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Roxane Rojo Série Estratégias de Ensino 1. 0 ensino do espar7hoino Brasa/,2' ed. JogoSedyciasjorg.l 2.

Roxane Rojo

Roxane Rojo Série Estratégias de Ensino 1. 0 ensino do espar7hoino Brasa/,2' ed. JogoSedyciasjorg.l 2. Português
Série Estratégias de Ensino 1. 0 ensino do espar7hoino Brasa/,2' ed. JogoSedyciasjorg.l 2. Português no
Série Estratégias de Ensino
1. 0 ensino do espar7hoino Brasa/,2' ed.
JogoSedyciasjorg.l
2. Português no ensino médio e formação do l)Tofessor,2' ed.
Clecio Bunzen & Márcia Mendonça jorgs.l
3. GêneToscatalisadores
ietramento e formação do professor
Inês Signorínijorg.l
4. A formação do professorde português
Paulo Coimbrã Guedes
que língua vamosensinar?, 2' ed.
3' ed
5. Muito
além da
gramática
por um ensino de línguas selll pedras no cantinho
Irandé Antunes
6.
Ettsinar o brasileiro
respostasa 50 perguntas de professoresde língua inatema
Celso Ferrarezi
7. Semântica pata a educação básica
Celso Ferrarezi
8. O professor f)esqtLisadoí
inhoduçao
à pesquisa qualitativa
Stella Maris Bortoni-Ricardo
9. Letralnerzfo c?mEIA
Mana Cecilia Mollica & Mansa Leal
10. Lz'água, fexfo e ensino
outra escola possa:pe/
Irandé Antunes
11. Erzsírzo e aprer7dizagc?i77de /írzgua ing/esa
conversas c
)m especialistas
Diógenes Cândido de Limo (org.)
\ 2.
Da redução à produção textual o ensino da escrita
Paulo Coimbrã Guedes
13. Lefra7nerzfosmúifíp/os, asco/ae ínc/usãosoda/, ]' ed.
I' reimpressão
1
1
Roxane Rojo
14.
L;brasa Que rírzgua é essa?
Audrei Gesser
1 5.
Dídátíca de /írzguas esfrangeíras
Pierre Martinez
/ LETRAMENTOSMULTIPLOS, escola einclusão social
/
LETRAMENTOSMULTIPLOS,
escola einclusão
social
Gesser 1 5. Dídátíca de /írzguas esfrangeíras Pierre Martinez / LETRAMENTOSMULTIPLOS, escola einclusão social
LETRAS EITO (S) Prá,ti,ca,sde l,erra,pm,en,to epn dÇferen,tescontextos
LETRAS EITO (S)
Prá,ti,ca,sde l,erra,pm,en,to epn
dÇferen,tescontextos
FONTESdas imagens:http://www.nysut.org/images/con- tent/voice.080421.early.literacy14jpg, http://www.sfsh.
FONTESdas imagens:http://www.nysut.org/images/con-
tent/voice.080421.early.literacy14jpg,
http://www.sfsh.
org.pk/Women%20Literacy.htm,http://www.cloudbase.
co.n z/2008/02/2
5/gra ffití-wa 11pa pe r-set-fo r'i phon e-i pod-to uc h/,
http://d iariodono rdeste .globo.co m/ima gem.asp?lma gem =309060,
http://mandamarie.files.wordpress.com/2008/01/dscn0257jpg,
http://www.pembrokepublishers.com/books/48a5a173044eejpg,
acessoem 20/01/2009.
acessoem 20/01/2009. R' E l l Ç + CaPÍtWl06
R' E l l Ç
R'
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Ç

+

acessoem 20/01/2009. R' E l l Ç + CaPÍtWl06 Nestecapítulo,oleitorpoderá detalhar mais e
acessoem 20/01/2009. R' E l l Ç + CaPÍtWl06 Nestecapítulo,oleitorpoderá detalhar mais e

CaPÍtWl06

Nestecapítulo,oleitorpoderá

E l l Ç + CaPÍtWl06 Nestecapítulo,oleitorpoderá detalhar mais e refletir sobre os conceitos de letramento,

detalhar mais e refletir sobre os

conceitos de letramento, em sua

versãoforte efraca,na

perspectiva autónoma e ideológica,

e de letramentos (múltiplos, (pré-)conceitos a respeito dos letramentos locais, globais,
e de letramentos (múltiplos,
(pré-)conceitos a respeito dos
letramentos locais, globais,
a respeito dos letramentos locais, globais, multissemióticos, críticos). Poderá também rever algumas

multissemióticos, críticos). Poderá

também rever algumas crenças e

escolares e valorizados, desenvol-

vendo uma atitude de investigação

e estudo das práticas de

uma atitude de investigação e estudo das práticas de letramento globais e locais nas quais as

letramento globais e locais nas

quais as pessoas estão envolvidas. Isso poderá despertarointeresse

em viabilizar o diálogo entre

os letramentos já apropriados

pelos alunos com os letramentos

privilegiados peia escola e os do

património cultural valorizado.

LETRAMENTO(S)

95

Letramento não é pura e simplesmente um conjunto de habilidades individuaisi é o conjunto de
Letramento não é pura e simplesmente um conjunto de
habilidades individuaisi é o conjunto de praticas sociais
!iradas à leitura e à escritaem que osindivíduos se
envolvem em seu contexto social (Sobres, lg98: 72).
Pode-se afirmctr que Q escola. a mais importante
das
agências de ]eframenfo, preocupa-se, não com o ]eframenfo,
pratica social, mas com apenas um tipo de prática de
!etramento, a alfabetização, o processode aquisição de
códigos (alfabético, numérico), processogeralmente
percebido em termos de uma competência individual
necessária para o sucesso e promoção na escola. Já outras
agências de letramento, como a família, a igreja, Qrua como
lugar de trabalho, mostram orientações de letramento muito
diferentes(Kieiman,
1995:20}.
Nossapersonagem.professoraDou, entra na sala de aula, faz a
chamada e em seguida pede a Tadeu que abra o livro na página 27 e leia
o texto em voz alta -- práticas de letramento.
Josias,22 anos, vestido com uma calça caqui esfarrapada e uma
camisetaregata branca cheia de buracos, aproxima-se de meu carro pa-
rado no sinal e pendura no espelho um saquinho de balas de hortelã em
que há grampeado um bilhete com os seguintes dizeres: "Sou pai de
família e estou desempregado. Vendo balas para sustentar meus filhos.
Compre um saquinho. Somente R$ 2,00" . Leio o bilhete e compro as ba-
las -- práticas de letramento.
Suzanaestá sem dinheiro vivo na carteira e precisa comprar remédios.
De duas uma: ou vai ao caixa automático e segue as instruções na tela.
digitando códigos alfanuméricos para retirar dinheiro vivo, ou vai direta-
mente à farmácia e usa o cartão de crédito ou de débito. também seguindo
asinstruçõesda tela no temninale digitando códigosalfanuméricos,para
realizar a compra sem precisar do dinheiro -- prát:ices de letramento.
"Tocadorde atabaquenum terreiro de umbanda em Vila Medeiros.
na zona norte de São Pau]o, Renato ])ias ficou intrigado, certa noite. com
as frases balbuciadas, em aparente transe, por um guia espiritual. Dis-
seram-lheque talvez fosseuma língua indígena. Uma das entidadesda
umbanda é o caboclo, que representa o índio brasileiro. Independente-
mente de quaisquer convicções religiosas. aquela cena acabou se mate-
96 LETRAMENTOSMÚUIPLOS, ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO
realizandono primeiro CDde rap com as letras em tupi de que setem no- tícia. 'Fiquei
realizandono primeiro CDde rap com as letras em tupi de que setem no-
tícia. 'Fiquei interessadona sonoridadedaquelaspalavras',diz Renato.
que se prepara para lançar, neste mês, as músicas de 'Kaumoda', que, em
tupi. significa uma entidade espiritual maligna. O projeto só foi possível
graçasa uma inusitada mistura de um terreiro de umbanda com o rigor
acadêmico da Universidade de São Paulo" ' -- práticas de letramento.
Mas afinal que conceito é essetão complexo e diversificado que re-
cobre desde a leitura escolar em voz alta de um texto escrito até um CD
de rap em tupi, assessoradopor um professor da USP.passando pelo uso
de meios eletrânicos e digitais?
Como diz Kleiman (1995:15-16), "o conceito de letramento come-
çou a ser usadonos meios académicosnuma tentativa de separaros
estudos sobre o 'impacto social da escrita' (Kleiman, 1989a)dos estudos
sobre a alfabetização, cujas conotações escolares destacam as compe-
tências individuais no uso e na prática da escrita":
Usamos até aqui o conceito de alfabefismo para designar o conjunto
de competênciase habilidades ou de capacidades envolvidas nos fitos
de leitura ou de escrita dosindivíduos, conjunto esseque se diferencia
e particulariza de um para outro indivíduo, de acordo com sua história
de práticas sociais,e que pode, como vimos, ser medido e definido por
níveis de desenvolvimentode leitura e de escl.ita.como fazem o INAF e
'os exames nacionais .
,4#abetbmo é um conceitobem mais antigo. SegundoRibeiro(1997: 145)
o termo alíabetismofuncional foi cunhado nos EstadosUnidos na década
de 1930e utilizado pelo exército norte-americano durante a SegundaGuer-
ra. indicando a capacidade de entender instruções escutasnecessáriaspara
a realização
de tarefas
militares
(Castell.
Luke
& MacLennan,
19861. A par-
tir de então. o termo passou a ser utilizado para designar a capacidade de
l Retirado de http://wwwl.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/colunas/gd081106. htm, acesso em 16/02/2008. 2 A autora
l Retirado de http://wwwl.folha.uol.com.br/folha/dimenstein/colunas/gd081106.
htm, acesso em 16/02/2008.
2 A autora ainda informa que o primeiro usoda palavra no Brasil. tradução literal do
inglês de ]iferacy -- língua em que, aliás, recobre ao mesmo tempo os significadosde
alfabetização e de letramento --, foi de Mary Kato, em seulivro de 1986.

