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Catequese para Adultos

A fé de dois mil anos da Igreja, explicada de forma concisa, simples e


acessível a todos, é o que este curso de catequese deseja transmitir.

Catequese para Adultos é um curso pensado para transmitir a todos, da forma mais simples e
concisa possível, os grandes tesouros do patrimônio doutrinário e espiritual da Igreja Católica. Mais
do que seguir passo a passo o Catecismo, ao modo de um simples “comentário de texto”, o que este
curso deseja é levar ao maior número de pessoas a substância do Evangelho, essa boa-nova que o
Senhor nos veio trazer sobre o destino eterno que está à espera de cada um de nós depois desta vida.
Ao longo de aulas breves, ilustradas com exemplos de fácil entendimento, você terá a chance de
descobrir como a fé católica, tão bela quanto clara, é capaz de responder aos anseios e esperanças
mais profundos do coração humano.

Introdução

1- Por que estamos neste mundo?


Toda boa catequese deveria começar pela pergunta mais fundamental de todas: por que, afinal de
contas, estamos neste mundo?
É só com uma resposta adequada a esta dúvida mais do que inquietante que poderemos entender
por que o Catecismo da Igreja está articulado em torno dos quatro pilares da vida cristã: a fé, os
Mandamentos, a graça sacramental e a oração.

A primeira pergunta que nos deveríamos fazer no início de uma catequese, quer como
catequistas, quer como catequizandos, é a seguinte: qual é, afinal de contas, a finalidade do
Catecismo? Pois sem uma clara noção do fim a que queremos chegar, de nada nos adiantarão os
meios, por mais sofisticados e bem pensados que sejam. E é precisamente aí, nessa falta de clareza
quanto à meta que desejamos alcançar, que está a razão por que as nossas catequeses parecem dar
tão pouco ou nenhum resultado. Nesse sentido, toda preocupação por questões de método que
prescinda de uma resposta adequada à pergunta pelo fim não passará, se assim podemos dizer, de
pura “cosmética”, de algo acessório e menos do que secundário.
Eis porque, no início de uma boa catequese, devemos perguntar-nos antes de tudo
pelo motivoúltimo de nossa existência. O que é, trocando em miúdos, que viemos fazer neste
mundo? Qual o sentido e, portanto, a finalidade da nossa vida? A resposta a esta inquietante
dúvida, que vem atormentando o espírito humano desde as suas origens, a fé católica no-la dá sem
rodeios e com uma validez universal. Nós viemos ao mundo para, através do amor, chegarmos um
dia a unir-nos a Deus na felicidade eterna do céu. Fomos criados, noutras palavras, para ser felizes,
e essa felicidade consiste em possuir, para sempre e sem medo de perdê-lo, o maior bem que há e
pode haver: Deus mesmo.

O homem, com efeito, é uma tarefa por fazer, um projeto a completar-se. Não somos como os
outros animais, que, apenas nascem, têm tudo aquilo de que precisam para ser o que são. De fato,
não se tem notícia de nenhum cachorro que numa fresca manhã, cansado de roer osso, se tenha
parado a pensar no propósito da vida, inquieto por saber se não haveria coisas maiores e mais
nobres do que passar os dias deitado com a barriga virada para o sol. A uma vaca lhe basta, pois,
o seu pasto, e ela não tem razão alguma para perturbar-se nem com o futuro nem com o que pensa
o resto do rebanho.
O homem, porém, ainda que possua todo o necessário a uma vida cômoda e bem resolvida,
nunca está satisfeito; parece-lhe sempre faltar algo, algo que lhe exige ação, que o faz mover-se
em busca de outros bens além daqueles de que já desfruta. Palpita dentro de nós esse desejo de
uma felicidade perfeita e adequada à nossa natureza humana, e é na medida em que nos
aproximam dessa felicidade que esta ou aquela ação, esta ou aquela coisa podem considerar-
se bens. A palavra bem, nesse sentido, refere-se a uma realidade objetiva, ou seja, àquilo que,
sendo conveniente ao nosso modo humano de ser (o bem da vaca, com efeito, não é o bem do
homem), contribui para a nossa plena realização como seres humanos.
Mas como o desejo de uma felicidade perfeita e infinita não pode ser satisfeito com bens
imperfeitos e finitos, somente em Deus, nosso Sumo Bem, seremos verdadeiramente saciados.
Uma vida repleta de prazeres e facilidades a que sucedesse a eternidade do inferno seria, é claro,
um retumbante fracasso, seria uma vida malograda, em que ficamos, como bobos, à beira do
caminho, esquecidos de que o ponto de chegada não está aqui — está no céu, na outra vida. O
motivo por que o homem está neste mundo, portanto, é para amar e servir a Deus e depois, na
felicidade do céu, estar eternamente unido a Ele como ao Bem sumo e perfeitíssimo.

O problema agora consiste em saber como e por que meios alcançaremos esse fim. Ora, se
existimos para nos unir a Deus, por um lado, e a união é efeito do amor, por outro, segue-se que a
primeira coisa que nos compete fazer é conhecer a Deus com a maior profundidade possível. De
fato, ninguém ama aquilo que desconhece, e se não amarmos a Deus, como poderemos unir-nos a
Ele? Não desejamos o que ignoramos, e se não o desejamos, sequer nos preocuparemos em possuí-
lo.
Mas para conhecermos a Deus, é preciso que Ele mesmo, que habita em luz inacessível, se nos
dê a conhecer. E foi em Jesus Cristo, seu Filho encarnado, que Ele quis revelar-se à humanidade.
A essa revelação, por sua vez, só podemos aderir como convém à salvação mediante a fé. É crendo
no que Deus nos disse de si mesmo que o conhecemos e é ao conhecê-lo que o amamos e nos
dispomos à união eterna com Ele. A fé, por conseguinte, é o primeiro meio de que precisamos
lançar mão para chegar ao fim último de nossa vida.

Além da fé, que nos dá acesso aos segredos da vida íntima de Deus, é necessário amá-lo, o que
se faz, segundo as palavras do Salvador, pela obediência aos Mandamentos: “Se me amais,
guardareis os meus Mandamentos” (Jo 14, 15). Mas como poderíamos fazê-lo se não nos fosse
dada a graça de o fazer? Sim, somos fracos e incapazes; sem Deus, nada podemos fazer, e sem a
sua graça preveniente sequer poderíamos ter a boa inspiração de suplicar o seu auxílio do fundo
de nossas misérias. Essa graça, porém, nós a conseguimos por dois meios principais: de um lado,
os sacramentos, que no-la conferem por virtude própria (ex opere operato); e a oração, de outro,
pela qual podemos impetrar da misericórdia divina os socorros de que mais tivermos necessidade.

Eis aí, de forma bem resumida, a dinâmica da vida cristã na qual se inspira a arquitetura do
Catecismo da Igreja Católica [1]. Na primeira parte, aprendemos em que consiste a revelação
divina e a fé pela qual respondemos à palavra de amor e salvação que Deus nos dirige por meio
do Filho. Na segunda parte, aprendemos de que maneira o Senhor nos concede os frutos de sua
redenção por meio dos sacramentos. Na terceira, vemos como a graça divina nos permite cumprir
a Lei de Deus e alcançar, assim, nosso fim último. Na quarta parte, somos apresentados à riqueza
e importância fundamental da oração cristã como meio indispensável para conseguir os bens que
o Pai celeste quer nos dar.
É este o itinerário que iremos percorrer ao longo deste curso de catequese.

Referências

1. Cf. Catecismo da Igreja Católica, nn. 13-17.

2- Como Deus quer que sejamos felizes?


Não é preciso ter fé para constatar um fato óbvio e evidente: todo mundo quer ser feliz, e não
há ninguém, ao menos em juízo perfeito, que escolha o fracasso e a infelicidade como projeto de
vida.
Mas o que não se explica sem fé é o fato de, apesar de a desejarmos, a felicidade não se
encontrar neste mundo e, ainda que se encontrasse, ser sempre parcial e temporária.

O fim da existência humana, como visto até agora, é a união eterna com Deus no céu; os meios
de o conseguir, por sua vez, consistem em conhecer a Deus pela fé, amá-lo pela observância de
sua Lei e valer-se da graça sobrenatural que nos é dispensada tanto pelos sacramentos como pela
oração. Um dos problemas que aqui se podem esconder, no entanto, diz respeito à profundidade
de nossa conversão pessoal. Sim, sabemos que Deus é o fim último de nossa vida e que é apenas
nele que seremos felizes. Mas estamos realmente convencidos disto? Cremos, de fato e na prática,
que é Ele a nossa verdadeira felicidade?
Ora, que todo homem queira ser feliz é algo que qualquer um está disposto a reconhecer, nem
é preciso ter fé para afirmá-lo. Todo ser humano, pelo simples fato de o ser, busca o que lhe parece
bom e, ainda que de forma confusa e pouco consciente, ordena a própria vida àquilo no qual pensa
encontrar-se a felicidade. Tampouco é necessário estar iluminado por luzes especiais para
constatar que a esmagadora maioria dos homens deseja ser feliz aqui neste mundo. A dificuldade,
porém, é que todo projeto de felicidade limitado a esta vida está fadado, sempre, a um mesmo fim:
desfazer-se na hora da morte.
Não importa qual seja o objeto em que se tenha posto a felicidade, ele tem necessariamente um
prazo de validade. Família, prazer, sucesso profissional, ter uma vida honrada, tudo isso nos há de
abandonar na última hora; perderemos nossa família, já não haverá sensações agradáveis, nossa
carreira será menos do que uma nota de pé de página na história, nossa honradez e civilidade
perder-se-ão na memória dos tempos… Colorear a vida com ideais inalcançáveis, não só por serem
grandes demais, mas pela incapacidade mesma de este mundo dar-nos o que ele não nos pode
oferecer, é insensatez e — por que não dizê-lo? — imaturidade.
De maneira que a situação do homem sobre a terra se pode resumir nos seguintes termos: de
um lado, uma busca incessante por felicidade; de outro, o fato de essa felicidade não estar à
disposição e, ainda que estivesse, não poder ser senão algo parcial e temporário.
Mas, se tal é assim, não seria justamente porque o homem é um animal “defeituoso”? De fato,
ao desejo e às necessidades de todos os outros animais sempre corresponde um objeto real, capaz,
ao menos hipoteticamente, de os saciar. Um cachorro só tem sede por que há uma fonte d’água
em algum lugar; se um macho quer reproduzir-se, é porque há fêmeas com as quais ele pode se
unir. O ser humano, porém, tem fome de uma felicidade que não se encontra em nenhum canto da
terra. Logo, de duas uma: ou somos uma infeliz exceção à regra da natureza, segundo a qual a todo
apetite e desejo corresponde um objeto alcançável, ou é preciso admitir outra explicação desse
fenômeno.
E essa outra explicação é a que nos dá a fé católica. Com efeito, nos primeiros capítulos do
Livro do Gênesis, a Revelação divina nos mostra que o homem, cume de toda a criação, foi feito,
sim, para ser feliz neste mundo, no jardim das delícias que o Senhor lhe preparara; mas, seduzido
pelas mentiras do diabo, ele, cheio de orgulho, quis ser feliz sozinho, de acordo com seus próprios
critérios. Deus, porém, cuja misericórdia é infinita, a fim de remediar o mal que nós mesmos nos
causáramos, quis dar-nos a chance de sermos felizes, não já com uma felicidade humana e natural,
mas com uma felicidade divina e sobrenatural.
Foi por isso que Ele, na plenitude dos tempos, enviou-nos o seu Filho unigênito, nascido de
mulher por obra do Espírito Santo, para que, abraçando nesta terra a cruz de nossas dores e
infelicidade, nos merecesse a graça de sermos eternamente felizes com Ele no céu, aonde
chegaremos, em primeiro lugar, em virtude da fé que o mesmo Senhor nos pede e inspira.

Revelação e Fé

3- O Deus que se revela


Nesta terceira aula do curso Catequese para Adultos, Padre Paulo Ricardo nos conduz, a partir
da leitura da Epístola aos Hebreus, pelas razões que nos motivam a crer em Jesus Cristo.
Quem é Deus? O que Ele nos revelou? Por que deveríamos, afinal de contas, dar fé às palavras
do Senhor? São essas algumas das perguntas tratadas nesta aula.

Assim começa a Epístola aos Hebreus: “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus
aos nossos pais pelos profetas. Ultimamente nos falou por seu Filho, que constituiu herdeiro
universal, pelo qual criou todas as coisas” (1, 1s). E em seguida acrescenta: “Esplendor da glória
de Deus e imagem do seu ser, sustenta o universo com o poder da sua palavra. Depois de ter
realizado a purificação dos pecados, está sentado à direita da Majestade no mais alto dos céus, tão
superior aos anjos quanto excede o deles o nome que herdou” (1, 3s).
Essas palavras, tão belas quanto inspiradas, põem de manifesto, em primeiro lugar, o fato da
Revelação, ou seja, Deus, no curso da história humana, comunicou aos homens os arcanos de sua
vontade e os seus desígnios de salvação: “Muitas vezes e de diversos modos outrora falou Deus
aos nossos pais pelos profetas”.
Eis o caminho sobrenatural do conhecimento de Deus, acessível somente pela fé, ou seja, pelo
obséquio da inteligência e da vontade ao Deus que se revela. Trata-se de um caminho diferente
daquele mencionado no início da Epístola aos Romanos, em que o Apóstolo das gentes afirma de
forma clara que “as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam
visíveis à inteligência, por suas obras” (Rm 1, 20).
Noutras palavras, o homem é capaz, com a luz natural da razão, de alcançar algum
conhecimento, certo e firme em sua ordem própria, das coisas divinas; em particular, (a) da
existência de Deus, que se comprova de distintos modos pela contemplação das realidades criadas,
e (b) de algumas perfeições suas, como unidade, eternidade, onipotência, onisciência etc.
A criação, com efeito, é como uma pegada, um vestígio que aponta para o seu Autor, de maneira
que seria sinal de grande insensatez, diante do portento que é o universo, afirmar que Deus não
existe. É claro, entretanto, que o conhecimento puramente natural que dele podemos obter possui
suas limitações. Não podemos ir além daquilo que se nos manifesta na ordem criada nem penetrar,
com nossas fracas luzes racionais, mistérios cuja verdade em muito superam o pobre entendimento
humano.
Isso não impede, porém, que Deus mesmo, com um amor mais do que gratuito, nos dê a
conhecer aquelas verdades que precisamos saber para chegar ao porto da eterna salvação. Foi por
isso que Ele, outrora pelos profetas, nos foi comunicando, gradual e pedagogicamente, tudo quanto
nos era necessário conhecer em ordem à bem-aventurança eterna no céu. Todo o Antigo
Testamento, neste sentido, não é mais do que uma cadeia ininterrupta de revelações e
ensinamentos emanados do próprio Senhor do céu e da terra.
Mas nesses últimos tempos, diz a Epístola aos Hebreus, a Ele aprouve falar-nos, não já por
simples profetas, senão pela pessoa mesma de seu Filho. Nesses poucos versículos iniciais,
transcritos integralmente acima, já nos é revelada uma série de verdades de capital importância.
Vejamo-las de mais perto.
Deus aqui se revela, antes de tudo, como Pai. Este Pai, por sua vez, tem um Filho que, sendo
Deus como Ele, é a finalidade de todas as coisas (“herdeiro universal”); origem de todas elas (“pelo
qual criou todas as coisas”); revelação plena de quem Deus é (“esplendor da glória de Deus”) e no
qual, portanto, devemos crer, por ser Ele “imagem do ser divino”. Nós dele viemos, a Ele temos
de caminhar e é apenas nele que temos acesso à verdadeira intimidade do Pai.
Mas como crer no Filho? O que é, no fundo, isso a que chamamos fé? Se a analisamos em seu
aspecto humano, vemos que a fé não é senão acreditar em uma pessoa por causa de sua
credibilidade ou autoridade. Deus, porém, é infalível; Ele não pode enganar-se nem nos enganar.
Sua veracidade infinita nos convida a crer sem medo de erro em tudo quanto Ele nos disser.
Cremos, neste sentido, porque foi Deus quem disse isso em que acreditamos. Assim, por
exemplo, os católicos cremos na Sagrada Eucaristia e professamos que nela estão presentes, real,
verdadeira e substancialmente, o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, não porque nela vejamos e
sintamos gosto de carne e sangue humanos, mas porque o Verbo divino encarnado nos garantiu,
com sua palavra infalível, que Ele estaria sacramentalmente presente neste augusto mistério de
amor.
Nossa fé, portanto, é ex auditu: entra-nos pelo ouvido, pela pregação da palavra, certíssima e
autorizadíssima, do próprio Filho de Deus feito homem. Na próxima aula, veremos como o mesmo
Filho nos ajuda e sustenta em nosso ato de fé, ou seja, a crer em suas palavras como convém à
salvação e santificação de nossa alma.

4- Não há Cristo sem Igreja


É impossível ter verdadeira fé em Cristo Jesus sem crer também na única Igreja que Ele fundou,
porque ambos, como ensina a mais antiga tradição, baseada no testemunho das Sagradas
Escrituras, constituem uma só pessoa mística, o Cristo total.
Aceitar a um negando a outra é separar-se da genuína fé apostólica.

Para termos de Deus o conhecimento que Ele mesmo nos quis revelar, precisamos, antes de
tudo, ter fé em Jesus Cristo, ou seja, crer no que Ele diz e no que Ele é, verdadeiro Deus e
verdadeiro homem. Foi o quanto vimos até o momento. Agora, convém saber em que consiste,
precisamente, o ato de fé que o Senhor espera de nós.
Pois bem, a primeira coisa de que nós devemos dar conta é o fato de a Igreja Católica ser uma
continuação do mistério da Encarnação. O Filho de Deus, expressão da glória do Pai, se fez homem
na plenitude dos tempos, veio a este mundo e dá continuidade à sua obra salvífica através da Igreja
por Ele fundada. Jesus continua vivo e presente, de uma forma real e misteriosa, nos membros de
seu Corpo, sobretudo nos santos, isto é, naqueles que vivem perfeitamente o mistério de sua
incorporação a Cristo.
Encontramos uma prova dessa realidade no episódio da vocação e conversão de Saulo, narrado
por S. Lucas no capítulo nono dos Atos dos Apóstolos. Durante sua viagem a Damasco,
empreendida “com o fim de levar presos a Jerusalém todos os homens e mulheres que achasse
seguindo” (At 9, 2) a doutrina cristã, Saulo se vê cercado subitamente por uma luz. Caindo por
terra devido à intensa claridade, o jovem perseguidor dos discípulos do Senhor escuta uma voz:
“Saulo, Saulo, por que me persegues?” (At 9, 4).
Era o próprio Cristo, que se identificava com os que lhe eram fiéis: “Eu sou Jesus, a quem tu
persegues” (At 9, 5). Com efeito, Saulo, que nunca se encontrara com o Senhor, perseguia a Igreja,
quer dizer, os cristãos espalhados pelo mundo; mas, ao fazê-lo, acabava por perseguir aquele que
com a Igreja forma uma só pessoa mística. Pois Ele mesmo prometera, pouco antes de ascender
aos céus e sentar-se à destra do Pai: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo”
(Mt 28, 20).
O primeiro passo da fé, nesse sentido, consiste em enxergar que a revelação de Jesus Cristo
continua, viva e real ao longo dos séculos, em sua Igreja, Santa e Católica. E que melhor maneira
de constatá-lo do que conhecendo a biografia dos santos, daqueles homens e mulheres que
experimentaram, efetivamente, a presença vivificante de Cristo em suas vidas? Ele está aqui, hoje
e sempre; não é um personagem do passado, um simples nome ilustre, registrado nuns tantos livros
de história, mas uma pessoa com a qual podemos, sim, viver e conviver, ainda que sob a penumbra
da fé e a expectativa esperançosa de um dia vê-lo face a face.
Foi esta Igreja, fundada diretamente por Ele, que escreveu parte das SS. Escrituras. Foram os
discípulos do Senhor que, inspirados pelo Espírito Santo, redigiram os vinte e sete livros que
compõem o que hoje chamamos Novo Testamento. Foi a Igreja de Jesus, ilustrada e guiada pelo
mesmo Espírito, que discerniu em quais livros bíblicos estava contida a genuína Revelação de
Deus. É, portanto, a mesma Igreja a única autoridade a quem foi confiado o poder de interpretar
corretamente o Texto Sagrado.
A nossa fé em Jesus, por conseguinte, para ser fé autêntica e verdadeira, tem de estender-se
também à Igreja Católica. Se cremos em Cristo, cremos no Cristo total, pois a Cabeça não subsiste
separada do Corpo nem o Corpo tem razão de ser à parte da Cabeça. É por isso que todos os
domingos, reunidos em torno do altar em que Cristo, nossa Páscoa, renova sua imolação ao Pai,
confessamos, uníssonos, nossa fé em Deus, Trindade Santa, e na única Igreja que Ele fundou nesta
terra.

5- Como nasce a virtude da fé?


Nesta quinta aula do curso Catequese para Adultos, Padre Paulo Ricardo nos introduz no estudo
do ato de fé.
Qual o porquê da fé? Qual o papel dos chamados “motivos de credibilidade”? E por que esses
sinais externos e claros com que Deus tem falados aos homens ao longo da história nem sempre
são suficientes, à primeira vista, para acender em nós a luz da fé? Eis algumas das perguntas
enfrentadas em mais esta aula.
Afirmamos até agora que a catequese tem uma finalidade que corresponde, no fundo, à
finalidade da nossa própria existência: unir-se a Deus no céu por meio de Jesus Cristo, a quem o
homem é incorporado ao pertencer, pela graça batismal, à única Igreja que Ele fundou.
Tudo isso, no entanto, parece pressupor a fé. De fato, quem se dispõe a fazer catequese
costuma, de um modo geral, já estar imbuído da fé sem a qual não se pode aderir às verdades
divinamente reveladas como convém à salvação.
A própria palavra grega da qual deriva o termo “catequese”, κατηχέω, significa “ecoar” e
aponta, nesse sentido, para o fato de que a Palavra de Deus, já tendo ressoado na alma do
catequizando, começa agora a reverberar e a aprofundar-se por meio do estudo e da meditação.
Pode suceder, porém, que o catequizando se encontre privado dessa luz sobrenatural. Neste
caso, nunca é demais lembrar que a fé é um dom a que não temos, obviamente, direito algum: ou
a recebemos Deus, por pura gratuidade, ou simplesmente não a temos.

