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O GRAU DE DESENVOLVIMENTO RURAL EM GOIÁS: ÍNDICE

DE POPULAÇÃO (IPOP)

Edilson G. Aguiais1

Murilo J. S. Pires2

A finalidade desta investigação é calcular um Índice de População Rural (IPOP) para os


municípios do Estado de Goiás, no interregno censitário 1996-2000. Para tanto, a idéia
defendida é que o estado apresenta uma estrutura rural heterogênea onde coexistem
áreas com notável grau de desenvolvimento da população rural em contraste outras que
apresentam baixo dinamismo. Para a realização do objetivo proposto no trabalho
utilizou-se os recursos técnicos da pesquisa bibliográfica e documental e adotou-se o
método analítico descritivo. Os resultados encontrados demonstram que, no período
analisado, o estado apresentou de modo geral baixo nível de desenvolvimento rural. No
entanto, percebe-se que a região Centro-Sul apresentou maiores valores para o IPOP em
comparação à região Centro-Norte, o que demonstra que o processo de modernização
do campo aconteceu de forma mais efetiva nesta porção do território.

Palavras-chave: Desenvolvimento, Desenvolvimento Rural, Goiás.

1
Economista, Aluno-Especial no Mestrado em Agronegócios da Universidade Federal de Goiás
– UFG e Conselheiro do CORECON – 18º Região/GO. End. Eletrônico <edilsongyn@gmail.com>
2
Doutor em Economia pela Universidade de Campinas (UNICAMP), Pesquisador do IPEA,
Conselheiro do CORECON – 18º Região/GO e professor na Faculdade Alfredo Nasser
INTRODUÇÃO

Apesar de o Brasil apresentar uma população predominantemente urbana onde


apenas 20% reside em áreas rurais (IBGE, 2000), a grande maioria do território
continua a ser rural e com grande potencial agrícola. Após a inserção do fenômeno
globalização em todas as esferas econômicas, o rural passa a ter um novo papel na
sociedade contemporânea. Neste novo contexto, este espaço deixa de ser considerado
apenas fonte fornecedora de produtos agrícolas e adquire uma nova característica
fundamental: passa então a existir uma integração gradativa e contínua entre os espaços
urbanos e rurais formando uma espécie de cadeia de interdependências que passa a ser o
objeto central dos estudos rurais.

Esta nova configuração, que liga a urbanidade e a ruralidade, passa a comportar


as particularidades do campo e da cidade. A este espaço de integração urbano-rural é
dado o nome de “espaço local” onde existe a interpolação destes dois planos. Sobre este
assunto WANDERLEY (2001) afirma que não existe uma diluição de nenhum dos
pólos (urbano e rural) e sim a criação de redes que em muitos planos reiteram e
viabilizam as particularidades de cada espaço. Deste modo, o desenvolvimento de um
espaço local não deve supor o fim de suas “ruralidades” e sim a incorporação do
desenvolvimento rural ao desenvolvimento local.

O desenvolvimento de cada região está diretamente ligado com o grau de


inserção desta economia no mercado. Para corrigir estas assimetrias a mediação do
Estado é fundamental, com vistas a dar consistência ao movimento. Deste modo, “o
estudo das desigualdades de renda no Brasil aponta de forma sistemática um elevado
grau de desigualdade regional” (PAES & SIQUEIRA, 2008). Em um estudo feito sobre
a realidade da Suécia, CECCATO & PERSON (2002) concluíram que o nível de
integração da economia depende do desempenho de cada região. Assim, regiões com
maior dinamismo tendem a se incluir nos ramos das atividades privadas ao passo que
áreas com menor dinamismo se apóiam nas atividades públicas (FAVARETO, 2006).

No Brasil, os diferentes níveis de desenvolvimento não são identificáveis apenas


entre as federações mas também entre diferentes regiões de uma mesma Unidade
Federativa. Deste modo, regiões dotadas de menor dinamismo passam a depender mais
diretamente do apoio estatal enquanto outras, mais dinâmicas, se integram ao fenômeno
capitalista de mercado.

Para mensurar o grau de desenvolvimento das regiões rurais, que é medido pelo
Índice de Desenvolvimento Rural (IDR), este trabalho se propõe a demonstrar os
resultados obtidos para o Índice de População (IPOP) dos municípios de Goiás a partir
da metodologia desenvolvida por Kageyama (2004), adaptada por Correa, Silva &
Neder (2007) e aplicada por Aguiais (2009). Este índice, que compõe por média simples
o IDR, abarca as características populacionais rurais, tais como densidade demográfica,
migração, população rural, etc.

