Você está na página 1de 27

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE GOIÁS

ESCOLA DE DIREITO E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

NÚCLEO DE PRÁTICA JURÍDICA

COORDENAÇÃO ADJUNTA DE TRABALHO DE CURSO

ARTIGO CIENTÍFICO

O PERITO JUDICIAL NO PROCESSO CIVIL:

UMA EVOLUÇÃO HISTÓRICA

ORIENTANDO (A): EDILSON GONÇALVES DE AGUIAIS

ORIENTADOR (A): PROF. ME. JACOBSON SANTANA TROVAO

GOIÂNIA
2019
EDILSON GONÇALVES DE AGUIAIS

O PERITO JUDICIAL NO PROCESSO CIVIL:

UMA EVOLUÇÃO HISTÓRICA

Artigo Científico apresentado à disciplina Trabalho de Curso II, da Escola


de Direito e Relações Internacionais, Curso de Direito, da Pontifícia
Universidade Católica de Goiás (PUCGOIÁS).

Prof. Orientador: Me. Jacobson Santana Trovão

GOIÂNIA
2019
EDILSON GONÇALVES DE AGUIAIS

O PERITO JUDICIAL NO PROCESSO CIVIL:

UMA EVOLUÇÃO HISTÓRICA

Data da Defesa: 22 de maio de 2019

BANCA EXAMINADORA

_________________________________________________________
Orientador: Prof. Ms. Jacobson Santana Trovão Nota 10,0

_____________________________________________________
Examinador Convidado: Profa. Ms. Godameyr Alves P. de Calvares Nota 10,0
Ao Grande Arquiteto do Universo (Deus).
AGRADECIMENTOS
Agradeço primeiro a Deus, o Grande Arquiteto Do Universo, pela vida, pela
saúde e pela oportunidade de aprender a cada dia um pouco mais.
Agradeço aos meus pais (Valdir – in memoriam – e Vera) pelas grandes e
constantes ‘puxadas de orelha’ que tão bem me fizeram e me trilharam o caminho do
sucesso.
Para não criar uma extensa lista, agradeço a todos que me ajudaram de
todas as formas durante minha vida acadêmica.
À minha família, em especial à minha esposa Geane, que sempre foi o meu
porto seguro.
SUMÁRIO

RESUMO .......................................................................................................01

INTRODUÇÃO ..............................................................................................02

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: A PERÍCIA E O PERITO.......................04

1.1 A PERÍCIA ..............................................................................................04

1.2 O PERITO ..............................................................................................06

2 EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA PERÍCIA NO PROCESSO CIVIL .............09

2.1 A PERÍCIA NA ANTIGUIDADE E IDADE MÉDIA ...............................09

2.2 O SURGIMENTO DA PERICIA NO BRASIL ........................................12

CONCLUSÃO ..............................................................................................17

REFERÊNCIAS ...........................................................................................19
A ATUAÇÃO DO PERITO NO PROCESSO CIVIL:

UMA EVOLUÇÃO HISTÓRICA

Edilson Gonçalves de Aguiais1

RESUMO

O intuito desse trabalho foi entender como se deu a evolução histórica do perito nos
processos judiciais de natureza civil. A justificativa desse trabalho está ligada ao
crescente número de processos judiciais com fundamento em alguma questão de
natureza técnica e, por isso, que demandam a atuação do perito. A primeira parte do
trabalho traz a fundamentação teórica da perícia, definindo-a como o trabalho realizado
por um profissional especializado e legalmente habilitado com o objetivo de geração de
prova além de definir quem é o perito e qual é a sua função no processo. A segunda
parte adentra a evolução histórica da perícia, iniciando nos rudimentos da perícia na
Antiguidade, passando pela Idade Média e chegando ao Brasil influenciada pelas
Ordenações Afonsinas. Além disso, ainda nessa parte, apresenta-se evolução histórica
da perícia no Brasil, até o atual Código de Processo Civil (Lei n. 13.105/2015). Por fim,
são tecidos alguns comentários e conclusões sobre o estudo, apontando a necessidade
de novos estudos com foco na lei processual vigente no país.

Palavras-chave: Perito Judicial. Perícia judicial. Processo Civil.

INTRODUÇÃO
Na Antiguidade, as provas que seriam utilizadas no processo de julgamento
de determinada questão eram colhidas diretamente pelo rei, que fazia o papel exclusivo
de juiz, sem o auxílio de nenhum profissional técnico especializado. Um episódio
bastante conhecido desse modo de julgar e da soberania das decisões reais é relatado
na Bíblia Sagrada (2009) em I Reis, Cap. 3 ver. 16 - 28. Nessa passagem, o Rei Salomão
é instado a julgar a causa de duas mulheres, ambas com filhos recém-nascidos. Uma
mulher tinha seu filho vivo enquanto a outra estava com o filho morto. A mulher que teve
seu filho morto, durante a noite, tomou o filho da outra, fingindo ser sua a criança viva.
Como as duas afirmavam que o filho vivo era seu e o filho morto era da outra, a questão
foi levada à presença de Salomão (BÍBLIA SAGRADA, 2009). O rei, que não dispunha

1 Acadêmico (a) do Curso de Direito da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, e-mail:

edilsongyn@gmail.com.
2

de exame de DNA à época, teve que emitir uma sentença decidindo a questão baseado
apenas nos relatos apresentados por cada uma das partes do processo.
De modo geral, o papel do rei era ouvir os argumentos dos interessados e
decidir a questão controvertida de modo soberano. Assim, mesmo que a matéria que
estivesse sendo demandada exigisse algum nível de conhecimento técnico - como a
medição da extensão das propriedades ou a capacidade de produção das terras -, ao rei
caberia proferir uma decisão. Assim, a falta de especialização técnica sobre o assunto
em demanda era sempre suprida pelo poder de comando do rei, que gozava de absoluta
soberania visto que era um enviado dos deuses para liderar aquele povo (ALBERTO
FILHO, 2015).
Com a ampliação da divisão social do trabalho, as relações jurídicas se
tornaram mais abundantes e complexas e o rei-juiz passou a perceber a latente
necessidade de obter conselho com pessoas que conheciam mais a fundo as questões
que envolviam a matéria que estava sendo julgada. Para auxiliar o rei em suas
sentenças, incialmente foi criado um conselho formado por algumas pessoas,
especialistas em determinadas matérias, que atuavam exclusivamente no
aconselhamento ao rei quanto à melhor solução para o caso. Sem dúvida, esse é o
surgimento da perícia como prova técnica a fim de suprir o juízo de conhecimentos
técnicos os quais ele não possui (ou não deve possuir).
Neste contexto, considerando a necessária utilização dos conhecimentos
técnicos e científicos desenvolvida pelo ser humano para que se possa ter uma justa
solução da lide, a questão norteadora do presente trabalho é entender como se deu a
evolução histórica da atuação do perito no processo judicial de natureza civil? Por isso,
o objetivo geral desse trabalho é apresentar a evolução histórica da atuação do perito no
que tange ao processo judicial de natureza civil. Para tanto, elegeu-se como objetivos
específicos: i) compreender a perícia e o papel do perito no processo judicial de natureza
cível; ii) apresentar a evolução histórica da perícia no processo judicial e, por fim, iii) tecer
alguns comentários sobre a atuação do perito.
Esse trabalho se justifica porque dados do Conselho Nacional de Justiça -
CNJ apresentam um crescimento constante do número de ações ajuizadas anualmente
(CNJ, 2018) e, para cada processo que tenha como fundamentação alguma questão
técnica ou científica, será necessária a nomeação de um perito judicial para esclarecer
ao juízo os aspectos técnicos da demanda (BRASIL, 2015). Ou seja, quanto maior a
conscientização dos cidadãos quanto aos seus direitos, maior será o número de
3