A fé, com efeito, é certo gênero de conhecimento que não se baseia, em sentido próprio, em
razões ou evidências. Cremos porque não vemos, e cremos justamente porque temos a garantia de
que aquele que nos chama a crer, Deus, não se engana nem nos pode enganar.

Disso não decorre, é claro, que não haja razões para crer, embora elas mesmas não sejam
capazes de gerar em nós a fé. Trata-se do que em teologia recebe o nome de motivos de
credibilidade.

Os motivos de credibilidade são certos sinais externos que atestam, de modo seguro e
inconfundível, o fato histórico da Revelação divina. Deus falou, sim, aos homens ao longo do
tempo e deles exige, como não poderia deixar de ser, o assentimento obsequioso da fé; mas para
que esse ato de fé não seja contrário à natureza racional do ser humano, é conveniente que ele se
apóie “em motivos sólidos que o tornem inteiramente válido aos olhos da razão natural” [1].
Mas entendamos bem: não é que a fé dependa, em si mesma, desses motivos nem que sejam
eles a garantia do valor intrínseco do conteúdo da fé. O porquê último — também chamado
“motivo formal” — da fé, como vimos anteriormente, não é mais do que a autoridade infalível de
Deus: cremos nos mistérios sobrenaturais que Ele nos revelou precisamente por ter sido Ele,
infalível e veraz, quem no-los deu a conhecer.
Os motivos de credibilidade, portanto, constituem aquelas razões, acessíveis ao entendimento
de todos, que “movem nossa inteligência a receber como verdadeiro o fato da Revelação” [2].

Ora, os principais motivos de que aqui falamos são, de um lado, as profecias referentes a Nosso
Senhor Jesus Cristo, cumpridas todas à risca no Novo Testamento, e, de outro, os milagres (físicos
e morais) que o mesmo Cristo operou em testemunho da veracidade de sua natureza divina e
messiânica.
Milagres e profecias, nesse sentido, são formas de Deus falar à humanidade; Ele, que é Senhor
do tempo e da história, pode manifestar-se por meio de acontecimentos reais e concretos, embora
inexplicáveis em termos humanos e científicos.

Trata-se, no entanto, de manifestações ou revelações externas, que, embora bastem para


mostrar-nos que Deus pode e deve ser crido, exigem contudo uma docilidade ou revelação interna,
pela qual a nossa alma se dispõe à fé que o Senhor deseja conceder-nos.
Ele fala aqui fora, na história, com sinais claros e certos, dos quais todos, com um mínimo de
boa vontade, podem tomar conhecimento; mas essa palavra externa de nada adiantaria se Ele, com
o toque da graça, não nos falasse interiormente ao coração. Quando nos abrimos, pois, a essa
graça, aqueles sinais que até então víamos e ouvíamos com olhos e ouvidos de carne se convertem
em luz, em um grito eloquente da presença de Deus em nós.

É só então que se dá o ato de fé. Não foram os milagres nem as profecias que o produziram,
embora tenham, como se costuma dizer, “preparado o terreno”. É Deus quem nos convida a crer,
é Ele quem nos dá a graça de crer, nos move a crer e, se correspondermos com humildade e orações
frequentes, nos fará crescer na fé e nela perseverar até o fim.

Referências:

1- Antonio R. Marín, La Fe de la Iglesia. Madrid: BAC, 1977, p. 39, n. 28.


2- F. de B. Vizmanos; I. Riudor, Teología Fundamental para Seglares. Madrid: BAC, 1963, p.
173, n. 257.

6- Como saber onde está a verdadeira fé?


Se existe um só Cristo, é óbvio que existe uma só fé, uma só doutrina cristã. Mas como saber
onde ela se encontra? Será mesmo que cada um pode descobrir, sozinho e por pura “inspiração”
pessoal, qual é verdadeiramente a palavra de Jesus?
Nesta nova aula do curso Catequese para Adultos, Pe. Paulo Ricardo explica o papel da Sagrada
Tradição e do Magistério eclesiástico na transmissão, interpretação e defesa da fé cristã ao longo
da história.

Vimos na aula passada que a fé se apóia, em certo sentido, nos chamados motivos de
credibilidade, que são como os pórticos ou as antessalas que, mostrando-nos a razoabilidade de
crer e comprovando-nos o fato histórico da Revelação, motivam nossa inteligência, iluminada pela
graça, a assentir às verdades que Deus nos revelou.
No entanto, esses motivos de credibilidade, como também já advertimos, apenas
nos preparampara a fé, uma vez que não são, em si mesmos, capazes de suscitá-la em nós; a fé,
com efeito, é um dom de ordem sobrenatural que só a intervenção da graça de Cristo, vivo e
ressuscitado, pode acender em nossas almas.
Essa intervenção é muitas vezes silenciosa e progressiva. À medida, pois, que nos vamos
abrindo à fé, o Senhor nos vai concedendo, ao mesmo tempo, as luzes para reconhecê-lo, à
semelhança daqueles discípulos de Emaús que, depois de sentirem arder o coração enquanto
ouviam a Jesus ressuscitado, finalmente o reconheceram na bênção do pão: “Então”, narra o
evangelista S. Lucas, “se lhes abriram os olhos e o reconheceram” (Lc 24, 31).
Mas as coisas não param por aí. A fé católica, além de ser uma realidade pessoal, é também, e
essencialmente, uma realidade eclesial. Aqui é preciso recordar um ponto já visto em aulas
passadas. Jesus, ao vir a este mundo, fundou uma única Igreja, com a qual Ele forma uma só pessoa
mística e por meio da qual perpetua, ao longo da história, sua obra de redenção e santificação.
Ora, assim como há um só Cristo, assim também há uma só Igreja, e é à fé desta Igreja que
devemos aderir se quisermos estar seguros de que o que cremos é, verdadeiramente, o que disse e
ensinou o Filho de Deus encarnado aos seus Apóstolos e discípulos.
Por isso, crer no que crê e ensina a verdadeira Igreja de Cristo é a garantia de que pertencemos
a esta casa comum, a esta unidade de Pentecostes em que muitos, embora venham de distintos
povos, falam uma só língua: a língua da fé.
Foi Jesus mesmo quem o garantiu, poucos antes de ascender aos céus: “Ide, pois, e ensinai a
todas as nações; batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-as a observar
tudo o que vos prescrevi. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28, 19).
Existe na Igreja, portanto, uma continuidade perfeita a) com a doutrina de Cristo: “Ide, pois, e
ensinai”; b) com a disciplina sacramental que Ele instituiu: “Batizai-as”; e c) com o ensinamento
moral que deve nortear a vida do cristão: “Ensinai-as a observar tudo o que vos prescrevi”.
Essa garantia, por sua vez, atravessa os séculos e chega a cada nova geração de fiéis por meio
da Sagrada Tradição e da sucessão apostólica, em virtude das quais o depósito da fé é preservado
e transmitido e a autoridade conferida aos Apóstolos permanece viva na Igreja.
Continuadora de Cristo e transmissora de sua imutável verdade (cf. 1Tm 3, 14s), a Igreja
guarda este sagrado depósito mediante o seu Magistério, que constitui um elemento fundamental
e irrenunciável, não só de sua estrutura institucional, mas ainda, e sobretudo, de sua própria missão
de custodiar, com absoluta segurança, a pureza da doutrina cristã.
Eis porque se devem rechaçar as falsas dicotomias, surgidas em distintas épocas, antigas e
modernas, entre uma “Igreja do Espírito”, de um lado, e uma “Igreja dos Bispos”, de outro; entre
uma “Igreja dos carismas”, espontânea e pulsante, e uma “Igreja do poder”, gélida e ritualística.
A autoridade eclesiástica, autêntica e infalível, foi querida pelo próprio Cristo como meio de
perpetuar a Tradição e o ensinamento de seus Apóstolos, Tradição essa da qual S. Paulo,
escrevendo aos fiéis de Corinto ainda no ano 52 d. C. (ou seja, antes do surgimento dos demais
livros do Novo Testamento), é confiável testemunha: “Eu vos transmiti primeiramente o que eu
mesmo havia recebido” (1Cor 15, 3).
Permanecer, pois, nessa palavra recebida e transmitida ao longo dos séculos pelos Apóstolos e
seus sucessores é permanecer, fielmente, unido à videira plantada por Cristo e à fé verdadeira,
contida tanto na Sagrada Tradição como nas SS. Escrituras e custodiada com toda fidelidade pelo
Magistério vivo da Igreja Católica.

7- O Magistério da Igreja e os dogmas da fé


Nesta sétima aula do curso Catequese para Adultos, Padre Paulo Ricardo explica quais são as
relações entre o Magistério eclesiástico e a fé católica, consubstanciada nas chamadas e tão pouco
compreendidas “verdades dogmáticas”.
A Igreja, afinal de contas, pode inventar, modificar e abolir seus próprios dogmas? Um católico,
para sê-lo de fato, precisa mesmo crer no que criam os bispos e papas dos séculos passados? São
essas as perguntas que norteiam a aula de hoje.

As aulas desenvolvidas até agora tiveram por objetivo principal mostrar-nos a necessidade de
pedirmos o preciosíssimo dom da fé, cuja experiência é sublime, por ser de ordem sobrenatural, e
ao mesmo tempo discreta, por ser uma suave ação de Deus na alma humana.
Ter fé não significa arrepiar-se nem sentir grandes comoções sensíveis. A fé é um ato da
inteligência e, como tal, vem sempre acompanhada de alguma iluminação interior, que pode ser
suscitada, ou por uma pregação, ou pela leitura de um livro piedoso, ou ainda durante um momento
de oração.
Mas esta fé, além de ser uma realidade interior, conta também com um elemento objetivo, a
saber: o fato de ser precisamente a fé da Igreja, ou seja, a manifestação histórica da verdade de
Cristo, preservada e transmitida ao longo dos séculos mediante a Tradição e as SS. Escrituras, cuja
defesa e interpretação está a cargo do humilde serviço do Magistério eclesiástico.
Eis aí um ponto de capital importância que nos separa terminantemente dos protestantes. Para
estes, com efeito, a mensagem divina contida na Revelação foi conservada em sua integridade, no
curso da história humana, só e tão-somente nas SS. Escrituras.
O católico, muito ao contrário, sem em nada diminuir o valor e a autoridade do Texto Sagrado,
crê que a garantia da verdade de Cristo reside, antes de tudo, “no Magistério autêntico da Igreja,
que nos conserva fielmente e nos declara infalivelmente a doutrina que Deus revelou e que está
contida nas SS. Escrituras e na Tradição divino-apostólica” [1].
Para que se entenda bem essa questão, é preciso recordar um outro ponto, pertencente agora ao
campo de eclesiologia, que também separa protestantes de católicos. Para os primeiros, a Igreja é
um bloco homogêneo cujas partes internas não se distinguem por nenhuma nota particular; não há
aqui sacerdócio nem distinção hierárquica entre os seus vários membros.
Para os católicos, no entanto, está mais do que claro, pelo testemunho explícito da Bíblia, que
Jesus Cristo escolheu, sim, um grupo seleto de homens — doze, especificamente — e lhes conferiu
não apenas a missão de difundir a sua doutrina, mas também o poder de ensinar em seu nome;
confiou-lhes, noutras palavras, um magistério autoritativo.
Ora, essa autoridade magisterial, em ordem à continuidade histórica da Igreja e, portanto, da
ação de Cristo sobre os homens, se estende também aos sucessores tanto dos Apóstolos, os bispos,
como de S. Pedro, os sumos pontífices. É, pois, ao ensinamento autêntico de todos os bispos e
papas, de ontem e de hoje, que damos o nome de Magistério eclesiástico.
O Magistério da Igreja, por conseguinte, apóia-se na autoridade do próprio Cristo e tem o
encargo de ensinar aos fiéis quais são as verdades (os dogmas da fé) em que eles devem crer, por
tratar-se de doutrina revelada, e não de um produto pessoal e subjetivo da imaginação humana. A
verdade de Cristo, com efeito, é a mesma ontem, hoje e sempre.
Daí também que o Magistério não possa inventar, modificar ou abolir alguma verdade
dogmática; ele não tem o poder de dispor ao seu bel-prazer do depósito que lhe foi entregue, mas
apenas de definir e esclarecer, de forma definitiva, o que sempre, em todos os lugares e por todos
os cristãos foi e é crido: quod semper, quod ubique, quod ab omnibus creditum est (cf. S. Vicente
de Lérins, Commonitorium, II).

Referências

1. F. de B. Vizmanos; I. Riudor, Teología Fundamental para Seglares. Madrid: BAC,


1963, p. 677, n. 337.

Deus e suas criaturas


8- Deus existe?

Todo católico, apoiado nas Escrituras e na Tradição da Igreja, crê que Deus existe. Mas esse
dado de fé tem a peculiaridade de ser também, segundo a mesma Igreja, uma verdade acessível à
inteligência de todos.
Para quem está livre de preconceitos e sabe pôr de lado motivações de tipo afetivo ou
emocional, não é difícil reconhecer que o mundo, com sua ordem deslumbrante, não pode ser fruto
do acaso ou da sobreposição de forças cegas e desgovernadas.

A partir da aula de hoje, começaremos a estudar cada um dos dogmas ou artigos da fé católica.
O estudo aqui empreendido supõe, antes de tudo, a noção prévia do que se entende
por Credo(“creio”, em latim), ou seja, das profissões estândares de fé elaboradas pela Igreja ao
longo do tempo nas quais estão articuladas, de modo bem sintético, as diversas verdades em que
o fiel católico deve crer.
Neste curso, o nosso texto-base será o chamado Credo Apostólico, estruturado em doze artigos
— daí a denominação “apostólico” —, que aqui no Brasil costuma ser recitado nas Missas de
domingo.
O primeiro artigo reza assim: “Creio em Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra”.
Embora se trate também de um dado de fé, atestado pelas SS. Escrituras e a Tradição, a Igreja
sempre reconheceu que a existência de Deus, criador e Senhor de todas as coisas, pode, sim, ser
demonstrada com certeza pela razão humana por meio das realidades criadas.
A criação, com efeito, pode ser vista como uma “revelação natural”, na qual Deus deixou
impressos, como um oleiro em seu vaso de barro, alguns vestígios de sua existência e perfeições.
A isso alude S. Paulo, por exemplo, aos escrever aos fiéis de Roma: “Desde a criação do mundo,
as perfeições invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis à
inteligência, por suas obras” (Rm 1, 20).
Seja como for, o indício mais firme e seguro de que Deus existe é o princípio de causalidade,
que vige, necessária e evidentemente, em todos os níveis da criação. O universo, do mundo
atômico às grandes galáxias, apresenta uma ordem e beleza espantosas, uma regularidade em suas
manifestações que não pode, ao menos para uma razão saudável e livre de preconceitos, ser
explicada pelo puro acaso, pela interpolação de forças cegas e desgovernadas.
De fato, ninguém em são juízo pode deixar de admitir que tudo quanto existe tem uma causa
de sua existência. É trabalho da ciência descobrir e analisar a inteligibilidade por trás dessas
relações evidentes de causa e efeito que permeiam tudo o que vemos.
Assim como nenhum médico bem formado supõe que é o acaso o responsável por uma doença
de estômago, assim também todo homem sensato tem a capacidade de reconhecer que o mundo
como um todo deve ter uma causa inteligente, que conferiu ordem às coisas, distribuindo-as
segundo papéis e funções bem determinadas.
No fundo, os motivos que costumam levar algumas pessoas a desacreditar de Deus, sem levar
em conta o materialismo em que infelizmente vivemos imersos, são de índole não tanto
especulativa quanto moral.
Reconhecer que Deus existe e tudo fez, na verdade, significa admitir que nós não nos
pertencemos; somos dele e para Ele, de sorte que não está em nossas mãos definir o que é bom ou
não e por quais rumos devemos encaminhar nossa vida, como se todas as opções fossem
igualmente válidas e capazes de contribuir para uma vida humana verdadeiramente feliz.

9- O que significa “criar”?


Deus, ao criar o mundo, não atuou sobre uma matéria caótica preexistente, como as divindades
ou os demiurgos de que nos falam as antigas cosmologias pagãs.
Criar, no sentido preciso da palavra, designa algo muito mais radical, que supõe um desígnio
livre por parte de Deus e exige, de certo modo, sua contínua e incessante ação conservadora.

Nesta nona aula daremos continuidade ao tema da criação, que começamos a estudar no
episódio anterior. Vimos até o momento que, à luz da razão natural, podemos concluir com certeza,
a partir das realidades criadas, que há um só Deus, Criador e Senhor de tudo quanto existe. Convém
saber agora o que a Revelação divina nos tem a dizer a respeito da origem do mundo.
Em primeiro lugar, é necessário distinguir o conceito de criação, no sentido técnico em que o
emprega a teologia cristã, dos usos correntes e imprecisos em que costumamos utilizá-lo. Pois
bem, num sentido bastante amplo, o termo “criação” designa qualquer forma de produção. Assim
dizemos, por exemplo, “criar uma história”, “criar uma peça musical”, “criar uma escultura” etc.
O que todas as “criações” humanas têm em comum é o fato de serem a produção de uma
determinada coisa — de ordem material ou intelectual — a partir de algo preexistente que serve
de matéria-prima. Uma escultura, de fato, só é possível se houver antes um bloco de mármore do
qual possamos extraí-la; do mesmo modo, uma melodia nova só é possível porque já existem
certas proporções sonoras que podemos manipular e combinar de infinitas maneiras.
A criação divina, no entanto, é uma produção de outra ordem, completamente radical e total.
Deus, ao criar o mundo, não atuou sobre uma matéria que já existia; ao contrário, Ele o fez do
nada (ex nihilo), não no sentido, é claro, de que este “nada” fosse já alguma coisa caótica ou
modelável, na qual Ele teria introduzido ordem ou da qual teria formado as criaturas, como
imaginavam muitas cosmologias pagãs.
Diante disso, podemos definir a criação — aqui, sim, em sentido estrito —, como “a primeira
produção de todo o ser, feito do nada pela causa universal, que é Deus” [1]. Vejamos com mais
detalhe os elementos centrais desta definição:
É “primeira produção”, porque é a origem total e absoluta de todo e qualquer ser;
É “de todo o ser”, que antes não existia de forma alguma e passa então a existir. Por isso, não
se refere a nenhum tipo de modificação ou alteração de algo preexistente;
É “do nada”, não como de algo precedente, mas como um dar (simples e instantâneo) a
existência ao que até então não existia;
É “pela causa universal, Deus”, já que só Ele é capaz de um ato como este.
Trata-se de uma verdade revelada que consta de modo explícito em muitíssimas passagens das
SS. Escrituras (cf., por exemplo, Gn 1, 1; Sl 18, 1; 101, 26; 145, 5s; Ecl 43, 37; Is 44, 24; 45,
7; Jr 10, 12; 27, 5; Jo 1, 3; Col 1, 16). Também é de fé, pelo testemunho das Escrituras e do
Magistério da Igreja, que Deus, Ser perfeitíssimo, criou o mundo por um desígnio livre e amoroso
de sua vontade.
Além disso, a razão nos mostra com toda evidência que, por tratar-se de um ato tão radical, a
criação tem como consequência a mais absoluta dependência do ser das criaturas em relação ao
Criador. Isso significa, entre outras coisas, que toda e qualquer criatura — da menor e mais
insignificante à maior e mais complexa —, para continuar existindo, requer incessantemente
a ação conservadora de Deus.
De fato, se Ele pudesse, ainda que por uns poucos segundos, cair no sono e deixar de pensar e
querer as obras de suas próprias mãos, todas as criaturas deixariam de existir, ou seja, voltariam
imediatamente ao nada de que foram criadas. Somos, sim, totalmente dependentesdele, e o fato
mesmo de estarmos aqui, sendo o que somos e como somos, já é prova de que Ele está a todo
momento pensando em nós e amando-nos com um amor único e singular.
A criação, por conseguinte, não foi um simples ato do passado, ocorrido há não sabemos
quantos bilhões de anos; é, na verdade, um ato contínuo e incessante, pois envolve, como um de
seus “momentos” integrantes, a conservação das criaturas.
Ao confessarmos, pois, nossa fé em “Deus Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra”,
reconhecemos a omnímoda liberdade de Deus ao criar o mundo, sua absoluta fidelidade à
conservação das criaturas e nossa radical dependência dele, que sustenta no ser, com imensíssimo
amor, até os que não querem aceitá-lo como Senhor e Criador do universo.
Referências

1. Antonio R. Marín, Dios y su Obra. Madrid: BAC, 1966, p. 341, n. 316.

10- As coisas visíveis e invisíveis


Tudo o que está à nossa volta, do menor grão de areia à mais portentosa das galáxias, foi criado
livremente por Deus. Mas as obras do Senhor não se resumem ao que vemos e tocamos ou
podemos descobrir com instrumentos de laboratório.
Além do mundo visível da matéria, existe um mundo invisível, que nem por isso deixa de ser
menos real. Pelo contrário, trata-se da dimensão mais rica e profunda de toda a criação.

