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Sumário

O que é a imaginação? 5
Por que educar a imaginação? 9
Como educar a imaginação? 14
O que é um clássico? 17
Dez regras para a leitura dos clássicos 23
Como ler Romances 31
Como ler Contos 34
Como ler Poesia 37
Como ler Teatro 40
Lista de Leitura Ordenada 43
O que é a imaginação?
Há algum tempo atrás não se falava sobre educação
da imaginação. As primeiras vezes que ouvi o termo,
pensei “como assim educar a imaginação? Imagi-
nação não é aquela coisa que faz as crianças fanta-
siarem sobre o mundo?”.
Hoje estou ensinando este assunto, e escuto cons-
tantemente a mesma dúvida vinda de diversos
alunos.
Talvez esta também seja sua dúvida agora. E é por
isso que escrevi este guia simples e prático: você vai
terminar esta leitura entendendo o que é a imagi-
nação e como educá-la.
Isso não vai resolver o seu problema, é claro.
O processo da educação da imaginação é longo,
difícil e complicado: vai exigir muito esforço, muita
paciência e muita força de vontade.
Também vai exigir muita habilidade, mas isso você
pode deixar que eu irei lhe ensinar.
Este processo, assim como tudo no que se refere
aos estudos (passar num concurso, num vestibular,

5
melhorar as notas na escola ou na faculdade, etc), é
como fazer uma trilha.
Fazer uma trilha é difícil? Sim. É cansativo? Sim.
Você vai conseguir chegar ao final? Depende.
Para isso você vai precisar de equipamentos: botas,
cordas, chapéu, mochila, mantimentos, um guia,
talvez um mapa.
Tudo o que vou fazer aqui é lhe dar os equipa-
mentos necessários para que você consiga fazer a
trilha sozinho.
Mas que trilha é essa, afinal?
A imaginação, ao contrário do que muitos pensam,
não é uma propriedade das crianças. Ela não é
responsável apenas pela fantasia, pelo lúdico, pela
invenção.
A imaginação é uma faculdade do pensamento
humano, que nos torna capazes de pensar, de sentir,
de raciocinar, de tomar decisões, de criar, de esta-
belecer hábitos e rotinas, de decidir o que é ruim e
o que é bom.
Ela funciona como um arquivo de armazenamentos:
A imaginação guarda todas as nossas experiências,
tudo o que vimos, ouvimos, sentimos e vivemos,
tudo aquilo que ocorreu conosco de importante.
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Toda vez que vamos imaginar o futuro, planejar
algum projeto e tomar alguma decisão, consultamos
a imaginação: Lá nós combinamos as experiências,
unimos os fatos, chegamos às possibilidades e então
decidimos o que é melhor para nós.
Então, fica claro que a imaginação tem influência
direta sobre o que pensamos, sobre o modo como
agimos, sobre a nossa visão e a nossa interpretação
do mundo.
Nossa personalidade, no fim das contas, é também
formada pela imaginação.
Certo, entender o que é a imaginação na teoria não
é tão difícil.
Mas uma coisa ainda não está clara: Por que se fala
tanto em educar a imaginação? Ela é uma proprie-
dade que pode ser “educada”?

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“Começamos então a perceber o lugar da imagi-
nação no quadro das ocupações humanas. Ela é o poder
de construir modelos possíveis de experiência humana.”

Northrop Frye

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Por que educar a imaginação?
Se a imaginação, por ela mesma, guarda as experiên-
cias (ficcionais ou não) que nós vivemos, ouvimos e
vemos, por que ela precisaria ser educada?
Basta observar o cotidiano do povo brasileiro para
obter esta resposta.
Nossa crise política, nossa crise moral, nosso anal-
fabetismo (funcional e total), nosso “jeitinho brasi-
leiro”, nossos atos no dia-a-dia, nossos pensamentos,
aquilo que pensamos em construir...
Estamos em um país em que ser uma pessoa total-
mente boa é impossível, sempre irão enxergar algum
defeito em você e comentar.
Estamos em um país que despreza o conhecimento,
mas ama o diploma e o cargo de prestígio.
Estamos em um país que mata vocações diaria-
mente, pois só consegue pensar no retorno finan-
ceiro.
Estamos em um país que não enxerga a realidade,
mas enxerga o que imagina...
E isso é o reflexo de uma imaginação corrompida.

9
A imaginação nunca deve ser adversária da reali-
dade, mas sim sua eterna aliada. Se aquilo que você
pensa lhe distancia do mundo real, você deve excluir
este pensamento.
Educar a imaginação é pensar mergulhado na reali-
dade.
Se matamos vocações, se só pensamos em nos dar
bem em qualquer situação, se desprezamos o conhe-
cimento, se só conseguimos enxergar os defeitos das
pessoas... É porque, desde cedo, nossa imaginação
foi educada para agirmos assim.
O caldo da nossa cultura está podre, nós não apren-
demos a partir dos grandes exemplos.
As grandes figuras da nossa história viram piadas
e são desprezadas...
Bandidos sanguinários, ao exemplo de Lampião,
são vistos como grandes homens...
Estamos um país católico de dimensões continen-
tais, mas daqui não surgiu um santo...
Milhares de pessoas, em shows, cantam sem nenhum
remorso: “meus heróis morreram de overdose”...
Nossa literatura, por melhor que seja, não conseguiu
produzir nenhum grande personagem que pudesse
ser o guia e o espelho da nação, como Vasco da Gama,
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em Os Lusíadas, para os portugueses; como Aquiles,
na epopéia homérica, para os Gregos...
Então fica claro que precisamos mudar a nossa
maneira de pensar e de conceber o mundo, nossos
atos, hábitos e ações, nosso cotidiano, nossa nação.
Para isso, precisamos de pessoas mais sábias.
O que é um sábio?
É alguém que já viveu muito, já viu muita coisa,
conhece muito da vida. Então, sempre que um sábio
vai dar um conselho, ele puxa toda a sua carga de
experiência, joga dialeticamente com ela, analisa as
possibilidades e externa algo que chega muito perto
da realidade.
Mas como o sábio se tornou sábio?
Ora, vivendo muito. Ele passou por diversas expe-
riências marcantes, as armazenou, e agora pensa a
partir delas.
De tanto viver, ele conseguiu identificar uma espécie
de padrão humano (ou previsibilidade) que facilita
e muito a tomada de decisões.
Então o caminho para educar a imaginação é viver
muito?
Bom, também. Mas existem dois grandes riscos:

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Você não sabe se vai viver muito;
Você não sabe se, após viver muito, vai ter passado
pelas experiências necessárias para se tornar um
sábio.
Ou seja, se tornar um sábio é extremamente difícil
e não é um caminho viável.
Então, qual seria o melhor caminho?
Vamos precisar burlar o padrão um pouquinho...

