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VAGABUNDOS!

Existe uma doença muito grave em nossa sociedade que produz efeitos terríveis na
forma como as pessoas argumentam e pensam sobre aquilo que não gostam, especulando não
sobre o objeto do que não se gosta, mas sobre o sujeito, indivíduo, pessoa, que apresenta
certo gosto, levando quem não gosta a ridicularizar a personalidade do outro. Na realidade,
isto já é um problema, pois não gostar não deveria levar ninguém a atacar aquele que gosta e
simplesmente apresentar seu gosto, sem machucar a dignidade do outro que apresenta
perspectiva diferente da dela.

Pois bem, nos últimos dias o portal ItapiraNews publicou reportagem sobre as
manifestações contra a Reforma (DEFORMA) da Previdência em Itapira, realizada no dia 14/06.
Um projeto do governo que atinge exatamente os trabalhadores, impedindo o direito sagrado
de descansar com dignidade pós anos e anos de trabalho. Diante da reportagem muitos
passaram a expressar seu DESgosto com o evento realizado na praça Bernardino de Campos e
que contou com a participação de sindicatos, estudantes, professores, enfim, trabalhadores
que não aprovam a Deforma da previdência e nem os CORTES na educação realizados pelo
governo Bolsonaro.

Todavia, não realizaram o ato pedagógico ou pensativo de discordar ou criticar,


correspondendo neste sentido com o puro gesto de não gostar. Poderiam indicar seu
desgosto, com racionalidade argumentativa, dizendo que a população em geral não apoia
aquele tipo de ação, tendo em vista que era uma minoria que ali se encontrava; poderiam
expressar de outra maneira, dizendo que os presentes não teriam entendido as motivações
mais profundas da “reforma” e assim, apresentar razões indicativas de sua discordância. Ou
mesmo, ajudar aqueles que participaram da manifestação no sentido de perceber que nada
daquilo ajudaria na consecução de seus objetivos e que deveriam encontrar formas mais
eficazes para realizar suas causas. É bom afirmar que se eximindo de argumentar acabam
dando razão aos motivos dos que estavam se manifestando e protestando.

Nenhuma forma de racionalidade ou argumentação mínima foi utilizada pelos


desgostosos, limitando-se os mesmos a despejar uma irracionalidade raivosa na forma de pura
ofensa à dignidade dos indivíduos que resolveram se manifestar. Trata-se da INAÇÃO DA
RAZÃO desses desgostosos, uma verdadeira doença infantil de nosso tempo. Uma praga que
leva sujeitos (talvez nem devêssemos usar essa denominação, pois a própria filosofia
iluminista, que nada tem de esquerdista – só para avisar-, indica que o sujeito é aquele ser
autônomo na razão ou de maioridade intelectual, como diria Kant) a definhar na capacidade
de crítica teórica ou de avaliação das práticas sociais, reduzindo-se a fala e o pensar a um
constrangedor balbucio de algum tipo de xingamento, usado como recurso de inferiorização
do outro.

Voltando ao evento da manifestação contra a Deforma da previdência, os comentários


desgostosos centraram sua raiva na perspectiva de chamar os participantes do ato de
vagabundos, um caso típico dessa doença que qualificamos mais acima. Ao usar de tal
estratégia reativa não atingem o mais importante que os manifestantes realizaram, a própria
manifestação. Todavia, participam do esgoto comum da irracionalidade que subjaz no
inconsciente coletivo da sociedade e que não precisa fazer uso da razão e da argumentação
para construir seu juízo.

No fundo, fazem isto também sem terem consciência adequada de que estão
participando de uma forma de barbárie e arbitrariedade quando nos chamam de vagabundos.
Utilizar-se da expressão vagabundo é participar de um pré-conceito, de uma falsificação
cientifica e filosófica que foi e está cimentada na consciência da sociedade através de um
longo e organizado processo de ideologia, onde intelectuais das classes dominantes
construíram significações que passaram a ser hegemônicas e passam a controlar a forma como
as pessoas pensam.

Assim, chamar as pessoas que lutam contra a deforma da previdência de vagabundos é


tão VERDADEIRO como dizer que a terra é plana, que vacinas tem objetivos malignos, que
existem mensagens ocultas nas escolas para levar seu filho a virar gay ou comunista, que
nazismo é de esquerda, que comunista come criancinha, que 1964 não foi ditadura, não houve
tortura e foi apenas uma correção da nação (agradeço aqui a Mauro Iasi).

Caros desgostosos, continuaremos fazendo nossas manifestações e paralisando a


produção e chamando a atenção da sociedade para as formas obscuras de expressar opiniões,
entre elas nos chamarem de vagabundos. Pois além de denunciar o assassinato que representa
a mudança em questão na aposentadoria dos trabalhadores, aprendemos, com os
comentários que expressaram, que precisamos também acordá-los da inação da razão.
Flavio Eduardo Mazetto (flaviomazz@gmail.com) – esperando comentários argumentativos sobre o texto.