demandas judiciais que tenham por fundamento alguma questão técnica ou científica e,
portanto, mais profissionais especializados serão demandados para atuarem como
peritos.
Como se trata de uma trabalho com clara conotação histórica e que está
construído para orientar profissionais que não sejam da área do Direito sobre a atuação
do perito em um processo judicial de natureza civil, adota-se como hipótese desse
trabalho que o perito é um profissional essencial à prestação jurisdicional do Estado e,
portanto, um importante auxiliar ao juízo e aos profissionais do Direito. Assim sendo,
quanto mais conhecida for a forma de atuação desse profissional (que não tem formação
jurídica) quanto às nuances do processo civil mais efetiva será a jurisdição. Ou seja,
quando o profissional nomeado pelo juiz conhece a evolução histórica da atuação do
perito e os limites de trabalho técnico, este profissional poderá elaborar um trabalho
melhor fundamentado e, com isso, auxiliar efetivamente o juízo.
Metodologicamente, este trabalho se encaixa na abordagem qualitativa da
pesquisa. Para tanto, será feita uma revisão bibliográfica, a qual “é desenvolvida com
base em material já elaborado, constituído principalmente de livros e artigos científicos”
(GIL, 2002, p. 56) sobre o objeto que está sendo discutido. Isso acontece porque a
pesquisa bibliográfica é o instrumento que permite ao pesquisador acessar o que se tem
produzido e registrado perante o tema e possibilita “a cobertura de uma gama de
fenômenos muito mais ampla do que aquela que poderia pesquisar diretamente”. (GIL,
2002, p. 45).
Nesta reflexão teórica do estudo foi feita uma abordagem da evolução
histórica da perícia nos processos judiciais, com foco para a atuação do perito nas ações
cíveis. Para tanto, os estudos tiveram enfoque nos autores: Alberto Filho (2015), Almeida
(1870), Hortal (1997), Santos (2001), Silva (2014) dentre outros. Na mesma linha, a
forma definida da lei processual para a atuação do perito foi abordada, ainda no
delineamento teórico do estudo, embasadas em autores como Alvim (1999), Marques
(2000), Neves (2016), Othon Sidou (1997), Ribas (1879), Theodoro Jr (2015), dentre
outros.
4

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: A PERÍCIA E O PERITO


1.1 A PERÍCIA

A palavra perícia vem do latim peritia, que significa conhecimento adquirido


pela experiência, saber, habilidade (ALBERTO FILHO, 2015). De modo geral, esse
conceito está intimamente ligado à habilidade de aplicar conhecimentos técnicos na
construção de uma prova pericial, que poderá ser utilizada no juízo ou fora deste. Por
isso, por sua própria característica, a perícia sempre versará sobre área do
conhecimento humano especializado, tais como medicina, engenharia, economia,
finanças, informática, agrimensura, etc.
Pelo conceito etimológico da palavra entende-se que a perícia é habilidade
que só se adquire por meio de sólido conhecimento em determinada área, seja ela
técnica ou científica. Ademais, essa inteligência pode ser adquirida no decorrer da vida
pela expertise obtida por meio da repetição dos trabalhos realizados ou pela aplicação
de uma metodologia previamente definida, nos assuntos em que a solução demande
conhecimento científico que esteja no estado da arte.
Por longo período na evolução histórica da atividade pericial, acreditava
que só poderiam ser peritos aqueles profissionais mais velhos e, portanto, mais
experientes em sua área de atuação. De certo modo, a própria etimologia da palavra
remetia a esse tipo de comportamento, tanto por parte dos magistrados quanto das
pessoas de modo geral. Entretanto, com a disseminação do conhecimento científico nas
mais diferentes áreas e a definição clara de suas metodologias, mesmo profissionais
mais jovens - e menos experientes - têm se inserido de modo eficiente nessas carreiras
visto que, nas áreas que demandam a aplicação do conhecimento científico, é mais
importante a correta aplicação da metodologia do que a experiência do profissional.
Por exemplo, em um processo que busca a declaração da paternidade, é
inegável a importância da prova técnica do DNA. Essa prova será feita por um perito,
que pode ser um médico, biomédico, etc. Esse profissional (ou órgão técnico)
especializado em exames de DNA irá apenas aplicar uma metodologia previamente
definida e, pelo resultado dos exames, poderá determinar a paternidade de acordo com
os graus de confiabilidade do exame. Como esse é um procedimento que tem um modus
operandi cientificamente definido, é mais importante a correta aplicação dos
conhecimentos do que a experiência do profissional, sendo perfeitamente possível ser
feito por um jovem perito.
5

Vários autores tentam dar uma definição completa para o termo perícia e,
dentre as definições mais conhecidas, temos aquela dada pelo Prof. José Frederico
Marques, em seu Manual de Direito Processual Civil, define a perícia como “a prova
destinada a levar ao juiz elementos instrutórios sobre algum fato que dependa de
conhecimentos especiais de ordem técnica” (MARQUES, 2000, p. 309).
Na mesma linha de definição, mas ampliando a sua adjetivação e
incorporando a devida essencialidade da prova técnica na solução da lide que está sendo
levada ao juízo, o Curso de Direito Processual Civil do Professor Eduardo Arruda Alvim
cuida que:

a prova pericial é a modalidade de prova que se faz necessária quando


o juiz necessita de pessoas munidas de conhecimentos especiais
(técnicos, como por exemplo, agricultores e mecânicos, ou científicos,
como, por exemplo, engenheiros e médicos), que possam informar o juízo
acerca do significado desses mesmos fatos (ALVIM, 1999, p. 552).

