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GRUPO DE ESTUDOS BAKHTINIANOS [GRUBAKH

]
DAS RESISTÊNCIAS À
ESCATOLOGIA POLÍTICA:
risos, corpos e narrativas enunciando uma ciência outra

2

POLIFONIA
RISO
CORPOS
NARRATIVAS

OUTRO
HETEROCIÊNCIA
UNICAMP
IDEOLOGIA
GRUBAKH

GRUPO DE ESTUDOS BAKHTINIANOS
[GRUBAKH]

IV ENCONTRO DE ESTUDOS
BAKHTINIANOS
[EEBA]

DAS RESISTÊNCIAS À
ESCATOLOGIA POLÍTICA:
risos, corpos e narrativas enunciando
uma ciência outra

De 16 a 18 de novembro de 2017

Campinas
SP

Copyright © dos autores

Todos os direitos garantidos. Qualquer parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida ou
arquivada, desde que levados em conta os direitos dos autores.

GRUPO DE ESTUDOS BAKHTINIANOS [GRUBAKH]

IV ENCONTRO DE ESTUDOS BAKHTINIANOS [EEBA]: DAS RESISTÊNCIAS À ESCATOLOGIA POLÍTICA:
risos, corpos e narrativas enunciando uma ciência outra. São Carlos: Pedro & João Editores, 2017.
1433 p.

ISBN 978-85-7993-464-3

1. Mikhail Bakhtin. 2. Corpos. 3. Heterociência. 4. Narrativas. 5. Riso. 6. Organizador. 7. Autores. I.
Título.
CDD 400
Capa e Diagramação: Hélio Pajeú
Editores: Pedro Amaro de Moura Brito & João Rodrigo de Moura Brito.
Conselho Científico
Augusto Ponzio (Bari/Itália); João Wanderley Geraldi (Unicamp/Brasil); Nair F. Gurgel do Amaral
(UNIR/Brasil) Maria Isabel de Moura (UFSCar/Brasil); Maria da Piedade Resende da Costa
(UFSCar/Brasil).

SUMÁRIO
COMITÊ CIENTÍFICO ........................................................................................................... 4
ORGANIZAÇÃO .................................................................................................................... 5
HISTÓRICO ........................................................................................................................... 6
APRESENTAÇÃO ............................................................................................................... 10
EIXOS TEMÁTICOS ........................................................................................................... 12
PROGRAMAÇÃO ................................................................................................................ 14
GRUBAKH ........................................................................................................................... 16
RODAS DE CONVERSA ................................................................................................... 17

SUMÁRIO

COMITÊ CIENTÍFICO
Prof. Dr. Adail Sobral (UCPel)
Prof. Dr. Augusto Ponzio (UB, Itália)
Prof. Dr. Clécio Buzen (UFPE)
Prof.Dr. Carlos Roberto de Carvalho (UFRRJ)
Prof. Dr. Geraldo Tadeu de Souza (UFSCar)
Prof. Dr. Guilherme do Val Toledo Prado (UNICAMP)
Prof. Dr. Hélio Pajeú (UFPE)
Prof. Dr. Jader Janer Moreira Lopes (UFJF; UFF)
Prof. Dr. João Vianney Cavalcanti Nuto (UNB)
Prof. Dr. José Radamés Benevides de Melo (IF Baiano – Senhor do Confim)
Prof. Dr. Luciano Novaes Vidon (UFES)
Prof. Dr. Luciano Ponzio (Università di Salento – Lecce – Itália)
Prof. Dr. Marcus Vinicius Borges Oliveira (UFBA)
Prof. Dr. Valdemir Miotello (UFSCar)
Profa. Dra. Adriana Stella Pierini (UNIAraras)
Profa. Dra. Adriane Melo De Castro Menezes (UFRR)
Profa. Dra. Aline Manfrim (UNIFRAN)
Profa. Dra. Ana Beatriz Dias (UFFS)
Profa. Dra. Ana Cristina Guarinello (Universidade Tuiuti do Paraná)
Profa. Dra. Ana Paula Berberian Vieira da Silva (Universidade Tuiuti do Paraná)
Profa. Dra. Camila Caracelli Scherma (UFFS)
Profa. Dra. Carmen Lúcia Vidal Pérez (UFF)
Profa. Dra. Cecilia Maria Aldigueri Goulart (UFF)
Profa. Dra. Claudia Roberta Ferreira (Fundação Bradesco)
Profa. Dra. Inez Helena Muniz Garcia (UFF)
Profa. Dra. Liana Arrais Serodio (UNICAMP)
Profa. Dra. Ludmila Thomé de Andrade
Profa. Dra. Magda de Souza Chagas(UFF)
Profa. Dra. Maria Isabel de Moura (UFSCar)
Profa. Dra. Maria Tereza de Assunção Freitas (UFJF)
Profa. Dra. Marina Célia Mendonça (UNESP-Ribeirão Preto)
Profa. Dra. Marisol Barenco de Mello (UFF)
Profa. Dra. Marissol Prezotto (IBFE)
Profa. Dra. Nara Caetano Rodrigues (UFSC)
Profa. Dra. Nelita Bortolotto (UFSC)
Profa. Dra. Patricia Corsino (UFRJ)
Profa. Dra. Patrícia Zaczuk Bassinello (UFMS)
Profa. Dra. Rosa Maria de Souza Brasil (UFPA)
Profa. Dra. Rosana Novaes (UNICAMP)
Profa. Dra. Rosangela Ferreira de Carvalho Borges (UFSCar)
Profa. Dra. Susan Petrilli (UniBa, Itália)

COMITÊ CIENTÍFICO

ORGANIZAÇÃO
COMISSÃO ORGANIZADORA

Prof. Guilherme do Val Toledo Prado
Profa. Heloísa Helena Dias Martins Proença
Prof. Hélio Márcio Pajeú
Profa. Liana Arrais Serodio
Prof. Ruy Braz da Silva Filho
Profa. Vanessa França Simas

COMISSÃO DE APOIO

Profa. Adriana Stella Pierini
Profa. Ana Cristina Libânio
Profa. Andréia da Silva Ubaldo
Prof. Fernando Cardoso da Silva
Prof. Gabriel da Costa Spolaor
Profa. Grace Caroline Buldrin Chautz
Profa. Idelvandre Vilas Boas de Santana Santos
Profa. Luciane Martins Salado
Profa. Márcia Alexandra Leardine
Prof. Marcos Donizetti Forner Leme
Profa. Maria Irma Chahine Gallo
Profa. Marissol Prezotto
Profa. Nara Caetano Rodrigues
Profa. Neiva de Souza Boeno
Profa. Simone Campana
Profa. Viviane Cristina de Mendonça

ORGANIZAÇÃO

HISTÓRICO
O
EEBA faz parte de um movimento iniciado em 2008, com a criação do CÍRCULO – Rodas
de Conversa Bakhtiniana – pelo Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso na
Universidade Federal de São Carlos (GEGe/UFSCar), coordenado pelo professor
Valdemir Miotello, grande responsável pela ampliação dos grupos de estudos bakhtinianos no
Brasil e pelo contato deste com pensadores do exterior. O EEBA tem seu histórico vinculado
aos encontros do CÍRCULO, realizados anualmente de 2008 a 2010 e bienalmente a partir de
2012 na UFSCar . O EEBA inaugura seu trabalho a partir de 2011 e acontece bienalmente, em
sede itinerante, de maneira alternada com o CÍRCULO. Também os encontros do CÍRCULO
passaram a mudar seu endereço desde 2016, tendo a primeira edição fora da cidade de
origem (São Carlos – SP), em Recife e Olinda/Pernambuco.

I CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana aconteceu na Universidade Federal de São
Carlos, de 07 a 09 de novembro de 2008, para Comemoração do Aniversário de Nascimento de
Mikhail Bakhtin e discutiu o(s) Círculo(s) de Bakhtin, seus temas, suas filosofias, suas teorias,
suas preocupações, trazendo à baila a atualidade dos estudos bakhtinianos no Brasil. O sucesso
do I CÍRCULO foi garantido pela participação ativa dos 180 estudiosos, de todos os níveis de
formação, que se inscreveram com o objetivo de discutir variados temas que constituem a
teoria de Bakhtin e do Círculo a partir do ponto de vista singular de cada um. Deste modo, as
rodas foram organizadas com as seguintes temáticas: “Bakhtin e a dialogia”; “Bakhtin e a
ideologia”; “Bakhtin e os gêneros do discurso”; “Bakhtin e a subjetividade”; “Bakhtin e estética”;
“Bakhtin e a autoria e estilo”; “Bakhtin e cultura”; “Bakhtin e o marxismo”; “Bakhtin e
carnavalização”; “Bakhtin e o Círculo de Bakhtin”; “Bakhtin e a educação”; “Bakhtin e o
humanismo”; “Bakhtin e a mídia”; “Bakhtin e os grupos sociais”; “Bakhtin e análise do discurso”.

II CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana: “O PENSAMENTO BAKHTINIANO NA
ATUALIDADE” aconteceu de 6 e 8 de novembro de 2009, na UFSCar, e manteve seu formato
semelhante ao de 2008, mas com algumas pequenas alterações ponderadas pela experiência
anterior. A segunda edição teve como subtemas ou provocações para as reflexões coletivas:
“As ideologias contemporâneas com Bakhtin”; “O humano e as subjetividades na
contemporaneidade”; “A educação e dialogia na atualidade”. Em relação à edição anterior, a
inovação se constituiu a partir da produção escrita de todos os participantes do evento,
gerando o Caderno de Textos e Anotações em formato impresso, publicado pela Pedro & João
Editores, com ISBN e disponibilizado para os conversadores.

III CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana: "BAKHTIN E A ATIVIDADE ESTÉTICA: NOVOS
CAMINHOS PARA A ÉTICA", em 2010, marca a decisão pelo GEGe de que o evento seria realizado
a cada dois anos e, deste modo, foi criado o Encontro de Estudos Bakhtinianos (EEBA), como evento
itinerante, a ser promovido por outras instituições, acontecendo de modo intercalado com o Círculo –

HISTÓRICO

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Rodas de Conversa Bakhtiniana (CÍRCULO), contemplando de maneiras outras as pesquisas e
pensamentos do que hoje chamamos de Círculo de Bakhtin e os estudos bakhtinianos da atualidade do
Brasil e do exterior. Na ocasião, o evento contou com a presença dos professores comentadores e
dos professores Augusto Ponzio e Susan Petrilli da Universidade de Estudos de Bari, Itália, para
compor as Grandes Arenas e, a partir de então, se formou um intercâmbio significativo com as
pesquisas da atualidade italiana marcadas por diferentes perspectivas (dentre elas a Semiótica,
Análise do Discurso, Sociolinguística). O tema principal, no intento de ‘intercruzar’ a esfera estética
com a ética, a partir das imagens e da corporeidade que materializam os discursos se traduziu nos
subtemas: “A estética contemporânea sob o signo das imagens” e “A corporeidade e as exigências
estéticas nas relações no contemporâneo”.

I EEBA: “A RESPONSIVIDADE BAKHTINIANA” realizou-se de 4 a 6 de novembro de 2011, na
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), coordenado pela Profa. Maria Teresa de Assunção
Freitas, uma das pioneiras a estudar o pensamento de Mikhail Bakhtin no Brasil, com os textos
produzidos segundo três sub-temas, [que organizam sua] cuja disponibilização foi organizada na
internet por meio de um blog, denominado Textos do I Encontro de Estudos Bakhtinianos – EEBA,
disponíveis em <http://textoseeba.blogspot.com.br/> e divididos segundo os motivos: (1) “Educação
como Resposta Responsável”, (2) “O Contemplador: vivências estéticas e responsividade” e (3)
“Política como Ação Responsiva”.

IV CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana: “NOSSO ATO RESPONSÁVEL”, de 15 e 17 de novembro de
2012, já bienal, aconteceu com poucas modificações no que se refere à versão anterior. O foco geral do
evento girou em torno do "Para uma filosofia do Ato responsável”, obra de Bakhtin publicada no Brasil
pela Pedro & João Editores em 2010, que deu o tom às conversas nas 10 Rodas de Conversa e nas três
Arenas Bakhtinianas constituídas pelos 230 inscritos. Essa edição do evento foi pensada para produzir
conversas que se interligassem a partir de um grande tema e dos eixos: "Sujeito contemporâneo no
mundo contemporâneo”; “Mídia como lugar das novas estéticas”; “Ato político como ato responsável”. As
Arenas tomaram forma debaixo de uma Tenda de Circo sob a responsabilidade do Prof. José Kuiava
(UNIOESTE), “LENDO O HOMEM E O MUNDO”; Prof. Leonardo Andrade (UFSCar) “MOENDO A MÍDIA” e Prof.
João Wanderley Geraldi (UNICAMP), “RESPONDENDO POR MIM MESMO”.

II EEBA: “VIDA, CULTURA E ALTERIDADE”, em 2013, [reuniu] desenvolveu sua temática em três eixos,
“A vida e as esferas culturais”; “Cultura e alteridade”; “Linguagem, educação e ética”. Foi organizado,
em conjunto, pelo Grupo de Estudos Bakhtinianos (GEBAKH), coordenado pelo Prof. Luciano Novaes
Vidon, do Programa de Pós-Graduação em Linguística, e pelo NEPALES (Núcleo de Estudos e Pesquisas
em Alfabetização, Leitura e Escrita), coordenado pela Profa. Cláudia Gontijo, do Programa de Pós-
Graduação em Educação, ambos da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). São as áreas de

HISTÓRICO

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Linguagem e Educação em diálogo com o pensamento de Bakhtin e seu Círculo dentro do atual círculo
bakhtiniano que se formam nessa sequência de eventos. Os cadernos gerados na produção dos textos
dos inscritos estão disponíveis em <https://2eeba.wordpress.com/cadernos-do-ii-eeba/>.

V CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana: “PRAÇA PÚBLICA. MULTIDÃO. REVOLUÇÃO. UTOPIA”, de
13 a 15 de novembro de 2014, aconteceu em São Carlos e reuniu 200 conversadores. Com o tema
central se quis aprofundar a compreensão dos trabalhos bakhtinianos: “Estética da Criação Verbal”,
“Marxismo e filosofia da linguagem”, sobretudo, “A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento
– o contexto de François Rabelais” e “A construção da Enunciação e outros ensaios”. A estrutura
seguiu a dos anos anteriores, com três Arenas e três sessões de Rodas de Conversa.

III EEBA: “AMORIZAÇÃO: PORQUE FALAR DE AMOR É UM ATO REVOLUCIONÁRIO”, de 16 a 18 de
novembro de 2015, foi realizado pelo Grupo ATOS, na Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói,
Campus do Gragoatá. O encontro com os convidados foi disparador para o encontro nas Rodas de
Conversas com retomada das discussões nos encontros seguintes. Em forma de Arena, o primeiro
encontro foi com os professores Augusto Ponzio (UNIBA-Itália) e Wanderley Geraldi (UNICAMP) com o
tema “Amorização”; o segundo, também em Arena, com a profa. Susan Petrilli (UNIBA-Itália) e o prof.
Luciano Ponzio (UNISA-Lecce) com o tema “Da prosa da vida e da responsabilidade na arte”; Valdemir
Miotello (UFSCar) e Geraldo Tadeu Souza (UFSCar) com o tema “Amorização e as festas de
renovação”; prof. Guilherme do Val Toledo Prado (UNICAMP) e a profa. Nara Caetano Rodrigues (UFSC),
“Heterociência, uma ciência outra”. Depois das apresentações dos convidados, dividiram-se os
participantes em oito grupos que trataram o mesmo tema simultaneamente, cada um com ao menos
dois comentadores para tratar sobre o tema central e seus desdobramentos na cultura, na vida e no
conhecimento. Ao todo foram Quatro Encontros Dialógicos. O caderno de textos está disponível em:
http://eeba.qlix.com.br/ebook.html

VI CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana: “LITERATURA, CIDADE E CULTURA POPULAR”, de 07 a
09 de novembro de 2016, em Pernambuco e Olinda, no Centro de Artes e Comunicação da
Universidade Federal de Pernambuco. Essa edição foi carinhosamente organizada pelo Laboratório de
Investigações Bakhtinianas Relacionadas à Cultura e Informação (LIBRE-CI/DCI/UFPE) em parceria
com o Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso (GEGe/DL/UFSCar). Como de costume, as
conversas das Rodas e Arenas giraram em torno de um tema central esmiuçado nos seguintes eixos:
“A literatura na estética do cotidiano”; “O orbe estético como materialização da ética”; A cidade como
lugar de constituição dos atos dialógicos; “Os espaços públicos na produção de sentidos e lutas
ideológicas”; “As festas populares de renovação da vida”; “A cultura popular singularizada na
concretude do existir”. Todos os textos dos inscritos, de todos os CÍRCULOS, podem ser encontrados
reunidos em: <http://rodas2016.wixsite.com/rodas/edicoes-anteriores>. Nessa edição, o aspecto

HISTÓRICO

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inovador, em relação às demais, é que foi promovido o I LITERO-RODAS, um concurso literário em
forma de poesias, contos e crônicas

HISTÓRICO

APRESENTAÇÃO
O
Grupo de Estudos Bakhtinianos (GRUBAKH), da Faculdade de Educação da UNICAMP, tem o
prazer de receber os participantes do IV EEBA – Encontro de Estudos Bakhtinianos – “Das
resistências à escatologia política: risos, corpos e narrativas enunciando uma ciência
outra”.
O EEBA, criado em 2010, chega em sua quarta edição, reafirmando a intenção de
proporcionar um encontro que promova a ampliação de conhecimentos dos estudos dos
filósofos do chamado Círculo de Bakhtin, contribuindo com a atualização das pesquisas
brasileiras e de convidados estrangeiros. O EEBA tem se fortalecido a cada encontro com a
participação de pesquisadores e profissionais de diversas áreas desde a organização à sua
efetivação.
Este evento faz parte de um movimento iniciado em 2008, com a criação do CÍRCULO –
Rodas de Conversa Bakhtiniana – pelo Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso na
Universidade Federal de São Carlos (GEGe/UFSCar), coordenado pelo professor Valdemir
Miotello, grande responsável pela ampliação dos grupos de estudos bakhtinianos no Brasil e
pelo contato deste com pensadores do exterior. O EEBA tem seu histórico vinculado aos
encontros do CÍRCULO, realizados anualmente de 2008 a 2010 e bienalmente a partir de 2012
na UFSCar . O EEBA inaugura seu trabalho a partir de 2011 e acontece bienalmente, com sede
itinerante, de maneira alternada com o CÍRCULO. Também os CÍRCULOs passaram a mudar seu
endereço desde 2016, tendo a primeira edição fora da cidade de origem (São Carlos – SP), em
Recife e Olinda/Pernambuco.

OBJETIVO

O objetivo geral do IV EEBA é reunir pesquisadores de diferentes partes do Brasil e
convidados do exterior para a reflexão em torno do tema “Das resistências à escatologia
política: risos, corpos e narrativas enunciando uma ciência outra”. Para tanto, o GRUBAKH
convida os pesquisadores, curiosos e interessados no pensamento bakhtiniano para
apresentarem suas provocações e contrapalavras nos Encontros Dialógicos, nas Arenas
Polifônicas e nas Rodas de Conversa Bakhtiniana, que constituirão a estrutura do evento.

APRESENTAÇÃO

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TEMA

As atividades que circunscreverão o IV EEBA 2017 serão em torno do tema “Resistências à
escatologia política: narrativas, corpos e risos enunciando uma ciência outra”.
Acontecimentos diversos têm gerado muita desilusão com a política que se pratica em nosso
país e ampliado a resistência contra o próprio exercício político, como ato ético de homens públicos.
No entanto, cada escolha que envolve outros é política. Quem está na academia é um agente político.
A/O profissional da educação também, circunscrito temporária e espacialmente à sala de aula, com
seus estudantes, seus colegas, sua escola, a comunidade das famílias dos seus estudantes.
Propomos pensar e produzir textos sobre algumas formas de resistir à escatologia política de
uma época em mudança, evitando que o exercício político seja interpretado em dois sentidos
igualmente perigosos: como “juízo final”e como algo a se repudiar, um dejeto. Tomamos as
manifestações humanas narrativas, corporais ou risíveis como formas de resistência à escatologia
política a fim de evitar o esvaziamento do interesse político da sociedade, além de serem modos que
enunciam uma outra ciência, uma ciência do singular, de caráter heterocientífico. Propõe-se um
evento em que o pensamento científico nas ciências humanas se produza em relação com os sujeitos
dialógicos, constituindo também reflexões que se materializarão em dissertações, teses, artigos e
livros, além de, como produto do evento, anais publicado em forma de e-book.

APRESENTAÇÃO

EIXOS TEMÁTICOS
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CORPOS

N
esse eixo, a ideia é tratar especialmente da produção da atividade estética, com a
metáfora dos corpos sensíveis, que põem e expõem seus conhecimentos e valorações na
produção e na reprodução de si enquanto ato responsivo/responsável nos mundos da
vida e da cultura. Tratar da possibilidade de produção objetiva que caracteriza a atividade
estética em geral, na cultura popular das modas, das tatuagens, das tribos, dos corpos
expostos na internet em redes sociais, do grotesco dos corpos transformados ou em
transformação na vida, no cinema de ficção, na literatura, na música, nas práticas corporais,
nos movimentos Hip-hop, nos grafites, nas danças, nas percussões corporais, enfim,
corpos/gestos/atos que, em diferentes contextos, no exercício do excedente de visão, na
relação estética eu-outro, são marcados e atravessados por diversos sentidos que constituem
suas gestualidades, corporeidades e, em ato, respondem, resistem, transgridem e dialogam
com outros corpos, outras gestualidades, outros mundos.

HETEROCIÊNCIA

O
s objetos dos três eixos anteriores são vivências expressas e objetivações exteriores
que organizam e dão forma a elas definindo sua orientação. A lingüística, como campo
específico que estuda a linguagem verbal descreve o verbal mediante o verbal, porém,
também os signos não verbais podem ser descritos em signos verbais ou não verbais. Assim,
corpos, risos, narrativas são propostos como enunciados concretos com leis específicas e que
tocam milhares de linhas dialógicas vivas envoltas em consciências socioideológicas,
necessitando de uma outra ciência, como orienta Bakhtin. Nesse eixo, propõe-se fazer dessas
três formas vivenciadas de expressão – e tantas outras quanto couberem – materialidade
e/ou percurso para produção de conhecimentos, na medida em que percorrer ou transitar
por elas pode possibilitar o reconhecimento dos contextos e das relações para estudar o
mundo da vida, onde, com os outros, se produz cultura (Ciências, Filosofia, Artes,
Cotidianidades). A produção de sentidos, conhecimentos e Ciências não depende
exclusivamente da reprodutibilidade, não depende da enunciação de sujeitos que tentam em
vão se ausentar, nem das tentativas sempre frustradas e frustrantes – isso quando não
deliberadamente hipócritas – de insistir num pensamento que se espraia somente dentro de
um objetivismo abstrato ou de um subjetivismo idealista. Uma nascente heterociência pode ser
encarada como o ativismo do cognoscente e do cognoscível, a vontade de abraçar os
conhecimentos de modo conscientemente subjetivo, porém essencialmente alteritário, dinâmico e
sempre a se completar de possibilidades axiológicas e semânticas, na construção de pravdas e
questionando as istinas.

EIXOS TEMÁTICOS

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NARRATIVAS

N
esse eixo, a ideia é trabalhar o estudo de narrativas produzidas nas relações que estabelecemos
com os outros e com o mundo cultural, assim como sua importância como fonte e como meio de
produção de conhecimento. Um exemplo forte – mas nem de longe o único exemplo ou a única
possibilidade –, que cada vez mais ganha força em alguns estudos é o fato das produções narrativas
possibilitarem a inserção dos narradores no campo da filosofia da linguagem bakhtiniana. Essa
inserção é possível porque as narrativas se tornam um ato responsivo de cada sujeito em interação
com os outros e também com outras e novas teorias, que passam a ser compreendidas e fazer
sentidos na vida dos narradores. Além disso, ao narrar – pensando nos aspectos da
alteridade/interação e da continuidade, quiçá a experiência – percebe-se a possibilidade do narrador
se colocar num lugar exotópico, dando acabamento estético provisório ao vivido e vislumbrando
horizontes de possibilidades no presente orientadas pelas memórias de futuro. Diante disso, nesse
eixo, as narrativas serão postas em diálogo com as obras bakhtinianas que estudam mais
especificamente a linguagem, mas também o ato responsável/responsivo.

RISO

N
esse eixo, se propõe estudar o aspecto ético do ridículo, do grotesco, do irônico, do risível com
o outro, como forma de resistência às culturas dominantes. A transformação do que é caro e
estimado em algo que provoca o riso é por si um ato ético. Apesar da indústria cultural tentar
impor padrões, ressurgem algumas manifestações populares – como o carnaval de rua em
contraposição aos carnavais televisionados. Da mesma forma, o humor ganha força, não só como
alívio cômico às tensões do dia a dia do mundo da vida, mas também como crítica social. E, se a crítica
não vem pelo riso, vem por sua antítese complementar: o drama. A força do riso e do drama – atos
expressivos da nossa subjetividade e da nossa alteridade – dão forma à resistência contra a
institucionalidade e contra o poder monopolizante, assim como à diversidade de apropriação e
manifestação de conhecimento. É importante estudar também como novas mídias tecnológicas
desempenham o seu papel na difusão e na democratização desses atos risíveis-responsivos.

EIXOS TEMÁTICOS

PROGRAMAÇÃO
14

16/11/2017 | QUINTA-FEIRA

9h – 10h30 CREDENCIAMENTO ADunicamp

ESPETÁCULO: WWW para Freedom
Auditório da
10h30 – 11h30 Direção, Atuação e Concepção: Esio Magalhães
ADunicamp
Dramaturgia: Esio Magalhães e Tiche Vianna
Produção: Barracão Teatro
Auditório da
11h30 – 13h ABERTURA
ADunicamp

13h-14h30 ALMOÇO

1 ARENA:RISO
Salão Nobre
14h30 -16h Valdemir Miotello (UFScar) Faculdade de
Augusto Ponzio (UNIBA Itália) Educação/UNICAMP

16h CAFÉ

Salas Diversas
16h30 – 18h30 I RODA DE CONVERSA: RISO Faculdade de
Educação/UNICAMP

19h – 22h LANÇAMENTO DE LIVROS E SARAU DO EEBA Bar do Manoel

17/11/2017 | SEXTA-FEIRA
II ARENA: NARRATIVAS
Salão Nobre
9h-10h30 Luciano Ponzio (UniSal-Lecce-Italia) Faculdade de
Liana Arrais Serodio (UNICAMP) Educação/UNICAMP

10h30 CAFÉ

Salas Diversas
11h-13h II RODA DE CONVERSA: NARRATIVAS Faculdade de
Educação/UNICAMP

13h-14h30 ALMOÇO

PROGRAMAÇÃO

15

III ARENA: CORPOS
Salão Nobre
14h30-16h Faculdade de
Hélio Pajeú (UFPE)
Educação/UNICAMP
Katia Vanessa SIlvestri (UNIAraras)

16h CAFÉ Hall do Salão Nobre

16h30-18h30 III RODA DE CONVERSA: CORPOS

APRESENTAÇÃO CULTURAL Gramado do Anexo
18h30 – 19h30 Faculdade de
Bateria Alcalina Educação/UNICAMP

18/11/2017 | SÁBADO

IV ARENA: HETEROCIÊNCIA Salão Nobre
9h-10h30 Faculdade de
Adail Sobral (UCPel) Educação/UNICAMP
Guilherme Prado (UNICAMP)

10h30 CAFÉ Hall do Salão Nobre

Salas Diversas
11h-13h IV RODA DE CONVERSA: HETEROCIÊNCIA Faculdade de
Educação/UNICAMP

13h – 14h30 ALMOÇO

ENCERRAMENTO
Salão Nobre
Bakhtinian@s: próximo EEBA?
14h30 – 16h30 Faculdade de
e
Educação/UNICAMP
Uma novidade!!!!

.

PROGRAMAÇÃO

GRUBAKH
16

O
GRUBAKH (Grupo de Estudos Bakhtinianos), subgrupo do GEPEC (Grupo de Estudos e
Pesquisas em Educação Continuada) da Faculdade de Educação (FE), Universidade
Estadual de Campinas (UNICAMP) é o anfitrião do IV EEBA.
Temos imenso prazer em receber os participantes do IV EEBA – Encontro de Estudos
Bakhtinianos – “DAS RESISTÊNCIAS À ESCATOLOGIA POLÍTICA: RISOS, CORPOS E NARRATIVAS
ENUNCIANDO UMA CIÊNCIA OUTRA”.
Para que todos os participantes do IV EEBA possam saber um pouquinho de nós,
apresentamo-nos como professoras e professores atuando em diversas funções na Educação
e tomamos de nossas experiências da práxis pedagógica para produzir narrativas pedagógicas
(e as Pipocas Pedagógicas - gênero discursivo criado no GEPEC), como uma forma responsiva
de escutar os estudantes e como sua materialidade estética (que sabemos ser também
cognitiva ou epistemológica e ética) que funciona também como dado de pesquisa para as
investigações acadêmicas, mas não só, pois assumimos as narrativas também como
instrumento de formação, modo de raciocínio, como acontecimento.
Esta nossa escolha é responsiva, porém o que consideramos mais importante ressaltar nesse
momento é que, ao possibilitar aos professores uma exotopia necessária para a produção de
excedentes de visão de si com os outros e de outros consigo, as narrativas tomam do
cotidiano escolar verdades pravdas que dão a eles outra versão da verdade dita istina pelos
meios de comunicação.
Nossa produção narrativa, como instrumento de formação e de produção de
conhecimento heterocientífico, assume maior relevo neste momento em que “a política” está
na berlinda, como vilã das relações sociais, devido à luta desproporcional pela manutenção do
poder nas mãos daqueles que o detêm, criando conflitos conceituais até sobre ações
democráticas mais básicas.
Para a escolha desta temática, nos mobilizaram o reconhecimento do tema do III EEBA
– Amorização: porque falar de amor é um ato revolucionário, para a produção de
conhecimentos na escola, levando em conta a relação afetiva entre professores, seus
estudantes, especialmente como tratada em “Amorizando a pesquisa e construindo uma
heterociência” e o forte impacto do VI CÍRCULO – Rodas de Conversa Bakhtiniana: Literatura,
Cidade e Cultura Popular e seu alinhamento com a obra de Bakhtin sobre o contexto de
Rabelais dentro da cultura popular do Renascimento e da Idade Média, em relação ao contexto
sócio-político-cultural brasileiro.

CONTATO: grubakh.gepec@gmail.com

GRUBAKH

RODAS DE CONVERSA 17

corpos ......................................................................................................................................... 30

CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS E PROFESSORES INICIANTES: experiências de corpos em movimento ........................................................... 31
ARAGÃO, Janaina de Sousa ........................................................................................................................ 31
O CORPO GROTESCO E O CORPO DEFICIENTE: análise das distinções ............................................................................................ 37
BENTES, José Anchieta de Oliveira ............................................................................................................... 37
SOUZA-BENTES, Rita de Nazareth ................................................................................................................. 37
IMAGENS INTERCORPÓREAS EM “ÁGUA VIVA”, DE CLARICE LISPECTOR ........................................................................................... 44
BOENO, Neiva de Souza ............................................................................................................................. 44
ESPELHOS HUMANOS: a relação constitutiva entre os corpos dos grandes professores e os corpos dos pequenos bebês .......................... 57

BRAZ, Ruy ............................................................................................................................................. 57
SALADO, Luciane Martins ........................................................................................................................... 57
O RAP COMO PROTESTO? ANÁLISE DO “RAP REAÇA”, DE LUIZ, O VISITANTE ..................................................................................... 67

CAMPOS-TOSCANO, Ana Lúcia Furquim .......................................................................................................... 67
POESIA SLAM: voz e resistência........................................................................................................................................ 74
CASADO ALVES, Maria da Penha ................................................................................................................... 74
CORPO, FERIDO E INACABADO NA OBRA DE FRIDA KAHLO .......................................................................................................... 82
CHAGAS, Keyrla Krys Nascimento ................................................................................................................ 82
A PARTICIPAÇÃO DOS PROFESSORES E DOS JOVENS ESTUDANTES CONTRA A PEC 241/2016: uma “necessitância” de outros mundos e de outros
corpos ...................................................................................................................................................................... 87
COSTA, Deane Monteiro Vieira..................................................................................................................... 87
CORPOS: cronotopos em cotejos com uma filosofia da sensibilidade e da somaestética ................................................................... 93
COUBE, Roberta Jardim ............................................................................................................................ 93
MOVIMENTOS DE ENUNCIAÇÃO: por uma escuta do corpo da criança ......................................................................................... 101

DUARTE, Angélica .................................................................................................................................. 101
A NATUREZA BAKHTINIANA DA LITERATURA DE HILDA HILST: ou por um mundo mais bufólico! ............................................................ 106
GOMES, Francisco Alves .......................................................................................................................... 106
A RESSIGNIFICAÇÃO DA SURDEZ A PARTIR DAS PRÁTICAS DE LINGUAGEM NA CLÍNICA FONOAUDIOLÓGICA .............................................. 113
GUARINELLO, Ana Cristina ........................................................................................................................ 113
MYSTERIEUX – “SOU GAY, SOU DRAG, SOU BONITA, BEBÊ!”: a tentativa de ocultação do corpo homossexual nas relações escolares ............ 119
LEME, Marcos Donizetti Forner .................................................................................................................. 119

RODAS DE CONVERSA

18

A POBREZA EM CRONOTOPO ........................................................................................................................................... 127
MELLO, Marisol Barenco de ...................................................................................................................... 127
TATUAGEM COMO RESISTÊNCIA NAS PRÁTICAS DOCENTES ....................................................................................................... 138
MOTA, Luciana Lima da............................................................................................................................ 138
CORPO GROTESCO, CORPO POLÍTICO ................................................................................................................................ 144
NUTO, João Vianney Cavalcanti ................................................................................................................. 144
A REPRESENTAÇÃO DO CORPO NA PORNOCHANCHADA: uma análise dialógica de cartazes cinematográficos ......................................... 151

OLIVEIRA, Gilvando Alves de...................................................................................................................... 151
AS DORES DE FRIDA: hipérboles do corpo em um autorretrato ................................................................................................ 160
Oliveira, William Brenno dos Santos ........................................................................................................... 160
ENTRE O DEVER E O DEVIR: questões de escrita na perspectiva da filosofia do ato em três cenas que se completam .............................. 168
PEREIRA JÚNIOR, Tovar Nelson .................................................................................................................. 168
CACILDA .................................................................................................................................................................. 174
RODRIGUES, Rajnia de Vito Nunes............................................................................................................... 174
RODRIGUES, Giulia de Vito Nunes ............................................................................................................... 174
UMA LEITURA DA OBRA O MENINO DE VESTIDO ..................................................................................................................... 179
SANDIM, Rosiane Gonçalves dos Santos ...................................................................................................... 179
CAMARGOS, Moacir Lopes de .................................................................................................................... 179
O CORPO VALORADO EM LA MAJORITÉ OPPRIMÉE: semioses e embates ideológicos ........................................................................ 183
SANTANA, Bárbara Melissa....................................................................................................................... 183
O CABELO COMO SIGNO IDEOLÓGICO: uma leitura a partir da teoria da enunciação bakhtiniana ......................................................... 195
SILVA, Andréia Cristina Attanazio ............................................................................................................... 195
O JONGO NA EDUCAÇÃO FÍSICA: diálogo, ressignificação e resistência nos corpos em movimento ..................................................... 204
SILVA, Carolina Gonçalves da.................................................................................................................... 204
SILVA, Taynara Spulverato da ................................................................................................................... 204
A DESCOBERTA DA SEXUALIDADE: a homoafetividade nos romances ya ...................................................................................... 216

SILVA, Juan dos Santos........................................................................................................................... 216
ALVES, Maria da Penha Casado.................................................................................................................. 216
POR QUE ESCREVER, PROFESSOR?: reflexões acerca da produção de conhecimentos nas aulas de educação física ................................ 227
SPOLAOR, Gabriel da Costa ...................................................................................................................... 227
HETERODISCURSO EM ANÚNCIO: forças centrípetas e centrífugas em tensão na publicidade celebrativa ............................................. 240
VIEIRA, Tacicleide Dantas......................................................................................................................... 240
O POLÍTICO DO CORPO DE FRIDA KAHLO: um estudo dialógico. .................................................................................................. 249
WILLERS, Fernanda Franz ........................................................................................................................ 249

RODAS DE CONVERSA

19

heterociência .................................................................................................. 256

PESQUISADORA INICIANTE DEDICANDO A VIDA À ARTE E AO CONHECIMENTO.................................................................................. 257
AGUIAR, Jullie Belmonte de ...................................................................................................................... 257
A ENTRADA DO CONCEITO DE GÊNEROS DISCURSIVOS NO BRASIL: das normatizações às práticas pedagógicas ...................................... 263
BATISTA, Gilka Fornazari ......................................................................................................................... 263
FORMAÇÃO ÉTICA: produções de conhecimentos na convivência escolar .................................................................................... 276
Cardoso, Fernando ................................................................................................................................ 276
Serodio, Liana Arrais ............................................................................................................................. 276
EM BUSCA DE UMA HETEROCIÊNCIA: ética, estética e epistemologia numa perspectiva bakhtiniana das ciências humanas ........................ 287

CARVALHO, Carlos Roberto de .................................................................................................................. 287
MOTTA, Flávia Miller Naethe ...................................................................................................................... 287
UM CRONOTOPO ARTÍSTICO: por um mundo onde os muros tenham a altura de (pelo menos) duas andorinhas ...................................... 293

CONCENCIO, Márcia de Souza Menezes ........................................................................................................ 293
O GÊNERO SAMBA-EXALTAÇÃONA PERSPECTIVA BAKTINIANA .................................................................................................... 300
COSTA, Flávia Ferreira Lopes da ............................................................................................................... 300
DANTAS, Anne Michelle de Araújo .............................................................................................................. 300
FARIA, Marília Varella Bezerra de ............................................................................................................... 300
A PESQUISA DOCUMENTAL COMO ATO RESPONSÁVEL E RESPONSIVO .......................................................................................... 310
DIAS, Fabricia Pereira de Oliveira .............................................................................................................. 310
ENDLICH, Ana Paula Rocha ....................................................................................................................... 310
O ENUNCIADO COMO RECONHECIMENTO DO SER ................................................................................................................... 316
DINIZ, Magda Renata Marques ................................................................................................................... 316
MELO JÚNIOR, Orison Marden Bandeira de.................................................................................................... 316
OS EFEITOS DE SENTIDOS DA ORIENTAÇÃO PEDAGÓGICA NAS PRÁTICAS DE ENSINO DE PROFESSORAS ALFABETIZADORAS INICIANTES............. 322
ESTANISLAU, Daniele Aparecida Biondo........................................................................................................ 322
CRISTOFOLETI, Rita de Cassia ................................................................................................................... 322
AUTOR, OBRA, LEITOR E TRADUTOR: Mikhail Bakhtin e o processo de tradução de O Retábulo de Santa Joana Carolina, de Osman Lins ......... 330
FERREIRA, Cacio José ............................................................................................................................. 330
A AUDIODESCRIÇÃO COMO TRANSMISSÃO DE UM ENUNCIADO VISUAL INTERNAMENTE PERSUASIVO ...................................................... 340
GARCIA, D’aville Henrique Viana ................................................................................................................. 340
ALVES, Jefferson Fernandes..................................................................................................................... 340
LINGUAGEM E HETEROCIÊNCIA: uma janela aberta para a ideologia do cotidiano ............................................................................ 352
GIOVANI, Fabiana ................................................................................................................................... 352

RODAS DE CONVERSA

20

AS RELAÇÕES DIALÓGICAS NA CAPA DE REVISTA: a (com)posição dos elementos verbo-visuais na construção de sentido ......................... 361
HOLANDA, Maria Fabiana Medeiros de ......................................................................................................... 361
O DECOLONIALISMO ATRAVÉS DAS LINGUAGENS: discursos de reflexão ...................................................................................... 376
JANJÁCOMO, Caroline............................................................................................................................. 376
MORAES, Flávio Henrique ......................................................................................................................... 376
SANTOS, Tábita ..................................................................................................................................... 376
O PROFESSOR AUTOR: planos de trabalho e de aula .............................................................................................................. 385
LEMES, Mariana Martins .......................................................................................................................... 385
COTIDIANO ESCOLAR: meu campo de batalha ...................................................................................................................... 394
LIBÂNIO, Ana Cristina ............................................................................................................................. 394
SERODIO, Liana Arrais ............................................................................................................................ 394
A RELAÇÃO DIALÓGICA ENTRE O DISCURSO RELIGIOSO E A FORMAÇÃO TEÓRICA, IDEOLÓGICA E INDENITÁRIA DO FEMINISMO ISLÂMICO ............ 401
LIMA, Clarice da Conceição Monteiro de ....................................................................................................... 401
ARCHANJO, Renata ............................................................................................................................... 401
E-MAIL PEDAGÓGICOS: narrativas de re(existências) e insistências .......................................................................................... 409
Lucio, Elizabeth Orofino........................................................................................................................... 409
MOTTA, Flávia ....................................................................................................................................... 409
AZEVEDO, Patrícia Bastos de .................................................................................................................... 409
DIÁLOGOS COM E NA INFÂNCIA........................................................................................................................................ 419
MELLO, Marisol Barenco de ...................................................................................................................... 419
A EDUCAÇÃO COMO TERRITÓRIO DA ALTERIDADE .................................................................................................................. 427

MIRANDA, Maria Eliza .............................................................................................................................. 427
TRANSMODERNIDADE E A HETEROCIÊNCIA BAKHTINIANA NO CAMINHO DA DECOLONIALIDADE .............................................................. 444

MORAES, Flávio Henrique ......................................................................................................................... 444
REFLEXÕES SOBRE O DIÁLOGO COM E NA INFÂNCIA ............................................................................................................... 455
OLIVEIRA, Marcus Vinicius Borges .............................................................................................................. 455
BAKHTIN EM MATERIALIDADES OUTRAS: a entoação avaliativa nas produções dos fãs do seriado Sherlock ........................................... 459
PAGLIONE, Marcela Barchi ....................................................................................................................... 459
O POST NOSSO DE CADA DIA: uma análise dos enunciados concretos nas fanpages verdade sem manipulação e movimento Endireita Brasil . 467
PAZ, Morgana Lobão dos Santos ................................................................................................................ 467
O DISCURSO DO OUTRO: a ideologia do sujeito autor e heterodiscurso ...................................................................................... 476
PENHA, Dalva Teixeira da Silva .................................................................................................................. 476
PIRAJUY: experiência e escrita bakhtiniana ....................................................................................................................... 484
RODRIGUES, Giulia de Vito Nunes ............................................................................................................... 484
RODRIGUES, Rajnia de Vito Nunes............................................................................................................... 484

RODAS DE CONVERSA

21

O ATO RESPONSÁVEL DE SER PROFESSORA NO PROFLETRAS .................................................................................................... 492
RODRIGUES, Nara Caetano ....................................................................................................................... 492
REFLEXÕES PARA UMA CIÊNCIA DA SINGULARIDADE............................................................................................................... 500
SANTOS, Andréa Pessôa dos..................................................................................................................... 500
QUESTÕES METODOLÓGICAS NA PESQUISA EM CIÊNCIAS HUMANAS: interlocuções entre Bakhtin e Vygotsky .......................................... 507
SCHADEN, Érica Mancuso......................................................................................................................... 507
OMETTO, Cláudia Beatriz de Castro Nascimento ............................................................................................. 507
AMERICAN WAY OF LIFE: o homodiscurso da vida americana no Young Adult ................................................................................ 513

SILVA, Juan dos Santos........................................................................................................................... 513
CALEIDOSCÓPIO DE MIM: ciência-arte-vida ........................................................................................................................ 524
SILVA, Maria Leticia Miranda Barbosa da ..................................................................................................... 524
DIÁLOGOS POSSÍVEIS ENTRE MARÍA ZAMBRANO E MIKHAIL BAKHTIN NA BUSCA POR UMA CIÊNCIA OUTRA ............................................... 532
SIMAS, Vanessa França ........................................................................................................................... 532
“SOLO LE PIDO A DIOS”: a enunciação tonitruante do discurso de militância na canção de León Gieco ................................................ 537
SOUZA, Nathan Bastos de ........................................................................................................................ 537
A ESCUTA COMO LUGAR DE FAZER CIÊNCIA ......................................................................................................................... 548

SOUZA, Nathan Bastos de ........................................................................................................................ 548
O PROCESSO DE PRODUÇÃO DE SENTIDOS EM CRIANÇAS QUE FORAM APROVADAS NOS ANOS ESCOLARES, MAS NÃO APRENDERAM A LER E
ESCREVER ................................................................................................................................................................ 554
STEFANI, Mônika Menezes da Costa............................................................................................................. 554
CRISTOFOLETI, Rita de Cassia ................................................................................................................... 554
UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE AS IMBRICAÇÕES ENTRE ALGUMAS NOÇÕES DA TEORIA BAKHTINIANA E A NOÇÃO DE LINGUÍSTICA APLICADA NA
CONTEMPORANEIDADE ................................................................................................................................................. 561
XAVIER, Manuelly Vitória de Souza Freire ..................................................................................................... 561
LIMA, Clarice da Conceiçao Monteiro de ....................................................................................................... 561
NOVAES, Tatiani Daiana de ....................................................................................................................... 561

narrativas ................................................................................................................... 567

EDUCAÇÃO NA CIDADE E HUMANIDADES: diálogos possíveis com Bakhtin..................................................................................... 567
ADÃO, Alessandra Barbosa ...................................................................................................................... 568
CÔCO, Dilza ......................................................................................................................................... 568

RODAS DE CONVERSA

22

RELATO DE EXPERIÊNCIA: Elza Soares e Bakhtin no meio acadêmico .......................................................................................... 576
ADÃO, Alessandra Barbosa ...................................................................................................................... 576
SANTOS, Mariana Dionizio dos ................................................................................................................... 576
EM DIÁLOGO COM AS NOVAS GERAÇÕES: adolescentes e suas vivências na cibercultura ................................................................. 583
ALMEIDA JÚNIOR, Sebastião Gomes de ........................................................................................................ 583
O MERGULHO EM BAKHTIN: uma experiência epidérmica e científica no processo de autoconsciência ................................................. 599
ALMEIDA, Cleuma Maria Chaves de ............................................................................................................. 599
SENSUALIDADE VAMPIRESCA EM UMA CIDADE CHAMADA FORKS: um olhar sobre a construção erótica da personagem bella na fanfiction bloody
lips ........................................................................................................................................................................ 605
ANDRADE, Jandara Assis de Oliveira ........................................................................................................... 605
NEM SÓ DE LIVROS VIVE O CÉREBRO DO TRIO DE OURO: o florescer erótico de uma jovem bruxa na fanfiction sangue negro ..................... 614
Jandara Assis de Oliveira ANDRADE............................................................................................................ 614
CONSTRUINDO DIÁLOGOS, COMPARTILHANDO SENTIDOS: uma experiência com familiares de crianças das camadas populares .................. 624
ARAÚJO, Mairce da Silva ......................................................................................................................... 624
PESSANHA, Fabiana................................................................................................................................ 624
SALAS DE LEITURA: de como o professor se narra ............................................................................................................... 631
BAPTISTA, Karen César ........................................................................................................................... 631
FADEL, Tatiana ...................................................................................................................................... 631
MOANA, A NÃO-PRINCESA: a nova identidade feminina na disney .............................................................................................. 645
BARROS, Maria Amália Rocha Sátiro de ....................................................................................................... 645
FARIA, Marilia Varella Bezerra de ............................................................................................................... 645
O PROFESSOR E A PESQUISA: narrativas em busca de fundamentos para a prática docente ............................................................ 655

BATISTA, Angélica de Jesus ...................................................................................................................... 655
O FILHO É DA MÃE?: a maternidade e os não-lugares da mulher ............................................................................................... 669
BARBOSA, Priscilla BEZERRA ..................................................................................................................... 669
ROHEM, Clara ....................................................................................................................................... 669
POESIA COMO ATO RESPONSÁVEL DO HOMEM QUE AMA: diálogos com o filme Paterson, de Jim Jarmusch ............................................ 684
BORDE, Patrícia do Amaral....................................................................................................................... 684
SCHADE, Robert .................................................................................................................................... 684
BEBÊ FAZ ISSO !? ....................................................................................................................................................... 691
CAMPANA, Simone Ap. Ferreira ................................................................................................................. 691
HISTÓRIA, NARRATIVA, MEMÓRIA: a enunciação da enunciação como prática dialógica de resistência ................................................. 694
CAMPOS, Edson Nascimento ..................................................................................................................... 694
TIMÓTEO, Herbert de Oliveira .................................................................................................................... 694
DINIZ FILHO, Mariano Alves ....................................................................................................................... 694

RODAS DE CONVERSA

23

A POLIFONIA BAKHTINIANA NA CRÔNICA MUSICAL DE CHICO BUARQUE: ressonâncias na leitura literária .............................................. 712
CARVALHO, Letícia Queiroz de ................................................................................................................... 712
PITTA, Rodrigo Gonçalves Dias .................................................................................................................. 712
MOYOYÁ .................................................................................................................................................................. 723
CARVALHO, Miza .................................................................................................................................... 723
DISCURSO E LINGUAGEM EM MULHER NO ESPELHO ................................................................................................................ 732
CHAMPLONI, Hiolene de Jesus M. O. ............................................................................................................ 732
NARRATIVA E METANARRATIVA: no fio da conversa, um horizonte de possibilidades........................................................................ 741
Chautz, Grace Caroline Chaves Buldrin........................................................................................................ 741
O GÊNERO ENTREVISTA COMO ESTRATÉGIA DE ESTUDO SOBRE A CIDADE E SUAS RELAÇÕES COM A EDUCAÇÃO......................................... 747
CÔCO, Dilza ......................................................................................................................................... 747
SANTOS, Mariana Dionizio dos ................................................................................................................... 747
LEITE, Priscila de Souza Chisté .................................................................................................................. 747
A POSSIBILIDADE DA EMERGÊNCIA DA ALTERIDADE NA ADOLESCÊNCIA ........................................................................................ 756
FERES, Luiza Grieco ............................................................................................................................... 756
RODAS DE CONVERSA COM PROFESSORES: a escuta de si e do outro ......................................................................................... 759

FERREIRA, Luciana Haddad ....................................................................................................................... 759
ENSAIO SOBRE O COTIDIANO ESCOLAR E A CRISE DO ATO NO FAZER DO EDUCADOR ......................................................................... 767
Ferreira, Sandro de Santana .................................................................................................................... 767
UMA BRINCADEIRA DIALÓGICA EM AS AVENTURAS DE ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, DE LEWIS CARROLL ............................................ 774
FERREIRA, Vania Maria Batista .................................................................................................................. 774
LOUREIRO, Simone de Jesus da Fonseca ...................................................................................................... 774
BENTES, José Anchieta de Oliveira ............................................................................................................. 774
IDENTIDADES PLURAIS: tensões em Master of None .............................................................................................................. 783
FRANÇA, Arthur Barros de ....................................................................................................................... 783
LUGARES DE INFÂNCIAS BAIXADEIRAS NA CRONOTOPIA DE DESENHOS E PINTURAS: ensaios de uma exotopia próxima e uma geografia primeira
............................................................................................................................................................................ 794
FRANCO, José Raimundo Campelo ............................................................................................................. 794
REPRESENTAÇÃO DISSIMULADA, SINGULARIDADE E EU, PROFESSORA .......................................................................................... 806
Maria Irma Chahine GALLO ....................................................................................................................... 806
A DEFINIÇÃO DE FOTOGRAFIA NO DISCURSO DE ALUNOS DO ENSINO BÁSICO: elementos de uma pesquisa interdisciplinar em sala de aula ..... 811
GÂMBERA, José Leonardo Homem de Mello ................................................................................................... 811
A NARRATIVA COMO PRECURSORA DA LITERATURA E O PAPEL DA MEDIAÇÃO NA CONSTITUIÇÃO PESSOAL E PROFISSIONAL DO SUJEITO........... 836
GARCIA, Ana Carolina Porto...................................................................................................................... 836
OMETTO, Cláudia B. de Castro Nascimento .................................................................................................... 836

RODAS DE CONVERSA

24

ESTRATÉGIAS DE COMUNICAÇÃO USADAS POR IDOSOS NAS INTERAÇÕES SÓCIO VERBAIS ................................................................. 849
GOLINELLI, Rayssa Thayana ...................................................................................................................... 849
GUARINELLO, Ana Cristina ........................................................................................................................ 849
PAISCA, Adriele Barbosa ......................................................................................................................... 849
CONFESSO QUE VIVI: uma análise bakhtiniana dos discursos autobiográficos de Pablo Neruda ......................................................... 854

GOMES, Camilla..................................................................................................................................... 854
CORRÊA, Renata.................................................................................................................................... 854
VOZES EM CONFLITOS : diários de leituras no Ensino Fundamental ............................................................................................ 862
GOMES, Emanuele Mônica Neris ................................................................................................................ 862
HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA: as voluptuosidades de um revisor ........................................................................................... 870
GONÇALVES, Fabíola Barreto .................................................................................................................... 870
O CONTROLE EM WHITE BEAR: análise do embate nas dimensões verbivocovisuais da narrativa do episódio no seriado de Black Mirror ....... 875
GONÇALVES, Jessica de Castro ................................................................................................................. 875
SERNI, Nicole Mioni Serni......................................................................................................................... 875
A COMUNICAÇÃO SUPLEMENTAR E/OU ALTERNATIVA: a visão de professores acerca das interações estabelecidas com seus alunos com oralidade
restrita ................................................................................................................................................................... 886
KRÜGER, Simone I. ................................................................................................................................. 886
BERBERIAN, Ana Paula ............................................................................................................................ 886
13 REASONS WHY E A REPRESENTAÇÃO DO SUICÍDIO: diálogos entre o discurso da saúde e o artístico ................................................ 897
LARA, Marina Totina de Almeida ................................................................................................................. 897
CONTI, Marina Calsolari........................................................................................................................... 897
O TEMPO, O ESPAÇO, A CRIANÇA: o cronotopo da brincadeira .................................................................................................. 911
Elaine de Souza LIMA NETO ....................................................................................................................... 911
“O ESPELHO”: narrando Machado De Assis com escuta de Bakhtin ........................................................................................... 917
LOPES, Ana Lúcia Adriana Costa e .............................................................................................................. 917
LOPES, Jader Janer Moreira .................................................................................................................... 917
“EU TINHA A OBRIGAÇÃO DE FAZER POESIA ENGAJADA”: o desejo de resistir por meio da literatura .................................................... 927
MACEDO, Helton Rubiano de...................................................................................................................... 927
OCUPAÇÕES DE ESCOLAS NO RIO DE JANEIRO: um movimento de luta e resistência política em tempos escatológicos ............................. 937
Machado, Rejane Dias Corrêa ................................................................................................................... 937
.CONVERSA A DOIS: narrativas silenciadas e disputas de sentido no envelhecer ........................................................................... 940
Mazuchelli, Larissa Picinato ..................................................................................................................... 941
O QUE HÁ NO FIM DO ARCO-ÍRIS: a identidade dos novos leitores em comunidades que rediscutem as fronteiras literárias ...................... 951
MELO, Rosângela França de ...................................................................................................................... 951
UMA CONSTRUÇÃO ESTÉTICA COMO ACESSO A UM EXCEDENTE DE INTERPRETAÇÃO DA REALIDADE ....................................................... 968
MENDES, Gabriela Araujo ......................................................................................................................... 968

RODAS DE CONVERSA

25

PENSANDO AS CRIANÇAS NOS CONTEXTOS DA PESQUISA: o ato ético infantil como possibilidade para a palavra das crianças em presença ... 970
MENEZES, Flávia Maria de......................................................................................................................... 970
CRIANÇAS QUE CHEGAM: um estudo sobre refugiados ........................................................................................................... 977
MILANEZ, Fernanda de Azevedo.................................................................................................................. 977
A CONSTRUÇÃO DO ATO RESPONSIVO NA RELAÇÃO PROFESSOR ALUNO NO CONTEXTO DE UMA ESCOLA ESPECIALIZADA: a enunciação como
elemento central para a alteridade ................................................................................................................................. 981
MONTEIRO, Angélica Ferreira Bêta ............................................................................................................. 981
ARRUDA, Luciana Maria Santos de .............................................................................................................. 981
POR ENTRE NARRATIVAS, MEMÓRIAS E CONVERSAS: o que ensinam crianças na educação infantil ...................................................... 986
MORAIS, Jacqueline de Fatima dos Santos .................................................................................................... 986
FLORES, Roberta de Lima Manceira ............................................................................................................ 986
SOBRE CIDADANIA E HOSPITALIDADE: alguns fragmentos ....................................................................................................... 993
MOURA, Reginaldo Lima de ....................................................................................................................... 993
E QUANDO ELES NÃO FALAM? ....................................................................................................................................... 1002
MUNHOZ, Lucianna Magri de Melo ............................................................................................................. 1002
ENUNCIADOS DISCENTES EM UM PROJETO DE EXTENSÃO....................................................................................................... 1006
NASCIMENTO, Karoline Guimarães ............................................................................................................ 1006
DIAS, Cássia Redovalho ......................................................................................................................... 1006
VIEIRA, Maria Nilceia Andrade ................................................................................................................. 1006
O ENCONTRO COM A PESQUISA NARRATIVA: a singularidade de um modo dialógico de produção de conhecimento ................................ 1011
NOVAIS, Ruslane Marcelino de Mello Campos ............................................................................................... 1011
CÔCO, Valdete .................................................................................................................................... 1011
UM ESTUDO SOBRE DISTOPIA NO CINEMA: Star Wars é distopia ou não? ................................................................................... 1022
OLIVEIRA, Mikaela Silva de...................................................................................................................... 1022
CASADO ALVES, Maria da Penha ............................................................................................................... 1022
PARA UMA RESISTÊNCIA À ESCATOLOGIA: um olhar bakhtiniano .............................................................................................. 1028
OLIVEIRA, Rafael Junior de ..................................................................................................................... 1028
LIMA, Caroline Aparecida de ................................................................................................................... 1028
EFEITOS DE ATIVIDADES DIALOGICAS NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO ATIVO .......................................................................... 1039
PAISCA, Adriele Barbosa ....................................................................................................................... 1039
MASSI, Giselle Aparecida de Athayde ........................................................................................................ 1039
GOLINELLI, Rayssa Thayana .................................................................................................................... 1039
FEIRA E BAKHTIN: relações de vozes, de alimentos e de disputa ............................................................................................. 1050
PAULETTI, Jéssica ............................................................................................................................... 1050
DIALOGANDO COM AS PALAVRAS OUTRAS: cronotopo e extralocalizão, no contexto da descentralidade do eu ...................................... 1059
PEREIRA, Luiz Miguel ............................................................................................................................ 1059

RODAS DE CONVERSA

26

EXPERIÊNCIAS DOCENTES: por que (nos) escrevemos? ........................................................................................................ 1067
PIERINI, Adriana Stella .......................................................................................................................... 1067
PREZOTTO, Marissol ............................................................................................................................. 1067
VOZES E DISCURSOS DOS PROFESSORES DE GEOGRAFIA: um diálogo bakhtiniano ......................................................................... 1075
PRADO, Simone M. ............................................................................................................................... 1075
RESISTÊNCIA EM SALA DE AULA: a prática de uma professora ............................................................................................... 1082
PUCCI, Renata H. P. .............................................................................................................................. 1082
TRÊS GATOS, UM CACHORRO E UM PARDAL: quando a escrita encontra liberdade ........................................................................ 1087
ROHEM, Clara .................................................................................................................................... 1087
BEZERRA BARBOSA, Priscilla ................................................................................................................... 1087
CARTAZES DE MANIFESTAÇÃO: narrativas de resistência no espaço escolar sob um olhar bakhtiniano .............................................. 1097
ROHLING Nívea ................................................................................................................................... 1097
REMENCHE, Maria de Lourdes Rossi .......................................................................................................... 1097
BORTOLOTTO, Nelita ............................................................................................................................. 1097
ESTÉTICA RESISTIVA EM JOSÉ BEZERRA GOMES: a voz da tradição versus a posição particular de santos ........................................... 1111
SALES, Willame Santos de ...................................................................................................................... 1111
O QUE É INTERESSANTE?: enunciados e diálogos de uma criança e adultos sobre a produção infantil ............................................... 1120

SAMPAIO, Ana Alice Kulina Simon Esteves ................................................................................................... 1120
ALTERIDADE: saberes do encontro na cultura escolar ......................................................................................................... 1125
SANTOS, Ana Elisa A. dos ....................................................................................................................... 1125
O CARNAVAL E A PRAÇA PÚBLICA NA WEB 2.0: reflexões sobre novos modos de ser e estar na era das mídias digitais .......................... 1133
SANTOS, Gabrielle Leite dos ................................................................................................................... 1133
REFLEXOS DO VIVIDO EM OUTRO TEMPO-ESPAÇO: uma experiência da educação integral ............................................................... 1144
Idelvandre Vilas Boas S. SANTOS ............................................................................................................. 1144
NARRATIVAS LITERÁRIAS E ESCOLA: formar leitores como exercício de resistência ..................................................................... 1148
SCHEFFER, Ana Maria ........................................................................................................................... 1148
MICARELLO, Hilda ................................................................................................................................ 1148
ANÁLISE DIALÓGICA DO DISCURSO: conceitos basilares ....................................................................................................... 1160
SERRATTO, Maria Regina Franke .............................................................................................................. 1160
BERBERIAN, Ana Paula .......................................................................................................................... 1160
A CRIANÇA E A ESCOLA NUMA RELAÇÃO DE ALTERIDADE ....................................................................................................... 1167
SILVA, Eliana Rodrigues Medeiros da......................................................................................................... 1167
NA ARENA DA VIDA: meu caminho em verbo ..................................................................................................................... 1173
SILVA, Francisco Leilson da .................................................................................................................... 1173

RODAS DE CONVERSA

................................................. Cleonara Maria ............................................. 1196 CARVALHO........................................ 1272 NARRATIVAS COMO POSSIBILIDADES DE RELAÇÕES DIALÓGICAS E PRODUÇÃO DE CONHECIMENTOS ........................................................................................................................... 1218 SOUZA....................... 1218 BARBOZA............................................................................... 1258 NARRATIVAS SOBRE DIVERSIDADE SEXUAL NO ESPAÇO UNIVERSITÁRIO: apontamentos de um percurso investigativo em curso ..................................................................................................................................................................... 1296 NASCIMENTO......................................................................................................................................... 1272 VIEIRA.......... Rômulo .................................................................. Carlos Roberto de ...................... 1207 SILVA................................................................................................................................................................................................... Thais Angela ............................................................................................................................. Marco Antonio .................... S....................... 1265 DIÁLOGOS ENTRE MILITÂNCIA E EDUCAÇÃO EM UMA COMUNIDADE SEM-TERRA ............................................................................... 1265 Hamilton E.................................. 1284 O PROCESSO TERAPÊUTICO NA SINDROME DE TREACHER COLLINS A PARTIR DE UM ÓTICA DIALÓGICA ......................................................................................................................................................... 1296 RODRIGUES.................................................... Lilia de Lima . 1207 UM ENSAIO CRONOTÓPICO: o espaço-tempo de um centro de ações comunitárias ........................................................... 1246 SCHWARTZ............................ Plasa....................................... 1236 REFLEXÕES BAKHTINIANAS PARA PENSARMOS OUTROS CAMINHOS PARA AS ATIVIDADES DE INTERPRETAÇÃO/COMPREENSÃO DE TEXTOS MATERIALIZADOS NOS CADERNOS ESCOLARES ...... Rosana P....... Marcela Lemos Leal ................................... 1196 SILVA....................................... 27 ESTILO INDIVIDUAL E ESTILIZAÇÃO EM FOCO: o resgate dos contos maravilhosos pela literatura fantástica juvenil ..................... 1187 Rafael Oliveira da SILVA ............................................ 1228 O MESMO E O DIFRENTE NO MESMO LUGAR: o instituído e o instituinte no ensino de língua portuguesa ....................................................................................... Orlando Brandao Meza .................... 1246 CONSIDERAÇÕES SOBRE A TRANSPOSIÇÃO DIDÁTICA DA CANÇÃO NA ESFERA ESCOLAR DO ENSINO FUNDAMENTAL II .................................. Nikolas Bigler de ...................................... 1246 TEIXEIRA MACEDO................... Renata Rocha Grola ................................................................................ Georgete Moura ................ 1284 VIEIRA....... 1296 VILLARTA-NEDER.......................... 1284 REIS................................................ 1284 LOVATTI................................................................ 1258 UCELLA...................... 1290 ENUNCIADO CONCRETO BAKHTINIANO: resistência à narrativa da escatologia política de capas da revista Veja ........................................................ 1196 MEMORIAL ANALÍTICO-DESCRITIVO: um acabamento estético ao vivido a partir de contribuições de Pierre Bourdieu............... Andreiza Aparecida Santos . 1228 STELLA.......................... TEMPO E NARRATIVA: uma relação entre o pesquisador e o outro.... 1196 AZEVEDO.... 1218 HISTÓRIA......................................................................... Ana Lucia Gomes de ...................................................................................................................................................................................................................................................................... Maria Nilceia de Andrade .............................. 1284 CÔCO............................................................................................................................................................. Denise Lima...................................... 1296 RODAS DE CONVERSA .......................... 1290 VIEIRA..................................................................................................................................................................................................... Rute Almeida e .......................... REYES .... por meio do dialogismo de Mikhail Bakhtin e a experiência em programa de docência ....................... 1265 Claudia R............ 1236 TARDAN................................................................................................................................................................ Natália Rodrigues Silva do ............................... Valdete ........................................................................................................................................... VIEIRA ........................................... Sammia Klann .... 1187 LEITURA: abertura para o ser-no-mundo .............................

................................................................................................. Liliane Correa Mesquita .... 1395 O SITE SENSACIONALISTA E O RISO COMO ELEMENTO QUESTIONADOR DO DISCURSO MIDIÁTICO HEGEMÔNICO ............................................................................. Ana Lúcia Adriana Costa e .. 1363 FIGUEIRA.. 1311 SILVA.... 1328 ZERBINATTI......... 1363 QUANDO O RISO NÃO É REVOLUCIONÁRIO: uma análise da presença de memes em posts do blog do cursinho descomplica .................................................... Filipo................................................................ 1311 PRIMEIRAS LETRAS ................. 1311 TEIXEIRA..................................... Aline Maria Pacífico ....................................................................................... 1334 BRANCO....................................................................................................... Letícia Queiroz de ....................................... 1380 A CONTRIBUIÇÃO DO RISO CARNAVALIZANTE DO PROGRAMA GREGNEWS PARA A COMPREENSÃO DA LINGUAGEM EM MOVIMENTO E A DESCONSTRUÇÃO DE VERDADES ................... 28 A RÉPLICA DA ARTE COMO ATO RESPONSÁVEL EM RESISTÊNCIA À ESCATOLOGIA POLÍTICA .............................................................................................................................................. Ana Paula Carvalho ...... Jaqueline Araújo da ....................................................................................................................... 1355 FERREIRA. 1333 SAMBA E RESISTÊNCIA ............................................................................................................................ Marco Antonio .................................. 1400 PAULA.................................. Cleidson Frisso ...................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 1311 VILLARTA-NEDER............. 1371 Marina Totina de Almeida LARA .......................................................................................................................................................................................................................... Thaís Otani Cipolini .............................. Nanci Moreira................................................................................. 1387 MANFRIN....................... 1328 riso .......................................................................................................................... 1340 BRAZ................................................................................... 1348 FAJARDO TURBIN................................. 1400 LIMA................................................................................. 1371 DEBOCHE OU GRANDE QUADRO?: narrativas do riso enunciando uma palavra outra ................ 1380 NEVES............................................................................................................... 1340 O RISÍVEL E OS MEMES ......................................................................................................................................................................... Fernanda de Moura..... 1348 DIVAGAÇÕES SOBRE O RISO ............................... Ana Emília ......................................................................................... Rhena Raíze Peixoto de .................................................... 1380 LOPES............................................................................................................................................. Gislaine Aparecida....................... 1387 FALA QUE EU NÃO TE ESCUTO: o riso como resistência a escatologia política .......................................................................................... 1334 O CRONOTOPO BAKHTINIANO NA NARRATIVA DE GUIMARÃES ROSA: O TEMPO DO RISO EM “FAMIGERADO” ................ Danielle Bezerra de .............................................. 1395 NOGUEIRA ALCÂNTARA................................................................................ 1340 CARVALHO............................................................................... 1400 RODAS DE CONVERSA ....................................................................................................................................... 1355 A PARÓDIA ENTRE A TRANSGRESSÃO E O LIMITE ..................................

...... 1427 XAVIER............. 1408 NOÇÕES BAKHTINIANAS: problema do conteúdo................................................................................................................................................................ 1408 LEITE............ 1427 NOVAES............................................................. Giovanna Carrozzino ......................... Tatiani Daiana de ....... 1427 RODAS DE CONVERSA .... Priscila de Souza Chisté ............................................................ Manuelly Vitória de Souza Freire .......................................................................................................... 29 CARNAVALIZAÇÃO E REALISMO GROTESCO NOS QUADRINHOS DE HENFIL: o humor como resistência .................................................................. do material e da forma em um cartaz de protesto ................... 1408 WERNECK.....

corpos FORMAÇÃO DOCENTE INICIAL E CONTINUADA E CURRÍCULO .

outras histórias. também é transformador. se reinventa. RESUMO 31 Esse texto é um esboço das reflexões iniciais e interesses da autora. e que uma experiência teatral com contação de em movimento histórias pode ser percebida como um encontro repleto de processos de criação entrelaçado por procedimentos artísticos. sobre as experiências com a CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS contação de histórias e quanto. Janaina de Sousa1 outras histórias. ARAGÃO. Experiência. culturais. Sou professora de teatro e o tema corpo sempre me interessou. meu coração dispara e preciso respirar e alongar. onde o corpo. da expressão. pois a experiência de aula nunca se repete. Sou uma pessoa um pouco tímida. me faz acreditar numa pesquisa significativa uma pesquisa que dê espaço para a criação. interpretando diferentes autores e sendo dirigida por brilhantes diretores. Tanto o meu corpo. o nosso corpo se transforma. tanto para mim. Nosso corpo é sensível e está aberto ao encontro com o outro. acredito que desde sempre não queria o que todos queriam. a maioria das pessoas consegue apenas pensar em ver você em grandes palcos. como o corpo dos outros. E- mail:artejana. Professores iniciantes. outros sentidos. Contação de Histórias. E o corpo. enquanto professora. O corpo é arquivo. Outros corpos. Os encontros promovem diálogos com outros corpos. em atuações marcantes. tanto de quem conta a história. muitos colegas que estudaram comigo também pensavam apenas nesse tipo de atuação. mesmo não parecendo. e até hoje quando eu entro em cena para contar uma história meu corpo inteiro treme. me dá esperanças. Inclusive. ah o corpo. como para os alunos. seja em uma cena de improvisação teatral ou em uma contação de histórias. Percebe- se nesse momento a contação de histórias como E PROFESSORES uma experiência. e acreditar que tudo vai dar certo. como uma relação entre sujeitos possibilitada pela linguagem. Fomos "apresentados". Nesses encontros o corpo que se transforma. Bakhtin (1999. pedagógicos. O outro. outros olhares. é história. principalmente o corpo na dimensão da comunicação.com CORPOS . INTRODUÇÃO Q uando se é formada em Artes Cênicas. é e sempre será significativo. O que me motivou a fazer a faculdade foi acreditar que dar aulas de teatro. E eu. Faz tão pouco tempo que conheço o autor (março/2017). esse se transforma no que a gente quiser. Palavras-Chave: Corpo. é arte. é bicho. e mesmo assim posso dizer que ele me conforta. 1 Doutoranda em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação do Instituto de Biociências da UNESP/ Rio Claro. como o que de quem a ouve se comunica. queria mesmo era dar aulas. essa é a deixa para falar de Bakhtin.aragao@gmail. nessa prática. 2003) é o autor INICIANTES: experiências de corpos inspirador dessas reflexões e ele me faz pensar que a linguagem é tecida nas relações com os sujeitos.

que ajudam a me transformar no que eu quiser. usando acessórios cênicos para criar a ambientação cênica a fim de envolver a plateia que escuta a história de alguma forma. porque esse não da nunca para perder.394). Sem o outro o jogo teatral não acontece. a vida. pois essa sensação é uma das belezas de fazer teatro. deixando de lado os medos. EU E MEU CORPO NA CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS Assumo diversos personagens o tempo todo. minhas “caras e bocas” não negam meu pensamento e se apresentam em meu dia a dia com muita naturalidade. assim como não acontece o diálogo. provocações. imagens. a minha vem das histórias e da transformação que elas provocam em nosso corpo. dúvidas. dramática. atualmente minha orientadora e a agradeço por isso. aqui eu existo para o outro com o auxílio do outro” (BAKHTIN. Bakhtin (2003) afirma que “Os elementos de expressão (o corpo não como materialidade morta. porém sempre procurando uma relação dialógica. Essa sou eu fazendo o coelho de focinho tremelicante da História Menina Bonita do Laço de Fita (MACHADO. 2005) Fonte: arquivo pessoal. neles se cruzam e combinam duas consciências (a do eu e a do outro). Laura Noemi Chaluh. pela professora Dra. o rosto. menos o frio na barriga. às vezes como receptores passivos. Meu acessório predileto é a minha tiara da Minnie. sons. etc). os olhos. A inspiração de cada um pode vir de diferentes lugares. Adoro contar histórias e o faço através da forma teatral. as relações. 2003. Figura 1. às vezes como espectadores atentos. 32 digamos assim. p. CORPOS . e meu corpo acaba representando aquilo que sinto.

33 Em uma contação de histórias meu corpo experimenta as mais diversas sensações. E a minha assinatura é aquilo que me torna responsável: capaz de responder pelo lugar que ocupo num dado momento. vontades. criei coragem para dividir com todos vocês um pouco desse processo que está se iniciando e já borbulhando dentro de minha mente e pulsando em meu corpo e coração. enquanto professora de teatro e contadora de histórias. EXPERIÊNCIAS COM A CONTAÇÃO DE HISTÓRIAS E PROFESSORES INICIANTES Minha pesquisa de doutorado está se iniciando agora.14-15). somente eu posso assinar por e neste lugar. Gostaríamos de alguma forma de poder contribuir para a produção de 2 Falo no plural. cada gesto produzido. ele está pulsante e em movimento. o processo de criação ainda está tão no início. Preciso me apaixonar pela personagem para poder interpretar. Todas essas personagens que se apresentam na contação de histórias. em “Menina bonita do laço de fita” de Ana Maria Machado (2005). cada impostação de voz utilizada. Pois eu me abro ao outro e espero que o outro me receba de braços abertos e que assim aceite dividir essa experiência comigo. assim como com quem e como quero dividir sou eu. E o meu corpo onde fica nesse processo? Ah. questionamentos. 2003. me mostra que sou responsável pelos meus atos. ainda tremendo um pouco ao escrever esse texto. O lugar singular que eu ocupo é também o lugar da minha assinatura. por exemplo. a sensação de ansiedade quando subo no alto de uma cadeira e imagino que vou pular de um penhasco. pois é nesse encontro com o outro que eu também me construo. CORPOS . Se eu não me identifico com a história. porque suas reflexões me provocam a pensar sobre o lugar que ocupo nessa relação de encontro como outro. porque o encaminhamento da pesquisa está sendo construído junto com a minha orientadora. simples assim. cada construção inédita ou cada imitação que meu corpo apresenta. Trago as considerações de Amorim (2003) e que dizem de Bakhtin. ou ainda o sentimento de surpresa e gratidão ao encontrar o olhar do outro como um coelho de focinho tremelicante. pois quem escolhe esse repertório. e está aqui comigo. carregam muito de mim mesma. Que bom. necessidades. Sei que vou usar a minha tiara da Minnie já que é minha marca registrada. por exemplo. então esse caminho da pesquisa está ainda repleto de dúvidas. ela está sempre comigo Eu ainda estou em processo de criação/ construção/ desconstrução/ descobertas/ questionamentos. Temos2 um carinho e também uma preocupação com o processo de formação artística dos professores iniciantes. pois onde vou contar uma história. Cada encontro com o outro é um processo único e com certeza marcará minha trajetória. cada “caras e bocas” encenadas. num dado contexto (AMORIM. implica em dizer que eu assino tudo àquilo que faço ou provoco. Esse lugar que ocupo. Somente eu ocupo este lugar. não conto. Mesmo assim. pp. na história “Maria vai com as outras” de Sylvia Orthof (2008) ou de alívio quando vou cair dentro de uma piscina depois de um dia tão quente e com um cabelo tão liso. na história da “Peppa” de Silvana Rando (2009).

“[. p. viva e produtiva. problematizar. formamos uma “unidade social” e nos permitimos desenvolver um outro olhar sobre nossas próprias práticas.] um signo é um fenômeno do mundo exterior. de potencialidade corporal e verbal. a experiência com a contação de histórias está dentro de uma tendência da experiência teatral contemporânea em embaralhar teatro e vida. de olhares. da contação de histórias. mas afastadas dele. Elas não são trazidas para perto do espectador. já que cada um de nós é um sujeito único seja em sua alegria e tristeza. não com arrogância. onde o ato teatral se desenha enquanto um acontecimento. 81). nós. diferentes tipos de reflexões. e não no começo. como uma relação entre sujeitos possibilitada pela linguagem. só nele se encontra o interesse em sua forma originária. Segundo Lehmann (2007. em seu texto “O que é Teatro Épico? Um estudo sobre Brecht”. Nossa intenção é fazermos cursos de formação para discutir. sentir. Quando escolhemos trabalhar com histórias e professores iniciantes. Acontecendo assim uma troca de signos. experimentar. (está usando Para Benjamin (1994). criar. para o autor. de discursos. Dialogando com Bakhtin (1999. (BENJAMIN.. está transmitindo diferentes informações. por exemplo. o autor afirma que o teatro épico tenta modificar as relações e que o mesmo diz respeito à vida e não às teorias do teatro. 34 conhecimentos sobre a potencialidade de cada sujeito na contação de histórias na formação desses professores atentos ao seu fazer docente. movimentos. “[. risos. Pois realmente acreditamos que a experiência com contação de histórias é um caminho concreto para possibilitar essa formação e torcemos desde já que essas experiências reflitam e refratem. e na contação de histórias. espantos. transformar o corpo no que quiser. É no indivíduo que se assombra que o interesse desperta. sensibilizando os sujeitos da escola na promoção da formação integral e artística dos alunos. que aparecem as “condições”. para além dos muros da escola e do mundo encantado da contação de histórias. E só aparecem porque.. Cada contação é única.. Através de olhares. onde o corpo. vivenciar. de autoria. nós todos estamos diferentes. de corpos. todos os corpos. mesmo que a história se repita. O próprio signo e todos os seus efeitos (todas as ações.18). p. tanto de quem conta a história. histórias.. energias. O teatro épico conserva do fato de ser uma consciência incessante. Essa consciência permite-lhe ordenar experimentalmente os elementos da realidade. somos professores. é umas das características importantes do teatro pós-dramático. Essa troca de experiência e a consciência dos atos entre artistas e público.33). reações e novos signos que ele gera no meio circundante) aparecem na experiência exterior”. 1994. e estamos abertos CORPOS . mas com assombro [.. Estamos percebendo a contação de histórias como uma experiência.. o meu e o deles. p. de relações. de experiências.] teatro significa um tempo de vida em comum que atores e espectadores passam juntos no ar que respiram juntos daquele espaço em que a peça teatral e os espectadores se encontram frente a frente”. dores e amores. de símbolos. como o que de quem a ouve se comunica.]. Ele as reconhece como condições reais. e é no fim desse processo. conflitos e interesses. pretendemos perceber e provocar nesse acontecimento. como no teatro naturalista. sinais. suspiros.

por isso. Desse modo. desejante. 35 e inacabados e nesse encontro de muitas vozes e corpos são produzidos diferentes sentidos. precário. em cada contexto histórico-social diferente. ora falado.] errante. do seu reconhecimento e da sua atividade formadora”(BAKHTIN: 2003. mas que por isso mesmo. sentidos outros: “[. os sentidos sempre mudam em cada nova situação e vivência. em cada diálogo. CONSIDERAÇÕES FINAIS Dialogar com Bakhtin (1999. plural e. de partida. autores.. em cada espaço-tempo. de possibilidades.. de improvisação e interpretação e também possibilitar que surjam corpos sensíveis. 36) que: “[. os corpos estão presentes nas cenas. para terem autonomia enquanto sujeitos. vivos. por isso... E podemos concluir. culturais. de reinvenções. Corpos que levem para sala de aula a potencialidade da contação de histórias e que tanto alunos. eu enquanto sujeito percebo a minha incompletude. Ora revelado. p. para vivenciarem experiências significativas com o fazer artístico. outras histórias. e também percebo como a narração é uma forma artesanal e pessoal de comunicação. porque formador e transformador de si mesmo e dos enunciados que o fazem. em cada expressão extraverbal. necessita do outro. e também em cada grupo e em cada história. O corpo que se transforma e cria uma nova história se torna. políticos. No momento da contação de histórias. inventivo. como os professores iniciantes tenham espaço para a construção coletiva. um corpo- arquivo. CORPOS .] dos horizontes espaciais ocupados pelos sujeitos”. em cada olhar..] os sentidos dependem da situação experienciada [. no encontro da compreensão ativa entre o eu e o outro. Diferentes tipos de experiências emergem experiências que passam pela linguagem. 2003) me fez pensar que a linguagem é tecida nas relações com os sujeitos. Que esses encontros promovam diálogos com outros corpos. [. p.. podemos assim dizer. pedagógicos. ora interpretado. e que uma experiência teatral com contação de histórias pode ser percebida como um encontro repleto de processos de criação entrelaçado por procedimentos artísticos. percebo que sem o outro não adianta contar a mais linda história. experiências que tem na contação de histórias e no corpo seu ponto de encontro. As lembranças vivenciadas com a contação de histórias ficarão o tempo que cada uma quiser ou precisar.. 2013. e que. o delimitam. Essa experiência pode sim provocar muitas sensações. concretos. pode-se perceber que em todas as suas ações o corpo não é neutro: é histórico. agenciante. ora disfarçado. E ele pode ser assim... 7). e também situações dedesafios. (LEPECKI.] O corpo não é algo que se basta a si mesmo.. entendemos que os sentidos são construídos nas interlocuções. pelo sentido. reais.] Corpo é sempre corpo-arquivo. juntamente com Freitas (2003. o abrem para devires. repleto de significado. Durante a experiência com a contação de histórias. nos jogos e nas discussões. fugitivo de si mesmo e mortal [. pp-47-48). outros sentidos.

imagináveis ou não. Magia e técnica. Peppa. também é transformador. Trad. Pedro Süssekin. 4. Ciências humanas e pesquisa: Leituras de Mikhail Bakhtin. KRAMER. REREFÊNCIAS AMORIM. Maria Teresa. 7. 2003) e dizer que ele me deu esperanças em pesquisar e ele me faz acreditar que essa experiência. São Paulo: Brasiliense. é capaz também de suscitar o riso e também o choro. Walter. Planos de composição: dança. IN: DAWSEY. pela minha voz e pela minha alma. fazem emergir outros corpos e cada dia vai clareando a ideia de que essa relação única que acontece também é minha. RAPOSO. mais principalmente de se transformar. Paulo. pois passa pelo meu corpo. São Paulo: Hucitec. LEPECKI. A terra do não-lugar: Diálogos entre antropologia e performance. Maria vai com as outras. política e movimento. RANDO. ed. é arte. 2005. MACHADO. estética e epistemológica. esse encontro que acontece na contação de histórias. sensações. São Paulo: Cortez: 2003. Menina bonita do laço de fita. M.Teatro pós-dramático.quero dizer que nosso corpo tem uma potencialidade capaz de resistir a qualquer tipo de escatologia política. ____________. ORTHOF. ed. São Paulo: Martins Fontes. São Paulo: Cosac Naify. CARDOSO. A contribuição de Mikhail Bakhtin: a tripla articulação ética. Florianópolis: EDUFSC. E para finalizar. Vânia. 2009. Marília. 1999. Porque o corpo que se transforma. Ana Maria. Hans-Thies. IN: FREITAS. 2003. entre eu e o outro provocam diferentes sentidos. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo: Brinque-Book. John. trago novamente Bakhtin (1999. 1994. São Paulo: Ática. Sylvia. 36 E para-provocar. ed. de provocar outras narrativas. BAKHTIN. 2013. CORPOS . Sonia (org). arte e política. Estética da criação verbal. 7. Solange Jobim. outros corpos. Teresa. BENJAMIN. FRADIQUE. Mikhail. é bicho. outros mundos. São Paulo: Ática. 2007. é história. SOUZA. O corpo é arquivo. Silvana. LEHMANN. André. 2008. cutucar e tentar produzir sentido.

Palavras-Chave: Corpo Grotesco. ou seja:o ponto de partida dos estudos dos conceitos de “corpo grotesco” e de “corpo deficiente” baseado na diferença seja a base filosófico-metodológica prudente para a análise comparativa. RESUMO 37 Este artigo trata da comparação entre o corpo grotesco e o corpo deficiente. 3Doutor em Educação Especial. precisamos compará-los. pluralidade na unidade. Em que se distinguem? Neste sentido. que tem a marca BENTES. grotesco e signos ideológicos. a partir das O CORPO GROTESCO E O distinções entre os dois. 2004. p. normalidade.O pesquisador deve considerar que o ponto de encontro na pesquisa é a partir do outro mediado pelo objeto. Professor do PPGED-UEPA. Toma-se como principal referencia os autores docírculo de Bakhtin postas em “A cultura popular na idade média e no CORPO DEFICIENTE: análise renascimento: o contexto de François Rabelais” para entender o corpo grotesco da Idade Média e em “Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da das distinções linguagem” para trabalhar com a noção de signo ideológico. (AMORIN.Sem reconhecimento da alteridade não há objeto de pesquisa e isto faz com que toda tentativa de compreensão e de diálogo se construa sempre na referência aos limites dessa tentativa.com.br CORPOS . ali onde se admite que haverá sempre uma perda de sentido na comunicação que se constrói um objeto e que um conhecimento sobre o humano pode se dar. conforme a arquitetônica em que são usados. Análise e manejo das relações com o outro constituem. em SOUZA-BENTES. vamos seguir a orientação de Amorim (2004) quando diz que para comparar é necessário partir da diferença seja o objeto o outro ou os conceitos postos neste artigo. 28-29). Diferença no interior de uma identidade. que fazem relação como o outro.com. 1. Rita de Nazareth4 teorias e contextos distintos. INTRODUÇÃO O corpo grotesco da Idade Média e o corpo deficiente do século XXI não são os mesmos. José Anchieta de Oliveira3 histórica e a singularidade de usos diversos.O objetivo é refletir sobre conceitos. E-mail: anchieta2005@yahoo. Corpo Deficiente. Signo Ideológico. em comparação com as concepções atuais do campo dos estudos sobre a deficiência. É exatamente ali onde a impossibilidade de diálogo é reconhecida. como podemos observar: Nossa hipótese de trabalho é de que em torno da questão da alteridade se tece uma grande parte do trabalho do pesquisador.br 4Doutoranda em Filologia e Língua Portuguesa do PPG da FFLCH-USP. como corpo. E-mail:ritasbentes@yahoo. no trabalho de campo e no trabalho de escrita. o outro é ao mesmo tempo aquele que quero encontrar e aquele cuja impossibilidade de encontro integra o próprio princípio da pesquisa. um dos eixos em torno dos quais se produz o saber. A autora traz como orientação teórica nessa discussãoo movimento de alteridade que se imbrica ao movimento dialógico.do corpo marcado pela anormalidade.

o ventre. é a ambivalência daexistência humana. Bakhtin traz este sentido do corpo grotesco na “A cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rabelais” (2002). [. 270). das distinções. excretando. Eis um trecho utilizado pelo autor em sua obra. encontra-se aí a mesma lógica da inversão. parindo-parido. sendo o plano espiritual rebaixado ao plano material. aqui adotado. b) as crenças a respeito da deficiência e da normalidade. devoram. 279). enquanto aqui ela é remetida para o ventre. 2002. vem tratar sobre a compreensão topográfica do corpo que se dá na relação CORPOS . e c) os comportamentos sociais – preconceituosos. a matéria fecal e a urina. o corpo despedaçado” (p. as doenças. O CORPO GROTESCO DA IDADE MÉDIA O corpo grotesco é caracterizado por ser inacabado e dual. é eminentemente topográfico. a partir do contexto do grotesco. Esta pode ser uma razão para tratarmos dessa distinção.. O sentido do corpo grotesco representa. Esse gesto tradicional. moribundo” (p. baseada numa dialética profunda. além disso. e ele mesmo constrói outro corpo. O aspecto topográfico representado naideia do espaço corporal que se imbricam no espaço temporal. de criação.] o aspecto topográfico essencial da hierarquia corporal às avessas. os seus ditos giram em torno dos órgãos genitais. 2002b. Trataremos da conceituação e da distinção desses dois termos. pode ser usado para estabelecer a comparação a partir da diferença. 38 Ocorre que se popularizou o termo “grotesco” e nessa popularização pode alguém achar que grotesco é sinônimo de deficiente. p. São corpos comuns. discriminadores – para com as pessoas deficientes. aqui não interessa estabelecer causas. doente. em Rabelais. a palavra localiza-se na boca e no pensamento (a cabeça). Nessa obra ele esclarece como se dá a influência da cultura cômica popular na obra de François Rabelais. a inclusão social e educacional. o contato do alto com o baixo (BAKHTIN. A dualidade desse corpo está posta nas composições “fecundante-fecundado. classificações e diagnósticos dos corpos deficientes: o que interessa aqui são aspectos socioculturais. a classe social das pessoas deficientes.. essencialmente na sua relação com a cultura popular. de onde Arlequim a expulsa com uma cabeçada. o baixo ocupando o lugar do alto. que “copulam. O método comparativo. Entende-se por aspectos socioculturais a discussão a) a caracterização das pessoas como deficientes e não-deficientes. 277). o nariz e a boca. p. chute no ventre (ou no traseiro). fazem as necessidades. Em termos. Ele é sempre “um corpo em movimento e jamais está pronto nem acabado: está sempre em estado de construção. 2. esse corpo absorve o mundo e é absorvido por ele” (BAKHTIN. bebendo. abordando o aspecto topográfico para explicar a respeito do princípio da vida material e corporal. devorador-devorado. 278).

