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GRUPO DE ESTUDOS BAKHTINIANOS [GRUBAKH

]
DAS RESISTÊNCIAS À
ESCATOLOGIA POLÍTICA:
risos, corpos e narrativas enunciando uma ciência outra

2

POLIFONIA
RISO
CORPOS
NARRATIVAS

OUTRO
HETEROCIÊNCIA
UNICAMP
IDEOLOGIA
GRUBAKH

GRUPO DE ESTUDOS BAKHTINIANOS
[GRUBAKH]

IV ENCONTRO DE ESTUDOS
BAKHTINIANOS
[EEBA]

DAS RESISTÊNCIAS À
ESCATOLOGIA POLÍTICA:
risos, corpos e narrativas enunciando
uma ciência outra

De 16 a 18 de novembro de 2017

Campinas
SP

Copyright © dos autores

Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida ou
arquivada, desde que levados em conta os direitos dos autores.

GRUPO DE ESTUDOS BAKHTINIANOS [GRUBAKH]

IV ENCONTRO DE ESTUDOS BAKHTINIANOS [EEBA]: DAS RESISTÊNCIAS À ESCATOLOGIA POLÍTICA:
risos, corpos e narrativas enunciando uma ciência outra. São Carlos: Pedro & João Editores, 2017.
1433 p.

ISBN 978-85-7993-464-3

1. Mikhail Bakhtin. 2. Corpos. 3. Heterociência. 4. Narrativas. 5. Riso. 6. Organizador. 7. Autores. I.
Título.
CDD 400
Capa e Diagramação: Hélio Pajeú
Editores: Pedro Amaro de Moura Brito & João Rodrigo de Moura Brito.
Conselho Científico
Augusto Ponzio (Bari/Itália); João Wanderley Geraldi (Unicamp/Brasil); Nair F. Gurgel do Amaral
(UNIR/Brasil) Maria Isabel de Moura (UFSCar/Brasil); Maria da Piedade Resende da Costa
(UFSCar/Brasil).

SUMÁRIO
COMITÊ CIENTÍFICO ........................................................................................................... 4
ORGANIZAÇÃO .................................................................................................................... 5
HISTÓRICO ........................................................................................................................... 6
APRESENTAÇÃO ............................................................................................................... 10
EIXOS TEMÁTICOS ........................................................................................................... 12
PROGRAMAÇÃO ................................................................................................................ 14
GRUBAKH ........................................................................................................................... 16
RODAS DE CONVERSA ................................................................................................... 17

SUMÁRIO

COMITÊ CIENTÍFICO
Prof. Dr. Adail Sobral (UCPel)
Prof. Dr. Augusto Ponzio (UB, Itália)
Prof. Dr. Clécio Buzen (UFPE)
Prof.Dr. Carlos Roberto de Carvalho (UFRRJ)
Prof. Dr. Geraldo Tadeu de Souza (UFSCar)
Prof. Dr. Guilherme do Val Toledo Prado (UNICAMP)
Prof. Dr. Hélio Pajeú (UFPE)
Prof. Dr. Jader Janer Moreira Lopes (UFJF; UFF)
Prof. Dr. João Vianney Cavalcanti Nuto (UNB)
Prof. Dr. José Radamés Benevides de Melo (IF Baiano – Senhor do Confim)
Prof. Dr. Luciano Novaes Vidon (UFES)
Prof. Dr. Luciano Ponzio (Università di Salento – Lecce – Itália)
Prof. Dr. Marcus Vinicius Borges Oliveira (UFBA)
Prof. Dr. Valdemir Miotello (UFSCar)
Profa. Dra. Adriana Stella Pierini (UNIAraras)
Profa. Dra. Adriane Melo De Castro Menezes (UFRR)
Profa. Dra. Aline Manfrim (UNIFRAN)
Profa. Dra. Ana Beatriz Dias (UFFS)
Profa. Dra. Ana Cristina Guarinello (Universidade Tuiuti do Paraná)
Profa. Dra. Ana Paula Berberian Vieira da Silva (Universidade Tuiuti do Paraná)
Profa. Dra. Camila Caracelli Scherma (UFFS)
Profa. Dra. Carmen Lúcia Vidal Pérez (UFF)
Profa. Dra. Cecilia Maria Aldigueri Goulart (UFF)
Profa. Dra. Claudia Roberta Ferreira (Fundação Bradesco)
Profa. Dra. Inez Helena Muniz Garcia (UFF)
Profa. Dra. Liana Arrais Serodio (UNICAMP)
Profa. Dra. Ludmila Thomé de Andrade
Profa. Dra. Magda de Souza Chagas(UFF)
Profa. Dra. Maria Isabel de Moura (UFSCar)
Profa. Dra. Maria Tereza de Assunção Freitas (UFJF)
Profa. Dra. Marina Célia Mendonça (UNESP-Ribeirão Preto)
Profa. Dra. Marisol Barenco de Mello (UFF)
Profa. Dra. Marissol Prezotto (IBFE)
Profa. Dra. Nara Caetano Rodrigues (UFSC)
Profa. Dra. Nelita Bortolotto (UFSC)
Profa. Dra. Patricia Corsino (UFRJ)
Profa. Dra. Patrícia Zaczuk Bassinello (UFMS)
Profa. Dra. Rosa Maria de Souza Brasil (UFPA)
Profa. Dra. Rosana Novaes (UNICAMP)
Profa. Dra. Rosangela Ferreira de Carvalho Borges (UFSCar)
Profa. Dra. Susan Petrilli (UniBa, Itália)

COMITÊ CIENTÍFICO

ORGANIZAÇÃO
COMISSÃO ORGANIZADORA

Prof. Guilherme do Val Toledo Prado
Profa. Heloísa Helena Dias Martins Proença
Prof. Hélio Márcio Pajeú
Profa. Liana Arrais Serodio
Prof. Ruy Braz da Silva Filho
Profa. Vanessa França Simas

COMISSÃO DE APOIO

Profa. Adriana Stella Pierini
Profa. Ana Cristina Libânio
Profa. Andréia da Silva Ubaldo
Prof. Fernando Cardoso da Silva
Prof. Gabriel da Costa Spolaor
Profa. Grace Caroline Buldrin Chautz
Profa. Idelvandre Vilas Boas de Santana Santos
Profa. Luciane Martins Salado
Profa. Márcia Alexandra Leardine
Prof. Marcos Donizetti Forner Leme
Profa. Maria Irma Chahine Gallo
Profa. Marissol Prezotto
Profa. Nara Caetano Rodrigues
Profa. Neiva de Souza Boeno
Profa. Simone Campana
Profa. Viviane Cristina de Mendonça

ORGANIZAÇÃO

HISTÓRICO
O
EEBA faz parte de um movimento iniciado em 2008, com a criação do CÍRCULO – Rodas
de Conversa Bakhtiniana – pelo Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso na
Universidade Federal de São Carlos (GEGe/UFSCar), coordenado pelo professor
Valdemir Miotello, grande responsável pela ampliação dos grupos de estudos bakhtinianos no
Brasil e pelo contato deste com pensadores do exterior. O EEBA tem seu histórico vinculado
aos encontros do CÍRCULO, realizados anualmente de 2008 a 2010 e bienalmente a partir de
2012 na UFSCar . O EEBA inaugura seu trabalho a partir de 2011 e acontece bienalmente, em
sede itinerante, de maneira alternada com o CÍRCULO. Também os encontros do CÍRCULO
passaram a mudar seu endereço desde 2016, tendo a primeira edição fora da cidade de
origem (São Carlos – SP), em Recife e Olinda/Pernambuco.

I CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana aconteceu na Universidade Federal de São
Carlos, de 07 a 09 de novembro de 2008, para Comemoração do Aniversário de Nascimento de
Mikhail Bakhtin e discutiu o(s) Círculo(s) de Bakhtin, seus temas, suas filosofias, suas teorias,
suas preocupações, trazendo à baila a atualidade dos estudos bakhtinianos no Brasil. O sucesso
do I CÍRCULO foi garantido pela participação ativa dos 180 estudiosos, de todos os níveis de
formação, que se inscreveram com o objetivo de discutir variados temas que constituem a
teoria de Bakhtin e do Círculo a partir do ponto de vista singular de cada um. Deste modo, as
rodas foram organizadas com as seguintes temáticas: “Bakhtin e a dialogia”; “Bakhtin e a
ideologia”; “Bakhtin e os gêneros do discurso”; “Bakhtin e a subjetividade”; “Bakhtin e estética”;
“Bakhtin e a autoria e estilo”; “Bakhtin e cultura”; “Bakhtin e o marxismo”; “Bakhtin e
carnavalização”; “Bakhtin e o Círculo de Bakhtin”; “Bakhtin e a educação”; “Bakhtin e o
humanismo”; “Bakhtin e a mídia”; “Bakhtin e os grupos sociais”; “Bakhtin e análise do discurso”.

II CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana: “O PENSAMENTO BAKHTINIANO NA
ATUALIDADE” aconteceu de 6 e 8 de novembro de 2009, na UFSCar, e manteve seu formato
semelhante ao de 2008, mas com algumas pequenas alterações ponderadas pela experiência
anterior. A segunda edição teve como subtemas ou provocações para as reflexões coletivas:
“As ideologias contemporâneas com Bakhtin”; “O humano e as subjetividades na
contemporaneidade”; “A educação e dialogia na atualidade”. Em relação à edição anterior, a
inovação se constituiu a partir da produção escrita de todos os participantes do evento,
gerando o Caderno de Textos e Anotações em formato impresso, publicado pela Pedro & João
Editores, com ISBN e disponibilizado para os conversadores.

III CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana: "BAKHTIN E A ATIVIDADE ESTÉTICA: NOVOS
CAMINHOS PARA A ÉTICA", em 2010, marca a decisão pelo GEGe de que o evento seria realizado
a cada dois anos e, deste modo, foi criado o Encontro de Estudos Bakhtinianos (EEBA), como evento
itinerante, a ser promovido por outras instituições, acontecendo de modo intercalado com o Círculo –

HISTÓRICO

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Rodas de Conversa Bakhtiniana (CÍRCULO), contemplando de maneiras outras as pesquisas e
pensamentos do que hoje chamamos de Círculo de Bakhtin e os estudos bakhtinianos da atualidade do
Brasil e do exterior. Na ocasião, o evento contou com a presença dos professores comentadores e
dos professores Augusto Ponzio e Susan Petrilli da Universidade de Estudos de Bari, Itália, para
compor as Grandes Arenas e, a partir de então, se formou um intercâmbio significativo com as
pesquisas da atualidade italiana marcadas por diferentes perspectivas (dentre elas a Semiótica,
Análise do Discurso, Sociolinguística). O tema principal, no intento de ‘intercruzar’ a esfera estética
com a ética, a partir das imagens e da corporeidade que materializam os discursos se traduziu nos
subtemas: “A estética contemporânea sob o signo das imagens” e “A corporeidade e as exigências
estéticas nas relações no contemporâneo”.

I EEBA: “A RESPONSIVIDADE BAKHTINIANA” realizou-se de 4 a 6 de novembro de 2011, na
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), coordenado pela Profa. Maria Teresa de Assunção
Freitas, uma das pioneiras a estudar o pensamento de Mikhail Bakhtin no Brasil, com os textos
produzidos segundo três sub-temas, [que organizam sua] cuja disponibilização foi organizada na
internet por meio de um blog, denominado Textos do I Encontro de Estudos Bakhtinianos – EEBA,
disponíveis em <http://textoseeba.blogspot.com.br/> e divididos segundo os motivos: (1) “Educação
como Resposta Responsável”, (2) “O Contemplador: vivências estéticas e responsividade” e (3)
“Política como Ação Responsiva”.

IV CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana: “NOSSO ATO RESPONSÁVEL”, de 15 e 17 de novembro de
2012, já bienal, aconteceu com poucas modificações no que se refere à versão anterior. O foco geral do
evento girou em torno do "Para uma filosofia do Ato responsável”, obra de Bakhtin publicada no Brasil
pela Pedro & João Editores em 2010, que deu o tom às conversas nas 10 Rodas de Conversa e nas três
Arenas Bakhtinianas constituídas pelos 230 inscritos. Essa edição do evento foi pensada para produzir
conversas que se interligassem a partir de um grande tema e dos eixos: "Sujeito contemporâneo no
mundo contemporâneo”; “Mídia como lugar das novas estéticas”; “Ato político como ato responsável”. As
Arenas tomaram forma debaixo de uma Tenda de Circo sob a responsabilidade do Prof. José Kuiava
(UNIOESTE), “LENDO O HOMEM E O MUNDO”; Prof. Leonardo Andrade (UFSCar) “MOENDO A MÍDIA” e Prof.
João Wanderley Geraldi (UNICAMP), “RESPONDENDO POR MIM MESMO”.

II EEBA: “VIDA, CULTURA E ALTERIDADE”, em 2013, [reuniu] desenvolveu sua temática em três eixos,
“A vida e as esferas culturais”; “Cultura e alteridade”; “Linguagem, educação e ética”. Foi organizado,
em conjunto, pelo Grupo de Estudos Bakhtinianos (GEBAKH), coordenado pelo Prof. Luciano Novaes
Vidon, do Programa de Pós-Graduação em Linguística, e pelo NEPALES (Núcleo de Estudos e Pesquisas
em Alfabetização, Leitura e Escrita), coordenado pela Profa. Cláudia Gontijo, do Programa de Pós-
Graduação em Educação, ambos da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). São as áreas de

HISTÓRICO

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Linguagem e Educação em diálogo com o pensamento de Bakhtin e seu Círculo dentro do atual círculo
bakhtiniano que se formam nessa sequência de eventos. Os cadernos gerados na produção dos textos
dos inscritos estão disponíveis em <https://2eeba.wordpress.com/cadernos-do-ii-eeba/>.

V CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana: “PRAÇA PÚBLICA. MULTIDÃO. REVOLUÇÃO. UTOPIA”, de
13 a 15 de novembro de 2014, aconteceu em São Carlos e reuniu 200 conversadores. Com o tema
central se quis aprofundar a compreensão dos trabalhos bakhtinianos: “Estética da Criação Verbal”,
“Marxismo e filosofia da linguagem”, sobretudo, “A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento
– o contexto de François Rabelais” e “A construção da Enunciação e outros ensaios”. A estrutura
seguiu a dos anos anteriores, com três Arenas e três sessões de Rodas de Conversa.

III EEBA: “AMORIZAÇÃO: PORQUE FALAR DE AMOR É UM ATO REVOLUCIONÁRIO”, de 16 a 18 de
novembro de 2015, foi realizado pelo Grupo ATOS, na Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói,
Campus do Gragoatá. O encontro com os convidados foi disparador para o encontro nas Rodas de
Conversas com retomada das discussões nos encontros seguintes. Em forma de Arena, o primeiro
encontro foi com os professores Augusto Ponzio (UNIBA-Itália) e Wanderley Geraldi (UNICAMP) com o
tema “Amorização”; o segundo, também em Arena, com a profa. Susan Petrilli (UNIBA-Itália) e o prof.
Luciano Ponzio (UNISA-Lecce) com o tema “Da prosa da vida e da responsabilidade na arte”; Valdemir
Miotello (UFSCar) e Geraldo Tadeu Souza (UFSCar) com o tema “Amorização e as festas de
renovação”; prof. Guilherme do Val Toledo Prado (UNICAMP) e a profa. Nara Caetano Rodrigues (UFSC),
“Heterociência, uma ciência outra”. Depois das apresentações dos convidados, dividiram-se os
participantes em oito grupos que trataram o mesmo tema simultaneamente, cada um com ao menos
dois comentadores para tratar sobre o tema central e seus desdobramentos na cultura, na vida e no
conhecimento. Ao todo foram Quatro Encontros Dialógicos. O caderno de textos está disponível em:
http://eeba.qlix.com.br/ebook.html

VI CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana: “LITERATURA, CIDADE E CULTURA POPULAR”, de 07 a
09 de novembro de 2016, em Pernambuco e Olinda, no Centro de Artes e Comunicação da
Universidade Federal de Pernambuco. Essa edição foi carinhosamente organizada pelo Laboratório de
Investigações Bakhtinianas Relacionadas à Cultura e Informação (LIBRE-CI/DCI/UFPE) em parceria
com o Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso (GEGe/DL/UFSCar). Como de costume, as
conversas das Rodas e Arenas giraram em torno de um tema central esmiuçado nos seguintes eixos:
“A literatura na estética do cotidiano”; “O orbe estético como materialização da ética”; A cidade como
lugar de constituição dos atos dialógicos; “Os espaços públicos na produção de sentidos e lutas
ideológicas”; “As festas populares de renovação da vida”; “A cultura popular singularizada na
concretude do existir”. Todos os textos dos inscritos, de todos os CÍRCULOS, podem ser encontrados
reunidos em: <http://rodas2016.wixsite.com/rodas/edicoes-anteriores>. Nessa edição, o aspecto

HISTÓRICO

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inovador, em relação às demais, é que foi promovido o I LITERO-RODAS, um concurso literário em
forma de poesias, contos e crônicas

HISTÓRICO

APRESENTAÇÃO
O
Grupo de Estudos Bakhtinianos (GRUBAKH), da Faculdade de Educação da UNICAMP, tem o
prazer de receber os participantes do IV EEBA – Encontro de Estudos Bakhtinianos – “Das
resistências à escatologia política: risos, corpos e narrativas enunciando uma ciência
outra”.
O EEBA, criado em 2010, chega em sua quarta edição, reafirmando a intenção de
proporcionar um encontro que promova a ampliação de conhecimentos dos estudos dos
filósofos do chamado Círculo de Bakhtin, contribuindo com a atualização das pesquisas
brasileiras e de convidados estrangeiros. O EEBA tem se fortalecido a cada encontro com a
participação de pesquisadores e profissionais de diversas áreas desde a organização à sua
efetivação.
Este evento faz parte de um movimento iniciado em 2008, com a criação do CÍRCULO –
Rodas de Conversa Bakhtiniana – pelo Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso na
Universidade Federal de São Carlos (GEGe/UFSCar), coordenado pelo professor Valdemir
Miotello, grande responsável pela ampliação dos grupos de estudos bakhtinianos no Brasil e
pelo contato deste com pensadores do exterior. O EEBA tem seu histórico vinculado aos
encontros do CÍRCULO, realizados anualmente de 2008 a 2010 e bienalmente a partir de 2012
na UFSCar . O EEBA inaugura seu trabalho a partir de 2011 e acontece bienalmente, com sede
itinerante, de maneira alternada com o CÍRCULO. Também os CÍRCULOs passaram a mudar seu
endereço desde 2016, tendo a primeira edição fora da cidade de origem (São Carlos – SP), em
Recife e Olinda/Pernambuco.

OBJETIVO

O objetivo geral do IV EEBA é reunir pesquisadores de diferentes partes do Brasil e
convidados do exterior para a reflexão em torno do tema “Das resistências à escatologia
política: risos, corpos e narrativas enunciando uma ciência outra”. Para tanto, o GRUBAKH
convida os pesquisadores, curiosos e interessados no pensamento bakhtiniano para
apresentarem suas provocações e contrapalavras nos Encontros Dialógicos, nas Arenas
Polifônicas e nas Rodas de Conversa Bakhtiniana, que constituirão a estrutura do evento.

APRESENTAÇÃO

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TEMA

As atividades que circunscreverão o IV EEBA 2017 serão em torno do tema “Resistências à
escatologia política: narrativas, corpos e risos enunciando uma ciência outra”.
Acontecimentos diversos têm gerado muita desilusão com a política que se pratica em nosso
país e ampliado a resistência contra o próprio exercício político, como ato ético de homens públicos.
No entanto, cada escolha que envolve outros é política. Quem está na academia é um agente político.
A/O profissional da educação também, circunscrito temporária e espacialmente à sala de aula, com
seus estudantes, seus colegas, sua escola, a comunidade das famílias dos seus estudantes.
Propomos pensar e produzir textos sobre algumas formas de resistir à escatologia política de
uma época em mudança, evitando que o exercício político seja interpretado em dois sentidos
igualmente perigosos: como “juízo final”e como algo a se repudiar, um dejeto. Tomamos as
manifestações humanas narrativas, corporais ou risíveis como formas de resistência à escatologia
política a fim de evitar o esvaziamento do interesse político da sociedade, além de serem modos que
enunciam uma outra ciência, uma ciência do singular, de caráter heterocientífico. Propõe-se um
evento em que o pensamento científico nas ciências humanas se produza em relação com os sujeitos
dialógicos, constituindo também reflexões que se materializarão em dissertações, teses, artigos e
livros, além de, como produto do evento, anais publicado em forma de e-book.

APRESENTAÇÃO

EIXOS TEMÁTICOS
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CORPOS

N
esse eixo, a ideia é tratar especialmente da produção da atividade estética, com a
metáfora dos corpos sensíveis, que põem e expõem seus conhecimentos e valorações na
produção e na reprodução de si enquanto ato responsivo/responsável nos mundos da
vida e da cultura. Tratar da possibilidade de produção objetiva que caracteriza a atividade
estética em geral, na cultura popular das modas, das tatuagens, das tribos, dos corpos
expostos na internet em redes sociais, do grotesco dos corpos transformados ou em
transformação na vida, no cinema de ficção, na literatura, na música, nas práticas corporais,
nos movimentos Hip-hop, nos grafites, nas danças, nas percussões corporais, enfim,
corpos/gestos/atos que, em diferentes contextos, no exercício do excedente de visão, na
relação estética eu-outro, são marcados e atravessados por diversos sentidos que constituem
suas gestualidades, corporeidades e, em ato, respondem, resistem, transgridem e dialogam
com outros corpos, outras gestualidades, outros mundos.

HETEROCIÊNCIA

O
s objetos dos três eixos anteriores são vivências expressas e objetivações exteriores
que organizam e dão forma a elas definindo sua orientação. A lingüística, como campo
específico que estuda a linguagem verbal descreve o verbal mediante o verbal, porém,
também os signos não verbais podem ser descritos em signos verbais ou não verbais. Assim,
corpos, risos, narrativas são propostos como enunciados concretos com leis específicas e que
tocam milhares de linhas dialógicas vivas envoltas em consciências socioideológicas,
necessitando de uma outra ciência, como orienta Bakhtin. Nesse eixo, propõe-se fazer dessas
três formas vivenciadas de expressão – e tantas outras quanto couberem – materialidade
e/ou percurso para produção de conhecimentos, na medida em que percorrer ou transitar
por elas pode possibilitar o reconhecimento dos contextos e das relações para estudar o
mundo da vida, onde, com os outros, se produz cultura (Ciências, Filosofia, Artes,
Cotidianidades). A produção de sentidos, conhecimentos e Ciências não depende
exclusivamente da reprodutibilidade, não depende da enunciação de sujeitos que tentam em
vão se ausentar, nem das tentativas sempre frustradas e frustrantes – isso quando não
deliberadamente hipócritas – de insistir num pensamento que se espraia somente dentro de
um objetivismo abstrato ou de um subjetivismo idealista. Uma nascente heterociência pode ser
encarada como o ativismo do cognoscente e do cognoscível, a vontade de abraçar os
conhecimentos de modo conscientemente subjetivo, porém essencialmente alteritário, dinâmico e
sempre a se completar de possibilidades axiológicas e semânticas, na construção de pravdas e
questionando as istinas.

EIXOS TEMÁTICOS

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NARRATIVAS

N
esse eixo, a ideia é trabalhar o estudo de narrativas produzidas nas relações que estabelecemos
com os outros e com o mundo cultural, assim como sua importância como fonte e como meio de
produção de conhecimento. Um exemplo forte – mas nem de longe o único exemplo ou a única
possibilidade –, que cada vez mais ganha força em alguns estudos é o fato das produções narrativas
possibilitarem a inserção dos narradores no campo da filosofia da linguagem bakhtiniana. Essa
inserção é possível porque as narrativas se tornam um ato responsivo de cada sujeito em interação
com os outros e também com outras e novas teorias, que passam a ser compreendidas e fazer
sentidos na vida dos narradores. Além disso, ao narrar – pensando nos aspectos da
alteridade/interação e da continuidade, quiçá a experiência – percebe-se a possibilidade do narrador
se colocar num lugar exotópico, dando acabamento estético provisório ao vivido e vislumbrando
horizontes de possibilidades no presente orientadas pelas memórias de futuro. Diante disso, nesse
eixo, as narrativas serão postas em diálogo com as obras bakhtinianas que estudam mais
especificamente a linguagem, mas também o ato responsável/responsivo.

RISO

N
esse eixo, se propõe estudar o aspecto ético do ridículo, do grotesco, do irônico, do risível com
o outro, como forma de resistência às culturas dominantes. A transformação do que é caro e
estimado em algo que provoca o riso é por si um ato ético. Apesar da indústria cultural tentar
impor padrões, ressurgem algumas manifestações populares – como o carnaval de rua em
contraposição aos carnavais televisionados. Da mesma forma, o humor ganha força, não só como
alívio cômico às tensões do dia a dia do mundo da vida, mas também como crítica social. E, se a crítica
não vem pelo riso, vem por sua antítese complementar: o drama. A força do riso e do drama – atos
expressivos da nossa subjetividade e da nossa alteridade – dão forma à resistência contra a
institucionalidade e contra o poder monopolizante, assim como à diversidade de apropriação e
manifestação de conhecimento. É importante estudar também como novas mídias tecnológicas
desempenham o seu papel na difusão e na democratização desses atos risíveis-responsivos.

EIXOS TEMÁTICOS

PROGRAMAÇÃO
14

16/11/2017 | QUINTA-FEIRA

9h – 10h30 CREDENCIAMENTO ADunicamp

ESPETÁCULO: WWW para Freedom
Auditório da
10h30 – 11h30 Direção, Atuação e Concepção: Esio Magalhães
ADunicamp
Dramaturgia: Esio Magalhães e Tiche Vianna
Produção: Barracão Teatro
Auditório da
11h30 – 13h ABERTURA
ADunicamp

13h-14h30 ALMOÇO

1 ARENA:RISO
Salão Nobre
14h30 -16h Valdemir Miotello (UFScar) Faculdade de
Augusto Ponzio (UNIBA Itália) Educação/UNICAMP

16h CAFÉ

Salas Diversas
16h30 – 18h30 I RODA DE CONVERSA: RISO Faculdade de
Educação/UNICAMP

19h – 22h LANÇAMENTO DE LIVROS E SARAU DO EEBA Bar do Manoel

17/11/2017 | SEXTA-FEIRA
II ARENA: NARRATIVAS
Salão Nobre
9h-10h30 Luciano Ponzio (UniSal-Lecce-Italia) Faculdade de
Liana Arrais Serodio (UNICAMP) Educação/UNICAMP

10h30 CAFÉ

Salas Diversas
11h-13h II RODA DE CONVERSA: NARRATIVAS Faculdade de
Educação/UNICAMP

13h-14h30 ALMOÇO

PROGRAMAÇÃO

15

III ARENA: CORPOS
Salão Nobre
14h30-16h Faculdade de
Hélio Pajeú (UFPE)
Educação/UNICAMP
Katia Vanessa SIlvestri (UNIAraras)

16h CAFÉ Hall do Salão Nobre

16h30-18h30 III RODA DE CONVERSA: CORPOS

APRESENTAÇÃO CULTURAL Gramado do Anexo
18h30 – 19h30 Faculdade de
Bateria Alcalina Educação/UNICAMP

18/11/2017 | SÁBADO

IV ARENA: HETEROCIÊNCIA Salão Nobre
9h-10h30 Faculdade de
Adail Sobral (UCPel) Educação/UNICAMP
Guilherme Prado (UNICAMP)

10h30 CAFÉ Hall do Salão Nobre

Salas Diversas
11h-13h IV RODA DE CONVERSA: HETEROCIÊNCIA Faculdade de
Educação/UNICAMP

13h – 14h30 ALMOÇO

ENCERRAMENTO
Salão Nobre
Bakhtinian@s: próximo EEBA?
14h30 – 16h30 Faculdade de
e
Educação/UNICAMP
Uma novidade!!!!

.

PROGRAMAÇÃO

GRUBAKH
16

O
GRUBAKH (Grupo de Estudos Bakhtinianos), subgrupo do GEPEC (Grupo de Estudos e
Pesquisas em Educação Continuada) da Faculdade de Educação (FE), Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP) é o anfitrião do IV EEBA.
Temos imenso prazer em receber os participantes do IV EEBA – Encontro de Estudos
Bakhtinianos – “DAS RESISTÊNCIAS À ESCATOLOGIA POLÍTICA: RISOS, CORPOS E NARRATIVAS
ENUNCIANDO UMA CIÊNCIA OUTRA”.
Para que todos os participantes do IV EEBA possam saber um pouquinho de nós,
apresentamo-nos como professoras e professores atuando em diversas funções na Educação
e tomamos de nossas experiências da práxis pedagógica para produzir narrativas pedagógicas
(e as Pipocas Pedagógicas - gênero discursivo criado no GEPEC), como uma forma responsiva
de escutar os estudantes e como sua materialidade estética (que sabemos ser também
cognitiva ou epistemológica e ética) que funciona também como dado de pesquisa para as
investigações acadêmicas, mas não só, pois assumimos as narrativas também como
instrumento de formação, modo de raciocínio, como acontecimento.
Esta nossa escolha é responsiva, porém o que consideramos mais importante ressaltar nesse
momento é que, ao possibilitar aos professores uma exotopia necessária para a produção de
excedentes de visão de si com os outros e de outros consigo, as narrativas tomam do
cotidiano escolar verdades pravdas que dão a eles outra versão da verdade dita istina pelos
meios de comunicação.
Nossa produção narrativa, como instrumento de formação e de produção de
conhecimento heterocientífico, assume maior relevo neste momento em que “a política” está
na berlinda, como vilã das relações sociais, devido à luta desproporcional pela manutenção do
poder nas mãos daqueles que o detêm, criando conflitos conceituais até sobre ações
democráticas mais básicas.
Para a escolha desta temática, nos mobilizaram o reconhecimento do tema do III EEBA
– Amorização: porque falar de amor é um ato revolucionário, para a produção de
conhecimentos na escola, levando em conta a relação afetiva entre professores, seus
estudantes, especialmente como tratada em “Amorizando a pesquisa e construindo uma
heterociência” e o forte impacto do VI CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana: Literatura,
Cidade e Cultura Popular e seu alinhamento com a obra de Bakhtin sobre o contexto de
Rabelais dentro da cultura popular do Renascimento e da Idade Média, em relação ao contexto
sócio-político-cultural brasileiro.

CONTATO: grubakh.gepec@gmail.com

GRUBAKH

RODAS DE CONVERSA 17

corpos ......................................................................................................................................... 30

CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS E PROFESSORES INICIANTES: experiências de corpos em movimento ........................................................... 31
ARAGÃO, Janaina de Sousa ........................................................................................................................ 31
O CORPO GROTESCO E O CORPO DEFICIENTE: análise das distinções ............................................................................................ 37
BENTES, José Anchieta de Oliveira ............................................................................................................... 37
SOUZA-BENTES, Rita de Nazareth ................................................................................................................. 37
IMAGENS INTERCORPÓREAS EM “ÁGUA VIVA”, DE CLARICE LISPECTOR ........................................................................................... 44
BOENO, Neiva de Souza ............................................................................................................................. 44
ESPELHOS HUMANOS: a relação constitutiva entre os corpos dos grandes professores e os corpos dos pequenos bebês .......................... 57

BRAZ, Ruy ............................................................................................................................................. 57
SALADO, Luciane Martins ........................................................................................................................... 57
O RAP COMO PROTESTO? ANÁLISE DO “RAP REAÇA”, DE LUIZ, O VISITANTE ..................................................................................... 67

CAMPOS-TOSCANO, Ana Lúcia Furquim .......................................................................................................... 67
POESIA SLAM: voz e resistência........................................................................................................................................ 74
CASADO ALVES, Maria da Penha ................................................................................................................... 74
CORPO, FERIDO E INACABADO NA OBRA DE FRIDA KAHLO .......................................................................................................... 82
CHAGAS, Keyrla Krys Nascimento ................................................................................................................ 82
A PARTICIPAÇÃO DOS PROFESSORES E DOS JOVENS ESTUDANTES CONTRA A PEC 241/2016: uma “necessitância” de outros mundos e de outros
corpos ...................................................................................................................................................................... 87
COSTA, Deane Monteiro Vieira..................................................................................................................... 87
CORPOS: cronotopos em cotejos com uma filosofia da sensibilidade e da somaestética ................................................................... 93
COUBE, Roberta Jardim ............................................................................................................................ 93
MOVIMENTOS DE ENUNCIAÇÃO: por uma escuta do corpo da criança ......................................................................................... 101

DUARTE, Angélica .................................................................................................................................. 101
A NATUREZA BAKHTINIANA DA LITERATURA DE HILDA HILST: ou por um mundo mais bufólico! ............................................................ 106
GOMES, Francisco Alves .......................................................................................................................... 106
A RESSIGNIFICAÇÃO DA SURDEZ A PARTIR DAS PRÁTICAS DE LINGUAGEM NA CLÍNICA FONOAUDIOLÓGICA .............................................. 113
GUARINELLO, Ana Cristina ........................................................................................................................ 113
MYSTERIEUX – “SOU GAY, SOU DRAG, SOU BONITA, BEBÊ!”: a tentativa de ocultação do corpo homossexual nas relações escolares ............ 119
LEME, Marcos Donizetti Forner .................................................................................................................. 119

RODAS DE CONVERSA

18

A POBREZA EM CRONOTOPO ........................................................................................................................................... 127
MELLO, Marisol Barenco de ...................................................................................................................... 127
TATUAGEM COMO RESISTÊNCIA NAS PRÁTICAS DOCENTES ....................................................................................................... 138
MOTA, Luciana Lima da............................................................................................................................ 138
CORPO GROTESCO, CORPO POLÍTICO ................................................................................................................................ 144
NUTO, João Vianney Cavalcanti ................................................................................................................. 144
A REPRESENTAÇÃO DO CORPO NA PORNOCHANCHADA: uma análise dialógica de cartazes cinematográficos ......................................... 151

OLIVEIRA, Gilvando Alves de...................................................................................................................... 151
AS DORES DE FRIDA: hipérboles do corpo em um autorretrato ................................................................................................ 160
Oliveira, William Brenno dos Santos ........................................................................................................... 160
ENTRE O DEVER E O DEVIR: questões de escrita na perspectiva da filosofia do ato em três cenas que se completam .............................. 168
PEREIRA JÚNIOR, Tovar Nelson .................................................................................................................. 168
CACILDA .................................................................................................................................................................. 174
RODRIGUES, Rajnia de Vito Nunes............................................................................................................... 174
RODRIGUES, Giulia de Vito Nunes ............................................................................................................... 174
UMA LEITURA DA OBRA O MENINO DE VESTIDO ..................................................................................................................... 179
SANDIM, Rosiane Gonçalves dos Santos ...................................................................................................... 179
CAMARGOS, Moacir Lopes de .................................................................................................................... 179
O CORPO VALORADO EM LA MAJORITÉ OPPRIMÉE: semioses e embates ideológicos ........................................................................ 183
SANTANA, Bárbara Melissa....................................................................................................................... 183
O CABELO COMO SIGNO IDEOLÓGICO: uma leitura a partir da teoria da enunciação bakhtiniana ......................................................... 195
SILVA, Andréia Cristina Attanazio ............................................................................................................... 195
O JONGO NA EDUCAÇÃO FÍSICA: diálogo, ressignificação e resistência nos corpos em movimento ..................................................... 204
SILVA, Carolina Gonçalves da.................................................................................................................... 204
SILVA, Taynara Spulverato da ................................................................................................................... 204
A DESCOBERTA DA SEXUALIDADE: a homoafetividade nos romances ya ...................................................................................... 216

SILVA, Juan dos Santos........................................................................................................................... 216
ALVES, Maria da Penha Casado.................................................................................................................. 216
POR QUE ESCREVER, PROFESSOR?: reflexões acerca da produção de conhecimentos nas aulas de educação física ................................ 227
SPOLAOR, Gabriel da Costa ...................................................................................................................... 227
HETERODISCURSO EM ANÚNCIO: forças centrípetas e centrífugas em tensão na publicidade celebrativa ............................................. 240
VIEIRA, Tacicleide Dantas......................................................................................................................... 240
O POLÍTICO DO CORPO DE FRIDA KAHLO: um estudo dialógico. .................................................................................................. 249
WILLERS, Fernanda Franz ........................................................................................................................ 249

RODAS DE CONVERSA

19

heterociência .................................................................................................. 256

PESQUISADORA INICIANTE DEDICANDO A VIDA À ARTE E AO CONHECIMENTO.................................................................................. 257
AGUIAR, Jullie Belmonte de ...................................................................................................................... 257
A ENTRADA DO CONCEITO DE GÊNEROS DISCURSIVOS NO BRASIL: das normatizações às práticas pedagógicas ...................................... 263
BATISTA, Gilka Fornazari ......................................................................................................................... 263
FORMAÇÃO ÉTICA: produções de conhecimentos na convivência escolar .................................................................................... 276
Cardoso, Fernando ................................................................................................................................ 276
Serodio, Liana Arrais ............................................................................................................................. 276
EM BUSCA DE UMA HETEROCIÊNCIA: ética, estética e epistemologia numa perspectiva bakhtiniana das ciências humanas ........................ 287

CARVALHO, Carlos Roberto de .................................................................................................................. 287
MOTTA, Flávia Miller Naethe ...................................................................................................................... 287
UM CRONOTOPO ARTÍSTICO: por um mundo onde os muros tenham a altura de (pelo menos) duas andorinhas ...................................... 293

CONCENCIO, Márcia de Souza Menezes ........................................................................................................ 293
O GÊNERO SAMBA-EXALTAÇÃONA PERSPECTIVA BAKTINIANA .................................................................................................... 300
COSTA, Flávia Ferreira Lopes da ............................................................................................................... 300
DANTAS, Anne Michelle de Araújo .............................................................................................................. 300
FARIA, Marília Varella Bezerra de ............................................................................................................... 300
A PESQUISA DOCUMENTAL COMO ATO RESPONSÁVEL E RESPONSIVO .......................................................................................... 310
DIAS, Fabricia Pereira de Oliveira .............................................................................................................. 310
ENDLICH, Ana Paula Rocha ....................................................................................................................... 310
O ENUNCIADO COMO RECONHECIMENTO DO SER ................................................................................................................... 316
DINIZ, Magda Renata Marques ................................................................................................................... 316
MELO JÚNIOR, Orison Marden Bandeira de.................................................................................................... 316
OS EFEITOS DE SENTIDOS DA ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA NAS PRÁTICAS DE ENSINO DE PROFESSORAS ALFABETIZADORAS INICIANTES............. 322
ESTANISLAU, Daniele Aparecida Biondo........................................................................................................ 322
CRISTOFOLETI, Rita de Cassia ................................................................................................................... 322
AUTOR, OBRA, LEITOR E TRADUTOR: Mikhail Bakhtin e o processo de tradução de O Retábulo de Santa Joana Carolina, de Osman Lins ......... 330
FERREIRA, Cacio José ............................................................................................................................. 330
A AUDIODESCRIÇÃO COMO TRANSMISSÃO DE UM ENUNCIADO VISUAL INTERNAMENTE PERSUASIVO ...................................................... 340
GARCIA, D’aville Henrique Viana ................................................................................................................. 340
ALVES, Jefferson Fernandes..................................................................................................................... 340
LINGUAGEM E HETEROCIÊNCIA: uma janela aberta para a ideologia do cotidiano ............................................................................ 352
GIOVANI, Fabiana ................................................................................................................................... 352

RODAS DE CONVERSA

20

AS RELAÇÕES DIALÓGICAS NA CAPA DE REVISTA: a (com)posição dos elementos verbo-visuais na construção de sentido ......................... 361
HOLANDA, Maria Fabiana Medeiros de ......................................................................................................... 361
O DECOLONIALISMO ATRAVÉS DAS LINGUAGENS: discursos de reflexão ...................................................................................... 376
JANJÁCOMO, Caroline............................................................................................................................. 376
MORAES, Flávio Henrique ......................................................................................................................... 376
SANTOS, Tábita ..................................................................................................................................... 376
O PROFESSOR AUTOR: planos de trabalho e de aula .............................................................................................................. 385
LEMES, Mariana Martins .......................................................................................................................... 385
COTIDIANO ESCOLAR: meu campo de batalha ...................................................................................................................... 394
LIBÂNIO, Ana Cristina ............................................................................................................................. 394
SERODIO, Liana Arrais ............................................................................................................................ 394
A RELAÇÃO DIALÓGICA ENTRE O DISCURSO RELIGIOSO E A FORMAÇÃO TEÓRICA, IDEOLÓGICA E INDENITÁRIA DO FEMINISMO ISLÂMICO ............ 401
LIMA, Clarice da Conceição Monteiro de ....................................................................................................... 401
ARCHANJO, Renata ............................................................................................................................... 401
E-MAIL PEDAGÓGICOS: narrativas de re(existências) e insistências .......................................................................................... 409
Lucio, Elizabeth Orofino........................................................................................................................... 409
MOTTA, Flávia ....................................................................................................................................... 409
AZEVEDO, Patrícia Bastos de .................................................................................................................... 409
DIÁLOGOS COM E NA INFÂNCIA........................................................................................................................................ 419
MELLO, Marisol Barenco de ...................................................................................................................... 419
A EDUCAÇÃO COMO TERRITÓRIO DA ALTERIDADE .................................................................................................................. 427

MIRANDA, Maria Eliza .............................................................................................................................. 427
TRANSMODERNIDADE E A HETEROCIÊNCIA BAKHTINIANA NO CAMINHO DA DECOLONIALIDADE .............................................................. 444

MORAES, Flávio Henrique ......................................................................................................................... 444
REFLEXÕES SOBRE O DIÁLOGO COM E NA INFÂNCIA ............................................................................................................... 455
OLIVEIRA, Marcus Vinicius Borges .............................................................................................................. 455
BAKHTIN EM MATERIALIDADES OUTRAS: a entoação avaliativa nas produções dos fãs do seriado Sherlock ........................................... 459
PAGLIONE, Marcela Barchi ....................................................................................................................... 459
O POST NOSSO DE CADA DIA: uma análise dos enunciados concretos nas fanpages verdade sem manipulação e movimento Endireita Brasil . 467
PAZ, Morgana Lobão dos Santos ................................................................................................................ 467
O DISCURSO DO OUTRO: a ideologia do sujeito autor e heterodiscurso ...................................................................................... 476
PENHA, Dalva Teixeira da Silva .................................................................................................................. 476
PIRAJUY: experiência e escrita bakhtiniana ....................................................................................................................... 484
RODRIGUES, Giulia de Vito Nunes ............................................................................................................... 484
RODRIGUES, Rajnia de Vito Nunes............................................................................................................... 484

RODAS DE CONVERSA

21

O ATO RESPONSÁVEL DE SER PROFESSORA NO PROFLETRAS .................................................................................................... 492
RODRIGUES, Nara Caetano ....................................................................................................................... 492
REFLEXÕES PARA UMA CIÊNCIA DA SINGULARIDADE............................................................................................................... 500
SANTOS, Andréa Pessôa dos..................................................................................................................... 500
QUESTÕES METODOLÓGICAS NA PESQUISA EM CIÊNCIAS HUMANAS: interlocuções entre Bakhtin e Vygotsky .......................................... 507
SCHADEN, Érica Mancuso......................................................................................................................... 507
OMETTO, Cláudia Beatriz de Castro Nascimento ............................................................................................. 507
AMERICAN WAY OF LIFE: o homodiscurso da vida americana no Young Adult ................................................................................ 513

SILVA, Juan dos Santos........................................................................................................................... 513
CALEIDOSCÓPIO DE MIM: ciência-arte-vida ........................................................................................................................ 524
SILVA, Maria Leticia Miranda Barbosa da ..................................................................................................... 524
DIÁLOGOS POSSÍVEIS ENTRE MARÍA ZAMBRANO E MIKHAIL BAKHTIN NA BUSCA POR UMA CIÊNCIA OUTRA ............................................... 532
SIMAS, Vanessa França ........................................................................................................................... 532
“SOLO LE PIDO A DIOS”: a enunciação tonitruante do discurso de militância na canção de León Gieco ................................................ 537
SOUZA, Nathan Bastos de ........................................................................................................................ 537
A ESCUTA COMO LUGAR DE FAZER CIÊNCIA ......................................................................................................................... 548

SOUZA, Nathan Bastos de ........................................................................................................................ 548
O PROCESSO DE PRODUÇÃO DE SENTIDOS EM CRIANÇAS QUE FORAM APROVADAS NOS ANOS ESCOLARES, MAS NÃO APRENDERAM A LER E
ESCREVER ................................................................................................................................................................ 554
STEFANI, Mônika Menezes da Costa............................................................................................................. 554
CRISTOFOLETI, Rita de Cassia ................................................................................................................... 554
UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE AS IMBRICAÇÕES ENTRE ALGUMAS NOÇÕES DA TEORIA BAKHTINIANA E A NOÇÃO DE LINGUÍSTICA APLICADA NA
CONTEMPORANEIDADE ................................................................................................................................................. 561
XAVIER, Manuelly Vitória de Souza Freire ..................................................................................................... 561
LIMA, Clarice da Conceiçao Monteiro de ....................................................................................................... 561
NOVAES, Tatiani Daiana de ....................................................................................................................... 561

narrativas ................................................................................................................... 567

EDUCAÇÃO NA CIDADE E HUMANIDADES: diálogos possíveis com Bakhtin..................................................................................... 567
ADÃO, Alessandra Barbosa ...................................................................................................................... 568
CÔCO, Dilza ......................................................................................................................................... 568

RODAS DE CONVERSA

22

RELATO DE EXPERIÊNCIA: Elza Soares e Bakhtin no meio acadêmico .......................................................................................... 576
ADÃO, Alessandra Barbosa ...................................................................................................................... 576
SANTOS, Mariana Dionizio dos ................................................................................................................... 576
EM DIÁLOGO COM AS NOVAS GERAÇÕES: adolescentes e suas vivências na cibercultura ................................................................. 583
ALMEIDA JÚNIOR, Sebastião Gomes de ........................................................................................................ 583
O MERGULHO EM BAKHTIN: uma experiência epidérmica e científica no processo de autoconsciência ................................................. 599
ALMEIDA, Cleuma Maria Chaves de ............................................................................................................. 599
SENSUALIDADE VAMPIRESCA EM UMA CIDADE CHAMADA FORKS: um olhar sobre a construção erótica da personagem bella na fanfiction bloody
lips ........................................................................................................................................................................ 605
ANDRADE, Jandara Assis de Oliveira ........................................................................................................... 605
NEM SÓ DE LIVROS VIVE O CÉREBRO DO TRIO DE OURO: o florescer erótico de uma jovem bruxa na fanfiction sangue negro ..................... 614
Jandara Assis de Oliveira ANDRADE............................................................................................................ 614
CONSTRUINDO DIÁLOGOS, COMPARTILHANDO SENTIDOS: uma experiência com familiares de crianças das camadas populares .................. 624
ARAÚJO, Mairce da Silva ......................................................................................................................... 624
PESSANHA, Fabiana................................................................................................................................ 624
SALAS DE LEITURA: de como o professor se narra ............................................................................................................... 631
BAPTISTA, Karen César ........................................................................................................................... 631
FADEL, Tatiana ...................................................................................................................................... 631
MOANA, A NÃO-PRINCESA: a nova identidade feminina na disney .............................................................................................. 645
BARROS, Maria Amália Rocha Sátiro de ....................................................................................................... 645
FARIA, Marilia Varella Bezerra de ............................................................................................................... 645
O PROFESSOR E A PESQUISA: narrativas em busca de fundamentos para a prática docente ............................................................ 655

BATISTA, Angélica de Jesus ...................................................................................................................... 655
O FILHO É DA MÃE?: a maternidade e os não-lugares da mulher ............................................................................................... 669
BARBOSA, Priscilla BEZERRA ..................................................................................................................... 669
ROHEM, Clara ....................................................................................................................................... 669
POESIA COMO ATO RESPONSÁVEL DO HOMEM QUE AMA: diálogos com o filme Paterson, de Jim Jarmusch ............................................ 684
BORDE, Patrícia do Amaral....................................................................................................................... 684
SCHADE, Robert .................................................................................................................................... 684
BEBÊ FAZ ISSO !? ....................................................................................................................................................... 691
CAMPANA, Simone Ap. Ferreira ................................................................................................................. 691
HISTÓRIA, NARRATIVA, MEMÓRIA: a enunciação da enunciação como prática dialógica de resistência ................................................. 694
CAMPOS, Edson Nascimento ..................................................................................................................... 694
TIMÓTEO, Herbert de Oliveira .................................................................................................................... 694
DINIZ FILHO, Mariano Alves ....................................................................................................................... 694

RODAS DE CONVERSA

23

A POLIFONIA BAKHTINIANA NA CRÔNICA MUSICAL DE CHICO BUARQUE: ressonâncias na leitura literária .............................................. 712
CARVALHO, Letícia Queiroz de ................................................................................................................... 712
PITTA, Rodrigo Gonçalves Dias .................................................................................................................. 712
MOYOYÁ .................................................................................................................................................................. 723
CARVALHO, Miza .................................................................................................................................... 723
DISCURSO E LINGUAGEM EM MULHER NO ESPELHO ................................................................................................................ 732
CHAMPLONI, Hiolene de Jesus M. O. ............................................................................................................ 732
NARRATIVA E METANARRATIVA: no fio da conversa, um horizonte de possibilidades........................................................................ 741
Chautz, Grace Caroline Chaves Buldrin........................................................................................................ 741
O GÊNERO ENTREVISTA COMO ESTRATÉGIA DE ESTUDO SOBRE A CIDADE E SUAS RELAÇÕES COM A EDUCAÇÃO......................................... 747
CÔCO, Dilza ......................................................................................................................................... 747
SANTOS, Mariana Dionizio dos ................................................................................................................... 747
LEITE, Priscila de Souza Chisté .................................................................................................................. 747
A POSSIBILIDADE DA EMERGÊNCIA DA ALTERIDADE NA ADOLESCÊNCIA ........................................................................................ 756
FERES, Luiza Grieco ............................................................................................................................... 756
RODAS DE CONVERSA COM PROFESSORES: a escuta de si e do outro ......................................................................................... 759

FERREIRA, Luciana Haddad ....................................................................................................................... 759
ENSAIO SOBRE O COTIDIANO ESCOLAR E A CRISE DO ATO NO FAZER DO EDUCADOR ......................................................................... 767
Ferreira, Sandro de Santana .................................................................................................................... 767
UMA BRINCADEIRA DIALÓGICA EM AS AVENTURAS DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, DE LEWIS CARROLL ............................................ 774
FERREIRA, Vania Maria Batista .................................................................................................................. 774
LOUREIRO, Simone de Jesus da Fonseca ...................................................................................................... 774
BENTES, José Anchieta de Oliveira ............................................................................................................. 774
IDENTIDADES PLURAIS: tensões em Master of None .............................................................................................................. 783
FRANÇA, Arthur Barros de ....................................................................................................................... 783
LUGARES DE INFÂNCIAS BAIXADEIRAS NA CRONOTOPIA DE DESENHOS E PINTURAS: ensaios de uma exotopia próxima e uma geografia primeira
............................................................................................................................................................................ 794
FRANCO, José Raimundo Campelo ............................................................................................................. 794
REPRESENTAÇÃO DISSIMULADA, SINGULARIDADE E EU, PROFESSORA .......................................................................................... 806
Maria Irma Chahine GALLO ....................................................................................................................... 806
A DEFINIÇÃO DE FOTOGRAFIA NO DISCURSO DE ALUNOS DO ENSINO BÁSICO: elementos de uma pesquisa interdisciplinar em sala de aula ..... 811
GÂMBERA, José Leonardo Homem de Mello ................................................................................................... 811
A NARRATIVA COMO PRECURSORA DA LITERATURA E O PAPEL DA MEDIAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO PESSOAL E PROFISSIONAL DO SUJEITO........... 836
GARCIA, Ana Carolina Porto...................................................................................................................... 836
OMETTO, Cláudia B. de Castro Nascimento .................................................................................................... 836

RODAS DE CONVERSA

24

ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO USADAS POR IDOSOS NAS INTERAÇÕES SÓCIO VERBAIS ................................................................. 849
GOLINELLI, Rayssa Thayana ...................................................................................................................... 849
GUARINELLO, Ana Cristina ........................................................................................................................ 849
PAISCA, Adriele Barbosa ......................................................................................................................... 849
CONFESSO QUE VIVI: uma análise bakhtiniana dos discursos autobiográficos de Pablo Neruda ......................................................... 854

GOMES, Camilla..................................................................................................................................... 854
CORRÊA, Renata.................................................................................................................................... 854
VOZES EM CONFLITOS : diários de leituras no Ensino Fundamental ............................................................................................ 862
GOMES, Emanuele Mônica Neris ................................................................................................................ 862
HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA: as voluptuosidades de um revisor ........................................................................................... 870
GONÇALVES, Fabíola Barreto .................................................................................................................... 870
O CONTROLE EM WHITE BEAR: análise do embate nas dimensões verbivocovisuais da narrativa do episódio no seriado de Black Mirror ....... 875
GONÇALVES, Jessica de Castro ................................................................................................................. 875
SERNI, Nicole Mioni Serni......................................................................................................................... 875
A COMUNICAÇÃO SUPLEMENTAR E/OU ALTERNATIVA: a visão de professores acerca das interações estabelecidas com seus alunos com oralidade
restrita ................................................................................................................................................................... 886
KRÜGER, Simone I. ................................................................................................................................. 886
BERBERIAN, Ana Paula ............................................................................................................................ 886
13 REASONS WHY E A REPRESENTAÇÃO DO SUICÍDIO: diálogos entre o discurso da saúde e o artístico ................................................ 897
LARA, Marina Totina de Almeida ................................................................................................................. 897
CONTI, Marina Calsolari........................................................................................................................... 897
O TEMPO, O ESPAÇO, A CRIANÇA: o cronotopo da brincadeira .................................................................................................. 911
Elaine de Souza LIMA NETO ....................................................................................................................... 911
“O ESPELHO”: narrando Machado De Assis com escuta de Bakhtin ........................................................................................... 917
LOPES, Ana Lúcia Adriana Costa e .............................................................................................................. 917
LOPES, Jader Janer Moreira .................................................................................................................... 917
“EU TINHA A OBRIGAÇÃO DE FAZER POESIA ENGAJADA”: o desejo de resistir por meio da literatura .................................................... 927
MACEDO, Helton Rubiano de...................................................................................................................... 927
OCUPAÇÕES DE ESCOLAS NO RIO DE JANEIRO: um movimento de luta e resistência política em tempos escatológicos ............................. 937
Machado, Rejane Dias Corrêa ................................................................................................................... 937
.CONVERSA A DOIS: narrativas silenciadas e disputas de sentido no envelhecer ........................................................................... 940
Mazuchelli, Larissa Picinato ..................................................................................................................... 941
O QUE HÁ NO FIM DO ARCO-ÍRIS: a identidade dos novos leitores em comunidades que rediscutem as fronteiras literárias ...................... 951
MELO, Rosângela França de ...................................................................................................................... 951
UMA CONSTRUÇÃO ESTÉTICA COMO ACESSO A UM EXCEDENTE DE INTERPRETAÇÃO DA REALIDADE ....................................................... 968
MENDES, Gabriela Araujo ......................................................................................................................... 968

RODAS DE CONVERSA

25

PENSANDO AS CRIANÇAS NOS CONTEXTOS DA PESQUISA: o ato ético infantil como possibilidade para a palavra das crianças em presença ... 970
MENEZES, Flávia Maria de......................................................................................................................... 970
CRIANÇAS QUE CHEGAM: um estudo sobre refugiados ........................................................................................................... 977
MILANEZ, Fernanda de Azevedo.................................................................................................................. 977
A CONSTRUÇÃO DO ATO RESPONSIVO NA RELAÇÃO PROFESSOR ALUNO NO CONTEXTO DE UMA ESCOLA ESPECIALIZADA: a enunciação como
elemento central para a alteridade ................................................................................................................................. 981
MONTEIRO, Angélica Ferreira Bêta ............................................................................................................. 981
ARRUDA, Luciana Maria Santos de .............................................................................................................. 981
POR ENTRE NARRATIVAS, MEMÓRIAS E CONVERSAS: o que ensinam crianças na educação infantil ...................................................... 986
MORAIS, Jacqueline de Fatima dos Santos .................................................................................................... 986
FLORES, Roberta de Lima Manceira ............................................................................................................ 986
SOBRE CIDADANIA E HOSPITALIDADE: alguns fragmentos ....................................................................................................... 993
MOURA, Reginaldo Lima de ....................................................................................................................... 993
E QUANDO ELES NÃO FALAM? ....................................................................................................................................... 1002
MUNHOZ, Lucianna Magri de Melo ............................................................................................................. 1002
ENUNCIADOS DISCENTES EM UM PROJETO DE EXTENSÃO....................................................................................................... 1006
NASCIMENTO, Karoline Guimarães ............................................................................................................ 1006
DIAS, Cássia Redovalho ......................................................................................................................... 1006
VIEIRA, Maria Nilceia Andrade ................................................................................................................. 1006
O ENCONTRO COM A PESQUISA NARRATIVA: a singularidade de um modo dialógico de produção de conhecimento ................................ 1011
NOVAIS, Ruslane Marcelino de Mello Campos ............................................................................................... 1011
CÔCO, Valdete .................................................................................................................................... 1011
UM ESTUDO SOBRE DISTOPIA NO CINEMA: Star Wars é distopia ou não? ................................................................................... 1022
OLIVEIRA, Mikaela Silva de...................................................................................................................... 1022
CASADO ALVES, Maria da Penha ............................................................................................................... 1022
PARA UMA RESISTÊNCIA À ESCATOLOGIA: um olhar bakhtiniano .............................................................................................. 1028
OLIVEIRA, Rafael Junior de ..................................................................................................................... 1028
LIMA, Caroline Aparecida de ................................................................................................................... 1028
EFEITOS DE ATIVIDADES DIALOGICAS NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO ATIVO .......................................................................... 1039
PAISCA, Adriele Barbosa ....................................................................................................................... 1039
MASSI, Giselle Aparecida de Athayde ........................................................................................................ 1039
GOLINELLI, Rayssa Thayana .................................................................................................................... 1039
FEIRA E BAKHTIN: relações de vozes, de alimentos e de disputa ............................................................................................. 1050
PAULETTI, Jéssica ............................................................................................................................... 1050
DIALOGANDO COM AS PALAVRAS OUTRAS: cronotopo e extralocalizão, no contexto da descentralidade do eu ...................................... 1059
PEREIRA, Luiz Miguel ............................................................................................................................ 1059

RODAS DE CONVERSA

26

EXPERIÊNCIAS DOCENTES: por que (nos) escrevemos? ........................................................................................................ 1067
PIERINI, Adriana Stella .......................................................................................................................... 1067
PREZOTTO, Marissol ............................................................................................................................. 1067
VOZES E DISCURSOS DOS PROFESSORES DE GEOGRAFIA: um diálogo bakhtiniano ......................................................................... 1075
PRADO, Simone M. ............................................................................................................................... 1075
RESISTÊNCIA EM SALA DE AULA: a prática de uma professora ............................................................................................... 1082
PUCCI, Renata H. P. .............................................................................................................................. 1082
TRÊS GATOS, UM CACHORRO E UM PARDAL: quando a escrita encontra liberdade ........................................................................ 1087
ROHEM, Clara .................................................................................................................................... 1087
BEZERRA BARBOSA, Priscilla ................................................................................................................... 1087
CARTAZES DE MANIFESTAÇÃO: narrativas de resistência no espaço escolar sob um olhar bakhtiniano .............................................. 1097
ROHLING Nívea ................................................................................................................................... 1097
REMENCHE, Maria de Lourdes Rossi .......................................................................................................... 1097
BORTOLOTTO, Nelita ............................................................................................................................. 1097
ESTÉTICA RESISTIVA EM JOSÉ BEZERRA GOMES: a voz da tradição versus a posição particular de santos ........................................... 1111
SALES, Willame Santos de ...................................................................................................................... 1111
O QUE É INTERESSANTE?: enunciados e diálogos de uma criança e adultos sobre a produção infantil ............................................... 1120

SAMPAIO, Ana Alice Kulina Simon Esteves ................................................................................................... 1120
ALTERIDADE: saberes do encontro na cultura escolar ......................................................................................................... 1125
SANTOS, Ana Elisa A. dos ....................................................................................................................... 1125
O CARNAVAL E A PRAÇA PÚBLICA NA WEB 2.0: reflexões sobre novos modos de ser e estar na era das mídias digitais .......................... 1133
SANTOS, Gabrielle Leite dos ................................................................................................................... 1133
REFLEXOS DO VIVIDO EM OUTRO TEMPO-ESPAÇO: uma experiência da educação integral ............................................................... 1144
Idelvandre Vilas Boas S. SANTOS ............................................................................................................. 1144
NARRATIVAS LITERÁRIAS E ESCOLA: formar leitores como exercício de resistência ..................................................................... 1148
SCHEFFER, Ana Maria ........................................................................................................................... 1148
MICARELLO, Hilda ................................................................................................................................ 1148
ANÁLISE DIALÓGICA DO DISCURSO: conceitos basilares ....................................................................................................... 1160
SERRATTO, Maria Regina Franke .............................................................................................................. 1160
BERBERIAN, Ana Paula .......................................................................................................................... 1160
A CRIANÇA E A ESCOLA NUMA RELAÇÃO DE ALTERIDADE ....................................................................................................... 1167
SILVA, Eliana Rodrigues Medeiros da......................................................................................................... 1167
NA ARENA DA VIDA: meu caminho em verbo ..................................................................................................................... 1173
SILVA, Francisco Leilson da .................................................................................................................... 1173

RODAS DE CONVERSA

................................................. 1218 SOUZA....................... 1272 NARRATIVAS COMO POSSIBILIDADES DE RELAÇÕES DIALÓGICAS E PRODUÇÃO DE CONHECIMENTOS ................. Natália Rodrigues Silva do ................................... 1265 DIÁLOGOS ENTRE MILITÂNCIA E EDUCAÇÃO EM UMA COMUNIDADE SEM-TERRA .............................. 1196 MEMORIAL ANALÍTICO-DESCRITIVO: um acabamento estético ao vivido a partir de contribuições de Pierre Bourdieu.................................................... Nikolas Bigler de ............................................................... Andreiza Aparecida Santos ........... Georgete Moura .................. 1296 RODRIGUES..................... 1284 REIS... REYES .............................................................................. 1196 SILVA....................................................... por meio do dialogismo de Mikhail Bakhtin e a experiência em programa de docência ........................................ 1218 HISTÓRIA.................................... 1284 CÔCO............................................................. Carlos Roberto de ............. Marco Antonio ..... S.............................................................................. Valdete ................... Orlando Brandao Meza ........ Rômulo ..................... Rute Almeida e ................................................................................................................................................ 1196 AZEVEDO................................................................................... 1290 VIEIRA. 1187 Rafael Oliveira da SILVA .................................................................. Cleonara Maria ............ 1187 LEITURA: abertura para o ser-no-mundo .............. 1284 VIEIRA..................................................... 1296 VILLARTA-NEDER........................................... Marcela Lemos Leal .................................... 1246 CONSIDERAÇÕES SOBRE A TRANSPOSIÇÃO DIDÁTICA DA CANÇÃO NA ESFERA ESCOLAR DO ENSINO FUNDAMENTAL II .............................................................................................................................................. 1290 ENUNCIADO CONCRETO BAKHTINIANO: resistência à narrativa da escatologia política de capas da revista Veja ......................... Sammia Klann ................................................................................................................................................................................................................ 1296 RODAS DE CONVERSA ............... Ana Lucia Gomes de ........................ 1228 STELLA................................................................................................................................ Lilia de Lima ......... 1236 TARDAN.................. 1265 Hamilton E............................................................................................................................................................................................................................ 1246 SCHWARTZ................................................................... Renata Rocha Grola ............................................................................................................................. TEMPO E NARRATIVA: uma relação entre o pesquisador e o outro.............................................................................. 1284 O PROCESSO TERAPÊUTICO NA SINDROME DE TREACHER COLLINS A PARTIR DE UM ÓTICA DIALÓGICA ........................................................................ 1246 TEIXEIRA MACEDO...................................................... 1228 O MESMO E O DIFRENTE NO MESMO LUGAR: o instituído e o instituinte no ensino de língua portuguesa .................................................................................................................................................................................................................... Maria Nilceia de Andrade ................... Thais Angela .................................................. 1207 SILVA..................................... 1196 CARVALHO............................................................................. 1258 NARRATIVAS SOBRE DIVERSIDADE SEXUAL NO ESPAÇO UNIVERSITÁRIO: apontamentos de um percurso investigativo em curso ................................................................................................................................................. Rosana P...................................................... 1284 LOVATTI..................... VIEIRA . 1258 UCELLA............................................................................................................................................................................................................................................................................................................. 1272 VIEIRA........ 1207 UM ENSAIO CRONOTÓPICO: o espaço-tempo de um centro de ações comunitárias ................... Plasa............................................................................................................................. 27 ESTILO INDIVIDUAL E ESTILIZAÇÃO EM FOCO: o resgate dos contos maravilhosos pela literatura fantástica juvenil . 1236 REFLEXÕES BAKHTINIANAS PARA PENSARMOS OUTROS CAMINHOS PARA AS ATIVIDADES DE INTERPRETAÇÃO/COMPREENSÃO DE TEXTOS MATERIALIZADOS NOS CADERNOS ESCOLARES ..................................................... 1218 BARBOZA. Denise Lima................. 1265 Claudia R.... 1296 NASCIMENTO......................

...................................................................................................................... 1311 VILLARTA-NEDER.. 1400 LIMA.................................................. 1371 Marina Totina de Almeida LARA ......................... 1334 O CRONOTOPO BAKHTINIANO NA NARRATIVA DE GUIMARÃES ROSA: O TEMPO DO RISO EM “FAMIGERADO” ........... 1340 CARVALHO..................................................................................... Marco Antonio ....................................................................................................... Filipo.............................. Ana Paula Carvalho ....... 1328 ZERBINATTI............................................................................................................... 1363 QUANDO O RISO NÃO É REVOLUCIONÁRIO: uma análise da presença de memes em posts do blog do cursinho descomplica ............................................................................................. Liliane Correa Mesquita ................... Ana Lúcia Adriana Costa e .......................................... 1380 NEVES.. Ana Emília ........................................................................... 1340 BRAZ... 1380 LOPES......................................................................................................................................................................................................... Rhena Raíze Peixoto de .................................................................................................................. 1400 PAULA..................................................................................... 1371 DEBOCHE OU GRANDE QUADRO?: narrativas do riso enunciando uma palavra outra ........ 1400 RODAS DE CONVERSA .............................................................................................................................................................................................................................................................................................................................. Cleidson Frisso .............................. Nanci Moreira................................................................................................................................... Letícia Queiroz de .................................................................................................. 1334 BRANCO................................ 1363 FIGUEIRA............................................................................................................................ 1355 A PARÓDIA ENTRE A TRANSGRESSÃO E O LIMITE ................................................................................................ 1387 FALA QUE EU NÃO TE ESCUTO: o riso como resistência a escatologia política ............................................... 1340 O RISÍVEL E OS MEMES .................................................................................................. 28 A RÉPLICA DA ARTE COMO ATO RESPONSÁVEL EM RESISTÊNCIA À ESCATOLOGIA POLÍTICA ................................................................................................................................................ 1311 PRIMEIRAS LETRAS ................................................................................................................................................ 1348 DIVAGAÇÕES SOBRE O RISO . 1333 SAMBA E RESISTÊNCIA ................................. Danielle Bezerra de ....................................................................................................... Aline Maria Pacífico .................................................................... Fernanda de Moura....................... 1355 FERREIRA................................................................................................. Thaís Otani Cipolini ..................... 1395 O SITE SENSACIONALISTA E O RISO COMO ELEMENTO QUESTIONADOR DO DISCURSO MIDIÁTICO HEGEMÔNICO . 1387 MANFRIN.. Jaqueline Araújo da ....... 1328 riso ............................. 1395 NOGUEIRA ALCÂNTARA......................................................................................................................................... Gislaine Aparecida........................................................................ 1311 TEIXEIRA..................................... 1380 A CONTRIBUIÇÃO DO RISO CARNAVALIZANTE DO PROGRAMA GREGNEWS PARA A COMPREENSÃO DA LINGUAGEM EM MOVIMENTO E A DESCONSTRUÇÃO DE VERDADES ....... 1311 SILVA..................................................................................................... 1348 FAJARDO TURBIN...............................................

.................................... 1427 RODAS DE CONVERSA ................. 1427 XAVIER................ Giovanna Carrozzino .......................................................... Tatiani Daiana de .................................................................. 1408 LEITE.......................................... 1427 NOVAES.................................................................................... 29 CARNAVALIZAÇÃO E REALISMO GROTESCO NOS QUADRINHOS DE HENFIL: o humor como resistência ........ Manuelly Vitória de Souza Freire .............................................................................................................................. 1408 NOÇÕES BAKHTINIANAS: problema do conteúdo........................................................ 1408 WERNECK................. Priscila de Souza Chisté ........ do material e da forma em um cartaz de protesto ..........

corpos FORMAÇÃO DOCENTE INICIAL E CONTINUADA E CURRÍCULO .

tanto de quem conta a história. outros sentidos. sobre as experiências com a CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS contação de histórias e quanto. a maioria das pessoas consegue apenas pensar em ver você em grandes palcos. Os encontros promovem diálogos com outros corpos. Outros corpos. Sou uma pessoa um pouco tímida. O que me motivou a fazer a faculdade foi acreditar que dar aulas de teatro. Professores iniciantes. como para os alunos. como o corpo dos outros. Janaina de Sousa1 outras histórias. como o que de quem a ouve se comunica. RESUMO 31 Esse texto é um esboço das reflexões iniciais e interesses da autora. Palavras-Chave: Corpo. é bicho. queria mesmo era dar aulas. se reinventa. é arte. outras histórias. seja em uma cena de improvisação teatral ou em uma contação de histórias. da expressão. e até hoje quando eu entro em cena para contar uma história meu corpo inteiro treme. 2003) é o autor INICIANTES: experiências de corpos inspirador dessas reflexões e ele me faz pensar que a linguagem é tecida nas relações com os sujeitos. ARAGÃO. Percebe- se nesse momento a contação de histórias como E PROFESSORES uma experiência. pois a experiência de aula nunca se repete. acredito que desde sempre não queria o que todos queriam. Experiência. o nosso corpo se transforma.com CORPOS . em atuações marcantes. Nesses encontros o corpo que se transforma. mesmo não parecendo. é e sempre será significativo. Nosso corpo é sensível e está aberto ao encontro com o outro. pedagógicos. e acreditar que tudo vai dar certo. culturais. Contação de Histórias. e que uma experiência teatral com contação de em movimento histórias pode ser percebida como um encontro repleto de processos de criação entrelaçado por procedimentos artísticos. 1 Doutoranda em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação do Instituto de Biociências da UNESP/ Rio Claro. O corpo é arquivo. Faz tão pouco tempo que conheço o autor (março/2017). tanto para mim. Fomos "apresentados". Sou professora de teatro e o tema corpo sempre me interessou. é história. Bakhtin (1999. INTRODUÇÃO Q uando se é formada em Artes Cênicas.aragao@gmail. Tanto o meu corpo. e mesmo assim posso dizer que ele me conforta. enquanto professora. esse se transforma no que a gente quiser. essa é a deixa para falar de Bakhtin. como uma relação entre sujeitos possibilitada pela linguagem. onde o corpo. principalmente o corpo na dimensão da comunicação. muitos colegas que estudaram comigo também pensavam apenas nesse tipo de atuação. Inclusive. E eu. E o corpo. meu coração dispara e preciso respirar e alongar. também é transformador. nessa prática. E- mail:artejana. O outro. me faz acreditar numa pesquisa significativa uma pesquisa que dê espaço para a criação. outros olhares. interpretando diferentes autores e sendo dirigida por brilhantes diretores. me dá esperanças. ah o corpo.

sons. atualmente minha orientadora e a agradeço por isso. o rosto. imagens. a minha vem das histórias e da transformação que elas provocam em nosso corpo. neles se cruzam e combinam duas consciências (a do eu e a do outro). pela professora Dra. que ajudam a me transformar no que eu quiser. dúvidas. provocações. pois essa sensação é uma das belezas de fazer teatro. Essa sou eu fazendo o coelho de focinho tremelicante da História Menina Bonita do Laço de Fita (MACHADO.394). aqui eu existo para o outro com o auxílio do outro” (BAKHTIN. os olhos. Bakhtin (2003) afirma que “Os elementos de expressão (o corpo não como materialidade morta. 32 digamos assim. porém sempre procurando uma relação dialógica. as relações. às vezes como espectadores atentos. 2003. a vida. deixando de lado os medos. minhas “caras e bocas” não negam meu pensamento e se apresentam em meu dia a dia com muita naturalidade. 2005) Fonte: arquivo pessoal. porque esse não da nunca para perder. às vezes como receptores passivos. dramática. Laura Noemi Chaluh. Figura 1. A inspiração de cada um pode vir de diferentes lugares. EU E MEU CORPO NA CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS Assumo diversos personagens o tempo todo. Adoro contar histórias e o faço através da forma teatral. assim como não acontece o diálogo. p. Sem o outro o jogo teatral não acontece. menos o frio na barriga. e meu corpo acaba representando aquilo que sinto. usando acessórios cênicos para criar a ambientação cênica a fim de envolver a plateia que escuta a história de alguma forma. etc). CORPOS . Meu acessório predileto é a minha tiara da Minnie.

questionamentos. cada impostação de voz utilizada. enquanto professora de teatro e contadora de histórias. na história “Maria vai com as outras” de Sylvia Orthof (2008) ou de alívio quando vou cair dentro de uma piscina depois de um dia tão quente e com um cabelo tão liso. a sensação de ansiedade quando subo no alto de uma cadeira e imagino que vou pular de um penhasco. por exemplo. então esse caminho da pesquisa está ainda repleto de dúvidas. assim como com quem e como quero dividir sou eu. pois onde vou contar uma história. ainda tremendo um pouco ao escrever esse texto. 2003. Cada encontro com o outro é um processo único e com certeza marcará minha trajetória. ela está sempre comigo Eu ainda estou em processo de criação/ construção/ desconstrução/ descobertas/ questionamentos. pp. somente eu posso assinar por e neste lugar. por exemplo. 33 Em uma contação de histórias meu corpo experimenta as mais diversas sensações.14-15). Preciso me apaixonar pela personagem para poder interpretar. Somente eu ocupo este lugar. E o meu corpo onde fica nesse processo? Ah. cada construção inédita ou cada imitação que meu corpo apresenta. Todas essas personagens que se apresentam na contação de histórias. cada “caras e bocas” encenadas. Se eu não me identifico com a história. E a minha assinatura é aquilo que me torna responsável: capaz de responder pelo lugar que ocupo num dado momento. o processo de criação ainda está tão no início. Que bom. cada gesto produzido. e está aqui comigo. criei coragem para dividir com todos vocês um pouco desse processo que está se iniciando e já borbulhando dentro de minha mente e pulsando em meu corpo e coração. necessidades. num dado contexto (AMORIM. vontades. O lugar singular que eu ocupo é também o lugar da minha assinatura. Esse lugar que ocupo. Mesmo assim. na história da “Peppa” de Silvana Rando (2009). me mostra que sou responsável pelos meus atos. EXPERIÊNCIAS COM A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS E PROFESSORES INICIANTES Minha pesquisa de doutorado está se iniciando agora. carregam muito de mim mesma. CORPOS . implica em dizer que eu assino tudo àquilo que faço ou provoco. porque suas reflexões me provocam a pensar sobre o lugar que ocupo nessa relação de encontro como outro. Gostaríamos de alguma forma de poder contribuir para a produção de 2 Falo no plural. Pois eu me abro ao outro e espero que o outro me receba de braços abertos e que assim aceite dividir essa experiência comigo. em “Menina bonita do laço de fita” de Ana Maria Machado (2005). pois é nesse encontro com o outro que eu também me construo. ele está pulsante e em movimento. Trago as considerações de Amorim (2003) e que dizem de Bakhtin. não conto. Temos2 um carinho e também uma preocupação com o processo de formação artística dos professores iniciantes. simples assim. Sei que vou usar a minha tiara da Minnie já que é minha marca registrada. porque o encaminhamento da pesquisa está sendo construído junto com a minha orientadora. pois quem escolhe esse repertório. ou ainda o sentimento de surpresa e gratidão ao encontrar o olhar do outro como um coelho de focinho tremelicante.

1994. Nossa intenção é fazermos cursos de formação para discutir. de olhares. Estamos percebendo a contação de histórias como uma experiência. de símbolos. como o que de quem a ouve se comunica. que aparecem as “condições”. e é no fim desse processo. de discursos. O próprio signo e todos os seus efeitos (todas as ações. o autor afirma que o teatro épico tenta modificar as relações e que o mesmo diz respeito à vida e não às teorias do teatro. nós. Essa troca de experiência e a consciência dos atos entre artistas e público. da contação de histórias. de autoria. E só aparecem porque. sinais. É no indivíduo que se assombra que o interesse desperta. e não no começo. onde o corpo. de corpos. Pois realmente acreditamos que a experiência com contação de histórias é um caminho concreto para possibilitar essa formação e torcemos desde já que essas experiências reflitam e refratem.]. para o autor. e estamos abertos CORPOS . 34 conhecimentos sobre a potencialidade de cada sujeito na contação de histórias na formação desses professores atentos ao seu fazer docente. (está usando Para Benjamin (1994). Através de olhares. como no teatro naturalista. histórias.18). movimentos. energias. Acontecendo assim uma troca de signos. Quando escolhemos trabalhar com histórias e professores iniciantes. formamos uma “unidade social” e nos permitimos desenvolver um outro olhar sobre nossas próprias práticas. mas afastadas dele. p. (BENJAMIN. p. Cada contação é única. onde o ato teatral se desenha enquanto um acontecimento. viva e produtiva. Segundo Lehmann (2007. não com arrogância. sentir. somos professores. está transmitindo diferentes informações. p. como uma relação entre sujeitos possibilitada pela linguagem.] um signo é um fenômeno do mundo exterior. de experiências.33). para além dos muros da escola e do mundo encantado da contação de histórias. nós todos estamos diferentes.. Essa consciência permite-lhe ordenar experimentalmente os elementos da realidade. problematizar. o meu e o deles.. risos. pretendemos perceber e provocar nesse acontecimento. vivenciar. diferentes tipos de reflexões. já que cada um de nós é um sujeito único seja em sua alegria e tristeza. O teatro épico conserva do fato de ser uma consciência incessante. só nele se encontra o interesse em sua forma originária. dores e amores. Ele as reconhece como condições reais. experimentar. por exemplo. mesmo que a história se repita. em seu texto “O que é Teatro Épico? Um estudo sobre Brecht”. todos os corpos. reações e novos signos que ele gera no meio circundante) aparecem na experiência exterior”.. tanto de quem conta a história. “[. a experiência com a contação de histórias está dentro de uma tendência da experiência teatral contemporânea em embaralhar teatro e vida.] teatro significa um tempo de vida em comum que atores e espectadores passam juntos no ar que respiram juntos daquele espaço em que a peça teatral e os espectadores se encontram frente a frente”. de potencialidade corporal e verbal. transformar o corpo no que quiser. de relações.. conflitos e interesses. suspiros. e na contação de histórias. mas com assombro [. espantos. Dialogando com Bakhtin (1999.. criar. sensibilizando os sujeitos da escola na promoção da formação integral e artística dos alunos. Elas não são trazidas para perto do espectador. é umas das características importantes do teatro pós-dramático. 81). “[..

e também em cada grupo e em cada história. por isso. O corpo que se transforma e cria uma nova história se torna. Durante a experiência com a contação de histórias. 2003) me fez pensar que a linguagem é tecida nas relações com os sujeitos. e que. plural e. os corpos estão presentes nas cenas. eu enquanto sujeito percebo a minha incompletude.. pedagógicos. (LEPECKI.] O corpo não é algo que se basta a si mesmo. e também percebo como a narração é uma forma artesanal e pessoal de comunicação. por isso. em cada olhar. Corpos que levem para sala de aula a potencialidade da contação de histórias e que tanto alunos. autores. concretos. ora disfarçado.] Corpo é sempre corpo-arquivo. de possibilidades. no encontro da compreensão ativa entre o eu e o outro. de reinvenções..] dos horizontes espaciais ocupados pelos sujeitos”. o abrem para devires. políticos. um corpo- arquivo. No momento da contação de histórias. em cada diálogo. repleto de significado.. vivos. outros sentidos. ora interpretado. 36) que: “[. de partida. Desse modo.. outras histórias. p. juntamente com Freitas (2003. E podemos concluir. porque formador e transformador de si mesmo e dos enunciados que o fazem. reais. pp-47-48). entendemos que os sentidos são construídos nas interlocuções. 7). 35 e inacabados e nesse encontro de muitas vozes e corpos são produzidos diferentes sentidos.. podemos assim dizer. e que uma experiência teatral com contação de histórias pode ser percebida como um encontro repleto de processos de criação entrelaçado por procedimentos artísticos. percebo que sem o outro não adianta contar a mais linda história. desejante.] os sentidos dependem da situação experienciada [. CORPOS . como os professores iniciantes tenham espaço para a construção coletiva.. necessita do outro. fugitivo de si mesmo e mortal [. precário. Diferentes tipos de experiências emergem experiências que passam pela linguagem. do seu reconhecimento e da sua atividade formadora”(BAKHTIN: 2003. mas que por isso mesmo.] errante. 2013. e também situações dedesafios. Que esses encontros promovam diálogos com outros corpos... pelo sentido. pode-se perceber que em todas as suas ações o corpo não é neutro: é histórico. para vivenciarem experiências significativas com o fazer artístico. [. Essa experiência pode sim provocar muitas sensações. em cada espaço-tempo. E ele pode ser assim. em cada contexto histórico-social diferente. o delimitam. os sentidos sempre mudam em cada nova situação e vivência. CONSIDERAÇÕES FINAIS Dialogar com Bakhtin (1999. ora falado. para terem autonomia enquanto sujeitos. p. As lembranças vivenciadas com a contação de histórias ficarão o tempo que cada uma quiser ou precisar. nos jogos e nas discussões. experiências que tem na contação de histórias e no corpo seu ponto de encontro. sentidos outros: “[. agenciante. inventivo.. em cada expressão extraverbal. de improvisação e interpretação e também possibilitar que surjam corpos sensíveis.. Ora revelado. culturais.

2003) e dizer que ele me deu esperanças em pesquisar e ele me faz acreditar que essa experiência. Estética da criação verbal. Maria Teresa. esse encontro que acontece na contação de histórias. arte e política. RAPOSO. BAKHTIN. é história. CARDOSO. pois passa pelo meu corpo. LEPECKI. Magia e técnica. São Paulo: Ática. RANDO. KRAMER. MACHADO. 7. pela minha voz e pela minha alma. Sylvia. Maria vai com as outras. O corpo é arquivo. Planos de composição: dança. política e movimento. de provocar outras narrativas. 4. 1999. A contribuição de Mikhail Bakhtin: a tripla articulação ética. outros corpos. ed. BENJAMIN. entre eu e o outro provocam diferentes sentidos. Menina bonita do laço de fita. Teresa. sensações. outros mundos. CORPOS . São Paulo: Brinque-Book. ORTHOF. Peppa. Florianópolis: EDUFSC. São Paulo: Cortez: 2003. também é transformador. 2003. São Paulo: Ática. Sonia (org). é capaz também de suscitar o riso e também o choro. A terra do não-lugar: Diálogos entre antropologia e performance. Silvana.quero dizer que nosso corpo tem uma potencialidade capaz de resistir a qualquer tipo de escatologia política.Teatro pós-dramático. 2008. é arte. Pedro Süssekin. 1994. ed. 2009. E para finalizar. Solange Jobim. Vânia. Marília. Hans-Thies. Marxismo e filosofia da linguagem. M. IN: FREITAS. SOUZA. é bicho. Ana Maria. ed. REREFÊNCIAS AMORIM. LEHMANN. Paulo. Walter. trago novamente Bakhtin (1999. André. IN: DAWSEY. São Paulo: Hucitec. ____________. FRADIQUE. Trad. fazem emergir outros corpos e cada dia vai clareando a ideia de que essa relação única que acontece também é minha. 2005. Porque o corpo que se transforma. São Paulo: Martins Fontes. São Paulo: Cosac Naify. cutucar e tentar produzir sentido. John. Ciências humanas e pesquisa: Leituras de Mikhail Bakhtin. 36 E para-provocar. mais principalmente de se transformar. 2007. Mikhail. estética e epistemológica. imagináveis ou não. São Paulo: Brasiliense. 7. 2013.