O primeiro artigo de fé, ou seja, o primeiro dogma em que devemos crer afirma que Deus é Pai
todo-poderoso, criador do céu e da terra. Vimos, em primeiro lugar, que o homem, guiado apenas
com a luz natural da razão, é capaz de alcançar um conhecimento certo e seguro da existência de
um Deus criador e onipotente, inteligência ordenadora de todo o cosmos.
Vimos também que esse mesmo Deus, por meio das SS. Escrituras, revelou-nos a verdade do
seu poder criador, que consiste não só em produzir as coisas do nada (ex nihilo), mas ainda em
conservá-las continuamente no ser. É por esta razão que dizemos que Ele está
intimamente presente em todas as coisas e lugares, não ao modo de um “fluido” sutil e misterioso
que tudo penetra, mas com o seu poder e a título de causa primeira da qual dependem todos os
seus efeitos.
Precisamos agora dar um passo a mais e centrar-nos num outro ponto específico da nossa fé
católica. Cremos, pois, que Deus criou todas as coisas, quer dizer, o céu e a terra. Mas o que,
precisamente, queremos dizer com essas duas palavras: “céu” e “terra”?
Pois bem, o Símbolo niceno-constantinopolitano, cuja origem estudaremos noutra aula,
especifica com bastante clareza o sentido desses dois termos ao declarar que o céu e a terra
significam “todas as coisas visíveis e invisíveis”. Além das realidades materiais (representadas
pela terra), portanto, Deus criou também as realidades espirituais (representadas pelo céu), que
não se vêem com olhos de carne.
Essas realidades invisíveis a que nos referimos correspondem tanto às nossas almas, capazes
de subsistir separadas dos corpos, quanto aos anjos, criaturas imateriais inferiores a Deus e
superiores a nós. Trata-se de uma ordem da realidade criada que não está sujeita às variações do
mundo material, passageiro e corruptível, e, por isso mesmo, do âmbito mais consistente e real de
toda a criação.
Com efeito, tudo o que é material é, por definição, perecível: os metais se enferrujam, as flores
murcham, os animais padecem e morrem, nossos corpos envelhecem — o mundo todo, numa
palavra, se esfarela dia após dia, como a erva da flor, que se seca e cai (cf. 1Pd 1, 24). O
permanente e eterno, portanto, só pode encontrar-se ali onde não há matéria e decomposição.
Ora, o que caracteriza o mundo espiritual dos anjos e das almas humanas, além de sua natural
imortalidade e incorruptibilidade, é o poder de realizar dois atos de que nenhum ser meramente
material é capaz: conhecer a verdade e querer o bem, ou seja, amar. De fato, só a verdade e o amor
são eternos, durarão para sempre, de maneira que só algo que, de um modo ou de outro,
participasse de sua eternidade poderia captá-los e querê-los.
O homem, no entanto, tem a peculiaridade de ser uma criatura ao mesmo
tempo espiritual e material. Não somos puros espíritos, tal como os anjos, mas tampouco simples
matéria bruta mais ou menos organizada. Com os outros seres corpóreos nós temos em comum,
por exemplo, a existência (como os minerais), a vida orgânica e vegetativa (como as plantas) e a
sensibilidade (como os animais).
Com os anjos, porém, nós temos em comum algo muito superior, situado num nível que
transcende a esfera da pura materialidade, a saber: as potências da inteligência e da vontade, por
meio das quais buscamos a verdade e tendemos ao bem, fazemos alianças e pactos de amor e nos
elevamos acima de todos os outros animais.
Essa dupla dimensão que nos constitui, espírito e matéria, faz de nós um verdadeiro compêndio
ou resumo de todo o universo. É por isso que em muitos Santos Padres encontramos a expressão
“microcosmo” aplicada para descrever o ser humano.
Se olhamos para a nossa alma, contemplamos o céu belíssimo de que o Senhor nos dotou; se
olhamos para o nosso corpo, vemos a arte sapientíssima com que Deus sintetizou em nós as
perfeições concedidas aos outros seres vivos. Juntos, corpo e alma compõe substancialmente uma
só criatura — o homem, cume de toda a criação, maravilha das obras de Deus.

11- Mal: uma invenção angélica


É um fato óbvio e incontestável que no mundo existem muitos males não apenas físicos, mas
também morais: dores, perdas, traições, egoísmo... Tudo isso faz parte da vida de todos nós,
queiramos ou não.
Mas como entender que num universo criado por um Deus amoroso e providente haja tamanha
desordem? De onde, afinal de contas, procede o mal? Foi Deus mesmo quem o criou? Se não, qual
é a sua origem?
Visto o primeiro artigo do Credo do ponto de vista da razão natural e da Revelação divina, em
sua conexão com o mundo tanto material como imaterial, dedicaremos a presente aula a examinar
de forma bastante sintética um problema que já fez correr rios de tinta: a origem do mal e do
pecado.
Com explicar, pois, que num universo criado por um Deus amorosíssimo e providente haja
o mal físico e o mal moral? Será o pecado uma criatura como as outras, querida diretamente por
Deus como parte integrante da criação?
Antes de tudo, é preciso dizer que Deus não é causa do mal nem do pecado, senão que
simplesmente os permite para deles tirar bens ainda maiores. O pecado, como consta claramente
nas SS. Escrituras, é uma invenção de certa classe de seres racionais e livres: os anjos caídos,
também chamados demônios.
O que Deus criou, sim, foi a liberdade, concedida aos anjos, espíritos puros, e aos seres
humanos, compostos de corpo e alma. De fato, o que peca não é a matéria, mas o espírito. Do
contrário, os demônios não poderiam ter-se revoltado contra Deus; igualmente, se o pecado fosse
obra mais do corpo do que da alma, deveríamos atribuir aos animais a mesma responsabilidade
moral que os homens têm por seus próprios atos.
Além disso, a liberdade é um atributo essencialmente espiritual: um punhado de matéria, com
efeito, não tem como decidir o que fazer consigo mesmo. Só o que pensa, só o que é capaz de
decidir, por si mesmo, seguir este ou aquele caminho pode chamar-se livre em sentido estrito.
Ora, a divina Revelação nos ensina que, antes da criação do mundo visível, Deus fez os coros
angélicos. Mas alguns desses anjos, criados inicialmente bons, decidiram revoltar-se contra o
Criador, negando-se soberbamente a tributar-lhe a reverência e o amor que lhe são devidos. Foi
aí, em sua raiz angélica e espiritual, que surgiu o mal, o pecado, que não é mais do que uma revolta
contra Deus.
O pecado humano, por sua vez, surgiu da tentação que os anjos maus exerceram sobre os nossos
primeiros pais depois da criação do mundo material. Adão e Eva foram criados bons, capazes de
amar a Deus e tê-lo como um amigo íntimo; mas, seduzidos pelo pai da
mentira, preferiram desobedecer ao mandamento divino e seguir a própria vontade. Foi a partir
dessa livre desobediência que o pecado e desordem entraram na história humana.
Mas como, no fim das contas, pôde Satanás enganar a nossos primeiros pais? Fazendo com que
a alma humana, espiritual como ele, pecasse e se desviasse de Deus. A alma, enganada pelas
sugestões do diabo, perdeu o controle absoluto que tinha antes sobre as faculdades corporais; o
corpo, por sua vez, soltou-se das rédeas com que o mantinha controlado a alma.
De maneira que, depois do pecado original, todo ser humano vem ao mundo marcado por uma
profunda desordem e desarmonia: a alma, fragilizada, já não tem forças para mandar inteiramente
no corpo; o corpo, agora desgovernado, acaba se “impondo” à alma, que não encontra forças para
resistir aos prazeres.
Pela sedução de Satanás, o pecado entrou no mundo, e o homem, criado originalmente com
uma perfeita harmonia interna, viu-se reduzido à condição de escravo do pecado e do egoísmo.

O Redentor
12- A promessa do Salvador
Nesta décima segunda aula do curso Catequese para Adultos, Padre Paulo Ricardo explica
como as consequências do pecado original clamam à misericórdia divina por um Salvador que
possas curá-las.
Deus, cujo amor não tem limites, preparou este Redentor ao longo da história, desde Abraão,
passando por Moisés, Davi e os profetas até culminar, enfim, no nascimento do Messias
prometido, Cristo Jesus.

Vimos até agora que o homem, em virtude do pecado original, tornou-se necessitado de um
Redentor. Encontramo-nos numa situação em que não só merecemos a condenação eterna como,
além disso, a nossa própria vida aqui no mundo converteu-se num pequeno “inferno”, já que,
incapazes de pagar por nós mesmos a dívida contraída diante de Deus, nos vemos marcados pelas
consequências do pecado.
De fato, o pecado original deixou abertas na natureza humana três grandes feridas: a ignorância,
que nos debilita a inteligência, feita para conhecer a verdade; a malícia, que desordena a nossa
vontade, desviando-a do bem verdadeiro; e a concupiscência, que faz nossos apetites procurarem,
desobedientes à ordem da razão, os bens sensíveis e deleitáveis.
Isso não significa, contudo, que tenha sido destruído todo o bem da nossa natureza nem que
tenhamos perdido completamente a capacidade de chegar ao conhecimento da verdade. Significa,
antes de tudo, que estamos debilitados em nossas potências, como que cegos à luz de Deus, menos
proclives ao exercício da virtude, mais inclinados, devido ao mundo passional descontrolado que
borbulha dentro de nós, à prática do mal.
Todo esse panorama demonstra o quão radical é a nossa necessidade de um Salvador, de
alguém capaz de reparar, com estrita e perfeita justiça, a ofensa que o gênero humano, em Adão,
sua cabeça, lançou ao rosto do Senhor.
Ora, Deus, cuja misericórdia é infinita, preparou a vinda deste Redentor ao longo da história.
Foi particularmente em Abraão, cerca de dois mil anos antes do nascimento de Cristo, que teve
início um fenômeno até então desconhecido das demais religiões: o fenômeno da fé na palavra e
nas promessas do verdadeiro Deus.
Essa fé que o Senhor exige de Abraão nada tem a ver com as distintas crenças que os mais
distintos povos, como que às apalpadelas, foram formulando progressivamente, nascidas de um
impulso natural que todo homem tem em direção à verdade. A fé, nesse sentido, representa uma
iniciativa por parte de Deus de socorrer a ignorância do homem, incapaz de encontrar com suas
próprias forças a divindade em sua plena e luminosa verdade.
Em Abraão, com efeito, Deus começa a revelar-se a si mesmo, bem como o projeto de salvação
que Ele nos havia planejado: “Farei de ti uma grande nação” (Dt 12, 2) e “multiplicarei ao infinito
a tua descendência” (Dt 17, 2), provinda não só da carne e do sangue, mas sobretudo da fé.
Para que estas promessas se cumprissem, era necessário que houvesse, sim, uma descendência
biológica, à qual estaria vinculado o nascimento do Messias, do qual foram figura inúmeros
personagens do Antigo Testamento. Entre eles conta-se, por exemplo, o filho de Abraão, Isaac,
cujo sacrifício no monte Moriá prefigurava o holocausto efetivo do Filho de Deus encarnado no
monte Calvário.
De Isaac nasce Jacó, cuja descendência, exilada e escravizada no Egito, será liderada por
Moisés numa páscoa, ou seja, numa passagem para uma vida nova de liberdade. Na travessia do
Mar Vermelho, com efeito, vemos simbolizados o nosso Batismo, porta de entrada para a vida da
graça, e a salvação operada por Cristo, morto, sepultado e ressuscitado.
Essa história de redenção mostra como Deus foi preparando o caminho que o povo escolhido
teria de trilhar até, finalmente, estar maduro para a vinda do Salvador prometido. Mas, embora
Deus concedesse a sua graça, a vivência da fé e o cumprimento da Lei dada por Moisés sempre
foi um pouco rude, imperfeita. Aqui entra o papel dos profetas, chamados a reconduzir
constantemente o povo à observância dos Mandamentos e à prática sincera e interior do culto a
Deus.
Os profetas vão, pois, aplainando as vias de Jesus, preservando o pequeno resto de fiéis que,
de coração reto e sincero, amavam a Deus e esperavam com confiança inabalável a realização das
promessas messiânicas. É para este pequeno resto que virá o Salvador, nascido de mulher e
chamado Emanuel, o mais belo dos filhos dos homens, em cujo rosto sagrado resplandece o amor
do Pai celeste.

13- “E o Verbo se fez carne”


Nesta décima terceira aula do curso Catequese para Adultos, Padre Paulo Ricardo nos introduz
no mistério da nossa Redenção.
Deus, uno em essência e trino em pessoas, revela-se plenamente em Jesus Cristo, Filho
encarnado para salvar-nos da perdição eterna e conseguir-nos, por seu sacrifício na cruz, um
prêmio incomparável: participar um dia da felicidade da própria Santíssima Trindade no céu.

Na aula de hoje, falaremos mais detidamente sobre o dogma da Redenção. Vimos já em aulas
anteriores como a salvação foi sendo preparada ao longo da história do povo escolhido. Deus, pela
fé de Abraão, prometera-lhe uma descendência, da qual brotaria, ao fim e ao cabo, o Salvador do
gênero humano. Agora, convém examinar como Deus, de fato, veio nos salvar.
Antes de tudo, é preciso ter em mente que Deus já se revelara no Antigo Testamento como
único, vivo e verdadeiro. O que porém se ignorava é que este Deus, uno em essência, é
também trino em pessoas. Deus é Pai, não num sentido meramente simbólico, como Criador e
Autor de tudo o que existe, mas com toda a propriedade: Ele tem um Filho igual a si em tudo, de
idêntico poder, glória e majestade. Entre eles, ademais, existe um vínculo de amor tão intenso, tão
incompreensível, que chega a constituir uma verdadeira pessoa. É o Espírito Santo.
Foi a partir da vinda de Deus a este mundo que tomamos notícia desse grande mistério, o
mistério da Santíssima Trindade. O que antes eram figuras e momentos preparatórios na história
da salvação desabrocha, enfim, com a Encarnação do Verbo: em Cristo Jesus nos é revelado que
o Deus uno é uma Trindade de amor.
Ora, já tivemos ocasião de estudar que os nossos primeiros pais, Adão e Eva, foram criados em
estado de felicidade e que, com o pecado original, esta felicidade foi deitada a perder. Mas Deus,
de imensa liberalidade, a fim de tirar o homem do lodaçal em que ele se lançara, resolveu reparar
esse estado lamentável não pela simples restituição daquela felicidade original, mas outorgando à
família humana a possibilidade de participar de uma alegria infinitamente maior — a alegria de
que Ele próprio, no caudal de amor em que estão inundadas as três pessoas divinas, desfruta no
céu.
Por isso, num ato de total liberdade, Ele quis enviar-nos o seu Filho unigênito, por meio do
qual seria reparada a injustiça do pecado e nos seriam abertas, por seu sacrifício na cruz, as portas
do paraíso celeste. O Filho se encarna, pois, sujeitando-se às nossas misérias, para que nós,
deificados por sua graça, possamos viver a sua felicidade.
Trata-se de um mistério insondável, que raciocínio humano nenhum poderia jamais descobrir
e que depende, no fundo, da livre disposição de Deus. Neste mistério de amor, Ele quis nos salvar
seguindo, em sentido contrário, o mesmo caminho por que Satanás nos tinha perdido: assim como
o pecado, em sua raiz, entrou no mundo pelas mãos de Eva — virgem, criada sem mancha e
desposada com Adão —, assim também a salvação nos veio por meio de outra mulher, virgem e
desposada com José — Maria Santíssima, concebida imaculada.
Eva, desconfiada e sem fé, desobedece à ordem divina de não comer o fruto da árvore da ciência
do bem e do mal; Maria, confiante e cheia de fé, dá o seu “sim” ao mais inacreditável dos anúncios:
o nascimento de Deus feito carne. Contra o veneno da desconfiança e da inimizade com Deus que
Satanás destilou no coração humano seria jorrado o sangue purificador de Cristo Salvador.
Ao perderem a felicidade terrena, Adão e Eva deram a Deus a oportunidade de nos dar a
felicidade do céu: a Trindade se revela já nas poucas palavras que S. Gabriel dirige à Virgem, e
nós somos chamados a participar de sua bem-aventurança eterna — eis o Evangelho, a boa-
nova que Deus escondera por todos os séculos e revelou, nestes últimos dias, por seu Filho muito
amado.

14- O mistério da Santíssima Trindade


Nesta décima quarta aula do curso Catequese para Adultos, Padre Paulo Ricardo nos explica
como a Encarnação do Filho, nascido de mulher para resgatar-nos do poder das trevas, implica a
revelação de um sublime mistério: Deus, uno e simples em essência, é trino em pessoas — Pai,
Filho e Espírito Santo.

S. Gabriel Arcanjo, ao visitar Nossa Senhora em Nazaré, trouxe-lhe uma notícia que ninguém
poderia imaginar. O Filho do Deus excelso, criador do céu e da terra, iria fazer-se homem por
meio de uma virgem, sobre a qual viria o Espírito Santo. Ali, nas brevíssimas palavras que
compõem a anunciação, é revelado o mistério — escondido desde todos os séculos — da Trindade
Santíssima. O anúncio da Encarnação coincide, pois, com a revelação do mais sublime mistério
de Deus.
É verdade, sim, que em várias páginas do Antigo Testamento essa verdade se encontra como
que sugerida, indicada ou insinuada, de forma mais ou menos vaga e remota. No Livro do Gênese,
por exemplo, Deus fala muitas vezes em plural (cf. Gn 1, 26; 3, 22; 11, 7); os livros sapienciais,
por sua vez, referem-se em inúmeras ocasiões à Sabedoria divina e à sua geração a partir de Javé
(cf. Pr 8, 22-24); também o Espírito de Deus aparece em diversas passagens do Texto Sagrado
(cf. Gn 1, 2; Sl 50, 13; 103, 30; Sb 1, 7; Is11, 1s; 61, 1s; 63, 10). Mas é só no Novo Testamento
que essa verdade seria posta sob clara luz: o Deus uno, revelado a Israel e ignorado pelos pagãos
e politeístas, é trino em pessoas.
A Trindade manifesta-se com cada vez mais clareza ao longo de vida de Jesus. Na anunciação,
como vimos, aparece o nome das três pessoas divinas (cf. Lc 1, 35). No batismo do Senhor, além
disso, toda a Trindade beatíssima comparece: “O Espírito Santo desceu sobre Ele em forma
corpórea, como uma pomba; e veio do céu uma voz: ‘Tu és o meu Filho bem-amado; em ti ponho
minha afeição’” (Lc 3, 22).
Jesus faz questão ainda de referir-se ao Pai na última ceia: “A palavra que tendes ouvido não é
minha, mas sim do Pai que me enviou” (Jo 14, 23). E pouco depois, no mesmo sermão aos
Apóstolos, acrescenta: “Mas o Paráclito, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome,
ensinar-vos-á todas as coisas e vos recordará tudo o que vos tenho dito” (Jo 14, 26). O episódio
da Transfiguração, a fórmula sacramental do batismo, ensinada momentos antes da Ascensão
(cf. Mt 28, 19), etc. são outros tantos exemplos em que se atesta com toda clareza a divindade de
Cristo, sua filiação ao Pai e a união com o Espírito de ambos.
A Igreja nasce, pois, plenamente consciente de que o seu Deus, uno em essência, é também
uma Trindade de amor. A falta de categorias filosóficas precisas e de um vocabulário teológico
adequado, no entanto, foi uma das causas por que, já nos primeiros séculos, surgiram entre os fiéis
algumas heresias contrárias ao dogma trinitário. Basta pensar, por exemplo, no erro de Ário, para
quem o Filho não seria de natureza divina, mas uma criatura muito elevada subordinada ao Pai.
Também os pneumatômacos, embora admitissem a existência do Espírito Santo, negavam-lhe a
divindade.
Para confutar estes e outros desvios doutrinários, a Igreja, por meio do seu Magistério com o
auxílio de doutores e teólogos, foi polindo a sua linguagem até estabelecer, de modo preciso e
claro, os termos em que se deve entender e transmitir o mistério da Santíssima Trindade. Essa
precisão terminológica, posta a serviço da verdade, se deu sobretudo nos dois primeiros Concílios
Ecumênicos: o de Nicéia, celebrado em 325, e o de Constantinopla, reunido poucos anos depois,
em 381.
Nestes dois Concílios, estabeleceu-se a linguagem canônica que a Igreja passou a utilizar para
exprimir sua fé na Santíssima e augusta Trindade. Aí teve origem, depois de sessenta anos de
intensos debates teológicos, o chamado Credo niceno-constantinopolitano, que costumamos
recitar nas Missas de domingo.
Mas como o cristão, afinal, deve expressar sua fé trinitária?
A Igreja nos ensina a esse respeito que em Deus há uma só natureza ou essência divina, de
infinita simplicidade e perfeição; não existem, pois, nem duas nem três naturezas ou essências
divinas, mas uma só, de sorte que não existe nem pode existir mais do que um só Deus.
Acontece, porém, que essa única natureza divina é “compartilhada” por três pessoas, não no
sentido de que cada uma delas fique apenas com uma “parte” ou “porção” da essência comum.
Não: as três pessoas divinas, Pai, Filho e Espírito Santo, comungam da mesma natureza com plena
e perfeita igualdade: não há, no seio da Trindade, um mais e um menos; todos os três são, portanto,
plenamente Deus.
Ouçamos o que diz um teólogo acerca desse mistério inefável da vida íntima de Deus:
Deus é Pai. Tem um Filho, engendrado por Ele no eterno hoje de sua existência.
Contemplando-se a si mesmo no espelho puríssimo de sua divina essência, o Pai
gera uma Imagem perfeitíssima de si mesmo, que o expressa e reproduz em toda a
sua divina grandeza e imensidade. Imagem perfeitíssima, Verbo mental, Idéia,
Protótipo, Palavra vivente e substancial do Pai, constitui uma segunda pessoa em
tudo igual à primeira, excetuando a oposição real de paternidade e filiação, que faz
com que a primeira seja Pai e a segunda, Filho.
[…] Por isso, a segunda pessoa da Santíssima Trindade, o Filho ou Verbo do
Pai, é Deus como o Pai, possui juntamente com Ele e o Espírito Santo a plenitude
da divindade. É Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro,
como dizemos no Credo da Missa. O próprio Cristo o proclamou abertamente ao
dizer: “O Pai e Eu somos um” (Jo 10, 30).
A terceira pessoa da Santíssima Trindade recebe na Sagrada Escritura e na
tradição cristã o nome misterioso de Espírito Santo. Ele é o laço de união entre o
Pai e o Filho, o Amor subsistente que os abraça e consuma na unidade.
O Pai, com efeito, vendo refletido em sua própria divina essência o seu Verbo
divino, que é a Imagem perfeitíssima de si mesmo, o ama com um amor sem limites.
E o Verbo, que é a Luz do Pai, seu Pensamento eterno, sua Glória, sua Beleza, o
Esplendor de todas as suas perfeições infinitas, devolve a seu Pai um amor
semelhante, igualmente eterno e infinito. E ao encontrar-se a corrente impetuosa de
amor que brota do Pai com a que brota do Filho, jorra, por assim dizer, uma torrente
de chamas, que é o Espírito Santo: amor único, embora seja mútuo, vivente e
subsistente; abraço, vínculo, beijo inefável que consuma o Pai e o Filho na unidade
do Espírito Santo [1].

Referências

1. Antonio R. Marín, Teología de la Perfección Cristiana. 2.ª ed., Madrid: BAC, 2012,
pp. 52-53, n.38.

15- O mistério de Jesus Cristo


Nesta décima quinta aula do curso Catequese para Adultos, Padre Paulo Ricardo dá início à
parte cristológica do nosso estudo.
Quem é Jesus Cristo? Como se dá, em sua divina pessoa, esse relacionamento entre Deus e
homem? Que importância tem a união hipostática para a reta compreensão do que significa, no
fundo, ser salvo? Eis algumas das perguntas a que nos iremos dedicar a partir de agora.