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“Se o sistema nervoso de um animal não trans-
mite sensações e estímulos, o animal se atrofia. Se a
literatura de uma nação entra em declínio, a nação se
atrofia e decai.”
Ezra Pound

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Como educar a imaginação?
Para educar a nossa imaginação, portanto, é neces-
sário adquirir o máximo de experiência possível.
A partir do nosso conhecimento da experiência, e
consequentemente da condição humana, passa-
remos a compreender melhor o que vivemos.
A equação é bem simples e você vai entender.
Quanto eu mais conheço sobre amor e relaciona-
mentos, mais eu irei entender sobre o assunto e,
quando eu passar por algo similar, já saberei mais
ou menos o que fazer.
Quanto mais eu conheço sobre a mentira e os menti-
rosos, mais eu entendo a personalidade de alguém
assim e, ao me deparar com essas situações, eu terei
um norte.
Quanto mais eu conheço sobre linguagem e estilo,
mais eu domino a arte da expressão, logo saberei
expressar o que sinto e o que vejo com mais clareza, e
também perceberei quando alguém não sabe utilizar
a língua, ou a utiliza de forma maléfica.
E é assim com todos os aspectos da nossa vida.

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Mas já sabemos que não é viável tentar viver todas
essas experiências de forma concreta, durante
décadas e décadas, até chegar ao patamar de sábio.
É preciso adquirir essas experiências de outra
forma.
Seria ótimo se algumas pessoas vividas e maduras
conseguissem condensar as suas experiências em
linguagem, para que nós conseguíssemos reviver
essas experiências, nos colocando nos lugares deles...
Ah!, que sorte que essas pessoas existem.
São os grandes escritores da literatura universal.
Dante, Homero, Shakespeare, Dostoiévski, Tolstói,
Flaubert, Proust, Balzac, Baudelaire... todos eles
buscaram condensar suas experiências em palavras,
metáforas e símbolos, para que nós, anos depois,
lêssemos seus livros e conseguíssemos sentir e viver,
mesmo que ficcionalmente, a mesma coisa que eles.
Finalmente achamos o nosso meio para educar a
imaginação.
Devemos ler os clássicos da literatura – o maior
número possível – e relacioná-los com a nossa vida,
para termos uma compreensão mais completa da
realidade e da condição humana...
Mas uma coisa não ficou clara: O que é um clássico?
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“Aristóteles já ensinava – e a experiência de


24 séculos não cessa de confirmar – que a inteligência
humana não forma conceitos diretamente desde os
objetos da percepção sensível, mas desde as formas
conservadas na memória e alteradas pela imaginação.
Isso quer dizer que aquilo que escape dos limites do seu
imaginário será, para você, perfeitamente inexistente.”
Olavo de Carvalho
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O que é um clássico?
Para responder a esta pergunta irei recorrer a Italo
Calvino, autor do livro “Por que ler os clássicos”.
Alguns dos princípios colocados por ele são:
1 – Um clássico é um livro que nunca terminou de
dizer aquilo que tinha para dizer:
Um livro clássico nunca fala sobre coisas triviais
ou passageiras. Ele sempre toca naquilo que chamo
de condição humana, ou seja, uma situação que não
pertence a um ou dois seres humanos de uma época
específica, mas que atinge a toda humanidade.
Você com certeza já conheceu alguém com a soberba
de Raskolnikov, com uma dúvida tão cruel como a
de Hamlet ou que acorda todos os dias como Gregor
Samsa, sentindo-se um inseto.
Ou talvez tudo isso se refira a você.
E é por isso que os clássicos são tão impactantes: por
trabalharem com um material eterno e inesgotável,
conseguem falar sobre todos os seres humanos.
2 – Os clássicos exercem uma grande influência
particular, mas também formam o inconsciente
coletivo.
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As grandes obras da literatura universal podem
realmente tocar nossos corações e nossa almas.
Podem marcar a nossa existência e mudar a nossa
vida.
Quando você começar a ler os clássicos, com
certeza irá existir um Você Antes dos Clássicos e
um Você Depois dos Clássicos.
Sem dúvida.
Mas os clássicos exercem uma influência ainda
maior. Um clássico entra de mente em mente, em
cada indivíduo, para depois estabelecer-se no incons-
ciente coletivo.
Ou seja, os povos e nações começam a mudar seus
costumes, seus modos, seus pensamentos e sua
língua a partir da influência de um clássico.
Talvez você ache isso um exagero, mas saiba que
não é.
Basta ver, por exemplo, a quantidade de palavras
e expressões que Shakespeare trouxe para a língua
inglesa e, hoje em dia, fazem parte do cotidiano de
milhares de pessoas (“for godness sake”, “break the
ice”, “manager”, “assassination”, “obcene”, “unreal”,
“lonely”).

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Dante, com sua Divina Comédia, também contribuiu
enormemente para a formação da língua italiana.
Camões participou diretamente na formação do
imaginário português.
Os livros de Orwell até hoje moldam a observação
política de muita gente.
Desta forma, fica claro que os clássicos não exercem
apenas influências pontuais, mas influência em
escala global e histórica.
3 – Um clássico nunca esgota as suas interpreta-
ções.
É impossível ler um clássico e pensar: li e entendi
tudo, não há nada mais o que descobrir aqui.
Sempre há. Um clássico nunca esgota as suas inter-
pretações.
Isso se dá pelo tipo de linguagem que ele utiliza, a
linguagem associativa.
A experiência de um clássico é sempre passada de
forma simbólica e metafórica.
É mais simples do que parece: A linguagem meta-
fórica é o que torna a experiência capaz de atingir
todos os seres humanos. É partir dela que podemos

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não só entender, mas viver aquilo que o escritor quis
passar.
Se eu escrevesse “Ah! O amor é contraditório e
paradoxal!”, seria um bom verso? Emocionaria?
Faria você sentir e viver o que é o amor?
Claro que não. Camões disse a mesma coisa em
termos de conteúdo, mas expôs esta experiência
através de uma técnica literária refinada e de uma
linguagem metafórica, e aí sim nós conseguimos
viver o que é o amor:
“Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;


É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;


É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor


Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”
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A comparação, a metáfora e o simbolismo são
comuns aos clássicos, e é por isso que nunca uma
interpretação é a definitiva: a linguagem associativa
não dá certeza de nada, pelo contrário, ela abre um
leque de interpretações possíveis.
Então você não vai ler os clássicos, como vai reler, e
toda releitura desses grandes livros e extremamente
proveitosa – e necessária.
Já que entendemos quais as principais caracterís-
ticas dos clássicos, agora vamos precisar entender
algumas outras coisas: Quais são as regras para a
leitura dos clássicos?

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“O objetivo de todo artista é deter o movimento,
que é vida, por meios artificiais e fixá-lo, de modo que
daí a cem anos, quando um estranho olhar aquilo, ele se
mova novamente, pois é vida.“
William Faulkner
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Dez regras para a leitura
dos clássicos
Estou, neste e-book, tentando simplificar o assunto
ao máximo, mas tenho certeza que você já percebeu
a profundidade do que estamos falando.
Justamente por isso não se pode ler um livro clás-
sico de qualquer jeito. Existem regras, técnicas e
estratégias. Aqui irei elencar dez dicas que você
precisa seguir sem se desviar nem um pouquinho.
1 – Ative a suspensão de descrença.
Nada pior para um leitor de ficção do que ficar
o tempo inteiro desacreditando da história. Para
absorver a experiência e incorporá-la à sua imagi-
nação, você precisa vivê-la. E para viver, você precisa
acreditar, ficcionalmente, que aqueles fatos rela-
tados poderiam ter acontecido.
Caso contrário, você não entenderá nem sentirá
absolutamente nada com nenhum livro clássico.
Será uma verdadeira perda de tempo.
2 – Não use os critérios de verdade e coerência da
nossa realidade.

