamente sulla tradizione poetica
latina, specie di età augustea. Per completare iI quadro delIa storio-
grafia classka delI'Ottocento e indispensabile fare almeno ii nome di
Mommsen: la statura dell'uomo impedisce di riferirne in termini
adeguati; tanto val,e percià limitarsi a circoscrivere la sfera dei molte-
plici interessi, tutti rivolti aI mondo romano, che vanno dalla storia
politica, indagata con forte dose di passionalità, aI diritto costitu:úonale,
a queUo penale, aHa cronologia, alIe antichità pubbliche, all'attività
edito'r iale di testi epigraf.ici (come iI Monumentum Ancyranum) e storici
(Cassiodoro, Iordanes) nelIa celebre edizione dei Monumenta Germaniae
historica, e giuridioi (Digesto e Codex Theodosianus).
Ma un gran dono l'Ottocento, prossimo aI declino, stava appron-
tando per gli studiosi di antichità: la scoperta dei papiri. Fu buon
profeta iI Mommsen nel presagire che come il secolo diciannovesimo
er a · stato l'età delle iscrizioni, cOSI iI ventesimo sarebbe l'epoca dei
papiri. Non già che anteriOl1mente non si avesse notiZJia di rinvenimenti
di quel material e scrittorio, usato dagli antichi, poi disperso o abban-
donato e di nuovo risorto alla luce, dopo secoli di seppeUimento, in
favorevoli condizioni di clima e di ambiente: a presoindere daI ritro-
vamento dei rotoli di EI'colano, verso la metà deI '700, un unicum per iI
luogo e per lo stato di conservazione, fu dapprima la descrizione dei
mirabilia di Egitto da parte di studiosi delle piu varie discipline aI
seguito della campagna napole onica a risvegliare l'interesse per quella
138 G. PASCUCCI

regione di ant-ÍCa civiltà, poi la smania collezionatrice di reperti archeo-


logici (tra cui anche i papiri) a favorirne la raccolta presso corti,
biblioteche, musei. Dapprima acquistati dagli abitanti del luogo, quali
sottoprodotto di ricerche degli oggetti piu preziosi, a volte casualmente
recuperati nei cartonnages degli involucri delle mummie (come il papiro
rinvenuto nel 1850 da Auguste Mariette , contenente buona parte di un
partenio di Alcmane), dopo il 1870 divennero oggetto di specifiche
campagne di scavi, organizzate da vari stati europei, con particolare
fervore e continuità dagli Inglesi. Accanto alla restituzione di gran
numero di documenti, piu o meno integri, relativi alla situazione eco no-
mica e politica dell'Egitto sotto la dominazione tolemaica e romana
(che ha rischiarato le nostre conoscen:ce su quella regione), quest'alacre
attività ci ha fatto recuperare, piu spesso in frammenti, o parti di opere
greche già note o testi del tutto nuovi, come Iperide, Eronda, Bacchilide,
l'Aristote della Costituzione degli Ateniesi, o frammentarie porzioni
delIa produzione di Callimaco, di Menandro, dei lirici greci.
A questa rigogliosa e profondamente innovatrice stagione degli studi
antichistioi in Germania, rispose nel resto d'Europa un'attività piu
modesta, prevalentemente ispirata ai canoni della cultura settecentesca.
Piu di tutte le altre nazioni rimase emarginata l'Italia, almeno sino ai
tempi della sua unifica:cione: vi era trascurato il greoo, considerato
piuttosto língua orientale; il latino, ridotto a sterile esercizio di bello
scrivere; la filologia, scambiata con quelI'indirizzo di studi che si suol
cMamare antiquaria. E i pochi cultori delle discipline classiche si
sentirono dolorosamente isolati: cosIl'abate Amadeo Peyron (1785-1870),
editore di papiri documentari nonché di frammenti di Empedocle e di
Parmenide e dei frammenti torinesi dei palinsesti ciceroniani, lavori
pubblicati in Germania; cOSI il poeta Giacomo Leoparoi (1798-1837),
i cui studi filologici, pur di livelIo europeo, rimasero in gran parte
allo stato di frammenti o di abbozzi, certo anohe per la diffiooltà di
trovare in ltalia consenso o discussione. Piu fortunato fu il prefetto
delI'Ambrosiana e poi della Vaticana Angelo Mai (1782-1854), scopritore
deI Plauto e deI Frontone ambrosiani e del De republica vaticano,
anche se in veste di editore presto il fianco alIe ruvide censure deI
Niebuhr e di Leopardi, e in veste di studioso si rese colpevole di essersi
appropriato, senza renderne conto, di proposte di emendamento alui
suggerite. Dapo iI 1870 anche gli studi antichistici tentarono di sprovin-
cializzarsi, agganciandosi aI modelIo tooesco e per quanto iI periodo
di rifondazione durasse pressoché un cinquantennio, già se ne riscon-
IL CONTRIBUTO DEL SECOLO XIX AL PROGRESSO DEGLI STUDI CLASSICI 139

trano i primi effetti quando apparvero filologi di elevata statura scien-


fica come Enea Piccolomini (1850-1903) e Girolamo Vitelli (1849-1935),
tutti e due formatisi in Germania, alIa scuola l'uno di Mommsen, l'altro
di Ritschl: il primo, di piu forti interessi metodologici e minore felieità
e originalità nel congetturare e nelI'interpretare; ii secondo, di indirizzo
essenzialmente hermanniano, praticà la congettura come arte assai piu
che come scienza, dando iI meglio di sé alIa papirologia dO'Ve rifulsc.
A parte, vero autodidatta va considerato il piu anziano Domenico
Comparetti (1835-1927) editore di testi e di iscrizioni, autore deI famoso
Virgílio nei Medioevo, studioso di filologia classica, medieVlale, romanza
e finnica: in complesso la figura piu prodigiosa che I'Qttocento italiano
abbia espresso .
ln Francia primeggiarono gli studi archeologici epigraf.ici, topo-
grafiei e geografici rivolúi alia Grecia e alI'oriente ellenizzato: ne fu
centro la Scua.la di Atene fondata nel 1846 sul modelIo delI'Acca-
demia Romana di Francia, istituita quasi due secoli avanti daI Colbert.
Nel settore piu speeificamente filologico la metodologia scientifica
tedesca tardà a far sentire il suo influsso: pertanto si moltiplicarono
a ritmo veloce le edizioni dei classici non attingendo che raramente
livelIi oritici atti a garantirne la durata. COSI fu per quelIe di Jean
François Boissol1ade (1774-1857), professore di greco alIa Sorbona, che
pubblicà una silloge di 24 volumi di poeti greei e l'editio princeps di
Babrio da un codice deI Monte Athos. Ma nonostante l'incerta attendi-
bilità testuale, la grande opera di Paul Émile Littré (1801-1881) , l'edizione
con traduzione francese delI'intero Corpus Hippocraticum in 10 volI.
sfida ancora il tempo, in mancanza di altra integrale piu moderna.
MoltepLice attività svolse Émile Egger (1813-1885), sia come editO'I"e di
testi sia come studioso di lingua e letteratura greca. Ma il filologo
piu insigne delI'Qttocento fu Henri WeiI (1818-1909), tedesco di naseita
e di formazione, che nelI'insegnamento alia Sorbona introdusse i piu
raffinati metodi delIa critica testuale: le sue edizioni di Eschilo e di
sette drammi di Euripide permisero alIa Francia di entrare in concor-
renza con l'Europa scientificamente piu progredita. Due storiei antichi
di fama internanionale furono Fustel de Coulanges (1830-1889) e Gaston
Boissier (1823-1908) le cui opere principali, La città antica e Cicerone
e i suai amici, pur reggendo alI'usura deI tempo, non si leggono senza
una vaga impressione di libri destinati alI'alta divulgazione.
ln Olanda e da ricordare ii nome di Cobet, fiIologo di poca fede neUa
critica testuale 'ope codicum' e pertanto portato a congetturare e atetiz-
zare senza scrupolo; ebbe fama di esperto conoscitore di tutte e due Ie
140 G. PASCUCCI

lingue classiche, che scriveva e parlava correttamente, senza indulgere


ad eccessivi neologils mi. E di ascendenza quasi ciceroniana la conce-
zione deI mondo classico e deI fine deI suo apprendimento che si legge
in queste parole (daI Protrepticus ad studia humanitatis, p. 6, 1854):
«excolere animum et mentem doctrina, rerum utiliUflIl observatione et
cognitione ingenii dotes omnes acuere, intelligendi facultatem in dies
augere, vetera et cognita emendare et amplificare, nova excogitando
reperire, inquirere in rerum causas, perscrutari rerum originem et pro-
gressum, ex veteribus praesentia explicare, obscura et intricata expedire,
ubique vera a falsis discernere, prava et vitiosa corrigere, futilia et
absurda confutare, labefactar e, tolIere et, ut uno verbo absolvam, verum
videre, hoc demum est humano ingenio ac ratione dignum, hoc pabulum
est animi, hoc demUflIl est vivere. »
I filologi inglesi deI primo Ottocento, pur inferiori aI Bentley per
genialità e vastità di orizzonti, si attenero tuttavia aI suo metodo neHa
cJ1itica testuale e furono soprattutto congetturatori di squisita cono-
scenza delI'uso linguistico e metrico, specie per cio che riguarda le parti
recitativ,e delIa tragediae commedia greche. Ma ebbero anche l'esigenza
di rifarsi ai codiei: Peter Elmsley (1773-1825) pubblico edizioni eccelIenti
di tragedie come l'Edipo a Colono, per il cui testo eolIaziono il oodice
Laurenziano, riconoscendone chiaramente la superiorità; neHa Vaticana
vide e giudico per lo piu rettamente i codici euripidei. Alui risale
anche l'ipotesi delIa derivazione di tutta la tradizione di Eschilo da un
capostipite medievale, l'archetipo, unico esemplare scampato aI naufra-
gio delIa civiltà, che e concetto, come sappiamo, non nuovo ma sul
punto di esser ripreso da Madvig e da Lachmann. Accanto a lui vanno
citati Thomas Gaisford (1799-1855), editore di metridsrti e les,s icografi,
e di Peter Dobree (1782-1825), specialista di oratoria attica. Ebbe fama
anche · Richard Jebb (1841-1905), che scrisse mirabilmente versi greci
e latini, una dote che ebbe in comune con Walter Headlam, il commen-
tatore di Eranda (1866-1908): nel 1887 celebrando si per la prima volta
in Italia l'anniversario delIa fondazione delI'Univ,e rsità di Bologna, il
Jebb inv,i o un'ode pindarica in greco come segno di personale adesione
(ma quest'anno, a un seeolo e~atto di distanza, durante i festeggiamenti
dei IX oentenario, nessuna simile voce e rieccheggiata fra i partecipanti
a quelIa kermesse); pubblico la edizione di Sofocle con traduzione
inglese e commento, nonché quella di BaochiHde. Invece gli studiosi
della generazione piu giovane si volsero prevalentemente aI latino: con
opere di critica le tteraria William Young SelIar (1825-1890), con edizioni
IL CONTRIBUTO DEL SECOLO X IX AL PROGRESSO DEGLI STUDI CLASSICI 141

e commenti di testi Robinson Ellis (1834-1913), COrl studi lessicografrici


Henry Nettleship (1839-1893).
Per concludere, mi piace riportare iI consuntivo, fornito dallo Jebb
alIo scadere deI secolo, sulIo stato degli studi classici nel suo paese
(in Humanism in Education, p. 34, 1899) l'itenendo che in larga misura
possa corrispondere alIa srtuazione di essi in buona parte delIo Occidente
europeo : «Durante questo secolo, gli studi umanistici hanno guadagnato
in genuinità: sono stati gradualmente sottratti alI'isolamento della scuola
e sempre piu inseriti nel generale circuito degli intel'essi intelIe ttuali e
letterari. Lungi daI perdere vigol'e ed efficacia per aver oessato di
mantenere quelIa piu esdusiva posizione, che essi occupavano due o tre
generazioni prima, hanno acquistato nuova forza, una piu larga sfera
di genuina attività e un posto piu stabile nella educazione superiore,
perché il loro aocoglirrnento, sul quale questa si fonda, e divenuto piu
intelligente». Un'estensione dunque in superficie non a scapito delIa
penetrazione in profondità.
(Página deixada propositadamente em branco)
POUR UNE NOUVELLE HISTOIRE DE ROME,
POUR UNE NOUVELLE HISTOIRE
DE LA LITTÉRATURE LATlNE

EUGEN CIZEK
Université de Bucarest

L'étude sClentifique, selorn les méthodes d'une recherche plus exacte,


de l'histoire romaine, ainsi que d'ailleurs de l'histoire de la littérature
latine, ne débuta qu'au XIXe siecle. C'est l'époque des grandes syntheses
comportant un grand nombre de tomes, autant que des essais d'une
portée plus modeste, mais d'uneenvergure scientifique tres solide.
Pour ce qui est des syntheses sur l'histoire de Rome, le sommet a été
atteint dans les grandes et épaisses syntheses de Theodor Mommsen,
le seul spécialiste de l'antiquité, dont, à notre connaissance, l'oeuvre
ait jamais été couronnée par un prix Nobel. Ces syntheses ont été
traduites en français et en d'autres langues, y compris en roumain.
En effet, en Roumanie, Joachim Nicolaus est en train de traduire, dans
les publications de «Editura Stiinçifidí. ~i Enciclopedicã», Bucarest, la
Romische Geschichte de Mommsen, 4e edition, Berlin, 1865. Les deux
premiers tomes ont déjà été publiés, en 1987 et en 1988. Les livres de
Mommsen, de même que d'autres sortis en Allemagne, en France, en
Italie et en Angleterre sont devenus olassiques. Cependant notre époque
connait divers matériaux nouveaux, dus aux découvertes archéologiques
et épigraphiques, que les syntheses du XIxe et même de la premiere
moitié de notre siecle ignoraient. A cela s'ajoutent de nouvelles inter-
prétations de textes, de nouvelles grilles de lecture, que les savants de
nos temps ont proposées. Car, quoiqu'on dise et quoiqu'on fasse, les
textes littéraires demeúrent les principales sources pour l'historien, qui
souhaite étudier et comprendre l'histoire de Rome. Notamment quant
à la reconstitution des réalités historiques concernant la phase la plus
144 EUGEN CIZEK

ancienne de l'histoire romaine, la royauté, les débuts de la République,


nous disposons d'une documentation que nos devanciers n'avaient pas
les moyens de connaitre. Toujours est-il que certains ouvrages plus
récents tirent largement profit des découvertes réalisées pendant les
dernieres décennies. Nous songeons par exemple aux études en général
excellentes, qui sont parues dans les recueils de la fameuse Aufstieg
und Niedergang der romischen Welt. Néanmoins, les syntheses rédigées
au XIxe siecle, aussi bien que, hélas, pendant notre siecle mettent
d 'ordinaire en oeuvre des méthodes de reeherche tres positivistes, qui
à notre sens sont dépassées.
C'est que de nouvelles syntheses s'averent nécessaires. A la vérité,
à quoi songeons-nous? A des livres exploitant la nouvelle doeumenta-
tion, aim.si qu'un éc1airage inédit des faits historiques. A de nouvelles
grilles de lecture, à des ouvrages adéquats à la mentalité, à l'univers
spirituel de l'homme de la fin du xxe et des commencements du XXIe
siecle.
II eonvient de mettre abondamment à profit les aequis de l'histoire
économique, de l'histowe sociale, de l'histoire des mentalités surtout.
Et pourquoi pas de la psyehanalyse? II va sans dire que toute nouvelle
histoire générale de Rome doit reeeler de solides connaissaIlces quant
à l'économie romaine, quant à la vie sociale et politique, à la société
réelle. Mais tout spécialement s'impose une étude fouillée des menta-
lités romaines. A notre sens, force est à tout chercheur des réalités
romaines de mettre en vedette non seulement comment nous les hommes
de la fin du xxe siecle, nous imaginons Rome, mais aussi, sinon surtout,
eomment les Romains se représentaient eux-unêmes, eomment ils perce-
vaient et jugeaient les événements, les faits historiques, leur vie conerete.
Nous n'envisageons pas que la grande vie, politique par exemple, ma,i s
également la vie quotidienne cel1e des petites gens, les aspeets préten-
dument mineurs de l'existence des Romailfis. Les soueis e:t les goúts de
ehaque jour, les divertissements, Ú!S jeux, les proces qui se déroulaient
au Forum, les réactions permanentes à l'environnement ordinaire.
Certes, la tâehe, la besogne d'un auteur d'une histoire générale romaine
- et même de tout ouvrage portant sur l'Italie ancienne - serait plus
aisée si on possédait un corpus de textes littéraires, ainsi que d'autres
témoignages - inseriptions, monnaies, etc. - relatifs aux mentalités
romaines. Mettre en branle un semblable corpus, voiei une des tâehes
les plus importantes et les plus ardues des futurs philologues et des
futurs historiens de Rome.
POUR UNE NOUVELLE HISTOIRE DE ROME 145

Pourtant qu'est-ce que les mentalités? ARome et ailleurs, la men-


talité se manifeste comme une donnée commune à un groupe, qui peut
être formé par de nombreux individus. Alex Mucchielli soutenait récem-
ment que la mentalité suppose un systeme de références implicites d'un
groupe social, une culture interiorisée, un état d'esprit, une certaine
perception du monde, bref des comportements, autant que des opini.ons
typiques, une position existentielle fondamentale. En effet, Alex
Mucchielli avait tendance à fournir p1usieurs définitions des mentalités 1.
Nous ajouterions, à la suite de l'historien roumain des mentalités et
de la culture Alexandru Dutu, que la et les mentalités impliqu(ent) tout
d'abord un ensemble de représentati.ons communes à Uill groupement
social 2 • Hormis cela, iI est oertain qu'une mentalité assure la cohésion
du groupe social, qu~ l'avait assumée.
ARome, les mentalités OI11t évolué plus lentement, se sont mani-
festées comme fout persistantes, ont supposé ce que Fernand Braudel
appelait la longue durée 3. Les mentalités romaines .ont changé en fonc-
tion des mutations subies par les structures politiques, de même que
des traumatismes culturels, mais à un rythme plus lento Tandis que
certains éléments de l'univers mental collectif des Romains se sont
maintenus durant tout le cheminement de la R.ome antique. Ou à peu
preso A quoi songeons-nous? Sans nul doute, notamment à l'outillage
mental des Romains, lequel a été tres stable. C'est que cet outillage
mental constituait l'ensemble des modalités de pensée et des cadres
logiques, des éléments clefs de la vision du monde, qu'exprimaient le
vocabulaire, la grammaire du latin, tout particulierement les conrceptions
cardinales sur le temps, l'espace, la nature, la société, lia divinité, de
même que les mythes et les clichés de pensée 4. II se trouve que les

1. Voir à ce propos Alex Mucchielli, Les mentalités, Paris 1985, pp. 5-7, 17-22,
93 , 102, 116.
2. Alexandru Dutu, Literatura compara ta # istoria mentalitatilor, Bucarest
1982, pp. 19, 55, 89, 97-98, 109, 114, etc.
3. Sur la «longue durée», voir Fernand Braudel, Ecrits sur l'histoire, Paris 1969,
pp. 11-61, 112-115, 137-139, etc.
4. Sur l'outillage mental en général, voir Robert Mandrou, La France aux
XVII' et XVIII' siecles, Paris 1967, pp. 289-290; Jacques Le Goff, Les mentalités:
une histoire ambigue, Paris 1974, pp. 82-90; Alexandru Dutu, op. cit., pp. 19, 55, 97,
109-114. Signalons qu'on appelle aussi les composantes de cet outillage mental
«objets nodaux» ou catégories d'objets essentiels de référence et de positionnement:
à ce propos Alex Mucchielli, op. cit., pp. 17, 25-28, 114.

10
146 EUGEN CIZEK

Romains se sont toujours représenté l'espace et le temps en vertu des


intérêts de Rome. Par conséquent, comme courts et brefs, facilement
parcourus, lorsque ces intérêts étaient bien servis, tandis qu'ils les
imaginaient comme longs, subissant des distorsions, quand l'Empire
était 'a ccablé par les échecs ou par des difficu1tés majeures. Une bonne
partie de cet outillage mental comprenait des éléments qui transgres-
saient 1es zones de la conscience et de la prise de conscience. Car ces
élémenrts, relevant d'une couche profonde du psychique des Romains,
agissaient sur la vie mentale, ainsi que sur le comportement des hommes,
à partir de ce que 1e grand historien roumain Vasile Pârvan qualifiait
j-adis de «subconscient col1ectif» 3. Certaines représentations des Romains
évoluerent pourtant sensiblement. Nous envisageons par e~emple l'image
que les Romains se forgeaient de l'«autre», d'all'trui, de l'étranger. Elle
évolua de la représentation schématique d'un Barbare prirruitif ou,
par contre, tJ10p raffiné, tel l'Oriental soumis à la dissolution morale,
vers une aUltre plus complexe, ou se manifestait le gout exotique des
contrées 'IDoonnUles, le mythe du bon sauvage en somme 6. Tandis qu'à
la fin de l'a.J1Jtiquité on adopta tres souvent l'idée d'un dialogue per-
manent avec l'«autre», avec le Barbare.
Qui plus est, les représentations du monde, de la Cité, d'autres
peuples, aussi bien que des détails de la vie quotidienne, des plaisirs
de Rome et des ennuis, que subissaient ses citoyens, déboucherent sur
les moyens de sai'sir le monde et de le juger, somme toute sur les
valeurs. Alex Mucchielli montre que le jugement de valeur constitue
le fondement des doctrines, des mentalités et des idéologies, des images
collectives stéréotypées. Ce qui fait la fonction essentielle des valeurs,
c'est leur capacité d'agir comme des regles et des lois ou s'impose la
source de la conduirt:e idéale, qu'assume la collectivité 7. Tout change-
ment de mentalités suppose une nouvelle organisation des valeurs .

5. A ce sujet, voir Vasile Pârvan, Scrieri, texte établi par Alexandru Zub,
Bucarest 1981, pp. 365, 383-385, 411.
6. En effet, vers la fin du I" siecle de notre ere, surgit à Rome le mythe
du bon sauvage. A ce propos, voir Eugen Cizek, L'époque de Trajan. Circonstances
politiques et problemes idéologiques, Bucarest-Paris 1983, pp. 122-123.
7. Sur les valeurs en général, voir A. Mucchielli, op. cit., pp. 9-22, 35-37, 74, 81-89.
Pour ce qui est des rapports entre les mentalités et l'idéologie, voir Femand Dumont,
Les idéologies, Paris 1974, pp. 7-11; Jean Baechler, Qu'est-ce que l'idéologie, Paris
1976, pp. 11-27.
POUR UNE NOUVELLE HISTOIRE DE ROME 147

Les futurs historiens de Rome devraient en principe se pencher


notamment sur les mentalités, mais également sur les valeurs et les
idées. Ces dernieres répondent aux exigences de la vie sociale et poli-
tique précisément sous l'incidence de ces facteurs intermédiaires, que
sont les mentalités et les valeurs. Intermédiaires, mais témoignant
d'une grande importance. Alors que les idées et les doctrines font état
d'un aspect tres structuré, c'est l'apparence d'une nébuleuse qui caracte-
rise les mentalités. II n'empêche qu'à défaut ele cette nébuleuse, sans
parvenir à comprendre les mentalités, on ne saurait saisir l'essentiel
de l'histoire romaine. Ce qui fait que faute d'étudier, d'utiliser les
mentalités, on serait condamné à cette vision extérieUIre et extrinseque
des réalités historiques, vision pratiquée par les historiens positivistes.
Au contraire, si on se donne la peine d'étudier les menta11tés, on aboutit
à la vision intérieure et intrinseque des phénomenes historiques,
laquelle, à notre avis, sera indispensable à toute nouvelle histoire de
Rome, générale ou partielle.
Ce qui ne voudrait nullement dire qu'on doive négliger les événe-
ments, comme on le songe parfois. Sans tout ramener au récit eles
événements - nous l'avons déjà mis en relief - il convient d'explorer,
de présenter et d'analyser les événements embJématiques. Pour ce qui
est de la vie sociale, autant que pour ce qui est des réactions mentales.
En outre, nous nous sommes :mpportés ci-dessus à la psychanalyse.
Puisqu'elle pourrait nous aider à mieux comprendre certaines person-
nalités historiques de premier ordre. Sans aucun doute, oe ne sont point
les personnalités, qui ont fOI1gé l'histoiJ:1e de Rome, mais les structures
historiques supposant toujours un aspect oollectif 8. Néanmoins, certai-
nes personnalités romaines ont réagi elles aussi en tant qu'embléma-
tiques par rapport aux forces vitales ele l'histoire de Rome. II ne faut
donc pas négliger la dimension personnelle de l'histoire romaine.
C'est ainsi que nousenvisageons une nouvelle histoire de Rome.
Laquelle pourrait tiDer parti de ce qui est essentiel dans les méthodes
traditionnelles, mais en mettant en oeuvre les acquis des investigations
plus récentes, qu'on pratique dans les sciences de l'homme. La sémio-
tique historique, la psychanalyse, peut-être même un certain structu-

8. Quant aux structures historiques et à leur rôle, voir Eugen Cizek, Despre
diacronie, sincronie si dialectica schimbiírii, in Rev. de Filozofie 27, 1980, pp. 423-427.
148 EUGEN CIZEK

ralisme centré sur la diachronie, tout particulierement pourtant l'his-


toire des mentalités. De cette maniere on pourrait aboutir à cet éclairage
nouveau, plus frais, pour le caractériser ainsi que nous avons préconisé
plus haut. Cela vaut, répétons-Ie, aussi bien pour 1'histoire générale
du phénomene romain, que pour la seule exploration de quelques com-
partiments de 1'évolution de la Cité éternelle.

*
* *

Plus utile encore nous semble une nouvelle histoire de la litté-


rature latine. L'étude soientifique des oeuvres littéraires romaines fut
amoroée toujours au XIXc siecle. Nous songeons tout spécialement à
certains ouvrages monumentaux, tel celui de W. S. Teufrel, Geschichte
der romischen Literatur, Leipzig, 1870, qu'on a jadis traduit en fratnçais.
Cependant, à partir de 1890, Martin Schanz s'est mis à publier son
grand ouvrage en quatre parties, son exceptionnelle oeuvre Geschichte
der romischen Literatur bis zum Gesetzbungswerk des Kaisers Justinian.
Cette tres vaste histoire littéraj;re fut plus tard reprise par Carl HOSlUS.
II s'agit en somme de la pIus ample, de la plus détaiJlée histoire de la
littératuve latine, qui ait jamais été publiée. Les informations, les
renseignements foumis par Schanz-Hosius s'averent toujours hors pair.
Personne [l'a jamais su leur faire une véritable ooncurrence. Cependant
ce fameux Schanz-Hosius n'insiste guere sur les problemes de la valeur
des oeuvres littéraires et opere avec une méthodologie positiviste, à
decevoir le plus indulgent des partisam.s d'une investigation plus
moderne. En outre, iI est certain que maintes anal)'lses des écrivains
sont manifestement perimées. Nous songeons par exemple à celle de
l' oeuvre de Suétone.
II convient de faire ici mention d'une petite, mais adrnirable
histoire de la littérature latine. Nous nous référons sans doute à celle
rédigée par René Pichon et publiée maintes fois à Paris, à partir de 1897.
La conception de ce livre, centré sur la valeur des oeuvres littéraires,
est tout à fait différente de celle qu'assument Martin Schanz et Carl
Hosius. 11 va de soi qu'iI y a, chez Pichon, des analyses surannées ;
iI en est de même de la bibliographie, qui est désuete. Pourtant quel
livre magnifique! L'histoire littéraire de Pichon est, à 'n otre avis, le
meilleur qu'on ait écrit jusqu'à présent. 11 bri1le par ses analyses d'une
rare finesse, par ses remarques subtiIes, dont la partée dépasse de loin
la dette que 1'auteur avait contracté vis-à-vis d'Hippolyte Taine. Aucun
POUR UNE NOUVELLE HISTOIRE DE ROME 149

autre historien de la littérature latine, n'a su retrouver plus tard le


style élégant, d'une beauté extraordinaire, qu'a utilisé René Pichon.
Pendant notre siecle se sont agglomérées de nombreuses histoires
de la littérature latine. Surtout en Itatie. Quelqu'un plaisantait naguere
en dis'a nt que ohaque université italienne s'efforce d'avoir sa propre
histoire de la littérature latine. Ce qui ne voudrait absolument pas dire
que ces ouvrages, pour la plupart, ne soient pas remarquables. Nous
songeons en particulier à l'élégant livre d'Augusto Rostagni, mis à jour
en 1964 par Italo Lana, ainsi qu'à celui tres dense d'Ettore Paratore.
On ne saurait ignorer eu outre les études fort savantes encore en train
de paraítre dans la série littéraire d'Aufstieg und Niedergang der
romischen Welt, sous la direction de Wolfgang Haase. Nous nous
permettons aussi de signaler la grande histoire de la littérature latine,
eu quatre volumes et cinq tomes - car le second volume comporte
deux parties - publié en roumain par une équipe d'enseignants et de
chercheurs de l'Université de Bucarest, entre 1964 et 1986. Ce qui donne
un total dépassant larg,e ment deux mille pages .
II nous semble pourtant qu'une nouvelle histoire de la littérature
latine pourrait être utile, sinon nécessaire. Nous envisageons un livre,
sorti dans un volume ou deux, qui ne saurait alIeI' outre douze ou treize
cents pages. C'est-à-dire un livre utile aux spécialis,t es autant qu'à des
lecteurs moins avertis. II devrait, à notre sens, proposer, quant à
nombre d'oeuvres littéraires, plusieurs griHes de lecture, allant d'une
structure de surface jusqu'aux significations les plus profondes, jusqu'
aux dimensions allégoriques, jusqu'à la parabole, jusqu'à certaines allu-
sions cachées. Vn semblable livre serait à même de présenter sa matiere
par étapes historiques, sans ignorer l'évolution des genres, comme
nous allons bientôt le montrer. II serait susceptible de valoriser, à part
les méthodes traditionnelles, les acquis du structuralisme classique,
de la sémiotique et notamment de la théorie du discours. Il s'agit de
concevoir le texte littéraire en tant que texte et surtout comme un
ensemble de signes, fussent-ils contextueIs ou purement esthétiques.
D'autre part, cette nouvelle histoire de la littérature latme pourrait
tenir compte de l'architecture intérieure du discours, que comporte
un texte littémhl-e, et également de ses rapports avec d'autres pratiques
discuJ1sives ou non-discursives. Force lui serait d'envisager le discours
de l'écrivain en fonotion d'une pratique sociale particuliere, que condi-
tionne l'eX!i,stence de certaines conventions, imposées par une commu-
nauté sociale. II ,s'agit autant des conventions linguistiques, que des
conventions relevant du comportement discursif, de la compétence
150 EUGEN CIZEK

discursive. Etant donné que le diseours littéraire se propose de déclen-


cher certains changements dans la conduite de son public 9.
En tout premier lieu, une nouvelle histoire de la littérature latinc
devrait, à notre avis, impliquer, elle aussi, les mentalités, ou autrement
dit le diseours mental des écrivains. Aussi les méthodes de l'histoire
des mentalités pourraient-elles rejoindre celles de la théorie du discours.
C'est ainsi qu'on se proposera de faire montre comment les Romains
se représentaient leur art liutéraire, comment Hs s'imaginaient les
écrivains et leur publico Ce qui suppose de faire revivre les climats
mentaux, ou on créait les oeuvres, de mettre en vedette les rapports
entre les auteurs et leur public, à savoir entre l'émetteur, le message
et 1e récepteur. On serait obligé, selon nous, à tenir compte de l'horizon
d'attente, des gouts d 'un publie conçu comme partie prenante de l'oeuvre
littéraire elle..même. Ainsi que des mpports entre la littérature et d'autres
formes d'art, d'autres manifestations de l'esprit. Oui, d'acoI'd, mais
qu'est-oe qu'il en est des mpports entre ces oeUVI'es littéraires, entre
les auteurs? II va sans dire qu'on ne saurait 1es négliger. Toujours est-il
qu'on est tenu d'abandonner l'ancienne notion d'influence littéraire.
Btant donné qu'elle suppose l'absence d'une authentique réaction de
l'oeuvre qui est, pour ainsi dire, influencée. On ne subissait pas une
influence, romaine et plus aneienne, ou bien greeque, comme on subis-
sait une maladie. D'ailleurs rappelons-nous que l'influence a aussi désigné
le nom d'une maladie, d'une grippe terrible, qui sévissait · apres la
premiere guerre mondiale! Nous songeons done que les théoriciens
littéraires ont proposé à juste titre de remplacer le concept d'influence
par oelui d'intertextualité, qui suppose une vraie réaction aussi bien
du texte plus ancien que du texte plus récent.
D'autre part, nous estimons qu'il ne faut guere négliger les bio-
graphies des auteurs qui ont produit ces textes. Certes, il ne convient
pas d'y trop insister, mais il est nécessaire de reconstituer les vies des
écrivains et d'appliquer assez souvent les méthodes de la psychanalyse.
A savoir, de oonstater comment se sont formés les écrivains, comment
leurs frustrations se sont exprimées dans leurs oeuvres, à quel point
leur oonscience a pu contrôler leurs pulsions. Sans conteste, les histo-

9. Voir Teodora Cristea, Linguistica discursului ~i didactica limbilor straine,


in Limbile Moderne ln ~coala , 1983, pp. 11-19; Anca Magureanu, Discursul literar
ca practica discursiva institutionalizat, ibid., pp. 23-31.
POUR UNE NOUVELLE HISTOIRE DE ROME 151

riens de la littéraure latine ne devraient guere raconter longuement


les sujets des oeuvres, s'en tenir à la surface du phénomene artistique.
Nous avons déjà montré en passant combien nous semble important
le probl€:ine des genres littéraires. II y a quelques années, René Martin
et Jacques Gaillard ont publié à Paris un livre intitulé Les genres litté-
raires à Rome. Ce livre en deux tomes abonde en remarques d'une
admirable subtilité. II n'empêche que nous ne saurions adhérer à UiIle
conception qui mmene la littérature latine seulement à quatre genres
littéraires - narratif, démonstratif, dramatique et affectif - ainsi qu'à
d'autres productions flottant au-delà de leurs fronW~res 10. II n'en est
pas moins vrai que le français ne dispose pas d'un mot afin d',i ndiquer
les divisions des genres littéraires, les sous-genres. Alors que le roumain
emploie, dans ce cas, le mot «specie», espece. René Martin et Jacques
Gaillard essaient de tourner cette difficulté, en propos ant pour le
sous-genre le vocable «forune» c'est-à-dire fO[TIle d'un genre. Quoi qu'il
en soit, une nouvelle histoire de la littérature latine sera tenue, à notre
avis, de restaurer 1es genres, ainsi que les sous-genres, sinon, lorsqu'une
telle opération s'avérerait utile, même les fédérations de genres.
Toujours est-il que les textes littéraires entretwnnent entre eux
des rapports non seulement dans les cadres fouJ1nis par les genres
littéraires. Les discours, que comportent les textes, font exprimer à
Rome et ailleurs des options esthétiques, des choix stylistiques, qui
ne sont pas particuliers à un seul écrivain. De cette maniere, ont surgi
à Rome de véritables courants littéraires, qui décantaient, qui illus-
traient certaines options esthétiques . Au demeurant, les options esthé-
tiques prenaient souvent fOl'llle dans l~s cénacles littéraires et dans les
cercles politiques et culturels des Romains . Ces circuli se sont déve-
loppés à partir du ue sieole avant notre ere et du cerole des Scipions
jusqu'aux époques impériales, ou ils out connu un essor remarquable.
C'est à leur intérieur qu'on fabriquait des choix politiques, mais égale-
ment les optiques esthétiques. La nouv.elle histoire générale de la
littérature latine devra donc déceler les courants litéraires, en rapport
avec les ceroles poJitiques et culturels.
Néanmoins, iI ue convient nul1ement de ranger automatiquement
toute oeuvre littéraire latine dans un certain courant littéraire, en
l'attachant à une option esthéthique détermirnée. Beaucoup d'oeuvres
littéraires ne dénotent aucune démarche stylistique collective et précise.

10. Voir à ce propos, René Martin· Jacques Gaillard, Les genres littéraires
à Rome, 2 tomes, Paris 1981, I, pp. 7-23.
152 EUGEN CIZEK

Qui plus est, certains genres étaÍlent plus sensibles à l'égard des aptions
et des controverses littéraires, qui en découlaient, tandis que d'autres
demeuraient plus au mains étoongers aux défis stylistiques. Les optians
stylistiques, les débats, qui s'y rattachaient, affectaient eu principal
les genres prétendument nables, tels oeux relevant de l'art orataire,
de la tragédie, de l'épopée, même de la poésie lyrique. Au contraire, la
littérature satirique et parasatirique, comme la satura, l'épigramme
à portée satirique, la fable etc. demeuraient tres souvent en dehors de
ces options. L'historiagraphie, eHe, jauissairt d'une évidente autanamie
stylistique. Ce qui fait que souvent les histariens n'adhéraient à aucun
courant littéraire.
Jadis Augusta Rastagni estimait que les Ramains avaient une dispo-
sitian naturel1e au romantiSlIlle 11. Paurtant, à natre sens, ce sont le
classicisme et l'expressionnisme les camants et les démarches styl.istiques
les plus adéquats aux mentalités, à l'horizon d'attente des Romains. Le
c1assicisme, en raisan de la prapension des Ramains au pragmatisme
et ,a u constructivisme, à leur gaut de l'équilibI1e, des explications ratian-
neUes des faits, à leur logique rigoureuse. L'expressionnisme, du fait
de sa capadté de répandre à d 'autres zones de l'univers mental des
Romains, aussi vivantes que celles dont relevent les traits, que naus
avons mentionnés dans la phrase antérieure. II est question de leur
indination à une expression intense des sentÍments, même à la violence,
füt-ce dans les zones du comique au ailleurs. Au demeurant, le théâtre
populaire et oral des ltaliens antiques était nettement expressianniste .
De sUI1crolt, à notre avis, la lütérature latine débuta saus le signe de
l'expressionnisme, si bien que la praduction littéraire romaine préclas-
sique a été impregnée par des éléments expres·s ionnistes. Une véritable
arienta:tian à un expressionnisme bien net peut être décelée dans la
faule des écrivains archa'iques, orientation qu'avaient illustrée les
plume s de Naevius, Plaute, Catan et Accius . Paur leur part, étant
taujours plus au moins expressionnistes, Térence et Ennius préparaient
en même temps le classicisme.
Lucrece est lui aussi marqué par l'expressiaunisme, taut en frayant
largement la voie aux filans classiques, eu train de se manifester dans

11. A ce sujet, voir Augusto Rostagni, «Poesia ed estetica classica», in Rivista


di Filologia e di Istruzione Classica, N. S., 5, 1927, pp. 1 et suiv. (notammen't pp. 7-12,
21-22) et «Genio greco e genio romano», ibid., 7, 1929, pp. 305 et suiv. (notamment
pp. 322-329) .
POUR UNE NOUVELLE HISTOIRE DE ROME 153

la littérature latine. En réalité, la belle et étrange poésie de Lucrece


se trouvait à la charniere de l'expressionnisme et d'un classicisme à
peine naissant. Ce sont les efforts de César et de Cicél1on, qui ont mené
à la constitution d'un classicisme bien solide de la prose latine, tandis
que Virgile et Horace ont mis en ceuvre une poésie classique. Horace
a d'ailleurs muni le classicisme latin d'une théorie esthétique fort
cohérenrte. Auparravant, certains poetes du ler siede avant notre ere,
qui se voulaient les adeptes romains de Callimaque et qui étaient
appelés par Cicéron poetae no ui 12, avaient fait essaimé le néotérisme
ou bien te «oallimaquisme» romain. n était eu fait question d'un
courant littéraire tres cohérent, engendré par uu oerde culturel bien
homogene. On y pratiquait une poési,e concentrée, raffinée, à dessein
simple, mais qui faisaiIÍ valoir, à la di.fférence de ses modeles grecs,
une profonde tendance au subjectivisme. Héritant de 1'expressionnisme,
par exemple Catulle véhiculait la sincérité ardente, même la violence
des sentiments et, de ce fait, du vocabulaire 13. En outre, les nootéri-
ques se rattachaient à l'att-icisme sobre des orateurs qui privilégiaient
le discours austere, coneis et simple, en s'opposant à la fois au dassi-
cismeet l'asianisnne fleuri, pathétique et tres coloré d'une certaine
éloquence du ler siecle avant notre ere. Au demeurant, 1'attkisme, le
néotérisme et l'asianisme se maintinrent longtemps, y compris sous
1'Empire. II en alla de même de l' expressionnisme.
A son tour, le classicisme, souvent conçu cornrrne un atticisme
élargi, faisait privilégier un art lucide, reposant sur l'équilibre de
1'expression, sur la convenance, Sll'r des criteres rationnels, à utiliser
lors de la construction du discoll'rs litlt'é raire. D'aÍllleurs, les siecles
de 1'Empil1e mettent en vedette un véritable combat entre l,e olassicisme
et les divers courants non-classiques. Au ler siecle de notre erre, surtout
à son milieu, s'épanouit une nouvelle forme d'asianisme, centrée sur un
discours oondensé, mais brillant, pathétique et polychrome, connue
sous le nom de style nouveau. Ce style, illustré principalernent par
Séneque ,e t Lucain, se décanta dans un vél1itable nouveau mouvement
littéraire, d'inspiration plutôt romantique 14 . En même temps, Pétrone

12. Cic., Orator, 48,161; Ad Atticum, 7,2,1. Sur le «callimaquisme» romain,


voir John Patrick Sullivan, Literature and Politics in the Age of Nero, Ithaca-
Londres 1985, pp. 74-78. ~
13. A cet égard, voir Pierre Grimal, Le lyrisme à Rome, Paris 1978, pp. 113-114.
14. Sur le classicisme et le style nouveau, voir Eugen Cizek, L'époque de
Néron et ses controverses idéologiques, Leyde 1972, pp. 264-365.
154 EUGEN CIZEK

pratiquait un expressionnisme ostensibIe, à TIoire aviso Cependant, le


classicisme n'est pas mort paur autant. A vrai dire iI y a eu plusieurs
classicismes sous l'Empire. Parce qu'à la fin du ler siecle de notre ere
émergea un second olassicisme, par rapport au premier, eelui du siecle
d'Auguste, dont il se départait assez sensiblement, en tirant parti de
l'expérience des adeptes du style nouveau. Toutefois, la rivalité entre
le seeond clas's idsme et le style nouveau favorisa l'essor de l'atticisme,
désonnais archalsant, qui s'imposa énergiquement au milieu du II"
siec1e de notre el'e, grâce à Fronton, Aulu-Gelle et à leurs adeptes.
Sa domination fut ephémere, mais les néotériques, revenus à la charge,
firent prévaloir leur autorité en matiere de poésie lyrique, y eompris
au I1l e siecle de notre ere. Ceci étant, le IVe siede met en lumiere un
troisieme dassidsme, dorénavant tres dominant et souvent plus proche
du premier olas,s icisme que ne l'avait été le second classicisme. Mêine
Ies auteurs chréüens hésitaient entre ce classicisme, pourtant assumé
par leur majorité, et l'expressionnisme, bien implanté dans la tradition
populaire, romaine et italienne.
Voiei donc les problemes et, selon nous, les moyens de les sur-
monter, que pourrait affronter une nouvelle histoire globale de la litté-
rature latine. A notre sens, iI convient d'utiliser, nous le répétons, des
méthodes modernes, telles celles fournies surtout par la théorie du
discours et par l'histoire eles mentalités, aussi bien que par les théories
et les pratiques des genres et des styles . Des styles qui souvent ne sont
pas particulierement romains, mais universels. Ces méthodes ne s'averent
pas seulement utiles à une histoire générale de la littérature latine,
mais aussi aux livres qu'on vouda:1ait consacrer à certaines sections de
l'art littéraire des Romains. Car les ouvrages SUl' la poésie latine
d'a. Ribbeck, A. Cartault, M. Pattin, F. Plessis sont déjà anciens. II est
vrai pourtant que nous disposons du beau livre de Pierre Grimal sur
le lyrisme à Rome. En ce qui concerne la prose dem.eurent encore
importantes les syntheses dues à Eduard Norden c'est-à-dire Die antike
Kunstprosa, et surtout à Arrton D. Leeman, Orationis ratio, Amsterdam,
1963. Cependant font encare défaut les amples syntheses sur les grands
genres de la prose. II n'y a aucune synthese solide et ample sur la
philosophie romaine, puisque celle-ci n'est pas un simple prolongement
de la sagesse grecque. Alors qu'une vaste synthese sur l'historiographie
à Rome attend d'être imprimée. Hélas .
Nous n'avons pas le loisir de nous attarder sur nombre de eompli-
cations, que suscite toute synthese quant à la littérature latine. II y
a 1e p robleme posé par les rapports avec la littérature grecque, il y a le
POUR UNE NOUVELLE HISTOIRE DE ROME 155

probleme de l'héritage de la eulture romaine, de l'aeeueil que lui ont


fait le Moyen Âge et les temps modernes. A résoudre, à notre sens,
toujours en fonction de l'intertextualité, si on prend en eonsidération
deux centres aetifs de rayonnement, établissant des rapports bilatéraux
entre eux. Est-ce tout? Sans doute nono Car il y a aussi le probleme de
la valeur. Aucune des méthodes modernes n'a pu expliquer le talent,
n'a pu éclaircir pourquoi une ceuvre littéraire s'avere plus belle qu'un c
autre. Nous estimons que seul le talent de l'historien de la littérature,
seule sa capaoité de discerner la valeu r, la beauté pourraient servir afin
de saisir les acqUJis esthétiques et de présenter aux lecteurs les meilleures
pages des ceuvres littéraires romaines. Vn semblable historien a besoin
de beaueoup de fines se , d'imagination, de capacité de manier même un
verbe magique. Les méthodes modemes sont nécessaires pour mieux
comprendre et pour révéler d'une façon plus exacte le laboratoire
intime de la création artistique, les structures, les moyens conerets
qu'avaient employés les écrivains de Rome, en somme le eomment de
lellr création. Mais le pourquoi? A cet égard, on ne saurait tenir compte
notamment que des impressions subies par l'historien littéraire, qui
doit être également un critique.
II est done indispensable de teinter l'utilisation de la méthodologie
moderne d'un certain impressionnisme. L'un n'empêche pas l'alltre
eomme on dito D'ailleurs est-ee que le talent, à savoIT le talent de
l'exégete, n'est-il pas néeessaire pour toute analyse des ceuvres littéraires
latines, pour aborder tous les aspeets d'une telle analyse et même
pour tout récit sur l'histoire de Rome?
(Página deixada propositadamente em branco)
ROMA Y EL DESTINO DE OCCIDENTE

H. BAUZA
Universidad de Buenos Aires

A Léopold Sédar Senghor

ABSTRACT

Aun cuando lo romano y lo griego proceden de un mismo origen


- el mundo indoeuropeo - , evidencian características diferentes. Frente
aI lógos helénico, el hombre romano evidencia un subjetivi,s mo que se
traduce en el término lex oon que se enfrenta ante La reaLidad. Por la
lex conquista, coloniza, funda y también a través de La lex transfiere
a los restantes pueblos su experi,e ncia de la realidad y deI mundo.
Por otra parte, la caída de su Imperio en el afto 476 no implica,
por cierto, la muerte de lo romano dado que sobrevive transfigurado
en la Romanidad, de la que la 'E umpa occidental y su proyeoción
americana constituyen una herencia viviente.
Su legado, que esen primem instancia UIll legado semántico, entre
otras circunstancias determina y configura el destino de Occidente que
se conc:reta en la idea de humanidad, poéticamente eXlpresada en un
conocido verso de Terencio:
Homo sum: humani nihil a me alienum puto (Heautont., p. 77).

1. CONSIDERACIONES GENERALES

Las naciones de la Europa occidental y su prolongación americana,


en suma, ese complejo tramado de ideas y costumbres que se suele
denominar Occidente, están implantados en la latinidad, circunstancia
158 H. BAUZA

que es previa a ellas y que las determina como un entOTI10 semántico


en el que acontece el déroulement de su historia.
En ese ámbito se diversifican, conviven, luchan por la preen1i-
nencia y pervivencia de sus localismos, pero por sobre todas las cosas,
concurren I. La concurrencia o convergenoia espiritual está dada por
la identidad que confiere una misma raíz semántica, aun cuando cada
nación y cada pueblo ostente una lengua propia.
Empero, las ramas de este árbol convergen en un mismo tronco
quees Roma oomo instancia histórica, o bien el latín como ámbito
semántieo.
De ese modo vemos pues que la latinidad no es la suma de cada
una de estas branches en forma aislada sino, pO'I' el contrario, un aliento
que preexiste a l,a s naciones y a los pueblos y que los determina y confi-
gura en cuanto a la manera de concebir la natura, el mundo y la historia.
Por esa causa, cada vez que consideramos qué aspectos sustan-
ciales competen a la esencia de Occidente , necesaria!l11ente debemos
recurrir a lo greco-latino, en el que Occidente apoya sus raíces.
En esa dimensión, toda vez que buscamos no sólo nuestros oríge-
nes, sino también la causa de nuestros comportamientos y actitudes,
debemos remitirnos a esas fuentes. Así, por ejemplo, aprehendemos la
realidad mediante un lenguaje y un método griegos; incluso nuestra
postura ante la physis - aunque sorprenda -, es también griega. Para-
fraseando conocidas palavras de W. J,a eger, es como si yo constante-
mente descubriera lo que han descubierto los griegos.
Roma y lo latino, por su parte, si bien parten de lo griego, dirigen
su mirada hacia otro horizonte: la ciudad, el mundo y la historia,
pero en un sentido diferente a como lo inteligieron los griegos.

2. LO ROMANO FRENTE A LO GRIEGO

Si bien lo romano y lo griego proceden de un mismo origen


- el mundo indoeuropeo -, evidencian características diferentes. Las
mismas ofrecen distintas cosmovisiones tanto respecto deI hombre como
de la deidad y, en consecuenda, revelan también diferentes aotitudes
ante el mito y ante la historia 2.

1. Idea sugerida por J. Marias, en «Sobre Europa», en voI. colectivo El espí-


ritu europeo, Madrid, Guadarrama, 1957, p. 13.
2. Hemos profundizado este aspecto en «Roma: síntesis entre mito e historia»,
en Escritos de filosofía, Buenos Aires, 1979, n.O 3, pp. 9-23.
ROMA Y E L DESTINO DE OCCIDENTE 159

El griego parte de una armonía objetiva que se impone aI hombre;


de ahí que su postura ante la realidade sea teorética, es decir contem-
p1ativa de un cosmos que se le presenta como un absoluto. Talvez
sea la palabra lógos la que con más claridad exprese esa particular
relación entre el hombre y el mundo 3.
Pam el romano la relación entre el hombre y el mundo es inversa.
No se trata ya de una realidad que se impone aI hombre, sino que es la
palabra deI hombre la que ordena el mundo, no en cuanto a la physis,
por cierto, sino en lo que atafie aI ámbito histórico . No estamos frente
a la citada actitud contemplativa, sino ante una postum práctica que
se sustanciará en la conciencia político-fundacional tipica de los romanos.
De ese modo, tal como sefiala Cicerón en diversos pasajes, el hombre
romano se sintió llamado a ordenar el mundo, los pueblos y la historia
y desde un pasado remoto tuvo también conciencia de la fundación
de un imperium, hecho que se concretará a partir deI programa polí-
tico de Julio César quien - según sugiere J. Carcopino -, apparaU en
realité comme le plus souple et le plus vigoureux des démiurges poli-
tiques, celui qui, pour concilier la culture hellénistique et la discipline
romaine, la domination d'un seul et la vitalité des républiques muni-
cipales, l'annexion totaZe de I'Orient et l' assimilation des sujets du
peuple-roi, sut accomplir la plus grande des révolutions de I'antiquité,
une des plus efficaces de I'histoire \ que se sustanciará en la creación
de un imperio.
El imperium, tal como lo concibieron los latinos, no es sólo una
mera forma de gobierno, sino una magistratura en la que se perfilan
el ius diuinum y el ius humanum y donde el impera to r será taunhién
el Pontifex Maximus.
En el conoddo Somnium Scipionis, inscripto en el VI libra deI
De re publica 5, Cicerón, después de haber descripto qué es el mundo,
qué la tierra y qué el poderío romano, hace decir aI famoso general:
Homines enim sunt hac lege generati, qui tuerentur illum globum,
quem in hoc templo medium uides, quae terra dicitur 6.
Es decir que, según la concepción deI orador, la función deI hombre
ya no es la contemplativa de los griegos, sino la práctica de administrar

3. Cf. Disandro, Sentido POlítICO de los romanos, Buenos Aires, 1970, p . 10 ss.
4. Jules César, Paris, P. U. F., 1968, p. 566.
5. III 15.
6. «Los hombres, en efecto, han sido creados según esta ley, para que admi-
nistraran aquel globo que tú ves en medio de ese templo que se denomina tierra».
160 H. BAUZÁ

esta tierra. De ahí se desprenden el caráoter ético, la actitud pmgmá-


tica y finalmente, la necesidad de conquista pero también de civ-ilización,
típicas deI hombre romano.
El concepto de lex 7 - emanado dei hornbre - evidencia tlilla nota
subjetiva de los latinos, en oposición a la objetividad del lógos helénico.
EI romano a tmvés de la lex oonquista, colonim, funda y también, por
medio de la lex, transfiere a los restantes pueblos su experiencia de
la vida y deI mundo. Da ahí que - como explican Oicerón, Virgilio y
Tito Livio, entre otros autores -, la noción de historia universal, tal
como la concebimos nosotros, arranca de lo romano.
En esa perspectiva, la hi,s toria universal está sentida como la
proyecoión deI ejemplo o paradigma romanos.
Empero, corresponde sefialar que si bien a partir deI influjo de!
estokismo e! hombre romano avivó su deseo de indagar su posición
en el cosmos, por su mentahdad pmgmática desvió esa búsqueda a su
situación en el mundo concreto. En ello se sinHó llamado a construir
la historia y concibió la propia como modelo pam los pueblos que más
tarde habrían de enoontrarse bajo su influencia.
De ese modo observamos en la mentalidad latina una óptica dife-
rente de la helénica en cuanto a la relación entre mito e histOTia. Para
el griego la historia se inscribe en el mito; para el romano, en cambio,
el mito se adecua a la historia.
En la perspectiva helénica estamos ante el mundo de la historia
construido sobre el modelo deI mHo; en la latina, por el contrario,
e! mito se forja a partir de la historia; aquí es el hombre el que OTdena,
varia e inclusive, a veces, hasta crea mitos adecuándolos a su propia
realidad. A:sí, por ejemplo, el mito de Roma es un testimonio elocuente
de esa postum.
Esa es la línea que arranca de Ennio y en la que el mito se presenta
limitado por la historia. VirgiLio, si bien se filia en ella, luego la pleni-
fica pues la somete a una perspeotiva teológica que pretende anular
la contraposición entre mito e historia.
m ejemplo romano se amplía con Tito Livio quien valoriza la tradi-
ción pues la ooncibe fundada incorruptis rerum gestarum monumentis,
por lo que extiende la ejemplaridad deI pasado romano a los hombres
que la gobiernan. Por esa causa su obra es una galería de uiri cuyos

7. Para sus distintos matices semánticos, cf. A. Forcellini, Lexicon totius


latinitatis, Patavii, Typis Seminarii, 1940.
ROMA Y EL DESTINO DE OCCIDENTE 161

exempla deben ser temidos en cuenta para exaltar la areté de la historia,


como esenciales para una formación cívica y como fundantes de una
paideía latina 8.
P. Grimal 9 sostiene que en el culto a la personaHdad, cultivado
ya entre los Escipiones, se percibe una suerte de exaltaoión de la areté
deI político respecto de la cuallos romanos - atentos aI modelo griego-
tienen urna predisposición partkular.
En la medida en que Roma pretemdió hacer de cada pueblo o de cada
ciudad conquistada una nueva Roma, y gradualmente las fue incorpo-
rando a su ámbito confiriéndoles su lengua, sus costumbres, más tarde
la ciudadania e incluso la religión cristiana que Teodosio, aI abrazarla
para sí la había incorporado también para eI Imperio, conformó una
sociedad más vasta que eIla misma y que podemos englobarla bajo
el rótulo de occidental.
Esta es una suerte de crisol en eI que . conviven la inteligibilidad
helénica, las lucubraciones órficas sobre el tema de la inrnortalidad
deI alma, el lenguaje teológico aCUÍÍado por Platón, Demócrito y sus
teorías atomistas, junto a Lucreoio y sus epicurefstas cavilaciones sobre
la natura. Alienta también en eIla el profetismo veterotestamentario,
a la par que la noción de misterio desplegada por los cultos sibilinos y
que constituyen una preparación para el Aduentus. Se suma, por cierto,
el cristianismo y su idea de salvación que haIló buena aoogida, entre
otras circunstancias, gracias a · la à.ntroducciém paulatina de diversos
cultos orientales de marcado oaráoter soteriológico. Está presente uam-
bién el estoicismo cuyo influjo fue también decisivo en la consolidaciÓTI
de la conciencia occidental.
Esta sociedad occidental, en la que alientan las nociones de equi-
lib:rio, proporción y síntesis, tiene como propósito el destpHegue y
acrecentamiento dei genuino humanismo, que nos es más que el logro
de la liberta~ humana, la que responsabiliza aI hombre respecto de cada
una de las acciones que realice y de cada UlIla de las ideas que profese.
El auténtico humanismo ~ que es el legado más sublime l.mnsfe-
rido por Roma a Ocddente - , nos ensefia que la realidad y los actos
quedan siempre em el dominio de lo humano, sim. que pDT ello el hombre

8. Ad hoc, cf. P. J. 'Walsch, Livy. Ris Ristorical Aims and Methods, Cambridge,
1963, esp. cap. IV.
9. Le siecle des Scipions. Rome et l'hellénisme au temps des guerres puniques,
Paris, Aubier, 1975.

11
162 H. BAUZÁ

desprecie el misterio de la fe, el enoanto de los mitos o incluso, las


fantasías de sus ensofiaciones lO.
Roma transfiere como destino a Occidente la toma de conciencia
del sentido trágico de la historia y la responsabilidad que cabe aI
hombre en el despliegue de la historia, no sólo provinciana, sino incluso
de la universal.
El legado romano nos alerta de que la clave de lo humano se funda
en la inteligenda, en la voluntad y, por sobre todas las cosas, en el
amor a la libertad que nace dei respeto y solidaridad pO'r el semejante.
En ese aspecto Roma hizo suyo el mensaje cristiano.
Amén de la hi,s toria, concebida de manera fáctica, Roma nos ha
legado también una filosofía de la historia universal de la que se des-
prende en primer lugar que el pasado constituye una herencia viviente;
en segundo, la conveJ.1gencia de los pueblos hermanos; en terceJ.1O, en
fin, la toma de conciencia de que no estamos aislados, sino que forma-
mos parte de un tramado más vasto que es el ámbito occidental, que nos
condiciona y en el que actuamos y aI que debemos concurrir en aras
de afianzar nuestra propia esencia.

3. ROMA: CAlDA Y TRANSFIGURACION DEL IMPERIO

EI 28 de agosto deI 476 Rómulo Augústulo - último sucesor de


Augusto - entregaba su trono a Odoacro, jefe de tribus germánicas 11.
Empero, es menester sefialar que la caída física de Roma, capital
deI imperio de Occidente, lejos de implicar la muerte o la abolición de
sus principios, por el contral1io, se nos impone como una transfiguració'l1.
EI hecho de que hayan surgido las lenguas romances o neolatinas,
y can ellas una peculiar forma de pensamiento y una determinada
visión de la realidad, y que el cristianismo se haya difundido por el
Viejo y por el Nuevo Mundo, san la evidencia más clara de que ellegado
romano sobrevive como una atmósfera que alienta el espíritu y el
pensamiento deI hombre occidental.
En cuanto a la caída, tradicionalmente se ha sefialado que las
guerras civiles habrían debilitado el impedo aI extremo de que no fue

10. Ad hoc véase F. Flora, «Espíritu europeo, espíritu universal», en Bl espíritu


europeo, ya cit., p. 84.
11. Hemos comentado su caída en «ltinerario de Roma a un milenio y medio
de su caída», en La Prensa, Buenos Aires, 19.12.1976.
ROMA Y EL DESTINO DE OCCIDENTE 163

difícil para las huestes germânicas dominar la capi,t al. Esas guerras
intestinas, agravadas por luchas de clases, implicaron un cambio de
actitud mental que según opina Rostovtzeff 12, fue detemninante de la
caída deI imperio. Respecto de esa caída, el mencionado romanista
ruso refiere que la evolución y el desmembramiento deI mundo antiguo
tienen para nosotros una lección y una advertencia.
Los mooievales expusieron una exégesi,s cristiana según la cual la
caída era una suerte de castigo divino infligido a Roma por haber
perseguido la nueva fe.
Polibio, aI eX!poner su doctrina de la anakykZosis política, aI inscribir
a Roma en e! ciclo de las edades, había sugerido que la ruina deI
imperio era una circunstancia inevitable implícita en el dérouZement
histórico.
Los humanistas de los siglos XV y XVI no hablan de una brusca
caída, sino de una lenta inclina tio imperii ('declinación deI imperio'),
ligada fundamentalmente a causas morales y políticas. Pesa en ellos
la perspectiva de los estoicos - sustentada también por Cicerón-
para quienes el atisbo de la decadencia de Roma se aprecia en el envi-
lecimiento de las costumbres y en lo que denominan ausencia de
grandes hombres.
En 1576, cuando se recordaba otra nueva centuria de la caída de
Roma, Lowenklav, aI hacer una exégesis apologética de la Historia noua
de Zósimo, interpretó que el Cristianismo fue la causa determinante de
la caída deI Imperio. Su tesis 13 fue retomada más tarde po,r Gibbon
en su History of the Decline and FaU of the Roman Empire, aparecida
dos siglos más tarde, es decir en 1776.
Lowenklav, desarrollando una suerte de filosofí,a de la historia
habla de los tempora fataZia mediante los cuales, acol'de con la con-
cepción cíclica y, en consecuencia, fatalista de! mundo antiguo, se
muestra sensible aI drama de la disgregaciÓll y caída de pueblos y
culturas. Ve que Roma no podía, por tanto, escapar de tal cosmovisión
y considera que el Cristianismo, en suataque contra el culto oficial
deI Imperio, socavó radicalmente los pilares religiosos deI orbe romano
y, por tanto, también los políticos.
A la sazón, la sociedad era esclava deI estado y el Cristianismo
ofrecía aI hombre esperanza, creencia y una particular concepción de

12. Roma, Buenos Aires, Eudeba, 1968, p. 248 ss.


13. Comentada por S. Mazzarino, «La fin du monde antique», Paris, Gallimard,
1973, p . 93 ss.
164 H. BAUZA

la caridad entendida como amor aI prójimo; de esa manera su mensaje


soteriológico transformó los viejos esquemas de pensamiento y creen-
das en una diJmensión nueva.
Con el aifanzamiento deI Cr'Ístiarüsmo se debilita naturalm~nte
la digna tio Caesaris, fundada en una categoda rehgiosa y política a .un
mismo tiempo, ava1ada por la promulgación de la lex regia, que fue
uno de los pilares de la postemor deificación imperial.
En tanto que religión y estado estaban estrechamente vinculados
- el paganismo era entonces el culto oficial de Roma - , el debilita-
miento y posterior persecución de tal mligión implicó . por cierto la
decHnación deI 'i mperio. Concurre a ello el hecho de que en el ano 313
se promulgó el edicto de Milán sobI'e la neutralidad religiosa deI Estado;
que anos más taI'de el emperador Teodosio abrazó el Cri.stianismo y
luego - invirtiendo la anterior historia romana - , persiguió a los
paganos. Se reformó entonces el antUguo oalendario basado en festivi-
dades paganas y muchos de sus templos perdieron sentido sacro, otros
fuemn ,a daptados aI oristianismo (inclusive el 25 de diciembre, festi-
vidad deI Solis lnuicti Natalis pasó simbólica y convencionalmente a
partir deI siglo VI a celebrarse como Navidad) 14. Otros templos, . en
cambio, fueron destruidos; asÍ parece que sucedió oon el de Vesta
y con la casa de las Vesta1es y otros monumentos oonmemorativos de la
gesta mmana quedaron sepultados en el olvido; tal el caso deI Ara
Pacis Augustae.
Se adujeron también respecto de la oaída, razones políticas vin-
culadas con el hecho de que a Roma, por haberse extendido tanto,
se le habría dificultado la posibilidad de conser\"ar la hegemonia deI
imperio, a la vez que contener la paulatina invasión de las ·tribus
germánicas.
A la sazón el imperio contaba con un número elevado de provin-
cias que, como unidad, lo habían hecho ingobernable. Es el mentado
motivo de la «inrnoderada grandeza».
Corresponde sefialar que en tanto que la idea de Roma se proyecta
y amplia paPa convertirse en humanitas, se debilita Roma como estado
político. EI rasgo más importante de Roma en esas circunstancias, se
funda en haber ienrido concienoia de esa suerte de entrega en aPas
de 10 universal (la idea de fundar nuevas Romas), aun cuandoello
implicaba su natural debilitamiento.