José Anchieta de Oliveira3 histórica e a singularidade de usos diversos.br CORPOS . (AMORIN. INTRODUÇÃO O corpo grotesco da Idade Média e o corpo deficiente do século XXI não são os mesmos. Análise e manejo das relações com o outro constituem. que fazem relação como o outro. A autora traz como orientação teórica nessa discussãoo movimento de alteridade que se imbrica ao movimento dialógico. grotesco e signos ideológicos.com. 2004.Sem reconhecimento da alteridade não há objeto de pesquisa e isto faz com que toda tentativa de compreensão e de diálogo se construa sempre na referência aos limites dessa tentativa. em comparação com as concepções atuais do campo dos estudos sobre a deficiência. Signo Ideológico.O pesquisador deve considerar que o ponto de encontro na pesquisa é a partir do outro mediado pelo objeto. Rita de Nazareth4 teorias e contextos distintos. p. E-mail:ritasbentes@yahoo. ali onde se admite que haverá sempre uma perda de sentido na comunicação que se constrói um objeto e que um conhecimento sobre o humano pode se dar.br 4Doutoranda em Filologia e Língua Portuguesa do PPG da FFLCH-USP.com. o outro é ao mesmo tempo aquele que quero encontrar e aquele cuja impossibilidade de encontro integra o próprio princípio da pesquisa. ou seja:o ponto de partida dos estudos dos conceitos de “corpo grotesco” e de “corpo deficiente” baseado na diferença seja a base filosófico-metodológica prudente para a análise comparativa. Diferença no interior de uma identidade. como podemos observar: Nossa hipótese de trabalho é de que em torno da questão da alteridade se tece uma grande parte do trabalho do pesquisador. RESUMO 37 Este artigo trata da comparação entre o corpo grotesco e o corpo deficiente. conforme a arquitetônica em que são usados. Em que se distinguem? Neste sentido. no trabalho de campo e no trabalho de escrita. pluralidade na unidade. normalidade. que tem a marca BENTES. um dos eixos em torno dos quais se produz o saber. Toma-se como principal referencia os autores docírculo de Bakhtin postas em “A cultura popular na idade média e no CORPO DEFICIENTE: análise renascimento: o contexto de François Rabelais” para entender o corpo grotesco da Idade Média e em “Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da das distinções linguagem” para trabalhar com a noção de signo ideológico. 3Doutor em Educação Especial. 28-29). vamos seguir a orientação de Amorim (2004) quando diz que para comparar é necessário partir da diferença seja o objeto o outro ou os conceitos postos neste artigo. Corpo Deficiente. 1. precisamos compará-los. a partir das O CORPO GROTESCO E O distinções entre os dois. Palavras-Chave: Corpo Grotesco. Professor do PPGED-UEPA. como corpo. em SOUZA-BENTES.O objetivo é refletir sobre conceitos.do corpo marcado pela anormalidade. É exatamente ali onde a impossibilidade de diálogo é reconhecida. E-mail: anchieta2005@yahoo.

enquanto aqui ela é remetida para o ventre. a palavra localiza-se na boca e no pensamento (a cabeça). 270). chute no ventre (ou no traseiro). que “copulam. aqui não interessa estabelecer causas. 2002b. baseada numa dialética profunda. devoram. 279). São corpos comuns. Nessa obra ele esclarece como se dá a influência da cultura cômica popular na obra de François Rabelais. a matéria fecal e a urina. fazem as necessidades. p. 277). esse corpo absorve o mundo e é absorvido por ele” (BAKHTIN.] o aspecto topográfico essencial da hierarquia corporal às avessas. moribundo” (p. O método comparativo.. b) as crenças a respeito da deficiência e da normalidade. abordando o aspecto topográfico para explicar a respeito do princípio da vida material e corporal. é a ambivalência daexistência humana. doente. Trataremos da conceituação e da distinção desses dois termos. a classe social das pessoas deficientes. a partir do contexto do grotesco. e ele mesmo constrói outro corpo. Esse gesto tradicional. 38 Ocorre que se popularizou o termo “grotesco” e nessa popularização pode alguém achar que grotesco é sinônimo de deficiente. O aspecto topográfico representado naideia do espaço corporal que se imbricam no espaço temporal. bebendo. encontra-se aí a mesma lógica da inversão. a inclusão social e educacional. A dualidade desse corpo está posta nas composições “fecundante-fecundado. o nariz e a boca. o contato do alto com o baixo (BAKHTIN. os seus ditos giram em torno dos órgãos genitais. é eminentemente topográfico. [. Em termos. discriminadores – para com as pessoas deficientes. em Rabelais. as doenças. O CORPO GROTESCO DA IDADE MÉDIA O corpo grotesco é caracterizado por ser inacabado e dual. de criação. parindo-parido. aqui adotado. Ele é sempre “um corpo em movimento e jamais está pronto nem acabado: está sempre em estado de construção. o baixo ocupando o lugar do alto. Eis um trecho utilizado pelo autor em sua obra. devorador-devorado. pode ser usado para estabelecer a comparação a partir da diferença. 2002. o ventre. essencialmente na sua relação com a cultura popular. O sentido do corpo grotesco representa. excretando. e c) os comportamentos sociais – preconceituosos. classificações e diagnósticos dos corpos deficientes: o que interessa aqui são aspectos socioculturais.. 2. Esta pode ser uma razão para tratarmos dessa distinção. de onde Arlequim a expulsa com uma cabeçada. vem tratar sobre a compreensão topográfica do corpo que se dá na relação CORPOS . 278). além disso. sendo o plano espiritual rebaixado ao plano material. o corpo despedaçado” (p. Bakhtin traz este sentido do corpo grotesco na “A cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rabelais” (2002). das distinções. p. Entende-se por aspectos socioculturais a discussão a) a caracterização das pessoas como deficientes e não-deficientes.

a roupa do avesso. quando o vocabulário da vida sexual.na língua inglesa. 280). Esses CORPOS . o padrão de corpo perfeito. O CORPO DEFICIENTE DO SÉCULO XXI O que são pessoas deficientes? Pensamos em palavras como “cegos”. Então o que é um corpo deficiente? E outras questões emergem:por que são deficientes? Quem os faz deficientes? Por que são usados esses termos? Se esses termos geram algum constrangimento. 3. ao contrário desses fenômenos. entre os anos de 1840 e 1860. 91). regras e tabus” (2002a. Tudo isso como marca de uma concepção libertadora. a comicidade. p. Suas características fundamentais é que são únicos e materiais. “esquizofrênicos”. por isso. as relações grosseiras. “paralíticos”. os signos ideológicos são: Qualquer produto ideológico é não apenas uma parte da realidade natural e social — seja ele um corpo físico. o exagero. Isso se associa ao contato do homem com o mundo. Para Bakhtin. o local apropriado para a realização da contestação ao poder era a praça pública. um instrumento de produção ou um produto de consumo — mas também. esses termos usados em uma situação concreta de comunicação. remetem a alguma noção de anormalidade em comparação com a normalidade impositiva. a nudez ou o seminu. em oposição ao oficial ao poder dominante e opressor do sistema feudal. refletem e refratam uma outra realidade. reflete e refrata outra realidade que se encontra fora dos seus limites. segundo Davis (2006). com o que o autor chama de “baixo” material e corporal. os objetos com outras funções. os papeis identitários invertidos. o comer e o beber exprimiam “uma concepção do mundo” (p. as posições invertidas – de trás pra frente. era uma “espécie de liberação temporária da verdade dominante e do regime vigente. 8). tendo como característica marcante a dualidade dos corpos. ausência e anormalidade. ou seja. para designá-los? Essas questões podem ser respondidas por uma teoria que recebe a designação de estudos da deficiência. em uma relação com os estudos culturais. popular. Por essas razões. O corpo grotesco é característico da liberdade verbal do século XV. “dementes”. designam pessoas. “doidos” ou quaisquer outros signos ideológicos designativos que carregam em grande parte marcas de inferioridade. estão em um campo da criação ideológica e são fenômenos do mundo externo. na França. privilégios. em uma realidade objetiva. “cadeirantes”. “surdos”. o vocabulário de elogio e injúria ao mesmo tempo. quais os melhores termos. do alto para baixo. 2017. de abolição provisória de todas as relações hierárquicas. p. a concepção de normalidade e a concepção de corpo deficiente/lesionado. 39 ambivalente entre o alto e o baixo. Decorrente desses estudos surge. A propósito. ele é um signo” (VOLÓSCHINOV. Tudo o que é ideológico possui uma significação: ele representa e substitui algo encontrado fora dele.

de estabelecimento de padrões. e. 19): “No conjunto dos valores culturais que definem o indivíduo “normal”. com maldade para com um indivíduo com deficiência. não dos humanos viventes. 40 estudos passaram a regular todas as políticas públicas. 4. como afirmamos nas duas teorias. Este poder é realizado pelos diagnósticos feitos com amostras de sangue. juntamente com a constituição das nações e do Capitalismo. que era atribuição somente dos deuses mitológicos. em razão de uma característica de anormalidade estabelecida no corpo da pessoa. o nível de aprendizagem. enfim praticamente todos os aspectos da vida humana. A normalização do corpo é uma ocorrência recente da civilização. a acepção da palavra dizia respeito a tirar a esquadria – instrumento para traçar ângulos –. as ocorrências de discursos e de ação que implemente um tratamento desigual. dando muito poder aos médicos. nos séculos XX e XXI. Davis (2006) relata que na Grécia antiga o que existia era a concepção de ideal. a alimentação por meio da quantidade de nutrientes a serem consumidos. Ser deficiente. Como afirma Ribas (1985. fezes e imagens de raio X. a beleza. a altura. Aqueles que fogem dos “padrões”. Na teoria de Davis (2006) a concepção de corpo normal surgiu na modernidade. Estar fora da média. p. 15). sendo um termo usado por carpinteiros para traçar suas linhas perpendiculares e estabelecer o esquadro ou norma de um objeto. passaram a ser medidos. O surgimento do conceito de corpo normal tornou-se CORPOS . urina. os órgãos do sentido. neste caso. O termo com a acepção de regulação de procedimentos ou atos. p. controlados. pode significar problemas sérios de aceitação nos diversos grupos sociais. decorrente da anormalidade é bastante recente em nossa sociedade ocidental. e até na constituição de amigos não deficientes. estão incluídos “padrões” de beleza e estética voltados para um corpo bem-formado. 2009. de certa forma agridem a “normalidade” e se colocam à parte da sociedade”. todos os atos realizados na sociedade civil implicavam o estabelecimento de padrões. por conseguinte de definição dos defeitos ou problemas físicos ou mentais. as diversas dimensões corporais. com a padronização de um corpo médio. A partir disso. do corpo passaram a ser medidos. do estabelecido como padrão acarreta discriminações. "A história do corpo no século XX é a de uma medicalização sem precedentes" (MOULIN. comparados: o peso. Compreende-se a ocorrência de episódios de discriminação. Antes disso. da caracterização dos defeitos – anormalidades. que passam a controlar e a resolver os problemas que dizem respeito ao corpo. os corpos. DISTINÇÕES Corpo deficiente ou anormal não é sinônimo de corpo grotesco. ultrassonografias e com aparelhos sofisticados que utilizam radioatividade e outras formas de obtenção de filmagens. os órgãos de locomoção. de inteligência.

5. p. de se locomover. Já o corpo grotesco é a “forma visual relacionada inversamente ao conceito de ideal”. Em seu curso a expressão corpo normal abrange a mudança conceitual do vocábulo norma. CORPOS . na visão bakhtiniana foi estabelecida no século XV com ingrediente da cultura cômica popular da Idade Média. transgressoras da ordem e costumes dominantes. incapaz de aprender. 2006. de ter independência. da mescla com a natureza. tendo seu apogeu com o nazismo. Ele só alcançaria essa autonomia se por milagre ou por intervenção médica passasse a ser normal. A ideologia dominante o caracteriza como inválido. revertendo padrões de normalidades. Por falar nisso. Já a do corpo deficiente é de anormal. Passemos a estabelecer algumas distinções: O corpo grotesco. Assim. ajuda e reabilitação. Galton e Grahan Bell. O anormal engloba toda conduta que se afasta do estabelecido culturalmente como média de atuação dos seres humanos na sociedade para uma situação determinada. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como se pode perceber os termos grotesco e deficiente não são semelhantes. 41 ideologia para a criação do corpo defeituoso. 6). A caracterização dos corpos grotescos é como não ideal. A instauração de novos discursos e comportamentos implica: a) Quebra dos padrões estabelecidos de beleza. segregando as raças que não sejam da “raça pura ariana”. a eugenia está associada ao progresso. até chegar ao seu uso e divulgação pelo romance (DAVIS. O processo de constituição da expressão corpo normal no significado que temos hoje – de sem defeitos ou problemas físicos ou mentais –. coma deformidade e a multiplicidade de órgãos. Construir uma educação coletiva como um projeto político de oposição a qualquer forma de opressão e discriminação. marcado por uma lesão. Cabe a nós fazer alguns indicativos para romper com atitudes preconceituosas e discriminadoras em relação às pessoas deficientes. com as características da comicidade. por intermédio da estatística. da eugenia. O corpo grotesco está sempre em construção. com seus respectivos teóricos Quetelet. p. portanto está inacabado.4). à visão hegemônica de como o corpo humano deve ser e ao impedimento de relacionamentos entre raças. do exagero nas dimensões corporais. analisado principalmente na obra de Bakhtin. Gordian. um problema médico que necessita de intervenção. 2006. da teoria da curva do sino. como “uma qualidade transgressiva de afirmação em sua inversão da hierarquia política” (DAVIS. Já o conceito de Normalidade foi estabelecido por volta de 1840. foi criado a partir da noção estatística da curva do sino. conforme os autores estudados. o conceito da normal vem do conceito dos desvios ou dos extremos” (DAVIS. com a formulação de que “toda a curva do sino terá sempre em suas extremidades aquelas características que se desviam da normalidade. anormal. Já a tendência do corpo deficiente é considera-lo como acabado. juntamente com a Eugenia e a Estatística. 2006).

42 b) Uso da Libras. que reconheça e aceite o Outro com suas especificidades e diferenças sem tentar moldá- lo. adaptáveis. REFERÊNCIAS AMORIM. São Paulo: Hucitec.o importante é estabelecer a compreensão profunda do texto e utilizá-lo para realizar algo. 1-50. para os interesses de um dominador. M.a pessoa deficiente irá participar do seu jeito de ser dessas ocorrências. A imagem grotesca do corpo em Rabelais e suas fontes. Temática da alteridade. Possibilitar uma participação efetiva na sociedade. f) Busca da comunicação e do uso de diferentes tipos de linguagens para estabelecer a interação. O pesquisador e seu outro: Bakhtin nas ciências humanas. Tradução de Yara Frateschi Vieira. 5ª ed. sendo que o interlocutor deve interpretar os conteúdos. d) Ambientes acessíveis. M. Ao colocar no debate possibilidade de posições sobre o “corpo grotesco” e o “corpo deficiente”.23-91. e) Aceitação de outras formas do escrito. disputando espaços. Brasília: editora universidade de Brasília. c) Uso do Braille e da descrição oral. analisando sua origem. suas valorações e fontes ideológicas que a defendem. h) Uso funcional de textos . Considerar o letramento para além de medir as habilidades funcionais de leitura e escrita. A cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rabelais. i) Oportunidades de participação em eventos de letramento . resolver um problema imediato ou pelo menos encaminhar para a resolução. In: BAKHTIN. oportunizando experiências qualitativas de vida e de realização dos objetivos de vida de cada sujeito. cabe a todos nós identificar o signo ideológico que está por traz das imagens de grotesco e de deficiente. 2004. Tradução de Yara Frateschi Vieira. p. amplos. a autorrealização e ao desenvolvimento de identidades relacionais. p. estamos construindo possibilidades de posicionamentos outros sem o teor de posições preconceituosas em prol de construir consciências. d) Uso do visual e da praticidade na experimentação para a compreensão de conceitos e teorias. São Paulo: Editora Musa. 265-322. M. Introdução: apresentação do problema. In: AMORI. dando coerência ao texto produzido por pessoas deficientes. Brasília: editora universidade de Brasília. BAKHTIN. A cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rabelais. M. p. In: BAKHTIN. 2002. São Paulo: Hucitec. M. BAKHTIN. CORPOS . g) Quebra de padrões elitizados e classe em todos os espaços de convivência com as diferenças. considerando a deficiência e ultrapassando barreiras. 5ª ed. Por fim. passando a considerar suas implicações e suas características pessoais de se comunicar. 2002b. do intérprete e de todas as formas possíveis de comunicação.Levar ao empoderamento.

In: DAVIS. A ciência das ideologias e a filosofia da linguagem. notas e glossário de Sheila Grillo e EkaterinaVólkova Américo. 1985. 91-102. 43 DAVIS.7-24. Brasiliense.. 2009. A construção da normalidade: a curva do sino. J. L. [texto digitalizado]. São Paulo: Editora 34. J. O que são pessoas deficientes? São Paulo: Nova Cultural/Ed. Petrópolis:Vozes. J. MOULIN. Tradução. V. Trad. 3-16. COURTINE J. J. p. CORPOS . The disability Studies Reader.). A. História do corpo: as mutações do olhar: O século XX. (Ed. José Anchieta de Oliveira Bentes. In: VOLÓCHINOV.. 2nd ed. L. 15-82. VOLÓCHINOV. V. C. In: CORBIN A. p. ed. 3ª. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. O corpo diante da medicina. M. B. VIGARELLO G. New York: Routledge. 2006. Ensaio introdutório de Sheila Grillo. p. p. o romance e a invenção do corpo incapacitado no século XIX. 2017. RIBAS.

do devir. Mikhail BOENO. “uivo humano”. Toma posição. de Clarice Lispector. se constrói no INTERCORPÓREAS EM entrelaçamento de arte verbal que evoca imagens intercorpóreas. Grita de felicidade. Nascimento-vida. o topos de vida interna. p. Neiva de Souza5 Bakhtin INTRODUÇÃO: ÁGUA VIVA É com uma alegria tão profunda. em sua tese A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (1965). autonômo . O herói-personagem está intensamente feliz. Imagens intercorpóreas. Olha-se como toureiro na arena. Afirma que ninguém o prende mais. A escritura entrelinhar de Clarice. as quais recortamos: “alegria profunda”. E com uma desenvoltura de toureiro na arena (LISPECTOR. Está consciente e apto à abdução da matemática. É uma tal aleluia. Corpo. Clarice Lispector. segue desenvolto para desafiar-se e defender-se de si e do outro. Professora de Língua Portuguesa na Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso e Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá. elementos fundamentais da teoria bakhtiniana e pontos de partida para realizarmos nossa análise. mas. dor escura. grito eu. “felicidade diabólica” (“morte alegre”. em um corpo.em Bakhtin). mas LISPECTOR também o conceito de “polifonia”. Interroga o outro e segue unido com seu interlocutor. “morrer de rir” . RESUMO 44 Neste texto. Aleluia. Já nessa cena inicial desenhada por Lispector podemos encontrar as imagens intercorpóreas teorizadas por Bakhtin (2010). “dor de separação”. Contraste de cores em seus sentidos. Palavras-Chave: Água Viva. entendida como arquitetônica do dizer. Trata-se de uma escritura não reduzida ao significado semântico das palavras e apenas ao entendimento da frase. DE CLARICE escritura de enunciação. O próximo instante é feito por mim? Fazemo-lo juntos com a respiração. Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido. E-mail: professoraneivaboeno@gmail. de uma “ÁGUA VIVA”. CORPOS . Porque ninguém me prende mais. “loucura do raciocínio” (lógica abstrata – corpo fechado. 9). Bolsista CAPES/PSDE 2016-2017 na Università del Salento. claro-escuro. Continuo com capacidade de raciocínio – já estudei matemática que é loucura do raciocínio – quero me alimentar diretamente da placenta. Medo do desconhecido. aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. Deseja alimentar-se da placenta.em contraposição à afiguração concreta – 5Doutoranda em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal de Mato Grosso. em Lecce-Itália. 1998. juntos pela respiração.com. Sente a dor da separação. A imagem do corpo tem papel central nessa obra literária e nos propõe não somente a temática do “corpo grotesco”. Tem medo. apresentamos uma leitura da obra IMAGENS Água Viva (1973).

no sentido bakhtiniano. portanto. em particular. É assim que o leitor-espectador entra em relação com a escritura de Água Viva (1973). como diz Augusto Ponzio. num intenso diálogo (BAKHTIN. sentimentos.10-11). e de um ponto de vista semântico. apud PONZIO. CORPOS . 1998. a palavra literária adquire um valor metafórico no signo do “corpo”. que dá o tom do saber e do sabor entre corpos diferentes. METÁFORA DO CORPO. de Clarice Lispector.materiais e imateriais. temos a voz do herói que responde a si mesmo sobre como se faz o próximo instante: “fazemo-lo juntos com a respiração”. 2013. p. 2002). A metáfora do corpo na escritura entrelinhar de Clarice é o signo que é mais presente nesta obra literária. entendida como arquitetônica do dizer. obra publicada em 1973. 175). humano e animal. sempre partindo de um movimento bicorpóreo. Aqui não se pretende analisar a palavra “corpo” do ponto de vista literal e metonímico. 1. cena que novamente nos propõe a ideia do corpo não acabado. inacabamentos. PALAVRA LITERÁRIA E CORPO GROTESCO Na vida. do ser e estar no mundo da linguagem e da cultura. na “escritura entrelinhar de Clarice” (BOENO. do corpo consigo mesmo e com outros corpos orgânicos ou inorgânicos. Neste percurso de leitura e em uma primeira estratificação. aqui na obra de Lispector. mas em relação com outro corpo. em suma. tem o poder metafórico e a potencialidade de evocar imagens e. 20). Neste caso. em uma cena plena de imagens que joga com luzes. eu corpo-a-corpo comigo mesma (LISPECTOR. nascimentos. tudo o que faz parte da realidade material e imaterial pode se tornar signo. na tessitura de Água Viva. É também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo. L. imagens de vida plena na sua ambivalente intercorporeidade. ligado ao seu significado. é um corpo realisticamente considerado em sua indissolúvel relação com o mundo e com outro corpo. A. o herói-personagem de Lispector se coloca inteiramente em relação corporal consigo mesmo e com outros corpos . especificadamente em Água Viva. como diz Bakhtin (2010). 2017. 1929. 2016). que podemos encontrar na escritura literária. No texto artístico. podemos falar de palavra com valor literário e não simplesmente de palavra do ponto de vista literal. Ainda nesse trecho. como podemos re-ler no fragmento seguinte: Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é abstrato como o instante. falando do círculo bakhtiniano: “um corpo sígnico adquire um significado ‘que vai além da sua particularidade’” (BAKHTIN. pp. de relações entre corpos. VOLOCHINOV. A palavra “corpo”.. p. Já nesse fragmento que inicia a obra Água viva se compreende a presença do conceito de “corpo grotesco” que. medidas. “quero me alimentar diretamente da placenta” (placenta: corpo que gera outro corpo). em relações interiores e exteriores. 45 corpo diálogico). podemos dizer que a escritura literária é uma “escritura ante litteram” (PONZIO. orgânicos e inorgânicos. VOLOCHÍNOV.

Como se arrancasse das profundezas da terra as nodosas raízes de árvore descomunal. monótona. e tudo isso é uma prece de missa negra. tela. 2010. 20). o “tecido” de Lispector se faz. por exemplo) provocam imagens que nos ressoam. 20). trabalha-se a si mesmo por meio de um entrelaçamento contínuo entre palavras e imagens. autosuficiente e acabado no traço que segue um contorno. a leitura é inseparável da escritura: quando leio. interpreto. segundo o livro de Gênesis. trama. fala do movimento de escritura como atividade de pesquisa para ver (DERRIDA. também realiza uma cena grotesca. a escritura recupera a ambivalência e a percepção dupla das imagens e das palavras que não permanecem mais ligadas apenas ao significado unívoco e unidirecional.criado por Deus come o fruto proibido da árvore da ciência. da materialidade da língua e de toda a musicalidade de sua palavra literária. 1998. onde. re- escrevo o texto. entre corpos escritos. multiplica a visão. Vejamos o fragmento em que o autor-herói. a raiz que vai avançando lá onde o discurso é fértil. e que retoma também o conceito da metáfora do rizoma. 2010. Assim.. no momento de entender o texto na concepção moderna do texto (segundo Barthes na obra O prazer do texto. que podemos dizer que a escritura de Lispector. do bem e do mal. significa tecido. traduzo. sobretudo. declarando: “é assim que te escrevo” (LISPECTOR. entendida no sentido de Barthes. 1990). a palavra-imagem lispectoriana é dupla e reversível. é assim que te escrevo. rede sígnica). em geral. do corpo isolado. escrevo. Um “tecido” que subverte a transcrição em “escritura intransitiva”. de um ponto de vista semiótico. p. 2012). e um pedido rastejante de amém: porque aquilo que é ruim está desprotegido e precisa da anuência de Deus: eis a criação (LISPECTOR. a ambivalência. ordinária do cotidiano possível. etimologicamente vindo da palavra latina ‘textus’. A. fechado. “escritura do corpo”. afigurado na imagem intercorpórea de narradora-pintora-escritora em Água Viva. em que o primeiro casal . 46 A palavra literária. monológica. 10). mas também o escreve. como sabemos. mas refrata a realidade dos signos “árvore” e “raízes” e direciona-os à energia pulsante de seu ato de reescrever a escritura mesma. entrelinhas: onde o espaço branco da escritura é a chave de leitura). de Deleuze (1998). em uma visão obtusa (BARTHES. na perspectiva tradicional da realidade assim como ela se representa. As palavras de Lispector (“árvore” e “raízes”. 1998. Como dissemos. Sua escritura que reescreve a imagem da árvore afigurando-a como “árvore descomunal” numa “prece de missa negra” com “um pedido rastejante de amém”. 2002. aquela que contém o conhecimento da ambivalência. escritura. Nesse sentido. constrói-se lendo-o para além do corpo textual (fragmentos. subvertem a visão séria. não reflete. Tudo isso pode nos remeter também à imagem bíblica do Jardim do Éden.Adão e Eva . É por isso. em que texto. no sentido CORPOS . p. “corpoescrito” (PONZIO. recuperam o duplo sentido. e essas raízes como se fossem poderosos tentáculos como volumosos corpos nus de fortes mulheres envolvidas em serpentes e em carnais desejos de realização. não se limita na atividade de ler o texto. quando o linguista diz que a palavra tem pelo menos dois sentidos em um tempo só. nesse fragmento. p.

. A. I segni del corpo tra rappresentazione ed eccedenza. em particular. em que esse determinado elemento resulta pertinente mais do que os outros a ser significante principal de que. em que há separação de imagem e som. 47 de Bakhtin (2010). A função dramatúrgica dos meios expressivos comporta uma polifonia funcional capaz de emerger. p. disponível em: <http://www. A. como Bakhtin (2013) a entende. portanto. em que se demonstra a semelhança entre a polifonia bakhtiniana e a “orquestração” de Eisenstein. Para o filósofo russo. O conceito central na pesquisa teórica e criativa de Eisenstein é aquele. mas reguarda a possibilidade da obra ser discurso feito por mais vozes.com/files/il_cinema_augusto_. da sucessão de situações em que os personagens dialogam entre si. não depende da quantidade de intervenções e de partes que se apresentam na obra.p. como momento inicial de superação dos nexos passivos e realísticos (PONZIO. distintas e no mesmo tempo coordenadas através de uma inteligente “orquestração” (PONZIO. de 1999. 1999. Essa cena intercorpórea repropõe as temáticas bakhtinianas não somente do “corpo grotesco”. Por isso. separação como momento de ruptura de mera coexistência de elementos de um fenômeno. orquestração e visão artística A polifonia. separação da cor de seu objeto. como continua a explicar A. o caráter polilógico de uma obra literária não é dada pela presença da forma diálogo. 347) no início do seu ensaio. a polifonia de Bakhtin é ligada ao conceito de “orquestração” aprofundada por Einsenstein no cinema. p. diz Einsenstein. mas também de “polifonia”. se quer expressar. representa o protótipo de um correto procedimento capaz de utilizar cada setor expressivo ao máximo das suas possibilidades e ao mesmo tempo se colocando em “ensemble” (termo em francês que significa “juntos”. 1. presente no livro Fuori campo. “A separação da cor do seu objeto”. Ponzio (1999. em um específico momento da realização de um discurso fílmico. de autoria de Augusto Ponzio. dissolve a natural convivência 6 Sugerimos a leitura do texto: ‘Cinema Augusto’ alias ‘Cinema Ponzio’. O termo “polifonia” retoma a teoria de Bakhtin. A orquestra. da “polifonia dramatúrgica dos meios de ação cinematográfica”. Ponzio na sua análise de construir um diálogo entre o teoria do cinema de Eisenstein e a arquitetônica estética de Bakhtin (2011). Para compreendermos melhor o conceito de “polifonia” é importante estabelecer uma relação entre teoria literária e cinema baseando-nos no estudo de Augusto Ponzio. i canguri e Dupin”. em seu ensaio “Ejzenstein. Nesse contexto. formação musical em que os músicos tocam juntos). dedicado ao Cinema Augusto6. a polifonia pode ser também concebida como alternância dos meios expressivos em função do efeito dramatúrgico. naquele específico momento. CORPOS . como diz A. um determinado elemento expressivo ao máximo das suas possibilidades. e.1 Polifonia.augustoponzio. entre o conceito de “orquestração” e “polifonia”. 1999). 347). com diversos pontos de vista ( idem. é heterogeneidade de vozes e reciprocamente respeitadas. 351)..pdf>.

pp. Essa separação criativa não comporta a autonomia dos elementos separados. como continua a dizer A. p. muda principalmente sua situação no espaço. o alto e o baixo. a separação criativa é complementar à mistura carnavalesca estudada por Bakhtin (2010). 1999. no devir multíplice (DELEUZE. (BAKHTIN. Ponzio (1999. uma inversão carnavalesca. como “excrescências e ramificações” que têm “um valor especial”. e prenhes. Em suma. mas a interação deles. a passagem da imagem à música e da música a cor no cinema de Eisenstein. 20) escreve as imagens das “nodosas raízes de árvore descomunal” afigurando-as como “se fossem poderosos tentáculos como volumosos corpos nus de fortes mulheres envolvidas em serpentes”. o trasseiro no lugar do dianteiro. O cinema tem a potencialidade de realizar ao máximo o processo de ex-stasis porque dispõe de meios expressivos e heterogêneos. 48 do objeto com sua cor. pois “tudo o que em suma prolonga o corpo. carregando-o de novos significados. requerendo uma mistura e a recombinação desses elementos separados e a posição deles poderia ser invertida em um recíproca troca de lugar. concreta. junto com outros corpos e com o mundo inteiro: todas “as imagens são bicorporais. em termos bakhtinianos. põe o baixo no lugar do alto. indica o momento dinâmico e temporal de passagem de um registro expressivo a outro. está CORPOS . criadas e que criam (“fecundante-fecundado”.360). 2010. 352). como diz Bakhtin. jamais pronto nem acabado. em sentido literal. Pelo contrário. de uma linguagem à outra. 2010. 1999). mas. a junção de coisas normalmente separadas e distintas. como exemplo. etc. ela é sempre afigurada. Porque o “corpo grotesco é um corpo em movimento”(idem). a separação. objetos autossuficientes e estáticos. Em todas as imagens da festa popular. Igualmente o corpo grotesco é um corpo em devir.. cada coisa é vista no seu devir. 2010. podemos traduzi-las. como de suas partes. Para Eisenstein (PONZIO. A negação e a afirmação. A polifonia dramatúrgica. p. tudo isso se encontra no conceito de Eisenstein de “ex- stasis”. p. estão nelas fundidos e misturados em proporções variáveis” (BAKHTIN. lógico. p. Ponzio (idem) referindo-se aos estudos de Pietro Montani sobre a obra de Eisenstein. reúne-o aos outros corpos ou ao mundo não-corporal” (BAKHTIN. bifaciais. sensível. exagerando desmesuradamente um único de seus elementos em detrimento dos outros. “devorador- devorado”. Não é o nada que se encontra por trás dela. 353-354). deforma as proporções espaciais do objeto. a “separação” é o momento necessário para cada criação artística. A negação remaneja a imagem do objeto denegrido. transporta-o inteiro para os infernos. 359). as injúrias e os louvores. significa “sair fora de si”. p. A. tanto do objeto inteiro. 2010. Ex-stasis. a ruptura dos nexos passivos e realísticos. Ainda nessa análise. de objeto denegrido. 277). mas uma espécie de objeto às avessas. Voltando ao trecho em que Lispector (1998. e ligada a um processo gerativo com outras coisas. pode-se individualizar uma ligação entre o conceito eisensteiniano de “ex-stasis” e o conceito bakhtiniano de “corpo grotesco”. permitindo a realização do cômico na cor. diz A. E do ponto de vista do conceito de ex-stasis não existem separações e nem ligações definitivas. p. resultando na desvinculação do seu contexto habitual. a negação jamais tem um caráter abstrato. 278).

pegar ou apanhar antes para se proteger) como faz o cego. pela primeira vez (MERLEAU-PONTY. como milagroso. que seja encontro com os objetos como aparição. 16). conforme a concepção de Barthes (1999) em pesquisa apresentada no livro Variazioni sulla scrittura. tomando as palavras de Bakhtin: [. 2015). como atividade que não deve ser confundida com a transcrição. Uma visão que não se limita ao mundo das aparências. uniforme e cega do corpo..] a lógica artística da imagem grotesca ignora a superfície fechada. além da linha do confim. em geral. desconsiderando as expectativas de cada leitor-consumidor (PONZIO. 2012). ela não reflete a realidade descrevendo-a. além da realidade. ele mesmo constrói outro corpo. 49 sempre em estado de criação. Somente assim. 1974. é uma escritura que escreve sem ver (DERRIDA. começa a construção de um outro ou segundo corpo. naqueles lugares em que o corpo mesmo se ultrapassa. desenhar um outro espaço além do que é visto. p. uma escritura que irrompe imprevisivelmente com um desenho de uma ideia que tem a aparência de um texto escrito. que se mostra em seu particular movimento de abertura e escuta. 2017).. mas a refrata no processo da afiguração favorecendo o movimento da escritura. como se os objetos fossem vistos por um ser de uma outra espécie. Aqui devemos entender a escritura. podemos falar de uma escritura escrevente e incisiva. como abordávamos no item anterior. portanto. o texto de escritura tem duas partes. diz Derrida (2010). esse corpo absorve o mundo e é absorvido por ele. Nessa cegueira vidente. dito. prevê sem olhos. isto é. sai dos seus próprios limites. construir. uma escritura inaugural. uma escritura sem memória (SOLIMINI. Para ele. além do mundo dos objetos. brota] – e dos orifícios. por se tratar daquilo que é possível entender no texto verbal porque pertence à dimensão frásica (caracterizada por dois campos de estudo: a semântica: estudo do significado das CORPOS . o papel importante se realiza naquelas partes. mas visão (ŠKLOVSKIJ. que não se agarra antes (no sentido de apreender. Cria um espaço novo. Escrever. ocupa- se apenas das sobressaídas [aquilo que sai] – excrescências e brotos [aquilo que nasce. L. uma escritura que não coloca a mão avante. p. uma escritura de pesquisa (DERRIDA. deitada sobre a página. ILEGIBILIDADE E LITERARIEDADE A escritura entrelinhar de Lispector na obra Água Viva está na direção de uma escritura paradoxalmente “ilegível”. somente daquelas coisas que saem dos limites do corpo e que conduzem ao fundo desse mesmo corpo (BACHTIN. que não seja apenas reconhecimento dos objetos. E por isso.. 2012). a escritura inventa e reescreve a si mesma. [1965] 1979. uma que pode ser chamada de “consumível”. mas inaugura um evento. significa fazer ver. Trata-se de uma escritura que distrai a língua servil. 348 [tradução nossa]). que não sabe fazer outra coisa que não seja repetir a letra. Retornando ao sentido da palavra literária. 2010. Em suma. que não antecipa. 2. Em síntese. uma escritura de descoberta. 1984). superando os limites e os próprios contornos. portanto. pré-escrito.

interpretações. a enunciação. Como diz Bakhtin (idem). 50 palavras que compõe o texto. O arco pode disparar a qualquer instante e atingir o alvo. da escritura que esconde. a parte enunciativa do texto que não se deixa ler uma vez por todas. Voltando a Barthes (1999). A parte humana em rigidez clássica segura o arco e flecha. 1999. por sua vez. ao limite do decifrável e sacrificando a legibilidade do texto nas suas funções puramente práticas de comunicação. 1995). de divagar. CORPOS . que multiplica o texto em suas visões. como diz Luciano Ponzio (2005). p. ao contrário. a valência icônica dos signos (PEIRCE. p. é um ato único. Essa parte inconsumível. constitui o valor adjunto de um texto de escritura. impedindo a obra de vacilar. que se pode chamar de “ilegível”. a parte criativa. a exemplo da escritura egípcia. cuneiforme. de gravação. p. de transcrição como meros instrumentos mnemotécnicos. forma). Lembro- me do signo Sagitário: metade homem e metade animal. conteúdo) e ao mesmo tempo esconde (literariamente. Nessa perspectiva e com o seguinte fragmento de Água Viva. de fato. nós não vivemos em um mundo de frases. demonstrando uma inconsumibilidade do texto. não é para ninguém e pode ser repetida infinitamente e não muda o seu significado. 1998. Barthes (idem) fala. mas a segunda vez que a pronunciarmos não é mais a mesma expressão. de duplicar-se. 1971). nesse sentido. 53). contra-ídola. 1999. porque a expressão linguística ganhará um outro sentido e um outro valor. A legibilidade clássica institucional. irrepetível. Também Bakhtin (2003) faz uma distinção entre frase e enunciação: a frase não é de ninguém. a uma visão obtusa do texto na direção da “significância” (espaço onde os signos estão à mercê de todos os significados possíveis). fixa o sentido em uma unidade fechada. L. mesmo que se mantenha também o mesmo tom. mas que contém a verdade da escritura (BARTHES. ilegível é diretamente proporcional ao valor artístico de uma obra que convida o leitor a uma interpretação/compreensão. de ressoar. univocamente determinada e definida. podemos dizer a mesma expressão linguística. 10). Uma escritura contraluz. e a outra. prega a obra ao seu significado. de diferir (PONZIO. e a sintática: estudo da construção da frase). capturamos a percepção de escritura vidente (DERRIDA. A ilegibilidade do texto não é a parte defeituosa ou monstruosa da escritura. em uma “leitura sempre recomeçada” (DERRIDA. liga-a à leitura. o conceito de ilegibilidade do texto de escritura pode ser melhor compreendido na parte em que o linguista/semiólogo francês explica-o como “opacidade gráfica”. 2005). 10 [tradução nossa]). em favor de uma certa “opacidade gráfica”: “a escritura é frequentemente (ou sempre?) utilizada para esconder aquilo que lhe foi confiada a mostrar” (BARTHES. característica de uma escritura que se expõe (literalmente. várias vezes. a uma leitura-escritura. vivemos sim em um mundo de enunciações. Sei que vou atingir o alvo (LISPECTOR. e nem nas vezes sucessivas. como citamos anteriormente.. 2010) que antecipa e quer ganhar também sobre a morte: Eu vou morrer: há esta tensão como a de um arco prestes a disparar a flecha. Como exemplo de enunciação. Esse termo “ilegível” não significa que a escritura seja defeituosa. fecha a obra.

ou de "que coisa é"). do “invisível”. O procedimento da autora-criadora de ver a realidade tal como se apresenta na vida se realiza na forma indireta. mas da forma (do dizer. Nessa escritura se evidencia o valor literário. dos textos artísticos. Para ele. música literária. nesse fragmento. segundo Barthes.) (PONZIO. mas da enunciação. etc. pode ser repetida infinitamente e não muda o significado). fotografia. alterada. mas também podemos encontrar em outros textos artísticos. significado). do “inaudível”. política. a um olho e meio. na direção do “ilegível” (enunciado anteriormente) e também na direção do “indizível”. de 2016. do “impossível” como nos apresenta L. o corpo textual cria novas e contínuas relações intertextuais (KRISTEVA.. uma outra forma de ver (visão) a realidade do mundo e das coisas que não seja representação. A proposta de Jakobson é inovadora (desenhada por ele nas primeiras décadas do século XX) e está em contraposição aos estudos literários anteriores que pregam à análise do conteúdo da obra literária. que tem esticada a corda do arco. nós já temos na representação da “realidade” (PONZIO. pois o legível. CORPOS . um leitor que se torna eleitor. 2005) com outros textos no sentido de uma compreensão responsiva de um leitor que se torna escritor. colocando no jogo da escritura a relação ambivalente entre morte-vida. etc. à meia-luz. assim. um leitor em fábula (ECO. o audível. no livro Icona e Raffigurazione. novamente recobram o conceito de “corpo grotesco”. mas afiguração. Além disso. O procedimento chamado por Jakobson de “literariedade” (valor literário) é percebido não só na arte verbal (Literatura) mas também nas outras artes não-verbais (pintura. o dizível. como evento irrepetível (a frase. em suas pesquisas sobre a Semiótica do Texto. 2016). que o caráter de literariedade não se limita à Literatura. L. 1989) mirando a realidade. 2015. podemos compreender que o herói-personagem. L. em Bakhtin (2010). escritura. de “como dizer"). Ponzio. As imagens. Importante dizer. em especial. afigurada. que faz escolhas. o possível. concentrado. A escritura. humano- animal. sociológica. enviesada. fazendo a mira. e tal procedimento (literariedade) envolve uma metodologia de interpretação do texto artístico a partir do seu herói (em termo bakhtiniano). Configura-se. Os escritos de Jakobson sobre poética e o conceito de literariedade se entrelaçam com a concepção de compreensão responsiva dos textos complexos na teoria bakhtiniana. 36-39). se coloca em relação com a “realidade” afigurando-se na imagem do Signo Sagitário. orgânico-inorgânico.. L. de soslaio. restringindo-a à dimensão psicológica. (PONZIO. como declarado) em posição de atirar. 51 Lendo-escrevendo esse fragmento de Lispector. como arqueiro (“parte humana”.. A “literariedade” é um valor adjunto de uma obra e não a podemos encontrar em todos os textos escritos. de teatro literário. etc. portanto. não da dimensão frásica (enunciado. não do conteúdo (do "dito". como estamos desenhando. música. o visível. em Arte só o impossível se pode fazer. defronte ao seu alvo. trabalha. 2015). de tal forma que podemos falar de pintura literária. A literariedade pode existir ou não em um texto de escritura. como já dissemos. aqui. 1993). p. Eis a metáfora corpórea da visão artística de Lispector: um “arqueiro de olho e meio” (LIVŠIC. filosófica.

e não repetição de si mesma. enquanto leitores.. ao contrário. 2003). E cada termo põe termo.. Água Viva. repõe em movimento o mundo. sem introduzir uma nova visão na vida. multiplica o olhar agudo. um modo de ver. mas na arquitetônica do “dizer”. A representação reflete. fixo e fechado em uma visão aberta. é capaz de introduzir e de experimentar novos mundos possíveis ou impossíveis e a vida para ser efetivamente vida. diz muito mais do que o seu sentido declarado e literal 3. portanto. mas que refrata. um ponto de vista. A língua comunicativa incorpora as palavras em termos. e nós. alegria-tristeza.“terceiro sentido” (BARTHES. CORPOS . A escritura literária. a “língua comunicativa” e “técnica” separa para realizar a representação. A IMAGEM DO CORPO A imagem do corpo afigurado na escritura entrelinhar de Clarice libera a consciência do seu próprio limite. A Literatura. orgânico-inorgânico. enquanto leitores. 2017. Uma visão obtusa de ângulo maior em referência ao ângulo agudo da Geometria. sabedoria-estupidez. 2017). O título da obra lispectoriana. de respondermos responsivamente. L. fatos. Bakhtin (2011) nos ensina e nos lança o desafio. recoloca em jogo as palavras. L. etc. L. mas que a “língua expressiva” recupera delas o sentido duplo (uma palavra deve ter no mínimo dois sentidos) (PASOLINI. mas que não se deixa ler uma vez por todas. visível-invisível. deve considerar a visão da Arte. 52 Assim. uma é culpada pela outra. dilatada. é também metáfora de um texto que não reflete. sugerindo-nos de introduzir na vida aquilo que nós aprendemos na Arte. 196). 2009). imagens da vida cotidiana. a palavra literária refrata. Em suma. podemos dizer que um texto literário não se encontra no “dito”. assim. não vemos somente a dimensão frásica. transcreve a realidade assim como ela é. humanidade-animalidade. mas introduz uma visão. E com Barthes (1999). o texto de escritura. a ação do ler à reação do escrever (PONZIO. uma escritura. 2017). reciprocamente envolvidas. 1990). não podemos parar de encontrar tudo isso na vida e finalmente ver (TODOROV. que habitualmente. aqui ambiguamente entendido. situações. onde estão colocados juntos: nascimento-morte. Nessa orientação teórica. Portanto. que permite ao leitor de ser escritor. mas produzimos imagens em uma compreensão responsiva. quando lemos um texto com valor literário. objeto de nossa análise. portanto.. Arte e vida são. é capaz de inverter o universo e introduzir visões (idem). sendo uma escritura literária. como o de Lispector. sem acrescentar nada. uma é responsável pela outra. p. segundo indicações de Artaud (PONZIO. Ao contrário. mostrando seu caráter de inconsumibilidade. resiste à “leitura definitiva” (uma vez por todas) “e definitória” (que define) (PONZIO. literal. não escreve. compreendemos que Lispector no seu romance não transcreve personagem. obtusa . deve ver. de um texto que escorre.

em Água Viva. e. fechado. Diante disso. o texto se torna denso. e nesse sentido. tomadas de alguns fragmentos dessa bela obra lispectoriana. no espaço da Literatura que é o lugar propenso ao encontro. 2011). em geral. mas afigura. os movimentos delas variam ao infinito. é uma palavra que não representa. onde as figuras não repousam. de forma que. assim como os pintores. renovar-se a si mesma para colocar-se no “espaço literário” (BLANCHOT. podemos dizer que a palavra de Lispector em Água Viva é rica de imagem com poder literário. A escritura literária dá a ver coisas. 53 A escritura literária exercita uma função de despertar. ensina-nos a olhar com novos olhos. deve reinventar-se como escritura. p. 44). a escritura de Clarice é uma escritura sem pose. metáfora da atividade da escritura que deve superar-se a si mesma. de imagem que é “a alteridade. em cada palavra-termo. deixa de ser misterioso. em Bakhtin. que escapa à identidade”. em seu significado. músicos. é uma imagem sem pose. 1971) capaz de previdência. a palavra lispectoriana motiva as múltiplas refrações na leitura do corpo textual da obra em referência. particularmente nesta obra Água Viva. faz-nos ver aquilo que ninguém antes havia suficientemente prestado atenção. na direção da iconicidade. uma escritura que coloca em jogo o corpo. As leis da gravidade são desconhecidas pela escritura. 15-43). deve escrever-se a si mesma. portanto. que opera por semelhança. O corpo afigurado por Lispector é um corpo que se supera. 2013). esse tipo de leitura decodificante mata o sentido. em Barthes. na altura vertiginosa de uma “escritura inaugural” (DERRIDA. Sua escritura. Dessas ressonâncias. não deve ser lida fixando-se nas palavras em seu sentido semântico. vibrações que nos atravessam e nos desafiam a prosseguirmos com a pesquisa. encerrando o texto em si mesmo. CONSIDERAÇÕES FINAIS: ressonâncias dialógicas Finalizamos essa leitura com algumas ressonâncias dialógicas desenhadas e outras no devir. aqui especificadamente deitada na temática das imagens do corpo evocadas pela escritura de Água Viva. L. a valência mais criativa do signo (PEIRCE. em que as formas e as cores podem dialogar umas com as outras. 2002. encantador. compreendemos o texto de Lispector como tecido de uma escritura onde a leveza (CALVINO. 2017. em um corpo privado. no “tempo grande” (BAKHTIN. e em especial. “como um saco furado é incapaz de contê-la” (LÉVINAS apud PONZIO. 2010). se isso ocorrer. a agilidade e a fluidez são características que desafiam o peso e a pretensiosidade de um corpo fechado. 1990. de prazer prolongado (característica do texto de prazer. 1995). de imaginar hipóteses de mundos novos. compreendemos que a característica da palavra literária. pesado e não fluido. 1987). a enunciação. A imagem do corpo na escritura de Lispector. p. mono- lógico. tal como o fragmento a seguir nos alerta: CORPOS . e onde umas não sujeitam as outras (“discurso indireto livre”. Por isso. escultores fazem por meio do texto não-verbal.

convida o leitor a realizar uma leitura que se torna escritura intertextual. não se deixa representar. Por isso. 2002. 2010). Marxismo e Filosofia da Linguagem. em um corpo textual inacabado e infinito. p. p. mostrando-se com a fluidez das palavras em imagens. inovador em sua tessitura e de processo contínuo e vivo. 95). ______. O corpo afigurado na escritura entrelinhar de Clarice é um corpo com valor literário. enunciativo. mais uma vez.. como dissemos. Linguaggio e scrittura . a escritura entrelinhar de Clarice não se mostra. 1998. de dialógo polifônico.M. que prefere a complexidade do dizer à simplicidade do dito (BARTHES. que encontramos na teoria bakhtiniana. na relação desse texto com outros textos e convida o leitor a uma compreensão responsiva. M. Traduzione di Mili Romano. BAKHTIN. A afiguração nesse fragmento se dá a partir do corpo do herói-personagem e de onde emiti sua posição crítica. A linguagem na obra Água Viva apresenta seu caráter de inacabamento. 1979. um corpo fechado. Torino: Einaudi. intertextual. não se redobra no seu sentido imediato e literal. em que as vozes do herói-personagem e da autora-criadora são atravessadas. 2010). foi uma das bases e ponto de partida para a escrita deste texto. CORPOS . no período de 1926-1930).M. isto tudo não acontece em fatos reais mas sim no domínio de – de uma arte? sim. 21). M.. 2011). a qual. 1998. Trata-se. de uma obra que traça o seu próprio modo de dizer e dizer-se na metáfora do corpo. que a questão do corpo é um elemento essencial em Água Viva como crítica do corpo habitualmente entendido. dialógica. um corpo privado. Não vai parar: continua” (LISPECTOR.scritti 1926-1930 (Coletânea composta por quatro ensaios de Bakhtin publicados em diversas revistas russas. O corpo textual da escritura entrelinhar de Clarice. descrito com maestria na obra dedicada à cultura popular e a Rabelais (BAKHTIN. no conceito de intercorporeidade e no conceito de “corpo carnavalesco” ou “corpo grotesco”. mas no subentendido. não se deixa consumir. Roma: Meltemi. REFERÊNCIAS BACHTIN. de um artifício por meio do qual surge uma realidade delicadíssima que passa a existir em mim: a transfiguração me aconteceu (LISPECTOR. fora das delimitações. 1990). é metáfora de uma escritura que esconde. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. para além da letra. um corpo. V. por assim dizer. “corpo privado de tudo” (PONZIO. São Paulo: Hucitec. assim compreendida pela voz do herói-personagem no final da obra: “O que te escrevo é um ‘isto‘. 54 Não. dialógico. L. 2003. incompleto e extralocalizado. para fora das margens. Tradução italiana de Luciano Ponzio. N. feito uma reta infinita no “tempo grande” da Literatura (BAKHTIN. VOLOCHINOV. L’Opera di Rabelais e la cultura popolare. nesse percurso interpretativo não diz. aos cuidados de Augusto Ponzio. Nessa imagem também percebemos.

Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Traducción de Ricardo Pochtar. scrittura: due materie. Empirismo eretico. Lector in fabula. O olho e o espírito. 2013. Variazioni sulla scrittura seguite da Il piacere del testo. La cooperacion interpretativa em el texto narrativo. MERLEAU-PONTY. Textos selecionados. i canguri e Dupin. Divenire molteplice. Yara Frateschi Vieira. Julia. Anno I. 2010. 2017. 2003. Augusto. PONZIO. 1990. Tradução de Ivo Barroso. Tradução de Marcelo Jacques de Moraes. DERRIDA.M. 1989. “Cinema Augusto” alias “Cinema Ponzio”. São Paulo: Companhia das Letras. n. ______. Prefazione e note di Jean Claude Marcadé. Tradução Lúcia Helena França Ferraz. 1998. PONZIO. 1999. São Paulo: Perspectiva. 2010. 1998. ECO. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. Escritos sobre as artes do visível (1979-2004). Disponível em: <http://viicipa. Florianópolis: Editora UFSC. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Cuiabá: UFMT. 2013. Italo. Torino: Einaudi. Clarice [1973]. experiências e sentidos. 2002. Trad. São Paulo: Hucitec. 2010. Editorial Lumen. Susan. Problemas da poética de Dostoiévski. 3ª ed. Estética da Criação Verbal. 1993. 5ª ed. ______. M. Pier Paolo. Firenze: Hopefulmonster. São Paulo: Escuta. São Paulo: Martins Fontes. 1999. Diálogos. Milano: Mimesis. Água viva. 1987. Ejzenstein. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 2ª. ______. Tradução aos cuidados de Paulo Bezerra. Tradução de Álvaro Cabral. Neiva S. O óbvio e o obtuso. 1971. Disponível em: <http://www. Entrevista de Claire Parnet. 2011. Collana. ______.br> Acesso em: 09 set. 55 BAKHTIN.com/files/il_cinema_augusto_. Acesso em: 12 set. Corpo. Organizado por Carlo Ossola. Luciano. BARTHES.pdf>. 1984. BOENO. A escritura e a diferença. 2017. 2005. revisão técnica de João Camillo Penna. Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. In: PETRILLI. DELEUZE. A escritura entrelinhar de Clarice. Fuori Campo. 5ª ed. Bari: Edizioni dal Sud. 1999. ______. BLANCHOT. São Paulo: Forense-Universitária. Roland. Differimenti. Traduzione di Renata Franceschi. seleção de textos Marilena de Souza Chauí. Tradução e notas Marilena de Souza Chauí e Pedro de Souza Moraes. 2012. KRISTEVA. L’arciere da un occhio e mezzo. Verona: Ombre Corte. O prazer do texto. Memórias de Cego: o auto-retrato e outras ruínas. ed. CALVINO. ______. Introdução à semanálise. I segni del corpo fra rappresentazione ed eccedenza. In: Corposcritto. Maurice. Pensar em não ver. Umberto. Augusto. No círculo com Mikhail Bakhtin. 7. São Paulo: Nova Cultural.augustoponzio. Rio de Janeiro: Rocco. Tradução de Paulo Bezerra. 1. ______. Narrativa (Auto)Biográfica: conhecimentos. São Carlos: Pedro & João Editores. CORPOS . 2005. O espaço literário. ______. São Paulo: Perspectiva. Tradução de Fernanda Bernardo. In: Anais do VII Congresso Internacional de Pesquisa (Auto)Biográfica. ______. Milano: Garzanti. due alterità. Rio de Janeiro: Rocco. LIVŠIC. Benedikt. 1990. Jacques. LISPECTOR. Maurice. PASOLINI.com. 2016. 5ª ed. Primavera. 2ª ed. ______. Milano: Mimesis. ed. São Paulo: Perspectiva. PONZIO. G.

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Ainda que digamos com uma certa frequência algo como “somos um exemplo para eles” ou “tá vendo como ela está me imitando”. ou. Luciane Martins 8 Palavras-Chave: Educação Infantil. Então. CORPOS . Ruy 7 SALADO. BRAZ. gestos e falas são assimilados pelos pequenos pequenos bebês corpos. E-mail: ruyotiba@gmail. Professora de Educação Infantil da rede municipal de Campinas-SP. DE ONDE VÊM AS VOZES O primeiro ano da creche é o primeiro contato da grande maioria dos pequenos sujeitos com qualquer instituição que não seja a sua própria família. Isso significa que é necessário um certo tempo para que eles se sintam seguros o suficiente para interagirem tranquilamente conosco. É claro que os pais e mães sabem que nos estão confiando a segurança de seus entes mais queridos. Professor de Educação Infantil da rede municipal de Campinas-SP. Bebês. conseguimos observar que nossas ações. E-mail: lumsalado@gmail. adultos da 7 Pedagogo. São Paulo. tivemos a revelação surpreendente de nossas próprias singularidades a partir do reflexo de um espelho humano tão pequeno: seus corpos e seus olhares. exercem um ato de confiança do qual não têm racionalmente a consciência plena. Metanarrativas. porém. Dimensão inclusive que a maioria de nós educadores dificilmente pára para refletir longa e profundamente.” Lenine SOBRE Q uando uma mãe ou um pai nos entrega no colo seu bebê de manhã. Ato Responsável “O que eu sou. refletem sobre como seus corpos são parte da constituição dos corpos dos bebês e das relação constitutiva entre os corpos dos crianças pequenas. raramente usamos ou evitamos usar essa influência sob os pequenos sujeitos de maneira predominantemente consciente. uma dimensão de influência nossa (e de nossas colegas de trabalho) na vida desses pequenos e novos sujeitos da qual os familiares nem fazem ideia. RESUMO 57 Uma professora e um professor de educação ESPELHOS HUMANOS: a infantil da rede pública municipal de Campinas. Alteridade. como muitos dizem. o que tentaremos fazer neste texto é uma curta reflexão sobre o nosso papel profissional na vida dos pequenos sujeitos com quem nos relacionamos como professores tendo em vista os conceitos que envolvem o círculo bakhtiniano. eu sou em par.com.com. Ao mesmo tempo. Usando narrativas e metanarrativas de acontecimentos de seus grandes professores e os corpos dos trabalhos. que nos estão entregando seus maiores tesouros. 8 Pedagoga. Há. Não cheguei sozinho.

o que mais gostaríamos de refletir é sobre os gestos singulares construídos no diálogo cotidiano ao longo do convívio de grupos específicos. o colo. Não houve como não rir. não há lugar no refeitório. já há uma apropriação de símbolos na convivência: o acolhimento. atrasa a cozinha. enunciados através de narrativas que expõe alguns dos atos de nossos cotidianos. portanto. os sorrisos retornam. tiro ele da capa e começo a cantar. Unicamp). As narrativas estão em itálico e as metanarrativas vêm logo em seguida com uma linha de espaçamento entre elas. De repente. o que nos interessa neste primeiro momento são os símbolos construídos nas coletividades específicas das quais nós somos professores. As narrativas foram escritas por cada um dos dois autores em suas respectivas turmas de bebês e crianças pequenas (de 0 a 2 anos). O tédio. Carlos Antônio10 parece ter escolhido uma hora onde conseguia ouvir a própria voz para entoar o canto que é o maior sucesso este ano. usaremos a metodologia metanarrativa para refletir sobre o que nos acontece. a fome e o sono predominam e contaminam a sala com uma atmosfera de desespero em muitos dias logo antes do almoço. em um sotaque bebelês. os diferentes tons de voz. Corro até o cavaquinho. Temos hora exata para sair da sala: antes. Em meados do ano. o “não”. As metanarrativas são uma prática importante no Grubakh (Grupo de Estudos Bakhtinianos. Ruy Choro e disputas. 10 Este e todos os outros nomes das narrativas são fictícios. do qual ambos fazemos parte e que. Quase todas as crianças e os bebês dormindo. Em volta de mim. O hiato de tempo que fica entre o fim da troca de fraldas e a saída quase todos os dias é um caos. não os gestos culturais que poderiam acontecer em qualquer creche. Em outras palavras. sabemos. vinculado ao GEPEC – Grupo de Estudo e Pesquisas em Educação Continuada – da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas. 9 Nas seções de “vozes”. que a baleia é amiga da sereia. 58 turma.9 VOZ 1: A CANTORIA DO RUY A sala em silêncio. depois. Por alguns minutos. Mesmo neste período. É só começar e as crianças vêm. Este conceito de “metanarrativas” teve sua primeira tentativa de condensação e refinamento pelo grupo no livro “Metodologia de pesquisa narrativa em Educação: uma perspectiva bakhtiniana” lançado em 2015. dezenas de bebês dançam e cantam as poucas palavras que conseguem pronunciar. Porém. Os bebês ainda não têm experiência de vida suficiente para nos autorizarem a usar seus nomes reais conscientes de todas as implicações desta autorização. Cada ano é diferente e não me perguntem o porquê. CORPOS . nos constitui. o pedido de calma. pois só faz uns dez anos que tento entender. Ufa! Ruy O cantar aglutina. ouvimos. gestos e ações. o oferecimento da mamadeira. já temos os hits. os sucessos que emplacaram com aquele grupo de crianças.

Os gestos da coreografia. as palavras curtas do grupo cantando junto mostram como nossas relações vão sendo criadas e modificadas no dia a dia. é o benefício estético que mais nos encanta. 59 Pois bem. VOZ 2: A CONTAÇÃO DE HISTÓRIA DA LU É hora das crianças contarem a história. contribuindo. a possibilidade de ocupar o espaço. me parece. indiretamente. Precisam subir. e também manter o equilíbrio segurando o livro. por si. É saber que os bebês e as crianças pequenas se encantam e são tocadas pelas canções que fazemos em grupo. Maria lambe o dedo antes de passar a página. ao menos contribui com a vontade das crianças conhecerem mais a Música. E como são tocadas. choros e alguns gritinhos. E acalma. Folhear as páginas. através de empurrões. Maria sobe na cadeirinha apoia o livro nas pernas e começa. Mas acima do benefício prágmatico do bem-estar e acima do benefício utilitarista da Neurociência. Se por acaso as canções simples que fazemos não ajuda diretamente nestes tais benefícios que a Neurociência gosta de investigar.. Dar conforto e bem-estar aos bebês e às crianças pequenas é algo que procuramos sempre fazer. Eu nem sabia que fazia isso! Me vejo em tantos gestos daquela menina que está aprendendo a falar. atos que se transformam e se repetem quando os bebês. O livro ocupa toda extensão de seu colo e suas pernas e termina apoiado nos pés das crianças que fazem questão de sentar na cadeira. recontam as histórias. Nos surpreendemos encontrando novamente com nossos atos. tira o foco do que há de ruim. muitas vezes sem fazer uso de palavras. As expressões faciais e os gestos revelam o quanto ela esteve atenta e do que ela gostou mais nas vezes que ouviu a história daquele livro: o susto. Mas não para por aí. o morango sendo retirado do livro e repartido. Ou melhor. ainda que as condições sejam adversas. a história. Luciane Quando vou contar histórias posiciono uma pequena cadeira de frente para o tapete grande da sala. Acontece que também sabemos dos benefícios cognitivos que a música promove nos seres humanos. são transformadas. aponta os desenhos e fala as palavras mais frequentes do texto. cantar aglutina. Certo momento. suas facetas e sua diversidade. já seria um bom motivo para a prática do canto nas salas da creche.. sobretudo nos mais novos. CORPOS . sentar-se. O gesto de sentar na cadeira revela-se poderoso. sento-me com o livro nas mãos e a contação tem início. Vivenciamos muitas belas cenas entre nós. Isso. portanto. Depois de sentada é hora de posicionar o livro. as melodias. pois notamos que as crianças pequenas disputam. pois cessa instantaneamente a maior parte do choro. nossos gestos e os gestos dos bebês. Vira as páginas. A melodia e as palavras de Carlos Antônio mostram como sua relação com a canção acontece. Para dar apoio e folhear suas páginas muitas crianças utilizam seus pés dobrados como suporte/descanso para o objeto.

No parque. no centro do parque. me diverte muito: chutar a bola de plástico bem alto e ver ela quicando pelo pátio. Quando ele percebeu o impasse. sobre como os bebês se apropriaram e como reinventam seu próprio jeito de contar histórias. mas ainda não fala. Eles percebem por suas experiências de vida que o outro é responsável pelo carinho. Luciane Ivan é uma das crianças mais ativa da sala. Eles percebem que para serem felizes dependem dos outros. de uma maneira poética. apontar com o dedo e conversar desvendando as imagens e letras. Se nos primeiros momentos de vida podemos dizer que esta sabedoria. é “natural” ou “instintivo”. ele bateu em minha coxa e levantou uma de suas pernas. quis conversar com as crianças sobre isso. mas que. se faz entender de várias maneiras. revela muito aos profissionais sobre sua forma de contar. João queria me dizer alguma coisa. tive a ideia de colocá-las em cima de um brinquedo do parque e imitar o trote de um cavalo batucando as minhas coxas. MAS NÃO SEI Como em breve iríamos visitar uma fazenda e andar de cavalo. Ele queria que eu fizesse uma ação que anima não só as crianças. O que talvez não percebam é o quanto têm que se entregar para o outro neste processo também. Ele ainda não fala. confesso. Noutro dia. não CORPOS . Para além das páginas do livro vão surgindo gestos. É um processo não só dialógico. Devo ter feito cara de quem não entende. parece entender tudo que lhe dizemos. Os bebês entendem muito cedo a importância do outro. contadores da história. pelo atendimento das necessidades e dos desejos. O fato de haver poucas palavras. e as crianças. Como ele viu que minha cara não mudou. 60 observar cada detalhe. e confesso que não entendi o que ele queria. mas sem fugir do que nos ensina Bakhtin. gestos do encontro entre nós professores. mas também dialético. pegou minha mão e puxou até o outro lado do quiosque. Ele tentou de novo. ao longo do tempo vamos percebendo no convívio com esses pequenos que eles vão dando valores distintos para o outro ser humano. Se o bebê não se movimenta. Claro! Ele quer brincar de cavalo. VOZES 3: QUERO FALAR. ou quase nenhuma. Não poupa esforços para se divertir. do papel do outro em nossas próprias vidas. Além de falar. que muitas das palavras mais importantes não são ditas pela fala. Lá. Ruy Desde quando não falar impede a comunicação? Diríamos até. ele apontou a bola e finalmente eu entendi. batucou nas coxas.

aprendeu ou foi modificado pelo outro. Quando emitimos um gesto. como o mandar beijos tão comum em nossa sociedade. sobre esta cadeirinha uma boneca. Quando. E destes gestos. em nossas relações e. no grupo onde estamos convivendo. somente pessoas que estão há um bom tempo em convivência com grupos de bebês e de crianças pequenas – e que estão atentas a esses gestos – conseguem identificar. mas podemos suspeitar com certa força. Muitas vezes esse movimento é a contragosto ou. e é onde nos reconhecemos quando prestamos atenção na interação constante que vivemos. Parte destes gestos claramente foram assimilados no cotidiano da creche. Da mesma forma. cada bebê pode emitir da forma que gostaria ou bem diferente disso. entretanto. porém. consequentemente. mas com o dedo indicador. coloca no chão a sua frente uma cadeirinha de balanço onde os bebês são ninados. ele faz gestos que apreende do seu ambiente. 61 demonstra o que quer. E. usa porque viu no outro a causa ou a consequência para usá-lo. seja na forma de um bebê real. este pode ser entendido semelhantemente ao que quisemos emitir ou muito diferentemente disso. no mínimo. quando o gesto é reproduzido. pois têm que ninar três ou quatro bebês ao mesmo tempo. mas ver. como o que se sentiu ou o que se pensou. se ele usa esses códigos. somente os gestos. quando uma pessoa adulta ou uma criança mais velha ensina aos bebês esta prática no brincar. É o caso do gesto mais imperativo e autoritário que a maioria dos bebês logo se acostuma a fazer quando levanta o dedo indicador. Em outras palavras. na maioria das vezes – em tom de bronca. elas percebem as funções sociais e comunicativas de nossos gestos e falas. não “instintivo”: o bebê não somente chora. exatamente como algumas das monitoras da sala fazem. seja na forma de boneca mesmo. isso é marcadamente algo apreendido de seu cotidiano na creche. Podemos intuir através de indícios outras coisas. No convívio diário. é preciso ter claro que o que podemos ver são só os gestos. Os gestos são apropriados de maneiras tão variadas quantos são os sujeitos. Outros porém. como o sinal de “legal” produzido não com o dedo pelegar. OUTRO CORPO Cada uma das interações descritas nas narrativas enfatizam o quanto cada criança é constituída por nossos atos. aponta para um coleguinha e pronuncia frases – oralmente incompreensíveis para nós adultos. e se põe a balançar a cadeirinha com um dos pés. Ninar as bonecas é algo que possivelmente se observa em família ou em outros ambientes da vida cotidiana. uma criança de um ano e alguns meses senta-se num banquinho de seu tamanho. desde as famílias. Outros gestos. notamos alguns reproduzidos de maneira inequívoca. não temos como determinar de onde vêm. o corpo fala para elas sobre padrões e as consequências desses padrões em cada um de nós. Disto. Mesmo quando não nos apercebemos. Este tipo de CORPOS . códigos usados pelos sujeitos que estão ao seu redor ou por todo o conjunto social do qual faz parte.

Parte significativa da liberdade que temos para as nossas ações vem do simples fato de conseguirmos caminhar. deixando as duas mãos livres para realizarmos outras ações. é a enunciação de uma das primeiras palavras que os bebês falam. Entretanto. Mas é nosso próprio deslocamento pelo espaço das salas e outros ambientes que dão aos bebês a possibilidade. não conseguir extingui-los do ambiente da creche já é algo que diz sobre nossas responsabilidades nas ações coletivas. com certeza. você dissesse “eu também consigo”. uma vez que os bebês ficam acordados mais tempos dentro da creche que em suas prórpias casas e famílias. ou até no mesmo dia. ainda há algumas flores no jardim. mas com os tons de algumas das colegas. o “não”. é como se. CORPOS . Contudo. outros gestos. Caminhar é uma ação muito complexa. E se nós adultos atuamos como fonte de inspiração para esta ação tão complexa e importante. Dito e reforçado em todos os lugares. Mais um indício de como nossas relações cotidianas com os bebês constituem-os. brotam notadamente por estarmos juntos e trabalhando com eles no ambiente da creche. de nos deslocarmos em pé. Se gestos que não gostaríamos de ver repetidos pelos bebês e pelas crianças pequenas aparecem-nos como espelho. Não é preciso ensinar teoricamente ou mesmo com “passo a passo” práticos como caminhar. De tanto abraçarmos os pequenos. Essa complexidade só pode ser aprendida na medida em que se a vive. o não sem justificavas é emitido com frequência em nossos espaços de convívio. assim. Assim como não é preciso ensinar-se a falar. ver as crianças 11Escolhemos usar a primeira pessoa do plural. Vemos os bebês e as crianças pequenas dizerem não só a palavra. que gostaríamos de ver mais no mundo. mesmo quando nós dois. adoráveis. Isto porque é comum ver grupo de bebês começando a caminhar na mesma semana. É o caso do abraço. não usamos destes recursos que estamos descrevendo. pelo mesmo motivo do exemplo anterior. que é possível. É um intercalamento de equilíbrio e desequilíbrio intensionais no qual a parte do desequilíbrio não pode ser nem muito intensa nem muito duradoura. é o caminhar. professor e professora das turmas. mas também o reforçamos temporalmente. É muito bonito. Apesar do ambiente onde existem sujeitos falantes ser condição necessária para que os pequenos sujeitos comecem a falar. por razões que vão desde a máxima preocupação com o outro até a completa não consideração. E. porém. não somente o endoçamos11. o aval e provavelmente até parte da vontade de o realizar como ato. pois. ao ver alguém pequeno como você conseguir realizar algo. 62 gesto não é exclusividade das pessoas que trabalham nas creches. as entonações e outros elementos da fala. outros bebês são o aval mais significativo para ele acontecer. por exemplo. É como se um audax entre eles conseguisse romper a grande barreira do primeiro esforço e dissesse para os outros. ou seja. É muito forte você ver que o carinho e o bem-querer podem ser mostrados e significados num gesto tão simples e fácil de ser realizado. Nem tão simples. não é preciso ensinar-se as pronúncias dos fonemas. E ações como esta vem do exemplo e da significação que os pequenos sujeitos dão. somos nós também que reforçamos esta ação tão importante. eles usam do mesmo gesto entre eles.

queremos chamar a atenção para dois aspectos importantes. Ao contrário. O erro é ridicularizado e até condenado. e eles veem o que se pode e o que não se pode e os modos de ocorrência. adultos. como caminhar e falar. O segundo aspecto é mais importante e menos evidente. queremos ampliar o modelo de observação das interações dos bebês e das crianças conosco. é tentando e errando até acertar que aprendemos algumas coisas das mais importantes em nossas vidas. pomos a frase em destaque: Nem tudo é espelho. por assim dizer. com um certo excedente de visão. estão os bebês e as crianças pequenas. 2010). através dos nossos corpos. 63 pequenas chamando nossos nomes pela primeira vez. Dito isso. de dúvida. de raiva e de tantas outras maneiras e significações. 65. Ao nosso lado. tratamos as situações com gesto de acolhimento. mas podem não ter ficado. 2017). que podem ter ficado claros ao longo do texto. 204. Ainda assim. entre a cultura e o ato. enunciamos em diferentes contextos. mesmo sem ninguém ficar insistindo “fala Ruy. de medo. e não queremos correr o risco desta polifonia em específico. distinguindo “pravda” (verdade na relação) de “istna” (verdade absoluta). pois nos é feito crer que só existe um “certo” ou uma “verdade” 12. É assim que veem que a risada da Lu e sua maneira de jogar a cabeça para trás quando ri é um modo interessante de expressar alegria e contentamento. e os pequenos assimilam a todo o tempo. 12Ao contrário do que Bakhtin deixa claro (p. A racionalidade na qual vivemos é tão poderosa que o planejamento (e a tentativa de adequação a eles) são imensamente mais fortes que o modo mais antigo e corriqueiro de aprender: tentativa e erro (e acerto). falamos. AINDA HÁ O QUE SE CONSIDERAR Antes de finalizar. Os corpos são a ligação entre a vontade e o enunciado 13 . queremos propor uma maneira de enxergar as relações dos pequenos com outros olhos. é tão fácil: Lu”. O primeiro aspecto é que não estamos querendo conter as manifestações humanas dos pequenos e muito jovens sujeitos em teorias psicologizantes – ainda que consideremos que estes saberes tenham seu valor histórico e. CORPOS . Andamos. quem sabe. considerando inclusive as famílias. então devemos deixar claro nossa posição com quem queira dialogar conosco. Nossos corpos são espelhos. aos conceitos de “enunciado” e de “auditório social” de Volochínov em “Marxismo e filosofia da linguagem” (p. diariamente. é assim que veem que o “eita pêga” do Ruy é um modo possível de expressar dúvida de proceder. as modalidades possíveis de enunciar e de realizar atos no mundo. até seu valor contemporâneo como um introdutório seguro num assunto tão complexo. Introduzindo conceitos de Bakhtin e de seu círculo. ru-y” ou “fala Lu. 13Tentamos relacionar as manifestaçãoes corporais e os grupos das salas de referência e do ambiente ao redor. em diferentes entonações. Esse aspecto resume-se numa contraproposta à metáfora do espelho utilizada até aqui – e que ainda será usada. para seus próprios corpos.

21. voltemos à metáfora. Há também ações instintivas ou naturais ou determinadas geneticamente sim. 2003) em “Estética da criação verbal”. não quer dizer que ela viu alguém mordendo ou mesmo que vivenciou anteriormente uma violência semelhante. e que as fotografias surgiram a menos de três gerações. 64 Com isso. queremos dizer que. mas o faz de maneira poética. A metáfora do olho nos remete imediatamente a dois conceitos fundantes da filosofia bakhtiniana: o excedente de visão e a alteridade. dois diferentes mundos se refletem na pupila dos nossos olhos” (p. Nossa geração nasceu e viveu em um mundo repleto de espelhos e de autorretratos – ainda que muitos de nós tenhamos vivido a época pré-digital. Quanto mais íntimos formos de quem estamos olhando nos olhos. se lembrarmos que os vidros com alto grau de transparência são uma tecnologia recente na história humana. Até o ponto em que conseguimos ver o nosso próprio olho. Em uma linda passagem de uma de suas aulas. como toda boa metáfora. nossa imagem refletida no olho do outro. voltemos ao que é espelho. pois. Como explica Bakhtin (p. Gostaríamos de utilizar esta outra metáfora. 87. Se uma criança morde a outra violentamente. estaríamos todos como foram nossos antepassados. a nossa mais longa história de relação conosco mesmos. conseguimos perceber que os instrumentos que nos ajudam a reconhecer nossa própria imagem são um privilégio – e às vezes um escravizador – que poucos seres humanos puderam e podem utilizar. Para argumentar. só o olhar do outro no mundo me ajuda a perceber coisas que 14 Bakhtin também utiliza esta metáfora quando trata do excedente de visão em “Estética da criação verbal”. apesar de crermos na força e na necessidade do outro para nossa constituição. pois. 2006) fala da metáfora do olho14 presente nos diálogos de Platão. 21. não só nos ajuda a compreender. Só conseguimos ver o que há em nós mesmos se existe um outro. não queremos pregar que há somente ações não-inéditas no mundo. Porém. Em outras palavras. continuemos com o que é importante e move esta escrita: a força do outro na constituição de cada sujeito. CORPOS . É esta condição necessária que promove o excedente de visão. A alteridade é condição necessária para nos percebermos. É no outro que temos. inevitavelmente vemos algo que sozinhos não conseguimos: vemos a nós mesmos. que era muito caro ter um pedaço de metal polido e muito difícil de manter. Michel Foucault (p. assim como também há ações inventadas por cada um dos sujeitos. ainda que descontextualizada. Quando olhamos no olhar de um outro sujeito. Resumimos como interpretamos que Bakhtin trata essa metáfora na seguinte frase: “Quando nos olhamos. Se não houvesse ações inéditas no mundo. podemos citar três exemplos: Ninguém ensina o bebê como se mama. perpetuado no texto célebre “A Hermenêutica do Sujeito”. 2003). Feitas as devidas considerações. mais detalhes vemos sobre nós mesmos. nem chegamos a imaginar uma vida sem saber como realmente nos parecemos. Tendo somente esta experiência.

temos que repudiar qualquer manifestação de agressividade. vamos resumir o conjunto de caminhos que julgamos dever tomar em dois aspectos de nossos atos cotidianos. parte epistemológica) sobre como isso acontece. sobretudo de minhas costas. Devemos tratar cada um dos bebês de modo acolhedor. de tomarem consciência do que está no mundo e consciência de si mesmos. de destempero ou mesmo de indiferença para com os bebês. entretanto. parte estética) por uma percepção de como nossos gestos constituem os getos dos bebês. assim. da ética do ato responsável de Bakhtin (p. para que eles possam ter segurança e disposição para conviver com outras pessoas e para continuar conhecendo o mundo. E todo esse conjunto de atos dá ao bebê a possibilidade de consciência das coisas que o rodeiam e dele mesmo. ações e símbolos diversos é a condição de vê-los apropriarem-se do nosso horizonte social. o nosso contato com os seus corpos é que chama a atenção para partes dos corpos das quais antes eles não se apercebiam. raciocinamos (episteme. mas também o que está nele. considerando seus aspectos “alteritário” e “singular”. à última etapa de nossa reflexão. e podemos prosseguir refletindo sobre ela por páginas a fio. e contra a ética formal. Fomos afetados (aesthesis. Imprimindo nome às coisas. carinhoso e fraterno. une o mundo da cultura com o mundo real. a linguagem anda de mãos dadas com a consciência. Contra a ética material. não consigo observar. 2014). Porém. Como explica Volochínov (p. Muitas vezes. Estes dois aspectos. O primeiro aspecto de nossos atos cotidianos para que possamos cumprir as condições de um ato responsável é o desafio. trazemos também a consciência desta coisa. Neste aspecto. da Educação Infantil. 65 eu. tanto em nível nacional quanto em nível municipal. para que eles possam ampliar seu repertório linguístico em todos os aspectos – e isso só pode acontecer quando consideramos os bebês e as crianças pequenas como sujeitos. inclusive partes de mim mesmo – como cabeça. ou seja. O segundo aspecto é a amorosidade. ou ao menos nos aproximar. que caminho (ethos. imprimindo os signos de nosso horizonte social. damos nomes a essas partes. a indissociabilidade entre o educar e o cuidar é um dos pricípios apresentados para esta etapa da educação. Nos bebês. Tomando como exemplo o chamado Caderno Curricular Temático de Espaços e Tempos do município de Campinas (p. do fazer porque é melhor pra mim. o excedente de visão ajuda não só a perceber o que está a seu redor. Devemos tratar cada um dos bebês de modo desafiador. Escolhemos. o que devemos fazer a partir desta percepção? Os caminhos possíveis são variados. 71. O desafio é diretamente relacionado ao educar. de minha perspectiva singular. 2013) em “A Construção da Enunciação e Outros Ensaios”. 2010). parte ética) devemos seguir. relacionam-se a todos os mais recentes documentos curriculares. uma vez que esta ampliação de repertório é intencional e proposta cotidianamente pelos professores e professoras. então. Este CORPOS . 144. Ótimo! Mas o que isso significa em nosso caso: professora e professor de bebês? Esta resposta não é simples. inclusive. 16. E chegamos. Apresentar objetos. do fazer porque é assim. ou seja. boca e olhos – e minha imagem como um todo. a ética do ato responsável faz o nosso cabedal de saberes convergir com as possibilidades de ação que temos. seguir. Ao mesmo tempo.

V. São Carlos: Pedro e João. M. 2015. são seguros: precisamos ir em direção à transformação. Volume I. A hermenêutica do sujeito. 2013. Para uma filosofia do Ato Responsável. Campinas: 2014. A escolha é. portanto. Mas a direção e o sentido. 2017. São Paulo: Martins Fontes.). T. M. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Carlos: Pedro e João. uma vez que ninguém cuida de maneira negligente ou agressiva. __________. se escolhermos a ética do ato responsável. Espaços e tempos na educação de crianças. Estética da criação verbal. Não há uma trilha ou uma estrada segura. FOUCAULT. uma vez que repudiar violência com violência é igualmente gerar o exemplo da violência. Caderno currilar temático da Educação Básica: ações educacionais em movimento. M. 66 repúdio deve ser ativo. estes sim. mas igualmente amoroso. Não há fórmulas. São Paulo: Editora 34. p. 2006. __________. G. 2003. São Paulo: Martins Fontes. PRADO. 87-89. V. REFERÊNCIAS BAKHTIN. A Construção da Enunciação e Outros Ensaios. Metodologia narrativa de pesquisa em Educação: uma perspectiva bakhtiniana. N. Temos que acordar cotidianamente e nos posicionar contra a reprodução de práticas de permanência e de opressão. VOLOCHÍNOV. São Carlos: Pedro e João. A amorosidade é diretamente relacionada ao cuidar. CAMPINAS. sabemos. Cada situação trará novas possibilidades de rumo. et al (org. 2010. CORPOS . mostrarmos nossos corpos como produtores de desafios e de amorosidade.

que exalta o coronel Ustra. Por essa perspectiva. s gêneros do discurso. Exotopia. sobreviveu nas periferias. bem como da caracterização dos enunciados e de seus gêneros. Silva enuncia seu posicionamento político num embate dialógico de O confronto. cujos temas abordam o cotidiano das comunidades negras. mas com a escolha de nomes de personalidades de posicionamento INTRODUÇÃO conservador e de extrema direita.. Para tanto. há quem modifique o conteúdo temático desse gênero discursivo. RESUMO 67 O rap. de Luiz Paulo Pereira da Silva. na esfera estética. como as valorações e ideologias estão CAMPOS-TOSCANO. ao transgredir os sentidos utilizando as estratégias discursivas do rap tradicional. Entretanto. Profa.com CORPOS . Gêneros do Discurso. embora tenha sofrido resistência da sociedade e da polícia. portanto. pois REAÇA”. exotopia e ideologia. um político cujo posicionamento conservador. defende a ditadura militar. uma ideologia de extrema direita. num ambiente pobre e hostil. éticos expondo. militar da reserva e. atualmente. de Luiz. por sua. ex-coronel do Exército Brasileiro e ex-chefe do DOI-CODI (1970-1974). Essa diversidade é condicionadora do modo de apreensão e transmissão do discurso alheio. p. utilizamos os estudos do Círculo de Mikhail Bakhtin sobre gêneros do discurso. assim como a veiculação dessas ideologias. abreviatura de Rhythm and poetry. local de evidenciada desigualdade social e violência. 15 Doutora em Linguística. o objetivo deste artigo é analisar. Desse modo. O permitiu. nos estudos do Círculo de Mikhail Bakhtin. das atividades humanas que. além de outras enunciar críticas em sua música. expondo um diálogo de confronto com outros discursos do gênero. desse modo. estão atrealados às finalidades das diversas esferas Palavras-Chave: Rap. valorações e ideologias de um determinado grupo social. No Brasil. propomos analisar o “Rap reaça”. Deputado Federal pelo Rio de Janeiro. Como afirma Grillo (2006. denúncias e críticas sociais. em contraponto ao rap tradicional. E-mail: anafurquim@yahoo. verificamos que. Dialogismo. É o caso do “Rap reaça”. com exaltação ao coronel Ustra que atuou no período da ditadura militar no Brasil e a Bolsonaro. o Visitante que enuncia. Ana Lúcia Furquim15 configuradas nesse rap. VISITANTE subvertendo sua proposta inicial por meio da apropriação de estratégias discursivas do rap. 147) As esferas dão conta da realidade plural da atividade humana ao mesmo tempo que se assentam sobre o terreno comum da linguagem verbal humana. do Departamento de Letras do Uni-FACEF Centro Universitário Municipal de Franca. são espaços sociais e. Como resultado. DE LUIZ.. Esse contexto colaborou para sua perpetuação. é um gênero musical criado por negros residentes em O RAP COMO PROTESTO? Nova Iorque na década de 1970. surgiu no início dos anos 80 nas ruas de São ANÁLISE DO “RAP Paulo e.

transgridem-se na relação estética eu-outro os sentidos primários do rap para uma nova configuração ética e veiculadora de sentidos outros. embora já existam outros críticos aos movimentos de esquerda ou com vertente religiosa. 173). devido à heterogeneidade dos grupos sociais. num processo de olhares e interpretações diversas. eu não sou contra a deles" (NOGUEIRA. Pernambuco.. ou seja. com temáticas voltadas para a truculência policial e a vida na periferia. aos enunciados. mas também entre enunciados.. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas. por sua construção composicional. Como afirma Faraco (2013. levantamos o seguinte questionamento: na relação dialógica entre o rap tradicional e o “rap destra”. concretos e únicos. de não somente refleti-lo. 279) A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos). refratá- lo. muitas vezes. atribuem valorações diversas e. que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera da atividade humana. Num confronto com o rap tradicional. contrapondo dialogicamente com outros sentidos. outras valorações. não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal. entre discursos. As esferas das práticas humanas. são concebidos como produção em constante movimento. ou seja. estão relacionadas à linguagem. De um gênero oriundo de um contexto de crítica social e de denúncia das desigualdades existentes principalmente entre a comunidade negra. como sabemos. utilizamos como referencial teórico-metodológico as reflexões do Círculo de Mikhail Bakhtin sobre gêneros do discurso. são constituídos diferentes modos de sentir o mundo. contraditórias. mas são contra a minha. Os temas abordados por Silva evidenciam o conservadorismo. 68 Luiz Paulo Pereira da Silva é um jovem de 22 anos. como diálogo não só entre os sujeitos da comunicação. portanto. pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais..] o processo de transmutação do CORPOS . mas principalmente. Para o Círculo. ideologia e exotopia a fim de analisarmos como o “rap” é atravessado por outros olhares. fraseológicos e gramaticais -. como são construídos discursos contrários que expõem numa posição diversa outros olhares sobre o contexto social e político atual? Desse modo.] falam tanto que o rap é livre e que pregam a liberdade de expressão. Assim. já foi chamado de fascista e levou até uma pedrada no pé. inseridos em um dado contexto espaço-temporal. ou seja.. online). Desse modo. com exaltação à “moral e aos bons costumes”. GÊNEROS DO DISCURSO: a visão excedente nas relações dialógicas Os gêneros do discurso pela perspectiva do Círculo de Bakhtin. é impossível dar sentido sem haver refração. 2017. p. [. mas também. estudante de Psicologia e morador de um bairro pobre de Recife. Considera-se o primeiro rapper de direita do Brasil. Silva afirma que “[. p. 1. o enunciado na esfera do discurso é uma unidade da comunicação humana e não somente uma sentença inscrita na gramática. Nas palavras de Bakhtin (2000. As diversas esferas da atividade humana. e sobretudo.

com as es/instabilidades. Por essa concepção. De acordo com Bakhtin (2000. assim. O outro em contato com um determinado enunciado. de sua posição no espaço e depois voltarmos para nosso lugar para a complementação de seu horizonte de acordo com o excedente de nossa visão. discorda. confronta. 69 mundo em matéria significante se dá sempre atravessada pela refração das axiologias sociais. Assim. portanto. os gêneros representam a realidade de acordo com as manifestações dos sujeitos da comunicação. Nesse contexto. dois mundos diferentes se refletem na pupila dos nossos olhos. Deparamo-nos. p. os elementos componentes do enunciado – conteúdo temático. o contexto espaço-temporal e as relações intersubjetivas. portanto. orienta sua vida. como as categorias lexicais. é também nos colocarmos no lugar do outro. seria preciso fundir-se em um. de nosso conhecimento. na comunicação verbal. ou seja. tornar-se um único homem. vemos e sabemos sempre algo que o outro não sabe. deseja determinado objeto. em outros momentos. de seu tempo. em outros lugares. morfológicas e sintáticas. de nossos desejos. o gênero não deve ser abstraído da esfera que o cria e o usa e nem de seu posicionamento social. Esses sujeitos precisam ser olhados pelo olhar do outro. de acordo com as finalidades de comunicação e. “é apenas através da enunciação que a língua toma contato com a comunicação. por exemplo. é a ideia de “visão excedente” ou “exotópica” (BAKHTIN. Pela visão excedente. com a CORPOS . neste instante preciso. devido a sua posição espacial. mas para eliminá-la totalmente. é condicionado pelo lugar que sou o único a ocupar no mundo: neste lugar. como um elo de uma corrente. é nos identificarmos com o outro a partir de seus valores sociais. ou seja. sendo importante levar em consideração o tipo de atividade. Compreender os mais diversos gêneros. complementa. a partir de um posicionamento valorativo”. 43) quando estamos nos olhando. p. O estilo. os gêneros podem ser caracterizados como heterogêneos. construídos pelos mais diferentes integrantes das atividades sociais e com as mais diversas finalidades.154). pois a forma pode ser entendida como representação estética de uma determinada cultura contextualizada no tempo-espaço e como produto do processo dialógico entre os sujeitos da enunciação. é possível reduzir ao mínimo essa diferença dos horizontes. Graças a posições apropriadas. 1999. concorda.Esse excedente constante de minha visão e de meu conhecimento a respeito do outro. há atitudes responsivas ativas. Como o tempo é histórico e o espaço é social. executa atividades ou ordens. Como os gêneros do discurso objetivam atender às necessidades da interação verbal. Assim. 2000). saindo de sua condição de ouvinte e entrando na condição de falante. constitui-se pela escolha dos recursos da língua. o enunciado é uma unidade real que se inter-relaciona com outros enunciados. estilo e construção composicional – também estão intrinsecamente ligados aos valores e funções sociais do processo de comunicação. imbui-se do seu poder vital e torna-se uma realidade” (BAKHTIN. pela concepção de dialogismo como processo constante da comunicação. de nosso lugar. surge um espaço dialógico entre os sujeitos da comunicação e. num conjunto de dadas circunstâncias – todos os outros se situam fora de mim. ou seja.

sem desconsiderar seus próprios valores sociais e ideologias. crítica à violência policial (contra os moradores da periferia e contra os presos comuns). a exploração sexual da mulher. Ainda em relação ao intuito discursivo. no Bronx. intuito discursivo. a violência contra a mulher. enfim. por conseguinte. é estruturado por batidas eletrônicas e por outros recursos sonoros. à expressividade. 70 relação intersubjetiva entre o querer dizer do enunciador e a imagem que ele concebe do enunciatário. (vii) a função social do rap e do movimento hip-hop. 2. relatos sobre a vida de usuários de droga. consequentemente. Há ainda temas menos recorrentes: a discriminalização da maconha. crítica às práticas religiosas que incentivam contribuição financeira sistemática dos fiéis. (viii) lazer e diversão na periferia. De acordo com Bentes (2006. ou seja. CORPOS . O VISITANTE: um olhar diverso O gênero rap tem como temática o cotidiano da periferia. como já mencionamos. sob a influência de seu destinatário e de sua reação-resposta. DE LUIZ. ao empregar um determinado estilo constrói-se o todo do enunciado que só ocorre por meio da possibilidade de resposta do outro. alcoolismo. no Brasil. educação. os temas mais comuns envolvem: (i) denúncia social: crítica às condições precárias de saúde. pois. às entoações dadas. expondo. sua realidade. Enquanto gênero musical. (iv) denúncia de preconceito racial. o cotidiano de meninos de rua. estilo. Também vale ressaltar que o estilo está indissoluvelmente ligado ao conteúdo temático e. 116). valorativo e expressivo desse enunciador que. crítica ao desemprego e crítica a todo o contexto político-social que “empurra as pessoas para o crime e para as drogas” (consumo e tráfico). (vi) afirmação de uma identidade negra. Nessa ambiência. a saber. há de se levar em consideração que o estilo e a composição estão ligados ao valor atribuído pelo enunciador a um determinado enunciado. a criminalização da infância. ao caráter emotivo. (v) denúncia sobre as condições carcerárias e sobre o cotidiano na cadeia. em seus estudos sobre o rap. e se constituiu como relato da vida de jovens negros. (ix) valorização da periferia e de seus moradores. Também entendemos que. “RAP REAÇA”. criticamente. acaba por empregar ou não determinados recursos linguísticos. o tipo de estruturação e de conclusão do todo do enunciado. (iii) relatos sobre o cotidiano do crime. o tipo de relação entre os parceiros da comunicação e. surgiu em Nova Iorque. sempre “cantado” por um homem que fala/relata o conteúdo temático das letras. aos objetivos de uma dada interação verbal. p. contexto sócio-histórico-econômico-cultural e a ambientação espaço-temporal estão intrinsecamente relacionados. (ii) crítica explícita à política excludente dos governos. Cada esfera das atividades humanas exige uma determinada construção composicional. lazer e transporte dos moradores das periferias.

poemas. (NOGUEIRA. No contexto do Hino. de Luiz. assim como enuncia Bolsonaro. Aliás. Fundada inicialmente como Rap Genius tinha como propósito divulgar hip-hop. CORPOS . na década de 80. não foge da luta”. não foge da luta Os moleques aprendem a brincar de polícia e policia é a nossa cultura De pequeno se aprende que bandido bom é bandido na soltura Não é por igualdade que tem cota racial Mas pra que de fato o racismo se torne real Cobrar dívida histórica agora é fazer o mesmo Só que branco subordinado do preto Não querem igualdade. assim como o grafite e o break. querem vingança Como se o erros carregássemos de herança _Antes de dar play em rap. há um diálogo com o Hino Nacional Brasileiro ao afirmar que “A gente entende que. O enunciado “As crianças são Ustra. que foi chefe do II Exército do DOI-CODI no período de 1970 a 1974 durante a ditadura militar brasileira.. etc. invadindo os bailes da periferia e indo para as ruas. pois será o branco subordinado a ele. literatura. mulheres são Ustra. notícias etc. a escolha linguística feita para se referir ao negro é “preto”. somos todos Ustra A gente entende que. subverte o sentido ao afirmar que os negros “não querem igualdade. esse movimento foi mais intenso em São Paulo. A partir dessas breves considerações sobre o rap. inicialmente. é. afirmando não haver temor caso seja necessário dar a vida pelo país. No Brasil. veicula-se que “um filho não foge à luta” em momentos de defesa à pátria. leia Olavo de Carvalho. apresentamos a seguir o “Rap reaça”. querem vingança”. inclusive presente em várias expressões de valoração preconceituosa. a defesa pelo militarismo ao exaltar o coronel Ustra. mulheres são Ustra. como: “A coisa tá preta” ou “Serviço de preto” em oposição à cor branca. objeto de análise de nossa pesquisa: #UstraVive (Um Rap Reaça)'. 16Genius é uma empresa de mídia norte-americana que permite aos usuários fornecer anotações e interpretação de músicas. o Visitante As crianças são Ustra.. visto que há uma crítica a cotas destinadas a estudantes afrodescendentes para o ingresso nas universidades. como “Amanhã é dia de branco”. de Luiz Paulo Pereira da Silva. reforça o militarismo por meio da repressão e da exaltação à polícia. Ao contrário de um discurso de denúncia ao preconceito contra o negro ou ainda de afirmação da etnia. escute o Bolsonaro Antes de clicar no Genius16. Utilizando-se de um discurso nacionalista. porém. 71 É importante salientar que o rap. atualmente. 2017. termo que tem forte conotação pejorativa._ Viva o regime militar. com a dança break. somos todos Ustra” e o emprego do hashtag “#Ustravive” incita o ouvinte a aderir à ideologia veiculada na letra desse rap. por exemplo. faz parte do movimento do hip-hop. independente da idade. independente de idade. apresenta outros gêneros como música pop . online) Enunciam-se valorações e ideologias opostas ao rap tradicional. No rap.