(n

-«-.~
-«-.~
utilizar a leitura e a escrita para fins pragmáticos, em contextos cotidianos, domésticosou de trabalho.
utilizar a leitura e a escrita para fins pragmáticos, em contextos cotidianos,
domésticosou de trabalho. muitas vezes colocado em contraposição a uma
concepção mais tradicional
e acadêmica
Então. podemos dizer que aspráticas sociaisde letramento que exer-
cemosnos diferentes contextos de nossasvidas vão constituindo nossos
níveis de alfabeüsmo ou de desenvolvimento de leitura e de escritasdentre
elas. as práticas escolares. Mas não exclusivamente. como mostram nos-
sosexemplos. É possível ser não escolarizado e analfabeto. mas participar.
sobretudo nas grandes cidades. de práticas de letramento, sendo, assim.
letrado de uma certa maneira. Nada exclui. por exemplo,que Josias.no
nosso segundo exemplo, nunca tenha frequentado a escola e seja anal-
fabeto, tendo pedido para alguém escrever e imprimir
os bilhetes. Ainda
assim. ele recorre a práticas letradas em suasvendas, cobra e faz o troco.
Podemostambém dizer
que, nos textos e pesquisas da década de 1980
no Brasi[, aJfabefismoe ]eframenfo (assim. no singu]ar) recobriram signifi-
cados muito semelhantes e próximos, sendo, por vezes, usados indiferente-
mente
ou como sinónimos nos textos. Sobres (2003j199Sl: 41),por exemplo,
chega a afirmar que "o neo]ogismo jletramento] parece desnecessário,já
que a pa]avra vemácu]a
aJfabefismo 1
1tem
o mesmo sentido de ]iferacy"
Como se vê. os vários sent:idos da pa]awa
]iferacy
em inglês
(alfabetização,
letramento, alfabeüsmo) têm um papel nessaaparente sinonímia.
No entanto, vale a pena insistir na distinção: o termo aJfabefismo
tem um foco individual, bastante ditado pelas capacidades e competên-
cias (cognitivas e linguísticas)
escolares e valorizadas de leitura e escri-
ta (letramentos escolarese acadêmicos), numa perspectiva psicológica.
enquanto o termo ]eframenfo busca recobrir os usos e práticas sociais
de linguagem que envolvem a escrita de uma ou de outra maneira. se-
jam eles valorizados ou não valorizados, locais ou globais. recobrindo
contextos sociais diversos (família. igreja. trabalho, mídias, escola etc.).
numa perspectiva sociológica. antropológica e sociocultural.
Issoficou bastantemais claro para os estudiososdo letramento, a
partir da obra divisora de águas de Street (1984),que inaugura os novos
estudos do letramento
(Nn./Ni.s)e que foi divulgada no Brasil. sobretudo
por Kleiman (1995).Nela. Street propunha uma divisão entre dois enfo-
ques do letramento nos estudos, para os quais ele escolheu as denomi naçõesde enfoque autónomo
ques do letramento nos estudos, para os quais ele escolheu as denomi
naçõesde enfoque autónomo e enfoque ideológico do letramento:
Segundo Street (1993: 5), o enfoque autónomo vê o letramento
"em
termos técnicos, tratando-o como independente do contexto social, uma
variável autónoma cujas consequências para a sociedade e acognição são
del.ivadas de sua natureza intrínseca" . Ou seja. o contato (escolar) com
à leitura e a escrita, pela própria natureza da escrita. faria com que o in-
divíduo aprendesse gradualmente habilidades que o levariam a estágios
universais de desenvolvimento (níveis). E o que. até aqui. denominamos
níveis de a/fabefismo.E é o que Bartlett (2003:69) qualifica de o retrato
da educaçãoa partir do enfoque autónomo,no qual essashabilidades
resultariam "no pensamentoracional individual, no desenvolvimentoin-
telectual, no desenvolvimento social e na mobilidade económica"
Ao contrário do modelo autónomo dominante. o enfoque ideológico
"vê as práticas de letramento como indissoluvelmente ligadas às estruturas
culturais e de poder da sociedade e reconhece a variedade de práticas cul-
turais associadasà leitura e à escrita em diferentes contextos" (Street. 1993:
7). O "significado do letramento" varia através dos tempos e das culturas e
dentro de uma mesma cultura. Por isso, práticas tão diferentes, em contex-
tos tão diferenciados. sãovistas como letramento. embora diferentemente
valorizadas e designando a seus participantes poderes também diversos.
Outra distinçãointeressante.ligada à reflexão de Street (1984),é
feita por Sobres(19981.quando fala de uma versãofraca e de uma ver-
sãoforte do conceito de letramento. Para ela. a versãofraca do conceito
de letramento, que estarialigada ao enfoque autónomo,é (neo)liberal e
estaria ligada a mecanismos de adaptação da população às necessida-
des e exigências sociais do uso de leitura e escrita. para funcionar em
sociedade.E uma visão adaptativa que está na raiz do conceito de aJfa-
befismo funciona/ e de muitos reclamos indignados a respeito dos resul-
tados dos exames e medições de competências e habilidades: como ser
cidadão. funcionar em sociedade de maneira adequada. sem dominar as
competências requeridas? O que faz a escola que não as desenvolve?
3 Para saber mais e cotejar duas posições distintas, cf. Kleiman (1995) e Sobres (1998)
3
Para saber mais e cotejar duas posições distintas, cf. Kleiman (1995) e Sobres (1998)
Já a versão forte do letramento, para Sobres(1998),mais próxima do enfoque ideológico e da visão
Já a versão forte do letramento, para Sobres(1998),mais próxima
do enfoque ideológico e da visão paulo-freiriana de alfabetização, seria
revolucionária. crítica. na medida em que colaborarianão para a adap-
tação do cidadão às exigências sociais.mas para o resgate da autoesti-
ma, para a construçãode identidades fortes, para a potencialização de
poderes (empoderamento,empowermenf) dos agentes sociais.em sua
cu[tura [oca[,na cu]tura valorizada. na contra-hegemoniaglobal (Souza-
Santos,2005).Paratanto, leva em conta os múltiplos /eframenfos,sejam
valorizados ou não, globais ou locais.
Atividade
l
Enfoqueautónomo e enfoque ideológico do letramento
1.
De acordo com a discussão feita sobre os enfoque do(s) letramento(s), preen-
cha o quadro com as citações abaixo, avaliando em qual linha e coluna você
colocaria cada uma das citações:
ENrOQUEAUTONOMO
KNFOQUEiOEOLOOICO
Embora um indivíduo possater
Assim. um projeto educativo
Versãofraca
a competênciarequeridapara
comprometido com a democra-
participar de quaisquer comuni-
dades de texto ou de letramento.
tização sociale cultural atribui à
escola afunção
e a responsabili-
é precisotambém admitir o fato
dadede contribuir para garantir
a todos os alunos o acessoaos
de que qualquer
sociedade
está
organizadae tomo de um corpo
saberes linguísticos
necessários
de crenças. por vezes expressas
para o exercício
da cidadania.
numa forma textual, cujo acesso
é uma fonte de poder e de pJ'es-
Essa responsabilidade é tanto
maior quanto menor for o grau
de letramento das comunidades
tágio. Numa
sociedade bulrocráti-
ca. as questões legais, religiosas,
em que vivem os alunos
Con-
siderando os diferentes níveis
políticas. científicas e literárias
constituem essedomínio privile-
giado, e o acessoe participação
nessesdomínios define uma for-
de conhecimento
prévio,
cabe à
escola promover sua ampliação,
de forma que. progressivamente,
durante os oito anos do ensino
ma particular
de letramento.
E
o
ljpo de leüamento que conceme
fundamental, cada aluno se tome
às instituições públicas, parücu-
capaz de inteipretm
diferentes tex-
ICD ROXANEROJO LETRAMENTOSMÚnlPLOS, ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL
ICD
ROXANEROJO
LETRAMENTOSMÚnlPLOS,
ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL
ROXANEROJO LETRAMENTOSMÚnlPLOS, ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l lamienteinstituiçõeseducado-l l tos que circulam
l lamienteinstituiçõeseducado-l l tos que circulam socialmente. de l l naus.Leüamento, nessa perspec- l l
l lamienteinstituiçõeseducado-l
l tos que circulam socialmente. de l
l naus.Leüamento, nessa perspec- l
l uva, é a competênciarequeridal
l pma a parbcipaçãonessesdolní- l
l nas mais variadas situações"l
lnio privilegiados"(Olson.1994:l
l (Brasi]/SEF/MEC,1998:19.ênfa-l
1274.ênfase adicionada).
l
jse adicionada).
l
Letramentos são práticas so-
Versãoforte
Um conhecimento mais profun-
do da oralidade primitiva ou pri-
ciais. plurais e situadas,que
combinam oralidade e escrita
mária pemüte-noscompreender
melhor o novo mundo
da escrita.
o que ele verdadeiramenteé e o
que os seres humanos funcional-
de formas diferentes em eventos
de natureza diferente, e cujos
efeitos
ou
consequências
são
mente
letrados
realmente
são
condicionados pelotipo
de prá-
seres cujos processosde pensa-
mento não nascem de capaci-
tica e pelas finalidades específi-
cas a que sedestinam. 'lhmbém
dades meramente naturais, mas
podemosdizer que a definição
da estruturação dessas capaci-
dades.direta ou indiretamente.
de duais letramentos são váli-
dos como
formas
de
'inclusão
reflete os valores culturais e os
pela tecnologiada escrita. Sem
a escrita. a mente letrada não
pensariae não poderia pensar
hábitos linguísticos dos grupos
mais poderososno contexto so-
comopensa. não apenas quando
cial em que sãopraticados.e
que a aquisiçãodos letramen-
se ocupa da escrita. mas normal-
mente. até mesmo quando está
compondo seuspensamentos de
forma oral. Mais do que qual-
quer outra invençãoindividual.
tos dominantes por grupos su-
balternos pode constituir-se um
processo conflituoso e simboli-
camenteviolento, cujas reper-
a escrita transformou a consci-
cussões são muito
pouco previ-
síveis"(Buzato, 2007:153-154,
ência humana"
(Ong,
1982: 93,
ênfase adicionada).
ênfase adicionada).

