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JEAN GUITTON

A ARTE
DE VIVER E PENSAR

EDIÇõES PAULINAS
TÍTULO ORIGINAL

APPRENDBE A VIVBE ET A PENSER


Libralrie Artlíêrne Fayard - Paris

Traducão d�: Daniel Innocentini

Direitos reservados à Pia. S'ociedade de São Paulo


Praca da Sê, 180 - CaiJ&<..Postal 8107 - SÃO PAULO
a meu fiel amigo
Jacques André
que dedica sua vida à ação
e q u e comigo concebeu e meditn�J.
êste livr0
CONVITE

Penso que todo homem que ultrapassou a


metade da vida, em cada ofício e em cada pro-­
fissão, dev.eria dizer, be:m baixinho, perante: qf,.
guns amigos, o que êle: recebeu de seus mestres e
o que a isto sua experiência lhe permitiu acres­
centa r. Dlf?:veria confiar suas reflexões sôbre seu
trabalho, n a medid.a do possível, fazer com que
o s outros tomassem parte� : em suas realizações.
Isto tr a ria ditos· as conseqüências, mesmo para a
vida da alma.
Em lugar de impor aos homens uma esp iri­
tualid. ad e qu e vem de fora e que não tem liga ..
ção íntima com seu trabalho, dever-se-ia faz er
emergir o Espírito da obra de .su as mãos. O que
admi·ro nas Geórgicas, é precisamente que a poe­
sia, a moral, o conselho procedem da aplicação
em aperfeiçoar o es[ôrço do vinhateiro, do tra­
ba.lh ado·r pobre. Virgílio ensinou... me a observar
o homem traba.!hando nas tarefas mais ordinã..
rias na aparência, como também o Ev angelho a
isto convida: eu observava o camponês durante o
descanso de verão. Voltando à cidade, eu ia ver

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o tecelão. Contemplava-o unindo os dois fios
contrários para compor o tecido. �sse trabalho
sempre me pareceu o símbolo do trabalho inte-­
lectual, ondz se encontra igualmente uma cor-�
rente .e uma trama a unir. Gostava de ler em
Charles Louis-Philippe a página que descreve a
oficina de se'U pai, tamanqueiro, na qual nomeia
suas ferramentas: a enxó, o remete, a colher, a
faca, a lima .
. Oper�rio do pensamento, eu penso: também
tenho os mzns instrumentos. Tenho mesmo cer.
tas peças que não confio, que são talvez impos­
síveis de transmitir. Creio que a tarefa do inte-­
lectual, como o pensavam La Bruyere e foubert,
é uma profissão de homem, com esta diferença
que ninguém depois da Esco.!a rudimentar jamais
no-la e� sina. Mesmo se por acidente alguém
nos der certas regras, como é raro perceber o
espírito contido nessas regras!
De r.esto, a vida de cada dia, com suas ale­
grias, seus saérl.f!CiÕs- -�- su�· - -��notoni�: ---é . uma
.

profissão cuja matéria é o tempo. A profi���o


e a existência são para mim os dois momentos
de uma mesma.. respiração.
Tenho a idéia de que existem, espalhados
pelo vasto mundo, sobretudo entre camponeses e
operários, e também entre artistas, industriais e
militares, homens que amam seu ofício com pai­
xão e que nêle encon�ram o alimento para sua
alma. Farmam, na. superfície da tenra, uma co--
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mo ordem, no sentido treligioso do têrmo, que,
sem usar hábito nem dizer orações especiais, faz
por assim dizer uma profissão em sua profissão.
E mister vem de uma palavra que também quer
dizer ministério. 2 a êsses desconhecidos que
me dirijo. Desejari.a dizer�lhes o que em minha
profissão, situada no limiar do pensamento e da
ação, p8lreceu�me capaz de iluminar tôdas as
outras tarefas.
� Entre os aforismos de Nietzsche, um há que
deveria ser gravado e:m letras de fogo, em todos
os lugares sagrados em que um estudante pas sar
a noite a estudar, a saber: "As rzerdades mais
[lre'Ciosas são aque{.g.§. . que se descabrw pQt:_tJl:
_tj.J]Js); ;was as rzerdade.s mai-s�pre-'Gi�a.s�.são_._as_ m�
..

_tC?CL_q_i_�. Tenho interrogado muitas vêzes ho�


mens e mulheres que eu tinha n.a conta de metó�
dicos, isto é, �ue me pareciam obter bons re.�
.sultados com ,esforços limitados. Na maioria das
vêzes eram pessoas que tinham sido, num certo
momento da vida, impedidas pela doença ou por
uma persistente sensação de· esgotamento e de
fadiga, ou ainda que estavam sobrecarregadas de
negócios e que tinham sido obrigadas a dispor
do tempo com avareza.
2 notável que aquêles que nunca foram
doentes, os que têm uma saúde quase que exces�
siva, não são metódicos e desperdiçam seu tem�
po, matéria insubstituível. Penso em Darwin,
que t anto escreveu e tanto descobriu, que não
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podia trabalhar senão duas horas pela manhã,
que, depois de haver ditado dwrante dez minutos,
dizia a seu filho: é o suficiente. 2 bom que o
tempo que nos é dado para produzir seja pouco,
que sej.a tão precioso quanto esta existência su­
blime e tão precária, a qual não n·os é dada se­
não uma vez.
Êste tempo, porque é curto, dev.e ser plena...
mente utilizado. Mais o tempo é furtivo e fugaz,
mais nós devemos fazê,...[o exalar be-leza. e bon....
dade. Se nos fôssem oferecidas apenas cinco
horas de vida, como seria imprescindível ter mé­
todo para fazê......!as florir! fv!ais nós t!!:f:!l�?r:élta.....
mos o tempo passado, mais tem valor o tempo
que sobra. E mais devemos fazer produzir êste
pequ,eno resto sobre!carregando....o de esfôrço e de
amor, com a mais doce eficácia.
O método situa....se nest.e ponto. ª---�-_art� cf.e ___

obter o máximo de resultados com o mínimo d_e


apÚ�ação. É a arte dessa preguiça razoável e
suprema: a economia, a prudência, a imitação da
natureza que proporCiona a caUsa ao efe,ito, que
obtém êste luxo disperso nas coisas, como dizia
Leibnitz, minimo sumptu, "com a meno'r despesa,.
Vivo em pleno século XX, era da velocida­
de, da agitação e da gr.ande fadiga nervosa de
todos. Após duas grandes guerras e na angústia,
não se pode arg_umentar e aconselhar a êste mun...
do �dfzturbatlêl,�" como se fazia no plácido século
XIX. O dia de ontem está mrzito longe. A bom...

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ba de Hiroshima, quando caía pela primeira v.ez.
dizem�nos, está hoje tão afastada de nós quanto
a idade do fetrro. O tempo torna-se mais e mais
precipitado. A cultura, no sentido antigo e r,es­
trito do têrmo, aquela que exigia paciência, len...
tidão e duração, torna�se quase impossível. De...
vemos nos acomodar com o que temos e com o
que nos falta. Quando se dispõe de pouco, é a
êste pouco que se deve empr.egar, e do modo mais
hábil. Contando as horas út·eis de um dia do
homem moderno, das quais se descontassem o
sono, a higiene, as ida s e vindas, os deveres, per...
cebe-se que sobra pouco tempo par.a o traba..!h o do
espírito, mesmo no que a êle se consagra: en...
tendo por trabalho radical, distinto da ocupação,
aquêle que mobiliza nossas profundezas. Mas o
valor do espírito não se reduz tanto à sua memó­
ria (os dicionários estão ao alcance da mão)
quanto à aquisição de hábitos vivos que lhe per,..
mitam .adaptar seus princípios à singularidade
dos casos sempre novos e, inVtersamente.. a dis...
cernir que suprimento de idéias pod,e tirar do que
é oferecido e!'los aca\Sos da vida e da experiência.
... \ }\
.X
l-"'icontece�u-me, por i"'
vêzes, ;;'-confiar minhas ob...
- ·-

servações sôbre a arte de pensar. Surpreendi,..


-me ao ver que elas ajudavam sobretudo àqueles
que se preparavam par.a a ação, nos campos de
prisioneiJros, nos acampamentos de jovens, jun,..
to aos industriais, ou melhor ainda, na Escola
d.e Guerra. J Foi entre os jovens dirigentes que

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encontrei amigos, mais que entre os futuros pro­
fessôres. Isto se deve ao fato de que muitC?s in­
telectuais pensayam dirnin�ir seu gênio pre�­
cup.ando-se ��m mé.todos. Tamb{m é. aevidâ a
.

que a forma dê--pensamento que eu propunha era


técnica, operadora, visando a eficácia; era um
pensamento orientado para a ação, na sentido
mais ef.evado da palavra.
Gosto de ressaltar os parentescos do pensa­
mento e da ação, segundo a tradição de Descar­
tes. Churchil.!, tendo decidido consagrar sua vi­
da à pintura a óleo, dizia que a pintura exige
as qualidades do estrategista: aquela longa pre...
meditação dos golpes postos num instante, as vis.­
tas de conjunto que exigem o sentido das pro­
porções, os felizes acasos utilizados imediatamen­
te, o s fracassos repetidos ou encobertos, para
terminar por esta justaposição de côre. s que se
chama um quadro e com o qual nos declar.amos
satisfeitos. No fundo, tudo é estrategia, como
ensinam ·em nossos dias o s economistas, como o
havia pressentido Xenofonte, igual admirador de
Sócrates e de Ciro.
O leitor logo se aperceberá de que esta obra
tem dois objetivos conjuntos: o primeiro é sim­
plificar o trabalho, quer dizer, diminuir o esfôr...
ço humano naquilo em que êste se perde como
dispêndio inútil, a fim de o concentrar no essen­
cial. Pa.r.oce--me que de todos os processos para
reduzir o sacrifício, êsse é o mais conforme às leis
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eternas. tempo, a eco,..
ii o aproveitamento do
nomia de fôrças a obra de paz con sigo e com
,

se1u trabalho que é preciso refa�er cada dia, por...


que o espírito é perdulário.
Mas ao mesmo tempo em que deprimo o mé...
todo até buscar os artifícios que o facilitam, que..,
remos também enobrecer o trabalho do espírito,
guiando o para as alturas e até às profundezas
,. .

Que todo o pensamento se encontlre no meno·r


trabalho intel ectual! Que no menor esfôrço da
vontade esteja pr.esente todo o mor! Em outras
a

palavras, quero que o trabalho do homem seja


conforme a tudo o que está no homem: que se
limite o mais possível que se faça com o maior
,

desem b araço e facilidade, mas também que se


eleve e se dilate, que se sublime, que. respire num
imenso horizonte, .- do mesmo modo que o alpi-­
nista concentra suas fôrças na única pedra pre-­
sente, lançando, porém, um olhar para as altura s
que o a traem A verdade, que é o pão do esp�,..
.

rito, ê.!e deveria fazê...la penetrar com uma suavi-­


dade imperiosa até na substância cotidiana
d a vida .

É por i sso que êste livro de método é tam-­


bém um livro de moral. Quis propor uma regra
de esfôrço e de facilidade sem dissipação, de ha...
bilidade sem arrogância. Pensar, agir, é ir até_
o mais alto de si mesmo.
-- �---- ----
Entre as máximas, gosto da que propunha
-=

R. L. G. Irving a seu discípulo Mallory, o he--

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rói do Everest: Solvitur in excelsis, a solução
está nas alturas. Se ficassem em seu vale, os
especialistas se isolariam, se ignor;:r,ria m, se des­
conheceriam. Mas se cada um subir para seu
cume, todos verifica rão que habitam a mesma ter­
ra e qu e seu trabalho é parecido. Nossa época
sofre da divisão excessiva dos trabalhos huma­
nos, em pa rticular da oposição tão dep.!orável en­
tre o pensamento e a ação. As reflexões que
compõem êste livrinho têm por objeto ajudar o
homem mode·rno a unificar-se.
Saint�Saphorin , 15 de agôsto de 1955.

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A ARTE DE VIVER
E PENSAR
CAPÍTULO I

CONSIDERAÇõES SôBRE OS
MÉTODOS DE TRABALHO

Jamais considerei minha


ação e todo meu trabalho
senão simbõlicamente, ·e
me foi bastante indi/e1·ente
saber se en fazia potes ou
pratos.

GOETHE

· A pessoa que trabalha :1ão gosta de ser vis-­


ta: sem dúvida, ela tem razão de se esconder
nestes gestos que a revelam e que tanto sofreu
I?ara aprender. C::.ada um de nós é um turbilhão:
traga êle consigo grãos de areia ou de ouro, é a
mesma figura inconstante. O acaso, o costume
ou a escolha impelem o homem a uma profissão

e, n2ssa profissão, a tal maneira de fazer ou de


melhor fazer. �/Ias não seria bom ver--se sob
uma outra face, dizer--se: "Se eu fôsse oleiro,
como procederia? Se eu fôsse chefe de Estado,
como governaria?" Isto, para salvar em si o ho-­
mem universal. Somos muito menos diferentes
<• ·- -.... �......._._,__• .rr,. ••

'' '' "'� •••• •., •••• ••••• • �-···�-......-.--..�--'"'•- -·••• '•< ·h-•" ..

do que pensamos. O camponês ou o advogado,


1-;;,�bÚÍ;;d��- ��m� artilheiros, surpreendem--se de
tão fàcilme:J.te aprender e poder. Em suma, as
profissões valem pelQ espírito e pela ordem inte..-
17
2 - AJH'enàcr a viver . . •
rior que se põem nelas e em si mesmo. E os ame­
ricanós têm razão de pensar que se pode mudar
o tipo de existência. Muitas vêzes, nascer aos
quarenta anos, entregar-se ao trabalho aos ses­
senta e acabar na escola :
To find out what you cannot do
And then to go and do it,
There Ues the golden rule.
Os que viveram nos .. maquis", :1as pnsoes,
na imigração, no exílio, conheceram à fôrça ês­
tes períodos de renascimento. Um dos primei­
ros caracteres dêsses estado s de privação é que
nêles se carece d e tudo o que vos parecia até
então como muito necessário;? vê-se reduzido à
- . .

atenção, à memória, a raros colóquios. O que


leva a pensar que os livros não são indispensá­
veis, que um pequeno número deve bastar. Eu
o sabia porque vi como vivia M. Pouget, um pen­
sador cego. Nossa çiviliz:a,ç�� .·s..�I?e.r§?!U.J:_ªd-ª--de
conhecimentos oferece ta:1tas máscaras , ap ��ên·
cias de sabedoria, . falsos esteios, que o homem
moderno não mais sabe discernir o que sabe e
o que ignora. A prova de que se sabe alguma
coisa, diz Aristóteles, é que se pode ensiná-la.
Tenho medido, na ausência de livros e de ano...
tações, quanto o s sábios sabem pouco: mas êste
pouco, quando retirado de seu interior, êles o
ensinavam bem.
O primeiro inverno foi sem ca:1eta nem tin...

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ta . Pouco papel e nem uma mesa calma. sem
um lugar de tranqüilidade, mas sempre o vaivém
da casa: em suma, êsse trabalho numa cozinha. a
que tantos futuros gênios foram constrangidos em
suas infâncias, o caderno no meio da louça, a
atenção obrigada a emergir fora dos ruídos.
, A existência cativa punha à pr,ova os diver...
sos gêneros de cultura adquiridos nas Escolas.
Aí estão home:J.s de vinte a cinqüenta anos, en...
velhecidos à fôrça e aquinhoados com êste. bem
que os homens procuram àvidamente � quas e nun ...
ca encontram: o ócio. Um dia inteiro sem ocupa...
,_., ._....

ção, e que êles pudessem consagrar à própria


instrução s e o quisessem! Cada nação se carac...
teriza pelo que .. ela. reconstitui mais fàcilmente.
Os inglêses. é um clube; o s poloneses, é uma
armada ou seu núcleo; os russos, é um povo; os
muçulmanos, um local para a prece . Para nós,
o que emergia do solo era um embrião de Uni...
versidade. Tão gra!1de é a fome, dêste povo
francês. do saber metódico.
Seria útil considerar o trabalho artístico : os
estudantes o ignoram. E a razão disso é que a
pedagogia consiste precisamente em destruir na
criança o gôsto de um trabalho semelhante: ao
jôgo, aparentemente desordenado, para lhe ensi�
nar as horas, as regras, os bons hábitos. Quan...
do se cheg � à idade adulta , é bom saber que há
muitas outras maneiras de trabalhar além claque....
la das aulas e da mocidade.

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Os pintores e os arquitetos ocupam no cam­
po um lugar pitoresco : um lavadouro tra."Isfor­
mado em sala de trabalho e pintado de frescos.
Lembro-me de que aí se via Afrodite nascer da
espuma e várias outras proezas. A tina havia
sido coberta e transformada numa grande mesa,
favorável aos arquitetos . Admirava seu traba­
lho, que tão bem explica o que seja a obra con�
junta da vontade e do espírito, nêle sempre tão
prox1mas. É impossível .fazer obra de arquiteto
sem querer com tôdas as fôrças urna hipótese,
a qual tem suas grandezas, suas facilidades, mas
também suas deficiências irremediáveis. A · de�
cisão de fazer também é um sacrifício: porque não
se pode querer tudo de urna vez e, se se precisa
evidenciar a fachada, será preciso sacrificar os
fundos. O "partido" do arquiteto encontra�se em
outros domínios da existência : querer em tôdas
as coisas é também não querer. É aceitar ser�
vidões e limites, sem o que não existe ação hu�
mana. A catedral de Notre�Dame é um partido
escolhido por urna vontade judiciosa entre um
grande número de soluções igualmente possíveis.
Urna outra característica dos artistas é que
êles não podem trabalhar senão na febre do últi�
mo momento; só a pressa os obriga a dar o
acabamento. Se não tivessem que "produzir um
projeto", creio que sempre seriam indolentes.
Mas, detendo a inspiração, desenvolvendo o par�
tido uma vez tomado, o arquiteto traduz em fô�

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lhas brancas, úmidas de aquarela, com medidas
exatas, as proporções que orientarão o emprei...
teiro e de onde surgirá a obra em três dimen...
sões, capaz de resistir ao uso e à deterioração,
vistosamente bonita em cada um de seus aspec...
tos. Todos deveríamos, dizia, imitar êsses artis...
tas sólidos e jamais nos conte:::1tar com pro...
jetos indistintos, mas impelir os nossos a decisões
bem precisas. E o aluno deveria compor uma re ...
produção muito sua, com uma acentuação e uma
pontuação bdiscutíveis; e o escritor deveria publi...
car, isto é, deixar�se ver de lado e de costas. :e
verdade que o arquitcto e o homem de guerra são
constrangidos a esta expenencia, pois que sem
esta última perfeição, o combate cede, a casa rui
por terra.
Isto m e leva a falar dos ateres, como o cam...
po os nutria tanto, desconhecidos e sublimes.
Mas êles tinham outras qualidades, que fre ...
qüentemente faltam aos profissionais: o conheci ...
mento dos costumes do mundo obtidos por h e ...
rança, a cultura, o tempo inteirinho à sua dispo�
sição, a vida monacal, o sofrimento, o desejo de
ajudar e não o de se fazer um nome, uma apli...
cação total e durante meses à sua função. Isso
lhes dava por acréscimo a base da arte dramá...
tica, que não consiste no impeto, mas que é uma
faculdade de simpatizar músculos, espírito e c�
ração com a condição dêste ser fictício, em que se
encarna uma só noite. Havia lido que Mo ...