Enfim. de denúncia e crítica às desigualdades sociais. CONSIDERAÇÕES FINAIS Se o rap surgiu para combater o preconceito. daí ser chamado de “um rap reaça”. este último conhecido por seu posicionamento conservador e anticomunista. nacionalistas e militaristas de Jair Bolsonoro. Tradução de Maria Ermantina Galvão. REFERÊNCIAS BAKHTIN. a refração. o estilo. exalta uma posição política. revisão de tradução de Marina Appenzeller. por ocupar um determinado lugar social e interpretar esse mesmo espaço e o outro sob seu prisma. discute. Gêneros do discurso. Assim. “parodiar estratégias e fenômenos da esquerda” (NOGUEIRA. como ele mesmo afirma. Silva apropria-se do gênero rap para. O gênero rap transposto para outra temática é modificado para atender ao intuito discursivo de seu enunciador. online). ed. CORPOS . constituído pela escolha de termos que remetem e reiteram a ideologia de extrema direita. como se piscasse o olho para todos os rappers e dissesse: transgredindo. 3. A visão de mundo do enunciador evidencia. ________. Subvertendo o sentido de preconceito. 72 O emprego de nomes como Ustra. pois apesar da abolição da escravatura ocorrida no final do século XIX. atua no ato responsivo de olhar para o outro com sua visão de mundo. No diálogo conflitante com os discursos defensores da liberdade de expressão. 2017. informa. São Paulo: Hucitec. Silva afirma que a comunidade negra não quer igualdade. ed. contribuem para a construção de um discurso de ultra direita. num processo de apropriações e diálogos. 2000. expressa um tom valorativo de incitação à repressão num discurso nacionalista de que somente a polícia e o regime militar são capazes de defender o Brasil. Expressando um tom valorativo de que o regime militar é a melhor alternativa para a sociedade brasileira e discriminando o negro. Silva responde com seu olhar exotópico. evidenciando um olhar contrário às causas defendidas nos raps tradicionais. o “rap reaça”. no rap analisado. a maneira como concebe e interpreta sua realidade. dou meu recado . quer vingança. São Paulo: Martins Fontes. 9. ou seja.(VOLOSHINOV) Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. o discurso veiculado é um embate a essas ideias. num processo dialógico de confronto e de negação. 1999. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. In:________. mais que um reflexo do mundo. expor criticamente a realidade da periferia e reafirmar a identidade do negro. além de negar a história dos afrodescendentes no Brasil. Mikhail. a maioria ainda sofre injustiças e vive a desigualdade social. Bolsonaro e Olavo de Carvalho. Estética da criação verbal. reiterando suas ideologias por meio de um discurso laudatório ao regime militar e a personalidades com posicionamento conservador. Transgredindo. A construção de sentido desse discurso exalta as ideias extremistas.

br/ilustrada/2017/06/1890534-inspirado-em-chico-rapper-louva-bolsonaro-e-projeta- vertente-reaca. Carlos Alberto.com. FARACO.ufrn. Disponível em: < https://periodicos. In: PAULA. Disponível em: < http://www1. CORPOS . Esfera e campo. A ideologia no/do Círculo de Bakhtin. NOGUEIRA. 2017. Amanda. Acesso em 24 set. Campinas: Mercado de Letras. Anna Christina.br/gelne/article/view/9121/6475>. GRILLO. p. Beth (Org.). “Um bom lugar”: a arte verbal nos videoclipes do rap paulista.uol. 2017. de Camargo. 2006.133-160. STAFUZZA. rapper louva Bolsonaro e projeta vertente ‘reaça’. 2013.folha. Círculo de Bakhtin: pensamento interacional. Sheila V.). Luciane. Acesso em 06 jun. P. 73 BENTES. São Paulo: Contexto.shtml>. In: BRAIT. Grenissa (Orgs. Inspirado em Chico.167 – 182. Bakhtin: outros conceitos-chave.

um dispositivo para organizar os bens simbólicos em grupos separados e hierarquizados. nem liberdade irrestrita. 18 Professora Associada II do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem. que distinguia daqueles que não sabiam relacionar-se com ela. Conhecer sua organização já era uma forma de possuÍ-los. o popular e o erudito cada vez se tornam mais tênues.. nossas bibliotecas onde guardamos as obras. (CANCLINI. e mais tarde na América Latina. autores. artistas considerados tesouros a serem preservados. As classificações monologizantes se esgarçam e a linha demarcatória entre o culto e o inculto. Exotopia. Para Canclini ( 2013) essas coleções. RESUMO 74 POESIA SLAM: voz e resistência 17 Palavras-Chave: Rap. Por uma Periferia que nos une pelo amor. A formação de coleções especializadas de arte culta e folclore foi na Europa moderna. 302). Maria da Penha18 As fronteiras rígidas estabelecidas pelos Estados modernos se tornaram porosas. ao longo de nossa história no mundo. 409301/2016 – 7. p. de músicas e de livros. o autor vê esse processo de construção de outras coleções um ato de relativizar qualquer tipo de fundamentalismo. enfrenta sua agonia diante de práticas subversivas e de novas obras que tensionam o que é considerado colecionável ou canônico. Processo n. Longe de se constituir em algo nocivo. 2013. CORPOS . com limites precisos baseados na ocupação de um território delimitado. Aos que eram cultos pertenciam certo tipo de quadros. mesmo que fosse mediante o acesso a museus. salas de concerto e bibliotecas. mesmo que não os tivessem em sua casa. Gêneros do Discurso. na contemporaneidade. CASADO ALVES. Poucas culturas podem ser agora descritas como unidades estáveis. Canclini nos apresenta um processo dialógico que se dá nas culturas a partir da concepção de coleção e da ideia de descolecionar como algo constitutivo de diferentes práticas culturais. Nestor Canclini A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. Dialogismo. Mas essa multiplicação de oportunidades para hibridar-se não implica indeterminação. pela dor e pela cor. pois 17 Texto que contempla objetivos do Projeto de Pesquisa Universal financiado pelo CNPQ. É TUDO NOSSO! Sérgio Vaz C onstruímos.

Não há voz chancelada por nenhuma autoridade/especialista que lhe reconheça ou lhe “dê”a voz. Fazem parte desse movimento Ana Cristina César. ao longo da história. Nesse sentido. Em sua maioria são sujeitos do Rio de Janeiro e pertencentes a uma classe social mais favorecida. de absolutizar. com a Poesia Marginal ou a Geração do Mimeógrafo. Assim. casas de show. promoviam as desigualdades. forças centrífugas e centrípetas. O termo marginal surge na literatura brasileira na década de 1970. outros espaços que constroem novas sociabilidades à revelia dos museus. o sujeito sempre encontrará outras vozes. Na contemporaneidade fluida (BAUMAN. o popular e o massivo. permite-nos uma compreensão mais generosa a respeito de práticas artísticas. Na arena de luta das linguagens. cultura e linguagem. Sujeitos que resistem e assumem a cena sem que sejam autorizados por uma voz que social que lhe nomeie poeta. Sujeitos falantes. Eis o Slam Poetry19. No entanto. não há razões para lamentar a decomposição das coleções rígidas que. 307 ) Canclini. Também não acreditamos que haja perspectivas de restaurar essa ordem clássica da modernidade. Marginal. CORPOS . vale ouvir outras vozes sobre o que nós nomeamos ao longo da história de nossa literatura como “literatura marginal”. ao assim valorar os “cruzamentos irreverentes”. as vozes dissonantes (as forças centrífugas). Sua lição nos serve como alerta para pensar que a cultura é dinâmica. de manter categorias rígidas que desconsiderem a movência da própria vida e da história. Vemos nos cruzamentos irreverentes ocasiões de relativizar os fundamentalismos religiosos. étnicos. outros lugares. marcadamente histórica e feita por sujeitos históricos que tensionam qualquer tentativa de monologizar. teatros. Francisco Alvim e Chacal. no descentramento. Na roda. vale o que observa Bakhtin (2010) ao historicizar a sátira menipéia e a sua existência à margem dos gêneros sérios da antiguidade. Dialogicamente. o sujeito construiu arte. escritor. Cacaso. espaço. Rua. nacionais. sempre haverá a tentativa de monologizar e dar a última palavra. Nossa incursão para entender o Slam se ancora em percepções sobre sujeito. Na babel discursiva. enunciados estéticos e ocupou espaços para além daqueles considerados adequados para a exposição ou projeção da boa arte socialmente valorizada. Corpos em cena. estéticas à margem do que é considerado o centro do socialmente valorizado. políticos. que absolutizam certos patrimônios e discriminam os demais. artísticos. palavra-istina. (CANCLINI. 2001) é preciso considerar que os sólidos se desmancham e novas identidades são forjadas/construídas na heterogeneidade. Periférico. p. o júri pode ser composto por qualquer um que esteja ali presente. textos. O termo marginal também pode remeter a uma produção literária/artística 19 O termo Slam Poetry ou apenas Slam é utilizado para fazer referência aos campeonatos de poesia. periferia e centro entram em relações tensas e os sujeitos em suas práticas revelam/desvelam seu pertencimento. Torneio. ao separar o culto. 2013. na mobilidade. Sujeitos encarnados. Margem. na dinâmica discursiva. outras formas de dizer. duelam os discursos veiculadores de verdades absolutas (as forças centrípetas) que tentam impor uma centralização verbo-ideológica que procura conter o heterodiscurso. artista. voz e corpo. resistência. Competição. 75 Efetivamente. o ato de descolecionar esses grupos fixos e estáveis nas culturas. Paulo Leminski. rua.

ou se coloca como centro. Vence o que conseguir maior nota. Dos enunciados estéticos desse grupo ganham visibilidade a cultura hip hop. CORPOS . Como se organizam os campeonatos de poesia? O que caracteriza os Slams? Esses eventos são campeonatos de poesia no qual seus participantes/concorrentes têm até 3 minutos para apresentarem seus poemas. gíria. pois reconhecemos seu lugar. O texto a ser apresentado pode ser improvisado ou escrito e memorizado anteriormente. quem escolhe/elege o vencedor? No evento.” Nesse texto. o gestual. Quanto à forma composicional. um júri escolhido na hora por pessoas comuns que ali assistem podem dar nota de 0 a 10. Podemos. Segue link para vídeo da Slammer Roberta Estrela D’Alva para que se possa ter dimensão desse evento estético em plena rua. a arte socialmente valorizada ou canônica. à revelia do que a academia considera canônico. Qualquer pessoa pode participar. sob o risco da superficialidade. Um operário da construção civil. a palavra marginal se preenche com valorações de pertencimento de um grupo a um lugar (periferia) e a uma produção que corre à revelia do que é socialmente valorizado como a grande arte. p. Nasce em parceria com o grupo Chicago Poetry Ensemble. poesia. 76 fora ou à margem do meio editorial. Em 2000. 18) a nomeação “literatura marginal dos escritores de periferia” diz respeito tanto a “textos produzidos por escritores da periferia dos demais textos publicados nos últimos quinze anos que poderiam ser classificados como “literatura marginal’” quanto os diferencia “das obras dos ditos poetas marginais setentistas. criação. A poesia é de autoria do próprio concorrente e nessa performance vale a voz. Tratemos de uma dessas manifestações: O Slam. também. a autores autorizados ou a público-alvo homogêneo e seleto que podem apreciar a boa arte. De acordo com Nascimento (2006. Sob ângulo dialógico. sua performance. à péssima qualidade de material e de linguagem ou aquilo que é produzido por pessoas consideradas de baixa renda ou “popular”. não há formato específico. Assumimos. Predominantemente em São Paulo. França. modos de falar que marcam a identidade desses sujeitos. Itália. Como surgiu o Slam? O Slam Poetry surge em 1986 com a finalidade de tornar popular a poesia falada. cria um show-cabaré-poético-valdevilliano que é batizado como Uptown Poetry Slam. Para que se nomeie periferia ou marginal algo. alguém. que em termos da valoração artística. recuperar os anos 90 que marcam uma nova entrada na cena artística “alternativa” de um grupo de escritores que se nomeiam representantes da periferia (São Paulo). os campeonatos de poesia chegam ao Brasil. nos reservamos o direito de nomear de poesia ou de arte sem adjetivos que as qualifique. Suíça e Alemanha. o corpo em cena: não há acompanhamento musical ou adereços. Esses campeonatos de poesia já ocupam a cena cultural em várias cidades do Brasil e deixam ver que a cultura não diz respeito a lugar fixo. o centro seria a arte socialmente valorizada e que compõe nossas coleções do que julgamos canône. Uma vez que os participantes competem entre si. neste texto. seu diálogo incessante na cadeia cultural dialógica em que nos encontramos. questões sociais próprias da periferia. sua importância. lugar de apreciação dos tesouros da humanidade. linguagem informal. Mark Kelley Smith. As competições se expandem de Chicago para a Europa. Essa prática discursiva é concebida por nós como força centrífuga que tensiona o que é considerado boa literatura.

o corpo e fazem da rua uma ágora dialogicamente responsiva. p. a mestiçagem. Vida e arte em relação dialógica como bem pensava Bakhtin (2010) ao preconizar que arte e vida não se separam. assim. os enquadramentos convivem com a desestabilização e as fronteiras entre produtos. Em franco diálogo com o sarau que sempre andou de mãos dadas com a tradição literária. novos fluxos que corroem os sólidos: Os fluidos. o embate. atividades culturais e artísticas põem em evidência a hibridização. 77 Figura 1. diminuem a significação do tipo (resistem efetivamente a seu fluxo ou o tornam irrelevante). ainda. O espaço urbano das cidades propicia o encontro. essas experiências urbanas rasuram a “aura” e descolecionam. sujeitos de linguagem em atos poéticos nos quais a denúncia. portanto. os espaços e as classificações. cruzamentos marcadamente heterogêneos e fluxos de toda ordem. Enquanto os sólidos têm dimensões espaciais claras. é espaço público e pode ser apropriada como um cronotopo onde o sujeito se revela em novas experiências estéticas. não fixam o espaço nem prendem o tempo. objetos. (BAUMAN.be/d7j2hhxdDlc.9. Slammer Roberta Estrela D’Alva vencedora de campeonatos de Slam. por assim dizer. outros temas. ao que é poesia. Se em algum momento se pensou que a arte seria aquela a compor uma coleção resguardada em museus ou espaços insitucionalizados dedicados a sua salvaguarda. A cultura hip hop. ao que é arte. textos e suportes ganham a cena e nos convidam a nos reposicionarmos em relação ao que é artístico. pois outros gêneros. a cultura urbana dão visibilidade a projetos de dizer e manifestações contra-hegemônicas ou como bem nos CORPOS . 2001. mas neutralizam o impacto e. movem a voz. os desencontros. Acesso em 21. Ou. Poeta e público se tornam agentes ressignificando espaço e arte. os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-la. mas a própria produção desses sujeitos que se veem como atores. Não se declamam os poemas dos grandes poetas. manifestações. pensando na fluidez dessa contemporaneidade. outra performance que os singularizam. por sua vez. A rua.2017.8) Nessa contemporaneidade fluida. mais do que lhes toca ocupar. o Slam e os novos saraus que estão em cena em diferentes lugares do país têm outros sujeitos. Fonte: https://youtu.

Da poesia periférica que brota na porta do bar. Da Música que não embala os adormecidos. Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas. pela dor e pela cor. Contra o racismo. do país. Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado. A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. armado da verdade. Da Literatura das ruas despertando nas calçadas. É o campo do consentimento e da resistência. para todos os brasileiros. A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. a cultura popular constitui-se como um dos “[. 109).] cenários desta luta a favor e contra uma cultura dos poderosos: é também o que se pode ganhar ou perder nessa luta. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos. 246-250). pela dor e pela cor. CORPOS .. e universidade para a diversidade. no centro de todas as coisas. A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura. por si só exercita a revolução. Do cinema real que transmite ilusão. Do teatro que não vem do “ter ou não ter. A favor de um futuro limpo. A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. Contra o artista serviçal escravo da vaidade. O Manifesto da Antropofagia Periférica de Sérgio Vaz é a contrapalavra que o poeta lança ao mundo para defender a arte produzida na periferia. o lugar onde a hegemonia surge e se constrói. mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Que. É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão..”. Dos becos e vielas há de vir à voz que grita contra o silêncio que nos pune. em parte. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo. que. Da Dança que desafoga no lago dos cisnes. Contra os covardes e eruditos de aquário. Um artista a serviço da comunidade. Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior. querem substituir os barracos de madeira. cinemas. 2008. a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha. É TUDO NOSSO! (VAZ. Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala. Contra os carrascos e as vítimas do sistema. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona. 78 evidencia Hall (1984). museus.. pela periferia e para a periferia: A Periferia nos une pelo amor. de concreto. Por uma Periferia que nos une pelo amor.” O Slam resistência é esse tempo/espaço onde o sujeito usa a voz e o corpo para resistir. p. A Periferia unida. teatros e espaços para o acesso à produção cultural. ( p. Das Artes Plásticas. Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala. Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada. só depois da aula. É.. Miami pra eles? ‘Me ame pra nós!’.

. acusando-o de querer devorá-lo ou destruí-lo. Lucas Afonso em Slam.be/_pj13s4MGy4. manifestações artísticas.9. força-lo ou induzi-lo a se render ao seu próprio “ego coletivo”. A voz performática de Lucas Afonso (finalista da Copa do Mundo de Slam. Outra rota. 79 A contrapalavra do artista-cidadão reivindica seu lugar no circuito artístico à revelia dos discursos centrípetos. confirmando o que Bakhtin (2010) falava sobre a praça pública e seu potencial para o encontro e a festa. Outro circuito.. sujeitos. naturaliza ou torna invisíveis os sujeitos. na França. pec. corrupção. exploração. perder prestígio. A voz da periferia entra em embate dialógico e parece responder ao que nos afirma Bauman: [. 2005. Arte que vem da periferia e não a arte que vai para a periferia. Artista e público se encontram numa zona de livre contato. a “identidade” parece um grito de guerra usado numa luta defensiva: um indivíduo contra o ataque de um grupo. 82-3). em 2016) é responsiva a toda situação política atual: golpe. políticos corruptos. O espaço urbano é ressignificado com a arte que contribui para processos de subjetivação e reconhecimento da alteridade que quase sempre o cotidiano frenético da cidade pasteuriza. de ter a intenção viciosa e ignóbil de apagar a diferença de um grupo menor. Em ambos os casos porém. CORPOS . pobreza e discriminação são palavras-ato que compõem o enunciado do slammer. práticas. dissolver-se. Acesso em 20. trabalhador. instituições..] Em outro momento é o grupo que volta o gume contra um grupo maior.17. Outra valoração. um grupo menor e mais fraco (e por isso ameaçado) contra uma totalidade maior e dotada de mais recursos (e por isso ameaçadora). Figura 2. p.. Politicamente posicionado o artista-cidadão resiste e denuncia. Fonte: https://youtu. (BAUMAN. Resiste e critica espaços.

manifestações que os representem e a sua comunidade. da coletânea. REFERÊNCIAS M. literatura marginal a fim de compreender como os sujeitos em diferentes tempos/espaços constroem trajetórias e rotas para além do que é considerado canônico ou artístico. São Paulo: Editora 34. cultura urbana. São Paulo: Hucitec. sua intervenção faz parte do evento e o reconhecimento de que qualquer cidadão pode avaliar. _____. não é aquele passivo que apenas assiste. discursos. da academia. Acesso em 20. Vejamos a seguir cena de uma avaliação do público sobre o que foi visto/ouvido/vivido na ágora urbana. o Slam como uma força centrífuga que tira a poesia da biblioteca. Fonte: https://youtu. Portanto. 1990. A teoria do romance I: A estilística. o Slam. discutimos contemporaneidade. Público de um campeonato de poesia. A estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes. 2015. consideramos. dar sua opinião sobre a arte é constitutivo do Slam que rompe com chancela do especialista. da instituição e faz do expectador/participante o grande júri. Figura 3. BAKHTIN. BAKHTIN. INCONCLUSÕES O artigo teve como objetivo discutir a prática do Slam ou campeonato de poesia como espaço de exercício da voz e da resistência. 80 O público de um campeonato de poesia. a partir das postulações do Círculo de Bakhtin.be/_pj13s4MGy4. Para tanto.9. Ao lado da arte socialmente valorizada outras práticas se gestam e ocupam espaços não institucionalizados para dar vazão a estética. do livro. do espaço institucionalizado e a joga na rua aos ouvidos daqueles que se disponham a ouvi-la.17. M. M. da autoridade. 2003. CORPOS . Questões de literatura e de estética: a teoria do romance.

Tradução: Segio Paulo Rouanet. Cultura da Convergência. A identidade cultural na pós-modernidade. DF. 10. Rio de Janeiro: Aeroplano. Modernidade Líquida. 5. J. 27.17. 29-37. Arte Urbana: São Paulo Região Central (1945-1998): Obras de caráter temporário e permanente.unicamp. p. 2. BALBINO. São Carlos-SP: Pedro e João Editores. HALL. JENKINS. Magia e técnica. 1. Néstor. corpo-cidade. 2015. ed. v. In: Especiaria .Cadernos de Ciências Humanas. Rio de Janeiro: Lamparina. BAUMAN. LAMAR. PALLAMIN. v. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Performar o discurso: teatro. Tomaz Tadeu da Silva & Guacira Lopes Louro. 193-212. ed. 2011.br/simple-search?query=jessica+balbino. jul. VIS: revista do PPG-Arte/UnB. Brasília. A.ulo Bezerra. São Paulo: Aleph. Walter. NASCIMENTO. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. n./dez. Acesso em 29. travestismo. Pelas margens: vozes femininas na literatura periférica. E. CORPOS . A literatura marginal/periférica: cultura híbrida. ed. EBLE. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Z. p. 2010. 2008. Trad. Vera M. 2015. 2012. 2003.9. Disponível em: http://repositorio. H. GARCÍA CANCLINI. BENJAMIN. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Stuart. Para uma filosofia do ato responsável. São Paulo: Editora Brasiliense. contra-hegemônica e a identidade cultural periférica.R. reimp. Trad de Pa. Tradução Susana L. São Paulo. Vaz. Dissertação de mestrado. 2015. 1985. 2001. T. n. Fapesp: 2000. 81 ____. Problemas da poética de Dostoiévski.. jan. Sérgio. 1ª Ed. 4. 12. 16. São Paulo: EDUSP. ______. A. de Alexandria. Cooperifa: antropofagia periférica./jun.

Professora Associada do Departamento de Letras e da Pós-Graduação em Estudos da Linguagem/UFRN. rompendo o silêncio de seu interior. nosso estudo está amparado nos aportes teóricos de Mikhail Bakhtin. é importante ressaltar os artigos de Casado Alves (2016. Sujeito cujo inacabamento CORPO. Pós-doutorado pela Unicamp. CORPOS . com um olhar posicionado sobre a vida e si mesma. E-mail: krys_29@hotmail. RESUMO 82 Frida Kahlo. Abordaremos. Frida. figura ímpar. que tocam o outro 20 Maria da Penha Casado Alves: Orientadora do artigo. 2012). investigamos uma imagem valorativa da artista recoberta por sofrimentos e dores FRIDA KAHLO 20 lancinantes de seu ser. A pintura analisada no presente artigo vislumbra um corpo híbrido que quer dialogar com o outro. vulnérabilité. as cartas de Frida Kahlo. Mulher que pintava a sua própria INACABADO NA OBRA DE realidade. dessarte. e o diário de Frida como enunciados concretos. importa-nos. Esse brado constante observado em sua obra. e sob lentes bakhtinianas dialogar com o outro. podemos aguentar Muito mais do que imaginamos Frida Kahlo O presente artigo objetiva analisar a tela: O pequeno cervo. Tons volitivo-emocionais. respectivamente. que a imagem representada na pintura está cingida em uma linguagem que brada. sem reservas no falar. centro de toda nossa fundamentação. que de certa forma nos remete a Frida. 21 Especialista em Estudos sobre a Linguagem: Teorias e Ensino/UFRN. Keyrla Krys Nascimento21 Palavras-Chave: Frida Kahlo. ambos sob uma perspectiva bakhtiniana. que era a própria fragilidade e força: “Et avecquelle force dansleurfragilité: <fragilité> . em nosso estudo. transfere para a ponta do pincel toda dor de sua alma.com 22 “E com tal força em sua fragilidade: <fragilidade>. FERIDO E instigante nos constitui.com . 56. que analisam. E-mail: penhalves@msn.”(tradução nossa). no escrever e no viver. grifo do autor). Pesquisadora. Para tal. a assertiva de Cixous (2010. Autorretrato. CHAGAS. Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.”22 . p. perpetuado em sonidos que atravessam mundos. para início do debate. Em continuidade. rasgado sob tons volitivo-emocionais. refletindo um corpo com dores lancinantes. vulnerabilidade. UMA VIDA DE INACABAMENTOS EM UM CORPO PROVISÓRIO No fim das contas. Corpo. Diante disso. contribuiu de forma inquestionável no imaginário feminino e artístico até os dias de hoje. Observamos. à medida de sua incomparável intensidade. o corpo representado em sua obra como enunciado concreto que se torna plural no encontro com o outro. Os seus autorretratos notoriamente tomaram uma dimensão ímpar em sua obra. Em face disso. lentes essas que enxergam um sujeito transitório cujo inacabamento reflete e refrata no mundo da vida e no mundo da arte: Frida Kahlo. corpo esse posicionado e de valorações inúmeras. à la mesure de leurincomparableintensité.

marcou o imaginário artístico da época cuja a imagem valorativa de resistência persiste até os dias de hoje. Perante o olhar de inacabamento do sujeito. FRIDA KAHLO. A GRANDE OCULTADORA Frida. Frida começou a pintar para aliviar o sofrimento depois desse trágico acontecimento em sua vida. casou-se com Diego Rivera. mas também para o mundo. UM CORPO FERIDO REVERBERANDO EM TINTAS Nosso tecer sobre o híbrido corpo fridiano Pinto a mim mesma porque sou sozinha E porque sou o assunto que conheço melhor Frida Kahlo Figura 1. mesmo o marido e os médicos não concordando. por causa de sua saúde frágil. dos tons volitivo-emocionais. Marcada pela dor depois de um grave acidente de bonde que dilacerou sua coluna(1925).A artista foi uma mulher que amava muito. Na tradução brasileira organizada por Bezerra Estética da criação verbal. O pequeno cervo (ou O veado ferido). porém o grande amor de sua vida sempre foi Diego. 83 provocando uma infinitude de respostas no mundo da vida. em 6 de julho de 1907. nos encontramos em consonância com o que alega Bakhtin (2011) a respeito do diálogo dos enunciados. Frida Kahlo nasceu na cidade de Coyoacán. foram inúmeras cirurgias. casamento esse marcado por traições constantes vidas de seu amado. com a exotopia de seu olhar sobre si e a vida. como também o faz no livro A cultura popular na Idade Média e no Renascimento (BAKHTIN. suas relações dialógicas que respondem em si e no outro. não segurou as gestações. CORPOS . o autor faz uma análise sobre o corpo. por causa disso não pode ter filhos. detalhe que tornou sua obra incontestavelmente extraordinária. referindo-se ao corpo grotesco. mulher revolucionária. foram num total de 3 abortos. 1946. comunista. feminista. ela tentou. México. Em1929. a grande ocultadora. Frida não separou vida e arte. como ela mesma gostava de dizer. 2002). Marcada por dores físicas e emocionais. é que nos incita a investigar seu autorretrato. Para melhor compreender esse corpo faremos um pequeno sobrevoo no que se refere a vida da artista. foi um ser de muitos amores. grande era o desejo de ser mãe. figura singular não só para o país em que vivia. Seu suplicio teve início depois desse acidente. é um corpo carregado de historicidade.

porém o que se vê na tela é o galho no chão. Uma imagem híbrida. parece estar calmo não por não sentir as dores. não como algo separado mas fazendo parte de sua própria natureza. descendo raios do céu. senão pelo desfecho que esperava: a morte. visto que em algumas culturas a figura do veado com uma erva na boca. 273 e p. o mar ao fundo. por parecer sem saída. concomitantemente. p. podemos inferir que a dualidade – homem/mulher – habita dentro de Frida. podemos vislumbrar sensualidade na face de Frida. O rosto com a serenidade que intriga. como vemos no cenário analisado e longevidade. No seu semblante uma serenidade intrigante. No que concerne a temática do corpo. E tudo faz muito sentido. raiz. agilidade. podemos então. a guerra – mostrando o conflito em seu interior –. porém verificamos queo cervo em várias culturas representa fragilidade. em volta do cervo. A figura que se assemelha a São Sebastião. recorremos à postulação de Bakhtin (2002. constatamos que há uma relação com a pintura por ser um animal jovem e ágil. com feridas abertas. Verificamos que o veado é jovem e macho. significando virilidade. significa que ele quer curar-se. do corpo de um veadocravado por flechas com a cabeça da própria Frida. que na cultura grega o cervo é símbolo de fervor sexual. que é representado de maneira vizinha: amarrado a uma árvore e atingido por flechas. Raio simboliza guerra e destruição. vida interrompida. mesmo em meio a dor. a vida interrompida e a espera do fim. lábios com batom. dá uma ideia de estar sem saída. Ademais. notemos os raios ao fundo da pintura que mais se parecem com raízes. a ligação de terra e céu. cabelos penteados. entender que Frida não acredita mais em sua cura. em nossa análise. o que é bastante contundente essa concepção pois ela pintou essa tela no período que viajou a Nova York para uma cirurgia na coluna vertebral. que é o fim. 322): CORPOS . o sangue jorrando das feridas. ícone que dialoga com esse pensamento é o galho caído. por isso. envolto por árvores de troncos largos. Notamos. destruição. ainda. 84 Fonte: Herrera (2011). existe uma preocupação com a estética em meio ao sofrimento. Prosseguindo nossa investigação. terra e céu. o fim. A imagem do cervo pode ser simplesmente explicada pela artista ser de origem indígena. maquiada e com brincos. Os troncos grandes. a sua face nos remete a uma quietude inquietante. a maceração do seu corpo. Um galho no chão caído.

a cima. mas para eliminá-la inteiramente urge fundir-se em um todo único e tornar-se uma pessoa só [. reverbera todo sofrimento e posicionamento de Frida perante a vida refletindo e refratando no outro sob tons volitivo-emocionais o devir de seu ser. na qual ele afirma: Um tom emotivo-volitivo. Através das pupilas da artista que excede sua visão de si mesma e do mundo nos constituímos eventos únicos e fronteiriços. o pensamento ainda não pensado. concreto e realista [. Seguindo esse pensamento. em construção com outro corpo. e esse outro é sujeito inacabado... mas na sua correlação comigo no evento singular de existir que nos engloba.. provisório e fluido. 85 [. p.. O tom volitivo-emocional baseia-se em um conceito real. tomado isoladamente. CONSIDERAÇÕES FINAIS DE UM SUJEITO FRONTEIRIÇO O encontro que se deu entre Frida Kahlo e Mikhail Bakhtin por meio de seu autorretrato: O pequeno cervo. recorremos à citação de Bakhtin (2012.]. é possível reduzir ao mínimo essa diferença de horizontes.. As reverberações da representação do corpo. vejamos o que nos afirma Bakhtin (2011.. toda cultura na sua totalidade vem integrada no contexto unitário e singular da vida do qual eu participo. não se referem ao conteúdo em quanto tal. traçam-se de maneira completamente diferente do que nas imagens clássicas naturalistas [. o que excede de nós. Não é no contexto da cultura que uma afirmação emotivo-volitiva adquire o seu tom. dilacerado por tanto sofrimento.. e entre os diferentes corpos. Assumindo a devida posição. uma valoração real.] O autorretrato do veado ferido dialoga adequadamente com as citações do corpo grotesco.. diante de um cenário cercado de simbologias fronteiriças que constroem a história da própria artista. Em continuidade com esse pensamento. 90).] concepção grotesca do corpo nasceu e tomou forma um novo sentimento histórico. Partindo do princípio de que um enunciado responde a outros e a arquitetônica da alteridade é eu-para-mim. no que diz respeito aos tons volitivo-emocionais. atinge o outro.] As fronteiras entre o corpo e o mundo.]... Tom emotivo-volitivo ou volitivo-emotivo é o pensamento enquanto processo. A fronteira que nos liga com o outro é fluida e constante e se dá pelo distanciamento do olhar sobre si e a vida. p. existencial. CORPOS . temos uma teia de reverberações infinitas. O eu ferido de Frida absorvendo o caos em que vivia.] Quando nos olhamos. 21): [. de alma que dialoga com o mundo interior e exterior. dois diferentes mundos se refletem na pupila dos nossos olhos. num corpo inacabado.. reverbera no mundo da vida respostas infinitas de tons volitivo-emocionais que constitui o outro.. concreto. na obra de Frida. Ainda em prosseguimento com nosso estudo. notamos que a obra O pequeno cervo. O nosso lugar no mundo. tem semelhante impacto no outro como nos postula Bakhtin. [. outro-para-mim e eu-para-outro.

5. M. 2011. Texto inédito de Michel Foucault. Maxismo e filosofia da linguagem. n. O. Compilação Martha Zamora. F. H. São Paulo: Hucitec. M. HERRERA. 2017. 2012. _______. P. 2017. ______. _______. ed. 14. Disponível em: <http://www. Titunik a partir do original russo. Disponível em: <https://periodicos. O diário de Frida Kahlo: um autorretrato íntimo. Acesso em: 10 jun. São Paulo: Martins Fontes. Para uma filosofia do ato responsável. Disponível em: <http://www. Revista Linha D’água.br/index. R. Cartas apaixonadas de Frida Kahlo. São Paulo: Hucitec.php/forum/article/view/1984-8412. Trad. Trad. OLIVEIRA. FOUCAULT. Revista IHU on-line.usp. El cuerpo utópico. Carlos Alberto Faraco e Cristóvão Tezza [para fins didáticos]. (V N. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais.br/noticias/38572-ocorpo-utopico-texto-inedito-de-michelfoucault>. Rio de Janeiro: José Olympio. 86 REFERÊNCIAS BAKHTIN. B. Renato Marques.ufsc.2016v13n1p1104>. Discurso na vida e discurso na arte: sobre a poética sociológica. 2012. 25.ihu. 1997. O coração que pulsa fora do corpo: imagens passionais nas cartas de Frida Kahlo. 2015. Estética da criação verbal. Frida: a biografia. 1926. Versão da língua inglesa de I. Frida Kahlo entre palavras e imagens: a escrita diarista e o acabamento estético. Volochínov). ______. ed. 2010. 2.revistas. ______. 2011. 2010. Rio de Janeiro: José Olympio. Trad. ed. H. 4. dos S. Acesso em: 22 nov. 2010. Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. W. Le rire de la Méduse: et autres ironies. Trad. 4. Tradução de Vera Ribeiro.br/linhadagua/article/download/47720/52008>. CORPOS .unisinos. Paulo Bezerra. ______. Mário Pontes. São Paulo: Globo. São Carlos: Pedro & João Editores. O corpo utópico. M. Trad. CASADO ALVES. Acesso em: 08 jun. KAHLO. 2002. CIXOUS. Paris: Galilée. ed. São Paulo. v.

no el mundo creado por el acto. De acordo com AMARAL (2016. na prática. una fenomenología del mundo de acto ético. 1997. Coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Trabalho. Por meio desse aporte buscamos compreender a participação política dos professores e dos jovens estudantes durante a primeira quinzena do mês de outubro de 2016. grifo nosso). 1996) e ELIAS (2000). p.br CORPOS . podendo ser revisado no décimo ano. 654). da Proposta de Emenda à Constituição nº 241. Tons volitivo-emocionais. sino que tan sólo puede ser una descripción. o Novo Regime Fiscal (NRF). Autorretrato. Doutora em Educação. significa. sino un mundo en el que el acto toma conciencia de sí mismo y en el que se lleva a cabo – no puede generar conceptos. para os próximos vinte anos. Educação e Juventudes (NETEJUV) que está sediado no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) / Campus Venda Nova do Imigrante (VNI). válido para a União. que instituiu o Novo Regime Fiscal no Brasil. antes da segunda votação. PROFESSORES E DOS JOVENS ESTUDANTES CONTRA A PEC 241/2016: uma “necessitância” de outros mundos e de outros corpos COSTA. renomeada no Senado Federal com o nº 55/2016. Deane Monteiro Vieira23 De ahí que resulte claro: la primera filosofía que trate de analizar el acontecimiento del ser tal y como lo conoce e acto responsable – es decir. postulados y leyes generales acerca de este mundo (la pureza teórica y abstracta de acto ético). Un acontecimiento sólo puede ser descrito participativamente (BAKHTIN. RESUMO 87 A PARTICIPAÇÃO DOS Palavras-Chave: Frida Kahlo. deane. “congelar”. no dia 26 de outubro de 2016. O presente texto tem como objetivo apresentar relatos etnográficos colhidos das vivências políticas.costa@ifes. Como aporte teórico-analítico utilizamos os conceitos de BAKHTIN (1995.edu. a PEC 241. éticas e estéticas escritas no interior de uma escola pública e fora dela. 23 Professora do Ifes/Campus Vila Velha (ES). Corpo.

mas eminentemente social. a aula pública organizada pelos professores e com a adesão de alguns estudantes. do Poder Legislativo.] nos valores de 2016. no mesmo dia. foi organizada pela direção de ensino da Escola Imigrante24. O ato é responsável e assinado: o que quer dizer que ele responde por isso”. do Tribunal de Contas da União (TCU). foi realizado oficinas para elaboração de cartazes e faixas para serem apresentados em uma caminhada com “apitaço” pela cidade. sendo que ela se constitui na interação verbal e não-verbal. no Estado do Espírito Santo (ES). inclusive a autora desse texto. No manuscrito Para uma filosofia do ato. 88 [. uma vez que os valores somente poderão sofrer reajustes até os percentuais referentes à inflação do ano anterior. pudesse também lutar conosco contra a concentração da riqueza e o aumento da pobreza?. Desse modo. em busca de um ensino médio com melhores condições de infraestrutura e qualidade de ensino. que se responsabiliza inteiramente pelo pensamento. 22). 24 Nome fictício que remete a uma certa concordância com a escola e a historiografia capixaba. isso faz com que a maioria desses jovens deixem suas cidades e venham para a Escola Imigrante. aqui traduzidos em perguntas: (a) em que condições um pensamento teórico da realidade apresentada pelos professores e alunos.. Sendo assim. também professora da Escola Imigrante.. Bakhtin (1997) destaca que o ato de pensar é sempre singular e diz respeito a um sujeito único. p. poderia se tornar um pensamento ético?. A enunciação com vistas à participação política. na perspectiva bakhtiniana. dedicada aos pais. um acontecimento. E em outro turno.A movimentação buscou chamar a atenção da comunidade local sobre os seguintes problemas. no período da noite. medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). que de alguma forma. Com o receio do decreto da “morte” do PNE (2014-2024) e do “congelamento” dos recursos de investimentos na educação pública brasileira. e atende jovens do Ensino Médio. CORPOS . naquela aula pública. diante do contexto de desmantelamento da máquina pública educacional. do Poder Judiciário.. formada pela imigração italiana no século XIX no Brasil. A partir dessas questões planejamos também uma aula pública no auditório da escola. do Ministério Público Federal (MPF) e da Defensoria Pública da União (DPU) pelo longo prazo de 20 anos. no seu artigo intitulado “Para uma filosofia do ato: válido e inserido no contexto”. afirma que “[. A escola está localizada num município de tradição italiana. responsáveis e toda comunidade.. constitutivo de integridade dos professores e dos jovens estudantes. Ou seja. e por alguns professores. sobre o dever de pensar o contexto da vida real e concreta de nosso país e da educação pública brasileira. uma aula pública no dia 10/10/2016 para discussão juntos aos estudantes sobre o contexto político que vivíamos e ainda vivemos. divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).] ação é um comportamento qualquer que pode ser até mecânico ou impensado. as despesas primárias do Poder Executivo..e (b) Como fazer com que a comunidade do entorno da escola. não é um produto individual. desequilibraram o cenário pacato dessa pequena cidade do interior do Estado do Espírito Santo. Mas para Bakhtin qual seria a distinção entre ato e ação? A pesquisadora Marilia Amorim (2009. entendo que foram as relações sociais que determinaram as narrativas de luta e de resistência entre os professores e os estudantes.. Ela possui um certo prestígio diante dos outros colégios estaduais da região. foi um ato assinado e “[.] um gesto ético no qual o sujeito se revela e se arrisca [por] inteiro”.

2017). Todos seguiam pelas ruas da cidade. mães: dedo-duro. Eram em sua maioria adeptos da ideologia da “Escola Sem Partido” e defendiam uma liberdade de apenas ensinar. por meio das vias públicas. CORPOS . nesse dia de aulas públicas na Escola Imigrante construiu-se um “equilíbrio de poder”. De acordo com FRIGOTTO (2017. Cálice. Na tarefa de educar. um grupo de estudantes – identificados em uma pesquisa realizada pela coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Trabalho. é de “vida provisória e em suspenso”. alguns professores e estudantes que não participaram das aulas públicas e dos movimentos contra a PEC 241/2016. de busca e de interpelação frente aos desafios de uma sociedade cuja promessa mais clara. um novo atributo construído em nossas relações. 1980). passaram a se distinguir com um status de “estabelecidos” e produziram críticas contra os grupos de professores e estudantes que se movimentaram nas ruas e na escola. em virtude do apoio às medidas governamentais. a elaboração de uma programação para atender os calouros. A música destaca uma analogia entre a paixão de Cristo e o sofrimento vivido pela população brasileira durante o regime autoritário de 1965-1985.] quebra o que define a relação pedagógica e educativa: uma relação de confiança. Esta pedagogia de confiança e diálogo é substituída pelo estabelecimento de uma nova função para alunos. [. Diante disso. “o equilíbrio de poder não se encontra unicamente na grande arena das relações entre os Estados. a participação em jornadas e também nas discussões de caráter nacional. Muito mais grave do que os vinte e um anos de ditadura civil-militar onde os dedo-duro eram profissionais. por estarem sempre na direção do grêmio estudantil Áurea Eliza 25 –. A canção escolhida para a apresentação da marcha da Escola Imigrante foi a de Chico Buarque com a parceria de Gilberto Gil. 13). mas fruto de uma interdependência funcional de luta e de resistência social. não necessariamente sinônimo de igualdade de poder. produziram um filme que apresentou a nossa passeada e os principais momentos das aulas públicas e da interação com a comunidade local. Educação e Juventudes (NETEJUV) como a “tribo dos engajados” (Costa. O grupo tem se envolvido em questões internas do instituto como a educação profissional em tempo integral. 25Homenagem ao nome de uma das vítimas de desaparecimento forçado durante a Operação Marajoara. p. No dia seguinte o vídeo foi lançado na internet pelo Grêmio e contou com um alcance de14. de solidariedade. Constitui um elemento integral de todas as relações humanas”. 80).. atraindo grande atenção. onde é frequentemente espetacular.. depois de toda a movimentação do dia. No entanto. como a luta pelo fim da redução da maioridade penal. modificando a rotina citadina. estávamos dispostos a ir além do ato de ensinar. O vídeo apresenta os estudantes uniformizados e os professores vestindo roupas de cor preta. em 1973. demonstrando o luto da educação pública de qualidade. caso a PEC 241/2016 fosse aprovada. por acreditarem que o “congelamento” dos “gastos” em direitos sociais poderia salvar o país da crise. pais. p. para as novas gerações. no chão da escola a esfinge “Escola sem partido” e da “liberdade para ensinar.Como nos afirma Elias (1980. 89 Mesmo nas relações assimétricas exercidas pelos professores e educandos em suas funções cotidianas de disputa na balança de poder (ELIAS.473 (quatorze mil e quatrocentos e setenta e três) visualizações e diversos compartilhamentos. no Araguaia.

Da creche saíram três professoras aplaudindo os estudantes e os professores e demonstrando total apoio a luta marchada. que estão especificadas no estatuto do mesmo. E foi justamente na defesa de que o homem é um ser político que o vídeo produzido pelo grêmio revelou ou seu vinculou ao “dever do pensar” sobre as concepções de homem.com/gremioaureaeliza/videos/619372544901873/?hc_ref=ARQVqtS-wxI68- jkjmsiTebuCiEEoUBXlisQHLbRdExaelhHSXOlIGqeh5l1m-pf-5w As faixas e os cartazes que foram produzidos nas oficinas dadas pelos professores de Artes e política foram destaque na filmagem.. além de abrigar toda a documentação e pertences da entidade. #Somos o futuro da nação. grifo nosso).]. Atualmente possuímos uma sede localizada em uma pequena sala cedida pela instituição.facebook. de sociedade e de cultura política. p. porque você ouve muito falar mal do governo ou dos políticos. Mas. mantendo a organização. a Prefeitura e uma creche da cidade. Cada diretor do grêmio possui funções. e prezamos por isso em nossa entidade. Elas veem notícias e simplesmente falam e criticam e só sabem fazer isso [. mas as pessoas não entendem o que tá acontecendo. 2017. 11. Três locais da cidade foram destacadas no vídeo: o Fórum. assinando um compromisso com a singularidade e com a participação social. visando buscar a solução das demandas dos estudantes. Isso é reflexo de uma sociedade. 90 Figura 1.Tal assinatura. é o compromisso particular de 26 Termo utilizado pela estudante em referência à presidenta da república. o problema...]. # Contra a PEC 241/ IF. #Juntos somos mais. é a falta da participação dos outros estudantes na pauta de lutas que o grêmio tem produzido. quando ela defendia que: [.. Destacaram-se os dizeres:#Educação sem mordaça. #Saúde não é gasto. em 2016. que é o local em que nos reunimos e organizamos. Mas.. CORPOS . defendo que o homem é um ser político e não tem como fugir disso? (COSTA. [. aonde se fala muito em política. a que a gente vive hoje. A inteireza da filmagem pode ser compreendida a partir do texto escrito pela presidenta 26do grêmio estudantil. é direito de todos!. Nosso grêmio possui 13 cargos. #2016 desordem e regresso!. Abertura do filme Fonte:https://www. ocupados por estudantes de todos os turnos e séries. ainda no cargo em 2016. #Lutar sem Temer. por isso deve ter o máximo de representatividade em sua diretoria.] o grêmio é a voz do estudante dentro de uma instituição.. #Temer ninguém merece. Dilma Rousseff. apesar de haver a discriminação de cada cargo procuramos sempre trabalhar em equipe. É de extrema importância o mantimento de uma boa comunicação com a escola.

28 Termo utilizado por FRIGOTTO (2016). “[. sexo. os sem direito à saúde e educação e das questões de gênero. 2009. etnia. apareceram como um dos elementos constitutivos da singularidade da condição juvenil naquelas movimentações (Costa. autoriza a ensinar (FRIGOTTO. os sem teto. de acordo com FRIGOTTO (2016. Assim sendo. p. p. da formação competente para a competitividade e sucesso na vida dos negócios”.. estética.A construção de suas “tribos”28 de identidade juvenil. 25). pós-passeata. não se subtrair daquilo que seu lugar único permite ver e pensar. pois.Pois. os jovens desejam frequentar uma escola que valorize a sociabilidade.] não se furtar. a miséria. 2017). mas que se diz sem partido. A única leitura do mundo.. para dentro dos muros da escola. E por fim. Decreta-se a idiotização dos docentes e dos alunos. p.. se pensarmos no ser acontecimento. o encontro. da compreensão da natureza das relações sociais que produzem a desigualdade. mas não à professora e ao professor como educadores. 2016. 27 COSTA (2015). cabe aos “especialistas” autorizados. 12. Para BAKHTIN (1997. 2015. que ainda não foram “moídos” pelo [. p.] diante das “esfinges”27mais vorazes que nos chegam pela incapacidade de vermos os sinais. 2017). os sem trabalho. No entanto. não serve como justificativa para não pensar ou não criar aquilo cujas condições de possibilidade advêm da minha singularidade enquanto sujeito. Além disso.] um proceder responsable [... além do aprendizado. a “idiotização dos docentes e dos alunos” por meio das leis ou das ideologias midiáticas.. feminista e do homoerotismo.. na perspectiva bakhtiniana. CORPOS . assumindo-o em ato (AMORIM. mesmo reconhecendo a oportunidade de se credenciarem para o mundo do trabalho por meio da escola. urge a “necessitância do pensamento-ato” que lute por outros mundos e outros corpos. 12). grifo nosso). pois elas se escondem sob o manto ideológico de “liberdade”. musical. também trouxe outros debates de âmbito da vivência e da identificação religiosa. 49) trata-se de “[. autômatos humanos a repetir conteúdos que o partido único.. os sem terra. não admitem a forma como muitas vezes acontecem as práticas pedagógicas (COSTA..] um ato basado en el reconocimiento dela singularidad de nuestro deber ser”.. pode-se dizer que a assinatura em Bakhtin é o atestado da passagem do sujeito por um dado espaço- tempo: ser real e concreto que se apropria de seu contexto.] manto martelado pelos poderosos meios de comunicação que fazem parte desta ideologia e passam a moer os cérebros de pais. crianças e jovens e de corporações políticas contra a escola pública e os docentes por não ensinarem o figurino que a “arte do bem ensinar” manda. 91 [. a movimentação juvenil na Escola Imigrante. Assinatura é também inscrição na relação de alteridade: é confronto e conflito com os outros sujeitos.

Beth (Org. 92 ACABAMENTO: sem enunciar a última palavra Diante do exposto.gepsexualidades.5.br/index. Jul. 41). V. Nelson Cardoso. 32. foi um pensamento-ato ou um ato de resistência. 1997.br/SNPGCS/article/viewFile/1560/1152>. Tamanha insistência no dever e na preocupação em elaborar um pensamento crítico por parte daqueles sujeitos.. Disponível em: <http://www. Disponível em: <http://periodicos. 2009.e-publicacoes. podemos analisar que as movimentações dos professores e dos alunos. UERJ). Para uma filosofia do ato: “válido e inserido no contexto”. em uma cultura dominante da privatização dos serviços públicos. Bakhtin: dialogismo e polifonia. ELIAS. N. AMORIM. p. Norbert. BAKHTIN. O fato de sermos contemporâneos desse país. Gaudêncio. Revista E-mosaicos: Multidisciplinar de Ensino. Encontros e desencontros juvenis em uma escola. Jul. Deane Monteiro Vieira Costa. Introdução à sociologia. FRIGOTTO. Ago. São Paulo: Editora da Unicamp. “[. Mijail M. Acesso em:12.9.br/resources/anais/6/1466513638_ARQUIVO_Asjuventudesescolaresesuastribosju venis_DEANE. Jun.pdf>. justamente o mundo contemporâneo.). Pesquisa. Extensão e Cultura do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (Cap. Uma leitura atenta de Para uma filosofia do ato coloca necessariamente esse posicionamento. REFERÊNCIAS AMARAL. Acesso em:12.. contra os valores dominantes que saqueiam os direitos sociais dos mais pobres em nosso país.2017.] precisa mais do que nunca de Bakhtin e de sua filosofia moral (AMORIM. Zavala y Augusto Ponzio. Marília. não nos exime da responsabilidade de reconhecer os pensamentos determinados pelo grande capital e de tomar partido pelos injustiçados. San Juan: Universidad de Puerto Rico. 2009. Revista Brasileira de Política e Administração da Educação v. Escola sem partido: imposição da mordaça aos educadores. CORPOS . Pec 241/55: a “morte” do PNE (2014-2024) e o poder de diminuição dos recursos educacionais. COSTA. Disponível em:<http://www.2015. da Escola Imigrante.com.2017 ______. Braga: Edições 70. In: BRAIT. Hacia uma filosofia de lacto ético. n.2016.php/e- mosaicos/article/view/24722/17673>. 1980. As juventudes escolares e suas tribos juvenis: uma saída aos trilhos da vida comum. renomeada no Senado Federal com o nº 55/2016. 2 (2016). contra a Proposta de Emenda à Constituição nº 241. De los borradores y otros escritos: comentários de Iris M.uerj. de viver num mundo dito “globalizado”.ufes. a PEC 241. Parece-me que. com seus valores dominantes. Acesso em:12.

Curso Normal 31 . o Igor. Bolsista CAPES e integrante dos Grupos de Pesquisa: GEPPROFI – Grupo de Estudos de Processos Formativos Institucionais.. onde aprendoa ser professora por meio de deslocamentos e alterações no contexto da formação de professores. às reduções da liberdade: corpos-sujeitos inteiros que ocupam a escola com carne e sangue. que respondem. às reduções da liberdade. Corporeidades que resistem às intempéries sociais. CORPOS . Eda Maria de Oliveira Henriques. sobretudo. transgridem e dialogam com outros corpos. resistem. RESUMO 93 Apresento um exercício heterocientífico de pesquisa com sujeitos expressivos e falantes do ensino médio. escola pública da rede estadual do Rio de Janeiro. Atos UFF . heterocientífica. Palavras-Chave: Corpos. sob orientação da professora Dra.. em tempos que exigem de nós. artísticos e desportivos. Formando e sendo formada por jovens que corroboram a urgência de pensarmos coletivamente outras pedagogias dos corpos. Tons volitivo-emocionais. Esta pequena costura procura cotejar com Bakhtin somaestética e Richard Shusterman uma outra consciência corporal. Alinhar as conversas com o Igor (e não sobre ele) tem sido um exercício contranarcísico (em encontros poéticos com as metáforas do poeta Leminski) que coloca em xeque os (des)caminhos de uma pesquisa que se pretende corpórea. além de estágios e atividades extras. estudante-narrador desta costura. p. pensamentos encarnados em atos.274). As corporeidades são aqui compreendidas como cronotopos que resistem às intempéries sociais. educadores. Curso Normal. como oficinas. desenvolvendo a tese Narrativas outras com os corpos: cronotopos em Educação Física escolar. outras INTRODUÇÃO30: preliminares de um encontro gestualidades. inteirezas em processo de construção. Isto me leva a reforçar a importância das muitas pessoas que me auxiliaram e auxiliam a sentir/pensar/agir com uma perspectiva alteritária e empática. Roberta Jardim 29 categoria bakhtiniana cronotopo. E ste texto é um exercício heterocientíficode minha pesquisa de doutorado com sujeitos expressivos e falantes do ensino médio. porque estão incluídas as disciplinas pedagógicas. Interessa a escuta compreensiva do outro que me altera em que a unidade das narrativas corporificadas (tal como a unidade artística de uma obra literária) diz respeito à realidade efetiva. outras pedagogias e outras conexões com as vidas dos que em algum momento compõem a nossa história.Grupo de estudos bakhtinianos. das práticas corporais uma filosofia da sensibilidade e da na formação de totalidades humanas corporais. a carga horária é maior do que o ensino médio regular. onde me construo CORPOS: cronotopos em cotejos com cotidianamente professora e venho pensando junto (aos estudantes e professores de Educação Física) as questões com/do corpo. Doutoranda em Educação na Universidade Federal Fluminense (UFF). pautada na filosofia da vida. todavia expressá-las ainda é algo difícil tanto para os estudantes quanto para mim. amorosa. já que somos também seres inconclusos.Cronotopo. pessoas com as quais divido a autoria: os grupos de pesquisa Atos UFF e GEPPROFI e. caminho contextualizado na COUBE. do Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho (IEPIC). Somaestética. reconhecendo que somos profissionais da formação de totalidades humanas corporais (ARROYO. eventos culturais. 30 Procuro assinar esta escrita com o meu ato responsável e responsivo. da sensibilidade e da somaestética. pensamentos encarnados em 29Professora do Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho (IEPIC). outros mundos. Sujeitos inteiros que ocupam a escola com carne e sangue. 31 Os estudantes do Curso Normal participam de atividades em dois turnos. As diferenciações entre viver na escola e viver a escola pareciam óbvias. 2017.

Tratar das questões do corpo é também (e não somente) considerar a 32Essa ideia em construção foi apresentada (e publicada nos anais do) no VIII Fala outra escola: re-existir nas pluralidades do cotidiano. as leituras e as conversas com o Grupo Atos UFF trazem à cena a necessidade de pensar a práxis docente embebida de humanicidade e de vida em que os corpos ocupam um lugar singular em um mundo também singular concreto.48)”. alterando-nos até o último dia de nossas vidas. pois. resistem. e parcialmente no religioso. na UNICAMP. 94 atos. mais concretas. corpo é um valorem especial. das questões do corpo é considerar ações de todos os tipos: das mais frívolas. sendo pelo menos duas consciências que interagem32 .planos ético e estético. E porque somos corpos dialogamos com os outros. que respondem. visto que compreende-se a existência de uma ciência outra que ressalta um plano discursivo em que vozes dialogam e inauguram o dever concreto do sujeito. transgridem e dialogam com outros corpos. Em cotejos com Bakhtin. de pessoas em movimento. fúteis. Tratar. Compreendo a escrita como um evento em enunciados narrativos em que o mundo teórico e o mundo da vida interagem no ato responsável do ser humano. p. em 25 e 28 de julho deste ano. portanto. é importante considerar que os corpos.44)”. Essas afirmações não são novidades aos estudiosos do corpo. sobremaneira a perspectiva heterocientífica e do grande tempo. Envolver as questões do corpo (dos corpos) em Bakthtin requer atenção ao movimento unitário de sua obra. Contexto em que importa a categoria “outro”: é o outro que torna o meu corpo “esteticamente significativo”. A marca da nossa existência se dá porque somos corpos. fruto de pensamentos encarnados. A escrita é. outros mundos. vivências voltadas para sentidos e presenças de alma. estão em contexto dialógico. Pensar com o corpo é uma expressão redundante que. 33 A imagem é uma grande inquietação minha e venho tentando pensar com os sujeitos da minha pesquisa a relação entre cronotopia e corpo (corporeidade ou consciência somaestética) buscando percepções artísticas vivas nas narrativas (encarnadas) de estudantes e professores de Educação Física do Curso Normal. por conta da maneira cartesiana de ler/ver o mundo. como David Le Breton (2007) antropólogo que se dedicou à compreensão da corporeidade humana como fenômeno social e cultural com motivações simbólicas contidas na sociologia do corpo.] a distinção entre os corpos exterior e interior – o corpo do outro e o meu corpo – no contexto fechado concreto da vida de um homem singular. as materialidades vivas. cada um à sua maneira singular de existir. e inversamente contrário ao enfoque biológico do organismo. 2003. o “encorpamento estético” realizado. p. sou levada a reforçar. para quem a relação “eu e outro” é absolutamente irreversível e dada de uma vez por todas (Ibidem.. outras gestualidades. considerando a polifonia das ciências humanas. porque o vivenciamento do corpo se dá em relação com o outro e “[. CORPOS . às que ocorrem na cena pública. visto que escuto (e respondo) as narrativas de professorxs e alunxs o mundo como mundo dos outros. Pensamos porque somos um corpo no mundo. Sendo o sujeito encarnado sempre relacional. Importa sentir/pensar o “lugar singular que o corpo ocupa como valor em relação ao sujeito em um mundo singular concreto33 (BAKHTIN. Nesse contexto. Nessa tarefa empática identifico uma condição para a abordagem estética do mundo..

mas um silêncio sígnico. p. fui presenteada com réplicas sensíveis e amorosas de Igor em relação às histórias narradas por suas colegas de turma. refuta a perspectiva heteronormativa. O encontro. que tem necessidade tanto de substâncias duras – os ossos – como de substâncias macias – a carne. o percurso e o os nossos corpos são cronotopos.E é o cronotopo que determina a unidade artística de uma obra literária no que ela diz respeito à realidade efetiva (BAKHTIN. depois. 2016. 34 Pensar o corpo vivo requer pensar nas emoções. uma vez que ele é em grande parte desconhecido para nós (DID-HUBERMAN. 95 importância das emoções34. consciências encarnadas. de suas mentes e processos de aprender (ARROYO. Restou para mim e para os demais presentes o silêncio: não um silêncio qualquer. afetações humanas. fez balé por anos. Cabe a nós. com o Igor. E é justamente por pensar sobre as questões do corpo com um pensamento encarnado e amoroso às emoções. estudante do Curso Normal do IEPIC. das políticas e dos currículos com pouco sentido aos nossos educandos.45). se perder de novo). (des)constrói a educadora que sou. a emoção é um “movimento para fora de si”: ao mesmo tempo “em mim” (mas sendo algo tão profundo que foge à razão) e “fora de mim” (sendo algo que me atravessa completamente para.. Igor canta e dança. diverte as pessoas ao seu redor com risos e palavras brincantes. 2014. a tarefa de encontrar sinais de inquietação no coração de nossas alegrias presentes. dos afetos na construção das pessoas. durante uma de nossas rodas de conversa em que discutíamos sobre contos de Machado de Assis. 2016. Certa vez. Bakhtin aponta para a indissociabilidade entre as definições espaço-temporais e corrobora afirmando que são sempre tingidas de um matiz emocional..275). tempo e espaço valorados em que duas consciências dialogam acerca das suas histórias de vida e formação sempre permeadas por nossas emoções. que o encontro com o outro é tingido por matizes emocionais35. bem como possibilidades de alegria no coração de nossas dores atuais (DIDI-HUBERMAN. unidades artísticas. p. e é um questionador e leitor atento. Nos conhecemos no início do ano letivo de 2017 e as suas preferências chamaram a minha atenção: Igor escreve textos literários. à maneira de um corpo vivo. todos voltados às vivências dos sujeitos sencientes que trouxeram com suas corporeidades as suas marcas únicas de existência.349). CORPOS . posso inferir que o Igor é uma corporeidade brincante e resistente às imposições que nos chegam de fora. unidades corpóreas singulares e coletivas. que vê o mundo dentro de um padrão único de existência.Constrói textos em gêneros distintos e traz em sua corporeidade algo que toca a minha corporeidade: acabamos por pensar juntos sobre os itinerários de professores em formação que trazem o corpo para o debate pedagógico. p. O Igor é o outro com quem eu falo. um jovem sempre muito disposto a contribuir com sua presença marcante nas aulas e para além delas. Segundo Didi-Huberman (2016).] as emoções são sempre secretamente duplas. 35 Em Formas de Tempo e de Cronotopo no Romance (Ensaios de poética histórica). p. [. demonstrando que estávamos ali. Se ainda domina nas políticas uma visão imaterial dos alunos. se quisermos refletir. Narrativas de violências sofridas por meninas e mulheres escutadas atentamente por Igor e replicadas com sensibilidade. É um movimento afetivo que nos “possui” mas que nós não “possuímos” por inteiro.28). Os processos de aprender.

então. p. Quando uma pessoa se torna um professor se torna mais que uma única pessoa 36. 96 APRENDENDO BAKHTIN COM O IGOR: filosofia do corpo vivo e senciente As práticas corporais compuseram a infância de Igor e compõem a sua história atual. portanto. que vale-se do aporte autobiográfico das narrativas de histórias de vida e formação.25). de Richard Shusterman (2012).19). sem hierarquizações ou quaisquer posições de superioridade – enfatizando as relações alteritárias. Igor e eu. Neste tecido. além de nossos múltiplos “eus”.276). é que percebemos toda formação é relacional e habitada por muitos. em companhia de suas palavras e seus gestos. de que fala Bakhtin. Na metodologia narrativa nessa perspectiva os processos formativos são sempre entre sujeitos que falam diante de outros sujeitos que falam. ao ler a obra Consciência corporal. 2017. É. com as relações com os legítimos outros. Falamos. carregado de sentidos e valores (LE BRETON. São muitos os que nos habitam. Ao me aproximar do momento de valor emocional de Igor. 2017. Trago um recorte do que venho exercitando durante a pesquisa de campo de minha tese de doutorado. pois comporta a ação responsiva do ser indivíduo que é também um sujeito contemplador da arte e da vida as quais compõem uma unidade. 2012. na possibilidade do sujeito que narra estabelecer sempre novas relações e novas tessituras que considero a intercorporeidade (o diálogo) como um lugar potente de produção de novos conhecimentos. p. escreveu Igor em resposta à nossa conversa sobre formação de professores. o homem constrói socialmente seu corpo (Ibidem. compromisso e responsabilidade em eventos que são sempre únicos e irrepetíveis. Os cotejos com Bakhtin e o Círculo enfatizam preceitos como alteridade. eles sequer foram citados ipsis litteris . CORPOS . Importa a compreensão do que Bakhtin denominou arquitetônica concreta do mundo da visão estética. esta sempre associada ao agir ético no mundo. em movimentos de deslocamentos. os quais são inseparavelmente individuais e sociais – aliás. estou com as palavras de Igor reverberando e ecoando à medida que também me alteram e auxiliam a pensar os procedimentos de minha pesquisa – que não é somente minha. E são por meio dos contextos formativos que percebemos a necessidade de maior sensibilidade com os corpos (ARROYO. e é na vida concreta. afasto-me de reflexões abstratas as quais interpretam o tempo e o espaço separadamente. p. 2007. E por que a defesa de pedagogias outras? Porque os corpos mutáveis nos obrigam a inventar pedagogias específicas para cada tempo de formação humana (ARROYO. porque reside na singularidade do ato a possibilidade da religação entre cultura e vida. lia em companhia do Igor. 2012. Após uma de nossas conversas. entre consciência cultural e consciência viva (BAKHTIN. já que as dimensões tempo-espaciais são 36 Texto escrito em versos por Igor sobre um debate acerca da formação de professores.7). Claro que esses conceitos não foram esmiuçados por nós.Porque as nossas práxis precisam estar conectadas às singularidades dos atos. p.18).276). sobre o corpo vivo e senciente como núcleo organizador da experiência (SHUSTERMAN. p. p. Escutar as suas narrativas é deixar-se afetar por questões surpreendentes acerca da corporeidade como eixo da relação com o mundo.

E é com o poema Contranarciso. Igor traz um conto e é com ele que procuro sentir/pensar os corpos como cronotopos. corpos vivos e sencientes com sentimentos e propósitos38 inteiros: 37 LEMINSKI. estamos em nós. 1983. Peço ao Igor um pequeno texto com possíveis questões significativas. Nesse exercício heterocientífico os receios são inúmeros: o maior deles. 97 indissociáveis. CORPOS . lembra que também eu sou um dos sujeitos da pesquisa. registradas em aparelho gravador e também presentes em minhas memórias. seus atos brincantes em que o próprio corpo é um corpo brincante. que seria mortificar a pessoa única e singular que ele é.12. 38 As narrativas de Igor sobre as suas práticas corporais dentro e fora da escola. pois: em mim eu vejo o outro e outro e outro enfim dezenas trens passando vagões cheios de gente centenas o outro que há em mim é você você e você assim como eu estou em você eu estou nele em nós e só quando estamos em nós estamos em paz mesmo que estejamos a sós37 Como no poema de Leminski. para ele. valorizando as experiências dos sujeitos da pesquisa. recorro ao processo de sentir/pensar/agir a pesquisa com a minha orientadora. é produzir a imagem do Igor em sua ausência. p. sobre as nossas últimas conversas. que reparo com mais afetação o meu encontro com o Igor. penso. sempre relacional. no momento em que escrevo/sinto. sobre sua admiração pelo balé e aversão ao futebol. sinto novamente as palavras de Igor. Volto à casa. Insatisfeita com a minha escrita acadêmica. parecem ser questões acolhidas pela somaestética de Richard Shusterman (2012). o Igor está em mim e estou nele. de Paulo Leminski. leio. Ela fala sobre a importância de mergulhar nessas minhas/nossas dificuldades e me convida a pensar a formação de professores.

Eu tinha nove anos e não jogava futebol (todos os meninos achavam que eu era e queria ser uma menina). p. releio o texto (miniconto) escrito por Igor. um conto como nunca antes nesse caderno. o cara perfeito. proprioceptivos (originados dentro do corpo e relacionados à orientação das partes do corpo umas em relação às outras e à orientação do corpo no espaço) e viscerais ou interoceptivos (que derivam dos órgãos internos e que costumam estar associados à dor) (SHUSTERMAN. sinto distintas sensações. ter dúvidas e curiosidades epistemológicas. Uma pessoa que carrega em sua postura39 a perspectiva do corpo como fonte primordial de informação e inteligência sensível (SHUSTERMAN. Nós que somos um corpo no mundo. o maioral.26). p. pois sem ele eu seria uma criança obesa sedentária e sem vida social. p.9). Minha mãe sempre me botava em esportes. e feio. Acho que as aulas deveriam ser um pouco mais práticas [no Curso Normal]. É porque tenho e sou um corpo que manipulo os objetos. p. utiliza o termo somaestética para propor um novo campo interdisciplinar da prática filosófica40. No dualismo obstinadamente dominante de nossa cultura é demasiadas vezes contraposta à experiência corporal (SHUSTERMAN. atitude responsável e amorosa. transformo as situações e contextos que habito e sou transformada pelas relações que experimento. É um texto responsivo escrito para mim como são responsivos os seus discursos quando. 2012. O esporte me ajudou bastante. p. 2012. sendo movimentos em grande parte desconhecidos para nós (DIDI- HUBERMAN. A somaestética propõe mais atenção à consciência corporal. CORPOS . de se posicionar no mundo. sua maneira de lidar com o texto literário e os diferentes gêneros. esse menino sou eu.28). sou capaz de aprender. perspectiva em que corpo é também lugar em que se aprimora a cognição e as capacidades para a virtude e para a felicidade (Ibidem. e era. No acabamento estético que faço do Igor ele é um rapaz bonito e uma corporeidade potente que me ensina a aprimorar a minha práxis docente. As contradições estão contidas também no corpo e o autor parece valer-se da somaestética também para problematizar as dicotomias e polarizações da perspectiva cartesiana. 2012. auxilia uma colega que chora. Com elas a relação arte-vida. em momentos de intervenção.. um menino com um corpo e pensamento diferentes. sonhamos com voos livres e por vezes temos pesos nos pés.27).28). sempre fiz mais de um esporte de uma vez e isso me fez emagrecer bastante.. considerando a 39 O termo postura é utilizado neste texto como maneira de proceder. p. e isso fez que eu ficasse mais feio. Há emoções que os transformam e me transformam. As conversas-encontros com Igor continuam.19). 2016.Agradeço às aulas de Educação Física. Hoje contarei a história de um menino. 40 Os sentidos somaestéticos costumam ser divididos em exteroceptivos (relacionados a estímulos fora do corpo. Cotejando com Richard Shusterman. voltada para a experiência corpórea em que o corpo constitui nossa primeira perspectiva ou modo de relacionamento com o mundo(Ibidem. 26). sempre me achei e ainda me acho estranho. suas concepções estéticas. era bem acima do peso. É uma prática filosófica que identifica a expressão ambígua do ser humano: uma sensibilidade subjetiva que experiencia o mundo e um objeto percebido nesse mundo (Ibidem. sentidos na pele). Sempre quis ser uma criança diferenciada. em minha infância não sabia bem quem queria ser! Sempre quis ser o melhor em tudo. 98 Hoje contarei um conto. Assim.

vive além da instituição escolar e se renova e (des)constrói porque o outro existe. por não olhar para a vida. por razões óbvias. mutáveis. O autor ratifica e intensifica sua preferência pelo termo “soma”. imaginários. sociais.]. estima. Os corpos estão presentes na formação de professores. CORPOS . Os projetos sobre os corpos trazem algo novo nas escolas: o corpo passa a estar aberto para o debate. preconceitos até o corpo como objeto nas artes. Somos corpos. As compreensões e alargamentos são sempre corporificadas.. a filosofia da vida. vou construindo o chão com as incertezas do sentir-fazer pesquisa com o meu não-álibi.. sempre em transformações na vida em que nada é fixo e acabado e somos prenhe de futuro – não quaisquer futuros. valores. estéticas. sinônimo de corpo vivo e senciente. O corpo. Gerador de culturas corpóreas. a opção por consciências somaestéticas (ou consciências somáticas) evita possíveis associações negativas com o termo “corpo”. Questões que já são objeto de debates e da invenção de outras pedagogias dos corpos (ARROYO. São frequentes debates com os educandos/as sobre o corpo e seus estereótipos. consciências somaestéticas41. dependendo das idades da vida. Igor compõe comigo esse processo em que as práticas corporais estão/são (n)as relações alteritárias e em nossa assinatura. marcas de nossas histórias contidas em nossos corpos e localizados no tempo presente42 .277). Primeiro porque. porque há a relação que é sempre entre corpos – intercorporais. orgulho. não basta o tempo vazio e homogêneo.Igor e eu somos sujeitos expressivos e falantes de uma determinada comunidade 41 Para Richard Shusterman (2012). 42 Esta imagem parece dialogar com a ideia benjaminiana de entrecruzamento passado/presente/futuro. sendo necessário pensar com/no tempo saturado do agora. pensar mesmo outras relações com o passado. A palavra é corpo. nos desenvolvemos e aprendemos – o que marca a existência humana é o corpo. das vidas que teimam em re-existir e são mesmo protagonistas dos debates e da invenção de outras pedagogias dos corpos (ARROYO.. 2017. rejeição por preconceitos. do imprevisível. pois falamos com os nossos corpos sensíveis. fantasias. o corpo representado. O corpo é o próprio discurso. 99 alteridade da pessoa humana. nossa autoria. quando não escutamos as contrapalavras.277). CONSTRUINDO O PRÓPRIO CHÃO COM AS INCERTEZAS DE CARNE E SANGUE. políticas. as aparências corporais são o palco de mudanças difíceis de ocultar e que não podemos prever e controlar. meu ato responsável e responsivo no mundo. Para nós. Como na canção de Paulinho Moska. identitárias. de doenças. 2017. mas instáveis. ora inquietação. segundo Susan Petrilli e Augusto Ponzio. quando não somos capazes de ser sensíveis às corporeidades que falam. Aprendo mais a teoria bakhtiniana com a mediação de Igor: as nossas diferenças não-indiferentes potencializam o encontro. falamos de futuros entrecruzados com memórias do passado. o corpo como gerador de conhecimentos. performances. p. mais ou menos expostos. Segundo porque o fenômeno corporeidade se dá no seio da cultura humana. ela tem vida além do ente que a enuncia. porque há interações discursivas sígnicas. Desconsideramos o corpo quando o nosso discurso é monológico. [. linguagens.. em cotejo com Walter Benjamin (2012). Representações que não são permanentes. suas singularidades e sua unidade. p. O enunciador é corpo. ou seja. é por meio do corpo que nos relacionamos com os outros. Representações que ora carregam prazer. construindo uma experiência com ele.

PONZIO. BAKHTIN. Por outras pedagogias dos corpos. São Paulo. In: Palavras e contrapalavras: circulando pensares do Círculo de Bakhtin. Miguel G. São Carlos: Pedro & João Editores. LE BRETON. Paulo. Mikhail. 44 ARROYO. nos narrativas dos processos de vida-formação. São Paulo: É Realizações. Georges. e também compomos uma em relação um com o outro. em que os corpos são diálogos. São Carlos: Pedro & João Editores. 2017. 2007. Paulo. sem dúvida. 2016. O Cronótopo na obra de Bakhtin. In: ______. Formas de Tempo e Cronotopo no romance (Ensaios de poética histórica). Editora Brasiliense. David. SHUSTERMAN. de toda forma reforço aqui a compreensão de que as intercorporeidades (os corpos cronotopos em relação) constituem-se por diversificados processos de formação humana. Richard. Caprichos e Relaxos. 1983. Que emoção! Que emoção? São Paulo: Editora 34. BAKHTIN. matiz sempre impregnado de valores cronotopos: do encontro. 2013. CORPOS . In: LEMINSKI. compomos outras em outros espaços. 2017. 2016. Elas (as emoções) transformam o nosso mundo quando se transformam em pensamentos e ações43. de humanicidade encarnada. Para uma filosofia do ato responsável. da estrada. Questões de literatura e estética: a teoria do romance. Há na escola. In: ______. 2010. A sociologia do corpo. Petrópolis. Elos intermediários apoiados no homem que constituem esta nossa costura. 2012. São Paulo: Hucitec. o próprio corpo como cronotopo. REFERÊNCIAS ARROYO. RJ: Vozes. Eis porque ao defender a consciência corporal e as pedagogias as localizo na perspectiva formativa de totalidades humanas corporais44. um matiz emocional como na arte. sendo as emoções imprescindíveis. Petrópolis. 43 DIDI-HUBERMAN. 100 discursiva. Contranarciso. É preciso sentir-pensar com mais minúcia sobre a filosofia da sensibilidade e da somaestética em cotejo com a perspectiva bakhtiniana. RJ: Vozes. Augusto. DIDI-HUBERMAN. Mikhail. Consciência corporal. 2014. LEMINSKI. Passageiros da noite: do trabalho para a EJA: itinerários pelo direito à uma vida justa.

Corporiedade. ali eu posso correr. onde pesquisa as enunciações infantis. ENUNCIAÇÃO: por uma escuta do Para Bakhtin. teve Tom Cruise como o protagonista. professora da Rede Municipal de Duque de Caxias. O cronotopo do encontro aqui é representado pela escola e pelos ebcontros enunciativos que acontecem na mesma. Teve como objetivo criar MOVIMENTOS DE uma mésalliance.com 46 Missão impossível. professores e alunos dialogam sobre diferentes temas pertinentes à educação. ̶ Sua sala hoje estava barulhenta! – Mariana47. Atravesso o corredor e dou de cara com a sala mais temida: a sala dos professores. meu desejo nunca era atendido. terror e suspense. tentando parecer invisível. é que nos últimos dias o filme que vem passando na sala dos professores me parece uma mistura de ação. me esgueirando pelas paredes da sala. O diálogo é o lugar onde existe uma zona de penetração mútua. sou eu. que eu sou professora e que professores devem dar exemplo. trazendo o corpo para o diálogo DUARTE. RESUMO 101 Este presente trabalho. tem como inspiração Bobók de Dostoiévisk. Aí começa o filme de ação. isso é muito chato. mestranda da Universidade Federal Fluminense. esperando ser imperceptível. . o discurso é dialógico por natureza. pensava. mas tem dias que eu estou tão bem que eu quero só ser invisível mesmo- não me vejam. O grande problema é que o meu corredor não me leva a uma sala tão legal. O corredor passa a ser um lugar para correr. Tom Cruise em missão impossível 46 . lugar dos ditos detentores do saber. Enunciação. Sorrio para os supostos alunos e uso a minha imaginação para correr junto com eles. nunca conseguia passar sem ouvir questionamentos. uma das mais grandiosas menipéias da literatura universal. Em uma perspectiva dialógica. o cronotopo determina a unidade artística de uma obra literária. filme dos Estados Unidos de 1996. A SALA DOS PROFESSORES: criança enuncia? Q uando toca a sirene é como se as luzes da sala do cinema se acendessem. pesquisadora do Grupo de Estudos bakhtinianos Atos/ UFF . desenvolvendo um plano estético onde seria possível que professores e crianças pudessem dialogar em um cronotopo de encontro.quem nunca desejou isso?. ah sim. E-mail: angelicaduarteas@gmail.Normalmente uso a sala porque é lá que fica o banheiro- atravesso o campo minado. sendo assim. . . Angélica 45 expressivo. porque dizem nos corredores. Abrindo a porta da sala deixamos de ser uma coisa e passamos a ser outra. eu me seguro para não acompanhar os alunos. Palavras-Chave: Educação.Não costumo fugir de uma boa conversa. por favor! Pedia mentalmente. eu sentia que aquele era um diálogo 45Angélica Duarte da Silva Araujo. 47 Nome fictício CORPOS . Ele nos fala também que no cronotopo do encontro predomina a matiz temporal e que se distingue por um forte grau de corpo da criança intensidade no valor emocional. a professora do quinto ano falava em um tom de quem puxava assunto – e ali começava o meu filme de terror. todos sabem que é hora de levantar e sair.deve ter algo de errado com a minha roupa.

O círculo de Bakhtin vislumbra isso em algumas partes de seus textos. ̶ Não entendo. então quais são as características desse enunciado? O corpo enuncia antes da fala? Sendo assim. enunciam. Marlen Max CORPOS .penso. mas sempre participo da cena esperando que o filme de terror tenha um final de romance.Mariana fala como quem escorrega da resposta. ̶ Vamos voltar ao trabalho. As crianças falam sem a linguagem verbal. as crianças falam. O tom alarga a enunciação para além da palavra verbal. Essa inquietações que nos levam a refletir que. se as criança enuncia. e eu sei que elas enunciam. e às vezes – tom de suspense na minha voz dando ênfase a cada sílaba. não-verbal ou verbal em construção. por quê? Você não acha que as pessoas não enunciam no silêncio? – questiono. alguns têm coisas sérias a fazer aqui. ̶ Você é tão engraçada professora. Meu rosto reflete o meu não entendimento. querida Mariana. entretanto. às vezes nós não compreendemos o contexto enunciativo. A sirene toca. . porque o tom é musical. ENUNCIAÇÃO DO GESTO Para eu podermos pensar na enunciação da criança. não temos uma gramática para escutar as crianças.mesmo em si-lên-cio elas dizem! Uma gargalhada alta toma conta da sala.seu tom é irônico. ̶ É. os bebês enunciam? Figura 1. . 102 que não ia ter um final feliz. eu não entendi o sentido dessa cena. É sobre entender a gramática da enunciação verbal. Só que para eu dizer que as crianças enunciam. precisamos resolver o problema da enunciação para além da palavra verbal. podia ser comediante. não é algo que explicitamente se colocou.a legenda passou rápida demais. Nos encaminhamos para o corredor enquanto respondo: ̶ O riso também é sério. eu sei que elas estão em diálogo ativo conosco. é corporal.

Vocês sabem que muitos pintores famosos tinham o costume de se auto-desenhar? ̶ Eu não sei desenhar. mas eu não sou assim. e com eles novos significados. 77). entrelaçam-se com o contexto extraverbal da vida e. ̶ Entendo. Olha aqui! Tudo que eu faço fica feio! . semiamorfo. Hoje nós vamos aprender o que é um auto-retrato. ̶ ok! O LABIRINTO DA ENUNCIAÇÃO A palavra na vida. ̶ Sabe sim Marlen. ela não terá o mesmo significado. do corpo que enuncia. ninguém nunca me ensinou a desenhar então eu não sei ueh. se estamos irritados ou felizes a mesma palavra traz diferentes tons. cada enunciação da vida cotidiana é um entinema socialmente objetivo. É uma espécie de palavra-chave que somente conhecem os que pertencem a um mesmo horizonte social. a alteridade. p. 77 CORPOS . mediante milhares de fios.ainda que possível tão somente a partir da anterioridade do discurso social da alteridade-. ̶ Vamos começar pela cabeça. São Carlos: Pedro & João. ao serem separadas deste. Desta maneira. O que você queria desenhar? ̶ Eu queria me desenhar. ̶ Eu não sei de jeito nenhum. p. como é sua cabeça? ̶ Não. que não pode ser separada da vida sem que perca seu sentido48 VOLOCHÍNOV. se separarmos a palavra do cotidiano. 2013. da pessoa. é social e traz com ela todo o contexto histórico.ele exclama com um tom de irritação. As peculiaridades das enunciações da vida cotidiana consistem em que elas. Mas e o gesto? Quando enunciamos a palavra o corpo vai junto. 103 Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora. 80). a palavra (o enunciado) é fronteira entre o meu dizer interno. 2013. perdem quase por completo seu sentido: quem desconhece seu contexto vital mais próximo não as entenderá (VOLOCHÍNOV 2013. A palavra está na vida. com toda evidência. Surge da situação extraverbal da vida e conserva com ela o vínculo mais estreito. entre o eu e o não eu. Sendo assim. temos um tom para cada fala. a vida completa diretamente a palavra. A linguagem que recebo está prenhe de um diálogo inconcluso ao que eu tenho que me 48 Valentin Volochínov: A construção da enunciação e outros ensaios. vamos começar pelo boné! – Ele eleva a voz parecendo interessado. E mais. O corpo é a fronteira entre o eu-para-mim e a espacialidade do outro. p. é só você usar o lápis de cor e fazer do jeito que você sabe. Tanto o corpo quanto a palavra são fronteiras entre o mundo interior e o exterior. e a formulação expressiva dirigida ao outro com fins de comunicação. não se centra em si mesma.

Angélica Duarte. 63). Almejamos um lugar onde as crianças possam ser reconhecidas como sujeitos da cultura e enunciadores da mesma. A enunciação é uma situação concreta. Onde a fala seja ativa e responsiva. segundo Medviédev? Podemos afirmar que são os elementos não verbais como o choro. Habitualmente respondemos a qualquer enunciação do nosso interlocutor. Ana Lopes. as relações valorativas do contexto próximo e mais alargado da cultura e. o corpo do Marlen enuncia seu próprio mundo. oriento meu discurso sempre para que alcance o outro. isto é. no prelo) Crianças enunciam. (BUBNOVA. temporal e de valor? Como ele suporta a alteridade e evolui? Que gênero discursivo é esse em que as crianças enunciam? Poderemos afirmar que as relações corporais do bebê configuram um gênero. um gênero discursivo em seu acabamento estético. 2016. projeto discursivo. literatura. ou seja. autoria. se não com palavras. p. etc. Pode-se dizer que qualquer comunicação verbal. REFERÊNCIAS 49 Marisol Barenco. É possível que a criança enuncie? Por uma educação infantil dialógica. 146) Desta forma. política e transformadora da sociedade. já que são sujeitos humanos na cultura. p. uma pequena sacudidela da cabeça. O que tem ali que pode dizer que ele enuncia com gestos. (no prelo). principalmente. DUARTE. pois ao enunciar ele responde ao mundo. sob a forma de diálogo (VOLOCHÍNOV 2013. comunicativa. entre outros elementos que compõem os gêneros. discurso. Este texto surge no intuito de questionar a falta de importância que se dá à fala das crianças. Sempre se fala para alguém essa é a essência do meu eu-para-outro: ato. qualquer palavra que sou capaz de proferir é uma resposta a algo dito antes por outros. bem como a enunciação dos gestos corporais que por muitas vezes são desconsiderados. um sorriso. apresentamos dois acontecimentos do cotidiano da escola. o gesto. que historicamente são tratadas com seres da ausência da fala. a brincadeira infantis gêneros discursivos?49 (BARENCO. Isso não tem nada de passivo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Trabalhamos no decorrer deste texto. que envolve além do falante e do ouvinte todo o presumido da cena enunciativa. se desenvolve sob a forma de intercâmbio de enunciações. unidade temática. a enunciação transborda em muito a compreensão rasa da parte verbal de um ato comunicativo. Mas mais que isso. ele é um sujeito do ato. LOPES. pelo menos com um gesto: um movimento da cabeça. qualquer interação verbal. tom e atos? E o que nisso tem a arquitetônica do eu-outro? Na relação eu-outro espacial. Um ocorre na sala dos professores e outro na sala de aula. 104 conectar. que elas possuem motivo. CORPOS .

Estética da Criação Verbal. 2016 DOSTOIÉVSKI. São Paulo. São Paulo : Martins Fontes. PONZIO. 2010. Procurando Uma Palavra Outra. Valentin. São Carlos: Pedro & João. VOLOCHÍNOV. BARENCO. 2013. BAKHTIN. N. P. São Carlos: Pedro & João. O Método Formal nos Estudos Literários: introdução crítica a uma poética sociológica. CORPOS . 105 BAKHTIN. São Paulo: Contexto. Marisol. JANER. Tradução: Paulo Bezerra. 2003. 1981. Fiódor. Tatiana. Augusto. Jader. Palavras e Contrapalavras – Caderno V. Jardim Europa. Trad. São Carlos: Pedro & João Editores. 4 ed. 2012. Editora 34. Tradução: Valdemir Miotello & Carlos Alberto Faraco. Hucitec. PONZIO. EkaterinaVólkova Américo e Sheila Camargo Grillo. Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso (GEGe). Autorias Infantis: Processos Intermodais De Criação. Para uma Filosofia do Ato Responsável. BAKHTIN. Mikhail. São Carlos : Pedro & João Editores. Mikhail – Marxismo e Filosofia da Linguagem. 2012. 2 ed. São Carlos: Pedro e João Editores. BUBNOVA.. 2013. A construção da enunciação e outros ensaios.. Augusto. Mikhail. MEDVIÉDEV. Do corpo à palavra. Bobók. 2012.