Como vimos nas aulas passadas, Deus é um, mas não é sozinho. Na unidade simplíssima e
perfeita de sua essência, subsistem três pessoas realmente distintas, Pai, Filho e Espírito Santo,
cada uma das quais se identifica de modo pleno com a única natureza divina. A partir da aula de
hoje, centraremos a nossa atenção no estudo da segunda pessoa, o Filho, sob a ótica de sua
Encarnação no tempo.
O estudo que iniciaremos agora recebe o nome de Cristologia, ou seja, corresponde àquela
parte de teologia dogmática que se ocupa do Verbo de Deus encarnado. As principais perguntas
abordadas nesse tratado teológico são: quem é Jesus Cristo? Como se dá, em sua divina pessoa,
esse relacionamento entre Deus e homem?
Contra a Encarnação do Verbo, objeto de fé desde o alvorecer da Igreja, levantaram-se diversos
erros e heresias ao longo do tempo. Muitas delas, à semelhança do que sucedia com o dogma
trinitário, se baseavam numa terminologia teológica precária e imprecisa, que não alcançava
exprimir de forma adequada tão grande mistério; outras, no entanto, provinham de ambientes
gnósticos e avessos à pureza da ortodoxia.
Entre estas se conta, por exemplo, o docetismo, segundo o qual o Verbo não teria assumido
integralmente a natureza humana, mas apenas um corpo aparente (o verbo grego δοκεῖν, com
efeito, significa “aparecer”), de maneira que a sua Paixão foi pura e simples irrealidade.
Os adocionistas, por sua vez, afirmavam que Jesus não passava de uma pessoa humana,
posteriormente “adotada” pelo Pai por ocasião do seu batismo no rio Jordão. Jesus seria aqui uma
espécie de “marionete” nas mãos de Deus, utilizada como mero instrumento para realizar milagres
e abandonada, por fim, no momento da crucifixão.
Nada disso, é claro, corresponde à fé da Igreja, embora não deixe de revelar, por si só, a
dificuldade que temos de compreender esse mistério da união entre o divino e o humano em Nosso
Senhor. Antes, porém, de vermos a formulação dogmática que a Igreja encontrou para exprimir e
defender a sua fé em Cristo, Deus e homem verdadeiro, vale a pena considerar primeiramente a
importância desta doutrina para o reto entendimento do que é a nossa salvação.
Como já tivemos ocasião de ver, Deus criou os nossos primeiros pais num estado de ordem e
felicidade, representado no jardim das delícias a que alude o Livro do Gênese. Com o pecado
original, no entanto, Adão e Eva caíram, corromperam-se, transmitindo à sua descendência uma
natureza humana débil, enfraquecida em suas potências e sem a possibilidade de recuperar por si
mesma a felicidade perdida.
Mas Deus, para remediar esse estado de queda, não quis simplesmente reconduzir a
humanidade ao paraíso terrestre. Ele, que não se deixa vencer em bondade, quis mais do que isto:
quis dar ao homem, não uma felicidade humana, terrena, mas a bem-aventurança de que Ele
mesmo goza no seio de sua vida intratrinitária. É nisso, pois, que consiste a nossa salvação —
associar-nos, depois desta vida terrena, à felicidade eterna da Santíssima Trindade.
É por isso que a mensagem de Cristo é verdadeiramente uma boa-nova, uma feliz notícia. Nós,
corrompidos pelo pecado, sujeitos neste mundo a tantas tristezas e amarguras, temos agora a
chance de participar, num eterno e doce presente, da beatíssima vida de Deus, Pai, Filho e Espírito
Santo. Nós, homens por natureza, fomos chamados a ser deuses pela graça: seremos divinizados
na fornalha ardente de amor que consuma a Trindade Santíssima, como barras de ferro
incandescentes.
Mas como será possível essa união ardente sem deixarmos de ser o que somos, sem nos
desfazermos como palhas metidas no fogo? Como pode a natureza humana unir-se à divina sem,
por isso mesmo, “pulverizar-se” na infinitude de Deus?
Ora, para que haja salvação é preciso que, unidos a Deus, não deixemos de ser o que somos,
isto é, criaturas humanas, como tudo o que nos convém por natureza. De fato, se o homem, depois
da morte, se “dissolvesse” no “oceano” da divindade — como preconizam, em má poesia, muitas
falsas religiões —, não haveria salvação em sentido estrito, já que o ser pessoal e individual do
homem seria destruído. Uma gota d’água que se dilui no mar deixa, com isso, de ser uma gota
d’água; a humanidade, dissolvida na divindade, deixa de ser humanidade.
A salvação requer, pois, um ponto de equilíbrio, em que Deus continue a ser Deus e o homem,
a ser homem. Por isso, a palavra que melhor descreve essa realidade é o matrimônio, no qual os
esposos, mantendo cada um a sua individualidade, unem-se tão profundamente que chegam a
formar uma só carne. A própria S. Escritura serve-se muitas vezes da figura das núpcias para
referir-se à união salvífica entre Deus e homem. O próprio Cristo se identifica como o Esposo ao
qual nossas almas estão chamadas a unir-se misticamente.
Para que haja salvação, tem de haver algo que una, mas sem fundir; que distinga, mas sem
separar. Ao longo das próximas aulas, veremos como esse requisito se cumpre perfeitamente na
pessoa divina de Nosso Senhor Jesus, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus
verdadeiro.

16- Uma só Pessoa em duas naturezas


Nesta décima sexta aula do curso Catequese para Adultos, Padre Paulo Ricardo nos ajuda a
compreender o mistério da Encarnação a partir de dois conceitos-chave que a teologia católica
elaborou na época dos primeiros Concílios Ecumênicos para formular, precisar e defender o
dogma cristológico.
Trata-se dos conceitos de “pessoa” e “natureza”, de importância capital para entender
retamente a fé da Igreja tanto na divina pessoa do seu Fundador quanto na divina maternidade de
Maria Santíssima.

Para sermos salvos e participarmos da vida de Deus, é necessário que a Ele nos unamos. O
problema, como visto na aula passada, é saber de que modo esses dois extremos tão distantes e
desiguais podem unir-se de uma forma estável e permanente, sem que o homem, frágil criatura, se
“dilua” na grandeza inesgotável do ser divino.
A solução deste problema depende do entendimento prévio de dois conceitos-chave elaborados
pela teologia cristã ao longo dos primeiros séculos da Igreja: os conceitos natureza e pessoa.
A palavra “natureza” (φύσις ou οὐσία, em grego) designa a essência de uma coisa e responde
à pergunta: “O que é isso?”, ao passo que a palavra “pessoa” (πρόσωπον ou ὑπόστασις, em grego)
responde à pergunta: “Quemé este?” Assim, por exemplo, quando perguntamos a uma mãe:
“Quem é o seu filho?”, buscamos descobrir a sua identidade, ou seja, o sujeito ou a pessoa nascida
desta mãe. Mas ninguém, ao menos em sã consciência, pergunta a uma mulher grávida: “O que é
o seu filho?”, pois é óbvio que de um ser humano só pode nascer outro ser humano, ou seja, um
indivíduo da mesma natureza.
Ora, todos os homens compartilham a mesma natureza humana, embora cada um deles seja
uma pessoa distinta, única e irrepetível (João, Pedro, Tiago, Paulo…), que atua e se manifesta
através desta natureza racional, quer dizer, mediante a sua humanidade.
Essas noções, que já nos ajudaram a compreender um pouco o mistério da SS. Trindade —
uma só natureza ou essência divina na qual subsistem três pessoas realmente distintas (Pai, Filho
e Espírito Santo) —, podem ajudar-nos a entender agora, na medida do possível, o mistério de
Cristo, Deus feito homem.
Quanto a isso, a fé católica nos ensina que a segunda pessoa da SS. Trindade, o Filho ou Verbo
de Deus, assumiu no seio da Virgem Maria uma natureza humana, mas sem deixar de possuir ou
subsistir em sua natureza divina. Por isso, devemos reconhecer e confessar que no único e mesmo
Jesus Cristo, Filho e Senhor unigênito, pessoa divina e incriada, há duas naturezas distintas, sem
confusão, sem mudança, sem divisão e sem separação: a natureza divina, eterna e onipotente, e
uma natureza humana, com tudo o que lhe é próprio (alma, corpo, sangue etc.), unidas
intimamente em uma só pessoa (ou “hipóstase”, como dizem os teólogos).
Nesse sentido, se nos perguntarem “o que” é Jesus, devemos responder, referindo-nos às duas
naturezas em que Ele subsiste: Jesus Cristo é plenamente Deus e plenamente homem. Se, porém,
nos perguntam “quem” é Jesus, devemos responder, referindo-nos agora à sua pessoa divina: Ele
é o Filho eterno de Deus, anterior a todos os séculos, por quem e para quem foram criadas todas
as coisas.
Foi na plenitude dos tempos, a partir do “sim” de Maria, que este mesmo Filho — unus ex
Trinitate —, cumprindo o desígnio salvífico do Pai para a humanidade, assumiu no ventre da
Virgem SS. uma natureza humana em tudo igual à nossa, exceto no pecado, revestindo-se assim
da forma de servo, com corpo mortal e coração de carne.
Disto se segue, entre outras coisas, que Maria é, real e verdadeiramente, Mãe de Deus
(Θεοτόκος, em grego), uma vez que o fruto bendito gerado em suas entranhas puríssimas e dado
à luz com gozo celeste é o próprio Verbo encarnado. Maria, assim como qualquer outra mulher,
não é mãe de uma natureza, mas de uma pessoa, a qual possui uma natureza — no caso
singularíssimo de Maria, a pessoa em questão possui duas naturezas. Concebido segundo a carne,
o Verbo preexistia segundo a divindade, mas nem por isso é menos Filho daquela que o concebeu,
gerou, deu à luz, amamentou e cobriu com beijos os mais amorosos.

17- A visão beatífica de Jesus Cristo


A alma de Cristo encontrava-se unida à divindade do Verbo de uma maneira muito íntima e
misteriosa. Em virtude dessa união, muitos santos e Doutores da Igreja concordam em afirmar que
Jesus, enquanto homem, possuiu desde a sua concepção virginal no seio de Maria o que em
teologia denomina-se “visão beatífica”, isto é, a visão que os anjos e bem-aventurados têm de
Deus na glória do céu.
É sobre essa doutrina comum e bastante sólida que Padre Paulo Ricardo discorre nesta nova
aula de nosso curso Catequese para Adultos.

Ao estudarmos na aula passada os conceitos de “pessoa” e “natureza”, vimos ser de fé católica


que em Jesus Cristo a união das duas naturezas (divina e humana) se realizou numa única pessoa:
a pessoa divina do Verbo. Essa verdade, crida desde sempre e atestada por diversos símbolos de
fé, foi definida e professada solenemente no Concílio de Éfeso, celebrado no ano de 431, durante
o pontificado de S. Celestino I.
Além de reafirmar a fé da Igreja na personalidade única e divina de Cristo, subsistente em duas
naturezas distintas, o Concílio de Éfeso corroborou ainda, contra a heresia de Nestório, o dogma
da maternidade divina de Nossa Senhora. A Virgem Maria, como já tivemos ocasião de assinalar,
é Mãe de Deus em sentido próprio e verdadeiro, uma vez que ela concebeu, gerou e deu à luz
segundo a carne o Filho de Deus encarnado.
Nestório, patriarca de Constantinopla, defendia abertamente que, além das duas naturezas, em
Jesus haveria também duas pessoas, uma divina e outra humana, de sorte que Maria SS. não
poderia ser chamada Mãe de Deus, mas apenas Mãe de Cristo homem (Χριστοτόκος, em grego).
Após a condenação conciliar da heresia nestoriana, surgiu o chamado monofisismo, que incidia
justamente no extremo oposto. Com efeito, para os monofisistas, inspirados sobretudo por
Eutiques, em Cristo haveria uma só natureza, resultado da fusão da natureza humana com a divina.
A reação da Igreja contra mais este desvio foi a convocação, no ano de 451, durante o papado
de S. Leão Magno, do Concílio de Calcedônia, onde se condenou a heresia monofisista e se
reafirmou a doutrina católica sobre a existência em Cristo de duas naturezas — distintas, mas não
separadas; unidas, mas sem confusão nem mistura — na única pessoa do Verbo.
Por isso, embora Jesus seja, sim, um ser humano, Ele não é uma pessoahumana, mas divina.
Ainda que, segundo a sua humanidade, Ele seja igual a nós em tudo (em corpo e alma), o “quem”
de Jesus é divino: Ele é “um da Trindade”, unus ex Trinitate.
Isso tudo implica que a alma de Cristo encontrava-se unida à divindade do Verbo de uma
maneira muito íntima e misteriosa. Em virtude dessa união, muitos santos e Doutores da Igreja
concordam em afirmar, embora não se trate de um dogma de fé, mas apenas de uma doutrina
comum e bastante sólida, que Jesus, enquanto homem, possuiu desde a sua concepção virginal no
seio de Maria o que em teologia denomina-se “visão beatífica”, isto é, a visão que os anjos e bem-
aventurados têm de Deus na glória do céu.
A alma de Cristo, nesse sentido, pode ser entendida como uma “montanha” elevadíssima, em
cujo pico resplandece o sol da divindade, enquanto suas estribações mais baixas permanecem, por
assim dizer, “alheias” a esses brilhos celestes. A sua parte mais elevada e nobre contemplava
alegremente a Deus sem cessar, ao passo que as partes mais inferiores estavam sujeitas às
necessidades, exigências e dificuldades comuns a qualquer alma humana.
A existência da visão beatífica em Nosso Senhor significa que, contemplando a Deus a todo
instante, Ele via também a cada um de nós e, sendo Ele nosso divino Salvador, nos amava com
um amor infinito e redentor. Em cada passagem do Evangelho, em cada gesto, obra e palavra de
Cristo, podemos estar seguros de que ali, naqueles acontecimentos divinos, os olhos, o pensamento
e o Coração do Filho de Deus estavam dirigidos a nós, com um amor único e sem medidas.
O Papa Pio XII, de imortal memória, expressou com inigualável beleza esse mistério em uma
parágrafo (n. 75) lapidar de sua Encíclica “Mystici Corporis”:
Esse amorosíssimo conhecimento que o divino Redentor de nós teve desde o
primeiro instante da sua encarnação, excede tudo quanto a razão humana pode
alcançar; pois que ele pela visão beatífica de que gozou apenas concebido no seio
da Mãe Santíssima, tem continuamente presente todos os membros do seu corpo
místico e a todos abraça com amor salvífico. Ó admirável dignação da divina
bondade para conosco! Ó inconcebível ordem da imensa caridade! No presépio, na
cruz, na glória sempiterna do Pai, Cristo vê e abraça todos os membros da Igreja
muito mais claramente, com muito maior amor do que a mãe que tem o filho no
regaço, do que cada um de nós se conhece e ama a si mesmo.
Recomendações

1. Intr. a S. Tomás de Aquino. 17: A Cristologia de Santo Tomás (I);

2. Intr. a S. Tomás de Aquino. 18: A Cristologia de Santo Tomás (II).

18- Cristo: sacerdote e vítima


Jesus Cristo, Deus encarnado, é ao mesmo tempo sacerdote e vítima.
Em sua divina pessoa, o céu e a terra se unem e por suas mãos, dirigidas ao Pai celeste, é
oferecido o sacrifício da nossa reconciliação: morrendo na cruz por amor a Deus e pela nossa
salvação, Jesus Cristo nos alcançou não só o perdão dos pecados, mas também a graça de nos
associarmos ao seu holocausto de amor àquele que o enviou.

Jesus Cristo, como vimos até agora, é uma pessoa divina, em tudo igual ao Pai, em poder,
glória e majestade. Disso dá testemunho a conhecida profissão de S. Pedro, narrada em Mt 16, 16
e reiterada séculos depois, de forma solene e dogmática, no Concílio de Calcedônia: “Tu és o
Cristo, o Filho de Deus vivo”. Jesus é não só o Cristo, o Messias ungido, mas também uma pessoa
divina: concretamente, o Filho eterno do Pai.
Logo após a resposta de Pedro, em que se destaca sua origem divina, Jesus inicia com os
Apóstolos um importante diálogo em estreita dependência de sua condição, há pouco revelada, de
Verbo feito carne. Uma vez reconhecido como o Filho de Deus, o Senhor passa a explicar-lhes
detalhadamente sua identidade messiânica: “Desde então”, ou seja, desde a confissão de Pedro,
Ele “começou a manifestar a seus discípulos que precisava ir a Jerusalém e sofrer muito” (Mt 16,
21).
Em outras palavras, Jesus nos mostra aqui que o núcleo de sua missão — o ponto central de
sua identidade de Filho encarnado — é ser vítima de propiciação, é ser sacrifício de amor. Por
isso, podemos dizer com propriedade que Ele é, ao mesmo tempo, sacerdote e vítima.
Quanto ao primeiro ponto, deve-se ter em mente que um sacerdote é um homem encarregado
de oferecer a Deus “dons e sacrifícios pelos pecados” (Hb 1, 5). Um sacerdote, nesse sentido, tem
por missão essencial unir os homens a Deus, servindo de mediador entre eles.
Ora, em Jesus Cristo essa união se dá sob um duplo título: a) em primeiro lugar, porque nele
humanidade e divindade encontram-se unidas numa só pessoa, numa comunhão perfeitíssima e
inigualável; b) em segundo lugar, porque Ele, enquanto homem, é o verdadeiro e Sumo sacerdote,
do qual deriva e depende inteiramente o sacerdócio católico.
É por isso que, numa bela passagem do Evangelho segundo S. João (cf. Jo1, 51), o Senhor
revela a Natanael que é Ele, o Filho do Homem, aquela escada que Jacó viu em sonhos, sobre a
qual os anjos de Deus subiam e desciam, símbolo da união entre o céu e a terra que se cumpre,
antes de tudo, no mistério de sua Encarnação e, por consequência, no exercício de seu papel de
sacerdote e mediador.
No entanto, para ser verdadeiro e perfeitíssimo sacerdote, Jesus precisa também ser vítima. A
razão disso é que só Ele poderia oferecer a Deus uma imolação perfeitamente grata, aceitável e
plenamente expiatória, ou seja, a si mesmo, a fim de apagar os nossos pecados, merecer-nos a
graça salvífica e o dom de um amor total a Deus.
Na cruz, Ele se ofereceu livremente como vítima a) de expiação, tomando sobre si os nossos
pecados, em virtude dos quais éramos inimigos de Deus; b) de intercessão, alcançando-nos o
perdão divino e as graças de que precisamos; e c) de infinita caridade, amando a Deus e
consumindo-se por Ele e sua honra num holocausto ardentíssimo de amor.
Cristo não veio ao mundo senão por um único motivo: morrer por nós. Nisto consiste a razão
de sua existência: Jesus, Yeshua — o “Deus que salva” —, nasceu para morrer, entrou no mundo
para nos redimir, sofreu na cruz, morrendo a pior das mortes, para que daí nos brotasse vida em
abundância e a graça de também nós, salvos no seu sangue, nos unirmos ao seu sacrifício de amor.

19- A nossa incorporação a Cristo


Para nos salvar, Deus quis unir-nos a si.
Para isso, Ele enviou ao mundo seu Filho amado, que, assumindo na unidade de sua pessoa
uma natureza humana, derramou o Espírito Santo sobre os corações renascidos pelo Batismo, a
fim de que todos, como ramos unidos à videira, se tornassem membros da Igreja, Corpo místico
de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Unindo-se por seu poder e misericórdia ao que dista infinitamente de si, Deus assumiu uma
natureza humana a fim de salvar o homem, perdido pelo pecado e sujeito ao príncipe deste mundo.
Eis aqui, em linhas gerais, o mistério de Jesus Cristo, nosso Senhor e Redentor, tal como o
explicamos nas últimas aulas.
De fato, na atual economia da salvação, era necessário que Jesus padecesse por nós e, assim,
nos livrasse dos nossos pecados. Como vimos, somente Ele, perfeito sacerdote e vítima, poderia
satisfazer em sua própria carne pelos crimes que a humanidade, seduzida por Satanás, lança desde
o início à justiça e honra divinas. Entregando-se livremente à morte, Jesus nos mereceu todas as
graças e, além disso, ofereceu ao Pai uma plenitude de amor que só em seu Coração SS. poderia
caber.
Na cruz, Ele expiou efetivamente os nossos pecados, de maneira que podemos dizer, com
verdade e propriedade, que fomos salvos. No entanto, está em nossas mãos abrir-nos ou não aos
efeitos abundantes de sua entrega salvífica. O Senhor nos deu o remédio; é agora tarefa nossa, de
cada um de nós, tomá-lo.
A redenção em sentido objetivo foi realizada, fundamentalmente, pelo sacrifício vicário e
meritório de Cristo. Mas a redenção em sentido subjetivo há de consistir na aplicação dos frutos
e efeitos deste sacrifício a cada homem em particular.
Esta aplicação recebe também o nome de “justificação” e se dá, antes de tudo, por meio do
Batismo, em virtude do qual participamos sacramentalmente da morte de Nosso Senhor e,
purificados de todo pecado, renascemos para o estado de união sobrenatural com Deus que o velho
Adão destruíra e o novo restabeleceu.
Pelo Batismo, que nos confere a graça santificante e perdoa todas as penas devidas aos nossos
pecados, o Senhor nos une intimamente a si, fazendo-nos verdadeiros membros da Igreja, ou seja,
de seu próprio Corpo místico, cuja alma é o Espírito Santo.
Essa incorporação a Cristo é de suma importância porque representa a porta da nossa salvação,
quer dizer, daquela união com Deus a que fizemos referência há alguns episódios. Em outras
palavras, a forma que Deus encontrou de nos unir a si e, deste modo, nos salvar foi derramar o
Espírito Santo em nossos corações no sacramento do Batismo e tornar-nos membros da Igreja,
com a qual o seu Filho encarnado conforma uma só pessoa mística — o Cristo total, Cabeça e
membros.
Jesus mesmo nos falou desse mistério ao dizer, durante a Última Ceia: “O ramo não pode dar
fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Assim também vós: não podeis tampouco dar
fruto, se não permanecerdes em mim. Eu sou a videira; vós, os ramos. Quem permanecer em mim
e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15, 4-5).
Pelo Batismo, portanto, somos enxertados como ramos àquele que é a videira verdadeira e cujo
Pai é o agricultor (cf. Jo 15, 1), e desta videira recebemos a seiva da vida divina, ou seja, a vida
que não é senão o Espírito Santo.
Também o Apóstolo S. Paulo referiu-se a esse mistério, ao escrever as seguintes palavras aos
fiéis de Corinto: “Como o corpo é um todo tendo muitos membros, e todos os membros do corpo,
embora muitos, formam um só corpo, assim também é Cristo. Em um só Espírito fomos batizados
todos nós, para formar um só corpo, judeus ou gregos, escravos ou livres; e todos fomos
impregnados do mesmo Espírito. Assim o corpo não consiste em um só membro, mas em muitos”
(1Cor 12, 12-14).
O Filho eterno de Deus, ao fazer-se homem, tornou possível que umhomem pudesse olhar para
o céu e dizer sem mentira nem fingimento: “Abba! Pai!” Nós, porém, que somos apenas pessoas
humanas, precisamos estar unidos ao Verbo encarnado para que nele, tomando parte pela graça e
o Espírito Santo em sua filiação divina, possamos ser introduzidos na família de Deus como filhos
adotivos e exclamar também: “Abba! Pai!”
20- As dores de Cristo durante a Paixão
Ao longo de sua Paixão, Jesus Cristo suportou todo gênero de sofrimentos humanos, e isso no
mais alto grau que é possível nesta vida.
Suas dores, não só de Corpo, mas também de Alma, são um testemunho eloquente do quanto
Ele nos amou, tomando sobre si os nossos pecados e oferecendo-se em holocausto de amor pela
remissão de nossas culpas e destruindo o quirógrafo de nossa eterna condenação.

