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APOSTILA PARA O CONCURSO DA PREFEITURA

MUNICIPAL DE JOÃO CÂMARA

Assunto: HISTÓRIA DO MUNICÍPIO


Autor: ALDO TORQUATO
(Sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Rio
Grande do Norte - IHGRN)
APRESENTAÇÃO

Com o objetivo de contribuir para que você tenha sucesso no


Concurso Público que se aproxima, elaborei uma CONDENSAÇÃO da
história do nosso município, haja vista que, pelo menos, 5% (cinco por
cento) das questões versarão sobre esse tema.

Aliás, diga-se de passagem, que tal exigência decorre de um projeto


de lei de minha autoria, quando vereador, disciplinando o Concurso
Público em nosso município, o qual resultou na Lei Municipal no.
347/2011, cuja lei, além desse, trata de diversos outros aspectos ligados
ao Concurso Público, objetivando sua lisura e participação democrática de
todos que desejarem a ele se submeter.

Feito esse trabalho, que agora concluo, vou postá-lo nas redes
sociais, a fim de que todos tenham a ele acesso.

Uma última observação: espero que as questões que vierem a cair


no Concurso sejam aquelas sob as quais não pesam nenhum
questionamento, ou seja, que sejam fatos adotados unanimemente pelos
historiadores, a fim de evitar questionamentos judiciais, que podem,
inclusive, anular tais questões.

BOA SORTE para todos!

João Câmara, 24 de setembro de 2019.

Aldo Torquato
BIOGRAFIA ALDO TORQUATO

Aldo Torquato nasceu no dia 03 de fevereiro de 1951, em Baixa-


Verde (atual João Câmara), na rua Capitão José da Penha, antigamente
conhecida como rua do Motor. É o segundo filho do casal Abdon Torquato
da Silva e Tereza Gomes da Silva.
Casado com Rosângela Lúcia da Câmara Torquato, é pai de três
filhos: Pedro Severo, Nirvana e Mariana.
Fez o curso primário no Grupo Escolar Cap. José da Penha e o
ginasial no Colégio João XXIII, ambos em João Câmara. Deslocando-se
para Natal no ano de 1966, cursou o clássico na Escola Estadual Padre
Miguelinho e prestou vestibular para o curso de direito da UFRN no ano de
1969. Formou-se bacharel em Ciências Jurídicas em 1973. Desde então,
exerce a advocacia, com um breve intervalo durante o período em que
ocupou a Prefeitura Municipal da sua terra.
Com pendores para o magistério, foi professor de diversos colégios
em Natal e Diretor das Escolas Estaduais Cap. José da Penha e Francisco
Bittencourt, em João Câmara, além de professor do Colégio João XXIII.
Foi vereador por cinco (05) vezes 1971-1973, 1973-1977, 1993-
1996, 2009-2012 e 2013-2016. Ocupou a Presidência da Câmara Municipal
nos anos de 2009 e 2010. Por haver assumido o seu primeiro mandato de
vereador aos 19 anos de idade, ainda hoje é o mais novo vereador da
história do município.
De 31 de janeiro de 1977 a 31 de janeiro de 1983 exerceu o cargo de
Prefeito de João Câmara, sendo o primeiro prefeito filho da terra a assumir
tal cargo. Na época, com apenas 25 anos de idade, era o mais novo prefeito
da história do município de João Câmara.
Ainda hoje é o único cidadão a exercer os cargos de Prefeito e
Presidente da Câmara, em caráter efetivo e com mandatos eletivos.
No campo profissional, atuou como Procurador Jurídico de diversos
municípios do Rio Grande do Norte, tendo atuação destacada por ocasião
da elaboração de suas Leis Orgânicas. Foi, também, Procurador da
URBANA e Assessor da Superintendência da LBA – Legião Brasileira de
Assistência, em Natal. Foi Coordenador Jurídico do Instituto de Gestão das
Águas do Rio Grande do Norte – IGARN. Atualmente, é Secretário
Municipal de Obras, Transportes e Urbanismo da Prefeitura Municipal de
João Câmara.
Tem escritório na capital do estado e em João Câmara, onde exerce
a advocacia no campo do direito municipal, trabalhista e de família.
DATAS MAIS SIGNIFICATIVAS

SÉCULO XIX (ainda no Brasil Império) - Formação dos primeiros povoados: Baixa-Verde (atual
Assunção), Amarelão e Cauaçu

08 de março de 1895 – Nascimento de João Severiano da Câmara, em Boa Vista, município de


Taipu.

12 de outubro de 1910 – Inauguração da Rede Ferroviária, com a presença do governador do


Estado, Alberto Maranhão, grande comitiva, e o proprietário da empresa GOUVEIA &
PROENÇA, construtora da estrada, dr. JOÃO PROENÇA. Logo em seguida, é designado o Dr.
Antônio Proença, irmão de João Proença, para dirigir os trabalhos de construção do trechos
seguintes – Esta data é considerada o marco da Fundação do povoado de Baixa-Verde (nova),
conforme a Lei Municipal nº 272/2008

06 de junho de 1914 - Chegada de João Severiano da Câmara a Baixa-Verde

02 de junho de 1915 – Nascimento de Gumercindo Saraiva, patrono da Cultura em nosso


município. Dia municipal da Cultura pela Lei Municipal no. 64/2001.

1915 – Construção da Capela Nossa Senhora Mãe dos Homens pelo Dr. Antônio Proença e sua
esposa D. Malvina (atual capela Nossa Senhora de Fátima)

26 de dezembro de 1927 – Inauguração do Grupo Escolar Cap. José da Penha

25 de março de 1928 – Fundação do Baixa-Verde Futebol Clube

29 de outubro de 1928 – Emancipação política do município de Baixa-Verde – Lei Estadual nº


697 – Feriado Municipal
25 de novembro de 1928 – Eleição em Pureza (então município de Touros) do Prefeito e dos
Intendentes (vereadores) de Baixa-Verde

1º de janeiro de 1929 – Posse do primeiro Prefeito, João Severiano da Câmara, e dos primeiros
Intendentes (vereadores)

13 de novembro de 1929 – Criação da Paróquia Nossa Senhora Mãe dos Homens

11 de junho de 1935 – Criação da comarca – Lei estadual nº 852

24 de novembro de 1935 – Intentona comunista

12 de dezembro de 1948 – Falecimento de João Câmara - Feriado Municipal

19 de novembro de 1953 - Mudança do nome do município para João Câmara – Lei Estadual
nº 899.

13 de fevereiro de 1958 – Chegada do padre Luiz Lucena Dias

1970 – Inauguração da energia elétrica de Paulo Afonso – administração do prefeito Manoel


Anacleto, sendo governador do estado o Mons. Walfredo Gurgel

15 de novembro de 1976 – Eleição, aos 25 anos de idade, do advogado Aldo Torquato da Silva,
o primeiro prefeito filho da terra e até então o mais novo a se eleger prefeito.

09 de dezembro de 1977 – Inauguração do telefone pelo sistema DDD – Discagem Direta à


Distância – administração do prefeito Aldo Torquato, sendo governador do estado o Dr.
Tarcísio Maia

29 de outubro de 1978 – Comemoração do cinqüentenário de emancipação política –


administração do prefeito Aldo Torquato
29 de outubro de 1982 – Inauguração do Abastecimento D’Água - administração do prefeito
Aldo Torquato, sendo governador do estado o Dr. Lavoisier Maia Sobrinho

30 de novembro de 1986 – Ocorrência do maior terremoto: 5,1 na escala Richter – posterior


visita do então Presidente da República, José Sarney ao município

18 de novembro de 1995 – Decretada a Intervenção Estadual em João Câmara. Afastamento


do prefeito José Ribamar Leite, sendo nomeada interventora a senhora Mônica Dantas

01 de janeiro de 2005 – Toma posse, como primeira prefeita eleita do município, a senhora
Maria Gorete Leite, que vencera as eleições municipais de 03 de outubro de 2004

20 de agosto de 2009 – Inauguração do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia –


IFRN

12 de outubro de 2010 – Data comemorativa do Centenário de Fundação de Baixa-Verde


(nova)

29 de dezembro de 2017 – Falecimento do monsenhor Luiz Lucena Dias


BREVE RESUMO DA HISTÓRIA DO MUNICÍPIO DE JOÃO
CÂMARA DESDE OS TEMPOS DE BAIXA-VERDE, ATÉ OS
DIAS ATUAIS
(Texto publicado na Revista do Instituto Histórico de Geográfico do Rio Grande do
Norte, ed. Julho 2019, revisado e ampliado)

Desde os meados do século XIX, ainda quando o Brasil era império, já havia
registros da existência de uma pequena povoação no interior do município de Ceará-
Mirim com o bucólico nome de Baixa-Verde, localizado à oeste, adentrando ao sertão.

Com a emancipação do distrito de Taipu em 1891, desmembrando-se de Ceará-Mirim,


Baixa-Verde passou a ser distrito do novo município. No ano seguinte, por ocasião da
eleição do primeiro prefeito de Taipu, uma das seções eleitorais funcionou na localidade
Baixa-Verde, mais precisamente na residência do cidadão Affonso Teixeira de Oliveira.
No ano de 1895, relatório do governo estadual aponta a existência de dois açudes no
município de Taipu, sendo um na vila e outro no distrito de Baixa-Verde. No campo
educacional, já no ano de 1901 encontra-se o registro de duas professoras no município
de Taipu, sendo uma delas em Baixa-Verde, onde também havia um posto policial, com
o cargo de sub-delegado sendo exercido por figuras como Alfredo Edeltrudes de Souza
e João Baptista Furtado (pai de João Maria Furtado, ex-desembargador e avô de
Roberto Brandão Furtado, ex-presidente da OAB/RN, deputado estadual e vice-prefeito
de Natal), que ali residiam.

Alfredo Edeltrudes de Souza, era um importante agro-pecuarista e industrial, cuja


presença na capital era registrada efusivamente pela imprensa da época. Quando passou
a residir em Natal, esse cidadão estabeleceu-se no bairro das Quintas, doando ao poder
público os terrenos onde foram construídos os primeiros equipamentos públicos daquele
bairro, como posto policial e de saúde.

Em Baixa-Verde também residia Joaquim Rebouças de Oliveira Câmara, que depois se


transferiu para a localidade Cauaçu, no mesmo município. Joaquim Rebouças era pai de
Jaime Câmara que, deixando Cauaçu com os irmãos, na década de trinta do século
passado, foram para Goiás, onde fundaram um importante conglomerado na área da
comunicação: Jornal O Popular, TV Anhanguera, afiliada da rede Globo, ambos em
Goiânia e a TV Brasília e o Jornal de Brasília, na capital federal, dentre vários outros
empreendimentos.

Os historiadores Nestor Lima (Municípios do Rio Grande do Norte, 1937) e Câmara


Cascudo (História de um homem: João Severiano da Câmara, 1953), anotam que na
localidade havia “um pequeno mercado, coberto de palha, feira livre semanal, posto
policial e uma “bolandeira” usada para descaroçar algodão”.

Na obra, acima mencionada, Nestor Lima assim se refere à localidade:


“O solo do município de Baixa-Verde se pode dividir em duas partes principais: a do
chapadão do Mato Grande, que forma a zona norte-noroeste do município, e os terrenos
de ariscos e caatingas, à margem do rio Ceará-Mirim”.

E prossegue: “Na zona do chapadão do Mato Grande, comumente conhecida como


Serra Verde, ficam os extensos algodoais, que constituem a riqueza agrícola do
município; no arisco, ao nascente, demoram os terrenos e baixios, onde se cultiva a roça
e os cereais, além dos vastos coqueirais, que orlam a praia em toda a sua extensão. Aí,
também no arisco, fica situada a vila de Baixa-Verde, sede do município, o povoado de
Assunção (outrora conhecido também por Baixa-Verde) e o Matão. Na caatinga, estão
localizadas as fazendas de criação de gado vacum, caprino, suíno e lanígero e alguns
sítios agrícolas. Nos terrenos marginais do rio Ceará-Mirim, em toda a linde meridional
do município, há extensas várzeas apropriadas ao cultivo do algodão e existem boas
fazendas de criação.”

Observe-se a esclarecedora nota de Nestor Lima ao referir-se ao povoado de Assunção,


que cita como “outrora conhecido também por Baixa-Verde”.