“doidos” ou quaisquer outros signos ideológicos designativos que carregam em grande parte marcas de inferioridade. 39 ambivalente entre o alto e o baixo. em uma realidade objetiva. Esses CORPOS . Tudo o que é ideológico possui uma significação: ele representa e substitui algo encontrado fora dele. 280). a roupa do avesso. segundo Davis (2006). quais os melhores termos. um instrumento de produção ou um produto de consumo — mas também. para designá-los? Essas questões podem ser respondidas por uma teoria que recebe a designação de estudos da deficiência. o padrão de corpo perfeito. a nudez ou o seminu. estão em um campo da criação ideológica e são fenômenos do mundo externo. Então o que é um corpo deficiente? E outras questões emergem:por que são deficientes? Quem os faz deficientes? Por que são usados esses termos? Se esses termos geram algum constrangimento. ao contrário desses fenômenos. as posições invertidas – de trás pra frente. na França. O corpo grotesco é característico da liberdade verbal do século XV. quando o vocabulário da vida sexual. “surdos”. Isso se associa ao contato do homem com o mundo. o vocabulário de elogio e injúria ao mesmo tempo. p. do alto para baixo. Para Bakhtin. Tudo isso como marca de uma concepção libertadora. o exagero. “paralíticos”. privilégios. em oposição ao oficial ao poder dominante e opressor do sistema feudal. a concepção de normalidade e a concepção de corpo deficiente/lesionado. ele é um signo” (VOLÓSCHINOV. 2017. 91). os signos ideológicos são: Qualquer produto ideológico é não apenas uma parte da realidade natural e social — seja ele um corpo físico. as relações grosseiras. popular. refletem e refratam uma outra realidade. “cadeirantes”.na língua inglesa. por isso. Suas características fundamentais é que são únicos e materiais. ou seja. Por essas razões. O CORPO DEFICIENTE DO SÉCULO XXI O que são pessoas deficientes? Pensamos em palavras como “cegos”. A propósito. de abolição provisória de todas as relações hierárquicas. entre os anos de 1840 e 1860. p. reflete e refrata outra realidade que se encontra fora dos seus limites. os papeis identitários invertidos. era uma “espécie de liberação temporária da verdade dominante e do regime vigente. Decorrente desses estudos surge. esses termos usados em uma situação concreta de comunicação. com o que o autor chama de “baixo” material e corporal. 8). tendo como característica marcante a dualidade dos corpos. remetem a alguma noção de anormalidade em comparação com a normalidade impositiva. designam pessoas. “dementes”. a comicidade. regras e tabus” (2002a. o comer e o beber exprimiam “uma concepção do mundo” (p. ausência e anormalidade. o local apropriado para a realização da contestação ao poder era a praça pública. 3. os objetos com outras funções. em uma relação com os estudos culturais. “esquizofrênicos”.

nos séculos XX e XXI. e até na constituição de amigos não deficientes. como afirmamos nas duas teorias. Aqueles que fogem dos “padrões”. 40 estudos passaram a regular todas as políticas públicas. Estar fora da média. 19): “No conjunto dos valores culturais que definem o indivíduo “normal”. juntamente com a constituição das nações e do Capitalismo. passaram a ser medidos. Ser deficiente. de certa forma agridem a “normalidade” e se colocam à parte da sociedade”. as diversas dimensões corporais. da caracterização dos defeitos – anormalidades. pode significar problemas sérios de aceitação nos diversos grupos sociais. DISTINÇÕES Corpo deficiente ou anormal não é sinônimo de corpo grotesco. em razão de uma característica de anormalidade estabelecida no corpo da pessoa. O surgimento do conceito de corpo normal tornou-se CORPOS . que era atribuição somente dos deuses mitológicos. fezes e imagens de raio X. Este poder é realizado pelos diagnósticos feitos com amostras de sangue. comparados: o peso. A partir disso. Compreende-se a ocorrência de episódios de discriminação. a altura. 2009. p. a acepção da palavra dizia respeito a tirar a esquadria – instrumento para traçar ângulos –. a alimentação por meio da quantidade de nutrientes a serem consumidos. os corpos. que passam a controlar e a resolver os problemas que dizem respeito ao corpo. enfim praticamente todos os aspectos da vida humana. p. estão incluídos “padrões” de beleza e estética voltados para um corpo bem-formado. do corpo passaram a ser medidos. não dos humanos viventes. dando muito poder aos médicos. e. controlados. os órgãos de locomoção. urina. ultrassonografias e com aparelhos sofisticados que utilizam radioatividade e outras formas de obtenção de filmagens. com maldade para com um indivíduo com deficiência. a beleza. sendo um termo usado por carpinteiros para traçar suas linhas perpendiculares e estabelecer o esquadro ou norma de um objeto. neste caso. os órgãos do sentido. O termo com a acepção de regulação de procedimentos ou atos. de estabelecimento de padrões. por conseguinte de definição dos defeitos ou problemas físicos ou mentais. do estabelecido como padrão acarreta discriminações. o nível de aprendizagem. Na teoria de Davis (2006) a concepção de corpo normal surgiu na modernidade. Davis (2006) relata que na Grécia antiga o que existia era a concepção de ideal. 15). Antes disso. A normalização do corpo é uma ocorrência recente da civilização. 4. decorrente da anormalidade é bastante recente em nossa sociedade ocidental. Como afirma Ribas (1985. de inteligência. com a padronização de um corpo médio. todos os atos realizados na sociedade civil implicavam o estabelecimento de padrões. "A história do corpo no século XX é a de uma medicalização sem precedentes" (MOULIN. as ocorrências de discursos e de ação que implemente um tratamento desigual.

2006. O processo de constituição da expressão corpo normal no significado que temos hoje – de sem defeitos ou problemas físicos ou mentais –. p. Por falar nisso. Passemos a estabelecer algumas distinções: O corpo grotesco. Em seu curso a expressão corpo normal abrange a mudança conceitual do vocábulo norma. 5. 6). Construir uma educação coletiva como um projeto político de oposição a qualquer forma de opressão e discriminação. de se locomover. tendo seu apogeu com o nazismo. com a formulação de que “toda a curva do sino terá sempre em suas extremidades aquelas características que se desviam da normalidade. 41 ideologia para a criação do corpo defeituoso. Cabe a nós fazer alguns indicativos para romper com atitudes preconceituosas e discriminadoras em relação às pessoas deficientes. da mescla com a natureza. 2006). incapaz de aprender. O anormal engloba toda conduta que se afasta do estabelecido culturalmente como média de atuação dos seres humanos na sociedade para uma situação determinada. Já a do corpo deficiente é de anormal. um problema médico que necessita de intervenção. por intermédio da estatística. Já a tendência do corpo deficiente é considera-lo como acabado. A instauração de novos discursos e comportamentos implica: a) Quebra dos padrões estabelecidos de beleza. da teoria da curva do sino. revertendo padrões de normalidades. O corpo grotesco está sempre em construção. analisado principalmente na obra de Bakhtin. o conceito da normal vem do conceito dos desvios ou dos extremos” (DAVIS. à visão hegemônica de como o corpo humano deve ser e ao impedimento de relacionamentos entre raças. da eugenia. de ter independência. Já o corpo grotesco é a “forma visual relacionada inversamente ao conceito de ideal”. do exagero nas dimensões corporais. CONSIDERAÇÕES FINAIS Como se pode perceber os termos grotesco e deficiente não são semelhantes. foi criado a partir da noção estatística da curva do sino. juntamente com a Eugenia e a Estatística. A ideologia dominante o caracteriza como inválido. anormal. transgressoras da ordem e costumes dominantes. CORPOS . segregando as raças que não sejam da “raça pura ariana”. Já o conceito de Normalidade foi estabelecido por volta de 1840. até chegar ao seu uso e divulgação pelo romance (DAVIS. conforme os autores estudados. com seus respectivos teóricos Quetelet. A caracterização dos corpos grotescos é como não ideal. na visão bakhtiniana foi estabelecida no século XV com ingrediente da cultura cômica popular da Idade Média. Assim. como “uma qualidade transgressiva de afirmação em sua inversão da hierarquia política” (DAVIS. ajuda e reabilitação. marcado por uma lesão.4). com as características da comicidade. Ele só alcançaria essa autonomia se por milagre ou por intervenção médica passasse a ser normal. p. portanto está inacabado. a eugenia está associada ao progresso. coma deformidade e a multiplicidade de órgãos. 2006. Galton e Grahan Bell. Gordian.

2002. 5ª ed. M. BAKHTIN. O pesquisador e seu outro: Bakhtin nas ciências humanas. 2004. Tradução de Yara Frateschi Vieira.23-91. In: BAKHTIN. São Paulo: Hucitec. suas valorações e fontes ideológicas que a defendem. p. Tradução de Yara Frateschi Vieira. REFERÊNCIAS AMORIM. considerando a deficiência e ultrapassando barreiras. In: AMORI. A cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rabelais. d) Ambientes acessíveis. e) Aceitação de outras formas do escrito. São Paulo: Editora Musa. resolver um problema imediato ou pelo menos encaminhar para a resolução. c) Uso do Braille e da descrição oral. CORPOS . Temática da alteridade. oportunizando experiências qualitativas de vida e de realização dos objetivos de vida de cada sujeito.a pessoa deficiente irá participar do seu jeito de ser dessas ocorrências. p. 2002b. 265-322. cabe a todos nós identificar o signo ideológico que está por traz das imagens de grotesco e de deficiente. 5ª ed. In: BAKHTIN. Possibilitar uma participação efetiva na sociedade. São Paulo: Hucitec. dando coerência ao texto produzido por pessoas deficientes. Introdução: apresentação do problema. M. sendo que o interlocutor deve interpretar os conteúdos. M. adaptáveis. BAKHTIN. 42 b) Uso da Libras. d) Uso do visual e da praticidade na experimentação para a compreensão de conceitos e teorias. M. amplos. M. Brasília: editora universidade de Brasília.Levar ao empoderamento. do intérprete e de todas as formas possíveis de comunicação. i) Oportunidades de participação em eventos de letramento . Por fim. para os interesses de um dominador. A imagem grotesca do corpo em Rabelais e suas fontes. que reconheça e aceite o Outro com suas especificidades e diferenças sem tentar moldá- lo. a autorrealização e ao desenvolvimento de identidades relacionais. f) Busca da comunicação e do uso de diferentes tipos de linguagens para estabelecer a interação. analisando sua origem. Considerar o letramento para além de medir as habilidades funcionais de leitura e escrita. disputando espaços. Ao colocar no debate possibilidade de posições sobre o “corpo grotesco” e o “corpo deficiente”. A cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rabelais.o importante é estabelecer a compreensão profunda do texto e utilizá-lo para realizar algo. g) Quebra de padrões elitizados e classe em todos os espaços de convivência com as diferenças. p. h) Uso funcional de textos . Brasília: editora universidade de Brasília. estamos construindo possibilidades de posicionamentos outros sem o teor de posições preconceituosas em prol de construir consciências. 1-50. passando a considerar suas implicações e suas características pessoais de se comunicar.

J.. C. MOULIN. p. VOLÓCHINOV. J. Brasiliense. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. J. Tradução. RIBAS. 43 DAVIS. CORPOS . In: CORBIN A. B. L. 2009. ed. Trad. A. Petrópolis:Vozes. The disability Studies Reader. 1985. José Anchieta de Oliveira Bentes. O corpo diante da medicina. Ensaio introdutório de Sheila Grillo. In: DAVIS. A construção da normalidade: a curva do sino. 91-102. o romance e a invenção do corpo incapacitado no século XIX. (Ed. [texto digitalizado].). V. J. História do corpo: as mutações do olhar: O século XX. COURTINE J. São Paulo: Editora 34. notas e glossário de Sheila Grillo e EkaterinaVólkova Américo. New York: Routledge. A ciência das ideologias e a filosofia da linguagem. 2017. In: VOLÓCHINOV. 2006. p. L. 3ª. O que são pessoas deficientes? São Paulo: Nova Cultural/Ed. p. 3-16. 2nd ed. V.. p. VIGARELLO G. 15-82. M.7-24.

Imagens intercorpóreas. Continuo com capacidade de raciocínio – já estudei matemática que é loucura do raciocínio – quero me alimentar diretamente da placenta. Interroga o outro e segue unido com seu interlocutor. A imagem do corpo tem papel central nessa obra literária e nos propõe não somente a temática do “corpo grotesco”. Medo do desconhecido. Bolsista CAPES/PSDE 2016-2017 na Università del Salento.em Bakhtin). Trata-se de uma escritura não reduzida ao significado semântico das palavras e apenas ao entendimento da frase. de uma “ÁGUA VIVA”. “loucura do raciocínio” (lógica abstrata – corpo fechado. Clarice Lispector. se constrói no INTERCORPÓREAS EM entrelaçamento de arte verbal que evoca imagens intercorpóreas. CORPOS . claro-escuro. Corpo. RESUMO 44 Neste texto. 9). Tenho um pouco de medo: medo ainda de me entregar pois o próximo instante é o desconhecido. Já nessa cena inicial desenhada por Lispector podemos encontrar as imagens intercorpóreas teorizadas por Bakhtin (2010).em contraposição à afiguração concreta – 5Doutoranda em Estudos da Linguagem pela Universidade Federal de Mato Grosso. “felicidade diabólica” (“morte alegre”. A escritura entrelinhar de Clarice. O próximo instante é feito por mim? Fazemo-lo juntos com a respiração. entendida como arquitetônica do dizer. “morrer de rir” . aleluia que se funde com o mais escuro uivo humano da dor de separação mas é grito de felicidade diabólica. mas LISPECTOR também o conceito de “polifonia”. E-mail: professoraneivaboeno@gmail. juntos pela respiração. elementos fundamentais da teoria bakhtiniana e pontos de partida para realizarmos nossa análise. Aleluia. de Clarice Lispector. grito eu. Toma posição. mas. segue desenvolto para desafiar-se e defender-se de si e do outro. as quais recortamos: “alegria profunda”. o topos de vida interna. Grita de felicidade. autonômo . Afirma que ninguém o prende mais. apresentamos uma leitura da obra IMAGENS Água Viva (1973). Contraste de cores em seus sentidos. E com uma desenvoltura de toureiro na arena (LISPECTOR. do devir. p. Sente a dor da separação. Neiva de Souza5 Bakhtin INTRODUÇÃO: ÁGUA VIVA É com uma alegria tão profunda. Olha-se como toureiro na arena.com. 1998. O herói-personagem está intensamente feliz. Professora de Língua Portuguesa na Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso e Secretaria Municipal de Educação de Cuiabá. É uma tal aleluia. Palavras-Chave: Água Viva. Mikhail BOENO. “uivo humano”. Está consciente e apto à abdução da matemática. DE CLARICE escritura de enunciação. em sua tese A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais (1965). em um corpo. Deseja alimentar-se da placenta. dor escura. Porque ninguém me prende mais. Tem medo. Nascimento-vida. em Lecce-Itália. “dor de separação”.

1998.materiais e imateriais. é um corpo realisticamente considerado em sua indissolúvel relação com o mundo e com outro corpo. 175). cena que novamente nos propõe a ideia do corpo não acabado. num intenso diálogo (BAKHTIN. sentimentos. aqui na obra de Lispector. temos a voz do herói que responde a si mesmo sobre como se faz o próximo instante: “fazemo-lo juntos com a respiração”. 2002). portanto. PALAVRA LITERÁRIA E CORPO GROTESCO Na vida. tudo o que faz parte da realidade material e imaterial pode se tornar signo. entendida como arquitetônica do dizer. na tessitura de Água Viva. No texto artístico. orgânicos e inorgânicos. inacabamentos. no sentido bakhtiniano. em relações interiores e exteriores. 2013. humano e animal. que podemos encontrar na escritura literária. como diz Bakhtin (2010). de Clarice Lispector. 1. Aqui não se pretende analisar a palavra “corpo” do ponto de vista literal e metonímico.. em particular. sempre partindo de um movimento bicorpóreo. Neste caso. em suma. falando do círculo bakhtiniano: “um corpo sígnico adquire um significado ‘que vai além da sua particularidade’” (BAKHTIN. p. tem o poder metafórico e a potencialidade de evocar imagens e. na “escritura entrelinhar de Clarice” (BOENO. especificadamente em Água Viva. como diz Augusto Ponzio. 2016). 45 corpo diálogico). o herói-personagem de Lispector se coloca inteiramente em relação corporal consigo mesmo e com outros corpos . podemos dizer que a escritura literária é uma “escritura ante litteram” (PONZIO. L. em uma cena plena de imagens que joga com luzes. A metáfora do corpo na escritura entrelinhar de Clarice é o signo que é mais presente nesta obra literária. do corpo consigo mesmo e com outros corpos orgânicos ou inorgânicos. A. É também com o corpo todo que pinto os meus quadros e na tela fixo o incorpóreo. “quero me alimentar diretamente da placenta” (placenta: corpo que gera outro corpo). nascimentos. CORPOS . do ser e estar no mundo da linguagem e da cultura. VOLOCHÍNOV. A palavra “corpo”. que dá o tom do saber e do sabor entre corpos diferentes. a palavra literária adquire um valor metafórico no signo do “corpo”. 1929. eu corpo-a-corpo comigo mesma (LISPECTOR. É assim que o leitor-espectador entra em relação com a escritura de Água Viva (1973). p. Ainda nesse trecho. 2017. de relações entre corpos. pp. 20). imagens de vida plena na sua ambivalente intercorporeidade. como podemos re-ler no fragmento seguinte: Escrevo-te toda inteira e sinto um sabor em ser e o sabor-a-ti é abstrato como o instante. podemos falar de palavra com valor literário e não simplesmente de palavra do ponto de vista literal. METÁFORA DO CORPO. Neste percurso de leitura e em uma primeira estratificação. mas em relação com outro corpo. obra publicada em 1973. e de um ponto de vista semântico. VOLOCHINOV. Já nesse fragmento que inicia a obra Água viva se compreende a presença do conceito de “corpo grotesco” que.10-11). apud PONZIO. medidas. ligado ao seu significado.

1990). Como se arrancasse das profundezas da terra as nodosas raízes de árvore descomunal. 2012). autosuficiente e acabado no traço que segue um contorno. multiplica a visão. como sabemos.criado por Deus come o fruto proibido da árvore da ciência. a ambivalência. escritura. e essas raízes como se fossem poderosos tentáculos como volumosos corpos nus de fortes mulheres envolvidas em serpentes e em carnais desejos de realização. o “tecido” de Lispector se faz. p. nesse fragmento. entendida no sentido de Barthes. rede sígnica). re- escrevo o texto. Sua escritura que reescreve a imagem da árvore afigurando-a como “árvore descomunal” numa “prece de missa negra” com “um pedido rastejante de amém”. “corpoescrito” (PONZIO. e tudo isso é uma prece de missa negra. É por isso. 10). em que texto. por exemplo) provocam imagens que nos ressoam. recuperam o duplo sentido. 1998. do corpo isolado. a palavra-imagem lispectoriana é dupla e reversível. 2010. de Deleuze (1998). Como dissemos. a escritura recupera a ambivalência e a percepção dupla das imagens e das palavras que não permanecem mais ligadas apenas ao significado unívoco e unidirecional. em que o primeiro casal . a raiz que vai avançando lá onde o discurso é fértil.Adão e Eva . ordinária do cotidiano possível. “escritura do corpo”.. tela. quando o linguista diz que a palavra tem pelo menos dois sentidos em um tempo só. afigurado na imagem intercorpórea de narradora-pintora-escritora em Água Viva. mas refrata a realidade dos signos “árvore” e “raízes” e direciona-os à energia pulsante de seu ato de reescrever a escritura mesma. 2002. Tudo isso pode nos remeter também à imagem bíblica do Jardim do Éden. A. é assim que te escrevo. escrevo. trabalha-se a si mesmo por meio de um entrelaçamento contínuo entre palavras e imagens. etimologicamente vindo da palavra latina ‘textus’. subvertem a visão séria. não se limita na atividade de ler o texto. a leitura é inseparável da escritura: quando leio. traduzo. declarando: “é assim que te escrevo” (LISPECTOR. 1998. As palavras de Lispector (“árvore” e “raízes”. interpreto. de um ponto de vista semiótico. no momento de entender o texto na concepção moderna do texto (segundo Barthes na obra O prazer do texto. Nesse sentido. da materialidade da língua e de toda a musicalidade de sua palavra literária. fala do movimento de escritura como atividade de pesquisa para ver (DERRIDA. significa tecido. p. do bem e do mal. na perspectiva tradicional da realidade assim como ela se representa. Assim. e um pedido rastejante de amém: porque aquilo que é ruim está desprotegido e precisa da anuência de Deus: eis a criação (LISPECTOR. fechado. não reflete. entrelinhas: onde o espaço branco da escritura é a chave de leitura). sobretudo. 46 A palavra literária. aquela que contém o conhecimento da ambivalência. 20). constrói-se lendo-o para além do corpo textual (fragmentos. em geral. Um “tecido” que subverte a transcrição em “escritura intransitiva”. 2010. em uma visão obtusa (BARTHES. segundo o livro de Gênesis. também realiza uma cena grotesca. onde. entre corpos escritos. trama. Vejamos o fragmento em que o autor-herói. 20). no sentido CORPOS . mas também o escreve. e que retoma também o conceito da metáfora do rizoma. que podemos dizer que a escritura de Lispector. monótona. p. monológica.

p. mas também de “polifonia”. Ponzio (1999. de 1999. CORPOS . Essa cena intercorpórea repropõe as temáticas bakhtinianas não somente do “corpo grotesco”. formação musical em que os músicos tocam juntos).1 Polifonia. Para o filósofo russo. A orquestra. i canguri e Dupin”. 347). um determinado elemento expressivo ao máximo das suas possibilidades. p. em particular. como momento inicial de superação dos nexos passivos e realísticos (PONZIO. A função dramatúrgica dos meios expressivos comporta uma polifonia funcional capaz de emerger. como diz A. O conceito central na pesquisa teórica e criativa de Eisenstein é aquele.pdf>. A. em seu ensaio “Ejzenstein. mas reguarda a possibilidade da obra ser discurso feito por mais vozes. a polifonia de Bakhtin é ligada ao conceito de “orquestração” aprofundada por Einsenstein no cinema. como Bakhtin (2013) a entende. em que há separação de imagem e som. como continua a explicar A. em que se demonstra a semelhança entre a polifonia bakhtiniana e a “orquestração” de Eisenstein.com/files/il_cinema_augusto_. representa o protótipo de um correto procedimento capaz de utilizar cada setor expressivo ao máximo das suas possibilidades e ao mesmo tempo se colocando em “ensemble” (termo em francês que significa “juntos”. a polifonia pode ser também concebida como alternância dos meios expressivos em função do efeito dramatúrgico.p. da sucessão de situações em que os personagens dialogam entre si. 1999. entre o conceito de “orquestração” e “polifonia”. se quer expressar. 1. é heterogeneidade de vozes e reciprocamente respeitadas. Ponzio na sua análise de construir um diálogo entre o teoria do cinema de Eisenstein e a arquitetônica estética de Bakhtin (2011). A. naquele específico momento. separação da cor de seu objeto. Para compreendermos melhor o conceito de “polifonia” é importante estabelecer uma relação entre teoria literária e cinema baseando-nos no estudo de Augusto Ponzio. I segni del corpo tra rappresentazione ed eccedenza. dedicado ao Cinema Augusto6. distintas e no mesmo tempo coordenadas através de uma inteligente “orquestração” (PONZIO. 351). disponível em: <http://www. e.. Nesse contexto. em um específico momento da realização de um discurso fílmico. 347) no início do seu ensaio. diz Einsenstein. 1999). “A separação da cor do seu objeto”. de autoria de Augusto Ponzio. não depende da quantidade de intervenções e de partes que se apresentam na obra. orquestração e visão artística A polifonia. com diversos pontos de vista ( idem. Por isso. dissolve a natural convivência 6 Sugerimos a leitura do texto: ‘Cinema Augusto’ alias ‘Cinema Ponzio’. O termo “polifonia” retoma a teoria de Bakhtin.augustoponzio. portanto. separação como momento de ruptura de mera coexistência de elementos de um fenômeno. em que esse determinado elemento resulta pertinente mais do que os outros a ser significante principal de que.. da “polifonia dramatúrgica dos meios de ação cinematográfica”. 47 de Bakhtin (2010). o caráter polilógico de uma obra literária não é dada pela presença da forma diálogo. presente no livro Fuori campo.

a passagem da imagem à música e da música a cor no cinema de Eisenstein. requerendo uma mistura e a recombinação desses elementos separados e a posição deles poderia ser invertida em um recíproca troca de lugar. diz A. pp. Ex-stasis. muda principalmente sua situação no espaço. 353-354). exagerando desmesuradamente um único de seus elementos em detrimento dos outros. A polifonia dramatúrgica. transporta-o inteiro para os infernos. e ligada a um processo gerativo com outras coisas. Voltando ao trecho em que Lispector (1998. de uma linguagem à outra. pois “tudo o que em suma prolonga o corpo. Pelo contrário. deforma as proporções espaciais do objeto. Ponzio (idem) referindo-se aos estudos de Pietro Montani sobre a obra de Eisenstein. Em suma. significa “sair fora de si”. carregando-o de novos significados. objetos autossuficientes e estáticos. p. como exemplo. mas uma espécie de objeto às avessas. E do ponto de vista do conceito de ex-stasis não existem separações e nem ligações definitivas. a negação jamais tem um caráter abstrato. põe o baixo no lugar do alto. p. o alto e o baixo. “devorador- devorado”. estão nelas fundidos e misturados em proporções variáveis” (BAKHTIN.360). pode-se individualizar uma ligação entre o conceito eisensteiniano de “ex-stasis” e o conceito bakhtiniano de “corpo grotesco”. em sentido literal. mas a interação deles. junto com outros corpos e com o mundo inteiro: todas “as imagens são bicorporais. a separação criativa é complementar à mistura carnavalesca estudada por Bakhtin (2010). 1999. criadas e que criam (“fecundante-fecundado”. as injúrias e os louvores. 20) escreve as imagens das “nodosas raízes de árvore descomunal” afigurando-as como “se fossem poderosos tentáculos como volumosos corpos nus de fortes mulheres envolvidas em serpentes”. podemos traduzi-las. reúne-o aos outros corpos ou ao mundo não-corporal” (BAKHTIN. Essa separação criativa não comporta a autonomia dos elementos separados. Para Eisenstein (PONZIO. cada coisa é vista no seu devir. p. a separação. a junção de coisas normalmente separadas e distintas. como de suas partes. está CORPOS . 2010. Em todas as imagens da festa popular. 278). e prenhes. no devir multíplice (DELEUZE. 1999). Igualmente o corpo grotesco é um corpo em devir. mas. A. como diz Bakhtin. A negação e a afirmação. 352). a “separação” é o momento necessário para cada criação artística. resultando na desvinculação do seu contexto habitual. tudo isso se encontra no conceito de Eisenstein de “ex- stasis”. O cinema tem a potencialidade de realizar ao máximo o processo de ex-stasis porque dispõe de meios expressivos e heterogêneos. como continua a dizer A. 2010. bifaciais. sensível. Ainda nessa análise. tanto do objeto inteiro. a ruptura dos nexos passivos e realísticos. indica o momento dinâmico e temporal de passagem de um registro expressivo a outro. ela é sempre afigurada. etc. p.. Porque o “corpo grotesco é um corpo em movimento”(idem). 2010. o trasseiro no lugar do dianteiro. de objeto denegrido. 277). como “excrescências e ramificações” que têm “um valor especial”. p. uma inversão carnavalesca. 48 do objeto com sua cor. jamais pronto nem acabado. Ponzio (1999. concreta. Não é o nada que se encontra por trás dela. 2010. em termos bakhtinianos. 359). A negação remaneja a imagem do objeto denegrido. lógico. (BAKHTIN. permitindo a realização do cômico na cor. p.

ele mesmo constrói outro corpo. mas inaugura um evento. Retornando ao sentido da palavra literária. uma escritura de pesquisa (DERRIDA. mas visão (ŠKLOVSKIJ. Trata-se de uma escritura que distrai a língua servil. tomando as palavras de Bakhtin: [. 348 [tradução nossa]). sai dos seus próprios limites. desenhar um outro espaço além do que é visto. [1965] 1979. isto é. diz Derrida (2010). Nessa cegueira vidente. Em síntese. portanto. p. que não se agarra antes (no sentido de apreender. como atividade que não deve ser confundida com a transcrição. como abordávamos no item anterior. desconsiderando as expectativas de cada leitor-consumidor (PONZIO. além da linha do confim. construir. em geral. esse corpo absorve o mundo e é absorvido por ele. somente daquelas coisas que saem dos limites do corpo e que conduzem ao fundo desse mesmo corpo (BACHTIN. que não sabe fazer outra coisa que não seja repetir a letra.. o texto de escritura tem duas partes. ILEGIBILIDADE E LITERARIEDADE A escritura entrelinhar de Lispector na obra Água Viva está na direção de uma escritura paradoxalmente “ilegível”. começa a construção de um outro ou segundo corpo. deitada sobre a página. 1974. 2010. Para ele. que seja encontro com os objetos como aparição. 2012). o papel importante se realiza naquelas partes. Cria um espaço novo. podemos falar de uma escritura escrevente e incisiva. mas a refrata no processo da afiguração favorecendo o movimento da escritura. como se os objetos fossem vistos por um ser de uma outra espécie. uma escritura que não coloca a mão avante. uma escritura inaugural. 2015). por se tratar daquilo que é possível entender no texto verbal porque pertence à dimensão frásica (caracterizada por dois campos de estudo: a semântica: estudo do significado das CORPOS . uma escritura de descoberta. que não seja apenas reconhecimento dos objetos. pela primeira vez (MERLEAU-PONTY. além do mundo dos objetos.. 2012). p. Somente assim. pré-escrito. naqueles lugares em que o corpo mesmo se ultrapassa.] a lógica artística da imagem grotesca ignora a superfície fechada. portanto. Escrever. significa fazer ver. 2. Aqui devemos entender a escritura. 16). como milagroso. 1984). a escritura inventa e reescreve a si mesma. pegar ou apanhar antes para se proteger) como faz o cego. superando os limites e os próprios contornos. 49 sempre em estado de criação. conforme a concepção de Barthes (1999) em pesquisa apresentada no livro Variazioni sulla scrittura. 2017). ocupa- se apenas das sobressaídas [aquilo que sai] – excrescências e brotos [aquilo que nasce. que não antecipa. Em suma. E por isso. brota] – e dos orifícios. uma escritura sem memória (SOLIMINI. uma que pode ser chamada de “consumível”. L. Uma visão que não se limita ao mundo das aparências. ela não reflete a realidade descrevendo-a. dito. uniforme e cega do corpo. uma escritura que irrompe imprevisivelmente com um desenho de uma ideia que tem a aparência de um texto escrito. prevê sem olhos. além da realidade. é uma escritura que escreve sem ver (DERRIDA.. que se mostra em seu particular movimento de abertura e escuta.

vivemos sim em um mundo de enunciações. 10). p. Sei que vou atingir o alvo (LISPECTOR. contra-ídola. Uma escritura contraluz. capturamos a percepção de escritura vidente (DERRIDA. constitui o valor adjunto de um texto de escritura. 53). O arco pode disparar a qualquer instante e atingir o alvo. univocamente determinada e definida. a parte criativa. forma). de diferir (PONZIO. CORPOS . fixa o sentido em uma unidade fechada. A legibilidade clássica institucional. Esse termo “ilegível” não significa que a escritura seja defeituosa. de transcrição como meros instrumentos mnemotécnicos. A parte humana em rigidez clássica segura o arco e flecha. da escritura que esconde. liga-a à leitura. irrepetível. e a outra. a parte enunciativa do texto que não se deixa ler uma vez por todas. de divagar. de fato. a exemplo da escritura egípcia. ilegível é diretamente proporcional ao valor artístico de uma obra que convida o leitor a uma interpretação/compreensão. Barthes (idem) fala. Como diz Bakhtin (idem). a enunciação. mas que contém a verdade da escritura (BARTHES. 1971). o conceito de ilegibilidade do texto de escritura pode ser melhor compreendido na parte em que o linguista/semiólogo francês explica-o como “opacidade gráfica”. 1999. ao contrário. 50 palavras que compõe o texto.. prega a obra ao seu significado. mesmo que se mantenha também o mesmo tom. A ilegibilidade do texto não é a parte defeituosa ou monstruosa da escritura. é um ato único. várias vezes. Voltando a Barthes (1999). podemos dizer a mesma expressão linguística. impedindo a obra de vacilar. nesse sentido. nós não vivemos em um mundo de frases. Nessa perspectiva e com o seguinte fragmento de Água Viva. p. Como exemplo de enunciação. que se pode chamar de “ilegível”. demonstrando uma inconsumibilidade do texto. porque a expressão linguística ganhará um outro sentido e um outro valor. 1995). como diz Luciano Ponzio (2005). e nem nas vezes sucessivas. em favor de uma certa “opacidade gráfica”: “a escritura é frequentemente (ou sempre?) utilizada para esconder aquilo que lhe foi confiada a mostrar” (BARTHES. interpretações. característica de uma escritura que se expõe (literalmente. 2010) que antecipa e quer ganhar também sobre a morte: Eu vou morrer: há esta tensão como a de um arco prestes a disparar a flecha. mas a segunda vez que a pronunciarmos não é mais a mesma expressão. L. de duplicar-se. 1999. 10 [tradução nossa]). fecha a obra. não é para ninguém e pode ser repetida infinitamente e não muda o seu significado. por sua vez. e a sintática: estudo da construção da frase). 1998. conteúdo) e ao mesmo tempo esconde (literariamente. cuneiforme. a uma visão obtusa do texto na direção da “significância” (espaço onde os signos estão à mercê de todos os significados possíveis). Também Bakhtin (2003) faz uma distinção entre frase e enunciação: a frase não é de ninguém. a uma leitura-escritura. a valência icônica dos signos (PEIRCE. 2005). p. que multiplica o texto em suas visões. Essa parte inconsumível. ao limite do decifrável e sacrificando a legibilidade do texto nas suas funções puramente práticas de comunicação. de gravação. em uma “leitura sempre recomeçada” (DERRIDA. como citamos anteriormente. de ressoar. Lembro- me do signo Sagitário: metade homem e metade animal.

do “invisível”. 1993). filosófica. Configura-se. no livro Icona e Raffigurazione. restringindo-a à dimensão psicológica. pois o legível. As imagens. 51 Lendo-escrevendo esse fragmento de Lispector. 1989) mirando a realidade. segundo Barthes. e tal procedimento (literariedade) envolve uma metodologia de interpretação do texto artístico a partir do seu herói (em termo bakhtiniano). enviesada. que o caráter de literariedade não se limita à Literatura. o corpo textual cria novas e contínuas relações intertextuais (KRISTEVA. 36-39). de teatro literário. afigurada. Nessa escritura se evidencia o valor literário. 2015.) (PONZIO. política. em Bakhtin (2010). significado). como já dissemos. o audível. O procedimento da autora-criadora de ver a realidade tal como se apresenta na vida se realiza na forma indireta. música literária. uma outra forma de ver (visão) a realidade do mundo e das coisas que não seja representação. Eis a metáfora corpórea da visão artística de Lispector: um “arqueiro de olho e meio” (LIVŠIC. A literariedade pode existir ou não em um texto de escritura. nós já temos na representação da “realidade” (PONZIO. colocando no jogo da escritura a relação ambivalente entre morte-vida. mas também podemos encontrar em outros textos artísticos. CORPOS . não da dimensão frásica (enunciado. etc. como declarado) em posição de atirar. a um olho e meio. portanto. concentrado. L. em Arte só o impossível se pode fazer. de 2016. defronte ao seu alvo. o dizível. não do conteúdo (do "dito". de tal forma que podemos falar de pintura literária. mas afiguração. fazendo a mira. mas da enunciação. se coloca em relação com a “realidade” afigurando-se na imagem do Signo Sagitário. em especial. trabalha. podemos compreender que o herói-personagem.. A proposta de Jakobson é inovadora (desenhada por ele nas primeiras décadas do século XX) e está em contraposição aos estudos literários anteriores que pregam à análise do conteúdo da obra literária. do “impossível” como nos apresenta L. orgânico-inorgânico. de “como dizer"). alterada. Além disso. à meia-luz. um leitor que se torna eleitor. como arqueiro (“parte humana”. 2005) com outros textos no sentido de uma compreensão responsiva de um leitor que se torna escritor. fotografia. novamente recobram o conceito de “corpo grotesco”. do “inaudível”. na direção do “ilegível” (enunciado anteriormente) e também na direção do “indizível”. 2016). humano- animal. em suas pesquisas sobre a Semiótica do Texto. mas da forma (do dizer. etc. O procedimento chamado por Jakobson de “literariedade” (valor literário) é percebido não só na arte verbal (Literatura) mas também nas outras artes não-verbais (pintura. Importante dizer. 2015). L. que tem esticada a corda do arco. dos textos artísticos. pode ser repetida infinitamente e não muda o significado). A “literariedade” é um valor adjunto de uma obra e não a podemos encontrar em todos os textos escritos. Os escritos de Jakobson sobre poética e o conceito de literariedade se entrelaçam com a concepção de compreensão responsiva dos textos complexos na teoria bakhtiniana. ou de "que coisa é"). um leitor em fábula (ECO. o possível. (PONZIO. escritura.. de soslaio. como evento irrepetível (a frase. sociológica. assim. Para ele. o visível. A escritura. como estamos desenhando. L. música. aqui. que faz escolhas.. etc. Ponzio. p. nesse fragmento.

mostrando seu caráter de inconsumibilidade. sendo uma escritura literária. resiste à “leitura definitiva” (uma vez por todas) “e definitória” (que define) (PONZIO. imagens da vida cotidiana. situações. Em suma. um modo de ver. repõe em movimento o mundo. não vemos somente a dimensão frásica. O título da obra lispectoriana. transcreve a realidade assim como ela é. E cada termo põe termo. mas introduz uma visão. de respondermos responsivamente. Uma visão obtusa de ângulo maior em referência ao ângulo agudo da Geometria. 2009). multiplica o olhar agudo. CORPOS . A IMAGEM DO CORPO A imagem do corpo afigurado na escritura entrelinhar de Clarice libera a consciência do seu próprio limite. 2017). que habitualmente... L. 2003). a ação do ler à reação do escrever (PONZIO. um ponto de vista. A língua comunicativa incorpora as palavras em termos. E com Barthes (1999). p. portanto. sugerindo-nos de introduzir na vida aquilo que nós aprendemos na Arte. obtusa .. 196). L. enquanto leitores. orgânico-inorgânico. reciprocamente envolvidas. recoloca em jogo as palavras. assim. ao contrário. A representação reflete. 2017). Portanto. Arte e vida são. literal. sabedoria-estupidez. é também metáfora de um texto que não reflete. sem acrescentar nada. é capaz de introduzir e de experimentar novos mundos possíveis ou impossíveis e a vida para ser efetivamente vida. 52 Assim. A Literatura. onde estão colocados juntos: nascimento-morte. aqui ambiguamente entendido. mas que a “língua expressiva” recupera delas o sentido duplo (uma palavra deve ter no mínimo dois sentidos) (PASOLINI. enquanto leitores. uma é responsável pela outra. L. mas que não se deixa ler uma vez por todas. dilatada. 2017.“terceiro sentido” (BARTHES. 1990). podemos dizer que um texto literário não se encontra no “dito”. uma é culpada pela outra. Bakhtin (2011) nos ensina e nos lança o desafio. de um texto que escorre. compreendemos que Lispector no seu romance não transcreve personagem. objeto de nossa análise. o texto de escritura. mas na arquitetônica do “dizer”. e não repetição de si mesma. uma escritura. sem introduzir uma nova visão na vida. Água Viva. fixo e fechado em uma visão aberta. mas que refrata. como o de Lispector. a “língua comunicativa” e “técnica” separa para realizar a representação. quando lemos um texto com valor literário. e nós. não escreve. é capaz de inverter o universo e introduzir visões (idem). não podemos parar de encontrar tudo isso na vida e finalmente ver (TODOROV. Ao contrário. visível-invisível. a palavra literária refrata. alegria-tristeza. que permite ao leitor de ser escritor. deve considerar a visão da Arte. portanto. Nessa orientação teórica. deve ver. mas produzimos imagens em uma compreensão responsiva. A escritura literária. fatos. diz muito mais do que o seu sentido declarado e literal 3. etc. segundo indicações de Artaud (PONZIO. humanidade-animalidade.

não deve ser lida fixando-se nas palavras em seu sentido semântico. a escritura de Clarice é uma escritura sem pose. 1995). encantador. o texto se torna denso. no “tempo grande” (BAKHTIN. mono- lógico. p. 15-43). podemos dizer que a palavra de Lispector em Água Viva é rica de imagem com poder literário. 2010). 44). deve escrever-se a si mesma. e onde umas não sujeitam as outras (“discurso indireto livre”. a agilidade e a fluidez são características que desafiam o peso e a pretensiosidade de um corpo fechado. 1987). 2013). 1971) capaz de previdência. em que as formas e as cores podem dialogar umas com as outras. 2011). 1990. se isso ocorrer. aqui especificadamente deitada na temática das imagens do corpo evocadas pela escritura de Água Viva. no espaço da Literatura que é o lugar propenso ao encontro. compreendemos o texto de Lispector como tecido de uma escritura onde a leveza (CALVINO. em geral. em um corpo privado. em Água Viva. L. Por isso. 2017. Dessas ressonâncias. fechado. a enunciação. que escapa à identidade”. em Bakhtin. assim como os pintores. mas afigura. Diante disso. de imagem que é “a alteridade. tal como o fragmento a seguir nos alerta: CORPOS . de forma que. os movimentos delas variam ao infinito. portanto. esse tipo de leitura decodificante mata o sentido. p. compreendemos que a característica da palavra literária. vibrações que nos atravessam e nos desafiam a prosseguirmos com a pesquisa. A imagem do corpo na escritura de Lispector. é uma imagem sem pose. 2002. deixa de ser misterioso. a valência mais criativa do signo (PEIRCE. que opera por semelhança. ensina-nos a olhar com novos olhos. 53 A escritura literária exercita uma função de despertar. metáfora da atividade da escritura que deve superar-se a si mesma. em seu significado. deve reinventar-se como escritura. a palavra lispectoriana motiva as múltiplas refrações na leitura do corpo textual da obra em referência. “como um saco furado é incapaz de contê-la” (LÉVINAS apud PONZIO. de imaginar hipóteses de mundos novos. em Barthes. A escritura literária dá a ver coisas. Sua escritura. e em especial. na altura vertiginosa de uma “escritura inaugural” (DERRIDA. músicos. em cada palavra-termo. tomadas de alguns fragmentos dessa bela obra lispectoriana. O corpo afigurado por Lispector é um corpo que se supera. é uma palavra que não representa. escultores fazem por meio do texto não-verbal. na direção da iconicidade. faz-nos ver aquilo que ninguém antes havia suficientemente prestado atenção. onde as figuras não repousam. As leis da gravidade são desconhecidas pela escritura. encerrando o texto em si mesmo. renovar-se a si mesma para colocar-se no “espaço literário” (BLANCHOT. e nesse sentido. CONSIDERAÇÕES FINAIS: ressonâncias dialógicas Finalizamos essa leitura com algumas ressonâncias dialógicas desenhadas e outras no devir. pesado e não fluido. particularmente nesta obra Água Viva. de prazer prolongado (característica do texto de prazer. e. uma escritura que coloca em jogo o corpo.

“corpo privado de tudo” (PONZIO. foi uma das bases e ponto de partida para a escrita deste texto.. incompleto e extralocalizado.scritti 1926-1930 (Coletânea composta por quatro ensaios de Bakhtin publicados em diversas revistas russas. p. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. em um corpo textual inacabado e infinito. enunciativo. 54 Não. a escritura entrelinhar de Clarice não se mostra. nesse percurso interpretativo não diz. no conceito de intercorporeidade e no conceito de “corpo carnavalesco” ou “corpo grotesco”. no período de 1926-1930). O corpo afigurado na escritura entrelinhar de Clarice é um corpo com valor literário. descrito com maestria na obra dedicada à cultura popular e a Rabelais (BAKHTIN. 1998. para fora das margens. um corpo fechado. Por isso. um corpo privado. 2002. Traduzione di Mili Romano. 21). inovador em sua tessitura e de processo contínuo e vivo. de um artifício por meio do qual surge uma realidade delicadíssima que passa a existir em mim: a transfiguração me aconteceu (LISPECTOR.M. que prefere a complexidade do dizer à simplicidade do dito (BARTHES. assim compreendida pela voz do herói-personagem no final da obra: “O que te escrevo é um ‘isto‘. 2010). O corpo textual da escritura entrelinhar de Clarice. de uma obra que traça o seu próprio modo de dizer e dizer-se na metáfora do corpo. de dialógo polifônico. ______. 2010). como dissemos. Trata-se. isto tudo não acontece em fatos reais mas sim no domínio de – de uma arte? sim. São Paulo: Hucitec. M. dialógico. 1998. Marxismo e Filosofia da Linguagem. 2011). Nessa imagem também percebemos. REFERÊNCIAS BACHTIN. VOLOCHINOV. Torino: Einaudi. intertextual. feito uma reta infinita no “tempo grande” da Literatura (BAKHTIN. 1990). A linguagem na obra Água Viva apresenta seu caráter de inacabamento. não se deixa representar. Não vai parar: continua” (LISPECTOR.M. L’Opera di Rabelais e la cultura popolare. não se redobra no seu sentido imediato e literal. M. Linguaggio e scrittura . Roma: Meltemi. mais uma vez. mas no subentendido. Tradução italiana de Luciano Ponzio. p.. por assim dizer. 2003. não se deixa consumir. que a questão do corpo é um elemento essencial em Água Viva como crítica do corpo habitualmente entendido. CORPOS . fora das delimitações. L. que encontramos na teoria bakhtiniana. BAKHTIN. dialógica. N. convida o leitor a realizar uma leitura que se torna escritura intertextual. um corpo. A afiguração nesse fragmento se dá a partir do corpo do herói-personagem e de onde emiti sua posição crítica. para além da letra. aos cuidados de Augusto Ponzio. V. a qual. mostrando-se com a fluidez das palavras em imagens. na relação desse texto com outros textos e convida o leitor a uma compreensão responsiva. é metáfora de uma escritura que esconde. 95). 1979. em que as vozes do herói-personagem e da autora-criadora são atravessadas.

PONZIO. Prefazione e note di Jean Claude Marcadé. Primavera. 3ª ed. No círculo com Mikhail Bakhtin. Tradução de Fernanda Bernardo. São Paulo: Perspectiva. DERRIDA. In: Anais do VII Congresso Internacional de Pesquisa (Auto)Biográfica. 2011. 2012. 2013. Augusto. São Paulo: Escuta. 2005. Milano: Mimesis. Rio de Janeiro: Rocco. São Paulo: Martins Fontes. Organizado por Carlo Ossola. 5ª ed. Tradução e notas Marilena de Souza Chauí e Pedro de Souza Moraes. 1990. n. São Carlos: Pedro & João Editores. ______. 5ª ed. BARTHES. Estética da Criação Verbal. Seis propostas para o próximo milênio: lições americanas. MERLEAU-PONTY. Italo. KRISTEVA. Cuiabá: UFMT. 1989. São Paulo: Nova Cultural. Trad. 1993. Memórias de Cego: o auto-retrato e outras ruínas. BLANCHOT. ______. M. I segni del corpo fra rappresentazione ed eccedenza. 2017. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais.M. ______. Rio de Janeiro: Rocco.augustoponzio. Diálogos. Maurice. ______.pdf>. São Paulo: Forense-Universitária. Disponível em: <http://www. Yara Frateschi Vieira. ______. 1998. PASOLINI.com/files/il_cinema_augusto_. DELEUZE. Traducción de Ricardo Pochtar. Tradução de Paulo Bezerra. Neiva S. O prazer do texto. São Paulo: Hucitec. CALVINO. L’arciere da un occhio e mezzo. 1. Julia. A escritura entrelinhar de Clarice. A escritura e a diferença. ______. Jacques. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 1971. Tradução Lúcia Helena França Ferraz. Bari: Edizioni dal Sud. Maurice. Milano: Mimesis. ed. Tradução de Ivo Barroso. 1999. Pier Paolo. Tradução de Álvaro Cabral. ______. O espaço literário. Entrevista de Claire Parnet. Benedikt. BOENO. Verona: Ombre Corte. São Paulo: Companhia das Letras. 1998. 2010. Variazioni sulla scrittura seguite da Il piacere del testo. Collana. ______. Ejzenstein. O olho e o espírito. Introdução à semanálise. Lector in fabula. 7. Tradução aos cuidados de Paulo Bezerra. São Paulo: Perspectiva. Pensar em não ver. Tradução de Eloisa Araújo Ribeiro. due alterità. PONZIO. ______. Firenze: Hopefulmonster. 2010. São Paulo: Perspectiva. CORPOS . 2017. Anno I. revisão técnica de João Camillo Penna. Problemas da poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Escritos sobre as artes do visível (1979-2004). seleção de textos Marilena de Souza Chauí. 2010. Textos selecionados. In: PETRILLI. 2002.br> Acesso em: 09 set. i canguri e Dupin. 2005. ed. Narrativa (Auto)Biográfica: conhecimentos. 1990. 5ª ed. Empirismo eretico. Roland. O óbvio e o obtuso. Clarice [1973]. Florianópolis: Editora UFSC. 2ª ed. 2016. Editorial Lumen. “Cinema Augusto” alias “Cinema Ponzio”. 1987. LIVŠIC. Umberto. Corpo. Milano: Garzanti. Augusto. Susan. PONZIO. 2013. Torino: Einaudi. 2003. scrittura: due materie. Luciano. Fuori Campo. 2ª. La cooperacion interpretativa em el texto narrativo. G.com. Divenire molteplice. Disponível em: <http://viicipa. 1984. LISPECTOR. Água viva. Acesso em: 12 set. In: Corposcritto. 1999. ECO. Differimenti. experiências e sentidos. 55 BAKHTIN. 1999. Tradução de Marcelo Jacques de Moraes. Traduzione di Renata Franceschi. ______.

Bari: Garzanti. A literatura em perigo. 2ª edição. 2016. TODOROV. SOLIMINI. Chagall. Milano: Mimesis Edizioni. ŠKLOVSKIJ. Trad. Charles Sanders. 1995. Visões do Texto. Malevic. Bachtin. São Paulo: Perspectiva. Segni e percorsi per le scienze umane. 2015. 56 ______. Maria. CORPOS . ______. Memorie senza tempo. ______. Viktor. 1974. Una teoria della prosa. Semiótica. Traduzione di Maria Olsoufieva. PEIRCE. Roman Jakobson e i fondamento della Semiotica. Bari: Edizioni Giuseppe Laterza. Milano: Mimesis Edizioni. 2015. São Carlos: Pedro & João Editores. Icona e Raffigurazione. 2009. Tzvetan. Rio de Janeiro: DIFEL. 2017. Caio Meira.

o que tentaremos fazer neste texto é uma curta reflexão sobre o nosso papel profissional na vida dos pequenos sujeitos com quem nos relacionamos como professores tendo em vista os conceitos que envolvem o círculo bakhtiniano. Ainda que digamos com uma certa frequência algo como “somos um exemplo para eles” ou “tá vendo como ela está me imitando”.com. Professora de Educação Infantil da rede municipal de Campinas-SP. Metanarrativas. Ao mesmo tempo. RESUMO 57 Uma professora e um professor de educação ESPELHOS HUMANOS: a infantil da rede pública municipal de Campinas. 8 Pedagoga. Ato Responsável “O que eu sou. É claro que os pais e mães sabem que nos estão confiando a segurança de seus entes mais queridos. conseguimos observar que nossas ações. E-mail: lumsalado@gmail. como muitos dizem. adultos da 7 Pedagogo. Luciane Martins 8 Palavras-Chave: Educação Infantil. porém. refletem sobre como seus corpos são parte da constituição dos corpos dos bebês e das relação constitutiva entre os corpos dos crianças pequenas. São Paulo. Usando narrativas e metanarrativas de acontecimentos de seus grandes professores e os corpos dos trabalhos. Dimensão inclusive que a maioria de nós educadores dificilmente pára para refletir longa e profundamente. raramente usamos ou evitamos usar essa influência sob os pequenos sujeitos de maneira predominantemente consciente. Ruy 7 SALADO. Então. que nos estão entregando seus maiores tesouros. Alteridade. uma dimensão de influência nossa (e de nossas colegas de trabalho) na vida desses pequenos e novos sujeitos da qual os familiares nem fazem ideia. Bebês. DE ONDE VÊM AS VOZES O primeiro ano da creche é o primeiro contato da grande maioria dos pequenos sujeitos com qualquer instituição que não seja a sua própria família. Isso significa que é necessário um certo tempo para que eles se sintam seguros o suficiente para interagirem tranquilamente conosco. eu sou em par.com. Há. gestos e falas são assimilados pelos pequenos pequenos bebês corpos. Não cheguei sozinho. E-mail: ruyotiba@gmail. ou. exercem um ato de confiança do qual não têm racionalmente a consciência plena. BRAZ. Professor de Educação Infantil da rede municipal de Campinas-SP. tivemos a revelação surpreendente de nossas próprias singularidades a partir do reflexo de um espelho humano tão pequeno: seus corpos e seus olhares.” Lenine SOBRE Q uando uma mãe ou um pai nos entrega no colo seu bebê de manhã. CORPOS .

Os bebês ainda não têm experiência de vida suficiente para nos autorizarem a usar seus nomes reais conscientes de todas as implicações desta autorização. não os gestos culturais que poderiam acontecer em qualquer creche. As narrativas estão em itálico e as metanarrativas vêm logo em seguida com uma linha de espaçamento entre elas. em um sotaque bebelês. Este conceito de “metanarrativas” teve sua primeira tentativa de condensação e refinamento pelo grupo no livro “Metodologia de pesquisa narrativa em Educação: uma perspectiva bakhtiniana” lançado em 2015. que a baleia é amiga da sereia. Não houve como não rir. não há lugar no refeitório. os diferentes tons de voz. Ruy Choro e disputas. dezenas de bebês dançam e cantam as poucas palavras que conseguem pronunciar. Carlos Antônio10 parece ter escolhido uma hora onde conseguia ouvir a própria voz para entoar o canto que é o maior sucesso este ano. portanto. As metanarrativas são uma prática importante no Grubakh (Grupo de Estudos Bakhtinianos. Em meados do ano. 9 Nas seções de “vozes”. os sucessos que emplacaram com aquele grupo de crianças. enunciados através de narrativas que expõe alguns dos atos de nossos cotidianos. 10 Este e todos os outros nomes das narrativas são fictícios. nos constitui. o pedido de calma. o que nos interessa neste primeiro momento são os símbolos construídos nas coletividades específicas das quais nós somos professores. sabemos. atrasa a cozinha. Ufa! Ruy O cantar aglutina. O tédio. Corro até o cavaquinho. CORPOS . Quase todas as crianças e os bebês dormindo. O hiato de tempo que fica entre o fim da troca de fraldas e a saída quase todos os dias é um caos. o colo. o que mais gostaríamos de refletir é sobre os gestos singulares construídos no diálogo cotidiano ao longo do convívio de grupos específicos. vinculado ao GEPEC – Grupo de Estudo e Pesquisas em Educação Continuada – da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas. Em outras palavras. o “não”. do qual ambos fazemos parte e que. já temos os hits. a fome e o sono predominam e contaminam a sala com uma atmosfera de desespero em muitos dias logo antes do almoço. Porém. pois só faz uns dez anos que tento entender. Cada ano é diferente e não me perguntem o porquê. o oferecimento da mamadeira. As narrativas foram escritas por cada um dos dois autores em suas respectivas turmas de bebês e crianças pequenas (de 0 a 2 anos). ouvimos. já há uma apropriação de símbolos na convivência: o acolhimento. Em volta de mim. Mesmo neste período. gestos e ações. Unicamp). tiro ele da capa e começo a cantar. É só começar e as crianças vêm. os sorrisos retornam. 58 turma. De repente.9 VOZ 1: A CANTORIA DO RUY A sala em silêncio. usaremos a metodologia metanarrativa para refletir sobre o que nos acontece. depois. Por alguns minutos. Temos hora exata para sair da sala: antes.

Mas não para por aí. ao menos contribui com a vontade das crianças conhecerem mais a Música. E acalma. Ou melhor. e também manter o equilíbrio segurando o livro. Folhear as páginas. choros e alguns gritinhos. pois notamos que as crianças pequenas disputam. Acontece que também sabemos dos benefícios cognitivos que a música promove nos seres humanos. 59 Pois bem. Depois de sentada é hora de posicionar o livro. Mas acima do benefício prágmatico do bem-estar e acima do benefício utilitarista da Neurociência. cantar aglutina. Maria lambe o dedo antes de passar a página. pois cessa instantaneamente a maior parte do choro. Vivenciamos muitas belas cenas entre nós. é o benefício estético que mais nos encanta. aponta os desenhos e fala as palavras mais frequentes do texto. Luciane Quando vou contar histórias posiciono uma pequena cadeira de frente para o tapete grande da sala. as melodias. E como são tocadas. Vira as páginas. sento-me com o livro nas mãos e a contação tem início. já seria um bom motivo para a prática do canto nas salas da creche. são transformadas. através de empurrões. Os gestos da coreografia. as palavras curtas do grupo cantando junto mostram como nossas relações vão sendo criadas e modificadas no dia a dia. Maria sobe na cadeirinha apoia o livro nas pernas e começa. contribuindo. tira o foco do que há de ruim. Nos surpreendemos encontrando novamente com nossos atos. me parece. por si. portanto. nossos gestos e os gestos dos bebês.. Dar conforto e bem-estar aos bebês e às crianças pequenas é algo que procuramos sempre fazer. recontam as histórias. sobretudo nos mais novos. Isso. a história. O livro ocupa toda extensão de seu colo e suas pernas e termina apoiado nos pés das crianças que fazem questão de sentar na cadeira. Se por acaso as canções simples que fazemos não ajuda diretamente nestes tais benefícios que a Neurociência gosta de investigar. A melodia e as palavras de Carlos Antônio mostram como sua relação com a canção acontece. CORPOS . sentar-se. Precisam subir. Certo momento. ainda que as condições sejam adversas. O gesto de sentar na cadeira revela-se poderoso. Para dar apoio e folhear suas páginas muitas crianças utilizam seus pés dobrados como suporte/descanso para o objeto. o morango sendo retirado do livro e repartido. Eu nem sabia que fazia isso! Me vejo em tantos gestos daquela menina que está aprendendo a falar. indiretamente. atos que se transformam e se repetem quando os bebês.. As expressões faciais e os gestos revelam o quanto ela esteve atenta e do que ela gostou mais nas vezes que ouviu a história daquele livro: o susto. muitas vezes sem fazer uso de palavras. VOZ 2: A CONTAÇÃO DE HISTÓRIA DA LU É hora das crianças contarem a história. suas facetas e sua diversidade. a possibilidade de ocupar o espaço. É saber que os bebês e as crianças pequenas se encantam e são tocadas pelas canções que fazemos em grupo.

quis conversar com as crianças sobre isso. se faz entender de várias maneiras. Como ele viu que minha cara não mudou. pelo atendimento das necessidades e dos desejos. do papel do outro em nossas próprias vidas. Para além das páginas do livro vão surgindo gestos. No parque. e as crianças. Se nos primeiros momentos de vida podemos dizer que esta sabedoria. Quando ele percebeu o impasse. que muitas das palavras mais importantes não são ditas pela fala. ao longo do tempo vamos percebendo no convívio com esses pequenos que eles vão dando valores distintos para o outro ser humano. Devo ter feito cara de quem não entende. mas sem fugir do que nos ensina Bakhtin. Os bebês entendem muito cedo a importância do outro. 60 observar cada detalhe. Além de falar. confesso. gestos do encontro entre nós professores. ele apontou a bola e finalmente eu entendi. Ele tentou de novo. O fato de haver poucas palavras. mas que. Ruy Desde quando não falar impede a comunicação? Diríamos até. pegou minha mão e puxou até o outro lado do quiosque. É um processo não só dialógico. tive a ideia de colocá-las em cima de um brinquedo do parque e imitar o trote de um cavalo batucando as minhas coxas. me diverte muito: chutar a bola de plástico bem alto e ver ela quicando pelo pátio. ele bateu em minha coxa e levantou uma de suas pernas. João queria me dizer alguma coisa. MAS NÃO SEI Como em breve iríamos visitar uma fazenda e andar de cavalo. ou quase nenhuma. parece entender tudo que lhe dizemos. mas também dialético. Eles percebem por suas experiências de vida que o outro é responsável pelo carinho. Ele queria que eu fizesse uma ação que anima não só as crianças. é “natural” ou “instintivo”. Luciane Ivan é uma das crianças mais ativa da sala. no centro do parque. VOZES 3: QUERO FALAR. batucou nas coxas. apontar com o dedo e conversar desvendando as imagens e letras. e confesso que não entendi o que ele queria. contadores da história. Ele ainda não fala. de uma maneira poética. Claro! Ele quer brincar de cavalo. não CORPOS . Lá. O que talvez não percebam é o quanto têm que se entregar para o outro neste processo também. mas ainda não fala. Eles percebem que para serem felizes dependem dos outros. Se o bebê não se movimenta. revela muito aos profissionais sobre sua forma de contar. Não poupa esforços para se divertir. sobre como os bebês se apropriaram e como reinventam seu próprio jeito de contar histórias. Noutro dia.

como o que se sentiu ou o que se pensou. mas com o dedo indicador. na maioria das vezes – em tom de bronca. no grupo onde estamos convivendo. como o mandar beijos tão comum em nossa sociedade. como o sinal de “legal” produzido não com o dedo pelegar. somente os gestos. Muitas vezes esse movimento é a contragosto ou. É o caso do gesto mais imperativo e autoritário que a maioria dos bebês logo se acostuma a fazer quando levanta o dedo indicador. somente pessoas que estão há um bom tempo em convivência com grupos de bebês e de crianças pequenas – e que estão atentas a esses gestos – conseguem identificar. E destes gestos. não “instintivo”: o bebê não somente chora. no mínimo. Quando. e se põe a balançar a cadeirinha com um dos pés. mas podemos suspeitar com certa força. desde as famílias. e é onde nos reconhecemos quando prestamos atenção na interação constante que vivemos. exatamente como algumas das monitoras da sala fazem. entretanto. Disto. coloca no chão a sua frente uma cadeirinha de balanço onde os bebês são ninados. Em outras palavras. cada bebê pode emitir da forma que gostaria ou bem diferente disso. pois têm que ninar três ou quatro bebês ao mesmo tempo. porém. em nossas relações e. E. códigos usados pelos sujeitos que estão ao seu redor ou por todo o conjunto social do qual faz parte. usa porque viu no outro a causa ou a consequência para usá-lo. Da mesma forma. ele faz gestos que apreende do seu ambiente. mas ver. é preciso ter claro que o que podemos ver são só os gestos. Ninar as bonecas é algo que possivelmente se observa em família ou em outros ambientes da vida cotidiana. 61 demonstra o que quer. notamos alguns reproduzidos de maneira inequívoca. o corpo fala para elas sobre padrões e as consequências desses padrões em cada um de nós. seja na forma de boneca mesmo. Mesmo quando não nos apercebemos. quando o gesto é reproduzido. seja na forma de um bebê real. quando uma pessoa adulta ou uma criança mais velha ensina aos bebês esta prática no brincar. OUTRO CORPO Cada uma das interações descritas nas narrativas enfatizam o quanto cada criança é constituída por nossos atos. elas percebem as funções sociais e comunicativas de nossos gestos e falas. Parte destes gestos claramente foram assimilados no cotidiano da creche. isso é marcadamente algo apreendido de seu cotidiano na creche. não temos como determinar de onde vêm. se ele usa esses códigos. sobre esta cadeirinha uma boneca. aponta para um coleguinha e pronuncia frases – oralmente incompreensíveis para nós adultos. aprendeu ou foi modificado pelo outro. Quando emitimos um gesto. Podemos intuir através de indícios outras coisas. Este tipo de CORPOS . consequentemente. Outros porém. uma criança de um ano e alguns meses senta-se num banquinho de seu tamanho. No convívio diário. este pode ser entendido semelhantemente ao que quisemos emitir ou muito diferentemente disso. Outros gestos. Os gestos são apropriados de maneiras tão variadas quantos são os sujeitos.

Se gestos que não gostaríamos de ver repetidos pelos bebês e pelas crianças pequenas aparecem-nos como espelho. Isto porque é comum ver grupo de bebês começando a caminhar na mesma semana. o aval e provavelmente até parte da vontade de o realizar como ato. brotam notadamente por estarmos juntos e trabalhando com eles no ambiente da creche. não somente o endoçamos11. De tanto abraçarmos os pequenos. não conseguir extingui-los do ambiente da creche já é algo que diz sobre nossas responsabilidades nas ações coletivas. ou até no mesmo dia. que gostaríamos de ver mais no mundo. é como se. Entretanto. não usamos destes recursos que estamos descrevendo. deixando as duas mãos livres para realizarmos outras ações. Essa complexidade só pode ser aprendida na medida em que se a vive. o “não”. pelo mesmo motivo do exemplo anterior. pois. você dissesse “eu também consigo”. mesmo quando nós dois. uma vez que os bebês ficam acordados mais tempos dentro da creche que em suas prórpias casas e famílias. as entonações e outros elementos da fala. por exemplo. 62 gesto não é exclusividade das pessoas que trabalham nas creches. por razões que vão desde a máxima preocupação com o outro até a completa não consideração. que é possível. adoráveis. de nos deslocarmos em pé. Parte significativa da liberdade que temos para as nossas ações vem do simples fato de conseguirmos caminhar. mas com os tons de algumas das colegas. E. mas também o reforçamos temporalmente. eles usam do mesmo gesto entre eles. ou seja. Apesar do ambiente onde existem sujeitos falantes ser condição necessária para que os pequenos sujeitos comecem a falar. E ações como esta vem do exemplo e da significação que os pequenos sujeitos dão. professor e professora das turmas. E se nós adultos atuamos como fonte de inspiração para esta ação tão complexa e importante. Vemos os bebês e as crianças pequenas dizerem não só a palavra. outros gestos. Mais um indício de como nossas relações cotidianas com os bebês constituem-os. É muito forte você ver que o carinho e o bem-querer podem ser mostrados e significados num gesto tão simples e fácil de ser realizado. somos nós também que reforçamos esta ação tão importante. Mas é nosso próprio deslocamento pelo espaço das salas e outros ambientes que dão aos bebês a possibilidade. Não é preciso ensinar teoricamente ou mesmo com “passo a passo” práticos como caminhar. ainda há algumas flores no jardim. É como se um audax entre eles conseguisse romper a grande barreira do primeiro esforço e dissesse para os outros. outros bebês são o aval mais significativo para ele acontecer. Assim como não é preciso ensinar-se a falar. ver as crianças 11Escolhemos usar a primeira pessoa do plural. Caminhar é uma ação muito complexa. É um intercalamento de equilíbrio e desequilíbrio intensionais no qual a parte do desequilíbrio não pode ser nem muito intensa nem muito duradoura. assim. É o caso do abraço. Dito e reforçado em todos os lugares. Contudo. com certeza. porém. CORPOS . ao ver alguém pequeno como você conseguir realizar algo. é a enunciação de uma das primeiras palavras que os bebês falam. o não sem justificavas é emitido com frequência em nossos espaços de convívio. não é preciso ensinar-se as pronúncias dos fonemas. Nem tão simples. é o caminhar. É muito bonito.

é tão fácil: Lu”. Os corpos são a ligação entre a vontade e o enunciado 13 . de dúvida. é assim que veem que o “eita pêga” do Ruy é um modo possível de expressar dúvida de proceder. Introduzindo conceitos de Bakhtin e de seu círculo. em diferentes entonações. entre a cultura e o ato. O segundo aspecto é mais importante e menos evidente. mesmo sem ninguém ficar insistindo “fala Ruy. pomos a frase em destaque: Nem tudo é espelho. de raiva e de tantas outras maneiras e significações. por assim dizer. 204. Nossos corpos são espelhos. as modalidades possíveis de enunciar e de realizar atos no mundo. até seu valor contemporâneo como um introdutório seguro num assunto tão complexo. estão os bebês e as crianças pequenas. e os pequenos assimilam a todo o tempo. Esse aspecto resume-se numa contraproposta à metáfora do espelho utilizada até aqui – e que ainda será usada. A racionalidade na qual vivemos é tão poderosa que o planejamento (e a tentativa de adequação a eles) são imensamente mais fortes que o modo mais antigo e corriqueiro de aprender: tentativa e erro (e acerto). É assim que veem que a risada da Lu e sua maneira de jogar a cabeça para trás quando ri é um modo interessante de expressar alegria e contentamento. aos conceitos de “enunciado” e de “auditório social” de Volochínov em “Marxismo e filosofia da linguagem” (p. CORPOS . queremos ampliar o modelo de observação das interações dos bebês e das crianças conosco. e não queremos correr o risco desta polifonia em específico. Ao nosso lado. queremos propor uma maneira de enxergar as relações dos pequenos com outros olhos. para seus próprios corpos. O primeiro aspecto é que não estamos querendo conter as manifestações humanas dos pequenos e muito jovens sujeitos em teorias psicologizantes – ainda que consideremos que estes saberes tenham seu valor histórico e. 63 pequenas chamando nossos nomes pela primeira vez. 13Tentamos relacionar as manifestaçãoes corporais e os grupos das salas de referência e do ambiente ao redor. Andamos. Dito isso. considerando inclusive as famílias. distinguindo “pravda” (verdade na relação) de “istna” (verdade absoluta). de medo. 12Ao contrário do que Bakhtin deixa claro (p. adultos. falamos. 2017). ru-y” ou “fala Lu. enunciamos em diferentes contextos. O erro é ridicularizado e até condenado. como caminhar e falar. que podem ter ficado claros ao longo do texto. Ainda assim. AINDA HÁ O QUE SE CONSIDERAR Antes de finalizar. mas podem não ter ficado. é tentando e errando até acertar que aprendemos algumas coisas das mais importantes em nossas vidas. queremos chamar a atenção para dois aspectos importantes. diariamente. 65. através dos nossos corpos. tratamos as situações com gesto de acolhimento. e eles veem o que se pode e o que não se pode e os modos de ocorrência. pois nos é feito crer que só existe um “certo” ou uma “verdade” 12. quem sabe. com um certo excedente de visão. Ao contrário. então devemos deixar claro nossa posição com quem queira dialogar conosco. 2010).

não só nos ajuda a compreender. Até o ponto em que conseguimos ver o nosso próprio olho. CORPOS . não quer dizer que ela viu alguém mordendo ou mesmo que vivenciou anteriormente uma violência semelhante. inevitavelmente vemos algo que sozinhos não conseguimos: vemos a nós mesmos. A alteridade é condição necessária para nos percebermos. 21. pois. Nossa geração nasceu e viveu em um mundo repleto de espelhos e de autorretratos – ainda que muitos de nós tenhamos vivido a época pré-digital. se lembrarmos que os vidros com alto grau de transparência são uma tecnologia recente na história humana. 87. dois diferentes mundos se refletem na pupila dos nossos olhos” (p. podemos citar três exemplos: Ninguém ensina o bebê como se mama. Se uma criança morde a outra violentamente. 21. Quando olhamos no olhar de um outro sujeito. pois. 2003) em “Estética da criação verbal”. 2003). mais detalhes vemos sobre nós mesmos. mas o faz de maneira poética. Em outras palavras. que era muito caro ter um pedaço de metal polido e muito difícil de manter. Em uma linda passagem de uma de suas aulas. estaríamos todos como foram nossos antepassados. queremos dizer que. voltemos à metáfora. assim como também há ações inventadas por cada um dos sujeitos. Só conseguimos ver o que há em nós mesmos se existe um outro. só o olhar do outro no mundo me ajuda a perceber coisas que 14 Bakhtin também utiliza esta metáfora quando trata do excedente de visão em “Estética da criação verbal”. nossa imagem refletida no olho do outro. Como explica Bakhtin (p. conseguimos perceber que os instrumentos que nos ajudam a reconhecer nossa própria imagem são um privilégio – e às vezes um escravizador – que poucos seres humanos puderam e podem utilizar. perpetuado no texto célebre “A Hermenêutica do Sujeito”. como toda boa metáfora. Feitas as devidas considerações. A metáfora do olho nos remete imediatamente a dois conceitos fundantes da filosofia bakhtiniana: o excedente de visão e a alteridade. ainda que descontextualizada. a nossa mais longa história de relação conosco mesmos. Há também ações instintivas ou naturais ou determinadas geneticamente sim. Se não houvesse ações inéditas no mundo. 2006) fala da metáfora do olho14 presente nos diálogos de Platão. nem chegamos a imaginar uma vida sem saber como realmente nos parecemos. apesar de crermos na força e na necessidade do outro para nossa constituição. Tendo somente esta experiência. continuemos com o que é importante e move esta escrita: a força do outro na constituição de cada sujeito. Resumimos como interpretamos que Bakhtin trata essa metáfora na seguinte frase: “Quando nos olhamos. Porém. Gostaríamos de utilizar esta outra metáfora. É no outro que temos. Quanto mais íntimos formos de quem estamos olhando nos olhos. Michel Foucault (p. Para argumentar. 64 Com isso. É esta condição necessária que promove o excedente de visão. e que as fotografias surgiram a menos de três gerações. voltemos ao que é espelho. não queremos pregar que há somente ações não-inéditas no mundo.

de destempero ou mesmo de indiferença para com os bebês. E todo esse conjunto de atos dá ao bebê a possibilidade de consciência das coisas que o rodeiam e dele mesmo. vamos resumir o conjunto de caminhos que julgamos dever tomar em dois aspectos de nossos atos cotidianos. Como explica Volochínov (p. 16. Imprimindo nome às coisas. 71. carinhoso e fraterno. Devemos tratar cada um dos bebês de modo acolhedor. e podemos prosseguir refletindo sobre ela por páginas a fio. O desafio é diretamente relacionado ao educar. Apresentar objetos. Neste aspecto. relacionam-se a todos os mais recentes documentos curriculares. o nosso contato com os seus corpos é que chama a atenção para partes dos corpos das quais antes eles não se apercebiam. e contra a ética formal. parte ética) devemos seguir. Escolhemos. a ética do ato responsável faz o nosso cabedal de saberes convergir com as possibilidades de ação que temos. Estes dois aspectos. une o mundo da cultura com o mundo real. mas também o que está nele. seguir. parte estética) por uma percepção de como nossos gestos constituem os getos dos bebês. o excedente de visão ajuda não só a perceber o que está a seu redor. do fazer porque é melhor pra mim. Porém. Nos bebês. o que devemos fazer a partir desta percepção? Os caminhos possíveis são variados. ou ao menos nos aproximar. temos que repudiar qualquer manifestação de agressividade. do fazer porque é assim. então. não consigo observar. E chegamos. 65 eu. boca e olhos – e minha imagem como um todo. à última etapa de nossa reflexão. O segundo aspecto é a amorosidade. inclusive. considerando seus aspectos “alteritário” e “singular”. para que eles possam ampliar seu repertório linguístico em todos os aspectos – e isso só pode acontecer quando consideramos os bebês e as crianças pequenas como sujeitos. que caminho (ethos. entretanto. da ética do ato responsável de Bakhtin (p. trazemos também a consciência desta coisa. parte epistemológica) sobre como isso acontece. imprimindo os signos de nosso horizonte social. a linguagem anda de mãos dadas com a consciência. Contra a ética material. 2010). sobretudo de minhas costas. Muitas vezes. damos nomes a essas partes. Fomos afetados (aesthesis. Este CORPOS . Devemos tratar cada um dos bebês de modo desafiador. assim. uma vez que esta ampliação de repertório é intencional e proposta cotidianamente pelos professores e professoras. raciocinamos (episteme. ações e símbolos diversos é a condição de vê-los apropriarem-se do nosso horizonte social. 144. Ótimo! Mas o que isso significa em nosso caso: professora e professor de bebês? Esta resposta não é simples. Tomando como exemplo o chamado Caderno Curricular Temático de Espaços e Tempos do município de Campinas (p. 2013) em “A Construção da Enunciação e Outros Ensaios”. de minha perspectiva singular. Ao mesmo tempo. de tomarem consciência do que está no mundo e consciência de si mesmos. inclusive partes de mim mesmo – como cabeça. ou seja. a indissociabilidade entre o educar e o cuidar é um dos pricípios apresentados para esta etapa da educação. O primeiro aspecto de nossos atos cotidianos para que possamos cumprir as condições de um ato responsável é o desafio. para que eles possam ter segurança e disposição para conviver com outras pessoas e para continuar conhecendo o mundo. da Educação Infantil. tanto em nível nacional quanto em nível municipal. ou seja. 2014).

87-89. 2003. __________. São Paulo: Martins Fontes. __________. portanto. uma vez que repudiar violência com violência é igualmente gerar o exemplo da violência. mas igualmente amoroso. mostrarmos nossos corpos como produtores de desafios e de amorosidade. estes sim. Mas a direção e o sentido. 2006. 2015. São Carlos: Pedro e João. M. CAMPINAS. Para uma filosofia do Ato Responsável. São Carlos: Pedro e João. A hermenêutica do sujeito. M. 66 repúdio deve ser ativo. A escolha é. Campinas: 2014. G. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Martins Fontes. FOUCAULT. São Paulo: Editora 34. PRADO. et al (org. Cada situação trará novas possibilidades de rumo. Temos que acordar cotidianamente e nos posicionar contra a reprodução de práticas de permanência e de opressão. Estética da criação verbal. N. T. REFERÊNCIAS BAKHTIN. São Carlos: Pedro e João. sabemos. V. Não há fórmulas. Caderno currilar temático da Educação Básica: ações educacionais em movimento. VOLOCHÍNOV. 2013. CORPOS . V. Metodologia narrativa de pesquisa em Educação: uma perspectiva bakhtiniana. p. 2017. Volume I. M. Espaços e tempos na educação de crianças. Não há uma trilha ou uma estrada segura. 2010. são seguros: precisamos ir em direção à transformação.). se escolhermos a ética do ato responsável. A Construção da Enunciação e Outros Ensaios. A amorosidade é diretamente relacionada ao cuidar. uma vez que ninguém cuida de maneira negligente ou agressiva.

com CORPOS . é um gênero musical criado por negros residentes em O RAP COMO PROTESTO? Nova Iorque na década de 1970. Silva enuncia seu posicionamento político num embate dialógico de O confronto. por sua. das atividades humanas que. utilizamos os estudos do Círculo de Mikhail Bakhtin sobre gêneros do discurso. Dialogismo. ao transgredir os sentidos utilizando as estratégias discursivas do rap tradicional. defende a ditadura militar. exotopia e ideologia. 147) As esferas dão conta da realidade plural da atividade humana ao mesmo tempo que se assentam sobre o terreno comum da linguagem verbal humana. atualmente. verificamos que. cujos temas abordam o cotidiano das comunidades negras. Essa diversidade é condicionadora do modo de apreensão e transmissão do discurso alheio. nos estudos do Círculo de Mikhail Bakhtin. o Visitante que enuncia.. de Luiz Paulo Pereira da Silva. desse modo. No Brasil. Entretanto. Esse contexto colaborou para sua perpetuação. mas com a escolha de nomes de personalidades de posicionamento INTRODUÇÃO conservador e de extrema direita. militar da reserva e. além de outras enunciar críticas em sua música. Para tanto. Profa.. que exalta o coronel Ustra. s gêneros do discurso. denúncias e críticas sociais. sobreviveu nas periferias. com exaltação ao coronel Ustra que atuou no período da ditadura militar no Brasil e a Bolsonaro. de Luiz. pois REAÇA”. local de evidenciada desigualdade social e violência. do Departamento de Letras do Uni-FACEF Centro Universitário Municipal de Franca. uma ideologia de extrema direita. É o caso do “Rap reaça”. como as valorações e ideologias estão CAMPOS-TOSCANO. Por essa perspectiva. valorações e ideologias de um determinado grupo social. 15 Doutora em Linguística. em contraponto ao rap tradicional. p. Gêneros do Discurso. VISITANTE subvertendo sua proposta inicial por meio da apropriação de estratégias discursivas do rap. portanto. expondo um diálogo de confronto com outros discursos do gênero. abreviatura de Rhythm and poetry. Desse modo. são espaços sociais e. DE LUIZ. Exotopia. ex-coronel do Exército Brasileiro e ex-chefe do DOI-CODI (1970-1974). E-mail: anafurquim@yahoo. éticos expondo. Como resultado. O permitiu. Ana Lúcia Furquim15 configuradas nesse rap. assim como a veiculação dessas ideologias. na esfera estética. num ambiente pobre e hostil. Deputado Federal pelo Rio de Janeiro. Como afirma Grillo (2006. há quem modifique o conteúdo temático desse gênero discursivo. um político cujo posicionamento conservador. propomos analisar o “Rap reaça”. RESUMO 67 O rap. embora tenha sofrido resistência da sociedade e da polícia. estão atrealados às finalidades das diversas esferas Palavras-Chave: Rap. bem como da caracterização dos enunciados e de seus gêneros. o objetivo deste artigo é analisar. surgiu no início dos anos 80 nas ruas de São ANÁLISE DO “RAP Paulo e.

utilizamos como referencial teórico-metodológico as reflexões do Círculo de Mikhail Bakhtin sobre gêneros do discurso. contrapondo dialogicamente com outros sentidos. entre discursos. ou seja. 279) A utilização da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos).. levantamos o seguinte questionamento: na relação dialógica entre o rap tradicional e o “rap destra”.] falam tanto que o rap é livre e que pregam a liberdade de expressão. refratá- lo. são constituídos diferentes modos de sentir o mundo. Silva afirma que “[. As diversas esferas da atividade humana. portanto. 68 Luiz Paulo Pereira da Silva é um jovem de 22 anos. que emanam dos integrantes duma ou doutra esfera da atividade humana. [. de não somente refleti-lo. aos enunciados. Pernambuco. As esferas das práticas humanas. ou seja. pela seleção operada nos recursos da língua – recursos lexicais. Para o Círculo. Nas palavras de Bakhtin (2000. concretos e únicos. estudante de Psicologia e morador de um bairro pobre de Recife. num processo de olhares e interpretações diversas. não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal. ou seja. De um gênero oriundo de um contexto de crítica social e de denúncia das desigualdades existentes principalmente entre a comunidade negra. 1. e sobretudo. Desse modo. mas também entre enunciados. ideologia e exotopia a fim de analisarmos como o “rap” é atravessado por outros olhares. são concebidos como produção em constante movimento. como são construídos discursos contrários que expõem numa posição diversa outros olhares sobre o contexto social e político atual? Desse modo.] o processo de transmutação do CORPOS . contraditórias. Num confronto com o rap tradicional. Assim. p. fraseológicos e gramaticais -. estão relacionadas à linguagem. 2017. mas principalmente.. o enunciado na esfera do discurso é uma unidade da comunicação humana e não somente uma sentença inscrita na gramática. O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas. devido à heterogeneidade dos grupos sociais. é impossível dar sentido sem haver refração. mas também. online). GÊNEROS DO DISCURSO: a visão excedente nas relações dialógicas Os gêneros do discurso pela perspectiva do Círculo de Bakhtin. inseridos em um dado contexto espaço-temporal.. Considera-se o primeiro rapper de direita do Brasil. com temáticas voltadas para a truculência policial e a vida na periferia. outras valorações. Como afirma Faraco (2013. como sabemos. atribuem valorações diversas e. Os temas abordados por Silva evidenciam o conservadorismo. p. 173). transgridem-se na relação estética eu-outro os sentidos primários do rap para uma nova configuração ética e veiculadora de sentidos outros. por sua construção composicional. com exaltação à “moral e aos bons costumes”. mas são contra a minha. muitas vezes. embora já existam outros críticos aos movimentos de esquerda ou com vertente religiosa. já foi chamado de fascista e levou até uma pedrada no pé. eu não sou contra a deles" (NOGUEIRA.. como diálogo não só entre os sujeitos da comunicação.

morfológicas e sintáticas. 2000). ou seja. com a CORPOS . o contexto espaço-temporal e as relações intersubjetivas. constitui-se pela escolha dos recursos da língua. em outros momentos. construídos pelos mais diferentes integrantes das atividades sociais e com as mais diversas finalidades. é nos identificarmos com o outro a partir de seus valores sociais. mas para eliminá-la totalmente. há atitudes responsivas ativas. surge um espaço dialógico entre os sujeitos da comunicação e. o enunciado é uma unidade real que se inter-relaciona com outros enunciados. com as es/instabilidades. como um elo de uma corrente. O outro em contato com um determinado enunciado. Assim. Pela visão excedente. de sua posição no espaço e depois voltarmos para nosso lugar para a complementação de seu horizonte de acordo com o excedente de nossa visão. 69 mundo em matéria significante se dá sempre atravessada pela refração das axiologias sociais. estilo e construção composicional – também estão intrinsecamente ligados aos valores e funções sociais do processo de comunicação. Nesse contexto. os gêneros podem ser caracterizados como heterogêneos. tornar-se um único homem. é a ideia de “visão excedente” ou “exotópica” (BAKHTIN. Deparamo-nos. de nosso lugar. Por essa concepção. o gênero não deve ser abstraído da esfera que o cria e o usa e nem de seu posicionamento social. a partir de um posicionamento valorativo”. De acordo com Bakhtin (2000. na comunicação verbal. Como o tempo é histórico e o espaço é social. portanto. confronta. num conjunto de dadas circunstâncias – todos os outros se situam fora de mim. pois a forma pode ser entendida como representação estética de uma determinada cultura contextualizada no tempo-espaço e como produto do processo dialógico entre os sujeitos da enunciação. pela concepção de dialogismo como processo constante da comunicação. por exemplo. discorda. neste instante preciso. concorda. p. Assim. é condicionado pelo lugar que sou o único a ocupar no mundo: neste lugar. de nosso conhecimento. imbui-se do seu poder vital e torna-se uma realidade” (BAKHTIN. de seu tempo. de nossos desejos. Graças a posições apropriadas. O estilo. “é apenas através da enunciação que a língua toma contato com a comunicação. sendo importante levar em consideração o tipo de atividade. é possível reduzir ao mínimo essa diferença dos horizontes. de acordo com as finalidades de comunicação e. os elementos componentes do enunciado – conteúdo temático. saindo de sua condição de ouvinte e entrando na condição de falante. Compreender os mais diversos gêneros. portanto. 43) quando estamos nos olhando.154). ou seja. devido a sua posição espacial. como as categorias lexicais. dois mundos diferentes se refletem na pupila dos nossos olhos. assim. Como os gêneros do discurso objetivam atender às necessidades da interação verbal. em outros lugares.Esse excedente constante de minha visão e de meu conhecimento a respeito do outro. complementa. p. seria preciso fundir-se em um. vemos e sabemos sempre algo que o outro não sabe. ou seja. Esses sujeitos precisam ser olhados pelo olhar do outro. é também nos colocarmos no lugar do outro. os gêneros representam a realidade de acordo com as manifestações dos sujeitos da comunicação. executa atividades ou ordens. deseja determinado objeto. orienta sua vida. 1999.

116). é estruturado por batidas eletrônicas e por outros recursos sonoros. lazer e transporte dos moradores das periferias. crítica à violência policial (contra os moradores da periferia e contra os presos comuns). (v) denúncia sobre as condições carcerárias e sobre o cotidiano na cadeia. sob a influência de seu destinatário e de sua reação-resposta. (ii) crítica explícita à política excludente dos governos. Cada esfera das atividades humanas exige uma determinada construção composicional. Nessa ambiência. De acordo com Bentes (2006. 2. consequentemente. como já mencionamos. pois. a criminalização da infância. crítica às práticas religiosas que incentivam contribuição financeira sistemática dos fiéis. contexto sócio-histórico-econômico-cultural e a ambientação espaço-temporal estão intrinsecamente relacionados. estilo. no Bronx. por conseguinte. p. Também entendemos que. criticamente. (viii) lazer e diversão na periferia. a exploração sexual da mulher. a saber. no Brasil. O VISITANTE: um olhar diverso O gênero rap tem como temática o cotidiano da periferia. surgiu em Nova Iorque. crítica ao desemprego e crítica a todo o contexto político-social que “empurra as pessoas para o crime e para as drogas” (consumo e tráfico). Ainda em relação ao intuito discursivo. (ix) valorização da periferia e de seus moradores. sempre “cantado” por um homem que fala/relata o conteúdo temático das letras. DE LUIZ. sem desconsiderar seus próprios valores sociais e ideologias. educação. (iii) relatos sobre o cotidiano do crime. à expressividade. intuito discursivo. Também vale ressaltar que o estilo está indissoluvelmente ligado ao conteúdo temático e. CORPOS . há de se levar em consideração que o estilo e a composição estão ligados ao valor atribuído pelo enunciador a um determinado enunciado. ou seja. o tipo de relação entre os parceiros da comunicação e. (iv) denúncia de preconceito racial. ao caráter emotivo. a violência contra a mulher. os temas mais comuns envolvem: (i) denúncia social: crítica às condições precárias de saúde. “RAP REAÇA”. relatos sobre a vida de usuários de droga. Enquanto gênero musical. alcoolismo. ao empregar um determinado estilo constrói-se o todo do enunciado que só ocorre por meio da possibilidade de resposta do outro. acaba por empregar ou não determinados recursos linguísticos. às entoações dadas. em seus estudos sobre o rap. Há ainda temas menos recorrentes: a discriminalização da maconha. expondo. enfim. aos objetivos de uma dada interação verbal. 70 relação intersubjetiva entre o querer dizer do enunciador e a imagem que ele concebe do enunciatário. e se constituiu como relato da vida de jovens negros. valorativo e expressivo desse enunciador que. (vi) afirmação de uma identidade negra. o cotidiano de meninos de rua. (vii) a função social do rap e do movimento hip-hop. o tipo de estruturação e de conclusão do todo do enunciado. sua realidade.

apresenta outros gêneros como música pop . independente da idade. somos todos Ustra A gente entende que. visto que há uma crítica a cotas destinadas a estudantes afrodescendentes para o ingresso nas universidades. invadindo os bailes da periferia e indo para as ruas. reforça o militarismo por meio da repressão e da exaltação à polícia. há um diálogo com o Hino Nacional Brasileiro ao afirmar que “A gente entende que. Utilizando-se de um discurso nacionalista. pois será o branco subordinado a ele. com a dança break. leia Olavo de Carvalho. querem vingança”. online) Enunciam-se valorações e ideologias opostas ao rap tradicional. somos todos Ustra” e o emprego do hashtag “#Ustravive” incita o ouvinte a aderir à ideologia veiculada na letra desse rap. literatura. mulheres são Ustra. na década de 80. atualmente. por exemplo. Ao contrário de um discurso de denúncia ao preconceito contra o negro ou ainda de afirmação da etnia. veicula-se que “um filho não foge à luta” em momentos de defesa à pátria. No Brasil. assim como o grafite e o break. de Luiz Paulo Pereira da Silva.. assim como enuncia Bolsonaro. etc. afirmando não haver temor caso seja necessário dar a vida pelo país. o Visitante As crianças são Ustra. querem vingança Como se o erros carregássemos de herança _Antes de dar play em rap. No contexto do Hino.. 71 É importante salientar que o rap. de Luiz. não foge da luta”. como “Amanhã é dia de branco”. faz parte do movimento do hip-hop. Fundada inicialmente como Rap Genius tinha como propósito divulgar hip-hop. inicialmente. poemas. escute o Bolsonaro Antes de clicar no Genius16. é. independente de idade. apresentamos a seguir o “Rap reaça”. notícias etc. inclusive presente em várias expressões de valoração preconceituosa. 2017. a defesa pelo militarismo ao exaltar o coronel Ustra. A partir dessas breves considerações sobre o rap. 16Genius é uma empresa de mídia norte-americana que permite aos usuários fornecer anotações e interpretação de músicas. termo que tem forte conotação pejorativa. que foi chefe do II Exército do DOI-CODI no período de 1970 a 1974 durante a ditadura militar brasileira. O enunciado “As crianças são Ustra. como: “A coisa tá preta” ou “Serviço de preto” em oposição à cor branca. subverte o sentido ao afirmar que os negros “não querem igualdade. Aliás. CORPOS . a escolha linguística feita para se referir ao negro é “preto”. (NOGUEIRA. No rap. objeto de análise de nossa pesquisa: #UstraVive (Um Rap Reaça)'._ Viva o regime militar. porém. mulheres são Ustra. não foge da luta Os moleques aprendem a brincar de polícia e policia é a nossa cultura De pequeno se aprende que bandido bom é bandido na soltura Não é por igualdade que tem cota racial Mas pra que de fato o racismo se torne real Cobrar dívida histórica agora é fazer o mesmo Só que branco subordinado do preto Não querem igualdade. esse movimento foi mais intenso em São Paulo.