14. Ad hoc, cf. · F. Cumont, Le religioni orientali nel pagane~imo romano, Bari,
Laterza, 1967, p. 19.
ROMA Y EL DESTINO DE OCCIDENTE 165

Más tarde, por esas razones, fue preoiso dividir el imperio.


A los problemas políticos, a las divergencias lingüísticas, es menes-
ter afiadir - aI margen deI cristianismo - el influjo de cultos orien-
tales - Mitra, Osiris, Isis, Magna Mater, Cibeles y otros - que a medida
que penetrabam en Roma, socabavan su hegemonía. F. Cumont l'j ha estu-
diado eon detenimiento dichos cultos y ese particular sincretismo
operado en Roma.
A esas circunstancias se afiade también como causa determinante
de la caída y transfiguración del imperio una razón de orden lingüístico,
relacionada con la transformación deI latín y el posterior nacirniento
de las lenguas romances, que habrían contribuido a fpagmentar la
unidad originaria deI imperito 16.
Bmpero, es forzoso no considerar un único motivo, sino una plura-
lidad de causas· convergentes que fueron determinando una nueva
cosmovisión de la realidad. De ese modo, el nacimiento de diferentes
lenguas - y con ellas nuevas formas de pensamiento - , la irrupción
de cultos orientales que proponían una nueva forma de piedad y una
diferente manera de establ,e cer la religio hombre·dios, el acelerado
despliegue deI cristianismo, la ruptura deI vínculo Imperio-paganismo,
la atención de Roma ante las diferentes costumbres y cultos de sus
colonias, las disensiones civiles, la presencia de los hunos en el hori-
zonte deI Volga y la consiguiente penetración de las huestes germá-
llJicas, debilitaron el ámbito físico deI imperio, circunstancia que culminó
en el 476 aun cuamdo era sólo la culminación de un dilatado proceso.
Merece también sefialarse la influencia del estoicismo, sensible
aI drama deI debilitami'e nto del hombre y, consecuentemente, la toma
de conciencia de los derechos naturales a todo individuo.
En un agudo análisis, Fustel de Coulanges 17 puntualiza que si bien
cayó la V rbs (' ciudad'), vale decir Roma en su estado físico, sus
murallas, sus construcciones, no se derrumbó en cambio la ciuitas,
es decir, la ciudad en su faz sacra y fundacional. ESit a se había difun-
dido ,e n las diferentes provincias deI imperio por obra de la misión
civilizadora de Roma y vivía, en consecuencia, transfigurada propor-
cionando los ' pilares básicos de la sociedad occidental.

15. En op. cit., passim .


. 16. Comentada por C. Disandro en conferencia «·C aída y trasiego deI Imperio
romano» dictada en el IV Simposio Nacional de Estudios Clásicos, Resistencia
(Arg.), setiembre de 1976.
17. La ciudad antigua, Barcelona, lberia, 1961.
166 H. BAUZA

En su concepclOn universalista, fundada en el reconocimiento y


aceptación de los otros pueblos, la cosmovisión latina se nos presenta
más 'a mplia que la griega. Roma, si bien originariamente inscripta en
la tradición helénica logra, más tarde, proponer aI mundo una cosmo-
visión humanista propia.

4. ROMA: SU LEGADO AL MUNDO OCCIDENT AL

Ellegado romano se funda principalmente en su concepto de huma-


nitas que implica el reconocimiento de la personalidad humana y que
se asienta en el respeto por los valores eternos . En el imperio por
sobre el concepto Roma se yergue el verbo romanizar, que implica la
transferenda de los valor es de libertad, fe, disciplina, gravedad, respeto
por la tradición, por la religión y por las leyes a las tierras que no
lo practicaban.
Acorde con esa conciencia de «elegida » Roma se sintió llamada a
esa misión conquistadora y civilizadora. Así po'r ejemplo nos lo tes,ti-
monia un pasaje harto comentado de la Eneida; nos referimos a los
versos 851-853 deI canto VI cuando Anquises refiere a su hijo la misión
deI romano:
tu regere imperio populos, Romane, memento
(hae tibi erunt artes), pacisque imponere morem,
parcere subiectis et debellare superbos. 18
En ese aspecto el Imperio trasciende sus fronteras y en esa dimen-
sión conquistadora, colonizadora y humanista Europa se proyectó aI
mundo 'a mericano.
Roma, de ese modo, gravita decisivamente en el destino de Occi-
dente. Su influjo se ve no sólo en las lenguas neolatinas, en la religión
yen l'a s oostumbres, sino - como hemos puntualizado - , en un ámbito
semántico condicionante de nuestra idiosincracia occidental y a través
deloual inteligimos aI hombre, aI mundo, a la physis y por el cual
nos adscribimos y somos partícipes de la Historia, aunque más no sea
que en un grado insignificante.

18. Comentados por Norden, P. Vergi1ius Maro Aeneis Buch VI, Darmstadt,
WB, 1981, i.1 y por R. Schilling, en «Tradición e innovación en el canto VI de la
Eneida de Virgilio» , en Virgilio en e1 bimi1enario de su muerte, comp. por H. F. Bauzá,
Buenos Aires, Parthenope, 1981, p. 140 y S.
ROMA Y EL DESTINO DE OCCIDENTE 167

Roma está también presente en nuestras instituciones, en el funda-


mento de nuestras leyes y en la base de nuestras costumbres.
Roma gravita también en nosostros de manera velada y casi sin
que nos percatemos, ya en la línea ondulante de una pieza de alfarería
campesina, ya en la cadencia de ciertas canoiones, ya en las supersti-
ciones populares, ya en la manera como ensamblamos una piedra junto
a otra para oonstruir un camino o para levantar una bóveda.
A través de la herencia que supo recibir y asimilar de los griegos,
nos transmite el equilíbrio, la justa medida y la divina proporción.
En lenguaje mítico-poétioo, nos ofrece también una armoniosa síntesis
entre lo apolíneo y 1'0 dionisíaco.
Empero, por sobre todas esas cosas, Roma nos transmite su idea
deI hombre. Vn ser que sin dejar de ser lllIl zoon politikón o logikón
como lo define Aristóteles, es también un viviente en el que anidan
pasiones y, de entre éstas, la del amor, indómita e ineluctable como
la imaginaron los epicureístas y ante la que sucumbimos todos, como
refiere un conocido verso de Virgilio:
omnia uincit Amor: et nos cedamus Amori (Buc. X 69).
Pera también en esa idea de hombre sustentada por los romanos
están la inteHgenoia, la voluntad y la tenacidad, mediante las que poder
vencer las situaciones adversas.
Bmpero, por sobre todas ellas está la idea de humanidad, enten-
dida como una armónica convivencia de hombres, idea que más tarde
los pensadores deI Trecento y deI Renacimiento italianos teorizaron
mediante el a,hondamiento en las humanae litterae.
Bsos pensamientos están conden5ados en la noción de humanidad.
Esta, entendida en sentido universal, que es el legado más sublime que
Roma ha transmiJtido aI ámbito occidental, se c1.liIl1ple y verifica en el
sentido de libertad, respeto y soHdaridad para oon los semejantes;
es ésta una noción que alienta y vivifica en su seno y que Terencio
condensó en un verso memorable:
Homo sum: humani nihil a me alienum pu to (Heautont., 77).
(Página deixada propositadamente em branco)
II

PERMANÊNOIA DA OULTURÀ OLÁSSIOA


PERMANENOE DE LA OULTURE OLASSIQUE
(Página deixada propositadamente em branco)
LITERATURA NOVILATINA EM PORTUGAL
ENTRE 1485 E 1537

AMERICO DA COSTA RAMALHO


Universidade de Coimbra

Um dos estrangeiros que melhor conheceram a Literatura Portu-


guesa, e era igualmente conhecedor das principais literaturas europeias,
esc~eveu: «The Portuguese is the greatest Hterature produced by a
small country with the exception of ancient Greece .. . » - «A Portu-
guesa é a maior literatura produzida por um pequeno país com a
excepção da Grécia antiga ... » Isto declarou em Junho de 1922, Aubrey
Fitzgerald Bell, na Fortnightly Review.
Talvez se pudesse dizer algo de semelhante da literatura em latim,
produzida em Portugal, mas aí sem abrir excepção, se tivesse chegado
até nós tudo quanto foi escrito em latim neste País, desde o século XV,
ou 'a inda antes. Ao colocar o tel1II1O a quo nos anos de Quatrocentos,
quero I'eferir-me em especial ao latim dos humani'stas do Renascimento.
O primeiro livro que encontramos foi escrito, por volta de 1460,
com o título de Gesta lllustrissimi Regis lohannis De Bello Septensi,
Acta per Reuerendum Matthaeum de Pisano, Artium Magistrum
Poetamque Laureatum.
Bmbora escrito provavelmente no ano do falecimento do Infante
D. Henrique, só veio a ser impresso em 1790, por iniciativa do Abade
José Correia da Serra, mais famoso como cientista do que como
homem de letras. Na sua quaJidade . de Secretário da Academia das
Oiências de Lisboa, Correia da Serra incluiu-o como 1.0 volume da
«Colecção de Livros Inéditos dos Reinados de D. João I, D. Duarte,
D. Afonso V e D. João II, publicados por ordem da Academia Real
das Sciencias de Lisboa.»
172 AM.tRICO DA COSTA RAMALHO

o autor era italiano de origem, foi mestre e secretário latino do


rei D. Manso V, falecido em 1481. Apesar de se intitular poeta laureado,
não chegou até nós um só dos seus versos. Mas a construção do
Livro sobre a Guerra de Ceuta revela capacidade de expressão dramá-
tica e sentido do pitoresoo.
A traduçãO' em português só aparece em 1915, para comemorar
o quinto centenário da conquista de Ceutà. EntI'etalnto, o 'm anuscrito
em que se baseou a edição do Abade Cor.reia da Serra des1aparecera e o
tradutor, o coronel de Engenharia Roberto Correia P.into, antigo pro-
fessor do Colégio Militar, não pôde sequer verificar as más leituras
do manuscrito ou os erros tipográficos que, uma e outros, má leitura
e erros, dificultam, por vezes, de forma invencível a boa tradução de
um texto la,ti'l1o, seja ele qual for.
Aliás, não obstante a impressão favorável que se colhe da compe-
tência do tradutor, penso que esta versão do latim quatrocentista não
deve ser impressa sem uma revisão prévia - o livro está esgotado-
e nunca sem o latim em face do português.
Mateus de Pisano gozou de um ambiente de simpatia que o seu
sucessO'r mai,s próximo, no posto de pr.ofessor da corte e de secretário
latino da realeza, não conheceu. Refiro-me a Cataldo Parísio Sículo.
Com efeito, Mateus de Pisano e o cronista seu contemporâneo,
Gomes Eanes de Zurar.a, trocarGllIll ramalhetes de flores: Zurara chamou
a ' Pisano, oorno é sabido, «poeta laureado, e um dos suficientes filó-
sofos e oradores que em seus dias concorreran1 na Cristandade»
(Crónica de D. Pedro de Meneses) ; e Mesrtre Mateus retribuiu, dizendo
do cronista ter sido «bom gramático, notável astrólogo e grande ero;-
nista» (Livro da · Guerra de Ceuta, p. 21).
Cataldo não enoontrou a mesma simpatia entre os intelectuais da
corte portuguesa. Para dar um só exemplo, o seu disourso na eIlltrada
solene em Évora, em 28 de Novembro de 1490, da pr,i ncesa Isabel de
Castela, mulher do príncipe D. Afonso de POJ:1tugal, é cuidadosamente
omitido pelos cronistas oolIlitemporâneos. E Rui de Pina contenta-se
com diZJer, algo depreciativamente e ocultando que o discurso foi em
latim: «E assi chegaram aa porta de Aviz, onde se fez hüa arenga ... »
(Cronica d'ElRey D. João II, cap. XLVII).
A correspondênoia de Cataldo reflecte a sua ânsia em obter infor-
mações par.a as Crónicas sobre a Expansão Portuguesa, que gostaria
de ter publicado. Tudo quanto conseguiu foi compor poemas e escrever
discursos e epístolas. Um desses poemas foi a Arcitinge, sobre a con-
qui,s ta de Arzila e Tânger, em 1471 , que o poeta aproveita para exaltar
LITERATURA NOVILATINA EM PORTUGAL ENTRE 1485 E 1537 173

a rei D. Afonso V e a príncipe D. João, seu filha. É a primeira carme


heróica sabre a Expansãa Partuguesa e deve ter sido pri:ncip1ado ainda
em Bolonha, de onde Catalda veio para Portugal, pravaveLmente em 1485.
As Crónicas que Carbalda gastaria de ter escrito estiveram para ser
canfiadas a Angela Paliciana que, para a efeita, se oferecera ao rei
D. Jaão II, induzida oertamente pelos filhas da ohamoeler João Teixeira
Laba que eram seus alunas em Flarença. Mas Policiamo morreu em
1494 e na ana seguinte falecia D. Joãa .II. Também o legada pcmtifício,
e depois bispo de Ceuta, Giusrta Baldino que, segundo parece, reoebera
idêntica encarga ainda na tempa de D. Afonso V, fulecia em Almada,
em 1493, nada deixaIlida.
O começo da historiografia humanfstica está claramente ligada aa
Humanismo Ital,i ana. Na tarefa ' estiveram irmplicados, com.o acabamos
de ver, Mateus de Pisarra, Catalda Parísio, Justa Baldina, Am.gelo Poli.-
ciana. Mas só passuím.os .o livro de Mateus de Pisana e as carta,s e
poemas de conteúda hi-stórioa de Ca1Jaldo Par:ísia.
Entretanta, faziam a sua formaçãa em Itália numerosos portu-
gueses que estudavam Direito, Tealogia e Medicina, famnas de prepa-
raçãa espeoializada que então vinham após uma imiciação mais .ou
menas longa em Humanidades. Muitos são hoje descanheoidos ou a,pemas
nomes sem significada especial. Outros adquiriram notorieda,de, por
serem referidas numa carta ou num epigrama. E são para nós mais
da que nomes aqueles que deixamm alguma ooisa escrita.
Quatra estãa liga,dasaa chanceler João Teixeira de que já falei:
seu irmãa Luís; seus filhos Luís, Alvaro e Tristão. Todos gente de
Direi·ta. Martim Figueiredo, ·s eusobI1inha Aires Barbosa, Henrique
Caiado, Fernando Coutinho, etc. De passagem, Diago Pacheca, Diago
de Sausa, D. Fernanda de Ahneida e muitos .outros.
De alguns destes falarei adiante.
A historiografia da final do sécul.o XV perdeu-se. As crorucas em
latim que devia,m ter sido escritas, em Flarença, par Am.rgel.o Palioiano,
inexi'stemtes, as de Justa Baldina e de Catald.o Parísio, escritas em
Partugal, que existiram pravavelmente, mas se perderam.
T.odavia, Catalda oampensa -e m parte, a falta das crónicas com
alguns discursas e paemas que pos-s uem inegável conteúda histórica
e oircunstancial. E também com algumas cartas que são, no funda,
reportagens biográficas e mlIDdanas, como aquela que acompanhou a
paema Verus Salomon Martinus, dirigida ao conde de Alcoutim, D. Pedro
de Memeses, onde' se faz a biografia do herói do paema, D. Martinho
Castelo Branco, 1.0 aonde de Vila Nova de Portimão, e se dedica uma
174 AMJ::RICO DA COSTA RAMALHO

atenção especial ao mais famoso dos seus genros, a saber, João Rodri-
gues de Sá de Meneses. Essa carta, em conjunto com uma obra do
próprio Sá de Meneses, de que adiante falarei, permitiu acabar de vez
com a lenda de que o célebre alcaide-mor do Porto fora discípulo de
Ângelo PolioialIlo, em Flovença.
A mesma carta, em confronto com o curriculum vitae de D. Diogo
de Almeida, coloca-nos em plena aventura guerreira da Graciosa, a
fortaleza que D. João II tentou construir em Africa «sobre o rio, acima
de Larache» e teve de abandonar. Apesar de se ter cifrado numa
derrota par.a os portugueses, a retirada da Graciosa foi conduzida com
tanta coragem e sangue-frio que o prestígio do Rei se viu acrescido,
não obstante o insucesso. Na correspondência de Cataldo e em cartas
diferentes enoontram-se dois dos heróis da Graciosa, D. Martinho Castelo
Branco e D. Diogo de Almeida. A carta ' referente a este úLtimo é diri-
gida ao papa Inocêncio VIII, falecido em 1491, e versa a existência
heróica de D. Diogo de Almeida, futuro prior do Crato, que se estreou
nas armas, combatendo aos 15 anos de idade em Africa, ao lado de
D. Afonso V.
A propósito do cerco da Graciosa pelas tropas incontáveis dos
Mouros e da ,r esistência da pequena força de elite portuguesa, de 1.500
homens, que se encontrava dentro, Cataldo escreve na carta referente
a D. Martinho Castelo Branco: «Se este feito tivesse sido praticado no
tempo dos Romanos, sobre ele teriam composto os autores uma longa
história.» Passava-se ,isto em 1489. O espírito que levará a Os Lusíadas
começou em Portugal na Uteratura NovilatÍ!I1a.
A carta ao Papa Inocêncio VIII, redigida por Cataldo em latim,
em nome de D. Diogo de Almeida, foi traduzida por Franoisco Rodrigues
Lobo e publioada por Ricardo Jorge, a parnir de um manuscrito que se
encontm no Museu Britânico. Pode ler-se em Cartas dos Grandes do
Mundo de Ricardo Jorge, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1934.
O ambiente histórico do final do séc. XV é ainda pintado em outros
escritos em latim 1iterário, como as orações de obediénda ao Papa.
Uma oração de obediência era pronunoiada, sempre que mudava
o Rei, normal,m ente por falecimento do anterior, ou sempre que um
novo Papa era eleito, também por motivo idêntico.
Do final do século XV, possuímos várias orações: a do Dr. Vasco
Fernandes de Lucena, em 9 de Dezembro de 1485, em nOlIlle de
D. João II, ao papa Inocêncio VIII; a do bispo de Ceuta, D. Fernando
de Almeida, ao papa Alexandre VI, em nome de D. João II, na derra-
deira metade de 1493.
LITERATURA NOVILATIN A E M PORTU GA L ENTR E 1485 E 1537 175

Do reinado de D. Manuel, temos a oração pronunciada pelo DI[.


Diogo Pacheco, ao papa Júlio II, em 4 de Junho de 1505; e a do
mesmo Diogo Pacheco, em nome igualmente do rei D. Manuel, ao papa
Leão X, em 2 de Abril de 1514. Esta embai~ada que ficou conhecida
por embaixada de Tristão · da Cunha, do nome do seu chefe, deixou
fama nos anais da diplomacia europeia da época, como um aconteci-
mento de fausto e exotismo que encontrou aúIlpla repel'cussão nas
páginas da Crónica de D. Manuel de DaúIlião de Góis. Ficou particular-
mente faanoso o elefante que nela seguia. As suas habilidades não foram
esquecidas pelo cronista.
Dos oradores subsequentes, recordamos que no tem.po de D. Sebas-
tião, um deles foi Aquiles Estaço que vivia em Roma na corte ponti-
fícia onde foi secretário latino dos papas e um dos humanistas de
prestígio intemacional no seu tempo.
Estas orações de obedi,ê noia não eram apenas modelos de boa
pl'osa latina, mas serviaúIl para que os estados, e no oaso vertente,
Portugal, anunoi,a ssem os acontecimentos mais notáveis da sua vida
política, desde a última obediência prestada. Os oradores portugueses,
através delas, informavam a Europa das vioissoitudes da expansão ultra-
marina, então em curso, pois as orationes eram logo impressas e distri-
buídas, a partir de Roma.
Com alcance político semelhante, embora se não trate de uma
oração de obediênoia, foi o discurso pronunciado em 31 de Agosto de
1481 , perante o papa Sisto IV, por D. Garcia de Meneses, bispo de Évora.
É um texto eloquente, escrito - sem exagero! - em magnífico
latim que ainda hoje se lê com surpresa, pois tal não seria de esperar,
de um pOT'tuguês, em 1481. Mas D. Gamia de Meneses havia estudado
em Itália na Universidade de Perúsia.
O vigor do estilo ajuda à e~pressão dos sentimentos de horror e
indignação perante as atrocidades cometidas pelo invasor turco, através
de uma Europa enfl'onhada no mais profundo egoíSlJIlo de cada pequena
comunidade em relação aos vizinhos, pel'mitindo, assim, que o inimigo
da Fé avançasse e prosperasse. A esquadra portuguesa enviada contra
os turoos que haviam ocupado Otranto não chegou a entrar em acção,
porque os turoos partiram, mas ficou um texto latino que é um modelo
do seu género. A guerra, endémica oomo a peste, continua-oo em Itália,
agora complicada pela invasão estrangeira: em Agosto de 1494,
Carlos VIII de França vinha à conquista de Nápoles, aproveitando as
lutas intestinas de Itália .
176 AM~RICO DA COSTA RAMALHO

o português Caiado que nesse mesmo ano, possivelmente, se dirigia


a Florença para ouv.ir AngeLo Po1iciano, por morte deste, dirige os seus
passos para Bolonha onde se encontra em 1495 e publica no ano
seguinte as suas éclogas. Ap:r.endera o latim com Pedro Rombo e Cataldo
Parísio, como informa nos seus versos. Mas no Siculo não se encontra
qualquer retribuição ao lisonjeiro epigrama que Caiado lhe dedicou.
E no entanto ser elogiado por Henrique Caiado era uma homenagem
prestigiosa, sobretudo vinda de Itália. Caiado, tido por um dos melhores
poetas bucólicos neolatinos da Europa do seu tempo, tem sido freq~en­
temente reeditado e traduzido no estrangeiro em a~ recentes.
A poesia de Caiado, sociaLmente, mverte a situação do Sículo em
Portugal. Agora é um português que conta entre os seus mecenas e as
pessoas das suas relações, a gente grada de Bolonha, Florença e Milão.
Caiado morreu jovem em Itália. Por isso, toda a sua actividade
poética se concentra entre 1495 e 1501, quando em Bolonha, são reedi-
tadas as éclogas e acresoentadas as silvas e dois livros de epigramas,
onde há numerosos portugueses, uns já mencionados, outros ainda não,
como Luís de Melo, D. João Castelo Branco e Frei Gomes de Lisboa.
Nos anos finais da sua vida, Caiado parece ter feito a vontade aos
seus familiares e ooncluído o curso de Direito. Datam desse período
dois discursos, pronunciados em Pádua, e publicados em Veneza, um
em 1504 e outro em 1507.
Tudo isto se passa nos finais do século XV. De 1500, é o primeiro
volume das cartas e orações de Cataldo Par~sio, irmpresso em Lisboa.
Os livros de poemas são dos anos subsequentes. As cartas e as orações,
embora escri,t as por um italiano, têm muito que ver com Portugal,
mas a escassez do tempo obriga-me a omi,t ir este tópico que, aliás, já
tratei em outras qcasiões.
Quero apenas salientar que as duas primeiras décadas do séc. XVI
nâo estão vazias de produções literárias, pois além do 2.° volume das
cartas e mações de Cataldo, publicado por volta de 1513, das Visiones
e poemas · como o Verus Salomon Martinus já citado, que são da mesma
altura, a grande massa dos Poemata, em que está incluído o livro
chamado Aquila é de certo anterior, isto é, da ·primeira década do
século XVI.
Também importa referir aqui o livro de epigramas de Lourenço de
Cáoeres, que Eugénio Asensio oota de 1518 e eu creio ser anteJ:1Í.or, por
motivos que tenciono apresentar noutra ocasião. Os epigramas dão-nos
conta da existência de rivalidades com émulos que recebem alfinetadas
sob a capa de pseudónimos. Lourenço de Cáoeres pertenoe claramente
LITERATURA NOVILATINA EM PORTUGAL ENTRE 1485 E 1537 177

a um grupo que não inclui Cataldo e lhe é provavehnente hostil. Um


só nome é comum a Cáceres e a Cataldo, o de Diogo Pacheco que, aliás,
também é celebrado nas éclogas e epigramas de Henrique Caiado.
Os poetas mencionados nos versos de Lourenço de Cáceres são
Luís Teixeira, Aires Barbosa, Diogo Pacheco, Domingos da Fonseca,
Lourenço Rodrigues, Mestre Gonçalo. Destes dois últimos são incluídos
poemas na co~ectânea. Roque de Almeida figura numa ode em que
ele e Lourenço de Cáceres se encontram à beira do Tormes, portanto
em Salam3lllca.
No final de outra ode sáfica de 14 estâncias, dedicada a João da
Silveira, o poeta Cáceres declara que é nestes ritmos, portanto os da ode
sáfica, que deve ser celebrado o elogio dos heróis, mas só pel.os bons
poetas. E termina em ar de captatia beneualentiae: «Ego uero tam sum
malus poeta, quam tu es optimus heras», em que há, como todos
reconhecerão facilmente, Uima reminiscência catuliana. Seguem-se algu-
mas cartas em prosa, dois epigramas em dísticos elegíacos, em que
Aires Barbosa el.ogia Lourenço de Cáceres, e o libellus termina com
mais um epigrama em louvor do poeta, este de André Pereira.
Detive-me um pouco neste pequeno livro, da segunda década do
século XVI, porque ele n.os dá testemunho de um ambiente humanís-
tico que estabelece a continuidade entre o mundo de Cataldo e os
anos trinta do século XVI. Aliás, como atrás sugeri, é possível que
alguns d.os epigramas aludam a Cataldo, como não será fantasia admitir
que naquela declaração de Lourenço de Cáceres, de que era no metro
sáfico das odes que deviam elogiar-se os heróis, se encontre uma alusão
a Cataldo, cujos poemas encomiásticos e outros, geralmente longos,
são em hexâmetros e pentâmetros dactíHcos. Cataldo faleceu não muito
depois de 1516 e os versos de Cáceres são desta mesma década. Por
outro lado, os elogios dos heróis continuarão a ser feitos em ritmos
dactílicos, mas os metros horacianos das odes, particularmente o sáfico,
serão usados mais tarde nos el.ogios dos santos.
Todavia, o livro que cons~dero mais notável deste período é uma
gramática latina. Não uma gramática qualquer, mas a Naua gramma-
tices marie matris dei uirginis ars, cuius authar est magister Stephanus
eques lusitanus, publicada em 1516. ~ um livro extraordinário, bem
digno de uma tese de doutoramento. Só o seu prefácio dav:a para uma
longa conferência: não apenas pelas questões que desvenda, como a
existência de uma querela gramatical de antigos e modernos na Univer-
sidade de Lisboa, mas também pelos conceitos sobre língua e império,

12
178 AMÉRICO DA COSTA RAMALHO

na sequência de Lourenço Valla e António de Nebrija, e ainda outras


questões doutrinais.
Sem me deter nos livros de Ail'es Barbosa, quer os de matéria
gramatkal, quer a Historia Apostolica de Arator, publicados entre 1511
a 1517, passo aos anos trinta. De 1527, é a primeira redacção do
De Platano de João Rodrigues de Sá de Meneses, de que já tratei em
outras ocasiôes - livro verdadeiramente extI'aol'dinário., pelo. que nos
revela da cultura intelectual e da circulação de 1ivros e ideias, por
volta de 1530. A segunda r.edacção é de 1537, com a resposta às objecções
de Juan Femández, professor de Retórica na Universidade de Coimbra.
Participam na discussão. Jorge Coelho., futllJI10 secretário. latino do
Infante D. Henrique, melhor prosador e epistológrafo que poeta, e
D. Miguel da Silva, então. bispo eleito. e futuro oa.I1deal (1541) em Roma,
a quem Baltasar Castiglio!I1e dedicara já em 1527 Il Cortegiano. Em
Roma, para onde fugiu à cólera do rei D. João. III, será poeta latino,
cuja obra está por coLigir e estudar.
Em 1530, em Lovaina, André de Resende publica o Encomium
urbis et academiae Louaniensis, um louvor a Erasmo e seus discípulos,
e em 1531, é o próprio Erasmo que faz pub1icar em Basileia o Carmen
eruditum et elegans Angeli Andreae Resendii, aduersus stolidos poli-
tio ris litteraturae oblatratores. O' autor usava então o praenomen
Ang.elus que será substituído mais tarde pelo de Lucius.
Além do encómio que tanto encantou o humanista de RoteJ:1dão,
que não mais será omitido entre os testimonia nas edições completas
das suas o.bras, saídas depois da morte, em 1536, aí são menoionados
alguns dos seus admira)dores portugueses, entre os quais D. João III
que, como é sabido, pensou em trazer Erasmo. para Coimbra.
A morte do grande humanista deu origem em Portugal a poemas
de André de Resende e de Nicolau Clenal'do, flamengo que era pro-
fessor do Infante D. Henrique, futuro carxLeal e rei. Resende e Clenardo
honraram a memória de Erasmo. Aires Barbosa publicará neste àno
de 1536, em Coimbra, Antimoria. Eiusdem nonnulla Epigrammata
contra a Moria ou Elogio da Loucura de Erasmo. Alguns dos epigramas
valem bastante mais do que a Antimoria. O poema é precedido de uma
carta-prefácio de Jorge Coelho em que este não consegue esconder o
despeito pela po.uca atenção que Erasmo lhe dera em Vlida.
Bntretanto, os portugueses no estrangeiro, e em particular na
Flandres com a qual existia uma tradição de relaçôes principescas
e diplomáticas - a mãe de CaJ:11os o Temerário, mo.rto em 1477, era
portuguesa - na Flandres, que se tomara um importante centro cul-
LITERATURA NOVILATINA EM PORTUGAL ENTRE 1485 E 1537 179

tural da Europa, ao mesmo tempo que empório económico em relaçôes


com Portugal, os portugueses informavam e esclareciam sobre o que
se passava no Oriente.
André de Resende publica em Lovaina, em 1531, a Epitome rerum
gestarum in lndia a Lusitanis, anno superiori, iuxta exemplum epistolae,
quam Nonius Cugna, dux lndiae maximus designatus, ad regem misit,
ex urbe Cananorio , IIII ldus Octobris. Anno M.D.XXX. Igualmente em
Lovaina, em 1539, Damião de Góis faz sair dos pre10s os Commentarii
rerum gestarum in lndia, anno MDXXXVIII.
Chegamos assim a 1537, ano da transferência da Universidade para
Coimbra. O teI'mo transferência é mais honroso para a nossa Univer-
sidade que já tinha estado em Coimbra, nos séculos XIV e XV, a
começar em 1307. Mas no século XVI considerava-se de maior prestígio
falar da fundação da Universidade de Coimbra, em 1537, do que da
sua transferência de Lisboa.
Seja como for, este ano de 1537, é considerado por muitos como
o do ~nício do Humanismo Renascentista em Portugal. Outros, ins~s­
tindo em que o Humanismo Greco-Latino é um fenómeno tardio entre
nós,oonsideram que ele só passa aeXiistir em Portugal, com a fundação
do Colégio das Artes, em 1548. f: como se tudo aquilo de que falei
nesta pequena comunicação, nunca tivesse exi's tido. E notem que sobre
o período considerado, omiti muitos factos, nomes e obras. Não falei,
por exemplo, do movimento humanístico na Corte onde em 1529,
Rodrigo Sanches, mestre dos moços da capela da rainha D. Catarma,
assinava um recibo de dois Virgílios, dois Luca.nos,. um Horácio, dois
T,e rênoios, duas Epístolas de Ovídio, d01s Colóquios de ETasmo. Este
Rodrigo Sanches fomenta na Corte a corresponoonoia em latim, por
volta de 1533, estimulado por Joana Vaz.
Gostaria de dedicar as minhas últimas palavras a uma breve consi-
deração sobre a poesia novilatina, com exclusão do teatro.
O conhecido lugar comum sobre a falta de originalidade e de vida
da poesia dos humanistas em latim, fOI1mulado, há quase um século
por Philippe Monnier, está hoje muito mitigado. Poetas C()[110 Ângelo
Policiano, Mkhelle Marullo, Sannazaro, loannes Sec1..liI1!dus e outros são
agora con5iderados poetas por direito próprio. Bntre nós, algumas
composições de André de Resende, Inácio de Morais, Diogo de Tcive,
Diogo Pires, par.a não voltar a referir as Bucólicas de Henrique Caiado,
podem competir oom o que de melhor se escreveu em português na
mesma época, exoepção feita, naturalmente, de Camôes.
180 AMJ::RICO DA COSTA RAMALHO

Outra noção corrente é a de que a poesia latina escrita por portu-


gueses, se encontra toda ou quase toda, e certamente a melhor, nos
oito volumes do Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum Qui Latine
Scripserunt, publioado no séoulo XVIII.
Nada mais falso. Nem lá está a maioria, mas apenas alguns, nem
os melhores, se exceptuarmos Cai,a do, Manuel da Costa e António de
Gouveia. Os quatro poetas, todos do século XVI que há pouco mencionei,
como autores de poemas que -r ivalizam com os escritos em português,
a saber, Morais, Resende, Teive e P.ires, :f:iiguram entre os ausentes.
Estão na moda as antologias de poesia latina dos humanistas,
traduzidos para francês, inglês, italiano e alemão. PossuÍInós no Centro
de Estudos Clássicos e Humanísticos alglliIl:s desse$ livros, publicados
em anos recentes. Na minha biblioteca pessoal, tenho outros, com-
prados no estrangeiro.
Nós faríamos melhor em pubEcar o nono volume do Corpus com
as melhores poesias de alguns dos que lá faltam. É a sugestão que
aqui deixo como final desta comunicação, demasiado breve para a
importância da matéria.

N. B. A maior parte dos autores e obras referidos atrás, encontra-se no livro


de Isaltina das Dores Figueiredo Martins, Bibliografia do Humanismo
em Portugal no século XVI. Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e
Humanísticos (L N . L C.), 1986.
A oratio de D. Garcia de Meneses; pronunciada em 1481 fica, natu-
ralmente, fora do âmbito da Bibliografia. Mas pode ver-se, publicada
e traduzida por Américo da Costa Ramalho, Latim Renascentista em
Portugal, Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos
(L N. L C.), 1985, pp. 2-25.
LOS POETAS NEOLATINOS DE MÉXICO EN EL SIGLO XVIII
Y SU CONTRIBUCIóN IDEOLóGICA E HISTóRICA

CARLOS MONTEMA YOR


Academia Mexicana de la Lengua Espaíiola (México)

La literatum me~icana abarca muchas lenguas y muchos períodos


notables. ElIa comprende, por supuesto, la escrita en lengua espafiola
desde el siglo XVI hasta nuestros días; también la escrita en lenguas
indígenas, ·especialmente en náhuatJ y en maya; también la que escri-
bieron en latín hombres fundamentales para nuestra historia política
y hUlIllanística. De esta literatura mexicana, la escrita en latílil, les
hablaré hoy. . .
EI latín . fue una lengua ComÚll en la vida culta de México desde
el siglo XVI. Conviene recordar que Espafia era en el momento de
su expansión territorial y deI establecimiento de la Nueva Espafia la
primera potencia europea, en el apogeo de su cuLtura, su lengua, su arte.
En ese esplendor, la Nueva Espafia se nutre de una cultura olásica: la
lengua castelIana deI siglo de oro, la erudiciÓln renacentista en griego
y en latín, la inteligencia fOJ1midabJe de gramáticos que en muy pocos
afios lograban dominar lenguas indígenas que no tenían semejanza
alguna con las lenguas· romances y que elaboraban diccionarios y
gramáticas que aÚll hoy seguimos utilizando; a elIo debe agregarse
que el pensamiento de Erasmo orientó la evangelizacián en México a
través de Fray ' Juan de ZUJillárraga, primer Arzobispo novohispano,
y que el pensamiento de Tomás Moro propiciá, con Vasco de Quiroga,
la primera organización de los puebJos purépechas de Michoacán. Es
decir, la cultura novohispana surgiá madura, con una estatura clásica;
no tuvo balbuceos de infancia.
182 CARLOS MONTEM A YOR

Pero esto era, vasta y madura, la cultUJ:1a europea desplegándose


sobre los escombros de los pueblos indígenas. A los ojos de aquellos
espafioles deI siglo XVI, lÜ's pueblos indígenas eran pueblÜ's postrados
por ele demonio, poseídos por satanás, condición que les servía de
justificación para numerosos despojos y mas acres que aÚ!l1. ahora no
se olvidan en México. Es decir, los novohi's panos eran espafíoles viviendo
en tierra extrafia, como lo e~presa sin sombra de duda Bernardo de
Balbuena. México no era un pais distinto, una patria ajena a Espafía.
Sería necesario que surgiera la otra voz, la masacrada, la perseguida.
la de las culturas indígenas, para que México despertara en la fusión
en la me:zda de los dos mundos culturales: eI europeo y el indígena.
Este despertar ocurrió en el siglo XVIII. Este despertar lo debemos
a los humanistas que escribieron en latín las más bellas páginas que
en esa lengua hemos cantado los mexicanos.
Referiré primero la contribución gen~al de estos humanistas a la
historia de México; después comentaré tres obras notables de ellos.

II

VaDios rasgos tuvieron estos hombres en comÚ!n. Primero, haber


nacido todos en el territorio de México y alredor de los últimos anos
de la tercera década deI siglo XVIII. Segundo, haber escrito la mayor
parte de sus obras en latín. Tercero, haber pertenecido a la orden
de lüs jesuítas. Estas coincidencias son Úitiles para entender sus obras.
A mediados dei siglo XVIII, y a través, particularmente, deI natu-
ralista Buffon y de su seguidor De Pauw, Europa declaraba orgullo-
samente que todo en América era inferior poI1que se trataba de un
continente goologicamente infantil, o quizás ya degenerado. Europa era
el continente maduro y sano; América el inmaduro y enfemno. En este
afán por decretar la inferioridad territorial y humana de América,
llegaron aI extremo de afirmar que los americanos no hacíamos el amor
porque nos faltaba la potencia vital para gozar de los dones sexuales
(pe:m en realiJdad les aseguro que padecemos de lo contrario: el desbor-
c1amiento de esa cualidade). En este contexto de luohas de pa.risajes y
de continentes, pues, debemos situar, primem, las obras de estas
escritores neoLatinüs de México, que celebran la naturaleza pródiga
deI nuevo cününente y la sabiduria política y moral de sus antiguos
pueblos.
En el momento de su mac1urez personal, justamente en la década
de los cincuentas, comenzaron a tener en México una influencia deci-
LOS POETAS NEOLATINOS DE M~XICO EN EL SIGLO XVIII 183

siva en la ensenanza y en el rectorado de colegios importantes eu todo


el país. Ensenaban historia, fiJosofía, física, matemáticas, teologia, latín;
dominaban varias lenguas indígenas; luchavan porque se extendiera la
ciencia experimental y porque el pensélJIlliento cartesiano tomara en
la vida universitaria el lugar de la tradición escolástica. Pero sobre
todo, se iban preparando para la comprensión histórica de México como
un país diferenciado de Hspana.
El afio de 1767 la corona espafiola decretó la eXipulsión de los
jesuítas en todos sus territorios. En la plenitUld de su vÍlda, en la ple-
nitud de su inteligencia, estos humanistas abandonaron México para
siempre, dejando alumnos, colegios, libros, círculos intelectuales en que
el neoclasiósmo que habían creado empezaba a crecer poderosamente.
La mayor parte de ellos fuerOll acogidos en I talia, especialmente en
Bolonia. En ese destierro, en medio de la Europa que estaba negando
a América toda dignidad terI1itorial y humana, estas mexicanos llegaron a
enseftar a europeos, a recibir reconodmiento, a concluir aquí las obras
de latín, en italiano y en espanol que atrajeron el aplauso y el estudio
de los colegios italianos de su tiempo. Y aquí, en Europa, formularon
por vez primera en forma acabada, acaso por La nostalgia deI destierro,
la idea histórica de México como una patria, como un país distinto.
A Francisco Xavier Clavijero, a José Luis Maneiro, a Manuel Cavo,
a Diego José Abad, a Francisco Javier Xavier Alegre, a Rafael Landívar, a
Rafael Campoy, entre otros, debemos este pensamiento histórico y polí-
tico con que se forjó México. Fueron, por ejemplo, los primeros en
revaloDar la historia indígena de manera totaJ; con ellos por vez pri-
mera se aprecia la civi!ización indígena eu sí misma, y se comparan
sus figuras y hazafias con las de otros pueblos oomo lüs griegos, los
romanos o aun los hebreos de los relatos bíblicos. Pero ese pasado,
también por vez primera, lo aSUlmieron como el suyo, estableciendo el
pasado espanol y el indígena como origen de México, lo cual equivalía
ya a desliga,r nos de Espana, a vemos ya no como un dominio espanol,
sino como otro país. Por ello pudieron, télJIllbién por vez primera,
reconocer y alentar el mestizaje como base racial de los mexicanos, y
defenderIo ante el purismo de criollos y peninsulares. Por último, aI
gran Clavijero debe mi país la idea rectODa de la eoocación oomo
única vía de evolución social, superando así la convÍloción buffoniana
de que el atraso o progreso de los pueblos se debe a la naturaleza de
los continentes. Estas ideas, que e110s formularon en latín, eu italiano
y en espaííol, serían el anunóo deI pensamiento independentista que
se fortalecería en México en las guerras libertarias deI siglo XIX.
184 CARLOS MONTEMA YOR

III

Pasemos ahora a la última parte de esta conferencia. Tres obras


poéticas destacan de esa generación. En ellas veo tres rasgos principales
de la literatura mexicana de todos los tiempos. Primero, el realismo
que apasionadamente describe nuestro paisaje y nuestros pueblos,
desde la Grandeza Mexicana de Balbuena o El Periquillo Sarniento de
Lizardi, hasta el Pedro Páramo de Juan RuJfo; me refiero a la Rusti-
catio Mexicana de Rafael LandíveT. Segundo, la vocación por la cultura
grecolatina, que desde el siglo XVI ha tenido un ejercicio ininterrum-
pido hasta Alfonso Reyes o Rubén Bonifaz Nuiío; me .refiero a la
traducción que de la Ilíada rnzo en hexámetros latinos Francisco Xavier
Alegre. Tercero, la vocación por el misterio religioso y filosófico que
alrededor de Dios y la soledad de Dios y deI hombre hemos tenido
desde SOT Juana Inês de la Cruz hasta José Gorostiza: me refiero aI
de Deo Heroica de Diego José Abad.
Rafael Landívar nació el afio de 1731 en el territorio de la Nueva
Espana que actualmente corresponde a Guatemala. De todos fue el que
manejó quizás el verso latino CQll1 mayor soltura y suavidad, con una
asombrosa natural,i dad que sólo se ve afectada en ciertos momentos
por los adornos propios deI neoclasicismo de su época. El poema se
compone de quince cantos, además de un prólogo en prosa y de un
apéndice en verso. Uno de sus traductores mexicanos, Esoobedo, com-
puso otro poema latino para exaLtar la belleza deI quetzal, que no
describió Landívar y que algunas ediciones de la Rusticatio Mexicana
incluyen. Algunos temas jamás habían sido tratados en lengua latina,
lo que evidencia el talento versificador de Landívar. Cada canto va
tratando distintos temas: lagunas, ríos, aves, ganado mayor y menor,
fieras salvajes, juegos, surgimiento de vo1canes como los que cada siglo
siguen naciendo en México. Orgullosamente, advierte en el prólogo
que su poema 110 da cabida a la fioción: «ln hoc autem opusculo
nullus erit fictioni locus ... Quae vicLi refero».
Acaso su amor por México y su pasión por defender nuestro
paisaje lo llevaron a aclarar que nada era imaginario en su poema,
que todo lo que en él se dice correspondía a la verdad y belleza deI
mundo e11 que él naciera. Describe minas, labores, multitudes, o la
astucia de la cacería acuática o terrestre, y el latín lo $ligue dócil y terso
por los campos mexicanos. Es capaz de provocar en el latín una
ductilidad en los procesos más técnicos deI trabajo de las minas,
LOS POETAS NEOLATINOS DE M~XICO EN EL SIGLO XVIII 185

como aquí, aI descobrir la extracción deI agua de las galerías por


cubos y mulas:

Si tamen huic renuat puteo succedere limpha,


Quod multis submissa ulnis tranquilla residat,
Altera torpentes atollat machina fontes
Interiora super speluncae strata reposta;
Quam pari ter muli, subducti faucibus antri,
Instructam situlis ipso sub colle rotabunt,
Cisternamque brevi replebunt tempore rivis,
Antlia quos labris educet prima supernis.
(VII, 247-254)

Pera también puede lograr la más alta poesía al describir la tritu-


ración de las rocas extraídas de las minas, cuando su enOI1IIle peso se
reduce a un fino polvo que flota en los aires:

Saxea si quando ferratas frustula plagas


Effugiant, pilisque rebelli mole resistant,
Haec pistrina domat replicatis orbitus acta,
Dum tenuata gravi sinuati pondere saxi
Se tollant flatu tenuis quasi pulvi ad auras .
(VIII, 46-50)

Más peI'suasivo es su verso cuando descDÍbe el vigor esplendoroso


deI caballo salvaje y el ritmo mismo de sus cascos aI galope:

Haec inter facile tumidus praecordia fastu


Praestat equus niveus cauda spectabilis atra.
Ille per auratos herbosa sedilia campos,
Impexis per colla jubis per terga per aures,
Arrectaque simul cauda colloque retorto,
Quadrupedante ferox sensim quatit aequora passu ...
(X, 26-31)

No menos bella, y más intensa y ágil, es la descripción de la doma


de un cabano salvaje (X, 59-75), equiparable también a la descripción de
la pelea de gallos, primer antecedente en la literatura hispanoamericana
dei mismo as unto que tratará después García Márquez · (XV, 10-78).
Sutil es su melodiosa primera mención de las aves de México:

Innumeras quondam sylvis America volantes


Condidit insignes nitido velamine plumae,
Egregiasque adeo dulcis modulamine linguae.
(XIII, 11-13)
186 CARLOS MONTEMAYOR

Pera brillante es la descripción deI ave más milagrosa, el colibrí, aI


dec.ir que en el vacío podríaanos creer suspendido su cuerpo de un hilo:
Suspensamque putes volucrem super aethera filo.
(XIII, 234)

Imposible es hacer, por ahora, um recuento de los pasajes más


sefialadaanente líricos. Todos los cantos guardan una gran unidad y
van desplegando un potente verso que busca mimetizarse con la materia
que canta. Hay un consciente amor, paso a paso, por el país que
describe. Una conciencia muy clara de que ese país existe en si mísmo,
y de que a él debe levantar la vista. Hay, ciertamente, un joven orgullo
en todo el poema, un orgullo que hace de México no un territorio
perteneciente a un país europeo, sino un territorio nuevo, un país
nuevo, una patria.
Sorpreeooe ahora, quizás, que se haya expresado en laJtin. Un
magnífico latin en que VirgiHo y Lucrecio son sin duda las referencias
más claras, y no solaanente porque a veces un verso muestre su origen,
como éste, que nos remi te a la cuarta égloga:
Non omnes armenta juvant strepitusque bubulcum
(XI, 18)

sino po'r que guardan una tersa cadencia aprendida, y asimilada, en


esos modelos. Un magnífico latín, sí, para defender la cultura de un país .
Pero la cultura no entenruda como la actividad preciosi's ta de un esta-
mento selecto: la cultura entendida en una fOIlITla más oontemrporánea,
la que comprende todo aquello que la Rusticatio Mexicana celebra en el
arte, los juegos, el vestido, los alimentos, la cacería de todos los pueblos
de México. Y en latín creyeron que para todo mundo hablaban; que
para toda la Europa que deoretaba la inferioddad de América, en latín
demostraban la grandeza deI mundo en que habían naddo.
Esta concienC'ia lleva taanbién a Landívar a designar la prillIlera
tradición poética a la que sentía pertenecer en un pasaje al que alude
en su prólogo como la única excepción de su descr1pción reali SJta ,
pues se trata sólo de una imagen poética la reunión de todos los poetas
en una misma ribera: «eam si exdpias, quae ad lacum. Mexicanunn
canentes poetas induoit», dijo. EI pasaje es el siguiente:
Tunc cap ti tacita rigui dulcedine ruris
Littora concentu replent quandoque poetae.
Hic pius aethero flagrans Carnerus amore
Terribiles Christi plagas, ludribia, mortem,
LOS POETAS NEOLATINOS DE MÉXICO EN EL SIGLO XVIII 187

Hic clarus sacro succensus Abadius aestro


Opprobiumque crucis numeris deflevit amaris.
Oceinuit Domino sublimes carmine laudes.
Haec quoque terrifico strepuerunt littora cantu,
Pelai cum fata viri, cum ferrea bella
Doctus Apollinea cantaret Alegrius arte.
Quin sua littoreis signarunt nomina truneis
Zapata, et Reyna, et socco celebratus Alarco,
Tristia lenirent dulei cum taedia plectro.
Ut tamen oceinuit modulis Joanna canoris,
Constitit unda fluens, ruptoque repente volatu
Aere suspensae longum siluere volucres,
Visaque duIcisono concentu saxa moveri.
Ne vera Musas livor torqueret amarus,
Ipsa Aganippaeas jussa est augere Sorores.
(I, 276-294)

Dos de las obras que aquí destaca Landívar, la de Alegre y la de


Diego José Abad, son las que ahora nos corresponde referir.

IV

Menos poeta que Landívar, pero con una presencia intelectual


mayor y una inteligenda deslumbrante para italianos y mexicanos,
Francisco Xavier Alegre tIradujo aI latín la Ilíada de Homero. He estu-
diado la Home ri !lias publicada en Roma por el Vaticano en el afío
de 1788, y desconozco edioiones posteriores. Necesario es revisar en su
totalidad esta edición para corregi r algtllIlas fallas y para sefíalar los
pasajes que no registra deI texto griego.
Francisco Xavier Alegre, nacido en Veracruz en 1729, dedicó muchas
obras aI estudio y aI cultivo de la poesía latina y espafíola. Muy joven
aún, escribió en latin un largo poema titulado Alejandriada, que lo
famiLiarizó oon la métrica y la cadencia latirna. Sabemos que siguienqo
a Cicerón compuso uu Arte poética; que tradujo la de Boileau con
anotaciones especiales para aplicarse a la poesía de lengua espafíola,
y que, además de muchas otras obras de campos teológicos, jurídicos o
filosóficos, sin excluir lo s matemáticos, escribió varios volÚlInenes en
verso latino y caste11ano oon temas religiosos y profanos. De Homero,
además de la Ilíada , sabemos que tradujo también la Batracomiomaquia.
En el próJogo de la traducción que ahora nos ocupa, Alegre da cuenta
de todas las versiones latinas anteriores y de las que en su tiempo se
habían hecho ya a otras lenguas eUlropeas, incluida la inglesa de Pape.
Su erudición no lo abandona en ningún momento, y la sombra de
188 CARLo.S Mo.NTEMAYo.R

V,irgHio. (quizás debía, debería decir, su luz) y de Ovidio no se aparta


de sus versos nunca. El armplio y so.noro griego de Homero, pues, muy
pocas veces logra filtrarse en la cadencia latina, y esto es lo que podría
hechar de menos un lector que amara el poema griego. Por otra parte,
en el contexto de su tiempo, Alegre no. se prorpUSo. hacer una traducción
palabra a palabra o verso a verso deI poema; se prorpuso. cantado en
latín, celebrarlo en latíil, recrear desde su fina pasión los momentos
que en cada rapsodia conmovieron más intensamente su espíritu. Esta
puede ser la clave para su tradueción, para gozar eon ena: leerla
como un poema subrayado ya, un poema eu el que un gran lector,
una gran alma, ha enfatizado. los instantes preolaros en que se detuvo,
en que repitió U[l verso, en que amó una imagen y se demoró en ella,
repitiéndola, admirándola ..
De los nUlITlerosos ejemplos, escojo aIguno.s pasajes cOIliffiovedores.
Todos recordamos, para empezar, el verso admirable de la primera
rapsodia en que silencioso, el andano Crises . se aleja por la orilla
deI es't ruendoso. mar. Alegre no se detiene en él, pero sí, en cambio,
alternando algunas frases, eu los que sefialan que el dios avanza como.
la noche; me parece un buen ejemplo de su estilo de traducción esta
descripçión de Apolo descendiendo deI Olimpo enfurecido .ya y con el
carcaj lleno de flechas resonando en su espalda, ilmenazante:
Audiit Architenens, subitasque exarsit in iras, .
tum se nube cava, ac densa caligine condens
iinde petit t~rras, humeris argentea pendet
ex altis pharetra, atque arcus, quem plurima circum
tela sonant gradiente Deo, caedeisque minante.
(I, 49-53; en griego, I , 43-47)

Lomismo oeurre en el beLlo pasaje de la muerte de Simoisio,


cuando insisrte en que la imagen deI árbol derribado despojado de su
follaje es como el guerrero derrortado aI que despojan de sus armas:
... ... ... .. .. ..... ...... Telamonius Ajax
Nam petit adverso venientis pectora telo,
Perque humerum ad tergum duplicato vulnere adegit,
Ille cadit, placidae quondam ceu ad stagna paludis
Populus alticomo consurgit vertice ad auras,
Quam faber, aut volucrem meditatus flectere in orbem,
Temonemve altum excidit rutilante bipenni,
lUa autem herbosas propter jacet arida· ripas.
Haud secus Anthemidem juvenem Salaminius heros
Exutumque armis, deformem ac pulvere linquit.
(IV, 459-468; en griego, IV, 473-489)
LOS POETAS NEOLATINOS DE MÉXICO EN EL SIGLO X VIII 189

Leamos un párrafo más de esta traducción de Alegre, para pasar


aI . último poeta. Creo que esta tensión dramática, el ritmo intenso . e
interior de esrtos ·versos dan una espléndida visión deI sufrimiento de
Príamo aI besar las manos deI hombre que asesinó a sus hijos:

SoliCJ..ue Automedon, et Martius Alcimus oUi


Circum ~ssistebant, ambosque ingressus in aulam
Priamides latuit; geima atque amplexus Achillis
Procidit, horrendasque manus tremulo admovet ori,
Invictas, validas, homicidas, sanguine charo
Tot sibi gnatorum infectas, et caede recenteis.
Virque virum veluti fato quum impulsus acerbo
Interimit, p atria profugus, tectisque paternis
Externas volat in terras, opulentaque magni
Tecta viri, adstanteisqub omnes stupor occupat ·ingens,
Sic Priamum intuitus stupuit Pelejus heras.
Inque vicem socii sese spectantque, silentque .
Attoniti; at lacrimans Priamus sic ora resolvit:
(XXIV, 401-403; en griego, XXVI, 476-508)

v
Finalmente, Diego José Abad fue el autor deI poema qmzas más
importante de esa generaoión. Con el paso de los anos, sin embargo,
ese poema que trató de la eternidard, me parece que ha tomado una
dimensión más modesta de la que le tributaron sus leatores italianos
y mexicanos de su tierrnpo. Quizás ahora lá Rusticatio Mexicana ha
alcanzado un esplendor mayor, porque alienta en él una vida mexicana
que sigue siendo nuestra, que sigue fiel a nuestros pueblos y nuestros
paisajes. En el poema de Diego José Abad, en cambio, Dios va escOll-
diéndose cada vez más, y posiblemente no sólo en el México deI poema,
sino en nuestl'O mtmdo contemporáneo. Su lenguaje es más lejano,
más inocente, a veces, menos escrupulosamente moderno. Pero es indu-
dable que sus cantos contienen la más intensa prueba de la nostalgia
mexicGÍJna por la eternidad. .
Este poei:na, conocido en México como Poemá Heroico, que em latín
tituló su autor de Deo H eroica y que sus conteinporánoos designaram
sin más como Poema, se compone de XLIII cantos, todos de más de
cien versos y aJgunos, como el canto XLII, de más de setecientos.
Se trata de un poema inrnenso, pues, de más de seis mil hexá.rnetros
latinos. Aparte de este poema, Diego José Abad, que había nacido en
Jiquilpan, Michoacán, en el afio de 1727, se empenó en la traoocción
190 CARLOS MONTEM A YOR

de la octava égloga de Virgilio y en dos Himnos en honor de


San Felipe de Jesús, y el resto de su obra la consagró a la filosofía
y a las matemáticas. De esta vocación filosófica y científica los cantos
de Deo Heroica reciben su fundamental aliento.
Las influencias poéticas son aquí más clar:as que en la obre de
Landívar O, incluso, que en la de Alegre. Resuenan en espeoial los eoos
muy precisos de ViI1gilio, Ovidio y Lucrecio. En menor medida, pera
también en pasajes importalI1tes, no es difícil oír a Horacio y Tibulo,
y en ocasiones a Séneca, que no es común entre nosotros.
Como es iJlnposible comentar el poema entero, me reduciré, para
terminar mi conferencia, a mencionar algunos aspectos deI canto cuarto,
que el poeta tituló Aetemitas. Este canto es para mí el puente entre el
poema de Sor Juana, Primero suefLo, deI siglo XVII, y Muerte sin fin,
de José Gorostiza, dei siglo XX. E:J. tema es univeI1sal, y así lo trata
Abad; pero 00 ciertos momentos el asombro mexicruno se apodera
deI tema.
Los prio:neros diez versos parten de la 1magen de la inconstancia
lunar. Parecen un rigul'oso silogismo pensado por una moote lógica
o matemática, por una inteligenda eu que nuestra Sorr Juana o nuestro
José Gorostiza podían hallá acomodo:

Aspice ut inconstans est, et mutatur in horas,


et nunquam Lunae est, nec vultus, nec color idem.
Aemula nunc fratris toto, et pleno ore refulget
candida: nunc languet, medioque atrata nigrescit
orbe: modo obtusis, modo acutis cornibus ardet
vix: nunc obruitur, penitusque immergitur umbris:
illius in caelo vestigia nuHa supersunt.
Haec itidem cunctas res inconstantia versat
humanas: sic apparent, surguntque, caduntque:
sic et mutantur, quae subsunt omnia Lunae.
(IV, l-lO)

Atrayentes son los versos en · que Abad apunta que en todas las
cosas mudables deI oielo, la ti erra y los mares, es posible ver las huella's
de la niebla y la oscuridad de la nada de que surg.ieran:

Omnia mutantur caelo, terraque, marique.


Umbrae et nigroris, nihilique, unde eruta quondam
omina, nunc etiam quaedam vestigia servant.
(IV, 18-20)
LOS POETAS NEOLATINOS DE MI?XICO EN EL SIGLO XVIII 191

Lapidaria es su frase de que Dias no puede reducirse aI tiempo


fugaz:
Non, ut homo, angusto fugitivi temporis orbe
arctatur Deus ...
(IV, 39-40)

Pera 10 admirable, lo más cercano aI aluar de su vida, de su


pasión mística y devota, de su vigor poético en que nos es posible
reconocer a otros poetas de México, lo expresa en los últimos diez
versos de este cuarto canto:

.. . Perpetuo praesens semper sibi constato


Omnia complectens, simul omnia conspicit uno
intui tu, neque transcurrit neque mente movetur.
Divina Mentis nulla aut conceptio transit,
aut amor, aut odium nunc est, quod non erit olim,
aut quod non fuerit semper sine fine per aevum.
Non hoc, deinde aliud, fluxa, ut nos mente revolvit:
non animus sese studia in contraria scindit
mobilis, aut varius nunc hunc, nunc volvitur illuc.
Mens immota manet, manet aeque immota voluntas .
Et solus Dominus sic immutabilis ipse est.
Omnino Deus ille est, qui non coeperit esse,
Immotaque queat simul amplecti omnia mente.
(IV, 89-100)

En esa Mente inrnóvjl, quieta como su Voluntad, en esa umca


permanencia iIlilllodificable que no tuvo primdpio, en esa Mente que
inmóvil abarca todas las cosas, descansa, luminosa y lejana, como
una estrella fría, la soledad de Dios, la otra soledad que el hombr.e no
alcanza. Aquí, en este canto, ha comenzado a escribirse en México
Muerte sin fin, ha comenzado el encuentro de las dos estrellas en exilio:
el hombre y Dias.

VI
Hasta aquí, los poemas. Ahora, una pregunta: el humanismo de
estas hombres, (en qué sentido fue universal? Creo que en el lazo
de culturas hasta ese momento distantes: Las indígenas y la europea.
Fue universal en su capacidad de servir a la oreación de un nuevo
país. Su humaniS>ffio no fue reooger viejos poemas o conodmientas,
ongmar una nueva literatura, imponer una cultura «univeI1sal» sobre
culturas regionales: fue abrirse a cultuI1as de las que nada su país,
192 CARLOS MONTEMA YOR

fue la capacidad de situarse, y pertenecer, a una parte real deI mundo.


