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DIREITO CIVIL – PONTO 01

Lei de Introdução ao Código Civil. Pessoas naturais: Personalidade e capacidade.

Direitos   da   personalidade.   Morte   presumida.   Ausência.   Tutela.   Curatela.   Pessoas

jurídicas:   Conceito.   Classificação.   Registro.   Administração.   Desconsideração   da

personalidade jurídica. Associações. Fundações.

VISÃO FILOSÓFICA DO CÓDIGO CIVIL

1. DIRETRIZES DE ELABORAÇÃO DO CC/02

a) Preservação do CC anterior sempre que possível;

b) Alteração   principiológica   do   Direito   Privado   ­   valorização   da  eticidade,

sociabilidade e operabilidade;

c) Aproveitamento de estudos anteriores;

d) Limitar­se   a   matéria   já   consolidada   ou   com   grau   de   experiência   criítica   ­

deixar temas não consolidados para leis especiais (p.ex. bioética);

e) Dar nova estrutura ao código, mantendo a parte geral;

f) Unificar o Direito das Obrigações;

g) Valorizar um sistema baseado em cláusulas gerais, que conferem certo grau de
discricionariedade ao julgador.

2. PRINCÍPIOS ORIENTADORES

a) Princípio da eticidade ­  parte do reconhecimento da participação dos valore

éticos   em   todo   o   Direito   ­  ética   kantiana   (agir   de   possível   repetição   genérica)  para

valorizar condutas éticas, de boa­fé objetiva ­ lealdade das partes negoicias;

De acordo com esse princípio confere­se ao juiz poder não apenas para suprir lacunas,

mas   também   para  resolver   onde   e   quando   previsto,   de   conformidade   com   valores

éticos  e, ainda,  fazer uso desses valores quando a norma existir, mas for deficiente  –

lacuna axiológica ­  ou então não se ajustar às especificidades do caso concreto.

Funções da boa­fé objetiva:

L interpretativa:  negócios devem ser  interpretados conforme a boa­fé

objetiva;

L de controle: sanção para o exercício de um direito em desacordo com

os ditames da boa­fé objetiva ­ abuso de direito.

L de   integração:   boa­fé   deve  integrar   a   conclusão   e   a   execução   do

contrato

b) Princípio da sociabilidade  ­ “superar o caráter individualista e egoísta que

imperava na codificação anterior, valorizando a palavra nós.

Conformação dos interesses individuais egoísticos aos interesses sociais.
No conflito entre o interesse pessoal (interesse individual egoístico) e o interesse

coletivo, o último prevalece sobre o primeiro,  é o  sacrifício do individual em prol do

coletivo. Exemplo:   Inclusão da função social como elemento conformador de direitos

como o de propriedade e a liberdade de contratar ­ exercício somente é lícito quando não

afetar o bem­estar da sociedade, mesmo que esteja privilegiando o bem­estar do indivíduo.

Exemplo 02: redução dos prazos de usucapião de 20 (vinte) para 10 (dez) anos, artigo 1.238,

parágrafo único, CC.

c) Princípio da operabilidade – possui dois sentidos.

 PRIMEIRO SENTIDO ­ o Direito é instrumento, deve ser fácil de ser operado, daí

que as normas devem ser orientadas pela simplicidade a fim de se evitar equívocos

e   dificuldades   de   interpretação   e   aplicação   dos  sinsitutos   nele   previstos   ­  o

sistema   deve   ser   claro   para   que   possa   ser   compreendido   e   aplicado,   se   for

obscuro   o   sistema   deixa   de   ser   operado   –  PARA   SER   EFETIVA   A   NORMA

DEVE SER SIMPLES.

Exemplos:   distinção   entre   prescrição   e   decadência,   distinção   entre   sociedade   e

associação.

O princípio da operabilidade tem como desdobramento o princípio da concretitude

ou  concretude,  segundo o qual o legislador tem a obrigação de não legislar de

forma   tão  abstrata,   para   o  indivíduo  perdido  no  espaço,   mas   sim  legislar  tanto

quanto possível para o indivíduo situado, no tempo e no espaço. A norma, portanto,

deve sim ser abstrata, porém, dentro de uma certa concreção.
 SEGUNDO   SENTIDO  ­    há   o   sentido   de   efetividade   ou concretude,   o   que foi

buscado pelo sistema aberto de cláusulas gerais adotado pela atual codificação  que

permite que o aplicador do direito preencha, conforme o caso concreto, de forma

dinâmica e proporcional, as janelas abertas deixadas pelo legislador.

3. SISTEMA DE CLÁUSULAS GERAIS

Percebe­se   na   atual   codificação   um  sistema   aberto  ou   de   janelas   abertas,   em

virtude da linguagem que emprega, permitindo a constante incorporação e solução de

novos problemas, seja pela jurisprudência, seja por uma atividade de complementação

legislativa”

 “São exemplos de cláusulas gerais constantes do Código Civil de 2002:

– Função social do contrato – art. 421 do CC.

– Função social da propriedade – art. 1.228, § 1.º, do CC.

– Boa­fé – arts. 113, 187 e 422 do CC.

– Bons Costumes – arts. 13 e 187 do CC.

– Atividade de risco – art. 927, parágrafo único, do CC.”

 São diferentes dos conceitos jurídicos indeterminados ­ pois são seu conteúdo é

 elaborado   casuísticamente .  a   serem   delineadas   pela   jurisprudência   e   pela   comunidade 

 jurídica ”  
 

4. INTERPRETAÇÃO REALIANA

a)  Culturalismo  Jurídico   (plano   subjetivo)   –   inspirado   no   trabalho   de   Carlos

Cossio, Reale busca o enfoque jurídico no aspecto subjetivo, do aplicador do direito. Três

palavras   orientarão   a   aplicação   e   as   decisões   a   serem   tomadas:   cultura,   experiência   e

história,   que   devem   ser   entendidas   tanto   do   ponto   de   vista   do   julgador   como   no   da

sociedade, ou seja, do meio em que a decisão será prolatada.

b) Teoria tridimensional do direito (plano objetivo) – para Miguel Reale, direito é

fato,   valor   e   norma..   NA   Tridimensionalidade   genérica   ou   abstrata,   caberia   ao   filósofo

apenas o estudo do valor, ao sociólogo de fato e ao jurista a norma (tridimensionalidade

como requisito essencial do direito)”

Pela conjugação das duas construções, na análise dos institutos jurídicos presentes

no Código Civil de 2002, muitos deles abertos, genéricos e indeterminados, o jurista e o

magistrado deverão fazer um mergulho profundo nos fatos que margeiam a situação, para

então, de acordo com os seus valores e da sociedade – construídos após anos de educação e

de   experiências   –,   aplicar   a   norma   de   acordo   com   os   seus   limites,   procurando   sempre

interpretar sistematicamente a legislação privada.”

“Primeiro, o magistrado julgará de acordo com a sua cultura, bem como do meio

social. Isso porque os elementos culturais e valorativos do magistrado serão imprescindíveis

para o preenchimento da discricionariedade deixada pela norma privada. Ganha destaque o

valor como elemento formador do direito.
Segundo, tudo dependerá da história do processo e dos institutos jurídicos a ele

relacionados, das partes que integram a lide e também a história do próprio ”

   

Por   fim,   a   experiência   do   aplicador   do   direito,   que   reúne   fato   e   valor

simbioticamente, visando à aplicação da norma. ”

5. DIREITO CIVIL CONSTITUCIONAL

Trata­se da releitura do Direito Civil com base na Constituição ­ que passa a ser

a tábua axiológica do ordenamento, antes representada pelo CC.

 Princípios

i) Dignidade   da   pessoa   humana   ­  personalização:  valorização   da   pessoa

humana em detrimento do patrimônio;

ii) Solidariedade social;

iii) Isonomia ou igualdade;

6. DIALÓGO DAS FONTES

Surge   para   substituir   e   superar   os   critérios   clássicos   de   solução   das   antinomias

jurídicas,   partindo   da  premissa   de   que   a   pluralidade   normativa   incidente   sobre

determinada de fato não é  necessariamente excludente, sendo defendida  a incidência
conjunta, possibilita sob três vertentes (três dialógos possíveis):

a) Dialógo sistemático de coerência ­ Em havendo aplicação simultânea das duas

leis, se  uma lei servir de base conceitual para a outra­  uma lei usa o conceito

fornecido   por   outra,   estará   presente   o   diálogo   sistemático   de   coerência.   P.ex.

conceitos dos contratos de espécie ­ retirados do CC, mesmo sendo de consumo

o contrato.  

b) Diálogo de complementaridade e subsidiariedade ­ Se o caso for de aplicação

coordenada   de   duas   leis,   uma  norma   pode   completar   a   outra,   de  forma   direta

(diálogo   de   complementaridade)  ou   indireta  (diálogo   de   subsidiariedade).   P.ex.

contratos   de   consumo   que   também   são   de   adesão.   ­         cláusulas   abusivas   ­

invocação da proteção dos consumidores constante do art. 51 do CDC e ainda a

proteção dos aderentes constante do art. 424 do CC.

c) Diálogo de coordenação e adaptação sistemática ­ Os diálogos de influências

recíprocas sistemáticas estão presentes quando os  conceitos estruturais  de uma

determinada lei sofrem influências da outra. P.ex.   conceito de consumidor pode

sofrer influências do próprio Código Civil 

 
PARTE GERAL

1. LINDB

Complexo de normas de sobredireito que regulam a vigência no tempo e espaço, a

interpretação e a aplicação das normas do direito brasileiro.  

 Função:

a) determinar o inicio da obrigatoriedade das leis (art 1º) ;

 b) regular a vigência e eficácia das normas jurídicas (art 1º e 2º);

  c)  impor   a   eficácia   geral   e   abstrata   da   obrigatoriedade,   inadmitindo   a

ignorância da lei vigente (art.3º); 

Conforme defende a doutrina moderna, em que pese a redação do artigo 3º da

LINDB  não se deve afirmar que há presunção absoluta (jure et jure) ou

uma ficção legal de que todos conhecem as normas em sua integralidade.

Trata­se, portanto, de uma presunção relativa (juris tantum) de conhecimento

das normas, que se justifica, inclusive, pela existência de vacatio legis para a

divulgação do texto normativo. (Direito Civil – Parte geral, Coleção Sinopse

para Concursos, Ed. Jus Podivm)

d)  traçar os  mecanismos   de   integração  da  norma   legal,   para   a  hipótese   de

lacuna  na   norma   (art.4º);   e)  delimitar   os   critério   de   hermenêutica,   de

interpretação da lei (art.5º); 

f) regulamentar o direito intertemporal (art.6º);
  g)  regulamentar   o   direito   internacional   privado  no   Brasil   (art.   7º   a   17),

abarcando normas relacionadas à pessoa e à família (art.7º e 11), aos bens (art

8º), às obrigações (artigo 9º), à sucessão (art.10), à competência da autoridade

judiciária brasileira (art. 12), à prova dos fatos ocorridos em pais estrangeiro

no tocante aos ônus e meios de produção (art.13), à prova da legislação de

outros países (art. 14), à execução da sentença proferida por juiz estrangeiro

(art. 15) à proibição do retorno (art. 16), aos limites da aplicação da lei e atos

jurídica de outro pais no Brasil (art. 17) e, finalmente, aos atos civis praticados

por autoridade consulares brasileiras praticados no estrangeiro (art. 18 e 19)  

2. NORMAS JURÍDICAS, CLASSIFICAÇÕES

Características das normas jurídicas:

a) Generalidade – é comando geral e abstrato, dirigido a todos indistintamente

– nao deixa de ser quando se dirige a uma categoria genérica de pessoas.