:='=;==T*=.='=:

A citação 4, de Ong, foi qualificada como um enfoque autónomo em versão forte pois
A citação 4, de Ong, foi qualificada como um enfoque autónomo em versão forte
pois atribui à escrita, de maneira autónoma, isto é, por ela mesma,mudançasna
consciência.na cogniçãoe na linguagem humana. Já a citação 1. de Olson, seria
uma versão fraca do enfoque autónomo, pois já relativiza a autonomia da escrita e de
suas relações com a distribuição do poder e a hierarquia social e com as instituições.
Ainda assim.enfoca o letramento como uma competência adquirida para funcionar
em determinadas instituições. A citação 3. retiradas dos PCN de ensino fundamental
n (BRASIL/SEF/MEC, 1998),foi considerada uma versão fraca do enfoque ideológico,
pois, embora fale em democratização social e cultural, ainda vê a escolacom o papel
101 LETRAMENTO(S)
101
LETRAMENTO(S)
Assim. as abordagens mais re- centes dos letramentos'. em espe- de adaptar os alunos, de
Assim. as abordagens mais re-
centes dos letramentos'. em espe-
de adaptar os alunos, de dar-lhes "aces-
so aos saberes linguísticos necessários
cial aquelasligadas
aos novos es-
para o exercício da cidadania" , ou seja.
tudos do letramento (NEL/NLS), têm
para funcionarsocialmente.Já a cita-
ção 2. de Buzato,correspondea uma
apontado para a heterogeneidade
das práticas sociaisde leitura, es-
crita e uso da língua/linguagem
versão forte do enfoque ideológico, na
medida em que reconhece que "a defi-
nição de quais letramentos são válidos
comoformas de 'inclusão' reflete os va-
em geral em sociedadesletradas e
têm insistido no caráter sociocul-
tural e situado das práticas de le-
lores culturais e os hábitos linguísticos
dos grupos mais poderososno contexto
socialem que sãopraticados" e consi-
tramento. Esta posição, como nota
dera estas atribuições de valor conflituo-
Street (2003: 77),
sas lmprevtsiveis.
implica o reconhecimento dos múltiplos letramentos. que variam no tempo
e no espaço, mas que são também contestados nas relações de poder. As-
sim. os Ni.snão pl'essupõem coisa alguma como garantida em relação aos
letramentos e às práticas sociais com que se associam.problematizando
aquilo que conta como letramento em qualquer tempo-espaçoe interro-
gando-se sobre "quais letramentos"
são dominantes e quais são mal-finali-
zadosou de resistência (ênfaseadicionada).
Nessemovimento, o conceito de letramento passaa serplural: letra-
mentoS. Hamilton (2002: 4) chama os letramentos dominantes de "ins-
tituciona[izados"
e os distingue
dos ]etramentos
locais
"vernacu]ares
"
(ou "autogerados"). Entretanto, não os vê como categorias independen-
tes ou radicalmente
separadas, mas interligadas. Para a autora. os /efra-
menfos dominantesestão associadosa organizaçõesformais tais como
a escola.as igrejas, o local de trabalho. o sistemalegal, o comércio, as
burocracias. Os letramentos dominantes preveem agentes (professores,
autores de livros didáticos, especialistas, pesquisadores, burocratas, pa-
dres e pastores, advogados e juízes) que. em relação ao conhecimento,
são valorizados legal e
culturalmente. são poderososna proporção do
poder da sua instituição
de origem. Já oschamados ]eframentos "verna-
cuJares" não são regulados, controlados ou sistematizados por institui-
ções ou organizações sociais, mas têm sua origem na vida cotidiana. nas
4 Texto baseado em Rojo (2008a)
4 Texto baseado em Rojo (2008a)
102 LETRAMENTOSMÚUIPLOS. ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO
102 LETRAMENTOSMÚUIPLOS. ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO
culturas locais. Como tal, frequentemente são desvalorizados ou despre zados pela cultura oficial e são
culturas locais. Como tal, frequentemente são desvalorizados ou despre
zados pela cultura oficial e são práticas, muitas vezes, de resistência.

r

ilizados Letras !ntos dominantes e margil l Um exemplo de desprezo pelos letramentos locais e
ilizados
Letras
!ntos dominantes e margil
l Um exemplo de desprezo pelos letramentos locais e marginalizados é o que a
escola (instituição oficial) vem dispensando ao interr?etês ou b/oguês. E comum
vermos professores e a mídia "reclamando" da migração dessa linguagem so-
cial da mídia digital paraoutras esferas de comunicação,como um "ataque à
língua portuguesa". Veja, por exemplo, a posição da Prof' Elenice a respeito,
publicadanojornal santista 4 Irít)una, em 30/05/2005:
Para a professora Elenice Rodrigues Lorenz,de língua portuguesa, li-
teratura e produçãotextual, o problema está na carência do domínio
da língua materna. "As pessoas não leem, não procuram ampliar seu
vocabulário, erram na regência e na concordância das frases e das pa-
lavras; têm dificuldade de conectar ideias e de interpretar textos". Para
Elenice,portanto, a preocupaçãoé "adotar" o internetês como único
recurso escrito alternativo, exatamente por ser simplificado e pobre
de regras gramaticais e ]inguísticas. [-.] "Não há condições de tolerar
o desrespeitoao idioma, principalmente dentro da sala de aula. Uma
coisa é usar gírias e internetês na informalidade e com amigos. Outra é
levar esses vícios para toda a comunicação", argumenta Elenice.
(Retirado de http://www.novomilenio.inf.br/idioma/20050530.ht
acessoem 21/02/2008,
ênfase adicionada).
Como vemos, o internetês é classificado como desrespeito ao íd/oma, vibío. um estilo de língua
Como vemos, o internetês é classificado como desrespeito ao íd/oma, vibío. um
estilo de língua escrita simp/ificado e "pobre de regras gramaticais e linguísticas
jcomo se isso pudesse existir). Na verdade, o internetês é uma linguagem social
adaptada à rapidezde escrita dos gêneros digitais em que circula -- bate-papoem
chats, comunicação síncrona por escrito em ferramentas como MSNe l)/ogs.
l03
l03