21
liere e Shakespeare deviam uma parte de seu gê�
pio ao que êles tinham vivido em companhia de
seus atores, que haviam produzido sua obra em
meio a dificuldades, no fervor e na pressa, en�
·saiando primeiro diante do povo as palavras de
seus personagens. Era preciso viver na família�
ridade de uma "troupe", que era uma amizade
conventual (::Ia pobreza, no isolamento e na des�
preocupação do sucesso ) ' para compreender que
escola de proteção, de amor e de arte constitui
êsse gênero de existência. Porque não se trata�
va de funcionar num teatro já existente , mas de
fabricar êsse teatro com pranchas ruins, de com.­
por os cenários e as vestes apenas com retalhos
e farrapos, de repetir os papéis logo após haver

engulido qualquer coisa, e depois fazer compre...


ender a auditórios exigentes, não a s facilidades
de uma peça agradável, mas as obscuridades de
uma peça clássica ou simbólica, como a Noite de
Reis, Santa Joana ou o Anúncio. Observando
trabalhar êsses que compreendiam um arquiteto,
um soldado, um padre e vários outros, eu via co.­
mo esta arte primordial da comédia, originária da
dansa sagrada, enfeixa muitas outras artes, e que
não existe melhor exercício para aperfeiçoar a
memória, êsse nervo da inteligência, para entre-­
laçar o espíritc com o corpo, para obter um tra-­
balho pleno , realizado, todavia, numa espécie de
gôzo. Achava que o espírito de um tal trabalho
deveria poder se transpor para qualquer lugar.

22
O trabalho é facilitado quando feito em equipe.
cada um escapando, pois, à angústia, ao orgulho
da solidão e aproveitando do trabalho dos outros.
Mas eu observava também , comparando as
diversas "troupes" dêstes campos, que algumas
não tinham se:1ão a aparência de companhia, co­
mo muitas sociedades dêste mundo, porque os
atores nada mais eram que os autômatos de um
encenador ou comparsas em tôrno de uma ve­
deta: era então um negócio , não um amor. Nes­
te último caso, todos se eclipsavam diante da
peça e nem mesmo se sabiam os nomes dos
atores.
Seria necessário restaurar, o quanto mais
possível, essas equipes de trabalho em comum.
Não temos o suficient e cuidado de ensinar as
cria:1ças a trabalhar em conjunto sôbre um cen­
tro de interêsse judiciosamente escolhido. É de
s�. P.C?�él:r então que .�-- .él.�rogâ.nc:ia pn)pria. do ser, ..
' - -- _.
humano . �� b�vês _ de se d�diçar .. � tarefa pessoal,
interessa-se pela obra comum, e que �le saboreie
uma alegria das melhor es, sem a rabugenta im­
pressão da superioridade, que vos isola. Tra­
balho de equipe, onde encontram apoio uns nos
outros e onde acontece, como em tôda associa­
ção, que um veja o que se deve fazer e que outro
o faça: a cada um o seu papel.
O "estábulo" do Conselho de Estado ocupa­
va um lugar a:1álogo àquele dos artistas e foi trans..
formado :1uma grande mesa. O que levava a

23
pensar que o primeiro instrumento de trabalho
(seja de arquiteto, de estrategista ou de diplo�
mata ) , é uma mesa onde se possa mostrar�se. o�
concursos que permitem ter acesso aos cargos
públicos sempre serão iguais: nêles menos se exi­
gem vastos conhecimentos que uma certa arte
de deslindar com grande rapidez uma questão
complexa, de a expor com clareza, com calor, de
estar e parecer convencido do que se acaba de
improvisar, dando a impressão de o haver medi­
tado uma vida inteira: mima palavra, uma vasta
e profunda experiência numa idade em que é
impossível possuí�la. É a lei de todos os :1ossos
concursos.
E pode ser qu e êste seja um bom método
de forçar o espírito a se antecipar, de igualar-se
ao que desejaria ser, desempenhando�o de an�
temão. Felizmente, encontraríamos nest e círculo
áulico certos traços de nosso pendor romano, em
transformar problemas de fundo em problemas de
forma. Gide disse que o fundo era uma forma
impura: é verdade, a menos que os erros de for­
ma sejam mais bem vistos e que todos estejam con­
cordes com isso. Nos exercícios de futuros di­
plomata s eu notava o uso da alusão, esta figura
tão útil à prosa, quanto <:1 metáfora à poesia. A
medida em que o :J.ível de atividade humana se
eleva (do engenheiro ao homem de Estado, por
exemplo ) , a extensão, a densidade, e a sutilidade
da alusão aumentam.

24
A conv1vencia com militares poderia também
ensinar ós trabalhadores do espírito.
Não falarei dos métodos de trabalho, sem ..
pr e práticos nos exércitos, eficientes, sumários e
que testemunham o cuidado de moldar os espí­
ritos num mesmo modêlo, para que cada um possa
imediatamente ser substituído. Por um só estra...
tegista, ao qual o gênio é útil , o resto de um exér,..
cito realiza. Isto implica a sujeição de todos a
uma atitude impessoal, que eleva os medíocres e
que desfaz as diferenças. O exército é uma es...
cola de pensamento coletivo, mas favorável ao
pensame::1to pela alternativa da mais viva ação
e de lazeres absolutos, pelo encontro do perigo,
do imprevisível e dos acasos, pela diversidade
das funções. É uma existência livre onde a ima...
ginação, refreada em muitos pontos pela discipli...
na, tem inteira liberd2de para dilatar...se em .mui ..
tos sonhos, onde a seriedade se nutre na indo ..
lência, como acontece àquele que ignora o dia
de amanhã, que se decidiu pelo pior e que sabe
com antecedência que não falhará. E nisto, a
carreira militar é uma imagem do trabalho in,..
telectual : ta::J.to neste como naquele o segrêdo é,
creio eu, obrigar...se a evitar certas aplicações
precisas mas abandonar...se no campo, estabelecer
para si direções nítidas , mas descontar os riscos.
A desvantagem das vocações intelectuais é
que a.:; fa!�.as que nelas se cometem não reper...
cutem nem no vosso coração, nem na vossa hon ...

25
ra; freqüentemente mesmo, são estas faltas que
vos dão a glória.
"N_�� J2!91!.�.§�§ 4.� nuro espírjt.Q g.erªI!E-�.n.Je
.. ... . .. __ __ _

ngs enquadramos sem perigo. E tenho muitas


vêzes pensado que aquilo que muitos saboreiam
na liberdade de opinião { a certeza de �ão pre...
cisar responder pelos pensamentos na carne. É
verdade que a situação poderá mudar; então, o
trabalho do espírito far..:nos-á lembrar que há se...
.
melhança entre a pena e a espada. Neste espí,..
rito, o velho Renan desejava que o estado de
marinheiro torpedeador se tornasse a profissão
dos grandes idealistas "aos quai s se daria, dizia
êle, o meio de sonhar tranqüilamente neste mun...
do, sob a condição de o s engajar nas horas he...
róicas com quatro ou cinco oportunidades de não
mais voltar". Encontra...se nessas considerações
o princípio da ·:10breza: os que tinham a vanta...
gem de ser duques, mantinham...na com a condi ...
ção de que seu sangue estivess e sempre à dis...
posição do rei�
É surpreendente, quando se convive com os
monges, os padres, os oficiais, ver a extrema H...
herdade de seus pensamentos sôbre o que, não
obstante , êles fazem profissão de respeitar. JAo
contrário, um puro intelectual quase não sabe
.
criticar sem desrespeito. Qua:1do se fêz um vo...
to , tem... se mai s facilidade para �otar, com um
coração impardal e calmo, o que falta à causa.
Eu via também trabalhar o médico, ·o cirur...

26
. gião, que se acham tão à parte. O médico é u'a
mão que pensa, e o cirurgião ainda mais. E a
encarnação do espírito nos órgãos nêles é leva.­
da até às fronteiras de seu corpo, pois que em
seus órgãos, prolongados de aparelhos , êles fa..
zem passar o pensamento, que se isola em mim
sem aplicação. O médico entra em relação com
a pessoa individual, feita de um corpo e de um
espírito indivisivelmente amalgamados no ato de
sofrer. É ainda a imagem e o modêlo de um
pensamento qu e quer ir até o fim de sua obra e
que se instala, para isto, ::::1as junturas dos sêres.
Havia também nesta multidão, os solitários ,
os que de ordinário se escondem para produzir,
como o animal esconde suas mudas e o tempo de
seus amôres; e eu queria dizer também minhas in..­
discrições. Porque os costumes dos solitários são
diferentes. Uns desejam uma atmosfera super..­
povoada de livros, de documentos e de uma de..­
sordem diante da qual sua inspiração, como dizia
Hugo, "põe..-se de cócoras". E outros sentem,
ao contrário, a necessidade de uma ordem feita
de ausência e de vazio, tendo consigo ape::::1as o
necessano . Para alguns é preciso um pequeno
móvel, exíguo, monástico, e um espetáculo in..­
significante, que os projeta para o seu interior.
E outros, ao contrário, aspiram ao espaço aberto.
Disp�r a gruta, escolher uma peça tal que tudo
nela sej a calma e incitação. Se esta peça fôr or...
. ganizada no luxo, que êsse luxo seja sóbrio. Se

27
na pobreza, que seja uma pobreza carregada de
símbolos. "Não tolero nada junto a ti, dizia Rus­
kb, que não te seja útil ou que não aches belo".
.
Esta regra aplicada a uma sala de trabalho acon­
selha muitas supressões.
É bom saber de onde vem a luz. Os raios
oblíquos da tard e podem ter mais virtude, ou a
luz da manhã, ou a que filtra no verão através
das cortinas. O mesmo dar�se-á com a lâmpada,
e sobretudo com o quebra�luz, que cria uma
zona de claridade, cuj à disposição podepse tam­
bém escolher. O trabalho do espírito é tão mis-
:. �. .
. .

terioso porque o espírito em nós é mulher. J a-


mais se sabe o que lhe agrada.
Importa também que se distingam, dizia�me
o Solitário, as fases de repouso da preparação e
da execução. Não nos deveríamos satisfazer com
êste vago trabalho com que se contentam os alup
nos e os burocratas. O manual de instrução fí­
sica, disciplina em que se é obrigado a agir sà�
biamente, diz que o monitor deve ou exigir um
esfôrço continuado ou pôr seu pessoal em com.­
pleto repouso. "Não há situação intermediária".
A regra áurea do trabalho intelectual pode
traduzir-se assim: "Não tolere nem o meioptra.­
balho, nem o meio-repouso . Entrega.-te inteiro ou
detém-te de uma vez. Que jamais haja em ti mis.­
tura dos gêneros!"
Isto condena muitas de nossas condutas. En­
trai' num colégio europeu, no quarto de um es-

28
tudante, no escritório de um administrador : qua..­
�c sempre yerei� esta regra violada. As aulas
enfadonhas, a caserna nem fria nem que:1te, as
horas de presença, tudo contribui para vos ensinar
êste meio�trabalho que dilui a substância do tem�
po e não dá alegria nem no esfôrço nem no re­
pouso. Pobre espécie pensante!
Alguns se deixam resvalar para a doença, a
fim de evitar atos de verdadeira paciência ou de
coragem. Do mesmo modo, há também os que
se escondem atrás de um paravento de fadiga
para evitar a aplicação que lhes é odiosa ou o re­
pouso que os poria em face de si mesmos. "Te...­
nho muito o que fazer". "Durmo apenas seis
horas ... " Como seria mais bonito ouvir : "En..­
co:J.tro minha alegria na obra de minhas mãos",
"Estou de folga!" Seria p reciso �ntão �istinguir
_ ·
o traJ:>alho despreocupado, ·-que é u l11 a ocupação
da qu2l a intimidade do espírito pode se distrair,
do trabalho aplicado, em que há uma doação de
si mesmo. "O pouco que podemos,· façamo..-lo de
coração", dizia Santa '!$.!.::.�.? de Ávila. A apli­
cação, que cpmp_or�a alegria e. sofrimento entre..­
laçados, como qualquer dom total do. ser, sõ...­
mente ela deveria merecer o duro nome de tra�
balbo. O -·· tempo do verdadeiro trabalho é curto.
Par� ce q; ; Fi� ub� rt � u Zola péls savam horas in...­
tciras à sua mesa, mas isto não era mais que um
vago e perspicaz devaneio, visando a escolha da
melhor palavra ou da melhor intriga. Não cha-

29
memos de esfõrço o que não passa de caricatura,
esbôço ou preparação. Acender vela ainda não
é dizer a missa.
D everíamos nos esforçar por procurar quais
"' .
são as ho-l'as reais, aquelas em que a atenção se
acha :::J.Um estado de lucidez, de penetração , de
_
coincidência com a parte mais viva do ego. De,..
terminar _ç�tªª·--horªê._ de P?..Z.: _é:ltiv_a, sell., número,
-
��- _4 !1�ç ão_ , ..s.�u. ritm� _--� --�11a r�petição �- -cf�ppis
_

fazgr girar nossq . trabalho em tôrn<:>. cl,.ela_s. J a,..


.,.
mais aceitar que ��s�úiS libras nos deixemos levar
por êste mundo fútil. Revolucionar nosso horá,..
rio ( levantando,..nos às seis horas, ou então dei,..
tando..-nos à meia..-:::wite) a fim de fazer girar
nosso trabalho em volta dos tempos sagrados e
:Ião êsses tempos ao redor de nosso trabalho.
Seríamos sábio s se dispuséssemos de nosso tem,..
po, o qu e ,...... infelizmente! ,...... é tão raro. Mas o
espírito dêsse programa pode ser conservado em
tudo. E para evitar a fadiga, deve,..s e determi-­
nar suas horas de refrigério, ocupá,..Ias naquilo
que é mais urgente, mais penoso ou mais santa...
mente agradável, dar,..l hes êste maná do homem
que se chama "seu possív�l", e deixar o resto
ao Senhor, o único que sabe suprir e dar o aca,..
bamento.
Sôbre êste ponto, confiava,..me ainda o Solitá-­
rio, os caracteres são diversos. Alguns trabalham
melhor pela manhã: leva:ltam--se ao amanhecer
ou antes ainda. Para o antigo moralista era

30
uma regra sem exceção trabalhar com denôdo
nas primeiras horas do dia; as ordens religiosas
conservaram... na. Mas na vida moderna, onde tu...
do começa tarde, é bem difícil deitar... se ao anoi...
tecer: são as vigílias que oferecem mais confõr...
to, solidão e mistério. Isto implica um acordar
tardio, após o grande intervalo da noite que
reanima.
Além disso, os temperamentos :1ervosos, que·
cada vez mais aumentam neste mundo, muitas
vêzes não encontram o verdadeiro sono senão de
madrugada e suas manhãs são pesadas porque
o reentrosamento do espírito com o corpo nêles
se processa com lentidão.
Sei de quem não pode trabalhar um quarto
de hora sem parar. Após vinte minutos tudo se
embaralha, muitas vêzes, em seu espírito can ...
sado e que trabalha, então contra si mesmo.
Mas aquêle que não pudesse prestar atenção a
não ser por dez minutos, como Montaigne, que
tinha o espírito de inspiração viva ( o que eu não
vejo logo de início, dizia êle, muito menos o ve...
jo na obstinação), êsse poderia ainda fazer mui...
to se renovasse seu esfôrço como os remadores
que repousam um instante após uma remada. O
que importa é conhecer... se e aceitar... se. É ter
so:::1dado seu poder, é saber o grau de sua aten ...
ção, os momentos do dia em que ela está no apo...
geu, os momentos em que ela cessa e em que
deve se refazer. Esta curva de nossa duração

31
íntima deveria se nos fazer presente como as
informações da tôrre meteorológica se fazem pre�
sentes ao pilôto transoceânico.
Acontecia�me, por vêzes, receber amadores
(oficiais, engenheiros, patrões) que, nada tendo
a fazer, exercitavam�se nas letras. E, crendo�
�me vagamente compete:1te, mostravam�me, com
vergonha e orgulho, seus ensaios.
Logo meu espírito de ·professor se sensibili­
zava com uma não sei que falta, com imperícias,
com essa facilidade que é tão difícil de atingir.
Corot dizia de um quadro no qual gastara para
fazer um segundo e tôda sua vida. E depois
uma voz pérfida vos murmura: "Êste noviço, ês�
te homem dos domingos, poderia obter o que me
custou tantas vig1lias!" IVIas que dizer ao ama�
dor que ouve vosso veredito em silêncio, sobre�
tudo quando nêle se discerne um dom que ficou
inexplorado por falta de meios, quando em seu
olhar calmo, temeroso e febril se surpreende o
sentime::1to que êle aproxima da verdade ou da
beleza? Eu supunha que, num outro domínio,
também eu, algum dia talvez, seria um amador,
batendo à porta do artista com meu cartão ver�
gonhoso. Via�me apresenta!ldo diante do co�
zinheiro�chefe êste guisado qu e eu preparara sô�
zinho, ou propondo a um místico minhas pobres
preces de homem. Então eu dizia ao amador que
êle tinha feito un s erros aqui e ali, mas qu e seu
texto permanecia válido.

32.
Em filosofia, Maine de Biran era um ama�
dor: desta época só êle subsiste. E Pasteur era
um químico que em algumas horas se dedicava
à biologia. E Louis de Broglie era um estudioso
da história, a quem seu irmão Maurício biciou
nas pesquisas físicas .
E depois se/,diz ainda qu? p amador não
- -
__ ____

�g_!!! __r�fãõ:e---rií � er � ª·lll·a.:irt�. que esta palavra


amªgQ_L--0-. _d ç_� C()·}J.r.(-- seu êrro nã'a é amar, mas
amar somente por amar e não ter ido até o voto,
até a consagração.
·No fundo, entretanto, necessàriamente fo�
mos amadores, antes de amar. Um artista come�
çou por aí, antes de tudo abandonar para seguir
seu próprio caminho. O verdadeiro itinerário a
seguir nestes domínios é o que Rainer Maria Ril�
ke propunha a Kappus, aquêle tímido oficial aus�
tríaco que em 1903 lhe enviara uns versos : "Vós
que perguntais se vossos versos são bons. En�
viai�os às revistas. DoraN"ante ( já que me per...
mitistes aconselhar�vos) peço�vos renunciar a
tudo isto. Vosso olhar está voltado para fora; é
isto sobretudo que agora não deveis fazer . Nin�
guém vos pode levar conselho ou ajuda, :1in�
guém. Há um só caminho. Entrai em vós mesmo
e procurai a necessidade que vos faz escrever : in�
vestigai se ela tem raíze s no mais profundo de
vosso coração. Confessai a vós mesmo: morreríeis
se vos fôsse proibido escrever? Sobretudo isto in­
terrogai�vos, na hora mais silenciosa de vossa

3 - Apl'enàer a viver ... 33


noite: fui verdadeiramente coagido a escrever?"
E Rilke acrescenta que se se pode dizer eu
devo, é preciso construir sua vida sôbre esta cer..
teza. Então não se pergunta se os versos são
bo:1s. A obra .c!� .arte.. é �oa, uma y�z qu_�. 11asceu
da necessidade.