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Fazer isso seria estupidez. “Ah, isso foi muito menti-
roso”, diz um leitor descrente.
Quem fala isso não entende o verdadeiro espírito da
ficção: ela não busca ser a realidade científica nua e
crua, procura, antes disso, representar uma verdade
muito mais sutil. A verdade das nossas almas.
3 – Busque sempre a condição humana.
É por isso que você deve ler um romance sempre
procurando a condição humana, procurando aquele
aspecto de caráter universal, que pode se fazer claro
para todos os seres humanos.
Se você acha que um livro de fantasia é ruim porque
aparecem monstros e se você acha que um livro de
fantasia é bom porque aparecem monstros... Você
está errado!
Um livro não é bom pelo que ele mostra, mas pelo
o que ele representa.
Se um livro de fantasia faz com que o monstro repre-
sente um aspecto da condição humana (ao exemplo
do monstro de Frankenstein, de Mary Shelley), ele
é um bom livro.
Mas se um livro de fantasia usa o monstro como
puro escapismo (ao exemplo de milhares Best-
-sellers)... ele não é nada bom.
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4 – Não procure uma teoria, procure a experiência.
A pior coisa que um leitor pode fazer é ler um
clássico achando que está lendo um livro teórico.
Não procure, nos livros clássicos, teorias, argu-
mentos ou proposições; procure experiências.
O autor, caso quisesse teorizar, filosofar ou expor
ideias, teria escrito um ensaio, não um livro de ficção.
A ficção foi feita para relatar experiências e senti-
mentos, e é isso que você deve procurar.
5 – Não tente resistir ao efeito de um clássico.
Já vi muita gente resistindo ao efeito que um bom
livro tenta causar. Eu mesmo já fui assim.
Às vezes por orgulho ou por vontade de falar mal
de um livro, o leitor acaba resistindo ao efeito que
o autor quis causar. Isso danifica a sua leitura e a
sua compreensão de uma obra.
Sinta e viva o clássico de todas as formas possíveis.
6 – Leia sempre comparando a experiência com a
sua realidade.
Isso é algo que você deve fazer sempre, e da forma
mais simples que encontrar.

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Quem eu conheço que se parece com Emma Bovary?
Será que eu possuo alguma característica dos perso-
nagens de Vidas Secas? Já passei por alguma situação
tão confusa quanto a de K. em O Processo?
Fazer este exercício constantemente durante a
leitura dos clássicos vai aproximar você da obra, e
vai lhe fazer mergulhar naquela experiência.
7 – Só analise uma obra quando tiver consciência
da sua inteireza.
Nunca chegue a uma conclusão sobre um livro clás-
sico sem antes lê-lo por completo.
Qualquer obra de arte se analisa por inteiro: uma
pintura, uma música, um filme, uma escultura... Por
que com os livros seria diferente?
É impossível tirar uma conclusão sobre As Quatro
Estações, de Vivaldi, ouvindo apenas a Primavera, ou
analisar O Jardim das Delícias Terrenas, de Hyero-
nimus Boch, apenas por um detalhe.
Da mesma forma você não deve ler duas páginas
de Crime e Castigo, Dom Quixote ou Guerra e Paz
e chegar a alguma conclusão.
8 – Nunca critique antes da hora.

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E por isso mesmo você não deve criticar nenhuma
obra clássica antes da hora.
O primeiro motivo é porque você não tem cons-
ciência total de seu enredo e de sua unidade.
O segundo motivo é porque você tem grandes
chances de quebrar a cara no final, positiva ou nega-
tivamente.
O terceiro e principal motivo é porque você NÃO
DEVE quebrar a suspensão de descrença. Nunca. A
não ser que o próprio autor o faça.
Mas, se tratando de clássicos, isso dificilmente vai
acontecer.
9 – Preste atenção na forma!
A forma é uma coisa muito misteriosa. A maioria
dos leitores não entende, não sabe analisá-la e nem
tem noção do quanto ela influencia no efeito final
da obra. Se a obra fosse um edifício, a forma seria a
técnica e os instrumentos utilizados para erguê-lo.
A forma abrange a estrutura dos atos de um
romance, o tipo de narrador escolhido, o arco dos
personagens, o polimento do estilo, a sonoridade
e a cadência... Toda a questão de técnica literária é
importante para a sua análise.

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Não digo que você precisa dominar a criação lite-
rária, a não ser que queira se tornar um escritor. Mas
você precisa entender, mesmo que superficialmente,
como a construção da obra influencia no produto
final. Para isso, recomendo a leitura dos grandes
críticos literários: Aristóteles, Northrop Frye, Otto
Maria Carpeaux, Álvaro Lins, Henry James, Mario
Vargas Llosa e muitos outros.
10 – Saiba analisar um livro.
Saber analisar uma obra é um trabalho complicado
e difícil, mas todo mundo precisa aprender. Livros
como A Metamorfose, A Divina Comédia, Guerra e
Paz, Enquanto Agonizo, No Coração das Trevas, etc,
demandam boas análises.
E uma boa análise, basicamente, possui três dimen-
sões:
1 – A dimensão pessoal: qual a sua relação íntima
com o livro? O que você sentiu com aquele livro?
Como aquele livro reflete a sua vida?;
2 – A dimensão técnica: quais as técnicas que o
autor utilizou para construir aquela obra? Qual
a estrutura da obra? De que forma a história é
contada?

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3 – A dimensão histórica: O que aquele livro repre-
senta historicamente? Qual a relação dele com
outros livros da literatura? Em que este livro poder
ser um marco?

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“O bom gosto literário pode ser adquirido por
qualquer pessoa que aprenda a ler.”
Mortimer Adler
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Como Ler Romances
O romance é uma arte bastante refinada e exclu-
siva das sociedades mais avançadas. Uma sociedade
menos avançada possui poesia, mas não romances.
Isso revela uma relação muito clara do romance
com a estrutura social em que vivemos: é um gênero
literário que tem a capacidade de retratar os diversos
tipos humanos e suas relações; não representando
apenas sentimentos e impressões, mas os costumes,
hábitos, pensamentos e personagens recorrentes de
povos e nações.
Esses aspectos eram presentes, geralmente, apenas
nas grandes epopeias como A Ilíada, A Odisseia, Os
Lusíadas... Com o surgimento do romance moderno,
escritores como Flaubert, Dostoiévski, Tolstói,
Proust, Tchekhov e outros, fizeram disso algo mais
recorrente.
Portanto, você deve ler o romance não como o
espelho de uma sociedade, mas como a transfigu-
ração da realidade pelos olhos do autor. Não será a
realidade nua e crua, mas um aspecto dela, ampliado
e cirurgicamente estudado.

