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Design Ergonômico - Estudos e Aplicações

Book · January 2010

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2 2,104

3 authors, including:

Plácido da Silva Luis Paschoarelli


São Paulo State University São Paulo State University
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1º Edição 2010

Capa e projeto gráfico:

João Carlos Riccó Plácido da Silva

Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação

Avenida Engenheiro Luiz Edmundo Carrijo Coube 14-01

Bauru - SP

CEP 17033-360

www.faac.unesp.br

SILVA, José Carlos Plácido da Silva


PASCHOARELLI, Luis Carlos
SILVA, Fernando Moreira

Design Ergonômico - Estudos e Aplicações

Bauru: FAAC - Universidade Estadual Paulista 1º Edição 2010

297p. 14,8 x 21 cm
ISBN: 978-85-99679-24-1

1. Design
2. Design Ergonômico
3. Ergonomia
4. Interfaces
Design Ergonômico: Estudos e Aplicações
1
José Carlos Plácido da Silva
2
Luis Carlos Paschoarelli
3
Fernando Moreira da Silva

O Programa de Pós-graduação em Design da Universidade Estadual


Paulista (PPGDesign-UNESP), ao organizar o III Simpósio Internacional de
Design Ergonômico e Interface Humano/Tecnologia, no ano de 2010,
concretiza o estabelecimento dos vínculos de pesquisas e investigações na
área do Design entre a Universidade Estadual Paulista (Bauru – Brasil) e a
Universidade Técnica de Lisboa (Lisboa – Portugal).
Na ocasião deste evento, ocorreram apresentações de trabalhos
científicos na área em questão, bem como a conferência internacional do PhD
Fernando Moreira da Silva, que é professor associado da Faculdade de
Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa; coordenador da área do
Design no Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design de
Portugal; e coordenador do Laboratório de Inovação em Design.
A terceira edição do simpósio reitera o trabalho de cooperação
estabelecido entre a Universidade Estadual Paulista e a Universidade Técnica
de Lisboa (Processo 000429/50/01/1995 – Ins. 0156/2008), bem como dá
início a outros processos de cooperação técnico, acadêmico e científico,
diretamente entre o PPGDesign-UNESP e a Faculdade de Arquitetura da
Universidade Técnica de Lisboa.
Com o objetivo de apresentar as pesquisas na área do Design e da
Ergonomia, este livro digital apresenta textos de docentes, doutorandos e
mestrandos das duas universidades. Convidamos aos leitores para apreciação
e reflexões nas áreas da ERGONOMIA e do DESIGN.

1
Professor Titular, Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação – Universidade Estadual Paulista
2
Professor Adjunto , Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação – Universidade Estadual Paulista
3
Professor Associado , Faculdade de Arquitetura – Universidade Técnica de Lisboa
Sumário

ERGONOMIA E ANÁLISE PÓS-OCUPAÇÃO: A relação entre ambiente,


usuário e atividade. Uma contribuição da Ergonomia aos
estudos da Arquitetura
2
A utilização de tecidos funcionais no design de vestuário ergonômico
para a aplicação de agrotóxicos 14
Acessibilidade em Espaços Verdes: Design e Ergonomia 26
As particularidades da relação: avaliação pós-ocupação x edifícios
históricos 39
“Bainha de segurança para acondicionamento de facão canavieiro
durante sua vida útil” 52
Comunicação Visual e Design Inclusivo,Cor, legibilidade e visão
envelhecida 62
Cor no Mobiliário Urbano: um factor de Inclusividade, Orientação
e Identificação 75
Desenho de Espaços Verdes: Design e Ergonomia 86
Design de Comunicação Sustentável: uma nova disciplina 98
Design e ergonomia: Uma abordagem sobre a inter-relação entre o
idoso e o ambiente doméstico 111
Design Ergonômico de Ferramenta Manual: Colheita de Mudas de
Plantas Ornamentais 132
Ergonomia como ferramenta para concepção de escritórios com conforto
de iluminação em uma empresa florestal 144
Espaço e mobiliário dos laboratórios de desenho e modelagem dos cursos
de moda: uma análise ergonômica 151
Influência dos Aspectos Cognitivos da Senescência na Interface de Uso de
Embalagens de Medicamentos 161
Informação turística: signo, sistema e metodologia 173
Instrumentos manuais do cotidiano e as diferenças entre gêneros
e faixas etárias 191
Interacção da Luz e Cor nas Superfícies como Factores Ergonómicos
no Design Urbano: o Azulejo como Concretização 204
Legislação Portuguesa de Acessibilidade: O Passado e o Futuro 218
O Design de uma cadeira de rodas manual 232
Parâmetros de usabilidade para análise e desenvolvimento de identidade
visual – um estudo ergonômico 243
Preensões digitais: a percepção do indivíduo sobre o esforço realizado 254
Simulação computacional para análise do conforto térmico do pedestre 268
Software – O estudo da produção de uma nova ferramenta de análise
ergonômica 279
Uma Lacuna na História da Ergonomia. 291
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

ERGONOMIA E ANÁLISE PÓS-OCUPAÇÃO:


A relação entre ambiente, usuário e
atividade. Uma contribuição da Ergonomia
aos estudos da Arquitetura
4
Rafaela Santana Balbi
5
José Carlos Plácido da Silva

1 INTRODUÇÃO

A relação entre o comportamento humano e o ambiente construído


está estreitamente ligada à forma como este foi constituído e ao que ele se
destina. As condições que são geradas nos ambientes alteram o modo de vida
das pessoas renovando-se com as próprias transformações, face às
necessidades do homem usuário (ORNSTEIN, 1995).
O projeto de um ambiente deve responder, através das características
empregadas, à relação ambiente–comportamento humano, melhorando assim
a qualidade de vida do homem dentro do ambiente construído. O
comportamento do homem é atingido pela arquitetura, ou seja, pela
edificação em si, no entanto a arquitetura não chega a interferir de maneira a
modificar totalmente o comportamento do homem, mas pode influenciar
tanto na percepção quanto na cognição. O estudo dos ambientes pode
contribuir para uma melhoria do bem estar do usuário e muitas vezes podem
ter suas informações complementadas com estudos de outras áreas correlatas
como é o caso da Ergonomia e da Psicologia Ambiental.

4
Arquiteta e Urbanista, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Design da Faculdade de Arquitetura,
Artes e Comunicação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”.
5
Doutor, Professor Titular, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”.

2
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Sendo um dos princípios da arquitetura servir ao homem e ao seu


conforto, pois este tem melhores condições de vida e saúde quando seu
organismo pode funcionar sem ser submetido à fadiga e ao estresse (FROTA &
SHIFFER, 2003), o estudo do ambiente torna-se bastante importante. A análise
do uso correlacionada ao estudo do ponto de vista do usuário, ou seja, a quem
se destina o espaço torna-se imprescindível à compreensão da realidade
encontrada nos ambientes.
Dentre as atividades exercidas pelos seres humanos estão aquelas
desenvolvidas em ambientes escolares, pois a educação faz parte da vida do
homem, não só aquela em sala de aula, mas também os ensinamentos
passados de geração para geração. Apesar das diversas maneiras de aprender
atualmente o modelo educativo mais comum em nossa sociedade é o ensino
formal, que ocorre em ambiente escolar, e cujo exercício exige métodos
específicos, estabelece regras e tempos próprios, e utiliza ambientes e
mobiliários específicos. No entanto as atividades realizadas no ambiente
escolar variam e não são exclusivas do ensino fundamental, no ensino superior
esta realidade também existe, em especial quando se trata dos laboratórios
didáticos utilizados para estudos específicos de cada área.
As Instituições de Ensino Superior (IES) têm um papel importante na
formação do cidadão e deve garantir aos alunos o bem estar para que a
aquisição e assimilação do conhecimento ocorram de maneira satisfatória.
Assim, tanto a qualidade de suas instalações, como a dos equipamentos e
mobiliários são fatores fundamentais no desenvolvimento educacional. É
importante que as características do ambiente não interfiram no desempenho
das atividades do usuário.
Existem diversas maneiras de se estudar um ambiente construído, dentre
elas está a Análise Pós-Ocupação do ambiente construído (PREISER, 1987;
ORNSTEIN, 1992), que tem o objetivo de avaliar os edifícios de uma maneira
sistemática e rigorosa após estes terem sido construídos e ocupados por certo
período de tempo. Acredita-se que utilizando esta metodologia, abrangida

3
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

pela Arquitetura, em conjunto com as metodologias de análise ergonômica é


possível estudar o ambiente de trabalho de uma maneira em que o maior
número de aspectos possa ser abordado.
Normalmente as pesquisas realizadas em ambientes escolares de
ensino superior se prendem aos estudos da posição sentada, a qual é a mais
comum nas aulas verbal-expositivas, onde os alunos “passam longas horas
praticamente ‘imobilizados’ em carteiras” (IIDA, 2005, p. 570). No entanto é
importante desenvolver um estudo das atividades exercidas em laboratórios
didáticos e oficinas de atividades práticas, levando em consideração que a
dinâmica nestes espaços se diferencia daquela em salas utilizadas para aulas
expositivas. Nestes ambientes há a presença de mobiliário diferenciado
(bancadas, bancos altos, equipamentos específicos, entre outros) e a
necessidade de executar trabalhos que demandam maior acuidade visual e
movimentos mais delicados.
Desta maneira torna-se conveniente proceder, além dos estudos
relacionados ao ambiente, aqueles que levem em consideração as posturas
que os usuários exercem ao executar suas atividades, principalmente por
causa das flexões de pescoço e coluna que podem causar dores devido às
posições incompatíveis com o sistema músculo-esquelético.
Os estudos que procuram verificar a adequação ou não do ambiente
construído variam quanto à tipologia deste local. Procura-se aqui demonstrar a
relevância dos estudos dos ambientes escolares, pois assim como o projeto
correto de máquinas, postos de trabalho e do ambiente influenciam no
desenvolvimento das atividades do trabalhador, o projeto adequado dos
mobiliários, salas de aula, bibliotecas, laboratórios e outros meios de apoio
didático podem influir no desempenho dos professores e alunos (IIDA, 2005, p.
575).
O objetivo desta pesquisa é realizar uma análise em laboratórios e
oficinas didáticas de ensino na Universidade Estadual Paulista – Campus de
Bauru (SP) para verificar as condições de conforto da interface aluno-

4
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

mobiliário utilizando a Análise Ergonômica e a Avaliação Pós-Ocupação do


ambiente.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

3.1. A inadequação do ambiente construído


No decorrer dos anos ficou evidente que as edificações vêm sofrendo
modificações, tanto no que diz respeito às funções dos ambientes quanto aos
seus aspectos construtivos e formais. Da mesma maneira percebe-se uma
nova preocupação, surgida com as tendências ambientais, em dar atenção aos
aspectos físicos, em especial quando se trata da utilização de elementos que
podem melhorar a situação de conforto do ambiente. De acordo com Paulino
(1999) o homem tem aprimorado a construção dos edifícios onde mora e
trabalha, em busca de um conforto que não encontra no meio externo,
produzindo assim espaços onde possa trabalhar e descansar seguro e isolado
dos fatores indesejáveis do exterior. No entanto, percebe-se que alguns
espaços ainda vêm sendo criados sem os cuidados necessários quanto à
habitabilidade, usabilidade, conforto e bem estar, causando insatisfações e
inadequações na execução das tarefas em seu interior. Isto ocorre,
principalmente, pela inacessibilidade ou falta de conhecimento adequado ao
uso das tecnologias necessárias para a construção de edifícios onde estes
parâmetros devem ser atendidos. Quando se trata de países em
desenvolvimento como o Brasil tal conhecimento é restrito a uma parcela da
população, ou seja, “Esta tecnologia, que supostamente oferece condições
ideais de habitabilidade nos edifícios é cara, portanto é utilizada apenas nos
empreendimentos de padrão alto” (PAULINO, 1999). Tratando-se das
tecnologias mais acessíveis, como a utilização de design adequado e de
elementos que ajudam no desempenho da edificação há também os casos de
utilização meramente estética de elementos que deveriam ser principalmente
utilitários.

5
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Em certas situações os ambientes são projetados levando em


consideração apenas o aspecto formal e estético da edificação, ou seja, sem
atender às reais necessidades dos usuários (CRUZ, 2006). Assim, espaços que
não satisfazem à população são encontrados com maior frequência sem que
sejam analisados os problemas causados por este tipo de edificação. A pouca
quantidade de pesquisas voltadas para a fase de uso, operação e manutenção
do ambiente, como afirma Ornstein (1992), faz com que seja reduzida a vida
útil destes ambientes construídos, pela ausência, desde o projeto, desse tipo
de análise preventiva. Sommer (1974) afirma que esta pouca atenção dada ás
atividades exercidas nos ambientes não é surpreendente quando se trata de
arquitetos que, tanto em sua formação acadêmica, quanto em sua prática
profissional aprendem a olhar sempre as edificações sem a presença dos
usuários.
Além da importância do estudo do ambiente destaca-se ainda que é
interessante tratar do estudo da interface homem-máquina ou homem-
mobiliário, pois a partir do momento em que questões de conforto e qualidade
do ambiente não levam em consideração apenas os aspectos ambientais, mas
também aqueles relacionados à Ergonomia, a escolha dos elementos que
terão uma relação de maior proximidade com o usuário deve ser também
cuidadosa, pois quando não adequados podem causar diversos danos aos
usuários.

3.2. Ergonomia e Análise Pós-Ocupação: uma contribuição da ergonomia à


arquitetura
A Ergonomia, definida por Laville (1977) como “o conjunto de
conhecimentos a respeito do desempenho do homem em atividade, a fim de
aplicá-los à concepção das tarefas, dos instrumentos, das máquinas e dos
sistemas de produção” (p. 1), tem como um de seus objetivos o estudo da

6
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

relação do ser humano com seus sistemas de trabalho. Portanto, sua função é
a de estudar os diversos fatores que influem no desempenho do sistema
produtivo e assim reduzir as consequências nocivas que acompanham o
trabalho, sendo este, no domínio em questão, considerado de uma maneira
mais ampla, não abrangendo apenas atividades que são executadas com
máquinas e equipamentos utilizados para transformar os materiais, mas
também toda a situação em que há o relacionamento entre o homem e
alguma atividade produtiva (IIDA, 2005).
O atendimento às exigências da Ergonomia dá a possibilidade de
maximizar o conforto e bem-estar do trabalhador ou usuário do ambiente,
diminuindo assim os efeitos negativos que posam vir a ocorrer no momento da
execução das tarefas. A Ergonomia, não apenas, evita aos trabalhadores os
postos de trabalho fatigantes ou arriscados, mas procura colocá-los na melhor
situação de trabalho possível, melhorando inclusive seu rendimento (CRUZ,
2006). Ou seja, esta, além de contribuir para o bem estar do homem contribui
ainda para o aumento da produtividade, não só do trabalho, como também
das atividades diárias, já que vem ampliando-se horizontalmente “abarcando
quase todos os tipos de atividades humanas” (IIDA, 2005, p. 1).
Pode-se afirmar ainda que a Ergonomia é uma ciência localizada em
um cruzamento interdisciplinar, com ciências como a psicologia, fisiologia e o
design, e com sua evolução e em seu aspecto mais contemporâneo passou a
estudar não só o produto, mas também que as atividades ocorrem dentro de
um ambiente físico com aspectos que devem ser agenciados (aspectos
posturais e ambientais). Da mesma maneira que as máquinas e sistemas
podem ser melhorados pelo uso dos estudos em Ergonomia, as edificações
também podem e assim percebe-se ainda um relacionamento desta ciência
6
com a arquitetura e com os estudos a respeito do ambiente construído , onde
as atividades são executadas.

6
O termo ambiente construído é utilizado de acordo com a definição de Ornstein (1992), ou seja, em um sentido
mais amplo, podendo se referir a micro e macroambientes, tais como o edifício, o espaço público coberto ou

7
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Metodologias de análise do ambiente, normalmente utilizadas na


arquitetura, podem ser inseridas nos estudos da ergonomia de forma a
complementar as análises ergonômicas, pois abarcam aspectos que estas
últimas algumas vezes não contemplam, e são importantes para o estudo do
espaço onde se desenvolvem as atividades cotidianas.
Um edifício passa por diversas fases antes de sua concepção tais
como planejamento, programa, projeto e construção, mas é após esta última
fase que deve passar por manutenções e avaliações para verificar as condições
de sua utilização. Uma ferramenta de análise do ambiente construído que tem
se mostrado eficaz é a Avaliação Pós-Ocupação (APO), que avalia edifícios de
uma maneira sistemática e rigorosa após estes terem sido construídos e
ocupados por certo período de tempo. É uma vertente interdisciplinar e que
tem seu foco nos ocupantes da edificação e em suas necessidades, e assim
fornecem informações a respeito das consequências das decisões de design,
tomadas no ato de projetação, no desempenho da edificação (PREISER, 1987).
7
Este tipo de estudo pode fornecer base para a realimentação de futuros
projetos semelhantes.
A APO é uma maneira de inserir o usuário na avaliação do ambiente e
que se difere das demais metodologias, “pois mesmo resgatando como
subsídios de análise a memória da produção do edifício, prioriza aspectos de
uso, operação e manutenção, considerando essencial o ponto de vista dos
usuários, in loco” (ORNSTEIN, 1992, p. 12). A necessidade de sistematizar uma
abordagem de avaliação do ambiente construído tem sido apontada por
diversos autores da ergonomia, que reconhecem que os procedimentos de
concepção projetual não são suficientes para a análise do desenvolvimento
das situações de uso (FONSECA & RHEINGANTZ, 2009). Esse reconhecimento,
ainda de acordo com os autores citados, justifica os estudos realizados pela

descoberto, a infra-estrutura urbana, a cidade ou, ainda, a região. Qualquer ambiente construído ou conjunto de
ambientes construídos, independente da complexidade e escala, é passível de avaliação.
7
Realimentação: termo utilizado por Ornstein (1992) quando se refere à utilização de informações obtidas nas
avaliações do ambiente em futuros projetos semelhantes.

8
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

ergonomia no ambiente construído. É importante avaliar a interface entre a


Arquitetura e outras áreas de estudo que envolvem a adequação e usabilidade
dos espaços construídos, como a Psicologia Ambiental, a Ergonomia Cognitiva,
a Ergonomia Física enquanto adequação dos espaços ao desenvolvimento do
trabalho que será desenvolvido nele (CRUZ, 2006).
A satisfação das necessidades humanas é uma condição básica para
que produtos e ambientes atendam aos requisitos básicos para o que foram
criados. “Quando um ambiente físico responde às necessidades dos usuários
tanto em termos funcionais (físico/cognitivos) quanto formais (psicológicos),
certamente terá um impacto positivo na realização das atividades”
(VILLAROUCO & ANDRETO, 2008). Ao desconsiderar tal condição podem ser
causados prejuízos e constrangimentos ergonômicos e cognitivos aos usuários.
De acordo com Smith & Kearny apud Fonseca & Rheingantz (2009) é
necessário prestar mais atenção ao que acontece quando as pessoas estão
pensando e como o ambiente interfere de maneira positiva ou negativa,
especialmente nas atividades que exigem concentração ou trabalho mental.

3.3. O ambiente em questão: laboratórios de ensino


Os problemas identificados nos ambientes de diversos setores e
destinados a usos variados levam-nos a supor a pertinência de tais questões
também nos espaços educacionais. Mais recentemente, os conhecimentos da
ergonomia que foram aplicados, no início, praticamente só em atividades de
produção industrial, vêm sendo utilizados cada vez mais no setor de serviços e
uma destas atividades que vem sendo estudada pela ergonomia é a atividade
escolar. Estes estudos vêm sendo realizados com objetivo de tornar as
atividades de ensino mais eficientes. O interesse neste tipo de ambiente pode
ser justificado facilmente, pois a educação é uma atividade que existe no
mundo todo e consome boa parte das parcelas dos orçamentos
governamentais (IIDA, 2005, P. 569).

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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Boa parte de nossas vidas transcorre na escola e na universidade e a


qualidade de vida das pessoas se dá, em boa parte, pela qualidade da vida que
se oferece nos ambientes escolares e por isso é interessante compreender os
espaços para que seja possível a criação de ambientes ideais para alunos e
professores, assim como para aperfeiçoar o processo de ensino e
aprendizagem (GILMARTÍN, 1998, p. 221). Este espaço “deve traduzir os
anseios e necessidades daqueles que o utilizam, incentivando-os a execução
de suas tarefas, passando o ambiente construído a ter uma grande
importância motivacional quando responde às demandas identificadas” (CRUZ,
2006). Deve ser um local coerente e de boa qualidade, pois é nele e a partir
dele que se desenvolve a prática do ensino.
As atividades realizadas no ambiente escolar variam de acordo com
critérios pedagógicos e a estrutura escolar, em especial quando se trata do
ensino superior onde são necessárias, em alguns casos, aulas específicas
realizadas em laboratórios didáticos. As Instituições de Ensino Superior (IES)
desempenham um papel importante na sociedade, pois têm a função
transmitir, criar e desenvolver conhecimentos e tecnologias. Assim sendo
pode-se deduzir que as IES têm obrigação de garantir o bem-estar do
educando de forma que este esteja apto à assimilação e aplicação dos
conhecimentos e técnicas oferecidas. Sendo a qualidade das suas instalações,
infra-estrutura, equipamentos e mobiliários fatores fundamentais no
desenvolvimento educacional. Torna-se de fundamental importância a não
interferência das características do ambiente no desempenho das atividades
do usuário.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A importância de uma abordagem sistemática de avaliação do ambiente
construído vem sendo discutida não só na área da Arquitetura, mas também
do Design e da Ergonomia. A associação de metodologias destas áreas de
estudo pode contribuir para que haja o entendimento do complexo sistema

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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

homem x mobiliário x ambiente construído e a partir desta compreensão é


então possível conceber ambientes que correspondam às demandas dos
usuários e das atividades que ali serão realizadas. No caso dos ambientes
escolares a configuração física assumida, assim como o mobiliário que está em
contato mais íntimo com o usuário exerce influência na maneira como o
estudante amolda-se ao meio em que se encontra, podendo interferir no
processo de aprendizagem.
A busca por ambientes que atendam as características e necessidades
dos usuários é crescente, de maneira que os novos projetos, assim como as
adequações daqueles existentes devem atender a esta demanda. Esta
necessidade de estudar os ambientes como um todo agregando metodologias
de áreas distintas fica mais evidenciada quando se percebe que cada vez mais
há uma lacuna entre os ambientes projetados e o real desempenho destes ao
longo dos anos de uso. Apesar do reconhecimento da importância destes
estudos do ambiente destaca-se aqui a necessidade de que a comunidade
acadêmica analise e conheça melhor suas implicações e desdobramentos.

Agradecimentos
O presente estudo foi desenvolvido com o apoio da CAPES -
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABERGO. Associação Brasileira de Ergonomia. Norma ERG BR 1002 - Código de


Deontologia do Ergonomista Certificado. In:
http://www.abergo.org.br/arquivos/Norma% 20ERG%20
BR%201002%20-%20Deontologia.pdf. [2003]. Acessado em 08.08.2010.
BINS E. V. Ergonomia + Arquitetura: buscando um melhor desempenho do
ambiente físico. Anais do 3º. Ergodesign – 3º. Congresso Internacional
de Ergonomia e Usabilidade de interfaces humano-tecnologia:
Produtos, programa, informação, ambiente construído. Rio de Janeiro.
LEUI/PUC – Rio, 2003.

11
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

BORMIO, M. F. Avaliação Pós-Ocupação ambiental de escolas da cidade de


Bauru (SP) e Lençóis Paulista (SP): um estudo ergonômico visto pela
metodologia do EWA. 2007. 166f. Dissertação (Mestrado em Design) –
Universidade Estadual Paulista, Programa de Pós-Graduação em Design,
Bauru, SP, 2007:
BRANDÃO, C. R.. O que é educação? 2. ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981
(Coleção Primeiros Passos, 20).
CRUZ, H. R. R. da S.. Avaliação Pós-Ocupação e apreciação ergonômica do
ambiente construído: um estudo de caso. 2006. 186 f. Dissertação
(Mestrado em Engenharia de Produção) – Universidade Federal de
Pernambuco. CTG. Programa de Pós-Graduação em Engenharia de
Produção, 2006.
FONSECA, J. F.. RHEINGANTZ, P. A. O ambiente está adequado? Prosseguindo
com a discussão. Disponível em: <www.scielo.br/pdf/prod/v19n3/08.pdf
>. Acesso em: 15 jun. 2010.
FROTA, A. B. SHIFFER, S. R.. Manual de conforto térmico. 8 ed. São Paulo:
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GILMARTÍN, M. Á. Ambientes escolares. In: ARAGONÈS, J. I. AMÉRIGO, M.
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237.
HIGNETT, S. MCATAMNEY, L. Rapid Entire Body Assessment (REBA). Disponivel
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IIDA, Itiro. Ergonomia: projeto e produção. 2. ed. São Paulo: Editora Edgard
Blücher, 2005.
LAVILLE, Antoine. Ergonomia. Tradução: Márcia Maria Neves Teixeira. São
Paulo: Editora Pedagógica e Universitária Ltda., 1977.
LIJEIRO, J. Ferramentas de avaliação ergonômica em atividades
multifuncionais: a contribuição da ergonomia para o design de
ambientes de trabalho. 2010. 219 f. Dissertação (Mestrado em Design)
– Universidade Estadual Paulista. Programa de Pós-Graduação em
Design, 2010.
ORSTEIN, S.W. Ambiente Construído & Comportamento: Avaliação Pós-
Ocupação e a qualidade ambiental, São Paulo, Ed. Nobel, 1995.
ORNSTEIN, S. W. ROMÉRO, M. Avaliação Pós-Ocupação (APO) do ambiente
construído. São Paulo: Studio Nobel, EDUSP, 1992.

12
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

PACCOLA, S. A. de O. Revisão de metodologias de avaliação ergonômica


aplicadas a carteira escolar: uma abordagem analítica comparativa.
161f. 2007. Dissertação (Mestrado em Design) – Universidade Estadual
Paulista, Programa de Pós-Graduação em Design, Bauru, SP, 2007.
PAULINO, R. C. M., Ambiente confortável x ambiente adequado. In: V
Encontro Nacional de Conforto no Ambiente Construído; II Encontro
Latino-Americano de Conforto no Ambiente Construído, 1999,
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1974. Coleção: Nuevo Urbanismo.
VILLAROUCO, V. ANDRETO, L. F. M. Avaliando o desempenho de espaços de
trabalho sob o enfoque da ergonomia do ambiente construído.
Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-
65132008000300009&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt>. Acesso em: 15 jun.
2010.

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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

A utilização de tecidos funcionais no


design de vestuário ergonômico para a
aplicação de agrotóxicos
8
Franciele Menegucci
9
Abílio Garcia dos Santos Filho

1 INTRODUÇÃO

Os produtos de vestuário fazem parte da interação do homem com o


ambiente e interferem diretamente na realização das tarefas diárias. Os
tecidos cobrem de 80% a 90% do corpo humano no cotidiano (SOUTINHO,
2006), e em vestuário de proteção, como o Equipamento de Proteção
Individual (EPI) utilizado na aplicação de agrotóxicos (calça e jaleco ou
macacão), este número pode chegar a 95% ou mais.
As pesquisas elaboradas com o objetivo de levantar informações
sobre o uso de EPIs por aplicadores de agrotóxicos indicam que a ausência de
conforto térmico e sensorial-tátil é um dos principais motivos que levam o
trabalhador a não utilização do EPI, pois, os indivíduos descrevem os EPIs
como produtos quentes, pesados e desconfortáveis (COUTINHO et al., 1994;
VEIGA et al., 2007; FERREIRA e CARVALHO, 2005; MONQUERO; INÁCIO; SILVA,
2009 ).
Os EPIs utilizados para a aplicação de agrotóxicos são confeccionados
atualmente nos materiais 100% algodão com tratamento hidro-repelente e os
não tecidos Tyvek/Tychem® e Kleenguard®. Estes materiais permitem certa
passagem da transpiração, porém, em climas quentes tornam-se insuportáveis
podendo causar excesso de sudorese, estresse térmico, doenças por contato
com a pele e doenças por exposição prolongada.
8
Mestranda em Design, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP - Bauru
9
Professor Livre-Docente , Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP - Bauru

14
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

IIDA (2005) explica que as aplicações da ergonomia na agricultura são


recentes se comparadas à indústria, menciona ainda que, neste setor o
trabalhador não possui um posto fixo de trabalho e executa tarefas variadas,
além disso, os trabalhos são árduos, executados em posturas inconvenientes,
demandam grandes esforços musculares, os ambientes são desfavoráveis sob
exposição direta ao sol e intempéries.
O objetivo desta pesquisa é revisar e identificar os tecidos funcionais
existentes no mercado conforme suas propriedades químicas e mecânicas
para, desta forma, selecionar e indicar os mais adequados para a confecção de
um produto de vestuário, similar ao chamado underwear ou camada de base,
para ser usado junto ao EPI (conjunto de calça e jaleco ou macacão) utilizado
pelos aplicadores de agrotóxicos. Este vestuário terá a finalidade de melhorar
a ergonomia do EPI quanto ao conforto sensorial-tátil, térmico e higienização
substituindo as roupas comuns e aumentando a segurança e conforto do
usuário.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 A importância do conforto no ambiente agrícola


No ambiente agrícola, os trabalhos devem estar de acordo com o
ambiente em que se executam tarefas e o estudo apropriado das operações
agrícolas deve apreciar a capacidade de trabalho e eficiência no campo,
visando racionalizar o sofrimento do trabalhador rural (SILVEIRA, 2006).
Para o aplicador de agrotóxicos o EPI é uma ferramenta indispensável
na realização das tarefas. È uma vestimenta e tal como as utilizadas no dia-a-
dia devem apresentar características básicas de conforto ou ausência de
desconforto quanto à forma, modelagem, materiais, texturas, dispositivos de
fechamento e abertura e outros, e no caso do EPI, com maior importância
devido às situações adversas em que são utilizados.

15
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Com o foco dirigido para a indústria de vestuário, Slater (1985, p. 4)


define conforto como “um estado prazeroso de harmonia fisiológica, física e
psicológica entre o ser humano e o ambiente”. Desta forma, o conforto pode
ser dividido em três aspectos, que são: o conforto térmico, que diz respeito a
um estado térmico e de umidade da superfície da pele agradável, que envolve
a transferência de calor e de vapor de água através dos materiais têxteis ou do
vestuário, o conforto sensorial-tátil, que é o conjunto de várias sensações
neurais quando um têxtil entra em contato direto com a pele e o conforto
psicológico-estético, que trata da percepção subjetiva da avaliação estética,
com base na visão, toque, audição e olfato, que contribuem para o bem-estar
total do portador.
De acordo com Paschoarelli (2003), os principais critérios utilizados na
avaliação de um produto são o desconforto (critério negativo) e o conforto
(critério positivo). Já para Noyes (2001) apud Valente (2009), conforto é um
estado mental que ocorre na ausência de desconforto, e a única maneira de
avaliá-lo é por meio da declaração do indivíduo sobre o quão confortável ele
se sente.
O estado de conforto térmico, que no caso do EPI estudado é o fator
de maior reclamação por parte dos usuários, é atingido quando o corpo
consegue dissipar o calor na proporção em que produz e, em alguns casos, que
recebe do meio. De acordo com a literatura pode-se assumir que o homem
tem melhores condições de vida e saúde quando trabalha sem ser submetido à
fadiga e ao estresse térmico (ALMEIDA; VEIGA, 2010).
No Brasil, nas regiões mais quentes, as condições ambientais são
úmidas e com temperaturas que ultrapassam 40ºC. A realização de atividades
em localidades de clima quente e úmido é mais difícil do que as mesmas
atividades realizadas sob condições amenas. Assim, é possível considerar que o
trabalho rural em países de clima quente úmido seria bastante insalubre,
podendo trazer conseqüências negativas à saúde do trabalhador (ALMEIDA;
VEIGA, 2010).

16
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

A simples utilização de EPIs por trabalhadores rurais já influencia a


forma como se dá a termorregulação corporal, pois o equilíbrio térmico é
alterado pela dificuldade da perda de calor por convecção, radiação e
evaporação. A conseqüência é que existe uma retenção de calor toda vez que
o corpo humano não consegue perder calor na quantidade necessária, devido
ao isolamento térmico provocado pela utilização de EPI’s, resultando num
conseqüente aumento na temperatura corporal.

2.2 O EPI (conjunto ou macacão) para a aplicação de agrotóxicos


O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) (BRASIL, 2001, p. 50)
define como Equipamento de Proteção Individual (EPI) “todo dispositivo ou
produto, de uso individual utilizado pelo trabalhador, destinado à proteção de
riscos suscetíveis de ameaçar a segurança e a saúde no trabalho”.
No Brasil a Norma Regulamentadora (NR) 6 exige que o EPI de
fabricação nacional ou importado só seja comercializado e utilizado após
avaliação com ensaios de laboratório para a emissão do Certificado de
Aprovação (CA), no entanto, Francischini (2009) e Veiga et al. (2007) relatam
que, para o trabalho com agrotóxicos ainda não existe no país um laboratório
que realize os ensaios recomendados e seja credenciado no MTE, nestes casos
o EPI é expedido apenas com um termo de responsabilidade técnica, sem a
avaliação da eficiência na proteção das exposições aos agrotóxicos e também
não há a realização de testes que comprovem a eficiência em relação ao
conforto, bem como, não existem testes de campo com os produtos.
A NR 31, que trata da Segurança e Saúde no Trabalho na Agricultura,
Pecuária, Silvicultura, Exploração Florestal e Aqüicultura, não cita a palavra
conforto, mas fala em desconforto quando menciona que cabe ao empregador
rural ou equiparado fornecer equipamentos de proteção individual e
vestimentas adequadas aos riscos, que não propiciem desconforto térmico
prejudicial ao trabalhador (BRASIL, 2005) .

17
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

A NR 31 considera trabalhadores em exposição direta “os que


manipulam os agrotóxicos, adjuvantes e produtos afins, em qualquer uma das
etapas de armazenamento, transporte, preparo, aplicação, descarte, e
descontaminação de equipamentos e vestimentas” (BRASIL, 2005, p. 107).
Para que exista a recomendação adequada do EPI é necessário que se
determine a exposição do trabalhador, no caso da exposição direta ao
agrotóxico, mais de 99% da exposição total ocorre na via dérmica e 1%, ou
menos, ocorre nas vias respiratórias (FRANCISCHINI, 2009), este dado
evidencia que no trabalho rural devem ser salientados os cuidados com a
proteção dérmica e imprescindível o uso do vestuário de proteção.
A proteção na aplicação do agrotóxico conjuga uma série de EPIs que
são: a touca árabe, conjunto de calça e jaleco ou macacão. Tanto o conjunto
quanto o macacão devem ser acompanhados por um avental de napa ou
plástico. Os demais EPIs utilizados são: luva (em nitrila ou neoprene), máscara
protetora, bota (PVC) e viseira facial.

2.3 Principais problemas encontrados na utilização de EPI – Calça e Jaleco ou


Macacão impermeável ou hidrorrepelente para aplicação de agrotóxicos
Inúmeros problemas podem ocasionar a inadequação dos EPIs a
certas condições de trabalho, pois características como uma maior resistência
de um tecido à permeabilidade, ao choque elétrico ou ao calor podem estar
associados ao aumento de peso, menor conforto térmico, menor conforto
sensorial-tátil e menos portabilidade dos EPIs.
Outro aspecto importante é a dificuldade de adequação dos EPIs às
características ambientais de cada localidade (VEIGA et al., 2007), pois o
usuário que trabalha em ambiente quente e úmido esta mais sujeito a
insalubridade do que aquele que trabalha em condições mais amenas.
O problema de inadequação às condições ergonômicas e ambientais é
uma das principais razões para o não uso dos EPIs na aplicação de agrotóxicos
devido ao desconforto térmico que estes apresentam. Em estudo realizado em

18
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Pati dos Alferes (Rio de Janeiro) os trabalhadores alegaram que os EPIs eram
quentes, pesados e desconfortáveis e em 68% dos 52 estabelecimentos rurais
não se usava equipamentos (COUTINHO et al., 1994). Em Teresópolis (Rio de
Janeiro) constatou-se que 71,8% dos 78 entrevistados não utilizavam
equipamentos de proteção recomendados e 10,3% alegaram que o motivo é o
desconforto dos equipamentos (COUTINHO et al., 1995).
Uma pesquisa sobre a contaminação por agrotóxicos em Sertanópolis
(Paraná), em 2005, verificou que 43% dos 14 trabalhadores entrevistados não
utilizam nenhum tipo de equipamento de proteção e 28% utilizam
equipamentos incompletos (FERREIRA; CARVALHO, 2005).
Em pesquisa realizada com 60 produtores rurais, em 2009 no
município de Araras (São Paulo), identificou-se que 22,2% não utilizam
nenhum tipo de EPI e 14,8% utilizam apenas máscara e luvas, a pesquisa
também revelou que os principais motivos apresentados pelos entrevistados
para a não utilização do EPI são: o fato de ser muito quente e incômodo,
dificultar a respiração e a mobilidade (MONQUERO; INÁCIO; SILVA, 2009).

2.4 Características dos materiais usados na confecção do EPI e o vestuário


utilizado por baixo
Os materiais mais utilizados na confecção do EPI de proteção para
aplicação de agrotóxico nos últimos anos são o 100% CO (algodão) com
tratamento hidro-repelente e os não-tecidos Tyvek/Tychem® e Kleenguard®,
materiais que superaram do PVC por permitir um melhor conforto térmico.
O algodão hidro-repelente, por ser elaborado com uma fibra natural,
possibilita a troca térmica, mas, precisa de reforço em lona ou PVC nas partes
mais expostas ao agrotóxico, Francischini (2009) salienta que, apesar do
material ser de algodão leve, ainda causa desconforto aos trabalhadores,
principalmente nas regiões agrícolas mais quentes.
Os materiais da Dupont (Tyvek/Tychem®) e o da Kimberly-Clark
(Kleenguard®) são desenvolvidos com fibras de polietileno e caracterizam-se

19
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

por serem impermeáveis e respiráveis. Nos dois casos os fabricantes indicam a


utilização de roupas em algodão por baixo do macacão com o intuito de
absorver o suor na pele, não permitir o contato direto do EPI com o corpo,
evitar fricção com a pele e cobrir o corpo do trabalhador quando este retira o
macacão.
O “Manual de Uso Correto de Equipamentos de Proteção Individual”
(ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE, 2003) indica que o conjunto ou macacão devem
ser vestidos sobre a roupa comum, fato que permitirá a retirada da vestimenta
em locais abertos e salienta que os EPIs podem ser usados sobre uma bermuda
e camiseta de algodão, para aumentar o conforto.
O trabalhador rural costuma usar por baixo do EPI roupas comuns
utilizadas no cotidiano como calça jeans e camisa ou camiseta, apesar de ser
claro nos manuais que o EPI não deve ser misturado a roupas comuns, não são
mencionados os cuidados que se deve ter com a roupa usada por baixo que
também pode ser contaminada quando o usuário retira o EPI.
Não existem estudos sobre as vestimentas utilizadas por baixo do EPI,
o que gera questionamentos sobre a adequação da roupa para a atividade
desempenhada, as possibilidades de contaminação desta vestimenta e sobre
os materiais mais indicados para sua confecção considerando a termo-
regulação corporal, o conforto sensorial-tátil, facilidade de manuseio e
higienização.

2.5 Os novos materiais têxteis: possibilidades de aplicação na confecção da


vestimenta utilizada em contato com o corpo
Para os países de clima quente, como o Brasil, o maior desafio é o
desenvolvimento de vestuários de proteção que proporcionem o conforto
sensorial-tátil por meio da absorção, transporte de umidade e secagem
evitando o efeito úmido-colante e o conforto térmico por meio da troca de ar.
Ocorre que a agricultura representa apenas 4% do mercado de EPIs, e o
restante do mercado é ocupado pela indústria, desta forma, a maior parte dos

20
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

EPIs são desenvolvidos para atender o ambiente industrial e adaptados para a


agricultura, senda esta uma das causas da inadequação (VEIGA et al., 2007).
Contudo, a indústria têxtil desenvolve, há algum tempo, materiais
têxteis capazes de intermediar a relação do corpo/pele com o EPI. Tratam-se
de tecidos que se usados por baixo do EPI podem substituir as roupas comuns
oferecendo propriedades funcionais como: absorção e transporte da umidade,
isolamento térmico e troca de ar, conforto sensorial-tátil (toque agradável na
pele), facilidade de higienização, propriedades anti-microbianas e proteção
UVA . Tecidos com estas propriedades são desenvolvidos para a aplicação no
setor esportivo, e usados na prática de esportes como o ciclismo e corrida.
Estes materiais podem ser aplicados no setor de vestuários de
proteção para os aplicadores de agrotóxicos, desta forma, o desempenho dos
EPIs poderia ser melhorado em curto prazo e sem a necessidade de grandes
investimentos, pois tratam-se de tecnologias que já estão sendo desenvolvidas
e disponibilizadas no mercado. As vestimentas usadas por baixo de roupas de
proteção são conhecidas como underwear, base layer ou segunda-pele, que
são vestuários específicos para serem utilizados em contato com a pele do
usuário.
Os tecidos capazes de desempenhar tais funções são chamados de
técnicos, funcionais e inteligentes. A principal diferença entre os têxteis
técnicos e têxteis funcionais para os têxteis inteligentes é a transformação das
funcionalidades passivas e de âmbito abrangente em funcionalidades “Smart”
(Inteligente), ativas e personalizadas para o usuário ou nicho de mercado,
capaz de modificar sua forma, estrutura e função em virtude de estímulos
externos (meio ambiente).
A melhoria no toque, conforto e apelo estético dos tecidos sintéticos
ou mistos com fibras naturais tem sido a maior contribuição às perspectivas
modernas em relação ao peso, proteção, função, aparência e desempenho dos
sistemas do vestuário (MCCANN, 2005 apud LASCHUK, 2008).

21
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

As características dos novos têxteis precisam ser estudas,


compreendidas e aplicadas no design de vestuário, principalmente quando se
trata de produtos voltados à proteção e utilizados em tarefas desgastantes
como o trabalho agrícola.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
As definições expostas sobre o EPI esclarecem a necessidade de
estudos mais aprofundados sobre o ambiente agrícola, onde as próprias
condições naturais e as tarefas podem, por si só, comprometer a segurança e o
conforto do trabalhador.
O conforto é definido de inúmeras formas, no entanto, fica claro que
um produto para ser classificado como confortável deve, no mínimo, não
impor dor, sofrimento ou estresse fisiológico ao usuário. Assim, com base nos
quatro estudos apresentados, pode-se afirmar que o EPI para aplicação de
agrotóxico disponível no mercado não apresenta um design ergonômico que
satisfaça o usuário.
Buscou-se apresentar e discutir no artigo as características dos
materiais usados na confecção do EPI e o vestuário utilizado por baixo que
interfere no desempenho e segurança por ser aquele que está em contato com
a pele. Este vestuário utilizado por baixo também exerce a função de EPI. A
partir das informações levantadas, sugere-se a possibilidade de inserção de
novos materiais têxteis na confecção do EPI e também do vestuário utilizado
por baixo que atua como uma segunda-pele.
O desenvolvimento tecnológico do setor têxtil possibilita o
surgimento de materiais têxteis funcionais, técnicos ou inteligentes, muito
utilizados em atividades esportivas, tanto em climas quentes como frios. Estes
tecidos quando aplicados em vestuário segunda-pele atuam na interface do
corpo humano com o vestuário externo e quando usados no vestuário externo
atuam na interface deste com o ambiente. Tais materiais são citados neste
artigo com o objetivo de levantar a hipótese de sua aplicação como alternativa

22
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

aos materiais que hoje são usados com o objetivo de aperfeiçoar o


desempenho do EPI quanto ao conforto sensorial-tátil, conforto térmico e
higienização.

Agradecimentos
O presente estudo foi desenvolvido com o apoio da CAPES –
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.

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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

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Estudos e Aplicações

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25
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Acessibilidade em Espaços Verdes:


Design e Ergonomia
10
Cláudia Nunes
11
Fernando Moreira da Silva

1 INTRODUÇÃO

A importância das disciplinas do design e da ergonomia na


promoção da acessibilidade é reconhecida, no entanto, encontram-se algumas
lacunas na aplicação dos seus fundamentos em áreas do planeamento da
cidade (urbanismo, paisagismo, arquitectura), nomeadamente no espaço “rua”
(alamedas, praças, largos, rossios, etc.) e nos espaços verdes (jardins e
parques).
Serve o presente texto reflectir sobre os conceitos de ergonomia,
design e acessibilidade no espaço exterior/verde, focalizando-se no idoso
(dado os problemas de senescência) como o transeunte mais desfavorecido do
ponto de vista do usufruto da cidade, de modo a se garantir os parâmetros de
qualidade de vida.

2 O idoso e o Espaço Exterior

A qualidade de vida é importante, estando interligada com a


satisfação das necessidades do Homem e como desenvolvimento das suas
potencialidades, situando-se as necessidades cognitivas e estéticas (como a
apreensão dos elementos do design do espaço: cor, escala, etc.) no topo da

10
Mestre em Design, doutoranda na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa.
11
Doutor em Design, Professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa.

26
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

pirâmide de Maslow, e estando na sua base as necessidades fisiológicas (as


12
primeiras a serem satisfeitas, como o saciar a fome e a sede).
Com o processo de envelhecimento, o ser humano experimenta
alterações do foro bio-psico-social. Com o envelhecimento populacional a nível
mundial (face à diminuição da natalidade e do aumento da esperança de vida,
nomeadamente nas sociedades desenvolvidas), torna-se cada vez mais
necessário garantir a plena acção do utente de espaços, sem limitações, entre
outras, a nível físico (acessibilidade no espaço exterior).
Este processo reflecte-se na diminuição progressiva, por vezes lenta,
das capacidades físicas e mentais. A inadequação do meio que rodeia o sénior,
exige-lhe um esforço cada vez mais árduo e com ele surge o desconforto
crescente e a dificuldade em se adaptar, até se verificar por fim, a
impossibilidade de manter uma vida normal, que o obriga a renunciar de
muitas das suas exigências, mesmo as mais primárias, acabando por se isolar
13
cada vez mais em casa .
Com o avançar da idade, dá-se uma perda progressiva da
mobilidade (com origem no enfraquecimento e degeneração muscular, rigidez
articular, problemas de coluna, tremores e descoordenação motora) e com
esta o risco e a vulnerabilidade aumentam, agravadas pela redução da
vertente sensorial, em particular da visão.
Assim, o espaço exterior deverá estar adaptado a esta realidade. Por
exemplo, a utilização de cores quentes e texturas (e.g. o amarelo aplicado nos
limites dos degraus) aumentam a percepção das componentes do espaço,
dada a problemática em torno da falta de visão no idoso. O espaço também
deverá estimular o andar, indirectamente ajudando a providenciar um
14
incremento de Vitamina D, a diminuir a degeneração muscular e até a apatia.

12
MOREIRA DA SILVA, F.J.C. (2000). Cor e Espaço: Quantidade e Qualidade. Lisboa. p. 4.
13
SIMÕES, J.F. Design Universal - Porquê? In Anuário 2001, Ano 9, Número 23/24. Lisboa: Edição Centro
Português de Design, p. 82.
14
BENNETT, P. (1998, Março). Golden Opportunities. Practise. Landscape Architecture, p. 50.

27
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

3 O Design e a Ergonomia

As disciplinas do Design e da Ergonomia recentemente se juntaram


para dar origem à metodologia do ergodesign, também designado por Design
Ergonómico.
As interacções entre o transeunte e o espaço (e actividades que lá
se desenvolvem) podem ser positivas, se forem ao encontro das suas
expectativas e não ocasionarem situações de exposição desfavorável, como o
criar situações de barreira (ambiental) à livre progressão no espaço.
Neste contexto o ergodesign pode desempenhar um papel de
grande valor e surge como uma das potenciais respostas a estas exigências,
devendo procurar soluções que tentem resolver ou atenuar estas limitações e
perdas sensoriais e o sofrimento decorrente delas.
Poderá expressar-se, através da redução das distâncias a serem
percorridas entre áreas de descanso, quer a nível das áreas equipadas e do
respectivo equipamento, contribuindo para um aumento do conforto e da
segurança, assegurando a acessibilidade no espaço exterior.
Entre outros, e sendo o recreio passivo (andar, passear, sentar,
conversar, contemplar a paisagem e animais, etc.) a actividade mais
15
pretendida pelo sénior , a localização, a qualidade, a dimensão (altura,
encosto, apoios laterais) e a existência de muitos bancos de jardim foram
repetidamente mencionados pelos transeuntes no estudo da autora, intitulado
“Design de Espaços Exteriores: Parques e Jardins Adaptados à Terceira
16
Idade”. Sendo a deslocação aos jardins/parques feita maioritariamente a
17
pé , é necessário ter em conta as barreiras ambientais que se podem
avizinhar (para tal existe legislação sobre a matéria, ver capítulo 4).

15
NUNES, C. (2008). Design de Espaços Exteriores: Parques e Jardins Adaptados à Terceira Idade. Lisboa:
Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, p. 232.
16
Idem, ibidem.
17
Idem, ibidem, p. 230.

28
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Os idosos revelam por vezes elevados níveis de ansiedade e


depressão, capazes de conduzir uma crescente reclusão com a consequente
entrada num processo de isolamento social. A presença de espaços dispondo
de árvores e zonas de relvado (jardins/parques), podem motivar a saída de
casa e à socialização - estabelecimento da comunicação presencial entre
indivíduos – sendo a perspectiva desta relação reforçada e referenciada em
vários estudos como indutores de saúde, inclusive mental. Os idosos ao
frequentarem os espaços verdes sentem-se mais calmos, relaxados e
18
descontraídos; também, mais comunicativos e desinibidos . A proximidade
destes espaços à habitação revela-se também importante, pois a familiaridade
19
e o reconhecimento destes são geradores de conforto.
Igualmente a sensibilidade às variações ambientais aumenta
(nomeadamente, chuva e frio; também, vento e calor excessivo), podendo
afectar as interacções físicas e sociais no espaço exterior, coibindo-se de sair
20
de casa .
Um estudo piloto, realizado por Sue Jackson, em 2003 na
Universidade de Newcastle, concluiu ser positiva a presença de árvores num
parque/jardim e que o balanço entre a sombra e a luz do Sol gerado por estas
na redução da luminosidade, facilitavam o olhar em várias direcções,
contribuindo para o deleite da paisagem (também, conforto e segurança do
espaço). Por sua vez, vistas não permeáveis desencadeavam receios e medos,
21
situações a serem evitadas ao máximo.
As zonas verdes quando ponderadas em termos metodológicos do
ergodesign têm efeitos positivos comprovados, contribuindo para o bem-estar
de pessoas idosas (física e psicológica) e enriquece o contacto comunitário
(benefício social).

18
NUNES, C. (2008). Design de Espaços Exteriores: Parques e Jardins Adaptados à Terceira Idade. Lisboa:
Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, p. 232.
19
BENNETT, P. (1998, Março). Golden Opportunities. Practise. Landscape Architecture, p. 55.
20
NUNES, C. (2008). Design de Espaços Exteriores: Parques e Jardins Adaptados à Terceira Idade. Lisboa:
Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, p. 231.
21
JACKSON, S. (2004, Abril). A Forgotten Group? (Health). London:Green Places, p. 26

29
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Segue-se um breve levantamento de algumas barreiras ambientais


comummente presentes em espaços verdes (Figuras I a VI).

I. Escada sem apoio de um II. Espelho da escada com pedras III. Altura do bebedouro
corrimão soltas e sem marcação com cor desconfortável
contrastante no limite do cobertor

IV a VI. Bancos, papeleira e bebedouro não acessíveis


(necessário transpor o lancil elevado e inexistência de um pavimento liso até aos mesmos)

Figuras I a VI – Aspectos negativos, em termos de acessibilidade,


em parques e jardins observados (Fonte: Autora, 2006)

4 Acessibilidade e Legislação

30
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Quanto à análise do enquadramento legislativo português, conclui-


se que existe legislação que tem em conta as necessidades físicas da
população idosa.
São vários os regulamentos existentes, sendo a legislação da
acessibilidade (ver ponto 4.2.) a que regulamenta ao pormenor o modo como
os espaços exteriores, nos quais se inserem os jardins e os parques, devem ser
concebidos.
Apesar do referido em Decreto-Lei existe a necessidade de adequar
as disposições em casos concretos, surgindo a necessidade de treino por parte
do projectista. Uma boa equipa projectual (que garanta soluções
técnicas/construtivas e de grande profundidade ao nível do projecto), uma
fiscalização atenta, pedagógica e punitiva, e a sensibilização para a
problemática da terceira idade, ajudam na concretização das normas
regulamentares, por parte das classes profissionais intervenientes.
A acessibilidade deve ser considerada como um dos parâmetros de
base na intervenção do espaço exterior, potenciando a segurança, o conforto
ambiental e a qualidade de vida (mas note-se que apenas satisfaz o plano
físico, devendo também desenvolver-se no planeamento/desenho da cidade,
soluções estratégicas que contemplem os foros mental e social da população).