Em 12 de outubro de 1910 ocorre um fato que muda por completo a vida da antiga
Baixa-Verde. É que naquela data houve a inauguração dos trilhos da rede ferroviária e a
população da antiga Baixa-Verde, que, popularmente passou a se denominar Baixa-
Verde Velha e depois Assunção, mudou-se para a nova localidade, a três quilômetros da
antiga povoação, mais precisamente em um lugar onde só havia matas e casas distantes
umas das outras, conforme relatos dos antigos.

João Maria Furtado, nascido na localidade, afirma em sua obra Vertentes, que nunca
entendeu porque os trilhos passaram a três quilômetros ao sul da comunidade. O certo é
que esse fato, ainda hoje não esclarecido, fez surgir a nova Baixa-Verde, para onde se
deslocaram quase todos os comerciantes da tradicional localidade, provocando o seu
mais completo esvaziamento. Ninguém queria morar longe da estação do trem.

No período que vai de 1910 a 1928, merecem destaque as figuras de Antônio Proença
e João Severiano da Câmara. O primeiro, por ser o responsável pela construção da
estrada de ferro, provavelmente um dos sócios da empresa Proença & Gouveia,
concessionária da estrada de Ferro Central do Rio Grande do Norte, cujo projeto inicial
pretendia chegar a Caicó.

Antônio Proença estabeleceu-se em Baixa-Verde. Trouxe a sua esposa, dona Malvina,


construiu a sua residência e a sede da estação ferroviária, a capela Nossa Senhora Mãe
dos Homens (1915), doou lotes para construção de casas e fez a planta da nova cidade.
Por tais razões, é tido como o “fundador da nova Baixa-Verde”.

João Severiano da Câmara, chegou a Baixa-Verde em 06 de junho de 1914, aos 19 anos


de idade, onde estabeleceu-se com uma pequena “bodega”. Posteriormente, cm o
crescimento do empreendimento, trouxe os irmãos Alexandre (Xandu) e Jerônimo
(Loló), com quem constituiu a firma João Câmara & Irmãos, explorando a produção e
industrialização do algodão, o chamado “outro branco” da época. João Câmara,
aproveitando o crescimento vertiginoso da localidade e com sua habilidade para os
negócios, logo tornou-se um dos maiores industriais do Rio Grande do Norte e passou a
residir em Natal, deixando os irmãos em Baixa-Verde cuidando mais diretamente dos
negócios da firma e das fazendas.

Não demorou pra que o jovem empreendedor entrasse para a política. Em Taipu, sede
do município até então, João Câmara foi escolhido Intendente, cargo que correspondia
ao de Prefeito na atualidade. E foi nessa condição que ele, João Câmara, capitaneou a
emancipação do distrito de Baixa-Verde, em 29 de outubro de 1928, pela Lei Estadual
697, deixando o município-mãe e passando a governar o novo município na condição de
primeiro Intendente (prefeito).

A paróquia com a denominação de Nossa Senhora Mãe dos Homens data de 13 de


novembro de 1929, sendo pároco o padre Celso Cicco e a comarca instalada em 11 de
junho de 1935, tendo como primeiro juiz o filho da terra dr. João Maria Furtado.

Um fato merece especial destaque: em 24 de novembro de 1935, um dia após a


deflagração da conhecida Intentona Comunista em Natal, o movimento chega a Baixa-
Verde. O prefeito Odilon Cabral de Macedo e os irmãos Alexandre Câmar e Jerônimo
Câmara, irmãos de João Câmara, deixam a cidade para não serem presos. Um
movimento de resistência dos locais é derrotado pelos revoltosos na entrada da cidade.
O delegado e os soldados foram presos. A loja da firma João Câmara & Irmãos foi
saqueada e as mercadorias distribuídas entre a população. Durante quatro dias o
município foi governado por um praça do 21BC de nome Manuel Alberto da Silva
Filho, que se apresentava com o falso nome de Tenente Lins.

O Juiz da comarca, dr. João Maria Furtado e o Promotor de Justiça, dr. José Siqueira de
Medeiros não se encontravam na cidade, mas foram convocados a comparecer,
recebendo a instrução de que não deveriam tomar atitudes contrárias ao movimento.

Por conta desse episódio, logo após a expulsão dos revolucionários, o dr. João Maria
Furtado foi duramente perseguido por João Câmara, de quem era desafeto, chegando a
ser preso e afastado do cargo de juiz.

Pela Lei Estadual no. 899, de 19 de novembro de 1953, o município de Baixa-Verde


passou a denominar-se João Câmara.

Na economia, é importante dizer que, de início, praticamente só se cultivava o


ALGODÃO e as culturas de subsistência (milho, feijão e mandioca). Posteriormente, a
partir das décadas dos anos 1940 e 1950 foi introduzida uma nova cultura, a do
AGAVE, também conhecida como SISAL.

Por esse período, o nosso comércio já era muito desenvolvido, a FEIRA LIVRE era
uma das maiores do estado e várias indústrias de beneficiamento de algodão e sisal, tais
como JOÃO CÂMARA & IRMÃOS, ANDERSON CLAYTON, COOK, SISAF E
SACRAFT, em Zabelê, possibilitaram uma situação de praticamente “pleno emprego”
em nossa cidade.

A consequência natural dessa situação favorável, é que centenas de pessoas migraram


de outras regiões, e até de outros estados, como da Paraíba, para se instalar no novo
“eldorado”. Decorre daí a grande presença e influência dos paraibanos aqui em João
Câmara, na vida econômica, social e política.

Na década de 1980, com a chegada de um besouro chamado “bicudo” a cultura do


algodão acabou e as fábricas fecharam. A fibra do AGAVE foi substituída por fibras
sintéticas, a partir do petróleo, e o resultado é que todas aquelas fábricas fecharam suas
portas, desempregando milhares de trabalhadores e trabalhadoras.

Em 29 de outubro de 1982, na administração do governador do estado Lavoisier Maia


Sobrinho e do prefeito Aldo Torquato, foi inaugurada a adutora Pureza/João Câmara, o
que foi essencial para o desenvolvimento da cidade em todos os seus aspectos, se
considerarmos que o precioso líquido é essencial para a subsistência das pessoas e para
o crescimento econômico.

É certo que os TERREMOTOS, cujo ápice foi em 30 de novembro de 1986, mas que
perdurou por mais alguns anos, fizeram com que milhares de camarenses deixassem a
cidade, criando um clima de extremo pessimismo entre as pessoas. Com a redução dos
eventos sísmicos, muitos voltaram e outros ocuparam os espaços vazios deixados pelos
que se foram.

Certo é que, graças à sua posição geográfica privilegiada (é o centro de uma grande
região, o Mato Grande, com 12 municípios e em influência sobre municípios de outras
regiões, como a Central e o Litoral, até a região salineira) João Câmara se reergueu e
hoje, graças ao seu comércio e serviços cada vez mais crescentes, é uma das maiores
cidades do Rio Grande do Norte.

Não se pode negar, também, que a instalação dos Parques Eólicos, principalmente por
ocasião da construção, empregam muitas pessoas e graças aos tributos de pagam ao
Município, elevam em muito as suas receitas, o que possibilita aos gestores, não apenas
de João Câmara, como nos diversos municípios onde estão instalados, a realização de
importantes obras.

Foram prefeitos do município: João Severiano da Câmara, Ariamiro de Almeida,


Abelardo Calafange, José Carrilho, Odilon Cabral de Macedo, Antônio Justino de
Souza, Severino Elias, Ângelo Bezerra, Francisco de Assis Bittencourt, Álvaro Nunes,
Francisco Bittencourt (interventores nomeados), e eleitos, a partir da redemocratização
do Brasil em 1948, Francisco Bittencourt, Severino Benfica, Francisco Bittencourt,
Francisco Paulino de Almeida, Manuel Anacleto de Lima, Francisco Paulino de
Almeida (Chico da Bomba), Aldo Torquato da Silva, José Ribamar Leite, Valdir
Miranda, José Ribamar Leite, Ariosvaldo Targino de Araújo (reeleito), Maria Gorete
Leite, Ariosvaldo Targino de Araújo (reeleito), Maurício Caetano Damascena e Manoel
dos Santos Bernardo.

Atualmente, o município de João Câmara é um dos mais promissores do estado do Rio


Grande do Norte, tendo como prefeito o professor Manoel Bernardo dos Santos e vice-
prefeita a advogada Ana Katarina Bandeira da Costa Dias. A Câmara Municipal é
composta dos seguintes vereadores: José Gilberto (Presidente), Amistrong Bezerra,
Fernando Guilherme, Daniel Gomes, Kelly Cristine, Flávio Sami, Cleonice Bezerra,
Aize Bezerra, Irani Antunes, Frank Fabiany e Francisco Matias.
ANTÔNIO PROENÇA, O FUNDADOR DA NOVA BAIXA-VERDE

Não existe hoje qualquer dúvida sobre quem foi o verdadeiro fundador da nova Baixa-
Verde (a Baixa-Verde Velha, como ficou conhecida popularmente, é a atual Assunção). Durante
muitos e muitos anos, atribuiu-se o privilégio ao ex-senador e empresário João Severiano da
Câmara. De fato, João Câmara foi durante anos a figura mais proeminente do município e dizer
que teria sido o fundador da cidade era até mesmo motivo de orgulho para os seus habitantes.
O próprio nome da cidade, João Câmara, impelia as pessoas a pensarem ter sido aquela figura
o seu fundador inconteste.

Hoje, passado o calor da influência do poderia político e econômico exercido pelo


eminente cidadão, todos os analistas concluem, sem qualquer receio, que o verdadeiro
fundador da nova cidade foi Antônio Proença. A propósito, trago à luz o depoimento do
comerciante Melcíades de Souza, ele mesmo um dos primeiros habitantes do lugar, nascido
aqui no ano de 1913, “quando havia apenas quarenta ou cinqüenta casas”, como costumava
dizer.

Pois bem. Assim relatou-me o velho Melcíades, do alto dos seus noventa e cinco anos,
em depoimento gravado por mim em sua residência na rua João Furtado, na manhã do
domingo, 17 de fevereiro do ano de 2008: “engana-se quem pensa que João Câmara foi o
fundador de Baixa-Verde. Quando João Câmara chegou nesta terra, no ano de 1914, já
existiam cinqüenta ou sessenta casas. O verdadeiro fundador de Baixa-Verde foi Antônio
Proença, que chegou aqui em 1909, e construiu quatro casas, sendo uma delas para ele
mesmo morar com a sua esposa, Dona Malvina”.

Mais adiante, continua Melcíades de Souza no seu esclarecedor depoimento: “João


Câmara quando chegou aqui era um rapazote de dezenove anos de idade e botou um
comércio pequeno com apenas duas portas, somente depois de alguns anos é que foi
crescendo, até que fez fortuna. Vários outros comerciantes chegaram antes dele, como João
Furtado, pai do doutor João Maria e Alfredo Edeltrudes. Dr. Proença era um homem gordo,
alvo, com uns 45 anos de idade, gente muito boa, que eu tive a oportunidade de conhecer.
Além de ser engenheiro, Dr. Proença era também agricultor, possuindo dois roçados: um
aqui na margem do açude grande, onde plantava algodão, milho, feijão e mandioca e outro
lá pras bandas do Lajeado, onde inclusive tinha uma caieira”.

O relato do velho Melcíades de Souza corresponde exatamente ao que diz o


conterrâneo Paulo Pereira dos Santos, em sua obra Um Homem Admirável”, na qual traça o
perfil do senador João Severiano da Câmara. Diz Paulo Pereira: quando João Câmara chegou a
Baixa-Verde, de frente à Estação Ferroviária existia o barracão de Alfredo Edeltrudes,
vendendo aos cossacos víveres e outras mercadorias de consumo. Havia a bodega de José
Antunes de França e na esquina outra de Luiz Carneiro. Como ainda continuasse a construção
da Estrada de Ferro, estendendo-se para Lages, Dr. Antônio Proença permanecia residindo em
Baixa-Verde. Segundo algumas pessoas idosas da sua época, ele era um homem gordo, de
andar lento e boa pessoa. Gostava de criar cavalos de sela e vacas de alta linhagem genética.
Plantava algodão e outras culturas de subsistência. Promovia grandes festas na sua casa,
reunindo os mais importante moradores da vila. Mais dois engenheiros, também contratantes
da Estrada de Ferro, residiam no povoado, Otávio Pena, baixinho, olhos brilhantes sob a
armação de um pince-nê espelhante, filho do Presidente da República, Afonso Pena, que havia
inaugurado a Estrada de Ferro. E outro engenheiro, Eduardo Parisot, de estatura alta, magro e
cortês. Morava também em Baixa-Verde, o técnico Fernando Gomes Pedroza, que dirigia o
Campo Experimental de Algodão no Riacho Seco”.