Considerando inicialmente esses conceitos, entende-se que a perícia seja


principalmente um instrumento de constatação, de prova ou de demonstração científica
ou técnica da veracidade de alguma situação, coisa ou fato sendo, portanto, feita para
suprimir a falta de conhecimentos específicos do juízo sobre o objeto da prova. Se
filiando a essa corrente, o Professor J. M. Othon Sidou (1997), em seu livro Processo
Civil Comparado, entende que a prova pericial deve ser “levada a efeito por pessoa
dotada de conhecimento científico ou técnico, em torno de uma pessoa, coisa ou fato
cuja revelação se faz necessária para a formação da convicção do juiz sobre o objeto da
demanda” (OTHON SIDOU, 1997, p. 239).
Por fim, seguindo a mesma linha de definição, o Professor Reinaldo Alberto
Filho, em seu livro Da Perícia ao Perito, apresenta entendimento que melhor coaduna
com o definido atual Código de Processo Civil (Lei n. 13.105/2015), posto que incluiu os
órgãos técnicos e científicos no rol dos habilitados a fazer perícia judicial. Assim, a obra
define a perícia como

a diligência realizada, como meio de prova, por pessoa ou pessoas físicas


e por órgãos técnicos ou científicos devidamente inscritos no cadastro
mantido pelo tribunal ao qual estão vinculados, com a finalidade de apurar
tecnicamente um fato, como precípuo escopo de instrução de um
procedimento (ALBERTO FILHO, 2015, p. 18).

De modo bem sintético, tentando fazer uma conceituação mais simples da


atividade, pode-se entender perícia como o exame, vistoria ou avaliação realizado por
um profissional especializado e legalmente habilitado com o objetivo de geração de
6

prova, judicial ou extrajudicial. Ora, é a perícia um meio de prova consistente para se


obter a melhor solução da lide, ou seja, o perito não é quem vai decidir o processo, mas
o seu trabalho é fundamental para esclarecer os pontos técnicos que o juiz precisa
conhecer para proferir uma sentença justa.
O entendimento é que a perícia tem natureza jurídica de atividade
processual probatória, logo, sempre ocorrerá em um processo, seja ele judicial,
administrativo ou outro similar. Além disso, a perícia pode acontecer preliminarmente, de
modo preventivo, definitivo ou não. Por exemplo, uma perícia de engenharia pode ser
feita de modo preventivo, para comprovar as condições físicas de determinado edifício
antes da construção de um viaduto próximo.
É salutar ressaltar, que existem casos onde a perícia irá se resumir apenas
à análise de documentos, sendo esse o objeto da perícia. Esse é o caso, por exemplo,
da perícia grafotécnica, que deverá se ater ao documento analisado e, cientificamente,
atestar (ou não) a veracidade da grafia. Ou seja, o objetivo da perícia é dotar o juízo dos
elementos fundamentais para subsidiar a decisão e, portanto, cumpre com a sua função
quando consegue esclarecer o magistrado sobre a verdade dos fatos.
O ordenamento jurídico brasileiro define que a perícia é um dos meios de
prova admitidos em direito (BRASIL, 2015)2. Mesmo não tendo valor probatório absoluto
(como nenhum outro meio de prova), o laudo pericial tem um grau de confiabilidade maior
que os demais, exatamente por se pautar em procedimentos técnicos ou científicos que
estão no estado da arte. Por exemplo, uma perícia que tenha por base um exame de
DNA se torna uma prova mais robusta para comprovar a relação de paternidade em
comparação ao depoimento de uma testemunha.
Em suma, o objetivo da perícia no processo judicial é traduzir os fatos de
natureza técnica ou científica importantes à solução da disputa em verdade formal.
Então, cabe ao perito, no exercício de sua função, a responsabilidade de demonstrar
tecnicamente a verdade (ou não) de uma tese apresentada no processo. Em outros
termos, a perícia é um instrumento de constatação, prova ou demonstração, científica ou
técnica, da veracidade da situação, coisa ou fatos e existe exatamente para suprir as
insuficiências naturais do juízo.

2 , nos termos do art. 464 do CPC (BRASIL, 2015).


7

1.2 O PERITO

A palavra perito é de origem latina, sendo um adjetivo oriundo de peritus,


termo que tem como sinonímia: expert (em inglês), expertise (em francês) ou experto
(português), sendo por vezes chamado também de Louvado em muitos expedientes
forenses. Por se tratar de um estudo com foco claramente histórico, nesse ponto é
preciso uma ressalva que é de vital importância para o completo entendimento do termo:
até a publicação das Ordenações Afonsinas, os Arbitradores eram chamados pelo
mesmo nome dos Louvados ou Fiéis. Entretanto, com a evolução da sociedade, o Arbiter
– palavra também de origem latina – passa a ter o significado de juiz, de árbitro. Tanto
esse entendimento é verdadeiro que o juiz arbitral nada tem a ver com o perito pois tem
o poder de decisão enquanto o perito é apenas um auxiliar daquele que decide, sendo
cabível a utilização da perícia inclusive nos procedimentos levados à termo nas cortes
arbitrais3.
Diferentemente do árbitro, o perito, lato sensu, é pessoa (ou grupo de
pessoas) de estrita confiança do juiz, por ele designado, sempre que for necessário o
esclarecimento de assuntos técnicos ou científicos que extrapolem os permissivos legais
do magistrado. Por isso, “a nomeação do perito é indispensável, mesmo que o juiz
possua conhecimento técnico pertinente à apuração do fato probando” (THEODORO JR,
2015, p. 592). Assim, o perito é mais que um auxiliar do juiz, ele é um auxiliar da justiça
e, como tal, deve se portar com absoluta independência, focado sempre nos limites que
a questão técnica que está sendo controvertida lhe impõe.
O perito judicial é um cidadão comum que tenha vasto conhecimento sobre
determinado assunto e que é chamado pela Justiça para esclarecer questões técnicas e
científicas em um processo judicial. Trata-se, portanto, de um auxiliar eventual por
necessidade técnica do juízo (THEODORO JR, 2015). Assim, sempre que houver
controvérsia acerca de uma questão técnica ou científica, a legislação impõe ao
magistrado a necessidade de nomear um profissional especializado naquele assunto
para que o auxilie na correta prestação jurisdicional visto que “não se pode exigir

3Não custa lembrar que o árbitro irá decidir a questão controvertida como se fosse um juiz, tendo
a sua decisão um poder definitivo de decisão. Tanto é esse o entendimento que a Lei nº 9.307 de 1996,
que dispõe sobre a Arbitragem, define o documento emitido pelo árbitro como sentença arbitral, que
apenas será homologada pelo juiz togado sendo, portanto, irrecorrível.
8

conhecimento pleno do juiz a respeito de todas as ciências humanas e exatas” (NEVES,