Jesus Cristo é a plenitude da revelação divina e, por isso mesmo, o nosso único Salvador. De
fato, como nos recorda a constituição dogmática Dei Verbum, do Concílio Vaticano II, Deus quis
revelar seu desígnio salvífico aos homens a fim de os tornar participantes dos bens divinos, ou
seja, a fim de os salvar da escravidão do pecado e introduzi-los na alegria de sua própria vida
íntima.
Deus revela-se salvando-nos e salva-nos revelando-se a si mesmo. Por causa disso, não
podemos considerar a Jesus Cristo como simples modelo de vida moral nem como mero
transmissor de um conjunto de ensinamentos. Embora o Senhor seja, sim, modelo de todas as
virtudes e portador de uma doutrina divina, Ele é, antes de tudo, um acontecimento: seus gestos e
palavras, seus atos e pronunciamentos são, em si mesmos, revelações de Deus e ações
verdadeiramente salvíficas.
Ora, de todas as ações de Cristo nenhuma é mais reveladora e, portanto, mais salvífica do que
o mistério de sua Páscoa, quer dizer, de sua passagem pelo vale da sombra da morte e sua entrada
triunfante na glória da Ressurreição, como solenemente recordamos todos os anos na liturgia do
Sagrado Tríduo da Paixão.
Após instituir a Eucaristia na Quinta-feira Santa, Jesus entregou-se às mãos de seus algozes.
Foi preso, acusado injustamente, caluniado por falsas testemunhas, flagelado horrendamente,
ridicularizado à vista de todos, crucificado entre dois ladrões e morto entre blasfêmias e opróbrios.
Sobre o seu túmulo, no Sábado Santo, rolou-se uma enorme pedra, enquanto o mundo inteiro
permanecia em silêncio, diante da morte de quem o criou. Mas eis que, na manhã de Domingo, o
Senhor venceu a morte — o último inimigo —, ressuscitando gloriosamente por virtude própria.
Foi nesses três dias, em que Cristo viveu sua passagem (sua Páscoa), que o mundo foi salvo e
redimido.
No entanto, foi do alto da cruz que Ele conquistou sua primeira e mais importante vitória, na
qual está condensado todo o mistério da nossa Redenção, a saber: a vitória sobre o pecado e
Satanás, o príncipe deste mundo.
Ali, no Calvário, enquanto o Senhor crucificado exalava seu último suspiro, nós fomos
resgatados em seu Sangue e libertos do poder do diabo. Pregado à cruz, o Coração de Cristo
suportava, em grau supremo, todo gênero de sofrimentos humanos que podemos imaginar.
Tomando sobre si (cf. Is 53, 4) o peso de todos os pecados já cometidos e ainda por cometer, Jesus
oferecia ao Pai, com um amor infinito e reparador, não só as dores físicas que lhe acometiam o
Corpo, mas também a angústia, o tédio, a desolação de sua Alma, além da tremenda amargura de
ver e padecer a pior das injustiças: a irrisão e o ódio a Deus.
Cristo, padecendo em toda a essência de sua Alma, via por sua visão beatífica todos os pecados
da humanidade e era, por este motivo, capaz de carregar sobre os próprios ombros as faltas e
transgressões de cada homem em particular. As minhas traições, as minhas infidelidades,
a minha luxúria, as minhas mentiras, a minha vaidade, eis o que enchera de indescritível dor o
Coração de Cristo e o movia a suportar a morte mais humilhante.
O seu Corpo, formado milagrosamente pelo Espírito Santo e, por isso, dotado de uma
sensibilidade única e especial, era capaz de sentir como nenhum outro os flagelos, os cravos, o
cansaço e a angústia a que o submeteram. Não havia nele nem insensibilidade nem embotamento,
senão que Cristo inteiro, em Corpo e Alma, sofreu as piores dores que, sob qualquer aspecto,
podem ser suportadas nesta vida.
Que o nosso coração, tão ingrato e indiferente, possa corresponder a este amor infinito com
que fomos amados. Ele, sem desesperar, nem blasfemar e a ninguém amaldiçoar, quis passar pela
tortura mais atroz que a imaginação humana pode conceber, a fim de recebermos o perdão de
nossos pecados e a graça da vida divina: “Vitória, tu reinarás, ó cruz tu nos salvarás”!

21- A justiça da Redenção


Dando prosseguimento ao nosso estudo sobre o Redentor, Padre Paulo Ricardo explica em
mais esta aula os quatro fins principais do sacrifício vicário de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Elevado sobre o trono da cruz, a Vítima de nossa reconciliação ofereceu ao Pai um ato
perfeitíssimo de adoração, impetração, satisfação e ação da graças, a ser prolongando até o Fim
dos Tempos.

Na Sexta-feira Santa, com o sacrifício da cruz, Jesus Cristo nos salvou, realizando sua grande
vitória sobre Satanás e o pecado. Para entendermos melhor em que consiste o triunfo do Redentor,
convém esclarecer primeiro qual foi a derrota dos redimidos, presentes naquele que é cabeça da
humanidade caída: o primeiro Adão.
Como nos ensina a fé da Igreja, Adão pecou gravemente no paraíso terrestre, ao transgredir o
preceito que Deus lhe tinha imposto, perdendo assim a justiça original em que fora criado. A
derrota de Adão, em termos gerais, consistiu em não dar a Deus aquilo a que Ele tinha direito:
fidelidade, obediência, gratidão e dócil submissão.
No madeiro da cruz, porém, Jesus Cristo restabeleceu a justiça violada, oferecendo ao Pai uma
digna reparação pelo pecado dos homens e reconciliando-nos com Deus. A justiça, com efeito,
consiste em dar a cada um o que lhe pertence, e Deus, cuja honra fora ultrajada pelo pecado original
e conculcada inúmeras vezes pelo pecado pessoal de cada homem, tinha direito a que se lhe
oferecesse a necessária reparação da ofensa cometida.
Na cruz, o Senhor ofereceu ao Pai, de modo perfeitíssimo, aquilo que todos os homens têm o
dever de lhe oferecer: o preito de sua adoração. Sendo homem igual a nós em tudo, exceto no
pecado, Cristo prestou ao Pai o mais perfeito e profundo ato de adoração de que uma alma humana
seria capaz. Ao rebaixar-se à condição de servo sofredor e tomar sobre si as culpas da humanidade
inteira, Jesus crucificado adorou a Deus como nenhum outro homem.
Do alto da cruz, o Senhor realizou ainda a mais perfeita ação de graças que o Pai poderia
receber. Seu Coração SS., amaldiçoado pelos seus e saturado de opróbrios, a ninguém maldizia,
senão que se elevava aos céus para bendizer aquele de quem recebera docemente o cálice de suas
dores e sacrifício.
Esse dois atos, de adoração e ação de graças, Cristo glorificado os perpetua para sempre no céu
e nos chama a associar-nos às bênçãos e louvores que Ele dirige a seu Pai e nosso Pai, a seu Deus
e nosso Deus.
Enquanto sofria no Calvário, porém, Jesus realizou mais dois atos que só subsistirão enquanto
houver história, ou seja, até o Fim dos Tempos. Trata-se da intercessão, pela qual Ele, Sumo e
eterno Sacerdote, permanece sempre vivo junto do Pai “ad interpellandum pro nobis” (cf. Hb 7,
25) — para rogar a nosso favor —, e da expiação, realizada na cruz de forma cruenta e renovada
todos os dias sobre os nossos altares mediante o sacrifício incruento da Missa.
Cristo, portanto, no mistério de sua Páscoa, reparou de forma perfeitíssima e em estrita justiça
a transgressão cometida no princípio por Adão. No entanto, por ser Deus de Deus e Luz da Luz,
havia um sacrifício que Jesus, a cujos olhos nada está oculto, não podia oferecer: o sacrifício da fé.
É por isso que, associada intimamente à Redenção operada no Calvário, esteve unida à cruz de
Cristo a alma fidelíssima de Maria, Corredentora da humanidade. De fato, uma vez que o pecado
de Adão e Eva constitui uma desobediência e infidelidade, era conveniente que a falta de fé de
nossos pais fosse compensada com a fé puríssima da Mãe de Deus, cujo Filho, por ver ao Pai face
a face, não necessitava dessa virtude.
Depois da sepultura de Cristo, com efeito, só permaneceu viva a fé de Maria. Prova disso pode
ser encontrada no fato de que, no domingo de manhã, a Virgem SS. permaneceu em casa, certa da
Ressurreição de seu Filho, enquanto as santas miróforas e, depois, os outros Apóstolos acorriam
ao túmulo de Jesus a ver se de fato o corpo do Mestre havia desaparecido.
Por isso, podemos dizer que, no Sábado Santo, a Igreja como que se reduz a um único Coração,
àquele Imaculado Coração em que, em meio ao silêncio e à tristeza, jamais se apagou a luz da fé.
Diferentemente de Eva, que desconfiou de Deus e apoderou-se do fruto proibido, Maria SS.
entregou-se totalmente a Deus e lhe ofereceu no madeiro da cruz o fruto bendito que o Espírito
Santo nela havia formado.
O mistério da nossa Redenção, dessa perspectiva, é protagonizado por dois “antitipos” dos
nossos primeiros pais: Cristo, novo Adão, e Maria, nova Eva. Que saibamos, pois, venerar esses
dois dulcíssimos Corações, por cujos méritos — cada um a seu modo e em sua linha própria —
nos foram abertas novamente as portas do Paraíso celeste.

22- A humanidade ressuscitada de Cristo


Cristo, cumprindo as divinas profecias contidas na Escritura, ressuscitou ao terceiro dia.
Como prêmio de sua voluntária humilhação e para confirmar nossa fé em sua divindade, Ele
reassumiu a vida que livremente entregara, mas de um modo novo e essencialmente diferente.
Uma vez glorificado em seu Corpo, Ele já não está submetido às limitações deste mundo material,
mas, como “homem celeste”, livre para manifestar todo o esplendor de sua divindade.

Jesus Cristo, Deus feito homem, sofreu sua paixão e morte de cruz porque as quis sofrer
voluntariamente. É Ele mesmo quem o diz, conforme o testemunho do evangelista: “Dou a minha
vida para a retomar. Ninguém a tira de mim, mas eu a dou de mim mesmo e tenho o poder de a
dar, como tenho o poder de a reassumir” (Jo 10, 17-18).
E a reassumiu efetivamente quando, na manhã do domingo de Páscoa, ressuscitou dentre os
mortos. Por isso, podemos dizer que a morte de Nosso Senhor foi, ao mesmo tempo, violenta e
voluntária: violenta por parte dos que, por permissão sua, o mataram; e voluntária, porque foi Ele
mesmo quem se entregou à morte, por obediência ao Pai e para nos salvar.
Ora, depois de ter-se humilhado voluntariamente por amor a Deus, Cristo mereceu ser exaltado
e que em sua humanidade santíssima resplandecesse, por fim, todo o fulgor de sua divindade. A
partir de sua gloriosa ressurreição, portanto, o Corpo de Nosso Senhor passa a manifestar em
plenitude todas as consequências de sua união pessoal com o Verbo.
Antes, por disposição de Deus em ordem à nossa redenção, o resplendor do Filho — assumida
a forma de servo — não transparecia em seu Corpo, sujeito a cansaços e sofrimentos físicos.
Depois, como prêmio de sua obediente humilhação e a fim de confirmar nossa fé na Encarnação,
esse mesmo Corpo como que se espiritualiza e reflete, por meio de novas qualidades, a gloriosa
divindade de quem o assumiu.
Após a ressurreição, o Corpo de Cristo continuou sendo um verdadeiro corpo físico e material:
“Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo”, diz Ele aos Apóstolos. “Apalpai e vede: um
espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho” (Lc 24, 39). No entanto, uma vez
glorificado, já não se encontra mais submetido às limitações próprias da matéria.
Assim, vêmo-lo atravessar portas e paredes (cf. Jo 20, 26), desaparecer subitamente diante dos
outros (cf. Lc 24, 31), assumir novas e distintas figuras, (cf. Mc 16, 21), como a de um jardineiro
(cf. Jo 20, 14-15) ou um peregrino, por exemplo. Como ensina o Catecismo (n. 646):
A ressurreição de Cristo não foi um regresso à vida terrena, como no caso das
ressurreições que Ele tinha realizado antes da Páscoa: a filha de Jairo, o jovem de
Naim e Lázaro. Esses fatos eram acontecimentos milagrosos, mas as pessoas
miraculadas reencontravam, pelo poder de Jesus, uma vida terrena “normal”: em
dado momento, voltariam a morrer. A ressurreição de Cristo é essencialmente
diferente. No seu corpo ressuscitado, Ele passa do estado de morte a uma outra vida,
para além do tempo e do espaço. O corpo de Cristo é, na ressurreição, cheio do
poder do Espírito Santo; participa da vida divina no estado da sua glória, de tal
modo que São Paulo pode dizer de Cristo que Ele é o “homem celeste”.
Por isso, podemos dizer sem receio que a pedra que cobria o túmulo do Senhor rolou, não para
que Ele saísse, mas para que os discípulos pudessem entrar e, entrando e vendo, cressem que Jesus
havia ressuscitado, e ressuscitado verdadeiramente. Com efeito, diz ainda o Catecismo (n. 640),
[…] o sepulcro vazio constitui, para todos, um sinal essencial. A descoberta do
fato pelos discípulos foi o primeiro passo para o reconhecimento do fato da
ressurreição. Foi, primeiro, o caso das santas mulheres, depois o de Pedro. O
discípulo que Jesus amava” (cf. Jo 20, 2) afirma que, ao entrar no sepulcro vazio e
ao descobrir “os lençóis no chão” (cf. Jo 20, 6), “viu e acreditou”, o que supõe que
ele terá verificado, pelo estado em que ficou o sepulcro vazio, que a ausência do
corpo de Jesus não podia ter sido obra humana e que Jesus não tinha simplesmente
regressado a uma vida terrena, como fora o caso de Lázaro.
Quanto às manifestações que o Ressuscitado, ao longo de quarenta dias, fará a seus discípulos,
elas terão como finalidade, por um lado, provar com argumentos claros a verdade de sua
ressurreição gloriosa e, por outro, ressuscitar neles a fé e a esperança que, durante a paixão do
Senhor, haviam perdido.
Os Evangelhos nada nos dizem de uma possível aparição de Cristo a sua Mãe SS. A piedade
das almas mais contemplativas, como se recolhe de vários testemunhos, tende a acreditar que
Maria foi a primeira testemunha a quem Jesus ressuscitado quis aparecer. No entanto, parece mais
provável que a Virgem SS., em cuja alma nunca desfaleceu a chama da fé, não tenha visto ao seu
Filho glorioso, já que uma tal aparição seria, no fundo, desnecessária: de fato, Maria jamais deixou
de crer nem poderia desesperar, de sorte que o seu Coração Imaculado teve sempre a certeza, ainda
sem nada ver, da ressurreição de seu Filho amado.
Convém observar, finalmente, que a glória do Ressuscitado permanece ainda como que
“velada” aos olhos dos Apóstolos, sob as aparências de uma humanidade normal, “durante os
quarenta dias em que vai comer e beber familiarmente com os discípulos e instruí-los sobre o
Reino” (Catecismo, n. 659). Por tratar-se de uma realidade ao mesmo tempo histórica e
transcendente, palpável e encoberta sob o véu da fé, a manifestação visível de Jesus Ressuscitado
não “obriga” os discípulos a crerem, senão que os convida e motiva a assentirem obedientemente
ao mistério, claro e inexplicável, que contemplam:
[…] os discípulos ainda duvidam, de tal modo isso lhes parecia impossível:
julgavam ver um fantasma. “Por causa da alegria, estavam ainda sem querer
acreditar e cheios de assombro” (Lc 24, 41). Tomé experimentará a mesma
provação da dúvida, e quando da última aparição na Galileia, referida por Mateus,
“alguns ainda duvidavam” (Mt 28, 17). É por isso que a hipótese, segundo a qual a
ressurreição teria sido um “produto” da fé (ou da credulidade) dos Apóstolos é
inconsistente. Pelo contrário, a sua fé na ressurreição nasceu — sob a ação da graça
divina — da experiência direta da realidade de Jesus Ressuscitado (Catecismo, n.
644).

23- O que significa a Ascensão de Cristo?


Confessamos em um dos artigos do Credo que Jesus, quarenta dias após ressuscitar dentre os
mortos, “subiu aos céus”, onde está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso. Trata-se do
mistério da Ascensão, um dos dogmas de nossa fé ao qual damos, talvez, menos atenção e
importância.
O que significa dizer, afinal, que Jesus ascendeu aos céus? Qual a importância disso para a
nossa fé e para uma boa compreensão do mistério da Encarnação e da realeza de Cristo, Senhor
de todo o universo?

Após termos visto o mistério da Ressurreição, convém estudar agora o mistério que se lhe
seguiu quarenta dias depois: a Ascensão do Senhor aos céus. Trata-se de um dogma de fé que
consta claramente nas SS. Escrituras, sem contar os inumeráveis Símbolos que foram surgindo ao
longo do tempo.
Inspirados por certos preconceitos cientificistas, alguns teólogos modernos sentem-se tentados
a negar a historicidade da Ascensão alegando, por exemplo, que o acontecimento em si mesmo,
tal como narrado nos Evangelhos, seria incompatível com o que hoje sabemos sobre física, sobre
o universo e a configuração do nosso sistema solar etc., etc.
O mistério da Ascensão, contudo, tanto em sua realidade quanto em seu sentido profundo, não
depende de nenhuma concepção cosmológica particular, seja moderna ou arcaica. O fato de o céu
físico que vemos sobre nossas cabeças não corresponder ao que popularmente se entende por céu
ou firmamento — uma espécie de “topo” ou cume do universo criado — em nada afeta ou
desacredita o mistério da Ascensão de Nosso Senhor.
Em primeiro lugar, é preciso ter em mente que, quando Deus nos manifesta seus mistérios, Ele
se serve muitas vezes de simbologias universais, acessíveis a qualquer pessoa de qualquer cultura,
e da compreensão “vulgar” que boa parte dos homens têm do mundo em que vivemos. Ainda que
o céu não seja, de fato, o ponto “superior” do cosmos, qualquer ser humano tem a impressão
natural e intuitiva precisamente do contrário. Devido à nossa própria situação na terra, o céu é tido,
quase por instinto, como o lugar mais elevado e nobre que a nossa vista pode alcançar.
Além disso, é importante ter em mente o que estamos celebrando ao comemorarmos ano após
ano a Ascensão de Cristo. Se Jesus, com efeito, ressuscitou verdadeiramente, com um Corpo real,
embora glorificado, então é claro que a sua humanidade tem agora um lugar junto da SS. Trindade.
Como sabemos, a união hipostática, depois da Encarnação, nunca se desfez nem será desfeita, de
maneira que o Corpo de Cristo, com o qual Ele andou e esteve realmente entre nós, continua a
existir em algum lugar, como todo corpo humano físico e concreto.
Ora, este lugar no qual se encontra o Corpo de Cristo é justamente o que denominamos céus.
Trata-se, no entanto, de um lugar distinto dos demais, que em filosofia recebe o nome de “lugar
não contido”. Essa ideia significa, em termos bastante simples, que Jesus está agora junto de Deus
com seu Corpo glorioso, como Rei e Senhor do universo, ainda que a sua localização escape por
completo às coordenadas que utilizamos para nos situar neste mundo.
O Corpo glorioso de Cristo, em outras palavras, continua — como qualquer corpo, repita-se —
ocupando um lugar, ainda que pertença a uma dimensão da realidade que não sejamos capazes de
compreender muito bem, já que foge das experiências habituais e possíveis nesta vida. O que é
importante reter, em resumo, é que Jesus Cristo (não só segundo a natureza divina, mas ainda em
toda a sua corporalidade humana) está misteriosamente presente junto de Deus.
Isso não impede, porém, que o mesmo Corpo de Nosso Senhor esteja presente também nos
sacrários aqui da terra. Com efeito, em cada hóstia consagrada Jesus está presente todo e por
inteiro, em Corpo, Sangue, Alma e Divindade. Mas se trata de uma presença chamada substancial
(ou “per modum substantiæ”, como se diz em latim), e não circunscrita. É um verdadeiro e
estupendo milagre, que mente humana alguma jamais poderá entender.
Ora, ainda que Jesus, ao ascender aos céus, tenha realmente partido deste mundo, Ele não deixa
nunca de estar ao nosso lado, numa nova forma de presença, conforme prometera aos Apóstolos:
“Eis que estou convoscotodos os dias, até o fim do mundo” (Mt 26, 20). Essa nova forma de
presença a que nos referimos chama-se “virtual” (da palavra latina “virtus”, força): se nos céus e
nos sacrários a sua presença é física, conosco Ele está presente virtualmente, atuando em nós e no
meio de nós mediante a força e o poder de sua gloriosa humanidade, instrumento de nossa
salvação.
A razão disso é que podemos dizer sem equívoco que algo pode estar presente em tudo o que
está sob o seu poder, influência ou autoridade. Essa presença virtual de Cristo, porém, não é
simplesmente “moral” (como a presença de um governante, por meio de suas leis, em todos os
seus súditos), mas efetiva e eficaz, mediante a graça do Espírito Santo e o dom da inabitação
trinitária, que serão os temas de nossas próximas aulas.