Caso ainda paire alguma dúvida sobre a identidade do verdadeiro fundador da nova
Baixa-Verde, eis o relato insuspeito do grande historiador e folclorista Câmara Cascudo, em
sua obra História de um homem (João Severiano da Câmara – página 31, edição de 1954 –
Departamento de Imprensa Estadual): em 12 de outubro de 1910 inaugurava-se Baixa-Verde.
Uma locomotiva deixou um vagão com o aparelho telegráfico e servia de estação. Ao redor os
ranchos surgiram da terra, a 83.952 metros de Natal. Nem havia no local nome certo. Diziam
“Matas”. Eram capoeirões baixos, moitas na várzea verde e tranquila. O nome passou ao ponto
terminal da Estrada dos Proenças, quando Antônio Proença veio, alto, gordo, lento, imenso,
residir na casa que construiu, confortável e abrigadora. Chamou-se então Baixa-Verde. Era esse
Antônio Proença o denominador comum da estrada. Representava o trabalho. Discutiram-no
muito no choque de interesses em que ele próprio seria o maior. Devemos-lhe Baixa-Verde no
plano real. Escolheu o local, riscou as ruas, ergueu as casas, cavou cacimbas, construiu a capela
dedicada a Nossa Senhora Mãe dos Homens. Lembro-me da sua figura imponente, da
amplidão do vulto nédio, o traje de branco, o chapéu do Chile, os bigodes negros, o toutiço de
zebu, a fala grossa, o gesto sereno, a simplicidade completa, a bondade útil, oportuna
inesgotável.Tinha o hábito do conforto, da mesa farta, variada, aberta, fácil, da conversa
gostosa, da pilhéria de sal grosso, os costume do banho diário, as roupas asseadas, o
tratamento fidalgo. Incapaz de uma grosseria, cordato, amável, ia desarmando a todos com
uma grandeza tranqüila de paciência, tenacidade e disciplina. Era o Dr. Proença de Baixa-
Verde, plantando também algodão, criando gado de raça, vacas de lei estrangeiras, que
assombravam pela quantidade do líquido esguichando cada manhã e cada tarde. E cavalos
robusto, com selas inglesas. E armas reluzentes, disparando sem parar para as breves caçadas
senhoriais. Deixou uma lembrança viva e há muita gente que ainda o enxerga, vagaroso,
imenso, cumprimentador, inventando Baixa-Verde e organizando bailes intermináveis. Para
essa Baixa-Verde recém nascida, de vida indecisa, Vanvão deliberara fixar destino, vida esforço
e futuro”.

Resta, então apenas uma indagação a esclarecer: por qual razão Antônio Proença caiu
no quase completo esquecimento, sendo apenas o nome de uma rua na cidade que fundou?

Algumas razões contribuíram para a volta de Antônio Proença para Minas Gerais: a) o
encerramento do contrato feito com o governo federal para a construção da rede ferroviária,
em 1921; b) a morte do seu irmão, João Proença, presidente e maior acionista da empresa, em
1923; 3) a saúde debilitada e a idade já avançada; e 4) como não deixou herdeiros, sempre
houve dificuldades de elucidação sobre o resto da sua vida até a sua morte. Quantos anos
viveu? Onde está sepultado?

É o que, como pesquisador, vou tentar descobrir.


João Câmara, o Homem.

João Severiano da Câmara nasceu na localidade de Boa Vista, município de Taipu, em 8


de março de 1895 , sendo filho de Vicente Rodrigues da Câmara e Maria Rodrigues da Câmara.
A pequena Boa Vista, no dizer de Câmara Cascudo, foi confundida com outra localidade que
lhe ficava próxima, Passagem Funda, daí constar oficialmente o nome desta última como o
lugar onde João Câmara nasceu. Seu pai, Vicente Rodrigues da Câmara era filho de João
Severiano da Câmara e Tereza Rodrigues da Silveira. Portanto, ao filho, que foi o segundo da
sua prole, foi dado o nome do avô paterno.
O destino de João Câmara parecia estar irremediavelmente ligado a Baixa-Verde.
Tanto é que, ainda menino, por diversas vezes esteve em Cauassu, hoje distrito de João
Câmara, passando dias de férias na casa de uma tia (irmã de seu pai), dona Joaquina
Possidônio da Câmara, apelidada de dona Quininha, casada com Felipe Cândido Monteiro,
cujos descendentes (família Monteiro) ainda hoje residem naquela pequena comunidade
interiorana.

Ainda moço, aos 18 anos de idade, já apelidado de Vanvão, trabalhou no I.F.O.C.S


(Inspetoria Federal de Obras Contra as Secas), órgão que antecedeu o DNOCS, e como tal tinha
a missão precípua de construir barragens para amainar o secular problema da escassez de
chuva no nordeste brasileiro, missão que até os dias de hoje, já em pleno século vinte e um, se
arrasta a passos de tartaruga.

Não satisfeito com o emprego, que pouco lhe rendia, a não ser um mísero salário,
suficiente apenas para cobrir os custos de manutenção, João Câmara retornou à casa paterna
no início do ano de 1914.

Estabelecida a discussão sobre o que estaria reservado ao jovem ávido por melhores
dias, veio à baila a possibilidade do mesmo instalar-se num lugar chamado Baixa-Verde,
situado a vinte e sete quilômetros da sede do município de Taipu, onde desde 1910 os trilhos
da rede ferroviária já haviam chegado. Corria de boca em boca que o lugar prosperava com
uma rapidez impressionante, visto situar-se estrategicamente na porta de entrada de uma
vasta região ainda inexplorada, mas de grande potencial agrícola.

Em 6 de junho de 1914, João Câmara chegou a Baixa-Verde, acompanhado do seu


irmão, Jerônimo, conhecido com Loló. Inicialmente, estabelece-se com uma pequena casa de
comércio, depois fundou plantações de algodão, trouxe outro irmão de nome Alexandre
(Xandu), para ajudar nos serviços, e com ele fundou a firma João Câmara e Irmãos, que pouco
tempo depois seria uma das maiores do estado, destacando-se no beneficiamento de algodão
produzido nos milhares de hectares de terras próprias ou adquiridos de terceiros.

Em 1928 João Câmara tornou-se o primeiro prefeito do recém criado município de


Baixa-Verde, que se tornara autônomo, em grande parte, graças ao seu empenho, tomando
posse às 13 horas do dia 1° de janeiro de 1929, no salão principal do grupo escolar Capitão
José da Penha. Antes, porém, havia sido Intendente em Taipu, empossado em 1° de fevereiro
de 1926. Com o advento da Revolução de 1930, João Câmara foi demitido, sendo nomeado
para o seu lugar o cidadão Ariamiro de Almeida. Usando da força política dos amigos, foi
novamente nomeado Prefeito em 06 de dezembro de 1930, exercendo o cargo até 28 de
novembro de 1932.

Depois de prefeito de Baixa-Verde, João Câmara exerceu o mandato de deputado


estadual por duas vezes, ambas na década de trinta e, finalmente, senador da república por
ocasião da redemocratização ocorrida após a segunda guerra mundial e a derrubada da
ditadura de Getúlio Vargas, em 1945. É certo que tomou posse no cargo de senador, porém
registre-se que não compareceu a nenhuma sessão por todo o tempo em que teve o mandato.
Foi um dos fundadores do Partido Social Democrático, o legendário PSD, chegando a exercer a
sua presidência regional. A morte alcançou-o às seis horas e trinta minutos do dia 12 de
dezembro de 1948, quando já havia sido escolhido governador, por consenso das maiores
lideranças políticas do estado.

Constitui, porém, ledo engano imaginar-se que o consenso em torno do político, João
Câmara, refletia a mesma opinião sobre o homem. Poucas pessoas, no seu tempo,
despertaram tantas paixões dos admiradores e tantos ódios dos que lhe eram adversários.

O apego excessivo aos negócios, quase uma obsessão, levou João Câmara a tomar
posse no cargo de senador da república, para o qual fora eleito em 19 de janeiro de 1947, -
com mandato de apenas quatro anos -, porém não exerceu seu cargo, não havendo registro de
nenhum projeto ou requerimento seu no senado federal. Não lhe interessava deixar seus
negócios, para ir ao Rio de Janeiro, exercer o mandato de senador. Com o seu falecimento em
12 de dezembro de 1948, , assumiu a vaga o suplente Kerginaldo Cavalcante de Albuquerque.

De nada valeu a luta insana por bens materiais. Poucos anos depois da sua morte,
dizem que por despreparo dos seus sucessores, o imenso patrimônio da firma João Câmara &
Irmãos foi adjudicado ao Banco do Brasil em pagamentos de débitos contraídos e não pagos.

Conta o monsenhor Luis Lucena, vigário de Baixa-Verde desde os idos de 1958, que,
por ocasião do sepultamento de João Câmara, quando o féretro se aproximava do cemitério
do Alecrim, já subindo a ladeira do Baldo, João Urbano de Araújo, comerciante em Baixa-Verde
e extremamente ligado à Igreja Católica, devoto de Nossa Senhora de Fátima, perguntou
preocupado ao monsenhor Vicente Freitas, então pároco daquela freguesia: e agora,
monsenhor Freitas, o que será de Baixa-Verde? Ao que o monsenhor respondeu: João, Baixa-
Verde nasceu hoje, porque infeliz é a terra em que só um homem manda!

João Câmara era casado com dona Maria Rodrigues da Câmara, uma santa senhora, que
lhe deu vinte filhos (segundo informa o escritor Câmara Cascudo), dos quais apenas cinco
sobreviveram (Edson, Wilson, Elza, Teresinha e Joãozinho). Esta senhora tida e havida por
todos que a conheceram, inclusive pelos mais ferrenhos adversários do seu marido, como uma
alma generosa, humilde, afável, conheceu os píncaros da gloria e as profundezas do ostracismo
e da pobreza. Depois de ter sido esposa de um dos homens mais ricos do estado, prefeito,
deputado e senador da república, residindo em uma mansão no bairro do Tirol, à avenida
Hermes da Fonseca, em frente a Escola Domestica de Natal, cercada de empregados e amigos,
viveu seus últimos dias na humilde rua Meira e Sá, bairro Vermelho, em Natal, morando em
uma casinha simples, de poucos cômodos e sobrevivendo graças a uma pensão especial que lhe
foi concedida pelo governo do estado.
GUMERCINDO SARAIVA, FOLCLORISTA E MUSICISTA

Gabriel Saraiva de Moura era um simples ferroviário, que acompanhava, juntamente


com a sua esposa, dona Maria Custódia Saraiva, os passos da rede ferroviária em construção.
Assim é que, por dias ou meses, residiram em Natal, Ceará-Mirim, Taipu, Itapassaroca, e
tantas outras estações improvisadas, muitas vezes dormindo em vagões estacionados, até que
com a inauguração da rede ferroviária em Baixa-Verde, ali resolveram sentar morada por um
tempo mais longo. Estávamos no ano de 1915 e foi por aqueles dias, mais precisamente num
02 de junho, que nasceu o pequeno Gumercindo. Sabe-se que Gumercindo viveu em Baixa-
Verde somente até os 15 anos de idade, porém não de maneira contínua, pois o pai, devido o
cargo que ocupava na rede ferroviária, era obrigado a acompanhar o prosseguimento da
estrada pelo sertão adentro. No entanto, tendo sempre Baixa-Verde como ponto de
referência, teve tempo suficiente para angariar um grande número de amigos e, mais que isso,
observar a cena baixa-verdense, registrada em livro escrito a meu pedido por ocasião do
cinqüentenário no município.

Na obra, intitulada “Cinqüenta Anos de Emancipação”, Gumercindo relata como eram


as brincadeiras de infância, os apelidos da época, os remédios caseiros, as figuras de destaque
na política, na jacente economia e na sociedade. Merece especial atenção o relato que faz de
“uma família de músicos - os Fernandes (Adelino Fernandes de Souza e Dona Maria Izabel
Lopes Fernandes”). E continua, mais adiante: “ presenciamos em nossa meninice uma família
feliz, onde o sr. Adelino Fernandes via nos filhos Sóter, Miguel, João Manuel, João Batista,
Alberto, Francisquinha e Milita, um aglomerado de músicos alegrando seu lar, com violino,
trompete, violão, cavaquinho, bandolim e órgão, com vozes maviosas, deleitando uma
sociedade sem condições de aproveita-los”.