2016, p. 1328).
Nessa linha, o Direito Canônico, no entendimento dado pelo Padre Jesús
Hortal (1997), define que são peritos “as pessoas legitimamente citadas para comparecer
em juízo, em virtude de seus conhecimentos particulares de caráter científico e técnico,
a fim de emitir um parecer que ajude o juiz a comprovar a veracidade de um fato alegado
ou a natureza de alguma coisa”. O mesmo sentido é dado pelo Dicionário Jurídico
Brasileiro ao definir que perito é a “pessoa com erudição técnica, específica e
comprovada aptidão e idoneidade profissional, nomeada pela jurisdição judicial, com a
finalidade de ajudar a Justiça nas suas investigações, fornecendo sua avaliação técnica
sobre o objeto da demanda ou alguma coisa com ela relacionada” (SANTOS, 2001, p.
186).
Não poderia ser diferente o caminho adotado pelo Vocabulário Jurídico de
De Plácido e Silva (2014), define o perito como sendo o “homem hábil (experto), que, por
suas qualidades ou conhecimentos, está em condições de esclarecer a situação do fato
ou do assunto que se pretender aclarar ou por em evidência, para uma solução justa e
verdadeira da contenda” (SILVA, 2014, p. 1569).
Na mesma linha e apresentando uma conceituação mais atual, em face das
inovações promovidas pelo legislador, o Professor Reinaldo Alberto Filho, em seu livro
Da Perícia ao Perito, define que o perito é:

o profissional legalmente habilitado [e os órgãos técnicos e científicos],


devidamente inscritos em cadastro mantido pelo tribunal ao qual o juiz
está vinculado, com autorização profissional para elucidar sobre um fato
objeto de qualquer contenda, sendo judicial ou administrativa, desde que
com o espeque em conhecimentos técnicos ou científicos (ALBERTO
FILHO, 2015, p. 30)

Por essas conceituações apresentadas, entende-se que o perito judicial


nada mais é do que um é um cidadão comum, que tenha vasto conhecimento sobre
determinado assunto, e que é chamado pela Justiça no curso de um processo judicial
para esclarecer questões técnicas e científicas. É, portanto, o portador da prova técnica
e, como tal, deve se utilizar de seu amplo conhecimento sobre a matéria que está sendo
periciada para esclarecer o juízo os assuntos que não sejam de domínio do juiz e que
são essenciais para a solução da lide.
Assim, sempre que a solução da lide depender da aplicação de
conhecimento técnico ou científico o juiz deverá estar assessorado por um perito
9

(NEVES, 2016). Ao reconhecer a importância da prova pericial para a solução justa da


lide, o CPC prestigia o perito, exigindo grande transparência para sua nomeação e
reforçando a necessidade de que o perito escolhido seja detentor de conhecimento
técnico especializado.
O perito é o profissional que, face aos seus conhecimentos técnicos e
científicos, é chamado para auxiliar o juiz no descobrimento da verdade sobre
determinado fato. Alguns processualistas entendem que já está superada a visão do
exame pericial como simples meio de prova. Assim, o perito passa a ser considerado,
por disposição legal, auxiliar do juízo, realizando tarefa que, teoricamente, o próprio
magistrado deveria fazer, mas que, por limitação técnica ou científica, se vê obrigado a
recorrer à assistência de um expert, conforme previsto no Código de Processo Civil
(THEODORO JR, 2015).
O perito judicial é, portanto, pessoa estranha ao quadro de funcionários
permanentes da Justiça, escolhido pelo juiz para atuar, mediante remuneração, em um
processo específico (THEODORO JR, 2015). Em face de suas qualificações técnicas,
dentre as quais, salvo nas localidades onde não existam profissionais qualificados,
deverá ter nível universitário, inscrição no respectivo órgão de classe e especialidade na
matéria objeto da perícia, nos termos do artigo 156 do CPC (BRASIL, 2015).
A função do perito é suprir o juiz das noções que ele humanamente não
consegue ter conhecimentos suficientes. O resultado desse trabalho será materializado
em um laudo técnico pericial, que é a aplicação do conhecimento técnico ou científico
sobre o assunto que está em discussão no juízo. De modo geral, o laudo emitido pelo
perito é um “documento escrito, no qual é relatado o exame feito pelos peritos, ali
expondo tudo o que fizeram e o resultado de sua investigação e observações.”
(SANTOS, 2001, p. 143). Por isso, o perito é um auxiliar da justiça e deverá executar o
seu trabalho de modo leal e honrado.
É importante sempre lembrar que a função do perito é comprovar
tecnicamente, na especialidade do expert, a veracidade ou não de determinada questão
técnica, deixando a discussão sobre a quem assiste o direito em relação à realidade
verificada para aquele que detém o poder da toga, ou seja, ao juiz. Assim, a perícia tem
a função de declaração de caráter técnico sobre determinado objeto, ato ou fato, ou seja,
a perícia tem o objetivo de auxiliar o juiz com um conhecimento especializado que ele
não possui (THEODORO JR, 2015).
10

2 - EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA PERÍCIA NO PROCESSO CIVIL


2.1 –PERÍCIA: DA ANTIGUIDADE AOS TEMPOS MODERNOS

Na Antiguidade, o rei fazia o papel exclusivo de juiz e, como tal, colhia


diretamente as provas que embasariam a sua decisão. Nesse período, o rei-juiz julgava
baseado apenas em sua experiência de vida, sem o auxílio de nenhum profissional
técnico especializado. De modo geral, o papel do rei era ouvir os argumentos dos
interessados e decidir a questão controvertida de modo soberano. Assim, mesmo que a
matéria que estivesse sendo demandada exigisse algum nível de conhecimento técnico
caberia ao rei proferir uma decisão e, por isso, a falta de técnica era sempre suprida pelo
poder de comando do rei (ALBERTO FILHO, 2015).
Com a evolução da sociedade, as relações jurídicas se tornaram mais
abundantes e complexas e o rei-juiz passou a perceber a latente necessidade de obter
conselho com pessoas que conheciam mais a fundo as questões que envolviam a
matéria que estava sendo julgada. Para auxiliar o rei em suas sentenças, foi criado um
conselho formado por algumas pessoas, especialistas em determinadas matérias, que
atuavam exclusivamente no aconselhamento ao rei quanto à melhor solução para o caso.
É nesse momento que começam a surgir os primeiros rudimentos da perícia.
Um livro que trata bem essa questão da evolução histórica da perícia se
chama ‘Prova Judiciária no Cível e Comercial’, escrito pelo Professor Moacyr Amaral
Santos. Esse é um livro antigo, publicado em 1949, mas que esclarece a matéria de
modo seminal. Vale muito a leitura, principalmente no Volume V, que trata de exames
periciais, presunções e indícios. Sobre a origem da perícia no Egito, traz um trecho do
referido livro:

Fizera Sesostris a partilha das terras aos súditos, distribuindo-as em lotes


tirados à sorte e separados uns dos outros por sinais e marcos, que
atestavam os seus limites, ficando os beneficiários com o encargo de lhes
pagar determinado tributo. Conta Heródoto, nesse passo citado por
Fraga, que ‘quando o rio despojava alguém da quota agrária, a pessoa
lesada ia procurar o rei a quem dava parte do ocorrido; então este enviava
ao lugar da situação do lote inspetores que mediam para saber a área
diminuída e a diminuição proporcional que devia sofrer no pagamento do
tributo’. Tais inspetores, entendidos em geometria e expertos na arte de
medir, são longínquos antecessores de uma categoria de peritos – os
agrimensores (SANTOS, apud ALBERTO FILHO, 2015 p. 6).