L quando o destinatário é personalizado há lei apenas em sentido formal

e ato administrativo em sentido material

b) Imperatividade – impõe deveres independentemente da aceitação

c) Autorizamento  – atribuem ao sujeito de direitos  lesado pela  violação de

uma norma, a faculdade de exigir reparação pelo mal causado – autorizam e

legitimam o exercício do direito de ação

d) Atributividdade  – o mesmo que  autorizamento – faculdade  de  exigir do

violador o cumprimento da norma

e) Permanência  –   uma   norma  permanece   vigente   até   sua   revogação  por


outra norma. Exceções: leis temporárias – eficácia ultrativa

f) Emanação de autoridade competente

 Classificação das leis 

 Quanto à imperatividade

a) Cogentes  –   se   impõem   de   modo   absoluto,  não

podendo ser derrogadas pelas partes

b) Não cogentes (dispositivas)

1.i. Permissivas  –   conferem   liberdade   de   disposição   às

partes

1.ii. Supletivas – substitutem manifestaçãoo das partes 

 Quanto à intensidade da sanção ou autorizamento

c) Mais que perfeitas – cominam 2 (duas) sanções ao

seu descumprimento (p.ex. nulidade e multa) 

d) Perfeitas  ­ cominam a nulidade do ato

e) Menos que perfeitas  – não acarretam nulidade,

mas impõem uma sanção ao violador – p.ex. viúva que casa sem

partilha – separação obrigatória de bens

f) Imperfeitas – não cominam nenhuma sanção
3. VALIDADE, VIGÊNCIA, VIGOR E EFICÁCIA DAS NORMAS JURÍDICAS

A VALIDADE diz respeito à integração FORMAL e MATERIAL de uma norma ao 

sistema no qual está inserida   

a) validade em sentido formal ­ observância das normas referentes ao processo 

legislativo de criação da lei, inclusive no tocante à pertinência do conteúdo à 

espécie legislativa eleita e ao órgão prolator; ou 

L caso a norma jurídica seja criada por autoridade competente, utilizando o 

instrumento correto e seguindo os procedimentos estabelecidos em normas jurídicas 

superiores, preencherá os requisitos formais de validade.

b) validade em sentido material – adequação do conteúdo às disposições materiais 

do ordenamento.

L Materialmente, a validade depende de a norma criada respeitar os limites do 

poder concedido ao seu emissor: ela não pode contrariar as normas criadas pelas 

autoridades superiores.

  

A VIGÊNCIA é propriedade das normas que estão prontas EM TESE para qualificar 

fatos e determinar o surgimento de efeitos de direito, dentro dos limites de TEMPO e 

ESPAÇO que a ordem positiva estabelece.

L o período de vacância, ou vacatio legis, é o lapso de dias entre a publicação da lei, quando

ela se torna válida, e o início da produção de seus efeitos – sua vigência

Não se confunde com eficácia – uma norma pode estar em vigor e não apresentar eficácia 

técnica – p.ex. norma que cumpriu o vacatio legis, mas que é ininteligível e, igualmente, 

não ostentar eficácia social. Assim como pode não estar em vigor e ainda ser dotada de 

eficácia social.
Para KELSEN a vigência é sinônimo de existência da norma. 

EFICÁCIA, diz respeito à possibilidade CONCRETA de produção de efeitos e pode ser 

estudada sob três ângulos:

a) eficácia jurídica – é a propriedade de que está investido o fato jurídico de provocr a 

irradiaçãoo dos efeitos descritos na norma. Eficácia jurídica é a aptidão de um fato à 

produção de efeitos jurídicos;

b) eficácia técnica – é a aptidão de uma norma a juridicizar fatos. Uma norma pode não 

ser eficaz tecnicamente por defeitos na linguagem que a veicula (ineficácia técnico­

semântica) ou por ausência de outras normas de igual ou inferior hierarquia, ou 

por existir outra norma inibidora de seus efeitos como a norma que impõe a 

vacatio legis (ineficácia técnico­sintática) – aptidão EM CONCRETO para a 

produção de efeitos

c) eficácia social OU efetividade – diz respeito aos padrões de acatamento com que a 

comunidade responde aos mandamentos de uma ordem juridicamente dada.

L norma socialmente ineficaz continua válida ­ uma norma que pertença ao ordenamento é 

válida. Ela somente perde a validade se for retirada, por outra norma jurídica, do conjunto. 

Logo, dizer que essa norma é socialmente ineficaz não faz dela uma norma inválida, pois 

nenhuma outra norma jurídica a retirou do ordenamento.

  

O VIGOR está relacionado à  aptidão de uma norma a produzir efeitos após o 

término de sua vigência norma possui vigor sem ser vigente, dizemos que ocorre o 

fenômeno da ultratividade: a norma produz efeitos antes ou depois de terminada sua 
vigência.

4. APLICAÇÃO DAS NORMAS JURÍDICAS

Na aplicação das normas jurídicas o operador depara­se com as seguintes atividades: 

a INTERPRETAÇÃO e a INTEGRAÇÃO.

  

 Interpretação ­ a finalidade   é revelar a norma, fixando o seu alcance. São 

métodos de interpretação (não são excludentes e nem exclusivas entre si) das normas 

(Caio Mário fala em interpretação quanto aos elementos das normas jurídicas):

1. Literal ou gramatical – o exame de cada termo isolada e sintaticamente, na maioria das 

vezes, não é o melhor método; isoladamente nunca satisfaz.

2. Lógico – utilização de raciocínios lógicos indutivos ou dedutivos.

3. Sistemático – análise a partir do ordenamento jurídico no qual a norma se insere, a norma 

não será verificada isoladamente, será relacionada com o ordenamento jurídico.

4. Histórico – verificação dos antecedentes históricos, verificando as circunstâncias fáticas e

jurídicas, até mesmo o processo legislativo. Caio Mário afirma que esse método não existe, 

o que há é o elemento histórico invocado para coadjuvar o trabalho do intérprete.

5. Finalístico ou teleológico – análise da norma tomando como parâmetro a sua finalidade 

declarada, adaptando­a às novas exigências sociais; não se analisam somente os aspectos 

históricos, mas também a própria finalidade.

 Interpretação extensiva – é a extensão do âmbito de aplicação de uma norma a 

hipótese não expressamente prevista, por meio de uma interpretação menos literal, 

mas ainda consoante a mens legis. 
 Interpretação DECLARATIVA ­ ocorre adequação e proporcionalidade entre os 

termos empregados e o espírito da norma  

 Equidade – é a autorizaçãoo para o jui criar a norma adequada ao caso concreto – 

não é meio de integraçãoo

a) equidade na elaboração das leis: nesta função ela é dirigida ao 

legislador que, ao legislar, deve inspirar­se no senso de justiça, sempre atento às 

necessidades sociais e ao equilíbrio dos interesses.

b) equidade na aplicação do direito: nesta função ela é dirigida ao juiz, e

significa a norma por ele criada como se legislador fosse, visando solucionar um 

dado caso concreto. Ao agir nesta função o juiz não viola o princípio da 

separação dos Poderes, pois norma de equidade não se confunde com norma 

legal: esta é geral e obriga a todos, enquanto que aquela é individual e específica 

para aquele caso concreto.

O juiz, ao criar a norma de equidade faz uso de um raciocínio jurídico universal, 

sendo ela fruto de um trabalho científico dele.

c) equidade na interpretação das leis: nesta função cabe ao interprete, 

diante de um texto legal de rigor excessivo, amenizá­lo, suavizá­lo, visando com 

isso adaptá­lo as especificidades do caso concreto e atender ao disposto no artigo 

5º da LINDB1. 

1 Art. 5o Na aplicação da lei, o juiz atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum.
 Integração – método de aplicação do ordenamento o autorizado na hipótese de 

lacunas (falta de previsão legal sobre uma matéria), nos termos do artigo 4º:

Artigo 4º Quando a lei for omissa, o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os 

costumes e os princípios gerais de direito. ­ Essas são as fontes supletivas do direito, 

juntamente, com a DOUTRINA, a JURISPRUDÊNCIA e a EQÜIDADE, que são também 

métodos de integração da norma jurídica. 

Aceita­se a integração das normas em razão do princípio do non liquet. Ela depende da 

existência de lacunas, que podem ser: 

a. AUTÊNTICAS (PRÓPRIAS) –  é uma lacuna dentro do sistema ­ ocorrem quando o 

legislador não identificou uma hipótese quando da elaboraçãoo da norma – são 

completadas pelo intéreprete

b. NÃO­AUTÊNTICAS (IMPRÓPRIAS) – deriva da comparação do ordenamento real 

com um ideal ­ o legislador deixa propositalmente de regular. EXEMPLO: cabimento de 

embargos de declaração contra decisão interlocutória.

L Silêncio eloqüente – o legislador não se manifesta sobre determinada hipótese, mas 

por querer excluí­la , é a possibilidade de se restringir a aplicação da lei com base na 

LACUNA NÃO­AUTÊNTICA.  

Classificação das lacunas cf. MHD:

1­ Lacuna de Conflito ou antinomia ­ conflito de normas válidas.
2­ Lacuna      Ontológica ­ existe a norma para o caso concreto, porém sem 
eficácia social.
3­ Lacuna      Normativa ­ ausência de norma para o caso concreto.
4­ Lacuna      Axiológia ­ existe a norma para o caso concreto, porém sua 

aplicação é "insatisfatória ou injusta".

o Analogia é a aplicação de uma norma a caso não previsto como hipótese de 

incidência. Pode ser dividida em:

a. analogia legal – a relação da semelhança toma por base outra lei; 

b. analogia iuris – a relação de semelhança é estabelecida com base em outro 

caso concreto 

O seu uso exige:

a) ausência de lei disciplinando a hipótese;

b) semelhança entre as relações;

c) identidade de fundamentos lógicos e jurídicos.

o Costume – é o uso ou prática reiterada de um comportamento repetido por 

conta na crença na sua obrigatoriedade. Costume pode ser: 

a. secundum legem – sua eficácia obrigatória é reconhecida pela lei, como nos casos dos 

arts. 1297, § 1º, 596 e 615 do CC

b. praeter legem – tem caráter supletivo, complementar à lei.

c. contra legem – em tese é inadmissível – mas há p.ex. o reconhecimento jurisprudencial 

da possibilidade de comprovação de contrato por testemunha no caso de venda de gado ­  

perda da eficácia da lei e não da perda da sua validade (DESUSO)  

o Princípios gerais de direito
 Antinomias  ­ são seus critérios de resolução

a) Especialidade

b) Cronológco

c) Hierárquico

 Classificação de antinomias

a) quantos aos critérios envolvidos

(i) antinomia de primeiro grau: é a situação de conflito que envolve apenas um dos 

metacritérios mencionados.

(ii) antinomia de segundo grau: é a situação de conflito que envolve dois dos 

metacritérios mencionados ­ p.ex. conflito entre norma especial anterior e geral 

posterior

L conflito entre norma geral superior e especial inferior: dois são os entendimentos: 

(i) cf. BOBBIO, há uma antinomia de segundo grau aparente, pois o metacritério 

hierárquico sempre prevalece sobre os demais; 

(ii) cf. há antinomia de segundo grau real, pois não há, dentre os metacritérios 

mencionados um que solucione o conflito, não sendo possível que o metacritério

da especialidade prevaleça sobre o hierárquico, ou vice­versa, sob pena de ferir­

se a adaptabilidade do direito.

Duas seriam as soluções
a) pela via do legislativo: a quem caberia a edição de uma terceira lei;

b) pela via do judiciário: cf. o caso concreto. 

Cf. TARTUCE no caso de lei geral posterior prevalecem as leis especiais anteriores pelo

critério da especiliade.

 b) quanto à possibilidade ou não de solução dos conflitos

(i) antinomia aparente: é a situação em que há, dentre os metacritérios mencionados, 

um que solucione o conflito.

(ii) antinomia real: é a situação em que não há dentre os metacritérios mencionados 

um que solucione o conflito.

5.   APLICAÇÃO TEMPORAL DE NORMAS JURÍDICAS

5.1. VIGÊNCIA 

Uma lei passa a ser vigente:

a) se não houver fixação em sentido diverso,  45 dias após publicada

b) nos Estados estrangeiros, 3 (três) meses após a publicaçãoo

A vacatio também pode decorrer da ausência de norma regulamentadora.

A CF, no entanto, exige período de vacatio nas seguintes hipóteses:

(i) lei que cria ou aumenta contribuição social para a Seguridade Social (artigo 195, 

§6º).

(ii) lei que cria ou aumenta tributo (artigo 150, III, c):
Contagem do prazo ­ deve ser incluído o dia da publicação e o último dia do prazo, entrando

a lei em vigor no dia subsequente ao da sua consumação integral.

 
A lei em vacatio já é lei e, destarte, somente pode ser modifcada por OUTRA  lei. 
   