Mas, voltemos a Gumercindo. Homem feito, passou a residir em Natal, casando-se


em 27 de janeiro de 1940 com dona Wilhermin Oliveira Saraiva, com quem teve quatro filhos,
que lhe deram dez netos e treze bisnetos. A união durou 48 anos. Em Natal, Gumercindo
começou como balconista do escritório de Carlos Lamas na rua doutor Barata, montando
depois uma pequena loja de instrumentos musicais na avenida Rio Branco, a Casa da Música,
inaugurada na década de 40. Foi musicista, folclorista, glosador, pesquisador, poeta e escritor,
membro da Academia Norte-rio-grandense de Letras, dos Institutos Históricos e Geográficos
dos estados do Rio Grande do Norte, Pará e Ceará, da Academia Brasileira de História, da
União Brasileira de Escritores e da Associação Norte-rio-grandense de Letras.

Quando estava prestes a completar 73 anos de vida, Gumercindo foi fulminado por um
infarto do miocárdio, que o pegou traiçoeiramente na noite do dia 20 de maio de 1988, uma
sexta-feira, por volta das 23 horas. Naquele nefasto momento, fazia o que mais gostava: tocar
violino. A morte o pegou em plena ribalta, no Salão dos Grandes Atos da Fundação José
Augusto.

Numa justa homenagem àquele homem simples, comunicativo, que em vida foi
expoente das letras e da música, dignificando a cidade em que nasceu, foi aprovado,
recentemente, pela Câmara Municipal de João Câmara, um projeto de lei de autoria do
vereador Luiz Gameleira do Rego, que tive a honra de redigir, instituindo o dia 02 de junho,
data do seu nascimento, como o Dia da Cultura local. Foi-se o homem, fica a fama.
A SAGA DE JOÃO MARIA FURTADO

João Maria Furtado, filho de João Batista Furtado e Dorotéia Justino de Oliveira, que
depois do casamento passou a chamar-se Dorotéia Furtado, nasceu na pequena localidade de
Baixa-Verde, atual Assunção, quando esta comunidade ainda pertencia ao município de Taipu.
Transcorria o ano de 1903.

A história de João Maria é algo que merece registro. Ainda muito moço, casou-se com
Jacyra Brandão Furtado, nascida em Salvador/Bahia, em 04/09/1912, com quem conviveu na
mais perfeita harmonia durante 60 anos ininterruptos. Da união nasceram três filhos: Roberto,
Dora e Harilda, havendo sido o primeiro, deputado estadual, vice-prefeito de Natal, advogado
e Presidente da seção estadual da OAB, além de haver exercido diversas outras funções de
destaque, desempenhadas sempre com brilhantismo.

João Maria Furtado tornou-se o primeiro filho de Baixa-Verde a formar-se em direito,


sendo logo designado juiz distrital da vila, por ocasião da instalação do novo município em 1º
de janeiro de 1929. Logo a seguir, com a criação da comarca, foi o primeiro juiz titular,
havendo sido removido da comarca de Assu, para assumir, em 19 de junho de 1935, as
funções de magistrado em sua terra natal.

Pouco tempo estava no exercício das suas funções, quando veio a Intentona
Comunista de novembro de 1935, na qual foi envolvido, gratuitamente, por ser desafeto de
João Severiano da Câmara, que o acusou de colaborar com os revoltosos. Apesar de provar
que se encontrava veraneando na praia de Cajueiros, com seus familiares, foi preso e
processado, sendo transferido para uma cadeia em Natal, onde ficou por 55 dias, sendo solto
graças a uma ordem de Habeas Corpus.

Mesmo assim, foi afastado das suas funções de magistrado, o que o obrigou a ficar na
praia da redinha, em Natal, aguardando o resultado do julgamento do processo que contra si
tramitava.

Informado que uma nova ordem de prisão, tão arbitrária quanto a primeira, estava em
vias de se concretizar, passou a dormir no mato, mais precisamente numa colina, donde via os
movimentos nas proximidades da sua casa. Foi ali, na solidão, que recebeu a informação de
que deveria fugir ou seria preso imediatamente pois o cerco já se fechara.

Como fugitivo sem culpa, João Maria caminhou noite a dentro, a pé, até Ceará-Mirim,
ficando alojado na Usina São Francisco. De lá, após alguns dias de repouso, com cavalos
emprestados, ao lado do companheiro de infortúnio, José Aguinaldo, rumou para a Barra do
Maxaranguape e dali em um bote a velas partiu para o Ceará. Antes, porém, foi obrigado a
fazer uma leve parada para reabastecimento na praia de Caiçara, ainda no Rio Grande do
Norte. No terceiro dia de viagem, já com os nomes trocados para não serem descobertos, os
dois fugitivos desembarcaram em praias cearenses. O bote que os conduzia foi liberado e a
viagem continuou a pé até a cidade de Aracati, de onde partiram, de ônibus, com destino a
Fortaleza. Continuando a fuga, verdadeira saga, passaram a viver em fazendas de gado,
situadas nas proximidades da cidade de Mamanguape.
Receoso de ser descoberto, e já sem o amigo que fora preso ao tentar retornar a
Fortaleza, João Maria recomeçou sua odisséia, partindo depois de alguns meses, para o sertão
paraibano. Seu objetivo era Catolé do Rocha. No caminho, passou de passagem por Russas,
interior do Ceará, e Pau dos Ferros, no alto oeste do Rio Grande do Norte.

Em Catolé do Rocha, ficou como protegido na fazenda Olho Dágua, de propriedade da


família Maia. Por esse tempo, fez amizades com Sérgio Maia e João Agripino, que depois veio a
ser governador da Paraíba, deputado federal, senador e ministro do Tribunal de Contas da
União. O único governador que ousou desafiar o Marechal Castelo Branco ao desobedecer a
ordem de fechar as casas de jogo-do-bicho existentes na Paraíba.

Visitando Campina Grande, onde morava um seu cunhado, veio ao seu encontro a sua
esposa, Jacyra, depois de meses de abrupta e sofrida separação. Ainda na cidade de Campina
Grande, tomou conhecimento, através de um telegrama do deputado Café Filho, que o
Tribunal de Segurança Nacional, por decisão unânime, o excluíra da denúncia.

Reassumiu suas funções de juiz de direito em Baixa-Verde no dia 04 de maio de 1937,


uma sexta-feira, após pouco mais de um ano e cinco meses de afastamento, ficando na
comarca até abril de 1946, quando foi removido para a 5ª vara da capital.

Em 10 de fevereiro de 1954 tomou posse como desembargador no Tribunal de Justiça


do Estado, havendo ascendido à presidência daquela corte em 10 de dezembro de 1958. Foi,
também, Juiz do Tribunal Regional Eleitoral.

João Maria Furtado foi o ícone das letras jurídicas dentre os filhos de Baixa-Verde,
porém as suas posições contestatórias e desafiadoras em relação ao Senador João Câmara, lhe
valeram o mais completo ostracismo na terra que lhe serviu de berço. Somente em minha
administração à frente do executivo municipal (1977/1983) veio o resgate tão merecido:
construímos uma escola na localidade que lhe serviu de berço (Assunção) e instalamos um
Fórum Municipal, dando a ambos o nome de “Desembargador João Maria Furtado”.

João Maria Furtado faleceu em Natal, no dia 04 de fevereiro de 1996, aos 93 anos de
idade, sete anos após o passamento da sua amantíssima esposa, Jacyra (16/02/1989). Um
grande homem e uma grande mulher!
FRANCISCO BITTENCOURT, UM EXEMPLO

Francisco de Assis Bittencourt, um dos cinco filhos do casal Brasiliano Soares


Bittencourt e Maria Ernestina Bittencourt, nasceu em Ceará-Mirim, no dia 18 de julho de 1902.
Ainda criança, perdeu o pai e foi aconselhado pela mãe a ir para Baixa-Verde, onde se
encontrava o seu padrinho, o comerciante Fortunato Guedes, que de certo lhe daria acolhida,
como era costume os padrinhos fazerem naqueles tempos.

Chegando em Baixa-Verde, ainda na década de 20, trabalhou inicialmente com o


padrinho, mas logo depois foi convidado para trabalhar na firma João Câmara e Irmãos, que,
posteriormente, passou a denominar-se João Câmara, Indústria e Comércio S/A. Demonstrou
tal entusiasmo, zelo e dedicação à sua atividade, que não tardou alçar postos mais elevados na
hierarquia da empresa, chegando a gerente da loja, que ficava situada na praça central da
cidade.

Bittencourt foi um autodidata, não teve oportunidade de cursar sequer o antigo curso
primário, já que os afazeres diários tomavam todo o seu tempo e à noite não havia nenhum
curso à sua disposição. Para não ficar isolado do mundo e do conhecimento, estudava sozinho
nas caladas da noite, à luz de lamparina ou candeeiros. Conta o seu filho, Dr. José Bittencourt,
uma das figuraras mais estimadas de Natal, que o seu gosto refinado conduzia-o a ler obras de
Machado de Assis, Monteiro Lobato, Humberto de Campos, Bernardo Guimarães, Eça de
Queiroz, Dostoievsky, Stendhal, Tolstoi, Flaubert e Balzac, as quais mantinha em sua biblioteca
particular. Tais obras, de todo aparentemente estranhas em um ambiente tão árido, foram
doadas pelos seus herdeiros à biblioteca do Baixa-Verde Futebol Clube, após a sua morte,
ocorrida em Natal no dia 29 de setembro de 1979.

Destacando-se na sociedade local, como um jovem amável, de fino trato e elegante,


participou ativamente da vida social, havendo sido um dos sócios fundadores do Baixa-Verde
Futebol Clube, de quem exerceu a presidência por vários anos.

Outra paixão, foi o futebol. Acompanhava as delegações esportivas que se deslocavam


para as cidades vizinhas e até para Natal, no tempo em que o B.V.F.C. disputou o campeonato
estadual. Como Prefeito do município, fazia questão de recepcionar a delegação visitante,
oferecendo almoço, jantar e baile à noite, após o embate esportivo. Comparecia aos jogos,
mas torcia sempre de forma discreta, tal como era o seu jeito de ser, para não ser deselegante
com os membros da comitiva visitante.

Na vida pública, foi Prefeito de Baixa-Verde por quatro vezes: as duas primeiras por
nomeação e curto prazo, nos meados da década de quarenta. Era o tempo das interventorias,
que nomeavam e exoneravam os prefeitos municipais ao seu bel prazer. Depois, com a
redemocratização do Brasil e as eleições diretas de 1946, já com a constituição federal
democrática, Bittencourt elegeu-se pelo voto direto dos seus concidadãos por duas vezes,
exercendo os mandatos de 9 de abril de 1948 a 31 de março de 1953, tendo como vice-
Prefeito João Rabelo Torres e de 31 de março de 1958 a 31 de março de 1963, tendo como
vice-prefeito José Severiano da Câmara.

As marcas principais das administrações de Chico Bittencourt, ou simplesmente “seu”


Chico, como era mais conhecido, foram a honestidade, a simplicidade e a leveza. Por maior
que fossem os problemas que lhe chegassem, sempre procurava resolvê-los na base do
diálogo e do conselho, deixando para exercer a sua autoridade somente quando todos os
recursos persuasórios estavam esgotados. Lembro bem da sua figura, elegantemente vestido
com ternos cinzas ou brancos, quase sempre sem gravata por causa do calor sufocante, saindo
de casa para a Prefeitura nos horários de expediente como se fosse um simples servidor.
Morávamos na mesma rua Cap. José da Penha.

Apesar de ser uma liderança umbelicalmente ligada a Baixa-Verde, Bittencourt ousou


alçar outros vôos, chegando à Assembléia Legislativa nas eleições realizadas em 03 de outubro
de 1954, com expressiva votação. Na mesma eleição foi eleito Joaquim Câmara, filho de
Xandu, passando assim o município de Baixa-Verde a ter dois deputados estaduais durante
aquela legislatura, fato até hoje inédito. Em 1962, Bittencourt tentou novamente voltar ao
legislativo estadual, mas não teve êxito ficando numa honrosa suplência.

Bittencourt era casado com a senhora Elisa Henriques Bittencourt, que lhe deu seis
filhos: Paulo (médico, ex-diretor da Casa de Saúde São Lucas); José (engenheiro civil, professor
aposentado da UFRN e um dos proprietários do Colégio Dinâmico, casado com a senhora
Ivanilda Miranda); Maria Antonieta (membro da Academia Feminina de Letras do RN, casada
com o médico Vicente Dutra); Maria da Paz (casada com o funcionário público federal
aposentado Zenon de Souza Leite); Francisco (médico, casado com Zezinha Ferreira) e
Margarida (viúva do médico, pesquisador da UFRN e pintor Leopoldo Nelson).