Do mesmo modo que aconteceu com os egípcios, os hebreus e os gregos


passaram a possuir seus agrimensores, contratados e mantidos pelo rei com vistas a
11

garantir, mesmo que de modo ainda rudimentar, a correta aplicação da técnica nas
demandas que tinham por objeto partilha e sobrepartilha de terras, bem como para
fixação e restauração de lindes. Apesar de esses povos antigos começarem a adotar um
certo tipo de perícia, ou seja, uma opinião eminentemente técnica de um profissional
especializado na matéria para auxiliar a decisão do rei sobre a causa, foi só no Império
Romano que a perícia foi qualificada como meio de prova judiciária.
Com o crescimento do domínio romano, se tornou impossível ao Imperador
decidir soberanamente acerca de todas as causas e, por isso, o processo judicial passou
a ter duas fases distintas. Na primeira fase, o magistrado fazia a análise da questão
controvertida sob o aspecto estritamente jurídico e legal. Na segunda fase do processo,
era eleito um àrbiter, pessoa com conhecimento técnico especializado na matéria que
estava em discussão, a quem estava resguardado o dever de decidir a lide, usando a
melhor técnica disponível. Esse expert podia ser eleito pelas partes ou sorteado pelo
magistrado, caso as partes não conseguissem um acordo sobre quem seria o àrbiter
(ALBERTO FILHO, 2015). Nesse ponto da história, mesmo que o conhecimento técnico
estivesse assumindo um papel relevante para a solução da lide, esse modelo
apresentava um problema básico: aglutinação entre as funções de perito e de juiz em
uma única pessoa.
Apesar das dificuldades que esse modelo tinha em criar uma prova pericial
puramente técnica, esse procedimento durou até o ano 294 da era Cristã, quando o
Imperador Diocleciano (244-305 d. C) decide unir as duas fases do processo judicial
romano. O objetivo dessa reforma era fortalecer o Direito, organizando a ciência jurídica
de modo mais coerente e racional. Aqui novamente é dada mais ênfase à figura do perito
ao mesmo tempo que torna o juiz um funcionário do Estado, criando uma estrutura mais
próxima à existente atualmente.
Na contextualização histórica, toda essa evolução proporcionada à atuação
do perito judicial gerada pela evolução do Império Romano acabou se desvirtuando
quase que completamente na Idade Média, com a adoção das Ordálias (ALBERTO
FILHO, 2015). Ordália foi um tipo de prova judiciária usado para determinar a culpa ou a
inocência do acusado por meio da participação de elementos da natureza e cujo
resultado era interpretado como um juízo divino. Isso aconteceu porque havia clara
noção de existir um ‘juízo de deus’ que, combinado com a aplicação dos duelos para a
comprovação da verdade, muito prejudicaram o desenvolvimento técnico e científico na
busca da comprovação da verdade. Nesse período da Idade Média, o conhecimento
12

técnico passou a ter uma função meramente acessória nas decisões judiciais e, em
muitos casos, se tornando inaplicáveis ao contexto dos fatos4.
O Direito Canônico 5 contribuiu muito para a superação do método das
Ordálias exatamente porque deu um destaque significativo ao sistema de provas no
processo judicial. Assim, quase que de modo natural, as novas legislações procuraram
dar maior ênfase à necessidade de produção da prova pericial para o bom andamento
do processo. As Ordenações Afonsinas de 1446, no item 16, do título 13, do primeiro
livro, já admitia a prova por arbitramento, que deveria ser feita pelos Louvados, outra
denominação dada ao Perito. Na mesma linha, as Ordenações Manuelinas, instituídas
em 1521, também seguiam essa linha, influenciando as Ordenações Filipinas de 1603
que criou um título denominado ‘dos arbitradores’.

E os arbitradores conhecerão sômente das cousas que consistem em


feito: e quando perante elles for allegada alguma cousa, em que caiba
dúvida de Direito, remettel-a-ão aos Juízes da terra, que a despachem e
determinem, como acharem per Direito; e dahi por diante, havida sua
determinação, procederão em seu arbitramento, segundo lhes bem
parecer, guardando sempre o costume geral da terra, que ao tempo do
seu arbitramento for costumado (ALMEIDA, 1870, p. 580).

No mesmo liame de desenvolvimento quanto à importância da atividade


pericial, em 1579 é inserido no Direito Francês um artigo definindo que, nas causas
relativas ao valor das coisas, essas questões deveriam ser decididas pelo trabalho
técnico dos peritos, não só por testemunhas6.
No mesmo condão, em 1667, o Direito Francês se alinha ao entendimento
dado pelo Direito Romano ao conceder às partes que litigam no processo o direito de
escolher livremente os peritos, a exemplo da “inovação” trazida pelo Código de Processo
Civil de 2015 (BRASIL, 2015), em vigor atualmente no Brasil.

4 Exemplos de perícias da época: impotência em causa de divórcio, gravidez de mulher divorciada,


aviventação de lindes de imóveis, avaliação de imóveis dados em garantia pelos devedores do Fisco,
avaliação de plantações, avaliação de bens submetidos à administração, autenticidade de documentos,
etc” (ALBERTO FILHO, 2015 p. 7).
5 O atual Código de Direito Canônico (Codex Iuris Canonici), promulgado pelo Papa João Paulo II,

em 23/01/1983 traz um capítulo dedicado aos peritos (Cân. 1.574 a 1.581) além de destacar a sua
importância em assuntos como reparação de imagens (Cân. 1.189) e alienação de bens (Cân. 1.293 §§
1º e 2º).
6 Article CLXII. “En toutes matieres oú il fera nécessaire de procéder à une estimation, les parties

conviendront d’experts, sinon les juges em nommeront d’office” Ordonnance du Roy Henry, donné à Blois
em l’année 1579.
13