BAKHTINIANA DA LITERATURA DE HILDA HILST: ou por um mundo mais bufólico! GOMES. 50 Mestre em Literatura brasileira. “uma superfície de gelo ancorada no riso”. É visceral a maneira como Hilst articula essa tríade. Se para Bakhtin a literatura é um território em que a cultura vivaz é parte de um todo complexo. o corpo e a política. e por isso. porém. Em 1950 quando pulica Presságios. seu primeiro livro de poesia. Professor Assistente da Universidade Federal de Roraima (UFRR-Leducarr).com CORPOS . Hilst indica de chofre que sua atividade estética vincula-se ao humano sempre em relação ao incômodo e ao entrelugar. Por essa incompreensão arreganhada do que é a vida. romance em que a personagem Hillé levanta questões sobre a finitude. Francisco Alves 50 S im! A literatura de Hilda Hilst (1930 – 2004) emana a ideias de Mikhail Bakhtin. como nos mostra no romance a Obscena Senhora D. como um todo perpassam o riso. coisificação. Enunciação. controle dos corpos ou simplesmente a fúria do tempo sobre a carne a evocar a velhice. Deus também é um terror. logo. bem como a ideia de falta de sentido da vida. o homem. e até mesmo a procura por Deus tem aporte nos caracteres do corpo. algo que pode ser visto também como inacabado. dessa condição. uma coisa é certa: os temas que perfilam a escritura da autora. E-mail: aluadoalves@gmail. não gratuitamente Hilst denomina o Supremo como. Não sei se ela teve acesso aos escritos bakhtinianos. está fora da vida. o obsceno. marionete das possibilidades prementes do viver. a partir de personagens despedaçados pela realidade que os oprime. apenas tatear na dimensão que lhe cabe enquanto aprendiz das realidades. para Hilda Hilst nada. em termos de escrita. 106 Palavras-Chave: Educação. do êxtase que vai do espiritual ao grotesco em sua forma naturalmente disforme. Tudo acontece no interior do caos que compõem o existir. a experiência enquanto maturação das neuras que identificam a crueza de se perceber humano. A NATUREZA Corporiedade. RESUMO . rico em suas múltiplas possibilidades interpretativas. incompleto. em tentativas de reificação. Sim! Há nas obras de Hilda um poder opressor a perseguir os sujeitos. tem por opção.

uma vez que a ideia de pertencimento está atrelada a algo maior. Por falar em ideologia. em falar com esse desconhecido. e ainda que a crítica teatral tenha dado pouca importância à obra dramatúrgica de Hilda é certo e já reconhecido que as oito peças escritas no período de 1967 a 1969 são dotadas de características singulares. Em inúmeras entrevistas. Sim! As personagens de Hilda possuem uma natureza ideológica. Ode fragmentária. duas moedas para um mesmo Caronte. já em 1970 publica seu primeiro livro de ficção denominado Fluxo Floema. pois ela é marcada de polifonia. Aliás. na Poética do Espaço. que é possível identificar um esforço da autora em lembrar os leitores que o liame que irmana todos numa mesma condição de luta contra o sistema se faz na CORPOS . Trova de muito amor para um amado senhor. bifurcada e intermediada pelas dimensões de contemplação e criação. quando questionada sobre o porquê de escrever teatro. isto tem influência na maneira como os leitores se aproximam de suas narrativas. composta de oito peças notadamente eivadas no simbólico. Em o Verdugo. sobreposições de pensamentos vertiginosos que podem solapar a atenção do leitor desatento e acostumado com o texto ruminado. como lembra Gaston Bachelard. Nesse lugar de criação. No jogo de alteridade entre o homem e o Verdugo existem intercâmbios construídos pelo silêncio. peça escrita em 1969. A consciência de que a vida é inacabada ultrapassa Hilda Hilst sistemicamente. Em 1979 Hilda Hilst concede uma entrevista ao programa Fantástico sobre sua experiência ao gravar vozes de mortos. Balada do Festival. Em termos de dramaturgia.à liberdade. ambas latentes no desejo da autora em ser lida por um público abrangente. o carrasco acredita na inocência do condenado porque olhou nos seus olhos e porque este também falava de amor. Hilda praticou o dialogismo de várias formas. Nas décadas de 70 e 80 a produção de Hilda Hilst alterna-se entre livros de poesia. são tantas pausas no texto. ambas as dimensões mescladas na vida. um que se perfila nas misérias do dia a dia. após esse período. conto. Roteiro do Silêncio. ecoando a partir da moradia – corpo e moradia – casa. Com os meus olhos de cão e Fluxo Floema ou Rútilos são exemplos de narrativas em que o discurso se mimetiza com outras camadas ideológicas a situar as tramas em verdadeiros amalgamas polifônicos. Hilda categoricamente respondia que havia uma urgência em se comunicar com o outro. pois se constrói com vistas para o outro. obra que demarca outro momento para a autora. Sim! Há uma profusão de vozes entrechocando-se no tecido narrativo. pensam a vida de maneira muito peculiar. Sim! Hilda conversou com mortos. em 1967 começa a produzir sua dramaturgia. Seu teatro é dialógico. Hilda. o conflito parte da recusa do Verdugo em matar um homem. sua incursão demonstra que existem dois lados. sob os olhos de um tímido conjunto de críticos a chancelar de forma veemente seu nome como uma das grandes escritoras contemporâneas desse país. a autora responde ao mundo através da literatura. 107 Hilda prossegue na poesia com Balada de Alzira. outro que se personifica em literatura. O isolamento na Casa do Sol representa no percurso da autora o recriar da concha. evidenciando a versatilidade da escritora em passear por vários gêneros literários. narrativa é uma ideia cara na obra hilstiana. mostrando- lhe o que há de cruel e perverso no regime militar. Há que se ponderar que a trajetória de Hilda Hilst é marcada por um aglomerado de fatos que fizeram com que a autora ganhasse um imaginário assentado na devassidão e na loucura. Hilda Hilst engendra oito textos teatrais como forma de mandar um recado a sociedade. romance.

a maga perversa e fria. de François Rabelais. afinal alteridade implica reconhecimento da diferença para a criação de novas redes e saberes que hão de gestar o novo. é preciso a performance do interlocutor como materialidade. escolas e etc. pois a construção identitária é mútua. talvez nem um rizoma abarque a amplitude do pensamento de Mikhail Bakhtin. amenizada aqui pelas construções em redondilha e excesso do risível que a autora forma este pequeno bestiário carnavalizado. com apenas oito anos de idade partilha suas aventuras sexuais ao passo que este relato caminha lado a lado ao conflito do pai. personagem escritor. Há sempre um devir. urge a necessidade de que sejam espalhados exemplares de Bufólicas em pontos de ônibus. Drida. do mesmo modo já ouvi que Bakhtin é um teórico de difícil compreensão. hermética. para angariar a atenção do mercado editorial brasileiro e tornar sua literatura visível aos olhos de uma maior parcela de leitores. a tetralogia obscena comprova a competência da autora em exprimir com criatividade e deboche. Na dimensão grotesca. o editor é quem manda no escritor. O anão triste. a personagem título. Há um emblema que diz ser Hilda Hilst uma autora incompreensível. bem ao estilo dos textos de Lawrence ou Bataille. Se a carnavalização em Bakhtin implica a demolição do sistema oficial. tanto em Hilda quanto em Bakhtin o conhecimento da vida se dá por formas que ultrapassam qualquer tipo de linearidade. as degenerências e neuroses eróticas ganham escopo. sem uma linha de raciocínio linear. 108 pausa. ainda que os impactos ressonem na individualidade. logo. Acredito também que faria um bem danado às igrejas. Neste sentido. o exagero se perfila na exibição das temáticas. na escuta. a partir do obsceno. vísceras. O deboche imposto pelas personagens nos sete breves poemas ressoa a absurdez presente no mundo de Gargantua e Pantagruel. pois são também ilustradas pelo cartunista Jaguar. o que dizer então de Hilda Hilst ao produzir a tetralogia obscena nos anos 90? Incomodada com a falta de leitores a autora recorre ao baixo material. os efeitos dessa tentativa foram controversos em termos da crítica especializada. As narrativas sustentam-se na paródia ao passo que temas como a homossexualidade. E o que dizer então do livro Bufólicas? Formado pelos textos: O Reizinho gay. A chapéu. muitas delas silenciadas pela tal da moral e dos bons costumes –em voga no Brasil nos últimos tempos – nesse sentido. bem como a recepção dos leitores. a fadinha lésbica. o lesbianismo. há sempre uma possibilidade de responsividade diante do ato. Para alguns críticos a incursão de Hilda no obsceno resultou em obras de qualidade questionável. desse modo. universidades. no silêncio. através do baixo material. o que há de mais podre na sociedade brasileira. ou melhor. escravo do mercado editorial. em qualquer lugar que exista um CORPOS . escolha e consciência são os fulcros que impulsionam o sujeito para o além de qualquer situação em que há risco para a formação das inteligências sociais e emocionais. assim. tendo em vista que nada está acabado. angústias e a fronteira. A cantora gritante e Filó. para outros. em guichês de pagamentos de impostos. Na obra O caderno rosa de Lori Lamby. e. Ora. A Rainha careca. uma vez que a seriedade no país é algo questionável. banheiros. ou suficientemente esgotado. e ainda que os contextos sejam distintos. se colocadas diante de sua produção anterior. Hilda apropria-se de figuras tão ilustres na tradição dos contos de fadas para colocá-las num outro campo discursivo. no mundo familiar de Lori Lamby o avesso das relações se constitui matriz para justificar as confissões sexuais da menininha ao leitor. dizendo-lhe o que é vendável ou não.

Um dia. mulheres de bem. Nenhum tico de pau Nem bimba nem berimbau Pra contá o ocorrido. Foi atendido No mesmo instante Evaporou-se-lhe O mastruço gigante. certamente ririam um pouco com maior facilidade. força. Um douto bradou: ó céus! Por que no pedido que fizeste Não especificaste pras Alturas Que te deixasse um resto? Porque pra Deus O anão respondeu Qualquer dica É compreensão segura Ah. a terceira perna do anão. é... homens de puro reto e retidão. sentou-se o anão triste Numa pedra preta e fria Fez então uma reza Que assim dizia: Se me livrasses. para todos estes. Por falar em reto – retidão. Senhor. progresso pela morte. logo. perseguidor. certidão. Dessa estrovenga Prometo grana em penca Pras vossas igreja. o riso e o rebaixamento os lembrariam de sua humanidade. moral.. 109 julgo – juiz. negão? então procura. subjetiva e sexual. É que havia um problema: O porongo era longo Feito um bastão E quando ativado Virava. nem fole Foi-se-lhe todo o tesão. Bufólicas seria carnavalizador. ordem. CORPOS . Na medida em que os sujeitos redescobrissem as fantasmagorias eróticas em pura violência interna. sistema oficial. homens de bem. E agora Além do chato de ser anão Sem mastruço. abordo de forma breve o texto O anão triste: De pau em riste O anão Cidão Vivia triste Além do chato de ser anão Nunca podia Meter o ganso na tia Nem na rodela no negrão..

fantasmagorias de Príapo.27) O elemento grotesco problematizado na narrativa coaduna-se com o risível. grotesco. com a presença da ilustração do Jaguar. simbolizam o que há de mais inacabado na condição humana. 2002.. o fato de ser anão o que por si só já o classifica com estranho é amplificado com a presença do pênis anormal no corpo já situado socialmente no campo da anormalidade.. diferente do Reizinho gay. O corpo enquanto território de metáforas vivas evoca sempre a pergunta primeira a colocar o homem numa situação de desnudamento e vergonha acoplada ao que é natural. (HILST.. apenas apresenta o membro sexual. os gestos e as múltiplas ressonâncias possíveis resultantes com a experiência./ Mas reinava. “na rampa ou na sacada”. o texto ganha um aliado poderoso. apontando ao leitor as sensações. 25. Olhando a manhã fria. Para o segundo. tendo em vista que o rei é mudo e quando solicitado a verbalizar algo para a Nação. No primeiro texto de Bufólicas. Tanto o rei homossexual quanto o anão Cidão possuem o pênis como elemento de poder. chancelando dessa forma o risível e o grotesco num corpo que antes não tinha a potência para encantar positivamente. não tem o voyeurismo coletivo ao seu favor. mas denota um distanciamento da coletividade. a imagem também é responsável por suscitar no leitor a sensação de estranhamento que é abrandada pelo riso. Logo. o que resulta numa busca pela normalidade. Moral da estória: Ao pedir. O texto chama o leitor para outra performance de recepção. Neste caso a junção dos elementos opostos: corpo pequeno e pênis grande. silenciando. CORPOS . Essas personagens. dessa forma qualquer tipo de intervenção discursiva por parte dos habitantes. e agora pertence ao entrelugar. 110 E até hoje Sentado na pedra preta O anão procura as partes pudendas. risonho e excitante.. após a ação divina o resultado é catastrófico. A personagem Cidão. / Pela linda peroba / Que se lhe adivinhava / Entre as coxas grossas. 11). / APENAS. como resultante de forças simbólicas a dirimir uma entrada ideologicamente conservadora no texto. O Reizinho gay.” (HILST. contribui decisivamente para o tom da narrativa em que o leitor é deslocado para o riso. p. p. o pênis é um tipo de poder instalado no exótico que não encanta. para o primeiro significa reinar apenas pela visualidade.. haja vista que a personagem recorre ao divino e à igreja como forma de redenção e ajustamento ao mundo oficial. o drama do anão Cidão evoca não apenas a ideia de deformação física. especifique tamanho Grossura quantia. “reinava soberano sobre. no entanto. é como um gênero do discurso que prepara o território.. 2002.

o homem que está adormecido feito um pênis “meia bomba” que no impedimento de sua plenitude coloca o anão no seguinte mistério da trindade humana: o primeiro é ser anão.. no fim do texto o risível e o triste meio que partilham os opostos do destino da personagem. Deus tirou de Cidão seu pau. assim o mundo bufólico de Hilda Hilst se constitui de personagens desajustados. Cidão foi “curado”. A anulação da sexualidade é prova de que a violência impetrada por sistemas de dominação e alienação normatiza os corpos. que no melhor estilo outsiderexpõem relações dialógicas com o outro. “Virava. O grotesco de certa forma pode ser encarado como a exposição das deformidades que constituem a natureza subjetiva dos seres humanos. A Rainha careca é farta de cabelos. seu raciocínio ultrapassa um aqui e agora que se corresponda apenas com a eventualidade passageira. o exagero do órgão sexual é também evidência do que está no interior. aliás.” Nessa equação a personagem Cidão representa o corpo não oficial que constantemente está em conflito com o entorno e suas variadas formas de opressão e regulação dos corpos. ou seja. mas nas partes pudendas é lisa. 111 Quando o drama do anão Cidão é colocado diante dos pressupostos religiosos da fé. “O anão triste”. são inacabados. mas isto teve um preço. o que lhe causa sofrimento. o título do poema. corpo e pênis.. CORPOS . se colocadas diante de sistemas totalitários que pregam a homogeneidade das coisas. O Reizinho gay é “mudo. A imagem da pedra “preta e fria” pode muito bem configurar a ideia de túmulo. o deboche é eminente. algo que Hilda Hilst percebeu muito bem e através de sua consciência estética organizou nos termos da literatura. Se antes Cidão era grotesco por duas vias identitárias. a terceira perna do anão. na incapacidade de enrijecer o membro para as alturas. a ideia de evento como um todo que se ressignifica é uma porta de entrada convidativa para a experimentação das ideias do filósofo russo. Mikhail Bakhtin é um pensador das liberdades. o segundo é ter um pênis longo e o terceiro. pintudão”. A natureza do corpo da personagem é carnavalizada. evidencia o duplo horror que pode haver na não aceitação do corpo grotesco como ele é. e por essa condição. Todas as personagens de Bufólicas estão imersas na diferença. Será Deus o responsável por anões com pênis enormes? Na narrativa. deste modo. a pulsão premente erótica a devassar os sujeitos.

. 1991.. _____. só mesmo a bandalheira. Com os meus olhos de cão. Da poesia: Poesia completa. O caderno rosa de Lori Lamby. o chiste e a piada pronta podem gerar alguma coisa ou extrato decatarse. Para uma filosofia do acto. 2006. _____. São Paulo: Editora Globo. Gargântua e Pantagruel. São Paulo: Editora Globo. dialogias. In: Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. Tr. REFERÊNCIAS BACHELARD. A obscena senhora D. 2001. a necessidade de rir acentua em cada um de nós o desejo por um mundo às avessas diante do que é exposto diariamente. 2005. CORPOS . Fluxo Floema.. São Paulo: Editora Globo. Gaston. 2014. Em tempos em que se prega ‘cura gay’. Lisboa: Deriva Editores. Bruno Monteiro. Se é que podemos falar que somos ainda uma sociedade. Avancemos.. Hilda Hilst. Hilda ao lançar os livros obscenos afirmava que o riso é uma solução maravilhosa para as dores humanas. Sim! Entre Hilda Hilst e Mikhail Bakhtin existem correspondências.. São Paulo: Unesp 1998. A atualidade brasileira está calcada num horror presente e constante a se ramificar em diversos setores da sociedade. RABELAIS. _____. _____. 112 Sim! É possível ler o Brasil a partir de Bakhtin. _____. François.. portanto. 2001. Hilda. vem sendo redescoberta pela crítica e por leitores ansiosos por um mundo Bufólico! Sim! É preciso que bufões. tensões. 2017. Belo Horizonte.. A poética do Espaço. _____.. 2003. Rio de Janeiro: Villa Rica. esse enigma pétreo. Rútilos. São Paulo: Editora Globo. BAKHTIN. bobos e trapaceiros rabelesianos possam inscrever este mundo num outro local de performatividades sociais. São Paulo: Martins Fontes. Rio de janeiro: Companhia das Letras. Estética da Criação Verbal. Bufólicas. _____. Mikhail. 2002. _____. HILST. São Paulo: Editora Globo. a promover certo alívio e esperança em dias mais dialógicos. São Paulo: 2003. a selvageria incorporada em novas tecnologias de opressão chanceladas pelo Estado colocam o país numa situação de perseguição às liberdades... São Paulo: Martins Fontes. O discurso no romance. 1993.

INTRODUÇÃO I nicialmente. no entanto. E-mail: Ana. geralmente. Esse trabalho sofre forte influência de uma concepção clínico- terapêutica da surdez. como aparelhos auditivos e implantes cocleares. Ana Cristina 51 Palavras-Chave: Linguagem. social e histórico. sendo que a língua de sinais não é utilizada. leitura orofacial e das habilidades auditivas. Um espaço em que o discurso é entendido como uma ponte. ou seja. trabalha com a linguagem entendendo-a como um sistema fechado. na área da surdez. RESUMO 113 A Fonoaudiologia.br. NA CLÍNICA sobre e na linguagem. baseia-se em práticas que enfatizam a aquisição da oralidade e das habilidades auditivas da criança surda. Este texto. Clínica Fonoaudiológica. tal concepção baseia-se no pressuposto SURDEZ A PARTIR DAS de que só assim o surdo pode se aproximar da comunidade ouvinte majoritária. ou seja. o percebam como único. CORPOS . em geral. Docente da Graduação em Fonoaudiologia e do Mestrado e Doutorado em Distúrbios da Comunicação da Universidade Tuiuti do Paraná. um lugar de encontro entre sujeitos. Esta concepção. GUARINELLO. de ressignificação de cada sujeito surdo em sua singularidade. tradicionalmente vem realizando um trabalho com A RESSIGNIFICAÇÃO DA as crianças surdas enfatizando apenas a aquisição da oralidade e o desenvolvimento das habilidades auditivas. cada sujeito surdo possa se apropriar da linguagem e se constituir nas práticas vivas da língua. 51 Doutora em Estudos Linguísticos pela UFPR. já que supõe-se que a única e melhor maneira do surdo inserir-se na comunidade ouvinte é ouvindo e falando. Especificamente no que se refere a área da surdez. e que sua apropriação é feita a partir de um trabalho cognitivo. pretende discutir as práticas de linguagem na clínica fonoaudiológica a partir de uma PRÁTICAS DE LINGUAGEM perspectiva que considere a história de cada pessoa surda. Surdez. Fonte de financiamento: Bolsa de produtividade em Pesquisa CNPq 303356/2013-8. cabe esclarecer que a Fonoaudiologia. foi fortemente direcionada por um olhar medicalizante e por uma perspectiva de intervenção clínica voltada para a “cura”.guarinello@utp. articulação. um código estável. Nessa concepção a clínica é percebida como um espaço de mudança. sua relação com a linguagem e suas interações sociais que ocorrem no trabalho com. um lugar para que a família e FONOAUDIOLÓGICA as outras instituições sociais com as quais esse sujeito se vincula. por volta da década de 1960. tal trabalho clínico. no qual por meio da alteridade. que enfatiza que os surdos devem ser curados e reabilitados por meio do uso de dispositivos eletrônicos. desde seus primeiros cursos. Neste trabalho parte-se do principio que a linguagem pode ser ensinada por meio do treino da fala.

dessa forma para que tenham uma compreensão discursiva ativa precisam pertencer a uma mesma comunidade linguística (BAKHTIN. toda a língua. nosso espaço. e que em outras famílias os mal entendidos e a falta de interações dialógicas é o que prevalece. ao refletir sobre as práticas terapêuticas fonoaudiológicas é preciso entender e interpretar a história de cada sujeito. Ao contrário dessa concepção. que uma criançca que possui pais ouvintes que usam somente a língua oral para se comunicar. por exemplo. que depende apenas de uma formação. isto é. a linguagem possa se constituir na prática viva da língua. toda a humanidade (SKILAR. E continuar desalinhados. Os sujeitos surdos nessa perspectiva são históricos. O trabalho com a linguagem na clínica fonoaudiológica quando entende-se a linguagem como constituiva dos sujeitos pode ser para as famílias e para as crianças surdas muito mais do que simples reabilitação. concorda-se com o posicionamento de Skliar (2003. Propõe-se aqui. o lugar de encontro entre sujeitos. afirma-se que para se apropriar da linguagem. 2010).20) quando esclarece que é preciso Voltar a olhar bem. Entende-se a linguagem como dinâmica. no trabalho aqui apresentado entende-se a surdez como diferença e os surdos usuários da língua de sinais como uma minoria linguística. mais para o inominável do que para o nominado. Um espaço em que. voltar a olhar mais para a literatura do que para os dicionários. p. Um lugar para que a família perceba que o discurso é a ponte. mais para os rostos do que para as pronúncias. Compreender que algumas mães ouvintes param de falar com seus filhos ao descobrir que eles são surdos. um outro olhar para as práticas que ocorrem na clínica fonoaudiológica com crianças surdas. p. no caso da Clínica de Fonoaudiologia. por meio da alteridade. não restrita apenas ao código. 2003. culturais. as quais ocorrem por meio da interação com adultos que fazem a mediação entre a criança e o objeto linguístico. desencaixados. Esse adulto. terá muitas dificuldades para participar dos enunciados dialógicos. Além disso. de ressignificação de cada sujeito surdo em sua singularidade. a linguagem é compreendida como atividade discursiva. Assim. uma memória boa e de um bom ensinamento (PONZIO. 2004). é o fonoaudiólogo que atribui sentidos e significados à linguagem da criança. Entender. agindo como intérprete na significação e ressignificação de seu uso. para não continuar acreditando que nosso tempo. constitutiva da própria língua e do sujeito. nossa mesmidade significam todo o tempo. portanto. olhar esse que privilegia a interação e o uso de gêneros discursivos durante as atividades que ocorrem no setting terapêutico. Assim. Assim. ou seja. surpresos. nossa cultura. tem uma amplitude subjetiva. para esse autor os signos também são sociais e criados e interpretados no interior de complexos e variados processos de intercâmbio social. como única e singular. a qual abrange a formação constitutiva de cada sujeito singular e único e na sua maneira de posicionar-se no mundo. as crianças surdas devem engajar-se em práticas linguísticas que possibilitem o uso efetivo da linguagem.20). sociais e estão inseridos em meios sociais organizados. 114 assegurado ao falante nativo. toda a cultura. nossa língua. a partir desse trabalho pode-se pensar na Clínica de Fonoaudiologia como um espaço de mudanças. todo o espaço. Nesse CORPOS .

fundamentais para a constituição destes sujeitos como pessoas autônomas e participativas socialmente. 2009). a partir dos estudos da linguagem e da constituição do sujeito. enquanto a maioria das crianças surdas sente-se mais a vontade usando recursos visuais. 115 sentido. e quais destas concepções sobre a surdez aparecem nas falas dos familiares. o de “compreensão ativo-responsiva”. e neles criam as dimensões valorativas e avaliativas (FARACO. no outro. Bakhtin (2004. O conceito de enunciado. sobre a na linguagem na clínica fonoaudiológica. nas práticas de linguagem entre a criança surda e seus interlocutores é importante ir além das palavras. Assim. 1996. entende-se que a palavra viva se dá pelo diálogo. pois quando não há uma língua comum entre a família e a criança surda para estabelecer suas interações sociais. cada uma destas famílias expressa ideias construídas pelos discursos que emergem do interior das relações sociais. pelas enunciações contextualizadas e pelos momentos de interação. Desse modo. é possível compreender que uma família ouvinte com uma criança surda poderá ter uma propensão maior para utilizar a fala para interagir com seus filhos. processo esse que será mais intenso CORPOS . um processo de busca de sentido. Ou seja. Diante disso. etc). uma primeira barreira pode começar a ser construída. torna-o constituinte da sua própria consciência. todo enunciado. 2010. se é a família a instituição social onde a criança passa a maior parte do tempo. será dentro dela que o sujeito irá se constituir emocional. Assim. ao contrário. p. contém sempre uma resposta e é um elo na cadeia ininterrupta da comunicação sociocultural (FARACO. é preciso compreender em quais processos sociohistóricos essa família foi constituída. expressão facial e corporal. durante as terapias fonoaudiológicas. um ser falante e expressivo. escrita. segundo o qual a fala do locutor deflagra. como as representações da surdez que circulam na sociedade são refletidas na dinâmica familiar. vocalizações. é acolhida e cuidada. Nesse sentido. subjetiva e socialmente. Portanto. pode ser sim um espaço de intervenção junto aos pais de crianças surdas. o apontar e a língua de sinais. no qual se promova a escuta das necessidades de cada sujeito e se apontem novos direcionamentos familiares possibilitando a melhora das relações dialógicas. toda compreensão dos enunciados deveria ser ativa e se opor à palavra do outro com uma contra-palavra que precisa ser interpretada. O fonoaudiólogo na clínica pode. não importa como seja produzido (fala. sendo o eixo que funda a relação do homem consigo mesmo. que fundamenta este trabalho. ao observar as grandes narrativas sobre surdez e como estas se inserem nos discursos sociais. A linguagem. de forma que “o discurso do falante o liberta da condição de objeto” (FREITAS. ao se focar. vai de encontro a outro conceito central do arcabouço teórico de Bakhtin. defendidos pelo Círculo de Bakhtin. há uma tendência das interações serem estabelecidas por meio do uso da língua como um código pronto e acabado. explicitar o papel fundamental da família na constituição do sujeito surdo e mostrar que todo enunciado é uma resposta e não mera repetição. então. 171). 2009). gestos. como gestos. 2011) pode então fornecer subsídios teóricos e conceituais para fundamentar os trabalhos voltados às práticas com. por exemplo. Isso porque as pessoas não estão isoladas do seu universo social.

Essa atividade de escuta aqui proposta. muitas vezes.32) “a palavra viva subtrai-se à relação sujeito-objeto. agora. de diferença indiferente. às nossas palavras. enquanto célula viva do discurso. de sua família. perguntar. Dessa forma. a percepção de sons. parte do escutar a palavra de cada um (do surdo que frequenta a clínica fonoaudiológica. Ponzio (2010) segue explicando que o silenciar proposto pela linguística do silêncio permite apenas a CORPOS . responder. são repletas de desentendimentos. é o outro participante a quem a palavra pede uma compreensão respondente”. no qual o uso de frases com células mortas da língua é enfatizado não cabe. as palavras dele. já que o que importa não é o dizer. e que essas. Para Ponzio (2010. fora das interações verbais. o fato de não ser ouvido. reconhecido é a morte absoluta. ainda que sob a forma de discordância. o conceito bakhtiniano de escuta é fundamental. assim. viver significa tomar parte no diálogo. por não partirem de uma língua em comum. do código. ou seja. Escutar como compreensão do sentido da enunciação. da redução do signo a sinal. Assim. posiciona “aquele que compreende” que passa. Ouvir relaciona-se com a linguística do silêncio. É preciso então. por sua vez. Escutar de maneira diferente do que em geral é proposto nessa clínica. Nesse simpósio. mas outra coisa é a enunciação. Já escutar é entendido como “não indiferença pela alteridade da palavra. do monologismo. quebras interacionais e mal entendidos. Bakhtin (2004) reafirma que uma coisa é a frase e seu entendimento da língua. tal forma de ouvir é comumente praticada por muitos terapeutas e familias os quais tendem a realizar um trabalho de homogeneização do universo comunicativo. comumente usado. esse discurso produzido ao longo da vida é o simpósio universal. segundo Ponzio (2010). Quando nos fazemos compreender pelo outro estamos fazendo corresponder. como atitude de dar tempo a esta. de seus professores). mas o dito. e essa busca. já que é por meio da palavra viva que a língua participa da não reiterabilidade histórica. no processo de compreensão ativa e responsiva. e esse diálogo acontece por toda a vida. 2010). 116 ou menos intenso na medida em que a fala do locutor traga mais ou menos recursos da lingua(gem). A palavra é sim um evento irrepetível que. Dessa forma. da redução da enunciação a frase. o significante que se torna significativo. no qual o signo verbal é reduzido unicamente as características do sinal ou do som. Para Bakhtin (2004). uma tomada de posição. p. de se entreter com esta. o trabalho com surdos. È preciso então destacar que a partir do trabalho clínico pode-se apreender as interações entre filhos surdos e pais ouvintes. como acolhida. não redutível ao desejo de ouvir a língua. etc. o entendimento produtor de sentido da palavra viva não reiterável. Nesse sentido. recusa-se ao conhecimento indiferente que caracteriza a linguística geral e compreende seu ato como único e singular. por meio de uma escuta única. a ser orientado para a enunciação do outro (PONZIO. lembrado. a fala do outro deflagra a inevitabilidade da busca de sentido(s). palavras e frases de maneira monológica. Ponzio (2010) propõe uma diferenciação entre ouvir e escutar. a quem é destinada. para este autor a palavra vive na relação de alteridade. em uma palavra: como escuta” (p. o que causa a morte/ não escuta dos enunciados. O outro a quem se dirige. Nesse sentido. repensar como as palavras são ditas e escutadas pelos interlocutores que as recebem. compreender o outro significa estabelecer sintonia com ele.49).

São Paulo: Editora Hucitec. 165- 187). p. p. o fingir compreender. “Cada enunciação viva. o calar é escuta e. sintático e semântico. a frustração. Curitiba: UFPR. para escutar é preciso considerar as relações sociais e culturais reconhecidas. a responder a sua existência: não temos álibi para a existência” (FARACO. fazendo a oscilar entre a convencionalidade do signo a naturalidade do som. Assim. o não-falar. A. Para uma filosofia do ato responsável. Procurando uma palavra outra. BAKHTIN. entre diferenças indiferentes à singularidade. 2010. 2009. M. Desse modo. Bakhtin e a psicologia. BAKHTIN.). M. o não escutar tornem-se cada vez mais raros. Ao perceber cada surdo e cada familiar como únicos em sua própria existência. Estética da criação verbal. São Carlos: Pedro & João Editores. CORPOS . C. antes mesmo que o ouvinte “tome a palavra” (PONZIO. já que cada um possui sua história. Assim. ao se refletir a respeito das práticas dialógicas desenvolvidas em uma clínica fonoaudiológica é fundamental entender que as relações estabelecidas entre surdos e seus familiares são singulares. REFERÊNCIAS BAKHTIN. & CASTRO. uma resposta. As idéias linguísticas do círculo de Bakhtin. o silêncio. enquanto escuta que responde.A. In: FARACO. por sua vez. Linguagem & diálogo. Diálogos com Bakhtin. Já o calar é a condição da compreensão do sentido da enunciação única irrepetível. Assim. T. M.21). e não a imposição da palavra no espaço do silêncio. cabe aos terapeutas fonoaudiólogos ressignificar as relações familiares para que os mal entendidos. a sua separação do calar e da liberdade da escuta aberta à polissemia.A. o reconhecimento e a identificação à nível fonológico. Tal escuta deixa falar e deixa escolher o que se quer dizer. 2010. o destinatário da palavra é ativo e parte sempre de uma posição responsiva. 2010. (Orgs. por meio do encontro de palavras. FREITAS. A. e os dialógos sejam cada vez mais presentes. C. retira da palavra o seu caráter humano e a torna algo mecânico e pseudonatural. 2004. 1996. 1992/ 2011. seu espaço que não poderá ser ocupado por nenhum outro. Marxismo e filosofia da linguagem. FARACO. 54). São Paulo: Martins Fontes. PONZIO. 2009. da unidade concreta da palavra viva. (pp. C. 2010. De acordo com esses autores.. mesma aquela de quem começa a falar. relações opositivas e conflitantes. tem um caráter de resposta ativa e cada compreensão é. a desistência dialógica. M. pauta-se na enunciação. p. São Carlos: Pedro & João Editores. manisfestar numa polifonia constitutiva. São Paulo: Parábola Editorial. no trabalho clínico aqui proposto deve-se levar em conta a singularidade. a falta de resposta. cada um desses sujeitos é “compelido a se posicionar. 59). 117 percepção dos sons e dos traços distintivos da língua. ou seja. Diferente do silenciar. o calar e o escutar. TEZZA. (VOLOSHINOV). a naturalidade daquilo que não tem mais sentido (BAKHTIN apud PONZIO. G.

C. Pedagogia (improvável) da diferença: e se o outro não estivesse aí? Rio de janeiro: DP&A. 118 SKLIAR.B. 2003. CORPOS .

Antigos ideais de “trabalho. As conquistas sociais que experimentamos nos últimos tempos. como arena de lutas. SOU DRAG. estão ameaçadas. Através de uma narrativa densa onde minhas memórias de infância se cruzam GAY. INTRODUÇÃO Aqui tudo parece Que era ainda construção E já é ruína Tudo é menino. Debates em torno de 52 Mysterieux é o pseudônimo adotado pelo personagem central da narrativa que sustenta esse trabalho. Supervisor Educacional da Secretaria Municipal de Educação de Campinas. social e econômica. travo um intenso diálogo com Mysterieux. Marcos Donizetti Forner53 Palavras-Chave: Corpo Grotesco. do francês. Fora da nova ordem mundial. RESUMO 119 O objetivo desse texto é analisar a tentativa de ocultação do corpo homossexual nas relações MYSTERIEUX52 – “SOU escolares e avaliar as consequências desse ato na vida dos educandos. família e propriedade” voltaram a fazer parte da cena politico-ideológica de nossas instituições governamentais. um cenário propício ao conservadorismo escancarou-se. 53 Mestre em Educação pela FE-UNICAMP. Um discurso moralista. LEME. BEBÊ!”: a tentativa de Nesse diálogo questões ligadas diretamente ao ordenamento político-ideológico de nossas instituições são questionadas na busca por uma ocultação do corpo homossexual nas escola que respeite a diversidade e participe do debate contra o preconceito e a violência de forma relações escolares responsiva e responsável. juntamente com a palavra. após assumir-se homossexual. menina (…) Alguma coisa esta fora da ordem. CORPOS . Arena de Lutas. O conceito de dialogismo em Bakhtin dá a sustentação teórica necessária à compreensão do confronto entre ordem e desordem contido no corpo grotesco homossexual tomado aqui. (Caetano Veloso) O Brasil passa. Após o golpe que depôs. Relações Escolares. misterioso. por uma séria crise política e institucional. BONITA. anteriores ao golpe. hoje. Vivemos tempos de instabilidade política. um antigo aluno que após a experiência com o casamento e com a paternidade percebe-se homossexual e drag queen. SOU com minha experiência como professor. tomou conta das tribunas dos nossos poderes democraticamente instituídos. um governo legitimamente eleito. avassalador dos direitos sociais e individuais. Dialogismo. Esses avanços que nos permitiram pensar em uma sociedade mais igualitária e menos exclusiva levaram a público temas nunca antes apreciados de forma tão notória. de forma comprovadamente inconstitucional. Instituições Políticas e Sociais.

sou homossexual. O machismo e a violência contra as mulheres. Em nome de “Deus” e abençoados pelo capital. No interior da escola uma diversidade enorme de corpos transita.. a qualquer direito que colocasse em cheque suas convicções e suas doutrinas. pai de um filho adotado por mim e meu companheiro. apesar de um tanto adormecido. preconiza-se a detenção das regras como forma de detenção do poder. por não se adequarem às normas binárias de construção do gênero e da sexualidade são ocultados na esfera do oficial. Graças aos avanços conquistados com muita luta e muita dor. No Poder Legislativo das esferas nacional. a intolerância e o conservadorismo ganhavam forças. O atual cenário de instabilidade política que vivemos propicia esse enfrentamento e a emersão de antigos conceitos e preconceitos. conservadores da “moral” e dos “bons costumes” também passaram a se opor publicamente. tem por objetivo analisar a necessidade da manutenção e ampliação do debate em torno das questões de gênero e sexualidade nas escolas como forma de coibir a violência. na mesma proporção em que liberdades individuais e direitos sociais eram conquistados. por onde devem circular as mais variadas formas de compreensão da vida. alicerçado na narrativa de minhas memórias em relação direta com uma experiência por mim vivida com um aluno entre os anos 2000 e 2017. passaram a ser debatidos publicamente. das nossas casas e ruas. Como diz o poeta Chico Buarque. classificando qualquer manifestação de opiniões de “doutrinação ideológica”. Apesar disso. 120 questões como as de gênero e sexualidade passaram a fazer parte do cotidiano das nossas instituições. e professor. dos meios de comunicação. CORPOS . “atordoado eu permaneço atento. enquanto arena de debates. a homofobia. o casamento entre pessoas do mesmo sexo. na perspectiva das relações díspares. “homens de bem”. Nessa toada. Porém. alguns. dentre outros temas. termos como “identidade de gênero” e “orientação sexual” foram suprimidos. manter e ampliar direitos e projetar um futuro livre de discriminações e preconceitos. hoje tenho uma família organizada e legítima e sentindo-me livre para debater com meus alunos gênero e sexualidade. No Plano Nacional de Educação e na Base Nacional Comum Curricular. a adoção e a maternidade/paternidade vividas por casais homoafetivos. na arquibancada. temo por meu filho e por meus alunos. o Brasil parecia caminhar rumo a um futuro mais livre de violências. nunca esteve vencido. Na contramão da Lei de Diretrizes e Bases da Educação que defende o pluralismo de ideias como um dos alicerces da Educação brasileira esse movimento retrógrado esforça-se em coibir o dialogo em torno das questões de gênero e sexualidade taxando-as de imorais e ideológicas. temo em perder esses direitos. Essas questões me afetam diretamente. É bom lembrar que. Esse texto. estaduais e municipais circulam projetos de lei que visam cercear professores e alunos do direito ao amplo debate de ideias. ditadas como regras únicas a serem observadas por todos. de forma veemente. Um “monstro” que.. são corpos que falam. para a qualquer momento ver emergir o monstro da lagoa”. passou a ser alvo desse conservadorismo ascendente. A escola. enunciam-se.

Destacando-se em relação aos demais adolescentes. sou drag. bebê!” Mas. Por vezes. na infância. tinha cabelos ondulados e furinhos na bochecha rosada que davam-lhe ares angelicais. Um dia apareceu com um violino.. de cantar. No entanto existe um compromisso alteritário com o outro. era sempre destaque. quando criança. também. espera aí. Ao narrar o sujeito coloca-se em movimento de interpenetração no mundo teórico e no mundo da vida.. quando vi suas fotos pelo facebook. De repente. 2015. exibindo-se pomposo entre um acorde desafinado e outro. sua visão (PREZOTTO e outros. Essa diferença. eu me destacava muito mais nas artes que nos esportes. Tempos depois.ao contrário dele. Mas. às vezes eu o percebia discriminado por não ser igual à maioria. ampliando. eu era calado e solitário. posicionando-se ética e esteticamente. A voz era aguda feito a minha. Minha voz aguda parecia incomodar. paro para pensar o quanto eu sofria por ser diferente. ele não havia casado há pouco tempo? Tão jovem. que cara de menina. de maneira singular. que me completa-incompleta e nesse processo o pesquisador não está só e tampouco e onisciente.. p. me cativava. porém. uma filha. muito mais na referência com o feminino do que com o masculino. Era inteligente. eu o vejo pelas redes sociais vestido de menina. Eu o conheci ainda garoto. Aqueles olhos azuis eram tão grandes e reluzentes que era impossível passarem despercebidos. ENCONTROS E DESENCONTROS COM O MENINO DE OLHOS AZUIS: memória e narrativa O sujeito que narra toma conhecimento do vivido. Sempre com um sorriso nos lábios. zangado e rabugento. Parecia-me feliz. pensei. Nas festas da escola. por vezes. Cultivava pela inspetora de alunos da escola um amor quase filial. Eu também fui um menino diferente. comunicativo e. perspicaz. meus trejeitos delicados eram motivos de chacota.. 1.13). cativava a gente sem muito esforço. dessa forma. Gostava de fazer teatro. Assim como ele. afirmando sua homossexualidade e gritando para quem quisesse ouvir: “Sou gay. ela. Eloquente.o professor de Educação Física ignorava meu isolamento. Pequenino. destacava-se nas aulas pelos seus comentários e elucubrações e na escola pelas novidades que sempre trazia consigo. A proximidade mais com as meninas do que com os meninos também era uma característica sua que o assemelhava muito a mim. fazendo de conta que não me via. sou bonita. 121 A concepção de dialogismo em Bakhtin (2004) orientará minhas perspectivas de análise e me servira de aporte na busca pela compreensão da palavra e do corpo enquanto signos ideológicos e arena de lutas onde valores contraditórios se digladiam produzindo sentidos múltiplos para um mesmo objeto. CORPOS . Não parecia muito fã de futebol e outras brincadeiras de meninos. minha inabilidade com os esportes me isolava .

de repente. Tudo isso. Dei-lhe as felicitações e. uma belíssima drag queen. o príncipe virou princesa e. Numa de suas primeiras publicações na internet. O quanto foi agredido por ser diferente. Por um tempo foi “feliz”. enquanto táticas de reelaboração da ordem a seu favor. utilizam-se de práticas cotidianas como falar. Quando criança. Cansado de ser agredido e violentado em suas reais perspectivas de vida aquele sorridente rapaz havia sucumbido às expectativas da família e da igreja. pelo contrário. por conta da distância que nos separava. são fatos da vida real. era provar para todo mundo que eu era um garoto inteligente e capaz.. via aquele menino.. a carruagem virou abóbora. que era apaixonado pela jovem esposa. pela sua graça. Apesar de minha curiosidade. quase sem 54Certeau em “A invenção do cotidiano: artes do fazer” nos orienta a compreender de que forma os sujeitos ordinários. à distância. CORPOS . Porque um rapaz tão jovem e tão cheio de energia resolvera casar-se tão cedo? Apesar da convicção e da felicidade que demonstrava em seus posts. que trabalhava numa empresa de telefonia celular. ao encontrar sua princesa. Aí. ele fala do quanto sua convivência com alguns colegas e professores. 122 Eu. foi difícil. da inspetora de alunos por quem ele era apaixonado na escola e procurei por ela. Lembrei-me. Será que toda aquela vivacidade e todo aquele seu jeito extrovertido não passavam de mecanismos de defesa? Será que ele era mesmo feliz? Ou. da moral etc. A história que segue nada tem a ver com um conto de fadas ou com uma brincadeira de crianças. me encantava por suas peripécias. Que transformações haviam acontecido na vida daquele garoto que o levaram de um extremo a outro em tão pouco tempo? Indaguei. que mais era dos outros do que dele durou pouco. Porém. cavalgava em direção a um final feliz. convenhamos. após ter assumido sua homossexualidade. em contraposição às estratégias de manutenção do poder organizadas na forma da lei. então. que frequentava a igreja e que vivia uma vida comum. Um encontro nada pacífico. na perspectiva de Certeau (1994)54. algo parecia estar fora de contexto. reencontrou-se consigo mesmo. não fosse o gosto pelas maquiagens e cabelos). achei um tanto invasivo questioná-lo diretamente. como um conto de fadas. que exibia-se pela internet. pela sua vivacidade.. soava-me como uma brincadeira de casinha. será que isso tudo eram táticas de reelaboração do que estava posto como estratégias do poder? Confesso que eu não enxergava ou. da ciência. talvez. apropriando-se da sua história real o garoto que um dia conheci cheio de vida. contra os ataques constantes que eu sofria. Adotando um ar sisudo. circular. que sentia um carinho enorme pela filha. no entanto. ler. quase adaptado às normas e padrões socialmente aceitáveis (quase. O quanto teve sua sexualidade questionada e como isso o obrigou a assumir determinadas posições de defesa. pela internet. na escola.. sem o menor pudor. da política. passei a “segui-lo”. o vejo travestido de Mysterieux. casando-se para provar a todos que era “homem”. vivendo seu conto de fadas como um príncipe que. o admirava. quando olhei suas fotos de casamento circulando pelas redes sociais percebi que algo me havia escapado. etc. que gostava de pentear e maquiar suas amigas. Descobri que gostava de cozinhar. Mas o sonho. não quisesse enxergar esse jogo. meu mecanismo de defesa.

. Numa viagem para outro país onde fui com minha tia e minha mãe. O CORPO AMBIVALENTE: uma estética a ser ocultada A vida se revela no seu processo ambivalente. o corpo e a estética homossexual? 2. aqui está uma em transformação. Nos jeitos e trejeitos. três irmãs. Encanei que queria uma máquina de lavar porém de bonecas. não deve circular o tão exaltado pluralismo de ideias defendido pela LDB? Do meu tempo de menino. p. revela um pouco desse ser. (Idem. a escola não deveria trazer esse debate para dentro de seus muros? Depois de revelados e trazidos à tona todo o sofrimento e toda a violência que sofremos no universo de uma sociedade machista. Apesar de eu ter me resolvido bem com minha sexualidade. eu lutava para convencer a todos da minha seriedade e dedicação. 26) O corpo homossexual é ambivalente porque carrega em si traços do feminino que se fundem e se confundem com o masculino.. um pouco delicado.. Daí os questionamentos que trago para esse debate. para os dias atuais. no movimento do CORPOS . claro . não seria papel da escola proteger seus alunos? Porque a escola ainda insiste em ocultar no seu discurso e no seu cotidiano. mais o meu escândalo por querer coisas de meninas as convenceram do que eu queria e não o que elas queriam. eu fazia roupas para as bonequinhas delas.... O texto que segue. eu também queria ser uma boneca. ainda luta para convencer seus familiares de que é possível ser feliz. também foi e continua sendo um obstáculo nessa sua trajetória de busca por si mesmo. Depois de tantos avanços em relação à conquista de direitos civis e individuais por pessoas LGBTs. p. O que a escola não percebia era o medo que habitava dentro de mim. a terceira era eu. A negação e a ocultação da palavra e do corpo também são construtivas de sentidos. na fala. rosa com coisas brilhando e etc. a escola pouco contribuiu nesse processo.. O cânon grotesco deve ser julgado dentro de seu próprio sistema. Ah. Te pergunto: uma gay se torna gay ou nasce gay?” Possíveis respostas para esse e outros tantos questionamentos poderiam ser debatidas pela escola.. eu ainda pequeno. interiormente contraditório. no seu interior.. a não ser por suas próprias contradições. Apesar de perceber na mãe certo aporte. Para minha mãe e tia um paraíso porque haviam carros de brinquedo e bonecos de heróis pra todos os lados. segundo suas postagens. ou melhor. Mamãe e titia fizeram de tudo pra que os carros e coisas de menino me chamassem a atenção. 23). Com duas meninas irmâs. sendo aquele a quem deseja ser. muita coisa mudou. A família. nos trajes. Brincávamos de boneca. ou seja. mas o meu paraíso estava no setor de meninas. copiado de sua página no facebook. entramos numa loja. com um coração de princesa . (BAKHTIN. Vejamos: “Eu era um pequeno menino. 123 sorrir. 😊 arrumava cabelo e etc. porque não? Afinal. rosa. ainda. 1993. Eu também não percebia o medo que habitava aquele garoto de olhos azuis..

apesar de avanços experimentados nos últimos tempos. porem. assessórios. passam a exigir a perpetuação dessa mesma ordem. da estética da vida cotidiana preestabelecida e completa” (BAKHTIN. CORPOS . “A disciplina ‘fabrica’ indivíduos. oculta esses corpos de seus currículos. “sapatão”. Se a ambivalência do corpo homossexual incomoda a escola. no Brasil. 124 corpo. Roupas femininas. se consideradas do ponto de vista da estética “clássica”. maquiagens. O que é que determina essa refração do ser no signo ideológico? O confronto de interesses sociais nos limites de uma só e mesma comunidade semiótica. A escola. ou seja: a luta de classes. promovem o debate. como imagens “ambivalentes e contraditórias que parecem disformes. culturalmente. ela é a técnica especifica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício” (FOUCAULT. circulam pela escola e com ela estabelecem um intenso diálogo. todo sujeito homossexual. enunciando-se no feminino . mas também se refrata. isto e. dois homens beijando-se. tudo muito exagerado. Analisando a cultura na Idade Média e no renascimento a partir das obras de Rabelais. 143). p. A PALAVRA E O CORPO COMO ARENA DE LUTAS O ser refletido no signo. criam afetos e desafetos. 46) Esse enfrentamento entre o estabelecido e reelaboração do estabelecido faz do corpo uma arena de lutas onde valores contraditórios se digladiam. quando não evadidos. “caminhoneira”. Não há lugar para esses corpos grotescos no currículo escolar. “boiola”. p. ainda mantêm papeis e comportamentos bem definidos – um bom exemplo disso. questionadores da ordem binária.22). pública ou veladamente. Esses corpos grotescos. rebeldes. homens e mulheres. (BAKHTIN. revela essa ambiguidade em maior ou menor escala. mesmo que de maneira formal. 2004. indivíduos que ao serem controlados pela ordem. Essa ocultação tem uma função disciplinadora. 1987. Bakhtin chama nossa atenção para as imagens do grotesco. do risível. não apenas nele se reflete. “Bicha”. ou seja. Vestem-se para a festa.“sou bonita. é o cumprimento entre pessoas do mesmo sexo: enquanto as mulheres trocam beijos na face. p. o da drag queen a coloca em cheque. 3. Na cultura ocidental moderna. monstruosas e horrendas. No corpo da “drag queen” essa ambivalência é pra lá de explicita. gênero e sexualidade são tratados numa perspectiva binária. 1993. são marcas da performance que as caracterizam. bebe!” .elas aproximam-se do espetacular. do cômico. “viado”. desviantes. A ambivalência que carregam rompe com ordem “normal” das coisas. não é uma atitude muito aceitável. os homens cumprimentam-se com um aperto de mãos. homens e mulheres que se atrevem a questionar com suas atitudes e seus corpos esse padrão. ”franchona” são alguns dos adjetivos criados histórica e culturalmente para denominar de forma pejorativa. não para ser mulher.

nesse corpo enfrentam-se poder e resistência. Refletindo e refratando tais sentidos a palavra cumpre o seu papel de “signo ideológico (…) [que tem]. O menino de olhos azuis dialogava com a escola. um drama mais comum do que CORPOS . na palavra. como forma de atribuir à vida sentidos estáticos e imutáveis. Como já observado. arena de lutas. p. toda verdade viva pode deixar de parecer para alguns a maior das mentiras. Não é a toa que as forças conservadoras lutam para retirar do currículo essas palavras num esforço em conter a circulação de sentidos no seu interior. ocultam o dialógico. Vivemos essa crise… 4. meu jovem aluno nada disse a esse respeito em suas postagens pela internet. 36). 2014).grifo meu) não podem operar sem a participação do discurso interior. isolá-los. Nesse corpo falam a ordem e a desordem. (Idem. duas faces [onde] toda critica viva pode tornar-se elogio. sexo e gênero. são estratégias do poder na tentativa de monologizar o discurso. Falar de sexualidade e gênero na escola. A escola. Essa dialética interna do signo não se revela inteiramente a não ser nas épocas de crise social e de comoção revolucionária” (Ibidem. faltasse-nos tempo e espaço. o centro das disputas. o que eu sei e do drama que eu também vivi.todos os signos não verbais . Limitando-se as perspectivas do biológico. na maioria das vezes. Talvez. esse confronto se evidencia. uma peça musical. porém não o escutava. ainda é um tabu. 125 “Diálogo e corpo estão conectados e a imagem que Bakhtin utiliza para essa conexão é o corpo grotesco” (SILVESTRI. eu não o escutava. Os processos de compreensão de todos os fenômenos ideológicos (um quadro. um ritual ou um comportamento humano . adquirem sentidos múltiplos que evidenciam tais disputas. então. Apesar de fazer parte do currículo oficial da escola. A palavra acompanha e comenta todo signo ideológico. 2004. Se no corpo enunciam-se marcas do confronto entre poder e resistência. no seu corpo. p. Todas as manifestações da criação ideológica . corpo e palavra estão conectados. como Jano. Gênero. esse tema sempre foi marginal.banham-se no discurso e não podem ser nem totalmente isoladas e nem totalmente separadas dele.47). a disciplina e a indisciplina. Ocultar esses corpos no cotidiano (como fazia meu professor de Educação Física) negar sua existência. Indiciado nos seus gestos. enquanto “fenômeno ideológico por excelência” (BAKHTIN. estava lá. O que eu sei é do drama que esse rapaz viveu. são tratados no universo de um cientificismo racionalista e formal que pautado em generalizações. o desejo em ser uma princesa que desde muito cedo o perseguia. 37 e 38) Enquanto signo ideológico a palavra torna-se. sexualidade e ideologia. CONSIDERAÇÕES FINAIS O que aconteceu no ínterim entre o casamento e a ascensão de Mysterieux eu não sei. assim em como nas demais instituições sociais que estruturam a organização de nossa sociedade. o controle e a desobediência. implícito no dialogo. p.

A escola não é uma instituição autônoma. 2 ed. Em https://repositorio. São Carlos.. V. 2002. 1994. A assumir um compromisso ético e estético com a alteridade repudiando qualquer forma de generalização do outro.. São Paulo. (VOLOCHINOV). 126 imaginamos. Carnavalização como transgrediencia da multidão. RJ: Editora Vozes. Precisamos garantir a circulação dos corpos e das palavras com todas as contradições que os constituem. C. . Org. A disputa está posta. T. CERTEAU. expandir o diálogo. Para uma filosofia do ato. SP: Pedro & João. Bakhtin nos convoca a participar do diálogo de forma responsável e responsiva. sem exceção (BAKHTIN. sem álibi. nela o dialogismo é intenso… Nesse enredo. múltiplas variantes do conceito de ética e moral digladiam-se no seu interior. M. M.br/bitstream/handle/ufscar/5638/6108. O drama vivido por aquele menino de olhos azuis poderia ter sido menos amargo se a escola o tivesse enxergado. M. SP: Pedro & João. C. SP: Hucitec. Precisamos debater o movimento da vida..usfscar. Petrópolis. B. 2012. São Paulo. T. CORPOS .Brasília. A luta em torno da palavra acirrou-se. D. A invenção do cotidiano: artes do fazer. A. 2004. nem política e nem socialmente. Nova edição. Vivemos tempos difíceis. C. abrir espaços para que os sujeitos possam se posicionar. 1 ed. A. SERODIO L. Precisamos transformar a escola em um espaço de possibilidades. do V. PREZOTTO M. SERODIO L. RJ: Vozes. 2015. Mesmo os que se expõem. DF: Hucitec. 25ed. REFERÊNCIAS BAKHTIN. H. SP . BAKHTIN. Diferente desse caso onde o protagonista da história se expos publicamente. possam dizer de si com franqueza e possam ser ouvidos com a mesma franqueza. RODRIGUES N. as forças conservadoras e monolizadoras do discurso emergiram com muita força. 2010). SILVESTRI K. 1993. M.. se nela houvesse espaços e tempos para que ele pudesse se expor com maior clareza.. Marxismo e filosofia da linguagem. M. 11 ed. como nunca. PRADO G. BAKHTIN. os personagens da trama permanecem no anonimato. M. Nossas instituições sociais não podem continuar se omitindo diante de tanto sofrimento. A buscar pela subjetividade do outro enquanto evento único e irreprodutível. PROENÇA H. Tese (doutorado) Universidade federal de São Carlos: 2014. São Carlos. FOUCAULT. Petrópolis. para que seu corpo pudesse circular mais livremente. muitas das vezes suicidam-se ou envolvem-se em situações de extrema violência. Vigiar e punir: histórias da violência nas prisões.pdf?sequence=1 Acesso em 29/09/2017. Sujeitos de diversas composições sociais e econômicas circulam por seus edifícios. na maioria das vezes. 2 ed. sofrem. CHAUTZ G. nela circulam as mais variadas verdades. estabelecida e apresentada por Luce Giard. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Prefácio in Metodologia narrativa de pesquisa em Educação: uma perspectiva bakhtiniana.

e volto a escrever. no caso em São Petersburgo. nesse processo. Mas ser pobre é experiência vivida na relação dos homens no mundo. de Dostoiévski. Tendo Dostoiévski como referência. contra as muitas formas de acabamento e mortificação que a palavra CRONOTOPO em ausência pretende. PERCEBER-SE POBRE de tomada de consciência sobre ser pobre. A ão sei se porque comecei a procurar as imagens de São personagem volta o rosto aos discursos monológicos e diz-se. N portanto em ausência de quem se fala. e não cabe nas descrições e análises que se pretendem gerais. os acabamentos de pobreza aos homens destinados. Claro que o fenômeno social da pobreza como contraparte ativa da acumulação de capital por alguns grupos e seres humanos é real. pela via das imagens literárias. próprias vidas.barenco@gmail. do exterior. muitas pessoas não conseguem sequer o necessário para sobreviver. Para Bakhtin o homem revela-se pelo próprio homem. por Makar Diévuchkin e Akaki Akakiévitch. E-mail: sol. lendo cronotopicamente uma passagem ressaltada por Bakhtin. como valor. Este texto não é sobre o frio. mantenham suas vozes vivas e perturbando nossos MELLO.com CORPOS . ou o cronotopo do botão. no autor monológico. heróis de Dostoiévski e Gogol. ou a imagem da pobreza no cronotopo do capote. Claro que a pobreza existe como realidade social. Dostoiévski. pobreza vivida no frio. descrita. mas a temperatura e. Arena de Lutas. ou a falta dele no frio. revela-se em primeira pessoa. bem baixa para resistências e re-existências diante de nossas final de setembro. É sobre o perceber-se pobre que trata este texto. no campo da Educação. em que essa construção é vivamente compreensível. Bakhtin afirma que o homem – como todas as personagens de Dostoiévski – é um ideólogo. Para Bakhtin. Em minha lida com a leitura. Ou esfriou. Seu tema. me aquecer. na arte e na ciência. início da primavera no Brasil amanhã. Aprender essa beleza nos ensina aqui começou a baixar e dos 18° já chegou aos 10°. 55 Professora da Faculdade de Educação da UFF. Este presente texto é uma tentativa de compreender como Dostoiévski construiu esse dominante artístico. Procurei algo para Palavras-Chave: Cronotopo. no Grupo Atos UFF. o elogio a Dostoiévski vem da competência criadora desse em criar dominantes artísticos da posição do autor. Em uma sociedade capitalista. o capote. vista como coisa. no diálogo tenso com os seus outros de Gogol. ou eu sinto no corpo o frio de que falo no texto. compreensão e pesquisa em Bakhtin. na sua autoconsciência Petersburgo do século XIX para pensar o contexto de O Capote. Marisol Barenco de 55 acentos monológicos. no cronotopo artístico. onde para sobreviver é preciso ter – ou ser – objetos de valor para troca que são acumulados por alguns. mas da Dialogismo. da A POBREZA EM personagem e da ideia em que esses dois últimos lutam. na vida. Sociologicamente ela assim pode ser percebida. ideologicamente. Trata-se do diálogo da personagem Diévuchkin. em que as mulheres. é toda a Rússia que embate-se. em diálogo. vimos buscando a construção de planos discursivos em ciências humanas. formando-se. recusando ao mesmo tempo. e Gente Pobre. A pobreza não existe como algo em universal: ser pobre pode ser descrito pelo homem pobre. homens e crianças com quem encontramos. Pobreza. RESUMO 127 Resistir no corpo. de Gente Pobre. em seu ativo processo 1.

e seu fantasma passa a assombrar S. intitulado A personagem e seu enfoque pelo autor na obra de Dostoiévski. o que lhe recobra a dignidade por pouquíssimo tempo. o frio é justamente tão penetrante e ataca com uma tal violência a todos os narizes. e escrever (1844-1845) Gente Pobre. Essa posição. A pobreza que sou em meu fato. 2013. compreendido. Este inimigo é nosso clima setentrional. objeto de sua angustiante autoconsciência. Pela manhã. esse ponto de vista que é a personagem é autoconsciente e. entre 1840 e 1843. sem distinção. Bakhtin diz: Aquilo que se apresenta no campo de visão de Gogol como conjunto de traços objetivos que se constituem no sólido perfil sociocaracterológico da personagem é introduzido por Dostoiévski no campo de visão da própria personagem. e insere. 52). a obra na obra. especialmente nas costas e nos ombros. Dostoiévski vai dizer mais tarde “todos nós descendemos de O Capote de Gogol". aos 23 anos de idade. Bakhtin está nesse capítulo afirmando o caráter único da obra de Dostoiévski no que diz respeito à personagem. naquela hora em que os funcionários se dirigem a seus ministérios. já que o capote é roubado. 2013. O Capote e Gente Pobre são obras sobre perceber-se pobre de um ponto de vista amplamente reconhecido. que no entanto tem a fama de ser muito saudável. que não é objeto ou fenômeno da realidade. p. precisamente nas CORPOS . Petersburgo. obra epistolar que foi imediatamente considerada uma obra prima? "Um novo Gogol apareceu!". (Bakhtin. por seus leitores. 53-54) Mas o que em Gogol faz Dostoiévski vibrar. Uma narrativa incrível de Gogol (2008) nos traça o frio e a dor de Akaki Akakiévitch em seu esfarrapado capote: Um poderoso inimigo espreita em Petersburgo as pessoas que gozam de vencimentos de aproximadamente quatrocentos rublos. Akaki Akakiévitch percorria correndo esta distância fatal. Sobre a diferença entre Gogol e Dostoiévski. Akaki Akakiévitch. mas fez falar de sua autoconsciência um funcionário pobre – Diévuchkin e outros. Examinou-o quando chegou em casa e descobriu que em dois ou três lugares. que seus infelizes proprietários não sabem onde se abrigar [.. 128 Gogol escreve e publica. mas sim um “ponto de vista específico sobre o mundo e sobre si mesma. Após economizar ao longo de muitos anos ele pôde finalmente pagar o alfaiate para fazer outro. ele mesmo. Nesse mesmo capítulo. Gogol escreve a história de um funcionário pobre.] Desde algum tempo. Bakhtin nos diz que Dostoiévski nunca representou o funcionário pobre. Ele veio a se perguntar se não era culpa de seu capote. inacabada. Morre logo após. sentindo-se inteiramente enregelado. cujo capote esfarrapado era fonte de zombaria de seus colegas. na busca pelo seu capote. aberta nessa construção na relação com o mundo da sua vida. como posição racional e valorativa do homem em relação a si mesmo e à realidade circundante” (Bakhtin. quando da escrita de Gente Pobre.. p. principalmente. tornando-se aqui. O que diz O Capote de tão pungente à alma russa? Bakhtin toma em consideração essa relação no segundo capítulo de sua tese Problemas da Poética de Dostoiévski. entre oito e nove. disse Nekrassov. até os tempos atuais: a pobreza concretizada nas vestes esfarrapadas e a vergonha de portar-se essa pobreza diante do outro. O Capote. Dostoiévski obriga a própria personagem a contemplar no espelho até a figura do “funcionário pobre” que Gogol retratava”.

principalmente. 129 costas e nos ombros. Os remendos não colocavam em destaque o valor do alfaiate. A voz última é a do narrador. Akaki Akakiévitch corre entre sua casa e o vestíbulo do ministério. reconhecendo-se a tal ponto na personagem e sentindo-se exposto. Sua gola diminuía ano após ano. inimigo. Em São Petersburgo. de frente para ele. além disso. que denuncia a falta de recursos no vestuário para proteger o corpo deste “inimigo” poderoso. o conjunto era pesado e bastante feio. nem tampouco ele se dirige a mim. mortal. minha filha. e este se indigna com a leitura. 224). mas vai além disso. para após isso dizer: “pois dar-se-á o caso de que me não possam deixar viver em paz no meu canto?” (p. e com o qual não nos acostumamos nunca. signo da pobreza no corpo. signo de sua condição inferior. A força da imagem de Akaki correndo em Petersburgo e sendo alvo da zombaria dos funcionários é alargada por Dostoiévski através da posição autoconsciente de Makar Diévuchkin. O frio que penetra nas habitações mal vedadas. a vestimenta tinha um aspecto muito estranho. em uma carta sobre livros que trocam. com ele nos envergonhamos. pois ela servia para remendar outros lugares. Não me dirijo a ele. O frio que permanece por uma temporada de meses do ano. que fala na carta à sua amada Várienhka. Várienhka empresta a Makar O Capote. Gogol. Mas em toda essa dor. 16-17) Não sei se um leitor de Gogol pode penetrar profundamente no sentido dessas palavras se nunca sentiu frio. Haviam mesmo retirado a nobre denominação de casaco para tratá-lo desdenhosamente por “capote”. como um tu. que não deixa dormir à noite e. Gogol desenha o quadro familiar com que muitos de nós nos lembramos dos anos mais difíceis de nossas vidas. Não se sabe mais se fala de Akaki ou de si: “que tem de particular. sua vergonha. A construção de Dostoiévski é a seguinte: primeiro. (p. trajado como um homem pobre. o pano havia assumido a transparência de uma gaze e o forro havia praticamente desaparecido. cinco ou seis ruas. caminhar nas pontas dos pés para não estragar as botas? Para que hão de encher-se páginas e páginas a custa do próximo. Gogol escreve: É preciso observar que o capote de Akaki Akakiévitch alimentava também os sarcasmos de sua repartição. Na repartição. ainda que emocionada. Encurta com a corrida a “distância fatal” para doer menos o que. que congela os corpos pela manhã ao sair de casa. quando o piso da rua é mau. as temperaturas caem até a -8° entre novembro e março. para dizer que às vezes tem as suas dificuldades CORPOS . Ouvimos na leitura dessa carta sua voz. Ao escrever Gente Pobre produz um diálogo que vai além do sentido das poucas palavras de Gogol a esse estar entre as pessoas. Imagino que Dostoiévski. O casaco roto é. Esse homem é objeto de nossa contemplação. O capote feio é ao mesmo tempo o objeto mais precioso e o mais abjeto. De fato. quem já sentiu frio. como um homem russo do século XIX também se solidariza com Akaki Akakiévitch. a isso reage. mundo enregelado e hostil. Primeiro declama um histórico de bom funcionário. sua revolta. embora possa com ele me solidarizar. ela é a dor de um terceiro que não sou eu. praticamente nesse momento estamos na sala com ele. sabe a intensidade.

O valor. da vida de Akaki Akakiévitch. e com toda razão [. 224). pois já se sabe que tudo neste mundo pode prestar-se para zombarias. 130 de dinheiro e que nem sequer prova chá?” (p. “Vamos. de um outro a quem gostaríamos que nos considerasse especialmente honrados. ele diz a ela seus planos para melhorar o vestuário: Com cinco rublos compro um par de botas. não se pensa mais em comprar uma nova... pois esta que agora uso já tem quase um ano. e portanto. o valor dessa condição frente ao ministro aqui antecipadamente se revela. por agora. mas como me deu um avental velho. Sim... Estar diante do outro. Sua irritação é com a exposição dessa condição. minha filha. pelo tom emotivo da personagem e de sua dor. que até pela maneira de andar podem conhecer uma pessoa! (idem. oculta-se. Até tremo quando penso que Sua Excelência poderia reparar em semelhante prova de desleixo e dizer-me qualquer coisa. De maneira que botas e gravata já eu tenho. fosse obrigada a tomar chá! Por acaso olho eu para a boca dos outros. 225) Em outra carta Makar Diévuchkin diz a Várienhka que as “dívidas e o péssimo estado da minha roupa me aborrecem enormemente”. Aqui os botões aparecem pela primeira vez. tanto a pública como a privada. para saber o que comem? Fiz eu algum dia semelhante ofensa a uma pessoa? Não. p. sem exceção.. Com certeza que há de estar de acordo comigo a respeito dos botões: não se pode passar sem eles e a casaca do meu uniforme não tem mais nem metade dos que tinha. Também não deixava de vir a tempo uma gravata. Sua certeza de ter sido exposto segue-se na revolta: Uma pessoa esconde-se. É justamente frente à Sua Excelência que a condição suportada se tornará insuportável. Então por que fazer mal a quem mal não faz?” (idem). nos anos em que economizou para comprar o novo capote. a cena de Diévuchkin diante do ministro expressa o tom emocional que me arrisco dizer que a maioria de nós já viveu de alguma forma.. Mas a descrição que está exposta é a sua própria: “Como se toda gente. minha filha. Aqui está tudo escrito. Makar não conseguirá o empréstimo e seu pesadelo se tornará realidade.. tudo. põe a tua vida toda a reluzir em letra de forma. por Gogol.] Só de pensá-lo sinto uma tal vergonha que até me parece que desfaleço. não sei se amanhã terei coragem para apresentar-me na repartição com estas que possuo. Pois digo-lhe a verdade. não só fiz um peitilho como também uma gravata. prenunciando o contexto de valor de Makar Diévuchkin como o homem que se envergonha da ausência destes em sua casaca. Assim como Gary Morson (2015) disse que Dostoiévski só pôde escrever a passagem da guilhotina de O Idiota por ter ele mesmo passado pela situação da condenação e comutação da pena no último minuto. Tentando pensar como conseguir emprestados 40 rublos. a dor presente todo o tempo que culmina na avaliação pública e no julgamento que confere o CORPOS . e até chega a acanhar-se de mostrar a ponta do nariz por temor das troças.. que tudo se publique e se leia e provoque motejos e risadas!” Já uma pessoa não pode sair à rua. não poderia sobreviver a essa vergonha. expondo o signo da miséria é o vexame maior. É a cena mais forte do romance. O que me falta ainda são os botões. acobarda-se...

Estava tão emocionado que me tremiam os lábios e as pernas. Foi então que percebi onde estava. Sua Excelência chama-o imediatamente.... os meus pés é que me levavam porque eu. Makar Alieksiéievitch.. caiu de repente (talvez eu lhe tivesse mexido sem dar por isso). minha filha! Em primeiro lugar porque sentia uma imensa vergonha. Então curvei-me para apanhar o botão e colocar outra vez no seu lugar aquele desertor inoportuno. mas não podia. E ainda por cima conseguia rir-me do sucedido. que era suficiente? Fiquei rígido. que ainda agora mesmo me envergonho de contar. Eu ouvia apenas palavras soltas que me pareciam vir de muito longe: “Descuido! Negligência! Só serve para provocar contratempos!. tudo quanto tive para dizer a Sua Excelência! As consequências não se fizeram esperar. Mas em vez de reparar a minha tolice. logo a seguir. no meio do silêncio sepulcral que ali reinava.. que é preciso enviar imediatamente! Em que estava pensando. foi tombar sobre o chão e.” Abri a boca... até o gabinete de Sua Excelência. de pôr-me em posição de sentido. e à volta todos os outros. De repente aconteceu alguma coisa. minha filha.. vou e ponho-me a querer prendê-lo no lugar donde pendiam apenas dois fiozinhos. mas este continuou a rolar como um pião e por mais esforços que eu fizesse não conseguia alcança-lo.] Até que por fim consegui apanhar o botão.. Causou-nos um transtorno terrível com a sua cópia!” Foi isto apenas o que ele me disse. de pé.. Acrescente-se a tudo isto que eu sempre tenho procurado conduzir-me de maneira como se não existisse. à direita.. pelo que nem de longe poderia supor que Sua Excelência tivesse qualquer notícia acerca da minha pessoa.. Não é verdade. que estava apenas preso por um fio. Estava completamente atordoado! Agachei-me e estendi a mão para apanhar o botão. Causou-nos um transtorno terrível com a sua cópia!” Foi isto apenas o que ele me disse. sim ainda tinha a desfaçatez de me pôr a rir. pedir perdão.. De maneira que estava assim a dar grandes provas da minha habilidade! Senti que me fugiam as últimas forças e que tudo estava perdido.. [... Toda a dignidade desaparecera: a minha parte humana estava absolutamente aniquilada. minha filha.. o meu botão..] Pois Sua Excelência. o motivo disparador do encontro? O erro de Makar Diévuchkin sobre o parágrafo copiado. já não sentia e fui até ao gabinete do ministro. E não me faltava razão para isso.. como se ele pudesse ficar ali colado. mas foi o bastante... o diabo o leve. esqueci-me de fazê-la. alguma coisa. Não é verdade. exclamou imediatamente: . [. muito aborrecido. Sua Excelência chama-o imediatamente. acabou por ir cair mesmo aos pés de Sua Excelência. Via apenas que Sua Excelência estava ali. a minha desculpa... Sair a correr... a rolar. criatura? Onde é que tinha os olhos? Um documento desta importância.. a cena escrita por Dostoiévski é uma das mais comoventes de sua vida de escritor.... e depois porque ao voltar casualmente a vista. Foi essa a minha justificação. e ao ver-me num espelho.. homem? E ao mesmo tempo Sua Excelência voltava para Ievstafi Ivânovitch. estava mais morto do que vivo! Conduziram-me através de uma sala. que o faz ser chamado à presença de Sua Excelência. o meu botão. propriamente. Creio que nem sequer fiz uma reverência. Makar Alieksiéievitch.. tive motivo mais do que suficiente para me deixar cair no chão. fixou-se atentamente no meu aspecto e no meu fato. (261-263) Qual foi o corte... 131 fim do humano em nós. Com isto fica tudo dito. que era suficiente? CORPOS . Quero dizer. Eu pensei que estava a ver-me no espelho. Sua Excelência.. Dessa forma. e a vamos ler a partir dos valores cronotópicos da cena. Não posso dizer-lhe ao certo nada do que pensei naquele momento. mas foi o bastante. como morto. mas não disse nada. Mas nisso nem era possível pensar. depois doutra e doutra. Queria desculpar-me. minha filha.Mas que disparate vem a ser este que pôs aqui.

Interessante é pensar no cronotopo da repartição pública do ministério como lugar de reunião de homens de diferentes classes sociais e hierarquias. o branco da neve gelada ressalta mais ainda a densidade do interior do ministério. com as suas diferenças espalhadas na geografia da cidade (separação essa naturalizada. A publicização de sua condição privada a partir de sua própria culpa. em um rápido olhar. e ali vive sua existência. e com toda razão [. os corpos e o encontro dos corpos – o tempo condensa-se e torna-se lentíssimo – o contrário da vida que é quick ou zhivoi – e a pobreza como realidade concreta emerge em um flash. Conforme se reduz e se comprime o espaço entre os dois – as salas e a sala final. A chamada à sala do ministro explicita. a multiversidade social da visão da cidade de São Petersburgo. ainda que separados em diferentes repartições. O cronotopo avizinha. um homem pobre. em compressão. nessa junção inesperada o contexto de separação que. agora ocorre com ele. em lugares que geograficamente marcam o centro e as periferias das cidades. O trecho que está anterior ao evento trata de uma morte anunciada: Até tremo quando penso que Sua Excelência poderia reparar em semelhante prova de desleixo e dizer- me qualquer coisa.] Só de pensá-lo sinto uma tal vergonha que até me parece que desfaleço. aparece especialmente no vestíbulo. a morte. que já não vemos). em um mundo separado de outros homens como o ministro. de seu erro caligráfico – sua punição. Makar mora em um cubículo de uma cozinha de uma casa de cômodos. não poderia sobreviver a essa vergonha. Makar Diévuchkin. O cronotopo denso do ministério será comprimido mais ainda a partir do erro de Makar Diévuchkin.. de aparecer – há a suspensão do tempo real CORPOS . que tanto aparece em Gogol quando em Dostoiévski. Trata-se da exposição pública da vida de um homem. na arte e na vida: os pobres estão separados espacialmente dos ricos. O ministério como cronotopo artístico apresenta.. pelo efeito estético evidencia a crítica à sociedade de classes em São Petersburgo dos anos de 1840. Justamente o que ele condenou em Gogol. Nessa Petersburgo de Dostoiévski. Assim é a cidade. minha filha. Sim. limiar entre a imagem branca do “lado de fora” e o interior do ministério aquecido e movimentado pela tensão das contradições sociais comprimidas. Essa densidade do ministério. homens de diferentes esferas sociais. O tempo da cena do encontro é medido pelo tempo da morte.. o ministro. O erro é o corte.. tendo por lado de fora o frio. de um ocultamento mantido a muito custo por Makar Diévuchkin: estar fora do olhar de Sua Excelência. Pela imobilização do homem na densidade da vergonha – de estar assim diante do outro.. 132 O que é bastante e suficiente aqui é o fim de uma farsa.. Podemos dizer que o motivo que começa a narrativa é a iminência da revelação pública de uma vida concreta privada. narrado densamente por Dostoiévski enquanto estreitamento crescente e tenso do espaço entre os dois personagens... no encontro eu-outro. o motivo do encontro entre Makar e o Ministro. na carta anterior em que se indigna com tamanha invasão da privacidade.

como ejetado pela pressão extrema. chão. encontra sua tumba no sepulcro da ausência de palavras na sala – o silêncio sepulcral. juntando ambos em um eu-outro. que enquanto herói deserda o homem e tomba. olhar. Morte. 133 no silêncio sepulcral: uma dupla imobilidade. Queda do que? Do humano em Diévuchkin. avizinhando os elementos e criando o efeito de suspensão da vida ordinária. quando da escrita de Gente Pobre. o botão é o homem que tomba. esse se torna o protagonista maldito – o desertor – o único que se move. corpo. em alguns sobretudos e kaftans eram muitos e designavam. humanidade – nas suas palavras – revela-se concretamente pelo autor no cronotopo do botão. Como em tantas obras artisticamente fortes. Mais tarde. um ideologema do funcionário pobre – tema muitas vezes tomado por Dostoiévski. o complexo folclórico a que se referia Bakhtin está presente na cena. suprema reverência final. é representante do mundo. em resposta de Dostoiévski a Gogol. Aos pés do outro. habilidade. Era já signo quando narrado pela sua ausência – “não se pode passar sem eles e a casaca do meu uniforme não tem mais nem metade dos que tinha” – e. imagem de homem que Dostoiévski cria é dupla. Parece que vemos em câmera lentíssima esse herói atravessando o tempo denso que lhe resiste. Importante é que não é um homem em si. O CRONOTOPO DO BOTÃO: riso. em 1840. por sua quantidade e CORPOS . o capote é o homem. deixando apenas um fio solto no capote. Dificilmente teremos uma imagem mais potente para dizer do homem diante do homem em sua encarnada diferença – essa mesma construída pelas separações das esferas da cultura e pela divisão social do trabalho. quando presente e desertor. na sequência da narrativa. Aqui. não teria talvez hoje a força simbólica da época de Dostoiévski. vida. É o próprio homem tornado um cronotopo no interior de outro cronotopo. e tomba aos pés do ministro. amor. é ideologema não sublimado. Como personagem. riso. Seria o complexo folclórico em sua força o lume da qualidade estética de um texto? 2. preenchendo em pontilhado temporal o espaço entre os dois homens – o pobre e o rico – em um movimento que vai de cima para baixo. Aleksandr Verchínin nos mostra que. liga os dois homens em sua alteridade. de quem buscava tornar-se inexistente. tomba. por outro. na morte do homem do lado de cá. como um objeto da cultura. redenção. O botão não cai. É diante de Sua Excelência que a falta de dignidade. Em um artigo sobre a história dos uniformes militares russos. por um lado. Por um lado há o homem interior exteriorizado na ação que narra. Seu corpo alegoriza-se na metonímia do botão. como deve ser a queda. morte. ele mesmo vivo. A imagem de herói. mas sim um homem assim porque assim se torna diante do outro homem. alteridade Um botão. em sua dor. os botões eram objeto de realce nos uniformes. O botão. A compressão do espaço no seu máximo – pela vergonha – que dobra sobre si mesmo o tempo saturado imobiliza tudo exceto o botão.

a miséria do homem é revelada no meio da sala. Eram ainda objetos caros. Quero dizer. que posto a público. trazendo o botão de Diévuchkin como cronotopo – o tempo da miséria condensado no objeto que não se sustenta diante da revelação no espaço público. na praça pública que é criada artisticamente na narração literária. ele morre pela primeira vez. É o destronamento do humano em um homem. na reunião pelo movimento do botão. Que espelho é esse? Não o espelho em que me vejo com meus olhos. a visibilidade. ainda que permaneçamos respirando. 134 distribuição. o que vê a si no outro que vê. A cena toda é a tragédia da morte do homem diante do outro homem. e depois porque ao voltar casualmente a vista. Quando diante do olhar de Sua Excelência o ministro. O que sustenta a humanidade de um homem pobre. a hierarquia dos seus portadores. eis a unidade temática da cena. Já a mirada para o espelho portava esse olhar alterado: Em primeiro lugar porque sentia uma imensa vergonha. vejo e é trágico o que vejo. mas o espelho que contém o excedente claro para mim somente nesse instante. Vejamos pelos seus elementos materiais. e cai. e ao ver-me num espelho. já não sentia e fui até ao gabinete do ministro. Duplo de mim no meu olhar invadido e alterado. Antecipo – e não há passagem do tempo. os meus pés é que me levavam porque eu. tive motivo mais do que suficiente para me deixar cair no chão. desmorona o homem. publicamente. o fim de sua farsa. Antecipando – no momento – o que vê o outro. feitos de osso. madeira ou metal que possuíam valor especial. propriamente. é um antecipar no momento do encontro – sua crítica. na distância do olhar. estava mais morto do que vivo! CORPOS . Makar desaba.. ou que se vê na pupila do olho do outro e. e vejo o que sempre esteve ali como se fosse a primeira vez. “Com isto fica tudo dito. “Eu pensei que estava a ver-me no espelho”. Makar Diévuchkin se vê. A força artística do cronotopo complexo do botão é a tensão da contradição social imobilizada no encontro dos homens. No mundo cronotopicamente comprimido por Dostoiévski na repartição. como morto.. Ao ser chamado pelo nome até a sala de Sua Excelência. seu fim é a morte. O que Dostoiévski narra de fato é a cena de uma morte... as palavras da composição. vê o que pensou e tentou ocultar insistentemente até então. A pobreza não é da ordem da vida privada. O que há nesse olhar do outro sobre si que vê o que antes estava aqui e eu não via? Assim é perceber-se mal vestido diante do outro: ver-se com o excedente do olhar do outro em mim. e o é de fato: a primeira vez que vejo com esse olhar alterado pela presença do valor do olhar do outro. e projetada no movimento da queda do botão – reunião trágica do que se revela e se aniquila. Destronamento do que se mantinha privado. nas salas. seu valor. botão sem fio. valor esse que Dostoiévski ressalta. de seu ocultamento: sua revelação. Nessa tensão emerge o olho do outro. cai no chão.”. O acabamento que Makar Diévuchkin sofre no encontro com o outro é a sua morte. até o encontro dos corpos no aperto de mãos.. à direita.. senão essa invisibilidade presumida? A humanidade é a vida. Fiquei rígido. no gabinete. vê-se como se fosse pela primeira vez: é outro-eu o meu próprio ver.

humanizando-a em um nível insuperável. à direita. CORPOS . acabou por ir cair mesmo aos pés de Sua Excelência. desabado de sua existência pobre revelada – com todas as suas forças para prender-se humano cortadas de repente na revelação.. que estava apenas preso por um fio.. pelo que nem de longe poderia supor que Sua Excelência tivesse qualquer notícia acerca da minha pessoa.. Ele tenta colar novamente o botão ao capote. É Makar quem se desprende de seu fato. aflitos para que ela termine. Estava completamente atordoado! Agachei-me e estendi a mão para apanhar o botão. mas este continuou a rolar como um pião e por mais esforços que eu fizesse não conseguia alcança-lo. Senti que me fugiam as últimas forças e que tudo estava perdido.. não há como voltar o tempo. [. O homem está já todo do lado de fora. A imagem de Makar rindo-se. para eles: E não me faltava razão para isso.] [grifos meus] A primeira vez que Makar tomba. é por sua própria vontade: “me deixar cair no chão” é ato voluntário. gesto fatídico. não é mais possível estar vivo daquele modo surrado e miserável. o meu botão. humano na morte. 135 Mas essa sensação de torpor ainda não é a morte. ainda que ele a desejasse. é grotesca. Ao ver-se no espelho na presença dos homens no gabinete.. Toda a dignidade desaparecera: a minha parte humana estava absolutamente aniquilada.. no final do drama. já que se revela vivo na relação que trai seu projeto de como se não existisse para aquele outro. Os elementos materiais da composição da narrativa da queda do botão são tomados de imagens relacionadas à morte – o diabo o leve – foi tombar – silêncio sepulcral. Mas no encontro condensado do cronotopo que fica cada vez mais apertado. e depois porque ao voltar casualmente a vista. tarefa impossível: após morrer. foi tombar sobre o chão e.. caiu de repente (talvez eu lhe tivesse mexido sem dar por isso). De maneira que estava assim a dar grandes provas da minha habilidade! Makar volta a si e vai buscar-se no chão. a morte advém do fato de ser visto dessa forma pelo outro. tombado. e ao ver-me num espelho. tive motivo mais do que suficiente para me deixar cair no chão. o diabo o leve. com seus olhos. mas esse rodopia e traz o patético para a cena. mas ela ainda continuará. a rolar. ele revela seu projeto de estar morto em vida. o meu botão. minha filha! Em primeiro lugar porque sentia uma imensa vergonha. Então curvei-me para apanhar o botão e colocar outra vez no seu lugar aquele desertor inoportuno.. de seu capote indigno e cai. A imagem é lenta porque o tempo é tão condensado que vemos cada passagem desse tombo. Acrescente-se a tudo isto que eu sempre tenho procurado conduzir-me de maneira como se não existisse. no meio do silêncio sepulcral que ali reinava. E ele ri: a vizinhança da morte e o riso trazem o complexo folclórico para a textura da cena.

136 Mas o que resulta a seguir é o inesperado – para Makar em sua morte. Tentei pegar-lhe na mão para beijá-la mas ele ruborizou-se. isto é tudo o que posso. senão em sua compaixão. (p. como a um igual. de alguma pessoa altamente colocada. e nesse momento único. CONSIDERAÇÕES FINAIS E POSSÍVEIS ANÁLISES ULTERIORES Na narrativa literária lida cronotopicamente. desde São Petersburgo e suas separações. Reconhecido como existente. na equipotência das mãos que se encontram “como se fossem iguais”. um momento onde toda a humanidade torna-se uma. parece que é uma imagem do humano enquanto centro de valor único que emerge. minha filha. aceite. e. puxando da carteira. Em tantas outras leituras que temos tido contato. 253) Makar vive essa resposta do ministro como o sinal da restituição de sua vida em outras bases. um seu igual. alteritariamente. No estender e encontrar das mãos o Dostoiévski alcança a maior compressão cronotópica: aqui Makar eleva-se na existência igual ao ministro. que nos ensina que a autoconsciência está toda do lado de fora: é diante do outro. Não há superação das relações de classe. ao dizer isto. na complexidade do cronotopo criado por Dostoiévski. Makar ao contrário morre – enquanto pobre – e renasce reconhecido como humano. pegou nela simplesmente e apertou-ma tal qual como se fosse a mão dum seu igual. A força desse enunciado é por podermos escutar tudo isso “de dentro” da autoconsciência de Makar Diévuchkin. pela leitura das formas que tomam o tempo e o espaço valorados nas diferentes obras artísticas. imediatamente Sua Excelência. pode-se compreender a imagem de homem criada pelo autor na personagem. ao dizer isto não me afasto nem um milímetro da verdade.. A densidade da relação social da cena encontra aqui nesse desfecho a miséria humana em sua verdade mais crua. amorosamente eu- outro. mas o desejo de ser igual na pessoa altamente colocada.. reunindo toda a contraditória e esmagadora condição social da pobreza. Logo que o último tinha acabado de sair. Aqui nessa leitura chegamos à imagem de homem que Makar Dievúchkin afigura. Makar existe enquanto ser amorosamente afirmado. E. Várienhka. Desde a nossa leitura do texto Formas do Tempo e Cronotopo no Romance vimos percebendo que o homem/herói é CORPOS . Igualado não na diferença social. ele pegou na minha mão indigna e apertou-a. que se pode ver a si com o excedente do olhar do outro em si. O outro lhe estende a mão e o firma. percebemos o adensamento gradativo do tempo pela compressão do espaço.... até o botão que une os dois homens concretamente. como ele. como ele. tirou uma nota de cem rublos. . Como Bakhtin realizou nas nove partes de seu texto Formas do Tempo e Cronotopo no Romance. humanas. sim. Então senti um estremecimento em todo o meu ser e não tenho palavras para descrever a comoção que me tomou. meteu-me a nota na mão.. onde o cronotopo artístico vem sendo compreendido como descrição possível do ato responsável.. mas elevado. exatamente o contrário de seu projeto de tornar-se não existente para esse outro..Olhe. pois equipotente. O ministro não se move.