34
CAPÍTULO II

ESBõÇO DE UMA ARTE


DE INVENTAR

Quer eu distinga as idéias


ou as reúna) é sempre a
unidade que busco com
amor.

SANTO AGOSTINHO

As obras sôbre a imaginação decepcionam,


se nela se procuram conselhos para a criação.
É uma operação cheia d e mistério, e que se pode
preparar ou perseguir, mas que se subtrai no
momento preciso, prbcípalmente quando se tra..
ta da criação de pensamentos. Suspeitei que tal..
vez se pudesse trazer auxílio a êste trabalho real.
propondo alguns conselhos. Não regras, mas
antes eixos, que dão confiança , que evitam a dis­
persão, que permitem ir direito diante de si com
a certeza da consecução. Os gramáticos falam de
figuras de retórica, que ainda nos atrapalham.
Os lógicos tinham discernido as figuras do silo-­
gismo. Perguntava--me se não se poderiam enu..
merar algumas figuras de pensamento.
O homem dirige seu olhar para o ponto em
que as coisas são acabadas : é à tardinha, dizia

35
Hegel, que a coruja de Minerva empreende seu
vôo . Como seria mais útil penetrar nos desvios
das. origens, verificar por que desvario, após ha...
ver encontrado muitas verdades válidas, mas
parciais, o espírito s e excede a si mesmo, esten...
dendo ao universo o que não é verdade senão sob
uma certa analogia! A tarefa é excessiva. E
importa, ao entrevê ... Io, que s e use de modéstia.
Entre todos o s processo s de pensamento, distb...
go três, aos quais chamo ( forçando um pouco a
significação comum) çle çJ�ç�g, distf.T.?::çãp e çon...
__

tradiç�g.
A eleição está relacionada com a unidade,
pois que consiste em despistar essa unidade, em
denominá... la, e depois em fazê...la irradiar por
uma circulação contínua. A distinção denota uma
dualidade: supõe que um é dois e que convém
fazer corresponder à divisão de dois se:ltidos a
separação de duas palavras que os designam.
Mas a oposição de duas noções aspira a um ter ...
ceiro têrmo, onde os contrários se unem: é a
dialética, ·tão estimada dos nossos contemporâ...
neos e que é figura de trindade. No mesmo espí ...
rito, Augusto Comte já havia notado que o nú ...
mero um representa a sistematização, que o nú...
mero dois distingue a combinação e que o núme ...
ro três define a progressão .

36
* * *

O homem não se deixa e:1ganar pelos objetos


exteriores : êle domina o que vem dos sentidos;
compara o que pare�e com o que é. Pensar é
discernir o excessivo e o parcial do justo, do
completo, do seguro. Porque a perfeição da ver-­
dade está ligada ao equilíbrio, à balança, à pre-­
cisao. Ela reside numa plenitude mensurada que
o espírito não alcança à primeira vista.
Mas existe uma segunda forma de pensa­
mento, mais tentadora. É um poder de combi-­
nação, bem próximo ao sonho acordado. Sonhos
e projetas, quando :1ão são projetas que são
sonhos, não é isto que compõe os 3/4 de nossos
pensamentos? Para excitar em si êste doce des­
lumbramento, não convém insistir sôbre as mes-­
mas molas. No primeiro caso, o pensamento se
recolhe; no segundo, dilata-se, excede, explode
em feixes e fusos. Nos espíritos dotados, torna­
-se a invenção, criação. Uns têm vocação para
a medida, a ponderação, a paciê:J.cia . Sua inte-­
ligência se exerce sôbre a matéria qu e lhes é for­
necida. Fazem-se cercar de papéis, diagramas,
conselheiros. Suas cabeças são sólidas; nas ciên­
cias são preciosas para os trabalhos de prepara­
ção ou de contrôle. Prontificam em tudo o que
se trata de economia , finanças, tesouraria; em tudo
o que é pedagogia e aprendizagem. Outros são do­

tados de um dom de transformação que oferece o


perigo de os arrebatar. Mas sem êstes sêres quimé-

37
ricos, estaríamos a esgravatar a terra com ara...
dos de madeira, a ler as horas pela sombra. a na­
vegar sem leme. E a roda, quem sabe se ela exis..
tiria? É preciso fingir e forçar o impossível pa ...
ra modificar o que quer que seja.
Q� grandes na ordem do espírito são . os
_ .
que, tendo uma imaginação ardente, souberam
impor... lhe a regra, a medida e a cadência. Dizia
Napoleão: "Eu trabalho sempre, medito muito.
Se estou sempre pronto a respo:1der a tudo, a en..
fre:1tar a tudo, é porque antes de empreender ai..
go meditei muito, previ o que poderia acontecer".
S e escolheu um plano, é entre muitos outros que
o escolheu e, como diz Taine. "atrás de cada
combinação adotada, entrevê... se a enorme quan­
tidade de combinações rejeitadas". Napoleão di ...
zia de si mesmo: "Sempre faço meu tema de
diversas maneiras". Exercitava... se em percorrer
tôdas as avenidas do possível, para não aceitar
senão a solução aceitável no próprio momento,
que Retz desig:1ava como o ponto da pos ...
sibilidade .
É por isso que a arte d e inventar pod e s u ...
prir à imaginação propondo... lhe rumos, mas não
pode s:�bstituir ao julgamento. Há muitas ma...
neiras de definir o êrro, mas não seria falso di...
zer: é um método de invenção que se tem n;}
conta de um método de julgamento. E as máxi­
mas que vou propor teriam por objetivo ajudar

38
a nunca se separar em si a arte de encontrar e
a arte de bem j ulgar.

* * · *

A primeira máxima desta arte poderia con.­


sistir :lesta simples palavra latina : Elige, escolhe .
.. Amo a minha escolha", dizia a divisa francesa
de Lord Halifax. Mas para amar sua escolha
é necessário primeiro tê�la feito.
"Todo aquêle, dizia Vauvenargues, que tem
o espírito verdadeiramente profundo, deve ter a
fôrça de fixar seu pensamento fugidio, de o con ..
servar sob seu s olhos, para nêle considerar o
fundo e de reduzir a um ponto uma longa se.­
qüência de idéias " . Não seria difícil mostrar que
um tal esfôrço conclui em nós o trabalho da vi­
da, que é uma escolha. Que são os sêres vivos
senão bstrumentos de seleção? Como podem
êles nutrir-se ou reproduzir�se a não ser por uma
escolha que, instintiva no início, tornar-se...
... á tributária de seu querer? E nossos sentidos,
que são êles senão aparelhos que captam no con.­
cêrto das ondas que fazem os sons e as co.­
res, e muitas outras ainda que nos influenciam
sem chegar ao limiar da co:tsciência? Paul Valé.­
ry, num discurso em que procurava desculpar Ra..
cine de haver mostrado tanta doçura na antigui...
dade, notava que o mistério da escolha não é
um mistério menor que o da invenção, admitindo

39
mesmo sua distinção. É que não se pode ezcolher
sem excluir, e com uma exclusão que vai até o in�
finito, pois que se retém apenas um vestígio; mas
de que dependem êstes motivos senão de um de�
creto que se pronunciou no fundo de :1ós mesmos,
manifestando muitas preferências secretas?
Tôda eleição, pois, indica um julgamento. E
isto já é pe:1samento.
É por isso que estas compilações, feitas de
extratos de leituras, que nossos antepassados
guardavam com tanto gôsto , eram um método
modesto e delicioso de aprender a pensar. Êsses
cadernos de escolhas davam um meio de se co�
nhecer, o que jamai s se pode diretamente, mas an�
tes observa:1do sua vida e dela copiando seus
pontos admiráveis. Chateaubriand conta que
Joubert, quando lia um livro, rasgava�lhe as pá�
ginas que lhe desagradavam e que havia feito,
com o tempo, uma biblioteca para seu uso, com�
posta das obras desbastadas, metidas em capas
muito amplas. Eu não aconselharia a imitar J ou�
bert; isto seria ímpio e não vejo , aliás, nenhum
livro que pudesse resistir a tal tratamento, se
êste não fôr o de J oubert, que é feito de quintes�
sência. Joubert tinha uma saúde delicada, só
escrevia a lápis. O trabalho de copiar sem dúvi­
da o fatigava. O peque:1o esfôrço qu e fazia
para destacar as fôlhas insípidas tinha a vanta�
gem de o obrigar a deixar o medíocre para reter
somente o melhor.

40
A preferência é um método que permite es ...
colher de improviso as partes de um estudo que
estão em relação e em proporção com nosso ser.
Se conhecêssemos nossas preferências, estaría ...
mos completamente em estado de julgamento . O
·
trabalho intelectual, dizia Bergson, é uma c�;:
�e�t��çã�. do pensamento com um a emoção na
_ ase. Eu acresce:J.to: a q �ela emoção de espírito
b
que a preferência oferece.
Que é um bom livro? É aquêle em que o
escritor sabe limitar... se ao que havia bem compre ...
endido ou sentido. Reconhecereis o mau livro
nisto que nêle não se nota lacuna: por canse ...
guinte, nêle não há eco ou ressonância alguma.
Calar... se sôbre o que não se sabe ou se sabe
mal, calar ... se para deixar aos outros o cuidado de
vos mostrar sua sabedoria, calar... se para que
nossos raros pensamentos encontrem os silêncios
sôbre os quais êles irão pairar e apoiar... se.
O gôsto é uma preferência que, estando de
acôrdo com nossa natureza, nos põe d e acôrdo,
além disso, com a intimidade dos sêres. Mais se
caminha na existência, mais é preciso abando...
nar. Essa necessidade dá inteligência a muitos,
simplesmente porque ela os força a se fixar.
Mas, comparando os séculos e os costumes,
p�rcebo duas maneiras de escolher. A primeira
consiste em recolher o aroma. Era a escolha dos
Antigos, a do "honnête homme" : convinha a uma
idade em que o conhecimento era mais arte que

41
a c1encia. A segunda maneira de escolher aco-:1.-­
selha a limitar�se a um só objeto, para êle avançar
cada dia com tôdas as fôrças tão long e quanto se
puder. Êste gênero de escolha profundo convém
à nossa época, que especializa as investigações.
Outrora a conversação bastava para vulgarizar.
Agora, é a harmonia das escolhas discretas e dos
esforços solitários que compõe a ciência.
Remontar, por um� atenção paciente, até
que se tenha enco:::ltrado. o elemento além do qual
não se poderia ir, e que é nativo, original, in.­
composto, simple-s. Mas ao mesmo tempo, ou me-­
lhor, logo depois, descer para as conseqüências
e as aplicações ou para aquêles elementos escon-­
didos que o pensamento continha no interior de si
mesmo. Fazei isso e tereis a alegria de haver
ordenado vossas idéias numa escala de noções,
cujos graus podereis subir ou descer. É uma ale­
gria dêsse gênero que experimentam os naturalis..
tas, os botânicos e todos aquêles que dividem.
Que há de mais belo que uma classificação ju�
diciosa? E não é surpreendente que, tôda vez que
o espírito, humano encontrou uma nova maneira
de percorrer assim a cadeia de causas e de efei..
tos, a linha ascendente e descendente da ordem,
viu.. se aparecer uma filosofia dotada de poder,
......- a de Aristóteles, quando essas classificações fo-­
ram as da biologia, de onde surgiu nossa lógica,
......- a d e Descartes , quando foi a ordem mais
interior e mais necessária das verdades geomé.-

42
tricas, de onde surgiu a filosofia dos modernos,
.- a de Hegel ou de Bergson, quando a classi.­
ficação foi histórica e variável, aplicando....se aos
sêres vivos, aos sêres humanos que se sucedem e
se completam no tempo?
Mas, para que s e possa dêste modo encon ....
trar o elemento simples, que regula os outros, é
bom não se pôr diante de um domínio . por demais
vasto. E os escritores que pouco escreveram e
que se podem guardar inteirinhos na lembrança.
compara!ldo.... os consigo mesmos, seriam os pri....
meiros a favorecer.
É uma vantagem dêste gênero que a Bíblia
apresenta para os judeus e para os cristãos. O
livro está encerrado, para sempre terminado . Daí
para a frente o espírito está isento de tôda ten ....

tação de investigar mais longe e além. E como


êste livro, sob suas formas múltiplas e aparente...
mente contraditórias, é para os crentes a única
Palavra, é muito certo que precisem exercitar....se
em descobrir nêle a indefinida refração de um só
P ensame:1to. Que isto tenha ocasionado sutili..­
dades, que o rabinismo, a alegoria, a casuística se
tenham encontrado sôbre êsses textos sagrados
como zangões nas corolas, é certo. Ma s que
ajuda para o dese:lVolvimento do espírito possuir
uma obra múltipla e única, paraíso da interpreta...
ção e que sempre é permitido à memória percor.­
rer! Pascal notou muito bem como a leitura de
uma obra canônica podia excitar a sagacidade.

43
Explica que, para compreendê�la, é preciso ter
um sentido com o qual tôdas as passagens este�
jam de acôrdo, que não basta nela haver um que
convenha a muitas passagens concordes, mas que
se deve ter um que aproxime até as passagens
contrárias. Pascal faz notar que aquêle que de�
seja dar o sentido da Escritura e não o toma da Es�
critura é inimigo da Escritura. Esta comparação
de uma obra com ela mesma é o meio de lhe dar
sua vida e de em troca· retirar daí a nossa vida.
Experimentai êsse método com os livros pro..
fanos . Comunicareis a êles algo de sagrado.
Lereis uma passagem e fechareis vosso livro. Lo�
go vos faz pensar que alhures êste mesmo escri-­
tor disse algo de muito parecido : que liame, que
relação , que íntima ligação encontrareis entre isto
e aquilo? Aí estão duas passagens que o acaso
aproximou em vossa memona. Se o pensamento
fôr verdadeiramente u!lo, deveis sentir a afinida�
de dêstes dois fragmentos. Tendo começado esta
pesquisa de parentesco scrvindo..vos de autores
que pouco escreveram, continuá..Ja..eis nos auto..
res fecundos, como os nossos romancistas. As
estantes das bibliotecas dobram sob o seu pêso.
Suponho que seja por acidente. A verdadeira
fecundidade não deve ser a da carne qu e estor�
va, mas a da luz que emana. Os bons autores de...
pioram a própria abu!ldância : e, se os constran ..
gêsseis, êles poderiam reduzir ..se a uns poucos
volumes.

44
Aquêles com os quais não puderdes praticar
esta s reduções, e nos quais perceberdes apenas a
justaposição ou a contaminação das fontes, ou
um laborioso excesso, ou uma dispersão sem re­
médio, deixá-lo....eis de lado. Tendes o sinal de
que não merecem vosso sacrifício. Não que êles
sejam inúteis ou mesmo desnecessários na cidade
dos livros. Porque é preciso que haja os loqua­
zes, para fazer o silêncio falar, que haja paredes
para que se possam abrir janelas e vigas de ma....
deira para que as cordas da lira possam ressoar.
Entre os cristais há os que apresentam for­
mas geométricas, regulares e outros que se desig­
nam pelo nome de macias. Cada macia é com..
posta de dois cristais da mesma espécie, diferen....
temente orientados um com relação ao outro. Ma­
ela relaciona-se com malha. E a malha também
é formada de fios entrelaçados.
Ora, as noções comun s que enco::1tramos na
linguagem são por vêzes comparáveis a êstes
cristais dissimétricos : são formados pelo estrei­
to entrelaçamento e aparente amálgama de duas
noções bastante diferente s quanto à origem e ao
valor. O primeiro trabalho do pensamento de­
veria ser a dissociação destas noções confundi­
das, atribuindo-lhes nomes distintos que permi­
tem ma::mseá-las à parte e opô-la s talvez.
Damos a seguir um exemplo dêste método de
pensamento e para tanto tomamos as palavras
mais comuns, as mais usadas da língua; há pro-

45
habilidades de que estas sejam as palavras que
mais se prestem à confusão.
Consideremos , por exemplo, esta palavra tão
usada quanto bonita : a natwreza. A ambigüida..
de é bastante sensível. Dizem..nos que a lei do
mais forte é uma lei da "natureza" ou ainda, que
não se deVIe aba:1donar à própria natureza. Di..
zem .. :J.os igualmente que é preciso ajudar--se mu..
tuamente, que é a lei da natureza. " Direito na­
tural", "moral natural" indicam que a palavra
natureza. é tomada num sentido próximo ao ideal,
ao mesmo tempo que expressões como "estado de
natureza" ou "naturalismo" sugerem que a
natureza é desordenada, insubmissa.
Poder--se--iam fazer análogas observações
sôbre um outro vocábulo tão freqüente nos lábios
dos homens quanto o de natureza : amor.
Dever--se--ia entender por amor aquela te:J...
ciência que nos impele a nos dar a outro, dis-­
tinto de nós mesmos, a nos alegrarmos com o
seu bem, a imaginar um "todo do qual se é uma
parte apenas e que a coisa amada é outra dife­
rente?" Ou deve--se, ao contrário, ver no amor,
como vulgarmente se acredita, a vibração do ins..
tinto vital? Se nos aventurássemos no terre:1o
do sexo, dever--se,...i a chamar de amor êste movi..
mento que nos leva a gozar dos sêres ou, muito
ao contrário, o que nos leva a nos sacrificarmos
por êles? Os Espirituais haviam respondido a

46
êste problema quando distinguiram dois amôres.
e então foram necessárias duas palavras.
De início havia o amor de concupiscência,
que é o amor que tem por fim seu interêsse. que
busca mais o prazer que a alegria e que, quando
se aplica a uma pessoa, em verdade não ama o

outro, mas ama a si mesmo através de seu comér-­


cio com o outro. �ste desvio do amor nunca é
mais patente do que quando o ser amado fala a
nossos sentidos, e é por isso que a palavra con­
cupiscência acabou por designar o apetite desre­
grado do sensível. Mas esta maneira de amar
para si encontra�se em tôdas as afeições. Uma
mãe pode amar sua filha pelas alegrias que esta
lhe proporciona, pela companhia que ela lhe faz
e opor�s e ao seu casamento. E um crente pode
amar a Deus por si e não por Deus mesmo, para
gozar de um triunfo visível, para o ter como pro�
tetor e vbgador; e, se êstes bens vierem a faltar.
em tempo de perseguição ou desolação, por exem�
plo, então êle deixará de crer. É seu próprio
bem que êle ama sob o nome divino.
Assim, o pensador parte de um dado têrmo
em uso; êsse têrmo o ajuda a destrincar o labi�
rinto das aparências. De novo se reflete sôbre êle.
E então é obrigado a alargar�lhe ou restingir�lhe
o sentido e inventar um têrmo aproximado, dis�
tinto e diferente.
É o que farão Descartes e Pascal. A Des�
cartes deve�se a bela distinção do infinito e do

47
..