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Os romances, por serem, na maioria das vezes,
obras mais longas, devem ser lidos com ritmo. Erra
alguém que lê 50 páginas de um livro em um dia e no
outro dia não lê nenhuma. O romance é uma expe-
riência espaçada, contínua, que demanda tempo.
Não reclame, por exemplo, se você passar um mês,
dois meses, três meses lendo um bom romance.
Livros como Guerra e Paz e Cem Anos de Solidão
demandam esta leitura mais lenta.
A conta é a seguinte: se um livro possui 300 páginas,
você pode lê-lo em 5 dias. Exemplo: vamos supor
que você leva 2 minutos para ler uma página. Então
em 2 horas você terá lido 60 páginas. Em 5 dias você
terá terminado o livro.
Para um iniciante, as coisas funcionam mais ou
menos assim. Além das 10 regras para a leitura dos
clássicos, o ritmo é o que você mais precisa saber na
hora de encarar um romance consagrado da nossa
literatura.

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“O romance não é uma história. O romance é o
enfrentamento com a condição humana.”
Raimundo Carrero
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Como ler contos
Contos são mais complicados do que parecem.
Enquanto a emoção de um romance vem espaçada e
pode gerar diversos sentimentos diferentes, o conto
possui uma emoção pontual e tem como objetivo
gerar um sentimento específico.
A história também é contada de forma totalmente
oposta. Enquanto o romance possui uma linha
central e várias linhas paralelas, o conto possui
apenas uma linha, que se encerra em si mesma. O
conto não possui “pontas soltas”, é como uma esfera,
sem lados nem extremos.
O conto é uma emoção compactada. Por isso que,
ao contrário do romance, você deve ler o conto de
uma vez só, sem pausas. O maior erro do leitor de
contos é parar a leitura no meio.
Para sentir o conto, você deve lê-lo de uma vez só
e senti-lo como um soco ou como uma facada. Um
golpe rápido e certeiro, que atinge o leitor e o deixa
desnorteado, este é o conto.
Enquanto no romance os personagens possuem
grandes histórias, um arco dramático (ou seja, o
personagem sai do ponto A ao ponto B, em termos
34
de caráter, opinião e evolução pessoal), no conto o
enredo é fechado e pequeno.
Podemos comparar o romance a um grande rio,
com seus inúmeros afluentes: uma grande história,
com inúmeras histórias menores ao redor.
Já um conto é um pequeno riacho, mas que, apesar
do tamanho, não deixa de ter sua beleza e sua impor-
tância.

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“Nesse combate que se trava entre um texto apai-
xonante e o leitor, o romance ganha sempre por pontos,
enquanto que o conto deve ganhar por knock-out”
Julio Cortázar
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Como Ler Poesia
A poesia também é uma arte extremamente sofis-
ticada. De certa forma, ela se aproxima do conto:
busca retratar uma emoção única, busca a expressão
de uma impressão.
Desta forma, a leitura da poesia também deve ser
feita de uma vez só, sem pausas, sem descansos.
Mas há algumas diferenças fundamentais que todo
leitor precisa saber.
Principalmente na poesia, a linguagem associativa
se faz muito presente. O sentimento, neste caso,
não será transmitido através de histórias, aconte-
cimentos e descrições.
O poeta procura gerar uma emoção através de
metáforas e imagens, sempre. Então, não basta ler e
entender a história (e muitas vezes nem há história):
é preciso interpretar os simbolismos e as relações.
Esse treino é complexo e só vem a partir de muita
leitura. É por fizemos uma lista de leitura ordenada:
há autores, principalmente em poesia, que são de
dificílima compreensão para qualquer iniciante –
ao exemplo de Eliot e Ezra Pound.

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Mas há poetas que deixam suas relações mais claras,
suas metáforas são menos implícitas e mais acessí-
veis, e é por eles que devemos começar.
Outra coisa que difere totalmente a poesia dos
outros gêneros literários é a sua linguagem descon-
tínua, ritmada e musical.
Assim como sons, na música, podem representar
uma sensação (basta observar As Quatro Estações,
de Vivaldi: você não precisa de nenhum texto para
sentir A Primavera ou qualquer outro movimento),
na poesia a cadência e a sonoridade das sílabas
poéticas vai influenciar muito na sua compreensão
de um texto.
É por isso que você deve ler poesia SEMPRE em voz
alta. Sinta o ritmo, escute as cadência dos sons, as
aliterações; sinta cada fonema e cada palavra saindo
da sua boca, leia respeitando as vírgulas e as rimas
– sinta como o som está presente nesta arte.

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“Poesia é a música que se faz com as ideias”.
Bruno Tolentino

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Como Ler Teatro
O teatro é uma das artes literárias mais curiosas.
A parte mais interessante é que o teatro não foi
escrito para ser lido, mas para ser encenado.
Então, como devemos ler essas grandes peças?
Sabemos que o texto de uma peça não contem cená-
rios e descrições, e sim apenas os diálogos.
Claro que essas falas sofrem a influência também
da linguagem associativa (muitas metáforas) e da
musicalidade (ritmo, cadência e sonoridade). Mas,
ao contrário do romance, por exemplo, é um texto
“incompleto”.
O que um bom leitor deve fazer é ler essas peças
completando, com sua imaginação, aquilo que falta
nelas. Você deve ser o diretor imaginário do que está
lendo.
Ao absorver as cenas, os diálogos e os conflitos,
você deve imaginar a riqueza dos cenários, a trilha
sonora orquestrada, a movimentação e atuação dos
atores.
Este é um exercício de imaginação inigualável.

40
Após essa leitura, você deve assistir a esta peça. Eu
sei que, hoje em dia, é muito difícil ver peças como
Édipo Rei e Hamlet sendo encenadas nas cidades
do Brasil.
Mas, graças à tecnologia, podemos assistir essas
peças pela internet. Ou até mesmo filmes baseados
nestas obras.
Veja-os e compare-os com aquilo que você
imaginou.

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“Uma peça não mostra o pensamento dos perso-
nagens, mas a ação humana.”
Susan Bauer
42
Lista de Leitura Ordenada
Agora que entendemos como ler cada tipo de livro,
é necessário saber quais são os livros devemos ler
e em que ordem devemos ler. É essencial que a
lista seja cumprida exatamente como está descrita:
passando de nível em nível, sem pular.