4.1 Plano Nacional de Promoção da Acessibilidade

O Plano Nacional de Promoção da Acessibilidade (PNPA - Resolução


do Conselho de Ministros n.º 9/2007, de 17 de Janeiro) constitui um
instrumento estruturante das medidas que visam a melhoria da qualidade de
vida de todos os cidadãos e, em especial, a realização dos direitos de cidadania
das pessoas com necessidades especiais. As barreiras promovem a exclusão
social, acentuam preconceitos e favorecem práticas discriminatórias,
prejudicando, nomeadamente, as pessoas com deficiência e os mais idosos. No
que respeita aos espaços públicos das nossas cidades, verifica-se que estes não

31
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

são, em geral, acessíveis (PNPA, Anexo, 1). No seu anexo, ponto 2.2.2, refere
que o espaço público deve fundamentalmente, garantir a existência duma
rede de percursos acessíveis que interligue todos os principais equipamentos e
serviços urbanos.

4.2 Decreto-Lei da Acessibilidade

Para uma maior acessibilidade no espaço exterior há que ter


presente o Decreto-Lei n.º 163/2006, de 8 de Agosto.
Tem como finalidade, a correcção do revogado DL n.º 123/97 de 22
Maio (que introduz normas técnicas para eliminar barreiras urbanísticas e
arquitectónicas dos edifícios públicos, equipamentos colectivos e via pública),
ou seja, maior eficácia sancionatória, maiores níveis de comunicação e
responsabilização, novas soluções, mobilidade no edifício habitacional (acessos
e interiores), acções das organizações não governamentais na defesa dos
interesses (mediante acções cíveis e acção administrativa) das pessoas.
No preâmbulo refere a acessibilidade como reforço de
estabelecimento de laços sociais, maior participação cívica e solidariedade,
garantindo a acessibilidade por parte dos transeuntes com mobilidade
condicionada (em cadeira de rodas, incapazes de andar, percursos a grandes
distâncias, utentes com dificuldades sensoriais – cegos, surdos) e mobilidade
transitoriamente condicionada (grávidas, criança, idosos) ao eliminar-se as
barreiras ambientais.
Dá seguimento à Constituição da República no que respeita ao bem-
estar, qualidade de vida e igualdade - art. 9ºd) e 13º) e à Lei de Bases
prevenção, habitação, participação de pessoas com deficiências (Lei n.º
38/2004 18 Agosto) no que respeita à promoção da sociedade para todos
através da supressão das barreiras e a adopção de medidas que visem a plena
participação de pessoas com deficiência.

32
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

No art.º 1º define o objecto do decreto - “definição das condições


de acessibilidade a satisfazer no projecto e na construção de espaços públicos,
equipamentos colectivos e edifícios públicos e habitacionais [ponto 1+”.
O art.º 2º define o âmbito, “...espaços de recreio e lazer
nomeadamente, ... jardins ...” (ponto 2, alínea p).
O art.º 9º revela a necessidade de alterar instalações, edifícios e
espaços circundantes já existentes e o art.º 10º a sua excepção fundamentada
pelos motivos de obras difíceis, custos económicos-financeiros, e alterações
que afectem o património.
Segue-se em anexo o quadro resumo das intenções presentes no
decreto (segurança e confortabilidade em percursos acessíveis) na via pública
e espaços exteriores, como o jardim/parque (Quadro 1).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

“Se quisermos ter no futuro uma sociedade de pessoas activas,


participante e com qualidade de vida, temos de adequar o meio físico às
capacidades da generalidade das pessoas e não exigir-lhes que sejam elas a
22
adaptarem-se ao meio que projectamos”.
É para resolver esta desadequação que surgiram nos últimos anos
diversas metodologias projectuais, como se refere no texto – o ergodesign.
Sabendo as limitações do idoso, deve o projectista conceber o espaço
exterior com o intuito de reduzir situações que potenciem as suas fragilidades,
procurando e garantido soluções ao desenho do espaço.
Em suma, é importante o estabelecimento da comunicação entre o
espaço e o indivíduo, evitando a criação de barreiras
arquitectónicas/urbanísticas (ambientais), por omissão ou existência de
elementos que dificultem essa comunicação e a vivência no espaço (e.g. altura

22
SIMÕES, J.F. Design Universal - Porquê? In Anuário 2001, Ano 9, Número 23/24. Lisboa: Edição Centro
Português de Design, p. 83.

33
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

do passeio, má localização de placas de sinalização ou outro mobiliário


urbano), etc.

Agradecimentos

O presente estudo foi desenvolvido no âmbito da dissertação de


mestrado da autora Arquitecta Paisagista Cláudia Nunes, na Faculdade de
Arquitectura de Lisboa, e com o apoio do Professor Doutor Fernando Moreira
da Silva, como orientador.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BENNETT, P. (1998, Março). Golden Opportunities. Practise. Landscape


Architecture, pp. 50 e 55.
JACKSON, S. (2004, Abril). A Forgotten Group? (Health). London: Green Places,
p. 26.
MOREIRA DA SILVA, F.J.C. (2000). Cor e Espaço: Quantidade e Qualidade.
Lisboa, p.4.
NUNES, C. (2008). Design de Espaços Exteriores: Parques e Jardins Adaptados à
Terceira Idade. Lisboa: Faculdade de Arquitectura da Universidade
Técnica de Lisboa, pp. 230-232.
SIMÕES, J.F. Design Universal - Porquê? In Anuário 2001, Ano 9, Número
23/24. Lisboa: Edição Centro Português de Design, pp. 82 e 83.

34
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Anexos

Quadro 1 – Disposições gerais do Decreto-Lei da Acessibilidade 23

LOCAIS DISPOSIÇÕES

PASSEIOS E  Geral: largura a partir de 1,5m


CAMINHOS  Excepção: largura a partir 0,9m se o comprimento/troço for até 7m
ESCADARIA  Patamar superior e inferior com faixa de aproximação em material de revestimento com
textura diferente e cor contrastante com o restante piso
 Patim, lanço ou patamar com largura a partir de 1,2m
 Patamar superior e inferior com comprimento a partir de 0,7m se o desnível se verificar a
partir de 2,4m
 Escadas a vencer desnível a partir de 0,4m com corrimão de ambos os lados (às alturas
0,85m e 0,90m; no topo da escada deve existir um prolongamento do corrimão a partir de
0,3m e paralelo ao piso; na base a partir de 0,3m e na continuação do corrimão)
 A incluir nas escadas, rampas e/ou elevador

Degrau:
Espelho – E (altura em metros) Cobertor – C (comprimento em metros)
0,10 0,40-0,45
0,125 0,35-0,40
0,125-0,15 0,75
0,15 0,30-0,35

 Dimensão do cobertor e espelho constantes a cada lanço


 Arestas de focinho boleado com raio de curvatura entre 0,005-0,01m
 Faixas antiderrapantes e sinalização visual com largura a partir de 0,04m e encastradas
junto a focinho
 Degrau de arranque (C, cobertor e E, espelho) pode ser diferente do restante lanço se se
verificar a constante: 2 x E + 1 x C= Constante
 Escada de troço curvo: cobertor do degrau com largura a partir de 2/3 da largura da
escada
 Sem arestas vivas
 Degraus isolados (até 3) a evitar, mas se existirem ter em atenção a textura e cor do piso

23
Decreto-Lei nº 163/2006, de 8 de Agosto (Anexos)

35
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

ESCADAS  Declive até 6% em múltiplos inteiros de, no máximo, 0,75m (entre o focinho do 1º degrau e
EM a base do 2º degrau)
RAMPA  Escadarias com desníveis superiores a 0,4m com corrimão de ambos os lados ou duplo
NA VIA central
 Escadarias superiores a 3m de largura com corrimãos de ambos os lados ou duplo corrimão
central
 Escadarias superiores a 6m de largura com corrimão de ambos os lados e duplo corrimão
central
 Projecção horizontal de troços em rampa entre patins e troços de nível até 20m
RAMPA GERAL  Largura superior a 3m com corrimão de ambos os lados ou duplo corrimão lateral
 Largura superior a 6m com corrimão de ambos os lados e duplo corrimão lateral
 Declive até 6% (desnível ≤0,6m) com projecção horizontal até 10m, com um
corrimão dispondo de elemento preênsil à altura 0,85-0,95m
 Declive até 8% (desnível ≤0,4m) com projecção horizontal até 5m, com corrimão
duplo dispondo de elemento preênsil à altura 0,70-0,75m e 0,90-0,95m
 Faixa de diferente textura e cor no inicio e fim da rampa
 Largura de descanso, igual ou superior, à largura da rampa
 Comprimento igual ou superior a 1,5m
 Corrimão de ambos os lados (excepto: aquando de desnível até 0,2m , que
poderá não possuir corrimão, desnível 0,2-0,4m e declive até 6% com apenas um
corrimão lateral) prolongado 0,3m na base e topo e contínuos no lanço, e nos
patamares, paralelos ao piso
 Rebordo lateral a uma altura a partir de 0,05m ou muretes sem interrupção a
partir de 0,3m
 Distância entre guardas e outros elementos até 0,3m
OBRAS  Declive até 10% (desnível ≤0,2m) com projecção horizontal até 2m, com corrimão
CONSERV duplo, dispondo de elemento preênsil à altura 0,70-0,75m e 0,90-0,95m
AÇÃO/  Declive até 12% (desnível ≤0,1m) com projecção horizontal até 0,83m, com
ALTERAÇ corrimão duplo, dispondo de elemento preênsil à altura 0,70-0,75m e 0,9-0,95m
ÃO

36
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

RAMPA  Raio interno a partir dos 3m e declive até 8%


EM  Largura a partir de 1,2m (excepção: se a projecção horizontal for até 5m, a largura
CURVA pode ser a partir de 0,9m)
 Plataforma horizontal de descanso (base e topo) se a projecção horizontal for
superior e aquando de mudança de ângulo ≤ 90º

PASSAGEM À PASSEIO  Altura do lancil até 0,02m


DE PEÕES SUPERFÍC  Pavimento rampeado com:
IE - declive até 8% (na direcção da passagem)
- declive até 10% (na direcção do caminho)
PASSAGEM  Poderá existir um separador central
RODOVIA  Largura a partir de 1,2m, mas igual à da zebra
 Declive até 2% na direcção de atravessamento
SEMÁFOROS  Accionamento manual à altura 0,8-1,2m
 Sinal verde aos peões aberto à velocidade 0,4m/s e permitindo o
atravessar de toda a via ou até separador central
 Sinal verde sonoro perto de grandes vias ou zona de afluência de
invisuais
 Sumidouro a montante da passagem (evitando fluxo de águas
pluviais)
 Obras de construção/reconstrução/alteração com passagem de
peões com limites assinalados no piso por alteração da textura
ou pintura de cor contrastante, no inicio e fim de passagem, e
assinalados com sinalização táctil
DESNIVEL SEM  Largura a partir de 1,5m e corrimão duplo a altura de 0,75m e
ADA ESCADAS 0,9m (excepção aquando do uso de dispositivos mecânicos de
elevação: ascensores, plataformas elevatórias)

COM  Lanços/patins/patamares com largura a partir de 1,5m


ESCADAS  Faixa de aproximação ao patamar superior e inferior com
material de revestimento de textura diferente e cor contrastante
do outro piso
 Existência de rampas alternativas

37
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

OUTROS ESPAÇOS  Em espaços a partir de 100m2:


CIRCUNDANTES E DE - assegurar drenagem de água pluvial
PEMANÊNCIA DE - legibilidade de espaços garantida: elementos e textura de pavimentos devem indicar
PEÕES percurso de atravessamento
ESTACIONAMENTO  Proporção de lugares reservados a ocupante de mobilidade condiciona por total de
lugares disponíveis:
- 1 lugar reservado a ocupante de mobilidade condicionada para 10 lugares de
estacionamento
- 2 lugares para 11-25 lugares reservados
- 3 lugares para 26-100 lugares reservados
- 4 lugares para 101-500 lugares reservados
- n+1 para cada 100> n >500 (e.g. 5 para 501-600)
 Lugares reservados com largura a partir de 2,5m
 Faixa de acesso lateral de largura a partir de 1m (partilhável com dois lugares
contínuos), sendo assim a largura pode ser a partir de 5m
 Perto de entradas
 Limites pintados a cor contrastante
 Sinal horizontal dispondo de símbolo internacional da acessibilidade
 Sinal vertical visível dispondo de símbolo internacional da acessibilidade
 Símbolo internacional da acessibilidade, a cor contrastante e dimensão superior a
1m lado
 Contemplar sistema abertura/fecho de portas automáticas

38
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

As particularidades da relação: avaliação


pós-ocupação x edifícios históricos
24
Mariana Falcão Bormio
25
João Eduardo Guarnetti dos Santos
26
José Carlos Plácido da Silva

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho apresenta os primeiros estudos do projeto da


tese de doutorado, que dá continuidade à dissertação de mestrado “Avaliação
Pós-Ocupação ambiental de escolas da cidade de Bauru (SP) e Lençóis Paulista
(SP): um estudo ergonômico visto pela metodologia EWA”, desenvolvida no
Programa de Pós-Graduação em Design da Universidade vinculado à Faculdade
de Arquitetura Artes e Comunicação da Estadual Paulista (UNESP) - “Julio de
Mesquita Filho”, no ano de 2007 pela autora. Inicialmente segue-se a mesma
linha de raciocínio anteriormente abordada, enquanto a busca pelo
entendimento da melhor maneira de desenvolver a relação homem /
ambiente construído, utilizando-se de métodos ergonômicos de design – APO
(Avaliação Pós-ocupação) em ambientes escolares. Entretanto, complementa-
se tal abordagem questionando-se de que maneira pode-se atender as
necessidade de adequação para uma boa relação homem / ambiente, caso
esse ocorra em um edifício protegido pelo Patrimônio Histórico, ou seja, de
que maneira ou até que ponto, um projeto pode interferir nas características
originais de um edifício não descaracterizando-o e atendendo da melhor
maneira as necessidades contemporâneas, enquanto suporte tecnológico para

24
Mestre em Design, discente de doutorado do Programa de Pós-graduação em Design FAAC - UNESP, Bauru
25
Doutor em Agronomia, FAAC – UNESP, Bauru
26
Professor Titular do Departamento de Desenho Industrial , FFAC - UNESP, Bauru

39
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

o desenvolvimento das atividades, não deixando de lado a busca por conforto


ambiental, no atendimento das necessidades e expectativas físicas e psíquicas
do usuário.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 A relação existente entre o usuário e o ambiente construído


A ocupação de espaços pode ser entendida como uma das
necessidades básicas para existência do ser humano, pois, para o
desenvolvimento de atividades, seja ela qual for, faz-se necessário um suporte
físico, que pode ser, por exemplo, uma praça, uma rua ou edifícios
direcionados à moradia, atividades de lazer ou trabalho.
Segundo Rapoport (1978) pode-se entender esses espaços –
ambientes, como extensões tridimensionais do mundo que rodeia o ser
(intervalos, relações e distância entre pessoas, entre pessoas e coisas, e entre
coisas), organizados espacialmente de maneira a expressar significados ao
utilizar símbolos, materiais, cores e formas. E Santos (2001) complementa
atribuindo-os além do caráter físico, o estético, o informativo e o psicológico,
que dentro do contexto de projeto deve direcionar-se a agradar, servir,
proteger e unir as pessoas no exercício de suas atividades.
Complementando o espaço, o ser humano também necessita de
ferramentas que auxiliem no desenvolvimento de suas atividades. E quando
fala-se em ferramentas, abre-se um grande leque de possibilidades,
englobando desde artigos básicos como os de vestuário até maquinários de
alta tecnologia.
A importância de se estudar a relação existente entre o usuário,
suas atividades e o ambiente que está inserido, deve-se ao fato de que esses
três elementos constituem um sistema, e que todos os componentes desse
influenciam-se mutuamente, pois, é por meio das percepções e cognições que
o usuário obtém do ambiente, que ocorrem o seu condicionamento físico-

40
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

psicológico, seja positivamente, despertando sensações de conforto,


segurança e bem estar, que favorecem um bom desempenho e o aumento de
produtividade; ou negativamente, gerando constrangimentos e insatisfações.
As maiores dificuldades na obtenção da adequada conjugação
desses elementos, relacionam-se às dificuldades em identificar as
particularidades do usuário, o pré-estabelecimento das atividades a serem
desenvolvidas, a mudança do uso dos espaços, a ineficiência ou inadequação
de materiais entre outros.
Relacionado à satisfação que o usuário possui em relação aos
espaços, Atlas e Özsoy (1998) consideram que tal sentimento resulta de um
processo de cognições, percepções e reações, que se tem do conjunto de
condições e do relacionamento dos elementos que o constituem, ou seja, das
características do usuário, dos atributos físicos dos espaços e das crenças do
usuário sobre a vivência ou uso desses espaços.
Verdussen (1978) classifica estes fatores em dois grupos
considerando o imediatismo de sua influência: primários (temperatura,
iluminação, ruído, vibrações, odores, cores) e secundários (arquitetura,
relações humanas, remuneração, estabilidade, apoio social).
Considera-se, portanto, segundo Bormio (2007, B) que, para que
se possa projetar ambientes eficientes e eficazes, que satisfaçam seus
usuários, enquanto qualidade de vida, estética, funcionalidade, conforto,
salubridade e segurança, arquitetos e designers devem entender a maneira
como ocorre a relação ambiente / usuário / atividade, considerando a
importância de cada uma das componentes e a maneira como ela se apresenta
no sistema ao estabelecer influências diretas umas sobre as outras, devendo
ser respeitadas as características, necessidades e restrições particulares de
cada uma.
Esse fato é corroborado por Bormio (2007, A), ao entender que,
situações onde são identificados altos índices de concentração ou longos
períodos de exposição a um ou mais fatores ambientais, métodos inseguros de

41
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

trabalho - falta de controle e proteção; desorganização do trabalho; e


ambiente hostil, com má configuração, má sinalização e presença de barreiras
arquitetônicas; podem causar desarmonia no sistema, propiciando condições
inadequadas para a realização de atividades, podendo vir a acarretar em riscos
e/ou perigos ao usuário; assim como despertar sensações de desconforto
físico ou psíquico, sentimentos de estresse, monotonia, fadiga, e problemas de
saúde.
Entre os possíveis responsáveis por tais projetos, destacam-
se os Arquitetos e os Designers, que apresentam como características
marcantes, o desenvolvimento de projetos preocupando-se com formas,
beleza, estética, dimensões, materiais, usos e significados. Entretanto, a
preocupação com as necessidades e características particulares apresentadas
pelo usuário relacionando-as com o tipo de atividade que será desenvolvida, é
um conceito relativamente novo, e atualmente muito estudado pela área de
conhecimento da ergonomia.
Iida (2007) cita que sob uma visão ergonômica, essa
configuração deve buscar a saúde, segurança e a satisfação do usuário,
considerando que a saúde do trabalhador é mantida quando as exigências do
trabalho e do ambiente não ultrapassam as suas limitações energéticas e
cognitivas, de modo a evitar as situações de estresse, riscos de acidentes e
doenças ocupacionais, segurança, satisfação e eficiência
É importante destacar ainda que, segundo Ornestein e
Romero (1995) e Löbach (2001), a importância dos ambientes deve-se ao fato
de que, a partir das condições que neles são geradas (resultantes de múltiplos
fatores estabelecidos por meio de processos de planejamento), pode-se
alterar o modo de vida das pessoas. Não devendo-se, portanto, ignorar ou
desprezar a força de atuação que o ambiente exerce sobre as pessoas, mas sim
reconhecê-la e utilizá-la como um recurso a mais, pois, “nós modelamos a
arquitetura e por ela somos modelados” (HALL, 1981 p.99).

42
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Podendo-se dizer, portanto, diante dos fatos apresentados,


que o ato de projetar deve busca criar ambientes otimizados nos aspectos de
conforto, funcionalidade, economia e estética, aplicando os conhecimentos
artísticos, científicos, técnicos e da psicologia ambiental. Justifica-se assim, a
importância do desenvolvimento de pesquisas que enfoquem a criação de
metodologias a serem aplicadas no processo projetual.

2.2 Patrimônio histórico


A partir do contexto apresentado, onde buscou-se
fundamentar a importância da devida conjugação dos componentes da relação
homem / ambiente, destaca-se um outro aspecto, que consiste na indagação
de como desenvolver um projeto que busque a otimização dessa relação,
quando esse ambiente constitui-se em um patrimônio histórico tombado, ou
seja, apresenta restrições enquanto alterações e adequações de sua
configuração e estrutura física e estética.
Inicia-se tal discutição com a definição de patrimônio
histórico, que segundo Pellegrino (2002, p.7), possui diferentes significados,
mas que em sentido amplo, pode-se considerar que:
“os bens patrimoniais são materialidades e
práticas culturais que, ao serem contempladas e despertarem a
reflexão, destacam-se no tecido urbano e no conjunto das
manifestações populares por mediarem distintos fatos históricos
memoráveis, personagens ilustres ou por representarem heranças
técnicas, estéticas e culturais de temporalidades passadas. O
sentido geral de patrimônio se compõe tendo como princípio
estrutural os distintos tipos de elementos que presentificam o
passado e encarnam um sentido de continuidade devido às suas
particularidades”.
Para Françoise Choay (2001) o patrimônio histórico é um
bem destinado ao usufruto de uma comunidade que se ampliou a dimensões
planetárias, constituído pela acumulação contínua de uma diversidade de

43
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

objetos que se congregam por seu passado comum: obras e obras-primas das
belas artes e das belas artes aplicadas, trabalhos, produtos de todos os saberes
e savoir-faire dos seres humanos.
Neste contexto, torna-se clara a importância de preservá-los,
ou seja, segundo Picanço (2009), deve-se defender, resguardar, tratar, cuidar,
de maneira a não agredir qualquer objeto ou ser vivo; manter assim os
testemunhos das manifestações culturais que possibilitem que uma sociedade
reconheça a sua identidade, valorizando-a e estabelecendo referências para a
construção de seu futuro.
Especificamente a respeito da preservação do objeto
arquitetônico, Costa (2006) o entende como o ato ou processo de aplicar
medidas necessárias para a sustentação da forma, da integridade e de
materiais existentes em um propriedade histórica. Entretanto, indaga-se como
definir o que é patrimônio histórico, uma vez que, esse abrange uma vasta
gama de aspectos, que correm o risco de, muitas vezes, se perder em meio a
questões que são consideradas mais importantes? Segundo Choay (2001),
deve-se questionar se o objeto a ser classificado como um patrimônio
histórico, possui características que o constitui como um elemento revelador,
negligenciado mas brilhante, de uma condição da sociedade e das questões
que ela encerra. Portanto, deve-se destacar que não é qualquer bem que é
considerado patrimônio histórico, somente aqueles que se apresentam como
a revelação da história de uma comunidade, de um estado e até mesmo de um
país; aquele que denota a condição de uma sociedade e os pensamentos de
uma época, embora, na maioria das vezes, apresente-se quase totalmente
desfigurado pelas ações humanas irresponsáveis.
Choay (2001) ressalta que o patrimônio histórico
representado pelas edificações é o que se relaciona mais diretamente com a
vida de todos. Pois, de acordo com Salcedo (2007), ao definir a arquitetura
como a expressão de uma cultura, julga-se que essa deveria ser conservada,
restaurada, reciclada, reabilitada, requalificada para preservar a história, a

44
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

identidade, a memória dos cidadãos, tanto das gerações presentes como das
futuras.
Muitas são as maneiras existentes de intervir nos edifícios,
dentre as quais Salcedo (2007) cita: a restauração, quando se conserva e
revela os valores estéticos e históricos do monumento; a reabilitação, quando
se pretende manter o uso original e a população que neles habita; e a
reciclagem, quando há a adequação do edifício a um uso diferente do original.

2.3 Avaliação Pós-Ocupação


Inserido no contexto da busca pela melhor maneira de se
desenvolver projetos em edifícios tombados, protegidos pelo Patrimônio
Histórico, visando atender as necessidades do usuário, enquanto atendimento
de suas necessidades e expectativas físicas e psíquicas, para um adequado
uso, respeitando as características originais do edifício, não descaracterizando-
o, e atendendo da melhor maneira as necessidades contemporâneas,
enquanto suporte tecnológico para o desenvolvimento das atividades;
destaca-se as pesquisas desenvolvidas pela ergonomia, mais especificamente
pelo segmento metodológico de Avaliação Pós-Ocupação (APO).
O uso de tal abordagem justifica-se, por consistir em um
método ergonômico de interdisciplinar, que trata de um dos mecanismos de
realimentação de projetos semelhantes ao de controle de qualidade do
ambiente construído no decorrer de sua vida útil; podendo ser aplicado na
fase posterior ao projeto, diante sua produção ou construção e/ou durante sua
ocupação.
A APO, segundo Ornstein e Romero (1992), é desenvolvida
por uma série de métodos e técnicas que diagnosticam fatores positivos e
negativos do ambiente no decorrer do uso, a partir da análise de fatores
socioeconômicos, de infra-estrutura e superestruturas urbanas dos sistemas
construtivos, conforto ambiental, conservação de energia, fatores estéticos,
funcionas e comportamentais.

45
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Para Elali (2002), entre os principais métodos/técnicas


atualmente utilizados nessa área, destacam-se: vistorias técnicas,
levantamentos dos aspectos arquiteturais e mobiliários; medições do
dimensionamento e dos fatores físico-ambientais como temperatura,
luminosidade, ruído; questionários e formulários; check-lists, entrevistas;
observação de comportamento e usos; documentação através de imagens
fotográficas e vídeos; documentação gráfica - projeto arquitetônico, croquis e
simulações. As avaliações técnicas podem ser realizadas utilizando-se métodos
de observações - vistorias "in loco" e por meio de medidas dos parâmetros
físicos; enquanto que, a opinião dos usuários pode ser coletada através de
entrevistas e questionários (DURANTE, 2000).
Para Almeida (2001), analisar ambientes durante o uso tem
se mostrado uma forma muito eficiente de investigar como as pessoas
movimentam-se nele, e buscar compreender como são construídos os
referenciais em relação ao espaço, pode tornar explícito o conhecimento sobre
o papel dos elementos arquitetônicos na composição do espaço vivencial. Em
outras palavras, a ergonomia surge então na arquitetura como o meio de
conhecer o usuário.
Neste contexto, a APO pressupõe que os espaços construídos
interfiram no comportamento humano assim como sofrem alterações por
meio da conduta de que os utiliza; de modo que sob o ponto de vista do
usuário, sua organização e seu contexto social, político, econômico e cultural,
sendo fundamentais para que transcorra de forma eficiente e com maior
credibilidade, não sendo apenas uma análise de desempenho técnico e
profissional (PICANÇO, 2009).
É importante destacar ainda, as considerações feitas por Castro
et.al. (2010), onde consideram que a importância da utilização da metodologia
Avaliação Pós-Ocupação (APO) justifica-se pelo fato de que as edificações e os
espaços livres precisam ser sistematicamente avaliados, do ponto de vista
funcional, composição espacial, conforto e bem-estar humano e,

46
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

especialmente, do ponto de vista técnico-construtivo. Os autores ressaltam


ainda que, para que essas análises sejam realmente eficazes deve-se buscar a
participação na análise dos futuros usuários na elaboração da programação do
projeto; atentar-se de o projeto respeitado durante a execução da obra;
atentar-se ao fato de que poderão ocorrer mudanças gradativas de uso ao
longo da vida útil da edificação, acarretando em diversas reformas parciais; e
por fim que poderá ocorrer a necessidade de instalação de equipamentos
adaptando-se as novas tecnologias.
Algumas pesquisas já direcionam a aplicação da metodologia
APO em ambiente tombado, e os resultados obtidos mostram que ela pode ser
considerada como uma grande aliada na obtenção de projetos que atendem as
necessidades do usuário, assim como mostram alternativas para o respeito à
essa edificação.
Segundo Ornstein (1992), traça alguns parâmetros para a
avaliação em ambiente, como a associação dos conceitos interdependentes
de desempenho (análise qualitativa), idade-limite (período de tempo durante
o qual o ambiente construído atende às necessidades dos usuários) e
necessidades dos usuários aos princípios de avaliação abaixo definidos:
Ao desenvolver uma comparação entre os trabalhos
desenvolvidos por alguns autores, por meio da aplicação da metodologia APO
em ambientes históricos, foi possível traçar um quadro identificando alguns
itens presentes, tabela 01.
Tabela 01 – Comparação entre itens utilizados em metodologias APO
aplicadas em Edifícios Tombados pelo Patrimônio Histórico

47
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Como pode ser constatado na Tabela 01, muitos são as variáveis


a serem analisadas em uma APO em edifício histórico tombado, acredita-se
ainda que muitos outros itens irão surgir conforme essa pesquisa for sendo
desenvolvida, pois, a elaboração de metodologia deve ser adequada às
especificidades de cada objeto de estudo.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esperando ter explicitado a importância da utilização da APO no


contexto do patrimônio histórico arquitetônico, conclui-se o presente trabalho
destacando que a pesquisa citada, em desenvolvimento, direcionará seus
estudos ao ambiente escolar. De maneira a favorecer uma possível
comparação entre os resultados obtidos na pesquisa inicial e os que virão.

48
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Destaca-se nesse momento em corroboração a tal escolha as


considerações de Abreu et.al. (s/d), onde os autores destacam a importância
do ensino, uma vez que este proporciona à população de um país um
desenvolvimento social, cultural e econômica. Desta maneira, o edifício escolar
é um instrumento físico para o exercício dessa atividade, e que a qualidade do
aprendizado depende da adaptação do estudante à configuração física do
ambiente construído.

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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

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moderno: reciclagem, requalificação, rearquitetura. 2007. Porto Alegre: anais
do 7° docomomo Brasil.

51
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

“Bainha de segurança para


acondicionamento de facão canavieiro
durante sua vida útil”
27
Frederico Reinaldo Corrêa de Queiroz
28
João Eduardo Guarnetti dos Santos

1 INTRODUÇÃO

Segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS (1994), “a cada 3


minutos morre um trabalhador, em alguma parte do mundo, vítima de
acidente de trabalho”. Neste sentido, a agricultura é considerada pela
Organização Internacional do Trabalho – OIT como uma das atividades
profissionais de maior risco, equiparando-se à construção civil e à exploração
do petróleo.
A história da cana-de-açúcar no Brasil iniciou-se em 1532, com a
chegada das primeiras mudas trazidas pela expedição de Martim Afonso de
Souza. Atualmente, o Brasil é o maior produtor de cana-de-açúcar do mundo,
seguido pela Índia e Austrália. Das 307 usinas e destilarias espalhadas pelo
Brasil, 128 estão no estado de São Paulo, que é responsável por 60% da
produção nacional (CHRISTOFOLI, 2003).
No interior paulista, o alto índice da tecnologia utilizada na
agropecuária não previne a possibilidade de acidentes com trabalhadores
rurais, uma vez que estes exercem atividades com baixo padrão tecnológico,
sobretudo as vinculadas ao plantio e corte de cana-de-açúcar. Deste modo,

27
Engenheiro de segurança do trabalho, mestrando em Design, PPG Design – FAAC/UNESP-Bauru-SP
28
Professor livre-docente do depto de Eng. Mecânica UNESP - FEB - Bauru – SP e da PPG Design – FAAC/UNESP-
Bauru-SP

52
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

estes trabalhadores, em sua maioria, sofrem acidentes no exercício diário de


sua profissão (TEIXEIRA & FREITAS, 2003).
No Brasil existem cerca de 35 milhões de trabalhadores no setor
agrícola. Segundo a Fundacentro, cerca de 64% das operações de risco na
agricultura estão ligadas às atividades de colheita e tratos culturais, onde se
registram 56% dos acidentes. Entre os principais fatores causadores de
acidentes, estão os equipamentos manuais.
Todos os estudos e dados obtidos com relação a acidentes do
trabalho, estão relacionados à utilização das ferramentas manuais no ato do
trabalho.
Alguns autores como Antenor Pelegrino (1988) e José Luis Viana do
Couto (2006) sugerem cuidados no transporte e armazenamento de
ferramentas manuais com a utilização de bainhas (capa protetora) para
ferramentas de corte. Porém, não são todos os locais de comercialização que
oferecem este item, e quando possuem, se restringem a poucos modelos ou
tamanhos.

2 REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

A devastação das vegetações litorâneas brasileiras iniciou-se com os


colonizadores europeus desde o século XVI, com a exportação do pau-brasil
como matéria-prima para tingir tecidos. Posteriormente, essa devastação
continuou devido às culturas de exportação (“plantations”) como a cana-de-
açúcar seguida pela pecuária extensiva, passando pelos ciclos do ouro até
chegar à exploração do café. Toda a economia era voltada para a exportação.
Um continente com terras inexploradas a milhões de anos seria extremamente
fértil a qualquer tipo de exploração agrícola, conforme escreveu Pero Vaz de
Caminha : “...em se plantando tudo dá...” (De Jesus, 1996).
Atualmente, a agroindústria canavieira emprega um milhão de brasileiros no
corte da cana-de-açúcar, sendo que mais de 80% do que colhido é cortado à

53
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

mão, segundo a União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (ÚNICA,


2003). O corte da cana é precedido da queima da palha da planta, o que torna
o trabalho mais seguro e rentável para o trabalhador.
A produtividade agroindustrial teve nos últimos anos significativa evolução. Na
região centro-sul do Brasil que responde por 85% da produção brasileira, a
média oscila entre 78 e 80 toneladas por hectare, em ciclo de cinco cortes. No
Estado de São Paulo, responsável por 60% da produção nacional, a média está
ao redor de 80 a 85 toneladas por hectare, em ciclo de cinco a seis cortes
(ÚNICA, 2003).
Uma tonelada de cana-de-açúcar moída produz em média 850 litros de caldo,
dos quais 78 a 86% é água, de 10 a 20% sacarose, 0,1 a 2% de açúcares
redutores, 0,3 a 0,5% de cinzas e 0,5 a 1% são compostos nitrogenados. Todo
material insolúvel em água é definido como fibra, sendo que o caldo é
composto pela água e todos os sólidos solúveis. A planta também contém: 2%
a 4% de glicose, 2% a 4% de frutose, 3% a 5% de sais, 0,5% a 0,6% de
proteínas, 0,001% a 0,05% de amido, 0,05% a 0,15% de ceras e graxas e 3% a
5% de corantes (LIMA et al., 2001apud KESSERLINGH, 2002 ).

2.1 Acidentes com ferramentas manuais de corte

O maior número de acidentes na cultura da cana-de-açúcar ocorre durante a


atividade do corte manual. Mesmo que, para ser encaminhada ao setor
industrial da usina, envolva inúmeras atividades pós-corte, como por exemplo,
o enleiramento ou amontoamento e o carregamento. Os equipamentos
manuais estão entre os principais fatores causadores de acidentes. Somente o
uso do facão é responsável por 65% das ocorrências de acidentes registradas.
No corte manual da cana-de-açúcar, por exemplo, o trabalhador rural está
sujeito a uma série de riscos de acidentes, próprios da operação, dos quais
pode-se destacar: cortes nas mãos, pernas e pés, provenientes da utilização do

54
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

facão, foice ou podão, além de lombalgias, dores musculares, lesões oculares,


irritação da pele, quedas e ferimentos (COUTO, 2006).
A Fundação Getúlio Vargas (1983) verificou que a freqüência de acidentes no
corte manual da cana-de-açúcar foi a seguinte: 44,3% no corte, 15,6% no
carregamento e 39,9% em outras atividades.
A segurança do trabalho é um assunto de maior importância, que não
interessa apenas aos trabalhadores, mas também as empresas e a sociedade
em geral, pois um trabalhador acidentado, além dos sofrimentos pessoais,
provoca despesas ao sistema de saúde e passa a receber seus direitos
previdenciários, que são pagos por todos os trabalhadores e empresas (IIDA,
2005).
Na análise dos acidentes, muito já se conhece sobre as falhas mecânicas e
materiais do sistema. As engenharias já dispõem de várias técnicas para
dimensionar máquinas e os materiais, de acordo com as resistências e
solicitações requeridas. Por outro lado, muitos acidentes têm sido atribuídos a
“falhas humanas”. As descrições destas falhas geralmente recaem nas
categorias de negligências, sono, alcoolismo e outras deficiências do ser
humano. A ergonomia tem uma visão mais abrangente. Ela analisa
principalmente as interações do sistema, com o seu usuário (IIDA, 2005).
A atuação sobre o trabalhador deve ser considerada como medida de segunda
ordem. Os seres humanos apresentam variações de comportamento e não se
pode esperar que estejam sempre atentos e vigilantes para prática de atos
seguros. A primeira providência para se atuar sobre o trabalhador é afastá-lo
das partes perigosas. Se esse afastamento não for possível, recomendam o uso
dos equipamentos de proteção individual (EPI), como último recurso (IIDA,
2005).
O projeto seguro é aquele que não expõem o operador ao risco (IIDA, 2005).
A atuação da ergonomia, na indústria moderna, não se restringe apenas a uma
contribuição esporádica durante o projeto de produtos e sistemas. Esta deve
iniciar-se desde a definição das especificações desses produtos e sistemas e

55
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

chegar até a efetiva implementação e funcionamento dos mesmos. Além


disso, realiza estudos para melhorar as condições de trabalho já existentes
(IIDA, 2005).
A agricultura é considerada um dos maiores inventos da humanidade. Ela
ocorreu no período neolítico, a cerca de 5.000 anos A.C. na Mesopotâmia e
Egito. Com o cultivo da terra e a manutenção de rebanhos, o homem primitivo
deixou de depender apenas da coleta e da caça, passando a produzir o seus
alimentos. Isso criou condições de fixação do homem à terra e possibilitou o
aumento da população (IIDA, 2005).
Apesar disso, as aplicações da ergonomia na agricultura são relativamente
recentes, se comparadas com aquelas na indústria. Os trabalhadores na
agricultura são do tipo não-estruturado porque, ao contrário do que ocorre na
indústria, os trabalhadores geralmente não possuem um posto fixo de trabalho
e as suas tarefas são muito variáveis. Esses trabalhos em geral são árduos,
executados em postura inconvenientes, exercendo freqüentemente grandes
forças musculares, em ambientes desfavoráveis, sob exposição direta ao sol e
intempéries (IIDA, 2005).

2.2 Uso de bainha nas ferramentas manuais de corte

O ministério do trabalho e emprego possui a cartilha do trabalhador rural (Lei


5.889 de 08/06/1973 e decreto 73.626 de 12/02/1974), onde no item-
ferramenta, determina: “Gratuitas, seguras, eficientes, cabos aderentes e em
perfeito estado de uso. As que possuem corte devem estar afiadas e
guardadas em bainhas.”
De acordo com a Norma Regulamentadora Rural (NRR-4) de 12/04/1988 –
especifica-se no item 4.1 os Equipamentos de proteção individual (EPI):
“Considera-se EPI, para fins de aplicação desta Norma, todo dispositivo de uso
individual destinado a preservar e proteger a integridade física do
trabalhador”.

56
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Na NR-31 (Norma regulamentadora que vem para atualizar e substituir as


NRR’s) de 03/03/2005 (anexo C)–Segurança e saúde no trabalho, na
agricultura, pecuária, silvicultura, exploração florestal e aqüicultura, especifica-
se no item 31.11: Ferramentas manuais; sub-item 31.11.4 as ferramentas de
corte devem ser:
A) guardadas e transportadas em bainha;
B) mantidas afiadas.
O transporte de ferramentas deve ser feito com bastante responsabilidade e
nunca devem ser transportadas junto a pessoas. Em hipótese alguma o
trabalhador pode carregá-las nos bolsos, na cintura e demais partes do corpo.
O correto é transportá-las em sacolas, caixas ou bolsas de lona. Ferramentas
de corte ou pontudas, como facas, machados, serrotes ou punções, devem ser
guardadas em bainhas, o que garante uma melhor conservação das mesmas e
elimina o risco de acidentes (PELEGRINO, 1988; COUTO, 2006).
Na concepção de produtos de segurança é importante: selecionar os materiais
apropriados para o processo de fabricação; definir dimensões ergonômicas
básicas do produto e componentes; construir modelo ou protótipo; testar a
concepção; verificar pontos ergonômicos fracos e corrigi-los (DIAS et al, 2000).
Tecnologias novas têm sido utilizadas no setor rural, promovendo a
mecanização do corte da cana-de-açúcar. Alguns estudos sugerem que o uso
de mais tecnologia na colheita da cana poderia beneficiar a saúde do
trabalhador rural, eliminando a insalubridade, a periculosidade e a penosidade
nas frentes deste tipo de trabalho, além de trazer inúmeras vantagens
econômicas e ambientais (SCOPINHO et al., 1999).
Entretanto, cabe questionar e investigar até que ponto as mudanças que estão
sendo introduzidas na base técnica do processo de trabalho de corte da cana-
de-açúcar podem contribuir para reverter o perfil de adoecimento dos
assalariados rurais.
O corte mecanizado requer a utilização de meios e instrumentos de trabalho,
tais como caminhões e tratores rebocadores, caçambas para conter a cana

57
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

cortada, caminhões-oficina, caminhões-tanque para água e para combustível,


além das colhedeiras. Essa prática torna-se economicamente viável somente
com a utilização de um número mínimo de colhedeiras: entre três e cinco
(SCOPINHO et al, 1999).
As dificuldades enfrentadas na colheita de cana-de-açúcar qualificam a
operação agrícola como uma atividade muito complexa. Sua realização e
planejamento estão envolvidos com inúmeros fatores relacionados o
comportamento biológico da cultura até o momento em que a matéria-prima
está na indústria, pronta para a moagem. Entre estes extremos, há que se
considerar fatores como o relevo da região, legislação ambiental e de
transporte, condições viárias de estradas, recursos disponíveis para aquisição
de equipamentos e capacidade de processamento da indústria. Além disso, as
condições climáticas podem, repentinamente, fazer com que todo plano seja
revisto (LOPES, 1992).
Apesar das necessidades da maioria das fábricas de açúcar serem a mesma, a
cultura se dá, ao redor de todo o planeta, em áreas de variado relevo e
condições climáticas e com isso são criados inúmeros sistemas de colheita, os
quais apresentam características extremamente adversas. Mais do que
qualquer prática agronômica na cultura canavieira, o sistema de colheita é
intrinsecamente casualizado ao nível de cada agroindústria (MEYER &
RICHARD, 1996)

3 Considerações finais

Esta pesquisa tem como objeto analisar um tipo de facão canavieiro,


desde sua fabricação até o seu descarte, para assim poder desenvolver uma

58
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

bainha de segurança com design ergonômico que possa ser eficiente no


decorrer de toda vida do facão canavieiro.
Trata-se de uma pesquisa experimental, desenvolvida através de
raciocínio indutivo, com dados colhidos de uma amostra de 50 facões
canavieiros e a fabricação de um modelo de bainha de segurança para o
mesmo.
Será feito uma visita junto ao fabricante, podendo assim entender
suas faces de fabricação e obter os facões para análise com o mesmo e com os
seus clientes.
O material utilizado será ensaiado uma parte no IPT de Franca.
(Laboratório credenciado pelo MTE) e outra no laboratório da UNESP de
Bauru.
A determinação da vida útil do facão canavieiro será feito com
auxilio de um paquímetro de 300 mm, para assim determinar a área utilizada
da lâmina de corte.
Com as dimensões da área da lâmina de corte do facão canavieiro
durante sua vida útil, e a análise de resistência do material a ser utilizado; será
desenvolvido um modelo de bainha de segurança com design ergonômico
eficiente para toda vida útil do facão canavieiro.
Não esquecendo que este produto será utilizado por trabalhadores,
assim após a fabricação do modelo, será feito um teste com 30 trabalhadores
que tenham contato com este produto (cortadores, motoristas, almoxarifado),
para possíveis melhorias no produto final.
Espera-se assim uma pequena contribuição na qualidade de vida aos
trabalhadores rurais, até que se possa afastá-los desta condição de risco.
Agradecimentos

Agradeço a Deus pela oportunidade de poder fazer algo pelo meu


semelhante.

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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Agradeço aos membros da Pós Graduação em Design e Ergonomia,


da Faculdade de Artes, Arquitetura e Comunicação do Campus da Unesp de
Bauru-SP, por proporcionar ser possível um trabalho de design ergonômico em
um setor tão carente de trabalhos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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cana-de-açúcar em uma agroindústria sucroalcooleira. Bauru, 2003.
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61
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Comunicação Visual e Design Inclusivo,


Cor, legibilidade e visão envelhecida
29
Maria Cristina Pinheiro
30
Fernando Moreira da Silva

1 INTRODUÇÃO

Este artigo apresenta um Projecto de Investigação ainda em


desenvolvimento, que está a ser realizado no âmbito do Curso de
Doutoramento em Design da Faculdade de Arquitectura da Universidade
Técnica de Lisboa, sob a orientação científica do Professor Doutor Fernando
Moreira da Silva.
Como objectivo, pretendemos Investigar se existe uma abordagem
de design inclusivo na prática projectual do design de comunicação visual, e se
os profissionais do design estão conscientes dos problemas relacionados com a
boa legibilidade e percepção da cor, pelas pessoas com visão diminuída pelo
envelhecimento. Pretendemos ainda determinar se há alguns princípios
específicos que devam ser aplicados aos objectos de comunicação visual
impressos, de forma a serem facilmente lidos e percepcionados por todos os
indivíduos.
Neste estudo pretendemos focar-nos nos aspectos relacionados
com a visão e a percepção da cor, a legibilidade, assim como dentificar os
problemas relacionados com a diminuição da visão, que ocorre no processo
normal de envelhecimento. Pessoas com visão diminuída, quase sempre têm

29
Mestre em Cor na Arquitectura, membro do CIAUD, Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de
Lisboa,
30
Doutor em Cor na Arquitectura pela Universidade de Salford, UK. Presidente do CIAUD, Faculdade de
Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa

62
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

também deficits na visão da cor. Os designers devem assegurar-se de que os


contrastes de cor são eficazes para este tipo de público-alvo.
Um conhecimento mais aprofundado das relações entre as cores,
dos contrastes cromáticos, das condições de legibilidade, dos contrastes entre
forma e fundo, é importante para o bom desempenho do designer; também as
escolhas tipográficas relacionadas com as opções cromáticas adequadas,
podem fazer com que um projecto se torne verdadeiramente eficaz em termos
de legibilidade e percepção.
Defendemos que a aplicação da cor aos projectos de comunicação,
não deve ser intuitiva, mas sim sustentada por conhecimentos actualizados e
baseados em pesquisas científicas. Esses conhecimentos vão melhorar o
processo de design, assim como contribuir para uma prática projectual mais
competente.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Cor e Design


A utilização da Cor no Design de Comunicação Visual, deve
pressupor um conhecimento de vários aspectos, tais como o mecanismo da
visão e da visão da cor, a percepção, a interacção das cores, as harmonias e
contrastes, as reacções psico-fisiológicas, a simbologia e a psicologia, os efeitos
espaciais, e as funções comunicativas ou semióticas.
O design gráfico opera com as variações de cor nas superfícies. A cor
pode ser vista de distâncias maiores do que outros elementos gráficos
(Mollerup 2005, p161). Num objecto gráfico colocam-se também problemas de
legibilidade e percepção das formas, das tipografias e das imagens. Sendo uma
ferramenta da comunicação, a cor comunica de um modo diferente da
tipografia e das imagens, mas combinada com elas, contribui para aumentar a
força persuasiva dos objectos de design visual. A cor transmite mensagens,
comporta simbolismos e provoca reacções emocionais. Serve para focar a

63
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

atenção, estabelecer relações, criar contrastes e tornar os objectos e


elementos gráficos mais compreensíveis e memorizáveis, porque a sua
presença gera interesse visual. Segundo Harald Küppers (2002), 80% das
informações que o ser humano recebe são de natureza visual, proporcionando
informação acerca das formas e das cores. De todas as informações recebidas
supõe-se que 40% se referem à cor, o que ajuda a perceber a sua importância,
seja como meio portador de informação, seja como uma manifestação
estética.
A cor serve para focar a atenção, estabelecer relações, criar
contrastes e tornar os elementos mais compreensíveis e memorizáveis. “A
31
função da cor é tornar o mundo ainda mais visível” .

2.2 A Visão envelhecida


O mecanismo da visão e da visão das cores envolve um sistema
complexo composto pelo olho e pelo cérebro. A percepção é uma sensação,
percebida pelo indivíduo através dos sentidos, conjugada com uma
interpretação efectuada no cérebro. As células da retina ao serem excitadas
pelos raios luminosos geram impulsos eléctricos, que são conduzidos através
do nervo óptico ao cérebro. Os impulsos eléctricos ao atingirem o córtex visual
são descodificados e recombinados para formar a imagem.
Com o processo de envelhecimento, desencadeia-se um declínio
gradual do funcionamento visual, acompanhado de mudanças no olho, na
retina e no sistema nervoso visual, suficientes para afectar o desempenho de
muitas tarefas visuais do dia a dia. Muito desse deficit é atribuído a mudanças
no meio ocular, nos olhos, e no equilíbrio das mudanças neuro sensoriais da
retina e do cérebro (Kline & Scialfa, 1996).
Assim, a qualidade da visão piora devido a causas independentes
das doenças da visão. Embora aconteçam muitas mudanças significativas num
olho saudável, as mudanças mais importantes, são a redução do tamanho da

31
(KG Nilson citado por Per Mollerup 2005. p 164).