Silva responde com seu olhar exotópico. por ocupar um determinado lugar social e interpretar esse mesmo espaço e o outro sob seu prisma.(VOLOSHINOV) Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Mikhail. A construção de sentido desse discurso exalta as ideias extremistas. ed. online). a maneira como concebe e interpreta sua realidade. além de negar a história dos afrodescendentes no Brasil. São Paulo: Martins Fontes. Bolsonaro e Olavo de Carvalho. “parodiar estratégias e fenômenos da esquerda” (NOGUEIRA. Assim. como se piscasse o olho para todos os rappers e dissesse: transgredindo. REFERÊNCIAS BAKHTIN. expor criticamente a realidade da periferia e reafirmar a identidade do negro. O gênero rap transposto para outra temática é modificado para atender ao intuito discursivo de seu enunciador. Subvertendo o sentido de preconceito. CORPOS . o discurso veiculado é um embate a essas ideias. o “rap reaça”. mais que um reflexo do mundo. A visão de mundo do enunciador evidencia. num processo de apropriações e diálogos. este último conhecido por seu posicionamento conservador e anticomunista. num processo dialógico de confronto e de negação. Enfim. Expressando um tom valorativo de que o regime militar é a melhor alternativa para a sociedade brasileira e discriminando o negro. 9. nacionalistas e militaristas de Jair Bolsonoro. Transgredindo. dou meu recado . expressa um tom valorativo de incitação à repressão num discurso nacionalista de que somente a polícia e o regime militar são capazes de defender o Brasil. evidenciando um olhar contrário às causas defendidas nos raps tradicionais. In:________. São Paulo: Hucitec. 3. ed. 72 O emprego de nomes como Ustra. ou seja. a maioria ainda sofre injustiças e vive a desigualdade social. CONSIDERAÇÕES FINAIS Se o rap surgiu para combater o preconceito. atua no ato responsivo de olhar para o outro com sua visão de mundo. quer vingança. no rap analisado. Gêneros do discurso. contribuem para a construção de um discurso de ultra direita. constituído pela escolha de termos que remetem e reiteram a ideologia de extrema direita. Silva apropria-se do gênero rap para. 2000. revisão de tradução de Marina Appenzeller. daí ser chamado de “um rap reaça”. ________. de denúncia e crítica às desigualdades sociais. a refração. Estética da criação verbal. como ele mesmo afirma. No diálogo conflitante com os discursos defensores da liberdade de expressão. Silva afirma que a comunidade negra não quer igualdade. 1999. Tradução de Maria Ermantina Galvão. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. exalta uma posição política. informa. 2017. o estilo. pois apesar da abolição da escravatura ocorrida no final do século XIX. discute. reiterando suas ideologias por meio de um discurso laudatório ao regime militar e a personalidades com posicionamento conservador.

CORPOS . Campinas: Mercado de Letras. rapper louva Bolsonaro e projeta vertente ‘reaça’. A ideologia no/do Círculo de Bakhtin.167 – 182. Esfera e campo. 2006. P.br/ilustrada/2017/06/1890534-inspirado-em-chico-rapper-louva-bolsonaro-e-projeta- vertente-reaca.ufrn. FARACO. Acesso em 24 set. Anna Christina.). 2017.br/gelne/article/view/9121/6475>. Círculo de Bakhtin: pensamento interacional. São Paulo: Contexto. Sheila V. Inspirado em Chico. 2017. Acesso em 06 jun. Carlos Alberto. 73 BENTES. “Um bom lugar”: a arte verbal nos videoclipes do rap paulista. Bakhtin: outros conceitos-chave. Grenissa (Orgs. Beth (Org. In: BRAIT.shtml>.uol. Luciane. NOGUEIRA.folha. Amanda. Disponível em: < http://www1.). Disponível em: < https://periodicos. p. de Camargo. In: PAULA.133-160. GRILLO. STAFUZZA. 2013.com.

um dispositivo para organizar os bens simbólicos em grupos separados e hierarquizados. Aos que eram cultos pertenciam certo tipo de quadros. Nestor Canclini A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. enfrenta sua agonia diante de práticas subversivas e de novas obras que tensionam o que é considerado colecionável ou canônico. salas de concerto e bibliotecas. Para Canclini ( 2013) essas coleções. Maria da Penha18 As fronteiras rígidas estabelecidas pelos Estados modernos se tornaram porosas. p. CORPOS . o autor vê esse processo de construção de outras coleções um ato de relativizar qualquer tipo de fundamentalismo. Conhecer sua organização já era uma forma de possuÍ-los. Poucas culturas podem ser agora descritas como unidades estáveis. Exotopia. Mas essa multiplicação de oportunidades para hibridar-se não implica indeterminação. É TUDO NOSSO! Sérgio Vaz C onstruímos. 409301/2016 – 7. autores. pela dor e pela cor. Longe de se constituir em algo nocivo. de músicas e de livros. RESUMO 74 POESIA SLAM: voz e resistência 17 Palavras-Chave: Rap. e mais tarde na América Latina. na contemporaneidade.. Gêneros do Discurso. com limites precisos baseados na ocupação de um território delimitado. o popular e o erudito cada vez se tornam mais tênues. mesmo que não os tivessem em sua casa. nem liberdade irrestrita. As classificações monologizantes se esgarçam e a linha demarcatória entre o culto e o inculto. 2013. 18 Professora Associada II do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem. Processo n. Por uma Periferia que nos une pelo amor. A formação de coleções especializadas de arte culta e folclore foi na Europa moderna. Canclini nos apresenta um processo dialógico que se dá nas culturas a partir da concepção de coleção e da ideia de descolecionar como algo constitutivo de diferentes práticas culturais. ao longo de nossa história no mundo. que distinguia daqueles que não sabiam relacionar-se com ela. 302). Dialogismo. nossas bibliotecas onde guardamos as obras. pois 17 Texto que contempla objetivos do Projeto de Pesquisa Universal financiado pelo CNPQ. CASADO ALVES. (CANCLINI. mesmo que fosse mediante o acesso a museus. artistas considerados tesouros a serem preservados.

artísticos. Eis o Slam Poetry19. Corpos em cena. o ato de descolecionar esses grupos fixos e estáveis nas culturas. espaço. (CANCLINI. Também não acreditamos que haja perspectivas de restaurar essa ordem clássica da modernidade. na dinâmica discursiva. na mobilidade. com a Poesia Marginal ou a Geração do Mimeógrafo. de manter categorias rígidas que desconsiderem a movência da própria vida e da história. Sua lição nos serve como alerta para pensar que a cultura é dinâmica. Paulo Leminski. O termo marginal também pode remeter a uma produção literária/artística 19 O termo Slam Poetry ou apenas Slam é utilizado para fazer referência aos campeonatos de poesia. Na babel discursiva. Margem. CORPOS . duelam os discursos veiculadores de verdades absolutas (as forças centrípetas) que tentam impor uma centralização verbo-ideológica que procura conter o heterodiscurso. Sujeitos encarnados. textos. Sujeitos falantes. Periférico. nacionais. 2013. p. Cacaso. 2001) é preciso considerar que os sólidos se desmancham e novas identidades são forjadas/construídas na heterogeneidade. vale ouvir outras vozes sobre o que nós nomeamos ao longo da história de nossa literatura como “literatura marginal”. palavra-istina. que absolutizam certos patrimônios e discriminam os demais. outros espaços que constroem novas sociabilidades à revelia dos museus. Assim. escritor. forças centrífugas e centrípetas. Marginal. étnicos. resistência. permite-nos uma compreensão mais generosa a respeito de práticas artísticas. Sujeitos que resistem e assumem a cena sem que sejam autorizados por uma voz que social que lhe nomeie poeta. Competição. 307 ) Canclini. Francisco Alvim e Chacal. Não há voz chancelada por nenhuma autoridade/especialista que lhe reconheça ou lhe “dê”a voz. de absolutizar. o sujeito construiu arte. as vozes dissonantes (as forças centrífugas). Nesse sentido. cultura e linguagem. Na arena de luta das linguagens. rua. não há razões para lamentar a decomposição das coleções rígidas que. vale o que observa Bakhtin (2010) ao historicizar a sátira menipéia e a sua existência à margem dos gêneros sérios da antiguidade. ao separar o culto. teatros. sempre haverá a tentativa de monologizar e dar a última palavra. ao assim valorar os “cruzamentos irreverentes”. Torneio. Fazem parte desse movimento Ana Cristina César. enunciados estéticos e ocupou espaços para além daqueles considerados adequados para a exposição ou projeção da boa arte socialmente valorizada. o júri pode ser composto por qualquer um que esteja ali presente. estéticas à margem do que é considerado o centro do socialmente valorizado. Em sua maioria são sujeitos do Rio de Janeiro e pertencentes a uma classe social mais favorecida. artista. casas de show. 75 Efetivamente. periferia e centro entram em relações tensas e os sujeitos em suas práticas revelam/desvelam seu pertencimento. outras formas de dizer. promoviam as desigualdades. Na contemporaneidade fluida (BAUMAN. No entanto. ao longo da história. Na roda. no descentramento. Rua. voz e corpo. outros lugares. Vemos nos cruzamentos irreverentes ocasiões de relativizar os fundamentalismos religiosos. Nossa incursão para entender o Slam se ancora em percepções sobre sujeito. marcadamente histórica e feita por sujeitos históricos que tensionam qualquer tentativa de monologizar. Dialogicamente. O termo marginal surge na literatura brasileira na década de 1970. políticos. o popular e o massivo. o sujeito sempre encontrará outras vozes.

Itália. a palavra marginal se preenche com valorações de pertencimento de um grupo a um lugar (periferia) e a uma produção que corre à revelia do que é socialmente valorizado como a grande arte. Mark Kelley Smith. De acordo com Nascimento (2006. Para que se nomeie periferia ou marginal algo. neste texto. sua importância. alguém. sua performance. Essa prática discursiva é concebida por nós como força centrífuga que tensiona o que é considerado boa literatura. o corpo em cena: não há acompanhamento musical ou adereços. O texto a ser apresentado pode ser improvisado ou escrito e memorizado anteriormente. que em termos da valoração artística.” Nesse texto. seu diálogo incessante na cadeia cultural dialógica em que nos encontramos. França. o centro seria a arte socialmente valorizada e que compõe nossas coleções do que julgamos canône. o gestual. Uma vez que os participantes competem entre si. linguagem informal. não há formato específico. um júri escolhido na hora por pessoas comuns que ali assistem podem dar nota de 0 a 10. poesia. cria um show-cabaré-poético-valdevilliano que é batizado como Uptown Poetry Slam. Predominantemente em São Paulo. questões sociais próprias da periferia. Podemos. Esses campeonatos de poesia já ocupam a cena cultural em várias cidades do Brasil e deixam ver que a cultura não diz respeito a lugar fixo. os campeonatos de poesia chegam ao Brasil. ou se coloca como centro. Nasce em parceria com o grupo Chicago Poetry Ensemble. criação. Em 2000. modos de falar que marcam a identidade desses sujeitos. gíria. Vence o que conseguir maior nota. Como se organizam os campeonatos de poesia? O que caracteriza os Slams? Esses eventos são campeonatos de poesia no qual seus participantes/concorrentes têm até 3 minutos para apresentarem seus poemas. A poesia é de autoria do próprio concorrente e nessa performance vale a voz. Quanto à forma composicional. As competições se expandem de Chicago para a Europa. pois reconhecemos seu lugar. a arte socialmente valorizada ou canônica. Tratemos de uma dessas manifestações: O Slam. Assumimos. sob o risco da superficialidade. nos reservamos o direito de nomear de poesia ou de arte sem adjetivos que as qualifique. Suíça e Alemanha. Segue link para vídeo da Slammer Roberta Estrela D’Alva para que se possa ter dimensão desse evento estético em plena rua. p. quem escolhe/elege o vencedor? No evento. 76 fora ou à margem do meio editorial. recuperar os anos 90 que marcam uma nova entrada na cena artística “alternativa” de um grupo de escritores que se nomeiam representantes da periferia (São Paulo). Sob ângulo dialógico. Como surgiu o Slam? O Slam Poetry surge em 1986 com a finalidade de tornar popular a poesia falada. Dos enunciados estéticos desse grupo ganham visibilidade a cultura hip hop. 18) a nomeação “literatura marginal dos escritores de periferia” diz respeito tanto a “textos produzidos por escritores da periferia dos demais textos publicados nos últimos quinze anos que poderiam ser classificados como “literatura marginal’” quanto os diferencia “das obras dos ditos poetas marginais setentistas. à revelia do que a academia considera canônico. Qualquer pessoa pode participar. Um operário da construção civil. CORPOS . lugar de apreciação dos tesouros da humanidade. também. à péssima qualidade de material e de linguagem ou aquilo que é produzido por pessoas consideradas de baixa renda ou “popular”. a autores autorizados ou a público-alvo homogêneo e seleto que podem apreciar a boa arte.

O espaço urbano das cidades propicia o encontro. a mestiçagem. assim. os desencontros. A rua. diminuem a significação do tipo (resistem efetivamente a seu fluxo ou o tornam irrelevante). pois outros gêneros. Enquanto os sólidos têm dimensões espaciais claras. mas a própria produção desses sujeitos que se veem como atores. mas neutralizam o impacto e. os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente prontos (e propensos) a mudá-la. ao que é arte. Se em algum momento se pensou que a arte seria aquela a compor uma coleção resguardada em museus ou espaços insitucionalizados dedicados a sua salvaguarda. A cultura hip hop. 77 Figura 1.2017.be/d7j2hhxdDlc. outra performance que os singularizam. o Slam e os novos saraus que estão em cena em diferentes lugares do país têm outros sujeitos. os enquadramentos convivem com a desestabilização e as fronteiras entre produtos. Em franco diálogo com o sarau que sempre andou de mãos dadas com a tradição literária. Fonte: https://youtu. essas experiências urbanas rasuram a “aura” e descolecionam. Ou. o corpo e fazem da rua uma ágora dialogicamente responsiva. atividades culturais e artísticas põem em evidência a hibridização. os espaços e as classificações. ainda. objetos.8) Nessa contemporaneidade fluida. a cultura urbana dão visibilidade a projetos de dizer e manifestações contra-hegemônicas ou como bem nos CORPOS . outros temas. p. é espaço público e pode ser apropriada como um cronotopo onde o sujeito se revela em novas experiências estéticas. não fixam o espaço nem prendem o tempo. manifestações. por assim dizer. Poeta e público se tornam agentes ressignificando espaço e arte. textos e suportes ganham a cena e nos convidam a nos reposicionarmos em relação ao que é artístico. Slammer Roberta Estrela D’Alva vencedora de campeonatos de Slam. (BAUMAN.9. por sua vez. cruzamentos marcadamente heterogêneos e fluxos de toda ordem. Vida e arte em relação dialógica como bem pensava Bakhtin (2010) ao preconizar que arte e vida não se separam. Acesso em 21. pensando na fluidez dessa contemporaneidade. sujeitos de linguagem em atos poéticos nos quais a denúncia. Não se declamam os poemas dos grandes poetas. portanto. ao que é poesia. o embate. novos fluxos que corroem os sólidos: Os fluidos. movem a voz. 2001. mais do que lhes toca ocupar.

a cultura popular constitui-se como um dos “[. Dos becos e vielas há de vir à voz que grita contra o silêncio que nos pune. Aquele que na sua arte não revoluciona o mundo. Da Literatura das ruas despertando nas calçadas. É TUDO NOSSO! (VAZ. A favor do batuque da cozinha que nasce na cozinha e sinhá não quer. Por uma Periferia que nos une pelo amor. Contra os covardes e eruditos de aquário. A favor de um futuro limpo. cinemas. Contra o racismo. ( p. 246-250). pela dor e pela cor. do país. Que. É. no centro de todas as coisas. Do teatro que não vem do “ter ou não ter. Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado. em parte. p. Agogôs e tamborins acompanhados de violinos. que. Das Artes Plásticas. de concreto. Contra a arte domingueira que defeca em nossa sala e nos hipnotiza no colo da poltrona. Da Dança que desafoga no lago dos cisnes. Contra os vampiros das verbas públicas e arte privada. o lugar onde a hegemonia surge e se constrói. armado da verdade.. mas também não compactua com a mediocridade que imbeciliza um povo desprovido de oportunidades. Do cinema real que transmite ilusão. A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. Contra reis e rainhas do castelo globalizado e quadril avantajado. É o campo do consentimento e da resistência.” O Slam resistência é esse tempo/espaço onde o sujeito usa a voz e o corpo para resistir. Miami pra eles? ‘Me ame pra nós!’. para todos os brasileiros. e universidade para a diversidade. Contra a barbárie que é a falta de bibliotecas.. Contra o artista serviçal escravo da vaidade. por si só exercita a revolução. Da poesia periférica que brota na porta do bar. A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura.] cenários desta luta a favor e contra uma cultura dos poderosos: é também o que se pode ganhar ou perder nessa luta.. pela periferia e para a periferia: A Periferia nos une pelo amor. só depois da aula. teatros e espaços para o acesso à produção cultural. a emoção e a sensibilidade que nasce da múltipla escolha. a intolerância e as injustiças sociais das quais a arte vigente não fala. Contra a arte patrocinada pelos que corrompem a liberdade de opção. Contra os carrascos e as vítimas do sistema. Contra a arte fabricada para destruir o senso crítico.. A Arte que liberta não pode vir da mão que escraviza. pela dor e pela cor. CORPOS . Um artista a serviço da comunidade. Contra o capital que ignora o interior a favor do exterior.”. Contra o artista surdo-mudo e a letra que não fala. querem substituir os barracos de madeira. Da Música que não embala os adormecidos. É preciso sugar da arte um novo tipo de artista: o artista-cidadão. O Manifesto da Antropofagia Periférica de Sérgio Vaz é a contrapalavra que o poeta lança ao mundo para defender a arte produzida na periferia. 78 evidencia Hall (1984). 2008. A Periferia unida. museus. 109).

Lucas Afonso em Slam. Figura 2. confirmando o que Bakhtin (2010) falava sobre a praça pública e seu potencial para o encontro e a festa. Em ambos os casos porém. Fonte: https://youtu. manifestações artísticas. sujeitos. A voz performática de Lucas Afonso (finalista da Copa do Mundo de Slam. trabalhador. 2005. de ter a intenção viciosa e ignóbil de apagar a diferença de um grupo menor.. Outra valoração. perder prestígio. dissolver-se.9. corrupção. exploração. pec. na França. Outro circuito. políticos corruptos.. a “identidade” parece um grito de guerra usado numa luta defensiva: um indivíduo contra o ataque de um grupo. CORPOS . naturaliza ou torna invisíveis os sujeitos.be/_pj13s4MGy4. Politicamente posicionado o artista-cidadão resiste e denuncia. práticas. pobreza e discriminação são palavras-ato que compõem o enunciado do slammer. (BAUMAN. Arte que vem da periferia e não a arte que vai para a periferia. Artista e público se encontram numa zona de livre contato. instituições. força-lo ou induzi-lo a se render ao seu próprio “ego coletivo”. 82-3).. em 2016) é responsiva a toda situação política atual: golpe. Acesso em 20. Outra rota. p. A voz da periferia entra em embate dialógico e parece responder ao que nos afirma Bauman: [.17. Resiste e critica espaços. um grupo menor e mais fraco (e por isso ameaçado) contra uma totalidade maior e dotada de mais recursos (e por isso ameaçadora).. O espaço urbano é ressignificado com a arte que contribui para processos de subjetivação e reconhecimento da alteridade que quase sempre o cotidiano frenético da cidade pasteuriza. 79 A contrapalavra do artista-cidadão reivindica seu lugar no circuito artístico à revelia dos discursos centrípetos. acusando-o de querer devorá-lo ou destruí-lo.] Em outro momento é o grupo que volta o gume contra um grupo maior.

da instituição e faz do expectador/participante o grande júri. da academia. Para tanto. Figura 3. Fonte: https://youtu. consideramos. literatura marginal a fim de compreender como os sujeitos em diferentes tempos/espaços constroem trajetórias e rotas para além do que é considerado canônico ou artístico. Vejamos a seguir cena de uma avaliação do público sobre o que foi visto/ouvido/vivido na ágora urbana. não é aquele passivo que apenas assiste. _____. 2003. o Slam.9. Ao lado da arte socialmente valorizada outras práticas se gestam e ocupam espaços não institucionalizados para dar vazão a estética. São Paulo: Hucitec. A teoria do romance I: A estilística. manifestações que os representem e a sua comunidade. Público de um campeonato de poesia. do espaço institucionalizado e a joga na rua aos ouvidos daqueles que se disponham a ouvi-la. BAKHTIN. cultura urbana. CORPOS .be/_pj13s4MGy4. Acesso em 20. Portanto. discutimos contemporaneidade. 80 O público de um campeonato de poesia. M. sua intervenção faz parte do evento e o reconhecimento de que qualquer cidadão pode avaliar. 1990. da coletânea. M. INCONCLUSÕES O artigo teve como objetivo discutir a prática do Slam ou campeonato de poesia como espaço de exercício da voz e da resistência. A estética da criação verbal. discursos. a partir das postulações do Círculo de Bakhtin. REFERÊNCIAS M. São Paulo: Martins Fontes. da autoridade.17. do livro. 2015. o Slam como uma força centrífuga que tira a poesia da biblioteca. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. dar sua opinião sobre a arte é constitutivo do Slam que rompe com chancela do especialista. São Paulo: Editora 34. BAKHTIN.

Magia e técnica. Trad de Pa.unicamp. Vaz. 1985. A. Tradução: Segio Paulo Rouanet. 81 ____. JENKINS. A literatura marginal/periférica: cultura híbrida. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 1. Modernidade Líquida. BALBINO. p. 2008. LAMAR. BAUMAN. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade.17. n.br/simple-search?query=jessica+balbino. Sérgio. J. corpo-cidade. Performar o discurso: teatro. Brasília. BENJAMIN. Fapesp: 2000. Rio de Janeiro: Lamparina. EBLE. São Carlos-SP: Pedro e João Editores. 2011. Trad. 2012. E. Disponível em: http://repositorio. Tradução Susana L. Z. Cultura da Convergência.. contra-hegemônica e a identidade cultural periférica. 2003.Cadernos de Ciências Humanas. H. Néstor.9. v. 2015.R. Walter. A. São Paulo: Editora Brasiliense. NASCIMENTO. travestismo. 12. 1ª Ed. 4. A identidade cultural na pós-modernidade. ed. Arte Urbana: São Paulo Região Central (1945-1998): Obras de caráter temporário e permanente. 2015. VIS: revista do PPG-Arte/UnB. GARCÍA CANCLINI. Pelas margens: vozes femininas na literatura periférica. HALL. São Paulo. ed./dez. 29-37./jun. T. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. 2001. jan. Tomaz Tadeu da Silva & Guacira Lopes Louro. Stuart. Para uma filosofia do ato responsável. Cooperifa: antropofagia periférica. n. p. de Alexandria. 2015. In: Especiaria . Vera M. São Paulo: Aleph. Dissertação de mestrado. ed. v. PALLAMIN. CORPOS .ulo Bezerra. reimp. jul. 16. ______. DF. 2010. 5. Rio de Janeiro: Aeroplano. 2. Problemas da poética de Dostoiévski. 27. Acesso em 29. 193-212. 10. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. São Paulo: EDUSP.

Em continuidade. dessarte. 2012). investigamos uma imagem valorativa da artista recoberta por sofrimentos e dores FRIDA KAHLO 20 lancinantes de seu ser. vulnerabilidade. respectivamente.”(tradução nossa). Os seus autorretratos notoriamente tomaram uma dimensão ímpar em sua obra. nosso estudo está amparado nos aportes teóricos de Mikhail Bakhtin. as cartas de Frida Kahlo. que tocam o outro 20 Maria da Penha Casado Alves: Orientadora do artigo. Pós-doutorado pela Unicamp. Observamos. lentes essas que enxergam um sujeito transitório cujo inacabamento reflete e refrata no mundo da vida e no mundo da arte: Frida Kahlo. à la mesure de leurincomparableintensité. que de certa forma nos remete a Frida. em nosso estudo. perpetuado em sonidos que atravessam mundos.”22 . é importante ressaltar os artigos de Casado Alves (2016. grifo do autor). importa-nos. vulnérabilité. RESUMO 82 Frida Kahlo. corpo esse posicionado e de valorações inúmeras. rasgado sob tons volitivo-emocionais. E-mail: penhalves@msn. à medida de sua incomparável intensidade. rompendo o silêncio de seu interior. no escrever e no viver. que era a própria fragilidade e força: “Et avecquelle force dansleurfragilité: <fragilité> . Corpo. centro de toda nossa fundamentação. que analisam. Esse brado constante observado em sua obra. sem reservas no falar. CHAGAS. 21 Especialista em Estudos sobre a Linguagem: Teorias e Ensino/UFRN. Abordaremos. Pesquisadora. podemos aguentar Muito mais do que imaginamos Frida Kahlo O presente artigo objetiva analisar a tela: O pequeno cervo. Professora Associada do Departamento de Letras e da Pós-Graduação em Estudos da Linguagem/UFRN. com um olhar posicionado sobre a vida e si mesma. ambos sob uma perspectiva bakhtiniana. Autorretrato. FERIDO E instigante nos constitui. Frida. para início do debate. A pintura analisada no presente artigo vislumbra um corpo híbrido que quer dialogar com o outro. Mulher que pintava a sua própria INACABADO NA OBRA DE realidade. que a imagem representada na pintura está cingida em uma linguagem que brada. Para tal. transfere para a ponta do pincel toda dor de sua alma. e sob lentes bakhtinianas dialogar com o outro. Em face disso.com 22 “E com tal força em sua fragilidade: <fragilidade>. e o diário de Frida como enunciados concretos. 56. UMA VIDA DE INACABAMENTOS EM UM CORPO PROVISÓRIO No fim das contas. Doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.com . Keyrla Krys Nascimento21 Palavras-Chave: Frida Kahlo. CORPOS . contribuiu de forma inquestionável no imaginário feminino e artístico até os dias de hoje. Diante disso. refletindo um corpo com dores lancinantes. figura ímpar. o corpo representado em sua obra como enunciado concreto que se torna plural no encontro com o outro. Sujeito cujo inacabamento CORPO. a assertiva de Cixous (2010. p. E-mail: krys_29@hotmail. Tons volitivo-emocionais.

2002). FRIDA KAHLO. por causa disso não pode ter filhos. é um corpo carregado de historicidade. mesmo o marido e os médicos não concordando. 83 provocando uma infinitude de respostas no mundo da vida. como ela mesma gostava de dizer. México. Frida não separou vida e arte. 1946. não segurou as gestações. CORPOS . marcou o imaginário artístico da época cuja a imagem valorativa de resistência persiste até os dias de hoje. é que nos incita a investigar seu autorretrato. suas relações dialógicas que respondem em si e no outro. mas também para o mundo. nos encontramos em consonância com o que alega Bakhtin (2011) a respeito do diálogo dos enunciados. o autor faz uma análise sobre o corpo. Seu suplicio teve início depois desse acidente. feminista. com a exotopia de seu olhar sobre si e a vida. Para melhor compreender esse corpo faremos um pequeno sobrevoo no que se refere a vida da artista. A GRANDE OCULTADORA Frida.A artista foi uma mulher que amava muito. Marcada pela dor depois de um grave acidente de bonde que dilacerou sua coluna(1925). Perante o olhar de inacabamento do sujeito. UM CORPO FERIDO REVERBERANDO EM TINTAS Nosso tecer sobre o híbrido corpo fridiano Pinto a mim mesma porque sou sozinha E porque sou o assunto que conheço melhor Frida Kahlo Figura 1. casamento esse marcado por traições constantes vidas de seu amado. referindo-se ao corpo grotesco. a grande ocultadora. Frida começou a pintar para aliviar o sofrimento depois desse trágico acontecimento em sua vida. em 6 de julho de 1907. mulher revolucionária. figura singular não só para o país em que vivia. foram num total de 3 abortos. foi um ser de muitos amores. ela tentou. O pequeno cervo (ou O veado ferido). Frida Kahlo nasceu na cidade de Coyoacán. Marcada por dores físicas e emocionais. Na tradução brasileira organizada por Bezerra Estética da criação verbal. porém o grande amor de sua vida sempre foi Diego. grande era o desejo de ser mãe. dos tons volitivo-emocionais. detalhe que tornou sua obra incontestavelmente extraordinária. por causa de sua saúde frágil. casou-se com Diego Rivera. comunista. foram inúmeras cirurgias. como também o faz no livro A cultura popular na Idade Média e no Renascimento (BAKHTIN. Em1929.

significa que ele quer curar-se. destruição. Verificamos que o veado é jovem e macho. a sua face nos remete a uma quietude inquietante. Um galho no chão caído. que na cultura grega o cervo é símbolo de fervor sexual. o fim. em nossa análise. o mar ao fundo. No seu semblante uma serenidade intrigante. senão pelo desfecho que esperava: a morte. O rosto com a serenidade que intriga. Notamos. podemos então. E tudo faz muito sentido. a maceração do seu corpo. a vida interrompida e a espera do fim. envolto por árvores de troncos largos. Os troncos grandes. cabelos penteados. o sangue jorrando das feridas. do corpo de um veadocravado por flechas com a cabeça da própria Frida. agilidade. podemos vislumbrar sensualidade na face de Frida. vida interrompida. por isso. ícone que dialoga com esse pensamento é o galho caído. a guerra – mostrando o conflito em seu interior –. entender que Frida não acredita mais em sua cura. significando virilidade. Uma imagem híbrida. em volta do cervo. Raio simboliza guerra e destruição. dá uma ideia de estar sem saída. a ligação de terra e céu. visto que em algumas culturas a figura do veado com uma erva na boca. que é o fim. Prosseguindo nossa investigação. p. parece estar calmo não por não sentir as dores. mesmo em meio a dor. concomitantemente. lábios com batom. como vemos no cenário analisado e longevidade. constatamos que há uma relação com a pintura por ser um animal jovem e ágil. por parecer sem saída. raiz. notemos os raios ao fundo da pintura que mais se parecem com raízes. ainda. 322): CORPOS . podemos inferir que a dualidade – homem/mulher – habita dentro de Frida. 273 e p. com feridas abertas. terra e céu. porém o que se vê na tela é o galho no chão. não como algo separado mas fazendo parte de sua própria natureza. porém verificamos queo cervo em várias culturas representa fragilidade. 84 Fonte: Herrera (2011). o que é bastante contundente essa concepção pois ela pintou essa tela no período que viajou a Nova York para uma cirurgia na coluna vertebral. No que concerne a temática do corpo. A imagem do cervo pode ser simplesmente explicada pela artista ser de origem indígena. descendo raios do céu. A figura que se assemelha a São Sebastião. que é representado de maneira vizinha: amarrado a uma árvore e atingido por flechas. Ademais. maquiada e com brincos. recorremos à postulação de Bakhtin (2002. existe uma preocupação com a estética em meio ao sofrimento.

não se referem ao conteúdo em quanto tal. na obra de Frida. mas na sua correlação comigo no evento singular de existir que nos engloba.. no que diz respeito aos tons volitivo-emocionais. na qual ele afirma: Um tom emotivo-volitivo..] As fronteiras entre o corpo e o mundo. p. tomado isoladamente. O tom volitivo-emocional baseia-se em um conceito real. mas para eliminá-la inteiramente urge fundir-se em um todo único e tornar-se uma pessoa só [. concreto. temos uma teia de reverberações infinitas. o pensamento ainda não pensado. 85 [.. Em continuidade com esse pensamento.. vejamos o que nos afirma Bakhtin (2011. e entre os diferentes corpos. reverbera no mundo da vida respostas infinitas de tons volitivo-emocionais que constitui o outro. outro-para-mim e eu-para-outro.]. de alma que dialoga com o mundo interior e exterior.. tem semelhante impacto no outro como nos postula Bakhtin. CORPOS . As reverberações da representação do corpo.. Assumindo a devida posição.. toda cultura na sua totalidade vem integrada no contexto unitário e singular da vida do qual eu participo. é possível reduzir ao mínimo essa diferença de horizontes. dois diferentes mundos se refletem na pupila dos nossos olhos. a cima. em construção com outro corpo. o que excede de nós... provisório e fluido. [. Ainda em prosseguimento com nosso estudo. e esse outro é sujeito inacabado.]. O eu ferido de Frida absorvendo o caos em que vivia. notamos que a obra O pequeno cervo. p. Não é no contexto da cultura que uma afirmação emotivo-volitiva adquire o seu tom... A fronteira que nos liga com o outro é fluida e constante e se dá pelo distanciamento do olhar sobre si e a vida. num corpo inacabado. 90).] concepção grotesca do corpo nasceu e tomou forma um novo sentimento histórico. existencial. Partindo do princípio de que um enunciado responde a outros e a arquitetônica da alteridade é eu-para-mim. traçam-se de maneira completamente diferente do que nas imagens clássicas naturalistas [. 21): [. Tom emotivo-volitivo ou volitivo-emotivo é o pensamento enquanto processo. diante de um cenário cercado de simbologias fronteiriças que constroem a história da própria artista. O nosso lugar no mundo. Seguindo esse pensamento. reverbera todo sofrimento e posicionamento de Frida perante a vida refletindo e refratando no outro sob tons volitivo-emocionais o devir de seu ser. dilacerado por tanto sofrimento. uma valoração real. atinge o outro. recorremos à citação de Bakhtin (2012.] Quando nos olhamos. CONSIDERAÇÕES FINAIS DE UM SUJEITO FRONTEIRIÇO O encontro que se deu entre Frida Kahlo e Mikhail Bakhtin por meio de seu autorretrato: O pequeno cervo.] O autorretrato do veado ferido dialoga adequadamente com as citações do corpo grotesco. Através das pupilas da artista que excede sua visão de si mesma e do mundo nos constituímos eventos únicos e fronteiriços. concreto e realista [..

ed. O diário de Frida Kahlo: um autorretrato íntimo. 4. Frida: a biografia. M. Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. R. 1997.php/forum/article/view/1984-8412. Titunik a partir do original russo. Estética da criação verbal. 2011. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. M.br/linhadagua/article/download/47720/52008>. O. Renato Marques. (V N. O corpo utópico. Texto inédito de Michel Foucault. 2. HERRERA. P. _______. M. Maxismo e filosofia da linguagem.br/noticias/38572-ocorpo-utopico-texto-inedito-de-michelfoucault>. 2010. Rio de Janeiro: José Olympio. 2015. Acesso em: 08 jun. FOUCAULT.usp. Trad. KAHLO. Carlos Alberto Faraco e Cristóvão Tezza [para fins didáticos]. Versão da língua inglesa de I. 4.br/index. W. Disponível em: <https://periodicos. 25. ______. ______.2016v13n1p1104>. F. Paulo Bezerra. Trad.unisinos. Trad. CASADO ALVES. _______. Revista Linha D’água. São Carlos: Pedro & João Editores. OLIVEIRA. São Paulo: Globo. 2010. Discurso na vida e discurso na arte: sobre a poética sociológica. Para uma filosofia do ato responsável. Paris: Galilée.ufsc. Volochínov). Cartas apaixonadas de Frida Kahlo. 1926. ed. São Paulo: Martins Fontes. dos S.ihu. 2010. 5. São Paulo: Hucitec. Disponível em: <http://www. São Paulo: Hucitec. 2012. H. ______. v. Trad. El cuerpo utópico. 2017. 14. ed. Acesso em: 22 nov. B. 86 REFERÊNCIAS BAKHTIN. 2002. 2011. São Paulo. Compilação Martha Zamora. 2017. Frida Kahlo entre palavras e imagens: a escrita diarista e o acabamento estético. 2012. ______. H.revistas. Rio de Janeiro: José Olympio. Trad. Tradução de Vera Ribeiro. Le rire de la Méduse: et autres ironies. CORPOS . Revista IHU on-line. Acesso em: 10 jun. Disponível em: <http://www. O coração que pulsa fora do corpo: imagens passionais nas cartas de Frida Kahlo. n. CIXOUS. ed. Mário Pontes.

na prática. da Proposta de Emenda à Constituição nº 241. a PEC 241. 1997. “congelar”. Corpo. sino que tan sólo puede ser una descripción. p. Coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Trabalho. no dia 26 de outubro de 2016. Un acontecimiento sólo puede ser descrito participativamente (BAKHTIN. Por meio desse aporte buscamos compreender a participação política dos professores e dos jovens estudantes durante a primeira quinzena do mês de outubro de 2016. Doutora em Educação. PROFESSORES E DOS JOVENS ESTUDANTES CONTRA A PEC 241/2016: uma “necessitância” de outros mundos e de outros corpos COSTA. éticas e estéticas escritas no interior de uma escola pública e fora dela. 654). renomeada no Senado Federal com o nº 55/2016.costa@ifes. De acordo com AMARAL (2016. Como aporte teórico-analítico utilizamos os conceitos de BAKHTIN (1995. antes da segunda votação. válido para a União. O presente texto tem como objetivo apresentar relatos etnográficos colhidos das vivências políticas. 1996) e ELIAS (2000). Educação e Juventudes (NETEJUV) que está sediado no Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) / Campus Venda Nova do Imigrante (VNI). 23 Professora do Ifes/Campus Vila Velha (ES). una fenomenología del mundo de acto ético. para os próximos vinte anos. Tons volitivo-emocionais. RESUMO 87 A PARTICIPAÇÃO DOS Palavras-Chave: Frida Kahlo. significa. no el mundo creado por el acto. o Novo Regime Fiscal (NRF). Autorretrato. Deane Monteiro Vieira23 De ahí que resulte claro: la primera filosofía que trate de analizar el acontecimiento del ser tal y como lo conoce e acto responsable – es decir. grifo nosso).br CORPOS . que instituiu o Novo Regime Fiscal no Brasil. podendo ser revisado no décimo ano.edu. sino un mundo en el que el acto toma conciencia de sí mismo y en el que se lleva a cabo – no puede generar conceptos. deane. postulados y leyes generales acerca de este mundo (la pureza teórica y abstracta de acto ético).

uma aula pública no dia 10/10/2016 para discussão juntos aos estudantes sobre o contexto político que vivíamos e ainda vivemos. Ela possui um certo prestígio diante dos outros colégios estaduais da região.e (b) Como fazer com que a comunidade do entorno da escola. responsáveis e toda comunidade.A movimentação buscou chamar a atenção da comunidade local sobre os seguintes problemas. sendo que ela se constitui na interação verbal e não-verbal.. pudesse também lutar conosco contra a concentração da riqueza e o aumento da pobreza?. do Poder Judiciário. A partir dessas questões planejamos também uma aula pública no auditório da escola. do Tribunal de Contas da União (TCU). Sendo assim. não é um produto individual. em busca de um ensino médio com melhores condições de infraestrutura e qualidade de ensino. que se responsabiliza inteiramente pelo pensamento.] um gesto ético no qual o sujeito se revela e se arrisca [por] inteiro”. na perspectiva bakhtiniana. 88 [.. medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). No manuscrito Para uma filosofia do ato. divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). também professora da Escola Imigrante. a aula pública organizada pelos professores e com a adesão de alguns estudantes. uma vez que os valores somente poderão sofrer reajustes até os percentuais referentes à inflação do ano anterior. Ou seja.] ação é um comportamento qualquer que pode ser até mecânico ou impensado. e atende jovens do Ensino Médio. inclusive a autora desse texto. p. do Ministério Público Federal (MPF) e da Defensoria Pública da União (DPU) pelo longo prazo de 20 anos. sobre o dever de pensar o contexto da vida real e concreta de nosso país e da educação pública brasileira. no mesmo dia. no Estado do Espírito Santo (ES). 24 Nome fictício que remete a uma certa concordância com a escola e a historiografia capixaba. A escola está localizada num município de tradição italiana. no período da noite. Desse modo. formada pela imigração italiana no século XIX no Brasil. naquela aula pública. diante do contexto de desmantelamento da máquina pública educacional. afirma que “[. que de alguma forma. desequilibraram o cenário pacato dessa pequena cidade do interior do Estado do Espírito Santo. mas eminentemente social. foi um ato assinado e “[. um acontecimento. Bakhtin (1997) destaca que o ato de pensar é sempre singular e diz respeito a um sujeito único. isso faz com que a maioria desses jovens deixem suas cidades e venham para a Escola Imigrante. E em outro turno. constitutivo de integridade dos professores e dos jovens estudantes. foi organizada pela direção de ensino da Escola Imigrante24. dedicada aos pais. no seu artigo intitulado “Para uma filosofia do ato: válido e inserido no contexto”. poderia se tornar um pensamento ético?. Com o receio do decreto da “morte” do PNE (2014-2024) e do “congelamento” dos recursos de investimentos na educação pública brasileira. Mas para Bakhtin qual seria a distinção entre ato e ação? A pesquisadora Marilia Amorim (2009. do Poder Legislativo. as despesas primárias do Poder Executivo.. aqui traduzidos em perguntas: (a) em que condições um pensamento teórico da realidade apresentada pelos professores e alunos... entendo que foram as relações sociais que determinaram as narrativas de luta e de resistência entre os professores e os estudantes. A enunciação com vistas à participação política.] nos valores de 2016. 22). CORPOS . e por alguns professores.. O ato é responsável e assinado: o que quer dizer que ele responde por isso”. foi realizado oficinas para elaboração de cartazes e faixas para serem apresentados em uma caminhada com “apitaço” pela cidade.

“o equilíbrio de poder não se encontra unicamente na grande arena das relações entre os Estados. não necessariamente sinônimo de igualdade de poder. onde é frequentemente espetacular. Na tarefa de educar. para as novas gerações. p. Cálice. Eram em sua maioria adeptos da ideologia da “Escola Sem Partido” e defendiam uma liberdade de apenas ensinar. atraindo grande atenção.473 (quatorze mil e quatrocentos e setenta e três) visualizações e diversos compartilhamentos. é de “vida provisória e em suspenso”. Muito mais grave do que os vinte e um anos de ditadura civil-militar onde os dedo-duro eram profissionais. no chão da escola a esfinge “Escola sem partido” e da “liberdade para ensinar. a elaboração de uma programação para atender os calouros. Diante disso. p. Todos seguiam pelas ruas da cidade.] quebra o que define a relação pedagógica e educativa: uma relação de confiança. 2017). nesse dia de aulas públicas na Escola Imigrante construiu-se um “equilíbrio de poder”. de solidariedade. por meio das vias públicas. em 1973. No dia seguinte o vídeo foi lançado na internet pelo Grêmio e contou com um alcance de14. Educação e Juventudes (NETEJUV) como a “tribo dos engajados” (Costa. de busca e de interpelação frente aos desafios de uma sociedade cuja promessa mais clara. produziram um filme que apresentou a nossa passeada e os principais momentos das aulas públicas e da interação com a comunidade local.. A canção escolhida para a apresentação da marcha da Escola Imigrante foi a de Chico Buarque com a parceria de Gilberto Gil. por acreditarem que o “congelamento” dos “gastos” em direitos sociais poderia salvar o país da crise. 25Homenagem ao nome de uma das vítimas de desaparecimento forçado durante a Operação Marajoara. O vídeo apresenta os estudantes uniformizados e os professores vestindo roupas de cor preta. por estarem sempre na direção do grêmio estudantil Áurea Eliza 25 –. [. Esta pedagogia de confiança e diálogo é substituída pelo estabelecimento de uma nova função para alunos. Constitui um elemento integral de todas as relações humanas”. caso a PEC 241/2016 fosse aprovada.. O grupo tem se envolvido em questões internas do instituto como a educação profissional em tempo integral. em virtude do apoio às medidas governamentais. passaram a se distinguir com um status de “estabelecidos” e produziram críticas contra os grupos de professores e estudantes que se movimentaram nas ruas e na escola. pais. 1980). alguns professores e estudantes que não participaram das aulas públicas e dos movimentos contra a PEC 241/2016. mães: dedo-duro. no Araguaia. modificando a rotina citadina. como a luta pelo fim da redução da maioridade penal. 89 Mesmo nas relações assimétricas exercidas pelos professores e educandos em suas funções cotidianas de disputa na balança de poder (ELIAS. estávamos dispostos a ir além do ato de ensinar. demonstrando o luto da educação pública de qualidade. um grupo de estudantes – identificados em uma pesquisa realizada pela coordenadora do Núcleo de Estudos sobre Trabalho. depois de toda a movimentação do dia. CORPOS . 13). A música destaca uma analogia entre a paixão de Cristo e o sofrimento vivido pela população brasileira durante o regime autoritário de 1965-1985. De acordo com FRIGOTTO (2017.Como nos afirma Elias (1980. mas fruto de uma interdependência funcional de luta e de resistência social. 80). um novo atributo construído em nossas relações. No entanto. a participação em jornadas e também nas discussões de caráter nacional.

. a Prefeitura e uma creche da cidade. que estão especificadas no estatuto do mesmo. assinando um compromisso com a singularidade e com a participação social.facebook.]. # Contra a PEC 241/ IF.. é a falta da participação dos outros estudantes na pauta de lutas que o grêmio tem produzido. de sociedade e de cultura política. #Somos o futuro da nação. CORPOS . é direito de todos!. Isso é reflexo de uma sociedade. #Saúde não é gasto. mas as pessoas não entendem o que tá acontecendo.]. por isso deve ter o máximo de representatividade em sua diretoria. quando ela defendia que: [. além de abrigar toda a documentação e pertences da entidade. Atualmente possuímos uma sede localizada em uma pequena sala cedida pela instituição. e prezamos por isso em nossa entidade. Elas veem notícias e simplesmente falam e criticam e só sabem fazer isso [. porque você ouve muito falar mal do governo ou dos políticos. em 2016.. grifo nosso). Destacaram-se os dizeres:#Educação sem mordaça. visando buscar a solução das demandas dos estudantes. Mas..] o grêmio é a voz do estudante dentro de uma instituição. mantendo a organização. Três locais da cidade foram destacadas no vídeo: o Fórum. 2017. Abertura do filme Fonte:https://www.Tal assinatura. #Lutar sem Temer. A inteireza da filmagem pode ser compreendida a partir do texto escrito pela presidenta 26do grêmio estudantil. É de extrema importância o mantimento de uma boa comunicação com a escola. #Juntos somos mais. é o compromisso particular de 26 Termo utilizado pela estudante em referência à presidenta da república. apesar de haver a discriminação de cada cargo procuramos sempre trabalhar em equipe.com/gremioaureaeliza/videos/619372544901873/?hc_ref=ARQVqtS-wxI68- jkjmsiTebuCiEEoUBXlisQHLbRdExaelhHSXOlIGqeh5l1m-pf-5w As faixas e os cartazes que foram produzidos nas oficinas dadas pelos professores de Artes e política foram destaque na filmagem. #Temer ninguém merece. o problema. Nosso grêmio possui 13 cargos. Cada diretor do grêmio possui funções. 90 Figura 1. que é o local em que nos reunimos e organizamos. aonde se fala muito em política. Dilma Rousseff. defendo que o homem é um ser político e não tem como fugir disso? (COSTA.. ocupados por estudantes de todos os turnos e séries. Da creche saíram três professoras aplaudindo os estudantes e os professores e demonstrando total apoio a luta marchada. ainda no cargo em 2016. a que a gente vive hoje. E foi justamente na defesa de que o homem é um ser político que o vídeo produzido pelo grêmio revelou ou seu vinculou ao “dever do pensar” sobre as concepções de homem.. #2016 desordem e regresso!. [. p. 11. Mas.

para dentro dos muros da escola. Além disso. estética. mesmo reconhecendo a oportunidade de se credenciarem para o mundo do trabalho por meio da escola. p. pós-passeata. Decreta-se a idiotização dos docentes e dos alunos. também trouxe outros debates de âmbito da vivência e da identificação religiosa.. p. 12.] diante das “esfinges”27mais vorazes que nos chegam pela incapacidade de vermos os sinais. 2016. 2017). “[.. Assim sendo. cabe aos “especialistas” autorizados. os sem trabalho. urge a “necessitância do pensamento-ato” que lute por outros mundos e outros corpos. p. CORPOS .. 49) trata-se de “[. na perspectiva bakhtiniana. a miséria. Assinatura é também inscrição na relação de alteridade: é confronto e conflito com os outros sujeitos. não se subtrair daquilo que seu lugar único permite ver e pensar. além do aprendizado. mas não à professora e ao professor como educadores. não admitem a forma como muitas vezes acontecem as práticas pedagógicas (COSTA. 91 [. feminista e do homoerotismo. musical. grifo nosso). que ainda não foram “moídos” pelo [. 12). apareceram como um dos elementos constitutivos da singularidade da condição juvenil naquelas movimentações (Costa... pode-se dizer que a assinatura em Bakhtin é o atestado da passagem do sujeito por um dado espaço- tempo: ser real e concreto que se apropria de seu contexto.] manto martelado pelos poderosos meios de comunicação que fazem parte desta ideologia e passam a moer os cérebros de pais. mas que se diz sem partido. 2009. da formação competente para a competitividade e sucesso na vida dos negócios”. a movimentação juvenil na Escola Imigrante. da compreensão da natureza das relações sociais que produzem a desigualdade. autômatos humanos a repetir conteúdos que o partido único. 28 Termo utilizado por FRIGOTTO (2016).. A única leitura do mundo... 27 COSTA (2015).] um proceder responsable [. sexo.A construção de suas “tribos”28 de identidade juvenil. pois elas se escondem sob o manto ideológico de “liberdade”. 2017). os sem direito à saúde e educação e das questões de gênero. os sem teto.. Para BAKHTIN (1997. se pensarmos no ser acontecimento. etnia.] não se furtar. autoriza a ensinar (FRIGOTTO. assumindo-o em ato (AMORIM. de acordo com FRIGOTTO (2016. a “idiotização dos docentes e dos alunos” por meio das leis ou das ideologias midiáticas. p.] um ato basado en el reconocimiento dela singularidad de nuestro deber ser”. pois. os jovens desejam frequentar uma escola que valorize a sociabilidade. No entanto. 25). E por fim. os sem terra..Pois. o encontro. não serve como justificativa para não pensar ou não criar aquilo cujas condições de possibilidade advêm da minha singularidade enquanto sujeito. 2015. crianças e jovens e de corporações políticas contra a escola pública e os docentes por não ensinarem o figurino que a “arte do bem ensinar” manda.

Encontros e desencontros juvenis em uma escola. 41). Extensão e Cultura do Instituto de Aplicação Fernando Rodrigues da Silveira (Cap.gepsexualidades. 32.pdf>. justamente o mundo contemporâneo.br/index. Para uma filosofia do ato: “válido e inserido no contexto”. 2009.. 1980. FRIGOTTO. de viver num mundo dito “globalizado”. foi um pensamento-ato ou um ato de resistência. AMORIM. N. p. Hacia uma filosofia de lacto ético. n. As juventudes escolares e suas tribos juvenis: uma saída aos trilhos da vida comum. com seus valores dominantes. Parece-me que. CORPOS . Revista Brasileira de Política e Administração da Educação v. REFERÊNCIAS AMARAL. V. San Juan: Universidad de Puerto Rico. Gaudêncio. “[. UERJ). Jul. BAKHTIN. Beth (Org. Pesquisa.2017. Disponível em: <http://www. Disponível em: <http://periodicos. contra os valores dominantes que saqueiam os direitos sociais dos mais pobres em nosso país. Deane Monteiro Vieira Costa.br/SNPGCS/article/viewFile/1560/1152>.2016. não nos exime da responsabilidade de reconhecer os pensamentos determinados pelo grande capital e de tomar partido pelos injustiçados.9. Disponível em:<http://www. renomeada no Senado Federal com o nº 55/2016. O fato de sermos contemporâneos desse país. 92 ACABAMENTO: sem enunciar a última palavra Diante do exposto. podemos analisar que as movimentações dos professores e dos alunos. São Paulo: Editora da Unicamp.com. Ago. Acesso em:12. Escola sem partido: imposição da mordaça aos educadores. a PEC 241.ufes.2017 ______. contra a Proposta de Emenda à Constituição nº 241.] precisa mais do que nunca de Bakhtin e de sua filosofia moral (AMORIM. Revista E-mosaicos: Multidisciplinar de Ensino. 2009. De los borradores y otros escritos: comentários de Iris M. Pec 241/55: a “morte” do PNE (2014-2024) e o poder de diminuição dos recursos educacionais. Tamanha insistência no dever e na preocupação em elaborar um pensamento crítico por parte daqueles sujeitos. Braga: Edições 70. In: BRAIT. Acesso em:12.e-publicacoes. em uma cultura dominante da privatização dos serviços públicos. Bakhtin: dialogismo e polifonia. Mijail M.uerj. Acesso em:12. Zavala y Augusto Ponzio. Introdução à sociologia.2015. Nelson Cardoso. Marília. Uma leitura atenta de Para uma filosofia do ato coloca necessariamente esse posicionamento.5.br/resources/anais/6/1466513638_ARQUIVO_Asjuventudesescolaresesuastribosju venis_DEANE. Jul. COSTA. da Escola Imigrante. Jun. 2 (2016).php/e- mosaicos/article/view/24722/17673>. 1997.. Norbert. ELIAS.).

sob orientação da professora Dra. RESUMO 93 Apresento um exercício heterocientífico de pesquisa com sujeitos expressivos e falantes do ensino médio. heterocientífica. caminho contextualizado na COUBE. As corporeidades são aqui compreendidas como cronotopos que resistem às intempéries sociais. 31 Os estudantes do Curso Normal participam de atividades em dois turnos. Isto me leva a reforçar a importância das muitas pessoas que me auxiliaram e auxiliam a sentir/pensar/agir com uma perspectiva alteritária e empática. Corporeidades que resistem às intempéries sociais. reconhecendo que somos profissionais da formação de totalidades humanas corporais (ARROYO. do Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho (IEPIC). Sujeitos inteiros que ocupam a escola com carne e sangue. às reduções da liberdade: corpos-sujeitos inteiros que ocupam a escola com carne e sangue. Interessa a escuta compreensiva do outro que me altera em que a unidade das narrativas corporificadas (tal como a unidade artística de uma obra literária) diz respeito à realidade efetiva. porque estão incluídas as disciplinas pedagógicas. pensamentos encarnados em atos. As diferenciações entre viver na escola e viver a escola pareciam óbvias. Doutoranda em Educação na Universidade Federal Fluminense (UFF).Grupo de estudos bakhtinianos. como oficinas. resistem. outras INTRODUÇÃO30: preliminares de um encontro gestualidades. CORPOS . sobretudo. outras pedagogias e outras conexões com as vidas dos que em algum momento compõem a nossa história.. pensamentos encarnados em 29Professora do Instituto de Educação Professor Ismael Coutinho (IEPIC). das práticas corporais uma filosofia da sensibilidade e da na formação de totalidades humanas corporais. pessoas com as quais divido a autoria: os grupos de pesquisa Atos UFF e GEPPROFI e.. às reduções da liberdade. onde aprendoa ser professora por meio de deslocamentos e alterações no contexto da formação de professores. inteirezas em processo de construção. p. desenvolvendo a tese Narrativas outras com os corpos: cronotopos em Educação Física escolar. 2017. Bolsista CAPES e integrante dos Grupos de Pesquisa: GEPPROFI – Grupo de Estudos de Processos Formativos Institucionais. Tons volitivo-emocionais. estudante-narrador desta costura. além de estágios e atividades extras. da sensibilidade e da somaestética. pautada na filosofia da vida. onde me construo CORPOS: cronotopos em cotejos com cotidianamente professora e venho pensando junto (aos estudantes e professores de Educação Física) as questões com/do corpo. amorosa.274). Atos UFF . Somaestética. já que somos também seres inconclusos. outros mundos. o Igor. Palavras-Chave: Corpos. todavia expressá-las ainda é algo difícil tanto para os estudantes quanto para mim. educadores. em tempos que exigem de nós. Roberta Jardim 29 categoria bakhtiniana cronotopo. escola pública da rede estadual do Rio de Janeiro. Curso Normal. Eda Maria de Oliveira Henriques. transgridem e dialogam com outros corpos. E ste texto é um exercício heterocientíficode minha pesquisa de doutorado com sujeitos expressivos e falantes do ensino médio. Curso Normal 31 . 30 Procuro assinar esta escrita com o meu ato responsável e responsivo. artísticos e desportivos. eventos culturais. Alinhar as conversas com o Igor (e não sobre ele) tem sido um exercício contranarcísico (em encontros poéticos com as metáforas do poeta Leminski) que coloca em xeque os (des)caminhos de uma pesquisa que se pretende corpórea. Esta pequena costura procura cotejar com Bakhtin somaestética e Richard Shusterman uma outra consciência corporal. a carga horária é maior do que o ensino médio regular. que respondem. Formando e sendo formada por jovens que corroboram a urgência de pensarmos coletivamente outras pedagogias dos corpos.Cronotopo.

sendo pelo menos duas consciências que interagem32 . alterando-nos até o último dia de nossas vidas. Nessa tarefa empática identifico uma condição para a abordagem estética do mundo. sou levada a reforçar. e parcialmente no religioso. Pensamos porque somos um corpo no mundo. vivências voltadas para sentidos e presenças de alma. fúteis. 94 atos.44)”.planos ético e estético. e inversamente contrário ao enfoque biológico do organismo.. para quem a relação “eu e outro” é absolutamente irreversível e dada de uma vez por todas (Ibidem. pois. as materialidades vivas. Contexto em que importa a categoria “outro”: é o outro que torna o meu corpo “esteticamente significativo”. é importante considerar que os corpos. outros mundos. 33 A imagem é uma grande inquietação minha e venho tentando pensar com os sujeitos da minha pesquisa a relação entre cronotopia e corpo (corporeidade ou consciência somaestética) buscando percepções artísticas vivas nas narrativas (encarnadas) de estudantes e professores de Educação Física do Curso Normal.48)”. visto que escuto (e respondo) as narrativas de professorxs e alunxs o mundo como mundo dos outros. por conta da maneira cartesiana de ler/ver o mundo. às que ocorrem na cena pública. Pensar com o corpo é uma expressão redundante que. resistem. mais concretas. Tratar. de pessoas em movimento. estão em contexto dialógico. E porque somos corpos dialogamos com os outros. corpo é um valorem especial. em 25 e 28 de julho deste ano. p. Nesse contexto. Em cotejos com Bakhtin. as leituras e as conversas com o Grupo Atos UFF trazem à cena a necessidade de pensar a práxis docente embebida de humanicidade e de vida em que os corpos ocupam um lugar singular em um mundo também singular concreto. Envolver as questões do corpo (dos corpos) em Bakthtin requer atenção ao movimento unitário de sua obra. CORPOS . Compreendo a escrita como um evento em enunciados narrativos em que o mundo teórico e o mundo da vida interagem no ato responsável do ser humano. visto que compreende-se a existência de uma ciência outra que ressalta um plano discursivo em que vozes dialogam e inauguram o dever concreto do sujeito. que respondem. A escrita é. fruto de pensamentos encarnados. como David Le Breton (2007) antropólogo que se dedicou à compreensão da corporeidade humana como fenômeno social e cultural com motivações simbólicas contidas na sociologia do corpo. outras gestualidades. das questões do corpo é considerar ações de todos os tipos: das mais frívolas.. 2003. portanto. o “encorpamento estético” realizado. A marca da nossa existência se dá porque somos corpos. Importa sentir/pensar o “lugar singular que o corpo ocupa como valor em relação ao sujeito em um mundo singular concreto33 (BAKHTIN. na UNICAMP. Essas afirmações não são novidades aos estudiosos do corpo. p. porque o vivenciamento do corpo se dá em relação com o outro e “[. Tratar das questões do corpo é também (e não somente) considerar a 32Essa ideia em construção foi apresentada (e publicada nos anais do) no VIII Fala outra escola: re-existir nas pluralidades do cotidiano. considerando a polifonia das ciências humanas.] a distinção entre os corpos exterior e interior – o corpo do outro e o meu corpo – no contexto fechado concreto da vida de um homem singular. Sendo o sujeito encarnado sempre relacional. transgridem e dialogam com outros corpos. sobremaneira a perspectiva heterocientífica e do grande tempo. cada um à sua maneira singular de existir.

Igor canta e dança. Se ainda domina nas políticas uma visão imaterial dos alunos. se quisermos refletir. tempo e espaço valorados em que duas consciências dialogam acerca das suas histórias de vida e formação sempre permeadas por nossas emoções. e é um questionador e leitor atento. diverte as pessoas ao seu redor com risos e palavras brincantes. o percurso e o os nossos corpos são cronotopos. dos afetos na construção das pessoas. demonstrando que estávamos ali. Certa vez. a emoção é um “movimento para fora de si”: ao mesmo tempo “em mim” (mas sendo algo tão profundo que foge à razão) e “fora de mim” (sendo algo que me atravessa completamente para. unidades corpóreas singulares e coletivas. posso inferir que o Igor é uma corporeidade brincante e resistente às imposições que nos chegam de fora. Restou para mim e para os demais presentes o silêncio: não um silêncio qualquer. fui presenteada com réplicas sensíveis e amorosas de Igor em relação às histórias narradas por suas colegas de turma. bem como possibilidades de alegria no coração de nossas dores atuais (DIDI-HUBERMAN. Os processos de aprender. uma vez que ele é em grande parte desconhecido para nós (DID-HUBERMAN. p. É um movimento afetivo que nos “possui” mas que nós não “possuímos” por inteiro. todos voltados às vivências dos sujeitos sencientes que trouxeram com suas corporeidades as suas marcas únicas de existência. que o encontro com o outro é tingido por matizes emocionais35.349). p. se perder de novo). estudante do Curso Normal do IEPIC. mas um silêncio sígnico. com o Igor. Cabe a nós. Bakhtin aponta para a indissociabilidade entre as definições espaço-temporais e corrobora afirmando que são sempre tingidas de um matiz emocional..28). refuta a perspectiva heteronormativa. que tem necessidade tanto de substâncias duras – os ossos – como de substâncias macias – a carne.] as emoções são sempre secretamente duplas. O Igor é o outro com quem eu falo. 95 importância das emoções34. E é justamente por pensar sobre as questões do corpo com um pensamento encarnado e amoroso às emoções.E é o cronotopo que determina a unidade artística de uma obra literária no que ela diz respeito à realidade efetiva (BAKHTIN.275). (des)constrói a educadora que sou. 2014. [. 2016. de suas mentes e processos de aprender (ARROYO. unidades artísticas. Narrativas de violências sofridas por meninas e mulheres escutadas atentamente por Igor e replicadas com sensibilidade. fez balé por anos.. 2016. p. 34 Pensar o corpo vivo requer pensar nas emoções. à maneira de um corpo vivo. Segundo Didi-Huberman (2016). afetações humanas. das políticas e dos currículos com pouco sentido aos nossos educandos. Nos conhecemos no início do ano letivo de 2017 e as suas preferências chamaram a minha atenção: Igor escreve textos literários. CORPOS .45). O encontro. a tarefa de encontrar sinais de inquietação no coração de nossas alegrias presentes. consciências encarnadas. depois.Constrói textos em gêneros distintos e traz em sua corporeidade algo que toca a minha corporeidade: acabamos por pensar juntos sobre os itinerários de professores em formação que trazem o corpo para o debate pedagógico. um jovem sempre muito disposto a contribuir com sua presença marcante nas aulas e para além delas. p. que vê o mundo dentro de um padrão único de existência. 35 Em Formas de Tempo e de Cronotopo no Romance (Ensaios de poética histórica). durante uma de nossas rodas de conversa em que discutíamos sobre contos de Machado de Assis.

2017. portanto. ao ler a obra Consciência corporal. de Richard Shusterman (2012). é que percebemos toda formação é relacional e habitada por muitos. Igor e eu. carregado de sentidos e valores (LE BRETON. Falamos. entre consciência cultural e consciência viva (BAKHTIN. estou com as palavras de Igor reverberando e ecoando à medida que também me alteram e auxiliam a pensar os procedimentos de minha pesquisa – que não é somente minha. São muitos os que nos habitam. p. afasto-me de reflexões abstratas as quais interpretam o tempo e o espaço separadamente. escreveu Igor em resposta à nossa conversa sobre formação de professores. CORPOS .25). Na metodologia narrativa nessa perspectiva os processos formativos são sempre entre sujeitos que falam diante de outros sujeitos que falam. sobre o corpo vivo e senciente como núcleo organizador da experiência (SHUSTERMAN. 96 APRENDENDO BAKHTIN COM O IGOR: filosofia do corpo vivo e senciente As práticas corporais compuseram a infância de Igor e compõem a sua história atual. na possibilidade do sujeito que narra estabelecer sempre novas relações e novas tessituras que considero a intercorporeidade (o diálogo) como um lugar potente de produção de novos conhecimentos. eles sequer foram citados ipsis litteris . esta sempre associada ao agir ético no mundo. 2017. porque reside na singularidade do ato a possibilidade da religação entre cultura e vida. já que as dimensões tempo-espaciais são 36 Texto escrito em versos por Igor sobre um debate acerca da formação de professores. com as relações com os legítimos outros.276). p. lia em companhia do Igor. E por que a defesa de pedagogias outras? Porque os corpos mutáveis nos obrigam a inventar pedagogias específicas para cada tempo de formação humana (ARROYO. Após uma de nossas conversas. compromisso e responsabilidade em eventos que são sempre únicos e irrepetíveis. Os cotejos com Bakhtin e o Círculo enfatizam preceitos como alteridade. de que fala Bakhtin. p. Quando uma pessoa se torna um professor se torna mais que uma única pessoa 36. e é na vida concreta. É. que vale-se do aporte autobiográfico das narrativas de histórias de vida e formação. Importa a compreensão do que Bakhtin denominou arquitetônica concreta do mundo da visão estética. além de nossos múltiplos “eus”.Porque as nossas práxis precisam estar conectadas às singularidades dos atos. o homem constrói socialmente seu corpo (Ibidem. Ao me aproximar do momento de valor emocional de Igor. sem hierarquizações ou quaisquer posições de superioridade – enfatizando as relações alteritárias. Trago um recorte do que venho exercitando durante a pesquisa de campo de minha tese de doutorado. 2007. pois comporta a ação responsiva do ser indivíduo que é também um sujeito contemplador da arte e da vida as quais compõem uma unidade. p.276). 2012. os quais são inseparavelmente individuais e sociais – aliás. em companhia de suas palavras e seus gestos.18). então.7). 2012. Escutar as suas narrativas é deixar-se afetar por questões surpreendentes acerca da corporeidade como eixo da relação com o mundo. p. Claro que esses conceitos não foram esmiuçados por nós. p. E são por meio dos contextos formativos que percebemos a necessidade de maior sensibilidade com os corpos (ARROYO. Neste tecido. em movimentos de deslocamentos.19).

Igor traz um conto e é com ele que procuro sentir/pensar os corpos como cronotopos. é produzir a imagem do Igor em sua ausência. pois: em mim eu vejo o outro e outro e outro enfim dezenas trens passando vagões cheios de gente centenas o outro que há em mim é você você e você assim como eu estou em você eu estou nele em nós e só quando estamos em nós estamos em paz mesmo que estejamos a sós37 Como no poema de Leminski. leio. de Paulo Leminski. parecem ser questões acolhidas pela somaestética de Richard Shusterman (2012). valorizando as experiências dos sujeitos da pesquisa. estamos em nós. Insatisfeita com a minha escrita acadêmica. Volto à casa. p. seus atos brincantes em que o próprio corpo é um corpo brincante. recorro ao processo de sentir/pensar/agir a pesquisa com a minha orientadora. 38 As narrativas de Igor sobre as suas práticas corporais dentro e fora da escola. o Igor está em mim e estou nele. penso. sinto novamente as palavras de Igor. 97 indissociáveis. sobre sua admiração pelo balé e aversão ao futebol. E é com o poema Contranarciso. Nesse exercício heterocientífico os receios são inúmeros: o maior deles.12. sobre as nossas últimas conversas. no momento em que escrevo/sinto. 1983. que seria mortificar a pessoa única e singular que ele é. CORPOS . para ele. Peço ao Igor um pequeno texto com possíveis questões significativas. lembra que também eu sou um dos sujeitos da pesquisa. corpos vivos e sencientes com sentimentos e propósitos38 inteiros: 37 LEMINSKI. registradas em aparelho gravador e também presentes em minhas memórias. sempre relacional. Ela fala sobre a importância de mergulhar nessas minhas/nossas dificuldades e me convida a pensar a formação de professores. que reparo com mais afetação o meu encontro com o Igor.

sentidos na pele). p. sinto distintas sensações. p. 98 Hoje contarei um conto.27). era bem acima do peso.. 2012. releio o texto (miniconto) escrito por Igor. Uma pessoa que carrega em sua postura39 a perspectiva do corpo como fonte primordial de informação e inteligência sensível (SHUSTERMAN. o maioral. um menino com um corpo e pensamento diferentes.28).28). Sempre quis ser uma criança diferenciada. transformo as situações e contextos que habito e sou transformada pelas relações que experimento. A somaestética propõe mais atenção à consciência corporal. pois sem ele eu seria uma criança obesa sedentária e sem vida social. É um texto responsivo escrito para mim como são responsivos os seus discursos quando. ter dúvidas e curiosidades epistemológicas. p. Eu tinha nove anos e não jogava futebol (todos os meninos achavam que eu era e queria ser uma menina). 40 Os sentidos somaestéticos costumam ser divididos em exteroceptivos (relacionados a estímulos fora do corpo.Agradeço às aulas de Educação Física. No acabamento estético que faço do Igor ele é um rapaz bonito e uma corporeidade potente que me ensina a aprimorar a minha práxis docente. em minha infância não sabia bem quem queria ser! Sempre quis ser o melhor em tudo. e feio. sempre fiz mais de um esporte de uma vez e isso me fez emagrecer bastante. Nós que somos um corpo no mundo. 2012. e era. Com elas a relação arte-vida. Assim. 2012. auxilia uma colega que chora.. sou capaz de aprender. Há emoções que os transformam e me transformam. sonhamos com voos livres e por vezes temos pesos nos pés.26). considerando a 39 O termo postura é utilizado neste texto como maneira de proceder. sempre me achei e ainda me acho estranho. um conto como nunca antes nesse caderno. esse menino sou eu. em momentos de intervenção. As conversas-encontros com Igor continuam. Acho que as aulas deveriam ser um pouco mais práticas [no Curso Normal]. proprioceptivos (originados dentro do corpo e relacionados à orientação das partes do corpo umas em relação às outras e à orientação do corpo no espaço) e viscerais ou interoceptivos (que derivam dos órgãos internos e que costumam estar associados à dor) (SHUSTERMAN. suas concepções estéticas. sua maneira de lidar com o texto literário e os diferentes gêneros. Cotejando com Richard Shusterman. É porque tenho e sou um corpo que manipulo os objetos. p. voltada para a experiência corpórea em que o corpo constitui nossa primeira perspectiva ou modo de relacionamento com o mundo(Ibidem. Minha mãe sempre me botava em esportes. É uma prática filosófica que identifica a expressão ambígua do ser humano: uma sensibilidade subjetiva que experiencia o mundo e um objeto percebido nesse mundo (Ibidem. 26). utiliza o termo somaestética para propor um novo campo interdisciplinar da prática filosófica40. p. o cara perfeito.9). sendo movimentos em grande parte desconhecidos para nós (DIDI- HUBERMAN. As contradições estão contidas também no corpo e o autor parece valer-se da somaestética também para problematizar as dicotomias e polarizações da perspectiva cartesiana. perspectiva em que corpo é também lugar em que se aprimora a cognição e as capacidades para a virtude e para a felicidade (Ibidem. p. e isso fez que eu ficasse mais feio. No dualismo obstinadamente dominante de nossa cultura é demasiadas vezes contraposta à experiência corporal (SHUSTERMAN. Hoje contarei a história de um menino. O esporte me ajudou bastante. CORPOS . 2016. de se posicionar no mundo.19). atitude responsável e amorosa.

A palavra é corpo. a opção por consciências somaestéticas (ou consciências somáticas) evita possíveis associações negativas com o termo “corpo”. Representações que não são permanentes. identitárias.. CORPOS . sociais. as aparências corporais são o palco de mudanças difíceis de ocultar e que não podemos prever e controlar. marcas de nossas histórias contidas em nossos corpos e localizados no tempo presente42 . sempre em transformações na vida em que nada é fixo e acabado e somos prenhe de futuro – não quaisquer futuros. Primeiro porque. O enunciador é corpo. 99 alteridade da pessoa humana. quando não somos capazes de ser sensíveis às corporeidades que falam. é por meio do corpo que nos relacionamos com os outros. CONSTRUINDO O PRÓPRIO CHÃO COM AS INCERTEZAS DE CARNE E SANGUE. Para nós. sinônimo de corpo vivo e senciente.]. Questões que já são objeto de debates e da invenção de outras pedagogias dos corpos (ARROYO. políticas.. fantasias. Igor compõe comigo esse processo em que as práticas corporais estão/são (n)as relações alteritárias e em nossa assinatura. 42 Esta imagem parece dialogar com a ideia benjaminiana de entrecruzamento passado/presente/futuro. vou construindo o chão com as incertezas do sentir-fazer pesquisa com o meu não-álibi. quando não escutamos as contrapalavras. a filosofia da vida. performances. estéticas. Os projetos sobre os corpos trazem algo novo nas escolas: o corpo passa a estar aberto para o debate. Segundo porque o fenômeno corporeidade se dá no seio da cultura humana. mais ou menos expostos. das vidas que teimam em re-existir e são mesmo protagonistas dos debates e da invenção de outras pedagogias dos corpos (ARROYO. não basta o tempo vazio e homogêneo. ou seja. por razões óbvias. valores. mas instáveis. nossa autoria. do imprevisível. Representações que ora carregam prazer.Igor e eu somos sujeitos expressivos e falantes de uma determinada comunidade 41 Para Richard Shusterman (2012). o corpo representado. O corpo. p. ora inquietação. As compreensões e alargamentos são sempre corporificadas. imaginários. O corpo é o próprio discurso.. por não olhar para a vida. [. Aprendo mais a teoria bakhtiniana com a mediação de Igor: as nossas diferenças não-indiferentes potencializam o encontro. O autor ratifica e intensifica sua preferência pelo termo “soma”.. p. Gerador de culturas corpóreas. mutáveis. Como na canção de Paulinho Moska. pensar mesmo outras relações com o passado.277).277). consciências somaestéticas41. estima. 2017. o corpo como gerador de conhecimentos. pois falamos com os nossos corpos sensíveis. em cotejo com Walter Benjamin (2012). São frequentes debates com os educandos/as sobre o corpo e seus estereótipos. nos desenvolvemos e aprendemos – o que marca a existência humana é o corpo. construindo uma experiência com ele. suas singularidades e sua unidade. meu ato responsável e responsivo no mundo. preconceitos até o corpo como objeto nas artes. falamos de futuros entrecruzados com memórias do passado. 2017. vive além da instituição escolar e se renova e (des)constrói porque o outro existe. de doenças. porque há interações discursivas sígnicas. Somos corpos. dependendo das idades da vida. Desconsideramos o corpo quando o nosso discurso é monológico. segundo Susan Petrilli e Augusto Ponzio. orgulho. rejeição por preconceitos. Os corpos estão presentes na formação de professores. linguagens. porque há a relação que é sempre entre corpos – intercorporais. ela tem vida além do ente que a enuncia. sendo necessário pensar com/no tempo saturado do agora.

Petrópolis. Elos intermediários apoiados no homem que constituem esta nossa costura. São Paulo. um matiz emocional como na arte. Que emoção! Que emoção? São Paulo: Editora 34. Para uma filosofia do ato responsável. 2017. Petrópolis. RJ: Vozes. Eis porque ao defender a consciência corporal e as pedagogias as localizo na perspectiva formativa de totalidades humanas corporais44. In: Palavras e contrapalavras: circulando pensares do Círculo de Bakhtin. 2014. David. 44 ARROYO. Mikhail. São Carlos: Pedro & João Editores. Georges. O Cronótopo na obra de Bakhtin. matiz sempre impregnado de valores cronotopos: do encontro. REFERÊNCIAS ARROYO. Questões de literatura e estética: a teoria do romance. SHUSTERMAN. CORPOS . BAKHTIN. Por outras pedagogias dos corpos. 2012. LE BRETON. 1983. sendo as emoções imprescindíveis. Miguel G. sem dúvida. Consciência corporal. 2016. e também compomos uma em relação um com o outro. 2013. Passageiros da noite: do trabalho para a EJA: itinerários pelo direito à uma vida justa. É preciso sentir-pensar com mais minúcia sobre a filosofia da sensibilidade e da somaestética em cotejo com a perspectiva bakhtiniana. 2016. Paulo. Paulo. In: ______. em que os corpos são diálogos. nos narrativas dos processos de vida-formação. Há na escola. de humanicidade encarnada. 2017. São Carlos: Pedro & João Editores. 43 DIDI-HUBERMAN. 2007. o próprio corpo como cronotopo. Caprichos e Relaxos. Contranarciso. A sociologia do corpo. 2010. BAKHTIN. São Paulo: Hucitec. LEMINSKI. PONZIO. Mikhail. Elas (as emoções) transformam o nosso mundo quando se transformam em pensamentos e ações43. de toda forma reforço aqui a compreensão de que as intercorporeidades (os corpos cronotopos em relação) constituem-se por diversificados processos de formação humana. In: ______. da estrada. 100 discursiva. Formas de Tempo e Cronotopo no romance (Ensaios de poética histórica). São Paulo: É Realizações. Augusto. Editora Brasiliense. Richard. DIDI-HUBERMAN. In: LEMINSKI. compomos outras em outros espaços. RJ: Vozes.

trazendo o corpo para o diálogo DUARTE.Normalmente uso a sala porque é lá que fica o banheiro- atravesso o campo minado. sendo assim. tem como inspiração Bobók de Dostoiévisk. ENUNCIAÇÃO: por uma escuta do Para Bakhtin. filme dos Estados Unidos de 1996. nunca conseguia passar sem ouvir questionamentos. desenvolvendo um plano estético onde seria possível que professores e crianças pudessem dialogar em um cronotopo de encontro. Palavras-Chave: Educação. lugar dos ditos detentores do saber. eu sentia que aquele era um diálogo 45Angélica Duarte da Silva Araujo. porque dizem nos corredores. tentando parecer invisível. mas tem dias que eu estou tão bem que eu quero só ser invisível mesmo- não me vejam. o cronotopo determina a unidade artística de uma obra literária. pensava. . Teve como objetivo criar MOVIMENTOS DE uma mésalliance. O grande problema é que o meu corredor não me leva a uma sala tão legal. Atravesso o corredor e dou de cara com a sala mais temida: a sala dos professores. . sou eu. que eu sou professora e que professores devem dar exemplo. Angélica 45 expressivo. Ele nos fala também que no cronotopo do encontro predomina a matiz temporal e que se distingue por um forte grau de corpo da criança intensidade no valor emocional. ah sim. por favor! Pedia mentalmente. mestranda da Universidade Federal Fluminense. Corporiedade. me esgueirando pelas paredes da sala. O corredor passa a ser um lugar para correr. O diálogo é o lugar onde existe uma zona de penetração mútua. é que nos últimos dias o filme que vem passando na sala dos professores me parece uma mistura de ação. 47 Nome fictício CORPOS . esperando ser imperceptível. todos sabem que é hora de levantar e sair. professora da Rede Municipal de Duque de Caxias. Em uma perspectiva dialógica. teve Tom Cruise como o protagonista. Aí começa o filme de ação. Tom Cruise em missão impossível 46 . eu me seguro para não acompanhar os alunos. E-mail: angelicaduarteas@gmail. ali eu posso correr. RESUMO 101 Este presente trabalho. Sorrio para os supostos alunos e uso a minha imaginação para correr junto com eles. professores e alunos dialogam sobre diferentes temas pertinentes à educação. A SALA DOS PROFESSORES: criança enuncia? Q uando toca a sirene é como se as luzes da sala do cinema se acendessem. pesquisadora do Grupo de Estudos bakhtinianos Atos/ UFF .deve ter algo de errado com a minha roupa. o discurso é dialógico por natureza. ̶ Sua sala hoje estava barulhenta! – Mariana47. onde pesquisa as enunciações infantis. a professora do quinto ano falava em um tom de quem puxava assunto – e ali começava o meu filme de terror. Abrindo a porta da sala deixamos de ser uma coisa e passamos a ser outra. isso é muito chato. Enunciação. meu desejo nunca era atendido. . terror e suspense.Não costumo fugir de uma boa conversa.quem nunca desejou isso?. O cronotopo do encontro aqui é representado pela escola e pelos ebcontros enunciativos que acontecem na mesma.com 46 Missão impossível. uma das mais grandiosas menipéias da literatura universal.

e eu sei que elas enunciam. enunciam. alguns têm coisas sérias a fazer aqui. O tom alarga a enunciação para além da palavra verbal. porque o tom é musical. às vezes nós não compreendemos o contexto enunciativo. querida Mariana. entretanto. Nos encaminhamos para o corredor enquanto respondo: ̶ O riso também é sério. ̶ Não entendo. É sobre entender a gramática da enunciação verbal. podia ser comediante. A sirene toca. por quê? Você não acha que as pessoas não enunciam no silêncio? – questiono. eu sei que elas estão em diálogo ativo conosco. ̶ Vamos voltar ao trabalho.mesmo em si-lên-cio elas dizem! Uma gargalhada alta toma conta da sala. eu não entendi o sentido dessa cena. ̶ Você é tão engraçada professora. Meu rosto reflete o meu não entendimento. não é algo que explicitamente se colocou. . ENUNCIAÇÃO DO GESTO Para eu podermos pensar na enunciação da criança. 102 que não ia ter um final feliz. .penso. os bebês enunciam? Figura 1. O círculo de Bakhtin vislumbra isso em algumas partes de seus textos. As crianças falam sem a linguagem verbal.a legenda passou rápida demais. Essa inquietações que nos levam a refletir que. então quais são as características desse enunciado? O corpo enuncia antes da fala? Sendo assim. não-verbal ou verbal em construção. as crianças falam. não temos uma gramática para escutar as crianças. ̶ É. precisamos resolver o problema da enunciação para além da palavra verbal. e às vezes – tom de suspense na minha voz dando ênfase a cada sílaba. é corporal. mas sempre participo da cena esperando que o filme de terror tenha um final de romance. Marlen Max CORPOS . se as criança enuncia. Só que para eu dizer que as crianças enunciam.Mariana fala como quem escorrega da resposta.seu tom é irônico.

Olha aqui! Tudo que eu faço fica feio! . entrelaçam-se com o contexto extraverbal da vida e. Desta maneira. O que você queria desenhar? ̶ Eu queria me desenhar. é só você usar o lápis de cor e fazer do jeito que você sabe. se separarmos a palavra do cotidiano. 80). p. vamos começar pelo boné! – Ele eleva a voz parecendo interessado. entre o eu e o não eu. com toda evidência. 2013. Hoje nós vamos aprender o que é um auto-retrato. Sendo assim. temos um tom para cada fala. cada enunciação da vida cotidiana é um entinema socialmente objetivo. mediante milhares de fios. ao serem separadas deste. 2013. como é sua cabeça? ̶ Não.ele exclama com um tom de irritação. E mais. que não pode ser separada da vida sem que perca seu sentido48 VOLOCHÍNOV. Surge da situação extraverbal da vida e conserva com ela o vínculo mais estreito. do corpo que enuncia. O corpo é a fronteira entre o eu-para-mim e a espacialidade do outro. Vocês sabem que muitos pintores famosos tinham o costume de se auto-desenhar? ̶ Eu não sei desenhar. Mas e o gesto? Quando enunciamos a palavra o corpo vai junto. p.ainda que possível tão somente a partir da anterioridade do discurso social da alteridade-. ela não terá o mesmo significado. mas eu não sou assim. a palavra (o enunciado) é fronteira entre o meu dizer interno. e a formulação expressiva dirigida ao outro com fins de comunicação. 77). não se centra em si mesma. ̶ ok! O LABIRINTO DA ENUNCIAÇÃO A palavra na vida. ̶ Entendo. se estamos irritados ou felizes a mesma palavra traz diferentes tons. p. Tanto o corpo quanto a palavra são fronteiras entre o mundo interior e o exterior. é social e traz com ela todo o contexto histórico. 103 Fonte: Arquivo pessoal da pesquisadora. e com eles novos significados. A palavra está na vida. São Carlos: Pedro & João. É uma espécie de palavra-chave que somente conhecem os que pertencem a um mesmo horizonte social. A linguagem que recebo está prenhe de um diálogo inconcluso ao que eu tenho que me 48 Valentin Volochínov: A construção da enunciação e outros ensaios. ̶ Vamos começar pela cabeça. As peculiaridades das enunciações da vida cotidiana consistem em que elas. 77 CORPOS . ̶ Eu não sei de jeito nenhum. ninguém nunca me ensinou a desenhar então eu não sei ueh. perdem quase por completo seu sentido: quem desconhece seu contexto vital mais próximo não as entenderá (VOLOCHÍNOV 2013. da pessoa. ̶ Sabe sim Marlen. a alteridade. a vida completa diretamente a palavra. semiamorfo.

Pode-se dizer que qualquer comunicação verbal. autoria. LOPES. comunicativa. Isso não tem nada de passivo. sob a forma de diálogo (VOLOCHÍNOV 2013. 104 conectar. REFERÊNCIAS 49 Marisol Barenco. Angélica Duarte. apresentamos dois acontecimentos do cotidiano da escola. Este texto surge no intuito de questionar a falta de importância que se dá à fala das crianças. no prelo) Crianças enunciam. que elas possuem motivo. Um ocorre na sala dos professores e outro na sala de aula. unidade temática. um sorriso. oriento meu discurso sempre para que alcance o outro. etc. (no prelo). É possível que a criança enuncie? Por uma educação infantil dialógica. que historicamente são tratadas com seres da ausência da fala. bem como a enunciação dos gestos corporais que por muitas vezes são desconsiderados. literatura. Sempre se fala para alguém essa é a essência do meu eu-para-outro: ato. temporal e de valor? Como ele suporta a alteridade e evolui? Que gênero discursivo é esse em que as crianças enunciam? Poderemos afirmar que as relações corporais do bebê configuram um gênero. DUARTE. A enunciação é uma situação concreta. Habitualmente respondemos a qualquer enunciação do nosso interlocutor. política e transformadora da sociedade. qualquer palavra que sou capaz de proferir é uma resposta a algo dito antes por outros. ou seja. uma pequena sacudidela da cabeça. discurso. já que são sujeitos humanos na cultura. tom e atos? E o que nisso tem a arquitetônica do eu-outro? Na relação eu-outro espacial. Ana Lopes. ele é um sujeito do ato. Mas mais que isso. p. a enunciação transborda em muito a compreensão rasa da parte verbal de um ato comunicativo. p. a brincadeira infantis gêneros discursivos?49 (BARENCO. entre outros elementos que compõem os gêneros. Almejamos um lugar onde as crianças possam ser reconhecidas como sujeitos da cultura e enunciadores da mesma. O que tem ali que pode dizer que ele enuncia com gestos. se não com palavras. segundo Medviédev? Podemos afirmar que são os elementos não verbais como o choro. isto é. 2016. pois ao enunciar ele responde ao mundo. 146) Desta forma. um gênero discursivo em seu acabamento estético. CONSIDERAÇÕES FINAIS Trabalhamos no decorrer deste texto. projeto discursivo. as relações valorativas do contexto próximo e mais alargado da cultura e. Onde a fala seja ativa e responsiva. (BUBNOVA. CORPOS . 63). principalmente. o corpo do Marlen enuncia seu próprio mundo. se desenvolve sob a forma de intercâmbio de enunciações. o gesto. que envolve além do falante e do ouvinte todo o presumido da cena enunciativa. qualquer interação verbal. pelo menos com um gesto: um movimento da cabeça.

