Você está na página 1de 5

See discussions, stats, and author profiles for this publication at: https://www.researchgate.

net/publication/250040625

A construção social do desejo para as Ciências Sociais

Article  in  Revista Estudos Feministas · August 2007


DOI: 10.1590/S0104-026X2007000200021

CITATIONS READS

0 28

1 author:

Leandro Castro Oltramari


Federal University of Santa Catarina
44 PUBLICATIONS   74 CITATIONS   

SEE PROFILE

All content following this page was uploaded by Leandro Castro Oltramari on 18 June 2014.

The user has requested enhancement of the downloaded file.


A construção social do desejo para as
Ciências Sociais
Uma interpretação do desejo: lançamento e para nomes importantes como
Michel Bozon, Carole Vance, Gilbert Herdt, entre
ensaios sobre o estudo da outros que, a partir de então, compartilharam
sexualidade. essas idéias.
Uma interpretação do desejo: ensaios
GAGNON, John. sobre o estudo da sexualidade, lançado no Brasil
em 2006, é um apanhado de textos de diversos
momentos da carreira do sociólogo. A obra vem,
Rio de Janeiro: Garamond, 2006. 456 apesar do atraso – já que os primeiros textos
p. fundamentais de sua carreira são de 1973 –,
preencher uma lacuna importante nos estudos
da sexualidade no Brasil.
O livro inicia-se com uma introdução
John Gagnon é um sociólogo que marcou bastante interessante do sociólogo Jeffrey Escoffier
os estudos da sexualidade nas Ciências Sociais falando da importância do texto de Gagnon para
junto com seu companheiro de pesquisas William as Ciências Sociais. Ele revela que Gagnon foi
Simon através de um trabalho chamado Sexual aquele que, com muita propriedade, se opôs ao
Conducts, publicado originalmente em 1973 e caminho traçado anteriormente por Alfred Kinsey,
ainda não traduzido para o português. Nessa famoso por seu relatório sobre a sexualidade
obra, os autores lançam as bases para uma humana. O autor revela que o livro faz parte de
interpretação social das raízes do desejo sexual uma série de ensaios de textos que lhe permitem
dos seres humanos. Eles desconstroem a idéia do expandir seu pensamento sobre o assunto. Além
desejo sexual como resultado de uma disso, segundo Escoffier, com a epidemia da AIDS
idiossincrasia individual das pessoas. Dessa os textos de Gagnon ganharam ainda mais
maneira, vão contra a idéia salutar para a importância.
psicanálise sobre a elaboração do objeto de A obra de Gagnon, como é composta por
desejo sexual. Esse trabalho foi importante para um apanhado de textos de diversos momentos
os estudos em sexualidade a partir de seu da sua vida acadêmica, segue uma seqüência