Fue su comprensión histórica de México en su doble origen, su capa-
cidad de eJqlresar, por vez primera, y en impecables páginas caste-
llanas y latinas, la mexicanidad.
Pero debo ahora terminar. Y lo haré recordando a Virgilio, que
ha sido como un dios tutelar pam nosotros. Vasco de Quiroga, aI
llegar a Nueva Espana leía de otra manera el terso y proteico texto
de la cuarta égloga de Virgilio, creyendo que el nuevo linaje de oro
que nacería en el mundo representaba aI pueblo de México. Para Diego
José Abad, dos siglos después se cumplía la esperam.za de Vasco de
Quiroga. En ese siglo, en esos últimos afios del siglo XVIII en que
él y sus companeros humanistas forjaron la idea de México, dice en su
Deo H eroica que de nuestro nuevo y desconocido continente surge
la nueva vida humana:

Servati, et memores hoc nos ab cardine rerum


venturos deinceps, nostrosque putabimus anuos,
et novus hinc oritur, saeculorum, et vertitur ordo.
Aurea nunc ibit; subsidet decolor aetas.
Ignotoque etiam surget gens aurea mundo.
(XXIII, 133-137)

Y a ese nuevo pueblo de oro, a esa nueva generaclOn áurea él se


sintió pertenecer. A ese Méxioo de oro, que habían forjado con sus
palabras latinas y su amor patrio Diego José Abad y sus companeros
hUlITIanlstas, a ese México, a ese pueblo, sintió que pertenecía su vida.
Y a vidas como las suyas mi país debe tarrnbién la conciencia de su
antigua e insustituible existencia.
A ANTIGüIDADE NA OBRA DE MACHADO DE ASSIS

GLADSTONE CHAVES DE MELO


Universidade Federal Fluminense

Não trago novidade se disser que a palavra civilização, de base


latina, foi criada e empregada pela primeira vez pelo Marquês de Mira-
beau, em 1756, no seu livro L'Ami de l'Homme ou Traité sur la Population.
Com o novo termo quis o economista designar o estado desenvolvido
de uma comunidade ou sociedade, o que até então era designado pelo
vocábulo police (exatamente como em português polícia). E Sipecifica-
mente, o estágio a que tinham chegado as nações européias com a
Aufklarung.
Leonel Franca explicita o sentido da nova palavra, interpretando
Mirabeau e precisando-o: «o desenvolvimento das ciênoias, das letras
e das artes, prudência equilibrada das instituições políticas e sociais,
mantenedoras da justiça e da paz, requinte de ademanes e delicadem
de maneiras corteses e refinadas» (A Crise do Mundo Moderno, pp. 14-15) .
Não é difícil ver na conceituação de Franca bem mais do que
intentou Mirabeau, uma vez que agora estamos, nitidamente, diante
de um ideal, a que tendem ou devem tender todos os grupos humanos
não conformados com a mesmice, ou, menos ainda, entregues à lei da
gravidade.
Nesta pauta semântica se alinham os adjetivos bárbaro e selvagem
(opostos a civilizado), que fizeram fortuna para designar trés momentos
da evolução (ou involução) dos povos. E, apesar de deterioridada e
contestada a inteligência primeira de civilização e civilizado, chegou
até nós a tricotomia, agora votada à excomunhão.
Realmente, depois das especulações de antropólogos e filósofos
alemães a respeito da Kultur, que, por fim, veio a designar «oonjunto
de estilos de vida, quer materiais, quer espirituais», sem qualquer cono-

13
194 GLADSTO'NE CHAVES DE MELO'

taçãO' qualitativa, a palavra civilização, creia que par valta de 1920,


entra a sinanimizar-se com cultura, perdendO' entãO' calar de excelência,
de superioridade.
Daí parque Lucien Febvre, em 1930, ainda mastrava irânica estra-
nheza pela nava entendimento dada à nabre palavra: «de algum tempO'
para cá passau a ter livre trânsitO' a idéia de civilizaçãO' de nãa-civili-
zadas» - depuis longtemps la natian d'une civilisation des non-civi-
lisés est oaurante (cf. Civilisation, le mot et l'idée, p . 2).
Quero nesta comunicação manter o significado setecentista, origi-
nal, cam a feliz especificação de Leanel Franca, insistindo, portanto,
na inseparável nota de ideal, a que aspiram ou devem aspirar as socie-
dades O'rganizadas.
E, nesta clave, penso que estarei certo afirmando que o primeiro
vagido, os primeiras esforças pela civilização começaram em remotos
tempas, com os sumérios, antiqüíssimO's povas do sul da MesO'potâmia.
Cerca de 3300 a. C. iniciam eles sua grandiasa obra de elevação
humana, de primado do ,e spírito, até de cultura desinteressada, chama
esta que Jamais se apagará de todo, bruxoleante aqui, mortiça ali,
vivaz acolá. Nos primórdios do segundo ' milênio já tinha declinado
o pader pO'lítico de Sumer, mas a tacha sagrada passau a outras mãos.
Aí está a CódigO' de H amurabi , que nas chegau quase inteiro; aí está
Assurbanipal; aí está Nabucadanasor.
Também está numa saciedade teocrá1lioa e fechada, desdenhosa
dos primares culturais, mas ciosa guaI'dadora de um tesouro sem preço
que lhe vai sendo entregue, a palavra de Deus. É a pavO' de Israel.
CaminhandO' palia aeste, a chama faz surgir incipiente, depais cres-
cente, depois fulgurante a Grécia e O' gênio gI'ega, cO'm a epO'péia, a
tragédia, a oratória, a sábia organizaçãO' política e, sobretudo, com o pen-
samentO' lógico apuradíssimo . Vem a século de Péricles, com todo a seu
esplendar. Depois... a decadência. A Grécia sucl1!Illbiu às hostes roma-
nas, que fizeram dela simples província da futuro imenso ImpériO' .
Mas ...

Graecza capta ferum ulctorem cepit et artes


Intulit agresti Latio (Epist., II, 1, 157)

disse um dos grandes romanas, paeta maiar, autar da Carmen saeculare.


O testemunho é mais significativa, parque HO'rácio viveu no século de
ouro da Latinidade, contemporâneo de CícerO' e de VirgíliO'.
A ANTlGOIDADE NA OBRA DE MACHADO DE ASSIS 195

o gênio romano absorveu o gênio grego, assimilou fundo o espírito


da Hélade, e trouxe importantíssima oontribuição para a obra civili-
zadora: a estrutura política da sociedade, a formulação e o mergulho
no saber jurídico, com seus conoeitos e definições lapidares. Satírioos,
épicos, líricos, comediógrafos e trágicos, oradores, juristas e historia-
dores fizeram perpétuas as letras romanas.
Mas o Império, cansado de tanta grandeza, como diz Savi-López,
entra a declinar, abastarda-se, prostitui-se e, por fim, sucumbe ao mar-
telo dos barbari.

Serenando o maior movimento de povos que já registrou a Histó-


ria, começa a longa assimilação da sabedoria grega, da herança de
Roma, agora dignificadas e alcandoradas pela espiritualidade judaico-
cristã. É o admirável e imorredouro trabalho da idade-sem-nome, da
que, simplesmente, fica entre a antiga e a moderna, idade malsilnada
pelos negadores da grande2)a maior, da transcendência comunicada,
idade maldita como «noite dos mil anos» ou «época de trevas », não
obstante haver fundado a Universidade, haver construído a Catedral,
ter pensado a Summa Theologiae e haver cantado a Divina Commedia.
E fez muito mais: começou a maior parte das coisas de que se orgulha
a nossa atual «civilização do bem estar», violenta, egoísta, tecnocrá-
tica, esvaziada.
Muito judiciosa, pois, e oportuna esta observação de um eminente
medievalista, ao fechar seu fascinante pequeno livro La grande clarté
du Moyen Age: «Les ténebres du Moyen Age ne sont que celles de
notre ignorance. Une clarté d'aurore baigne les âges lointains de notre
genese pour qui sait porter 1e flambeau de la connaissance [et] de
l'amour» (p. 187).

o Renascimento contesta mas retoma, tergiversa e continua, exta-


sia-se ante o esplendor grego e a grandeza romana, e intenta cI1iar uma
era nova, marcada pela afirmação do homem. Como que entra a glosar,
longamente, o famoso passo de Terêncio: Homo sum, et nihil humani
a me alienum pu to (Heautontimorumenos, a. L se. 1, v. 85).
Entrou por muitos descaminhos; porém, no que ora nos interessa
trom~e valiosa contribuição às letras e às artes plásticas, como é óbvio.
Sobretudo, valorizou a palavra, procurou a medida e~ata, e a proporção,
instaurou (ou restaurou) o clássioo.
196 GLADSTONE CHAVES DE MELO

Estou com René Pichon - embora generalize sua observação-


quando diz, a respeito da literatura latina:

Les vrais classiques sont ceux chez que l'influence grecque et l'esprit
national se balancent dans un exact équilibre, qui, coinme Ciceron,
Virgile et Horace, possedent une forme exquisse sans manquer d'idées
sérieuses, qui sont des artistes sans cesser d'être Romains.
(Histoire de la Lit. Latine, p. 40)

.~ *

Tenho, pois, sempre entendido que a ohamada «civilização oci-


dental» é o resultado histórico da fusão do pensamento grego, do 6enso
político e jurídico dos romanos com a espiritualidade judaico-cristã,
fusão destes tI1ês elementos na forja da Idade Média.
Um dos traços mais sensíveis de tal civilização é a sua umversa-
lidade. Apresenta matizes locais, carregados ou tênues, mas é funda-
mentalmente uma civilização do homem para o homem de todos os
tempos e de todas as latitudes.
Na sua diuturna elaboração histórica, seis vezes milenar, houve,
sem dúvida, infimitos desacertos e contramarchas, miríades de cenas
brutais. Mas estes acompanhames têm sinal negativo, e o erro e o mal
°
são, por natureza, infecundos: só a verdade e bem constroem e deixam
descendência plausível.
Concordo em cheio com Aldo Ferrabino, que, eloqüente, sentencia:

De idade em idade, até ao presente, ressoou a afirmação do primado


do homem sobre as coisas, do espírito sobre a matéria, da inteligência
sobre a força, da concórdia sobre a guerra. Foi assim conservado, perpe-
tuado e divulgado o testemunho do espírito, que elevou a natureza
acima de si mesma, auxiliando a impotência humana e moderando
a violência.
(ln Heresias do nosso Tempo , p. 359)

*
* *

Esta introdução, talvez abusivamente estirada, foi posta para situar


o maior escritor brasileiro, Joaquim Maria Machado de Assis.
Com certeiro instinto, ele integrou"se na civilização do universal;
inteligente, decompô-la e abraçou-a; reta, serviu-o devotado. Percebeu
A ANTIGOIDADE NA OBRA DE MACHADO DE ASSIS 197

que a cultum clássica, lato sensu, constitui expressão adequada e alta


desta civilização do universal e escolheu-a decidido como forma de
pensamento e de expressão.
Convencido disto há muito tempo, folguei quando vi fazer o mesmo
asserto, palmilhando embora outros caminhos, um dos maiores e mais
lúcidos ensaistas contemporâneos brasileiros, o jornalista Otávio Tirso
de Andrade. Tratava ele de uma forma de neo-racismo, que de certo
modo empolgou alguns setores do pensamento europeu e se tornou
bandeira de luta da esquerdência brasileira, empenhada agora em des-
pertar e espevitar uma «consciência negra», que antes nunca existira
e que seria a feição cabocla do Volksgeist. Assim conclui Hrso de
Andrade seu brilhante artigo «Neo-racismo», publicado no matutino
carioca Jornal do Brasil (8.2.88, 1.0 cademo, p. 11):

A prova do acerto da definição de neo-racismo formulada pelo autor de


La défaite de la pensée nos é dada por sabermos que o maior, o maIs
inteligente, o mais autenticamente universal de todos os ficcionistas
brasileiros, o genial mulato Machado de Assis, jamais se alistaria entre
os partidários da identidade cultural, que anda por aí a bradar: Axé!

Podemos identificar a presença da cultura clássica na obra de


Machado de Assis, atentando nestes três aspectos: 1. freqüência de remis-
sões a fatos da histÓTia grega e da romana e alusões à mitologia e à lite-
ratura; 2. repetido aproveitamenrto de autores pinaculares da fase clássica
das litePatu~as modernas (e aqui destaco Shakespeare); 3. o extremo
cuidado que pôs na correção da linguagem, exemplamnente vernácula.
:e. realmente notável nele a porfiada, quase obsessiva busca do
termo próprio, do adjetivo insubstituível, a sistemátka fuga ao verba-
lismo, ao tropicalismo, à ênfase. A este propósito já disse eu dele que,
contrariando tudo o que se poderia esperar de um suposto recalcado,
mulato, pobre, epiléptico, de só escolaridade primária, contrariando
tudo, nos saiu um grego do século de Pé:Picles!
Seria intolerável, e descortês, que fosse documentar exaustivamente
o que acima alinhei como provas da presença, viva e atuante, da cultura
clássica na obra machadiana. Contentar-me-ei, pois, em transcrever,
eventuaLmente comentando-os, alguns tópicos do que ficou em livro,
desde as primeiras manifestações da juvenvude até os escritos da pró-
diga velhice. .
Na poesia (de valor indiscutivelmente menor), apontamos para
«Uma ode de Anacreonte», composta entre os vinte e seis e os trinta
anos, peça de imitação, onde ele aproveita onze versos de certa tra-
198 GLADSTONE CHAVES DE MELO

dução de Castilho e põe, em oito cenas, um diálogo entre Lísias, Cléon,


Mirto e três escravos, tudo passado em Samos. Versos alexandrinos
clássicos e rimados, 435, que já para o fim alternam com dissilábicos
agudos. Em «Pálida Elvira», poema a que antecede uma evocação de
Ulisses, tirada de Stern, a décima-sexta estrofe começa com um verso
de Virgílio, das Eclogas (III, 93):

- Latet anguis in hcrba ... Neste instante


Entrou a tempo o chá ... perdão, leitores,
Eu bem sei que é preceito dominante
Não misturar comida com amores;
Mas eu não vi, nem sei se algum amante
Vive de orvalho e pétalas de flores;
Namorados estômagos consomem:
Comem Romeus, e Julietas comem.
(Poesias Completas, ed. Garnier, p. 143)

o poema «Clódia», todo romano, assim termina:


... ........... ................ Ingrata e fria,
Lésbia esqueceu Catulo. Outro lhe pede
Prêmio à recente, abrasadora chama;
Faz-se agora importuno o que era esquivo.
Vitória é dela: o arúspice acertara.
(p. 351)

Nos romances da primeira fase, inferiores, como se sabe, meio


convencionais e marcados por jogos de situação, muito raras ocorrem
alusões à antigüidade. Creio que não serão muito mais que este passo
de A Mão e a Luva (1874):
Eu, que sou o Plutarco desta dama ilustre, não deixarei de notar que,
neste lance, havia nela um pouco de Alcibíades - aquele gamenho e
delicioso homem de Estado, a quem o despeito também deu forças
um dia para suportar a frugalidade espartana.
(p. 32, ed. Garnier)

o primeiro grande romance, Memórias Póstumas de Brás Cubas,


apresenta-se recheado de tais reminiscências, de que arrolo algumas:
Por exemplo: Suetônio deu-nos um Cláudio que era um simplório,
ou «uma abóbora», como lhe chamou Sêneca, e um Tito, que mereceu
ser as delícias de Roma. Veio modernamente um professor e achou
meio de demonstrar que dos dous césares, o delicioso, o verdadeiro
delicioso foi o «abóbora» de Sêneca.
(p. 9 da 4: ed. Garnier)
A ANTlGOIDADE NA OBRA DE MACHADO DE ASSIS 199

Que, em verdade, há dous meios de grangear a vontade das mulheres:


o violento, como o touro de Europa, e o insinuativo, como o cisne de
Leda e a chuva de ouro de Dânae, três inventos do padre Zeus, que,
por estarem fora da moda, aí ficam trocados no cavalo e no asno.
(p. 51)

Nos primeiros dias meti-me em casa, a fisgar moscas, como Domiciano,


se não mente Suetônio, mas a fisgá-las de um modo particular: com
os olhos.
(p. 295)

Não tinha remorsos. Se possuísse os aparelhos próprios, incluía neste


livro uma página de Química, porque havia de decompor o remorso
até os mais simples elementos, com o fim de saber de um modo posi-
tivo e concludente por que razão Aquiles passeia à roda de Tróia o
cadáver do adversário, e Lady Macbeth passeia à volta da sala a sua
mancha de sangue.
(p. 324)

Não tinha vasto alcance, o objeto da pergunta; mas, ainda assim,


demostrei que não era indigno das cogitações de um homem de Estado;
e citei Filopêmen, que ordenou a substituição dos broquéis de suas
tropas, que eram pequenos, por outros maiores e bem assim as lanças ,
que eram demasiado leves, fato que a História não achou que desmen-
tisse a gravidade de suas páginas.
(p. 337)

[Brás Cubas, na Câmara dos Deputados, perguntara ao Ministro se


não em útil diminuir a barretina da GuaI1da Nacional.]
Há de lembrar-se, disse-me o alienista, daquele famoso maníaco
ateniense que supunha que todos os navios entrados no Pireu eram
de sua propriedade. Não passava de um pobretão, que talvez não
tivesse, para dormir, a cuba de Diógenes; mas a posse imagmana
dos navios valia por todos os dracmas da Hélade. Ora bem: há em
todos nós um maníaco de Atenas; e quem jurar que não possuiu
alguma vez, mentalmente, dous ou t rês patachos, pelo menos, pode
crer que jura falso.
(p. 370)

o mmance que se segue, Quincas Borba, já é bastante mais parco


em greguices e romanices. Lembro estas duas:
Os seus eclipses [da lua] (perdoe-me a astronomia) talvez não sejam
mais que entrevistas amorosas . O mito de Diana descendo a encon-
trar-se com Endimião bem pode ser verdadeiro. Descer é que é de mais.
Que mal há que os dous se encontrem ali mesmo no céu , com os grilos
entre as folhagens cá de baixo. A noite, mãe caritativa, encarrega-se
de velar a todos .
(p . 64 da ed. Garnier)
200 GLADSTONE CHAVES DE MELO

Ou mu~to me engano (e então se me releve a ignorância), ou laborou


em equívoco Maohado de Assis. Terá feito confusão, identificando
Artêmis, ou Diana, com Selene. Nunca vi tal identificação. Terá o mestre
tomado a nuvem por Juno, chamando à Lua Diana?
Perdoem-lhe esse risco. Bem sei que o desassossego, a noite mal
dormida, o terror da opinião, tudo contrasta com esse risco inoportuno.
Mas, leitora amada, talvez a senhora nunca visse cair um carteiro.
Os deuses de Homero - e mais eram deuses - debatiam uma vez no
Olimpo, gravemente, e até furiosament€. A orgulhosa Juno, ciosa dos
colóquios de Tétis e Júpiter em favor de Aquiles, interrompe o filho
de Saturno. Júpiter troveja e ameaça; a esposa treme de cólera. Os
outros gemem e suspiram. Mas quando Vulcano pega da urna de néctar
e vai coxeando servir a todos, rompe no Olimpo uma enorme garga-
lhada inextinguivel. Por quê? Senhora minha, com certeza nunca viu
cair um carteiro.
(p. 98)

Em Dom Casmurro (para não poucos o maior romance de Maohado)


quase não aparece a velha Grécia, mas ausente não está. A respeito de
uma citação da Sagrada Escri,t ura feita pelo Padre Cabral e tomada
ao Livro de Já (5, 18), diz o narrador:
«Ele fere e cura!» Quando, mais tarde, vim a saber que a lança de
Aquiles também curou uma ferida que fez, tive tais ou quais veleidades
de escrever uma dissertação a este propósito. Cheguei a pegar em
livros velhos, livros mortos, livros enterrados, a abri-los, a compará-los,
catando o texto e o sentido, para achar a origem comum do oráculo
pagão e do pensamento israelita.
(p. 56 da ed. Melhoram.)

Vale agora transcrever todo um pequeno capítulo (CXXV) relativo


ao discurso beira-túmulo feito por Bentinho ao seu maior amigo e
suposto corneador:
Príamo julga-se o mais infeliz dos homens, por beijar a mão daquele
que lhe matou o filho. Homero é que relata isto, e é um bom autor,
não obstante contá-lo em verso, mas há narrações exatas em verso,
e até mau verso. Compara tu a situação de Príamo com a minha:
eu acabava de louvar as virtudes do homem que recebera defunto
aqueles olhos ... É impossível que algum Homero não tirasse da minha
situação muito melhor efeito, ou quando menos , igual. Nem digas que
nos faltam Homeros, pela causa apontada em Camões; não, senhor,
faltam-nos, é certo, mas é porque os Príamos procuram a sombra e o
silêncio. As lágrimas, se as têm, são enxugadas atrás da porta, para que
as caras apareçam limpas e serenas; os discursos são antes de alegria
que de melancolia, e tudo passa como se Aquiles não matasse Heitor.
(p. 275)
A ANTIGtlIDADE NA OBRA DE MACHADO DE ASSIS 201

o meu plano foi esperar o café, dissolver nele a droga e ingeri-la.


Até lá, não tendo esquecido de todo a minha história romana, lem-
brou-me que Catão, antes de se matar, leu e releu um livro de Platão.
Não tinha Platão comigo; mas um tomo truncado de Plutarco, em que
era narrada a vida do célebre romano, bastou-me a ocupar aquele pouco
tempo, e, para em tudo imitá-lo, estirei-me no canapé.
(p. 293)

No romance Esaú e Jacó não faltam alusões e reminiscências, várias


delas da boca ou da pena do Conselheiro Aires (que muitos consideram
a principal encarnação de Machado). Logo no início, falando das duas
irmãs, que tinham ido consultar a cartomante do Morro do Castelo e
receberam um número a indicar a vez de serem atendidas, comenta
o narrador:

Também não há que dizer do costume, que é velho e velhíssimo. Relê


Esquilo, meu amigo, relê as Eumênides: lá verás a Pítia, chamando
os que iam à consulta: «Se há aqui helenos, venham, aproximem-se,
segundo o uso, na ordem marcada pela sorte ... ». A sorte outrora, a
numeração agora, tudo é que a verdade se ajuste à prioridade, e nin-
guém perca a sua vez de audiência.
(p. 3 da ed. Garnier)

Deixando de lado o passo em que o Conselheiro declama o começo


da Ilíada, acrescentando ser homenagem, digamos, de Homero a Paulo ,
e a seguir vecita a abertura da Odisséia, atribuindo ao outro gêmeo,
Pedro, o imortal poema (p . 136) - deixando-o de lado, atento no capí-
tulo LXI, cujo título já traz a Grécia, «Lendo Xenofonte »:

Almoçou tranqüilo, lendo Xenofonte: «Considerava eu um dia quantas


repúblicas têm sido derribadas por cidadãos que desejam outra espécie
de governo, e quantas monarquias e oligarquias são destruídas pela
sublevação dos povos; e de quantos sobem ao poder, uns são depressa
derribados, outros, se duram, são admirados por hábeis e felizes ... ".
[ ... ] Tudo isto em grego e com tal pausa, que ele chegou ao fim do
almoço, sem chegar ao fim do primeiro capítulo.
(pp. 192-193)

Aqui um espírito maldoso vislumbraria certa pacholice no ex-apren-


diz de tipógrafo, só possuidor de curso primário, nascido no Morro do
Livrame nto. Sendo Aires um alter ego do autor, ler Xenofonte no
original é un peu fort ...
Numa tirada magnífica sobre o encilhamento (que, à p . 228, se
nomeia), uma falsa e trágica euforia económica da aurora da República
202 GLADSTONE CHAVES DE MELO

brasileira (1890-1892), encaixa nosso autor esta greguice, sugerida pelo


exibicionismo dos novos-ricos:
As parelhas [das carruagens] arrancavam os olhos à gente: todas pare-
- ciam descer das rapsódias de Homero, posto fossem ' corcéis de paz.
As carruagens também. Juno certamente as aparelhara com suas
correias de ouro, freios de ouro, rédeas de ouro, tudo de ouro incor-
ruptível. Mas nem ela nem Minerva entravam nos veículos de ouro
para os fins da guerra contra ílion. Tudo ali respirava a paz. Cocheiros
e lacaios, barbeados e graves, esperando tesos e compostos, davam
uma bela idéa do ofício. Nenhum aguardava o patrão, deitado no inte-
rior dos carros, com as pernas de fora.
(p. 230)

*
* *

Nos contos, que são muito numerosos e em que Machado excedeu


antes de ter chegado no romance à plenitude, nos contos, digo, tam-
bém ocorrem não poucas reminiscências, alusões ou evocações da
Antigüidade.
No célebre «o alienista», única peça longa e movimentada, em
todo o elenco machadiano, o protagonista é o Dr. Simão Bacamarte,
médico notável, recheado de ciência adquirida nos grandes centros do
mundo. Afinal posto na Vila de Itaguaí, decidiu-se por identifioar as
diversas formas de demência, descobrir-lhes as causas e, conseqüen-
temente, a cura. Acaba ficando patente que o único louco da Vila era
o doutor. Assim termina Machado a sua apresentação do herói:

um grande homem austero, Hipócrates forrado de Catão.


(Papéis Avulsos, ed. Garnier, p. 67)

Na «Teoria do medalhão» (palavra esta desconhecida dos portu-


gueses, mas de que eles também têm belos exemplares), um pai zeloso
vai ensinando ao filho de 21 anos como ele poderá chegar a este estágio
«superior». A certa altura da conversa, atalha o rapaz:

- Isto é o diabo! Não poder adornar o estilo de quando em quando.


- Podes; podes empregar umas quantas figuras expressivas: a hidra
de Lema, por exemplo, a cabeça de Medusa, o tonel das Danaides, as
asas de Ícaro, que românticos, clássicos e realistas empregam sem
desar, quando precisam delas.
(ibid., pp. 92-93)
A ANTIGOIDADE N A OBRA DE MACHADO DE ASSIS 203

É óbvio que aí se está fazendo caricatura e mofa; porém uma


coisa e outra possuem a virtude de ressaltar o positivo, o autêntico,
no caso, o alto valor da cultura séria e elaborada.
Na mesma coletânea temos «Uma visita de Alcibíades», conto-fan-
tasia, em que o narrador, lendo Plutarco, mergulha na Grécia e conversa
com Alcibíades (pp. 237-248).
O livro Histórias sem Data abriga um «Conto alexandrino», onde
dois sábios, Pítias e Stroibus, porfiam em isolar, no sangue dos ratos,
o princípio da ratonice. E conseguem-no, tendo o primeiro injetado,
cobaia espontânea, im~diatarmente surripiado uma idéia do colega. Daí
por diante os dois, fàrtamente inoculados, se tornam ladrões agilís-
simos e universais, em quem ninguém pode pôr mão. Interessante é
notar que neste conto (como em outros passos) Maohado foi profético,
porque pressentiu que a degradação que então se inioiava da inteli-
gência chegaria ao ponto, hoje atingido, de atribuir, como causa, a
distúrbios e carências fisiológicas muitas desordens morais.
Páginas Recolhidas oferece-nos em «Um erradio» a rica figura de
um boémio, lido e inteligente. Elisiário, que, espraiando-se tanta vez,
se tornou alvo da maior admiração do narrador. Olhe-se este trecho:
Elisário entrou a comentar a bela obra anônima, com tal abundância
e agudeza que me deixou ainda mais pasmado. Que de cousas me
disse a propósito da Vénus de Milo, e da Vénus em si mesma! Falou
da posição dos braços, que gesto fariam, que atitude dariam à figura,
formulando uma porção de hipóteses graciosas e naturais. Falou da
Estética, dos grandes artistas, da vida grega. Era um grego, um puro
grego, que ali me aparecia e transportava de uma rua estreita para
diante do Pártenon. A opa do Elisiário transformou-se em clâmide.
a língua devia ser a da Hélade, conquanto eu nada soubesse a tal
respeito, nem então, nem agora. Mas era feiticeiro o diabo do ho mem .
(p. 33 da ed. Garnier)
Em «Eterno!», outro conto do mesmo livro, damos com isto:
A aurora registrou o nosso pacto imoral. Não consenti que ele fos se a
bordo despedir·se. Parti. Não falamos da viagem ... Ó mares de Homero,
flagelados por Euros, Bóreas e o violento Zéfiro, mares épicos, podeis
sacudir Ulisses, mas não lhe dais as aflições do enjôo. Isso é bom para
os mares de agora, e particularmente para aqueles que me levaram
daqui à Bahia.
(p. 63)

Não nos passe despercebido que aí Machado, ao contrário da


opinião comum, chama violento ao zéfiro. Mas ele está certo: trata-se
de vento de oeste, habitualmente suave, mas eventualmente tempestuoso.
204 GLADSTONE CHAVES DE MELO

No esplêndido conto «Papéis velhos», damos com esta glosa de


Dáfnis e Cloé:

Parece que o anjo L ... a, exausto da perpétua antífona, ouviu cantar


Dáfnis e Cloé [o autor pôs acento agudo na vogal final] cá em baixo,
e desceu a ver o que é que podiam dizer tão melodiosamente as duas
criaturas. Dáfnis vestia então uma casaca e uma comenda, administrava
um banco, e pintava-se; o anjo repetiu-lhe a lição de Cloé: adivinha-se
o resto.
(p. 121)

Relíquias de Casa Velha, cuja só metade é de contos, dá título


grego a um deles, «Pílades e Orestes », que é, de facto, uma complexa
história de dois amigos inseparáveis, Quintanilha e Gonçalves, um dos
quais aoaba por casar-se e leva o outro para padrinho de núpcias e
de dois filhos. O solteiro morre de uma bala perdida, por ocasião da
Revolta da Armada (1893). E assID! teI1mina o conto, buscando analogia
nas letras he1ênicas:

Orestes vive ainda, sem os remorsos do modelo grego. Pílades é agora


o personagem mudo de SofocIes. Orai por ele!
(p. 123 da ed. Garnier)

*
* *
Machado de Assis andou constante 'nos jornais da Corte, depois
nos da República. Aí publicou poemas, folhetins (mais tarde recolhidos
em romances), contos, ensaios, crítica literári,a e teatral, crônicas.
Comentou acontecimentos do Brasil e do mundo, com muita liberdade,
chiste e humor.
Deste cronista disse muito bem outro mestre da crônica:

Ninguém mais, neste século, e principalmente neste país, é capaz de


escrever com aquela graça dançarina; ninguém mais é bastante sábio
e bastante livre para começar sua crônica pelas rosas e borboletas do
jardim, para emendá-las, com a lógica suprema do delírio, numa inti-
mação da Intendência Municipal; e ninguém mais sabe compor aquela
salada, a que se referia Montaigne, onde entram Voltaire, a instituição
do júri, a carta que o Grão-Turco escreveu do próprio punho no jubileu
do Papa, as saudades de Granada , algumas reflexões sobre o Corão,
aplicados logo após as eleições de Ubá, tudo isto envolto nos melhores
molhos da língua 'e enfeitado com o creme destas considerações finais
sobre um parecer dos síndicos da Geral" ,
(Gustavo Corção, in Obra Compl eta, III, p. 325)
A ANTIGüIDADE NA OBRA DE MACHADO DE ASSIS 205

Nestas crOnIcas, sobretudo nas do Diário de Notícias, «A Semana»


(1892-1897), andou Machado à solta evocando os antigos dos dois pólos
do Mediterrâneo. Aí é que dá asas mais largas ao vezo, muito seu, de,
a propósito dos sucessos locais ou remotos, de pessoas e de conflitos,
fugir para a Grécia ou para Roma, levta do por fatais associações de
idéias e imagens.
Claro que não vou trazer para aqui todos os lanços pertinentes.
Atenção pedirei só para dois ou três, não necessariamente os melhores,
mas adequados ao meu fim.
Vem ao caso, por exemplo, mostrar esta comparação da Grécia
de 1892 com a antiga:

Sombra de Aristóteles, espectro de Licurgo, de Draco, de Sólon, e tu,


de governo ou de exército, filósofos, políticos, acaso sonhastes jamais
justo Aristides, apesar do ostracismo, e todos vós, legisladores, chefes
com esta imensa banalidade de um gabinete que pede demissão? Onde
estão os homens de Plutarco? Onde vão os deuses de Homero? Que é
dos tempos em que Aspásia ensinava Retórica aos oradores? Tudo, tudo
passou. Agora há um parlamento, um rei, um gabinete e um presidente
de conselho, o Sr. Tricoupis, que ficou com a pasta da fazenda. Ouves
bem, sombra de Péricles? Pasta da fazenda. E notai mais que todos
esses movimentos políticos se fazem, metidos os homens em casacas
pretas, com sapatos de verniz ou cordovão, ao cabo de moções de
desconfiança ...
(A Semana, ed. Garnier, p . 7)

Numa crOnIca de 18 de março de 1894, comentando uma escara-


muça, que ele chama «batalha», ocornida a 13, episódio .da Revolta da
Armada, nosso autor longamente discreteia sobre a velha Grécia. Aí,
detenho-me neste passo:

Todos os guerreiros me apareciam, com as armas homéricas, rutilantes


e fortes, os seus escudos de sete e oito couros de boi, cobertos de
bronze, os arcos e setas, as lanças e capacetes. Agamêmnon, rei dos
reis, o divino Aquiles, Diomedes; os dois Ajax, e tu, artificioso Ulisses,
enfrentando com Heitor, com Enéias, com Páris, com todos os bravos
defensores da santa rIion. Via o campo coalhado de mortos, de armas,
de carros. As cerimônias do culto, as libações e os sacrifícios vinham
temperar o espectáculo da cólera humana; e, posto que a cozinha de
Homero seja mais substancial que delicada, gostava de ver matar um
boi, passá-lo pelo fogo e comê-lo com essa mistura de mel, cebola,
vinho e farinha, que devia ser mui grata ao paladar antigo.
(p. 121)
206 GLADSTONE CHAVES DE MELO

A propósito de um Sr. Lopes Neto, provavelmente «o primeiro


brasileiro que se deixou queimar», envereda Machado por estas consi-
derações:

São gostos, são costumes. De mim confesso que tal é o medo que tenho
de ser enterrado vivo, e morrer lá em baixo, que não recusaria ser
queimado cá em cima. Poeticamente a incineração é mais bela. Vede
os funerais de Heitor. Os troianos gastam nove dias em carregar e
amontoar as achas necessárias para uma imensa fogueira. Quando
a Aurora, sempre com aqueles seus dedos cor de rosa, abre as portas
ao décimo dia, o cadáver é posto no alto da fogueira, e esta arde um
dia todo. Na manhã seguinte, apagadas as brasas, com vinho, os lacri-
mosos irmãos e amigos do magnânimo Heitor coligem os ossos do
herói e os encerram na urna, que metem na cova, sobre a qual erigem
um túmulo. Daí vão para o esplêndido banquete dos funerais no palácio
do rei Príamo.
Bem sei que nem todas as incinerações podem ter esta feição épica;
raras acabarão um livro de Homero, e a vulgaridade dará à cremação,
como se lhe chama, um ar chocho e administrativo.
(p. 280)

*
* *
Quanto ao segundo e ao terceiro itens justificadores da atitude
clássica de Machado de Assis, dispenso-me de comprová-los, seja pela
extensão do que foi posto aqui, seja por já terem ficado obliquamente
documentados. Eu acrescentaria somente que, apostado sempre em
testemunhar a civilização do universal, ele, com extrema freqüência,
traz à colação a Bíblia, Antigo e Novo Testamento.
Atrás ficou dito que a «mania» grega de Machado o acompanhou
até os últimos dias. Permito-me transcrever um trecho de preciosa
carta escrita a Mário de Alencar em 21 de janeiro de 1908, quase exata-
mente oito meses antes da morte, ocorrida a 29 de setembro. Aí, o
mestre incentiva muito o «querido amigo» a prosseguir na preparação
e feitura de um projetado poema, em versos brancos, Prometeu.
E acrescenta:

Agora, ao levantar-me, apesar do cansaço de ontem, meti-me a reler


algumas páginas do Prometeu de Ésquilo, através de Leconte de Lisle;
ontem entretive··me com o Fédon de Platão, também de manhã; veja
como ando grego, meu amigo! Oxalá possa chegar a ver parte que
seja do seu trabalho.
(Obra Completa, III, pp. 1085-1086)
A ANTlGOIDADE NA OBRA DE MACHADO DE ASSIS 201

*
* *
E, para terminar com chave de ouro, esta «confissão» de quatorze
anos antes, numa crônica do Diário de Notícias, 11 de novembro de 1894,
comparando acontecirmentos da Bahia com os da Grécia contemporânea:

A antigüidade cerca-me por todos os lados. E não me dou mal com


isso. Há nela um aroma que, ainda aplicado a cousas modernas, como
que lhe troca a natureza. Os bandidos da atual Grécia, por exemplo,
têm melhor sabor que os clavinoteiros da Bahia. Quando a gente lê que
alguns sujeitos foram estripados na Tessália ou Maratona, não sabe
se lê um jornal ou Plutarco. Não sucede o mesmo com a comarca de
Ilhéus. Os gatunos de Atenas levam o dinheiro e o relógio, mas em
nome de Homero. Verdadeiramente não são furtos, são reminiscências
clássicas.
(A Semana, pp. 170-171)

BIBLIOGRAFIA

Salvo indicação em contrário, os textos alegados de Machado de Assis


tomei-os a edições originais, Garnier, reproduzidas por estereotipia até o fim
da década de vinte. Passo agora a identificar a fonte das outras citações.

ASSIS, J. M. Machado de. A Semana. Edição coligida por Mário de Alencar. Rio de
Janeiro-Paris, Livraria Garnier, 1910.
--o Dom Casmurro. Apuração do texto, revisão, introdução e notas por Maxi-
miano de Carvalho e Silva. S. Paulo, Edições Melhoramentos, 1966.
--o Obra Completa. (... ) 3 volumes. Rio de Janeiro, Companhia José Aguilar
Editora, 1971, 1972, 1973.
CERIANI, Grazioso et alii. HeresIas do nosso Tempo. Prefácio de Dom Giovanni
Rossi. (Tradução portuguesa de Antônio Marques). Porto, Livraria Tavares
Martins, 1956.
COHEN, Gustave. La grande clarté du Moyen Age. Paris, Gallimard, 1945.
FEBVRE, Lucien et alii. Civilisation, le mot et l'idée. Paris, Le Renaissance du
Livre, 1930.
FRANCA, Leonel. A Crise do Mundo Moderno. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio
Editora, 1941.
PICHON, René. Histoíre de la Ltttérature Latine. Paris, Librairie Hachette, 1947.
(Página deixada propositadamente em branco)
MODOS DE PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA
NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO

MIGUEL BAPTISTA PEREIRA


Universidade de Coimbra

Exposto ao passado, que a distância foi diluindo, o homem europeu


fê-lo renascer em condicionalismos históricos diferentes, sendo a Renas-
cença um regresso paradigmártico à Antiguidade, reiterado depois, v. g.,
no Neo-humanismo do séc. XVIII, no radicalismo filológico de Nietzsche
no séc. XIX e no culto das raízes de M. Heidegger e da Hermenêutica
Filosófica no séc. XX, segundo o ritmo característico de ao avanço no
tempo corresponder o recuo crescente na busca do originário revelado
no interesse pelos Pré-Socráticos e pelo mito nos nossos dias. O modelo
linear do tempo do progresso ' é demasiado unilateral e abstracto para
a intelecção do passado, que não podemos sacrificar a mero preâm-
bulo ou ao «ainda não» do futuro, segundo o esquema interpretativo
escolástico, crítico-transcendental, idealista ou o ideal de ciência e
progresso dos sécs. XIX e XX 1. Por isso, os modos de presença da
Filosofia Antiga no pensamento dos nossos dias implicam uma com-
preensão profunda do tempo, de que a linearidade do progresso é
empobrecimento e simplificação ilusória. É necessário reconsiderar que
os três modos passado, presente e futuro são inseparáveis do apare-
cimento do tempo e, além disso, do aparecimento de cada modo
no tempo, isto é, há passado, presente e futuro no passado, há

1. M. B. Pereira, «Introdução» in: F. E. Peters, Termos Filosóficos Gregos,


trad. (Lisboa 1974), pp. XIII-XVII.

14
210 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

passado, presente e futuro no presente, há passado, presente e futuro


no futuro 2. PoOr outroO lado, deve respeitar-se a pluralidade de tempoOs
históricos humanos e a sua simcronidade e manter o tempo humanoO
plural integradoO no tempo natural do eco-sistema «terra» em vez
de o sacrificar à imposição do esquema linear, abstracto e quan-
tificável do progresso indefinido. Assim, o passado deixa de ser a
fase que simplesmente p~ecede o pvesente, mas é «um presente pas-
sado com 00 seu próprio passado e o seu próprioO futuro» 3. Este é o
leque de possibilidades e de esperanças doO presente passado, donde
emerge a configuração ,do presente actual. De modo análogo, o futuro
do presente enquanto cenário actual de esperanças, temoves, fins diver--
gentes e possibilidades indetermináveis distingue-se do campo daquelas
realizações futuras deste oenário, a que se chama presente noO futuro.
Assim co.mo o presente actual não coincide co.m o futuro do presente
passado nem tão-poucoO o exaure, também o presente no futuro não se
identifica com o futuro do presente. O potencial de futuro que se ergue
do passado 4, tmnsborda para além das margens do presente, como o
futuro do pI1esente rompe os diques do presente no futuro . A memória
augustiniana como passadoO no presente é a selecção de algumas possi-
bilidades apenas do pI1esente passado e, _por isso, o passado, enquanto
memória, omite, ao presentificar apenas algumas possibilidades, a rela-
ção do passado ao. seu passado e futuro próprios. Por isso, é necessário
proceder a uma profunda diferenciação doOs modos augustinianas do
tempo 5. Enquanto Agostinho nas Confissões reduziu o tempo ao pri-
mado do presente - presente no passado, presente no presente, pre-
sente no futuro 6 - observamos hoje que nenhum presente realiza o
futuro do presente passado, cujos projectos superam sempre o.S resul-
tados das no.ssas experiências. É que todo o presente recordado, expe-
rienciado o.u a experienciar é transcendido sempre pelo futuro, tornado
assim oriente de convergênoia de to.das as diferenças tempo.rais e fo.nte

2. A. M. Klaus Mueller, «Zeit und Evolution» in: G. Altner, Hrsg., Die WeU
aIs offenes System, Eine Kontroverse um das Werk von Ilya Prigogine (Frankfurt/M.
1986), p . 125.
3. J. Moltmann, "Verschraenkte Zeiten der Geschichte. Notwendige Differen-
zierungen und Begrenzungen des Geschichtsbegriffs» in: H. Kueng/D. Tracy, Hrsg. ,
Das neue Paradigma von Theologie. Strukturen und Dimensionen (Zürich-Gütersloh
1986), p. 9.
4. E. Bloch, Das Prinzip Hoffnung (Frankfurt/M. 1959), p . 7.
5. J. Moltmann, o. C., pp. 91-92.
6. Agostinho, Confissões , XI, 20, 26.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 211

do tempo histórico, segundo a tese heideggeriana de Ser e Tempo.


«O fenómeno primário da temporalidade orig1nária e autêntica é o
futuro» 7 .
Aberto ao futuro, o passado investigado pela história distingue-se
criticamente, pela sua maior riqueza, da apropriação ou da presenti-
ficação do passado pela tradição, rompendo-se a pretensa continuidade
evidente entre passado e presente, como revela o fenómeno dos renas-
cimentos. Esta diferença entre o passado acontecido e a interpretação,
que dele a tradição elaborou, relativiza a mesma tradição, liberta o
homem do seq peSO monolítico e, em virtude do futuro presente no
passado, impede o absolutismo do presente e a redução do passado
a um prólogo seu. Esta diferença entre passado acontecido e uma
tradição esquecida da dimensão futura do pass·a do possibililta o reconhe-
cimento das possibilidades olVlidadas e a sua integração no futuro do
presente actual. A verdadeira consciência histórica não só compara
criticamente a tradição e suas instituições com o passado acontecido
e investigado na sua polivalência mas interroga o futuro desse presente
passado, possivelmente interrompido, reprimi,d o ou esquecido. A crítica
da tradição, longe de ser uma ruptura com o passado, bate-se pela
pureza das suas fontes a fim de nelas farer renascer a sua dimensão
de futuro, que se torna contemporânea das nossas presentes preocupa-
ções . Em vez do cepticismo e do relativismo gerados no fracasso do
absolutismo da tradição ou do tempo presente, aparece a relação a
envolver passado, presente e futuro, mortos e vivos nUlma comunidade
de esperança 8. Esta comunidade alarga~se, pela primeira vez, a todos
os povos, culturas e religiões do mundo, que até agora percorrerallIl
histórias próprias e separadas, em virtude do peJ:ligo mundial de pos-
sível holocausto, que ameaça toda a humanidade, coage à s,i ncronização
dos diferentes tempos históricos e desperta na consciência humana a
unidade de um futuro comum e a esperança colectiva de uma sobre-
vivéncia pacífica. É que no momento do perigo fulge a rememoração
salvadora 9 e 'onde se avoluma a ameaça, cresce também a esperança 10

7. M. Heidegger, Sein und Zeit, Erste Haelfte 6(Tübingen 1949), p. 329.


Cf. J. Moltmann, o. C., p. 92.
8. J. Moltmann, o. C., p. 95.
9. W. Benjamin, «Gesehiehtsphilosophisehe Thesen» in: Illuminationen (Frank-
turt/M. 1961), p. 270, eit. J. Moltmann, O. C., p. 9925 •
10. M. Heidegger, Die Technik und die Kehre 3(Pfullingen 1976), p. 4; Id.,
Vortrage und Aufsatze 4(Pfullingen 1978), p. 32.
212 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

e com eS'Ía a possibilidade do advento de uma comunidade ecumemca,


construída com a participação de todas as culturas e, portanto, do
humanismo europeu na sua vocação de universalidade.
Esta sincronização, porem, não se pode confinar aos tempos histó-
ricos do homem mas tem de envolver a história da natureza, até agora
vítima de explorações destruidoras, de modo que o tempo do progresso
seja sempre mediado pelas leis da vida e pelo ritmo. da. natureza, a que
obedece o ambiente natural e a nossa própria corporeidade e cujos
limites e equilíbrio não podem ser transgredidos sob pena de legarmos
às futuras gerações uma terra inabitável e uma natureza irrecuperável.
O diálogo do homem com a natureza tornou-se já um diálogo do homem
com a sua própria história 11 e o nosso projecto de futuro ' tem de se
sincronizar com. o porvir dos outros homens e com o da natureza.
Se os homens de hoje são oapazes de destruir o presente e o
futuro na loucura de um holocausto, permanece intocável e salva
«a imortalidade objectiva dos mortos», isto é, podem-nos roubar ' o
futuro 'da vida a viver mas nunca o passado da nossa vida vivida
com seu potencial de futuro, que, salvo da ameaça, se pode tornar
rememoração salutar em tempo de penúria 12.
Destruído o falso mito do tempo linear, que privava o passado da
sua dimensão própria de presente e 'de futuro, impedia a solidariedade
com o passado e o advento de uma comunidade de esperança, também
a concepção optimista e ingénua de que o moderno é sempre o melhor
e o mais perfeito, se tem de suspender para, na comparação entre os
tempos, se conceder vóz crítica tanto ao presente como ao passado,
já que nenhum pode reivindicar o monopólio do valor. Tem o homem
ocidental regredido na busca do seu passado num ritmo directamente
proporcional ao avanço cronológico do tempo. Apesar de os modos
actuais de presença do ·Pensamento Antigo não ex:aurirem o seu poten-
cial de futuro, eles são, como memória, parte oonstituinte da identidade
do europeu e urdem com os modos de presença de futuras interpre-
tações a contribuição ocidental para uma cultura ecuménioa e plane-
tária, seriamente ameaçada pelo niilismo activo de uma tecnologia sem
sentido.

11. K. Pohl, «Geschichte der Natur und geschichtIiche Erfahrung, Bemerkungen


zu IIya Prigogines Versuch eines neuen Dialogs zwischen Natur- und Geisteswissen-
schaften» in: G. Altner, Hrsg., o. C., p. 107. Cf. C. F. v. Weizsaecker, Der Garten
des Menchlichen - Beitriige zur geschichtlichen Anthropologie (München!Wien 1977).
12. J. Moltmann, o. C., pp. 100-103.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÁNEO 213

É impossível registar num trabalho de pequenas dimensões todos


os modos de presença da Filosofia Antiga no pensamento actual e, por
isso, impõe-se necessariamente uma escolha dos que se afiguram mais
relevantes. Os modos de presença seleccionados repartem-se por três
secções:
I - Antropologia Filosófica, Axiologia, Filosofia Social e Política.
Filosofia da Comunicação, Filosofia do Trágico, Tópica e Filosofia da
Linguagem, Ontolog1a e Filosofia da Natureza.
II - Filosofia da Física Nuclear a partir dos escritos de doze gran-
des especialistas da Microfísica, alguns dos quais Prémio Nobel.
III - Na discussão actual Modernidade / Pós-Modernidade.

Na comemoração do quinto centenário do nascimento de Copér-


nico, W. Heisenberg exprimia em Washington num simpósio interna-
cional (1973) a sua convicção' «de que todos os nossos problemas de
hoje, os nos'sÜ's métodos, os nossÜ's conceitos científicos são, pelo menos
parcialmente, o resultado de uma tradição cientffica, que, através dos
séculos, acompanha ou orienta o caminho da oiência». Era, portanto,
legítimo para este físico atómico perguntar pela extensão da presença
da tradição na ciência contemporânea e determinar· os modos mais
significativos desta presença 13. Numa análise penetrante, W. Heisenberg
descreve a força .da tradição na escolha dos problemas científicos, na
influência sobre as «camadas mais profundas» dos processos e do
método da ciência e na formação e transmissão dos conceitos com que
pretendemos captar os fenómenos 14.
Anos antes, o mundialmente conhecido especialista em Filologia
Clássica Bruno Snell reunira num volume, que intitulara Os Gregos e
Nós, as suas investigações sobre modos de presença da cultura grega
no pensamento hodierno, privilegiando temas oomo regra e liberdade na
linguagem, teoria do estilo, humanismo poHtioo, cultura geral e ciência
da natureza, desenvolvimento de uma linguagem científica na Grécia e
progresso, queda e tradição IS . Para B. SnelI, tanto o progresso oomo

13. W. Heisenberg, Tradition in der Wissenschaft, Reden und Aufsatze (Mün-


chen 1977), p. 7.
14. Id., o. C., pp. 8-24.
15. B. SnelI, Die alten Griechen und Wir (Gottingen 1962), pp. 7-76.
214 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

a decadência não podem entender a história, porque esquecem a tra-


dição. O que nós chamarmos natureza e o que nes't a desde o Renasci-
mento foi descoberto, não cabem, na sua totalidade, dentro dos limites
de uma só imagem, por causa de elementos que se excluem e contra-
diZJem. Se o Impressionismo nos ensinou a contemplar o estímulo fugidio
do jogo da luz, é porque prescindiu de outros traços, como a ordem
permanente da NatuI'eza ou a sua estabilidade sólida, tão importantes
em épocas de êxtase perante a grandeza dominadora do mundo sensível.
Isto significa para B. Snell que, v. g., a pintura impressionista de modo
algum superou o que até então fora pintado, como a luz eléctrica
baniu o velho candeeiro a gás. É simplesmente natural que tais senti-
mentos de fascínio per-ante a Natureza ganhem expressão não só na
juventude e na frescura de uma cultura mas também sempre que «uma
nova eX!periência do mundo se traduza pela primeira vez» 16. Não é na
decadência em que o homem se distancia de áureas experiências primi-
tivas nem no progresso que situa no futuro o reino do sempre melhor,
que está a essência do acontecer histórico mas na estrutura do ser vivo,
que apenas se pode exprimir em formas limitadas e de modo unilateral,
reprimindo e esqueoendo o antigo para que o novo surja, sem que isto
signifique só progresso ou simplesmente decadência 17. A concepção de
B. Snell coincide, no domínio das ciências filológicas, com o conceito
de complementaridade criado por Niels Bohr para a análise de aspectos
opostos e exclusivos das partículas elementares da Microfísica, como
adiante se verá. A complementaridade subjaz à afirmação de B. Snell
quarnto à «tensão entre progresso e decadência, entre tradição e pre-
sente», de que vive toda a cultura e que é assumida como ponto de
refeI1ência para a compreensão do significado actual da arte grega.
A essência da tradição abrange, simultaneamente, a crença no pro-
gresso e na revivescência do antigo, isto é, o renascimento como se
houvesse apenas decadência e a certeza da criação do novo, como
se houves's e só progresso 18. Con1Jinua ainda presente o modelo da com-
plementaridade, quando B. Snell declara «concepção unilateral» toda
a interpretação da arte grega, que, esquecida das descobertas do espí-
rito helénico, a isola, oomo mero fenómeno estético, de outras criações
culturais, rasgando um fosso intransponível, v. g., entre a produção
poética e plástica e as concepções teoréticas abstractas 19. Pela comple-

16. Id., o. C., p. 59.


17. Id., o. C., p. 63.
18. Id., o. C ., p. 74.
19. Id., o. C., p. 60.
PRESEN ÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 215

mentaridade, há modos de presença grega na novidade do pensamento


ocidental: «sem a certeza homérica num mundo ordenado e compreen-
sível, não seria possível a filosofia europeia nem a ciência; sem a
convicção dos líricos de que se pode emitir um juízo pessoal sobre
o valor e o desvalor das coisas e de que é possível uma comunidade
dos que comungam nos mesmos sentimentos, faltaria uma dimensão
essencial à vida política, religiosa e artística do Ocidente; sem a fé dos
trágicos na responsabilidade de cada indivíduo pelas suas acções não
existliria o que precisamente hoje sentimos como legado essencial do
mundo ocidental; sem o escárneo da comédia antiga não saberíamos
que nem sempre devemos ceder à seriedade e à fúria, quando nos
confrontamos com opiniões diferentes; sem a comédia nova não sabe-
ríamos o que é uma sociedade humana e civilizada» 20. Após um relance
sobre mil anos de cultura greco-romana, B. Snell renova a pergunta
sobre se o sentido da história é a decadência ou o progresso e regista,
antes da resposta, dois factos: com o crescimento da auto-consciência
humana e o alargamento do conhecimenrt:o sohre si mesmo, deu-se de
facto a queda «do belo e grande mundo da literatura e da arte gregas
clássicas» e também «da grande poesia latina» 21; como, por outro lado,
a filosofia e as oiências receberam e desenvolveram, sob múltiplas
formas, os conhecimentos saídos da poesia, também porr este ângulo
estes domínios do pensamento vigoroso caíriam sob o âmbito da per-
gunta pela decadência ou pelo progresso 22. A resposta de B. Snell com-
prova o conceito de complementaridade histórica. Dificilmente se poderia
encontmr um camlinho mais curto entre H()(ffiero e Séneca do que o
percurso seguido peI.a história, pois seria utópico uma vida sem as
«estações necessárias», que são o sofrimento, a loucura, a insuficiência
e o horror, numa palavra, sem tudo o que i,m pede o progresso e parece
indiciar a decadência 23. Este caminho, porém, não é arbitrário mas
objectivo, como prova a datação dos estilos artístioos 24, não é unilateral
como pretende a leitura subjectiva e sentimental da poesia, mas apoia-se
na descoberta de novas perspectivas reais, pois ninguém pode negar
que o artista peroopoiona sensivelmente o mundo, concebe sentindo e

20. Id., o. C., p . 66.


21. Id., o. C., pp. 70-71.
22. Id., o. C., p. 71.
23. Id., o. C ., pp. 71-72.
24. Id., o. C., p . 72.
216 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

narra com em.oções, convencid.o de que v,ê e dá forma a algo novo 25.
Como expressão última da complementaridade, B. Snell julga toda a
obra mesmo perfeita afectada de algo particular, que exclui .outra obra:
«A grandeza, que a épica pode dizer nã.o é apenas diferente da da tra-
gédia mas é-Lhe precisamente .oposta; o mesm.o vale para todos os
géner.os e estilos literários e artísticos e para todas as formas de vida» 26.
Também d.o ponto de vista histórico, quem diz em arte ou em poesia
algo de n.ovo, pode «pôr fora de moda» o antigo em virtude da parti-
cularid~de que o afectou, mas de modo algum p.ode ferir a sua gran-
deza, agora redescoberta e sentida como actual. O novo, pela particula-
ridade que o persegue, pode ser também superado e, por isso, torna-se
inevitável o recurso a.o mais antig.o TI. A grandeza nasce com a n.ovidade
originária da vida e é-lhe directamente proporcional, enquanto a parti-
cularidade é o sistema das possibilidades de cada grandeza e n.ovidade
históricas. As diferenoiações, que na história do h.omem e da natureza
tendem para uma particularização cada vez maior, só pela inserção
no todo, a exempl.o dos Gregos, podem ser complementadas 28. O esque-
cimento da visã.o helénica da totalidade, expressa em termos como
natureza, veI'dade; liberdade, just,i ça e beleza impede a ordem saudável
do mundo e, por isso, é necessário concretizar nos extensos domínios
da vida o conteúdo abstracto daqueles termos, pois, com.o diz Goethe,
«o que herdaste dos teus antepassad.os, adquire-o para o possuires» 29.
A esta convergência do físico nuclear W. Heisenberg e do filólogo
B. Snell, que pmtica na leitura dos textos da Antiguidade a comple-
mentaridade da Física de Niels Bohr, junta-se o testemunho de Kurt
von Fritz sobre a relevância para Ü's nossos dias da filosofia social e
política da Antiguidade 30. Nesta contribuição, as carências do séc. XX
como tempo de penúria tornam-se também modos singulares de pre-
sença da Antiguidade ausente e um lugar de inserção do potencial
crítico do passado. Kurt von Fritz ordena assim a problemática do seu
trabalho:

25. Id., o. C., p. 73.


26. Id., o. C., pp. 73-74.
27. Id., o. C., p. 74.
28. Id., o. C., p. 74.
29. Id., o. C., p. 75.
30. Kurt von Fritz, The Relevance of Ancient Social Political Philosophy for
our Times. A short Introduction to the Problem (Berlin-New York 1974). É uma
crítica ao livro de H. Arendt, Between Past and Future. Exercises in Political
Thought (New York 1969).
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORANEO 217

«1. O que é que torna os Gregos antigos tão importantes para um


autor apaixonadamente comprometido na procura de uma solução para
problemas do nosso tempo aparentemente novos e únicos? 2. Mais
especificamente, o que é que os Gregos antigos têm de comum connosco
de modo a poderem dar-nos alguma orientação? 3. Diferiram de nós
em aspectos, que sejam precisamente a condição da sua utilidade?
De facto, se eles fossem iguais a nós em todos os aspectos, não teríamos
muito a aprender deles» 31. Apesar da grande importância da tradição
no pensamento grego desde Heródoto a Platão e a Aristóteles, a filo-
sofia grega rasgou na tradição uma brecha profunda e nisto se apro-
xima do pensamento actual. Uma as<sinalável diferença nos separa,
porém, da ruptura provocada pela filosofia grega: é que, em lugar do
enorme élan e da esperança des't a em encontrar soluções para os enigmas
do universo e para os problemas do homem, um grito de desespero,
saído do homem sem caminhos num mundo em mutação, atravessa o
nosso tempo 32, em que, pela primeira vez, o progresso corrói a verda-
deira base da nossa existência planetária 33 . Este é o resultado trágico
da crença cega da Modernidade num ideal de felicidade constituído
pelo aumento do conforto material e pela libertação da necessidade
de trabalhar, que está na base da maior parte das ideologias modernas,
em contraste vivo com o espírito da Antiguidade Greco-Romana, que
julgaria supremo absurdo transf ormar o mundo sem primeiro se inter-
rogar sobre o valor ético desta mudança 34. Embora os Gregos se tenham
debatido entre difemntes e até contraditórias respostas aos problemas
suscitados pela razão nascente, jamais deixaram de se ouvir uns aos
outros . A Modernidade, ao contrário, caracteriza-se pela recusa egooên-
trica da audição do outro nos problemas humanos, quando as dife-
rentes convicções, sem qualquer atenção mútua, são defendidas com
argumentos, que visam destruir o adversário, sem lhe consentir qual-
quer possibilidade de verdade 35. Apesar de o poder, na Antiguidade,
ter ocasionalmente defendido os seus interesses contra a verdade 36 ,
uma grande diferença distingue a Antiguidade dos nossos tempos, em
que; além dos poderes totalitários, os «intelectuais», que incarnam

31. Id., o. C., p. 3.


32. Id., o. C., pp. 4-5.
33. Id., o. C., p. 5.
34. Id., o. C., pp. 6-7.
35. Id., o. C., pp. 7-8.
36. Id., o. C., p. 8.
218 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

o papel dos anügos poetas, pensadores e filósofos, recusam ouvir os


adversários e usam a violência contra os argUJIllentos que os atingem.
Entre os filósofos antigos estabeleceu-se consenso quanto a princípios
da vida prática apesar das divergências na fundamentação metafísica,
desde Demócrito e Eudoxo a Séneca e epicuristas. Restaurar uma dis-
cussão honesta e sem preconceitos aparece a Kurt von Fritz «uma das
mais essenciais, se não a mais essencial pré-condição para uma solução
não destruidora dos nossos mais críticos problemas» 37. As raízes desta
aberração moderna da incomunicabilidade estão no dogmatismo reli-
gioso gerador de excomunhões e de perseguições e na sua secularização
ideológica 38, de que o poder se liberta através do ilUilIlinismo indirecto
de filósofos insuspeitos, «cuja raça quase desapareceu nos nossos dias» 39.
O trânsito do dogmatismo religioso para o dogmatismo ideológico
originou, com a eliminação da questão de Deus, o problema moderno
da legitimidade, que, segundo K. von Fritz, a filosofia dos valores não
conseguiu solucionar. Neste contexto, surge a ciência neutra de Max
Weber, que, a partir de observações e de análises históricas, mostra
as consequências inevitáveis ou prováveis de certas acções, a que o
homem se sujeita, se decidir praticá-las. A ciência, porém, segundo
Max Weber, não oferece qualquer orientação à nossa decisão, deixando
o homem entregue a si mesmo na escolha do «daimon», que deseja
seguir 40. É perante a 1ncapacidade de resposta de Max Weber a um dos
males do nosso tempo - a luta entre ideologias presas da própria inco-
municabilidade - que K. von Fritz recorre à leitura dos filósofos
gregos. Para deter:minar o sentido da palavra ci!;~(X., na sua acepção
económica e não económica, e a relatividade do conceito de valor, cita
textos da Étrica a Nicómaco 41 e, quanto a valores absolutos, refere que
a situação dos filósofos antigos era totalmente diferente da nossa, pois
não conheciam qualquer religião revelada «com mandamentos defini-
tivos» 42. A pluralidade de deuses desavindos e o âmbito restrito da
justiça de Zeus obrigaram os pensadores gregos a uma fundamentação
diferente da Ética. Desde os primeiros poetas aos últimos filósofos,
os pensadores gregos estavam convencidos de que o mundo obedecia