indefinido, do conceito e da idéia, da clareza e


da distinção, da ordem e da medida. A Pascal,
que se acha mais próximo à linguagem comum, a
distinção entre o espírito de geometria e o espí.­
rito de sutileza, entre o iniStinto e a razão, entre
o espírito e a caridade. E, em nossos dias, o pro­
gresso do pensamento está ::1estas distinções.
Pense-se em Bergson, que distinguiu o tempo da
duração, o conhecimento da memória, as almas
fechada s das alma s é!-bertas; ,..... em Blondel, que
distinguiu o nocional do real, a ação do ato, ,.....
em Gabriel Marcel, que distinguiu o problema do
mistério.
No fundo, não �á sinônimos. Desde que
uma língua dispoaha de diversas palavras para
designar a mesma realidade, ela dá a cada uma
a sig:1ificação que lhe é própria. Sua riqueza
verbal, que é o efeito de circunstâncias fortuitas,
permite-lhe melhor discernir e por isso melhor
pensar. Sabe-se que os inglêses, pelas contin­
gências da história, possuem dois têrmos para
designar o mesmo animal. A palavra saxônica
designa o animal no campo ( é a palavra dos
camponeses que ocupavam o solo antes da con­
quista )
. A palavra latina designa o a:1imal re.­
duzido ao estado de vítima ( a do proprietário
conquistador e que se interessa pela carne co.­
zida antes que pelo animal ) : ox, beef.
Se o averiguarmos, veremos sem dúvida que
a confiança não é esperança, nem a lembrança é

48
recordação e nem a partida é separação. En ...
contrar... se... iam profundas nuanças e:1tre fazer,
fabricar e confeccionar; entre receber e recepcio...
nar; entre o mau, o maligno, o perverso e o ma...
licioso; entre o bom, o benigno, o bondoso e o
indulgente; entre o sofrimento, a dor , a pena, a
mágoa e o desgôsto; e:1tre a alegria, o prazer, e a
felicidade e a beatitude. E , nestes dois últimos
casos, a simples delimitação de sentido conduzir...
.-vos ...á ao conhecimento do que existe no homem.
Para que a alegria de comparar atinja sua
plenitude, seria preciso que o espírito percebes...
se um mesmo pensamento traduzido por dois sê ...
res de diferente compleição: notar... se ...iam então es ...
sas pequenas diferenças que são o índice de re...
fração no pensamento, na bdole, na substância
espiritual de suas vidas, o pensamento não é o
mesmo. Por vêzes êle toma u m outro rumo bem
diferente. Tanto é verdade que os pensamentos
nunca se tomam emprestados, que existem apenas
nos espíritos que são nossas experiências que lhes
dão a côr.
Eu vos aconselho a dedicar...vos a esta ocupa...
ção tão nobre. Comparai os assuntos, os sêres
e as noções que à primeira vista pouco diferem.
Há tanto prazer em ver as diferença s das coisas
que se dizem semelha::1tes! Comparai, pois, estas
semelhanças; discerni a ínfima diferença dos sê ...
res que se assemelham. Continuai em sua con...
formidade até o momento em que virdes surgir

49
4 - A p1·enàer a viver . • •
essa divergência que define . E:1tão compreende...
reis a palavra do velho Aristóteles : " O que se
procura em tôdas as coisas é o elemento que
,
lhes é próprio ..
Alguém objetará que as diferenças são aces ...
sórias e que se poderiam, se preciso, negligen ...
ciar. Digo ...vos qu e elas assinalam a essê:J.cia de
um ser. O detalhe é o prenome : quem quiser co ...
:1.hecer a intimidade de uma pessoa deve ter a
ousadia de achegar... s � a ela. Ora, nada ajuda
tanto a encontrar êste último detalhe como o
confronto.
A natureza parece ter querido proceder por
pares. Diz ... se que a maior parte das estrêlas são
estrêlas duplas. E até em nossos dias a natureza
faz pares : Hitler e Mussolini, Churchill e Roose ...
velt, Einstein e Broglie, Gide e Proust.
Comparar pode ser uma ocupação incessan...
te : ajuda um espírito desocupado a encher seu
vazio. Dizeis que não te:1des o que fazer : com...
parai. No avião, na sala de espera, no banco de
jardim, um exercício de comparação, aguçando a
inteligência, vos espera.
Ouve... se dizer que a inteligência e o amor
quase nenhuma relação têm, porque a inteligên""
cia se satisfaz com relações abstratas ou com
idéias genéricas e o amor se restringe a um úni...
co ser. Mas existe um amor, mais abstrato ainda,
o que torna desinteressa:1te tudo aquilo que não
seja vosso ídolo . E existe também uma inteligên-

50
cia prox1ma ao amor, aquela que distingue os
sêres de uma mesma espécie. A generalidade é
análoga ao egoísmo, enquanto que o sentido das
pessoas e dos detalhes dispõe à simpatia. O ódio
confunde, o amor discerne.
* * *

Enfim, o pensamento não se distingue de


um processo que se entretém co::1sigo mesmo, de
uma · espécie de contradição interior que deveria
por vêzes ser suscitada. Pensar implica que se
vá à frente dos obstáculos; que se proponham
dificuldades, que se lance voluntàriamente na
confusão. Foi dito que Sócrates perturbava seus
amigos; mas antes perturbava ... se a si próprio .
Ironia, em grego, quer dizer interrogação. E po ...
de... se notar que no domínio do pensamento as
obras mai s duráveis são aquelas que se suste::1...
tam sôbre êsses combates interiores e sôbre as
discussões com a parte duvidosa de si mesmo.
Para melhor pensar, Platão imagina perso.­
nagens cujo espírito é: oposto ao seu, seja por...
que replicam e respondem, seja porque êles se
obstinam em não compreender. Aristóteles re...
pele êsse aparato um tanto teatral; no fundo,
segue o mesmo método. Primeiro põe obstáculos
a seu caminho, depois os retira, ou melhor, con ...
torna ... os com uma invencível paciência : "Aqui
há uma dificuldade", diz êle. Santo Tomás, em
cada artigo da Summa., utiliza esta fórmula : sed
contra. est. Seu processo consiste em procurar

51
primeiro o que lhe é contrário, o que se pode opor
à tese que êle sustenta; em seguida, após ha...
ver exposto a solução segundo a ordem das ra...
zões, volta às objeções que a si fizera, e as res ...
ponde. Descartes, sempre lúcido quando expõe,
é mais violento e mordaz quando cruza a espada
e responde às objeções que se lhe atiram.
É que os obstáculos são os meios do progres ...
so. Quem inventou a métrica sabia ... o muito bem :
mais se impunham s�rvidões à forma, mais se
dava à beleza ocasião de existir. Poder... se ... ía
dizer que é a mesma coisa com relação à dialé ...
tica e suas tríades obrigatórias : ela não é a ver...
dade, mas excita a verdade no espírito, como os
sílex friccionados provocam o fogo.
Alojar em si o adversário e dar... lhe licen ...
ça para contradizer é, na ordem dos pe:1samen....
tos, o análogo da coragem . Quem negligencias...
se de o fazer, poder... se ...ia ter na conta de medroso.
O pensamento que passoy_ pela contradiÇão
é . u �j)erisa � ento experimentado. E, se um pe:1sa ...
mento experimentado não é idêntico a um pensa...
mento provado, ao menos êle lucrou nesta dura
passagem a flexibilidad e e a ductibilidade. Para o
futuro, qu e poderá êle temer? Desposou as idéias
do adversário; disse ...lhe : "Tirai o primeiro" . Re ...
vitalizou suas fôrças. Apesar de todos êsses
apoios que dá, êle triunfa. Aquêl e que começa
por conceder anuncia sua vitória.
Há autores que excitam o pensamento. Ca-

52
da um deve encontrar o seu. Reconhecê�lo-á nes....
te sinal que êle põe em estado de suspensão mui­
tas de suas opiniões. Pascal quase :1ão se afasta...
va de Montaigne, cujo espírito era tão contrá....
rio ao seu, e se impressionava mais com os ar...
gumentos dos céticos que o s próprios céticos.
Entender....me-iam muito mal se pensarem que
aconselho a dúvida. Mas em nossas opiniões
misturam .... se preconceitos; deve�se reconquistar
aquilo em que se acredita à custa de grandes
sacrifícios. O melhor , para esta reconquista, é
permitir que se seja atacado.
Além disso, o pensamento, que é tão vaga­
roso, tão adormecido por natureza, necessita de
um pouco de cólera para ser acordado. A dis­
córdia que uma objeção judiciosa oferece, tira-o
imediatame:1te de seu torpor. A irritação calma
é salutar.
Os que se ofereceram aos críticos, deixando
a palavra a seus adversários, ganham mais uma
vantagem. Sua obra resume vários tipos de pen....
sarnento; assemelha.... se, como na biologia, àque ....
las espécies avançadas, que parecem recapitular
a história.
Se a paz da alma resulta d e muitos paixões
amortecidas igualmente é certo que a verdade
de um julgamento é mais firme quando resulta
de um pensamento refutado. Ademais, que é um
êrro senão uma verdade destacada de sua arqui....
tetura e que, não t�ndo mais apoio nem lugar, se

53
constitui centro indevidamente? O êrro do êrro vem
da exclusão que êle anuncia. Mas também é preci-­
so dizer que a verdade do êrro e:1contra--se na ver-­
dade de um modo mais puro que em si mesmo .
De sorte que os erros, que são perigosos se ca--
...,
minharem sõzinhos, tem, ao contrário, grande
valor quando anexados à verdade e quando fa-­
zem parte de sua composição.
É mais fácil dizer o que um ser não é do
que dizer o que êle éi. é mais fácil corrigir que
compor, responder que prescrever.
As hipóteses rejeitadas, as respostas imper-­
feitas formam em volta de um problema um tra-­
çado pleno de lacu!las mas que define a forma
da solução futura. Esta pode ser difícil de des-­
cobrir, impossível de exprimir em nossa língua.
Não importa. O contôrno aparente fornecido
pelas aproximações basta para orientar o traba-­
lho do espírito. Já é quase haver descoberto a
solução o fato de haver definido com cuidado os
aspectos que a solução não poderá ter.
Por outro lado, se a negação impede mui--
tas perspectivas, ela faz surgir muitas outras,
sôbre as quais a imaginação e a observação po-­
dem exercitar--se . É sem dúvida isto que Péguy
queria significar com êstes versos :

Po·rque o que se não aceita, nunca é bem aceito,


Mas o que se rejeita, está mesmo rejeitado.

54
É certo, nada é tão peremptório como a ne..
gação dos que evitam pensar. Mas se existe uma
ma::1eira violenta de negar, isto não deve fazer
com que se desconheça o benefício da negação
discreta. Há um modo de dizer : "Isto não é
completamente aquilo, e todavia isto também não
é absolutamente aquilo" , que enuncia a oscilação
de um pensamento severo por si mesmo , porque
ama o ponto exato.
Segue.. se também êste mesmo caminho no
domínio moral. Na maioria das vêzes eu não en...
caro uma tarefa penosa ajudado por algum atra...
tivo ou mesmo pela clara presença de uma abri..
gação, mas pelo se::1timento de que qualquer ou...
tra conduta é impossível. Falando de sua deci ...
são de 19 1 4, o rei dos belgas dizia : " Fomos en...
curralados pelo heroísmo". É com o decorrer do
tempo que a consciência faz suas escolhas. Em
vez de orientar.. se imediatamente por uma dire...
ção, ou mesmo vacilar entre várias possíveis, ela
tem em vista uma solução que a convida : segue..a
até o ponto em que já lhe parece impraticável.
Volta para trás. Chega um momento em que,
feitas as contas, não resta mais que um caminho,
e é êste que se escolhe, ou melhor, que em nós
é escolhido. Diz.. se então que cumpriu .. se o seu
dever .
E, do mesmo modo, o espírito tem intuições
de impossibilidade que será muito difícil de defi...
nir. Por que é útil que a negação se aplique

55
à negação e ela mesma se destrua? Qual a dife�
rença entre esta s duas proposições : "O espírito
co:1hece o qu e é verdadeiro" e "É errado dizer
que o espírito humano não possa chegar a ver�
dade alguma", entre " Ganharemos a guerra" e "É
impossível que percamos a guerra" , entre "Devo
fazer isto" "Não posso deixar de fazer isto" ? Di�
ferença mínima, pois que a conclusão é a mesma.
Mas percebe�se muito bem que as segundas des�
tas proposições impõem um esfôrço ao pensa�
mento, enquanto que as · primeiras não lhe pedem
senão o repouso. A afirmação aberta e despreo�
cupada quase sempre é sinal de preguiça : as asas
supõem a resistê:1cia do ar. Muito embora estas
coisas sejam sutis, o leitor compreenderá que
a arte de pensar nos aconselha a seguir o caminho
que vai de um contrário a outro.
Por vêzes importa deixar em nossos julgaJ
mentos o sinal do movimento que a êlcs nos con�
duziu. Um desenho nos satisfaz quando sua
linha produz o contôrno de um objeto. :Bsse de...
senha é ta:1to mai s perfeito ainda quando em
tôrno desta linha percebe�se o esbôço qu e o pin ...
tor fêz dela, ou o seu arrependimento : então a li�
nha imóvel parece tremer um pouco sob nossos
olhos .
O uso dos contrários está subordinado à
dialética. Há pensadores que absolutamente não
são dialéticos. Limitam�se a expor, a descrever,
a classificar . Creio que se pode chamar de dia�
lético aquêle que, tendo distinguido as noções,
procura vê�las engendrar�se uma da outra, para
assistir ....-- assim êle crê ....-- à gênese: do ser.
Em que: consiste atualmente a dialética? Eu
o digo : em recompor a história das coisas e dos
sêres, a partir do início mesmo. Mas com o pen�
samc:lto humano, que não pode partir do nada,
poderá proceder a fim d� se: dar ao menos a ilu�
são de deduzir o que é? A tentativa seria im�
possível se o pe::.1samento não dispusesse de um
têrmo capaz de equivaler ao nada : êste equiva�
lente é obtido pela negação. O têrmo do qual se
partirá para engendrar uma noção será o seu con�
trário. É assim que a descoberta dos contrários
se acha no princípio desta operação dialética.
Mas para que esta movimentação do pensa�
mente apareça, convém que se te::.1ham três têr.­
mos ( c não dois ) e que se engendre o terceiro
têrmo a partir do primeiro têrmo e do seu con�
trário .
Suponhamos que aplicássemo s nosso pensa�
mente, segundo êste método, à noção de amor .
Se usássemos de autonomias, limitar�nos�íamos
em procurar o contrário : encontrar�se�iam ódio e
discórdia. Mas o que tirar dessa oposição? Os
sist::: mas dualistas não são dialéticos, porque os
contrários, embora se substituam e sucedam , não
se fecundam.
É preferível que sejam apresentados de mr�
do . dois conceitos opostos, por exemplo, o de
inteligênciae o de vontade: um é princípio de con...
templação; o outro, de ação. E o amor não se ...
ria produzido pela junção dêstes dois princípios?
O amor é ao mesmo tempo ativo e passivo, êle
vê e quer. Ou melhor abda, êle é êste elemen ...
to simples de onde parecem proceder aquilo que
em nós vê e quer.
Escrevamos êstes três têrmos num quadro :
VONTADE
AMOR
INTELIGE:.NCIA

Se examinarmos êste quadro com olho s que


busquem a direção secreta, o se:1tido dos pen...
samentos , o movimento das noções que s e engen ...
dram, seremos capazes de compreender ·as ale ...
grias do dialético. Porque, não só as duas pri ...
meiras noções se prestam mútuo apoio e relêvo
pela oposição que têm entre si, mas completam...
..-se num terceiro têrmo, em que os vemos se diluí..­
rem. E a verdade do amor parece origbada de
uma oposição superada e sublime.
Estas coisas são abstratas. Mas é fácil tra...
duzi ... Jas na linguagem da história. Para Hegel,
a época que vai de Luiz XVI a Napoleão pelo
Terror é uma dialética viva. Aí se vê o poder
real dar nascimento ao seu contrário, que é o
poder popular. Mas, para evitar uma dispersão

58
fatal, é preciso que a negação negue--se a si mes.­
ma e que a unidade se reconstitua sob a forma de
um novo poder sintético, que será o poder im.­
perial. Assemelha .... se à monarquia : na realidade
procede do povo e se obtém não por uma conse ....
qüência da monarquia, mas por uma elevação,
uma sublimação da negação revolucionária. Co::1 ....
cebe.... s e que, para Hegel, que vivia nessa época,
pudesse haver no pensamento dialético secretas
delícias, pois que acreditava interpretar por êle
a lei da geração dos acontecimentos. Era a abo....
lição do acaso pelo golpe de pensamento.
É surpreendente, dizia Joubert, ver quantas
idéias engenhosas tiveram os antigos, e. mesmo
quantas verdades êles descobriram supondo, por
exemplo, que uma coisà tbha sempre seu con....
trário ou seu oposto, procurando .... o; primeira, in.­
termediária ou última, supunha duas outras, que
êles tentavam determinar. Êste método lhes abria
caminhos que, muitas vêzes, os conduziram para
bem long.e.
A dialética comunica ao pensamento o que é
a exaltação no sentimento , o heroísmo na vonta ....
de, o ardor na paixão - estados raros e pie ....
nos, cujo retôrno ::1ão se pode deixar de espe....
rar, quando se lhes deu, uma vez , atenção gra.­
tuita .
Entretanto, Platão, que inventou a dialétk.a ,
não se deixa prender muito à sua tentação. Pa-

59
rece que l.lma voz interior o lembrava de que ela
era um exercício, que era bom empregar suas
fôrça s com a condição de jamais ceder a uma
impressão d e comodidade. Uma vez conhecido e
aplicado o processo em alguns domínios, como
êle é fácil de ceder à sua máquina de pensar! Os
modernos, sobretudo após Marx e Hegel, abusa�
ram dêst e método.
Compreende�se que o êrro sutil que um
espirita puro possa cometer seja con fundir sua
operação com a do ser .
Existem os contrários na natureza? O que
nós tornamos por contrários não serão simples�
mente oposições que se obtêm à nossa maneira
humana de conceber, como a sombra é produzi­
da pelo corpo?
É precis.Q _que o pensamento tenha um sis­
tema p<:lr.a Jhe servir de armadura. Mas, não
seria talvez impossível ao homem igualar�se ao
sistema do ser, e a verdadeira salvação não se�
ria pre ferir o método ao sistema?
Um sistema é um conju::1to de elementos de
pensamento que dependem un s dos outros, dos
. quais um conduz ao outro numa seqüência lógi··
ca, por uma conseqüência, e muitas vêzes tam­
bém através do apêlo dos contrários. Um mé�
todo é uma procura, uma abertura e um cami�
nho que nos deve levar a alguma verdade. Nos
dois casos o ponto principal não se acha no mes-

60
mo lugar : o sistema visa mais a coerência que a
verdade; o método visa mais à v.e rdade que à
coerência.
O espírito de sistema te:tde sobretudo à eco�
nomia do pensamento, ao rigor lógico da dedu�
ção, à simetria das proposições, ao equilíbrio das
antíteses: é um espírito arquiteto, sabe que a
verdade é bela. E logo que encontra algum fe�
liz arranjo, uma perf.eita correspondência, ai�
guma bonita exposição _ou demonstração, satis�
faz-se, repousa e não vai mais longe : para êle,
a harmonia interna do pensamento é o sinal que
reco::1stitui a ordem r.eal das coisas. O espíri�
to de método, ao contrário, não se importa mui­
to com a forma : concentra-se, dedica-se, perfura
o solo de tôdas as maneiras. Sua grande idéia
é chegar ao fim e, como conseqüência, encontrar
os meios mais eficazes: pouco importa que a ga-­
leria seja regular, contanto que conduza ao filão
de ouro. Pouco importa que êste ouro tenha fa�
cetas simétricas, uma vez qu e seja ouro. O me�
tódico não é um arquiteto, é um ceifador.
Cada caminho tem seus defeitos e suas qua­
lidades. E para ser perfeito deveria conter em
si essas duas espécies de espírito, o espírito de
método nos princípios e o espírito de sistema :::1as
conclusões. Mas, se tivesse de escolher, deveria
preferir o método, porque os sistemas só vêem as
coisas em massa, e as coisas não são verdadeiras

61
senão porque nomeamos errado os detalhes e as
diferenças. Os detalhes são o sabor do ser.