LETRAMENTO(S)

2. Veja esses dois exemplos de internetês: um diálogo no MSN e um e-mai/, envia-
2. Veja esses dois exemplos de internetês: um diálogo no MSN e um e-mai/, envia-
dos porjovens a amigos;
a)
[VC VEIN AK] EM KAZA CM KEM E KDO? TRAZ XOCOLATE
E + CERVEJA? AXO O NAUM TENHO + BLZ?
b) Daniel: koeh blz mlk ???
Pedro:blz e cntgu ???
Daniel: manerow, mas i aew cmu vai a vida???
Pedro:tenhu idu a praia e saído com ms amigusl
Daniel: lgl kra, valewl
Você deve ter percebido que um dos prin-
3
Tente montar um glossário com as
palavras do internetês e suas cor-
cipais mecanismosé o da abreviação na
escrita de palavras, mas também se evi-
respondentes da escrita padrão.
Qual o principal mecanismo que
opera no internetês, na sua opi-
nião? Por quê? A que necessida-
des atende?
ta a acentuação, simula-se a língua oral
em registro
coüdiano
e infomial,
usam-se
linguagem e sírias de grupo, simulando
uma conversaface a face. Atende-se a
váüas necessidades da "conversa" pela
intemet: escrever rapidamente em situa-
ção síncrona. isto é, quando duas pessoas
4
Considere
palavras
como
vc, CM, Q,
fazem a mesma coisa -- conversam -- ao
BLZ,MLK, CNTGU,MS, LGL,KRAs e os sím-
mesmotempo, não deixar o interlocutor
bolosou "emotivos" como +, v6, D+,
esperando, simplifica
o uso do teclado,
estabelecercontatomais íntimo e fami-
) (S)etc. Lembrando a breve histó-
ria da escrita que fizemos no capí-
tulo 4, você considera essa escrita
como mais próximado alfabeto, do
lim, informal com o interlocutor, circuns-
creveruma identidade de grupo.
silabário ou do ideograma/picto-
grama?Justifiquesua resposta.
5
Considerando as propriedades do
internetês que analisou, você diria
O intemetês mescla recursos dos três,
por vezes usando ideogramas ou mes-
mo pictogramas, por vezes funcionan-
do como silabário, por vezes utilizando
a escrita alfabética e também recursos
de apreensãoda língua oral antes re-
servadosà transcrição fonética, como
que:
CNTGU,CMg.ioy. Portanto. exige. da par-
a)
O internetês deve permane
cerfora das salas de aula.
te de quem escreve.bastanteanálise
linguística e consciência fonológica.
5 Parasabermais.ver o "glossáriodo MSN" em anexono fim do livro; ver http://www. revistaenfoque.com.br/
5 Parasabermais.ver o "glossáriodo MSN" em anexono fim do livro; ver http://www.
revistaenfoque.com.br/
index.php?edicao=56&materia=334.
acesso em 21/02/2008
l04 ROXANEROJO ETRAMENTOSMÚHIPLOS. ESCOLA E INCLUSÃOSOCIAL
l04
ROXANEROJO
ETRAMENTOSMÚHIPLOS. ESCOLA E INCLUSÃOSOCIAL
b) O internetês deve ser estudado nas salas de aula de línguas, como um modo
b) O internetês deve ser estudado nas salas de aula de
línguas, como um
modo situado de funcionamento
da linguagem.
Justifique sua resposta
Os novosestudosdo letramento têm se voltado em especialpara os
lebamentos locais ou vemaculares, de maneira a dar conta da heretogenei
dade das práticas não valorizadas e. portanto, pouco investigadas. No en
tanto, cabe também uma revisão dos letramentos dominantes na contem-
poraneidade. em especial dos letramentos escolares, por diversas razões.
Em primeiro
lugar. por causa de como seapresenta o mundo contem-
porâneo. Podemosdizer
que. por efeito da globalização, o mundo mudou
muito nas duasúltimas décadas.Em ternos de exigências de novosle-
tramentos, é especialmente importante destacar as mudanças relativas
aos meios de comunicação e à circulação da informação. O surgimento e
a ampliação contínua de acessoàstecnologias digitais da comunicação e
da infomnação (computadores pessoais, mas também celulares, tocadores
de mp3, ws digitais. entre outras) implicaram pelo menos quatro mudan-
çasque ganham importância na reflexão sobre os letramentos=
e
a vertiginosa ínfensiHcaçãoe a diversi#cação da cü'colação da infor-
mação nos meios de comunicação analógicos e digitais, que, por isso
mesmo. distanciam-se hoje dos meios impressos. muito mais moro-
sose seletivos.implicando, segundo alguns autores (cf.,por exemplo
Chartier. 1997iBeaudouín. 2002), mudanças significativas nas ma-
neirasde ler, de produzir e de fazer circula textos nas sociedadesi
e
a diminuição das distancias espaciais -- tanto em termos geográfi-
cos. por efeito dos üansportes rápidos, como em termos culturais e
infomiacionais, por efeito da mídia digital e analógica. desenraizan-
do as populações e desconstruindo identidadesi
e
a diminuição das distânciastemporais ou a confraçãodo tempo
deten:ninadaspela velocidade sem precedentes, a quase instanta-
neidade dos transportes, da infomxação, dos produtos culturais das
mídias. características que também colaboram para mudanças nas
práticas de letramento;
e
a mulfissemioseou a mulüphcidadede modosde significar que as
possibilidades mulümidiáticas e hipertnidiáticas do texto eletrânico
LETRAMENTO(S) 105
LETRAMENTO(S)
105
nacularese autónomos,sempreem contato e em conflito, sendo alguns fazem para o ato de leitura: já
nacularese autónomos,sempreem contato e em conflito, sendo alguns
fazem para o ato de leitura: já não basta mais a leitura do texto verbal
rejeitados ou ignorados e apagados e outros constantemente enfatizados.
escrito-- é preciso relaciona-lo com um conjunto de signos de outras
modalidades de linguagem(imagem
estática.imagem em movimen-
Por fim. nessascircunstâncias,o que significatrabalhar a leitura e
to, música.
fala)
que o cercam.
ou intercalam
ou impregnami
esses
a escrita para o mundo contemporâneo? Ou. como diz Hamilton (2002),
textosmu/fissemióficosexbapolmam oslimites dosambientes digitais
e invadiram também osimpressos(jomais, revistas,hwos didáticos).
como esboçar políticas de letramento ao longo da vida que realmente
sustentem e desenvolvam os recursos, processos e metas que existem e
sãorequeridos na vida cidadã contemporânea?
Um dos objetivos principais da escola é justamente possibilitar que
seus alunos possam participar das várias práticas sociais que se utilizam
da leitura e da escrita (letramentos) na vida da cidade, de maneira ética,
crítica e democrática. Para fazê-lo, é preciso que a educação linguística
leve em conta hoje. de maneira ética e democrática:
©
osmultiletramentos ou lehamentos múltiplos. deixando de ignorar
trouxe para osintramuros escola-
ou apagar osletramentos das culturas locais de seusagentes (profes-
sores.alunos. comunidade escolta) e colocando-os em contato com
os letramentos valoüzados, universais e institucionais; como diria
Souza-Santos(2005),assumindo seu papel cosmopolita'i
e
os letramentos mulüssemióticos exigidos pelos textos contemporâne-
(1995, 1998), por exemplo.
os,ampliando a noção de leüamentos para o campo da imagem. da mú-
sica. das outras semiosesque não somente a escrita. O conhecimento e
as capacidades relativas a outros meios semióticos estão ficando cada
vez mais necessáriosno uso da linguagem. tendo em vista os avanços
tecnológicos: as cores, as imagens. os sons, o design etc., que estão dis-
poníveis na tela do computador e em muitos materiais impressosque
têm transformado o letramento
de letramento insuficiente para
üadicional(da lega/livro) em um üpo
dar conta dos leüamentos necessários
para agir na vida contemporânea(Moita-Lopes & Rojo. 2004yi
Por outro lado, a escola -- em especial. a pública -- também mudou bastante. como
Por outro lado, a escola -- em especial. a pública -- também mudou
bastante. como vimos. nos últimos cinquenta anos no Brasil, mas não
na mesma direção. Buscou-se e atingiu-se, na década de 1990 --a
universalização do acessoà educaçãopública no ensino fundamental
e hoje se buscaa mesmaampliação e universalizaçãode acessono en-
sino médio e superior,para melhor qualificação da mão de obra. Como
também vimos. acessonão quer dizer permanência e nem qualidade
de ensino. Ainda assim, a ampliação de acesso tem impactos visíveis
nos letramentos escolares: o ingresso de alunado e de professorado das
classespopulares nas escolaspúblicas
res letramentos locais ou vernaculares antes desconhecidos e ainda hoje
ignorados, como o rap e o punk. por exemplo. Isso cria uma situação de
conflito entre práticas letradas valorizadas e não valorizadas na escola.
como apontam os trabalhos de Kleiman
Hamilton (2002:8) vai apontar para o fato de que muitos dos letra-
mentosque sãoinfluentes e valorizados na vida cotidiana daspessoase
que têm ampla circulação são também ignorados e desvalorizados pelas
instituições educacionais: "Não contam como letramento 'verdadeiro'
Um exemploé o internetês que abordamosna atividade .13.usadointen-
samente pelos jovens fora da escola e. nela. ignorado ou execrado como
degradaçãoda língua. Da mesma maneira. as redes sociaise informais
que sustentam essaspráticas letradas (por exemplo, as redes e comu-
nidadesvirtuais de que jovens de todas as classessociaisparticipam)
permanecem desconhecidase apagadas nas escolas,quando não têm
seu acesso proibido, como é o caso da proibição de acesso ao Orkut e ao
MSNem muitas escolas e universidades
conectados.
Essasmudanças fazem ver a escola de hoje como um universo onde
convivem letramentos múltiplos e muito diferenciados, cotidianos e insti-
tucionais. valorizados e não valorizados. locais, globais e universais, ver-
6 Souza-Santos(2005:74) aponta para a globalização ou coligação contra-hegemónica. que não se baseia no incremento
6 Souza-Santos(2005:74) aponta para a globalização ou coligação contra-hegemónica.
que não se baseia no incremento e na proteção do local enraizado
embora não negue