2013. 4 ed. MEDVIÉDEV. EkaterinaVólkova Américo e Sheila Camargo Grillo. 2012. São Paulo. CORPOS . 2013. 2012.. N. Jader. São Carlos : Pedro & João Editores. Estética da Criação Verbal. Fiódor. 2 ed. BAKHTIN. Mikhail. São Carlos: Pedro & João Editores. Augusto. São Carlos: Pedro & João. Mikhail. O Método Formal nos Estudos Literários: introdução crítica a uma poética sociológica. Marisol. 2012. Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso (GEGe). A construção da enunciação e outros ensaios. Tradução: Valdemir Miotello & Carlos Alberto Faraco. P. Tatiana. JANER. BAKHTIN. Jardim Europa. São Carlos: Pedro & João. VOLOCHÍNOV. São Carlos: Pedro e João Editores. Do corpo à palavra. Augusto. 2016 DOSTOIÉVSKI. PONZIO. 1981. São Paulo : Martins Fontes. Mikhail – Marxismo e Filosofia da Linguagem.. 2003. Trad. Palavras e Contrapalavras – Caderno V. BARENCO. 105 BAKHTIN. Autorias Infantis: Processos Intermodais De Criação. Procurando Uma Palavra Outra. Valentin. Editora 34. PONZIO. 2010. Para uma Filosofia do Ato Responsável. BUBNOVA. Hucitec. Tradução: Paulo Bezerra. São Paulo: Contexto. Bobók.

em tentativas de reificação. Deus também é um terror. e por isso. logo. Professor Assistente da Universidade Federal de Roraima (UFRR-Leducarr). Hilst indica de chofre que sua atividade estética vincula-se ao humano sempre em relação ao incômodo e ao entrelugar. não gratuitamente Hilst denomina o Supremo como. Em 1950 quando pulica Presságios. Tudo acontece no interior do caos que compõem o existir. algo que pode ser visto também como inacabado. É visceral a maneira como Hilst articula essa tríade. como um todo perpassam o riso. para Hilda Hilst nada. incompleto. romance em que a personagem Hillé levanta questões sobre a finitude. 106 Palavras-Chave: Educação. a experiência enquanto maturação das neuras que identificam a crueza de se perceber humano. uma coisa é certa: os temas que perfilam a escritura da autora. como nos mostra no romance a Obscena Senhora D. Se para Bakhtin a literatura é um território em que a cultura vivaz é parte de um todo complexo. BAKHTINIANA DA LITERATURA DE HILDA HILST: ou por um mundo mais bufólico! GOMES. Francisco Alves 50 S im! A literatura de Hilda Hilst (1930 – 2004) emana a ideias de Mikhail Bakhtin. Por essa incompreensão arreganhada do que é a vida. “uma superfície de gelo ancorada no riso”. E-mail: aluadoalves@gmail. o homem. A NATUREZA Corporiedade. tem por opção. porém. Enunciação. dessa condição. seu primeiro livro de poesia. 50 Mestre em Literatura brasileira. em termos de escrita. marionete das possibilidades prementes do viver. o obsceno. bem como a ideia de falta de sentido da vida. coisificação. rico em suas múltiplas possibilidades interpretativas. está fora da vida. apenas tatear na dimensão que lhe cabe enquanto aprendiz das realidades. Sim! Há nas obras de Hilda um poder opressor a perseguir os sujeitos. e até mesmo a procura por Deus tem aporte nos caracteres do corpo. RESUMO . do êxtase que vai do espiritual ao grotesco em sua forma naturalmente disforme. controle dos corpos ou simplesmente a fúria do tempo sobre a carne a evocar a velhice.com CORPOS . Não sei se ela teve acesso aos escritos bakhtinianos. o corpo e a política. a partir de personagens despedaçados pela realidade que os oprime.

bifurcada e intermediada pelas dimensões de contemplação e criação. uma vez que a ideia de pertencimento está atrelada a algo maior. evidenciando a versatilidade da escritora em passear por vários gêneros literários.à liberdade. Em inúmeras entrevistas. Hilda Hilst engendra oito textos teatrais como forma de mandar um recado a sociedade. peça escrita em 1969. 107 Hilda prossegue na poesia com Balada de Alzira. Em 1979 Hilda Hilst concede uma entrevista ao programa Fantástico sobre sua experiência ao gravar vozes de mortos. Em termos de dramaturgia. ecoando a partir da moradia – corpo e moradia – casa. pois ela é marcada de polifonia. um que se perfila nas misérias do dia a dia. Nesse lugar de criação. isto tem influência na maneira como os leitores se aproximam de suas narrativas. a autora responde ao mundo através da literatura. romance. Ode fragmentária. como lembra Gaston Bachelard. Com os meus olhos de cão e Fluxo Floema ou Rútilos são exemplos de narrativas em que o discurso se mimetiza com outras camadas ideológicas a situar as tramas em verdadeiros amalgamas polifônicos. ambas latentes no desejo da autora em ser lida por um público abrangente. sobreposições de pensamentos vertiginosos que podem solapar a atenção do leitor desatento e acostumado com o texto ruminado. Há que se ponderar que a trajetória de Hilda Hilst é marcada por um aglomerado de fatos que fizeram com que a autora ganhasse um imaginário assentado na devassidão e na loucura. quando questionada sobre o porquê de escrever teatro. Roteiro do Silêncio. Balada do Festival. No jogo de alteridade entre o homem e o Verdugo existem intercâmbios construídos pelo silêncio. o carrasco acredita na inocência do condenado porque olhou nos seus olhos e porque este também falava de amor. Trova de muito amor para um amado senhor. composta de oito peças notadamente eivadas no simbólico. Sim! Hilda conversou com mortos. Hilda categoricamente respondia que havia uma urgência em se comunicar com o outro. que é possível identificar um esforço da autora em lembrar os leitores que o liame que irmana todos numa mesma condição de luta contra o sistema se faz na CORPOS . Nas décadas de 70 e 80 a produção de Hilda Hilst alterna-se entre livros de poesia. Por falar em ideologia. são tantas pausas no texto. ambas as dimensões mescladas na vida. em 1967 começa a produzir sua dramaturgia. já em 1970 publica seu primeiro livro de ficção denominado Fluxo Floema. sua incursão demonstra que existem dois lados. sob os olhos de um tímido conjunto de críticos a chancelar de forma veemente seu nome como uma das grandes escritoras contemporâneas desse país. A consciência de que a vida é inacabada ultrapassa Hilda Hilst sistemicamente. na Poética do Espaço. o conflito parte da recusa do Verdugo em matar um homem. em falar com esse desconhecido. Em o Verdugo. O isolamento na Casa do Sol representa no percurso da autora o recriar da concha. narrativa é uma ideia cara na obra hilstiana. obra que demarca outro momento para a autora. Sim! As personagens de Hilda possuem uma natureza ideológica. duas moedas para um mesmo Caronte. Hilda. Sim! Há uma profusão de vozes entrechocando-se no tecido narrativo. e ainda que a crítica teatral tenha dado pouca importância à obra dramatúrgica de Hilda é certo e já reconhecido que as oito peças escritas no período de 1967 a 1969 são dotadas de características singulares. Hilda praticou o dialogismo de várias formas. conto. Aliás. Seu teatro é dialógico. pois se constrói com vistas para o outro. outro que se personifica em literatura. mostrando- lhe o que há de cruel e perverso no regime militar. após esse período. pensam a vida de maneira muito peculiar.

do mesmo modo já ouvi que Bakhtin é um teórico de difícil compreensão. As narrativas sustentam-se na paródia ao passo que temas como a homossexualidade. dizendo-lhe o que é vendável ou não. escravo do mercado editorial. desse modo. bem como a recepção dos leitores. de François Rabelais. em qualquer lugar que exista um CORPOS . o que há de mais podre na sociedade brasileira. com apenas oito anos de idade partilha suas aventuras sexuais ao passo que este relato caminha lado a lado ao conflito do pai. a fadinha lésbica. O deboche imposto pelas personagens nos sete breves poemas ressoa a absurdez presente no mundo de Gargantua e Pantagruel. e. vísceras. escolha e consciência são os fulcros que impulsionam o sujeito para o além de qualquer situação em que há risco para a formação das inteligências sociais e emocionais. universidades. tanto em Hilda quanto em Bakhtin o conhecimento da vida se dá por formas que ultrapassam qualquer tipo de linearidade. afinal alteridade implica reconhecimento da diferença para a criação de novas redes e saberes que hão de gestar o novo. a personagem título. Neste sentido. angústias e a fronteira. a partir do obsceno. hermética. Ora. as degenerências e neuroses eróticas ganham escopo. talvez nem um rizoma abarque a amplitude do pensamento de Mikhail Bakhtin. E o que dizer então do livro Bufólicas? Formado pelos textos: O Reizinho gay. Se a carnavalização em Bakhtin implica a demolição do sistema oficial. logo. Hilda apropria-se de figuras tão ilustres na tradição dos contos de fadas para colocá-las num outro campo discursivo. o lesbianismo. a maga perversa e fria. Há sempre um devir. para angariar a atenção do mercado editorial brasileiro e tornar sua literatura visível aos olhos de uma maior parcela de leitores. assim. ou suficientemente esgotado. Na dimensão grotesca. através do baixo material. o que dizer então de Hilda Hilst ao produzir a tetralogia obscena nos anos 90? Incomodada com a falta de leitores a autora recorre ao baixo material. Acredito também que faria um bem danado às igrejas. ainda que os impactos ressonem na individualidade. no mundo familiar de Lori Lamby o avesso das relações se constitui matriz para justificar as confissões sexuais da menininha ao leitor. ou melhor. A chapéu. pois são também ilustradas pelo cartunista Jaguar. em guichês de pagamentos de impostos. para outros. amenizada aqui pelas construções em redondilha e excesso do risível que a autora forma este pequeno bestiário carnavalizado. o editor é quem manda no escritor. O anão triste. muitas delas silenciadas pela tal da moral e dos bons costumes –em voga no Brasil nos últimos tempos – nesse sentido. banheiros. Há um emblema que diz ser Hilda Hilst uma autora incompreensível. e ainda que os contextos sejam distintos. se colocadas diante de sua produção anterior. 108 pausa. há sempre uma possibilidade de responsividade diante do ato. os efeitos dessa tentativa foram controversos em termos da crítica especializada. A cantora gritante e Filó. urge a necessidade de que sejam espalhados exemplares de Bufólicas em pontos de ônibus. escolas e etc. é preciso a performance do interlocutor como materialidade. bem ao estilo dos textos de Lawrence ou Bataille. sem uma linha de raciocínio linear. personagem escritor. Para alguns críticos a incursão de Hilda no obsceno resultou em obras de qualidade questionável. pois a construção identitária é mútua. A Rainha careca. a tetralogia obscena comprova a competência da autora em exprimir com criatividade e deboche. no silêncio. Drida. na escuta. o exagero se perfila na exibição das temáticas. Na obra O caderno rosa de Lori Lamby. uma vez que a seriedade no país é algo questionável. tendo em vista que nada está acabado.

ordem. sistema oficial. Bufólicas seria carnavalizador. É que havia um problema: O porongo era longo Feito um bastão E quando ativado Virava. negão? então procura. 109 julgo – juiz. Um douto bradou: ó céus! Por que no pedido que fizeste Não especificaste pras Alturas Que te deixasse um resto? Porque pra Deus O anão respondeu Qualquer dica É compreensão segura Ah. subjetiva e sexual. sentou-se o anão triste Numa pedra preta e fria Fez então uma reza Que assim dizia: Se me livrasses. Na medida em que os sujeitos redescobrissem as fantasmagorias eróticas em pura violência interna. homens de bem. certamente ririam um pouco com maior facilidade. Dessa estrovenga Prometo grana em penca Pras vossas igreja. abordo de forma breve o texto O anão triste: De pau em riste O anão Cidão Vivia triste Além do chato de ser anão Nunca podia Meter o ganso na tia Nem na rodela no negrão.. homens de puro reto e retidão. Por falar em reto – retidão. logo.. Nenhum tico de pau Nem bimba nem berimbau Pra contá o ocorrido. força. é. E agora Além do chato de ser anão Sem mastruço. CORPOS . nem fole Foi-se-lhe todo o tesão. certidão. perseguidor. Senhor. a terceira perna do anão. Um dia.. progresso pela morte. o riso e o rebaixamento os lembrariam de sua humanidade. para todos estes. mulheres de bem.. Foi atendido No mesmo instante Evaporou-se-lhe O mastruço gigante. moral.

apenas apresenta o membro sexual. Logo. não tem o voyeurismo coletivo ao seu favor. após a ação divina o resultado é catastrófico. no entanto. Essas personagens. o pênis é um tipo de poder instalado no exótico que não encanta. é como um gênero do discurso que prepara o território. o fato de ser anão o que por si só já o classifica com estranho é amplificado com a presença do pênis anormal no corpo já situado socialmente no campo da anormalidade. 2002. Moral da estória: Ao pedir.. tendo em vista que o rei é mudo e quando solicitado a verbalizar algo para a Nação. apontando ao leitor as sensações. para o primeiro significa reinar apenas pela visualidade.27) O elemento grotesco problematizado na narrativa coaduna-se com o risível. o texto ganha um aliado poderoso. silenciando. A personagem Cidão. os gestos e as múltiplas ressonâncias possíveis resultantes com a experiência. p. chancelando dessa forma o risível e o grotesco num corpo que antes não tinha a potência para encantar positivamente. mas denota um distanciamento da coletividade. simbolizam o que há de mais inacabado na condição humana. e agora pertence ao entrelugar. Neste caso a junção dos elementos opostos: corpo pequeno e pênis grande. CORPOS . No primeiro texto de Bufólicas. 2002. “na rampa ou na sacada”. “reinava soberano sobre. o que resulta numa busca pela normalidade. contribui decisivamente para o tom da narrativa em que o leitor é deslocado para o riso.. O texto chama o leitor para outra performance de recepção. com a presença da ilustração do Jaguar.. diferente do Reizinho gay. / APENAS. 25. 11). O Reizinho gay. fantasmagorias de Príapo. Para o segundo.” (HILST. a imagem também é responsável por suscitar no leitor a sensação de estranhamento que é abrandada pelo riso. especifique tamanho Grossura quantia. risonho e excitante. O corpo enquanto território de metáforas vivas evoca sempre a pergunta primeira a colocar o homem numa situação de desnudamento e vergonha acoplada ao que é natural... (HILST. Olhando a manhã fria. 110 E até hoje Sentado na pedra preta O anão procura as partes pudendas.. grotesco. o drama do anão Cidão evoca não apenas a ideia de deformação física. dessa forma qualquer tipo de intervenção discursiva por parte dos habitantes./ Mas reinava. Tanto o rei homossexual quanto o anão Cidão possuem o pênis como elemento de poder. / Pela linda peroba / Que se lhe adivinhava / Entre as coxas grossas. haja vista que a personagem recorre ao divino e à igreja como forma de redenção e ajustamento ao mundo oficial. p. como resultante de forças simbólicas a dirimir uma entrada ideologicamente conservadora no texto.

assim o mundo bufólico de Hilda Hilst se constitui de personagens desajustados. 111 Quando o drama do anão Cidão é colocado diante dos pressupostos religiosos da fé. Todas as personagens de Bufólicas estão imersas na diferença. que no melhor estilo outsiderexpõem relações dialógicas com o outro. A anulação da sexualidade é prova de que a violência impetrada por sistemas de dominação e alienação normatiza os corpos. CORPOS . o deboche é eminente. Deus tirou de Cidão seu pau. o segundo é ter um pênis longo e o terceiro. ou seja. mas nas partes pudendas é lisa.. seu raciocínio ultrapassa um aqui e agora que se corresponda apenas com a eventualidade passageira. Cidão foi “curado”. Será Deus o responsável por anões com pênis enormes? Na narrativa. se colocadas diante de sistemas totalitários que pregam a homogeneidade das coisas. evidencia o duplo horror que pode haver na não aceitação do corpo grotesco como ele é. “O anão triste”. A Rainha careca é farta de cabelos. a pulsão premente erótica a devassar os sujeitos. algo que Hilda Hilst percebeu muito bem e através de sua consciência estética organizou nos termos da literatura. Mikhail Bakhtin é um pensador das liberdades. no fim do texto o risível e o triste meio que partilham os opostos do destino da personagem. deste modo. aliás. a ideia de evento como um todo que se ressignifica é uma porta de entrada convidativa para a experimentação das ideias do filósofo russo. a terceira perna do anão.. e por essa condição. são inacabados. corpo e pênis. mas isto teve um preço. o homem que está adormecido feito um pênis “meia bomba” que no impedimento de sua plenitude coloca o anão no seguinte mistério da trindade humana: o primeiro é ser anão. o que lhe causa sofrimento. na incapacidade de enrijecer o membro para as alturas. Se antes Cidão era grotesco por duas vias identitárias. O grotesco de certa forma pode ser encarado como a exposição das deformidades que constituem a natureza subjetiva dos seres humanos.” Nessa equação a personagem Cidão representa o corpo não oficial que constantemente está em conflito com o entorno e suas variadas formas de opressão e regulação dos corpos. A natureza do corpo da personagem é carnavalizada. O Reizinho gay é “mudo. “Virava. pintudão”. o título do poema. A imagem da pedra “preta e fria” pode muito bem configurar a ideia de túmulo. o exagero do órgão sexual é também evidência do que está no interior.

O caderno rosa de Lori Lamby. In: Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. 2002. Sim! Entre Hilda Hilst e Mikhail Bakhtin existem correspondências. São Paulo: Martins Fontes. Rio de Janeiro: Villa Rica. São Paulo: Editora Globo. _____. _____. Com os meus olhos de cão.. 2014. Belo Horizonte. Tr. São Paulo: Unesp 1998.. 1991. Hilda ao lançar os livros obscenos afirmava que o riso é uma solução maravilhosa para as dores humanas. François. Mikhail. Avancemos. CORPOS . A obscena senhora D. BAKHTIN. _____. 1993. A poética do Espaço. 2001. esse enigma pétreo. Bufólicas. REFERÊNCIAS BACHELARD. HILST. a necessidade de rir acentua em cada um de nós o desejo por um mundo às avessas diante do que é exposto diariamente. Gargântua e Pantagruel. Se é que podemos falar que somos ainda uma sociedade. São Paulo: Editora Globo. _____.. A atualidade brasileira está calcada num horror presente e constante a se ramificar em diversos setores da sociedade. São Paulo: Editora Globo.... 2005.. vem sendo redescoberta pela crítica e por leitores ansiosos por um mundo Bufólico! Sim! É preciso que bufões. _____. só mesmo a bandalheira. _____. Da poesia: Poesia completa. o chiste e a piada pronta podem gerar alguma coisa ou extrato decatarse. bobos e trapaceiros rabelesianos possam inscrever este mundo num outro local de performatividades sociais. 2017. Em tempos em que se prega ‘cura gay’. dialogias. 112 Sim! É possível ler o Brasil a partir de Bakhtin. São Paulo: 2003. Hilda Hilst. Rútilos. Lisboa: Deriva Editores. Estética da Criação Verbal. portanto. Rio de janeiro: Companhia das Letras. 2006. 2001.. São Paulo: Martins Fontes. Gaston.. RABELAIS. 2003. Bruno Monteiro. a selvageria incorporada em novas tecnologias de opressão chanceladas pelo Estado colocam o país numa situação de perseguição às liberdades. O discurso no romance. Para uma filosofia do acto. São Paulo: Editora Globo. São Paulo: Editora Globo. a promover certo alívio e esperança em dias mais dialógicos. Fluxo Floema.. tensões. _____. Hilda. _____.

no entanto. RESUMO 113 A Fonoaudiologia. Neste trabalho parte-se do principio que a linguagem pode ser ensinada por meio do treino da fala. trabalha com a linguagem entendendo-a como um sistema fechado. leitura orofacial e das habilidades auditivas. Ana Cristina 51 Palavras-Chave: Linguagem. Especificamente no que se refere a área da surdez. NA CLÍNICA sobre e na linguagem.br. pretende discutir as práticas de linguagem na clínica fonoaudiológica a partir de uma PRÁTICAS DE LINGUAGEM perspectiva que considere a história de cada pessoa surda. Esse trabalho sofre forte influência de uma concepção clínico- terapêutica da surdez. desde seus primeiros cursos. Esta concepção. no qual por meio da alteridade. GUARINELLO. de ressignificação de cada sujeito surdo em sua singularidade. baseia-se em práticas que enfatizam a aquisição da oralidade e das habilidades auditivas da criança surda. social e histórico. Surdez. E-mail: Ana. um lugar de encontro entre sujeitos. como aparelhos auditivos e implantes cocleares. Docente da Graduação em Fonoaudiologia e do Mestrado e Doutorado em Distúrbios da Comunicação da Universidade Tuiuti do Paraná. articulação. na área da surdez. CORPOS . Clínica Fonoaudiológica. Fonte de financiamento: Bolsa de produtividade em Pesquisa CNPq 303356/2013-8. INTRODUÇÃO I nicialmente. geralmente. em geral. por volta da década de 1960. tal trabalho clínico. cada sujeito surdo possa se apropriar da linguagem e se constituir nas práticas vivas da língua. Um espaço em que o discurso é entendido como uma ponte. foi fortemente direcionada por um olhar medicalizante e por uma perspectiva de intervenção clínica voltada para a “cura”. tradicionalmente vem realizando um trabalho com A RESSIGNIFICAÇÃO DA as crianças surdas enfatizando apenas a aquisição da oralidade e o desenvolvimento das habilidades auditivas. que enfatiza que os surdos devem ser curados e reabilitados por meio do uso de dispositivos eletrônicos. um código estável. ou seja. sendo que a língua de sinais não é utilizada.guarinello@utp. e que sua apropriação é feita a partir de um trabalho cognitivo. Nessa concepção a clínica é percebida como um espaço de mudança. 51 Doutora em Estudos Linguísticos pela UFPR. já que supõe-se que a única e melhor maneira do surdo inserir-se na comunidade ouvinte é ouvindo e falando. tal concepção baseia-se no pressuposto SURDEZ A PARTIR DAS de que só assim o surdo pode se aproximar da comunidade ouvinte majoritária. o percebam como único. Este texto. ou seja. cabe esclarecer que a Fonoaudiologia. um lugar para que a família e FONOAUDIOLÓGICA as outras instituições sociais com as quais esse sujeito se vincula. sua relação com a linguagem e suas interações sociais que ocorrem no trabalho com.

para esse autor os signos também são sociais e criados e interpretados no interior de complexos e variados processos de intercâmbio social. O trabalho com a linguagem na clínica fonoaudiológica quando entende-se a linguagem como constituiva dos sujeitos pode ser para as famílias e para as crianças surdas muito mais do que simples reabilitação. por meio da alteridade. mais para o inominável do que para o nominado. dessa forma para que tenham uma compreensão discursiva ativa precisam pertencer a uma mesma comunidade linguística (BAKHTIN. Assim. toda a língua. terá muitas dificuldades para participar dos enunciados dialógicos. 114 assegurado ao falante nativo. p. 2010). Assim. surpresos. o lugar de encontro entre sujeitos. mais para os rostos do que para as pronúncias. Um lugar para que a família perceba que o discurso é a ponte. 2003. nossa mesmidade significam todo o tempo. é o fonoaudiólogo que atribui sentidos e significados à linguagem da criança. uma memória boa e de um bom ensinamento (PONZIO. agindo como intérprete na significação e ressignificação de seu uso. não restrita apenas ao código. toda a cultura. Esse adulto.20). a partir desse trabalho pode-se pensar na Clínica de Fonoaudiologia como um espaço de mudanças. sociais e estão inseridos em meios sociais organizados. nossa cultura. Ao contrário dessa concepção. E continuar desalinhados. Além disso. de ressignificação de cada sujeito surdo em sua singularidade. Compreender que algumas mães ouvintes param de falar com seus filhos ao descobrir que eles são surdos. Assim.20) quando esclarece que é preciso Voltar a olhar bem. voltar a olhar mais para a literatura do que para os dicionários. todo o espaço. Nesse CORPOS . culturais. e que em outras famílias os mal entendidos e a falta de interações dialógicas é o que prevalece. as quais ocorrem por meio da interação com adultos que fazem a mediação entre a criança e o objeto linguístico. para não continuar acreditando que nosso tempo. Um espaço em que. ou seja. nosso espaço. portanto. tem uma amplitude subjetiva. afirma-se que para se apropriar da linguagem. a qual abrange a formação constitutiva de cada sujeito singular e único e na sua maneira de posicionar-se no mundo. a linguagem é compreendida como atividade discursiva. por exemplo. p. que depende apenas de uma formação. nossa língua. Os sujeitos surdos nessa perspectiva são históricos. no caso da Clínica de Fonoaudiologia. a linguagem possa se constituir na prática viva da língua. isto é. Propõe-se aqui. no trabalho aqui apresentado entende-se a surdez como diferença e os surdos usuários da língua de sinais como uma minoria linguística. olhar esse que privilegia a interação e o uso de gêneros discursivos durante as atividades que ocorrem no setting terapêutico. constitutiva da própria língua e do sujeito. ao refletir sobre as práticas terapêuticas fonoaudiológicas é preciso entender e interpretar a história de cada sujeito. Entender. um outro olhar para as práticas que ocorrem na clínica fonoaudiológica com crianças surdas. as crianças surdas devem engajar-se em práticas linguísticas que possibilitem o uso efetivo da linguagem. 2004). toda a humanidade (SKILAR. concorda-se com o posicionamento de Skliar (2003. desencaixados. que uma criançca que possui pais ouvintes que usam somente a língua oral para se comunicar. Entende-se a linguagem como dinâmica. como única e singular.

sendo o eixo que funda a relação do homem consigo mesmo. subjetiva e socialmente. um processo de busca de sentido. e neles criam as dimensões valorativas e avaliativas (FARACO. que fundamenta este trabalho. 2009). e quais destas concepções sobre a surdez aparecem nas falas dos familiares. etc). Desse modo. a partir dos estudos da linguagem e da constituição do sujeito. enquanto a maioria das crianças surdas sente-se mais a vontade usando recursos visuais. vocalizações. 1996. p. defendidos pelo Círculo de Bakhtin. todo enunciado. Assim. torna-o constituinte da sua própria consciência. é preciso compreender em quais processos sociohistóricos essa família foi constituída. fundamentais para a constituição destes sujeitos como pessoas autônomas e participativas socialmente. é acolhida e cuidada. nas práticas de linguagem entre a criança surda e seus interlocutores é importante ir além das palavras. não importa como seja produzido (fala. explicitar o papel fundamental da família na constituição do sujeito surdo e mostrar que todo enunciado é uma resposta e não mera repetição. escrita. Diante disso. Assim. há uma tendência das interações serem estabelecidas por meio do uso da língua como um código pronto e acabado. no qual se promova a escuta das necessidades de cada sujeito e se apontem novos direcionamentos familiares possibilitando a melhora das relações dialógicas. processo esse que será mais intenso CORPOS . o de “compreensão ativo-responsiva”. Isso porque as pessoas não estão isoladas do seu universo social. 2011) pode então fornecer subsídios teóricos e conceituais para fundamentar os trabalhos voltados às práticas com. pois quando não há uma língua comum entre a família e a criança surda para estabelecer suas interações sociais. durante as terapias fonoaudiológicas. no outro. de forma que “o discurso do falante o liberta da condição de objeto” (FREITAS. Portanto. por exemplo. o apontar e a língua de sinais. expressão facial e corporal. Ou seja. é possível compreender que uma família ouvinte com uma criança surda poderá ter uma propensão maior para utilizar a fala para interagir com seus filhos. segundo o qual a fala do locutor deflagra. como as representações da surdez que circulam na sociedade são refletidas na dinâmica familiar. O fonoaudiólogo na clínica pode. vai de encontro a outro conceito central do arcabouço teórico de Bakhtin. se é a família a instituição social onde a criança passa a maior parte do tempo. será dentro dela que o sujeito irá se constituir emocional. O conceito de enunciado. 115 sentido. 2010. um ser falante e expressivo. entende-se que a palavra viva se dá pelo diálogo. ao contrário. contém sempre uma resposta e é um elo na cadeia ininterrupta da comunicação sociocultural (FARACO. cada uma destas famílias expressa ideias construídas pelos discursos que emergem do interior das relações sociais. pode ser sim um espaço de intervenção junto aos pais de crianças surdas. ao se focar. 171). então. toda compreensão dos enunciados deveria ser ativa e se opor à palavra do outro com uma contra-palavra que precisa ser interpretada. como gestos. A linguagem. 2009). sobre a na linguagem na clínica fonoaudiológica. Bakhtin (2004. ao observar as grandes narrativas sobre surdez e como estas se inserem nos discursos sociais. Nesse sentido. uma primeira barreira pode começar a ser construída. gestos. pelas enunciações contextualizadas e pelos momentos de interação.

Dessa forma. mas outra coisa é a enunciação. uma tomada de posição. Nesse simpósio. parte do escutar a palavra de cada um (do surdo que frequenta a clínica fonoaudiológica. no qual o signo verbal é reduzido unicamente as características do sinal ou do som. o que causa a morte/ não escuta dos enunciados. a quem é destinada. para este autor a palavra vive na relação de alteridade. o significante que se torna significativo. esse discurso produzido ao longo da vida é o simpósio universal. de se entreter com esta. e esse diálogo acontece por toda a vida. da redução do signo a sinal. Assim. agora. em uma palavra: como escuta” (p. do código. como acolhida. a percepção de sons. a ser orientado para a enunciação do outro (PONZIO. as palavras dele. Nesse sentido. Ponzio (2010) propõe uma diferenciação entre ouvir e escutar. como atitude de dar tempo a esta. são repletas de desentendimentos. já que o que importa não é o dizer. Já escutar é entendido como “não indiferença pela alteridade da palavra. etc. o fato de não ser ouvido. Dessa forma. O outro a quem se dirige. reconhecido é a morte absoluta. da redução da enunciação a frase. comumente usado. repensar como as palavras são ditas e escutadas pelos interlocutores que as recebem. por meio de uma escuta única. Ouvir relaciona-se com a linguística do silêncio. muitas vezes. Nesse sentido. do monologismo. È preciso então destacar que a partir do trabalho clínico pode-se apreender as interações entre filhos surdos e pais ouvintes. e que essas. de sua família. Escutar como compreensão do sentido da enunciação. mas o dito. É preciso então. Para Ponzio (2010. é o outro participante a quem a palavra pede uma compreensão respondente”. enquanto célula viva do discurso. de seus professores). o entendimento produtor de sentido da palavra viva não reiterável. perguntar. no processo de compreensão ativa e responsiva. às nossas palavras.32) “a palavra viva subtrai-se à relação sujeito-objeto. de diferença indiferente. Ponzio (2010) segue explicando que o silenciar proposto pela linguística do silêncio permite apenas a CORPOS .49). recusa-se ao conhecimento indiferente que caracteriza a linguística geral e compreende seu ato como único e singular. fora das interações verbais. Escutar de maneira diferente do que em geral é proposto nessa clínica. por sua vez. quebras interacionais e mal entendidos. não redutível ao desejo de ouvir a língua. 116 ou menos intenso na medida em que a fala do locutor traga mais ou menos recursos da lingua(gem). tal forma de ouvir é comumente praticada por muitos terapeutas e familias os quais tendem a realizar um trabalho de homogeneização do universo comunicativo. assim. o trabalho com surdos. e essa busca. palavras e frases de maneira monológica. no qual o uso de frases com células mortas da língua é enfatizado não cabe. posiciona “aquele que compreende” que passa. Bakhtin (2004) reafirma que uma coisa é a frase e seu entendimento da língua. segundo Ponzio (2010). a fala do outro deflagra a inevitabilidade da busca de sentido(s). ou seja. 2010). Para Bakhtin (2004). A palavra é sim um evento irrepetível que. viver significa tomar parte no diálogo. responder. o conceito bakhtiniano de escuta é fundamental. p. por não partirem de uma língua em comum. lembrado. Essa atividade de escuta aqui proposta. ainda que sob a forma de discordância. já que é por meio da palavra viva que a língua participa da não reiterabilidade histórica. compreender o outro significa estabelecer sintonia com ele. Quando nos fazemos compreender pelo outro estamos fazendo corresponder.

M. manisfestar numa polifonia constitutiva. sintático e semântico. (Orgs.A. o calar e o escutar. cada um desses sujeitos é “compelido a se posicionar. Curitiba: UFPR. São Paulo: Parábola Editorial. BAKHTIN. (VOLOSHINOV). 59). entre diferenças indiferentes à singularidade. a naturalidade daquilo que não tem mais sentido (BAKHTIN apud PONZIO. 2009. a frustração. relações opositivas e conflitantes. M. 2009. a responder a sua existência: não temos álibi para a existência” (FARACO. tem um caráter de resposta ativa e cada compreensão é. fazendo a oscilar entre a convencionalidade do signo a naturalidade do som. São Paulo: Editora Hucitec. o silêncio. Bakhtin e a psicologia. De acordo com esses autores. p. a sua separação do calar e da liberdade da escuta aberta à polissemia. A. Assim. São Paulo: Martins Fontes. por sua vez. e os dialógos sejam cada vez mais presentes. REFERÊNCIAS BAKHTIN. para escutar é preciso considerar as relações sociais e culturais reconhecidas. As idéias linguísticas do círculo de Bakhtin. seu espaço que não poderá ser ocupado por nenhum outro. T. ao se refletir a respeito das práticas dialógicas desenvolvidas em uma clínica fonoaudiológica é fundamental entender que as relações estabelecidas entre surdos e seus familiares são singulares. “Cada enunciação viva. Assim. M. a falta de resposta. In: FARACO. Para uma filosofia do ato responsável. Desse modo.21). enquanto escuta que responde. 54). antes mesmo que o ouvinte “tome a palavra” (PONZIO. 1992/ 2011. 165- 187). Já o calar é a condição da compreensão do sentido da enunciação única irrepetível. Diálogos com Bakhtin. uma resposta. TEZZA. pauta-se na enunciação. p. (pp. retira da palavra o seu caráter humano e a torna algo mecânico e pseudonatural. por meio do encontro de palavras.A. 2004. p. Linguagem & diálogo. C. 2010. & CASTRO. FARACO. M. 2010. Tal escuta deixa falar e deixa escolher o que se quer dizer. da unidade concreta da palavra viva. PONZIO. o reconhecimento e a identificação à nível fonológico. G. cabe aos terapeutas fonoaudiólogos ressignificar as relações familiares para que os mal entendidos. e não a imposição da palavra no espaço do silêncio. Procurando uma palavra outra. Ao perceber cada surdo e cada familiar como únicos em sua própria existência. 117 percepção dos sons e dos traços distintivos da língua. mesma aquela de quem começa a falar. FREITAS. Marxismo e filosofia da linguagem. no trabalho clínico aqui proposto deve-se levar em conta a singularidade. 2010. C. CORPOS . São Carlos: Pedro & João Editores. Diferente do silenciar. A. C. o fingir compreender.). o calar é escuta e. Assim. 2010.. ou seja. a desistência dialógica. BAKHTIN. já que cada um possui sua história. Estética da criação verbal. o não escutar tornem-se cada vez mais raros. o destinatário da palavra é ativo e parte sempre de uma posição responsiva. São Carlos: Pedro & João Editores. 1996. o não-falar.

118 SKLIAR. Pedagogia (improvável) da diferença: e se o outro não estivesse aí? Rio de janeiro: DP&A. CORPOS . 2003. C.B.

Debates em torno de 52 Mysterieux é o pseudônimo adotado pelo personagem central da narrativa que sustenta esse trabalho. Vivemos tempos de instabilidade política. Instituições Políticas e Sociais. como arena de lutas. Esses avanços que nos permitiram pensar em uma sociedade mais igualitária e menos exclusiva levaram a público temas nunca antes apreciados de forma tão notória. LEME. um antigo aluno que após a experiência com o casamento e com a paternidade percebe-se homossexual e drag queen. após assumir-se homossexual. BONITA. Através de uma narrativa densa onde minhas memórias de infância se cruzam GAY. anteriores ao golpe. estão ameaçadas. Dialogismo. Relações Escolares. de forma comprovadamente inconstitucional. O conceito de dialogismo em Bakhtin dá a sustentação teórica necessária à compreensão do confronto entre ordem e desordem contido no corpo grotesco homossexual tomado aqui. SOU DRAG. juntamente com a palavra. misterioso. avassalador dos direitos sociais e individuais. INTRODUÇÃO Aqui tudo parece Que era ainda construção E já é ruína Tudo é menino. social e econômica. Antigos ideais de “trabalho. 53 Mestre em Educação pela FE-UNICAMP. Arena de Lutas. Após o golpe que depôs. por uma séria crise política e institucional. Marcos Donizetti Forner53 Palavras-Chave: Corpo Grotesco. CORPOS . Supervisor Educacional da Secretaria Municipal de Educação de Campinas. família e propriedade” voltaram a fazer parte da cena politico-ideológica de nossas instituições governamentais. hoje. As conquistas sociais que experimentamos nos últimos tempos. um cenário propício ao conservadorismo escancarou-se. Fora da nova ordem mundial. menina (…) Alguma coisa esta fora da ordem. BEBÊ!”: a tentativa de Nesse diálogo questões ligadas diretamente ao ordenamento político-ideológico de nossas instituições são questionadas na busca por uma ocultação do corpo homossexual nas escola que respeite a diversidade e participe do debate contra o preconceito e a violência de forma relações escolares responsiva e responsável. tomou conta das tribunas dos nossos poderes democraticamente instituídos. Um discurso moralista. SOU com minha experiência como professor. (Caetano Veloso) O Brasil passa. travo um intenso diálogo com Mysterieux. do francês. um governo legitimamente eleito. RESUMO 119 O objetivo desse texto é analisar a tentativa de ocultação do corpo homossexual nas relações MYSTERIEUX52 – “SOU escolares e avaliar as consequências desse ato na vida dos educandos.

O atual cenário de instabilidade política que vivemos propicia esse enfrentamento e a emersão de antigos conceitos e preconceitos. No Plano Nacional de Educação e na Base Nacional Comum Curricular. Na contramão da Lei de Diretrizes e Bases da Educação que defende o pluralismo de ideias como um dos alicerces da Educação brasileira esse movimento retrógrado esforça-se em coibir o dialogo em torno das questões de gênero e sexualidade taxando-as de imorais e ideológicas. ditadas como regras únicas a serem observadas por todos. “atordoado eu permaneço atento. Essas questões me afetam diretamente. Como diz o poeta Chico Buarque. por não se adequarem às normas binárias de construção do gênero e da sexualidade são ocultados na esfera do oficial. sou homossexual. No interior da escola uma diversidade enorme de corpos transita. a adoção e a maternidade/paternidade vividas por casais homoafetivos. enquanto arena de debates. Um “monstro” que. pai de um filho adotado por mim e meu companheiro. apesar de um tanto adormecido. manter e ampliar direitos e projetar um futuro livre de discriminações e preconceitos. de forma veemente. das nossas casas e ruas. nunca esteve vencido. A escola. Esse texto. Apesar disso. passaram a ser debatidos publicamente. Graças aos avanços conquistados com muita luta e muita dor. conservadores da “moral” e dos “bons costumes” também passaram a se opor publicamente. a intolerância e o conservadorismo ganhavam forças. dos meios de comunicação. temo por meu filho e por meus alunos. o Brasil parecia caminhar rumo a um futuro mais livre de violências. na perspectiva das relações díspares. na arquibancada. por onde devem circular as mais variadas formas de compreensão da vida. alguns. na mesma proporção em que liberdades individuais e direitos sociais eram conquistados. Em nome de “Deus” e abençoados pelo capital. estaduais e municipais circulam projetos de lei que visam cercear professores e alunos do direito ao amplo debate de ideias. o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O machismo e a violência contra as mulheres. preconiza-se a detenção das regras como forma de detenção do poder. enunciam-se. para a qualquer momento ver emergir o monstro da lagoa”. alicerçado na narrativa de minhas memórias em relação direta com uma experiência por mim vivida com um aluno entre os anos 2000 e 2017. “homens de bem”. a homofobia. tem por objetivo analisar a necessidade da manutenção e ampliação do debate em torno das questões de gênero e sexualidade nas escolas como forma de coibir a violência. temo em perder esses direitos. É bom lembrar que. Porém. hoje tenho uma família organizada e legítima e sentindo-me livre para debater com meus alunos gênero e sexualidade. CORPOS . a qualquer direito que colocasse em cheque suas convicções e suas doutrinas. Nessa toada. classificando qualquer manifestação de opiniões de “doutrinação ideológica”.. dentre outros temas. No Poder Legislativo das esferas nacional. 120 questões como as de gênero e sexualidade passaram a fazer parte do cotidiano das nossas instituições. são corpos que falam. termos como “identidade de gênero” e “orientação sexual” foram suprimidos.. e professor. passou a ser alvo desse conservadorismo ascendente.

Cultivava pela inspetora de alunos da escola um amor quase filial. era sempre destaque. No entanto existe um compromisso alteritário com o outro.o professor de Educação Física ignorava meu isolamento. também. muito mais na referência com o feminino do que com o masculino. Gostava de fazer teatro. 2015. que me completa-incompleta e nesse processo o pesquisador não está só e tampouco e onisciente.. tinha cabelos ondulados e furinhos na bochecha rosada que davam-lhe ares angelicais. espera aí. porém. paro para pensar o quanto eu sofria por ser diferente. cativava a gente sem muito esforço. Nas festas da escola.. Era inteligente. Essa diferença. minha inabilidade com os esportes me isolava . bebê!” Mas. De repente. sou bonita. CORPOS . quando criança. perspicaz. Eu também fui um menino diferente. de maneira singular. quando vi suas fotos pelo facebook. A proximidade mais com as meninas do que com os meninos também era uma característica sua que o assemelhava muito a mim. eu o vejo pelas redes sociais vestido de menina. exibindo-se pomposo entre um acorde desafinado e outro. zangado e rabugento. Aqueles olhos azuis eram tão grandes e reluzentes que era impossível passarem despercebidos. destacava-se nas aulas pelos seus comentários e elucubrações e na escola pelas novidades que sempre trazia consigo. sua visão (PREZOTTO e outros.13). Assim como ele. 1. dessa forma. que cara de menina. ela. Eu o conheci ainda garoto. fazendo de conta que não me via. de cantar. Um dia apareceu com um violino. ele não havia casado há pouco tempo? Tão jovem. posicionando-se ética e esteticamente. afirmando sua homossexualidade e gritando para quem quisesse ouvir: “Sou gay. A voz era aguda feito a minha. uma filha. eu me destacava muito mais nas artes que nos esportes. Destacando-se em relação aos demais adolescentes. 121 A concepção de dialogismo em Bakhtin (2004) orientará minhas perspectivas de análise e me servira de aporte na busca pela compreensão da palavra e do corpo enquanto signos ideológicos e arena de lutas onde valores contraditórios se digladiam produzindo sentidos múltiplos para um mesmo objeto. Não parecia muito fã de futebol e outras brincadeiras de meninos. Pequenino. na infância. Parecia-me feliz. sou drag. ampliando.. Tempos depois. Eloquente.ao contrário dele. Minha voz aguda parecia incomodar. Por vezes. às vezes eu o percebia discriminado por não ser igual à maioria. Ao narrar o sujeito coloca-se em movimento de interpenetração no mundo teórico e no mundo da vida.. pensei. me cativava. eu era calado e solitário. Mas. por vezes. comunicativo e. p. meus trejeitos delicados eram motivos de chacota. ENCONTROS E DESENCONTROS COM O MENINO DE OLHOS AZUIS: memória e narrativa O sujeito que narra toma conhecimento do vivido. Sempre com um sorriso nos lábios.

Quando criança. o príncipe virou princesa e. que exibia-se pela internet. o vejo travestido de Mysterieux. em contraposição às estratégias de manutenção do poder organizadas na forma da lei. algo parecia estar fora de contexto. da inspetora de alunos por quem ele era apaixonado na escola e procurei por ela. meu mecanismo de defesa. Porque um rapaz tão jovem e tão cheio de energia resolvera casar-se tão cedo? Apesar da convicção e da felicidade que demonstrava em seus posts.. era provar para todo mundo que eu era um garoto inteligente e capaz. ao encontrar sua princesa. soava-me como uma brincadeira de casinha. Mas o sonho. na escola. convenhamos. uma belíssima drag queen. CORPOS . quando olhei suas fotos de casamento circulando pelas redes sociais percebi que algo me havia escapado. Numa de suas primeiras publicações na internet. passei a “segui-lo”. como um conto de fadas. que mais era dos outros do que dele durou pouco. quase adaptado às normas e padrões socialmente aceitáveis (quase. via aquele menino. casando-se para provar a todos que era “homem”. A história que segue nada tem a ver com um conto de fadas ou com uma brincadeira de crianças. será que isso tudo eram táticas de reelaboração do que estava posto como estratégias do poder? Confesso que eu não enxergava ou. a carruagem virou abóbora. Que transformações haviam acontecido na vida daquele garoto que o levaram de um extremo a outro em tão pouco tempo? Indaguei. que sentia um carinho enorme pela filha.. não quisesse enxergar esse jogo. Será que toda aquela vivacidade e todo aquele seu jeito extrovertido não passavam de mecanismos de defesa? Será que ele era mesmo feliz? Ou. Cansado de ser agredido e violentado em suas reais perspectivas de vida aquele sorridente rapaz havia sucumbido às expectativas da família e da igreja. pela sua vivacidade.. cavalgava em direção a um final feliz. O quanto foi agredido por ser diferente. utilizam-se de práticas cotidianas como falar. da ciência. de repente. Aí. enquanto táticas de reelaboração da ordem a seu favor. da política. Porém. são fatos da vida real. no entanto. achei um tanto invasivo questioná-lo diretamente. Apesar de minha curiosidade. não fosse o gosto pelas maquiagens e cabelos). foi difícil. O quanto teve sua sexualidade questionada e como isso o obrigou a assumir determinadas posições de defesa. vivendo seu conto de fadas como um príncipe que. pelo contrário. por conta da distância que nos separava. Por um tempo foi “feliz”. na perspectiva de Certeau (1994)54. então. Tudo isso. ele fala do quanto sua convivência com alguns colegas e professores. da moral etc.. circular. talvez. que gostava de pentear e maquiar suas amigas. Descobri que gostava de cozinhar. pela sua graça. sem o menor pudor. que trabalhava numa empresa de telefonia celular. o admirava. etc. Adotando um ar sisudo. após ter assumido sua homossexualidade. que frequentava a igreja e que vivia uma vida comum. Dei-lhe as felicitações e. reencontrou-se consigo mesmo. que era apaixonado pela jovem esposa. ler. pela internet. Lembrei-me. quase sem 54Certeau em “A invenção do cotidiano: artes do fazer” nos orienta a compreender de que forma os sujeitos ordinários. 122 Eu. à distância. contra os ataques constantes que eu sofria. Um encontro nada pacífico. apropriando-se da sua história real o garoto que um dia conheci cheio de vida. me encantava por suas peripécias.

rosa. Daí os questionamentos que trago para esse debate. eu fazia roupas para as bonequinhas delas. três irmãs. ou melhor. revela um pouco desse ser. 26) O corpo homossexual é ambivalente porque carrega em si traços do feminino que se fundem e se confundem com o masculino. segundo suas postagens. Eu também não percebia o medo que habitava aquele garoto de olhos azuis. também foi e continua sendo um obstáculo nessa sua trajetória de busca por si mesmo. Brincávamos de boneca. entramos numa loja. no movimento do CORPOS . A negação e a ocultação da palavra e do corpo também são construtivas de sentidos. (Idem. na fala. mais o meu escândalo por querer coisas de meninas as convenceram do que eu queria e não o que elas queriam. um pouco delicado.. Apesar de perceber na mãe certo aporte. não seria papel da escola proteger seus alunos? Porque a escola ainda insiste em ocultar no seu discurso e no seu cotidiano. a terceira era eu. não deve circular o tão exaltado pluralismo de ideias defendido pela LDB? Do meu tempo de menino.. Depois de tantos avanços em relação à conquista de direitos civis e individuais por pessoas LGBTs.... o corpo e a estética homossexual? 2. Ah. 23). O CORPO AMBIVALENTE: uma estética a ser ocultada A vida se revela no seu processo ambivalente. nos trajes. no seu interior. Mamãe e titia fizeram de tudo pra que os carros e coisas de menino me chamassem a atenção. mas o meu paraíso estava no setor de meninas. Nos jeitos e trejeitos.. aqui está uma em transformação. rosa com coisas brilhando e etc. 😊 arrumava cabelo e etc. O que a escola não percebia era o medo que habitava dentro de mim. 1993. Vejamos: “Eu era um pequeno menino. Com duas meninas irmâs. para os dias atuais. a não ser por suas próprias contradições. Encanei que queria uma máquina de lavar porém de bonecas. p.. muita coisa mudou. ainda. claro . O cânon grotesco deve ser julgado dentro de seu próprio sistema. ainda luta para convencer seus familiares de que é possível ser feliz. porque não? Afinal. O texto que segue. A família. copiado de sua página no facebook. eu lutava para convencer a todos da minha seriedade e dedicação. interiormente contraditório. Te pergunto: uma gay se torna gay ou nasce gay?” Possíveis respostas para esse e outros tantos questionamentos poderiam ser debatidas pela escola... (BAKHTIN. sendo aquele a quem deseja ser. a escola pouco contribuiu nesse processo. Para minha mãe e tia um paraíso porque haviam carros de brinquedo e bonecos de heróis pra todos os lados. p. 123 sorrir. com um coração de princesa . ou seja. a escola não deveria trazer esse debate para dentro de seus muros? Depois de revelados e trazidos à tona todo o sofrimento e toda a violência que sofremos no universo de uma sociedade machista.. Numa viagem para outro país onde fui com minha tia e minha mãe. eu ainda pequeno. Apesar de eu ter me resolvido bem com minha sexualidade. eu também queria ser uma boneca.

não é uma atitude muito aceitável. Vestem-se para a festa. do risível. 143). maquiagens. 3. “Bicha”. tudo muito exagerado. indivíduos que ao serem controlados pela ordem. gênero e sexualidade são tratados numa perspectiva binária. o da drag queen a coloca em cheque. homens e mulheres. ainda mantêm papeis e comportamentos bem definidos – um bom exemplo disso. desviantes. apesar de avanços experimentados nos últimos tempos. homens e mulheres que se atrevem a questionar com suas atitudes e seus corpos esse padrão. “A disciplina ‘fabrica’ indivíduos. do cômico.elas aproximam-se do espetacular. isto e. ”franchona” são alguns dos adjetivos criados histórica e culturalmente para denominar de forma pejorativa. No corpo da “drag queen” essa ambivalência é pra lá de explicita. não apenas nele se reflete. p. mesmo que de maneira formal. ou seja. como imagens “ambivalentes e contraditórias que parecem disformes. circulam pela escola e com ela estabelecem um intenso diálogo. se consideradas do ponto de vista da estética “clássica”. bebe!” . 46) Esse enfrentamento entre o estabelecido e reelaboração do estabelecido faz do corpo uma arena de lutas onde valores contraditórios se digladiam. da estética da vida cotidiana preestabelecida e completa” (BAKHTIN. Na cultura ocidental moderna. A escola. promovem o debate. no Brasil. Roupas femininas. não para ser mulher. A PALAVRA E O CORPO COMO ARENA DE LUTAS O ser refletido no signo. monstruosas e horrendas.“sou bonita. 1987. Analisando a cultura na Idade Média e no renascimento a partir das obras de Rabelais. p. os homens cumprimentam-se com um aperto de mãos. mas também se refrata. é o cumprimento entre pessoas do mesmo sexo: enquanto as mulheres trocam beijos na face. 2004. revela essa ambiguidade em maior ou menor escala. Se a ambivalência do corpo homossexual incomoda a escola. questionadores da ordem binária. culturalmente. rebeldes. Bakhtin chama nossa atenção para as imagens do grotesco. enunciando-se no feminino . Não há lugar para esses corpos grotescos no currículo escolar. A ambivalência que carregam rompe com ordem “normal” das coisas. O que é que determina essa refração do ser no signo ideológico? O confronto de interesses sociais nos limites de uma só e mesma comunidade semiótica. p. assessórios. quando não evadidos. “caminhoneira”. ela é a técnica especifica de um poder que toma os indivíduos ao mesmo tempo como objetos e como instrumentos de seu exercício” (FOUCAULT. oculta esses corpos de seus currículos.22). ou seja: a luta de classes. dois homens beijando-se. porem. Essa ocultação tem uma função disciplinadora. Esses corpos grotescos. CORPOS . (BAKHTIN. 124 corpo. 1993. pública ou veladamente. todo sujeito homossexual. criam afetos e desafetos. são marcas da performance que as caracterizam. “boiola”. “sapatão”. “viado”. passam a exigir a perpetuação dessa mesma ordem.

ocultam o dialógico. O menino de olhos azuis dialogava com a escola. o controle e a desobediência. corpo e palavra estão conectados. isolá-los. Limitando-se as perspectivas do biológico. o centro das disputas. Indiciado nos seus gestos. toda verdade viva pode deixar de parecer para alguns a maior das mentiras. assim em como nas demais instituições sociais que estruturam a organização de nossa sociedade. Se no corpo enunciam-se marcas do confronto entre poder e resistência. porém não o escutava. a disciplina e a indisciplina. são tratados no universo de um cientificismo racionalista e formal que pautado em generalizações. Vivemos essa crise… 4. (Idem. esse tema sempre foi marginal.todos os signos não verbais . ainda é um tabu. esse confronto se evidencia.grifo meu) não podem operar sem a participação do discurso interior. meu jovem aluno nada disse a esse respeito em suas postagens pela internet. Falar de sexualidade e gênero na escola. Apesar de fazer parte do currículo oficial da escola. um ritual ou um comportamento humano . são estratégias do poder na tentativa de monologizar o discurso. Nesse corpo falam a ordem e a desordem. o desejo em ser uma princesa que desde muito cedo o perseguia.banham-se no discurso e não podem ser nem totalmente isoladas e nem totalmente separadas dele. implícito no dialogo. nesse corpo enfrentam-se poder e resistência. p. Todas as manifestações da criação ideológica . uma peça musical. Como já observado. então. O que eu sei é do drama que esse rapaz viveu. p. faltasse-nos tempo e espaço. 125 “Diálogo e corpo estão conectados e a imagem que Bakhtin utiliza para essa conexão é o corpo grotesco” (SILVESTRI. Essa dialética interna do signo não se revela inteiramente a não ser nas épocas de crise social e de comoção revolucionária” (Ibidem. p.47). A palavra acompanha e comenta todo signo ideológico. como forma de atribuir à vida sentidos estáticos e imutáveis. na maioria das vezes. eu não o escutava. Talvez. um drama mais comum do que CORPOS . na palavra. 36). Gênero. Os processos de compreensão de todos os fenômenos ideológicos (um quadro. 37 e 38) Enquanto signo ideológico a palavra torna-se. sexualidade e ideologia. estava lá. A escola. Refletindo e refratando tais sentidos a palavra cumpre o seu papel de “signo ideológico (…) [que tem]. enquanto “fenômeno ideológico por excelência” (BAKHTIN. 2014). adquirem sentidos múltiplos que evidenciam tais disputas. no seu corpo. 2004. duas faces [onde] toda critica viva pode tornar-se elogio. arena de lutas. CONSIDERAÇÕES FINAIS O que aconteceu no ínterim entre o casamento e a ascensão de Mysterieux eu não sei. sexo e gênero. como Jano. Ocultar esses corpos no cotidiano (como fazia meu professor de Educação Física) negar sua existência. o que eu sei e do drama que eu também vivi. Não é a toa que as forças conservadoras lutam para retirar do currículo essas palavras num esforço em conter a circulação de sentidos no seu interior.

2012. H. 2 ed. São Carlos. para que seu corpo pudesse circular mais livremente. se nela houvesse espaços e tempos para que ele pudesse se expor com maior clareza.br/bitstream/handle/ufscar/5638/6108. Bakhtin nos convoca a participar do diálogo de forma responsável e responsiva. M. SERODIO L. A assumir um compromisso ético e estético com a alteridade repudiando qualquer forma de generalização do outro. Nossas instituições sociais não podem continuar se omitindo diante de tanto sofrimento. sem exceção (BAKHTIN. SP: Pedro & João. M. 126 imaginamos. 25ed. Para uma filosofia do ato.. PREZOTTO M.. 2002. V. T. RODRIGUES N. RJ: Vozes. T. Prefácio in Metodologia narrativa de pesquisa em Educação: uma perspectiva bakhtiniana. 2004. FOUCAULT. Petrópolis. os personagens da trama permanecem no anonimato. Marxismo e filosofia da linguagem. 2015. Precisamos transformar a escola em um espaço de possibilidades. 2010). C. Precisamos debater o movimento da vida. PROENÇA H. Vigiar e punir: histórias da violência nas prisões.. DF: Hucitec. BAKHTIN. Sujeitos de diversas composições sociais e econômicas circulam por seus edifícios. M. 1 ed. 11 ed. Mesmo os que se expõem. B. muitas das vezes suicidam-se ou envolvem-se em situações de extrema violência. São Paulo. Em https://repositorio. RJ: Editora Vozes. 1993. A. São Paulo. SP: Pedro & João. PRADO G. Nova edição. BAKHTIN.. Org. A invenção do cotidiano: artes do fazer. A luta em torno da palavra acirrou-se. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Precisamos garantir a circulação dos corpos e das palavras com todas as contradições que os constituem. nem política e nem socialmente. M.pdf?sequence=1 Acesso em 29/09/2017. 1994. nela o dialogismo é intenso… Nesse enredo. abrir espaços para que os sujeitos possam se posicionar. estabelecida e apresentada por Luce Giard. SERODIO L. (VOLOCHINOV). as forças conservadoras e monolizadoras do discurso emergiram com muita força. D. A disputa está posta. sofrem. do V.Brasília. CHAUTZ G. expandir o diálogo. Carnavalização como transgrediencia da multidão. REFERÊNCIAS BAKHTIN. A buscar pela subjetividade do outro enquanto evento único e irreprodutível. CERTEAU. na maioria das vezes. A escola não é uma instituição autônoma. Diferente desse caso onde o protagonista da história se expos publicamente. C.usfscar. . SILVESTRI K. São Carlos. A. múltiplas variantes do conceito de ética e moral digladiam-se no seu interior. 2 ed. Vivemos tempos difíceis. sem álibi. nela circulam as mais variadas verdades. Tese (doutorado) Universidade federal de São Carlos: 2014. como nunca. SP . M. C. CORPOS . possam dizer de si com franqueza e possam ser ouvidos com a mesma franqueza. M. SP: Hucitec. O drama vivido por aquele menino de olhos azuis poderia ter sido menos amargo se a escola o tivesse enxergado. Petrópolis..

do exterior. no Grupo Atos UFF. Claro que o fenômeno social da pobreza como contraparte ativa da acumulação de capital por alguns grupos e seres humanos é real. homens e crianças com quem encontramos. nesse processo. Procurei algo para Palavras-Chave: Cronotopo. Aprender essa beleza nos ensina aqui começou a baixar e dos 18° já chegou aos 10°. Bakhtin afirma que o homem – como todas as personagens de Dostoiévski – é um ideólogo. 55 Professora da Faculdade de Educação da UFF. por Makar Diévuchkin e Akaki Akakiévitch. Para Bakhtin. Dostoiévski. no caso em São Petersburgo. formando-se. vista como coisa. lendo cronotopicamente uma passagem ressaltada por Bakhtin. E-mail: sol. Este presente texto é uma tentativa de compreender como Dostoiévski construiu esse dominante artístico. Arena de Lutas. em diálogo. Tendo Dostoiévski como referência. mas da Dialogismo. Em minha lida com a leitura. vimos buscando a construção de planos discursivos em ciências humanas. ou o cronotopo do botão. recusando ao mesmo tempo. Mas ser pobre é experiência vivida na relação dos homens no mundo. PERCEBER-SE POBRE de tomada de consciência sobre ser pobre. Ou esfriou.barenco@gmail. Claro que a pobreza existe como realidade social. em que as mulheres. e Gente Pobre. Em uma sociedade capitalista. Trata-se do diálogo da personagem Diévuchkin. onde para sobreviver é preciso ter – ou ser – objetos de valor para troca que são acumulados por alguns. RESUMO 127 Resistir no corpo. Marisol Barenco de 55 acentos monológicos. e volto a escrever. na arte e na ciência. início da primavera no Brasil amanhã. compreensão e pesquisa em Bakhtin. mantenham suas vozes vivas e perturbando nossos MELLO. no campo da Educação. como valor. heróis de Dostoiévski e Gogol. na sua autoconsciência Petersburgo do século XIX para pensar o contexto de O Capote. pela via das imagens literárias. descrita. bem baixa para resistências e re-existências diante de nossas final de setembro. A ão sei se porque comecei a procurar as imagens de São personagem volta o rosto aos discursos monológicos e diz-se. pobreza vivida no frio. Pobreza. ou a falta dele no frio. muitas pessoas não conseguem sequer o necessário para sobreviver. da A POBREZA EM personagem e da ideia em que esses dois últimos lutam. na vida. no cronotopo artístico. no autor monológico. no diálogo tenso com os seus outros de Gogol. ou a imagem da pobreza no cronotopo do capote. Seu tema. em seu ativo processo 1. o capote. A pobreza não existe como algo em universal: ser pobre pode ser descrito pelo homem pobre. Sociologicamente ela assim pode ser percebida. ou eu sinto no corpo o frio de que falo no texto. os acabamentos de pobreza aos homens destinados. e não cabe nas descrições e análises que se pretendem gerais. É sobre o perceber-se pobre que trata este texto. revela-se em primeira pessoa.com CORPOS . de Gente Pobre. mas a temperatura e. ideologicamente. contra as muitas formas de acabamento e mortificação que a palavra CRONOTOPO em ausência pretende. Para Bakhtin o homem revela-se pelo próprio homem. N portanto em ausência de quem se fala. de Dostoiévski. é toda a Rússia que embate-se. próprias vidas. me aquecer. o elogio a Dostoiévski vem da competência criadora desse em criar dominantes artísticos da posição do autor. em que essa construção é vivamente compreensível. Este texto não é sobre o frio.

Gogol escreve a história de um funcionário pobre. A pobreza que sou em meu fato. 2013. intitulado A personagem e seu enfoque pelo autor na obra de Dostoiévski. Nesse mesmo capítulo.] Desde algum tempo. Dostoiévski vai dizer mais tarde “todos nós descendemos de O Capote de Gogol". (Bakhtin. entre oito e nove. Bakhtin nos diz que Dostoiévski nunca representou o funcionário pobre. Petersburgo. Bakhtin diz: Aquilo que se apresenta no campo de visão de Gogol como conjunto de traços objetivos que se constituem no sólido perfil sociocaracterológico da personagem é introduzido por Dostoiévski no campo de visão da própria personagem. naquela hora em que os funcionários se dirigem a seus ministérios. Pela manhã. aberta nessa construção na relação com o mundo da sua vida. na busca pelo seu capote. Dostoiévski obriga a própria personagem a contemplar no espelho até a figura do “funcionário pobre” que Gogol retratava”. Akaki Akakiévitch percorria correndo esta distância fatal. Sobre a diferença entre Gogol e Dostoiévski. esse ponto de vista que é a personagem é autoconsciente e. o que lhe recobra a dignidade por pouquíssimo tempo. quando da escrita de Gente Pobre. sentindo-se inteiramente enregelado. objeto de sua angustiante autoconsciência. Uma narrativa incrível de Gogol (2008) nos traça o frio e a dor de Akaki Akakiévitch em seu esfarrapado capote: Um poderoso inimigo espreita em Petersburgo as pessoas que gozam de vencimentos de aproximadamente quatrocentos rublos. inacabada. aos 23 anos de idade. Ele veio a se perguntar se não era culpa de seu capote. Examinou-o quando chegou em casa e descobriu que em dois ou três lugares. obra epistolar que foi imediatamente considerada uma obra prima? "Um novo Gogol apareceu!". Bakhtin está nesse capítulo afirmando o caráter único da obra de Dostoiévski no que diz respeito à personagem. e insere.. 2013. e seu fantasma passa a assombrar S. Essa posição. disse Nekrassov. até os tempos atuais: a pobreza concretizada nas vestes esfarrapadas e a vergonha de portar-se essa pobreza diante do outro. ele mesmo. especialmente nas costas e nos ombros. 128 Gogol escreve e publica. Este inimigo é nosso clima setentrional. Morre logo após. sem distinção. 53-54) Mas o que em Gogol faz Dostoiévski vibrar. Após economizar ao longo de muitos anos ele pôde finalmente pagar o alfaiate para fazer outro. mas fez falar de sua autoconsciência um funcionário pobre – Diévuchkin e outros. o frio é justamente tão penetrante e ataca com uma tal violência a todos os narizes. p. p. que no entanto tem a fama de ser muito saudável. que não é objeto ou fenômeno da realidade. O que diz O Capote de tão pungente à alma russa? Bakhtin toma em consideração essa relação no segundo capítulo de sua tese Problemas da Poética de Dostoiévski. que seus infelizes proprietários não sabem onde se abrigar [. já que o capote é roubado. 52). principalmente. como posição racional e valorativa do homem em relação a si mesmo e à realidade circundante” (Bakhtin.. por seus leitores. tornando-se aqui. O Capote e Gente Pobre são obras sobre perceber-se pobre de um ponto de vista amplamente reconhecido. e escrever (1844-1845) Gente Pobre. compreendido. entre 1840 e 1843. O Capote. mas sim um “ponto de vista específico sobre o mundo e sobre si mesma. Akaki Akakiévitch. precisamente nas CORPOS . cujo capote esfarrapado era fonte de zombaria de seus colegas. a obra na obra.

mas vai além disso. e este se indigna com a leitura. Primeiro declama um histórico de bom funcionário. praticamente nesse momento estamos na sala com ele. signo da pobreza no corpo. Não se sabe mais se fala de Akaki ou de si: “que tem de particular. De fato. Gogol escreve: É preciso observar que o capote de Akaki Akakiévitch alimentava também os sarcasmos de sua repartição. Gogol. signo de sua condição inferior. 224). Na repartição. reconhecendo-se a tal ponto na personagem e sentindo-se exposto. nem tampouco ele se dirige a mim. principalmente. trajado como um homem pobre. de frente para ele. 16-17) Não sei se um leitor de Gogol pode penetrar profundamente no sentido dessas palavras se nunca sentiu frio. quando o piso da rua é mau. que fala na carta à sua amada Várienhka. caminhar nas pontas dos pés para não estragar as botas? Para que hão de encher-se páginas e páginas a custa do próximo. Sua gola diminuía ano após ano. 129 costas e nos ombros. como um homem russo do século XIX também se solidariza com Akaki Akakiévitch. Haviam mesmo retirado a nobre denominação de casaco para tratá-lo desdenhosamente por “capote”. (p. a vestimenta tinha um aspecto muito estranho. sabe a intensidade. Em São Petersburgo. mundo enregelado e hostil. A voz última é a do narrador. minha filha. para dizer que às vezes tem as suas dificuldades CORPOS . além disso. Akaki Akakiévitch corre entre sua casa e o vestíbulo do ministério. Ao escrever Gente Pobre produz um diálogo que vai além do sentido das poucas palavras de Gogol a esse estar entre as pessoas. sua revolta. que congela os corpos pela manhã ao sair de casa. ainda que emocionada. Várienhka empresta a Makar O Capote. O casaco roto é. Os remendos não colocavam em destaque o valor do alfaiate. Ouvimos na leitura dessa carta sua voz. que denuncia a falta de recursos no vestuário para proteger o corpo deste “inimigo” poderoso. e com o qual não nos acostumamos nunca. Gogol desenha o quadro familiar com que muitos de nós nos lembramos dos anos mais difíceis de nossas vidas. o pano havia assumido a transparência de uma gaze e o forro havia praticamente desaparecido. quem já sentiu frio. embora possa com ele me solidarizar. cinco ou seis ruas. que não deixa dormir à noite e. em uma carta sobre livros que trocam. A construção de Dostoiévski é a seguinte: primeiro. sua vergonha. mortal. as temperaturas caem até a -8° entre novembro e março. O capote feio é ao mesmo tempo o objeto mais precioso e o mais abjeto. Não me dirijo a ele. Esse homem é objeto de nossa contemplação. como um tu. Imagino que Dostoiévski. para após isso dizer: “pois dar-se-á o caso de que me não possam deixar viver em paz no meu canto?” (p. Encurta com a corrida a “distância fatal” para doer menos o que. O frio que penetra nas habitações mal vedadas. Mas em toda essa dor. inimigo. ela é a dor de um terceiro que não sou eu. o conjunto era pesado e bastante feio. O frio que permanece por uma temporada de meses do ano. pois ela servia para remendar outros lugares. A força da imagem de Akaki correndo em Petersburgo e sendo alvo da zombaria dos funcionários é alargada por Dostoiévski através da posição autoconsciente de Makar Diévuchkin. a isso reage. com ele nos envergonhamos.

. não só fiz um peitilho como também uma gravata. Com certeza que há de estar de acordo comigo a respeito dos botões: não se pode passar sem eles e a casaca do meu uniforme não tem mais nem metade dos que tinha. pelo tom emotivo da personagem e de sua dor. Então por que fazer mal a quem mal não faz?” (idem). Sua certeza de ter sido exposto segue-se na revolta: Uma pessoa esconde-se. tanto a pública como a privada. Tentando pensar como conseguir emprestados 40 rublos. pois já se sabe que tudo neste mundo pode prestar-se para zombarias.. Estar diante do outro. não sei se amanhã terei coragem para apresentar-me na repartição com estas que possuo. por Gogol. Sua irritação é com a exposição dessa condição. 130 de dinheiro e que nem sequer prova chá?” (p. que tudo se publique e se leia e provoque motejos e risadas!” Já uma pessoa não pode sair à rua. p. O que me falta ainda são os botões.. acobarda-se. ele diz a ela seus planos para melhorar o vestuário: Com cinco rublos compro um par de botas. Assim como Gary Morson (2015) disse que Dostoiévski só pôde escrever a passagem da guilhotina de O Idiota por ter ele mesmo passado pela situação da condenação e comutação da pena no último minuto. a cena de Diévuchkin diante do ministro expressa o tom emocional que me arrisco dizer que a maioria de nós já viveu de alguma forma. sem exceção. Pois digo-lhe a verdade. 225) Em outra carta Makar Diévuchkin diz a Várienhka que as “dívidas e o péssimo estado da minha roupa me aborrecem enormemente”.. e até chega a acanhar-se de mostrar a ponta do nariz por temor das troças. Makar não conseguirá o empréstimo e seu pesadelo se tornará realidade. Também não deixava de vir a tempo uma gravata. e com toda razão [. põe a tua vida toda a reluzir em letra de forma. Aqui os botões aparecem pela primeira vez... da vida de Akaki Akakiévitch. minha filha. de um outro a quem gostaríamos que nos considerasse especialmente honrados. por agora.] Só de pensá-lo sinto uma tal vergonha que até me parece que desfaleço. para saber o que comem? Fiz eu algum dia semelhante ofensa a uma pessoa? Não. e portanto. prenunciando o contexto de valor de Makar Diévuchkin como o homem que se envergonha da ausência destes em sua casaca.. Até tremo quando penso que Sua Excelência poderia reparar em semelhante prova de desleixo e dizer-me qualquer coisa. minha filha. 224). Sim. Aqui está tudo escrito. pois esta que agora uso já tem quase um ano. oculta-se. que até pela maneira de andar podem conhecer uma pessoa! (idem. tudo. fosse obrigada a tomar chá! Por acaso olho eu para a boca dos outros. Mas a descrição que está exposta é a sua própria: “Como se toda gente. a dor presente todo o tempo que culmina na avaliação pública e no julgamento que confere o CORPOS . É a cena mais forte do romance. “Vamos.. nos anos em que economizou para comprar o novo capote.. De maneira que botas e gravata já eu tenho. mas como me deu um avental velho. expondo o signo da miséria é o vexame maior.. não poderia sobreviver a essa vergonha. o valor dessa condição frente ao ministro aqui antecipadamente se revela. O valor. não se pensa mais em comprar uma nova. É justamente frente à Sua Excelência que a condição suportada se tornará insuportável.

Makar Alieksiéievitch. Eu ouvia apenas palavras soltas que me pareciam vir de muito longe: “Descuido! Negligência! Só serve para provocar contratempos!. Causou-nos um transtorno terrível com a sua cópia!” Foi isto apenas o que ele me disse. tudo quanto tive para dizer a Sua Excelência! As consequências não se fizeram esperar. [.. Foi essa a minha justificação. Dessa forma. mas não podia. Causou-nos um transtorno terrível com a sua cópia!” Foi isto apenas o que ele me disse. homem? E ao mesmo tempo Sua Excelência voltava para Ievstafi Ivânovitch. pelo que nem de longe poderia supor que Sua Excelência tivesse qualquer notícia acerca da minha pessoa. muito aborrecido. criatura? Onde é que tinha os olhos? Um documento desta importância. que estava apenas preso por um fio.. que era suficiente? Fiquei rígido. De repente aconteceu alguma coisa. Não é verdade. que é preciso enviar imediatamente! Em que estava pensando. e depois porque ao voltar casualmente a vista. caiu de repente (talvez eu lhe tivesse mexido sem dar por isso).Mas que disparate vem a ser este que pôs aqui.. Mas nisso nem era possível pensar.... minha filha. exclamou imediatamente: .. à direita. Sua Excelência. já não sentia e fui até ao gabinete do ministro. esqueci-me de fazê-la. Sair a correr.. de pôr-me em posição de sentido.. Não posso dizer-lhe ao certo nada do que pensei naquele momento. Com isto fica tudo dito. Queria desculpar-me. e a vamos ler a partir dos valores cronotópicos da cena... a minha desculpa.. De maneira que estava assim a dar grandes provas da minha habilidade! Senti que me fugiam as últimas forças e que tudo estava perdido.. que era suficiente? CORPOS . o meu botão. (261-263) Qual foi o corte... Creio que nem sequer fiz uma reverência. o diabo o leve. propriamente. como se ele pudesse ficar ali colado.” Abri a boca. e ao ver-me num espelho. mas foi o bastante.. logo a seguir. pedir perdão. foi tombar sobre o chão e.. Então curvei-me para apanhar o botão e colocar outra vez no seu lugar aquele desertor inoportuno. estava mais morto do que vivo! Conduziram-me através de uma sala. o meu botão. minha filha.. Via apenas que Sua Excelência estava ali. Estava completamente atordoado! Agachei-me e estendi a mão para apanhar o botão. sim ainda tinha a desfaçatez de me pôr a rir. que o faz ser chamado à presença de Sua Excelência. Eu pensei que estava a ver-me no espelho.. alguma coisa..] Pois Sua Excelência. E ainda por cima conseguia rir-me do sucedido... a cena escrita por Dostoiévski é uma das mais comoventes de sua vida de escritor. Quero dizer.] Até que por fim consegui apanhar o botão. Mas em vez de reparar a minha tolice. minha filha! Em primeiro lugar porque sentia uma imensa vergonha. Makar Alieksiéievitch. Sua Excelência chama-o imediatamente.. tive motivo mais do que suficiente para me deixar cair no chão. e à volta todos os outros. mas foi o bastante. acabou por ir cair mesmo aos pés de Sua Excelência.. minha filha.. Estava tão emocionado que me tremiam os lábios e as pernas. Sua Excelência chama-o imediatamente.. Não é verdade.. vou e ponho-me a querer prendê-lo no lugar donde pendiam apenas dois fiozinhos.. depois doutra e doutra.. fixou-se atentamente no meu aspecto e no meu fato. [. no meio do silêncio sepulcral que ali reinava. Toda a dignidade desaparecera: a minha parte humana estava absolutamente aniquilada. Foi então que percebi onde estava. de pé. até o gabinete de Sua Excelência.. Acrescente-se a tudo isto que eu sempre tenho procurado conduzir-me de maneira como se não existisse. mas este continuou a rolar como um pião e por mais esforços que eu fizesse não conseguia alcança-lo. como morto. mas não disse nada. E não me faltava razão para isso. a rolar. 131 fim do humano em nós. que ainda agora mesmo me envergonho de contar. o motivo disparador do encontro? O erro de Makar Diévuchkin sobre o parágrafo copiado. os meus pés é que me levavam porque eu.....

um homem pobre. Pela imobilização do homem na densidade da vergonha – de estar assim diante do outro. Nessa Petersburgo de Dostoiévski. tendo por lado de fora o frio. O ministério como cronotopo artístico apresenta. os corpos e o encontro dos corpos – o tempo condensa-se e torna-se lentíssimo – o contrário da vida que é quick ou zhivoi – e a pobreza como realidade concreta emerge em um flash. A publicização de sua condição privada a partir de sua própria culpa. Assim é a cidade. aparece especialmente no vestíbulo.. de um ocultamento mantido a muito custo por Makar Diévuchkin: estar fora do olhar de Sua Excelência. limiar entre a imagem branca do “lado de fora” e o interior do ministério aquecido e movimentado pela tensão das contradições sociais comprimidas. com as suas diferenças espalhadas na geografia da cidade (separação essa naturalizada. o branco da neve gelada ressalta mais ainda a densidade do interior do ministério. pelo efeito estético evidencia a crítica à sociedade de classes em São Petersburgo dos anos de 1840. Essa densidade do ministério. O erro é o corte. Trata-se da exposição pública da vida de um homem. o ministro. O tempo da cena do encontro é medido pelo tempo da morte. que tanto aparece em Gogol quando em Dostoiévski. nessa junção inesperada o contexto de separação que. que já não vemos). A chamada à sala do ministro explicita.. em um mundo separado de outros homens como o ministro. na carta anterior em que se indigna com tamanha invasão da privacidade. narrado densamente por Dostoiévski enquanto estreitamento crescente e tenso do espaço entre os dois personagens. a multiversidade social da visão da cidade de São Petersburgo. ainda que separados em diferentes repartições... O trecho que está anterior ao evento trata de uma morte anunciada: Até tremo quando penso que Sua Excelência poderia reparar em semelhante prova de desleixo e dizer- me qualquer coisa.. Podemos dizer que o motivo que começa a narrativa é a iminência da revelação pública de uma vida concreta privada. O cronotopo denso do ministério será comprimido mais ainda a partir do erro de Makar Diévuchkin. e ali vive sua existência. e com toda razão [. Makar Diévuchkin. em compressão. minha filha. em um rápido olhar. a morte. de seu erro caligráfico – sua punição.. agora ocorre com ele. Conforme se reduz e se comprime o espaço entre os dois – as salas e a sala final. o motivo do encontro entre Makar e o Ministro. em lugares que geograficamente marcam o centro e as periferias das cidades.. não poderia sobreviver a essa vergonha. Justamente o que ele condenou em Gogol. O cronotopo avizinha. de aparecer – há a suspensão do tempo real CORPOS . no encontro eu-outro. na arte e na vida: os pobres estão separados espacialmente dos ricos.. 132 O que é bastante e suficiente aqui é o fim de uma farsa. Makar mora em um cubículo de uma cozinha de uma casa de cômodos. Sim. homens de diferentes esferas sociais.] Só de pensá-lo sinto uma tal vergonha que até me parece que desfaleço. Interessante é pensar no cronotopo da repartição pública do ministério como lugar de reunião de homens de diferentes classes sociais e hierarquias.

alteridade Um botão. imagem de homem que Dostoiévski cria é dupla. esse se torna o protagonista maldito – o desertor – o único que se move. Dificilmente teremos uma imagem mais potente para dizer do homem diante do homem em sua encarnada diferença – essa mesma construída pelas separações das esferas da cultura e pela divisão social do trabalho. Como em tantas obras artisticamente fortes. os botões eram objeto de realce nos uniformes. A compressão do espaço no seu máximo – pela vergonha – que dobra sobre si mesmo o tempo saturado imobiliza tudo exceto o botão. que enquanto herói deserda o homem e tomba. é ideologema não sublimado. corpo. Aleksandr Verchínin nos mostra que. em alguns sobretudos e kaftans eram muitos e designavam. Era já signo quando narrado pela sua ausência – “não se pode passar sem eles e a casaca do meu uniforme não tem mais nem metade dos que tinha” – e. 133 no silêncio sepulcral: uma dupla imobilidade. É o próprio homem tornado um cronotopo no interior de outro cronotopo. Seria o complexo folclórico em sua força o lume da qualidade estética de um texto? 2. O botão. Morte. por outro. tomba. Por um lado há o homem interior exteriorizado na ação que narra. Em um artigo sobre a história dos uniformes militares russos. redenção. humanidade – nas suas palavras – revela-se concretamente pelo autor no cronotopo do botão. O CRONOTOPO DO BOTÃO: riso. O botão não cai. Parece que vemos em câmera lentíssima esse herói atravessando o tempo denso que lhe resiste. riso. amor. quando da escrita de Gente Pobre. como um objeto da cultura. Seu corpo alegoriza-se na metonímia do botão. o botão é o homem que tomba. em resposta de Dostoiévski a Gogol. A imagem de herói. suprema reverência final. vida. e tomba aos pés do ministro. encontra sua tumba no sepulcro da ausência de palavras na sala – o silêncio sepulcral. preenchendo em pontilhado temporal o espaço entre os dois homens – o pobre e o rico – em um movimento que vai de cima para baixo. em 1840. olhar. chão. É diante de Sua Excelência que a falta de dignidade. Como personagem. na sequência da narrativa. deixando apenas um fio solto no capote. Aos pés do outro. liga os dois homens em sua alteridade. em sua dor. Aqui. de quem buscava tornar-se inexistente. quando presente e desertor. é representante do mundo. ele mesmo vivo. como ejetado pela pressão extrema. não teria talvez hoje a força simbólica da época de Dostoiévski. por um lado. como deve ser a queda. o capote é o homem. por sua quantidade e CORPOS . Queda do que? Do humano em Diévuchkin. morte. Mais tarde. o complexo folclórico a que se referia Bakhtin está presente na cena. juntando ambos em um eu-outro. habilidade. um ideologema do funcionário pobre – tema muitas vezes tomado por Dostoiévski. mas sim um homem assim porque assim se torna diante do outro homem. na morte do homem do lado de cá. avizinhando os elementos e criando o efeito de suspensão da vida ordinária. Importante é que não é um homem em si.

valor esse que Dostoiévski ressalta. mas o espelho que contém o excedente claro para mim somente nesse instante.. ou que se vê na pupila do olho do outro e. estava mais morto do que vivo! CORPOS . Antecipo – e não há passagem do tempo. os meus pés é que me levavam porque eu. Já a mirada para o espelho portava esse olhar alterado: Em primeiro lugar porque sentia uma imensa vergonha. senão essa invisibilidade presumida? A humanidade é a vida.. desmorona o homem. O que Dostoiévski narra de fato é a cena de uma morte. Eram ainda objetos caros. madeira ou metal que possuíam valor especial. A cena toda é a tragédia da morte do homem diante do outro homem. seu valor. Quando diante do olhar de Sua Excelência o ministro. que posto a público. Duplo de mim no meu olhar invadido e alterado. vê-se como se fosse pela primeira vez: é outro-eu o meu próprio ver. O acabamento que Makar Diévuchkin sofre no encontro com o outro é a sua morte. botão sem fio. Makar desaba. “Com isto fica tudo dito. como morto. publicamente. A força artística do cronotopo complexo do botão é a tensão da contradição social imobilizada no encontro dos homens. as palavras da composição.. Destronamento do que se mantinha privado. Fiquei rígido. O que sustenta a humanidade de um homem pobre. eis a unidade temática da cena. e depois porque ao voltar casualmente a vista. Ao ser chamado pelo nome até a sala de Sua Excelência. no gabinete. Que espelho é esse? Não o espelho em que me vejo com meus olhos.. de seu ocultamento: sua revelação. “Eu pensei que estava a ver-me no espelho”. e projetada no movimento da queda do botão – reunião trágica do que se revela e se aniquila. propriamente. vê o que pensou e tentou ocultar insistentemente até então. a visibilidade. à direita. trazendo o botão de Diévuchkin como cronotopo – o tempo da miséria condensado no objeto que não se sustenta diante da revelação no espaço público. e o é de fato: a primeira vez que vejo com esse olhar alterado pela presença do valor do olhar do outro. É o destronamento do humano em um homem. até o encontro dos corpos no aperto de mãos. Vejamos pelos seus elementos materiais. feitos de osso. na distância do olhar. ele morre pela primeira vez. ainda que permaneçamos respirando. o que vê a si no outro que vê. No mundo cronotopicamente comprimido por Dostoiévski na repartição. e cai. nas salas. a miséria do homem é revelada no meio da sala. A pobreza não é da ordem da vida privada. Makar Diévuchkin se vê. 134 distribuição. é um antecipar no momento do encontro – sua crítica. O que há nesse olhar do outro sobre si que vê o que antes estava aqui e eu não via? Assim é perceber-se mal vestido diante do outro: ver-se com o excedente do olhar do outro em mim.. seu fim é a morte. Quero dizer. na praça pública que é criada artisticamente na narração literária. vejo e é trágico o que vejo. Nessa tensão emerge o olho do outro. tive motivo mais do que suficiente para me deixar cair no chão. Antecipando – no momento – o que vê o outro.”. o fim de sua farsa. e ao ver-me num espelho. cai no chão. a hierarquia dos seus portadores. na reunião pelo movimento do botão.. e vejo o que sempre esteve ali como se fosse a primeira vez. já não sentia e fui até ao gabinete do ministro.

ele revela seu projeto de estar morto em vida. foi tombar sobre o chão e. não é mais possível estar vivo daquele modo surrado e miserável. pelo que nem de longe poderia supor que Sua Excelência tivesse qualquer notícia acerca da minha pessoa.. [. humanizando-a em um nível insuperável. É Makar quem se desprende de seu fato. Ao ver-se no espelho na presença dos homens no gabinete. Toda a dignidade desaparecera: a minha parte humana estava absolutamente aniquilada. desabado de sua existência pobre revelada – com todas as suas forças para prender-se humano cortadas de repente na revelação. tive motivo mais do que suficiente para me deixar cair no chão. Acrescente-se a tudo isto que eu sempre tenho procurado conduzir-me de maneira como se não existisse. gesto fatídico. a morte advém do fato de ser visto dessa forma pelo outro. acabou por ir cair mesmo aos pés de Sua Excelência. Mas no encontro condensado do cronotopo que fica cada vez mais apertado. de seu capote indigno e cai. já que se revela vivo na relação que trai seu projeto de como se não existisse para aquele outro. Estava completamente atordoado! Agachei-me e estendi a mão para apanhar o botão. De maneira que estava assim a dar grandes provas da minha habilidade! Makar volta a si e vai buscar-se no chão. minha filha! Em primeiro lugar porque sentia uma imensa vergonha. mas este continuou a rolar como um pião e por mais esforços que eu fizesse não conseguia alcança-lo.... o meu botão. tombado. com seus olhos.. é por sua própria vontade: “me deixar cair no chão” é ato voluntário. é grotesca. para eles: E não me faltava razão para isso. ainda que ele a desejasse. Os elementos materiais da composição da narrativa da queda do botão são tomados de imagens relacionadas à morte – o diabo o leve – foi tombar – silêncio sepulcral. e depois porque ao voltar casualmente a vista. mas ela ainda continuará.. e ao ver-me num espelho.. a rolar. mas esse rodopia e traz o patético para a cena. humano na morte. à direita.] [grifos meus] A primeira vez que Makar tomba. O homem está já todo do lado de fora. caiu de repente (talvez eu lhe tivesse mexido sem dar por isso). A imagem de Makar rindo-se. no final do drama. que estava apenas preso por um fio.. não há como voltar o tempo. o meu botão. Senti que me fugiam as últimas forças e que tudo estava perdido. E ele ri: a vizinhança da morte e o riso trazem o complexo folclórico para a textura da cena. o diabo o leve. no meio do silêncio sepulcral que ali reinava. aflitos para que ela termine. tarefa impossível: após morrer. Então curvei-me para apanhar o botão e colocar outra vez no seu lugar aquele desertor inoportuno. 135 Mas essa sensação de torpor ainda não é a morte. A imagem é lenta porque o tempo é tão condensado que vemos cada passagem desse tombo. Ele tenta colar novamente o botão ao capote. CORPOS .

Várienhka. Como Bakhtin realizou nas nove partes de seu texto Formas do Tempo e Cronotopo no Romance. Então senti um estremecimento em todo o meu ser e não tenho palavras para descrever a comoção que me tomou. exatamente o contrário de seu projeto de tornar-se não existente para esse outro. senão em sua compaixão. e nesse momento único. amorosamente eu- outro. (p. e.. na complexidade do cronotopo criado por Dostoiévski. O ministro não se move. Igualado não na diferença social.. imediatamente Sua Excelência. mas o desejo de ser igual na pessoa altamente colocada. mas elevado.. A força desse enunciado é por podermos escutar tudo isso “de dentro” da autoconsciência de Makar Diévuchkin.. como ele. humanas.. Desde a nossa leitura do texto Formas do Tempo e Cronotopo no Romance vimos percebendo que o homem/herói é CORPOS . parece que é uma imagem do humano enquanto centro de valor único que emerge. Makar ao contrário morre – enquanto pobre – e renasce reconhecido como humano. . Tentei pegar-lhe na mão para beijá-la mas ele ruborizou-se. sim. Logo que o último tinha acabado de sair. desde São Petersburgo e suas separações. O outro lhe estende a mão e o firma. 253) Makar vive essa resposta do ministro como o sinal da restituição de sua vida em outras bases. E. ele pegou na minha mão indigna e apertou-a. pois equipotente. pela leitura das formas que tomam o tempo e o espaço valorados nas diferentes obras artísticas. como a um igual. ao dizer isto.Olhe.. CONSIDERAÇÕES FINAIS E POSSÍVEIS ANÁLISES ULTERIORES Na narrativa literária lida cronotopicamente. ao dizer isto não me afasto nem um milímetro da verdade. meteu-me a nota na mão. reunindo toda a contraditória e esmagadora condição social da pobreza. A densidade da relação social da cena encontra aqui nesse desfecho a miséria humana em sua verdade mais crua. pegou nela simplesmente e apertou-ma tal qual como se fosse a mão dum seu igual. pode-se compreender a imagem de homem criada pelo autor na personagem. tirou uma nota de cem rublos. puxando da carteira. aceite. um seu igual. isto é tudo o que posso. No estender e encontrar das mãos o Dostoiévski alcança a maior compressão cronotópica: aqui Makar eleva-se na existência igual ao ministro. que nos ensina que a autoconsciência está toda do lado de fora: é diante do outro. Não há superação das relações de classe. Em tantas outras leituras que temos tido contato. minha filha. como ele. percebemos o adensamento gradativo do tempo pela compressão do espaço. Makar existe enquanto ser amorosamente afirmado. Aqui nessa leitura chegamos à imagem de homem que Makar Dievúchkin afigura. onde o cronotopo artístico vem sendo compreendido como descrição possível do ato responsável. que se pode ver a si com o excedente do olhar do outro em si. de alguma pessoa altamente colocada. um momento onde toda a humanidade torna-se uma.. alteritariamente. 136 Mas o que resulta a seguir é o inesperado – para Makar em sua morte. até o botão que une os dois homens concretamente.. Reconhecido como existente. na equipotência das mãos que se encontram “como se fossem iguais”.