Romances
Nível Iniciante:
• Liev Tolstói – Anna Karênina, A Morte de Ivan
Ilitch;
• Fiódor Dostoiévski – Crime e Castigo, Memó-
rias do Subsolo, O Jogador, Gente Pobre;
• Gustave Flaubert: A Educação Sentimental,
Madame Bovary, Salambô;
• Franz Kafka – O Processo, A Metamorfose;
• Goethe – Os Sofrimentos do Jovem Wherter;
• Ivan Turgeniev – Pais e Filhos, Primeiro Amor;
• Graciliano Ramos – Vidas Secas, S. Bernardo,
Angústia;
• Marcel Proust – Em busca do tempo perdido;
43
• Gabriel Garcia Márquez – O Enterro do Diabo,
O Amor nos Tempos de Cólera;
• James Joyce – Um retrato do Artista Quando
Jovem;
• Ernest Hemingway – O Velho e o Mar;
• F. Scott Fitzgerald – O Grande Gatsby;
• Joseph Conrad – No Coração das Trevas;
• Machado de Assis – Dom Casmurro, Memórias
Póstumas de Brás Cubas;
• Lima Barreto – Cemitério dos Vivos, O Triste fim
de Policarpo Quaresma, Recordações do Escrivão
Isaias Caminha;
• Orígenes Lessa – O Feijão e o Sonho;
• Juan Rulfo – Pedro Páramo;
• Clarice Lispector – A Hora da Estrela;
• Balzac – Pai Goriot, A mulher de trinta anos,
Ilusões Perdidas;
• Raimundo Carrero – A história de Bernarda
Soledade – A Tigre do Sertão;
• Cyro dos Anjos – O Amanuense Belmiro;
• Alessandro Manzoni – Os Noivos;
• George Orwell – 1984, A revolução dos
bichos;
44
• C.S. Lewis – As Crônicas de Nárnia;
• Stendhal – O Vermelho e O Negro;
• John Steinbeck – As Vinhas da Ira;
• José. J. Veiga – Sombra dos Reis Barbudos, A
Hora dos Ruminantes;
• Érico Verissimo – O Tempo e o Vento;
• José Lins do Rego – Cangaceiros, Menino do
Engenho, Fogo Morto;
• J.D. Salinger – O Apanhador no Campo de
Centeio;
• Henry James – A outra Volta do Parafuso;
• Oscar Wilde – O Retrato de Dorian Grey;

Nível Avançado:
• Liev Tolstói – Guerra e Paz;
• Fiódor Dostoiévski – Os Irmãos Karamazov,
Os Demônios;
• Miguel de Cervantes – Dom Quixote;
• Gabriel Garcia Márquez – Cem Anos de Solidão;
• James Joyce – Ulisses;
• William Faulkner – Enquanto Agonizo, O Som
e a Fúria, Luz em Agosto;
45
• Euclides da Cunha – Os Sertões;
• Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas;
• George Bernanos – Diário de Um Pároco de
Aldeia;
• Ferreira de Castro – A Selva;
• Mario Vargas Llosa – A Guerra do Fim do Mundo;
• Tomasi de Lampedusa – O Leopardo;
• Albert Camus – O Estrangeiro.

CONTOS
• Guimarães Rosa – Sagarana;
• Murilo Rubião – Contos Completos;
• Clarice Lispector – Contos Completos;
• Lima Barreto – Contos Completos;
• Machado de Assis – Contos Completos;
• Edgar Allan Poe – Histórias Extraordinárias;
• Ernest Hemingway – Contos Completos;
• James Joyce – Dublinenses;
• Gabriel García Márquez – 12 contos peregrinos;
• Tchekhov – O Beijo e Outras Histórias;
46
• Gustave Flaubert – Três Contos;
• Fiódor Dostoiévski – Contos Completos;
• Liev Tolstói – Contos Completos;
• Flannery O’Connor – Um homem bom é difícil
de encontrar;
• Trumam Capote – Contos Completos;
• Rubem Fonseca – Passeio Noturno;
• Jorge Luís Borges – Ficções;
• Guy de Maupassant – Bola de Sebo e Outras
Histórias;
• Júlio Cortazar – Bestiário, Final do Jogo;
• Nicolai Gógol – O Nariz, O Capote;
• Dalton Trevisan – Virgem Louca, Loucos Beijos.

POESIA
Nível Iniciante:
• Alberto da Cunha Melo – Poesia Completa;
• Edgar Allan Poe – O Corvo;
• Homero – Ilíada e Odisseia;
• Cecília Meireles – Romanceiro da Inconfidência;

47
• João Cabral de Melo Neto – Morte e Vida Seve-
rina;
• Manuel Bandeira – Estrela da Vida Inteira;
• Carlos Drummond de Andrade – Poesia
Completa;
• Vinícius de Moraes – Poesia Completa,
• Bruno Tolentino – A Balada do Cárcere, Os
Deuses de Hoje, As Horas de Katharina;
• Ferreira Gullar – Poema Sujo, Luta Corporal;
• Rimbaud – Uma temporada do Inferno;
• Charles Baudelaire – As Flores do Mal;
• Ângelo Monteiro – O Exílio de Babel
• Luís de Camões – Sonetos;
• Cruz e Souza – Broqueis;
• Gregório de Matos – Poesia Completa;
• Bocage – Sonetos;
• William Shakespeare – Sonetos.

Nível Avançado:
• Erza Pound – Cantos;
• T.S. Eliot – Poesia;

48
• Rainer Maria Rilke – As Elegias de Duíno, A
Vida de Maria;
• Luís de Camões – Os Lusíadas;
• Fernando Pessoa e Heterônimos – Poesia
Completa;
• Bruno Tolentino – A Invenção do Amanhecer,
O Mundo Como Ideia;
• Jorge de Lima – A Invenção de Orfeu;
• Virgílio – Eneida;
• Goethe – Fausto;
• Dante Alighieri – A Divina Comédia.

TEATRO
• Gustave Flaubert – A Tentação de Santo Antão;
• Ariano Suassuna – Teatro Completo;
• William Shakespeare – Teatro Completo;
• Sófocles – Édipo Rei, Antígona;
• Aristófanes – Lisístrata;
• Artur Miller – A Morte do Caixeiro Viajante;
• Eugene O’Neil – Longa Jornada Noite Adentro;
• Federico Garcia Lorca – Bodas de Sangue ;

49
• Calderón de La Barca – A Vida é Sonho;
• Henrik Ibsen – Casa de Bonecas;
• Luigi Pirandello – Seis Personagens a Procura
de um Ator;
• Nelson Rodrigues – Teatro Completo.

50
Esta é a lista que você precisa seguir para começar
a educar a sua imaginação. Leia os gêneros de forma
alternada, compare-os, busque relações entre os
livros. O trabalho será longo, árduo e difícil, mas
irei lhe ajudar.
Agora que você já tem a lista e algumas dicas, o
negócio é colocar a mão na massa. Irão surgir muitas
dúvidas e questionamentos, se quiser falar direta-
mente comigo, basta me chamar no Instagram ou
no Facebook do Instituto Dom Literário.
O fato é que a lista e as dicas não resolvem tudo,
mas ajudam em muita coisa. Para resolver tudo, é
preciso desenvolver um trabalho muito maior, mais
complexo, onde eu mostro na prática como é feita
a análise literária...
É por isso que no mês de outubro lançarei meu curso
sobre a leitura dos clássicos. Se você quer realmente
entrar neste mundo, educar a sua imaginação e
passar a entender tudo o que um clássico tem para
lhe oferecer, fique ligado na sua caixa de e-mail de nas
suas redes sociais. Logo mais abrirei as inscrições.
Mas, antes disso, vou deixar você com um gostinho
de quero mais.