Correção da lei:

a) Se antes da lei entrar em vigor (findo a vacatio) ocorrer nova publicação de seu 

texto visando a correção de seu texto o prazo de vacatio recomeça, sendo dois os 

entendimentos

(i) deve­se reabrir novo prazo para todo o texto (mais correta)

(ii) deve­se reabrir novo prazo apenas para os dispositivos que foram 

republicados

Mas não se considera lei nova,

b) As correções de texto em lei já em vigor são consideradas lei nova.

Erros materiais evidentes, mas não substanciais podem ser corrigidos pelo próprio 

magistrado

 REVOGAÇÃO – princípio da continuidade – a lei permanecerá em vigor até que 

outra a modifique ou revogue.

 A lei POSTERIOR REVOGA a ANTERIOR QUANDO (revogação tácita ou 
indireta):
a) Nova lei for incompatível;

b) Nova lei exaure a matéria regulada – revogação flobal;

c) No caso de reformulaçãoo de lei certo dispositivo não constar da nova 
redação.

 Revogação pela alteração das circunstâncias de motivação da lei  ­ a cessação 

motivos históricos/econômicos/sociais que motivaram a lei não podem ser 

invocados como causa geradora de extinçãoo de sua força obrigatória. 

SALVO se a norma decorra espeficiamente de situaçãoo de fato que cessou 

definitivamente

 REPRISTINICAÇÃO – SALVO DISPOSIÇÃO EM CONTRÁRIO a lei 

revogada não se restutara por ter a revogadora perdido vigência ­ não existe no 

Direito brasileiro, mas pode ser prevista pelo legislador – seria a restauraçãoo da 

lei revogada por caducar a lei revogadora

 Princípio da conciliaçãoo – na interpretação da interação entre lei nova e antiga 

deve­se privilegiar a convivência harmônica das normas gerais com as especiais 

que versem sobre uma mesma matéria.

§ 2o  A lei nova, que estabeleça disposições gerais ou especiais a par das já 

existentes, não revoga nem modifica a lei anterior.

 5.2. RETROATIVIDADE DAS LEIS

 A  regra é a irretroatividade, mas é certos casos em que há modulaçãoo da retroatividade
 

RETROATIVIDADE
MÁXIMA OU RESTITUTÓRIA OU 
MÉDIA
RESTITUTIVA
A lei nova atinge os direitos exigíveis
A lei nova abrange a coisa julgada (sentença
mas não realizados antes de sua
irrecorrível) ou os fatos jurídicos consumados
vigência

A CF não veda a retroação da lei, o que ela proíbe é que essa retroação venha a ofender o 

direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada. No entanto, para que a 

retroação da lei ocorra, dois requisitos são necessários:

(i) cláusula expressa de retroatividade ­ a retroação não se presume e tampouco é 

automática *exceção: a lei penal benéfica, cuja retroação é automática e atinge, inclusive, a

coisa julgada.

(ii) respeito ao direito adquirido, ao ato jurídico perfeito e à coisa julgada

 Hipótese de retroatividade da lei: 

(i) lei penal benéfica;

(ii) lei com cláusula expressa de retroatividade, desde que não haja ofensa ao direito 

adquirido, ao ato jurídico perfeito e à coisa julgada; 

Cf. CESPE se a norma jurídica regente de referida relação jurídica for revogada por 

norma superveniente, as novas disposições normativas poderão, excepcionalmente, 

aplicar­se a essa relação, ainda que não haja referência expressa à retroatividade.
e

(iii) lei interpretativa, cuja finalidade única é de esclarecer o conteúdo de outra lei, 

tornando obrigatória uma interpretação que já era possível antes mesmo da sua edição. 

Trata­se de interpretação autentica ou legislativa. 

 Conceitos­chaves:

o Ato jurídico perfeito – o já consumado cf. a lei vigente ao tempo em que se 

efetuou

o Direito adquirido –  Há direito adquirido quando já tiverem sido praticados 

todos os atos ou realizados todos os fatos exigidos pela lei para a obtenção

do direito pretendido. Nesse contexto, é correto afirmar que nem todo direito

adquirido surge de uma relação jurídica, a exemplo do direito de apropriar­se 

de coisa sem dono.direitos já exercíveis, ou como termo prefixo/condiçãoo 

inalterável. O STF afirma que o direito adquirido não poderia ser levado aos 

extremos, já que se fosse assim não poderia ter havido a abolição da 

escravatura, pois os senhores teriam direito adquirido aos seus escravos. 

o Coisa julgada – ato do qual não cabe mais recurso

6. APLICAÇÃO ESPACIAL DE NORMAS JURÍDICAS

  O Brasil adota o princípio da territorialidade moderada, ou seja, é lei brasileira adotada,

mas admite­se a aplicação, em certos casos, de lei estrangeira. 

Assim, a regra é a de que ao direito brasileiro se aplica a lei brasileira. Há matérias, 
entretanto, regidas pelo estatuto pessoal do estrangeiro –LEI DO SEU DOMICÍLIO – salvo 

afronta à ordem pública: 

1) Nome;

2) Personalidade;

3) Capacidade;

4) Direito de família;

5) Bens móveis que a pessoa traz consigo;

6) Penhor;

7) Capacidade para suceder.

 Há também matérias cuja regulação implica na aplicação de lei estrangeira:

1) Bens imóveis: aplica­se a lei do lugar em que estiverem situados;

2) Lugar da obrigação (internacional): aplica­se a lei do domicílio do proponente;

3) Regra sucessória mais benéfica: quando se tratar de bens de estrangeiros situados no 

Brasil, aplica­se a regra sucessória mais benéfica.

NORMAS DE DIREITO INTERNACIONAL PRIVADO
DAS PESSOAS

1. DA PERSONALIDADE E DA CAPACIDADE

1.1. PERSONALIDADE JURÍDICA

1.1.1. CONCEITO

É aptidão genérica para se titularizar direitos e contrair obrigações na ordem jurídica, ou 

seja, é a qualidade para ser sujeito de direito – possibilidade de titularizar situações 

jurídicas patrimoniais

1.1.2. AQUISIÇÃO DA PERSONALIDADE

A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei  põe a

salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro.

Nascimento com vida traduz a idéia de funcionamento do aparelho cardiorrespiratório. 

Isso está consubstanciado há muito tempo no Brasil, desde a Resolução nº 01/88, do 

Conselho Nacional de Saúde. 

L se o recém­nascido vem à luz e funciona o seu aparelho cardiorrespiratório, ele adquire 

personalidade jurídica, ainda que venha a falecer instantes depois. 

L não exige para efeito de aquisição de personalidade forma humana e tempo mínimo de 

sobrevida
Teorias sobre o momento da aquisição da personalidade –  segue a discussãoo

pois é paradoxal o texto do CC – afirma começar a personalidade com o nascimento, mas

confere direitos ao nascituro (se tem direitos, é sujeito)

a) Teoria Natalista –   sustenta que “o nascituro não é considerado pessoa, gozando de 

mera expectativa de direito, uma vez que a personalidade jurídica só é adquirida a

partir do nascimento com vida – sendo que, respirando, a existência, no tocante 

aos interesses da pessoa, retroage ao momento da concepção – costuma­se 

afirmar que foi a adotada pelo CC

b) Teoria Concepcionista –  nascituro é considerado pessoa, inclusive para efeitos 

patrimoniais, uma vez que a personalidade jurídica é adquirida desde a concepção. 

Apenas certos efeitos de certos direitos dependem do nascimento com vida –

notadamente os direito patrimoniais materiais – o nascimetno com viada é, na 

verdade, elemento condicionante da eficácia dos negócios jurídicos patrimoniais 

relativos ao nascituro.

Nascituro já possui personalidade,e mas só tem capacidade para titularizar 

direitos da personalidade, sem contéudo patrimonial. 

c)  Teoria da Personalidade Formal ou Condicional , ­ sustenta que o nascituro é 

pessoa condicional, pois a aquisição da personalidade acha­se sob a dependência de 

condição suspensiva, o nascimento com vida,

A lei o protege como titular de direito eventual – podendo praticar medidas de 

conservação de seus direitos (só cautelares, pois a antecipaçãoo da tutela exige 
titularidade)

 EXEMPLO   de   obrigação   do   nascituro   ­  nascituro   receba   um   bem   em   doação

onerado por uma obrigação tributária. A obrigação propter rem é acoplada ao imóvel.

 Direito a alimentos ­ jurisprudência brasileira em geral sempre foi resistente à tese,

havendo exceções ­ aprovada a lei dos alimentos gravídicos (Lei n.º 11.804/08), que
reconheceu   e   regulou   expressamente   o   direito   aos   alimentos   do   nascituro   –

alimentos são irrepetíveis

L possível buscar indenização face ao verdadeiro pai, e a mãe, caso de má­fé

 Indenização do nascituro por danos morais ­ STJ tem reafirmado a tese de que o

nascituro pode ter direito à indenização por dano moral – o que é diferente de ser

sujeito passivo de injúria. O que exigiria a consciência das ofensas.

 Natimorto – cf. CJF “En.1 – Art. 2º: a proteção que o Código defere ao nascituro

alcança o natimorto no que concerne aos direitos da personalidade, tais como nome,

imagem e sepultura.”

1.2. CAPACIDADE 

Capacidade é uma medida da personalidade – dimensiona a personalidade.

A capacidade adquirida com o nascimeto com vida é a capacidade de direito ou
de gozo, capacidade de aquisição de direitos.

1.2.1. CAPACIDADE DE DIREITO

É a capacidade de aquisição de direiots, a todos reconhecida indistintamente.

Sua condição é a personalidade jurícia

Orlando   Gomes   diz:   “Não   queira   visualizar   uma   diferença   entre   personalidade

jurídica e capacidade de direito. Nos dias de hoje são conceitos que se confundem.” 

1.2.2. CAPACIDADE DE FATO

A capacidade de fato é a aptidão para, pessoalmente, praticar atos na vida civil.

Capacidade de DIREITO + Capacidade de FATO = CAPACIDADE CIVIL PLENA

1.2.3. INCAPACIDADE

O direito brasileiro somente reconhece a incapacidade de fato – restriçãoo legal ao 

exerc;icio pessoal de direitos.

Será absoluta ou relativa, conforme o grau de hipossuficiência da pessoa.

É suprida pelos institutos da representaçãoo e assistência.

 Responsabilidade mitigada dos incapazes – se os responsáveis  pelo 

absoluta/relativamente incapaz não tiverem bens para adimplir os prejuízos

aos quais deu causa – será o incapaz responsabilizado equitativamente e sem 

privá­lo do mínimo necessário
 Teoria do estatuto jurídico do patrimônio mínimo, segundo a qual o 

ordenamento jurídico deve sempre procurar garantir um mínimo de 

patrimônio (mínimo existencial) ao indivíduo como forma de garantir­lhe a 

sua dignidade.

Desse modo, uma parcela essencial do patrimônio de qualquer pessoa 

deverá estar protegida contra a influência de quem quer que seja, eis que 

afetada para o atendimento das necessidades básicas da pessoa humana 

1.2.3.1. INCAPACIDADE RELATIVA

A incapacidade relativa permite que o relativamente incapaz pratique atos da vida civil, 

mas impõe, como condiçãoo de validade, que este seja assistido por seu representante, 

sob pena de anulabilidade.

Certos atos podem ser praticados sem assistência (p.ex. testemunhar, fazer testamento.

Assistidos podem propor ações – como réus devem ser citados em conjunto com seu

assistente – havendo conflito de interesses deverá ser nomeado curador especial

      e só pode ser alegada pelo incapaz ou
A incapacidade relativa é exceção pessoal

 seu representante , mas nunca por outra parte, em seu benefício.

I – Maiores de 16 anos e menores de 18 anos:    o ordenamento não despreza sua

vontade – sua participação é admitida nos negócios jurídicos, desde que assistida.

A  proteção dispensada ao menor  depende de sua boa­fé. Destarte, ele  não pode,


para eximir­se de uma obrigação, invocar sua idade se dolosamente a ocultou

II – Ébrios habituais, viciados em tóxicos e deficientes mentais de discernimento

reduzido –  no caso se trata de uma redução permanente – a curetale está sujeita a

modulaçãoo conforme o grau de debilitaçãoo – havendo debilitaçãoo severa pode ser

declarada a incapacidade  absoluta.