Desta forma, esta pesquisa tem como pergunta norteadora a seguinte


problemática: Como está configurado o desenvolvimento rural nos municípios de Goiás
no interregno censitário de 1996/2000, medido pelo Índice de População - IPOP? Para
tanto, o objetivo geral desta investigação é verificar o grau de desenvolvimento rural
dos municípios de Goiás no interregno censitário de 1996/2000, através de um dos seus
indicadores (IPOP).

Esta pesquisa justifica-se em diversos âmbitos: primeiramente, pela escassez de


estudos e pesquisas realizadas abordando este enfoque para o Estado de Goiás. Em
segundo lugar, pela importância que o Estado de Goiás adquiriu no cenário nacional
principalmente após a década de 1970/80 (Pires, 2008) quando a política econômica
nacional voltou-se para a exportação de suas principais culturas3 (Aguiar, 2007).

Por fim, por fornecer informações sobre o desenvolvimento rural goiano a fim
de oferecer subsídios teóricos e empíricos para os formuladores de políticas para este
Estado que “tem se inserido no contexto nacional com um padrão agrícola que estimula
a consolidação de uma agricultura moderna e empresarial com fortes vínculos com os
mercados nacionais e internacionais” (Pires, 2008, p.2). Estas informações vêm
colaborar com as políticas futuras pois “não se faz política sem teoria: decisões públicas
e privadas conseqüentes e eficazes são sempre ancoradas em um quadro de referência
organizado e coerente” (Castro, 2005, p. 12).

Adota-se como hipótese de trabalho que o Estado de Goiás apresenta “ilhas”


com notável grau de desenvolvimento rural em contraste com outras que apresentam

3
Como a exploração agrícola goiana após o ciclo do ouro se deu na forma de complementaridade com a
pecuária, somente eram produzidas culturas de consumo interno tais como milho, feijão e arroz
(AGUIAR, 2007).
baixo dinamismo sendo, portanto, dependentes de políticas específicas voltadas para o
desenvolvimento destas áreas. Tal hipótese encontra fundamentação no trabalho de
Filippi (2006) que afirma que o desenvolvimento rural no Brasil não foi diferente do
processo econômico geral sendo, portanto, desigual e excludente.

Num enfoque regional e tratando o caso especifico de Goiás, Pires (2008)


apresenta a região Centro-Sul de Goiás como dotada de um dinamismo próprio, o que
promoveu “uma intensificação em seu processo de modernização econômica que
favoreceu a penetração das principais unidades de processamento agroindustrial dos
complexos grãos, carnes, lácteo e sucroalcooleiro dos complexos agroindustriais
nacionais” (Pires, 2008, p.4).

ASPECTOS METODOLÓGICOS

A metodologia da pesquisa deve ser abordada como um conjunto de métodos e


técnicas a serem desenvolvidas buscando atingir os objetivos inicialmente propostos.
Deste modo, esta investigação se encaixará na abordagem qualitativa da pesquisa.
Segundo Pádua (1996), “a pesquisa qualitativa preocupa-se com o significado dos
fenômenos e processos sociais e tem como objetivo esclarecer situações, trazer uma
conscientização dos problemas e proporcionar meios e estratégias de solução” (Pádua,
1996, p. 31).

A primeira parte desta pesquisa dedicou-se a realização de uma Pesquisa


Bibliográfica, a qual “é desenvolvida com base em material já elaborado, constituído
principalmente de livros e artigos científicos” (Gil, 2002, p.56). De acordo com Pádua
(1996) a pesquisa bibliográfica é a que permite ao pesquisador acessar o que se tem
produzido e registrado perante o tema a que se dispõe pesquisar. Desta maneira, foi
realizada uma revisão bibliográfica da literatura que trata a temática do
desenvolvimento rural regional. O enfoque foi baseado nos autores: Veiga (2002),
Favareto (2006), Abramovay (1992), Kageyama (2004), Faria (2006), Pires (2008),
Estevam (1998), dentre outros.