Estudos Feministas, Florianópolis, 15(2): 491-510, maio-agosto/2007 501


cronológica na qual é possível perceber as Posteriormente, ele volta a criticar a visão
inquietações do autor com as recorrentes psicanalítica de que toda a sexualidade se
transformações da sexualidade no mundo estrutura nas vivências da infância.
contemporâneo e com os fenômenos que O autor explica, de forma clara, sua idéia
interferiram nessa sexualidade, como, por sobre o que entende por roteiros sexuais. Para
exemplo, o aparecimento da AIDS e a abertura ele, os roteiros sexuais não se localizam como
maior para os relacionamentos homoafetivos. uma experiência concreta, mas sim como uma
Vale a pena, para compreender como perspectiva de projetos ou mesmo de fantasias
Gagnon chegou à sua elaboração teórica, ler o sexuais. Podemos identificar que o
“Prólogo”, ao longo do qual ele remete suas posicionamento do autor nessa época não é
influências intelectuais a nomes como Kenneth ainda tão sistematizado quanto nos seus textos
Burke, intelectual norte-americano que produziu de 1984, elaborados junto com Simon,3 ou mesmo
nas áreas da Lingüística, da Filosofia e da em seu texto de 1999, traduzido por Bozon e
Sociologia, não muito conhecido entre os publicado nos Actes de la recherche.4 Nestes
cientistas sociais no Brasil. Segundo Gagnon, esse últimos textos, o pensamento se mostra mais
foi um dos principais autores que o influenciaram estruturado, e a compreensão sobre os roteiros
a elaborar a sua teoria dos roteiros sexuais, sexuais é sistematizada para poder ser
certamente a mais importante teoria após o compreendida e utilizada no campo da pesquisa
lançamento do relatório Kinsey. sobre sexualidade.
O autor faz referências sobre a importância No capítulo “A ciência e a política da
da apropriação que o senso comum faz da patologia”, publicado originalmente em 1987, ele
ciência para se entenderem os sentidos que as faz uma série de reflexões sobre as orientações
pessoas conferem à sexualidade. Seus sexuais. O autor define que as “preferências” são
argumentos são muito próximos aos que o constituídas socialmente e que existe uma
psicólogo social romeno Serge Moscovici defende construção do desejo a partir do gênero, e não
em seu texto clássico sobre a Representação pelo sexo. O autor refere-se ao fato de que as
social da psicanálise. 1 Mas Gagnon, em pessoas consideram a homossexualidade
momento algum do seu texto, refere-se ao autor resultado de algum tipo de trauma ou de
romeno. Talvez seja uma resistência do autor, que problema individual, enquanto a
também critica a resistência dos pensadores heterossexualidade é vista como resultado natural
europeus ao pensamento norte-americano, dos processos de sexualização. Ele faz uma crítica
principalmente no campo das Ciências Sociais. severa sobre como a divulgação da ciência tem
Ele também traz argumentos que lembram o texto um papel importante na construção do
de Anthony Giddens sobre As tranformações da preconceito e da discriminação no campo da
intimidade.2 Mas indubitavelmente a análise de sexualidade. Gagnon revela isso afirmando não
Gagnon nesse primeiro capítulo tem muito mais compreender que a homossexualidade e a
suporte científico do que o texto do autor inglês. heterossexualidade sejam lados opostos, como
É interessante dizer que também o autor inglês originalmente a ciência da sexualidade afirmou
em nenhum momento cita Gagnon em sua obra, através do relatório Kinsey.
mesmo sendo este autor considerado por muitos A discussão de Gagnon está muito voltada,
uma referência fundamental nos estudos da na primeira parte da obra, à ciência e ao papel
sexualidade a partir da década de 70. Assim, em do cientista na construção de estereótipos sobre
determinados momentos tem-se a impressão de os comportamentos. Não é à toa que ele se
que os argumentos teóricos de Gagnon já foram coloca de forma sistematicamente contrária a
lidos em outros textos de outros autores; mas, pela Ellis, Freud, Kinsey e a outros, pois, apesar de esses
falta de diálogo entre os referidos autores, não é autores terem contribuído com a construção de
fácil precisar de quem são os argumentos novos conhecimentos, auxiliaram na elaboração
originais. de preconceito e de discriminação em relação
No outro capítulo, intitulado “Os roteiros a determinados grupos, principalmente contra
sexuais e a coordenação da conduta sexual” – mulheres e contra homossexuais.
texto publicado originalmente em 1974 –, Gagnon Mas fica claro que a grande contribuição
faz uma relação entre as abordagens dessa obra lançada no Brasil são as discussões
sociológicas e psicológicas para a teoria da sobre o uso da teoria dos roteiros sexuais para
motivação. Para ele, a motivação nada mais é explicar fenômenos importantes do ponto de vista
do que parte de adequação e de readequação da saúde publica, como, por exemplo, a
social compartilhada dentro de contextos sociais. epidemia de AIDS, uma vez que o autor deixa