III – Excepcionais sem o desenvolvimento mental completo   –  serão  graduados os

limites da curatela cf. o nível de desenvolvimento mental apresentado

IV –  Pródigo   –  aquele   que   gasta   imoderamente  o  seu patrimônio,  arriscando­se   à

penúria.

Sua interdição se restringe a atos de oneração e disposição do patrimônio. 

Justificativa de proteção é o de que sua família e o Estado seriam onerados com a sua

miséria – teoria do estatuto jurídico do patrimônio mínimo

***ÍNDIOS – sua capacidade é regida mediante lei especial – o Estatuto do Índio.

Referida lei considera nulos os negócios jurídicos entre índios e pessoas estranhas

à comunidade, sem a participação da FUNAI.

Será válido, entretanto, se: 

(i) não prejudicar o índio; 

(ii) ele revelar consciência do ato
L cabe ao juiz considerar o caso concreto;

L proteção somente subsiste  enquanto não se completar a aculturação do

indígena.

1.2.3.2. INCAPACIDADE ABSOLUTA

Acarreta a proibição total do exercício por si só do direito de celebrar atos jurídicos da vida 

civil.

Atos somente podem ser praticados pelo representante do incapaz.

São absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil:

  

I   –   Menores   de   16   anos:   são   chamados   de   menores   impúberes.     Considera   o

desenvolvimento intelectual e o poder de adaptação à vida social.

Obs.: “A despeito da incapacidade absoluta do menor abaixo dos 16 anos de idade, a 

sua vontade é relevante, ainda que não vinculativa, no que tange à situações existenciais 

(enunciado 138, da 3ª Jornada de Direito Civil).”

“Enunciado 138 (CJF) ­ Art. 3º: A vontade dos absolutamente incapazes, na 

hipótese do inc. I do art. 3o, é juridicamente relevante na concretização de 

situações existenciais a eles concernentes, desde que demonstrem 

discernimento bastante para tanto.”

II – Quem sofre de enfermidade ou deficiência mental que a prive completamente

de discernimento para a prática de ato jurídico   
Considera a doença/deficiência duradora OU temporária – em grau suficiente para 

privar do discernimento.

A lei não considera intervalos lúcidos – atos que praticar por conta própria nesse 

caso serão nulos. 

Esta incapacidade absoluta, por enfermidade ou deficiência mental, deve ser aferida 

no bojo de um procedimento de interdição (arts. 1.177 e ss., do CPC), nomeando­

se ao incapaz interditado um curador. No procedimento é obrigatório: interrogatório 

do interditando e exame pericial.

Decretada a interdiçãoo é nomeado curador. A sentençaa de interição possui 

natureza mista: declara a falta de discernimento e constitui o estado de 

incapacidade. *cf. o entendimento dominante é constituTIVA

L em respeito à boa­fé e ao fato de que a jurisdição voluntária não gera coisa 

julgada, via de regra são preservados os atos praticados antes da interdiçãoo

L mas o curador poderá buscar a anulação em 

ações autônomas – caso em que terá de comprovar in casu que à época: 

i) não havia discernimento; 

ii) que houve prejuízo; 

iii)  que houve  má­fé
    da outra parte.  

À partir da interdição há presunção absoluta de que o negocio praticado sem o curador foi

 celebrado sem que o negociante gozasse plenamente de suas capacidades psíquicas , logo, 

será nula.

Conforme o art. 1778 a autoridade do curador se estende à pessoa dos filhos do 

curatelado (curatela extensiva) ­ há perda do pátrio poder.
 Relativização da incapacidade ­ Atualmente se pensa na relativização do 

referido dispositivo em função da dignidade da pessoa humana – permitindo ao 

juiz modular os efeitos da sentença de interdição déficit psíquico não elimina o

direito a uma vida digna, a pessoa ainda possui sentimentos, sonhos, e pode 

expressá­los. Cada pessoa deve ser vista com suas especificidades, cada decisão 

do juiz deverá dizer qual será o projeto de vida jurídica do incapaz. P.ex.: não 

pode  praticar atos patrimoniais sem  curador; outros pode praticar com 

assistência; outros sozinho

  

III  –  é absolutamente incapaz aquele que se  encontra submetido a uma causa

transitória ou permanente  e não pode exprimir a sua vontade. P.ex. estado de

coma   

 L implicitamente contemplou o surdo­mudo sem habilidade especial para manifestar 

vontade, o qual é vítima de uma causa permanente privativa de discernimento.”

   L “A senilidade não é causa de incapacidade civil”.  

1.3. LEGITIMAÇÃO

É a aptidão/capacidade específica para a prática de determinado ato.

1.4. CESSAÇÃO DA INCAPACIDADE
Como  regra geral  a incapacidade cessa com o desaparecimento do que lhe deu

causa.

L maioridade – atingida no primeiro momento do dia em que se completam

18   anos   –  caso   desconhecida   a   idade   é   feito   ecame   –   na  dúvida,  pende­se   para   a

capacidade

1.4.1. EMANCIPAÇÃO

É forma de antecipação da capacidade civil de fato. Pode ser voluntária, legal ou

judicial

a) emancipação  voluntária  –   é   concedida   pelos   pais   ao  menor   com  16   anos

completos

- é ato unilateral dos pais (não depende da anuência do filho)

- só pode conceder quem titularizar o poder familiar

- outorga   deve   ser  feita   por   ambos   os   pais  (juiz   resolverá   eventual

divergência) – na falta de um deles bastará um

- é   irrevogável,   mas  pode   ser   anulada  –   deve   ser   feita  somente   no   melhor

interesse do menor

- forma exigida é a de instrumento público

- A  emancipação   VOLUNTÁRIA   Não   isenta   os   pais   da   obrigação   de

indenizar vítimas de atos ilícitos praticados pelo menor (STF)

b) emancipação judicial – é a feita pelo juiz, ouvido o tutor, se o menor tiver 16

anos completos
- submete­se à apreciação do juiz para evitar emancipações feitas pelo tutor que

quer apenas se livrar do encargo

- iniciado o procedimento são citados os interesses e MP para manifestação em

10 dias

- provando o menor sua capacidade o juiz emancipará, desde que conveniente

e melhor atenda aos seus interesses

c) emancipação legal – dada em função de certos fatos jurídicos

i) casamento válido 

L dissolução do vínculo – não se revoga a emancipação

L casamento nulo/anulado – não produz este efeito, salvo se o menor o

contraiu de boa­fé

L não a união estável

L idade mínima para casar de 16 anos, SALVO gravidez, caso em que

o juiz pode autorizar o casamento antes dessa idade – ou para  evitar

pena criminal (NÃO EXISTE MAIS – tratava­se da hipótese em

que o casamento com a vítima excluía a punibilidade do estupro)

ii) exercício de emprego público efetivo  ­ p.ex. carreira militar

iii) colação de grau em ensino superior

iv) relação de emprego que lhe garanta economia própria

v) estabelecimento civil ou comercial que lhe garanta economia própria

– quer dizer, a propriedade de bens que ele adquire em função de seu

trabalho – não pode ser estabelecimento herdado
 necessidade   de   registro   –  qualquer   modalidade   de   emancipaçãoo   deve   ser

registrada na comarca do domicílio do menor  e ser averbada no assento de

nascimento – somente produzirá efeitos após o registro

 O menor emancipado não pode dirigir, vez que o art. 140, I, do Código 

Brasileiro de Trânsito, exige que o condutor seja “penalmente imputável”.

 O professor Paulo Sumariva, no artigo “A lei de falências e a imputabilidade 

penal”, sustenta que o menor emancipado poderá falir e, caso configurado crime falimentar, 

responderá por ato infracional, segundo o ECA.

 O prof. Luiz Flavio Gomes, por sua vez, sustenta a possibilidade de prisão 

civil do menor emancipado, já que é apenas meio coercitivo de pagamento. 

2. EXTINÇÃO DA PERSONALIDADE NATURAL

  A existência da pessoa natural termina com a morte; presume­se esta, quanto

aos ausentes, nos casos em que a lei autoriza a abertura de sucessão definitiva.” 

O marco utilizado pela medicina para fixação da morte é a morte encefálica, dado o 

seu caráter de irreversibilidade (Ver Resolução n. 1826/2007 do Conselho Federal de 

Medicina). Vale acrescentar ainda, que, nos termos da Lei de Registro Públicos (Lei 

6.015/73, arts. 77 e ss.), o óbito deve ser declarado por um profissional da medicina, e, 

em sua falta, excepcionalmente, por duas testemunhas. Esta a MORTE REAL.

Já a MORTE PRESUMIDA ocorre com, ou sem decretação de ausência.

 Consequências básicas da morte:

No direito de família:
a) Dissolução do vínculo conugal;

b) Fim da autoridade parental;

c) Extinção da obrigação alimentar;

No direito obrigacional:

d) Fim de contratos personalíssimos

e) Fim do direito de preferencia

f) Fim do usudruto

Entretanto: pode­se decretar a falência do morto; deve­se respeito ao cadáver; pode­se 

reabilitar a memória do morto.

2.1. MORTE PRESUMIDA E AUSÊNCIA

O conceito de ausência é o desaparecimento da pessoa de seu domilicio sem deixar 

notícias do local em que se encontra, nem deixar procurador constituído para administrar os 

seus bens, sendo assim, incerta a sua sobrevivência.

STATUS JURÍDICO DO AUSENTE – não é mais considerado absolutamente 

incapaz

a) COM declaração de ausência – exige­se para a declaraçãoo de ausência:

i) abandono do domicílio;

ii) ausência de notícias;

iii) não deixar representantes
Não há prazo para se pedir a declaração e a iniciativa para buscar a declaração é 

ampla (pode ser um credor, ou qualquer outro que tenha interese, inclusive o MP ou até 

mesmo o juiz "ex officio").

Analisando­se o pedido, o juiz decretará a fase de curadoria dos bens do ausente

No que diz respeito à tutela dos bens, o instituto da ausência é tratado em três etapas: 

  Primeira fase ­ Curadoria do ausente : inicia­se com a petição inicial de 

qualquer interessado (parentes sucessíveis, sócios, credores, pessoas que têm pretensão 

contra o ausente) ou do MP.

 O juiz deverá, em seguida, arrecadar os bens abandonados e nomear curador. Isso ocorrerá, 

ainda que o ausente tenha deixado procurador, se este não puder ou não quiser exercer o 

mandato. 

QUEM SERÁ O CURADOR ­ O curador será, em:

Primeiro lugar, o cônjuge do ausente, desde que não separado judicialmente ou 

de fato, por mais dois anos. 

Subsidiariamente, serão nomeados os ascendentes e, em seguida, os 

descendentes. Não havendo nenhuma dessas pessoas, o juiz escolherá um curador. Este, 

nomeado, receberá do juiz poderes e obrigações especiais, ficando responsável pela 

administração e conservação do patrimônio do ausente, pelo que receberá uma 

gratificação e terá ressarcido o que gastou no exercício da curadoria. 

É vedado ao curador adquirir bens do ausente. Depois da arrecadação, serão publicados 

editais de dois em dois meses, durante um ano, para chamar o ausente a retomar seus bens, 
cessando a curadoria caso reapareça (1), caso compareça seu procurador (2) ou, ainda, 

haja notícia inequívoca de seu óbito (3).

  Segunda fase ­ Sucessão provisória : Ocorre após  01 ano da arrecadação ou, 

caso o ausente tenha deixado procurador, passados 03 anos. 

Consiste em uma administração (não mero depósito) para preservar os bens do ausente, 

de modo que não sejam alterados mais do que o necessário, já que o desaparecido pode estar

vivo. 

LEGITIMADOS PARA REQUERER ­ Depende de pedido dos interessados.  São 

considerados interessados:

I ­ o cônjuge não separado judicialmente;

II ­ os herdeiros presumidos, legítimos ou testamentários;

III ­ os que tiverem sobre os bens do ausente direito dependente de sua morte;

IV ­ os credores de obrigações vencidas e não pagas.

   MP pode requerer a sucessão 
Não havendo qualquer dos interessados mencionados, o 

provisória. 

A sentença que a determina produz efeitos depois de 180 dias de sua publicação; mas, 

 tão logo  transite em julgado, ocorre a abertura do testamento e do inventário e a 

partilha dos bens, como se o ausente fosse falecido. 

Antes da partilha, o juiz, quando julgar conveniente, ordenará a conversão dos bens móveis, 

sujeitos a deterioração ou a extravio, em imóveis ou em títulos garantidos pela União.