* * *

Muitos elementos preparam o pensamento, e,


entretanto, não o são. Não é pensamento senão
quando os domina e se pensa êle mesmo, ou
melhor, qua:1do entra em contacto, em amizade
com o ser em que encontra sua estrutura. A iro­
nia de Sócrates, a dialétka de Platão, a lógica de
Aristóteles, a elevação de Santo Agostinho, o mé­
todo de Descartes, o sistema de Kant, a tríade
de Hegel ou de Comte, a metáfora de Bergson, a
psicanálise, a fenomenologia ou as sondagens de
nossos existencialistas - tudo isto são meios ape­
nas e é necessário ir além dos meios. O pensa­
mento os contém a todos e recepta muitos outros
mais. Mas os domba porque é mai s simples que
êles, e porque esposa o fim, que é a verdade, e
nêle descansa.
Eu diria que essas três figuras do pensa­
mento tem cada uma seu perigo. Os espíritos
muito apegados à unidade são sistemático s e ti­
ramcos. Os que praticam muito a distinção são
e s colásticos, preciosos, casuístas : sua subtilidade
os alucina. Os que gostam dos contrários são
céticos, paradoxais ou artificiais : tudo podem jus­
tificar. ft por isso que a arte de inventar que
proponho deve estar a serviço de uma arte supe-

62
rior, a arte de julgar, que não tem normas. E
necessário qu e se possam dominar e reger suas
operações. E o mais subtil êrro dos homen s de
espírito é tornarem ....se escravos de seu prece ...
dimento.

63
CAPÍTULO III

DO PENSAMENTO A AÇÃO

1!J preciso agir como homem


de pensamento e pensar
como homem de ação.

BERGSON

Dizem que é mais fácil agir que pensar. AI...


guns professam mesmo que os negócios técnicos
convém àqueles que não nasceram para a re....
flexão. Outros consideram que os encargos de
chefe atraem os sêres de elite e que os intelectuais
são impotentes, que se vingam pela crítica. Ain....
da aqui nos resignamos a separar os gêneros.
Isto vemos nos destinos que André Maurois
chama de exemplares. Os grandes homens de
ação foram meditativos, encontrando em tôdas as
circunstâncias o tempo para uma ·solidão profun­
da, não retirando .... se para o fundo de uma cela,
mas nas viagens, nos instantes de silêncio, nas
pequenas noites furtivas de nossos dias que são
os i:lterstícios da ação. Napoleão falava da "pre....
sença de espírito de após.... meia ....noite" . A vida de
Claudel é notável a êsse respeito. Que ocupação
mais diferente que a de ··encarregado de negó-

5 - Aprender a viver . • •
65
cios" e a de poeta! Mas a s qúalidades das rela...
ções que Claudel diplomata e:wiava ao Cais de...
viam lembrar as de seus poemas : composição,
rigor, relêvo ( que é uma clareza excessiva ) , ener­
gia de expressã0, lacunas voluntárias onde nada
há a dizer. Seria pensamento? Seria ação? Quem
o saberá? Na arte artesanal existe ainda bas...
tante pensamento : a pi:ltura e o desenho são
cálculos que se ignora!ll .
É verdade que quando se cultivou em si
um pensamento avaro e débil, não se pod e passar
à ação. E do mesmo modo, se agimos sob a anes ...
tesia da ação autômata, como o inseto, não se
passará ao pensamento. Mas eu quis neste li...
vro propor as regras de um Pensamento-Ação e
fixar... me na u::1ião do todo.
A ação, sem dúvida, deixa... se . gl!!ar menos
- -
qu_�_ o pe� s�mento. Esta lógica da ação. que mui...
tos sonharam estabelecer, jamais será codifica...
da. Da ação poder... se...ia dizer o que Bonaparte
dizia da guerra, que é uma arte simples e de exe ...
cução. Os americanos, que aproveitaram os pri ...
meiros técnicos para a formação de chefes de em...
prêsa, reencontraram o eterno bom senso. l\1as
é bom fazer aparecer sob uma nova luz essa ra...
zão continuamente apagada.
O que deseja fazer tudo por si mesmo, as...
semelha... se a um pequeno ditador, cujos subordi ...
nados seriam o s peões do taboleiro, comandados
por uma poderosa mão, simples age!l.tes de exe...

66
cução. :Bsses chefes tiranos ignoram a art e de
delegar seu · poder e formar outros chefes à sua
imagem. Concentram tudo em si, de tal modo
que, quando desaparecerem, o conjunto ficará
acéfalo.
A primeira obrigação do que dirige é cum�
prir essa tarefa de chefe que é assegurar o con...
cêrto das outras ações. O chefe de orquestra não
toca um instrumento particular : seu papel é ou ...
tro. Do mesmo modo, o papel do chefe é obter
o acôrdo dos homens em vista do bem comum.

É a parte que propriamente lhe cabe : exige uma


solidão sagrada, na qual possa ouvir ao mesmo
tempo todos os sons, constatar sua harmonia ou
seu desacôrdo, depois prever seu futuro a longo
prazo. Essa sinfoaia não é notada de imediato,
como a que o músico lê : é êle que a compõe e
fixa de passagem. Isso reclama do chefe uma
diminuição de tôdas as tarefas que um outro
poderia fazer em seu lugar, para reservar-se à
função que somente a êle incumbe : o bem comum,
a responsabilidade do Todo . É por isso que o
chefe assemelha... se profundamente com o pen ...
sador .
Os chefe s que perderam as batalhas, os Es...
tados ou as instituições são os que suprimiam
os órgãos intermediários e cujos subordinados
eram simples máquinas. Nada se lhes explica..
va, tudo se lhes ordenava. É preciso reconhecer
que, quando se sabe, "mais se quer fazer por si

67
mesmo" do que formar outros cérebros ou de..
compor seu trabalho para reparti ...lo. O s parti...
dos que existem nos regimes autoritários ao lado
da hierarquia oficial resultam desta impotência
que o poder tem de delegar o poder. É mais
fácil governar não por ministros, prefeitos ou ge...
nerais mas pela política de um partido, cujos
membros não têm responsabilidade própria e dis­
tinta, mas que são outros "nós mesmos" fa...
náticos .
Ao lado dessa màneira que consiste em fa...
zer tudo, apresenta... se aquela que aconselha dei...
xar fazer tudo. Depende de si que o deixar... fa...
zer exista necessàriamente e cresça à medida em
que s e se eleva. A onda de novidades que são
mais ou menos conforme às previsões deve... se
esvair sem que o dirigente tenha de intervir. Só
se deve levar a seu conhecimento o aconteci.­
mento, isto é, o efeito que ultrapassa às previsões :
a variação, a anomalia. Muito justamente diz J.
Benoit : "em lugar de encontrar diante dêste pai...
nel brilhante mil luzes em que os olhos não sa...
bem onde se fixar, cada chefe recebe um toque
seletivo de informações que alumiam o mí::.limo de
luzes vermelhas, a fim de projetar sua atenção
sôbre os únicos pontos precisos em que êle deve
intervir" . Os chefes muito pormenorizados, mi...
nuciosos, obstinados na s pequenas coisas, ng1 ...
dos, implacáveis nas mínimas faltas, nada obtêm
dos homens.

68
O ideal seria fazer, e decompor sua tare­
fa em tantas partes que pudessem ser feitas
por outros que não vós. E por isso que o homem
de ação exerce sua arte principal quando delega,
quando distribui os e::.1cargos, quando, depois de
reunir alguns homens ( que por sua vez se acer�
carão de outros} , êle explica o que quer obter, ao
mesmo tempo em que ouve as informações que
lhe dão ou o que se lhe propõem a fazer. Mas
é preciso observar que nem os esclarecimentos,
nem Ós avisos podem juntar-se uns aos outros
mecânicamente para dar a informação e a deci­
são. A máquina de pensar pode ser concebida
para aliviar o espírito nas operações inferiores :
ela não julga. Jamais existirá a máquba de de�
cidir. E só o espírito qu e pode ver o valor recí�
proco de diversas informações ou de diferentes
conselhos.
A informação é sempre parcial, unilateral,
precipitada às vêzes, errônea necessàriamente em
muitos casos, pelo fato de que objetiva sõmente
um ponto. E o conselho dos qu e não estão em
vosso lugar de responsabilidade única é um con�
selho imperfeito, pois o que o dá, além de igno�
rar o conjunto, ::.1ão sofreria as conseqüências do
�racasso. É nesse mome::.1to precisamente que se
situa a verdadeira ação, a que decide, gravando
na carne viva, segundo a etimologia dessa
palavra .
Por aí se vê como a ação se assemelha ao

69
pensamento e como dêle difere. Nos dois casos
deve...se ir ao essencial. Mas na ação é preciso
determinar qual é êsse essencial por um ato vo...
luntário levado a efeito na obscuridade: deve... se
defender Paris ou o mar? Deve... se agir ou re ...
servar... se para uma ocasião melhor? " Prendre de
l'eau bénite" ou perma::J.·ecer em sua dúvida? A ca...
sar... se? Cercar... se de uma garantia? A existên­
cia é urdida dêsses problemas nos quais nunca
há uma prova. Porque um sucesso pode resul...
tar da imprudência. ·

A s decisões tanto mais se impõem quanto


mais as situações não fôrem bem determinadas .

E sempre elas são assim, porque não s e pode sa...


ber tudo. Calcula... se o que seja mais provável e
mais sábio. Diz... se : que seja! É e::1tão que se
manifesta no mais alto grau êste poder qu e tem
o espírito humano de sobressair... se razoàvelmen ...

te na sombra e que se chama querer.


Querer não é apostar, assim como pensar
não é imaginar. Um jogador pode ganhar uma
vez, mas não uma série de vêzes. A existência
é tecida de uma série de instantes. Hitler era
jogador e não demorou a sucumbir. Sem dúvi...
da .existe um risco em tôda ação, mas o risco de...
ve ser diminuído. o cérebro, que pesa os dados
·-
e as razões, deve re g er à imaginação, que se
contenta em propor possibilidades. É por isso
que a dificuldade própria da ação, e que o pe!l...
sarnento d e-sconhece, é a de se representar. O

70
futuro real por uma especte de adivinhação, fun..
dada sôbre uma informação obtida num dia e
prolongada para o futuro. Estamos aqui no
limiar do inexplicável e do dom próprio do ho..
mem de ação, que é análogo à intuição no in..
ventar : tendo fixado seu fim e seus recursos, daí
deduz o que se pode fazer. Arte suprema, que
consiste em prever o que ainda não existe.
Não há ação sem uma certa faculdade de
a:1tecipar, sem uma viva imaginação do futuro,
mas pautada no possível. É claro que, segundo o
temperamento, esta palavra possível mudará de
conteúdo. Os tímidos vêem principalmente o im...
possível. Exageram os obStaculos. Os temerá...
rios imaginam um possível impossível. Os auda ...
ciosos, que são raríssimos, porque o poder cria..
dor e o sentido do real quase não se encontram
na mesma pessoa, vêem de antemão o que ver..
dadeiramente é possível, estando todos os recur ..
sos coordenado s e concentrados para o fim pre­
tendido .
Mesmo que se trate de um passeio, de uma
existê:1cia a dois, de uma família a educar, de
um país, de uma civilização a salvar, ter... se... ia o
mesmo gênero de dificuldades a vencer.
Aqui não há diferença entre as escalas de
grandeza. E devem... se fazer as pequenas coisas
como as grandes, a fim de merecer um dia, se
fôr preciso, fazer as grandes com facilidade, co-­
mo as pequenas. Pode... se governar a casa com a

71
sabedoria · de um grande chefe, e gerir os negó­
cios de Estado como um criado.
É também de se noté:!r que, mais se progri­
de n"'O� p�nsall!ento como n�. -�Çãõ, mais aume�t �
a facilidade do êrro. Um executa::1te é limitado
. - ···•·

em suas deficiências pela matéria, resistência,


contrôle : o operário que faz um relógio, se come­
ter um êrro, imediatamente recebe a resposta da
experiência. Mas o dono da emprêsa não a rece­
be senão depois de muitos anos. O professor lo­
go se apercebe de um êrro de cálculo, mas não
o ministro das finanças. Com a liberdade, o es­
pírito e o poder, o campo dos erros aumenta
também a amplidão de suas conseqüências.
Todavia, o tempo dos dirigente s quase sem­
pre é mal empregado. Cada um crê-se um gê­
nio, enqua::1to que age por impulso, recebendo
pessoas inoportunas, cedendo às solicitações,
querendo tudo ver e saber, jamais pondo as ques­
tões que, segundo F. Nordling, são capitais :
" Por que fiz isto? Competia a mim fazê-lo? O
momento foi bem escolhido? Eu não poderia eli­
minar esta atividade? Será que eu não poderia
ir ter com êste trabalhador só uma vez por se­
mana e não duas vêzes por dia? Será que estas
entrevistas são preparadas dos dois lados de ma­
neira a obterem resultados mais rápidos e mais
eficazes? Limitando, acrescenta Nordlbg, pela
sua própria autoridade, sua liberdade de ação em
todos os trabalhos que se repetem, onde os prin-

72
cípios da simplificação do trabalho podem ser ado�
tados, um chefe multiplica suas ocasiões de poder
fazer trabalho de concepção, que é a única Ji,..
herdade verdadeira do homem" .
Foch dizia, no mesmo espírito de liberdade :
" Como ganhei a guerra? Foi não me exercitan�
do, restri::lgindo�me à simplicidade, reservando
tôdas as minhas fôrças para me fazer presente
de corpo e alma ao meu dever" .
Todo partido tem inconvenientes. Na ar...
quitetura o partido implica que se aba:1done, que
se aceitem as servidões. A ação exige que se po�
nha um fim à deliberação, que se mantenha o que
foi decidido contra as assembléias deliberantes da
reflexão, do arrependimento, do temor, das ou..
tras hipóteses igualmente possíveis. Depois de
haver sondado o pró e o contra ( a luz sombrea�
da do Pró e a sombra luminosa do Contra ) se
se decide do lado em que há para nós, neste mo ...
mento, mais luz. Em seguida, não olhar para
trás; conservar sua decisão como um juramen ...
to, que não mais será pôsto em questão, salvo no
caso de uwa evidência de êrro. Conservar, man ...
ter contra as tempestades e as marés, apesar dos
gritos da reflexão retrospectiva, dizendo�se que
a vontade, tendo decidido, deve perseverar , qua...
se que cegamente, no caminho que elegeu. Os vo�
tos, as promessas, as resoluções nos auxiliam na
existência; porque a natureza humana é flexível.
Diante do primeiro insucesso, ela se perturba e

73
pensa que não escolheu bem. Alain professava
que tôdas as escolhas são equivalentes, porque o
que importa é que nelas haja perseverança. �le
excedia : mas há tanta inconstância no homem,
que se lhe presta um serviço aconselhando...o a
aprovar..-se�
A d �cisão, para ser uma arma de luz, exige
.
que se aceite antecipadamente, de coração leal e
�()ntente, o . fracasso eventual. O que impede, por
vêzes, de se decidir, o que embota o sentido das
responsabilidades, é querer desligar..-se dêstes
atos , se êles não dão certo, e reco:1hecê..-los co...
mo seus somente quando são bem sucedidos : em
suma, deseja ... s e acertar com tôda a certeza. Faz....
.. se o terrível juramento de que se estará, acon ...
teça o que acontecer, do lado do poder. Em nos ..
sos dias, a questão é de se "ter o sentido da his ..
tória" , conhecer seu segrêdo " dialético". A
grandeza de J offre, nos dias do Marne, consis..
tiu em que êle se portava, com calma de ser in..
famado, se a batalha estivesse perdida. Gamel-­
lin, Berthelot puderam sugerir--lhe tal disposição.
Só êle assinava; só êle reivindicava a paterni-­
- ·
dad� cf� comb ate, para o melhor e para o pior.
É nesse momento que se situa o ato da ação : o
verdadeir<? pfirtido, a ablação, o sacrifício. E
pod�-= �e dizer que o difícil é esta renúncia à gló ..
riâ··e ao amor de si mesmo, êste movimento mag-­
nânimo que, após tudo o que s e fêz para se sair
bem, nos faz aceitar o fracasso.

74
Sendo homem , fraco e ignorante, atuo com
todo o meu coração segundo esta condição frá-­
gil, com imperfeições inevitáveis, com possibili­
dades de incerteza. Minha decisão não foi a de
um deus : depois de haver pesado o provável e
o improvável e tomado um partido que minha ra­
zão aprovava, sou projetado no sombrio futuro.
Se as conseqüê::1cias são danosas, suportarei a
censura; aceito-a de antemão, assumo-a na paz.
E a dificuldade dêste grande ato explica que
muitos falem de engajamento, mas que pouco se
engajem. E em muitos, até mesmo a insistên-­
cia sôbre o engajamento é um meio de tirar o seu
proveito e de nunca mais se engajar, do mesmo
modo que a insistência sôbre a sinceridade pode
dissimular a mentira. Os espertalhões sempre
farejam o ve::1cedor futuro para dêle escarnecer
antecipadamente. Ou então são pelas duas pos-­
sibilidades ao mesmo tempo. No caso em que o
diabo triunfasse, poderiam dizer-lhe : "Eu esta­
va também contigo".
Creio que outra dificuldade comum à ação
e ao pensamento é colocar cada parte em seu

lugar no conjunto e segundo as diferentes esca­


las. Uma inteligência perfeita possuiria o poder
de exprimir um de seus pensamentos numa frase,
numa ce::1tena de frases, em mil frases, conforme
ela quisesse condensar-se ou estender... se. É pro-­
vável que Platão soubesse desenvolver cada uma
de suas preferências seja em algumas fórmulas,

75
seja num longo diálogo, em lentas elucubrações.
O último esfôrço do espírito é percorrer es­
ta pirâmide, encontrar�se à vontade tanto em sua
base e no plano intermediário, quanto em sua
extremidade ( o que Hugo, Balzac, Hegel po,..
diam fazer ) . E Bonaparte, que via com os mes­
mos olhos ora os botões da polaba, ora a cam,..
panha do Egito e o Oriente vencido.
Trata�s e então de desenvolver em si esta fa�
culdade de ver UIUa realidade em diferentes es­
calas de grandeza, mantendo�se, porém, na mais
alta perspectiva, a capital ( aquela que custa ao
chefe, caput ) como um ôlho, que seria ao mes­
mo tempo de formiga, de leão e de águia.
Eu acompanhava um homem que tinha
grandes responsabilidades na economia de seu
país. Desejando informar-me sôbre o que é ope­
ratório, perguntei-lhe como fazia : "Sabeis o
que levo em mbha pasta? Nada. É minha ca­
beleira de Sansão. Meus colegas perdem�se em
estatísticas, avaliações, cômputos, disputas. Eu
os escuto interiormente, atento a uma só coisa :
as diferenças de escala, as ordens de grandeza" .
Naquilo que temos d e fazer e sofrer, o des.­
tino cada dia no s propõe problemas de avalia­
çã� . Aquêle que prepara seu orçamento deve in­
terrogar-se sôbr.e o valor relativo do pão e do fu­
mo. Vi, no cativeiro, pessoas famintas vende­
rem sua aliança por dois cigarros : cálculo ainda.
Cada dia devemos sacrificar o que importa de..