Os avós de Bittencourt, como o próprio nome indica, eram franceses que emigraram
para o Brasil ainda na época do Império, radicando-se no Nordeste.
MONSENHOR LUIZ LUCENA: O GRANDE BENFEITOR

Luiz Lucena Dias nasceu na pequena cidade de Pirpirituba, no vizinho estado da


Paraíba, em 05 de junho de 1927, filho de Eustáquio Dias Fernandes e Noêmia Lucena Dias. O
casal teve oito filhos, sendo cinco homens e três mulheres. Em 1935, os pais do atual
Monsenhor Lucena resolveram deixar o torrão amado e vieram morar em Natal.

Chegando à capital, o pequeno Luiz foi matriculado no Grupo Escolar Izabel Gondim,
situado nos limites do bairro da Ribeira com as Rocas, onde concluiu o curso primário. Dando
seqüência aos estudos, e já encaminhado na via sacerdotal, cursou o ginasial e o colegial no
seminário de São Pedro. Em seguida, deslocou-se para o seminário da Prainha, em Fortaleza,
onde cursou Filosofia e Teologia, ordenando-se padre a 08 de fevereiro de 1955. Sua formação
intelectual foi concluída com os cursos de Licenciatura Curta em Letras pela UFRN, Licenciatura
em Filosofia, pela PUC de Recife e Estágio em Sagrada Escritura, pelo Centro Bíblico de
Jerusalém. Em 13 de outubro de 1979 recebeu o título de Monsenhor.

Logo após a ordenação, exerceu as funções de Coadjutor de Ceará-Mirim, de


dezembro de 1955 a janeiro de 1956, quando foi designado vigário paroquial de São Rafael,
onde ficou até junho de 1957. Naquele ano foi designado para a paróquia de Taipu e Touros,
donde só saiu em julho de 1959, quando já estava exercendo cumulativamente a paróquia de
João Câmara. Sua chegada a João Câmara ocorreu em 13 de fevereiro de 1958, mas sua
nomeação como pároco somente efetivou-se no dia 13 de junho do mesmo ano.

Embora tenha um vasto trabalho no campo religioso, tendo fundado diversas


pastorais (catequética, da juventude, sacramental, da criança, do dízimo e vocacional), o
Monsenhor Lucena não se limitou às atividades eclesiásticas. Verificando que a cidade não
contava com um curso ginasial, o que obrigava os alunos que desejavam continuar os estudos
a se transferirem para Natal – sorte de uns poucos cujos pais tinham mais condição financeira -
, idealizou e implantou a Escola Comercial de João Câmara, oficialmente criada pela Lei
Municipal nº 01, do ano de 1959. Não havendo prédio próprio onde pudesse funcionar, a
recém criada escola passou a funcionar nas instalações do Grupo Escolar Capitão José da
Penha, que, apesar de ter apenas três salas de aula, ainda havia turnos em que ficava ocioso. O
passo seguinte, foi a construção de um prédio próprio, construído em um terreno doado pela
D. Maria Câmara, viúva de João Câmara, em plena praça Monsenhor Freitas, próximo à Igreja
Matriz. Para a construção do prédio o Monsenhor Lucena contou com a participação de toda a
comunidade baixa-verdense, principalmente, através de seguidos leilões onde não faltavam
objetos e animais (garrotes, carneiros e galinhas) doados pela população para serem vendidos
e a renda revertida em benefício do bem tão desejado.

A obra durou mais de dez anos para ser concluída, mas logo em junho de 1961, mesmo
sem ter as condições ideais de funcionamento, passou a abrigar a Escola Comercial, logo
depois transformada em Ginásio João XXIII. O passo seguinte foi a implantação do segundo
grau, o que ocorreu no ano de 1975, passando o ginásio a ter a denominação de Colégio. A
partir daí, jovens nascidos de famílias pobres puderam tornar realidade o sonho de sair de
João Câmara diretamente para uma universidade, como de fato ocorreu com dezenas deles,
hoje médicos, advogados, engenheiros, pedagogos.

Além de diretor do estabelecimento de ensino que criara, o Monsenhor Lucena


sempre acumulou as funções de professor, especialista em português (gramática e literatura) e
francês, destacadamente.

Relevante também foi a construção da Maternidade que, anos depois, passou a ter o
nome da sua mãe, Noêmia Lucena, preenchendo uma grande lacuna que havia na cidade. Esta
maternidade foi construída nos aposentos da antiga Casa Paroquial, cedendo o pároco o seu
conforto em benefício dos mais pobres.

Em 15 de janeiro de 2006, após 50 anos de ordenação, o Monsenhor Luiz Lucena Dias,


aos 78 anos de idade, renunciou a administração da paróquia de Nossa Senhora Mãe dos
Homens, recebendo, a partir daquela data, o título de Pároco Emérito, sendo substituído de
imediato pelo padre Edvan Araújo de Lucena, um seridoense nascido em São João do Sabugí,
ordenado em 04 de agosto de 2004.

Além de continuar exercendo as funções de Padre, o Monsenhor Lucena dedicou-se às


suas leituras diárias, ao cultivo de árvores frutíferas e aos animais de estimação que criava no
seu sítio no Matão.

O monsenhor Luiz Lucena Dias faleceu em 29 de dezembro de 2017 e seu corpo está
sepultado na Igreja Matriz da cidade de João Câmara.
BREVE HISTÓRIA DA ESCOLA CAPITÃO JOSÉ DA PENHA

A Escola Estadual Capitão José da Penha é a mais antiga instituição de ensino de Baixa-
Verde. Sua trajetória começa como simples escola rudimentar, dirigida pela professora Maria
Henriques Maia, logo elevada à condição de Grupo Escolar pelo Decreto nº 350, de 15 de
outubro de 1927, devido à necessidade crescente de atendimento às dezenas de jovens que
acorriam à procura dos seus préstimos. A jacente Baixa-Verde, vivendo o esplendor dos
primeiros anos, fervilhava de gente chegando em busca do eldorado potiguar. Surgiu daí a
necessidade de construção de um prédio moderno e amplo, para os padrões da época, que
pudesse abrigar em seu seio toda aquela gama de jovens ansiosos por ter acesso ao
conhecimento. Assim é que as autoridades da época reivindicaram e conseguiram junto ao
presidente do estado, Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros a construção do prédio onde
ainda hoje funciona, com algumas modificações, a tradicional escola. A inauguração deu-se a
26 de dezembro de 1927, pelas dezesseis horas e contou com a presença de dezenas de
autoridades e populares. A ata de fundação registra a presença, dentre outras, das seguintes
pessoas: Dr. José Augusto Bezerra de Medeiros, João Câmara, João Gomes da Costa, Paulo
Viveiros, José Gomes da Costa, Alexandre Rodrigues da Câmara, Miguel Monteiro, Pedro
Gomes Baião, Elisa Henriques Bittencourt, Francisco Teixeira Sobrinho, Joaquim Soares de
Miranda, João Ignácio Filho, Barnabé Justino de Souza, José Martins de Sá Benevides, Joaquim
de Castro e Silva, Severino Benfica, Sinval Lima e Fausto Lima, Francisco de Assis Bittencourt,
Antônio Justino de Souza, Áurea Varela de França e Genésio de Oliveira.

Ao longo de sua trajetória de mais de noventa anos, dezenas de pessoas passaram pela
sua direção, com destaque para o professor Sebastião Diniz Henriques, o primeiro diretor,
seguido pelas professoras Adélia Soares Teixeira, Adélia Brandão, Maria Guimarães e Leonor
Maciel do Amaral. Nos últimos cinqüenta anos, assumiram a direção do estabelecimento as
pessoas de Salete Ferreira, Sônia Varela, Joana D`arc Rocha da Câmara, Gino Miranda Santos,
Aldo Torquato da Silva, Dilma Leonardo, Lygia Torquato, Marta Geruza, Professor Quirino e
outros.

Quanto aos alunos, revolvendo os arquivos da velha instituição, encontramos os


nomes de Dagmar Varela e Antônio Simplício (Tota), ainda no tempo da Escola Rudimentar
(1926/1927) e, a partir da inauguração até o ano de 1942, registramos as presenças dos irmãos
Wilson, Wanda e Engrácia Varela, Geralda Ataliba, Joaquim Câmara, Palmira Bezerra, Durval
Justino de Souza, Geraldo Teixeira (Torquato) e Manoel Teixeira (Torquato), José Bittencourt,
Francisco Freire de Melo, Floriano de Sá Benevides, Terezinha Ferreira, Ivone Teixeira
(Torquato), os irmãos Guaraci, Iramar e Itamar do Lago Moura, João França, Severo Alves da
Câmara, João Batista Ataliba, Maria da Paz Bittencourt, Maria Djanira Benfica (Liquinha),
Terezinha Câmara. Sônia Varela e Maria Antonieta Bittencourt.

De minha parte, estudei no José da Penha nos anos de 1958 a 1961, onde fiz o
primário. Minha primeira professora foi Pretinha. Depois, vieram Elma Gouveia e
Raimundinha. Dos meus contemporâneos, lembro apenas de alguns: Esteferson Vieira Lopes
(Gôda), Francisquinho Doutor, Jacyra Celestino (hoje viúva de João Batista Ataliba), e Virgínia,
filha de Miguel França, que dividia a carteira comigo na segunda série.
A partir do ano de 1943, funcionou provisoriamente no mesmo prédio, a Escola Darcy
Vargas, mantida pela Legião Brasileira de Assistência – LBA, entidade assistencialista, criada e
dirigida pela esposa do presidente da república, Getúlio Vargas. Ao que nos é dado conhecer,
poucos anos durou a Escola Darcy Vargas, certamente perdendo-se no tempo com a derrocada
da ditadura e a volta à democracia ao final da segunda guerra mundial (1945).

Durante o período que vai de setembro de 1959 a 1961, o prédio da Escola Capitão
José da Penha abrigou a Escola Comercial, atual Colégio João XXIII e durante os anos de 1976 e
1977 funcionou também como escola de 2º grau, depois transferida para a Escola Estadual
Antônio Gomes.

Foi no grupo escolar Capitão José da Penha que aconteceu a solenidade de instalação
do município de Baixa-Verde, com a posse dos intendentes e do Prefeito João Câmara, em 1º
de janeiro de 1929, além de inúmeras solenidades e muitas festas, inclusive carnavais.

O nome da escola é uma homenagem ao Capitão José da Penha Alves de Souza,


nascido em Angicos, no ano de 1875 e falecido no Ceará, no dia 22 de fevereiro de 1914.
Segundo registra a história, José da Penha foi assassinado por um jagunço que obedecia às
ordens do Padre Cícero Romão Batista, na famosa guerra contra as forças do governador
Franco Rabelo.
A PARÓQUIA DE NOSSA SENHORA MÃE DOS HOMENS

Inaugurada a estrada de ferro em Baixa-Verde, o que aconteceu em


12 de outubro de 1910, o engenheiro-chefe e sócio da empresa
encarregada da construção e exploração da ferrovia, Dr. Antonio Proença,
logo que chegou fixou-se na comunidade, construindo sua residência e,
por ser muito religioso, tratou de mandar rezar missas em um vagão de
trem, estacionado no local com a finalidade de servir de estação
provisória. Logo depois, no ano de 1915, com ajuda de poucas pessoas da
comunidade (diz-se que somente Alfredo Edeltrudes de Souza, que residia
na antiga Baixa-Verde, atualmente conhecida como Assunção, deu sua
contribuição), à frente a senhora Malvina Proença, sua esposa, deu-se a
construção da capela de Nossa Senhora Mãe dos Homens.

A inusitada invocação – Mãe dos Homens -, fora trazida por Antônio


Proença e sua espoca do santuário do Caraça, no estado de Minas Gerais,
onde Antônio Proença e seus irmãos João e Lucas foram internados, logo
que o seu pai falecera. No Caraça a paróquia tinha tal denominação,
sendo, com a de Baixa-Verde, certamente uma das poucas no Brasil com
este nome. Demonstrando viva religiosidade, o casal ofertou também uma
imagem de Nossa Senhora, que foi colocada no altar da capelinha e hoje
se encontra na casa Paroquial.

Aos 13 de novembro de 1929 foi criada a paróquia Nossa Senhora


Mãe dos Homens, que se estendia até a praia de Caiçara do Norte,
englobando também os distritos de São Bento do Norte, Parazinho, Pedra
Grande e Barreto, atual Bento Fernandes, que ainda não eram cidades.