O Cronotopo da Humanicidade: Bakhtin e Dostoiévski. São Paulo. Bari. Ed. O Cronótopo na Obra de Bakhtin. PONZIO. o que se buscou foi encontrar a imagem de homem/imagem do herói em suas possibilidades estéticas de ser. Visioni del testo. São Paulo. Trad. Nele. Valentin. Hucitec. In: Palavras e Contrapalavras: circulando pensares do Círculo de Bakhtin. Trad. et al. e outras formas de arte. In: Bemong. No cronotopo artístico. Será o cronotopo a chave para a descrição do ato responsável. Forense Universitária. poesia. São Paulo. CORPOS . 2011. Augusto. Talvez por isso essas imagens artísticas possuem mais força quanto mais avizinham esferas da cultura que foram separadas. essa imagem de homem cria um tipo de humanidade que está presente na vida. 2016. Corposcritto. Questões de Literatura e de Estética: a teoria do romance . Brasil. REFERÊNCIAS BAKHTIN. 5. Contexto. 2013. Brasil. de Fátima Bianchi. 2017. bem como no ensaio de Bakhtin Formas do Tempo e Cronotopo do Romance. VOLÓCHINOV. BAKHTIN. aplicações. Nicolai O Capote. tempo e valor. devo colocar em ação na vida (Bakhtin): formas de compreender e reinventar o humano na arte e na vida. Brasil. PONZIO. do homem em ato. Edizioni dal Sud. como morte-vida-riso e outras séries do complexo folclórico. Parábola Editorial. Brasil. 2013. GOGOL. Luciano. 137 possível de ser revelado no projeto de dizer do autor pelos elementos do cronotopo: espaço.34. na arte. a partir da entrada do cronotopo não terá o sentido da compreensão da imagem de homem que o autor constrói. São Paulo. 2004. de Roberto Gomes. Trad. 2009. do russo de Paulo Bezerra. Trad. Bakhtin e o Cronotopo: reflexões. na arte e na vida? Ler o humano na obra de arte. o humano enquanto valor parece ser acessado pela leitura do tempo e espaço do herói.34. mais do que entender o espaço e o tempo da imagem literária? Aqui nesse texto. Problemas da Poética de Dostoiévski. São Carlos. do russo de Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. Gente Pobre. Rio de Janeiro. Lecce. criados pelo autor. do russo de Augusto Ponzio. Ed. Mikhail. São Paulo. Mikhail. Pedro & João Editores. n. BAKHTIN. Trad. L&PM. Brasil. Na literatura. 2015. Fiódor. 2002. mas que muitas vezes não é possível ver. DOSTOIÉVSKI. Brasil. Dagli appunti degli anni Quaranta. Pensa MultiMedia Editore. perspectivas. Brasil. Bakhtin parece estar nos dizendo que o ato humano é possível de ser apreendido enquanto espaço e tempo valorado. Mikhail. pelas separações sociais das esferas da cultura. Assim como na leitura do poema de Puskhin ao fim de Para uma Filosofia do Ato Responsável. MORSON. Brasil. Porto Alegre. Aquilo que aprendi na arte. A Revolução Bakhtiniana: o pensamento de Bakhtin e a ideologia contemporânea. PONZIO. Gary Saul. Marxismo e Filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Augusto. 2008.

E-mail: luciana- lmota@hotmail. este artigo tem o objetivo de abordar a relação entre a obra que torna-se tatuagem em meu corpo. futuro. Luciana Lima da56 INTRODUÇÃO P restes a colar grau no curso de Pedagogia na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro – UNIRIO. Resistência. Portanto. procurava resgatar memórias que me faziam revisitar um local aproximado aos quais meus futuros alunos se encontrariam. busquei retornar aos momentos de minha infância. Com uma proposta de emprego para assumir uma turma de Pré-Escola I em uma escola da zona sul na cidade do Rio de Janeiro – com crianças de aproximadamente quatro/cinco anos – as indagações sobre a docência surgiam à medida que o caminho se desdobrava diante de meus pés. MOTA. 138 RESUMO TATUAGEM COMO O presente texto intenciona relacionar os RESISTÊNCIA NAS atravessamentos acerca da docência. membro do Grupo de Pesquisas Culturas e Identidades no Cotidiano. angústias e demais sensações sobre a época na qual o letramento. as reflexões sobre práticas docentes efervesciam na mente.com CORPOS . indagações sobre o tornar-se docente. e rememorar as expectativas. e a tatuagem como marco de resistência PRÁTICAS DOCENTES e força no comprometimento consigo e com o outro no cotidiano. presente numa apostila de artes enquanto cursava a 5ª série. “pouco a pouco”. principalmente na relação do processo de letramento precoce na educação infantil – que ocorre na maioria das instituições.professora de educação infantil contratada do Colégio Pedro II. Foi quando me deparei com a memória da obra de René Magritte. Palavras-Chave: Tatuagem. carregada de sentidos diversos. Logo. Ao mesmo tempo. aterrissava em minha rotina. e meu presente como professora. 56 Mestranda em educação no Programa de Pós-Graduação em Educação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. ao me ver professora. e a proposta de um diálogo inicial com o ato responsivo de Bakhtin. mesclados entre passado. reflexões sobre as práticas vividas como discente. Perante aos desafios. bolsista CNPq. como aluna. do corpo e da relação com o outro. me encontrava em diversos questionamentos pertinentes à docência. Ato Responsivo. e sua profunda relação com meu passado como aluna. “Espelho Falso”.

porém ao vê-lo. 5ª SÉRIE. Magritte. até poder estrear finalmente os grandes momentos de escrita com caneta esferográfica azul. dá a ideia de nos permite ver o que há dentro de si. Enquanto os rascunhos destinados às últimas folhas dos cadernos eram preenchidos por tentativas de desenhos de olhos. E A APOSTILA DE ARTES. cujo seu conteúdo trazia abordagens iniciais de diferentes artistas. Matisse. “Espelho Falso”. Ao recebermos. desde corrigir os ímpetos de chamar as professoras de “tia”. grandes expectativas. continuava presente em minha vida. o céu azul que rememora o carinho por dias de praia ensolarados e a sensação de bem-estar. um olho que olha fixamente. a imagem cobria quase a metade da folha em formato A3. mas sim. soava como um diálogo justo para minha perspectiva de dez/onze anos de idade. eu seguia indagando o motivo pelo CORPOS . As nuvens por detrás dos olhos. que ainda assim.com A meu ver. Figura 1. LUCIANA. nas folhas de fichário recém-adquiridas para o novo ciclo. a obra trazia uma sensação de deslocamento e ao mesmo tempo. não era um formato de livro. Grande. 139 1. traziam sorrisos aos lábios. de capa vermelha. de conforto. a obra de Magritte intitulada “Espelho Falso” ganha minha atenção. lembro-me de perceber algo diferente. Passaram-se tempos desde que havia visto pela primeira vez a obra de Magritte. Folheando as páginas da apostila. Picasso. o material didático da disciplina de artes. Salvador Dalí. se bem me recordo. uma apostila. no início do ano. Aleijadinho. Tarsila do Amaral. e por aí em diante. de René Magritte. Primeiro ano do segundo segmento do ensino fundamental.wahooart. Fonte: pt. mas não foi seu tamanho que causou impacto.

seguiam. Por não querer que meus alunos deixassem de desenhar para começar a escrever. a educação infantil. social e ecológico. fiz minha decisão: dois dias antes de colar grau. conversasse em alto e bom tom com a Luciana da atualidade. por lei. do esporte e do lazer. muito se discute acerca do processo de letramento da criança. os questionamentos sobre que tipo de professora eu me tornaria seguiam. e só percebi isso na 5ª série. iguais (ou não) aos que a apostila de artes havia me mostrado sobre Magritte. deslocador. Em meio à tudo isso. alguns costumes se mantinham. onze anos. Dentre indagações como “não seria a escrita uma forma de desenho?”. prestes a colar grau no curso de Pedagogia. bem como as tentativas de desenho de olhos. Sendo professora de uma turma de quatro/cinco anos em uma escola particular na zona sul do Rio de Janeiro. algumas contextualizações precisam ser feitas. de forma atemporal. tatuei a obra de Magritte na face interna de meu braço esquerdo – e as promessas sobre ser uma professora na qual eu acreditava. Dentro do âmbito da educação infantil. das letras. me peguei revisitando alguns momentos marcantes como discente. uma constatação alcançou as reflexões atravessadoras. a fim de refletir sobre a prática docente e que tipo de professora eu poderia me tornar. não considero um acaso perceber que. espaços e sentidos. 140 qual aquilo me atravessava tão brutalmente. a compreensão do significado das ciências. 2. OLHARES Antes de debruçar-me em sentidos subjetivos sobre o caso.”. 2013. é defendida como vasto campo de possibilidades para vivenciar as diferentes perspectivas e potências a partir das e com as crianças. ao longo da Educação Básica. p. Neste dado momento de minha vida. revoltante. Não tardei a entrar na faculdade depois que me formei na educação básica. como nos era pontuado na época da alfabetização. a fim de que não parecessem verdadeiros “garranchos”. A primeira dizia: “Deixei de desenhar para aprender a escrever. (BRASIL. mas como grande investimento na leitura de mundo que a criança vive diariamente – como consta nas Diretrizes Curriculares Nacionais: adotar estratégias para que seja possível. e este assunto torna-se um debate constante quando instituições (como a escola na qual viria a atuar) assumem a potencialidade do letramento não como mera decodificação de símbolos e códigos. 33) Além deste processo ser compreendido. nos anos iniciais do ensino fundamental. aquilo soava ultrajante. desenvolver o letramento emocional. CORPOS . alguns impasses surgem conforme as reflexões acontecem. como primeira fase da Educação Básica. e ainda assim. era como se a Luciana de dez. retorno à uma infância que deixou de explorar o prazer das brincadeiras com aquarela para melhorar a curvatura de letras. das artes. Ao aprofundar os estudos sobre educação na época de graduação. Para a Luciana de 24 anos. o conhecimento científico pertinente aos diferentes tempos.

Uma vez ouvi de uma colega do grupo de pesquisa: “Consciência é um caminho sem volta”. (BAKHTIN. seja na categoria do outro-para-mim. participado. no chão. estranhar-se a fim de revisitar a si e o outro. 2014. outros rostos ainda perplexos. e sua parte interna ainda não era facilmente vista. não naquilo que ele carrega de repetição e reprodução. 44) A relação do eu-pra-mim abria-se à medida em que pensava sobre a relação do outro-pra- mim e vice-versa. seja como vivência desse outro único e determinado.” Muitos estranhamentos estavam estampados nas carinhas da turma. vivenciado. (PASSOS. 228) Quantos momentos fora da repetição me acompanharam desde a quinta série (ou antes) até aqui. curiosas sobre a novidade da novidade. presente e futuro. próprio. como invenção. testas franzidas e onomatopeias habitavam a sala. p. 141 Refletir sobre essas práticas – as vivenciadas como aluna e as que estava prestes a assumir como professora – realocam os pensamentos sobre o que Bakhtin (2011) na passagem abaixo: Da mesma forma. Buscando imaginar o que as crianças da futura turma reservariam de indagações e percepções acerca de minha prática. Muitas perguntaram o motivo pelo qual fiz isso. Alguns sorrisos. pensava sobre as práticas que gostaria de ter visto. Meu braço estava enfaixado por plástico filme. Vinte e duas crianças sentavam-se ao redor. A pesquisa em educação realizava esse deslocamento em mim. entre professora e auxiliar de turma. Olhos tão surpresos quanto os de Magritte me encaravam de volta. tornava-se algo assinado. em outras palavras. assim como anuncia Certeau (1994). mas principalmente naquilo que está presente como criação anônima do “homemcomum”. uma emoção interior e o todo da vida interior podem ser vivenciados concretamente — percebidos internamente — seja na categoria do eu-para-mim. Eu também me estranhava. para que eu decidisse trazer. O momento da roda como parte inicial de nossa rotina aos poucos agregava-se como uma oportunidade de compartilhamento das novidades. 2011. pensava em constante diálogo sobre o que eu. enquanto criança. As crianças logo se aproximaram. Dentre brincadeiras de respiração e corpo. uma história que correlaciona passado. A RESISTÊNCIA NA TATUAGEM E SENTIDOS ALÉM: corpo como promessa Era uma tarde ensolarada. lhes dizia “Fiz isso por mim quando tinha a idade de vocês. em relação à docência? Os encontros do cotidiano alargam CORPOS . 3. como pontua Passos (2014) no trecho abaixo: Trata-se de uma perspectiva dialógica que contribui para a compreensão do cotidiano. Mas cada vez mais. p. ergui o braço e apontei para a novidade. seja como vivência própria. Ingênua ou não. a nova tatuagem da nova professora. mas acredito ser imprescindível a reflexão sobre tais possibilidades a fim de buscas aproximadas sobre práticas dialógicas. É claro que tais estratégias não possuem soluções especiais para uma prática que contemple à todos. em uma releitura da obra de Magritte. quase sempre.

mas encontro. as interações e possibilidades de interlocução são diversas. encontra-se a delicadeza dos detalhes. conforme ocorrem as vivências. o olho que vê os olhos da criança. Que na medida do possível. que ressignificam a todo momento os sentidos que dialogam com a tatuagem. mas a responsabilidade da mensagem inicial que me fez agir. daquilo que não é mero acaso. a fim de descobrirem diferentes possibilidades de expressão e o habitar na contemporaneidade: CORPOS . Na consciência já abrangida. A tatuagem Fonte: Instagram. O encontro (Passos. 142 horizontes. que enxerga de volta dentre as nuvens e céu azul da imagem – aquilo lhes diz algo aproximado ou diferenciado do que Magritte me dizia. quando cursava a quinta série? Não trago respostas. é o que dá fluxo ao movimento – das práticas. por meio da citação abaixo. meus colegas de trabalho. me encaminhando para a resistência da tatuagem. Figura 2. Busco. da vida. 2014) do ato responsivo ao olhar no espelho. Resisto ao não desejar que os momentos livres das crianças se resumam a estratégias de letramento. nem palavras que encerram essas possibilidades. sigam vinculando arte e vida. CONSIDERAÇÕES FINAIS A ideia inicial de trabalhar o ato responsivo a partir da perspectiva bakhtiniana ainda é uma proposta na qual aos poucos me debruço. as pessoas que cruzo na rua? A gama de respostas é infinita. das coisas belas.com O que diz minha tatuagem quando sua imagem precede meus intentos? O que vêem as crianças. demonstrar de certa maneira como penso a relação da tatuagem com a resistência.

São Paulo: Martins Fontes. Curitiba. Educar em Revista. (BAKHTIN. BRASIL. São Carlos: Pedro & João Editores. em seu curso. Nem os sentidos do passado. CORPOS . p. Para uma Filosofia do Ato Responsável. Mailsa Carla Pinto. 2011. e não há limites para o contexto dialógico (este se estende ao passado sem limites e ao futuro sem limites). acabados de uma vez por todas): eles sempre irão mudar (renovando-se) no processo de desenvolvimento subsequente. tais sentidos serão relembrados e reviverão em forma renovada (em novo contexto). DICEI. experiência dialógica e processos de identificação.410) REFERÊNCIAS BAKHTIN. nascidos no diálogo dos séculos passados. PASSOS. Encontros cotidianos e a pesquisa em Educação: relações raciais. podem jamais ser estáveis (concluídos. Não existe nada absolutamente morto: cada sentido terá sua festa de renovação. Estética da Criação Verbal. 51. p.562p. Questão do grande tempo. Mikhail. 2013. Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica / Ministério da Educação. _________./mar. Em qualquer momento do desenvolvimento do diálogo existem massas imensas e ilimitadas de sentidos esquecidos. 2011. n. 227- 242. 2010. Brasília: MEC. Brasil. isto é. jan. 143 Não existe a primeira nem a última palavra. futuro do diálogo. mas em determinados momentos do sucessivo desenvolvimento do diálogo. SEB. 2014.

Em sua manifestação carnavalesca. Ato Responsivo. Resistência. como explica Bakhtin. social e política – espécie de continuação da atitude decadentista de “épaterlebourgeois” – tornando-se estilo frequente nas vanguardas do início do século XX e também na arte contemporânea. p. que também denomina arabesco. na gravura “O sono da razão produz monstros” (GOYA. mas. p. No entanto. presente no sublime e no trágico. em culturas não ocidentais. também pode ser interpretado como provocação gratuita ou manifestação de puro mau gosto. o demoníaco. também representa divindades benévolas. 57 Professor Adjunto de Teoria da Literatura da Universidade de Brasília (UnB). João Vianney Cavalcanti57 D iversos são os sentidos do estilo grotesco. como explica Kayser (2003).conforme o termo freudiano Unheimlich (FREUD. o grotesco. F. o grotesco. por um lado envolve crítica. entre outras gravuras de sua série Caprichos. 1996). 2010). se. 9). No contexto de um romantismo gótico. e da “harmonia possuída”. 280). pois essa função do grotesco é próxima ou coincide com a ironia. o grotesco perturba. Seja como for. que demanda uma capacidade interpretativa mais sofisticada do receptor. É com esse sentido perturbador que o grotesco também tem sido utilizado como meio contundente de crítica estética. choca. envolve “a destruição da ordem habitual do mundo na livre excentricidade das imagens” (SCHLEGEL. exprime a “harmonia perdida e malograda” (ECO. 144 RESUMO CORPO GROTESCO. inquietante. ainda que seu efeito possa variar do horror ao riso. denunciando alegoricamente defeitos morais. p. Para Umberto Eco. o grotesco exprime o horror. Pode ser instrumento de sátira. que induz à serenidade. distinguindo-se da “harmonia perdida”. associado ao cômico. atuando por contraste (HUGO. p. Já no final do século XVIII. 2014. abrangendo não somente os aspectos negativos da sátira. 135). o grotesco. CORPO POLÍTICO Palavras-Chave: Tatuagem. NUTO. uma das manifestações do feio. própria do belo e do gracioso. como também o sentido positivo de fecundidade e renovação. contribuindo para um tipo de atmosfera psicológica em que o familiar torna-se estranho. 33). Para Victor Hugo o grotesco realça o sublime. 2012. 2014. Para Schlegel. é o efeito perturbador do grotesco. líder do Grupo de Pesquisa Literatura e Cultura da UnB. em sua análise de obra de Rabelais (BAKHTIN. CORPOS . tem sentindo ambivalente. Pode representar o mal. apud ECO. 1997. Francisco de Goya constrói plasticamente a relação entre o grotesco e o que Freud denominaria inconsciente.

um papel dominante em boa parte da literatura do século XIX e nas vanguardas do século XX. para designar toda uma série de estudos relacionados com homossexualidade. portanto. Todas essas considerações vêm a propósito da polêmica sobre a exposição “ Queer Museu”. Neste caso. ou melhor. por meio do próprio significante. p. A respeito disto. cujo caráter performativo foi apontado e analisado por Judith Butler (2002). Observa Bakhtin (1996) que. 150). o grotesco. no baixo calão da língua inglesa. Trata-se de uma exposição de manifestações artísticas relacionadas com o conceito de queer. 131). ainda que o corpo grotesco. enfim. associado a certos exageros. que CORPOS . sexualidades marginais. como o próprio título da exposição indica –. que é a obscenidade” (ECO. muitas delas com exploração de traços grotescos e representações do baixo material e corporal. é nítida a distinção entre a representação das imagens santas – todas baseadas na representação corporal completamente antigrotesca. como sinônimo de homossexual. no sentido de não assimilação ao padrão oficial bem comportado. nos Estados Unidos. era também vinculado ao sagrado. passou a ser utilizado a partir dos anos 80. especialmente em suas manifestações cristãs. em geral. ECO. Trata-se. 2014. Na religião cristã. 2002. em nome da fé cristã. Somente com o desenvolvimento das sociedades de classe é que o grotesco cômico foi sendo afastado das cerimônias oficiais e relegado para a cultura não oficial. como a estética dragqueen (SONTAG. justamente para destruir os tabus bem-pensantes e. Não faltou quem. ou seja. p. os prazeres e os efeitos fisiológicos (BAKHTIN. 2004). Reação mais escrachada à norma é o estilo camp. no Brasil. Por causa das imagens associadas à sexualidade – inevitável. em suas manifestações primordiais. e também pelo fato de não ter qualquer restrição ao ingresso de menores de idade. A utilização de um termo de baixo calão para designar determinado campo de estudos por si só é uma provocação. p. acusações de pornografia não são incomuns. cabe uma breve relação entre grotesco e sagrado na cultura ocidental. o gosto por sua violação manifesta-se através do oposto do pudor. em Porto Alegra. Como observa Umberto Eco. se regozijasse com a interdição de um tipo da “arte satânica”.1987. de “esquisito”. como é o caso. A exposição “Queer Museu” foi encerrada abruptamente por causa da oposição violenta de grupos conservadores. Afirma Umberto Eco que o obsceno “vai adquirir. quando – com o sem o espírito carnavalesco analisado por Bakhtin – envolve a representação do que o pensador russo denomina “baixo material e corporal”. 2002) e Guacira Lopes Louro (LOURO. de Denilson Lopes (LOPES. aceitar todos os aspectos da corporalidade” (ECO. de que é exemplo o culto a Dioniso. com ênfase proposital no caricatural. ao mesmo tempo. oponha-se aos padrões de beleza sensual da maioria dos filmes pornográficos (os “corpos de modelo”). influenciando diversos estudiosos. O termo. a mostra foi acusada de fazer apologia à zoofilia e à pedofilia. LOPES. a partes e funções do corpo relacionado com as necessidades. 2014. 145 O grotesco torna-se ainda mais perturbador. de uma estratégia simbólica que. “nas culturas em que existe um forte senso de pudor. em comparação com outras culturas. Originalmente um insulto. que tem o sentido original. já indicia uma crítica ao comportamento repressor da “heteronormatividade homofóbica”. é também utilizado. 2014). associado ao carnavalesco. popular. 323-383). “estranho”. e cultura.

dos diabos e de Satã. pois já não é inocentemente feio como se constumava pintá-lo”. foi ganhando traços grotescos. quifrisaitlacinquantaine. de Goethe (apud ECO. na formação do discurso psiquiátrico moderno. no teatro e nas manifestações carnavalescas da Idade Média (BAKHTIN. do inimigo. Como afirma Umberto Eco. Aspecto semelhante. como observa Umberto Eco. mas a camisa. 1998). (DOSTOIEVSKI. o Diabo tem uma aparência pequeno-burguesa. p. Já a representação do Diabo. p. é comum deste a Antiguidade clássica. com um corte de mais ou menos dois anos antes e já totalmente fora da moda. evidentemente feito pelo melhor alfaiate. (ECO. tem o Diabo quando aparece a Ivã Karamavov. o mesmo não se pode dizer do outro. de idade avançada. o mesmo acontecendo com o macio chapéu de feltro que o visitante trazia e que estava totalmente fora da estação. bastante longo e ainda basto e no cavanhaque aparado.]: nem aterrorizante nem fascinante. 2008. nas representações dos muçulmanos e dos judeus. com um tom grisalho não muito pronunciado no cabelo escuro. As calças xadrez do visitante lhe caíam magnificamente. abrange o racismo “científico” como as descrições de etnias diversas do branco europeu por CesareLombroso (apud ECO. nunca as de Deus. fora do âmbito da religião. como dizem os franceses. Trata-se do indivíduo cujos traços físicos e psicológicos tornam-no passível de vir a praticar ações antissociais ou mesmo delituosas. Contudo. mas também eram claras demais e decerto muito justas. três tipos de anormal: o monstro. dos diversos pegados. define a figura do anormal. 182). como referência aos povos bárbaros. “no século XX. na cultura cristã. Para Foucault. p. segundo esta descrição do narrador. durante os séculos XVII e XVIII – período que denomina “Idade Clássica” – o discurso psiquiátrico. tudo era como usavam todos os gentlemen elegantes. também há representações do Diabo bem distintas do estilo grotesco. Grotescas são as representações dos pecadores. estava meio suja e o cachecol largo muito surrado. 146 Bakhtin denomina “clássica”. a gravata comprida em forma de cachecol. o CORPOS . ele agora é mais perigoso e preocupante. de Dostoievski: Era um senhor qualquer. A representação grotesca do Diabo infunde pavor no homem medieval. 1996). porém já gasto. Vestia um paletó marrom. com aspectos esportivos. de sorte que as pessoas bem-postas na sociedade não usavam semelhante vestuário fazia já dois anos. no romance Os Irmãos Karamázov. de Jesus e dos santos. No século XIX. da Virgem Maria. frequentemente com traços grotescos. baseada nas imagens do deus Pã e dos sátiros (LINK. A camisa. apresentando-se como uma pessoa comum (pelo menos em representações laicas). 822) Já no romance Dr. o Diabo assume o aspecto de um gentleman. após uma série de metamorfoses grotescas. ele se tornará absolutamente ‘laico’ [. infernal em sua mediocridade e em sua aparente mesquinhez pequeno-burguesa. 2014. No entanto. da imagem ainda clássica de Lúcifer no momento da queda à representação caprina. Fausto. ao contrário. 2014. caso se reparasse de mais perto. de Thomas Mann. p. O outro também pode ser aquele indivíduo classificado como anormal. acentuando- se. Foucault identifica. convocado em auxílio dos processos jurídicos. se o Diabo perdeu seus traços grotescos. Em suma. ou melhor dizendo. tinha boa aparência e minguados recursos nos bolsos. 2014.. 182). um tipo conhecido de gentleman russo. contraste que se percebe nitidamente nos nos quadros de Hieronimus Bosch. 197).. No Fausto. A representação negativa do outro. mas também provoca-lheriso. como já não se usam hoje em dia. sem qualquer preâmbulo grotesco.

da Idade Média ao século XVIII de que nos ocupamos. ou alguns dias. na monstruosidade. Portanto. inquietar o direito. algo que também abala a ordem natural. transgressão da lei como quadro: é disso de fato que se trata. Transgressão. cujo caráter transgressor Foucault enfatiza: O monstro. com toda certeza no do pensamento dos séculos XVII e XVIII – a monstruosidade. e os problemas religiosos e jurídicos relacionados com esse tipo de “monstruosidade”. mas não é uma monstruosidade. É no ponto de encontro. o direito canônico ou direito religioso. ou a inventar uma casuística. abalar. quando aparece. é um monstro. 83-84) Embora apresente exemplos do imaginário. o direito não consegue funcionar. No fundo. é um misto de formas: quem não tem braços nem pernas. é o misto de duas espécies: o porco com cabeça de carneiro é um monstro. O enfermo pode não ser conforme a natureza. Foucault também analisa casos reais. CORPOS . A enfermidade é. ou a se calar. Não é a infração jurídica da lei natural que basta para constituir – no caso do pensamento da Idade Média sem dúvida. É um misto de vida e morte: o feto que vem à luz com uma morfologia tal que não pode viver. transgressão do quadro. bem como o fato de levar o tabu ao espaço oficial do museu. mas é de certa forma previsto pelo direito. e a infração a essa lei superior instituída por Deus ou pelas sociedades. mas que apesar dos pesares consegue sobreviver alguns minutos. natural. Arrisco afirmar que. A demonização do outro explica a primeira motivação de grupos conservadores para a agressão e censura ao “Queer Museu”. a monstruosidade é essa irregularidade natural que. o direito é questionado. intensificando o tom patético dos protestos. Na urgência em denunciar e proibir a exposição. como uma cobra. ou a renunciar. que remonta à Antiguidade é formada por traços grotescos. o homem com pés de ave – monstros. é nesse ponto de encontro de duas infrações que vai se assinalar a diferença entre a enfermidade e a monstruosidade. transgressão das classificações. essa transgressão do limite natural. 147 indivíduo a ser corrigido e a criança masturbadora. é essencialmente o misto. Em caso de qualquer dúvida: o texto da mostra explica a associação da exposição com sexualidades marginalizadas. já bastante conhecida fora dos meios acadêmicos e da língua inglesa. Para que haja monstruosidade. A verdadeira inicial provém da própria palavra queer. de falto. o monstro é a casuística necessária que a desordem da natureza chama no direito. É o misto de dois sexos: quem é ao mesmo tempo homem e mulher é um monstro. É o misto de dois reinos. no ponto de atrito ente a infração à lei-quadro. p. Mas não acho que é só isso que constitui o monstro. religiosa ou divina. O direito é obrigado se interrogar sobre seus próprios fundamentos. A suposta apologia apedofilia e zoofilia. Enfim. No entanto. apontadaem certos quadros (sempre os mesmos exemplos. A figura do monstro. é um monstro. Em compensação. não me parece que essa suposta apologia seja a primeira motivação. em uma exposição bem ampla) é apontada como causa da revolta. as acusações apenas reforçaram uma hostilidade que já estava pronta. como irmãos siameses e hermafroditas. o reino animal e o reino humano: o homem com cabeça de boi. diante do clima extremamente conservador de certos setores da sociedade brasileira. ou em todo caso questione certa suspensão da lei. bastante acirrado em tempos recentes. Mas seria mesmo a causa inicial? As acusações apelam para a indignação dos cristãos e da “gente de bem”. essa transgressão da lei-quadro tem de ser tal que se refira a. ou sobre suas práticas. por conseguinte. (FOUCAULT. Só há monstruosidade onde a desordem da lei natural vem tocar. porque a enfermidade tem seu lugar no direito civil e no direito canônico. É a mistura de duas espécies. 2001. dos limites naturais. que a palavra e o conteúdo anunciado. seja civil. ou a apelar para outro sistema de referência. seja o direito civil. por si só criou uma hostilidade prévia.

que também está presente na vegetação (bonsai?) da parte inferior do quadro. para tornar mais clara a análise: Destoando do cânone religioso cristão. apresentando o traço grotesco da mistura de imagens do reino humano e vegetal. que reproduzo abaixo. A utilização do estilo grotesco como forma de crítica à sociedade contemporânea é bem nítida no quadro Cruzando Jesus com o Deus Shiva. 148 seus detratores não tiveram o cuidado de procurar enxergar a crítica e a denúncia que as próprias obras faziam. As próprias árvores são corpos compósitos. de Fernando Baril (1996). pois CORPOS . Baril agrega traços grotescos à imagem de Cristo: as mãos dos dois braços superiores de Cristo são ramificações que formam árvores.

mangueira. da Virgem Maria. o grupos conservadores não leram (mesmo porque. O tratamento da imagem é profano. sem ver nisso qualquer traço de ofensa. é preciso contemplar) a crítica mordaz à sociedade de consumo e a adaptação do sentimento religioso ao seu ethos. Uma das mãos segura um rato morto. os braços não fazem parte da figura de Cristo. mas por pés e (aparentemente) pênis. Os ícones. dialogando com a pop art de Andy Warhol. não tendo o pudor de ocultar seu interesse comercial ao exporem à venda os mais variados objetos “milagrosos” – capazes de melhorar ou mesmo salvar a vida do fiel –. que prometem prosperidade neste mundo e salvação no outro. ao mesmo tempo em que demonizam o outro (geralmente aquele que não se submete ao seu controle biopolítico ou que não se enquadram nos seus padrões). para ler. Mas. Esta associação complementa-se pela presença do rato vivo na mesa que sustem a imagem de Cristo. O grotesco da imagem acentua-se nos braços inferiores. o que nos lembra a imagem da deusa Kali. Essa sugestão é acentuada pelo aspecto meio mecânico desses braços. Os demais são ícones da sociedade industrial: luvas. ou mesmo a reprodução de imagens de Cristo. com suas igrejas-negócios. parte de uma garrafa plástica de coca-cola. como se fossem braços de bonecos. que essa mesma sociedade pretende esconder (pelo menos nos espaços privilegiados) e que. uma mistura de árvores. permanecem. mas um ícone da sociedade industrial contemporânea. 149 têm frutas diversas. uma imagem de Marilyn Monroe e uma lata contendo uma série de objetos. aos esgotos. entre outros. Outros ícones estão sobre a mesa: um computador. sabonetes de detergentes “ungidos”. É esse tipo de adaptação que preside as diversas teologias da prosperidade. sejam esses objetos supostas relíquias (como lascas da cruz de Cristo). Tão empenhados em denunciar a blasfêmia. ou objetos industriais. deus da sabedoria. incluindo qualquer estudo. o rato. mas são isentas de impostos. CORPOS . Embora não seja um produto industrializado como os outros. um corpo humano com cabeça de elefante). luvas de boxe. sendo. como seria qualquer tratamento que não envolvesse a pura adoração. velas (que podem ser associadas à religião. de maneira agressiva e sistemática. Em torno da imagem de Cristo crucificado. permitem a associação do que está exibido com aspectos do sistema que sustenta esse ethos. terminados não por mãos. identifica da natureza – em seu aspecto tanto destruidor como recriador – . no sentido de dessacralizador. ou de qualquer imagem sacra em camisetas ou objetos de souvenir (o kitsch religioso) que certos cristãos ostentam orgulhosamente. no quadro de Baril. somente o peixe é um símbolo cristão. como animal nocivo que prolifera nas grandes cidades. os quais não aparecem. estão quatorze braços. Os pés de Cristo estão calçados por tênis. mas também a qualquer tipo de esoterismo). no entanto. as quais associam a felicidade ao consumo. apenas flutuam em torno dela. Por exemplo: a hipocrisia dos pastores que ficam milionários por meio dos dízimos e outras receitas. E é ainda mais pelos objetos que esses braços usam ou seguram. esposa do Deus Shiva (mencionado no título do quadro). Desses objetos. pode ser associado à sujeira aos dejetos. portanto. A imagem cristã é associada à imagens do Hinduísmo. lidos também como símbolos. cachorro-quente. religião que nunca separou o sagrado do grotesco (vejam-se as conhecidas imagens de Ganesh. como vassouras. sugerindo um universo de valores estranhos à sacralidade da figura original.

F. Eliana Aguiar. Rio de Janeiro. V. História da feiura. p. FREUD. Rio de Janeiro: Aeroplano. V. 2012. Porto Alegre: L&PM. São Paulo: Companhia das Letras. G. L. A imagem que escolhi analisar não reflete predominantemente sobre o principal aspecto que preside a mostra: a sexualidade. BUTLER. muitas vezes sutis. Rio de Janeiro: Record. 2014. Criticamente subversiva. São Paulo: Perspectiva. J. FOUCAULT. irrupção da cultura não oficial – como demonstra Bakhtin (1996) em sua leitura de Rabelais – o efeito perturbador do grotesco opõe-se à serenidade do corpo gracioso. Os irmãos Karamázov. O inquietante. Da INTERNET COLLING. SONTAG. Yara Frateschi. São Paulo: Iluminuras. 1996. Célia Berrettini. In: JIMÉNEZ. S. por exemplo. M. de poder. Brasília: Edunb. São Paulo: Martins Fontes. ao atacarem. 2. M. In: Contra a interpretação. Belo Horizonte: Autêntica. 2008.ufba. GOYA. L. D. In: ______ . p. Guinsburg. Victor-Pierre Stirnimann. Conversa sobre a poesia e outros fragmentos.2017 CORPOS . Mais definições em trânsito. U. O homem que amava rapazes e outros ensaios. SCHLEGEL. Tr. Tr. 1998. ironia. O corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e teoria queer. J. Gravuras de Goya. 1994. No entanto. Eduardo Brandão. Paulo Bezerra. Paulo César de Sousa. Notas sobre o Camp. 2010. Sexualidades transgressoras: una antología de estudos queer. Sua desarmonia provocante desvela as relações. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. O Diabo: a máscara sem rosto.pdf . São Paulo: Hucitec. HUGO. Tr. 2004. REFERÊNCIAS BAKHTIN. W. ações educativas que envolvam o que denominam “ideologia de gênero”. M. Acesso em 26. Eliana Aguiar. Disponível em: http://www. Tr. São Paulo: Companhia das Letras. Tr.cult. R.br/maisdefinicoes/TEORIAQUEER. Tr. Seja como meio de satirização. LOPES. ECO. explora o aspecto político do corpo grotesco. O grotesco: configuração na pintura e na literatura. DOSTOIÉVSKI. Do grotesco e do sublime. LINK. crítica. 150 buscando influenciar também nas ações do governo. 2002. 2012. de. KAYSER. Barcelona: Icária Editorial. Brasília: Secretaria de Cultura do Distrito Federal/Telebrasília. Tr.09. F. LOURO. S. F. Tr. 2003.Além do princípio do prazer. 2001. 1987. 329-376. São Paulo: Perspectiva. L. São Paulo: Editora 34. Os anormais. M. Tr.

informar. Essas comédias fizeram um grande sucesso frente ao público brasileiro. nossa pesquisa ancora-se.com 59 Aqueles filmes cujas cenas apresentam a nudez – geralmente da mulher – e o ato sexual. Gilvando Alves de 58 Super fêmea (1973). o cartaz cinematográfico foi uma peça primordial para divulgação e propaganda dos filmes. Foi. INTRODUÇÃO Metodologicamente. por meio da linguagem verbo-visual. 2010a. A REPRESENTAÇÃO DO que foram rotuladas de pornochanchadas. mas sempre foram CORPO NA ridicularizadas pela crítica que as julgava como cinema mal realizado. o objetivo deste é analisar. 2010c) sobre linguagem. RESUMO 151 No Brasil. Para a análise desse corpus. pela liberação sexual e pela repressão política desencadeada pelos militares na década anterior. No escuro das salas de cinema. houve uma explosão de filmes bem mais atrevidos e Pornochanchada. de Anibal Massaini Neto. No cinema produzido nessa época. Se. presumidos e o contexto sócio-histórico constantemente. Nessa época. as relações dialógicas que se os anos 1970. enunciação. com análise dialógica de cartazes seus títulos provocavam.O cartaz cinematográfico consolidou-se então como peça primordial para divulgação e propaganda dos filmes. podia se ouvir. marcadamente. a representação do corpo em dois cartazes de filmes desse período: A OLIVEIRA. os leitores ditadura. juntamente. situamos a pesquisa na vertente qualitativa de base sócio-histórica. nessa década. em 58 Doutor em Linguística Aplicada pela UFRN. por outro. sugerido.e Os garotos virgens de Ipanema (1973). encoberto. nessa conjuntura. Professor do ensino básico do Instituto Federal do Rio Grande do Norte. É um gênero de comunicação de massa que – utilizando-se geralmente de uma linguagem verbo-visual – pode ser utilizado com intenções prioritárias diversas: promover a divulgação de produtos e de espetáculos de entretenimento. os seus cartazes foram. por um lado. que o cinema brasileiro começou a produzir filmes em escala industrial (produção em série) adentrando. na produção de cinema soft core59para as massas. Palavras-Chave: Cinema. CORPOS . não apenas a sensação de que se estava vendendo um cinematográficos produto de qualidade indiscutível como também o desejo de frequentar as salas de cinemas. as películas foram consideradas inferiores. muitas vezes. ensinar.E-mail: gilvandoalves@hotmail. nas concepções de Bakhtin (2006. Assim. principalmente. no público leitor. nos anos de 1970. visto que possuíam uma linguagem visual esteticamente bem elaborada e. tanto na materialidade linguística N quanto na imagética. observamos. Por meio das duas análises de enunciados concretos. no Brasil. Cartaz cinematográgico. principalmente. os gemidos não vinham apenas dos porões da estabelecem entre os enunciados. superiores aos seus filmes. 2010b. dialogismo. pela PORNOCHANCHADA: uma crítica especializada. os gemidos dos amantes advindos das telas. Professor Adjunto da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. A partir daí.de Oswaldo de Oliveira. tornou-se comum. considerados. Suas diversas réplicas podem ser afixadas em diferentes suportes: muros da cidade ou murais. fomentado pelas leis de incentivo do governo militar. orientar. Dialogismo. foram rotulados de soft core. implícito. extravagantes fomentados. houve uma efervescência na produção cinematográfica e. foram realizadas comédias eróticas. dizer que o cinema nacional só tinha “mulher pelada e sacanagem”. definitivamente.

Neste artigo. e o segundo. supostamente. em parte.). quando eram representados. Além disso. muitas vezes. na pornochanchada. cuidadosamente desenhadas ou estrategicamente fotografadas. sob a forma de cartazes. considerados. mais do que os filmes. 152 uma vitrina. a sensação de que se estava vendendo um produto de qualidade indiscutível e. o estilo dos dois era bastante diferenciado. masculina passou a ser penetrada por uma profusão de mulheres belas. selecionamos dois cartazes: o primeiro. e o segundo. Os garotos virgens de Ipanema (1973). faz-se necessário CORPOS . Assim. consequentemente. as mulheres eram reproduzidas seminuas ou totalmente vestidas. visto que possuíam uma linguagem visual esteticamente bem elaborada e provocavam. o produto a ser divulgado e comercializado era a imagem feminina. Por meio de fotos ou desenhos. e a imaginação. 2010c). pela crítica especializada. mas estavam prenhes de sensualidade. os cartazes foram. no público leitor. traçamos o propósito deste trabalho. Para realizamos a análise. detemo-nos na investigação dos elementos verbo-visuais presentes na forma composicional de dois cartazes de comédias eróticas produzidas na década de 1970 como também analisamos o projeto de dizer constituidor/constituinte da forma arquitetônica. fogosas. visto que. o imaginário sobre a mulher brasileira era construído. A mulher sempre ocupava uma posição de destaque. O sucesso das pornochanchadas. do filme A super fêmea (1973). baseamo-nos nas formulações sobre linguagem advindas do Círculo de Bakhtin (2006.para nortear o nosso estudo. utilizavam a imagem das atrizes por meio do desenho de Benício (vide o cartaz de A superfêmea). na parede interna de um prédio. apareciam figurativamente como vítimas da sensualidade feminina (o traído. nos interessa investigar como se realizaa representação do corpo por meio da linguagem verbo-visual em cartazes da pornochanchada. voluptuosas. Ademais. ASPECTOS TEÓRICO-METODOLÓGICOS Esta pesquisa se insere na área da Linguística Aplicada de perspectiva sócio-histórica. No caso específico das pornochanchadas. os cartazes da pornochanchada da década de 70 eram confeccionados privilegiando a imagem feminina. tanto podem se direcionar ao público geral quanto a um público específico. 2010a. foi atribuído à publicidade que se realizou. 2010b. Por haver diferenças estéticas entre a pornochanchada carioca e a paulista. curvilíneas. Como fundamento teórico prioritário. As peças cariocas apresentavam uma linguagem próxima a do cartoon. principalmente. para os filmes paulistas. de Oswaldo de Oliveira. O primeiro confeccionou cartazes para a divulgação dos filmes cariocas. Neles. superiores aos seus filmes. 2. A partir dessas constatações iniciais. A maioria deles foram assinados por dois ilustradores: Ziraldo Alves Pinto e José Luiz Benício. o seduzido etc. Para isso. enquanto os cartazes paulistas. de Anibal Massaini Neto. na maioria das vezes. num painel de rua etc. despertava o desejo de frequentar as salas de cinemas. Quanto aos homens. tais como a concepção dialógica de linguagem e as reflexões atinentes à analise dialógica do discurso.

2010c) ao longo de sua obra. o tempo e o propósito comunicativo são fundamentais para a construção de sentido. além de meras informações. mais ou menos aparentes. optamos. sobre o seu núcleo familiar. nenhuma palavra é nossa. julgamos que o paradigma qualitativo era o que possibilitava uma leitura mais adequada dos cartazes que compõem o corpus desta investigação. considerada em situações concretas. nem sempre simétrico e harmonioso. ao fato de considerarmos a pesquisa. a enunciação é fruto da interação entre dois sujeitos historicamente situados e não pode existir fora de um contexto sócio-ideológico. Assim. 2010b. Bakhtin entende dialogismo – princípio constitutivo da linguagem e a condição de todo discurso – como as manifestações de diferentes vozes que mantém um permanente diálogo. índices sobre a sociedade em que está inserido. Sua estrutura é condicionada pelo contexto social que é o centro organizador de toda enunciação. sobre suas experiências. em sintonia com o pensamento de Bakhtin. Na teoria bakhtiniana. as concepções bakhtinianas de enunciação e enunciado A teoria da enunciação bakhtiniana é regida pelo princípio da dialogia.Considerando que a língua é um fenômeno social e de interação verbal e. as relações dialógicas se estabelecem também entre o eu e o outro nos processos discursivos instaurados historicamente pelos sujeitos. como já se afirmou anteriormente era representar as mulheres de modo que fossem olhadas e desejadas. 2010a. consequentemente. como pretendíamos analisar a arena onde se confrontam diversas vozes sociais e estudar a linguagem por meio de enunciados únicos que estão mergulhados em um contexto sócio-histórico. Isso significa que. espificamente. de toda expressão. quando o sujeito produz um texto. Além disso. numa perspectiva dialógica. em que os interlocutores. o espaço. o propósito prioritário. Essa escolha foi provocada por dois motivos. por isso. de caráter social e. ao se produzir um enunciado – seja ele verbal e/ou não verbal –o enunciador deixa em seu texto. Para desenvolver este estudo. Isso pressupõe que todo discurso é constituído por outros discursos. sobre o modo como vê o mundo. admitimos que o outro tem um papel fundamental na constituição do sentido. Primeiro. REPRESENTAÇÃO DO CORPO EM CARTAZES DA PORNOCHANCHADA Nos cartazes da pornochanchada. denomina-se de enunciado a unidade mínima da comunicação discursiva. ao se conceber o dialogismo como o espaço interacional entre o eu e o outro no texto. Bakhtin desenvolve uma concepção de enunciação. Assim. de conteúdo ideológico. o posicionamento de seu corpo ou de seu olhar estava enquadrado como se a mulher estivesse CORPOS . desencadeando diversas relações de sentido. como uma relação entre sujeitos. Por isso. mas transporta em si a perspectiva da voz do outro. frequentemente.metodologicamente. como embasamento teórico. pois. pelo paradigma qualitativo. entre diversos discursos que configuram uma determinada sociedade. também conjectura sobre o que o outro para quem o texto se dirige gostaria ou não de ouvir ou ler. portanto. Para o autor russo. 3. Além disso. 153 também utilizarmos. como reitera Bakhtin (2006.

ser “super fêmea. No cartaz de Asuper fêmea (1973). consequentemente. aspecto constante na confecção dos cartazes. Nesses cartazes. de certa maneira. a sua feminilidade. dirigido por Anibal Massaini Neto.significava seruma mulher que projetava a sua vida para atender os anseios de uma sociedade machista e falocêntrica. essencialmente masculino. Figura 1. os braços e as pernas cruzados. A sensualidade representada nos cartazes e os títulos apelativos garantiam a presença fiel do público masculino que parecia acreditar na promessa realizada por eles. “enganado”. convidativos) da atriz direcionados ao expectador. funcionam como um convite para que ele desfrute daquela feminilidade. envolvem o seu corpo bem delineado por curvas.Em outras palavras. de Anibal Massaini Neto. CORPOS . É verdade que. naquele contexto. chamativos. impedindo que suas partes mais íntimas (seios e baixo corporal) sejam reveladas. os olhos (sedutores. havia mais nudez nos cartazes dos que nos filmes. 2016. muitas vezes. Embora fosse. reforçava a visão machista da sociedade brasileira da década de 1970. Somados a isso. Assim. Fonte: Cinemateca Brasileira.apesar de a atriz Vera Fisher estar completamente nua. além de uma pulseira. o olhar fetichista masculino transformava as mulheres em objeto de culto erótico e. por exemplo. 154 oferecendo ao expectador –na maioria das vezes o homem – a sua nudez. esse público parecia não se incomodar com o que era efetivamente ofertado nas salas de cinema: filmes maliciosos com leves pinceladas de erotismo. de acordo com o discurso construído no cartaz. como podemos observar no cartaz do filme A super fêmea reproduzido a seguir. Cartaz do filme A Super Fêmea. na representação do feminino nos cartazes da pornochanchada. Disponível em: <http://cinemateca. a nudez nunca era frontal.br/local/cartazes/CN_0694.jpg>. Acesso em: 3 fev.gov.

de Os machões (1972) que. produções norte-americanas bem comportadas. O nome dos filmes funcionava. bem produzidas. Foi o caso.A cor vermelha que está associada paixão. A primeira cor é o resultado da mistura equilibrada do vermelho com azul e a segunda da mistura exata do vermelho e do amarelo. limitada pela cor laranja– CORPOS . Cada um dá o que tem (1975). Para ele. recebiam diversos tratamentos gráficos (caligrafia. ao prazer. Eu dou o que ela gosta (1975). tiveram seus nomes modificados. Na composição dos cartazes. Nos tempos da vaselina (1979). no processo de divulgação dos filmes. essa relação (lucrativa) entre o público e a pornochanchada foi criticada. colore a palavra “fêmea”e faz alusão ao desejo. proibidas nas salas de cinema. para o cartaz ser liberado. uma vez que ninguém ia mais confiar no que os títulos dos filmes insinuavam. para reforçar atributos que. Muitos títulos eram construídos a partir da utilização.Roxo pode simbolizarpurificação – pode estar associado ao lado espiritual da mulher – mas também é a cor da magia e do feminismo. à dominação. como. e suas exposições. muitas vezes. do duplo sentido. de uma certa forma. Gente que transa (1974). à paixão sexual. No caso da pornochanchada. envolvida. possivelmente. por exemplo. alguns cartazes. transformou-se em Os homens e eu (1973). em termos de bilheteria. censurados. excitação e desejo está presente na composição das cores dos caracteres do título. pois o resultado final não só teria de seduzir o público mas também de driblar os sensores. portanto. Salles Gomes acreditava ainda que a constante propaganda enganosa poderia provocar o afastamento do público. Nesse caso. A propósito dos títulos. na manutenção de sua ingenuidade. Em sendo assim. por Paulo Emílio Salles Gomes (1976). O poderoso chefão (1972) e Tubarão (1975). Entretanto. outro destaque são os títulos dos filmes que compõem com a imagem o propósito comunicativo prioritário da peça publicitária. A banana mecânica (1974). das chamadas apelativas. por exemplo. era rotineiro o fato de diversas películas precisarem ser renomeadas: A filha da cafetina virou A filha da madame Betina (1973). Os títulos dos filmes. vendia-se – por meio dos títulos. havia necessidade de mudar o nome do filme para ficar ao gosto dos censores. à agressão e à sede de ação. O bem dotado (1978).É relevante perceber ainda que. isso era fundamental. o título é grafado em duas cores: roxo e laranja. anteriormente. de conteúdo erótico. sugerindo que a superioridade feminina está. Ainda agarro esta vizinha (1974). na época. por exemplo. foi necessário fazer uma emenda para o filme ser divulgado e exibido. abundavam títulos maliciosos que sugeriam situações eróticas: Como era boa a nossa emprega (1973). No cartaz do filme A superfêmea. a cor roxaestá. nesse caso. como chamariz para que o público se reencontrasse novamente com o cinema nacional. mas não o tinha para entregar. No cartaz. se chamava Os bonecas. bem divulgadas. quando iam compor os cartazes. depois de prontos. tamanho das letras. Os homens que eu tive. dos cartazes – um produto. Sem qualquer pudor. entre outros. 155 No entanto.) com o intuito de produzir o sentido desejado pelos cineastas. uma vez que os filmes eram esvaziados de conteúdo pornográfico e. cores etc. colore a palavra “super”. foram. na maioria das vezes. O anjo devasso tornou-se Anjo loiro (1973). Como Ziraldo já tinha confeccionado o cartaz. geralmente são associados à natureza dicotômica feminina. dezenas de títulos de natureza erótica eclodiam e derrubavam. laranja avermelhado. Jáa segunda. às vezes.

cuja autoria também é de Benício. uma visão do que se esperava da mulher nos anos de 1970: não se queria uma “super-mulher”. Em outras palavras. Figura 2. o cartaz é um veículo da materialização do desejo sexual por meio da representação erótica dos atributos corpóreos femininos que são almejados pela sociedade falocêntrica.gov. mas às suas formas corpóreas externas. Cartaz do filme Os Garotos Virgens de Ipanema. que batalharia por um espaço de igualdade entre homens e mulheres. mas apenas desempenhará o papel estereotipado que era. agora. esperado da mulher naquele contexto social. o título. Essa característica ambivalente que é. no cartaz. No cartaz desse filme.jpg>. do filme Garotos virgens de Ipanema (1973). o desejo despertado pela mulher relaciona-se. a representação do lado “animalesco” da mulher. a palavra “fêmea” em oposição a palavra “macho” reforça. do filme. discursivamente.não a sua essência espiritual. normalmente. espera-se assim que a mulher cumpra o papel de promotora de prazer e/oude procriadora em uma sociedade. a feitura do cartaz. Analisaremos.br/local/cartazes/CN_0851. As flores destacam a palavra CORPOS . Nesse contexto social. Ademais.É possível deduzir que a “superfêmea” não vai quebrar nenhum tabu nem promover nenhuma revolução sexual. nitidamente. mas uma “fêmea” cumpridora de seus instintos biológicos. falocêntrica. 156 localizada nas extremidades – como se quisesse dizer que. Disponível em: <http://www.tradicionalmente. como prenunciava o feminismo. Fonte: Cinemateca Brasileira.atribuída às mulheres fica mais patentes quando associamos o título do filme à imagem da mulher representada no cartaz.cinemateca. de Oswaldo de Oliveira. constrói-se.Portanto. 2016. Acesso em: 3 fev. aparece centralizado na parte superior e apresenta um elemento simbólico: dois lírios brancos. com caracteres em cor preta.

o que se confirmará. são retratadas. o líquido branco pode representar a ejaculação do sêmen. 157 “virgem” e substituem “o pingo” da letra “i”. como já foi dito. para diminuir o estado de excitação do garoto. Nesse caso. aparentemente. a florsimboliza o próprio ato sexual por meio da junção das genitálias feminina (representado pelo formato do conjunto de pétalas) e masculina (representado pelo pistilo). estão maquiadas com as bocas entreabertas e olhos fechados). Já o segundo garoto possui uma expressão facial assustada.Nesse caso. que a utiliza para apagar “o seu fogo”. as sobrancelhas arqueadas). no momento em que a película for vista. Porém.Se considerarmos que se trata de água. Entretanto. sorrindo abertamente. o quesugere as suas disponibilidades para a prática do sexo oral. estão ali para atraírem os olhares masculinos. além de possuírem formas femininas estereotipadas (vestem biquínis. têm cabelos esvoaçantes. com o pênis intumescido. simbolicamente. provocada pela situação visualizada por ele.Ele pode ser uma alusão a leite.São mulheres brancas e. a flor possui um pistilo saliente que funciona como representação fálica e remete a sentidos relacionados tanto à sexualidade quanto à eroticidade. a pureza e a falta de experiência sexual dos protagonistas da película. ao mesmo tempo que simboliza pureza. os dois lírios podem também representar. inclusive a que aparece mais ao fundo praticando topless. resultado do orgasmo do rapaz. a língua acariciando os lábios. ela pode estar sendo utilizada. visto que. A excitação do jovem está representada pela expressão de desejo (os olhos arregalados. a fim de perderem as suas virgindades. cores). nitidamente. como é comum nos cartazes da pornochanchada. O seu olhar está direcionado à região pubiana de uma das garotas. as formas femininas estão centralizadas e ocupam um espaço bastante significativo do cartaz. Além disso. CORPOS . O lírio é uma flor considerada hermafrodita por possuir os órgãos masculinos e femininos em sua estrutura. em conjunto. As mulheres. a flor. semioticamente. Elas parecem brotar da letra da palavra “virgem” e quase se fundem à palavra “garotos”. a situação cômica é constituída pela cena em que um rapaz joga um líquido nas nádegas das mulheres. as bocas das garotas apresentam-se abertas e delineadas por batom. ou a para diminuir o desejo das mulheres. a tentativa de fusão do signo verbal e do não verbal como se os dois fizessem parte de um só corpo “garotos virgens”. por meio do cartoon. Ao contrário deles. como já dissemos. mais velhas que os dois rapazes. A imagem da região pubiana do rapaz está escondida por trás das nádegas das garotas que se encontram encostadas – tentativa de estimular e sugestionar a imaginação do leitor – a fim de sugerir que ele se encontra. Nesse caso. Há ainda a tentativa de provocar humor. o pistilo representa o pênis dos garotos virgens que desejam penetrar a genitália. Sendo assim. Todos esses elementos (título. as tentações carnais e o erotismo. Por isso. possivelmente. pois são representadas na posição social de sedutoras. a utilização de um lírio branco reforça. Há. da publicidade. interromper a sua ereção. Nesse casso. não apresentam índices ligados à pureza. ou não.possivelmente. esse líquido pode ser interpretado de outra maneira. Elas se contrapõem aos rapazes. No caso do cartaz do filme. imagens. estão a serviço. antecipando a narração do filme.

ed. 6. Além disso. SP: Unicamp. 2010c. Entendemos. ed. Portanto. BAKHTIN. sua natureza híbrida. São Paulo: Hucitec. São Paulo: Hucitec. reforçando sempre a visão de que estar no poder significava estar. Sendo assim. destacando-se. outros ângulos. CORPOS . reiteradamente. 2006. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. por estar carregado de acentos e entoações ideológicas e por ser oriundo de sujeitos situados sócio-historicamente no mundo. Dentre eles. assim. 2010b. outros recortes. a supremacia do homem sobre a mulher. 1996. 5. BAKHTIN. em cima do outro. construirmos novos dizeres ainda não revelados sobre ela e. BAKHTIN. BAKHTIN. ed. Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. M. Campinas. podemos afirmar que o cartaz do filme é considerado um enunciado concreto. O olhar pornô: a apresentação do obsceno no cinema e no vídeo. não podem ser analisados separadamente. visto que suas narrativas tratavam. Campinas. Boca do lixo: cinema e classes populares. No caso dos cartazes analisados. consequentemente. Além disso. linguagem verbal e não verbal. novas lentes são necessárias para focalizarem outros matizes. os discursos construídos refletem e refratam um momento significativo da cultura brasileira que precisa ser analisado. sobremaneira nos enunciados analisados. Eles só podem ser compreendidos na enunciação. a pornochanchada é merecedora de ser vista por outros olhares para. pelo fato de romper a barreira do tempo e não conseguir calar-se. 2010a. não o desqualifica como enunciado. ed. por fim. Estética da criação verbal. constituída por discursos que circulam socialmente. literalmente. _____. 2006. sobressai-se o discurso oficial que pregava a dominação dos fortes sobre os mais fracos. representante de forças centrípetas. principalmente. reforçando os papeis sociais desempenhados por homens e mulheres. M. que o cinema produzido na década de setenta tem uma multiplicidade de vozes que precisam ainda serem investigadas. M. embasado nas relações de poder. SP: Mercado das Letras. como definiu Bakhtin.Os cartazes estão impregnados desse discurso conservador. 5. Esse discurso se cristalizou em torno do riso e do tema da sexualidade e estava. M. a maioria das pornochanchadas refletia e refratava esse pensamento. de problemáticas relativas às relações sexuais. compreendermos melhor a essência da sociedade brasileira. REFERÊNCIAS ABREU. São Paulo: WMF Martins Fontes. Problemas da poética de Dostoiévski. porque esses dois planos estão devidamente articulados a partir de um projeto gráfico e de um projeto discursivo. De acordo com esse discurso oficial. C. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 158 CONSIDERAÇÕES FINAIS Para finalizar. que permeiam esse produto cultural. Como o nosso estudo foi apenas um pequeno mergulho nesse universo. 12. N. a manutenção das relações patriarcais era o modo de perpetuar a organização tradicional da instituição família.

São Paulo: Humanitas. 2010. J. p. Movimento. Espaços da linguagem na educação. São Paulo. 29. São Carlos: Pedro & João Editores. 20. 11-39. In: DIETZSCH. M. Mikhail M. Tradução aos cuidados de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. 1976. M. 159 BAKHTIN. 1999.). (Org. _____. p. P. Para uma filosofia do ato responsável. SALLES GOMES. Ela (a pornochanchada) dá o que eles gostam? Entrevista concedida a Maria Rita Kehl. CORPOS . n. O discurso na vida e o discurso na arte.

charlatãs. tem que ver seu reflexo em algum lugar. Frida Kahlo é descrita. pélvis. que se vive como dor. A nossa análise encontra-se ancorada nas postulações teóricas da O que faz com que eu experimente uma grande dor é possuir um Análise Dialógica do Discurso (ADD). das cinzas da revolução mexicana. Assistente do Departamento de Tecnologia da Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. coluna vertebral. tem que saber se imaginar. tem saber ser desejado. perna e pé direito. tem que nomear e ser nomeado. recebe golpes drásticos que o marcam por toda vida. seja o que for que o ajude a se reinventar em desgraça. o corpo exagera nas metáforas e nos símbolos. um autorretrato em que a pintora dá OLIVEIRA. com ferida penetrante na cavidade abdominal causada por uma barra de ferro e fraturas múltiplas no cotovelo. No corpo doente.ufrn. poliomielite aos seis anos de idade. As coordenadas são muito conhecidas: nasceu em 1907 com espinha bífida. na qual ela pinta. Esta pesquisa insere-se na área da Tsé Linguística Aplicada e possui um enfoque qualitativo-interpretativista. até hoje. Cultura. informais. p. Para ser de verdade. 61Mestre em Estudos da Linguagem. este trabalho tomou como procedimento realizar uma análise de uma tela de Frida. Habitado por imaginação superabundante e inteligência viva. que tem como teórico-base o filósofo russo Mikhail Bakhtin (2003. e isso se hipérboles do corpo em um autorretrato60 estende até a contemporaneidade. mas do corpo de uma mulher dilacerada pela de uma carnificina ideológica e cultural. corpo. e em seu desses pero recorre a prescrições de todo tipo: médicas. tem que atingir seus limites e comprovar que se move. o México viu surgir.. que o atassalham para sempre. Criou-se. A interrogação de Lao Tsé (2010. Tomando como referência essas assertivas. mas também amorosa. do Ensino Básico da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Natal – RN. 2013). em suas fotografias – como uma mulher que marcou uma época e que se tornou símbolo de lutas. se basta a si mesmo. pessoais e políticos. no corpo torcido. que dor poderia experimentar? Lao 2009. Nosso principal objetivo é analisar a tela e considera-la como um enunciado socialmente e axiologicamente valorado. dois cirúrgicos). várias imagens sociais que eram delineadas no jogo dialógico entre suas obras e seus interlocutores. politraumatismo por acidente de trânsito aos dezoito. incapacidade ou monstruosidade – ou a tríade em diferentes proporções -. E-mail: william. tem que ouvir seus diferentes ecos. alcoolismo. a dor e seu estar no mundo. Representações que dialogam com temáticas como o amor. RESUMO 160 Entre os anos 30 e 40 do século passado. aparentemente. Prof. a traição. pelo AS DORES DE FRIDA: imaginário social – em seus quadros. em volta da pintora mexicana. Prof. FRIDA E SEU CORPO EM TEMA E TELA. O corpo de Frida Kahlo demanda restituição constante desde muito cedo. William Brenno dos Santos 61 visibilidade e representatividade ideológica ao seu corpo físico. uma imagem de si que revela as respostas aos seus dilemas 1. três abortos (um espontâneo. 60 Maria da Penha Casado Alves: Professora Associada do departamento de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. com cores embevecidas pela dor física. no corpo dilacerado a paixão se torna obsessão por necessidade.oliveira@imd. Para compensar a perda da normalidade. Se não tivesse corpo.br CORPOS . uma figura singular. Falamos aqui não de qualquer corpo.189) sugere que o corpo não Palavras-Chave: Frida Kahlo. exige referentes diversos. religiosas.. a amizade. e não há repouso. Corpo.

como afirma Bakhtin (2003) Contemplar a mim mesmo no espelho é um caso inteiramente específico de visão da minha imagem externa. permanecemos dentro de nós mesmos e vemos apenas o nosso reflexo. Isso reforça a nossa inquietação discursiva de querer ouvir várias vozes em todos os momentos desta pesquisa. estamos diante e não dentro do espelho. emergem no centro de sua criação artística. na psicanálise. isto é. E a dor. anorexia e uma morte. De fato. com cuja ajuda tentamos encontrar uma posição axiológica em relação a nós mesmos. evidentemente. a cama de hospital. de maneira destacada: a coluna quebrada. o gesso e as faixas. 2003. nossa situação diante do espelho sempre é meio falsa: como não dispomos de um enfoque de nós mesmos de fora. também nesse caso nos compenetramos de um outro possível e indefinido. . Nosso próximo passo é mostrar as cores teóricas que deram um contorno dialógico ao nosso trabalho. Se o espelho é o referente mais primário e o desejo – o olhar o do outro -. e ademais um material não genuíno. Tudo indica que neste caso vemos a nós mesmos de forma imediata. as úlceras tróficas. o espelho só pode fornecer o material para a auto-objetivação. aos 47 anos (1954). a imagem externa não nos envolve ao todo. O espaço mais visível no qual Frida elabora e reelabora as fraturas de seu corpo é. também aqui tentamos vivificar e enformar a nós mesmos a partir do outro. 2003. as agulhas.30) Há entre ambos inúmeras maneiras pelas quais o corpo obtém notícia de si e encontra sua razão e seu sentido. 161 tabagismo. ali na tela estão. no esporte e no espetáculo. claramente. RETOQUES TEÓRICOS SOB O CORPO FRIDIANO Compreendemos que “O acontecimento da vida do texto. sob suspeita de suicídio. em idas e vindas. desaforado. 311). um autorretrato total múltiplo. o colete de aço. no conhecimento científico. p. nas reviravoltas do sexo. o espaço da cultura mexicana. o espaço do diário epistolar. que pode ser descrita por inteiro como um grande autorretrato. assim como. o mais complexo. a sua verdadeira essência. o espaço da consulta médica. subsidiamos nosso artigo nas considerações do Círculo de Bakhtin para a criação de um todo integrado (arquitetônica) a respeito da tela em análise. sempre se desenvolve na fronteira de duas consciências. Nas habilidades de brincadeira e do trabalho ou nas nimiedades do ócio. em especial. de dois sujeitos .. na literatura e na filosofia. Mas há também outros espaços nos quais Frida pratica a recomposição de seu corpo enquanto a pintura converge: o espaço de uma sexualidade inquieta e nada convencional. (BAKHTIN. na roupa e nos detalhes infinitos do cuidado pessoal. 2.. Daí a expressão original e antinatural de nosso rosto que vemos no espelho [e] que não temos na vida. sua pintura. a pélvis. Mas não é assim. no que se come e no que se excreta. que não pode tornar-se elemento imediato da nossa visão e vivenciamento do mundo: vemos o reflexo de nossa imagem externa mas não a nós mesmos em nossa imagem externa. praticados ou apenas assistidos. p. as dores de Frida. na coleção de fotos que o tempo vai juntando em uma caixa de sapatos. em que poderemos compreender suas CORPOS . selecionando aquelas que melhor servirem ao nosso propósito comunicativo.” (BAKHTIN. e. Nesse sentido. na arte.

portanto. problematizar a linguagem em um enunciado-tela construído diante das relações sociais. Ela carrega expressividade. Partindo disso. em última análise. e vendo por esse prisma. assim como as determinações ideológicas e as atitudes responsivas desses sujeitos implicados em infraestruturas e em atividades da base econômica social. vemos a linguagem como interação social e discursiva. concreta. uma concepção dialógica de linguagem. nos remeter à discussão que VOLÓCHINOV (2017) fazem a respeito de linguagem. Observamos que.. mulher do profano e levou uma vida regada pelas revoluções. Em “Para uma filosofia do Ato Responsável” (BAKHTIN. pensamos a linguagem constituindo o mundo social e os sujeitos que vivem nesse mundo. vinculada à dimensão da vida e entendida. pretendemos contornar. defino-me em relação ao outro. para compreender essa difícil relação (sujeito & mundo). p.] Essa orientação da palavra em função do interlocutor tem uma importância muito grande. 162 práticas discursivas através de estudos nos quais as categorias serão. Na realidade. em relação à coletividade. 73). isto é. sempre. como concreta. podemos afirmar que. a enunciação é o produto da interação de dois socialmente organizados e. artes e figuras significativas da sociedade mexicana e mundial da época. 2010) – livro que data do início da década de vinte do século passado – a inquietação de Bakhtin com a linguagem aparece subordinada às suas reflexões sobre ética e filosofia. em relação à outros tantos sujeitos e em relação a si mesmo. Por conseguinte.. nesse texto. infraestrutura e superestrutura.. Trata-se de uma concepção sócio-histórica situada e construída nas bases sociais do discurso. que se posiciona em defesa de ideologias diversas. Portanto.1 Uma concepção dialógica de linguagem Para situar o contexto desta pesquisa assim como o objeto. dar cores discursivas a essa autora-criadora. Toda palavra serve de expressão a um em relação ao outro. construídas em diálogo com o nosso corpus. Sendo estes circulantes das esferas discursivas do “mundo da vida” da própria autora. 2.” (VOLÓCHINOV. Através da palavra. 2017. temos: Com efeito. aqui. Portanto. Dessa maneira. baseados nessa perspectiva teórica.] Ela constitui justamente o produto da interação do locutor e do ouvinte. históricas e culturais de Frida com seus outros. toda palavra comporta duas faces. Desse modo. intentamos. atitudes valorativas dos sujeitos em relação ao seu objeto discursivo. mesmo que não haja um interlocutor real. [. “constitutivamente dialógica” que é construída pelo sujeito e que o constrói. [. com a finalidade de traçar o ethos desta mulher que foi martirizada pelas traições de seu esposo. o filósofo da linguagem já a compreende como atividade. este pode ser substituído pelo representante médio do grupo social ao qual pertence o locutor. demarcaremos a concepção de linguagem em que nos apoiamos. foi preciso.. CORPOS .

procura apoio. por meio desse estilo particular de escrever da autora. carregado de valores e ideologias. e tais enunciados estão se realizando o tempo todo nos diversos campos da atividade humana. resenhamos a vida alheia. pragmaticamente. CORPOS . recorremos à concepção bakhtiniana de gêneros discursivos como construção sócio-histórica de sujeitos em interação. Ao definir o conceito. ou seja. 261) enfatiza que: “o emprego da língua efetua-se em forma de enunciados”. Tais projetos ganharam sentido naquilo que Bakhtin vai chamar de “enunciado”. Ainda no campo do discurso. uma imagem que ela pinta dessa vez com palavras. como afirma Bakhtin (2003. namoramos. p. em qualquer atividade que envolva gênero do discurso do ponto de vista bakhtiniano. 2003. compreendemos que esses enunciados são corporificados em arcabouços culturais. 128). nos diferencia de outros animais. 163 Assim sendo. Nesse sentido. em seu processo de formação. organiza e expressa o discurso de Frida Kahlo de maneira tal que nos permite resgatar os seus posicionamentos axiológicos e mapear. e parafraseando Bakhtin. essa teia dialógica – e aqui nos referimos à noção teórica de dialogismo encontrada nas formulações da Análise Dialógica do Discurso (ADD) – permite-nos alcançar os projetos discursivos que surgem diante da interação com um mundo que é semiotizado. 319): “perdem o vínculo imediato com a realidade concreta e os enunciados reais alheios”. A esse “corpo enunciativo” Bakhtin nomeia como “gênero do discurso”. opinamos. etc. que vão ser os gêneros do discurso conforme a concepção bakhtiniana. Volóchinov (2017) também afirma que “o discurso escrito é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica em grande escala: ele responde a alguma coisa. Portanto. é preciso que haja. bebemos. compreendemos que o ser humano é um ser de língua(gem). Bakhtin (2003) nos chama atenção por colocar que o ser humano é um ser do discurso. p. construída social. para integrarem a sua composição. antecipa as respostas e objeções potenciais. um trabalho de elaboração permanente fazendo com que o texto. atingindo o objetivo esperado pelo autor e alcançando o seu leitor/interlocutor. formado ideologicamente pelo discurso e se expressando em “enunciados” que são nomeados também pelo filósofo russo como “gêneros discursivos”. evidentemente. os gêneros que vão compor os secundários (complexos) transformam-se. como bem afirma Bakhtin (2003). assim como a exposição de ideias e posicionamentos de maneira satisfatória. estamos compreendendo a carta pessoal como gênero discursivo. É por meio desse sistema de signos que atuamos socialmente no “mundo da vida”. cada campo vai produzir seus “tipos relativamente estáveis de enunciados” (Bakhtin. rimos. cultural e historicamente. utiliza e reelabora uma diversidade de gêneros primários. Bakhtin (2003. Em outras palavras. Nessa perspectiva. p. no fim de todo processo se constitua em um ato de dizer que se dirige a um outro. Essa característica. que surge em uma relação de convívio cultural e pertence à esfera do convívio social da época que. 262). Sendo assim. Diante disso. através dos quais. ganhando assim um caráter específico. compramos. para melhor embasar nossa dissertação. assim podemos afirmar que o gênero discursivo carta pessoal. ou seja.” (p. confirma. refuta. atuamos e fazemos nossa marca estilística circular por esferas sociais distintas. brigamos. neste momento. gêneros mais simples.

sempre. Em sua obra. seguindo o Círculo de Bakhtin – atual ADD. representado em seus autorretratos. é o outro quem me define. associamos nossa dizer. só no outro indivíduo me é dado experimentar de forma viva. Compreende-se. também. assim como a concepção anterior. é importante olhar para o corpo fridiano. Em primeiro lugar. 164 2. portanto..[. estudantes. inserido em uma semiosfera específica da vida de Frida. Não se pode pensar em sujeito desprendido de seu círculo social. dar acabamento a esse sujeito é a relação eu-outro. a materialidade empírica limitada. também. Nesse sentido. o eu de Frida kahlo se diferencia da maneira como experenciamos o nosso próprio eu. trazidas pela pintora CORPOS . desconsiderando sua história e as influências externas ao próprio sujeito. em linhas gerais.3 O corpo fridiano através das lentes bakhtinianas Ao pensarmos dialogicamente sobre as representações do corpo cultural. situados em um lugar específico. é modificado e acabado por seus interlocutores. convincente a finitude a finitude humana. podemos afirmar que a maneira de vivenciamos. sem querer justificar seus exageros apenas pela “filiação” surrealista (classificação que a própria Frida renegou). 34) afirma: De fato. interessa-nos a visão de sujeito que seja balizada construção social. como pesquisadores. o único que é capaz de criar uma imagem valorada. sem esse outro essa imagem externa simplesmente não existe.34) Diante disso. histórica e cultural. ele nos oferece uma lente teórica confortável e condizente com o nossos objetivos. leitores. Ocorre que é importante considerar essas hipérboles visuais e metafóricas.] (p. me acaba esteticamente. p. ao conceito de alteridade que. é discutida ao longo de toda obra de Bakhtin. vejo a linha que lhe contorna a cabeça sobre o fundo do mundo exterior. inteiramente. O outro me é todo dado no mundo exterior a mim como elemento deste. reforça a ideia de alteridade que está diretamente relacionada com grande metáfora bakhtiniana: a relação interacional entre um eu e um outro. sem espaços para os inacabamentos que são inerentes aos seres de linguagem. aviltar a possibilidade de um sujeito acabado. nesta pesquisa. Acompanhada dessa noção de sujeito. Corroborando com nossas inquietações. Bakhtin (2003. estética (e eticamente). também. Em outras palavras. O sujeito bakhtininano é inacabado. em cada momento dado eu vivencio nitidamente todos os limites dele. a alteridade como essa necessidade estética e. provavelmente. só outro tem teria como atribuir uma personalidade ao eu. Muito menos. pleno de sentido. Isso. absoluta que o ser de linguagem tem do outro.. e todas as linhas do seu corpo que o limitam no mundo. e esse acabamento pode se modificar ao passo que esse outro. como um traço do grotesco nas representações do corpo. “A Cultura Popular na idade média e no renascimento”. no limiar do acabamento que o outro lhe dará. 2.2 O sujeito bakhtiniano Conforme o exposto. limitado em termos espaciais. precisamos da voz de Bakhtin sobre o corpo grotesco em Rabelais. abranjo-o por inteiro com o olhar e posso abarcá-lo todo com o tato. Ele estará. Em outras palavras.

na representação do corpo de Frida.]. Seu torso é envolto em cintos de metal. ela é se autorretrata em pé. entre outras). 3. Ele – o corpo – absorve. Atravessado pelos horrores das dores físicas e afetivas. completamente fraturada. Assim sendo. ao tratar do exagero. Atitude que consideramos um mote da própria representação simbólica da pintora sobre ela mesma. 268)..] (grifos do autor). Enxergamos. nesta aba. além disso. ao nosso dizer para nos dar terreno sólido. mas não é o mais importante. enquanto os que seguem seu seio esquerdo referem-se sim a uma dor emocional. Os pregos. Na tela. as ideias do círculo assenhoram-se. Frida utiliza esse elemento grotesco para demarcar a intensidade das dores que vinham das mais variadas fontes (dor física. revestidos com tecido que fornecem pressão e suporte para as costas.. como uma refração axiológica das dores que a pintora carregava em seu seio identitário. Bakhtin afirma: “O exagero (hiperbolização) é efetivamente um dos sinais característicos do grotesco [. CORPOS . o que ajudou a aliviar a dor intensa e constante que tanto a atormentara. aparece uma coluna jônica. ao longo da coluna. como marca do grotesco. rachada. A sua cabeça repousa sobre o capitel. Sobre isso. e defendemos que é ele que aparece na tela de Frida. No entanto. a seu sentimento de solidão e a impossibilidade de ser mãe. que analisamos nesse artigo. representado na tela “ columna rota”. Ele jamais está pronto nem acabado: está sempre em estado construção. Na pintura. e ele mesmo constrói outro corpo. A operação a deixou acamada e “trancada” em um espartilho metálico. 165 na tela em análise. As unhas. indignação política. dor afetiva. são mais um símbolo da dor física constante que ela enfrentou.” (p. dialoga com o já dito e o exterior. O corpo grotesco. a tornavam mais forte. perfurando seu corpo. no ponto de colapso e que substituiu a coluna vertebral de Frida. O rosto banhado em lágrimas é um dos sinais de dor. literalmente e não literalmente. de criação. p. marcam os danos causados pelo acidente em 1925.. Sua vida fora marcada pelos dissabores que. mas não podemos reduzi-las a simples marcas. no meio de uma paisagem completamente árida. uma dose de hipérbole que é simbólica do ponto de vista bakhtiniano. Ele é uma composição em acabamento. esse corpo absorve o mundo e é absorvido por ele [. Vejamos: Como já sublinhamos várias vezes. ao passo que a deixavam mais frágil. (BAKHTIN.. uma possibilidade que é anunciada pela imagem que corre pelo meio de seu torso. consideramos a presença de hipérboles. 277) Nesse sentido. Eles impedem que o corpo de Frida entre em colapso. nesse autorretrato. mas não somente física. o mundo que constituía Frida Kahlo e era constituído por ela. o corpo grotesco é um corpo em movimento. O CORPO REPRESENTADO PELAS HIPÉRBOLES DA DOR “A coluna quebrada” (tradução livre) foi pintado logo após Frida ter passado por uma cirurgia em sua coluna vertebral. mais representativa de uma cultura e de um sopesar dialógico. compreendemos o corpo.

o lugar em que Frida pinta esse tecido branco é muito representativo. p. Saindo dos pregos e olhando para o tecido branco que envolve a parte de baixo do corpo – lugar onde deveria aparecer a vagina . Relembrando os que mantiveram à cruz o messias da lenda cristã. acionada pela narrativa judaico-cristã. Eles também estão sobre a coluna jônica que. O fato de não poder gerar filhos. Num caso como em outro. Duplamente orientados. eles sustentam e causam dor. 166 Figura 1. homem que ela mais amava. instaurada no seio popular de qualquer civilização colonizada pelos vieses da igreja católica. figurativamente.compreendemos que a pintora interdita o sexo e. o prego que está sobre o seio esquerdo. 366). etc.thinglink. Dores são dialogicamente representadas nas figuras dos pregos. continua a dialogar com o mito bíblico (o manto que envolveu Jesus). ao mesmo tempo. vemos que este é de um tamanho maior e está posicionado sobre o coração da pintora. ou seja.com/scene Os pregos. portanto. este asseverando que assim como “o corpo. o enquadramento que é dado. com mais atenção. Imagem que nos remete às dores causadas pelas inúmeras decepções amorosas que seu esposo. no entanto. Ela terá de carregá-la para sempre. dos braços. ensaia mais uma metáfora de dor hiperbólica. Ora. posicionados sobre as fissuras do concreto. No entanto. a CORPOS . não pode se dar ao luxo de livrar-se dessa dor. podemos dizer que há uma correlação axiológica. provocou. trazemos a voz do próprio Bakhtin (2010. Ela esconde o seu sexo e. O manto branco que envolveu o filho de deus na narrativa cristã é o mesmo que a impede de ser mãe. esses mesmos ícones perfuram a carne do rosto. Dessa maneira. dos seios. o sentido sabe gritar na roda. Pra finalizar nossa análise. Observando-se. espalhados por vários pontos da tela (não apenas no corpo físico). representa a coluna partida de Frida. indicam múltiplas representações sígnicas. ao mesmo tempo. Leva de si um de seus mais ávidos desejos. parecem mais dar sustentação à coluna da pintora. Columna rota de Frida Kahlo Fonte: www. Frida.

funcionando no interior de uma hierarquia dominante (uma MULHER. V (trad. quando colocamos as lentes da análise dialógica do discurso(ADD). Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. completa.. ocorrem inversões que colocam o mundo de Frida de pernas para o ar. Estética da criação verbal. Rio de Janeiro: José Olympio. M.V. Z. VOLÓCHINOV. KAHLO. DIZERES (IN)ACABADOS E A ESPERA DE OUTRAS VOZES O diálogo com o corpo de Frida Kahlo. Esperamos. transgride os seus próprios limites.(Trad. ZAMORA. F.. (trad. pintado na tela “Columna rota”. (Trad.]”. no contexto mais amplo da ambivalência. Hayden. principalmente. 2017. Cartas Apaixonadas de Frida Kahlo.). No entanto. V.. Zahar. 2001.1997. REFERÊNCIAS BAKHTIN. 167 imagem torna-se grotesca e ambivalente[.). provocar outros pares a contribuir com nossas inquietações sobre a constituição sociocultural dessa mulher que representa um ícone da cultura mexicana de uma determinada época. nos leva a conclusões precisas. com essa introdutória discussão.) São Paulo: Globo.. pintora. supera a si mesmo. Frida: a biografia. CANCLINI. CORPOS . V. RIBEIRO. O corpo em análise não é uma unidade fechada. 2011.) São Paulo: Editora Hucitec. Encontramos essa ambivalência na representação simbólica do corpo fridiano em “Columna rota”. E.) São Paulo: Editora 34.). HERRERA. Edusp. São Paulo. AMÉRICO. S. M (comp. 2008. 2010. Elas são inversões unilaterais. Culturas híbridas. N. Rio de Janeiro. BAKHTIN. MARQUES. GRILO. Modernidade Líquida. São Paulo: Martins Fontes.. DEFICIENTE FÍSICA. A cultura popular na idade média e no renascimento: o contexto de François Rabelais. ele é e sempre será inacabado. capazes de se estabelecer na vida cotidiana. VIEIRA. R. BAUMAN. F. M. 2003. resiste.

Tovar Nelson 62 1. Respondo com minha vida – seja aqui pensada como uma proposta de escrita que fisga no acontecimento. Na hora do dever. Há aí uma oportunidade. não sabe pra onde vai. uma imagem: quando criança. um parto pode acontecer.com CORPOS . à tarde – tinha mais ou menos uns 9 anos de idade – ia para um quartinho nos fundos da casa. atrás da garagem. não importa. deve encontrar a unidade de uma responsabilidade bidirecional. essa palavra-carcaça (depois é que seria lavada pela torrente das contra-palavras). Corpo. Melhor dito. contraía os dedos dos pés numa briga entre carne e alvorada. De outro modo. mas o caminho desconhecido te diz respeito. Vamos lá: O ato deve encontrar um único plano unitário para refletir-se em ambas as direções. seja em relação ao seu 62Mestre em Linguística Aplicada. sem querer. Campus Santo Antônio de Pádua. o dever de casa não vinha ao encontro de meu devir. MONTANDO A CENA A ntes de mais nada. alguém passou-te o braço sobre os ombros. mas você o abraçou como seu. ENTRE O DEVER E O DEVIR: questões de escrita na perspectiva da filosofia do ato em três cenas que se completam PEREIRA JÚNIOR. Prof. de minha existência aberta e irrepetível. O convite pode ser exigente. Quando. Cultura. “não vou dar conta”. 168 Palavras-Chave: Frida Kahlo. tudo era fechamento. desafio até a medula. e me deitava rendido por um reconhecimento tácito de que não teria força suficiente para fazer o dever de casa. Substituto do Departamento de Ciências Humanas da Universidade Federal Fluminense. Ali. E-mail: tvrniu@gmail. Dever. no seu sentido e em seu existir. NESSE DIA de que me recordo deitei na cama do quartinho meio fugido de minha mãe que me obrigava a fazer o para casa. no entanto. que te meta medo. RESUMO . uma proposta – mão que tira pra dançar – que te desafia instala-se o processo de conversão do dever em devir.

funciona no encalço da repetibilidade.” (BRITTO. E se o signo é também aquela concretude na qual a atividade da consciência é possível. CORPOS . eu-para-o-outro. Começamos a sentir o peso das palavras. então a linguagem é corpo. Nesse caso. mas o fato de a saída não contar com o momento de “volta a si”. de modo que a responsabilidade especial deve ser um momento incorporado de uma única e unitária responsabilidade moral. A resposta fora do corpo enquanto aqui-agora aberto. Somente assim se pode superar a perniciosa separação e a mútua impenetrabilidade entre cultura e vida. insubstituível no mundo. Eis a escrita que. forçosamente. mas também por ameaçar destruir o próprio papel de sujeito que este deveria ter numa relação intersubjetiva. peculiar. com esse suporte e segundo a vocação linear da escrita – dizer esticado no tempo – um corpo novo parido das linhas de força que forcejam em mim. vemos que o problema não é o deslocar-se na direção do outro. de dentro da vida irrepetível. outro-para-mim). posicionando a ideia de “relação intersubjetiva” na arquitetônica bakhtiniana (eu- para-mim. que se alonga criativamente sobre um suporte que não o meu corpo. 169 conteúdo (responsabilidade especial). o que é a responsabilidade especial como momento que incorpora (encorpa) a unidade da responsabilidade moral? Que é a escrita autoral como momento que encorpa a unidade da responsabilidade moral? É o momento em que encontro um caminho. tornando o ato da escrita desvitalizado. mas afirma enfaticamente que essa saída deve ser sempre seguida de uma ‘volta a si’: aquele que se põe no lugar do outro e não volta ao lugar que lhe pertence é infiel a si e ao outro! Porque cada sujeito ocupa um lugar ímpar. seja em relação ao seu existir (responsabilidade moral). o interlocutor acaba não apenas por impor-se ao locutor. irrepetível. Sobral (2009:30) coloca a questão nos seguintes termos: Bakhtin considera legítimo que o eu saia de si para aproximar-se do outro. Nesse sentido. é corpo subversivo (na grande relação dialógica contemporânea) em resposta a tudo aquilo que é fechamento. 2010: 43-44) Retenho isso: “Responsabilidade especial como momento que incorpora a unidade da responsabilidade moral”. Acontece é que ao me debruçar sobre o papel crio. exigência de devolução de já-ditos.. (BAKHTIN. comigo. Nele nos sentimos enquanto peso específico na existência. no acontecimento. não sou desalojado de mim para responder com compostura aquilo que intuo ser o adequado para que meu texto circule gerando rendimentos no mercado linguístico escolar. E não é que o texto que se escreve autoralmente simplesmente mude do suporte corpo para o suporte papel. mas não deixo de estar relacionado com tudo no fluxo. 2003:123) Ou seja.. e vice-versa. falso. Acho que foi Merleau-Ponty quem me disse a primeira vez que o tato é o sentido fundamental humano. Tentando me instalar sem êxito no plano axiológico do outro-avaliador produzo um dizer natimorto. a “saída de si”. que não coincido com nada. dos já-ditos que são perseguidos e valorados enquanto tais. “Nesse sentido. ontologicamente vocacionado a ser mais (FREIRE).

E até assumi-lo mais. mas averiguar se a natureza de nosso gesto é a de quem soube se conformar. (BAKHTIN. nesse caso. isso é impossível. 2. Utilizando a mesma dinâmica de escrita automática a que aludimos no tópico anterior. não tinha a menor noção de que o meu desastre se dava numa arquitetônica. Naquele dia. nem minha mãe. de qualquer modo. não serve para transferir ao outro a responsabilidade de meu ato. o que é que eu tenho que escrever? E o professor: qualquer porra. Não importa. expressa-se a individualidade do autor. A noção da arquitetônica. Lua cheia no rosto do aluno. CORPOS . é claro. interagir com ela. ato técnico em que não fui capaz. Ainda agora vejo uma mulher com toda pinta de gente viva. Crise do ato ético contemporâneo. um aluno perguntou: professor. retorcido na cama no quarto atrás da garagem. acho. O sucesso da missão de introduzir o aluno na língua viva e criativa do povo exige. Nessa linguagem infantil. nesse sentido. 2013:7) Os alunos do seminário diocesano ensaiaram sonetos rimados na atividade de escrita automática surrealista que lhes foi proposta para “soltar a mão”. mas quando. uma grande quantidade e diversidade de formas e métodos de trabalho. embora de modo desajeitado. As crianças também não tem álibi. acabou sendo de ser assim. também conhecida como “cura da mão mirrada”. inclusive. simplesmente. resposta não-responsiva na própria cena pedagógica de que participo como educador. posso compreendê-lo melhor. CENAS EM TORNO DA ESCRITA Uma aluna da quinta série definiu por escrito a árvore como uma flor gigante. Momento. mas instituições como concretizações de linhas de força necrófilas) que nos exigem a devolução de seus dizeres não querem ler nosso testemunho escrito enquanto conteúdo. Não porque ela não me veja. Redações (esse é o termo adequado nesse caso) também fruto. carente de posicionamento axiológico na vida. Um terceiro desatou uma gargalhada. mas porque sinto/sei se trata de uma entidade vazia. de dar corpo à unidade de uma responsabilidade moral que não aconteceu. mas para compreender que meu ato se dá em resposta ao outro e. a linguagem ainda não está despersonalizada. 170 Aqueles (não só sujeitos. Intuo que não poderei conversar. testemunho suas órbitas vazias. dando uma volta. qualquer merda. contemplo-lhe o rosto. Se nosso corpo é dócil e mais: se somos docilmente competentes para perpetuar discursos averiguáveis por sistemas avaliativos externos. que era um desastre arquitetônico. As redações que leio de meus alunos. nem minha professora.

Poesia também se faz com o corpo. esse riso dele que até hoje brilha aqui).. “responsível”. que permitisse a escrita na abertura. no poeta. servem não só para CORPOS . por parte do educador.. O professor responde na base do palavrão porque precisando de corpo pra seguir sendo. na forma de uma proposta de produção que gerasse abertura. (MAIAKOVSKI trad. Augusto de Campos. A gargalhada como irrupção da vida. terceiro da história ri. explode em riso. Gente é pra brilhar. o corpo-palavrão na sala de aula como ato responsável. Brilhar pra sempre. como quer o Sobral. Dito de outro modo: O corpo atravessado pelo sol é que cria o arco-íris. Responde a tudo ali em jogo. Este é o meu slogan E o do sol. Corpo opaco que decompõe a luz solar em múltiplos cromatismos. O DEVER-DEVIR NO JOVEM DOSTOIÉVSKI Na excelente biografia escrita por Joseph Frank obtemos algumas informações valiosas para compreender o gênio criativo de Dostoiévski. Tais informações. essa molécula. no entanto. 2014:90) Molécula O sistema nervoso maquinaria poética. Qual o nome do palavrão na linguística? Não sei. Brilhar como um farol. (TVRJR) 3. 171 (O palavrão. A linha de força do fechamento insistindo no aluno: “o que tenho que escrever?”. Brilhar com brilho eterno. Que tudo mais vá pro inferno. Arquitetonicamente: a tentativa de resposta viva ao todo em que se tenta fazer educação. O aluno-outro.