seu valor estratégico, designando-o como localização contra-hegemónica --, mas no que
ele chama de as "iniciativas, organizações e movimentos integrantes do cosmopolitismo
e do património comum da humanidade, com vocação transnacional" , mas ancoradas em
[utas [ocais concretas. Dentre e]as, a esco]a. [
]
"0 global acontece localmente. E preciso
fazer com que o local contra-hegemónico também aconteça globalmente" (p. 74)
7 Paraler o texto completo,vocêpode acesso-loem http://web.mac.com/rrojo/Roxa-
ne Rojo/ Espaco Blog/Archive.html.
l06 LETRAMENTOSMÚUIPLOS, ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO
l06
LETRAMENTOSMÚUIPLOS, ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO
l07 LETRAMENTO(S)
l07
LETRAMENTO(S)
e os leh'amentos críticos e protagonistas requeridos para o ü'ato ético dos discursosem uma sociedade
e
os leh'amentos críticos e protagonistas requeridos para o ü'ato ético
dos discursosem uma sociedade saturada de textos e que não pode
lidar com elesde maneira instantânea. amorfa e alienadascomo afir-
miose ou multimodalidade das mídias digitais que Ihe deu origem. pelo
menosduas facetas:a mulfipJicidade de práticas de letramento que cir-
culam em diferentes esferas da sociedade e a muJficu/ruralidade. isto é.
mam Moita-Lopes & Rojo
(2004:37-38), é preciso levar em conta
o fato de que diferentes culturas locais vivem essaspráticas de maneira
o fato de que a linguagem não ocorre em um vácuo social e que. portanto,
diferente. Por exemplo, um analfabeto habitante de zona rural que. todo
dia. na hora do "angelus" , às seis da tarde. senta-se em posição de reve-
textos orais e escritos não têm sentido em si mesmos, mas interlocutores (es-
critores e leitores, por exemplo) situados no mundo social com seusvalores,
,rênciae "lê" a Bíblia. folheando lentamente e olhando atentamente.em
atitude de prece. e o pastor da igreja pentecostal que lê a Bíblia na rv,
projetos políticos, histórias e desejos constroem seus significados para agir
na vida social. Os significados são contextualizados. Essa compreensão é
extremamenteimportante no mundo altamente semiotizadoda globaliza-
ção, uma vez que possibilita situar os discursos a que somos expostos e
recuperar sua situacionalidade social ou seu contexto de produção e intel'-
pretação: quem escreveu. com que propósito, onde foi publicado, quando,
quem era o interlocutor projetado etc. Tal teorização tem uma implicação
prática, porque possibilita trabalhar em sala de aula com uma visão de lin-
guagem que fornece artifícios para os alunos aprenderem, na prática esco-
entremeando a leitura de seuinflamado discurso, para persuadir os fiéis,
ambos, de maneiras muito diferentes -- inclusive em termos de alfabe-
tismo -- estãoinseridos em práticas letradas da esfera religiosa.
Como organizar, na escola. a abordagem de tal multiplicidade de
práticas?Que eventosde letramento e que textos selecionar?De que
esferas?De que mídias? De quais culturas? Como aborda-los?
Dois conceitosbakhtinianos podem auxiliar nossareflexão: o con-
lar. a fazer escolhas éticas entre
osdiscursosem que circulam. Issopossibi-
ceito de esfera de atividade ou de circo/anão de discursos e o conceito de
lita aprendera problematizar o discursohegemónicoda globalizaçãoe os
géneros discursivos (Bakhtin 1992 j1952-53/í9791). Na vida cotidiana.
significados antiéticos que desrespeitem a diferença. (ênfaseadicionada)
Essasmúltiplas exigências que o mundo contemporâneo apresenta à
escolavão multiplicar enormemente as práticas e textos que nela devem
circular e ser abordados.O letramento escolartal como o conhecemos.
circulamospor diferentes esferasde atividades (domésticae familiar. do
trabalho. escolar,acadêmica. jornalística. publicitária. burocrática. re-
ligiosa, artística etc.), em diferentes posições sociais,como produtores
ou receptores/consumidoresde discursos,em gênerosvariados, mídias
voltado principalmente para as práticas de leitura e escrita de textos em
géneros escolares (anotações.resumos. resenhas, ensaios, dissertações,
diversas e em culturas também diferentes.
descrições. narrações e relatos, exercícios, instruções, questionários,
O dia da professoraD. Nana, com que começamoso
capítulo3.
dentre
outros) e para alguns poucos gêneros escolarizados advindos de
mostrabem isso: ele se inicia para ela, como dona de casa.na esfera
outros contextos (literário, jornalístico, publicitário) não será suficiente
para atingir as três metas enunciadas acima. Será necessário ampliar e
domésticaou cofidiana, deixando bilhete para sua diarista e telefonan-
do à oficina autorizada; neste meio tempo, ela liga a rv e toma contato
democratizar tanto as práticas e eventos de letramentos que têm lugar
na escola como o universo e a natureza dos textos que nela circulam.
com a esfera jornalística. como consumidora de notícias, e com a publi-
citária, como consumidora de produtosi em seguida, como consumidora,
se desloca para a esfera burocrática do comércio, fazendo um depósito
Mas precisamos ainda, para isso, aprofundar um pouco mais o conceito
de ]eframenfos múltiplos ou multiJeframenfos e o de letramentos etílicos.
bancário pelo computador e deslocando-sepor meio de transporte pú-
blico, para adentrar. em seguida, como professora. a esfera escolar. Re-
O conceito de ]eframenfos múJfiplos é ainda um conceito complexo
tornando
a sua casa, embora cansada. ainda tem energia para assumir o
e muitas vezes ambíguo, pois envolve, além da questão da multisse-
papel de espectadorade produtos da esfera do entretenimento (midiá-
tico), vendo a novela televisiva. para, depois- como namorada, dialogar
l08 LETRAMENTOSMÚnlPLOS, ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO
l08
LETRAMENTOSMÚnlPLOS,
ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO
l09 LETRAMENTO(S)
l09
LETRAMENTO(S)
com seu parceiro pelo MSNna esfera íntima e. finalmente. voltar à esfera asco/ar, dessa vez
com seu parceiro pelo MSNna esfera íntima e. finalmente. voltar à esfera
asco/ar, dessa vez como aluna. para fazer atividades on-fine de seu curso
gramaticais --, mas também, e sobretudo, por sua construção composicio
nal(p.279).
semipresencial.
Neste sentido,o jovem usa internetês no MSNe em seuse-maias,no
Portanto, as esferas de afinidade e de circulação de discursos não
seu bJoge em bilhetes escolarespara colegas obedecendo às condições
são estanques e separadas, mas ao contrário, interpenetram-se
o tempo
especillicas de circulação da língua em uma esfera de comunicação.
todo em nossavida cotidiana. organizando-a e organizando nossaspo-
sições e. logo, nossos direitos, deveres e discursos em cada uma delas.
Mas osletramentos múltiplos também podem ser entendidos na pers-
pectiva mu/[icultura] (muJfileframenlos), ou seja. diferentes cu]turas, nas
Talvez o diagrama abaixo possa captar vagamente essenossomovimen-
to
constante pelas esferas de atividade:
jornalística escolar cotidiana artística publicitária científica política
jornalística
escolar
cotidiana
artística
publicitária
científica
política
Figura 1: Esferasde atividade social ou de circulação dos discursos Segundo Bakhtin (1992 [1952-53/1979]), cada
Figura 1: Esferasde atividade social ou de circulação dos discursos
Segundo
Bakhtin
(1992
[1952-53/1979]),
cada
uma
dessas
esferas
de atividade humana é também uma esfera de circulação de discursos
e de utilização da língua e "cada esfera de utilização da língua elabora
seus tipos relafivamenfe estáveis de enunciados, sendo isso que deno-
minamos géneros do discurso" (p. 279). Ou seja. há géneros admitidos e
não admitidos, próprios de cada esfera.
Para o autor.otexto
ou enunciado
reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessasesfe-
ras, não sópor seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja.pela
seleçãooperada nos recursos da língua -- recursoslexicais, fraseológicos e
diversas esferas,terão práticas e textos em géneros dessa esfera também diferenciados. Deverão as práticas,
diversas esferas,terão práticas e textos em géneros dessa esfera também
diferenciados. Deverão as práticas, ostextos, as linguagens e asvariedades
da língua não valorizadas, locais ou "vemaculares", como quer Hamilton
12002),ser abordadas na escola?Por quê? Para quê? Uma resposta pode
ser conduzida pela análise do mundo globalizado em que vivemos hoje'
A crítica à globalização cultural já fora denunciada e prenunciada
nosestudossobrea indústriacultural e a comunicaçãode massas.A
existência de meios de comunicação capazes de colocar uma mensagem
ao alcance de grande número de indivíduos não basta para caracterizar
a existênciade uma indústria cultural e de uma cultura de massa.A in-
dústria cultural é,justamente. fruto da sociedadeindustrializada. de tipo
capitalista liberal ou, ainda. da sociedade dita de consumo.
No campo das culturas. é considerada como condiçãopara a exis-
tência dessaindústria uma oposiçãoentre a cultura dita superior ou va-
lorizada. como a patrimoniada pela escola,e a de massa.difundida nos
meios de comunicação, apesar dos equívocos envolvidos nessa divisão.
Admitida essadivisão, pode-sefalar na existênciade uma cultura su-
perior. outra média (midcu/f), de valor cultural, mas não estético,e uma
terceira. de massa (masscu/f, inferior). A segunda distingue-se da tercei-
ra. basicamente. por sua pretensão de apresentar produtos que se que-
rem superiores, mas que são, de fato, formas desbastadasdaqueles. Ao
passo que a massculf se contenta com fornecer produtos (mercadorias)