Não comparecendo herdeiro ou interessado para requerer a abertura do inventário, 

após 30 dias do trânsito em julgado, a massa de bens do ausente será considerada 

como herança jacente. 
Os herdeiros que se imitirem na posse dos bens devem prestar garantia pignoratícia ou 

hipotecária, com exceção dos herdeiros necessários cônjuge, dos ascendentes e dos 

descendentes. 

Aqueles que não puderem ter a posse dos bens, por não prestarem a devida garantia, 

serão EXCLUÍDOS   mantendo­se os bens que lhe deviam caber sob a administração do 

curador, ou de outro herdeiro designado pelo juiz, e que preste essa garantia ­ poderá, 

justificando falta de meios, requerer lhe seja entregue metade dos rendimentos do 

quinhão que lhe tocaria

Cônjuges, ascendentes e descendentes receberão a integralidade dos frutos produzidos 

pelos bens que administram. Os outros herdeiros, a metade, pois , deverão capitalizar 

metade desses frutos e rendimentos. 

Reaparecendo o ausente e provado que a ausência foi injustificada e voluntária, ele 

perderá os frutos em favor do sucessor. Não se poderá alienar os imóveis do ausente.

 Terceira fase ­ Sucessão definitiva: após 10 anos do trânsito em julgado da 

sentença que concedeu a abertura da sucessão provisória. 

 DESTINO DOS BENS ­ Se nenhum interessado promover a sucessão definitiva, 

os bens arrecadados passarão ao domínio do Município ou do Distrito Federal, se 

localizados nas respectivas circunscrições, incorporando­se ao domínio da União, 

quando situados em território federal. 

Na mesma oportunidade, levantam­se as garantias prestadas. 
DIMINUIÇÃO DO PRAZO ­ Ela ocorre em menor prazo, caso o ausente tenha 80 anos e 

esteja sumido há, pelo menos, cinco anos. 

Após o trânsito em julgado da sentença que concede a sucessão definitiva dos bens, 

declara­se a morte presumida.

Retornando o desaparecido ou algum de seus descendentes ou ascendentes, nos 10 anos 

seguintes à abertura da sucessão definitiva, receberá os bens nos estado em que se 

encontrarem, os sub­rogados em seu lugar ou o preço que os herdeiros houverem recebido.

 Reaparecimento ­ faz cessar imediatamente todas as vantagens dos sucessores 

imitidos na posse, que ficam obrigados a tomar medidas assecuratórias precisas, 

até a entrega dos bens a seu titular (art. 36).

  Efeitos familiares da ausência : se o ausente deixar filhos menores e outro 

cônjuge tiver falecido ou não tiver direito de exercer o pátrio poder, eles serão 

considerados órfãos. Se os pais estiverem ausentes, os menores devem ser postos 

em tutela. Após a declaração de morte presumida, o casamento resta dissolvido – 

consequência inovadora, não tratada no ACC nem tampouco admitida 

anteriormente pela doutrina.

  

b) MORTE PRESUMIDA SEM declaração de ausência – nas seguintes 

hipóteses:

I ­ se for extremamente provável a morte de quem estava em perigo 
de vida; 

II ­ se alguém, desaparecido em campanha ou feito prisioneiro, não 

for encontrado até dois anos após o término da guerra. 

3. COMORIÊNCIA

Se dois ou mais indivíduos falecerem na mesma ocasião, não se podendo averiguar se

algum dos comorientes precedeu aos outros, presumir­se­ão simultaneamente mortos. 

Mortos simultâneos não herdam um do outro! 

A comoriência pode ser reconhecida ainda que os óbitos não tenham decorrido de um

único acidente.
DAS PESSOAS JURÍDICAS

 1.        
   INTRODUÇÃO E CONCEITO

Nos dias de hoje, adotamos a expressão ‘pessoa jurídica’, muito embora no direito
comparado outras terminologias já foram usadas, como pessoas morais, abstratas, místicas,
e, até mesmo, ‘ente de existência ideal’ (Teixeira de Freitas).

O ser humano é gregário por excelência. O homem procura o homem. A teoria da
pessoa jurídica tem a sua essência na sociologia, porque o homem é gregário por excelência.
Ele tende a se agrupar. Dentro desta perspectiva, do aspecto gregário, ele tende a fazer isso
para o bem e para o mal (formação de quadrilha ou bando no direito penal).

Como decorrência do fato associativo, os seres humanos gregários por excelência,
segundo a doutrina do sociólogo Machado Neto, tem a tendência inapta ao agrupamento,
pois,   perceberam   que   em   grupos   atingiriam   com   mais   eficiência   os   seus   propósitos
especialmente   econômicos.   Assim,   observa   Orlando   Gomes   que   a   categoria   da   pessoa
jurídica   surgiu   da   necessidade   de   personificação   desses   grupos   para   que   atuassem   com
autonomia.

Um primeiro e básico conceito de pessoa jurídica é no sentido de ser aquele grupo
humano, criado na forma da lei e dotado de personalidade própria, para realização de
fins comuns.

Obs.:   Naturalmente,   dada   a   complexidade   das   relações   sociais   contemporâneas,


especiais tipos de pessoas jurídicas têm natureza própria, a exemplo das fundações e da
“eireli” (empresa individual de responsabilidade limitada).

 2.        
   TEORIAS EXPLICATIVAS DA PESSOA JURÍDICA
Existem duas correntes básicas:
2.1.   Teoria   Negativista:  esta   corrente   negava   a   existência   da   pessoa   jurídica.
Autores   como  Planiol,   Brinz,   Bekker,   negavam   ser   a   pessoa   jurídica   sujeito   de   direito.
Diziam que a pessoa jurídica nada mais é do que um patrimônio coletivo ou um condomínio
de pessoas físicas reunidas. 

2.2.   Teoria   Afirmativista:  a   corrente   afirmativista   aceitava   a   teoria   da   pessoa


jurídica,   ou   seja,   reconhecia   a   pessoa   jurídica.   Dentro   dessa   corrente,   surgiram   várias
subteorias. Dentre elas, vamos destacar as 3 mais importantes:
 Teoria da  FICÇÃO  –  Foi criada por Windscheid e desenvolvida por
Savigny.   Sustentava   que   a   pessoa   jurídica   seria   um   sujeito   com
existência ideal (existência abstrata), ou seja, fruto de técnica jurídica. 

Savigny, no seu pensamento extremamente abstracionista, dizia que a pessoa jurídica
é um sujeito de existência meramente ideal, ou seja, na linha de pensamento da teoria da
ficção a pessoa jurídica não teria uma atuação social. Teria existência meramente abstrata,
liberal. Seria fruto apenas da técnica jurídica, sem que tivesse uma atuação social, uma
dimensão social. O grande erro do pensamento de Savigny foi ter abstraído demais a pessoa
jurídica,   negando­lhe   uma   atuação   social.   Uma   pessoa   jurídica,   contudo,   participa   de
relações sociais, ainda que representada por seus membros. Mas  ninguém nega que uma
pessoa jurídica autonomamente participa da vida social. 

 Teoria da realidade objetiva (SOCIOLÓGICA ou ORGANICISTA) –
Foi  criada   por  Clóvis   Beviláqua.  Para   essa   segunda  teoria,  a   pessoa
jurídica seria um organismo social vivo, a ser explicado pela Sociologia
e não pela técnica do direito. 

Era o contraponto da teoria da ficção. Ela vai de um extremo a outro, dizendo que a
pessoa jurídica não era fruto da técnica do direito com existência meramente ideal, mas
seria um organismo com atuação social presencial, perceptível, como se fosse uma célula
em organismo maior. Seria um organismo social vivo. 

 Teoria   da   REALIDADE   TÉCNICA  –   “Esta   terceira   teoria,


aproveitando   elementos   das   duas   correntes   anteriores,   mais
equilibrada, afirma que,  posto a pessoa jurídica seja personificada
pelo direito, tem atuação social, na condição de sujeito de direito”
(Saleilles e Ferrara).

Essa é a melhor teoria. É a que pega o que tem de melhor nas duas anteriores e fica
mais equilibrada. Para esta terceira teoria, a pessoa jurídica é personificada pela técnica
abstrata do direito, mas não deixa de ser sujeito de direito com atuação social, integrando
relações   de   variada   ordem.     É   intermediária   na   medida   em   que,   sem   olvidar   que   a
personalidade da pessoa jurídica é conferida pelo direito, não lhe nega atuação social. Foi a
teoria adotada pelo Código Civil brasileiro. 

 3.        
   AQUISIÇÃO DA PERSONALIDADE PELA PESSOA JURÍDICA

Em que momento a pessoa física se personifica? Desde o nascimento com vida ou,
para quem segue a linha concepcionista, desde a concepção. O registro civil de nascimento
tem   caráter   declaratório   ou   constitutivo   da   sua   personalidade?   Declaratório.   Então,   ele
apenas   declara   o  nascimento,   a   aquisição  da   personalidade.   O   que   personifica   a   pessoa
física, não é o registro, é o nascimento com vida. 

E a pessoa jurídica, em que momento se personifica? Seu registro é declaratório ou
constitutivo? Com a entrada em vigor do código novo, não há mais dúvida: quem disciplina
a personificação da pessoa jurídica, não é o Código Comercial, derrogado pelo NCC que
acabou   com   a   polêmica.   Fica   claríssimo   que  o   REGISTRO   da   pessoa   jurídica   é
CONSTITUTIVO de sua personalidade. É constitutivo com eficácia ex nunc.

O Código Civil em seu art. 45 firma a natureza constitutiva do registro da pessoa
jurídica, com eficácia ex nunc. A aquisição da personalidade da pessoa jurídica só se dá a
partir do registro. Essa é a corrente inaugurada pelo NCC:
“Art. 45.  Começa a existência legal das pessoas jurídicas de
direito   privado  com   a   inscrição   do   ato   constitutivo   no
respectivo   registro,   precedida,   quando   necessário,   de
autorização ou aprovação do Poder Executivo, averbando­se no
registro todas as alterações por que passar o ato constitutivo.”
O registro da pessoa jurídica é constitutivo da sua personalidade. Sem ele, não há que
se falar em obter o CNPJ. A regra é: a pessoa jurídica personifica­se pelo registro do seu ato
constitutivo.   Então,   o   ato   constitutivo   da   pessoa   jurídica   (que   é   o   contrato   social   ou
estatuto), em geral, deve ser registrado na junta comercial ou no Cartório de Registro de
Pessoa Jurídica (CRPJ). 

Obs.:  “A  personificação  da  pessoa  jurídica,  regra  geral,  decorre  simplesmente  do
registro do seu ato constitutivo, mas, em algumas situações, é necessária uma autorização
especial de constituição dada pelo Poder Executivo.” Exemplo: Vamos criar um banco. Não
basta o registro do ato constitutivo. Tem que ter autorização específica de constituição do
Banco Central.  Uma operadora de plano de saúde tem que ter autorização específica da
ANS.   A   seguradora,   para   se   constituir,   tem   que   ter   autorização   específica   da   SUSEP
(Superintendência de Seguros Privados).

Obs.2:  Algumas pessoas jurídicas  têm registro em sistema especial, a exemplo da


sociedade de advogados, que têm registro na OAB.

As   pessoas   jurídicas   que   não   têm   o   registro   funcionam   como  sociedades


DESPERSONIFICADAS,   implicando   em  responsabilidade   pessoal   dos   seus   sócios   ou
administradores,   nos   termos   dos   art.   986   e   seguintes,   do   Código   Civil.   Isso   é   o   que   a
doutrina anterior denominava sociedade irregular ou de fato. As sociedades irregulares são
perigosas. Elas podem até ter capacidade processual, mas não é pessoa jurídica. Por isso os
sócios respondem pessoalmente. 

O   que   são   grupos   despersonificados   com   capacidade   processual?  Determinadas


entidades, a exemplo do espólio, da massa falida, da herança jacente (art. 12 do CPC),
embora tecnicamente não sejam pessoas jurídicas, têm capacidade processual. Maria Helena
Diniz diz que esses entes são dotados de personalidade anômala, mas, em verdade, não são
personificados. Eles apenas possuem capacidade processual.