A segunda etapa foi destinada à Pesquisa Documental que “vale-se de materiais


que não receberam tratamento analítico ou que podem ser reelaborados de acordo com
os objetivos da pesquisa. Entre esses materiais estão os dados censitários, os
documentos oficiais (...)” (Gil, 2002, p.57). Adotou-se como documentos os dados do
Censo Demográfico (2000 e 1991) obtidos através do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE).

Quanto aos objetivos, esta pesquisa se caracteriza como descritiva, pois “tem
como objetivo primordial a descrição das características de determinadas populações”
(Gil, 2002, p.42). Sendo assim, a terceira etapa do trabalho faz a análise descritiva dos
dados coletados por meio da pesquisa documental à luz do referencial teórico.

Metodologicamente, e com o intuito de delimitar as regiões de estudo, seguindo


a proposta apresentada por Pires (2008), o estado de Goiás foi dividido em duas
macrorregiões: Centro-Sul e Centro-Norte. Esta divisão foi feita seguindo
rigorosamente a resolução - PR nº 11 de 05/06/90 do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística – IBGE.

Figura 1. Divisão Regional do Estado de Goiás

Fonte: Pires (2008)


Assim, adotou-se as microrregiões de Ceres, Anápolis, Iporá, Anicuns, Goiânia,
Sudoeste de Goiás, Vale Rio dos Bois, Meia Ponte, Pires do Rio, Catalão e Quirinópolis
como pertencentes à região Centro-Sul do Estado. Do mesmo modo, as microrregiões
de São Miguel do Araguaia, Rio Vermelho, Aragarças, Porangatu, Chapada dos
Veadeiros, Vão do Panamá e Entorno de Brasília foram caracterizadas como região
Centro-Norte.

A extração, montagem e manipulação dos dados foram realizadas por meio do


Pacote Estatístico STATA, versão 9.0 ao passo que os mapas foram plotados utilizando-
se o software Arcviews, versão 3.2.

Os dados secundários utilizados para o cálculo dos indicadores que formam, por
média simples, o IPOP foram retirados basicamente de quatro banco de dados. A
primeira fonte foi o Censo Demográfico (2000), onde se utilizou dados da base
“universo” e, em grande parte, dados do “Microdados”. Foram utilizados também os
Microdados do Censo Demográfico (1991) para calcular a variação da população rural
no período de estudo. Cabe ressaltar que estes valores foram devidamente ponderados
segundo os pesos fornecidos pelo IBGE.

Os dados levantados foram compilados buscando a consolidação por município,


abordando somente a “área rural” do mesmo segundo os critérios do IBGE 4, mesmo
cientes que esta definição administrativa não capta a totalidade do meio rural no Brasil.

Para o efeito de não contaminação das análises descritivas e gráficas, foram


retirados os municípios considerados como outliers, ou seja, aqueles que foram criados
posteriormente à realização do último Censo Demográfico e, portanto, ainda não
codificados pelo IBGE5.

A metodologia adotada é baseada nos trabalhos de Corrêa, Silva e Neder (2008)


que, adaptando uma metodologia criada por Kageyama (2004), construíram um
indicador para levantar o nível de Desenvolvimento Rural de cada um dos municípios
das regiões Nordeste e Sul do Brasil. Os resultados foram obtidos pela aplicação da
metodologia acima referenciada por Aguiais (2009), no cálculo do Índice de
Desenvolvimento Rural para cada município do Estado de Goiás.

Assim, conforme esta metodologia, o Índice de População – IPOP, que procura


mensurar o dinamismo populacional do município em estudo, é obtido a partir da média
aritmética simples de quatro variáveis: a) densidade demográfica; b) variação da
população entre 1991 e 2000; c) proporção da população rural em termos da população
residente no município e; d) proporção da população rural que não morou sempre no
município. Esta última variável busca evidenciar o poder de atração do município sendo
que, quanto maior a proporção de pessoas vindas de outro município, maior a
capacidade de atração em termos de oportunidades.