2.2 A PERÍCIA JUDICIAL NO BRASIL

A Declaração da Independência emitida pelo Imperador (PEDRO I, 1822),


não foi suficiente para sustar os efeitos das leis portuguesas referentes ao processo civil,
em grande parte por falta de equivalente nacional. Assim, naquilo que não contrariassem
a soberania brasileira, permanecia em vigor as determinações processuais das
Ordenações Filipinas. Apenas com a edição do Código de Processo Criminal (Lei de 29
de novembro de 1832), se criou um anexo denominado de ‘disposição provisória acerca
da administração da justiça civil’ (BRASIL, 1832), eliminando algumas formalidades
desnecessárias, tais como a abolição dos juramentos de calúnia, sem, no entanto,
apresentar trazer novos elementos sobre a atuação do perito no tocante ao processo
judicial.
O objetivo dessa legislação nacional foi a simplificação do procedimento
judicial civil principalmente quanto ao número de embargos e apelações permitidas pela
legislação anterior. Entretanto, depois de alguma pressão por parte dos advogados que
atuavam nesse período, toda essa ‘evolução procedimental’ foi revogada pela Lei n.
261/18417. Por isso, com a publicação da referida lei, o direito processual brasileiro volta
a seguir as disposições emanadas das Ordenações Filipinas (BRASIL, 1841) em todas
as suas nuances.
Como o Código Francês e as Ordenações Filipinas serviriam de base para
a formação da legislação brasileira no período imperial, o Regulamento nº 737/1850, que
foi a primeira lei processual civil brasileira a dispor sobre a ‘ordem do juízo no processo
comercial’, passou a contar com uma seção especial, exclusivamente para tratar as
questões de Arbitramento (Cap. XII, Secção VII). Apesar de usar o nome ‘arbitradores’
para se designar ao perito, essa legislação avança em muitos pontos, visto que já define
que o arbitramento (perícia) é um dos meios de prova admitidos no juízo comercial (art.
137, § 9º) e deve ser feita quando a natureza da questão discutida exigir conhecimento
especializado (art. 189).
É preciso destacar, nesse ponto, que a atuação do perito ganha notável
importância no bojo do processo civil brasileiro com o Reg. nº 737/1850 visto que, dentre

7 “Art. 120. Fica revogado o art. 14 da Disposição Provisoria, tanto na parte que supprimio as
replicas e treplicas, como naquilo que reduzio os aggravos de petição e instrumento a aggravos no auto
do processo, ficando em vigor a legislação anterior que não fôr opposta á esta Lei.” (BRASIL, Lei n. 261,
de 3 de dezembro de 1841, 1841).
14

outras coisas, o legislador detalha como seria a escolha do perito, o juramento que
deveria ser feito pelo Louvado e os motivos de suspeição do perito. Além disso, em
termos práticos, essa legislação já determinava a necessidade de consulta mútua entre
os peritos antes de proferir o laudo que seria apresentado ao juízo, atentando ainda à
possibilidade de existirem pareceres divergentes, além da possibilidade de se realizar
uma nova perícia, caso a primeira perícia não fosse suficientemente conclusiva para o
esclarecimento da lide. In verbis:

“Art. 197. Os tres arbitradores consultaram entre si, e o que resolverem


por prularidade de votos será reduzido a escripto pelo terceiro arbitrador
e assignado por todos cumprindo ao vencido declarar expressamente as
razões de divergência.
Art. 198. Se nenhum accordo houver, e forem os tres arbitradores de
opinião diversa, cada hum escreverá o seu laudo como entender, dando
as razões em que se funda e impugnando os laudos contrarios.
Art. 199. O arbitramento no caso de accordo, ou os laudos, havendo
divergencia, serão escriptos em termos claros e precisos e conforme aos
quesitos propostos.“(BRASIL, 1850).

A marcha processual definida pelo Reg. nº 737/1850 se assemelha, em


muito, com a regra em vigor atualmente no país, que determina a construção da prova
técnica pericial em um procedimento que garanta, além do contraditório técnico, a
cooperação entre os peritos e assistentes técnicos indicados pelas partes (BRASIL,
2015). Outrossim, traz ainda a necessidade de que o perito esclareça a questão técnica
de modo preciso e conforme os quesitos propostos, não ultrapassando os limites
definidos pelos quesitos feitos pelas partes e pelo juízo.
Apesar de ser o primeiro código de processo elaborado no Brasil, o Reg.
737/1850 estava vigente apenas para os processos comerciais, sendo que os processos
cíveis continuavam sob a égide de farta legislação portuguesa. Diante disso, em 1879, a
pedido da Coroa8, é organizada e publicada pelo Conselheiro Dr. Antonio Joaquim Ribas
a Consolidação do Processo Civil (RIBAS, 1879) que já trazia a clara noção da
essencialidade da perícia para trazer informação ou esclarecer fatos que sejam
fundamentais para a decisão do juízo, na mesma linha adotada pelas Ordenações
Filipinas.
Outrossim, no entendimento adotado por essa Consolidação, são
estendidos ao processo civil muitas das definições feitas no Reg. nº 737/1850 e, em
muitos comentários feitos pelo autor ao longo do texto, percebe-se claramente que os

8 Art. 29, § 14 da Lei n. 2.033/1871.


15

doutores da época já haviam adotado esse entendimento de aplicar, subsidiariamente


as regras do processo comercial às causas de natureza cível 9.
Com a Proclamação da República em 1889 e os novos ares trazidos por tal
ato, foram editadas novas regras para o processo civil, em especial, o Dec. 763/1890
que resolve estender oficialmente aos processos civis as normas do Reg. 737/185010. O
objetivo da medida era simplificar os procedimentos judiciais, reduzir o número de
recursos à disposição dos litigantes e, com isso, agilizar a tramitação dos processos,
retomando alguns princípios do processo civil constantes do Código Penal de 1832.
Nessa linha, a primeira constituição republicana que foi promulgada em
1981 teve um caráter fortemente descentralizador dos poderes, dando autonomia aos
municípios e estados, seguindo o modelo federalista norte-americano. Nesse interim, o
legislador constitucional repassou a competência para legislar sobre matéria processual
para União e dos Estados, concorrentemente (BRASIL, 1981). Assim, passa a existir
uma legislação federal, que apresentava as normas gerais sobre a condução do
processo civil, ao mesmo tempo em que surgem vários códigos estaduais definindo os
procedimentos de processo submetido ao juízo.
A Constituição de 1934, criada em um contexto político avesso às
liberdades, retorna à União a competência plena de legislar sobre a matéria processual,
criando a consequente necessidade de se criar um Código de Processo Civil – CPC.
Esse codex viria a normatizar efetivamente o funcionamento da construção da prova
pericial no processo judicial brasileiro visto que o cenário político “exigia que se
atualizasse o confuso e obsoleto corpo de normas que, variando de Estado para Estado,
regia a aplicação da lei entre nós” (CAMPOS, 1939, p. 1).
As mudanças em curso no Brasil trazidas no bojo da revolução de 1930
exigia maior força estatal na realização da justiça. Isso acontece porque, “a ordem
judiciária tornara-se inacessível à compreensão popular, e com isto se obliterava uma
das finalidades mais altas do Direito, que é introduzir e manter a segurança nas relações
sociais” (CAMPOS, 1939, p. 2). Nesse contexto de estado centralizador e impositivo, a