37. Id., o. p. 9.
C.,
38. Id., o. pp. 10, 12, 13.
C.,
39. Id.,o. C., p . 11.
40. Id.,o. C., p.lS.
41. Aristóteles, EN 1119 b 26 sS.; 11.19 a 19 sS.; 1123 b 17; 1131 a 24 sS.; 1164 a 22 ss.
42. Kurt von Fritz, o. C., p. 17.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 219

a uma ordem, que o homem devia respeitar. Nesta convicção funda-


mental assentam «todas as teorias éticas e morais dos Gregos», por
diferentes que tenham sido os resultados obtidos. A esta concepção
se opõe a direcção mais progressista do pensamento e da arte modernos
quando propõe «a representação do mundo totalmente desordenado e
absurdo», esquecida de que toda a desordem e todo o absurdo têm
como condição de possibilidade a ordem e o sentido 43. É importante
saber que ordem é esta e qual o posto do homem no mundo, de con-
trário não se pode esclarecer o sentido de bem ou de mal para o
homem, que nenhum decreto pode fixar, porque tal sentido depende
da natureza das coisas 4~. Ser social por excelência 45 e não auto-sufi-
ciente 46, o homem nasce com diferentes talentos e inclinações, que se
desenvolvem em contacto com os outros homens e contribuem, sobre-
tudo quando excepcionais, para a felicidade individual e para o bem
d9l comunidade 47. A igualdade dos homens torna-se um postulado
segundo o qual se devem conceder a todos os homens iguais oportu-
nidades para desenvolverem as suas quaHdades e igual direito a serem
ouvidos e a não serem excluídos da comunicação por motivos que se
prendem com opiniões e convicções próprias 48. Desta verdade funda-
mental Aristóteles conclui que são necessários bens materiais nas
diversas profissões para o desenvolvimento das aptidões e que, além
disso, é imprescindível um poder competente 49. Porém, quando os bens
materiais e o poder são procurados por si mesmos e não de acordo
com as necessidades dos indivíduos, acontece o maior dos males-
a 1tÀ.EOVE~&J. ou o desejo do que é supérfluo em bens e poder em detri-
mento ,do que é bom para o indivíduo so, A vida, que é a actividade
suprema, pode realizar-se no degrau pobre e vazio do simples viver
(~fív) ou na actualização plena (E\) ~fív) das suas aptidões e talentos
(1) xa.,,' &:PE'tl)V ÉVÉPYHa.), que propo'I'CÍona a maior felicidade (EUOa.LJ..I;OVCa.)
do indivíduo e a melhor integração na sociedade 51, A imperfeição do

43. Id., o. C., p. 18.


44. Id., o. C., p. 19.
45. Aristóteles, Política, 1253 a 7-9, 25-28.
46. Platão, República, 368 b 5 ss.
47. Kurt von Fritz, o. c., pp. 20-21.
48. Id., o. C., pp. 21-22.
49. Id., o. C., p. 23.
50. Id., o. C., pp. 24, 25.
51. Id., o. C., p. 26.
220 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

homem, porém, retira-lhe a possibilidade de uma realizaçã9 contínua


das suas actividades superio'r es e obriga-o ao descanso, à recriação e
ao jogo. Aqui nasce uma nova aberração: «Desde que as necess~dades
da vida e a injustiça na distribuição de salários causada pela 1tÀEO\lEÇia. de
parte dos membros da sociedade obrigaram com muita frequência
homens a trabalhar para além dos limites em que a obra pode ser
agradável, divulgou-se a crença em que UIIlla vida de ócio total e de
diversão constante era a mais feliz e realizada» 52. Este sonho exprimiu-se
de modo ingénuo no mito do «país das maravilhas» e, a nível filosó-
fico, na obra de H. Marcuse 53, que nos descreve um mundo, onde a
máquina subsütui o homem na maior parte do seu trabalho e as tarefas
a realizar são reduzidas a um mínimo. Porém, uma vida de ócio e de
diversão constante gera o taedium vitae e frequentemente termina
no suicídio 54.
À filosofia moral e política antiga contrapõe K. von Fritz o capi-
talismo moderno com o trabalho mecânico, a competição, o super-
-trabalho, o trabalho infantúle a explüração do trabalhador e comenta
nestes termos a introdução da cadeia de produção: «Ao introduzir esta
espécie de sistema, ele (H. Ford) privou os trabalhadores precisamente
daquele elemento da obra, que a pode tornar fonte de felicidade e de
satisfação: o gosto e o orgulho em fazer algo bem, ao passo que na
linha de produção o trabalhador individual é justamente um elo numa
cadeia impessoal e totalmente incapaz de fazer algo que ostente o
cunho da sua personalidade ... » 55 . O pensamento económico da idade
capitalista, estatal ou privado, despoja o homem do trabalho que o
satisfaz 56, cria necessidades fictícias 57, alonga os tempos livres mas
ignora o seu preellchimenrto 58, garaJllte o simpJes viver (sfí\l) mas não a
sua qualidade (EU 'sfí\l) 59.
A recuperação da natureza e a comunicação entre os homens podem
colher benefícios dá meditação da Filosofia Antiga. Para Aristóteles 60,

52. Id., o. C., p. 27.


53. H. Marcuse, One dimenslOnal Man. Studies in the Ideology of the Advanced
Industrial Society (Boston, Mass. 1964).
54. Kurt von Fritz, o. C., pp. 27, 28.
55. Id., o. C., pp. 29-30.
56. Id., o. C., p. 30.
57. Id., o. C., p. 31.
58. Id., o. C., p . 32.
59. Id., o. C., p . 38.
60. Aristóteles, Política, 1255 a 1-7, 31-37.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 221

o homem fora da sociedade torna-se mais selvagem do que as bestas


mais selvagens. Por isso, de início, a extensão da protecção para além
dos limites da comunidade abmngeu homens de talento excepcional
como 'adivinhos, poetas e cantores, médicos e, em certa medida, traba-
lhadores de metais, depois por tratados especiais estendeu-se a grupos
de comunidades e, finalmente, a todo o ser humano 61 . Esta superação
da xenofobia confiinrna a dupla doutrina de Aristóteles de que o homem
fora da sooiedade excede as bestas em selvajaria e de que numa
comunidade de difeJ:1entes indivíduos, que trabalham e exercem funções
diversas segundo as suas qualidades e aptidões, os talentos mais raros
e . excepcionais rompem os laços da comunidade isolada e realizam a
unificação da humanidade 62 . A destruição da comunidade .não dá o
paraíso e a exclusão da sociedade gera o perverso. É na comunicação
da sociedade e não · na excomunhão decretada pelo monopólio da fé
absoluta que o homem se torna verdadeiramente homem, isto é, capaz
do discurso s:obre o bem e o mal, sobre o justo e o injusto (ÀÓyoç
1tEpl. "tou &:yai7ou xal. "tou xaxou, 1tEpl. "tou ~xaLou xal. "tou &:o~xou) 63, pois o
bem é um meio ([.L€crov) entre ext!1emos, que se não pode fixar rigida-
mente para todos os tempos mas tem de se procurar no emaranhado
de todas as circunstâncias 64. O Aristóteles tardio já não acreditou que
fosse possível ou mesmo desejável a criação de uma sociedade em
que tudo estivesse regulado do melhor modo possível, porque tal socie-
dade eUminaria todos os riscos e tensões próprias do homem, todos
os seus erros e loucuras, que a filosofia sooial e política não proibe
mas simplesmente impede que se volvam destruidores 65. O erro funda-
mental de todas as utopias sociais e políticas foi ter pretendido impor,
desde o exterior, à sociedade uma forma perfeita. É da essênoia não
só da vida humana mas de toda a vida encontrar a verdadeira forma
e perfeição apenas por crescimento interior, oomo diz Platão no pri-
meiro livro de Leis 66. Como a vida depende do mundo ambiente, inevi-
tavelmente envolve tensões, sofre riscos e corre perigos, sem os quais a
vida fenece 67. Ninguém pode ser homem e muito menos sábio ou santo,
se não for educado segundo o discurso social sobre o bem e o mal, o

61. Kurt von Fritz, o. C., p. 42.


62. Id., o. C., pp. 42-43.
63. Aristóteles, Política, 1253 a 9-31.
64. Id., EN 1094 b 11-20/21; 1176 a 31 ss.; 1104 a 1 ss.; 1107 b 14 ss.
65. Kurt von Fritz, o. C., p. 53.
66. Platão, Leis, 642 c 9.
67. Kurt von Fritz, o. C., p. 53.
222 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

justo e o injusto. Porém, depois de ter alcançado a maturidade neste


processo, o homem pode desenvolver o que há nele de divino (tO ih:~ov)
transcender o status do homem ordinário e atingir uma autonomia
para além da sua inevitável dependência física 68 . Este é o estado do
filósofo, que persiste na aquisição do conhecimento e da intuição 69
num percurso que transgride a vida ordinária do homem, acompa-
nhado pelo sábio ou pelo santo de todas as grandes civilizações e reli-
giões, que, independentemente da nossa crença, desempenharam um
relevante papel na história da humanidade 70.
A exigênda de uma Antiguidade não antiquada é um requisüo do
novo humanismo 71. Surpreende hoje o inculto a notícia de que homens
com posições ideológicas opostas se encontraram no fundo comum da
cultura humanista. Em carta a seu pai, datada de 10.11.1837, K. Marx
falava dos clássicos que lia, das línguas que aprendia, das traduções
que fazia e, além da tese de doutoramento intitulada Diferença entre
a Filosofia da Natureza de Demócrito e de Epicuro, dedicou sete cader-
nos à filosofia epicurista, estóica e céptica 72; o mesmo K. Marx distin-
guiu o trabalho humano da actividade do animal pela criação estética
e pela possibilidade de o homem se moldar pelas leis da beleza;
Nietzsche abriu a luta contra o Cristianismo em nome da moral grega
dos senhores; Hegel pautou a sociedade nascida da Revolução Francesa
pela polis grega livre, em que se eliminara a separação entre a subjecti-
vidade da privacidade burguesa e a substancialidade do universal 73.
Desde a Aufklarung a Hegel, o confronto da realidade do tempo com
a idealidade da perfeição clássica e a liberdade do passado apontava
para a mudança da l'ealidade presente ,i nsuportável, mas na segunda
metade do séc. XIX aparece uma interpretação apoética e meramente
estética da formação clássica com a separação entre cultura e política,
que para Goethe ainda se identificavam 74. Distanciado do homem e da

68. Id., o. C., p. 54.


69. Aristóteles, EN 1177 a 19 ss.
70. Kurt von Fritz, o. C. , p . 54.
71. W. Jens, Antiquierte Antike? Perspektiven eines neuen Humanismus (Mün-
sterdorf 1971).
72. K. Marx, «Brief an den Vater in Trier» in: MEW, Ergiinzungsband, Schriften,
Manuskripten-Briefe bis 1844, Erster Teil (Berlin 1973), pp. 8, 9, 13-255, 257-373.
73. W. Jens, o. C., pp. 6-12.
74. Id., o. C., p. 22.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 223

sua liberdade a favor do poder, o neo-human~smo tornou-se então


ideológico e possibiLitou na Alemanha a macabra coligação entre esté-
tica e terror 75 com a morte do ideal humanista da comunicação.
Na introdução à sua análise da actual sociedade norte-americana,
Neil Postmann contrapõe a visão de Orwell à de A. Huxley, isto é, a
repressão através de um poder externo ao amor da própI'ia repressão
e das tecnologias, que aniquilam a capacidade de pensar, o medo perante
aqueles que proibem os livros ao receio de que um dia já não haja
qualquer razão para proibir livros porque ninguém há capaz de os ler,
o temor de que a verdade possa ser dis's imulada, ao medo de que a
verdade naufrague num mar de irrelevância. Se para Orwell somos
banidos pelo que odiamos, em Huxley é o que nós amamos, o veículo
da cicuta mortal. É segundo o modelo de Huxley que N. Postmann
anaLisa a sociedade norte-americana no seu ritmo destruidor de diversão
até à morte 76, em que a imagem da América da época da imprensa,
do livro e da intelig,ência letrada se vai submergindo num pôr de sol
trágico 77. A importância do livro e a prática da leitura, após o renas-
cunento da Antiguidade Clássica, a descoberta da imprensa e o impulso
dado à difusão do texto bíblico pela Reforma fizeram insensivelmente
deslocar para a Hermenêutica a tarefa da Retórica, que a era do discurso
oral consagrara. Daí, a estima de Melanchton pela Retórica, que exerci-
tava a «ars bene legendi», isto é, a capacidade de compreender e de
julgar os discursos, as disputas mais longas e, sobretudo, os livros
e os textos 78. Na continuidade desta nova orientação, compreende-se a
importância da palavra escrita na América do tempo de Franklin,
o alto índice de alfabetização já no séc. XVII em regiões importantes,
as heranças de livros 79, a formação escolar oomo dever moral e impe-
rativo intelectual, não tivesse a América herdado da metrópole «uma
completa e altamente desenvolvida tradição literária» 80. Esta divul-
gação do humanismo teve por consequência que a América do tempo
colonial não necessitou de uma aristocracia cultural, pois a leitura

75. Id., o. C., pp. 23-24.


76. N. Postmann, Wir amiisieren uns zu Tode, Urteilsbildung im Zeitalter der
Unterhaltungsindustrie, Vbers. (Frankfurt/M. 1985), pp. 7-8.
77. Id., o. C., pp. 44-82.
78. H.-G. Gadamer, Rhetorik und Hermeneutik, aIs offentlicher Vortrag der
Jungius-Gesellschaft der Wissenschaften, gehalten am 22.6.1976 in Hamburg (Gottin-
gen 1976), p. 8.
79. N. Postmann, o. C., pp. 45-47.
80. Id., o. C., p. 48.
224 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

estava socialrmente difundida e o livro circulava por todas as classes 81 .


O públioo compreendia os oradores, cujos discursos se prolongavam às
vezes por sete horas, interessava~se pelos problemas e intervinha nas
discussões 82, pois oradores e públioo tinham por referência coonum
a mesma eloquênoia literária 83. Ler tOI'l1ou-se modelo de mundo e vin-
culação ao mesmo: palavra por palavra, linha por linha, página por
página, o livro ou o jornal mostrava que o mundo era um lugar sério,
coerente, que se deixava instituir racionalmente e melhorar através
de uma crítica sensata e adequada 84. No tempo presente, a substi-
tuição do livro do homo typographicus pelo ilusionismo da imagem
sedutora, que deteI'mina o que e como o homem deve pensar e sen1:Ú!r,
signifioa o divertimento total, a perda da realidade, a fuga para o reino
do prazer, a deterioração do gosto, a queda na menoridade e a diveI'são
até à morte 85. É uma ideolog:ia, que, por ser sem palavI'as, mais pode-
rosa se torna e mais irremediavelmente se afunda na incomunicabilidade.
O problema da comun~oação e da sua ética, que K. von Fritz valo-
rizou na Filosofia Social e Política Antiga, reapareceu na dialógica
contemporânea do «Pensamento NoVlo», de raiz judaica 86, na Nova
Retórica de eh. Peoo1man 87, na teoria do consenso de J. HabeI1IIlas 88
e na pragmática transoendental de K.-O. Apel 89. Com a crise do egocen-
trismo e do modelo substancialista, a relação eleva-se a dimensão ori~­
nária da realidade, não a relação do quadro categorial aristotélico
81.Id., o. C., p. 49.
82.Id., o. C., pp. 60-6L
83.Id., o. C., p . 65.
84.Id., o. C., p. 8L
85.Id., o. C., pp. 1143, 105-187.
86.G. B. Kasper, Das dialogische Denken, Franz Rosenzweig, Ferdinand Ebner,
Martin Buber (Freiburg/Basel/Wien 1967); Heinz Horst-Schrey, Dialogisches Denken
(Darmstadt 1970) .
87. eh. Perelman / L. Olbrechts-Tyteca, La nouvelle Rhétorique. Traité de l'Argu-
mentation, I-II (Paris 1958).
88. J. Habermas, «Vorbereitende Bemerkungen zu einer Theorie der kommu-
nikative Kompetenz» in: J. Habermas / N. Luhmann, Theorie der Gesellschaft oder
Sozialtechnologie - Was leistet die Systemforschung? (Frankfurt/M. 1971), pp. 101-141;
Id., «Was heisst Universalpragmatik» in: K.-O. Apel, Hrsg., Sprachpragmatik und
Philosophie (Frankfurt/M. 1976) pp. 174-272; Id., Theorie des kommunikativen
Handels, I-II (Frankfurt/M. 1981).
89. K.-O. Apel, Transformation der Philosophie. 1- Sprachanalytik, Semiotik,
Hermeneutik (Frankfurt/M. 1973), II -Das Apriori der Kommunikationsgemein-
schaft (Frankfurt/M. 1973); Id., «Sprachtheorie und transzendentale Sprachprag-
matik zur Frage ethischer Normen» in: Id., Sprachpragmatik und Philosophie,
pp. 10-173.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 225

mas a da «alma que pode de algum modo ser todas as coisas» e que Tomás
de Aquino . comentou nestes termos: «Secundum esse immateriale ...
res non solum est id, quod est, sed quodammodo alia» 90. Ser as outras
coisas para além de si mesmo é estar aberto aos outros e ao mundo,
é estar junto de outrem não por acréscimo ou acidentalmente mas por
relação essencial, manifestada na intencionalidade dos nossos actos de
conhecimento, de vontade e de sentimento, em que o outro é o termo,
o conteúdo e a actualidade do nosso ser cognoscente, volitivo e afec-
tivo 91. Como a alma aristotélica, o Àóyoç do diálogo platónico só era
na relação ao outro, na intersubJectividade e na reciprocidade, fora
das quais se tornaria «ilógico» 92 . Sepultada sob o peso do solipsismo
na dupla vertente racionalista e naturalista, a relação comunicativa
emerge lentamente do esquecimento em virtude da acção persistente
de uma série de pensadores, que vão de F. H. Jacobi, Hegel, W. von
Humboldt e Fichte a Feuerbach, Karl Marx, P. Leroux, E. Husserl,
K. Jaspers, M. Ponty e M. Heidegger 93. t, porém, no «pensamento
novo » de M. Buber, F. Rosenzweig, F. Ebner, E. Grisebach, E. Levinas,
G. Marcel, etc. que, após a Primeira Grande Guerra, renasce com traços
originais a relação dialógica, que Platão praticara e de que nos legou
um testemunho escrito nos seus diálogos . Já não é a consciência pura
nem o eu infinito do Idealismo que interessam, em primeiro lugar,
estes pensadores, mas o eu concreto e limitado, que fala e o tu como
seu horizonte transcendente, não é a constituição dos objectos e dos
outros mas a correlação e a reciprocidade que mantêm o distancia-
mento perante o mundo e perante os outros exigido pela diferença,
não é o monopólio do solipsismo mas a participação dos interlocuto-
res, não é o peso bruto do «en-soi» das coisas mas a «relação» e o
«entre », que diferenciam e unem o homem, não é o pensamento da
solidão silenciosa mas a linguagem da comunhão e do encontro. Uma
nova temática invade o campo da filosofia: o homem é ser-com-outros,
o estranho é próximo e irmão, a ttica é social, a consciência é soli-
dária do sofrimento e da alegria, da justiça e da injustiça dos outros,

90. Tomás de Aquino, ln Anstotells De Anima, lib. II, lect. 6, ed. A. M. Pirrota
(Taurini 1956), p. 101, n. 263.
91. M. B. Pereira, Filosofia e Crise actual de Sentido, I (Coimbra 1986), p. 52.
92. Cf. R. Marten, Der Logos der Dialektik. Eine Theorie zu Platons Sophistes
(Berlin 1965), pp. 7-44.
93. M. B. Pereira, o. C., pp. 81-92; M. Theunissen, Der Andere. Studien zur
Sozialontologie der Gegenwart (Berlin 1965).
226 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

a autonomia não prescinde da reLação do eu ao tu, a confi,a nça é cate-


goria básica do comportamento humano, o sentido da felicidade, da
gratidão e da dádiva, o olhar mútuo como fOl'Illa suprema da concreção
da imediatidade e da J1eciprocidade humanas, a linguagem é origina-
riamente dialógka e nela uala o pensamento, a revelação do ser neces-
sita do diálogo e da sua novidade e diferença temporal para nele
aparecer oomo dádiva 94. Se o diálogo apologénioo, o método escolástico
e O' diálogo pedagógioo tinham em Platão uma referência obrigatória, a
Dialógica dos nossos dias e sobretudo o diálogo ecuménico são modos
de presença da experiência platónica da unidade misteriosa, que pre-
side à O'ralidade, alimenta as controvérsias mas se recusa à fixação
da escrita 95.
A «Nova Retórioa» de Ch. Perelman e L. OlbI1echts-Tyteca apre-
senJtou-se como uma reposição oontemporânea da Antiga Retórica,
sobTetudo de Aristóteles, Cícero e Quintiliano, mas dentro de uma O'rien-
taçãO' lógico-sistemática 96. O conceito fundamental da teoria de Perelman
é o conceito de auditório ou assembleia dO's que o orador pretende
influir através da sua argumentaçãO' 97. O fim de toda a argumentação
é oonquista'r ou fortal,ecer a adesão do auditório 98 mediante uma adap-
tação do discurso aos ouvintes 99. Por isso, a argumentação torna-se
uma função do auditório HXl. Estes conceitos simples de Retórica ganham
dimensão filosófica quando refeI1idos ao «auditório universa1», de cuja
convicção e consenso depende o valor de um argumento. Por isso, o
acordo do auditório universal é o critério da racionalidade e da objoecti-
vidade da argumentação 101 e o fim de toda a filosofia. Este acordo,
porém, não é uma realidade factual, que se possa verificar mas signi-
fica um tipo de validade a que todos adeririam, se conhecessem e com-
preendessem os argumentos, que a esclar,e cem: «L'acord d'un auditoire
universel n'est donc pas une question de fait mais de droit» 102. O audi-
tório universal tem, portanto, um carácter ideal, é a «humanidade

94. Id., o. C., pp. 92-98.


95. H. J. Kramer, Arete bei Platon und Aristoteles (Heidelberg 1959), pp. 380-486,
Cf. K. Gaiser, Platons ungeschriebene Lehre (Stuttgart 1963).
96. Ch. Perelman / L. Olbrechts-Tyteca, o. C., p. 1 ss.
97. Id., o. C., p. 25.
98. Id., o. C., pp. 18, 24, 59.
99. Id., o. C., p. 31 ss.
100. Id., o. C., p. 58.
101. Id., o. C., p. 40.
102. Id., o. C., p. 41.
PRESENÇA D A F ILOSOFI A ANTIGA NO P E NSAME NTO CONTE MPORÁN EO 227

esclareoida » 103, composta de homens enquanto seres raoionaâs, é a tota-


lidade dos homens num estado de desenvolvimento pleno das suas
capacidades de argumentação. Este estado corresponde à situação ideal
de discurso de J. Habermas, em que se realiza o consenso, como no
auditório universal de Perelman o acordo. Segundo o princípio da univer-
salização, a racionalidade de um juízo de valor só se pode basear na
possibilddade do acordo de todos e de cada um. Para Perelman, quem
pretender convencer alguém, deve ser apartidário e expor-se aos contra-
-argumentos, segundo a regra «audiatur et altera pars», p01s a cada
um assiste o direito de argumentar. Num espírito de abertura à crítica
e de tolerânoia insere-se a tendência para a universalidade, própria da
argumentação racional e orientada para «la réalisation de la oommuniolIl
universelle » 104. A argumentação universal oapaz de gerar o acordo de
todos proposto por Pere1man é a leitura que a Nova Retórica faz do
discurso (ÀÓyo<;) aristotélico enquanto meio -(jJ.ÉO'ov) de encontro e não
de exclusão, a que se referiu Kurt von Fritz. Ao falao: do conceito de
gosto, que é a consumação última dos juízos morais e penetr-ou na
cultura do séc. XVII, H.-G. Gadamer considera-o elemento grego, que
através do Cristianismo influiu na Filosofia Moral: «A ética grega
- a ética da medida dos Pitagóricos e de Platão, a ética do meio, que
Aristóteles criou - é num sentido profundo e abrangente uma ética
do bom gosto» 105.
Dois dos mais significativos pensadores alemães deste fim de século
- J. Habermas e K.-O. Apel- vêm dedicando o seu labor à construção
de uma filosofia da comunicação, mau grado as diferenças que os
distinguem. A valorização da argumentação inscreve~se numa oonside-
ração mais vasta do sentido da Retórica, que H.-G. Gadamer faz remOlIl-
tar a Platão. De facto, apesar da crítica impiedosa à Retórioa epidíctica
desenvolvida por Platão no Górgias, permanece intangível o sentido
profundo de Retórica ,e xpresso no Pedro: para além do domínio de
várias técnicas do discurso oral, a Retórica é indissociável da verdade
e do conhecimento da alma humana, pressupostos comuns à Retórica
de Aristóteles, que é mais uma filosofia da vi da, que acede ao discurso

103. eh. Perelman, «Betrachtungen über die pr aktische Vernunft» in: Zeitschrift
für philosophische Forschung 20 (1966), p . 221.
104. Id., «La Regle de Justice» in: Dialectica 14 (1960) , p. 238.
105 H.-G. Gadamer, Wahrheit und Methode, Grundzüge einer philosophischen
Hermeneutik 2(Tübingen 1966) , p . 57.
228 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

e o determina do que uma arte formal de bem falar 106. Diferentes nas
correntes que . presidiram ao seu percurso académico, J. Habermas e
K."O. Apel têm em comum traços filosóficos relevantes: primado conce-
dido à linguagem, ·de que a consciência monológica se sente privada;
oposição ao idealismo e à prioridade absoluta da consciência; crítica
ao solipsismo metódico, que acredita na possibilidadede de um regresso
ao singular; defesa da dimensão inultrapassável do ' homem como
ser-com-outros-homens; recusa de um conhecimento e de uma ciência
neutros e crítica a toda a teoria, que vele os interesses reais, que lhe
subjazem; interesse pela emanoipação plena como liberdade consti-
tutiva da essência do homem; defesa da situação ideal do discurso,
do apriori da comunidade de comunicação, de uma pragmática trans-
cendental, de uma comunicação ideal e da ética da lógica 107 . Só numa
situação ideal de fala em que não há qualquer coacção têm os interlo-
cutores direitos iguais e é possível consenso sobre imperativos, nor-
mas, etc., que «todos podem querer» 108. Por isso, J. Habermas considera
ideal toda a situação de fala, «em que se não impedem comunicações
não só através de acções contingentes exteriores mas também por
coacções, que resultam da própria estrutura da comunicação» 109. Uma
comunicação não produz «qualquer coacção apenas quando a todos
os participantes for proporcionada uma distribu.ição simétrica de opor-
tunidades de escolher os seus actos de fala e de os realizar» 110. Esta
situação ideal tem carácter contra-factual, pois não é um fenómeno
empírico nem tão-pouco uma construção mas um pressuposto de todos
os discursos 111. Só uma antecipação da situação ideal de fala garante
que possamos relacionar o consenso obtido com um consenso racional
e dispor de uma instância crítica, que possa problematizar todo o con-
senso realizado e examinar se ele é um indicador suficiente de um
consenso justificado 112.

106. Id., «Hermeneutik aIs theoretische und praktische Aufgabe» in: Rechts-
theorie 9 (1978), pp. 261-262; Id., Rhetorik und Hermeneutik, p. 14.
107. Cf. N. Copray, Kommunikation und Offenbarung. Philosophische und
theologische Auseinandersetzungen auf dem Weg zu einer Fundamentaltheorie der
menschlichen Kommunikation (Düsseldorf 1983), pp. 92-13l.
108. J. Habermas, Legitimationsprobleme im Spiitkapitalismus (Frankfurt i'M.
1973), p. 148.
109. Id., «Wahreitstheorien» in: H. Fahrenberg, Hrsg., Wirklichkeit und
Reflexion Festschrift für W. Schultz (Pfullingen 1974) p . 255.
110. Id., o. C., p. 255.
111. Id., o. C., p. 257.
112. Id., o. C., p. 258.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORANEO 229

o argumento tradicional «ex consensu omnium» elaborado por


Aristóteles é a raiz clássica destas leituras contemporâneas, em que da
vigência universal de uma ideia se concluía a sua verdade. Ao contrário
de Platão, para quem a opinião de muitos jamais ultrapassava a doxa,
o consenso de todos ou dos sábios tem para Aristóteles força convin-
cente 113. A expressão «consensus omnium» ou «consensus gentium» e
a fundamentação do seu conteúdo de verdade continuaram no legado
estóico do pensamento de Cícero: «Omnium consensus naturae vox est»
(Tusc. 1,15). Desta «metafísdca do consenso» deduziu Cícero conse-
quências para o seu ideal político, em que ideias platónicas de harmonia .
e comunidade de novo reaparecem no «consensus omnium bonorum » 114 .
Companheira secular da Retórica, a Poética também renasce hoje
em modos de presença. Quando se escreve sobre o regresso do trágico 1lS,
é a actualização do discurso poético grego numa das suas vertentes
mais profundas que é necessariamente evocada. No campo da Filologia
Clássica, Wolfgang Schadewaldt asslÍnalou o interesse do nosso tempo
pela Tragédia Grega com evidênoia para três conceitos basilares: culpa,
destino e homem 116. O fenómeno da tragédia, que percorre a história
literária europeia desde o Classicismo grego ao Classicismo alemão,
acompanhado da respectiva teorização que se estende de Aristóteles
até Schiller, é a temática da obra de Hans Wagner 117, que investiga
duas teorias diferentes de tragédia: a aI'i's totélica, que tem por fulcro o
conceito de x6:ila:po"LC; e continua nos clássicos da tragédia francesa e em
Lessing; a segunda teoria remonta à obra 1tEpt ü~OC; do Pseudo-Longinus
do séc. I P. C. e gira à volta do termo «sublime», que através de Kant
chegou até Schiller; com Hegel termina a teoria clássica da tragédia 118.
Porque estas interpretações não esgotam o fenómeno trágico, a tragédia
diz o sentido dos di,a s que passam. É que o trágico segue o homem
na própI1ia compreensão, que ele tem do ser: é esta a tese de M. Müller 119.

113. Aristóteles, EN 1173 a 1 ss.; 1098 b 27 ss.; Metafísica, A 993 30 ss.; Retórica,
1356 aIS.
114. H. Scheit, Wahrheit, Diskurs, Demokratie, Studien zur Konsensustheone
der Wahrheit (Freiburg/MÜllchen 1987), pp. 31-33.
115. J.-M. Domenach, Le Retour du Traglque (Paris 1967).
116. W. Schadewaldt, Antike und Gegenwart, Ober die Tragodie (München 1966).
117. H. Wagner, Asthetik der Tragodie, Von Aristoteles bis Schiller (Würzburg
1987).
118. Id., o. c., pp. 70, 71-112.
119. M. MüIler, «Unsinn und Sinn oder eine philosophische Reflexion auf das
europaische Phanomen des Tragischen» in: Der Kompromiss oder vom Unsinn
und Sinn menschlichen Lebens (Freiburg/MÜllchen 1980), pp. 99-136.
230 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

o aparecimento expresso dO' mundo sensível ou da vida originária na


obra de arte é o universal concreto em que a oposição logos-sensibi-
lidade é transoondida pela força da imaginação criadora capaz de tornar
sensivelmente presente o mundo misterioso da vida. Não são os estados
subjectivos da interioridade e seus correIa tos objectivos do mundo
exterior, nãO' é a natureza na sua oposição à alma nem a transcendência
e a imanência separadas e fechadas sobre si mesmas, que a linguagem
originária da arte presentifica mas a relação primária do homem ao
mundo e dO' mundo ao homem, que é símbolo ou coincidência do todo
com o «aí »· situadO' e concreto e supera todas as regiões insul'a res do
interior e do exterior, do psíquico e do físko, do subjectivo e dO' objec-
tivo. A Hnguagem originária não serve o interior nem o exteI1ior, não
está em funçãO' nem ao serviço de algo ou de alguém mas é apenas
por si mesma e a si mesma se fala, como reconhece M. Heidegger ao
citar NO'valis : «Ninguém sabe com preoisão o que tem de próprio
a linguagem: que ela apenas se ocupa de si mesma» !:ro. O que é por
amO'r de si mesmo na relação homem-mundo, o que descansa feliz
em si mesmO' e é portador do próprio sentido, é o belo e diz-se em
teI1mos de ser e não de qualquer categoria estética subjectiva ou
objectiva m. Desta beleza não prescinde a poesia trágica e, por isso,
o herói, que não é um deus mas tãO'-pouco se identifíica com o homem
banal, habita nO' chão originário da relação homem-mundo, nde repre-
senta um dracma tão profundamente humano que todO's e cada um se
sentem nele solida'I'klimente implicados, vivendO' o cuidado e a preo-
cupação pela sorte do ser humano.
Na dimensãO' humana da oidade grega, no seu logos acerca do bem
e do mal, do justo e do injusto, lateja a profundidade da eXiperiência
trágioa. A procura do meio, que anima toda a Ética e a Política de
AI1istóteles, é uma resposta da filosofia prática às ameaças da contra-
dição trágica. A purificação (xcii)Clptnç) de paixões extremas e mórbidas
visa, cO'mo libertação, o meio entre o delírio dionisíaco da afirmação
do mundo e da morte 'e a oposição ou afirmação de si mesmo contra o
mundo daIJ.oLPCl, entre a aniquilação de si mesmo na adesão à totali-
dade do mundO' e a recusa dO' mundo na afirmação de si mesmo e na
vontade de dirigir a IJ.OLpCl. Como reconheceu K . Jaspers, o obscuro
conceitO' a:ristotélico de Xcii)ClPO'LÇ pretende significar um acontecimento,
que diz respeito ao ser próprio do homem, à sua experiência de ser,

120. M. Heidegger, Unte rwegs zur Sprache (Pfullingen 1959), p . 241.


121. M. Miiller, o. C. , pp. 106-108.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÁNEO 231

à apropriação da verdade através da purificação de elementos, que


velam, obscurecem logo de início experiências exislt enoiais, que, por
isso, nos repnimem e cegam 122. O meio visado pela tragédia transcende
o homem negador do mundo e o mundo destruidor do homem e é dito
naquele «sim)} ou acordo com o mundo, que protege a humanidade
e a mundanidade. Este tipo de meio, que não elimina o homem nem o
mundo e mantém a identidade na diferença, é o sentido último de
xá.i}apO'Lç trágica, que transforma a Poética de Aristóteles num grande
capítulo da Política 123. Este «meio» aparece no «sem-sentido}} da pro-
cessão da acção do herói de elementos opostos, que se enlaçam não
segundo o acaso nem segundo leis reais ou ideais mas de acoI'do com
uma necessidade, que transcende as categorias da lógica do homem
e do seu conhecimenrto de mundo. A «hyhris)} do herói pretende exaurir
a verdade des1s a «neces-sidade}} e dominá-la, recusaIlido-lhe obediência,
mas esquece que ela é, simultaneamente, ocultação e mistério. O hoa:nem,
que aparece no herói grego, deve empreender a aventura de conhecer
o segredo do mundo mas jamais o pode desvelar, deve colaborar na
revelação e configuração da verdade e, ao mesmo tempo, venerar e reve-
renciar o seu velamento. A vertigem do domínio total da verdade é uma
radicalização da humanidade por parte do herói, que o consome e
destrólÍ e, nesta ruína e fracasso da transcendência humana, manlifesta-se
a grandeza, o poder e a excelência do cosmos insondável. O «meio}}
será uma nova transcendência capaz de superar a oposição da grandeza
humana e da grandeza cósmica sem cair numa obediência muda e cega
ou numa revolta desesperada contra o mundo. Este «meio)} é o sentido
último da Xá.i}a,pO'LÇ, que se apropria do que se revela e ent-r ega, venera
o que se furta e permanece intocável no seu segredo. A purificação
como via de salvação só é possível a pa-r tir do abismo ou mistério,
que suporta o trágico, funda a suhstituição do mundo antigo e a che-
gada de deuses novos e permite, no mundo novo, a identificação e o
sentido até então recusados. Pela sua dimensão de ruptura, o trágico
acontece no colapso de sentido do mundo e no fracasso de um homem
singular, de uma classe, de um povo ou da humanidade concreta em
·qualquer das suas épocas ou situações históricas. A «catástrofe}} trágica
pressupõe uma OI'dem finita e vulnerável do mundo humano de que
o herói não duvida e a transgressão desta o:rdem com a chegada do

122. K. Jaspers, Vber das Tragische, Aus dem Werk von der Wahrheit (MÜD'
chen 1952), pp. 14-15.
123. M. Müller, o. C., pp. 109-110.
232 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

«outro» ou do diferente, que aniquila o sentido que reúne os homens


e as coisas. A cegueira quanto a tudo o que se situa fora do seu mundo,
acompanha a universalização redutora do herói, que se projecta imediata
e celeremente no seu ideal último, sem se aperceber de que abstraiu
da plenitude inesgotável das possibilidades vivas da sua realidade con-
creta. Assim, a ideia do melhor dos mundos não pôde considerar a
seriedade do sofrimento e da dor, o apaixonado não ouve a exigência
da sociedade, o cidadão cumpridor não entende a linguagem da paixão
devoradora. Por isso, o Mundo Antigo fechou-se quando excluiu a inte-
rioridade e o Cristianismo ascético não atendeu às exigências dos
sentidos, que se vingaram, revoltando-se. «Quanto mais fiel for o serviço
e quanto mais logioamente o homem a ele se entregar, tanto menos
pode ele fugir à maldição de o outro lhe faltar», assim comenta, neste
contexto, E. Staiger os versos de Hoderlin: «Se sirvo a um, falta-me
o outro» 124. Não é no pensamento abstracto nem na divagação utópica
que o «outro», que falta, é vivido na sua agressividade e força destrui-
dora ou no encontro de sentido mas na acção em que o herói expe-
riencia a dolorosa transformação das suas convicções supremas em
ilusões e preconceitos e, perante o mistério do diferente, deixa de com-
preender o mundo ou permanece teimosamente fiel à crença antiga ou
se reconcilia com o novo que se anuncia. O que se vela e mostra
através da diferença de mundos que se opõem, é a historicidade da
experiência originária exemplarmente traduzida na imagem heidegge-
riana dos vários riachos, que jorram da mesma fonte contra a utopia
de um progresso ou de um regresso indefinidos 125. No fracasso do
homem e do seu mundo tradicional e no advento de uma realidade
nova e salvadora acontece a história do mundo e, por isso, o nasci-
mento e a purificação da consciência trágica situam-se no núcleo da
história europeia da consciência, do pensamento e da verdade. Só na
possibilidade e no facto não só de se conciliar com tudo mas também
de a tudo se opor e de recusar toda a hal'monização «se mostra, em
primeiro lugar, toda a extensão e magnitude do ser humano perante
a grandeza e o poder da mundanidade do mundo, se manifesta o ser
humano de modo exemplar e contudo concreto e não simplesmente
imaginado, na sua incomparabilidade única: o homem todo em verdade
e realidade» 126. Na Tragédia, diz-se poeticamente uma determinada con-

124. E. Staiger, Grundbegriffe der Poetik (München 1978), p. 134.


125. M. Heidegger, Der Satz 110m Grund 2(Pfullingen 1958), p. 154.
126. M. Müller, o. C., p. 117.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIG A NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 233

cepção histórica de homem e de mundo e, por isso, não há um conceito


unívoco e intemporal de trágico mas apenas a tentativa de se captar
num conceito análogo o fenómeno histórico da compreensão e da cons-
ciência trágicas. Há uma analogia ou proporção histórica no trágico,
que se manifesta na semelhança das mudanças epocais da articulação
entre grandeza e decadência, felicidade e destruição, chamamento e
fracasso imanentes à acção humana. Tais diferenças históricas do nexo
trágico são outros tantos modos de presença do universal concreto no
fracasso ou na purificação salvadora. Só num mundo de eliminação
do homem, em que tudo se administrasse segundo a perfeição técnica
anónima, seria supérfluo falar de experiências positivas ou negativas
de sentido e não haveria qualquer outra possibilidade trágica a não ser
a tragédia da impossibilidade da tragédia.
Há um paralelismo entre a história do ser e a história do trágico,
uma correspondência entre as épocas históricas da compreensão do ser
- a fisio-lógica, a metafísica, a positivista e a histórica - e as épocas
da configuração poética do trágico, desde a cósmica com o primado da
<púcnc; nos Pré-Socráticos, a .metafísica com a prioridade ética da lei
e do dever e a eticização do trágico desde Platão até à crise dos grandes
sistemas idealistas, a positivista com o predomínio da técnica e da
manipulação e o eclipse do homem e do mundo, que impossibilita
o trági'Üo, desde Comte até à mentalidade téonica contemporânea e à
histórica em que o trágico e a redenção se dão no tempo e não na
natureza ou no intemporal, como disto já tiveram consciência Agostinho
e Pascal, o Historicismo da segunda metade do séc. XIX e M. Heidegger.
No período metafísico, a redução da consciência trágica ao conflito entre
o dever e as inclinações naturais ou entre deveres opostos representa já
um esquecimento do autenticamente trágico, que, por essência, remete
para uma salvação através de outrem e não para uma salvação por forças
próprias como seria o po er do homem ou o dever da consciência 127 .
É aqui que se insere o trágico cristão, pois o homem, como ser histórico,
não é uma essênoia unívoca e abstracta mas uma liberdade, que recusou
o apelo da Liberdade Divina no primeiro encontro, condicionando com
a sua queda toda a história subsequente da humanidade concreta,
que só pela his,t ória se compr eende e nela se redime. Porque o trágico
no homem resultou do seu fracasso original no encontro livre com
Deus, da sua «superbia » ou posição livre e absoluta de si por si mesmo
e só num segundo encontro foi possível a «humilitas » ou saída liber-

127. Id., o. C., pp . 122-123.


234 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

tado!ra de si na entrega ao Outro da Redenção e a dádiva da nova


xCÍ,1}a,pcnc;, o trá~ico e a libertação do trágico não são apenas cósmicos
nem ético-metafisicos mas históricos 128. A existência humana, que, desde
o início, é trágica pela «superbia», reclama, ao mesmo tempo a sua
própria libertação: se esta chega e se é aceite, uma vez chegada, é uma
pergunta que só na história pode encontrar resposta 129. Ao tornar-se
homem e ao temporalizar-se, o Libertador-Cristo é o histórico por exce-
lência, que reconstitui a história do diálogo do Infinito com o finito
e, pela sua «kenosis» e destruição, converte em mistério o sentido
fundaunental da tragédia.
Da teorização da Retórica, da Poética e da Lógica nasceram os
tópicos ou lugares comuns, que se estenderam depois à ciência e à arte,
à filosofia, à teologia e ao direito. A obra de Ernst R. Curtius presen-
teou-nos oom um tesouro riquíssimo de formas e motivos de que viveu
a literatura europeia «de Homero até Goethe» e que foi transmiüdo
peLa Arrtiguklade aos Tempos Modernos através da literatura latina
medieval 130. Sob a microscopia filológica de E. Curtius, a produção
literária medieval reduz-se ao método - genial nos grandes espíritos-
de colecciona:r, misturar e fundir o arsenal de topai, que, na história da
literatura europeia, relativiza a estética da originalidade do séc. XIX
e do princípio do séc. XX!3l. G. R. Hocke continuou a investigação do
seu mestre E. Curtius na literatura moderna 132 e a sua interpretação
do maneirismo» como «ars combinato·r ia» confimna a ideia de que a
«ars combinatoria» criada por Raimundo Lulo como variante da dou-
trina tópica da invenção se refractou no séc. XVII em tentativas de
sistematização filosófica, literária e científica. Na conünuidade profunda
do sistema cultural das artes liberais assentaria a unidade do desen-
volvimento literário desde a Antiguidade tardia até ao séc. XVII e a
doutrina do génio elaborada neste século proviria sem ruptura da dou-
trina tópica da invenção 133 situada na imagrnação criadora, cujas estru-

128. Id., o. C., p. 124.


129. Id., o. C., p. 126.
130. E. R. Curtius, Europiiische Literatur und lateinisches Mittelalter 5(Bern/
München 1967) .
131. L. Bornscheuer, Topik, Zur Struktur der gesellschaftlichen Einbildungs-
kraft (Frankfurt/M. 1976), p. 13.
132. G. R. Hocke, Manierismus in der Literatur. Sprach- Alchimie und esoterische
Kombil1ationskul1st. Beitriige zur vergleichenden europiiischen Literaturgeschicht
(Reinbek 1959).
133. L. Bornscheür, o. C., pp . 14, 19.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 235

turas de profundidade demarcam o campo da tópica. Na riqueza das


formas e dos conteúdos da literatura europeia estaria a «substância
tópica da consciência sócio-cultural», pois «a tópica é o lugar genuíno
do significado social, da autenticidade histórica e da evidência esté-
tica» 134 e condição necessária de produtividade relevante, de comunhão
social e de reoepção estética. Ass.im, «quanto mais 'tópica' for uma
obra, de maior 'combinatória' é a sua eSlt rutura. A 'combinatória' é o
método de uma mediação inovadora do material tópico. Quanto mais
estruturada for uma obra no ponto de vista da 'combinatória', tanto
mais facilmente se deixa identificar ... o seu material tópico» 135. Hoje,
a investigação da Tópica alarga-se, para além da Literatura, à Lógica
(De Pater), ao Direito (Vieweg, Otte) à Sociologia (KesHng, Negt), à
Politologia (Henni), à Hermenêutica (Poeggeler, Gadamer, Habermas)
e à Psicanálise (Freud) 136 .
São longas as raízes da Semiótica contemporânea e da Filosofia
da Linguagem. Ao analisar o trivium, descobriu eh. Morris a prefigu-
ração e a equiv:alência da triíplice dimensão da Semiótica - sintáctica,
semântica e pragmática - na Gramática, Dialéctica e Retórica, respec-
tivamen1le 137. Por seu lado, a Filosofia da Linguagem tem de recorrer
ao manancial da tradição greco-Iatina, quer para evitar falsas origina-
lidades ou filiações incorrectas, como ressalta do estudo e da crítica
de E. Coseriu 138, quer pélJI'a determinar a essência linguística da filosofia
e erigir o clássioo em paradigma estético, como H.-G. Gadamer 139 ou
pam construir a filosofia da semântica da língua latina ou língua
universal da ciênoia da Idade Média, como M. Heidegger 140, quer para
estudar o mundo concreto da língua viva falada desde Dante a Vico
como K-O. Apel 141 ou para aprofunda'r a essência do poético como

134. Id., o. C., p. 20.


135. Id., o. C., pp . 20-21.
136. Id., o. C., pp. 109-206.
137. Ch. Monis, Foundations of the Theory of Signs (Chicago 1938), pp. 36, 30.
138. E. Coseriu, Tradición y Novedad en la Ciencia deI Lenguaje, Estudios de
Historia de la LingUística (Madrid 1977), !pp. 13-61; Id., Die Geschichte der Sprach-
philosophie von der Antike bis zur Gegenwart, Eine Vbersicht, Teil I: Von der
Antike bis Leibniz (Tübingen 1975) pp. 20-161.
139. H.-G. Gadamer, Wahrh eit und Methode, Grundzüge einer philosophischen
Hermeneutik 2(Tübingen 1966).
140. M. Heidegger, Die Kategorien- und Bedeutungslehre des Duns Skotus
(Tübingen 1916).
141. K -O. Apel, Die Idee der Sprache in der Tradition des Humanismus von
Dante bis Vico 2(Bonn 1975) .
236 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

P. Ricoeur 142 contra a miragem de uma linguagem fo'r mal, que apenas
compreende o que ela mesma constrói.
Se a terminologia filosófica da Fenomenologia é inacessível sem
os conoeitos de «fenómeno», «logos», «epoche», «redução», «noesis»,
«noema», dados «hiléticos», «eidos», «eidética», ideias, percepção, apo-
dítico, doxa, teoria, oiência, espírito (nous), etc., em M. Heidegger é o
pensamento grego o interlocutor preferencial. A multiplicidade dos
aspectos da obra e da influência de Heidegger e a unidade do caminho
percorrido articulam-se, de modo único, na reLação de Heidegger aos
Gregos. Algo de novo aparece nesta relação sob a fOI'ma de aproximação
e de interrogação crítica do sentido do oomeço grego da filosofia, que
perseguirá este filósofo até aos últimos dias . Anaximandro, Heraclito
e Parménidesnão foram considerados deg:raus da questão metafísica
mas testemunhos da abertura do começo, em que a verdade é o pres-
suposto da rectidão de uma proposição e da mamifestação de cada ser.
A criação grega da Metafísica não é, para Heidegger, um rumo errado
do pensamento mas um calIninho histórico do Ocidente, que, à maneira
de um destino, decidiu e determinou o próprio futuro e, por isso, não é
fora mas dentro da história da Metafísica e das suas tensões imanentes
que Heidegger precisa o sentido da sua pergunta fundamental 143. O livro
de F. Brentano sobre os diferentes s.ignificados do ser em Aristóteles
provocou em Heidegger a pergunta pela raiz desta pluralidade de
significações. Nos primeiros anos de ensino em Marburg, dedicou-se
Heidegger a «interpretações fenomenológicas de Aristóteles», segundo
a afirmação do seu discípulo H.-G. Gadaaner 144. O exame das Lições
sobre Lógica de 1925-26 e do Ser e Tempo podem mostrar o grau de
influência destas interpretações de Aristóteles, que, em primeira inten-
ção, pretenderam destruir as leituras escolásticas, que se sobrepuseram
aos textos originais. Foi sobretudo a rejeição aristotélica da ideia plató-
nica de Bem, a proposta da analogia, o aprofundamento da essência de
q>úO"tC;, o livro VI da Ética a Nicómaco e o livro II da Física que HeicLdeger
criativamente interpretou. Na desvinculação da pergunta pelo Bem,
própria da p:mxis humana, da teoria abstractá do ser e na crítica à
doutrina platónica das ideias a favor do primado ontológico do mo-vi-
mento e da importância da q>ÚO"LC;, Aristóteles é precurso-r do pensamento

142. P. Ricoeur, La Métaphore Vive (Paris 1975), pp. 13-ó1.


143. H.-G. Gadamer, Heideggers Wege, Studien zum Spatwerk (Tübingen ' 1983),
pp. 70-71.
144. Id., o. C., p. 118.
PRESENÇA DA FILO SOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 237

heideggeria:no 145. De não menor importância foi a interpretação heideg-


geriana . dos conceitos de oúvCX,~~ç e ÉvÉPYE!;CX, da Metafísica e, em 1940,
no seminário sobre a Física B 1 de Aristóteles, mais tarde (1958) publi-
cado pela J1evista Il Pensiero III, o reaparecimento do manusorito da
anterior leitura da Física. Esta pesquisa do oonceito aristotélico de
epÚC1LÇ interpretado à luz do começo (ó:.px1)) do pensamento grego tinha
por finalidade opor este conoeito à «natureza» das ciências modernas.
O regresso aos Gregos é tarefa essencial para Heidegger, que o distin-
gue de todos os outros fenomenólogos e, por isso, H .-G. Gadamer CO'Il-
fessa que, em 1923, viera para Freiburg não por causa da Fenomeno-
logia de Husserl mas para ouv.ir as interpretações heideggerianas de
Aristóteles 146. A célebre «Kcehre» de Heidegger não é uma ruptura com
os Gregos mas a rejeição de uma interpJ:1etação inadequada da filo-
sofia, a que uma forte influência de Husserl o conduzira e o tema da
superação da Metafísica vem na sequência da meditação do pensamento
grego, que, por ser inicial ou arque-o-Iógico, perguntava pelo ser dos
sendos sem a interferência da «posição voluntariosa do romano »
(Dilthey) nem o «cuidado pelo conhecimento conhecido » (lição de Hei-
degger em Marburg, 1923) 147. Para quem, como Heidegger, empreendeu
destruir a imanência fenomenológica da auto-oonsciência transcendental,
o auxílio veio-lhe do pensamento grego, que formulara as perguntas do
começo, do ser e do nada, do uno e do múltiplo e pensara a t\;vx1Í,
o Àóyoç e o \lOUç, sem ceder aos ídolos do auto-conhecimento nem ao
primado metódico da auto-consciência 148 . Por isso, é a pergunta pelo
sentido de ser que Heidegger endereça à intencionalidade e à correlação
noético-noemática da Fenomenologia, que se não pode formular sem
usar a linguagem do ser.
Apesar de Nietzsche, e de Holderlin terem sido também interlo-
cutores de Heiddeger, foram, contudo, os GJ:1egos que, desde o início,
o desafiaram a pensar de um modo ainda mais grego 149, a descobrir
neles o seu próprio perguntar e a rever-se nos fragmentos de Anaxi-
mandro, de Heraclito e de Parménides. Nesta linguagem do começo,
diz-se a exper1ência da verdade como desvelamento e do ser como
presença não de um modo eterno mas de cada vez, isto é, no horizonte

145. Ido, o. C., p. 71.


146. Id., 0o C., p. 119.
147. Id., o. Co, p. 120.
148. Id., o. C. , p. 120.
149. M. Heidegger, Unterwegs zur Sprach 2(Pfullingen 1966), p . 134.
238 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

do tempo, embora o Heidegger tardio reconheça eXlpressarnente que os


Gregos não pensaram esta experiência do ser como aletheia e reduziram
a verdade a uma adequação entre ser e aparecer, ouSlia e fantasia ISO.
Isto, porém, deixa intacta a convicção de que a experiência do ser não
pode ter por medida a proporção ou o pensamento em que se apre-
senta mas, como esOI'eve o Heidegger tardio, é «Breignis» ou «dareim»,
que torna pos<sível a presença do sendo em geral. Bmbora isto não
tenha sido pensado pelos Gregos, desenhou"se de modo imp.ensado
no seu pensamento, oom especial relevo para a análise aristotélica de
epÚC]"Lt;, que está no centro da incansável tentativa heideggeriana de pensar
com os Gregos e mais originariamente que eles, remontando à fonte,
para além do uso escolar do texto aristotélico 151. Pensar de modo mais
grego não significa apenas pensar de outro modo mas pensar com os
Gregos o outro ou o diferente, que se furta ao nosso pensamento, que
se fixou na objectividade e na superação epistéa:nica da oposição dos
objectos. Sob o ser oonsistente de Parménides, rasga-se a dimensão
profunda da sua origem, a &'px1Í das mudanças, que Parménides não
pensou. Os conceitos da filosofia desaut,e nticam-se, quando já nada
de real diZiem e apenas obedecem à coacção do pensamento: a isto
chamou Heidegger «linguagem da Metafísica» elaborada por Aristóteles
e presente em todo o nosso mundo conceptual 152. Contra este domínio,
pensou Heidegger, em diálogo com os Gregos, que o ser inclui o movi-
mento e o sendo supremo o movimento sumo em virtude da arti-
culação entre movimento, «energeia» e «entelechia» e, por isso, se deve
pensar par.a além da Metafísica, na convicção de que a peJ:1gunta pelo
começo a partir das respostas hi's tóricas visa o que nos é destinado
e tece o caminho do nosso filosofar. Também o texto aristotélico da
Física recupera, contra o pitagorismo de Platão, um pensamento mais
antigo e pensa o ser como mobilidade em vez de harmonia numérica,
na vizinhança de uma natureza, que se gosta de ocultar. Como a natu-
reza, deve pensar-se o ser, que é aletheia, clareira na raJÍz do que
aparece e simultaneamenneocultação. Este pensamento se já não cai
nos modos gregos de pensar, é porque os transcende na sua fonte ou
pensa os Gregos de modo ainda mais grego 153.

150. Id., Zur Sache des Denkens 2(Tübingen 1976), p. 77.


151. H.-G. Gadamer, o. c., p. 122.
152. Id., o. c., p. 126.
153. Id., o. c., p. 128.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÁNEO 239

Se O diálogo com O'S Gregos esteve na raiz da superação do idea-


lismo fenomenológico praticada por Heidegger, é o exemplo de TO'más
de Aquino que frutifica na tentativa de J. MaJréchail e sua escO'la para
repensar o mais prO'fundo da temática kantiana - a afirmação do ser
ou no esforço criador e fecundo de G. Siewerth pa,r a discutir com
Hegel o «mi,s1ério» do ser 154.
O regresso ao conoeito de natureza com rejeição de toda a ruptura
que nela pudesse abrir a Metafísica, é um ideal perseguido por pensa-
dores contemporâneO's, oomo K. Loewith, K. Lorenz ou Ernst Blooh.
Rebelde à comp~eensão do sentido de histO'ricidade, K. Loewith pro-
curou resposta para os problemas dO's nO'ssos dias na concepção
greco-romana de origem, como superação da subjectividade, relativi-
dade, escatolO'gia, ideologia do prog~esso, esquecimento da O'rigem,
numa palavra, do historicismo em sentido lato 155. Loewith pretende
instalar-se imediatamente na natureza e no seu ciclo e eterno retO'rno,
pois para ele, na sequência de Nietzsche, o Deus judaico-cristão morreu
e com ele toda a historiddade, a criação e a escatologia, o homem
como imagem de Deus Transcendente e alvo da sua solioitude provi-
dencial 156 • Ao interpretar o nascimento do mundo moderno, Loewith
atribui ao pensamento judaico-cristão, na intenção de o transcender,
a responsabilidade deste período his·t órko e dO's traços, que o marca-
ram, como a secularização, o ideal de ciência moderna, a ideia de
prO'gresso e tenta, sem qualquer mediação, regressar à epÚCTLÇ ou natura 157.
Para K. Lorenz, a Natureza é limite inultrapassável e resiste a
todas as tentativas da Metafisioa: «Evolução é tudo ... É a história
do mundo a única coisa, que realmente é importante» 1S8. O enoontro
com a Natureza é a descoberta de sentido, pOJ1que «um homem, que
exactamente conhece a beleza de um bosque primaveril, a beleza das
flores, a complicação magnífica de qualquer espécie animal, não pode

154. J. Maréchal, Le Point de Départ de la Métaphysique. V - Le Thomisme


devant la Philosophie Critique 2(Louvain-Paris 1949); G. Siewerth, Der Thomismus
aIs Identitatssystem 2(Frankfurt/M. 1961); Id., Grundfragen der Philosophie im
Horizont der Seinsdifferenz. Gesammelte Aufsatze zur Philosophie (Düsseldorf 1963).
155. K. Loewith, Zur Kritik der geschichtlichen Existenz, Gesammelte Abhand-
Iungen (Stuttgart 1960), p . 235.
156. Id., Nietzsches PhiIosophie der ewigen Wiederkehr des GIeichen 2(Stuttgart
1956), p. 193.
157. Id., Weltgeschichte und Heilgeschichte. Die theologische Voraussetzungen
der GeschichtsphiIosophie S(Stuttgart-Berlin-Koln-Mainz 1967), p. 185.
158. K. Lorenz I F. Kreuzer, Leben ist Lernen, Von Immanuel Kant zu Konrad
Lorenz. Ein Gesprach über das Lebenswerk des Nobelpreistragers (Zürich 1984), p. 23.
240 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

duvidar do conteúdo de sentido do mundo» 159. Um nimbo de absoluto


envolve o mundo como totalidade, que é o único ponto indubitável
de todas as nossas referências axiológicas: «O valor último é indubi-
tável, porque não é passível de ser relativizado, é a criação o,r gânica
na sua totalidade e até a Axiologia humana encontrará um fundamento
válido e pontos seguros de refer,ência apenas quando aprender a ver
o homem como parte desse Todo maior» e não como imagem de Deus 160.
O homem é parte da Natureza e nasceu de nlOdo natural sem qualquer
infracção das leis da Natureza mas deve ter consciência da grandeza
e da beleza do universo, que a doutrina da evo'l ução traduz com força
explicativa, elevação poética e magnitude impressionante 161. A exaltação
da Natureza e o deslumbramento de K. Lorenz perante ela enquanto
algo de absoluto e de infinito 162 assumem proporções de religiosidade
já conhecidas na Europa desde G. Bruno. A exaltação entusiástica da
Natureza oomo instância suprema de que não há recurso racional, seio
maternal, donde tudo procede no tempo, situa K. Lorenz no campo
histórico da investigação da Natureza, da Fisiologia, cujo fascínio nutriu
altos expoentes do pensamento europeu, como, v. g., os Pré-Socráticos,
Demócrito, Estóicos, J. Escoto Eriúgena, G. Bnmo, B. Espinosa, eh.
Darwin, F. Nietzsche 163.
O programa do jovem Marx «humanização da Natureza e natura-
lização do homem» inspira toda a obra de Ernst Bloch, desde o Espírio
da Utopia (1918) até à grande suma O Princípio da Esperança (1954 ss.).
A ,natureza, porém, é uma realidade inacabada, não é in actu o que
in potentia lhe compete, é eminentemente futura e possível, é impulso
que a soÍ mesmo se transoonde, é um «ainda não», a que na consciência
corresponde a esperança, a utopia ou a antecipação ainda imperfeita
do futuro. A sintonização do homem com o mundo e a libertação do
mundo para possibilidades ainda não realizadas é o núcleo utópico
do pensamento de Ernst Bloch, que transpõe os mitos do paraíso
perdido e da idade do ouro para uma escatologia messiânica. Esta

159. Id., o. C., p. 43.


160. K. Lorenz, «Stamm- und Kulturgeschicht1iche Ritenbildung (1966)>> in: Id.,
Das Wirkungsgefüge der Natur und das Schicksal des Menschen (München-Zürich
1963), p. 175.
161. Id., Das sogennante Bose, Zur Naturgeschichte der Aggression 11(München
1984), p. 212.
162. K. Lorenz / F. Kreuzer, o. C., p. 47.
163. Cf. M. B. Pereira, «O Sentido de Fulguração na Gnosiologia biológica de
Konrad Lorenz» in: Revista da Universidade de Aveiro - Letras 3 (1986), pp. 21-95.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 241

filosofia do futuro, que tematiza conceptualmente as possibilidades


progressivas da natureza, pressupõe que o futuro já existe de
modo seminal no presente, como ÀÓyoC; CT1tEpIJ.cx:nxóc;, que é presença do
ser possível temporariamente impedido, «extemporâneo» mas em pro-
cesso de maturação, pois «amne possibile exigit existere» 164. Um subs-
tracto histórico permanece latente desde as mitologias pré-históricas
até às formas recentes da filosofia, exprime-se de modo provisório em
múltiplos fenómenos mas ainda não apareceu como o «unum» do
sentido da história. Por isso, cada forma do espírito objectivo reenvia
para algo, que nela se oculta e tem de se ler como um palimpsesto.
A utopia ou o futuro sem lugar é a latência do presente, que mais tarde
será explioitada, é a esperança fundada na abertura da matéria e do
processo do mundo. Bm vez do ser acabado e da categoria de realidade,
é a privação e a possibilidade, que basicamente caracterizam a matéria
como ser em potência, que, na sua totalidade, envolve a substância
e o sujeito numa unidade dialéctica ou jogo de mediações entre EV e
1toÀÀá, que Platão desenvolvera formaLmente no diálogo Parménides.
A natureza é percorrida pela tensão entre o núcleo seminal e a floração
plena, entre a multiplicidade infinita e o uno e a filosofia é o movi-
mento, que pretende captar este processo lógico e histórico da natureza
naturante.

