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AMAR MAIS UM FILHO DO QUE O OUTRO. ISTO É POSSIVEL?

Uma reportagem do Jornal Hoje da Rede Globo colocou um questionamento


sobre o amor em relação aos filhos, procurando defender a tese de que o ato de amar
mais um filho/a do que outro não é saudável para uma família. Dizia a reportagem,
fundamentada em uma psicóloga que “é NATURAL ter mais afinidade com um dos
filhos, mas não amá-los de forma diferenciada”. Veja-se que destaquei o “natural” do
texto, tendo em vista sua importância para o desenvolvendo de uma crítica à proposta
ideológica contida na reportagem.
Continuava o jornal indicando a receita para o relacionamento familiar e para o
sucesso pessoal, visto que, não se tratava simplesmente de apresentar elementos para
uma melhor convivência familiar, mas em vista de um sucesso profissional dos filhos.
Os pais que tratassem os filhos de forma desigual poderiam incentivar a rivalidade entre
irmãos. O tratamento igual tem como objetivo estimular e treinar as habilidades e
dificuldades para que os próprios filhos consigam chegar a um mesmo patamar de
gratificação de resultados. Vejam que esta última palavra denuncia a perspectiva do
programa: a educação igual como fonte para habilidades e competências que
proporcionassem o cabedal afetivo necessário para o sucesso na vida.
Estes tipos de reportagem, aparentemente despretensiosas e até secundárias
dentro da grade do jornal, são ótimas fontes para estudarmos a ideologia presente nos
meios de comunicação e a forma velada, muitas vezes nem tanto, como procuram
enfatizar e reproduzir idéias dominantes que mantenham o status social, fortalecendo o
domínio de uma classe dominante sobre a sociedade.
Devemos em primeiro lugar questionar a ideia de que seja NATURAL não amar
mais um filho do que outro ou mesmo da naturalidade da afinidade. Estamos diante de
aspectos de relações sociais, que não podem ser simplesmente reduzidas a elementos
naturais ou eternos. Os grandes sociólogos e filósofos já desmontaram devidamente as
teses sobre a biologização e naturalização da vida social, a despeito delas servirem
como suporte para programas conservadores e ditatoriais em nossa história social. O
amor não é natural, como também ter afinidade com este ou aquele não se trata de algo
natural ou um dado aleatório. É uma construção social.
A sociedade hodierna investe pesado para que amemos e tenhamos afinidade
com personagens que alcançam sucesso e que são reconhecidos. Amamos nossos filhos
sob esta perspectiva, colocando o amor sob um cálculo de investimento. Assim, a
afinidade se pauta no retorno que podemos colher em determinada relação que estamos
vivendo. É o que afirma a psicóloga do jornal quando aponta para a busca de resultados.
Talvez o leitor possa estar me acusando de pragmatismo, de dogmatismo, de
reduzir um sentimento a partir de conflitos sociais. Talvez seja verdade, mas minha
intenção era exatamente provocá-lo, superando uma visão naturalista da realidade. A
questão é que o amor aos filhos não pode ser entendido como uma relação natural, como
afirma o jornal, pois é histórico, contextual e muda de sociedade para sociedade. O
mesmo se diga para o amor dos filhos em relação aos pais. Não vejo grandes problemas
em um pai ou mãe amar mais um filho do que outro. Talvez não consigamos expressar
tal questão, pois fomos socializados nos primórdios de nossa existência a sacralizar o
amor de mãe, como se ele fosse puro, imaculado e perfeito. Todavia, trata-se de um
sentimento humano, de uma pessoa, que vive as pressões e loucuras de uma sociedade
que, em última instância, tem cada vez mais transformado o amor em um prêmio, um
sucesso, uma mercadoria que se consegue pela sua competência em vencer os
adversários. Neste sentido, tal concepção vai também impregnando e transtornando o
amor de mãe e pai.
Por fim, o jornal fala do perigo de um amor diferenciado gerar competitividade
entre os filhos, mas não questiona e critica a avalanche de competitividade e rivalidade
a que os filhos são submetidos diuturnamente nos programas educacionais, televisivos e
outros. É como se dissessem mais ou menos assim: desde que vocês não levem a
competitividade para dentro das relações familiares mais sagradas, o restante da vida
social pode ser uma disputa voraz e destrutiva, pois estaremos seguros dentro das
redomas de nossas famílias. Grande engano, pois a competitividade capitalista invade
cada poro da estrutural social, transformando inclusive nossa forma de amar: todas as
relações idílicas são destruídas, a dignidade pessoal se transformou num valor de troca,
o véu de comovente sentimentalismo das relações familiares foi rasgado (adaptado do
Manifesto Comunista).

Flávio Eduardo Mazetto. (cientista político e professor) flaviomaz@yahoo.com.br