E   o   condomínio?  Condomínio   também   não   é   pessoa   jurídica,   embora   tenha


capacidade processual e CNPJ. (O CNPJ é apenas uma ficção tributária, não servindo para
atribuir   capacidade   jurídica   para   qualquer   ente).     A   título   ilustrativo,   o   Projeto   de   Lei
elaborado pelo Parlamentar José Santana de Vasconcelos (2009), pretendeu expressamente
modificar o Código Civil e a LRP (Lei de Registros Públicos) para considerar o condomínio
como pessoa jurídica. 

 4.        
   ESPÉCIES DE PESSOA JURÍDICA DE DIREITO PRIVADO
O Código Civil brasileiro, em rol exaustivo, elenca as pessoas jurídicas de direito
privado em seu art.44, e são as seguintes: 
Art. 44. São pessoas jurídicas de direito privado:
I ­ as associações; 
II ­ as sociedades; 
III ­ as fundações. 
IV – as organizações religiosas; 
V – os partidos políticos.
VI – as empresas individuais de responsabilidade limitada (EIRELI)
– (Acrescentado pela lei 12.441/2011).

O art. 44 do CC, quando entrou em vigor, dizia que eram pessoas jurídicas de direito
privado apenas as associações, as sociedades e as fundações. O art. 2.031 do Código Civil
dizia, na sua redação original que os empresários, associações e fundações teriam um prazo
de um ano para se adaptarem ao novo Código Civil. Foi um desespero isso. Se não se
adaptassem, passariam a funcionar como sociedade irregular. Esse artigo 2.031 desesperou
todo mundo. 

Quando o Código Civil entra em vigor, dentro da categoria das associações, duas
classes muito fortes se insurgiram: as organizações religiosas e os partidos políticos. Foram
até   o   legislador   e   disseram   que   não   aceitavam   se   adaptar   daquele   jeito   ao   NCC.   O
legislador,   então,   modificou   o   art.   44   acrescentando   os   inciso   IV   e   V   (organizações
religiosas e partidos políticos, respectivamente):

O   legislador  retirou   do   seio   da   associação,   a   organização   religiosa   e   os   partidos


políticos que eram consideradas associações. Mas por que o legislador fez isso? Ele retirou
do conceito de associação a organização religiosa e o partido político para permitir com isso
a modificação do art. 2.031. No momento que fez essa retirada, permitiu que diz que as
pessoas jurídicas (associações, sociedades, fundações e empresários), devem se adaptar ao
novo  código,   salvo,   organizações   religiosas   e   partidos   políticos.   As  outras   organizações
(ONGs, associações de bairro etc.) vão ter que se adaptar. A razão de o legislador haver
desdobrado ao art. 44, foi permitir excluir do prazo de adaptação as igrejas e os partidos
políticos.

O legislador expressamente reconheceu as categorias das “organizações religiosas e
partidos políticos” em incisos autônomos, mesmo tendo natureza associativa, com objetivo
de excluí­los e blindá­los do prazo de adaptação ao NCC, nos termos do art. 2031 

Imagina o choro das outras associações, das sociedades de empresários. Tanto foi o
choro que embora o legislador não tenha eximido mais ninguém, que esse prazo de um ano
de adaptação ao novo Código Civil foi modificado várias vezes, findando em 11 de janeiro
de 2007.

Material de Apoio

Breve síntese do “drama existencial” vivido pelo art. 2031 do CC
O artigo 2031 do CC, originariamente, previa que:
“Art. 2.031. As associações, sociedades e fundações, constituídas na forma das leis
anteriores, terão o prazo de um ano para se adaptarem às disposições deste Código, a partir
de sua vigência; igual prazo é concedido aos empresários.”

Posteriormente, sofreu a interferência de dois diplomas legais (Leis 10.825 de 2003 e
10.838 de 2004), que resultou nas seguintes mudanças: abriu­se um parágrafo único para
excluir   organizações   religiosas   (igrejas)   e   partidos   políticos   da   sujeição   ao   prazo   de
adaptação e a dilatação para dois anos do prazo previsto para os empresários e demais
entidades adaptarem os seus atos constitutivos.

Em  seguida,  a Medida  Provisória  234 de  10­01­2005 estenderia  mais  uma  vez  o


prazo legal para 11 de janeiro de 2006. E, mais recentemente, a Lei nº 11.127, de 28­06­
2005 alargaria o prazo mais uma vez, para fixar como termo final o dia 11 de janeiro de
2007.

Obs.: Empresários individuais e pessoas jurídicas anteriores que não se adaptaram ao
NCC podem sofrer sanções de variada ordem: impossibilidade de  obtenção de  linha de
crédito   e   financiamento,   impossibilidade   de   participar   de   licitação,   e,   principalmente
passarão  a  atuar  como  sociedades  irregulares,  em que,  como sabido,  a  responsabilidade
passa a ser pessoal do seus próprios sócios ou administradores. 

 5.        
   PESSOA JURÍDICA E DANO MORAL

Pessoa jurídica pode sofrer dano moral?
A   posição   que   prevalece   no   sistema   jurídico   brasileiro,   consolidada   em   diversos
julgados (REsp. 752.672/RS, AGRG no REsp. 865.658/RJ) e na própria súmula 227 do STJ,
é no sentido de que  a pessoa jurídica pode sofrer dano moral, nos termos inclusive, do
próprio art.52 do Código Civil Brasileiro, a despeito de certa resistência doutrinária (En.
286 da 4ª Jornada de Direito Civil).

“Súmula 227, STJ: Pessoa jurídica sofre dano moral.”

“Art. 52, CC:. Aplica­se às pessoas jurídicas, no que couber, a 
proteção dos direitos da personalidade.” 

Dano moral é lesão a direito da personalidade.

Que direito à personalidade a pessoa jurídica poderia ter? Direito à imagem, à sua
honra objetiva etc.
“O   Enunciado   286,   da   IV   Jornada   de   Direito   Civil,   ainda   que   por   via   oblíqua,
culminou por negar, ou enfraquecer a tese vigente no Brasil defensiva do dano moral  à
pessoa jurídica.” Esse enunciado acaba se aproximado mais do professor Arruda Alvim,
ambos vão de encontro à teoria que ainda é a vigorante no país e vão de encontro até ao
próprio NCC:

“En. 286 – Art. 52. Os direitos da personalidade são direitos
inerentes   e   essenciais   à   pessoa   humana,   decorrentes   de   sua
dignidade,   não   sendo   as   pessoas   jurídicas   titulares   de   tais
direitos.”

OBS.:   “O STJ, conforme notícia de 17/10/08 (RESP 963.387) afastou a incidência
de imposto de renda sobre a indenização por dano moral.”

Resp 963.387 (STJ): “A indenização por dano estritamente moral não é fato gerador
do Imposto de Renda, pois se limita a recompor o patrimônio imaterial da vítima, atingido
pelo ato ilícito praticado. O entendimento da Primeira Seção do Superior Tribunal de Justiça
(STJ) é o de que a negativa da incidência do Imposto de Renda não se dá por isenção, mas
pelo falo de não ocorrer riqueza nova capaz de caracterizar acréscimo patrimonial.”

 6.        
   DAS ASSOCIAÇÕES

6.1. Conceito:
 As associações, nos termos do art. 53 do CC, são pessoas jurídicas de direito privado
formadas pela união de indivíduos que buscam finalidade ideal ou não econômica.

Art.   53.   Constituem­se   as   associações   pela  união   de   pessoas


que se organizem para FINS NÃO ECONÔMICOS. 
Parágrafo   único.   Não   há,   entre   os   associados,   direitos   e
obrigações recíprocos.

Toda  associação busca   finalidade  ideal,   fins  não  econômicos.   A  diferença  para   a


fundação é que a associação decorre da união de indivíduos.

Portanto, toda associação e’ de finalidade não econômica. Isso não significa que ela
não poderá cobrar mensalidade ou que os seus diretores não terão salário. A questão e que
não haverá divisão de receitas entre os associados. 

6.2. Ato Constitutivo
Nos termos do art. 54, do Código Civil, o ato constitutivo de uma associação é seu
estatuto, que é registrado no CRPJ. 
Art.   54.   Sob   pena   de   nulidade,   o   estatuto   das   associações
conterá:
I ­ a denominação, os fins e a sede da associação; 
II  ­   os   requisitos   para   a   admissão,   demissão  e   exclusão  dos
associados; 
III ­ os direitos e deveres dos associados; 
IV ­ as fontes de recursos para sua manutenção; 
V – o modo de constituição e de funcionamento dos órgãos 
deliberativos; 
VI ­ as condições para a alteração das disposições estatutárias 
e para a dissolução. 
VII  –   a   forma   de   gestão   administrativa   e   de   aprovação   das
respectivas contas.

6.3. Assembléia Geral
A Assembléia geral é o órgão mais importante de uma associação. 
A associação pode ter RECEITA QUE É INVESTIDA NELA MESMA, mas não
visa a partilhar lucros entre seus conselheiros e presidência. Mas o órgão mais importante de
uma associação é a sua assembléia geral, cujas atribuições estão no art. 59, do Código Civil:

Art. 59. Compete privativamente à assembléia geral: 
I – destituir os administradores;
II – alterar o estatuto;
III ­ aprovar as contas; 
IV ­ alterar o estatuto. 
Parágrafo   único.   Para   as   deliberações   a   que   se   referem   os
incisos I e II deste artigo é exigido deliberação da assembléia
especialmente convocada para esse fim, cujo 
   QUORUM
    SERÁ
 O  ESTABELECIDO
      NO ESTATUTO, bem como os critérios
de eleição dos administradores. 
 
Em uma associação,  pode haver categorias diferentes de associados, mas  dentro
de uma mesma categoria não é possível discriminação  de direitos entre eles (art. 55).
Isso acontece nos clubes recreativos (associado remido, o que não paga a taxa, o fundador
etc.). Dentro de cada categoria não pode haver discriminação entre os associados. 

Art. 55. Os associados devem ter iguais direitos, mas o estatuto
poderá instituir categorias com vantagens especiais. 
Art.   56.   A   qualidade   de   associado   é   intransmissível,   se   o
estatuto não dispuser o contrário. 
6.4. Dissolução e Exclusão de sócio
Em   regra,  DISSOLVIDA  a   associação,   a   teor   do   art.   61,   o   seu   patrimônio   será
atribuído a entidades de fins não econômicos  designadas no estatuto, ou,  omisso este, a
uma instituição municipal, estadual ou federal, de fins iguais ou semelhantes. 
Art.   61.   Dissolvida   a   associação,   o   remanescente   do   seu
patrimônio líquido, depois de deduzidas, se for o caso, as quotas
ou frações ideais referidas no parágrafo único do art. 56, será
destinado   à   entidade   de   fins   não   econômicos   designada   no
estatuto,   ou,   omisso   este,   por   deliberação   dos   associados,   à
instituição municipal, estadual ou federal, de fins idênticos ou
semelhantes.
§   1o  Por   cláusula   do   estatuto   ou,   no   seu   silêncio,   por
deliberação dos associados, podem estes, antes da destinação
do remanescente referida neste artigo, receber em restituição,
atualizado   o   respectivo   valor,   as   contribuições   que   tiverem
prestado ao patrimônio da associação.
§ 2o Não existindo no Município, no Estado, no Distrito Federal
ou no Território, em que a associação tiver sede, instituição nas
condições   indicadas   neste   artigo,   o   que   remanescer   do   seu
patrimônio   se   devolverá   à   Fazenda   do   Estado,   do   Distrito
Federal ou da União.

O Código Civil admite a exclusão do associado, havendo justa causa,  desde que,
por obvio, garantido o contraditório à ele. 
Art. 57. A exclusão do associado só é admissível  HAVENDO
JUSTA   CAUSA,   assim   reconhecida   em   procedimento   que
assegure direito de defesa e de recurso, nos termos previstos no
estatuto.

Justa   causa   é   um   conceito   aberto,   indeterminado.   O   Código   Civil   consagrou   o


sistema aberto, indeterminado, de pólos axiológicos, que o juiz preenche no caso concreto.
São conceitos valorativos, segundo Arruda Alvim, como justa causa. 
Isso é novidade: o associado pode ser excluído: aquele associado do clube que não
tem trato social. Garantindo­lhe o contraditório, ele pode ser expulso da associação.