76
veras na ordem inferior para obter a aproxima...
ção da ordem que é superior. A existência deve
ser pe:1sada com hierarquia, guardando sempre o
sentido das ordens engrenadas uma na outra e
dos sacrifícios obrigatórios. Não se pode saber
tudo e tudo fazer e tudo dizer. Não se podem
ter as vantagens do ócio e as da glória, as van...
tagens do poder e as de uma grande oposição
ao govêrno de Sua Majestade, as do leigo
e as do religioso, as da santidade robusta e as

da mesquinhez. E, mais se progride, mais é pre...


ciso preferir não saber, não fazer, não ouvir, não
aceitar. até o dia em que será preciso preferir
ser um corpo distendido, e depois preferir ser
espírito, depois metamorfosear,.,se em si mesmo
eternamente.
Mas êss e esfôrço para distinguir o qu e im""
porta antes de tudo não. é difícil quando se de­
sobstruiu um pouco de seu ego. É o ofício hu...
mano por excelência. To dos os homens lhe co""
nhecem as leis : e a voz que lhes fala como a
Joana D'Arc, sempr� lhas repete. O que é que
nós chamamos d e consciência senão o murmúrio
do essencial em nós?
Um outro aspecto que eu queria notar é que
"'
quas � � �n�a hã realização sem uma ação do ho""
mem sôbre o homem, e sem um movimento que re""
clama a eloqüencia , com a condição de definir a
eloqüência pela palavra particular. Ser eloqüente
não é falar em geral, é saber dizer "alguma coisa" a

77
" alguém". A coragem no chefe quase �ão se sepa ...
ra dessa eloqüência. Há tempos um iletrado definiu ...
me a coragem. " A coragem, dizia êle, é quando ai�
guém diz aos outros : Escutem, rapazes : eis o
que vamos fazer". É claro que Aníbal, Inãcio de
Loiola, Bonaparte quando mostrou as planícies
do Pó, souberam determinar de imediato aos ou...
tros o que queriam conseguir, de ma:1eira a fazê­
... lo como que presente a . êles. Lia os relatórios
de um antigo presidente da General Motors,
Mr. Sloan; nêles encontrei o mesmo gênero de
pensamento . Mr. Sloan se interroga sôbre as
razões da superioridade de sua firma". Seria
por causa do maquinário? Seguramente não, por...
que não fabricamos nossas máqubas, mas fa...
zemos como todos, compramo...Ias. Seria por cau ...
sa dos engenheiros? Também não : êles não são
melhores que os dos nossos concorrentes. Seria
por causa das matérias... primas, do mercado? Se�
guramente não. O que seria então?" Eis a res...
posta : "Um pequeno grupo de homens habitua...
dos a trabalhar em conjunto com uma alta
eficácia''.
Ante a complexidade do s problemas atuais,
?_ -�q�ipe]l.õmÕgêne � e dinâmica ê" muitªs vêzes
mais eficaz- que o chefe isolado.
- -
-- -- " .A . arte de igir �P��x ima... se da arte de co:1...
vencer. As coisas não nos são diretamente aces ...
síveis; para agir sôbre elas é preciso saber agir
sôbre os espíritos : arte difícil que quase não po ...

78
de ser ensinada. Entram aí o respeito, o pudor,
e também não sei que ardor para persuadir o
outro de dever sentir e fazer o que sentimos,
um tato íntimo que nos faz perceber o efeito
imediata de nossas palavras e de nossos silêncios.
É_ preciso .. também instalar�se no coração dos
. .

outros, �olocar�se em seu lugar para se fazer


ooed.êcer depois de se ter feito compreender. Os
que muito amaram ·:!lão são tímidos, ao menos
tiveram o poder de banir o mêdo do outro que
paralisa. É necessário estar em si como outro,
para saber até que ponto é possível persuadir.
Quer se considerem os chefes no princípio com0
no fim da escala , ver�se�á que êles s,e parecem
por êsse dom de estar fàcilmente na consciência
dos outros. Não é tão diferente daquele dom
do educador. E é por isso que, quando conhe�
ci êsses mestres da ação, notei que, deixando a
timidez de lado, seriam ótimos docentes. Penso
em Lyautey, que se instalava em vós de ma-:J.ei..
ra senhorial, tratando�vos por tu, como se vos
houvera sempre conhecido. Vauv.enargues dis ...
se não haver melhor escola que a familiaridade :
por ela cura�se " a presunção, a timidez, a tôla
arrogância . . . Aquêles que não têm coragem de
procurar a verdade nessas duras provações estão
profundamente abaixo de tudo o que há de
grandioso" .
A ação da alma sôbre a alma é um amor
que exclui a opressão, a sensação de fôrça ou

79
mesmo de prestígio. Deve-se usar de sortilégio
diante das crianças, dos fracos, das multidõe s :
tôda arte tem sua magia. Mas -eu falo aqui das
ações ordinárias da vida e das grandes ações
que lhes são parecidas. Sócrates, Joana D'Arc
deixavam-se ver de perto. É-�-!:�!- -�_!!]._ contacto
no mínimo de tempo com o máximo de pessoas
--
ê � -s-�grêdo --do -sucess o no comércio do mundo.
.
"(f esp i�ito se assinala então por êsse dom das
línguas, que consiste . e m falar na linguagem de
cada um. E não tenciono falar aqui dos coló­
quios utilitários, frívolos, mas dos cotejos de pon­
tos de vista, dos encorajamentos , dos esclareci­
mentos, das fórmulas que descobrem um hori­
zonte simplificado, e por vêzes, das ordens cla­
ras e imprescritíveis, das palavras em suma. E
voltamo s àquela o:.1ecessidade da palavra, comum,
mas sagrada.
Nem muito, nem muito depressa, nem mui­
to de uma só vez. .As.!:l_é!r<i�! a hora conveniente,
agir segundo suas possibilidades e saber também
praticar a inação, tudo isso que se chama p_aciên­
cia. A conspiração com a duração, a arte de
·
n �� tralizar o acaso desfavorável, essa brecha
aberta no flanco do inimigo: uma certa despreo­
cupação, a esperança tranqüila de que tudo ama­
dureça, esquecer-se do insolúvel: e, ao mesmo
tempo, qualquer coisa d e vivo e precipitado para
não perder a ocasião de modo algum, para tomar
uma iniciativa : eis o que te:1ho notado nos ho-

80
mens de sucesso. E por isso que a arte de agir
não é simples, se bem que a ação o seja. � Seriam
_t:::�s� s aí qualidades contrárias, como a argú-­
-
ci(:l � a inocêncii:t, a paciência das longas expec-­
tativas e a violência do momento derradeiro .
.-�-.--·----- ,.. . ... . ., . . . . . .

Ainda sob êste ponto de vista a ação se asseme--


lha ao pensamento, que deve permanecer aten-­
fo aos detalhes ao mesmo tempo em que se eleva
aos conjuntos. E assim como o poeta reúne exi-­
gências contrárias em sua busca, impossível de
satisfazer, da obtenção do som e do sentido ao
mesmo -tempo, do preciso e do vago, assim tam ..
bém a ação exige a preparação e a impetração,
o planejamento e a apreensão dos acasos na
passagem. Ela comporta projetos a longo pra-­
zo, mas também acidentes. Sempre se surpre­
ende de chegar aonde não queria ir, seja isto
para melhor, para pior ou para outra coisa bem
diferente . Desdobra--se no cansativo, no monó­
tono e no inopnado, com sucessso e fracassos e
êxito s imprevistos , interrupções, zonas de fastio
e de angústia, instantes de lucidez seguidos de
desesperos. Mas êstes incidentes acabam por
se compensar. E obtém--se a tintura da vida,
que é de um só colorido, um tanto sombria e de
uma tonalidade gra:::1 ada, como as vestes dos reis
de França na Idade Média,
Essa bizarra amálgama do projeto e do aca...
so é a matéria com a qual modelamos estas ar­
gilas tão rígidas que são os nossos atos. Mas eis

81
6 - Apl'endel" a vtver . . .
o milagre: essas estátuas feitas de argila, sejam
elas o qu e forem, acabam por ser sólidas, elas
servem. São até bonitas, às vêzes. Muito mais
ainda : parecem... se conosco. Como um poema,
composto de palavras comuns de um língua, as ...
semelha... se a seu autor, como uma batalha ga ...
nha com alguma s tropas cansadas se assemelha
àquele que a quis, como nossos destinos tão vul...
neráveis acabam por assemelhar... se à intenção
profunda do homem que está em nós.
É por isso que às vêzes eu digo a mim mes ...
mo, no calor da ação, que não se deve preocupar
muito com essa deficiência de tudo o que não
é nosso " élan" : por pouco que se vá adiante, pou ...
co importa que tudo pareça ceder e faltar.
O que importa não é a matéria. E a forma
vem de nosso desejo.
Quando a ação é um duelo contra um outro,
é necessário dizer... se que o outro tem estas mes ...
mas fraquezas. De que se trata então? - De
manter a direção. A fôrça da alma é a obstina ...
ção. Pró e contra tudo. É a fé.
As mais belas obras estão cheias de lacunas
e finalmente i:lterrompidas. Se Pascal tivesse
podido terminar, teria êle a tal ponto maravilha...
do os espíritos? É sua falta de acabamento que
transformou êsses fragmentos em pensamentos.
Assim também, é a impotência de nossas vidas
que faz com que após a morte. à falta do gra'1'-

82
de Ato dos Santos , nós deixamos ações honestas,
de que talvez alguns amigos lembrar-se-ão.
E diria ainda, s�gundo as mesmas lbhas de
conselh<}: --e_ Rª!éi inspirar confiança, que é pre-­
-���_4�ªª- vê_z es. c�-� �ç �� p��� bem terminar. " Co­
mece, e a metade está feita . Recomece, e estará
. .

terminada".
"'"'• · · · · · ·- ·

83
CAPÍTULO IV

RETRATO DO ESPíRITO HUMANO

Não procuro convencer de


êrro meu adversário, mas
unir-me a êle numa verda­
de mais alta.

LACORDAIRE

Indo.-se até o fim de uma reflexão sôbre o


pensamento e sôbre a vida, encontra.-se uma idéia,
co:1stante nos sábios : o_ s?eremo bem para o ho.­
mem é levar o ato de julgamento ao seu mais alto
ponto de pureza, é aprender a pensar bem, �
fazer.-se um bom espírito : _eor_gue tôdas as des.­
graças vêm do fato de que não se soube escolher
seu · próprio caminho, nem conhecer suficiente.­
ment�·Õ- ·d;s··�üt;os·: O êrro e a falta têm sua
origem ::1este segrêdo. Mas o que é, então , o
espírito? Pergunta.-se. J ulg am.-se os outros : êle
tem um bom espírito. No fundo, esta palavra
espírito, que parece tão transparente, é mal defi...
nida, porque está muito próxima ao nosso ser. E
creio que seria bom, para dissipar as sombras,
esboçar um retrato bastante geral do espírito hu.-

85
ma."lo naquilo que fôr possível, como num mo...
dêlo inimitável, ver sua imagem e corrigi...la.
A primeira qualidade do espírito é o bom
senso. '!'�!: bom senso é, através de uma luz re..
· ··- - --
pentina q ue ;g� i �anei;a de. um ���Ü(fõ." Clisce�--
__


. "
nif ondé p à ssa · El linh a divisÓria entre �- verda ..
deiro e o falso, entre o justo e o injusto,. entre o
excessivo e o moderado. Q QQgt senso quase
..

.. · ---
n�o_ -� e separa da razão; sab e...s e q �� p·�� t) es--
cartes bom senso e razão eram uma só coisa. Mas
·
eu direi que a razão é uma qualidade de :n ature-­
za. outorgada na substâ:1cia de nosso ser, vir...
tualment e igual em todos os homens, enquanto
que o bom senso é uma razão encarnada, prova...
da pelo uso. Há pessoas que, sem cultura, têm
um bom senso desconhecido delas mesmas, que
faz com que raramente errem. Elas dizem : isto
é, isto não é : sim, s�m; não, não, como Jesus b
aconselha. Aí se vê bem, no seu mais alto pon...
to, o exercício do bom senso : um sentido aos
põe em comunicação direta com seu objeto, sem
nos fazer conhecer os intermediários. No uso
comum, o bo·m senso é verdadeiro, aplica...s e a as...
sunto s ordinários; falar... se... á do bom senso na
gestão de uma fortuna, na s . apreciações efetua...
. das sôbre o possível. � honrar o bom senso dar...
... lhe o poder d e julgar as coisas ordinárias. �
só na aparência· que aquêle que gere mal os . bens
da terra possa estar preparado para gerir os do
espírito. Mas é raro que o bom se:1so seja igual

86
segundo o exerça no modo de conduzir seus ne­
gócios, em s_eu patrimônio ou na disposição de
'
seu destino : Se tivéssemos bom senso na vida
moral, seríamos sábios : era o que Sócrates ensi...
nava, e que jamais alguém contradisse.
Que é um espírito justo? A justeza indica
a exata adaptação do espírito a seu objeto, a
igual distância do excesso ou da falta. É muito
difícil ser justo sem exagêro nem omissão. É tão
dificil quanto chegar à hora marcada, nem an.­
tes nem depois : isto implica uma apreciação da
duração e da distâ:1cia, um cálculo de suas fõr..
ças, um contrôle de todos os seus membros. 0
mesmo se dá na ordem do julgamento. Quantos
juízes se deixam levar pela precipitação e dizem
mais do que sabem! Outros , pela langor e pre..­
guiça de julgar, não ousam afirmar o que, en..
tretanto, não ignoram. Q _ _ hábito de julgar 'e de
ver seu julgamento confirmado pelos seus efeitos
dá ao espírito �ma segurança que faz com que
aplique seu decreto com mais vigor e felicidade.
Luiz XIV dizia que há alegria neste exerci...
cio : alegria real, porque está ao alcance de to..
do homem.
A justeza não se confunde nem com a pre..­
Ó
cisã ·!lem com a exatidão. Um espírito preciso
pode estar em êrro, e muitas vêzes está, naque..
les domínios do sentimento em que é impossível
aplicar a precisão : P?I.� _ bem falar das coisas
humanas é preciso saber resignar...se a uma pru...

87
�ente imprecisão, ter sobriedade no julgamento.
-
e mesmo na sabedoria. Com freqüência é preciso
que se saiba dizer : "Não sei. Não estou infor•
mado" . E por vêzes mesmo : " Não vos com ..
preendi''. Quanto à exatidão, ela é apenas o pri..
meiro grau da justiça, a que se exerce no. domí·
nio do tempo, do espaço e do número . Dir.. se.. á
que uma hora é exata, que uma adição é exata,
que uma medida é exata. A exatidão é mais uma
virtude da atenção co::J.tábil que do julgamento.
Desejou ..se distinguir o espírito reto do es ..
pírito justo. Na eqüidade ( que, quando se firma
um pouco, terna .. se retidão ) há uma alusão à qua ..
lidade da vontade, da alma. Chamo de espírito
reto o que fixa, antes de qualquer outra consi..
deração, a regra do justo e do injusto, que dela
não se deixa desviar, na qual, além disso, êle se
firmou. O espírito reto opõe.. se ao espírito sutil
e requint�do, ao esp írito afetado e escrupuloso,
ao espírito hipócrita e insincero.
Pode.. se bdagar quais são as relações da
eqüidade com a justeza. Se a isto me obrigas ..
sem. diria que Saint.. Beuve e Thibaudet tinham
mais justeza que eqüidade, Joseph de Maistre e
Bernanos, o contrário. A eqüidade é uma nobre..
za. adquire.. se ao nascer e por herança, não se
modifica; a justeza é antes um dom da natureza
que se encontra no berço, embora se aperfeiçoe
pelo uso. Mas a eqüidade tem seu defeito. que
é a intransigência, uma vez que se não vê para

88
que gênero de defeito pod e bclinar a justeza do
espírito.