O divino Espírito Santo

24- Por que Jesus nos enviou o Espírito Santo?


Ao enviar o Espírito Santo no dia de Pentecostes, Jesus torna pública sua Igreja, à qual serão
incorporados pela graça todos os que receberem a unção do Paráclito.
Após termos estudado a pessoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, veremos de que maneira o
mistério de sua Encarnação é perpetuado pelo mistério de Pentecostes, com o envio do Espírito
Santo e a formação do Corpo místico de Cristo.

Vimos que, com sua Ascensão aos céus, Jesus inaugura uma nova forma de estar presente no
meio de nós. No entanto, para que essa presença se concretize, é necessário o envio do Espírito
Santo. Temos uma prova disso naquelas palavras que o Senhor dirige aos Apóstolos durante a
Última Ceia: “Convém a vós que eu vá! Porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se
eu for, vo-lo enviarei” (Jo 16, 7).
A palavra “paráclito” (do grego παράκλητος), aplicada à terceira pessoa da SS. Trindade como
um de seus vários nomes, pode ser traduzida como “advogado”, embora signifique também
“consolador”. Essa dualidade de sentidos, que mais se complementam do que se opõem, indica a
dificuldade que temos de abarcar com um só conceito a riqueza infinita da ação do Espírito divino.
De fato, o Espírito Santo é talvez, das três pessoas da SS. Trindade, aquela que mais
dificuldades temos de compreender e na qual, geralmente, menos pensamos. Não por acaso, um
teólogo do século passado dizia que o Espírito Santo é, no fundo, um grande “desconhecido” [1]:
seja por falta de doutrina, seja por falta de devoções ou festas a Ele consagradas, o fato é que
muitos cristãos de hoje podem dizer o mesmo que há dois milênios disseram a S. Paulo os
primeiros fiéis de Éfeso: “Nem sequer ouvimos dizer que há um Espírito Santo!” (At 19, 2).
São muitas as razões desse esquecimento e não vem ao caso enumerá-las aqui. Basta advertir
a lamentável ausência de orações dirigidas à terceira pessoa da Trindade na vida de piedade de
boa parte do povo católico. Muitos têm, felizmente, grande devoção ao SS. Sacramento, ao
Coração de Jesus, a Deus Pai etc., mas quase ninguém se lembra de adorar todos os dias aquele
que, com o Pai e o Filho, é Deus de mesmo poder, de mesma majestade, digno do mesmo louvor.
E no entanto o Novo Testamento abunda em passagens onde o Espírito de Cristo manifesta-se
claramente. Além de santificar o Batista antes de nascer, de fecundar com sua sombra a Virgem
SS., de encher Isabel de alegria e repousar no justo Simeão (cf. Lc 1, 15-17; 35; 41-45; 67; 2, 25-
27; Mt1, 18-20), o Espírito Santo aparece de modo solene durante o batismo de Jesus, pairando
sobre Ele, recém saído das águas, como sinal de uma nova criação (cf., por exemplo, Sl 103, 30):
em Cristo, pelo poder do Espírito, o Pai recria todas as coisas, fazendo-nos homens novos,
adotados como filhos naquele que é Filho de Deus por natureza.
Ao proclamar em alta voz que sobre Jesus está todo o seu bem-querer, isto é, o seu amor, o Pai
revela que em Cristo habita a plenitude do Espírito Santo, o qual não é senão caridade incriada,
amor perfeitíssimo e subsistente. Ora, se queremos receber o amor de Deus, temos de estar unidos
a Cristo, ou seja, àquele em quem repousa toda a complacência do Pai. Mas para que a nossa união
a Cristo seja perfeita, precisamos fazer parte de seu Corpo místico, que é a Igreja, e ter em nós a
mesma alma que dá vida e unidade a este Corpo, a saber: o Espírito Santo.
Por isso, Jesus sobe aos céus para enviar-nos o seu Espírito e, desta maneira, tornar-nos um só
Corpo consigo, animados pelo mesmo princípio vital, já que, como diz S. Agostinho, “o que a
alma é para o corpo humano, isto é o Espírito Santo com respeito ao Corpo de Cristo, quer dizer,
à Igreja”: Quod autem anima est corpori hominis, hoc est Spiritus Sanctus corpori Christi, quod
est Ecclesia [2].
Toda essa obra de incorporação dos fiéis a Cristo tem início, pois, no dia de Pentecostes,
quando o Espírito Santo, derramado abundantemente sobre a Cabeça, que é Cristo, desce dos céus
para ungir os novos membros da família de Deus, à semelhança de “um óleo suave derramado
sobre a fronte, e que desce para a barba, a barba de Aarão, para correr em seguida até a orla de seu
manto” (Sl 132, 2).
É por isso que podemos dizer que Pentecostes marca a “inauguração” da Igreja, verdadeira
continuação do mistério da Encarnação: com o derramamento do Espírito Paráclito, à Cabeça se
unem novos membros, até o dia em que, pela graça divina, se tenham finalmente incorporado a
Ele todos os eleitos segundo a presciência de Deus.

Referências

1. Trata-se de A. Arrighini, que em 1937 publicou uma obra chamada Il Dio ignoto (“O
Deus desconhecido”). A mesma ideia foi reaproveitada anos depois por Antonio Royo
Marín em seu livro El gran desconocido (“O grande desconhecido”), de 1972.

2. Agostinho, Serm. 186 de tempore, c. 4 (PL 38, 1231).

25- O que é a graça atual?


É muito comum falarmos sobre a graça de Deus. Mas será realmente que sabemos, ainda que
por cima, do que estamos falando?
O que é a graça divina? Como ela age em nossas almas? Ela é sempre eficaz ou requer a nossa
cooperação? Em mais esta aula do nosso curso “Catequese para Adultos”, você terá a chance de
tirar todas as suas dúvidas sobre este tema central tanto para a nossa fé como para a nossa vida
espiritual.

Jesus ressuscitado e glorioso, depois de subir aos céus, enviou e envia-nos continuamente o
Espírito que dele procede, a fim de derramar em nossas almas o dom de sua graça, que nos foi
merecida por seus padecimentos salvíficos. Deve-se saber, no entanto, que a graça, enquanto ação
de Deus sobre nós na ordem sobrenatural, divide-se em santificante, de um lado, e atual, de outro.
É desta última que falaremos na presente aula.
Convém explicar, antes de mais, o que se entende por graça. Como o nome mesmo já nos
indica, a palavra “graça” refere-se a algo gratuito, dado com liberalidade ou gratuidade. Em termos
mais precisos, a expressão “graça atual” designa aqueles auxílios sobrenaturais pelos quais Deus,
iluminando a nossa inteligência e ajudando a nossa vontade, nos move em direção ao nosso fim
último, que é a glória do céu.
A graça atual é um dom que Ele oferece incansavelmente a todos os homens. Ao contrário da
chamada graça santificante, possuída apenas por quem se encontra em estado de graça, a graça
atual é um convite que Cristo dirige o tempo todo a todos os seres humanos, chamando-os ao
arrependimento e à conversão.
Esse convite do Senhor, como mencionamos acima, não é mais do que uma atuação de Deus
na inteligência e na vontade do homem. Com efeito, a nossa inteligência, debilitada pelo pecado e
obscurecida por muitos erros e ignorâncias, precisa ser iluminada por Deus a respeito daquelas
verdades que se referem ao fim sobrenatural ao qual fomos destinados. Do mesmo modo, a nossa
vontade, enfraquecida e desorientada pela concupiscência, necessita dos auxílios divinos para
poder, de forma livre e espontânea, secundar as inspirações que Deus lhe envia [1].
Foi por isso que, no dia de Pentecostes, o Espírito Santo manifestou-se visivelmente aos
Apóstolos como línguas de fogo e uma rajada forte de vento, a fim de indicar, através desses
símbolos naturais, que a graça divina (como o brilho das chamas) ilumina a inteligência e (como
a força do vento) move e incita a vontade.
A graça atual, em resumo, pode ser entendida como uma intervenção de Deus em nossa alma
que ilumina a nossa inteligência, fazendo-a dar-se conta de alguma verdade sobrenatural, e move
a nossa vontade, estimulando-a a atuar em conformidade com esta verdade.
Esses auxílios sobrenaturais, é claro, são de diversas classes. Assim, por exemplo, Deus pode,
mediante uma graça atual, mover um pecador duro de coração a arrepender-se de suas más ações.
Pode, igualmente, levar um cristão ainda imperfeito e preguiçoso a querer consolidar mais sua
vida de fé e oração. Pode também inspirar a um fiel já piedoso o desejo de ser mais santo,
dedicando-se com mais empenho à oração, à prática de certas obras de misericórdia [2].
Embora a graça atual consista numa ação interna de Deus na alma humana, nada impede — na
verdade, é até muito conveniente, já que somos alma e corpo — que essa graça se
apresente externamente em ocasiões bem concretas e visíveis, como uma pregação a que
assistimos, uma leitura espiritual mais tocante, um sofrimento que nos leva a repensar a vida etc.,
etc.
De fato, é preciso reconhecer a importância dos sofrimentos, das perdas e dos fracassos para a
nossa vida espiritual, já que constituem meios bastante eficazes de Deus fazer-se ouvir,
despertando-nos para o convite de sua graça e reconduzindo-nos pelo caminho da verdade.
Pensemos, por exemplo, no caso emblemático de S. Inácio de Loyola, a quem o Senhor tirou de
uma vida mundana, asfixiada de vanglórias militares, mediante um grave acidente de guerra.
Também o caso de S. Paulo, registrado nos capítulos iniciais dos Atos dos Apóstolos, é uma prova
clara de que a graça de Deus atua das formas mais inesperadas e radicais.
Seja como for, o que é importante ter em mente é que a graça atual age internamente, mas essa
ação (iluminação da inteligência e moção da vontade) pode chegar externamente a cada um de nós
pelos mais variados meios, dos quais a pregação do Evangelho e os sofrimentos da vida corrente
são os principais, além de serem também os mais comuns.
É claro, no entanto, que nada disso acontece de forma “mecânica” e automática. Deus, como
sabemos, não fere a nossa liberdade nem nos obriga violentamente a agir como Ele quer. Por isso,
a graça atual só irá operar de fato, ou seja, só será eficaz se nós, de nossa parte, cooperarmoscom
ela. Deus quer, sim, a nossa cooperação, já que nos criou como criaturas racionais e livres. Mas a
nossa cooperação só será possível se nos dispusermos a estar atentos aos chamados da graça de
Deus, aos constante convites que, de muitas maneiras e em várias ocasiões, Ele dirige aos que quer
junto de si na alegria do céu.
Referências

1. Cf. Antonio Royo Marín, Dios y su Obra. Madrid: BAC, 1963 p. 577, n. 585.

2. Cf. Id., ibid.

26- O que é a graça santificante?


Assim como o movimento inicial que nos leva a abraçar a fé e fazer-nos cristãos já é obra da
graça, assim também o estado habitual de amizade e união com Deus supõe a presença permanente
em nossas almas da graça divina, que nos transforma em criaturas novas, herdeiras do Céu e
portadoras do semblante de Cristo Jesus.
Nesta nova aula do curso “Catequese para Adultos”, entenda o que é a graça santificante e qual
a sua importância para a nossa vida espiritual.

Como vimos na aula passada, a graça atual, responsável tanto pela conversão do pecador como
pela progressiva santificação do justo, é de muitas classes. Ela pode, por exemplo,
ser interna (como a inspiração de um bom pensamento ou desejo) ou externa, movendo nossas
potências mediante certos objetos (uma pregação, um exemplo edificante, a leitura de um livro
piedoso etc.).
Ora, uma vez que a graça atual é oferecida a todos, costuma-se dizer que ela é suficiente em si
mesma, ou seja, que o homem, com esse auxílio divino, pode praticar o bem, desde que o queira
fazer, porque Deus nos ilumina a inteligência e convida a nossa vontade, mas não força nunca a
nossa liberdade. Daí que o homem possa resistir à ação da graça e, por falta de cooperação, impedir
que ela, de suficiente, se torne também eficaz.
Mas para que o homem que, ouvindo os apelos divinos e deixando-se mover pelas graças atuais
recebidas, torne-se de fato amigo de Deus — isto é, para que saia do estado de pecado e entre no
de justiça —, é necessário que em sua alma se opere uma transformação radical, levada a cabo
pelo que em teologia recebe o nome de graça santificante (ou habitual).
Trata-se de uma qualidade que Deus, modificando-a, confere à nossa alma e pela qual nos adota
como filhos, conferindo-nos assim o título de herdeiros da glória eterna (cf. Rm 8, 16-17). A alma
em graça, portanto, encontra-se em um certo estado, adquire um novo modo de ser que a une, de
forma real, íntima e permanente, a Deus e à vida divina que circula no Corpo místico de Cristo,
que é a Igreja.
Podemos pensar, para usar um exemplo ilustrativo, que a graça santificante é como um “cordão
umbilical” que nos liga a Deus, do qual passamos a receber, na qualidade de filhos adotivos, todas
as riquezas de sua bondade: a sua amizade, o direito a receber novas graças atuais, além do
precioso cortejo de virtudes e dons sobrenaturais que, como instrumentos operativos da alma, nos
permitem trabalhar em nossa santificação pessoal.
A graça santificante chama-se também habitual, como indicado acima, porque a alma,
enquanto permanece em graça, está habitualmente unida a Deus, isto é, encontra-se em um estado
que não só lhe facilita responder positivamente às moções divinas, mas também a “mergulha”, por
assim dizer, no amor e na benevolência do Pai. É por isso que a este estado de união com Deus
chamamos amizade, quer dizer, uma relação estável entre duas pessoas que se amam e comunicam
entre si todo o bem que possuem.
Esse caráter de habitualidade da graça santificante também pode ser entendido se lembrarmos
que um só pecado mortal basta para expulsá-la da alma e precipitar a esta em um estado de total
rejeição a Deus. Por supor uma aversão radical ao fim último sobrenatural de todo homem (Deus
mesmo), o pecado grave não é mais do que o ato pelo qual a alma, desprezando a amizade divina,
joga fora a graça recebida e se põe a si mesma em um estado de inimizade com o Senhor. Trata-
se de uma verdadeira morte — daí o nome “pecado mortal” — da vida sobrenatural que pulsava
dentro de nós.
Ora, assim como o estado de graça é algo real e objetivo, assim também o estado de pecado é
algo real, objetivo e permanente, só podendo ser remediado por uma nova infusão da graça
santificante, o que acontece ou por meio de um ato de contrição perfeita ou, de modo ordinário,
pela confissão sacramental dos pecados graves cometidos. Sem isso, aquele “cordão umbilical”
permanecerá rompido e nós, privados da graça santificante, nos tornamos pesos mortos, disformes
aos olhos de Deus, com a imagem de Cristo que deveríamos levar em nós toda desfigurada.
Cabe à ação contínua das graças atuais, secundadas livremente por nossa cooperação, fazer
com que a graça santificante, uma vez infundida em nossa alma, se desenvolva e nos modifique
de forma cada vez mais profunda, desde os estágios iniciais da vida cristã (a chamada “via
purgativa”), passando pelo amadurecimento perseverante da “via iluminativa”, até nos conduzir
àquele estado de união perfeita que é, já aqui na terra, como que o começo da plenitude de amor e
santidade que nos espera no céu.

A Santa Igreja

27- Creio na Santa Igreja Católica


Depois de termos estudado o Espírito Santo sob a ótica de sua atuação interna em nossas almas,
temos de ver agora como Ele age ao longo da história humana no seio daquela que é Corpo místico
de Cristo: a Igreja, una, santa, católica e apostólica.
Nesta aula, veremos o que significa crer na Igreja e por que essa fé é razoável, apesar de todas
as vicissitudes e tormentas históricas por que tem passado a Barca de Pedro.

Os artigos que compõem o Credo apostólico, como temos visto ao longo do curso, podem ser
agrupados em três grandes classes, referentes a cada uma das pessoas da SS. Trindade: 1) creio
em Deus Pai; 2) creio em Deus Filho; 3) creio em Deus Espírito Santo. Quanto a esta última parte,
é importante estudar não só o que o Espírito Santo é em si mesmo, no mistério da vida íntima de
Deus trino, mas também a sua atuação concreta na história. É por isso que, após confessarmos
nossa fé no Paráclito, professamos nossa adesão à Santa Igreja Católica.
A Igreja, portanto, não é apenas sujeito de fé, mas também objeto de fé. Isso significa, em
primeiro lugar, que para sermos verdadeiramente membros desta Igreja precisamos, antes de tudo,
ter a mesma fé que ela confessa e guarda ao longo dos séculos. Em segundo lugar, é preciso, além
de crer no que crê a Igreja, acreditar na própria Igreja, embora essa fé seja um pouco diferente, ao
menos em certo sentido, da fé com que cremos em Deus.
Para compreender melhor esse ponto, convém ter em mente que a expressão “Creio em Deus”,
em latim, se traduz como “Credo in Deum”, utilizando o caso acusativo regido pela preposição
“in”, o que transmite ideia de movimento, de ir de um lugar a outro. O uso desse caso serve para
ressaltar que a fé em Deus não é apenas um ato da inteligência, mas também uma ação da vontade
— na verdade, da pessoa inteira —, que livremente se entrega e se dá a Deus: crer nele, em outras
palavras, é envolver-se com Ele, mergulhando no mistério do seu amor que nos salva e ilumina.
Mas a expressão “Creio na Igreja”, se vertida para o latim, perde aquela preposição “in”, e o
termo “Ecclesia” torna-se complemento direto do verbo transitivo “credo”, “creio”. Por isso, a
tradução mais literal da frase “Credo Ecclesiam” seria “Creio a Igreja”, o que, embora soe um
pouco mal em nossa língua, preserva uma nuance que na tradução convencional —
“Creio na Igreja” — acaba ficando de lado. Esta nuance se refere ao fato de a Igreja não ser objeto
direto, mas indireto da nossa fé.
O que isso significa? Significa que cremos na Igreja, em cuja face resplandece a luz de Cristo
(cf. Lumen Gentium, n. 1), porque cremos antes naquele que criou e fundou esta Igreja. Trata-se
de um fenômeno análogo ao da fé que temos na Sagrada Eucaristia: a única coisa que os nossos
olhos de carne podem enxergar em uma hóstia consagrada são as aparências de pão; mas,
confiantes na palavra daquele que disse: “Isto é o meu corpo”, sabemos com os olhos do espírito
que Nosso Senhor ali está presente real, verdadeira e substancialmente.
Do mesmo modo, sabemos que a Igreja é uma realidade divina, querida e fundada pelo Verbo
humanado, ainda que os nossos olhos só vejam dentro dela pecadores — leigos e sacerdotes —,
com suas fragilidades e misérias. Mas sabemos, porque Cristo não se engana nem engana a
ninguém, que esta Igreja é um Corpo, e que este Corpo é, misticamente, o Corpo do Filho de Deus
encarnado, que fez questão de identificar-se, em sua aparição a Saulo, com os fiéis que são
perseguidos em seu nome (cf. At 9, 4).
Este Corpo, porém, não é uma realidade invisível, como pensam muitas seitas protestantes,
senão que, à semelhança da Eucaristia, é um sinal visível e identificável,
uma instituição e sociedade externa, fundamentada na fé dos Apóstolos, chefiada por S. Pedro e
seus sucessores (os Romanos Pontífices) e munida de suas leis, ritos e costumes. Este Corpo, que
é a Igreja Católica, é indestrutível e indefectível em sua missão de custodiar a fé, conforme a
promessa de Cristo a Simão Pedro: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o
sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre
esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 17-
18).
Com efeito, nenhum poder, humano ou angélico, poderá nunca destruir a Igreja, ainda que,
segundo a nossa estimativa, ela pareça às vezes reduzida a escombros, abandonada, moribunda,
debilitada. O Espírito Santo, que desceu sobre os Apóstolos no dia de Pentecostes, a protege desde
o início e garante, com sua divina virtude, que ela nunca desapareça, mesmo que tenha de se
reduzir a uns poucos — a outros doze —, nem que lhe faltem os socorros de que precisa para levar
a salvação à humanidade, redimida pelo sangue de Cristo.
De todos os sinais que manifestam a credibilidade da Igreja (ou seja, que é razoável e
conveniente, de acordo com as exigências da razão humana, crer nela) destaca-se a exímia
santidade, vivida às vezes de forma oculta e simples, de muitos dos seus membros, homens e
mulheres de todas as condições que, lutando dia a dia por ser fiéis aos ensinamentos de Jesus, são
uma prova clara de que a graça pode vencer as barreiras da nossa miséria e elevar-nos, por
misericórdia, à perfeição de um amor que só Deus é capaz de conferir a corações humanos.

28- Há salvação fora da Igreja?


Não seria muito soberbo dizer que fora da Igreja não existe salvação, como defendem os
católicos? Afinal, não existem coisas boas em outras religiões? Por que então pretender que só a
Igreja Católica é o caminho que nos conduz ao céu?
Em mais esta catequese, você vai entender a necessidade da Igreja de Cristo, a única instituída
por Deus para ser meio de salvação para todos os homens.