Pergunta­se:  o   art.   57   pode   ser   aplicado   ao   condomínio?  NÃO,   POIS   A


EXPULSÃO   DO   CONDÔMINO   IMPLICARIA   EM   UMA   DESAPROPRIAÇÃO
PRIVADA. Prevalece no Brasil a tese segundo a qual, por cuidar de associações, não deve
ser   aplicado   para   expulsão   de   condômino   anti­social,   para   o   qual   é   prevista   sanção
específica no parágrafo único do art. 1.337 do Código Civil. Nesse sentido, inclusive, já
decidiu o TJ/SP julgando a AC 668.403.4­6.

Art.   1337.  O   condômino,   ou   possuidor,   que  não   cumpre


reiteradamente   com   os   seus   deveres  perante   o   condomínio
poderá,  por   deliberação   de   três   quartos   dos   condôminos
restantes, ser constrangido a pagar multa correspondente até
ao   quíntuplo   do   valor   atribuído   à   contribuição   para   as
despesas   condominiais,   conforme   a   gravidade   das   faltas   e   a
reiteração,  independentemente   das   perdas   e   danos   que   se
apurem.

Parcela da doutrina, todavia, invocando o princípio da função social e a teoria do
abuso do direito, COMEÇA A GANHAR FORÇA DEFENDENDO A EXCLUSÃO DO
CONDÔMINO, por meio de ação judicial própria. (Ver En. 508 da 5ª Jornada de Direito
Civil).

DESCONSIDERACAO DA PERSONALIDADE JURÍDICA

A teoria maior cria mais obstaculos para a desconsideracao da personalidade juridica, pois a
limita a poucas hipoteses (desvio de finalidade e confusao patrimonial), tal como o faz o art. 50 do
CC.  Teoria maior – a desconsideracao, para ser deferida, exige a presenca de dois requisitos: o
abuso da personalidade juridica + o prejuizo ao credor. Essa teoria foi adotada pelo art. 50 do
CC/2002.

A  teoria  menor  da   desconsideracao   exige   menos   requisitos,   ampliando   as   hipoteses   de


desconsideracao (ex, art. 28 do CDC de acordo com jurisprudencia majoritaria).

 Em suma, podera, neste ultimo caso, ser desconsiderada a personalidade juridica sempre que
sua  personalidade   for, de  alguma  forma,   obstaculo   ao  ressarcimento  de  prejuizos   causados  aos
consumidores (ex. insolvencia). Tartuce assim leciona: a) Teoria maior – a desconsideracao, para
ser deferida, exige a presenca de dois requisitos: o abuso da personalidade juridica + o prejuizo
ao credor. Essa teoria foi adotada pelo art. 50 do CC/2002. b) Teoria menor – a desconsideracao
da personalidade juridica exige um unico elemento, qual seja prejuizo do credor. Essa teoria foi
adotada pela Lei no 9.605/1998 –  para os danos ambientais  – e, supostamente, pelo art. 28 do
Codigo de Defesa do Consumidor. (Tartuce, Flavio. Manual de Direito Civil: volume unico. Rio de
Janeiro: Forense; Sao Paulo: Metodo, 2011, p. 136) 

A extensao dos limites da responsabilidade dos socios foi colocada a apreciacao do STJ – 
NÃO SE LIMITA ÀS QUOTAS SOCIAIS. Assim se posicionou a Corte Superior em relacao a 
seguinte questao: em face da desconsideracao da personalidade juridica da sociedade empresaria e 
autorizada a execucao dos bens dos socios, fica a responsabilidade limitada ao valor de suas 
respectivas quotas sociais? A resposta foi negativa. (REsp 1169175/DF, Rel. Ministro MASSAMI 
UYEDA, TERCEIRA TURMA, julgado em 17/02/2011, DJe 04/04/2011) 

A lei nao exige que seja demonstrada a situacao de falencia da pessoa juridica para aplicacao 
da desconsideracao da personalidade. Assim prescreve o Enunciado no 281 do CJF: “Art. 50. A 
aplicacao da teoria da desconsideracao, descrita no art. 50 do Codigo Civil, prescinde da 
demonstracao de insolvencia da pessoa juridica.” 

Nas  relacoes  regidas  pelo   Codigo  Civil,  o  encerramento  irregular  das  atividades   nao  e
suficiente, para caracterizar o exercicio abusivo. “A Segunda Secao do Superior Tribunal de Justica
(STJ) – que reune as duas turmas de julgamento especializadas em direito privado – superou a
divergencia que havia na corte a respeito dos requisitos para a desconsideracao da personalidade
juridica e definiu que esse instituto, quando sua aplicacao decorre do artigo 50 do Codigo Civil,
exige a comprovacao de desvio de finalidade da empresa ou confusao patrimonial entre sociedade
e socios. Para o colegiado, o simples encerramento irregular das atividades – quando a empresa e
fechada sem baixa na Junta Comercial ou deixando dividas  na praca – nao e suficiente  para
autorizar a desconsideracao e o redirecionamento da execucao contra o patrimonio pessoal dos
socios.”   (http://www.stj.jus.br/sites/STJ/default/pt_BR/noticias/   noticias/Desconsideracao­de­
pessoa­juridica­com­base­no­Codigo­Civil­exige­prova­de­abuso).   O   STJ   seguiu   a   orientacao
doutrinaria   contida   no   Enunciado   no   282   do   CJF:   –  Art.   50.   O   encerramento   irregular   das
atividades   da  pessoa   juridica,   por   si   so,   nao  basta   para   caracterizar   abuso   de  personalidade
juridica. 

Nas regidas pelo CTN, toavia, é sim suficiente – bastando, p.ex., que a empres mude de
domicílio fiscal sem informar ao Fisco

7.  DAS FUNDAÇÕES

7.1.  Conceito
As fundações, diferentemente das sociedades e associações,  não são formadas pela
união de indivíduos,  mas sim pelo  destacamento de um patrimônio, que se personifica
para   a   realização   de   finalidade   ideal   ou   não   lucrativa.   Exemplo:   imagine   um   jurista
reconhecido  nacionalmente   que   tem  um  acervo   de   livros   com  10  mil   exemplares   e   um
prédio   muito   bom   sem   uso.   Ele   pode   destacar   parte   deste   patrimônio   e   constituir   uma
fundação educacional. A fundação não decorre do fato associativo, mas do destacamento de
um patrimônio.

Toda fundação tem finalidade ideal, ou seja, finalidade não econômica

Art. 62. Para criar uma fundação, o seu instituidor fará, por
escritura pública ou testamento, dotação especial de bens livres,
especificando o fim a que se destina, e declarando, se quiser, a
maneira de administrá­la.
Parágrafo único. A fundação somente poderá constituir­se para
fins religiosos, morais, culturais ou de assistência.

Toda fundação tem  finalidade  ideal.  O que importa é que não visa à partilha de


lucros entre os seus idealizadores. Mas gera receita. Uma fundação pode gerar receita. Paga
salário   aos   seus   administradores,   mas   não   significa   que   esteja   gerando   lucros   para   ser
rateado entre eles. A receita da fundação privada é investida nela mesma. 
Parágrafo único. A fundação somente poderá constituir-se para fins RELIGIOSOS, MORAIS, CULTURAIS
ou de ASSISTÊNCIA.

Obs.: As  ONGs, por também perseguirem finalidade ideal devem se constituir sob
forma   de   fundação   ou   associação.   A   ONG   não   gera   lucro   para   os   seus   conselheiros,
administradores

 7.2.     
    Requisitos para constituição da Fundação.
São requisitos para se criar uma fundação:

a) Afetação de bens livres e desembaraçados do instituidor.

Art. 64. Constituída a fundação por negócio jurídico entre vivos, o instituidor é OBRIGADO A
TRANSFERIR-LHE A PROPRIEDADE, ou outro direito real, sobre os bens dotados, e, se não o fizer,
serão registrados, em nome dela, por mandado judicial.

Art. 63. Quando INSUFICIENTES para constituir a fundação, os BENS a ela destinados serão, se de outro
modo não dispuser o instituidor, incorporados em outra fundação que se proponha a fim igual ou
semelhante.

 
b) A instituição deverá ser feita por escritura pública ou testamento.
A fundação só se pode constituir por escritura pública ou testamento (isso cai em
concurso). A pergunta é: a fundação é constituída de que maneira? Escritura pública no
tabelionato   de   notas   ou   testamento,   mas   a   lei   não   disse   que   tipo   de   testamento.  Por
instrumento   particular   que   não   seja   testamento,   NÃO.  O   Código   Civil   não  fala   em
testamento   público.   Não   tendo   dito   isso,   admite­se  QUALQUER   FORMA   DE
TESTAMENTO.

c) A elaboração do estatuto da fundação.
A fundação não tem contrato social. O ato que disciplina o órgão, as atribuições, o
funcionamento e a organização da fundação é o seu estatuto. É nele que encontramos o
órgão (conselho administrativo, presidência etc.), 
O Estatuto da fundação pode ser elaborado  diretamente pelo seu instituidor  ou,
mediante delegação, por um terceiro. Vamos imaginar que queira instituir uma fundação.
Faço isso por escritura pública. E elaboro diretamente o estatuto. Mas nada impede também
que eu possa delegar a terceiro essa elaboração. Eu posso, por exemplo, no ato constitutivo
da escritura pública que delego poderes para elaboração do estatuto ao 1º Presidente. Um
terceiro pode, fiduciariamente, delegar a elaboração do estatuto.

O que acontece quando  esse terceiro, a quem se delegou a elaboração do estatuto,
não faz isso, ou perde o prazo? Subsidiariamente, nos termos do art. 65, parágrafo único
do Código Civil, a elaboração do estatuto poderá ser feita pelo Ministério Público.

Art. 65. Aqueles a quem o instituidor cometer a aplicação do
patrimônio, em tendo ciência do encargo, formularão logo, de
acordo   com   as   suas   bases   (art.   62),   o   estatuto   da   fundação
projetada,   submetendo­o,   em   seguida,   à   aprovação   da
autoridade competente, com recurso ao juiz. 
 Parágrafo   único.   Se   o   estatuto   não   for   elaborado   no   prazo
assinado pelo instituidor, ou, não havendo prazo, em cento e
oitenta dias, a incumbência caberá ao Ministério Público.

d) Aprovação do estatuto da fundação 
Em regra, caberá ao MP aprovar o estatuto que ele não elaborou. Caso o MP elabore
o estatuto, o art. 1202 do CPC estabelece que deverá o mesmo ser aprovado pelo juiz. 

Art. 1.202.  Incumbirá ao órgão do Ministério Público elaborar
o estatuto e submetê­lo à aprovação do juiz:
I ­ quando o instituidor não o fizer nem nomear quem o faça;
II ­ quando a pessoa encarregada não cumprir o encargo no 
prazo assinado pelo instituidor ou, não havendo prazo, dentro 
em 6 (seis) meses.

e) Registro do Estatuto no Cartório de Registro de Pessoa Jurídica (CRPJ)

 7.3.        Fiscalização das Fundações pelo Ministério Público
 
O Ministério Público, nos termos do art. 66, do Código Civil, tem a precípua função
fiscalizatória das fundações.
Art. 66. Velará pelas fundações o Ministério Público do Estado
onde situadas.
§ 2º. Se estenderem a atividade por mais de um Estado, caberá o
encargo, em cada um deles, ao respectivo Ministério Público.

Quem fiscaliza fundação é o MP do Estado. Essa é a regra geral. 
Se a fundação se estender por mais de um estado, a fiscalização continua cabendo à
fiscalização do MP do Estado em que está situada. Se atua na Bahia, em São Paulo e em
Pernambuco, o MP de cada Estado atua em conjunto com os demais. 

Se  essa  fundação fiscalizada  em primeiro  plano pelo MP  estadual,  recebe  verba


federal, obviamente, o MPF atuará em conjunto. Uma fundação privada que atua em SP
e recebe verba federal:  vai receber fiscalização do TCU e do MPF, em parceria com o
Estado. Pelo CC, em primeiro plano, quem fiscaliza a fundação é o MPE.
“§   1º  Se   funcionarem   no   Distrito   Federal,   ou   em   Território,
caberá o encargo ao Ministério Público Federal.” 
O  DF tem seu ministério público próprio, que não se confunde com o MPF. Isso
significa   que   o  parágrafo   primeiro   foi   julgado   inconstitucional.   No   momento  em   que   o
codificador   disse   que   quem   fiscaliza   sua   fundação   é   o   MPF   usurpou   a   atribuição
constitucional do MP do Distrito Federal. Então, houve a propositura de uma ADI que já foi
julgada   procedente   para   se   reconhecer  a   inconstitucionalidade   desse   parágrafo  primeiro,
porque quem fiscaliza as fundações do DF não é o MPF, mas o MP do Distrito Federal.