51
Há algum tempo venho escrevendo pequenos
textos para o Instagram. Nestes textos faço breves
análises sobre obras literárias, trazendo-as para a
minha realidade e buscando sempre lições para a
minha vida.
São textos curtos e simples, mas podem dar a você
uma visão maior da análise literária – enquanto o
curso não chega.
Comece a cumprir a sua lista de leitura. A cada
livro que ler, busque escrever um texto como esse,
exercitando sua percepção do mundo e sua memo-
rização do conteúdo.
Fique aqui com os textos. Muito obrigado pela
credibilidade, um abraço e até logo!

52
Não a realidade, mas quase isso.
Frequentemente escuto e leio a seguinte coisa de
várias pessoas: Não gosto de ler ficção ou poesia, são
historinhas muito mentirosas, não servem de nada.
Automaticamente me vem a explicação que Mario
Vargas Llosa dá sobre ficção: Mentira é algo que te
contam dizendo ser verdade, a ficção é algo que não
aconteceu, mas quem conta deixa isso muito claro.
Portanto, é óbvio que a intenção da ficção não é
contar algo de aconteceu factualmente, mas também
não é contar algo falso.
O propósito da ficção, na verdade, é representar
algo que sempre acontece, não no plano dos fatos,
mas no plano dos sentimentos e das experiências.
Emma Bovary não existiu factualmente, mas você
conhece alguém iludido e revoltado assim como
ela; Raslkonikov não era de carne e osso, mas você
conhece muitas pessoas com a mesma soberba dele.
Portanto, não venha me dizer que a ficção não é
real, que a ficção é mentirosa e contas historinhas
fantasiosas. 
É você quem não percebe a realidade que está em
frente aos seus olhos.

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Você está vivendo ou morrendo aos poucos?
A literatura deve sempre se tornar um ponto de
reflexão para todos os leitores. A partir do texto lite-
rário o indivíduo deve perceber a condição humana
dos personagens e tentar entender a própria condição
humana.
Somente desta forma é possível educar a imagi-
nação. Tomo como exemplo hoje o conto “Uma vela
para Dario”, de Dalton Trevisan.
No conto o protagonista começa a passar mal na
rua e ao invés de receber ajuda, sofre nas mãos de
quem passa pelo local.
Roubam sua roupa, seu relógio, sua carteira e sua
dignidade... Dario vai perdendo tudo que tem e
morrendo aos poucos.
Não sabemos nada sobre o passado deste perso-
nagem, mas é possível perceber que Dario não vivia:
apenas sobrevivia.
O personagem lembra Ivan Ilitch, da novela de
Tolstói. Esta questão de ser ou não ser é extrema-
mente antiga e recorrente na literatura Universal
e nos faz refletir: estamos sendo quem podemos
ser? Estamos vivendo com 100% da nossa força?
Estamos sendo quem devemos ser?
54
Ou estamos apenas morrendo aos poucos?
Uma pessoa que vive da procrastinação, da falta
de objetivos e de ambição, da falta de propósito
na vida, acaba se tornando um personagem como
Dario: terminará seus dias sozinho, sem ajuda de
ninguém e morrendo aos poucos.
É por isso que educar a imaginação e perceber a
condicao humana na literatura é tão importante:
reconhecemos nossos erros e percebemos quem
realmente somos.
Não seja assim. Não termine como Dario.

Para quê educar a imaginação?


A imaginação é a nossa ferramenta mental respon-
sável por conectar nosso armazenamento de expe-
riências com os fatos externos.
Ou seja: todas as nossas tomadas de decisão, nossos
hábitos e costumes, tudo aquilo que pensamos, teori-
zamos e acreditamos provêm da imaginação.
Portanto, educar a nossa imaginação é adequar
aquilo que está em nós com a realidade, é ajustar
o senso das proporções, é pensar de acordo com o
real, e não de acordo com a ilusão.
55
A sociedade brasileira é o retrato de uma nação com
a imaginação completamente deturpada: violenta
quando deveria ser pacífica, passiva quando deveria
agredir, nunca se ajuda, sempre se atrapalha, como
caranguejos num balde.
Qual o resultado disto? A constante crise moral que
percorre a história do nosso país. Todos os nossos
problemas atuais são frutos de decisões passadas,
tomadas por pessoas sem o menor traço de imagi-
nação educada.
Educar a imaginação, deve ser, antes de tudo, um
dever de todo brasileiro que queira salvar a cultura
do seu país e o seu povo.

O que você diria para a morte?


Pesquisas mostram que o maior arrependimento de
pessoas na cama do hospital, à beira da morte, é o
de não terem sido quem deveriam ser.
O confronto direto com a morte é tema de diversos
clássicos da literatura, e a análise deles pode ser
muito benéfica para nós: aliás, como reagiremos
quando nos encontrarmos com a morte?

56
O instante final da vida, como descrito pelos grandes
autores, pode revelar muito sobre a personalidade
dos indivíduos: é assim como Emma Bovary, é assim
com Anna Karênina, é assim com o Sr. Kurtz, de No
Coração das Trevas.
Como sempre falo muito da literatura clássica euro-
peia, talvez nós pudéssemos focar, neste quesito, na
literatura latino-americana. 
Grandes livros do realismo fantástico latino-ame-
ricano representaram o confronto direto do homem
com a morte: Ao exemplo de Cem Anos de Solidão,
de Gabriel García Márquez, e Pedro Páramo, de
Juan Rulfo.
No segundo romance, o protagonista vai em busca
de seu pai (morto) e para em uma cidade onde todos
os habitantes também estão mortos, e se lamentam
sobre a vida que tiveram.
No primeiro, frequentemente os personagens são
postos de frente a pelotões de fuzilamento, e cada
um pensa uma coisa diferente: qual seria o nome
da filha que está para nascer, os malditos membros
do partido liberal, um passeio na praça com o pai
anos atrás...

57
Esses momentos tocantes da literatura servem
para nós como ponto de reflexão: o que você falará
perante a morte? Um gemido, uma lamentação ou
um agradecimento? 

Você vive no mundo real?


A tensão entre ilusão e realidade (entre aquilo que
imaginamos e aquilo que existe factualmente) é,
talvez, o maior problema de toda literatura universal.
Emma Bovary acreditava que viveria um amor
como o dos livros que lia, Dom Quixote perseguia
dragões, Raskolnikov acreditava ser uma espécie de
homem superior, um Napoleão...
Este contranste se faz muito mais claro quando
comparamos os protagonistas de O processo, de
Kafka, e Antígona, de Sófocles.
Enquanto o primeiro está completamente perdido
e confuso em meio a um sistema legislativo ilusório
e arbitrário, a segunda reconhece a existência de
uma lei “mais antiga”, inexorável: a lei da realidade.
A análise dos grandes personagens da literatura
deve nos proporcionar a seguinte visão: estou inse-
rido na realidade, na verdadeira realidade, ou em
algum mundo que criei? 
58
A dúvida de Hamlet é o primeiro passo para criar
uma atmosfera de incredulidade sobre o que você
imagina ilusioriamente. A partir daí você começa,
verdadeiramente, a educar a imaginação. 
E esta é precisamente a função da literatura: a partir
das situações e experiências postas nos grandes
livros, devemos adequar nossa imaginação à reali-
dade, para que nossos pensamentos e ações não à
confundam, mas passem a esclarecer tudo aquilo
que vemos, ouvimos e vivemos.