sem qualquer pretensãoou álibi cultural. E possível,ainda. estabele-
cer-seuma oposiçãoentre a cultura popular ou local, entendidacomo
8 Textobaseadoem Rojo (2008b).Para conhecê-lo completo, acessehttp://web.mac com/ rrojo/Roxane.Rojo/Espaco
8 Textobaseadoem Rojo (2008b).Para conhecê-lo completo, acessehttp://web.mac
com/ rrojo/Roxane.Rojo/Espaco Blog/Archive.html.
110 LETRAMENTOSMÚLTIPLOS.ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l R0>aNE ROJO
110 LETRAMENTOSMÚLTIPLOS.ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l R0>aNE ROJO
LETRAMENTO(S)
LETRAMENTO(S)
os valores ancestraisde um povo ou de uma comunidade específica. e definir aspróprias basesde nossaatitude
os valores ancestraisde um povo ou de uma comunidade específica. e
definir aspróprias basesde nossaatitude ideológica em relação ao mundo e
a cultura dita pop, outra designaçãode cultura de massa.Os mesmos
de nosso comportamento, ela surge aqui como a palavra autoritária
e como
excessos de valorização da cultura superior diante da de massa. também
são encontrados na defesa da popular diante da pop.
a palavra
internamente
persuasiva
(Bakhtin,
1988 [1934-35/1975j:
142).
Além disso, como frisa Souza-Santos (2005: 26), a globalização inte-
Com seusprodutos, a indústria cultural busca o reforço das normas
rage fortemente -- quando não provoca ou intensifica -- com outros fe-
sociais, repetidas até a exaustão e sem discussão. Em consequência, tem
uma outra função: a de promover o conformismo, a alienação. Ela fa-
nõmellosde depreciação9e de diminuição da qualidade de vida no pla-
neta. tais como o aumento riram(ífico das desigualdadese da exclusão
brica seus produtos,
cuja finalidade
é a de serem trocados
por moedas
promove a deturpação e a degradação do gosto populari simplifica ao
máximo seusprodutos, para obter uma atitude semprepassiva do con-
sumidoraassumeuma atitude paternalista. dirigindo o consumidor ao
entre/de países, povos, classes, etnias e indivíduos, a superpopulação. a
ccltãstrofe ambiental, os conflitos étnicos, a migração internacional mas-
invés de colocar-se a sua disposição.
siva, a proliferctçãode guerras civis, o crime globalmente organizado,
o incremento consequente da violência, a democracia apenas formal
e desprovida de sentido, o isolamento. Souza-Santos(2005:27) afirma
ainda que. embora a globalização esteja longe de ser consensuale seja
A cultura de massada globalização é padronizada.monofõnica, ho-
mogênea e pasteurizada,
a ponto de alguns estudiosos da globalização
"um vasto e intenso campo de conflitos entre grupos sociais, Estados e
interesses hegemânicos. por um lado, e grupos sociais. Estados e inte-
falarem de Mundo Mc, de "mcdonaldização"da cultura. tendo como
centro dominante e irradiador o ocidente. branco, masculino. heterosse-
xual, norte-americano: cultura da rapidez, da instantaneidade (fasefood,
resses subalternos.
um consenso entre
por outro" , o
campo hegemónico atum com base em
os mais influentes
e poderosos membros: o consenso
de Washingfon ou consenso neoliberal, responsável pelas características
zapping, cJipping) e do excesso(faf food. megalópoles,stress.hipertu-
do). Porisso se tornam tão importantes
hoje asmaneiras de incrementar,
dominantes da globalização. A isso. o autor vai denominar gJobaJizaç(io
ou coligação hegemónica.
na escola e fora dela. os /eframenfos críticos. capazesde lidar com os
textos e discursosnaturalizados, neutralizados, de maneira a perceber
seusvalores, suasintenções, suas estratégias,seus efeitos de sentido.
Assim. o texto já não pode mais ser visto fora da abrangência dos dis-
No entanto, comotodo fenómeno sócio-histórico. a globalização he-
gemónica gestaseu po]o contrário, a localização, o que leva muitos au-
tores a falarem de gJocaJizaçãoou de g-localização. Ainda nos termos de
Souza-Santos (2005: 26), a sociedade contemporânea
cursos, das ideologias e das significações, como tanto a escola quanto as
teorias se habituaram
a fazer.
parece combinar a universalização e a eliminação de fronteiras nacionais,
por um lado, o particulaüsmo, a diversidade local, a identidade étnica e o
Como já dizia
Bakhtin(1992
j1952-53/t9791), a compreensão de um
regresso ao comunitarismo, por outro.
discurso é atava,é uma ação de réplica e não de repetição:
O movimento de localização é visível tanto no campo político-eco-
O ensino das disciplinas
verbais conhece duas modalidades básicas esco-
lar'es de transmissão que assimila o discurso de outrem (do texto, das regras,
dos exemplos): "de cor" e "com suas próprias palavras". ]
]
O objetivo da
nómico, nas "novas" formas de organização da sociedade civil em orga-
nizações não-governamentais (ONGS),associações,cooperativas. dentre
assimilação da palavra de outrem adquire um sentido ainda mais profundo
outros, como principalmente, no campo cultural e das identidades, por
e maisimportante no processode fomtaçãoideológica do homem. no sen-
tido excitodo tempo.Aqui. a palavra de outrem se apresentanão mais na
9 Acessehttp://br.youtube.com/watch?v=hRjsOBle58Upara ver uma paródia que dá
qualidade de infom:rações,indicações. regras, modelos etc.
ela procura
o que pensar a respeito dos efeitos da globalização
112 LETRAMENTOSMÚUIPLOS, ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO
LETRAMENTO(S)
«3
meio das identificações comunitárias agregadas a interesses comuns ou a produção das culturas locais. Fenómenos
meio das identificações comunitárias agregadas a interesses comuns ou
a
produção das culturas locais. Fenómenos desse tipo são encontrados
Neste sentido. o papel da escola na contemporaneidade seria o
de colocar em diálogo -- não isento de conflitos. polifónico em termos
bakhtinianos
--
os textos/enunciados/discursos
das diversas cu]turas lo-
tanto nas comunidades locais, como. principalmente.
nas virtuais. Sendo
os ambientes digitais interativos e pouco controlados. prestam-se a no-
cais com as culturas valorizadas, cosmopolitas. patrimoniais, das quais é
vas formas de sociabilidade. Assim. as armas da globalização fortalecem
guardiã. não para servir à cultura global, mas para criar coligaçõescon-
os laços e as contra-hegemonias
da localização. A isso, Souza-Santos
tra-hegemónicas, para translocalizar lutas locais. Como gosto de dizer.
(2005)vai chamar de globalização ou coligação contra-hegemónica.
para transformar pafrimõnios em frafrimónios. Nesse sentido. a escola
pode formar um cidadão flexível, democrático e protagonista. que seja
[qa verdade. há duas formas de resistência: a localização assumida
multicultural em sua cultura e poliglota em sua língua.
ou seja.o fomento a iniciativas locais de váriostipos ao redor do mun-
do, por meio de "espaçosde sociabilidade em pequena escala.comuni-
Cabe. portanto. também à escola potencializar
o diálogo multicultu-
tários [
],
regidos por lógicas cooperativase participativos e a globali-
zação ou coligação contra-hegemónica"
(Souza-Santos,2005: 72), que
não sebaseia no incremento e na proteção do local enraizado embora
não negue seu va]or estratégico, designando-o como localização contra-
ral. trazendo para dentro de seus muros não somente a cultura valoriza-
da, dominante. canónica. mas também as culturas locais e populares e a
cultura de massa.para torna-las vozes de um diálogo, objetos de estudo
e de crítica. Para tal, é preciso que a escola se interesse por e admita as
culturas locais de alunos e professores.
hegemõnica --, mas no que ele chama de as "iniciativas. organizações
e movimentos integrantes do cosmopolitismo e do património comum
Culturas locais
da humanidade. com vocação transnacional" , mas ancoradas em "lutas
locais concretas. [
]
O global acontece localmente. E preciso fazer com
que o local contra-hegemónico também aconteça globalmente" (p. 74).
Culturas valorizadas
Logo, duas armasa favor da construçãoda coligaçãocontra-he-
gemónica seriam justamente a escola e as tecnologias digitais. Por um
Culturas escolares
lado, novamenteaqui, sãocruciais os letramentoscríticos que tratam
os textos/enunciados como materialidades de discursos, carregados de
Figura 2: Multículturalismoe multa-ou transletramentos
apreciações e valores, que buscam efeitos de sentido e ecos e resso-
nâncias ideológicas.É preciso, portanto. um reenfocar do texto, fora da
escola. mas principalmente
nela. por sua vocação cosmopolita, por sua
capacidade de agendamento de populações locais na direção do univer-
sal, dos patrimónios da humanidade.
Letramentos múltiplos e multissemióticos na esfera da arte
popular -- o desfile de Escola de Samba
Mas também é muito importante um possível outro caminho
criar inteligibilidade
recípl'oca entre as diferentes lutas locais, aprofundar
1. Em 2008, uma escola de samba da zona leste paulistana, Grêmio Recreativo
Cultural Escolade Samba Nenê de Vila Matilde, levou ao Sambódromo de São
o que têm em comum de modo a promovem'o interesse em alianças translo-
cais e a criar capacidadespara que essaspossamefetivamenteter lugar e
Paulo um enredo em homenagem a Luís da Câmara Cascudo,o professor que
não gostava de ser chamado de folclorista. Leia a letra do samba-enredo:
prosperar(Souza-Santos,
2005: 74).
«4 LETRAMENTOSMÚHIPLOS, ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO
«4
LETRAMENTOSMÚHIPLOS, ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO
«5
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2005: 74). «4 LETRAMENTOSMÚHIPLOS, ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO «5 L E T R A M E