II

Todas as grandes descobertas no reino das Ciências da Natureza


provocaram profundas transformações na vida humana e é a Física
Nuclear e a Biologia Molecular que hoje susoitam dolorosas interro-
gações sobre o futuro da humanidade. Na consoi,ênoia do abismo do
perigo fulge também a densidade de pensamento e em grandes figuras
da Física do nosso século surpreendemos rasgos de pensamento, que
actualizam a anta-teologia da Filosofia Antiga.
Max Planck, Prémio Nobel de Física em 1918, reconheceu que já
não há pergunta, por mais abstracta que seja, «que se não relac.iO'l1e
de algum modo com um problema da área das Ciências da Natureza» 165

164. H. H. Holz, Logos Spermatikos, Ernst Blochs Philosophie der unfertigen


Welt (Darmstadt 1975), p. 23.
165. Max Planck, «Religion und Naturwissenschaft» in: H. P. Duerr, Hrsg.,
Physik und Transzendens, Die grofJen Physiker unseres lahrhunderts über ihre
Begegnung mit dem Wunderbaren (MÜDchen 1986), p. 21.

16
242 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

e, por isso, se justifica a questão sobre o sentido de uma Metafísica,


que respeite as leis da Física e a validade da sua verdade 166. A resposta
a este problema inicia-se no reconhecimento da seriedade do mito, do
rito e sobretudo do síanbolo, que, na dimensão religiosa, «nunoa apre-
senta UIIIl valor absoluto mas sempre e apenas uma referência mais
ou menos imperfeita a algo de superior, que não é directrunente aces-
sível aos sentidos» 167. O sfunbolo ultrapassa a esfera religiosa, abraIlge
todo o dommio da vida humana e, por isso, «sem símbolo não será
possível entendimento nem qualquer comunicação entre os homens» 168
e a variedade simbólica segue o destino da variedade de palavras, que
na pluralidade das línguas traduzem o mesmo conceito 169. Interroga-se
Max PI'a Ilck sobre a transcendência ou a imaIlênoia à consciência
humana do sentido último e da omnipotência revdadas no símbolo,
isto é, tonnula o problema da onto-teologia confrontado com as exigên-
cias das Ciências da Natureza, sobretudo com «a mais exacta de todas»
- a Física 170. O conteúdo essencial desta ciência repousa na mensu-
ração realizada nos limites do nosso espaço e tempo e dos modos mais
variados mas as grandezas manuseadas pela Fisioo são de diminuta
dimensão e estão na «proporção da grandeza de uma cabeça de alfinete
para a da esfera terrestre» 171. Toda esta variadíssima mensuração per-
mitiu concluir que «sem excepção, fenómenos ffsicos na sua totalidade
se podem reduzir a processos mecânicos ou eléctricos, provocados pelos
movimentos de certas partículas elementares, como electrões, protões,
positrões, neutrões. Tanto a mas's a como a carga de cada UJIIla destas
partículas elementares se expr.imem por UJIIl número muito determi-
nado, pequeno, que tanto mais exactamente se deixa defini'r quanto
mais se refinarem os métodos de mensuração» 172. Estes pequenos
números são as oonstantes universais, as pedras de construção do edi-
fício da Físioa Teórica. Quanto ao significado destas constaJI1tes, per-
gunta Max Planck se elas se r,e duzem a meras CI1iações do espírito do
inv,e stigador ou se possuem ·UJIIl valor real independente da inteligência
do homem 173. O facto de toda a mensuração fí's ica se poder reproduzir

166. Id., o. C., p. 24.


167. Id., o. C., p. 27.
168. Id., o. C., p. 27
169. Id., o. C., p. 28.
170. Id., o. C., p. 29.
171. Id., o. C., p. 30.
172. Id., o. C., p. 30.
173. Id., O. C., p. 30.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 243

significa, para Max Planck, que o seu resultado não depende apenas
da individualidade, do lugar, do tempo e das oirclliIls.tâncias do operador
e que, portanto, algo existe «f.ora do observador» e justifica a pergunta
«por uma causalidade real subjacente de facto ao observador» 174.
É lícita a análise positiva das proposições físicas, a distinção entre o
empiricamente comprov,a do e o que ainda o não foi e a eliminação
de preconceitos mas o olhar para o passado oientífico, tão caro ao
Positivismo, é insufioiente para a ciência futura, que exige novas e
criativas constelações de ideias e prob1ematizaçães, que se não deduzem
simplesmente de resultados já obtidos 175. É por isso que o Positivismo
resistiu até ao fim à introdução de hipóteses sobre o átomo e ao
reoonhecimento de oonstantes universais, cuja existência é argumento
a favor de «uma realidade na natureza», que é independente de toda a
mensuração humana», presente ou futura 176. Este mundo real e autó-
nomo, que se estende incomensurave1mente para além da terra e a
que não temos acesso directo mas só mediante sensações e medidas,
esbate o egocentrismo e desperta no homem sentimentos de pequenez
e de impotência ou uma nova fOI'Ina de admimção e de espanto não só
através «da existência e da grandeza das partículas elementares consti-
tutivas do grande mundo na sua totalidade» mas também do «plano
único», que rege essas paI1tioulas ou da «legalidade universal, para nós
até certo ponto cognosdve1», que domina todos os processos da natu-
reZJa m. Esta admiração, desde os Gregos, raíz da filosofia, não tem por
objecto as leis que o homem irmporia 'à natureza mas o universo, que
as transcende e, por iss.o, na leitura de Max Planck, Kant não ensinou
que o homem prescreve simplesmente à natureza as suas leis mas
apenas que o homem «,a o forunular as leis da Natureza, lhe acrescenta
também algo de si próprio» 178, pois, de contrário, seria ininteligível
que Kant se sentisse externamente impressionado e e)Qperienciasse a
mais profunda veneração perante o céu estrelado 179. Depois de exem-
plificar a legalidade da natureza oom o princípio da conservação da
energia, Max PlaJilck refere outra lei «muito mais envolvente» que
possui a peculiaridade de responder claramente e com maior exactidão

174. Id., o. C., p. 31.


175. Id., o. C., p. 31.
176. Id., o. C., p. 32.
177. Id., o. C., pp. 32-33.
178. Id., o. C., p. 33.
179. Id., o. C., pp. 33-34.
244 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

ao problema do decurso de um processo natural e provoca no obser-


vador imparcial o «maior dos assombros», ao dar-lhe a impressão de
«a natureza ser regida por uma vontade racional e consderüe da fina-
lidade » 180. Exemplo relevante desta lei é a curvatura da refracção da
luz, que, através das várias camadas atmosféricas, segue a via que mais
r apidamente conduza ao seu fim, como se os fotões, que constituem
o raio luminoso, se comportassem «à maneira de seres racionais» 181.
A universalização deste caso da luz é o princípio da acção mínima, que
mais tarde deu nome ao «quantum» elementar, após ter entusiasmado
Leibniz e Maupertuis, que viram neste princípio um sinal sensível da
pvesença de uma razão ordenadora e dominadora da natureza 182. No
princípio da acção mínima vê Max Planck a relação recíproca entre
causalidade eficiente e causalidade final, segundo o modelo platónioo-
-aristotélico: à causa eficiente, que, desde o presente, age sobre o futuro
e apresenta estados posteriores condicionados por estados anteriores,
junta-se a causa final, que, inv,e rsaunente, desde o futuro ou de um
fim visado deduz o curso dos processos, que a tal fim conduzem !S3.
No domínio da Física, estes dois modos de ver são «apenas formas
matemáticas diferentes de uma mesma realidade» e seria ocioso per-
guntar qual destes dois modos mais próx1mos estaria da verdade. Para
Max Planck a investigação da Física Teórica, no seu desenvolvimento
histórico, conduziu a uma formulação da causalidade física dotada de
carácter teleológico, à concepção de uma ordem racional, a que a natu-
reza e o homem estão submetidos mas cuja essência própria nos
permanece incognoscível em virtude da nossa condição corpórea e
sensível 1s4• Afirmada a e~istência de uma ordem racional do mundo
independente da nossa intervenção e apenas indirectamente acessível
ao homem, a mensuração das Ciências da Natureza e a simbólica reli-
giosa convergem, segundo Max Planck, para a raiz misteriosa da ordem
do universo 185.
Sir James Jeans, especia1ista inglês em Matemática e em Aristóteles,
após ter considerado de natureza matemática todas as imagens cien-
tíficas correctas da Natul'eza, numa recuperação da tradição pitagórica,

180. Id., o. C., p. 34.


181. Id., o. C., pp. 34-35.
182. Id., o. C . , p. 35.
183. Id., o. C., p . 35.
184. Id., o. C., p . 36.
185. Id., o. C., pp. 37-39.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÁNEO 245

serviu-se da alegoria da cavernà de Platão para exprimir a distância


e a diferença, que separam da realidade última a Ciência da Natureza:
«nós estamos ainda encerrados na nossa caverna, de costas para a luz,
e só podemos observar na parede as sombras» . A única tarefa oientífica
que presentemente nos cabe, é «estudar estas sombras, classificá-las
e explicá-las do modo mais sitmples possível, isto é, por conceitos mate-
máticos, pois só um matemático pode esperar com:preender a Teoria
da Relatividade, a Teoria Quântica e a Mecânica Ondulatória, que hoje
tentam desvendar a natureza profunda da totalidade do mundo» 186. Vindas
do reino da realidade, «algumas sombras projectadas no muro das
nossas cavernas» provocam em nós a reminiscência não da preexistência
no reino da luz mas de objectos e acontecimentos fami,l,i ares da nos's a
vida de caverna. É que «a sombra de um jogo de xadrez.. . que fosse
jogado pelos intervenientes à luz do sol, recordar-nos-ia dos jogos de
xadrez, que nós houvéssemos jogado na nossa caverna» 187. Esta «tão
grande semelhança» não poderia ser ca's ual nem tão-pouco maquinal
mas induziria a supor que fora, no reino da luz, os jogadores seriam
seres dirigidos por um espírito semelhante ao nosso numa esfera inaces-
sível à nossa observação directa» 188. Os fenómenos da Física são som-
bras projectadas pela realidade oculta, que nos evocam regras seme-
lhantes de jogo válidas na penumbra da nossa vida. Este jogo com
regras é o da Matemática Pura, tal qual é formulada sem recurso ao
mundo exterior pela consdência interna do matemático. Criação do
pensamento e mundo 1ndependente, a Matemática Pura é a única imagem
da verdadeira reaHdade da natureza, pois o jogo de sombras que pode
ser a queda de uma maçã, a baixa-mar e a praia-m:ar ou o movimento
dos electrões no átomo, é produzido par actores muito familiarizados
com oonceitos matemáticos. Por isso, os fenómenos do mU!Ildo exterior,
pela sua estrutura matemática, podem comparar-se a criações abstractas
do nosso próprio espírito e a totalidade do mundo parece ter sido
pensada por um Matemático Puro, Arquiteoto do mundo 189. Parece
fora de dúvida que a Natureza se adapta melhor aos conceitos da Mate-
mática Pura do que aos da Biologia ou da Mecânica e age, portanto,
segundo as mesmas leis do nosso pensaunento matemático 190. A Mate-

186. Sir James Jeans, «ln unerforschtes Gebiet» in H. P. Duerr, o. C., pp. 49-50.
187. Id., o. C., pp. 50-51.
188. Id., o. C., p. 51.
189. Id., o. C., p. 52.
190. Id., o. C., pp. 53-54.
246 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

mática Pura do homem, mediadora entre as sombras e a verdadeira


realidade, não se ocupa da matéria ma:s do pensamento puro, de que
promanam as suas criações, como o conceito de espaço, as leis da
probabilidade, o princípio de equivalência de partes distantes no tempo
e no espaço, etc. Por isso, «as leis, a que a Natureza obedece, recoroam-
-me menos aquelas a que obedece uma máquina em movimento do que
aquelas a que um músico obedece, quando escreve uma tuga ou um
poeta, quando compõe um soneto» 191, pois os movimentos de electrões
e ,de átomos assemelham-se mais a uma dança do que aos movimentos
das partes de uma locomotiva. Este modelo da dança alargado à tota-
lidade do mundo sobreleva o paradigma da máquina e permite repre-
sentar, «embora sempre de modo muito imperfeito e iIl1suficiente», o
pensamento da totalidade do mundo como pensamento de um mate-
mático 192, que é espírito universal de que nós, espíritos singula!res,
somos partículas ou impulsos 193 . Deste Espírito Universal é o espaço
sempre homogéneo e o tempo un.iforme e leis do seu pensamento são
todas as leis da natureza, cuja uniformidade anuncia «a consequência
interna deste Espírito » 194 . Se a totalidade do mundo é uma totaHdade
de pensamento, a sua oriação deve ter sido um aoto de pensamento de
um pensador, que a teoria moderna da ciência nos coage a representar
como um cria:dor em acção fora do tempo e do espaço, que são apenas
fragmentos da sua criação. Em apoio desta afirmação, é citado o Timeu
de Platão, 386 b-c, pa:ra quem o tempo e o céu foram fo'r mooos no
mesmo momento a fim de se poderem simultaneamente dissolver, se
isto alguma vez vier a acontecer 195 . O Espkito, em que os átomos, de
que resultou o nosso espírito individual, existem como pensamentos ,
aparece no rdno da matéria não como um intruso casual mas como
criador e senhor semelhan,t e ao nosso pensamento matemático e reve-
lado na sua erpifania, que é a matéria 196. O mundo das sombras da
consciência ingénua em contraste com a luz da ciência atÓlmica é descrito
pelo físioo e mósofo ingLês A. EddingtOll em 1927 nestes termos:
« ... T'0do '0 objecto do meu mundo ciroundanrte tem o seu duplo ...
Um é,me famHiar desde a minha tenra infância, é um objecto rotineiro

191. Id., o. C., p. 55.


192. Id., o. C., pp. 55·56.
193. Id., o. C., p . 57.
194. Id., o. C., p . 58.
195. Id., o. C., p. 61.
196. Id., o. C ., p. 64.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÁNEO 247

do meu ambiente, a que chamo mundo ... Tem extensão, certa duração,
cor. (O outro) não pertence ao ml1.'ndo, de que acabo de falar, àquele
mundo, que aparece imediatamente à minha volta, mal eu abro os
olhos ... É uma parte de UJIll mundo, que chamou para si sobretudo
de um modo mediato a minha atenção. Do ponto de vista científico,
a minha mesa consta em grande parte de vazio, entremeado de inú-
meras cargas eléotricas, que com grande velocidade correm de um lado
para outro», não ultrapassando cada uma a biliO'llésima parte do volume
da mesa 197 . De facto, foram os Gregos que introduziram a distância
entre mundo quotidiano e científico através de Leucipo, o primeiro
atomista grego de meados do séc. V a. C., que à visão ordinária das
coisas opôs a sua constituição de vazio e de átomos. Também para
Anaxágoras, o mundo não aparece imediatamente na sua estrutura
interna, pois é um mUJ1do de ã.01]À.~, isto é, do que não vem imediata-
mente à luz (ÕtjJLÇ 'tW\I &.o'lÍÀ.W\I CP~WÓ!.lEWX" B 21 a) e, por isso, o que
aparece, é apenas um aspecto do oculto. Para Demócrito e para os
Pitagóricos, com especial relevo para Arquirtas, os fenómenos são um
ponto de partida necessário para o mundo da cpúcnç, cuja verdade harmo-
niza os aspeotos múltiplos das diferentes percepções, de que partimos.
Por outro lado, uma ciência exacta da Natureza, isto é, fundada na Mate-
mática só foi possível, quando se «acreditou» numa estrutura harmó-
nica, matematicamente simples e transparente do mundo e este pres-
suposto fundamental é o núcleo autêntico do pensamento pitagórico 198 .
Se Sir James Jeans modelou a sua filosofia da ciência pelos diálogos
República e Timeu de Platão, A. Einstein, Prémio Nobel de Física de
1921, desenvolveu a explicação da origem dos deuses e da religião
a partir do medo já eX'plorada por Crítias 199 e enalteceu a exceI.ência e a
ordem admirável da natureza e do mundo do pensamento em contraste
com a negatiV'idade dos desejos e fins do homem. Esta religiosidade
cósmica sem dogmas nem deuses foi vivida por herejes de todos os
tempos, julgados muitas vezes como ateus e algumas COllUO santos e
entre eles figura Demócrito, como sfunbo,lo de religiosidade c6smica,

197. Texto citado por W. Broecker, «Das Hohlenfeuer und die Erscheinung von
der Erscheinung» in: D. Heinrich I W. Schultz I K.-H. Volkmann I Schluck, Die
Gegenwart der Griechen im neueren Denken, Festschrift für H.-G. Gadamer zum
60. Geburtstag (Tübingen 1960), p . 32.
198. Cf. O. Becker, «Die Aktualitãt des Pytagoreischen Gedankens » in: D. Hein-
rich I W. Schultz I K.-H. Volkmann I Schluck, o. C., p . 18.
199. A. Einstein, «Religion und Wissenschaft» in: H .-P. Duerr, o. C., pp. 67-68.
248 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

que pertence à arte e à ciência despertar e marnter viva 200. Há um valor


super-pessoal no mUll1do que se atinge através da libertação de si
mesmo e mediante a universalidade de pensamentos, sentimentos e de
tendências 201. O significado e a excelência de tal valor no mundo não
necessitam de qualquer fundamentação raciona:!, pois existem com a
mesma necessidade e evidência do próprio homem, que vive a religio-
sidade cósmica. A fornte de desejo de verdade e de conhecimento e a
crença na pos·s ibilidade de o mundo dos fenómenos ser conduzido por
leis da razão são imprescindíveis à construção de uma ciência autên-
tica e despontam ambos no reino da religiosidade cósmica 202. Como o
universo estóico, esse reino não reserva lugar para qualquer causa ou
vontade humana ou divina, que estejam fora da ordem dos aconteci-
mentos naturais regulados por leis 203. Liberto da prisão dos desejos
e das expectativas individuais, o cientista sente «profunda veneração
perante a razão que se manifesta na realidade» e «na sua última pro-
fundidade» lhe é inacessível 204 .
A Metafísica, que desde Aristóteles é uma teoria do ser, aparece
num escrito de Max Bom, Prémio Nobel de Física em 1969, em con-
fronto com a Hsica Clássica e Contemporânea 205. Apesar das diferentes
mutações na imagem física do mundo, os métodos têm permanecido
invariáveis: eX!perimeIlltação, observação de regularidades eXJpressas
depois em fÓfillUlas matemáticas, previsão de novos fenómenos, inte-
gração das diferentes leis empíricas em teorias capazes de satisfazer
«a nossa necessidade de harmornia e de beleza lógica» e exame destas
teorias através de previsões 206 . A capacidade de prever, que é a grande
exigência da Física, apoia-se no reconhecimento do princípio da causa-
lidade, que, por sua vez, significa na sua formulação mais sirruples a
assunção de leis invariáveis da Natureza. Este «princípio metaHsico»
de causalidade é posto em dúvida pela Física Moderna , cujo objecto
nos é dado apenas através de aparelhos mais ou menos complicados
e pel'oou a semelhança com os fenómenos do macrocOSITWS, dada a sua
redução a partículas, forças , campos, etc. Por isso, justifica-se a per-

200. Id., o. C. , p. 69.


201. Id., «Naturwissenschaft und Religion II (1941)>> in: H.-P. Duerr, o. C., p. 74.
202. Id., o. C., p. 75.
203. Id., o. C., p. 77.
204. Id., o. C., p. 78.
205. Max Bom, «Physik und Metaphysik» in: H.-P. Duerr, o. C ., pp . 79-95.
206. Id., o. C., p. 80.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 249

gunta pelo estatuto. ontológico deste novo objecto da Física NI, o que
pressupõe uma análise do. princípio de causalidade. A necess1idade, que
vincula a causa ao. efeito e, segundo. Parménides, encadeia o ser, é para
Max Bom «um conceito algo místico», cuja natureza metafísica reco-
nhece 208. A sequência necessária de acontecimentos no tempo, que per-
mite prever fenómeno.s futuros, é característica da causalidade física
e funda o detel'l1linismo da máquina gigante do mundo, defendida pelos
físicos do séc. XIX como erradicação definitiva de toda a traça da
Metafísica. Max Bom esclarece a confusão destes físicos, que identifi-
caram causalidade e determinismo : não há relação de dependência
causal na sucessão determinística do sistema ptolomaico, dos círculos
de Copérnico ou das elipses de Kepler mas apenas quando um grupo de
dados «determilIla quantitativamente» (isto é, causa) outro grupo de
dados 209. Na praxis quotidiana do físico, a experimentação é a produção
de deteITIlinadas condições de observação e a observação posterior do
efeito. É precisamente «a relação atemporal entre observação e con-
dição de observação. (aparelhagem), que é o objecto real da Ciência da
Natureza» 210. A Física Clássica praticou de facto. esta relação. de causa
e efeito, mas, ao teorizá-la, confundiu-a indevidamente com o determi-
nismo. Assim, se a nova Mecânica Quântica não admite qualquer inter-
pretação determinística, nem por isso foge à vigência universal do
princípio de causalidade 211. As condições de observação e a própria
observação jamais podem prescindir do observador e, por isso, enquanto
a Fís<ica Clássica pressupôs que os fenómenos da natureza se proces-
savam 'i ndependentemente do facto da sua observação e sem qualquer
relação com ela, a Física Quântica exige que UIIll fenómeno se descreva
e preveja em relação com a espécie bem de finida de observador e de
aparelhagem instrumental. Como a mesma espécie de fenómenos pode
ser observada em separado através de diferentes aparelhos, impôs-se
a ideia da diferença e da complementaridade de to.dos estes aspectos 212.
A geração de A. Einstein, de Niels Bohr e de Max Bom aprendera que o
mundo físico objectivo existe e se desenvolve segundo leis invariáveis
e independentes do homem. Com a Mecânica Quântka, o observador

207. Id., o. C., p. 8I.


208. Id., o. C., p. 8I.
209. Id., o. C., p. 82.
210. Id., o. C., p. 83.
211. Id., o. C., p. 85
212. Id., o. C., p. 89.
250 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

aparece oomo um ser interveniente, à semelhança da assistência do


futebol, cujo compromisso influi nos jogadores e no próprio jogo.
Longe de cair no relativismo subjectivista, a Mecânica Quântica usa
«,i nvariantes da percepçã.o» como todo o homem no seu quotidiano mas
apenas noutro nível de percepção, determinado pelos sofisticados apa-
relhos que manipula. Também na experiência da Física Quântica as
múltiplas observações se articulam segundo traços invariáveis, que são
indicador es de coisas, objectos e partículas 213. O electrão, que aparece
ora como onda ora como partícula, remete para algo traaJ.s.físico, para
«uma ideia metafísica», como, aliás, a relação causal da Física Clás·
sica 214, pois as mensagens da Microfísica falam de um mundo real
exterior, que uma imagem única não exprime mas sim a complemen-
taridade de várias 215. Expurgada do determinismo, a causalidade através
da pluralidade de perspectiva continua a dizer relações de um mundo,
que, ao aparecer, continua invisível como afirmara Anaxágoras.
Sir Arthur Eddington, matemático e astrofísico, que procurou unir
numa teoria fundamental a Teoria da Relatividade e a Teoria Quântica,
retoma o problema da Metafísica no seu trabalho Ciência e Misticismo:
«a beleza e a harmonia no rosto da Natureza es,t ão, na sua raiz, unidas
à serenidade, que transfigura a face do homem» 216. Distinto do conhe-
cimento simb6lico científico, que analisa, deduz e codifica, o conheci-
mento inteI1ior, v. g., do humor, acontece espontaneamente e não por
um exame analítioo. O mesmo se passa com o <<llOSSO sentimento mís-
tico de Deus». Há homens paa:-a quem o sentimento imediato dá pre-
sença do Ser Divi,n o, que penetra na alma, é um conhecimento muito
mais claro do que o resto da nossa expefi.ência e, por isso, sentem a
falta deste sentido como uma carência espiritual do homem 217 . Toda
a análise filosófica ou teológica da experiência não ultrapassa o domí-
nio do conhecimento simbólico, distinto, portanto, dessa experiência,
que é conhecimento interim. As grandezas da Físka, que formam parte
da realidade, a que temos acesso pela via dos sentidos, são distintas da
outra realidade, que se manifesta na consciênoia e no sentimento do
valor e da finalidade 218. A consciência excede o seu cérebro, é «algo

213. Id., o. C., pp. 92-93.


214. Id., o. C., p . 94.
215. Id., o. C., pp. 94-95.
216. Sir Arthur Eddington, «Wissenschaft und Mysticismus » in: f-I.-P . Duer r,
o. C. , p. 10lo
217. Id., o. C., pp . 102-103.
218. Id., o. C., p . 103.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÁNEO 251

maior» e, por isso, não nos conduz apenas ao mundo exterior da Física,
o que aconteceria se «a totalidade de uma consciência se reflectisse na
dança das moléculas do nosso cérebro de modo que a determinada
sensação correspondesse detenminada figura dessa dança» 219. Embora
para a Física Atómioa seja uma ilusão a represerutação de objectos
fanliliares, como, v. g. de uma mesa, jamais atingiríamos o conceito
científico e simbólico de mesa, se eliminássemos definitivamente os
sentidos oom suas imagens e ilusões. Também a vida quotidiana do
espírito se prende de representações ingénuas e até de ilusões mas
a faouldade, que as produziu, deve pôr-se «ao serviço das , forças supe-
riores da natureza» do homem, abrir o mundo espiritual e transformar
a esfera da sensibilddade a fim de a harmonizar «com a minha essência
própria» 220. O mundo do espírito não é o mundo simbólico da ciência
em que ninguém habita, mas um mundo habitável do quotidiano, tão
real como o mundo material, apesar de lhe não ser aplicável o conhe-
cimento exacto da ciência. Algo de muito profundo em nós se mani-
festa no as's ombro perante a criação, na expressão da arte, no desejo
de Deus. Dentro de nós deve procurar-se a justificação desta tendência,
que está <<num impulso poderoso, que desponta ao mesmo tempo com
a consciênoia, numa luz interior, que parte de uma força superior à
nossa» 221 e a que a ciência não permanece estranha, pois o desejo
de saber brota precisamente desse impulso, que o espímto deve seguir e
desse perguntar, que não pode ser reprimido. A experiência do per-
guntar abrange toda a realidade, interior e exterior, de tal modo que
nós somos «parte do problema», dotados de «forças espirituais» à pro-
cura de resposta para a pergunta da verdade, que provém do nosso
desejo natura:l de verdade e da «luz que acena de cima» 222. É tão legí-
timo associar um mundo físico real às nossas sensações como «ao
outro lado do nosso ser um mundo espiritual» 223, que apareceu com
capacidade de transformar a estrutura nua do mundo físico na riqueza
da nos's a experiência, como narra a gesta da evolução biológica 224 ,
Este mundo espiritual ou «alma do mundo» 225 carece de formulação

219. Id., o. C., p. 103.


220. Id., o. C., p. 104.
221. Id., o. C., p. 107.
222. Id., o. C., p. 107.
223. Id., o. C. , p. 111.
224. Id., o. C., p. 114.
225. Id., o. C., p. 116.
252 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

em símbolos diferentes dos da Matemática, pois, de contrário, esfuma-se


após momentos de exaltação, sem garantir o contacto permanente «de
alma a alma», como requer a verdadeira expressão religiosa 226 . A Física
pressupõe um «fundo», que está fora do âmbito da sua competência
e onde habita «a nossa própria personalidade» e talvez «uma persona-
lidade maior ». Em todo o caso, «a ideia de um espírito universal ou
logos» é uma luminosa consequência derivada do estado presente da
Física Teórica 227.
Noutro escrito 228, Eddington vê nas Ciências da Natureza uma
«tentativa de decifração do criptograma da experiência» com resul-
tados inegáveis mas sem qualquer interrogação sobre a verdade da
objectividade científica e suas teorias. O homem interroga-se sobre
«a úlüma verdade» e sente-se responsável perante ela, não fosse a
necessidade de verdade um dos traços essenciais do ser espiritual do
homem 229. Se não é impossível que a Física Teórica avance um dia
da organização para a produção do organismo, «o eu mais íntimo»,
contudo, jamais pode ser uma parte do mundo físico nem uma produção
robótica 230. O nosso conceito actual (1931) de Física é suficientemente
vaZJio para receber quase tudo, pois não passa de um esquema de sím-
bolos e de equações matemáticas ou de um esqueleto pronto a ser
revestido, de um piam.o prestes a ser executado ou de uma simbólica
à espera de interpretação 231. Por isso, a contribuição da Ffsica para o
problema da experiência reduz-se a um esqueleto, cujo preenchimento
não está na sua competência 232 . O olhar einsteiniano não atinge o essen-
cial e Deduz uma galeria de pintura, v. g., a dez metros quadrados de
cor amarela, a cinco metros de cor vermelha, etc. 233, pois muito aper-
tada é a limitação da Física e demasiado abstracta a sua especialização
para nos transmitir «uma compreensão completa do mundo, que envolve
o espírito humano» 234. O mundo da Física não pode coincidir «com a
nossa vivênoia da reaLidade em toda a sua amplitude» nem perscrutar

226. Id., o. C., p. 116.


227. Id., o. C., p. 116.
228. Sir Arthur Eddington, «Die Naturwissenschaft auf neuen Bahnen» in: H.-P.
Duerr, o. C., pp. 121-138.
229. Id., o. C., pp. 122-123.
23D. Id., o. C., pp. 124-125.
23,1. Id., o. C., p. 125.
232. Id., o. C., p. 126.
233. Id., o. C., p. 127.
234. Id., o. C., p. 128.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 253

«O mistério da existência», que está centrado no espírito, lugar da


verdade e de todas as possibilidades de realização responsável da beleza
e da bondade 235. Se a luz, a cor e o som chegam ao nosso espírito
como vozes do mundo exterior, os movimentos de verdade, beleza e
bondade, que agitam a nossa consciência, emanam de algo superior a nós
mesmos, que a desorição humana 10caLiZia fora de nós ou oculta na
nossa interioridade mais profunda 236.
Segundo Eddington, a essência da realidade é simpleSilllente espi-
ritual e não uma mistura de espírito e matéria, pois para a concepção
actual de matéria não tem sentido a síntese entre a «propriedade mate-
rial» e a essência de algo interior. Isto não significa a negação do
mundo físico mas apenas que pelo método da Física não atingimos
o ser íntimo das coisas, embora a sill11bólica da Física possa receber
em si tudo, como as ondas podem ser de água, de ar, de éter e de
probabilidade (na Teoria Quântica). Aberto pela Física um «espaço
para a realidade do espírito e da consc1ênoia» 237, a dimensão espiritual
da experiência está para a sua dimensão física como a água para a
forma das ondas. O saber cientíNco, mediado pelas modificações físicas
transmitidas ·a o sistema nervoso, recebe forma exacta através dos sím-
bolos da Matemática mas este saber não basta, pois nós somos seres
interessados na verdade, que têm um conhecimento imediato de si
meSilllOS 238. Aos actos da consciência não correspondem átomos e elec-
trôes das células do cérebro mas um véu de símbo,los a interpretar
e este véu só é erguido pelo saber imediato do espírito e na clareira
do véu erguido surge a realidade espiritual e anímica, enquanto rela-
tivamente ao mundo dos corpos continua corrido o véu dos símbolos
científicos239 • Não há dúvida de que as Ciências da Natureza hoje
possuem um conceito «muito mais místico do mU!lldo exterior do que
no século passado», dominado por modelos mecanicistas, que no séc. XX
foram substituídos por símbolos e equações matemáticas 240. Este novo
crescimento destas ciênoias mergulha as suas raízes no passado, pois
só aos ombros dos que nos precederam, podemos ver mais longe 241.

235. Id., o. C., p . 129.


236. Id., o. C., p. 129.
237. Id., o. C., p. 131.
238. Id., o. C., p. 132.
239. Id., o. C., p. 133.
240. Id., o. C., pp. 134-135.
241. Id., o. C., p. 137.
254 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

o célebre físico dinamarquês Niels Bohr, Prémio NOobel em 1922,


reflectiu sobre a unidade do saber sem e1i,m inar a distinção entre
Física, Biologia, Psioologia, Arte e Religião e, pelo conceito de comple-
mentaridade, previu uma unidade sem sacrifício das diferenças 242.
Contra a tese neopositivista da exclusividade da linguagem artificial
como modelo necessário do rigor científico, Niels Bohr assevera que
«o nosso oonhecimento fundamental é evidentemente a linguagem do
trato quotidiano, que responde às necessidades da vida prática e serve
a comunicação socia!» , de que a comunicação científica é parte inte-
grante. Esta, pOl1ém, induz"nos a perguntar «em que medida a objecti-
vidade da descrição se pode manter, quando o círcuLo da experiência
se projectO'll para além dos dados da vida quotidiana», e UI!lla vez que
todos oos conhecimentos são de início desoIÚtos em conceitos relativos
a experiências anteI1iol1es e, portanto, demasiado estreitos para poderem
responder a eJeperiências novas 243. O alargamento da aparelhagem con-
ceptual não só seria uma ordem em cada ciência mas revela também
semelhanças no modo de ana:lisar e de sintetizar experiências em domí-
nios científicos «aparentemente separados» e possibilita «·u ma descrição
ob}ectiva cada vez mais abrangente». Nestas oi:l'Ounstâncias, a Matemá-
tica, que é «um refinamento da linguagem do quotiJdiano», torna-se
na sua abstmcção precisa «um auxílio indispensável à expressão de
conjuntos hamnoniosos», porque dota a linguagem naturel de meios
de expressão de relações, que as palavras da linguagem comUlIll signi-
ficariam de modo demasiado inexacto ou prolixo. As chamadas Ciéncias
eJeacÍGts da Natureza devem o seu progresso ao uso de métodos mate-
máticos abstractos, que, por seu lado, se desenvolverrurn frequente-
mente sem qualquer intenção de uso mas apenas pelo desejo da U1I1iver-
salização de construções lógicas. É isto o que sucede na Física, que,
tendo signifiicado de início, todo o saber sobre a Natureza, se propôs
mais tarde investigar «as leis fundamentais, que dominam as proprie-
dades da matéria inanimada» 244, segundo as exigências de uma descrição
objectiva. No nosso tempo, novas zonas de experiência investigadas
impuseram outros pressupostos à «aplicação UIIlívoca dos nossos con-
ceitos mais elementares», resultando uma Epistemologia, cuja influência
se estende «a probLemas muito para além do domínio da Física» 245.

242. Niels Bohr, «Einheit des Wissens» in: H.-P. Duerr, o. C., pp. 139-157.
243. Id., o. C., p. 139.
244. Id., o. C., p. 140.
245. Id., o. C., p. 141.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 255

Após a seoularização da imagem imediata de mundo e a suspensão do


princípio de finalidade, foi pos,sível com os princípios da Mecânica
Clássica prever o estado de um sistema físico em qualquer ponto
temporal futuro a partir do seu estado deteI1ITlinado por grandezas
mensuráveis num momento temporal dado: é a descrição «determinís-
tica ou causal» da 1magem mecanicista de Natureza erigida em «ideal
de explicação científica em todos os domínios do saber» 246. A desorição
objectiva da Mecânica Clássica repousava no uso bem definido de
imagens e representações referidas «a dados da vida quotidiana»,
apesar de as idealizações dessa Mecânica como o espaço e o tempo
absoLutos e a propagação praticamente instantânea da luz, transcen-
derem o domÍlllio da experiência. A descrição, porém, de fenómenos
electro~magnétioos e ópticos desoobre o papel do observador, de cuja
velocidade relativamente a outros observadores depende o modo dife-
rente de coordenar os acontecimentos. De facto, «tais observadores
julgarão diferentemente não apenas a forma e a situação de corpos
sólidos mas também os acontecimentos em pontos diferentes do espaço,
que a um observador parecem simultâneos e a outro situados em
tempos diferentes 247. Este problema da dependência da descrição dos
fenómenos físicos também do ponto de vista do observador revelou-se
fecunda para a «descoberta de leis físicas UDJiversais válidas para todos
os observadores» 248, como se pode exemplificar com «a métrica espaço-
-temporal de quatm dimensões» de A. Einstein, que impõe a acção da
gravidade e a velocidade da luz como limite superior do uso sem
contradição do conceito físico de velocidade e, ao mesmo tempo,
expurga a descrição dos elementos subjectivos e alonga-lhe o campo
de competência. Por outro lado, a investigação da esrtrutura atómica da
matéria descobI1iu novas dimensões no problema da observação. Desde
a Antiguidade, a divisibilidade limitada da matéria foi usada para
explicar a permanência nela de propriedades características e manteve-se
até aos nossos tempos cama hipótese, pois a grandeza dos nossos
órgãos dos sentidos e dos aparelhos usados impedia a observação
imediata do átomo. No nosso século, o estudo de propriedades da
matéria como a radio-aotividade confirmam os fundamentos da teoTia
atómica e a construção de amplificadores possibillitou o estudo de
fenómenos assentes na acção dos átomos individuais e um amplo conhe-

246. Id., o. C., p. 141.


247. Id., o. C., p. 142.
248. Id., o. C., p. 142.
256 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

cimento da estrutura dos sistemas atómicos. Assim, descobriu-se que


o electrão é parte comum a todas as espécies de matéria, que o núcleo
do átomo, pela sua permanência sem mudança, explica a invariabili-
dade das propriedades dos elementos nos processos físicos e químicos
vulgares e que a transformação do núcleo do átomo através de meios
potentes inaugura uma esfera de investigação totalmente nova, frequen-
temente chamada (<<alquimia moderna», que incide sobre «a possibi-
lidade de se libertaJrem monstruosas quantidades de energia Ligadas
aos núcleos dos átomos» 249. Se a imagem simples do átomo explicava
«muitas propriedades fundamentais da matéria», não houve dúvidas
desde o começo de que «as imagens clássicas da Mecânica e do Electro-
-magnetismo não bastavam para explicar a estabilidade essencial de
estruturas atómicas, que se exprimem nas propriedades específicas
dos elementos. A chave explicativa encontrou-a Max Planck no início
do séc. XX, aquando da descoberta da «acção quântica universal».
As idealizações da Física Clássica, válidas para o macrocosmos não
atingiam o novo tipo de totalidade revelado pela existência dos quanta,
cuja legalidade, de espécie peregrina, se furtava à desOI1ição deter-
minística usada para os fenómenos macrocósmicos. As observações
realizadas no espaço da Micro-Física articulam-se segundo relações
expressas nos simbolos do f01.1lTIalismo matemático, que, presos da sua
natureza estatística, se mantêm distantes dos «diferentes processos
quânticos individuais» 230. O formalismo mecânico-quântico descreve
numerosas e~pedências de propriedades fí.sicas e químicas da matéria,
fixando a sua invariância e ordenando os conhecimentos das proprie-
dades das partículas e da estrutura nuclear dos átomos. Nesta esfera,
que transcende a teoria da Física Clássica, a linguagem enriquecida de
expressões téonicas é o lugar da descrição da ordem das observações,
porque a palavra «experimentação» refere-se sempre a uma situação
em que nós poderemos narrar a outros o que f.izemos e observámos.
Apesar da interferência do observador e dos aparelhos de observação
na constituição do objeoto, Niels Bohr oonsidera capazes de induzir em
erro expressões como «fenómeno», «observação» ou «produção de pro-
priedades físicas de objectos atómioos através da mensuração», porque
tais expressões têm um sentido inconciliável com a linguagem do quoti-
diano e com uma definição. «Fenómeno» é apenas o que se observa
em circunstâncias descritas com exactidão e segundo o método global

249. Id., o. C., p. 149.


250. Id., o. C., p. 144.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÁNEO 257

da ex,periênoia, isto é, o átomo enquanto fenómeno reduz-se aos


esboços ou traços, que se obtêm com o auxílio de amploificadores e
são o campo de aplicação do fOI'lIlalismo mecânico-quântico 251. A estru-
tura matemática do formalismo usado oferece possibilidades de livre
escolha de uma ordem de experiência. Esta ordem escolhida, porém,
pode transmitir «resultados singulares diferentes», que, por vezes, se
lêem como «escolha Livre da natureza» 252, sem que isto signifique uma
personificação -da natureza mas simplesmente a impossibilidade de indi-
carem de modo habitual directrizes para o processamento de fenómenos
indivisíveis 253. É que a explicação lógica não ultrapassa o campo das
probabilidades quanrt:o ao aparecimento de fenómenos individuais em
condições determinadas de experiência. A descrição de fenómenos da
Física Atómica coage-nos ao uso de conceitos fundamentais mas dife-
rentes, que se a~iguram opostos, quando o decurso dos processos
atómicos é descrito em conceitos clássicos e complementares por serem
um «conhecimento essencial dos sistemas atómicos e, na sua totaHdade,
esgotarem este conhecimento» 254. O conceito de complementaridade é
a expressão lógica da nossa situação de observadores, que descrevem
objectivamente os fenómenos da Física A1ómica, reconhecem que o
fenómeno quântico integra em si a acção recíproca entre aparelhos
e sistemas físicos investigados, valorizam a observação na ordenação
das experiências e limitam a concepção mecanicista e determinística
da natureza sem ferir «a descrição das propriedades fundamentais da
matéliÍa» 255.
A história da Física e o alargamento de espaços de experiência,
ao revelarem as lãJmitações dos conoeitos clássicos, rasgaram novos cami-
nhos para a recuperação do ordenamento lógico da experiência. A epis-
temologia da Física Atómica evoca «situações semelhantes» noutras
experiências, que estão fora dos limites da Ciência Física. Em pTimeiro
lugar, surge a eX!periência dos seres vivos, a princípio confundidos com
a matéria inan:imãda mas cuja totalidade OTgânica e individual Aristó-
teles defendeu contra a visão dos atomistas, como, aliás, os conceitos
de potência e de finalidade 256. Da eliminação da finalidade resultou a

251. Id., o. C., p. 146.


252. Id., o. C., pp. 146-147.
253. Id., o. C., p. 147.
254. Id., o. C., p. 147.
255. Id., o. C., p. 148.
256. Id., o. C., p. 148.

17
258 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

concepção determinística de natureza desde a Renascença mas nas


últimas décadas progrediu muito o nosso conhecimento da estrutura
e da função dos organismos em virtude do importante papel desem-
penhado pela Mecânica Quântica, pois as leis estatísticas não só
exprimem a estabilidade das estruturas moleculares extraordinaria-
mente complexas mas também as mutações a que os seres vivos estão
sujeitos 257. Actualmente pergunta-se se uma comparação com sistemas
físicos complexos como modernas instalações industriais ou máquinas
electrónicas de calcular pode oferecer uma base suficiente paTa uma
descrição objectiva de totalidades auto-reguladoras como os organismos
vivos 258 . No entanto, os processos estudados na Física Quântica não
são um «análogo imediato» das funções biológicas, cuja conservação
exige permuta constante de matéria e energia entre o organismo e o
seu ambiente. Todo o método que submetesse as funções biológicas
ao modelo dos conceitos físicos, «impediria o desenvo1vimento livre da
vida», o que implica uma nova atitude perante o ser vivo, que equilibre
o mecanicismo com o formalismo 259. Como o quantum de acção da
Física, o conceito de «vida» é elementar em Biologia, onde nos defron-
tamos mais com «manifestações de possibilidades da Natureza» do que
com resultados das nossas próp.rias tentativas . Daí, a complementa-
ridade em Biologia entre conceitos da Física e da Química e conceitos,
que, directamente referidos à integridade dos organismos, estão para
além das esf,e ras destas dências 260. Impõe-se-nos também o conceito de
consciência quando o comportamento é tão complexo que a sua des-
crição remete directamente para a introspecção do organismo indi-
vidual. Assim nasce a complementaridade entre o conteúdo da nossa
atenção e o «fundo» designado pela expressão «nós mesmos » 26 1. As
tensões e oposições da personaLidade estudadas na Psiquiatria apre-
sentam uma analogia com a situação da Física Atómica, seus fenó-
menos complementares e respectiva conceptualização. Por outro lado,
há um paralelo entre vivências psíquicas e observações físicas, pois a
dificuldade em dar um conteúdo intuitivo ao subconsciente corresponde
à limitação do esclarecimento intuitivo do formalismo da Mecânica
Quântica 262. Os traços que no organismo deixam toda a vivência cons-

257. Id., o. C., p . 149.


258. Id., o. C., p. 149.
259. Id., o. C., p. 149.
260. Id., o. C., p. 150.
261. Id., o. C., pp. 150-151.
262. Id., o. C., p. 151.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 259

ciente, furtam-se à introspecção e não se podem descrever exaustiva-


mente com o auxílio de conceitos mecanicistas, mas de um ponto de
vista finalista não só podemos acentuar a influência desses traços perma-
nentes sobre as nossas reacções e estímulos mas também devemos
valorizar o facto de eles serem transmitidos por hereditariedade a
gerações futuras. A transcendência da consdência permanece salva-
guardada, pois «os conceitos simples da Física perdem em grau cres-
cente a sua aplicação imediata na medida em que nos aproximamos
cada vez mais dos traços ligados à consciência de organismos v.ivos» 263.
Como exemplo, é aduzido o problema da vontade livre, que não tem
lugar numa concepção determinista. A Física Atómica, porém, e em
especial os 1imites da descrição mecanicista de problemas biológicos,
levam-nos a aceitar «que a capacidade do organismo para se adaptar
ao ambiente encerra em si o poder de escolher o caminho mais apro-
priado a este fim» 264. Esta questão não pode ser considereda em termos
simplesmente físicos e, por isso, «é importante saber que o problema
deveria ser esclarecido através de vivênoias psíquicas» na tentativa de
compreender, v. g., a decisão futura de uma pessoa em determinada
situação a partir da base em que se move e das infLuências que sofre
e, em última análise, colocando-nos em seu lugar. Reconhecidos os
limites de uma descrição objectiva, deve falar-se, de um ponto de vista
prático e lógico, de «liberdade da nossa vontade» com espaço suficien-
temente amplo para o uso de palavras como responsabilidade e espe-
rança 265. O desenvolvimento da Física incidiu sobre a situação do
observador e oferece-nos meios lógicos para ordenar amplas regiões
de experiência com linha de demarcação entre objecto e sujeito, pois
numa descrição meramente objeotiva não há lugar para conceitos defi-
nitivos como sujeito último ou realismo e ideaHsmo 266 .
Após ter aflorado problemas científicos complementares, que oon-
tribuem para a unidade do saber, Niels Bohr interroga-se sobre a
existência de uma «verdade poética ou espiritual ou oultural», ao lado
de uma verdade científica 267 . A riqueza da arte está na sua capacidade
de transmitir harmonias, que estão para além da análise sistemática e,
por isso, pode dizer-se que poesia, artes plásticas e música ostentam

263. Id., o. C., p. 152.


264. Id., o. C., p . 152.
265. Id., o. C., pp. 152-153.
266. Id., o. C., p. 153.
267. Id., o. C., p. 153.
260 M IG UEL BA PTISTA P E R E IRA

uma sene de formas de expressão, em que a eXlgencia de difin ições


própria da comunioação científica é substituída pelo jogo mais livre
da fantasia. O equilíbrio entre seriedade e humor, que distingue toda a
expressão artística, lembra traços complementares, que se destacam
no jogo infantil e são não menos apreciados na idade madura. Na
ciência predomina a tendência sistemática para alaFgar e OI'denar
conceptualmente a experiência; na arte vigora a tendência individual
para despertar sentimentos de totalidade da situação. A unidade do
saber é agora polissémica, porque a expressão de valores espirituais
e oulturais evoca o problema gno~iológico do equilíbrio entre o nosso
desejo de uma visão total da vida na sua multiplicidade e as nos's as
possibilidades de e:lCpressão sem contradição lógica 268 .
As relações entre oulturas nacionais aiiiguram-se complementares,
embora não no mesmo sentido em que se aplicou a complementaridade
na Física Atómica· ou na Psicologia, que ostentavam características
invariáveis. FrequentemeIlte, o encontro de nações originou uma fusão
de culturas, que manteve valiosas linhas da tradição nacional. A investi-
gação antropológica torna-se uma fonte cada vez mais importante para
o esclarecimento de traços comuns no desenvolvimento de diferentes
culturas. NenhlliIIla experiência se pode definir sem um quadro lógico
e toda a desaI'iJ.1lonia aparente só por um alargamento do quadro con-
ceptual se pode eliminar 2ó9 .
Erwin Schrodinger, físico austdaco e Prémio Nobel de Física em
1933, abre lliIIl artigo sobre a unidade da consciência com um conceito
de homem, que actuaLiza a ideia aristotélica de «a alma poder ser de
certo modo todas as coisas »: «A razão por · que o nosso eu, que sente,
percepciona e pensa, jamais surge na nossa imagem científico-Ul.atural
de illU:Ildo, pode facilmente exprimir~e nestas palavras: Ele mesmo é
esta imagem de mundo. É idêntico ao todo e, por isso, não pode ser
nele contido como parte» TIo. Na sequência do ' problema neoplatónico
da alma do mundo na sua relação com as almas individuais, considera
«paradoxo aritmético » a unidade e a multiplioidade de sujeitos privados
com um só «mundo externo real». A multiplicidade de eus justifica a
pergunta pela ,identidade do mundo, que lhes corresponde,. pela distinção
entre mundo real e imagens de mundo e pela correspondência ou não

268. Id., o. C., p. 154.


269. Id., o. C., p. 157.
270. Erwin Schrõdinger, «Das arithmetische Paradoxon - Die Einheit des
Bewusstseins» in: H.-P. Duerr, o. C. , pp. 159-170.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÁNEO 261

destas à realidade. Estas perguntas, que, segundo Schrodinger, não têm


resposta adequada, são antinomias ou a estas conduzem e «nascem
de uma fonte, a que eu chamo o paradoxo aritmético: os múltiplos eus
conscientes, de cujas experiências sensíveis se compõe um mundo» m.
Duas saídas foram tentadas para este paradoxo: a monadologia de
Leibniz e a união de todas as consciências numa só com a redução
da multiplicidade a mera aparência, como ensinam, v. g., os Upanishades.
Estas duas saídas não têm sentido «do ponto de vista do nosso pensa-
mento actual científico-natural, que se funda -no pensamento grego
antigo e é -puramente oddentaJ » 1:72 . O misticismo não impressiona
«o nosso pensamento ocidental», que o acusa de fantástico e de não-
científico. Para SchOdinger, a razão está no facto de «a nossa ciência,
que é grega, s,e fundar na objectivação » e de, por isso, se ter vedado
a si mesma no caminho p ara uma justa compreensão do espírito.
A partir desta leitura unilateral do pensamento grego, vem a afirmação
central de que neste ponto se deve corrigir o nosso estilo contem-
porâneo de pensar atravé s de UIIlla recepção do pensamento oriental,
sem contudo alienaI1mos «a e~actidão lógioa a que o nosso pensamento
chegou e que em nenhuma época teve paralelo » 273. Daí, o delineamento
do programa de Schrõdinger: rasgar caminhos «para uma futura fusão
do princípio de identidade com a nossa própria imagem científico-
-cultural de mUllldo, sem que isto se tenha de pagar com uma perda
da objectividade e exactidão lógica ZI4. A doutrina da identidade de
todas as consciências ou espíritos entre si e com a consciência suprema
pode reolamarr~se do facto de j amais a consciência ser experienciada
numa pluralidade de sujeitos mas apenas num só, pois mesmo em
casos patológicos de desdobramento de personaUdade as pessoas suce-
dem-se, nunca são simultâneas e nada sabem uma da outra 275. O «outro»
dos nossos sonhos é a concretização de uma difkuldade séria da vida
real, sobre que não exercemos qualquer poder. Isto explica por que
«em todos os tempos a maior p arrte dos homens se convencesse de
que estava realmente em ligação com as pessoas, que encontrava em
sonhos», fossem vivas ou mortas, deuses ou heróis. No séc. VI a . C.,
Heraclito verberou esta superstição mas Lucrécio Caro mantém-na viva

271. Id., o. C., p. 159.


272. Id., o. C., pp. 160-161.
273. Id., o. C., p. 161.
274. Id., o. C., p. 161.
275. Id., o. C., pp. 161-162.
262 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

no séc. I a. C. e talvez ainda hoje haja quem nela acredite 276. f. tão
parado~al a unidade do mundo numa pluralidade de consciências como
a unidade de um espírito numa multiplicidade de sub-espíritos m .
A solução está na incorporação da doutrina oriental de identidade na
estrutura da nossa ciência actual. Todas as consciências são sempre
e apenas uma só como o ser parmenídeo e o seu tempo não é o pas-
sado nem o futuro mas o presente, em que a recordação e a expectativa
se integram, e deste modo Schrodinger retoma o tempo do Timeu 278 .
Esta unidade da conscioência ou espírito contém, como o Uno de Plotino
ou de Prodo, o mundo espaço-temporal, que é uma representação sua
e, por isso, «modelo original e imagem são uma só coisa» 279. Justi-
fica-se a alusão a Berkeley, quando Schrodinger escreve que a expe-
riência nenhuma garantia nos dá de que o mundo seja algo para além
da repI'esentação do Espírito uno. A consciência ou espírito desem-
penha um duplo papel: por um lado é o teatro onde se exibe o acon-
tecer total do mundo ou «o vaso, que encerra tudo em tudo fora do
qual nada há»; por outro lado, sente a impressão, «talvez errónea» ,
da sua vinculação a órgãos especiais, que servem a vida do seu por-
tador 280 . f. como o pintor que se pintasse a si mesmo como figura
secundária no seu quadro ou como o escritor que se identifica com
uma personagem de segundo plano do seu romance. O duplo papel
desconcertante do espírito é criar tudo, como o artista, e ser ao mesmo
tempo uma figura dispensável e ins1ignificante, que se poderá eliminar
sem prejuízo do sentido da obra 281. O que falta, é o espírito no mundo,
pois o homem ainda não conseguiu construir uma imagem do mundo
sem dela -e xpulsar o espírito 282. O espectáculo, que se realiza como
mundo, só tem sentido na sua relação ao espíI'ito que o contempla
mas o que a Ciência da Natureza nos oferece, é a inversão absurda do
primado do espírito, como se o espírito nascesse do espectáculo da terra
e com el,e fenecesse, mala sol arrefecesse e a terra se convertesse em
deserto de gelo e neve 283.