A Literatura explica a vida


Um bom leitor (ou seja, alguém que lê bons livros
de forma inteligente) sempre toma a literatura como
um instrumento que possa explicar a sua vida.
Isso não quer dizer que a literatura imaginativa
tenha a capacidade ou a intenção de teorizar sobre
nosso mundo, longe disso.
O escritor (um bom escritor) tem a capacidade de
transformar uma experiência específica em símbolo,
tornando-a acessível a toda uma nação.
Nosso papel como leitores é buscar desvendar os
símbolos, atingindo a experiência codificada pela
autor, e então revivê-la imaginativamente. Mas há
59
casos onde você vive a mesma experiência na vida
real: é neste momento em que o mundo ficcional e
a nossa realidade concreta se encontram.
Para quem leu, é muito difícil não se lembrar de
Stephen Dedalus quando se sente culpa por um
pecado ou se apaixona, pois a visão dos demônios
e o encontro com sua amada na praia são passa-
gens marcantes de “Um Retrato do Artista Quando
Jovem”.
Da mesma forma que, ao perceber a destruição
da sua infância, lembra-se facilmente de “A Última
Canção do Beco”. Ou, quando se está vivendo um
amor complicado, vêm a mente os versos de Camões...
E é exatamente para isso que a literatura serve: ao
nos deparamos com as situações difíceis da vida, os
símbolos e as experiências expostas pelos grandes
clássicos surgem dos céus, como uma luz a iluminar
os nossos pensamentos.

Como lidar com as frustrações da vida?


Constantemente recebo mensagens de alunos e
depoimentos de amigos relatando suas frustrações
com a vida...

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Talvez a vida não seja tão boa quanto você imagi-
nava. Talvez você tenha se frustrado com alguma
expectativa alta.
Todo mundo, todo mundo mesmo, já se iludiu em
algum aspecto da vida: amoroso, familiar, intelec-
tual...
Não há como curar as frustrações. E é difícil prevenir
que algo assim aconteça.
Mas o importante mesmo é que saibamos como
reagir. Como lidar com as frustrações da vida. É aí
que entra a leitura de Madame Bovary.
Emma é uma mulher frustrada com sua vida ente-
diante e seu casamento sem sal e sem encanto. Qual
a solução que ela busca?
Escapismo através de adultérios e romances
falsos. Esta é a mesma reação de muitas pessoas
que conheço: caem em pecado e cometem inúmeros
erros, pois não aguentaram a frustração. 
Qual o fim de Emma? A destruição da sua família e
da sua própria vida. Este é o resultado de qualquer
reação contra a realidade após uma frustração: total
destruição de tudo que existe.

61
Sua vida, sua família, sua alma, seus amigos, seu
intelecto. É isso que está em jogo se você se volta de
forma violenta contra a realidade.
Acredite: é muito melhor se curvar e agradecer que
agora você conhece a verdade, aceitando a coisa
como tal.
Não seja Emma Bovary.

Como você acordou hoje?


Há dias em que você acorda se sentindo mal. Sentin-
do-se um lixo. Sentindo-se um inseto.
Sempre em que estou num desses dias, lembro-me
do livro A Metamorfose, de Kafka. Muita gente se
pergunta: afinal, o que é aquela barata? 
Já vi diversas interpretações sobre. “É o simbo-
lismo da interpretação niilista da realidade”, “é a
representação da animalização do homem”...
Pode ser tudo isso, com certeza. São interpretações
plausíveis e coerentes, não as descarto. Mas penso
de maneira mais simples.
Assim como Dostoiévski no monólogo inicial de
Memórias do Subsolo (“Sou um homem doente...

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Um homem mal”), Kafka procurou representar o
estado interior de Samsa.
Penso que ele poderia dizer: Hoje estou me sentindo
um lixo, uma pessoa inútil, nojento como um inseto.
Mas o autor optou por uma metáfora indireta, um
simbolismo interno no romance.
A barata (ou besouro), em minha opinião, é a repre-
sentação do sentimento, do estado interior de Samsa
(que, por sinal, pronuncia-se “Zamza”, lembrando o
som de um inseto). Naquele dia, por conta das pres-
sões familiares, do trabalho e da vida infeliz, Gregor
acordou sentindo-se um inseto.
O que devemos aprender a partir da leitura de A
Metamorfose é que ao acordamos com o mesmo
sentimento do protagonista, não podemos seguir o
mesmo caminho dele.

Não fuja
É comum ouvir muita gente falando que a igno-
rância é uma benção.
Ao ouvir isto, não consigo me lembrar de nada além
do poema “A Máquina do Mundo”. Nos belíssimos
versos de Drummond (talvez os melhores em língua

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portuguesa), A Máquina se abre ao eu-lírico, procu-
rando revelar a “total explicação da vida”.
Mas o que recebe em troca? A recusa por conhecer
“esse nexo primeiro e singular” e a “estranha ordem
geométrica de tudo”.
Para o eu-lírico é preferível não desvendar a máquina
do mundo: a ignorância talvez seja muito melhor.
Há momentos na nossa vida em que a realidade nos
chama, abrindo-se completamente para nós, permi-
tindo que nós a entendamos. 
Estes momentos devem ser abraçados por nós com
toda força, com toda garra. Se é nosso objetivo ter
uma vida intelectual, ter uma vida onde a verdade
e a realidade são as coisas mais importantes, nunca
devemos nos afastar da máquina do mundo.
Talvez o maior problema do povo brasileiro, atual-
mente, é a recusa (e por vezes o ódio) ao conhe-
cimento. O resultado disso é um povo perdido,
vendado, sem futuro: cegos em um tiroteio.
Este erro não deve nunca ser repetido por nenhum
de nós. 
Não tenha medo. Não fuja.

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Domine a Linguagem, depois o mundo 
Ler o trabalho de conclusão de curso de um colega
e aluno, recentemente, me fez lembrar de uma cena
específica do romance Vidas Secas, de Graciliano
Ramos.
Na cena específica, Fabiano, um pobre sertanejo
retirante, tenta imitar a maneira de falar de Seu
Tomás, um rico da região.
O resultado é desastroso: várias expressões sem
sentido que não chegam a lugar nenhum, e que no
fim acabam sendo muito ridículas.
O acontecimento explica a falta de domínio de
Fabiano não só sobre a linguagem, mas também
sobre o mundo.
Até aquele ponto do romance, Fabiano é vítima das
circunstâncias e dá total valor às aparências (não à
toa tenta imitar o rico da região).
Mas, no fim do romance, há um ponto de virada:
Fabiano se revolta contra o Soldado Amarelo,
deixando de ser circunstância para se tornar causa.
Qual estratégia narrativa Graciliano utiliza nesta
cena? O monólogo interior. No exato momento
em que Fabiano torna-se causa, também consegue
expressar tudo o que sente e o que pensa.
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A mensagem de Graciliano é bem clara: sem o
domínio da linguagem, somos recém nascidos
perante a realidade.
Antes de dominar o mundo, domine a linguagem.