502 Estudos Feministas, Florianópolis, 15(2): 491-510, maio-agosto/2007


presente, em toda a sua obra, a oposição que ficariam infectadas no passar de alguns anos da
ele assume em relação às teorias que tomam a epidemia. É interessante que, em seu texto, ainda
biologia como referência às explicações sobre a estão presentes dúvidas quanto à vulnerabilidade
sexualidade. Em sua teoria sobre as motivações do sexo heterossexual para o HIV. Não estava
da sexualidade, estas são eminentemente sociais, claro que o HIV iria disseminar-se entre os
e não há condicionamentos nem à biologia nem heterossexuais. Mas Gagnon revelava, já naquela
a determinações psíquicas. A sexualidade tem época, que a epidemia da AIDS foi usada quase
um sentido particular para determinados grupos como uma cruzada por uma nova moral,
de pessoas. Assim, não há comportamentos principalmente entre as prostitutas, que eram
sexuais padrões sem se compreenderem os testadas à revelia.
contextos nos quais eles são produzidos. Para o O autor discute o que Cristiana Bastos6 já
autor, a teoria dos roteiros se aplica a todas as fez em seu livro Ciência, poder, acção: as
condutas sociais, não somente à sexualidade. respostas à Sida: o impacto das políticas da
Não fica presente, na obra de Gagnon, o ciência sobre a epidemia e sobre a pesquisa
que Ludwig Fleck, autor citado por ele, denomina científica. Gagnon elabora essa discussão de
de “comunidade de pensamento”. O autor não forma muito subliminar, porque o seu intuito está
desenvolve muito o conceito, que penso ser muito nas discussões mais atreladas ao comportamento
próximo ao que Peter Berger e Thomaz Luckmam das pessoas. O que Gagnon faz é uma referência
chamaram de “construção social da realidade” ao problema da produção científica sobre a AIDS
em obra homônima publicada originalmente em e às relações de interesse internacional sobre a
1966 e que já possui diversas edições no Brasil.5 discussão. Ele inclusive dá um exemplo dramático
Vale dizer que as idéias tanto de Fleck quanto de quando relata, de forma muito interessante, como
Berger e Luckmam são muito próximas às que participantes de um congresso pouco se
defende Gagnon, na medida em que, para este sensibilizaram sobre o relato de uma queniana
último, não é possível compreender um que havia começado a falar sobre a situação
comportamento sexual sem conectá-lo da AIDS entre mulheres na África. Impossível não
devidamente ao contexto em que ele se insere. se lembrar do filme de Fernando Meirelles
Portanto, o risco nada mais é do que uma intitulado O jardineiro fiel.7
condição na qual as pessoas estão mais ou O autor critica as interpretações que ele
menos envolvidas, dependendo das condições considera um “construcionismo social fraco” e que
e da produção cultural existentes no interior dos ele caracteriza quase como uma continuação
grupos. do positivismo, enquanto define que o
Mas a grande idéia que o livro apresenta construcionismo social forte, defendido por ele,
em torno de todos os seus capítulos é a tese que tem relação direta com um universo simbólico
deu popularidade acadêmica a Gagnon. que, a todo tempo, está atravessando os sujeitos
Segundo o autor, os roteiros sexuais dão sentidos que definem o próprio objeto como científico.
às experiências sexuais das pessoas. Assim, Por último, ele elabora uma análise sobre a
existem para ele, dentro de um universo social, sua obra clássica publicada em 1973, Sexual
formas preditivas de comportamento a partir de Conducts. Nesse texto, publicado em 1998, ele
situações específicas. O autor descreve, de uma responde a perguntas e reluta em aceitar a
forma muito detalhada, suas concepções sobre afirmação de que as suas teorias tenham sido
o que compreende como os três níveis que influenciadas pelo construcionismo social alemão
compõem os roteiros sexuais: os níveis de Berger e Luckman e pela fenomenologia de
intrapsíquicos, os interpessoais e os cenários Alfred Schutz, dizendo que sua obra tem a
culturais. influência do pragmatismo norte-americano. O
No texto intitulado “A busca do desejo”, de autor define que a idéia central sobre sua obra
1989, Gagnon inicia uma importante discussão seminal tem respaldo em uma interpretação
para pesquisadores que estudam prevenção à baseada nos estudos sobre as carreiras
AIDS, principalmente à medida que relata um profissionais, o que é tipicamente característico
momento histórico importante, que foi o final da de estudo da Escola de Chicago.
década de 90, antes do desenvolvimento do O autor, ao final do livro, revela que sua
chamado “coquetel”. Naquele momento, as teoria é para ele, de alguma forma, sombria ou
discussões estavam diretamente ligadas às pessimista, visto que, segundo a mesma, as
perspectivas de infecção de pessoas. A ciência pessoas seguem a vida através de roteiros que
estava preocupada em saber quantas pessoas fazem com que etapas aconteçam de formas
sucessivas dentro de suas vidas.

Estudos Feministas, Florianópolis, 15(2): 491-510, maio-agosto/2007 503


O que fica, no final dessa obra, é um 7
O filme é um drama que aborda a discussão dos testes
sentimento ambíguo. Nem se trata da sensação de medicamentos em seres humanos na África e suas
de que se está lendo algo completamente novo implicações políticas.
– porque as idéias de Gagnon já estão Referências bibliográficas
disseminadas no Brasil por outros autores como BASTOS, Cristiana. Ciência, poder, acção: as
Richard Parker, Maria Luiza Heilborn e Michel respostas à Sida. Lisboa: Imprensa de
Bozon –, nem de que as idéias dele não podem Ciências Sociais, 2002.
revolucionar as pesquisas em sexualidade – uma BERGER, Peter, L.; LUCKMANN, Thomas. A
vez que traz idéias interessantes para quem nunca construção social da realidade: tratado de
o leu em seus textos originais. sociologia do conhecimento. 23 ed.
Apesar da importância desse livro, ainda Petrópolis: Vozes, 2003.
assim é necessária a tradução de outros textos GAGNON, John. H. “Les uses explicites et implicites
que dêem maior clareza sobre a teoria dos de la perspective des scripts dans les
roteiros sexuais, uma vez que, como o livro recherches sur la sexualité”. Actes de la
aborda diversos momentos do autor, acaba Recherche em Scienes Sociales, n. 128, p.
sendo superficial sobre a principal contribuição 73-79, juin 1999.
de Gagnon no campo dos estudos em GIDDENS, Anthony. A transformação da intimida-
sexualidade. Sem dúvida, entretanto, esse livro é de: sexualidade, amor e erotismo nas socie-
um bom começo para quem não conhece o dades. 2 ed. São Paulo: Ed. da UNESP, 1993.
trabalho de Gagnon. MOSCOVICI, Serge. A representação social da
Notas psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
1
MOSCOVICI, 1978. SIMON, William; GAGNON, John H. “Sexual Scripts”.
2
GIDDENS, 1993. Society, n. 22, 1984. p. 53-60.
3
GAGNON e SIMON, 1984.
4
GAGNON, 1999. Leandro Castro Oltramari
5
BERGER e LUCKMAM, 2003. Universidade do Vale do Itajaí e
6
BASTOS, 2002. Universidade do Sul de Santa Catarina

504 Estudos Feministas, Florianópolis, 15(2): 491-510, maio-agosto/2007

View publication stats