No dia 22 de setembro daquele ano, chegou a Baixa-Verde o seu


primeiro vigário, o padre Celso Cicco, que tomou posse dois dias depois.
Uma das suas primeiras providências foi reunir a comunidade e propor a
conjugação de esforços visando a construção de uma igreja matriz. Varias
reuniões foram realizadas. Os primeiros passos foram dados, mas o
projeto não teve como se materializar ainda sob o comando do padre
Celso Cicco. Em 9 de julho de 1930 o vigário deixou a paróquia. Enquanto
o substituto não tomava posse, assumiu provisoriamente o Pe. Francisco
Mário Correia de Aquino, que ficou no cargo por apenas 40 dias, de 4 de
agosto a 14 de setembro daquele ano, deixando o cargo para o padre Luis
Teixeira de Araújo, que, que por sua vez, exerceu as funções até 31 de
dezembro 1931. A seguir, assumiu a paróquia o Pe. Antonio Avelino, que
tomou posse em 31 de janeiro de 1932 e permaneceu no cargo até 27 de
junho de 1933, entregando ao Pe. Antonio de Melo Chacon. Pe. Chacon,
como era conhecido, ficou na paróquia até 4 de outubro de 1934. Durante
a sua permanência, foi comprado um sino para a capela, sendo devolvido
o sino permanente à capela de Assunção e que havia sido emprestado
pelos moradores daquela comunidade.

Com a saída do Pe Chacon, tomou posse o Pe. Misael Justiniano de


Carvalho, que, velho e doente, ficou pouco tempo na paróquia e quase
nada pode realizar. Em 9 de agosto de 1936 assumiu o Padre Vicente de
Freitas, que anos depois recebeu o título de monsenhor. O monsenhor
Freitas, que hoje dá nome à praça que fica defronte a igreja matriz,
permaneceu no cargo por quase 22 anos. Durante a sua gestão, vários
fatos que merecem destaque ocorreram, tais como: em novembro de
1937, frei Damião pregou suas primeiras missões na paróquia; no dia 28
de fevereiro de 1938 iniciaram-se os alicerces da igreja matriz, que
mediam 14 metros de largura por 37 de comprimento; depois de 10 anos
de construção, foi inaugurada em 1948 a igreja matriz, embora ainda não
totalmente concluída, mas já em condições de receber a nova imagem,
doada pelo agro-pecuarista Orlando Alves da Rocha e sua esposa, Dona
Liquinha. A bênção da nova imagem ocorreu no dia 16 de outubro de
1949. No mesmo dia, foram introduzidos e benzidos o novo sacrário e o
ostensório, doados pelo empresário Jerônimo Câmara (Loló) e sua esposa
Maria Natália Alves da Câmara. A via sacra, que ainda hoje se encontra
exposta nas paredes internas da igreja, foi ofertada pelo então prefeito
Francisco Bittencourt e sua esposa Elisa, que também doaram os vitrais
em outra oportunidade; o piso de mosaico foi doado por João Câmara e
sua esposa Maria; no ano de 1952, foram levantadas as torres da igreja,
estas com vinte metros de altura, obra que teve muito da ação
perseverante do comerciante e religioso, devoto de Nossa Senhora de
Fátima, João Urbano de Araújo; a 13 de junho de 1958, o monsenhor
Vicente Freitas, enfrentando graves problemas de saúde, foi substituído
pelo Pe. Luiz Lucena Dias.

A paróquia de Nossa Senhora Mãe dos Homens ganhou novo


impulso com a chegada do então jovem padre Luiz Lucena Dias. Em um
primeiro momento, após a seca do ano de 1958, foi construída uma
cisterna, com capacidade para 168 mil litros de água, cuja água era
recolhida do telhado da igreja e armazenada para atender às necessidades
da sede da paróquia, bem como saciar a sede de eventuais populares.
Esta obra teve grande significado para a época, visto que não havia água
encanada na cidade e as pessoas se abasteciam de água poluída dos
pequenos açudes e cacimbas. A Igreja Matriz, depois de mais de vinte
anos, foi, finalmente, concluída, com a construção do reboco externo
(1958), e do forro, no ano de 1961. A paróquia também demonstrou sua
preocupação com a educação dos jovens, criando uma escola,
inicialmente denominada Escola Comercial, depois transformada em
Ginásio. Para atender às demandas sociais foram criados o Instituto
Paroquial Monsenhor Freitas e o Centro Social Nossa Senhora Mãe dos
Homens.

Em momento posterior, no ano de 1969, sempre sob a batuta do


padre Lucena, foi criada a APAMI – Associação de Proteção e Assistência à
Maternidade e à Infância, mantenedora da Maternidade Noêmia Lucena,
instalada na Casa Paroquial, cedida pelo padre Lucena para tal atividade,
passando o mesmo a residir na parte superior do prédio onde hoje
funciona o Colégio Objetivo. A Maternidade Noêmia Lucena, nome que
recebeu em homenagem à genitora do seu fundador, prestou relevantes e
inestimáveis serviços à comunidade, não apenas de João Câmara, mas de
grande parte da região do Mato Grande. Lamentavelmente, por falta de
apoio das autoridades locais, encerrou suas portas.

Uma das atitudes dignas de registro da parte do Monsenhor Lucena,


foi a abolição de “bancos” particulares na Igreja Matriz, onde só podiam
sentar-se as famílias “proprietárias”. Tais bancos tinham uma placa na
parte superior, onde se lia o nome da família a qual pertencia e nenhum
estranho podia neles sentar, salvo se autorizado ou se, com o decorrer da
missa, os donos não aparecessem. Enquanto tal não acontecia, os pobres
ficavam em pé, mesmo havendo lugares vazios. Era uma situação
discriminatória, não condizente com a pregação dos primados da Igreja
Católica, felizmente abolida em boa hora.

Anualmente, a paróquia promove, nos primeiros dias do mês de


dezembro, a festa da padroeira, comemorada no dia 08 de dezembro,
com atividades religiosas e festivas.

Um fato marcante foi a aposentadoria do Monsenhor Lucena,


ocorrida em 15 de janeiro de 2006, depois de quase 48 anos de trabalho
eficiente e dedicado, sendo substituído pelo padre Edvan Araújo de
Lucena, que não era seu parente. O padre Edvan foi sucedido pelo padre
Fábio Pinheiro. Atualmente, o pároco é o padre Josino Raimundo da Silva.

Em 29 de dezembro de 2017, o Monsenhor Luiz Lucena Dias faleceu.


Seu corpo está sepultado na Igreja Matriz da cidade de João Câmara.

Este ano, em 13 de novembro, a Paróquia de Nossa Senhora Mãe


dos Homens completa 90 anos.
A INTENTONA COMUNISTA EM BAIXA-VERDE

O movimento comunista de 1935 foi deflagrado em Natal no dia 23 de novembro,


sábado, surpreendendo o então governador Rafael Fernandes, que se encontrava participando
de uma solenidade no Teatro Carlos Gomes, hoje Alberto Maranhão, que se refugiou em um
navio, que se encontrava ancorado no porto de Natal. As autoridades que não puderam
refugiar-se em lugar seguro, foram presas. João Severiano da Câmara, à época já proeminente
industrial e político, salvou-se porque procurou abrigo em um sótão na cidade de Macaíba,
segundo nos informa João Maria Furtado em sua obra “Vertentes”.

Depois de se instalarem em Natal, os revoltosos adentraram ao interior do estado em


várias colunas. Uma delas, comandada por Benilde Dantas, dirigiu-se para Baixa-Verde,
chegando à cidade na manhã do domingo, 24 de novembro. Desde as primeiras horas da
madrugada que as forças locais, composta por aproximadamente vinte civis, armados com
rifles papo-amarelo, cedidos pela firma João Câmara e por populares, e alguns militares do
destacamento local, estes com fuzis, estavam esperando os comunistas, atocaiados nas
proximidades do Moinho Velho, atualmente rua 29 de outubro, entrada da cidade no sentido
de quem vem de Natal. O aviso havia sido dado pelo chefe da estação ferroviária, Joaquim
Miranda, que recebera a informação pelo telégrafo, e fora providencial, pois permitira a
organização da reação. No entanto, as forças locais logo perceberam que não dispunham de
homens e armas em condições de enfrentar os comunistas. Houve um breve tiroteio, mas uma
rajada de metralhadora encerrou o combate. Os destemidos cidadãos de Baixa-Verde, tendo à
frente o jovem Severino Benfica (Sissi), em flagrante inferioridade, se dispersaram.

Os comunistas entraram na cidade pela praça da matriz, que à época era apenas um
largo onde existia o campo de jogos do Baixa-Verde Futebol Clube. Dali seguiram pela rua
Padre João Maria, até alcançar a praça do mercado. Eram aproximadamente oitenta homens,
armados de fuzis e uma metralhadora, transportados em três caminhões. Chegando à praça do
mercado, a metralhadora foi instalada em frente à loja da firma de João Câmara, que teve as
portas destruídas por seguidas rajadas. Os revoltosos trataram de prender o delegado de
polícia, Antônio de Brito, e os soldados, tendo o cuidado, evidentemente, de desarmá-los. O
padre recebeu a recomendação de não deixar sua residência. O Prefeito Odilon Cabral de
Macedo não foi encontrado, pois afastara-se da cidade às pressas temendo ser preso.

Depois que as portas da loja de João Câmara foram destruídas, os comunistas


exortaram a população a levar tudo o que nela havia. Foi um corre-corre sem fim.
Aproximadamente duzentas pessoas, homens, mulheres e crianças se apoderaram de tudo
que podiam: tecidos, gêneros alimentícios, ferramentas agrícolas e utensílios domésticos. Em
minutos, a horda humana deixou o estabelecimento comercial totalmente vazio. A loja de
Pedro Baião também foi saqueada.

Àquela altura dos acontecimentos as pessoas ligadas a João Câmara já haviam deixado
a cidade. O prefeito Odilon Cabral de Macedo e Alexandre Câmara (Xandu), fugiram em
cavalos selados para a fazenda de Zezinho do Cravo, situada a aproximadamente doze
quilômetros da cidade, fazendo no percurso uma ligeira parada na fazenda Santa Rosa, de
Pedro Torquato. Loló Câmara, Costa Leitão e José Olímpio refugiaram-se na fazenda Boágua,
de propriedade de Apolônio Bilro.

Durante quase quatro dias, de 24 a 27 de novembro, os comunistas governaram Baixa-


Verde, tendo à frente um praça do 21BC de nome Manuel Alberto da Silva Filho, que se
apresentava sob o falso nome de Tenente Lins. Uma das primeiras providências tomadas pelo
Tenente Lins foi mandar buscar o juiz local, Dr. João Maria Furtado, que se encontrava
veraneando com a família na praia de Cajueiro, município de Touros. O Dr. João Maria
compareceu à presença do chefe dos revoltosos acompanhado do promotor da comarca, Dr.
José Siqueira de Medeiros, na manhã do dia 25 de novembro, uma segunda-feira, e após ser
advertido de que não deveria tomar atitudes contrárias ao movimento, foi liberado,
retornando a Cajueiro na noite do mesmo dia.

Na tarde do dia 27 de novembro, pelas quatro horas, meu pai, Abdon Torquato,
retornava da cidade, para onde tinha ido fazer compras a pedido de Dona Mariquinha, esposa
de Xandu, quando deu de cara com o inesperado: João Câmara ia a pé, fardado de capitão do
exército, armado de fuzil, à frente de mais de cento e cinqüenta soldados, esperando
surpreender os comunistas. O trem que os transportara havia ficado a uns dois quilômetros de
distância. Depois de um breve diálogo, em que João Câmara perguntou pelos irmãos e pelo
prefeito e recebeu as devidas informações, o grupo seguiu na direção da cidade. Antes, porém,
João Câmara perguntou pelos comunistas, tendo meu pai respondido que os mesmos haviam
destruído a sua loja, mas já tinham partido, pois haviam tomado conhecimento que o
movimento não prosperara. João Câmara entrou na cidade sem disparar um só tiro.

