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Mandamentos positivos e negativos

Para apreciar o significado de Pêssach Sheni, é preciso, primeiro,


analisar a importância do mandamento de Korban Pêssach.

O mandamento da oferenda de Pêssach, bem como o do Brit


Milá (circuncisão), é singular, pois é um mandamento positivo, cuja
omissão equivale à violação de um severo mandamento negativo.
Explicando melhor: a Torá contém 613 mandamentos (e suas inúmeras
ramificações), que são divididos em duas categorias básicas: 248
mandamentos positivos e 365 negativos. Um mandamento positivo é
um ato cujo cumprimento a Torá nos impõe. Um negativo, por outro
lado, é um ato cujo cumprimento a Torá nos proíbe. Entre as
inúmeras mitzvot positivas contam-se o Brit Milá, o Korban Pêssach, a
colocação dos Tefilin, fazer Tzedaká, estudar a Torá etc. O
cumprimento dos mandamentos positivos fortalece a alma da pessoa,
ligando-a a D’us; beneficia a humanidade e todos os seres vivos e
ajuda a trazer equilíbrio, paz e plenitude para o mundo. A violação de
uma mitzvá negativa faz o oposto: um pecado de cometimento é
prejudicial não apenas à alma de quem o comete, mas também a todo
o Povo Judeu e ao mundo como um todo. Quanto mais grave o pecado,
maior o dano subsequente. A Torá contém muitos mandamentos
negativos: consumir Chamêts em Pêssach, comer ou beber em Yom
Kipur, falar mal de terceiros, assassinato, adultério, roubo,
envergonhar a terceiros e ainda muitos outros.

Na Torá há mais mitzvot negativas do que positivas e está bem claro


que violar um mandamento negativo acarreta mais consequências
espirituais negativas do que quando se deixa de executar um positivo.
Em outras palavras, no judaísmo os pecados de cometimento são muito
mais graves do que os da omissão. Por exemplo, a Torá nos diz que
comer Chamêts em Pêssach é muito danoso para a alma judaica,
alertando-nos que quem o faz conscientemente recebe Karet – é
espiritualmente divorciado de D’us até que faça as reparações devidas
por sua transgressão. No entanto, essa consequência espiritual muito
negativa não cai sobre alguém que se abstém de cumprir o
mandamento positivo de comer Matzá durante o Seder. Essa pessoa
não está espiritualmente divorciada de D’us; ela simplesmente não
cumpriu uma mitzvá da Torá. Essa clara distinção entre violar um
mandamento negativo e violar um positivo indica que é muito mais
importante cumprir as mitzvot negativas.
Aparentemente, quem nunca comete transgressões, mas também
nunca cumpre os mandamentos positivos do judaísmo, está
espiritualmente em melhor situação do que quem tanto comete
transgressões quanto cumpre os preceitos positivos da Torá.

No entanto, esta maneira de analisar o judaísmo é superficial e


errônea. O propósito da Criação não é que o homem não peque. Nas
palavras do Midrash, o propósito da Criação é que o homem construa
uma morada para D’us no mundo mais baixo. Isto significa que o
homem precisa se empenhar muito para fazer com que este mundo
seja um lugar Divino – belo e sagrado. A passividade, ou a vida sem
pecados, talvez não perturbe a Criação, mas certamente não constrói
tampouco um mundo – nem para o homem e muito menos para D’us.
Portanto, há uma forma totalmente diferente de ver a gravidade e a
importância dos mandamentos positivos e negativos da Torá.

Ninguém pode negar que a violação de um mandamento negativo seja


espiritual e fisicamente prejudicial. Mas os pecados cometidos contra
D’us – não contra o homem – são retificáveis através do
arrependimento e da expiação. Mediante o verdadeiro arrependimento,
oração e especialmente as boas ações – como a caridade aos pobres –
pode-se apagar quase todos os pecados cometidos contra D’us. O Todo
Poderoso está aberto ao arrependimento de todos e não é necessário
esperar até Yom Kipur para demonstrar nosso arrependimento e pedir
o perdão Divino. Em certos casos, as transgressões podem até se
tornar méritos espirituais, pois podem servir de ponte para que o ser
humano tenha gestos grandiosos que ele não teria se não tivesse
transgredido ou se não se sentisse culpado de algo. As falhas
espirituais podem impelir o ser humano a ter gestos maiores do que ele
jamais poderia sonhar.

O mesmo, contudo, não se aplica, ao não cumprimento de um


mandamento positivo. Quando se perde a oportunidade de fazer uma
boa ação, pode surgir algo semelhante no futuro, mas o que é passado,
permanece no passado – não volta. Um exemplo: se um homem deixa
de colocar Tefilin um dia, pode colocá-lo durante todos os dias
remanescentes de sua vida (menos no Shabat e nas festas, claro). Mas
ele perdeu a oportunidade de colocá-lo naquele dia específico – e
aquele dia não volta; ele não pode voltar atrás e retificar sua omissão.
Na linguagem de nossos Sábios, ao negligenciar o cumprimento de
uma mitzvá positiva, ele perdeu a oportunidade de trazer uma fonte de
Luz Divina ao mundo. Ele pode trazer muitas outras fontes de luz, mas
não aquela fonte de luz especial que ele perdeu naquele dia em que
deixou de colocar os Tefilin. Isto é algo que merece reflexão. É algo
que deve nos fazer reavaliar nosso relacionamento com a Torá e seus
mandamentos. De fato, um grande Tzadik e Sábio ensinava que um
judeu devia preocupar-se mais com os mandamentos que ele não
cumpria adequadamente do que com suas transgressões, pois ele podia
arrepender-se de seus pecados, mas não podia voltar atrás no tempo e
reexecutar as mitzvot que tinha cumprido desleixadamente, ou pior,
que tinha deixado de cumprir.

Vemos que cada categoria de mandamentos, positivos e negativos, tem


suas próprias exigências. Por um lado, a gravidade espiritual da
violação de um negativo é maior do que o não cumprimento de um
mandamento positivo. Pelo outro, a maioria dos pecados de
cometimento – desde que não magoem nenhum ser humano ou
criatura viva – são como manchas não permanentes, que podem ser
lavadas. Já o pecado de omissão é bem menos severo, mas também
geralmente não é retificável pelo fato de não poder voltar no tempo.
Alguém que comete vários pecados, mas que também realiza várias
boas ações, pode purificar sua alma de suas transgressões ficando com
suas boas ações, pois estas são indeléveis. Contudo, aquele que nem
peca nem tem boas ações vive uma vida segura – mas vazia. Ele não
danifica nada, mas tampouco constrói. Vive como se estivesse
dormindo. Na verdade, quase todos nós somos pessoas boas e justas
quando dormimos – mas há uma pequena diferença entre estar
permanentemente adormecido e já não fazer parte deste mundo.

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Continua…

BIBLIOGRAFIA

Rabi Wisnefsky, Moshe, Torah Chumash Shemot - With an Interpolated


English Translation and Commentary Based on the Works of the
Lubavitcher Rebbe, Kehot Publication Society

Rabi Steinsaltz, Adin (Even Israel), Change & Renewal: The Essence of
the Jewish Holidays & Days of Remembrance, Maggid Publisher

Por: Revista Morashá - Edição 87 - Março de 2015


Fonte: http://www.morasha.com.br/Pêssach/Pêssach-sheni-e-suas-
licoes.html