64
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

pupila e a perda da acomodação ou capacidade de focar. A capacidade de


dilatação da pupila também diminui com a idade. O diâmetro máximo
alcançado pela pupila começa a diminuir com o avanço da idade (senile
miosis). Em condições de fraca iluminação, o diâmetro da pupila desce
32
aproximadamente de 7mm aos vinte anos, para cerca de 4mm aos 80. Senile
miosis ao reduzir a quantidade de luz que atinge a retina, pode provocar
efeitos prejudiciais nos desempenhos, especialmente em condições de baixa
luminância.
Juntamente com a
redução gradual da quantidade
de luz que chega a uma retina
mais envelhecida, vai também
aumentando a opacidade do
meio ocular. Estima-se que a
retina de uma pessoa de 60 anos
recebe apenas um terço da luz
que receberia aos 20 anos
(Weale 1961). O olho (adaptado
à luz) de uma pessoa de 20 anos Fig. 1: Para uma pessoa com deficiente
recebe 6 vezes mais luz que o de visão da cor, o painel da esquerda pode
aparecer como o da direita aparece a
uma pessoa de 80 anos. Em
pessoas com visão normal da cor .
condições de adaptação ao ©Lighthouse international.
escuro esse mesmo olho recebe
cerca de 16 vezes mais luz. (The
Eye Digest). Comparando com as pessoas mais novas é como se os mais idosos
usassem óculos de sol de média densidade em pleno dia e óculos muito
escuros em situações de luz fraca. Exames microscópicos da retina revelam
perda de fotoreceptores, com o envelhecimento, embora os cones se

32
Lowenfeld 1979, citado por Schieber 1994, p2.

65
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

33
mantenham relativamente intactos . Há uma diminuição de cerca de 30% da
densidade de bastonetes na área central da retina mas aparentemente apenas
uma pequena perda de cones na fóvea.
Com o aumento da opacidade, a lente (cristalino) torna-se mais
espessa, reduzindo o poder de acomodação, presbiopia, (diminuição da
capacidade de focar a distâncias curtas que ocorre com o envelhecimento).
Não é uma doença, é uma evolução natural da visão, cujos sintomas se
começam a manifestar a partir dos 40-50 anos de idade.
A lente, que é uma estrutura oval transparente, é constituída por 3
camadas - núcleo (centro), córtex (rodeia o núcleo) e cápsula (camada mais
exterior). A lente é suportada internamente por minúsculos ligamentos que
suportam a cápsula. Num jovem a lente é transparente e permite a passagem
da luz e o foco na retina. Com a idade o núcleo torna-se amarelado, perde a
capacidade de acomodação, apesar da lente se manter clara. Com o avançar
da idade o núcleo torna-se ambar e por fim acastanhado. Estas mudanças não
resultam necessáriamente numa cataracta a menos que o núcleo se torne
opaco.
Este amarelecimento do cristalino, a progressiva opacidade e perda
da transparência, são das causas mais importantes da diminuição do
desempenho visual do olho envelhecido. Como consequência, a capacidade de
distinguir os vários contrastes de cores diminui, assim como diminui a
percepção da profundidade, afectando a percepção das diferenças entre figura
e fundo e a tridimensionalidade; também a percepção dos violetas, azuis e
verdes se torna mais difícil, (um azul pode parecer mais escuro e mais difícil de
distinguir de um verde), em virtude desse amarelecimento do cristalino causar
uma absorção selectiva da luz de comprimentos de onda curtos.
Num olho envelhecido, a córnea, o cristalino e o humor vítreo,
transmitem menos luz azul e verde quando comparada com outros

33
Curcio, Millican, Allen & Kalina, 1993, citados por Schieber 1994, p2.

66
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

comprimentos de onda. Existe mais dispersão interna de comprimentos de


onda azuis.
Diferentes limitações visuais significam diferentes capacidades para
distinguir a cor. Muitas pessoas com diminuição das capacidades visuais são
capazes de distinguir
mais facilmente entre
cores de diferente
luminosidade do que
entre cores de igual
matiz. Um vermelho e
um azul da mesma
luminosidade podem ser
mais difíceis de
distinguir do que dois
vermelhos de diferentes
luminosidades. Fig 2: Devido a perda de visão pelo
O contraste envelhecimento, a cor A é percebida como a B.
mais importante para
Devemos usar a C para ser vista como a A.
pessoas de visão
diminuída é o contraste entre ©Frankluminosidades,
Mahnke, 2007. definido como colour

reflectance. Para estas pessoas é mais importante o contraste entre


luminosidades, do que os contrastes entre matizes ou contrastes de saturação.
(Mollerup 2005). Estas observações, referentes a sinalizações urbanas, são
também válidas para outras situações de comunicação visual no espaço
exterior.
Com o envelhecimento, também diminui progressivamente a
acuidade (capacidade de ver pequenos pormenores, num alvo parado ou em
movimento), e a sensibilidade ao contraste, (a mínima diferença entre
claro/escuro que pode ser detectada); Associada com a necessidade de níveis
de iluminação mais altos, a função da sensibilidade ao contraste, dos

67
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

observadores mais velhos, é afectada pelas baixas condições de luz (Connolly


1998). Apesar de ser necessária mais luz para que os indivíduos mais velhos
vejam bem, o nível, direcção e distribuição dessa luz é também um factor
importante. Devido às alterações do meio ocular, o olho envelhecido fica mais
sensível aos efeitos da claridade (directa e reflectida), assim como demora
mais tempo para recuperar dela. A claridade também afecta negativamente a
percepção do contraste; é um facto que as pessoas de mais idade necessitam
de contrastes 3 vezes e meia mais elevados do que indivíduos de 20-30 anos
(Mahnke 2003).

2.3 Design Inclusivo


O design inclusivo baseia-se no conceito de que os indivíduos têm
necessidades que vão mudando ao longo da vida. Alguns aspectos do design
inclusivo passam por se alterar a concepção do ser humano, não pensando
numa projecção de si próprio “o que é bom para mim é bom para todos”, mas
ao contrário por dever ter em conta a diversidade, pois todos somos
diferentes; Ter a noção da dimensão temporal - somos jovens hoje mas
seremos idosos amanhã. Ter a noção da dimensão social - ninguém permanece
isolado, dependemos uns dos outros, nos primeiros anos de vida e nos
últimos. O design deve ajudar as pessoas e as comunidades a prepararem-se
para o futuro, assim como deve contribuir para melhorar a qualidade de vida
no presente. Projectar com inclusividade significa incluir as pessoas que
normalmente poderiam ser ignoradas no processo de design.
Segundo uma definição do SURFACE - The Inclusive Design Research
Centre, “O Design Inclusivo é um modo de projectar produtos e ambientes de
forma a serem usáveis e atractivos para todos, independentemente da idade,
da capacidade ou das circunstâncias, trabalhando com os utilizadores para
remover barreiras nos processos sociais, técnicos, políticos e económicos, que
sustentam o design e a construção de edifícios”.

68
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Design Universal é um termo usado nos Estados Unidos, enquanto


na Europa se usa Design for All ou Design Inclusivo; os princípios para a sua
implementação são semelhantes: Facilitar o uso de produtos e serviços para
todos os utentes, e assegurar que as necessidades, os desejos e as
expectativas dos utilizadores são tidos em consideração no processo de design,
e na avaliação dos produtos e serviços. Devido ao facto de as pessoas estarem
a viver durante mais tempo, calcula-se que em 2025, existirão cerca de 113,5
milhões de pessoas com mais de 65 anos na União Europeia. Segundo a Design
for All Foundation, o design inclusivo intervém em ambientes, produtos ou
serviços com a intenção ou objectivo de que toda a gente, incluindo as futuras
gerações independentemente da idade, sexo, capacidades ou nível cultural,
possam participar na construção da sociedade, com oportunidades iguais e
portanto serem capazes de participar em actividades económicas, culturais e
de lazer. O objectivo é também que os utentes usem e compreendam
qualquer parte do ambiente de uma forma autónoma.
Depois da fundação em 1993, o EIDD - European Institute for Design
and Disabilities, definiu como objectivo básico “melhorar a qualidade de vida
mediante o Design for All ”.
Na declaração de Estocolomo, de 9 de Maio de 2004, pode ler-se:
“O Design for All é um design que tem em conta a diversidade humana, a
inclusão social e a igualdade. Esta aproximação holística e inovadora constitui
um repto criativo e ético para todos os responsáveis do planeamento, para o
design, a gestão e administração, assim como para os políticos”. A prática do
design inclusivo implica também a análise das necessidades e as expectativas
humanas e requer a participação dos utentes em todas as fases do design.
Segundo Barbara Silverstone (2010) da Lighthouse International, é
uma preocupação da associação enfatizar a necessidade de incluir princípios
de design gráfico universal em todos os meios visuais para que sejam
verdadeiramente úteis e legíveis para o maior número possível de pessoas. A
comunidade de designers graficos tem sido mais lenta na adopção de

69
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

princípios de design inclusivo. Esta abordagem é relevante uma vez que a


população mundial está a envelhecer, a esperança de vida a aumentar, assim
como também está a aumentar o número de indivíduos socialmente activos
até idades mais avançadas.

2.4 O Projecto de Investigação


O presente trabalho está a ser desenvolvido com uma metodologia
mista, não intervencionista, qualitativa e quantitativa, para além de ter
também uma parte de investigação activa.
Como ponto de partida para este estudo, utilizamos uma selecção
de cartazes de eventos culturais, de diferentes dimensões, produzidos por
duas Instituições de relevo - o CCB - Centro Cultural de Belém, e a Culturgest.
Estes cartazes, (que são apenas um pretexto para o estudo e não o
objecto de estudo), foram seleccionados porque foram projectados para um
público alvo muito alargado, onde podemos incluir o nosso grupo de foco,
composto por indivíduos saudáveis, socialmente activos, de idades
compreendidas entre os 55 e os 75/80 anos.
Depois de uma Revisão da Literatura sobre os tópicos envolvidos,
realizou-se um estudo piloto que partiu da observação directa de um grupo de
cartazes, seleccionados pelas diferentes combinações cromáticas usadas,
pelos diferentes tamanhos e distâncias de leitura. Foi construída uma Ficha de
Estudo para cada cartaz, onde são colocadas as codificações das cores
impressas, em três sistemas de cor- Pantone, RGB e CMYK. Para o efeito
utilizou-se um colorímetro da Pantone, Color Munki Design; uma vez que
tratamos sempre de material impresso.

70
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Depois de concluído o estudo piloto e a análise das situações


observadas nos cartazes, prosseguiremos com a produção de um conjunto de
amostras de material impresso, com diferentes combinações cromáticas e
tipográficas e iremos testar situações de observação e percepção com um ou
mais grupos de amostra, com indivíduos seleccionados segundo as
características já referidas. Depois de analisar os resultados obtidos e como
forma de os validar, prosseguiremos com um cojunto de entrevistas semi
estruturadas a um painel de especialistas das áreas envolvidas.

Fig 3: Exemplo de Ficha de Estudo para


preencher.

Pretendemos no final produzir um Manual de boas práticas com


recomendações e conhecimentos actualizados, escrito numa linguagem

71
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

simples para ser consultado por designers de diferentes áreas - design gráfico,
de interiores, embalagem, sinalética e ambiente urbano, etc.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Porque o projecto está em fase de desenvolvimento, é um “work in


progress”, não temos ainda resultados finais. Apenas reafirmamos que a
preocupação de inclusividade, torna este estudo pertinente junto da
comunidade de designers. Os projectos possuirão boas condições de
percepção e legibilidade, sendo lidos e percebidos por todos os indivíduos com
visão envelhecida e também por todos os de visão normal, uma vez que “a
maioria das pessoas beneficiará se tiver as coisas mais fáceis de ver” (Evamy
and Roberts 2004).
A relevância de trazer para a prática projectual do design de
comunicação uma abordagem de design inclusivo, vai permitir que a aplicação
da cor se faça de um modo mais consciente e baseado num conhecimento
sustentado em pesquisas científicas, assim como contribuir para a produção de
objectos de comunicação visual mais eficazes e verdadeiramente inclusivos.

Agradecimentos

O presente estudo está a ser desenvolvido com o apoio da FCT-


Fundação para a Ciência e Tecnologia, referência SFRH/BD/41096/2007, e
CIAUD-Centro de Investigação em Arquitectura Urbanismo e Design da FAUTL.

72
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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congenital color deficiencies. Lighthouse International, New York. 1999.
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MOLLERUP, P. Wayshowing. Baden: Lars Müller Publishers, 2005. 161-164p.
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ACEDIDO EM 18-04-2009.
3 SILVERSTONE, B. BIG TYPE IS BEST FOR AGING BABY BOOMERS. A CASE FOR
UNIVERSAL GRAPHIC DESIGN. 2010. EM:
www.lighthouse.org/accessibility/design/accessible-print-design/big-
type/ acedido em 21-11-2010.
SURFACE Inclusive Design Research Centre. University of Salford. Em:
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73
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

WEALE, R. Retinal illumination and age, 1961. Citado por Conolly, em:
www.psych.ucalgary.ca/PACE/VA-Lab/gkconnol/Introduction.html,
acedido em: 9-03-2008.

74
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Cor no Mobiliário Urbano: um factor de


Inclusividade, Orientação e Identificação
34
Margarida Allen Gamito
35
Fernando Moreira da Silva

1 INTRODUÇÃO

Este artigo pretende apresentar o projecto de investigação que está


a ser levado a cabo por Margarida Gamito, no âmbito do Curso de
Doutoramento em Design na Faculdade de Arquitectura da Universidade
Técnica de Lisboa, sob a orientação do Professor Doutor Fernando Moreira da
Silva, coordenador do Curso de Doutoramento em Design (FA/UTL).
O artigo foca os passos principais do processo de investigação que
está a ser realizado na Cidade de Lisboa, propondo um plano cromático para
ser aplicado no mobiliário urbano dos diferentes bairros da cidade. A
investigação pretende estabelecer que a cor, aplicada ao mobiliário urbano,
pode ser um factor de inclusividade, na medida em que contribui para o
melhoramento da visibilidade e legibilidade desses elementos. Também pode
incrementar a orientação dentro da cidade, assim como se pode tornar um
factor de identificação das suas diferentes zonas e ser um meio de sinalização.

34
Mestre em Cor na Arquitectura, Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa
35
Doutor em Cor na arquitectura,University of Salford, UK

75
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Estado da Arte


Na Natureza, a cor aparece frequentemente como um meio de
defesa e conservação, constituindo um sistema de camuflagem de defesa, ou
como um aviso, como acontece com as plantas e animais venenosos cuja cor
vistosa alerta os possíveis predadores, ou, ainda, com uma função de atracção
que permite a reprodução
Fig. 1: intervenção das plantas
no mobiliário e convida
urbano da Praçaao acasalamento
D. João da Camâra de certos
animais.
O ser humano, na sua evolução, herdou reacções psicológicas e
fisiológicas à cor que, apesar de não poderem ser controladas nem explicadas
objectivamente, fazem com que a cor seja um meio necessário para a
informação, comunicação e compreensão do meio ambiente. A esse respeito
Michael Lancaster (1996:8) afirma que a cor tem como funções atrair a
atenção, transmitir informação, acrescentar ilusões e estimular emoções.
As cidades modernas apresentam uma amálgama de cores que se
deve não só à diversidade dos seus edifícios, mas também à profusão de
publicidade multicolorida. Este facto é referido por Moreira da Silva (1999:211)
na sua tese de doutoramento, onde faz notar que “A realidade da cidade (a
realidade urbana), particularmente ao nível da rua, vive de constantes
mudanças, dos graffiti, da publicidade e da cor dos carros. A cor da cidade
forma-se a partir de factores, que estão para além dos componentes do
espaço arquitectónico embora estes alterem o seu significado”.
As conotações psicológicas e fisiológicas da cor, assim como a
influência da cor no meio ambiente, têm sido uma preocupação recente dos
estudiosos da aplicação da cor na arquitectura. No entanto a aplicação da cor
ao mobiliário urbano tem permanecido no esquecimento, embora a falta de
visibilidade desses elementos tenha sido salientada por vários autores: “Cor –
arquitectura – cidades – cidades coloridas – cor no cenário urbano – como é

76
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

que isto tudo se conjuga? Será um colorido pano de fundo urbano suficiente,
mais cor mudará realmente o nosso meio ambiente de vida e trabalho? Esta é
a questão mais básica de todas. Colocando isto de modo diferente: Será
possível elevar a acessibilidade visual de uma cidade, a qualidade da
experiência e orientação, sem meramente sublinhar o seu carácter como um
vasto, objecto conglomerado de consumo?” (extraído de: Farbe im Stadtbild,
Abakon Verlagsgesellschaft mbH, Berlin 1976:21).
O mobiliário urbano necessita de ser visto
para ser utilizado e, consequentemente, deve
destacar-se do meio ambiente. No entanto, a cor,
apesar de ser a ferramenta mais fácil e apropriada
para conseguir esse destaque, raramente é utilizada
com essa finalidade. Para além da uniformização
causada pelos fornecedores de mobiliário urbano, a
anulação da cor nesses elementos pode ser uma
reacção à demasiada variação de cores na cidade. Esta
solução, porém, não facilita a utilização do mobiliário
urbano que, para cumprir satisfatoriamente a sua
função, deveria destacar-se do meio ambiente.
A sinalização e, em particular a sinalética,
Fig. 2: Aplicação de cor
também utiliza a cor timidamente, com a preocupação
ao mobiliário urbano
dominante de se integrar no meio ambiente, em vez de
se destacar dele, o que, frequentemente, a torna pouco visível e a impede de
cumprir cabalmente a sua função, como Michael Lancaster (1996:116) salienta
quando escreve que «quando olhamos para qualquer objecto vemo-lo como
um ‘alvo’ visual em relação ao seu envolvimento imediato. Se ele for mais
reflectivo ou mais ‘colorido’ que o plano de fundo é mais provável que esse
objecto atraia o olhar».
O estudo e aplicação da sinalética nas cidades tende a generalizar-se
e a seguir os ditames prescritos pela AIGA (American Institute of Graphics)

77
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

para os aeroportos dos Estados Unidos, que foram considerados como uma
base para os pictogramas de vários países. Esta internacionalização, reforçada
pela normalização feita pela ISO (International Standardization Organization)
facilita o reconhecimento dos símbolos de sinalização por uma população cada
vez mais itinerante, que encontra os mesmos sinais por todo o mundo. Assim,
poder-se-á considerar que uma internacionalização da sinalética será uma
decisão acertada, embora Baines (2003:14) exprima algumas reticências: “(...)
Felizmente, mesmo entre os países que seguem o protocolo, existe uma
considerável variação no desenho e implementação desses sinais que permite
deixar transparecer algumas características (ou aspirações) de países
individualizados”.
No que se refere ao cromatismo da sinalética, que deve ser “um
factor de integração entre sinalética e meio ambiente” (Costa, 1987:182) este
limita-se, habitualmente, ao contraste entre forma e fundo, seguindo as
opções descritas no código das estradas quando não se opta pelo acromatismo
do contraste branco e preto.
No entanto, estas soluções cromáticas foram estudadas para a visão
à distância e rápida que se tem quando se conduz um automóvel na estrada.
Dentro da cidade estas opções perdem visibilidade, confundindo-se com as
cores dos prédios, não podendo a sinalética, assim, cumprir cabalmente a sua
função. Estas afirmações são corroboradas por Per Mollerup (2005:161),
quando escreve que “a cor é instrumento das sinalizações visuais mais
diversas” e que “o factor físico do design gráfico consiste na variação de cor
numa superfície”. Concluindo que “a cor pode ser vista de maiores distâncias
que outros elementos gráficos” e que “na sinalização a diferenciação é o
primeiro e mais importante papel da cor”.
Até meados do século XX, as fronteiras entre arquitectura e design
estavam bem delineadas, mas as influências de outras disciplinas, como o
design industrial e o planeamento urbano, fizeram com que essas fronteiras se
diluíssem e a sua combinação passou a ser conhecida como ‘design gráfico

78
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

ambiental’. Com o desenvolvimento das cidades surgiram complicadas redes


de tráfico e de sistemas de transporte, que provocaram dificuldades de
orientação aos seus visitantes, e tornou necessária a criação de ferramentas
que ajudassem a guiar as pessoas e que, ao mesmo tempo, reavivasse a sua
identificação com a cidade. (Berger, C. 2005:10)
Gallen Minah (2005, p401) explica que muitas das cidades que
conseguiram controlar a ordem visual são cidades históricas compactas onde
já existia uma hierarquia definida entre os seus elementos espaciais. As
cidades modernas são geralmente mais dispersas e os seus elementos
arquitectónicos são fragmentados e autónomos. Como a hierarquia é menos
clara, a ordem e harmonia tornam-se difíceis de experimentar, do ponto de
vista do pedestre. O desenvolvimento da cidade contemporânea dá origem a
uma grande diversidade e complexidade na arquitectura que disputam a
visibilidade. A cor ultrapassa a sua função de elemento de definição e
unificação, e torna-se uma característica visual no meio da complexidade e
caos do campo visual.
Os mapas das cidades assinalam as suas diferentes zonas, ou
bairros, através de cores, mas no espaço físico essas mesmas cores não
aparecem, ou seja, não existe a preocupação de fazer corresponder a essas
cores um real uso no respectivo espaço urbano. O ideal seria poder-se
identificar as diferentes zonas da cidade por meio de cores que as
diferenciassem e, ao mesmo tempo, chamassem a atenção para os diferentes
elementos de mobiliário urbano, tais como: caixotes de lixo, bancos de jardim,
cabines telefónicas, paragens de autocarro, etc.
Giovanni Brino estabeleceu um plano cromático para a cidade de
Turim, em 1978, que engloba um mapa cromático, uma paleta e um banco de
dados das cores da cidade. Neste plano, baseado num outro, desenhado no
século XIX, as ruas secundárias compunham uma sequência cromática de oito
cores diferentes. Este plano, embora aplicado ao ambiente construído,

79
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

demonstra uma preocupação com a orientação dentro da cidade. (Linton


1999:157/163)
Michael Lancaster criou projectos cromáticos para duas zonas
diferentes de Inglaterra: o rio Tamisa e a cidade de Norwich. O plano do rio
Tamisa, que inclui indicações para a utilização da cor em materiais naturais e
artificiais, revela a importância de uma política de coordenação da cor em
composições harmónicas e impede a existência de perturbações na utilização
da cor. (Linton 1999:151/156). Na cidade de Norwich, Lancaster utilizou a
cooperação entre todas as entidades envolvidas, incluindo consultas à
população, para estabelecer uma estratégia que se baseou na Geografia da
Cor, na História cromática da região e na Cidade Actual, para conseguir uma
coerência visual da cidade e dos seus arredores. (Lancaster 1996:94/96)
Em Barcelona, a partir dos anos oitenta, fizeram-se experiências de
reorganização do meio ambiente em que a cor teve, desde o início, um papel
de organização. Este projecto, em que o governo cooperava com a indústria
integrava esquemas cromáticos em grande escala. (Taverne & Wagenaar
1992:92/95)
Estes planos urbanos, no entanto, referem a cor numa aplicação
quase exclusiva ao ambiente construído, enquanto a inclusão da cor no
mobiliário urbano e a sinalização só é considerada muito pontualmente. Assim,
Friedman e Thompson (1976:34) referem uma experiência em Boston, em que
o percurso em torno de vários monumentos foi assinalado por pegadas
vermelhas – The Boston Freedom Trail – que converteram a confusão das ruas
desta cidade numa agradável experiência. As mesmas autoras citam, também,
uma experiência do pintor Gene Davies que decorou o acesso ao Philadelphia
Museum of Art com as suas características fitas coloridas que actuavam como
ponto focal da fachada do museu.
Recentemente surgiu uma crescente preocupação com a
inclusividade dos ambientes, sejam eles interiores ou exteriores. No entanto,
não é possível projectar qualquer ambiente com todas as especificações

80
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

necessárias a cada grupo minoritário, mas é possível criar ambientes que


tentem eliminar barreiras e exclusões, abrangendo uma maior gama de
utilizadores.
A população citadina é constituída por uma vasta variedade de
pessoas, com diferentes graus de limitações visuais e, também, por uma alta
percentagem de idosos. Na medida em que as pessoas envelhecem a
capacidade de ver pequenos detalhes diminui e os olhos têm uma crescente
dificuldade de adaptação a repentinas mudanças de luz ou a uma rápida
refocagem. Considerando a população com deficiências visuais, só uma
pequena percentagem não consegue ver cor alguma e a maior parte consegue
distinguir as diferenças de luminosidade. Assim, para se obterem melhores
condições de visibilidade numa perspectiva inclusiva, o mobiliário urbano deve
apresentar um bom contraste cromático e de luminosidade.
Assim, nesta investigação procurar-se-á demonstrar a importância
da cor no mobiliário e na sinalização urbana, levando em consideração que
uma pertinente aplicação de cor pode contribuir para uma melhor visualização
e legibilidade e, consequentemente, melhorar a sua utilização.

2.2 Projecto de investigação


Esta investigação está centrada na Cidade de Lisboa, tendo sido
estabelecida uma comparação com outras cidades (casos de estudo) onde se
tenham preocupado com este problema e o possam ter resolvido com sucesso,
numa busca de contribuições para soluções adequadas.

81
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

No caso concreto de Lisboa, aplicou-se a metodologia de Estudo de


Casos, a qual inclui três bairros diferentes, com as suas especificações próprias.
O primeiro, Baixa, é o coração de Lisboa e foi candidato ao património mundial
(2004); o segundo, Campo de Ourique, é um bairro tradicional, ao mesmo
tempo comercial e residencial; e o último, Parque das Nações, é um bairro
recente ainda em desenvolvimento.
No decorrer da investigação foi desenvolvida uma nova metodologia

Fig. 3: Paleta NCS, correspondente à cor existente

que incluiu uma extensiva observação directa por levantamento fotográfico do


mobiliário urbano e da sinalização, para avaliar a sua visibilidade e legibilidade,
assim como as suas aplicações cromáticas.
Paralelamente foi definido, para cada bairro, um percurso de
amostragem onde se fez o registo exaustivo das cores do meio envolvente,
assim como dos materiais/texturas existentes, usando uma metodologia
baseada no método do Professor Jean-Philippe Lenclos. No entanto, neste
levantamento sistemático foram incluídas amostras de materiais, não só do
ambiente construído, mas também dos pavimentos, vegetação e de outros
elementos presentes no ambiente urbano. Estes registos foram completados
com fotografias dos elementos do meio envolvente e de vistas panorâmicas
dos diferentes quarteirões, utilizando ainda plantas e cortes arquitectónicos da
cidade como elementos componentes da cor ambiental.

82
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Estes registos foram metodicamente indexados em fichas e mapas,


permitindo criar uma base científica para determinar uma paleta cromática
para cada bairro e, consequentemente, estabelecer um plano cromático
coerente que deverá ser aplicado ao mobiliário urbano da cidade. Este plano
cromático, que será diferente para cada bairro e deverá respeitar a história e
tradição local, destacar-se-á do seu meio envolvente, contribuindo para uma
melhor legibilidade destes elementos e, do mesmo modo, tornar-se-á um
elemento identificativo que facilitará a orientação dentro da cidade.
Para validarem as opções cromáticas para cada bairro, foram
escolhidos três grupos de foco, constituídos por seis a dez elementos. Um dos
grupos é composto de pessoas de idades e sexos diferentes, outro é formado
por pessoas com idades compreendidas entre sessenta e cinco e oitenta e
cinco anos, e o último é um grupo de especialistas em design inclusivo, design
urbano e áreas de equipamento municipal.
Todos os grupos de foco irão abordar o problema de visibilidade e
aplicação de cor ao mobiliário urbano em duas modalidades. A primeira
abordagem será uma visita aos três bairros, incluídos no Estudo de Casos, para
avaliar as condições de visibilidade do mobiliário urbano presente nos locais.
Em seguida ser-lhes-ão apresentadas as aplicações das propostas cromáticas,
para avaliarem e discutirem as mudanças e melhoramentos provocados pela
cor.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Levantamento cromático do ambiente construído


Cores fotografadas e correspondência NCS

83
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Para conclusão da investigação far-se-á uma triangulação de todos


os dados recolhidos, assim como uma última revisão literária, a fim de avaliar e
validar os resultados da investigação. Em caso de necessidade, será feita uma
nova volta de pesquisa de modo a conseguirem-se as conclusões da
investigação, as quais se pretende que venham a ser um real contributo para o
conhecimento.

Agradecimentos

O presente estudo foi desenvolvido com o apoio da Fundação para a


Ciência e Tecnologia (FCT)
Processo SFRH/BD/41124/2007.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BERGER, C. Wayfinding – Designing and Implementing Graphic Navigational


Systems. Switzerland: Rotovision SA. 2005.
FRIEDMAN, S.; THOMPSON, S. Colour, Competence and Cognition: Notes
Towards a Psychology of Environmental Color. In: MYKELLIDES, B.;
PORTER, T. Colour for Architecture. London: Studio Vista. 1976.
GAMITO, M. A Cor na Formação do Designer. Dissertação, não publicada, para
o Mestrado em Cor na Arquitectura, Faculdade de Arquitectura da
Universidade Técnica de Lisboa. 2005.
LANCASTER, M. Colourscape. London: Academy Editions. 1996.
LINTON, H. Color in Architecture – Design Methods for Buildings, Interiors and
Urban Spaces. USA: Mc Graw Hill. 1999.
MINAH, G. Memory Constellations: Urban Colour and Place Legibility from a Pedestrian View. AIC
Colour 05 – 10th congress of the International Colour Association. 2005.
MOLLERUP, P. Wayshowing. Baden: Lars Müller Publishers. 2005.
MOREIRA DA SILVA, F. Colour/Space. Its quality management in Architecture,
the Colour/Space Unity as an unity of visual communication. Ph. D.
Thesis. University of Salford. Salford UK. 1999.

84
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Barker, P.; Barrick, J.; Wilson, R. Building Sight, a handbook of building and
interior design solutions to include the needs of visually impaired
people. London: Royal National Institute for the Blind (RNIB), 1995.

85
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Desenho de Espaços Verdes:


Design e Ergonomia
36
Cláudia Nunes
37
Fernando Moreira da Silva

1 INTRODUÇÃO

Na concepção dos espaços exteriores assentam importantes


elementos de composição, tais como o desenho do espaço, o material vivo
(vegetação) e o material inerte (equipamento e mobiliário urbano, pavimento
e caminhos).
O presente texto refere os principais elementos de composição de
um espaço exterior verde (jardim/parque), em termos do seu desenho,
tentando aproximar as disciplinas do Design, da Ergonomia e da Arquitectura
Paisagista, áreas estas que deverão trabalhar em conjunto de modo a se
criarem espaços aprazíveis, seguros e confortáveis à vivência humana,
contribuindo para assegurar a qualidade de vida (saúde, entendida pela
Organização Mundial de Saúde, como bem-estar e ausência de doenças; e
satisfação de vida).
A Arquitectura Paisagista é um campo disciplinar de base artística e
ciêntifica, tendo como objectivo principal conceber/organizar/moldar os
espaços exteriores às vontades/necessidades do Homem, em plena harmonia
com a Natureza. No entanto, por si só, não consegue dar resposta, com todo o
grau de certeza, aos principios em que assenta a ciência da Ergonomia, i.e.,
segurança, conforto e eficiência dos sistemas. Também, raros são os projectos
que têm em conta o core/target a quem se destinam os jardins/parques.
36
Mestre em Design, doutoranda na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa.
37
Doutor em Design, Professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa.

86
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Assim, faz também sentido incluir a disciplina do Design Inclusivo (através da


metodologia do Design Centrado no Utilizador) na sua abordagem, isto para
que o ambiente projectado, possa ser usufruido por todos, sem descriminar
idades e/ou características físicas/psicológicas dos transeuntes.
Sendo o sénior o utente mais desfavorecido face às limitações
decorrentes do processo de envelhecimento, aborda-se em pormenor essas
mesmas limitações e como o desenho do espaço poderá estar minimamente
adaptado, de modo a cumprir o(s) seu(s) objectivo(s).

2 Desenho de espaços exteriores/verdes

2.1 Desenho passivo e activo

O desenho da paisagem pode ser passivo ou activo. No passivo, o


desenho deverá encorajar a pessoa a relacionar-se com os outros e com a
natureza, a gozar o ar fresco e o Sol, a tomar interesse e responsabilidade, a
estar ciente do tempo, a acalmar-se e a adquirir estabilidade. O seu desenho
deverá criar uma atmosfera convidativa, criar expectativa e garantir a
segurança. Recomenda-se a que não se exagere no estímulo visual, e a evitar-
se a desorientação através dos caminhos. O desenho activo diz respeito ao
proporcionar actividades no jardim como a prática do desporto, a jardinagem,
38
etc.
A opinião médica enfatiza como terapêutico o efeito benéfico que
um ambiente paisagístico bem conseguido possa causar no bem-estar de uma
pessoa incapacitada ou com deficiência: “As considerações do desenho do
espaço para pessoas incapacitadas deverão incluir o potencial terapêutico e o
39
papel funcional que a paisagem possa criar”.

38
ROBSON, N. J.; THODAY, P.R. (1985). Landscape for Disable People in Public Open Space. Edited by P.M. Croft,
University of Bath.
39
Idem, Ibidem, p. 25.

87
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Para um maior sucesso do desenho do espaço deve-se ter em conta


a definição de objectivos, elaborar inquéritos de pesquisa das potencialidades
do desenho, de modo a servir a incapacidade/deficiência do utente, elaborar
análises e com estas formular o objectivo do desenho (através do intercâmbio
de informações com designers, médicos, ergonomistas, etc., e do próprio
utente deste tipo de jardim, para uma maior percepção das suas
necessidades). A experimentação no terreno avaliará a sustentabilidade do
desenho. Surge o desenho conceptual, e com a constante correcção,
implementa-se a solução. Este processo é interactivo, na medida que existem
40
avanços e recuos, e constantes correcções ao desenho advirão daí.
“O bom desenho do espaço público deriva de um entendimento
sistemático e cuidado do lugar e do contexto ambiental, cultural, social,
41
económico e político” . O bom desenho do espaço é o que “serve o seu
objectivo, é sustentável, eficiente, coerente e flexível, corresponde às
expectativas e necessidades dos utilizadores e fornece espaços aptos a serem
42
apropriados, estimados e usufruídos pelas suas comunidades.”

2.2 Dimensões e desenho

As medidas antropométricas variam com o sexo, idade, etnia, tipo


43
de alimentação, factores socio-económicos, etc. (Figura 1). Há que ter em
atenção as dimensões antropométricas dos incapacitados (Figura 2), de modo
a se garantir a acessibilidade no espaço de utentes deficientes, em cadeira de
rodas, semi-ambulantes de muleta e com andarilho, e amblíopes/cegos.
Entre outras situações, deve existir por parte do projectista uma
preocupação entre a hierarquização de caminhos (evitando por exemplo

40
Idem, Ibidem.
41
ÁGUAS, S.; BRANDÃO, P.; CARRELO, M. (2002). O Chão da Cidade, Guia de Avaliação do Design de Espaço
Público. Lisboa: Centro Português de Design, p. 18.
42
Idem, Ibidem, p. 18.
43
COELHO, R. T. P. (1999). A Escolha de Mobiliário no Projecto de Espaço Urbano- Relatório de Fim de Curso de
Arquitectura Paisagista. UTL, Instituto Superior de Agronomia, Lisboa, p.23

88
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

situações de desorientação) e conferir-lhes uma superfície segura, contínua,


aderente, e com diferenciação de cores e texturas; existir corrimãos em
escadas e rampas, protecções laterais de rampas, etc., conforme explicita a
Legislação Portuguesa da Acessibilidade (Decreto-Lei n.º 163/2006 de 8 de
Agosto).
Note-se a importância da manutenção dos espaços e do facto desta
dever respeitar ao máximo a ideia formal subjacente à concepção do jardim.
Por exemplo, as plantas, os muros, o pavimento e o mobiliário urbano deverão
ser cuidadosamente localizados e mantidos para que não constituam
obstáculo e perigo para o utente do espaço.

A – Variação com o sexo

Figura 1 – Medidas antropométricos, unidade: metros


(Fonte: adaptado de COSULICH e ORNATI, 1993)

B – Variação com a idade

89
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

C - Variação com as (in)capacidades


Figura 1 – Medidas antropométricos, unidade: metros - continuação
(Fonte: adaptado de COSULICH e ORNATI, 1993)

A - Deficiente com muletas B - Deficiente com andarilho C - Invisual

90
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

D - Deficiente em cadeira de rodas

Figura 2 – Dimensões em caso de deficiências, unidade: milímetros - continuação


(Fonte: ROBSON e THODAY, 1985)

2.3 Desenho estético e funcional

O projectista pode usar o desenho conferido pelo pavimento,


plantas, mobiliário urbano, etc., como forma de proporcionar sensações e
efeitos visuais ao utilizador ou observador. É pois a qualidade estética e
funcional que faz o sucesso do desenho projectual.
A «estética» diz respeito à beleza e atractividade do desenho. Os
princípios do desenho são a unidade, a variedade, a harmonia, o ênfase, o

91
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

balanço, a escala e o ritmo. As características dos elementos que compõem o


44
desenho projectual são a textura, a cor, as linhas e a forma.
O desenho pode cumprir funções de separação de áreas de conflito,
através do uso das diferentes características dos elementos do desenho, como
a separação da área de circulação pedonal da automobilística; da definição do
uso de determinada área, através por exemplo duma mudança de textura do
pavimento separando a circulação pedonal activa da passiva; etc. Também,
evitar situações, como o atravessar de canteiros e pisar de flores devido à
existência de caminhos estreitos, mal definidos e/ou ilógicos, por mau
45
planeamento do desenho.
O desenho deve considerar a funcionalidade da obra, no que
respeita à sua utilização, viabilidade e cumprir os objectivos propostos (Figura
3).

A – Lisboa: Calçada portuguesa com B – Coimbra: Zona de circulação activa com


motivos de pavimento de pedra basáltica pavimento de superfície lisa, promovendo a fácil
(alinhamento curvilíneo simulam «onda»), progressão no espaço, e zona de estadia e de
direccionam, criam ritmo e movimento circulação passiva com pavimento texturado,
num espaço muito amplo (Fonte: Autora, induzindo a um andamento mais lento por parte do
1998) transeunte (Fonte: Autora, 2002)
Figura 3 – Princípios e características dos elementos do desenho

44
NUNES, C. et al (2000, Abril). Utilização de Pedra em Pavimentos - Dossier (Projecto IV). Lisboa: Universidade
Técnica de Lisboa, Instituto Superior de Agronomia, pp. 15-19.
45
CABRAL, F. C. (1993). Fundamentos da Arquitectura Paisagista. Lisboa: Instituto da Conservação da Natureza,
pp.29-30.

92
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

O Quadros 1 e 2 dizem respeito, respectivamente, aos princípios do


desenho e às suas características.

Quadro 1 – Princípios do Desenho46


PRINCÍPIOS DESCRIÇÃO

UNIDADE Confere união ou integridade ao desenho

VARIEDADE Combinação de dois ou mais materiais de características diferentes

HARMONIA Manter da proporção das formas

ÊNFASE Cria um centro ou dominância através do contraste de tamanhos, formas e/ou


texturas

BALANÇO . Simetria - elementos iguais e identicamente distribuídos em ambos os eixos


centrais
. Simetria radial - elementos iguais dispondo-se a partir dum ponto central
. Assimetria - elementos diferentes e distribuídos ao acaso

ESCALA Resulta da relação do tamanho do elemento desenhado e do observador

RITMO Forma de arranjar de elementos ou objectos para que o olhar do observador se dirija
numa determinada direcção. Usam-se, por exemplo, texturas ou cores para formar
linhas direccionais.

Quadro 2 – Características dos Elementos do Desenho47


CARACTERÍSTICAS DESCRIÇÃO

TEXTURA Pode ser fina, média, grosseira, e o seu uso cria sensações totalmente
diferentes

COR Proporciona efeitos visuais e sensações como o alterar o tamanho e a


temperatura real dum espaço (e.g. cores claras aumentam e arrefecem o
espaço, e as escuras diminuem e aquecem). Na escolha da cor dos materiais
deve-se ter em conta o clima da região, uma vez que o sol e a chuva são
factores que condicionam o uso de materiais (e.g. luminosidade em superfícies
claras reflectem em demasia, provocando desconforto; as cores escuras
aquecem excessivamente com o calor podendo o material não resistir a

46
NUNES, C. et al (2000, Abril).Ob.Cit., pp. 15-19.
47
Idem, ibidem, pp. 15-19.

93
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

variações bruscas de temperatura)

LINHA Criam força a uma fronteira ou dão ênfase a uma direcção

FORMA A forma rectangular confere rigidez e estaticidade. A angular dinamismo e


direcciona. A curvilínea confere ritmo, movimento e sensação de descanso.

2.4 Desenho adaptado ao sénior

Com o processo de envelhecimento, o ser humano experimenta


alterações do foro bio-psico-social.
Mediante o envelhecimento populacional a nível mundial (face à
diminuição da natalidade e do aumento da esperança de vida, nomeadamente
nas sociedades desenvolvidas), torna-se cada vez mais necessário garantir a
plena acção do utente de espaços, sem limitações, entre outras, a nível físico
(acessibilidade no espaço exterior).
Sabendo as limitações do idoso, deve o projectista conceber o
jardim/parque com o intuito de reduzir situações que potenciem as suas
fragilidades, procurando e garantido soluções ao desenho do espaço (Quadro
3).
Quadro 3 – Soluções ao desenho do jardim/parque mediante as condições dos idosos48
DESORDENS IMPLICAÇÕES NO DESENHO SOLUÇÃO AO DESENHO
Perda sensorial  Reduzida percepção sensorial  Materiais seguros
(Audição e visão)  Plantas seleccionadas consoante
textura, cheiro, cor e seguras
(sem picos, componentes
alérgicas, não tóxicas, etc.)

48
THODAY, P.; SMITH, P. (1980, 12 Nov.). Landscaping for Disable People. Gardens and Grounds For Disable And
Elderly People. Centre on Environment for the Handicapped, p.6.

94
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Quadro 3 – Soluções ao desenho do jardim/parque mediante as condições dos idosos48


DESORDENS IMPLICAÇÕES NO DESENHO SOLUÇÃO AO DESENHO
Condições  Reduzida mobilidade e perda  Acessos desimpedidos
neurológicas, doença de forças  Segurança
Parkinson, doença  Perda do balanço  Sem superfícies escorregadias
neurológicas  Reduzida agilidade  Corrimãos
Tremor  Frequentes pontos de descanso
 Escolha dos comprimentos das
rotas
 Pontos de interesse perto dos
edifícios

Redução da actividade  Alteração da mobilidade  Acessos desimpedidos


intelectual, motora,  Redução da percepção  Escolha dos comprimentos das
etc. (e.g. alzheimer e sensorial rotas
outras doenças)  Perigo ao vaguear  Frequentes pontos de descanso
 Canteiros elevados
 Pontos de interesse perto dos
edifícios

Condições  Mobilidade limitada  Acessos desimpedidos


respiratórias  Cansaço fácil  Canteiros elevados
Bronquites, efisema,  Perda de forças  Escolha de comprimentos de
e asma rotas de caminhos
Respiração cansada  Frequentes pontos de descanso
 Pontos de interesse perto dos
edifícios

Hipertensão  Tonturas por mudanças  Canteiros elevados para as


repentinas de postura plantas e em actividades de
jardinagem
condições  Mobilidade limitada  Acessos desimpedidos
cardiovasculares  Cansaço fácil  Canteiros elevados
doenças vascular  Perda de forças  Frequentes pontos de descanso
periferial  Pontos de interesse perto dos
angina edifícios
cansaço respiratório
Ataques quedas  Reduzida confiança na  Segurança
Hipertensão e postura mobilidade  Superfícies não escorregadias
 Corrimãos
 Materiais e plantas não perigosas
Doenças do esqueleto  Mobilidade limitada  Acessos desimpedidos

95
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Quadro 3 – Soluções ao desenho do jardim/parque mediante as condições dos idosos48


DESORDENS IMPLICAÇÕES NO DESENHO SOLUÇÃO AO DESENHO
Artrites  Dores ao movimentar  Segurança
Doenças de ossos  Aumento do risco de fracturas  Superfícies não escorregadias
E.g. osteoporose, gota de ossos  Corrimãos
 Perda de forças  Pontos de interesse perto dos
 Reduzido alcance e preensão edifícios
 Escolha de comprimentos de
rotas de caminhos
 Vistas a partir dos edifícios
 Pontos de interesse perto dos
edifícios
Incontinência  Viagens restritas a pequenas  Pontos de interesse perto dos
distâncias e perto de edifícios edifícios
 Escolha dos comprimentos dos
percursos
Hipotermia  Vulnerabilidade a  Sombra e Sol
temperaturas extremas

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

As disciplinas da Arquitectura Paisagista, Design e Ergonomia


deverão trabalhar em conjunto de modo a potenciar a criação de espaços
condignos. Conceber o espaço exterior abrangendo a satisfação de todos os
transeuntes, é criar um espaço moderno mais inclusivo, confortável e seguro
ao cidadão.
Importa estudar em pormenor as soluções ao desenho de espaços
verdes, de modo a garantir todas as possíveis interacções (positivas, evitando
as negativas) entre as actividades de recreio e lazer em jardins/parques e o
utente (target/core). Nesse sentido a autora encontra-se a realizar um estudo
sobre a área do Design Inclusivo e Ergonómico de Espaços Exteriores, visando
a população sénior de jardins de lares.

Agradecimentos

96
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

O presente estudo foi desenvolvido no âmbito da dissertação de


mestrado da autora Arquitecta Paisagista Cláudia Nunes, na Faculdade de
Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, e com o apoio do Professor
Doutor Fernando Moreira da Silva, como orientador.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ÁGUAS, S.; BRANDÃO, P.; CARRELO, M. (2002). O Chão da Cidade, Guia de Avaliação do Design de
Espaço Público. Lisboa: Centro Português de Design.
CABRAL, F. C. (1993). Fundamentos da Arquitectura Paisagista. Lisboa: Instituto da Conservação da
Natureza.
COELHO, R. T. P. (1999). A Escolha de Mobiliário no Projecto de Espaço Urbano - Relatório de Fim
de Curso de Arquitectura Paisagista. UTL, Instituto Superior de Agronomia, Lisboa.
COSULICH, P.; ORNATI, A. (1993). Progettare Senza Barriere. Manual d´informazione tecnica,
legislativa, culturale per una progetazzione senza barriere architettoniche nell´ambito
dell´ambiente e del construito, nei mezzi di trasporto, per una migliore qualitá della vitta di tutti gli
individui. Milano: Pirola Editore, Quinta Edizione.
NUNES, C. et al (2000, Abril). Utilização de Pedra em Pavimentos - Dossier (Projecto IV). Lisboa:
Universidade Técnica de Lisboa, Instituto Superior de Agronomia.
ROBSON, N. J.; THODAY, P.R. (1985). Landscape for Disable People in Public Open Space. Edited by
P.M. Croft, University of Bath.
THODAY, P.; SMITH, P. (1980, 12 Nov.). Landscaping for Disable People. Gardens and Grounds For
Disable And Elderly People. Centre on Environment for the Handicapped.

97
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Design de Comunicação Sustentável:


uma nova disciplina
49
Maria Cadarso
50
Fernando Moreira da Silva

1 INTRODUÇÃO

Até há bem pouco tempo, temas como “eco” ou “sustentável” têm


sido matéria de investigação quase exclusiva dos Designer Industriais. No
entanto, gradualmente, os Designers de Comunicação, e sobretudo depois do
“First Thing First Manifesto”, tem-se tornado cada vez mais conscientes sobre
a necessidade de incrementar a prática do design, investigando em áreas
como ética, ambiente ou responsabilidade social. O papel, um dos suportes
mais importantes para os Designers de Comunicação, é também, um dos
aspectos mais sensíveis, nesta profissão. Seja pelo abate das árvores ou, pelo
processo de transformação da madeira em papel. O papel é um dos suportes
principais, mas muitos outros são utilizados, que também precisam de ser
investigados, no que toca à sua sustentabilidade. No entanto estas
preocupações ambientais, não são apenas um dever altruísta, mas também
uma necessidade de responder a uma crescente preocupação e procura por
parte do mercado. Os designers de Comunicação devem ser mais pró-activos,
mostrando aos cliente que estão preparados para ir de encontro aos novos
desafios, e sobretudo preparados para melhor os aconselharem. O que
confere aos Designers de Comunicação, não só uma maior responsabilidade,

49
Estudante de doutoramento, CIAUD, Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa
50
Doutor em Cor, CIAUD, Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa

98
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

mas também novas oportunidades de mercado, e sobretudo um maior


controlo sobre o seu trabalho.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Introdução
Este estudo faz parte de uma investigação de doutoramento em
curso, que se espera no final possa trazer um relevante contributivo para a
definição do que é o Design de Comunicação Sustentável, assim como um
código de pratica profissional.
A abordagem definida para este estudo, começa por contextualizar
a Sustentabilidade, no Desenvolvimento Sustentável. O passo seguinte analisa
os contributivos dos Designers Industriais para o eco-design e para o design
sustentável. Finalmente, a evolução dos Designers de Comunicação nesta área.
Igualmente importante de referir são os esforços de instituições, designers e
teóricos, entre outros, que já apresentam resultados significativos nesta área.
Apesar de não ser o objectivo principal do estudo aqui apresentado,
a investigação de doutoramento, na sua forma mais alargada, não estaria
completa se não se analisasse os mercados, ou ainda o contributivo transversal
da ergonomia cognitiva como forma de revelar formas de comunicar mais
respeitadoras, com o consumidor final/indivíduo, no fundo o receptor principal
do Designer de Comunicação.

2.2 O Desenvolvimento Sustentável


Vivemos num mundo que enfrenta desafios ambientais e sociais,
nunca sentidos antes. As diferenças entre os países ditos desenvolvidos e os
não desenvolvidos, são ainda muito grandes e difíceis de ultrapassar. Até
mesmo, nos países tidos como industrializados as diferenças sociais, e as
consequências que de aí advêm, são um crescente problema. São questões

99
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

que nos preocupam a todos, quer seja como indivíduos, como cidadãos, ou
profissionais. O principal objectivo alargado desta investigação, é saber de que
forma os Designers de Comunicação podem contribuir para uma solução
comum.
Em 1983, sobre a orientação de Gro Harlem Brundtland, foi criada a
World Commission on Environmental and Development (WCED). O principal
objectivo desta comissão era “identificar e promover a causa do
51
desenvolvimento sustentável” , (O’Riordan 2000), tendo surgido a primeira
definição do que deveria ser um desenvolvimento sustentável: “para o
desenvolvimento ser sustentável, tem de ter em conta os factores sociais, os
ambientais, bem como os económicos, dos recurso, vivos e não vivos, assim
como levar em consideração, a longo e curto prazo, as vantagens e as
52
desvantagens das acções alternativas” (WCED 1983 citado em O’Riordan
2000).
Desde 1983 até hoje, são muitas as “agendas”, as conferências, os
debates à volta do tema Sustentabilidade, e estima-se que haja cerca de 64
definições para o Desenvolvimento Sustentável. Espera-se também que este
número continue a crescer à medida que o debate global continua a crescer, a
multiplicar-se e a alargar-se. Em termos simples, Desenvolvimento Sustentável
para uns significa manter-se o status quo, para outros só faz sentido se for
feito com responsabilidade, conservação e entendimento. No entanto para a
grande maioria das pessoas trabalhar no sentido do Desenvolvimento
Sustentável, trata-se de exercer qualquer actividade tendo em conta três tipos
de factores: os sociais, os ambientais e os económicos, ou seja aplicando uma
53
“linha tripla de base” (AIGA – American Institute of Graphic Arts 2003). Esta é

51
Tradução do autor do original “identifying and promoting the cause of sustainable development”
52
Tradução do autor do original “identifying and promoting the cause of sustainable development” (O’Riordan
2000) and the first definition of sustainable development was: “For development to be sustainable, it must take
account of social and ecological factors, as well as economic ones; of the living and non-living resource base; and
of the long-term as well as the short term advantages and disadvantages of alternative action.”
53
“triple bottom line”

100
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

a definição utilizada tanto na investigação de doutoramento, como neste


estudo.

2.3 O Design e a Sustentabilidade


Em 1971 Papanek, no seu livro “Design for the real world”, desafiou
os designers a trabalhar com um maior sentido de responsabilidade. Ele
escreveu que os designers deveriam propor desde soluções simples, a
produtos, ou a serviços para serem usados pela comunidade e pela sociedade
(Papanek 1985).
No principio dos anos 90, na Holanda, num programa conjunto com
o governo, a Universidade de TUDelft e a Philips Electronics, criaram um
método de análise do ciclo de vida de um produto incluindo a avaliação do
custo de impacto ambiental no seu fim de vida. Com esta ferramenta o eco-
designer consegue não só avaliar os custos, mas também determinar logo na
fase projectual as partes que poderão ser recicladas, reutilizadas ou
remanufacturadas. A escolha da matéria prima ganhou nova importância: o
quanto esta consome em recursos como água e energia; se são renováveis ou
não; se nalguma das fases de produção, desmantelamento ou lixo, existe a
libertação de químicos que possam ser prejudiciais para o ambiente, para o
Homem ou para os animais; se a forma como este produtos são transportados
é muito poluente, ou se existem formas alternativas, são apenas alguns dos
aspectos mais relevantes.
Integrar o eco-design no desenvolvimento sustentável foi o passo
seguinte. Para além de pensar no objecto em si era preciso pensar em como
este se insere num todo que considera, não só os aspectos ambientais, como
também os económicos, e os sócio-étnicos procurando uma maior igualdade
entre homens e mulheres; entre gerações; e entre países pobre e ricos. Úrsula
Tischner aponta 4 princípios metodológicos para um design tendo em vista o
desenvolvimento sustentável: integrar os princípios de eco-design o mais cedo

101
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

possível; pensar no ACV; pensar em funcionalidade em vez de produto; e


definir prioridades.
A Divisão da Tecnologia, Indústria e Economia do Programa
Ambiental das Nações Unidas lançou um documento sobre “The Role of
Product Service Systems”, cujos autores Manzini e Vezzoli, com a colaboração
de Dijon de Moraes, Martin Charter, entre outros, apresentam as vantagens de
uma sociedade que em vez de consumir objectos físicos, está virada para o
consumo de produtos e serviços que em conjunto lhe satisfaça as suas
necessidades. Por exemplo em vez de um indivíduo comprar uma máquina de
lavar roupa, que significa um investimento inicial considerável, acrescido do
valor da sua manutenção, a alternativa seria o “serviço de lavagem de roupa”
com custos muito mais baixos, sendo que, o armazenamento da máquina,
investimento inicial, custos de manutenção, e responsabilidade ambiental,
correm por conta do fornecedor do serviço.
Nas metas para o desenvolvimento sustentável prevê-se que os
países industrializados tenham de vir a consumir apenas 10% do que
consomem actualmente, e por isso existe neste longo processo, um ponto de
charneira: para além de produzirmos de uma forma eco ou de compensarmos
as nossas emissões de CO2 com a libertação de O2 é preciso consumir menos,
para que se produza menos. Os designers são responsáveis por colocar no
mercado, por ano, milhares de produtos, e por isso a sua consciencialização
sobre o que é o desenvolvimentos sustentável é muito importante.