A necessidade da autoconsciência
Dostoiévski, em Crime e Castigo, explora muito
bem a decadência moral, espiritual e psicológica de
um indivíduo (Raskolnikov) que se sente um ser
superior.
A partir deste sentimento, Raslkonikov cai em um
pecado mortal: assassinar a agiota que o cobrava. 
Depois do ato, o jovem estudante sente uma
extrema culpa e acaba sofrendo a dor de ter come-
tido o pecado.
Mas como ele saiu desta situação? 
A partir do exercício da autoconsciência, da confissão
dos pecados. Foi lendo a bíblia, confessando o seu
pecado à Sonia e entregando-se que ele recuperou
a sua alma.
O exercício da autoconsciência não é unicamente
para quem mata e rouba. É para todos aqueles que

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procuram ter uma vida normal, saudável e espiri-
tualmente realizada.
É para qualquer um que não queira cometer um
pecado ou cair em culpa.
É, principalmente, para quem quer levar uma vida
intelectual.

Ser é dever ser


Vez ou outra me perguntam, aqui no Instituto Dom
Literário, sobre a vocação, mas nunca me sinto capaz
para opinar sobre isso.
A questão da vocação, para mim, sempre foi como
para Hamlet: Não é o que querem de mim, nem o
que eu quero de mim, mas o que eu devo ser.
Hamlet, apesar da dúvida e da dificuldade, no fim,
escolhe ser o que sempre foi: o rei. Decide, final-
mente, fazer justiça e tomar o que é verdadeira-
mente seu. 
Situação parecida acontece na nossa literatura:
Bentinho (ou Dom Casmurro) é atormentado pela
dúvida, mas o que ele escolhe no final? Destruir a
família, se afastar do filho, tenta se matar... Não tem
uma postura firme.
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Neste caso, sigo sempre Hamlet: por mais que as
coisas sejam difíceis, por mais que as dúvidas sejam
grandes, por mais que as pessoas não queiram que
eu faça, por mais que eu mesmo não queira fazer, o
que eu DEVO fazer? 

Acorde para a vida real


A Morte de Ivan Ilitch é, com certeza, uma das
maiores novelas da humanidade. A grande lição que
podemos absover daqueles personagens é que preci-
samos, urgentemente, acordar para a vida real.
Ivan Ilitch - assim como seus colegas de trabalho
- sempre deram um imenso valor ao maquinismo
burocrático: quem tem o cargo mais alto?, quem
ganha mais?, quem tem mais prestígio social?
A cena mais cruel é justamente a de abertura do
romance: ao saber da morte de Ivan Ilitch, seus
colegas de trabalho não esboçam nenhum senti-
mento de tristeza ou dor... na verdade comemoram:
algum deles será promovido ao antigo cargo de Ivan.
No fim da vida, Ivan percebe o quanto tudo aquilo
não valeu a pena: abandonado pela família e pelos
colegas, nem os cargos nem o prestígio o impediu
de morrer sozinho e de forma vergonhosa.
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Quando vejo os doutores universitários inflando os
peitos e empinando os narizes, os senadores e depu-
tados ajeitando os ternos, os concursados demons-
trando total desprezo por pessoas de empregos
menor, vejo Ivan Ilitch. 
Será que, no momento da morte, perceberão a vida
artificial, maquinizada e burocrática em que vivem?
Será que ainda encontrarão a verdade na existência?
É por isso que devemos nos despir sempre dessas
amarras falsas da vida. Precisamos reconhecer nossa
pequenez para que não sejamos como Ivan Ilitch.
Precisamos acordar para a vida real.

Como enxergar as pessoas segundo Dante


Uma das coisas que mais me impressionaram
na leitura da Divina Comédia foi a capacidade do
autor de perceber onde estaria cada pessoa que ele
conhecia: no Paraíso, no Purgatório ou no Inferno.
A cidade de Dante (Florença) é seu material de
trabalho: é a partir daquelas pessoas e das suas
histórias que o autor constrói sua magnífica obra,
colocando cada ser, hierarquicamente e metodica-
mente, em seu devido lugar.

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Isso mostra que Dante tinha uma coisa que há
muito tempo já se perdeu no espírito brasileiro: o
senso das proporções.
Todas as vezes que alguém é elogiado numa roda de
conversa surge um sujeitinho para dizer: “Ah, mas
esta pessoa tem tal defeito. Aquela outra pessoa tem
outro defeito. Fulano comete muitos erros. Ninguém
é perfeito...”
Quantas críticas - literárias ou cinematográficas -
já li em que autor elogia os personagens, pois não
há “ninguém bom nem ninguém mal, não há preto
no branco, há apenas tons de cinza.”
E assim corre nossa literatura, nosso cinema e nosso
imaginário: Não há ninguém bom nem ninguém
ruim, todos tem defeitos e qualidades.
Esta frase pode fazer sentido para quem nunca leu
a vida dos santos. Não conhece histórias de pessoas
realmente boas. Nunca leu Dante.
A consequência deste pensamento é a total desco-
nexão entre a ideia e a realidade e a confusão genera-
lizada na proporção das coisas: um corrupto assas-
sino é igual a um trabalhador que fura a fila do pão.
A literatura pode afundar ou erguer uma nação.
Depende da sua qualidade. Por isso devemos imedia-
70
tamente voltar a Dante, se ainda quisermos um
futuro, e passar a enxergar as pessoas como ele.
Algumas no Inferno e no Purgatório, sem dúvida.
Mas outras no mais alto Paraíso.

Onde mora a felicidade?


Esta pergunta é respondida por Flaubert, em Três
Contos. Num dos contos, Um Coração Simples - que
Otto Maria Carpeaux considera ser a obra prima do
francês -, o escritor nos mostra uma personagem
simples, humilde e cativante, mas que por isso
mesmo sofre. 
Nas primeiras linhas da novela, nos é revelada a
exploração sofrida pela protagonista: É dito que ela
ela passava, lavava, enxugava e cozinhava todos os
dias, mas ganhava muito pouco por isso. 
Pela repetição do tempo verbal no pretérito imper-
feito (gerando uma ideia de cotidiano, o que Othon
M. Garcia chama de “verbo de ladainha”) perce-
bemos que era algo comum na vida da personagem. 
Servir e não ganhar nada em troca. 
Qual o nome da personagem? Felicité. Ou Felici-
dade. 
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Flaubert nos mostra que a felicidade é servir, servir
e servir, mesmo que isso nos faça sofrer de algum
modo. Ajudar os outros. Ser útil. Ser um suporte da
vida humana. Assim se encontra a felicidade.
Este tipo de coisa dificilmente está presente na
nossa literatura. Muito menos no nosso imaginário.
Por isso é extremamente necessário que saibamos
ler os clássicos. 
Nele encontraremos as ferramentas para construir
nossa imaginação. Nossa servidão. Nossa felicidade.

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