Forense Universitária. Contexto. GOGOL. São Paulo. a partir da entrada do cronotopo não terá o sentido da compreensão da imagem de homem que o autor constrói. Trad. do russo de Paulo Bezerra. L&PM. 2002. São Paulo. Será o cronotopo a chave para a descrição do ato responsável. et al. PONZIO.34. 2009. Trad. Fiódor. Na literatura. Nicolai O Capote. de Fátima Bianchi. 2008. No cronotopo artístico. como morte-vida-riso e outras séries do complexo folclórico. Gary Saul. Ed. de Roberto Gomes. Augusto. Brasil. 2013. Rio de Janeiro. Brasil. mais do que entender o espaço e o tempo da imagem literária? Aqui nesse texto. O Cronotopo da Humanicidade: Bakhtin e Dostoiévski. VOLÓCHINOV. Parábola Editorial. essa imagem de homem cria um tipo de humanidade que está presente na vida. MORSON. n. devo colocar em ação na vida (Bakhtin): formas de compreender e reinventar o humano na arte e na vida.34. PONZIO. Mikhail. A Revolução Bakhtiniana: o pensamento de Bakhtin e a ideologia contemporânea. Bakhtin parece estar nos dizendo que o ato humano é possível de ser apreendido enquanto espaço e tempo valorado. na arte e na vida? Ler o humano na obra de arte. Trad. aplicações. Aquilo que aprendi na arte. Corposcritto. do homem em ato. REFERÊNCIAS BAKHTIN. criados pelo autor. DOSTOIÉVSKI. o humano enquanto valor parece ser acessado pela leitura do tempo e espaço do herói. Lecce. o que se buscou foi encontrar a imagem de homem/imagem do herói em suas possibilidades estéticas de ser. Brasil. poesia. CORPOS . 2017. BAKHTIN. perspectivas. São Paulo. Dagli appunti degli anni Quaranta. mas que muitas vezes não é possível ver. Augusto. 2004. 137 possível de ser revelado no projeto de dizer do autor pelos elementos do cronotopo: espaço. O Cronótopo na Obra de Bakhtin. BAKHTIN. Edizioni dal Sud. Luciano. Problemas da Poética de Dostoiévski. Brasil. In: Bemong. Porto Alegre. Brasil. Marxismo e Filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Valentin. 2013. pelas separações sociais das esferas da cultura. Questões de Literatura e de Estética: a teoria do romance . Assim como na leitura do poema de Puskhin ao fim de Para uma Filosofia do Ato Responsável. Brasil. Hucitec. 2011. In: Palavras e Contrapalavras: circulando pensares do Círculo de Bakhtin. do russo de Augusto Ponzio. 2015. 2016. Gente Pobre. 5. Bakhtin e o Cronotopo: reflexões. bem como no ensaio de Bakhtin Formas do Tempo e Cronotopo do Romance. Trad. PONZIO. São Carlos. tempo e valor. São Paulo. Bari. do russo de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Trad. na arte. Visioni del testo. Talvez por isso essas imagens artísticas possuem mais força quanto mais avizinham esferas da cultura que foram separadas. Nele. e outras formas de arte. São Paulo. Pensa MultiMedia Editore. Brasil. Mikhail. Pedro & João Editores. Brasil. Mikhail. Ed.

e meu presente como professora. Palavras-Chave: Tatuagem. 56 Mestranda em educação no Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. me encontrava em diversos questionamentos pertinentes à docência. as reflexões sobre práticas docentes efervesciam na mente. Ato Responsivo. Logo. carregada de sentidos diversos. Com uma proposta de emprego para assumir uma turma de Pré-Escola I em uma escola da zona sul na cidade do Rio de Janeiro – com crianças de aproximadamente quatro/cinco anos – as indagações sobre a docência surgiam à medida que o caminho se desdobrava diante de meus pés. presente numa apostila de artes enquanto cursava a 5ª série. e rememorar as expectativas. membro do Grupo de Pesquisas Culturas e Identidades no Cotidiano. busquei retornar aos momentos de minha infância. Perante aos desafios. futuro. 138 RESUMO TATUAGEM COMO O presente texto intenciona relacionar os RESISTÊNCIA NAS atravessamentos acerca da docência. procurava resgatar memórias que me faziam revisitar um local aproximado aos quais meus futuros alunos se encontrariam. indagações sobre o tornar-se docente. Foi quando me deparei com a memória da obra de René Magritte. Resistência.com CORPOS . principalmente na relação do processo de letramento precoce na educação infantil – que ocorre na maioria das instituições. do corpo e da relação com o outro. reflexões sobre as práticas vividas como discente. “pouco a pouco”. e a tatuagem como marco de resistência PRÁTICAS DOCENTES e força no comprometimento consigo e com o outro no cotidiano. este artigo tem o objetivo de abordar a relação entre a obra que torna-se tatuagem em meu corpo. mesclados entre passado. Portanto. E-mail: luciana- lmota@hotmail. Ao mesmo tempo. e a proposta de um diálogo inicial com o ato responsivo de Bakhtin. Luciana Lima da56 INTRODUÇÃO P restes a colar grau no curso de Pedagogia na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO. como aluna. aterrissava em minha rotina. e sua profunda relação com meu passado como aluna. angústias e demais sensações sobre a época na qual o letramento. “Espelho Falso”.professora de educação infantil contratada do Colégio Pedro II. ao me ver professora. bolsista CNPq. MOTA.

a obra de Magritte intitulada “Espelho Falso” ganha minha atenção. no início do ano. a obra trazia uma sensação de deslocamento e ao mesmo tempo. Matisse.com A meu ver. E A APOSTILA DE ARTES. uma apostila. de René Magritte. não era um formato de livro. grandes expectativas. cujo seu conteúdo trazia abordagens iniciais de diferentes artistas. Tarsila do Amaral. 139 1.wahooart. até poder estrear finalmente os grandes momentos de escrita com caneta esferográfica azul. a imagem cobria quase a metade da folha em formato A3. 5ª SÉRIE. As nuvens por detrás dos olhos. LUCIANA. lembro-me de perceber algo diferente. desde corrigir os ímpetos de chamar as professoras de “tia”. mas não foi seu tamanho que causou impacto. Passaram-se tempos desde que havia visto pela primeira vez a obra de Magritte. que ainda assim. Salvador Dalí. traziam sorrisos aos lábios. Aleijadinho. um olho que olha fixamente. Magritte. continuava presente em minha vida. mas sim. nas folhas de fichário recém-adquiridas para o novo ciclo. Grande. Fonte: pt. de capa vermelha. soava como um diálogo justo para minha perspectiva de dez/onze anos de idade. o material didático da disciplina de artes. porém ao vê-lo. Folheando as páginas da apostila. dá a ideia de nos permite ver o que há dentro de si. Primeiro ano do segundo segmento do ensino fundamental. de conforto. Ao recebermos. Figura 1. Picasso. e por aí em diante. “Espelho Falso”. se bem me recordo. Enquanto os rascunhos destinados às últimas folhas dos cadernos eram preenchidos por tentativas de desenhos de olhos. eu seguia indagando o motivo pelo CORPOS . o céu azul que rememora o carinho por dias de praia ensolarados e a sensação de bem-estar.

deslocador. conversasse em alto e bom tom com a Luciana da atualidade. Em meio à tudo isso. fiz minha decisão: dois dias antes de colar grau. Dentro do âmbito da educação infantil. das letras. os questionamentos sobre que tipo de professora eu me tornaria seguiam. Ao aprofundar os estudos sobre educação na época de graduação. revoltante. retorno à uma infância que deixou de explorar o prazer das brincadeiras com aquarela para melhorar a curvatura de letras. (BRASIL. e só percebi isso na 5ª série. tatuei a obra de Magritte na face interna de meu braço esquerdo – e as promessas sobre ser uma professora na qual eu acreditava. aquilo soava ultrajante. 2. mas como grande investimento na leitura de mundo que a criança vive diariamente – como consta nas Diretrizes Curriculares Nacionais: adotar estratégias para que seja possível. e este assunto torna-se um debate constante quando instituições (como a escola na qual viria a atuar) assumem a potencialidade do letramento não como mera decodificação de símbolos e códigos. prestes a colar grau no curso de Pedagogia. A primeira dizia: “Deixei de desenhar para aprender a escrever. por lei. onze anos. social e ecológico. uma constatação alcançou as reflexões atravessadoras. muito se discute acerca do processo de letramento da criança. espaços e sentidos.”. e ainda assim. bem como as tentativas de desenho de olhos. algumas contextualizações precisam ser feitas. a compreensão do significado das ciências. me peguei revisitando alguns momentos marcantes como discente. alguns costumes se mantinham. era como se a Luciana de dez. OLHARES Antes de debruçar-me em sentidos subjetivos sobre o caso. Neste dado momento de minha vida. nos anos iniciais do ensino fundamental. ao longo da Educação Básica. Sendo professora de uma turma de quatro/cinco anos em uma escola particular na zona sul do Rio de Janeiro. 140 qual aquilo me atravessava tão brutalmente. não considero um acaso perceber que. é defendida como vasto campo de possibilidades para vivenciar as diferentes perspectivas e potências a partir das e com as crianças. Para a Luciana de 24 anos. Não tardei a entrar na faculdade depois que me formei na educação básica. alguns impasses surgem conforme as reflexões acontecem. 2013. do esporte e do lazer. a fim de que não parecessem verdadeiros “garranchos”. 33) Além deste processo ser compreendido. como nos era pontuado na época da alfabetização. como primeira fase da Educação Básica. iguais (ou não) aos que a apostila de artes havia me mostrado sobre Magritte. o conhecimento científico pertinente aos diferentes tempos. desenvolver o letramento emocional. p. das artes. de forma atemporal. Por não querer que meus alunos deixassem de desenhar para começar a escrever. a educação infantil. CORPOS . Dentre indagações como “não seria a escrita uma forma de desenho?”. seguiam. a fim de refletir sobre a prática docente e que tipo de professora eu poderia me tornar.

228) Quantos momentos fora da repetição me acompanharam desde a quinta série (ou antes) até aqui. presente e futuro. e sua parte interna ainda não era facilmente vista. 2011. outros rostos ainda perplexos. Buscando imaginar o que as crianças da futura turma reservariam de indagações e percepções acerca de minha prática. Muitas perguntaram o motivo pelo qual fiz isso. testas franzidas e onomatopeias habitavam a sala. A pesquisa em educação realizava esse deslocamento em mim. ergui o braço e apontei para a novidade. p. 2014. para que eu decidisse trazer. uma história que correlaciona passado. Meu braço estava enfaixado por plástico filme. em uma releitura da obra de Magritte. em outras palavras. pensava em constante diálogo sobre o que eu. Vinte e duas crianças sentavam-se ao redor. Ingênua ou não. entre professora e auxiliar de turma. vivenciado. quase sempre. lhes dizia “Fiz isso por mim quando tinha a idade de vocês. enquanto criança. como invenção. no chão. a nova tatuagem da nova professora. seja como vivência própria. Eu também me estranhava. seja na categoria do outro-para-mim. mas principalmente naquilo que está presente como criação anônima do “homemcomum”. O momento da roda como parte inicial de nossa rotina aos poucos agregava-se como uma oportunidade de compartilhamento das novidades. Mas cada vez mais. pensava sobre as práticas que gostaria de ter visto. assim como anuncia Certeau (1994). mas acredito ser imprescindível a reflexão sobre tais possibilidades a fim de buscas aproximadas sobre práticas dialógicas. Dentre brincadeiras de respiração e corpo. como pontua Passos (2014) no trecho abaixo: Trata-se de uma perspectiva dialógica que contribui para a compreensão do cotidiano. 141 Refletir sobre essas práticas – as vivenciadas como aluna e as que estava prestes a assumir como professora – realocam os pensamentos sobre o que Bakhtin (2011) na passagem abaixo: Da mesma forma. (BAKHTIN. estranhar-se a fim de revisitar a si e o outro. Alguns sorrisos. 3.” Muitos estranhamentos estavam estampados nas carinhas da turma. p. Uma vez ouvi de uma colega do grupo de pesquisa: “Consciência é um caminho sem volta”. Olhos tão surpresos quanto os de Magritte me encaravam de volta. em relação à docência? Os encontros do cotidiano alargam CORPOS . não naquilo que ele carrega de repetição e reprodução. curiosas sobre a novidade da novidade. uma emoção interior e o todo da vida interior podem ser vivenciados concretamente — percebidos internamente — seja na categoria do eu-para-mim. As crianças logo se aproximaram. A RESISTÊNCIA NA TATUAGEM E SENTIDOS ALÉM: corpo como promessa Era uma tarde ensolarada. seja como vivência desse outro único e determinado. próprio. tornava-se algo assinado. 44) A relação do eu-pra-mim abria-se à medida em que pensava sobre a relação do outro-pra- mim e vice-versa. É claro que tais estratégias não possuem soluções especiais para uma prática que contemple à todos. (PASSOS. participado.

as interações e possibilidades de interlocução são diversas. 142 horizontes. Busco. quando cursava a quinta série? Não trago respostas. é o que dá fluxo ao movimento – das práticas. A tatuagem Fonte: Instagram. nem palavras que encerram essas possibilidades. as pessoas que cruzo na rua? A gama de respostas é infinita. que ressignificam a todo momento os sentidos que dialogam com a tatuagem. demonstrar de certa maneira como penso a relação da tatuagem com a resistência. mas a responsabilidade da mensagem inicial que me fez agir. que enxerga de volta dentre as nuvens e céu azul da imagem – aquilo lhes diz algo aproximado ou diferenciado do que Magritte me dizia. mas encontro.com O que diz minha tatuagem quando sua imagem precede meus intentos? O que vêem as crianças. encontra-se a delicadeza dos detalhes. meus colegas de trabalho. Na consciência já abrangida. a fim de descobrirem diferentes possibilidades de expressão e o habitar na contemporaneidade: CORPOS . Que na medida do possível. me encaminhando para a resistência da tatuagem. 2014) do ato responsivo ao olhar no espelho. o olho que vê os olhos da criança. Figura 2. conforme ocorrem as vivências. Resisto ao não desejar que os momentos livres das crianças se resumam a estratégias de letramento. O encontro (Passos. da vida. por meio da citação abaixo. sigam vinculando arte e vida. CONSIDERAÇÕES FINAIS A ideia inicial de trabalhar o ato responsivo a partir da perspectiva bakhtiniana ainda é uma proposta na qual aos poucos me debruço. daquilo que não é mero acaso. das coisas belas.

Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica / Ministério da Educação. n. Para uma Filosofia do Ato Responsável. Questão do grande tempo. futuro do diálogo. Curitiba. 2011. tais sentidos serão relembrados e reviverão em forma renovada (em novo contexto). BRASIL. Brasil. Educar em Revista. Estética da Criação Verbal. mas em determinados momentos do sucessivo desenvolvimento do diálogo. 2014. jan. experiência dialógica e processos de identificação. 2011. 143 Não existe a primeira nem a última palavra. (BAKHTIN. Mailsa Carla Pinto. acabados de uma vez por todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de desenvolvimento subsequente. e não há limites para o contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites). DICEI. Encontros cotidianos e a pesquisa em Educação: relações raciais. Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo existem massas imensas e ilimitadas de sentidos esquecidos. p. nascidos no diálogo dos séculos passados. _________./mar. isto é. PASSOS. São Carlos: Pedro & João Editores. CORPOS .410) REFERÊNCIAS BAKHTIN. SEB. p. São Paulo: Martins Fontes. Mikhail. Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação. Brasília: MEC. 51. em seu curso. 227- 242. Nem os sentidos do passado. 2013.562p. 2010. podem jamais ser estáveis (concluídos.

2014. em culturas não ocidentais. envolve “a destruição da ordem habitual do mundo na livre excentricidade das imagens” (SCHLEGEL. e da “harmonia possuída”. p. distinguindo-se da “harmonia perdida”. o grotesco perturba. contribuindo para um tipo de atmosfera psicológica em que o familiar torna-se estranho.conforme o termo freudiano Unheimlich (FREUD. É com esse sentido perturbador que o grotesco também tem sido utilizado como meio contundente de crítica estética. João Vianney Cavalcanti57 D iversos são os sentidos do estilo grotesco. social e política – espécie de continuação da atitude decadentista de “épaterlebourgeois” – tornando-se estilo frequente nas vanguardas do início do século XX e também na arte contemporânea. que também denomina arabesco. Ato Responsivo. Pode ser instrumento de sátira. como também o sentido positivo de fecundidade e renovação. denunciando alegoricamente defeitos morais. líder do Grupo de Pesquisa Literatura e Cultura da UnB. 2010). 57 Professor Adjunto de Teoria da Literatura da Universidade de Brasília (UnB). Resistência. que demanda uma capacidade interpretativa mais sofisticada do receptor. entre outras gravuras de sua série Caprichos. 280). Francisco de Goya constrói plasticamente a relação entre o grotesco e o que Freud denominaria inconsciente. uma das manifestações do feio. pois essa função do grotesco é próxima ou coincide com a ironia. p. 1996). o grotesco. o grotesco. Pode representar o mal. NUTO. por um lado envolve crítica. 2014. é o efeito perturbador do grotesco. Para Schlegel. F. como explica Kayser (2003). p. atuando por contraste (HUGO. No entanto. tem sentindo ambivalente. apud ECO. também pode ser interpretado como provocação gratuita ou manifestação de puro mau gosto. 33). 1997. CORPO POLÍTICO Palavras-Chave: Tatuagem. p. No contexto de um romantismo gótico. Para Umberto Eco. associado ao cômico. ainda que seu efeito possa variar do horror ao riso. também representa divindades benévolas. o grotesco exprime o horror. 9). 2012. Seja como for. Em sua manifestação carnavalesca. em sua análise de obra de Rabelais (BAKHTIN. como explica Bakhtin. abrangendo não somente os aspectos negativos da sátira. 144 RESUMO CORPO GROTESCO. presente no sublime e no trágico. Já no final do século XVIII. 135). mas. Para Victor Hugo o grotesco realça o sublime. que induz à serenidade. choca. o grotesco. na gravura “O sono da razão produz monstros” (GOYA. inquietante. CORPOS . própria do belo e do gracioso. se. o demoníaco. exprime a “harmonia perdida e malograda” (ECO.

como a estética dragqueen (SONTAG. em suas manifestações primordiais. 2002. Observa Bakhtin (1996) que. já indicia uma crítica ao comportamento repressor da “heteronormatividade homofóbica”. Trata-se. “nas culturas em que existe um forte senso de pudor. Como observa Umberto Eco. era também vinculado ao sagrado. Originalmente um insulto. 2014). Reação mais escrachada à norma é o estilo camp. 2014. Na religião cristã. cujo caráter performativo foi apontado e analisado por Judith Butler (2002). A utilização de um termo de baixo calão para designar determinado campo de estudos por si só é uma provocação. influenciando diversos estudiosos. e também pelo fato de não ter qualquer restrição ao ingresso de menores de idade.1987. ou seja. especialmente em suas manifestações cristãs. em geral. Neste caso. aceitar todos os aspectos da corporalidade” (ECO. enfim. é nítida a distinção entre a representação das imagens santas – todas baseadas na representação corporal completamente antigrotesca. no baixo calão da língua inglesa. a partes e funções do corpo relacionado com as necessidades. a mostra foi acusada de fazer apologia à zoofilia e à pedofilia. por meio do próprio significante. 2002) e Guacira Lopes Louro (LOURO. passou a ser utilizado a partir dos anos 80. A respeito disto. de uma estratégia simbólica que. 145 O grotesco torna-se ainda mais perturbador. Por causa das imagens associadas à sexualidade – inevitável. que tem o sentido original. 2004). um papel dominante em boa parte da literatura do século XIX e nas vanguardas do século XX. no sentido de não assimilação ao padrão oficial bem comportado. p. portanto. 2014. como é o caso. LOPES. p. de que é exemplo o culto a Dioniso. é também utilizado. e cultura. oponha-se aos padrões de beleza sensual da maioria dos filmes pornográficos (os “corpos de modelo”). muitas delas com exploração de traços grotescos e representações do baixo material e corporal. Somente com o desenvolvimento das sociedades de classe é que o grotesco cômico foi sendo afastado das cerimônias oficiais e relegado para a cultura não oficial. em nome da fé cristã. acusações de pornografia não são incomuns. ainda que o corpo grotesco. associado ao carnavalesco. O termo. quando – com o sem o espírito carnavalesco analisado por Bakhtin – envolve a representação do que o pensador russo denomina “baixo material e corporal”. o grotesco. como o próprio título da exposição indica –. ao mesmo tempo. Todas essas considerações vêm a propósito da polêmica sobre a exposição “ Queer Museu”. no Brasil. associado a certos exageros. “estranho”. como sinônimo de homossexual. nos Estados Unidos. cabe uma breve relação entre grotesco e sagrado na cultura ocidental. de “esquisito”. Trata-se de uma exposição de manifestações artísticas relacionadas com o conceito de queer. de Denilson Lopes (LOPES. que é a obscenidade” (ECO. ECO. se regozijasse com a interdição de um tipo da “arte satânica”. em Porto Alegra. os prazeres e os efeitos fisiológicos (BAKHTIN. Afirma Umberto Eco que o obsceno “vai adquirir. 323-383). popular. com ênfase proposital no caricatural. que CORPOS . o gosto por sua violação manifesta-se através do oposto do pudor. p. Não faltou quem. 131). A exposição “Queer Museu” foi encerrada abruptamente por causa da oposição violenta de grupos conservadores. justamente para destruir os tabus bem-pensantes e. sexualidades marginais. em comparação com outras culturas. ou melhor. para designar toda uma série de estudos relacionados com homossexualidade. 150).

o mesmo não se pode dizer do outro. bastante longo e ainda basto e no cavanhaque aparado. p. acentuando- se. ou melhor dizendo. mas também eram claras demais e decerto muito justas. quifrisaitlacinquantaine. p. A representação grotesca do Diabo infunde pavor no homem medieval. Trata-se do indivíduo cujos traços físicos e psicológicos tornam-no passível de vir a praticar ações antissociais ou mesmo delituosas. 182). Grotescas são as representações dos pecadores. nunca as de Deus. dos diversos pegados. 2014. ele agora é mais perigoso e preocupante. 182). tem o Diabo quando aparece a Ivã Karamavov. 146 Bakhtin denomina “clássica”. apresentando-se como uma pessoa comum (pelo menos em representações laicas). como já não se usam hoje em dia. porém já gasto. dos diabos e de Satã. Fausto. tinha boa aparência e minguados recursos nos bolsos. (DOSTOIEVSKI. 2014. como dizem os franceses. frequentemente com traços grotescos. 822) Já no romance Dr. “no século XX. mas a camisa. o mesmo acontecendo com o macio chapéu de feltro que o visitante trazia e que estava totalmente fora da estação. de Goethe (apud ECO. do inimigo. Como afirma Umberto Eco. de Dostoievski: Era um senhor qualquer. A camisa.]: nem aterrorizante nem fascinante. evidentemente feito pelo melhor alfaiate. abrange o racismo “científico” como as descrições de etnias diversas do branco europeu por CesareLombroso (apud ECO. contraste que se percebe nitidamente nos nos quadros de Hieronimus Bosch. ao contrário. com um tom grisalho não muito pronunciado no cabelo escuro. define a figura do anormal.. No século XIX. baseada nas imagens do deus Pã e dos sátiros (LINK. No Fausto. durante os séculos XVII e XVIII – período que denomina “Idade Clássica” – o discurso psiquiátrico. caso se reparasse de mais perto. a gravata comprida em forma de cachecol. três tipos de anormal: o monstro. após uma série de metamorfoses grotescas. nas representações dos muçulmanos e dos judeus. Em suma. Aspecto semelhante. ele se tornará absolutamente ‘laico’ [. o CORPOS . segundo esta descrição do narrador. mas também provoca-lheriso. pois já não é inocentemente feio como se constumava pintá-lo”. de Thomas Mann. de Jesus e dos santos. foi ganhando traços grotescos. fora do âmbito da religião. também há representações do Diabo bem distintas do estilo grotesco. O outro também pode ser aquele indivíduo classificado como anormal. se o Diabo perdeu seus traços grotescos. p. 1996). como referência aos povos bárbaros. o Diabo tem uma aparência pequeno-burguesa. da Virgem Maria. (ECO. o Diabo assume o aspecto de um gentleman. de sorte que as pessoas bem-postas na sociedade não usavam semelhante vestuário fazia já dois anos. como observa Umberto Eco. Vestia um paletó marrom. A representação negativa do outro. tudo era como usavam todos os gentlemen elegantes. Para Foucault. Já a representação do Diabo. 2008. 1998). No entanto. infernal em sua mediocridade e em sua aparente mesquinhez pequeno-burguesa. As calças xadrez do visitante lhe caíam magnificamente. com um corte de mais ou menos dois anos antes e já totalmente fora da moda. sem qualquer preâmbulo grotesco. convocado em auxílio dos processos jurídicos.. no romance Os Irmãos Karamázov. de idade avançada. com aspectos esportivos. p. estava meio suja e o cachecol largo muito surrado. no teatro e nas manifestações carnavalescas da Idade Média (BAKHTIN. da imagem ainda clássica de Lúcifer no momento da queda à representação caprina. Foucault identifica. é comum deste a Antiguidade clássica. um tipo conhecido de gentleman russo. 2014. 197). Contudo. na formação do discurso psiquiátrico moderno. na cultura cristã.

No entanto. com toda certeza no do pensamento dos séculos XVII e XVIII – a monstruosidade. (FOUCAULT. o monstro é a casuística necessária que a desordem da natureza chama no direito. ou em todo caso questione certa suspensão da lei. mas não é uma monstruosidade. não me parece que essa suposta apologia seja a primeira motivação. ou sobre suas práticas. natural. religiosa ou divina. ou a inventar uma casuística. dos limites naturais. na monstruosidade. e os problemas religiosos e jurídicos relacionados com esse tipo de “monstruosidade”. já bastante conhecida fora dos meios acadêmicos e da língua inglesa. p. o homem com pés de ave – monstros. ou a apelar para outro sistema de referência. cujo caráter transgressor Foucault enfatiza: O monstro. bem como o fato de levar o tabu ao espaço oficial do museu. Para que haja monstruosidade. como uma cobra. como irmãos siameses e hermafroditas. transgressão do quadro. por si só criou uma hostilidade prévia. É a mistura de duas espécies. A demonização do outro explica a primeira motivação de grupos conservadores para a agressão e censura ao “Queer Museu”. que remonta à Antiguidade é formada por traços grotescos. apontadaem certos quadros (sempre os mesmos exemplos. seja civil. é essencialmente o misto. CORPOS . Mas seria mesmo a causa inicial? As acusações apelam para a indignação dos cristãos e da “gente de bem”. quando aparece. o reino animal e o reino humano: o homem com cabeça de boi. seja o direito civil. É o misto de dois sexos: quem é ao mesmo tempo homem e mulher é um monstro. O direito é obrigado se interrogar sobre seus próprios fundamentos. o direito não consegue funcionar. e a infração a essa lei superior instituída por Deus ou pelas sociedades. mas que apesar dos pesares consegue sobreviver alguns minutos. No fundo. as acusações apenas reforçaram uma hostilidade que já estava pronta. Foucault também analisa casos reais. Mas não acho que é só isso que constitui o monstro. É o misto de dois reinos. transgressão da lei como quadro: é disso de fato que se trata. Só há monstruosidade onde a desordem da lei natural vem tocar. Portanto. é um misto de formas: quem não tem braços nem pernas. que a palavra e o conteúdo anunciado. A figura do monstro. bastante acirrado em tempos recentes. Não é a infração jurídica da lei natural que basta para constituir – no caso do pensamento da Idade Média sem dúvida. em uma exposição bem ampla) é apontada como causa da revolta. porque a enfermidade tem seu lugar no direito civil e no direito canônico. O enfermo pode não ser conforme a natureza. algo que também abala a ordem natural. ou alguns dias. A suposta apologia apedofilia e zoofilia. Transgressão. transgressão das classificações. A enfermidade é. intensificando o tom patético dos protestos. Na urgência em denunciar e proibir a exposição. por conseguinte. é um monstro. diante do clima extremamente conservador de certos setores da sociedade brasileira. A verdadeira inicial provém da própria palavra queer. de falto. Em caso de qualquer dúvida: o texto da mostra explica a associação da exposição com sexualidades marginalizadas. a monstruosidade é essa irregularidade natural que. É um misto de vida e morte: o feto que vem à luz com uma morfologia tal que não pode viver. no ponto de atrito ente a infração à lei-quadro. é o misto de duas espécies: o porco com cabeça de carneiro é um monstro. ou a renunciar. o direito é questionado. essa transgressão da lei-quadro tem de ser tal que se refira a. ou a se calar. da Idade Média ao século XVIII de que nos ocupamos. essa transgressão do limite natural. Arrisco afirmar que. é nesse ponto de encontro de duas infrações que vai se assinalar a diferença entre a enfermidade e a monstruosidade. 2001. É no ponto de encontro. Em compensação. abalar. 83-84) Embora apresente exemplos do imaginário. 147 indivíduo a ser corrigido e a criança masturbadora. mas é de certa forma previsto pelo direito. o direito canônico ou direito religioso. é um monstro. Enfim. inquietar o direito.

que também está presente na vegetação (bonsai?) da parte inferior do quadro. As próprias árvores são corpos compósitos. Baril agrega traços grotescos à imagem de Cristo: as mãos dos dois braços superiores de Cristo são ramificações que formam árvores. para tornar mais clara a análise: Destoando do cânone religioso cristão. de Fernando Baril (1996). A utilização do estilo grotesco como forma de crítica à sociedade contemporânea é bem nítida no quadro Cruzando Jesus com o Deus Shiva. pois CORPOS . apresentando o traço grotesco da mistura de imagens do reino humano e vegetal. 148 seus detratores não tiveram o cuidado de procurar enxergar a crítica e a denúncia que as próprias obras faziam. que reproduzo abaixo.

cachorro-quente. Os pés de Cristo estão calçados por tênis. sugerindo um universo de valores estranhos à sacralidade da figura original. CORPOS . da Virgem Maria. sendo. o que nos lembra a imagem da deusa Kali. Tão empenhados em denunciar a blasfêmia. incluindo qualquer estudo. Os demais são ícones da sociedade industrial: luvas. como vassouras. lidos também como símbolos. Esta associação complementa-se pela presença do rato vivo na mesa que sustem a imagem de Cristo. apenas flutuam em torno dela. os quais não aparecem. pode ser associado à sujeira aos dejetos. E é ainda mais pelos objetos que esses braços usam ou seguram. terminados não por mãos. Em torno da imagem de Cristo crucificado. é preciso contemplar) a crítica mordaz à sociedade de consumo e a adaptação do sentimento religioso ao seu ethos. no entanto. que prometem prosperidade neste mundo e salvação no outro. Os ícones. ou de qualquer imagem sacra em camisetas ou objetos de souvenir (o kitsch religioso) que certos cristãos ostentam orgulhosamente. O grotesco da imagem acentua-se nos braços inferiores. aos esgotos. mas são isentas de impostos. somente o peixe é um símbolo cristão. esposa do Deus Shiva (mencionado no título do quadro). ou objetos industriais. O tratamento da imagem é profano. uma mistura de árvores. o grupos conservadores não leram (mesmo porque. permitem a associação do que está exibido com aspectos do sistema que sustenta esse ethos. como animal nocivo que prolifera nas grandes cidades. A imagem cristã é associada à imagens do Hinduísmo. não tendo o pudor de ocultar seu interesse comercial ao exporem à venda os mais variados objetos “milagrosos” – capazes de melhorar ou mesmo salvar a vida do fiel –. como se fossem braços de bonecos. como seria qualquer tratamento que não envolvesse a pura adoração. velas (que podem ser associadas à religião. 149 têm frutas diversas. Mas. mas também a qualquer tipo de esoterismo). luvas de boxe. uma imagem de Marilyn Monroe e uma lata contendo uma série de objetos. estão quatorze braços. as quais associam a felicidade ao consumo. que essa mesma sociedade pretende esconder (pelo menos nos espaços privilegiados) e que. Embora não seja um produto industrializado como os outros. no sentido de dessacralizador. ou mesmo a reprodução de imagens de Cristo. identifica da natureza – em seu aspecto tanto destruidor como recriador – . parte de uma garrafa plástica de coca-cola. portanto. Desses objetos. Uma das mãos segura um rato morto. deus da sabedoria. com suas igrejas-negócios. mas um ícone da sociedade industrial contemporânea. entre outros. sejam esses objetos supostas relíquias (como lascas da cruz de Cristo). religião que nunca separou o sagrado do grotesco (vejam-se as conhecidas imagens de Ganesh. para ler. Outros ícones estão sobre a mesa: um computador. mas por pés e (aparentemente) pênis. Essa sugestão é acentuada pelo aspecto meio mecânico desses braços. dialogando com a pop art de Andy Warhol. sem ver nisso qualquer traço de ofensa. É esse tipo de adaptação que preside as diversas teologias da prosperidade. Por exemplo: a hipocrisia dos pastores que ficam milionários por meio dos dízimos e outras receitas. sabonetes de detergentes “ungidos”. ao mesmo tempo em que demonizam o outro (geralmente aquele que não se submete ao seu controle biopolítico ou que não se enquadram nos seus padrões). o rato. permanecem. mangueira. de maneira agressiva e sistemática. um corpo humano com cabeça de elefante). os braços não fazem parte da figura de Cristo. no quadro de Baril.

Guinsburg. LOURO. São Paulo: Companhia das Letras. LOPES. crítica. Célia Berrettini. FREUD. muitas vezes sutis. irrupção da cultura não oficial – como demonstra Bakhtin (1996) em sua leitura de Rabelais – o efeito perturbador do grotesco opõe-se à serenidade do corpo gracioso. Paulo Bezerra. Tr.cult. São Paulo: Iluminuras. Tr. Rio de Janeiro: Record. Conversa sobre a poesia e outros fragmentos. F. 329-376.Além do princípio do prazer.br/maisdefinicoes/TEORIAQUEER. São Paulo: Companhia das Letras. Os anormais. F. 2012. São Paulo: Editora 34. História da feiura. 2. LINK. São Paulo: Perspectiva. FOUCAULT.ufba. ações educativas que envolvam o que denominam “ideologia de gênero”. Rio de Janeiro. R. L. M. SONTAG. São Paulo: Martins Fontes. In: Contra a interpretação. Sexualidades transgressoras: una antología de estudos queer. Seja como meio de satirização. J. M. Mais definições em trânsito. F. p. 150 buscando influenciar também nas ações do governo. GOYA. São Paulo: Hucitec. Tr. W. Barcelona: Icária Editorial. 2012. D. Notas sobre o Camp. Victor-Pierre Stirnimann. No entanto. V. 2003. 2008. M. de. Criticamente subversiva. ECO. O grotesco: configuração na pintura e na literatura. Sua desarmonia provocante desvela as relações. Belo Horizonte: Autêntica. DOSTOIÉVSKI. Tr. Tr. Eduardo Brandão. Tr. Eliana Aguiar. S. O inquietante. L. Os irmãos Karamázov. 2014. Disponível em: http://www. Gravuras de Goya. 1994. O Diabo: a máscara sem rosto. Tr. Paulo César de Sousa. São Paulo: Perspectiva. BUTLER. A imagem que escolhi analisar não reflete predominantemente sobre o principal aspecto que preside a mostra: a sexualidade. de poder. In: JIMÉNEZ. ao atacarem. Tr. Brasília: Edunb. G. In: ______ . Eliana Aguiar. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. U. REFERÊNCIAS BAKHTIN. 2001. O homem que amava rapazes e outros ensaios. 2002. Acesso em 26. Da INTERNET COLLING. 2004. Yara Frateschi. KAYSER. S. p. L. 2010. J. O corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. Brasília: Secretaria de Cultura do Distrito Federal/Telebrasília.09. Tr. M. V. Rio de Janeiro: Aeroplano. Porto Alegre: L&PM. 1998. explora o aspecto político do corpo grotesco. ironia. 1987. por exemplo. Do grotesco e do sublime.pdf . SCHLEGEL.2017 CORPOS . HUGO. 1996.

nessa conjuntura. Nessa época. tanto na materialidade linguística N quanto na imagética. CORPOS . houve uma explosão de filmes bem mais atrevidos e Pornochanchada. podia se ouvir.e Os garotos virgens de Ipanema (1973). enunciação. Dialogismo. nos anos de 1970. sugerido. principalmente. os seus cartazes foram. Suas diversas réplicas podem ser afixadas em diferentes suportes: muros da cidade ou murais. superiores aos seus filmes. foram rotulados de soft core. os gemidos não vinham apenas dos porões da estabelecem entre os enunciados. informar. 2010c) sobre linguagem. principalmente. Professor Adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.de Oswaldo de Oliveira. nas concepções de Bakhtin (2006. Foi. fomentado pelas leis de incentivo do governo militar. Professor do ensino básico do Instituto Federal do Rio Grande do Norte. Palavras-Chave: Cinema. Se. Para a análise desse corpus. pela liberação sexual e pela repressão política desencadeada pelos militares na década anterior. Por meio das duas análises de enunciados concretos. Gilvando Alves de 58 Super fêmea (1973). tornou-se comum. não apenas a sensação de que se estava vendendo um cinematográficos produto de qualidade indiscutível como também o desejo de frequentar as salas de cinemas. pela PORNOCHANCHADA: uma crítica especializada.E-mail: gilvandoalves@hotmail. 2010b. com análise dialógica de cartazes seus títulos provocavam. de Anibal Massaini Neto. no Brasil. por um lado. os gemidos dos amantes advindos das telas. foram realizadas comédias eróticas. as películas foram consideradas inferiores. RESUMO 151 No Brasil.O cartaz cinematográfico consolidou-se então como peça primordial para divulgação e propaganda dos filmes. É um gênero de comunicação de massa que – utilizando-se geralmente de uma linguagem verbo-visual – pode ser utilizado com intenções prioritárias diversas: promover a divulgação de produtos e de espetáculos de entretenimento. orientar. presumidos e o contexto sócio-histórico constantemente. ensinar. dialogismo. implícito. observamos. Cartaz cinematográgico. nessa década. na produção de cinema soft core59para as massas. por outro. visto que possuíam uma linguagem visual esteticamente bem elaborada e. por meio da linguagem verbo-visual. Assim.com 59 Aqueles filmes cujas cenas apresentam a nudez – geralmente da mulher – e o ato sexual. os leitores ditadura. muitas vezes. Essas comédias fizeram um grande sucesso frente ao público brasileiro. que o cinema brasileiro começou a produzir filmes em escala industrial (produção em série) adentrando. INTRODUÇÃO Metodologicamente. em 58 Doutor em Linguística Aplicada pela UFRN. nossa pesquisa ancora-se. o objetivo deste é analisar. no público leitor. a representação do corpo em dois cartazes de filmes desse período: A OLIVEIRA. No escuro das salas de cinema. No cinema produzido nessa época. dizer que o cinema nacional só tinha “mulher pelada e sacanagem”. A REPRESENTAÇÃO DO que foram rotuladas de pornochanchadas. A partir daí. mas sempre foram CORPO NA ridicularizadas pela crítica que as julgava como cinema mal realizado. encoberto. as relações dialógicas que se os anos 1970. o cartaz cinematográfico foi uma peça primordial para divulgação e propaganda dos filmes. juntamente. considerados. 2010a. definitivamente. situamos a pesquisa na vertente qualitativa de base sócio-histórica. houve uma efervescência na produção cinematográfica e. marcadamente. extravagantes fomentados.

Por haver diferenças estéticas entre a pornochanchada carioca e a paulista. O primeiro confeccionou cartazes para a divulgação dos filmes cariocas. enquanto os cartazes paulistas. cuidadosamente desenhadas ou estrategicamente fotografadas. selecionamos dois cartazes: o primeiro. tais como a concepção dialógica de linguagem e as reflexões atinentes à analise dialógica do discurso. para os filmes paulistas. 2010c). do filme A super fêmea (1973). em parte. muitas vezes. o seduzido etc. supostamente. e o segundo. detemo-nos na investigação dos elementos verbo-visuais presentes na forma composicional de dois cartazes de comédias eróticas produzidas na década de 1970 como também analisamos o projeto de dizer constituidor/constituinte da forma arquitetônica. os cartazes foram. Para isso. consequentemente. foi atribuído à publicidade que se realizou. visto que. de Anibal Massaini Neto. pela crítica especializada. 2010b. apareciam figurativamente como vítimas da sensualidade feminina (o traído. no público leitor. principalmente. A partir dessas constatações iniciais. Para realizamos a análise. 2. Neles.para nortear o nosso estudo. 2010a. fogosas. despertava o desejo de frequentar as salas de cinemas. masculina passou a ser penetrada por uma profusão de mulheres belas. na maioria das vezes. Assim. a sensação de que se estava vendendo um produto de qualidade indiscutível e. Além disso.Neste artigo. 152 uma vitrina. sob a forma de cartazes. quando eram representados. A mulher sempre ocupava uma posição de destaque. ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS Esta pesquisa se insere na área da Linguística Aplicada de perspectiva sócio-histórica. baseamo-nos nas formulações sobre linguagem advindas do Círculo de Bakhtin (2006. nos interessa investigar como se realizaa representação do corpo por meio da linguagem verbo-visual em cartazes da pornochanchada. mas estavam prenhes de sensualidade. superiores aos seus filmes. traçamos o propósito deste trabalho. voluptuosas. Por meio de fotos ou desenhos. O sucesso das pornochanchadas. na pornochanchada. num painel de rua etc. As peças cariocas apresentavam uma linguagem próxima a do cartoon. Os garotos virgens de Ipanema (1973). Ademais. No caso específico das pornochanchadas. faz-se necessário CORPOS . Como fundamento teórico prioritário. o estilo dos dois era bastante diferenciado. visto que possuíam uma linguagem visual esteticamente bem elaborada e provocavam. o imaginário sobre a mulher brasileira era construído. o produto a ser divulgado e comercializado era a imagem feminina. de Oswaldo de Oliveira.). curvilíneas. e a imaginação. A maioria deles foram assinados por dois ilustradores: Ziraldo Alves Pinto e José Luiz Benício. as mulheres eram reproduzidas seminuas ou totalmente vestidas. Quanto aos homens. mais do que os filmes. na parede interna de um prédio. tanto podem se direcionar ao público geral quanto a um público específico. utilizavam a imagem das atrizes por meio do desenho de Benício (vide o cartaz de A superfêmea). e o segundo. considerados. os cartazes da pornochanchada da década de 70 eram confeccionados privilegiando a imagem feminina.

denomina-se de enunciado a unidade mínima da comunicação discursiva. sobre suas experiências. 2010b. Bakhtin entende dialogismo – princípio constitutivo da linguagem e a condição de todo discurso – como as manifestações de diferentes vozes que mantém um permanente diálogo. Assim. as concepções bakhtinianas de enunciação e enunciado A teoria da enunciação bakhtiniana é regida pelo princípio da dialogia. Por isso. admitimos que o outro tem um papel fundamental na constituição do sentido.metodologicamente. de conteúdo ideológico. REPRESENTAÇÃO DO CORPO EM CARTAZES DA PORNOCHANCHADA Nos cartazes da pornochanchada. ao fato de considerarmos a pesquisa. Primeiro. julgamos que o paradigma qualitativo era o que possibilitava uma leitura mais adequada dos cartazes que compõem o corpus desta investigação. 153 também utilizarmos. mas transporta em si a perspectiva da voz do outro. índices sobre a sociedade em que está inserido. 2010a. além de meras informações. Isso pressupõe que todo discurso é constituído por outros discursos. numa perspectiva dialógica. ao se produzir um enunciado – seja ele verbal e/ou não verbal –o enunciador deixa em seu texto.Considerando que a língua é um fenômeno social e de interação verbal e. Essa escolha foi provocada por dois motivos. Além disso. de caráter social e. 3. o posicionamento de seu corpo ou de seu olhar estava enquadrado como se a mulher estivesse CORPOS . também conjectura sobre o que o outro para quem o texto se dirige gostaria ou não de ouvir ou ler. Bakhtin desenvolve uma concepção de enunciação. sobre o modo como vê o mundo. mais ou menos aparentes. Para desenvolver este estudo. Assim. Além disso. como embasamento teórico. por isso. desencadeando diversas relações de sentido. optamos. ao se conceber o dialogismo como o espaço interacional entre o eu e o outro no texto. como já se afirmou anteriormente era representar as mulheres de modo que fossem olhadas e desejadas. pois. Sua estrutura é condicionada pelo contexto social que é o centro organizador de toda enunciação. as relações dialógicas se estabelecem também entre o eu e o outro nos processos discursivos instaurados historicamente pelos sujeitos. Isso significa que. Na teoria bakhtiniana. portanto. o propósito prioritário. em que os interlocutores. pelo paradigma qualitativo. entre diversos discursos que configuram uma determinada sociedade. o tempo e o propósito comunicativo são fundamentais para a construção de sentido. quando o sujeito produz um texto. frequentemente. o espaço. sobre o seu núcleo familiar. de toda expressão. Para o autor russo. a enunciação é fruto da interação entre dois sujeitos historicamente situados e não pode existir fora de um contexto sócio-ideológico. como pretendíamos analisar a arena onde se confrontam diversas vozes sociais e estudar a linguagem por meio de enunciados únicos que estão mergulhados em um contexto sócio-histórico. espificamente. considerada em situações concretas. como reitera Bakhtin (2006. consequentemente. em sintonia com o pensamento de Bakhtin. nenhuma palavra é nossa. nem sempre simétrico e harmonioso. 2010c) ao longo de sua obra. como uma relação entre sujeitos.

além de uma pulseira. muitas vezes. naquele contexto.apesar de a atriz Vera Fisher estar completamente nua. Nesses cartazes.br/local/cartazes/CN_0694. os braços e as pernas cruzados. por exemplo. reforçava a visão machista da sociedade brasileira da década de 1970. A sensualidade representada nos cartazes e os títulos apelativos garantiam a presença fiel do público masculino que parecia acreditar na promessa realizada por eles. funcionam como um convite para que ele desfrute daquela feminilidade. No cartaz de Asuper fêmea (1973). Figura 1. envolvem o seu corpo bem delineado por curvas. impedindo que suas partes mais íntimas (seios e baixo corporal) sejam reveladas. dirigido por Anibal Massaini Neto. CORPOS . de acordo com o discurso construído no cartaz. convidativos) da atriz direcionados ao expectador. como podemos observar no cartaz do filme A super fêmea reproduzido a seguir. o olhar fetichista masculino transformava as mulheres em objeto de culto erótico e. Somados a isso. na representação do feminino nos cartazes da pornochanchada. os olhos (sedutores. ser “super fêmea. de Anibal Massaini Neto. de certa maneira.jpg>. Assim. a nudez nunca era frontal. aspecto constante na confecção dos cartazes. 2016. Cartaz do filme A Super Fêmea. essencialmente masculino.gov.significava seruma mulher que projetava a sua vida para atender os anseios de uma sociedade machista e falocêntrica. havia mais nudez nos cartazes dos que nos filmes. “enganado”. consequentemente. Disponível em: <http://cinemateca. 154 oferecendo ao expectador –na maioria das vezes o homem – a sua nudez. Fonte: Cinemateca Brasileira. Embora fosse.Em outras palavras. Acesso em: 3 fev. esse público parecia não se incomodar com o que era efetivamente ofertado nas salas de cinema: filmes maliciosos com leves pinceladas de erotismo. a sua feminilidade. É verdade que. chamativos.

se chamava Os bonecas. Gente que transa (1974). A primeira cor é o resultado da mistura equilibrada do vermelho com azul e a segunda da mistura exata do vermelho e do amarelo. à dominação.A cor vermelha que está associada paixão. Os títulos dos filmes. tiveram seus nomes modificados. às vezes. tamanho das letras. 155 No entanto. à agressão e à sede de ação. possivelmente.É relevante perceber ainda que. na maioria das vezes. mas não o tinha para entregar. transformou-se em Os homens e eu (1973). O bem dotado (1978). Como Ziraldo já tinha confeccionado o cartaz. a cor roxaestá. envolvida. O nome dos filmes funcionava. do duplo sentido. de uma certa forma. uma vez que ninguém ia mais confiar no que os títulos dos filmes insinuavam. foi necessário fazer uma emenda para o filme ser divulgado e exibido. abundavam títulos maliciosos que sugeriam situações eróticas: Como era boa a nossa emprega (1973). bem produzidas. por exemplo. A propósito dos títulos. Salles Gomes acreditava ainda que a constante propaganda enganosa poderia provocar o afastamento do público. colore a palavra “super”. uma vez que os filmes eram esvaziados de conteúdo pornográfico e. em termos de bilheteria. bem divulgadas.Roxo pode simbolizarpurificação – pode estar associado ao lado espiritual da mulher – mas também é a cor da magia e do feminismo. por exemplo. como. colore a palavra “fêmea”e faz alusão ao desejo. e suas exposições. de Os machões (1972) que. censurados. para o cartaz ser liberado. Sem qualquer pudor. geralmente são associados à natureza dicotômica feminina. das chamadas apelativas. laranja avermelhado. por Paulo Emílio Salles Gomes (1976). Em sendo assim. para reforçar atributos que. Muitos títulos eram construídos a partir da utilização. Foi o caso. muitas vezes. outro destaque são os títulos dos filmes que compõem com a imagem o propósito comunicativo prioritário da peça publicitária. produções norte-americanas bem comportadas. A banana mecânica (1974). Entretanto. à paixão sexual. pois o resultado final não só teria de seduzir o público mas também de driblar os sensores. como chamariz para que o público se reencontrasse novamente com o cinema nacional. dezenas de títulos de natureza erótica eclodiam e derrubavam. era rotineiro o fato de diversas películas precisarem ser renomeadas: A filha da cafetina virou A filha da madame Betina (1973). depois de prontos. cores etc. Nos tempos da vaselina (1979). No cartaz. quando iam compor os cartazes. ao prazer. Eu dou o que ela gosta (1975). No cartaz do filme A superfêmea. nesse caso. no processo de divulgação dos filmes. havia necessidade de mudar o nome do filme para ficar ao gosto dos censores. vendia-se – por meio dos títulos. foram. anteriormente. Na composição dos cartazes.) com o intuito de produzir o sentido desejado pelos cineastas. Para ele. alguns cartazes. O anjo devasso tornou-se Anjo loiro (1973). O poderoso chefão (1972) e Tubarão (1975). limitada pela cor laranja– CORPOS . portanto. sugerindo que a superioridade feminina está. excitação e desejo está presente na composição das cores dos caracteres do título. de conteúdo erótico. na manutenção de sua ingenuidade. No caso da pornochanchada. proibidas nas salas de cinema. dos cartazes – um produto. por exemplo. essa relação (lucrativa) entre o público e a pornochanchada foi criticada. entre outros. isso era fundamental. o título é grafado em duas cores: roxo e laranja. Cada um dá o que tem (1975). Os homens que eu tive. Jáa segunda. Nesse caso. recebiam diversos tratamentos gráficos (caligrafia. na época. Ainda agarro esta vizinha (1974).

As flores destacam a palavra CORPOS . a palavra “fêmea” em oposição a palavra “macho” reforça. do filme Garotos virgens de Ipanema (1973). mas às suas formas corpóreas externas. Disponível em: <http://www.cinemateca. Ademais. uma visão do que se esperava da mulher nos anos de 1970: não se queria uma “super-mulher”. falocêntrica. a feitura do cartaz.não a sua essência espiritual. Essa característica ambivalente que é. como prenunciava o feminismo. de Oswaldo de Oliveira.atribuída às mulheres fica mais patentes quando associamos o título do filme à imagem da mulher representada no cartaz. Acesso em: 3 fev.jpg>. 2016. Nesse contexto social. espera-se assim que a mulher cumpra o papel de promotora de prazer e/oude procriadora em uma sociedade. Em outras palavras.Portanto.É possível deduzir que a “superfêmea” não vai quebrar nenhum tabu nem promover nenhuma revolução sexual. a representação do lado “animalesco” da mulher. no cartaz. aparece centralizado na parte superior e apresenta um elemento simbólico: dois lírios brancos. o cartaz é um veículo da materialização do desejo sexual por meio da representação erótica dos atributos corpóreos femininos que são almejados pela sociedade falocêntrica. Cartaz do filme Os Garotos Virgens de Ipanema. o título.tradicionalmente. Fonte: Cinemateca Brasileira. cuja autoria também é de Benício. nitidamente.br/local/cartazes/CN_0851. No cartaz desse filme. Analisaremos. do filme. discursivamente. que batalharia por um espaço de igualdade entre homens e mulheres. normalmente. esperado da mulher naquele contexto social. Figura 2. 156 localizada nas extremidades – como se quisesse dizer que. mas uma “fêmea” cumpridora de seus instintos biológicos. com caracteres em cor preta. o desejo despertado pela mulher relaciona-se. mas apenas desempenhará o papel estereotipado que era.gov. agora. constrói-se.

visto que. CORPOS . além de possuírem formas femininas estereotipadas (vestem biquínis. Além disso. o pistilo representa o pênis dos garotos virgens que desejam penetrar a genitália. Nesse caso. a fim de perderem as suas virgindades. interromper a sua ereção. pois são representadas na posição social de sedutoras. a tentativa de fusão do signo verbal e do não verbal como se os dois fizessem parte de um só corpo “garotos virgens”. em conjunto. as bocas das garotas apresentam-se abertas e delineadas por batom. a flor possui um pistilo saliente que funciona como representação fálica e remete a sentidos relacionados tanto à sexualidade quanto à eroticidade. ela pode estar sendo utilizada. no momento em que a película for vista. Elas parecem brotar da letra da palavra “virgem” e quase se fundem à palavra “garotos”. a pureza e a falta de experiência sexual dos protagonistas da película. as tentações carnais e o erotismo. estão ali para atraírem os olhares masculinos. por meio do cartoon. ou não. que a utiliza para apagar “o seu fogo”. o que se confirmará. ou a para diminuir o desejo das mulheres.Se considerarmos que se trata de água. têm cabelos esvoaçantes. como já dissemos. as formas femininas estão centralizadas e ocupam um espaço bastante significativo do cartaz. com o pênis intumescido. ao mesmo tempo que simboliza pureza. O lírio é uma flor considerada hermafrodita por possuir os órgãos masculinos e femininos em sua estrutura. para diminuir o estado de excitação do garoto. a utilização de um lírio branco reforça. como é comum nos cartazes da pornochanchada. possivelmente. aparentemente. Por isso. são retratadas. A imagem da região pubiana do rapaz está escondida por trás das nádegas das garotas que se encontram encostadas – tentativa de estimular e sugestionar a imaginação do leitor – a fim de sugerir que ele se encontra. No caso do cartaz do filme. a florsimboliza o próprio ato sexual por meio da junção das genitálias feminina (representado pelo formato do conjunto de pétalas) e masculina (representado pelo pistilo). da publicidade. nitidamente.possivelmente. estão a serviço. As mulheres. Há ainda a tentativa de provocar humor. Elas se contrapõem aos rapazes. semioticamente. sorrindo abertamente. o quesugere as suas disponibilidades para a prática do sexo oral. resultado do orgasmo do rapaz. antecipando a narração do filme. a língua acariciando os lábios. Já o segundo garoto possui uma expressão facial assustada. Porém. a flor. o líquido branco pode representar a ejaculação do sêmen. como já foi dito. estão maquiadas com as bocas entreabertas e olhos fechados). cores). Sendo assim. A excitação do jovem está representada pela expressão de desejo (os olhos arregalados. inclusive a que aparece mais ao fundo praticando topless.Ele pode ser uma alusão a leite. mais velhas que os dois rapazes. os dois lírios podem também representar. provocada pela situação visualizada por ele.São mulheres brancas e. Nesse casso. as sobrancelhas arqueadas). Nesse caso.Nesse caso. a situação cômica é constituída pela cena em que um rapaz joga um líquido nas nádegas das mulheres. imagens. Entretanto. O seu olhar está direcionado à região pubiana de uma das garotas. Todos esses elementos (título. simbolicamente. Há. Ao contrário deles. não apresentam índices ligados à pureza. 157 “virgem” e substituem “o pingo” da letra “i”. esse líquido pode ser interpretado de outra maneira.

12. linguagem verbal e não verbal. 5. REFERÊNCIAS ABREU. BAKHTIN. São Paulo: Hucitec. literalmente. 2006. São Paulo: WMF Martins Fontes. a maioria das pornochanchadas refletia e refratava esse pensamento. CORPOS . outros recortes. embasado nas relações de poder. por fim. os discursos construídos refletem e refratam um momento significativo da cultura brasileira que precisa ser analisado. pelo fato de romper a barreira do tempo e não conseguir calar-se. que o cinema produzido na década de setenta tem uma multiplicidade de vozes que precisam ainda serem investigadas. por estar carregado de acentos e entoações ideológicas e por ser oriundo de sujeitos situados sócio-historicamente no mundo. M. a manutenção das relações patriarcais era o modo de perpetuar a organização tradicional da instituição família. No caso dos cartazes analisados. Dentre eles. BAKHTIN. Rio de Janeiro: Forense Universitária. reiteradamente. Estética da criação verbal. _____. sobressai-se o discurso oficial que pregava a dominação dos fortes sobre os mais fracos.Os cartazes estão impregnados desse discurso conservador. novas lentes são necessárias para focalizarem outros matizes. principalmente. Boca do lixo: cinema e classes populares. não o desqualifica como enunciado. De acordo com esse discurso oficial. ed. Campinas. M. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. assim. 2010b. sua natureza híbrida. ed. constituída por discursos que circulam socialmente. Além disso. porque esses dois planos estão devidamente articulados a partir de um projeto gráfico e de um projeto discursivo. a pornochanchada é merecedora de ser vista por outros olhares para. 6. a supremacia do homem sobre a mulher. como definiu Bakhtin. M. Além disso. 158 CONSIDERAÇÕES FINAIS Para finalizar. M. construirmos novos dizeres ainda não revelados sobre ela e. consequentemente. sobremaneira nos enunciados analisados. Problemas da poética de Dostoiévski. 2010a. ed. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. visto que suas narrativas tratavam. podemos afirmar que o cartaz do filme é considerado um enunciado concreto. reforçando os papeis sociais desempenhados por homens e mulheres. compreendermos melhor a essência da sociedade brasileira. representante de forças centrípetas. São Paulo: Hucitec. Esse discurso se cristalizou em torno do riso e do tema da sexualidade e estava. BAKHTIN. não podem ser analisados separadamente. ed. N. reforçando sempre a visão de que estar no poder significava estar. Portanto. que permeiam esse produto cultural. destacando-se. Como o nosso estudo foi apenas um pequeno mergulho nesse universo. 2006. BAKHTIN. 5. Eles só podem ser compreendidos na enunciação. outros ângulos. em cima do outro. 2010c. 1996. C. Entendemos. SP: Mercado das Letras. de problemáticas relativas às relações sexuais. Campinas. Sendo assim. SP: Unicamp. O olhar pornô: a apresentação do obsceno no cinema e no vídeo.

Espaços da linguagem na educação. 1999.). O discurso na vida e o discurso na arte. 1976. n. Mikhail M. M. Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. p. Ela (a pornochanchada) dá o que eles gostam? Entrevista concedida a Maria Rita Kehl. M. 2010. 159 BAKHTIN. p. 29. _____. 20. Movimento. P. SALLES GOMES. (Org. CORPOS . São Carlos: Pedro & João Editores. 11-39. São Paulo. São Paulo: Humanitas. J. In: DIETZSCH. Para uma filosofia do ato responsável.

O corpo de Frida Kahlo demanda restituição constante desde muito cedo. pélvis.189) sugere que o corpo não Palavras-Chave: Frida Kahlo. tem saber ser desejado. poliomielite aos seis anos de idade.ufrn. A interrogação de Lao Tsé (2010. uma figura singular. 61Mestre em Estudos da Linguagem. que o atassalham para sempre. Para ser de verdade. FRIDA E SEU CORPO EM TEMA E TELA. incapacidade ou monstruosidade – ou a tríade em diferentes proporções -. do Ensino Básico da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Natal – RN. Nosso principal objetivo é analisar a tela e considera-la como um enunciado socialmente e axiologicamente valorado. que tem como teórico-base o filósofo russo Mikhail Bakhtin (2003. e em seu desses pero recorre a prescrições de todo tipo: médicas. RESUMO 160 Entre os anos 30 e 40 do século passado. Prof. No corpo doente. com ferida penetrante na cavidade abdominal causada por uma barra de ferro e fraturas múltiplas no cotovelo. em suas fotografias – como uma mulher que marcou uma época e que se tornou símbolo de lutas. mas do corpo de uma mulher dilacerada pela de uma carnificina ideológica e cultural. 60 Maria da Penha Casado Alves: Professora Associada do departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. com cores embevecidas pela dor física. pelo AS DORES DE FRIDA: imaginário social – em seus quadros. e não há repouso. Cultura. tem que atingir seus limites e comprovar que se move. a dor e seu estar no mundo.oliveira@imd. Prof. este trabalho tomou como procedimento realizar uma análise de uma tela de Frida. no corpo torcido. perna e pé direito. um autorretrato em que a pintora dá OLIVEIRA. exige referentes diversos. Corpo. aparentemente. em volta da pintora mexicana. Assistente do Departamento de Tecnologia da Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. corpo. Tomando como referência essas assertivas. 2013). uma imagem de si que revela as respostas aos seus dilemas 1. As coordenadas são muito conhecidas: nasceu em 1907 com espinha bífida. religiosas. mas também amorosa. Frida Kahlo é descrita. várias imagens sociais que eram delineadas no jogo dialógico entre suas obras e seus interlocutores. politraumatismo por acidente de trânsito aos dezoito. charlatãs. das cinzas da revolução mexicana. tem que nomear e ser nomeado. Criou-se. que dor poderia experimentar? Lao 2009. se basta a si mesmo. o corpo exagera nas metáforas e nos símbolos. a amizade. pessoais e políticos. dois cirúrgicos). Habitado por imaginação superabundante e inteligência viva. A nossa análise encontra-se ancorada nas postulações teóricas da O que faz com que eu experimente uma grande dor é possuir um Análise Dialógica do Discurso (ADD). coluna vertebral. seja o que for que o ajude a se reinventar em desgraça.br CORPOS . no corpo dilacerado a paixão se torna obsessão por necessidade. recebe golpes drásticos que o marcam por toda vida. Para compensar a perda da normalidade.. três abortos (um espontâneo. tem que saber se imaginar. Representações que dialogam com temáticas como o amor. Se não tivesse corpo. tem que ouvir seus diferentes ecos. a traição. Falamos aqui não de qualquer corpo. p.. alcoolismo. William Brenno dos Santos 61 visibilidade e representatividade ideológica ao seu corpo físico. até hoje. na qual ela pinta. tem que ver seu reflexo em algum lugar. Esta pesquisa insere-se na área da Tsé Linguística Aplicada e possui um enfoque qualitativo-interpretativista. que se vive como dor. E-mail: william. informais. e isso se hipérboles do corpo em um autorretrato60 estende até a contemporaneidade. o México viu surgir.

o espaço do diário epistolar. sua pintura. 311). como afirma Bakhtin (2003) Contemplar a mim mesmo no espelho é um caso inteiramente específico de visão da minha imagem externa. aos 47 anos (1954). a pélvis. com cuja ajuda tentamos encontrar uma posição axiológica em relação a nós mesmos. a cama de hospital. o espelho só pode fornecer o material para a auto-objetivação. no conhecimento científico. na arte. e ademais um material não genuíno.. subsidiamos nosso artigo nas considerações do Círculo de Bakhtin para a criação de um todo integrado (arquitetônica) a respeito da tela em análise. na coleção de fotos que o tempo vai juntando em uma caixa de sapatos. Nosso próximo passo é mostrar as cores teóricas que deram um contorno dialógico ao nosso trabalho. assim como. anorexia e uma morte. (BAKHTIN. RETOQUES TEÓRICOS SOB O CORPO FRIDIANO Compreendemos que “O acontecimento da vida do texto. o espaço da cultura mexicana. na literatura e na filosofia. sempre se desenvolve na fronteira de duas consciências. p. evidentemente. Mas não é assim.30) Há entre ambos inúmeras maneiras pelas quais o corpo obtém notícia de si e encontra sua razão e seu sentido. claramente. . Mas há também outros espaços nos quais Frida pratica a recomposição de seu corpo enquanto a pintura converge: o espaço de uma sexualidade inquieta e nada convencional. a imagem externa não nos envolve ao todo. desaforado. 2. nas reviravoltas do sexo. de maneira destacada: a coluna quebrada.” (BAKHTIN. estamos diante e não dentro do espelho. o colete de aço. Tudo indica que neste caso vemos a nós mesmos de forma imediata. em especial. a sua verdadeira essência. e. Nesse sentido. de dois sujeitos . De fato. as dores de Frida. emergem no centro de sua criação artística. O espaço mais visível no qual Frida elabora e reelabora as fraturas de seu corpo é. o gesso e as faixas. em idas e vindas. também aqui tentamos vivificar e enformar a nós mesmos a partir do outro. Nas habilidades de brincadeira e do trabalho ou nas nimiedades do ócio. também nesse caso nos compenetramos de um outro possível e indefinido. selecionando aquelas que melhor servirem ao nosso propósito comunicativo. ali na tela estão. as agulhas. na roupa e nos detalhes infinitos do cuidado pessoal. E a dor. que pode ser descrita por inteiro como um grande autorretrato. 2003. sob suspeita de suicídio. nossa situação diante do espelho sempre é meio falsa: como não dispomos de um enfoque de nós mesmos de fora. o espaço da consulta médica. praticados ou apenas assistidos. um autorretrato total múltiplo. na psicanálise. permanecemos dentro de nós mesmos e vemos apenas o nosso reflexo. em que poderemos compreender suas CORPOS . as úlceras tróficas. Isso reforça a nossa inquietação discursiva de querer ouvir várias vozes em todos os momentos desta pesquisa.. p. no que se come e no que se excreta. o mais complexo. isto é. Daí a expressão original e antinatural de nosso rosto que vemos no espelho [e] que não temos na vida. 2003. Se o espelho é o referente mais primário e o desejo – o olhar o do outro -. que não pode tornar-se elemento imediato da nossa visão e vivenciamento do mundo: vemos o reflexo de nossa imagem externa mas não a nós mesmos em nossa imagem externa. 161 tabagismo. no esporte e no espetáculo.

concreta.. construídas em diálogo com o nosso corpus. [. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. Trata-se de uma concepção sócio-histórica situada e construída nas bases sociais do discurso. Ela carrega expressividade. históricas e culturais de Frida com seus outros. “constitutivamente dialógica” que é construída pelo sujeito e que o constrói. Portanto. Dessa maneira. defino-me em relação ao outro. problematizar a linguagem em um enunciado-tela construído diante das relações sociais. pensamos a linguagem constituindo o mundo social e os sujeitos que vivem nesse mundo. p. vinculada à dimensão da vida e entendida. para compreender essa difícil relação (sujeito & mundo). pretendemos contornar. demarcaremos a concepção de linguagem em que nos apoiamos. intentamos.] Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte. podemos afirmar que.1 Uma concepção dialógica de linguagem Para situar o contexto desta pesquisa assim como o objeto. [. como concreta. sempre.” (VOLÓCHINOV. Observamos que. uma concepção dialógica de linguagem. com a finalidade de traçar o ethos desta mulher que foi martirizada pelas traições de seu esposo. aqui. Partindo disso. 2010) – livro que data do início da década de vinte do século passado – a inquietação de Bakhtin com a linguagem aparece subordinada às suas reflexões sobre ética e filosofia. nos remeter à discussão que VOLÓCHINOV (2017) fazem a respeito de linguagem. 73). e vendo por esse prisma. mulher do profano e levou uma vida regada pelas revoluções. em relação à coletividade. o filósofo da linguagem já a compreende como atividade. Na realidade. que se posiciona em defesa de ideologias diversas. em última análise. atitudes valorativas dos sujeitos em relação ao seu objeto discursivo. nesse texto. Por conseguinte. Em “Para uma filosofia do Ato Responsável” (BAKHTIN. Através da palavra. temos: Com efeito. dar cores discursivas a essa autora-criadora. mesmo que não haja um interlocutor real. Sendo estes circulantes das esferas discursivas do “mundo da vida” da própria autora. CORPOS . portanto.. Desse modo. vemos a linguagem como interação social e discursiva. este pode ser substituído pelo representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor. 162 práticas discursivas através de estudos nos quais as categorias serão. assim como as determinações ideológicas e as atitudes responsivas desses sujeitos implicados em infraestruturas e em atividades da base econômica social. a enunciação é o produto da interação de dois socialmente organizados e. toda palavra comporta duas faces. Portanto. isto é. 2017.. foi preciso. em relação à outros tantos sujeitos e em relação a si mesmo. 2.] Essa orientação da palavra em função do interlocutor tem uma importância muito grande.. baseados nessa perspectiva teórica. infraestrutura e superestrutura. artes e figuras significativas da sociedade mexicana e mundial da época.

Tais projetos ganharam sentido naquilo que Bakhtin vai chamar de “enunciado”. carregado de valores e ideologias. antecipa as respostas e objeções potenciais. como bem afirma Bakhtin (2003). 163 Assim sendo. opinamos. rimos. por meio desse estilo particular de escrever da autora. e tais enunciados estão se realizando o tempo todo nos diversos campos da atividade humana. É por meio desse sistema de signos que atuamos socialmente no “mundo da vida”. namoramos. 261) enfatiza que: “o emprego da língua efetua-se em forma de enunciados”. estamos compreendendo a carta pessoal como gênero discursivo. através dos quais. assim como a exposição de ideias e posicionamentos de maneira satisfatória. Em outras palavras. organiza e expressa o discurso de Frida Kahlo de maneira tal que nos permite resgatar os seus posicionamentos axiológicos e mapear. confirma. ganhando assim um caráter específico. e parafraseando Bakhtin. Ao definir o conceito. Diante disso. que vão ser os gêneros do discurso conforme a concepção bakhtiniana. pragmaticamente. Portanto. resenhamos a vida alheia. Ainda no campo do discurso. p. no fim de todo processo se constitua em um ato de dizer que se dirige a um outro. ou seja. 128). procura apoio. um trabalho de elaboração permanente fazendo com que o texto. p.” (p. nos diferencia de outros animais. compreendemos que o ser humano é um ser de língua(gem). é preciso que haja. refuta. Bakhtin (2003. para integrarem a sua composição. essa teia dialógica – e aqui nos referimos à noção teórica de dialogismo encontrada nas formulações da Análise Dialógica do Discurso (ADD) – permite-nos alcançar os projetos discursivos que surgem diante da interação com um mundo que é semiotizado. A esse “corpo enunciativo” Bakhtin nomeia como “gênero do discurso”. atuamos e fazemos nossa marca estilística circular por esferas sociais distintas. Bakhtin (2003) nos chama atenção por colocar que o ser humano é um ser do discurso. 319): “perdem o vínculo imediato com a realidade concreta e os enunciados reais alheios”. Sendo assim. bebemos. brigamos. 262). 2003. assim podemos afirmar que o gênero discursivo carta pessoal. Nesse sentido. uma imagem que ela pinta dessa vez com palavras. cultural e historicamente. formado ideologicamente pelo discurso e se expressando em “enunciados” que são nomeados também pelo filósofo russo como “gêneros discursivos”. em seu processo de formação. Essa característica. em qualquer atividade que envolva gênero do discurso do ponto de vista bakhtiniano. Volóchinov (2017) também afirma que “o discurso escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica em grande escala: ele responde a alguma coisa. utiliza e reelabora uma diversidade de gêneros primários. evidentemente. que surge em uma relação de convívio cultural e pertence à esfera do convívio social da época que. para melhor embasar nossa dissertação. compramos. ou seja. construída social. cada campo vai produzir seus “tipos relativamente estáveis de enunciados” (Bakhtin. etc. como afirma Bakhtin (2003. os gêneros que vão compor os secundários (complexos) transformam-se. p. neste momento. atingindo o objetivo esperado pelo autor e alcançando o seu leitor/interlocutor. CORPOS . compreendemos que esses enunciados são corporificados em arcabouços culturais. recorremos à concepção bakhtiniana de gêneros discursivos como construção sócio-histórica de sujeitos em interação. gêneros mais simples. Nessa perspectiva.

Bakhtin (2003. associamos nossa dizer. e esse acabamento pode se modificar ao passo que esse outro. ele nos oferece uma lente teórica confortável e condizente com o nossos objetivos. desconsiderando sua história e as influências externas ao próprio sujeito. pleno de sentido. nesta pesquisa. provavelmente. estudantes. dar acabamento a esse sujeito é a relação eu-outro. representado em seus autorretratos. absoluta que o ser de linguagem tem do outro. no limiar do acabamento que o outro lhe dará. em linhas gerais. inteiramente. é importante olhar para o corpo fridiano. ao conceito de alteridade que. a materialidade empírica limitada.34) Diante disso. p. interessa-nos a visão de sujeito que seja balizada construção social. a alteridade como essa necessidade estética e. é modificado e acabado por seus interlocutores. Corroborando com nossas inquietações. inserido em uma semiosfera específica da vida de Frida. Isso. Ocorre que é importante considerar essas hipérboles visuais e metafóricas. Não se pode pensar em sujeito desprendido de seu círculo social. seguindo o Círculo de Bakhtin – atual ADD. como um traço do grotesco nas representações do corpo. me acaba esteticamente. sem querer justificar seus exageros apenas pela “filiação” surrealista (classificação que a própria Frida renegou).] (p. reforça a ideia de alteridade que está diretamente relacionada com grande metáfora bakhtiniana: a relação interacional entre um eu e um outro. histórica e cultural. como pesquisadores. “A Cultura Popular na idade média e no renascimento”. 164 2. situados em um lugar específico. O outro me é todo dado no mundo exterior a mim como elemento deste. O sujeito bakhtininano é inacabado.3 O corpo fridiano através das lentes bakhtinianas Ao pensarmos dialogicamente sobre as representações do corpo cultural. e todas as linhas do seu corpo que o limitam no mundo. também.. limitado em termos espaciais. Compreende-se. trazidas pela pintora CORPOS . 34) afirma: De fato. só outro tem teria como atribuir uma personalidade ao eu. vejo a linha que lhe contorna a cabeça sobre o fundo do mundo exterior. Nesse sentido. precisamos da voz de Bakhtin sobre o corpo grotesco em Rabelais. abranjo-o por inteiro com o olhar e posso abarcá-lo todo com o tato. também.. 2. leitores. convincente a finitude a finitude humana. Em outras palavras. podemos afirmar que a maneira de vivenciamos. Acompanhada dessa noção de sujeito.2 O sujeito bakhtiniano Conforme o exposto. só no outro indivíduo me é dado experimentar de forma viva. é discutida ao longo de toda obra de Bakhtin. Muito menos. sem esse outro essa imagem externa simplesmente não existe. estética (e eticamente). Ele estará. também. assim como a concepção anterior. Em outras palavras. Em sua obra. sem espaços para os inacabamentos que são inerentes aos seres de linguagem. sempre. o único que é capaz de criar uma imagem valorada. é o outro quem me define.[. em cada momento dado eu vivencio nitidamente todos os limites dele. o eu de Frida kahlo se diferencia da maneira como experenciamos o nosso próprio eu. aviltar a possibilidade de um sujeito acabado. portanto. Em primeiro lugar.

esse corpo absorve o mundo e é absorvido por ele [. nesse autorretrato. Seu torso é envolto em cintos de metal. revestidos com tecido que fornecem pressão e suporte para as costas. como uma refração axiológica das dores que a pintora carregava em seu seio identitário. o mundo que constituía Frida Kahlo e era constituído por ela. Na tela. uma dose de hipérbole que é simbólica do ponto de vista bakhtiniano. completamente fraturada. Na pintura. além disso. mas não somente física. As unhas. Ele jamais está pronto nem acabado: está sempre em estado construção. o corpo grotesco é um corpo em movimento.. Assim sendo. o que ajudou a aliviar a dor intensa e constante que tanto a atormentara. que analisamos nesse artigo. uma possibilidade que é anunciada pela imagem que corre pelo meio de seu torso. Atitude que consideramos um mote da própria representação simbólica da pintora sobre ela mesma. ao nosso dizer para nos dar terreno sólido.] (grifos do autor). ela é se autorretrata em pé. mas não é o mais importante. literalmente e não literalmente. e defendemos que é ele que aparece na tela de Frida. O rosto banhado em lágrimas é um dos sinais de dor. enquanto os que seguem seu seio esquerdo referem-se sim a uma dor emocional. como marca do grotesco. indignação política. nesta aba. 277) Nesse sentido. p. (BAKHTIN. No entanto. Sobre isso. na representação do corpo de Frida. mais representativa de uma cultura e de um sopesar dialógico. 3. ao passo que a deixavam mais frágil. O CORPO REPRESENTADO PELAS HIPÉRBOLES DA DOR “A coluna quebrada” (tradução livre) foi pintado logo após Frida ter passado por uma cirurgia em sua coluna vertebral. Vejamos: Como já sublinhamos várias vezes. ao tratar do exagero. a seu sentimento de solidão e a impossibilidade de ser mãe. A sua cabeça repousa sobre o capitel. Bakhtin afirma: “O exagero (hiperbolização) é efetivamente um dos sinais característicos do grotesco [.” (p. consideramos a presença de hipérboles. são mais um símbolo da dor física constante que ela enfrentou. no ponto de colapso e que substituiu a coluna vertebral de Frida. Enxergamos. dor afetiva. Sua vida fora marcada pelos dissabores que. Eles impedem que o corpo de Frida entre em colapso. Frida utiliza esse elemento grotesco para demarcar a intensidade das dores que vinham das mais variadas fontes (dor física. Ele é uma composição em acabamento. Ele – o corpo – absorve. representado na tela “ columna rota”. dialoga com o já dito e o exterior. entre outras). Atravessado pelos horrores das dores físicas e afetivas. 165 na tela em análise. as ideias do círculo assenhoram-se. mas não podemos reduzi-las a simples marcas.]. de criação. O corpo grotesco. aparece uma coluna jônica. rachada.. CORPOS . perfurando seu corpo. marcam os danos causados pelo acidente em 1925. Os pregos. a tornavam mais forte. ao longo da coluna. no meio de uma paisagem completamente árida. compreendemos o corpo... e ele mesmo constrói outro corpo. A operação a deixou acamada e “trancada” em um espartilho metálico. 268).

Ela terá de carregá-la para sempre. ao mesmo tempo. Leva de si um de seus mais ávidos desejos. representa a coluna partida de Frida. o prego que está sobre o seio esquerdo. no entanto. vemos que este é de um tamanho maior e está posicionado sobre o coração da pintora. o sentido sabe gritar na roda.com/scene Os pregos. Relembrando os que mantiveram à cruz o messias da lenda cristã. Ora. espalhados por vários pontos da tela (não apenas no corpo físico). Dores são dialogicamente representadas nas figuras dos pregos. Dessa maneira. p. acionada pela narrativa judaico-cristã. com mais atenção. O manto branco que envolveu o filho de deus na narrativa cristã é o mesmo que a impede de ser mãe. parecem mais dar sustentação à coluna da pintora. ensaia mais uma metáfora de dor hiperbólica. Saindo dos pregos e olhando para o tecido branco que envolve a parte de baixo do corpo – lugar onde deveria aparecer a vagina . Observando-se. eles sustentam e causam dor. dos braços. ou seja. Pra finalizar nossa análise. instaurada no seio popular de qualquer civilização colonizada pelos vieses da igreja católica. posicionados sobre as fissuras do concreto. O fato de não poder gerar filhos.compreendemos que a pintora interdita o sexo e. provocou. continua a dialogar com o mito bíblico (o manto que envolveu Jesus). 166 Figura 1. portanto. 366). ao mesmo tempo. esses mesmos ícones perfuram a carne do rosto. Eles também estão sobre a coluna jônica que. figurativamente. o enquadramento que é dado. a CORPOS . Imagem que nos remete às dores causadas pelas inúmeras decepções amorosas que seu esposo.thinglink. dos seios. o lugar em que Frida pinta esse tecido branco é muito representativo. No entanto. trazemos a voz do próprio Bakhtin (2010. Columna rota de Frida Kahlo Fonte: www. Frida. Num caso como em outro. não pode se dar ao luxo de livrar-se dessa dor. este asseverando que assim como “o corpo. etc. podemos dizer que há uma correlação axiológica. homem que ela mais amava. indicam múltiplas representações sígnicas. Duplamente orientados. Ela esconde o seu sexo e.

DEFICIENTE FÍSICA. 2008. (trad. 167 imagem torna-se grotesca e ambivalente[. São Paulo.) São Paulo: Globo. 2001. Cartas Apaixonadas de Frida Kahlo. Modernidade Líquida.. pintora.). M. 2010.(Trad. REFERÊNCIAS BAKHTIN. E.). CANCLINI. Edusp. RIBEIRO. F. AMÉRICO. Encontramos essa ambivalência na representação simbólica do corpo fridiano em “Columna rota”. DIZERES (IN)ACABADOS E A ESPERA DE OUTRAS VOZES O diálogo com o corpo de Frida Kahlo. ZAMORA. Elas são inversões unilaterais. V.) São Paulo: Editora Hucitec.. MARQUES. BAUMAN. (Trad. transgride os seus próprios limites. Esperamos. completa. 2017. provocar outros pares a contribuir com nossas inquietações sobre a constituição sociocultural dessa mulher que representa um ícone da cultura mexicana de uma determinada época. São Paulo: Martins Fontes. Zahar. V (trad. M. M (comp.. V. Estética da criação verbal. no contexto mais amplo da ambivalência. nos leva a conclusões precisas. Hayden. quando colocamos as lentes da análise dialógica do discurso(ADD). capazes de se estabelecer na vida cotidiana. com essa introdutória discussão. R..]”.. A cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rabelais. O corpo em análise não é uma unidade fechada. 2003. BAKHTIN.). Rio de Janeiro: José Olympio. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. No entanto. 2011.V. funcionando no interior de uma hierarquia dominante (uma MULHER. Culturas híbridas. F. Rio de Janeiro. ele é e sempre será inacabado. pintado na tela “Columna rota”. N. ocorrem inversões que colocam o mundo de Frida de pernas para o ar. CORPOS . principalmente. S. KAHLO. Z. Frida: a biografia. VIEIRA.) São Paulo: Editora 34. VOLÓCHINOV.1997. GRILO. resiste. HERRERA. supera a si mesmo.

Quando. uma proposta – mão que tira pra dançar – que te desafia instala-se o processo de conversão do dever em devir. Campus Santo Antônio de Pádua. De outro modo. tudo era fechamento. atrás da garagem. ENTRE O DEVER E O DEVIR: questões de escrita na perspectiva da filosofia do ato em três cenas que se completam PEREIRA JÚNIOR. NESSE DIA de que me recordo deitei na cama do quartinho meio fugido de minha mãe que me obrigava a fazer o para casa. o dever de casa não vinha ao encontro de meu devir. Corpo. essa palavra-carcaça (depois é que seria lavada pela torrente das contra-palavras). um parto pode acontecer. de minha existência aberta e irrepetível. mas você o abraçou como seu. Há aí uma oportunidade. O convite pode ser exigente. contraía os dedos dos pés numa briga entre carne e alvorada. uma imagem: quando criança. mas o caminho desconhecido te diz respeito. Respondo com minha vida – seja aqui pensada como uma proposta de escrita que fisga no acontecimento. não sabe pra onde vai. seja em relação ao seu 62Mestre em Linguística Aplicada. E-mail: tvrniu@gmail. Cultura. 168 Palavras-Chave: Frida Kahlo. Dever. sem querer. à tarde – tinha mais ou menos uns 9 anos de idade – ia para um quartinho nos fundos da casa. e me deitava rendido por um reconhecimento tácito de que não teria força suficiente para fazer o dever de casa. deve encontrar a unidade de uma responsabilidade bidirecional. alguém passou-te o braço sobre os ombros. que te meta medo. Na hora do dever. RESUMO . Tovar Nelson 62 1. MONTANDO A CENA A ntes de mais nada. “não vou dar conta”. no seu sentido e em seu existir. desafio até a medula. Substituto do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Federal Fluminense. Prof. no entanto. não importa. Vamos lá: O ato deve encontrar um único plano unitário para refletir-se em ambas as direções. Melhor dito. Ali.com CORPOS .

Acho que foi Merleau-Ponty quem me disse a primeira vez que o tato é o sentido fundamental humano. dos já-ditos que são perseguidos e valorados enquanto tais. mas afirma enfaticamente que essa saída deve ser sempre seguida de uma ‘volta a si’: aquele que se põe no lugar do outro e não volta ao lugar que lhe pertence é infiel a si e ao outro! Porque cada sujeito ocupa um lugar ímpar. peculiar. Nesse sentido. eu-para-o-outro. que não coincido com nada. então a linguagem é corpo. Acontece é que ao me debruçar sobre o papel crio. com esse suporte e segundo a vocação linear da escrita – dizer esticado no tempo – um corpo novo parido das linhas de força que forcejam em mim. no acontecimento. tornando o ato da escrita desvitalizado. Sobral (2009:30) coloca a questão nos seguintes termos: Bakhtin considera legítimo que o eu saia de si para aproximar-se do outro. forçosamente. irrepetível. insubstituível no mundo. 2010: 43-44) Retenho isso: “Responsabilidade especial como momento que incorpora a unidade da responsabilidade moral”. “Nesse sentido. seja em relação ao seu existir (responsabilidade moral). mas o fato de a saída não contar com o momento de “volta a si”. E não é que o texto que se escreve autoralmente simplesmente mude do suporte corpo para o suporte papel. vemos que o problema não é o deslocar-se na direção do outro. falso. Nesse caso. de modo que a responsabilidade especial deve ser um momento incorporado de uma única e unitária responsabilidade moral... exigência de devolução de já-ditos. o que é a responsabilidade especial como momento que incorpora (encorpa) a unidade da responsabilidade moral? Que é a escrita autoral como momento que encorpa a unidade da responsabilidade moral? É o momento em que encontro um caminho. 169 conteúdo (responsabilidade especial). e vice-versa. mas não deixo de estar relacionado com tudo no fluxo. ontologicamente vocacionado a ser mais (FREIRE).” (BRITTO. E se o signo é também aquela concretude na qual a atividade da consciência é possível. de dentro da vida irrepetível. A resposta fora do corpo enquanto aqui-agora aberto. o interlocutor acaba não apenas por impor-se ao locutor. mas também por ameaçar destruir o próprio papel de sujeito que este deveria ter numa relação intersubjetiva. não sou desalojado de mim para responder com compostura aquilo que intuo ser o adequado para que meu texto circule gerando rendimentos no mercado linguístico escolar. 2003:123) Ou seja. (BAKHTIN. posicionando a ideia de “relação intersubjetiva” na arquitetônica bakhtiniana (eu- para-mim. CORPOS . Eis a escrita que. comigo. funciona no encalço da repetibilidade. Começamos a sentir o peso das palavras. Somente assim se pode superar a perniciosa separação e a mútua impenetrabilidade entre cultura e vida. que se alonga criativamente sobre um suporte que não o meu corpo. outro-para-mim). Nele nos sentimos enquanto peso específico na existência. a “saída de si”. Tentando me instalar sem êxito no plano axiológico do outro-avaliador produzo um dizer natimorto. é corpo subversivo (na grande relação dialógica contemporânea) em resposta a tudo aquilo que é fechamento.

o que é que eu tenho que escrever? E o professor: qualquer porra. mas quando. dando uma volta. é claro. mas averiguar se a natureza de nosso gesto é a de quem soube se conformar. Utilizando a mesma dinâmica de escrita automática a que aludimos no tópico anterior. que era um desastre arquitetônico. (BAKHTIN. isso é impossível. Nessa linguagem infantil. As crianças também não tem álibi. Um terceiro desatou uma gargalhada. Se nosso corpo é dócil e mais: se somos docilmente competentes para perpetuar discursos averiguáveis por sistemas avaliativos externos. nem minha professora. Não porque ela não me veja. testemunho suas órbitas vazias. também conhecida como “cura da mão mirrada”. Não importa. a linguagem ainda não está despersonalizada. Lua cheia no rosto do aluno. Naquele dia. Intuo que não poderei conversar. Momento. um aluno perguntou: professor. 2013:7) Os alunos do seminário diocesano ensaiaram sonetos rimados na atividade de escrita automática surrealista que lhes foi proposta para “soltar a mão”. uma grande quantidade e diversidade de formas e métodos de trabalho. O sucesso da missão de introduzir o aluno na língua viva e criativa do povo exige. posso compreendê-lo melhor. não serve para transferir ao outro a responsabilidade de meu ato. E até assumi-lo mais. CENAS EM TORNO DA ESCRITA Uma aluna da quinta série definiu por escrito a árvore como uma flor gigante. expressa-se a individualidade do autor. interagir com ela. Redações (esse é o termo adequado nesse caso) também fruto. retorcido na cama no quarto atrás da garagem. carente de posicionamento axiológico na vida. mas instituições como concretizações de linhas de força necrófilas) que nos exigem a devolução de seus dizeres não querem ler nosso testemunho escrito enquanto conteúdo. não tinha a menor noção de que o meu desastre se dava numa arquitetônica. acabou sendo de ser assim. simplesmente. embora de modo desajeitado. Crise do ato ético contemporâneo. As redações que leio de meus alunos. mas porque sinto/sei se trata de uma entidade vazia. A noção da arquitetônica. 2. CORPOS . ato técnico em que não fui capaz. mas para compreender que meu ato se dá em resposta ao outro e. de qualquer modo. qualquer merda. 170 Aqueles (não só sujeitos. nem minha mãe. Ainda agora vejo uma mulher com toda pinta de gente viva. nesse caso. resposta não-responsiva na própria cena pedagógica de que participo como educador. contemplo-lhe o rosto. inclusive. de dar corpo à unidade de uma responsabilidade moral que não aconteceu. acho. nesse sentido.

por parte do educador. o corpo-palavrão na sala de aula como ato responsável. servem não só para CORPOS . A gargalhada como irrupção da vida. Gente é pra brilhar. A linha de força do fechamento insistindo no aluno: “o que tenho que escrever?”. no entanto. (MAIAKOVSKI trad. Brilhar com brilho eterno. (TVRJR) 3. 2014:90) Molécula O sistema nervoso maquinaria poética. Brilhar como um farol. Responde a tudo ali em jogo. que permitisse a escrita na abertura. “responsível”. Brilhar pra sempre. O DEVER-DEVIR NO JOVEM DOSTOIÉVSKI Na excelente biografia escrita por Joseph Frank obtemos algumas informações valiosas para compreender o gênio criativo de Dostoiévski. no poeta. Que tudo mais vá pro inferno. O aluno-outro. Arquitetonicamente: a tentativa de resposta viva ao todo em que se tenta fazer educação. Dito de outro modo: O corpo atravessado pelo sol é que cria o arco-íris. Tais informações. explode em riso. como quer o Sobral. na forma de uma proposta de produção que gerasse abertura. essa molécula.. Poesia também se faz com o corpo. Corpo opaco que decompõe a luz solar em múltiplos cromatismos. Este é o meu slogan E o do sol. O professor responde na base do palavrão porque precisando de corpo pra seguir sendo.. 171 (O palavrão. esse riso dele que até hoje brilha aqui). terceiro da história ri. Qual o nome do palavrão na linguística? Não sei. Augusto de Campos.

produz um texto que estaria relacionado ao momento em que concebe o enredo de Gente Pobre. o todo intuitivamente vislumbrado de seu próprio projeto literário. Responsabilidade técnica como momento da unidade da responsabilidade moral. 172 nossos interesses vorazes em torno da gênese da obra do prosador russo. alguma coisa que até então apenas me excitava. testemunho alteritário. naquele instante. Frank compartilha com o leitor um instigante trecho de uma das cartas de Dostoiévski ao irmão Mikhail. na tradução). Dever-devir. Gente Pobre (Pobre Gente. acompanhamos os bastidores da escrita do primeiro romance. por certos sinais misteriosos. A imagem apta a dar conta do ato vivido no corpo é essa: “foi como se meu coração se enchesse de uma golfada de sangue quente que. mas podem ser também bastante valiosas para compreendermos a teoria bakhtiniana.. irrompia com uma sensação de poder até então desconhecida. Estou relendo alguns livros que já li antes. por parte daquele que age responsavelmente. dão carne àquilo que Bakhtin defende em para uma filosofia do ato. desde nosso ponto de vista. Leio como um alucinado. à história estético-político-cultural do Ocidente e da Rússia. e ler tem um estranho efeito sobre mim. datada da primavera de 1845. era como se meus olhos se abrissem para algo de novo.” Em outra passagem. na tensão arquitetônica do romance polifônico. compreendo o significado exato de tudo. em determinada altura da trajetória do artista no mundo. pelo menos: Estremeci. subitamente. no entanto. o qual projetou Dostoiévski como importante nome na cena literária russa do século XIX. mas que ainda não fora interpretada. dentre outras coisas. Momento em que a vida se dobra sobre si mesma.. vale testemunharmos a força do dito em si na imagem plasticamente forjada segundo a experiência linguístico-perceptiva. na qual relata aquilo a que se dedicava enquanto não estava escrevendo: “Leio. e foi como se meu coração se enchesse de uma golfada de sangue quente que. Essas imagens literárias criadas por Dostoiévski. em que o autor. embora – do interior do ato.” Para além do puro conteúdo semântico do dito. Devir. com os outros. Penetro em tudo. Quando ele se anuncia mais salientemente. bem como da possibilidade de enunciação dessa experiência: CORPOS . para um mundo completamente novo que eu desconhecia e de que apenas tomava conhecimento por meio de certos rumores obscuros. respostas nas obras. a muitos autores. escrevendo vinte anos depois do ocorrido. e é como se uma nova força se infiltrasse dentro de mim. subitamente. e é daí que retiro minha capacidade de criar. por exemplo na passagem em que trata da possibilidade de compreensão – não-conceitual. Linguagem que se faz como resposta que encorpa a unidade do ato responsável. antes vagamente aludido para si mesmo. Eu parecia compreender. um interessante e sugestivo trecho da famosa “visão do Nievá”. Momento. Senti que minha vida começava naquele exato minuto. às intrincadas relações familiares e afetivas gerais das e nas quais participava o autor. irrompia com uma sensação de poder até então desconhecida. Em certo momento. No primeiro dos cinco tomos da biografia. ato criativo em que o sujeito “apalpa as intimidades do mundo”. que se faz como resposta em uma época.

posfácio e notas Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Vladimir. Entrego-o às contra-palavras.] e fica-lhe claro também o sentido real e o sentido que merece consideração por conta das relações recíprocas entre ele. REFERÊNCIAS BAKHTIN. Adail. São Carlos: Pedro e João editores. Trad. pretendi. Trad. 83) Seria inexato crer que esta verdade concreta do ato [. 2013. – 2 ed – São Paulo: Edusp. Tradução. 2012.. concreto. a partir de questões da escrita. 2012. no corpo – aconteceu de imanentemente ser assim – não só adejar em torno de uma temática. que. (BAKHTIN. 83) 4. CORPOS . Campinas. EXERCÍCIO DE METALINGUAGEM COMO CONSIDERAÇÃO FINAL Ao falar sobre a relação entre o dever e o devir. Vera Pereira. Joseph.. Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. 2008. Boris Schnaiderman.. 173 [. mas que este mesmo dizer fosse em si um devir se fazendo texto. Dostoiévski: as sementes da revolta. SOBRAL. mas sim o dever real. Augusto de Campos e Haroldo de Campos – São Paulo: Perspectiva. p.] seja inefável. Série Ideias sobre linguagem. de qualquer modo só se possa experimentá-la no momento em que se age. Mikhail. Mikhail.. MAIAKÓVSKI. Poemas. Para uma filosofia do ato responsável. 2014. 2010. Trad. 2009. São Paulo: Editora 34. SP: Mercado de Letras. estas pessoas e estes objetos. não a uma lei abstrata do ato. Questões de estilística no ensino da língua. condicionado pelo lugar que somente ele ocupa no contexto dado do evento. mas que não seja possível enunciá-la de maneira clara e distinta.a verdade (pravda) de um determinado estado de coisas – e seu dever inerente ao ato. Do dialogismo ao gênero: as bases do pensamento do Círculo de Bakhtin. BAKHTIN. p. . FRANK. (BAKHTIN.