De três séculos para cá, o ocidente tem vivido sob a falsa convicção de que todas as religiões
são boas, tendo portanto igual direito de cidadania, desde que se confinem à privacidade das
consciências e não pretendam impor-se na esfera pública. Esse fenômeno, estreitamente ligado às
“reformas” de Lutero e às consequências da fragmentação da cristandade latina durante os séculos
XVI e XVII, é defendido sob a bandeira de um “são” e “tolerante” indiferentismo, que se tornou
marca registrada de grupos violentamente anticristãos como, por exemplo, a Maçonaria.
Mas se queremos ser cristãos de verdade, precisamos nadar contra essa corrente destruidora e
reconhecer, como dogma de fé, a necessidade da Igreja Católica, “extra quam nulla est salus”,
fora da qual não há salvação. Que a Igreja seja meio necessário de salvação para todos significa,
antes de tudo, que só em Cristo temos a remissão dos pecados e que, por conseguinte, somente à
Igreja por Ele fundada cabe a missão de perpetuar até o fim dos tempos a sua obra salvífica.
De fato, assim como Cristo possui a mediação, única e exclusiva (cf. Jo 3, 18.36; At 4,
12; 1Tm 2, 5; Rm 5, 17), na ordem da aquisição da salvação, do mesmo modo a Igreja, que não é
senão o Corpo de Cristo, possui a função, única e exclusiva, de comunicar as graças da Redenção
(Mt 18, 17; Mc 16, 15s; Lc 10, 16; Jo 20, 21). Isso implica, logicamente, que é impossível estar
unido a Cristo sem estar unido também à Igreja, já que “nenhum membro pode unir-se à Cabeça e
ser vivificado pelo Espírito Santo se não estiver unido a todo o Corpo” místico [1], como vimos
em aulas passadas.
Além disso, apenas a Igreja possui em plenitude e por direito próprio os meios salvíficos,
eclesiais e sacramentais, com que Deus quis conceder aos homens os frutos da cruz de seu Filho:
as SS. Escrituras, interpretadas à luz da Tradição apostólica e do Magistério eclesiástico; a
verdadeira doutrina, preservada de erros e desvios, em perfeita comunhão com a fé dos Apóstolos;
os sete sacramentos, pelos quais desce até nós a graça divina; sem contar os inumeráveis bens
espirituais que, cada um ao seu modo, confirmam nossa fé, animam nossa esperança e estimulam
nossa caridade.
Que todas as religiões não possam ser igualmente boas e válidas como meios de salvação é
algo que se vê com toda clareza se se considera, por exemplo, que não podem ser verdadeiros ao
mesmo tempo ensinamentos discordantes acerca da natureza de Deus, do culto que lhe é devido,
da vida após a morte, dos princípios morais etc. Ora, é evidente que as diversas religiões se
contradizem quanto a um número expressivo de dogmas e preceitos, de sorte que, se alguma delas
for verdadeira, então nenhuma outra o será nem poderão sê-lo todas simultaneamente [2].
É impossível, com efeito, aderir à Revelação cristã e, de forma coerente, admitir o que dizem
e fazem, em seu culto e doutrina, judeus e espíritas, satanistas e ateus, muçulmanos e budistas.
Dizer que tudo isso teria o mesmo valor positivo em ordem à salvação eterna equivaleria a afirmar
que Deus aprova a verdade e o erro, a bondade e a maldade, a santidade de um S. Francisco de
Assis e os sacrifícios humanos das religiões pré-colombianas — o que, evidentemente, é um
absurdo, além de ser uma terrível blasfêmia.
Daí não se segue, é claro, que um católico deva desprezar os seguidores das falsas religiões
nem tentar eliminá-las com a força das armas. Um católico não mata pela fé; morre por ela, como
morreram e continuam a morrer incontáveis mártires, tão alheios ao falso e covarde ecumenismo
dos nossos tempos.
A rejeição do relativismo religioso deve-se estender ainda a certo indiferentismo mitigado,
segundo o qual seria necessário à salvação pertencer, não a qualquer religião positiva, mas a pelo
menos alguma das principais “denominações” cristãs. Esse erro, condenado por Pio IX, é também
inaceitável, não só porque “não há nenhuma outra Igreja Católica senão aquela que, edificada
sobre o único Pedro, se eleva pela unidade da fé e da caridade como um único corpo coeso e
solidamente articulado” [3], mas porque não se podem reunir como verdadeiros irmãos sob o olhar
de um único e mesmo Pai os que não se submetem à autoridade suprema com que Cristo quis
munir a sua Igreja nem aceitam e veneram os mesmos dogmas e mistérios, o mesmo culto e os
mesmos valores morais, conforme o sentido em que os entende e sempre entendeu a Igreja
Católica. Porque só pode haver verdadeira comunhão e amizade onde há amor pelos mesmos bens
e ódio pelos mesmos males.
Por fim, é importante considerar o seguinte problema: uma pessoa que não pertence
visivelmente à Igreja de Cristo pode ser salva? A resposta é sim, é algo possível, já que os justos
do Antigo Testamento, por exemplo, foram salvos, embora não tivessem os meios de salvação
presentes hoje na Igreja. Como entender, então, que não há salvação fora dela?
Trata-se, como em tudo na nossa fé, de um mistério, mas nada impede que Deus, em sua
misericórdia, conceda a quem, sem culpa e por ignorância invencível, não pertence visivelmente
à Igreja Católica (pensemos, por exemplo, no caso de um indígena ou de um campesino de um
distante país asiático) as graças necessárias para, de coração contrito, buscar cumprir em tudo o
que de reta consciência julga ser vontade de Deus. Uma pessoa em tal situação, na verdade, estaria
ordenada à Igreja, ainda que implicitamente, de modo que ela, se for salva, o será na e pela Igreja,
à qual terá pertencido sem o saber [4].
Referências

1. F. de B. Vizmanos; I. Riudor, Teología Fundamental para Seglares. Madrid: BAC, 1963,


p. 813, n. 642.

2. Cf. Id., p. 110, n. 131.

3. Cf. Pio IX, Carta do S. Ofício aos bispos da Inglaterra, de 16 set. 1884 (AAS 11 [1919]
311; DH 2888): “Nec alia est Ecclesia Catholica nisi quæ, super unum Petrum ædificata,
in unum connexum corpus atque compactum unitate fidei et caritatis assurgit” (cf. Ef 4,
16).

4. Cf. F. de B. Vizmanos; I. Riudor, op. cit., p. 815, n. 645.

29- Qual é a única Igreja de Cristo?


Trata-se de um fato inegável: o cristianismo encontra-se dividido em muitíssimas “igrejas”,
cada uma das quais, com suas diferenças de crença, culto e organização, reivindica para si a honra
de ser a única Igreja verdadeira.
É óbvio, por outro lado, que não pode haver mais do que uma só Igreja autêntica e fundada
diretamente por Jesus Cristo. Mas onde ela está? Como identificá-la? Que notas permitem
reconhecê-la em meio a essa lamentável variedade de “denominações” cristãs?

Se o Credo que professamos inclui uma referência explícita à Igreja enquanto objeto de fé, não
há dúvidas de que precisamos reconhecer onde se encontra, em meio à variedade de grupos
autoproclamados cristãos, a única e verdadeira Igreja de Cristo. Um caminho seguro, muito
utilizado pela apologética desde a época das disputas antiprotestantes, é recorrer às quatro notas
essenciais da Igreja presentes no Símbolo niceno-constantinopolitano: “Creio na
Igreja una, santa, católica e apostólica”.
Estas notas são não apenas propriedades inseparáveis da Igreja, mas também sinais ou “marcas”
distintivas que permitem a qualquer pessoa de boa fé reconhecer que a única Igreja verdadeira só
pode ser a Católica Romana, já que apenas nela estão presentes de forma plena e indiscutível as
características que, por definição, competem ao Corpo místico de Cristo, a
saber: unidade, santidade, catolicidade e apostolicidade.
A Igreja Católica, em primeiro lugar, é una, não só por ser única (ou seja, não há outra Igreja
além dela), mas também pela unidade de fé (cf. Mt 28, 18, 20; Lc 24, 47), a mesma para todos os
fiéis; pela unidade de governo, centrado na autoridade suprema do Romano Pontífice e, sob ele,
de todo o episcopado; e pela unidade de ritos sacramentais (cf. Mt 28, 19; Lc 22, 19; Jo3, 5).
Disso decorre que, quando rezamos pela “unidade da Igreja”, o que estamos pedindo é que as
comunidades cristãs separadas de Roma por cisma ou heresia se unam novamente à única Igreja
Católica, a qual é sempre e essencialmente una e só uma, ainda que dela se excluam alguns
membros. Nesse sentido, a Igreja é como a túnica inconsútil de Cristo, sempre inteira, sempre
íntegra, sem divisão nem separação; somos nós que, por nossa fidelidade ou infidelidade, podemos
estar em maior ou menor comunhão com ela. A unidade dela, portanto, é sempre a mesma, perfeita
e indissolúvel; a nossa, porém, pode crescer cada vez mais, conforme o desejo do Senhor: “Para
que sejam um, como nós somos um” (Jo 17, 22).
Essa unidade do Corpo de Cristo, por fim, refere-se não somente às realidades visíveis e
institucionais da Igreja militante (na terra), mas também aos membros padecentes (no purgatório)
e triunfantes (no céu) que a integram e, nela, formam uma só família cristã.
Além disso, a Igreja é essencialmente santa, com uma santidade perfeitíssima que em nada
diminui ou se macula em virtude das misérias e imperfeições dos fiéis. Por isso, devem-se rejeitar
com firmeza expressões do tipo “Igreja santa e pecadora”, uma vez que, apesar de todos os pecados
que se dão em nós, membros da Igreja, esta nunca peca nem trai seu divino Esposo. Somos nós
que, ao pecar, deixamos de ser Igreja plenamente, cuja pureza não se perde pela imundície de
quem a renega ou dela se extirpa voluntariamente.
A Igreja é santa, ademais, porque nela sempre haverá santidade e exemplos de caridade heroica.
Com efeito, nunca houve um tempo em que a Igreja não contasse com almas perfeitas, entregues
a todo tipo de serviço por amor a Cristo, consagradas a Ele por inteiro, dispostas a sacrificar a
própria vida para lucrar a glória do céu. A Igreja é santa, enfim, por serem santos e santificantes
os seus sacramentos, os seus ensinamentos, a sua disciplina, o seu culto.
A catolicidade da Igreja, por sua vez, manifesta-se antes de tudo na integridade de sua doutrina,
recebida dos Apóstolos, sem a parcialidade ou as deturpações das heresias. A Igreja, nesse sentido,
é católica (quer dizer, universal) porque crê e ensina a totalidade do quanto creram e ensinaram
os Apóstolos. À catolicidade de seus ensinamentos está vinculada ainda a catolicidade de
sua missão: a Igreja, com efeito, foi fundada por Cristo para transmitir a todos os povos toda a
doutrina evangélica, sem perda nem acréscimo.
Ela é católica, além disso, por reunir sob a unidade de uma só fé, de uma só doutrina e de um
só governo nações do mundo inteiro. Donde se vê que as notas de unidade e catolicidade se exigem
mutuamente, formando como que um bloco único e homogêneo. De fato, “Cristo quis uma Igreja
para todo o mundo e espalhada por todo o mundo. Portanto, não pode haver, segundo a mente de
Cristo, unidade que não seja católica” [1].
Por fim, a Igreja é apostólica, como já indicado antes, porque apostólica é a sua fé, ou seja,
porque nela permanece sempre incorrupto o conjunto de verdades que Cristo confiou aos
Apóstolos e estes, conforme o mandato de pregar o Evangelho a toda criatura, legaram aos seus
sucessores, os bispos. Por isso, a apostolicidade da fé reclama, como forma de perpetuar-se no
tempo, a chamada sucessão apostólica, pela qual se pode verificar, através dos elos de uma cadeia
ininterrupta, a transmissão fidedigna, de bispo a bispo, da palavra dos Apóstolos e dos direitos e
obrigações que eles transferiram aos seus sucessores no governo da única Igreja fundada por
Cristo.
Referências

o F. de B. Vizmanos; I. Riudor, Teología Fundamental para Seglares. Madrid: BAC, 1963,


p. 897, n. 813.

30- O que é a comunhão dos santos?


Formamos em Cristo um só Corpo, como membros de um único organismo, na íntima
comunhão de bens que existe na Igreja.
Nesta aula, Padre Paulo Ricardo explica, em continuidade com o que estudamos até agora a
respeito da Igreja, o que é o dogma da comunhão dos santos, quais são os bens que nela se
compartilham e quem são os diversos sujeitos que dela fazem parte.

À fé que professamos na Santa Igreja Católica está intimamente vinculado o dogma


da comunhão dos santos, presente no Símbolo apostólico, reconhecido pela Tradição e
fundamentado nas Escrituras, conforme o que diz S. Paulo: “Nós, embora sejamos muitos,
formamos um só Corpo em Cristo, e cada um de nós é membro um do outro” (Rm 12, 5) [1]. De
fato, visto que a Igreja é o Corpo místico de Nosso Senhor, todos os que a Ele estão unidos se
beneficiam mutuamente, pois a saúde de um membro concorre para o bem dos outros e, por
conseguinte, do organismo inteiro.
Podemos definir a comunhão dos santos como a “instituição divina pela qual todos
os santos que estão no céu, todos os justos que estão no Purgatório e todos os filhos da Igreja que
estão na terra formam uma única e grande família, cujo chefe é Jesus Cristo, e participam de todos
os bens espirituais que lhes são comuns” [2]. Esta comunhão entre os diversos membros de Cristo
se estende, portanto, aos membros da chamada Igreja triunfante (os santos do paraíso), da
Igreja padecente (as almas do Purgatório) e da Igreja militante (os fiéis da terra).
É preciso ter em mente, contudo, que o membro principal e origináriodesta comunhão é o
próprio Cristo, pois é dele o Corpo do qual somos membros (cf. Ef 1, 22-23) e é dele, por
seus méritos infinitos, que derivam todos os bens que são compartilhados nesta íntima união entre
os que foram santificados pelo Batismo. Como diz S. Tomás de Aquino, “uma vez que todos os
crentes formam um só Corpo, o bem de uns é comunicado aos outros […]. E assim, deve-se
acreditar que existe uma comunhão de bens na Igreja” [3].
Ora, os bens que circulam na Igreja são, além dos méritos do Salvador, os méritos
incomparáveis da SS. Virgem Maria e os de todos os outros santos, adquiridos com orações,
mortificações e boas obras cujo valor, por ser superabundante, pode ser aplicado às necessidades
dos demais fiéis. Assim, por exemplo, as orações e sacrifícios de um podem servir para alcançar
de Deus a graça de que outro precisa. Do mesmo modo, as Missas aqui celebradas, por seu valor
infinito, podem beneficiar não só os fiéis ainda vivos, mas também os defuntos, como sufrágio da
pena que eles têm de padecer antes de entrar no céu.
Mas, como dito acima, o membro mais importante desta comunhão num só Corpo é o próprio
Cristo, pois é Ele a sua divina Cabeça. “Assim”, continua S. Tomás, “o bem de Cristo é
comunicado a todos os membros, comunicação que se faz”, entre os que ainda caminhamos neste
mundo, “por meio dos sacramentos da Igreja” [4]. Isso significa que, ao professarmos nossa fé na
comunhão dos santos, confessamos também, ao menos implicitamente, a existência dos sete
sacramentos, instituídos pelo Senhor a fim de nos comunicar, através deles, as graças conquistadas
pelos méritos do seu sacrifício na cruz.
Resumindo o que dissemos até agora, podemos dizer que os
[…] bens da comunhão dos santos produzem nos membros da Igreja os mesmos
efeitos que o alimento produz nos membros do corpo, fazendo com que cada um
deles seja apto para realizar suas funções. Assim como em um corpo há diversos
membros, e estes têm diversas funções e contribuem para o bem de cada membro
em particular e para o bem do corpo em geral, assim também no Corpo da Igreja
existem diversos membros, que recebem diversas graças e exercem diversas funções.
Ora, as graças que cada um recebe e as boas obras que cada um realiza aproveitam,
ao mesmo tempo, a todo o Corpo e a cada um de seus membros (cf. Rm 12, 4.13)
[5].
Com respeito à diversidade de membros que, por distintos títulos, fazem parte da comunhão
dos santos, convém saber o seguinte, a modo de esclarecimento final [6]:
a) Os fiéis da terra, desde que estejam em estado de graça, participam dos méritos e orações
dos santos do céu, capazes de nos obter de Deus as graças da salvação e apresentar a Ele as súplicas
de quem recorre à sua intercessão. Podem impetrar também uns pelos outros, por suas orações e
sacrifícios, as graças que humildemente pedirem a Deus.
b) As almas do Purgatório participam das nossas preces e boas obras, (particularmente das que
lhes são oferecidas em sufrágio), das indulgências que lhes são aplicadas e também do Santo
Sacrifício da Missa realizado em seu proveito. Alguns teólogos defendem a opinião segundo a
qual as almas do Purgatório poderiam também rezar pelos que ainda vivem e, desta maneira, obter
para eles algumas graças. Trata-se, no entanto, de um ponto debatido, sobre o qual a Igreja não
pronunciou nunca uma sentença definitiva e que, portanto, está aberto à livre discussão teológica.
c) Os santos do paraíso, por fim, recebem com alegria as homenagens que aqui na terra lhes
rendemos e participam da glória que, com o seu culto e a imitação de suas virtudes, damos a Deus.

Referências

1. Cf. A. Sylvain, Sumario de la Doctrina Católica. Trad. esp. da 13.ª ed. fr. por Juan B.
Codina y Formosa. Barcelona, Herederos de Juan Gili, 1918, vol. 2, p. 269.

2. Id., ibid.

3. S. Tomás de Aquino, In Symbolum Apostolorum, a. 10.

4. Id., ibid.

5. A. Sylvain, op. cit., p. 270.

6. Cf. Id., p. 271.

31- O que é a remissão dos pecados?


Como ensina a teologia, com base no que dizem as Sagradas Escrituras, Jesus Cristo operou
nossa salvação por via de redenção.
Mas que sentido tem a palavra “redimir” aplicada ao mistério da cruz? De que maneira as ações
realizadas por Cristo há mais de dois mil anos podem ter efeito ainda hoje sobre as almas? E o que
isso tudo tem a ver com a economia sacramental?

No décimo artigo do Símbolo apostólico, professamos: “Creio na remissão dos pecados”. O


que queremos realmente dizer com estas palavras, sobre as quais costumamos refletir tão pouco?
Antes de tudo, é preciso saber que o verbo “redimir” significa, em sentido etimológico,
“comprar de volta”. A expressão, oriunda do latim redimo, compõe-se do prefixo re, que transmite
a ideia de reiteração, e do verbo emo, que significa “comprar”. Esta palavra costuma ser
empregada para designar a ação de readquirir, mediante pagamento, algo que já se havia possuído
antes.
Aplicada ao mistério salvador de Cristo, a palavra “redenção” expressa o fato de que o homem,
ao preço do Sangue de Jesus, foi “comprado de volta” por Deus, ou seja, foi elevado do estado de
pecado e condenação ao de justiça e salvação que, devido ao pecado original, tinha perdido.
Nesse sentido, Jesus é o nosso Redentor porque é Ele quem oferece o preço do nosso resgate
— a sua própria vida —, a fim de nos libertar das inúmeras escravidões a que antes estávamos
submetidos: a escravidão do pecado (cf. Ef 1, 7), as penas que a ele são devidas (cf. Rm 3, 25), a
morte (cf. 2Tm 1, 10), o poder do diabo (cf. Col 2, 15; Hb 2, 14) e, no caso dos judeus, a lei
mosaica (cf. Gl 4, 4-5). Jesus nos livrou de tudo isso “produzindo a nossa salvação por via de
redenção” [1] e oferecendo, como preço do nosso resgate, o Sangue derramado em sua paixão e
morte de cruz.
As SS. Escrituras demonstram de forma clara e inequívoca o valor redentor do mistério pascal
e, portanto, do amor infinito com que Cristo nos amou, entregando-se até o fim para nos libertar.
Vejamos só algumas passagens mais significativas [2]:

 “O Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar sua vida em
resgate por uma multidão” (Mt 20, 28).
 Cristo “se entregou como resgate por todos” (1Tm 2, 6).
 “Fostes comprados por um grande preço. Glorificai, pois, a Deus no vosso corpo”
(1Cor 6, 20).
 O Senhor “se entregou por nós, a fim de nos resgatar de toda a iniqüidade” (Tt 2, 14).
 “Não é por bens perecíveis, como a prata e o ouro, que tendes sido resgatados da vossa
vã maneira de viver, recebida por tradição de vossos pais, mas pelo precioso sangue de
Cristo, o Cordeiro imaculado e sem defeito algum” (1Pd 1, 28-29).
Mas como a remissão dos pecados que Jesus realizou do alto da cruz pode chegar até nós? Em
outras palavras, como é que podemos receber, aqui e agora, os frutos da redenção que Ele levou a
cabo mais de dois mil anos atrás?
Ora, é de fé que Nosso Senhor quis atrelar os efeitos da redenção aos sacramentos por Ele
mesmo instituídos (cf. Jo 3, 5; 20, 22-23). De modo particular, o Batismo, de um lado, nos purifica
dos pecados e nos faz nascer como criaturas novas no Espírito Santo (cf. Catecismo da Igreja
Católica, n. 1262); de outro, a Confissão (também chamada Penitência) nos perdoa os pecados
cometidos depois do Batismo. Também a Unção dos Enfermos pode perdoar os pecados, inclusive
os mortais, embora não o faça de forma própria e direta como a Penitência [3], razão por que é
recomendável e oportuno que os doentes, se possível, estejam confessados antes de recebê-lo.
Os sacramentos constituem, pois, a via ordinária instituída por Deus para fazer chegar aos
homens de todos os tempos, lugares e condições as graças que o seu Filho encarnado nos mereceu
por sua dolorosa redenção. Há, no entanto, uma via extraordinária que, embora produza a remissão
dos pecados, é algo raro e que não conta com a eficácia própria (ex opere operato) dos
sacramentos: trata-se da chamada contrição perfeita.
Para entender este ponto, é importante recordar aqui a diferença entre contrição imperfeita (ou
atrição) e contrição perfeita. A primeira é a detestação dos pecados por um motivo distinto do
amor a Deus (pode ser motivada, por exemplo, pela fealdade do pecado ou por medo do inferno).
A atrição, por si mesma, não nos reconcilia com Deus fora do sacramento da Penitência, mas é
suficiente para recebermos nele a absolvição dos pecados. Embora imperfeita, a atrição é, sim, um
dom de Deus se exclui a vontade de voltar a pecar e vem acompanhada da esperança de ser
perdoado [4].
A contrição perfeita, por outro lado, é uma dor e detestação sobrenaturaldos pecados (ou seja,
só a graça divina pode suscitá-la), odiados por puro e sincero amor a Deus. O ato de contrição
perfeita, por proceder da caridade, infundida na alma juntamente com a graça santificante,
reconcilia por si mesmo o pecador com Deus, desde que não exclua explícita e deliberadamente o
desejo de se confessar o quanto antes [5]. Trata-se porém de um ato sobrenatural e, de certo modo,
extraordinário, de maneira que não podemos nem presumir nem estar seguros de havê-lo realizado.
Quanto aos pecados veniais, “pelos quais não somos excluídos da graça de Deus e nos quais
caímos com freqüência, posto que com retidão e utilidade, e sem qualquer presunção, se digam na
confissão, como mostra a praxe de pessoas tementes a Deus, todavia podem ser calados sem culpa
e expiados por muitos outros meios. Mas, como todos os pecados mortais, mesmo os de
pensamento, tornam os homens ‘filhos da ira’ (Ef 2, 3) e inimigos de Deus, é necessário buscar
em Deus o perdão de todos os pecados por meio de uma confissão sincera e humilde” [6].