* * *

Chegamos aos traços mais raros. meno s ne­


cessários para viver e para bem viver, mas que
acrescentam uma perfeição ao julgamento.
f7.. fineza é uma virtude do julgamento, que
lh e permite exercer-se em matérias difíceis, par..­
ticularmente nas zonas mescladas, onde é preci..­
so saber desembaraçar, desligar, discernir essên­
cias, aproximadas e fáceis de confundir. Os po...
vos do século XVII usavam d e fineza no mais
alto grau, qua:1do tentavam definir as espécies
da virtude e do vício. QJ!.� ql:l_�--ª-J.�g_e��- -�-<:)?_�i_s;:­
__

te em ver -
-�· ··--··
as diferenças das semelhanças,
- .. - ' . - - '
' - e é:l.�.
. . .... .. - . . . . . .. -
..
.

semelhanças da s . d.!f.�.r,�D.-,Çél�·- · �mbora esta . ..última ...

preocupação pertença antes ao vigor e à fôrça


de espírito.
�-._delicadeza é um gênero de fineza : é a fi­
neza transportada ao domínio do sentimento e
�m seguida à previsão dos sentimentos do ou...
tro. Um espírito delicado evita chocar seu se­
melha:J.te nas menores coisas: por isso são-lhe ne­
cessárias antena s pelas quais apreenda anteci­
padamente o bem e o mal que podem provocar
um gesto, uma palavra, um matiz exagerado. A
delicadeza aperfeiçoa êste sentimento inato do
que convém dizer ou calar, indispensável nos diã-

89
logos. e que se chama o tato, contra o qual se
peca pelas impertinências. indiscrições e pergun­
tas curiosas. � delicadeza e a finez a podem en­
contrar-se separadas. Voltaire é fino, mas não
parec e ter sido delicado. Valéry é fino; diria
que Proust cultivou a delicadeza por si mesma .
chegando a não sei que de mórbido. La Roche­
foucauld é fino. J oubert é delicado. E George
Sand é fina, mas Fromentin é delicado. E Tere­
za de Ãvila é fina. enquanto que Francisco de
Sales é delicado.
A abertura do espírito é sua aptidão em se
interessar depressa por tudo ·o qu e ignora. em
ultrapassar tudo o que o contraria. em dilatar-se
até à compreensão do que até então lhe era in.�
terdito ou refratário. É uma qualidade rara. di­
fícil de conservar sem que se corrompa : a maio­
ria dos espíritos abertos são céticos ou dileta:l­
tes. não são sêre s apaixonados pela verdade. ama­
dores sõmeate. Há um paradoxo na frouxidão do
espírito : como exigir de um espírito que simpa­
tize com uma doutrina que êle reprova. com ur...1a
alma que lhe é estranha e por vêzes odiosa? Co­
mo acreditar. mesmo por um instante e proviso­
riamente. no contrário do que se acredita? Tal­
vez a resposta esteja numa reflexão sôbre a re­
lação da verdad e e do êrro. Não se engana. di­
zia Pascal. no lado que se tem em vista. Mas
engana-se ao querer que . êsse · lado �eja tambén;J.
os outros lados. Em cada êrro há uma verdade
.�
i ' l
90
prisioneira, o que explica que se possa amar o
êrro, viver e, em certos casos, morrer por êle.
A abertura do espírito caracteriza a inteli­
gência, se dermos atenção à sua etimologia, a
qual diz que inteligência vem da palavra intus
legere, que quer dizer : faculdade de ler no inte­
rior dos sêres. Sgr in�e.aão.k�-se.t,...ap.en,aâ.,_,ta..
zoável; é acrescentar à razão esta facilidade, esta
ma1êãl5il1d.idê' ··q:úê'"'per�it·� ---b�i;;��;·· -�o--iido ···d�;
" - · - - ---
pê'ss��; : �p�of� ndando,:.a s �ai5""'Clô 'que" efãs 5� co.-
nhecem, como a Sabedoria, �os primórdios do
mundo, da qual a Escritura nos diz que "brinca..
va diante de Deus em tôda parte da terra e que
suas delícias consistiam em viver com os filhos
dos homens". A inteligência verdadeira está pró ..
xima à simpatia; é uma simpatia do espírito que se
põe no mesmo nível da coisa a conhecer e que a ela
se une de um modo que não é mais definível que o
do sentido. Ser inteligente é possuir esta faculdade
de cohcidência. Tratando..se de um problema a re­
solver, a inteligência coincidirá com a ordem das
dificuldades. Se se tratar de uma outra inteligên..
cia a penetrar ( o que é o objeto mai s tentador
para a i::lteligência, a qual é atraída amorosamen ..
te para o seu semelhante ) ela se fará outra, mas
permanecendo a mesma.
Mas dizer de um homem ·que êle é inteli­
gente, não é um elogio sem perigo; a inteli­
gência pura não só desenvolve uma frieza da
própria alma em seus esforços de simpatia, mas

91
acontece também qu e a inteligência elege�se a
si mesma como fim e passatempo que o inteli�
gente desfrute de si mesmo e do brilho que ir..
radia : então a inteligência se altera, emurchece
e se dissipa, no momento mesmo em que seu po..
bre possuidor a acredita em seu mais alto ponto.
"§. at�ffi!�-�!. _y��E�!:-.9- n:l.ª-ti��"'g�=�-��P�!'.!=':_�j;J.�
teligência e a razão. Ninguém ousa dizer que
:
hajâ" "perlgo�'. ' é1n: 'tlS'�t�·
..
· da razão -ênqiianto � 'qiíe ··é
Eêm - s ab ido . que a . iriteligê ilcia pode tornar�se su..
__

til, perversa, insincera. Porque a inteligência não


é a razão mesma, mas a razão hábil , calculista,
" fabricante, a razão utilizada pelo espírito do ho ..
mem para atingir fins que não são todos igual...
mente bons. M. Teste de Valéry era uma i:lte­
ligência pura, mas não compreendia nêle senão
o exercício de uma função nula.

* * *

Quase não se fala mais na fôrça de espíri..


to; exalta�se antes a fineza, a delicadeza que o
vigor. Parece que a totalidade do espírito seja
compreender os matizes. Mas os matizes su...
põem a côr; a côr supõe o valor; o valor exige
as separações das linhas. E a linha exige de
quem a traça a segurança, a prontidão, que são
outros nomes da fôrça. O mesmo se dá com o
espírito. Vemos tanto s espíritos críticos que têm
a arte dos matizes, sem ter o sentido das côres
e das linhas. A fôrça de espírito consiste em ir

92
direto ao essencial, sem se deixar distrair pelo
detalhe. Um espírito que tem fôrça esquece o
que não é muito importante; as fôlhas não es..
condem os galhos, e são êsses galhos mestres
que êle fixa sob a superabundância inútil. Não
aceitará colocar aquela espécie de fumaça em
que Leonardo da Vinci diluía os contôrnos, se­
não quando tiver situado estas li::J.has de es­
sência, geradoras da verdade e da beleza.
A fôrça é a mais inviável qualidade do es­
pírito, porque comporta o sentido do real, do só­
lido, do simples, do natural. E a fôrça do espí�
rito não está longe da fôrça da alma. Neste
ponto, as faculdades que estavam escaladas para
o serviço se reúnem na unidade da pessoa. E é
difícil de se desenredar se a fôrça do espírito fôr
uma qualidade da inteligência, da vontade ou da
alma inteira.
Perguntar�se�á que diferença existe e:ltre a
justeza e a fôrça, já que se vê muito bem que
são qualidades semelhantes. Se o espírito é for­
te sem ser justo, então é duro, ingrato ou vio.­
,
lento. E a violência é uma caricatura da fôrça :
a violência é a fôrça, quando esta não têm mais

contrôle sôbre si mesma e não merece mais êsse


nome. E a dureza é uma fôrça exclusiva e fecha..
da que só vê um lado. Aquêle que é justo em
seu s julgamentos, se ao menos sabe remontar aos
princípios e ver os efeitos da justiça emanar das
causas, então é um forte. Mas a fôrça aparece

93
:1a expressão e a justeza de preferência no pen�
sarnento. � fôrça burila e grava; a justeza tra�
ça e desenha. Assim, La Bruyere tem a justeza
em seus traços, mas Pascal tem a fôrça . Seu
pensamento parece mais um pensamento porque
é mais conciso e mais engenhoso. Faz ver mais
coisas em sua luz, seja porqu e Pascal sabe di�
zer melhor, seja porque sabe melhor omitir, seja
porque vê mais longe e eleva�s e mais alto. Gide
pode ser justo. Mas Claudel, nos seus bons mo�
mentos, é forte.
ym espírito vivo é um espírito qye Ç.Q_ng�e�
ga ràpidamente suas fôrças e as tem continua�
·-- - -
menie' ��b ;u� p�ÕteÇão . o contrário da vivaci...
.
. .

d àde ê a le:::ltidão : o espírito lerdo s e mobiliza


pouco a pouco. Mas com essa lentidão do ser,
evita as precipitações do julgamento. Joffre ti�
nha uma certa lentidão antes de decidir como
autoridade, ao passo que Foch era vivo, rápido.
imediato, embora prudente por razão. Na última
guerra, Roosevelt, Churchill, foram grandes ima�
ginativos, capazes de explorar os possíveis, sem
o magnetismo e a loucura do seu adversário.
Fàcilmente se vê onde estaria o ideal e em
que composição de moderação e rapidez. Mas
valem mais a lentidão e a prudência. Nossos
hábitos de escola e de exames contribuem para
para �os enganar neste ponto : os espíritos Ia�
boriosos e le:::lt os fracassam em nossos concur-

94
sos; entretanto, são os mais úteis à comunida..
de nas circunstâncias ordinárias.
A medida consiste em não lt.ltJ;ap_as.sar Eois
__tô-d��-. ·
• . ..

há- limites -êm_,


_.�. -·-··--··---···�--- --·- · ��.--·��
... . Í�a·· �--�
---· �; ..-limites
·.-.00
na afir..
· ·

' -;;;.r-- ...-···-... '"•''''" ''''''"'''"A' ' ' " '

maçao, que só muito raramente deve-se levar ao


-· · --
aos oh11:o ; li�ites n� expl���Çã� : q��. deve�ia de.-
ter-se diante do insolúvel e do inexprimível; li­
mites no próprio julgamento, que, por falta de
informação, de competência ou certeza, deve-se
abster. Os catecismos de outrora reprovavam
" aquêle que julga em vão e sem :1ecessidade" . É
difícil guardar o sentido dêsses limites. Assim,
nas conversações, fàcilmente se passa da distra­
ção para aquilo que fere, da hipótese à insinua­
ção. O espírito comedido está seguro de não ter
algo de que se arrepender e contradizer-se, escapa
aos impulsos de um dia. Sua vantagem é ter a
oportunidad e de estar com a verdade e ainda no
dia seguinte. Nietzsche tinha muitas opiniões pre­
concebidas para guardar a medida em seus sar.­
casmos.
Perguntam-me o que é um homem de espí.­
rito , no sentido que esta palavra tem na França,
e se o espírito de Voltaire, por exemplo, tem re..­
lação com o espírito que procuro definir. O
espírito fra:.1cês nasceu nas c·onversas em que
não se procurava tanto a verdade quanto a dis..­
tração. Tratava..-se de excitar em cada um o
prazer de exercer a inteligência, seja por uma
alusão, seja por uma comparação inesperada, seja

95
estendendo abusivame:1te o sentido de uma pa..
lavra, seja dizendo o contrário do que se sugere.
Aí está precisamente uma arte de distração e
que favorece o riso; mas é difícil usar sem abu..
sar, e o abuso revela um vício secreto, que é uma
espécie de complacência no que é amargo. As
pessoas de espírito fazem rir, mas quase sempre
em detrimento da verdade e do pudor. Quando ____,.

o espírito procura coincidir com o que há de sin..


· guia� -��L .cada- -ser;· flãã= :f)ãiã��Qmoar·aêlê, · rrüis
- ...

-
p'õr. � ma piedade razoável, entã� -chãma�se hu ..
Ill()r·:-A'ipliõil:Se""Dãüâ�t---e ·Jecm: · Giààiudoux ti..
nham . humor. (�uãiiàõ '6 ' espífifõ-se -dá ãõ prazei'
."
.

de nãõ- -acre ditar, então chama-se iro:1ia : Renan


é irânico em seus Dramas . Quando o espírito
separa-se do que está narrando e quando exage ..
ra sem mentir, como na comédia, temos então o
escárnio; se isto se refere aos costumes, é o
atrevimento; quando traz em si um dito picante,
é a malícia; Montaigne é escarnecedor e mali..
cioso, e às vêzes atrevido. Voltaire, que é tanto
espirituoso, não é :::1 e m atrevido nem escarnecedor
e tem mais maldade que malícia. Mas, após o
século XVI perdeu-se o comportamento livre e
franco. E não sei se algum dia será reencon ..
trado, porque o saber que progride é mal hu..
morado .

96
* * *

O espírito varia também de acôrdo com o


gênero de atenção de que é capaz.
Existem atenções estreitas que se orientam
totalmente para um só objeto : era o caso de Na...
poleão, tão atento, mas tão concentrado num pon...
to, e que passava seu tempo a fazer revistas, a
descobrir seus estado.., de situação. Era também
o caso de Descartes, que fixava sua atenção
sôbre o elemento mais claro e mais simples, ex ...
cluindo o resta:1te, pois que também êle fazia
"inspeções gerais a fim de omitir tudo" . Mas
existem atenções largas, flexíveis, ágeis, d e gran...
de capacidade e acolhedora, como era a de Hen ...
rique IV, que cuidava de todos os seus negócios
ao mesmo tempo, saltando de um a outro, ou
como parece ter sido a de Montaigne, cujo
procedimento era "à maneira poética, aos saltos
e cambalhotas" . E a atenção de Bergson, sem
dúvida precisa nos detalhes, mas musical, temá...
tica, melodiosa, evita:1do o sistema e sua obses ...
são, não prestando ouvidos à parte senão no in...
terior do todo.
Há também atenções pad�ntes, que podem
permanecer muito tempo sôbre um mesmo objeto,
e atenções que se ausentam, que são obrigadas
a se retirar sem insistência, que não reconsideram

vartas vêzes. Estas atenções são semelhantes a


bombardeiros a pique. Mobilizam... se em dire..

7 - A prenàer a viver . . . 97
ção a um objetivo estabelecido, tocado, escolhido
num segundo, como faziam Fonck e Guy::1emer.
Se o objetivo não foi conseguido, tanto pior, pois
volta-se ao princípio, recomeçar-se-á uma ou...
tra vez.
Estas são algumas qualidades do espírito.
Quando uma dessas qualidades é desenvolvida,
chama-se talento. Quando várias se desenvol­
vem ju:J.tamente, no mais alto grau e na simpli...
cidade, tem-se então O· gênio.
Aquêle que percorresse tôdas as gamas do
espírito e soubesse ser ao mesmo tempo e opor­
tuname:J.te firme e forte; quando fôr a ocasião.
fácil, agradável; quase sempre claro, obscuro por
profundeza e não por incapacidade ou presun­
ção; procurando sempre o justo e o verdadeiro;
original, atirado, mas com medida e naturalidade,
êsse, além do mais, teria o gênio. Entr� os An­
tigos, devem ser lembrados Homero, Platão e
Virgílio. La Fontaine, se tivesse mais largueza
e Hugo, se tivesse mais gôsto, dariam esta im.­

pressão de qualidades discretamente contrárias .


altamente concordes, o que lhes permitiria per...
correr, sem sinal de esfôrço, a extensão que se...
para o comum do sublime e o que faz chorar do
que faz sorrir apenas.
Pensamos em Shakespeare, único entre os
moder::1os, por esta variedade de toques, de to ...
nalidades, por esta arte de criar uma humanida...
de nova, tão confusa quanto a nossa, de unir pe...

98
la cultura, ternura e nobreza de alma todos os
gêneros da linguagem e do ser. Nesse teatro vê.­
... se agir aquêle poder do espírito de fazer uma
obra qu e se assemelha à natureza, essa grande
coisa calma e que se renova.
Em tôdas as ordens da grandeza ( quer se
trate de política, de guerra, de arte ou de santi-­
dade ) aparecem, após muitos séculos vazios, ês­
tes espíritos superiores até mesmo aos maiores :
assim, Platão, Leonardo da Vinci, Pascal . . . Per.­
gu::J.ta... se o que êles têm de próprio. �stes ho ..
mens são como uma espécie única, uma solidão,
uma linguagem, um universo. E no entanto, sen­
timo.... nos muito mais à vontade com êles do que
com o s gênios inferiores, ou com as pessoas de
espírito ou d e talento. Assim como um homem
de bem se sente mais bem compreendido por um
santo que por um herói ou um professor de mo..
ral, assim também o homem comum não se as..
susta com os maiores gênios, que falam a língua
comum, embora de ma::1eira sublime. !t preciso
notar que os gênios de primeira ordem acham-se
quase sempre alheios à sua época, são mais con..
temporãneos do futuro. E até mesmo, à medida
em que a história avança, são mais atuais.
Desej ar-se...ia saber como procedem êsses gê..
nios. Novalis dizia: "O gênio é o salto por ex..
celência". E ainda: "Sonhar e não sonhar ao
mesmo tempo, no mesmo insta::üe, eis a operação
sintética, a do gênio, pela qual a vigília e o sonho

99
são igualmente fortificados" . :Ê;sses traços fazem­
..nos lembrar Napoleão e Goethe, Pascal e Leibniz,
São Paulo e São João. É bom viver em com..
panhia de sêres superiores, porque nosso espí­
rito, mesmo sem compreender, nêles se revitaliza;
acha-se na fonte.
E:1fim, entre as qualidades do �spírit_o . hu...
manõ;-p�d�-:: se --no-t�- - a -- -profund�;�;-· a �riginali-
dade, a grandeza, a invenção.
A originalidade existe em cada um : porque
cada um de nós difere do outro. Somos todos
números primos, divisíveis por si mesmos apenas.
O que falta para que isto se manifeste são pala...
vras capazes de exprimir o que é singular, úni..
co em seu gênero, inefável. Cada um deveria
esforçar.. se em descobrir o que o distingue dos
outros, de ser humildemente orgulhoso disso, em
colocá... lo em evidência, em lhe dar relêvo, sa...
liê:1cia e côr. Mas é preciso também observar
que a originalidade não é tanto uma superiori...
dade particular quanta. uma atração e uma evi..
dência que se juntam ao que se tem de comum
com os outros, do mesmo modo que o olhar não
é, de modo algum, o ôlho, mas só seu esplendor
A profundeza i' o poder de ir além das apa­
rências, das fórmulas e das exterioridades para pe...
'netrar até à verdade profunda da coisa, da pessa.a,
do mistério. É a plenitude da fôrça de espírito e é
análoga à coragem, :::1 a ordem do querer.
A grandeza reside na palavra, ·:lo estilo mais

1 00
que no objeto� Ser grande é evitar o que é
medíocre; mesquinho, calando.- se· · e ííg-o através
. .
.
. . . .
.
.
....

d� co���Ções e. at.a�.que·s:" Quélndo a ;:}!:andeza se


• .

····�
· ..
--·

�---
�-
. .

une . à �-1!���� torna.-se "ª���-gªncia , qu� ê u m .

defeito pelo . orgulho que oculta... Em Port .-Royal


encontro mais arrogância que grandeza. Quan.­
do, ao contrário, a grandeza se ma:1ifesta sem
rebaixar ninguém, sem se sobressair, através de
um tom de simplicidade digna, então ela é PQ:'
breza. Quando enfim a nobreza se faz lenta,
g-�·;;dândo êsse tom impassível que parece vos
colocar acima de tudo, ela é majestade. Pascal
!:em muita profundeza; Bossuet, muita grandeza;
Chateaubriand e Barres têm muita arrogância. A
':lobreza, nestes tempos de inflação de valores,
parece estar escondida nas almas modestas e des.­
conhecidas antes de tudo por si mesmas.
Não existe artifício para inventar, mas a
êle nos dispomos através do método. A inven.­
ção existe nas ciências num grau muito visível :
ma s pode-se encontrá-la na ordem das verda.­
des morais e mesmo religiosas. Aí ela brilha me.­
nos aos espíritos, embora seja mais útil. A.qt.t.�l�
q��- �J�.�� a Pe.?�tr_�: .. � - -� ��11!�-��-- ����?�• qu�"" .. .

expJ<;>.ra... ��·ª · · �?Ct.�n,s�o qge . d efine . �u a profundeza.


• .