. Leio como um alucinado. Responsabilidade técnica como momento da unidade da responsabilidade moral. Penetro em tudo. subitamente. e é daí que retiro minha capacidade de criar. Quando ele se anuncia mais salientemente. à história estético-político-cultural do Ocidente e da Rússia. embora – do interior do ato.. para um mundo completamente novo que eu desconhecia e de que apenas tomava conhecimento por meio de certos rumores obscuros. mas que ainda não fora interpretada. escrevendo vinte anos depois do ocorrido. irrompia com uma sensação de poder até então desconhecida. Essas imagens literárias criadas por Dostoiévski. pelo menos: Estremeci. ato criativo em que o sujeito “apalpa as intimidades do mundo”. Linguagem que se faz como resposta que encorpa a unidade do ato responsável.” Para além do puro conteúdo semântico do dito. Devir. Frank compartilha com o leitor um instigante trecho de uma das cartas de Dostoiévski ao irmão Mikhail. dentre outras coisas. Gente Pobre (Pobre Gente. testemunho alteritário. na tradução). 172 nossos interesses vorazes em torno da gênese da obra do prosador russo. a muitos autores. Dever-devir. Momento. às intrincadas relações familiares e afetivas gerais das e nas quais participava o autor. respostas nas obras. no entanto. e ler tem um estranho efeito sobre mim. um interessante e sugestivo trecho da famosa “visão do Nievá”.” Em outra passagem. acompanhamos os bastidores da escrita do primeiro romance. subitamente. e foi como se meu coração se enchesse de uma golfada de sangue quente que. por certos sinais misteriosos. o qual projetou Dostoiévski como importante nome na cena literária russa do século XIX. Eu parecia compreender. na tensão arquitetônica do romance polifônico. alguma coisa que até então apenas me excitava. o todo intuitivamente vislumbrado de seu próprio projeto literário. por exemplo na passagem em que trata da possibilidade de compreensão – não-conceitual. naquele instante. irrompia com uma sensação de poder até então desconhecida. e é como se uma nova força se infiltrasse dentro de mim. em que o autor. era como se meus olhos se abrissem para algo de novo. Estou relendo alguns livros que já li antes. que se faz como resposta em uma época. em determinada altura da trajetória do artista no mundo. Senti que minha vida começava naquele exato minuto. Momento em que a vida se dobra sobre si mesma. produz um texto que estaria relacionado ao momento em que concebe o enredo de Gente Pobre. por parte daquele que age responsavelmente. antes vagamente aludido para si mesmo. desde nosso ponto de vista. vale testemunharmos a força do dito em si na imagem plasticamente forjada segundo a experiência linguístico-perceptiva. A imagem apta a dar conta do ato vivido no corpo é essa: “foi como se meu coração se enchesse de uma golfada de sangue quente que. mas podem ser também bastante valiosas para compreendermos a teoria bakhtiniana. No primeiro dos cinco tomos da biografia. compreendo o significado exato de tudo. com os outros. dão carne àquilo que Bakhtin defende em para uma filosofia do ato. datada da primavera de 1845. bem como da possibilidade de enunciação dessa experiência: CORPOS . na qual relata aquilo a que se dedicava enquanto não estava escrevendo: “Leio. Em certo momento.

mas sim o dever real. REFERÊNCIAS BAKHTIN. 2012. Mikhail. 2012. 2008. Do dialogismo ao gênero: as bases do pensamento do Círculo de Bakhtin.. de qualquer modo só se possa experimentá-la no momento em que se age. no corpo – aconteceu de imanentemente ser assim – não só adejar em torno de uma temática. que. 2014. EXERCÍCIO DE METALINGUAGEM COMO CONSIDERAÇÃO FINAL Ao falar sobre a relação entre o dever e o devir.. São Carlos: Pedro e João editores. Boris Schnaiderman. Entrego-o às contra-palavras. MAIAKÓVSKI. Série Ideias sobre linguagem. Trad. mas que este mesmo dizer fosse em si um devir se fazendo texto. concreto. condicionado pelo lugar que somente ele ocupa no contexto dado do evento. Mikhail. Para uma filosofia do ato responsável. Joseph. 2009. Trad. Poemas.. a partir de questões da escrita.] e fica-lhe claro também o sentido real e o sentido que merece consideração por conta das relações recíprocas entre ele. mas que não seja possível enunciá-la de maneira clara e distinta. SP: Mercado de Letras. SOBRAL. Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. Trad. São Paulo: Editora 34. posfácio e notas Sheila Grillo e Ekaterina Vólkova Américo. estas pessoas e estes objetos. Adail. Questões de estilística no ensino da língua. Vera Pereira.] seja inefável.a verdade (pravda) de um determinado estado de coisas – e seu dever inerente ao ato. p. (BAKHTIN. 83) Seria inexato crer que esta verdade concreta do ato [. 2013. CORPOS . não a uma lei abstrata do ato. Dostoiévski: as sementes da revolta. Augusto de Campos e Haroldo de Campos – São Paulo: Perspectiva. (BAKHTIN. p. . FRANK. BAKHTIN. – 2 ed – São Paulo: Edusp. 2010. Campinas. Tradução. Vladimir.. 173 [. pretendi. 83) 4.

a fim de investir naquilo que não é dito pelas travestis no trabalho de Kulick e então tensionarmos o seu método etnográfico. Assistente de pesquisa e comunicação no Observatório de Sexualidade e Política (ABIA). Suas pedras não deixam que a vida seja lisa e fácil. um antropólogo que fez uma etnografia com travestis prostitutas em Salvador. a não-mortificação do outro. Mestranda em Sociologia pela Universidade Federal Fluminense. Na intenção de pensar a partir de Bakhtin. Escolhemos-na a partir da leitura de Don Kulick. em corpo e em beleza. BANANA O chão emite barulho. Desta forma. Sexualidade INTRODUÇÃO A seguir. São pedras de sabe-se lá quando. Ela nos permite perceber a ficção que nossos compartimentos metodológicos e políticos promovem e aos quais levamos a sério ao ponto de estruturar nossas vidas para nós mesmos e para os outros. Baseados de forma livre em suas escrita. A travesti é escolhida aqui pela sua potencialidade de bagunçar as categorias que tentamos imprimir na ciência quando pensamos em gênero. Assim. já é um campo de batalha. a travesti. Pretendemos encher as palavras. Essa articulação foi pensada para exercitarmos um dos objetivos de Bakhtin. queremos tornar autor e personagem em dois personagens que conversam de forma equipotente. ou melhor. daremos início a um trabalho que teve como objetivo articular saberes sobre e com a travesti brasileira da Bahia no formato de herói. Corpo. RESUMO 174 O trabalho exposto a seguir é uma experiência de CACILDA interrelacionar saberes da antropologia. onde a mesa é posta para verdades ambíguas e conflituosas. deslocá-las e tensioná-las a partir de uma personagem que. Formada em montagem e edição de filme pela Escola de Audiovisual Darcy Ribeiro. em sexualidade. a travesti RODRIGUES. que faz uma etnografia junto a travestis em Salvador. heroína. postos em lugares iguais. Rajnia de Vito Nunes 63 RODRIGUES. na Bahia. 64 Graduada em Licenciatura em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense. assim nos e os mortificando igualmente. Pesquisadora do Grupo Atos/UFF. responsividade de forma articulada às escritas de Don Kulick. Tem que ter cuidado por onde pisa. contra-palavra. em si. podemos deixar que suas vozes se encontrem e que resultem num encontro entre dois. da história e da filosofia da linguagem de Bakhtin a fim de promover um texto que promova uma corporificação a um objeto das primeiras disciplinas. Já apoiava o chão das primeiras putas brasileiras e 63 Graduada em Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. pensamos as falas de Banana. temos em consideração conceitos como exotopia. Giulia de Vito Nunes 64 Palavras-Chave: Escrita dialógica. CORPOS .

É óbvio que o povo fala. pronto. No meu quarto. Ou sou? DON E BANANA Preciso me montar. elas serem as mulheres com quem os portugueses saíam a eventos sociais. metade prateada. tem suor. Não tem luxo não. Ele argumentava que a influência africana foi essencial para a característica cordial. a prostitutas em Salvador conseguiam se estabelecer e tinham mais riqueza do que as próprias senhoras brancas. Fico linda. pro outro. olha para o outro. Gostosa. que estabeleceu o ethos brasileiro e a família patriarcal brasileira. sabemos nos cuidar. utilizamos como referência e adaptamos livremente o trabalho etnográfico de Don Kulick. Em sua pesquisa. Não era como se pensava65. Além disso. Talvez para se aquecerem ou se protegerem. Mas não são eles que pagam as minhas contas. tem uma janela bem de frente pra porta. Aqui em Salvador e vida não é fácil não. exaltando a aparente cordialidade com que escravos negociavam por sua sobrevivência e manutenção da sua família ao longo do tempo. ganhar coisas finas. engordavam e nos batiam. sexo. Será que uma dessas bichas pegou a minha pinça? Pronto. daqui a pouco os homens chegam. enquanto seu cabelo voa e estala cortando o ar. Estica-se para alcançar a pinça que estava no pote junto a mil outros objetos de pintura. amigueira e doce presente nas falas. Tem sangue. eu falo pra eles. eu não sou mulher. As meninas moram aqui no segundo andar. Olha essa sobrancelha e esse pelo aqui no buço. Não teve nada de cordial. Cadê aquela pinça? Ela olha para um lado. agora a gente tem que pagar um dobrado66. nos carinhos com que os filhos eram tratados e com que os homens eram cuidados. Do lado de lá só vejo a parede do vizinho. Os crackudos pagam menos e moram no andar de baixo. Agora. ele coleta evidências de que muitas mulheres escravas conquistavam a sua independência ao se relacionarem com um senhor de engenho que as enchiam de joias preciosas. ele argumenta que a formação brasileira se deu no encontro fraternal entre as culturas africanas e portuguesa. é maquiagem. "Travesti: prostituição. querido. ele negligenciou os conflitos que aconteciam nas trocas diárias. a gente que botou tempero nesse angu. Um cigarrinho antes porque nóis não é santa. A gente cria o tempo todo. Nunca foi. Peraí. Então se aproxima bem do espelho. Você tem um corpo que muita mulher não tem. enquanto a esposa ficava em casa e passava a sua herança ao marido. Deixar ela espelhar na minha pele escura. de 2006. A gente adocicou as palavras. Nós. Mete logo senão vai murchar. Um olhar cansado e irritado. metade misteriosa. Mas não é por causa de você não. Se antes a gente podia ser mulher de um homem só. Eles ficam loucos. mas pelo menos entra luz. Apesar do protagonismo negro na formação de seu argumento. O Renatinho quer que eu fale que eu gosto de ser putinha. 3 Gilberto Freyre ainda é uma das grandes referências para uma teoria da formação da "sociedade brasileira". 67 A partir daqui. a gente que deu pros portugueses. mas vem dar uma olhada no nosso cantinho pra tu ver se não é gostosinho. ver Robert Slenes (2011) e Mariza Corrêa (1994). tem gozo e teve sonho nos remendos dessas pedras. Mas se aquele homem acertou em alguma coisa foi na força. putas. a gente que trabalhou enquanto esses brancos coçavam o saco. Meu peito lá no pescoço. Ah. na comida. Gosto de dar. Adoro brincar com ela na cama com um cliente. Se uma coisa que as travestis têm. E como eu disse. imóveis etc. (Para mais informações sobre a crítica a Freyre. Já passei creme e óleo nesse cabelo mas hoje ele não tá legal. parte no meio. amontoados lá quase67. gênero e cultura no Brasil". Mas a gente cansa também. Gosto de sexo. a gente tem que pagar pro seu Luiz por esse apartamento de merda. Quem não gosta é mulher casada há 20 anos que não goza há 30. Banana joga o cabelo pra lado. de 2013. Em seu livro "Casa-grande e senzala". 175 dos primeiros colonos filhos da puta. Eu gosto mesmo. Aí que eu fico doida e meu pau fica logo duro.) 66 Ainda segundo Freyre. CORPOS .

acoplando dispositivos que a fazem transitar entre sexos. Ai. Volta-se ao espelho. vai até uma caixa e tira uma calcinha preta de renda. Bicha! Não se preocupe não. Nenhuma calcinha limpa? Agora mais rápido. A nativa utiliza a categoria mulher. da gente competir por marido. Seriam o perfeito exemplo da construção do sexo como conceito e categoria fundamental que pode ser descontruído criticamente. Nesse caso. Do que você tá falando.Voltemos à etnografia. Coloca a calcinha CORPOS . óleo pra puxar o brilho. se divide e se hierarquiza. Faz um desenho bem arqueado. músculos mais rígidos. Volta ao espelho desenregecida. Maquiagem pronta. creme de pentear. A tampa de super bonder que tapa os furos das injeções de silicone saíram e às vezes sai um pouco. É assim que eu me destaco e chamo atenção dos boyzinhos. Fixa-se e tira alguns pêlos. Você tem uma tatuagem que eu já vi. Pensando a partir de Bourdieu. quando se utiliza de ritos e performances para se assemelhar a um ideal feminino. sopros mais firmes. virei. É incrível que as travestis suportem ritos que as fazem. por boyzinho. Afasta-se e se olha. A gente se cuida.. Meu pai ainda me batia quando me pegava no mato com Zezinho. Agora você quer vir pra cima de mim por conta de um pouquinho de silicone? Ser mulher é sofrer. Você não adora dar esse cu e desmunhecar? Eu já te vi. cabelo pronto. Pega o lápis de olho e começa a desenhar a sobrancelha. Minha mãe falava que eu iria pro inferno. somos irmãs e ainda botamos silicone uma na outra. Don. visse? O dia inteiro embaixo do sol a pino. Na verdade estariam à margem da margem. Comecei porque assim ganho mais dinheiro do que na roça. A gente faz o que quer. claro. em caráter permanente. aderir a essa vida. o elo do silicone nos une. a gente não escolhe. ela que escolhe a gente. Então seus olhos correm pro lado. dei. Lá vem você de novo. que trabalho de corno. da gente brigar muito. passos mais fortes. Queria virar prostituta. bicha. como que puxando todo o resto. agora falta o quê? Ah.. o conceito de gênero ou de sexo. Como você também é uma das meninas. avista alguma coisa e se estica. Eu queria dar. Eu prefiro seeeeer essa metamorfose ambulante. Aqui na cidade. Mas a gente é mulher também. enquanto as pontas da boca giram levemente para baixo. Aprendi esse truque quando trabalhava no cinema. perfume estrategicamente no cu. travas. não importa o que ela vê. Fixada e fumando. Tá quase na hora de repor o meu. Deixa de ser literal. as travestis não estariam em lugar nenhum. a sua própria agência e estrutura. Mas então você se categoriza como mulher? Interessante. Ela funciona. Oxi. apesar do nosso falar forte. O que ela vê quando se olha no espelho? Segundo Butler. Nós. Ela leva a mão a cabeça. Banana atravessa o pequeno quarto até a cômoda e abre uma das gavetas. Só por que dói e é "permanente"? Tanta gente faz coisa pior. Então ela pisca. 176 visse? Passei hidratante. se protege. Um dia te chamo para uma sessão. Naquela escuridão toda. só assim pros homens distinguirem a gente. É jeito de s expressar. pelo menos temos o elo do silicone. Arqueia mais as sobrancelhas. são conceitos construídos e legitimados historicamente e que vão estruturar a forma como a sociedade se organiza.E os homens que pagam pra comer a gente? Eles são o quê? São viados? E os que pedem pra gente comer? Ser mulher é difícil. essas seriam pessoas que conseguiriam sobrepor à estrutura estruturada. Tem gente doida que se pendura em ganchos. gringo? A vida acontece e você falando essas palavras difíceis aí? É simples.

anéis de proteção. já com os cantos de volta para o seu movimento direção acima e mostrando os dentes. Aí que tá. Em uma pequena prateleira. da cabeça aos pés. É a porra do pau. Dar é arte. ou ter meu corpo ou comungar com meu corpo. eu tô te respondendo. Um carro para na frente de Banana. Levanta o tronco. Sou uma mulher com pau. você! Pode me olhar. Sou uma trava e uma puta. inclusive. Isso te confunde? Puxa-os para trás enquanto estica a calcinha na frente e pressiona com força o pau contra o períneo e a calcinha o segura lá. hein. a gente fica toda esburacada. Quando o sol já dera lugar à escuridão límpida e taciturna da noite. CORPOS . puxa o escroto e o pênis. quando sua irritação dominara o céu. uma mulher estranha. 177 pelos pés. de Iansã. mon amour? Não adianta sair de fininho. gira a escápula e desliza o braço da frente para as costas de baixo para cima. Agora sorrindo. Eu não sou mulher. Num vou nem falar nada. Muito melhor do que muitos que você vê por aí. que acompanhava a fumaça do cigarro. com as luzes apagadas no interior. vestiu o vestido e em seu decote. Com os peitos. agora vem cá. É assim que a gente pega os manés. Você acha que eu sou estranha? Ah. Olha-se. Tem homi que fala que nós somos mulher com pau. Cê me olhou. Maiores que os seus. Toda me querendo. Sou um deserto. formando anéis de fumaça. Ah. um depois o outro. fala direito. alcançando-os com os braços longos mas pára nos joelhos. Você tá me mapeando toda. dessa vez com as duas mãos e então dá um tapa leve na parte da frente. Então se agacha com as mãos nos joelhos e com as pernas afastadas para não deixar a peça escorregar. É de todo mundo. Pois é. Aff. a imagem de Nossa Senhora. quando dá errado. a gente chama atenção. Ei. para então descer de novo até a bunda. por baixo do peito. a limpeza promovida pelos santos. Eu uso os dois. Pode querer. Mas vê-se o brilho duplo das lentes dos óculos de alguém e um ponto avermelhado em brasa. Don. Olha o rosto e logo desvia o olhar ao reflexo da calcinha. Minha buceta. Mas vale a pena. Nem preciso lembrar o ditado. as luzes da cidade se acendiam no Pelourinho. Tem outros que falam que nós somos homem com peito. Eu sei que você tá me querendo também. não fica sem graça. Nasci Bentinho. Deixa eles acharem o que quiserem. Me olha que eu gosto. sem começo ou fim. cê num sabe como dói. Esses pés e essas mãos são grandes mesmo. E todos me querendo. Sou uma sereia. pedras. Eu piso firme. roubar faz parte. Depois então anda até o altar de diversos santos que tem. Abaixa esse vidro e olha de frente. Ela alisa de novo a calcinha. todos me querem. Sofri muito por eles também. num olha de rabo de olho não. ervas. quando a gente coloca muito de uma vez só. Às vezes. Mas Banana é meu nome artístico. Sou um homem com peito. de Iemanjá. Quer saber. Depois de protegida. um copo d'água. Banana deixa velas. Entre as nádegas. E tenho peito sim. escondeu uma pequena tesoura de unha afiada. A gravidade não é cafetão desse corpo aqui. Nessa posição. To te dizendo. Que tal essas pernas aqui? Tá bom pra você. Como não é meu? Eu trabalhei muito e paguei caro por eles. adoro meus pés grandão. Ela recolhe um incenso que já estava aceso e enchia o quarto de uma fumaça acinzentada que levava para fora. por baixo da porta espremida. Querem ser meus amigos. Banana então pegou o incenso feito de folhas e rodopiou sua mão.

KULICK. FREYRE. quando a gente compra aquela saia. Ou deixar de ser pobre. Ser pobre e preto tem seu valor. Ele só fica ali. A vida é a batida de um coração. Mas a cor da pele já nos distancia mesmo quando estamos perto. REFERÊNCIAS BAKHTIN. Casa-grande & senzala: formação da família brasileira sob o regime da economia patriarcal. São Paulo: HUCITEC EDITORA. gênero e cultura no Brasil. escrevendo naquele danado caderno. Mikhail. ou pelo menos me elogiaria. Estética da Criação Verbal. A gente não fica se enganando com teorias que criam ficções sobre a realidade. A gente tem os santos dos nossos lados. 2013. quando a gente tá cheia de tesão. _____. com olhos profundos. pode ser bom também. Mas eu vejo como ele nos olha. 2006. _____. São Paulo: Pedro & João editores. me daria opinião. quando a gente é feliz. 1997. né. Uma amiga me ajudaria. São Paulo: Martins Fontes. Eu me arrumando e ele só me observando. Todas nós de um lado e ele do outro. A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Travesti: prostituição. Deus que me livre. A gente de novinho já aprende as coisas da vida. quando a gente consegue comprar a televisão pra nossa mãe. 178 BANANA Ele é que nem todos os outros. Pode ser até bicha e entender que a gente goste de homem. Gilberto. para não ser confundido. A gente canta e dança e sorri e não envelhece que nem esse pessoal. andar tranquilamente na favela onde eu nasci e poder me orgulhar e ter a consciência que o pobre tem seu lugar. 2012. quando a gente conquista. Pra quê eu quero saber de gênero? Eu quero é ser feliz. É o sangue que pulsa quando a gente tá apaixonada. de longe. sexo. Quando vamos caçar os clientes é a mesma coisa. Don. CORPOS . Para uma Filosofia do Ato Responsável. São Paulo: Global. Essa pele preta aqui sabe muito mais que essa branca. 2013. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz. ser confundido de gringo estudioso por puta bahiana.

tendo em vista a constante violência física e simbólica que muitas pessoas sofrem quando seus corpos são afetados pela questão de gênero. Enfim. para estudar UMA LEITURA DA OBRA O esta problemática atual tomamos a obra da literatura infanto juvenil O menino de vestido (2014) do autor inglês David Wallians. Moacir Lopes de 69 pela heteronormatividade. menina rosa. por exemplo) que nos são impostas antes mesmo de nascermos – menino azul.] Meu corpo é fora da lei Caderno de poesia Teima em ser transgressor Queima na própria folia D este excerto de um poema do poeta Charles Silva podemos pensar as diferentes narrativas que descrevem os corpos e os padrões (vestimentas. pois um menino de vestido sugere de imediato que o personagem é gay. Com a leitura e análise da obra. observamos que. RESUMO Dentre os diversos temas179 da literatura contemporânea tem recebido destaque. quando Dennis vive suas aventuras como diferente (garota). Literatura. Rosiane Gonçalves dos Santos 68 de viver em um cronotopo (espaço-tempo) dominado por uma ideologia hegemônica pautada CAMARGOS. E- mail: lopesdecamargos@gmail. sobretudo para os profissionais que atuam na área da educação.. Campus Bagé. O que justifica nossa escolha por este tema é o fato de este ser de extrema relevância. ele compreende as relações entre cultura. Então. 69Doutor em Linguística. RS. Como somos acostumados a regras heternormativas. personagem central. Prof. Associado de Língua e literatura espanhola/francesa na Universidade Federal do Pampa. bairro. Identidade Tem fomes comprometidas Fomes em tenra idade Terras desimpedidas [. A narrativa se centra em Dennis. escola. ainda que seja um menino. Ao final da narrativa.. em tempos de uma política que seja democrática. o título do livro pode remeter a muitos leitores a ideias de riso.com CORPOS . RS. por exemplo. o leitor percebe que ele segue um novo caminho para buscar sua autonomia nos espaços sociais por onde circula: PRIMEIRAS PALAVRAS casa. o professor que ler/recomendar este livro pode ser 68 Graduanda em Letras Português e Literaturas na Universidade Federal do Pampa. Lisa. gênero e identidade e sua Meu corpo tem fomes respondibilidade ética perante os outros Proibidas Palavras-Chave: Gênero. apesar SANDIM. Campus Bagé. a questão de gênero. Dennis brinca com a noção de gênero ao se vestir de menina e passar por uma aluna francesa na sala de aula de sua escola. Ou seja. ele já recebe toda a carga negativa de ser efeminado. E. é afeminado. e sua relação com MENINO DE VESTIDO o pai e amizade com uma colega de escola. o que o desvaloriza como sujeito e também revela o lado negativo e frágil que muitos comentam quando o tema feminino vem à tona.

especializada em moda feminina. pois consegue ser cortejado por um colega. Ao se dedicar ao futebol. Mas. ou seja. ele também aprecia os vestidos da revista Vogue. Os dois passam horas apreciando e folheando a coleção de revistas. disfarçado de aluna estrangeira. reféns de nós mesmos. Abandonado pela mãe aos nove anos. ter o livro confiscado. Ele acha mais divertido os vestidos e trajes femininos do que as roupas sem graça feitas para os homens. Ao tentarmos esconder de nós mesmos. dentre outras coisas absurdas que vemos a cada dia como notícia em momentos fragilizados de desgoverno. criou uma série de regras de convívio que afetam diretamente Dennis. muitas vezes. o que acarreta sua expulsão da escola e uma constrangedora visita à sala do diretor que CORPOS . sem ser julgado ou apontado. nele mesmo. por culpa ou até mesmo vergonha. criamos em nosso interior o que a psicologia denomina de conflito interno. O pai. A narrativa mostra que esta paixão do garoto por moda é uma característica bastante acentuada em sua personalidade. nossos sentimentos. 180 demitido. pouco ou nada afetuoso e depressivo que após ser abandonado juntamente com os filhos. nota-se. recluso. seu pai e seu irmão. ousando até mesmo ir para a escola passando-se por uma aluna francesa de intercâmbio. com 12 anos. vive com o que sobrou de sua família. desdobra-se em situações divertidas. principalmente um vestido amarelo florido que estampa a capa de uma revista e que se assemelha muito com um que sua mãe usa numa foto meio chamuscada que ele esconde. sendo esta a única lembrança que tem dela. por parte do autor. com brigas frequentes. ele passa a ser o principal jogador de seu time na escola. Sua vida tem uma reviravolta quando conhece Lisa. o que contrasta com sua inocência ainda não maculada pelo machismo pseudomoralista. queimado. Mesmo assim. algum cuidado para demonstrar que os três se esforçavam bastante para viverem de maneira semelhante a uma típica família. Sua aventura de salto alto. Vivemos. principalmente abraços. sufocando emoções e sensações que poderiam ser plenamente vivenciadas. Dennis. passa desapercebido aos olhares de seu melhor amigo e ainda assiste uma aula de francês. É nessa realidade que vive Dennis. Dennis encontra meios para fugir dessa triste realidade. Seu “outro eu/ela” acaba sendo descoberto quando sua paixão por futebol fala mais alto que sua paixão por vestidos. Dennis descobre que ela nutre as mesmas paixões que ele: a moda e as revistas Vogue! O fruto dessa amizade são as frequentes visitas que Dennis faz à Lisa. rótulos ou estereótipos que os outros nos nomeiam e nos violentam. pois na casa é extremamente proibido qualquer manifestação que remeta as lembranças da mãe que os abandonou ou demonstrações de carinho. É justamente numa dessas visitas que Lisa sugere que Dennis vista-se como menina. sendo que agora ele pode ser livre para fazer tudo aquilo que suas regras de convívio não permitem. acabamos não experenciando momentos que poderiam ser de muita aprendizagem. sem sequer saber uma frase completa no idioma. o que acaba revelando um processo de alteridade pois ele acaba descobrindo seu “eu”. personagem principal da obra O menino de vestido do autor inglês David Wallians. mas pelo medo dos pré-conceitos. Com o irmão Dennis mantém uma relação típica de adolescentes. a menina tipicamente popular na escola devido a sua beleza.

inclusive a relação de Dennis com seu pai que de conturbada. mas sim o sentimento de confiança e amor fraterno recíproco. CONSIDERAÇÕES FINAIS Um aspecto na obra que aparentemente deixou uma lacuna foi o seu final que pareceu ter sido abreviado. Mesmo assim o escritor comete um deslize quase homofóbico ao afirmar que “andar de salto alto é difícil. nenhuma lei determina que homens não possam usar vestidos. E quando o assunto tem nosso corpo como ponto de atenção a moralidade nos policia. desvia das normas e renasce. desejos e fetiches. A obra traz ainda uma verdadeira demonstração de amizade. que supera qualquer adversidade. afinal de contas. de fuga da lei. de renovação. de uma hora para outra. não determina sua orientação sexual. pois ao demonstrar que a sociedade reprime quem expõe ou expressa seus sentimentos (de forma feminina). um menino vestido com roupas de menina em uma instituição respeitosa como uma escola? Nesse aspecto o autor foi bastante feliz. até onde sabemos. mostrando que a ideologia cotidiana tem seu dia de festa. usar um vestido ou qualquer outra peça do vestuário feminino. afinal de contas nossas escolhas. de uma existência infeliz e opressora ou então até mesmo para receber um pouco de atenção. demonstrando que os sentimentos podem aflorar e se modificar sem o embasamento de palavras bonitas. Mas o livro tem inúmeras mensagens proveitosas. que a sociedade insiste em recriminar quando são expostos. mas que ele nunca andou”. 181 o humilha impiedosamente por sua atitude impensada e nada usual. Recheado de gravuras. pois não é o que vestimos que determina quem somos ou o quanto amamos e somos amados pelas pessoas que nos são próximas. uma vez que os corpos devem seguir as normas e padrões sociais para meninos e meninas. passa a ser saudável e afetuosa. nem sempre são tão diferentes das convenções que hipocritamente abominamos. como se dissesse “homens não usam salto alto”. como por exemplo o fato de que um menino. mas quem tem coragem carnavaliza corpos. pois onde já se viu. mesmo que de modo inocente e despretensioso. pois se o fazem pode ser pelo desejo de se livrarem das amarras dos rótulos e imposições sociais. sem dar maiores explicações. ou um homem. Finalmente. os desejos e os sentimentos encarcerados e reprimidos dentro de cada pessoa. um ponto bem abordado pelo autor foram as humilhantes críticas e ofensas que o diretor da escola faz ao personagem. sendo que o mesmo não teria condição nenhuma de fazê-las. ou estilo de vida. também abre o questionamento sobre as regras/condutas impostas. o livro nos presenteia a cada página lida. principalmente com a reflexão sobre a dor. CORPOS .

SILVA. Renato Aguiar. 2015. O menino de vestido. David. Trad. CORPOS . Florianópolis. BUTLER. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Teoria do romance I: a estilística. Intrínseca. 34. M. 182 REFERÊNCIAS BAKHTIN. São Paulo: Ed. J. C. Trad. Paulo Bezerra. 2014. Tradução de São Paulo: Ed. Editora UFSC. Denúncias do corpo. 192 p. WALLIANS. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 2003. 2011.

A O CORPO VALORADO EM obra mencionada explora as relações entre os gêneros masculino e feminino a partir da inversão das performances de gêneros na sociedade LA MAJORITÉ OPPRIMÉE: contemporânea e semiotiza. Vemos os corpos representados na obra como elementos valorados ideologicamente. Os conflitos sociais em embate no signo ideológico transcendem na obra a partir da semiotização no curta metragem. curta metragem francês. RESUMO Este artigo se volta à análise 183 discusiva do corpo semiotizado no curta metragem francês La Majorité Opprimée (2010). Corpo INTRODUÇÃO O presente artigo tem como objetivo analisar a semiose dos corpos feminino e masculino em La Majorité Opprimée71. há como objetivo analisar como se inscrevem tais embates ideológicos nos corpos representados na obra. culpabilização da mulher violada e de censura ao corpo da mulher. E-mail: barbaramelissasantana@gmail. Na inversão. semiotiza os conflitos ideológicos inerentes ao corpo físico da vida.com 71 Link de acesso ao vídeo mencionado https://www. os corpos feminino e masculino e os embates ideológicos que os demarcam no mundo da vida. tomamos como fio condutor as discussões do Círculo sobre o signo ideológico e sua dialogicidade dada por meio da linguagem. dirigido por Eleonore Pourriat. Bárbara Melissa70 ideológico do sistema patriarcal Palavras-Chave: La Majorité Opprimée. Na narrativa o protagonista passa por episódios de assédio. papéis de gênero masculinos são vividos por mulheres e papéis de gênero feminino são vividos por homens. pois pertencem ao domínio da arte e são parte do enredo do curta metragem. respectivamente. O enredo da obra se dá em torno de um dia na vida do protagonista que vive em uma sociedade às avessas em que as relações de gênero são invertidas e os sentidos de machismo e feminismo são deslocados. estupro.youtube. dirigido por Eleonore Pourriat e lançado na rede social Youtube em 2011. para femismo e masculinismo. La Majorité Opprimée como obra artística semiotiza valores quando traz para o texto o que há na vida e consequentemente. dado que o signo ideológico refrata e reflete esses conflitos da vida para a obra e da obra para a vida. A partir do arcabouço semioses e embates ideológicos teórico-metodológico do Círculo de Bakhtin e o conceito de signo ideológico. que se estrutura a seguir em um tópico de discussão teórica em são apresentados 70 Mestre e Doutoranda em Linguística e Língua Portuguesa. Para tratarmos dessa representação de valores na obra. A dicotomia entre os corpos representados em La Majorité Opprimé semiotiza os conflitos sociais vivenciados pelas mulheres em relação a seus corpos no sistema patriarcal. Signo ideológico. por meio de sua constituição estética.com/watch?v=bHJqNpJ8xAQ&t=2s CORPOS . As discussões realizadas neste estudo apontam que o corpo semiotizado é valorado culturalmente a partir das relações entre sujeitos no horizonte SANTANA. Esse embate de ideologias refletidas e refratadas no corpo semiotizado é o cerne da reflexão aqui proposta. Membro do Grupo de Estudos Discursivos.

). 1997. 41). justificado. p. etc. nos encontros fortuitos da vida cotidiana. em que se discute a relação de diálogo existente entre as ideologias e como essas ideologias se posicionam em determinadas esferas sociais ao mesmo tempo que influenciam outras esferas. Tudo que é ideológico possui um valor semiótico. ideológica e cultural que a ele se vinculam: Os signos também são objetos naturais. a discussão é concluída a partir do diálogo entre as demais partes do texto. 41). como vimos. 1997. 32) Nesse sentido. correto.” (BAKHTIN CORPOS . um sentido que ultrapasse suas próprias particularidades. As manifestações ideológicas que sinalizam tentativas de enquadramento e “cristalização” das expressões de gênero feminina e masculina são provenientes da infra e da superestrutura. (BAKHTIN (Voloshinov). Em Marxismo e Filosofia da Linguagem. pois ela se insere em múltiplos contextos sociais. Portanto. específicos. A questão central é compreender “como a realidade (a infra-estrutura) determina o signo.” (BAKHTIN (Voloshinov). Ele pode distorcer essa realidade. Voloshinov evidencia “o problema da relação recíproca entre a infra-estrutura e as superestruturas” (BAKHTIN (Voloshinov). encontra-se também o ideológico.. um tópico seguinte de discussão analítica em que são trazidos para o texto recortes de cena como objeto de análise articulados com a teoria do Círculo de Bakhtin. semiotizada no enunciado. Essas manifestações se materializam na língua e emanam na fala. nas de base ideológica. A vida está. o ato enunciativo. Ao final. etc. Flexibilidade e pluralidadade. assim. em razão das valorações da palavra e do discurso. A análise desse nível direciona a palavra enquanto signo ideológico e como material semiótico que infere essa natureza semiotizada no enunciado e consequentemente na vida. ele também reflete e refrata uma outra. se torna impossível abordar ideologias sem se apropriar e analisar a língua em uso pelos falantes. falso. 1. IDEOLOGIAS EM CONFRONTO O signo ideológico é constituído mediante contratos sociais. todo produto natural. outro aspecto relevante nessa problemática é a flexibilidade e a pluralidade da palavra e do signo. O domínio do ideológico coincide com o domínio dos signos: são mutuamente correspondentes. Em decorrência dessa apropriação ou discordância de ideologias no nível da língua e da potencialidade ideológica do signo. em que ocorre o embate com as ideologias das super e infraestrutura. etc. 1997. e. as ideologias são analisadas nesse nível. nas relações de colaboração. assim como a reverberação de determinados discursos ocorre de acordo com as ideologias dominantes e as infraestruturas sociais.] a palavra penetra literalmente em todas as relações entre indivíduos. ser-lhe fiel. Ali onde o signo se encontra. A importância dessa natureza do signo decorre da valoração social. 184 pontos da teoria bakhtiniana utilizados na análise. Um signo não existe apenas como parte de uma realidade. portanto. ou apreendê-la de um ponto de vista específico. Todo signo está sujeito aos critérios de avaliação ideológica (isto é: se é verdadeiro. além da natureza semiótica da palavra. nas relações de caráter público. como ressalta Voloshínov “[. no nível individual da língua. pág. bom. como o signo reflete e refrata a realidade em transformação. p.. ou seja. tecnológico ou de consumo pode tornar-se signo e adquirir.

esse “confronto de interesses” representa especificamente a luta de classes sob o tom socioeconômico e a divisão entre classes em decorrência de poder aquisitivo. O sujeito mulher feminista representado em La Majorité Opprimée. onde. constrói o gênero do sujeito. 2015. de uma classe natural de ser. ocorrem valorações que determinam o gênero. A valoração do signo são os elementos que constroem a mulher como sujeito feminino. provenientes de diversas ideologias que em embate. o sujeito se refrata nele. ao se refratar no signo. que ainda não tomaram forma. 1997. As modificações no contexto social são mobilizadas pela fala e se dão na infraestrutura e nas relações verbais. portanto. consoante Voloshínov “O confronto de interesses sociais nos limites de uma só e mesma comunidade semiótica. Para a autora: O gênero é a estilização repetida do corpo. os movimentos ideológicos que circulam entre esses dois espaços são o alicerce básico das construções de estereótipos que. p. um conjunto de atos repetidos no interior de uma estrutura reguladora altamente rígida. na ideologia cotidiana: [. É nas relações da realidade. como mencionado anteriormente. 185 (Voloshinov).. nas relações entre sujeitos. Em La Majorité Opprimée o quadro apresentado representa um tipo de luta entre direitos de gêneros.” (BAKHTIN (Voloshinov). Essa condição de refração do sujeito no signo sinaliza. p. O corpo. 41). pois confronta a ideologia hegemônica do patriarcado e responde a ela sob um fundamento feminista. é constituído como tal por meio do ato. 46). Além de ser refletido no signo ideológico. como dito anteriormente. se opõem ou se reafirmam. p. Em Marxismo e Filosofia da Linguagem. cristalizam o gênero. na palavra. 1997. ou seja: a luta de classes. que na obra aparece presumido na inversão entre performatividades de gênero feminina e masculina. em que há questionamentos e confrontos ao discurso oficial. O discurso e as ideologias patriarcais são desse modo refletidos e refratados no signo. em que no lugar da classe social desfavorecida. representa o embate entre “índices de valor contraditórios”. como dado social valorado. há a mulher em desvantagem em contraposição à supremacia masculina. No nível da fala.. Além de a infra e superestrutura serem pontos fundamentais na análise do complexo social. p. O signo fundamenta todos os domínios do conhecimento e as relações sociais que o configuram. (BUTLER. que ainda não abriram caminho para sistemas ideológicos estruturados e bem formados. a qual se cristaliza no tempo para produzir a aparência de uma substância. ocorrem as valorações de gênero.” (BAKHTIN (Voloshinov).] a palavra será sempre o indicador mais sensível de todas as transformações sociais. mesmo daquelas que apenas despontam. que ocorrem as valorações de “feminino” e “masculino” nos enunciados e na palavra. 1997. como demonstra a arquitetônica de inversão de La Majorité Opprimée. a palavra emana as transformações sociais que se dão ao nível da fala. A linguagem. Por representar o lado social da linguagem no nível do sujeito além de representar a ideologia hegemônica. Ele é amorfo e composto por incontáveis fios sociais. nas infra e superestruturas. 69) CORPOS . conforme Butler. 41). pela língua e mediante a palavra.

a problemática da inscrição do corpo no sistema. Como visto. incorporando-se como um discurso rotulador enraizado nas infra e superestrutura. com os discursos e a sociedade. assim como as ideologias e valores que os permeiam. a formação do gênero feminino e masculino se desvincula da pressuposição natural e binária de homem e mulher e acontece a partir dos discursos e da formação cultural do sujeito. uma mulher sem camisa e de outro. acaba originando estereótipos de identidades femininas. 69). trans e masculina. é uma construção discursiva construída social e ideologicamente. a polarização desses corpos CORPOS . o jogo de valorações inerente ao modo como os corpos feminino e masculino são representados são aspectos que resgatam o embate ideológico intrínseco ao patriarcado. Essa bilateralidade da concepção do gênero pelo viés discursivo gera dois pontos sobressalentes: Primeiro. como concepção de gênero. A concepção de gênero se dá em meio aos enunciados e discursos. ele torna-se mulher. há um consenso de que o sujeito constrói sua identidade de gênero discursivamente e. No plano visual. as práticas discursivas que configuram os gêneros e a performance são cristalizados pela ideologia hegemônica. Butler problematiza essa cristalização levando em conta o tom negativo que a cristalização das práticas discursivas gera à construção dos gêneros. esse “fazer discursivo” do gênero. Butler convoca um conjunto de ideologias superiores. portanto. em palavras claras. A concepção da mulher e os fazeres que a contornam são composições e valorações que emergem de acordo com a relação do sujeito com seus outros. convenções sociais calcadas em ideais provenientes da ideologia hegemônica. na linguagem. O CORPO VALORADO A construção arquitetônica de La Majorité Opprimée ressalta. nos confrontos de vozes sociais. Butler provoca a ideia de que se o sujeito pratica determinados atos do “ser mulher” predeterminado política e culturalmente. 2. inferidas discursivamente pelas superestruturas e dialoga com as questões de relação de poder que acontecem na linguagem. entre outras questões. E em segundo lugar. ou seja. O sujeito mulher é uma realização que se dá em razão do discurso. um homem vestido. a partir de seu outro. portanto. Ao trazer “estrutura reguladora altamente rígida” (2015. portanto. A estudiosa questiona a hegemonia de instituições que influenciam e determinam práticas reguladoras do gênero e discute a pressuposição de que a repetição de determinadas práticas garantem a formação de identidades de gênero. Na figura 01 há um confronto entre a valoração dos corpos no curta metragem. O “ser mulher”. A consagração da repetição de “modos de ser mulher” pelo poder hegemônico – que se baseia em princípios que favorecem a ideologia econômica e política – nesse sentido é analisada por dois focos. Nesse sentido. p. O corpo coberto/ velado x o corpo livre/ à mostra. Os valores ideológicos incutidos no comportamento e na postura das personagens homem e mulher são reverberados no modo como o corpo feminino e masculino são representados na obra. De um lado. 186 Os estereótipos e as identidades de gênero são.

La Majorité Opprimée coloca em cena o embate ideológico entre o que é o corpo feminino e o que é o corpo masculino na sociedade feminista retratada. Figura 2: O homem vestido e a mulher sem camisa Fonte: https://www. que representa na obra a voz machista. A mulher. censurado. Esses elementos visuais da cena se concretizam como signos ideológicos que reverberam índices valorativos da sociedade retratada e ironizada no curta metragem. Há uma construção histórica e cultural sobre esses corpos que é concretizada na obra por meio do confronto entre o corpo livre e o corpo velado. 2015 Na figura 2 há a sequência da materialização da dicotomia entre os corpos feminino e masculino na obra. de um lado sem camisa. como nas figuras 02 e 03. Há um confronto hierarquizado que perpassa o lugar social desses corpos na sociedade femista. O corpo masculino é livre para CORPOS . O próprio teor do diálogo retratado na cena denota sobre os índices de valor que embasam a relação entre os sujeitos representados.youtube. O homem. posicionado ao fundo. O não vestido. em contraposição ao vestido. Não são apenas corpos biológicos. 187 denota uma configuração social que os constitui socialmente como tal. a mulher corre. Em outros momentos do curta. do lado direito.com/watch?v=bHJqNpJ8xAQ&t=2s. enquanto o homem se esquiva. ele denota a construção social de que o corpo masculino é livre e o corpo feminino. são corpos valorados social e culturalmente. com respostas rápidas e se afasta. aparece empurrando o carrinho de bebê enquanto no primeiro plano. a mulher. está sem blusa enquanto o homem empurra um carrinho de bebê. Neste caso. O corpo vestido e o corpo não vestido trazem ecos do sistema em que se inserem as relações entre gêneros. sem camisa. denota mais que uma escolha dos sujeitos em vestir-se ou não. No primeiro recorte de cena. interpela o homem em um tom de assédio. e a dicotomia entre esses dois corpos é nítida na constituição estética da cena. o corpo feminino é colocado em foco e há uma tensão gerada pela censura a esse corpo.

bem como o foco nas pernas.youtube. ainda que de forma mínima. como o peito e a gola da camisa que ele está abrindo. Expor o corpo é. O ato desse sujeito semiotizado no texto é perpassado por valorações culturais e ideológicas da vida. por sua vez. com apenas alguns botões abertos. Nos recortes seguintes (Figuras 03 e 04) existe um zoom que foca em determinadas partes do corpo do homem. Figura 3: O homem e a mulher andam na rua Fonte: https://www. que pode ser mostrado e o corpo feminino velado. um ato que remonta à culpa atribuída à mulher caso seu corpo seja violado. no momento em que ele puxa a bermuda no intuito de cobrir suas pernas. da vida. O desabotoar da CORPOS . oposição entre a naturalização do que é semiotizado na obra como o corpo masculino livre. Na figura 02 se destaca a oposição entre como são as construções sociais de homens e mulheres na sociedade contemporânea. esse foco mostra a perspectiva social e as valorações que entornam o desabotoar da blusa. enquanto o corpo feminino deve estar coberto. 2015 Como elemento visual. A censura ao corpo feminino na obra é observada ao longo da narrativa e no diálogo entre os elementos de cada cena. São duas focalizações diferentes nesse corpo estético que semiotiza o corpo feminino do mundo ético.com/watch?v=bHJqNpJ8xAQ&t=2s. A câmera foca no peito do personagem e na gola da blusa assim como a sociedade foca o corpo da mulher quando ela o expõe. o enfoque no desabotoar da camisa e os olhares preocupados da personagem para os dois lados da rua denotam o aspecto valorativo do ato de desabotoar a blusa e expor essa parte do corpo. 188 estar ou não coberto. Esse enquadramento cênico tem como foco o ato responsível e responsável desse sujeito e as valorações sociais e culturais refletidas e refratadas no ato. Quando a câmera se volta completamente ao enquadramento da gola da blusa. O ato de abrir o botão da camisa reverbera a objetificação do corpo feminino na sociedade assim como a censura a esse corpo.

ocorre mais um enfoque da câmera em seu corpo. por sua vez. Figura 4 O foco na gola do homem Fonte: https://www. Nessa circunstância. essa exposição denota uma provocação ao homem e indica que a mulher está se colocando em uma condição de vulnerabilidade ao assédio e ao estupro... aludindo à possibilidade de o protagonista estar inventando o ataque que ele sofreu. no qual o protagonista está sentado na delegacia reportando o estupro do qual foi vítima. o personagem é intimidado pela delegada que o atende. que é só dele e por meio da qual esse sujeito responde aos outros que o envolvem. ele os abre e esse ato incute um desafio à ordem patriarcal. Nesse embate. Interessante huh?”. O ato infere o posicionamento axiológico do personagem que assume uma postura sem álibi e singular.. Pelo olhar patriarcal. Esse cruzamento consiste no desejo da mulher de vestir-se à vontade em embate com a cobrança e censura a esses atos que a colocam em situação de vulnerabilidade. 189 blusa pela mulher consiste em mostrar mais o corpo da mulher.com/watch?v=bHJqNpJ8xAQ&t=2s.youtube.e nenhuma testemunha. o fato do homem abrir a camisa e o enfoque da câmera nesse momento da cena também representam o confronto da personagem com o discurso patriarcal que lhe impõe o medo de abrir os botões. sentada à sua frente e que ao ouvir seu relato sobre o caso (Figura 04 e 05) ironiza que “Em plena luz do dia. expor o colo e seios. constituem o personagem e também constituem. Embora se preocupe e olhe para os dois lados antes de abrir a blusa. 2015 Em outro momento da narrativa. na interlocução homem-mulher. o sujeito feminino contemporâneo.. que salienta o seu gesto de puxar a bermuda para baixo no intuito de cobrir suas pernas. Figura 5: O foco nas pernas do homem CORPOS . O cruzamento de vozes sociais que ocorre no ato do homem abrir sua gola e os discursos que cruzam esse ato.

em que uma mulher se apoia na parede com o braço. Figura 6: A delegada e o homem (de costas) na delegacia CORPOS .com/watch?v=bHJqNpJ8xAQ&t=2s. enquanto à mulher a roupa curta. onde vemos uma clara contraposição de como são valorados histórico e socialmente esses dois corpos. que como mostra o curta. mas também o tom emotivo-volitivo das personagens. No recorte de cena 03. por exemplo. O embate ideológico é visto na cena quando a mulher passa correndo sem camisa ao lado do homem (Figura 2). como mostra o próprio curta (Figuras 34 e 35). denota uma despreocupação em estar sem camisa. Na figura 01. sendo que o não uso não gera a esse sujeito o estupro. “poder” e “dever” são lexemas de base divergente e oposta. 2015 Esse encadeamento de elementos visuais da obra. o tom com que falam e o modo com que olham.youtube. o mostrar um pouco da perna são gestos socialmente censurados. Não apenas a estética visual das cenas denota o embate ideológico em relação ao corpo. o diálogo das personagens e os enfoques da câmera são elementos materiais do texto que servem de base para pensar nos conflitos ideológicos que fundamentam a representação dos corpos masculino e feminino na obra. Existem juízos de valores que embasam o “poder estar sem camisa” e o “dever estar de camisa”. é uma sociedade que censura o corpo da mulher. “Poder” andar sem camisa é a liberdade de escolha para um homem de usar a camisa ou não em determinadas ocasiões. o desabotoar da blusa. por exemplo. Seus gestos. sem camisa. bem como a atitude incisiva dela estar à frente do homem e tentar continuamente a puxar assunto por meio de assédio. No nível semântico. que geram a culpa à mulher caso ela seja assediada ou estuprada. o zoom da câmera e o enquadramento na gola da blusa é um deslocamento da cena que denota a preocupação com o ato de abrir a gola e essa preocupação em abrir a gola se dá no embate entre as expectativas da sociedade patriarcal. 190 Fonte: https://www. por sua vez.

interpretamos os efeitos de sentido sobre os quais discorremos pois eles tem uma orientação sociológica que se banha no horizonte ideológico da sociedade patriarcal. se deixado à mostra. qualquer objeto da natureza. 2015 Como vimos anteriormente. O aspecto biológico do corpo é um pressuposto que se embate com o olhar social sobre ele. às construções culturais que o envolvem e à forma como a sociedade patriarcal o vê e constrói os sujeitos. as palavras ou objetos expressam índices de valores quando são colocados em diálogo com uma realidade social. Para o Círculo. mas com isso adquirem um significado que está fora do âmbito de sua existência isolada (do objeto da natureza) ou da sua destinação [. é um corpo-convite. O estupro é. o estupro é culpa da vítima pois ele usava CORPOS . convite ao corpo. mas remete à realidade que o contextualiza. Os elementos cênicos que analisamos são signos ideológicos que compõem o todo enunciativo da obra estética. por conseguinte. o corpo é valorado e essas valorações se dão no nível da linguagem. A roupa curta ou a roupa antes do joelho não é uma roupa como qualquer outra. Pelo viés femista explorado na obra. essas roupas deixam à mostra o corpo desejado.. portanto. No caso dos elementos cênicos que temos em vista. nas relações discursivas. o corpo não é um dado biológico apenas. Nessa cultura o curta nos mostra o corpo masculino entendido como um corpo à mercê das mulheres e que. na cultura e nas ideologias. 2013. objeto- corpo. 191 Fonte: https://www. (VOLOSHÍNOV. São signos objetos materiais isolados. p.com/watch?v=bHJqNpJ8xAQ&t=2s. no embate entre ideologias. 193) Nesse sentido. A inversão cultural femista dá a liberdade do corpo masculino às mulheres que entendem o corpo à mostra como um corpo à disposição e. o corpo-objeto. O sentido cultural do corpo ultrapassa seus limites biológicos e é construído na alteridade. uma situação provocada que concerne ao homem que provocou o assédio. como vimos. da técnica ou do consumo pode tornar-se signo..youtube.].

maternal. Há um intercâmbio de vozes imanente ao corpo físico. quando dizemos que o corpo feminino exposto é aceito caso se encaixe em uma situação de erotização e objetificação do mesmo. A liberdade e o controle. na lateral direita. a imagem feminina é. refletido no signo. a Igreja e a Família. O corpo físico. (BAKHTIN/VOLOSHINOV. o patriarcado joga à margem o potencial feminino de ser um líder financeiro da família e também infere essa ideia a outros contextos sociais e profissionais em que se nota a ausência de mulheres em determinados cargos empregatícios em razão de seu ofício doméstico e maternal. aspectos cotidianos que delatam a desigualdade a partir do signo. Ao impor um modelo social de família em que o homem é o líder financeiro e a mulher a principal responsável pelas atividades domésticas e maternais. Vemos que o nível visual da cena (Figura 1) atenua a desigualdade cultural que engendra a relação dos gêneros feminino e masculino. O Estado. o homem ouve. Do lado esquerdo. 46) Nesse sentido. portanto. como dicotomias sociais sobre o corpo. a mulher invade o homem com um assédio mascarado de elogio enquanto está sem camisa. O que é que determina esta refração do ser no signo ideológico? O confronto de interesses sociais nos limites de uma só e mesma comunidade semiótica: ou seja: a luta de classes. estão CORPOS . O corpo da mulher reflete a ideologia machista e também reflete a ideologia feminista. 192 “camisa curta” e “bermudas antes do joelho”. As três cenas observadas ressaltam esses elementos culturais que envolvem a formação do sujeito feminino na sociedade contemporânea. Sob a ótica da inversão. p. inferimos que essa aceitação é um ato social que incute as valorações ideológicas sobre o corpo e reverbera estereótipos de feminilidade. reverberam esse discurso e o oficializam como forma de instituir e confirmar a ideologia machista. Ele é. 1997. que são verificadas na fala da personagem. por sua vez. doméstica e objeto de desejo. O ser. neste sentido. Assim. abrange o embate de luta de classes. em razão do gênero. O modo como se configuram as expressões de gênero masculino e feminino e a forma como elas se empreendem no corpo físico se embasa nos embates ideológicos contemporâneos. O resgate desses machismos verificados no cotidiano se dá na construção verbivocovisual da obra. nos diversos níveis do enunciado. cuida da criança e se cobre. como instituições sociais. o corpo físico reflete e refrata índices valorativos. Essa inversão e o efeito de sentido irônico sintetizam o embate ideológico patriarcal e a construção histórica do que é o corpo feminino na sociedade. a limitam em razão de sua natureza feminina e a privam de usufruir de direitos que homens usufruem. também moldado pelas inferências culturais de seu espaço e tempo. não apenas reflete. que ideológico. A arquitetônica do curta compreende. Nesse embate se colocam em choque as vozes sociais machistas e feministas sobre o corpo da mulher. é pensado a partir da valoração cultural realizada sobre ele. assim como refrata a ambos. O corpo feminino é liberado e aceito na erotização e no desejo masculino sobre a mulher. La Majorité Opprimée parte da maternidade para abranger aspectos outros do patriarcado que encarceram a mulher em estereótipos. Do outro. mas também se refrata.

São Paulo: Hucitec. enquanto que o segundo é representado sem roupa. no exercício do poder de censura ao primeiro. (1992). Sejamos todos feministas. Problemas de gênero: Feminismo e subversão da identidade. por ser objeto do patriarcado. BAKHTIN. 1994. São Paulo: Martins Fontes Editora. BAKHTIN. CORPOS . em um movimento de reflexo e refração que perpassa os limiares entre o mundo da vida e o mundo da arte. M. as ideologias machistas e feministas provenientes do mundo da vida. Isso se dá em La Majorité Opprimée por meio da representação visual dos corpos feminino e masculino em que o primeiro é sempre vestido. M. Tradução de C. São Carlos: Pedro & João Editores. BAKHTIN.(VOLOCHINOV) (1929). O signo. São Carlos: Pedro & João Editores. A censura do corpo feminino em detrimento da liberdade do corpo físico masculino são consensos sociais criados historicamente com base em interesses político ideológicos. M. A. os corpos reverberam índices valorativos e são valorados ideologicamente. portanto. V. Semiotizados na obra estética. BAKHTIN. valorado socialmente como o corpo censurado que./VOLOSHINOV. O corpo feminino é. consequentemente. 2012. Essas construções. BAKHTIN. por sua vez. em um ato maternal ou de censura. BUTLER. 1997. Problemas da Poética de Dostoievski. Para uma filosofia do ato responsável. No embate entre as ideologias femistas e masculinistas são semiotizadas no curta metragem e. M. percebemos uma construção cultural dos corpos que se dá no signo ideológico. São Paulo: Forense. não é livre. Tezza. Marxismo e filosofia da linguagem. Palavra própria e palavra outra na sintaxe da enunciação. Estética da Criação Verbal. no ato enunciativo em razão do índice valorativo a eles inerente. BAKHTIN. C. Madrid: Alianza. 2011. El método formal en los estudios literarios. (MEDVEDEV). materializadas no signo ideológico se referem ao horizonte ideológico da sociedade contemporânea que. São Paulo: Companhia das Letras. 1997. 2011. N. 193 estampadas no espaço da cena. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. é demarcada pelo discurso de autoridade patriarcal. 2015. (1929). BAKHTIN. Os recortes de cena apresentam embates de valores sociais e históricos mediante o signo ideológico. C. enquanto o corpo masculino é um corpo com liberdade sobre si. 2010. M. REFERÊNCIAS ADICHIE. M. a ideologia oficializada. Discurso na vida e discurso na arte: sobre poética sociológica. no mundo da cultura. como elemento ideológico e dialógico concretizado no limiar entre o tema e o contexto socioideológico engendra o diálogo entre as personagens e incorpora na situação. Faraco. na relação dialógico-dialética entre super e infraestruturas. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir da análise realizada. [1926]. M. M. J. Circulação restrita. M. socialmente.

Palavra própria e palavra outra na sintaxe da enunciação. In: BAKHTIN. 2011. São Carlos. V. CORPOS . 2013. VOLOSHÍNOV. V. São Carlos. M. A palavra e sua função social. SP: Pedro & João Editores. 194 VOLOSHÍNOV. In: A construção da enunciação e outros ensaios. A palavra na vida e na poesia: Introdução ao problema da poética sociológica. SP: Pedro & João Editores.

RESUMO 195 Este artigo foi produzido no âmbito de uma pesquisa de doutorado. 2005.nas discussões sobre a relação exotópica entre pesquisador/a e pesquisados/as.com. 72Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Faculdade de Educação da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (ProPEd/UERJ). cujos sentidos produzidos sobre suas diferentes texturas são construídos histórica e culturalmente. na medida em que aponta para a potência das redes de conhecimento presenciais e online na ressignificação de conhecimentos hegemônicos que foram construídos a partir da construção de um projeto de sociedade colonial. Endereço eletrônico: attanaziobkp@gmail. que tem IDEOLÓGICO: uma leitura a partir acontecido de forma presencial e online. Signo Enunciação. SILVA. tomando como base a teoria da enunciação elaborada por Mikhail Bakhtin e seu Círculo e o diálogo com as participantes da da teoria da enunciação bakhtiniana investigação. online. Bakhtin e seu Círculo ideológico. em especial sobre a estética dos cabelos de mulheres negras. a partir de Rita Ribes Pereira (2015). A investigação se fundamenta na Teoria da Enunciação de Mikhail Bakhtin (2006. 2002). dentre outras referências dos estudos de raça e gênero para pensar estas relações na sociedade brasileira. jovens e redes de conhecimento”. coordenado pela ProfªDrª Maria Luiza Magalhães Bastos Oswald(ProPEd/UERJ). Juventude. bem como na literatura feminina de mulheres negras. 2010). CORPOS . Educação e Cultura” (IJEC). que nos auxiliam na compreensão. com base no mesmo autor (BAKHTIN.O diálogo com as sujeitas da pesquisa é o procedimento teórico- metodológico privilegiado do estudo. Esse estudo está articulado ao projeto de pesquisa “Educação e contemporaneidade: crianças.Integrante do grupo de pesquisa “Infância. em curso. A partir do reconhecimento do cabelo como um signo ideológico que reflete e refrata as enunciações sobre ele. buscando compreender que sentidos elas constroem sobre a estética dos mesmos. nos debates sobre a ética nas pesquisas em Ciências Humanas e Sociais. como parte do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior. coordenado pela ProfªDrª Maria Luiza Oswald (ProPEd/UERJ). meu estudo tem por objetivo construir narrativas com mulheres negras sobre seus cabelos. Bolsista CAPES/MEC tendo em vista a realização de doutorado sanduíche no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra. que também orientam e modificam o signo. que tem por interesse pesquisar os sentidos que mulheres negras O CABELO COMO SIGNO constroem sobre seus cabelos. das relações da mulher com a cultura e o cabelo. o texto em questão visa apresentar uma discussão concebendo o cabelo como um signo ideológico. Andréia Cristina Attanazio 72 Palavras-Chave: Cabelo. INTRODUÇÃO A pesquisa de doutorado que venho realizando tem como tema a relação entre mulher negra e cabelo. nas contribuições de Nilma Lino Gomes (2008. sempre parcializada. concebida como teoria social. Nesse contexto. 2011. 1997).

fui me aproximando do Facebook73 como mais uma possibilidade de campo empírico. na materialidade do texto impresso. pela semelhança com as produções de Bakhtin. Entretanto. 74 Disponível em: <http://www. sobretudo entre mulheres. estudos posteriores mostraram que. 2010b) 76 . como se nota. tendo em vista que os seus sentidos são construídos em conformidade com os contextos 73 Maior rede social online atualmente. no âmbito de um complexo e rico trabalho depesquisa. o diálogo com as sujeitas pesquisadas vinha ocorrendo apenas a partir de encontros presenciais com as sujeitas da pesquisa. plataforma para mensagens particulares associada à referida rede social.No curso da pesquisa. 1. instrumento de produção ou produto de consumo. imagens produzidas através do mecanismo Print Screen. é social e ideológica. tendo em vista a efervescência das discussões sobre as estéticas dos cabelos nesta rede social. linguagem e ideologia. 196 Coerente com o objetivo da pesquisa e com os referenciais teórico-metodológicos que a norteiam. em que Bakhtin /Volochínov 75 (2006. em 1929. de imediato. Foi a partir dessas narrativas que a reflexão que segue se desenrolou. transcrições das mesmas. seria dele também a autoria do texto em questão. Sendo assim. muitas foram as questões levantadas pelas mulheres com as quais conversei. aponta as intrínsecas relações entre linguagem e consciência. CORPOS . Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. e adotei o Messenger.pdf>. entretanto.74 Bakhtin/Volochínov A epígrafe com que inicio esta reflexão é parte da obra “Marxismo e Filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem”. dentre outras. documentos de textos em que são salvas no meu computador pessoal os diálogos que são produzidos online. teve a assinatura de Volochínov. Escolho trazer para o princípio dessa discussão a passagem acima porque ela nos permite.edu. ainda. tendo o cabelo como fio condutor. Para as questões que aqui nos interessam. tais como “Problemas da poética de Dostoievski” (2010c) e “Cultura popular na Idade Média e no renascimento: o contexto de François Rabelais” (2010a). tendo em vista que uma me auxilia com as possibilidades de um documento no meio virtual e a outra.facebook. O CABELO COMO DISCURSOS EM DISPUTA Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico. cujo endereço eletrônico é <https://www. para a tessitura do diálogo com as sujeitas da pesquisa. 2010b) nos ajuda a entender que o signo é de caráter vivo e dinâmico. Em outros termos. convidados a partir do meu ambiente de trabalho. Acesso em: 11 set. esse é o ponto de partida. ao contrário destes. Bakhtin /Volochínov (2006. ele também reflete e refrata uma outra realidade.esse encontro com a natureza do signo que. mas. 2017.fecra. em breve um espaço de tempo. tudo que é ideológico é um signo.com/>. que lhe é exterior. 76 Cabe pontuar que utilizei ambas versões da obra citada. em que o conteúdo da tela é inteiramente salvo no computador ou celular e.br/admin/arquivos/MARXISMO_E_FILOSOFIA_DA_LINGUAGEM. o material de pesquisa que tem sido produzido nesse processo são arquivos de áudio com o conteúdo das conversas presenciais. que veio atingindo grande proporção mundial nos últimos anos. 75A presença do nome dos dois autores se justifica pelo fato de que a publicação russa do texto original. nos revelando o papel da linguagem no funcionamento da vida social e o desenvolvimento desta através daquela.linguagem e sociedade.

porque. certamente por razões étnicas. tudo que faz alusão ao que é negro precisa ser de alguma forma embranquecido. mas elas são elaboradas na coletividade de uma dada esfera social. como Giseli78.hierarquizando os sinais diacríticos da cultura europeiae estadunidense em detrimento daafricana.Neste momento. assim. que é para ficar aceitável. 78 Giseli entrou em 2015 na creche onde está lotada. ninguém bota o cabelo pra cima. Pistori (2014. Por esta razão. é valorado com um grau muito menor em relação ao cabelo de fio reto. na sala de Atendimento Educacional Especializado. como já salientado. Ele é móvel porque reflete e refrata a realidade em que está inserido. é Evie77 quem chamo para a conversa. 197 sociais que os abrigam. nos mostra: Quando a gente é nova. coerente com um projeto de sociedade racista. precisa embranquecer de alguma forma. Queria ele baixinho. muitas vezes. é uma coisa que as pessoas têm assim como ‘não é bonito’.” Esse relato de Evie faz menção ao fato de que o cabelo crespo.a opção por exibi-lo “baixinho” faz parte de uma construção social que organiza determinados códigos de beleza. ela trabalhou com crianças com necessidades especiais em processo de inclusão escolar. como professora regular de turmas de crianças com três anos de idade. os seus sentidos múltiplos e variados são sempre sociais. Em 2016. “por toda história de sofrimento do negro.Referindo-se ao procedimento adotado por muitas mulheresde alisar os cabelos crespos. trago também falas das mulheresque estão participando de meu estudo de doutorado. O título deste artigo anuncia o cabelo como um signo ideológico. Giseli está como professora regular de uma turma de um ano. ao longo da formação da sociedade brasileira. transformando-o com suas sempre novas e modificadas significações. 150) nos auxilia a entender que “são os diálogos entre as diversas esferas ideológicas os responsáveis pelos efeitos de sentido”produzidos pelos discursos. Segundo ela. o signo é interindividual. eu queria esconder isso. embora cada sujeito na sua particularidade também contribua para essa construção. em diálogo com as contribuições bakhtinianas sobre a linguagem. a professora nos ajuda a perceber que esse é um movimento motivado. de outro modo. Evie tem lecionado.[…] O cabelo do branco é baixinho. guiados por acordos coletivos. na unidade em que trabalhamos. É importante observar que o desejo de Giseli em esconder seu cabelo armado não é produto subjetivo de sua consciência individual. Dessa forma. Referindo-se aos discursos de duas publicidades da marca Louis Vuitton. Tais significações não são produtos de um único indivíduo isoladamente. Para pensar essa questão. como da nossa raça. mesmo o cabelo cacheado. p. assim como também o são os discursos. Reflete porque ele nos diz sobre o meio que o cerca e refrata porque ele também responde a esse meio. Convencionou-se socialmente. a gente quer esconder o que a gente tem… Assim. que a exibição dos cabelos crespos não estaria coerente com os padrões identificados como belo. CORPOS .antes praticado também por ela. mas eu não queria meu cabelo cheio. Pra ficar legal. Esses efeitos de sentidos são múltiplos e variados. por uma construção histórica ideológica que confere uma marca pejorativa à textura crespa dos cabelos de homens e mulheres. outra professora com quem dialoguei na pesquisa. Então. Na ocasião. o que se vê nesse processo de aceitação ou rejeição do cabelo crespo é uma disputa 77 Há alguns anos.

2. Evie questiona a concepção largamente difundida socialmente de que as repetidas circunstâncias de marginalização do negro – de suas culturas. a compreensão de um signo ideológico não passa pela apreensão de um sentido único e enclausurado do mesmo. apesar da probabilidade de alguma fixidez na sua constituição. vale pontuar a pouca coerência e consistência em se conceber os significados dicionarizados como definições que supostamente abarcariamtoda a grandeza e completude dos signos. concepção essa que desloca as mazelas raciais da esfera ideológica e cultural para reposicioná-la equivocadamente no campo de uma subjetividade psicológica individualizada. paralisada no tempo e no espaço. ao mesmo tempo em que também materializa a ideologia. ele não é estático e monológico. Portanto. ao mesmo tempo em que provoca um lastimável avanço das estruturas de base europeizadas. ele é híbrido. numa suposta síntese do seu significado. cujos sentidos são produções ideológicas e culturais nem sempre harmoniosas e consonantes entre si. seguir com tal entendimento seria o mesmo queinsistir no aprisionamento dos signos em uma significação limitada. de suas histórias. em que usar o cabelo armado ou não é uma contrapalavra que responde ou que silencia respostas a outros tantos enunciados. retardando as urgentes e necessárias reformas étnicas e sociais. Assim. entendeu? Que não veem racismo onde tem. para isso. Aí. que o orienta e o norteia. a fim de problematizá-los. Essa deformação conceitual no que tange às evidências de uma sociedade colonizada. de ficar tendo que… Como é que eu vou dizer? Que produzir esse discurso para as pessoas que não estão com essa visão política aberta. mas pertencer à ordem do “nós”. Sendo assim. por seu sentido não ser da ordem do “eu”. Que acham que tudo é frescura de quem é negro. por estar ligado a sistema de valores. Dessa maneira. Isso nos faz pensar que o cabelo e sua textura são signos que dialogam com outros diálogos. permanecendo numa arena de disputa constante. para a reverberação do mito da democracia racial. de suas belezas – são discursos produzidos em função de uma suposta autovitimização dos mesmos. consequentemente. rola um pouco disso. fica claro que por ser o signo ideológico. resolvi trazer para cá os resultados de uma CORPOS . embora a elaboração dos dicionários seja com essa pretensão. Essa tensão é evidenciada por esta fala de Evie. o signo é sempre axiológico e. e. Nesse sentido. às vezes. heterogêneo. ele tem seus sentidos situados do lado de fora da materialidade que o carrega. pontual. Por conseguinte. Nesse contexto. que não veem preconceito onde tem. já que suas diversas possibilidades de significação não estão determinadas a priori. uma disputa entre signos. 198 entre discursos. SENTIDOS E SIGNIFICADOS PRODUZIDOS EM TORNO DAS CONCEPÇÕES DE CABELO Nas linhas acima. está explícita a dialeticidade do signo. também corrobora. eu não tenho paciência. ratificando ou refutando seus discursos. quando ela diz que: […] a gente fica com preguiça.

Cada um desses pelos. Cabelo pixaim. espiralada.Na minha leitura.encontrei as conceituações a seguir: Cabelo […] 1 Conjunto de pelos que recobrem a cabeça humana. Ao contrário.): Vcarapinha. espantoso. COLOQ: Vcarapinha. REG (N. […] cabelo aguado • Ralo e fino.E. 2. com o(s) cabelo(s) em pé • [Informal] Em estado de susto ou de medo. e.com. 2 Pelo que nasce em qualquer parte do corpo humano[…]. pela variedade das mesmas. COLOQ: apavorar.priberam.E. 4 Mola de aço delgada. enquanto que emudece tantos outros sentidos possíveis. […] Cabelo lambido. Conjunto do pelo da cabeça.[…] (MICHAELIS DICIONÁRIO BRASILEIRO DA LÍNGUA PORTUGUESA. que regula o movimento de relógios pequenos. 5 Tipo de lã que. desconsiderando as tensões e a dialogicidade do termo no confrontamento dos inúmeros discursos que o compõem. isso não acontece. CORPOS .as referidas expressões pincelam estereótipos indesejados sobre os cabelos. no que o faz. reforçando- os.[…] Pôr os cabelos em pé. […] Cabelo de cupim. na sequencia das definições. 8 Disponível em: <http://www. o corpo de seres humanos e de alguns animais. Espiral reguladora dos relógios de algibeira. online)79 ca·be·lo |ê| […] 1. […] (PRIBERAM. EXPRESSÕES Cabelo agastado. além de mais um ou dois significados. COLOQ: cabelo muito crespo. estariam presentes os conflitos e a diversidade de sentidos que envolvem o termo em pauta. FIG: assombroso. REG (N. Algum leitor desavisado poderiaimaginar que. online)80 Podemos perceber nessas estruturas verbais um encapsulamento dos sentidos da palavra em questão. 2017. Acesso em: 13 set. difícil de pentear.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=cabelo>.pt/dlpo/cabelo>. é separada da lã suja. 3 POR EXT Conjunto de pelos que cobrem o corpo de certos animais […]. Nessa investida. também 79 Disponível em: <http://michaelis. assustar.[…] De arrepiar o cabelo. 3.Isso porque “cabelo” tem sentidos muito mais amplos e complexosdo que a compreensão de que sãopelos que revestem o couro cabeludo.Os dicionários pesquisados trazem. por extensão.uol. algumas expressões que incluem a palavra “cabelo”. COLOQ: cabelo liso. Pelo comprido de certos animais. Acesso em: 13 set.): cabelo grosso e eriçado. Cabelo bom. 2017. do corpo humano. Cabelo de espeta-caju. 199 consulta à palavra “cabelo” em dois dicionários online. COLOQ: cabelo liso e sem volume. Cabelo ruim. 4. COLOQ: cabelo encarapinhado […]. durante o processo de beneficiamento. nessas expressões. Dessa maneira.

seja através de uma nota de rodapé.o dicionário de que se trata ratifica a identificaçãodas expressões.Esses são discursos que. da produção de sentidos construídos a partir do diálogo entre enunciados de conteúdos diversos.uol. não acabado. se almejamos contribuir para uma educação ética.do déficit da beleza. de forma negativa.De acordo com o dicionário aqui em foco. 82Ibidem. 2013. difícil de pentear” (MICHAELIS DICIONÁRIO BRASILEIRO DA LÍNGUA PORTUGUESA. pânico. das expressões estéticas.br/busca?r=0&f=0&t=0&palavra=cabelo>.repercute padrões e ecoa a tentativa de um lugar-comum. cabe ressaltar. do ponto de vista das identidades. muitos outros. porque. a exemplo da sua maleabilidade. dialeticamente. silenciando outras. ainda que os significados dicionarizadossejam termos restritos e engessados. compõem alguns dos sentidos que são produzidossobre o signo cabelo. que são. tendo em vista que eles têm relação com um projeto de sociedade que não é o nosso. de um link para outras produções oude uma indicação bibliográfica. do déficit do cuidado . armados e volumosos. em que cada signo é resultado. em certa escala. por suas especificidades constitutivas. propaladas socialmente de forma não ingênua. A exemplo do que foi pontuado acima. considero que os significados dicionarizados que foram trazidos para esse texto são representativos de enunciações sobre o cabelo crespo que o colocam no lugar do déficit . assim como “cabelo ruim” é identificado sem nenhum pudor ou constrangimento como “cabelo muito crespo. p. CORPOS . daí sua natureza dialógica. Somam-se a essas imagens também a analogia geralmente feita de que cabelo crespo seria sinal de descuido e negligência com a própria aparência. Acesso em: 13 set. “colocando o estudo do signo no centro de uma investigação ideológica” (BRAIT. 200 ratifica modelos.penso que não podemos passar por esses discursos impunemente. semoferecera possibilidade de um tensionamento das mesmas. Toda essa opacidade que envolve a compreensão dossentidos da palavra “cabelo” vai ao encontro da filosofia da linguagem postulada por Bakhtin /Volochínov (2006.refletem e refratam o signo. susto ou assombração(a última expressão citada aparece também de forma bastante semelhante no segundo dicionário mencionado anteriormente). são deixados de fora dos dicionários. No entanto. das manifestações étnicase de muitos outros que colocam o outro como centro desse processo. a expressão “cabelo bom” pode ser apresentada como sinônimo para “cabelo liso”. online)82 com as ideias de pavor. online)81. seja através de uma observação ou comentário. Desse mesmo modo. o dicionário em questão contribui para a propagação de versões preconceituosasem relação aos cabelos.com.“De arrepiar o cabelo” e “Pôr os cabelos em pé” (MICHAELIS DICIONÁRIO BRASILEIRO DA LÍNGUA PORTUGUESA. 2017. Sendo assim. Aceitando essas adjetivações para apresentar as texturas lisas e crespas dos cabelos. dependendo do ângulo de visão. 46). alteritária e libertadora. vou me deterem retomaralgumas expressões. inclusive em contraposição a estes. Do campo em que falo– a educação. eles também. 2010b). cuja motivação reside no tempo e no 81Disponível em: <http://michaelis.ou no lugar da valorização de aspectos que poderiam ser avaliados. fazendo novamente uma alusãoacrítica aos cabelos crespos.

não acontece de maneira serena e linear. que também participa da pesquisa de doutorado ora mencionada. 2013. p. 2006. 32. p. Essascontradições que Cíntia compartilha relacionadas à expectativa do novo cabelo após um período livre dos processos químicossão formuladas por intermédio do diálogo com discursos outros que chegam até os sujeitos de modos diversos e a partir dos quais eles compõem suas narrativas. nas creches municipais de Duque de Caxias. ancestralidade negra e senzala. Nessa mesma direção. 237). quando a pessoa é de origem negra mesmo. ali. em parceria com as professoras regulares das turmas. BROTTO.portanto. p. deixa transparecer em seu relato esses embates sígnicos. continuamos autores. dependendo do regime sob o qual foram contratadas pela respectiva Secretaria de Educação. o sentido produzido sobre algo não está na constituição do elemento em si. também de natureza material) passamos sem interrupção paraum outro elo de natureza estritamente idêntica. E essa cadeia de criatividadee de compreensão ideológicas. professora. É nesse sentidoquepodemos entender que os sentidos atribuídos a diferentes texturas de cabelo são parte da cultura. p. Segundo ela. uma vez que as palavras são carregadas de sentido ideológico” (SZYMANSKI.’ Começa assim. da senzala. reafirmando-os.’ Na maioria das vezes. a minimizaçãodo valor estético do cabelo dito frisado. a analogia entre cabelo frisado. o acolhimento do cabelo não anelado com espanto e decepção. ‘Ah. esses outros discursos. coerentemente com o que já foi destacado.formam o cenário ideológico para a enunciaçãode Cíntia. meu cabelo é crespo… vou entrar nessa moda. como eu digo. 34) Dessa maneira. aliados até certo ponto ou entrando em confronto. fica só frisado. CORPOS . quando a pessoa começa nesse processo [de parar de alisar o cabelo]. 201 espaço em que se localizam.que traz como questões a abdicação da textura lisa do cabelo. dá aquele choque maior ainda. assume a função de estimuladora materno-infantil atuando nas salas de aula da creche em que trabalha. posto que “compreender um signo consiste em aproximar o signo apreendido de outros signos já conhecidos” (BAKHTIN /VOLOCHÍNOV. CONSIDERAÇÕES FINAIS 83 Cíntia é professora formada e. né? ‘Vou entrar nessa moda… vai ficar aquele cacho cheio e lindo. estabelecendo pontos de intersecção entre eles. p. rejeitando-os ou. é única e contínua: de um elo de natureza semiótica (e. 2010b. 2006.Logo. Então. Cíntia83. 32. dentre outras possibilidades. 34). mas na produção ideológica sobre ele. eu acho que ela idealiza o cacho. a compreensão é umaresposta a um signo por meio de signos. o cabelo não fica cacheadinho não.Desse modo. o desejo de um cabelo com cacho. Em nenhum ponto acadeia se quebra (BAKHTIN /VOLOCHÍNOV. que. atualmente. As estimuladoras materno-infantil cumprem. “compreender a linguagem nessa perspectiva implica corroborar a ideia de que os sujeitos respondem ativamente a tudo aquilo que lhes causa ressonância. deslocando-se de signo em signo para umnovo signo. a identificação ou não da concepção do cabelo crespo ou cacheado como moda. quem sabe. uma carga horária de 30 ou 40 horas semanais de efetivo exercício de suas funções.

Valentin Nikolaevich. v.google. ______ (VOLOCHÍNOV. ______. 2010b.). 8. Acesso em: 01 set. 2017. 2013. São Paulo: Hucitec. o universo de signos . Bakhtiniana. n. ______ (VOLOCHÍNOV. 2017.br/>. p. Brasília.pdf>. Acesso em: 13 set. dados os limites desse trabalho. 2006. Acesso em: 18 set. 2017. entretanto. Rio de Janeiro.fecra.org. Acesso em: 25 set. 2010b. 21. In: Educação Anti-racista: caminhos abertos pela Lei Federal nº 10.pdf>. p. 2002. Belo Horizonte: Autêntica. Dec. Disponível em: <http://michaelis.Estética da criação verbal.br/scielo. MICHAELIS DICIONÁRIO BRASILEIRO DA LÍNGUA PORTUGUESA. 2017. São Paulo: Martins Fontes. jul. DICIONÁRIO PRIBERAM. Acesso em: 02 set. cabe sublinhar que o cabelo é um signo ideológico que. do material tecnológico e dos artigos de consumo.pdf>. Marxismo e filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. 2017. 2017. GOMES. ______.org. Rio de Janeiro: Forense Universitária. BRAIT. Acesso em: 11 set.pt/dlpo>.). 2017. acredito eu. Para uma filosofia do ato responsável.639/03. 43-66. 202 Por fim. ______. Beth. Disponível em: <http://ideario. Valentin Nikolaevich. ______. Disponível em: <http://www. p.acaoeducativa. 2011.pdf>. 32) que nos ensinam que “ao lado dos fenômenos naturais. ______.uol.br/fdh/wp-content/uploads/2012/10/Alguns-termos-e-conceitos- presentes-no-debate-sobre-Rela%C3%A7%C3%B5es-Raciais-no-Brasil-uma-breve-discuss%C3%A3o. CORPOS . finalizo-o aqui com essas palavras de Bakhtin /Volochínov (2006. Mikhail Mikhailovich. n. ______.priberam. Alguns termos e conceitos presentes no debate sobre relações raciais no brasil: uma breve discussão.scielo. 1997. São Paulo: Martins Fontes. 2017.scielo.” (grifos do autor). p. Acesso em: 13 set. 2005. além das que já estão estabelecidas. 2010a. Disponível em: <https://drive. Cultura popular na Idade Média e no renascimento: o contexto de François Rabelais. REFERÊNCIAS BAKHTIN. considerando muitas outras possibilidades de significações. Disponível em: <http://www.edu. Sobre a temática em foco neste artigo. Olhar e ler: verbo-visualidade em perspectiva dialógica.com. existe um universo particular.com/folderview?id=0B4UG_F2QeFUlQldYRm1BU0pOakk&usp=sharing>.39-62.br/wp/wp-content/uploads/2013/10/nilma- lino. Disponível em: <http://www. São Paulo. p. Problemas da poética de Dostoievski.php?script=sci_arttext&pid=S1413-24782002000300004&lng=en&nrm=iso>. 30. na compreensão de que as concepções e narrativassobre ele são passíveis de desconstruções e reconstruções. muitas outras questões poderiam ser trazidas para a discussão. Educação eidentidade negra. Disponível em: <https://www.br/pdf/bak/v8n2/04. Acesso em: 16 ago. 40-51. Marxismo e filosofia da Linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem.br/admin/arquivos/MARXISMO_E_FILOSOFIA_DA_LINGUAGEM. Sem perder a raiz: corpo e cabelo como símbolos da identidade negra. ao ser percebido enquanto tal. 2008. Estética da criação verbal. Trajetórias escolares. Nilma Lino. corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural? In: Revista Brasileira de Educação. São Paulo: Hucitec. 2. Disponível em: <http://www. São Carlos: Pedro & João Editores./dez. ______. 2010. 2010c. abrem-se caminhos para que haja maior flexibilidade. São Paulo: Hucitec.

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como essa expressão afro- brasileira oriunda das senzalas. tomando-a como prática transdisciplinar que vem. E-mail: carol_gse@yahoo. Física.UNESP Araraquara. sua cultura. como os PCNs. da área de linguagens. valorizando sua importância como prática transdisciplinar essencial na formação do aluno. Curricular (BNCC). estes e seu meio. lançar uma contrapalavra à polêmica recente quanto ao lugar da Educação Física na escola.br 85 Bacharela em Ed. próprio da linguagem. orientado por disciplinas a polêmica reforma do ensino médio deixou muitas dúvidas sobre como a Educação Física (enquanto prática de ensino dialógica). o que se propõe aqui é S que o aluno seja entendido não só como corpo ancionada em fevereiro de 2017. defendendo o papel relevante que a Educação Física. com isso. que estabelece seus conteúdos (ainda em fase de principalmente a corporal.spul@gmail. resistência e um interminável processo de ressignificação. mas com outros campos do saber. seu tempo. cantam e batucam na aula de Educação Física. conforme estabelecem resistência nos corpos em movimento documentos oficiais. trabalhada da forma dialógica. Num contexto de instabilidade política e de intensas discussões sobre os caminhos da educação no Brasil. ainda. Mais recentemente. desempenha no contexto escolar. corpos e sujeitos. A reflexão será desenvolvida segundo os conceitos do SILVA. de forma que se evidencie seu pertencimento ao campo da linguagem. ressignificação e O objetivo é refletir sobre (e propor) uma abordagem dialógica e transdisciplinar da Educação Física. Carolina Gonçalves da84 Círculo de Bakhtin. outra polêmica protagonizada pelas Palavras-Chave: Educação Física. Faculdade Metropolitana de Campinas. Ela coloca em contato. O objetivo destas reflexões é. além de O JONGO NA EDUCAÇÃO conduzir corpos em movimento. mas como sujeito ético. ao longo dos anos. discute-se. ideologias. Assim. FÍSICA: diálogo. Jongo esferas política e escolar foi reavivadacom a votação do Supremo Tribunal Federal acerca do ensino religioso nas escolas. Portanto. elaboração). depois de intenso debate público estético em movimento. E-mail: taynara. atravessado por e articulador de discursos e e de muitas emendas na medida provisória inicialmente proposta. Taynara Spulverato da85 comunicação de sujeitos historicamente situados. diálogos e ressignificações materializadas nos INTRODUÇÃO corpos que dançam. é capaz de ler e produzir textos a oferta/obrigatoriedade de disciplinas e sobre a Base Nacional Comum significativos em linguagens diversas. mais especificamente. como a Língua Portuguesa. produz sentidos. valorizar o ensino-aprendizagem dialógico de Educação Física.com CORPOS . como mais uma voz que se integra a essas polêmicas. Neste texto. A disciplina estabelece diálogos não só com áreas biológicas e da saúde. RESUMO 204 Este trabalho apresenta uma reflexão acerca da Educação Física como prática dialógica que. um sujeito que. este texto se posiciona a favor da ideia de que a 84 Mestra em Linguística e Língua Portuguesa . Diálogo. firmando sua importância e legitimidade para além das intervenções no corpo biológico (no sentido de melhora na performance esportiva e/ou na promoção de saúde). este texto se apresenta como uma contrapalavra.com. Espera-se. é capaz de instaurar diálogo. o que pressupõe uma compreensão da linguagem como produto da SILVA. materializada em signos ideológicos – como entendemos ser o jongo. ou não. portanto. como aHistória e a Geografia.

Com esse diálogo buscou-se reforçar o papel transformador de uma prática de ensino-aprendizagem de Educação Física mais dialógica. como o jongo (dançado. viva e dinâmica. T. Para a discussão proposta nesse evento. portador de um corpo estético e ético. Literatura e Língua Estrangeira Moderna. para refletir sobre seus outros elementos constitutivos. O outro buscava se ater aos embates estabelecidos entre uma escola Municipal e um Ponto de Cultura. tendo como enfoque a práxis. que se materializa nos próprios corpos em movimento na aula de Educação Física. Faculdade Metropolitana de Campinas CORPOS . A primeira seção deste artigo aborda a concepção bakhtiniana da linguagem. no campo dos estudos discursivos. Um olhar dialógico para a polêmica na imprensa: os sentidos de “maconha nas capas de revista”. Trabalho de conclusão de curto (Graduação em Educação Física). Códigos e suas Tecnologias.verbais. É essa abordagem da linguagem que permite pensar o jongo enquanto signo ideológico. mas que podem ser produtivos. Jongo do casarão para a escola. G. 2017)86. Artes e Informática. mas sempre capazes de instaurar embate. 2016. Do segundo trabalho. Um dos trabalhos. Nesse primeiro momento.br/handle/11449/151035 87 SPULVERATO. 205 Educação Física tem evidenciado. foram trazidos do primeiro trabalho alguns conceitos do Círculo de Bakhtin (como os de linguagem. juntamente com as disciplinas de Língua Portuguesa. ressignificar signos e subjetividades. concretizada em textos diversos . cantado e tocado). verbo- visuais. A análise parte de enunciados verbais. 2017. produzir cultura. contemplando sua natureza dialógica. na grande área da linguística. resgatamos justamente a temática do jongo. discute-se também a inserção da Educação Física na área de Linguagens. e atuou durante a criação e a execução de um projeto educacional que tinha o jongo como um dos temas centrais (SPULVERATO. que possibilita entender a comunicação entre sujeitos para além de sua dimensão verbal. também. ambos localizados na cidade de Campinas-SP. Disponível em: https://repositorio.unesp. significativa e transdisciplinar. de seu caráter sistemático e normativo. estabelecida por documentos oficiais como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). R. mobilizados na análise de enunciados verbo-visuais. os chamados pontos do jongo. originária das senzalas. materializados nos corpos também sempre em movimento. em que se supere a visão motriz. signo ideológico e esfera de atividades humana) que foram. uma prática discursiva produto da cultura afro brasileira. S. produtor novos sentidos e identidades. na análise de outros tipos de materialidades. corporais -. partia da concepção de linguagem do Círculo de Bakhtin para pensar a produção de sentido e os conflitos ideológicos em enunciados verbo-visuais do gênero capa de revista (SILVA. C. ainda. Na segunda seção sugerimos uma proposta de abordagem dialógica da Educação Física na escola. suas contribuições como componente fundamental da área de linguagens e da formação do aluno enquanto sujeito ativo física e discursivamente. responsivo e responsável. Dissertação de mestrado (Linguística e Língua Portuguesa) – UNESP Araraquara. sempre em transformação. como 86SILVA. As discussões aqui desenvolvidas são produto do encontro dialógico entre duas autoras que reconheceram em seus trabalhos recentes um eixo principal em comum: concepções de linguagem que a percebem como materialidade significativa.à época. desde o final dos anos noventa. 2016)87.