Assistente de pesquisa e comunicação no Observatório de Sexualidade e Política (ABIA). ou melhor. responsividade de forma articulada às escritas de Don Kulick. queremos tornar autor e personagem em dois personagens que conversam de forma equipotente. Assim. deslocá-las e tensioná-las a partir de uma personagem que. Desta forma. Pesquisadora do Grupo Atos/UFF. A travesti é escolhida aqui pela sua potencialidade de bagunçar as categorias que tentamos imprimir na ciência quando pensamos em gênero. Formada em montagem e edição de filme pela Escola de Audiovisual Darcy Ribeiro. Corpo. pensamos as falas de Banana. Rajnia de Vito Nunes 63 RODRIGUES. CORPOS . onde a mesa é posta para verdades ambíguas e conflituosas. Tem que ter cuidado por onde pisa. em sexualidade. heroína. já é um campo de batalha. postos em lugares iguais. assim nos e os mortificando igualmente. Na intenção de pensar a partir de Bakhtin. a travesti. contra-palavra. Escolhemos-na a partir da leitura de Don Kulick. temos em consideração conceitos como exotopia. podemos deixar que suas vozes se encontrem e que resultem num encontro entre dois. a não-mortificação do outro. São pedras de sabe-se lá quando. na Bahia. que faz uma etnografia junto a travestis em Salvador. Giulia de Vito Nunes 64 Palavras-Chave: Escrita dialógica. Pretendemos encher as palavras. Suas pedras não deixam que a vida seja lisa e fácil. BANANA O chão emite barulho. daremos início a um trabalho que teve como objetivo articular saberes sobre e com a travesti brasileira da Bahia no formato de herói. em si. Ela nos permite perceber a ficção que nossos compartimentos metodológicos e políticos promovem e aos quais levamos a sério ao ponto de estruturar nossas vidas para nós mesmos e para os outros. um antropólogo que fez uma etnografia com travestis prostitutas em Salvador. 64 Graduada em Licenciatura em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense. Já apoiava o chão das primeiras putas brasileiras e 63 Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. a travesti RODRIGUES. Sexualidade INTRODUÇÃO A seguir. Essa articulação foi pensada para exercitarmos um dos objetivos de Bakhtin. a fim de investir naquilo que não é dito pelas travestis no trabalho de Kulick e então tensionarmos o seu método etnográfico. da história e da filosofia da linguagem de Bakhtin a fim de promover um texto que promova uma corporificação a um objeto das primeiras disciplinas. Mestranda em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense. em corpo e em beleza. Baseados de forma livre em suas escrita. RESUMO 174 O trabalho exposto a seguir é uma experiência de CACILDA interrelacionar saberes da antropologia.

Gosto de sexo. Banana joga o cabelo pra lado. querido. Meu peito lá no pescoço. A gente adocicou as palavras. "Travesti: prostituição. na comida. Ou sou? DON E BANANA Preciso me montar. Adoro brincar com ela na cama com um cliente. putas. sabemos nos cuidar. utilizamos como referência e adaptamos livremente o trabalho etnográfico de Don Kulick. Eu gosto mesmo. 3 Gilberto Freyre ainda é uma das grandes referências para uma teoria da formação da "sociedade brasileira". ele negligenciou os conflitos que aconteciam nas trocas diárias. enquanto a esposa ficava em casa e passava a sua herança ao marido. agora a gente tem que pagar um dobrado66. CORPOS . O Renatinho quer que eu fale que eu gosto de ser putinha. A gente cria o tempo todo. Aí que eu fico doida e meu pau fica logo duro. metade misteriosa. Ele argumentava que a influência africana foi essencial para a característica cordial. tem gozo e teve sonho nos remendos dessas pedras. 67 A partir daqui. Não tem luxo não. ganhar coisas finas. Você tem um corpo que muita mulher não tem. tem uma janela bem de frente pra porta. Mete logo senão vai murchar. exaltando a aparente cordialidade com que escravos negociavam por sua sobrevivência e manutenção da sua família ao longo do tempo. Aqui em Salvador e vida não é fácil não. Mas se aquele homem acertou em alguma coisa foi na força. sexo. Gostosa. Um cigarrinho antes porque nóis não é santa. eu não sou mulher. Mas a gente cansa também. parte no meio. ele argumenta que a formação brasileira se deu no encontro fraternal entre as culturas africanas e portuguesa. engordavam e nos batiam. metade prateada. gênero e cultura no Brasil". mas vem dar uma olhada no nosso cantinho pra tu ver se não é gostosinho. Os crackudos pagam menos e moram no andar de baixo. Tem sangue. É óbvio que o povo fala. Peraí. a gente que botou tempero nesse angu. Agora. Em seu livro "Casa-grande e senzala". Será que uma dessas bichas pegou a minha pinça? Pronto. a gente que trabalhou enquanto esses brancos coçavam o saco. mas pelo menos entra luz. pronto. pro outro. No meu quarto. Não era como se pensava65. a gente tem que pagar pro seu Luiz por esse apartamento de merda. Apesar do protagonismo negro na formação de seu argumento. imóveis etc. As meninas moram aqui no segundo andar. amontoados lá quase67. Se uma coisa que as travestis têm.) 66 Ainda segundo Freyre. Fico linda. tem suor. Do lado de lá só vejo a parede do vizinho. de 2006. Cadê aquela pinça? Ela olha para um lado. daqui a pouco os homens chegam. Em sua pesquisa. E como eu disse. Além disso. Gosto de dar. Não teve nada de cordial. a gente que deu pros portugueses. Nunca foi. Olha essa sobrancelha e esse pelo aqui no buço. amigueira e doce presente nas falas. Um olhar cansado e irritado. a prostitutas em Salvador conseguiam se estabelecer e tinham mais riqueza do que as próprias senhoras brancas. que estabeleceu o ethos brasileiro e a família patriarcal brasileira. Talvez para se aquecerem ou se protegerem. 175 dos primeiros colonos filhos da puta. Se antes a gente podia ser mulher de um homem só. Então se aproxima bem do espelho. (Para mais informações sobre a crítica a Freyre. Nós. ele coleta evidências de que muitas mulheres escravas conquistavam a sua independência ao se relacionarem com um senhor de engenho que as enchiam de joias preciosas. olha para o outro. Deixar ela espelhar na minha pele escura. Ah. elas serem as mulheres com quem os portugueses saíam a eventos sociais. é maquiagem. Já passei creme e óleo nesse cabelo mas hoje ele não tá legal. eu falo pra eles. Quem não gosta é mulher casada há 20 anos que não goza há 30. nos carinhos com que os filhos eram tratados e com que os homens eram cuidados. Mas não são eles que pagam as minhas contas. enquanto seu cabelo voa e estala cortando o ar. Mas não é por causa de você não. de 2013. Eles ficam loucos. ver Robert Slenes (2011) e Mariza Corrêa (1994). Estica-se para alcançar a pinça que estava no pote junto a mil outros objetos de pintura.

visse? O dia inteiro embaixo do sol a pino. pelo menos temos o elo do silicone. Mas a gente é mulher também. Oxi. virei. apesar do nosso falar forte. Faz um desenho bem arqueado.Voltemos à etnografia. Bicha! Não se preocupe não. Maquiagem pronta. óleo pra puxar o brilho. claro. A gente se cuida. as travestis não estariam em lugar nenhum. o conceito de gênero ou de sexo. Aqui na cidade. Você não adora dar esse cu e desmunhecar? Eu já te vi. Ela leva a mão a cabeça. sopros mais firmes. Ela funciona. acoplando dispositivos que a fazem transitar entre sexos. Nenhuma calcinha limpa? Agora mais rápido. Naquela escuridão toda. cabelo pronto. passos mais fortes. Volta ao espelho desenregecida. músculos mais rígidos. Então seus olhos correm pro lado. creme de pentear. É incrível que as travestis suportem ritos que as fazem. Aprendi esse truque quando trabalhava no cinema. Banana atravessa o pequeno quarto até a cômoda e abre uma das gavetas. se divide e se hierarquiza. Minha mãe falava que eu iria pro inferno. Eu queria dar. O que ela vê quando se olha no espelho? Segundo Butler. Volta-se ao espelho. a gente não escolhe. Queria virar prostituta. Deixa de ser literal. Pega o lápis de olho e começa a desenhar a sobrancelha. Você tem uma tatuagem que eu já vi. travas. aderir a essa vida. Nesse caso.. 176 visse? Passei hidratante. em caráter permanente. Fixa-se e tira alguns pêlos. Agora você quer vir pra cima de mim por conta de um pouquinho de silicone? Ser mulher é sofrer. Tem gente doida que se pendura em ganchos. Ai. Um dia te chamo para uma sessão. se protege. Fixada e fumando. não importa o que ela vê. da gente competir por marido. são conceitos construídos e legitimados historicamente e que vão estruturar a forma como a sociedade se organiza. o elo do silicone nos une. Mas então você se categoriza como mulher? Interessante. que trabalho de corno. da gente brigar muito. Do que você tá falando. Lá vem você de novo. Pensando a partir de Bourdieu. ela que escolhe a gente. vai até uma caixa e tira uma calcinha preta de renda. somos irmãs e ainda botamos silicone uma na outra. Tá quase na hora de repor o meu. agora falta o quê? Ah. Afasta-se e se olha. Então ela pisca. Don. a sua própria agência e estrutura. bicha. avista alguma coisa e se estica. É jeito de s expressar. como que puxando todo o resto. dei. só assim pros homens distinguirem a gente. A gente faz o que quer.. Só por que dói e é "permanente"? Tanta gente faz coisa pior. por boyzinho. Coloca a calcinha CORPOS . Seriam o perfeito exemplo da construção do sexo como conceito e categoria fundamental que pode ser descontruído criticamente. Arqueia mais as sobrancelhas. enquanto as pontas da boca giram levemente para baixo. quando se utiliza de ritos e performances para se assemelhar a um ideal feminino. essas seriam pessoas que conseguiriam sobrepor à estrutura estruturada. É assim que eu me destaco e chamo atenção dos boyzinhos. Eu prefiro seeeeer essa metamorfose ambulante. Meu pai ainda me batia quando me pegava no mato com Zezinho. A tampa de super bonder que tapa os furos das injeções de silicone saíram e às vezes sai um pouco. Comecei porque assim ganho mais dinheiro do que na roça. Como você também é uma das meninas. A nativa utiliza a categoria mulher. Na verdade estariam à margem da margem. gringo? A vida acontece e você falando essas palavras difíceis aí? É simples.E os homens que pagam pra comer a gente? Eles são o quê? São viados? E os que pedem pra gente comer? Ser mulher é difícil. Nós. perfume estrategicamente no cu.

E tenho peito sim. quando sua irritação dominara o céu. dessa vez com as duas mãos e então dá um tapa leve na parte da frente. Sou um homem com peito. de Iansã. CORPOS . Aí que tá. num olha de rabo de olho não. Sou um deserto. Toda me querendo. as luzes da cidade se acendiam no Pelourinho. Levanta o tronco. agora vem cá. Mas vale a pena. Depois então anda até o altar de diversos santos que tem. Ei. Você tá me mapeando toda. Você acha que eu sou estranha? Ah. escondeu uma pequena tesoura de unha afiada. um depois o outro. Pois é. por baixo do peito. todos me querem. Quando o sol já dera lugar à escuridão límpida e taciturna da noite. Muito melhor do que muitos que você vê por aí. a imagem de Nossa Senhora. Às vezes. Eu não sou mulher. Olha o rosto e logo desvia o olhar ao reflexo da calcinha. Depois de protegida. Com os peitos. 177 pelos pés. Ah. a limpeza promovida pelos santos. Então se agacha com as mãos nos joelhos e com as pernas afastadas para não deixar a peça escorregar. Sou uma mulher com pau. Tem outros que falam que nós somos homem com peito. Em uma pequena prateleira. Que tal essas pernas aqui? Tá bom pra você. Olha-se. Banana deixa velas. da cabeça aos pés. Mas vê-se o brilho duplo das lentes dos óculos de alguém e um ponto avermelhado em brasa. ervas. hein. Nem preciso lembrar o ditado. quando a gente coloca muito de uma vez só. puxa o escroto e o pênis. Eu piso firme. É a porra do pau. Dar é arte. anéis de proteção. Pode querer. alcançando-os com os braços longos mas pára nos joelhos. por baixo da porta espremida. Entre as nádegas. É assim que a gente pega os manés. a gente fica toda esburacada. não fica sem graça. Me olha que eu gosto. de Iemanjá. fala direito. adoro meus pés grandão. Como não é meu? Eu trabalhei muito e paguei caro por eles. você! Pode me olhar. Esses pés e essas mãos são grandes mesmo. a gente chama atenção. Aff. Don. Mas Banana é meu nome artístico. A gravidade não é cafetão desse corpo aqui. Maiores que os seus. To te dizendo. Ela alisa de novo a calcinha. Abaixa esse vidro e olha de frente. Minha buceta. Banana então pegou o incenso feito de folhas e rodopiou sua mão. Sou uma trava e uma puta. Sou uma sereia. Quer saber. que acompanhava a fumaça do cigarro. sem começo ou fim. para então descer de novo até a bunda. Num vou nem falar nada. E todos me querendo. Isso te confunde? Puxa-os para trás enquanto estica a calcinha na frente e pressiona com força o pau contra o períneo e a calcinha o segura lá. Cê me olhou. com as luzes apagadas no interior. vestiu o vestido e em seu decote. já com os cantos de volta para o seu movimento direção acima e mostrando os dentes. ou ter meu corpo ou comungar com meu corpo. uma mulher estranha. Um carro para na frente de Banana. Eu uso os dois. Eu sei que você tá me querendo também. um copo d'água. Nasci Bentinho. inclusive. mon amour? Não adianta sair de fininho. Agora sorrindo. roubar faz parte. Nessa posição. pedras. Deixa eles acharem o que quiserem. Tem homi que fala que nós somos mulher com pau. gira a escápula e desliza o braço da frente para as costas de baixo para cima. É de todo mundo. Ela recolhe um incenso que já estava aceso e enchia o quarto de uma fumaça acinzentada que levava para fora. Sofri muito por eles também. eu tô te respondendo. Querem ser meus amigos. cê num sabe como dói. formando anéis de fumaça. quando dá errado.

Quando vamos caçar os clientes é a mesma coisa. com olhos profundos. 2013. gênero e cultura no Brasil. Deus que me livre. 2013. me daria opinião. A gente de novinho já aprende as coisas da vida. KULICK. São Paulo: Global. né. São Paulo: Pedro & João editores. Pra quê eu quero saber de gênero? Eu quero é ser feliz. _____. Travesti: prostituição. Ou deixar de ser pobre. Ele só fica ali. Gilberto. quando a gente tá cheia de tesão. Todas nós de um lado e ele do outro. Eu me arrumando e ele só me observando. Essa pele preta aqui sabe muito mais que essa branca. quando a gente conquista. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. quando a gente compra aquela saia. 178 BANANA Ele é que nem todos os outros. FREYRE. É o sangue que pulsa quando a gente tá apaixonada. REFERÊNCIAS BAKHTIN. Para uma Filosofia do Ato Responsável. Pode ser até bicha e entender que a gente goste de homem. quando a gente é feliz. CORPOS . de longe. _____. 2006. sexo. Mas a cor da pele já nos distancia mesmo quando estamos perto. A gente não fica se enganando com teorias que criam ficções sobre a realidade. pode ser bom também. 1997. andar tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. ou pelo menos me elogiaria. São Paulo: Martins Fontes. escrevendo naquele danado caderno. 2012. Don. Ser pobre e preto tem seu valor. ser confundido de gringo estudioso por puta bahiana. para não ser confundido. Mikhail. Uma amiga me ajudaria. São Paulo: HUCITEC EDITORA. Mas eu vejo como ele nos olha. A gente canta e dança e sorri e não envelhece que nem esse pessoal. A vida é a batida de um coração. quando a gente consegue comprar a televisão pra nossa mãe. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz. Estética da Criação Verbal. A gente tem os santos dos nossos lados.

ele já recebe toda a carga negativa de ser efeminado. o professor que ler/recomendar este livro pode ser 68 Graduanda em Letras Português e Literaturas na Universidade Federal do Pampa. O que justifica nossa escolha por este tema é o fato de este ser de extrema relevância. pois um menino de vestido sugere de imediato que o personagem é gay. Lisa. Então. Ou seja. tendo em vista a constante violência física e simbólica que muitas pessoas sofrem quando seus corpos são afetados pela questão de gênero.. apesar SANDIM. para estudar UMA LEITURA DA OBRA O esta problemática atual tomamos a obra da literatura infanto juvenil O menino de vestido (2014) do autor inglês David Wallians. e sua relação com MENINO DE VESTIDO o pai e amizade com uma colega de escola. em tempos de uma política que seja democrática. Como somos acostumados a regras heternormativas. E- mail: lopesdecamargos@gmail. Associado de Língua e literatura espanhola/francesa na Universidade Federal do Pampa. Ao final da narrativa. Enfim. Identidade Tem fomes comprometidas Fomes em tenra idade Terras desimpedidas [. 69Doutor em Linguística. ainda que seja um menino. quando Dennis vive suas aventuras como diferente (garota).] Meu corpo é fora da lei Caderno de poesia Teima em ser transgressor Queima na própria folia D este excerto de um poema do poeta Charles Silva podemos pensar as diferentes narrativas que descrevem os corpos e os padrões (vestimentas. ele compreende as relações entre cultura. gênero e identidade e sua Meu corpo tem fomes respondibilidade ética perante os outros Proibidas Palavras-Chave: Gênero. bairro. Com a leitura e análise da obra.com CORPOS . Campus Bagé. o que o desvaloriza como sujeito e também revela o lado negativo e frágil que muitos comentam quando o tema feminino vem à tona.. menina rosa. o leitor percebe que ele segue um novo caminho para buscar sua autonomia nos espaços sociais por onde circula: PRIMEIRAS PALAVRAS casa. sobretudo para os profissionais que atuam na área da educação. personagem central. por exemplo. a questão de gênero. Moacir Lopes de 69 pela heteronormatividade. é afeminado. por exemplo) que nos são impostas antes mesmo de nascermos – menino azul. RS. o título do livro pode remeter a muitos leitores a ideias de riso. RESUMO Dentre os diversos temas179 da literatura contemporânea tem recebido destaque. A narrativa se centra em Dennis. Prof. RS. Literatura. Campus Bagé. escola. E. observamos que. Dennis brinca com a noção de gênero ao se vestir de menina e passar por uma aluna francesa na sala de aula de sua escola. Rosiane Gonçalves dos Santos 68 de viver em um cronotopo (espaço-tempo) dominado por uma ideologia hegemônica pautada CAMARGOS.

por parte do autor. o que contrasta com sua inocência ainda não maculada pelo machismo pseudomoralista. reféns de nós mesmos. especializada em moda feminina. por culpa ou até mesmo vergonha. 180 demitido. Abandonado pela mãe aos nove anos. Os dois passam horas apreciando e folheando a coleção de revistas. acabamos não experenciando momentos que poderiam ser de muita aprendizagem. sem sequer saber uma frase completa no idioma. principalmente um vestido amarelo florido que estampa a capa de uma revista e que se assemelha muito com um que sua mãe usa numa foto meio chamuscada que ele esconde. Dennis descobre que ela nutre as mesmas paixões que ele: a moda e as revistas Vogue! O fruto dessa amizade são as frequentes visitas que Dennis faz à Lisa. a menina tipicamente popular na escola devido a sua beleza. sendo esta a única lembrança que tem dela. Dennis. passa desapercebido aos olhares de seu melhor amigo e ainda assiste uma aula de francês. pois consegue ser cortejado por um colega. criou uma série de regras de convívio que afetam diretamente Dennis. seu pai e seu irmão. o que acarreta sua expulsão da escola e uma constrangedora visita à sala do diretor que CORPOS . nossos sentimentos. sem ser julgado ou apontado. nele mesmo. personagem principal da obra O menino de vestido do autor inglês David Wallians. Com o irmão Dennis mantém uma relação típica de adolescentes. muitas vezes. desdobra-se em situações divertidas. pouco ou nada afetuoso e depressivo que após ser abandonado juntamente com os filhos. Sua aventura de salto alto. Seu “outro eu/ela” acaba sendo descoberto quando sua paixão por futebol fala mais alto que sua paixão por vestidos. criamos em nosso interior o que a psicologia denomina de conflito interno. É nessa realidade que vive Dennis. Dennis encontra meios para fugir dessa triste realidade. Mesmo assim. disfarçado de aluna estrangeira. vive com o que sobrou de sua família. ele passa a ser o principal jogador de seu time na escola. É justamente numa dessas visitas que Lisa sugere que Dennis vista-se como menina. nota-se. sufocando emoções e sensações que poderiam ser plenamente vivenciadas. A narrativa mostra que esta paixão do garoto por moda é uma característica bastante acentuada em sua personalidade. o que acaba revelando um processo de alteridade pois ele acaba descobrindo seu “eu”. dentre outras coisas absurdas que vemos a cada dia como notícia em momentos fragilizados de desgoverno. queimado. rótulos ou estereótipos que os outros nos nomeiam e nos violentam. Sua vida tem uma reviravolta quando conhece Lisa. Vivemos. ou seja. O pai. com brigas frequentes. algum cuidado para demonstrar que os três se esforçavam bastante para viverem de maneira semelhante a uma típica família. ele também aprecia os vestidos da revista Vogue. recluso. com 12 anos. Ele acha mais divertido os vestidos e trajes femininos do que as roupas sem graça feitas para os homens. Ao se dedicar ao futebol. sendo que agora ele pode ser livre para fazer tudo aquilo que suas regras de convívio não permitem. principalmente abraços. Mas. ter o livro confiscado. mas pelo medo dos pré-conceitos. ousando até mesmo ir para a escola passando-se por uma aluna francesa de intercâmbio. pois na casa é extremamente proibido qualquer manifestação que remeta as lembranças da mãe que os abandonou ou demonstrações de carinho. Ao tentarmos esconder de nós mesmos.

pois onde já se viu. demonstrando que os sentimentos podem aflorar e se modificar sem o embasamento de palavras bonitas. A obra traz ainda uma verdadeira demonstração de amizade. de renovação. ou um homem. um ponto bem abordado pelo autor foram as humilhantes críticas e ofensas que o diretor da escola faz ao personagem. nem sempre são tão diferentes das convenções que hipocritamente abominamos. até onde sabemos. usar um vestido ou qualquer outra peça do vestuário feminino. mas que ele nunca andou”. que a sociedade insiste em recriminar quando são expostos. uma vez que os corpos devem seguir as normas e padrões sociais para meninos e meninas. mas quem tem coragem carnavaliza corpos. não determina sua orientação sexual. como se dissesse “homens não usam salto alto”. Mas o livro tem inúmeras mensagens proveitosas. pois não é o que vestimos que determina quem somos ou o quanto amamos e somos amados pelas pessoas que nos são próximas. mesmo que de modo inocente e despretensioso. nenhuma lei determina que homens não possam usar vestidos. os desejos e os sentimentos encarcerados e reprimidos dentro de cada pessoa. E quando o assunto tem nosso corpo como ponto de atenção a moralidade nos policia. 181 o humilha impiedosamente por sua atitude impensada e nada usual. um menino vestido com roupas de menina em uma instituição respeitosa como uma escola? Nesse aspecto o autor foi bastante feliz. que supera qualquer adversidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Um aspecto na obra que aparentemente deixou uma lacuna foi o seu final que pareceu ter sido abreviado. desvia das normas e renasce. principalmente com a reflexão sobre a dor. desejos e fetiches. pois ao demonstrar que a sociedade reprime quem expõe ou expressa seus sentimentos (de forma feminina). pois se o fazem pode ser pelo desejo de se livrarem das amarras dos rótulos e imposições sociais. passa a ser saudável e afetuosa. o livro nos presenteia a cada página lida. Recheado de gravuras. como por exemplo o fato de que um menino. afinal de contas nossas escolhas. afinal de contas. também abre o questionamento sobre as regras/condutas impostas. mas sim o sentimento de confiança e amor fraterno recíproco. de fuga da lei. mostrando que a ideologia cotidiana tem seu dia de festa. inclusive a relação de Dennis com seu pai que de conturbada. Mesmo assim o escritor comete um deslize quase homofóbico ao afirmar que “andar de salto alto é difícil. de uma hora para outra. sem dar maiores explicações. de uma existência infeliz e opressora ou então até mesmo para receber um pouco de atenção. ou estilo de vida. sendo que o mesmo não teria condição nenhuma de fazê-las. CORPOS . Finalmente.

O menino de vestido. 2015. Renato Aguiar. Denúncias do corpo. CORPOS . Florianópolis. David. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. J. SILVA. Trad. 182 REFERÊNCIAS BAKHTIN. 2011. C. BUTLER. Intrínseca. WALLIANS. Teoria do romance I: a estilística. 192 p. São Paulo: Ed. M. 2003. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Tradução de São Paulo: Ed. Trad. 34. Editora UFSC. Paulo Bezerra. 2014.

estupro. O enredo da obra se dá em torno de um dia na vida do protagonista que vive em uma sociedade às avessas em que as relações de gênero são invertidas e os sentidos de machismo e feminismo são deslocados. Vemos os corpos representados na obra como elementos valorados ideologicamente. para femismo e masculinismo. culpabilização da mulher violada e de censura ao corpo da mulher. A dicotomia entre os corpos representados em La Majorité Opprimé semiotiza os conflitos sociais vivenciados pelas mulheres em relação a seus corpos no sistema patriarcal. respectivamente. Os conflitos sociais em embate no signo ideológico transcendem na obra a partir da semiotização no curta metragem. Esse embate de ideologias refletidas e refratadas no corpo semiotizado é o cerne da reflexão aqui proposta. dirigido por Eleonore Pourriat. Na narrativa o protagonista passa por episódios de assédio.youtube. A partir do arcabouço semioses e embates ideológicos teórico-metodológico do Círculo de Bakhtin e o conceito de signo ideológico. papéis de gênero masculinos são vividos por mulheres e papéis de gênero feminino são vividos por homens. Corpo INTRODUÇÃO O presente artigo tem como objetivo analisar a semiose dos corpos feminino e masculino em La Majorité Opprimée71. Para tratarmos dessa representação de valores na obra. os corpos feminino e masculino e os embates ideológicos que os demarcam no mundo da vida. Na inversão. As discussões realizadas neste estudo apontam que o corpo semiotizado é valorado culturalmente a partir das relações entre sujeitos no horizonte SANTANA. Bárbara Melissa70 ideológico do sistema patriarcal Palavras-Chave: La Majorité Opprimée. La Majorité Opprimée como obra artística semiotiza valores quando traz para o texto o que há na vida e consequentemente. Signo ideológico. RESUMO Este artigo se volta à análise 183 discusiva do corpo semiotizado no curta metragem francês La Majorité Opprimée (2010). semiotiza os conflitos ideológicos inerentes ao corpo físico da vida. pois pertencem ao domínio da arte e são parte do enredo do curta metragem. dado que o signo ideológico refrata e reflete esses conflitos da vida para a obra e da obra para a vida.com/watch?v=bHJqNpJ8xAQ&t=2s CORPOS . que se estrutura a seguir em um tópico de discussão teórica em são apresentados 70 Mestre e Doutoranda em Linguística e Língua Portuguesa. E-mail: barbaramelissasantana@gmail. tomamos como fio condutor as discussões do Círculo sobre o signo ideológico e sua dialogicidade dada por meio da linguagem.com 71 Link de acesso ao vídeo mencionado https://www. por meio de sua constituição estética. há como objetivo analisar como se inscrevem tais embates ideológicos nos corpos representados na obra. dirigido por Eleonore Pourriat e lançado na rede social Youtube em 2011. curta metragem francês. Membro do Grupo de Estudos Discursivos. A O CORPO VALORADO EM obra mencionada explora as relações entre os gêneros masculino e feminino a partir da inversão das performances de gêneros na sociedade LA MAJORITÉ OPPRIMÉE: contemporânea e semiotiza.

Um signo não existe apenas como parte de uma realidade. A análise desse nível direciona a palavra enquanto signo ideológico e como material semiótico que infere essa natureza semiotizada no enunciado e consequentemente na vida. 1997. 41). Essas manifestações se materializam na língua e emanam na fala. falso. As manifestações ideológicas que sinalizam tentativas de enquadramento e “cristalização” das expressões de gênero feminina e masculina são provenientes da infra e da superestrutura. a discussão é concluída a partir do diálogo entre as demais partes do texto. etc. (BAKHTIN (Voloshinov). O domínio do ideológico coincide com o domínio dos signos: são mutuamente correspondentes. Ao final. ou apreendê-la de um ponto de vista específico. se torna impossível abordar ideologias sem se apropriar e analisar a língua em uso pelos falantes.] a palavra penetra literalmente em todas as relações entre indivíduos. um tópico seguinte de discussão analítica em que são trazidos para o texto recortes de cena como objeto de análise articulados com a teoria do Círculo de Bakhtin. Ele pode distorcer essa realidade. p. ideológica e cultural que a ele se vinculam: Os signos também são objetos naturais. IDEOLOGIAS EM CONFRONTO O signo ideológico é constituído mediante contratos sociais. Ali onde o signo se encontra. A importância dessa natureza do signo decorre da valoração social.). semiotizada no enunciado. um sentido que ultrapasse suas próprias particularidades. como vimos. Portanto. portanto. ser-lhe fiel. 41). além da natureza semiótica da palavra. como ressalta Voloshínov “[. etc. ele também reflete e refrata uma outra. Todo signo está sujeito aos critérios de avaliação ideológica (isto é: se é verdadeiro. assim.. correto. em razão das valorações da palavra e do discurso. p. bom. no nível individual da língua. Em decorrência dessa apropriação ou discordância de ideologias no nível da língua e da potencialidade ideológica do signo. tecnológico ou de consumo pode tornar-se signo e adquirir. nas de base ideológica. nas relações de caráter público. ou seja. A vida está. pág. 32) Nesse sentido. como o signo reflete e refrata a realidade em transformação. em que se discute a relação de diálogo existente entre as ideologias e como essas ideologias se posicionam em determinadas esferas sociais ao mesmo tempo que influenciam outras esferas. 1997. nas relações de colaboração. encontra-se também o ideológico.” (BAKHTIN (Voloshinov). 1997..” (BAKHTIN CORPOS . Tudo que é ideológico possui um valor semiótico. justificado. Em Marxismo e Filosofia da Linguagem. 184 pontos da teoria bakhtiniana utilizados na análise. todo produto natural. etc. e. pois ela se insere em múltiplos contextos sociais. em que ocorre o embate com as ideologias das super e infraestrutura. o ato enunciativo. 1. A questão central é compreender “como a realidade (a infra-estrutura) determina o signo. assim como a reverberação de determinados discursos ocorre de acordo com as ideologias dominantes e as infraestruturas sociais. Voloshinov evidencia “o problema da relação recíproca entre a infra-estrutura e as superestruturas” (BAKHTIN (Voloshinov). Flexibilidade e pluralidadade. outro aspecto relevante nessa problemática é a flexibilidade e a pluralidade da palavra e do signo. nos encontros fortuitos da vida cotidiana. as ideologias são analisadas nesse nível. específicos.

o sujeito se refrata nele. 41). ocorrem valorações que determinam o gênero. pois confronta a ideologia hegemônica do patriarcado e responde a ela sob um fundamento feminista. que na obra aparece presumido na inversão entre performatividades de gênero feminina e masculina. como demonstra a arquitetônica de inversão de La Majorité Opprimée. 46). 185 (Voloshinov). em que no lugar da classe social desfavorecida. 1997. constrói o gênero do sujeito. A linguagem. de uma classe natural de ser. ou seja: a luta de classes. No nível da fala. 1997. mesmo daquelas que apenas despontam. em que há questionamentos e confrontos ao discurso oficial. ao se refratar no signo. p. Em La Majorité Opprimée o quadro apresentado representa um tipo de luta entre direitos de gêneros. provenientes de diversas ideologias que em embate. O discurso e as ideologias patriarcais são desse modo refletidos e refratados no signo. cristalizam o gênero. que ocorrem as valorações de “feminino” e “masculino” nos enunciados e na palavra. representa o embate entre “índices de valor contraditórios”. Por representar o lado social da linguagem no nível do sujeito além de representar a ideologia hegemônica. consoante Voloshínov “O confronto de interesses sociais nos limites de uma só e mesma comunidade semiótica. As modificações no contexto social são mobilizadas pela fala e se dão na infraestrutura e nas relações verbais. O signo fundamenta todos os domínios do conhecimento e as relações sociais que o configuram.” (BAKHTIN (Voloshinov). 2015. É nas relações da realidade. Ele é amorfo e composto por incontáveis fios sociais. p. p.] a palavra será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais. na palavra. A valoração do signo são os elementos que constroem a mulher como sujeito feminino. 1997. esse “confronto de interesses” representa especificamente a luta de classes sob o tom socioeconômico e a divisão entre classes em decorrência de poder aquisitivo.. p. pela língua e mediante a palavra. portanto.” (BAKHTIN (Voloshinov). os movimentos ideológicos que circulam entre esses dois espaços são o alicerce básico das construções de estereótipos que. onde.. a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância. 41). O corpo. um conjunto de atos repetidos no interior de uma estrutura reguladora altamente rígida. é constituído como tal por meio do ato. como mencionado anteriormente. que ainda não tomaram forma. nas infra e superestruturas. O sujeito mulher feminista representado em La Majorité Opprimée. Além de a infra e superestrutura serem pontos fundamentais na análise do complexo social. ocorrem as valorações de gênero. a palavra emana as transformações sociais que se dão ao nível da fala. na ideologia cotidiana: [. se opõem ou se reafirmam. que ainda não abriram caminho para sistemas ideológicos estruturados e bem formados. Para a autora: O gênero é a estilização repetida do corpo. como dado social valorado. como dito anteriormente. (BUTLER. Em Marxismo e Filosofia da Linguagem. 69) CORPOS . há a mulher em desvantagem em contraposição à supremacia masculina. Essa condição de refração do sujeito no signo sinaliza. Além de ser refletido no signo ideológico. nas relações entre sujeitos. conforme Butler.

com os discursos e a sociedade. é uma construção discursiva construída social e ideologicamente. portanto. a partir de seu outro. 69). 186 Os estereótipos e as identidades de gênero são. O CORPO VALORADO A construção arquitetônica de La Majorité Opprimée ressalta. entre outras questões. na linguagem. incorporando-se como um discurso rotulador enraizado nas infra e superestrutura. convenções sociais calcadas em ideais provenientes da ideologia hegemônica. ele torna-se mulher. a problemática da inscrição do corpo no sistema. como concepção de gênero. trans e masculina. uma mulher sem camisa e de outro. O sujeito mulher é uma realização que se dá em razão do discurso. E em segundo lugar. esse “fazer discursivo” do gênero. a polarização desses corpos CORPOS . p. assim como as ideologias e valores que os permeiam. De um lado. portanto. nos confrontos de vozes sociais. inferidas discursivamente pelas superestruturas e dialoga com as questões de relação de poder que acontecem na linguagem. as práticas discursivas que configuram os gêneros e a performance são cristalizados pela ideologia hegemônica. O “ser mulher”. A concepção de gênero se dá em meio aos enunciados e discursos. A concepção da mulher e os fazeres que a contornam são composições e valorações que emergem de acordo com a relação do sujeito com seus outros. portanto. há um consenso de que o sujeito constrói sua identidade de gênero discursivamente e. em palavras claras. O corpo coberto/ velado x o corpo livre/ à mostra. Como visto. No plano visual. Nesse sentido. A estudiosa questiona a hegemonia de instituições que influenciam e determinam práticas reguladoras do gênero e discute a pressuposição de que a repetição de determinadas práticas garantem a formação de identidades de gênero. ou seja. acaba originando estereótipos de identidades femininas. Butler convoca um conjunto de ideologias superiores. Essa bilateralidade da concepção do gênero pelo viés discursivo gera dois pontos sobressalentes: Primeiro. Butler problematiza essa cristalização levando em conta o tom negativo que a cristalização das práticas discursivas gera à construção dos gêneros. Butler provoca a ideia de que se o sujeito pratica determinados atos do “ser mulher” predeterminado política e culturalmente. A consagração da repetição de “modos de ser mulher” pelo poder hegemônico – que se baseia em princípios que favorecem a ideologia econômica e política – nesse sentido é analisada por dois focos. 2. Na figura 01 há um confronto entre a valoração dos corpos no curta metragem. a formação do gênero feminino e masculino se desvincula da pressuposição natural e binária de homem e mulher e acontece a partir dos discursos e da formação cultural do sujeito. o jogo de valorações inerente ao modo como os corpos feminino e masculino são representados são aspectos que resgatam o embate ideológico intrínseco ao patriarcado. Ao trazer “estrutura reguladora altamente rígida” (2015. Os valores ideológicos incutidos no comportamento e na postura das personagens homem e mulher são reverberados no modo como o corpo feminino e masculino são representados na obra. um homem vestido.

2015 Na figura 2 há a sequência da materialização da dicotomia entre os corpos feminino e masculino na obra. Esses elementos visuais da cena se concretizam como signos ideológicos que reverberam índices valorativos da sociedade retratada e ironizada no curta metragem. em contraposição ao vestido. enquanto o homem se esquiva. O homem. interpela o homem em um tom de assédio. sem camisa. Em outros momentos do curta. Neste caso. com respostas rápidas e se afasta. O não vestido. que representa na obra a voz machista. aparece empurrando o carrinho de bebê enquanto no primeiro plano. Não são apenas corpos biológicos. A mulher. do lado direito. a mulher corre. O próprio teor do diálogo retratado na cena denota sobre os índices de valor que embasam a relação entre os sujeitos representados. O corpo masculino é livre para CORPOS . de um lado sem camisa. está sem blusa enquanto o homem empurra um carrinho de bebê. a mulher. ele denota a construção social de que o corpo masculino é livre e o corpo feminino. O corpo vestido e o corpo não vestido trazem ecos do sistema em que se inserem as relações entre gêneros. La Majorité Opprimée coloca em cena o embate ideológico entre o que é o corpo feminino e o que é o corpo masculino na sociedade feminista retratada. são corpos valorados social e culturalmente. Há uma construção histórica e cultural sobre esses corpos que é concretizada na obra por meio do confronto entre o corpo livre e o corpo velado. o corpo feminino é colocado em foco e há uma tensão gerada pela censura a esse corpo. Há um confronto hierarquizado que perpassa o lugar social desses corpos na sociedade femista. e a dicotomia entre esses dois corpos é nítida na constituição estética da cena.com/watch?v=bHJqNpJ8xAQ&t=2s. como nas figuras 02 e 03. 187 denota uma configuração social que os constitui socialmente como tal. No primeiro recorte de cena. censurado. posicionado ao fundo.youtube. denota mais que uma escolha dos sujeitos em vestir-se ou não. Figura 2: O homem vestido e a mulher sem camisa Fonte: https://www.

bem como o foco nas pernas.youtube. O desabotoar da CORPOS . O ato de abrir o botão da camisa reverbera a objetificação do corpo feminino na sociedade assim como a censura a esse corpo. enquanto o corpo feminino deve estar coberto. 2015 Como elemento visual. como o peito e a gola da camisa que ele está abrindo. da vida. ainda que de forma mínima. que pode ser mostrado e o corpo feminino velado. Na figura 02 se destaca a oposição entre como são as construções sociais de homens e mulheres na sociedade contemporânea. o enfoque no desabotoar da camisa e os olhares preocupados da personagem para os dois lados da rua denotam o aspecto valorativo do ato de desabotoar a blusa e expor essa parte do corpo. oposição entre a naturalização do que é semiotizado na obra como o corpo masculino livre. Esse enquadramento cênico tem como foco o ato responsível e responsável desse sujeito e as valorações sociais e culturais refletidas e refratadas no ato. um ato que remonta à culpa atribuída à mulher caso seu corpo seja violado. O ato desse sujeito semiotizado no texto é perpassado por valorações culturais e ideológicas da vida. por sua vez. Quando a câmera se volta completamente ao enquadramento da gola da blusa. Figura 3: O homem e a mulher andam na rua Fonte: https://www.com/watch?v=bHJqNpJ8xAQ&t=2s. esse foco mostra a perspectiva social e as valorações que entornam o desabotoar da blusa. A câmera foca no peito do personagem e na gola da blusa assim como a sociedade foca o corpo da mulher quando ela o expõe. Nos recortes seguintes (Figuras 03 e 04) existe um zoom que foca em determinadas partes do corpo do homem. São duas focalizações diferentes nesse corpo estético que semiotiza o corpo feminino do mundo ético. A censura ao corpo feminino na obra é observada ao longo da narrativa e no diálogo entre os elementos de cada cena. Expor o corpo é. no momento em que ele puxa a bermuda no intuito de cobrir suas pernas. 188 estar ou não coberto. com apenas alguns botões abertos.

constituem o personagem e também constituem. Nessa circunstância. O ato infere o posicionamento axiológico do personagem que assume uma postura sem álibi e singular. o sujeito feminino contemporâneo. Figura 4 O foco na gola do homem Fonte: https://www. expor o colo e seios.com/watch?v=bHJqNpJ8xAQ&t=2s.. ocorre mais um enfoque da câmera em seu corpo. 189 blusa pela mulher consiste em mostrar mais o corpo da mulher.youtube. sentada à sua frente e que ao ouvir seu relato sobre o caso (Figura 04 e 05) ironiza que “Em plena luz do dia. Embora se preocupe e olhe para os dois lados antes de abrir a blusa.e nenhuma testemunha. por sua vez. O cruzamento de vozes sociais que ocorre no ato do homem abrir sua gola e os discursos que cruzam esse ato.. que é só dele e por meio da qual esse sujeito responde aos outros que o envolvem. Pelo olhar patriarcal. na interlocução homem-mulher. Figura 5: O foco nas pernas do homem CORPOS . 2015 Em outro momento da narrativa. que salienta o seu gesto de puxar a bermuda para baixo no intuito de cobrir suas pernas.. Nesse embate.. o fato do homem abrir a camisa e o enfoque da câmera nesse momento da cena também representam o confronto da personagem com o discurso patriarcal que lhe impõe o medo de abrir os botões. Interessante huh?”. o personagem é intimidado pela delegada que o atende. essa exposição denota uma provocação ao homem e indica que a mulher está se colocando em uma condição de vulnerabilidade ao assédio e ao estupro. ele os abre e esse ato incute um desafio à ordem patriarcal. Esse cruzamento consiste no desejo da mulher de vestir-se à vontade em embate com a cobrança e censura a esses atos que a colocam em situação de vulnerabilidade. aludindo à possibilidade de o protagonista estar inventando o ataque que ele sofreu. no qual o protagonista está sentado na delegacia reportando o estupro do qual foi vítima.

O embate ideológico é visto na cena quando a mulher passa correndo sem camisa ao lado do homem (Figura 2). é uma sociedade que censura o corpo da mulher. denota uma despreocupação em estar sem camisa. No nível semântico.youtube. mas também o tom emotivo-volitivo das personagens. “Poder” andar sem camisa é a liberdade de escolha para um homem de usar a camisa ou não em determinadas ocasiões. que geram a culpa à mulher caso ela seja assediada ou estuprada. Seus gestos. enquanto à mulher a roupa curta. bem como a atitude incisiva dela estar à frente do homem e tentar continuamente a puxar assunto por meio de assédio. o desabotoar da blusa. o zoom da câmera e o enquadramento na gola da blusa é um deslocamento da cena que denota a preocupação com o ato de abrir a gola e essa preocupação em abrir a gola se dá no embate entre as expectativas da sociedade patriarcal. por sua vez. onde vemos uma clara contraposição de como são valorados histórico e socialmente esses dois corpos. o mostrar um pouco da perna são gestos socialmente censurados.com/watch?v=bHJqNpJ8xAQ&t=2s. por exemplo. Figura 6: A delegada e o homem (de costas) na delegacia CORPOS . o diálogo das personagens e os enfoques da câmera são elementos materiais do texto que servem de base para pensar nos conflitos ideológicos que fundamentam a representação dos corpos masculino e feminino na obra. No recorte de cena 03. Na figura 01. Existem juízos de valores que embasam o “poder estar sem camisa” e o “dever estar de camisa”. por exemplo. que como mostra o curta. em que uma mulher se apoia na parede com o braço. o tom com que falam e o modo com que olham. 190 Fonte: https://www. “poder” e “dever” são lexemas de base divergente e oposta. 2015 Esse encadeamento de elementos visuais da obra. Não apenas a estética visual das cenas denota o embate ideológico em relação ao corpo. sem camisa. como mostra o próprio curta (Figuras 34 e 35). sendo que o não uso não gera a esse sujeito o estupro.

interpretamos os efeitos de sentido sobre os quais discorremos pois eles tem uma orientação sociológica que se banha no horizonte ideológico da sociedade patriarcal. portanto. convite ao corpo.. o estupro é culpa da vítima pois ele usava CORPOS . qualquer objeto da natureza.com/watch?v=bHJqNpJ8xAQ&t=2s. São signos objetos materiais isolados. essas roupas deixam à mostra o corpo desejado. na cultura e nas ideologias. mas remete à realidade que o contextualiza. as palavras ou objetos expressam índices de valores quando são colocados em diálogo com uma realidade social.]. A roupa curta ou a roupa antes do joelho não é uma roupa como qualquer outra. por conseguinte. O sentido cultural do corpo ultrapassa seus limites biológicos e é construído na alteridade. No caso dos elementos cênicos que temos em vista. se deixado à mostra. O estupro é. objeto- corpo. às construções culturais que o envolvem e à forma como a sociedade patriarcal o vê e constrói os sujeitos. 191 Fonte: https://www. uma situação provocada que concerne ao homem que provocou o assédio. no embate entre ideologias. nas relações discursivas. é um corpo-convite. Pelo viés femista explorado na obra. A inversão cultural femista dá a liberdade do corpo masculino às mulheres que entendem o corpo à mostra como um corpo à disposição e. 2015 Como vimos anteriormente. o corpo é valorado e essas valorações se dão no nível da linguagem. como vimos. 193) Nesse sentido. da técnica ou do consumo pode tornar-se signo.youtube. o corpo-objeto. p. 2013. O aspecto biológico do corpo é um pressuposto que se embate com o olhar social sobre ele. mas com isso adquirem um significado que está fora do âmbito de sua existência isolada (do objeto da natureza) ou da sua destinação [. Para o Círculo. Nessa cultura o curta nos mostra o corpo masculino entendido como um corpo à mercê das mulheres e que.. o corpo não é um dado biológico apenas. (VOLOSHÍNOV. Os elementos cênicos que analisamos são signos ideológicos que compõem o todo enunciativo da obra estética.

O corpo da mulher reflete a ideologia machista e também reflete a ideologia feminista. Do outro. Há um intercâmbio de vozes imanente ao corpo físico. refletido no signo. na lateral direita. (BAKHTIN/VOLOSHINOV. abrange o embate de luta de classes. 46) Nesse sentido. que são verificadas na fala da personagem. O que é que determina esta refração do ser no signo ideológico? O confronto de interesses sociais nos limites de uma só e mesma comunidade semiótica: ou seja: a luta de classes. também moldado pelas inferências culturais de seu espaço e tempo. a mulher invade o homem com um assédio mascarado de elogio enquanto está sem camisa. maternal. aspectos cotidianos que delatam a desigualdade a partir do signo. mas também se refrata. La Majorité Opprimée parte da maternidade para abranger aspectos outros do patriarcado que encarceram a mulher em estereótipos. A arquitetônica do curta compreende. O ser. 192 “camisa curta” e “bermudas antes do joelho”. a imagem feminina é. não apenas reflete. a limitam em razão de sua natureza feminina e a privam de usufruir de direitos que homens usufruem. Ele é. neste sentido. O modo como se configuram as expressões de gênero masculino e feminino e a forma como elas se empreendem no corpo físico se embasa nos embates ideológicos contemporâneos. As três cenas observadas ressaltam esses elementos culturais que envolvem a formação do sujeito feminino na sociedade contemporânea. O corpo feminino é liberado e aceito na erotização e no desejo masculino sobre a mulher. em razão do gênero. como instituições sociais. o patriarcado joga à margem o potencial feminino de ser um líder financeiro da família e também infere essa ideia a outros contextos sociais e profissionais em que se nota a ausência de mulheres em determinados cargos empregatícios em razão de seu ofício doméstico e maternal. Assim. O Estado. Ao impor um modelo social de família em que o homem é o líder financeiro e a mulher a principal responsável pelas atividades domésticas e maternais. Do lado esquerdo. portanto. estão CORPOS . inferimos que essa aceitação é um ato social que incute as valorações ideológicas sobre o corpo e reverbera estereótipos de feminilidade. cuida da criança e se cobre. é pensado a partir da valoração cultural realizada sobre ele. Vemos que o nível visual da cena (Figura 1) atenua a desigualdade cultural que engendra a relação dos gêneros feminino e masculino. quando dizemos que o corpo feminino exposto é aceito caso se encaixe em uma situação de erotização e objetificação do mesmo. o homem ouve. p. A liberdade e o controle. Sob a ótica da inversão. assim como refrata a ambos. por sua vez. como dicotomias sociais sobre o corpo. O corpo físico. a Igreja e a Família. 1997. O resgate desses machismos verificados no cotidiano se dá na construção verbivocovisual da obra. reverberam esse discurso e o oficializam como forma de instituir e confirmar a ideologia machista. Nesse embate se colocam em choque as vozes sociais machistas e feministas sobre o corpo da mulher. doméstica e objeto de desejo. nos diversos níveis do enunciado. Essa inversão e o efeito de sentido irônico sintetizam o embate ideológico patriarcal e a construção histórica do que é o corpo feminino na sociedade. o corpo físico reflete e refrata índices valorativos. que ideológico.

portanto. Marxismo e filosofia da linguagem. J. BUTLER. valorado socialmente como o corpo censurado que. M. M. Os recortes de cena apresentam embates de valores sociais e históricos mediante o signo ideológico. M. 2012. 1997. O signo. 2011. no exercício do poder de censura ao primeiro. (MEDVEDEV). BAKHTIN. M. Tradução de C. BAKHTIN. M. São Carlos: Pedro & João Editores. em um ato maternal ou de censura. Para uma filosofia do ato responsável. M. Problemas da Poética de Dostoievski. 193 estampadas no espaço da cena. não é livre. BAKHTIN. [1926]. no mundo da cultura. A censura do corpo feminino em detrimento da liberdade do corpo físico masculino são consensos sociais criados historicamente com base em interesses político ideológicos. as ideologias machistas e feministas provenientes do mundo da vida. como elemento ideológico e dialógico concretizado no limiar entre o tema e o contexto socioideológico engendra o diálogo entre as personagens e incorpora na situação. Estética da Criação Verbal. Circulação restrita. Sejamos todos feministas. El método formal en los estudios literarios. A. M. por ser objeto do patriarcado. materializadas no signo ideológico se referem ao horizonte ideológico da sociedade contemporânea que. 1997. 1994. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. 2010./VOLOSHINOV. BAKHTIN. percebemos uma construção cultural dos corpos que se dá no signo ideológico. em um movimento de reflexo e refração que perpassa os limiares entre o mundo da vida e o mundo da arte. São Carlos: Pedro & João Editores. consequentemente. C. (1929). 2011. Tezza. por sua vez. Faraco. no ato enunciativo em razão do índice valorativo a eles inerente. M. BAKHTIN. Palavra própria e palavra outra na sintaxe da enunciação. BAKHTIN. (1992). enquanto o corpo masculino é um corpo com liberdade sobre si. Madrid: Alianza. M. O corpo feminino é. São Paulo: Forense. enquanto que o segundo é representado sem roupa. socialmente. na relação dialógico-dialética entre super e infraestruturas. São Paulo: Martins Fontes Editora. CORPOS . a ideologia oficializada. os corpos reverberam índices valorativos e são valorados ideologicamente. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. BAKHTIN. Isso se dá em La Majorité Opprimée por meio da representação visual dos corpos feminino e masculino em que o primeiro é sempre vestido. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir da análise realizada. V. 2015. Essas construções. Semiotizados na obra estética. N. São Paulo: Hucitec. São Paulo: Companhia das Letras. é demarcada pelo discurso de autoridade patriarcal. No embate entre as ideologias femistas e masculinistas são semiotizadas no curta metragem e. REFERÊNCIAS ADICHIE. Discurso na vida e discurso na arte: sobre poética sociológica. C.(VOLOCHINOV) (1929).

São Carlos. A palavra e sua função social. V. Palavra própria e palavra outra na sintaxe da enunciação. M. CORPOS . V. VOLOSHÍNOV. In: A construção da enunciação e outros ensaios. SP: Pedro & João Editores. 2013. SP: Pedro & João Editores. A palavra na vida e na poesia: Introdução ao problema da poética sociológica. In: BAKHTIN. 2011. 194 VOLOSHÍNOV. São Carlos.

coordenado pela ProfªDrª Maria Luiza Magalhães Bastos Oswald(ProPEd/UERJ). que também orientam e modificam o signo. A investigação se fundamenta na Teoria da Enunciação de Mikhail Bakhtin (2006. em especial sobre a estética dos cabelos de mulheres negras. 2010). 2002). com base no mesmo autor (BAKHTIN. dentre outras referências dos estudos de raça e gênero para pensar estas relações na sociedade brasileira. Andréia Cristina Attanazio 72 Palavras-Chave: Cabelo. 72Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ProPEd/UERJ). Bakhtin e seu Círculo ideológico. RESUMO 195 Este artigo foi produzido no âmbito de uma pesquisa de doutorado. cujos sentidos produzidos sobre suas diferentes texturas são construídos histórica e culturalmente. SILVA. 2011. CORPOS . nas contribuições de Nilma Lino Gomes (2008. jovens e redes de conhecimento”. sempre parcializada. em curso.nas discussões sobre a relação exotópica entre pesquisador/a e pesquisados/as. Nesse contexto. 2005. que tem por interesse pesquisar os sentidos que mulheres negras O CABELO COMO SIGNO constroem sobre seus cabelos. concebida como teoria social. Esse estudo está articulado ao projeto de pesquisa “Educação e contemporaneidade: crianças. Juventude.com. A partir do reconhecimento do cabelo como um signo ideológico que reflete e refrata as enunciações sobre ele. Signo Enunciação. das relações da mulher com a cultura e o cabelo.O diálogo com as sujeitas da pesquisa é o procedimento teórico- metodológico privilegiado do estudo.Integrante do grupo de pesquisa “Infância. Endereço eletrônico: attanaziobkp@gmail. meu estudo tem por objetivo construir narrativas com mulheres negras sobre seus cabelos. na medida em que aponta para a potência das redes de conhecimento presenciais e online na ressignificação de conhecimentos hegemônicos que foram construídos a partir da construção de um projeto de sociedade colonial. como parte do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior. INTRODUÇÃO A pesquisa de doutorado que venho realizando tem como tema a relação entre mulher negra e cabelo. Educação e Cultura” (IJEC). coordenado pela ProfªDrª Maria Luiza Oswald (ProPEd/UERJ). bem como na literatura feminina de mulheres negras. 1997). Bolsista CAPES/MEC tendo em vista a realização de doutorado sanduíche no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra. buscando compreender que sentidos elas constroem sobre a estética dos mesmos. a partir de Rita Ribes Pereira (2015). nos debates sobre a ética nas pesquisas em Ciências Humanas e Sociais. que tem IDEOLÓGICO: uma leitura a partir acontecido de forma presencial e online. o texto em questão visa apresentar uma discussão concebendo o cabelo como um signo ideológico. online. tomando como base a teoria da enunciação elaborada por Mikhail Bakhtin e seu Círculo e o diálogo com as participantes da da teoria da enunciação bakhtiniana investigação. que nos auxiliam na compreensão.

edu.br/admin/arquivos/MARXISMO_E_FILOSOFIA_DA_LINGUAGEM.pdf>. convidados a partir do meu ambiente de trabalho. nos revelando o papel da linguagem no funcionamento da vida social e o desenvolvimento desta através daquela. o diálogo com as sujeitas pesquisadas vinha ocorrendo apenas a partir de encontros presenciais com as sujeitas da pesquisa.74 Bakhtin/Volochínov A epígrafe com que inicio esta reflexão é parte da obra “Marxismo e Filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem”. teve a assinatura de Volochínov. como se nota. Para as questões que aqui nos interessam. pela semelhança com as produções de Bakhtin.esse encontro com a natureza do signo que. 2010b) 76 . 76 Cabe pontuar que utilizei ambas versões da obra citada. instrumento de produção ou produto de consumo. linguagem e ideologia. Bakhtin /Volochínov (2006. dentre outras. e adotei o Messenger. ainda. Entretanto. em que o conteúdo da tela é inteiramente salvo no computador ou celular e. mas. em que Bakhtin /Volochínov 75 (2006. 196 Coerente com o objetivo da pesquisa e com os referenciais teórico-metodológicos que a norteiam. 75A presença do nome dos dois autores se justifica pelo fato de que a publicação russa do texto original. 74 Disponível em: <http://www. sobretudo entre mulheres. tendo em vista a efervescência das discussões sobre as estéticas dos cabelos nesta rede social. CORPOS . Acesso em: 11 set. seria dele também a autoria do texto em questão. transcrições das mesmas.com/>. documentos de textos em que são salvas no meu computador pessoal os diálogos que são produzidos online. 2017. o material de pesquisa que tem sido produzido nesse processo são arquivos de áudio com o conteúdo das conversas presenciais. que lhe é exterior. ele também reflete e refrata uma outra realidade. aponta as intrínsecas relações entre linguagem e consciência. plataforma para mensagens particulares associada à referida rede social. esse é o ponto de partida. tendo em vista que uma me auxilia com as possibilidades de um documento no meio virtual e a outra. Em outros termos. é social e ideológica. em 1929. tudo que é ideológico é um signo. O CABELO COMO DISCURSOS EM DISPUTA Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico. fui me aproximando do Facebook73 como mais uma possibilidade de campo empírico.fecra. para a tessitura do diálogo com as sujeitas da pesquisa. de imediato. cujo endereço eletrônico é <https://www. tais como “Problemas da poética de Dostoievski” (2010c) e “Cultura popular na Idade Média e no renascimento: o contexto de François Rabelais” (2010a). em breve um espaço de tempo. Sendo assim.facebook. Escolho trazer para o princípio dessa discussão a passagem acima porque ela nos permite. tendo o cabelo como fio condutor. tendo em vista que os seus sentidos são construídos em conformidade com os contextos 73 Maior rede social online atualmente. no âmbito de um complexo e rico trabalho depesquisa.linguagem e sociedade. entretanto. ao contrário destes.No curso da pesquisa. na materialidade do texto impresso. imagens produzidas através do mecanismo Print Screen. Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. que veio atingindo grande proporção mundial nos últimos anos. 2010b) nos ajuda a entender que o signo é de caráter vivo e dinâmico. Foi a partir dessas narrativas que a reflexão que segue se desenrolou. 1. muitas foram as questões levantadas pelas mulheres com as quais conversei. estudos posteriores mostraram que.

de outro modo. que a exibição dos cabelos crespos não estaria coerente com os padrões identificados como belo. precisa embranquecer de alguma forma. “por toda história de sofrimento do negro. é valorado com um grau muito menor em relação ao cabelo de fio reto. Giseli está como professora regular de uma turma de um ano. Evie tem lecionado. Esses efeitos de sentidos são múltiplos e variados. porque. O título deste artigo anuncia o cabelo como um signo ideológico. mesmo o cabelo cacheado. Por esta razão.Referindo-se ao procedimento adotado por muitas mulheresde alisar os cabelos crespos. assim como também o são os discursos. 150) nos auxilia a entender que “são os diálogos entre as diversas esferas ideológicas os responsáveis pelos efeitos de sentido”produzidos pelos discursos. Pistori (2014. embora cada sujeito na sua particularidade também contribua para essa construção. em diálogo com as contribuições bakhtinianas sobre a linguagem. o que se vê nesse processo de aceitação ou rejeição do cabelo crespo é uma disputa 77 Há alguns anos. eu queria esconder isso. que é para ficar aceitável. É importante observar que o desejo de Giseli em esconder seu cabelo armado não é produto subjetivo de sua consciência individual.[…] O cabelo do branco é baixinho. por uma construção histórica ideológica que confere uma marca pejorativa à textura crespa dos cabelos de homens e mulheres. 197 sociais que os abrigam. como da nossa raça. Ele é móvel porque reflete e refrata a realidade em que está inserido. certamente por razões étnicas. Convencionou-se socialmente.antes praticado também por ela. ninguém bota o cabelo pra cima. Queria ele baixinho. como já salientado. Referindo-se aos discursos de duas publicidades da marca Louis Vuitton.” Esse relato de Evie faz menção ao fato de que o cabelo crespo. ela trabalhou com crianças com necessidades especiais em processo de inclusão escolar. a professora nos ajuda a perceber que esse é um movimento motivado. Para pensar essa questão. 78 Giseli entrou em 2015 na creche onde está lotada. é Evie77 quem chamo para a conversa. na sala de Atendimento Educacional Especializado. tudo que faz alusão ao que é negro precisa ser de alguma forma embranquecido. os seus sentidos múltiplos e variados são sempre sociais. Então. mas elas são elaboradas na coletividade de uma dada esfera social. na unidade em que trabalhamos. Pra ficar legal. trago também falas das mulheresque estão participando de meu estudo de doutorado. Tais significações não são produtos de um único indivíduo isoladamente. Segundo ela. transformando-o com suas sempre novas e modificadas significações. a gente quer esconder o que a gente tem… Assim. mas eu não queria meu cabelo cheio. como professora regular de turmas de crianças com três anos de idade. Em 2016. nos mostra: Quando a gente é nova. guiados por acordos coletivos.a opção por exibi-lo “baixinho” faz parte de uma construção social que organiza determinados códigos de beleza. Na ocasião. muitas vezes. como Giseli78. o signo é interindividual. Dessa forma. assim. ao longo da formação da sociedade brasileira.hierarquizando os sinais diacríticos da cultura europeiae estadunidense em detrimento daafricana. é uma coisa que as pessoas têm assim como ‘não é bonito’. outra professora com quem dialoguei na pesquisa. CORPOS . p.Neste momento. coerente com um projeto de sociedade racista. Reflete porque ele nos diz sobre o meio que o cerca e refrata porque ele também responde a esse meio.

seguir com tal entendimento seria o mesmo queinsistir no aprisionamento dos signos em uma significação limitada. pontual. para a reverberação do mito da democracia racial. quando ela diz que: […] a gente fica com preguiça. ao mesmo tempo em que também materializa a ideologia. Essa deformação conceitual no que tange às evidências de uma sociedade colonizada. embora a elaboração dos dicionários seja com essa pretensão. Evie questiona a concepção largamente difundida socialmente de que as repetidas circunstâncias de marginalização do negro – de suas culturas. Essa tensão é evidenciada por esta fala de Evie. vale pontuar a pouca coerência e consistência em se conceber os significados dicionarizados como definições que supostamente abarcariamtoda a grandeza e completude dos signos. e. que o orienta e o norteia. de suas belezas – são discursos produzidos em função de uma suposta autovitimização dos mesmos. em que usar o cabelo armado ou não é uma contrapalavra que responde ou que silencia respostas a outros tantos enunciados. Nesse sentido. resolvi trazer para cá os resultados de uma CORPOS . às vezes. rola um pouco disso. a compreensão de um signo ideológico não passa pela apreensão de um sentido único e enclausurado do mesmo. apesar da probabilidade de alguma fixidez na sua constituição. numa suposta síntese do seu significado. já que suas diversas possibilidades de significação não estão determinadas a priori. cujos sentidos são produções ideológicas e culturais nem sempre harmoniosas e consonantes entre si. entendeu? Que não veem racismo onde tem. para isso. Dessa maneira. de ficar tendo que… Como é que eu vou dizer? Que produzir esse discurso para as pessoas que não estão com essa visão política aberta. Isso nos faz pensar que o cabelo e sua textura são signos que dialogam com outros diálogos. consequentemente. por seu sentido não ser da ordem do “eu”. Por conseguinte. está explícita a dialeticidade do signo. retardando as urgentes e necessárias reformas étnicas e sociais. fica claro que por ser o signo ideológico. mas pertencer à ordem do “nós”. heterogêneo. que não veem preconceito onde tem. Nesse contexto. o signo é sempre axiológico e. 2. ele não é estático e monológico. de suas histórias. ele tem seus sentidos situados do lado de fora da materialidade que o carrega. eu não tenho paciência. Sendo assim. ao mesmo tempo em que provoca um lastimável avanço das estruturas de base europeizadas. 198 entre discursos. também corrobora. Aí. SENTIDOS E SIGNIFICADOS PRODUZIDOS EM TORNO DAS CONCEPÇÕES DE CABELO Nas linhas acima. ratificando ou refutando seus discursos. Assim. a fim de problematizá-los. uma disputa entre signos. ele é híbrido. permanecendo numa arena de disputa constante. concepção essa que desloca as mazelas raciais da esfera ideológica e cultural para reposicioná-la equivocadamente no campo de uma subjetividade psicológica individualizada. por estar ligado a sistema de valores. paralisada no tempo e no espaço. Que acham que tudo é frescura de quem é negro. Portanto.

Isso porque “cabelo” tem sentidos muito mais amplos e complexosdo que a compreensão de que sãopelos que revestem o couro cabeludo. difícil de pentear. reforçando- os. CORPOS . 4 Mola de aço delgada. nessas expressões. também 79 Disponível em: <http://michaelis. é separada da lã suja. Pelo comprido de certos animais. assustar. 3 POR EXT Conjunto de pelos que cobrem o corpo de certos animais […]. Cabelo bom.[…] De arrepiar o cabelo. que regula o movimento de relógios pequenos.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=cabelo>. Cabelo pixaim. Conjunto do pelo da cabeça.com. online)79 ca·be·lo |ê| […] 1. Cabelo de espeta-caju. Ao contrário.E. […] (PRIBERAM. Algum leitor desavisado poderiaimaginar que.uol. além de mais um ou dois significados.Os dicionários pesquisados trazem. COLOQ: apavorar. estariam presentes os conflitos e a diversidade de sentidos que envolvem o termo em pauta. isso não acontece. Espiral reguladora dos relógios de algibeira. Acesso em: 13 set.E. Acesso em: 13 set. 199 consulta à palavra “cabelo” em dois dicionários online. na sequencia das definições. REG (N. Dessa maneira.[…] (MICHAELIS DICIONÁRIO BRASILEIRO DA LÍNGUA PORTUGUESA. 4. 5 Tipo de lã que. Cada um desses pelos. […] Cabelo de cupim. desconsiderando as tensões e a dialogicidade do termo no confrontamento dos inúmeros discursos que o compõem. COLOQ: Vcarapinha. no que o faz. […] Cabelo lambido.[…] Pôr os cabelos em pé. COLOQ: cabelo liso e sem volume. por extensão.): cabelo grosso e eriçado.encontrei as conceituações a seguir: Cabelo […] 1 Conjunto de pelos que recobrem a cabeça humana. espiralada. 2017.as referidas expressões pincelam estereótipos indesejados sobre os cabelos. pela variedade das mesmas.pt/dlpo/cabelo>. enquanto que emudece tantos outros sentidos possíveis. EXPRESSÕES Cabelo agastado.Na minha leitura. e.): Vcarapinha. 2. 3. durante o processo de beneficiamento. algumas expressões que incluem a palavra “cabelo”. COLOQ: cabelo muito crespo. 2017.priberam. 8 Disponível em: <http://www. Cabelo ruim. Nessa investida. FIG: assombroso. COLOQ: cabelo encarapinhado […]. […] cabelo aguado • Ralo e fino. COLOQ: cabelo liso. espantoso. REG (N. online)80 Podemos perceber nessas estruturas verbais um encapsulamento dos sentidos da palavra em questão. do corpo humano. 2 Pelo que nasce em qualquer parte do corpo humano[…]. o corpo de seres humanos e de alguns animais. com o(s) cabelo(s) em pé • [Informal] Em estado de susto ou de medo.

Somam-se a essas imagens também a analogia geralmente feita de que cabelo crespo seria sinal de descuido e negligência com a própria aparência. do ponto de vista das identidades.com. “colocando o estudo do signo no centro de uma investigação ideológica” (BRAIT. são deixados de fora dos dicionários. em que cada signo é resultado. 2013. No entanto. eles também. dependendo do ângulo de visão. compõem alguns dos sentidos que são produzidossobre o signo cabelo. online)82 com as ideias de pavor. inclusive em contraposição a estes.do déficit da beleza. daí sua natureza dialógica. armados e volumosos. muitos outros. silenciando outras. tendo em vista que eles têm relação com um projeto de sociedade que não é o nosso.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=cabelo>. da produção de sentidos construídos a partir do diálogo entre enunciados de conteúdos diversos. das expressões estéticas.De acordo com o dicionário aqui em foco.Esses são discursos que. de um link para outras produções oude uma indicação bibliográfica. Do campo em que falo– a educação. 46). CORPOS . A exemplo do que foi pontuado acima. em certa escala. Aceitando essas adjetivações para apresentar as texturas lisas e crespas dos cabelos. 2010b). do déficit do cuidado . vou me deterem retomaralgumas expressões. Desse mesmo modo. 2017.refletem e refratam o signo. susto ou assombração(a última expressão citada aparece também de forma bastante semelhante no segundo dicionário mencionado anteriormente). seja através de uma observação ou comentário. cabe ressaltar. dialeticamente. a expressão “cabelo bom” pode ser apresentada como sinônimo para “cabelo liso”.ou no lugar da valorização de aspectos que poderiam ser avaliados. porque.uol. o dicionário em questão contribui para a propagação de versões preconceituosasem relação aos cabelos. a exemplo da sua maleabilidade. assim como “cabelo ruim” é identificado sem nenhum pudor ou constrangimento como “cabelo muito crespo.penso que não podemos passar por esses discursos impunemente.o dicionário de que se trata ratifica a identificaçãodas expressões. pânico. que são. por suas especificidades constitutivas. Acesso em: 13 set. considero que os significados dicionarizados que foram trazidos para esse texto são representativos de enunciações sobre o cabelo crespo que o colocam no lugar do déficit . p. Toda essa opacidade que envolve a compreensão dossentidos da palavra “cabelo” vai ao encontro da filosofia da linguagem postulada por Bakhtin /Volochínov (2006. cuja motivação reside no tempo e no 81Disponível em: <http://michaelis. seja através de uma nota de rodapé. propaladas socialmente de forma não ingênua. se almejamos contribuir para uma educação ética. alteritária e libertadora. de forma negativa. 200 ratifica modelos. semoferecera possibilidade de um tensionamento das mesmas. Sendo assim.repercute padrões e ecoa a tentativa de um lugar-comum. das manifestações étnicase de muitos outros que colocam o outro como centro desse processo. não acabado. ainda que os significados dicionarizadossejam termos restritos e engessados. online)81. fazendo novamente uma alusãoacrítica aos cabelos crespos. 82Ibidem. difícil de pentear” (MICHAELIS DICIONÁRIO BRASILEIRO DA LÍNGUA PORTUGUESA.“De arrepiar o cabelo” e “Pôr os cabelos em pé” (MICHAELIS DICIONÁRIO BRASILEIRO DA LÍNGUA PORTUGUESA.

que também participa da pesquisa de doutorado ora mencionada. 32. assume a função de estimuladora materno-infantil atuando nas salas de aula da creche em que trabalha. meu cabelo é crespo… vou entrar nessa moda. p. posto que “compreender um signo consiste em aproximar o signo apreendido de outros signos já conhecidos” (BAKHTIN /VOLOCHÍNOV. dependendo do regime sob o qual foram contratadas pela respectiva Secretaria de Educação. 2006. a analogia entre cabelo frisado. eu acho que ela idealiza o cacho. quem sabe. é única e contínua: de um elo de natureza semiótica (e. não acontece de maneira serena e linear. Em nenhum ponto acadeia se quebra (BAKHTIN /VOLOCHÍNOV. 201 espaço em que se localizam. esses outros discursos. ‘Ah. mas na produção ideológica sobre ele. quando a pessoa é de origem negra mesmo. CORPOS . fica só frisado. nas creches municipais de Duque de Caxias. Cíntia83. É nesse sentidoquepodemos entender que os sentidos atribuídos a diferentes texturas de cabelo são parte da cultura. também de natureza material) passamos sem interrupção paraum outro elo de natureza estritamente idêntica. a identificação ou não da concepção do cabelo crespo ou cacheado como moda. continuamos autores. E essa cadeia de criatividadee de compreensão ideológicas.Logo. Essascontradições que Cíntia compartilha relacionadas à expectativa do novo cabelo após um período livre dos processos químicossão formuladas por intermédio do diálogo com discursos outros que chegam até os sujeitos de modos diversos e a partir dos quais eles compõem suas narrativas. deixa transparecer em seu relato esses embates sígnicos. p. rejeitando-os ou. estabelecendo pontos de intersecção entre eles. p.que traz como questões a abdicação da textura lisa do cabelo. ancestralidade negra e senzala. 2013. 2006. Segundo ela. o sentido produzido sobre algo não está na constituição do elemento em si. 2010b. 34) Dessa maneira. 34). a minimizaçãodo valor estético do cabelo dito frisado.Desse modo. As estimuladoras materno-infantil cumprem. dá aquele choque maior ainda. uma carga horária de 30 ou 40 horas semanais de efetivo exercício de suas funções.portanto. ali. que.’ Começa assim. atualmente. p. deslocando-se de signo em signo para umnovo signo. da senzala.formam o cenário ideológico para a enunciaçãode Cíntia. “compreender a linguagem nessa perspectiva implica corroborar a ideia de que os sujeitos respondem ativamente a tudo aquilo que lhes causa ressonância. Então. como eu digo. 32. coerentemente com o que já foi destacado. né? ‘Vou entrar nessa moda… vai ficar aquele cacho cheio e lindo. CONSIDERAÇÕES FINAIS 83 Cíntia é professora formada e. o desejo de um cabelo com cacho. o cabelo não fica cacheadinho não. a compreensão é umaresposta a um signo por meio de signos. Nessa mesma direção. em parceria com as professoras regulares das turmas. reafirmando-os. o acolhimento do cabelo não anelado com espanto e decepção. quando a pessoa começa nesse processo [de parar de alisar o cabelo]. dentre outras possibilidades. p. aliados até certo ponto ou entrando em confronto.’ Na maioria das vezes. 237). uma vez que as palavras são carregadas de sentido ideológico” (SZYMANSKI. BROTTO. professora.

Disponível em: <http://www. 21. Disponível em: <http://www. 202 Por fim. n. 2017.pdf>.39-62. 2017. Acesso em: 01 set.fecra.com/folderview?id=0B4UG_F2QeFUlQldYRm1BU0pOakk&usp=sharing>.pdf>. Para uma filosofia do ato responsável. n. ______. 2017. jul. Disponível em: <https://drive.priberam. 2006. Problemas da poética de Dostoievski.uol. 2. Estética da criação verbal. ______.br/fdh/wp-content/uploads/2012/10/Alguns-termos-e-conceitos- presentes-no-debate-sobre-Rela%C3%A7%C3%B5es-Raciais-no-Brasil-uma-breve-discuss%C3%A3o. São Paulo: Hucitec. REFERÊNCIAS BAKHTIN. 2017. São Paulo: Hucitec.edu. Disponível em: <http://www. 2017. São Carlos: Pedro & João Editores.pt/dlpo>. São Paulo: Martins Fontes. Belo Horizonte: Autêntica. cabe sublinhar que o cabelo é um signo ideológico que.br/>. 1997. do material tecnológico e dos artigos de consumo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782002000300004&lng=en&nrm=iso>. São Paulo.639/03. 2005. p. ao ser percebido enquanto tal. Cultura popular na Idade Média e no renascimento: o contexto de François Rabelais. 2017. ______. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. Rio de Janeiro: Forense Universitária. ______.org.google.Estética da criação verbal. 40-51. Disponível em: <http://www. entretanto. 2010. p. Dec. 2008. Valentin Nikolaevich. Acesso em: 18 set. 2010b. abrem-se caminhos para que haja maior flexibilidade. Olhar e ler: verbo-visualidade em perspectiva dialógica. 2010a. Nilma Lino. Disponível em: <http://michaelis. 2010c. Disponível em: <https://www.com. Mikhail Mikhailovich. Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no brasil: uma breve discussão. 30. considerando muitas outras possibilidades de significações. Sobre a temática em foco neste artigo.br/pdf/bak/v8n2/04. Marxismo e filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Martins Fontes. Bakhtiniana. Acesso em: 16 ago.scielo.br/admin/arquivos/MARXISMO_E_FILOSOFIA_DA_LINGUAGEM. Brasília./dez. 2010b. acredito eu.br/scielo.” (grifos do autor). corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural? In: Revista Brasileira de Educação. na compreensão de que as concepções e narrativassobre ele são passíveis de desconstruções e reconstruções. Beth. Acesso em: 11 set. p. Acesso em: 13 set. GOMES.scielo. Acesso em: 02 set. 32) que nos ensinam que “ao lado dos fenômenos naturais. ______. Disponível em: <http://ideario. 2013. 2011. BRAIT. Educação eidentidade negra. p. p.acaoeducativa. Rio de Janeiro.br/wp/wp-content/uploads/2013/10/nilma- lino. ______. Acesso em: 25 set. 2017. ______ (VOLOCHÍNOV.pdf>. 8. CORPOS . o universo de signos . v. 43-66. DICIONÁRIO PRIBERAM.pdf>. ______ (VOLOCHÍNOV. finalizo-o aqui com essas palavras de Bakhtin /Volochínov (2006. In: Educação Anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal nº 10. 2017. Valentin Nikolaevich.).). Trajetórias escolares. muitas outras questões poderiam ser trazidas para a discussão. 2002. dados os limites desse trabalho.org. Acesso em: 13 set. MICHAELIS DICIONÁRIO BRASILEIRO DA LÍNGUA PORTUGUESA. além das que já estão estabelecidas. existe um universo particular. ______. Marxismo e filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Hucitec.

Dialogia na persuasão “publicitária” / Dialogism in AdvertisingPersuasion. n.org/vol15iss1articles/pereira.php?pid=S2176- 45732013000100015&script=sci_abstract&tlng=pt>. 203 PEREIRA. Maria Lidia Sica. p. SZYMANSKI. jan. 148-167. jan./jun. p. 2014.scielo. v.br/scielo. São Paulo. PISTORI. 50-64./abr.Disponível em: <http://www. BROTTO. v. 2017. Acesso em: 18 set. Rita Marisa Ribes. 233-253.curriculosemfronteiras.pdf>.pdf>. Número 9 (1). Disponível em: <http://www. 2015. Disponível em: <http://www./jul. 2017.scielo. 8. 2013. Maria Helena Cruz. 2 CORPOS .n. Por uma ética da responsividade: exposição de princípios para a pesquisa com crianças. 15. Reflexões sobre as vozes contribuintes para a constituição da subjetividade profissional do docente alfabetizador. Ivete Janice de Oliveira. Acesso em: 01 set. In: Bakhtiniana. 1. 1. São Paulo. In: Currículo sem Fronteiras. jan.br/pdf/bak/v9n1/10. Acesso em: 18 set. Bakhtiniana. p.

resistência e um interminável processo de ressignificação. da área de linguagens. discute-se. este texto se apresenta como uma contrapalavra.com.com CORPOS . Física. E-mail: taynara. como essa expressão afro- brasileira oriunda das senzalas. defendendo o papel relevante que a Educação Física. E-mail: carol_gse@yahoo. Num contexto de instabilidade política e de intensas discussões sobre os caminhos da educação no Brasil. Assim. além de O JONGO NA EDUCAÇÃO conduzir corpos em movimento. sua cultura.spul@gmail. ou não. é capaz de instaurar diálogo. Jongo esferas política e escolar foi reavivadacom a votação do Supremo Tribunal Federal acerca do ensino religioso nas escolas. um sujeito que. Mais recentemente. RESUMO 204 Este trabalho apresenta uma reflexão acerca da Educação Física como prática dialógica que. o que pressupõe uma compreensão da linguagem como produto da SILVA. O objetivo destas reflexões é. cantam e batucam na aula de Educação Física. lançar uma contrapalavra à polêmica recente quanto ao lugar da Educação Física na escola.UNESP Araraquara. trabalhada da forma dialógica. seu tempo. como aHistória e a Geografia. produz sentidos. Portanto. mais especificamente. Carolina Gonçalves da84 Círculo de Bakhtin. Faculdade Metropolitana de Campinas. como os PCNs. valorizando sua importância como prática transdisciplinar essencial na formação do aluno. orientado por disciplinas a polêmica reforma do ensino médio deixou muitas dúvidas sobre como a Educação Física (enquanto prática de ensino dialógica). FÍSICA: diálogo. Ela coloca em contato. diálogos e ressignificações materializadas nos INTRODUÇÃO corpos que dançam. A reflexão será desenvolvida segundo os conceitos do SILVA. próprio da linguagem. Neste texto. é capaz de ler e produzir textos a oferta/obrigatoriedade de disciplinas e sobre a Base Nacional Comum significativos em linguagens diversas. ao longo dos anos. outra polêmica protagonizada pelas Palavras-Chave: Educação Física. firmando sua importância e legitimidade para além das intervenções no corpo biológico (no sentido de melhora na performance esportiva e/ou na promoção de saúde). ideologias. de forma que se evidencie seu pertencimento ao campo da linguagem. Taynara Spulverato da85 comunicação de sujeitos historicamente situados. depois de intenso debate público estético em movimento. conforme estabelecem resistência nos corpos em movimento documentos oficiais. ressignificação e O objetivo é refletir sobre (e propor) uma abordagem dialógica e transdisciplinar da Educação Física. como a Língua Portuguesa. tomando-a como prática transdisciplinar que vem. Curricular (BNCC). como mais uma voz que se integra a essas polêmicas.br 85 Bacharela em Ed. mas com outros campos do saber. valorizar o ensino-aprendizagem dialógico de Educação Física. Diálogo. que estabelece seus conteúdos (ainda em fase de principalmente a corporal. portanto. este texto se posiciona a favor da ideia de que a 84 Mestra em Linguística e Língua Portuguesa . A disciplina estabelece diálogos não só com áreas biológicas e da saúde. com isso. materializada em signos ideológicos – como entendemos ser o jongo. o que se propõe aqui é S que o aluno seja entendido não só como corpo ancionada em fevereiro de 2017. desempenha no contexto escolar. mas como sujeito ético. Espera-se. corpos e sujeitos. ainda. elaboração). estes e seu meio. atravessado por e articulador de discursos e e de muitas emendas na medida provisória inicialmente proposta.

ressignificar signos e subjetividades. G. desde o final dos anos noventa. O outro buscava se ater aos embates estabelecidos entre uma escola Municipal e um Ponto de Cultura. 205 Educação Física tem evidenciado. em que se supere a visão motriz. concretizada em textos diversos .br/handle/11449/151035 87 SPULVERATO.à época. A primeira seção deste artigo aborda a concepção bakhtiniana da linguagem. C. Jongo do casarão para a escola. ainda. também. contemplando sua natureza dialógica. Códigos e suas Tecnologias. na análise de outros tipos de materialidades. Na segunda seção sugerimos uma proposta de abordagem dialógica da Educação Física na escola. no campo dos estudos discursivos. viva e dinâmica. mas que podem ser produtivos. 2016)87. Artes e Informática. tendo como enfoque a práxis. portador de um corpo estético e ético. originária das senzalas. para refletir sobre seus outros elementos constitutivos. como o jongo (dançado. Para a discussão proposta nesse evento. e atuou durante a criação e a execução de um projeto educacional que tinha o jongo como um dos temas centrais (SPULVERATO. uma prática discursiva produto da cultura afro brasileira. 2016. verbo- visuais. Um dos trabalhos. estabelecida por documentos oficiais como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Dissertação de mestrado (Linguística e Língua Portuguesa) – UNESP Araraquara. juntamente com as disciplinas de Língua Portuguesa. Literatura e Língua Estrangeira Moderna. signo ideológico e esfera de atividades humana) que foram. Um olhar dialógico para a polêmica na imprensa: os sentidos de “maconha nas capas de revista”. As discussões aqui desenvolvidas são produto do encontro dialógico entre duas autoras que reconheceram em seus trabalhos recentes um eixo principal em comum: concepções de linguagem que a percebem como materialidade significativa. na grande área da linguística. R. 2017. 2017)86. discute-se também a inserção da Educação Física na área de Linguagens. Nesse primeiro momento. Com esse diálogo buscou-se reforçar o papel transformador de uma prática de ensino-aprendizagem de Educação Física mais dialógica. Disponível em: https://repositorio. foram trazidos do primeiro trabalho alguns conceitos do Círculo de Bakhtin (como os de linguagem. mobilizados na análise de enunciados verbo-visuais. responsivo e responsável. de seu caráter sistemático e normativo. produtor novos sentidos e identidades. cantado e tocado). os chamados pontos do jongo. materializados nos corpos também sempre em movimento.unesp. que se materializa nos próprios corpos em movimento na aula de Educação Física. ambos localizados na cidade de Campinas-SP. S. corporais -. como 86SILVA. resgatamos justamente a temática do jongo. produzir cultura. mas sempre capazes de instaurar embate. É essa abordagem da linguagem que permite pensar o jongo enquanto signo ideológico.verbais. T. que possibilita entender a comunicação entre sujeitos para além de sua dimensão verbal. significativa e transdisciplinar. sempre em transformação. partia da concepção de linguagem do Círculo de Bakhtin para pensar a produção de sentido e os conflitos ideológicos em enunciados verbo-visuais do gênero capa de revista (SILVA. Faculdade Metropolitana de Campinas CORPOS . A análise parte de enunciados verbais. Do segundo trabalho. Trabalho de conclusão de curto (Graduação em Educação Física). suas contribuições como componente fundamental da área de linguagens e da formação do aluno enquanto sujeito ativo física e discursivamente.

que o estudo da linguagem não se restrinja a sua dimensão linguística ou verbal. Assim. p. 96). como a História e a Geografia. mas entre sujeitos. no social e no cultural. Buscamos. ao corpo. quando lidamos com o signo ideológico. se lida com “verdades ou mentiras. os signos ideológicos são “objetos de tipo especial. o conceito de signo ideológico.23). portanto. 1. produtor de discursos. esferas e visões de mundo postas em jogo por meio dessa prática. Neste trabalho. sua inserção na história. que favoreça o diálogo principalmente entre a Educação Física e outras áreas (principalmente o Português. Para a autora. 2012. tomando-a como “uma forma de conhecer o ser humano e suas atividades. mas com outras disciplinas. e uma dimensão simbólica. a perspectiva bakhtiniana contempla suas várias dimensões. com um valor ideológico. LINGUAGEM E CORPO: onde a Linguística e a Educação Física se encontram Analisar as manifestações da linguagem (o discurso) e a produção de sentido a partir da perspectiva do Círculo de Bakhtin. p. O pensamento bakhtiniano permite. pelas linguagens”. pressupõe um entendimento da linguagem para além de seu caráter sistemático. Constituem o signo. agente ativo na produção de cultura. sobre a construção da identidade do sujeito em contato com a cultura afro-brasileira que o constitui. e num contexto ainda mais recente.48). por serem essas as áreas de estudo das autoras). 2006. no caso do jongo. Medviédev e Volochínov. é importante reforçar que o conceito de signo ideológico transcende o de signo linguístico e CORPOS . Nesse contexto. com o ensino religioso na escola. Nessa abordagem. uma abordagem transdisciplinar do jongo. Para o Círculo. portanto. de sentidos. A partir de discussões levantadas em trabalhos anteriores. sobre os diálogos possíveis não só entre disciplinas. situados na história. atravessados por ideologias. principalmente. veicula concepções de mundo de sujeitos constituídos socialmente. uma vez que ele produz sentidos. um sentido vivencial atribuído a um material: à palavra. sentido e valor interno” (MEDVIÉDEV. por exemplo. 206 o som dos tambores. agradáveis ou desagradáveis”(BAKHTIN/VOLOCHÍNOV. às vestes. por fim. ao som. refletimos sobre a capacidade de ressignificação do signo ideológico jongo – principalmente quando levado para a esfera escolar-. Sugerimos. as roupas. os gestos e movimentos. na concepção do Círculo. 2006. que entenda o aluno não como corpo físico que deve ser passivamente adequado às práticas da instituição escolar. principalmente as da área de linguagens). triviais ou importantes. aos quais são inerentes significado. o que sustenta essa concepção de linguagem é. mas como um corpo em movimento. sua condição de sujeito múltiplo. pela linguagem. p. estamos rodeados de produtos ideológicos que são mais do que elementos materiais de uma realidade concreta. ou daquilo que tem de individual e criativo (Brait. coisas boas ou más. invariável e abstrato. com isso. ao gesto. propor uma abordagem da prática de Educação Física (e da prática de ensino de quaisquer disciplinas. epropõe que se realizeuma abordagem translinguística – a qual é possível adotar para lidar com linguagens concretizadas em diferentes materialidades. uma dimensão concreta (sua materialização física).