2.3 Os Designers de Comunicação e Gráficos e a Sustentabilidade


Paralelamente têm vindo a emergir acções entre os Designers
Gráficos e de Comunicação. Em 1964, vinte e dois Designers Gráficos e de
Comunicação assinaram a primeira versão do manifesto “First Things First
Manifesto”. A segunda e mais recente versão, liderada por Max Bruinsma,
clamava que os profissionais deviam trabalhar, independentemente e para

102
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

além da estratégias do marketing e da publicidade, e envolver-se em causas


mais válidas.
Apesar do “First Things First Manifesto” ter sido uma chamada de
atenção, participação e acção, teve menos impacto do que se esperava.
Tirando algumas iniciativas esporádicas e um pouco aleatórias, de designers
com maior sentido de responsabilidade, a grande maioria dos Designers de
Comunicação (incluindo Gráficos e Visuais) sentem que trabalham para o
cliente, e que por isso devem responder ao mercado tendo em conta única e
exclusivamente os interesses deste.
De forma a estabelecermos uma plataforma comum de
entendimento, tanto na investigação de doutoramento como neste estudo,
usamos o termo Design de Comunicação como a disciplina que comunica, não
só visualmente, mas também de formas mais abstractas, ou seja que é capaz
de enviar a mensagem desejada de forma explicita ou implícita (como por
exemplo um evento, uma experiência, um sentimento apreendido, etc.).
Assim, e neste contexto, quando no referimos a Designers de Comunicação,
estamos a englobar, também , os designers gráficos e visuais. Da mesma
forma, Design de Comunicação Sustentável é a disciplina que comunica, não só
visualmente, mas também de formas mais abstractas, ou seja, que é capaz de
enviar a mensagem desejada de forma explicita ou implícita, mas que
conscientemente, e dentro das suas possibilidades, reduz o impacto
ambiental, leva em consideração os aspectos sociais, assim como os
económicos.
Em termos de Design Gráfico Sustentável, um dos contributos mais
relevantes foi dado pelo American Institute of Graphic Arts (AIGA 2003) com o
seu Sustainable Centre, onde os designers podem encontrar a informação
sobre recursos, técnicas e suportes, tais como sobre o papel.
Utilizando os dados disponíveis, nos EUA, podemos compreender a
importância dos Designers de Comunicação trabalharem no sentido de um
desenvolvimento sustentável: “os americanos recebem mais de 65 biliões de

103
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

peças de publicidade não solicitadas, por correio, por ano; o que equivale a
230 exemplares para cada pessoa no país. De acordo com a organização sem
fins lucrativos Environmental Defence, 17 biliões de catálogos foram
produzidos em 2001 usando, na sua maioria, 100% de pasta virgem. O que dá
54
cerca de 64 catálogos, por pessoa nos EUA” (AIGA 2003).
O papel é um suporte renovável, pelo menos em teoria. No entanto
a sua incapacidade de se regenerar mais rapidamente do que a desflorestação,
colocam-no em risco. Mas o grande factor de peso no que toca ao papel, é o
processo de transformação da madeira, na pasta de papel (AIGA 2003). Para os
Designers de Comunicação, o papel, é apenas um dos suportes, entre outros,
que também necessita de ser avaliado.
Esta questão ambiental, para além de um dever altruísta, deve ainda
ter em consideração que se trata de uma nova e crescente preocupação por
parte das empresas. A título de exemplo, os Relatórios de Sustentabilidade,
cresceram100%, entre 2002 e 2003 (AIGA 2003). Para os designer, o domínio
da sustentabilidade, na sua área, pode ser um factor de diferenciação e de
consolidação junto do cliente: “esta crescente atenção para uma
responsabilidade ambiental pode ser uma oportunidade para os designers,
serem consultores críticos para as empresas, em como reduzir os seus
impactos ambientais negativos sem comprometer a imperativa diferenciação e
55
promoção através do design e da impressão” (AIGA 2003).
O que a AIGA nos demonstra é a importância da pro-actividade por
parte dos designers, mostrando aos clientes que estão informados e que são
capaz de os aconselhar. Se por um lado dá aos designers mais

54
Tradução do autor do original “Americans receive over 65 billion pieces of unsolicited mail each year, equal to
230 appeals, catalogues and advertisements for every person in the country. According to the not-for-profit
organization Environmental Defence, 17 billion catalogues were produced in 2001 using mostly 100 percent
virgin fibre paper. That is 64 catalogues for every person in America”
55
Tradução do autor do original “This increased attention to environmental responsibility can be an opportunity
for designers to be seen as critical advisors to corporations on how to reduce their negative impacts without
compromising the imperative for product differentiation and promotion through design and printing”

104
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

responsabilidade, por outro dá mais controlo sobre o seu trabalho, alargando


as suas oportunidades no mercado.
Outro relevante contributo, foi dado com a criação do “Designer
Accord” que representa, sem dúvida, um grande passo. O acordo pode ser
adoptado pelos designers, o que significa que aceitam trabalhar com algumas
directrizes que são bastante simples de seguir, tornando-se numa fácil
motivação para profissionais mais conservadores. Por outro lado se estas
directrizes fossem muito restritivas, teriam o efeito inverso e seriam no
mínimo desencorajadoras. O acordo já conta com mais de 170 000 membros,
mas provavelmente será razoável assumir-se que muitos deste membros
apenas usam o acordo como forma de promoverem a sua imagem, ou até
mesmo de forma menos empenhada, já que não há qualquer tipo de
verificação/avaliação externa.
Especificamente empenhada em trabalhar no Design de
Comunicação Sustentável, está a Society of Graphic Designer of Canada (GDR),
que em Abril de 2009, durante o encontro anual, propuseram a primeira
definição para o que pode ser esta nova disciplina: “o Design de Comunicação
Sustentável, é a aplicação dos princípios da sustentabilidade à prática do
Design de Comunicação. Os profissionais devem considerar o ciclo de vida dos
seus produtos e serviços, e empenhar-se em estratégias, processos e
materiais, que promovam o respeito pelo ambiente, pela cultura, pelos
56
aspectos sociais, e por fim pelos económicos” (GDR 2009). Juntamente com
esta definição acordaram, também, num conjunto de valores e princípios, que
guiam os membros da GDC no processo projectual, e que se resumem em três
grandes pontos:
 Assumir a sua responsabilidade neste mundo
interconectado;

56
Tradução do autor do original “Sustainable communication design is the application of sustainability principles
to communication design practice. Practitioners consider the full life cycle of products and services, and commit
to strategies, processes and materials that value environmental, cultural, social and economic responsibility”.

105
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

 A segunda é sobre as alterações que podem ser feitas no


atelier.

A terceira são um conjunto de directrizes para serem
utilizadas no processo projectual e no aconselhamento com
ao cliente.
Brian Dougherty, autor do livro “Green Graphic Design”, que possui
mais de onze anos de prática efectiva como Designer de Comunicação, no seu
atelier “Celery Design Collaborative”, afirma: “As mensagens que fazemos, as
marcas que construímos, as causas que promovemos podem ter um impacto
57
muito maior que o papel onde as imprimimos” ; e acrescenta: “para além de
procurar melhores materiais e técnicas de produção, os designers devem criar
58
mensagens capazes de ter um impacto positivo no nosso mundo” (Dougherty
2008).
Os casos apresentados, demonstram sem dúvida a pertinência e a
relevância do tema. Contudo, também demonstram que existe uma vontade
persistente de continuar a utilizar os suportes tradicionais, mas reduzindo o
impacto ambiental. O que esta investigação de doutoramento se propõe, num
âmbito fora deste estudo, é o de tentar encontrar um novo paradigma.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Analisando em perspectiva, a crescente necessidade de ter um


padrão de sustentabilidade começa a ser mais do que evidente também para o
design de comunicação. Associações como AIGA, Design Accord, ou a Society
of Graphic Designer of Canada, demonstram a importância de se investigar
nesta área. No entanto, a falta de informação interconectada, entre
associações, ou pela incapacidade de falar a uma só voz, demonstram, mais

57
Tradução do autor do original “the message designers make, the brand we built, and the causes we promote
can have impacts far beyond the paper we print on”
58
Tradução do autor do original “In addition to seeking our better material and manufacturing techniques,
designers can craft and deliver messages that have a positive impact on the world”

106
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

uma vez, a necessidade de recolher e analisar dados, conferindo à investigação


de doutoramento actualidade e relevância.
Torna-se assim evidente, que para este estudo podemos considerar,
como primeiros resultados, a necessidade de recolher e validar informação, de
forma a que possa ser usada como matéria de trabalho comum para todos os
designers.
Como objectivos gerais desta investigação de doutoramento espera-
se poder contribuir para definir como a Sustentabilidade pode ser aplicada ao
Design de Comunicação de forma a acrescentar valor ao resultado final. Isto
significa, identificar as variáveis envolvidas, os parceiros, mas sobretudo
identificar um novo paradigma que permita encontrar novas respostas. Mas
significa também, encontrar um maior equilíbrio entre os aspectos sociais,
ambientais e económicos, tanto no atelier do designer, como no projecto, no
aconselhamento ao cliente , e no receptor final o consumidor.
Ao procurar formas de comunicar mais sustentáveis, mais
ergonómicas, procura-se também estabelecer com o receptor
final/consumidor uma relação diferente, utilizando uma leitura transversal na
óptica da ergonomia cognitiva.
Em conclusão, os aspectos positivos são a consciencialização sobre a
importância da sustentabilidade na prática do Design de Comunicação, o seu
crescente interesse, assim como a primeira tentativa de definir o que é a
disciplina do Design de Comunicação Sustentável, sobretudo porque define a
base deste estudo, mas também, demonstra a capacidade da investigação de
doutoramento para crescer estruturadamente .

Agradecimentos
O presente estudo foi desenvolvido com o apoio da Fundação para
a Ciência e Tecnologia, e do CIAUD - Centro de Investigação em Arquitectura,
Urbanismo e Design.

107
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

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110
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Design e ergonomia:
Uma abordagem sobre a inter-relação
entre o idoso e o ambiente doméstico
59
Ana Cristina Lott Daré
60
Cristina Caramelo Gomes

1 Introdução

A população mundial tem apresentado uma transformação


significativa na sua constituição no último século, com o rápido crescimento da
população idosa, devido principalmente ao declínio da taxa de natalidade e ao
crescimento da esperança média de vida. Com uma maior longevidade, se
chega à velhice com uma saúde e uma qualidade de vida sem paralelo em
épocas passadas, tendo transformado radicalmente o perfil da população
mundial lançando novos desafios no sentido de adequar e melhorar a resposta
relativa à qualidade de vida desses indivíduos. Este processo está sendo
difundido por todos os continentes, mas é na Europa que tem ocorrido com
mais força.
O próprio conceito tradicional de família tem sido alterado ao longo
do tempo, sendo substituído por outros tipos de organização familiar, com
novas relações e parentescos, obrigando a uma adaptação dos idosos às
exigências do séc. XXI. Em contrapartida, diante do facto de se tornarem mais
autónomos e activos, os idosos exigem que respeitem as suas necessidades e
os seus períodos de lazer, sem, contudo se descuidarem dos compromissos
familiares: oferecem experiência e sabedoria nos momentos de crise,
transmitem as raízes da história familiar e mantêm o vínculo entre gerações.
O objectivo deste estudo é no sentido de uma reflexão sobre a
promoção da reavaliação dos ambientes domésticos, com ênfase no

59
Mestre em Design – Faculdade de Arquitectura – Universidade Técnica de Lisboa
60
Doutora em Arquitectura – Faculdade de Arquitectura e Artes – Universidade Lusíada de Lisboa

111
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

entendimento das necessidades ergonómicas e do conhecimento das


alterações biológicas do organismo humano. A acessibilidade e a usabilidade
dos espaços interiores devem privilegiar o conforto e a segurança, que são
requisitos básicos na promoção da qualidade de vida, bem como na
manutenção desses indivíduos nos seus ambientes, possibilitando a
convivência com os filhos, netos, amigos e vizinhos, sendo possível adaptar a
habitação para que as memórias e a segurança sejam aliadas.
Os indivíduos que vivem hoje a sua velhice, constituem numa 1ª
geração a experimentar essas mudanças, que são ainda mal conhecidas,
sofrendo um impacto, devido a força das representações socialmente
negativas, bem como da utilização de equipamentos de lógica digital, que não
representam qualquer referência ao momento tecnológico que são
sobreviventes (Daré, 2010).
As habitações nos moldes tradicionais nas quais são concebidas não
contemplam as alterações biológicas ocorridas durante o ciclo de vida do ser
humano, gerando conflitos na inter-relação desses indivíduos com o ambiente
construído. Dessa análise, verifica-se que pouca atenção é dada às
necessidades inerentes aos seus utilizadores, visando o uso confortável,
seguro e independente, influenciando a competência comportamental e
adaptativa, e sendo manifestada através do bem-estar e da satisfação pessoal
com a própria vida. Para esses indivíduos a manutenção da sua autonomia, isto
é, a capacidade de determinar e executar a sua própria vontade, surge como
um paradigma de saúde.
A flexibilidade e a possibilidade de ajustes na habitação poderão ser
alcançadas quando os projectos forem desenvolvidos de acordo com as ideias
defendidas pelo design inclusivo. Este processo apresenta na sua concepção a
utilização de espaços, produtos e sistemas de comunicação a serem utilizados
pelo mais amplo espectro de indivíduos, sendo contempladas questões
relativas ao fácil entendimento sobre o uso (legibilidade, a segurança e o
conforto de todos.
As habitações são constituídas por duas componentes: a física e a
social, com ênfase nos valores humanos, dentro de parâmetro formais ou
dimensionais, não devendo privilegiar apenas a adequação da habitação aos
indivíduos idosos, mas sim a sua integração ao meio urbano por intermédio da
acessibilidade a edificações e serviços apropriados, na comunidade no qual
vivem.

112
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Ilustração 1 – Áreas a considerar numa cidade amiga do idoso

(Fonte: WHO, 2009)

Portanto, as necessidades dos indivíduos devem ter como base não


apenas os factores biológicos, mas também os factores psicológicos e sociais,
não havendo possibilidade de ruptura desses três factores, o que leva ao risco
de um condicionamento dos comportamentos e a não possibilidade da
realização das suas aspirações.
A acessibilidade na habitação contraria a tendência dos modelos
projectuais existentes, na medida em que permite a adequação do meio às
necessidades de um conjunto diversificado de utilizadores, que passam a
poder alcançar e utilizar os espaços e os equipamentos com maior segurança,
conforto e autonomia. Dessa forma, privilegia a adaptação das habitações,
visando a possibilidade de prever alterações das características do espaço para
uma melhor resposta à essas necessidades, tendo-se como resultado a

113
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

melhoria da qualidade de vida dos indivíduos e contribuindo de forma


significativa para a qualidade do parque habitacional.

2 Fundamentação Teórica

2.1 O ser humano e o envelhecer

De uma forma generalizada, trata-se o envelhecimento como um


estado classificado de terceira idade ou quarta idade. No entanto, o
envelhecimento não é um estado, mas sim uma degradação progressiva e
diferencial, afectando a todos os seres vivos, sendo o seu termo natural a
morte do organismo. Embora seja uma fase previsível da vida dos indivíduos, o
envelhecimento não é geneticamente programado. Não existem genes que
determinam como e quando envelhecer, mas sim genes variantes cuja
expressão favorece a longevidade ou reduz a duração do ciclo de vida (Daré,
2010). Devido a diversidade individual ocorrida nesse processo, o
envelhecimento pode ter características de acordo com o nível em que se situa
– biológico, psicológico ou sociológico, podendo ser independente da idade
cronológica (Fontaine, 2000), sem ocorrer, no entanto, uma dicotomia em
relação aos factores externos, comportamentais e ambientais.
Envelhecimento biológico – relacionado com o envelhecimento
orgânico, sendo que cada órgão sofre modificações que tendem a alterar
a capacidade de auto-regulação tornando-se menos eficazes;

Envelhecimento psicológico – relacionado com as competências


comportamentais que os indivíduos dispõem como respostas à
alteração do ambiente, incluindo a memória, inteligência e motivação;

Envelhecimento sociológico – relacionado com o estatuto e hábitos


dos indivíduos relativamente aos outros membros da sociedade. Esta idade é
fortemente determinada pela cultura e pela história de um país.
Mais do que nunca, o envelhecimento é uma questão demográfica,
económica e social, que desde o final do séc. XX, tem apresentado uma
evolução nos dados relativos quanto ao crescimento da população idosa,
verificado tanto nos países desenvolvidos, bem como nos países em
desenvolvimento. Esse facto será mais sentido nas sociedades desenvolvidas

114
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

europeias, quando as gerações numerosas do Baby Boom do pós-guerra


atingirem, em 2011, a idade da reforma. Haverá, nesse momento, um
aumento dos efectivos de pessoas idosas, desproporcionado com as gerações
posteriores, que entram em menor número na idade activa.

Tabela 1 – Percentagem da população urbana nas principais zonas

(Fonte: WHO, 2009)

The developed world became rich and then it became old


while developing countries are becoming old before
61
they become rich.
- Social Development and Ageing
Crisis or Opportunity? Special
panel of Geneva 2000 (WHO and OMS, 2000).

A questão relativa ao envelhecimento pode ser analisada sob duas


perspectivas: A perspectiva da individualidade, onde o envelhecimento está
assente numa maior longevidade dos indivíduos, consequência de um

61
TL: “O mundo desenvolvido tornou-se rico e então tornou-se velho enquanto os
países em desenvolvimento tornaram-se velhos antes de se tornarem ricos.”

115
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

aumento da esperança média de vida e pela perspectiva demográfica, definida


pelo aumento de pessoas idosas na população total. Esse aumento da
população idosa é conseguido em detrimento da população jovem e/ou em
detrimento da população activa (Daré, 2010).
A OMS define a população idosa como sendo os indivíduos – homens
e mulheres, com idade igual ou superior a 65 anos, quando se trata de países
desenvolvidos e 60 ou mais anos, quando se trata de países em
desenvolvimento (IBGE, 2002).
Dentro de uma perspectiva defendida pela Organização das Nações
Unidas (ONU), a criação de uma sociedade para todas as idades, fundamento
da justiça social, não pode ser constituída sem que se observe a velhice como
uma construção social necessariamente plural e heterogénea, surgindo, dessa
forma, uma nova ideia de velhice, construída em torno do envelhecimento
activo, num processo que permite optimizar as oportunidades de saúde,
participação e segurança, bem como da participação do idoso a nível social,
económico e cultural, de acordo com suas necessidades, desejos e
capacidades, compatibilizando o envelhecimento e a qualidade de vida. A
manutenção da autonomia e da independência durante o processo de
envelhecimento são pontos importantes tanto para os indivíduos, bem como
para as políticas sociais.

Tabela 2 – Determinantes do envelhecimento activo

(Fonte: WHO, 2009)

116
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

A população idosa é composta, na sua grande maioria – 52,5% (Sousa


et al., 2002), por indivíduos independentes, sendo que estes não apresentam
sintomas de depressão e de diminuição cognitiva, vivendo maioritariamente
com as famílias ou mesmo sozinhos (Sousa et al., 2002). Dessa forma, se
tornam consumidores conscientes e com um alto poder decisório relativo aos
produtos e serviços que virão a utilizar, bem como na manutenção em seu
meio habitual de vida. Devido à descoberta de um mercado de consumo
direccionado para esse público-alvo, há uma tendência a se considerar as suas
potencialidades, permitindo uma associação entre o aumento da esperança de
vida e a boa qualidade dessa mesma vida, com a autonomia e
integração/participação na família e na sociedade, aproveitando as
capacidades individuais desses mesmos indivíduos (Ribeirinho, 2005).

2.2 Envelhecimento biológico X Envelhecimento cronológico

Todos os indivíduos que vivem muito tempo não escapam a velhice,


tornando-se um facto intolerável para o homem contemporâneo, face a um
sistema personalizado onde só resta ao indivíduo durar e conservar, aumentar
a fiabilidade do corpo, ganhar tempo e ganhar contra o tempo (LIPOVESTSKY,
1989). É um fenómeno inelutável e irreversível, que se inicia na fase de
desenvolvimento, sendo que a grande maioria das alterações são
compensadas e ultrapassadas até uma idade muito avançada (Beauvoir, 1990).

Quantos anos você teria se não soubesse quantos


anos tem?
Satchel Paige
(Hayflick, 1996)

Nos seres humanos, são utilizados marcadores da passagem de


tempo, que se baseiam nas certidões de nascimento, histórias ou lembranças,
sendo que, dessa forma, podemos identificar, de forma relativamente
confiável, a que dia e a que horas se nasceu, qual a data comemorativa do
aniversário, isto é, a idade cronológica, mas não as transformações biológicas
que se seguem ao nascimento, em momentos diferentes e em ritmos
diferentes. São transformações constituintes das etapas naturais do ciclo de

117
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

vida, causadas pelas alterações moleculares e celulares que resultam em


perdas funcionais progressivas dos órgãos e do organismo como um todo, não
sendo geneticamente programado.
A imagem da velhice vem, na grande maioria das vezes, associadas a
uma série de crenças e estereotipas negativos, relacionados a uma infinidades
de deficits, deteriorações e dimensões físicas, psicológicas e sociais, no
entanto, há que se observar que esses indivíduos pertencem a um grupo
heterogéneo e que a diversidade individual se acentua com a idade,
revelando-se como uma característica marcante no processo de
envelhecimento, devido ao facto que os idosos apresentam características
biológicas variáveis, em comparação dos jovens, que apresentam
características biológicas mais similares.
Ao longo do ciclo de vida, o indivíduo sente a fragilidade e o
envelhecimento do corpo físico, a limitação corporal, sendo um impasse em
relação ao tempo e ao espaço. No entanto, se houver um exercício da
memória e inteligência, esses permanecem intactos, sendo portanto, mais
eficientes que alguns jovens (Beauvoir, 1990). De maneira geral, os indivíduos
sofrem na habilidade de reconhecimento, integração e reacção às informações
captadas pelos 5 sentidos – visão, olfacto, paladar e tacto, levando a
alterações dos hábitos diários (Rocha, 2004).

Tabela 3 – Síntese das alterações biológicas do organismo humano ocorridas no


processo de envelhecimento

Decréscimo na mobilidade e destreza


Decréscimo nos alcances e força
Redução da acuidade sensorial:
 Decréscimo na acuidade visual
 Dificuldade na percepção e identificação de odores
 Dificuldade na percepção dos sons puros frequências altas)
 Decréscimo na sensibilidade táctil
 Sensibilidade térmica
Dificuldades na gestão do equilíbrio
(Fonte: DARÉ, 2010)

118
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

As perdas funcionais ocorrem nos sistemas vitais devido ao


envelhecimento, sendo consideradas normais e não estados de doença. As
doenças associadas à velhice não fazem parte do processo normal do
envelhecimento. O câncer, as doenças cardíacas, Mal de Alzheimer, doença de
Parkinson e derrames ocorrem, principalmente, à medida que o organismo se
torna vulnerável, e os mecanismos de defesa menos eficientes (Hoffman,
2004).

Tabela 4 – Manter a capacidade funcional ao longo da vida

(Fonte: WHO, 2009)

A perspectiva frente às fases constituintes do ciclo de vida dos


indivíduos reconhece que o grupo desses indivíduos não é um grupo
homogéneo, sendo que as diversidades individuais tendem a aumentar com o
avançar da idade.

2.3 O design ergonómico direccionado ao idoso

Com o avanço da idade, o tempo de permanência e o uso da


habitação tornam-se mais intenso para os idosos, sem, contudo se privarem do

119
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

convívio social ao qual estão habituados, sendo que o modo pelo qual
vivenciam o quotidiano, é traduzido num sentimento de bem estar físico,
mental e espiritual, sendo que essas vivências devam ser qualificadas na
promoção da adequação das necessidades do utilizador dentro do conjunto
dos espaços, contribuindo para uma melhor qualidade de vida (REBELO, 2004).
A idade avançada é acompanhada por alterações que desafiam a
inter-relação dos indivíduos com os espaços interiores, sendo que a habitação
concebida para o individuo Mítico, não considera as alterações das
capacidades funcionais às quais estão sujeitos durante o seu ciclo de vida,
estimulando o desequilíbrio no uso da habitação e, consequentemente,
afectando negativamente o modo de vida, os hábitos e a sua harmonia. Os
projectos habitacionais geralmente não equilibram o ciclo de vida dos
indivíduos com o ciclo de vida das habitações (Daré, 2010).
As dimensões corporais, das quais os indivíduos têm plena
consciência, servem como parâmetros de medidas para a percepção e relação
do espaço habitacional. O corpo deveria ser a medida base para edificar num
sistema tridimensional, numa escala de relações no espaço finito (CÍRICO,
2001). Os princípios dos fundamentos organizacionais do espaço têm como
base os resultados obtidos através da experiência da relação do homem com o
seu próprio corpo e com outras pessoas, confrontando as necessidades
biológicas e as relações sociais. A construção só irá surtir um efeito intenso,
quando forem satisfeitas todas as distâncias possíveis, todos os aspectos e
condições da escala humana. O dimensionamento humano se torna, portanto,
importante na utilização em projectos de espaços físicos, tais como: a altura e
os comprimentos dos membros superiores – do braço e antebraço, e dos
membros inferiores – da coxa e da perna. As mais importantes diferenças
entre as medidas do corpo são pelo sexo, idade e por factores étnicos. Com a
idade, diminuem as medidas de comprimento, enquanto que o peso e a
circunferência do corpo aumentam (CÍRICO, 2001).

120
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Tabela 5 – Valores médios de estatura e peso de adultos de várias idades

(Fonte: PHEASANT; HASLEGRAVE, 2006)

O envelhecimento biológico é uma variável crítica e relevante nos


factores humanos e que deve ser considerada e fundamentada em três
factores básicos:
1. O crescimento do número de indivíduos idosos nos países
desenvolvidos e nos países em desenvolvimento, em função do
aumento da esperança média de vida;
2. A constituição de diferenças relevantes entre os indivíduos jovens e
os indivíduos idosos quanto às necessidades específicas;
3. O reconhecimento dos indivíduos idosos como força de trabalho e
como utilizadores de produtos e sistemas (Pheasant and Haslegrave,
2006).
A insistência na consideração de um processo metodológico de
concepção projectual centra-se na realidade vivenciada por toda uma
sociedade envelhecida, que encontra no meio construído, nos produtos da
vida quotidiana e nos sistemas com os quais interage a limitação da igualdade
de oportunidade, o desconforto e a insegurança. O que é considerado um sítio
seguro e agradável, pode tornar-se numa potencial armadilha, sendo que os
acidentes ocorrem, em geral, por causa das condições do ambiente combinado
com dois factores: limitações físicas e hábitos dos moradores, sendo
considerada as zonas mais perigosas as casas de banho, as escadas e as

121
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

cozinhas. Dessa forma, um ambiente não adequado pode aumentar as chances


de ocorrência de acidentes que podem ser fatais (SESI, 2007).
A Ergonomia deve fundamentar o design, tendo como foco o
utilizador, sendo que para sua plena utilização, o design deve ter como base as
características físicas e mentais do utilizador, sendo determinado por um
método de investigação de ciência empírica (Pheasant and Haslegrave, 2006).
É importante que nesse processo sejam considerados factores, tais como:
1. Eficiência funcional;
2. Fácil utilização;
3. Conforto;
4. Segurança;
5. Qualidade de vida (Pheasant and Haslegrave, 2006)
Independente da falta de informação representativa relativamente à
população idosa, deve-se considerar que esses indivíduos podem ser
caracterizados por um grupo no qual algumas medidas antropométricas e
capacidades funcionais estão em declínio, sendo diferente de pessoa para
pessoa, não se devendo projectar para uma média, mas permitindo uma
flexibilidade na adaptação, de acordo com as necessidades de cada um. As
medidas antropométricas disponíveis são limitadas às medidas estáticas,
sendo que a resposta para os problemas relativos a usabilidade dos ambientes
não é aplicada apenas para as medidas estáticas, mas sim para as medidas
relativas ao corpo em movimento ou seja de antropometria dinâmica e
funcional, sendo que essas questões devem ser consideradas no projecto de
ambientes, de modo a evitar e/ou minimizar que esses indivíduos se
comportem como deficientes. A associação do idoso aos indivíduos com
mobilidade condicionada é no mínimo perversa, não facilitando-lhes a vida,
estimulando e enfatizando o preconceito já existente.
A questão importante é a definição do ponto de equilíbrio entre os
ciclos de vida do edifício e de seus utilizadores, sejam eles públicos ou
privados. Se os novos estilos de vida privilegiam os edifícios inclusivos, a
questão mais crítica é o facto que os indivíduos idosos vivem sozinhos, e em
alojamentos de precárias condições habitacionais e de conforto. Em vista da
natureza da vida contemporânea, é importante definir-se os utilizadores, as
dimensões antropométricas e ergonómicas e o seu estilo de vida (DARÉ;
CARAMELO GOMES, 2009).

122
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Ilustração 2 – Antropometria do idoso do sexo feminino do percentil 1. Idade: 65-79

123
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

(Fonte: TILLEY, 2005)

Os Designers devem privilegiar, quando da sua actividade, o pleno


conhecimento dos indivíduos ao qual estão a projectar, ou seja, seguir o
princípio do design centrado no utilizador, não significando que, no caso dos
idosos, o envelhecimento constitua um processo linear/ou padrão, sendo um
grupo que apresenta uma maior diversidade, por ser esta uma fase em que

124
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

muitas alterações ocorrem no organismo, sendo precisamente o mais


esquecido e/ou mais insuficientemente servido pela industria e os respectivos
designers (PAPANECK, 1995). Na maioria dos casos, as soluções encontradas
de usabilidade dos espaços, produtos e sistemas de comunicação voltados aos
indivíduos idosos, também o serão para outros grupos de utilizadores,
transformando-se, dessa forma, numa ferramenta de auxílio ao designers
quando da rápida identificação das dificuldades de interacção que possam
surgir em outros grupos que apresentem a mesma similaridade (Fisk et al.,
2009).

2.4 O design dos ambientes privilegiando uma melhor qualidade de vida

O envelhecimento da população é uma realidade, tanto nos países


desenvolvidos, como em países em desenvolvimento, provocando fortes
pressões no sistema de segurança e assistência social. Devido ao aumento do
número de indivíduos a viverem em famílias uni familiares, emerge questões
relativas sobre as condições que devem ser oferecidas nas habitações, para a
manutenção das tendências de vida cada vez mais autónomas e integradas a
sociedade (IBGE, 2002).
A vida do ser humano é constituída de tarefas quotidianas, que não
sofrem alterações em todo o seu ciclo, mesmo em face das relacionadas com
as capacidades funcionais. Essas capacidades estão relacionadas com a
autonomia na execução das tarefas práticas frequentes e necessárias a
qualquer ser humano, sendo que a dependência funcional surge quando há
necessidade do auxílio de terceiros para a execução dessas mesmas tarefas. A
manutenção da independência, definida como condição de quem recorre aos
seus próprios meios para a satisfação de suas necessidades, é uma das
prioridades do indivíduo idoso, estando dependente do grau funcional do
indivíduo frente as actividades da vida diária (AVD’s), expressão de autonomia
física, que incluem actividades de andar, vestir, lavar, comer, deitar e levantar
da cama; tendo como complemento as actividades instrumentais da vida diária
(AIVD’s), que reflectem numa autonomia que incluem as actividades de
preparo dos alimentos, fazer compras, falar ao telefone, tomar medicamentos,
gerir o orçamento e finanças (Sousa et al., 2002). A conjugação dessas duas
actividades possibilita a esses indivíduos a sua autonomia. (LA BUDA, 2000).

125
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Ilustração 3 – Convívio intergeracional

(Fotografia de Ana Beatriz Lott Macynthire)

Devido ao processo de envelhecimento, há uma maior expectativa na


melhoria da qualidade de vida, sem contudo haver um comprometimento em
relação ao conforto, ao sentido estético e a segurança (Altman, 2002). Ao
espaço destinado ao habitat, que os indivíduos se apropriam, transformam-no
segundo as suas necessidades, procurando encontrar a sua identidade e
fazendo prevalecer o seu direito à privacidade e ao convívio familiar (CÍRICO,
2001). É preciso reconhecer o modo pelo qual os indivíduos “habitam” o seu
espaço vital em consonância com todas as dialécticas da vida, como se
enraízam, dia-a-dia, num “canto do mundo” (BACHELARD, 1993).
Os indivíduos idosos são um grupo com características mais
heterogéneas frente a todos os outros grupos, e com tendências de tempo de
permanência e uso da habitação mais intensos, sem contudo abdicar do
convívio social ao qual estão habituadas. As modificações do aspecto da
habitação que irá beneficia-los, tem como ênfase o entendimento das
necessidades ergonómicas e as alterações biológicas, a que são submetidos ao
longo do seu ciclo da vida, privilegiando, dessa forma, o conforto e a

126
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

prevenção de acidentes domésticos, não sendo beneficiados apenas os


indivíduos idosos, mas todos sem distinção.
A reavaliação do ambiente doméstico não deve focar apenas nas
necessidades actuais, mais também nas necessidades que irão ocorrer num
futuro próximo - as facilidades dos indivíduos hoje se transformam nas
necessidades de amanhã (Altman, 2002). A nova geração de idosos que
privilegiam permanecer nas habitações que sempre viveram, tem como
contributo o entendimento do impacto futuro que terá essa decisão e o
desafio da promoção da ligação entre o sentido estético e o sentido funcional.
Na medida que as questões relativas a segurança e a acessibilidade, visto como
um direito de ir e vir de todos, tornam-se factores relevantes, há uma
tendência na valorização da autonomia, independência e mobilidade, mas
também da valorização do conforto e do prazer. Esse facto irá promover uma
maior oportunidade de compreensão das alterações ocorridas no processo de
envelhecimento e a integração dessas características nos projectos que
beneficiem a todos nos anos que virão (ASID, 2002).

3 Considerações finais

A habitação concebida nos moldes tradicionais, não contemplam as


alterações que podem ocorrer ao longo do ciclo de vida do ser humano,
podendo gerar um descompasso quanto à sua utilização. Os projectos
habitacionais geralmente não apresentam uma abordagem, de uma forma
sistemática, do uso presente e futuro dos seus utilizadores (PERITO, 2007).
Com o avanço da idade e, consequentemente, as alterações biológicas, o
tempo de permanência e uso das habitações torna-se cada vez mais intenso,
como também a necessidade do convívio social, ao qual esses indivíduos estão
habituados. Devido a esse facto, surgiu, no 1º quarto do Século XXI, o
fenómeno que privilegia a manutenção dos indivíduos idosos nas suas próprias
habitações (ASID, 2002).
Não se pode ver o fenómeno do envelhecimento apenas pelas
alterações biológicas, mas deve-se ter em conta a importância dos aspectos
ambientais, psicológicos, sociais, culturais e económicos que o influenciam. Os
indivíduos idosos necessitam de ambientes que sejam seguros, possibilitando
o exercício do controlo pessoal, devendo privilegiar o senso de auto-suficiência
e auto-estima; motivar e colaborar com o grau de competência dos indivíduos

127
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

no uso do ambiente, como também o de evitar os riscos de ocorrência de


acidentes e incidentes, bem como a severidade de suas consequências.
As limitações decorrentes do envelhecimento não são o verdadeiro
problema, uma vez que constituem o ciclo natural de vida. O problema
encontra-se na falta de interacção entre as habilidades dos indivíduos e o
ambiente no qual vivem. O grande desafio dos profissionais é o de projectar
ambientes que compensem essas limitações e que possam ser utilizados com
segurança e conforto por muitos anos.
A diversidade individual decorrente do processo de envelhecimento é
complexa e envolve questões de estilo de vida, sendo um conjunto de factores
que definem os indivíduos, com perspectivas diversas e diferenciadas de vida.
Cada um tem o seu próprio padrão de comportamento, de estar, de viver, e
torna-se complexo gerar e aplicar um padrão de comportamento,
configurando, inequivocamente, numa situação de exclusão social. Torna-se
importante desenvolver e sistematizar conhecimentos sobre esses indivíduos
que permitam a quem projecta conhecer melhor as suas necessidades, a
diversidade característica desses indivíduos e, assim, identificar nichos mais
específicos.
Outra questão recorrente, seria o estabelecimento de critérios de
avaliação de acuidades para determinadas tarefas, traduzidos, dessa forma,
em critérios de usabilidade, legibilidade e, por que não, atractividade. Devido à
evolução científica e tecnológica, abrem-se vastas perspectivas que são
constantes desafios à capacidade de inovação, dando um contributo para uma
sociedade humanamente inclusiva e economicamente sustentável.
No sentido de evitar as situações que coloquem em risco a segurança
dos indivíduos, deve-se projectar considerando o impacto que as alterações
biológicas irão promover na capacidade dos indivíduos ao interagirem com o
ambiente doméstico, prevendo necessidades futuras, permitindo assim uma
adequação fácil e a um custo faseado e reduzido. O aspecto económico é uma
variável importante na determinação da independência desses indivíduos.
Investir em projectos dentro do processo do design inclusivo e na promoção
da acessibilidade é sinónimo da redução de custos e de qualidade de vida. Um
projecto concebido de forma adequada às condições de acessibilidade sofre
um acréscimo de 1% no valor da obra, enquanto se precisar de adequação
depois de construído esse valor poderá alcançar os 25% (ALCÂNTARA, 2007).

128
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Factores como conforto e segurança no uso da habitação são


fundamentais para o bem-estar das pessoas, mas esse é apenas um dos
requisitos na promoção da qualidade de vida. O convívio social, uma boa infra-
estrutura urbana, o acesso e qualidade dos serviços sociais, o suporte familiar
e a habitação, são a base para a promoção da felicidade e satisfação dos
indivíduos idosos e uma importante ferramenta para a inclusão social (CARLI,
2004).
O grande desafio ao qual a sociedade se propõe é conseguir uma
sobre vida cada vez maior, com uma melhoria cada vez mais significativa na
sua qualidade, permitindo que as alterações biológicas não sejam um
impedimento para que os anos vividos com idade avançada tenham, de facto,
mais significado. Mais do que incorporação desses indivíduos a políticas
proteccionistas, reforçando o estigma e o preconceito a eles associado devido
simplesmente a idade, torna-se importante a busca de políticas globalizantes
que atendam o maior número de pessoas, ampliando o direito a moradias
adequadas com garantia de conforto e segurança, possibilitando uma vida
digna e saudável (CARLI, 2004).

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131
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Design Ergonômico de Ferramenta


Manual: Colheita de Mudas de Plantas
Ornamentais
62
Danilo Corrêa Silva
63
Luís Carlos Paschoarelli

1 INTRODUÇÃO
Os problemas encontrados nas interfaces tecnológicas,
especialmente entre os produtos de uso manual e seus usuários, podem
acarretar queixas, desconfortos, ou mesmo graves Distúrbios Osteomusculares
Relacionados ao Trabalho (DORT). Um exemplo prático deste tipo de problema
é observado nas atividades ocupacionais de colheitas de mudas de plantas
ornamentais, a qual é realizada com ferramentas mal projetadas e que podem
ocasionar elevados índices de pressão dos tecidos internos e da face palmar
das mãos dos trabalhadores deste setor.
Uma das alternativas para minimizar esse problema seria utilizar
uma ferramenta com os mesmos princípios de colheita manual, mas que
proporcionasse uma melhor distribuição das forças de pressão exercidas sobre
a mão. No presente estudo será apresentado o desenvolvimento de uma
ferramenta que apresente um desenho anatômico e melhor dimensionado à
mão humana, permitindo uma melhor distribuir das cargas biomecânicas
durante o ato preênsil.
Um protótipo também foi construído a fim de proporcionar a
avaliação do produto. Essa avaliação foi realizada com uma luva
instrumentalizada com sensores do tipo FSR (Force Sensing Resistors), ainda

62
Mestrando em Design, PPGDesign – UNESP – campus de Bauru
63
Professor Livre Docente, PPGDesign – UNESP – campus de Bauru

132
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

durante o desenvolvimento de mock-up, e resultou em um produto com um


efetivo Design Ergonômico.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Preensão da mão humana


Segundo Moreira et al. (2003 apud SILVA et al., 2008), a mão é um
órgão complexo com três finalidades relevantes: preensão, sendo capaz tanto
de imprimir força, como segurar e manipular objetos delicados; finalidade tátil,
a qual relaciona o organismo com o meio ambiente; e finalmente possui
grande importância na comunicação verbal e gestual. Embora os humanos não
sejam as únicas criaturas capazes de manipular objetos, essa atividade é
essencial para o desenvolvimento humano.
A preensão pode ser dividida em duas etapas distintas: o transporte,
que leva a mão junto ao objeto de interesse; e à pega, que ajusta a abertura
dos dedos às características intrínsecas do objeto, por exemplo, seu tamanho,
forma e orientação (WEIGELT; BOCK, 2007). Portanto, o movimento preênsil é
a aplicação de forças com um envolvimento anatômico das mãos, contra um
objeto para a execução de uma tarefa (IBERALL, 1987).
Durante uma tarefa de preensão, o contato da superfície palmar
com a superfície do objeto não é uniforme e a distribuição de força depende
tanto da área de contato, quanto da geometria e das características do objeto,
ou ainda da natureza da tarefa a ser desenvolvida (MURALIDHAR et al., 1999).
As características do objeto, como a sua textura (FLANAGAN et al. 1995), ou a
curvatura da superfície (GOODWIN; WHEAT 1992) também influenciam a
percepção de peso ou a força de contato, o que pode induzir o sujeito a variar
a força aplicada.
A identificação e mensuração de forças de preensão são
fundamentais em avaliações de usabilidade de instrumentos manuais, pois as
forças musculares podem exceder a habilidade dos tecidos de se adaptar.

133
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Quando isso acontece, podem ocorrer lesões nos tecidos, com inflamação e
alterações em suas estruturas fibrosas (MACKINNON; NOVAK, 1997).
Por fim, conhecer as forças de pressão de contato durante a
manipulação de um produto possibilita analisar o design aplicado a ele
segundo critérios ergonômicos, o que pode contribuir para o aumento do
desempenho e conforto durante a sua utilização, bem como atenuar os fatores
de risco que, possivelmente, levariam o usuário a desenvolver um DORT.

2.2 Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho - DORT


Os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT)
referem-se a toda condição potencialmente lesiva na qual o organismo de um
trabalhador se envolve. O destaque para o termo “distúrbios”, ressalta que os
sintomas iniciais devem ser tratados antes de se tornarem lesões. Grande
parte desses distúrbios ocorre nos tendões, visto que são as estruturas
cartilaginosas que estão diretamente relacionadas à transmissão do esforço
muscular.
O uso intensivo dos membros superiores e de seus movimentos,
especialmente de forma repetitiva e acelerada, representa um dos principais
fatores causadores dos DORT. O ritmo acelerado de trabalho pode
comprometer o tempo de recuperação natural das estruturas anatômicas
acometidas e resultar em fadigas e lesões.
Pode-se enumerar uma série de fatores ergonômicos como os
principais causadores dessas lesões, com destaque para a força, a
repetitividade, a postura, a vibração e a compressão mecânica. Cada um
desses fatores é primordial para o desenvolvimento de lesões específicas,
podendo haver também a ação conjugada de um ou mais fatores. Ainda há
que se considerar como fatores que potencializam o surgimento de DORT, os
aspectos organizacionais e psicossociais.

134
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

2.3 Análise de forças de pressão de contato


Entre as metodologias mais empregadas na mensuração de forças
de contato estão as que se utilizam de sensores de pressão acoplados à região
palmar da mão humana (Muralidhar, 1999; TARCHANIDIS; LYGOURAS, 2003;
SILVA, 2008). Estudos recentes se utilizaram de diversos dispositivos para
viabilizar a coleta de dados com a menor interferência possível. Dentre esses,
destacam-se os que empregaram os sensores acoplados à mão, pois esse tipo
de abordagem permite uma maior liberdade de movimento e mínima
interferência sobre a interface analisada.
Nesse sentido, a utilização de luvas é uma alternativa eficaz, pois
permite uma grande variedade de posicionamento dos sensores e uma grande
liberdade de movimentos. Nesse estudo, foi utilizado uma luva
instrumentalizada com sensores FSR (Figura 01) descrito por SILVA et al.
(2008). Para o desenvolvimento dessa luva, foram necessários diferentes
estudos na área da Biomecânica (PASCHOARELLI, 2002), os quais foram
decisivos para a qualidade estatística dos resultados de análise.

Figura 01. Localização dos pontos de análise na face palmar e a luva com sensores FSR.
Fonte: Silva et al. (2008).

135
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

3 PLANTIO E COLHEITA DE MUDAS


O processo de plantio de mudas de flores possui algumas
particularidades. Há algumas espécies que são plantadas em sacos plásticos ou
vasos apoiados sobre uma mesa de aproximadamente 800 mm de altura.
Porém, há outras espécies que não se desenvolvem com a utilização desse
processo, por isso, são plantadas no solo, em canteiros.
A colheita dessas mudas, embora não seja um processo de
predominância estática, submete os trabalhadores a condições indesejadas. A
ausência de um equipamento específico para a realização do corte das mudas
estimula os trabalhadores a adaptarem e confeccionarem o seu próprio
equipamento. A Figura 02 exibe os equipamentos e as condições de risco as
quais o usuário se submete.

Figura 02. Equipamento utilizado para a colheita e postura extrema durante a atividade.

O primeiro item à esquerda na Figura 02 é uma faca de cozinha


comum com a lâmina quebrada pelos próprios trabalhadores para se adequar
ao corte das mudas. As quatro ferramentas seguintes são adaptações feitas
com chapas de calha de zinco para os diversos comprimentos de mudas
exigidas pela prescrição da tarefa.

136
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

O corte das mudas é realizado tomando-se qualquer uma dessas


ferramentas e pressionando a mesma contra o caule da planta, o qual é
apoiado pela face palmar do dedo polegar, ou seja, o corte é efetuado contra o
polegar. Essa postura é potencialmente perigosa (principalmente para os
trabalhadores menos experientes) e requer alguma alternativa que
proporcione mais segurança e eficiência nessa atividade.

3 OBJETIVO
O objetivo desse trabalho foi desenvolver e avaliar uma ferramenta
para a colheita de mudas de plantas ornamentais, proporcionando maior
eficiência, conforto e segurança. Neste sentido, os principais requisitos
projetuais foram:
• Evitar a exposição do trabalhador a elementos cortantes;
• Reduzir a concentração de pressão sobre a superfície palmar da mão;
• Aumentar a eficiência e conforto durante a atividade;
• Utilizar as habilidades adquiridas pelos usuários com o processo atual;

4 METODOLOGIA PROJETUAL

4.1 Geração de idéias


O início do desenvolvimento do novo produto deu-se com a geração
de idéias, a qual buscou o aproveitamento das linhas anatômicas da mão
humana para a criação de um conceito que melhor aproveite os movimentos
articulares dessa região corpórea. Nesse sentido, observou-se uma evolução
de desenhos e alternativas (Figura 03), caracterizada pela melhor adequação
ergonômica da atividade.

137
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Figura 03. Evolução dos desenhos do novo cortador de mudas de plantas ornamentais.

4.2 Proposta final e modelagem tridimensional


A proposta final buscou preencher as lacunas expostas nos
requisitos do projeto à medida que incorpora um design simples, leve e
eficiente. Levando-se em conta a biomecânica da mão e o tipo de alavanca
utilizado foi possível aliar as áreas de contato ao longo do perímetro do
produto de forma que associasse as forças produzidas da forma mais eficiente
possível.
O conceito final surgiu como uma resposta definitiva as questões
ergonômicas, entretanto observou-se a possibilidade de se obter uma pega
alternativa, a partir da inclusão de um extensor de superfície na parte inferior
do corpo do produto, atendendo a outra expectativa de uso. A Figura 04 exibe
a proposta final do produto.

Figura 04. Proposta final em vista explodida.

138
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Ressalta-se que o produto não possui tecnologias sofisticadas e sua


carenagem pode ser facilmente manufaturada por meio de termoformagem a
vácuo. Já o sistema interno de corte e montagem das peças é realizado apenas
por fixação simples com adesivo industrial, parafusos ou encaixes, facilitando a
manutenção do mesmo.
Houve a preocupação em desenvolver um produto que atendesse
plenamente as necessidades da atividade, como por exemplo, os diversos
comprimentos de mudas, exigidos para cada espécie vegetal. Assim foi
elaborado o sistema com uma guia móvel (régua), que pode ser facilmente
deslocada para permitir o corte no comprimento desejado. Para uma melhor
visualização do produto e seus detalhes, foi realizada uma modelagem realista
da ferramenta em algumas possíveis situações (Figura 05).

Figura 05. Proposta final em modelagem realista.


4.4 Detalhamento técnico

139
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

O detalhamento técnico do projeto pode ser visualizado na Figura


06.

Figura 06. Detalhamento técnico do produto desenvolvido.

4.5 Desenvolvimento do Mock-up e Avaliação Biomecânica


Dois mock-ups foram confeccionados em chapas de poliestireno, por
meio de termoformagem a vácuo (vacuum forming). A construção desses
mock-ups teve como objetivo verificar a adequação do produto à mão humana
segundo as situações de uso, com e sem o extensor de superfície.
Além disso, com o uso da luva instrumentalizada, foi possível
realizar uma simulação do corte de mudas (Figura 07). A avaliação
biomecânica desse procedimento demonstrou uma distribuição de pressão
significativamente melhor (p≤0,05), quando comparada às mesmas condições
com o uso das ferramentas convencionais (SILVA, 2009).

140
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Figura 07. Situações de uso avaliadas em atividade simulada.

5 Considerações Finais
Tendo em vista as características do processo de corte e as
condições biomecânicas a que os trabalhadores se submetem durante a
atividade de colheita de mudas de plantas ornamentais, foi realizada uma
revisão teórica e uma análise da atividade para gerar os parâmetros
necessários ao design ergonômico desse equipamento. Como verificado,
grande parte das deficiências encontradas se deve à ferramenta utilizada e às
forças de preensão que o seu uso implica.
O desenvolvimento do novo produto considerou a conexão entre as
capacidades produtivas e tecnológicas da indústria, as demandas ergonômicas
e de saúde do trabalhador e as necessidades do mercado, associado à
inovação no design do produto. Além disso, a análise da atividade contribuiu
para o desenvolvimento de uma ferramenta que aumentasse a eficiência do

141
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

processo e permitisse o emprego de movimentos próximos aos que os


trabalhadores já exerciam. Esse último aspecto foi considerado importante,
devido à tentativa de inserção de outras ferramentas para o corte em
situações passadas, e que foram relatadas como não sendo bem aceitas pelos
usuários.
O desenho do novo produto procura distribuir os pontos de contato
da mão de forma adequada e eficiente, considerando os aspectos
biomecânicos e fisiológicos envolvidos. A estrutura e o funcionamento do
produto também são baseados em princípios mecânicos de pouca
complexidade. A elaboração de um modelo em escala, com um sistema de
funcionamento mais próximo possível do que seria o produto final, foi de
grande importância para compreender as necessidades da tarefa. Foram
confeccionados mock-ups, permitindo desempenhar as mesmas atividades em
condições simuladas e a avaliação com uma luva instrumentalizada e técnicas
suscetíveis à comprovação estatística dos resultados, os quais foram
significativamente positivos.
Por fim, a avaliação da interface do modelo com o usuário permite
concluir que houve uma considerável redução na exposição do polegar a
fatores de risco, bem como uma melhor pega proporcionada pelo design do
produto, que privilegiou as formas anatômicas das mãos, resultando numa
interface mais uniforme entre a mão do usuário e o produto. Assim, esse
projeto representa um exemplo de aplicação de critérios ergonômicos no
design de instrumentos manuais, considerando as características físicas,
capacidades e limitações das mãos.

