Você está na página 1de 3

Área de Integração

Ficha de Trabalho sobre o tema: A


construção do conhecimento

Ano Lectivo de 2009/2010 12 º Ano


Departamento de
Ciências Sociais e Prof.ª Mª Amélia Araújo

do Homem

“Houve uma vez um tempo em que os deuses existiam, mas não havia raças mortais.
Quando também a estes chegou o tempo destinado do seu nascimento, os deuses
forjaram-nos dentro da terra com uma mistura de terra e fogo e das coisas que se
mesclam com a terra e o fogo. E quando estavam para os trazer à luz, ordenaram a
Prometeu e a Epimeteu que os preparassem e distribuíssem a cada um as capacidades de
forma conveniente. Epimeteu pediu licença a Prometeu para ser ele a fazer a
distribuição. ‘Depois de eu fazer a partilha, disse, tu inspeccionas.’ Assim o convenceu e
fez a distribuição. Nesta, concedia a uns a força sem a rapidez, e, aos mais débeis,
dotava-os com a velocidade. A uns armava-os e, aqueles a quem dava uma natureza
inerme, fornecia-lhes alguma outra capacidade para a sua salvação. Aos que envolvia na
sua pequenez proporcionava-lhes uma fuga alada ou um habitáculo subterrâneo. E aos
que aumentou em tamanho punha-os com isso a salvo. E assim, equilibrando as demais
coisas, fazia a sua partilha. Planeava isto com a precaução de que nenhuma espécie
fosse aniquilada.
Depois de lhes ter proporcionado recursos de fuga contra as suas mútuas destruições,
preparou uma protecção contra as estações do ano que Zeus envia, revestindo-os de pêlo
espesso de grossas peles, capazes de suportar o Inverno e capazes também de resistir
aos ardores do sol e de modo que, quando fossem dormir, as mesmas lhes servissem de
cobertura familiar e natural a todos. A uns calçou-os com garras e a outros revestiu-os
de peles duras e sem sangue. Em seguida, facilitou meios de alimentação diferentes a
uns e a outros: a estes, a forragem da terra, àqueles, os frutos das árvores e, aos outros,
raízes. A alguns concedeu que o seu alimento fosse devorar os outros animais e
ofereceu-lhes uma exígua descendência e, em contrapartida, aos que eram consumidos
por estes, uma descendência numerosa, proporcionando-lhes uma salvação na espécie.
Mas, porque Epimeteu não era inteiramente sábio, não se deu conta de que gastara as
capacidades nos animais; faltava-lhe então ainda dotar a espécie humana, e não sabia
que fazer.
Estando assim perplexo, aproxima-se Prometeu, que vinha inspeccionar a partilha; vê os
outros animais, que tinham cuidadosamente de tudo, ao passo que o homem estava nu e
descalço e sem coberturas nem armas. E era já precisamente o dia destinado em que o
homem devia também surgir da terra para a luz. Prometeu, pois, aflito com a carência de
recursos e procurando encontrar uma protecção para o homem, rouba a Hefestos e a
Atena a sua sabedoria profissional juntamente com o fogo — já que era impossível que,
sem o fogo, aquela pudesse adquirir-se ou ser de utilidade para alguém — e, assim,
imediatamente a oferece como presente para o homem. Foi, portanto, deste modo que o
homem conseguiu um tal saber para a sua vida; mas carecia do saber político, o qual
dependia de Zeus. Ora bem, Prometeu já não tinha tempo de penetrar na Acrópole onde
mora Zeus; além disso, as sentinelas de Zeus eram terríveis. Pelo contrário, na morada,
em comum, de Atena e de Hefestos, onde eles praticavam as suas artes, podia entrar sem
ser notado e, assim, roubou a técnica de utilizar o fogo de Hefestos e a outra de Atena e
entregou-a ao homem. E daqui provém, para o homem, a possibilidade da vida; e bem
depressa a Prometeu, através de Epimeteu, segundo se conta, chegou o castigo do seu
roubo.
Visto que o homem teve participação no domínio divino por causa do seu parentesco
com a divindade, foi, em primeiro lugar, o único dos animais a crer nos deuses, e
procurava construir-lhes altares e esculpir as suas estátuas. Depois, articulou
rapidamente, com conhecimenho, a voz e os nomes inventou as suas casas, vestidos,
calçados, mantos e alimentos do campo. Equipados desta maneira, habitavam os
humanos no princípio, em dispersão, e não havia cidades. Mas viam-se destruídos pelas
feras por serem geralmente mais débeis do que elas; e a sua técnica manual constituía
um conhecimento suficiente como recurso para a nutrição, mas insuficiente para a luta
contra as feras. Ainda não possuíam a arte da política, a que pertence a arte bélica. Já
tentavam reunir-se e pôr-se a salvo com a fundação das cidades. Mas, quando se
reuniam, atacavam-se uns aos outros, por não possuírem a ciência política, de maneira
que novamente se dispersavam e pereciam.
Zeus, então, com receio de que toda a nossa estirpe se destruísse, enviou Hermes para
que trouxesse aos homens o sentido moral (aldás) e a justiça (dike), a fim de haver
ordem nas cidades e laços harmoniosos de amizade. Herrnes perguntou então a Zeus de
que modo daria ele o sentido moral e a justiça aos homens: ‘Reparto-os como repartidos
estão os conhecimentos? Encontram-se assim distribuídos: um único que domine a
medicina vale para muitos particulares, e o mesmo se passa com os outros profissionais.
Infundirei assim também a justiça e o sentido moral aos humanos, ou reparto-os a
todos?’‘A todos - disse Zeus -, e que todos participem, pois não haveria cidades, se só
alguns deles participassem, como sucede com os outros conhecimentos. Além disso,
impõe uma lei da minha parte: quem for incapaz de participar da honra e da justiça que
seja eliminado como uma enfermidade da cidade’.

Platão, Protágoras, Ed. Clássicos Sá da Costa, Coimbra.


Ficha de Trabalho

1. O que pretende explicar este mito?


2. Segundo a explicação mitologica como “aparecem as raças mortais”?
3. Que caracteristicas foram atribuidas as essas raças mortais?
4. Qual foi o presente que Prometeu deu ao homem? Qual o significado desse
presente?
5. Por que razão era importante para o homem o saber político?
6. Quem atribui ao homem o sentido moral e a justiça? Porquê?
7. Por que razão diz Zeus para eliminar como uma enfermidade da cidade quem for
incapaz de participar da honra e da justiça?