4
Segundo o IBGE “rural é a área externa ao perímetro urbano de um distrito, composta por setores nas
seguintes situações de setor: rural de extensão urbana, rural-povoado, rural-núcleo, rural-outros
aglomerados, rural-exclusive aglomerados” (IBGE, 2002, p. 66).
5
Desta forma, para as análises desenvolvidas no presente estudo, foram considerados 241 municípios
sendo, portanto, excluídos da análise os municípios de Campo Limpo de Goiás, Gameleira de Goiás,
Ipiranga de Goiás e Lagoa Santa. Além destes, foi excluído o município de Valparaíso pois o mesmo não
possui população rural.
Quadro 1. Descrição das variáveis - IPOP

Indicador Descrição da Variável Base de Dados Utilizada

a) Densidade demográfica
IBGE (Disponível no site)
(padronizada)*

b) Variação da população rural Censos Demográficos IBGE


entre 1991 e 2002 (padronizada) (2000 e 1991) – Microdados
Índice de População (IPOP) =
c) Proporção da população rural
(a + b + c + d) /4 IBGE (Disponível no site)
no município

d) Proporção da população rural


Censo Demográfico IBGE
que não morou sempre no
(2000) – Microdados
município (migração)

* a padronização foi utilizada para fazer uma transformação algébrica para que o índice varie entre zero e
um. Esta transformação é quociente (valor da variável – mínimo)/(máximo – mínimo).
Fonte: Correa, Silva & Neder (2008).

A partir dos resultados obtidos através do cálculo das váriáveis já descritas


anteriormente, obteve-se o valor dos Índices de População (IPOP’s) de cada um dos
municípios do Estado de Goiás. Assim, os valores para o IPOP variam no intervalo
entre 0 e 1, sendo que, quanto mais próximo de 1, maior o nível de desenvolvimento da
população rural.

Assim, a classificação se deu da seguinte forma:

Tabela 1. Tabela de resultado dos indicadores


Total de Classificação
Quartis
Municípios dos intervalos
Até 1º
"Muito Baixo"
quartil
Até 2º
"Baixo"
Número de quartil
municípios Até 3º
"Médio"
quartil
Até 4º
"Alto"
quartil
Fonte: Correa, Silva e Neder (2007).
Segundo demonstrado na Tabela 1, cada um dos municípios foi categorizado em
quatro níveis de IPOP: (i) “Muito Baixo”: no qual estão contidos os municípios com
valor abaixo do primeiro quartil; (ii) “Baixo”: contendo os municípios com valores
entre o 1º quartil e a mediana; (iii) “Médio”: contendo os municípios com valores entre
a mediana e o terceiro quartil e; (iv) “Alto”: representando os municípios com valores
entre o 3º quartil e o maior valor observado.

RESULTADOS: ÍNDICE DE POPULAÇÃO – IPOP

O objetivo desta parte do trabalho é apresentar os resultados referentes ao Índice


de População (IPOP), que busca mensurar o dinamismo populacional rural e abrange
dados sobre a) densidade demográfica da população; b) a variação da população rural
(entre 1991 e 2000); c) proporção da população rural no município; e d) proporção das
pessoas que não morou sempre no município.

Assim, pelos dados apresentados na Tabela 2, percebe-se que os valores


medianos para o IPOP em ambas as regiões se comportaram de forma relativamente
homogênea (0,19 para porção Centro-Sul e 0,20 para o Centro-Norte). Do mesmo
modo, os valores mínimos e máximos de IPOP são menores para a região Centro-Sul
em comparação aos apresentados pelo Centro-Norte.

Tabela 2. Resultado do IPOP


IPOP Média Mínimo Máximo
Região Centro - Sul 0,1915 0,0779 0,3669
Região Centro - Norte 0,2040 0,1019 0,4202
Fonte: Tabulação própria, a partir dos dados gerados.
A classificação dos municípios segundo níveis de desenvolvimento auxilia no
momento da análise dos resultados. Portanto, observa-se que a partir dos resultados
percentis dos índices a classificação para os municípios ficou conforme demonstrado na
Tabela 3.

Tabela 3. Distribuição do IPOP


Total de Classificação Intervalos
Quartis
Municípios dos intervalos de IPOP
Até 1º 0.078 -
"Muito Baixo"
quartil 0.166
Até 2º 0.166 -
"Baixo"
quartil 0.221
241
Até 3º 0.221 -
"Médio"
quartil 0.297
Até 4º 0.297 -
"Alto"
quartil 0.420
Fonte: Tabulação própria, a partir dos dados gerados.
Os valores apresentados na Tabela 3 referem-se à divisão e classificação dos
resultados em quatro níveis de desenvolvimento rural. Assim, percebe-se que o IPOP
para a população do Centro-Norte e do Centro-Sul apresentam-se fortemente
concentrados nos níveis “muito baixo” ou “baixo”, conforme demonstrado abaixo.