No dia seguinte, quinta-feira, 28 de novembro, o prefeito Odilon Cabral de Macedo


reassumiu suas funções. O movimento comunista chegara ao fim. Tudo parecia voltar à
normalidade, não fossem as perseguições políticas que se seguiram, como veremos em outra
oportunidade.
A SERRA DO TORREÃO

Situada no município de João Câmara, a 80 km da capital e pertencente à região do


Mato Grande, a serra do Torreão é a sentinela mais avançada do grande planalto da
Borborema, no sentido norte-oriental. É um iceberg solitário, com 145 metros de altura, de
fácil escalação, recoberto de vegetação hipoxerófila, onde predominam, inclusive, palmeiras
nativas chamadas de “coco-catolé” e cientificamente por siagrus coomosa, isoladas ou em
densos agrupamentos. Há, também, euforbiáceas e mimosáceas, bem como a presença de
exóticas, como a euphorbia tirucali, popularmente conhecida como “dedinho” ou “avelóz”,
que é utilizada localmente como cerca viva, com um látex terrivelmente cáustico que, segundo
populares, tem poderes medicinais contra afecções benignas e malignas da pele. Em seu cimo,
formado por uma calva granítica, conhecida como Pedra do Urubu, descortina-se uma
belíssima paisagem. No seu sopé, há uma capelinha dedicada a São Sebastião, santo festejado
efusivamente a 20 de janeiro pela população local que, após os atos litúrgicos, costuma subir a
serra até o seu cimo.

A vegetação da serra do Torreão é composta de duas formações de caatinga. Uma, é a


caatinga hipoxerófila com uma vegetação de clima semi-árido, que apresenta arbustos e
árvores com espinhos e de aspectos menos agressivos do que a caatinga hiperxerófila. Dentre
as espécies, destacam-se a catingueira, angico, braúna, juazeiro, marmeleiro, mandacaru e
aroeira. A outra formação é a caatinga hiperxerófila, que apresenta uma vegetação de caráter
mais seco, com abundância de cactáceas e plantas mais espalhadas e de porte mais baixo.
Dentre outras espécies destacam-se nesse ambiente a jurema preta, o faveleiro, o marmeleiro,
o xiquexique e o facheiro.

Os solos predominantes na serra do Torreão são os seguintes: areias quartzosas


distróficas com fertilidade natural baixa, textura arenosa, relevo plano, excessivamente
drenado; podzólico vermelho amarelo, equivalente eutrófico, com fertilidade natural alta,
textura média, relevo plano, moderada e imperfeitamente drenado, medianamente profundo;
cambissolo eutrófico, com fertilidade natural alta, textura média, relevo plano, medianamente
profundo.

As pesquisas realizadas pelo biólogo Adalberto Varela, da UFRN e coordenadas pelo


professor José Aldo Monteiro, do grupo GENV, um dos entusiastas com o estudo e preservação
da serra do Torreão, descobriram várias espécies desconhecidas na sua fauna rica de insetos
aracnídeos, lagartos, serpentes, moluscos terrestres, aves e mamíferos. Ao todo, foram
encontradas treze espécies de serpentes, mas a grande surpresa foi a descoberta de larvas de
formiga-leão, da família dos neurópteros e uma espécie rara de escorpião preto, até então
desconhecida da biologia, o Rhopalurus baixaverdensis que, por se tratar de uma espécie
nova, recebeu o nome em homenagem à cidade.

Outra espécie rara, conhecida vulgarmente como Lagarto Rex, de tamanho pouco
superior a uma lagartixa e menor que um Tejuaçu, também é encontrada no local ,e somente
nele, em toda a região do Mato Grande.
AS LENDAS QUE ENVOLVEM A SERRA DO TORREAO

Conta o professor Gino Miranda, nascido na localidade Corte, quase ao pé da serra do


Torreão, que, durante muitos e muitos anos, corria à boca pequena que, na década de vinte do
século passado, um certo Júlio dos Matias, dado a pitar um inseparável cachimbo - de onde
saíam abundantes baforadas -, mulato muito querido e conhecido em Baixa-Verde, por conta
das suas histórias fantasiosas, gostava muito de caçar na serra. Os amigos sempre o preveniam
dos riscos que corria, visto que uma onça habitava o lugar. Certo dia o mulato Júlio foi caçar e
não retornou à noite, como era de costume. Apreensivos, os amigos e familiares foram à sua
procura logo que raiou o dia e só encontraram os seus restos mortais graças a uma fumacinha
que saía do cume da serra, onde fica a chamada pedra do urubu. Tal fumaça foi entendida
como sendo um indicativo do local onde o corpo estava e teria saído, segundo os
supersticiosos, do cachimbo do velho. Assim nasceu a lenda do Torreão Cachimbando, que na
época servia para explicar o fenômeno meteorológico que ocorre nas serras em época de
grandes invernadas, em dias mais frios, principalmente nas primeiras horas do dia, quando o
cume da serra amanhecia todo envolvido por uma densa camada de nuvens, que se desfazia
logo que o sol começava a esquentar.

Muitas pessoas diziam também que os estrondos que davam em Baixa-Verde eram por
conta de uma cama de baleia que havia debaixo da serra. Segundo a crendice popular, o local,
muito antigamente, fora mar e um grande reservatório de água se escondia por sob a serra.
Nesse reservatório, morava uma baleia gigante que, quando se movia, provocava os
estrondos.
COMO A ÁGUA ENCANADA CHEGOU A JOÃO CÂMARA

Luiz da Câmara Cascudo diz em seu livro História de Um Homem, que quando o jovem
João Severiano da Câmara disse ao seu pai que iria para Baixa-Verde montar uma bodega, o
velho teria lhe dito: pra onde você vai, meu filho? Baixa-Verde não tem futuro, é um lugar
onde não tem nem água pra se beber!

O fato serve para demonstrar que esse sempre foi o principal problema de Baixa-
Verde, atual João Câmara. E, aliás, continua sendo!

Compreendendo essa realidade, sempre me dediquei ao assunto, desde os tempos em


que fui vereador pela primeira vez, nos idos de 1970, com apenas 19 anos de idade. Como
prefeito, não poderia ser diferente. Foi minha principal bandeira. E para isso, contei com o
apoio do então governador do estado, Lavoisier Maia Sobrinho, que assumiu o governo em
1979 e se comprometeu comigo em resolver o problema.

Passados já três anos do seu governo, embora fossem muitos os benefícios levados,
faltava a obra definitiva, imorredoura, ansiada por várias gerações de João Câmara, desde os
tempos em que a cidade ainda era chamada de Baixa-Verde. Todos os governadores haviam-
na prometido. Lavoisier, para não fugir à regra, também prometera desde o dia da sua posse,
quando sussurrei no seu ouvido bom: governador, não esqueça a água de João Câmara!
Pedido esse repetido em dezenas de outras oportunidades, até que faltando exatamente um
ano para as eleições de 1982, já impaciente, e de certa forma desgastado com as constantes
cobranças da parte de certos setores da sociedade local, que diziam que o governador estava
apenas me “enrolando”, tomei uma decisão corajosa: em plena praça Baixa-Verde, com o sol a
pino, em um dia de sábado, feira-livre a pleno vapor, quando entregávamos os títulos de posse
das fazendas anteriormente pertencentes ao senador João Câmara, fiz o seguinte desafio:
governador, o senhor já fez muito por João Câmara, porém a grande obra que este povo
precisa, obra que vem sendo reivindicada há muitos anos e prometida por todos os governos,
que não a fizeram, e que o senhor prometeu e até hoje não fez, não existe nem projeto
elaborado, é o abastecimento d’água. Conclui dizendo que só apoiaria o candidato do governo
se a obra prometida estivesse inaugurada até o dia 29 de outubro do ano 1982, data do 54º
aniversário de emancipação do município.Coloquei, como se diz popularmente, a faca nos
peitos de Lavô.

Sentindo o golpe, Lavô fez cara feia, torceu o beiço, mas prometeu no mesmo
instante, para delírio dos presentes, que no dia aprazado pelo prefeito a água seria inaugurada
em João Câmara. E assim foi feito, com a construção de uma adutora desde a fonte de Pureza,
a mais de 36 quilômetros de distância.

A partir daquele dia, projetos foram elaborados às pressas, a obra foi licitada e
iniciados os trabalhos poucos meses depois. Exatamente na data-limite por mim fixada em um
momento de desespero, em meio a grande concentração popular na praça Antônio Justino, a
água encanada chegou a todas as casas da cidade de João Câmara. Poço Branco e Taipu
também foram beneficiadas, sem que nenhuma liderança desses municípios tenha lutado por
tal benefício.

Em 29 de outubro de 1982 foi inaugurada a Adutora Pureza/João Câmara. Hoje, a luta


é por uma nova alternativa, a adutora vinda do Boqueirão, para atender à demanda cada vez
mais crescente e possibilitar o crescimento da cidade, com empregos para o povo.
OS ABALOS SÍSMICOS DE BAIXA-VERDE

A ocorrência de abalos sísmicos não se constitui uma exclusividade do município de


Baixa-Verde. Há registros históricos da presença desses fenômenos em várias outras regiões e
cidades do estado, como em Assu, Lages e Parazinho, por exemplo. A diferença, é que os
abalos de Baixa-Verde chamaram a atenção, inclusive da comunidade científica, pela
intensidade e recorrência dos fenômenos. Um verdadeiro enxame de tremores.

Os moradores mais antigos da cidade, muitas vezes relataram que abalos sísmicos
foram sentidos pela população nas décadas de trinta e quarenta do século passado. No ano de
1952, o fenômeno voltou com maior intensidade, chegando a deixar a cidade quase vazia, tal o
temor que se apoderou dos seus moradores. O pavor tomou conta da população, todos
temendo o fim do mundo, pedindo perdão a Deus e ao próximo pelos pecados cometidos.

Durante os anos sessenta e setenta, eu mesmo, tive a oportunidade de sentir diversos


abalos sísmicos, mas todos de pouca intensidade, que não chegaram a causar pânico entre os
moradores, apenas comentários mais pessimistas daqueles que imaginavam que por debaixo
da cidade corria um rio caudaloso, ou que um vulcão adormecido havia por baixo da serra do
Torreão e estava prestes a explodir. Tudo, simples teorias nascidas da mente fértil daquelas
pessoas inocentes e temerosas, que à falta de uma explicação científica, davam asas à
imaginação.

Nunca, porém, houve uma concentração de abalos sísmicos tão grande quanto no
período que vai de agosto de 1986 a março do ano seguinte, quando chegaram a ocorrer mais
de 200 abalos em determinados dias. Segundo o Boletim Informativo nº 12, do Departamento
de Física da UFRN, assinado pelo professor Mário Takeya, naquele período aconteceram 8.802
sismos, sem contar os ocorridos de 29 de novembro a 12 de dezembro, que na época estavam
sendo analisados pelas Universidades de Brasília – UNB, e São Paulo – USP, justamente por
envolver o espaço de tempo em que ocorreram os mais significativos abalos.

O ápice da sismicidade, em termos de magnitude, ocorreu na madrugada do dia 30 de


novembro de 1986 - um domingo -, atingindo o maior sismo a considerável marca de 5.1 na
escala Richter, propagando-se nas direções leste e sudeste, chegando a ser sentido fortemente
em Natal, João Pessoa e Recife, balançando prédios e provocando pânico entre as pessoas,
que até então não conheciam fenômeno igual. Uma festa rolava solta na ACDB, quando o
barulho do tremor sobrepujou o som da banda musical, trazendo correria e gritos histéricos
entre os presentes.

O fenômeno chamou a atenção da imprensa nacional, com cobertura diária da grande


imprensa, inclusive do Jornal Nacional, principal noticiário da Rede Globo de Televisão, bem
como de cientistas e políticos de diversos matizes. No local, estiveram o cientista inglês Robert
Pearce, da Universidade de Cardiff, que veio a convite da SUDENE e do Conselho Britânico, e
Marcelo Assumpção, da Universidade de Brasília. Ao longo dos anos seguintes, mais de 80 mil
sismos foram registrados pelos aparelhos instalados na região, atualmente desativados, em
virtude da falta de interesse da UFRN e demais autoridades competentes, em continuar
monitorando a área.

Com a repercussão em nível nacional, e até internacional, dos abalos sísmicos de


Baixa-Verde, o próprio Presidente da República, José Sarney, acompanhado do Ministro do
Interior, Ronaldo Costa Couto, do ministro Aluízio Alves e todo o seu séquito, visitou a cidade e
prometeu recursos para a recuperação dos prédios atingidos. A comitiva desceu de
helicóptero no campo de futebol, sendo recepcionada pelas autoridades locais, e, em seguida,
instalou-se no prédio do Colégio João XXIII, onde o presidente Sarney ouviu os apelos para que
recursos fossem liberados urgentemente, com o objetivo de atender aos desabrigados,
recuperar os prédios atingidos e as finanças dos comerciantes e agricultores. Ao sair do prédio,
no atual largo ao lado da igreja matriz, o presidente fez um breve discurso.