Agradecimentos
O presente estudo foi desenvolvido com o apoio da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo - FAPESP, Processo 2009/13477-4.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

142
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

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143
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Ergonomia como ferramenta para


concepção de escritórios com conforto de
iluminação em uma empresa florestal
64
Ana Clara Fernandes Lauar
65
João Roberto Gomes de Faria

1 INTRODUÇÃO

Atualmente a determinação da iluminação conveniente do campo


de trabalho é fundamental para a execução de atividades visuais, bem como
fator de decisão no investimento de recursos na melhoria do ambiente de
trabalho.
Para as empresas, nos ambientes laborais questões como qualidade
de vida e qualidade de vida no trabalho vem recebendo cada vez mais atenção.
As necessidades de medidas para o bem estar dos empregados é uma
realidade. As empresas estão se organizando para investir em programas que
visam melhorias em saúde e segurança, uma vez que essa atitude pode levar
ao ganho de produtividade, além também de melhorar a imagem da
organização junto aos empregados, entre outros benefícios (Alves, 2003).
O setor administrativo da empresa florestal tem características
comumente relacionados á escritórios com postos de trabalho totalmente
informatizados. A rotina dos empregados em questão, se situa em
desenvolver controles, planilhas, consulta via monitor, digitar dados,
interagindo os setores entre sí etc. Da mesma forma está a base de sua
estrutura física com salas ocupadas até por três empregados, mesas e cadeiras

64 Mestranda em Design - PPG Design – FAAC - Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” - Bauru

65 Professor Doutor PPG Design – FAAC - Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho” - Bauru

144
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

para uso do computador, algumas salas com janelas em vidro temperado,


persianas, luminárias que diferem de uma sala para outra em potência e
modelos.
Sabe-se que o trabalho frente ao computador envolve monotonia,
tarefas altamente repetitivas, alto grau de concentração e, portanto existe a
necessidade de uma iluminação adequada para que ao executar a tarefa o
empregado não apresente desconforto visual interferindo em sua saúde (Iida,
1998), uma vez que se deve considerar que com o índice de crescimento das
empresas florestais e necessidades de novas conquistas de mercado, as
atividades laborais de seus empregados são realizadas em ritmo acelerado .
As organizações passam, no que diz respeito á saúde e bem estar de
seus empregados, por uma transição e admite que, do enfoque ergonômico, o
posto de trabalho pode ser considerado um prolongamento do corpo e mente
humana, uma vez que trata de fatores físicos e mentais, relações pessoais e
motivação no ambiente de trabalho.
Com base nesse pensamento o presente estudo insere-se dentro de
uma preocupação em usar a ergonomia como ferramenta para modificar e
desenvolver salas com iluminação apropriada, seguindo sugestões e opiniões
de seus empregados, capazes de proporcionarem maior conforto ambiental.
Após os resultados obtidos, e se comprovado for, uma mudança positiva em
qualidade de vida no trabalho, motivação, diminuição de queixas quanto ao
conforto visual e consequentemente eficiência nas atividades executadas, a
empresa discutirá a viabilidade de implantação de um projeto ergonômico de
iluminação para todos os outros setores da multinacional.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

O mundo do trabalho sofreu transformações de grandes dimensões


em curtíssimo espaço de tempo, de forma mais drástica, a partir da década de
90. As mesmas determinaram mudanças de grande impacto sobre os

145
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

trabalhadores em geral, tendo sido os setores com postos informatizados um


dos mais atingidos (Jinkings,2002; Laranjeira,1997).
Entre as palavras mais amplamente referidas, no recente contexto
de reestruturação produtiva de grandes organizações estão globalização,
flexibilização e qualidade total. Elas são apresentadas como realidades
inexoráveis e definitivas as quais cabe aos empregados se adaptarem (Alves,
2003).
Nas empresas da área florestal, ocorre um profundo processo de
reestruturação na perspectiva de mudança e avanços tecnológicos aliados aos
programas de qualidade total. Elas se voltam cada vez mais, com curiosidade,
para o aspecto da ergonomia e qualidade, por entenderem que é necessário
oferecer uma qualidade superior de vida para seus empregados
proporcionando-os ambientes de trabalho mais confortáveis, que minimizem
transtornos causadores de queixas.
Para tanto, a ergonomia surge como uma nova visão dos gestores
em saúde ocupacional, devendo ser posta a serviço dos empregados, não só
no que diz respeito á adaptação de mobiliário, mas também em condições de
conforto ambiental, principalmente com iluminação adequada haja vista, que
a atividade de qualquer trabalho deve ser considerada em suas dimensões
física, psíquica e cognitiva. Estas dimensões estão estreitamente relacionadas
ao desempenho e a saúde do trabalhador, visto que, em toda situação de
trabalho, estas três dimensões são indissociáveis; quando uma destas é
minimizada ou sobrecarregada, conseqüentemente as demais se alteram.
Portanto, se o projeto de mobiliário visa atender às exigências impostas pela
dimensão física do trabalho, ele não é o único determinante do conforto nas
situações de trabalho. As dimensões psíquicas e cognitivas influenciam
também neste processo. No que se refere aos componentes cognitivos em
sistemas informatizados, o trabalhador recebe informações provenientes do
ambiente em que ele está inserido a partir dos órgãos dos sentidos. Os
receptores nervosos localizados nestes órgãos transformam as excitações
físicas como luz, som, pressão de contato, temperatura em sucessões de
impulsos elétricos através das vias do sistema nervoso.

146
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Para Iida (1998), as condições de trabalho no computador são mais


severas e as não conformidades ergonômicas neste tipo de posto provocam
conseqüências bastante incômodas. Elas se concentram além de dores
musculares do pescoço, ombros, dores nos tendões dos dedos também na
fadiga visual.
Após stress das funções visuais, os olhos experimentam sensação de
cansaço, que se soma à fadiga geral. Entre os sintomas da fadiga visual estão
irritação dolorosa, ardência, dor de cabeça, visão dupla, redução da acuidade e
velocidade de percepção (Grandjean,1998 ), o que pode gerar adoecimento e
afastamento do trabalho.
Entre outras questões podemos citar Ferreira e Mendes (2001) que
desenvolveram um estudo onde avaliam a atividade de interação entre colegas
de trabalho e prazer-sofrimento no trabalho. Estes autores citam pesquisas
indicando que o prazer é vivenciado quando o trabalho favorece a valorização
e reconhecimento, especialmente, pela realização de uma tarefa significativa e
importante para a classe. Portanto, o estudo aqui proposto, foca uma melhor
iluminação no ambiente de trabalho do setor administrativo buscando
desenvolver um trabalho alinhado a questões que não estão equacionadas
somente por uma “vertente”, ou seja, pela NBR 5413. De acordo com Iida
(1998) em estudo realizado por Hopkinson e Collins pode-se citar “Aquilo que
vemos depende não somente da qualidade física da luz ou da cor presente,
mas também do estado de nossos olhos na hora da visão e da quantidade de
experiência visual da qual temos de lançar mão para nos ajudar em nosso
julgamento... Aquilo que vemos depende não só da imagem que é focada na
retina, mas da mente que a interpreta”. Ou seja, não é possível fazer uma
distinção marcante entre experiência sensorial e emocional, uma vez que a
segunda certamente depende da primeira e ambas são elos inseparáveis.
Qualquer fato visual terá sua repercussão, depois de interpretado, no
significado psico-emocional que o homem lhe dá.
Assim, pode ser considerado que ao se criar um ambiente propício á
tarefa executada, principalmente dentro de um programa de melhoria

147
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

contínua que envolve o próprio empregado, seus anseios e opiniões, além do


favorecimento físico de conforto e diminuição de desconforto ocupacional
cria-se uma situação positiva de valorização entre empregado e empregador.
Desta forma, o presente projeto foca sua pesquisa em condições
que possam analisar dados referentes aos empregados de uma empresa
florestal e a iluminação das salas onde estes trabalham para que novas e
adequadas salas possam ser construídas buscando a consequente melhora das
condições de vida no trabalho e gerando um espírito de valorização
profissional por parte dos empregados, permitindo assim, a ampliação da
inovação por todos os setores da empresa cuja atividade seja com postos de
trabalho informatizados.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo abordará uma intervenção, utilizando-se da


ergonomia, para construção de escritórios com iluminação adequada no setor
administrativo de uma empresa florestal, baseada em princípios e caráter da
ergonomia participativa. Várias ferramentas como check-list, questionários,
observação, fotos e filmagens serão utilizadas com o fundamento de se obter
dados capazes de proporcionarem a concepção de um novo espaço que seja
capaz de promover conforto com iluminação apropriada ás atividades em
postos informatizados, bem como a mudança de layout quanto á disposição
dos novos postos de trabalho em relação ás luminárias, janelas etc,
fomentando assim, a melhora da qualidade de vida no trabalho seja pela
melhoria do ambiente, quanto á iluminação, seja pela valorização que se dá ao
empregado uma vez que este se faz parte integrante de todo processo.

Agradecimentos

148
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Á Deus, o que seria de mim sem a fé que eu tenho nele.


Á minha mãe, meu marido Daniel, que, com muito carinho e apoio,
não medem esforços para que eu chegue até esta etapa de minha vida.
Ao professor João Faria pela paciência na orientação e incentivo.
Aos professores Plácido e Paschoarelli, pelo convívio, pelo apoio, pela
compreensão e pela amizade.
A todos os professores da PPG Design - FAAC, todos tão importantes
no desenvolvimento deste trabalho.
Aos amigos e colegas, pelo incentivo e pelo apoio constantes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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149
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

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150
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Espaço e mobiliário dos laboratórios de


desenho e modelagem dos cursos de
moda: uma análise ergonômica
66
Luciane do Prado Carneiro
67
José Carlos Plácido da Silva

1 INTRODUÇÃO
Atualmente é praticamente impossível dissociar a ergonomia do
design de produto. Porém, algumas empresas ainda não percebem os
benefícios dessa relação. Antever os fatores relacionados ao surgimento de
distúrbios ou lesões, principalmente relacionados às posturas e saúde de seus
consumidores, é muito mais saudável e lucrativo do que tentar solucioná-los
em outras etapas do desenvolvimento do projeto.
A ergonomia, contudo, possui um campo de atuação muito mais
amplo do que os relacionados aos aspectos do desenho de um produto. Assim,
ela também auxilia no projeto e organização de espaços de trabalho, visando
um melhor aproveitamento do espaço físico, melhor eficiência e conforto dos
trabalhadores.
Entre os espaços de trabalho ainda pouco estudados, estão os
laboratórios de desenho e modelagem, utilizados no desenvolvimento de
produtos de moda. Portanto, ressalta-se a necessidade de pesquisas, com a
criação e utilização de protocolos de configuração para mesas e cadeiras
nesses locais. Dessa forma, pretende-se colaborar expressivamente com
profissionais (designers, arquitetos, engenheiros, entre outros) responsáveis
por projetar ou configurar esses espaços.

66
Mestranda em Design, PPGDesign-UNESP-Campus de Bauru
67
Professor Titular, PPGDesign-UNESP-Campus de Bauru

151
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Essa pesquisa auxiliará na organização dos ambientes e no pré-


projeto de mobiliários específicos para laboratórios de desenho e modelagem.
Para isso, pretende-se mensurar quantitativamente e qualitativamente o
desconforto dos usuários dos laboratórios de desenho e modelagem dos
cursos de design de moda (ambos os gêneros).

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Ergonomia e design


A Ergonomia, nas suas diversificadas definições, relaciona-se ao
contexto da interação do homem com um sistema, sendo que sistema neste
contexto equivale ao conceito de trabalho. Dessa forma, a aplicação prática da
ergonomia é notoriamente justificada quando intervém na interface que entre
o homem e sua tarefa. Segundo Moraes e Mont’Alvão (2000), essa é a única e
específica tecnologia da ergonomia, que confere aumento da segurança,
conforto e eficiência do sistema e da qualidade de vida.
Para Chapanis (1996), um sistema é uma combinação que integra, a
partir de diversos níveis de complexidade, pessoas, materiais, ferramentas,
máquinas, softwares, facilidades e procedimentos projetados para
trabalharem juntos com algum objetivo comum. Chapanis (1972) também
afirma que um sistema é constituído por certo número de componentes, que
são planejados para adaptarem-se uns aos outros e funcionarem em conjunto
entre si, tendo em vista, na sua montagem, um propósito comum.
Entre as variáveis de interesse em um ambiente de trabalho,
destacam-se as posturas assumidas durante a realização de uma atividade. A
postura humana tem sido objeto de estudo biomecânico, uma vez que desvios
estruturais e funcionais da atitude causam desequilíbrio corporal, levando a
ações compensatórias que podem gerar agravos em suas estruturas e funções
(Brackley et al, 2004; Perez, 2002).

152
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Para Floyd & Roberts (1958) e Mandal (1985), de maneira geral, o


conhecimento por parte dos designers das exigências anatômicas e fisiológicas
da postura sentada, e um detalhado estudo da tarefa a ser desempenhada são
condições imprescindíveis para um design eficiente dos assentos. Nesse
sentido, conceitos como Design Ergonômico, que se referem Paschoarelli e Gil
Coury (2000) e Ergodesign tratado por Moraes e Mont’Alvão (2000), se
assemelham quanto à necessidade da avaliação ergonômica do produto, antes
de submetê-lo ao usuário.

2.2 Postura e biomecânica


Para Dull & Weerdmeester, 2004, embora a posição sentada seja
melhor que a em pé, deve-se evitar longos períodos sentados. Muitas
atividades manuais, executadas quando se está sentado, exigem um
acompanhamento visual, o que significa que o tronco e a cabeça ficam
inclinados para frente. Além disso, o pescoço e as costas ficam submetidos a
longas tensões, podendo provocar dores.
Quando essas considerações não são adotadas, é comum encontrar
assentos completamente inadequados às exigências das atividades a que se
destinam. Isso acontece também com as mesas e assentos utilizados para
desenho e modelagem. Muitas vezes esses mobiliários não são projetados por
designers ou muitos não são específicos para a atividade proposta, sendo
adaptados ou mal dimensionados, podendo causar desconforto ou acidentes
dentro do ambiente de ensino.
Schuler (1983), em seu trabalho sobre má postura na escola afirma
que os desajustes na coluna podem prejudicar todo o corpo, pois é através
dela que passa o fluxo nervoso que comanda a função de cada órgão do nosso
organismo. Portanto, é necessário observar a sala de aula como o ambiente de
trabalho do aluno e delimitar a carteira como sendo seu posto de trabalho,
pois nesse espaço o aluno desenvolve suas atividades escolares, como ler,
escrever e se comunicar. Essa observação pode justificar a necessidade de uma

153
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

intervenção ergonômica, o que notoriamente já ocorre em postos de trabalho


de vários segmentos da indústria, conferindo-lhes segurança, eficiência,
usabilidade e conforto.
Mello Filho (1998) recomenda que o design do mobiliário escolar
não deve ser deixado ao acaso das improvisações do mercado moveleiro, visto
que deve atender completamente às necessidades psicofísicas dos usuários.
Quando isso não ocorre, há uma tentativa constante do aluno de encontrar
uma posição cômoda na carteira, o que evidencia características impróprias
desse mobiliário, tornando o usuário suscetível a problemas posturais de
relativa gravidade (MORO, 2005).

2.3 Avaliação ergonômica


Ao quantificar o conforto/desconforto e qualificar o mobiliário dos
laboratórios de desenho e modelagem, é possível verificar a necessidade de
uma intervenção preventiva para impedir distúrbios, acidentes, ou minimizar
as possíveis alterações de postura e estrutura da coluna vertebral, ainda na
fase de projeto dos mobiliários. Para tanto, a análise ergonômica do mobiliário
utilizando a pesquisa antropométrica, biomecânica e cognitiva auxiliará na
elaboração de um protocolo de avaliação ergonômica.
Segundo Paccola (2007) as metodologias disponibilizadas através de
pesquisas científicas oferecem inúmeras e distintas formas de efetuar a
avaliação ergonômica. No entanto, justificadas pela sua tendência de aplicação
na indústria, as metodologias são direcionadas ao “posto de trabalho”
industrial. Com base nisso, a adaptação das metodologias de avaliação ao
objeto avaliado, constitui-se uma realidade nessa prática, procedente também
na área do mobiliário escolar.
Nesse sentido, primeiramente são estabelecidas as relações entre as
variáveis de interesse. Serão medidas as variáveis independentes ou de
entrada (inputs), o aluno, o mobiliário, ambiente e sistema; e também as
variáveis dependentes ou de saída (outputs), que segundo Iida (2005) podem

154
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

ser arbitrariamente escolhidas. O mesmo autor pontua ainda que a maioria


das variáveis dependentes recai no tempo, em erros ou em algum tipo de
consequência fisiológica ou psicológica. O tempo, erros e variáveis fisiológicas
podem ser medidos com certa objetividade, mas aquelas psicológicas, às
vezes, assumem aspectos complexos, de difícil registro e, nesses casos, podem
ser avaliadas subjetivamente.
Quando são estudados processos não cíclicos, a quantificação do
esforço é analisada mediante uma amostragem representativa do trabalho.
Neste caso, o valor médio de esforço fornece uma base para a avaliação da
situação geral. Com isso, pretende-se propiciar ferramentas para avaliação e
análise do ambiente de trabalho, ainda na fase de projeto.

3 OBJETIVO
O objetivo desse estudo é realizar uma análise ergonômica para
mensurar quantitativamente e qualitativamente o conforto/desconforto
causado nos alunos do curso de Design de moda, durante a utilização dos
laboratórios de desenho e modelagem da UNIPAR campus de Cascavel (PR).
Com isso, pretende-se gerar um protocolo de acompanhamento ergonômico
para auxiliar nas primeiras etapas do desenvolvimento de mobiliário específico
para esses laboratórios.

4 METODOLOGIA
4.1 Materiais
Serão utilizados diversos materiais para a mensuração das variáveis
físicas do ambiente e posturas assumidas pelos usuários. Entre eles destacam-
se:
• Protocolo de Recrutamento;
• Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE);
• Protocolos de avaliação de conforto e desconforto (Borg, Corllet);
• Régua metálica 600 mm;

155
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

• Esquadro 45 graus;
• Trena;
• Transferidor;
• Câmera fotográfica digital;
• Câmera filmadora;
O mobiliário e local pesquisado se referem às instalações da UNIPAR
(PR) os alunos que utilizam destes laboratórios nas atividades didáticas.

4.2 Questões éticas


O presente estudo, por envolver procedimentos experimentais com
seres humanos, submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do
Sagrado Coração / Bauru – SP (Protocolo: 149/10), atendendo a Resolução
196/96-CNS-MS e à “Norma ERG BR 1002”, do “Código de Deontologia do
Ergonomista Certificado” (ABERGO, 2003).

4.3 Amostragem
A amostragem será realizada por conveniência, consistindo na
observação e análise de usuários reais dos postos analisados. Assim, os
indivíduos serão todos estudantes do curso de Design de Moda na UNIPAR
Campus de Cascavel.

4.4 Procedimentos
Todos os procedimentos serão realizados no Laboratório de
Desenho e Modelagem da UNIPAR campus de Cascavel. Será realizado registro
fotográfico e em vídeo do posto de trabalho, consistindo em um dado número
de imagens efetuadas em intervalos regulares.
Mediante a escala de Borg (2000), analisa-se o estresse dinâmico, a
vibração e o nível de choque; processando os dados e avaliando os resultados.
A partir destas medidas quantitativas é possível comparar processos de

156
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

produção ou de trabalhos alternativos, onde se observa cada fase do trabalho


para assegurar que nenhum valor de estresse seja demasiado alto.
Os resultados são facilmente interpretáveis, inclusive por não
especialistas e podem servir como ferramenta para identificar áreas
problemáticas, ainda que se considere esta característica comum à maioria dos
métodos.
A análise qualitativa se dará pela avaliação dimensional do
mobiliário dos laboratórios e será realizada a partir das perspectivas de
avaliação estática que tratará da comparação entre as medidas obtidas no
levantamento realizado entre uma amostra do mobiliário e dados fornecidos
pela literatura e também pela avaliação dinâmica utilizando de manequins
antropométricos bidimensionais para definição das áreas otimizadas do
mobiliário.

4.5 Etapas Metodológicas


Levantamento do “estado da arte”, através da revisão bibliográfica.
Levantamento da situação atual; Análise da tarefa; Análise dos registros de
frequência posturais; Avaliação Dimensional; Análise da satisfação do usuário;
Determinação de critérios e pesos para projetos; Estudo das salas; Análise e
comparações entre todas as variáveis pesquisadas; elaboração como proposta
final de um protocolo de averiguação ergonômica prévia para elaboração de
mobiliário para desenho e modelagem.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Com a realização desse estudo espera-se demonstrar possíveis
demandas ergonômicas nos laboratórios de desenho e modelagem dos cursos
de moda. Ressalta-se que o objeto de estudo, inserido no contexto do
ambiente escolar, se constitui do posto de trabalho do aluno e que, por isso,
deve ser projetado e executado segundo critérios de eficiência e conforto que
proporcione um ambiente de aprendizado ideal.

157
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Pretende-se gerar um protocolo de acompanhamento e avaliação


ergonômica por meio da avaliação quantitativa e qualitativa de indicadores
físicos (posturas extremas, cargas biomecânicas) e perceptivos (conforto,
desconforto) para auxiliar nas primeiras etapas do desenvolvimento de
mobiliário específico para esses laboratórios.
A não consideração desses parâmetros no projeto pode acarretar
em má postura dos usuários, situações extremas ou esforços excessivos, o que
pode propiciar o surgimento de distúrbios ou lesões. Nesse sentido, o Design
Ergonômico, tanto para o mobiliário quanto para o ambiente construído, pode
colaborar expressivamente no desenvolvimento de sistemas mais eficientes,
seguros, confortáveis e efetivos.

Agradecimentos
O presente estudo conta com o apoio da Universidade Paranaense
UNIPAR - campus de Cascavel/PR.

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160
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Influência dos Aspectos Cognitivos da


Senescência na Interface de Uso de
Embalagens de Medicamentos
68
Cristina do Carmo Lucio
69
João Eduardo Guarnetti dos Santos
2
Luis Carlos Paschoarelli

1 INTRODUÇÃO
O número de idosos vem crescendo em todo mundo, principalmente
devido ao aumento da expectativa de vida, o que também representa
proporcional aumento no consumo de medicamentos. Devido a este fato, é
preciso conhecer o processo de envelhecimento, suas habilidades e
dificuldades no manuseio e interpretação das embalagens destes produtos.
Muitos erros ocorridos na administração de medicamentos se devem a uma
multiplicidade de fatores, sendo muitos destes relacionados ao design das
embalagens, cuja dificuldade de uso pelos idosos pode ser agravada por
problemas funcionais nas mãos, mas também por questões cognitivas.
É possível observar que tem se tornado constante indivíduos idosos
viverem sozinhos e precisarem tomar seus medicamentos sem auxílio de
qualquer pessoa. Neste contexto, as habilidades cognitivas e funcionais são
muito importantes para garantir a correta administração, segundo Westerbotn
(2007), e se há uma deficiência em uma ou em ambas destas habilidades, pode
ocorrer diversos problemas relacionados ao consumo de medicamentos, como
dosagem incorreta e polifarmácia, o que pode causar um impacto negativo no
bem-estar para o indivíduo idoso e até internações hospitalares. A autora

68
Doutoranda em Design, Universidade Estadual Paulista; Docente Mestre, Universidade Estadual de Maringá
69
Livre Docente, Universidade Estadual Paulista

161
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

sueca conclui que entre os mais idosos investigados, disfunções cognitivas e


deficiências funcionais foram os fatores significativamente associados com a
necessidade de ajuda na manipulação de medicamentos e que o fator
cognição foi superior aos funcionais.
Desta forma, o presente estudo apresenta uma revisão da literatura
acerca da senescência, das questões cognitivas dos idosos e sua interface de
uso de embalagens de medicamentos e discorre sobre as principais
necessidades quanto à melhoria destes produtos, visando uma correta
adaptação às necessidades de seus principais usuários.

2 POPULAÇÃO DE IDOSOS
De 2000 a 2050, estima-se que a população acima de 60 anos de
idade vai mais que triplicar no mundo, passando dos 600 milhões para 2
bilhões de indivíduos. Grande parte deste crescimento está ocorrendo em
países em desenvolvimento, como o Brasil, onde o número de idosos irá
crescer de 400 milhões para 1,7 bilhões (WHO, 2006). Este envelhecimento da
população acentuada em países em desenvolvimento se dá à redução da
fecundidade, da mortalidade infantil e do aumento da expectativa de vida
(LOYOLA FILHO et al., 2005).
Segundo dados do IBGE (2007), ocorreu um crescimento da população
de 60 anos ou mais de idade em todos os países da América Latina e no Brasil,
havia mais de 14,5 milhões de idosos (8,6% da população total) em 2000. Os
resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2006
evidenciam uma tendência de crescimento desta população, que alcançou 19
milhões de pessoas de 60 anos ou mais de idade, correspondendo a 10,2% do
total populacional no ano de 2006 (IBGE, 2007).
A longevidade, entretanto, é acompanhada por um número crescente
de doenças crônicas e incapacidades para realizar atividades da vida diária e
para resolver suas limitações funcionais recorrem à assistência técnica
específica e/ou de terceiros para executar a totalidade ou parte das atividades

162
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

(DAVIN et al., 2005). Com isso, não somente o número de idosos vem
crescendo, mas também o consumo de medicamentos utilizado por estes
indivíduos, devido às doenças crônicas comuns ao processo de
envelhecimento (senescência). É importante conhecer esse processo e suas
particularidades, possibilitando assim o entendimento de produtos
direcionados aos indivíduos idosos.

3 SENESCÊNCIA
Chaumon e Ciobanu (2009) distinguem o processo de envelhecimento
em ótimo, de sucesso, normal e patológico. Em muitos casos, sobretudo no
nível patológico, quando diversos acidentes ou doenças aumentam ou
agravam as consequências da senescência, o indivíduo se torna incapaz de
exercer atividades da vida diária, por mais simples que possam se apresentar,
como comer, se vestir ou usar medicamentos.
Segundo Casado (2007), os idosos podem apresentar dificuldades ou
incapacidades devido a alterações nos órgãos dos sentidos e no sistema
nervoso central, o que é corroborado por Chaumon e Ciobanu (2009). Pessoas
idosas precisam de mais tempo para se acostumar a situações novas, como um
tratamento com um remédio não familiarizado (WESTERBOTN, 2007).
A progressiva e gradual perda de algumas funções intelectuais são
mais evidentes após os 70 ou 80 anos e a base biológica deste declínio,
segundo Costarella et al. (2010), podem ser identificadas como alterações do
cérebro senil pela perda de volume cerebral, redução do número de neurônios
e arborizações dendríticas e perda dos níveis de transmissor neuronal; os mais
velhos ainda apresentam déficit de equilíbrio, bem como diminuição
psicomotora e das funções cognitivas.

3.1 Atividades da vida diária


Davin et al. (2005) abordaram 8745 indivíduos franceses maiores de
60 anos, conseguindo resultados importantes e permitindo observar que os

163
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

indivíduos com menos instrução necessitam mais ajuda, o que é corroborado


por outros autores, como Casado (2007). Há também uma maior necessidade
de auxílio quanto menor a renda do indivíduo. Davin et al. (2005) concluem
com seu estudo que quase 10% de pessoas maiores de 60 anos que vivem em
residências francesas declaram ter necessidade de assistência de outra pessoa
para realizar uma Atividades da Vida Diária – AVD e cerca de 21% para a
realização de Atividades Instrumentais da Vida Diária – AIVD.
Segundo Taş et al. (2007), a regressão logística do estudo com 7368
holandeses maiores de 55 anos revelou que a idade, saúde auto-avaliada como
pior do que de seus contemporâneos, excesso de peso, osteoartrose, queixas
articulares, rigidez matinal, queda, uso de medicamentos, diminuição da visão
e tontura foram associados à presença de algum tipo de deficiência ou
incapacidade, tanto leve quanto grave.
Mollaoğlu et al. (2010), em estudo com 78 idosos turcos sem
problemas com a fala, psiquiátricos ou cognitivos, com idade média de 70,28
anos, concluíram que idade, nível educacional e percepção da saúde são
elementos que interferem na satisfação da vida. O gênero masculino
apresentou menos incapacidades motoras que o feminino, ratificando outras
pesquisas. Indivíduos analfabetos, entretanto, apresentaram maior satisfação
de vida, o que não corrobora com outros estudos, segundo os autores.
Rautio et al. (2001) confirmam a hipótese de que fatores sócio-
econômicos estão associados à capacidade física e mental em pessoas idosas.
Em seu estudo, mulheres com maior nível de escolaridade apresentaram
melhor capacidade funcional em todos os indicadores; entre os homens de
ensino superior, só foi associado com maior capacidade vital e cognitiva.

3.2 Aspectos cognitivos


Maciel et al. (2008), em abordagem com 293 indivíduos idosos,
verificaram que 26,1% deles apresentavam alguma disfunção cognitiva.
Segundo os autores, o déficit cognitivo representa hoje em dia um grande

164
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

problema de saúde pública, com repercussões sociais e econômicas que


afetam tanto o idoso, pela perda de autonomia, quanto seus familiares, e a
presença desta condição pode ser um condicionante para o surgimento de
outros fatores de risco aos idosos, como as restrições funcionais.
Comprometimento no funcionamento cognitivo, depressão, acidente
vascular cerebral e osteoartrose são fatores de risco bem conhecidos da
deficiência ou incapacidade na literatura e foram altamente significativos no
estudo de Taş et al. (2007), embora com diferentes perfis de risco para
homens e mulheres. Os autores concluem que tanto a prevalência quanto a
incidência de incapacidade foi maior para mulheres do que homens e que o
aumento da idade é fator determinante para incapacidade de realização de
tarefas, o que é corroborado por diversos estudos, mas alertam ser importante
mais estudos considerando principalmente diferenças de gênero.
Através do projeto Saúde, Bem Estar e Envelhecimento – SABE, foram
entrevistados 2.143 paulistanos maiores de 60 anos; os resultados apontam
que o nível de escolaridade se mostra como um marcador da condição geral de
saúde, sobretudo com relação aos aspectos cognitivos. Segundo a pesquisa,
indivíduos com mais estudos conseguem melhores condições de vida; se
tornando mais informados sobre as questões de saúde, se preparam e
alcançam melhores condições de envelhecimento (PIVETTA, 2003).
Frente à combinação do funcionamento cognitivo e distúrbios
somáticos de pacientes maiores de 74 anos, os resultados da pesquisa de
Agüero-Torres et al. (2002) confirmaram que, em idosos com boa cognição,
transtornos somáticos não influenciam nas AVD, mas influenciam nas AIVD,
como fazer uso de medicamentos. Por outro lado, em indivíduos com
comprometimento cognitivo, bem como dementes, ter uma outra condição
crônica aumentou dramaticamente a dependência funcional nos AVD e AIVD.
Nos estudos de Westerbotn (2007) sobre idosos suecos, as
habilidades cognitivas foram descritas como o fator mais importante para
permitir a permanência dos idosos em seus lares. Alguns expressaram

165
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

preocupação acerca do risco de deterioração da sua já curta memória à


medida que envelhecem, fazendo-os ter consciência da possível necessidade
de mudança para alguma instituição por não serem mais capazes de
administrar a própria vida. Ter boa capacidade cognitiva, ser independente e
obter apoio com a manipulação de medicamentos de uma pessoa próxima
foram o componente mais importante para os participantes idosos, para que
possam continuar a gerir seus medicamentos (WESTERBOTN, 2007).
Em estudo sobre qualidade de vida, Compagnone et al. (2007)
observam que os idosos se sentem frustrados e fracassados com a
dependência, geralmente familiar, para realização de atividades cotidianas.
Este estudo mostra a importância de se promover quanto possível autonomia,
sobretudo para situações tão primordiais, como usar um medicamento.
De acordo com hipóteses sobre perda neural, que causam a
diminuição do desempenho de funções cognitivas complexas, há perda
proporcional de conexões neurais com a velhice, quando há uma
desaceleração da transmissão de informações ao sistema nervoso central, o
que pode ser base importante para elementos de retardamento
comportamental e cognitivo (KOK, 2000). Estes devem ser levados em conta
no projeto de produtos, como embalagens, para esse público específico.

4 USO DE MEDICAMENTOS

4.1 Embalagens de medicamentos


Quando as pessoas envelhecem, tendem a usar mais medicamentos e
o número crescente de idosos justifica a necessidade de avaliar se as
embalagens de medicamentos são adequadas a estes indivíduos. Aliados ao
intenso uso de medicamentos por idosos estão os problemas relacionados ao
seu uso, o que se deve a vários fatores, dentre os principais estão os aspectos
cognitivos dos usuários idosos e outros relacionados ao design da embalagem.

166
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Buckle et al. (2006) corroboram informando que têm ocorrido muitos


erros na administração de medicamentos, ocasionados por uma multiplicidade
de fatores, sendo muitos destes relacionados ao design das embalagens por
seus aspectos de configuração física, desde a dificuldade de interpretação do
paciente em como deve abri-la à dificuldade de abertura por si só.

4.2 Interface de uso


As embalagens de medicamentos apresentam diversos problemas ao
público em geral, sobretudo aos idosos. Estes problemas vão desde baixa
legibilidade, dificuldade na identificação do produto, até problemas
relacionados à segurança por falta de dados que se perdem com a
manipulação e dificuldade na abertura de frascos.
Meier (2001) apresenta, em seus estudos sobre dispensação de
medicamentos e avaliação de erros nas diversas fases do processo, que as
embalagens de comprimidos ou injetáveis não são sempre preservadas após
manipulação para remoção do medicamento, fazendo com que as datas de
validade e número de lote deixem de ser identificáveis. Outro problema
relacionado a não preservação da embalagem é a possibilidade de perda da
eficácia farmacológica, considerando a entrada de ar e de possíveis
microorganismos.
Segundo estudo de Beckman et al. (2004), abrir as embalagens de
medicamentos é um fato reconhecido por ser um problema para pessoas
idosas e apresenta os resultados de outros estudos corroborando para esta
afirmação. Atkin et al. (1994) e Nikolaus et al. (1996) observaram uma grande
proporção de indivíduos idosos incapazes de abrir suas embalagens de
medicamentos, o que é ratificado por Lisberg et al. (1983). Estudos disponíveis
na literatura apontam que 1 em cada 5 usuários com mais de 75 anos não são
capazes de abrir os frascos com sistema de pressão e rotação da tampa,
segundo Ward et al. (2010).

167
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Em estudo canadense realizado por Richard e Lussier (2009), mais de


90% dos canadenses idosos não têm o nível de alfabetização necessária para
compreender posologias de tratamento ou de instruções de segurança dadas a
eles. Os pacientes com disfunção cognitiva não podem gerir seus
medicamentos de forma adequada, podendo pular doses ou repeti-las por se
esquecerem que já tomaram (HUTCHISON et al., 2006).
Com relação ao conceito de utilidade de um produto, Chaumon e
Ciobanu (2009) expõem que esta questão implica numa decisão moral: as
pessoas não compartilham da mesma forma de uso, nem os mesmos valores
ou necessidades. Seria errado imaginar uma utilidade universal. Existem
diferenças entre homens e mulheres idosos sobre a utilidade percebida de um
dispositivo. Buckle et al. (2006) concluem que é preciso promover design a
essas embalagens para garantir a segurança dos pacientes, cujo contexto os
ergonomistas têm um papel importante a desempenhar no desenvolvimento
da base de conhecimento e definição de requisitos projetuais.
Os resultados de estudos similares desenvolvidos por Atkin et al.
(1994) e Nikolaus et al. (1996) com pacientes idosos corroboram: 41,4% foram
incapazes de realizar uma ou mais tarefas necessárias para retirar o
medicamento da embalagem no primeiro estudo e 10,1% não conseguiram
abrir pelo menos um recipiente no segundo. Os fatores associados à
incapacidade de abrir as embalagens em ambos foram visão fraca,
perturbações da função cognitiva geral, gênero feminino e destreza manual
baixa. Concluem que muitas das embalagens de medicamentos de uso comum
impossibilitam o acesso aos idosos.
Muitos fatores interligados estão envolvidos nos erros cometidos por
idosos no uso de medicamentos, desde marca corporativa que impõe a
semelhança visual e diminui a atenção de informações de segurança
essenciais, a denominações genéricas muito semelhantes (BUCKLE et al.,
2006). Neste cenário, onde foi possível observar alguns dos problemas de
usabilidade de embalagens de medicamentos por pessoas idosas, fica evidente

168
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

que há necessidades específicas deste público quando ao uso de produtos


farmacológicos, o que deve ser estudado para ser solucionado, considerando
os riscos ocasionados à saúde por mau uso destes produtos.
Até bem recentemente (início dos anos 90), a indústria de
embalagens tinha como foco solucionar problemas relacionados à produção,
acondicionamento, distribuição e venda, deixando seu usuário em segundo
plano; entretanto esta situação foi gradativamente se alterando,
proporcionando assim melhorias na usabilidade das embalagens (PELEGRINI;
KISTMANN, 2003). Entretanto, é possível notar que há ainda muito a ser feito.
Para tanto, são necessárias mais pesquisas conclusivas com relação aos
elementos adequados para melhoria da interface das embalagens disponíveis,
sobretudo a esta classe crescente e grande consumidora destes produtos. O
primeiro passo para o processo de desenvolvimento de embalagens
adequadas aos idosos é o bom entendimento do problema (BUCKLE et al.,
2006).

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir da revisão da literatura sobre características dos indivíduos
idosos, uso de medicamentos por estes e questões de interface das
embalagens, observa-se alguns elementos em comum. As deficiências
cognitivas influenciam no desempenho de tarefas, como fazer uso de
medicamentos, e à medida que a idade avança, aumenta também a
dependência. O gênero masculino apresenta menos incapacidades motoras e,
portanto menor necessidade de assistência. De modo geral, quanto menor a
escolaridade e a renda dos indivíduos, maior a dependência para
desempenhar atividades cotidianas. Neste aspecto é possível afirmar,
corroborando com a literatura, que indivíduos com maior instrução e maior
renda viabilizam melhor saúde, não eliminando totalmente a necessidade de
uso de medicamentos, porém diminuindo a necessidade de auxílio de
terceiros. Especificamente com relação ao uso de medicamentos, esta questão

169
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

é um agravante, visto que a baixa instrução e menor renda culminam numa


saúde mais frágil, necessitando do uso de maior quantidade destes. Esta
questão, aliada a pouca instrução, proporciona por sua vez uma chance maior
de erros pela dificuldade cognitiva de interpretação das embalagens e
prescrições médicas, bem como dificuldades relacionadas à saúde debilitada.
Entretanto, deve-se considerar também que não somente a saúde
debilitada atrapalha a abertura das embalagens e uso dos medicamentos, mas
também aspectos da própria embalagem, que dificultam seu uso inclusive por
indivíduos mais jovens e sem problemas cognitivos ou de saúde geral. É
preciso então averiguar todos os aspectos desta interface, desde o pleno
conhecimento das características dos indivíduos idosos, aos principais
problemas encontrados nas embalagens como um todo.
De modo conclusivo, as embalagens de medicamentos não
apresentam boa interface a todos os indivíduos. É necessário que haja normas
para este tipo de embalagem, favorecendo as necessidades do usuário em
geral e principalmente os que mais as utilizam.

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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Informação turística: signo, sistema e


metodologia
João Vasco Matos Neves
Fernando Moreira da Silva

1. Introdução
A maior mobilidade de indivíduos procedentes das mais diversas regiões e
continentes é despoletada com o desenvolvimento da rede ferroviária, o
surgimento do automóvel e o incremento verificado nos fluxos aéreos, aliados
a uma crescente globalização à escala mundial. O comércio, a indústria, o lazer
e outras actividades, tornou indispensável a abolição de fronteiras, quer físicas
quer linguísticas e mesmo culturais, de modo a facilitar a livre circulação de
pessoas e bens.
A maior afluência de pessoas a determinados locais, como aeroportos, zonas
comerciais, eventos, serviços públicos, instalações turísticas, etc., suscitou a
necessidade de orientar essas pessoas num espaço desconhecido e comunicar
mensagens básicas com uma linguagem compreendida por uma maioria. Por
outro lado essa mesma mobilidade trouxe consigo desenvolvimento rodoviário
associado a um crescente fluxo de indivíduos que se deslocam por
necessidades várias de um ponto para outro.
Esta dinâmica social implica a ideia de circunstancialidade, ou seja, a passagem
por determinados lugares é esporádica, como resultado de uma actividade
itinerante por natureza. Portanto ela comporta novas situações,
desconhecimento morfológico e organizacional destes lugares, e por
conseguinte, supõe um alto grau de inteligibilidade ou de indeterminação, o
qual suscita aos indivíduos dilemas nas suas necessidades de actuação, e
inclusivamente riscos.[1]

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“O crescimento e a evolução das cidades, a complexidade das rotas de


transportes, as relações de comércio e das comunicações, tornaram a
sinalização essencial ao nosso entorno, necessária para o uso seguro das
instalações urbanas, propiciando negócios e a troca de conhecimentos e
ideias.”*2+
Esse deslocamento, muitas vezes efectuado em espaços desconhecidos,
suscitou a necessidade em apreender novas regras, as quais passam a ser
formalizadas através de signos que facilitam o acesso ou a circulação a
determinados locais.
“O coração de uma civilização palpita sempre que as pessoas se reúnem para
trabalhar, jogar, fazer compras, estudar, executar, culto, ou simplesmente
interagir. Amontoados em espaços movimentados, eles compartilham a
riqueza e a diversidade da experiência humana, bem como seus desafios.
Nestes espaços as pessoas podem "encontrar o seu caminho", no sentido
existencial, mas também tornar-se oprimido ou desorientado se fisicamente
perder o seu caminho.”*3+
Eventos realizados à escala mundial, como competições desportivas mundiais
(jogos olímpicos, campeonatos europeus e mundiais, etc.), exposições
internacionais ou feiras temáticas organizadas internacionalmente, trouxeram
consigo uma crescente mobilidade transfronteiriça (como em aeroportos e
outros locais de afluxo de grandes massas) e a necessidade de comunicar com
uma linguagem perceptível e acessível a uma maioria.
“Em finais dos anos 1960 o conhecimento dos sistemas de design conceptual
tinha-se convertido numa realidade. Os gestores e decisores deram-se conta
de que uma planificação compreensiva para as grandes corporações e eventos,
não somente era funcional e desejável, senão necessária, se se tivesse que
acomodar grandes quantidades de pessoas. Isto foi particularmente certo nos
eventos internacionais, como as feiras mundiais e os jogos olímpicos, onde um
público internacional e multilingue necessitava guia e informação.” *4+

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A cada vez maior afluência de pessoas a espaços públicos ou eventos trouxe


consigo a necessidade de comunicar através de imagens, de modo a facilitar a
compreensão e a redução de mensagens escritas em qualquer língua. Para
Massironi (1983), este tipo de imagens (pictogramas) auxiliam à orientação em
gares, aeroportos, hotéis, serviços, mas também os encontramos actualmente
em mapas, guias turísticos, aplicações multimédia, entre outros e para os quais
as exigências de exportação e circulação dos mercados não podem prever a
utilização de uma língua ou a confusão de muitas línguas ao mesmo tempo. [5]

2. Usuário, Mobilidade e Território


Com o desenvolvimento da rede ferroviária, o surgimento do automóvel e o
incremento verificado nos fluxos aéreos, aliados a uma crescente globalização
à escala mundial, trouxeram consigo uma maior mobilidade social de
indivíduos procedentes das mais diversas regiões e continentes. O comércio, a
indústria, o lazer e outras actividades, tornou indispensável a abolição de
fronteiras, quer físicas quer linguísticas e mesmo culturais, de modo a facilitar
a circulação de pessoas e bens.
“A mobilidade social supõe o fluxo de grupos de indivíduos, de diferentes
procedências geográficas e carácteres sócio-culturais distintos, que se
deslocam de um ponto para outro por motivos muito diversos. Esta dinâmica
social implica a ideia de circunstancialidade, ou seja, a passagem por
determinados lugares é esporádica, como resultado de uma actividade
itinerante por natureza. Portanto ela gera novas situações, desconhecimento
morfológico e organizacional destes lugares, e por conseguinte, supõe um alto
grau de inteligibilidade ou de indeterminação, o qual suscita aos indivíduos
dilemas nas suas necessidades de actuação, e inclusivamente riscos” (Joan
Costa, 1989).
Esta mobilidade social pressupõe um movimento de um local para outro, ou
outros. Considerando acessibilidade como o conjunto das condições de acesso
destinadas a pessoas com mobilidade reduzida ou com necessidades especiais,

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por outro lado entende-se acessibilidade como a facilidade no acesso ou


deslocação entre dois pontos. Embora as duas noções de acessibilidade se
relacionem, na medida em que a mobilidade reduzida ou as necessidades
especiais condicionam a facilidade no acesso ou deslocação num determinado
espaço, considera-se no presente estudo acessibilidade no sentido da
facilidade no acesso ou deslocação num território, que pode ou não ser
conhecido e pré-determinado.
A maior afluência de pessoas a determinados locais, como aeroportos, zonas
comerciais, eventos, serviços públicos, etc., suscitou a necessidade de orientar
essas pessoas num espaço desconhecido e comunicar mensagens básicas com
uma linguagem compreendida por uma maioria. Por outro lado essa mesma
mobilidade trouxe consigo desenvolvimento rodoviário associado a um
crescente fluxo de indivíduos que se deslocam por necessidades várias de um
ponto para outro. Esse deslocamento, muitas vezes efectuado em espaços
desconhecidos, despoletou a necessidade em apreender novas regras, as quais
passam a ser formalizadas através de signos que facilitam o acesso/circulação
a determinados locais.
A sinalização e a sinalética são constituídas por uma multiplicidade de sinais
que requerem o estudo aprofundado e sistemático de um código em que, pela
quantidade de símbolos, nem sempre são apreendidas as suas características,
causando por vezes desrespeito e alheamento à mensagem emitida, não
funcionando a dimensão ergonómica da problemática. A sinalização e
sinalética são constituídas por vários sinais, classificados em diferentes
categorias conforme as suas características, ou seja, são constituídas por sinais
ou painéis que transmitem uma mensagem visual, graças à sua localização, à
sua forma, à sua cor e ao seu tipo e ainda através de símbolos ou caracteres.

3. Signos
O signo é composto pela sua forma física e por um conceito mental que lhe
está associado, e que este conceito é, por sua vez, uma apreensão da realidade

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externa. O signo apenas se relaciona com a realidade através dos conceitos e


das pessoas que o usam.
Relativamente ao estudo dos signos e tendo em conta as duas grandes
correntes (a «Semiologia» protagonizada pelo linguista Ferdinand Saussure e a
«Semiótica» do filósofo C.S. Peirce), para o estudo em desenvolvimento
importa evidenciar as três grandes áreas abordadas pela semiótica:
1. O signo propriamente dito: consiste no estudo de diferentes variedades de
signos, das diferentes maneiras através das quais estes veiculam significado, e
dos modos pelos quais se relacionam com as pessoas que os utilizam;
2. Os códigos ou sistemas em que os signos se organizam: este estudo cobre as
formas desenvolvidas por uma variedade de códigos para satisfazer as
necessidades de uma sociedade ou de uma cultura, ou para explorar os canais
de comunicação disponíveis para a sua transmissão;
3. A cultura no interior da qual estes códigos e signos se encontram
organizados: a qual depende do uso destes códigos e signos, no que diz
respeito à sua própria existência e forma.
Revela-se de importância fundamental para a presente investigação, a qual
visa o estudo aprofundado dos sistemas de signos para informação turística, a
análise cuidada de todos os aspectos que relacionam as três áreas
anteriormente mencionadas: O signo e o seu significado; O sistema ou o modo
como os signos se organizam; A cultura ou os usuários a quem se destinam os
signos.

4. Sistemas de signos
Um sistema pode ver-se como um conjunto de elementos interrelacionados,
interactuantes ou independentes que formam, ou pode considerar-se que
formam, uma entidade colectiva (Heskett, 2005). O objectivo de um sistema é
o de oferecer informação clara sobre as consequências de optar por um

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trajecto ou uma direcção determinada, mas deixando os usuários a decisão da


orientação a tomar.
A qualidade colectiva, em relação ao design, manifesta-se de diversas formas.
Distintos elementos podem combinar-se em formas funcionalmente
relacionadas, como nos sistemas de transporte. Um sistema requer princípios,
regras e procedimentos para garantir uma interacção harmoniosa e ordenada
na inter-relação das ideias com as formas. Isto significa dispor de qualidades
de pensamento sistemático, do qual se infiram procedimentos metódicos,
lógicos e determinados.
Cada sinal oferece uma informação muito determinada, codificada de maneira
que possa relacionar-se simultaneamente com o conjunto dos demais. A
importância crescente do design de sistemas, em contraste com o design
centrado nas formas, pode ser atribuída a uma globalização que influencia a
actividade colectiva. Sendo o sinal um objecto físico, com uma imagem própria
e ao qual se convencionou atribuir uma significação, então estamos perante
um signo.
Cada um de nós, nas mais variadas situações, já se deparou com dificuldades
em aceder determinado espaço físico, quer pela sinalética inexistente, quer
pela sua incorrecta utilização ou mesmo pela ilegibilidade decorrente do
grafismo. A sinalética contribui de uma forma eficaz na orientação de pessoas
e bens, num determinado território. É uma disciplina da ciência da
comunicação visual que estuda as relações funcionais entre os signos de
orientação no espaço e os comportamentos dos indivíduos (Joan Costa, 1989).
Ao mesmo tempo, é a técnica que organiza e regula estas relações.
Cada sinal concorre para formar o sistema, ou seja, os sinais possuem
características próprias que os diferenciam, formando no conjunto um sistema
que no entanto necessita da apreensão de regras próprias da sua significação.
O sinal é um artefacto com diferentes significações e com características
únicas que o torna, por um lado diferente dos demais e por outro o relaciona
com o sistema.

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O design, como actividade projectual que implica criatividade, propõe a


adaptação dos meios aos fins. O design projecta objectos para o uso humano,
sendo portanto uma disciplina ou actividade que está intimamente relacionada
com a concepção, planeamento e produção de equipamento, tal como os
sinais de trânsito. O grafismo dos sinais, como meio privilegiado na
transmissão de informação, carece, contudo, de outras disciplinas que
concorram para a prossecução dos seus objectivos: transmitir mensagens
claras e inequívocas para o utilizador, contribuindo para a melhoria das
acessibilidades.
Os sistemas de signos para informação turística desenvolveram-se na tentativa
de solucionar problemas específicos, apoiando-se sobretudo em acordos e
protocolos internacionais. Apesar da impossibilidade em adoptar um sistema
universal unificado de sinalização, momentos houve em que os protocolos
ratificados foram um importante impulso, como por exemplo na uniformização
da sinalização do trânsito.
O automóvel surge como a alavanca que despoletou a evolução dos sistemas
de signos, criando maior mobilidade e gerando a necessidade de apreensão de
novas regras expressas através de signos de orientação no espaço, os quais
comunicam e transmitem informações, constituindo um sistema de signos – a
sinalética. O aumento da circulação de trânsito trouxe consigo o problema da
regulamentação internacional dos sinais, a qual começaria a ser estudada a
nível europeu a partir de 1908. Existiu uma tentativa de uniformização mundial
dos sinais de trânsito, no âmbito de uma conferência da Organização das
Nações Unidas em 1968, conseguindo-se contudo e apenas uma articulação
parcial entre os sistemas europeu e norte-americano.
Os sistemas de sinalização do trânsito (que também incluem inúmeras vezes
signos para informação turística) não são uniformizados mundialmente,
existindo diferentes sistemas de sinais que, pela sua difusão, levam a
considerar actualmente dois sistemas fundamentais com diferentes formas,
cor e grafismo. Um é o sistema Europeu, baseado em pictogramas e ratificado

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por vários países através da «Convenção de Genebra» de 1949, implementado


na maioria de países da Europa, grande parte de África (segundo o
colonizador) e quase na totalidade da Ásia. O outro sistema é o Americano,
assente fundamentalmente no uso de grafia aplicada em quadrados ou
rectângulos e baseado no «Manual on Uniform Traffic Control Devices for
Streets and Highways» dos Estados Unidos de 1948. É o sistema usado
actualmente nos países Anglo-saxónicos (territórios da Commonwealth), no
continente Americano, Austrália e outros países da Oceania
fundamentalmente.
A sinalização é constituída por diversos sinais, classificados em diferentes
categorias conforme as suas características, ou seja, é constituída por sinais ou
painéis que transmitem uma mensagem visual, graças à sua localização, à sua
forma, à sua cor e ao seu tipo e ainda através de símbolos. Os sinais são
constituídos por diversos elementos que concorrem para a aparência final do
artefacto.
A sinalização pode ser definida como um sistema constituído por elementos
independentes (que transmitem determinada informação ou obrigação de
uma acção) que se interrelacionam com a função de comunicar mensagens.
Portanto, a sinalização é um sistema constituído por elementos
interrelacionados (sinais) e simultaneamente independentes (pela sua
classificação) que formam uma entidade colectiva – sistema de signos. Cada
artefacto unitário (sinal) concorre para formar um todo (o sistema), isto é, os
sinais (objectos construídos pelo Homem) não são concebidos
individualmente, mas sim tendo em conta a entidade colectiva que os une. O
sinal (unidade pertencente ao todo) é então um objecto físico com diferentes
significações e com características únicas que o torna por um lado diferente
dos demais e por outro o relaciona com o sistema. Sendo o sinal um objecto
físico, com uma imagem própria e ao qual se convencionou atribuir uma
significação, então estamos perante um signo.