A ADI 2794, já julgada procedente, reconheceu a inconstitucionalidade do parágrafo
1º, do art. 66, uma vez que a atribuição fiscalizatória das fundações do DF não cabe, em
primeiro plano, ao MPF e sim ao próprio Ministério Público do Distrito Federal.  Matéria   já
pacificada no seio do STF.

Como   vimos,   em   regra,   a   função   fiscalizatória   caberá   ao   Ministério   Público   do


Estado ou do Distrito Federal (ADI 2794­8). Todavia, por óbvio, em havendo justificativa
legal   própria,   poderá   a   Procuradoria   da   República   (MPF)   também   atuar   exercendo
fiscalização (Enunciado 147 da 3ª Jornada de Direito Civil).
 7.4.        A Alteração do Estatuto da Fundação Privada 
 
Embora   tenha   natureza   de   direito   privado,  a   fundação   privadas   tem   uma   cara
publicista. É que prestigia os interesses sociais, uma vez que sua finalidade  é ideal e a
legislação brasileira colocou nas mãos do MPE essa atribuição fiscalizatória. Exatamente
por   essa   carga   de   interesse   social   que   há   na   fundação   é   que   o   legislador   cria   regras
específicas para que se possa alterar o estatuto da fundação. 

Modificar o estatuto de uma fundação é tão fácil quanto modificar o contrato social
de uma sociedade empresária? Na empresária, isso está ligado ao interesse particular, a
fundação,   mesmo   com   natureza   jurídica   privada,   afeta   interesses   sociais.   Por   isso   o
legislador criou formalismos de alteração do estatuto da fundação. Há um ritual para essa
modificação e isso está previsto nos arts. 67 e 68, do Código Civil.

Art.  67.  Para que  se possa alterar  o estatuto da fundação é


mister que a reforma: 
I ­ seja deliberada por dois terços dos competentes para gerir e
representar a fundação; 
II ­ não contrarie ou desvirtue o fim desta; 
III  ­   seja  APROVADA   PELO   ÓRGÃO   DO   MINISTÉRIO
PÚBLICO,   e,   caso  este   a  denegue,   poderá   o  juiz   supri­la,   a
requerimento do interessado.

O quorum para a mudança do estatuto é de dois terços. Esse quorum, no direito
anterior,   era   de   maioria   absoluta.   Os   conselheiros   se   reúnem  e,   por  dois   terços,   podem
mudar o estatuto da fundação privada.

No inciso III, o juiz vai decidir o litígio que se instalou. Aí tudo bem. Porque se o MP
nega a alteração do instituto,  é preciso que o Judiciário decida. E se a votação não for
unânime, e se uma parte discordar dessa mudança? A resposta está no art. 68:

Art.   68.  Quando  a  alteração   não   houver   sido  aprovada   por


votação   unânime,   os   administradores   da   fundação,   ao
submeterem   o   estatuto   ao   órgão   do   Ministério   Público,
requererão que se dê ciência à minoria vencida para impugná­
la, se quiser, em dez dias.

Ou   seja,   a   minoria   vencida,   nos   termos   do   art.   68,   tem   direito   potestativo   de
impugnar a alteração do estatuto no prazo decadencial de 10 dias.

7.5. O Destino do Patrimônio Quando a Fundação Privada Acaba
O que acontece com o patrimônio da fundação quando ela acaba? A resposta está no
art. 69, do Código Civil:
“Art. 69. Tornando­se ilícita, impossível ou inútil a finalidade a
que visa a fundação, ou  vencido o prazo de sua existência, o
órgão   do   Ministério   Público,   ou   qualquer   interessado,   lhe
promoverá a extinção, incorporando­se o seu patrimônio, salvo
disposição em contrário no ato constitutivo, ou no estatuto, em
outra  fundação,   designada   pelo  juiz,  que   se   proponha  a  fim
igual ou semelhante.” 

É muito importante, além do aprofundamento teórico, a leitura do Código porque o
examinador, muitas vezes, pede o texto da lei e muda palavras.

Salvo   disposição   em   contrário,   o   patrimônio   da   fundação   é   incorporado   a   outra


fundação determinada pelo juiz de fim igual ou semelhante.

 8.        
   DA SOCIEDADE

 8.1.        Introdução e Conceito
 
A  sociedade,   pessoa   jurídica   de   direito   privado,   dotada   de   personalidade   jurídica
própria,   é   instituída   por  meio  de   contrato  social,   com  a   finalidade   de   exercer  atividade
econômica e partilhar lucros (Art.981, CC).

Art.   981.   Celebram   contrato   de   sociedade   as   pessoas   que


reciprocamente se obrigam a contribuir, com bens ou serviços,
para o exercício de atividade econômica e a partilha, entre si,
dos resultados. 
 
O Código Civil deixa claro que sociedade é entidade que tem finalidade econômica.
Visa a partilha de proveito econômico, diferentemente das fundações. Toda sociedade, à luz
da técnica jurídica e do direito positivo, visa à finalidade econômica, visa partilhar lucros.

Anteriormente, nós tínhamos no Brasil, duas espécies de sociedade:
 Sociedade Civil e Sociedade Mercantil ou comercial 

O que elas têm em comum? Perseguem proveito econômico.

Voltando mais no tempo: qual  é a diferença entre sociedade civil e mercantil? A
regra   é   que   todas   perseguiam   lucro,   proveito   econômico.   Qual   seria   a   diferença   entre
sociedade civil e mercantil? Essa diferença remonta uma  teoria francesa, a Teoria dos
Atos   de   Comércio  (TJ/MG,   2012).   O   direito   comercial   dizia   que   sociedade   mercantil
perseguindo o lucro praticava atos de comércio, ao passo que sociedade civil não pratica tais
atos de intermediação. A diferença estava na prática ou não dos chamados atos de comércio.

Uma das maiores crises do direito privado: após a edição do Código Italiano e por
influxo   da   doutrina   italiana,   o   conceito   de   comércio   começa   a   declinar   nas   sociedades
internacionais. A partir da segunda metade do século XX, o conceito de comércio e de
comerciante começa a ser substituída peal noção maior de empresa. Agora não se fala mais
em   direito   comercial.   Fala­se   em   direito   empresarial.   Exatamente   porque   o   objeto   de
investigação   científica   do   direito   comercial   mudou.   A   noção   de   comerciante   se   tornou
pouco   desenvolvida,   que   não   correspondia   aos   novos   tempos.   Essa   noção   passou   a   ser
substituída pela noção de empresário. No moderno direito, o comerciante perde lugar para
empresário   e   o   comércio   perde   lugar   para   empresa.   E,   com   isso,   a   teoria   dos   atos   de
comércio   caiu.   Hoje,   à   luz   do   direito   positivo   brasileiro,   não   se   distingue   mais   que   há
sociedade civil e mercantil. O NCC abandona essa antiga tipologia substituindo­a à luz do
art. 982, por duas novas espécies de sociedade, que se encontram alinhadas ao novo direito
de empresa. Hoje, se diz:
 Sociedade SIMPLES
 Sociedade EMPRESÁRIA
Em prova de concurso, ao falar dos tipos de sociedade, diga simples e empresária.
Não diga empresarial porque empresarial é a atividade.

 É licita a sociedade formada  entre  cônjuges?  O  art.  977 do Código Civil


admite   a   sociedade   formada   entre   cônjuges,   desde   que   não   sejam   casados   no   regime
comunhão universal ou separação obrigatória de bens.
Art. 977. Faculta­se aos cônjuges contratar sociedade, entre si
ou com terceiros, DESDE QUE NÃO tenham casado no regime
da  COMUNHÃO   UNIVERSAL   de   bens,   ou   no   da
SEPARAÇÃO OBRIGATÓRIA

O legislador protege esses dois regimes que  são os mais vulneráveis à fraude. O
legislador imagina que por meio da empresa  poderiam fraudar a comunhão universal,
criando um patrimônio particular. Então, o legislador, absurdamente, cria uma presunção
de fraude. 

Tem prevalecido a idéia, à luz da garantia constitucional do ato jurídico perfeito, que
a proibição do art.977 não atingiria sociedades anteriores, conforme inclusive se pronunciou
o DNRC por meio do parecer n. 125/03.
Enunciado 204 Jornadas de Direito Civil – “Art. 977: A proibição de sociedade entre
pessoas  casadas   sob  o regime   da comunhão universal  ou da  separação obrigatória  só
atinge as sociedades constituídas após a vigência do Código Civil de 2002.” 

8.2. Diferença entre a Sociedade Simples e Empresária
O   Código   Civil,   no   parágrafo   único   do   art.982,   estabelece   que,
INDEPENDENTEMENTE DO OBJETO, toda  sociedade anônima é empresária  e toda
cooperativa é simples. 

Uma sociedade para ser empresária, deve reunir dois requisitos:
a) Um   requisito   material  –   a   sociedade   deve   desempenhar   uma   atividade
tipicamente empresarial (art. 966).
Art.   966.  Considera­se   empresário   quem   exerce   profissionalmente
atividade econômica organizada para a produção ou a circulação de
bens ou de serviços.
Parágrafo único. Não se considera empresário quem exerce profissão
intelectual, de natureza científica, literária ou artística, ainda com o
concurso   de   auxiliares   ou   colaboradores,   salvo   se   o   exercício   da
profissão constituir elemento de empresa.

b) Um requisito formal – para ser empresária (requisito formal), é obrigatório que
o seu registro seja feito na Junta Comercial (Registro Público de Empresa).

Se uma sociedade reunir esses dois requisitos, é empresária. Se não reunir os dois, é
sociedade simples. À simples, se chega por exclusão. A que não for empresária é simples.

A  sociedade   empresária  reúne   um  requisito   material  (exercício   de  atividade


empresarial)   e   um   requisito  formal  (registro   na   junta   comercial),   sujeitando­se   a
legislação falimentar. Além disso, a sociedade empresária é marcada pela  impessoalidade,
na medida em que a atividade do sócio não é indispensável ao exercício da atividade da
empresa.   Vale   dizer,   os   sócios   atuam,   basicamente,   como   articuladores   de   fatores   de
produção (capital, mão­de­obra, matéria prima e tecnologia).

Diferentemente,   a  sociedade   simples  que,   como   regra,   é   registrada   no   CRPJ,   é


aquela em que   a  atividade do sócio confunde­se com a atividade da própria sociedade,  a
exemplo da sociedade formada por advogados ou médicos. 

Obs.: As cooperativas eram registradas na junta comercial. Sobrevém o Código Civil
de 2002 e diz que as cooperativas são sociedades simples. Então, surgiu a dúvida. Se forem
sociedades simples, devem ser registradas na junta comercial ou no CRPJ?

A   despeito   de   existir   acesa   polêmica,   por   conta   de   as   cooperativas   terem   sido


consideradas sociedades simples, a doutrina de direito empresarial, em regra, sustenta que o
seu registro deve continuar a ser feito na Junta Comercial, por conta da norma especial (ver
também   Enunciado   69,   da   1ª   Jornada   de   Direito   Civil).   Mas   a   matéria   ainda   não   é
pacificada. 
 
          
 O que é uma EIRELI (Empresa Individual de Responsabilidade Limitada?
Trata­se de um novo tipo de pessoa jurídica criada pela lei 12.441/2011. A empresa
individual de responsabilidade limitada (EIRELI) é, segundo o professor Frederico Garcia,
uma  pessoa   jurídica   unipessoal  (i.e.,  de   uma   pessoa   só),   que   prevê   a   limitação   da
responsabilidade do seu titular ao capital integralizado que não poderá ser inferior a 100
vezes o maior salário mínimo vigente no País. 

Em regra, é registrada na Junta Comercial.

Uma pessoa jurídica poderá constituir uma EIRELI?
O DNRC, por meio da instrução normativa 117/2011, proibiu que a pessoa jurídica
pudesse constituir EIRELI.
Tramita uma ADI (4637) que pretende o reconhecimento da inconstitucionalidade do
mínimo de 100 salários mínimos para a constituição da EIRELI.