Nem um só prédio em toda a região dos sismos ficou imune aos seus efeitos. Todos
racharam, mas somente uma casa caiu, na localidade Samambaia, situada no município de
Poço Branco, onde ocorreu o epicentro do maior tremor. A igreja matriz também foi
danificada, com rachaduras nas torres e paredes, além do piso que ficou cheio de lombadas.
Em conseqüência da visita presidencial, centenas de casas de tijolos foram derrubadas e
substituídas por outras de taipa, que se acreditava mais seguras. Vários prédios públicos foram
recuperados. Outros foram construídos em lugar dos que haviam sido danificados.

Embora haja o receio da ocorrência de sismos em magnitude superiores ao já


ocorridos, a verdade é que a questão não preocupa tanto os cientistas, que afirmam que os
fenômenos ocorrem na intra-placa tectônica, ou seja, na parte interna da placa sobre a qual
está assentado o sub-continente sul-americano, não havendo possibilidade de terremotos de
grande magnitude, que só acontecem nas regiões onde as grandes placas tectônicas chocam-
se umas com as outras. O caso de Baixa-Verde é explicado como resultado de uma simples
fricção ocorrida na falha geológica, de aproximadamente 25 quilômetros de extensão, que se
inicia na localidade chamada de Lagoa Rachada, passando por Samambaia e Cravo, todas no
município de Poço Branco, atravessando o município de João Câmara, no sentido
Nordeste/Sudoeste, passando pelas localidades de Santana, Santa Cruz, Aroeira, Passagem dos
Caboclos e Várzea dos Domingos e, finalmente, chegando ao vizinho município de Bento
Fernandes, na região de Bandoleiro.

Por ocasião dos grandes abalos sísmicos, era prefeito do município o senhor José
Ribamar Leite, que teimou em ficar no lugar, mesmo diante das ameaças de possíveis tremores
maiores, de conseqüências imprevisíveis. O Monsenhor Luiz Lucena, pároco da cidade, foi
outro que não arredou pé, respondendo a quem perguntava que só deixaria Baixa-Verde
depois que o último habitante saísse. Por razões diferentes, é verdade, os dois permaneceram
no lugar.

No entanto, milhares de pessoas deixaram a cidade no mesmo dia dos primeiros


grandes tremores. Centenas delas instalaram-se num conjunto residencial denominado Cidade
Praia, em Natal, que ainda não estava inaugurado; outras centenas, foram para os demais
bairros da zona norte da capital e também para cidades como Ceará-Mirim, Parnamirim,
Macaíba e São José de Mipibu. Baixa-Verde ficou quase deserta. Dava muita tristeza ver as
ruas vazias de gente e de carro, como se fosse uma cidade fantasma. Muitos dos que partiram
naqueles dias de terror, jamais retornaram, preferindo plantar novas raízes em outras terras.

Somente depois de alguns anos, é que aquelas pessoas mais medrosas tiveram
coragem de retornar plenamente ao aconchego dos seus lares. Pouco a pouco a situação
voltou à normalidade, até que a fúria dos deuses que habitam o interior da terra novamente se
manifeste.
OS MENDONÇAS DO AMARELÃO:

ORIGENS, COSTUMES E TRADIÇÕES

Ninguém sabe ao certo quando os Mendonças chegaram ao local que hoje


habitam, nem mesmo a origem do nome do lugar. É voz corrente entre os poucos
historiadores que escreveram algo sobre os Mendonças que a povoação formou-se,
provavelmente, nos meados do século XIX, quando o Brasil ainda vivia o início do
governo imperial, portanto bem antes de Baixa-Verde ser fundada, o que só veio a
acontecer em 1910.
Câmara Cascudo, em História de um homem, primeira edição (1954), livro que
escreveu sobre João Severiano da Câmara, faz referência aos Mendonças, de quem diz que
“moravam há mais de um século em regime tribal, mestiços de tupis fugidos dos aldeamentos
que se tornaram vilas”. Em sendo assim, esta terá sido, muito provavelmente, a primeira
povoação em toda aquela região circunvizinha, bem antes mesmo que Cauassu e Assunção.

A professora Jussara Galhardo Aguirres Guerra, em magnífica dissertação apresentada


ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal de Pernambuco,
intitulada Mendonça do Amarelão: Os Caminhos e Descaminhos da Identidade Indígena no
Rio Grande do Norte (Recife – 2007), após quase sete anos de pesquisas (2000 a 2007) conclui
que os Mendonças são descendentes dos índios Tapuias, que habitavam a região de Araruna e
Bananeiras no brejo paraibano, deslocando-se em levas durante o período que vai de 1830 a
1870, buscando refúgio depois de terem sido perseguidos por grandes proprietários que
“compraram” as terras ao governo, as chamadas sesmarias. Em decorrência, diz a
pesquisadora, “muitos dos nativos evadiam-se para outros lugares mais seguros, formando
aglomerados ou quilombolas porque perderam suas terras. Outros iam sendo aprisionados
como escravos para servirem na lavoura das terras recém adquiridas”.

Certo é que milhares de anos antes da chegada dos Mendonças ao local, já existiam
habitantes por ali. Inscrições rupestres, existentes a aproximadamente três quilômetros do
povoado, denominadas simplesmente de “mãos de sangue” pelos nativos, denunciam a
existência de seres humanos muito antes da chegada do homem europeu em nosso
continente. Tratam-se tais inscrições rupestres de verdadeiras relíquias, que muito bem
podem ser aproveitadas para desenvolver a comunidade através da sua utilização como
atração turística, desde que se faça a mínima divulgação e construção de infra-estrutura
básica, como, por exemplo, estrada até as proximidades. As próprias inscrições rupestres
precisam ser protegidas, sob pena de correrem o risco de depredação.

Quanto ao topônimo, muitos atribuem que a sua denominação surgiu em função de


uma epidemia de malária, conhecida também como maleita ou impaludismo. A doença teria
assolado os habitantes da localidade, matando dezenas deles e deixando a população
circunstancialmente com a pele amarelada. Como eram centenas os habitantes do lugar
atacados pela doença, figurativamente as pessoas passaram a dizer que o lugar havia se
transformado num verdadeiro amarelão. Gumercindo Saraiva, escritor conterrâneo, em
trabalho realizado por minha encomenda como prefeito municipal, por ocasião do
cinqüentenário de fundação do município, chegou à conclusão, extraída de relatos que obteve
ainda quando criança, que o nome do lugar derivaria da cor naturalmente amarelada dos seus
habitantes.

No que diz respeito às atividades laborativas dos Mendonças, sabe-se que,


inicialmente, viviam quase que exclusivamente da caça e de pequenas lavouras de
subsistência, tais como: feijão, milho e mandioca. Posteriormente, quando as grandes
fazendas começaram a se instalar no Mato Grande, foram contratados em grupos de até
cem homens para fazer os desmatamentos.
Até a década de setenta do século passado, era altíssimo o grau de analfabetismo
entre os habitantes do Amarelão. Raros eram os que possuíam registro de nascimento,
título eleitoral e carteira de identidade. Embora tivessem, como ainda têm, como
característica o casamento entre primos, poucos procuravam o cartório ou a igreja para
selar a união. Viviam "amigados", unidos apenas pelo desejo de permanecer juntos e
constituir uma prole. Sem planejamento familiar, por falta de conhecimento e acesso às
técnicas anticonceptivas, e diante da ausência de políticas públicas, quase todas as
mulheres, ainda bastante jovens, tinham mais de dez filhos. Algumas chegavam aos
vinte. Muitas dessas crianças morriam no primeiro ano de vida, elevando a percentuais
africanos os índices de mortalidade infantil.
Atualmente, a realidade é bem diferente. Embora mantenham algumas das suas
tradições, como o casamento endogâmico, por exemplo, aderiram a hábitos modernos.
Possuem televisor, geladeira e liquidificador, graças à chegada da energia elétrica, e têm
acesso ao conhecimento, mesmo que de forma superficial, proporcionado pela
construção de uma escola e fixação no lugar da freira Terezinha Galles, que fez um
elogiável trabalho de conscientização para o exercício da cidadania, permitindo o
surgimento de atividades artesanais, que oportunizaram trabalho e renda para a
população, mesmo que de forma incipiente. A venda de castanha de caju, assada e
descascada, é, atualmente, a principal atividade econômica dos Mendonças do
Amarelão. Pesquisa recente demonstrou que o desemprego não é sequer citado como
uma das preocupações entre os Mendonças.
Da maior importância é ressaltar que no Amarelão foram identificadas e
devidamente fotografadas pela professora Jussara Galhardo, inúmeras inscrições
rupestres, as únicas do nosso município, que certamente datam de milhares de anos,
comprovando a existência de seres humanos na região em tempos imemoriais. Em
contato com moradores da comunidade tomei conhecimento que as mencionadas
inscrições são conhecidas pelos locais como mãos de sangue, o que se explica pelo fato
de serem vermelhas as inscrições e duas delas terem o formato de umas mãos abertas
impregnadas na rocha granítica.
Embora todos sejam chamados de Mendonças, na verdade poucos são assim
registrados. As famílias mais numerosas atendem pelos nomes de Eleodório, Tinga,
Barbosa, Nascimento, Justino, Caetano, Biano, Genézio e Batista, mas mantém os sinais
fisionômicos e lingüísticos inconfundíveis que as caracterizam: são morenos (quase
pretos), de estatura mediana para baixa e senhores de um falar próprio, meio aciganado,
quase um dialeto. É impossível não reconhecer um Mendonça logo ao primeiro contato.
Um fato chamou-me a atenção há poucos anos atrás. Por ocasião do falecimento
de um compadre, de nome João Felipe, residente do lugar e Mendonça da gema, pude
observar durante o cortejo fúnebre, que muitos dos acompanhantes portavam cachaça e
dela se serviam em goles sorvidos na própria boca da garrafa. Estavam bebendo o
morto, ritual que, para eles, significa despedida e apreço pelo falecido.
Recentemente, foi construída, com recursos do banco mundial, uma escola de ensino
fundamental no Amarelão, que é, sem dúvida alguma, a melhor de todo o município.
A INTERVENÇÃO EM JOÃO CÂMARA:

UM TRISTE EPISÓDIO

A intervenção estadual em João Câmara foi um dos episódios mais deprimentes da


vida política do município e do estado. Se existiam ou não, motivos reais para a intervenção
não sabemos. O certo é que em 18 de novembro de 1995, saiu o decreto governamental,
assinado no dia anterior. Não trazia a assinatura do governador Garibaldi, mas a de Fernando
Freire. Ficou claro que Garibaldi não desejava se comprometer perante a história por haver
decretado intervenção em um município governado pelo PMDB, o seu partido. Deixou o fardo
para o vice.

Até aí, nenhuma surpresa, pois a intervenção era tida como certa. O que causou
estranheza e até perplexidade foi o nome do interventor. No caso, uma interventora, a
senhora Mônica Dantas, ex-deputada estadual e ex-prefeita de Macaíba, por várias vezes. Diz-
se que a decisão de nomear Dona Mônica surgiu numa reunião da cúpula política, quando
vários nomes foram analisados e descartados por um ou outro motivo, até que alguém disse:
já que nenhum cargo demos a Dona Mônica e Seráfico, por que não nomeá-la interventora em
João Câmara? Rapidamente a “luminosa” idéia foi aprovada e comunicada a decisão à
sorteada, que aceitou.

Em janeiro de 1996, passados os dois meses previstos para a vigência da intervenção


estadual no município, novo decreto governamental foi baixado, prorrogando o ato por mais
dois meses. A justificativa foi a não conclusão da tarefa saneadora a que se propunha a medida
extrema. Por já ser esperado, o ato não causou qualquer surpresa, quer entre a classe política,
quer no seio da população.

Ao final do terceiro mês, a interventoria já não gozava do prestígio inicial e a


população começava a dar sinais de que o afastamento do prefeito José Ribamar Leite não
surtira o efeito desejado. Pelo sim, pelo não, esgotado o prazo da prorrogação, o governador
Garibaldi Filho resolveu dar a intervenção por encerrada. A decisão não agradou a Dona
Mônica, que não se dava por satisfeita em passar apenas quatro meses à frente do município.
Afinal, se a intervenção lhe havia sido dada como “recompensa” por não ter cargos no
governo, não seriam aqueles parcos quatro meses que lhe acalmariam os ânimos. Seu desejo
era continuar no cargo até o final do mandato, entregando as chaves da prefeitura ao eleito
pelo voto popular nas eleições municipais daquele ano. Saiu, portanto, insatisfeita com o
governo que a nomeara.