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A iconicidade inclui diversos graus de analogia, diversos graus de fidelidade ao


modelo que vão do hiperrealismo ao esquematismo ou à abstracção extrema.
Para a sinalização, bem como para a sinalética, a iconicidade máxima
corresponderia aos pictogramas (que representam objectos e pessoas), e a
iconicidade mínima àquilo a que se chama "ideogramas ou emblemas não-
figurativos" (Joan Costa, 1989).
Os sistemas de signos, no sentido de comunicar mensagens, recorrem à
utilização de pictogramas, que não são mais do que signos figurativos
simplificados que representam coisas e objectos do meio envolvente. Sistema
pictográfico é um termo introduzido no presente trabalho, no sentido de
significar elementos de um sistema inter-relacionados, que recorram ao uso de
signos figurativos simplificados que representam coisas e objectos do meio
envolvente (pictogramas). Sistema pictográfico é, então, um conjunto de
elementos de sinalética que se relacionam para formar um conjunto e que
recorrem à utilização de pictogramas.

5. Signos figurativos simplificados: Pictogramas


Aos pictogramas é pedida a missão de transmitir informações essenciais a um
grande número de pessoas de língua diferente, mas que têm traços
socioculturais comuns, e a quem não é fornecido nenhum ensinamento para
defrontarem a descodificação dessas mensagens. Este tipo de imagens
(pictogramas) ajuda à orientação em espaços públicos ou privados e serviços.
Embora os pictogramas pareçam ser absolutamente auto-explicativos e
universais, na realidade eles possuem limitações culturais. Joan Costa (1998)
define pictograma como um signo figurativo simplificado que representa
coisas e objectos do meio envolvente. O termo pictograma absorve outras
variantes do signo icónico: ideograma e emblema, apesar das suas diferenças
essenciais, pois se o pictograma é uma imagem analógica, o ideograma é um
esquema de uma ideia, um conceito ou um fenómeno não visualizável e o

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emblema é uma figura convencional fortemente institucionalizada. A todos ele


se denominou genericamente pictogramas.
Um pictograma representa um objecto de um modo simplificado, o qual pode
ser mais ou menos icónico (mais ou menos semelhante com o modelo real),
mas importa acima de tudo que seja perceptível pelo maior número possível
de utentes. É também necessário um entendimento global do sistema a
desenvolver, para depois conceber individualmente pictogramas coerentes
que contribuam para a uniformização geral.
Qualquer imagem que concorre para formar um pictograma, tende a assumir
as características e a transmitir o sentido da total categoria dos objectos a que
pertence o objecto em exame (Massironi, 1983). O mesmo é dizer que uma
imagem a ser representada por um pictograma, tende a regular a concepção
de outros pictogramas que estejam contidos na mesma categoria. A exigência
de transmissão de informação através de pictogramas obriga a conceber
signos concisos, simples, rapidamente compreensíveis; para isso há que
procurar estruturas gráficas elementares (Aicher, 1995). De um modo geral, o
modelo conceptual (tendo em conta a concepção de pictogramas) deve
apresentar a informação de um modo mais simples, claro e, se possível, sem
ambiguidades (Mijksenaar, 2001).

6. A investigação
Os sistemas de signos, bem como os programas de sinalética para informação
turística ou para visitantes, são desenvolvidos por inúmeras entidades, com as
mais variadas finalidades e quase sempre com o mesmo objectivo: um sistema
único, para determinado cliente, organização ou evento e que se esgota no seu
universo - o do sistema estanque. Ou seja, os sistemas desenvolvidos para
informação turística não são mais do que programas de sinalética corporativa.
Os exemplos são inúmeros, desde o sistema de sinalização do País A, da região
B, do município C, da Zona D, do parque E, do edifício F, etc.

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Todos nós nos deparamos inúmeras vezes com múltiplos sistemas de


informação para visitantes, ou turistas, que não se relacionam entre si,
gerando por vezes inúmeros signos para uma mesma informação: diversos
pictogramas para uma mesma mensagem.
Na prática podemos apresentar o caso português, onde existem dois sistemas
para o País (um do Turismo de Portugal [6] e outro do Trânsito [7]) sistemas
regionais das comunidades intermunicipais, sistemas de informação turística
dos municípios, dos museus, edifícios públicos, etc. Ainda o caso dos
transportes onde cada entidade tem o seu próprio sistema (TAP, CP, Metro,
etc.) e muitos outros que se poderiam enumerar. Portanto, na prática, os
sistemas são muito diversos e em nada contribuem para um sistema nacional
ou internacional normalizado para informação turística e para visitantes.
A proliferação de signos de informação em Portugal está bem patente e
ilustrada pelo uso de 293 símbolos de informação turística aplicados para
sinalizar recursos turísticos[6] e por 112 símbolos utilizados nos sinais de
indicação aplicados na sinalização vertical (trânsito) [7], o que perfaz um total
de 405 símbolos de informação, carecendo esta área, obviamente, de
uniformização e normalização.
“Cada destino e território procura sua própria identidade e peculiaridade por
intermédio de novos tipos de sinais, utilizando-se uma diversidade de logos,
letreiros, cartazes, marcas registadas e postes de sinalização, gerando
confusão e incoerência nas mensagens nacionais e regionais. A busca pela
consistência deve, portanto, ser uma das principais obrigações dos
responsáveis pela sinalização turística.”*8+
Os pictogramas aplicados em diversos programas de sinalética carecem de
critérios de uniformização, quer ao nível da forma, quer ao nível da cor, pois
nem todos os pictogramas são facilmente perceptíveis. O nível icónico usado
na concepção dos pictogramas é muito díspar, existindo alguns extremamente
simplificados e facilmente perceptíveis e outros pictogramas que necessitam

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Estudos e Aplicações

de um maior nível de descodificação por parte do utilizador, causado pela


complexidade do signo.
“Países e territórios podem adoptar regras e regulamentos específicos que
controlem os signos e símbolos turísticos em escala nacional e para todos os
países, como parte de regras e regulamentos gerais aplicáveis para todos
sectores (…).”*9+
Assim, existe uma necessidade imperiosa de reformular, redesenhar,
reequacionar, reconverter a maioria dos signos de informação para turistas e
visitantes, procurando a presente investigação dar um contributo decisivo para
a problemática em questão.
Os sistemas de signos desenvolvidos para informação turística ou para
viajantes, são concebidos muitas vezes de forma empírica e desrespeitando,
na sua maioria, as regras contempladas pela lei, originando múltiplos sistemas,
incoerentes, ilegíveis e tornando difícil a sua descodificação. Relativamente
aos pictogramas aplicados nos sistemas, salvo algumas excepções de
programas de sinalética corporativa desenvolvidos para sistemas específicos,
estes carecem de critérios de uniformização quer ao nível da forma, quer ao
nível da cor, pois nem todos os pictogramas são facilmente perceptíveis. O
nível icónico usado na concepção dos pictogramas é muito díspar, existindo
alguns extremamente simplificados e facilmente perceptíveis e outros
pictogramas que necessitam de um maior nível de descodificação por parte do
utilizador, causado pela complexidade do signo.
Com a finalidade de melhorar os sistemas de signos para informação pública,
turística, ou para viajantes, seria importante que todos os agentes envolvidos
na problemática compreendessem que o sistema está directamente
relacionado com a mobilidade, usabilidade e segurança da sociedade, motivo
pelo qual deveria existir uma maior acção governamental junto de todas as
entidades, ao nível da sensibilização, formação e mesmo da fiscalização, no
sentido da melhoria contínua dos sistemas de signos em vigor e dos que
venham a ser desenvolvidos.

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Estudos e Aplicações

Contudo, para um projecto de investigação científica, não basta conhecer


parte do processo, carecendo de fundamentação e pesquisa aprofundada.
Assim, procurando compreender a realidade de outros países europeus e de
outros continentes, desenvolveram-se diversos estudos e levantamentos de
sistemas de signos para informação. Foram desenvolvidos contactos com os
países integrantes da Comunidade Europeia (a 15 países), através das suas
embaixadas, nomeadamente: Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha,
Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Portugal,
Reino Unido e Suécia. Relativamente aos casos a estudar foi difícil a sua
selecção, dadas as limitações temporais, a escassa informação existente,
acrescida da dificuldade em encontrar um interlocutor com conhecimentos
numa matéria tão específica e, especialmente, pelo desconhecimento ao nível
das embaixadas dos países contactados, pelo encaminhamento a dar ao
assunto. Por outro lado, surgiu a hipótese de estudar dois casos não
contemplados inicialmente mas que, pela sua importância histórica e de
natureza científica, se verificou serem indispensáveis à qualidade científica da
presente investigação.
Verificou-se a necessidade em estudar dois casos portugueses que se revestem
de extrema importância para o sucesso da investigação, uma vez que se trata
de casos relacionados com a normalização e com a legislação em vigor relativa
ao sector do turismo. Outros dois casos não equacionados numa fase inicial
mas posteriormente incluídos pela sua importância científica foram o caso de
estudo da ISO – International Organization for Standardization e do AIGA –
American Institute of Graphic Arts. Assim, a metodologia de Estudo de Casos
será aplicada aos casos seguintes:
Caso 1: Portugal - Regulamento de sinalização do trânsito (Decreto
Regulamentar 22-A/98 de 1 de Outubro de 1998);
Caso 2: Portugal - Simbologia Turística: Manual de identidade (Direcção Geral
de Turismo, 1999 - Turismo de Portugal);

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Caso 3: Espanha - Manual de Señalización Turística de Galicia (Consellería de


Innovación e Industria - Dirección Xeral de Turismo de Galicia);
Caso 4: Reino Unido - The Traffic Signs Regulations and General Directions.
(The Stationery Office, Statutory Instrument 2002 No. 3113 – London);
Caso 5: U.S.A. - AIGA Symbol Signs (American Institute of Graphic Arts for U.S.
Department of Transportation, 1979);
Caso 6: International Organization for Standardization (ISO 7001:2007(E) -
Graphical symbols: Public information symbols, 2007).

7. Objectivos
A presente investigação tem como objectivo principal o contributo para o
conhecimento na área do design, mais concretamente em sinalética (enquanto
disciplina do design de comunicação), procurando constituir uma ferramenta
válida para a concepção de sistemas de signos específicos para informação.
Visa-se o desenvolvimento de sistemas de signos uniformizados e
graficamente coerentes, que envolvam não só o designer mas também
equipas multidisciplinares e que comuniquem mensagens claras e inequívocas
para o utilizador. Este projecto aborda a informação turística e visa contribuir
para o desenvolvimento de sistemas mais legíveis, compreensíveis, inclusivos,
numa abordagem ergonómica à área de investigação, bem como a aplicação
de novas metodologias à concepção de símbolos e desenvolver uma
ferramenta valiosa para a concepção de sistemas de signos específicos para
informação turística e para viajantes.
Pretende-se contribuir para um entendimento mais amplo dos sistemas de
signos e a inter-relação dos seus componentes. Procurar-se-á ainda
demonstrar a importância de outras disciplinas e estudos para a valorização da
sinalética como sistema de transmissão de informação e a pictografia como
um sistema de signos que veicula mensagens.
Assim, a investigação pretende: Propor uma metodologia para o
desenvolvimento de sistemas de signos para informação turística; Propor um

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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

modelo teórico para a concepção e uniformização de pictogramas; Propor uma


nova classificação dos símbolos para informação turística e para visitantes;
Contribuir para a melhoria nas acessibilidades, segurança e mobilidade dos
cidadãos em determinado território; Contribuir para o conhecimento na área
da sinalética, nomeadamente na uniformização de signos para informação
turística.

8. Metodologia
Na metodologia para a criação de programas sinaléticos, Joan Costa (1989)
refere que deve seguir-se um método ou fórmula que organize as sucessivas
etapas e procedimentos de forma exaustiva e sequencial, respondendo às
necessidades previstas no imediato, mas também que essa metodologia seja
suficientemente flexível e adaptável a necessidades futuras para o sistema
desenvolvido.[10]
A metodologia adoptada para o presente projecto de investigação está
dividida em quatro grandes fases compostas por diversas tarefas:
Fase 1 – Fase de exploração: Critica literária (recolha, selecção, análise e
síntese crítica da literatura relevante) que permitiu, em conjunto com a
experiência pessoal acumulada, realizar uma contextualização teórica de
suporte à problemática em questão;
Fase 2 – Fase da análise: Uso de uma metodologia de investigação qualitativa e
não-intervencionista, no sentido de comparar e interpretar toda a legislação,
normalização e áreas transversais à sinalética; recorreu-se também à
metodologia de Estudo de Casos, qualitativa e não-intervencionista, cruzando
a informação de Casos de Estudo previamente seleccionados, relacionados
com a sinalização turística e de trânsito;
Fase 3 – Fase de desenvolvimento: Nesta fase foi usada uma metodologia de
investigação mista qualitativa, (intervencionista e não-intervencionista).
Inicialmente recorreu-se à Investigação Activa (desenvolvimento projectual),
no sentido de produzir um modelo conceptual com base nos dados recolhidos

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na fase 2, com a finalidade de re-desenhar os símbolos de informação turística;


posteriormente, e com o recurso à opinião de especialistas nas áreas em
estudo, procurou-se um consenso alargado quanto ao modelo desenvolvido e
à metodologia a que se chegou;
Fase 4 – Conclusão da Tese: É nesta fase que se irá verificar a hipótese e
proceder a eventuais reformulações. Seguidamente serão retiradas as
conclusões do método de investigação aplicado e ter-se-á concluído o
presente trabalho de investigação, o qual pretende ser um real contributo para
o conhecimento, esperando-se alcançar recomendações para futuras
investigações na área, pois face a limitações humanas e temporais seria
impossível abarcar toda a temática ligada à sinalética.

9. Resultados e conclusões prévias


Com a presente investigação foi já possível confirmar a possibilidade da
utilização de uma metodologia suficientemente flexível (com base no Estudo
de Casos e da Investigação Activa) para aplicar nos projectos mais
heterogéneos, como seja um pequeno programa de sinalética corporativa para
uma pequena empresa, ou a sua aplicação a um grande sistema desenvolvido
para um evento à escala mundial.
Tendo em conta as especificidades dos projectos apresentados, a metodologia
para o desenvolvimento de sistemas de signos para informação turística, bem
como o modelo para a concepção de pictogramas, têm por base essa mesma
realidade: a diferenciação em termos da grandeza do projecto, mas também a
sua capacidade de adaptação metodológica à dimensão do projecto.
Foi ainda possível desenvolver uma síntese de modelos para o
desenvolvimento de sistemas sinaléticos, que culminou na criação de uma
metodologia geral. Não menos importante para o presente projecto de
investigação foi a selecção dos Casos estudados, que permitiram a
categorização geral dos signos e, assim, tornar possível uma base comum de
classificação de signos para informação turística.

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Estudos e Aplicações

Parece-nos ainda possível, pelo caminho que tem vindo a seguir a investigação,
a criação de um modelo para o desenvolvimento de signos, que permitirá
conceber pictogramas uniformizados, coerentes, graficamente relacionados,
esteticamente agradáveis e acima de tudo que veiculem significados
compreendidos por uma maioria. Para Joan Costa (1989), uma metodologia,
ou conjunto de métodos, é um modo de raciocínio lógico na abordagem e
desenvolvimento de um projecto, independentemente do problema, dos
dados e variáveis próprias de cada caso.
À luz da presente investigação, importa compreender que a utilização de um
método para o desenvolvimento de sistemas de signos para informação, ou a
aplicação de um modelo para conceber pictogramas, tornam o processo de
design numa componente fundamental para o sucesso do processo
comunicacional. A este respeito Joan Costa (1989) refere ainda que dispor de
um método é dispor de critérios que permitem em cada etapa optar pela
melhor solução, aquela que levará o mais directamente possível ao objectivo:
a solução do problema.
Torna-se imperioso para os decisores das políticas de gestão (e design) das
organizações entenderem que a aplicação de uma metodologia de projecto a
um determinado sistema de informação torna simples o processo e acima de
tudo simplifica etapas, racionaliza meios e equipamentos, agiliza a conclusão
das etapas previstas e acreditamos que reduz custos.

Referências
[1] COSTA, Juan, Señalética, Ediciones CEAC, 2.ª Ed., Barcelona, 1989 (p.9)
[2] Ana Lucia de Oliveira Leite Velho - O Design de Sinalização no Brasil: a
introdução de novos conceitos de 1970 a 2000. Dissertação de Mestrado
[3] GIBSON, David – The wayfinding handbook: Information design for public
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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

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190
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Instrumentos manuais do cotidiano e as


diferenças entre gêneros e faixas etárias
70
Lívia Flávia de Albuquerque Campos
71
Luis Carlos Paschoarelli

1 INTRODUÇÃO

O desenvolvimento tecnológico observado nas ultimas décadas, vem


demonstrando atritos na relação Usuário x Tecnologia, especialmente nas
interfaces de uso dos produtos – que nem sempre são projetados para atender
os aspectos da usabilidade, desempenho e segurança.
Quanto à usabilidade, esta visa permitir que os produtos sejam
fáceis de usar, fáceis e rápidos de aprender (JORDAN, 1998). Entretanto, nem
sempre é incorporada aos produtos. Vários atritos estão relacionados, por
exemplo, às atividades ocupacionais ou cotidianas, como a dificuldade
encontrada por idosos ou mulheres ao acionarem objetos projetados com
base em parâmetros da população masculina adulta.
Destacam-se aí, os instrumentos de acionamento manual de uso
cotidiano, tais como os volantes de metais sanitários (no acionamento de
registros hidráulicos, por exemplo) e as maçanetas de portas, nos quais a
ausência de usabilidade pode favorecer o surgimento de problemas que
envolvem a capacidade do sistema musculoesquelético, desconforto e
insatisfação do usuário.
Observa-se que o design destes produtos, para diferentes grupos de
indivíduos, faixas etárias e que considere os gêneros masculino e feminino,

70
Mestranda em Design, PPGDesign – UNESP – Campus Bauru.
71
Livre Docente, PPGDesign – UNESP – Campus Bauru.

191
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

depende do conhecimento ergonômico relacionado à capacidade do sistema


musculoesquelético na geração de forças para manipulação dos mesmos.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 As maçanetas de portas


As fechaduras são parte integrante do sistema de segurança das
edificações e auxiliam na função de controlar, restringir ou permitir o acesso
aos ambientes, trazendo segurança e privacidade (PSQF, 2010). As maçanetas
são componentes essenciais de interface desse produto e permitem o acesso
aos ambientes das edificações.
A Norma Brasileira de Acessibilidade NBR 9050:2004 (ABNT, 2004),
mais especificamente o seu item 6.9.2.3, instrui que as maçanetas devem estar
sempre dispostas a uma altura de 0,90 m a 1,10 do piso acabado, e devem
possuir de preferência, acionamento do tipo alavanca, a qual permite
acionamento facilitado por um movimento único.
O termo acessível está relacionado ao “*...+ espaço, edificação,
mobiliário, equipamento urbano ou elemento que possa ser alcançado,
acionado, utilizado e vivenciado por qualquer pessoa, inclusive aquelas com
mobilidade reduzida”; e não se refere apenas aos indivíduos portadores de
necessidades especiais, mas diz respeito à “*...+ possibilidade e condição de
alcance, percepção e entendimento para a utilização com segurança e
autonomia de edificações, espaço, mobiliário, equipamento urbano e
elementos” por qualquer pessoa (ABNT, 2004, p.2).
Os elementos são definidos como “*...+ qualquer dispositivo de
comando, acionamento, comutação ou comunicação. São exemplos de
elementos: telefones, intercomunicadores, interruptores, maçanetas,
torneiras, registros, válvulas, botoeiras (caixa de comando com botões, como

192
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

por exemplo, os comandos de acionamento de elevadores, sinais de transito


para pedestres, etc.), painéis de comando, entre outros” (ABNT, 2004, p. 4).
A questão fundamental da acessibilidade – discute Mace et al.
(1991) – refere-se ao fato de que os seres humanos, em diferentes momentos
de sua vida, necessitam dela. A mobilidade reduzida não diz respeito apenas à
deficiência física, mas na vida, experimentam-se diversas situações no
cotidiano que dificultam, temporariamente, o relacionamento com o
ambiente, como por exemplo, a gestação, fraturas, torcicolos, quando se
transporta objetos muito grandes ou pesados, entre outros.
O design adequado desse tipo de interface manual deve levar em
consideração variáveis tais como idade, gênero e antropometria, a fim de
garantir usabilidade e segurança no acesso aos ambientes construídos.
Esse aspecto é abordado por Mace et al. (1991), os quais esclarecem
que ao invés de responder apenas às exigências mínimas das leis que abordam
algumas características especiais para deficientes físicos, é possível projetar
itens e elementos de construção (tais como as maçanetas de portas) para
serem utilizados por uma vasta gama de usuários, incluindo crianças, idosos,
pessoas com deficiência e pessoas de diferentes estaturas.
Entretanto, observa-se por parte das indústrias despreocupação
com tais aspectos ou se as tem, não existem dados ou metodologias de
avaliação disponíveis ao acesso do setor.

2.2 Volantes de metais sanitários


Os metais sanitários constituem-se em toda a linha de utensílios e
equipamentos presentes em cozinhas, banheiros (ou salas de banho), áreas de
serviço e lavabos, como: torneiras, chuveiros, duchas, misturadores, válvulas
de descarga, registros hidráulicos e acessórios (saboneteiras, porta-toalhas,
cabides, papeleiros, etc.). Os volantes são as pegas dos metais sanitários, em
que há interface Usuário x Produto no acionamento de torneiras, misturadores
e registros hidráulicos (CAMPOS; PASCHOARELLI, 2009).

193
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

De acordo com a norma NBR 9050:2004 (ABNT, 2004), as torneiras


de lavatório devem ser acionadas por manejos do tipo alavanca, sensor
eletrônico ou dispositivos equivalentes. Quando forem utilizados
misturadores, estes devem ser preferencialmente de monocomando. Para o
caso dos acionamentos do chuveiro, os volantes também devem ser do tipo
alavanca, preferencialmente de monocomando, e ser instalados a uma altura
de 1,00 m do piso acabado.
No Brasil, quanto ao design dessa interface, o que se observa é que,
em muitos casos, constitui-se na ‘releitura’ de produtos desenvolvidos no
exterior e apresentam uma tendência ao minimalismo, com formas retas,
geométricas, simplificadas e simétricas (CAMPOS; PASCHOARELLI, 2009). Esta
tendência pode se configurar em puramente simbólica, que em muitos casos
está distante das reais habilidades e necessidades dos usuários.
De acordo com estimativas do Sindicato das Indústrias de Artefatos de
Metais não Ferrosos – SIAMFESP, o mercado de metais sanitários insere-se no
setor de construção civil e movimenta anualmente cerca de 600 milhões de
reais. Entretanto, não existe no setor uma demanda permanente por serviços
de design ergonômico, o qual fica em segundo plano frente a outras atividades
do processo produtivo. Isto resulta na inexistência de qualquer alocação de
recursos humanos e financeiros, a fim de solucionar os problemas no manejo
desta interface manual (CAMPOS; PASCHOARELLI, 2009).
A análise das interfaces de acionamento manual, tais como as
maçanetas de portas e os volantes de metais sanitários, que visem investigar
os problemas relacionados à usabilidade, segurança e desempenho no uso
destes produtos, deve levar em consideração as capacidades e limites físicos
humanos. Estudos deste gênero requerem, dentre outras variáveis, o
conhecimento das forças manuais envolvidas em sua manipulação.

194
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

2.3 Forças de preensão manual


A força muscular foi um termo escolhido para diferenciar de termos
que denotam a resistência dos ossos, ligamentos e tendões. Nesse contexto
força muscular é definida por Chaffin et al. (2001, p. 101) como a “*...+ força
máxima que um grupo de músculos consegue desenvolver sobre condições
prescritas”.
O conhecimento da força muscular humana foi tratado por Mital e
Kumar (1998, p. 102) como de extrema importância, pois “*...+ por meio dela é
possível projetar dispositivos os quais estarão em conformidade com as
capacidades físicas dos seres humanos, além de prevenir lesões
musculoesqueléticas”.
Dentre as forças musculares, as de preensão manual têm sido
amplamente investigadas, principalmente, por meio da medição da força
voluntária isométrica máxima que pode ser exercida sobre um dinamômetro,
em inúmeros padrões de empunhadura. Os atuais dinamômetros digitais
permitem a mensuração da força aplicada em um sistema baseado em células
de carga de maneira bastante confiável (DIAS et al., 2010).

2.3.1 A influência do gênero nas forças de preensão manual

Iida (2005, p.99) explica que quanto à capacidade muscular “*...+ as


mulheres possuem uma capacidade de aproximadamente dois terços do
homem”. Isso se explica pelo fato de que, além dos homens possuírem mais
músculos esqueléticos, “*...+ elas possuem um coração menor, além de menor
concentração de hemoglobina no sangue, fazendo com que haja menos
suprimento de oxigênio nos músculos”.
Para Sanders e McCormick (1993) o gênero feminino gera forças de

195
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

aproximadamente dois terços (67%) da força do gênero masculino, podendo


ainda variar de 35% a 89% dependendo do grupo muscular avaliado.
Para a preensão palmar, mulheres podem realizar forças entre 50% e
74% da força dos homens (HÄRKÖNEN et al., 1993; CROSBY et al., 1994;
MAMANSARI; SALOKHE, 1996; IMRHAN, 2003; EDGREN et al., 2004;
FRANSSON; WINKEL, 1991; CAPORRINO et al., 1998).
Para o torque manual, estudos indicam que a o gênero feminino
realiza em torno de 49,12% a 66% da força do gênero masculino (IMRHAN;
JENKINS, 1999; KIM; KIM, 2000; MITAL, 1986; MITAL; SANGHAVI, 1986; SHIH;
WANG, 1997).
Matsuoka et al. (2006) estudaram o torque manual e observaram que
os homens geraram torque duas vezes maior que o gerado pelas mulheres.
Razza (2007) observou que a proporção de força de preensão
(bidigital, pulpolateral e tridigital) do gênero feminino, em relação ao gênero
masculino, foi de 76,96% na média de todas as variáveis, isto implica que o
gênero masculino é 29,94% mais forte que o gênero feminino, em média.
Seo et al. (2008) em seus estudos sobre a performance do torque
máximo (flexão/extensão) concluíram que média da força de punho para a
flexão no gênero masculino foi duas vezes maior que para o gênero feminino.
Paschoarelli (2009) observou em estudos com maçanetas para portas,
com indivíduos portugueses, que os sujeitos do gênero masculino
apresentaram torque significativamente maior que os sujeitos do gênero
feminino. Com variação, para as maçanetas cujas regiões da pega ficam
próximas ao eixo de rotação, de 43% a 47%; e para as maçanetas cujas regiões
da pega ficam mais distantes desse eixo, de 59% a 77%.
Campos et al. (2010a) verificaram em que em três distintos modelos
de volantes de metais sanitários o o percentual da amplitude do torque
realizado pelo gênero feminino foi de 49% a 74% da força registrada para o
gênero masculino, dependendo da mão de acionamento, sentido do giro e
desenho do volante.

196
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Em três distintos modelos de maçanetas de portas Campos et al.


(2010b) verificaram que o percentual da amplitude da força média exercida
pelo gênero feminino correspondeu a 66% a 77% da amplitude média
registrada para o gênero masculino.

2.3.2 A influência da idade nas forças de preensão manual


As populações humanas são formadas de indivíduos diferentes, com
diversos tipos físicos e biótipos. Estas diferenças também ocorrem ao longo da
vida de um indivíduo. No decorrer dos anos, observa-se “*...+ uma gradativa
perda de forças e mobilidade, tornando os movimentos musculares mais
fracos, lentos e de amplitude menor. Isso se deve aos processos de perda da
elasticidade das cartilagens e da calcificação”. Em termos comparativos “*...+ a
força de uma pessoa de 70 anos equivale à metade de uma de 30 anos” (IIDA,
2005, p.100).
A força muscular “*...+ começa a decrescer gradativamente a partir
dos 30 anos. Aos 65 anos, essa perda é de 25%”. As mulheres aos 50 anos “*...+
conseguem exercer cerca da metade da força dos homens de mesma idade”
(IIDA, 2005, p. 372).
A maioria dos estudos na área da biomecânica, os quais envolvam a
manipulação de objetos, apresenta uma tendência de variação da força
manual relacionada à idade do indivíduo, as quais confirmam um pico de força
no início da fase adulta e um declínio gradual até o início da velhice
(MONTOYE; LAMPHIYER, 1977; MATHIOWETZ et al., 1985; VOORBIJ;
STEENBEKKERS, 2001).
De acordo com alguns destes estudos, o período em que se obtém a
força máxima está na faixa dos 25-29 anos (MONTOYE; LAMPHIYER, 1977;
VOORBIJ; STEENBEKKERS, 2001) e o marco para o início da perda da
capacidade muscular relacionada à idade está situado entre os 50 e 55 anos de

197
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

idade (MONTOYE; LAMPHIYER, 1977; MATHIOWETZ et al., 1985; HANTEN et


al., 1999; VOORBIJ; STEENBEKKERS, 2001).
A força média da população na idade de 40 anos pode ser
aproximadamente 5% menor, e na idade de 60, 20% menor do que próximo
dos 30 anos de idade (ROEBUCK, et al., 1975; HERTZBERG, 1972; SHEPHARD,
1995).
Alguns estudos abordam que com o avanço da idade, os indivíduos
passam a apresentar força equivalente a adolescentes ou crianças (IMRHAN;
LOO, 1989; PEEBLES; NORRIS, 2000).
Nesse sentido, Peebles e Norris (2000) constataram que os indivíduos
de 60 a 80 anos apresentaram forças semelhantes aos indivíduos de 11 a 15
anos, e os indivíduos acima de 80 anos realizaram forças equivalentes a
crianças de 6 a 10 anos.
Spirduso et al. (2005) explicam que a perda de força muscular é
influenciada também às mudanças nas características das fibras musculares;
no sistema nervoso; no fluxo sangüíneo muscular; ao aumento de doenças; à
má alimentação; e a diminuição da frequência nas atividades físicas; que
contribuem diretamente para o declínio na força muscular bem como,
indiretamente, para o aumento da atrofia muscular.

3 DISCUSSÕES E CONSIDERAÇÕES FINAIS

O projeto das interfaces de acionamento manual é objeto de estudo


da Ergonomia nos aspectos que tangenciam os conhecimentos sobre as
capacidades, limites e outras características do desempenho humano. A práxis
ergonômica, associada à análise das atividades cotidianas, fundamenta o
design ergonômico e permite aplicar o conhecimento gerado, no
desenvolvimento de produtos e sistemas seguros, confortáveis, eficientes,

198
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

efetivos e aceitáveis, uma vez que a falta de usabilidade pode favorecer, por
exemplo, o surgimento de problemas de ordem biomecânica.
Os problemas na manipulação das interfaces de acionamento
manual estão relacionados, dentre outros, aos aspectos da usabilidade,
segurança e desempenho, os quais deveriam ser levados em consideração no
desenvolvimento do projeto de produto, mas que freqüentemente são
negligenciados frente a outras demandas do processo.
Os volantes de metais sanitários e as maçanetas de portas são
objetos presentes no dia a dia e referem-se a instrumentais necessários ao
desenvolvimento das atividades da vida diária de diversos grupos de usuários
os quais incluem dente outros, mulheres e idosos, grupo com características
musculoesqueléticas inferiores aos de homens em idade adulta.
Como apresentado, estudos apontam significativas diferenças na
capacidade muscular entre os gêneros e faixas etárias, o que confirma a
expressiva influência destas variáveis e sua interferência na realização de força
manual no acionamento de interfaces diversas. Isto demonstra a importância
de se levar em consideração estas diferenças no projeto de interfaces de
acionamento manual, incluindo as de uso cotidiano tais como as maçanetas e
os volantes de metais sanitários.
Diante disso é importante refletir sobre a demanda para
desenvolvimento de produtos que considere uma ampla gama de usuários,
principalmente quando se tratar de instrumentais necessários ao
desenvolvimento das atividades do dia a dia e que proporcionem a
manutenção da autonomia e independência dos indivíduos.
Isso não significa a concepção de produtos e espaços especiais para os
indivíduos com restrições permanentes, como já é amplamente divulgado pelo
termo “acessibilidade”, mas atribuir a eles características que estejam
adequadas ao maior número possível de usuários. Isto implica em ações no
âmbito do Design Ergonômico a fim de garantir a satisfação dos usuários no
projeto de produtos seguros, confortáveis e eficazes.

199
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Agradecimentos
O presente estudo foi desenvolvido com o apoio da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (Proc. 2009/02125-0).

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Interacção da Luz e Cor nas Superfícies


como Factores Ergonómicos no Design
Urbano: o Azulejo como Concretização
72
Carla Lobo
73
Fernando Moreira da Silva

1 INTRODUÇÃO

A identificação e a apropriação dos espaços públicos pelos cidadão


depende em larga escala de factores intimamente relacionados com o bem-
estar e a segurança, para alé dos aspectos simbólicos. O nosso relacionamento
com os espaços públicos está intimamente relacionado com a sua legibilidade,
e segurança emocional que proporcionam (Lynch 2002). O espaço público deve
ser tratado como uma estrutura organizadora do território, uma área de
continuidade e diferenciação.
Neste artigo pretende-se realçar o potencial qualificador dos
revestimentos azulejares nos espaços urbanos, valorizando o seu potencial
perceptivo como uma componente ergonómica.
O reconhecido papel da visão na interpretação da realidade física
contribuiu para a valorização da importância das variações perceptivas,
sincrónicas e diacrónicas, nos processos mentais de interpretação e
organização espacial. A consciencialização da importância do Factor Humano
no processo de design dos espaços públicos, nomeadamente dos factores

72
Mestre em Cor na Arquitectura, CIAUD, Faculdade de Arquitectura, TULisbon; ESAD | School of Fine Arts and
Design, IPL
73
Doutor em Cor na Arquitectura , CIAUD, Faculdade de Arquitectura, TULisbon

204
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

relacionados com a percepção, vem consolidar a importância da qualidade


visual e emocional dos materiais utilizados na construção desses espaços.
O processo de investigação baseia-se numa metodologia de design
centrada no utilizador, numa perspectiva global de ergodesign.
2 CONTEXTO

O Homem, enquanto ser móvel, relaciona-se com os espaços que


habita e percorre. Nessa interacção permanente entre utilizador/ explorador e
mundo procuramos informação no exterior que codificamos, armazenamos e
articulamos com dados recolhidos anteriormente (Golledge 1999; Allen 1999;
Mollerup 2005) e que usamos para nos orientarmos.
A criação de sistemas de orientação assentes em estruturas que
promovam a segurança e o conforto, pode contribuir de forma significativa
para uma interacção positiva entre o utilizador e o espaço público. O excesso
de informação visual existente nos espaços urbanos diminui a nossa
capacidade de isolar elementos, dificultando o processo comparativo de
reconhecimento de diferenças e semelhanças que desenhamos mentalmente
ao percorrer os espaços (Humphrey), obstando o entendimento dos lugares.
O desenho dos espaços urbanos deve considerar a existência de
elementos caracterizadores e diferenciadores a diversas escalas (edifícios,
equipamentos urbanos, elementos naturais) cuja materialidade, valor
simbólico e emocional, e qualidade funcional sejam passíveis de contribuir
para a qualidade da relação entre o utilizador e o espaço. (Cullen 1978; Lynch
2002).

2.1 A Construção da Imagem do espaço urbano


A criação de sistemas de orientação, através de estruturas de
identidade que permitam facilitar a vida e garantir a sobrevivência tem sido
uma constante na vida dos seres vivos.

205
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

No espaço urbano é difícil isolar elementos, dissociá-los, afastá-los da


promiscuidade provocada pela proximidade física entre edificado, elementos
naturais, estruturas publicitárias, equipamentos urbanos fixos e elementos
móveis. Formas, cores, texturas, sons e cheiros sobrepõem-se numa
permanente disputa da atenção de quem percorre os espaços urbanos.
O que nos fixa o olhar, e nos faz ver, são as semelhanças, são as
diferenças, as rimas e os ritmos que vamos desenhando entre o que nos rodeia
e o que somos e vivemos, é a teia de “semelhanças sublinhadas pelas
diferenças”(Humphrey 1980) que vamos construindo. É este processo
comparativo, que nos permite encontrar princípios comuns na diversidade,
reconhecer estruturas de entendimento que nos possibilitem atravessar a
realidade mutante que nos surge a cada instante. A nossa capacidade para
detectar estes estímulos em ambientes com excesso de informação, irá
determinar a facilidade, ou dificuldade, em nos relacionarmos com os espaços.

1. Relações entre lugares, objectos e memorias como estruturas de entendimento.

A construção individual da imagem dos espaços faz-se, de acordo com


Lynch (2002), por meio de colagens sucessivas de imagens singulares, sendo
muito raro para um individuo ver a cidade como um todo. Através dos canais
sensoriais recolhemos informação do ambiente, construímos uma memória
visual articulando esses dados com os dados que armazenados e filtrados
anteriormente, para depois actuarmos sobre o mundo que nos rodeia (Allen

206
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

1999; Mollerup 2005). Ao percorrer a cidade estabelecemos relações entre


lugares, entre lugares e objectos, elaboramos mapas mentais desenhados em
função de pontos referência com significado individual; estes sucedem-se no
nosso trajecto, criando ritmos de passagem, referenciando a nossa posição
relativa no espaço e no tempo, materializando o percurso mental por nós
delineado.

2.2. Diversidade | Qualidade Visual | Valor Haptico e a relação do Homem


com os espaços
A diversidade na paisagem urbana é um factor importante na
qualidade dos espaços (Humphrey 1980; Lancaster 1996; Cullen 1978; Lynch
2002). A variedade cromática, potenciada pela sua relação com a luz e suas
variações, é importante e benéfica no desenhar dos espaços, não só pelo seu
valor emocional e psicológico, mas também pelo seu potencial sensorial capaz
de alterar a nossa percepção espacial. Através da cor ergonómica é possível o
ordenamento e a clarificação do espaço urbano; a unificação de elementos
dissonantes; diferenciar unidades em partes estruturais; individualizar
detalhes e destacar componentes importantes; modelar ou alterar o espaço;
quebrar a monotonia, introduzindo ritmo e proporção; clarificar relações de
forma e fundo, hierarquizar espaços (Porter 1982; Merwein, Rodeck and
Mahnke 2007), orientar o cidadão no espaço desenhado (Mahnke 1996; Porter
& Mikellides 1976) favorecendo tarefas de wayfinding e wayshowing
(Mollerup 2005).
A associação, inconsciente e instintiva, da cor e da textura ao modelo
mental do elemento natural (Lancaster 1996) ajuda o Homem a criar relações
com os ambientes (Porter e Mikellides 1976), atenuando a severidade da
arquitectura (Lenclos 1976), integrando-a na construção da imagem positiva
da cidade.
Dimensão, forma, cor e posição são elementos fundamentais do
processo mental de organização espacial, fundamentais na eficiência com que

207
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

o utilizador executa as tarefas de reconhecimento e categorização do meio


ambiente (Friedman & Thompson 1976). Pela relevância da cor na captação da
atenção e na construção de memórias visuais e emocionais, a sua utilização na
definição de estruturas urbanas, aliadas às qualidades tácteis dos materiais,
pode contribuir para o incremento da legibilidade espacial e funcionar como
factor relevante em processos de wayfinding e wayshowing.
A utilização de materiais que em termos funcionais, visuais, hapticos e
emocionais apelem aos sentidos tornou-se num dos requisitos que pode
contribuir de forma significativa para a qualificação dos espaços como user-
friendly.

2. Qualidades visuais dos azulejos: Textura, cor e brilho.

Considerando estas variáveis, e o facto de que um dos principais


enquadramentos deste artigo serem os aspectos relacionados com a
percepção, os revestimentos azulejares pela sua variação perceptiva ao nível
da cor, textura e padrão gráfico, pelas qualidades superficiais que podem
materializar, e pelo seu valor simbólico, podem constituir-se como elementos
de referência na orientação espacial na paisagem urbana. Pelas suas
características intrínsecas (plasticidade do material cerâmico, qualidade do
vidrado), extrínsecas (cor, textura e brilho), e emocionais (familiaridade
atávica, facilmente reconhecidos), os azulejos podem proporcionar prazer
estético, conforto emocional, incorporando também soluções ergonómicas.

208
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

3 IIDENTIFICAR | INTERAGIR: PAPEL DOS AZULEJOS NA ORIENTAÇÃO


ESPACIAL EM ESPAÇOS URBANOS

Wayfinding é um processo estruturado, uma estratégia individual na


através da qual o utilizador móvel estabelecer relações entre estímulos
(Mollerup 2005), as quais lhe permitam deslocar-se com o menor risco de erro
de um local para outro.

3.1.A Cor e a Luz nos azulejos: reconhecimento espacial e cognição


Os paramentos azulejares apresentam riqueza visual e táctil,
permitindo diversidade na percepção do objecto a diferentes distâncias e
pontos de vista, tornando-os fáceis de reconhecer e de recordar. Formados
pela justaposição segundo uma grelha ortogonal de pequenas peças
cerâmicas, vidradas, coloridas, com grafismos aleatório ou padrões modulares,
oferecem ao utilizador/explorador dos espaços urbanos um conjunto de
referências para a construção da representação do espaço tridimensional e
para a orientação espacial.
Para o observador em movimento diferentes realidades irão surgindo
conforme se aproxima ou contorna um edifício revestido a azulejos.

3. Variação da percepção da cor e textura pela distância de observação.


À escala urbana e/ou com ângulos de visão reduzidos, não
percebemos o detalhe, apreendemos apenas o conjunto. Identificamos apenas

209
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

a superfície, uma mancha de cor aparentemente uniforme, com algumas


variações perceptivas decorrentes de eventuais reflexos. A diminuição da
distância e/ou do ângulo de observação permite descobrir um tecido
composto por peças, linhas geradas pela sua junta de aplicação, cores e
grafismos, e rico em qualidades tácteis superfíciais.

4. Alteração da textura como indicador de direcção e profundidade.

A modificação da posição relativa entre observador e objecto


proporciona a alteração dos estímulos visuais. Estas alterações dentro de
parâmetros que permitam entendê-las como variações dos estímulos iniciais,
podem indicar alteração da forma e/ou mudança de direcção, medir o tempo
pela variação do brilho e da cor, ou ainda transmitir ao explorador a
progressão da sua deslocação, e qual a sua localização no percurso desenhado
mentalmente. Os processos cognitivos envolvidos no reconhecimento e
categorização permitem a utilização destes dados visuais como referenciais de
posição relativa – a mistura óptica da cor, texturas e grafismos e grelha
(esmagamento ou falta de clareza na legibilidade dos diferentes estímulos
visuais) indicam maior distancia de observação e/ou de ângulo de visão
reduzido; a clareza na percepção destes estímulos revela proximidade entre
observador e objecto, e/ou um ângulo de visão próximo dos 90º. Estas
situações de variedade perceptiva dos azulejos proporcionam unidade e
complexidade, contribuindo para a diversidade do ambiente, e tendem a

210
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

despertar no utilizador uma estimulação visual (Foster 1976) que pode


conduzir a um melhor entendimento do espaço (Friedman & Thompson 1976).

3.2. Azulejos como potenciais marcos emocionais


Desde a Antiguidade que o uso de revestimentos cerâmicos tem
integrado a arquitectura de uma forma generalizada. Vidrada ou natural a
presença da cerâmica é atavicamente familiar, manifesta a acção da mão
humana, material e no processo de fabrico, em oposição à frieza impessoal dos
materiais perfeitos de produção massiva. Ao longo dos séculos, nos
revestimentos cerâmicos materializaram-se vontades religiosas e politicas,
manifestações culturais e sociais e expressões artísticas de civilizações em
evolução. Nos revestimentos azulejares a qualidade da superfície, o brilho, a
transparência ou opacidade do vidrado e a sua intensidade e variedade
cromática, tornam a experiência da percepção num acontecimento
estimulante (Lobo e Pernão 2010): as variações significativas que neles
ocorrem decorrentes das alterações das condições atmosféricas, da luz, da
proximidade ou distância, ou do ângulo de visão do observador, destacam-nos
da sua envolvente, atraem a atenção dos utilizadores pela diversidade que
proporcionam.
Estes atributos visuais, culturais, e simbólicos qualificam o azulejo
como produto adequado a uma utilização cujo carácter funcional excede a de
protecção do construído para se transformar num elemento caracterizador,
qualificador e com uma função social – a de marco de referência emocional
(Lobo 2010).

211
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

5. Revestimento azulejar como marco de referência emocional, icónica e simbólica.

3.3. Cor, brilho e textura como factores de diferenciação e referenciação


O processo de aplicação dos azulejos não é rigoroso, pelo que as
peças raras vezes são complanares. Daqui resulta uma superfície animada por
uma irregularidade mais ou menos acentuada, onde a luz se reflecte e
dispersa, criando múltiplas percepções de cor e luz.
Por ser uma superfície brilhante, dependendo do ângulo de visão e de
incidência da luz, ao observarmos uma superfície revestida a azulejos podemos
ver uma, ou múltiplas, superfícies espelhadas onde se reflecte o espaço
envolvente; um, ou vários, reflexos especulares; ou uma mancha de cor
composta por pequenos quadrados de cores com matiz e cromatismo
próximos.
Pelo brilho e reflectividade do vidrado, ocorrem modificações
sucessivas na cor percebida dos azulejos, assim como na cor dos edifícios
próximos pela reflexão da luz e do brilho, criando ambiências próprias e
distintas que conferem qualidade e diversidade aos espaços onde existem
(Lobo e Pernão 2010).
As paletas cromáticas mais vibrantes, habituais nos azulejos, são
intensificadas pelo brilho, contribuindo para que as superfícies azulejares se
destaquem dos edifícios rebocados ou pintados (Lancaster 1996), assim como
para o aumento da legibilidade dos espaços, clarificando a leitura da
sequência de edifícios, pela da intensificação dos contrastes cromáticos entre

212
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

edifícios. A cor, textura ou relevos, e os motivos gráficos podem diluir-se ou


fundir-se com a distância e com o ângulo de visão, mas a reflectividade dos
vidrados brilhantes dos azulejos mantém-se apesar da alteração dessas
variáveis. Mesmo em situações de iluminação diminuta, onde a percepção dos
desenhos e da cor é severamente afectada, o brilho e a superfície lustrosa dos
azulejos irá contribuir para a existência de referências de identificação e
diferenciação dessa superfície (Davidoff 1991), promovendo o destacar dessa
superfície relativamente ao restante tecido urbano, aumentando deste modo a
legibilidade espacial. Estes atributos permitem desenhar relações eficazes de
forma/fundo nos espaços públicos exteriores, tirando partido de contrastes
cromáticos e de brilho entre revestimentos azulejares – fundo – e
equipamentos urbanos fixos e móveis – formas.

6. Brilho como referencial de posição relativa.

A natureza físico-química do vidrado cerâmico não permite alcançar


um valor elevado na escala de brilho, minimizando por isso a possibilidade de
reflexos de brilho intenso causadores de encandeamento, desconforto visual,
confusão ou desorientação para o utilizador. No caso dos azulejos as
alterações de localização dos reflexos especulares, e dos pontos de brilho
podem ajudar a identificar a posição relativa do observador e do edifício em
relação ao sol, contribuindo para a clarificação da orientação espacial.

213
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

3.4. O azulejo: potencial como factor ergonómico


Cegos e pessoas com visão reduzida são mais sensíveis a variações de
luminosidade da cor do que variações de matiz (Mollerup 2005), ou seja entre
duas cores com matiz e valor lumínico semelhante (por exemplo amarelo e
vermelho), e duas cores com o mesmo matiz e valor lumínico claramente
diferente (azul claro e azul escuro), o contraste entre as segundas será muito
mais eficaz do que no primeiro caso. Apesar de o brilho ser geralmente
considerado como um factor negativo em termos de comunicação,
particularmente para pessoas com visão reduzida, no caso dos revestimentos
cerâmicos ele poderá funcionar como um factor benéfico (Lobo 2010). Como a
superfície não é uniforme - pela irregularidade possível da justaposição das
peças, e os níveis de brilho da superfície não são muito elevados - o brilho
acontece momentaneamente e em pequenas áreas reduzindo
significativamente a possibilidade de encandeamento daí resultante. Nos
espaços públicos a velatura de pó que habitualmente cobre as fachadas irá
também contribuir para a diminuição da possibilidade de ocorrência deste
fenómeno.
Os reflexos produzidos pela incidência da luz na sua superfície, que
variam com o ângulo de visão e com a inclinação dos raios solares, irão
proporcionar diferenças pontuais de luminosidade, permitindo criar
referências de deslocação para que tem visão reduzida ou com distúrbios na
percepção e visualização da cor (daltonismo), sem causarem desconforto
visual: Mesmo que uma fachada revestida a azulejos tenha um matiz
semelhante à fachada contigua ou que seja percebida como tal, no caso dos
portadores de daltonismo, a sua mutabilidade - decorrente do seu brilho e da
interacção com a luz - será reconhecida, contribuindo para a diferenciação de
superfícies e por conseguinte funcionar como um auxilio na deslocação.

214
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

7. Contraste de brilho, e de brilho associado à cor, como factor diferenciador.

Dada a plasticidade do corpo cerâmico é também possível introduzir


texturas e relevos na superfície dos azulejos, conferindo-lhe valor haptico . O
acabamento acetinado, agradável ao toque, a possibilidade de obter uma
paleta cromática rica em contrastes de luminosidade, matiz e cromatismo, e a
durabilidade do material cerâmico vidrado viabilizam a sua utilização em
sistemas de orientação visual e táctil exterior na forma de textos em Braille,
guias tácteis orientadoras, letras tácteis, ou texturas que animam e
diferenciam superfícies, assinalando situações de perigo, mudanças de
direcção, balizando limites de edifícios, ou demarcando entradas de serviços
públicos e núcleos de habitação. Estas soluções podem surgir integradas no
edificado, integradas no revestimentos, não necessitando de equipamentos
urbanos específicos para as suportar, minimizando dessa forma a criação de
barreiras e obstáculos para os utilizadores. Ao associar o tratamento de
superfície à cor, aumenta-se a potencial eficácia das soluções, ampliando o
leque de beneficiários da sua utilização como elemento de revestimento,
sinalética e fruição estética.