êi:: ·-também · -um· · inventor� · ·--

* * *

Entretanto, estas qualidades do espírito não


seriam nada · sem as qualidades dêsse poder que

101
dá a fôrça de ir sem ver e que se chama coração.
O coração e a coragem se assemelham, quando
não são um mesmo movimento : são chama-­
dos também de querer. Aqui. poucas palavras
bastam .
� ��n��é.\.4� .�-- é! J>�Ç..a ���tra. d9.J'!:.� �em , . pois .. . ..

lhe p�;-mite ser o que se faz. Se não tivêss�os


·
vontade,
-· seríamos uns autômatos. Não nos dedi-
. -

' . .. ....-- .
.
. .

catiamos a nós mesmos. A vontade é o órgão


.. -· ..

do amor.
Ainda uma vez, o que vem a ser 'O amor?
Voltamos a considerá-lo e é muito difícil de o
dizer. O que é certo é que a palavra tem uma
pronúncia maravilhosa, com suas duas sílabas que
tão bem se completam : a primeira, que ascende,
q ue aspira; a segunda, que é um doce desabro­
char e onde se percebe confusamente a sílaba
ar. sinal de posse. Amor, na França, é uma pa­
lavra rara por ·esta conveniência de som e de se::J.•
tido, que os inglêses e os alemães não têm com
seu Lo·v e e seu Liebe.
O amor é uma exaltação tranqüila da vonta...
de que se une ao que ela deseja e que dêle goza
por antecedência. :g d�ye-se levar em conside.­ __

ração que amar não é t�r. ;_ e para amar, a dis-


tân:ci�� ·· -� p�Í�ação, � pr�cur � -i;;_�-��t; -��-º _fav�rá­
·
..

��i-s . · Os g���cl�� a�or�sos da poesia e da his­


·

tó�i� estiveram quase sempre separado s e comu­


·

nicando..se apenas pelo desejo. ,É o que faz com


que entre um pouco de sofrime:1to na composição

1 02
do amor. E mesmo que se possua no amor, mais
longe se quer ir na posse, sofre�s e por não pos�
suir mais. Entretanto, no amor há uma alegria,
um gôzo, como se aquilo que se deseja, dêle já
se disponha. É por isso que nada podemos fa�
zer sem amar, nem mesmo aprender uma lição,
começar uma pesquisa, reformar um estado, culti..
var um campo, salvar uma civilização, educar uma
criança, Para fazer, é preciso desde o início en�
contrar�se no têrmo, possuir o futuro que ainda
não existe. Se se cultiva um campo, é preciso
desde já gozar dêsse campo como se êle já esti..
vesse cultivado. Se educamos uma cria:1ça, é
preciso que nos transportemos para o fim e nela
já vislumbremos o novo homem. Se é a reforma
de um Estado, se é a salvação da pátria, é preci..
so ver estas coisas como possívei s, praticáveis,
apesar das canseiras e dos riscos, e como já fei�
tas. ,A isto se chama amar. Muitos dirão qu�
isto não é amor, mas esperança, fé, entusiasmo.
Sem dúvida, mas o amor contém tôdas es�
sas coisas.
O amor aplica�se à afeição do homem e da
mulher : é aí que êle se acha mai s encarnado,
mais sensível e figurado pelos movimentos do
sangue nos dois corpos.
E também se diz que se ama a Itália, a mú�
sica ou as flôres, ou "os sombrios prazeres de
um coração melancólico". Porque esta maneira
de querer o que se não tem, com isto se iden..

1 03
tifica::J.do por uma espec1e de encanto, aplica...se
bem a tudo. Já o vimos, aplica...se até a si mes ...
mo. Mas amar...se com um amor honroso é que...
rer, em seu melhor estado, unir...se de antemão ao
que se vai ser.
Na idéia de fé, há mais ainda. Aquêle que
tem fé não verifica, não apalpa, não vê . Nega
as aparências contrárias. "Fecha os olhos e
verás" , é o adágio e o paradoxo da fé. O mis­
téric escondido, a bondade e o sentido de cada
coisa não se alcançam só pelo conhecimento. É
preciso ainda uma aposta razoável de que, atrás
do mal tudo é bom, de que atrás das nuvens o
sol brilha. Esta certeza é a fé.
Vê... s e por aí que o homem não pode ver...
dadeirame::J.te viver sem fé ao menos sem uma
fé humana; que a fé na verdade é sua respiração
sem que o saiba, qu e o justo viv.e da fé. Deixa...
mo--nos levar ao ponto de acreditar que o conhe...
cimento e a ciência poderiam bastar. Mas a pró ...
pria ciência vive de fé na ciência.
O fruto do amor é a alegria.
O gôzo é a alegria em exercício. Acha--se
um grau acima da posse, porque se . Pode pos­
suir sem gozar, mas não se goza sem verdadei...
ramente possuir. O entusiasmo é o sentimento
que se prova quando se imagina ter no fundo do
coração, como um deus esco:1dido, o princípio
que vos anima e que permite criar.
O fervor, que outrora se chamava zêlo, é

1 04
também um fruto do amor : relaciona-se com a
solicitude, a intensidade, a respiração viva e can­
tante daquele que espera e crê.
Tôdas essas qualidades do espírito tradu­
zem-se em nossa existência. Quando se chegou
a fazê-las passar mais ou menos em seu modo
de ser, diz-se, em nossos dias, que a vida tem
um estilo. Em outros tempos esta palavra não
se aplicava senão à linguagem. Mas tôdas as
nossas co:1dutas nos exprimem por inteiro desde
nosso a:1dar e movimentos de nossos olhos até
os nossos silêncios.

1 05
úLTIMOS PENSAMENTOS

Ao final dêste livro, que parece ambicioso,


quereria propor ainda um último pensamento : é
que a excelência consiste em aceitar seus limites.
Quantos esforços não se perderam pela idéia de
uma falsa grandeza, pela procura de uma perfei...
ção que não é de nosso feitio. Se formos, aJ...
gum dia, chamados a grandes coisas, é pelas pe ...
quenas que será preciso começar. Sem dúvida,
convém engrandecer co:1tinuamente o espírito, o
horizonte, a coragem, mas aplicando... s e com ai...
ma a tarefa s precisas e por conseguinte modes ..

tas, aceitando as lacunas necessárias e as fra...


quezas. É bom não se iludir a respeito de si
mesmo, perceber suas sombras, seus recantos,
como se faria com uma velha casa recebida em
herança e onde há confusão. Os limites fazem
parte das próprias coisas, como as fendas fazem
parte do cântaro, como as cicatrizes fazem parte
do corpo .
Se soubésseis que sossêgo, que contentame:1...
to, que doçura de apreciação resulta do ato pelo
qual se aceita enfim tal como é, com as ele...

1 07
vações e as depressões, e também com as media�
cridades, nem melhor nem pior, mas tal como éra­
mos e tal como nos fizemos, depois que se teve
a alegria de s e conhecer e de poder juntar alguns
complementos à sua pessoa, contente, ou antes , no
gôzo da posse de si mesmo, satisfeito e encantado
de ser precisamente o que se é, e de ter o que se
tem . Essa era a idéia do Eclesiaste, êsse sábio
do Antigo Testamento, a de Mo:1taigne no fim
de sua vida. E sem esta sabedoria elementar,
esta modéstia de base, ·as grandezas são ilusó­
rias e fazem sofrer.
Também é preciso notar que existe ( além
do esfôrço e do repouso ) um estado superior a
um e a outro, e ao qual co:wém se dispo1.· na
medida do possível. É um estado espontâneo de
equilíbrio e de harmonia, onde os órgãos do es...
pírito t'�m seu livre jôgo. É o estado de como­
didade, é o não-esfôrço; é a graça. É certo, não
está em nosso poder a obtenção dêste estado,
embora um certo cálculo, uma certa aplicação es­
tejam em nosso poder; mas deve-se também lem­
brar que existe um mau esfôrço, ao lado do bom.
Há um modo mau de prestar atenção, que au....
menta as dificuldades e que até mesmo as fabrica.
Direi ainda com Descartes que a alegria �ão
é somente o fruto do trabalho, mas ainda um
meio para o trabalho, que há uma alegria antes
do esfôrço e uma alegria também no esfôrço que
é preciso revelar em si quando ela cessa, inte-r-

108
rompendo ou deixando de lado o que vinha mes..
dado de tristeza. Observando.. me. vejo que o
homem moderno não canta mais durante o tra..
balho. Sabe usar tão mal os bens complementa..
res que tem : quer possuir, mas não sabe mais
gozar. Mas pensar, estar �a poss e de si mesmo.
ter planos e aguardar a hora, respirar profunda..
mente, trabalhar enquanto se tem luz, segundo as
palavras do Evangelho, de que Marcel Proust
tanto gostava, estar certo da fidelidade daqueles
aos quais nós unimos o coração e o hábito , saber
que se cumprirão suas promessas e que haverá
fidelidade para com os seus, sentir.. se como que
arraigado num solo, num eixo imperturbável, mas
espelho aberto a tudo que é capaz d e necessi..
dade de refletir o universo : aí estão a s satisfa..
ções possíveis a todo homem. E as obras se..
guirão essa fé. Aquêle que está assim seguro,
não tem mais que prestar.... se aos apelos, como a
planta, carregada de grãos, presta.. se ao vento.
As circunstâncias virão por si mesmas. Os
grãos se evolarão. Temos o dever de nos tor....
nar o que éramos. O trabalho, seja êle d e pen"
sarnento ou de ação, nascerá desta superabundân..
cia. E todo trabalho que ::1ão nasce da supera..
bundância é estéril .
Uma oficina, uma emprêsa , um serviço, uma
família, um Império, tudo ( nas coisas grandes
e nas pequenas, que se igualam ) pode causar es ..
ta alegria de uma vida comum, sem esfôrço ex ..

1 09
cessivo, sem trepidação, como a luz, a juventu­
de ou a glória. Ideal impossível talvez, mas que
deve servir de medida, se em nós mantivermos
o homem acima de seu trabalho.

1 10
AP2NDICES
ORIENTE E OCIDENTE

O problema das relações do Oriente e do


Ocidente é belo, ma s difícil. Inteligências mui­
to diversas se unem para o estudar, longe de ·
qualquer política. É claro que o Oriente e o
Ocidente, como dois irmãos separados, ou antes,
como duas metades de um mesmo universo, de...
veriam instruir-se e ajudar...s e mutuamente, cada
um oferecendo o que falta ao outro.
Pergu!lta-se o que teria acontecido se o 1m ...
pério chinês, que é muito anterior ao Império ro­
mano, se tivesse alargado até à Palestina, se
os primeiros discípulos de J esus, em lugar de se
estabelecerem em Roma se tivessem fixado em
Pequim. Lou ... Tsien ...Tsiang , que foi primeiro mi ...
nistro da China, antes de se fazer monge bene­
ditino na abadia de Santo André, na Bélgica, for­
mulava para si mesmo esta misteriosa pergunta :
e êle não lhe dava resposta.
De fato, a semente do espírito :.10s veio de
Jerusalém. São Paulo atravessou os Dardanelos
e pregou na Europa .- o que deu a êste cab-:J

uma imensa superioridade. Também é um se-

1 13
8 - Aprender a viver . . •
gundo fato que a máquina foi concebida por um
cérebro ocidental . E é um terceiro fato que no
.
século XIX o Ocidente se apresentou ao Oriente
com uma dupla face : a de uma religião superior
que lhe permitia e11.viar�lhe mensageiros e a de
uma técnica superior que lhe permitia dominá�lo.
Seria preciso que o Ocidente fôsse santo para que
nêle o corpo da civilização estivesse submisso à
alma, e a técnica à mística. Seria pedir mui�
to talvez . . .
Em conseqüência, . vimos, nestes últimos
tempos, um estranho paradoxo . É graças ao coil�
tato com o Oriente, com o mundo judeu , com o
islamismo, com o induísmo ou com a China que
muitos filho s desabusados do Ocidente tomaram
consciência dos germe s espirituais que possuíam,
mas que não cultivavam. Sabe,.. s e que abalo foi
para o filho querido de Renan, Ernest Psichari, o
encontro com a piedade maometana. Foi n2 .�
cessária a voz do muezim e o deserto para fa··
zê,..lo ree:.1contrar a adoração. Em nossos dias,
o exemplo de Gandhi , a " grande alma" , tem re...
ensinado o sentido do Sermão da Montanha e a
doçura, ou ainda a prece, que G;Jndhi tão bem
chamava de chave da manhã e ferrôlho da noite.
Bonaparte dizia certa vez a Chateaubriand :
" lmpressionava�me sempr.e que via os cheiks cair
de joelho em pleno deserto e voltaram,.. s e para
o Oriente e tocarem a areia com a fronte . . . Que
era essa coisa desco:.1hecida que êles adoravam

1 14
do lado do Oriente?" . Admirável interroga­
ção, que ajuda a compree::J.der Charles de Fou­
cauld. É bem verdade que o Oriente contempla e
que o Ocidente age, ou mais exatamente : que o
Ocidente jamais soube conceber nem organizar ês­
se repouso que é a fonte da ação. O Ocidente
ensina a sabedoria, mas quase não a pratica. É
que êle tem muito o que fazer.
Não aceita que o mundo seja uma aparên­
cia. Trabalha a terra para torná-la capaz de ali­
mentar seus filhos. Tudo está em contínua reno­
vação . Poder-se-ia ler em tôda parte : "Fecha­
do para ampliação" . É que o fermento judeu e
cristão comunica ao Ocidente uma inquietude
permanente, o sentido de seu pecado, a idéia de
que há sempre uma reforma, um progresso, umà
melhora possíveis, o desejo de fazer partilhar seus
bens, a necessidade da propaganda, o horror da
integração. Lord Irwin contara-me seus coló­
quios com Gandhi, quando era vice-rei das ln­
dias e visitava Gandhi na prisão onde se fizera
encerrar. O nobre homem dizia ao profeta : " Na
vossa doutrina das ree::J.carnações, o que se faz em
cada encarnação particular tem menos importân­
cia do que para nós. É o que vos torna tão di­
fícil aceitar um compromisso num determinado
caso. Vossa concepção da vida vos leva a espe­
rar por um milhão de anos para obter a perfei­
ção". É verdade que o preço infinito do mo­
mento presente é um valor ocidental.

1 15
Segunda vantagem : o Ocidente separa o
espiritual do temporal e o que é devido a Deus
sàme:1te do que é devido a César. No Oriente,
o poder religioso e o poder político tendem a se
unir numa mesma pessoa. Ora, quando o poder
é sagrado, pelo fato de que é um poder ( ou.
i:lversamente, quando o sacerdote é Rei ) , não há
quase lugar para o engrandecimento humano.
Tôda conservação é traição. Tôda guerra é
uma guerra santa.
O Oriente confunde e o Ocidente discerne.
A liberdade que resulta dêste discernimento é um
valor ocidental.
É assim que o Oriente e o Ocidente pre.­
cisam um do outro para encontrar sua pureza,
para obter sua plenitude. Como são atuais os
versos dêste profeta que foi Hello no último século,
é.-me proveitoso relê.-los nesta manhã : " Nos
momentos mais vulgares da história humana, o
Oriente e o Ocidente se olham. Nos momentos
decisivos, o Oriente e Ocidente se tocam . Se
êles se unissem, o Ocidente entraria em repou.­
so e o Oriente em trabalho".

1 16
O AMOR E O óDIO

Ao visitar, na Biblioteca Nacional, a ad..


mirável exposição consagrada a Paul Valéry, eu
tinha a impressão de ter sua sombra atrás de
mim, inclinada sôbre a s vitrinas e vivamente in....
teressada nos restos de seu próprio espírito. Du..
rante sua vida, Valéry analisava continuamente
suas operações : o "como" em tôdas as coisas o
apaixonava, e :Ião o "porque" . E quando fazia
versos tenho a certeza de que êle s e dividia sem­
pre, fazendo sem dúvida, mas sobretudo con t em ­
plando-se fazer. Deixou duzentas e cinqüenta
e quatro agendas, que se reproduziriam, peb
fotografia, em trinta e dois volumes "in quarto".
Penetrar no sonho acordado de um criador, de­
cifrar êstes mil nadas de que êle fêz um todo ,
que lição, que doce reconfôrto!
Lembro-me de ter falado dessas agendas
com um dos poucos que, em outros tempos, as
haviam visto, Auguste Valensin, êsse exegeta sub­
til de Valéry, tão parecido com sua inteligên­
cia. E êle me dizia, certo dia em Nice, ao longo
da baía dos Anjos : Vêde, em todo poeta ( e

1 17
isto implicaria também um chefe d e indústria , um
político, um realizador qualquer ) é preciso con­
siderar três sêres : o produtor, o homem de sen..
so artístico e o técnico. O primeiro fornece a
matéria; o segundo escolhe; o terceiro fabrica. Se
sois apenas um fabricante, aborreceis. S e não
tiverdes gôsto artístico, vos desesperareis . Se
fôrdes um produtor unicamente, atormentareis .
Ora, Valéry, que se conhecia tão bem, sabia
que �a técnica não tin:ha rival. que possuía o
mais fino gôsto : faltavà.. lhe algo no poder. E,
tôda manhã, ao romper do dia, abria em segrêdo
suas agendas de invenções e de exercícios :

Dans mon âme je m 'a:vance,


Tout ailé de confiance :
C�e'St la premiere oraison!
A peine sorti des sabtes,
Je [.ais des pas admirables
Dans les pas de ma raison.

São êsses passos que nos são doravante res ..


tituídos : êsses primeiros balbucios, êsses primei..
ros retalhos, os conselhos · que Valéry se dava,
suas irritações, esboços às vêzes, sonoridades,
equações sibilinas, poemas mal começados e já
esquecidos, confidências, amarga s .- em suma,
êsses germes de si mesmo, .- êsses fragmentos
bizarros vindos do futuro, êsse caos de imagens
claras que vos visitam quando despertais, dos

1 18
quais não se sabe bem o qu e fazer, mas que,
para quem medita, são pepitas de ouro. Por..­
que êle sente a coragem de levar , por fôrça do
trabalho, ao mais alto grau de precisão e de
esplendor.·
O mais surpreendente dêstes pensame:J.tos..­
..-sonhos, para quem conhece Valéry, é sem dú..­
vida o que êle traçou a lápis em seus últimos dias
de sofrimento, e com o qual sua obra para sem ...
pre se interrompeu :
" T ôdas as possibilidades de êrro - pior ain...
da ,......, tôdas as possibilidades de mau gôsto, de
facilidade, vulgaridade, estão com aquêle que
odeia" .
E depois, com a mesma letra inclinada e
ligeiramente trêmula :
"A palavra amor não se viu associada ao
nome de Deus ( neste ponto troca de lápis, 1e' as
pala vras que vêm em seguida são esoritas em azul
claro) senão depois de Cristo".
O que não quer dizer, a rigor, que Paul Va...
léry tenha acreditado em Deus, mas antes que
Deus acreditou :1êle, pois que deixava a Parca
cortar o fio de sua vida neste mome:1to, tão raro,
d e um pensamento de amor. Ao fim desta vida,
dizia São João da Cruz, êsse gênio tão contem...
plativo também, nós seremos julgados sôbre o
amor .

1 19
l N D I C E

Convite .. . . . . .. ... . . . . . , . . . . ,. �
. . 7. . . . , . , . 'l ,.:

I Considerações sôbre os métodos de


...

trabalho . , . . A • • • • • • • • 17• • • • • • • • • • , • •

II Esbôço d e uma arte de inventar . . . . . 35


... ,

III Do pensamento à ação


.... . , . . . 65 . . . . . . .

IV Retrato do espírito humano . . . . . . . 85


... .

últimos pensame:ttos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 07
.

Oriente e Ocidente . . . . . . . 1 13
. . . . . . . . . . . . . •

Amor e ódio . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 1 7