LETRAMENTO(S)

IFONTE:Foto de arquivo pessoal) Nenê de Vila Matilde - Samba-enredo 2008" (Nenê,Adriano Bejar e Suou)
IFONTE:Foto de arquivo pessoal) Nenê de Vila Matilde - Samba-enredo 2008" (Nenê,Adriano Bejar e Suou)
IFONTE:Foto de arquivo pessoal)
Nenê de Vila Matilde - Samba-enredo 2008"
(Nenê,Adriano Bejar e Suou)
Um voo da águia como nunca se viu! Tambémsomos
folclore do nosso Brasil - 110 anos aprendendocom
Câmara Cascudo
Pra encantara
avenida
A águia vem mistificar
De boca em boca, pai pra filho
10 Para saber mais sobre essaescola e esseenredo, veja mais dados sobre a Nenê de
Vila Matilde e confira sua ficha técnica acessando http://pt.wikipedia.org/wiki/Nen%
C3%AA.de.Vila
Matilde. Vejatambém asnotíciassobreessedesfile. acessandohttp://
www.nominuto.com/cultura/nene.davilamatilde.homenageia.camaracascudo e.
o folclore brasileiro/14262/} http://gl.globo.com/Camava12008/0«MIJL284446-9772.00-
NENE+LEVA+DANCAS+COMIDAS+E+LEN])AS+PARA+A+PASSARELA.html
ou
http://youtube.com/watch?v= W8TyC6Sgo5U&feature=user.Você também pode ver
parte do desfile. embora com baixa qualidade de imagem! em: http://br.youtube.com/
watch?v=OZDlcPslcAg&feature=related.Sevocê não conhecer,também é importante
tomar contato com os critérios de julgamento dosquesitos do desfile propostos pela Liga
dasEscolasde Sambade SãoPaulo. Parafazê-lo, acessehttp://carnava12008.terra.com.
br/interna/ 0
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LETRAMENTOSMÚnlPLOS,
ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO
O modo de agir, sentir e pensar(â potiguar) Câmara Cascudo mostrou para o mundo Ofolclore
O modo de agir, sentir e pensar(â potiguar)
Câmara Cascudo mostrou para o mundo
Ofolclore popular
Brasil da miscigenação, nosso povo estende as mãos
Vamosmestiçar
Costumes do nordeste
Oxente, cabra da peste
Vem pro forró dançar, poeira levantar
Maracatu, festa junina
Boi-Bumba no Norte, Parintins, o ponto nobre
Pro mau olhado tem reza forte
O pajé pode salvar
Ferraduras e carrancas
Patuás
Quemfoi que deixou o espelho se quebrar?
No Centro-Oestenão pesque sem oração (porque)
Assombração vai te pegar
No sul brinquei
De cabra cega e amarelinha
E reparei num lindo canto que ouvia
Até o Sacise encantou
Não é chufa, nem fandango
E perguntou: Que som é esse?
Quecadênciadiferente
Protegida pelos deuses
Me responda quem vem lál
Eusou Nenê! Da culinária, batucada e ca rnavall
No sudeste a festa é pra valer!
Folclore vivo nesse amanhecer
Minha escola de samba é evolução!
Bateria de bamba, toca até longo e baixo
A nossa bandeira, manto sagrado
Gueto azul e branco, mito respeitado
Dentre outras possibilidades. você
2 Agora, vamos refletir:
no mínimo
citou a consulta ao cicio
nó/io do fo/c/orebrasa/eirade Luís
a. Que elementosda cultura valoriza
da esse(samba-)enredoenvolve?
da Câmara Cascudo,de 1952.
LETRAMENTO(S)
LETRAMENTO(S)