Referências

1. A. Royo Marín, Jesucristo y la vida cristiana. Madrid: BAC, 1961, p. 330, n. 301.

2. Cf. Id., p. 331, n. 302.

3. A Unção dos Enfermos, como se sabe, é um sacramento de vivos, o que significa que o
sujeito que for recebê-lo deve estar em estado de graça. No entanto, por ele podem ser
perdoados os pecados mortais ignorados de boa fé, involuntariamente esquecidos, ou
impossíveis de ser confessados devido a uma enfermidade, desde que o doente tenha deles
ao menos arrependimento imperfeito (atrição). Cf. A. Sylvain, Sumario de la Doctrina
Católica. Trad. esp. da 13.ª ed. fr. por Juan B. Codina y Formosa. Barcelona, Herederos
de Juan Gili, 1919, vol. 3, p. 463.

4. Cf. A. Royo Marín, La fe de la Iglesia. 3.ª ed., Madrid: BAC, 1977, p. 194, n. 261.

5. Cf. Id., ibid.

6. Concílio de Trento, 14.ª sessão, 25 nov. 1551. Doutrina sobre o sacramento da penitência,
c. 5 (DH 1680).

Os Novíssimos
32- “Depois da morte vem o juízo”
Os católicos de hoje sofrem de um mal quase desconhecido das gerações passadas: uma total
indisposição para pensar na morte e nas realidades que, queiramos ou não, nos aguardam a todos
depois dela — os novíssimos.
Nesta aula, Padre Paulo Ricardo dá início ao estudo da escatologia cristã e explica, de acordo
com o que sempre ensinou a Igreja, o que é a morte e o juízo particular que a ela se segue.

Os artigos finais do Símbolo apostólico falam-nos dos chamados “novíssimos” do homem.


Derivado do adjetivo latino novum, o termo é um aportuguesamento do superlativo novissimum,
que significa o mesmo que “último” ou “final” em alguma ordem de coisas [1]. Assim, por
exemplo, a expressão novissima verba, aplicada a um testamento, designa “as últimas palavras ou
disposições” do testador.
No sentido em que aqui nos interessa, a expressão “novíssimos” refere-se às realidades últimas
que, a partir da morte, estão à espera de todo ser humano: “Em tudo o que fizeres”, diz o
Eclesiástico, “lembra-te dos teus novíssimos”, isto é, do teu fim, “e jamais pecarás” (Eclo 7, 40).
Embora se possam listar de maneiras muito diversas, os novíssimos, segundo a doutrina
tradicional e comum, se reduzem às oito seguintes realidades: 1) morte; 2) juízo particular; 3) céu;
4) inferno; 5) purgatório; 6) fim do mundo; 7) ressurreição da carne; 8) juízo final. Hoje, veremos
apenas os dois primeiros, deixando para a próxima aula o estudo do céu, do inferno e do purgatório.
I. A morte
A morte, em sentido próprio, não é mais do que a separação do corpo e da alma que o informa.
A morte pode ter como causa próxima uma série de variadíssimos fatores, como uma doença, o
envelhecimento ou um grave acidente. Sua causa primária e remota, porém, não pode ser senão o
próprio Deus, que a ela condenou o gênero humano como castigo do pecado original [2].
Isso significa que o homem, embora perecível e mortal por sua natureza física e orgânica, não
foi criado inicialmente para morrer. De fato, “a corruptibilidade do homem é uma consequência
natural e inevitável de sua própria materialidade. A matéria, com efeito, está formada por diversos
elementos que, ao se desagregarem, produzem naturalmente a morte, se se trata de uma matéria
viva” [3].
Mas, como nos ensina a Revelação divina, interpretada e custodiada pelo Magistério
eclesiástico, no estado de justiça original o corpo dos nossos primeiros pais, Adão e Eva, foi
agraciado por Deus com o dom preternatural da imortalidade, do qual eles foram privados depois
do pecado original, como pena por terem transgredido a ordem divina [4]: “Não comas do fruto
da árvore da ciência do bem e do mal; porque no dia em que dele
comeres, morrerás indubitavelmente” (Gn 2, 17; cf. 3, 17-19).
É de fé, portanto, que a morte física é consequência do pecado, de modo que, antes dele, o
primeiro homem gozava do privilégio da imortalidade [5]. Confirma-o ainda o testemunho do
Apóstolo, por cuja boca nos fala ninguém menos que o Espírito Santo: “Como por um só homem
entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim a morte passou a todo o gênero humano,
porque todos pecaram” (Rm 5, 12).
Ora, Deus não castiga por um vingativo “sadismo” nem impõe penas indevidas. Na verdade,
até ao punir e aplicar sua justiça manifesta Ele sua infinita misericórdia, não só porque se dispõe
a castigar aquém do que merecemos, mas porque inclusive as penas que inflige são um sinal de
sua bondade.
A morte, nesse sentido, embora tenha uma caráter fundamentalmente penal, é também um
grande consolo para o homem, que encontra nela um remédio contra a soberba que se lhe apoderou
do coração e uma forma de libertar-se um dia das tristezas e misérias deste mundo decaído e
transitório. A morte, por conseguinte, é um castigo medicinal, e não um mal absoluto.
Donde se vê qual deve ser a atitude cristã diante da morte: temos de refletir diariamente sobre
ela, a fim de nos desapegarmos das criaturas, voltarmos o nosso coração para Deus e preparamos
de forma digna e conveniente o nosso encontro definitivo com Cristo. A morte, sem se tornar uma
obsessão, deve contudo estar sempre presente aos nossos pensamentos, pois será o momento mais
importante e decisivo de toda a nossa caminhada nesta terra. Com ela, termina o tempo de prova,
acabam-se as chances tanto de merecer quanto de arrepender-se [6]. Ao desprender-se do corpo, a
alma entra para todo o sempre, no mesmo estado em que se encontrava quando do último suspiro,
na eternidade que a aguarda.
É por isso que precisamos pedir a graça de morrermos preparados, com preparação próxima e
remota: remota, pela constância em uma vida cristã sincera e fervorosa, marcada pela fidelidade à
graça, à amizade com Deus e à observância dos Mandamentos; próxima, pelo privilégio
inestimável de ser confortado na hora final com os santos sacramentos, recebidos digna e
frutuosamente, e com a doce presença do nosso anjo da guarda, da Virgem Maria e de S. José,
auxílio dos moribundos [7].
Pela mesma razão, temos de providenciar a nossos familiares, amigos e conhecidos enfermos,
enquanto ainda estão conscientes, a chance de receberem todos esses socorros espirituais, para que
não partam desta vida em pecado mortal nem somem à morte do corpo a desgraçada e irremediável
morte da alma. Não tenhamos medo nem receios humanos; é melhor correr o risco de causar-lhes
um susto ou desconforto pela presença de um sacerdote, que lhes poderá abrir as portas do céu, do
que deixá-los confortáveis em sua impenitência, que os fará amargar para sempre todas as graças
perdidas ao longo de uma vida malograda.
II. O juízo particular
À morte segue-se imediatamente o juízo particular. Tão-logo se separa do corpo, a alma
comparece ao tribunal de Cristo e recebe dele, com suma justiça, a sentença devida a seus méritos
e deméritos. Depois da morte, em outras palavras, cada um de nós irá para o destino eterno que
merecemos pelas obras que, durante esta vida terrena, houvermos praticado [8]: os que morrem
em pecado mortal são condenados ao inferno; quem morre em graça, mas sem aquela pureza
necessária para entrar no céu, ficará por algum tempo no purgatório; os que, ao contrário, morrem
em graça e plenamente purificados de toda culpa são admitidos à glória do paraíso celeste.
Não sabemos, é verdade, o momento exato em que se dá a morte física, já que os critérios
clínicos de que hoje dispomos são mais ou menos aproximativos. O que, sim, não admite dúvidas
e constitui, além disso, uma verdade de fé implicitamente definida é que todos nós, logo após a
morte, seremos imediatamente julgados por Deus, sem lugar nem tempo para nos arrependermos
do mal que tivermos feito.
Ora, se o destino eterno de cada alma humana é determinado sem apelação logo depois da
morte, segue-se que as orações feitas pelos mortos, seja num velório, seja numa Missa de sétimo
dia, dirigem-se aos fiéis defuntos que já estão salvos e, detidos no purgatório, podem beneficiar-
se dos nossos sufrágios, como veremos na próxima aula. Uma alma condenada ao inferno nenhum
proveito tira de nossas orações, totalmente incapazes de livrá-la de sua condenação ou de mitigar-
lhe as dores que padece [9].
Referências

1. Cf. Antonio Royo Marín, Teología de la salvación. Madrid: BAC, 1957, p. 216, n. 155.

2. Cf. Id., p. 220, n. 161.

3. Id., Dios y su obra. Madrid: BAC, 1963, p. 469, n. 478.

4. Cf. Id., ibid.

5. Cf. Id., ibid., n. 479.

6. Cf. Id., Teología de la salvación, p. 235, n. 168.

7. Cf. Id., p. 278 n. 195.

8. Cf. Id., p. 280.

9. Cf. Id., p. 317, n. 257.

33- Céu, inferno e purgatório


Entre salvação e condenação não há meio termo, assim como não existe um estado
“intermediário” entre estar vivo e estar morto. Por isso, o homem só tem dois destinos possíveis:
ou o céu, com toda a felicidade que ele comporta, ou o inferno, com toda a amargura que nele
nunca terá fim.
Nesta catequese, Padre Paulo continua o nosso estudo sobre escatologia e explica em que
consistem, propriamente, a salvação e a morte eterna.

Estudamos na aula passada os dois primeiros novíssimos do homem: de um lado, a morte, que
na ordem atual da providência divina é consequência punitiva e universal do pecado do primeiro
homem; de outro, o juízo particular, que se dá logo depois da morte física e no qual se determina
o destino eterno do falecido. É precisamente sobre os três possíveis destinos que nos esperam para
além da vida terrena que falaremos na presente aula. Aqui, portanto, iremos tratar daquelas
realidades que a escatologia católica denomina céu, inferno e purgatório.
I. O inferno
Antes de qualquer coisa, precisamos ter em mente, como pressuposto indispensável a essa
matéria, que Deus nos criou livres, dotando-nos da capacidade de escolher cooperar ou não com
a sua graça. Embora Ele deseje de coração que todo homem se salve e chegue ao conhecimento
da verdade, como atesta a S. Escritura pela pena do Apóstolo (cf. 1Tm 2, 4), sempre nos está aberta
a possibilidade de resistirmos livremente à sua vontade salvífica. O inferno existe, portanto, não
por falta de misericórdia em Deus, mas por falta de amor e boa vontade em nós; ele surge,
consequentemente, não de uma falta de bondade no Senhor, mas da obstinação de seres livres que,
abusando da própria liberdade, preferem rebelar-se contra o amor de Deus, rejeitar a ordem que
Ele impôs ao mundo e resistir ao dom de sua graça.
O inferno costuma ser definido como o lugar e o estado a que são condenadas eternamente as
almas dos que morrem em pecado mortal, ou seja, impenitentes. No entanto, no inferno também
estão presentes inúmeros demônios, anjos rebeldes que, no início da criação, revoltaram-se contra
Deus, seguindo o exemplo soberbo e perverso de Satanás. Aquelas terríveis palavras que Cristo
juiz dirige aos réprobos: “Ide para o fogo eterno destinado ao demônio e aos seus anjos” (Mt 45,
41), são uma garantia firmíssima de que o inferno não só existe como tampouco está vazio.
Além disso, os tristes episódios da história humana, com suas guerras e pecados os mais
horríveis, são também um sinal razoável e seguro de que há, infelizmente, muitos homens que se
opõem definitivamente à graça e, numa espécie de “suicídio espiritual”, desprezam a paciência e
a misericórdia que o Senhor tantas vezes lhes ofereceu. Não sabemos ao certo, é verdade, quantos
são os que se condenam; mas não pode haver dúvidas, se não nos queremos afastar da fé da Igreja,
de que aqueles que nesta vida fazem mal e não se arrependem irão, sim, para o fogo eterno, “onde
o seu verme não morre” (Mc 9, 46).
Que, segundo o conselho do Salvador, esforcemo-nos todos os dias por “entrar pela porta
estreita” (Lc 13, 24), pois largo e espaçoso é o caminho que leva à condenação, e como são poucos
os que por ele caminham! Tenhamos a certeza de que Deus não nos negará as
graças suficientespara sermos salvos; isso, porém, não nos exime do dever — o maior de todos!
— de trabalhar com empenho para secundar esses auxílios e receber, a título de dom gratuito
e prêmio merecido, a herança da glória eterna.

II. O céu
Com relação a este último ponto, ensina-nos a fé católica que as almas dos justos (ou seja,
falecidos em estado de graça) que, imediatamente após a morte, se encontram livres
de todo pecado e culpa são admitidos ao céu, onde, ao lado dos anjos e santos, gozam da eterna
bem-aventurança, a qual consiste essencialmente na visão direta de Deus, face a face, sem
intermediários de nenhuma espécie. Lá, os santos participam da felicidade da própria SS.
Trindade, embora cada um em um grau distinto, conforme os méritos e o amor que entesouraram
durante sua vida na terra. Trata-se, por conseguinte, de uma alegria celestial, eterna, que satisfaz
plenamente todos os nossos desejos e aspirações, ainda que com certa desigualdade, na medida
em que uns santos contemplam a divina essência, inabarcável por qualquer inteligência criada,
com mais penetração do que outros.
III. O purgatório
Dissemos no início desta aula que há três destinos possíveis após a morte. Dois deles, já os
vimos mais acima, ainda que em suas grandes linhas: são o céu e o inferno. Resta-nos falar agora
do purgatório, que, na verdade, não é um “destino” em sentido próprio, mas, sim, um lugar e
estado de natureza provisional, e isto em dois sentidos: primeiro, porque as almas que nele se
encontram ali permanecem por um período determinado, findo o qual (isto é, depois da devida
purificação) são admitidas à bem-aventurança eterna; segundo, porque ele não mais subsistirá
depois do juízo final (cf. Mt 25, 34.41).
Pois bem, o purgatório pode ser definido como um lugar e estado no qual as almas dos justos
que, embora já estejam salvos, não se encontram ainda livres por completo da culpa e das penas
devidas ao pecado venial passam, temporariamente, por um processo de purificação, preparando-
se assim para entrar naquele celeste santuário que nada impuro pode adentrar. Poderíamos dizer,
para usar uma imagem mais ou menos ilustrativa, que o purgatório é um “exame de segunda
chamada”: é a purificação a que tem de se submeter a alma que, neste mundo, não se purificou
tanto quanto podia com verdadeiros frutos de penitência e uma vida de autêntica santidade.
O purgatório, conseguintemente, reveste-se de certo caráter punitivo, uma vez que as almas que
para lá vão sofrem em dois sentidos: por um lado, padecem uma pena de dano, consistente na
dilação temporal (quer dizer, no adiamento) da visão beatífica, a que teriam acesso sem demora se
houvessem vivido mais santamente; por outro, experimentam uma pena de sentido, que, segundo
o parecer da maioria dos teólogos e de quase todos os Padres da Igreja — não sem fundamento na
S. Escritura (cf., por exemplo, 1Cor 3, 15) —, nada mais é do que uma espécie de fogo físico, que
atormenta ao mesmo tempo que expurga as penas do pecado venial. São, em resumo, castigos
purgativos, impostos por Deus às almas que, embora imperfeitas, têm contudo a alegria de se
saberem salvas.
Essas considerações nos permitem supor que boa parte dos cristãos que se salvam vão antes
para o purgatório. Sinal disso é o fato de, geralmente, serem bem poucos os fiéis que já nesta vida
alcançam a santidade, o que supõe neles uma tal perfeição moral e espiritual, um tal amor a Deus,
um tal desprendimento das criaturas, que a sua existência na terra é já uma como “prelibação” do
céu que os aguarda.

34- “Que virá a julgar os vivos e os mortos”


Os artigos finais do Credo revelam-nos uma verdade aterradora, mas ao mesmo tempo cheia
de consolação: a história humana, tal como a conhecemos e vivemos por ora, chegará um dia ao
seu termo derradeiro.
Cristo há de voltar em glória e majestade, a fim de consumar o universo que Ele mesmo criou
e tornar pública a toda a humanidade a sentença de vida ou de morte que a cada um de nós
corresponde. Por fim se fará justiça, os eleitos entrarão no gozo do seu Senhor e os ímpios
receberão a pena de sua obstinação.

Que saibamos aspirar a essa santidade, à perfeição da vida cristã, a fim de evitarmos as penas
do purgatório, entrarmos logo na herança que o Pai nos tem preparada e aproveitarmos todos os
instantes da vida presente para amar a Deus de todo coração, de toda alma, com todo o nosso ser,
a Ele, que se dignou elevar-nos a tão nobre fim e conceder-nos uma alegria que olho nenhum viu
e coração nenhum jamais suspeitou.
A presente aula encerra o primeiro módulo destas nossas catequeses, limitadas até agora ao
estudo dos principais dogmas de fé tal como a Igreja os professa no Símbolo apostólico. Na aula
passada estudamos, ainda que em linhas bastante gerais, o que a Igreja crê e ensina a respeito da
escatologia individual, ou seja, acerca dos Novíssimos do homem: morte, céu, inferno e
purgatório.
Os últimos três Novíssimos — o fim do mundo, a ressurreição dos mortos e o juízo universal
—, sobre os quais voltaremos agora um pouco da nossa atenção, constituem o que às vezes se
denomina escatologia geral ou também Novíssimos do mundo, já que se trata daquelas realidades
últimas que afetarão o cosmos e a humanidade como um todo.
A Igreja ensina, em primeiro lugar, que a história humana, iniciada há não sabemos quanto
tempo com nossos primeiros pais no paraíso terrestre, chegará efetivamente ao seu término, à sua
consumação definitiva. Haverá, portanto, um ponto final, que concluirá o curso dos
acontecimentos humanos tal como aqui os conhecemos. De fato, em Cristo e por Cristo fomos
criados, e é para Ele — para honra e glória de seu nome — que este mundo existe. Ora, assim
como Ele, cumprida a redenção do gênero humano, ascendeu gloriosamente aos céus, assim
também convém que o seu Corpo, que é a Igreja, o siga rumo à pátria verdadeira.
Até lá, no entanto, a Igreja deve palmilhar o mesmo caminho que nesta terra percorreu a sua
divina Cabeça. Isso significa, naturalmente, que antes da conclusão da história a Igreja Católica
há de passar pela sua própria páscoa, quer dizer, por momentos de grande tribulação e sofrimento.
Só assim ela poderá entrar na glória derradeira.
Por isso, o fim dos tempos não será precedido imediatamente por uma época de triunfo
humano, terreno e político da Igreja, mas por grandes calamidades. Com base no que o próprio
Senhor nos revelou, sabemos que, antes do fim, o Evangelho será pregado ao mundo todo
(cf. Mt 13, 10; 24, 10); mas o Senhor não quis nos deixar nenhuma data específica.
Por esta razão, não podemos afirmar sem temeridade quando, precisamente, se dará o fim.
Embora nos revelem muitas e preciosas informações sobre esse acontecimento (para o qual todos
deveríamos querer nos preparar), as SS. Escrituras não são uma espécie de “horóscopo”, um
conjunto de “enigmas” a serem combinados e decifrados com argúcia e técnicas de decodificação.
Jesus predisse ainda que, antes do fim, surgiriam falsos profetas, pregadores de doutrinas vãs
e mentirosas que extraviariam a muitos do caminho da verdade (cf. Mt 24, 4s). No mesmo sentido,
o Apóstolo S. Paulo nos deixou o registro em uma de suas epístolas (cf. 2Ts 2, 3) de que, antes da
segunda volta de Cristo, haveria uma grande apostasia da fé, uma deserção em massa da religião
verdadeira. Vejamos o que sobre esse assunto nos diz o Catecismo (n. 675):
Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final,
que abalará a fé de numerosos crentes. A perseguição, que acompanha a sua
peregrinação na Terra, porá a descoberto o “mistério da iniquidade”, sob a forma
duma impostura religiosa, que trará aos homens uma solução aparente para os seus
problemas, à custa da apostasia da verdade. A suprema impostura religiosa é a do
Anticristo, isto é, dum pseudo-messianismo em que o homem se glorifica a si mesmo,
substituindo-se a Deus e ao Messias Encarnado.
Enquanto isso, os justos permanecerão fiéis à sã doutrina, até que finalmente, descendo dos
céus o Cristo glorioso, aconteça a ressurreição dos mortos. No último dia, todos os que houverem
falecido, bons e maus, salvos e condenados, ressuscitarão com seus corpos, para que, diante de
Cristo juiz, revestido de glória e majestade, se realize o juízo final, que nada mais é do que a
ratificação e manifestação pública, na presença da humanidade inteira, da sentença que a cada
homem corresponde.
No último dia, Aquele que veio outrora na humildade de um carpinteiro separará, como Rei e
Juiz justíssimo, os benditos dos malditos, dando àqueles a recompensa por sua fidelidade e a estes,
a pena devida à sua obstinação no mal.
Tanto uns como outros, como dito acima, estarão ressuscitados, ou seja, unidos outra vez ao
mesmo corpo (numericamente) que tiveram nesta vida. A diferença é que os primeiros estarão
ressuscitados para a glória (os seus corpos, transformados e livres de defeitos, serão como que
“espiritualizados”), ao passo que os segundos, embora se tornem incorruptíveis e imortais, não
serão glorificados, a fim de que possam padecer as penas do inferno. No corpo do justo, em
resumo, resplandecerá toda a beleza da alma; no do ímpio, a feiúra de um espírito depravado pelo
pecado.