9 “O Cons. Paula Baptista entende que, para obviar os inconvenientes que d'ahi resultam, se
deveria adoptar, no civel, a disposição do art. 192 do Reg. n. 737 de 25 de nov de 1850, de fórma a serem
nomeados desde logo os tres peritos que conferenciam conjunctamente, fundamentando o seu voto
aquelle que divergir dos outros” (RIBAS, 1879, p. 334).
10 “Art. 1º São applicaveis ao processo, julgamento e execução das causas civeis em geral as

disposições do regulamento n. 737 de 25 de novembro de 1850, excepto as que se conteem no titulo 1º,
no capitulo 1º do titulo 2º, nos capitulos 4º e 5º do titulo 4º, nos capitulos 2º, 3º e 4º e secções 1ª e 2ª do
capitulo 5º do titulo 7º, e no titulo 8º da primeira parte.” (BRASIL, 1890).
16

liberdade advinda das Ordenações Filipinas para que as partes escolhessem os


arbitradores (e outros aspectos do processo) deve ser tolhida para que o processo civil
se tornasse efetivamente “um instrumento de defesa dos fracos” (CAMPOS, 1939).
Nesta linha:

A direção do processo deve caber ao juiz; e este não compete apenas o


papel de zelar pela observância formal das regras processuais por parte
dos litigantes, mas o de intervir no processo de maneira, que este atinja,
pelos meios adequados, o objetivo de investigação dos fatos e
descoberta da verdade. (CAMPOS, 1939, p. 3)

Nessa linha, o CPC/1939, amplia os poderes do juíz nos processos de


natureza cível, definindo-o como um agente essencial na busca do conhecimento da
verdade. Esse procedimento, acabou por criar um procedimento extremamente moroso
para a realização da perícia judicial mas serviu também para consolidar a importância
desse instrumento para a correta aplicação da justiça. Abaixo, in verbis, o texto original
definido pelo legislador.

Art. 129. Os exames periciais serão feitos por um perito, sempre que
possível técnico, de livre escolha do juiz (BRASIL, 1939).

Observe que, na redação original da lei, há uma importante inovação do


ponto de vista prático: a preferência por um profissional técnico. Assim, mesmo que a
escolha do perito fosse feita por livre escolha do juiz, independentemente do
consentimento das partes, já prevalece o quesito técnico sobre as indicações puramente
pessoais. Além disso, a nova legislação permitia às partes indicar os seus assistentes
técnicos que deveriam acompanhar todo trabalho que desenvolvido pelo perito, tendo
ainda a possibilidade de impugnar o resultado apresentado pelo perito do juízo.
Observe que a imposição da legislação quanto à impossibilidade de as
partes escolherem, em comum acordo, um profissional responsável pelo procedimento
pericial, muito comum desde as Ordenações, criou uma celeuma jurídica enorme. A
solução veio com o Dec.-Lei n. 4.565/1942, que modificou o art. 129 do CPC, in verbis:

Art 129. Os exames periciais serão feitos por um perito, sempre que
possível técnico, de escolha do juiz, salvo se as partes acordarem num
mesmo nome e o indicarem. Se a indicação for anterior ao despacho do
juiz, este nomeará o perito indicado. Não havendo indicação, a escolha
do juiz prevalecerá se as partes não indicarem outro perito dentro de
quarenta e oito (48) horas após o despacho de escolha.

Com a alteração processual, passou a determinar-se que o juiz só poderia


nomear um perito de sua escolha caso as partes não chegassem a um consenso sobre
17

a escolha de um profissional. Além disso, pelo próprio texto legal, percebe-se que se
criou uma vinculação do juiz quanto à escolha das partes, mesmo após aquele ter feito
a nomeação do perito. Entretanto, mesmo com essa faculdade processual, a celeuma
em torno da escolha do perito não foi solucionada sendo editado, portanto, o Dec.-Lei n.
8.750/1946, que altera novamente o art. 129 do CPC e cria a figura do ‘perito
desempatador’.

“Art. 129.Os exames periciais poderão ser feitos por um só louvado,


concordando as partes; se não concordarem indicarão de lado a lado o
seu perito e o juiz nomeará o terceiro para desempate por um dos laudos
dos dois antecedentes, caso não se contente com um dêstes".

Com essa alteração da legislação processual mantém-se a possibilidade


de as partes indicarem, em comum acordo, um perito único e, em caso de discordância
quanto ao profissional, o juiz nomearia um perito de sua confiança, que seria o
desempatador. Como as partes quase nunca concordavam com a indicação de um
‘perito em comum’ - e quase sempre eram apresentados laudos divergentes -, a figura
do perito desempatador se tornou quase que obrigatória em todos os procedimentos
levados à juízo.
O Código de Processo Civil de 1973 (Lei n. 5.869/1973) avança ao
reintroduzir a figura do Assistente Técnico - prevista no CPC/1939 e que fora retirada
nas alterações de 1942/1946. Entretanto, na redação original da legislação, o Assistente
Técnico não era mais um auxiliar da parte e sim um Auxiliar do Juízo e, como tal,
compromissado com a imparcialidade da mesma forma que o perito nomeado, nos
termos do art. 422, in verbis:

Art. 422. O perito e os assistentes técnicos serão intimados a prestar, em


dia, hora e lugar designados pelo juiz, o compromisso de cumprir
conscienciosamente o encargo que lhes for cometido.

Ora, como que o Assistente Técnico, que é contratado pela parte e às suas
expensas exatamente para acompanhar o trabalho do Perito Oficial, poderia prestar
compromisso de imparcialidade perante o juízo? Esse regramento era tão absurdo que
previa a substituição do Assistente Técnico caso este deixasse de prestar o compromisso
sem motivo legítimo 11 . Além disso, estava previsto no ordenamento a recusa dos
assistentes em casos de impedimento ou suspeição12.