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b. E da cultura popular, das cultu- E enfocar.portanto, os usos e práticas de linguagens
b. E da cultura popular, das cultu-
E enfocar.portanto, os usos e práticas de linguagens (múltiplas
Sendo baseado no Dicionário do fole/o-
,e brasileiro. todos os temas do enredo
semioses),para produzir, compreender e responder a efeitos de senti-
ras locais?
c. Umdesfile de escola de samba é
sãorelativosà cultura popular brasilei-
um evento multissemiótico.Que
ra. Comoa opçãodo carnavalescofoi
regionalizar. diversos bens das culturas
linguagens entram na composi-
locais
estão
representadas
(nações
de
do, em diferentes contextos e mídias. Trata-se. então, de garantir que o
ensino desenvolva as diferentes formas de uso das linguagens (verbal,
corporal. plástica. musical, gráfica etc.) e das línguas (falar em diversas
variedades e línguas, ouvir. ler. escrever). Para participar de tais práticas
ção do desfile da escola? Músi-
maracatu,maracaturural. caboclinho,
com proficiência e consciência cidadã, é preciso também que o aluno
ca e letra (cantada e escrita), no
trevo.gafieira. lendasbrasileirase seus
desenvolva certas competências básicas para o trato com as línguas, as
A
.:.
.--:-?
personagens
(Matitaperê,
Saci-Pererê,
saírioa.-- vuuis
lriól
'
Mapinguari),
bumba-meu-boi.
chufa.
linguagens, as mídias e as múltiplas práticas letradas. de maneira críti-
d. Nesse ano, o carnavalesco
da
fandango. festasjuninas etc.)
ca. ética. democrática e protagonista.
escola foi
Augusto de Oliveira,
um cearense cujo pai fundou a
Assim sendo, como responderíamos àsquestões propostas neste capítulo?
Além da músicae da letra do samba-
primeira nação de maracatu do
enredo, você poderá ter mencionado as
Retomando-as,nosperguntamos: o que significa trabalhar a leitura
linguagens plásticas e visuais usadas
Ceará. Com que atividades letra-
e a escrita para o mundo contemporâneo?, ou, como diz Hamilton (2002),
nas alegorias, nos carros e nas fantasias
das e letramentos ele teve de se
comoesboçarpolíticasde letramento ao longo da vida que realmente
das alasi a linguagem corporal usada
envolverpara produziresse enre-
na dança.no sambae nos passosmar-
sustentem e desenvolvam os recursos, processos e metas que existem e
cados; dentre outras.
sãorequeridos na vida cidadã contemporânea?
do e esse desfile? Cite algumas.
e. Nesse carnaval, a G.R.C.E.S. Ne
A respostaa essaprimeira pergunta resideprincipalmentena dis
de
Vila
Matilde
conseguiu,
Possivelmente, ele teve
de pesquisar
posição em trabalhar:
. sobre o folclore brasileiro e ler Câmara
com esse enredo, colocar a cul-
;lascudo. Teve também de planejar o
tura
valorizada
em contato
com
enredo, asalas e alegorias. fazer maque-
e os ]eframenfos mulfissemi(5ficos, ou seja. a leitura e a produção de
textos em diversas linguagens e semioses(verbal oral e escrita. mu-
as culturas locais do Brasil e
tes,esboçosesinopses,ajuduaescolher
com a cultura de massa. Pense
um exemplo de atividades esco-
o samba-enredoentre muitas propostas,
já que a letra do samba-enredodeve re-
cobrir todo o enredo e fazer menção ao
sical, imagética jimagens estáticase em movimento, nas fotos, no
cinema. nos vídeos, na rvl, corporal e do movimento jnas danças,
perfomlances. esporões,aüvidades de condicionamento físico], ma-
que está representado nas alas etc.
lares que se poderia proporpara
temática.digital etc.).já que essasmúltiplas linguagense as capa-
atingir este mesmo objetivo.
As atividades devem. no mínimo. pro-
cidades de leitura e produção por elas exigidas são constitutivas dos
textos contemporâneos.Isso encaminha. é claro, para a necessidade
Como conclusão, podemos di-
vocar o diálogo entre as culturas locais
de um trabalho interdisciplinar, já que não somosfonnadospara en-
zer
que
trabalhar
com
a leitura
e
dos alunos,a cultura valorizada ou es-
sina-lastodas.Por outro lado, é importante também hoje abordar
escrita na escola hoje é muito mais
colar e a de massa.
asdiversasmídias e suportesem que os textos circulam, já que há
que trabalhar com a alfabetização
tempos o impresso e o papel deixaram de ser a principal fonte de in-
ou os alfabetismos: é trabalhar com os letramentos múltiplos. com as
leituras múltiplas -- a leitura na vida e a leitura na escola--
e que os
conceitos de gêneros discursivos e suas esferas de circulação podem nos
fomlação e formação.Assim, impõe-se üabalhar com os impressos,
mas também com as mídias analógicas (w, rádio. vídeos, cinema.
fotografia) e, sobretudo,com as digitais, já que a digitalização é o
ajudar a organizar essestextos. eventos e práticas de letramento.
flltllrn
rla infn«'«tacão e da comunicacão.
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LETRAMENTOSMÚUIPLOS, ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO
LETRAMENTO(S)
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e da comunicacão. «8 LETRAMENTOSMÚUIPLOS, ESCOLAE INCLUSÃOSOCIAL l ROXANEROJO LETRAMENTO(S) «9
possibilidades de aprendizagem. revozeando o conceito vygotskiano de e Os ]etramenfos mulficuJfurais ou mu/tiletramentos.
possibilidades de aprendizagem. revozeando o conceito vygotskiano de
e Os ]etramenfos mulficuJfurais ou mu/tiletramentos. ou seja, abordar
zona
proximal
de
desenvolvimento
(zpo). As
possibi.cidades
de
apren-
os produtos culturais letrados tanto da cultura escola e da dominan-
te. como das diferentes culturas locais e populares com as quais alu-
nos e professoresestão envolvidos, assim como abordar criticamen-
te os produtosda cultura de massa.Essatriangulaçãoque a escola
pode fazer, enquanto agência de letramento patrimonial e cosmo-
polita. enfie asculturas locais.global e valorizadaé particularmente
dizagem respondem à pergunta sobre quais objetos de ensino o aluno
poderá aprender. de quais poderá se apropriar nessemomento do seu
desenvolvimento (zpo).Não possoquerer ensinar a leitura de um edito-
rial complexo se meu aluno ainda não lê uma notícia simples.É preciso
.averiguar seu trato com os objetos de ensino propostos. diagnosticar,
para verificar aquilo que é ensinável.
importante -- em especial no Brasil --(!uando reconhecemos a rele-
vância de se foliar
um aluno ético e democrático. crítico e isento de
preconceitos e disposto a ser "multicultural em sua cultura" e a lidar
com as diferenças socioculturais.
No entanto, entre osmuitos "ensináveis", tenho de escolheralguns.
E essaescolhapoderá ser regida pelo princípio das necessidadesde en-
e Os ]eframentos críticos, ou seja, abordar essestextos e produtos das
sino, que respondem à pergunta: para essesalunos, dessa escola, dessa
comunidade de práticas, visando formar um cidadão com tais caracterís-
diversas mídias e culturas. sempre de maneira crítica e capaz de des-
ticas, que gêneros e esferas escolher dentre os ensináveis? Na dependên-
velo
suasfinalidades, intenções e ideologias. Nesse sentido, é im-
/
portante a presença na escolade uma abordagem não meramente
fonnal ou conteudista dos textos. mas discwsiva. localizando o texto
em seu espaço históüco e ideológico e desvelando seus efeitos de
sentido. replicando a ele e com ele dialogando.
cia dos critérios que escolher (aqui mencionamos protagonismo, criticida-
de. democracia, ética. multiculturalidade) e da comunidade de práticas a
que a escolae os alunos pertençam. poderemos restringir nossouniverso
de escolhadentre os "ensináveis": será mais importante ensinar agora
uma carta de amor? Ou uma carta de leitor? Ou um requerimento?
Como essamultiplicidade tão grande de práticas e textos que po-
dem e devem ser objetos de estudo e crítica levanta problemas para a
Essasescolhasnunca sãoneutras. nem impunes pois o tempo esco-
organização curricular e do espaço-tempoescolar,perguntamo-nos tam-
lar que tomo com um objeto de ensino não será dedicado a outro: cada
escolha presentifica um dentre muitos outros perdidos. Mas nada em
bém: "Como organizar. na escola. a abordagem de tal multiplicidade
de
práticas?Que eventos de letramento e textos selecionar?De que esfe-
educação nunca é neutro e nossa tarefa éjustamente a de fazer escolhas
e encaminhamentos conscientes.
ras?De que mídias? De quais culturas? Como aborda-los?"
Vimos que alguns conceitos podem ser organizadores da seleção e
progressão do ensino desses objetos. Principalmente. o conceito de /e-
tramenfos múltiplos, se operacionalizado pelo conceito de esferas de cir-
culação dos textos e de géneros discursivos que nelas vivem. Ou seja. ao
organizar programas de ensino, o professor pode considerar que gêne-
ros de que esferas (e com que práticas letradas. capacidades de leitura
e produção agregadas) devem/podem ser selecionadospara abordagem
e estudo, organizando uma progressão curricular. A questão é que. para
responder a essaquestão, é preciso ter princípios norteadores.
Nesta questão, os PCN de ensino fundamental n/língua portuguesa
fornecem algumas pistas quando distinguem necessidades de ensino e
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