Tabela 4. Divisão dos resultados do IPOP por regiões

IPOP Muito Baixo Baixo Médio Alto


Região Centro-
Sul 35% 39% 23% 3%
Região Centro
Norte 26% 35% 36% 4%
Fonte: Tabulação própria, a partir dos dados gerados.

Com efeito, observa-se que 4% dos municípios situados na região Centro-Norte


apresentaram valor “alto” de IPOP, enquanto a região Centro-Sul apresenta 3% na
mesma situação. Quando se observa os níveis “baixo” e “muito baixo”, percebe-se que a
região Centro-Sul responde por 74% dos municípios ao passo que a região Centro-Norte
apresenta 60%. Assim, percebe-se que os municípios da porção Centro-Norte do estado
apresentam maiores valores de IPOP, no entanto, verifica-se que a região Centro-Norte
do estado apresenta uma maior população rural em comparação ao Centro-Sul. Estes
resultados podem ser mais bem visualizados conforme demonstrados no mapa abaixo.

Figura 2. Índice de População – IPOP

Índice de População - IPOP

Go50mun
Muito Baixo
Baixo
Médio
Alto
N

W E
300 0 300 600 Kilometers
S

Fonte: Elaboração do autor


A partir dos resultados obtidos percebe-se que o Estado de Goiás ainda apresenta
valores muito baixos de IPOP. Considerando que, conforme a metodologia, quanto mais
próximo de 1,00 for o resultado, maior é o desenvolvimento da região, observa-se que o
valor máximo deste indicador para os municípios de goianos está situado num nível
muito baixo (0,42). Este resultado mostra o baixo dinamismo da população rural e se dá
em parte pela baixa densidade demográfica na maioria dos municípios do estado aliada
a heterogeneidade regional da população rural.

Deste modo, pelos resultados obtidos entende-se que o Índice de População para
o Estado de Goiás (conforme os critérios definidos na metodologia) apresentou maior
concentração nos níveis “muito baixo” e “baixo”. Com isto, infere-se que o dinamismo
populacional no período (que é medido pelo IPOP) é não apresentou grande dinamismo.

Com efeito, os dados que versam sobre a densidade demográfica, população


rural entre 1991-2000 os valores para os municípios de Goiás encontram-se no nível
“muito baixo”, em praticamente em todo o estado. As exceções ficam por conta da
Região Metropolitana de Goiânia6 e Anápolis além de algumas áreas do entorno de
Brasília. Entende-se, portanto, que estes dados corroboram com as idéias apresentadas
por Aguiais (2009) onde mostra-se historicamente que a população tendeu a migrar
principalmente para áreas onde havia maior nível de industrialização e a urbanização.

Quando se observa a variação da população rural percebe-se que os municípios


do Centro-Norte apresentaram maior variação nesta população rural. Com efeito, há
indícios que as pessoas que perderam as suas propriedades rurais pelo processo de
modernização do campo acabaram se deslocando para os principais centros industriais e
urbanos do estado em busca de emprego e renda.

Embora possa ser observado que alguns municípios da região Centro-Sul


apresentem valores médios de variação da população rural no período de estudo
verifica-se que estes são os municípios que apresentam maior índice mecanização na
atividade agrícola tendo, portanto, provocado intensa migração da população.

Do mesmo modo, os resultados sobre a migração, ou seja, sobre as pessoas que


não residiram sempre no município demonstram que a maior parte do estado situa-se
nos níveis “médio” e “alto”, o que confirma os fluxos de migração que houve no
período de modernização da agricultura.

O próximo item observado se refere à proporção da população rural-urbana onde


verifica-se que a região Centro-Norte apresenta grande parte dos valores entre “médio”
6
Que compreende os municípios de Goiânia, Abadia de Goiás, Aparecida de Goiânia, Aragoiânia, Bela
Vista de Goiás, Goianápolis, Goianira, Hidrolândia, Nerópolis, Santo Antonio de Goiás, Senador Canedo
e Trindade conforme Lei Complementar nº 27 de 30 de dezembro de 1999.
e “alto”, demonstrando que a população nesta região ainda está fortemente presente no
meio rural. Este resultado pode ser atribuído, conforme defendido por Pires (2008),
devido à fraca incorporação de progresso técnico ocorrido nesta região que, se deu
principalmente na região Centro-Sul e ligada aos programas de financiamento estatais.