276. Id., o. C., p. 162.


277. Id., o. C., p. 165.
278. Id., o. C. , p. 166.
279. Id., o. C., p. 167.
280. Id., o. C. , pp. 167-168.
281. Id., o. C., p. 168.
282. Id., o. C., p. 168.
283. Id., o. C., p . 169.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNE O 263

A contribuição mais impres5iva da Ciência da Natureza para res-


ponder às perguntas sobre a essência, a odgem e o fim do homem é
«a meu ver a pr-ogressiva idealização do tempo», em que mais do que
Agostinho de Hipona e Boécio, colaboraram Platão, Kant e Einstein.
«O que é que empresta à obra de Platão um brilho tão Ímpar, que ainda
hoje irradia, sem qualquer diminuição mais de dois mH anos depois?» 284.
Não foram, de certo, descoberas no reino dos números ou das figuras
geométricas nem concepções novas do mundo material, em que sábios
desde Tales a Demócrito, o seu aluno Aristóteles e Teofrasto o supe-
raram, nem longos passos dos seus diálogos repassados da crença de
que «a palavra manifestaria por si mesma o seu interior», nem tão-pouco
a sua utopia social e polít,ica, que lhe acarretou dificuldades e fracassos.
O que impôs Platão, foi a «ideia de uma existéncia intemporal» e a
sua defesa como um ser« mais real do que qualquer experiência
faotual , que é apenas uma soa:nbra daquela existência intemporal» 285.
Esta «iluminação» veio-lhe da doutrina de Parménides e dos Eleatas
mas foi lida mais como uma reminiscência de um saber anterionrnente
adquirido mas olvidado no tempo do que uma descoberta de verdades
totalmente novas. No espírito de Platão, o Uno imutável, omnipresente
e eternamente estável de PaTlUénides transformou-se num pensamento
muito mais poderoso, no reino das ideias, que salicina a imaginação
criadora, embora deva necessariamente peI'manecer um mistério 286.
Esta concepção, porém, proveio «de uma experiência muito rea1», isto é,
da admiração e da veneração que sentiu Platão perante invenções no
reino dos números e das figuras geométricas, como muitos depois dele
e os pitagórJcos antes dele. Ele conheceu o núcleo essencial destas
descobertas e por elas se deixou possuir até ao fundo do seu espírito,
porque manifestava ao pensamento lógico relações verdadeiras e válidas
para todos os tempos. «Estas relações valem até aos nossos dias e
valerão para o futuro, ~rndependentemente da existência ou não de per-
guntas nossas sobre elas. Uma verdade matemática é intem,p oral e não
nasce apenas no momento em que a descobrimos. Contudo, a sua
descoberta é um acontecimento muito real e pode emocionar-nos como
um grande presente de uma fada» 21f1. A idealização do tempo realizada

284. E. Schrodinger, «Naturwissenschaft wld Religion» in: H.-P. Duerr, o. C.,


p. 172.
285. Id., o. C., p . 173.
286. Id., o. C. , p . 173.
287. Id., o. C. , p . 174.
264 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

por Platão é «uma libertação da tirania do pai Chronos», pois o que


construímos no espírito não domina o espírito, não o cria nem o
destrói 288.
Numa curta reflexão intitulada «o que é o real», Schrodinger
aduz razões para eliminar o duallismo «pensar e ser» ou «espírito e
matéria» 289. A primeira tentativa histórica foi a proposta «totalmente
ingénua do grande Demócrito», que pensou a alma constituída por
átomos finos, lisos, esféricos e de grande mobilidade, teoria que Epicuro
e Lucrécio seguiram e modificaram, com destaque para a explicação da
liberdade do homem e do animal 290 . Decidido por um espiritualismo,
que abre caminho desde Platão até os Vedas 291, Schrodinger defende
oontra todos os materialismos a redução da realidade à representação
e desta à vivência psíquica e, em seguida, critica a defesa da necessidade
da existência de um objecto fora ou ao lado da representação, porque
seria uma duplicação supérflua contra o princípio da «lâmina de Occam»
e atribuiria ao próprio corpo, ao mundo e:merior e às suas relações
UIITl estatuto de realidade física, de que as nossas vivências psíquicas
seriam mero epifenómeno excedentário contra a experiência fUIl!da-
mental e condicionante segun do a qual «nós pensamos todos os aconte-
ciJmentos em pI'ocesso dentro da nossa representação de mundo sem
qualquer suposição de um substrato material como objecto» que supor-
tasse a nossa representação 292.
Sobre a dência e o pensamento ocidental em paralelo com a
mística do Orienrte escreveu W. Pauli, fí,sico austríaco e Prémio Nobel
da Física em 1945 293 • Apesar de rer recebido influências do Oriente,
escreve W. Pauli, o pensamento ocidental distingue-se deste sobretudo
pelo cultivo da ciência, com especial relevo para a Matemática e as
Ciências da Natureza, cuja comunicação a outrém gerou a tradição
e o exame crítico o controlo através de métodos empíricos. A possibi-
lidade do argumento matemático e de a Matemática se aplicar à Natu-
reza surgiu na Antiguidade e foi uma experiência enigmática, super-
-humana, nimbada de religiosidade e, portanto, vivida pelo homem

288. Id., o. C., p. 183.


289. Id., «Was ist wirklich? » in: H.-P. Duerr, o. C. , pp . 184-188.
290. Id., o. C., p . 185.
291. Id., «Die vedantische Grundansicht» in: H.-P. Duerr , o. C., pp. 189-192.
292. Id., «Was ist wirklich?», o. C. , pp. 186-188.
293. 'W. Pauli, «Die Wissenschaft lmd das abendUindlische Denken» in: H.-P .
Duerr, o. C., pp . 193-206.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 265

como divina 294. Torna-se essencial a relação entre conhecimento salví-


fico e conhecimento científico, pois a períodos de investigação crítica
seguem-se frequentemente outros em que se deseja e procura a inte-
gração da ciência numa espiritualridade mais ampla, portadora de ele-
mentos místicos . Se a ciência caracteriza o Ocidente, a atitude mística
é comum ao Ocidente e ao Oriente, apesar de diferentes entre si neste
domínio. Após haver remetido para o livro de R. Otto,. West-ostliche
Mystik (Gotha 1926), onde se compara a mística ocidental de Mestre
Eckhart com a do indiano Shankara, W. Pauli subscreve a opinião de
que a mística procura a unidade suprema das coisas externas e da inte-
rioridade do homem, sacrificando a· multiplicidade das coisas a uma
ilusão. Assim acontece a unidade do homem com a Divindade, apelidada
na China Tao, na 1ndia Samadhi e no Budismo Nirvana e que, para o
pensamento ocidental, acarreta a dissolução da consciência do eu 295 .
Enquanto a mística consequente não investiga razões mas busca modos
de fugir à dor de um mundo ameaçador, maneiras de conhecer este
mundo como aparência e de atingir a última realidade, o Uno ou a
Divindade, no ponto de vista científico e ocidental, «em certo sentido
se pode dizer grego», procuram-se razões por que o Uno se espelha no
múhiplo, pergunta-se o que é que se reflecte no espelho e o que é o
espelho, pretende-se saber por que razão o Uno não permaneceu eterna-
mente só e o que é que origina a chamada ilusão do mundo . Se o misti-
cismo une Ocidente e Oriente, a diferença entre eles é assim concebida
por W. Pauli: «Eu julgo que o destino do Ocidente é articular sempre
e de novo estas duas atitudes fundamentais , a crítioa e racional, que
pretende compreender, por um lado, e a míst<ica e irracional, que pro-
cura a vivência salvadora da unidade, por outro >} 296. Na alma do homem
habitam sempre estas duas tendências unidas dialecticamente, de modo
que, apesar de diferentes, uma seja portadora do gérmen da outra.
O Ocidente deve reconhecer esta complementaridade sem sacrificar a
consciência do eu observadora e crítica nem recusar o caso-limite da
vivênoia mística da unidade 297 .
Nwna retrospectiva histórica, W. Pauli distirngue dois modelos de
síntese da atitude científica e da experiência mística: um InICIOU-Se
com Pitágoras no séc. V a. C., prolongou-se nos seus discípulos, fo,i

294. Id., o. C ., p . 194.


295. Id., o. C., p. 194.
296. Id., o. C., p. 195.
297. Id. , o. C., p. 195.
266 MI GUEL BAPTISTA PEREIRA

desenvolvida por Platão e continuou no Neoplatonisono e no Neopita-


gOl'iso:no da Antiguidade tardia. A Teologia cristã primitiva exprimiu-se
atmvés do seu quadro categorial, o desenvolvimento do pensamento
cristão posterior explorou este modelo, que na Renascença acusou um
novo florescimento. O abandono da Alma do Mundo e o regresso à
gnosiologia de Platão por parte de Galileu, o renascimento pa-rcial
de elementos pitagóricos em Kepler estão na génese da Ciência Moderna
da Natureza, a que hoje chamamos clássica. O segundo modelo de
síntese é a tentativa da Alquimia e da Filosofia Hermética, que desde
o séc. XVII entrou no ocaso 298.
No seu longo processo hist6rico, a primeira síntese da atitude
científica e da experiência mística revestiu-se de formas novas, de que
W. Pauli apresenta um resumo exemplar, «que tem significado também
para o nosso tempo» 299. Embora recentes investigações acentuem a
influência da Matemática e da Astronomia da Babilónia na gestação
da ciência na Grécia, foi na Hélade clássica que o espírito científico e
crítico atingiu o seu primeiro ponto alto. Aqui se formularam aquelas
oposições e paradoxos, que ainda hoje são problemas nos<sos, embora
sob outra forma: aparência e realidade, ser e devir, unidade e multi-
plicidade, expeDiência sensível e pensamento puro, contínuo e número
inteiro, relação numérica racional e número irracional, necessidade e
finalidade, causalidade e acaso 300. A ideia de átomo de Leucipo e de
Demócrito representou um triunfo do pensamento racional, que buscava
soluções para obv,i ar às dificuldades do problema da unidade e da
multiplicidade. Não é correcto, observa W. Pauli, rotular estes pensa-
dores de materialistas em sentido moderno, porque o anímico e o
material não estavam então tão separados , como sucedeu mais tarde.
Por isso, Demócr.ito supôs átomos da alma e do corpo, cujo elemento
de ligação era o fogo. Entre os átomos há um espaço vazio e esta
possibilidade do vácuo é a resposta do atomismo helénico à discussão
multissecular acerca da existência de um espaço sem qualquer matéria 301.
Demócrito nega o acaso e a causalidade final, pois 00 átomos caem
no espaço vazio segundo leis necessárias. «Se compreendi correcta-
ment'e», continua W. Pauli, «deve surgir frequentemente um desvio
no início do movimento rectilíneo dos átomos no sentido do desenca-

298. Id., o. C., p. 195.


299. Id., o. C., p. 195.
300. Id., o. C., p. 196.
301. Id., o. C., p. 196.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORANEO 267

deamento de um movimento circular e só este pode conduzir ao turbi-


lhão cosmogónico» 302 . Esta antiga forma de atomismo precede, como
especulação filosófica , a teoria científica moderna, pois ainda não havia
descoberto o processo de exame empírico dos princípios. Antes de
Demócrito, já se fizera sentir a influência de Pitágoras e discípulos
através de «uma doutrina mística da salvação» intrinsecamente vin-
culada ao pensamento matemático e apoiada na mística babilónica dos
números. Onde está o número, está também a alma, expressão da
Unidade, que é Deus. Relações totalmente numéricas, como aparecem
nas proporções entre os intervalos musicais simpJes, são harmonia,
isto é, o que traz unidade aos opostos. Bnquanto parte da Matemática,
o número pertence também a um mundo eterno, abstracto, super-
-sensível, que não pode ser apreendido através dos sentidos mas só
pelo intelecto e de modo contemplativo. Matemática e contemplação,
ciência e sabedoria são, para os pitagóricos, inseparáveis» 303. W. Pauli
considera a incorporação de «muitos elementos místicos dos pitagó-
ricos na doutrina platónica das ideias uma reacção contra o raciona-
lismo dos atomistas e, nesta perspectiva, pitagóricos e Platão partilham
o mesmo apreço pela contemplação, pela Matemática e pelos objectos
ideais da Geometria. A descoberta de extensões incomensuráveis por
Teeteto, amigo de Platão, impressionaram profundamente o fundador
da Academia, não se tratasse aqui de um problema essencial, que se
não podia resolver através da percepção sensível mas somente pelo
pensamento » 304.
A distinção entre objectos geométricos ideais e corpos percebidos
pelos sentidos está na raiz da concepção platónica do que hoje chama-
mos matéria. Na raiz dos corpos sensíveis há «algo totalmente passivo,
dificilmente captável pelo pensamento e que Platão designa por termos
femininos, como, v. g., receptora e ama das ideias, aparecendo a palavra
xwpa. com o sentido de espaço preenchido por matéria 305. Aristóteles
tentou apreender de modo mais positivo este X feminino e indeter-
minado, a que chamou ü)..'T) e que, ao contrário dos Eleatas, não consi-
derou simples privação mas um ser em potência. Desde Parménides,
o ser tem de captar-se pdo pensamento racio!l1al, por oposição ao
não-ser, que nada significa, não existe nem é pensável. Cícero traduziu

302. Id., o. C., p. 196.


303. Id., o. C., pp. 196-197.
304. Id., o. C., p. 197.
305. Id., o. C., p. 197.
268 MIGUEL BAPTISTA PERE IRA

por «matéria» a palavra aristotélica ü)"Y), que se tornou para nós


designação corrente.
W. Pauli reconhece que muito se escreveu Ja sobre a doutrina das
ideias e a teoria da reminiscência de Platão. Justifica-se, porém, que
sejam retomadas, «,porque exerceram uma permanente influência no
pensamento ocidental, dificilmente alcançada por qualquer outro pro-
blema» 306. É com este modelo platónico que W. Pauli interpreta a conci-
liação moderna entre racionalismo e empirismo: «Também o (homem)
moderno, que procura uma posição intermédia na valorização das
sensações e do pensamento, pode, na esteira de Platão, esolarecer o
processo de compreensão da natureza como uma correspondência, isto
é, como uma coincidência de imagens internas preexistentes na psique
humana com objectos externos e suas relações » m. A diferença, porém,
que separa Platão do homem moderno, continua W. Pauli, está na muta-
hilidade dessas imagens preexistentes, que, sendo relativas ao estádio
de desenvolvimento da consciência, justificam que se aplique a este pro-
cesso evolutivo o nome platónico de «dialéctica» 308 . Por este ângulo
interpretativo, W. Pauli chega em gnosiologia às mesmas conclusões,
que outro Prémio Nobel, K. Lorenz, retirou da sua interpretação das
formas a priori de Kant 309 .
Na prossecução das doutrinas pitagóricas, a mística de Platão é
uma mística da luz, em que a compreensão se reaJiza nos seus dife-
rentes graus, desde a opinião (oó1;a) , o saber geométrico (oLci\Jo~a) até
ao conhecimento supremo das verdades universais e necessanas
(É1'tLO"tlU.lY)). O fascínio da luz foi tão poderoso, que as obscuridades se
esbateram, a ideia de Bem se tornou realidade suprema e a tese socrá-
tica da pos's ibilidade do ensino da virtude e da ignorância como única
causa das más acções se converteu na doutrina platónica da identidade
entre a ideia de Bem e a causa do saber verdadeiro e da ciência 310 .
Nos Elementos . de Eudides, a ciência elevou-se a «um sistema axiomá-
tico da Geometria», que resistiu a toda a crítica e só no séc. XIX
experimentou modificações essenciais 311 . A dimensão mística de Platão

306. Id., o. C., pp. 197-198.


307. Id., o. C., p. 198.
308. Id., o. C., p. 198.
309. K. Lorenz, «Kants Lehre vom Apr iorischen im Licht gegenwartiger Biologie
(1947)>> in Id., Das Wirkungsgefüge .. ., pp. 82-109.
310. W. Pauli, o. C., p. 198.
311. Id., o. C., p . 198.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 269

prosseguiu no Neoplatonismo, a que Plotino deu estrutura sistemática


sem deixar, no entanto, de redu2lÍr a matéria a uma simpJes c~rência
(privatio) de ideia, ao mal enquanto «privatio boni», que não pode ser
apreendido pelo pensamento ' conceptual. Nasceu, deste modo, a mescla
da oposição ética bem/mal com a naturalística ser/não-ser, que nós
podemos traduzir de modo mais adequado por racionaljirracional 312 •
Após Agostinho, permaneceu estreita a relação entre Cristianismo e
Neoplatoni,s mo e com Eckhart, o mestre da época gótica, e a alquimia
prosseguiu na Idade Média a síntese entre ciência e misticismo. Só mais
tarde, no «grand siec1e» (séc. XVII), a vontade de conhecer e de
dominar a Natureza entrou em conflito com a Unidade herdooa sob
o signo do misticismo do Mundo Antigo e Medieval, em lugar da aLma
do mundo apareceu «a lei abstracta e matemática da Natureza» 313 e a
imagem. de mundo cindiu-se em domínio da razão, por um .lado, e em
esfera da religiosidade, por outro, como o demonstra a filosofia de
Descartes e os escritos teológicos de Newton 314. Na Alquimia, que invadiu
a Renascença, ,"igorou o encontro com a matéria e com a ciência da
Natureza em oposição a um espiritualismo desencarnado e um monismo
psicofísico estreitamente vinculado ao concreto e visível, cujo conteúdo
psicológico foi nos nossos dias, valorizado pela psicologia do incons-
ciente de C. G. Jung e cuja doutrina dos opostos apresenta um mate-
rial precioso de investigação. Pemnte esta síntese de ciência e misti-
cismo, pergunta W. Pauli à Ciência da Natureza dos nossos dias se
não poderá realizar, em nível superior, o antigo espaço de unidade
psicofísica da Alquimia, cri~do uma base conceptual una para a con-
cepção cientíHco-natural do físico e do psíquico. A resposta ainda não
surgiu com clareza, apesar dos progressos da Biologia sobretudo no
estudo da relação entre causalidade eficiente e final e das estruturas
ps.icofísicas 315 • . A própria Física Quântica, segundo a formulação de
Niels Bohr, deparra-se com pares complementares de opostos como par-
tícula/onda, lugar/grandeza de movimento, possibilitando ao observador
a escolha do modelo de ordenação da experiência, que jamais pode
prever deterministic~ente o curso da Natureza 316. Parra W. Pauli, o
nosso tempo atingiu de novo o cume da superação da atitude raciona-

312. Id., o. C., pp. 198-199.


313. Id., o. C., pp. 200-201.
314. Id., o. C., p. 201.
315. Id., o. C., p. 203.
316. Id., o. C., p. 203.
270 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

lista e a consequente consciência da sua estreiteza unidimensional.


É a própria racionalidade que hoje nos conduz a uma real:idade, que
se não pode directamente percepcionar e cuja apreensão cai na esfera
dos símbolos matemáticos ou outros, conforme se trata do átomo ou
do inconsciente. Os efeitos visíveis desta «realidade abstracta» são tão
concretos como explosões atómicas e, do ponto de vista moral, podem
ser radicalmente maus. Compreende-se a fuga do simplesmente racional
para uma mística cristã ou budista mas para quem o racionalismo
estreito perdeu a força convincente e a atracção da atitude mística com
o esvaziamento do ' mundo não é suficiente, resta apenas expor-se às
oposições agudizadas e aos conflitos da razão e da sua superação, pois
deste modo pode o investigador seguir mais ou menos conscientemente
um caminho interior de salvação e lentamente podem nascer, como
compensação, «imagens, fantasias ou ideias », que revelem possível uma
aproximação dos pólos dos pares de opostos 317, que, na leitUJI'a de
W. Pauli são uma herança clássica. À divisão rigorosa do espírito
humano em departamentos separados operada no séc. XVII opõe
W. Pauli o «mito expresso ou inexpresso da nossa própria contempo-
raneidade», isto é, o objectivo de uma superação dos opostos, traçado
a partir do paradigma da síntese clássica entre ciência e experiência
mística 318 .
Pascual E . Jordan, físico alemão e especialista em Mecânica Quân-
tica, Teoria da Relatividade e Biofísica, interroga-se no seu trabalho
intitulado O significado da visão do mundo da Física Moderna sobre
o valor da crença nas respostas definitivas da ciência no nosso quoti-
diano, quando comparada com os reais resultados da Ciênoia da Natu-
reza 319 . A resposta obriga P . Jordan a uma retrospectiva do percurso
de mais de dois milénios de pensamento científiico e a estabelecer um
confronto crítico entre Demócrito, Descartes, LalIDettrie e a Física
Atómica contemporânea. O que Demócrito há mais de dois mil anos
concebeu quanto à constituição dos seres e que «tão espantosamente
se desenvolveu depois na investigação ocidental da Natureza», foi a
ideia de que tudo no mundo não passa de uma monstruosa quantidade
de corpúsculos indivisív.eis, invariáveis, indestrutíveis e não gerados, a
que chamou átomos. Movendo-se no espaço vazio, os átomos encon-

317. Id., o. C., p. 204.


318. Id., o. C. , p . 205.
319. P. Jordan, «Die weltanschauliche Bedeutung der modernen Physik» in:
H.-P. Duerr, o. C., pp. 207-227.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 271

tram-se segundo leis necessárias e este movimento regulado, diríamos


hoje, segundo as leis da Mecânica, é simultaIneamente a verdade e a
realidade objectiva 320. No tempo de Demócrito, em que os fenómenos
naturais ooultavam deuses, semi-deuses, daimones, ninfas e seres
míticos, esta visão atomística foi uma surpreendente secularização ou
substituição de um mundo sacralizado por uma natureza ~ominada
por leis e tornou-se paradigmática para a investigação física até ao
séc. XX. A necessidade e a legalidade desta visão da natureza foram
desenvolvidas e explicadas sob os nomes de causalidade e de determi-
nismo pela ciência do Ocidente. Embora filosoNcamente se exig,i sse a
distinção entre causalidade e determinismo, cabendo à causalidade «um
conteúdo mais rico e profundo», os físicos de hoje, seguindo o exemplo
de D. Rume, usam os dois conceitos como sinónimos e P. Jordan neste
estudo da influência de Demóorito até ao séc. XX falará apenas de
determinismo 321. É pertinente neste contexto a afirmação de Demócrito,
citada por P. Jordan: «Nada há senão os átomos e o espaço vazio. Tudo
o resto é opinião». Não passa, portanto, de especulação e de fantasia
tudo o que o homem aHrmar do mundo para além da sua constituição
atómica e das suas relações no espaço vazio. Se esta imagem de mundo
de Demócrito for de facto real, então a realidade total é rigorosamente
predeterminada no seu percurso como um sistema planetário. «Isto
significa que deve haver uma predeterminação cronometrada, um deter-
minismo mecanicista totalmente abrangente, que se estende desde o
grande ao mais pequeno e até à singularidade mais fina de todos os
processos naturais» 322. Descartes submeteu-se a este modelo e reduziu
todos os seres vivos a máquinas, incluindo o corpo humano, apesar
da sua complexidade, que era superior à de um sistema planetário.
Ao libertar o espírito humano do mecanicismo corpóreo, Descartes
tentou harmonizar dois mundos de pensamento: o mundo de uma
Ciência da Natureza profundamente influenciada pela filosofia de Demó-
crito e o mundo das doutrinas teológicas e representações religiosas
com suas proposições sobre a essência do homem 323. As consequências
radicais da doutrina de Demóorito aparecem na obra de Lamettrie
L'Homme Machine, que universaliza o modelo da máquina e determina
as reacções humanas com o mesmo rigor do cálculo dos movimentos

320. Id., o. C., p . 208.


321. Id., o. C., pp. 209-210.
322. Id., o. C., p . 211.
323. Id., o. C., p. 212.
272 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

planetários, fundando uma filosofia materialista da natureza. Para o


determinismo atomístico e suas leis necessárias, é indiferente a natu-
reza morta ou viva do átomo, pois apenas interessa a regularidade
sem fissuras e necessária do seu movimento, segundo o paradigma da
máquina, onde o problema da liberdade não tem sentido 324. Sem influên-
cia no seu tempo, Lamettrie permaneceu um pensador solitário mas
na segunda metade do séc. XIX, a doutrina da evolução biológica
aproveitou o esquema atomístico, segundo o qual de formas iniciais
ínfimas, simples e invisíveis proviriam organismos cada vez mais ricos
e complexos até ao mmido da vida de hoje. As forças condutoras da
evolução pareciam coincidir com os fundamentos, que, desde Demó-
crito a Lamettrie foram propostos na Filosofia da Natureza 325. No século
passado, a velha concepção de Demócrito foi «extraordinariamente
fecunda para a Física e a Químioa» e unanimemente seguida pelos
cientistas como evidente. Porém, na viragem do século alguns repre-
sentantes célebres da Física e da Química puseram em dúvida a exis-
tência do átomo e negaram que alguma vez se tivessem aduzido provas
concludentes nesta matéria. Esta crítica convenceu Físicos e Químicos
de que reaLmente a ideia plurissecular do átomo não passava de simples
hipótese. Na verdade, os factos então conhecidos não provavam a exis-
tência do átomo e, por isso, o maior trabalho do séc. XX na História
da Física consistiu na prova definitiva da hipótese de Demóorito com os
trabalhos de A. Einstein e de muitos outros físicos 32~.
Hoje o Momo é quase tão palpável como os fenómenos da Macro-
física: conhecemos-lhe o peso, medimos-lhe o tamanho e podemos afir-
mar que na extensão de um centímetro há cerca de 100 milhões de
átomos. Contudo, o átomo de hoje não cOI'responde já à ideia simples
de constituinte mÍlllimo da matéria, que DemócI'ito imaginara: hoje
conhecemos o núcleo do átomo; sabemos que no núcleo se contém mais
de 999 por mil da massa e no véu electrónico menos de um por mil.
Porém, quando mentalmente unimos as duas partículas elementares do
núcleo do átomo, que são o protão e o neutrão, ao electrão, que é o
constituinte da capa electrónica, temos nesta reunião de elementos
primários, que formam a matéria, «algo semelhante» ao que Demócrito

324. Id., o. C., pp. 213-214.


325. Id., o. C., pp. 214-215.
326. Id., o. C., pp. 216-217.
PRESENÇA D A FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÁNEO 273

imaginara sob o nome de átomo, pois o protão, o neutrão e o electrão


são, de facto, em certo sentido, partículas não-compostas 3T7.
A Microfísica é uma nova região da Física, que a ciência do séc. XX
descobriu, mas sujeita a leis, que são essencialmente diferentes das
que tradicionalmente vigoravam na Macrofísica. Antes de 1900, todos
os factos físicos e químicos estudados confirmavam o determinismo
sem laounas dos processos da Macrofísica mas os fenómenos da Micro-
física descobertos após 1900 exig1ram um tipo diferente de leis, que
se chamaram estatísticas por oposição às leis determinísticas da Macro-
física 328. Assim, a irradiação do radium é a divisão repentina do núcleo
do átomo em dois novos núcleos e, perante um miligrama de radium,
com um número enorme de indivíduos ou átomos, o físico conhece a
intensidade da irradiação sem necessidade de nova mensuração, porque
essa intensidade está fixada segundo leis e «não pode alterar-se de hoje
pam amanhã». O físico pode, neste caso, prever o tempo que dura a
desintegração de metade ou de dez por cento do milímetro de radium
com a mesma segurança com que o astrónomo prediz os echpses da lua
ou do sol 329. O problema, porém, muda radicalmente de figura, se pre-
tendemos determinar o tempo e o lugar da desintegração de cada átomo
ou indivíduo do colectivo, que é o milímetro de radium. Não só o físico
de 1970 mas também o físico de gerações futuras, escreve Jordam., jamais
poderão prever o comportamento individual futuro de um átomo sin-
gular e, neste sentido, continuarão inultrapassáveis os limites das propo-
sições estatísticas, com que se traduzem as leis da natureza. A convicção
de que neste caso se rasgou uma brecha no determinismo, exprimiu-se
nesta frase de W. Heisenberg: «A Física Quântica trouxe a refutação
definitiva do princípio de causalidade» 330. Trata-se, portanto, de um
conhecimento definitivo, que nos introduz nos segredos da Natureza,
e de um acontecimento, cuja cáusa jamais se poderá prever, pois está
tora da legalidade estatística da Natureza. Por isso, a expres,s ão «acon-
tecimento sem causa» significa apenas que todo o acontecimento da
Natureza na sua singularidade e individualidade é um salto - natura
facit saltus - e acontece sem determinismo causal 331. Os processos mais
finos da Física são acontecimentos-salto ou saltos quânticos na termi-

327. Id., o. C., p. 218.


328. Id., o. C., p . 219.
329. Id., o. C., pp. 219-220.
330. Id., o. C., p. 221.
331. Id., o. C., pp. 221-222.

IS
274 MIGUEL BAPTISTA PE REIRA

nologia de Max Planck e nestes saltos surpreendentes está a «forma


fundamental de todo o acontecer em geral». Os antecedentes permitem
prever a frequência de saltos quânticos fora da influência técnica dos
reactores atómicos mas nunca a determinação espaço-temporal da desin-
tegração de elementos singularizados. Também nos reactores atómicos
os processos, que aí decorrem, são saltos quânticos da transformação
de elementos como na desintegração radioaotiva e, apesar de provo-
cados, não passam de casos simplesmente prováveis quanto à determi-
nação da sua singularização 332. A Física de hoje revela dentro dos pro-
cessos que ainda nada têm a ver com a vida, uma espontaneidade
vooificável sob o nome de acontecimento objectivamente indetermi-
nado. É certo que o átomo se desintegrará num momento qualquer
do tempo mas a previsão des,t e momento não cabe na capacidade da
ciência de hoje. Há espontaneidade na matéria, isto é, há aconteci-
mentos, que não podem ser calculados de antemão nem permitem
qualquer aproximação de previsibilidade à análise científica, o que
invalida, mesmo quanto à matéria, o determinismo olássico de Demó-
crito, Descartes e Lamettrie 333 .
No começo do séc. XX, quando, além da realidade do átomo, se
provou a existência de saltos quânticos, registou-se na Biologia a redes-
coberta das regras de hereditariedade de Mendel, por largo tempo
esquecidas. Do rápido desenvolvimento da Biologia resultou a Genética
e a investigação das mutações biológicas e com estas um aprofunda-
mento do problema da espontaneidade, agora localizada na região da
vida orgânica, cujos resultados se podem sintetizar nes't es termos: Da
espontaneidade existente nas relações da Microfísica é de concluir «uma
espontaneidade paralela e até superior para os organismos vivos » 334.
A Cibernética tem estudado relações de comando, estabelecidas a partir
de certos dispositivos, entre uma acção mínima em determinado lugar
e um efeito grande e diferente, que aquela desencadeia. Desde há
muito se sabe que operações de comando, neste sentido, acontecem
nos organismos vivos de modo super-abundante, mas a Cibernética
criou conceitos e desenvolveu métodos, que revelam um estreito para-
lelismo entre uma direcção tecnicamente construída e o sistema mais
complicado dos organismos vivos. A influência recíproca entre a inves-
tigação técnica e a biológica pode, neste campo, conduzir a novas

332. Id., o. C., p . 222.


333. Id., o. C., p. 223.
334. Id., o. C. , p . 224.
PRESENÇA D A FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 275

descobertas, dada a vizinhança entre a camada microfísica do ser mate-


rial, onde a espontaneidade é um facto naturé\Jl, e a vida, cujo nível
de espontaneidade sobreleva o da matéria. Por isso o determinismo no
estilo de Lamettrie, isto é, a convicção de que há apenas acontecimentos
naturais, herméticos, de tipo causal, que, na sua solidão e exclusividade,
não consentem qualquer intervenção na sua raiz, é falso no ponto de
vista científico 335 . O mistério rodeia a investigação da Microfísica, pois
«cada átomo singular de radium é, para nós, um portador de mistépio»,
que até ao momento mantém o segredo da sua desintegração.
Ao referir-se à «espontaneidade» sob o nome de «relações de inde-
terminação»,W. Heisenberg acentua que doravante se têm de exprimir
em fórmulas matemáticas não os «acontecimentos objectivos» mas «as
probabilidades de apa:recimento de certos acontecimentos», não «o acon-
tecimento fáctico» mas a sua possibilidade - «a 'potentia', se quisermos
usar este conceito da filosofia de Aristóte'les» 336 . Se avançarmos defini-
tivamente da -Física Clássica para a Física Quântica e a chamada Ciência
exacta da Natureza incluir nos seus fundamentos «o conceito de proba-
bilidade ou possibilidade, de 'potentia', então muitos problemas herda-
dos da Filosofia Antiga receberão nova luz e, inversamente, a com-
preensão da Teoria Quântica aprofundar-se-á em virtude do estudo de
ques tões já antigamente formuladas» 337. A Teoria Quântica, se nasceu
unida à Teoria do Atomo, mantém, contudo, «estreitas relações com
aqueles filósofos, que situaram a matéria no centro do seu sistema».
Por isso, o seu desenvolvimento nos últimos anos (Heisenberg escreve
em 1958) «realiza muito claramente - se quisermos em princípio esta-
belecer comparações com a Filosofia Antiga - a viragem de Demócrito
para Platão» 338. Na verdade, a descoberta de Max Planck já indica que
«a estrutura atómica da matéria se pode conceber como expressão de
formas matemáticas nas leis da natureza» 339. De facto, a filosofia grega
da Natureza, desde Tales até Demócrito formulou o problema das
partes mínimas constituintes da matéria e substituiu a questão parme-
nídea do ser e do não-ser pela polaridade entre o p~eno e o vácuo,

335. Id., o. C., pp. 225-227.


336. W. Heisenberg, «Die Plancksche Entdeckung und die philosophische Grund-
fragen der Atornlehre» in: Id., Schritte über Grenzen, Gesammelte Reden und
Aufsiitze 6 (München~Zürich 1984), p . 29.
337. Id., o.'c., p. 29.
338. Id., o. C., p. 31.
339. Id ., o. C., p. 31.
276 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

entre o átomo e o espaço vazio. Com átomos em número infinito, inva-


riáveis, indivisíveis, em movimento e diversamente situados no espaço
vazio, construiu Demócrito os diferentes acontecimentos do mundo,
como a tragédia e a comédia, na sua diversidade, puderam ser escritas
com as mesmas let.ras 340. Platão herdou elementos essenciais da atomÍs-
tica precedente e fez corresponder aos quatro elementos terra, água,
ar e fogo, quatro espécies de partículas elementares, que são «segundo
Platão construções matemáticas fundamentais de superior simetria»:
cubos (terra), icosaedros (água), octaedros (ar) e tetraedros (fogo) 341.
Estas partículas de estmrtura geométrica não são, porém, indivisíveis
mas podem reduzir-se a triângulos e construir-se a partir deles. Os
triângulos, porém, não são matéria mas apenas formas mat.emáticas
e, por isso, a partícula elementar não é o puramente dado, o invariável
e o indivisível mas necessita de uma explicação matemática. «Por isso, a
última raiz dos fenómenos não é a matéria mas a lei matemática,
a simetria, a forma matemática» 342.
Ao referir-se ao material de experiências realizadas nos últimos
vinte anos (1958) sobre as partículas elementar,es, M. Heisenberg afirma
que, se soubermos experimentalmente que partículas se podem trans-
formar Ir adioactivamente em que partículas, podemos tiTar conclusões
quanto a propriedades simétricas das partículas e das leis, que as
regulam 343. À semelhança do que pensara Platão, tudo se apresenta
como se «a este aparentemente . tão complicado mundo de partículas
elementares e de campos de força estivesse subjacente uma estrutura
matemática simples e transparente. Todas aquelas relações, que nós
oonhecemos como leis da natureza nos diferentes domínios da Física,
poder-se-iam deixar deduzir desta estrutura UlIla» 344. Como em Platão,
a teoria definitiva da matéria deverá caracterizar-se por uma série de
importantes exigências de simetria, que se não podem traduzir por
figuras e imagens de tipo platónico mas por equações matemáticas.
Num artigo sobre as concepções filosóficas de W. Pauli 345, W. Hei-
senberg apresenta como primeiro problema nuclear da reflexão filo-

34(). Id., o. C., p . 22.


341. Id., o. C., p. 22.
342. Id., o. C., p. 22.
343. Id., o. C., p. 37.
344. Id., o. C., p. 39.
345. W. Heisenberg, «Wolfgang Paulis philosophische Auffassungen» in: Id.,
Schritte über Grenzen, pp. 43-51.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÁNEO 277

sófica de Pauli o da essência do conhecimento da natureza, «que em


última análise encontra a sua expressão racional na apresentação de
leis da natureza matematicamente formuladas», com recusa de toda
a interpretação empirista ou de um conceptualismo isolado e a proposta
de uma vinculação entre percepção sensível e conceito. É que a alma
e a percepção sensível estão submetidas a uma ordem do mundo
obJectiva e independente do nosso arbítrio 346 . A ponte entre a matéria
desordenada da experiência e as ideias é fOi'mada, segundo Pauli, por
certos arquétipos, que preexistem na alma como fo'r mas do seu incons-
ciente ou imagens de forte conteúdo emocional, que, ao coincidirem
com as relações dos objectos exteriores, ociginam novos conhecimentos.
Esta concepção de origem platónica, que penetrou no pensamento
cristão através do Neoplatonismo de Platino e Prodo, é reconhecida
por Pauli nos modelos e arquétipos de Copérnico, cujo simbolismo
trinitário, ames da correspondência ao material da experiência, con-
venceu Kepler. Nesta perspectiva, a ciência moderna da natureza é um
desenvolvimento cristão da «Metafísica da Luz» de Platão, «em que o
fundamento uno do espírito e da matéria se busca nos modelos origi-
nais e a compreensão nos seus diferentes graus e espécies até ao conhe-
cimento da verdade da salvação encontrou o seu lugar» 347. O desen-
volvimento do pensamento de Platão no Neoplatonismo e no Cristia-
nismo conduziu a uma depreciação da matéria entendida como carência
de ideias e mal, a que se opôs a filosofia alquimista com a concepção
de um espírito, que habita na matéria e espera a salvação, e com a
tarefa de uma inserção no curso da natureza, que pernüte designar
com as mesmas palavras e identificar misticamente os processos quí-
micos reais ou aparentes da retorta com os processos psíquicos. Dentro
da cOJ1respondência mística entre macrocosmos e microcosmos, a liber-
tação da matéria pela acção transformadora do homem identifica-se
com a mudança salvadora do homem pela acção eficaz de Deus e esta
unidade de dois pólos é simbolizada pela Tetraktys pitagórica, enquanto
a divisão é relegada para a camada obscura do mundo na sua separação
material e ,d emoníaca 348 . Quer esta unidade da Alquimia quer a do
pensamento platónico-cristão cindiram-se mais tarde numa Química
científica e numa mística religiosa separada po,r processos materiais,
por um lado, e numa imagem científica de mundo e numa concepção

346. Id., o. C., pp. 4445.


347. Id., o. C. , p. 46.
348. Id., o. C., pp. 46-47.
278 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

religiosa independentes, por outro. Estas linhas, que o desenvolvimento


do espírito ocidental separou, são para Pauli relações complementares,
cuja compreensão hoje a Mecânica Quântica sobremaneira facilita 349.
No pensamento científico, que de modo especial caracteriza o Oci-
dente, a alma empreende o caminho do exterior, pergunta pela razão
da multiplicidade e da pluralidade de imagens. Na mística oriental e
ocidental, pelo contrário, procura-se viver a unidade das coisas, redu-
zindo a multiplicidade a uma ilusão. A ciência atingiu no séc. XIX a
representação-limite de um mundo material objectivo independente de
toda a observação e, noutro extremo, a vivência mística converteu-se
num estado-limite da alma unida à divindade mas totalmente separada
do mundo dos objectos 350 . Esta ruptura no pensamento ocidental é
interpretada por Pauli como uma complementaridade, pois «na alma
do homem habitarão sempre as duas atitudes e uma trará já consigo
a semente do seu oposto, que é a outra » 351. Quando, nos primeiros
meses de 1927, as reflexões sobre o significado da Mecânica Quântica
assumiram forma racional e Niels Bohr lançou o conceito de comple-
mentaridade, foi Pauli um dos primeiros físicos, que se decidiu sem
reservas por esta nova possibilidade de explicação. É que as suas con-
cepções filosóficas iam ao encontro dos traços característicos da com-
plementaridade de Niels Bohr; ao intervir na natureza em cada experi-
mentação, o home.m escolhe qual o lado da natureza que pretende
tornar visível e, nesta escolha, sacrifica simultaneamente, outros aspec-
tos da mesma natureza, que permanecem ocultos, isto é, «escolha e
vítima» pertencem-se mutuamente 352. O centro do pensamento de Pauli
era percorrido pelo desejo de uma compreensão una do mundo, que
recebesse em si a tensão dos opostos e a Teoria Quântica oferecia-lhe
novas perspectivas de pensar a unidade até então ignoradas. Fascinara-o
a unidade de linguagem em que o alquimista se exprimia sobre pro-
cessos materiais e anímicos e sentira a necessidade de uma nova lingua-
gem una para o domínio abstracto da Física Atómica e da Pskologia
Moderna: «Hoje temos na Física uma realidade invisível (dos objectos
atómicos) , em que o observador intervém com certa liberdade (onde
é posto perante a alternativa da 'escolha e da vítima'): temos na Psi-
cologia do Inconsciente processos, que nem sempre se podem atribuir

349. Id., o. C., p. 47 .


350. Id., o. C., pp. 47-48.
351. Id., o. C., p. 48.
352. Id., o. C., p. 48.
PRESENÇA D A FILOSOFIA A NTIGA NO PENSAMENT O CONTEMPORÂNE O 279

com evidência a determinado sujeito » mas a unidade do ser total terá


êxito, quando a mesma linguagem se referir «a uma realidade invisível
mais profunda», seguindo um modo de expressão, que no sentido da
correspondência (Bohr), transcende a causalidade da Física Clássica 353 .
Daí o culto de Pauli pela simetria relacionada com a Tetraktys pita-
górica, a aversão pela divisão (<< um atributo muito antigo do diabo »),
o distanciamento perante sistemas, que prolongaram a ruptura carte-
siana espírito-co:rpo, a crítica ao apriori de Kant por ter fixado defini-
tivamente as formas da intuição e os conceitos do entendimento e a
recepção dos paradigmas originários e dos arquétipos de C. Jung, que
«não são necessariamente inatos » mas podem mudar-se lentamente e
adaptar-se a qualquer situação gnosiológica 354. Estes arquétipos de Pauli
diferem, portanto, dos paradigmas platónicos imutáveis e independentes
da alma mas são «testemunhos de uma ordem universal do cosmos,
que abrange de igual modo matéria e espírito ». Esta ordem de «con-
juntos mais universais » não se compagina com o esquema de estru-
turas causais da Física Clássica nem tão-pouco com o «acaso» da teoria
evolucionista de Darwin mas é uma «superação dos opostos », uma
síntese da racionalidade e do misticismo 355 .
A Física Nuclear dos anos 30 descobriu no núcleo do átomo pro-
tões e neutrões, que formavam com os electrões «os últimos elementos
constituintes de toda a matéria » 356. Experiências posteriores mostraram
que há outras espécies de partículas, que se distinguem das primeiras
já mencionadas pela sua curta existência, pois desintegram-se muito
mais rapidamente, mudando-se noutras: são os mesões e os hiperões,
além de cerca de trinta espécies diferentes de partículas, de curta
duração , hoje já conhecidas (1958) . Estas partículas elementares são
de facto as unidades mínimas da matéria, que, embora se pareçam
dividir, su:rpreendem-nos com o facto de as partes restantes não serem
mais pequenas nem mais leves do que as unidades iniciais 357. É que a
energia resultante do choque de partículas, que é o único processo
de divisão perante a impossibilidade da máquina, converte-se em massa
e gera novas partículas, o que reafirma a tese da existência de unidades
mínimas na estrutura da matéria. Todas as partículas de Heraclito,

353. Id., o. C. , p. 49.


354. Id., o. C., pp . 49-50.
355. Id., o. C. , pp. 50-51.
356. Id., «Die Plancksche Entdeckung .. . ", p . 33.
357. Id., o. C., p. 34.
280 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

para quem «O fogo é a matéria primária por que todas as coisas são
constituídas ... , é , ao mesmo tempo, a força impulsionadora, que
mantém o mundo em movimento e podemos, talvez, para chegarmos
à nossa concepção de hoje, identificar fogo e energia» 358. As partículas
da Física Moderna podem transformar-se umas nas outras tão rigoro-
samente como as da filosofia platónica e são «as únicas tormas pos-
síveis da matéria». A energia torna-se matéria, ao transformar-se e ao
manifestar-se na forma de partícula: «Ressoa aqui a relação entre
forma e matéria, que na filosofia de Aristóteles desempenha um papel
tão central» 359.
Nos diálogos travados no Max-Planck-Institut de Munique entre
1961-1965 360 , W. Heisenberg responde a C. F. von Weizsacker que o prin-
cípio platónico «no começo era a simetria» é mui.to mais correcto do
que a tese de Demócrito: «no começo era a paJ1tícula» 361. As partículas
elementares encarmam as simetrias, são uma sequência das mesmas
e a sua apresentação mais simples. Ao falar assim, continua W. Heisen-
berg, «estamos naturalmente já no centro da filosofia platónica. As
partículas elementares podem comparar-se aos corpos singulares do
Timeu de Platão por serem os paradigmas, as ideias da mátéria» 362.
Às considerações de C. F. von Weizsacker sobre a insuficiência da alter-
nativa «sim ou não», «ser ou não-ser», «bem ou mal» para a Teoria
Quântica, que exige respostas complementares, prováveis, com interfe-
rência do «sim» e do «não », responde W. Heisenberg que, de facto,
a divisão, de que falou Pauli, não tem o sentido que lhe deu o Aristo-
telismo, mas o de complementaridade, pois a divisão aristotélica era,
com razão, para Pauli «um atributo do diabo», ao conduzir ao caos
através de uma repetição contínua 363 . A terceira possibilidade exigida
pela complementaridade da Teoria Quântica abre, para W. Heisenberg,
o caminho do mundo real, pois «na Mística Antiga o número 'três' está
vinculado ao princípio divino» e da tríade hegeliana 'tese-antítese-sín-
tese' anuncia-se «que da união entre tese e antítese nasce algo qualita-

358. Id., o. C., 34.


359. Id., o. C., p . 35.
360. W. Heisenberg, «Elementarteilchen W1d Platonische Philosophie (1961-1965)>>
in: Id., Der Teil und das Ganze. Gesprache im Umkreis der Atomphysik 4(München
1970), pp. 321-333.
361. Id., o. C., p. 325.
362. Id., o. C., p. 326.
363. Id., O. C' p. 331.
I
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 281

tivamente novo» 364. As alternativas, que, segundo C. F. von Weizsacker,


constituem as partículas elementares e o mundo, como os triângulos
formavam os corpos regulares de Platão, não são matéria, como não
eraon os triângulos platónicos. Partindo, porém, da lógica da Teoria
Quântica, a alternativa é uma forma fundamental donde resultam,
por repetição, formas mais complexas . O caminho deve conduzir da
alternativa para o grupo simétrico ou propriedade; os representantes
de uma ou mais propriedades são as formas matemáticas ou as ideias
das partículas elementares. A alternativa da Lógica Quântica é «segu-
ramente uma estrutura do nosso pesamento muito mais radical que o
triângulo» 365.
Estes modos de presença do pensamento grego na Física Contem-
porânea foram reformulados por W. Heisenberg numa conferência pro-
nunciada em Atenas, frente à Acrópole, em 1964, e subordinada ao tema
«A Lei da Natureza e a Estrutura da Matéria»: «Aqui, nesta parte do
mundo, na costa do Mar Egeu, reflectiraon os filósofos Leucipo e Demó-
crito sobre a estrutura da matéria e, acolá em baixo, na praça, sobire
a qual desce agora o crepúsculo, discutiu Sócrates sobre as dificul-
dades fundamentais dos nossos meios de expressão; além, ensinou
Platão que a ideia, a figura é a estru,t ura fundamental autêntica sob
os fenómenos. As perguntas, que, pela primeira vez, há dois milénios e
meio, se formularam nesta terra, ocuparam, desde então, quase ininter-
ruptamente, o pensamento humano, foram no decurso da hist6ria de
novo explicadas, sempre que se alterou através dos nossos desenvol-
vimentos a luz em que surgiram os antigos caminhos do pensaonento» 366.
Apesar de o desenvolvimento da Física Atómica ter mudado radical-
mente a nossa imagem de natureza e da estrutura da matéria, não é
exagero afirmar que alguns dos problemas antigos encontram solução
clara e definitiva nos nossos dias. O começo da Filosofia Grega é domi-
nado pelo dilema do uno e do múltiplo, pois, se há uma pluralidade
variável de fenámenos sensíveis, é inegável a crença racional na sua
redução a um princípio uno 367• • A compreensão dos fenómenos inicia-se
na percepção de semelhanças e de regula'r idades, que são consequências
especiais de algo comum aos diversos fenómenos e, por isso, consi-

364. Id., o. C., p. 331.


365. Id., o. C., p. 332.
366. Id., «Das Naturgesetz und die Struktur der Materie» in: Id., Schritte
über Grenzen, pp. 187-206.
367. Id., o. C. , p. 189.
282 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

derado princípio. É traço característico do pensamento da Grécia Antiga


que os primeiros filósofos tenham investigado a «causa material» de
todas as coisas. Tornou-se problemático, porém, se esta causa se deve
identif icar com algo de concreto como «água» ou «fogo » ou se há que
pressupor uma substância originária, cujas formas passageiras inte-
gram o reino da matéria rea1 368 • A redução da substância fundamental
à simplicidade principal é a sua multiplkação em partes mínimas indi-
visíveis, eternas e indestrutíveis, em que o ser infinitamente se repete.
O espaço vazio possibilita a situação e o movimento dos átomos, cuja
propriedade positiva é apenas a existência 369 . Se o átomo situado e em
movimento tem uma extensão finita , não se vê por que não possa ser
dividido e, neste caso, não perca a sua simplicidade. Parece que a
h ipótese atómica na sua forma primeira não teve subtilidade sufi-
ciente para explicar o que os filósofos desejaJ:1iam realmente cQim-
preender: o princípio simples, que subjaz aos fenómenos e à estrutura
da matéria 370. Por outro lado, as qualidades, como cheiro, cor ou gosto
são reduzidas à situação e ao movimento dos átomos mas permanece
o problema quanto ao que dete'l111ina aquelas qualidades empíricas a
partir da situação e do movimento 371. A hipótese atómica procura res-
ponder ao problema do uno e do múltiplo, formulando o princípio
fundamental, a causa material dos fenómenos. Porém, «só uma lei
universal, que determina a sua (dos átomos) situação e velocidade,
poderia desempenhar de facto o papd de princípio fundador» 372. Presa
das formas estatísticas, das simetrias geométricas, da legalidade da
natureza, a Filosofia Grega não incidiu sobre os processos no espaço
e no tempo e, por isso, permaneceu-lhe estranha a ideia moderna «de
que situação e velocidade do átomo num tempo dado se poderiam arti-
cular claramente com a sua situação e velocidade num tempo posteriorr
através de uma lei matemática» 373.
Ao criticar Leucipo e Demócrito, Platão aceitou a ideia de partes
mínimas da matéria mas rejeitou que o átomo fosse o fundamento de
todo o ser e o único objecto material existente. Para Platão, os átomos
não eram propriamente matéria mas formas geométricas, corpos regu-

368. Id ., o. Co, p . 189.


369 o I do, 0o Co , p. 191.
370o Ido, o. Co, po 191.
37 1. Ido, o. Co , p. 192.
372 o Id o, 0o C., p. 192.
373 o Ido, o. Co, p o 192.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTE MPORÁNEO 283

lares dos matemáticos, ideias, que subjazem à estrutura da matéria


e caracterizam o comportamento físico dos elementos. Compostos de
triângulos comutáveis entre si, os átomos não podem ser infinitamente
.
divisíveis e a sua forma matemática regula-os enquanto partes mínimas
da matéria 374 . A frase «Deus é um matemático», escrita numa fase pos-
terior da filosofia, «tem a sua raiz neste passo da filosofia platónica» 375.
Apesar de separada do pensamento antigo pelo rigor do método e pelo
conceito de lei, a ciência moderna e contemporânea responde a velhos
problemas , que permaneceram insolúveis através dos séculos. Durante
o séc. XIX, o desenvolvimento da Qufmica e da doutrma do calor
seguiu precisamente o mesmo modelo de átomo de Leucipo e de Demó-
crito, pois as partículas, como os electrões, os núcleos dos átomos, os
protões e os neutrões pareciam unidades últimas e, portanto, «átomos
no sentido da filosofia materialista», que, pelo menos indirectamente,
se poderiam ver e existiam realmente como as pedras ou as flores 376.
As mesmas dificuldades, que surgiram nas discussões antigas sobre as
partes mínimas da matéria, ressurgiram no desenvolvimento da Física
do nosso século. Assim, o primeiro problema foi o da divisibilidade
infinita da matéria. Se os átomos químicos são compostos de núcleos
e de electrões e os núcleos se dividem, por sua vez, em protões e
neutrões, não será possível prosseguir a divisão destes últimos? Se for
possível, então as partículas elementares não são átOiIllos em sentido
grego. Se não for possível, devem aduzir-se as razões desta impossibi-
lidade. Se até agora foi possível desintegrar mesmo as partículas consi-
deradas indivisíveis, isto poderia significar que jamais atingiríamos o
fim da divisibilidade ou que não há na matéria partículas mínimas 377.
O segundo problema diz respeito ao modo de existência do átomo,
isto é, se ele é um objecto físico como a pedra ou a flor. A isto res-
ponde a Física Quântica que a situação do átomo é totalmente dife-
rente da dos objectos da macrofísica e, por isso, não lhe podemos
aplicar, sem equívocos, os conceitos usuais de situação, velooidade,
cor, grandeza, etc., da linguagem normal mas necessitamos da precisão
da linguagem matemática 378 . O primeiro problema da divisibilidade
infinita da matéria encontrou solução devido aos progressos da Física

374. Id., o. C., p . 191.


375. Id., o. C., p. 194.
376. Id., o. C., p. 197.
377. Id., o. C., p. 198.
378. Id., o. C., pp . 198-199.
284 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

das Partículas Elementares, quando do choque de duas partículas


elementares resultaram várias partículas novas da mesma espeCle, con-
ciliando-se a divisibilidade indefinida com a ideia de unidades mínimas 379.
Quanto ao segundo ,problema, a Física do nosso tempo confirmou a
perspectiva de Platão contra ' Demócrito, pois as partícü las mínimas
da matéria não são, de facto, objectos físicos no sentido usual do
termo mas formas, estruturas ou, na linguagem platónica, ideias sobre
que apenas a linguagem matemática pode falar sem equívocos. A espe-
rança comum de Demóorito e de Platão foi aproximar-se do «uno» nas
unidades mínimas da matéria, acercar-se do princípio uno, que regula
o curso do mundo. Platão estava convencido de que este princípio só
se poderia compreender e exprimir em f6rmulas matemáticas, em con-
sonância com o problema central da Física Teórica de hoje, que busca
a for.mulação matemática da lei, que está na base do comportamento
das partículas elementares, com a intenção de construir uma doutrina
una da. matéria 380. Esta situação recorda a introdução dos co'r pos simé-
tricos de Platão nas estruturas fundamentais da matéria. Embora estas
simetrias ,ainda não fossem correctas, continuou certa a crença de
Platão em simetrias matemáticas reguladoras das unidades mínimas
da matéria no centro da natureza 381 .
A procura do Uno, da mq.is profunda fonte de toda a compreensão
foi a origem comum da Religião e da Ciência mas o método científico
e o interesse pelo singular, que se pudesse eX!perimentar, orientaram a
ciência por. outros caminhos e originaram um conflito com a Religião.
S6crates fora condenado porque a sua religião contradiúa a tradição .
Galileu é símbolo do mesmo conflito no começo da Modernidade e no
séc. XIX o cOnflito atinge o seu auge na tentativa filosófica da substi-
tuição da religião cristã por uma filoso.fia científica, apoiada na versão
materialista da dialéctica hegeliana 382, Pod~r-se-á dizer que os cientistas
se movem da pluralidade para a unidade, quando desta fazem uma
interpretação materialista mas esta redução da matéria não evi,t a con-
flitos com a ciência. Só a relação à unidade assegura a harmonia da
sociedade e, por isso, a contradição com os resultados da ciência tOlr na-se
um problema sério. Não se trata primariamente do combate entre mate-
rialismo e idealismo mas da luta entre o método científico e a relação

379. Id" o. C., pp. 199-200.


300. Id" o. C" pp. 200-201.
381. Id., o. C., p. 201.
382, Id., o, C" p, 202,
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 285

comll!Ill ao «uno». Hoje a contribuição da ciência da natureza não é no


sentido do materialismo de Demócrito ou do idealismo de Platão mas
do uso cuidado da linguagem e da significação das palavras e, neste
contexto, W. Heisenberg privilegia o problema da linguagem na ciência
moderna da natureza e na Filosofia Antiga. Os limites inevitáveis dos
nossos meios de expressão foram tema central da filosofia de Sóorates
de tal modo que «toda a sua vida foi um combate cO'l1stante cOll1tra
estes limites» 383. As razões pelas quais Sóorates privilegiou o problema
da linguagem, não são só os equívocos gerados pelo linguajar super-
ficial, que só uma atitude rigorosa elimina, mas também os limites
do rigor e da clareza da expressão que é uma «tarefa insolúvel sempre
aquém do seu ideal de preoisão» 384. A tensão entre a exigência de clari-
dade perfeita e a inevitável insuficiência dos conceitos existentes carac-
teriza especialmente a Ciência Moderna da Natureza. Na Física Atómica,
usa-se uma linguagem matemática altamente desenvolvida, que - satisfaz
todas as exigências de precisão e de clareza. No entanto, não sabemos
até onde se pode aplicar a linguagem matemática aos fenómenos e,
por isso, a ciência termina por não prescindir da linguagem natural.
Esta situação ajuda a esolarecer a tensão entre o método científico
e a relação da sociedade ao «uno», aos princípios fundamentais para
além dos fenómenos, que se não pode exprimir numa linguagem de
precisão científica mas apenas na linguagem natural acessível a todos 385 .
Platão não se submeteu às limitações que a linguagem clara e pre-
cisa da matemática impõe, mas transitou para a linguagem dos poetas,
«que gera no ouvinte imagens e lhe transmite uma espécie completa-
mente diferente de compreensão» 386. Provavelmente, estas imagens arti-
culam-se com «formas inconscientes do nosso pensamento» ou arqué-
tipos carregados de forte carácter emocional e que, de algum modo,
espelham as estruturas internas do mundo. -Qualquer que seja a expli-
cação destas formas de compreensão, a linguagem das imagens e das
metáforas é provavelmente a única que nos aproxima do «uno» desde
regiões mais universais. Se a harmonia de ll!Illa sociedade repousa na
interpretação comunitária do princípio uno, que preside aos fenómenos,
então, reconhece Heisenberg, «a linguagem dos poetas deveria ser mais
importante do que a da ciência» 387.

383. Id., o. C., p. 203.


384. Id., o. C., p. 204.
385. Id., o. C., p. 205.
386. Id., o. C., p. 205.
387. Id., o. C., p. 206.
286 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

Em diálogo com W. Pauli, Heisenberg retoma o problema da


«ordem centra!», que, na antiga terminologia, se chama o "Uno» e a
que temos acesso pela linguagem religiosa 388. A eficácia do Uno revela-se
já no facto de sentirmos como bem o que for ordenado e como maio
que for caótico. Na Ciência da Natureza reconhecemos metáforas, v. g.,
«a natureza está criada segundo este plano» . Esta convergência da
linguagem metafísica torna-se mais compreensível com a Teoria Quân-
tica, porque nesta podemos formular numa linguagem matemática
abstracta tipos de ordem e de unidade em amplos domínios e, ao mesmo
tempo, saber que, ao descrevermos na linguagem natural os efeitos
destes tipos de ordem recorremos a metáforas, a modos complementares
de visão, que exibem paradoxos e aparentes contradições 389.
Este problema da unidade e da multiplicidade foi estudado na
dupla vertente clássica e quântica por C. F. von Weizsacker, físico
e filósofo alemão, célebre pelos seus trabalhos de Astrofísica e de
Cosmologia e por ter sido Director do Max-Planck-Institut de Stanberg
para a investigação das condições de vida do mundo científico-técnico
(1970-1980) 390. O trabalho de von Weizsacker intitula-se «Parménides
e a Teoria Quântica» e constitui um capítulo do seu livro A Unidade
da Nature za.
Pergunta von Weizsacker se não é verdade que nos confrontamos
hoje com o problema de Parménides de Eleia: hen to pano O todo
é primeiramente o mundo, «comparado a uma esfera bem redonda»
mas abrangendo também o experienciar e o experienciado, a consciência
e o ser: to gar auto noein estin te kai einai, isto é, ver e ser são o
mesmo. Weizsacker traduz noein por ver para evitar a introversão
abstracta do pensamento 391. A primeira parte da investigação incide
sobre o que Parménides e Platão realmente tinham de comum e aparece
sob o nome de Uno, no único lugar sistemático da obra escrita, que
lhe é consagrado: o diálogo Parménides 392. Isto reenvia-nos pare as
doutrinas não-escritas de Platão, pois «de facto todos os seus diálogos
tocam manifestamente as fronteiras do não-escrito» e desafiam o leitor

388. Id., "Positivismus, Metaphysik und Religion» in: Id., Der Teil und das
Ganze, p. 291.
389. Id., O. C., p. 292.
390. C. F. von Weizsacker, "Parmenides und die Quantentheorie» in: Id., Die
Einheit der Natur 4(MÜllchen 1972) , pp. 466-491.
391. Id., O. C., p. 470.
392. Id., O. C., p. 474.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 287

a prosseguir o pensamento. Frequentemente, um diálogo termina numa


aporia, que um diálogo posterior resolve apenas para se prender de
nova aporia mas em nível superior 393. Se tomarmos nota dos lugares
paralelos em cada diálogo, obteremos um sistema de entrosamentos,
um novo tecido, que revela mais do que uma leitura cursiva dos textos.
Se Platão não escreveu determinadas doutrinas, foi porque ou julgou
impossível essa escrita ou possível mas indesejável ou desejável mas
nunca realizada. O núcleo da doutrina do Uno foi urna doutrina de
escrita impossível, ao passo que a doutrina não-escrita de uma meta-
física de dois princípios (hen e aoristos dyas) e a consequente concepção
matemática da natureza foi de escrita possível mas indesejável, porque
de acordo com o Fedro e a Carta VII, se deixa supor que essa doutrina
seria de tal modo próxima da doutrina do Uno, que prejudicaria quem
não entendesse esta vizinhança 394. Os dois princípios da escrita possív,el
mas não desejável era o Uno (hen) e a dualidade sem limites (aoristos
dyas) , de cujo jogo provinham os números, as dimensões e figuras
espaciais e os elementos do mundo sensível 395. Há, porém, um paradoxo
fundamental na doutrina dos dois princípios, pois não se vê razão para
pluralidade e distinção nem como se podem distinguir quando o' esta-
tuto de princípio os une. Se há, portanto, algo que seja princípio esse
algo tem de ser um só e não múltiplo ou então não há qualquer prin-
cípio em sentido rigoroso. Aristóteles evitou o problema através da
introdução da estrutura de «relação-ao-Uno» no quadro categorial mas
eliminou toda a diferença no Uno ou ousía suprema 396. PaI'Il1énides,
porém, procedeu de outro modo e escolheu uma experiência singular,
quando escreveu o caminho, a visão e a epifania do que é (to eon),
como o presente eterno, concebido segundo o modelo do ver divino
presente a todas as coisas presentes, passadas e futuras 397. C. F. von
Weizsacker interroga-se sobre a possibilidade deste tipo de conheci-
mento, inseparável da expressão afirmativa do directamente visto e
da racionalidade abstracta mais extrema dos argumentos e das afirma-
ções, do aparecimento divino e da racionalidade científica 398. Torna-se
esclarecedor um paralelo com o conhecimento das Ciências Físicas,
que se funda em proposições universais não verificáveis na experiência

393. Id., o. C., p. 475.


394. Id., o. C., p. 475.
395. Id., o. C., pp. 475-476.
396. Id., o. C., p. 476.
397. Id., o. C., p. 477.
398. Id., o. C., p. 477.
288 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

quanto à sua universalidade nem rigorosamente falsificáveis. Há uma


percepção científica, uma espécie de percepção da mesma, comparável
à percepção da ideia platónica na realidade singular e a este campo de
percepção se reduz todo o material disponível do conhecimento cien-
tífico. Todas as descobertas da ciência assentam na percepção de formas
até então ocultas, a que se atribuem as notas de unidade, universahdade
e abstracção 399. O investigador, que concebeu algo de novo, viveu uma
espécie de iluminação, viu o que outros e ele próprio antes não haviam
visto. Não pode, porém, apelar para esta iluminação mas tem de se
certificar da sua verdade, submetendo-a ao exame da experiência e
tentando falsificá-la. A percepção científica justifica-se, como uma luz
acesa na escuridão, por aquilo que deixa ver e o investigadoT convence
os outros, quando os conduz à visão, que ele mesmo teve.
O poema de Parunénides oferece~nos rigorosamente esta estrutura
metódica. Em linguagem poética familiar ao homem culto do seu temrpo,
o autor pinta a viagem para a visão, expõe o que se lhe depara, apre-
senta argumentos, a que um pensamento escolar se não pode furtar
e, deste modo, ensina o leitor a ver. Se nós não virmos, então a causa
estará na nossa incapacidade. Porém, se Platão fala claramente do
mesmo Parménides e, no entanto, o critica (v. g., Sofista, 241 d 5), então
deve haver possibilidade de discutir a percepção não quanto ao que
nela é percepcionado mas quanto ao modo de o compreender, o que
exige novas percepções 400. Uma percepção sensível não é um acto do
pensamento argumentativo, embora tenha forma judicativa e percep-
done formas integráveis na argumentação e, por isso, pode comparar-se
à experiência mística ou unio mystica na sua relação com o discurso
sobre o Uno 401. A experiência mística, apesar de diferente nas suas
expressões, é admiravelmente idêntica em todas as culturas: o Neopla-
tonismo identificou o Uno da experiência mística com o Uno de Platão
e na antiga tradição asiática o exercício da meditação pertence aos
pressupostos evidentes do pensamento filosófico, cuja elevação corres-
ponde à altura da experiência meditativa. Quebrada a relação à expe-
riência, nasce o problema do valor da representação do Uno, das suas
imagens, que são o mundo, a vida e a consciênoia, como ensina o
Timeu, 37 c 8 e o Génesis, I. No poema de Parménides, ver e ser são
o mesmo, consciência e ser unem-se; na doutrina indiana dos Vedas, o

399. Id., o. C., p . 478.


400. Id., o. C., p. 479.
401. Id., o. C., p. 479.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PE NSAMENTO CONTEMPORÂNEO 289

Uno é ser-consciência-felicidade, uma identidade pura e não pluralidade


de aspectos e só no tempo e no mundo sensível há a cisão entre ser,
consciência e felicidade 402. A racionalidade plena termina no reconhe-
cimento da experiência meditativa ou mística e, por' isso, a filosofia,
ao argumentar, prepara ou interpreta essa experiência. Os místicos
encontraram na filosofia do Uno uma interpretação da sua experiência,
apesar de a ex,periência mística não ser filosofia como a percepção
sensível não é ciência da natureza. Uma argumentação teórica sobre
o Uno a partir do reconhecimento da possibilidade da experiência mís-
tica é o que tenta Platão no diálogo Parménides , que é «um exercício
necessário (gymnasia) à compreensão das formas (ideias) >> transposto
por von Weizsacker para o estado actual da Ciência da Natureza nU!Ill
confronto da problemática da Física com Parménides e Platão 403.
A preparação da primeira hipótese do diálogo começa em 137 a 4
com a pergunta de Parménides sobre as consequências decorrentes
das duas hipóteses sobre o Uno: «se (ele) é uno ou se não é uno ». Neste
«ele» entre parêntesis está a primeira «crux» do tradutor, pois também
seria correcto a tradução «se o Uno é» . Do mesmo modo, no começo
propriamente dito da hipótese 137 c 4 (ei hen estin), é admis,s ível a
dupla tradução «se o Uno é» ou «se ele é uno». Alguns intérpretes
compreendem a primeira hipótese no sentido de que o Uno é, outros,
porém, preferem a tradução «o Uno é uno». Para von Weizs.a cker, este
dilema é semelhante à situação de um passeador numa bifurcação
sem indicação do caminho: é que os dois caminhos possiveLmente
conduzem ao mesmo fim e, por isso, não estão sinalizados. De facto,
todos os intérpretes estão de acordo em que a primeira hipótese acentua
a unidade do Uno e a segunda o ser do Uno 404. O sentido da unidade
do Uno deveria ser de algum modo conhecido por Parménides e Aristó-
teles, de contrário seria impossível o diálogo entre os dois 405. Supõe-se
precisamente o conhecimento do que Parménides designara como uno,
do eon e os argumentos apresentados mostram que o eon não deve
ser interpretado no sentido de Parménides, isto é , há na primeira hipó-
tese uma crítica aos Eleatas 406. A argumentação move-se com rigor entre
o pressuposto explícito da unidade do Uno e conceitos filosóficos, que

402. Id., o. C., p. 480.


403. Id., o. C., p. 481.
404. Id., o. C., p. 482.
405. Id., o. C., p. 482.
406. Id., o. C., p. 483.

19
290 MIGU E L BAPTISTA P EREIR A

eram do conhecimento do leitor culto de então. Ao corrigir a doutrina


do velho Parménides, procede com todo o direito porque também
Parménides raciocinou a partir das mesmas prerilissas. A primeira
hipótese abrange tudo o que for uno, portanto, também tudo o que em
Platão é uno e, por isso, contém a crítica aos E1eatas. Justifica-se
imediatamente a pergunta acerca do sentido do Uno neste contexto
envolvente e folhear a doxografia das opiniões de Platão é falsear a
resposta, pois trata-se do sentido originário da Unidade que possibilita
compreender as respostas, que a doxografia regista. Dentro destes pres-
supostos, von Weizsacker analisa o rigor da argumentação platónica ,
tendo em vista a Teoria Quântica 407.
Depois de citar o texto de Parménides 137 c 4 - d 3 em que d.o Uno
se predica a unidade e não a muLtiplicidade, porque esta contém partes
ou é um todo a que não falta parte alguma, e onde se conclui que o Uno
nem é um todo nem tem partes, von Weizsacker lembra a Física
Clássica em que não há tal unidade, se exceptuarmos um ponto de
massa, e a Teoria Quântica em que as partículas elementares não são
pontos de massa mas contém virtualmente outras partículas elemen-
tares e mostram na experimentação extensão espacial 408. Se conside-
rarmos, porém, os objectos ou a totalidade do mundo, também neles
encontramos partes e não o Uno em sentido rigoros.o. Na Teoria Quân-
tica, o átomo é uma unidade, que se desintegra, quando nele localizamos
partes, isto é, o núcleo e o electrão e, neste caso, falamos do átomo
como de um todo mas não porque lhe não faltam partes, como diz o
texto platónico, mas porque as partes nele estão «submersas ». Feita
esta reserva, «podemos adaptar a linguagem da Teoria Quântica à de
Platão, de tal modo que se denomina uno precisamente um objecto
teorético-quântico 409. Este modo de falar revela-se perfeitamente rigo-
roso quando identificado com «a forma matemática da regra de compo-
sição» deste objeoto, cujas partes existentes estão em função de deter-
minados estados e as restantes são apenas prováveis. O objecto total é,
portanto, uno mas divisível numa pluralidade e, ao passar da proba-
bilidade para a realidade, deixa de ser o que era até então 410.
Em seguida, Platão analisa o problema da possibilidade de deter-
minações espaciais do Uno (137 d 4 - 139 b 3) e assevera que .o Uno não