Sugerimos. LINGUAGEM E CORPO: onde a Linguística e a Educação Física se encontram Analisar as manifestações da linguagem (o discurso) e a produção de sentido a partir da perspectiva do Círculo de Bakhtin. com o ensino religioso na escola. sua condição de sujeito múltiplo. por exemplo. os signos ideológicos são “objetos de tipo especial. Nesse contexto. Neste trabalho. produtor de discursos. O pensamento bakhtiniano permite. se lida com “verdades ou mentiras. os gestos e movimentos. uma vez que ele produz sentidos. 206 o som dos tambores. o conceito de signo ideológico. principalmente as da área de linguagens). às vestes. como a História e a Geografia. agente ativo na produção de cultura. ao som. no social e no cultural. as roupas. pela linguagem. invariável e abstrato. Assim. com um valor ideológico. p. situados na história. esferas e visões de mundo postas em jogo por meio dessa prática. que favoreça o diálogo principalmente entre a Educação Física e outras áreas (principalmente o Português. um sentido vivencial atribuído a um material: à palavra. 1. p. 96). pressupõe um entendimento da linguagem para além de seu caráter sistemático. Constituem o signo. na concepção do Círculo. uma dimensão concreta (sua materialização física). pelas linguagens”. atravessados por ideologias. Para a autora. mas entre sujeitos. estamos rodeados de produtos ideológicos que são mais do que elementos materiais de uma realidade concreta. sentido e valor interno” (MEDVIÉDEV. mas como um corpo em movimento. epropõe que se realizeuma abordagem translinguística – a qual é possível adotar para lidar com linguagens concretizadas em diferentes materialidades. sobre os diálogos possíveis não só entre disciplinas. portanto. a perspectiva bakhtiniana contempla suas várias dimensões. agradáveis ou desagradáveis”(BAKHTIN/VOLOCHÍNOV. e num contexto ainda mais recente. ao gesto. Buscamos. 2006. o que sustenta essa concepção de linguagem é. 2006. coisas boas ou más. propor uma abordagem da prática de Educação Física (e da prática de ensino de quaisquer disciplinas. no caso do jongo. principalmente. por serem essas as áreas de estudo das autoras). aos quais são inerentes significado. triviais ou importantes.48). veicula concepções de mundo de sujeitos constituídos socialmente. que o estudo da linguagem não se restrinja a sua dimensão linguística ou verbal. 2012. ao corpo. mas com outras disciplinas. ou daquilo que tem de individual e criativo (Brait. Nessa abordagem. de sentidos. Para o Círculo. p. Medviédev e Volochínov. tomando-a como “uma forma de conhecer o ser humano e suas atividades. portanto. e uma dimensão simbólica. com isso. quando lidamos com o signo ideológico. sua inserção na história. uma abordagem transdisciplinar do jongo.23). que entenda o aluno não como corpo físico que deve ser passivamente adequado às práticas da instituição escolar. sobre a construção da identidade do sujeito em contato com a cultura afro-brasileira que o constitui. é importante reforçar que o conceito de signo ideológico transcende o de signo linguístico e CORPOS . refletimos sobre a capacidade de ressignificação do signo ideológico jongo – principalmente quando levado para a esfera escolar-. por fim. A partir de discussões levantadas em trabalhos anteriores.

símbolos e cerimônias religiosas etc. p. É nesse sentido que compreendemos o jongo como signo ideológico. Enquanto signo dinâmico e vivo. ainda sobre o signo ideológico. como cor. que estabelece diálogo entre sujeitos. um corpo social. produz sentidos outros.48. p. “todo corpo físico. as formas relativamente estáveis de interação (BAKHTIN. seu meio e seu tempo e que ultrapassa os limites da prática livre de esportes consagrados ou da competição. 1997) são os chamados gêneros discursivos. Destaques nossos). carregadas de visões de mundo.. escolar. 2012.” (MEDVIÉDEV. na palavra cantada e nos sons que produzem as mãos que batucam. Códigos e suas Tecnologias pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN)(BRASIL. com a esfera de atividade humana à qual esse gênero pertence (artística. os mesmos sons. mas como um corpo orgânico em movimento que é. 1996). uma vez que vem sendo 88 Na perspectiva do Círculo. 2006. dessa forma. A partir desse ponto de vista. atem havido esforço para que a disciplina se distancie de uma redutora concepção biologizante do corpo. como um conjunto de signos produtores de sentidos e de conflitos ideológicos que se materializam principalmente em três elementos concretos: no corpo em movimento. celebração religiosa) e. gestos e cantos que caracterizam o signo jogo podem produzir diferentes sentidos. como produto da interação dialógica entre sujeitos.nossas reflexões se voltam ao jongo enquanto prática simbólica que. juntamente com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB)(BRASIL. já que são produtos de contextos específicos. ou atribuído individualmente por cada sujeito. vocal. que também reflete e refrata uma realidade exterior (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV. Assim. consequentemente. por exemplo). nas apresentações culturais. Para esta discussão é importante ressaltar. união e coordenação mútua entre pessoas diante de um signo”. 2006. de seu corpo. trabalhos científicos. como massa física. . 2000). Destaques nossos). CORPOS . produtor de cultura e de sentidos por meio de seus gestos. na escola. mais especificamente na aula de Educação Física. Destaques nossos). também e ao mesmo tempo.] como som. Essa concepção de Educação Física mais dialógica e mais significativa. uma prática escolar. Trata-se de percebê-lo não apenas como materialidade física.196). entre eles e sua cultura. 29. atravessado pela história e por conflitos ideológicos. A concepção bakhtiniana de signo abrange. como movimento do corpo ou como outra coisa qualquer“ (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV. instrumento de produção ou produto de consumo”. p. “todos os produtos da criação ideológica – obras de arte. 31. é possível dizer que os sentidos do signo “jongo” variam de acordo com o gênero discursivo no qual ele se materializa (seja como uma apresentação cultural.mobilizada na esfera educacional.Neste texto. em cada situação comunicativa específica (nos quilombos. mas “está na relação social de compreensão. sonora e corporal. p. de seus movimentos e práticas.. não é proposta recentes. que seu sentido não é dado de antemão. já que cada gênero/esfera possui sua forma de compreender e ressignificar a realidade (MEDVIÉDEV. 207 se estende a outras materialidades produtoras de sentido. variáveis de acordo com cada tipo interação entre sujeitos situados social e historicamente88. manifestos na linguagem verbal. os sentidos do jongo já não são enumeráveis como seus elementos materiais constitutivos. Desde que foi inserida no campo área de Linguagens. religiosa). Em cada interação. 2012. são signosos fenômenos ideológicos materializados “[.

comunicando-nos por meio das várias linguagens às quais o corpo pode recorrer. E o indivíduo. p. mesmo sendo os “responsáveis pelo alcance daqueles objetivos governamentais. estariam mais evidentes as relações da Educação Física com a saúde e a qualidade de vida do que com as linguagens (MATTOS. NEIRA. do contato dele com o os outros corpos e com o mundo sensível. é que tomamos consciência de nossa existência enquanto seres sociais. de acordo com o contexto. O corpo.577). Segundo o documento. Códigos e Tecnologias é motivo de controvérsia e discussão entre os professores da disciplina. que é entidade física e simbólica.] É com o corpo que somos capazes de ver. na qual temos consciência do eu no tempo e no espaço.ainda que sem oferecer exemplos concretos . falar. aparentemente.(BRASIL. entre elas a Educação Física. ao expressar seu caráter sensível. histórico e ideológico. 2000. Essa é a nossa existência. como os PCNs. lançamos uma contrapalavra aos debates sobre o papel dessa disciplina na escola e na constituição do sujeito. de acordo com o ambiente em que se desenvolve como pessoa. ouvir. 208 explicitada e valorizada em documentos oficiais. Se. (2012). Aproveitando essas lacunas nos estudos da Educação Física e a proposta do evento de abordar a temática do corpo responsivo. Segundo os autores. 38. os estudos de Ladeira e Darido (2003) e de Santoset al. por sua vez. Destaques nossos) Os trechos destacados evidenciam o caráter sígnico do corpo. material e significativa.. por outro lado. 2001).] Os gestos. Isso quer dizer que todo movimento do corpo tem um significado. p. conforme mostra o fragmento a seguir: Sendo o corpo. em toda sua complexidade..parece não ter deixado de ser um desafio para o professor da disciplina (mesmo mais de uma década após sua implementação). por um lado. transgressor e resistente inserido no contexto político do Brasil contemporâneo. Propomos que ela seja entendida como prática de ensino capaz de CORPOS .aspectos fundamentais do ensino-aprendizagem de linguagens. Isso porque. a inserção da Educação física na área de Linguagens. as posturas e as expressões faciais são mantidos ou modificados em virtude de o homem ser um ser social e viver num determinado contexto cultural. a lei contempla . aprende a fazer uso das expressões corporais. ele é necessariamente carregado de significado. [. a proposta de abordá-la em seu caráter social e cultural. de estudar o corpo como produtor de linguagem e de sentido. de dialogar com outras áreas do saber. O relacionamento com a vida e com os outros corpos dá-se pela comunicação e pela linguagem que o corpo é e possui. vivendo ativamente num dado contexto cultural. modo e meio de integração do indivíduo à realidade do mundo. conforme mostram.. que se modifica de cultura para cultura. perceber e sentir as coisas. Estes. [. o corpo é linguagem e é por meio dele.. por exemplo. Isto significa que os indivíduos têm sua forma diferenciada de se comunicar corporalmente. ao mesmo tempo. ambos os trabalhos apontam que poucos estudos sobre a educação física escolar têm se dedicado a investigar as relações dessa com as demais disciplinas integrantes da área de linguagens códigos e tecnologias. não conseguem concebê-la como uma linguagem e nem estabelecer relações com as demais disciplinas que compõem a área” (SANTOS et al 2012. tornar-se veículo e meio de comunicação.Além disso.

que deve ser preservado por ela e pelo Estado. também nos esforçamos para estabelecer relações dialógicas entre o jongo. realizada em roda com casais se revezando ao centro. A Constituição Federal de 1988. como forma de divertimento. pois além de serem práticas físicas. em seus artigos 215 e 216. feiras e santuários que abrigam práticas culturais coletivas). O corpo e a história em movimento O jongo. como forma de tornar mais tangível o que consideramos ser uma mais abordagem transdisciplinar de conteúdos relevantes para a formação de um aluno consciente de seu corpo e de seu lugar como sujeito ativo na sociedade e na cultura. celebrações. os pontos (cantos entoados durante a prática) e os tambores. Na última seção deste trabalho. circulação e renovação do seu universo simbólico. constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente. (BRASIL. estão carregados de sentidos. formas de expressão cênicas. plásticas. Essa expressão cultural consolidou-se nas fazendas de café. ofícios e modos de fazer. na Educação Física. assim como de traços marcantes da cultura afro-brasileira.” (IPHAN. o jongo foi reconhecido. 2017)89 Uma das justificativas para que o jongo fosse inserido entre os patrimônios imateriais da cultura brasileira baseava-se no fato de tratar-se de “um elemento de identidade e resistência cultural para várias comunidades e também espaço de manutenção. historicamente construídos. O JONGO NA ESFERA ESCOLAR: o corpo é cultura 2. 11). 2. 209 auxiliar o aluno a ler e a produzir textos – no sentido mais amplo do termo –materializados em diferentes linguagens e signos. são recursos que podem ser explorados durante as aulas de Educação Física. apenas tolerado pelos senhores 89 Disponível em: http://portal.1. em 2005. com respaldo da constituição: Os bens culturais de natureza imaterial dizem respeito àquelas práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes. Proclamado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) como patrimônio imaterial. contribuindo para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana. que põem em movimento o corpo biológico. dança afro-brasileira oriunda das senzalas.iphan. O patrimônio imaterial é transmitido de geração a geração. durante o período escravocrata. desde então. que permitem uma maior compreensão dos eventos do passado (e do presente). Os três elementos.br/pagina/detalhes/234 CORPOS . musicais ou lúdicas. como bem cultural de um grupo formador da sociedade brasileira. que se apresentam em sintonia durante as rodas. ampliou a noção de patrimônio cultural ao reconhecer a existência de bens culturais de natureza material e imaterial. p. e nos lugares (como mercados.gov. enquanto forma de diálogo. produtora de sentidos. tem como elementos comuns: a dança. de sua interação com a natureza e de sua história. gerando um sentimento de identidade e continuidade. que seja valorizada. 2007. e o estudo das influências de línguas africanas no Português brasileiro.

pela facilidade com que alguns negros astutos podem usá-las com finalidades sinistras”. a Educação Física pode ajudar a desconstruir e. Esse olhar desinformado dos que observavam. ora são marcados por estratégias de sobrevivência ao período de cativeiro. Conforme observado. 2007. que acreditavam que ela proporcionaria aos escravos uma oportunidade de organizar “sociedades secretas. além do jongo. Uma expressão cultural que mostra os movimentos de resistência.15). Conforme apontou a pesquisa do IPHAN (2007. o Jongo desapareceu. p. ele passou a ser rememorado em diversas comunidades na região Sudeste. o jongo está impregnado. mas que tinham entre suas características motivadoras. Segundo Matos e Abreu (2009) os primeiros registros sobre o jongo. o jongo era citado como “danças e candomblés”. principalmente. diverge da visão apresentada ao longo desses anos na esfera escolar. Em muitos deles. 204). foi um dos fatores contribuintes para o desaparecimento do jongo. de fora. que as consideravam práticas “bárbaras”. relativo às práticas culturais afro-brasileiras (IPHAN. batucava e louvavam. datados do século XVIII. como da escravidão. mas que hoje é evocado em tom pejorativo para designar quaisquer cultos religiosos de origem africana (MICHAELIS. que abarcava. 2007. No Sudeste brasileiro. Ou também devido à vergonha motivada pelo preconceito. considerada uma práticabárbara e temida pelos senhores. “perigosas” e que a relacionavam invariavelmente (ainda que não fosse o caso) a ritos religiosos. p. esse olhar depreciativo às expressões culturais dos negros cativos.outras expressões culturais praticadas por negros cativos. também. Ao levar o jongo para a escola (ou a escola até o jongo?). o alegre em um período sombrio. do quimbundo. tanto pela dispersão de seus praticantes em consequência da migração e dos processos de urbanização. 210 porqueestes temiam que suas objeçõespudessem colocar“em risco a sobrevivência de seus trabalhadores” (IPHAN. p. 22). em muitas das comunidades com descendentes de escravos. como pelo obscurecimento dessas práticas por outras expressões de maior apelo junto ao crescente mercado de bens simbólicos. p. dançava. que geralmente conhece 90 Tal como ocorreu historicamente com o temo “macumba”. Os relatos referentes aos batuques são encontrados em códigos penais. expresso pelos segmentos da sociedade abrangente. redutor e homogeneizante 90. que outrora designava um instrumento de percussão africano.15). se referiam a essa prática como batuques. a prática do jongo. mas sempre perigosas. Somente anos depois. em ocasiões singulares. CORPOS . em registros de viajantes. contribuiu para que as especificidades das manifestações culturais de matriz africana fossem historicamente apagadas perante o olhar do senso comum. de um povo que mesmo em uma situação subjugada de trabalho forçado. escritos de administradores coloniais e cronistas do Brasil e. nas rodas de jongo. dada ao contexto de cada lugar. ora são marcado por perseguições motivadas pelo temor de autoridades. que foram construídos a partir de um olhar etnocêntrico e redutor. conforme aponta Stein (1985. cantava. de símbolos que. Imaginar o belo. aparentemente religiosas. 2017). nome genérico. a reconstruir esses sentidos historicamente cristalizados na língua e na sociedade. o fortalecimento da identidade de indivíduos e/ou comunidades.

outros sentidos. da história e da cultura. Disponível em: https://www.com. Saravá Nossa Senhora do Rosário/ Saravá São Benedito/ Vamos abrir roda de jongo rezo que esteja comigo/ Saravá esse Tambu/ Saravá esse terreiro/ Saravá os Preto Velho/ Saravá Dito Ribeiro 92 91 Disponível em: http://m.que se assemelha ao turbante. Pensar na possibilidade de levar o jongo para a escola exige um olhar cuidadoso que permita explorar todos esses elementos envolvidos em tão simbólica expressão cultural.br/cotidiano/2017/02/1861267-polemica-sobre-uso-de-turbante-suscita-debate-sobre- apropriacao-cultural. as mulheres costumam vestir saias longas. o item já foi incorporado pelo mercado da moda e é consumido (como produto comercial. p. sugerimos.com/watch?v=MLkSMGa5eB4 CORPOS . são os versos cantados. Além disso. sua apropriação pelo mercado. Além dos tambores. a partir da materialidade verbal de dois pontos cantados no jongo. apontamos. 2. A seguir. Geralmente a liderança da comunidade começa o ponto. já que ele foi. os demais participantes repetem em coro. juntamente com os tambores e os movimentos do corpo. não raramente dobrada até a altura do joelho.como sentidos dos sons dos tambores e os significados das vestes. chamados de pontos. rodadas e floridas. aliás. ainda que brevemente. desde que ela lide com o corpo em movimento como parte da sociedade. em Campinas-SP. ou de particularidades da comunidade. a contextualização histórica. intramuros da escola. Discutir os sentidos do turbante. Os versos a seguir são entoados especificamente numa roda de jongo na Comunidade Jongo Dito Ribeiro. Enquanto os homens geralmente trajam camisa e calça comprida (com tecido que se assemelha ao linho). podem representar os “vários segmentos sociais” dentro do espaço escolar. até os instrumentos musicais envolvidos. pois surgem de situações cotidianas. 2014.youtube. alguns aspectos significativos do jongo que podem ser explorados no contexto escolar . que viviam somente para exercer o trabalho braçal. as vestes também produzem sentido. Campinas-SP. desde as vestes. uma vez que a compreendemos que sua dimensão significante se realiza “como pura marca material” (SILVA. como forma de contextualizar essa produção cultural como tema relevante e coerente com a Educação Física associada à área das linguagens.folha. seus usos históricos. Este adereço pode.2. Conforme observou Vidal (2009). 91). sua presença no vestuário e na forma de expressão corporal dos próprios alunos é uma forma ressignificar signos constitutivos da história e da cultura afro-brasileiras e da própria identidade do aluno. não cultural) inclusive pelos jovens em idade escolar. O verbal e o corporal produzindo sentidos Parte importante da roda de jongo.shtml 92 Jongo Comunidade Dito Ribeiro. Nesta subseção. conflitos e ressignificações manifestos verbal e corporalmente que podem ser percebidos numa aula de Educação Física (em diálogo com outros campos do saber). acorrentados. os cantos. somadas ao uso do torso . as vestes. ajudar a estabelecer um diálogo significativo com o contexto atual dos alunos. recentemente. tema de polêmicas veiculadas na mídia91. 211 apenas a história da escravidão a partir de imagens de negros açoitados. ontem e hoje -. Esses cantos variam muito de um local para outro.uol.

buscar contar uma história da África que tem início muito antes da escravidão. Disponível em: https://www. todos esses sentidos podem ser melhor explorados. não pode dar conta de suas singularidades regionais. Antes de entrar na roda alguns indivíduos tocam as pontas do dedos na cabeça. fazendo com que as vozes se misturem para que. em 1966. O formato de roda. Quando a roda de jongo se inicia. Encaminhando as discussões para seu encerramento. pode ser percebido como característica importante dessa prática. produzindo efeitos diversos (não necessariamente associados à esfera religiosa). assim como o terreiro (que geralmente se refere a um espaço de terra batida). ainda. gravado por Clementina de Jesus. casais se revezam ao centro. com a rica e diversificada cultura do continente que também nos constitui enquanto país. Os demais gestos variam de região para região. o tambor também aparece como elemento fundamental (referido como tambu). para além da violência sofrida pelo negro quando de sua escravização no território do Brasil. realizando um gesto particular dessa dança. A primeira poderia aprofundar o estudo da história da formação da sociedade brasileira. precedem a formação da roda. e a proteção que se pede aos santos Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Como temos enfatizado aqui. entre elas cabe destacar a História e a Geografia.com/watch?v=XJ2nwx7khq8 CORPOS . como se nota nos enunciado a seguir: Tavadurumindocangoma me chamou/ Tavadurumindocangoma me chamou/ Disse levante povo cativeiro já acabou93 93 Ponto de Jongo. mas também na linguagem verbal. vejamos mais um ponto de jongo para refletir sobre os sentidos e ressignificações expressos não só na linguagem corporal. os elementos recorrentes são a dança. sons e palavras produzem seus sentidos específicos em contextos particulares. Assim. de acordo com os sujeitos e as comunidades envolvidas. possam ressoar com mais força. A disciplina poderia. com a Educação Física em diálogo com outras disciplinas. É importante lembrar que cada um desses gestos. como a saudação yorubá “Saravá”. ainda que temporário. por mais que se atente em levar o contexto histórico do jongo. visto que ele é apenas uma proposta geral de abordagem do corpo que supere a ideia do biológico na Educação Física. Mais uma vez. saudado pelos participantes. como se pedissem licença para participar do diálogo. por exemplo. 212 Nessa comunidade específica. os elementos culturais.youtube. e posteriormente no tambor. o canto e os tambores. assim como os pontos. já que a comunidade se reúne num círculo. que a Educação Física. instrumentos. resgatando o sujeito social e a cultura que a constituem enquanto linguagem. juntas. estritamente relacionadas ao meio que em que ele está sendo praticado. somente tocam a ponta dos dedos no tambor. a umbigada (na qual encenam tocarem umbigo contra umbigo). mas não são elementos recorrentes de todasas rodas de jongo. e que não cabe a este trabalho investigá-los. por outro lado. Cabe considerar. outros.

vai das margens ao centro.4-5). entre o discurso dominante e aquele que. deliberadamente não-oficial”. ao sujeito aluno. a cultura popular (manifestações discursivas/culturais de caráter extraoficial) é ressignificada e traz o não-oficial a um lugar de destaque (dentro da escola). Mais uma vez. na verdade. observando as contribuições de culturas africanas para a formação da língua e da sociedade brasileira. muito diversas das condições de produção de um ponto de jongo “original”. como o conflito de classes que se desenvolve na arena desse signo ideológico (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV. à disciplina de Língua Portuguesa. a servidão e a liberdade. quando este se refere à cultura popular no contexto rabelaisiano No canto. Nesse movimento dinâmico de forças dominantes e marginais refletido e refratado no jongo. ou. 213 O ponto transcrito acima. entrecruzam-se. o conflito ideológico que ali se reflete/refrata. com o estudo da língua portuguesa em contato com as línguas africanas. mas questões ideológicas. na dança e na percussão que constituem o jongo se identificam. isto é. No caso. então. a palavra “maconha”. não só na materialidade verbal. resta apontar nesse canto. trata-se da visão de mundo do sujeito que resistiu à escravidão para ver um dia em que o cativeiro será apenas memória. preservada na interpretação da cantora. traços que evidenciam mais do que elementos históricos. seria possível. citado por ALKMIN. entre o senhor e os escravos. ao longo de séculos.45). cujos sentidos historicamente acumulados são discutidos. No jongo. Oferece-se. É o instrumento que desperta o sujeito de seu sono. fica evidente a inserção do jongo na categoria de signo ideológico. então. culturais e identitários de dados grupos sociais. Segundo a linguista. Afinal. por exemplo. mas também sonora.Nesse sentido. numa apropriação da palavra de Bakhtin (1987. Por último. do homem e das relações humanas totalmente diferente. é possível resgatar nos pontos de jongo – seja na fonética ou no léxico – marcas históricas do contato entre culturas e línguas. ainda. por exemplo. Mesmo atualizado numa gravação transmitida via internet. “uma visão do mundo. como as palavras “macumba” e “batuque”. no último verso. relacionar o estudo do jongo. as marcas da historicidade desse canto permanecem refletidas e refratadas na materialidade linguística do enunciado. é o tambor (cangoma) que vem anunciar o fim do cativeiro. No contexto escolar. por Silva (2016). de um conjunto de signos ideológicos. p. numa das plataformas de comunicação mais difundidas hoje. regravado pela cantora brasileira Clementina de Jesus. 2006. tecendo seu caminho de resistência. exemplifica as muitas ressignificações pelas quais o jongo vem passando ao longo dos séculos. portanto. Na palavra “durumindo” (dormindo). é este CORPOS . observar como os signos linguísticos de origem africana podem aparecer carregados de sentidos negativos (a despeito de seus vários sentidos possíveis). p. na Educação Física. abrindo-lhe os olhos para um futuro de liberdade. Caberia. 2009). 1973. tal marca na fala é atribuída ao contato do português brasileiro com línguas africanas. por exemplo. juízos de valor que instauram conflitos. que veiculam visões de mundo. de elementos significativos. ainda. citadas neste trabalho. a alteração no grupo consonantal “rm” pode ser percebida como uma “epêntese explicada pela regra fonotática que prefere a estrutura consoante-vogal”. por exemplo. “Na verdade. resultando no acréscimo de um –u entre as consoantes (MENDONÇA.

Trad. Beth (org.. BAKHTIN. ed. 2006. ______. 214 entrecruzamento dos índices de valor que torna o signo vivo e móvel. 2006. M. entre sujeitos e culturas. p. tenham se mostrado um pouco mais palpável. de 20 de dezembro 2002. 2006. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). São Paulo: Martins Fontes. ainda. São Paulo: Hucitec. 2ª. entendida como prática dialógica. Registros da escravidão: as falas de pretos-velhos e de Pai João. Bakhtin: outros conceitos-chave. espera-se que. para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro- Brasileira”. capaz de evoluir” (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV. A. lei no 10. Brasília. Trad. entre cronotopos. Diário Oficial da União. capaz de estabelecer diálogos entre disciplinas (principalmente a História e a Língua Portuguesa.. In: BRAIT. neste trabalho. Marxismo e filosofia da linguagem. 9 de janeiro de 2003. São Paulo: Contexto. CORPOS .Issue. 1987.394. CONSIDERAÇÕES FINAIS As reflexões brevemente apresentadas neste texto não tinham como objetivo fazer uma análise exaustiva dos sentidos produzidos pela prática do jongo./VOLOCHÍNOV. tão cara a diversas teorias. LÓPEZ. Yara Frateschi Vieira.45). mas apontar algumas possibilidades de trabalhar a temática na aula de Educação Física.639. L.). Maria Ermantina Galvão. Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. V. BRASIL. 12ª ed. REFERÊNCIAS ALKMIM. Finalmente. Estabelece diretrizes da educação nacional. possível de inserir na complicado contexto escolar brasileiro. march 2009.37-48. n. BAKHTIN. Tradução de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. 1996. B. São Paulo: Hucitec. T. são justamente esses embates que fazem com que o jongo permaneça sendo um material simbólico de tamanha relevância no contexto educacional brasileiro contemporâneo. BRASIL. Estética da criação verbal.. Lei 9. Esperamos. e dá outras providências. com esses apontamentos. BRAIT. mas não apenas elas). documentos oficiais e discursos reconhecidos. 1997. que a ideia de transdisciplinariedade. Stockholm Review of Latin American Studies. M. capaz de contribuir na formação de um sujeito mais consciente de si e de seu papel como sujeito ativo da sociedade/cultura que faz parte. Brasília. seja possível olhar para a Educação Física enquanto prática significativa. 4. Análise e teoria do discurso.

IPHAN. C. H. 2017.571-580. n. Jongo./set. p. Brasília – DF. P440-460. Disponível em: http://seer. MICHAELLIS Dicionário brasileiro da língua portuguesa. Ministério da Educação.) Memória do Jongo: as gravações históricas de Stanley J. T. 2014. Motriz.. a Brazilian coffee country (1850-1900): the roles of planter and slave in plantation society. S. T.pdf>. SILVA. Princeton: Princeton University press. jan. códigos e suas tecnologias. D.ufrgs.php/cadernosdoil/article/view/67802/pdf STEIN. MEDVIÉDEV. Disponível em: <http://www. F. F. Inserção da Educação Física na área de Linguagens. Identidade e diferença: A perspectiva dos estudos culturais. Jongo no Sudeste. Stein. Tradução de Sheila Grillo e EkaterinaVólkova. Melhoramentos. Rio Claro.. n. M. 2012. Parâmetros curriculares nacionais: linguagens. Stein (1985) MATTOS. In: LARA.. jul. Cadernos do IL. Códigos e suas Tecnologias. 2007. T. M. Uma reflexão bakhtiniana sobre a palavra e seus sentidos: signo ideológico.br/ib/efisica/motriz/09n1/Ladeira. No interior da sala de aula: ensaio sobre a cultura e a prática dos escolares. 1985.18 n. 15ª edição. RJ: Folha Seca. 9. registros de uma história.com. 2003. MARCON.br/ SANTOS. Currículo sem fronteiras. Revista de Educação Física. p.br/index. J. 1.G. SILVA. DARIDO. Educação Física e linguagem: algumas considerações iniciais. Vassouras.unesp.1. S. 2016. Brasília: MEC/SEF. VIDAL. Silvia e PACHECO. v1. UNESP.rc. Disponível em: http://michaelis. v. Motriz.9. O método formal nos estudos literários. Rio Claro. 2012.RJ: Vozes. 2009. São Paulo: Contexto. v. D. G. Petrópolis. 2007. T. C./abr. 5º Volume da série de Dossiê. Gustavo (orgs. D. ignificação e tema em perspectiva dialógica. Secretaria de Educação Fundamental. Campinas. LADEIRA. 215 BRASIL. 2000. 31-39.3. CORPOS .N.uol. SP: CECULT. e ABREU. v. TRENTIN. P.

Nesse sentido. uma vez que variará com o tempo – uma vez que a posição de poder vem sendo ao longo do tempo passada de grupo a grupo. O processo de análise se mostra possível a partir do estudo das proposições teóricas de Mikhail Bakhtin nos romances ya e da orientação de linguagem como construção social o que permite uma investigatgação sobre as representações desses corpos na literatura.com 95Professora Doutora.Corpos. Junta-se ao arcabouço teórico de Guacira Louro (2014) e Judith Butlher (2003). a partir da obra “Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo” (2014) foi possível estabelecer um recorte representativo SILVA. 2017). mas resultado da interação dos sujeitos em um dado espaço/tempo (cronotopo) (BAKHTIN. éticas do ser humano. Sexualidade. Juan dos Santos 94 desse gênero. respectivamente. UFRN. RESUMO 216 Este trabalho tem por objetivo analisar como se dá o processo discursivo de construção dos corpos sexualizados no gênero Young Adult. Nessa perspectiva. Esse poder monológico está nas mãos justamente daqueles que estão no poder e é por isso que sua natureza é mutável. 2008) nada mais é do que um mecanismo linguístico responsável por negar os discursos outros e perpetuar uma imagem singular e cristalizada sobre os fatos da vida. penalizando aqueles que tentam se desviar dele. Sobre isso. a qual por meio do discurso censurou os assuntos considerados inadequados e fez do meio social um espaço extremamente homogêneo e desprovido do que era visto naquela época como impuro. Ou sobre quem deveríamos intenção de. VOLOCHINOV. nos permitirem ser. discutir a construção desses corpos sociais (e (SAÉNS. se faz necessário resgatar a noção de que a linguagem possui significados que não são intrínsecos a si. Maria da Penha Casado 95 gênero discursivo em foco é reflexo dos sujeitos que o leem. na somos. Contemporaneidade Igreja Católica. hoje. mais especificamente. Ainda sem A DESCOBERTA DA muita visibilidade acadêmica por estar inserido na coleção das obras best-seller. sobretudo aquelas ligadas às questões morais e Palavras-Chave: Young Adult. 2015.137) sexuais) e evidenciar a construção do ser a partir do discurso. como vivenciamos o poder da igreja. p. a pesquisa problematiza esse processo de sexualidade dos corpos a partir do discurso e ̶ O que você tem contra adultos? evidencia esses sujeitos participantes desse ̶ Eles têm ideias demais sobre quem cronotopo.com CORPOS . A pesquisa se insere na área da A Linguística Aplicada e se orienta teórico- globalização conseguiu romper com diversos paradigmas e metodologicamente por uma investigação questões que vinham sendo cristalizadas desde as épocas mais qualitativa dos dados. como propõe Moita Lopes (2006). E-mail: juanfflorencio@gmail. 2014. Sendo a construção dos significados situadas em circunstâncias sócio-históricas INTRODUÇÃO particulares. da burguesia. A Idade Média teve um gigantesco domínio da Cronotopo. a fim de se observar como se dá a construção discursiva da sexualidade e o quanto o ALVES. Esse discurso monológico (BAKHTIN. o gênero retrata a juventude contemporânea e. SEXUALIDADE: a homoafetividade a problemática em torno do processo de se inserir na sociedade e de se adequar a sua realidade.E-mail: penhalves@msn. da nobreza e. remotas. ao recortarmos dado período 94Aluno de graduação em letras (língua portuguesa e literaturas) e bolsista de iniciação científica (CNPq) na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Na contemporaneidade. É nesse espaço que a questão da sexualidade encontra espaço para ser discutida. na qual as famílias e as instituições sociais em nome de uma “moral” e dos “bons costumes” varreram para baixo do tapete todos os assuntos dentro desse campo. Para tanto. sem identidades destoantes. Sobre essas dissidências identitárias há diversos exemplos. 2016. ressignificada (LOURO. Para Foucault (1998). A construção de um pensamento crítico. 217 histórico teremos sujeitos singulares historicamente que observarão os fenômenos de linguagem e suas manifestações com um olhar bem peculiar de acordo com o plano de fundo que o integra e constitui. A questão é que. mas neste artigo trataremos de um muito específico e que tem ganhado destaque nos estudos antropológicos. precisam de sujeitos específicos para fazer suas engrenagens funcionarem da melhor forma. Portanto. como bem menciona Marx. portanto. 2017). é esperado que se haja um sério policiamento dos corpos do sujeito dispostos nesse sistema. Igreja. mais rentável. monologizar os discursos a fim de que se crie esse tipo de indivíduo específico. Para o capitalismo é muito mais interessante se ter um contingente de pessoas homogeneizadas. No meio desse sistema. ainda há a coerção aos que se aventuram nesse universo de descobertas do próprio corpo e se CORPOS . Tendo em vista esse público específico. históricos e da linguagem – sobretudo na linguística aplicada: a homoafetividade. vivemos por muito tempo em uma era vitoriana. logicamente. causa reações de contenção por parte de todo o sistema. dentro de uma mesma forma e guiadas ideologicamente para a manutenção da construção do sistema. experenciada e. É confuso. homogêneo e lucrativo é um objetivo estrutural desse sistema. O MUNDO E A AVENTURA DA DESCOBERTA Um dos resquícios do domínio da igreja para a sociedade capitalista foi o problema de se discutir questões relacionadas ao sexo e a sexualidade. como parte integrante de um sistema cultural. Esse pensamento se encaixa aos demais grupos que antecederam esse grupo social na posição de poder. imaginar um avanço temporal que persiste em carregar determinadas estruturas cristalizadas. “a burguesia cria um mundo a sua imagem e semelhança” (1999). abordada. ferramentas tecnológicas como a internet propiciam a reabertura das ágoras gregas de uma forma mais democrática e com uma quase infinita possibilidade de informações. este trabalho se propõe a investigar como se dá o processo de descoberta da homoafetividade nesse momento da vida e como as ferramentas de massa – sobretudo a literatura – auxiliam nesse processo de identidade. será utilizada a obra “Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo” como exemplário representativo dentro da literatura Young Adult. nobreza e burguesia possuem sistemas sociopolíticos específicos os quais. o ato de assumir identidades autênticas ou de seguir outros caminhos que não aqueles pré- estabelecidos. 1. VOLOCHINOV. Ainda que dentro desse sistema “mais aberto” ao diferente e às discussões sobre o “novo”. a sociedade burguesa ainda permanece com muitas das suas doutrinas e ideologias. Mesmo derrubando o poder da Igreja.

As imposições de saúde. é de se imaginar que cada recorte específico do tempo demonstrará necessidades comunicativas específicas dos sujeitos. inscrevemos nos corpos marcas de identidades e. A camisa da série remeterá automaticamente a imagem de um fã que tenta representar seu hobbie na sua identidade visual. Na contemporaneidade com uma quantidade substancial de novas tecnologias e gêneros CORPOS . dos grupos a que pertencemos. Imaginar esse processo de normatização é extremamente irônico ao se falar de uma sociedade que propaga cada vez mais uma ideia de autonomia e que influencia a sermos quem somos. Sobre isso. beleza. nas distintas culturas. consequentemente. tem atuado silenciosa e sistematicamente na homogeinização desses alunos enquanto os prepara para o mundo burguês como futuros operários. vitalidade. Treinamos nossos sentidos para perceber e decodificar essas marcas e aprendemos a classificar os sujeitos pelas formas como eles se apresentam corporalmente. que ao se permitir fugir de um padrão de vestimenta pode ser visto como devasso. exercícios. p. caso seja longo e escuro acompanhado de brincos. 2016. Através de muitos processos. vigor. Outros corpos. nas mais variadas culturas e são também. aromas. características. é um processo doloroso perceber a necessidade de se mutilar em diversos aspectos para poder entrar dentro da caixa padronizada do mundo social. 218 revelam diferente do modelo padrão para a sociedade. É justamente o período no qual os sujeitos começam a se reconhecer como indivíduos singulares e. muitas vezes. desde que seja um modelo estabelecido pelo sistema. (LOURO. é fugaz essa percepção da formação identitária e de seu conflito na adolescência. roupas. já que não é de forma alguma uma instituição sem ideologia ou passiva. na realidade. de diferenciação. juventude. higiênicos. impuro e imoral. pelos comportamentos e gestos que empregam e pelas várias formas com que se expressam. força são distintamente significadas. maquiagem escura ou traços mais sombrios. com o é o caso do negro de dreads que possivelmente será ligado à sujeira. De acordo com as mais diversas imposições culturais. A realidade é que se pode ser quem quiser. HERÓIS DA LITERATURA DE MASSA Ao se entender a linguagem como construto dos sujeitos em dado cronotopo. no entanto. formas e gestos são questões fundamentais para a formação da identidade. É a partir da análise desse corpo que os sujeitos o relacionam com determinadas visões. nós os construímos de modo a adequá-los aos critérios estéticos. Essa visão não é por acaso e não se baseia em algo verídico. morais. 2.15) O corpo em conjunto com seus adornos. A escola tem papel decisivo nesse processo. drogas e desvio moral. investimos muito nos corpos. de cuidados físicos. diferentemente atribuídas aos corpos de homens ou de mulheres. mas em um estereótipo que nada mais é do que uma ferramenta coercitiva para guiar esses indivíduos para dentro da norma. hippie ou rockeiro. Ou o gay. O cabelo longo fará com que pensamos em um estilo alternativo. adornos. terão sua imagem ligada a questões fora desse padrão. Essa questão de uma identidade padrão é evidenciado pelos mecanismos de poder e fazem com que de qualquer forma.

Essa questão pode ser facilmente visualizada no gigantesco consumo dessa cultura de massa. Maffesoli (2005) teoriza sobre uma geração que não tem mais os pais como exemplo a ser seguido e como fonte de inspiração. portanto. o qual como já defini em trabalhos anteriores (SILVA & CASADO ALVES. no prelo) trata-se de um gênero com protagonistas entre catorze e vinte anos que a partir de um grande conflito – a morte dos pais. No cenário contemporâneo. a descoberta da homossexualidade. Essas mudanças. construindo a alteridade com personagens fictícios ou com amigos virtuais. a qual teve suas práticas discursivas totalmente alteradas com as mudanças causadas pela globalização. nesses casos. Esse processo de mudança das estruturas discursivas afeta também a literatura. computadores e diversos novos apetrechos tecnológicos os processos de hibridização e intercalação propiciam o rearranjo de velhos gêneros em estruturas repaginadas capazes de darem conta dos interesses comunicativos das pessoas. é importante perceber que as obras YA são um retrato muito semelhante da realidade juvenil contemporânea. Nessas linguagens a juventude encontra personagens com os mesmos dilemas deles. a qual tem suas formas de narrativa alteradas em decorrência do plano de fundo que se estende atrás dela. por sua vez. na frente de livros ou da tela do computador (jogando. Esse é o caso do Young Adult96. torna-se pertinente. A produção de obras que tratam a sexualidade tem aumentado nos últimos anos. assistindo filmes e séries nas redes de streams ou socializando nas redes sociais). Ainda sobre o gênero. 2017. definir como esse gênero se estrutura na contemporaneidade. no prelo) Nesse sentido. os pais precisam trabalhar cada vez mais na busca de um ideal de vida propagado pelo sistema capitalista e os filhos. um grande amor ou alguma outra questão pertinente a esse período – irão passar por uma longa jornada até chegar enfim. passam muito tempo na escola onde constroem relações de alteridade com os outros alunos e em casa. na realidade. CASADO ALVES. inclusive no Brasil em que filmes como “Hoje eu quero voltar sozinho” (2014) e autores como Vinícius Grossos tratam a questão da homoafetividade nesse viés juvenil e situado na cultura nacional. CORPOS . sejam por meio dos livros juvenis sejam pelas produções cinematográficas. Sendo os gêneros os provedores do processo de interação dos sujeitos. Sobre isso. 96 A partir de agora nos referiremos ao gênero com sua abreviação: YA (Young Adult). 2016. 219 provenientes dos smartphones. práticas identitárias e diversos fenômenos discursivos podem ser observados a partir da leitura dessas obras que transmutam a realidade juvenil para os enredos de ficção. Jovens que tentam encontrar seu local no mundo a medida em que são repulsados por determinados sistemas ou não conseguem se encaixar em lugar algum. essas obras se repaginam nesse momento e se tornam um grande representativo da identidade desse público juvenil. os jovens cada vez mais enxergam nos personagens da literatura de massa a fonte de sua identidade e material para tentar preencher o seu inacabamento. tendo em vista ele não ser novo (a literatura para jovens já existe há bastante tempo). mas ter um novo arranjo devido ao cronotopo em que se encontra. (SILVA. a um certo amadurecimento frente a situação. novos hábitos.

mas um momento de leitura de proposição. Alguns eram inescrutáveis. mas até aí nunca tinha ouvido falar de ninguém. Fiquei surpreso. com CORPOS . inclusive na obra Will & Will (2013) escrito em parceria por eles. A trama da história vai sendo desenvolvida de uma forma natural. Dante passou a tarde toda limpando o quarto. como é mais utilizado no livro). o aluno. com uma linguagem sem muitos rebuscamentos e extremamente próxima daquela utilizada pelos adolescentes de quinze anos da atualidade. que gostaria de saber sobre o irmão. bobo. de caráter social e. O livro era interessante. (SAÉNS. Nunca tinha ouvido falar dele. Ambos possuem quinze anos e vivem uma vida comum como a de outros adolescentes. A questão da linguagem é o que torna o YA tão aclamado pelos leitores. Isso pode ser possível se na narrativa o sujeito encontrar personagens que possuam um corpo semelhante ao seu. somos apresentados a dois personagens principais: Aristóteles e Dante..40) O posicionamento de Aristóteles no excerto anterior revela uma questão interessante sobre a prática da leitura na adolescência e. Em "Aristóteles e Dante descobrem os segredos do universo". Algumas pessoas você entende de primeira. Essa ausência de comunicação preocupa o menino. mas alguma coisa.. 220 Dos autores mais prestigiados do YA. pedante nem intelectual demais. E até que entendi alguma coisa. na escola. Dante tem menos brechas na sua personalidade e está muito mais ciente daquilo que ele é. John Green e David Levithan possuem obras que tratam a questão de forma abundante. Esse processo é diferente da leitura que grande parte dos alunos procuram. Apesar de não ser algo explícito no início da trama. já que a construção e o discurso ingênuo das personagens que vão se complexificando e amadurecendo ao longo das tramas é responsável por potencializar a questão da alteridade durante a leitura e contribuir para o processo de identificação a partir das personagens. nada do que eu pensava que poesia era. uma família bem estruturada de classe média e de origem hispânica que tem poucos problemas. por consequência. que necessita bastante esforço para ser compreendida. Não tudo. e nunca entenderá. lendo o livro de um poeta chamado William Carlos Williams. A razão para isso é bem clara. propiciarem não exatamente uma diversão. não consegue se enxergar nessas narrativas por tratarem de temáticas mais adultas. O rapaz vive com seus pais. na qual por meio de situações próximas do seu cotidiano ele consiga estabelecer laços com a história e encontrar respostas para as suas lacunas. Alguns poemas eram mais fáceis que outros. se esses jovens procuram na ficção sujeitos verossímeis. É extremamente comum que os alunos rejeitem muitas das leituras propiciadas por esse espaço por elas tratarem de temas que são considerados chatos ou irrelevantes para esses sujeitos. o menino tem consciência da sua homossexualidade e será extremamente importante essa demonstração para chamar a atenção do Aristóteles de que ele também possui algo mal resolvido dentro de si. p. E não odiei. Fiquei pensando que poemas são como pessoas. A trama é narrada por Aristóteles (ou Ari.Outras você simplesmente não entende. muitas vezes. ou seja. mas a família não dá brechas para que isso seja possível. 2014. e um desses poucos é o irmão de Ari que está na prisão e os pais nunca conversam sobre isso. E eu. não era idiota. Por sua vez. sobretudo.. Comecei a achar que talvez soubesse o significado dessa palavra..

torna esse ato de ler coletivo ao se agrupar em comunidades de leitores. Romances que tratem da homossexualidade com tanta força não eram tão comuns no passado e. as quais as forças de contenção (centrípetas) forçam o aluno a permanecer em um sistema de conceitos cristalizados e unificados e. na sociedade contemporânea. moldar suas identidades em um espaço menos hostil. Compreender as identidades sociais como únicas e cristalizadas é uma questão que deve ser derrubada para a compreensão dos sujeitos presentes na modernidade fluida. é CORPOS . em casos heterossexuais. p. em contrapartida. efetivamente. em seguida. a partir da alteridade. portanto. Essa permanência apenas no canônico revela as forças verbo-ideológicas. afinal. as suas outras leituras o convidam a sair desse sistema fechado e visualizar outras possibilidades. séries. As personagens fictícias acabam. portanto. seu aparecimento em romances que tentam naturalizar e colocar no mesmo patamar de um romance hétero entram em conflito com essa normatização presente na literatura e. a questão da homoafetividade não é compreendida como natural por grande parte da sociedade e. ou seja. a construção dos significados relacionadas a ela dependem disto. É aí. desse modo funcionando como forças centrífugas. essa questão do ser sexuado acontece de forma distinta. A escola acaba. simultaneamente. 1996. a efetiva construção do sujeito e. decepções. espera-se que a adolescência seja justamente o período em que a sexualidade aparece e é perfeitamente aceitável que esses jovens sejam sexuados. portanto. A primeira questão é que se espera uma sexualidade heterossexual e não-reprodutiva. que surge a importância da análise desse material consumido por esses sujeitos. testarem seus corpos e. sobretudo ao se levar em consideração a questão do gênero. HOMOSSEXUALIDADE NA VIDA. contribuindo para a afirmação das identidades individuais. cria laços coletivos de identidade e sujeitos que encontram a partir da leitura espaço para discutirem. portanto. O ato solitário de ler possibilita. sobretudo no que tange às questões sexuais de uma sociedade filha da era vitoriana. 221 pulsões semelhantes. ao mesmo tempo. Dessa maneira. Nesse sentido. filmes e outras manifestações artísticas da pós- modernidade têm intrínsecos discursos de emancipação e igualdade que entram em choque constante com os conceitos cristalizados da sociedade. auxiliando na construção de uma certa repulsa pela literatura à medida que ignora as leituras prévias do aluno e convida para a sala de aula apenas as obras elegidas como canônicas. nas quais essa leitura compartilhada como prática social situada. No Brasil. No entanto. Essa insistência advém de um discurso monológico que tenta definir o que é a leitura boa e a ruim e. livros. a gravidez é algo que deve ser evitado a qualquer custo (PAIVA. tenta perpetuar essa literatura “ruim” às margens. HOMOSSEXUALIDADE NA ARTE A questão da sexualidade precisa estar situada historicamente para que se possa fazer uma análise efetiva de suas representações nos artefatos culturais. 3.214). se reconhecerem. crises de identidade e uma longa jornada de redenção em busca desse “eu”.

As novas tecnologias reprodutivas. a um engano. Esses construtos sociais criam estereótipos que se cristalizam no meio social e servem como modelos a serem seguidos. Assim. continuamente. p. aquilo que parece mais fixo e concreto no mundo cultural. 2016. […] deveríamos pensar a identidade como uma ‘produção’. Se assumir enquanto pessoa homoafetiva causa um grande abalo no espaço social em que o sujeito se encontra. 233) “[…] talvez em vez de pensarmos a identidade como um fato já completo. As novas possibilidades de transgredir estruturas socialmente cristalizadas reverberam também em uma possibilidade de transgredir modelos literários pré-estabelecidos e romper as auras CORPOS . 2016. sempre em trajetória e em mudança.15) Talvez a grande problemática em torno das questões de gênero e sexualidade estejam ancoradas justamente no fato de que nossos corpos são. em última instância. assim como visualizar um discurso que dialoga com homossexualidade causa um certo mal- estar nos que observam esse discurso. justamente os modelos os quais o sistema considerará correto. enquanto que a dos meninos deve estar aberta para não conseguir resistir a nenhuma chance de se envolver em uma prática sexual. sua condição de gay ou de lésbica também é frequente que seja vista como protagonizando uma fraude. publicamente. No entanto. 222 essencial a compreensão dessas identidades como fragmentadas. p. Ao tratar a questão da homossexualidade de uma forma tão natural e sem qualquer implicitude. uma série de fragmentos que formam o nosso eu. subvertem as formas de gerar.10). Quando uma figura de destaque assume. sempre em processo e sempre constituída dentro. “os corpos são significados pela cultura e são. de "realidade". Os discursos dominantes normatizaram tanto as questões de sexualidade e gênero que não esperamos que haja ambiguidades ou inconstâncias com ele. p. as articulações corpo-máquina a cada dia desestabilizam antigas certezas. de nascer. o sistema guia que sua sexualidade deva ser controlada ao máximo. evidenciando a imagem do homem viril. há. por ela alterados (LOURO. uma vez que Hall (1990. as possibilidades de transgredir categorias e fronteiras sexuais. o YA utiliza um processo de hibridização e intercalação para moldar a literatura juvenil atual a um novo olhar da situação baseado no cronotopo que se estende como seu plano de fundo. Ou seja. de crescer. p. A admissão de uma nova identidade sexual ou de uma nova identidade de gênero é considerada uma alteração essencial. de amar ou de morrer. de espaço.14). Ou seja. sexual e macho. uma alteração que atinge a "essência" do sujeito. como se esse sujeito tivesse induzido os demais a um erro. 2016. implodem noções tradicionais de tempo. que nunca está completa. e não fora das representações. A certeza de uma sexualidade e de um corpo que dita identidades são uma das poucas coisas as quais não conseguimos ainda enxergar direito enquanto fluida nos processos sociais em constante alteração do meio social. Afinal. (LOURO. somos uma espécie de colônia de identidades. (LOURO. para a mulher. surge outra questão referente à sexualidade que são suas combinações.

CANCLINI. – Espancaram meu Dante até não poder mais. 2006) precisam ser ouvidos. uma vez que longe do discurso homegenizador de casa. (SAÉNS. por mais que desprovidas de grandes efeitos linguísticos. O CORPOS . 223 das coleções tidas como únicas e insubstituíveis (BENJAMIN. p. A evidência dos romances YA afirmam a constante luta de uma população evidenciada como diferente e destinada às margens. a partir da diferença. principalmente. 558). 1985.137) A literatura YA tem em si uma característica interessante que vai totalmente de encontro a uma das principais críticas à literatura de massa. O YA. Esses discursos se recusam a ecoarem dentro de armários e começam a chegar nos outros cômodos da casa. Era estranho querer abraçar um adulto.. 2002). a realidade quando se assume publicamente esse discurso homossexual. Fizeram isso com meu filho. YOUNG ADULT E OS SEGREDOS DO UNIVERSO Espancaram. Arte e vida dialogam com o inevitável: os discursos do Sul (MOITA-LOPES. No caso da obra. essa percepção por si só já é falha por desconsiderar a individualidade de cada sujeito.. Mas minha vontade era exatamente essa.. em específico.. p. 2003). tem de lidar com sujeitos únicos e formados a partir de discursos outros. O entretenimento do gênero não é mero passatempo ou possui uma narrativa conformativa a qual não gerará questionamentos no leitor e a edificação de um pensamento crítico. consequentemente. 2014. claro que em uma perspectiva ainda juvenil e frágil. socarem seu rosto. gera mais ameaça (BORDIEU. Ele está cheio de hematomas. um grupo de garotos viu Dante beijando um outro rapaz e o espancaram. ao ligar essa literatura ao seu conhecimento de mundo (um efeito dialógico) e produzir novos conhecimentos. São tempos em que os ideias da modernidade enfrentam constantes questionamentos e passam a serem reescritos. Não fiz mais perguntas. forçosamente. que pode muito bem se desenvolver com inúmeras narrativas. 4. ser encaminhado a rever determinados conceitos e abrir as fronteiras a novos contingentes ideológicos que se esgueiram pelas frestas solidificadas dos modelos padrões e reivindicam reconhecimento. portanto. 1979. O panorama social em que nos encontramos guiam os autores a produzirem novas narrativas. na arena discursiva. no que se refere à definição de um sujeito homogêneo (MOITA-LOPES. – ele sussurrou. A escola é o primeiro local em que jovens lidam com discursos distintos daquele de suas casas e onde começam a se formar as primeiras noções de diferença. Na realidade. Terminamos o café. na literatura. traz os discursos dessas identidades constantemente apagadas das narrativas sociais e tenta demonstrar. na cultura. os leitores a procurarem outros artefatos culturais e o mundo a. Quebraram costelas. E essa diferença é afirmada contra aquilo que está mais próximo e. A identidade do sujeito se forma.

traz os primeiros amores não correspondidos. nenhum de verdade. a partir da prática da leitura. a fomentação da alteridade a partir da ficção. contudo. p. Senti vontade de dizer que ele tinha sido o primeiro ser humano além da minha mãe com quem pude falar de coisas que me assustavam. a questão da identidade são transformadas em narrativas e os adolescentes podem. o entendimento de um mundo complexo e nada libertário. minha sensação era de que Dante tinha salvado a minha vida. os problemas familiares. Ao representar essas questões pertinentes a uma juventude contemporânea tão recheada de questionamentos e dificuldades de se encontrar. ou silenciosamente como as constantes tentativas de apagamento dessas pessoas no meio social. Senti vontade de dizer tantas coisas e. O poder centrífugo dessas narrativas possibilitam um desapego de definições pré- estabelecidadas e encaminham para uma compreensão de uma sociedade fluida e com novas demandas. o YA possibilita.336-337) Talvez o período da adolescência seja tão conflituoso por. o que se justifica pelo seu reconhecimento de si mesmo a partir da observação do amigo homossexual e do fato desse amor ser a sua resposta para os segredos do universo. ter um material para tecer reflexões e comentários que burlam o sistema cristalizado da escola e da sociedade. nenhum. por meio do artefato artístico. E que. modelos que são refratados. Essa definição de homem estabelece. Senti vontade de dizer que nunca tivera um amigo. A adolescência. que conhecia os mistérios da água. sobretudo. sentimentos simples e facilmente resolvidos e os pais que estão ali para resolver qualquer coisa que aconteça. por consequência. família. o encaminhamento homogeneizador para uma vida que parece pré-estabelecida (escola. A sexualidade. aposentadoria e morte). os jovens estavam em uma infância em que tudo parecia totalmente explicado e destinado a um felizes para sempre. A vida boba e sem sentido de Aristóteles começa a fazer mais sentido ao encontrar Dante. 224 discurso homofóbico surge justamente na normatização do que é ser homem em uma sociedade capitalista e conservadora. (SAÉNS. Senti vontade de dizer que Dante transformara minha vida e que eu jamais seria o mesmo. príncipes que tiram princesas de uma situação ruim e vivem para sempre felizes. Senti vontade de dizer que não sabia que existia gente como Dante no mundo. além dos hormônios a flor da pele e a busca pelo pertencimento em um mundo hostil em que nem toda identidade é tolerada. trabalho. não o contrário. As narrativas da infância estão repletas de mundos mágicos. as responsabilidades e. a desesperança. não tinha as palavras. 2014. CONSIDERAÇÕES FINAIS CORPOS . gente que observa estrelas. Até Dante. jamais. faculdade. por sua vez. que sabia o suficiente para entender que os pássaros pertenciam ao céu e não deveriam ser derrubados de seu voo gracioso por tiros de moleques idiotas e cruéis. na verdade. e estes são evidenciados e punidos pela sociedade a partir de comportamentos mais evidentes como o do romance.

2005. A identidade cultural na pós-modernidade. BORDIEU. H. 2003. CORPOS . 1ª Ed. 2015. MAFFESOLI. Tradução Paulo Bezerra. ______. Londres. 2008. Rio de Janeiros: Edições Graa. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. GARCÍA CANCLINI. Néstor. e ao propiciar a voz para públicos até então marginalizados. FOUCAULT. 2. Problemas da Poética de Dostoievski. ed. 2. 2015. 13. Intimations of postmodernity. ______. reimp. 1985. São Paulo: WMF Martins Fontes. enfim. O Young adult possui em sua estrutura interna um conteúdo temático que oferece abertura para muitos dos dilemas juvenis contemporâneos. 6. 5. Routledge. REFERÊNCIAS BAKHTIN. BAUMAN. 1988. arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. pode-se entender essas construções como anti- hegemônicas à medida que corroem o homodiscurso dominante e propiciam o aparecimento de novas vozes no meio social.11-27. Guacira Lopes. Michel. Paris. A ressignificação dos corpos pode ser também a ressignificação do nosso tempo. Estética da criação verbal. 2016.p. 1979. A razão para isso é a constante percepção de que essas produções discursivas simbolizam algo muito mais latente do que apenas uma leitura a serviço do entretenimento ou do prazer rápido. ed. Como proposto por Bakhtin (2011). levá-los à luz do espaço social. LOURO. Mikhail. São Paulo: Aleph. é representativo das narrativas reais de um público situado em uma convergência e espaço fluido o qual tem suas questões representadas por meio da ficção. JENKINS. mídia e consumo. A distinção. Cultura e comunicação juvenis. Walter. ed. v. Quanto à questão abordada neste trabalho. no qual a partir do olhar. Na realidade. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Magia e técnica. n. BENJAMIN. Rio de Janeiro: Lamparina. Tradução de Paulo Bezerra. 4. 1992. Michel. Comunicação. O corpo educado: pedagogias da sexualidade. a homoafetividade tem a partir dessa literatura um vetor centrífugo capaz de tirar do armário os leitores que se afugentam e. Nesse sentido. Stuart. 225 A cultura de massa tem cada vez mais atraído a atenção de pesquisadores e grupos que até então olhava com desdém para os integrantes desse sistema. São Paulo. P. de Alexandria. ed. História da sexualidade I: a vontade de saber. Z. 2015. ed. Tradução Susana L. São Paulo: Editora Brasiliense. Cultura da Convergência. ed. São Paulo: Editora 34. faz com que essas vozes ecoem e ganhem mais força e representatividade. Tradução Tomaz Tadeu da Silva 3. Minuit. Tradução: Segio Paulo Rouanet. onde seus corpos poderão entrar em evidência e. Belo Horizonte: Autêntica Editora. 2015. da interação e da reflexão nos constituímos axiologicamente. 12.4. assumir seu espaço de direito. Tradução Paulo Bezerra. nosso acabamento está no outro. Teoria do Romance I: a estilística. o qual tão fluido e poroso pode ser também mais democrático e libertário. São Paulo: EDUSP. por consequência. Tradução Tomaz Tadeu da Silva & Guacira Lopes Louro. HALL.

VOLÓCHINOV.ENGELS. 1999. F. 2017. M. ______. 9. CASADO ALVES. CORPOS . 2017. Valentin. A corrosão do heterodiscurso: uma cosmovisão das estruturas discursivas da literatura juvenil. No prelo. 226 MARX. Recife. In: X Congresso internacional da Abralin. RJ: Vozes. In: XXVI Jornada do Grupo de estudos linguísticos do Nordeste (GELNE).. S. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico da linguagem. ed.A selva juvenil: uma análise dialógica da construção da sexualidade no young adult. 2016. São Paulo: Editora 34. K. Young Adult: um olhar dialógico à (re)invenção dos gêneros juvenis. J. ______. Petrópolis. SILVA.. Manifesto do Partido Comunista. P. No prelo.

produção de conhecimentos nas aulas de identidade/alteridade e também expressão no percurso pedagógico construído e narrado. PINO. foram e ainda são produzidas nesse processo dialógico ininterrupto (BRASILEIRO et al. renovadas. Em diálogo com a Filosofia bakhtiniana. enfim. produção de conhecimentos e o lugar da escrita. as danças. não mais olhado somente por suas características biológicas. entre tantas outras manifestações da Cultura Corporal.spolaor@hotmail. Produção de conhecimentos SPOLAOR. 2011). estes corpos também acessam impressões outras. As práticas corporais. Gabriel da Costa 97 INTRODUÇÃO A s aulas de Educação Física Escolar têm como objeto de estudo a Cultura Corporal. educação física Palavras-Chave: Educação Física. Na relação histórica com o mundo. Mundo da vida e mundo da cultura imbricados a cada ato responsável (BAKHTIN. incorporando-as. 97Mestrando em Educação Física na Universidade Estadual de Campinas. Professor de Educação Física na Educação Básica. deixando suas marcas singulares em outros seres humanos. 2005). 1996). o ser humano compartilha novamente com o mundo suas experiências e impressões. destacamos as noções de excedente de visão. em seu processo de humanização. dialogam e produzem sentidos e significados específicos para aqueles gestos. em uma escola particular de Campinas. 2017) no seu agir. em outros corpos e no mundo da cultura de modo geral (BUBNOVA. Elas só existem na nossa sociedade porque os corpos se expressam. cada expressão.com CORPOS . as ginásticas. O corpo nesse campo de conhecimento. 2001. as brincadeiras. PROFESSOR?: reflexões acerca da realizado com turmas de 6º e 7º anos do Ensino Fundamental II. A cada ato responsável (BAKHTIN. RESUMO 227 Esta narrativa tem como objetivo refletir sobre a POR QUE ESCREVER. o circo. a partir de uma experiência de trabalho com o tema Esporte Adaptado nas aulas de Educação Física. Por se expressar e compartilhar suas impressões singulares com os outros. os jogos. Nesse processo dialógico. cada gesto. produzindo sentidos e significados (VOLÓCHINOV. mas também atualizadas. como feito em outros momentos históricos da área (SOARES. o ser humano se expressa corporalmente a partir de sua gestualidade e de variadas linguagens outras. Expressão. as lutas. E- mail: gabriel. as significações já existentes na cultura são incorporadas. 2016). com as coisas e com os outros. 2012). na medida em que os corpos se apropriam destas e se expressam singularmente (BAKHTIN. 2015). mas principalmente em sua constituição histórico-cultural. Membro do GRUBAKH (Grupo de Estudos Bakhtinianos) e do EscolaR (Grupo de estudo e pesquisa sobre Educação Física Escolar) ambos na mesma instituição. os esportes. marcando em sua carne a cultura da qual tomam contato (FONTANA. 2012).

228 Esse conjunto de produções. que por histórica não significa permanência do mesmo. entre outros materiais que utilizam. os discursos e símbolos de um grupo. acessórios. percebo que as discussões e observações do movimento da identidade e diferença tem se concentrado apenas no nível coletivo. nos fala: A alteridade é o espaço da constituição das individualidades: é sempre o outro que dá ao eu uma completude provisória e necessária. democrática e menos preconceituosa. procuro olhar para as tensões entre grupos culturais. A dinâmica dos discursos. como efeitos da produção de enunciados. símbolos e significados tentando manter-se provisoriamente estáveis entre os grupos. as fronteiras entre eu-outro. Muitos e um só: unidade e unicidade. 2006). as preferências por roupas. do eu constituído de vários outros (MIOTELLO. Nesse referencial. marginalizada. cada ato responsável. A partir destas considerações. identidade e diferença têm sido tratadas a partir dos Estudos Culturais e Pós-críticos da Educação (NUNES e NEIRA. reorganizadas. mutável segundo suas relações. nesta narrativa (PRADO et al. 2014). (p. Nessas fronteiras entre identidade e diferença que as tensões. na relação entre grupos culturais. No corpo biológico que somos constituímos histórica e geograficamente o sujeito que seremos – não sempre o mesmo. incompleto e inconcluso. Constituem as identidades dos sujeitos. a diferença acaba por ameaçar a estabilidade de identidade e por isso. CORPOS . Geraldi (2013) em diálogo com Bakhtin. as práticas corporais que realizam. a diferença é tratada como produtora da identidade. 2015) tenho como objetivo refletir sobre a produção de conhecimentos e o lugar da escrita nas aulas de Educação Física. estudadas e compreendidas. Há que se destacar que na literatura da Educação Física escolar. seguem a mesma dinâmica. mas mutabilidade no supostamente mesmo. Apesar da grande contribuição deste grupo para a área. Os grupos sociais dos quais os sujeitos se aproximam. compõe o universo da Cultura Corporal. Enfim. como aquela parcela da Cultura Corporal que tensiona a identidade. além de apresentar e tematizar as manifestações culturais e as suas gestualidades específicas. os conflitos e os preconceitos residem. criadas na dinâmica social. marcam também suas diferenças. entre eu-outro precisam ser deflagradas. acaba por ser afastada. Ao tratar de alteridade. suas formar de agir no mundo. Ao compor suas identidades. cada escolha dos seres humanos. como efeitos produzidos pela relação eu-outro. negada e até mesmo apagada nas relações de poder. Ao tentar romper as fronteiras. que movimentam a initerruptamente e irrepetível cadeia criativa de signos. expressões singulares em sentidos e significação. No diálogo com a Filosofia bakhtiniana é possível tensionar essa forma de olhar para a identidade e diferença. fornece os elementos que o encorpam e que o fazem ser o que é. para serem diluídas. cada expressão. situados em tempo e espaço. borradas em busca de uma sociedade mais justa.12-13) Dessa forma. uma vez que. enfim. assim como a Cultura Corporal é produzida de forma ininterrupta a cada gesto. as fronteiras entre corpos. tento trazer à tona a noção de alteridade. responsável. Durante as aulas.

(3) experimentassem diferentes papéis (guia. no desenvolvimento do projeto percebemos que no processo de apropriação destes conhecimentos. A ênfase fica na ressignificação das manifestações culturais. como critica Daolio (2013). mas de um corpo próprio do sujeito que dá sentidos para o seu agir. como na teoria de Go Tani (1989). mas na responsividade ativa também produzíamos muitos conhecimentos outros. apesar da ampliação da noção de movimento. como linguagem produtora da Cultura Corporal. meu maior dilema era a questão da produção de conhecimentos nas aulas de Educação Física. deixando de lado o produzido nas próprias relações sociais. assim como. na abordagem Crítico-Superadora em sua discussão sociológica (SOARES. entre outros). cego. como conteúdos a serem tratados. Goalball e Futebol de 5). os códigos. desenvolvi um trabalho com as turmas de 6º e 7º ano na escola que atuo em Campinas. Ora ao desenvolvimento motor de um ser abstrato distante do mundo cultural. CONSTRUINDO UM LUGAR PARA A ESCRITA NAS AULAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA A partir da concepção já apresentada. com a produção de signos. explorando suas diferentes gestualidades e formas de diálogo corporal. Ora ligado estritamente ao fazer técnico de um corpo biológico. como objetivos desta tematização. da ginástica. Na Crítico-Emancipatória de Kunz (1991) em diálogo com a Fenomenologia. Nas abordagens próximas da vertente crítica da educação encontro também certo reducionismo. e se esquecem da dimensão do movimento como forma de expressão e linguagem. ainda com lacunas a serem discutidas. 229 1. Ele aconteceu no final do 2º trimestre de 2017 e teve como tema o Esporte Adaptado. na medida em que os autores se preocupam com as manifestações do esporte. as modalidades esportivas paralímpicas específicas deste grupo. das lutas. Tínhamos no início. Como professor. reconhecendo suas potencialidades e dificuldades. penso que a teoria fica em uma filosofia que pouco dialoga com o mundo da cultura. Faltam elementos que interliguem a experiência vivida dos sujeitos com a produção cultural. do jogo. os alunos e eu no papel de professor não só incorporávamos o já criado. (2) vivenciassem os Esportes Adaptados (Atletismo. (4) compreendessem as regras. ancorada na dinâmica histórica e social. com destaque especial na Cultura Corporal das pessoas com deficiência visual. estratégias e os elementos técnico-táticos das modalidades. árbitro. 1992) encontro a noção de movimento como forma de expressão. Olham para a cultura em um nível macroscópico e não para a pista que CORPOS . permitir que os alunos: (1) refletissem sobre as possibilidades de movimento no cotidiano das pessoas com deficiência visual. não mais de um ser abstrato. A meu ver. dinamizando a própria tematização. Porém. nas próprias práticas em que o corpo expressa e produz material semiótico e ideológico necessário para a transformação social. Porém. Durante a graduação dentro dos grupos de estudo e nas disciplinas entrei em contato com as várias abordagens (SOARES. Por outro lado. essa noção é apenas citada e pouco aprofundada. em busca da luta de classes. 1996) que tratam do tema de formas diferentes. das aulas de Educação Física. o seu se-movimentar.

o que possibilitaria o olhar microscópico em diálogo com o macro. colecionados e valorizados. o brincar e tantas outras infinitas formas de agir no mundo que extrapolam até mesmo as palavras aqui escritas. de linguagem. eu e os alunos. Cada ato responsável em sua singularidade dialoga e compõe as produções singulares de tantos seres humanos outros. o sentir. permite a interminável conexão do presente com o passado. Os vários excedentes de visão (BAKHTIN. o falar. O ato responsável nessa perspectiva bakhtiniana. O ato não só limitado ao movimento. com o mundo da cultura. possibilidades de criação de um futuro. ao gesto dentro de uma prática. o cantar. compartilhados. signos e significações renovadas (BAKHTIN. Não podíamos perder e deixar passar tantas produções! Como as reflexões produzidas nas rodas de conversa poderiam ser registradas? Como as experiências corporais e os conhecimentos ali produzidos poderiam ser guardados. Nas atividades propostas. 2011) em pleno exercício. Inquieto com as produções dos alunos no processo pedagógico. Penso que a educação precisa se preocupar com esse futuro. o escutar. mas também ao assistirmos vídeos. expressadas em nossos gestos. da experiência do sujeito. 2011). cada expressão. Penso que ainda seria necessária a reflexão de muitas questões em cada uma delas. o fotografar. o desenhar. A responsabilidade é. permitindo que estes permaneçam sempre inconclusos em processo de construção. Os conhecimentos se produzem nesse devir. 21). vermos fotos e discutirmos o tema nas rodas de conversa. visto que são teorias produzidas no meio acadêmico. de sentidos dados ao movimento constituem meu olhar para a produção de conhecimentos nas aulas. me preocupava em como esses conhecimentos poderiam ser registrados. da expressão corporal como forma de linguagem. outros atos responderão. perde a possibilidade de reconstrução. não me reconheço como representante de nenhuma destas abordagens. a todo ato. das produções da humanidade. ainda inconclusas e com pouca implicação com a prática pedagógica dos professores. nas trocas de gestos e diálogos corporais. perde sua vida. De acordo com Geraldi (2013) “Todo ato responde. portanto. Essas noções de expressão. nossas falas. mostrando como o ato responsável é potente em sua dimensão ética. nesse ato responsável que em diálogo com o outro. o ver. redinamizados? A Filosofia bakhtiniana me pareceu um importante ponto de ancoragem. Sem esse diálogo com o cotidiano a teoria se prende em uma estrutura. constituída e constituindo a dos outros. 2012). compartilhávamos nossas percepções. via nas relações sociais. Diante desta intensa criação. mas em uma noção ampla que considera o pensar. nossas intervenções. mas apesar do diálogo. outras formas de produção passando pelos meus olhos. CORPOS . sobre o papel de suas expressões e linguagens na construção de conhecimentos. mostrando sua forma de olhar para o mundo. Cada um do seu lugar. o filmar. bifronte: com o passado que o ato interpreta e com o futuro que o ato desencadeará nas respostas que receber” (p. conecta o mundo da vida. abrindo possibilidades sempre novas. 230 os próprios autores deixaram. cada gesto. estética e epistemológica (BAKHTIN. o escrever. não só nas vivências práticas de uma modalidade. cada encontro. A cada ato.

essas definições provisórias. já em outro lugar. já deflagrada pelos autores da área (BRACHT. uma vez que têm em sua construção. minha incompletude. para suar. ele tem um excedente de visão com que poderá preencher. 2013). tinha dúvidas se eles conseguiam compreender a importância dos outros no processo de aprendizagem. os discursos da área biológica e também tecnicista do fazer pedagógico. 2006. dele eu também sou um outro e. o que eles não viam do seu lugar. do fazer corporal. sendo produzidos a cada ato responsável. este sempre me vê na paisagem em que estou. na forma de uma completude provisória. à medida que mostravam o que não podíamos ver. aula de Educação Física era para praticar esporte. Ambos incompletos. (p. com a escrita de algumas legendas. A meu ver. Somente ele pode me fornecer esses contornos. Em relação às produções. Os conhecimentos se produziam na relação com os outros alunos. me sentia também limitado. só temos uma forma de relação que possa preencher o vazio: a aproximação dialógica é a forma de encontrar completudes provisórias. a cada experiência ali construída. DAOLIO. Em consequência. esse formato limita as produções de conhecimento e as próprias potencialidades expressivas do corpo. afinal. muito diferentes do território da quadra. do seu próprio ponto de vista. PRADO. contextos outros. Talvez isso precisasse ser melhor desenvolvido. materializar em uma expressão. me doía por não conseguir guardar. Isso que pensava. Sem a possibilidade de materializar o realizado corporalmente em expressões outras. estavam sempre se alterando. se vendo como outros e compreendendo que seus conhecimentos singulares referentes à Cultura Corporal. Obviamente. como tal. CORPOS . em que os alunos apenas realizam as práticas corporais. Se eles compreendiam que os outros estavam mostrando em todo momento. Além disso. Os outros mostrando em suas expressões o que viam dos próprios colegas. que o outro vê. Elas tinham uma eficácia simbólica. apenas com fotos e no máximo. que adquiro para ele contornos definidos. ainda muito fortes. 1999. com um pano de fundo que me é inacessível. sem reflexão e discussão sobre o que fizeram. a cada diálogo. para jogar e não para escrever! Escrever é responsabilidade de outras disciplinas. Mas faltava também o espaço dos alunos olharem para si mesmos. Apesar da potência da aula de Educação Física. Até onde poderia tensionar o olhar dos alunos? Tensionar o modelo de aula que eles tinham aprendido? Pensei que além do espaço para a experiência dos gestos e das modalidades práticas. uma linguagem que os permitisse exercitar o excedente de visão também para consigo mesmos. 2013). parecia muito distante do modelo de aula encontrado nas escolas. precisava valorizar o diálogo.18) Ao passo que me encantava com a responsividade dos alunos e minha própria. É no panorama em que estou. com excedente de visão. Novo de carreira e também na escola me sentia preocupado com diversas questões. a reflexão. no contexto em que se está. Essa inacessibilidade a si próprio. Um modo de funcionamento aprendido e muito aceito. pensei em começar com narrativas visuais (ALMEIDA JUNIOR. 231 Sobre essa noção de excedente Geraldi (2013) diz: Na relação com o outro. mostra-nos nossa incompletude fundante.

Não estava no planejamento. nos leva para outros trajetos e deflagra nossa inconclusão. produz e cria sentidos e significações referentes a um tema. Porém. sinto que além de tensionar a fronteira do papel e caneta no território da quadra. 232 A foto como expressão talvez fosse mais aceita por todos. mas também nos olhares estranhados. Após tantas intervenções interessantes e ricas em dúvidas e elaborações. que no momento em que escuto os enunciados. Imagino que eles tenham pensado: Como assim. nas expressões de chateação e na resistência para ir à mochila buscar o papel e a caneta. ao se verem nas fotos. dos gestos. muitos quiseram dar suas opiniões e falar o que achavam. das identidades do ser aluno desta disciplina. em resposta às questões levantadas. 2017) e a dos vários meninos e meninas com quem iniciei o diálogo ali. Discutimos sobre a locomoção de um cego. o uso de outros sentidos. tão complexos para jovens de doze anos. da dinâmica e também produzindo novos sentidos e significações do ponto de vista de quem tira e também de quem observa. eu vim aqui para jogar e esse professor que eu nem conheço CORPOS . seria um desrespeito não guardar aquilo de alguma forma! Apesar da melhor das intenções. como ato corporal dialógico. Eu não me colocando no lugar aceito para um professor de Educação Física e tentando levar comigo os alunos. A escrita como expressão. a partir do olhar de um outro que fotografou e construírem novos conhecimentos. parecia tão óbvia a resposta para as dúvidas ali apresentadas. Assim como fui deslocado. a ideia de escrever não havia surgido. solicitei que eles colocassem no papel aquilo que havíamos acabado de conversar. sem muito planejamento. permitindo o registro das experiências da aula. por que precisamos escrever nas aulas de Educação Física? Nós nunca fizemos isso antes! O que isso tem a ver com o tema de nossas aulas? Aff. em resposta ao meu ato. poderiam enxergar seus corpos de outro lugar. As fotos não dariam conta de materializar o que falamos ali. preconceito e tantos outros temas. Percebo não só nas perguntas. imaginação. começaram os estranhamentos: “Professor. estava também dinamizando o contorno dos corpos. Essa responsividade me surpreendeu muito! Me impulsionou! A intenção do debate inicial era apenas a de abrir a imaginação para a possibilidade de um mundo completamente diferente a ser estudado. sinto-me deslocado. No planejamento estava tudo certo. com a ação sem sentido e desnecessária no contexto de uma aula de Educação Física. que para mim. a necessidade de ajuda. a distância de compreensões e a fronteira que existia e ainda existe entre a minha concepção de escrita como ato responsivo. pensamento. Primeiro dia de aula com o tema Esporte Adaptado e as questões levantadas para a discussão coletiva foram: Como vocês imaginam o mundo de um cego? Como vocês acham que é ser cego? Nesse momento. Ao pedir para que eles escrevessem. se encontrava com a concepção dos alunos. PRADO. que coisa chata!” Estas foram algumas perguntas e comentários que muitos alunos me fizeram quando solicitei a escrita. meu pedido também produziu deslocamentos. No caso dos alunos fotografados. como evento (SERODIO. quebra as estruturas. Não esperava tamanha complexidade no rumo que as discussões nos levaram e de impulso responsivo. porém a dinâmica da vida nos desloca. Para mim.

mas se a pessoa apenas aceitar ser cego. CORPOS . No momento da aula. (5) Eu acho que o mundo de um cego é o que ele imagina... enunciados.. Algo que gostaria de destacar. ricos em pravdas (BAKHTIN.. escrevendo e ouvindo os alunos. ricos em verdades singularidades. pois naquele momento. Deve ser necessário ajuda e as outras coisas devem ser mais fáceis de ouvir e cheirar. três. Enfim. Uma folha. Que ninguém mais poderia produzir a não ser o sujeito do ato. Talvez um desdobramento interessante seja compreender esses outros olhares também! Todavia. 2016). ele tem que decorar o percurso onde ele anda e usar uma bengala. 2012). acho que existia. Pontinhos representando a escrita em braile. Uma palavra. (2) O mundo de um cego deve ser preto. 2011). Ele também necessita imaginar o mundo como é. é sempre singular em relação aos sentidos. Mas também. é que nem todos resistiram da forma como narrado acima. Mas ainda assim. hein? (3) Eu acho que o cego imagina o mundo como as pessoas dizem que ele é. (4) Eu imagino que deve ser bem difícil de se localizar. na dúvida que se produziu em mim: Como mostrar para eles a minha compreensão? Hoje percebo que um caminho possível. 233 direito quer me fazer escrever? O outro sempre nos mostra o que não podemos ver (BAKHTIN. ela vai descobrir que é “única”. As escritas foram as mais variadas. diferente e aceitar os fatos é o melhor a se fazer. Mas.. duas.. pois ele se inspira nas falas dos outros e “vê” o mundo do jeito dele. desde uma moeda até o universo. a significação e o conhecimento que ali se constroem (BAKHTIN. Houve sim aqueles que se sentiram menos deslocados. com a sua compreensão do discutido. em diálogo com outros. Se ele imagina que é bonito e alegre é o que ele pensa. Resumindo. já acreditava nisso.. existe e sempre existirá a fronteira entre a forma com que eu olho para a escrita e a deles. Compartilho alguns desses escritos: “(1) O mundo de cego deve ser difícil e preto. enfim. Penso que meu trabalho como professor iniciou ali. Nos escritos era possível entrar em contato com as respostas para a provocação de escrever em uma aula de Educação Física. Uma linha. todos têm uma visão diferente para o mundo e para cada detalhe dele. sei que ser um cego no começo é difícil. cada um do seu lugar. em um contexto singular. Para o tensionamento do ser aluno nesta disciplina. talvez seja a valorização dessas expressões como algo importante. Como ele anda? Também não sei! Eles devem sentir tristeza por ser DIFERENTE. confirmando a felicidade que tive ao escutar as expressões nas rodas de conversa. único e irrepetível. Deve ser bem escuro. No caso do texto. pensando.. mas demorei mais algumas aulas para tomar consciência e descobrir a forma de sensibilizar os alunos. Então é esse mundo para ele. aceitaram com maior facilidade a proposta. mesmo se utilizando das mesmas palavras. dei ênfase aos olhares de estranhamento. seus sentidos são mais aguçados e a localização mais difícil. Mostravam variadas respostas para as perguntas levantadas sobre o tema de estudo. eles têm 2 braços e 2 pernas. E deve ser difícil. eles constituíram uma experiência que me marcou muito como professor. agora de outro lugar. na dúvida dos alunos em relação ao meu pedido de escrita.

Mesmo que não escrevendo tudo o que poderiam (talvez pelo contexto da escrita ser na aula de Educação Física) o que foi expressado ali. trocamos as vendas e quem era guia. 234 (6) Na minha opinião a maioria das pessoas sentem dificuldades no começo. Andando em grupo. mas também receio do que aconteceria. Não entrarei no diálogo com cada enunciado singular. mas com o tempo se acostumam. Não sabia ao certo os efeitos que essa atividade teria na experiência dos alunos. Definimos as duplas. Foi uma atividade muito intensa! Chegando ao local determinado. os alunos passaram também pelo papel de guias. que não é muito valorizado no mundo. se mostrou uma importante produção de conhecimento. desde os degraus. iniciaram também o esforço alteritário de se colocar no lugar de um outro e tentar enxergar o mundo do seu ponto de vista. os pilares. visto as características deste trabalho. mas percebia em seus olhares a preocupação e necessidade de maior cuidado para com os outros. ser cego é muito diferente do que todos pensam. muito barulho. Muitas pessoas acham que cego é algo muito negativo. Além de cegos. A chamada de atenção para a importância do outro se construía. com jogos. Como professor tinha que olhar o grupo como um todo. Deflagram a fronteira entre o seu mundo e o mundo de um cego. virava cego e quem era cego. Cobrei dos guias cuidado redobrado e muita responsabilidade. a escrita naquele momento. mas o cego que se sobressai é tão capacitado quanto alguém que pode ver. Porém. Mostraram que ao escrever. Os cegos têm muitas diferenças em relação a nós. desviando. Na segunda aula do tema. andando por obstáculos. já era muito rico. tentei antecipar várias situações na explicação da proposta. as duas aulas seguintes voltaram para a sua dinâmica normalmente aceita. pois permitiu que após a conversa e a escuta de vozes outras. orientar nas mediações dos guias. fazendo rolamentos. Também acho que os cegos têm uma audição melhor. o ponto de partida e de chegada. exceto em momentos de risco de acidente. Lembro que essa atividade gerou muita animação nas turmas. muita gritaria. brincadeiras e atividades práticas. em que os alunos colocaram faixas cobrindo os olhos e tinham de se locomover pelo espaço da quadra. cada um materializasse no papel a sua apropriação singular sobre o tema. Fiquei muito preocupado com os acidentes. saltando. muito importante para ser guardado e posteriormente compartilhado. se equilibrando. sem tocar no cego. trabalhando com a mediação tátil (em que o cego segura no braço do guia para andar) e a verbal (em que o cego se movimenta apenas a partir da voz do guia). CORPOS . ficar atento para qualquer risco de acidente. os funcionários estranhando tantos alunos vendados pelos espaços da escola. saímos do contexto da quadra e fomos passear pela escola. O corpo e suas variadas expressões já se faziam presentes. virava guia. (7) Para mim. A mediação do guia deveria ser estritamente verbal. Algo nunca experimentado antes por eles. não deixar dispersar. Após esse momento de escrita que durou não mais do que dez minutos. Ainda na aula da escrita. a identidade de um ser vidente mostra-se de forma clara. Eles escrevem em um tom imaginativo.” (ESCRITOS DOS ALUNOS DO 7º ANO) Algo que chama atenção é o lugar da escrita. as escadas. trabalhamos com a vivência de ser cego.

com a modalidade de corrida. Nossos atos produzem efeitos e aqui vão alguns questionamentos que ouvi: “Onde já se viu? Lição de casa de Educação Física? Você está seguindo alguma apostila? Quer transformar a aula de Educação Física numa aula teórica? A aula vai ficar chata assim! ” As fronteiras não estavam somente nas turmas. aproveitei para tentar explicar a importância da escrita. O sinal tocou e a escrita combinada com tanto entusiasmo e carinho. que produziu desdobramentos que nunca imaginaria. 2017). me deslocando e me fazendo parar para pensar novamente sobre o lugar da escrita como forma de produção de conhecimento na Educação Física. Os olhos brilharam. propus a escrita. No final da vivência. ao mesmo tempo.. “Gente. assim como do ser cego. Tensionei novamente o que era provisoriamente estável e percebi dois movimentos interessantes no grupo. Excedente de visão esse. O primeiro de grande aceitação. vocês compreendem que nós não podemos deixar apenas na conversa? Isso precisa ir para o papel. todo aquele conhecimento. experimentou tanto como cego. mas tão ofensivos em outro. linguagens e expressões (VOLOCHINOV. 2011) em relação ao primeiro momento da escrita (que eles só imaginavam como era ser cego). Depois dessa caminhada pela escola. tenho certeza que ficaremos com um material muito bonito depois!”. Só senti a dimensão.. eles tinham o que contar e ao perceber isso. sentamos no gramado e começamos a conversar sobre as experiências. Nessa prática. tudo muito rápido. perder aquilo! Pela segunda vez na semana. na experiência. Seus enunciados me provocaram novamente. virou lição de casa! Novo estranhamento. não parava em um lugar por muito tempo. um segundo movimento aconteceu. Durante a caminhada e a corrida via e ouvia os diálogos. quanto como guia. de uma ponta até a outra do campo. Porém. correndo apenas em linha reta. que não existia antes (era só imaginado em um primeiro momento) se produziu nas relações. consegui sensibilizar grande parte do grupo e mostrar que eles haviam produzido conhecimentos importantes para a aula. subimos para o campo de futebol e iniciamos o trabalho com atletismo adaptado. CORPOS . Todos falando alto. Demorei um pouco para absorver os comentários. 235 Na época não percebi. 200. mas nessa troca permiti o exercício do excedente de visão (BAKHTIN. Dessa vez. mas com o corpo inteiro. isso que vocês estão me contando é muito rico. mas também de forma mais ampla na cultura da escola. nas suas mais variadas gestualidades. Narrativas que contassem o que cada um sentiu. a potência das trocas quando pedi para os alunos falarem. com vontade de compartilhar o que sentiram corporalmente nas atividades. Estava iniciando uma proposta e não esperava que produzisse estes efeitos. aprendeu. Não podia deixar passar. do ser guia. pouco aprofundado. que não aconteceu somente com os olhos. O outro nos mostra o que não podemos ver. nova tensão. 400 metros. afinal. cegos e guias dão as mãos e correm em uma pista por 100. Percebi ali. Tão bonitos em um sentido. o mesmo entusiasmo encontrado no primeiro dia de aula. já com o tempo de aula quase acabando. Adaptamos a atividade para as nossas condições.

Ao parar. Percebi que as minhas mãos passaram a ser muito importantes para me darem segurança e me localizar. 236 compreender que eles eram expressos. Eu me achei muito estranha. Não poder ver o espaço a minha volta. eu me senti um tanto desorientada. que só quando é tirada de nós mesmos é que vemos o quanto era importante. Para tudo dar certo era preciso uma sintonia por ambas as pessoas. Como professor. estava chamando atenção para a produção de conhecimento que acontecia no próprio cotidiano da aula. Pude perceber o quanto é difícil fazer uma atividade sem enxergar. Então. Na minha opinião. Eu andava devagar. tinha responsabilidade de não perder isso no processo! Gostaria de compartilhar aqui alguns dos escritos desse segundo momento: (1) A minha experiência foi muito positiva. tendo que me basear completamente na minha audição. confiar na visão de um outro colega. um a um. Não.. já quando corremos de olhos vendados eu me senti muito desorientada e confusa. A experiência valeu a pena! (4) Primeiramente. Não sabia se tinha algo ou alguém na minha frente. Porém. Foi difícil “me virar” algumas vezes só ouvindo a voz do guia. Ao correr. nos diálogos corporais. Tudo ficou escuro. foi assustador. uma outra perspectiva. com as mãos estendidas tateando o lugar. olhar o mundo. Utilizei outros sentidos como por exemplo: A audição. do que fazer. o mundo ficou preto. Foi uma experiência muito rica em aprendizado! (2) Quando coloquei a faixa nos olhos. um outro alguém. achando que em algum momento eu bateria de cara em alguém ou alguma coisa. Foi uma experiência incrivelmente diferente. Nem todos podem tirar essa faixa de si. eu percebi que não podia depender mais da minha visão. que estava um pouco distante da construção que estava tentando produzir ali com meus alunos. Quem pode. mas depois consegui me deslocar com mais facilidade. isso é algo muito estranho. pois isso é uma coisa tão simples. pois falavam de um outro lugar.. quando colocamos as vendas e fomos conduzidas por nossas duplas. Utilizei o tato para segurar no corrimão da escada e para sentir as paredes. Percebi a importância que uma outra pessoa CORPOS . Foi estranho ter que depender de alguém para andar e para viver meu dia. Cada passo que eu dava tinha que ser devagar. na dinâmica da vida. mas foi legal saber como é complicada a vida do deficiente visual. o frio na barriga aumentava e a mão apertava cada vez mais forte. (5) Para mim. o tato e o olfato. o alívio de estar bem e poder tirar a faixa. a sensação de andar por parte da escola vendada foi muito legal e um pouco assustadora (preocupante). nas experiências. o exercício mais preocupante foi o de correr vendado com alguém preso aos seus braços. nos encontros. sonha! (3) Na última aula nós nos vendamos e um amigo nos guiou pela escola. aproveita. Tinha que dedicar toda a minha confiança na minha colega. Percebi que estávamos na cantina pelo barulho do Ensino Médio e pelo aroma da comida da cantina. A atividade do campão foi a mais complicada para mim. Achei estranho termos que confiar tanto em alguém e quando essa pessoa saía só um pouco de perto eu já me sentia completamente perdida. você não é mais dono do seu próprio jogo! (6) Quando eu coloquei a venda eu fiquei perdido. Quem não pode. pois não dava para usar o tato e os outros sentidos! Tínhamos que confiar muito nos nossos parceiros que estavam nos guiando. pois eu senti que não tinha mais o “controle” de onde ir. Gostei de experimentar ficar cega e percebi o quão difícil e estranho deve ser a vida de alguém com deficiência visual. Passei a depender de uma outra percepção. passo a passo. eu não quis deixar a aula chata! Não estava seguindo apostila e muito menos transformando a aula teórica e abstrata! Pelo contrário.