215
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

8. Valor háptico e visual como potenciais sistemas facilitadores de orientação espacial.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste artigo procurou evidenciar-se os aspectos ergonómicos dos
azulejos na construção de espaços urbanos qualificados ao nível funcional e
emocional. Enquanto revestimentos da arquitectura, os paramentos azulejares
são veículo de qualidades perceptivas – visuais e hapticas – promovendo a
interacção entre utilizador e objecto. Os seus atributos físicos e perceptivos
habilitam-nos a constituir-se como marcos de referência, de fácil
memorização, promovendo construção da identidade urbana, contribuindo
para a agilização dos processos de reconhecimento, organização e
hierarquização do sistema utilizador/objecto/espaço, e com isso aumentando
a eficácia da actuação do Homem no espaço urbano.
A confiança do Homem na informação visual, táctil e na
propriopercepção, legitima os azulejos como um material de referência no
design de espaços públicos. A sua longevidade estrutural, cromática e de
brilho, permite uma utilização ambientalmente responsável, não perdendo
qualidades visuais ou tácteis durante o seu período de vida útil.
O reconhecimento da importância dos factores perceptivos como
aspectos ergonómicos cria a oportunidade de os incluir nos processos
metodológicos associados às práticas e estratégias do design de espaços e
produtos, e de estudos cromáticos nos espaços urbanos.
Agradecimentos

216
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

O presente estudo tem sido desenvolvido com o apoio do CIAUD –


Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALLEN, G., Cognitive Maps, and Wayfinding: bases for individual differences in
spatial cognition and behavior. In Golledge, R. (ed.). Wayfinding behavior:
cognitive mapping and other spatial processes. Baltimore:The Johns
Hopkins University Press, 1999.
FRIEDMAN, S., THOMPSON, S., Colour, Competence, and Cognition: Notes
towards a Psychology of environmental Colour, In Porter, T. & Mikellides,
B. (ed.) (1976),London: Colour for Architecture. Studio Vista, 1976.
DAVIDOFF, J. Cognition trough Color, London: The MIT Press, 1991.
GOLLEDGE, R. (ED.), Wayfinding behavior: cognitive mapping and other spatial
processes. Baltimore: The John Hopkins University Press, 1999.
HUMPHREY, N. Natural Aesthetics. In Mikellides, Byron (ed.). Architecture for
People. London: Studio Vista, 1980.
LANCASTER, M., Colourscape. London: Academy Editions, 1996.
LOBO, C., Light, Colour and Surface as Ergonomic Aspects in Space Recognition
and Urban Orientation: Azulejos’s (Glazed Tiles) as Paradigm. In
Kaber, D. Boy, G. (Ed.) , Advances in Cognitive Ergonomics (pp. 220-
229) . Boca Raton: CRC Press Taylor & Francis Group, 2010.
LOBO, C., PERNÃO, J., Glazed Tiles as an Improving Element for the
Environmental Quality in Urban Landscape. Colour: Design & Creativity
(5), 9: 1–12. 2010. http://www.colour-journal.org/2010/5/9
LYNCH, K., A Imagem da Cidade. Lisboa: Edições 70, 2002.
MERWEIN, G., RODECK, B. AND MAHNKE, F., Color – Communication in
Architectural Space. Basel: Birkhauser, 2007.
MOLLERUP, P., Wayshowing - A Guide to Environmental Signage. Principles &
Practices. Baden: Lars Muller Publishers, 2005.
PORTER, T., Architectural color, New York: Whitney Library of Design, 1982.

Créditos de imagens: Carla Lobo

217
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Legislação Portuguesa de Acessibilidade:


O Passado e o Futuro
74
G. Cardoso Dias
75
N. Cardoso Dias
76
F. Moreira da Silva
77
C. Alho

1 INTRODUÇÃO

As cidades portuguesas podem ser encaradas como um produto da


evolução de conceitos comerciais e militares, como por exemplo a escolha da
localização da maioria delas em sítios altos, com difícil acesso para permitir a
vigilância de um vasto território circundante. Hoje essa escolha traduz-se em
dificuldades acrescidas para a implementação dos conceitos vigentes de
Design Universal, Design Inclusivo ou Design for All. A solução para os
problemas defensivos da época tornaram-se a dificuldade a transpor hoje para
quem tem o desafio de tornar as cidades portuguesas acessíveis, com a
agravante de que esta característica faz parte da herança patrimonial a
preservar para as gerações futuras.
Este é um dos factores que faz com que o estado da acessibilidade
nas cidades portuguesas não possa ser considerado como o melhor, apesar de
que os debates promovidos desde 2006 em redor desta problemática, muito
por causa da legislação que saiu nesse ano, tiveram um impacte politico e

74
Mestre em Gestão Arquitectónica do Ambiente Urbano, Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica
de Lisboa - Centro de Investigação de Arquitectura, Urbanismo e Design
75
Jurista, Universidade de Vigo - Departamento de Direito Público
76
Doutor em Cor na Arquitectura, Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa - Centro de
Investigação de Arquitectura, Urbanismo e Design
77
Doutor em Reabilitação Urbana, Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa –
Departamento de Urbanismo

218
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

desde então que alguns esforços foram feitos no sentido de melhorar as


condições de acessibilidade.
Dada a natureza punitiva da sistema judicial português – onde uma
lei prevê punição legal para quem não cumpra os standards impostos por ela –
legislação é um dos factores determinantes para os processos de
desenvolvimento arquitectónico e urbanístico. Tendo isto em mente, este
artigo centra-se na legislação portuguesa sobre acessibilidade, explorando os
eventos históricos e políticos que levaram à situação actual e à legislação
actual, deixando de fora os regulamentos municipais. Sendo a história da
legislação portuguesa sobre acessibilidades bastante extensa , escolhemos
para este artigo focarmo-nos sobre os três principais documentos o Decreto-
Lei 43/82, 123/97 e 163/2006.

2 A HISTÓRIA PORTUGUESA DA LEGISLAÇÃO SOBRE ACESSIBILIDADE

Enquanto os Estados Unidos da América lidavam com os


movimentos de direitos civis, em particular com os protestos levados a cabo
pela população portadora de deficiência, que tinha aumentado em número
dramaticamente devido à guerra do Vietnam, para aprovar o “Rehabilitation
Act” de 1973, e Ron Mace começava a definir o conceito de Design Universal,
em Portugal acontecia uma revolução.
A 25 de Abril de 1974, os militares portugueses conduziram um
golpe de estado que depôs o governo, o que resultou no final da guerra
Ultramarina e o processo de descolonização começou, tendo como resultado
três eventos chave para a história da legislação portuguesa sobre
acessibilidade:
1. Aumento da população com deficiência devido à guerra
Ultramarina;
2. A necessidade de escrever uma nova constituição;

219
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

3. O êxodo populacional proveniente das antigas colónias.


O aumento da população com deficiência veterana de guerra,
conjuntamente com os protestos por si organizados, durante uma revolução
cujas principais figuras eram militares, conjugada com a necessidade de
escrever uma nova constituição criaram a oportunidade um documento que
incluí-se todos e dê-se a todos as melhores oportunidades e qualidade de vida.
Esta altura foi de uma grande instabilidade politica, com três
eleições legislativas realizadas em 1976, 1979 e 1980, portanto não é
surpreendente que só tenha sido possível gerar uma legislação dedicada à
acessibilidade seis anos depois da revolução, o Decreto-Lei nº43/82 de 8 de
Fevereiro, apesar dos esforços feitos até em então.

2.1 Decreto-Lei 43/82 de 8 de Fevereiro

Desde 1951 que os standards mínimos para a construção em


Portugal são regulados pelo Regulamento Geral das Edificações Urbanas
(RGEU). O Decreto-Lei 43/82 estabeleceu alterações ao RGEU de modo a
assegurar que os standards mínimos de construção fossem inclusivos,
assegurando a resposta às necessidades dos cidadãos com deficiência, mais
particularmente deficiências físicas, e eliminava ou reduzia as limitações de
movimentos especialmente aquelas que originavam da conceptualização
arquitectónica dos edifícios.
Apesar das limitações, o Decreto-Lei 43/82 pode ser descrito como
inovador para o seu tempo, tentado resolver os problemas de acessibilidade
directamente na concepção, mas devido à preponderância dada seu enunciado
à população com deficiência, inadvertidamente criou um estigma que foi
utilizado como uma arma contra a sua aplicação. Na realidade gerou uma
sobrecarga sobre os deficientes e as suas exigências que retirou todo o apoio
geral da população (Palma de Melo, 1982).

220
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Outro factor que contribuiu para os lobbies que resistiam a este


documento foi gerado pelo êxodo populacional proveniente das antigas
colónias, uma crise habitacional. Tendo em conta que a maioria das pessoas
regressaram com fundos económicos muito limitados, foi apresentado o
argumento, através de um estudo nunca tornado público, que todas as
mudanças propostas iriam aumentar o preço da habitação. Assim sendo, e
com a opinião pública com a impressão que todas estas medidas eram
apontadas para satisfazer uma minoria populacional, a entrada em vigor do
Decreto-Lei 43/82 foi constantemente adiada, até que 1986 foi
completamente revogado com a promessa de uma revisão completa ao RGEU,
que nunca foi efectuada até hoje.
Hoje há a sensação de que foi uma oportunidade perdida visto que
entre 1981 e 1991 o índice de crescimento da construção em Portugal rondou
os 22% e 21% entre 1991 e 2001 (Censos 2001), deixando o pensamento de
que se este Decreto-Lei tivesse sido respeitado Portugal seria um dos países
com a taxa de acessibilidade mais alta na Europa. (Falcato Simões, 2004)
O que é importante reter deste diploma é a sua simplicidade,
estabelecendo regulação geral aplicável a toda a habitação, mesmo que
tivesse algumas falhas ao nível técnico, mas que no geral seria um passo em
frente que teria alterado o paradigma (Cardoso Dias, 2007).
Desde a revogação final em 1986, apenas regulamentos sem força
legal e meras recomendações foram emitidos pelo governo e unicamente
dirigidas a edifícios públicos deixando um vazio legal que só seria preenchido
em 1997 com o Decreto-Lei 123/97 de 22 de Maio.
Durante os quinze anos que passaram entre 1982 e 1997 surgiram
no plano internacional vários eventos e documentos que lidavam com as
questões de acessibilidade que influenciaram até a própria existência do
Decreto-Lei 123/97, passando a enumerá-los:
1. A resolução das Nações Unidas nº 37/52 de 3 de Dezembro
de 1982, onde foi feito um convite aos estados membros

221
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

para adoptarem medidas que assegurem a acessibilidade a


edifícios públicos e promovam a acessibilidade a edifícios,
instalações, moradias e transportes pré-existentes;
2. A adesão de Portugal e Espanha à Comunidade Económica
Europeia, actualmente União Europeia, em 1986;
3. O “Fair Housing Amendments Act”, em 1989;
4. O “Americans with Disabilities Act”, em 1990;
5. A publicação do Manual Europeu em 1990, que não obteve
um consenso europeu por causa do nível de detalhe;
6. A publicação do documento “Uma politica coerente para a
reabilitação de pessoas com deficiência” em 1992;
7. A adopção de normas sobre a igualdade de oportunidades
para pessoas com deficiência pelas Nações Unidas em
1993;
8. A introdução do Conceito Europeu de Acessibilidade em
1996.

2.2 Decreto-Lei 123/97 de 22 de Maio

O Decreto-Lei 123/97 estabelece normas técnicas a serem aplicadas


a edifícios, equipamentos, estabelecimentos que recebam público e vias
públicas, os prazos, o regime de sanções e penalidades, e o regime de
excepções, contudo há algumas características deste documento a serem
destacadas:
1. O enfoque está mais uma vez nas pessoas com deficiência;
2. A falta de normas para o interior de edifícios de habitação;
3. Um período de transição de sete anos para assegurar a
acessibilidade a construções pré-existentes;
4. Um regime de excepções demasiado vago e abrangente;

222
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

5. O regime de sanções e penalidades é baseado em multas de


baixo valor, que teriam que ser executadas pelos municípios e
administração central.
Quando o documento foi publicado houve uma reacção de
optimismo moderado devido ao longo período de transição, a quantidade de
responsabilidade e pressão nos municípios, e por admitir a proliferação de
edifícios considerados não acessíveis em nome do desenvolvimento
económico (C.M.L., 1997).
Infelizmente os piores receios sobre a aplicação do diploma foram
confirmados. Este encontrou resistência por quase todas as partes envolvidas;
a administração central e local não estavam preparadas para a aplicação do
documento e estavam sem recursos para a implementação; os técnicos não
tinham experiência para lidar com estes problemas; o mercado da construção
não tinha soluções simples e economicamente viáveis (Cardoso Dias, 2007).
Isto levou a uma situação onde os municípios eram as primeiras
entidades a não respeitar o documento, quando elas é que deveriam estar a
verificar e a sancionar os casos que não cumpriam a lei. Uma possível
explicação para isto é o facto de que os municípios não participaram na
discussão pública do diploma, e talvez por cauda disso não tenham percebido
a oportunidade, faltando uma estratégia coerente (Pereira, 2002). Contudo
não foram só os municípios que falharam a aplicar o decreto-lei, o governo
central também falhou nos seus edifícios (A.P.D., 2003), deixando o diploma
numa posição muito enfraquecida, especialmente tendo em conta o processo
de revogação e a própria revogação do Decreto-Lei 43/82.
Portanto foi sem surpresa que um estudo pedido pelo governo
(relatório 14/05 – NAU – “”Normas técninas no espaço público e nos edifícios e
estabelecimentos que recebem público – proposta de revisão”), e para o qual
nem todas as entidades contactadas participaram com as suas respostas,
revelaram que, apesar dos esforços feitos, mais de metade dos edifícios
municipais não cumpriam as normas técnicas estabelecidas e que havia uma

223
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

dificuldade em especial para lidar com espaços urbanos consolidados e


edifícios antigos. As razões por detrás dessas dificuldades apontam para:
1. A falta de fundos para fazer as adaptações necessárias;
2. A falta de linhas de apoio;
3. A falta de consideração do diploma na fase de
desenvolvimento de projecto ou negligência durante o
processo de construção.
É também importante mencionar que não existem casos de entidades
licenciadoras que tenham emitido qualquer tipo de sanções previstas no
Decreto-Lei 123/97.
Uma das maiores ilações que podemos retirar deste processo é que não
é não chega legislar para considerar que uma situação está resolvida. Contudo,
mesmo considerando todas as suas falhas, e que a sua aplicação não teve o
sucesso desejado, o Decreto-Lei 123/97 pode ser considerado como um passo
importante.
Este diploma manteve-se em vigor até 2006, quando foi substituído
pelo Decreto-Lei 163/2006 de 8 de Agosto. Durante o período de transição
entre os dois documentos é necessário realçar:
1. Em 2001 legislação sobre acessibilidade em estádios de futebol
foi publicada de forma a prever a construção das instalações
envolvidas no Euro 2004;
2. Em 2002 a Comissão Europeia decidiu fazer uma actualização ao
Conceito Europeu de Acessibilidade;
3. Em 2003 é celebrado o Ano Europeu das Pessoas com
Deficiência;
4. Um período de trepidação politica, desde 2002 até 2005, com
três governos e duas eleições legislativas que atrasaram ou
acabaram com esforços para o Decreto-Lei 123/97.

224
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

2.3 Decreto-Lei 163/2006 de 8 de Agosto

O Decreto-Lei 163/2006 está neste momento em vigor e é composto


pelo preâmbulo, o articulado composto por vinte seis artigos e em anexo um
conjunto de normas técnicas com o objectivo de promover a acessibilidade. As
principais inovações deste diploma quando comparado com o seu predecessor
são:
1. A expansão das normas técnicas para a habitação;
2. A criação de mecanismos de controlo da aplicação do
documento;
3. A introdução de um regime de excepções mais exigente;
4. Um novo regime de sanções;
5. Desenvolve o papel das associações representativas dos
cidadãos com necessidades especiais;
6. Define ferramentas para avaliar a aplicação do Decreto-Lei.
Este é um documento mais complexo que o anterior, o legislador
aprendeu com a aplicação do Decreto-Lei 123/97 e desta vez tentou englobar
mais situações. As normas técnicas são mais exaustivas, contudo mas
complexas e difíceis de interpretar, e centram-se muito nas pessoas com
deficiência, em particular nos utilizadores de cadeira de rodas, e isto, ficou
provado pelos Decretos anteriores, pode ser muito perigoso para a
subsistência do diploma.
A seguinte análise S.W.O.T. descreve as forças, as fraquezas, as
oportunidades e as ameaças relativas ao Decreto-Lei 163/2006. As suas forças
são as seguintes:
1. A aplicação de normas técnicas de acessibilidade à
habitação;
2. Aprendeu com os erros anteriores e prevê mais situações
que os seus predecessores;

225
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

3. A nomeação de entidades que tem um papel activo a


monitorizar e supervisionar a aplicação do Decreto-Lei;
4. As ferramentas que envolvem as associações e fundações
que defendem os interesses das pessoas com necessidades
especiais;
5. A responsabilização das partes intervenientes do processo
construtivo;
6. As sanções previstas podem ser piores do que as multas
estabelecidas;
7. Alguma flexibilidade no que toca às normas técnicas,
prevendo os casos em que não é possível cumpri-las;
8. A inclusão do conceito de rota acessível de modo a garantir
um percurso seguro e confortável para todos.
As fraquezas do Decreto-Lei 163/2006 são as seguintes:
1. A referência a outras formas de mobilidade reduzida
encontra-se apenas no preâmbulo, levando a implementação
do diploma para a protecção de minorias em vez de se
centrar na melhoria da qualidade de vida para todos;
2. A origem do diploma, o Ministério do Trabalho e da
Segurança Social, faz com que o diploma se afaste da
questão da qualidade da construção;
3. Ao impor as normas num documento fora do RGEU pode
levar às mesmas dificuldades sofridas pelo Decreto-Lei
123/97;
4. A construção das normas técnicas em redor dos utilizadores
de cadeira de rodas contribui ainda mais para a visão de que
este diploma é dirigido para as minorias;
5. A definição do regime de excepções ainda é muito vaga;

226
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

6. O faseamento do número de habitação acessível prevê


números relativamente baixos considerando a taxa de
crescimento da população sénior prevista;
7. A dificuldade em cumprir com algumas das normas técnicas,
especialmente a falta de flexibilidade considerando as
condições topográficas onde vão ser implementadas;
8. Os valores das multas ainda são convidativos para o não
cumprimento do diploma.
As maiores oportunidades do que se apresentam com este
documento são:
1. O massivo melhoramento da qualidade de vida,
independentemente da mobilidade das pessoas ser reduzida
ou não;
2. Fazer uma resenha anual sobre estado de acessibilidade em
Portugal;
3. A melhoria da consciência social para as questões relativas à
acessibilidade.
As maiores ameaças ao diploma são:
1. O regime de excepções aceitar “meios económicos
desproporcionais” pode levar à mesma situação vivida com o
Decreto-Lei 123/97;
2. A crise económica que se vive hoje em dia, e o
abrandamento do sector da construção pode levar à
adaptação do ambiente construído pré-existente, área onde
o Decreto-Lei 123/97 falhou;
3. Apesar da boa intenção em envolver a sociedade civil na
monitorização da aplicação do diploma, em Portugal não
existe esse habito de participação;
4. A incompreensão de como funcionam o documento e as
normas técnicas.

227
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Desde a sua publicação, em parte devido à complexidade do


documento, que existe um grande debate tentando compreender o diploma,
portanto o Decreto-Lei 163/2006 teve um papel positivo determinante para
melhorar a sensibilização de técnicos e público em geral para a questão da
acessibilidade.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O legislador fez um percurso sinuoso na regulação das questões de


acessibilidade, as intenções para construir uma melhor qualidade de vida
estavam lá, mas a aplicação prática das mesmas nunca resultou.
Foram necessários seis anos desde a elaboração e publicação da
Constituição da República Portuguesa (1976) até à publicação do primeiro
diploma dedicado à supressão de barreiras arquitectónicas, que mesmo assim
foi revogado sem nunca ter entrado em vigor, em nome de uma crise
habitacional e do aumento de custo para a habitação que o diploma poderia
implicar.
Desde então, um vazio legal foi estabelecido durante quinze anos,
até que o Decreto-Lei 123/97 foi publicado. Este pode ser visto como um passo
positivo, apesar de nem sempre a sua aplicação ser coerente ou efectiva.
O Decreto-Lei 163/2006 pode ser definido como um diploma
abrangente, que assume medidas inovadoras de forma a encontrar soluções
para os problemas encontrados pelo seu predecessor. De forma geral, este
tem mas pontos fortes do que fracos e tem o mérito de, depois da sua
publicação, ter melhorado o nível de sensibilização dos técnicos e do público
em geral, contudo é necessário manter um optimismo moderado devido à
história da legislação prévia.

3.1 O Passado e o Futuro

228
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Se olharmos para os três documentos aqui escalpelizados à luz do


conceito de Design Universal, podemos definir duas linhas de pensamento:
1. O pensamento de protecção das pessoas com deficiência;
2. O pensamento que vai de encontro ao conceito de Design
Universal onde o que é necessário é melhorar a qualidade de
vida, independentemente das limitações das pessoas.
Obviamente que o legislador optou quase sempre ir pelo primeiro
pensamento, apesar de já se notarem alguns indícios de uma mudança para o
segundo pensamento neste ultimo documento legislativo, contudo na forma
como é organizado o Decreto-Lei 43/82, apesar de ser o mais antigo,
demonstra um espírito muito mais aproximado ao conceito de design universal
do que os seus sucessores.
O problema foi que na altura a sociedade portuguesa não estava
preparada para uma mudança tão radical, contudo num futuro próximo,
devido aos marcos que são o Decreto-Lei 123/97 e o 163/2006 já será possível
alcançar um código de construção que aceite e esteja imbuído dos conceito e
princípios do Design Universal.

Agradecimentos

O presente estudo está a ser desenvolvido com o apoio da Fundação


para a Ciência e Tecnologia, Processo SFRH/BD/ 48924/2008.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ARTE & CONSTRUÇÃO. Barreiras físicas e arquitectónicas I. Revista Arte &
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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

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acessibilidade. Diário da Republica I Série Nº 118, 1997.
DECRETO-LEI Nº163/2006 DE 8 DE AGOSTO. Adopção de um conjunto de
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mobilidade condicionada. Diário da Republica I Série Nº 152, 2006.
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das Edificações Urbanas para reduzir as barreiras arquitectónicas. Diário
da Republica I Série Nº 32, 1982.

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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

FALCATO SIMÕES, J. Em entrevista a Vladimiro Nunes. Barreiras


arquitectónicas para deficientes. Revista Arquitectura e Vida nº 53,
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PEREIRA, C. As autarquias e a implementação do Decreto-Lei 123/97 de 22 de
Maio – Um primeiro olhar. Revista Integrar nº 19, 2002.

231
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

O Design de uma cadeira de rodas manual


78
Paulo Carlos da Rocha Costa
79
Fernando Moreira da Silva

1 INTRODUÇÃO

Este artigo apresenta um Projecto de Investigação ainda em


desenvolvimento, que está a ser realizado no âmbito do Curso de
Doutoramento em Design da Faculdade de Arquitectura da Universidade
Técnica de Lisboa, sob a orientação científica do Professor Doutor Fernando
Moreira da Silva.
Como objectivo, pretendemos Investigar se no âmbito da prática
projectual do design de produto, mais concretamente das cadeiras de rodas, é
possível uma abordagem ergonómica, sustentável e inclusiva, dando
possibilidade aos utentes de participar activamente no respectivo processo de
construção e costumização.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A utilização da Cor no Design de Comunicação Visual, deve


pressupor um conhecimento de vários aspectos, tais como o mecanismo da
visão e da visão da cor, a percepção, a interacção das cores, as harmonias e
contrastes, as reacções psico-fisiológicas, a simbologia e a psicologia, os efeitos
espaciais, e as funções comunicativas ou semióticas.

78
Profesor do IP Guarda, Portugal, membro do CIAUD, Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de
Lisboa, orientando
79
Doutor em Cor na Arquitectura pela Universidade de Salford, UK. Presidente do CIAUD, Faculdade de
Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, orientador

232
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Desde a antiguidade que as cadeiras de rodas são representadas e


construídas para o uso de pessoas com dificuldades motoras. A sua evolução
tem sido lenta, com a introdução de novos materiais nas últimas décadas mas
mantendo o seu design quase inalterado. Existe cerâmica pintada do séc. IV AC
onde podemos observar Hefesto (Hephaistos), o Deus Grego da Metalurgia, o
ferreiro divino, sentado numa cadeira de rodas propulsionada por cisnes
brancos. De acordo com a Mitologia Grega o Pai Zeus lançou-o do alto do
Monte Olimpo por apresentar defeitos nas pernas e ser disforme. É retratado
na sua cadeira de rodas em festas e encontros sociais. Neste bom exemplo de
inclusão social a cadeira de rodas é tida como uma mais-valia mecânica de
ajuda ao movimento, de prazer, de conforto.
Em 1933 Herbert Heverest pediu a Harry Jennings que construísse
uma cadeira de rodas mais leve com uma estrutura de fecho. Desde essa altura
e até 1960 muito pouco se alterou na construção das cadeiras de rodas.
Começaram-se então a introduzir ligas leves, rodas "quick-release" e alguma
escolha de cores até que em 1983. Nesse ano começaram a ser vendidas as
primeiras Quickie com aproximadamente metade do peso das E&J. De 1989
ate 1991 a empresa E&J perdeu $88 milhões para os outros fabricantes que
entretanto apresentaram modelos mais evoluídos baseados no modelo
Quickie (O`Reilly, 1998). A introdução de novos conceitos no fabrico das
cadeiras de rodas oriundos da experiência da construção de asas delta foi
crucial. A técnica aliada á função permitiu que as pessoas começassem a olhar
primeiro para a pessoa e só depois para a cadeira de rodas, tornando-se um
conjunto mais homogéneo.

233
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Desde 1990 tem-se investido bastante na inovação e apresentação


de soluções diferentes para a construção da cadeira de rodas. Novos materiais
como a grafite em resina epoxy ou novas ligas de alumínio têm sido aplicados
com resultados muito positivos, conseguindo-se hoje em dia cadeiras de rodas
rígidas com peso total inferior a 5kg. O que mudou também foi a aproximação
do utilizador de cadeiras de rodas aos fabricantes. Uma metodologia de design
caracterizada por vários círculos fechados de troca de informação entre as
fases de formulação do problema (ou dos vários sub-problemas), as hipóteses
e a produção do protótipo veio maximizar a solução final. Cada vez mais as
empresas usam questionários online para testar os seus produtos ou hipóteses
em públicos alvo. Estes utilizadores com o acesso à internet e aos meios de
informação são agora extremamente bem informados acerca dos produtos
disponíveis no mercado. O acesso á sua opinião é extremamente valiosa se as
empresas pretendem que o seu produto tenha uma boa aceitação. Podemos
então seguir um esquema de um relatório de pesquisa que passa pela área de
pesquisa do problema até à solução final com sucessivos ciclos entre etapas
(Leedy, 1992) e sempre com a consulta de utilizadores, quer seja através de
questionários ou entrevistas ou outros meios.
Quando se inicia o processo de Design de um objecto como uma
cadeira de rodas é necessário estudar toda a literatura sobre o assunto,
conhecer os produtos de mercado actuais e usar mesmo uma cadeira de rodas
para "sentir a diferença" antes mesmo de começar a desenvolver o processo.
No entanto, o contacto com os verdadeiros utilizadores permite-nos

234
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

compreender pequenos detalhes sem os quais seria bastante difícil chegar


sequer a uma boa hipótese na equação da solução para o produto final.
A introdução de novas soluções técnicas como por exemplo a
construção de cadeiras de rodas com apenas 3 rodas levou a que se fizesse um
questionário não estruturado (Hague, 1993) a 150 pessoas ditas "normais".
Um número superior a 90% respondeu que preferia 4 rodas por uma questão
de estabilidade. Feito um inquérito a um grupo-alvo de utilizadores de cadeiras
de rodas há mais de 10 anos constatou-se que 100% dos inquiridos gostaria de
experimentar e testar uma cadeira com 3 rodas, não a rejeitando de todo.
Quem realmente está dependente de uma cadeira de rodas não descarta
nenhuma hipótese de a poder melhorar. Quem está dependente interessa-se
em primeiro lugar pela funcionalidade da cadeira. Podemos ainda dividir em
grandes grupos os utilizadores de cadeiras de rodas, desde os totalmente
dependentes de terceiros até aos utilizadores activos. É extremamente difícil
encontrar uma cadeira que agrade a todos. Dependendo do nível de
incapacidade temos autênticos sofás onde se lhes adaptaram umas rodas para
se poderem deslocar sempre com a ajuda de terceiros até cadeiras ultraleves
para pessoas activas. Cada vez mais a integração da engenharia e do design é
feita com excelentes resultados. A exclusão social através do uso da cadeira de
rodas é cada vez menor quando o utilizador sente a cadeira como se do
próprio corpo se tratasse. Como disse um utilizador quando entrevistado por
nós: "quero que as pessoas quando olham para mim não vejam uma cadeira
de rodas". Este estigma da sociedade tem sido combatido pela introdução dos

235
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

últimos modelos das cadeiras de rodas, bastante mais agradáveis á vista pela
sua forma menos pesada, com materiais inovadores.
Já falámos um pouco do que existe em termos de mercado, mas
ainda não focámos um ponto essencial para muitos: o elevado custo de
aquisição de uma cadeira de rodas, essencialmente para um utilizador activo.
Em Portugal uma cadeira de peso 7-8kg pode chegar aos 4000 euros, e se
quisermos ainda um produto mais leve então poderemos ter que pagar até
7000 euros por uma cadeira de rodas rígida e manual. Estamos a falar de
cadeiras dispendiosas para o comum dos utilizadores, mesmo se retirarmos os
encargos com intermediários e impostos. Quem as consegue comprar
normalmente mostra-se preocupado(a) com a sua durabilidade que terá que
corresponder ao investimento. Este problema é tão mais importante se
pensarmos que pelos dados da World Health Organization são estimados 20
milhões de pessoas em países em vias de desenvolvimento que não têm
acesso a uma cadeira de rodas (WHO Wheelchair Guidelines, 2008). Cadeiras
mais acessíveis não poderão ser fabricadas com materiais ultraleves, mas
podem ser adquiridas em Portugal a partir de 100-150 euros/unidade.
A selecção de uma cadeira de rodas passa muitas vezes pode ser um
processo complexo para o utilizador comum. Existem variáveis de
desempenho para qualificar uma cadeira de rodas, sendo os mais comuns a
resistência ao rolamento, controlo e manobrabilidade, a facilidade de
arrumação e transporte e a segurança. Quando um destes critérios é
maximizado regista-se muitas vezes uma perda de desempenho por parte de
outro critério (Thacker, 1994). De uma forma geral podemos dizer que um

236
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

bom desempenho de uma CR se traduz pela forma como reduz os


constrangimentos do seu utilizador e pela adequação ás varias situações do dia
a dia (Rodrigues, 1996). Verifica-se no entanto que é muito difícil generalizar
boas características de uma cadeira de rodas para um grande numero de
utilizadores, mesmo tendo o cuidado de seleccionar utilizadores que
respondam aos mesmos critérios.
Na resistência ao rolamento um dos critérios que mais dinheiro
envolve na sua implementação será o pouco peso da cadeira de rodas. No
entanto, duplicando o peso da cadeira de rodas e mantendo o peso do
utilizador, o aumento da resistência ao rolamento não ultrapassa os 8%
(Rodrigues e Silva, 1998). Ao questionarmos utilizadores activos uma
percentagem de 100% refere como factor importante o peso, classificando-o
com ≥4 numa escala de 1 a 5. Estes utilizadores necessitam no seu dia a dia de
utilizarem o carro como veículo de deslocação e o peso da cadeira não será
apenas importante na facilidade das "braçadas" mas também para poderem
fazer a transição do carro/cadeira. Outros factores de fabrico e de
dimensionamento da estrutura tais como a distribuição de peso entre as rodas
de tracção e os rodízios ou o desalinhamento das rodas, embora sejam dos
que mais contribuem para a diminuição da resistência ao rolamento não são
factores que irão aumentar por si só o preço da cadeira de rodas, tendo mais a
ver com o correcto dimensionamento estrutural. Em alguns modelos,
especialmente nas ultraleves verifica-se a não existência de alguns sistemas de
ajustes como existem nas de preço mais acessível devido também às
características técnicas da cadeira.

237
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

O controlo e a manobrabilidade aumentam quando o peso do


conjunto cadeira de rodas /utilizador se situa maioritariamente sobre as rodas
de tracção, tornando no entanto a cadeira de rodas mais instável (Trudel,
1995), (Bruno, 1998). Podemos afirmar assim que o controlo e a
manobrabilidade são inversamente proporcionais à estabilidade. Este é mais
um critério de selecção que não é quantificável porque depende da forma
física do utilizador e da sua facilidade para superar obstáculos com a cadeira
de rodas. Maior agilidade e capacidade física permitirá utilizar uma cadeira
mais instável com a mesma segurança, usufruindo de uma maior
manobrabilidade associada. A segurança é um dos factores importantes na
escolha da cadeira de rodas (Bertocci, 1997). Factores que a caracterizam são a
resistência estática ao impacto, a inflamabilidade dos materiais de construção
e a eficácia dos travões.
A selecção dos componentes da cadeira de rodas vai influenciar
directamente o seu desempenho (Thacker, 1994), (Silva e Silva, 1996).
Podemos considerar três grupos principais: a estrutura, as rodas motrizes e os
rodízios. Se considerarmos a estrutura temos essencialmente cadeiras de
fecho vertical ou horizontal e de estrutura rígida. Como regra podemos afirmar
que a cadeira de rodas articulada é mais pesada (Rodrigues, 1996), sendo
também menos rígida o que vai aumentar o esforço necessário á sua
propulsão.
Este texto está direccionado para as cadeira de rodas manuais,
prescritas para quadros clínicos com lesões de nível neurológico até C7. As
normas ANSI/RESNA ou ISO podem ajudar na escolha de uma cadeira de rodas.

238
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Os catálogos comerciais fornecem várias medidas dos seus produtos, desde a


largura do assento, profundidade, ângulo do encosto entre outras. Esta
informação é essencial para a correcta escolha do produto do ponto de vista
ergonómico. A correcta utilização da cadeira de rodas depende da observação
destes factores quando da compra da cadeira de rodas. Muitas são ajustáveis
com medidas máximas e mínimas definidas o que possibilita uma evolução do
utilizador com a cadeira ao longo dos anos sem ser necessário investir
novamente na compra de outra. Algumas medidas a ter em conta são no
entanto a folga do assento entre as coxas e a lateral da cadeira, a inclinação do
encosto/assento e do assento em si, a altura dos apoios para os braços e para
os pés, o ângulo entre o braço e antebraço quando a mão agarra a parte mais
elevada dos aros propulsores, a altura do encosto e a distância entre o bordo
dianteiro do assento e a parte posterior dos joelhos. São tantas as variáveis
que se torna necessário conhecer as nossas medidas ergonómicas para
escolher correctamente. Por vezes um centímetro a mais ou a menos podem
fazer toda a diferença para uma utilização correcta (Britell, 1990). O tipo de
utilização que queremos dar à cadeira também tem evidentemente um peso
importante na escolha da cadeira de rodas como já foi dito. Existem
numerosas patologias associadas ao seu uso cujos efeitos podem ser
“amplificados” caso não se verifique uma escolha adequada da cadeira de
rodas (Rodgers, 1994), (Taylor, 1995). Exemplos são nos ombros os quadros de
conflito e de lesão músculo-tendinosa. Outras patologias verificam-se nos
cotovelos, punhos e mãos, neuropatias canalares, lesões tendinosas e o
desenvolvimento de úlceras de pressão.

239
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Resumindo, temos alguns critérios de selecção que passam por


questões técnicas, de desempenho e ergonómicas amplamente descritas e
estudadas na literatura.
São ainda factores importantes a considerar o carácter costumizável
da cadeira de rodas, a sua estética ou o seu design emocional. Questões
ergonómicas como a psico-sociologia, psicofisiologia, antropometria e
biomecânica entre outras devem ser tidas em consideração quando se
projecta uma cadeira de rodas e abordadas de uma forma integradora e
sustentável com o único propósito de poder proporcionar uma melhor
qualidade de vida a quem faz uso destes suportes físicos, quer seja pela
intervenção nos próprios sistemas mecânicos quer seja por um olhar diferente
de e para a pessoa que utiliza uma cadeira de rodas. Do ponto de vista
puramente comercial também interessa às empresas investirem em todas
estas áreas de investigação de uma forma equitativa, tanto as grandes como as
pequenas empresas. Como diria Thomas J. Watson, “Good Design is Good
Business”. É preciso ainda não ficarmos apenas por intervenções mecânicas ou
antropométricas mas pensarmos também na questão emocional para que o
progresso não pare. Olhando para as fases de maiores desenvolvimentos da
cadeira de rodas e as condições em que surgiram, então a frase de G.K.
Chesterton "A man who has faith must be prepared not only to be a martyr,
but to be a fool" ganha significado.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

240
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Porque o projecto está em fase de desenvolvimento, é um “work in


progress”, não existem ainda resultados finais. Neste momento encontra-se
em prototipagem uma cadeira de rodas que é o resultado de uma Investigação
Activa, que posteriormente será validada, a fim de podermos obter resultados
que nos conduzam às conclusões do nosso trabalho.

Agradecimentos

O presente estudo está a ser desenvolvido com o apoio do CIAUD -


Centro de Investigação em Arquitectura Urbanismo e Design da FAUTL.

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242
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Parâmetros de usabilidade para análise e


desenvolvimento de identidade visual –
um estudo ergonômico
80
João Carlos R. Plácido da Silva
81
Luis Carlos Paschoarelli
82
José Carlos Plácido da Silva

1 INTRODUÇÃO

Diariamente os seres humanos têm sido submetidos a uma grande


quantidade de informações disponíveis nos mais variados meios como noticias,
propagandas transmitidas por sons, vídeos, impressos, (multimídia) internet
entre outros. Este exagero da informação pode ter influencia negativa sobre as
empresas que as veiculam. Normalmente, um cliente em potencial se intimida
com o excesso de propaganda que recebe e tende a associar a sensação a um
incomodo com o produto de consumo. Este sentimento causa o efeito
exatamente oposto ao que o anunciante deseja.
Uma pesquisa realizada pela Yankelovich Partners, em 2004,
demonstra que o desconforto descrito é evidente os resultados obtidos foram,
que 54% evitam comprar produtos que sufocam o cliente com publicidade, 60
% admitem que sua opinião sobre a propaganda piorou, 61% acham exagerado
o volume de publicidade ao qual estão expostos, 65% dizem que são
frequentemente bombardeados com publicidade e 69% querem produtos e

80
Mestrando em Design, PPGD - Unesp
81
Livre Docente, Unesp
82
Titular, Unesp

243
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

serviços que bloqueiem as ações de marketing. Este estudo evidencia que o


excesso de informações aos quais estamos expostos, e que não podemos
rejeitar, representa uma condição negativa (SATO e HASHIMOTO, 2004).
A sobrecarga de informação não esta só no mundo físico, mas
também no mundo virtual, que tem testemunhado uma explosão publicitária
sem precedentes, motivados principalmente pelo baixo custo de um anuncio.
O surgimento de serviços de hospedagem que disponibilizam espaços para
serem criados sites exige a apresentação de anúncios previamente
selecionados. Este excesso está fazendo com que o internauta não acesse mais
alguns tipos de site, porque o uso exagerado da informação atrapalha a
navegação. Outro agravante deste problema é os denominados spams, que
são mensagens de publicidade ou outro tipo de informação não solicitada pelo
usuário.
Uma forma de chamar atenção do consumidor é por meio da
comunicação visual, como cartazes, anúncios, propagandas, banners, totens,
placas, entre outros. O excesso destes elementos dispostos em ambientes
promove um desconforto espacial e visual daqueles que transitam por estes
locais. Este excesso de informação desarmoniza as cidades, desvalorizando-as
e caracterizando a poluição visual.
Alguns especialistas afirmam que os prejuízos da sobrecarga de
informação não se restringem apenas aos materiais, mas podem também
afetar a saúde mental de maneira do usuário sobrecarregando-o de
informações desnecessárias. Afirmam ainda que o maior problema não seja a
existência da informação, mas o seu descontrole.

244
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Inserindo-se nesse caos visual que os usuários estão submetidos, o


design informacional deve começar a se preocupar com o excesso de
informação e aonde utilizar os meios publicitários para que estes não
contribuam para agravar o problema.
A solução deste cabe aos designers gráficos uma vez que eles possuem
o conhecimento necessário para analisar e organizar as informações de
maneira adequada de tal forma que não interfira no cotidiano dos usuários,
um destes itens é a identidade visual.
O mundo se comunica com símbolos desde a origem da cultura
humana e, atualmente, tais símbolos são utilizados para identificar uma
empresa ou um produto, o que caracteriza uma identidade visual, ou conjunto
de elementos formais que representa visualmente de forma sistematizada, um
nome, idéia, produto, empresa, instituição ou serviço.
Esse conjunto de elementos costuma ter como base o logotipo, um
símbolo visual e o conjunto de cores. É sempre um desafio para o designer
gráfico a criação e desenvolvimento de uma identidade visual para uma
determinada empresa, uma vez que o logotipo tem que transmitir as idéias,
intenções e mercado em que a empresa atua, sendo de fácil compreensão
para todas as pessoas, não importando o repertório de conhecimento que
essas possuem. Entretanto, apesar dessa importância, ainda são poucos os
estudos científicos assim como os parâmetros para a análise e
desenvolvimento de identidade visual, o que torna seu processo de criação
pouco sistematizado e profissional.

245
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Essa falta de parâmetros resulta em projetos de identidade visual


incompreensíveis, e, com a quantidade de empresas que crescem cada vez
mais e buscam um espaço no mercado, os equívocos no uso de cores e formas
resultam em sobrecarga informacional, entre outros. Além disso, quando os
estudos para o desenvolvimento da marca não são bem realizados, esse
elemento visual pode acabar por não sintetizar a área de atuação da empresa,
o que confunde a percepção e recepção do consumidor.
A definição de parâmetros por meio da usabilidade visual e os
conceitos de gestalt e design podem auxiliar na diminuição de erros na criação
e na aplicação de identidades visuais para empresas e produtos. Este estudo
busca uma definição dos assuntos relacionados à identidade visual e aos
métodos de possível avaliação e definição de parâmetros para a criação de
identidades visuais

2 Identidade Visual
A Identidade visual é o conjunto de elementos formais que representa
visualmente, e de forma sistematizada, um nome, idéia, produto, empresa,
instituição ou serviço. Várias embalagens de um mesmo produto, se for
programado visualmente no intuito de apresentar uma única forma, este
produto tem uma identidade visual, na mesma forma que quando uma
empresa apresenta a mesma imagem em vários tipos de itens como uniformes
veículos e impressos, neste caso pode-se denominar também de identidade
empresarial ou corporativa (STRUNCK, 1989).
De acordo com Daniel Raposo, se a marca gráfica não for usada de

246
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

forma coerente e consistente ou se os elementos restantes da identidade não


forem uma unidade, acaba-se por perder a lógica do discurso gráfico que
permite o reconhecimento dela. A marca gráfica não pode ser considerada
publicidade ou banda desenhada, portanto não tem a pretensão de transmitir
todos os valores corporativos. Para demonstrar a qualidade do produto ou o
serviço que a empresa presta, é papel da publicidade que deve explicar o
posicionamento da marca e de lhe atribuir significados ou valores.
Na elaboração de uma Identidade Visual, deve-se considerar quatro
principais elementos gráficos: logotipo, símbolo, cor e alfabeto. O Logotipo é a
particularização da escrita de um nome através de uma tipologia inédita ou
não.
O Símbolo é um elemento gráfico que, com o uso, passa a identificar
um nome, idéia, produto ou serviço. Gilberto Strunck, 1999, classifica os
símbolos em dois grandes grupos: os abstratos e os figurativos. Símbolos
Abstratos: Nada representam à primeira vista e seus significados devem ser
apreendidos. Figurativos: Podem ser de três naturezas, os baseados em ícones,
ou seja, aqueles que são fiéis ao que pretendem representar, os fonogramas
são formados apenas por letras e não são logotipos, e os ideogramas aqueles
desenhos que representam idéias ou conceitos. Nem todas as marcas
necessitam de um símbolo, uma vez que sua idéia pode ser representada
totalmente no próprio logotipo.
A Cor na identidade visual, com o uso, passa a ter mais importância do
que o logotipo e o símbolo. Ela tem atributos que podem remeter aos aspectos
da emoção e poder de fixação. Um exemplo é a cor do logotipo da Coca-Cola

247
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

que é vermelha. O Alfabeto, que podemos definir neste caso, como Alfabeto
Institucional, é aquele empregado para escrever todas as informações
complementares numa Identidade Visual. A escolha da família de letras
utilizadas para fazer os impressos da empresa em questão tem que ser
totalmente condizentes com o logotipo estipulado para essa empresa, sendo
utilizados em impressos administrativos, folhetos, cartazes entre outros.

3. Design
A palavra do idioma inglês “design”, é de origem latina “designo”, no
sentido de designar, indicar, representar, marcar, ordenar, dispor, ou seja,
projeto. (NIEMEYER, 2007). Utiliza-se esta denominação a qualquer processo
técnico e criativo relacionado à configuração, concepção ou elaboração de um
objeto. O que se exige para poder considerar que um objeto pertença ao
design é: sua fabricação em série, sua produção mecânica e a presença no
objeto de um quociente estético, devido ao fato de ter sido inicialmente
projetado e não a uma sucessiva intervenção manual. (DORFLES, 1990)
Então para se obter um produto com design, sendo ele em
bidimensional ou em tridimensional, é necessário um projeto baseado em
metodologias para se chegar a um resultado que atinja seus objetivos, sejam
eles quais forem. Existem vários exemplos do que se pode projetar, objetos
como utensílios domésticos, máquinas, veículos, e também imagens, como em
peças gráficas, famílias de letras, livros e interfaces digitais de softwares ou de
páginas da internet, entre outros.

248
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Hoje em dia se detectam diversas vertentes do significado desta


profissão. Muitos não compreendem esta profissão, consideram o design
qualquer tipo de desenho ou representação gráfica, isto no caso do design
gráfico. Nos tempos atuais qualquer pessoa pode fazer um desenho, um
logotipo ou um panfleto, pelas facilidades que o computador trouxe, mas não
pode se considerar necessariamente qualquer um destes serviços como
design.
O design é totalmente especifico, não é uma ilustração na capa de um
livro, mas sim o projeto do livro como um todo, tipografia, papel e formato.
Design é projeto, não ilustração. A estética faz parte deste todo, mas não se
pode trabalhar só com ela, pois ela é só um elemento da função do design.
(WOLLNER, 2005).
3.1. Design Informacional
De acordo com a SBDI (Sociedade Brasileira de Design da Informação),
o design da informação é uma área do design gráfico que objetiva equacionar
os aspectos sintáticos, semânticos e pragmáticos que envolvem os sistemas de
informação através da contextualização, planejamento, produção e interface
gráfica da informação junto ao seu publico alvo. Seu principio básico é de
aperfeiçoar o processo de aquisição da informação efetivado nos sistemas de
comunicação analógico e digital.

4. Planejamento Visual
Existem quatro princípios básicos do planejamento visual que,
segundo Williams (1995), são: o contraste, que de maneira geral evita

249
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

elementos meramente similares; a repetição, que evita a repetição de


elementos visuais do design e os espalhe melhor; o alinhamento, que fixa que
nada deve ser colocado arbitrariamente elementos gráficos; e a proximidade,
que trata de itens relacionados entre si devem ser agrupados para se tornar
unidade da arte.
5. Gestalt

De acordo com os princípios da Gestalt, existem quatro principais para


a percepção de objetos e formas: a tendência à estruturação, a segregação
figura-fundo, a pregnância ou boa forma e a constância perceptiva (GOMES
FILHO, 2000). Outros conceitos dessa teoria são a supersoma e
transponibilidade. Os cinco fundamentos básicos da Gestalt - muito usado
atualmente em profissões como design, arquitetura, entre outros - são:
Figura/Fundo Simetrica, Proximidade, Similaridade, Continuidade, Pregnância
e Fechamento (IIDA. 2005).

6. Usabilidade
A usabilidade, como conceito se trata da adequação entre o produto e
a tarefa, ao qual o desempenho se destina a adequação deste com o usuário e
o contexto ao qual será utilizado. A preocupação com a usabilidade
normalmente tem ocorrido no final do ciclo de design, durante a avaliação do
produto já finalizado, o que acaba resultando em poucas modificações, devido
ao custo elevado, portanto desde o inicio da atividade projetual a usabilidade
deve estar presente no desenvolvimento (Moraes, 2001).

250
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Este campo de estudo esta relacionado aos estudos de Ergonomia e


de Interação Humano-computador. Estando diretamente ligado ao diálogo na
interface e a capacidade do software ou imagem em permitir que o usuário
alcance suas metas de interação com o sistema. Ser de fácil aprendizagem,
permitir uma utilização eficiente e apresentar poucos erros, é os aspectos
fundamentais para permitir a boa usabilidade por parte do usuário. Mas a
usabilidade pode ainda estar relacionada com a facilidade de ser memorizada
e ao nível de satisfação do usuário.
O teste de usabilidade é uma técnica formal que pode envolver
usuários representando a população alvo para aquele determinado sistema.
Estes usuários são designados para desenvolver tarefas típicas e críticas
havendo com isso uma coleta de dados para serem posteriormente analisados.
Contudo o teste de usabilidade caracteriza-se por utilizar diferentes técnicas
voltadas em sua maioria para a avaliação da ergonomia dos sistemas
interativos. Como avaliação Heurística, critérios Ergonômicos, inspeção
Baseada em Padrões, Guias de Estilos ou Guias de Recomendações, inspeção
por Checklists, percurso (ou Inspeção) Cognitivo, teste Empírico com Usuários
e entrevistas e Questionários (CYBIS, et al. 2007).

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O excesso de informação pode ser amenizado com o trabalho do design


informacional, organizando a imagem das empresas e materiais publicitários e
proporcionando harmonia visual. Um logotipo bem definido, além de ajudar a
fixar a marca, permite a diferenciação entre os concorrentes e a identificação

251
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

dos serviços oferecidos pela empresa. Utilizar mão de obra não especializada
compromete a visibilidade e compreensão das informações desejadas, além de
contribuir para o mal estar visual do consumidor, tornando-se mais prejudicial
que vantajoso.
A visualização e identificação da empresa pode ser otimizada pela
organização mais eficiente dos elementos visuais de sua fachada. Analisar os
fatores que envolvem a empresa permite que as informações sejam dispostas
de forma clara e concisa, melhorando sua imagem, transmitindo o conceito de
organização e credibilidade a empresa.
Vários elementos são utilizados para avaliação e criação de uma
identidade visual, ele envolve as metodologias, a gestalt, o planejamento visual
e a usabilidade, estas áreas permitiram uma elevação da funcionalidade do
projeto desta área, se notando assim a necessidade e a utilidade de estudá-las
para a definição posterior de parâmetros para a criação e a analise de
identidades visuais

Agradecimentos
O presente estudo foi desenvolvido com o apoio da Instituição,
CAPES.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CYBIS, W.A, BETIOL, A.H. & FAUST, R, Ergonomia e Usabilidade –
Conhecimentos, Métodos e Aplicações . São Paulo: Novatec Editora,
2007.

252
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

DORFLES G., Introdução ao Desenho Industrial. São Paulo: Editora Edições


1990.
GOMES FILHO, J. Gestalt do Objeto: Sistema de Leitura
Visual da Forma. São Paulo: Escrituras Editora, 2000.
IIDA, I, Ergonomia Projeto e Produção, São Paulo: Editora EDGARD BLUCHER
LTDA, 2005.
NIEMEYER L., Design no Brasil: Origens e Instalação, Rio de Janeiro: Editora
2B, 2007.
STRUNCK G., Como Criar Identidades Visuais Para Marcas de Sucesso, Rio de
Janeiro: RIO BOOKS, 2001.
WILLIAMS, R., Design para quem não é designer - noções básicas de
planejamento visual, São Paulo: Callis,1995.

253
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Preensões digitais: a percepção do


indivíduo sobre o esforço realizado
83
Bruno Montanari Razza
84
Luis Carlos Paschoarelli

1 INTRODUÇÃO

A manipulação de objetos é comum na maior parte das atividades


da vida diária, na qual as mãos, por meio da ação conjunta do movimento de
preensão com aplicação de força muscular, executam a ação mecânica. Apesar
da crescente automação no ambiente industrial, muitas tarefas ainda exigem
grandes esforços manuais, como por exemplo: tarefas de manutenção,
transporte manual de carga, transporte de pacientes em hospitais, dentre
outras (IMRHAN, 1991; KIM; KIM, 2000).
O dimensionamento incorreto da demanda de força de um
produto/atividade pode gerar limitações nas tarefas, tanto para os usuários
mais fortes (de mãos menos sensíveis), podendo provocar acionamentos
acidentais, quanto para os mais fracos, que trabalharão com sobrecarga de
seus sistemas ósteo-musculares, sob risco de lesão, ou simplesmente de não
conseguirem realizar a atividade (PHEASANT, 1996; MITAL; KUMAR, 1998a,
1998b). Tarefas e produtos que exigem aplicações inadequadas de força
manual são considerados fatores de risco ao desenvolvimento de doenças
ocupacionais (KATTEL et al., 1996) e são responsáveis, nos Estados Unidos, por
45% do total de lesões na indústria, apresentando um custo anual de mais de
150 bilhões de dólares (AGHAZADEH; MITAL, 1987).