Destaques nossos). que também reflete e refrata uma realidade exterior (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV. os sentidos do jongo já não são enumeráveis como seus elementos materiais constitutivos. Essa concepção de Educação Física mais dialógica e mais significativa. como movimento do corpo ou como outra coisa qualquer“ (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV. trabalhos científicos. É nesse sentido que compreendemos o jongo como signo ideológico.mobilizada na esfera educacional.196). p. em cada situação comunicativa específica (nos quilombos. . Códigos e suas Tecnologias pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN)(BRASIL. juntamente com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB)(BRASIL. carregadas de visões de mundo. 2006. Destaques nossos). na escola. uma vez que vem sendo 88 Na perspectiva do Círculo. 2006. manifestos na linguagem verbal. como produto da interação dialógica entre sujeitos.] como som.. como cor. nas apresentações culturais. os mesmos sons. também e ao mesmo tempo. de seus movimentos e práticas. que seu sentido não é dado de antemão. as formas relativamente estáveis de interação (BAKHTIN. 1996). celebração religiosa) e.” (MEDVIÉDEV. Enquanto signo dinâmico e vivo.48. mais especificamente na aula de Educação Física. p.. como um conjunto de signos produtores de sentidos e de conflitos ideológicos que se materializam principalmente em três elementos concretos: no corpo em movimento. Assim.Neste texto. Para esta discussão é importante ressaltar. “todos os produtos da criação ideológica – obras de arte. Destaques nossos). gestos e cantos que caracterizam o signo jogo podem produzir diferentes sentidos. atravessado pela história e por conflitos ideológicos. ainda sobre o signo ideológico. com a esfera de atividade humana à qual esse gênero pertence (artística. união e coordenação mútua entre pessoas diante de um signo”. símbolos e cerimônias religiosas etc. 2012.nossas reflexões se voltam ao jongo enquanto prática simbólica que. p. Desde que foi inserida no campo área de Linguagens. A concepção bakhtiniana de signo abrange. seu meio e seu tempo e que ultrapassa os limites da prática livre de esportes consagrados ou da competição. produz sentidos outros. p. escolar. atem havido esforço para que a disciplina se distancie de uma redutora concepção biologizante do corpo. como massa física. 31. consequentemente. são signosos fenômenos ideológicos materializados “[. que estabelece diálogo entre sujeitos. de seu corpo. já que cada gênero/esfera possui sua forma de compreender e ressignificar a realidade (MEDVIÉDEV. por exemplo). religiosa). A partir desse ponto de vista. instrumento de produção ou produto de consumo”. 2012. dessa forma. produtor de cultura e de sentidos por meio de seus gestos. mas “está na relação social de compreensão. entre eles e sua cultura. é possível dizer que os sentidos do signo “jongo” variam de acordo com o gênero discursivo no qual ele se materializa (seja como uma apresentação cultural. não é proposta recentes. Trata-se de percebê-lo não apenas como materialidade física. vocal. 1997) são os chamados gêneros discursivos. ou atribuído individualmente por cada sujeito. 29. “todo corpo físico. mas como um corpo orgânico em movimento que é. 207 se estende a outras materialidades produtoras de sentido. variáveis de acordo com cada tipo interação entre sujeitos situados social e historicamente88. uma prática escolar. sonora e corporal. 2000). Em cada interação. já que são produtos de contextos específicos. um corpo social. CORPOS . na palavra cantada e nos sons que produzem as mãos que batucam.

E o indivíduo. de acordo com o contexto. p. tornar-se veículo e meio de comunicação. mesmo sendo os “responsáveis pelo alcance daqueles objetivos governamentais.aspectos fundamentais do ensino-aprendizagem de linguagens. Códigos e Tecnologias é motivo de controvérsia e discussão entre os professores da disciplina. de dialogar com outras áreas do saber. conforme mostra o fragmento a seguir: Sendo o corpo. modo e meio de integração do indivíduo à realidade do mundo. Propomos que ela seja entendida como prática de ensino capaz de CORPOS . 208 explicitada e valorizada em documentos oficiais. 38. o corpo é linguagem e é por meio dele. de estudar o corpo como produtor de linguagem e de sentido. [. aprende a fazer uso das expressões corporais. perceber e sentir as coisas. Essa é a nossa existência. ele é necessariamente carregado de significado. Isto significa que os indivíduos têm sua forma diferenciada de se comunicar corporalmente. Segundo o documento.. comunicando-nos por meio das várias linguagens às quais o corpo pode recorrer. na qual temos consciência do eu no tempo e no espaço. Estes. em toda sua complexidade. lançamos uma contrapalavra aos debates sobre o papel dessa disciplina na escola e na constituição do sujeito. Isso quer dizer que todo movimento do corpo tem um significado.. histórico e ideológico. transgressor e resistente inserido no contexto político do Brasil contemporâneo.] É com o corpo que somos capazes de ver.(BRASIL. falar. de acordo com o ambiente em que se desenvolve como pessoa. por outro lado. 2000. Isso porque. 2001). do contato dele com o os outros corpos e com o mundo sensível. a inserção da Educação física na área de Linguagens. como os PCNs. [. ao expressar seu caráter sensível.parece não ter deixado de ser um desafio para o professor da disciplina (mesmo mais de uma década após sua implementação). (2012). p. material e significativa. NEIRA. é que tomamos consciência de nossa existência enquanto seres sociais. O corpo.577).ainda que sem oferecer exemplos concretos . não conseguem concebê-la como uma linguagem e nem estabelecer relações com as demais disciplinas que compõem a área” (SANTOS et al 2012.. ouvir. entre elas a Educação Física. Aproveitando essas lacunas nos estudos da Educação Física e a proposta do evento de abordar a temática do corpo responsivo. O relacionamento com a vida e com os outros corpos dá-se pela comunicação e pela linguagem que o corpo é e possui. a proposta de abordá-la em seu caráter social e cultural. por exemplo. conforme mostram. Se. que é entidade física e simbólica. Segundo os autores. por sua vez.Além disso. ambos os trabalhos apontam que poucos estudos sobre a educação física escolar têm se dedicado a investigar as relações dessa com as demais disciplinas integrantes da área de linguagens códigos e tecnologias. aparentemente. a lei contempla . por um lado. estariam mais evidentes as relações da Educação Física com a saúde e a qualidade de vida do que com as linguagens (MATTOS. os estudos de Ladeira e Darido (2003) e de Santoset al. ao mesmo tempo.. as posturas e as expressões faciais são mantidos ou modificados em virtude de o homem ser um ser social e viver num determinado contexto cultural.] Os gestos. vivendo ativamente num dado contexto cultural. que se modifica de cultura para cultura. Destaques nossos) Os trechos destacados evidenciam o caráter sígnico do corpo.

ampliou a noção de patrimônio cultural ao reconhecer a existência de bens culturais de natureza material e imaterial. que se apresentam em sintonia durante as rodas. plásticas. p. com respaldo da constituição: Os bens culturais de natureza imaterial dizem respeito àquelas práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes.gov. o jongo foi reconhecido.iphan. celebrações. 2007. gerando um sentimento de identidade e continuidade. historicamente construídos. Na última seção deste trabalho. circulação e renovação do seu universo simbólico. assim como de traços marcantes da cultura afro-brasileira. na Educação Física. apenas tolerado pelos senhores 89 Disponível em: http://portal.1. durante o período escravocrata. tem como elementos comuns: a dança. O JONGO NA ESFERA ESCOLAR: o corpo é cultura 2. são recursos que podem ser explorados durante as aulas de Educação Física. que permitem uma maior compreensão dos eventos do passado (e do presente). feiras e santuários que abrigam práticas culturais coletivas). 209 auxiliar o aluno a ler e a produzir textos – no sentido mais amplo do termo –materializados em diferentes linguagens e signos. Essa expressão cultural consolidou-se nas fazendas de café.br/pagina/detalhes/234 CORPOS . desde então. produtora de sentidos. O patrimônio imaterial é transmitido de geração a geração. como forma de divertimento. 11). constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente. realizada em roda com casais se revezando ao centro. (BRASIL. O corpo e a história em movimento O jongo. em 2005. 2. que seja valorizada. ofícios e modos de fazer. musicais ou lúdicas. contribuindo para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana. dança afro-brasileira oriunda das senzalas. em seus artigos 215 e 216. Proclamado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio imaterial. como bem cultural de um grupo formador da sociedade brasileira. estão carregados de sentidos. Os três elementos. que põem em movimento o corpo biológico. formas de expressão cênicas. também nos esforçamos para estabelecer relações dialógicas entre o jongo. e o estudo das influências de línguas africanas no Português brasileiro. pois além de serem práticas físicas.” (IPHAN. e nos lugares (como mercados. que deve ser preservado por ela e pelo Estado. os pontos (cantos entoados durante a prática) e os tambores. enquanto forma de diálogo. de sua interação com a natureza e de sua história. como forma de tornar mais tangível o que consideramos ser uma mais abordagem transdisciplinar de conteúdos relevantes para a formação de um aluno consciente de seu corpo e de seu lugar como sujeito ativo na sociedade e na cultura. 2017)89 Uma das justificativas para que o jongo fosse inserido entre os patrimônios imateriais da cultura brasileira baseava-se no fato de tratar-se de “um elemento de identidade e resistência cultural para várias comunidades e também espaço de manutenção. A Constituição Federal de 1988.

a prática do jongo. aparentemente religiosas. cantava. que geralmente conhece 90 Tal como ocorreu historicamente com o temo “macumba”. em registros de viajantes. que abarcava. ele passou a ser rememorado em diversas comunidades na região Sudeste. No Sudeste brasileiro. mas que tinham entre suas características motivadoras. nas rodas de jongo. Uma expressão cultural que mostra os movimentos de resistência. que as consideravam práticas “bárbaras”. p. que acreditavam que ela proporcionaria aos escravos uma oportunidade de organizar “sociedades secretas. dançava. ora são marcado por perseguições motivadas pelo temor de autoridades.15). expresso pelos segmentos da sociedade abrangente. p. também. batucava e louvavam. datados do século XVIII. Conforme apontou a pesquisa do IPHAN (2007. se referiam a essa prática como batuques. o jongo está impregnado. além do jongo. 2017). de fora. Ao levar o jongo para a escola (ou a escola até o jongo?). pela facilidade com que alguns negros astutos podem usá-las com finalidades sinistras”. o fortalecimento da identidade de indivíduos e/ou comunidades. mas que hoje é evocado em tom pejorativo para designar quaisquer cultos religiosos de origem africana (MICHAELIS. escritos de administradores coloniais e cronistas do Brasil e. esse olhar depreciativo às expressões culturais dos negros cativos. tanto pela dispersão de seus praticantes em consequência da migração e dos processos de urbanização. redutor e homogeneizante 90. como pelo obscurecimento dessas práticas por outras expressões de maior apelo junto ao crescente mercado de bens simbólicos. Em muitos deles. em ocasiões singulares. Segundo Matos e Abreu (2009) os primeiros registros sobre o jongo. de símbolos que. Os relatos referentes aos batuques são encontrados em códigos penais. o jongo era citado como “danças e candomblés”. conforme aponta Stein (1985. Conforme observado. mas sempre perigosas. que outrora designava um instrumento de percussão africano. do quimbundo. 204).outras expressões culturais praticadas por negros cativos. a Educação Física pode ajudar a desconstruir e. de um povo que mesmo em uma situação subjugada de trabalho forçado. Imaginar o belo. CORPOS . 210 porqueestes temiam que suas objeçõespudessem colocar“em risco a sobrevivência de seus trabalhadores” (IPHAN. contribuiu para que as especificidades das manifestações culturais de matriz africana fossem historicamente apagadas perante o olhar do senso comum. 2007. como da escravidão. Ou também devido à vergonha motivada pelo preconceito. p. 22). a reconstruir esses sentidos historicamente cristalizados na língua e na sociedade. Esse olhar desinformado dos que observavam. Somente anos depois. foi um dos fatores contribuintes para o desaparecimento do jongo. diverge da visão apresentada ao longo desses anos na esfera escolar. nome genérico. p. dada ao contexto de cada lugar. o alegre em um período sombrio. em muitas das comunidades com descendentes de escravos. o Jongo desapareceu.15). considerada uma práticabárbara e temida pelos senhores. principalmente. que foram construídos a partir de um olhar etnocêntrico e redutor. ora são marcados por estratégias de sobrevivência ao período de cativeiro. “perigosas” e que a relacionavam invariavelmente (ainda que não fosse o caso) a ritos religiosos. 2007. relativo às práticas culturais afro-brasileiras (IPHAN.

tema de polêmicas veiculadas na mídia91. outros sentidos. apontamos. o item já foi incorporado pelo mercado da moda e é consumido (como produto comercial. a contextualização histórica. que viviam somente para exercer o trabalho braçal.folha. ajudar a estabelecer um diálogo significativo com o contexto atual dos alunos. até os instrumentos musicais envolvidos. Disponível em: https://www. alguns aspectos significativos do jongo que podem ser explorados no contexto escolar . uma vez que a compreendemos que sua dimensão significante se realiza “como pura marca material” (SILVA. ontem e hoje -. 2014. Além disso. as mulheres costumam vestir saias longas. Este adereço pode. as vestes. Saravá Nossa Senhora do Rosário/ Saravá São Benedito/ Vamos abrir roda de jongo rezo que esteja comigo/ Saravá esse Tambu/ Saravá esse terreiro/ Saravá os Preto Velho/ Saravá Dito Ribeiro 92 91 Disponível em: http://m.como sentidos dos sons dos tambores e os significados das vestes. os cantos.com. acorrentados. como forma de contextualizar essa produção cultural como tema relevante e coerente com a Educação Física associada à área das linguagens. aliás.br/cotidiano/2017/02/1861267-polemica-sobre-uso-de-turbante-suscita-debate-sobre- apropriacao-cultural. 91). p. 2.que se assemelha ao turbante. Além dos tambores. ou de particularidades da comunidade. as vestes também produzem sentido. podem representar os “vários segmentos sociais” dentro do espaço escolar. não raramente dobrada até a altura do joelho. conflitos e ressignificações manifestos verbal e corporalmente que podem ser percebidos numa aula de Educação Física (em diálogo com outros campos do saber). Enquanto os homens geralmente trajam camisa e calça comprida (com tecido que se assemelha ao linho). os demais participantes repetem em coro. 211 apenas a história da escravidão a partir de imagens de negros açoitados. Nesta subseção. ainda que brevemente. pois surgem de situações cotidianas. já que ele foi. somadas ao uso do torso . Conforme observou Vidal (2009). a partir da materialidade verbal de dois pontos cantados no jongo. da história e da cultura. sugerimos. juntamente com os tambores e os movimentos do corpo. desde que ela lide com o corpo em movimento como parte da sociedade.shtml 92 Jongo Comunidade Dito Ribeiro. A seguir. Geralmente a liderança da comunidade começa o ponto. Pensar na possibilidade de levar o jongo para a escola exige um olhar cuidadoso que permita explorar todos esses elementos envolvidos em tão simbólica expressão cultural. em Campinas-SP. recentemente. Discutir os sentidos do turbante. sua presença no vestuário e na forma de expressão corporal dos próprios alunos é uma forma ressignificar signos constitutivos da história e da cultura afro-brasileiras e da própria identidade do aluno.youtube. chamados de pontos. são os versos cantados. desde as vestes. intramuros da escola. seus usos históricos. O verbal e o corporal produzindo sentidos Parte importante da roda de jongo. não cultural) inclusive pelos jovens em idade escolar. Campinas-SP.2. Esses cantos variam muito de um local para outro.uol. sua apropriação pelo mercado.com/watch?v=MLkSMGa5eB4 CORPOS . rodadas e floridas. Os versos a seguir são entoados especificamente numa roda de jongo na Comunidade Jongo Dito Ribeiro.

Como temos enfatizado aqui. como a saudação yorubá “Saravá”. A primeira poderia aprofundar o estudo da história da formação da sociedade brasileira. e posteriormente no tambor. A disciplina poderia. estritamente relacionadas ao meio que em que ele está sendo praticado. todos esses sentidos podem ser melhor explorados.youtube. realizando um gesto particular dessa dança. de acordo com os sujeitos e as comunidades envolvidas. pode ser percebido como característica importante dessa prática. Antes de entrar na roda alguns indivíduos tocam as pontas do dedos na cabeça. não pode dar conta de suas singularidades regionais. Disponível em: https://www. Assim. O formato de roda. visto que ele é apenas uma proposta geral de abordagem do corpo que supere a ideia do biológico na Educação Física. com a Educação Física em diálogo com outras disciplinas. mas não são elementos recorrentes de todasas rodas de jongo. 212 Nessa comunidade específica. casais se revezam ao centro. por outro lado. e a proteção que se pede aos santos Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. vejamos mais um ponto de jongo para refletir sobre os sentidos e ressignificações expressos não só na linguagem corporal. somente tocam a ponta dos dedos no tambor. entre elas cabe destacar a História e a Geografia. assim como os pontos. É importante lembrar que cada um desses gestos. ainda. Encaminhando as discussões para seu encerramento. outros. gravado por Clementina de Jesus. produzindo efeitos diversos (não necessariamente associados à esfera religiosa). como se nota nos enunciado a seguir: Tavadurumindocangoma me chamou/ Tavadurumindocangoma me chamou/ Disse levante povo cativeiro já acabou93 93 Ponto de Jongo. como se pedissem licença para participar do diálogo. sons e palavras produzem seus sentidos específicos em contextos particulares. o tambor também aparece como elemento fundamental (referido como tambu). por exemplo. a umbigada (na qual encenam tocarem umbigo contra umbigo).com/watch?v=XJ2nwx7khq8 CORPOS . precedem a formação da roda. para além da violência sofrida pelo negro quando de sua escravização no território do Brasil. saudado pelos participantes. possam ressoar com mais força. Mais uma vez. que a Educação Física. resgatando o sujeito social e a cultura que a constituem enquanto linguagem. em 1966. instrumentos. os elementos culturais. por mais que se atente em levar o contexto histórico do jongo. juntas. com a rica e diversificada cultura do continente que também nos constitui enquanto país. e que não cabe a este trabalho investigá-los. já que a comunidade se reúne num círculo. Cabe considerar. ainda que temporário. assim como o terreiro (que geralmente se refere a um espaço de terra batida). Quando a roda de jongo se inicia. buscar contar uma história da África que tem início muito antes da escravidão. fazendo com que as vozes se misturem para que. os elementos recorrentes são a dança. mas também na linguagem verbal. Os demais gestos variam de região para região. o canto e os tambores.

de elementos significativos. por exemplo. fica evidente a inserção do jongo na categoria de signo ideológico. seria possível. No caso. é este CORPOS . ao longo de séculos. numa das plataformas de comunicação mais difundidas hoje. então. Caberia. entrecruzam-se. Oferece-se. p. do homem e das relações humanas totalmente diferente. é o tambor (cangoma) que vem anunciar o fim do cativeiro. “uma visão do mundo. cujos sentidos historicamente acumulados são discutidos. citadas neste trabalho.45). observando as contribuições de culturas africanas para a formação da língua e da sociedade brasileira. mas questões ideológicas. relacionar o estudo do jongo. Mesmo atualizado numa gravação transmitida via internet. 1973. a servidão e a liberdade. quando este se refere à cultura popular no contexto rabelaisiano No canto. à disciplina de Língua Portuguesa. ao sujeito aluno. preservada na interpretação da cantora. Na palavra “durumindo” (dormindo). ainda. citado por ALKMIN.4-5). observar como os signos linguísticos de origem africana podem aparecer carregados de sentidos negativos (a despeito de seus vários sentidos possíveis). entre o senhor e os escravos. ou. por exemplo. resultando no acréscimo de um –u entre as consoantes (MENDONÇA. na Educação Física. por Silva (2016). exemplifica as muitas ressignificações pelas quais o jongo vem passando ao longo dos séculos. 213 O ponto transcrito acima. com o estudo da língua portuguesa em contato com as línguas africanas. então. de um conjunto de signos ideológicos. como as palavras “macumba” e “batuque”. a alteração no grupo consonantal “rm” pode ser percebida como uma “epêntese explicada pela regra fonotática que prefere a estrutura consoante-vogal”. ainda. p. No contexto escolar. traços que evidenciam mais do que elementos históricos. por exemplo. no último verso. 2009). mas também sonora. “Na verdade. na dança e na percussão que constituem o jongo se identificam. não só na materialidade verbal. como o conflito de classes que se desenvolve na arena desse signo ideológico (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV. culturais e identitários de dados grupos sociais. trata-se da visão de mundo do sujeito que resistiu à escravidão para ver um dia em que o cativeiro será apenas memória. isto é. a palavra “maconha”. numa apropriação da palavra de Bakhtin (1987. Mais uma vez. que veiculam visões de mundo. Nesse movimento dinâmico de forças dominantes e marginais refletido e refratado no jongo. é possível resgatar nos pontos de jongo – seja na fonética ou no léxico – marcas históricas do contato entre culturas e línguas. tal marca na fala é atribuída ao contato do português brasileiro com línguas africanas. Afinal. É o instrumento que desperta o sujeito de seu sono. No jongo. entre o discurso dominante e aquele que. muito diversas das condições de produção de um ponto de jongo “original”. Por último. juízos de valor que instauram conflitos. as marcas da historicidade desse canto permanecem refletidas e refratadas na materialidade linguística do enunciado. regravado pela cantora brasileira Clementina de Jesus. na verdade.Nesse sentido. 2006. deliberadamente não-oficial”. a cultura popular (manifestações discursivas/culturais de caráter extraoficial) é ressignificada e traz o não-oficial a um lugar de destaque (dentro da escola). tecendo seu caminho de resistência. portanto. o conflito ideológico que ali se reflete/refrata. resta apontar nesse canto. por exemplo. vai das margens ao centro. Segundo a linguista. abrindo-lhe os olhos para um futuro de liberdade.

São Paulo: Contexto. Bakhtin: outros conceitos-chave. mas não apenas elas). neste trabalho. BRASIL. 2ª. possível de inserir na complicado contexto escolar brasileiro. e dá outras providências. com esses apontamentos. capaz de contribuir na formação de um sujeito mais consciente de si e de seu papel como sujeito ativo da sociedade/cultura que faz parte. Brasília. BRASIL.. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). M. 9 de janeiro de 2003. tenham se mostrado um pouco mais palpável.639. Estética da criação verbal. Finalmente. mas apontar algumas possibilidades de trabalhar a temática na aula de Educação Física.37-48. n. march 2009. T. São Paulo: Hucitec.. 1987. BRAIT. Trad. para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro- Brasileira”. L. Esperamos. São Paulo: Hucitec. São Paulo: Martins Fontes. ainda. A. Yara Frateschi Vieira. V. Análise e teoria do discurso. espera-se que. Trad. capaz de estabelecer diálogos entre disciplinas (principalmente a História e a Língua Portuguesa. 1997. In: BRAIT. p.45). 1996. ______. BAKHTIN. tão cara a diversas teorias. 2006. são justamente esses embates que fazem com que o jongo permaneça sendo um material simbólico de tamanha relevância no contexto educacional brasileiro contemporâneo. Lei 9. M. Beth (org. que a ideia de transdisciplinariedade. CORPOS . Estabelece diretrizes da educação nacional. documentos oficiais e discursos reconhecidos. Stockholm Review of Latin American Studies. entre sujeitos e culturas./VOLOCHÍNOV. 4. REFERÊNCIAS ALKMIM. entendida como prática dialógica..394. Registros da escravidão: as falas de pretos-velhos e de Pai João. Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. 12ª ed. BAKHTIN.). LÓPEZ. lei no 10. seja possível olhar para a Educação Física enquanto prática significativa. entre cronotopos. 2006. 214 entrecruzamento dos índices de valor que torna o signo vivo e móvel. Diário Oficial da União. Maria Ermantina Galvão. Brasília. de 20 de dezembro 2002.Issue. CONSIDERAÇÕES FINAIS As reflexões brevemente apresentadas neste texto não tinham como objetivo fazer uma análise exaustiva dos sentidos produzidos pela prática do jongo. Marxismo e filosofia da linguagem. ed. capaz de evoluir” (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV. 2006. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. B.

códigos e suas tecnologias. Motriz. São Paulo: Contexto. MEDVIÉDEV. M.3. F. DARIDO. T. T. 1. n. Ministério da Educação. T.G. O método formal nos estudos literários. a Brazilian coffee country (1850-1900): the roles of planter and slave in plantation society. T. In: LARA../abr.) Memória do Jongo: as gravações históricas de Stanley J. jan. Jongo no Sudeste. ignificação e tema em perspectiva dialógica.571-580.1.ufrgs. v. C. Educação Física e linguagem: algumas considerações iniciais. Códigos e suas Tecnologias. UNESP. LADEIRA.unesp.. Rio Claro.br/index. G. SILVA./set. D. Vassouras. registros de uma história. 15ª edição. 2017. 2000. 9. jul. 215 BRASIL. Disponível em: <http://www. Currículo sem fronteiras. 2007. Parâmetros curriculares nacionais: linguagens. Petrópolis. SILVA. Identidade e diferença: A perspectiva dos estudos culturais. P440-460.RJ: Vozes. MICHAELLIS Dicionário brasileiro da língua portuguesa. v. Princeton: Princeton University press. 2012. Stein. 5º Volume da série de Dossiê. Revista de Educação Física. v. p. S. TRENTIN. 1985. Brasília: MEC/SEF.br/ib/efisica/motriz/09n1/Ladeira. SP: CECULT. Stein (1985) MATTOS. 2003. Campinas. MARCON. J. F. H. Rio Claro.com. Disponível em: http://michaelis. n.9. Disponível em: http://seer. v1.18 n.rc. 2007.. VIDAL. 31-39.pdf>. C.N. D. IPHAN. Tradução de Sheila Grillo e EkaterinaVólkova. M.php/cadernosdoil/article/view/67802/pdf STEIN. 2012. Motriz. No interior da sala de aula: ensaio sobre a cultura e a prática dos escolares. D. Silvia e PACHECO. CORPOS . Melhoramentos. Secretaria de Educação Fundamental. p. Inserção da Educação Física na área de Linguagens. e ABREU. Uma reflexão bakhtiniana sobre a palavra e seus sentidos: signo ideológico. P. S. Cadernos do IL. RJ: Folha Seca. 2016.br/ SANTOS. Gustavo (orgs. Jongo.uol. Brasília – DF. 2014. 2009.

RESUMO 216 Este trabalho tem por objetivo analisar como se dá o processo discursivo de construção dos corpos sexualizados no gênero Young Adult.137) sexuais) e evidenciar a construção do ser a partir do discurso.com CORPOS . a qual por meio do discurso censurou os assuntos considerados inadequados e fez do meio social um espaço extremamente homogêneo e desprovido do que era visto naquela época como impuro. penalizando aqueles que tentam se desviar dele. na somos.com 95Professora Doutora. a fim de se observar como se dá a construção discursiva da sexualidade e o quanto o ALVES. Juan dos Santos 94 desse gênero. Maria da Penha Casado 95 gênero discursivo em foco é reflexo dos sujeitos que o leem. ao recortarmos dado período 94Aluno de graduação em letras (língua portuguesa e literaturas) e bolsista de iniciação científica (CNPq) na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. mas resultado da interação dos sujeitos em um dado espaço/tempo (cronotopo) (BAKHTIN. sobretudo aquelas ligadas às questões morais e Palavras-Chave: Young Adult. VOLOCHINOV. discutir a construção desses corpos sociais (e (SAÉNS. a pesquisa problematiza esse processo de sexualidade dos corpos a partir do discurso e ̶ O que você tem contra adultos? evidencia esses sujeitos participantes desse ̶ Eles têm ideias demais sobre quem cronotopo. uma vez que variará com o tempo – uma vez que a posição de poder vem sendo ao longo do tempo passada de grupo a grupo.Corpos. Sexualidade. mais especificamente. se faz necessário resgatar a noção de que a linguagem possui significados que não são intrínsecos a si. a partir da obra “Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo” (2014) foi possível estabelecer um recorte representativo SILVA. Ainda sem A DESCOBERTA DA muita visibilidade acadêmica por estar inserido na coleção das obras best-seller. da burguesia. O processo de análise se mostra possível a partir do estudo das proposições teóricas de Mikhail Bakhtin nos romances ya e da orientação de linguagem como construção social o que permite uma investigatgação sobre as representações desses corpos na literatura. p. Ou sobre quem deveríamos intenção de. 2015. da nobreza e. respectivamente. Esse discurso monológico (BAKHTIN. como vivenciamos o poder da igreja. nos permitirem ser. UFRN. E-mail: juanfflorencio@gmail. Sobre isso. SEXUALIDADE: a homoafetividade a problemática em torno do processo de se inserir na sociedade e de se adequar a sua realidade. como propõe Moita Lopes (2006). o gênero retrata a juventude contemporânea e. Sendo a construção dos significados situadas em circunstâncias sócio-históricas INTRODUÇÃO particulares. Contemporaneidade Igreja Católica. Esse poder monológico está nas mãos justamente daqueles que estão no poder e é por isso que sua natureza é mutável. A Idade Média teve um gigantesco domínio da Cronotopo.E-mail: penhalves@msn. hoje. 2014. éticas do ser humano. 2017). Junta-se ao arcabouço teórico de Guacira Louro (2014) e Judith Butlher (2003). Nessa perspectiva. A pesquisa se insere na área da A Linguística Aplicada e se orienta teórico- globalização conseguiu romper com diversos paradigmas e metodologicamente por uma investigação questões que vinham sendo cristalizadas desde as épocas mais qualitativa dos dados. Nesse sentido. remotas. 2008) nada mais é do que um mecanismo linguístico responsável por negar os discursos outros e perpetuar uma imagem singular e cristalizada sobre os fatos da vida.

ressignificada (LOURO. É nesse espaço que a questão da sexualidade encontra espaço para ser discutida. imaginar um avanço temporal que persiste em carregar determinadas estruturas cristalizadas. mais rentável. 217 histórico teremos sujeitos singulares historicamente que observarão os fenômenos de linguagem e suas manifestações com um olhar bem peculiar de acordo com o plano de fundo que o integra e constitui. É confuso. 1. A construção de um pensamento crítico. A questão é que. experenciada e. causa reações de contenção por parte de todo o sistema. monologizar os discursos a fim de que se crie esse tipo de indivíduo específico. Para o capitalismo é muito mais interessante se ter um contingente de pessoas homogeneizadas. mas neste artigo trataremos de um muito específico e que tem ganhado destaque nos estudos antropológicos. “a burguesia cria um mundo a sua imagem e semelhança” (1999). Igreja. portanto. como bem menciona Marx. abordada. históricos e da linguagem – sobretudo na linguística aplicada: a homoafetividade. vivemos por muito tempo em uma era vitoriana. logicamente. este trabalho se propõe a investigar como se dá o processo de descoberta da homoafetividade nesse momento da vida e como as ferramentas de massa – sobretudo a literatura – auxiliam nesse processo de identidade. será utilizada a obra “Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo” como exemplário representativo dentro da literatura Young Adult. Mesmo derrubando o poder da Igreja. Portanto. ferramentas tecnológicas como a internet propiciam a reabertura das ágoras gregas de uma forma mais democrática e com uma quase infinita possibilidade de informações. o ato de assumir identidades autênticas ou de seguir outros caminhos que não aqueles pré- estabelecidos. nobreza e burguesia possuem sistemas sociopolíticos específicos os quais. homogêneo e lucrativo é um objetivo estrutural desse sistema. VOLOCHINOV. Para tanto. No meio desse sistema. ainda há a coerção aos que se aventuram nesse universo de descobertas do próprio corpo e se CORPOS . sem identidades destoantes. O MUNDO E A AVENTURA DA DESCOBERTA Um dos resquícios do domínio da igreja para a sociedade capitalista foi o problema de se discutir questões relacionadas ao sexo e a sexualidade. na qual as famílias e as instituições sociais em nome de uma “moral” e dos “bons costumes” varreram para baixo do tapete todos os assuntos dentro desse campo. Sobre essas dissidências identitárias há diversos exemplos. Na contemporaneidade. Tendo em vista esse público específico. Para Foucault (1998). Ainda que dentro desse sistema “mais aberto” ao diferente e às discussões sobre o “novo”. precisam de sujeitos específicos para fazer suas engrenagens funcionarem da melhor forma. como parte integrante de um sistema cultural. Esse pensamento se encaixa aos demais grupos que antecederam esse grupo social na posição de poder. 2016. dentro de uma mesma forma e guiadas ideologicamente para a manutenção da construção do sistema. é esperado que se haja um sério policiamento dos corpos do sujeito dispostos nesse sistema. 2017). a sociedade burguesa ainda permanece com muitas das suas doutrinas e ideologias.

diferentemente atribuídas aos corpos de homens ou de mulheres. higiênicos. vigor. na realidade. no entanto. p. Ou o gay. de cuidados físicos. Essa visão não é por acaso e não se baseia em algo verídico. com o é o caso do negro de dreads que possivelmente será ligado à sujeira. Na contemporaneidade com uma quantidade substancial de novas tecnologias e gêneros CORPOS . de diferenciação. é fugaz essa percepção da formação identitária e de seu conflito na adolescência. juventude. Outros corpos. hippie ou rockeiro. nas distintas culturas. É justamente o período no qual os sujeitos começam a se reconhecer como indivíduos singulares e. adornos. 218 revelam diferente do modelo padrão para a sociedade. É a partir da análise desse corpo que os sujeitos o relacionam com determinadas visões. morais. Essa questão de uma identidade padrão é evidenciado pelos mecanismos de poder e fazem com que de qualquer forma. investimos muito nos corpos. A realidade é que se pode ser quem quiser. mas em um estereótipo que nada mais é do que uma ferramenta coercitiva para guiar esses indivíduos para dentro da norma. A escola tem papel decisivo nesse processo. 2. caso seja longo e escuro acompanhado de brincos. Sobre isso. exercícios. força são distintamente significadas. muitas vezes. Treinamos nossos sentidos para perceber e decodificar essas marcas e aprendemos a classificar os sujeitos pelas formas como eles se apresentam corporalmente. aromas. dos grupos a que pertencemos. As imposições de saúde. O cabelo longo fará com que pensamos em um estilo alternativo. terão sua imagem ligada a questões fora desse padrão. drogas e desvio moral. é de se imaginar que cada recorte específico do tempo demonstrará necessidades comunicativas específicas dos sujeitos. pelos comportamentos e gestos que empregam e pelas várias formas com que se expressam.15) O corpo em conjunto com seus adornos. roupas. inscrevemos nos corpos marcas de identidades e. tem atuado silenciosa e sistematicamente na homogeinização desses alunos enquanto os prepara para o mundo burguês como futuros operários. maquiagem escura ou traços mais sombrios. A camisa da série remeterá automaticamente a imagem de um fã que tenta representar seu hobbie na sua identidade visual. De acordo com as mais diversas imposições culturais. impuro e imoral. beleza. 2016. nós os construímos de modo a adequá-los aos critérios estéticos. formas e gestos são questões fundamentais para a formação da identidade. (LOURO. Imaginar esse processo de normatização é extremamente irônico ao se falar de uma sociedade que propaga cada vez mais uma ideia de autonomia e que influencia a sermos quem somos. já que não é de forma alguma uma instituição sem ideologia ou passiva. vitalidade. nas mais variadas culturas e são também. é um processo doloroso perceber a necessidade de se mutilar em diversos aspectos para poder entrar dentro da caixa padronizada do mundo social. consequentemente. características. que ao se permitir fugir de um padrão de vestimenta pode ser visto como devasso. HERÓIS DA LITERATURA DE MASSA Ao se entender a linguagem como construto dos sujeitos em dado cronotopo. Através de muitos processos. desde que seja um modelo estabelecido pelo sistema.

definir como esse gênero se estrutura na contemporaneidade. por sua vez. no prelo) trata-se de um gênero com protagonistas entre catorze e vinte anos que a partir de um grande conflito – a morte dos pais. os jovens cada vez mais enxergam nos personagens da literatura de massa a fonte de sua identidade e material para tentar preencher o seu inacabamento. Sendo os gêneros os provedores do processo de interação dos sujeitos. essas obras se repaginam nesse momento e se tornam um grande representativo da identidade desse público juvenil. Jovens que tentam encontrar seu local no mundo a medida em que são repulsados por determinados sistemas ou não conseguem se encaixar em lugar algum. Sobre isso. inclusive no Brasil em que filmes como “Hoje eu quero voltar sozinho” (2014) e autores como Vinícius Grossos tratam a questão da homoafetividade nesse viés juvenil e situado na cultura nacional. 96 A partir de agora nos referiremos ao gênero com sua abreviação: YA (Young Adult). Maffesoli (2005) teoriza sobre uma geração que não tem mais os pais como exemplo a ser seguido e como fonte de inspiração. torna-se pertinente. portanto. passam muito tempo na escola onde constroem relações de alteridade com os outros alunos e em casa. práticas identitárias e diversos fenômenos discursivos podem ser observados a partir da leitura dessas obras que transmutam a realidade juvenil para os enredos de ficção. os pais precisam trabalhar cada vez mais na busca de um ideal de vida propagado pelo sistema capitalista e os filhos. sejam por meio dos livros juvenis sejam pelas produções cinematográficas. na realidade. tendo em vista ele não ser novo (a literatura para jovens já existe há bastante tempo). Ainda sobre o gênero. A produção de obras que tratam a sexualidade tem aumentado nos últimos anos. na frente de livros ou da tela do computador (jogando. Esse é o caso do Young Adult96. CASADO ALVES. assistindo filmes e séries nas redes de streams ou socializando nas redes sociais). um grande amor ou alguma outra questão pertinente a esse período – irão passar por uma longa jornada até chegar enfim. mas ter um novo arranjo devido ao cronotopo em que se encontra. nesses casos. 219 provenientes dos smartphones. construindo a alteridade com personagens fictícios ou com amigos virtuais. novos hábitos. a um certo amadurecimento frente a situação. CORPOS . a descoberta da homossexualidade. o qual como já defini em trabalhos anteriores (SILVA & CASADO ALVES. é importante perceber que as obras YA são um retrato muito semelhante da realidade juvenil contemporânea. 2017. computadores e diversos novos apetrechos tecnológicos os processos de hibridização e intercalação propiciam o rearranjo de velhos gêneros em estruturas repaginadas capazes de darem conta dos interesses comunicativos das pessoas. no prelo) Nesse sentido. Essas mudanças. Nessas linguagens a juventude encontra personagens com os mesmos dilemas deles. a qual tem suas formas de narrativa alteradas em decorrência do plano de fundo que se estende atrás dela. a qual teve suas práticas discursivas totalmente alteradas com as mudanças causadas pela globalização. No cenário contemporâneo. 2016. (SILVA. Essa questão pode ser facilmente visualizada no gigantesco consumo dessa cultura de massa. Esse processo de mudança das estruturas discursivas afeta também a literatura.

não era idiota. mas até aí nunca tinha ouvido falar de ninguém. John Green e David Levithan possuem obras que tratam a questão de forma abundante. Esse processo é diferente da leitura que grande parte dos alunos procuram. É extremamente comum que os alunos rejeitem muitas das leituras propiciadas por esse espaço por elas tratarem de temas que são considerados chatos ou irrelevantes para esses sujeitos. lendo o livro de um poeta chamado William Carlos Williams. como é mais utilizado no livro). se esses jovens procuram na ficção sujeitos verossímeis.. muitas vezes. A trama é narrada por Aristóteles (ou Ari. (SAÉNS. Em "Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo". por consequência.Outras você simplesmente não entende. ou seja. de caráter social e. somos apresentados a dois personagens principais: Aristóteles e Dante. Essa ausência de comunicação preocupa o menino. uma família bem estruturada de classe média e de origem hispânica que tem poucos problemas. não consegue se enxergar nessas narrativas por tratarem de temáticas mais adultas. Fiquei surpreso. propiciarem não exatamente uma diversão. O livro era interessante. com CORPOS . mas a família não dá brechas para que isso seja possível. Alguns poemas eram mais fáceis que outros. nada do que eu pensava que poesia era. Dante passou a tarde toda limpando o quarto. A razão para isso é bem clara.. Fiquei pensando que poemas são como pessoas. Não tudo. A trama da história vai sendo desenvolvida de uma forma natural. sobretudo. o aluno. Nunca tinha ouvido falar dele. o menino tem consciência da sua homossexualidade e será extremamente importante essa demonstração para chamar a atenção do Aristóteles de que ele também possui algo mal resolvido dentro de si. Por sua vez. que gostaria de saber sobre o irmão. na qual por meio de situações próximas do seu cotidiano ele consiga estabelecer laços com a história e encontrar respostas para as suas lacunas.. inclusive na obra Will & Will (2013) escrito em parceria por eles. na escola. bobo.40) O posicionamento de Aristóteles no excerto anterior revela uma questão interessante sobre a prática da leitura na adolescência e. mas alguma coisa. e um desses poucos é o irmão de Ari que está na prisão e os pais nunca conversam sobre isso. com uma linguagem sem muitos rebuscamentos e extremamente próxima daquela utilizada pelos adolescentes de quinze anos da atualidade. E eu.. Apesar de não ser algo explícito no início da trama. Dante tem menos brechas na sua personalidade e está muito mais ciente daquilo que ele é. pedante nem intelectual demais. Algumas pessoas você entende de primeira. E não odiei. Comecei a achar que talvez soubesse o significado dessa palavra. A questão da linguagem é o que torna o YA tão aclamado pelos leitores. p. 2014. Isso pode ser possível se na narrativa o sujeito encontrar personagens que possuam um corpo semelhante ao seu. Alguns eram inescrutáveis. e nunca entenderá. Ambos possuem quinze anos e vivem uma vida comum como a de outros adolescentes. que necessita bastante esforço para ser compreendida. O rapaz vive com seus pais. 220 Dos autores mais prestigiados do YA. E até que entendi alguma coisa. mas um momento de leitura de proposição. já que a construção e o discurso ingênuo das personagens que vão se complexificando e amadurecendo ao longo das tramas é responsável por potencializar a questão da alteridade durante a leitura e contribuir para o processo de identificação a partir das personagens.

decepções. livros. seu aparecimento em romances que tentam naturalizar e colocar no mesmo patamar de um romance hétero entram em conflito com essa normatização presente na literatura e.214). moldar suas identidades em um espaço menos hostil. na sociedade contemporânea. desse modo funcionando como forças centrífugas. nas quais essa leitura compartilhada como prática social situada. sobretudo no que tange às questões sexuais de uma sociedade filha da era vitoriana. Dessa maneira. HOMOSSEXUALIDADE NA ARTE A questão da sexualidade precisa estar situada historicamente para que se possa fazer uma análise efetiva de suas representações nos artefatos culturais. p. portanto. simultaneamente. portanto. a efetiva construção do sujeito e. torna esse ato de ler coletivo ao se agrupar em comunidades de leitores. espera-se que a adolescência seja justamente o período em que a sexualidade aparece e é perfeitamente aceitável que esses jovens sejam sexuados. ao mesmo tempo. ou seja. é CORPOS . 3. As personagens fictícias acabam. Compreender as identidades sociais como únicas e cristalizadas é uma questão que deve ser derrubada para a compreensão dos sujeitos presentes na modernidade fluida. séries. a construção dos significados relacionadas a ela dependem disto. É aí. 1996. filmes e outras manifestações artísticas da pós- modernidade têm intrínsecos discursos de emancipação e igualdade que entram em choque constante com os conceitos cristalizados da sociedade. em contrapartida. efetivamente. A escola acaba. auxiliando na construção de uma certa repulsa pela literatura à medida que ignora as leituras prévias do aluno e convida para a sala de aula apenas as obras elegidas como canônicas. em casos heterossexuais. portanto. Essa permanência apenas no canônico revela as forças verbo-ideológicas. as quais as forças de contenção (centrípetas) forçam o aluno a permanecer em um sistema de conceitos cristalizados e unificados e. HOMOSSEXUALIDADE NA VIDA. tenta perpetuar essa literatura “ruim” às margens. a questão da homoafetividade não é compreendida como natural por grande parte da sociedade e. O ato solitário de ler possibilita. essa questão do ser sexuado acontece de forma distinta. cria laços coletivos de identidade e sujeitos que encontram a partir da leitura espaço para discutirem. a partir da alteridade. afinal. Romances que tratem da homossexualidade com tanta força não eram tão comuns no passado e. testarem seus corpos e. portanto. a gravidez é algo que deve ser evitado a qualquer custo (PAIVA. 221 pulsões semelhantes. que surge a importância da análise desse material consumido por esses sujeitos. Nesse sentido. as suas outras leituras o convidam a sair desse sistema fechado e visualizar outras possibilidades. crises de identidade e uma longa jornada de redenção em busca desse “eu”. em seguida. No Brasil. se reconhecerem. sobretudo ao se levar em consideração a questão do gênero. contribuindo para a afirmação das identidades individuais. No entanto. Essa insistência advém de um discurso monológico que tenta definir o que é a leitura boa e a ruim e. A primeira questão é que se espera uma sexualidade heterossexual e não-reprodutiva.

há. 2016. 2016. de nascer. em última instância. evidenciando a imagem do homem viril. justamente os modelos os quais o sistema considerará correto. sempre em processo e sempre constituída dentro. de "realidade". o sistema guia que sua sexualidade deva ser controlada ao máximo. uma vez que Hall (1990.14). p. p. p. As novas tecnologias reprodutivas. e não fora das representações. A certeza de uma sexualidade e de um corpo que dita identidades são uma das poucas coisas as quais não conseguimos ainda enxergar direito enquanto fluida nos processos sociais em constante alteração do meio social. Quando uma figura de destaque assume. No entanto. de crescer. Ou seja. como se esse sujeito tivesse induzido os demais a um erro. Os discursos dominantes normatizaram tanto as questões de sexualidade e gênero que não esperamos que haja ambiguidades ou inconstâncias com ele. Assim. “os corpos são significados pela cultura e são. (LOURO. Afinal. as articulações corpo-máquina a cada dia desestabilizam antigas certezas. sempre em trajetória e em mudança. subvertem as formas de gerar. uma alteração que atinge a "essência" do sujeito. de espaço. A admissão de uma nova identidade sexual ou de uma nova identidade de gênero é considerada uma alteração essencial. somos uma espécie de colônia de identidades. (LOURO. continuamente. 2016. por ela alterados (LOURO. Ou seja.15) Talvez a grande problemática em torno das questões de gênero e sexualidade estejam ancoradas justamente no fato de que nossos corpos são. surge outra questão referente à sexualidade que são suas combinações. Esses construtos sociais criam estereótipos que se cristalizam no meio social e servem como modelos a serem seguidos. para a mulher. publicamente. assim como visualizar um discurso que dialoga com homossexualidade causa um certo mal- estar nos que observam esse discurso. de amar ou de morrer. Se assumir enquanto pessoa homoafetiva causa um grande abalo no espaço social em que o sujeito se encontra. 233) “[…] talvez em vez de pensarmos a identidade como um fato já completo. que nunca está completa. […] deveríamos pensar a identidade como uma ‘produção’. uma série de fragmentos que formam o nosso eu. sua condição de gay ou de lésbica também é frequente que seja vista como protagonizando uma fraude. 222 essencial a compreensão dessas identidades como fragmentadas. as possibilidades de transgredir categorias e fronteiras sexuais. o YA utiliza um processo de hibridização e intercalação para moldar a literatura juvenil atual a um novo olhar da situação baseado no cronotopo que se estende como seu plano de fundo. aquilo que parece mais fixo e concreto no mundo cultural. Ao tratar a questão da homossexualidade de uma forma tão natural e sem qualquer implicitude. As novas possibilidades de transgredir estruturas socialmente cristalizadas reverberam também em uma possibilidade de transgredir modelos literários pré-estabelecidos e romper as auras CORPOS .10). p. a um engano. implodem noções tradicionais de tempo. enquanto que a dos meninos deve estar aberta para não conseguir resistir a nenhuma chance de se envolver em uma prática sexual. sexual e macho.

a realidade quando se assume publicamente esse discurso homossexual. – ele sussurrou. uma vez que longe do discurso homegenizador de casa. principalmente. ser encaminhado a rever determinados conceitos e abrir as fronteiras a novos contingentes ideológicos que se esgueiram pelas frestas solidificadas dos modelos padrões e reivindicam reconhecimento. A identidade do sujeito se forma. O entretenimento do gênero não é mero passatempo ou possui uma narrativa conformativa a qual não gerará questionamentos no leitor e a edificação de um pensamento crítico. E essa diferença é afirmada contra aquilo que está mais próximo e. na cultura. YOUNG ADULT E OS SEGREDOS DO UNIVERSO Espancaram. A evidência dos romances YA afirmam a constante luta de uma população evidenciada como diferente e destinada às margens. os leitores a procurarem outros artefatos culturais e o mundo a. essa percepção por si só já é falha por desconsiderar a individualidade de cada sujeito. Terminamos o café. 1985. Ele está cheio de hematomas.. Era estranho querer abraçar um adulto. gera mais ameaça (BORDIEU. 1979... um grupo de garotos viu Dante beijando um outro rapaz e o espancaram. tem de lidar com sujeitos únicos e formados a partir de discursos outros. 2002). A escola é o primeiro local em que jovens lidam com discursos distintos daquele de suas casas e onde começam a se formar as primeiras noções de diferença. Não fiz mais perguntas. traz os discursos dessas identidades constantemente apagadas das narrativas sociais e tenta demonstrar. CANCLINI. claro que em uma perspectiva ainda juvenil e frágil.. (SAÉNS. ao ligar essa literatura ao seu conhecimento de mundo (um efeito dialógico) e produzir novos conhecimentos. socarem seu rosto. em específico. – Espancaram meu Dante até não poder mais. p. 558). No caso da obra. 223 das coleções tidas como únicas e insubstituíveis (BENJAMIN. na arena discursiva. portanto. que pode muito bem se desenvolver com inúmeras narrativas. 2006) precisam ser ouvidos.137) A literatura YA tem em si uma característica interessante que vai totalmente de encontro a uma das principais críticas à literatura de massa. O YA. Quebraram costelas. forçosamente. Na realidade. Mas minha vontade era exatamente essa. 2003). na literatura. Esses discursos se recusam a ecoarem dentro de armários e começam a chegar nos outros cômodos da casa. consequentemente. 4. O CORPOS . 2014. O panorama social em que nos encontramos guiam os autores a produzirem novas narrativas. p. a partir da diferença. no que se refere à definição de um sujeito homogêneo (MOITA-LOPES. Arte e vida dialogam com o inevitável: os discursos do Sul (MOITA-LOPES. Fizeram isso com meu filho. São tempos em que os ideias da modernidade enfrentam constantes questionamentos e passam a serem reescritos. por mais que desprovidas de grandes efeitos linguísticos.

por consequência. nenhum de verdade. Senti vontade de dizer que não sabia que existia gente como Dante no mundo. o entendimento de um mundo complexo e nada libertário. Senti vontade de dizer tantas coisas e. As narrativas da infância estão repletas de mundos mágicos. aposentadoria e morte). 2014. A adolescência. faculdade. sobretudo. a fomentação da alteridade a partir da ficção. modelos que são refratados. nenhum. trabalho. ter um material para tecer reflexões e comentários que burlam o sistema cristalizado da escola e da sociedade. não tinha as palavras. os problemas familiares. contudo.336-337) Talvez o período da adolescência seja tão conflituoso por. que conhecia os mistérios da água. a partir da prática da leitura. e estes são evidenciados e punidos pela sociedade a partir de comportamentos mais evidentes como o do romance. a questão da identidade são transformadas em narrativas e os adolescentes podem. o encaminhamento homogeneizador para uma vida que parece pré-estabelecida (escola. os jovens estavam em uma infância em que tudo parecia totalmente explicado e destinado a um felizes para sempre. Senti vontade de dizer que ele tinha sido o primeiro ser humano além da minha mãe com quem pude falar de coisas que me assustavam. A sexualidade. Essa definição de homem estabelece. além dos hormônios a flor da pele e a busca pelo pertencimento em um mundo hostil em que nem toda identidade é tolerada. CONSIDERAÇÕES FINAIS CORPOS . o que se justifica pelo seu reconhecimento de si mesmo a partir da observação do amigo homossexual e do fato desse amor ser a sua resposta para os segredos do universo. a desesperança. que sabia o suficiente para entender que os pássaros pertenciam ao céu e não deveriam ser derrubados de seu voo gracioso por tiros de moleques idiotas e cruéis. ou silenciosamente como as constantes tentativas de apagamento dessas pessoas no meio social. gente que observa estrelas. as responsabilidades e. Ao representar essas questões pertinentes a uma juventude contemporânea tão recheada de questionamentos e dificuldades de se encontrar. traz os primeiros amores não correspondidos. E que. minha sensação era de que Dante tinha salvado a minha vida. na verdade. Senti vontade de dizer que nunca tivera um amigo. o YA possibilita. por sua vez. príncipes que tiram princesas de uma situação ruim e vivem para sempre felizes. O poder centrífugo dessas narrativas possibilitam um desapego de definições pré- estabelecidadas e encaminham para uma compreensão de uma sociedade fluida e com novas demandas. Senti vontade de dizer que Dante transformara minha vida e que eu jamais seria o mesmo. Até Dante. sentimentos simples e facilmente resolvidos e os pais que estão ali para resolver qualquer coisa que aconteça. p. A vida boba e sem sentido de Aristóteles começa a fazer mais sentido ao encontrar Dante. 224 discurso homofóbico surge justamente na normatização do que é ser homem em uma sociedade capitalista e conservadora. família. não o contrário. (SAÉNS. por meio do artefato artístico. jamais.

MAFFESOLI. HALL. é representativo das narrativas reais de um público situado em uma convergência e espaço fluido o qual tem suas questões representadas por meio da ficção. Rio de Janeiros: Edições Graa. 1979. 1ª Ed.11-27. por consequência. 2. P. reimp. Teoria do Romance I: a estilística. 2008.4. São Paulo: Aleph. 4. assumir seu espaço de direito. Tradução: Segio Paulo Rouanet. Tradução de Paulo Bezerra. 2005. Tradução Paulo Bezerra. 1992. São Paulo: EDUSP. BORDIEU. 2016. 2015. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. Tradução Susana L. Belo Horizonte: Autêntica Editora. 1988. 2015. ed. e ao propiciar a voz para públicos até então marginalizados. 2015. Tradução Tomaz Tadeu da Silva 3. Rio de Janeiro: Forense Universitária. FOUCAULT. 5. ed. Londres. ed. Mikhail. Problemas da Poética de Dostoievski. nosso acabamento está no outro. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. Intimations of postmodernity. A ressignificação dos corpos pode ser também a ressignificação do nosso tempo. São Paulo: WMF Martins Fontes. n. CORPOS . A distinção.p. Tradução Paulo Bezerra. ______. São Paulo: Editora 34. Néstor. REFERÊNCIAS BAKHTIN. Cultura e comunicação juvenis. JENKINS. 2015. 2003. 13. Como proposto por Bakhtin (2011). faz com que essas vozes ecoem e ganhem mais força e representatividade. 2. pode-se entender essas construções como anti- hegemônicas à medida que corroem o homodiscurso dominante e propiciam o aparecimento de novas vozes no meio social. 1985. ed. Paris. Routledge. Na realidade. mídia e consumo. A identidade cultural na pós-modernidade. de Alexandria. levá-los à luz do espaço social. Estética da criação verbal. 6. BAUMAN. no qual a partir do olhar. H. O Young adult possui em sua estrutura interna um conteúdo temático que oferece abertura para muitos dos dilemas juvenis contemporâneos. onde seus corpos poderão entrar em evidência e. Tradução Tomaz Tadeu da Silva & Guacira Lopes Louro. Cultura da Convergência. da interação e da reflexão nos constituímos axiologicamente. Minuit. Comunicação. LOURO. enfim. 12. A razão para isso é a constante percepção de que essas produções discursivas simbolizam algo muito mais latente do que apenas uma leitura a serviço do entretenimento ou do prazer rápido. Magia e técnica. Stuart. ______. Nesse sentido. Z. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Editora Brasiliense. História da sexualidade I: a vontade de saber. Guacira Lopes. ed. a homoafetividade tem a partir dessa literatura um vetor centrífugo capaz de tirar do armário os leitores que se afugentam e. Michel. São Paulo. Quanto à questão abordada neste trabalho. BENJAMIN. o qual tão fluido e poroso pode ser também mais democrático e libertário. Rio de Janeiro: Lamparina. ed. v. Walter. GARCÍA CANCLINI. Michel. 225 A cultura de massa tem cada vez mais atraído a atenção de pesquisadores e grupos que até então olhava com desdém para os integrantes desse sistema.

. Young Adult: um olhar dialógico à (re)invenção dos gêneros juvenis. SILVA. ______. S. ed. In: X Congresso internacional da Abralin. No prelo. 2017.. 2016. VOLÓCHINOV. ______. Valentin. Manifesto do Partido Comunista. J. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. 2017. In: XXVI Jornada do Grupo de estudos linguísticos do Nordeste (GELNE). Petrópolis. CASADO ALVES. 1999. 226 MARX. CORPOS . RJ: Vozes. Recife. São Paulo: Editora 34. A corrosão do heterodiscurso: uma cosmovisão das estruturas discursivas da literatura juvenil. F.A selva juvenil: uma análise dialógica da construção da sexualidade no young adult. M. No prelo. 9. K.ENGELS. P.

1996). produção de conhecimentos nas aulas de identidade/alteridade e também expressão no percurso pedagógico construído e narrado. PROFESSOR?: reflexões acerca da realizado com turmas de 6º e 7º anos do Ensino Fundamental II. incorporando-as. cada expressão. deixando suas marcas singulares em outros seres humanos. o ser humano se expressa corporalmente a partir de sua gestualidade e de variadas linguagens outras. Professor de Educação Física na Educação Básica. as danças. 2005). enfim. mas principalmente em sua constituição histórico-cultural. as ginásticas. em outros corpos e no mundo da cultura de modo geral (BUBNOVA. 2012). como feito em outros momentos históricos da área (SOARES. estes corpos também acessam impressões outras. com as coisas e com os outros. E- mail: gabriel. renovadas. em seu processo de humanização. em uma escola particular de Campinas. Por se expressar e compartilhar suas impressões singulares com os outros. dialogam e produzem sentidos e significados específicos para aqueles gestos. Em diálogo com a Filosofia bakhtiniana. as lutas. As práticas corporais. Membro do GRUBAKH (Grupo de Estudos Bakhtinianos) e do EscolaR (Grupo de estudo e pesquisa sobre Educação Física Escolar) ambos na mesma instituição. O corpo nesse campo de conhecimento. PINO. as brincadeiras. 2015). RESUMO 227 Esta narrativa tem como objetivo refletir sobre a POR QUE ESCREVER. 2017) no seu agir. 2011). cada gesto. não mais olhado somente por suas características biológicas. destacamos as noções de excedente de visão. foram e ainda são produzidas nesse processo dialógico ininterrupto (BRASILEIRO et al. a partir de uma experiência de trabalho com o tema Esporte Adaptado nas aulas de Educação Física. Elas só existem na nossa sociedade porque os corpos se expressam. Gabriel da Costa 97 INTRODUÇÃO A s aulas de Educação Física Escolar têm como objeto de estudo a Cultura Corporal. educação física Palavras-Chave: Educação Física. marcando em sua carne a cultura da qual tomam contato (FONTANA. os esportes. 97Mestrando em Educação Física na Universidade Estadual de Campinas. 2012). Nesse processo dialógico. os jogos. entre tantas outras manifestações da Cultura Corporal. produzindo sentidos e significados (VOLÓCHINOV. 2016). Produção de conhecimentos SPOLAOR. Na relação histórica com o mundo. as significações já existentes na cultura são incorporadas. o ser humano compartilha novamente com o mundo suas experiências e impressões. mas também atualizadas. produção de conhecimentos e o lugar da escrita. A cada ato responsável (BAKHTIN.spolaor@hotmail. Expressão.com CORPOS . Mundo da vida e mundo da cultura imbricados a cada ato responsável (BAKHTIN. na medida em que os corpos se apropriam destas e se expressam singularmente (BAKHTIN. 2001. o circo.

Geraldi (2013) em diálogo com Bakhtin. entre eu-outro precisam ser deflagradas. responsável. Constituem as identidades dos sujeitos. A dinâmica dos discursos. compõe o universo da Cultura Corporal. identidade e diferença têm sido tratadas a partir dos Estudos Culturais e Pós-críticos da Educação (NUNES e NEIRA. CORPOS . 2014). enfim. as fronteiras entre eu-outro. os conflitos e os preconceitos residem. cada expressão. marcam também suas diferenças. cada escolha dos seres humanos. negada e até mesmo apagada nas relações de poder. nos fala: A alteridade é o espaço da constituição das individualidades: é sempre o outro que dá ao eu uma completude provisória e necessária. símbolos e significados tentando manter-se provisoriamente estáveis entre os grupos. entre outros materiais que utilizam. reorganizadas. 2006). Ao tratar de alteridade. os discursos e símbolos de um grupo. na relação entre grupos culturais. Há que se destacar que na literatura da Educação Física escolar. Enfim. percebo que as discussões e observações do movimento da identidade e diferença tem se concentrado apenas no nível coletivo. criadas na dinâmica social. No diálogo com a Filosofia bakhtiniana é possível tensionar essa forma de olhar para a identidade e diferença. do eu constituído de vários outros (MIOTELLO. borradas em busca de uma sociedade mais justa. que por histórica não significa permanência do mesmo. nesta narrativa (PRADO et al. fornece os elementos que o encorpam e que o fazem ser o que é. seguem a mesma dinâmica. acaba por ser afastada. Os grupos sociais dos quais os sujeitos se aproximam. mutável segundo suas relações. 228 Esse conjunto de produções. cada ato responsável. uma vez que. (p. que movimentam a initerruptamente e irrepetível cadeia criativa de signos. assim como a Cultura Corporal é produzida de forma ininterrupta a cada gesto. mas mutabilidade no supostamente mesmo. como efeitos da produção de enunciados. Ao compor suas identidades. Nesse referencial. além de apresentar e tematizar as manifestações culturais e as suas gestualidades específicas. Muitos e um só: unidade e unicidade. as preferências por roupas. 2015) tenho como objetivo refletir sobre a produção de conhecimentos e o lugar da escrita nas aulas de Educação Física. para serem diluídas. acessórios. Nessas fronteiras entre identidade e diferença que as tensões. A partir destas considerações. como aquela parcela da Cultura Corporal que tensiona a identidade. tento trazer à tona a noção de alteridade. estudadas e compreendidas. a diferença é tratada como produtora da identidade. suas formar de agir no mundo. como efeitos produzidos pela relação eu-outro. Ao tentar romper as fronteiras. Durante as aulas. incompleto e inconcluso. situados em tempo e espaço. a diferença acaba por ameaçar a estabilidade de identidade e por isso. No corpo biológico que somos constituímos histórica e geograficamente o sujeito que seremos – não sempre o mesmo. as fronteiras entre corpos. democrática e menos preconceituosa. expressões singulares em sentidos e significação. procuro olhar para as tensões entre grupos culturais.12-13) Dessa forma. Apesar da grande contribuição deste grupo para a área. as práticas corporais que realizam. marginalizada.

com a produção de signos. em busca da luta de classes. CONSTRUINDO UM LUGAR PARA A ESCRITA NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA A partir da concepção já apresentada. na abordagem Crítico-Superadora em sua discussão sociológica (SOARES. árbitro. como na teoria de Go Tani (1989). A meu ver. explorando suas diferentes gestualidades e formas de diálogo corporal. do jogo. na medida em que os autores se preocupam com as manifestações do esporte. Como professor. Ora ligado estritamente ao fazer técnico de um corpo biológico. (4) compreendessem as regras. 1996) que tratam do tema de formas diferentes. com destaque especial na Cultura Corporal das pessoas com deficiência visual. cego. como objetivos desta tematização. Nas abordagens próximas da vertente crítica da educação encontro também certo reducionismo. reconhecendo suas potencialidades e dificuldades. Ora ao desenvolvimento motor de um ser abstrato distante do mundo cultural. essa noção é apenas citada e pouco aprofundada. 1992) encontro a noção de movimento como forma de expressão. desenvolvi um trabalho com as turmas de 6º e 7º ano na escola que atuo em Campinas. mas na responsividade ativa também produzíamos muitos conhecimentos outros. Goalball e Futebol de 5). Ele aconteceu no final do 2º trimestre de 2017 e teve como tema o Esporte Adaptado. A ênfase fica na ressignificação das manifestações culturais. ainda com lacunas a serem discutidas. apesar da ampliação da noção de movimento. das aulas de Educação Física. como critica Daolio (2013). no desenvolvimento do projeto percebemos que no processo de apropriação destes conhecimentos. os alunos e eu no papel de professor não só incorporávamos o já criado. entre outros). Olham para a cultura em um nível macroscópico e não para a pista que CORPOS . penso que a teoria fica em uma filosofia que pouco dialoga com o mundo da cultura. assim como. meu maior dilema era a questão da produção de conhecimentos nas aulas de Educação Física. ancorada na dinâmica histórica e social. permitir que os alunos: (1) refletissem sobre as possibilidades de movimento no cotidiano das pessoas com deficiência visual. estratégias e os elementos técnico-táticos das modalidades. Durante a graduação dentro dos grupos de estudo e nas disciplinas entrei em contato com as várias abordagens (SOARES. e se esquecem da dimensão do movimento como forma de expressão e linguagem. como linguagem produtora da Cultura Corporal. nas próprias práticas em que o corpo expressa e produz material semiótico e ideológico necessário para a transformação social. como conteúdos a serem tratados. mas de um corpo próprio do sujeito que dá sentidos para o seu agir. das lutas. Porém. o seu se-movimentar. deixando de lado o produzido nas próprias relações sociais. Faltam elementos que interliguem a experiência vivida dos sujeitos com a produção cultural. dinamizando a própria tematização. Tínhamos no início. 229 1. Porém. da ginástica. (2) vivenciassem os Esportes Adaptados (Atletismo. não mais de um ser abstrato. Por outro lado. as modalidades esportivas paralímpicas específicas deste grupo. Na Crítico-Emancipatória de Kunz (1991) em diálogo com a Fenomenologia. (3) experimentassem diferentes papéis (guia. os códigos.

cada expressão. 2012). sobre o papel de suas expressões e linguagens na construção de conhecimentos. outros atos responderão. nesse ato responsável que em diálogo com o outro. ainda inconclusas e com pouca implicação com a prática pedagógica dos professores. a todo ato. visto que são teorias produzidas no meio acadêmico. Os conhecimentos se produzem nesse devir. mostrando como o ato responsável é potente em sua dimensão ética. nas trocas de gestos e diálogos corporais. CORPOS . permite a interminável conexão do presente com o passado. permitindo que estes permaneçam sempre inconclusos em processo de construção. outras formas de produção passando pelos meus olhos. bifronte: com o passado que o ato interpreta e com o futuro que o ato desencadeará nas respostas que receber” (p. signos e significações renovadas (BAKHTIN. das produções da humanidade. expressadas em nossos gestos. Não podíamos perder e deixar passar tantas produções! Como as reflexões produzidas nas rodas de conversa poderiam ser registradas? Como as experiências corporais e os conhecimentos ali produzidos poderiam ser guardados. O ato responsável nessa perspectiva bakhtiniana. o escutar. o cantar. Sem esse diálogo com o cotidiano a teoria se prende em uma estrutura. possibilidades de criação de um futuro. o falar. estética e epistemológica (BAKHTIN. não só nas vivências práticas de uma modalidade. cada gesto. Cada um do seu lugar. compartilhávamos nossas percepções. Diante desta intensa criação. o escrever. 2011) em pleno exercício. portanto. o fotografar. Nas atividades propostas. de sentidos dados ao movimento constituem meu olhar para a produção de conhecimentos nas aulas. da expressão corporal como forma de linguagem. Essas noções de expressão. de linguagem. 230 os próprios autores deixaram. A cada ato. perde sua vida. abrindo possibilidades sempre novas. compartilhados. mas apesar do diálogo. vermos fotos e discutirmos o tema nas rodas de conversa. me preocupava em como esses conhecimentos poderiam ser registrados. o desenhar. ao gesto dentro de uma prática. redinamizados? A Filosofia bakhtiniana me pareceu um importante ponto de ancoragem. De acordo com Geraldi (2013) “Todo ato responde. o que possibilitaria o olhar microscópico em diálogo com o macro. Os vários excedentes de visão (BAKHTIN. o ver. da experiência do sujeito. mas também ao assistirmos vídeos. o brincar e tantas outras infinitas formas de agir no mundo que extrapolam até mesmo as palavras aqui escritas. Penso que a educação precisa se preocupar com esse futuro. Inquieto com as produções dos alunos no processo pedagógico. colecionados e valorizados. o filmar. nossas intervenções. O ato não só limitado ao movimento. A responsabilidade é. cada encontro. via nas relações sociais. 21). nossas falas. mostrando sua forma de olhar para o mundo. não me reconheço como representante de nenhuma destas abordagens. com o mundo da cultura. eu e os alunos. perde a possibilidade de reconstrução. constituída e constituindo a dos outros. Penso que ainda seria necessária a reflexão de muitas questões em cada uma delas. conecta o mundo da vida. Cada ato responsável em sua singularidade dialoga e compõe as produções singulares de tantos seres humanos outros. o sentir. 2011). mas em uma noção ampla que considera o pensar.

a cada diálogo. Novo de carreira e também na escola me sentia preocupado com diversas questões. 2006. para jogar e não para escrever! Escrever é responsabilidade de outras disciplinas. Os outros mostrando em suas expressões o que viam dos próprios colegas. Além disso. afinal. Talvez isso precisasse ser melhor desenvolvido. com excedente de visão. os discursos da área biológica e também tecnicista do fazer pedagógico. Um modo de funcionamento aprendido e muito aceito. tinha dúvidas se eles conseguiam compreender a importância dos outros no processo de aprendizagem. Os conhecimentos se produziam na relação com os outros alunos. me sentia também limitado. (p. que adquiro para ele contornos definidos. como tal. essas definições provisórias. Em consequência. ele tem um excedente de visão com que poderá preencher. Somente ele pode me fornecer esses contornos. aula de Educação Física era para praticar esporte. precisava valorizar o diálogo. mostra-nos nossa incompletude fundante. do seu próprio ponto de vista. 231 Sobre essa noção de excedente Geraldi (2013) diz: Na relação com o outro. minha incompletude. Ambos incompletos. Apesar da potência da aula de Educação Física. em que os alunos apenas realizam as práticas corporais. estavam sempre se alterando. parecia muito distante do modelo de aula encontrado nas escolas. sem reflexão e discussão sobre o que fizeram. já em outro lugar. com um pano de fundo que me é inacessível. contextos outros. PRADO. uma linguagem que os permitisse exercitar o excedente de visão também para consigo mesmos. Essa inacessibilidade a si próprio. Obviamente. Até onde poderia tensionar o olhar dos alunos? Tensionar o modelo de aula que eles tinham aprendido? Pensei que além do espaço para a experiência dos gestos e das modalidades práticas. DAOLIO. Mas faltava também o espaço dos alunos olharem para si mesmos. do fazer corporal. Isso que pensava. esse formato limita as produções de conhecimento e as próprias potencialidades expressivas do corpo.18) Ao passo que me encantava com a responsividade dos alunos e minha própria. o que eles não viam do seu lugar. 2013). pensei em começar com narrativas visuais (ALMEIDA JUNIOR. Em relação às produções. a cada experiência ali construída. 1999. Sem a possibilidade de materializar o realizado corporalmente em expressões outras. na forma de uma completude provisória. para suar. uma vez que têm em sua construção. CORPOS . com a escrita de algumas legendas. sendo produzidos a cada ato responsável. materializar em uma expressão. no contexto em que se está. só temos uma forma de relação que possa preencher o vazio: a aproximação dialógica é a forma de encontrar completudes provisórias. ainda muito fortes. 2013). dele eu também sou um outro e. A meu ver. se vendo como outros e compreendendo que seus conhecimentos singulares referentes à Cultura Corporal. à medida que mostravam o que não podíamos ver. Se eles compreendiam que os outros estavam mostrando em todo momento. já deflagrada pelos autores da área (BRACHT. É no panorama em que estou. me doía por não conseguir guardar. que o outro vê. a reflexão. Elas tinham uma eficácia simbólica. este sempre me vê na paisagem em que estou. apenas com fotos e no máximo. muito diferentes do território da quadra.

Não esperava tamanha complexidade no rumo que as discussões nos levaram e de impulso responsivo. dos gestos. Ao pedir para que eles escrevessem. 232 A foto como expressão talvez fosse mais aceita por todos. Primeiro dia de aula com o tema Esporte Adaptado e as questões levantadas para a discussão coletiva foram: Como vocês imaginam o mundo de um cego? Como vocês acham que é ser cego? Nesse momento. As fotos não dariam conta de materializar o que falamos ali. Porém. 2017) e a dos vários meninos e meninas com quem iniciei o diálogo ali. Após tantas intervenções interessantes e ricas em dúvidas e elaborações. sinto-me deslocado. o uso de outros sentidos. que coisa chata!” Estas foram algumas perguntas e comentários que muitos alunos me fizeram quando solicitei a escrita. a necessidade de ajuda. das identidades do ser aluno desta disciplina. estava também dinamizando o contorno dos corpos. pensamento. parecia tão óbvia a resposta para as dúvidas ali apresentadas. começaram os estranhamentos: “Professor. com a ação sem sentido e desnecessária no contexto de uma aula de Educação Física. Não estava no planejamento. que para mim. PRADO. permitindo o registro das experiências da aula. imaginação. se encontrava com a concepção dos alunos. Eu não me colocando no lugar aceito para um professor de Educação Física e tentando levar comigo os alunos. em resposta ao meu ato. em resposta às questões levantadas. seria um desrespeito não guardar aquilo de alguma forma! Apesar da melhor das intenções. poderiam enxergar seus corpos de outro lugar. No caso dos alunos fotografados. sem muito planejamento. preconceito e tantos outros temas. Assim como fui deslocado. a ideia de escrever não havia surgido. a distância de compreensões e a fronteira que existia e ainda existe entre a minha concepção de escrita como ato responsivo. nas expressões de chateação e na resistência para ir à mochila buscar o papel e a caneta. como ato corporal dialógico. como evento (SERODIO. a partir do olhar de um outro que fotografou e construírem novos conhecimentos. Para mim. A escrita como expressão. por que precisamos escrever nas aulas de Educação Física? Nós nunca fizemos isso antes! O que isso tem a ver com o tema de nossas aulas? Aff. tão complexos para jovens de doze anos. No planejamento estava tudo certo. que no momento em que escuto os enunciados. Imagino que eles tenham pensado: Como assim. muitos quiseram dar suas opiniões e falar o que achavam. Percebo não só nas perguntas. sinto que além de tensionar a fronteira do papel e caneta no território da quadra. porém a dinâmica da vida nos desloca. ao se verem nas fotos. solicitei que eles colocassem no papel aquilo que havíamos acabado de conversar. meu pedido também produziu deslocamentos. Essa responsividade me surpreendeu muito! Me impulsionou! A intenção do debate inicial era apenas a de abrir a imaginação para a possibilidade de um mundo completamente diferente a ser estudado. Discutimos sobre a locomoção de um cego. mas também nos olhares estranhados. da dinâmica e também produzindo novos sentidos e significações do ponto de vista de quem tira e também de quem observa. quebra as estruturas. produz e cria sentidos e significações referentes a um tema. nos leva para outros trajetos e deflagra nossa inconclusão. eu vim aqui para jogar e esse professor que eu nem conheço CORPOS .

Penso que meu trabalho como professor iniciou ali. em um contexto singular. Enfim. agora de outro lugar. (5) Eu acho que o mundo de um cego é o que ele imagina. Talvez um desdobramento interessante seja compreender esses outros olhares também! Todavia. pois ele se inspira nas falas dos outros e “vê” o mundo do jeito dele. enunciados. 2016). sei que ser um cego no começo é difícil... com a sua compreensão do discutido. ricos em pravdas (BAKHTIN. 233 direito quer me fazer escrever? O outro sempre nos mostra o que não podemos ver (BAKHTIN.. pois naquele momento. diferente e aceitar os fatos é o melhor a se fazer. mesmo se utilizando das mesmas palavras. Algo que gostaria de destacar. No caso do texto.. único e irrepetível.. já acreditava nisso. Uma palavra. Então é esse mundo para ele. pensando. ele tem que decorar o percurso onde ele anda e usar uma bengala. em diálogo com outros. na dúvida dos alunos em relação ao meu pedido de escrita. Deve ser bem escuro. desde uma moeda até o universo. ricos em verdades singularidades.. Mas. dei ênfase aos olhares de estranhamento. No momento da aula. Mostravam variadas respostas para as perguntas levantadas sobre o tema de estudo. Nos escritos era possível entrar em contato com as respostas para a provocação de escrever em uma aula de Educação Física. Houve sim aqueles que se sentiram menos deslocados. é que nem todos resistiram da forma como narrado acima. é sempre singular em relação aos sentidos. Mas ainda assim. Compartilho alguns desses escritos: “(1) O mundo de cego deve ser difícil e preto. Uma folha. (4) Eu imagino que deve ser bem difícil de se localizar. três. Mas também. enfim. mas se a pessoa apenas aceitar ser cego. talvez seja a valorização dessas expressões como algo importante. Se ele imagina que é bonito e alegre é o que ele pensa. (2) O mundo de um cego deve ser preto. Que ninguém mais poderia produzir a não ser o sujeito do ato. confirmando a felicidade que tive ao escutar as expressões nas rodas de conversa. acho que existia. escrevendo e ouvindo os alunos. seus sentidos são mais aguçados e a localização mais difícil. Uma linha. Para o tensionamento do ser aluno nesta disciplina. CORPOS . Deve ser necessário ajuda e as outras coisas devem ser mais fáceis de ouvir e cheirar. As escritas foram as mais variadas. eles têm 2 braços e 2 pernas. 2012). duas. aceitaram com maior facilidade a proposta. Ele também necessita imaginar o mundo como é.. na dúvida que se produziu em mim: Como mostrar para eles a minha compreensão? Hoje percebo que um caminho possível. todos têm uma visão diferente para o mundo e para cada detalhe dele. Pontinhos representando a escrita em braile. existe e sempre existirá a fronteira entre a forma com que eu olho para a escrita e a deles.. cada um do seu lugar. hein? (3) Eu acho que o cego imagina o mundo como as pessoas dizem que ele é. Como ele anda? Também não sei! Eles devem sentir tristeza por ser DIFERENTE. E deve ser difícil. Resumindo. a significação e o conhecimento que ali se constroem (BAKHTIN. eles constituíram uma experiência que me marcou muito como professor. 2011). ela vai descobrir que é “única”. mas demorei mais algumas aulas para tomar consciência e descobrir a forma de sensibilizar os alunos.

Ainda na aula da escrita. muito barulho. Na segunda aula do tema. CORPOS . cada um materializasse no papel a sua apropriação singular sobre o tema. fazendo rolamentos. tentei antecipar várias situações na explicação da proposta. brincadeiras e atividades práticas. Andando em grupo. com jogos. A chamada de atenção para a importância do outro se construía. Mostraram que ao escrever. Os cegos têm muitas diferenças em relação a nós. Além de cegos. Após esse momento de escrita que durou não mais do que dez minutos. desde os degraus. orientar nas mediações dos guias. Também acho que os cegos têm uma audição melhor. exceto em momentos de risco de acidente. Eles escrevem em um tom imaginativo. a identidade de um ser vidente mostra-se de forma clara. em que os alunos colocaram faixas cobrindo os olhos e tinham de se locomover pelo espaço da quadra. Cobrei dos guias cuidado redobrado e muita responsabilidade. ficar atento para qualquer risco de acidente. já era muito rico. muita gritaria. trabalhando com a mediação tátil (em que o cego segura no braço do guia para andar) e a verbal (em que o cego se movimenta apenas a partir da voz do guia). mas com o tempo se acostumam. Algo nunca experimentado antes por eles. Lembro que essa atividade gerou muita animação nas turmas. pois permitiu que após a conversa e a escuta de vozes outras. os alunos passaram também pelo papel de guias. ser cego é muito diferente do que todos pensam. iniciaram também o esforço alteritário de se colocar no lugar de um outro e tentar enxergar o mundo do seu ponto de vista. Não sabia ao certo os efeitos que essa atividade teria na experiência dos alunos. visto as características deste trabalho. que não é muito valorizado no mundo. não deixar dispersar. as escadas. 234 (6) Na minha opinião a maioria das pessoas sentem dificuldades no começo. muito importante para ser guardado e posteriormente compartilhado. trocamos as vendas e quem era guia. Foi uma atividade muito intensa! Chegando ao local determinado. desviando. mas percebia em seus olhares a preocupação e necessidade de maior cuidado para com os outros. Mesmo que não escrevendo tudo o que poderiam (talvez pelo contexto da escrita ser na aula de Educação Física) o que foi expressado ali. Definimos as duplas. a escrita naquele momento. se equilibrando. Não entrarei no diálogo com cada enunciado singular. trabalhamos com a vivência de ser cego. Porém. os funcionários estranhando tantos alunos vendados pelos espaços da escola. (7) Para mim. as duas aulas seguintes voltaram para a sua dinâmica normalmente aceita. virava cego e quem era cego. se mostrou uma importante produção de conhecimento. o ponto de partida e de chegada.” (ESCRITOS DOS ALUNOS DO 7º ANO) Algo que chama atenção é o lugar da escrita. mas também receio do que aconteceria. os pilares. virava guia. andando por obstáculos. saímos do contexto da quadra e fomos passear pela escola. Muitas pessoas acham que cego é algo muito negativo. A mediação do guia deveria ser estritamente verbal. mas o cego que se sobressai é tão capacitado quanto alguém que pode ver. Deflagram a fronteira entre o seu mundo e o mundo de um cego. O corpo e suas variadas expressões já se faziam presentes. Fiquei muito preocupado com os acidentes. sem tocar no cego. Como professor tinha que olhar o grupo como um todo. saltando.

400 metros. Nossos atos produzem efeitos e aqui vão alguns questionamentos que ouvi: “Onde já se viu? Lição de casa de Educação Física? Você está seguindo alguma apostila? Quer transformar a aula de Educação Física numa aula teórica? A aula vai ficar chata assim! ” As fronteiras não estavam somente nas turmas. O sinal tocou e a escrita combinada com tanto entusiasmo e carinho. cegos e guias dão as mãos e correm em uma pista por 100. Seus enunciados me provocaram novamente. 2011) em relação ao primeiro momento da escrita (que eles só imaginavam como era ser cego). pouco aprofundado. Nessa prática. mas nessa troca permiti o exercício do excedente de visão (BAKHTIN. Estava iniciando uma proposta e não esperava que produzisse estes efeitos. Os olhos brilharam. com vontade de compartilhar o que sentiram corporalmente nas atividades. isso que vocês estão me contando é muito rico. na experiência. Todos falando alto. de uma ponta até a outra do campo. vocês compreendem que nós não podemos deixar apenas na conversa? Isso precisa ir para o papel. do ser guia. correndo apenas em linha reta. Só senti a dimensão. O outro nos mostra o que não podemos ver. que não aconteceu somente com os olhos. sentamos no gramado e começamos a conversar sobre as experiências. 235 Na época não percebi. o mesmo entusiasmo encontrado no primeiro dia de aula. Depois dessa caminhada pela escola. afinal. aprendeu. nas suas mais variadas gestualidades. experimentou tanto como cego. subimos para o campo de futebol e iniciamos o trabalho com atletismo adaptado. com a modalidade de corrida. nova tensão. tenho certeza que ficaremos com um material muito bonito depois!”. Dessa vez. a potência das trocas quando pedi para os alunos falarem. Tão bonitos em um sentido. Não podia deixar passar. tudo muito rápido. propus a escrita. Tensionei novamente o que era provisoriamente estável e percebi dois movimentos interessantes no grupo.. Percebi ali. que produziu desdobramentos que nunca imaginaria. O primeiro de grande aceitação. não parava em um lugar por muito tempo. me deslocando e me fazendo parar para pensar novamente sobre o lugar da escrita como forma de produção de conhecimento na Educação Física. Durante a caminhada e a corrida via e ouvia os diálogos. virou lição de casa! Novo estranhamento. linguagens e expressões (VOLOCHINOV. já com o tempo de aula quase acabando. mas também de forma mais ampla na cultura da escola. mas tão ofensivos em outro. assim como do ser cego. perder aquilo! Pela segunda vez na semana. aproveitei para tentar explicar a importância da escrita. No final da vivência. eles tinham o que contar e ao perceber isso. Adaptamos a atividade para as nossas condições. que não existia antes (era só imaginado em um primeiro momento) se produziu nas relações. “Gente. 2017). Demorei um pouco para absorver os comentários. quanto como guia. ao mesmo tempo.. mas com o corpo inteiro. 200. Porém. um segundo movimento aconteceu. CORPOS . consegui sensibilizar grande parte do grupo e mostrar que eles haviam produzido conhecimentos importantes para a aula. Excedente de visão esse. Narrativas que contassem o que cada um sentiu. todo aquele conhecimento.

com as mãos estendidas tateando o lugar. Eu andava devagar. Cada passo que eu dava tinha que ser devagar. Para tudo dar certo era preciso uma sintonia por ambas as pessoas. isso é algo muito estranho. o tato e o olfato. Quem não pode. A atividade do campão foi a mais complicada para mim. eu me senti um tanto desorientada. um a um. o mundo ficou preto. Foi uma experiência muito rica em aprendizado! (2) Quando coloquei a faixa nos olhos. passo a passo. você não é mais dono do seu próprio jogo! (6) Quando eu coloquei a venda eu fiquei perdido. Achei estranho termos que confiar tanto em alguém e quando essa pessoa saía só um pouco de perto eu já me sentia completamente perdida. A experiência valeu a pena! (4) Primeiramente. olhar o mundo. Utilizei outros sentidos como por exemplo: A audição. na dinâmica da vida. tendo que me basear completamente na minha audição. Foi difícil “me virar” algumas vezes só ouvindo a voz do guia. que estava um pouco distante da construção que estava tentando produzir ali com meus alunos. eu percebi que não podia depender mais da minha visão. já quando corremos de olhos vendados eu me senti muito desorientada e confusa. o alívio de estar bem e poder tirar a faixa. Foi estranho ter que depender de alguém para andar e para viver meu dia. pois isso é uma coisa tão simples. quando colocamos as vendas e fomos conduzidas por nossas duplas. eu não quis deixar a aula chata! Não estava seguindo apostila e muito menos transformando a aula teórica e abstrata! Pelo contrário. Na minha opinião. Nem todos podem tirar essa faixa de si. do que fazer. pois eu senti que não tinha mais o “controle” de onde ir. Porém. achando que em algum momento eu bateria de cara em alguém ou alguma coisa. Ao correr. confiar na visão de um outro colega. sonha! (3) Na última aula nós nos vendamos e um amigo nos guiou pela escola. Então. mas depois consegui me deslocar com mais facilidade. Pude perceber o quanto é difícil fazer uma atividade sem enxergar. nos encontros. Gostei de experimentar ficar cega e percebi o quão difícil e estranho deve ser a vida de alguém com deficiência visual. Não. Percebi que as minhas mãos passaram a ser muito importantes para me darem segurança e me localizar. Eu me achei muito estranha. tinha responsabilidade de não perder isso no processo! Gostaria de compartilhar aqui alguns dos escritos desse segundo momento: (1) A minha experiência foi muito positiva. 236 compreender que eles eram expressos. a sensação de andar por parte da escola vendada foi muito legal e um pouco assustadora (preocupante). nas experiências. Passei a depender de uma outra percepção. Quem pode. Tudo ficou escuro. Como professor. Percebi a importância que uma outra pessoa CORPOS . o exercício mais preocupante foi o de correr vendado com alguém preso aos seus braços. mas foi legal saber como é complicada a vida do deficiente visual. Ao parar. Percebi que estávamos na cantina pelo barulho do Ensino Médio e pelo aroma da comida da cantina. estava chamando atenção para a produção de conhecimento que acontecia no próprio cotidiano da aula. Não sabia se tinha algo ou alguém na minha frente. Utilizei o tato para segurar no corrimão da escada e para sentir as paredes. nos diálogos corporais.. pois não dava para usar o tato e os outros sentidos! Tínhamos que confiar muito nos nossos parceiros que estavam nos guiando. aproveita. que só quando é tirada de nós mesmos é que vemos o quanto era importante. um outro alguém. foi assustador.. Foi uma experiência incrivelmente diferente. uma outra perspectiva. Não poder ver o espaço a minha volta. o frio na barriga aumentava e a mão apertava cada vez mais forte. pois falavam de um outro lugar. (5) Para mim. Tinha que dedicar toda a minha confiança na minha colega.