407. Id., o. C., p. 483 .


4ü8. Id., o. C. , p. 484.
409. Id., o. C. , p. 484.
4110. Id., o. C., p. 485 .
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 291

tem começo nem meio nem fim, não possui qualquer figura recta ou
redonda, não está em lugar algum, não está noutro nem em si, não
está em repouso nem se move, porque estas determinações só seriam
possíveis se o Uno tivesse partes. Na Teoria Quântica, um objecto tem
determinada propriedade, quando esta for de facto encontrada ou
quando existe de antemão um estado em que essa propriedade seja
provável. Porém, não há quaisquer estados, em que um objecto fosse
plenamente determinado quanto à sua situação e movimento, como
diz a relação de indetepminação. Por i,s so, considerado em si, um
objecto quântico é uno sem possuir, ao mesmo tempo, qualquer situa-
ção determinada ou qualquer movimento preciso 411. Justifica-se a per-
gunta pelo modo como estas determinações espaciais acontecem de
facto no objecto quântico. Só pela acção recíproca entre este e outros
objectos se estabelece a dinâmica interna do objecto total, que daqueles
resulta. A medida do objecto quântico relativamente à sua posição e
movimento é dada na acção recíproca entre o aparelho macrofísico
que mede e o objecto microfísico a medir e nesta relação dinâmica
é «necessariamente sacrificada uma parte de informação possível no
ponto de vista da Teoria Quântica sobre o sistema total» e sua unidade.
Por isso, pode dizer-se que «determinações espaciais só são possíveis,
quando se perde uma parte da unidade teorético-quântica» 412. Se apli-
carmos este raciocínio à totalidade do mundo, em que nenhum objecto
está isolado mas em permanente relação recíproca, o mundo será lido
como um objecto teorético-quântico cuja descrição em termos de um
todo espacialmente estruturado com partes actualmente distintas sacri-
fica, por redução, a descrição da unidade quântica, mais rica em deter-
minações do que a sua descrição espacial. Para uma descrição plena
teorético-quântica, que incidisse sobre todas as determinações do mundo
enquanto objecto quântico, ninguém está em situação adequada a essa
descrição nem é, portanto, capaz de receber tais informações. Por isso,
aplica-se à Física Quântica a conclusão de Platão: «Portanto, dele não
haverá nem um nome, nem uma descrição (logos) nem um saber nem
uma percepção, nem uma opinião» (142 a 4). C. F. von Weizsacker for-
mula nestes tepmos o princípio onto-gnosiológico da Teoria Quântica:
«Quanto maior for o objecto do saber que escolhermos, tanto mais
saber não passível de descrição espacial se pode obter sobre esse

411. Id., o. C., p. 485 .


412. Id., o. C. , p. 486.
292 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

objecto» 413. Se incluiI1mos no objecto total o nosso próprio saber, dele


haveria apenas um saber fictício, formalmente possível, sem condições
de realização a não ser que esta ficção seja a sombra, que sobre o muro
das figuras do nosso saber finito projecta «uma omnipO'tência divina,
não-finita» e não uma possibilidade da finitude humana 414.
Em 139 b 4 - 140 d 8, Platão afirma que do Uno se não podem pre-
dicar os binómios identidade/diferença, semelhança/não-semelhança e
igualdade/desigualdade, porque a unidade de modo algum coincide com
qua1quer destas dete:runinações. Na Teoria Quântica, estes predicados
só se podem atribuir a objectos observados na sua acção recíproca, o
que implica a perda de unidade do objecto, como no caso precedente
e, se o objecto for totalmente isolado, nem a identidade consigo mesmo
se pode observar 415.
No que toca o problema do tempo, Platão sustenta (140 e 1 - 141 e 7)
que do Uno se não pode dizer que é mais velho ou mais novo ou
mesmo que é agora. Na Teoria Quântica, regista-se uma inconsequência
pelo menos na últ,i ma explicaçãO' desta teoria. Na verdade, se as
grandezas características de um objecto são consideradas funções do
tempo e o tempo, como única entre as grandezas mensuráveis, é funda-
mentalmente mensurável, não corresponde, contudo, aO' tempo qual-
quer grandeza que o possa medir, pois o que de facto aparece como
medida, é uma função periódica temporal 416. Por outro lado, um objecto
rigorosamente isolado não está no tempo, não pode sujeitar-se a acção
recíproca própria, mensuração da suoessão dos seus estados, nem pre-
serva o sentido dos conceitos fundamentais da Teoria Quântica, sobre-
tudo do da probabilidade, por essência temporal.
Finalmente, Platão recO'nhece que só há ser no tempo e descreve
os modos de participação do ser como modos de ser no tempo (141 e 3-
142 a 1). Para von Weizsacker, esta pO'sição não é um erro do interlo-
cutor, se distinguiI'l1los o tempo do Uno (aion no Timeu, 37 d 5) da sua
imagem, que progride segundo o número e se conta pelos movimentos
celestes (ohronos) 417. Se o Uno for também ser e, estando no tempo,
for múltiplo, a primeira hipótese «se (ele) é uno» parece ter.minar numa

413. Id., o. C., p. 486.


414. Id., o. C., pp. 486-487.
415. Id., o. C., p. 487.
416. Id., o. C., p. 488.
417. Id., o. C., p. 489.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNE O 293

contradição (137 c 4, 141 e 10-11). É necessário analisar a segunda hipó-


tese «se o Uno é» a fim de responder à aporia da primeira.
Se o Uno é, a sua unidade distingue-se do seu ser e unidade e
ser podem de novo distinguir do ser e da un1dade, respectivamente,
e isto num processo in infinitum, isto é, o Uno contém uma multipli-
cidade infinita (142 b 1 - 143 a 3). O Uno que é, desenvolve-se em mundo
com inevitáveis contradições já postas na raiz: «Assim, não só o Uno
que é, é múltiplo mas também o próprio Uno é dividido pelo ser e é
necessariamente múltiplo» (144 e 5-7). O lógico, neste caso, só evita
a contradição, fixando uma unidade real e descrevendo-a sem consi-
derar a sua raiz nem a sua divisão posterior, isto é, não investigando
como é que a unidade pode ser e o ser pode ser uno 418. Na Teoria
Quântica, o modo de um objecto pensado em isooamento total poder
ser um objecto fora do pensamento é a sua acção recíproca com outros
objectos, apesar de, nesta situação, deixar de ser este objecto singu-
larizado e até de ser um objecto . De modo paradoxal, pode dizer-se
que uma propriedade só é observável, se o objecto perder precisamente
esta propriedade, em contraste com a Física Clássica que jamais con-
siderou a pema do objecto . A Ontologia Clássica, em que se baseou
a Física não se apercebeu de que a sua aplicação supunha a sua
própria falsidade. A totalidade, porém, não existe para si, como a Lógica
e a Ontologia Clássica a descreveram, mas apenas «no Uno impensável».
Deste modo, encontra-se já previsto no Parménides o fundamento da
complementaridade de Niels Bohr 419.
Este problema do múltiplo e do uno foi estudado sob a epígrafe
«a fragmentação e totalidade» por David Bohm, físico americano, espe-
cialista em Teoria Quântica e defensor de uma interpretação objectiva
desta teoria 420. Arte, Ciência, Tecnologia, trabalho humano repartem-se
por regiões especiais, separadas como ilhas, a que a interdisciplina-
ridade não consegue reduzir o separatismo mútuo, como o desenvolvi-
mento social acarreta uma divisão em povos, grupos religio> s os, polí-
ticos, económicos e rácicos diferentes 421 . O ambiente natural do homem
é considerado um conjunto de partes existentes em separado e expostas
à exploração pelos diferentes grupos humanos. De modo semelhante,

418. Id., o. C., p. 490.


419. Id., o. C., pp. 490-491.
420. J. David Bohm, «Fr agmentierung und Ganzheit» in: H .-P. Duerr, o. C.,
pp. 263-293.
421. Id., o. C., p. 263.
294 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

cada homem de acordo com os seus desejos, fins, planos, deveres,


qualidades psíquicas, etc., consta de um grande número de comparti-
mentos separados com conteúdo opostos em tal grau crítico que se
tornam inevitáveis as neuroses e em muitos homens ano'rmalmente
fragmentados, os sinais da paranóia, os traços da psicose, os sintomas
esquizóides, etc. A capacidade humana de se distanciar do mun'd o e de
dividir as coisas originou um longo espectro de consequências negativas
e positivas, porque o homem perdeu a consciência do que fazia e exage-
rou o processo divisivo para além dos limites aceitáveis. Aplicado este
processo à imagem do homem e ao seu mundo, a fragmentação resul-
tante induziu-o a uma praxis parcelar, que embora não pareça, é fruto
da sua existência autónoma 422. Não só os mitos com o seu sentido de
totalidade preveniram a ruptura entre homem e natureza e entre homem
e outro homem mas também expressões como a inglesa «health» (saúde),
do anglo~saxónico «hale», e a alemã «heil» são parentes de «whole»
(todo) e significam a totalidade originária da salvação, da santidade
(holy e heilig) e cobre o campo da palavra hebraica «schalom» 423.
A esta análise de D. Bohm subjaz a concepção de uma tensão no homem
entre o seu mais profundo impulso para a totalidade e para a salvação
e os esquemas de pensamento, que parcelam a realidade 424. A esta
fragmentação junta-se a crença em que ela descreve o mundo como ele
é em si mesmo e semelhante convicção revive no conceito ocidental de
«teoria». Na Antiguidade, vigorou a teoria de que a matéria celeste
era radicalmente diferente da matéria terrestre e de que, portanto, os
corpos terrestres teriam de cair enquanto os corpos celestes deveriain
naturalmente permanecer no céu como a lua. Com o advento dos tempos
modernos, descobriu a ciência que não há qualquer diferença essencial
entre matéria celeste e terrestre e que, portanto, os corpos celestes
deveriam cair como os terrestres segundo a lei da gravitação universal.
Ora esta teoria apresenta uma nova espécie de visão do céu, diferente
da antiga, segundo a qual os movimentos dos planetas dependem da
velocidade com que toda a matéria celeste ou terrestre cai nos centros
diferentes dos respectivos sistemas. Esta concepção newtoniana, como
aliás a grega, que a antecedeu, prestou bons serviços mas conduziu a
inexactidões, quando se estendeu a domínios novos, em que se revelaram
congruentes as recentes teorias da relatividade e da mecânica quântica.

422. Id., o. C., p. 265.


423. Id., o. C., p. 265.
424. Id., o. C., p. 266.
PR ESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 295

Estas projectam uma imagem de mundo que se distingue radicalmente


da de Newton, não porque sejam verdadeiras e aquela falsa, mas porque
são exactas em determinados domínios diferentes dos de Newton e só
nestes 425. Em vez de apodar de falsas as teorias antigas, D. Bohm con-
sidera simplesmente que o homem constrói no seu percurso temporal
teorias novas, que são exactas até certo ponto e depois se tornam cada
vez mais inexactas, mas jamais atinge a visão definitiva da realidade
ou mesmo uma aproximação progressiva da verdade absoluta. Para o
homem, há simplesmente um desenvolvimento sem fim de novas con-
cepções, que deixam intocada a validade de determinados traços funda-
mentais das mais antigas, como é o caso da Teoria da Relatividade
relativamente à Mecânica NewtQlI1iana 426. As novas teorias são a fonte
principal da organização do nosso saber factual e, por isso, toda a nossa
experiência se estrutura segundo as categorias ou modos como pen-
samos o espaço, o tempo, a mart:éria, a substância, a causalidade, o
acaso, a necessidade, a universalidade, a particularidade, etc. 427. A expe-
riência e as formas do saber constituem um processo único, uma cor-
rente geradora do jogo jamais definitivo da própria configuração. O que
impede a teoria de superar os seus limites e de se adaptar aos dados
em movimento, é a crença na verdade imutável do saber de que se
sente portadora 428. Esta atitude faz corresponder às limitações e divi-
sões sem fim do nosso pensamento fragmentos de realidade e desloca
a totalidade para o campo do ideal. O que D. Bohm propõe, é precisa-
mente o contrário, ou seja, é a totalidade que é real e a fragmentação
não passa da resposta deste todo à acção do homem orientada pela
actividade divisora do pensamento 429. Todos os nossos modos diferentes
de pensar são modos de ver a realidade una, que têm a sua esfera
singular de validade, pois o objecto total não é precepcionado num
olhar único mas em todos os olhares. Há, porém, teorias, que preten-
dem exprimir as grandes imagens de nós mesmos e do mundo, em
que se forma a nossa representação universal da realidade. Neste
contexto, as teorias universais da Física desempenham um papel impor-
tante por se ocuparem da essência da matéria, de que tudo se constrói,
e dos conceitos de espaço e de tempo, com que se descrevem todos os

425. Id., o. C., p. 267.


426. Id., o. C. , p. 268.
427. Id., o. C., pp. 268-269.
428. Id., o. C., pp. 269-270.
429. Id., o. C. , p. 271.
296 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

movimentos da matéria 430 . O atomismo de Demócrito é a teoria de


uma realidade fragmentada, composta de átomos, que se movem no
vácuo, dOI1Jde resultam as formas e as propriedades dos corpos macro-
cósmicos. A aceitação desta teoria física como verdade absoluta visa
fixar os esquemas universais da Física e, por isso, contribui para a
fragmentação, que reduz o mundo natural, com inclusão do homem,
do cérebro, do sistema nervoso, do entendimento, etc., a estruturas e
funções de massas de átomo separados na sua existência insular. A con-
firmação experimental da concepção atomística teve o seu limite nos
novos domínios da Teoria da Relatividade e da Teoria Quântica, onde
se desenham novas perspectivas, que se distinguem do atomismo como
este das teorias, que o precederam 431 . Perante o «pouco sentido » em
se descrever e seguir na sua singularidade uma partícula atómica e a
limitada esfera de aplicação da ideia da trajectória do átomo, preva-
lece a descrição do átomo como onda e partícula ou «como uma nuvem
confusa», cuja forma depende da totalidade do campo circundante,
incluindo os instrumentos de observação. É eliminada a separação do
atomismo clássico entre observador e observado, que se tornam agora
«aspectos de uma reaHdade total e única, indivisível e indesmontável,
que se fundem um no outro e se penetram reciprocamente» 432 . Na
Teoria da Relatividade é abolido o conceito de um corpo cristalizado
como o átomo clássico, pois não pode haver sinal mais rápido do que
a luz e, por isso, em vez de um universo de elementos indivisíveis e
inalteráveis propõe-se «o mUJIldo como um devir universal de aconte-
cimentos e de processos », em que se destacam formas de ondas com
redemoínhos numa corrente, que nós acentuamos para configurar a
nossa percepção. De facto, estas figuras da corrente fundem-se e unem-se
no movimento total do fluir, sem qualquer separação ou independência
das partículas 433 . A Teoria da Relativi,dade e a Teoria Quântica revelam
o mundo «como um todo indivisível em que todas as partes do Uni-
verso, incluindo o observador e os seus instrumentos se fundem e unem
numa totalidade única » 434. Esta corrente, porém, precede as coisas,
que vemos nascer e desaparecer no seu fluxo, como a corrente da

430. Id., o. C., pp. 271-272.


431. Id., o. C., pp. 272-273.
432. Id., o. C. , p. 273.
433. Id., o. C., p. 274.
434. Id., o. C., p. 275.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 297

consciência, as formas de pensamento e as ideias 435. O modelo de Demó-


crito é substituído pelo de Heraclito no te:x;to de D. Bohm: «Há um rio
universal, que se não deixa cortar explicitamente mas apenas implici-
tamente conhecer, como indicam as formas e construções explicita-
mente apreensíveis - algumas invariáveis, outras variáveis, que se
podem abstrair do rio universal» 436. Neste devir, o espírito e a matéria
não são substâncias separadas entre si mas antes «diferentes aspectos
de um movimento único, total e ininterrupto», que a fragmentação é
incapaz de compreender. As figuras diferentes imanentes a esta tota-
lidade indivisa possuem «autonomia e estabilidade relativa», em que se
apoia a validade limitada do atomismo clássico 437.
O devir universal tem, para D. Bohm. uma estrutura semelhante
à causalidade quadripartida de Aristóteles 438. Escolhido como exen1plo o
ser vivo, a causa material, v. g., de UJIlla planta é a terra, o ar, a água,
a luz do sol, sobre que outras causas - eficiente, formal e final-
agem. Na teoria das causas, D. Bohm sublinha o significado decisivo
da causa formal, que o uso moderno da linguagem reduziu a algo de
exterior. Ao contrário, na Filosofia Grega Antiga, a palavra «forma»
significa prioritariamente «uma actividade fOIlIIladora interna» ou a
causa do crescimento e da diferenciação das formas essenciais do ser
vivo 439. Trata-se, portanto, de uma causa doadora de forma, «de um
movimento interno ordenado e organizado, próprio da essência das
coisas» e que implica sempre a causa final 440 . Quando esta for cons-
ciente, chama-se intenção no âmbito do pensamento humano ou divino.
Na concepção da Antiguidade, resume D. Bohm, a mesma causa formal
age sobre o entendimento, a vida e o cosmos, pois «de facto Aristóteles
considerou o universo como um organismo único, onde cada parte
cresce e se desenvolve relativamente ao todo e neste encontra o lugar
e a tarefa, que lhe são próprios» 441.
Esta interpretação da causalidade aristotélica serve a análise mo-
derna da corrente da consciência percordda por «diferentes figuras de
pensamento», que parecem associar-se de modo mecânico. Contudo.

435. Id., o. C., p. 275.


436. Id., o. C., p. 275.
437. Id., o. C., p. 275.
438. Id., o. C. , p. 276.
439. Id., o. C. , pp. 276-277.
440. Id., o. C., p. 277.
441. Id., o. C., p. 277.
298 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

penetrar na raiz de algo não é associar mecanicamente figuras de


pensamento mas conhecer a integração de cada fenómeno no todo único,
cujas partes se articulam internamente, como os órgãos do corpo 442.
Ascender à raiz ou fundamento é um processo semelhante à percepção
artística situado bem longe da simples repetição por associação de razões
já conhecidas, porque diante de um espectro de factores ou de coisas,
que parecem desconexas, acontece de repente uma compreensão-relâm-
pago de uma totalidade única, como no caso da descoberta da gravi-
tação universal de Newton. Este acto de percepção científica, localizado
na vizinhança da criação artística, deve considerar-se um «aspecto da
actividade formadora do entendimento», que elabora os conceitos poste-
riormente associados em séries de causas eficientes 443. Pelo «conceito
de causa doadora de forma» compreende-se o todo indiviso em movi-
mento, presente na Teoria da Relatividade e na Teoria Quântica e,
por isso, cada estrutura relativamente autónoma e estável, como a par-
tícula atómica, não é um ser independente e permanente mas um
produto, que se formou na totalidade fluente do movimento e nesta
de novo se dissolverá. Pela causalidade formal e final, certo desenvol-
vimento da Física Moderna pratica uma visão da natureza, que apre-
senta «semelhanças necessárias com intuições» do pensamento antigo,
em contraste com o reducionismo de sistemas mecânicos actuais, que
deixaram de se pautar pelo modelo organicista e concebem as parti-
culas atómicas como elementos existentes separados 444 . A maior parte
dos físicos ainda pensa hoje segundo o modelo do atomismo clássico
e, presa do cálculo matemático, não avança até à essência real das
coisas . Na Biologia e na Psicologia pratica-se o mesmo reducionismo,
apesar de nelas ser muito mais palpável «a acção da causa doadora da
forma no movimento fluente, indiviso e ininterrupto da experiência
e da observação» 445 . Esta tendência fragmentadora das Ciências da
Natureza repercute-se no estado presente da sociedade e nos processos
de ensino, onde prevalece a imagem fragmentada de si mesmo e do
mundo 446 . A tentação de dividir o que é uno e indivisível, tem como conse-
quência imediata a tentativa de identificar o que é diferente, pois a
fragmentação é, por essência, uma confusão perante a pergunta sobre

442. Id., o. C., p. 278.


443. Id., o. C., p. 278.
444 . Id., o. C., pp. 278-279.
445 . Id., o. C., pp. 279-280.
446. Id., o. C., p . 280.
PRES ENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÁNEO 299

O que é diferente e o que é uno, cuja resposta clara é necessária a cada


fase da vida. O modo fragmentado de pensar gera um amplo alfobre
de crises sociais, políticas, económicas, ecológicas, psicológicas, etc., no
indivíduo e na sociedade e sem esclarecimento desta confusão são
inúteis todas as medidas 447 . A separação entre método e conteúdo do
pensamento, que é fonte primeira da fragmentação, é injustificável,
pois trata-se apenas de dois aspectos do mesmo movimento ou da
mesmo causa, que a tudo abrange e dá forma 448.
O problema da superação da fragmentação abre um confronto
entre a concepção ocidental e a oriental de totalidade, que dependem
de diferentes conceitos de medida. No Ocidente, os Gregos conside-
raram o conceito de medida uma das condições supremas da vida
honesta e o sofrimento do homem trágico o resultado da infracção
da recta medida 449. A mensuração praticada não foi entendida em sen-
tido moderno como uma espécie de comparação do objecto com a sua
medida exterior mas como um processo revelador da «medida interior
ou da harmonia íntima, que impede a fragmentação. Assim, a palavra
latina mede ri, curar, donde veio o termo «medicina», tem na sua raiz
o sentido de «medida» e isto significa para nós que a saúde corporal
é o resultado de um estado em que todas as partes e processos do
corpo realizam internamente o equilíbrio da medida. Da mesma raiz
provém não só a palavra moderatia, que designa a virtude realizadora
da medida interior justa, base da acção e do comportamento sociais do
homem, mas também o termo meditatia, que significa a ponderação,
a pesagem ou a mensuração do processo do pensamento, que recon-
duzem a actividade interna do entendimento a um estado paradigmático
e harmónico. Por isso, a consciência da medida interior das coisas é,
no ponto de vista corporal, social e anímico, a ohave essencial de uma
vida saudável, feliz e harmónica 450. Com mais exactidão, esta medida,
pela sua harmonia, pode exprimir-se como proporção ou relação, que
os latinos traduziram por ratia. Na Antiguidade, apareceu a razão
«como visão da totalidade de uma relação ou uma proporção, que se
pensa ser internamente relevante para a essência das coisas». Esta
ratia não é necessariamente uma relação numérica mas sohretudo

447. Id., o. C., pp. 281-282.


448. Id., o. C., p. 284.
449. Id., o. C., p . 286.
450. Id., o. C., p. 286.
300 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

«a forma qualitativa de uma proporção ou relação universal 451 e, por


isso, a gravitação universal de Newton pode traduzir-se nesta série
proporcional: assim como a maçã cai, também cai a lua e tudo de
facto cai » 452. A relação proporcional é a razão teórica de algo na sua
adequação à realidade porque, assim como na nossa representação
os diferentes aspectos de UilIla coisa se relacionam, também na realidade
existe essa estrutura proporcional. O fundamento essencial ou a ratio
de uma coisa é a totalidade das relações internas da sua estrutura e do
processo, em que ela se forma, se mantém e dissolve e, por isso, com-
preender essa ratio significa, neste caso, compreender a «essência mais
íntima» de uma coisa. D. Bohm recorda, neste contexto, a concepção
grega do lugar na medida da música e nas artes plásticas e regista
as mutações históricas do conceito de medida. Ao exteriorizar-se, o
conceito de medida perde o seu sentido de aspecto e torna-se «verdade
absoluta sohre a realidade como ela é ». A medida, porém, se não é
exterior ao homem, como declarou Protágoras, tão-pouco se pode
reduzir a produto do arbítrio ou do gosto de cada um, pois é uma
visão, que se deve adequar à realidade total e manifesta-se na clareza
do conhecimento e na harmonia da acção 453.
No Oriente, não é a medida mas o Incomensurável a autêntica
realidade que se não pode nomear, descrever ou pensar de modo
racional. O sânscrito matra que significa «medida» no sentido musical e
pertence à mesma família do grego metron, tem a mesma raiz da
palavra . maya, que significa ilusão. Daí, a oposição Ocidente·Oriente:
«Para a sociedade ocidental, tal qual saiu dos Gregos, a medida com
tudo o que esta palavra contém, é a essência da realidade ou, pelo
menos, a chave para esta essência. Pelo contrário, no Oriente, a medida
no decorrer dos tempos foi considerada de algum modo errónea e
enganadora» 454. Por isso, a fOI1ma, a ordem das formas, as proporções
e as relações «racionais », que estruturam a ciência e a tecnologia do
Ocidente, são, para o oriental, uma espécie de véu, que oculta a verda-
deira realidade do Incomensurável da filosofia e da teologia. A síntese
harmoniosa destas duas concepções talvez fulgisse em tempos remotos,
quando os homens eram suficientemente sábios para reconhecerem no
Incomensurável a vel1dadeira realidade e na medida e na proporção

451. Id., o. C., pp. 286-287.


452. Id., o. C., p . 287.
453. Id., o. C., pp. 288-289.
454. Id., o. C., p. 289.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 301

racional aspectos de segundo grau da mesma realidade 455. O que hoje


nos é pedido para transcendermos a fragmentação, não é um simples
regresso ou uma repetição de atitudes antigas mas «um trabalho cria-
dor», mais difícil do que a descoberta científica ou a criação literária,
em que a recepção da grande sabedoria da totalidade, que outrora
vigorou no Oriente e no Ocidente, se avance para uma «percepção nova
e original», que valha para as nossas presentes condições de vida 456.
As técnicas da meditação, como aliás as da ciência e as da arte, que
perpetuam a influência de outrem, não podem substituir a «liberdade
e a independência» da actividade criadora 457. Contactar com o Incomen-
surável transcende tudo o que o homem pode apreender com o seu
entendimento ou realizar com suas mãos e instrumentos. Dele depende
apenas a capacidade de dirigir a atenção e a energia para criar ordem
e clareza no magno campo da mensuração, percorrendo o estrato das
medidas externas até às medidas interiores da saúde, da acção e da
contemplação. Na percepção original e criadora da vida em todos
os seus aspectos espirituais e corporais está possivelmente o verdadeiro
sentido de meditação 458. Quebrar os fragmentos, abrindo os limites da
mensuração, é expor-se ,à visão original e criadora da totalidade, que é
acção sobre nós do Incomensurável, porque, ao mergulhar raízes para
além da medida e das ideias, essa visão procede do Incomensurável,
que é a causa geradora de todas as formas, que se jogam no campo
múltiplo da mensuração 459

III

Nos diálogos de Castelgandolfo de 1985, subordinados ao problema


da crise actual, L. Kolakowski, além de se interrogar sobre a génese do
mal-estar que hoje nos incomoda, apesar da segurança prometida pela
Modernidade, afirmou que «quanto menos moderna for a Modernidade,
tanto 'menos são os ataques contra ela» m. Longe de defender ou de
rejeitar «toat court» a Modernidade ou a tradição, L. Kolakowski con-

455. Id., o. C., p . 290.


456. Id., o. C., p. 291.
457. Id., o. C., pp. 291-292.
458. Id., o. C., p 292.
459. Id., o. C., p. 293.
460. L. Kolakowski, «Die Moderne auf der Anklagebank» in: K. M. Michalski,
Hrsg., Vber die Krise, Castelgandolfo-Gespriiche 1985 (Stuttgart 1986), pp. 82-83.
302 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

sidera, no entanto, ser «o lado mais perigoso da Modernidade» o desa-


parecimento de tabus ou do que se afigure «irracional», porque nenhuma
comunidade sobrevive «sem um sistema de tabus». Por isso, a raciona-
lização ao ameaçar a presença de tabus, destrói a possibilidade da
sobrevivência humana, pois não há qualquer técnica que os substitua.
No fundamento do código de proibições, estão as razões do respeito
pela vida humana e pelos direitos do homem e mesmo o sistema tota-
litário, que celebra na máquina buroorática o triunfo da racionalidade,
só pode sobreviver mediante a reposição dalguns daqueles valores
tidos por «irracionais» 461. Daí, o menos moderno ou o mais tradicional
na Modernidade é o que menos nela se pode impul?Jl1ar. Este texto de
Kolakowski serve de introdução à presença do passado na discussão
actual sobre Modernidade e Pós-Modernidade.
Perante a consciência moderna, que se recusa envelhecer e defende
a perenidade do processo trinitário da história com a invencibilidade
do terceiro reino - o do Espírito, coroa necessária da Antiguidade e da
Idade Média, o homem pós-moderno não se define por ser anti-moder-
nista mas pela busca de uma nova relação com todo o passado do
pensamento e da arte e, consequentemente, com a própria Moderni-
dade, que não exclui %2. O que é recusado à Modernidade é a sua
exigência de novidade definitiva e consumada e o que dela se exige
é que permaneça aberta a uma nova transcendência e a um futuro
ainda sem configuração, pois as possibilidades do que chega, não são
monopólio da «hybris» moderna. A forma superior da consciência
histórica não é, pois, aquela altura singular última e irrepetível, a que
se alca'l1dorou a Modernidade, mas um tipo de «ambitio saeculi» com
memória, isto é, referida na sua diferença a concepções e formas de
saber do passado e a culturas e discursos extra-modernos 463. Os limites
do crescimento e a consciência ecológica, que travaram a expansão
indefinida da liberdade e do domínio modernos, são frutos espontâneos
da redescoberta pós-modema da Natureza, Pandora de bens limitados,
que urge respeitar, a exemplo do Pensamento Antigo, e não explorar
até à exaustão. De facto, o mundo aberto de um progresso indefinido

461. Id., o. C., pp. 91-92.


462. R. Spaemann, «Ende der ModemiHit» in: P. Koslowski / R. Spaemann /
R. Loew, Hrsg., Moderne oder Postmoderne? Zur Signatur des gegenwartigen
Zeitalters (Heidelberg 1986), p. 20.
463. P. Koslowski, «Vorwort» in: P. Koslowski / R. Spaemann / R. Loew, o. C.,
pp. XI-XII.
PRESENÇA DA FILasaFIA ANTIGA Na PENSAMENTO. caNTE MPaRÂNEa 303

repausava ingenuamente na lei da canservaçãa da mavimenta e da


energia e esquecia a segunda lei da Termodinâmica - a da entrapia, que
acena com a espectro. da ponta zero irreversível 464. Ciente dos limites
desta finitude, a consciência ecológica sabe que se não. pode ramper
a laça que une a homem à natureza, a sujeita ao. abjecta de domínio.,
cama já há meia século. nas ensinou a princípio. da indeterminação.
de Heisenberg e nas canfiI1ma a método. holística da Medicina cam a
valarizaçãa da condição. psica-somática da hamem 465. Não. basta cansi-
derar a terra a parque natural das necessidades de alga, que se não.
defina apenas par relação. às nassas necessidades mas que valha par si
mesma e, coma tal, tenha sentida. Isto. é uma riqueza au excesso. sabre
a nassa experiência actual, é a qualidade de vida 466.
A crítica da razão. científica moderna não. só descobriu nas pra-
cessas da ci·ê ncia a existência de paradigmas e a relação. de tada a acta
científica ao. sujeita, à camunidade científica e ao. homem mas também
reconheceu far.mas extra-científicas de campreensãa de mundo. e deu
espaça aas mitos e às religiões. Esta atenção. ao. pluralismo. de formas
de saber é pasteriar ao. prajecta falhada da razão. totalitária moderna e
distingue-se das projectas de Modernidade, coma a Refarma, a Contra-
-Refarma, a Barraca, a Iluminismo., a Idealismo., a Pasitivisma, a
Marxismo. e de tadas as pasições, que na Modernidade alimentaram
prajectas absolutas. O discursa pluralista pós-maderna não. só pretende
libertar a razão. para a que nela a precede coma princípio. translógica
mas reconhece na tempo. um futura, que não. é uma simples prajecçãa
da razão.. Na Modernidade, a razão. ascilou entre a divinização. e a
desespera e, par isso., a irracionalismo. e o refúgio. em mitas seguem,
cama sombras, a ditadura da razão.. A Pós-Modernidade, parém, busca
«uma nava síntese para além da apasiçãa racionalisma-irracionalisma»
na direcção. de um «essencialisma pós-maderna» na arte e na filasafia,
que recupere a herança da Antiguidade e da Idade Média e supere a
falsa separação. e a isalamenta entre arte, ciência e religião. criadas
pela Madernidade numa nava integração. na mundo. da vida, sem cair
na academismo. da imitação. nem na elitismo. da classicismo. 467. À Moder-

464. R. Spaemann, o. C. , pp. 31-34.


465. Id., o. C., pp. 32-33.
466. Id., o. C., pp. 37-38.
467. P. Koslowski, «Die Baustelle der Postmoderne- Wider den Vollendungs-
zwan der Moderne, Statt einer Einleitung» in: P. Koslowskij R. SpaemannjR. Loew,
o. C., pp. 7-11.
304 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

nidade pertenceu não só a razão científica e o iluminismo mas também


a crítica e a revoha contra a ciência, mas hoje consolida-se a convicção
de que a ciência não é qualquer destino inelutável mas apenas uma
entre outras possibilidades de domínio da realidade e de conhecimento
do mundo. Mesmo na revolta mais ou menos emocional contra a ciência
e técnica exprime-se hoje a nostalgia de algo perdido, que outrora
existiu e depois desapareceu e a que Kurt Hübner chama o mundo
mítico-religioso %8 . Embora sob o signo do mito, a realidade da vida
não deixou de apresentar uma articulação racional e duradoura, que
foi a alternativa da ciência e, por isso, nesta época de mal-estar justi-
fica-se a pergunta pelo sentido do sistema mítico do passado para o
nosso tempo. Aos pressupostos e principios da ciência correspondem
no pensamento mítico representações fundamentais sobre a relação
entre acontecimentos regulares dR natureza ou da vida humana. Do ponto
de vista meramente formal, a relação entre o mito grego e a realidade
não difere, para K. Hübner, da relação entre a ciência e a realidade,
pois nos dois casos há pressupostos a priori, há frases protocolares
a confir.mar ou a infirmar frases universais e de pressupostos míticos
ou científicos derivam-se logicamente conhecimentos necessários. Apesar
desta semelhança meramente formal, mito e ciência, enquanto sistemas
de experiência, são totalmente diferentes no que respeita aos respectivos
conteúdos 469 . Apesar disso, é um erro fatal pensar que o homem mítico
tenha necessariamente menor capacidade lógica quando ele apenas se
ocupava de matéria diferente e servia outros fins 470. Por isso, é tão
inviável teoricamente remeter o mito para o reino das fábulas, da pura
fantasia ·ou da superstição como pretender que a ciência seja o único
acesso à realidade 471. A Pós-Modernidade domina a tensão, que dilace-
rava a Modernidade, através de uma mudança de consciência, que
elimina a crença ingénua na ciência e na técnica bem como a sua recusa
emocional e reconhece a veI'dade do mito 472. Na adesão ao mundo, ao
século, a natureza, no culto do antropocentrismo e do pro~esso inde-

468. Kurt Hiibner, "Wissenschaftliche Vernunft und Postmoderne» in: P.


Koslowski / R. Spaemann / R. Loew, o. C., pp. 73-74; Id., Kritik der wissenschaftlichen
Vernunft (Freiburg-Miinchen 1978), pp. 461-426.
469. Id., «Wissenschaftliche Vernunft und Postmoderne», p. 75.
470. Id., o. C., p . 77.
471. Id. o. C. , p. 78.
472. Kurt Hübner, Die Warheit des Mythos (Miinchen 1985), passim.
PRESENÇA DA FILOSOFIA A NTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORÂNEO 305

finido, na racionalidade instrumental, na objectivação universal e no


interesse pelo lucro, no consórcio entre razão e poder, a Modernidade
opunha-se a todas as vinculações pré-racionais 473 e fi concepção de
que razão e mito dão acesso uma realidade com sentido. O homem
pós-moderno, ciente de que a razão científica está mobilizada pelo
objectivo do consumo e do conforto, atribui-lhe um lugar no «utile»
e no «iucundum» mas no mito reconhece estar para além ·de si e de
toda a realidade em virtude de algo, que vale para além do «utile»
e do «iucundum» 474.
Já em 1974 se usou o termo «Pós-Modernismo » para significar uma
reacção insignificante ao Modernismo latente na poesia espanhola e
hispano-americana mas em 1947 A. Toybee falou de «Pós-Modernismo »
no sentido do fim do domínio ocidental, da cultura cristã e do indivi-
dualismo, suavizado pela expectativa da fusão da fé muçulmana, cristã,
budista e hindu. Este pluralismo permanecerá nota saliente de todos
os futuros conceitos de Pós-Modernismo 475. Na Arquitectura, o termo
apareceu, pela primeira vez, em 1945, no trabalho de J. Hudnut intitu-
lado The post-modern House. Por 1960, explodiu uma multiplicidade de
movimentos, que depõem e substituem o Modernismo, denunciando
um pluralismo filosófico e estilístico e uma relação dialéctica e crítica
à ideologia modernista 476. Em 1975, eh. Jencks começou a usar esta
expressão nas suas lições e investigações no sentido de um duplo código,
metade moderno e a outra parte algo diferente, que, regra geral,
correspondia ao modo de construção tradicional, a fim de comunicar
com um público mais vasto 477. Este duplo código visa suprir carências
da arquitectura moderna, que já não era compreendida pelos seus
utentes nem se inseria na cidade e sua história. A nova arquitectura
teria, portanto, de satisfazer exigências profissionais e a elite, e de ser,
ao mesmo tempo, popular, de integrar novas técnicas e antigos padrões,
de continuar o Modernismo e de o transcender 478. Este código duplo

473. Ernst-Wolfgang Boeckenfoerde, «Kirche und modernes Be"vufl,tsein» in:


P. Koslowski / R. Spaemann / R. Loew, o. C., pp. l03-lO8.
474. R. Loew, «Ontologische Aspekte der Postmoderne» in: P. Koslowski /
R. Spaemann / R. Loew, o. C., pp. 84-86.
475. eh. Jencks, Die Postmoderne, Der neue Klassicismus in Kunst und
Architektur Vbers (Stuttgart 1987), p. 13 .
476. Id., «Post-Modern und Split-Modern, Einige grundlegende Definitione »
in: P. Koslowski / R. Spaemann / R. Loew, o. C., p. 215
477. Id., o. C., p. 209.
478. Id., o. C., p. 210.

20
306 MJGUEL BAPTISTA PEREIRA

com sua estratégia de comunicação, o seu hibridismo, a sua ambigui-


dade, o seu eclectismo e pluralismo aparece na literatura 479, na pin-
tura 480 e na arte em geral 481 . Para esta concepção, é Modernismo taI'dio
e não Pós-Modernismo manter-se apenas na tradição do novo numa
auto-referência hermética sem uma relação mais complexa ao passado,
ao pluralismo, à continuidade significativa e ao simbolismo 482. O valor
de uma obra depende também da sua tradição, pois ao «choque do
novo», que gerou a descontinuidade da Modernidade, opõe-se agora o
«choque do antigo» 483. J .-F. Lyota:rd 484 permanece, segundo esta con-
cepção de Pós-Modernidade, um modernista tardio, que, situando-se
no tempo pós-industrial, julga ilegitimadas todas as formas de saber
em virtude do colapso das grandes narrações, que lhes outorgavam
uma coesão última hoje irmpossível. Daí, a chegada do niilismo e do
anarquismo, a vigência de «jogos linguísticos» em luta recíproca, a sensi-
bilidade para a diferença, a guerra à totalização, o agonismo e a
revolução permanente 485.
Na Bienal de Veneza de 1980 organizada por Paolo Portoghesi e
outros arquitectos e críticos, o tema «A Presença do Passado » signi-
ficou o regresso da tradição e do simbo,lismo e de outros elementos
proibidos pelo Modernismo 486. É esta relação à diferença do passado
que -e stá ausente da análise de Lyotard, onde é patente a sua afinidade
com formas contemporâneas de saber, que fracturam a totalidade,
e com os «jogos linguísticos» descontínuos de L. Wittgenstein, capazes
de exoI'cizar todo o pensamento e linguagem únicos. Linguagem e vida
de Lyotard só são possíveis numa pluralidade não incomunicável mas
agónica, num complexo paradoxal de perspectivas, numa constelação
heterogénea, numa unidade não hierárquica nem teológica mas trans-
versaI 487, que J . Habermas conhece na complexidade agónica da arqui-

479. Id., o. C., pp. 211, 220.


480. Id., o. C., pp. 216-217.
481. Id., o. C., pp. 216, 218.
482. Id., o. C., p. 227.
483. Id., o. C., pp. 231-232.
484. J.-F. Lyotard, La condition postmoderne. Rapport sur le Savoir (Paris 1979);
Id., Le Differend (Paris 1893).
485. eh. Jencks, o. C., pp. 229-230.
486. Id., o. C., p. 234.
487. W. Welsch, «Nach we1cher Moderne? Klãrungsversuche im Feld von Archi-
tektur und Philosophie» in: P. KoslowskijR. SpaemannjR. Loew, o. C., pp. 252-253;
PRESENÇA DA F ILOSO F IA ANTIGA N O PENSAM ENTO CONTEMPORÂNEO 307

tectura pós-moderna mas com possibilidades de acordo e convergência 488 .


Esta vertente exclusivamente científica do problema é uni dimensional
e, por isso, K. Hübner reclama a presença da dimensão mítica na
complexidade agonal 489 • Esta crítica a Lyotard é reforçada por eh.
Jencks, que distingue na Inglaterra e na América dois modernismos e,
consequentemente, dois pós-modernismos: um, apocalíptico, que acentua
o choque do novo, a descontinuidade, a separação e os jogos lingufs-
ticos wittgensteinianos; outro, racional, democrático, que se institui
positivamente e considera paradigmártica a relação à tradição. Esta
Pós-Modern~dade pretende uma nova unidade e, com este objectivo,
fortalece as tradições como indicadores normativos de caminho 490.
Na discussão Modernidade/Pós-Modernidade, o edifício da Moder-
nidade parece instável na sua base assente no domínio científico-
L
-técnico, industrial e económico da natureza e ameaçada no seu oDjec-
tivo de solucionar todos os macroproblemas humanos, como a C()[lser-
vação da vida, a satisfação de todas as necessidades, a realização da
liberdade, da igualdade e da autonomia, pois esgotam-se recursos natu-
rais, cresce a poluição e universaliza-se a crise ecológica 491 . Enquanto
a Modernidade pensa solucionar estes problemas com meios téonicos, a
Pós-Modernidade procura com uma f.tica Ecológica e Intersubjectiva
e um novo pensamento filosófico, científico, religioso e artístico mudar
as atitudes fundamentais, criando novos modelos poHticos e econó-
micos. Sem a mudança do homem na sua pluridirmensionalidade reli-
giosa, filosófica, científica, artística, na visão quotidiana do mundo e
na praxis individual e colectiva, a solução técnica continua sempre
parcial e aquém da volta radical, a que M. Heidegger chamara «Kehre».
A esteticização da arte, enquanto compensação da «des-sacralização» do
mundo e da perda da escatologia e momento do processo da erradi-

Id., «Postmoderne und Postmetaphysik. Eine Konfrontation von Lyotard und


Heidegger» in: Philosophisches lahbuch 92 (1985) , pp. 116-122.
488. J . Habermas, «Moderne und postmoderne Architektur» in: Id., Die neue
Uniibersichtlichkeit (Frankfurt/ M. 1985), p. 27.
489. Kurt Hübner, «Diskussion über die Postmoderne in der Kunst» in:
P. Koslowski / R. Spaemann / R. Loew, o. C., p. 258.
490. eh. Jencks, «Diskussion über die Postmoderne in der Kunst» in: P .
Koslowski / R. Spaemann / R. Loew, o. C., p. 258.
491. R. Maurer, «Moderne oder Postmoderne? Ein Resümee» in: P. Koslowski /
R. Spaemann / R. Loew, o. C., pp. 278-279.
308 MIGUEL BAPTISTA PEREIRA

cação do mal, é uma nova justificação pelas obras, que, de modo


algum, nos pode ressarcir da destruição da natureza e do homem, como
pretende O. Marquard 492. De sensibilidade muito diferente desta este-
ticização da arte, a obra recente de Ch. Jencks é um~ suma da Pós-
-Modernidade, onde se analisa a polimorfia do clássico na arte dos
nossos dias - classicismo metafísico, narrativo, alegórico, realista,
eoléctico - e se apresenta um sumário de regras 493. Ao estudo da seme-
lhança formal, entre mito e ciência, das respectivas diferenças de con-
teúdo e da sua complementaridade como modos humanos de ser-no-
-mundo, acresce a investigação das relações entre mito e arte por
G. Picht, onde está patente a eclosão da sensibilidade pós-moderna 494.
A Pós-Modernidade, ao articular o salto qualitativo para o futuro
com a recuperação das raízes, do sentido e da verdade do mito e da
Filo,s ofia Antiga, rompe a antinomia e a polarização entre progresso
e reacção enquanto regresso do passado. Como a arquitectura, que
enlaça o antigo e o novo, a Filosofia procura a nova síntese em que o
passado, pelo seu potencial de futuro, convirja solidariamente no porvir
de todos nós.
Na discussão sobre Modernidade e Pós-Modernidade é a ess.ência
da razão que se interroga e, com ela, a racionalidade do transracional
e do mistério. A diferença na sua pluralidade mítica, científica, filosó-
fica e teológica põe em risco a sua inteligibilidade, quando se cristaliza
numa transversalidade pura e heterogénea sem traça de unidade, pois,
ao contrário do diverso, o diferente eclode de um fundo relacional,
que, ao perfazer-se num processo de perfeição, se pluraliza. A unidade
in-diferente, por seu lado, absorve num sistema de identidade a alte-
ridade e, com ela, a pluralidade, pois a perfeição deste mOdelo de
unidade só na purificàção radical de toda a diferença se consuma.
As narrações do que legitima e dá coesão última às sociedades, são
objectivações plurais e controversas do continente inobjectivável mas
real do indizível, que é o fundo mítico da humanidade sempre a caminho
da linguagem. Esta dimensão mítica permanece estranha à análise

492. O. Marquard, «Nach der Postmoderne, Bemerkungen über die Futuri-


sierung des Antimodernismus und die Usance Modernitãt» in: P. Koslowski /
R. Spaemann / R. Loew, o. C., pp. 45-54.
493. eh. Jencks, Die Postmoderne, Der neue Klassicismus in Kunst und
Architektur, pp. 43-137 279-315, 317-350.
494. G. Pieht, Kunst und Mythos, Mit einer Einführung von Carl Friedrich von
Weizsacker 2(Stuttgart 1987), pp. 45-113, 117-269,273-569.
PRESENÇA DA FILOSOFIA ANTIGA NO PENSAMENTO CONTEMPORANEO 309

epistemológica de J.-F. Lyotard, em que é recusado lugar a toda a


narração legitimadora. Se a ameaça do holocausto une os homens,
o terror nela gerado desperta a consciência para o valor ignoto em
perigo e, ao mesmo tempo, ausente do discurso dos homens. A episte-
mologia da agonia das diferenças, a esteticização compensadora das
grandes narrações ético-religiosas recusadas, o niilismo no termo da
Modernidade e a disseminação do «outro» com olvido da neguentropia
emudecem perante um mundo em transe para a ecumenicidade, em que
as diferenças também são míticas, onto-antropológicas e não apenas
epistemológicas e o «outro», desde a natureza ao homem interconti-
nental e ao Inobjectivável, que nos cerca terá de ser saudado num
reconhecimento de valor, que prepara a nova ordem da civilização do
universal. Sem este alargamento do conceito de diferença, é impossível
construir o homem planetário na nova época, que a descolonização
iniciou. A cultura ocidental não é telos nem meta da cultura mundial
mas uma das culturas do mundo solicitada ao encontro com as outras
e capaz de as ouvir após longo tempo de império, pois o homem plane-
tário é eminentemente policêntrico, devendo o substancialismo euro-
cêntrico diluir-se na relação ecuménica 495. Esta relação, porém, é um
surpreendente modo de presença da temática da diferença e da alteri-
dade já explorada pelo Pensamento Antigo, com especial realce para o
NeoplatoniSllIlo 496, a que naturaLmente a controvérsia sobre a Moder-
nidade ou a Pós-Modernidade não pode ficar alheia. De facto, sempre
que se interroga a essência da razão, o Pensamento Antigo é um inter-
locutor necessário, que no advento do novo também celebra modos
seus de presença.

495. M. B. Pereira, "Prefácio» in: Nicolau de Cusa, A Visão de Deus, trad.


(Lisboa 1988), p. [8].
496. Id., o. C., pp. [44]-[55].
(Página deixada propositadamente em branco)
OPTIQUE CONTEMPORAlNE
DANS L'ÉTUDE DES CLASSIQUES

P. GRIMAL
Université de Paris

Longtemps, 1'étude des langues anciennes, cQJIlduisant à la lecture


des ·ceuvres classiques, en grec et en latin, fit partie des institutions
que 1'O'l1 ne remettait pas en questiono On peut regretter ce temps-là,
on ne peut le faire revenir, et, d'ail:leurs, serait-ce bien souhaitable.
On ne doit pas se dissimuler que la lecture des «dassiques», poursuivie
depuis la Renaissance jusqu'à la moitié de notre sieole, avait fini par
devenir un automatisme se suffisant à lui-même et, par une sorte d'entro-
pi'e, perdre une grande partie de ses vertus. II en résultait un véritable
malaise, le texte donnant à une «traduction», rarement à un commen-
taire explicatif qui en mettait le sens en IUlllliere. Bien des fois 1'énoncé
des regles de grammaire appliquées dans tel passage semblait suffire
à en épuiser la signification. II en résultait une conséquence, souvent
dénoncée: la «lecture», dans lIDe classe de 1'enseignement secondaire,
se bornant à 1'analyse grammaticale de quelques phrases, ce qui empê-
chait de prendre une vue un peu générale de ce qu'avait voulu dire
1'auteur, et des raisons qui l'avaient condui à écrire le texte en questiono
Aussi, par une réaction naturelle, et comme 1nstinctive, a-t-on
assisté, depuis une ou deux générations de professeurs - dans les
Universités - à des tentatives d'exégese pOI"tant sur des aspects déter-
minés des ceuvres littéraires antiques et tendant à leur appliquer les
méthodes de 1'histoire Httéraire moderne. En même temps, les historiens
de 1'Anrtiquité, pour qui les textes littéraires sont la source de renSe1-
gnements divers, montraient que leur étude pouvait être renouvelée dans
la perspective qu'ils proposaient. Si bien que, peu à peu, plusieurs
champs d'études se sont ouverts, qui coexistent, paJ:1fois se font concur-
312 P. GRIMAL

rence, mais souvent se completent, et laissent espérer un renouveau


d'intérêt pour des textes et, plus généralement, une civilisatio!D. dont
la richesse est lain d'être épuisée et demeure préeieuse pour notre temps.
Nous voudrions ici présenter les différentes directions dans les-
quelles se sont engagées ces études et en esquisser l'état présent.

*
* *

L L'étude formelle des reuvres antiques, c'est-à-dire la définition


de leur esthétique, des procédés auxquels les auteurs ont recours, bref
leur rhétorique et leur poétique. C'est là, sans doute, une tradition tres
ancierme, et qui remonte à l'Antiquité, aux écoles des grammairiens et
des rhéteurs. Une différence, toutefois, apparait. Tandis que les Aneiens
se proposaient de fournir aux écrivains futurs des procédés étiquetés,
des «recettes» pour atteindre à la perfection des modeles (Homere,
Virgile, Démosthene ou Lysias, Cicéron, etc.), l'étude, par les Modernes,
de la rhétorique, notamment, est justifiée par ce que l'on pourrait appe-
ler la psychologie de l'reuvre d'art et, plus généralement, de l'esthétique.
II. Dépassant la «surface» du texte, certains Modernes tentent de
découvrir une symbolique qu'il dissimulerait. lei encore, la méthode
est antique. Nous la trouvons, par exemple, bien représentée dans le
commentaire de Servius à Virgile et, pIus haut encore, dans les exégeses
d'Homere, comme celle que Platon met dans la bouche du rhapsode
Ion. On peut s'interroger sur la légitimité de ce point de vue. La pente
est dangereuse. Mais un ouvrage comme celui de Norden, sur la signi-
ficatio!D. du chant VI de l'Enéide montre qu'il peut y avoir des réussites.
Et, dans ce cas, iI s'agit moins de symbolisme que de tout un arriere-
plan religieux, plusieurs courants de pensée venant confluer dans ce
récit auquel O!D. reconnait (sans doute à juste titre) une valeur de mythe.
D'autres textes, moins célebres et moins riohes, permettent, de la
même façon, de retrouver des croyances, des faits religieux qui ne
nous sont pas toujours connus par des témo.i gnages objectifs.
Ce theme de reaherches a donné lieu à d'importants ouvrages sur
la religionantique; en France, ceux de G. Dumézil, de Jean Bayet, et de
bien d'autres; en Allemagne, depuis l'ouvrage de G. Wissowa, celui
de Latte, et beaucoup d'autres dans plusieurs pays.
Sans doute cette connaissance, qui s'est développée depuis moins
de cent ans, des religions antiques, a parfois sa fin en soi; elle
OPTlQUE CONTEMPORAINE DANS L'~TUDE DES CLASSIQUES 313

s'integre dans une histoire, plus générale, de l'esprit humain. Mais


elle contribue aussi beaucoup à la compréhension des ouvrages qui
sont issus de ce milieu spirituel, qui en sont imprégnés. Cela a donné
un regain de vie à des traités comme le De natura deorum et le De diui-
natione de Cicéron, longtemps négligés par les Modernes.

III. A côté de l'interprétation fondée sur l'histoire des religions,


il faut placer celle qui fait appel à l'hi's toire de la pensée philosophique.
Pendant longtemps, les textes philosophiques (Platon, Aristote, etc.)
ont formé un domaine à part, abandonné par les «littéraires» à des
techniciens, qui se donnaient pour tâche de recons,t ituer les doctrines,
souvent peu connues, par des témoignages indirects, l'évolution des
écoles. Ces reoherches O!Ilt abouti, des la fin du siecle dernier, en
Allemagne et en Angleterre, à des ouvrages irremplaçables, comme, par
exemple, les Stoicorum Veterum fragmenta de Von Arnim et les Epicurea
d'Usener. Ces entreprises, fondamentales, ont été poursuivies, en plu-
sieurs pays, si bien qu'il est possible aujourd'hui de connaitre un peu
moins mal les courants de la pensée philosophique entre l'époque
archa'ique de l'hellénisme (avec les Vorsokratiker de Diels) et la fin
du monde antique. Plotin, le Corpus H ermétique, etc., nous ont été
rendus acces's ibles grâce aux travaux de R. P. Festugiere, et d'autres.
Mais, de même qu'il y ades «'s péciaHstes» de l'histoire religieuse,
dont les ouvrages servent à mieux comprendre les grands textes, de
même les historiens de la philosophie ont permis de redonner vie, et
de rendre leur véritable place à la pensée des Romains et aux reuvres
de Cicéron et de Séneque. C'est nn hilStorien de la pensée grecque,
Léon Robin, qui a commenté Lucrece; apres lui est venu Cyril Bailey,
qui n'est pas moins important pour retrouver la doctrine sto'icienne
dans le poeme.
Mais l'imprégnation philosophique n'est pas seulement décelable
dans les traités de caractere technique (De fato, De finibus, etc.); on la
retrouve, par exemple, dans l'éloquence de Cicéron, la forme de ses
raisonnements, qui doivent beaucoup à la dialectique que lui avait
enseignée l'un de ses maítres . C'est l'un des mérites d'Alain Michel
d'en avoir éIIpporté la démonstration dans son ouvrage sur Rhétorique
et philosophie chez Cicéron.
De même, la confrontation entre les ouvrages de Séneque et les
sources sto'iciennes éIIpporte un éolairage nouveau sur la pensée du pre-
cepteur de Néron et permet d'échapper aux jugements sommaires,
répétés depuis l'Antiquité, et repris par ce qui est aujourd'hui une autre
314 P . GRIMAL

direction de la critique, qui consiste à replacer les ceuvres dans leur


moment historique.

IV. L'interprétation historique des ceuvres littéraires a commencé,


on le sait, au siecle dernier, avec les travaux de Taine, notamment le
célebre La Fontaine et ses fables, paru en 1861. Cette méthode n'a pas
été appliquée immédiatement aux ceuvres antiques, même si le Virgile
de Sainte-Beuve, paru quatre ans plus tôt, est déjà orienrté dans ce senso
L'interprétation historique ne peut do-nner toute sa mesure que si
1'époque oú se place chaque fois 1'ceuvre considerée est bien connue.
Lorsque Voltaire, par exemple, évoque le siecle d'Auguste, ii le fait
avec de constants anachronismes, qui faussent totalement l'image qu'iI
prétend dégager. C'est pourquoi des ouvrages qui, en leur temps, furent
d'intéressantes tentatives, sont aujourd'hui périmés. II falIut attoodre
le développement scientifique de l'historiographie antique pour que
1'on put parvenir à des analyses plus convaincantes. En France, la these
de J. Carcopino, Virgile et les origines d'Ostie, parue en 1918, marque
une étape importante dans cette direction. Mais une telIe construction
n'était possible qu'avec le secours des «sciences auxiliaires», et notam.-
moot de l' épigraphie.
On notera aussi que les recherches prosopographiques, l'identifica-
tion des personnages qui ont entouré 1'auteur, la reconstitution de la
société oú ii vécut rendent de grands services. Citons l'exempJe le plus
notable, que nous donnent les ouvrages de R. Syme, sur la Révolution
romaine, mais aussi son Salluste et son Tacite. II est certain aussi que
si nous parvenons à mieux connaitre les amis d'Horace, beaucou:p de
ses carmina nous seront plus clairs.