83
Doutorando em Design, Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”
84
Doutor em Design, Universidade Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”

254
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Essas exigências inadequadas de força têm levado a um aumento


nos diagnósticos de doenças ocupacionais relacionadas aos membros
superiores (KATTEL et al., 1996; AGHAZADEH; MITAL, 1987). Também são
comuns os problemas de dimensionamento de força em produtos de
consumo, como embalagens fechadas a vácuo ou que possuem lacres de
segurança para crianças (VOORBIJ; STEENBEKKERS, 2002), frascos difíceis de
abrir (CRAWFORD et al., 2002), dentre outros.
As preensões digitais, particularmente, têm sido associadas a altos
índices de doenças ocupacionais (ARMSTRONG; CHAFFIN, 1979; CHAO et al.,
1976; EKSIOGLU et al., 1996), sendo considerado um fator de risco em
avaliações ergonômicas (KEYSERLING et al., 1993). Por esses motivos, vários
estudos investigaram as forças de preensão digital, tendo já sido estabelecido
que a preensão digital é significativamente influenciada por características do
indivíduo, como gênero, idade, antropometria e lateralidade, características da
atividade, como o tipo de preensão digital utilizada, a postura corporal e dos
membros superiores, dentre outros (RAZZA et al., 2010).
Em avaliações ergonômicas, a percepção do indivíduo sobre as
variáveis da interface que atuam sobre ele e sua atividade pode gerar dados
bastante relevantes e que complementem ou auxiliem na interpretação dos
resultados de avaliações físicas. A norma ISO 6385 (1981) que trata de
princípios ergonômicos para o projeto recomenda que juntamente com
avaliações objetivas (mensuráveis) sejam realizadas avaliações subjetivas, pois
são complementares. No entanto, não foram encontrados registros, na
literatura, de avaliações subjetivas de percepção de esforço ou desconforto
nas avaliações de forças manuais. Uma exceção é o estudo de Swain et al.
(1970), avaliando a aplicação de torque em pequenos conectores. Todavia,
neste estudo a avaliação subjetiva foi utilizada para estimar a magnitude de
força a ser realizada nos conectores e não para avaliar as condições da
interface.

255
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

O objetivo deste trabalho foi de identificar a influência de diferentes


alturas de pega em três tipos de preensão digital por meio da percepção
subjetiva do esforço realizado pelo indivíduo.

2 REVISÃO TEÓRICA

Além dos fatores biomecânicos, os aspectos de percepção dos


sujeitos quanto ao desconforto e esforço da atividade também merecem
análise. As avaliações subjetivas, segundo Iida (2005) dependem do
julgamento pessoal dos indivíduos, e levam a medidas de percepção, opinião
ou sensação. O uso de métodos para avaliar subjetivamente as tarefas e
determinar cargas aceitáveis de trabalho tornou-se um procedimento comum
em abordagens ergonômicas, associando as variáveis físicas à percepção
subjetiva dos indivíduos considerados (BORG, 1998). Segundo Tullis e Albert
(2008), o meio mais eficiente de registrar a percepção dos sujeitos em
avaliações ergonômicas é com algum tipo de escala de avaliação em
detrimento de questões abertas, que são mais difíceis de analisar.
Uma escala bastante comum é a escala de Likert (1932), que é
composta de uma afirmação (positiva ou negativa) e uma escala de 5 ou 7
níveis de concordância, variando de “concordo plenamente” a “discordo
plenamente”, por exemplo. Por utilizar um número ímpar de opções, permite
uma resposta neutra.
Outro método é a escala semântica diferencial (OSGOOD et al.,
1957), que consiste em apresentar dois termos opostos um em cada lado de
uma escala de 5 ou 7 pontos, onde o indivíduo escolhe qual se aproxima mais
de seu julgamento. É importante que os termos sejam realmente antônimos,
como fraco e forte, quente e frio, etc., de forma a não haver erros de
interpretação.
Uma escala também utilizada para mensurar esforço realizado, dor,
desconforto, etc. é a CR10 de Borg (1998). Constitui-se de uma escala disposta

256
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

em um intervalo número de 0 a 10, onde o valor 10 é a âncora que representa


a pior dor/esforço já experimentado pelo indivíduo e 0 a ausência de qualquer
dor/esforço. O sujeito deverá escolher entre as categorias: 0 – absolutamente
nada; 0,5 – extremamente fraco; 1 – muito fraco; 2 – fraco; 3 – moderado; 5 –
forte; 7 – muito forte; 10 – extremamente forte; em seguida deverá assinalar
um número que corresponda ao intervalo representado, podendo-se utilizar
valores decimais.
Uma das escalas mais empregadas é a escala visual analógica (Visual
Analogue Scale – VAS), que se constitui de uma linha (horizontal ou vertical),
freqüentemente de 10 cm de comprimento e com critérios nas extremidades
representando um máximo e um mínimo (por exemplo: máximo conforto –
máximo desconforto) (BACCI, 2004). Collins et al. (1997) recomenda o uso
deste tipo de escala, em detrimento das escalas de categoria, afirmando serem
mais precisas. Huskisson (1983 apud BJÖRKSTÉN et al., 1999) também
recomenda o uso deste método, afirmando que as escalas VAS apresentam
alta correlação, são simples, sensíveis, facilmente reproduzíveis e universais.
Um dos fatores cruciais para esse método ter validade e
consistência nos resultados é a escolha correta dos termos que serão usados
como referência nas escalas. Considerando o enfoque do design ergonômico,
ao menos dois critérios de percepção devem ser respeitados, podendo um
deles envolver um conceito negativo – por exemplo, desconforto – e outro, um
conceito positivo – por exemplo, conforto.
De acordo com Ferreira (1999), desconforto é definido como falta
de conforto, ou o oposto de conforto. Para IIDA (2005), a definição de conforto
é bastante variável, dependendo da área de estudo em que é formulada. Em
abordagens ergonômicas, o termo conforto é mais empregado em pesquisas
de conforto ambiental ou avaliações de opinião e o desconforto tem sido mais
associado com questões biomecânicas e fisiológicas. Isso ocorre porque o
conforto é difícil de ser mensurado ou até mesmo percebido, além de sofrer
mais a influência de características da personalidade e nível de exigência

257
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

pessoal, enquanto o desconforto pode ser associado com outros sintomas,


como dor, formigamento, irritabilidade, dormência, rigidez, etc. Desta forma,
seguindo-se essa linha de raciocínio, entende-se que os resultados serão
diferentes se for avaliado o conforto ou a ausência de desconforto.

3 MATERIAIS E MÉTODOS

Os procedimentos desta pesquisa foram aprovados pelo Comitê de


Ética em Pesquisa da Faculdade de Medicina de Botucatu (Universidade
Estadual Paulista “Julio de Mesquita Filho”) e foram atendidas as
recomendações do Conselho Nacional de Saúde (Resolução 196-1996) e da
Associação Brasileira de Ergonomia (ERG BR 1002) para pesquisas que
envolvem seres humanos.

3.1 Sujeitos da pesquisa


Participaram do experimento 60 indivíduos, sendo 30 do gênero
masculino e 30 do gênero feminino, todos adultos e destros. A idade média do
gênero feminino foi de 21,6 anos (D.P. 3,05), em um intervalo de 18 a 30 anos;
para o gênero masculino, a idade média foi de 21,83 anos (D.P. 2,46), em um
intervalo de 18 a 28 anos. Nenhum dos sujeitos apresentou qualquer sintoma
de doença músculo-esquelética nos membros superiores ou qualquer histórico
de lesão nas mãos e punhos no último ano (informação declarada). O
consentimento escrito dos sujeitos em participar do estudo como voluntário
não remunerado foi obtido e todos os procedimentos foram amplamente
explicados aos sujeitos. Para garantir que a amostra fosse destra foi
empregado o Edinburg Inventory (OLDFIELD, 1971) que avalia por meio de
questões subjetivas o grau de lateralização do indivíduo.

3.2 Materiais

258
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Neste estudo foram empregadas três pegas representando objetos


de três alturas diferentes, sendo uma correspondendo uma altura de 40 mm
(40 x 40 x 40 mm), outra de 20 mm (20 x 40 x 40 mm) e outra apresentando
uma extensão em tecido de aproximadamente 1 mm de espessura (01 x 40 x
40 mm) (Figura 1). As pegas foram confeccionadas em aço ABNT 1020 e
revestidas de tecido para padronização da superfície de contato.

Figura 1. Pegas utilizadas para a medição da tração associada à preensão digital.

Também foram empregados protocolos impressos para a coleta de


dados pessoais dos sujeitos, o consentimento em participar do estudo, o nível
de lateralidade e o protocolo de registro da percepção do esforço.

3.3 Procedimentos
O estudo consistiu na realização da força máxima de tração das
pegas sendo seguradas em preensões digitais. Os sujeitos foram instruídos a
exercerem sua força máxima puxando a pega em direção ao seu corpo,
mantendo essa contração por um período de 5 segundos. A pega não se
movia, portanto a contração era mantida de forma estática. A ordem de

259
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

mensuração era aleatória e foi fornecido um intervalo para recuperação da


fadiga entre as medições. As preensões digitais avaliadas neste estudo foram
as seguintes:
 Preensão bidigital: caracterizada pela oposição do polegar à face
pulpar do dedo indicador, sendo a preensão caracterizada nas
falanges distais de ambos os dedos (Figura 2, à esquerda);
 Preensão tridigital: caracterizada pela oposição do polegar à face
pulpar dos dedos indicador e médio, sendo a preensão caracterizada
nas falanges distais dos três dedos (Figura 2, ao centro);
 Preensão digital pulpo-lateral: caracterizada pela oposição da face
pulpar da falange distal do polegar à face lateral do dedo indicador
(Figura 2, à direita).

Figura 2. Preensões digitais analisadas.

Foram apresentadas aos sujeitos as três pegas e solicitado para


fazer as preensões de maneira aleatória. Logo após as experimentações, foi
solicitado que estimassem a percepção do esforço realizado para cada
variável. Os voluntários assinalaram uma escala visual analógica
correspondente a cada pega e a cada preensão avaliada no estudo. Esta
indicação foi posteriormente mensurada e gerou um valor numérico em
milímetros, de forma que quanto maior o número, maior foi a sensação de
esforço executado.

260
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Para a avaliação, foi pedido ao indivíduo para permanecer na


postura em pé, de frente à pega, o cotovelo do membro superior que realizou
o esforço sendo flexionado em 90º, o antebraço na posição neutra alinhado
horizontalmente e o punho posicionado livremente de acordo com a
preferência do sujeito. A pega foi posicionada na altura do cotovelo do
indivíduo. Esse posicionamento segue os procedimentos recomendados pela
literatura (PEEBLES; NORRIS, 2003; DAAMS, 1993). Foi pedido aos sujeitos para
manterem os dedos não atuantes na preensão flexionados junto à palma da
mão, pois essa medida foi indicada pela literatura por apresentar uma grande
influência na força realizada (HOOK; STANLEY, 1986). Na medição da tração
com as preensões bidigital e tridigital, o punho permaneceu em extensão e
ligeiro desvio ulnar, sendo esta condição considerada natural e esperada
(MATHIOWETZ et al., 1984).
Para a verificação da presença de diferenças significativas ente essas
variáveis perceptivas, foi aplicado o teste não-paramétrico de Willcoxon, com
um grau de confiança de 5% (p ≤ 0,05).

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os resultados da avaliação subjetiva estão apresentados na Tabela


1. Os valores apresentados significam dimensões medidas na escala visual
analógica, onde 0 significa nenhum esforço e 100 significa o máximo esforço. A
Tabela 2 apresenta os resultados da comparação entre as variáveis por meio
do teste Willcoxon.
Os resultados desta análise apontaram para diferenças significativas
de percepção de esforço entre as diferentes preensões, mas não entre as
pegas. As duas exceções foram as comparações entre a pega grande (40 mm) e
a de tecido (1 mm) para o gênero feminino e a preensão bidigital com a
preensão tridigital para o gênero masculino.

261
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Tabela 1. Valores médios da avaliação subjetiva da percepção de esforço.


Gênero Gênero
Geral
Feminino Masculino
Média D.P. Média D.P. Média D.P.
Pega de 40 mm 59,7 23,4 63,2 22,8 56,1 23,8
Pega de 20 mm 53,2 22,6 54,8 24,4 51,5 20,8
Pega de 1 mm 47,4 29,3 46,2 28,3 48,5 30,7
Preensão Bidigital 72,4 20,9 78,3 17,3 66,4 22,7
Preensão Tridigital 56,5 16,2 54,0 16,7 58,9 15,5
Preensão Pulpo-lateral 34,5 25,2 31,4 22,5 37,5 27,7

Tabela 2. Resultado do teste Willcoxon.


Gênero Gênero
Comparações
Feminino Masculino
Pegas 40 mm x 20 mm 0,150 0,428
40 mm x 1 mm 0,025 0,267
20 mm x 1 mm 0,241 0,579
Preensões Bidigital x tridigital 0,000 0,131
Bidigital x pulpo-lateral 0,000 0,001
Tridigital x pulpo-lateral 0,000 0,001

Pela observação dos dados, pode-se notar que os indivíduos de


ambos os gêneros consideraram que foi necessária a realização de um maior
esforço com a pega de 40 mm comparada com a pega de 1 mm, apenas para o
gênero feminino; a pega de 20 mm não se diferenciou significativamente das
demais para ambos os gêneros.
Para a variável abertura da preensão, as diferenças não foram
significativas, exceto entre as aberturas 40 mm e 1 mm para o gênero
feminino. Além disso, como a variável abertura da preensão se mostrou
dependente do tipo de preensão empregada, os sujeitos podem ter sentido

262
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

dificuldade de discernir qual abertura teria sido mais confortável de uma


maneira geral.
Ainda a respeito das pegas, pode-se supor também que a pega em
tecido, por permitir uma deformação que se adaptava ao contorno da mão,
possibilitava maior distribuição de tensão na superfície da mão, o que pode
levar a uma menor percepção de desconforto.
Quanto às preensões, essas diferenças foram mais marcantes. Os
sujeitos consideraram que é realizado um maior esforço com a preensão
bidigital, seguida da tridigital e, por último, da pulpo-lateral. Isto indica que os
voluntários consideraram a preensão bidigital como a mais cansativa ou
desconfortável de todas.
Isso pode ser devido ao fato de que a preensão bidigital é a que
apresenta menor magnitude de força das preensões realizadas, levando a um
maior esforço muscular para tracionar as pegas (RAZZA, 2007). Além disso, as
preensões digitais provocam grandes tensões nos tendões do músculo flexor
digital profundo (CHAO et al., 1976; EKSIOGLU et al., 1996), podendo ter
contribuido para essa percepção, já que como há menos dedos atuantes na
preensão, a tensão ficaria concentrada em menos tendões.
A dimensão da superfície de contato também pode ter influênciado
nesta percepção. Apesar de não ter sido mensurado no estudo, a preensão
pulpo-lateral é a que apresenta uma maior superfície de contato com a pega,
propiciando uma preensão mais estável e com maior atrito.
Comparativamente, a preensão bidigital é a que apresenta a menor superfície
de contato, portanto levando a uma preensão menos estável.
Também foi feita uma análise com o teste Willcoxon para verificar
diferenças de percepção entre os gêneros masculino e feminino e os
resultados apontaram que a diferença de percepção entre os gêneros não foi
significativa, ou seja, pode-se considerar que os sujeitos dos gêneros
masculino e feminino tiveram a mesma percepção.

263
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Avaliações subjetivas são bastante ricas e podem gerar dados que


complementem ou até expliquem dados objetivos em avaliações ergonômicas.
Nesses estudos, é importante considerar as interações entre as variáveis,
permitindo que se discrimine de maneira mais clara onde há a presença de
maior esforço ou desconforto.
Futuros estudos que se proporem a avaliar a percepção subjetiva
dos sujeitos devem identificar com maior clareza a relação entre a percepção
subjetiva do esforço e a força real aplicada em avaliações biomecânicas, dando
especial atenção para a importância de ambas as avaliações para o design
ergonômico de produtos.

Agradecimentos
O presente estudo foi desenvolvido com o apoio da Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, Processo 05/58600-7.

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Estudos e Aplicações

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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

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267
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Simulação computacional para análise do


conforto térmico do pedestre
85
Camila Mayumi Nakata
86
Léa Cristina Lucas de Souza
87
João Roberto Gomes de Faria

1 INTRODUÇÃO

A ergonomia, área amplamente explorada pelo Design, centraliza suas


preocupações no ser humano. Ao mesmo tempo, as pesquisas sobre a
influência das configurações do espaço urbano no ambiente térmico vêm se
consolidando. No entanto, faz-se necessário maior enfoque nas preocupações
com o pedestre, seu conforto, sensações e comportamento. Dessa forma, o
planejamento do ambiente urbano e a ergonomia ambiental aprimoram-se no
desenvolvimento de ambientes cada vez mais agradáveis, seguros e
confortáveis.
O clima é uma das características dos espaços urbanos externos que
mais influencia no comportamento humano. As características climáticas das
cidades geram o ambiente térmico sob o qual o ser humano desenvolve suas
atividades, causando comportamentos específicos dos pedestres para as
diferentes regiões e países. Abordando o campo da ergonomia ambiental, esta
pesquisa tem por objetivo avaliar a influência do ambiente térmico urbano no
comportamento do pedestre. Para isso são realizadas medições
microclimáticas de um bairro residencial na cidade de Bauru. Paralelamente,
são realizadas simulações do ambiente térmico da mesma área, através da

85
Mestre em Design, UNESP
86
Doutor em Ciências da Engenharia Ambiental, UFSCAR
87
Doutor em Ciências da Engenharia Ambiental, UNESP

268
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

aplicação do software ENVI-met, além de posterior simulação do


comportamento do pedestre através do software BOTworld. O software ENVI-
met se configura em uma ferramenta de análise tri-dimensional de microclima
e o BOTworld em um sistema Multi-agent de simulação de sensações e
comportamentos de pedestres. A metodologia proposta permite avaliar o
comportamento e sensação térmica de pedestres virtuais. Como resultados, as
simulações permitiram identificar as diferentes características térmicas
geradas pelo desenho urbano da área de estudo e o conseqüente
comportamento do pedestre. O estudo aqui apresentado é parte integrante da
dissertação de Nakata (2010).

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Design, Ergonomia e Ambiente Térmico Urbano


Considerando-se as definições de design referentes ao projeto, à
configuração na relação objeto e usuário e às questões de natureza
ergonômica, pode-se considerar que o design preocupa-se em atender as
necessidades do homem no meio ambiente, focalizando o seu bem-estar e
satisfação.
A ergonomia, tendo uma visão ampla, abrange atividades de
planejamento e projeto e parte do conhecimento do homem para fazer o
projeto do trabalho, ajustando-o às suas capacidades e limitações. A
Associação Brasileira de Ergonomia define que Ergonomia é o estudo das
intervenções das pessoas com a tecnologia, a organização e o ambiente,
objetivando intervenções e projetos que visem melhorar a segurança, o
conforto, o bem-estar e a eficácia das atividades humanas (disponível em:
www.abergo.org.br).
Iida (2005) explica que a Ergonomia “procura reduzir a fadiga,
estresse, erros e acidentes, proporcionando segurança, satisfação e saúde aos
trabalhadores”. Sabe-se, no entanto, que a contribuição da ergonomia não se

269
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

restringe apenas às indústrias. Hoje, os estudos ergonômicos são muito


amplos e podem contribuir para melhorar as residências e a circulação de
pedestres em locais públicos.
Considerando a preocupação do design em atender as necessidades
do homem no meio ambiente, focalizando o seu bem-estar e satisfação, e que
a ergonomia pode contribuir para melhorar as condições de circulação de
pedestres, compreende-se a importância dos estudos sobre ambiente térmico
urbano para o planejamento da relação homem-ambiente e a necessidade do
aprimoramento e desenvolvimento de pesquisas em design e ergonomia.
O ambiente possui papel fundamental no processo perceptivo, o
qual origina o comportamento humano. E o ambiente térmico urbano
influencia nas sensações e comportamentos dos pedestres.
Segundo Frota e Schiffer (2003), o homem tem melhores condições
de vida e de saúde quando seu organismo pode funcionar sem ser submetido à
fadiga ou estresse, incluindo-se o térmico. A própria intervenção humana no
ato de construir as suas cidades, altera as condições climáticas.
Em estudos sobre o conforto térmico é comum a aplicação de
índices de conforto térmico, destacando-se o uso do índice PMV, o Predicted
Mean Vote (PMV) ou Voto Médio Estimado, que se configura como uma escala
de sensação térmica definida por Fanger (1972). O PMV consiste em um valor
numérico que traduz a sensibilidade humana ao frio e ao calor. A escala de
voto médio é simétrica, representando o valor ‘0’ (zero) como neutralidade
térmica ou conforto térmico, e variando de ‘1’ (um) a ‘3’ (três), sendo os
valores positivos correspondentes às sensações de calor e os negativos às
sensações de frio.
O comportamento do pedestre diante de um ambiente térmico
urbano tem sido alvo de estudos mais recentes em relação ao estudo da
sensação térmica. Muitos estudos têm demonstrado a importância do
sombreamento, promovido tanto pelas edificações quanto pela existência de
arbóreas, nesse assunto.

270
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Sorano (2009), verificando o comportamento térmico em um bairro


na cidade de Bauru (SP), estabeleceu relações entre tendências térmicas da
área e o conforto térmico do pedestre. Esse estudo demonstrou que quando o
pedestre desenvolve atividades no bairro em condições de altas temperaturas
do ar, ocorre o desconforto do pedestre. Além disso, foi apontada uma relação
entre a sensação do pedestre e a temperatura radiante das superfícies.
Nos últimos anos, várias pesquisas têm dado importância ao
conforto térmico em ambientes externos. Os estudos voltados à avaliação do
conforto térmico em espaços externos possibilitaram um aprimoramento do
design ergonômico ambiental.

2.2 Ferramentas computacionais


Nos estudos de planejamento urbano e conforto térmico é comum o
uso de ferramentas computacionais para armazenamento e simulações de
informações climáticas e ambientais.
O ENVI-met é um freeware (disponível em http://www.envi-
met.com/) desenvolvido por Michael Bruse na Alemanha e configura-se como
um modelo tri-dimensional de clima urbano, que simula as relações entre a
estrutura urbana e o ambiente.
Associado a esta ferramenta, o freeware denominado BOTworld
tem como função analisar o comportamento do pedestre. O BOTworld é um
dos sistemas de simulação que aplica a técnica Multi-agent e que prevê o
comportamento e o movimento dos pedestres em áreas urbanas sob a
influência de diferentes fatores ambientais (disposição urbana, fontes de
tráfego, qualidade do ar e microclima). Com o BOTworld é possível saber quais
as rotas os pedestres virtuais preferem, como se sentem em determinadas
posições e como as mudanças na estrutura urbana modificam o fluxo dos
pedestres e suas opiniões.

3 MATERIAIS E MÉTODOS

271
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

A área de estudo encontra-se na cidade de Bauru (SP), localizada no


centro-oeste do estado de São Paulo, distante 352 km a capital. Bauru (SP) tem
como coordenadas geográficas a latitude compreendida entre 21°30’S e 23°S e
longitude entre 48°W e 50°W, e sua altitude varia entre 490 a 615m. A área
selecionada para o estudo pode ser vista na figura 1.

Figura 1: Foto aérea da área selecionada para estudo


Fonte: Google Earth (acessado em: 10 abr. 2010)

A metodologia aplicada na área de estudo engloba etapas de:


levantamentos de dados climáticos, simulações com os software ENVI-met e
BOTworld e análise de resultados. O monitoramento de dados climáticos locais
por instrumentos serviu de base para comparações com dados de saída de
simulações com o ENVI-met, e os dados climáticos gerais do Instituto de
Pesquisas Meteorológicas – IPMet-UNESP-Bauru serviram como dados de
entrada do programa.
As simulações das condições climáticas foram realizadas através da
aplicação do software ENVI-met, enquanto a posterior simulação do
comportamento do pedestre foi feita através do software BOTworld.

272
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Primeiramente foi realizado um ajuste do software ENVI-met


simulando-se para os dias considerados estáveis. Desse ajuste foram realizadas
as simulações cujos arquivos de saída de condições climáticas foram
aproveitados em simulações com o BOTworld.

4 RESULTADOS E DISCUSSÕES

Como resultados são apresentados aqui neste artigo somente os


gráficos resultantes de simulações com o BOTworld. Apesar de o programa
possibilitar dados de saída em vários formatos, foi escolhido o modo de
visualização do índice PMV para a área toda e o de comparação de valores de
temperaturas entre dois ‘bots’ (pedestres virtuais simulados no BOTworld) que
tomaram diferentes decisões ao caminhar em um mesmo trajeto definido. Na
figura 2 é possível visualizar o PMV estimado para a área toda, para dias
estáveis de inverno e verão.

Inverno Verão Legenda

Figura 2: PMV estimado para as 10 horas para um dia estável de inverno e verão.

Para a situação de inverno o programa estimou para a maior parte da


malha um PMV de ‘neutro’ (0) a ‘levemente com calor’ (+1). A área sob as
copas das árvores foi classificada como ‘levemente com frio’ (-1) a ‘com frio’ (-

273
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

2), a área adjacente a norte da massa arbórea do bosque de ‘neutro’ (0) a


‘levemente com frio’ (-1) e algumas áreas de asfalto e calçadas de ‘com calor’
(+2) a ‘com muito calor’ (+3).
Já na situação de verão, há predomínio em quase toda a área de PMV
sendo maior que +3, que indica sensação de muito calor. Nesse caso simulado,
somente sob as copas das árvores do bairro identifica-se voto de neutralidade
térmica (0). De uma forma geral, a situação de inverno possibilitou maiores
diferenças de opinião nos votos dos pedestres em relação à configuração
urbana do que na situação de verão.
A fim de explorar a ferramenta de forma mais aprofundada em
resultados específicos de cada bot, um trecho da área total de sentido ‘D-E’ foi
selecionado para análise de comportamento de dois pedestres padrões sob
condições de inverno. A figura 3 mostra os diferentes trajetos escolhidos pelos
bots nomeados ‘Mário’ e ‘Charles’.

Figura 3: Trajetos D-E escolhidos por ‘Mário’ e ‘Charles’ na simulação de inverno.

‘Mário’ adotou um caminho sob as sombras das árvores e presença de


vegetação do bosque e entre as edificações da próxima quadra até chegar ao
seu destino. Já ‘Charles’ adotou um caminho mais linear, no leito carroçável,
andando sobre a área asfaltada. A figura 4 representa os gráficos de
temperaturas individuais para cada um desses bots e a figura 5 representa o
estado interno e opinião sobre a situação térmica local de cada um.

‘Mário’ ‘Charles’

274
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Legenda:
Tair = temperatura do ar Tmrt = temperatura radiante média
rel Wind = velocidade do vento T_sk = temperatura da pele
T_cl = temperatura da vestimenta T_core = temperatura do corpo
Figura 4: Gráficos de cada bot quanto aos dados climáticos locais e temperaturas
individuais apresentado pela simulação de inverno com o BOTworld.

‘Mário’ ‘Charles’

275
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Legenda:
Internal State = estado interno Local Situation = situação do local
Very hot = muito quente Very sunny = muito ensolarado
Hot = quente Sunny = ensolarado
Average = neutro Average = médio
Cold = frio Shady = sombreado
Very cold = muito frio Very shady = muito sombreado
Figura 5: Avaliação de estado interno e opinião de situação local de cada bot
apresentado pela simulação de inverno com o BOTworld.

Para o ‘Mário’, sua escolha em andar por um caminho mais longo,


levando cerca de 370 segundos contra os 250 segundos de ‘Charles’,
representa também uma escolha por uma configuração espacial mais
agradável, proporcionando mais conforto através do aproveitamento de
sombreamento que essa lhe oferece em seu percurso. Analisando-se os
gráficos, sua temperatura de pele foi gradativamente e levemente se
refrescando, enquanto que a sua opinião sobre a situação local foi de
sombreado (shady) a muito sombreado (very shady).
O bot ‘Charles’, que optou por um trajeto mais linear e breve
acabou, no entanto, tendo a sua temperatura de pele levemente elevada no
decorrer do percurso e uma opinião de situação local variando de ensolarado
(sunny) a muito ensolarado (very sunny). No gráfico da figura 4, a ‘Tmrt’ para
‘Charles’ foi no geral mais alto que para ‘Mário’, o que confirma as respostas
de ‘Charles’ em relação às respostas de ‘Mário’. No entanto, os dois bots
apresentam estado interno neutro/médio (average) ao invés de calor ou frio,
podendo ser explicado pelas condições locais climáticas da estação de inverno.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo aplicou uma metodologia de análise do


comportamento de pedestre diante do ambiente térmico urbano, através de

276
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

simulação computacional, considerando-se a influência do design, da


configuração urbana e da ergonomia ambiental.
Concluiu-se que o traçado da malha urbana, juntamente com a
configuração urbana, o design e a presença de vegetação são os pontos de
maior influência na tomada de decisões de pedestre ao caminhar em
ambientes externos. Na análise do ambiente térmico do pedestre e sua
relação com o design da área de estudo, tanto a grande massa arbórea
presente no bosque, quanto as unidades de árvores espalhadas pelo bairro,
contribuíram para o conforto térmico dos pedestres, proporcionando
sombreamento e, assim, reduzindo os índices alcançados pela temperatura.
Através das simulações, reforçou-se o papel da vegetação na melhoria da
qualidade do ambiente térmico.
Observou-se que a verticalização de edificações para o horário
analisado, também contribuiu para maior sombreamento e, em alguns casos,
quando associado à ventilação natural, trouxe melhoria para o ambiente
térmico do pedestre. Entretanto, a verticalização não se torna útil para o
sombreamento em todos os horários, sendo, portanto, recomendável o uso de
estratégias projetuais de sombreamento, como a presença de protetores
solares e uso de arborização.

Agradecimentos

O presente estudo foi desenvolvido com o apoio da Capes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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277
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

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NAKATA, Camila Mayumi. Comportamento do Pedestre e Ambiente Térmico
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Arquitetura, Artes e Comunicação (UNESP-Bauru). Bauru, UNESP, 2010.
No prelo.
SORANO, E. C. Ergonomia de quadras urbanas: condições térmicas do
pedestre. Dissertação de Mestrado em Design da Faculdade de
Arquitetura, Artes e Comunicação (UNESP-Bauru). Bauru, UNESP, 2009.

278
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Software – O estudo da produção de uma


nova ferramenta de análise ergonômica

88
Sarah Moreira Fernandes
89
João Eduardo Guarnetti dos Santos

1 INTRODUÇÃO
Com o avanço tecnológico e científico, o ser humano e o seu
ambiente de trabalho passam a ser um objeto de estudo. Aparece então a
ergonomia, que é muito bem definida por Iida (1995) onde esta é a associação
de ciências e tecnologias que visam à adaptação confortável e produtiva do ser
humano e o seu trabalho.
Dentro da ergonomia surgem as ferramentas de análise (check-lists,
protocolos e softwares) que foram criados para analisar as atividades
repetitivas ou em serie, mas com os avanços do mercado de trabalho e as
atividades deixando de ser apenas repetitivas, e se tornando multifuncionais.
Porém estas ferramentas não evoluíram como o mercado de trabalho, o que
pode produzir uma análise ergonômica inadequada do ambiente de trabalho.
Araujo & Oliveira (2006)

88
Mestre em Design, vínculo institucional
89
Prof. Livre Docente na área de Engenharia e Segurança do Trabalho e Doutor
em Energia na Agricultura.

279
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Por causa da não evolução das ferramentas de análise, torna-se necessário


então a criação de uma nova ferramenta de análise ergonômica que esteja de
acordo com a evolução do mercado de trabalho. Tendo também um
dispositivo que seja acoplado ao corpo humano, onde este verificará o que a
atividade e o ambiente de trabalho possam estar gerando para o ser humano.
O objetivo desta pesquisa é de um estudo para a criação de uma nova
ferramenta de análise ergonômica para a averiguação das atividades
multifuncionais de forma fidedigna. Para tal é necessário uma revisão desde
ergonomia e as suas ferramentas, as áreas de atuação da ergonomia e o que
elas estudam, chegando a um protótipo de um software.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Com a criação de novas tecnologias, houve um impulso para a


competição entre os mercados de trabalhos, gerando um aumenta da
produtividade do trabalho. Pode se tomar como exemplo o do sistema
bancário, que com o advento da informatização, o bancário que antigamente
tinha exigências físicas baixas, mas que atualmente se vê cada vez mais
pressionado para cumprir metas, além disso, transformou-se em vendedor de
seguros, poupança, contas entre outros, Gonçalves (1995).
Com a alta competitividade, a pressão, o ambiente inadequado,
acarreta sérios problemas tanto a saúde física como psíquica do trabalhador.
Segundo Brandimiller (1999), deve-se evitar fazer movimentos extremos no

280
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

ambiente de trabalho pela razão de que as articulações trabalham no limite,


com alguns músculos fortemente contraídos e, inversamente, outros muito
esticados. Pode ser que nos movimentos o indivíduo não sinta dor qualquer
desconforto ou dores, mas, quando alguns músculos ou tendões já estão
sobrecarregados pelo trabalho, um movimento extremo pode desencadear
uma dor forte que pode travar por alguns dias o pescoço, o ombro ou mesmo
a coluna lombar.
Devido às constantes mudanças no mercado de trabalho, ainda há a
necessidade de uma análise ergonômica do trabalho, estas análises são
embasadas em Normas Regulamentadoras, ferramentas entre outros dados. A
maioria destes métodos foram feitos nas décadas de 70 a 90 tendo como foco
a análise das atividades repetitivas e pouco houve de atualizações destes,
sendo utilizados ainda como forma de análise por grande maioria dos
pesquisadores de ergonomia.

2.1 - Breve introdução Revolução E ergonomia

A revolução industrial contou com 2 movimentos importantíssimos,


que são o Fordismo e o Taylorismo: O primeiro surgiu em 1913 por Henry Ford,
onde este visava uma produtividade padronizada, ou seja, a fábrica fazia todo
o processo do produto. E o Taylorismo surgiu em meados do século XX, com
Frederick Taylor, este quis como objetivo absorver e lucrar com toda a força de
trabalho, no processo produtivo. Estes dois processos precisavam de uma
quantidade elevada de trabalhadores que cumpririam atividades repetitivas,

281
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

automáticas, deixando de lado todo e qualquer serviço especializado


tecnicamente para desenvolver a atividade. Estes processos visam generalizar
e igualar a realização do trabalho, (Oliveira,2005).
O homem passa a trabalhar para gastar então, para que a sua
sobrevivência seja necessária este trabalha horas em atividades, muitas vezes
repetitivas ou multifuncionais, em ambientes que muitas vezes são
inadequados ou não, com grande pressão dos seus superiores para que o
trabalho possa chegar a uma alta produtividade. Sendo assim, nasce a
necessidade de uma ciência que trabalhe com o homem em diversas
disciplinas. Quando então surge a necessidade de ser estudado o homem em
meio a toda essa revolução.
A palavra ergonomia vem do grego Ergo que significa trabalho e
Nomos que significa normas ou leis. Pode-se considerar a ergonomia como
uma disciplina de cárater próprio. A ergonomia pode também ser vista, de
acordo com, SANTOS (2001), com base nos princípios da ergonomia de tornar
o trabalho mais adequado, saudável e eficaz, e, principalmente, na visão
antropocêntrica da ergonomia, pode-se afirmar que as reduções no número de
postos de trabalho deve-se a uma condição do mercado e não as orientações
sobre a organização de trabalho.
Assim pode-se realizar uma análise ergonômica que é uma análise das
atividades em uma organização, tendo como pressuposto o que o trabalhador
faz em todo o processo produtivo, identificando os riscos ergonômicos em que
o mesmo encontra-se exposto. Combinação de técnicas de observação
(anotação, foto, filme, esquemas) com métodos de quantificação

282
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

(antropometrias, estatísticas), interações (entrevistas, questionários) e


utilização de ferramentas .

2.2 Softwares de análise ergonômica

Com a criação de novas tecnologias, houve um impulso para a


competição entre os mercados de trabalhos, gerando um aumenta da
produtividade do trabalho. Pode se tomar como exemplo o do sistema
bancário, que com o advento da informatização, o bancário que antigamente
tinha exigências físicas baixas, mas que atualmente se vê cada vez mais
pressionado para cumprir metas, além disso, transformou-se em vendedor de
seguros, poupança, contas entre outros, Gonçalves (1995).
Com a alta competitividade, a pressão, o ambiente inadequado,
acarreta sérios problemas tanto a saúde física como psíquica do trabalhador.
Segundo Brandimiller (1999), deve-se evitar fazer movimentos extremos no
ambiente de trabalho pela razão de que as articulações trabalham no limite,
com alguns músculos fortemente contraídos e, inversamente, outros muito
esticados. Pode ser que nos movimentos o indivíduo não sinta dor qualquer
desconforto ou dores, mas, quando alguns músculos ou tendões já estão
sobrecarregados pelo trabalho, um movimento extremo pode desencadear
uma dor forte que pode travar por alguns dias o pescoço, o ombro ou mesmo
a coluna lombar.
Com a evolução tecnológica, o computador se tornou uma ferramenta
de uso quase que insubstituível para todas as pessoas, sendo assim, qualquer

283
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

pessoa pode usá-lo, sem a necessidade de um elevado conhecimento,


Guimarães(2006).
Os ergonomistas, que são aqueles que analisam o homem em seu
ambiente de trabalho, buscam, meios para verificar, constatar, afirmar e
modificar uma ação em benefício ao homem, sendo assim, muitos usam as
ferramentas de analise ergonômica, para verificação.
Com isso, qualquer área de estudo pode utilizar o computador e os
seus aplicativos como forma de auxilio. Na ergonomia podemos utilizar
softwares gratuitos que são disponibilizados na internet, para análises e são
alguns destes:
 WinOwas: OWAS(OVAKO WORKING POSTURE ANALYSING SYSTEM)
de 1977 é um método de avaliação postural, avaliando a carga
musculoesquelética de forma qualitativa e quantitativa das posturas
durante o trabalho Baseado em uma classificação sistemática das
posturas durante o trabalho combinadas com observações por meio
de imagens ou anotações.
 - RULA: (RAPID UPPER LIMB ASSESSMENT) desenvolvido por Lynn
McAtemney e Nigel Corlett em (1993), tendo como finalidade
detectar a exposição de fatores de riscos da postura, de forças
musculares em seu ambiente de trabalho, esta ferramenta de permite
fazer uma avaliação rápida de um grande número de funcionários e
contribui para a verificação de riscos de LER/DORT .
 NIOSH: (THE NATIONAL INSTITUTE FOR OCCUPATIONAL SAFETY AND
HEALTH), desenvolvido em 1981, onde em 1991 sofre algumas

284
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

alterações, avalia o manejo de cargas no trabalho, tendo por objetivo


o identificar os riscos associados com o peso da carga e a tempo de
exposição desta em relação ao trabalhador, o que podes estar
associado a queixas como a lombalgia.
Um estudo realizado por, Guimarães, Sampedro e Signori (2004),
utilizaram 9 métodos de análise ergonômica, que são usados para classificação
de riscos de LER/DORT, entre estes estão o OWAS, RULA. Utilizaram 2 tipos de
postos o que utilizava a repetição em sua atividade e o que não utilizava, e os
resultados apresentaram uma margem de variação alta o que mostra uma
baixa fidedignidade dos métodos utilizados na pesquisa.

2.3-As ciências que utilizam a ergonomia.


A ergonomia é uma atividade multifuncional que possibilidade as
diversas ciências de utiliza – lá. Podemos ver as que mais se destacam: O
Design; As engenharias; As áreas da saúde, entre outras

2.4- Condições Ambientais do Trabalho.


Nesta parte serão verificadas todas as condições necessárias para o
desempenho adequado e necessário para o desenvolvimento do trabalho. São
as condições:
 Iluminação e cores: As leis da Iluminação; A anatomia dos olhos e
como os mesmos captam a luz. Um local mal iluminado pode
provocar a fadiga visual quando relatada por diversos autores está
ligado realmente à incidência de luz no local. O olho ele promove a

285
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

adaptação constante e gradual frente às variações de luminosidade.


Por isso para focalizar, o sistema visual e o organismo utilizam o
reflexo do sistema autônomo, produzindo a contração do músculo
ciliar. O esforço deste músculo frente as constantes alterações em
focalizar um objeto próximo do globo ocular, desaparece este esforço
quando o mesmo está sendo focalizado distante do globo, Fonseca,
2000.

 A vibração: “ Vibração é qualquer movimento que o corpo executa


em torno de um ponto fixo”. Iida. A vibração produz achados
fisiológicos problemáticos na musculatura, nos sistemas circulatórios,
respiratórios e nervosos. Além de aumentar frequência cardíaca e
respiratório ela também produz um reflexo muscular para a contração
em um músculo distendido.

 Ruído: Para entender a respeito do ruído é necessário fazer um breve


apanhado da fisiologia do sistema auditivo. A função da audição é a
de gerar uma forma de compartilhar informações entre seres
humanos, através da comunicação, além disso, ele serve como um
sistema de alerta para acordar e em situações de perigo, como por
exemplo, em um ambiente como em indústrias atômicas. O ruído é
mais conhecido como “ som indesejável”, porém isso se torna bem
relativo, pois cada pessoa tem um tipo de opinião quanto a sua

286
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

determinação de som é indesejável ou não. A definição mais


apropriada é a de “ um estimulo auditivo que não contem
informações úteis para a tarefa em execução”, (Iida,1995) e adiciona
Grandjean (...) que o ruído na pratica é denominado som quando não
é algo desagradável e ruído quando é algo que altera a sensação.

 Temperatura: O homem possui internamente um controle de sua


temperatura 37º C. Quando exposto variações de temperatura entre
50 a 100º, ele só pode sobreviver com roupas ou utensílios para a
proteção. ( Coutinho,2005). A temperatura e a umidade estão ligados
ao desempenho do trabalho humano. No homem ocorrem os
mecanismos de regulação para manter a temperatura dentro de mais
ou menos 37 graus Celsius, levando ao homem as realizações das
atividades de vida diária. A temperatura possui alguns princípios
onde o corpo produz a troca de calor na pele e na respiração.
Sabemos que o homem possui sensações, que muitas vezes podem
ser desagradáveis como agradáveis. A temperatura possui uma
vertente desta sensação e é conhecida como Conforto Térmico.
O conforto térmico é determinado pelo homem em relação ao que
sentem na ocorrência de alguns fatores associados: Temperatura,
Umidade e Velocidade do Vento. A temperatura efetiva é aquela que
leva a sensação de igualdade entre o calor e a temperatura com o ar
saturada e ou passado, ou seja, a soma da temperatura ambiental+

287
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

umidade relativa do ar e a velocidade do vento, produz a sensação


térmica

2.4- As patologias provocadas pelo ambiente de trabalho.


São diversas as patologias associadas ao ambiente de trabalho. Uma
das mais conhecidas é a LER que engloba multi patologias. Porém encontra-se
também catarata, hérnias de disco, lombalgias entre outros.

3 - CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste projeto após toda a revisão bibliográfica, poderá ser desenvolvido
um protótipo de um software que possa ser utilizado pelas diversas ciências,
sendo uma ferramenta atual, tendo como máxima prioridade uma analise
fidedigna e adequada.

288
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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http://www.scielo.br/scielo.php%3Fpid%3DS0102-69922006000100009.
Acessado em: 04/05/2008.
ABRANTES, Antonio Francisco. Atualidades em Ergonomia. Editora IMAM- 1ª
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Editora Bookman. 5° Edição- São Paulo- 2005

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Porto Alegre: FEENG, 2006.

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instrumentos utilizados para avaliação do risco da ocorrência dos
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Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

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SANTOS, Venétia; ZAMBERLAN, Maria Cristina. Projeto Ergonômico de Cabines


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OLIVEIRA, M.C. S. Pós-Fordismo e reflexos nos contratos de trabalho. Revista


da Faculdade de Direito. Universidade Federal do Paraná, v. 43, 2005. p. 5014.

290
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Uma Lacuna na História da Ergonomia.


90
Mariana Menin
91
José Carlos Plácido da Silva
92
Luis Carlos Paschoarelli

1 INTRODUÇÃO

A ergonomia é uma ciência relativamente nova, tem em torno de 60


anos, sendo uma pouco mais nova no Brasil (cerca de 30 anos). A sua história
vem sendo muito estudada e debatida. Porém existe uma grande lacuna nessa
história, mais precisamente do período pré-histórico – com o surgimento do
homem e sua criação e utilização de ferramentas – até o ano de 1949 – data
surgimento oficial da ergonomia. Este estudo foca em especial o período pré-
histórico.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 História da Ergonomia


A história da ergonomia, quanto disciplina, vem sendo muito
estudada no Brasil e no mundo. Iida (2005) apresenta esta como sendo o
estudo da adaptação do trabalho ao homem e a única ciência com data de
nascimento, 12 de julho de 1949.
Porém no Brasil a ergonomia tem pouco mais de 30 anos. Podemos
destacar estudos de Moraes (2004) e Soares (2004) sobre a história da
ergonomia no Brasil. Porém o período que precede essa história até hoje foi
pouco debatido.

90
Doutoranda em Design, Programa de Pós-Graduação em Design – Unesp/Bauru
91
Professor Livre Docente, Programa de Pós-Graduação em Design – Unesp/Bauru
92
Professor Titular, Programa de Pós-Graduação em Design – Unesp/Bauru

291
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

Hoje a ergonomia é difundida em todo o mundo e é um fator de


grande demanda em projetos de produtos, ferramentas e sistemas.
Mesmo tendo uma data de nascimento autores como Iida (2005),
Sanders e McCormick (1993), Vidal (2000) e Meirelles (1991 apud THERRIEN;
LOIOLA, 2001) afirmam que a ergonomia nasce na pré-história, que está
relacionada à criação das primeiras ferramentas pelo homem.
Meirelles (1991 apud THERRIEN; LOIOLA, 2001) explica que há
indícios de preocupações com aspectos ergonômicos desde o paleolítico
superior e que os artefatos utilizados para o trabalho foram gradativamente se
especializando ao uso e manuseio e se miniaturizando, demonstrando assim a
necessidade da adequação de objetos ao uso produtivo por meios de uma
forma especializada e um tamanho condizente a um uso e manuseio mais
confortável e facilitado.
Iida (2005 p.03) supõe que provavelmente o início da ergonomia se
dá “*...+ com o primeiro homem pré-histórico que escolheu uma pedra de
formato que melhor se adaptava à forma e movimentos de sua mão, para usá-
la como arma”.
Moraes e Mont’Alvão (2000) afirmam que desde as civilizações
antigas o homem se preocupa em adequar a forma das pegas dos
instrumentos a forma da mão humana buscando aperfeiçoar as ferramentas,
instrumentos e utensílios que utiliza em suas atividades cotidianas de modo a
proporcionar mais conforto na utilização.

2.2 A História antes da Ergonomia

Por volta de 12 milhões de anos atrás ocorreram mudanças na Terra


que foram cruciais para a evolução do homem. (LEAKEY; LEWIN 1981). E foi há
4 milhões que um provável hominídeo (ancestral ao homem) começou a
perambular pela terra (FUNARI; NOELLI, 2006).

292
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

A partir de então o homem evoluiu e se espalhou pelos diferentes


continentes do mundo e assim foi obrigado a se adaptar aos mais diversos
ambientes e climas.
Porém a espécie humana não é fisiologicamente adaptável a
qualquer meio físico, portanto foi necessário o desenvolvimento de
equipamentos extracorpóreos como ferramentas, roupas e abrigos, ou seja,
criar utensílios (CHILDE, 1975).
Uma das características mais notáveis do homem, e que o distingue
dos animais, é a sua capacidade de fazer e de utilizar utensílios. Guidon (1992)
destaca que os seres humanos são os únicos animais na face da terra que
fazem e utilizam utensílios, e foi essa capacidade é que nos possibilitou elevar-
nos tão acima de nossos parentes animais. A autora ainda destaca a
importância desses primeiros artesãos que iniciaram a cadeia de inventos e
desenvolvimentos técnicos até hoje ininterrupta.
Sobre as primeiras ferramentas feitas pelo homem é possível
afirmar que foram construídas de pedaços de madeira, osso e pedra,
levemente aguçados ou acomodados à mão pela quebra ou lascagem, como
mostra a Figura 01.

Figura 01 – Exemplos de ferramentas feito pelo homem pré-histórico.

293
Design Ergonômico
Estudos e Aplicações

O aparecimento do homem na Terra é indicado por tais


ferramentas, tanto que o estudo do passado realizado pela arqueologia se dá
através de restos materiais de suas atividades (CARVALHO, 2003) . Os
instrumentos de pedra são mais facilmente preservados e estes segundo Prous
(2006) informam sobre as tecnologias de fabricação dos homens primitivos.
O homem primitivo construiu uma tradição científica sobre quais
eram as melhores pedras manufatura de ferramentas, onde podiam ser
encontradas e como deveriam ser tratadas (CHILDE, 1975). A habilidade de
fazer uma ferramenta foi adquirida por meio de observação, recordação e
experiência, por isso Childe (1973) apresenta todo instrumento como a
materialização da ciência. Pois cada instrumento revela a aplicação pratica de
experiências lembradas, comparadas e reunidas tal como os preceitos
científicos.
Os humanos começaram a produzir e utilizar ferramentas de pedra,
também chamados instrumentos líticos, há cerca de 2,5 milhões de anos
(CHILDE, 1973; LEAKEY; LEWIN 1981; LEAKEY, 1995; COOK, 2005). Estas
ferramentas eram usadas para realizar diversas atividades cotidianas como
cortar, raspar, talhar, furar, costurar entre outros.
Contudo os primeiros fabricantes não tinham formas específicas de
artefatos individuais em mente, ou seja, quando os estavam fabricando as
formas eram determinadas pela forma original da matéria prima, já por volta
de 1,4 mil anos o homem começa a desenvolver um modelo mental do que
desejavam produzir impondo intencionalmente uma forma à matéria prima
que utilizavam (LEAKEY, 1995).
Sendo assim é possível afirmar que estes homens primitivos
estavam realmente empregando critérios ergonômicos em suas ferramentas
com o objetivo de facilitar seu trabalho cotidiano.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

294
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A ergonomia é hoje uma ciência difundida pelo mundo, muito


utilizada pelas indústrias e com grande importância no meio científico.
Sua história vem sendo estudada, como citada a cima, porém há
uma grande lacuna. Tanto no Brasil como no resto do mundo os estudos dessa
ciência se iniciam a partir de sua data de nascimento tendo ênfase na sua
utilização durante as guerras e nos dias atuais.
Porém não existem estudos desde a pré-história até o ano de 1949.
Corrobora com essa afirmação o autor Laville (1977) que salienta que não
existe uma história propriamente dita da ergonomia. Portanto, é possível
afirmar que muito ainda precisa ser estudo sobre a história da ergonomia.
O presente estudo dá ênfase ao período inicial da ergonomia junto
aos homens pré-históricos e seus instrumentos líticos . Quando estudamos a
pré-história os dados e textos nos faltam. A principal ferramenta que nos
permite acesso a esse passado é a Arqueologia, sendo importante destacar
que a cultura material humana é o principal objeto de análise desta ciência. A
Ergonomia, com seu caráter multidisciplinar, pode unir seus conhecimentos
com os da Arqueologia permitindo investigar e compreender quais critérios os
homens pré-históricos utilizavam inconscientemente para produzir suas
ferramentas e, assim, escrever uma parte importante da Ergonomia que, no
Brasil, até então não foi pesquisada.
Para este estudo vestígios arqueológicos de instrumentos de pedra
lascada são uma importante ferramenta para investigação da história que
precede o surgimento oficial da ergonomia no Brasil e no mundo e para a
compreensão dos critérios que o homem já buscava, inconscientemente, de
conforto, segurança e facilidade na construção de suas ferramentas.

Agradecimentos

295
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O presente estudo foi desenvolvido com o apoio da CAPES –


Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior .

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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Sergipe, 2003.

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Janeiro: Zahar, 1973.

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