2017). Esse texto mostra uma parte da sistematização que tenho feito como professor/narrador/pesquisador da Educação Física escolar em diálogo com o referencial da minha área e a filosofia bakhtiniana. em um simples passeio pela escola. Aprendo muito com todos! Lembro deles me contanto que esse segundo texto foi mais fácil de ser escrito. no ponto de vista dos colegas. percebo novos elementos (sinto que ainda existe muito para ver) e me surpreendo com os efeitos daquela aula. na relação dialógica com os enunciados. A escrita não como uma tradução do vivido corporalmente. na produção de sentidos e significações renovadas sobre a Cultura Corporal. Que permitisse outras pessoas. com a sua verdade era importante para a aula! Em segundo lugar. estudo. E como devemos estar atentos a quem precisa de nossa ajuda. dos guias e depois retornarem para o seu lugar. A importância da solidariedade. no nosso existir. Primeiro. Expressão com signos de outra natureza semiótica (VOLÓCHINOV. por outros professores colegas de trabalho. Foi a partir destes escritos que em conversa com as turmas decidimos pela escrita de um livro. compreendessem as dificuldades e possibilidades de ser cego. Cada expressão ali. e este é apenas um acabamento provisório para CORPOS . porque eles já tinham a experiência de escrever em uma aula de Educação Física. dos cegos. percebendo o mundo de outra forma. a importância das pessoas nas nossas vidas. me senti deslocado! Nunca imaginei que permitiria a construção de tantas reflexões importantes. Cada vez que leio. Mostra a minha responsividade ao expressado por meus alunos. Muitas vozes ecoam nesses enunciados. um outro evento. tão significativos. Que compreendessem o esforço alteritário dos alunos ao longo do processo. eu estaria perdido no mundo. Não estava no meu planejamento. Sozinho. porque nessa escrita. 2015) com a aula. enxergando outras coisas. diferentemente da primeira. no nosso mundo. Como professor. mas como um outro ato responsável. ao se colocarem no lugar. tão ricos em experiência e conhecimentos. um momento de pausa. como nunca. no meu plano. de diálogo (ZIMMERMANN. pela existência singular de cada um na relação com os outros. Um livro que contasse sobre as aulas. de silêncio. sobre as experiências e sobre os conhecimentos ali produzidos. A experiência me fez perceber. a sua maneira. com a sua caligrafia. fossem constituídos pela dinâmica da vida. tentando não ser indiferente para a expressão dos alunos. Já sabiam que eu não corrigiria o escrito em uma classificação de resposta certa e errada. 237 teria para me guiar.” (SEGUNDO ESCRITO DOS ALUNOS DO 7º ANO) Textos tão bonitos. algo que fica muito forte nos enunciados é sobretudo a importância do outro nas nossas vidas. eles haviam vivenciado com seus próprios corpos como era ser cego! A experiência corporal permitiu que os enunciados ali produzidos no papel. pesquisa e também por amigos e familiares. Para mim. foi algo que percebi e aprendi também na relação com eles. ACABAMENTO PROVISÓRIO Muito já aconteceu após o compartilhado aqui. Corpoenunciado.

desamarrado. que trata do corpo. T. oportunidade. sensibilizado e valorizado com mais atenção. PRADO. Seu lugar ainda precisa ser reconhecido. Até mesmo nessa área. visto que. foram muito importantes para a reflexão deste trabalho! Agradeço profundamente essas vozes e penso que as opiniões ali expressadas. na apropriação singular de cada aluno. temos diferentes pontos de vista e com isso podemos perceber as nossas diferenças e ajudar uns aos outros. surdo e deficiente. S. comem o que comemos. então por que tratá-los diferente? Deficiência pode ser genética. podem variar do encantamento e da criação até a recusa e negação. 4. Como me disse uma importante interlocutora desse trabalho: “Você encontrou um problema de pesquisa para a vida!” Sem esquecer a especificidade da disciplina. temos os mesmos direitos e devemos ser respeitados por isso! Porém. dos vídeos. p. 2013. Cego. de um grupo. se temos preconceito com isso. suas significações e seus conhecimentos. vozes estas que originalmente impulsionaram o meu ato responsável de escrever aqui! “Nessas aulas aprendemos que apesar das diferenças. V. mudo. na dinâmica incessante de atos responsáveis. das reflexões. Apesar de muito potente. o que vai acontecer com a humanidade?” REFERÊNCIAS ALMEIDA JUNIOR. Respeito deveria ser natural. 238 as reflexões do que consigo observar nesse momento. Aqueles comentários que recebi de meus alunos e também após a segunda escrita das turmas. os efeitos que esse ato pode produzir na dinâmica de uma aula. torna-se necessário. Hoje considero a escrita como uma expressão muito importante para as aulas de Educação Física. das conversas. G. mostram a concepção hegemônica de escrita que permeia nosso cotidiano escolar. são gente como a gente! Fazem o que fazemos. classe social. das fotografias. ele ainda precisa ser liberado. penso que valorizar as expressões corporais nas suas mais variadas formas. A. Fecho esse texto com mais um escrito de meus alunos. Entre foto (e) grafias: percursos e indícios da produção de saberes docentes no cotidiano escolar.. mas na sociedade é conquistado. Produzimos a Cultura Corporal. todo cidadão tem que ser tratado igual. Elas precisam ser consideradas. não podem ser esquecidas ou apagadas. enfim. v. Interfaces da Educação. das escritas. o trato pedagógico da Cultura Corporal. na sua produção histórica e também dentro das aulas. para se expressar e produzir cultura de forma mais potente. a partir dos gestos e diálogos corporais. CORPOS .. 62-77. Não importa a raça. colocado em outras identidades provisórias. cor ou etnia.

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por divulgar. como esfera da atividade humana. tecendo uma discussão sobre a dinamicidade. produz enunciados concretos responsivos às questões sociais suscitadas na HETERODISCURSO EM contemporaneidade. Isso é perceptível ao 98Doutoranda em Linguística Aplicada pelo Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. alinhados aos discursos circulantes. aparecem. em boa medida. silenciados. passam a conhecer e a validar seus direitos. dogmática. complexidade. mas também protagonizar o que é anunciado em nosso tempo. trazendo à tona conteúdos e perspectivas antes confinados perifericamente. refletem e refratam os manifesta nessa época. o celebrativa que ainda se qualifica como transgressão. sua imprescindível interlocução com os segmentos sociais em que atua e para quem comunica tem reconfigurado seus projetos de dizer. Tacicleide Dantas 98 pressuposto uma perspectiva de ciência capaz de admitir. a despeito de a publicidade se caracterizar. declaradamente. E-mail: tacicleidevieira@gmail. criação ideológica assume-se inclinado a explorar sobremaneira a relativa estabilidade do que anuncia. senão ANÚNCIO: forças centrípetas e inexpressiva e fracassada. à sua identidade de disciplina. passa a não só participar. ignorados ou circunscritos à categoria de “minorias”. No comercial. plasticidade. de certo modo. ao representar a diversidade. na sua ousada ambição de originalidade. ruptura frente à tradição. os comerciais de hoje. essa postura atual é responsiva a um quadro social em efervescência. tomamos como VIEIRA. cada vez mais. Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte. aspectos e questões até então interditados por uma tradição cujos padrões se estabeleciam numa conduta homogênea. o corpo de uma criança. Obviamente. constituindo-se expressão do heterodiscurso que se torna-se núcleo de tensões entre forças desencadeia na vida social. Nesse sentido. Publicidade superam a previsibilidade e a expectativa do público a quem se reporta e alcançando a originalidade que lhe parece ser tão cara. criada A para a data comemorativa do Dia das Mães. perpetuar padrões comumente excludentes. novidade. Suas práticas de (des)centralidade dos discursos monologizantes nela e problematizando como a publicidade se linguagem. para analisar práticas discursivas oriundas da publicidade. monológica. inter: a Linguística Aplicada. 2015. 2017). Forças Centrífugas. propostas. Assim. investe-se de de 2017. saturadas ideologicamente. Considerando essa realidade. este artigo objetiva abordar uma peça publicitária. sua recusa a legitimar a heterodiscursidade constitutiva da vida social culminaria numa comunicação afásica. como esfera da criação ideológica em plena atividade. Assim. Na contemporaneidade. do ano publicidade. concreta. in. na sua sócio-história. Essa propensão possibilita o enfoque de temas. multi. Forças Centrípetas. posicionando- centrífugas em tensão na publicidade se estrategicamente como um catalisador de tendências. produzindo enunciados que Palavras-Chave: Heterodiscurso. mestiça e nômade (MOITA LOPES. De certo. avaliações. fomentar e. ganhando expressividade e notoriedade. – no seu profícuo diálogo com as concepções teórico- metodológicas do Círculo de Bakhtin (2011. de diversos posicionamentos em (in)tenso diálogo na realidade resistência. Professora do Instituto Federal de Educação. ineditismo.com CORPOS . Como recorte de nossa pesquisa de 1. em que grupos historicamente alijados. 2009). CONSIDERAÇÕES INICIAIS doutorado. da marca Johnson & Johnson. os prefixos trans. esse campo da centrípetas e centrífugas do mundo verbo- ideológico. pluri. negação. RESUMO 240 A publicidade.

à palavra disciplina. replicando. 241 pesquisarmos as recentes práticas discursivas advindas dessa esfera. advogou uma CORPOS . essa área “mestiça e nômade” (MOITA LOPES. o autor delineou um método sociológico. Nesse sentido. os prefixos hetero. a diversidade e a inclusão recebem status de protagonistas. compreendendo como forças centrífugas e centrípetas (BAKHTIN. a qual se preocupa com problemáticas tradicionalmente assinaladas como periféricas. Assim. a LA. representado. inter. sobretudo àqueles que tomavam a linguagem de um ponto de vista estritamente formal. de acordo com Rojo (2006. publica-se nas diferentes mídias. de uma marca de produtos infantis. transitórios. fortuitas. trans. Afamada é a sua contrapalavra aos discursos de sua época. transitivas. num vácuo social que a resumia a uma “casca linguística abstrata” ou a um “esquema semântico igualmente abstrato”. compreendendo os sujeitos como centros de valor que (inter)agem e vivem heterodiscursivamente. Considerando essa realidade. 2017. especialmente aquelas produzidas para datas comemorativas. Com base numa concepção de linguagem dialógica e axiológica. Em seu propósito. na sua vertente sócio-cultural ou sócio- histórica. multi. como contraproposta às forças que centralizavam uma visão imanente da língua(gem) e da ciência. este trabalho objetiva analisar uma prática discursiva publicada em maio deste ano. Ao justapor. Johnson & Johnson. registre-se. cumpre antecipar. o que atesta seu êxito enunciativo. 2009) possibilita problematizar as privações sofridas por determinados grupos sociais e acolhê-las mediante o engajamento de múltiplos saberes. pela mudança. 2. ressignificando paradigmas cristalizados ao longo de décadas e fazendo com que o público esteja. materializa a aludida disposição da publicidade de movimenta-se no sentido de dialogar com diferentes perspectivas. Como campo de conhecimento. Nelas. (BAKHTIN/VOLOCHINOV. também. avaliações sociais. HETERODISCURSIVIDADE E(M) PUBLICIDADE: pressupostos teórico-metodológicos Mesmo uma breve e pontual visita aos escritos de Bakhtin deixa patente que o autor não se voltou para os fenômenos linguísticos stricto sensu. postulada pelo Círculo de Bakhtin. resistentes. p. 253). mostra-se particularmente profícua para a interpretação de um objeto que assume como epicentro a diversidade. fronteiriços. in. como força motriz da “sociedade de consumidores” (BAUMAN. orientados na direção dos discursos de resistência e de reexistência no interior da ciência e das práticas discursivas que organizam a vida em sociedade. Tal comercial. visões de mundo. de diferentes modos. Na sua filosofia da linguagem. a publicidade responde às demandas sociais e. p. discursos contingentes. um volume de comerciais. afiliamos este trabalho à área da Linguística Aplicada. 2015) incidem e resistem nessa peça. continua a transformar consumidores em clientes. resultante “do nexo entre a privação social sofrida e a levitação teórica desejada”. pluri. 13). quando. 2008). por ocasião do Dia das Mães. há maior saldo de vendas no mercado. com a iniciativa um tanto inédita de abordar temáticas e posições descentralizadas.

ao lado das forças centrípetas segue o trabalho incessante das forças centrífugas da língua. Em outra via. ao lado da centralização verboideológica e da unificação desenvolvem-se incessantemente os processos de centralização e separação. das entoações avaliativas que o penetram e significam. cada elemento da língua. nomeadamente excludente. Essa cadeia dialógica e axiológica. ao compreendermos esse modo de existência da linguagem. Além disso. 185). à leitura do comercial a ser analisado. monológicas. as forças de resistência. Segundo Bakhtin (2011). tomado como material no enunciado concreto. dos seus acentos valorativos. as quais exprimem posições plurais. fica claro que A estratificação e o heterodiscurso se ampliam e se aprofundam enquanto a língua está viva e em desenvolvimento. como um dos pontos articuladores dessa concepção de linguagem. pautadas por uma ótica social hierarquicamente consolidada. p. nós falamos por enunciados e não por orações isoladas. generalistas e estanques. p. “a palavra entra no enunciado não a partir do dicionário. responsáveis pela proposição de verdades contingentes. 242 disposição para a língua na sua integridade concreta e viva. Ainda que localizada. Ou seja. Nessa direção. corrobora o fato de que a linguagem é constituída e constituinte de práticas sócio-historicamente apreciadas. sendo um traço definidor do enunciado concreto que perpassa decisivamente sua compreensão. 2015. 268). corresponde à síntese da relação “eu-outro”. difusamente interatuantes. na complexa corrente da comunicação discursiva. obedece às exigências da avaliação social expressa pela entonação circunstancial e histórica. Discursivamente. pautadas por múltiplas visões de mundo. o qual se constrói sob a interferência de forças sociais de ordem vária. no escopo da prosa romanesca. mas a partir da vida. Nessa dinâmica. portanto.” (op. os enunciados só existem na e para a sociedade que os elabora. podemos compreender as forças centrípetas como aquelas responsáveis pela manutenção de verdades universalizantes. de crenças sociais e de padrões culturais impostos pela tradição. portanto. se desvencilhados do seu seio sócio-histórico. ainda que caracterizadas por orientação oposta. (BAKHTIN. passando de um enunciado a outros. Estão associadas aos discursos para a cristalização de estereótipos. dialógicas. pelo pensador russo. Trata-se de uma noção imbricada. essa discussão não está limitada à teoria do romance. Um enunciado é matriz e nutriz de outros enunciados. enredadas e coexistentes na sua forma. movediças. composta por elos que suscitam respostas. os quais “são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem. coincidentes ou não. Em sua perspectiva.” (MEDVIÉDEV. p 41). Estão associadas aos discursos de desconstrução de estereótipos e de visões de mundo doutrinadoras. cit. CORPOS . 2012. Correspondem a um conjunto de avaliações hegemônicas. argumentando que o discurso é constitutivamente dialógico e ideológico. provisórias. perdem sua concretude e seu projeto de dizer degenera. A responsividade. Correspondem a um conjunto de avaliações sociais marginais. há as forças centrífugas.

Se. materializados no conjunto de signos que se apresenta. Entretanto. presumimos que qualquer tentativa de descrição.youtube. às demandas sociais contemporâneas. “onde não há signo também não há ideologia” (VOLOCHINOV. a seguir. Como práticas de linguagem. podemos criar inteligibilidade para o comercial publicitário selecionado. têm provocado novas reações nas diversas esferas da comunicação. p. algumas cenas pinçadas do vídeo99. separação. 91). Nessa lógica. declaradamente. ao oprimido. diversificação. 39). em que cooperam discursos que refletem e refratam posicionamentos ideológicos distintos. empoderamento. unificação. mesmo a publicidade. O “mundo verboideológico”. resistência. RESISTÊNCIA E REEXISTÊNCIA NO COMERCIAL “BEBÊ JOHNSON’S”: forças centrípetas e centrífugas em tensão Por tratarmos de um exemplar de comercial publicitário configurado nas modalidades verbal. as forças centrípetas. de acordo com o Círculo de Bakhtin. para assistir ao comercial na íntegra: https://www. e os movimentos sociais. esteja fadada à insuficiência. importa interpretar essas relações dialógicas complexas. abre-se ao outro. a seguir. as avaliações atravessam os signos e suscitam (des)continuidade. sendo reconfigurado por eles. a depender das relações que determinados grupos sociais travam em um dado momento histórico. ao diferente. que se (re)produzem discursivamente. subjugação. ainda que moderadamente. e de forças de dispersão. dominação.com/watch?v=T2VgUGOm9Mg CORPOS . e. a dialética dessas forças nos enunciados manifesta-se. por mais minuciosa que seja. 2017. reproduziremos. como resposta aos processos de descentralização sócio- política em curso. No entanto. problematizando como a publicidade se manifesta nessa época. senão desviado. a título de apresentação. 3. surpreendentemente: o bloqueio imposto às forças centrífugas tem sido gradativamente confrontado. 243 O embate entre forças centrípetas e centrífugas é uma conhecida consequência da vida em sociedade. na contemporaneidade. Na lida desses enunciados. 99 Sugerimos a consulta ao site. como referencia Bakhtin (2015. vive numa relação indissolúvel com os processos de (des)centralização sócio-política e cultural. visual e sonora. que costuma ser regida majoritariamente por forças centrípetas. por vezes. as forças centrífugas. dentre as quais a publicitária. é compelida a voltar-se. homogeneização. centralizando comportamentos hegemônicos e contribuindo para hierarquizar o consumo por grupos sociais. de resistência. p.diante da indeclinável expectativa de contextualização da peça publicitária. os comerciais recebem a atuação de forças de centralização. A partir dessas noções.

sobressai a ideia perspicaz de retirar de cena o protagonismo explícito das mães. apareceu na TV. ressignificarem a ideia de descoberta já presente no vídeo. evidenciando suas experiências táteis (numa superfície limpa e porosa) e suas descobertas sensório-motoras (como o ensaio para se erguer ou se arrastar) embaladas por uma melodia semelhante àquelas encontradas numa caixinha de música tradicional. enfim. colecionando comentários e respostas do público em redes sociais poucos minutos após o lançamento. aparece uma criança com Síndrome de Down. aparece segmentada: “Para nós e para todas as mães/ todo bebê é um bebê Johnson´s”. pela primeira vez. cenas que capturam partes do corpo de um bebê. registrado por zoom in100. delicadamente simples e fáceis de reconhecer. o observador é que vive uma descoberta emocionante: na tela. As versões de 30 e de 60 segundos passam 50% de seu tempo nesse recorte do corpo do bebê. para. para fazer 100 Ampliação ou aproximação da imagem no vídeo. Ao focalizar-se. A referida peça é obra da agência DM9. mesmo no seu dia. com 27 anos no mercado. Essas imagens conduzem o olhar do telespectador e o envolvem na trama do bebê que se experimenta no mundo. a qual. a peça focaliza.youtube. CORPOS . nas descobertas próprias da fase inicial da vida. e tornou-se viral. em primeiro plano. Na sua constituição. Fonte: https://www. O comercial despede-se com a seguinte afirmativa. uma das maiores e mais premiadas do Brasil. Além de ser veiculada na internet. a face do bebê. 244 Figura 1: cenas do comercial analisado. podemos situar o comercial com os seguintes dados: como item da campanha da empresa Johnson & Johnson Brasil para a data comemorativa do Dia das Mães 2017. deve-se destacar. com estreia em horário nobre do dia nove de maio de 2017.com/watch?v=T2VgUGOm9Mg Sinteticamente.

Voltada para produtos de higiene. por se tratar de uma peça assinada por uma marca cujo slogan é ”Promovendo a saúde e o bem-estar das pessoas”. especialmente nas campanhas de datas comemorativas. geralmente. ou seja. nos últimos anos. mas supera essa visão ao agregar uma imagem diferente a ela: a figura da criança com Síndrome de Down. O corpo. No entanto. a empresa garante o tom atual/inovador do comercial. nesse caso. Naturalmente. o descoberto. bela. de olhos claros. de empatia com a diversidade e de busca por igualdade. Como o conteúdo desse enunciado remete à homenagem no Dia das Mães. Ao importar para o seu modo de fazer publicidade um desdobramento da heterodiscursividade intrínseca à vida social. que a relativa primazia das forças CORPOS . consultado o histórico da publicidade com crianças. quiçá. é o expediente sumarizador da presença e. porém igualado. Essa escolha é tributária de um horizonte social que luta em favor do múltiplo e do diferente. segundo a empresa. A Johnson’s. fofo). o estereótipo do bebê que. os quais se produzem influenciados por forças centrífugas. sobre ele incidem vozes e forças sociais que apontam para diferentes direções. de modo costumaz. que aparece no vídeo em segundo plano. com cores sutis e leves. das forças centrífugas no comercial. Seu conteúdo já é conhecido e avaliado. para os filhos. para um filho que. um bebê diferente. da prevalência. atua na publicidade (branco. representa a celebração da diversidade. olhos azuis. Essa ousadia. está menos atrelada ao corpo em cena do que a um lançamento de produto ou a um enredo emocionante. certamente evidencia a recorrência de um padrão: criança branca. especificamente. 245 estrelar os protagonistas de todas elas. uma criança com Síndrome de Down. Essa tonalidade é sublinhada pelo alinhamento do vídeo aos discursos de inclusão. Neste ano. Mas a iniciativa de tornar protagonista quem raramente (ou jamais) ocupa esse papel. que trouxe respeitável visibilidade para a Johnson & Johnson Brasil. que. aparentemente. o anulado. sobretudo. muito provavelmente. já lograria êxito. o retrato de um bebê que personifica a diferença. ou seja. o que é concentrado nos valores que norteiam a campanha. (cri)ativamente responsiva. pressionando como este novo enunciado delineará uma posição axiológica. promove a chegada de “um outro de si”. Tal conteúdo é balizado. sua composição alude ao cuidado e ao zelo direcionados. saudável. A novidade para o público. a Johnson & Johnson Brasil celebrou o Dia das Mães apresentando. apontam para o heterogêneo. pela popularidade e pela reverberação do comercial. como estrela do seu comercial. ou mesmo negativa. Nessa linha. belo. no ambiente doméstico protegido e zelado. aspecto central no vídeo. cuja publicidade costumava ser restrita. certamente é responsável pelo impacto. uma retrospectiva de comerciais do gênero. voltados para o mercado infantil. seus filhos. representadas pela escolha de se valorizar positivamente um sujeito que era tratado de maneira indiferente. no que é atinente aos “seus bebês”. ou seja. crianças de diferentes perfis têm sido focalizadas nos comerciais. o que pode ser inferido a partir do cenário clean. pela incidência das forças centrífugas. no entanto. seguindo essa tendência. a peça não se produz no vazio. a Johnson & Johnson traz. Importa ponderar.

o enquadramento da imagem. ao final do filme. podemos compreender o caráter de inclusão. A campanha. a profundidade. Assim. valores obtidos pela insígnia “Johnson’s”. a frase seria dispensável. movente. diverso como se reconhece a cada dia. 246 centrífugas na escolha do protagonista não suprime a interferência das forças centrípetas no comercial. por um lado. numa proposta de existência diferente. uma confissão de finalidade. alternativa. A primeira parte dela tende a reforçar o caráter de homenagem ao apresentar o trecho “Para nós e para todas as mães”. Assim. o plano. o comercial publicitário parece superar a previsibilidade e realizar sua ambição de originalidade. tornando a existência do outro visível. o vídeo promove uma reesxistência do corpo apresentado. em certa medida. da homenagem do comercial. como se o “para” introduzisse os destinatários de algum feito. vê-se representado ali. a revelação e a surpresa pela descoberta do objeto total (o bebê com Síndrome de Down) são signos ideológicos. junto ao enquadramento conferido ao corpo em foco. ao final. consente a inferência de que é preciso reafirmar o diverso. o excerto parece uma dedicatória. a sequência. posiciona-se favoravelmente à diversidade e celebra o Dia das Mães descentralizando o estabelecido. de integração. Se. abre para ele um novo fundo dialógico. portanto. correspondente ao próprio nome da marca “é um bebê Johnson’s”. no caso. Esse complemento. por exemplo. ao ser destacada. de segregação. seu enfoque unido à face ressignifica a interpretação. numa espécie de autojustificação frente a discursos centralizadores que subjugam o que não se insere nos seus parâmetros. os cortes. numa direção. enquanto atualiza sua interlocução com os discursos contemporâneos de inclusão. Essa qualificação. de separação. consumadores de um projeto de dizer que dialoga opositivamente com avaliações de exclusão. ao declarar que “todo bebê é um bebê Johnson’s”. em outra. CORPOS . óbvia e consensual quanto o comercial busca sugerir. Considerando essa discussão e observando a peça na sua totalidade. A sentença verbal. a própria assertiva pode ser interpretada como um depoente de que a inclusão não parece ser tão natural. a ele é somada uma ideia que completa e reconfigura o sentido: “todo bebê é um bebê Johnson’s”. pode ilustrar o embate dessas forças. seguida do predicativo ou da característica comum. Ao resistir a seguir um estereótipo. em caixa alta. uma vez que necessita ser verbalizada. de incorporação. Na composição. Se. a sentença verbal é forjada para acentuar o reconhecido valor de pertencimento ao todo. do contrário. como o público-alvo que. o comercial acaba por afirmar que é preciso assumir categoricamente essa posição. autodeclara a inclusão pela generalização “todo bebê é”. Esse propósito é explicitado por meio do corpo em evidência e da sentença final que. contrariando a tradição relativa a um determinado tipo de publicidade. Desse modo. as primeiras cenas do corpo infantil levam a crer que estamos diante de algo esperado. regulando o ângulo de visão e a forte aproximação do objeto filmado. a temática da descoberta e a forte comoção levantados pelo vídeo como balizados pelas forças dos diferentes discursos que gravitam em torno do comercial. essencializado. por outro. Até esse momento. Mas. pode ser interpretada como produto da influência de forças centrípetas coexistentes na peça. o zoom in.

Compreender essa tensão dialógica e sua plenitude nos enunciados concretos permite problematizar as práticas discursivas que constituem o mundo da vida e tratar questões sociais relevantes. um bebê que. 4. Esse movimento de inserir um corpo diverso como principal. seu cliente. as cenas com recortes do corpo são inteiradas e sua totalidade enfatiza um representante da diversidade. a retirá-lo de um lugar de privações e a distanciá-lo do sofrimento. como metaforizado por Rojo (2006). Sua presença numa esfera tradicionalmente massificadora e mantenedora de padrões sociais. excludentes. e torná-lo. CORPOS . No entanto. com a leveza de pensamento é possível ressignificar a vida social. ainda que moderadamente. como elemento representativo da homogeneidade. a publicidade da Johnson alcança exitosamente seu propósito: emocionar. foi mantido alijado. permaneceremos sob forças centralizadoras. esfera que dita a vida para o consumo. Pelo exposto. como dado reforçador do discurso de que todas as crianças em cena na publicidade são as mesmas do ponto de vista físico. recusando-se à manutenção de um padrão estético infantil previsível e imutável. Nesse sentido. (também) na publicidade. especialmente nas épocas celebrativas. têm se posicionado face ao heterodiscurso dialogizado. pelo ineditismo. a despeito de ainda haver. CONSIDERAÇÕES FINAIS No comercial analisado. Certamente. os traços característicos de uma criança com Síndrome de Down emocionam. é imperativo insistir na transformação da realidade. vai de encontro a valores hegemônicos e evoca aqueles provenientes de outros grupos sociais. à medida que responde ao seu tempo. O embate entre forças espelha sentidos carregados de posições axiológicas. marcando claramente a posição da empresa em relação às crianças não associadas ao estereótipo construído e alimentado por forças centrípetas em contraponto às centrífugas. velado. finalmente. 247 contribui. A responsividade no comercial torna-se ainda mais flagrante na sentença verbal que o encerra. pois. quando os índices de consumo se ampliam ano após ano. secundarizado na mídia. o telespectador. enrijecidos e fadigados por uma implacável resistência a resistir. o consumidor. por decorrência. visões de mundo. Assim. avaliações sociais. convencionalmente. pode ser compreendida como resposta aos discursos contemporâneos que pressionam a mudança de mentalidade em relação à diversidade. De seu modo peculiar. é possível entender como a publicidade. pela identificação. para retirar a privação sofrida por crianças com corpos diferentes do que se aquilatou como ideais de perfeição na mídia. afina-se aos posicionamentos de resistência. aqui interpretado como resultante da incidência de forças centrífugas em diálogo com as centrípetas. Sem ela. muita resistência a importar o outro. de uma chamada “minoria”. que vê. protagonizando o vídeo. o corpo da criança – em sua sócio-história – aparece. a princípio. Nesse cenário. Na tela. muitas vezes. a vocação de mercado dessa esfera parece cogitar alternativas e mudanças frente aos modelos estáticos que ela mesma avaliza.

V. 2012 (1929). R. Linguística aplicada: um caminho com diferentes acessos. 2009.). São Paulo: Martins Fontes. ROCA. N. 1ª ed São Paulo: Editora 34. 2017. ROJO. H. Disponível em: <http://www. In: PEREIRA.br/ppgcel/Discurso-Na-VidaDiscurso-NaArte. 2006. São Paulo: Parábola Editorial.).pdf. 2011. 248 REFERÊNCIAS BAKHTIN.. Fazer linguística aplicada em perspectiva sócio-histórica: privação sofrida e leveza de pensamento. VOLOCHINOV. Z. Da aplicação da linguística à linguística aplicada indisciplinar.. 2015. Discurso na vida e discurso na arte: problemas da poética sociológica. 2017. (Orgs. Rio de Janeiro: Zahar. In: MOITA-LOPES. P. (Org. R. São Paulo: Editora Contexto. P. 2008. P. L. Por uma linguística aplicada indisciplinar. 1ª ed.> Acesso em 30 ago. P.C. _____.N. Marxismo e Filosofia da linguagem: Problemas Fundamentais do Método Sociológico na Ciência da Linguagem. Estética da criação verbal.uesb. São Paulo: Editora 34. MOITA LOPES. São Paulo: Contexto. M. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. O método formal nos estudos literários. L. MEDVIÉDEV. BAUMAN. CORPOS . _____ Teoria do Romance I: A estilística. R.

pouco depois. que ce- lebra uma mulher capaz de transformar sua dor em cor? (Eduardo Galeano. signo ideológico. colocando-o em relação com o esvaziamento de sentidos políticos. Morreu. cotejando diferentes usos da imagem da artista. apu- nhalada por trinta e duas operações? E se tudo isso fosse muito mais do que manipula- ção mercantilista? Uma homenagem do tempo. Para Bakhtin. 2012) INTRODUÇÃO N este artigo me coloco a escrever sobre o uso político que a Frida Kahlo fez da sua imagem e do seu corpo. a despertou. RESUMO 249 O POLÍTICO DO CORPO DE Palavras-Chave: FRIDA KAHLO: um estudo dialógico. mercadológicos que vem sendo atribuídos ao seu corpo.aqui. 101 Acadêmica do curso de pedagogia da Universidade Federal da Fronteira Sul CORPOS . que em contextos diferentes produzem interpretações distintas dela para o outro. uma manifestação comunista percorreu as ruas da Cidade do México. Assim. WILLERS. Assim. Frida Kahlo estava lá. E se passaram uns quantos anos até que a fridama- nia. de cadeira de rodas. culturais e revolucionários e o acréscimo de sentidos publicitários. crivada de agulhas e alfinetes. busco encontrar e compreender o dialogismo presente em sua representação material . autora impiedosa de autorretratos que a mostravam sobrance- lhuda e bigoduda. Fernanda Franz101 7 de Julho Em 1954. Foi a última vez que foi vista viva. sem ruído. onde não há texto não há objeto de pesquisa e de pensamento. Ressurreição ou negócio? É isso o que merecia uma artista alheia a qualquer exitismo e ao lindismo. tremendo alvoroço. imagem e obra contemporaneamente.

Para algumas pessoas. mas também refrata uma outra. o objeto (signo) não só reflete uma realidade. 250 O texto “subentendido”. a ciências das artes (a musicologia. ano importante da revolução mexicana. Não conseguiu realizar o desejo de ser mãe. Assim. vivas. marcha fúnebre de Lênin” (HERRERA. 2014. palavras sobre as palavras. Neste caso. Em tempos de escatodologia política é ainda mais intrigante observar. Frida nasceu em 1907 mas em seus diários optou por escrever que nascera em 1910. Estudiosa. Frida era uma heroína de esquerda. a teoria e a história das artes plásticas) opera com textos (obras de arte). Pg. 31). Frida foi comunista. (BAKHTIN. Herrera. o que torna o corpo um signo ideológico é a sua materialidade enquanto objeto. Frida não entrou na caixinha moldada pela sociedade da época. “é seu caráter semiótico que coloca a todos os fenômenos ideológicos sob a mesma definição geral” (BAKHTIN. sempre com trajes tipicamente mexicanos. Frida sempre manifestou no cotidiano de sua vida suas aspirações revolucionárias e nem o seu funeral foi isento de manifestações políticas. a multidão cantou a ‘Internacional’. usou cores fortes. a intensidade da visão política de Kahlo continua sendo objeto de certa controvérsia. Por isso. De acordo com a biografia escrita por Hayden Herrera. pg. Frida é artista. vivências das vivências. podendo lhe ser fiel ou distorcer a realidade. textos sobre textos. 33). Abortava. TODO CORPO É POLÍTICO Frida nascera mulher. Essa escolha já indica a intencionalidade em vincular sua história de vida com a sua militância comunista. uma mulher essencialmente apolítica. escreveu que: Embora não pairem dúvidas sobre quais eram suas simpatias. E ser mulher no início do século XX não era coisa simples. Casou com Diego Rivera e viveu com ele um romance tumultuado. Era atrevida. pg 307) Segundo a compreensão Bakhtiniana. 528). 2014. a ‘Jovem guarda’. Bissexual. Militante. haviam caminhos a ser seguidos. para outras. Pintava a sua realidade. as relações e entrecruzamentos de sentidos antagônicos para com o mesmo objeto de estudo. Frida teve o seu corpo mutilado aos 18 anos. O grau de engajamento lhe é atribuído parece CORPOS . Foi traída. Pg. São pensamentos sobre pensamentos. O que caracteriza o signo é a sua forma ideológica. Empalada. Se entendido o texto no sentido amplo como qualquer conjunto coerente de signos. Teve dificuldades em produzir sob encomendas e em atender o que era esperado dela. o hino nacional. 2011. Pintou a sua dor. que no decorrer das produções e reproduções enunciativas constróem-se signos. não se trata de ideologia” ao mesmo tempo que ”toda imagem artístico-simbólica ocasionada por um objeto físico particular já é um produto ideológico” (BAKHTIN. Vestia-se da cultura de seus antepassados. “com os braços erguidos e punhos em riste. “um corpo físico vale por si próprio: não significa nada e coincide inteiramente com sua própria natureza. via signo ideológico. Também traiu. a sua materialidade histórica e a sua valoração ideológica.

recomendando leituras marxistas e incentivando o seu envolvimento nas discussões políticas entre ela e Diego. como conceituou Volochínov. não sobra nada. Pg. Fora desse material. CORPOS . A pintura. o gesto significante. (HERRERA. Assim. Como escreveu Bakhtin A lógica das consciências é a lógica da comunicação ideológica. Frida passou a ressaltar o conteúdo social na arte e a fomentar o desenvolvimento político de seus pupilos. (HERRERA. A reprodução em massa da sua imagem vem aumentando com o passar dos anos. não esclarecido pela consciência. é claro. ouve. 2014. 415) O diálogo entre autora e o público que a contempla permite que sentidos outros sejam produzidos ainda que não tenham sido intencionais e nem mesmo verdadeiros. sente… isso faz parte do diálogo. Pg. os esquerdistas tendem a ver Frida como uma ardorosa comunista. da interação semiótica de um grupo social. 2011. pg. 251 depender da inclinação da pessoa com quem ela estava falando e. 2013. (BAKHTIN. a materialidade da obra está inserida em determinado contexto social da mesma forma que os sujeitos que recebem o fenômeno artístico também estão. atribui-se sua imagem como símbolo de movimentos sociais ao mesmo tempo que corporações da indústria da moda a vendem como um produto cool. 36) ENTRECRUZAMENTO: o pop e o popular Não se passa um dia sequer sem que eu veja o rosto da Frida Kahlo estampado em algum lugar. ou os que reprovam o comunismo de Kahlo. pelo menos a partir da década de 1940. assim como a interpretação do dito e não dito. No meu próprio quarto tenho várias representações da sua imagem e obra. das posições que Diego estivesse professando no momento. 141). é “o produto da atividade humana coletiva e reflete em todos os seus elementos tanto a organização econômica como a sociopolítica da sociedade que a gerou” ( VOLOCHÍNOV. devia desempenhar um papel na sociedade. ao passo que os que são ingênuos ou indiferentes à política. a palavra. 415) Quem desconhece ou considera desinportante conhecer a história da autora acaba por dar significados outros para aquilo que vê. dizia ela. desprovido do sentido que os signos lhe conferem. tendem a defini-la como uma criatura não política. pg. Nas linguagens artísticas. A imagem. A linguagem. Ao mesmo que tempo que para quem estudou a vida de Frida Khalo chega a conclusão de que se pode afirmar com certeza é que. etc. constituem o seu único abrigo. Se privarmos a consciência de seu conteúdo semiótico e ideológico. há apenas o simples ato fisiológico.

Frida odiava o imperialismo e consumismo exacerbado. vestia-se sempre de trajes típicos mexicanos para lembrar da história de seus antepassados.com/ A primeira e segunda imagem são a camiseta e estampa da marca Zara. Camiseta da marca Zara. 252 Figura 1. As imagens a seguir são trabalhos que são produzidos por artesãs feministas. Fonte: http://www. uma multinacional espanhola que foi avaliada. Zara é uma rede de lojas. Figuras 2 e 3: Produtos das Marias Lavrandeiras Fonte: facebook Marias Lavrandeiras CORPOS .fridakahlocorporation. em 2.85 mil milhões de euros e frequentemente é denunciada por manter trabalhadores em situação análoga à de escravos. pela Forbes.

..br/marketing/marca-usa-frida-kahlo-depilador-facial/ Como escreveu Bakhtin: Na realidade.abril. [. Toda crítica viva pode tornar-se elogio. do povo a que eu pertenço e das ideias que me fortalecem [.. Khalo escreveu que Alguns críticos tentaram me classificar como surrealista. mas sei que são a expressão mais sincera de mim mesma.] Eu detesto o surrealismo. mas eu não me considero surrealista [. toda verdade viva não pode deixar de parecer para alguns a maior mentiras. Esta dialética interna do signo não se revela inteiramente a não ser nas épocas de crise social e de comoção revolucionária. EU PARA MIM... tanto por quem produziu a camiseta quanto para quem a compra ou de uma grande empresa de vestuário ou de trabalho artesanal com identificação com a vida e obra da pintora. duas faces.] Eu realmente não sei se meus quadros são surrealistas ou não. nas imagens abaixo uma clínica de estética utilizou em sua publicidade alterações que mudam um de seus traços mais marcantes e enfatizados por ela própria. EU PARA O OUTRO. 253 O Uso da imagem da Frida ganha significados diferentes nos contextos apresentados.] Eu quero que minha CORPOS . Imagens 4 e 5: divulgação clínica de estética Fonte: https://exame..com. como Jano.. Não é raro encontrar imagens que retratam Frida através do embranquecimento de sua pele. Um desvio da verdadeira arte que as pessoas esperam de um artista [.. parece uma manifestação decadente de arte burguesa.] Eu quero ser digna. com minha pintura. todo signo ideológico vivo tem. Pra mim. a sobrancelha.

pg 468) O esvaziamento dos sentidos político. sobre os ideais revolucionários que ela pretendia ter a sua imagem relacionada. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir do olhar bakhtiniano para o mundo e entendendo que a palavra é o signo ideológico por excelência. ( HERRERA. (HERRERA. nas linguagens artísticas e representações de imagem muito posso compreender. Como escreveu Bubnova: CORPOS . tanto é que: Quando os médicos determinaram que as tintas de Frida fossem levadas embora do quarto. 2011. 254 obra seja uma contribuição para a luta das pessoas em seu esforço pela paz e liberdade. dentro da mesma perspectiva da valoração sígnica. pg. 32) Vejo que Frida tinha muita segurança e convicção de quem ela era e de quem ela queria ser para os outros. revolucionário e cultural acontece intencionalmente dentro da organização globalizada da cultura hegemônica que busca o monologismo da cultura burguesa. Existe uma fotografia em que Diego observa a esposa acamada enquanto ela pinta cuidadosamente um martelo e uma foice num colete que cobre seu torso inteiro. ela pintou o colete que então estava usando com batom e iodo. a imagem como um gênero do discurso. reproduzindo a falsa ideia de neutralidade como se o signo não fosse ideológico por natureza.

Tatiana. literatura. 2013. Hayden. oriento meu discurso sempre para que alcance o outro. e a formulação expressiva dirigida ao outro com fins de comunicação. São Carlos: Pedro & João Editores. a palavra (o enunciado) é fronteira entre meu dizer interno. entre o eu e o não eu. CORPOS . qualquer palavra que sou capaz de proferir é uma resposta a algo dito antes por outros. A construção da Enunciação e Outros ensaios. Como escreveu Paulo Leminski. 255 Tanto o corpo quanto a palavra são fronteiras entre o mundo interior e o mundo exterior. BUBNOVA. Estética da criação verbal. 2016.ainda que possível tão somente a partir da anterioridade do discurso social da alteridade -. 2014. São Carlos: Pedro & João Editores. “na luta de classes.” REFERÊNCIAS BAKHTIN. HERRERA. VOLOCHÍNOV. 2011. a alteridade. São Paulo : Editora Globo S. São Paulo : Hucitec. discurso. Marxismo e filosofia da linguagem. O corpo é a fronteira entre eu-para-mim e a espacialidade do outro.146-147) O dialogismo que permeia as relaçoẽs discursivas permite que dentro de contextos distintos significados diferentes sejam constantemente sentidos e reproduzidos a partir de um enunciado. Mikhail. Valentin Nikolaievich. semiamorfo . pg. Frida: a biografia. Do corpo à palavra: leituras bakhtinianas. todas as armas são boas: pedras. A linguagem que recebo está prenhe de um diálogo inconcluso ao que eu tenho que me conectar. 2016. São Paulo : Editora WMF Martins Fontes. ________. 2011. (BUBNOVA. A. noites e poemas. Mikhail. Sempre se fala para alguém essa é a essência de meu eu-para-outro: ato.

256 heterociência CORPOS .

surgiu a necessidade de entender o processo dialógico da produção de sentidos que emprego no meu estudo sobre Bakhtin.aguiar@gmail. DEDICANDO A VIDA À Palavras-Chave: Heterociência Bakhtin.bel.ª Flávia Miller Naethe Motta) e bolsista de Iniciação Científica PIBIC/CNPq. porque devido à densidade e peculiaridade dessa bibliografia.como o conceito polifonia . ter mais pontos de partida para construir um caminho para o entendimento.em obras como “Problemas da poética de Dostoiévski”. Dr. ARTE E AO CONHECIMENTO AGUIAR. Experiência. E-mail: jullie. é preciso recorrer às obras de Dostoiévski para saber o que e o porquê. O passo inicial já foi dado. tudo com o que já tive contato ressoa 102 Graduanda em pedagogia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. Além disso. Mesmo assim. o interesse em produzir conhecimento. RESUMO 257 Este texto apresenta produção de sentidos iniciais PESQUISADORA INICIANTE de uma pesquisadora iniciante a partir dos primeiros contatos com conceitos de Bakhtin. no caso. Carlos Roberto de Carvalho e Prof. por meio de conceitos como polifonia. Integrante do GEPELID (Grupo de estudos e pesquisa sobre linguagem e diferenças coordenado pelos Prof. não deixei que isso me impossibilitasse de escrever. escreve de forma que as vozes do texto conversam com as ideias e suposições que tenho ao buscar entender o que está proposto. não digo nem entendimento em si. Ao pensar sobre escrever numa perspectiva bakhtiniana em ciências humanas. ou seja. percepções e sensações por meio de experiências. Até o momento. tudo que já vivenciei. O que só reafirma o carater dialógico dessa escrita. O autor. Jullie Belmonte de 102 INTRODUÇÃO P artindo de estudos e discussões no grupo de pesquisa no qual participo103. sejam eles quais forem. Sempre haverá pontos de partida. percebi que me falta uma abrangência de leitura que me possibilite maiores interpretações. novos sentidos estão sempre sendo propostos. ao tratar de conceitos complexos . A interdisciplinaridade é o pressuposto básico da formação teórica.ª Dr. o que aprendi com os outros e o que os outros me ensinaram (palavras próprias e palavras alheias).com CORPOS .

e remeter apenas a uma lógica da linguagem. é possível elaborar pensamentos e questionamentos indo muito além do ponto de partida. É na linguagem que o homem se revela. o que não corresponde ao conhecimento mais amplo do mundo. VIDA E CONHECIMENTO A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei. A variedade de textos. Essa característica é um aspecto preponderante na pesquisa em ciências humanas. 258 na minha escrita (alguém insiste na existência da neutralidade?). que o diálogo é uma forma de comunicação. Vou construir minhas compreensões a partir da leitura e imersão nas obras de Bakhtin. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. CORPOS . desconhecedor desse repertório. por algumas palavras. Sobre o nada eu tenho profundidades. que dialogam entre si. Novamente. considera-se também sua experiência. Essa relação é dialógica e alteritária. e por meio dela que produzimos sentidos. Meu fado é o de não saber quase tudo. corresponde à intensa produção de conhecimento e esta é posteriormente apropriada por outros sujeitos. que as pessoas estão em posições diferentes. Quais são as vozes presentes. Ainda em Problemas da poética de Dostoiévski. e o que elas dizem? Qual o ponto de partida dessa enunciação? 1. um leitor que conhece as obras de Dostoiévski entenderá de forma diferente em comparação a outro. O curioso é que a mesma frase. tarefa que requer tempo e devida reflexão. nos remete a uma dimensão de criação mais ampla. o que fundamenta a característica desse viés do pensamento heterocientífico. A alteridade é um conceito chave para perceber que aspectos da autoria do outro irão se relacionar com a identidade do leitor. em uma das reuniões do grupo de pesquisa. as autorias. A visão de mundo exposta em uma pesquisa. será necessária uma interpretação e ressignificação. tangencia a totalidade existente. A relação eu-outro no texto não acaba quando é finalizada a escrita. ao considerar o ser expressivo e falante. ARTE. Obviamente. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). uma citação presente na orelha do livro nos rendeu uma boa conversa: “Ser significa comunicar-se pelo diálogo”. O diálogo é onde os sentidos aparecem. é interessante lembrar também. para a leitura constituir sentido. pois nas palavras que se revelam os sujeitos. têm visões diferentes. Por meio de uma frase. É evidente a necessidade de reconhecer a amplitude do que esta proposto ao iniciar estudos bibliográficos nessa área. Quem é esse sujeito? O conhecimento tem aspectos polifônicos. Sendo um fragmento exposto e estudado. Ser polifônico é reconhecer a não existência de um ponto de vista único. no caso. Não tenho conexões com a realidade. Tal especificidade. ele continua ativo. O conceito de sujeito já revela muito da perspectiva bakhtiniana em pesquisa. dialógicos e alteritários. se lida por alguém que não está contextualizado nesse estudo. pode não render muito.

Eram abordadas questões da linguagem e de pesquisa. E pode-se considerar uma terceira agora. Fiquei emocionado. uma noção que pode ser relacionada ao que trago nesta introdução: a relação eu-outro. tive contato com autores como Marilia Amorim (2002) e Charlot (2006).33) Dialogar com as vozes presentes na escrita desse texto instaura uma multiplicidade de pontos de vista. tornaram meu trabalho sem foco e consequentemente recusado. E isso ficou marcado. Decidi escrever meu resumo de pesquisa para submissão em congressos. gestuais e expressivos. Manoel de. existem muitas oportunidades na graduação. Esse movimento de auto reflexão é um encontro de duas vozes presentes no mesmo autor. Um tempo depois. e foi em uma dessas aulas que conheci a tripla dimensão da cultura: Arte. p. era uma ideia central desse texto. Também indiquei ideias como: “a criança é produtora e reprodutora de cultura”. essa que vos escreve. submeti em um congresso sobre infância. Também foi o momento de mais clareza em saber que o sentido se dá na enunciação. aplicada ao trabalho monográfico. 259 Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Um trabalho com a ideia de “Emancipação por meio da arte” foi nascendo ao considerar que a arte e o conhecimento são fundamentais para vida. sabendo disso. Sou fraco para elogios. reli o texto e também a justificativa de ter sido recusado. Mesmo tendo pertinência. mais uma. E também considerando quem lê. 2004.. Não foi aprovado. Tais questões já me faziam refletir. Falei ainda em: “construir relações possíveis” que é um aspecto da ressignificação e apropriação do que foi proposto numa relação de ensino-aprendizagem. se constitui pois em um encontro de muitas vozes: ao se observar um evento depara-se com diferentes discursos verbais. Usei o termo “pesquisa qualitativa de cunho reflexivo” ao indicar minha metodologia. (BARROS. tanto que decidi realmente escrever sobre o assunto e nesse momento já fui delineando minha pesquisa. A articulação entre arte vida e conhecimento. A vida acadêmica sempre foi meu foco. CORPOS . embora ainda inconsciente para a autora. “Tratado geral das grandezas do ínfimo”) Quando comecei a apreciar os conceitos de Bakhtin eu não sabia que era o que era. Vida e Conhecimento. São discursos que refletem e refratam a realidade da qual fazem parte construindo uma verdadeira tessitura da vida social” (FREITAS.. fui buscando formas de atingir meus objetivos de desenvolvimento. o tratamento apressado na escrita. na optativa “Interdisciplinaridade: Epistemologia e Metodologia”. Meu eu já não era o mesmo. Tive outra compreensão. no caso. o não aprofundamento nos conceitos e inclusive frases incompletas. Desenvolvi a ideia e um tempo depois tive um retorno. A observação em uma pesquisa de abordagem sócio-histórica.

é investir no que chamei de essência. é preciso estar em contato com ele e buscar aproximar-se de seu significado e implicações. quando eu reler esse trabalho. Considerando o conceito de grande tempo. em nível macro. tive uma resposta sucinta: “esperar”. p. A experiência comum varia a cada sujeito. perguntando o que eu poderia fazer para ter mais clareza com os conceitos de Bakhtin. com a intervenção da internet. um contexto.] um acontecimento vivido é finito. Articular minha vida para produção de conhecimento e contemplação da arte. constituem a esfera de formação pessoal e social que determina como esse alguém irá se posicionar diante do mundo.. ou então quais enredos e personagens já foram trabalhados. CORPOS . O que é essencial para vida? Julgo essencial manter-me em movimento. cronotopo corresponde a reconhecer eu a existência humana se dá em um momento e um lugar. tanta arte. criadas por pessoas que possuem uma história. Tal fato. daqui a alguns anos. na esfera do cotidiano. Os acontecimentos. sempre buscando ir além do que já sou. 15). A cada novo estudo. a posição epistemológica define o ponto de vista. por exemplo um filme. por exemplo. trinta alunos em uma sala tendo aula com um professor. vivemos em uma época na qual. Olhando para o passado. as conexões possíveis e amplitude da ressignificação de um estudo demanda maior reflexão. pois como já escrevi anteriormente. Até onde sei. ou não ter. quando pedi orientação para o professor que coordena o grupo de pesquisa. nos apresentam informações com links que nos direcionam para outros contextos mais amplos. nos remete a uma cultura escolar que varia de acordo com o lugar onde esses alunos estão. só de pensar sobre a abrangência de produções e vivências. para reconhecer as relações entre o que já sei e o que pretendo saber. para apropriar-se de conhecimento. Inclusive ao buscar. Tempo e Espaço. ou pelo menos encerrado na esfera do vivido. ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites porque é apenas uma chave para tudo aquilo que veio antes ou depois" (1994. instauram uma experiência comum a um conjunto de sujeitos. Ao buscar o elenco podemos saber em quais outros filmes os atores também atuaram. Em Bakhtin. Em meio a tanta produção literária. podemos buscar no google algumas palavras chave e descobrir quase tudo que nossa curiosidade permitir. Provavelmente. chegue a outras conclusões. que possibilita trazer enunciados diferentes que ecoam em diferentes momentos.. todas as possibilidades de formação que alguém pode ter. Tanto a conhecer e pouco tempo para apreciar. 260 Walter Benjamin considera que "[. hoje em dia percebo que não é bem assim. Essa citação nos remete à questão do tempo. E isso varia com o tempo. Indo além nessa questão temporal. quando eu vejo textos que estudava no primeiro período da graduação e que considerava difíceis. fico inspirada. mais um ponto de vista é revelado ou um detalhe percebido. mas nunca me ocorreu que o tempo também influencia nesse movimento.

uma ciência. o mundo está sempre sendo e que. essa dinâmica ilimitada da memória e da constituição do relato. A questão não é um embate entre narrativas e narratividades. pois é no âmbito dessas três dimensões que vivem os humanos.. uma vez que a linguagem é o que caracteriza e marca o homem. Ao pensar sobre algo. Contribuir para que a produção da ciência seja responsiva e responsável porque humanamente referenciada nas diversidades das culturas e. portanto. “Em busca de uma heterociência: ética. A pesquisa em ciências humanas tem essa característica. A palavra não deve ser calculada. portanto sobre ele é sempre possível tecer outras interpretações e que ninguém detenha a última palavra. e abrir-se para o mundo desencadeando uma série de percepções que aparecem sob outra ótica. no qual ele não se anula e nem se desfaz. ao definir a epistemologia do próprio saber. 6) Ao ser proposta outra forma de começar. que traz uma quarta. trata-se de restaurar nas ciências humanas o espaço do sentido O sentido da palavra é o caminho para o resgate daquilo que no homem é sujeito. etc. BUSCA CONSTANTE O projeto que atualmente o GEPELID vem trabalhado. o caminho traçado já não é o mesmo em comparação a uma escrita com enunciados escritos somente pelo objetivo de serem lidos. pressupondo certa identidade da coisa dita e seus possíveis sentidos. a questão nos parece ser bem outra: não permitir que uma única visão de mundo venha prevalecer sobre outras”. CARVALHO. que desencadeia uma outra. CONSIDERAÇÕES FINAIS O trabalho foi pensado numa proposta de escrita acadêmica com viés heterocientífico que buscou ir além de uma única visão. CARVALHO. 261 2. 2017. Ora. Para o heterocientista o mundo não é um absoluto. (MOTTA.. (JOBIM E SOUZA. a expressividade contida revela a memória e as experiências tratadas no contexto histórico-social. não arrogante. p. 51) São narrativas que contam a experiência humana. 2017. tem que ser apenas ela. com cada texto suscitando outros textos[. a consciência do aprendizado remete a uma abordagem emancipatória. 9) Ambos fragmentos discorrem sobre essa forma de narrativa/escrita que é possível pela linguagem. que possa abarcar o humano em todas as suas dimensões.. 1994. e. “Cada história é um ensejo de uma nova história.]” (BENJAMIN. p. estética e epistemologia numa perspectiva bakhtiana das ciências humanas” aborda questões levantadas por meio desse trabalho. passamos por categorias cognitivas. (MOTTA. 1994). a autoria dos sujeitos expressivos e falantes compõe uma ciência CORPOS . p. A margem para interpretações possíveis de um mesmo texto reafirma o caráter polissêmico das produções humanas e culturais.

pp. S. Cad. Walter. Mikhail. foi-me dito que o texto possui minha voz. Manoel de. MIOTELLO. Meu quintal é maior do que o mundo. C. Rio de Janeiro: Alfaguara. n.. 2006. 7-18. Em busca de uma heterociência: Ética. Problemas na poética de Dostoiévski. 31. BAKHTIN. 2013. 4. 218-226. ed. [online]. Educ. São Paulo: Cortez. 7. ed São Paulo: Brasiliense.. vol. BARROS. M. Magia e técnica. 2003. M.. 11. FREITAS. 14.. B. 10 ed. Estética e Epistemologia numa perspectiva bakhtiana das ciências humanas. V. A pesquisa educacional entre conhecimentos. São Paulo: Martins Fontes. 2 ed. Acesso em 26 de setembro de 2017. [online]. F. São Paulo: Papirus. Questões Bakhtinianas para uma heterociência humana. JOBIM E SOUZA. BAKHTIN. e descobri que atingi o objetivo de marcar minha autoria na escrita. 1994. Vozes e silêncio no texto de pesquisa em Ciências Humanas. M. Infância e linguagem Bakhtin. Bras. Projeto GEPELID: UFRRJ. arte e política: ensaios sobre literatura. Pesq. KRAMER. MELLO. N. S. CHARLOT. 31. BENJAMIN. 2015. 2010. Mikhail. n. 2007. Rio de Janeiro: Forense Universitária. pp. 2002. por outro ponto de vista. 2017. 116. Ciências humanas e pesquisa: Leituras de Mikhail Bakhtin. Rev. CARVALHO. 1994. ed. 07-19. S. T. R. Bernard. CORPOS . compreendendo outras formas de produzir conhecimento científico. políticas e práticas: especificidades e desafios de uma área do saber. 262 polifônica e dialógica. Marilia. 5. Pedi que um amigo lesse meu trabalho para que eu percebesse. MOTTA. REFERÊNCIAS AMORIM. Estética da criação verbal. Vygotsky e Benjamin. n. Revista teias v. JOBIM E SOUZA.

pretende-se levantar uma hipótese principal a respeito dos motivos pelos quais se verifica uma tendência entre os professores. dentre outras categorizações de grande vulto para a filosofia da linguagem. os quais. tendo se baseado principalmente nos escritos do próprio Bakhtin e seu Círculo (2010) e de Mortatti (2000). do conceito de gêneros do discurso – tal como postulado por Mikhail Bakhtin e seu Círculo (2010) – no Brasil. continuada e em serviço dos professores. as contribuições de Mortatti (2000) são de grande relevância para esse artigo. a metodologia utilizada para a produção desse estudo calcou-se sobre pesquisa de cunho bibliográfico. que tem desdobramentos muito significativos.br CORPOS . BATISTA. especialmente aqueles dos anos iniciais do Ensino Fundamental. o conceito de gêneros discursivos. evidenciando as diferenças entre os estudos teóricos. Além disso. a desconhecer ou dominar parcialmente as contribuições do filósofo soviético no campo da linguagem. notadamente pelas normatizações ou prescrições referentes aos primeiros anos do Ensino Fundamental. especialmente aqueles dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Além disso. pois fazem uma retomada histórica das tendências teóricas envolvidas no campo da alfabetização nas últimas décadas.com. segundo o autor. além de outros autores que deram sustentação às INTRODUÇÃO discussões. Essa hipótese. notadamente aqueles ligados a universidades e revistas eletrônicas de renome. Ensino ste estudo tem como objetivo apresentar e discutir a entrada Fundamental. E-mail: gilkabatista@bol. o discurso oficial e as práticas pedagógicas dentro das salas de aula dos primeiros anos do Ensino Fundamental. Formação de Professores. a despeito de essas contribuições terem sido apropriadas pelo discurso oficial no campo da Educação desde o final do século XX. bem como levantar e discutir uma hipótese principal a respeito dos motivos pelos quais se verifica uma DE GÊNEROS tendência entre os professores. que instaura. Mestranda em Educação pela mesma Universidade. E Palavras-chave: Gêneros do Discurso. através de livros impressos e artigos disponíveis em sites confiáveis. A metodologia se caracteriza por ser de caráter bibliográfico. Dessa forma. A base desse estudo se sustenta sobre o próprio filósofo soviético. Profª de Língua Portuguesa do SENAI (Rio Claro / SP). 104 Licenciada em Letras e Pedagogia pela Universidade Estadual de Campinas. Gilka Fornazari 104 especialmente daqueles dos primeiros anos do Ensino Fundamental. a desconhecer ou dominar parcialmente as contribuições do filósofo soviético no campo da DISCURSIVOS NO BRASIL: linguagem. RESUMO 263 Este artigo tem como principais objetivos apresentar e discutir a entrada do conceito de gêneros do discurso – tal como postulado por A ENTRADA DO CONCEITO Mikhail Bakhtin e seu Círculo (2010) – no Brasil. são “tipos de enunciados relativamente estáveis” – o que será apresentado e discutido mais adiante. apontou para a necessidade cada vez mais inescapável e determinante de investimento maciço do poder público em cursos de formação inicial. A hipótese que se levantou é de que a entrada relativamente recente desse conceito no país é a responsável pelas inseguranças dos das normatizações às práticas pedagógicas professores ao fazerem a apropriação / ressignificação didática do conceito.

pela criação do conceito de gêneros discursivos. a jornalística. Antropologia. O CONCEITO DE GÊNEROS DISCURSIVOS NA PERSPECTIVA BAKHTINIANA E SUA APROPRIAÇÃO PELO DISCURSO OFICIAL Antes de qualquer passo. o conceito de gêneros discursivos tem consequências marcantes para o ensino da língua – como considerar. No Brasil. Também é deles a contribuição de se considerar a linguagem sob uma perspectiva dialógica: um produto das relações sociais e das condições materiais e históricas de cada tempo. quando um grupo de intelectuais soviéticos a redescobriu. uma língua se manifesta sempre em forma de “enunciados”. Mikhail Bakhtin (1895 – 1975). é responsável. As principais teorizações sobre o conceito encontram-se no capítulo “Os gêneros do discurso”. Cada uma dessas esferas – a jurídica. “[. os quais denominamos gêneros do discurso” (idem. Além disso. Bakhtin e seu Círculo foram inovadores ao analisar o discurso tanto na arte como na vida. isto é. postumamente em 1979. p. proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana” (BAKHTIN. publicado originalmente em Moscou. Para o filósofo soviético. como Psicologia. “o emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos. sejam orais ou escritos. a acadêmica/escolar. assim como boa parte do legado do Círculo. a religiosa. o que o próprio Bakhtin postula como gêneros discursivos. se justifica na medida em que o conceito é fundamental para a compreensão do funcionamento da comunicação discursiva nas várias esferas de atuação humana.. a científica. a publicística. nesse ensino.. proferidos pelos falantes em cada "campo de utilização da língua”. Crítica Literária. 264 Estudar a entrada do conceito de gêneros discursivos no Brasil e sua apropriação pelos professores.] cada enunciado particular é individual. Assim sendo. Original para a época em que foi produzida – décadas de 1920 e 1930 – sua teoria da linguagem só foi valorizada a partir da década de 1960. mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados. a língua intimamente vinculada às práticas sociais dos falantes. etc – CORPOS . Seu nome e sua produção. 2010. em processo constante de interação. passamos a conhecer e estudar Bakhtin somente a partir da década de 1980. além de tantas outras definições que hoje são categorias de análise em várias disciplinas e áreas do conhecimento. em cada esfera de atividade humana ou também chamado de domínio discursivo. Além disso. em linhas gerais. juntamente com outros pensadores que formaram o chamado Círculo de Bakhtin. História. Filosofia. chegam ao ocidente na década de 1970. de acordo com o autor. tecendo-se sempre em diálogo com inúmeros enunciados já proferidos. 262). os gêneros do discurso. especialmente aqueles ligados à alfabetização e ao letramento nos anos iniciais do Ensino Fundamental. filósofo soviético da linguagem. observando como os enunciados se combinam para formar. a artística/literária. 261). especificamente. p. presente no livro “Estética da criação verbal”. etc. 1. é preciso apresentar.

poderíamos classificar o estilo como íntimo. a palestra. seria praticamente impossível a comunicação discursiva. Ainda tomando como exemplo as cartas de amor. o conteúdo temático é aquele vinculado às relações amorosas. mas sim o domínio de sentido a que um gênero está relacionado. o artigo científico. o que liga intimamente o uso da língua pelo falante às práticas sociais que envolvem a linguagem verbal em cada contexto. o debate. p. ainda. essa estabilidade é relativa. Já o estilo corresponde à “seleção dos recursos lexicais. Retomando o exemplo das cartas de amor: podemos. p. já que cada enunciado é individual e único. poemas de variadíssimos conteúdos temáticos e de diversas estruturas de composição. fraseológicos e gramaticais pressupõe um interlocutor próximo. Essa seleção sempre está ligada à esfera de atividade humana ou domínio discursivo em que o falante está inserido no momento de utilização daqueles tipos relativamente estáveis de enunciados. 265 elabora “tipos relativamente estáveis de enunciados”. Finalmente. Em cada campo existem e são empregados gêneros que correspondem às condições específicas de dado campo. na história da literatura. A relativa estabilidade dos enunciados fica ainda mais evidente quando se trata de poemas: temos. O conteúdo temático não é o assunto propriamente dito de um dado texto. podemos. determinados tipos de enunciados estilísticos. específicas de cada campo. ao serem agrupados. proferido por um falante também único. isto é. a prova. 266). com quem se tem intimidade. Porém. Nem por isso. a aula. suprimir o nome de quem o escreveu. Assim. as anotações (de caderno e de lousa). eventualmente. p. É importante frisar que cada gênero corresponde às condições relativas a cada campo da atividade humana. Segundo Bakhtin (2010). em um texto pertencente a esse gênero. Por exemplo: na esfera acadêmica/escolar. Bakhtin (2010) ressalta que os enunciados devem ter uma estabilidade. para o autor. já que a seleção dos recursos lexicais. fraseológicos e gramaticais da língua” ( idem. dentre tantos outros gêneros. entretanto. temos vários tipos relativamente estáveis de enunciados. como o seminário. Nada disso. dão origem a certos gêneros discursivos. entretanto. chamados de “gêneros do discurso”. não expor o local e a data em que o texto foi escrito. publicística. oficial. cotidiana) e determinadas condições de comunicação discursiva. Retomando o exemplo das cartas de amor. 261). cada gênero do discurso tem um conteúdo temático. podemos. é frequente encontrar nesse gênero a indicação de local e data e os nomes de quem escreve e para quem se escreve. nas palavras do autor. descaracterizaria aquele texto como pertencente ao gênero cartas de amor. Uma determinada função (científica. 283). técnica. é a esses gêneros que correspondem determinados estilos. caso contrário. assim como de variados estilos. que são. Deve-se ainda destacar a “relativa estabilidade” dos enunciados. geram determinados gêneros. temáticos e composicionais relativamente estáveis (idem. Por exemplo: no gênero cartas de amor. escrever muito ou escrever pouco. a estrutura composicional diz respeito à forma como se estrutura e se organiza o texto. um estilo e uma estrutura composicional próprios. se precisássemos reconstruir “livremente e pela primeira vez cada enunciado” (idem. todos os textos que são considerados poemas deixam CORPOS .

especialmente nos primeiros anos do Ensino Fundamental. o que denota a íntima relação que existe entre os gêneros e as práticas sociais. p. Segundo Bronckart (2012). notadamente aqueles que se constroem em estilo mais formal. Essa é a principal justificativa para o trabalho com gêneros na escola. Observa-se. 266 de sê-lo. assim. No ensino da língua. Isso tem como consequência que é o domínio dos gêneros. “a apropriação dos gêneros é um mecanismo fundamental de socialização. concebem o ensino da língua nas séries iniciais do Ensino Fundamental. como ainda se pode insistir em ensinar palavras e orações. que é um dos pressupostos mais importantes de Bakhtin e seu Círculo para a filosofia da linguagem: quando falamos ou escrevemos o que quer que seja. 282). Isso traz uma consequência de máxima importância para o ensino da língua na escola: “aprender a falar significa aprender a construir enunciados (porque falamos por enunciados e não por orações isoladas e. o que garante a comunicação discursiva. isto é. Para Bakhtin (2010). Outro pressuposto que deriva dessas teorizações é de que os falantes de uma língua apenas se comunicam através de enunciados – os quais. 272). p. portanto. há uma estabilidade que os une sob a mesma classificação: pertencem ao gênero discursivo poema. Essa cadeia discursiva revela o caráter dialógico da linguagem. o primeiro a ter violado o eterno silêncio do universo” (idem. e desprezar a unidade real da comunicação – o enunciado? Assim sendo. e até mesmo ainda por proferir. todos os nossos enunciados possuem formas relativamente estáveis e típicas de construção do todo” (idem. Além desse exemplo. de inserção prática nas atividades comunicativas humanas”. p. É sob essa perspectiva que os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa (BRASIL. como já se verificou. p. “muitas pessoas que dominam magnificamente uma língua sentem amiúde total impotência em alguns campos da comunicação precisamente porque não dominam na prática as formas de gênero de dadas esferas” (idem. ibidem). apesar das diferenças entre si. não por palavras isoladas)” (idem. por exemplo. 1997). 284). podemos observar as contribuições da teoria de gêneros discursivos de Bakhtin CORPOS . os enunciados estão sempre ligados a outros enunciados já proferidos. pois “Cada enunciado é um elo na corrente complexamente organizada de outros enunciados” (idem. evidentemente. seja em sua modalidade oral ou escrita. Além disso. Assim. e não apenas da língua. já que. quando agrupados em tipos relativamente estáveis. Isso quer dizer que não dominar determinado gênero do discurso torna a comunicação quase impossível nos vários campos da atividade humana. estamos dialogando com enunciados anteriores e até mesmo subsequentes. “falamos através de determinados gêneros do discurso. dão origem aos gêneros do discurso. Isso se deve ao fato de circularem na mesma esfera de atividade humana – a artística/literária – e apresentarem função social semelhante. apesar de únicos e individuais. que o domínio dos gêneros discursivos é uma forma de se adequar às diversas situações de uso social da língua. todo falante é por si mesmo um respondente em maior ou menor grau: “Ele não é o primeiro falante. 283).

28). [. mais poderão desenvolver suas capacidades comunicativas de maneira significativa. S. É por meio do diálogo que a comunicação acontece. Vale ressaltar que essa perspectiva interacionista de linguagem não é adotada apenas por Bakhtin e seu Círculo. São os sujeitos em interações singulares que atribuem sentidos únicos às falas. com uma forma própria. Todo texto pertence a um determinado gênero. a perspectiva de linguagem como produto e produtora das relações sociais.. Nesse sentido. p. 1997. que se pode aprender. Verifica-se também neste documento oficial a adoção de conceitos e categorias criados pelo filósofo soviético e seu grupo. Além disso. contar histórias.. através da interação. além de Jean Paul Bronckart. como contar o que lhes aconteceu em casa. A linguagem não é homogênea: há variedades de falas. (BRASIL. explicar um jogo ou pedir uma informação. Nelas. lê-se: A visão aqui defendida supõe uma estreita e interdependente relação entre formas linguísticas. implícitos na passagem “contar o que lhes aconteceu em casa. diferenças nos graus de formalidade e nas convenções do que se pode e deve falar em determinadas situações comunicativas. ao afirmarem que: As palavras só têm sentido em enunciados e textos que significam e são significados por situações. 121). mas encontra-se disseminada nos trabalhos de vários pensadores. como “enunciado” e “dialogismo”. Fora da escola escrevem-se textos dirigidos a interlocutores de fato. Vygotsky e o psicólogo suíço Bernard Schneuwly. dar um recado. seus usos e funções. dar um recado. lista de palavras ou sentenças. Quanto mais as crianças puderem falar em situações diferentes. p. ainda. (BRASIL. o que resulta de se admitir que a atividade de compreensão e produção de textos CORPOS . Observa-se. como o psicólogo também soviético L. Subsiste. (BRASIL. verificam-se os postulados de Bakhtin e seu Círculo também nas Orientações Curriculares para o Ensino Médio. os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. portanto. A linguagem não é apenas vocabulário. com leitores e escritores verdadeiros e com situações de comunicação que os tornem necessários. 267 e seu Crírculo também nos Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. verifica-se nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa das Séries Iniciais que: Ensinar a escrever textos torna-se uma tarefa muito difícil fora do convívio com textos verdadeiros. cujos estudos contribuem de forma maciça à área da Educação. Também apresentam os gêneros como passíveis de ensino e de aprendizagem na escola. 1998. publicados em 1998. 1998) e nas Orientações Curriculares para o Ensino Médio (BRASIL. no trecho citado. além dos próprios gêneros discursivos.] A diversidade textual que existe fora da escola pode e deve estar a serviço da expansão do conhecimento letrado do aluno. explicar um jogo ou pedir uma informação”. que os PCN sugerem um processo de ensino e aprendizagem de Língua Portuguesa baseado na diversidade de gêneros discursivos existentes nas situações comunicativas reais do cotidiano. contar histórias. Por fim. também apontam algumas das contribuições de Bakhtin e seu Círculo. 2006). publicadas em 2006.

Além disso. o desenvolvimento das ações de produção de linguagem em diferentes situações de interação. por procedimentos sistemáticos. No capítulo 4 desse livro. 2006. A ENTRADA DE BAKHTIN NO BRASIL E OS EMBATES TEÓRICOS As contribuições de Bakhtin e seu Círculo no campo da filosofia da linguagem entram no Brasil somente a partir da década de 1980. (BRASIL. Assim. no Estado de São Paulo. Bakhtin e seu Círculo utilizam na caracterização dos gêneros discursivos. 2000) ou prescrições (LOUSADA ET AL. mais especificamente no final do decênio. se considerarmos que o papel da disciplina Língua Portuguesa é o de possibilitar. continuamente. nas suas ações. as quais entram quase no mesmo momento no país. a qual deve ser abordada na escola a partir da diversidade de situações comunicativas. Veremos adiante que uma possível causa para esse cenário é a entrada recente do conceito de gêneros discursivos no Brasil e sua quase imediata apropriação pelo discurso oficial. 268 envolve processos amplos e múltiplos. usos e funções da língua. abordagens interdisciplinares na prática da sala de aula são essenciais. p. a autora apresenta outras perspectivas teóricas. Além disso. 2011). essas contribuições representam aos professores grande dificuldade em sua ressignificação didática. 2000). em grande medida. as contribuições de Bakhtin no campo da linguagem são relativamente pouco conhecidas pelos professores. a autora propõe uma discussão sobre a entrada no Brasil das contribuições de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky sobre a psicogênese da língua escrita – o que se convencionou chamar de “construtivismo”. conforme as demandas trazidas pelos espaços sociais em que atuam. 2. como já referido. chamado “Alfabetização: construtivismo e desmetodização”. o próximo passo desse estudo busca destacar através de quais portas entram no Brasil as contribuições de Bakhtin e seu Círculo. novamente se observa a linguagem vista como produto e produtora das interações sociais. os quais aglutinam conhecimentos de diferentes ordens. Esse estudo pode ser verificado no livro “Os sentidos da alfabetização – São Paulo. especialmente aqueles dos primeiros anos do Ensino Fundamental. Mortatti (2000) faz belíssimo estudo sobre os sentidos que a alfabetização assume ao longo de mais de um século. CORPOS . também se faz referência à íntima interdependência entre formas. especialmente aquelas que envolvem o conceito de gêneros do discurso e de língua na perspectiva de interação. apesar de maciçamente presentes nas normatizações (MORTATTI. nos discursos oficiais. Nesse sentido. isto é. 27) Na passagem destacada. No entanto. Quando conhecidas. Sabemos que a escola tem a função de promover condições para que os alunos reflitam sobre os conhecimentos construídos ao longo de seu processo de socialização e possam agir sobre (e com) eles. o que. e acabam por conflitar com as abordagens ditas “tradicionais” e com o “construtivismo” (que ganhava força naquele período). o que faz com que não se tenha ainda tido o tempo necessário para transformar normatizações em concretizações (MORTATTI. 1876-1994”. transformando-os.

sintetizado nas expressões “socioconstrutivismo” ou “construtivismo-interacionista”. do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). que se o desconsidere e sem que se abandone a abordagem psicolinguística – . mediante sua disseminação a partir do final da década de 1980. a não ser falando. Segundo Mortatti: CORPOS . segundo Mortatti: A abordagem proposta por Smolka contribui. Assim. a linguagem é vista como um lugar de interação humana. enfocando as posições políticas dos professores. Porém. buscando deslocar o eixo das discussões de como se ensina e se aprende a língua para por quê e para quê se ensina e se aprende a língua. 41). Assim como Smolka. também da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). apesar das pesquisas e produções teóricas envolvendo a perspectiva interacionista. porém.. (BAKHTIN. da Faculdade de Educação (FE) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). da qual Bakhtin e o Círculo fazem parte fundamental. 2010. os estudos de Smolka buscam questionar o discurso construtivista a partir de nova perspectiva de análise das ações envolvidas em ensinar e aprender a língua materna na escola. da qual fazem parte as contribuições de Bakhtin e seu Círculo.. 265). Basicamente. com ela o falante age sobre o ouvinte.] mais do que possibilitar uma transmissão de informações de um emissor a um receptor. É assim que Geraldi propõe um intensivo trabalho com textos. o sujeito que fala pratica ações que não conseguiria levar a cabo. 2000. notadamente em seu livro “A criança na fase inicial da escrita: a alfabetização como processo discursivo” (1989). dos quais o livro “O texto na sala de aula” (2006) é um grande exemplo de deslocamento de como ensinar e aprender a língua para por quê e para quê se ensina e se aprende. houve uma tentativa de conciliação pouco esclarecida entre ela e o construtivismo.. constituindo compromissos e vínculos que não preexistem à fala. (GERALDI. p. p. processo do qual acaba por resultar um outro tipo de ecletismo. 276). sem. decorrente de certo esgotamento e questionamento do “discurso construtivista” – sem. normatizações e concretizações relativas à alfabetização: o gradativo deslocamento para o “discurso interacionista”.] a língua passa a integrar a vida através de enunciados concretos (que a realizam). num processo dialético. numa tentativa de ensinar e aprender a língua a partir de sua materialização cotidiana e das práticas sociais envolvidas em seu uso (BATISTA-DE OLIVEIRA. adota a perspectiva interacionista em seus trabalhos. Por meio dela. (MORTATTI. a linguagem efetiva a vida – assim como é efetivada por ela. que haja o abandono das práticas ditas “tradicionais” e das abordagens ditas “construtivistas” em sala de aula. 2012).. 269 Uma dessas novas perspectivas é justamente a interacionista. Segundo o autor: [. Essa perspectiva retoma postulados de Bakhtin e do Círculo. para quem “[. é igualmente através de enunciados concretos que a vida entra na língua”. Como se observa nessa passagem. que se evidencia na produção de Ana Luiza Bustamante Smolka. Suas contribuições são valorizadas e consideradas. para o delineamento de uma tendência verificada nas tematizações. Smolka questiona o postulado construtivista. p. João Wanderley Geraldi. Dessa maneira. 2006. principalmente nos discursos oficiais. no entanto.

que ainda conflita com abordagens ditas “tradicionais” de ensino e aprendizagem de Língua Portuguesa. O “método eclético de novo tipo”. A DIFERENÇA ENTRE O DISCURSO OFICIAL E AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS COTIDIANAS: discussão de uma hipótese A principal hipótese que se pode levantar para o fato de que os professores em geral não dominam o conceito de gêneros discursivos nem conseguem.. um método eclético de novo tipo. 270 Mesmo que diferentes do ponto de vista epistemológico. falha essa que se tem buscado sanar com programas de formação continuada. esse “método” baseia-se no diagnóstico e posterior classificação “construtivista” dos alfabetizandos em “pré-silábicos”. as práticas pedagógicas cotidianas dos professores. se no campo das tematizações há clareza. p. (MORTATTI. grifos da autora). realizar uma adequada ressignificação didática do conceito é por ser esta uma categoria relativamente recente no país. de preferência com textos e por meio deles. como Pró-Letramento e Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. por exemplo. a partir dos quais o professor deve desenvolver um “trabalho” que respeite a realidade da criança e seu ritmo de construção do conhecimento. não se pode afirmar o mesmo quanto à apropriação dessas tematizações pelo discurso oficial e muito menos quanto aos efeitos das contribuições de cada corrente teórica em sala de aula. notadamente a partir da primeira década deste século. os embates teóricos se dão principalmente no campo das tematizações (produções e pesquisas acadêmicas). “silábicos” e “alfabéticos”. porém se estendem para o discurso oficial (as normatizações. Essa pouca atenção se potencializa diante de um cenário nacional de pouco comprometimento do poder público com a qualidade dos cursos de formação inicial de professores. segundo Mortatti (2000)) e atingem as concretizações. ou seja. na maior parte das práticas. quanto às filiações teóricas de cada estudo e de cada pesquisa. pelo discurso oficial. deixa os professores. A profusão de cursos a distância em prazos aligeirados e de faculdades particulares que praticamente CORPOS . Pode-se afirmar. num discurso “pelo baixo”. Como decorrência do referencial teórico construtivista e de sua posição contrária à utilização de cartilhas e métodos de alfabetização. pouco seguros quanto a como trabalhar a alfabetização – em especial após a maciça presença.. disseminou-se. 286. Esse é um dos desdobramentos da hipótese que será analisada a seguir. em geral. Observa-se que a entrada no Brasil das contribuições de Bakhtin e seu Círculo para os estudos da linguagem se faz de forma conflituosa. como complementares entre si [.]. Resultando na combinação dos métodos tradicionais com as implicações pedagógicas das pesquisas de Ferreiro. portanto. Essa hipótese tem desdobramentos significativos: o fato de a entrada do conceito de gêneros discursivos ser relativamente recente no país pode justificar a pouca atenção que é dada a ele nos cursos de formação inicial de professores. 3. das contribuições dos Estudos do Letramento. em geral. esses dois referenciais teóricos [construtivismo e interacionismo] vão sendo incorporados e apresentados. que. 2000. do qual trata a passagem acima. no cenário educacional.

assim como é responsabilidade direta da coordenação pedagógica de cada escola criar espaços significativos e produtivos de estudo. organizados dentro da própria escola. da Silva (2005) discute. 2000). devido à convivência das tematizações e normatizações com as concretizações (MORTATTI. o tempo dos discursos: com enorme velocidade. ao tentar compatibilizar tendências e posturas teóricas muitas vezes divergentes. “a natureza dos problemas de compreensão de duas alfabetizadoras (Neusa e Samira) na leitura dos CORPOS . 271 apenas vendem diplomas nessa etapa da formação desfavorecem o aprofundamento teórico e as reflexões baseadas na leitura atenta e cuidadosa dos clássicos. Já o tempo das políticas de educação. Sem uma base teórica sólida. o tempo de base. o tempo das políticas de educação e o tempo dos discursos. na prática. os professores dificilmente podem justificar suas práticas e questionar as normatizações. muitas “bricolagens” ou visões ecléticas. diz respeito à organização da escola. em geral. Vale ressaltar que espaços importantes para essa troca e essa reflexão são os cursos de formação continuada (de caráter municipal. assim como é improvável que construam autonomamente adaptações significativas do discurso oficial. conforme se produzem estudos acadêmicos sobre a escola e a educação. os discursos pedagógicos se modificam. estas que. o que prejudica a apropriação competente. pela própria equipe docente. O tempo de base se caracteriza por ser aquele das práticas pedagógicas. devido à sua entrada relativamente recente no Brasil – é de que nem o próprio discurso oficial é claro em suas determinações. Sem a troca de experiências e a reflexão sobre a ação pedagógica cotidiana. em seu artigo intitulado Leituras de Alfabetizadoras. existem três tempos da escola. Assim. mesmo que encampado pelo discurso oficial. não acompanham a velocidade com que aquelas se efetivam. abrindo margem a muitas falhas de compreensão por parte dos profissionais que não são especialistas em língua. na maior parte das vezes. o próprio discurso oficial também propõe um “método eclético de novo tipo”. dentro das salas de aula. se tenha ainda. estadual ou nacional) e os espaços criados pela formação em serviço. Nunca é demais afirmar que é responsabilidade do poder público investir nos cursos de formação continuada. Além disso. Outro desdobramento da hipótese levantada acima – o conceito de gêneros discursivos é pouco dominado pelos professores dos primeiros anos do Ensino Fundamental. Essa discrepância se potencializa quando são oferecidos e criados poucos espaços de troca de experiências e de reflexões coletivas entre os professores. Em outras palavras: segundo Hébrard (2000). reflexão e discussão entre os professores sobre suas práticas pedagógicas cotidianas. existe a tendência a se produzirem discursos oficiais no campo da Educação numa velocidade muito maior do que o tempo necessário para que esses discursos sejam traduzidos em práticas pedagógicas efetivas. dificilmente as práticas se modificam. a entrada recente do conceito de gêneros discursivos no Brasil faz com que. Por fim. Simone Bueno B. o qual é muito lento. conforme se ressaltou na seção anterior. Além disso. considerado de velocidade intermediária. crítica e reflexiva dos conceitos envolvidos nos discursos oficiais – como é o caso dos gêneros discursivos.

por exemplo. como visão geral da ação à qual o texto se articula.] o que nos pareceu mais saliente na leitura dos dados foi o grande número de definições de conceitos linguísticos na parte introdutória. ambas as professoras hesitaram e “engasgaram” ao pronunciar a palavra “literariedade”. e não é retomado ao longo do texto. as professoras sentiram dificuldades de compreensão principalmente na seguinte passagem. Isso significa que as professoras da pesquisa. aparece numa apresentação de apenas quatro páginas. papel fundamental. tipo de suporte comunicativo. 152). localizada na página 26 dos PCN: Pode-se ainda afirmar que a noção de gêneros refere-se a “famílias” de textos que compartilham algumas características comuns. grau de literariedade. Machado e Lousada (2010) afirmam que “a apropriação dos gêneros textuais é necessária para o desenvolvimento do professor e do seu trabalho” (MACHADO e LOUSADA. 272 Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa para o primeiro e o segundo ciclos do ensino fundamental” (SILVA. 149) Silva (2005) ainda afirma que essa falta de familiaridade com os conceitos próprios dos diversos campos da Linguística compromete a compreensão não apenas de ideias centrais postuladas pelo documento como também da terminologia secundária. o que segundo Silva (2005) indicia uma falha no processamento cognitivo responsável pela compreensão. Quanto ao tema da apropriação. p. Como certos conceitos linguísticos não são abordados pelos cursos de Pedagogia atuais (nem eram pelos extintos cursos de Magistério). 622). apud SILVA. Quanto a ele.. que é necessário tempo e ocasião para que o conceito de gêneros discursivos CORPOS .. (BRASIL. as professoras sentiram-se desamparadas diante deles: é o caso do conceito de gêneros discursivos. 2005. Dessa forma. a partir das ideias de Vygotsky. Porém. não compõem o conjunto dos conhecimentos prévios das professoras. De acordo com a autora. a autora conclui que muitas das dificuldades de compreensão das professoras citadas devem-se à profusão de termos próprios à área da Linguística na parte introdutória do documento. (SILVA. 143-4). que podem representar um público muito mais amplo. p. no texto. pp. 2005. p. conclui a autora: [. devido à falha de compreensão dos termos utilizados pelos PCN. por exemplo. portanto. ou seja. Silva (2005) finaliza seu artigo destacando a pouca atenção que é dada aos conceitos linguísticos ao longo de todo o documento. extensão. 2005. 2010. até mesmo no momento de realizar a leitura em voz alta dessa passagem. juntamente com tantos outros conceitos. existindo em número quase ilimitado. embora heterogêneas. O conceito de gêneros discursivos. as autoras defendem. 1997. o que exige do leitor maior familiaridade com uma área da linguagem que não faz parte dos cursos de Pedagogia e Magistério por meio dos quais foram formadas as alfabetizadoras e. palavras que não teriam