V. Les recherches portant sur 1'histoire de la langue, grecque et


latine, sont égalemen't d'un grand secours. Les linguistes disposent là
d'un corpus étalé sur des siecles. Leurs analyses, en marquant les diffé-
rentes strates des différentes langues liutéraires, donnent au texte un
relief que l'habitude nous dissimule. Ainsi, ii n'est pas indifférent de
confronter la langue homérique aux dialectes parlés réellement dans
le monde heUénique vers le VllIe ou le VlIe siecle avant noire ere.
II 00 va de même pour les langues du lyrisme, tant choraI que drama-
tique. A Rome, de même, un vaste champ est ouvert, depuis les
fragments des carmina archa'iques jusqu'à la latinité tardive. En parti-
culier, iI convient d'accorder une place spéciale à l'évolution séman-
tique, témoin de celle des notions.
OPTIQUE CONTEMPORAINE DANS L 'ÉTUDE DES CLASSIQUES 315

*
* *
, On voit qu'il existe une grande variété de recherches, certaines
bien engagées, d'autres à peine amorcées, portant sur les grands textes
classiques et leur environnement. C'est un immense chapitre de l'histoire
humaine, de l'histoire de l'esprit humain qui s'ouvre là - ce qui est
plus difficile à saisir que les phénomenes économiques ou politiques,
mais plus profondément significatif.
Pour toutes ces raisons, iI .c onvient d'encourager une étude qui n 'a
pas fini de se montrer féconde.
(Página deixada propositadamente em branco)
REGARDS D'UN HISTORIEN CONTEMPORAIN
SUR LES CULTURES ANTIQUES

JEAN LECLANT
College de France (Pa ris)

Pour répondre à l'invitation si prestigieuse que m'a faite le Comité


et en particuJier le Président Léopold Sédar Senghor de participer au
présent débat de Coimbra - invitation dont je mesure parlaitement
l'honneur et la valeur -, je voudrais me pemnettre de vous présenter
quelques points de vue qui ne seront pas oeux d'un classique, mais
d'un égyptologue. On peut en effet penser, que pour se situer par
rapport à la Oivilisation de l'Universel, l'importance des humanités
classiques devait certes être iei soulignée de façon éminente, mais que
l'opinion d'un égyptologue, c'est-à<l.ire d'un historien de l'Afrique la
plus ancienne, méritait sans doute d'être aussi entendue.
A l'heure présente, une évolution significative a marqué les études
historiques: au cours des dernieres déoennies, un ° approfondissement
de la réflexion a fait s'évamouir, tout au moins s'estomper, la valeur de
l'objectivité qui, dans les périodes précédentes, avait semblé absolu-
ment primordiale. Si une oertaine forme de neutralité est toujours
requise des historiens, iI n'en reste pas moins qu'ils apparaissent,
d'une maniere ou d'une autre, «engagés». La confiance dans l'idéal
objectivité, si longtemps de mise, a été ébranlée. Depuis un demi-siecle,
les historiens ont pris consoience de l'illusion positiviste; ils savent
désormais que leur curiosité est orientée par les préoccupations et les
penchants de leu'r temps; ene dépend en grande partie de leur forma-
tion et des conditions sooiaJes dans lesquelles ils sont appelés à tra-
vailler. Leur appréhension du passé est tributaire de la culture de leur
génération; de nouvelles grilles de lecture se proposent à l'attention;
iI y ades modes: l'école des Annales en est un exemple probant.
L'analyse économico-sociale ·est passée au premier plan avant d'être
sU1ppléée par l'histoire des mentalités. Remarquons cependant que ces
318 JEAN LE CLANT

«tendances » n'affectent l'étude des différentes périodes qu'à des degrés


divers; iI est notable que les récents essais d '«ego-histoire», qui viennent
d',ê tre si brillamment présentés, sont dus essentiellement à des spécia-
listes des époques médiévale ou moderne: Georges Duby, Jacques Le
Goff, René Rémond; de façon typique, iI n'y a pas là d'historien
de l'Antiquité.
Liée aux autres sciences sociales, la r,e cherche historique participe
de leur évolution - et celle-ci est rapide - , de plus en plus sans doute
accélérée. Pendam.t des générations, on avait pu croire qu'il était possi-
ble d'isoler des «faits historiques », en quelque sorte à l'état puro Les
historiens et leurs lecteurs vivaient apparemment dans un systeme de
pensée stable, alos pour ainsi dire; tous s'accordaient sur le type
d'événements qui devaient constituer le «J)ait historique»: ou, quand,
comment? La méthode semblait olaire. Le choc des problemes, les
heurts brutaux de mentalités et de systemes ont fait éclater ce bel
équilibre. ParalleIement au principe d' «indétermination» mis en évidence
jusque dans les sciences physiques les plus dures, la matiere historique
apparaít susceptible d'être modifiée par le regard qu'on y jette; comme
l'a excellemment écrit Henri-l,r énée Marrou, «la vérité de l'historien
l'epose sur LIDe correspondance tres sublime entre la strueture du passé
et ceUe de l'esprit qui le l'econs,t ruit ».
Autres considérations fondamentales qui pourraient opposer les
tenants de deux orientations différentes du travai! historique. Ou bien
iI s'agit de reconstituer une génese, un devenir: on se penche SUl' le
passé pour comprendre l'évolution, les constantes aussi, bien entendu;
ainsi, selon le mot de B . Croce, «toute histoire est histoire contempo-
raine ». Ou bi,e n on cherche à appréhendel', puis à comprendre le passé
en lui-même; non sans une séduction d'exotis'm e, on dOillle une valeur
pl'opre au récit - animé et passionnant - des aventures humaines;
comme l'a bien indiqué I. Marrou, OTI tâche de saisir l'homme (les
hommes, leur société, leurs techniques, leurs valeurs) au coeur de
chacune des civilisations, dans ce qui constitue leur irréductible origi-
nalité. Quel que soit le point de vue adopté, l'historien est chargé de
découvrir les ailleurs. Tandis que le géographe introduit au dépayse-
ment spatial, l'historien découvre les autrefois. Mais il constate aussi
une continuité certaine et doit reconnaítre un héritage qu'on ne saurait
rejeter. S'il est l'homme des différences, il ne peut exclure la fraternité
- tout au moins la sympathie. Homme d'ouverture et de dialogue,
l'historien doit se pencher sur le passé avec toutes les ressources de ses
connaissanoes, de son intelligence, de sa sensibilité. C'est pourquoi, si
REGARDS D ' UN HISTORIEN CONTEMPORAIN SUR LES CULTURES ANTlQUES 319

s'estompe la notion d'une Histoire proprement dite, avec une grand


«H», se profi1ent en revance des tempéraments d'historiens tres diverso
Tout autant que chargés de la «résurrection du passé»( Michelet)
les historiens doivent être les «gardiens des lieux de mémoire» (Pierre
Nora). Tâche qui n'est nullement facile. Dans leurs essais de communion,
les historiens menent une sorte de lutte contre la mort; aux documents
inertes, ils redonnent vie. Dans cette maniere de transmutation résident,
SaTIS doute, plus d'une illusion et de nombreux risques. C'est pourquoi
il doit y avoir 1..lil1 «métier d'historien» (Marc Bloch).
En ce qui concerne plus particulierement l'historien des civilisa·
Hons anciennes, sa tâche premiere est probablement de prendre cons-
cience de la IliOtion du temps qu'avaient les gens qu'il étudie. Ainsi
l'égyptologue découvre vite qu'iJ n'y a pas eu d'historiens à l'époque
pharaonique; oar l'Egypte, pendant trois millénaires, s'est située elle-
même hors du temps: le soleil - &ê - lui offrait l'alternance du diurne
et du noctume; la crue - Hâpy - lui apportait le rythme annuel;
mais, grand oI1donnateur de l'intégration du pays dans l'unité cosmique,
Pharaon assurait la permanence des valeurs et l'accomplissement sans
discontinuité du mythe sur terre: faisant monter vers les dieux les
offrandes et les prieres des hommes, il recevait des premiers leurs
grâces et leurs bienfaits; serviteur de Mât -la Vérité-Justice - , ii obte-
nait d'eux en retour la stabilité politique, la prospérité économique
et la paix victorieuse. Pour l'assyriologue en revanche, le pacte entre
souverains et dieux se marque dans des Annales, des Chroniques, qui
notent avec precision les faits du temps présent. Mais il faut attendre
le «'miracle grec» pour assister au triomphe de l'homme et à l'impor-
tance donnée à ce monde d'ici-bas: l'histoire nait avec Hérodote et ses
enquêtes systématiques sur le passé.
Autre caractere spédfique de celui s'attache à l'histoire de l'Anti-
quité: la prééminence, dans sa docuanentation, de l'archéologie. C'est
av,e c les découvertes d'Herculanum et de Pompei -les publications
en partioulier de Winckelmann (1764) - , que le monde antique a resurgi;
désoI1ffiais, à travers la Méditerranée, se déployent les efforts de voya-
geurs érudits et de coHectionneurs. En 1882, par sa «Lettre à M. Dacien>,
puis en 1824 san «Précis du systeme hiéroglyphique», Champollion
- génial déchiffreur des hiéroglyphes - redonne à l'humanité plns de
trois millénaires néiformes des rois achéménides par Grotefend et
bientôt de celles des Assyriens eux-mêmes par H. C. Rawlinson. L'archéo-
logie ne saurait se réduire à des travaux de terrassements, à une chasse
aux trésors. L'interprétation des vestiges antiques s'appuie sur les textes
320 JEAN LECLANT

- et panni ceux·d se distinguent des inscriptions de toutes natures,


patiemment recueiUies et étudiées: l'épigraphie ne se borne pas à
mettre en évidence des formulaires; elle donne aussi acces à la connais·
sance concrete de la société (culte, organisation politique, rouages de
la vie économique) et de la vie privée - en ce qu'elle a de plus quoti-
dieno Avec les progres de la recherche aI'chéologique et la venue au
jour d'un riche matériel, tres divers, ce sont des perspectives sans cesse
nouvelles sur la culture matérielle, les usages, les coutumes; !'individueI,
le ponctuel entre dans des séries; c'est sur une histoire unanimiste que
débouche la technique archéologique.
Archéologue - et plus .p récisément égyptologue - , je souhaiterais
vous présenter aussi quelques réflexions sur une civilisation qui, comme
l'indiquait hier, dans son discours d'ouverture, le Président Léopold
Sedar Senghor, se situe parmi les composantes de notre culture gréco-
latine: celle de l'antique Egypte. Civilisation hautement africaine, car
le Nil est fleuve d'Afrique et ses origines les plus lointaines s'enracinent
puissamment dans ce contÍ:nent. Le fait a pu être longtemps occulté par
l'approche biblique et sémitique selon laquelle l'histoire des Pharaons
était généralemoot abordée; iI faut tenir compte aussi de la préémi-
nence des points de vue méditerranéens, en fonction d'une lecture trop
étroite des auteurs classiques.
Mais dans les années d'apres-guerre, la perspective a changé. C'est
là un exemple coneret de l'importance du climat global dans lequel se
situe toute recherohe historique: il fallait sans doute dépasser l'étape
du colonialisme et atteindve celle de l'appréciation des authenticités
africaines; c'est ainsi que les «Ethiopiques » du Président Léopold Sedar
Senghor ont pu contribuer au progres de l'Egyptologie. La crise des
valeurs traditionnelles entraÍnant une large ouverture vers les diffé-
rences, de nouvelles données sont apparues pour situer l'ancienne civi-
lisation de la va1lée du Nil. ParalleIement, s'opéraient un renouvellement
de certames méthod.es de recherche et un élargissement de la doeumen-
tation, vers le Nil et le Soudan en particulier.
II serait long de V'Ous expliquer comment la civilisation pharao-
nique est en partie le fruit d'une antique culture paléo-africaine dont
témoignent les gravures rupestres sahariennes. Pharaon est successeur
des grands fétichoo.rs, chefs de chasse, maitres d'une faune dont les
artistes préhistoriques du Tassili et du Hoggar ont fixé les images
combien suggestives, détenteurs des rites traditionnels qui lient la tribu
au cosmos. Aux époques tardives encore, ptolémai'que et romaine, sur
les parois des temples d'Edfou et de Dendara, les Pharaons apparais-
REGARDS D'UN HISTORIEN CONTEMPORAIN SUR LES CULTURES ANTIQUES 321

sent, queue animale pendant en arriere, mas sue blanche à la main, à


!'instar du premier souverain, le légendaire Narmer; leurs sceptres sont
des bâtons de puissance; leurs couronnes, leurs parures procedent des
temps primordiaux. Culture d'interprétation cosmique, l'Egypte pharao-
nique tresse à travers l'ensemble de la création un énorme réseau de
correspondances. Les di,e ux, les êtres et les choses ne sont que des
formes d'apparition, à des degrés divers, d'une même réalité; ce qui
s'affimne dans le domaine végétal a son équivalent dans le monde
minéral, dans les qualités des hommes, dans les vertus du dieu : la
«verdeur» de la jouvence divine ou humaine, c'est la croissance du
papyrus ou l'éclat de la malachite; jamais le symbolisme n'a connu
une telle plénitude, ni de t.els raffinements d'expression. Dans cet
univers de participation, le chaos s'ordonne selon les grands axes de
l'espace: axe fluvial Sud-Nord, axe solaire Est-Ouest (le couchant étant
aussi la terre des morts), axe nocturne du Pôle autour duquel se regle
la grande mécanique des astres et des étoiles. Le temps lui-même est
dominé: sa fuite se résorbe dans la permanence des mythes et la durée
des générations; la mort n'est qu 'une autre forme de la vie. Comme
on le voit, plus encore sans doute que Platon, c'est le sage dogon
Ogotemmeli qui introduit au mieux vers cet univers ou l'humain
s'inscrit tout naturellement dans l'Universel. La loi du nombre y pré-
side, la proportion y regne de façon décisive; une rigueur presque
abstraite impose la monumentalité grandiose des pyramides; une géomé-
trie créatrice soutient l'architecture du temple qui est !'image du monde.
A ce point originale, oette civilisation du Nil a cependant, par
Alexandrie, pris son essor vers la Méditerranée; centrés sur Osiris, le
dieu qui avait com1.U le trépas et la résurrection, sur la déesse Isis
et son enfant Rorus, les cultes isiaques, aux époques ptolémai:que et
romaine, se sont répandus dans la Méditerranée orientale, puis en
Campanie et à Rome et au..delà jusqu'aux bornes lointaines du Danube
et du Rhin, jusqu'à l'Atlantique; ne vient-on pas tout récemment, sur
la rive ibérique du détroit de Gibraltar, à Bélo, de mettre en évidence
un temple d'Isis, qui date sans doute du début de l'ere chrétienne?
Porteuse d'espérance et de chadté, cette rdigion n'a pas manqué d'être
une rivale dangeureuse pour le christianisme.
En évoquant devant vous, bien rapidement, ces quelques aspects
de I'Egypte pharaonique, puis des cuItes isiaques, je voulais seulement
vous rendre attentifs à une définition élargie, plus compréhensive et plus
riche encore, de ce que peut pl'étendre être la Civi.lisation de l'Universel.

21
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LES CAUSES DE LA DÉCADENCE
DES LANGUES ANCIENNES

VIKTOR POSCHL
Unh",rsité de Heidelberg

Nous ne pouvons considérer le probleme des causes de déclin des


langues anciennes dans notre monde occidental que dans le contexte
des transformations culturelles qui s'accomplissent devant nous et en
nous. Ce dont nous allons traiter est un phénomene d'une extrême
importanoe de l'histoire intellectuelle et culturelle. Depuis la fin de
la guerre nous sommes inondés d'ouvrages traitant de ce sujet. Ils
contiennent bien des vérités et aussi bien des exagérations. Permettez-
moi de citer quelques titres:

• Abschied von der Geschichte / Adieux à Z'histoire (A. Weber),


• Verlust der MitteJ La perte du milieu (H. Sedlmayr),
• Verlust des Menschlichen / La perte de Z'Humain (K. Lorenz),
Die nicht mehr schonen Künste / Les arts qui ne sont plus beaux
(sous la direction de R. J auE),
• La perte de la sagesse (G. Marcel),
• Die Abschaffung der Sünde / La suppression du péché (Heinrich
HeiJne et la disparition de la notion de péché, D. Sternberger),
• La perte de la vertu (A. MacIntyre),
• Gottesfinsternis / L'éclipse de Dieu (M. Buber),
• La crise de la raison (A. Einstein et Medeau-Ponty),
• Der Tod der Tragodie / La mort de la tragédie (G. Steiner),
• Die Krise des Helden / La crise du héros (A. Wlosok),
• Das Verschwinden der Kindheit / La disparition de Z' enfance
(M. Postman) ,etc.
324 VIKTOR PôSCHL

Le grand précurseur est natUl1ellement le Déclin de I'Occident d'Oswald


Spengler, qui des l'entre-deux-guerres avait connu bon nombre de
successeurs. Je ne citerai que La rebelión de las masas / La révolte des
masses d'Ortega y Gasset et Deutscher Geist in Gefahr / L' esprit alle-
mand en danger d'E. R. Curtius (1932).
L'élément sans conteste le plus important à l'origine du processus
a été la rapidité exceptionnelle du développement scientifique, de
l'application pratique des sciences et des retombées politiques, sociales
et économiques. Le développement de la physique nucléaire, de l'électro-
nique, de la microbiologie, le triomphe de l'ol'dinateur, la puissance
de la télévision sont d'es phénomEmes qui exeroent lIDe immense fasci-
nation. Les programmes scolaires en subissent aussi les lois, auxqueUes
personne ne peut échapper. L'apprentissage des langues qui, au temps
de Wilhe1m von Humboldt forrnait le oreur du systeme éducatif, se voit
reléguer à une plaee secondaire, l'utilité des sciences saute aux yeux
et la variété des possibilités de carriere qu'offrent les filieres scienti-
fiques et techniques oblige l'Education à mettre le point fort sur les
sciences. Mais, comme ni le temps d'enseignement, ni les capacités
d'assimilation des éleves ne sont illimités, iI faut retirer aux uns ce
que pl'ennent les autres. II reste done moins de temps pour l'ensei-
gnement des langues et là encore, les langues modernes l'emportent,
l'anglais surtout, qui ne cesse de prendre une place prépondérante et
est considéré, à juste titre, comme indispensable. C'est la lingua franca
de notre monde, la langue de communication - et la langue scientifique
internationale, sans oublier le rôle essentiel que joue la musique anglo-
saxonne dans la culture de notre jeunesse. Tout cela augmente l'intérêt
que l'on porte à l'anglais. L'enseignement des langues modernes alui
aussi subi une transformation qu'il ne faudrait pas sous-estimer. On
n'apprend plus aujou:rd'hui une langue en s'exerçant sur des textes
littéraires, mais en pratiquant la eonversation. La connaissance d'une
langue étrangere est surtout considérée comme un moyen pour commu-
niquer. II n'entre guere en ligne de compte qu'une langue étrangere
puisse ouvrir un monde nouveau et que ce monde étranger puisse
aider à mieux comprendre le sien propre. On peut voir dans cette
attitude un aut:re phénomene de notre époque, extrêmement préoccu-
pant, la diminution de l'intérêt porté à la culture littéraire.
Cette évolution n'est pas non plus bénéfique à l'enseignement des
langues anciennes, car celles-ci s'acquierent en premiere ligne par la
pratique des textes littéraires, même si sont faits des essais intéres-
sants de latin parlé pour créer des rapports vivants avec cette langue.
LES CAUSES DE LA De.CADENCE DES LANGUES ANCIENNES 325

Le déclin de la culture littéraire conduit à un appauvrissement alarmant


de la vie de l'esprit. Seule l'étude de la grande littérature développe
l'intellect et rien d'autre ne peut la remplacer. Seule la littérature peut
apprendre qu'une langue, à la fois art et instrUiIl1ent, peut nous aider
à devenir maitre de notre vie, seule, elle peut nous faire comprendre
ce que veut dire parler bien et clair, à joindre l'utile à l'agréable, à
être maitre de son langage de sorte que la langue n'agisse pas seule-
ment sur l'inteUect mais encore sur les sentiments, comme l'apprenait
l'ancienne rhétorique. L'enseignement des langues anciennes joue dans
ce contexte un rôle qu'il ne faudrait pas sous-estimer, car suivant
Nietzsche, ce sont les seules qu'on lise lentement et exactement. Les
difficultés qui sont liées à la lecture, la distance qui les sépare de nos
rnodes d'ex:pression et de notre mentalité modernes out quelque chose
de stimulant. «e'est dans l'honnêteté intellectuelle et la discipline
qu'exige la traduction que se montre le pIus clairement la valeur éduca-
tive des langues anciennes ,} (W. Rüegg).
La traduction soigneuse, mot par mot et phrase par phrase, est
un moyen admirable pOllir exercer combinaison, concentration et pré-
cision et pour enriehir Ie voeabulaire de sa propre langue. Pline Ie
Jeune disait déjà: «Ce qui aurait échappé au lecteur n'échappe pas
au traducteur et il y forme son intelligentia et son iudicium, sa puis-
sance de pensées et sa eapacité de jugement». En traduisant un texte
clairement formulé eu latin et en cherehant l'expression précise et à
la fois convaincante et naturelle dans sa propre langue, on s'exerce
à maitriser celle-ci et on développe son sens des langues en général. Or la
langue est l'instrument le plus important de toute aetivité supérieure.
S'occuper "intensivement des langues anciennes, les traduire peut
aussi avoir d'autres effets: cette occupation peut entrainer les aptitudes
et les capacités d'assimilation. Il n'y a rien de plus difficile que de
comprendre exactement quelque ohose d'étranger, ce qui veut dire
quelque ehose de différent, qui contredit nos propres modes de penser
et e'est ex,actement ce à quoi contribue la traduction. Ce disant, on
remarquera qu'une langue - et iI ne faut jamais l'oublier - est quel-
que chose d'éminemment social. Malheureusement, même dans l'enseigne-
ment des langues modernes, on ne s'exerce pas à la traduction aussi
souvent qu'il serait souhaitable. On ne veut pas s'attarder à faire des
traductions et l'on oublie qu'une patiente lenteur est parfois plus
rentable que le principe temps . Egon Friedell avait déjà écrit au début
de ce. siede: «Nous ne savons pIus savourer les choses. Toute notre
civilisation a pris pour devi se le minimUID d'effort et le maximum
326 VIKTOR PóSCHL

d'effet. On ne voyage plus en diligence mais en train rapide et nous


ne percevons que des instantanés hatifs des régions ou nous passons».
Que dirait aujourd'hui Friedell des voyages en voiture et en avion, du
rythme haletant auqueI se poursuivent tous les développements, du flot
d'images que nous déverse la télévision?
Il arrive souvent que l'on cherche à pallier la disparition de la
langue en tant que telle par l'étude de la «civilisation antique», surtout
dans les pays anglo-saxons. On y remarque un net déplacement du
centre d'intérêt aux dépens des textes originaux. Aussi souhaitable
que soit la connaissance des antiques civilisations, elle ne peut jamais
remplacer les bénéfices que l'on tire de l'acquisition précise d'une
langue. Dans 'Ce cas aussi on cherche à se tirer d'affaire et à faire
de nécessité vertu. A notre époque il faut être utilitaire avant tout.
Au cours d'un col1oque à Heidelberg, le minisrt:re allemand des Sciences
a I1eproché aux philosophes de s'occuper de problemes aussi éthérés que
les partkularités de Schopenhauer à la fin de sa vie, au lieu d'enseigner
des choses utiles à notre monde moderne. En disant cela, ii n'a vraisem-
blablement pas pensé que nous pouvions aussi tirer quelque chose
d'utile de Schopenhauer. La victoire de l'utilitarisme, la préponderance
du matérialisme dans notre société de consommation et de jouissance
dévalorisent lesefforts faits pour atteindre à la culture, apanage des
langues anciennes. La prospérité actuelle ne contribue pas peu à cette
mentalité. Nous en sommes arrivés, comme le disait Salluste, à ce que
«la paix et la richesse, choses souhaitables par ailleurs, sont devenues
un fardeau et un malheur»: otium diuitiaeque optandi alias, oneri
miseriaeque fuere. La ruée vers l'argent, la puissance, la jouissance
menent notre monde, auaritia, ambitio et luxuri,a aurait dit Salluste.
Non seulement la primauté du matériel, mais également la mathé-
matisation des sciences natureHes et économiques pousse à l'adoration
du nombre qui se répand partout et fait préférer la quantité à la
quaJité. Les directeurs des établissements d'enseignement secondaire
s'efforcent d'avoir le plus grand nombre d'éleves possible, ce qui a
souvent pour conséquence - on en ades exemples effrayants - de
faire des concessions à l'esprit du temps et de baisser le niveau: moins
de latin, et si possible pas du tout de grec, semble un programme
attractif.
L'augmentation du nombre des bacheliers a fait gonHer dans des
proportions impressionnantes en Allemagne le nombre des étudiants
dans les universités. On compte à Berlin aujourd'hui 100.000 étudiants,
à Heidelberg, 28.000 alors qu'11 y a vingt ans ils n'étaient que 11.000.
LES CAUSES DE LA DÉCADENCE DES LANGUES ANCIENNES 327

On n'a trouvé jusqu'à présent aucun moyen pour endiguer ce torrent


qui ne cesse de grossir.A l'opposé quel bonheur en Grande-Bretagne ou les
étudiants, soigneusement choisis, étudient trois ans, quatre tout au plus.
L'hégérnonie du nombre se fait également remarquer d'une autre
façon, là ou iI se lie au principe démocratique de la majorité: des
commissions prennent des décisions aux lourdes conséquences par suite
de résolutions prises à la majorité des voix et non au poids des compé-
tences. Ainsi, tandis que les valeurs mesurables gagnent de plus eu
plus de terrain celles qui ne le sont pas, les valeurs Slpécifiquement
humaines, les valeurs esthétiques, morales, spirituelles accusent des
pertes immenses. L'esprit de géométrie l'emporte sur l'esprit de finesse.
Dans la disparition progressive des langues anciennes de nos pro-
grammes scolaires, une idée moderne joue en outre un rôle fatal, je
veux parler de l'idée d'égalité. De la trilogie révolutionnaire, liberté,
égalité, fraternité, l'égalité a connu une brillaIllte carriere. La liberté
a beaucoup souffert, quant à la fraternité, n'en parlons pas! Toutes
les disciplines demandent en principe aujoul1d'hui à bénéficier d'à peu
pres le même nombre d'heures. Dans les lycées classiques allemands,
ou j'ai encare eu le bonheur de faire mes études, il en allait tout autre-
ment. II existait une elaire hiérarchie des sujets suivant ce que l'on
tenait alors pour important. Naus avions pendant des années 9 heures
de latin par semaine, puis 8 et enfin 7 et à partir de la 4e année de
lycée 6 heures de grec jusqu'à la terminale, ce qui ne nous empêchait
pas d'avoir du français pendant 7 ans et de l'anglais pendant 4.
Humboldt était convaincu que l'enseignement intensif des langues
anciennes profitait à toutes les autres disciplines parce qu'il apprenait
à penser, il apprenait à apprendre. Au cours d'une discussion sur la
réforme de l'enseignement qui a eu lieu, il y a bien des années, dans U:Il
ministere de l'Education d'Allemagne, on entendit reprocher à la filiere
classique d'offrir trop peu d'heures de mathématique à ses éleves. Vn pro-
fesseur connu qui enseignait les mathématiques à l'université riposta:
«Oui, mais ils apprennent le latin» - e'est une réflexion qui ne serait
plus guere aooeptée de nos jours, bien que de nombreux et excellent's
scientifiques et ingénieurs qui ont fait des études seconclaires elas-
siques, soient là pour en eonfirmer avec éclat la justesse.
Les heures d'enseignement de latin ont été ridieule:ment réduites,
parfois à 2 heures par semaine et pendant seulement 2 ans au lycée
ou à l'université, souvent d'ailleurs parce que le «Latinum» est obliga-
toire pour l' étude de certaines disciplines. Cette situation est préoecu-
pante car il est la plupart du temps impossible d'apprendre correcte-
328 VIKTOR P6SCHL

ment la langue latine en si peu de temps. II n'est d'autre part pas


étonnant que cette méthode provoque chez les étudiants un phénomene
d'aversion pour le latino Quand l'un de ceux-ci fait . carriere dans
I'Education, on peut penser avec quelle passion il va prendre fait et
cause pour cette langue. II y a un seuil à ne pas dépasser, sinon
l'enseignement du latin devient une absurdité que combattent justement
les partisans d'une formation classique véritable.
L'application du principe d'égalité joue d'ailleurs - tout au moins
tacitement - un rôle qu'il ne faut pas sous-estimer dans le ressenti-
ment contre la filiere classique, ouvrant une blessure que 1'0n n 'est
manifestement pas encore parvenu à refermer. Le combat mené en
faveur de la «Gesamtschule», établissement d'enseignement à filiere
unique que tous les éleves suivent ensemble le plus grand nombre
d'années possible, est porté par un élan pseudo-dérnocratique répondant
à l'esprit du ternps. On postule l'égalité des chances, mais on la confond
avec l'égalité des dons, alors qu'i,l serait vraiment démocratique et
social de faire la difrerence entre les enfants doués et les autres
et d'assurer aux premiers, quelle que soit leur origine sociale, la
meilleure éducation possible, le plus tôt possible. Le dévelIoppement
positif d'une économie nationale n'est pensable qu'à condition que se
régénere sans cesse une élite à la culture éprouvée, une élite à laquelle
on puisse presque demander l'impossible. II est arrivé en Autriche, au
cours d'une discussion ou 1'0n plaidait en faveur de la filiere commune
et de la lirmitation, pour ne pas dire la suppression, du latin qu'un
vieux socialiste s'est levé et dit: «Mais, enfin qu'est-ce que vous voulez?
Nous avons toujours combattu pour que nos enfants puissent alIer
au lycée et maintenant vous voulez le supprimer. Vous nous faites un
tort oonsidérable».
Si nous voulons trouver les causes du déclin des langues anciennes,
ii ne faut pas passer sous silence un autre fait que certains partisans
de la culture dassique trouveront peut-être désagréable à entendre: il
faut avouer que ce genre de formation peche souvent en ce qui con-
cerne l'actualité et ne donne guere une orientation raisonnable actuelIe.
Ces critiques ne sont pas nouvdles, particulierement en AlIemagne.
II n'est que de citer Nietzsche. II est incontestable que pendant long-
temps les recherches sur Homere et sur Plaute, la critique de Cicéron
et de Virgile ont plutôt obscurci qu'éclairé l'actualité de ces grands
esprits. A la suite de Nietzsche, en AlIemagne, des hommes comme
Stefan George, RudoH Borchardt, R. A. Schroder, E. R. Curtius ont
maintes fois souligné le fait .
LES CAUSES DE LA DÉCADENCE DES LANGUES ANCIENNES 329

La conséquence en a été, comme l'a si bien dit R. A. Schroder


dans la postface de sa traduction de Cicéron, Cato Maior, que de désert
ou ,les marécages ont pris la place de terres autrefois fertiles. Bt ainsi
la participation du public à la controverse philologique' s'est enlisée,
lentement mais surement, et que celle-ci s'est mis à foisonner dans le
vide, se nourrissant de sa propre substance, si vous me permettez cette
expression hyperbolique». Schroder a écrit cette phrase il y a plus de
50 ans, mais elle n'a en rien perdu de son actua:lité. II est de mode
aujourd'hui de donner la préférence aux aspects purement formeIs et
il est particulierement dangereux de ne souligner que les arriere-plans
sociaux ou de réduire la poésie vivante à des tableaux et à des dia-
grammes sous prétexte de donner à la critique littéraire l'apparence
trompeuse d'une précision qui la rapprochemit des méthodes scie'l1-
tifiques.
Nous devons mentionner un autre fait: II est incontestable que le
monde antique nous devient chaque jour plus étranger. ' Cet éloigne-
ment, visible des le premier regard, peut apporter au censeur à courte
vue un argument supplémentaire contre la valeur éducative des langues
anciennes. Mais c'est justement ce caractere d'étrangeté qui plaide en
faveur, et non contre, l'intérêt porté aux cultures anciennes. Certes,
nous abordons là un autre monde, un monde opposé au nôtre. Les
cultures antiques se caractérisent par la valeur incontestable donnée
aux normes religieuses et mOl-ales que - spécialement dans le monde
romain - une tradition incroyablement forte maintenait vivantes et
ne cessait de consolider, par le respect indéracinable devant des notions
telles que arete ou uirtus, que nous , lisions Platon ou Aristote, o~
Cicéron, Salluste ou Horace, par le prix indiscuté donné à ce que
Rousseau nomme dans la derniere phrase de son Contrat Social, la
religion civile, qut plaçait toute éducation et toute sagesse à l'ombre
des quatr~ vertus cardinales (prudence, force, justice et tempérance)
et s'efforçait inlassablement à s'exercer à ces vertus, ce dont témoigne
chaque page des auteurs cités - tout cela nous est devenu bien étranger
et nous fait cependant cruellement défaut. Nous nous rendons cOllIlpte
que notre époque manque de valeurs fondamentales stables, ce que
d'ailleurs confirme la critique de la culture dont nous avons parlé,
mais, surtout l'insatisfaction généraJe de la jeunesse face au compor-
tement de notre société, insatisfaction qui n'est, hélas, que trop justifiée.
Mais d'autre part on peut y trouver le point de départ de changements
souhaitables. Sous la révolte de la jeunesse contre le vide d'une époque
uniquement préoccupée de valeurs matérialistes, contre les agressions
330 VIKTOR PôSCHL

portées à l'environnement, contre l'appauvrissement moral et spirituel


au milieu de la surabondance, on peut voir une absence de valeurs
qu'il nous faudra combler. II s'y fait jour la nostalgie d'un ordre
que la perte de la tradition, la crise des valeurs et la disparition des
normes ont détruit. On y voi! certes s'entrechoquer d'étranges contra-
dictions: d'un côté, la jeunesse combat toutes les formes de l'autorité,
de l'autre, elle réclame ardemment des normes, semblant confirmer
ainsi la phrase de Thucydide suivant laquelle la nature de l'homme
ne change pas, que les formes du comportement et des besoins élémen-
taires humains restent toujours les mêmes.
Mais il existe d'autres signes prometteurs, et d'autres contradictions.
Les personnages et les situations symboJiques que la mytholl ogie antique
tient à notre disposition se retrouvent sans cesse dans la littérature
moderne. La mythologie antique reprend inlassablement vie sur la
scene de nos théâtres et garde ainsi intact le lien qui nous rattache
à notre tradition et que tous les changements, toutes les prophéties de
malheur n'ont heureusement pas rompu. La fameuse perte du sens
historique a donné en fait une soif inextinguible de l'histoire. Les
visiteurs se précipitent en foule pour admirer les expositions ou une
abondante documentation soigneusement choisie nous présente diverses
époques de l'histoire. Les expositions tournantes des musées, qui ne
se limitent certes pas à l'art moderne, attirent des visiteurs par milliers,
au grand étonnement de leurs organisateurs. On peut y voir aussi le
désir d'utiliser judicieusement un temps de loisir qui ne cesse d'aug-
mente r. Même le nombre croissant d'étudiants, que nous déplorons,
peut être également une bonm.e chose. Les milliers d'étudiants qui
étudient les lettres aujourd'hui en Allemagne, sans espoir de trouver
un travail correspondant à leur formation, trouvent acces à des choses
qui enrichissent leur vie, ce qui peut être pour eux plus important
qu'une carriere brillante. Malheureusement peu de choix de carriere
s'offre à ces étudiants de lettres classiques, contrairement à ce qui se
passe aujourd'hui encore en Angleterre ou 75% des éturliants qui ont
étudié les langues anciennes à l'université, trouvent des postes dans
l'administration, la diplomatie ou la finance. On les y engage même
de préférence à tout autre. Les voyages également, dans les pays du
sud, ces pays méditerrannéens, berceau de notre culture ainsi que
dans les centres de la culture des pays occidentaux, ou de si nombreux
témoins de notre histoire culturelle se dressent vivants devant nos
yeux peuvent faire naltre et consolider les liens qui nous rattachent
aux racines de notre culture. Mais aussi souhaitables que soient ces
LES CAUSES DE LA Df: CADENCE DES LANGUES ANCIENNES 331

contacts, aussi utiles que puissent être les traductions de textes anciens,
il faut qu'existe également la possibilité d'accéder immédiatement à
ces textes et de jouir de 1'admirable force originelle des langues
anciennes.
II nous faut des établissements d'enseignement, lycées et univer-
sités, qui puissent réaliser ce programme sous sa fohme optimale. Ce ne
serait d'ailleurs pas un grand malheur si seul un petit nombre d'éleves
apprenaient le latin, et encore moins le grec. II peut arriver que dans
les écoles d'élite - et ces écoles doivent exister et être encouragées
par tous les moyens possibles - un petit nombre d'enfants doués et
curieux d'études deviennent familiers des langues anciennes et qu'en
émanent les forces qui donnent leur empreinte à notre cUllture; des
personnalités ou se jouent harmonieusement toutes les forces vitales,
celles de 1'eSiprit et celles du cceur, qui ressentent la joie d'agir dams
la bonté et la beauté - et la joie éprouvée devant la beauté et la force
d'une langue n'est certainement pas la moins intense.
Nos écoles pourraient cO'lltribuer à ce que ces possibilités devien-
nent réalités. Pour ce faire, iI faut qu'il y ait dans toutes les villes de
quelque importance des endroits ou 1'on puisse apprendre les langues
anciennes dans les textes. II faut qu'il y ait un certain nambre d'écoles,
aussi petit soit-il, ii faut qu'il y ait une équipe d'enseignants et d'éleves
qui maintiennent le potentiel ooucatif des langues anciennes et le
tiennent à la disposition de notre monde. Nous pouvons ici aussi
discerner en Allemagne et en d'autres lieux du monde ocddental des
signes encourageants. II y a chez nous des étudiants extrêmement
doués qui vouent un intérêt passionné aux langues anciennes, qui écri-
vent des theses excellentes sans parler des professeurs de haut niveau
qui enseignent dans les universités. Ou a parlois l'impression que la
qualité des travaux universitaires va en augmentant, quant à la quan-
tité, cela va malheureusement aussi de soi.
Les Iettres classiques et, avec elles, la science de 1'antiquité qui ne
peuvent exister sans la connaissance des langues anciennes, sont dans
notre monde technique et industrialisé une compensation, un contre-
poids nécessaire. A une époque ou tout ce qui est superficiel prend la
premiere place et ou tout ce qui fait le propre de 1'homme se trouve
toujours plus en danger, il est pIus que jamais nécessaire de créer ces
contrepoids. Le danger n 'est pas nouveau. «Car ii est dans la nature
de .J'homme» - ainsi que l'a déjà dit Humboldt - «d'être toujours
poussé à ne tenir compte que de 1'extérieur, de devenir toujours plus
étranger à lui-même et de se perdre completement». Nous rencontrons
332 VIKTOR PõSCHL

ici la notion d'aliénatio!l1 qui apparait pour la premiere fois chez


Rousseau dans sa critique de la civilisation et qui joue un si grand
rôle chez Marx. Le danger de I'alién:ation, de la déshumanisation, s'est
accm aujourd'hui dans des proportions effrayantes dans tous les
domaines de la vie. Un contrepoison efficace est nécessaire et I'un des
plus efficaces est l'intérêt porté aux langues et à la littérature dont
l'amour peut éclairer toute une vie. S'occuper de langues, de littérature,
de poésie exige la présence de I'homme tO'llt entier, c'est activer la ratio
comme l'irrationnel, les sentiments, la sensibilité artistique, la pensée
abstraite comme la sensualité. L'amour de la langue et de la poésie
comme I'arnour de la musique, des arts, de la beauté en général
correspond à un profond besoin de l'homme. Je voudrais le nommer
besoin de culture, non pas d'une pseudo-culture, celle dont nous inon-
dent les médias et la mode, mais celle que Cicéron appelait cultura
animi, la culture de l'esprit et du oreur.
On se rend de ph,ls en plus compte de la nécessité d'une compen-
sation de ce genre. Ou re1Jlarque dan$ le monde entier une tendance à
ne pas spécialiser trop tôt les chercheurs, particulierement dans le
domaine des sciences. On demande de plus en plus une large formation
générale, la préférence étant donnée aux lettres. Les programmes
scolaires doivent absolument tenir compte de ce changement. C'est
ainsi que les universités élitaires américaines, comme nous l'a récem-
ment rapporté le Prof~sseur Schettler, Président de I'Académie des
Sciences de Heidelberg, ont énomnément diminué les programmes
d'enseignement et d'exarnen et introduisent de plus en plus de cours
littéraires dans les études de médecine. II faut en tout cas faire tout
notre possible pour combler le fossé qui sépare le progres technique
et le progres moral, lesqualités économiques et les quaJités culturelles.
Nous devons répondre au reproche que I'on nous fait suivant lequel
nous' avons acheté le progres maté~iel par la perte de notre substance
culturelle, spirituelle et humaine. L'animosité portée à la tradition, à
l'histoire, c'est-à-dire aussi à la culture, qui ne cesse de s'étendre chez
nous confirme ce reproçhe. Nous ne pouvons apprendre ce qu'est la
culture ni de nous mêmes, ni des phénomenes passagers d'une mode
changeante, mais des modeles qui ont depuis longtemps fait la preuve
de leur force vitale, des grands poetes, musiciens et artistes du passé
et, parmi eux, les grandes figures de I'antiquité trouvent leur place
légitime. On ne peut pas les exclure de notre culture. Elles y sont
indissoh.lblement liées. L'antique culture fondée par les Grecs a marqué
de sa pJus belleempreinte la latinité. ·
LES CAUSES DE LA Df:CADENCE DES LANGUES ANCIENNES 333

L'alternative n est donc pas à vrai dire «grec ou pas grec», «latin
ou pas latin», mais «culture ou pas culture». Le latin surtout est un
élément international qui unit les cultures nationales de l'Europe de
l'est et de l'ouest. Chacune de nos cultures nationales a ses particularités
qui font sa fierté et que nous devons maintenir. Mais nous appartenons
aussi à une communauté culturelle, dont nous devons également être
fiers. Pourquoi devrions-nous aujourd'hui ou tous les peuples d'Asie,
d'Afrique, d'Amérique recherchent fiévreusement leurs racines pour
y trouver leur justification, ne pas avoir aussi le droit en Europe de
soigner l'héritage commun qui constitue la meilleure partie de notre
identité? De cette identité le latin fait aussi parti e et ce n'est pas un
hasard si le mot culture est un mot latino
(Página deixada propositadamente em branco)
III
PENSAMENTO E HUMANISMO:
ÉTICA, DIREITO, CIÊNCIA E TÉCNICA
/

PENSEE ET HUMANISME:
ÉTHIQUE, DROIT, SCIENCE ET TECHNIQUE
(Página deixada propositadamente em branco)
HUMAN NATURE lN THE PHlLOSOPHlCAL ETHICS
OF ANClENT GREECE AND TODAY

A. W. H. ADKINS
University of Chicago

Do moral philosophers need a view of human nature? If so, why?


What role does it play in ancient Greek philosophical ethics and those
of today? Ms. G. E. M. Anscombe 1 gave what might well have been
intended as an answer to these questions:

It is not profitable fo r us at present to do moral philosophy; that


should be laid aside at any rate until we have an adequate philosophy
of psychology, in which we are conspicuously lacking . .. . ln present-day
philosophy an explanation is required how an unjust man is a bad
man, or an unjust action a bad one; to give such an explanation
belongs to ethics; but it cannot even be begun until we are equipped
with a sound philosophy of psychology. 2

Now is Ms. Anscombe seeking a theory of human nature? She


might be saying something like this: 'If we knew what human nature
was, we would surely be able to state which human beings were exem-
plifying it, and so showing themselves as good specimens of human

1. ln «Modem Moral Philosophy,» Philosophy 33 (1958) , 1-19.


2. 'Presumably Ms. Anscombe favours psychology because ancient Greek philo-
sophers and their successors argue for the psuche as the locus of the most
important good and bad for human beings. «For the proof that an unjust man
is a bad man would require a positive account of justice as a 'virtue'. This part of
the subject-matter of ethics is, however, completely closed to us until we have an
account of what type of characteristic a virtue is - a problem not of ethics,
but of conceptual analysis - and how it relates to the actions in which it is
instanced .. . a matter which I think Aristotle did not succeed in really making clear.»

22
338 A. W. H . ADKINS

beings.' Or should we? Ms. Anscombe's philosophy is deeply influenced


by Aristotle, and the 'good specimen' argument suits his overall position,
as we shall see later. However, Ms. Anscombe is not only influenced by
Aristotle, but herself a prominent philosopher in the Christian tradition.
Since in that tradition human nature is regarded as 'fallen,' to discover
human nature is not to discover what makes a human being a good
[specimen of] human being, what a human being 'ought' - in some
sense of 'ought' - to be; and moral psychology may furnish similar
problems. 3 However, it seems possible to develop a theory of the good
specimen of human being by specifying how one might surpass the
weakneslSes of human nature. ln both cases, we may ask whether a
determinate view of human nature is needed by the moral philosopher.
We may also inquire whether a merely descriptive view of human
nature will suffice for moral philosophy; is there always a system ot
values, explicit or impliót, recogm.ized or denied, associated with the
concept? This should become clearer Iater. 4
Socrates was the first moral philosopher, but it is relevant to con-
sider the beliefs and values of his non-philosophicaJ contemporaries
and predecessors, for these beliefs and values set the problems which
Socrates tried to solve, and his attempted solutions set further problems
for subsequent moral philosophers. 5

3. EIsewhere, Ms . Anscombe has denied the possibility of a moral 'ought" in the


absence of belief in a just and judging God. The apparent implications of some
types of psychiatry may have their part to play, though most psychiatrists seem
to agree with Spinoza that greater knowledge of oneself increases one's autonomy
and freedom.
4. Presumably most Greek philosophers would not have regarded the much-
debated 'Naturalistic Fallacy' as a fallacy.
5. It is unusual to approach the study of Greek philosophical views of
anything by analyzing the thought and beliefs of those non-philosophical thinkers
who preceded the philosophers. It is certainly rare to study human nature in this
way: let me cite the table of contents of a popular text book for American college
students. Its author, Leslie Stevenson (The Study of Human Nature: Readings,
Oxford 1981), divides his readings into four groups : Part I: Beliefs about Human
Nature in the Ancient Religious Traditions. Part II: Reasoned Argument about
Human Nature in Greek and Mediaeval Philosophy. Part III: The Searching for
a Scientific Theory of Human Nature. Part IV: How far is a Scientific Theory
of Human Nature possible? Most readers wiU expect to find all the 'modem'
- in the widest sense of 'modem,' in which its contrary is 'ancient' - readings to be
placed in Part III and Part IV, and would not be surprised to find no mention
of Greek or Roman Religion in Part L Stevenson's book fulfills their expectations.
Insofar as he is making a judgment about the quality of Greek religion as a
HUMAN NATURE lN THE PHILOSOPHICAL ETHICS 339

ln early Greece, a poJytheistic and traditional society, human beings


are of course distinguished from gods. Gods do not die. But the only
other explicit difference between gods and human beings in Homer is
that the gods have mOl'e valour, social position, strength and wealth 6
than men. 7 It seems clear that if a mortal possessed enough valour,
status-and-possessions and strength, he would become a god; and there
are examples. 8 The weakness of the Greek god, and the enterprise of
the mortal worshippers, demand a constant reminder 9 that there are
things which gods can or are allowed to do which mortaIs cannot
or must not do. The early Greeks often criticize another's action as
'gl'eater than a human be~ng can/shou1d attempt to accomplish'; and
this furnishes a defini:tion - by exclusion - of human nature. lO.
There is, however, a different train of thought, which employs the
word phusis, frequently rendered by 'nature', so that 'human phusis'
would be 'human nature'. The word basically means 'birth'; but one
should never forget that connotations of words tend to be lost in
translation: 'human nature' is in fact not an adequa te tranSllation
of 'hllJman phusis' as the phrase is used in the later fifth century B. C.
At this time, the period of the sophists, the connotations of phusis
began to be important. Such a word might be used to refer to the
common features with which human beings are born - eyes, nose,
mouth, etc.; and indeed a passage from a writer of the late 5th

religion, few will disagree. But ancient Greek beliefs about their gods nonetheless
throw light on their view of human nature. So I shall discuss pre-philosophical
Greek writers briefly, noting their influence on Socrates, and thence through
Plato and Aristotle and beyond.
6. Arete, time, and bia, Iliad 9.498.
7. The mysterious substance ichor appears only in Iliad 5, to explain why
Diomedes cannot kill the gods though - in that book - he can wound them.
8. Hercules, Castor and Pollux, for example. There are easier routes to
immortality, if not to godhead; even the remo te and minor nymph Calypso could
have made Odysseus immortal by feeding him on ambrosia. (Odyssey 5.135-6.209).
9. Note Poseidon and the Greeks in the Iliad, Poseidon and the Phaeacians
in the Odyssey.
10. For example, Capaneus in Aeschylus, Septem 425; Agamemnon in Aeschylus ,
Agamemnon 925; in Herodotus 3.38 we find a miraculous pair of hoplites 'bigger than
accords with the phusis of mortaIs' (To translate phusis here by its basic sense
of 'growth' makes sense, and is not unusual at this date.) For Socrates in the
Apology, see below, n. 33. Herodotus' phusis here - the hoplites are not mortals-
shows how phusis in its more traditional usage might express limits. 'Hubris' is
used traditionally when emotions run higher, and the need to restrain rthe
transgressor is more urgent.
340 A. W. H. ADKINS

century B. C. emphasizes precisely this. Ris goal was to break down


the distinction between Greeks and 'barbarians.' 11 At the sarne time
a new, 'sdentific,' medicine was beginning to develop in Greece; and
the -quite recent - opposition of phusis ['birth, nature'] to nomos
['convention, law'] had become rautine among the thinkers of the day 12.
The evidence I have supplied thus far suggests that phusis was
suitable for use as a restraint in the sarne way as the traditional 'not
within the scope of human power.' After all, few doctors can have ever
deduced from the fact that all human beings have stomachs that all
human beings should gratify those stomachs to the limite of thair
abilities. 13 Yet in ~lato's Gorgias we find ·Callicles urging that the senses
should be gratified to the full at all times, eX!plidtly in the name
of phusis.
ln part this results fram an attempt to derive human phusis not
from human behavior alone but from nature as seen in other animaIs
and birds. 14 But there is another reason. Phusis might have been regu-
larly used to refer to birth simply as a physical [or psycho-physical]
evento ln fact, it is often used aJso of the entire complex of social and
economic advantages or disadvantages from being born into a particular
family at a particular time. People of high birth in this sense were
termed agathoi, and commended for their possession of arete, human
excellence, since they contributed more than others to the weUbeing
of their poleis. ln a society organized into small poleis, fiel'cely inde-
pendent and consequently frequently at war, those who could most
effidently assure the security of the polis and of the crops on which
its survival depended had a stronger prima facie claim to be good

u. Antiphon the Sophist, D-K B44.


12. The Presoeratie Democritus eould write that 'by nomos there exist (the
data of the senses) but by phusis only atoms and void' (D-K B125, 168). A moment's
thought would surely have eonvinced him that no one ever made an agreement
or law that though there are 'really' only atoms and void, heneeforth sense-data,
mOlmtains, rabbits and philosophers shall be deemed to existo
13. Indeed, Socrates, Plato and Aristotle seleet the doetor and the athletics
trainer as experts whose adviee one fails to heed at one's peril where the health
of the body is at issue, precisely as an analogue for an expert in the health of the
psuche for whom seareh is being made.
14. ln Aristophanes' Clouds 1427 ff., Pheidippides commends the attitudes of
barnyard roosters to their fathers, and is asked by his disgruntled father why
he doesn't also eat dung and sleep on a pereh. Cf. Soerates' eharaeterization of
GaUicles' preferenees as 'the !ife of a bustard' in Plato's Gorgias, 499 b 6.
HUMAN NATURE lN THE PHILOSOPHICAL ETHlCS 341

specimens of human beings than those who could not do soo 15 Heavy
infantry - and a small number of cavalry - performed this function.
The equipment was quite expensive, and had to be purchased by the
individual, so that the polis' most important defenders carne from a
class, del10ted and commended as 'the agathoi, the possessors of arete.'
Such people naturally had a different kind of expectations and behavior
from those of low birth and the poor. They had been accustomed to
have their own way in the polis; they had always been agathoi phusei,
good specÍ!IDens of mankind, by birth; now they were agathoi phusei in
the additional sense of 'by nature.' Consequently, their superiority and
privileges were linked to the real rather than the conventional.
So kat'anthropon, 'in accol'dance with what anthropoi [human
beings] can do' brings in the idea of constraint, whereas phusis as
applied to agathoi andres [warriors of 'good family'] tends to, and
is meant to, free them from constraint: these are the 'real' best speci-
mens, and as such, should maximize their own well-being and that of
their friends as tradicional arete demanded. 16 Traditionally, the fea;r of a
just - or at least a jealous - god had acted as a restraint; but that
fear was fading.
Antiphon, the sophist mentioned above, also advised his readers to
behave in accordance with the laws of the polis when not alone, but
the edicts of phusis when alone. To act against the law damages one
only if found out; but to act against phusis does real harm to the agent.
Though SOillle of his phrases suggest that to act against phusis is
impossible, the advice clearly supposes that the agent has a choice. 17

15. See Adkins 1960 passim.


16. See, for example, Callicles' tirade, Gorgias 482 c 4 ff.
17. 'Dikaiosune (justice), then, is not to transgress what is laid down by
nomos in the polis in which one lives. A man would accordingly make use of justIce
in a manner most advantageous to himself if he were to treat the nomoi as most
important when witnesses were present, but the edicts of phusis as important
when he is alone; for the edicts of the nomoi are adventitious, whereas those of
phusis are necessary. Those of the nomoi arise out of compacts between men,
not as a result of phunai (natural growth), whereas those of phusis are a result
of natural growth and do not arise out of compacts between men. Supposing,
then, that a man transgresses what is laid down by nomos, if he escapes the
notice of those who made the compact, he is free from both shame (aischune,
linked with aischron) and actual damage, while .if he does not escape notice, he
does not escape those penalties; but supposing, against possibility, a man violates
one of the requirements implanted by phusis, if he escapes the notice of all
mankind, the damage to him is no less, and if all see, no more, for he is not
damaged on account of an opinion, but on account of truth' (D-K B44).
342 A . W . H . ADKINS

Evidently no stronger 'ought' than a prudential one is expected to


deter the agent; but it is a constant feature of Greek ethics that arete
must in some sense of wellbeing conduce to the wellbeing of its pos-
sessor; and this must render the possession of arete, and of being
agathos, a desirable. This fact must be linked in some fairly dose
IDanner to the conoepts of human na,tUire held by the Greeks, or at
all events some Greeks. Note also that the criteria for the good specimen
of human being are dosely linked with the sUir\llival of the polis.
The 'sophists' 18 place human phusis at the centre of their concerns.
It was difficult in the intellectual world of late-fifth-century Greece to
deny the dose relationship between arete, 'human excellence,' phusis,
'human nature,' and eudaimonia, 'life at its best, human flourishing.'
So far as terminology is concerned, the Socrates of the early and middle
dialogues, and Aristotle, and many non-philosophical Greeks, agreed;
and whatever is so characterized must be not merely choiceworthy
but most choiceworthy.19 The only satisfactory way of commending a
different kind of behavior, when phusis is the topic for discussion,
is to try to show that human phusis, properly understood, is not
eXipres,s ed merely by satisfying the 'natural desires,' including the desires
for power and wea1th.
Plato and Socrates certainly wished to change the view of human
phusis. RelevaIl!t questions are discussed in earher dialogues; but the
most detaHed presentation is given in the Republic. Phusis, as Plato
wishes to use it, is introduced where the topic under discussion is
the minimal polis of four or five artisans and farmers, and it seems
uncontroversial that different people differ in respect of phusis. ln
consequence, the artisans will flourish more if each 'does his own
thing' and exchanges the fruit of his labours with others. 2O
Socrates speaks of this polis as the 'true' or 'healthy' polis. Glaucon
and AdJimantUis caH it 'the city of plÍ.gs', and Soc.rates, accepting the
additions to be found in the poleis of the day, terms the result a

18. 'Sophist' means 'intellectual' at this time. Socrates, Plato and Aristotle
were all sophists in the language of the day.
19. Is it inevitable that to act in accordance with the behests of phusis is
to display human phusis?
20. Where potters are generally the sons of potters, blacksmiths the sons of
blacksmiths, that potters differ from blacksmiths phusei in one sense of phusis
is patently true; and in the stronger sense of phusis might be difficult to disprove.
The leisured Greeks in the dialogue were 110t likely to be interested enough
to deny it.
HUMAN NATURE lN THE PHlLOSOPHICAL ETHICS 343

'feverish' polis. [Once again the medical analogy, 372e is.] Socrates now
argues that war is inevitable for such a polis, since it will need more
territory, and will need to take it fram other poLeis. 21 Using the previous
agreement that 'each of us is better by phusis for one particular task,'
he argues that there should be a seIparate miliJtary clas's in this polis. 22
Already in this context Plato introduces the idea of philosophy, 375 elO:
the guardians are to be like dogs, and be friendly to those they know,
hostile to those they do not know. 23 So, 376c7, the éIlpproved guardian
of the polis must be 'philosophic,' 'spirited,' swift and strong in respect
of his phusis, so as to be by phusis competent at fulfUling his ergon,
his task. Socrates rather shamefacecLly produces a myth, whose goal
is to inculcate into the dtizens a belief in a real difference in the.ir
capabilities. Those with gold in their psuchai are fit to rule, those
with silver to be soldiers, those with iron or bronze to be farmers and
artisans, 415 a-c. Insofar as this is believed, it strengthens Socrates' claim
that there are politica:lly important differences in human psuchai.
At 428e7, Socrates says that 'it is by reason of the smallest group
and part in it, then, and the knowledge in that ... ruling element, that
the whole polis founcled in aocorcLance with phusis would be wise.'
Suitable characters are to be steeped in indelible right opinion because
they have had a good phusis and a good trophe [nature and nurture].
And 433 a, 'We posited ... that each individual shou1d perfoI'm that one
task of those concerned with 24 the polis for which his phusis was most
naturally suited.' If two artisans exchange tasks, no great harm is done,
434a; but if someone who is an artisan phusei attempts to enter
one of the other classes, this exchange and meddling is a disaster to
the polis. Socrates then turns to study individual psuchai. As to impart
physical health is to ensure that those parts of the body that in accor-
dance with phusis are meant to rule and be ruled respectively do in
fact do so, so justice is to ensure that the parts of the psuche meant
to rule and be ruled do in fact do soo This discussion precedes the

21. Particularly in Greece, where oultivable land was always at a premium.


22. This is a much more surprising point: most Greek poleis relied on a
militia of yeoman-farmers for their defense an land. Sparta and Crete affer the
closest resemblances, as was to be expected. Socrates and his pupils charac·
teristically preferred the constitutions of Sparta and the Cretan cities to that of
democratic Athens.
23. This usage is af course without the transcendental implications of the
term which appear in the later books.
24. Plato here uses both phusis and the verb pephukenai to emphasize his point.
344 A . W. H. ADKINS

introduction of the philosopher-rulers, but follows some way after the


myth of the souls with different metaIs, which entails that human
beings are bom une qual in ways ~mportant in ethics and politics.
Callicles and Plato both treat human phusis in a hierarchical
manner. For both, but in different ways, 'birth,' the qualities one was
bom with, broadly interpreted, is of great importance. The provisions
for mating among the rulers of the Republic suggest the eugenics of
the aristocratic breeder of horses or dogs. 2S [It should be noted how
ingeniously Plato has contrived to enroll the 'cooperative excellences'
- justice aJlJd self-restradnt - in the company of aretai-by-phusis.]
This hieral:'chical system might suggest a rigid view of human
natures [plural] , to the point of raising doubts about 'human nature'
as such. However, Plato's eschatology and epistemology, displayed in
the myths for the most part, reveal a much greater flexibility. Plato
adopts the belief in the transmigration of psuchai, 'souls.' 26 Earlier
believers in transmigration had taken the same view. Z7 Plato turns
this to moral account in his myths, in different ways. ln · several dialo-
gues the psuche is punished or rewarded after death for its deeds on
earth, then reborn. 28 ln the myth of Bor in the Republic, it is taken
for granted that a human psuche can be incarnaJted in the body of
an andmal. l'l1Ideed, it is difficult to say that there is a distinc-
tively human psuche in the myth of Er. The omission is dealt with
in the myth of the Phaedrus: the psuche which has never 'seen the
Fo I'illS , cannot pass into a human body. The hurnan being is capable
of forming concepts, using words and reasoning. 29 For the first time a

25. The parallel was explicitly drawn in the Theognidea, 183 ff. ln the later
fifth and earlier fourth centuries, the reason why agathoi parents have kakoi
children was much debated.
26. Psuche denotes whatever distinguishes a living creature from a dead one.
That there is a difference is indisputable; its nature and ontological status are
the topics of discussion.
27. Pythagoras and Empedocles both claimed to have been incarnated also
in a non-human formo No earlier believer that the psuche passed through a
sequence of lives distinguished the human psuche from those of animaIs, 01' indeed
plants. lndeed, Empedocles claimed to have been in different lives a boy, a girl,
a fish and a planto
28. See Meno, Gorgias, Phaedo , and Republic.
29. Anyone who has seen the Forms at all before birth will be capable of these
activities to some extent. The philosopher-ruler of the Republic evidently needs
much greater acquaintance with iliem.
HUMAN NATURE lN THE PHILOSOPHICAL ETHICS 345

specific differentia for human beings is given. [Plato still treats the
passing of a human psuche into a non-human body as a regular occur-
rence, Phaedrus 249b-c]. The Republic contains both the metals-myth,
desrigned to em:phaSlÍze the differences w1thin the hUllTlan race, and also
the myth of Er, in which transference between different animal species
is taken for granted. Both in different ways suggest that there is no
such thing as an overall human nature. Before the composition of the
Phaedrus, Plato seems to have given little thought to what makes
human beings distinctively humano 30
I now tum to Aristotle. Aristotle did not believe in the Forms as
existing aIIlrte rem, beyond space and time; and as a biologist he
distinguished between different types of psuche, life-principle, aJlotting a
different type to eaoh species. The life-principle is more or less equated
with the organizing phusis, the final cause. The final cause of each
different creature or species can exist only embodied in a member
of the appropriate species. It follows that a psuche cannot exist outside
its body; and if it could, it couM transmigrate into no other species.
[Nous survives, De Anima 429 alO ff., but has no memory, so that
individuaHty is impossible outside the body.] The form of rabbit is
transmitted to a new generation of rabbits by the male in sexual
reproduction, the female supplying the matter. Human phusis is seen
in the light of Aristotle's overaJl biology. So prima facie it should be
possible .to find a 'hUllTlan nature' in Aristotle based on his view of the
human species.
For Aristotle, 'not in accordance with human powers' can function
in the traditional sense,31 furnishing a restraint and a definition by
exclusion. 32 ln EN 1177b, on the other hand, the theoretic life is 'better
than what oan be achieved by human oapabilities.' Aristotle is aware
that to recommend such a life as the highest and most choiceworthy
for human beings must sound like hubris to some of his contemporaries,

3'0. It had long been possible to contrast human behavior with animal behavior.
Hesiod does so, W & D, 203 ff., 276 ff.
31. Above, p. 339 and note 10.
32. So, in EN 11,15 b 8, AristotIe distinguishes between the fearful which is
huper anthropon, too much for mankind, from that which is kat' anthropon,
in accordance with what man can bear; and in EN 1110 a 23 he says that pity is
extended to those who are forced to behave badly by constraints which are too
strong for he anthropine phusis, human phusis. ln Politics 1286 b 27 he speaks of
'a greater [cooperative] arete than is in accord with human nature.'
346 A . W. H. ADKINS

and adds 'one ought not to follow those who exhort one, since orre is
human, to have human thoughts.' 33 For Plato and Aristotle, then, the
most choiceworthy life for a mortal human being is to live in accor-
dance with something not mortal within uso Plato's eschatology and
metaphysic point in the sarne direction. It would be better for the
philosopher-rulers not to go back into the Cave; and the psuchai of
the Phaedrus myth are on earth solely as the result of a chariot accident
while they were disembadied. 34 For these phHosophers, then, there is
a better activity for the human being than the life of the citizen at
its best. 35
ln the Republic Plato constructs an elaborate frarnework, and claims
that the major cooperative excellences - justice and self-control- can
be shown to be essenrtial to the wellbeing of the polis and af the psuche.
He also daims that this polis and this psuche exemplify the 'polis by
phusis' and the 'psuche by phusis'; and evidently to say 'by phusis'
is to say 'best'. He does not mean that a 'golden-souled' - by phusis-
infant in its cradle may be relied upon to develop into a philosapher
ru1er, or even a good citizen. Nurture is as important as nature: all the
'golden-souled' and 'silver-souled' are to be given a thorough moral
education at the leveI of 'right opinion,' and tested repeatedly to make
sure tna:t their responses are reliable, before they are allowed any taste
of power.
Aristotle too believes that phusis is not enough to produce a good
man, a good spedmen of a mano He presents his view more concisely
than does PI.ato. 'Ethics gets its name, with a minor change, from

33. [The exhorters are mostly poets; but Plato's Socrates, on trial for impiety,
claims only anthropine sophia, human wisdom. He glosses the phrase, Apology
21 d 7, as 'not even thinking that I know what I do not know.' Socrates is con-
trasting himself with the sophists, 'who doubtless have some greater than human
wisdom.' Plato's Socrates, who possesses some rhetorical ability, is passing on the
impiety charge to others.] For Aristotle, of course, there is a divine spark within
man; and he goes so far, a few lines later, as to equate human beings with that
elemento The gods in whom Aristotle believed did not, of course, feel envy at the
success af mortaIs. They, the intelligences of the spheres, have their gaze directed
on the highest of them, the Unmoved Mover; and the Unrnoved Mover, contem-
plating itself, is not aware of the existence of anything other than itself.
34. The belief that human beings - or all living creatures - are on earth as
the result of some wrongdoing of theirs elsewhere is found in e. g. Empedocles
D-K BUS. [The belief is found also in other cultures].
35. The question whether this is still an activity that displays - merely -
human nature I shall defer for the momento
HUMAN NATURE lN THE PHlLOSOPHlCAL ETHlCS 347

ethos, habito So it is apparent that none of the 'ethical' aretai are innate
in us by phusis. For none of the things that are as they are by phusis
can be habituated to behave differently. For example, a stone, which
falls to earth by phusis, could not be habituated to go upwards, even
if one tried ten thousand times by throwing it upwards... So the
(ethical) aretai do not arise in us by phusis or contrary to phusis. They
arise in us and we are by phusis [pephukenai] able to receive them,
but ethos is necessary for our perfection' [EN 1103 a 17 ff.]. 36 We have
by phusis a 'capacity for opposites,' and acquire a good state of character
[an arete] or a bad one [a kakia] in accordance with our habituation.
ln this usage, phusis denotes a potentiality. Huanan beings are neither
good nar bad by nature. Without habituation, however, man is the
most dangerous of animals.:rI Here, Plato and Aristotle are in close
agreement. Does Aristotle suppose that different human beings have
very different capacities phusei for development? His preference for
analysis over pom,g·con's truction conceals the faot; but for Aristotle aH
women, ohildren, barbarians and many Greek - but not agathoi-
males are incapable of planning their lives, leaving a handful of adult
male Greeks with the ability to live their lives autonomously by the
light of reason. 38 Barbarians are only fit to be ruled despotica11y. The
exoel1enoes in the full sense oan be exerciz.ed on.l.y by an adult male Greek
in a good polis. 39 Women and even slaves caIIl. be 'good'. But a 'good'
woman or s1ave has not the sarne exoeUences as the agathos ana,
even if they possess qualities called by the sarne names. A woman's ·
sophrosune is not like a man's.4O A modem reader might wonder why
Aristotle did not conclude that there was no 'human nature' at alI, since
there were such differences phusei between the Greeks and Persians,
differences which fundamentally affected the way in which each lived.
Ho