11 Art. 424, II, Lei n. 5.869/1973.


12 Art. 423, Lei n. 5.869/1973.
18

A solução desse impasse só viria com a edição da Lei n. 8.455/1992 que


alterou o Art. 422 do Código de Processo Civil, abolindo a necessidade de se prestar
‘termo de compromisso’, enquanto estivesse atuando como auxiliar técnico da parte.
Além disso, essa alteração restaurou o papel do perito-assistente como um auxiliar da
parte e, portanto, não sujeito a impedimento ou suspeição. Outro ponto incluído por essa
lei foi a obrigatoriedade de o juiz comunicar à respectiva corporação profissional caso o
perito deixe de cumprir o encargo no prazo que lhe foi assinado.
Apesar da controvérsia quanto ao papel do assistente técnico no processo,
é inegável a grande evolução proporcionada pela edição do CPC/1973 no que concerne
à atuação do perito. Enquanto no Codex de 1939 existia a preferência pela nomeação
de profissionais técnicos, a nova legislação processual declarava textualmente a
obrigatoriedade da assistência do expert nos processos em que a resolução da lide
demandasse conhecimento técnico ou científico.
No bojo dessa evolução jurídica, como o juiz tinha grande liberdade no
processo de nomeação do perito, essa situação eventualmente gerava distorções. Em
alguns casos, criou-se a figura do ‘perito universal’, considerado apto pelo juízo para
realizar qualquer prova pericial, sobre todo e qualquer assunto. Daí veio outra
modificação necessária na legislação processual com a edição da Lei n. 7.270/1984 que
definiu a necessidade de serem nomeados peritos entre os profissionais de nível
universitário, devidamente registrados em seus respectivos conselhos de classe. Além
disso, passou a ser exigida a especialidade comprovada na matéria que será objeto da
perícia.
Reconhecendo que, em algumas regiões do país, havia clara insuficiência
de profissionais de nível universitário, devidamente inscritos em seus órgãos de classe,
com a qualificação necessária e que possam colocar seus conhecimentos à disposição
do Poder Judiciário, a própria lei facultou ao juiz a livre nomeação do perito nesses casos.
Observe que essa faculdade processual se aplica apenas quando na localidade não
houver profissionais que cumpram com os requisitos elencados acima, ou seja, caso
existam profissionais que cumpram com aquelas condições, a escolha destes é
preferível.
Muitas das alterações que foram sendo incorporadas na legislação
processual civil ao longo do tempo foram encampadas pelo Novo Código de Processo
Civil (Lei n. 13.105/2015), atualmente em vigor no país. Entretanto, por não ser objeto
de estudo desse trabalho, deixou-se de abordar mais detidamente essas questões.
19

CONCLUSÕES GERAIS
Como foi destacado anteriormente, o objetivo desse trabalho foi entender
como se deu a evolução histórica da atuação do perito nos processos judiciais de
natureza cível. Este é um tema de extrema relevância visto que o perito é um auxiliar da
justiça e, para exercer a contento sua designação, esse profissional precisa
compreender bem os limites e potencialidades de sua função. É preciso ter em conta
que os profissionais que são/serão nomeados para atuar como peritos nos processos
judiciais foram treinados nas questões técnicas de sua área de formação e, portanto, não
são especializados nas questões jurídicas, principalmente as processuais. Por isso se
torna tão importante esse trabalho.
Para tanto buscou-se primeiramente dotar este trabalho com toda
fundamentação teórica acerca da perícia e, neste caminho, acabou-se por definir perícia
como o trabalho técnico realizado por um profissional especializado e que seja
legalmente habilitado. Desse esforço profissional feito pelo perito irá se extrair um
documento, que é a prova pericial, um meio de prova admitido em Direito no Brasil. No
mesmo interim, foi preciso reconstruir a teoria que define quem é o perito judicial e qual
é a sua função no processo de natureza cível trazendo, com isso, sua evolução histórica
e, an passant, delineando os limites de sua atuação.
Ato contínuo, a discussão teórica avança para trabalhar a evolução
histórica da perícia, iniciando na Antiguidade, passando pela Idade Média e chegando
ao Brasil influenciada pelas Ordenações Afonsinas e Filipinas. Além disso, ainda nessa
parte, apresenta-se evolução histórica da perícia de natureza cível no Brasil,
apresentando as inovações legislativas que foram sendo incorporadas até o atual Código
de Processo Civil (Lei n. 13.105/2015).
Como esse é um trabalho com clara conotação histórica, os resultados
dessa análise demonstram as modificações quanto à forma de atuação do perito judicial
nos processos de natureza cível ao longo do tempo. Essa atividade profissional surge
enquanto um auxiliar do rei naquelas demandas em que fosse necessário aplicar o
conhecimento técnico ou científico.
Assim, a hipótese adotada no início desse trabalho foi comprovada pois,
em toda evolução histórica apresentada neste trabalho, fica nítida a importância da
atuação do perito no processo judicial de natureza cível. É esse o papel do perito: atuar
20

como um agente que auxilia o magistrado, concorrendo para uma efetiva prestação
jurisdicional do Estado.
Com essas conclusões acerca da evolução histórica, abre-se espaço para
outros trabalhos abordarem a atuação do perito de acordo com o Código de Processo
Civil vigente no país (Lei n. 13.105/2015). Por não ser objetivo desse trabalho, essa
análise do modus operandi do perito no processo judicial cível atual deixou de ser feita
nesse artigo mas entende o autor ser esse um importante tema para outros trabalhos
científicos, principalmente para os profissionais da área do Direito com o fito de
esclarecer aos peritos, profissionais de outras áreas de formação, uma explicação clara
quanto à sua atuação nos processos judiciais.

REFERÊNCIAS

ALBERTO FILHO, R. P. (2015). Da perícia ao perito (4º ed.). Niterói, RJ: Ímpetus.
ALVIM, E. A. (1999). Curso de Direito Processual Civil. São Paulo: Revista dos
Tribunais.
BÍBLIA SAGRADA, A. (2009). A Bíblia Sagrada. Traduzida em Portugues por João
Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil.
BRASIL, R. F. (nov de 1832). Lei de 29 de novembro de 1832. Código de Processo
Ciminal.
BRASIL, R. F. (1841). Lei n. 261, de 3 de dezembro de 1841. Reformando o Codigo do
Processo Criminal.
BRASIL, R. F. (1939). Decreto-lei n. 1.608 de 18 de setembro de 1939. Código de
Processo Civil.
BRASIL, R. F. (1981). Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil. Rio de
Janeiro.
BRASIL, R. F. (2015). Código de Processo Civil.
BRASIL, R. F. (2015). Lei 13.105, de 16 de março de 2015. Código de Processo Civil.
CAMPOS, F. (1939). Exposição de motivos. Código de Processo Civil, p. 12.
CNJ, C. N. (2018). Justiça em números 2018: ano-base 2017. Brasília: CNJ.
GIL, A. C. (2002). Como elaborar projetos de pesquisa - 4ª ed. São Paulo: Atlas.
GONÇALVES, M. V. (2017). Direito processual civil esquematizado - 8. ed. São Paulo:
Saraiva.
21

MARQUES, J. F. (2000). Manual de Direito Processual Civil. São Paulo: Millenium


Editora.
NEVES, D. A. (2016). Manual de direito processual civil: volume único. Salvador:
JusPodivm.
OTHON SIDOU, J. M. (1997). Processo Civil Comparado. São Paulo: Forense
Universitária.
PEDRO I, D. (1822). Manifesto de S.A.R. o Principe Regente Constitucional e Defensor
Perpetuo do Reino do Brasil aos povos deste Reino. Rio de Janeiro: Imprensa Régia.
RIBAS, A. J. (1879). Consolidação do Processo Civil. Rio de Janeiro: Typographo
Editor.
SANTOS, W. d. (2001). Dicionário jurídico brasileiro. Belo Horizonte: Del Rey.
SILVA, D. P. (2014). Vocabulário Jurídico (31 ed ed.). Rio de Janeiro: Forense.
THEODORO JR, H. (2015). Curso de Direito Processual Civil: Teoria geral do direito
processual civil, processo de conhecimento e procedimento comum. (56. ed. rev. atual.
e ampl. ed., Vol. I). Rio de Janeiro: Forense.