CONCLUSÕES

O objetivo geral deste trabalho foi entender como se objetivou o


desenvolvimento rural nos municípios de Goiás no interregno censitário de 1996/2000,
medido pelo Índice de População- IPOP. A hipótese adotada para este trabalho afirma
que Goiás apresenta “ilhas” com notável grau de desenvolvimento rural em contraste
com outras que apresentam baixo dinamismo.

Como resultado da modernização do campo em Goiás, que é apresentada pela


literatura e evidenciada pelos resultados do capítulo anterior, percebe-se mais intensa
migração da população do meio rural para as regiões mais urbanizadas e
industrializadas (Goiânia e Anápolis). Este fenômeno dá origem a uma persistente
diminuição na população rural ao passo que ocorre o aumento das taxas de urbanização
nas cidades mais industrializadas. Com efeito, pelos resultados encontrados percebe-se
ainda que os frutos da modernização da agricultura, que é o estopim para o
desenvolvimento rural, podem ser observados com mais intensidade na região Centro-
Sul do estado ao passo que a porção Centro-Norte do território não foi influenciada
fortemente por este processo de modernização do campo. Isto se deu porque a região
Centro-Norte do estado não esteve fortemente ligada ao processo de modernização que
acontecia no meio rural. Como este processo se deu ancorado nas linhas de
financiamento estatais os produtores descapitalizados não tiveram acesso a estas fontes
de recursos, as regiões mais integradas ao comércio exportador obtiveram estes
benefícios com maior intensidade.

Deste modo, conforme resultados apresentados, devido a menor incorporação do


progresso técnico nas atividades agrícolas, a região Centro-Norte apresenta fortes
indícios de que a sua exploração agropecuária permanece baseada nos métodos
tradicionais utilizando-se de mão de obra familiar, baixa incorporação de inovações
químicas e mecânicas além do manejo de culturas voltadas para o consumo interno. No
entanto, deve ser ressaltado que, por não ser objeto deste estudo, este item não abordado
visto que demandariam outras pesquisas. Por outro lado, a região Centro-Sul do estado
volta-se, sobretudo para culturas de “exportação” (setor agroindustrial do mercado
interno e externo) com crescente incorporação de progresso técnico, utilizando-se de
fertilizantes, defensivos agrícolas e intensa mecanização da atividade agrícola.

Assim, conclui-se que no Brasil, o processo de desenvolvimento econômico que


ocorreu de forma extremamente desigual faz com que coexistam situações rurais
extremadas. Devido à existência de estruturas arcaicas convivendo com estruturas
modernas percebe-se que, em algumas regiões do país, o desenvolvimento rural já está
bastante avançado ao passo que em outras este processo praticamente inexiste.

Portanto, entende-se que o desenvolvimento rural é resultado de fatores internos


e externos ao meio rural. Assim, os fatores externos estão ligados à ampliação do acesso
da população rural a bens de consumo equiparado aos citadinos que, aliados à
globalização, crises de emprego, etc. confirmam os efeitos das novas relações
econômicas no rural. Por outro lado, os fatores internos que advêm da modernização da
agricultura, por meio da incorporação de progresso técnico às atividades agrícolas,
trouxeram “ares de modernidade” para o meio rural.

No entanto, seguindo o que ocorreu no desenvolvimento da economia do país, o


processo desenvolvimento no meio rural também se deu de forma desigual e fortemente
excludente. Com efeito, as características de heterogeneidade típicas das economias
subdesenvolvidas também estão presentes no meio rural criando duas regiões distintas
no mundo rural: uma moderna e outra atrasada. As regiões modernas apresentam grande
dinamismo e, como tal, possuem grande parte das características demonstradas pelo
desenvolvimento rural. As regiões atrasadas, por menos incorporadas a este processo de
desenvolvimento, podem apresentar poucas ou nenhuma das características que definem
este novo momento.

Em Goiás os resultados obtidos pelo cálculo do Índice de População - IPOP


confirmam a hipótese deste trabalho pois verifica-se que a região Centro-Sul apresentou
maior nível de desenvolvimento vis-à-vis a porção Centro-Norte do território. Este
resultado se dá porque houve menor penetração da modernização do campo na região
Centro-Norte em comparação ao Centro-Sul do estado.
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