Cada expressão ali. Não estava no meu planejamento. Aprendo muito com todos! Lembro deles me contanto que esse segundo texto foi mais fácil de ser escrito.” (SEGUNDO ESCRITO DOS ALUNOS DO 7º ANO) Textos tão bonitos. dos cegos. A escrita não como uma tradução do vivido corporalmente. Cada vez que leio. porque eles já tinham a experiência de escrever em uma aula de Educação Física. fossem constituídos pela dinâmica da vida. algo que fica muito forte nos enunciados é sobretudo a importância do outro nas nossas vidas. Expressão com signos de outra natureza semiótica (VOLÓCHINOV. Muitas vozes ecoam nesses enunciados. a importância das pessoas nas nossas vidas. ao se colocarem no lugar. Que permitisse outras pessoas. em um simples passeio pela escola. percebo novos elementos (sinto que ainda existe muito para ver) e me surpreendo com os efeitos daquela aula. me senti deslocado! Nunca imaginei que permitiria a construção de tantas reflexões importantes. tão ricos em experiência e conhecimentos. na relação dialógica com os enunciados. de silêncio. Mostra a minha responsividade ao expressado por meus alunos. Esse texto mostra uma parte da sistematização que tenho feito como professor/narrador/pesquisador da Educação Física escolar em diálogo com o referencial da minha área e a filosofia bakhtiniana. A experiência me fez perceber. dos guias e depois retornarem para o seu lugar. sobre as experiências e sobre os conhecimentos ali produzidos. Corpoenunciado. diferentemente da primeira. pela existência singular de cada um na relação com os outros. porque nessa escrita. Foi a partir destes escritos que em conversa com as turmas decidimos pela escrita de um livro. Um livro que contasse sobre as aulas. a sua maneira. estudo. Primeiro. eu estaria perdido no mundo. no ponto de vista dos colegas. na produção de sentidos e significações renovadas sobre a Cultura Corporal. Sozinho. com a sua verdade era importante para a aula! Em segundo lugar. de diálogo (ZIMMERMANN. Já sabiam que eu não corrigiria o escrito em uma classificação de resposta certa e errada. compreendessem as dificuldades e possibilidades de ser cego. foi algo que percebi e aprendi também na relação com eles. um outro evento. e este é apenas um acabamento provisório para CORPOS . por outros professores colegas de trabalho. eles haviam vivenciado com seus próprios corpos como era ser cego! A experiência corporal permitiu que os enunciados ali produzidos no papel. com a sua caligrafia. no nosso mundo. tão significativos. 2017). Que compreendessem o esforço alteritário dos alunos ao longo do processo. mas como um outro ato responsável. 2015) com a aula. no nosso existir. ACABAMENTO PROVISÓRIO Muito já aconteceu após o compartilhado aqui. percebendo o mundo de outra forma. E como devemos estar atentos a quem precisa de nossa ajuda. tentando não ser indiferente para a expressão dos alunos. A importância da solidariedade. 237 teria para me guiar. Como professor. um momento de pausa. Para mim. enxergando outras coisas. no meu plano. como nunca. pesquisa e também por amigos e familiares.

Elas precisam ser consideradas. temos os mesmos direitos e devemos ser respeitados por isso! Porém. todo cidadão tem que ser tratado igual. que trata do corpo. de um grupo. na apropriação singular de cada aluno. Não importa a raça. o que vai acontecer com a humanidade?” REFERÊNCIAS ALMEIDA JUNIOR. Produzimos a Cultura Corporal. ele ainda precisa ser liberado. A. os efeitos que esse ato pode produzir na dinâmica de uma aula. na sua produção histórica e também dentro das aulas. G. a partir dos gestos e diálogos corporais. Apesar de muito potente. comem o que comemos. Como me disse uma importante interlocutora desse trabalho: “Você encontrou um problema de pesquisa para a vida!” Sem esquecer a especificidade da disciplina. mudo. cor ou etnia. penso que valorizar as expressões corporais nas suas mais variadas formas. visto que. para se expressar e produzir cultura de forma mais potente. enfim. então por que tratá-los diferente? Deficiência pode ser genética. desamarrado. o trato pedagógico da Cultura Corporal. S. vozes estas que originalmente impulsionaram o meu ato responsável de escrever aqui! “Nessas aulas aprendemos que apesar das diferenças. das conversas. Fecho esse texto com mais um escrito de meus alunos. oportunidade. mas na sociedade é conquistado. Interfaces da Educação. temos diferentes pontos de vista e com isso podemos perceber as nossas diferenças e ajudar uns aos outros. 2013. suas significações e seus conhecimentos. não podem ser esquecidas ou apagadas. mostram a concepção hegemônica de escrita que permeia nosso cotidiano escolar. Seu lugar ainda precisa ser reconhecido. colocado em outras identidades provisórias. CORPOS . 238 as reflexões do que consigo observar nesse momento. Até mesmo nessa área. das reflexões. Entre foto (e) grafias: percursos e indícios da produção de saberes docentes no cotidiano escolar. classe social. surdo e deficiente. foram muito importantes para a reflexão deste trabalho! Agradeço profundamente essas vozes e penso que as opiniões ali expressadas. torna-se necessário. Respeito deveria ser natural. 62-77. T. v. das fotografias. PRADO. Cego. 4... Aqueles comentários que recebi de meus alunos e também após a segunda escrita das turmas. V. dos vídeos. p. das escritas. são gente como a gente! Fazem o que fazemos. podem variar do encantamento e da criação até a recusa e negação. sensibilizado e valorizado com mais atenção. Hoje considero a escrita como uma expressão muito importante para as aulas de Educação Física. se temos preconceito com isso. na dinâmica incessante de atos responsáveis.

Y. Metodologia do ensino de Educação Física. H. 17ª ed. São Carlos: Pedro e João editores. Bakhtin tudo ou nada diz aos educadores: os educadores podem dizer muito com Bakhtin. Educ. W. BRACHT. Arte e Vida em Bakhtin. V. _____. n.48. In: FREITAS. [org] Metodologia narrativa de pesquisa em educação: uma perspectiva bakhtiniana. _____. 2015.2. São Paulo. FONTANA. M. DE PAIVA. In: CARVALHO.. n. S. A. Educação Física e Ciências Humanas. PINO. Editora Unijuí. 2017 . 2013. M. 5-16. Estética da criação verbal. KUNZ. Cadernos do CEDES (UNICAMP). ZIMMERMANN. T. BUBNOVA. A. (org. J. TAVARES DE MELO. A. V. 55-61.. L. 69-88. Goiânia. As marcas do humano: as origens da constituição cultural da criança na perspectiva de Lev S.) Educação. ed. v. 11-28. pp. Estud. supl. 1996. 33. p. T. 2016. GERALDI. v. 2016. C. SOARES. I. p. 6-12. G. 6ª ed. 268-280. T. São Paulo: Cortez. rev. São Paulo: Phorte. SOUZA JUNIOR. p. 29. M. LORENZINI. São Carlos/SP: Pedro & João Editores. G. SOARES. 150044. B. Para uma filosofia do ato responsável. Campinas. Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. São Paulo: Martins Fontes. Belo Horizonte. SERODIO. RODRIGUES. G.. AYOUB. 1ed. São Paulo: Cortez. São Carlos: Pedro e João Editores. L. 2015. V. 1991. p. NUNES M. 3ª ed. C. F. et al. (Org. V. R. L. Rev. G. Educação física escolar: fundamentos para uma abordagem desenvolvimentista. 1ª ed. M. L. Ijuí. 2012. PRADO. pp. 2005. T. 1003-1013. T. 2014. pp. 2011. XIX. K. 6. 2011. BRASILEIRO. A. F. Rev. v. H. p. Vigotski. 1999. T. Campinas: Papirus. 4. 1988. 1992. M. E. A cultura corporal como área do conhecimento da Educação Física. BARONAS. Bakhtiniana. R. Rev. n. 41-53. RUBIO. v.. A. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte. MIOTELLO. SERODIO. D. São Paulo: Editora 34. C. Pensar a Prática. PRADO. paul. R. C. Educação Física: ensino & mudanças. 2006. Pedagogia da Cultura Corporal: críticas e alternativas. O corpo aprendiz. NEIRA. Da cultura do corpo. Discurso. A. Sobre pausas e silêncios. Voz. 2ª ed. A alteridade como lugar da incompletude. 2006. 2. 19. O que poderia significar o “Grande Tempo”? Bakhtiniana. BUBNOVA.São Paulo: Hucitec. TANI. 10. 1ª ed. vol. A constituição das teorias pedagógicas da educação física. V. L. Escrita-evento na radicalidade da pesquisa narrativa. Os gêneros do discurso. PROENÇA. (Org. Fís. São Paulo vol. 2015. J. VOLÓCHINOV. C. n.). 1. Estud. MOURA. São Paulo: EPU/EDUSP. A. Belo Horizonte: Autêntica Editora. Discurso. M.). A. Campinas: Editora da Unicamp. et al. 2001. DAOLIO. TONELLI. 239 BAKHTIN. CORPOS . M. Educ. São Paulo: Editora 34. N. v. _____. E. C. 1. Educação Física escolar: conhecimento e especificidade. L.. Cultura: Educação Física e futebol. L. 2017. sentido e diálogo em Bakhtin. 2013. 1.

à sua identidade de disciplina. Suas práticas de (des)centralidade dos discursos monologizantes nela e problematizando como a publicidade se linguagem. Assim. produzindo enunciados que Palavras-Chave: Heterodiscurso. em boa medida. este artigo objetiva abordar uma peça publicitária. RESUMO 240 A publicidade. dogmática. ruptura frente à tradição. 2015. Essa propensão possibilita o enfoque de temas. sua imprescindível interlocução com os segmentos sociais em que atua e para quem comunica tem reconfigurado seus projetos de dizer. a despeito de a publicidade se caracterizar. silenciados. concreta. Forças Centrífugas. o corpo de uma criança. saturadas ideologicamente. investe-se de de 2017. CONSIDERAÇÕES INICIAIS doutorado. novidade. como esfera da atividade humana. Nesse sentido. Assim. Na contemporaneidade. in. inter: a Linguística Aplicada. Isso é perceptível ao 98Doutoranda em Linguística Aplicada pelo Programa de Pós-graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. essa postura atual é responsiva a um quadro social em efervescência. declaradamente. na sua ousada ambição de originalidade. avaliações. Tacicleide Dantas 98 pressuposto uma perspectiva de ciência capaz de admitir. fomentar e. 2009). por divulgar. os prefixos trans. de certo modo. em que grupos historicamente alijados. plasticidade. Como recorte de nossa pesquisa de 1. De certo. mas também protagonizar o que é anunciado em nosso tempo. Obviamente. o celebrativa que ainda se qualifica como transgressão. na sua sócio-história. mestiça e nômade (MOITA LOPES. posicionando- centrífugas em tensão na publicidade se estrategicamente como um catalisador de tendências. perpetuar padrões comumente excludentes. tecendo uma discussão sobre a dinamicidade. propostas. multi. passa a não só participar. 2017). Publicidade superam a previsibilidade e a expectativa do público a quem se reporta e alcançando a originalidade que lhe parece ser tão cara. passam a conhecer e a validar seus direitos. alinhados aos discursos circulantes. tomamos como VIEIRA. senão ANÚNCIO: forças centrípetas e inexpressiva e fracassada. aparecem. cada vez mais. E-mail: tacicleidevieira@gmail. pluri.com CORPOS . aspectos e questões até então interditados por uma tradição cujos padrões se estabeleciam numa conduta homogênea. Considerando essa realidade. para analisar práticas discursivas oriundas da publicidade. No comercial. monológica. negação. esse campo da centrípetas e centrífugas do mundo verbo- ideológico. ignorados ou circunscritos à categoria de “minorias”. sua recusa a legitimar a heterodiscursidade constitutiva da vida social culminaria numa comunicação afásica. Forças Centrípetas. refletem e refratam os manifesta nessa época. de diversos posicionamentos em (in)tenso diálogo na realidade resistência. do ano publicidade. Professora do Instituto Federal de Educação. – no seu profícuo diálogo com as concepções teórico- metodológicas do Círculo de Bakhtin (2011. trazendo à tona conteúdos e perspectivas antes confinados perifericamente. como esfera da criação ideológica em plena atividade. da marca Johnson & Johnson. criada A para a data comemorativa do Dia das Mães. ineditismo. ao representar a diversidade. produz enunciados concretos responsivos às questões sociais suscitadas na HETERODISCURSO EM contemporaneidade. ganhando expressividade e notoriedade. complexidade. os comerciais de hoje. constituindo-se expressão do heterodiscurso que se torna-se núcleo de tensões entre forças desencadeia na vida social. criação ideológica assume-se inclinado a explorar sobremaneira a relativa estabilidade do que anuncia. Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte.

resistentes. 2. à palavra disciplina. afiliamos este trabalho à área da Linguística Aplicada. num vácuo social que a resumia a uma “casca linguística abstrata” ou a um “esquema semântico igualmente abstrato”. Em seu propósito. Na sua filosofia da linguagem. Johnson & Johnson. 2009) possibilita problematizar as privações sofridas por determinados grupos sociais e acolhê-las mediante o engajamento de múltiplos saberes. resultante “do nexo entre a privação social sofrida e a levitação teórica desejada”. Afamada é a sua contrapalavra aos discursos de sua época. com a iniciativa um tanto inédita de abordar temáticas e posições descentralizadas. sobretudo àqueles que tomavam a linguagem de um ponto de vista estritamente formal. p. transitivas. trans. a diversidade e a inclusão recebem status de protagonistas. orientados na direção dos discursos de resistência e de reexistência no interior da ciência e das práticas discursivas que organizam a vida em sociedade. 13). por ocasião do Dia das Mães. como contraproposta às forças que centralizavam uma visão imanente da língua(gem) e da ciência. os prefixos hetero. postulada pelo Círculo de Bakhtin. (BAKHTIN/VOLOCHINOV. 2008). transitórios. publica-se nas diferentes mídias. HETERODISCURSIVIDADE E(M) PUBLICIDADE: pressupostos teórico-metodológicos Mesmo uma breve e pontual visita aos escritos de Bakhtin deixa patente que o autor não se voltou para os fenômenos linguísticos stricto sensu. visões de mundo. 2017. in. quando. o que atesta seu êxito enunciativo. fortuitas. também. compreendendo como forças centrífugas e centrípetas (BAKHTIN. especialmente aquelas produzidas para datas comemorativas. Assim. há maior saldo de vendas no mercado. fronteiriços. registre-se. inter. cumpre antecipar. ressignificando paradigmas cristalizados ao longo de décadas e fazendo com que o público esteja. Com base numa concepção de linguagem dialógica e axiológica. mostra-se particularmente profícua para a interpretação de um objeto que assume como epicentro a diversidade. Nelas. um volume de comerciais. Nesse sentido. materializa a aludida disposição da publicidade de movimenta-se no sentido de dialogar com diferentes perspectivas. continua a transformar consumidores em clientes. 241 pesquisarmos as recentes práticas discursivas advindas dessa esfera. avaliações sociais. 2015) incidem e resistem nessa peça. essa área “mestiça e nômade” (MOITA LOPES. 253). multi. a qual se preocupa com problemáticas tradicionalmente assinaladas como periféricas. Considerando essa realidade. pela mudança. discursos contingentes. representado. como força motriz da “sociedade de consumidores” (BAUMAN. de diferentes modos. o autor delineou um método sociológico. de acordo com Rojo (2006. na sua vertente sócio-cultural ou sócio- histórica. de uma marca de produtos infantis. p. pluri. Ao justapor. Tal comercial. replicando. compreendendo os sujeitos como centros de valor que (inter)agem e vivem heterodiscursivamente. Como campo de conhecimento. advogou uma CORPOS . a publicidade responde às demandas sociais e. este trabalho objetiva analisar uma prática discursiva publicada em maio deste ano. a LA.

ao lado das forças centrípetas segue o trabalho incessante das forças centrífugas da língua. enredadas e coexistentes na sua forma. tomado como material no enunciado concreto. 268). Nessa dinâmica. obedece às exigências da avaliação social expressa pela entonação circunstancial e histórica. Ou seja. Em outra via. 2012. Ainda que localizada. portanto. “a palavra entra no enunciado não a partir do dicionário. provisórias. as quais exprimem posições plurais. os quais “são correias de transmissão entre a história da sociedade e a história da linguagem. ainda que caracterizadas por orientação oposta. de crenças sociais e de padrões culturais impostos pela tradição. cada elemento da língua. nomeadamente excludente. Em sua perspectiva. 185). movediças. Correspondem a um conjunto de avaliações sociais marginais. monológicas. dialógicas. Correspondem a um conjunto de avaliações hegemônicas. generalistas e estanques. como um dos pontos articuladores dessa concepção de linguagem. há as forças centrífugas. sendo um traço definidor do enunciado concreto que perpassa decisivamente sua compreensão. na complexa corrente da comunicação discursiva. à leitura do comercial a ser analisado. p. cit. nós falamos por enunciados e não por orações isoladas. Essa cadeia dialógica e axiológica. Além disso. perdem sua concretude e seu projeto de dizer degenera. argumentando que o discurso é constitutivamente dialógico e ideológico. essa discussão não está limitada à teoria do romance. se desvencilhados do seu seio sócio-histórico. Um enunciado é matriz e nutriz de outros enunciados.” (op. corrobora o fato de que a linguagem é constituída e constituinte de práticas sócio-historicamente apreciadas. 2015. mas a partir da vida. Estão associadas aos discursos de desconstrução de estereótipos e de visões de mundo doutrinadoras. Segundo Bakhtin (2011). A responsividade. das entoações avaliativas que o penetram e significam. fica claro que A estratificação e o heterodiscurso se ampliam e se aprofundam enquanto a língua está viva e em desenvolvimento. CORPOS . 242 disposição para a língua na sua integridade concreta e viva. pelo pensador russo. difusamente interatuantes. Estão associadas aos discursos para a cristalização de estereótipos. Trata-se de uma noção imbricada. podemos compreender as forças centrípetas como aquelas responsáveis pela manutenção de verdades universalizantes. responsáveis pela proposição de verdades contingentes. no escopo da prosa romanesca. o qual se constrói sob a interferência de forças sociais de ordem vária. pautadas por uma ótica social hierarquicamente consolidada. Nessa direção. (BAKHTIN. coincidentes ou não. p 41). Discursivamente. p. composta por elos que suscitam respostas. portanto.” (MEDVIÉDEV. corresponde à síntese da relação “eu-outro”. passando de um enunciado a outros. os enunciados só existem na e para a sociedade que os elabora. ao lado da centralização verboideológica e da unificação desenvolvem-se incessantemente os processos de centralização e separação. pautadas por múltiplas visões de mundo. as forças de resistência. dos seus acentos valorativos. ao compreendermos esse modo de existência da linguagem.

podemos criar inteligibilidade para o comercial publicitário selecionado. dentre as quais a publicitária. e de forças de dispersão. presumimos que qualquer tentativa de descrição. Nessa lógica. de acordo com o Círculo de Bakhtin. por vezes. como resposta aos processos de descentralização sócio- política em curso. como referencia Bakhtin (2015. RESISTÊNCIA E REEXISTÊNCIA NO COMERCIAL “BEBÊ JOHNSON’S”: forças centrípetas e centrífugas em tensão Por tratarmos de um exemplar de comercial publicitário configurado nas modalidades verbal. sendo reconfigurado por eles. Na lida desses enunciados. a depender das relações que determinados grupos sociais travam em um dado momento histórico. diversificação. visual e sonora.youtube. Como práticas de linguagem. 243 O embate entre forças centrípetas e centrífugas é uma conhecida consequência da vida em sociedade. em que cooperam discursos que refletem e refratam posicionamentos ideológicos distintos. esteja fadada à insuficiência. para assistir ao comercial na íntegra: https://www. p. que se (re)produzem discursivamente. vive numa relação indissolúvel com os processos de (des)centralização sócio-política e cultural. No entanto. as forças centrípetas. a seguir. as avaliações atravessam os signos e suscitam (des)continuidade.com/watch?v=T2VgUGOm9Mg CORPOS .diante da indeclinável expectativa de contextualização da peça publicitária. ainda que moderadamente. empoderamento. 99 Sugerimos a consulta ao site. surpreendentemente: o bloqueio imposto às forças centrífugas tem sido gradativamente confrontado. centralizando comportamentos hegemônicos e contribuindo para hierarquizar o consumo por grupos sociais. homogeneização. e os movimentos sociais. Entretanto. Se. reproduziremos. O “mundo verboideológico”. ao oprimido. dominação. ao diferente. “onde não há signo também não há ideologia” (VOLOCHINOV. algumas cenas pinçadas do vídeo99. materializados no conjunto de signos que se apresenta. importa interpretar essas relações dialógicas complexas. os comerciais recebem a atuação de forças de centralização. 39). 2017. na contemporaneidade. mesmo a publicidade. p. de resistência. senão desviado. A partir dessas noções. a seguir. separação. problematizando como a publicidade se manifesta nessa época. a dialética dessas forças nos enunciados manifesta-se. declaradamente. e. é compelida a voltar-se. resistência. 91). a título de apresentação. que costuma ser regida majoritariamente por forças centrípetas. 3. têm provocado novas reações nas diversas esferas da comunicação. por mais minuciosa que seja. às demandas sociais contemporâneas. unificação. subjugação. as forças centrífugas. abre-se ao outro.

uma das maiores e mais premiadas do Brasil. delicadamente simples e fáceis de reconhecer. com 27 anos no mercado. enfim. podemos situar o comercial com os seguintes dados: como item da campanha da empresa Johnson & Johnson Brasil para a data comemorativa do Dia das Mães 2017. Essas imagens conduzem o olhar do telespectador e o envolvem na trama do bebê que se experimenta no mundo. sobressai a ideia perspicaz de retirar de cena o protagonismo explícito das mães. O comercial despede-se com a seguinte afirmativa. apareceu na TV. cenas que capturam partes do corpo de um bebê. Na sua constituição. o observador é que vive uma descoberta emocionante: na tela. evidenciando suas experiências táteis (numa superfície limpa e porosa) e suas descobertas sensório-motoras (como o ensaio para se erguer ou se arrastar) embaladas por uma melodia semelhante àquelas encontradas numa caixinha de música tradicional. registrado por zoom in100. ressignificarem a ideia de descoberta já presente no vídeo. pela primeira vez. aparece uma criança com Síndrome de Down. em primeiro plano. para. com estreia em horário nobre do dia nove de maio de 2017. colecionando comentários e respostas do público em redes sociais poucos minutos após o lançamento. mesmo no seu dia.youtube. deve-se destacar. a face do bebê.com/watch?v=T2VgUGOm9Mg Sinteticamente. Fonte: https://www. nas descobertas próprias da fase inicial da vida. As versões de 30 e de 60 segundos passam 50% de seu tempo nesse recorte do corpo do bebê. 244 Figura 1: cenas do comercial analisado. Além de ser veiculada na internet. e tornou-se viral. a peça focaliza. aparece segmentada: “Para nós e para todas as mães/ todo bebê é um bebê Johnson´s”. A referida peça é obra da agência DM9. Ao focalizar-se. a qual. para fazer 100 Ampliação ou aproximação da imagem no vídeo. CORPOS .

A novidade para o público. ou mesmo negativa. já lograria êxito. voltados para o mercado infantil. apontam para o heterogêneo. com cores sutis e leves. Mas a iniciativa de tornar protagonista quem raramente (ou jamais) ocupa esse papel. no que é atinente aos “seus bebês”. ou seja. mas supera essa visão ao agregar uma imagem diferente a ela: a figura da criança com Síndrome de Down. certamente é responsável pelo impacto. é o expediente sumarizador da presença e. promove a chegada de “um outro de si”. para um filho que. Ao importar para o seu modo de fazer publicidade um desdobramento da heterodiscursividade intrínseca à vida social. pela incidência das forças centrífugas. ou seja. que aparece no vídeo em segundo plano. que. o anulado. o descoberto. Essa escolha é tributária de um horizonte social que luta em favor do múltiplo e do diferente. saudável. das forças centrífugas no comercial. Importa ponderar. O corpo. belo. No entanto. o retrato de um bebê que personifica a diferença. especificamente. 245 estrelar os protagonistas de todas elas. o que pode ser inferido a partir do cenário clean. consultado o histórico da publicidade com crianças. sobretudo. como estrela do seu comercial. Como o conteúdo desse enunciado remete à homenagem no Dia das Mães. bela. que trouxe respeitável visibilidade para a Johnson & Johnson Brasil. por se tratar de uma peça assinada por uma marca cujo slogan é ”Promovendo a saúde e o bem-estar das pessoas”. geralmente. de olhos claros. A Johnson’s. pressionando como este novo enunciado delineará uma posição axiológica. a Johnson & Johnson traz. seus filhos. da prevalência. porém igualado. o que é concentrado nos valores que norteiam a campanha. aparentemente. de empatia com a diversidade e de busca por igualdade. para os filhos. (cri)ativamente responsiva. pela popularidade e pela reverberação do comercial. Seu conteúdo já é conhecido e avaliado. de modo costumaz. uma retrospectiva de comerciais do gênero. uma criança com Síndrome de Down. a peça não se produz no vazio. especialmente nas campanhas de datas comemorativas. no entanto. a Johnson & Johnson Brasil celebrou o Dia das Mães apresentando. os quais se produzem influenciados por forças centrífugas. crianças de diferentes perfis têm sido focalizadas nos comerciais. seguindo essa tendência. quiçá. certamente evidencia a recorrência de um padrão: criança branca. Voltada para produtos de higiene. cuja publicidade costumava ser restrita. representadas pela escolha de se valorizar positivamente um sujeito que era tratado de maneira indiferente. Essa ousadia. atua na publicidade (branco. muito provavelmente. um bebê diferente. está menos atrelada ao corpo em cena do que a um lançamento de produto ou a um enredo emocionante. sobre ele incidem vozes e forças sociais que apontam para diferentes direções. a empresa garante o tom atual/inovador do comercial. Tal conteúdo é balizado. sua composição alude ao cuidado e ao zelo direcionados. Essa tonalidade é sublinhada pelo alinhamento do vídeo aos discursos de inclusão. representa a celebração da diversidade. que a relativa primazia das forças CORPOS . olhos azuis. nos últimos anos. fofo). Naturalmente. ou seja. Neste ano. segundo a empresa. no ambiente doméstico protegido e zelado. Nessa linha. o estereótipo do bebê que. aspecto central no vídeo. nesse caso.

a profundidade. consumadores de um projeto de dizer que dialoga opositivamente com avaliações de exclusão. Assim. Desse modo. ao final. Mas. os cortes. a revelação e a surpresa pela descoberta do objeto total (o bebê com Síndrome de Down) são signos ideológicos. CORPOS . o zoom in. de integração. como se o “para” introduzisse os destinatários de algum feito. no caso. abre para ele um novo fundo dialógico. por outro. seguida do predicativo ou da característica comum. a própria assertiva pode ser interpretada como um depoente de que a inclusão não parece ser tão natural. numa proposta de existência diferente. por um lado. portanto. ao declarar que “todo bebê é um bebê Johnson’s”. em certa medida. Até esse momento. como o público-alvo que. o excerto parece uma dedicatória. autodeclara a inclusão pela generalização “todo bebê é”. regulando o ângulo de visão e a forte aproximação do objeto filmado. tornando a existência do outro visível. de incorporação. de segregação. as primeiras cenas do corpo infantil levam a crer que estamos diante de algo esperado. Se. numa direção. Se. do contrário. pode ser interpretada como produto da influência de forças centrípetas coexistentes na peça. em outra. uma vez que necessita ser verbalizada. A primeira parte dela tende a reforçar o caráter de homenagem ao apresentar o trecho “Para nós e para todas as mães”. Assim. diverso como se reconhece a cada dia. consente a inferência de que é preciso reafirmar o diverso. junto ao enquadramento conferido ao corpo em foco. Na composição. vê-se representado ali. numa espécie de autojustificação frente a discursos centralizadores que subjugam o que não se insere nos seus parâmetros. a sentença verbal é forjada para acentuar o reconhecido valor de pertencimento ao todo. uma confissão de finalidade. A sentença verbal. Esse complemento. ao ser destacada. contrariando a tradição relativa a um determinado tipo de publicidade. a temática da descoberta e a forte comoção levantados pelo vídeo como balizados pelas forças dos diferentes discursos que gravitam em torno do comercial. ao final do filme. seu enfoque unido à face ressignifica a interpretação. valores obtidos pela insígnia “Johnson’s”. A campanha. o plano. o comercial publicitário parece superar a previsibilidade e realizar sua ambição de originalidade. de separação. enquanto atualiza sua interlocução com os discursos contemporâneos de inclusão. Essa qualificação. por exemplo. Ao resistir a seguir um estereótipo. podemos compreender o caráter de inclusão. o vídeo promove uma reesxistência do corpo apresentado. alternativa. da homenagem do comercial. movente. o enquadramento da imagem. posiciona-se favoravelmente à diversidade e celebra o Dia das Mães descentralizando o estabelecido. 246 centrífugas na escolha do protagonista não suprime a interferência das forças centrípetas no comercial. essencializado. em caixa alta. pode ilustrar o embate dessas forças. a sequência. a ele é somada uma ideia que completa e reconfigura o sentido: “todo bebê é um bebê Johnson’s”. a frase seria dispensável. o comercial acaba por afirmar que é preciso assumir categoricamente essa posição. óbvia e consensual quanto o comercial busca sugerir. Considerando essa discussão e observando a peça na sua totalidade. correspondente ao próprio nome da marca “é um bebê Johnson’s”. Esse propósito é explicitado por meio do corpo em evidência e da sentença final que.

muita resistência a importar o outro. a vocação de mercado dessa esfera parece cogitar alternativas e mudanças frente aos modelos estáticos que ela mesma avaliza. Nesse cenário. a retirá-lo de um lugar de privações e a distanciá-lo do sofrimento. ainda que moderadamente. têm se posicionado face ao heterodiscurso dialogizado. secundarizado na mídia. os traços característicos de uma criança com Síndrome de Down emocionam. foi mantido alijado. afina-se aos posicionamentos de resistência. excludentes. Nesse sentido. com a leveza de pensamento é possível ressignificar a vida social. a publicidade da Johnson alcança exitosamente seu propósito: emocionar. pelo ineditismo. enrijecidos e fadigados por uma implacável resistência a resistir. De seu modo peculiar. recusando-se à manutenção de um padrão estético infantil previsível e imutável. a princípio. e torná-lo. permaneceremos sob forças centralizadoras. CONSIDERAÇÕES FINAIS No comercial analisado. como metaforizado por Rojo (2006). protagonizando o vídeo. Assim. à medida que responde ao seu tempo. Compreender essa tensão dialógica e sua plenitude nos enunciados concretos permite problematizar as práticas discursivas que constituem o mundo da vida e tratar questões sociais relevantes. pela identificação. Sem ela. Na tela. quando os índices de consumo se ampliam ano após ano. marcando claramente a posição da empresa em relação às crianças não associadas ao estereótipo construído e alimentado por forças centrípetas em contraponto às centrífugas. o telespectador. para retirar a privação sofrida por crianças com corpos diferentes do que se aquilatou como ideais de perfeição na mídia. Esse movimento de inserir um corpo diverso como principal. pode ser compreendida como resposta aos discursos contemporâneos que pressionam a mudança de mentalidade em relação à diversidade. por decorrência. como dado reforçador do discurso de que todas as crianças em cena na publicidade são as mesmas do ponto de vista físico. Pelo exposto. a despeito de ainda haver. No entanto. 247 contribui. seu cliente. o corpo da criança – em sua sócio-história – aparece. (também) na publicidade. pois. CORPOS . o consumidor. de uma chamada “minoria”. vai de encontro a valores hegemônicos e evoca aqueles provenientes de outros grupos sociais. finalmente. velado. um bebê que. convencionalmente. Certamente. muitas vezes. avaliações sociais. visões de mundo. é possível entender como a publicidade. 4. as cenas com recortes do corpo são inteiradas e sua totalidade enfatiza um representante da diversidade. é imperativo insistir na transformação da realidade. como elemento representativo da homogeneidade. aqui interpretado como resultante da incidência de forças centrífugas em diálogo com as centrípetas. que vê. esfera que dita a vida para o consumo. A responsividade no comercial torna-se ainda mais flagrante na sentença verbal que o encerra. O embate entre forças espelha sentidos carregados de posições axiológicas. especialmente nas épocas celebrativas. Sua presença numa esfera tradicionalmente massificadora e mantenedora de padrões sociais.

2006. Rio de Janeiro: Zahar.br/ppgcel/Discurso-Na-VidaDiscurso-NaArte. _____. H. 2017. In: PEREIRA. Disponível em: <http://www. BAUMAN. Marxismo e Filosofia da linguagem: Problemas Fundamentais do Método Sociológico na Ciência da Linguagem. V. M. 2017. São Paulo: Editora 34. VOLOCHINOV. Por uma linguística aplicada indisciplinar. 1ª ed São Paulo: Editora 34. O método formal nos estudos literários. CORPOS . N. MOITA LOPES.> Acesso em 30 ago.uesb. L. (Orgs. Fazer linguística aplicada em perspectiva sócio-histórica: privação sofrida e leveza de pensamento. 2015.pdf.C. R. L. Da aplicação da linguística à linguística aplicada indisciplinar. In: MOITA-LOPES. Discurso na vida e discurso na arte: problemas da poética sociológica. P. P. Z. São Paulo: Editora Contexto.. P. Linguística aplicada: um caminho com diferentes acessos. (Org. P. 2009. _____ Teoria do Romance I: A estilística. São Paulo: Contexto. MEDVIÉDEV. 2011.. Estética da criação verbal. R. ROJO.). 2012 (1929). São Paulo: Martins Fontes. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. São Paulo: Parábola Editorial.N.). 1ª ed. 248 REFERÊNCIAS BAKHTIN. 2008. R. ROCA.

101 Acadêmica do curso de pedagogia da Universidade Federal da Fronteira Sul CORPOS . apu- nhalada por trinta e duas operações? E se tudo isso fosse muito mais do que manipula- ção mercantilista? Uma homenagem do tempo. Foi a última vez que foi vista viva. imagem e obra contemporaneamente. cotejando diferentes usos da imagem da artista. onde não há texto não há objeto de pesquisa e de pensamento. uma manifestação comunista percorreu as ruas da Cidade do México. mercadológicos que vem sendo atribuídos ao seu corpo. E se passaram uns quantos anos até que a fridama- nia. Para Bakhtin. 2012) INTRODUÇÃO N este artigo me coloco a escrever sobre o uso político que a Frida Kahlo fez da sua imagem e do seu corpo. Fernanda Franz101 7 de Julho Em 1954. Morreu. que ce- lebra uma mulher capaz de transformar sua dor em cor? (Eduardo Galeano. que em contextos diferentes produzem interpretações distintas dela para o outro. RESUMO 249 O POLÍTICO DO CORPO DE Palavras-Chave: FRIDA KAHLO: um estudo dialógico.aqui. Assim. culturais e revolucionários e o acréscimo de sentidos publicitários. WILLERS. Ressurreição ou negócio? É isso o que merecia uma artista alheia a qualquer exitismo e ao lindismo. tremendo alvoroço. crivada de agulhas e alfinetes. Frida Kahlo estava lá. signo ideológico. autora impiedosa de autorretratos que a mostravam sobrance- lhuda e bigoduda. de cadeira de rodas. pouco depois. busco encontrar e compreender o dialogismo presente em sua representação material . Assim. a despertou. colocando-o em relação com o esvaziamento de sentidos políticos. sem ruído.

Não conseguiu realizar o desejo de ser mãe. (BAKHTIN. 2014. Para algumas pessoas. 250 O texto “subentendido”. ano importante da revolução mexicana. Assim. vivas. não se trata de ideologia” ao mesmo tempo que ”toda imagem artístico-simbólica ocasionada por um objeto físico particular já é um produto ideológico” (BAKHTIN. Frida nasceu em 1907 mas em seus diários optou por escrever que nascera em 1910. Teve dificuldades em produzir sob encomendas e em atender o que era esperado dela. Foi traída. a multidão cantou a ‘Internacional’. O grau de engajamento lhe é atribuído parece CORPOS . Estudiosa. Herrera. pg. mas também refrata uma outra. 33). 528). para outras. Pintava a sua realidade. E ser mulher no início do século XX não era coisa simples. O que caracteriza o signo é a sua forma ideológica. textos sobre textos. Empalada. Frida não entrou na caixinha moldada pela sociedade da época. haviam caminhos a ser seguidos. Pintou a sua dor. Em tempos de escatodologia política é ainda mais intrigante observar. Abortava. Frida é artista. marcha fúnebre de Lênin” (HERRERA. Também traiu. 31). Por isso. Pg. que no decorrer das produções e reproduções enunciativas constróem-se signos. a intensidade da visão política de Kahlo continua sendo objeto de certa controvérsia. Era atrevida. “é seu caráter semiótico que coloca a todos os fenômenos ideológicos sob a mesma definição geral” (BAKHTIN. Frida era uma heroína de esquerda. a sua materialidade histórica e a sua valoração ideológica. a ‘Jovem guarda’. o objeto (signo) não só reflete uma realidade. “com os braços erguidos e punhos em riste. via signo ideológico. De acordo com a biografia escrita por Hayden Herrera. o hino nacional. TODO CORPO É POLÍTICO Frida nascera mulher. Casou com Diego Rivera e viveu com ele um romance tumultuado. Frida sempre manifestou no cotidiano de sua vida suas aspirações revolucionárias e nem o seu funeral foi isento de manifestações políticas. uma mulher essencialmente apolítica. Vestia-se da cultura de seus antepassados. vivências das vivências. usou cores fortes. Pg. 2011. podendo lhe ser fiel ou distorcer a realidade. as relações e entrecruzamentos de sentidos antagônicos para com o mesmo objeto de estudo. Essa escolha já indica a intencionalidade em vincular sua história de vida com a sua militância comunista. o que torna o corpo um signo ideológico é a sua materialidade enquanto objeto. Se entendido o texto no sentido amplo como qualquer conjunto coerente de signos. escreveu que: Embora não pairem dúvidas sobre quais eram suas simpatias. Militante. a ciências das artes (a musicologia. sempre com trajes tipicamente mexicanos. a teoria e a história das artes plásticas) opera com textos (obras de arte). palavras sobre as palavras. Frida teve o seu corpo mutilado aos 18 anos. 2014. São pensamentos sobre pensamentos. Neste caso. Bissexual. “um corpo físico vale por si próprio: não significa nada e coincide inteiramente com sua própria natureza. Frida foi comunista. pg 307) Segundo a compreensão Bakhtiniana.

desprovido do sentido que os signos lhe conferem. Se privarmos a consciência de seu conteúdo semiótico e ideológico. Nas linguagens artísticas. não sobra nada. pelo menos a partir da década de 1940. 2013. (HERRERA. A reprodução em massa da sua imagem vem aumentando com o passar dos anos. é “o produto da atividade humana coletiva e reflete em todos os seus elementos tanto a organização econômica como a sociopolítica da sociedade que a gerou” ( VOLOCHÍNOV. Como escreveu Bakhtin A lógica das consciências é a lógica da comunicação ideológica. recomendando leituras marxistas e incentivando o seu envolvimento nas discussões políticas entre ela e Diego. No meu próprio quarto tenho várias representações da sua imagem e obra. A imagem. dizia ela. devia desempenhar um papel na sociedade. A linguagem. Pg. ou os que reprovam o comunismo de Kahlo. ouve. Ao mesmo que tempo que para quem estudou a vida de Frida Khalo chega a conclusão de que se pode afirmar com certeza é que. (BAKHTIN. 2014. pg. 36) ENTRECRUZAMENTO: o pop e o popular Não se passa um dia sequer sem que eu veja o rosto da Frida Kahlo estampado em algum lugar. Pg. não esclarecido pela consciência. há apenas o simples ato fisiológico. 415) Quem desconhece ou considera desinportante conhecer a história da autora acaba por dar significados outros para aquilo que vê. é claro. como conceituou Volochínov. a materialidade da obra está inserida em determinado contexto social da mesma forma que os sujeitos que recebem o fenômeno artístico também estão. (HERRERA. 415) O diálogo entre autora e o público que a contempla permite que sentidos outros sejam produzidos ainda que não tenham sido intencionais e nem mesmo verdadeiros. constituem o seu único abrigo. 141). assim como a interpretação do dito e não dito. CORPOS . pg. 2011. atribui-se sua imagem como símbolo de movimentos sociais ao mesmo tempo que corporações da indústria da moda a vendem como um produto cool. ao passo que os que são ingênuos ou indiferentes à política. sente… isso faz parte do diálogo. Frida passou a ressaltar o conteúdo social na arte e a fomentar o desenvolvimento político de seus pupilos. os esquerdistas tendem a ver Frida como uma ardorosa comunista. A pintura. a palavra. Assim. 251 depender da inclinação da pessoa com quem ela estava falando e. tendem a defini-la como uma criatura não política. Fora desse material. etc. o gesto significante. das posições que Diego estivesse professando no momento. da interação semiótica de um grupo social.

Frida odiava o imperialismo e consumismo exacerbado. Camiseta da marca Zara. em 2. vestia-se sempre de trajes típicos mexicanos para lembrar da história de seus antepassados. uma multinacional espanhola que foi avaliada. As imagens a seguir são trabalhos que são produzidos por artesãs feministas.85 mil milhões de euros e frequentemente é denunciada por manter trabalhadores em situação análoga à de escravos. Figuras 2 e 3: Produtos das Marias Lavrandeiras Fonte: facebook Marias Lavrandeiras CORPOS .fridakahlocorporation. Zara é uma rede de lojas. 252 Figura 1. pela Forbes. Fonte: http://www.com/ A primeira e segunda imagem são a camiseta e estampa da marca Zara.

[.br/marketing/marca-usa-frida-kahlo-depilador-facial/ Como escreveu Bakhtin: Na realidade. Pra mim. Toda crítica viva pode tornar-se elogio. EU PARA MIM. EU PARA O OUTRO.. todo signo ideológico vivo tem. como Jano. mas sei que são a expressão mais sincera de mim mesma. com minha pintura.] Eu realmente não sei se meus quadros são surrealistas ou não.abril.] Eu quero ser digna. Não é raro encontrar imagens que retratam Frida através do embranquecimento de sua pele. nas imagens abaixo uma clínica de estética utilizou em sua publicidade alterações que mudam um de seus traços mais marcantes e enfatizados por ela própria.. Um desvio da verdadeira arte que as pessoas esperam de um artista [. toda verdade viva não pode deixar de parecer para alguns a maior mentiras.com.. Khalo escreveu que Alguns críticos tentaram me classificar como surrealista. Esta dialética interna do signo não se revela inteiramente a não ser nas épocas de crise social e de comoção revolucionária. do povo a que eu pertenço e das ideias que me fortalecem [. parece uma manifestação decadente de arte burguesa.. 253 O Uso da imagem da Frida ganha significados diferentes nos contextos apresentados... duas faces. mas eu não me considero surrealista [.] Eu detesto o surrealismo.] Eu quero que minha CORPOS . tanto por quem produziu a camiseta quanto para quem a compra ou de uma grande empresa de vestuário ou de trabalho artesanal com identificação com a vida e obra da pintora. Imagens 4 e 5: divulgação clínica de estética Fonte: https://exame. a sobrancelha...

dentro da mesma perspectiva da valoração sígnica. (HERRERA. pg. 254 obra seja uma contribuição para a luta das pessoas em seu esforço pela paz e liberdade. sobre os ideais revolucionários que ela pretendia ter a sua imagem relacionada. ( HERRERA. a imagem como um gênero do discurso. 32) Vejo que Frida tinha muita segurança e convicção de quem ela era e de quem ela queria ser para os outros. nas linguagens artísticas e representações de imagem muito posso compreender. reproduzindo a falsa ideia de neutralidade como se o signo não fosse ideológico por natureza. ela pintou o colete que então estava usando com batom e iodo. CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir do olhar bakhtiniano para o mundo e entendendo que a palavra é o signo ideológico por excelência. Como escreveu Bubnova: CORPOS . revolucionário e cultural acontece intencionalmente dentro da organização globalizada da cultura hegemônica que busca o monologismo da cultura burguesa. pg 468) O esvaziamento dos sentidos político. 2011. Existe uma fotografia em que Diego observa a esposa acamada enquanto ela pinta cuidadosamente um martelo e uma foice num colete que cobre seu torso inteiro. tanto é que: Quando os médicos determinaram que as tintas de Frida fossem levadas embora do quarto.

2016.ainda que possível tão somente a partir da anterioridade do discurso social da alteridade -. São Paulo : Hucitec. 2011. O corpo é a fronteira entre eu-para-mim e a espacialidade do outro. Marxismo e filosofia da linguagem. ________. 2011. Valentin Nikolaievich. 2016. CORPOS . BUBNOVA. São Carlos: Pedro & João Editores.” REFERÊNCIAS BAKHTIN.146-147) O dialogismo que permeia as relaçoẽs discursivas permite que dentro de contextos distintos significados diferentes sejam constantemente sentidos e reproduzidos a partir de um enunciado. Mikhail. semiamorfo . literatura. a palavra (o enunciado) é fronteira entre meu dizer interno. Sempre se fala para alguém essa é a essência de meu eu-para-outro: ato. qualquer palavra que sou capaz de proferir é uma resposta a algo dito antes por outros. Frida: a biografia. Tatiana. oriento meu discurso sempre para que alcance o outro. VOLOCHÍNOV. noites e poemas. São Carlos: Pedro & João Editores. (BUBNOVA. São Paulo : Editora Globo S. “na luta de classes. Como escreveu Paulo Leminski. A. 255 Tanto o corpo quanto a palavra são fronteiras entre o mundo interior e o mundo exterior. a alteridade. Estética da criação verbal. e a formulação expressiva dirigida ao outro com fins de comunicação. HERRERA. Hayden. 2013. pg. 2014. Do corpo à palavra: leituras bakhtinianas. entre o eu e o não eu. Mikhail. São Paulo : Editora WMF Martins Fontes. A construção da Enunciação e Outros ensaios. todas as armas são boas: pedras. discurso. A linguagem que recebo está prenhe de um diálogo inconcluso ao que eu tenho que me conectar.

256 heterociência CORPOS .

E-mail: jullie. ou seja. Carlos Roberto de Carvalho e Prof. surgiu a necessidade de entender o processo dialógico da produção de sentidos que emprego no meu estudo sobre Bakhtin.aguiar@gmail. Até o momento. tudo com o que já tive contato ressoa 102 Graduanda em pedagogia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.em obras como “Problemas da poética de Dostoiévski”. Além disso. Dr. o que aprendi com os outros e o que os outros me ensinaram (palavras próprias e palavras alheias). RESUMO 257 Este texto apresenta produção de sentidos iniciais PESQUISADORA INICIANTE de uma pesquisadora iniciante a partir dos primeiros contatos com conceitos de Bakhtin. ter mais pontos de partida para construir um caminho para o entendimento. percebi que me falta uma abrangência de leitura que me possibilite maiores interpretações. Experiência. ARTE E AO CONHECIMENTO AGUIAR. DEDICANDO A VIDA À Palavras-Chave: Heterociência Bakhtin. tudo que já vivenciei.com CORPOS . escreve de forma que as vozes do texto conversam com as ideias e suposições que tenho ao buscar entender o que está proposto. Sempre haverá pontos de partida.ª Flávia Miller Naethe Motta) e bolsista de Iniciação Científica PIBIC/CNPq. O passo inicial já foi dado. Ao pensar sobre escrever numa perspectiva bakhtiniana em ciências humanas. por meio de conceitos como polifonia. no caso. Jullie Belmonte de 102 INTRODUÇÃO P artindo de estudos e discussões no grupo de pesquisa no qual participo103. A interdisciplinaridade é o pressuposto básico da formação teórica.ª Dr. O autor. Mesmo assim.bel. porque devido à densidade e peculiaridade dessa bibliografia. percepções e sensações por meio de experiências. o interesse em produzir conhecimento. ao tratar de conceitos complexos .como o conceito polifonia . é preciso recorrer às obras de Dostoiévski para saber o que e o porquê. O que só reafirma o carater dialógico dessa escrita. novos sentidos estão sempre sendo propostos. Integrante do GEPELID (Grupo de estudos e pesquisa sobre linguagem e diferenças coordenado pelos Prof. sejam eles quais forem. não digo nem entendimento em si. não deixei que isso me impossibilitasse de escrever.

é possível elaborar pensamentos e questionamentos indo muito além do ponto de partida. ele continua ativo. corresponde à intensa produção de conhecimento e esta é posteriormente apropriada por outros sujeitos. É na linguagem que o homem se revela. o que fundamenta a característica desse viés do pensamento heterocientífico. um leitor que conhece as obras de Dostoiévski entenderá de forma diferente em comparação a outro. e o que elas dizem? Qual o ponto de partida dessa enunciação? 1. que o diálogo é uma forma de comunicação. Meu fado é o de não saber quase tudo. têm visões diferentes. desconhecedor desse repertório. no caso. tarefa que requer tempo e devida reflexão. para a leitura constituir sentido. se lida por alguém que não está contextualizado nesse estudo. o que não corresponde ao conhecimento mais amplo do mundo. e por meio dela que produzimos sentidos. é interessante lembrar também. Ser polifônico é reconhecer a não existência de um ponto de vista único. e remeter apenas a uma lógica da linguagem. Novamente. A visão de mundo exposta em uma pesquisa. A alteridade é um conceito chave para perceber que aspectos da autoria do outro irão se relacionar com a identidade do leitor. tangencia a totalidade existente. Tal especificidade. uma citação presente na orelha do livro nos rendeu uma boa conversa: “Ser significa comunicar-se pelo diálogo”. pois nas palavras que se revelam os sujeitos. as autorias. Sobre o nada eu tenho profundidades. Ainda em Problemas da poética de Dostoiévski. 258 na minha escrita (alguém insiste na existência da neutralidade?). Essa característica é um aspecto preponderante na pesquisa em ciências humanas. em uma das reuniões do grupo de pesquisa. por algumas palavras. Sendo um fragmento exposto e estudado. dialógicos e alteritários. O conceito de sujeito já revela muito da perspectiva bakhtiniana em pesquisa. Quem é esse sujeito? O conhecimento tem aspectos polifônicos. Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). É evidente a necessidade de reconhecer a amplitude do que esta proposto ao iniciar estudos bibliográficos nessa área. O curioso é que a mesma frase. que dialogam entre si. Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro. CORPOS . Essa relação é dialógica e alteritária. ARTE. nos remete a uma dimensão de criação mais ampla. que as pessoas estão em posições diferentes. considera-se também sua experiência. A relação eu-outro no texto não acaba quando é finalizada a escrita. Quais são as vozes presentes. pode não render muito. Vou construir minhas compreensões a partir da leitura e imersão nas obras de Bakhtin. Não tenho conexões com a realidade. VIDA E CONHECIMENTO A poesia está guardada nas palavras — é tudo que eu sei. ao considerar o ser expressivo e falante. O diálogo é onde os sentidos aparecem. será necessária uma interpretação e ressignificação. Obviamente. A variedade de textos. Por meio de uma frase.

A vida acadêmica sempre foi meu foco. “Tratado geral das grandezas do ínfimo”) Quando comecei a apreciar os conceitos de Bakhtin eu não sabia que era o que era. sabendo disso. aplicada ao trabalho monográfico.. Decidi escrever meu resumo de pesquisa para submissão em congressos. Também indiquei ideias como: “a criança é produtora e reprodutora de cultura”. Tais questões já me faziam refletir. submeti em um congresso sobre infância. Manoel de. 259 Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. (BARROS.. tive contato com autores como Marilia Amorim (2002) e Charlot (2006). Fiquei emocionado. e foi em uma dessas aulas que conheci a tripla dimensão da cultura: Arte. fui buscando formas de atingir meus objetivos de desenvolvimento. essa que vos escreve. se constitui pois em um encontro de muitas vozes: ao se observar um evento depara-se com diferentes discursos verbais. Falei ainda em: “construir relações possíveis” que é um aspecto da ressignificação e apropriação do que foi proposto numa relação de ensino-aprendizagem. Não foi aprovado. São discursos que refletem e refratam a realidade da qual fazem parte construindo uma verdadeira tessitura da vida social” (FREITAS. Eram abordadas questões da linguagem e de pesquisa. era uma ideia central desse texto. na optativa “Interdisciplinaridade: Epistemologia e Metodologia”. existem muitas oportunidades na graduação. Usei o termo “pesquisa qualitativa de cunho reflexivo” ao indicar minha metodologia. A observação em uma pesquisa de abordagem sócio-histórica. Sou fraco para elogios. p. Também foi o momento de mais clareza em saber que o sentido se dá na enunciação. tanto que decidi realmente escrever sobre o assunto e nesse momento já fui delineando minha pesquisa. Mesmo tendo pertinência. mais uma. E também considerando quem lê. Um trabalho com a ideia de “Emancipação por meio da arte” foi nascendo ao considerar que a arte e o conhecimento são fundamentais para vida. E isso ficou marcado. E pode-se considerar uma terceira agora. 2004. CORPOS . Desenvolvi a ideia e um tempo depois tive um retorno. no caso. o tratamento apressado na escrita. Vida e Conhecimento. o não aprofundamento nos conceitos e inclusive frases incompletas. Meu eu já não era o mesmo. Esse movimento de auto reflexão é um encontro de duas vozes presentes no mesmo autor. reli o texto e também a justificativa de ter sido recusado. Tive outra compreensão. tornaram meu trabalho sem foco e consequentemente recusado. gestuais e expressivos.33) Dialogar com as vozes presentes na escrita desse texto instaura uma multiplicidade de pontos de vista. uma noção que pode ser relacionada ao que trago nesta introdução: a relação eu-outro. A articulação entre arte vida e conhecimento. embora ainda inconsciente para a autora. Um tempo depois.

Articular minha vida para produção de conhecimento e contemplação da arte. nos apresentam informações com links que nos direcionam para outros contextos mais amplos. perguntando o que eu poderia fazer para ter mais clareza com os conceitos de Bakhtin. ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites porque é apenas uma chave para tudo aquilo que veio antes ou depois" (1994. 260 Walter Benjamin considera que "[. na esfera do cotidiano. ou então quais enredos e personagens já foram trabalhados. Considerando o conceito de grande tempo. é preciso estar em contato com ele e buscar aproximar-se de seu significado e implicações. um contexto. só de pensar sobre a abrangência de produções e vivências. mais um ponto de vista é revelado ou um detalhe percebido. trinta alunos em uma sala tendo aula com um professor. sempre buscando ir além do que já sou. Em Bakhtin. ou não ter. A cada novo estudo. fico inspirada. nos remete a uma cultura escolar que varia de acordo com o lugar onde esses alunos estão. criadas por pessoas que possuem uma história. hoje em dia percebo que não é bem assim. pois como já escrevi anteriormente. 15). daqui a alguns anos. com a intervenção da internet. ou pelo menos encerrado na esfera do vivido. é investir no que chamei de essência. as conexões possíveis e amplitude da ressignificação de um estudo demanda maior reflexão. Até onde sei. Inclusive ao buscar. Em meio a tanta produção literária. E isso varia com o tempo. O que é essencial para vida? Julgo essencial manter-me em movimento. que possibilita trazer enunciados diferentes que ecoam em diferentes momentos. para reconhecer as relações entre o que já sei e o que pretendo saber.. para apropriar-se de conhecimento. A experiência comum varia a cada sujeito. vivemos em uma época na qual. em nível macro.] um acontecimento vivido é finito. quando pedi orientação para o professor que coordena o grupo de pesquisa. Tanto a conhecer e pouco tempo para apreciar. p. tanta arte. Indo além nessa questão temporal. constituem a esfera de formação pessoal e social que determina como esse alguém irá se posicionar diante do mundo. cronotopo corresponde a reconhecer eu a existência humana se dá em um momento e um lugar. podemos buscar no google algumas palavras chave e descobrir quase tudo que nossa curiosidade permitir. Olhando para o passado. mas nunca me ocorreu que o tempo também influencia nesse movimento. quando eu vejo textos que estudava no primeiro período da graduação e que considerava difíceis. Os acontecimentos. por exemplo um filme. Ao buscar o elenco podemos saber em quais outros filmes os atores também atuaram. Tempo e Espaço. Provavelmente. Essa citação nos remete à questão do tempo. CORPOS . tive uma resposta sucinta: “esperar”. instauram uma experiência comum a um conjunto de sujeitos. a posição epistemológica define o ponto de vista. Tal fato. todas as possibilidades de formação que alguém pode ter. quando eu reler esse trabalho. chegue a outras conclusões.. por exemplo.

CARVALHO. uma vez que a linguagem é o que caracteriza e marca o homem. trata-se de restaurar nas ciências humanas o espaço do sentido O sentido da palavra é o caminho para o resgate daquilo que no homem é sujeito.]” (BENJAMIN. 9) Ambos fragmentos discorrem sobre essa forma de narrativa/escrita que é possível pela linguagem. 2017. etc. portanto. Ora. o caminho traçado já não é o mesmo em comparação a uma escrita com enunciados escritos somente pelo objetivo de serem lidos. não arrogante. (MOTTA. BUSCA CONSTANTE O projeto que atualmente o GEPELID vem trabalhado. passamos por categorias cognitivas.. “Em busca de uma heterociência: ética. A palavra não deve ser calculada. CARVALHO. no qual ele não se anula e nem se desfaz. 1994). que traz uma quarta. p. estética e epistemologia numa perspectiva bakhtiana das ciências humanas” aborda questões levantadas por meio desse trabalho. que possa abarcar o humano em todas as suas dimensões. 2017. Para o heterocientista o mundo não é um absoluto. p. e. tem que ser apenas ela. 6) Ao ser proposta outra forma de começar. p. CONSIDERAÇÕES FINAIS O trabalho foi pensado numa proposta de escrita acadêmica com viés heterocientífico que buscou ir além de uma única visão. com cada texto suscitando outros textos[. 51) São narrativas que contam a experiência humana. o mundo está sempre sendo e que. a autoria dos sujeitos expressivos e falantes compõe uma ciência CORPOS . uma ciência.. A margem para interpretações possíveis de um mesmo texto reafirma o caráter polissêmico das produções humanas e culturais. pois é no âmbito dessas três dimensões que vivem os humanos. Contribuir para que a produção da ciência seja responsiva e responsável porque humanamente referenciada nas diversidades das culturas e. Ao pensar sobre algo. a questão nos parece ser bem outra: não permitir que uma única visão de mundo venha prevalecer sobre outras”. A questão não é um embate entre narrativas e narratividades. que desencadeia uma outra. “Cada história é um ensejo de uma nova história. portanto sobre ele é sempre possível tecer outras interpretações e que ninguém detenha a última palavra. e abrir-se para o mundo desencadeando uma série de percepções que aparecem sob outra ótica. a consciência do aprendizado remete a uma abordagem emancipatória. 1994. ao definir a epistemologia do próprio saber. a expressividade contida revela a memória e as experiências tratadas no contexto histórico-social. 261 2. (MOTTA.. pressupondo certa identidade da coisa dita e seus possíveis sentidos. A pesquisa em ciências humanas tem essa característica. (JOBIM E SOUZA. essa dinâmica ilimitada da memória e da constituição do relato.

ed. pp. compreendendo outras formas de produzir conhecimento científico. CHARLOT. 2017. Estética e Epistemologia numa perspectiva bakhtiana das ciências humanas.. S. Questões Bakhtinianas para uma heterociência humana. MIOTELLO. foi-me dito que o texto possui minha voz. n. R. 10 ed. 2002. S. M. BENJAMIN. Pedi que um amigo lesse meu trabalho para que eu percebesse. Rio de Janeiro: Forense Universitária. Ciências humanas e pesquisa: Leituras de Mikhail Bakhtin. arte e política: ensaios sobre literatura. 2007. 116. n. Mikhail.. JOBIM E SOUZA. M. Em busca de uma heterociência: Ética. B. 14. M. Marilia. 1994. Walter. 7. Rio de Janeiro: Alfaguara.. Educ. C. 4. Rev. BAKHTIN. Infância e linguagem Bakhtin. F. REFERÊNCIAS AMORIM. S. MELLO. 07-19. BAKHTIN. Pesq. Vygotsky e Benjamin. 31. 2006. ed. CARVALHO. vol. n. 262 polifônica e dialógica. Estética da criação verbal. T. 2 ed. Projeto GEPELID: UFRRJ. 1994. [online]. Cad. Magia e técnica. MOTTA. 2003. e descobri que atingi o objetivo de marcar minha autoria na escrita. Bernard. ed São Paulo: Brasiliense. FREITAS. N. CORPOS . Vozes e silêncio no texto de pesquisa em Ciências Humanas. São Paulo: Papirus. 218-226. São Paulo: Cortez. Mikhail. JOBIM E SOUZA. Revista teias v. Manoel de. A pesquisa educacional entre conhecimentos. São Paulo: Martins Fontes. 31. pp. V. Meu quintal é maior do que o mundo. por outro ponto de vista. 5. Acesso em 26 de setembro de 2017. KRAMER. [online].. 2015. Bras. 7-18. 2013. políticas e práticas: especificidades e desafios de uma área do saber. 2010. Problemas na poética de Dostoiévski. 11. BARROS.

a desconhecer ou dominar parcialmente as contribuições do filósofo soviético no campo da DISCURSIVOS NO BRASIL: linguagem. dentre outras categorizações de grande vulto para a filosofia da linguagem. as contribuições de Mortatti (2000) são de grande relevância para esse artigo. A hipótese que se levantou é de que a entrada relativamente recente desse conceito no país é a responsável pelas inseguranças dos das normatizações às práticas pedagógicas professores ao fazerem a apropriação / ressignificação didática do conceito. E-mail: gilkabatista@bol. 104 Licenciada em Letras e Pedagogia pela Universidade Estadual de Campinas. do conceito de gêneros do discurso – tal como postulado por Mikhail Bakhtin e seu Círculo (2010) – no Brasil. tendo se baseado principalmente nos escritos do próprio Bakhtin e seu Círculo (2010) e de Mortatti (2000). apontou para a necessidade cada vez mais inescapável e determinante de investimento maciço do poder público em cursos de formação inicial. especialmente aqueles dos anos iniciais do Ensino Fundamental. a metodologia utilizada para a produção desse estudo calcou-se sobre pesquisa de cunho bibliográfico. A base desse estudo se sustenta sobre o próprio filósofo soviético. são “tipos de enunciados relativamente estáveis” – o que será apresentado e discutido mais adiante. Ensino ste estudo tem como objetivo apresentar e discutir a entrada Fundamental. além de outros autores que deram sustentação às INTRODUÇÃO discussões. Formação de Professores. Além disso. pois fazem uma retomada histórica das tendências teóricas envolvidas no campo da alfabetização nas últimas décadas. Mestranda em Educação pela mesma Universidade. pretende-se levantar uma hipótese principal a respeito dos motivos pelos quais se verifica uma tendência entre os professores. a desconhecer ou dominar parcialmente as contribuições do filósofo soviético no campo da linguagem. que tem desdobramentos muito significativos. bem como levantar e discutir uma hipótese principal a respeito dos motivos pelos quais se verifica uma DE GÊNEROS tendência entre os professores. continuada e em serviço dos professores. o conceito de gêneros discursivos. Dessa forma. a despeito de essas contribuições terem sido apropriadas pelo discurso oficial no campo da Educação desde o final do século XX. Além disso. Gilka Fornazari 104 especialmente daqueles dos primeiros anos do Ensino Fundamental. os quais. notadamente aqueles ligados a universidades e revistas eletrônicas de renome. BATISTA. segundo o autor. Essa hipótese. o discurso oficial e as práticas pedagógicas dentro das salas de aula dos primeiros anos do Ensino Fundamental. especialmente aqueles dos anos iniciais do Ensino Fundamental. E Palavras-chave: Gêneros do Discurso. RESUMO 263 Este artigo tem como principais objetivos apresentar e discutir a entrada do conceito de gêneros do discurso – tal como postulado por A ENTRADA DO CONCEITO Mikhail Bakhtin e seu Círculo (2010) – no Brasil.br CORPOS . através de livros impressos e artigos disponíveis em sites confiáveis. Profª de Língua Portuguesa do SENAI (Rio Claro / SP).com. que instaura. evidenciando as diferenças entre os estudos teóricos. notadamente pelas normatizações ou prescrições referentes aos primeiros anos do Ensino Fundamental. A metodologia se caracteriza por ser de caráter bibliográfico.

a científica. Bakhtin e seu Círculo foram inovadores ao analisar o discurso tanto na arte como na vida.. Para o filósofo soviético. p. assim como boa parte do legado do Círculo. História. presente no livro “Estética da criação verbal”. 261). de acordo com o autor. proferidos pelos falantes em cada "campo de utilização da língua”. em cada esfera de atividade humana ou também chamado de domínio discursivo. é preciso apresentar. a artística/literária. Antropologia. especificamente. Além disso. 1. “o emprego da língua efetua-se em forma de enunciados (orais e escritos) concretos e únicos. observando como os enunciados se combinam para formar. proferidos pelos integrantes desse ou daquele campo da atividade humana” (BAKHTIN. mas cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados. em linhas gerais. 2010. uma língua se manifesta sempre em forma de “enunciados”. se justifica na medida em que o conceito é fundamental para a compreensão do funcionamento da comunicação discursiva nas várias esferas de atuação humana. Mikhail Bakhtin (1895 – 1975). a acadêmica/escolar. Filosofia. O CONCEITO DE GÊNEROS DISCURSIVOS NA PERSPECTIVA BAKHTINIANA E SUA APROPRIAÇÃO PELO DISCURSO OFICIAL Antes de qualquer passo. etc. chegam ao ocidente na década de 1970. sejam orais ou escritos. Cada uma dessas esferas – a jurídica. o conceito de gêneros discursivos tem consequências marcantes para o ensino da língua – como considerar. além de tantas outras definições que hoje são categorias de análise em várias disciplinas e áreas do conhecimento. tecendo-se sempre em diálogo com inúmeros enunciados já proferidos. Crítica Literária. filósofo soviético da linguagem. p. Original para a época em que foi produzida – décadas de 1920 e 1930 – sua teoria da linguagem só foi valorizada a partir da década de 1960. 264 Estudar a entrada do conceito de gêneros discursivos no Brasil e sua apropriação pelos professores. Seu nome e sua produção. 262). Assim sendo. como Psicologia.. a jornalística. os quais denominamos gêneros do discurso” (idem. é responsável. juntamente com outros pensadores que formaram o chamado Círculo de Bakhtin. “[. a religiosa. a língua intimamente vinculada às práticas sociais dos falantes. passamos a conhecer e estudar Bakhtin somente a partir da década de 1980. No Brasil. Também é deles a contribuição de se considerar a linguagem sob uma perspectiva dialógica: um produto das relações sociais e das condições materiais e históricas de cada tempo. Além disso.] cada enunciado particular é individual. especialmente aqueles ligados à alfabetização e ao letramento nos anos iniciais do Ensino Fundamental. isto é. a publicística. pela criação do conceito de gêneros discursivos. quando um grupo de intelectuais soviéticos a redescobriu. o que o próprio Bakhtin postula como gêneros discursivos. nesse ensino. postumamente em 1979. etc – CORPOS . publicado originalmente em Moscou. em processo constante de interação. os gêneros do discurso. As principais teorizações sobre o conceito encontram-se no capítulo “Os gêneros do discurso”.

Já o estilo corresponde à “seleção dos recursos lexicais. Assim. Por exemplo: na esfera acadêmica/escolar. Em cada campo existem e são empregados gêneros que correspondem às condições específicas de dado campo. Por exemplo: no gênero cartas de amor. nas palavras do autor. caso contrário. eventualmente. o que liga intimamente o uso da língua pelo falante às práticas sociais que envolvem a linguagem verbal em cada contexto. 261). p. p. Essa seleção sempre está ligada à esfera de atividade humana ou domínio discursivo em que o falante está inserido no momento de utilização daqueles tipos relativamente estáveis de enunciados. Bakhtin (2010) ressalta que os enunciados devem ter uma estabilidade. publicística. entretanto. entretanto. ao serem agrupados. proferido por um falante também único. fraseológicos e gramaticais da língua” ( idem. Retomando o exemplo das cartas de amor: podemos. p. podemos. Segundo Bakhtin (2010). determinados tipos de enunciados estilísticos. as anotações (de caderno e de lousa). dão origem a certos gêneros discursivos. é frequente encontrar nesse gênero a indicação de local e data e os nomes de quem escreve e para quem se escreve. a prova. como o seminário. suprimir o nome de quem o escreveu. isto é. 266). Retomando o exemplo das cartas de amor. dentre tantos outros gêneros. O conteúdo temático não é o assunto propriamente dito de um dado texto. poemas de variadíssimos conteúdos temáticos e de diversas estruturas de composição. Deve-se ainda destacar a “relativa estabilidade” dos enunciados. A relativa estabilidade dos enunciados fica ainda mais evidente quando se trata de poemas: temos. 283). 265 elabora “tipos relativamente estáveis de enunciados”. ainda. não expor o local e a data em que o texto foi escrito. geram determinados gêneros. que são. o conteúdo temático é aquele vinculado às relações amorosas. temos vários tipos relativamente estáveis de enunciados. Ainda tomando como exemplo as cartas de amor. podemos. chamados de “gêneros do discurso”. Porém. Finalmente. cotidiana) e determinadas condições de comunicação discursiva. já que cada enunciado é individual e único. fraseológicos e gramaticais pressupõe um interlocutor próximo. Nada disso. técnica. é a esses gêneros que correspondem determinados estilos. um estilo e uma estrutura composicional próprios. temáticos e composicionais relativamente estáveis (idem. a estrutura composicional diz respeito à forma como se estrutura e se organiza o texto. cada gênero do discurso tem um conteúdo temático. a aula. para o autor. Nem por isso. todos os textos que são considerados poemas deixam CORPOS . mas sim o domínio de sentido a que um gênero está relacionado. descaracterizaria aquele texto como pertencente ao gênero cartas de amor. o artigo científico. com quem se tem intimidade. se precisássemos reconstruir “livremente e pela primeira vez cada enunciado” (idem. a palestra. oficial. específicas de cada campo. É importante frisar que cada gênero corresponde às condições relativas a cada campo da atividade humana. na história da literatura. em um texto pertencente a esse gênero. essa estabilidade é relativa. já que a seleção dos recursos lexicais. o debate. Uma determinada função (científica. poderíamos classificar o estilo como íntimo. escrever muito ou escrever pouco. seria praticamente impossível a comunicação discursiva. assim como de variados estilos.

concebem o ensino da língua nas séries iniciais do Ensino Fundamental. p. apesar de únicos e individuais. 1997). o primeiro a ter violado o eterno silêncio do universo” (idem. estamos dialogando com enunciados anteriores e até mesmo subsequentes. não por palavras isoladas)” (idem. Isso quer dizer que não dominar determinado gênero do discurso torna a comunicação quase impossível nos vários campos da atividade humana. o que garante a comunicação discursiva. como já se verificou. ibidem). Essa cadeia discursiva revela o caráter dialógico da linguagem. p. 282). “muitas pessoas que dominam magnificamente uma língua sentem amiúde total impotência em alguns campos da comunicação precisamente porque não dominam na prática as formas de gênero de dadas esferas” (idem. p. Isso traz uma consequência de máxima importância para o ensino da língua na escola: “aprender a falar significa aprender a construir enunciados (porque falamos por enunciados e não por orações isoladas e. isto é. Observa-se. Outro pressuposto que deriva dessas teorizações é de que os falantes de uma língua apenas se comunicam através de enunciados – os quais. quando agrupados em tipos relativamente estáveis. todos os nossos enunciados possuem formas relativamente estáveis e típicas de construção do todo” (idem. os enunciados estão sempre ligados a outros enunciados já proferidos. “a apropriação dos gêneros é um mecanismo fundamental de socialização. Além disso. No ensino da língua. Isso se deve ao fato de circularem na mesma esfera de atividade humana – a artística/literária – e apresentarem função social semelhante. que é um dos pressupostos mais importantes de Bakhtin e seu Círculo para a filosofia da linguagem: quando falamos ou escrevemos o que quer que seja. o que denota a íntima relação que existe entre os gêneros e as práticas sociais. 284). todo falante é por si mesmo um respondente em maior ou menor grau: “Ele não é o primeiro falante. 272). pois “Cada enunciado é um elo na corrente complexamente organizada de outros enunciados” (idem. Além desse exemplo. podemos observar as contribuições da teoria de gêneros discursivos de Bakhtin CORPOS . apesar das diferenças entre si. Isso tem como consequência que é o domínio dos gêneros. Essa é a principal justificativa para o trabalho com gêneros na escola. e não apenas da língua. dão origem aos gêneros do discurso. p. É sob essa perspectiva que os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa (BRASIL. e desprezar a unidade real da comunicação – o enunciado? Assim sendo. Assim. que o domínio dos gêneros discursivos é uma forma de se adequar às diversas situações de uso social da língua. já que. assim. e até mesmo ainda por proferir. especialmente nos primeiros anos do Ensino Fundamental. Segundo Bronckart (2012). Para Bakhtin (2010). 283). portanto. há uma estabilidade que os une sob a mesma classificação: pertencem ao gênero discursivo poema. notadamente aqueles que se constroem em estilo mais formal. como ainda se pode insistir em ensinar palavras e orações. 266 de sê-lo. de inserção prática nas atividades comunicativas humanas”. “falamos através de determinados gêneros do discurso. evidentemente. por exemplo. seja em sua modalidade oral ou escrita.

A linguagem não é apenas vocabulário. além dos próprios gêneros discursivos. 267 e seu Crírculo também nos Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. publicados em 1998. implícitos na passagem “contar o que lhes aconteceu em casa. além de Jean Paul Bronckart. também apontam algumas das contribuições de Bakhtin e seu Círculo. 2006). seus usos e funções.] A diversidade textual que existe fora da escola pode e deve estar a serviço da expansão do conhecimento letrado do aluno.. Observa-se. explicar um jogo ou pedir uma informação.. mas encontra-se disseminada nos trabalhos de vários pensadores. [. (BRASIL. diferenças nos graus de formalidade e nas convenções do que se pode e deve falar em determinadas situações comunicativas. (BRASIL. verificam-se os postulados de Bakhtin e seu Círculo também nas Orientações Curriculares para o Ensino Médio. Por fim. 121). mais poderão desenvolver suas capacidades comunicativas de maneira significativa. 1998) e nas Orientações Curriculares para o Ensino Médio (BRASIL. 28). A linguagem não é homogênea: há variedades de falas. dar um recado. São os sujeitos em interações singulares que atribuem sentidos únicos às falas. que se pode aprender. (BRASIL. os Referenciais Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. ao afirmarem que: As palavras só têm sentido em enunciados e textos que significam e são significados por situações. lê-se: A visão aqui defendida supõe uma estreita e interdependente relação entre formas linguísticas. ainda. com uma forma própria. no trecho citado. p. o que resulta de se admitir que a atividade de compreensão e produção de textos CORPOS . 1997. que os PCN sugerem um processo de ensino e aprendizagem de Língua Portuguesa baseado na diversidade de gêneros discursivos existentes nas situações comunicativas reais do cotidiano. explicar um jogo ou pedir uma informação”. Verifica-se também neste documento oficial a adoção de conceitos e categorias criados pelo filósofo soviético e seu grupo. como o psicólogo também soviético L. como contar o que lhes aconteceu em casa. Também apresentam os gêneros como passíveis de ensino e de aprendizagem na escola. p. contar histórias. Quanto mais as crianças puderem falar em situações diferentes. É por meio do diálogo que a comunicação acontece. portanto. Vale ressaltar que essa perspectiva interacionista de linguagem não é adotada apenas por Bakhtin e seu Círculo. verifica-se nos Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa das Séries Iniciais que: Ensinar a escrever textos torna-se uma tarefa muito difícil fora do convívio com textos verdadeiros. Fora da escola escrevem-se textos dirigidos a interlocutores de fato. Além disso. com leitores e escritores verdadeiros e com situações de comunicação que os tornem necessários. lista de palavras ou sentenças. Vygotsky e o psicólogo suíço Bernard Schneuwly. 1998. Nelas. como “enunciado” e “dialogismo”. Nesse sentido. a perspectiva de linguagem como produto e produtora das relações sociais. S. cujos estudos contribuem de forma maciça à área da Educação. Subsiste. dar um recado. Todo texto pertence a um determinado gênero. contar histórias. através da interação. publicadas em 2006.

o que. se considerarmos que o papel da disciplina Língua Portuguesa é o de possibilitar. 27) Na passagem destacada. 2000). Mortatti (2000) faz belíssimo estudo sobre os sentidos que a alfabetização assume ao longo de mais de um século. as quais entram quase no mesmo momento no país. novamente se observa a linguagem vista como produto e produtora das interações sociais. chamado “Alfabetização: construtivismo e desmetodização”. p. também se faz referência à íntima interdependência entre formas. por procedimentos sistemáticos. as contribuições de Bakhtin no campo da linguagem são relativamente pouco conhecidas pelos professores. a autora apresenta outras perspectivas teóricas. 2000) ou prescrições (LOUSADA ET AL. Bakhtin e seu Círculo utilizam na caracterização dos gêneros discursivos. Assim. 1876-1994”. nas suas ações. apesar de maciçamente presentes nas normatizações (MORTATTI. conforme as demandas trazidas pelos espaços sociais em que atuam. Além disso. CORPOS . no Estado de São Paulo. a qual deve ser abordada na escola a partir da diversidade de situações comunicativas. isto é. essas contribuições representam aos professores grande dificuldade em sua ressignificação didática. o próximo passo desse estudo busca destacar através de quais portas entram no Brasil as contribuições de Bakhtin e seu Círculo. (BRASIL. 2011). e acabam por conflitar com as abordagens ditas “tradicionais” e com o “construtivismo” (que ganhava força naquele período). usos e funções da língua. Sabemos que a escola tem a função de promover condições para que os alunos reflitam sobre os conhecimentos construídos ao longo de seu processo de socialização e possam agir sobre (e com) eles. mais especificamente no final do decênio. Nesse sentido. 268 envolve processos amplos e múltiplos. continuamente. especialmente aquelas que envolvem o conceito de gêneros do discurso e de língua na perspectiva de interação. como já referido. Quando conhecidas. nos discursos oficiais. Veremos adiante que uma possível causa para esse cenário é a entrada recente do conceito de gêneros discursivos no Brasil e sua quase imediata apropriação pelo discurso oficial. em grande medida. abordagens interdisciplinares na prática da sala de aula são essenciais. o que faz com que não se tenha ainda tido o tempo necessário para transformar normatizações em concretizações (MORTATTI. os quais aglutinam conhecimentos de diferentes ordens. especialmente aqueles dos primeiros anos do Ensino Fundamental. No capítulo 4 desse livro. Além disso. a autora propõe uma discussão sobre a entrada no Brasil das contribuições de Emilia Ferreiro e Ana Teberosky sobre a psicogênese da língua escrita – o que se convencionou chamar de “construtivismo”. transformando-os. No entanto. 2. Esse estudo pode ser verificado no livro “Os sentidos da alfabetização – São Paulo. o desenvolvimento das ações de produção de linguagem em diferentes situações de interação. 2006. A ENTRADA DE BAKHTIN NO BRASIL E OS EMBATES TEÓRICOS As contribuições de Bakhtin e seu Círculo no campo da filosofia da linguagem entram no Brasil somente a partir da década de 1980.

Assim. Suas contribuições são valorizadas e consideradas. os estudos de Smolka buscam questionar o discurso construtivista a partir de nova perspectiva de análise das ações envolvidas em ensinar e aprender a língua materna na escola. com ela o falante age sobre o ouvinte.. da qual Bakhtin e o Círculo fazem parte fundamental. Dessa maneira. buscando deslocar o eixo das discussões de como se ensina e se aprende a língua para por quê e para quê se ensina e se aprende a língua. 269 Uma dessas novas perspectivas é justamente a interacionista. a linguagem efetiva a vida – assim como é efetivada por ela. Basicamente. sem. Essa perspectiva retoma postulados de Bakhtin e do Círculo. o sujeito que fala pratica ações que não conseguiria levar a cabo.] mais do que possibilitar uma transmissão de informações de um emissor a um receptor. para quem “[. houve uma tentativa de conciliação pouco esclarecida entre ela e o construtivismo.. Segundo Mortatti: CORPOS . adota a perspectiva interacionista em seus trabalhos. 2010. 2006. p. Segundo o autor: [. principalmente nos discursos oficiais. num processo dialético. Assim como Smolka. notadamente em seu livro “A criança na fase inicial da escrita: a alfabetização como processo discursivo” (1989). p. segundo Mortatti: A abordagem proposta por Smolka contribui. a não ser falando. a linguagem é vista como um lugar de interação humana. 276). Smolka questiona o postulado construtivista. do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL). numa tentativa de ensinar e aprender a língua a partir de sua materialização cotidiana e das práticas sociais envolvidas em seu uso (BATISTA-DE OLIVEIRA. sintetizado nas expressões “socioconstrutivismo” ou “construtivismo-interacionista”. p. para o delineamento de uma tendência verificada nas tematizações.] a língua passa a integrar a vida através de enunciados concretos (que a realizam). João Wanderley Geraldi. 265). da Faculdade de Educação (FE) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). normatizações e concretizações relativas à alfabetização: o gradativo deslocamento para o “discurso interacionista”.. que se evidencia na produção de Ana Luiza Bustamante Smolka. no entanto. Por meio dela. da qual fazem parte as contribuições de Bakhtin e seu Círculo. (BAKHTIN. (GERALDI. que se o desconsidere e sem que se abandone a abordagem psicolinguística – . constituindo compromissos e vínculos que não preexistem à fala. apesar das pesquisas e produções teóricas envolvendo a perspectiva interacionista.. Porém. decorrente de certo esgotamento e questionamento do “discurso construtivista” – sem. 2012). processo do qual acaba por resultar um outro tipo de ecletismo. mediante sua disseminação a partir do final da década de 1980. dos quais o livro “O texto na sala de aula” (2006) é um grande exemplo de deslocamento de como ensinar e aprender a língua para por quê e para quê se ensina e se aprende. que haja o abandono das práticas ditas “tradicionais” e das abordagens ditas “construtivistas” em sala de aula. enfocando as posições políticas dos professores. (MORTATTI. porém. É assim que Geraldi propõe um intensivo trabalho com textos. Como se observa nessa passagem. 41). também da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). 2000. é igualmente através de enunciados concretos que a vida entra na língua”.

O “método eclético de novo tipo”. na maior parte das práticas. se no campo das tematizações há clareza. ou seja. falha essa que se tem buscado sanar com programas de formação continuada. os embates teóricos se dão principalmente no campo das tematizações (produções e pesquisas acadêmicas). de preferência com textos e por meio deles. (MORTATTI. 2000. Observa-se que a entrada no Brasil das contribuições de Bakhtin e seu Círculo para os estudos da linguagem se faz de forma conflituosa. como Pró-Letramento e Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa. realizar uma adequada ressignificação didática do conceito é por ser esta uma categoria relativamente recente no país. esses dois referenciais teóricos [construtivismo e interacionismo] vão sendo incorporados e apresentados. como complementares entre si [. Essa hipótese tem desdobramentos significativos: o fato de a entrada do conceito de gêneros discursivos ser relativamente recente no país pode justificar a pouca atenção que é dada a ele nos cursos de formação inicial de professores. no cenário educacional. que ainda conflita com abordagens ditas “tradicionais” de ensino e aprendizagem de Língua Portuguesa. as práticas pedagógicas cotidianas dos professores.. notadamente a partir da primeira década deste século. 286.]. Como decorrência do referencial teórico construtivista e de sua posição contrária à utilização de cartilhas e métodos de alfabetização. A DIFERENÇA ENTRE O DISCURSO OFICIAL E AS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS COTIDIANAS: discussão de uma hipótese A principal hipótese que se pode levantar para o fato de que os professores em geral não dominam o conceito de gêneros discursivos nem conseguem. a partir dos quais o professor deve desenvolver um “trabalho” que respeite a realidade da criança e seu ritmo de construção do conhecimento. num discurso “pelo baixo”.. não se pode afirmar o mesmo quanto à apropriação dessas tematizações pelo discurso oficial e muito menos quanto aos efeitos das contribuições de cada corrente teórica em sala de aula. Essa pouca atenção se potencializa diante de um cenário nacional de pouco comprometimento do poder público com a qualidade dos cursos de formação inicial de professores. um método eclético de novo tipo. grifos da autora). por exemplo. em geral. em geral. Esse é um dos desdobramentos da hipótese que será analisada a seguir. “silábicos” e “alfabéticos”. Resultando na combinação dos métodos tradicionais com as implicações pedagógicas das pesquisas de Ferreiro. A profusão de cursos a distância em prazos aligeirados e de faculdades particulares que praticamente CORPOS . das contribuições dos Estudos do Letramento. pelo discurso oficial. segundo Mortatti (2000)) e atingem as concretizações. quanto às filiações teóricas de cada estudo e de cada pesquisa. disseminou-se. que. portanto. do qual trata a passagem acima. Pode-se afirmar. 3. porém se estendem para o discurso oficial (as normatizações. pouco seguros quanto a como trabalhar a alfabetização – em especial após a maciça presença. 270 Mesmo que diferentes do ponto de vista epistemológico. deixa os professores. p. esse “método” baseia-se no diagnóstico e posterior classificação “construtivista” dos alfabetizandos em “pré-silábicos”.

Assim. os discursos pedagógicos se modificam. organizados dentro da própria escola. o qual é muito lento. na maior parte das vezes. abrindo margem a muitas falhas de compreensão por parte dos profissionais que não são especialistas em língua. Além disso. 271 apenas vendem diplomas nessa etapa da formação desfavorecem o aprofundamento teórico e as reflexões baseadas na leitura atenta e cuidadosa dos clássicos. mesmo que encampado pelo discurso oficial. crítica e reflexiva dos conceitos envolvidos nos discursos oficiais – como é o caso dos gêneros discursivos. existe a tendência a se produzirem discursos oficiais no campo da Educação numa velocidade muito maior do que o tempo necessário para que esses discursos sejam traduzidos em práticas pedagógicas efetivas. Em outras palavras: segundo Hébrard (2000). o tempo dos discursos: com enorme velocidade. devido à convivência das tematizações e normatizações com as concretizações (MORTATTI. devido à sua entrada relativamente recente no Brasil – é de que nem o próprio discurso oficial é claro em suas determinações. dentro das salas de aula. em geral. se tenha ainda. Nunca é demais afirmar que é responsabilidade do poder público investir nos cursos de formação continuada. diz respeito à organização da escola. Vale ressaltar que espaços importantes para essa troca e essa reflexão são os cursos de formação continuada (de caráter municipal. assim como é improvável que construam autonomamente adaptações significativas do discurso oficial. o tempo das políticas de educação e o tempo dos discursos. Outro desdobramento da hipótese levantada acima – o conceito de gêneros discursivos é pouco dominado pelos professores dos primeiros anos do Ensino Fundamental. Sem uma base teórica sólida. em seu artigo intitulado Leituras de Alfabetizadoras. o que prejudica a apropriação competente. muitas “bricolagens” ou visões ecléticas. o próprio discurso oficial também propõe um “método eclético de novo tipo”. a entrada recente do conceito de gêneros discursivos no Brasil faz com que. Além disso. dificilmente as práticas se modificam. estas que. pela própria equipe docente. assim como é responsabilidade direta da coordenação pedagógica de cada escola criar espaços significativos e produtivos de estudo. da Silva (2005) discute. o tempo de base. na prática. reflexão e discussão entre os professores sobre suas práticas pedagógicas cotidianas. “a natureza dos problemas de compreensão de duas alfabetizadoras (Neusa e Samira) na leitura dos CORPOS . os professores dificilmente podem justificar suas práticas e questionar as normatizações. Sem a troca de experiências e a reflexão sobre a ação pedagógica cotidiana. O tempo de base se caracteriza por ser aquele das práticas pedagógicas. conforme se produzem estudos acadêmicos sobre a escola e a educação. 2000). Simone Bueno B. ao tentar compatibilizar tendências e posturas teóricas muitas vezes divergentes. Já o tempo das políticas de educação. Por fim. considerado de velocidade intermediária. estadual ou nacional) e os espaços criados pela formação em serviço. Essa discrepância se potencializa quando são oferecidos e criados poucos espaços de troca de experiências e de reflexões coletivas entre os professores. conforme se ressaltou na seção anterior. existem três tempos da escola. não acompanham a velocidade com que aquelas se efetivam.

o que segundo Silva (2005) indicia uma falha no processamento cognitivo responsável pela compreensão. no texto. as professoras sentiram dificuldades de compreensão principalmente na seguinte passagem. que é necessário tempo e ocasião para que o conceito de gêneros discursivos CORPOS .. 2005. p. as professoras sentiram-se desamparadas diante deles: é o caso do conceito de gêneros discursivos. juntamente com tantos outros conceitos. ou seja. De acordo com a autora. p. Machado e Lousada (2010) afirmam que “a apropriação dos gêneros textuais é necessária para o desenvolvimento do professor e do seu trabalho” (MACHADO e LOUSADA. 272 Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa para o primeiro e o segundo ciclos do ensino fundamental” (SILVA. pp. 2010. Como certos conceitos linguísticos não são abordados pelos cursos de Pedagogia atuais (nem eram pelos extintos cursos de Magistério). conclui a autora: [. a partir das ideias de Vygotsky. Silva (2005) finaliza seu artigo destacando a pouca atenção que é dada aos conceitos linguísticos ao longo de todo o documento. (BRASIL. como visão geral da ação à qual o texto se articula. ambas as professoras hesitaram e “engasgaram” ao pronunciar a palavra “literariedade”. e não é retomado ao longo do texto. apud SILVA. não compõem o conjunto dos conhecimentos prévios das professoras.] o que nos pareceu mais saliente na leitura dos dados foi o grande número de definições de conceitos linguísticos na parte introdutória. grau de literariedade. 149) Silva (2005) ainda afirma que essa falta de familiaridade com os conceitos próprios dos diversos campos da Linguística compromete a compreensão não apenas de ideias centrais postuladas pelo documento como também da terminologia secundária. existindo em número quase ilimitado.. o que exige do leitor maior familiaridade com uma área da linguagem que não faz parte dos cursos de Pedagogia e Magistério por meio dos quais foram formadas as alfabetizadoras e. localizada na página 26 dos PCN: Pode-se ainda afirmar que a noção de gêneros refere-se a “famílias” de textos que compartilham algumas características comuns. 2005. embora heterogêneas. a autora conclui que muitas das dificuldades de compreensão das professoras citadas devem-se à profusão de termos próprios à área da Linguística na parte introdutória do documento. por exemplo. até mesmo no momento de realizar a leitura em voz alta dessa passagem. O conceito de gêneros discursivos. devido à falha de compreensão dos termos utilizados pelos PCN. Porém. tipo de suporte comunicativo. as autoras defendem. 152). 2005. portanto. aparece numa apresentação de apenas quatro páginas. Quanto ao tema da apropriação. 143-4). Quanto a ele. Dessa forma. p. que podem representar um público muito mais amplo. palavras que não teriam. A partir de sua pesquisa. 1997. não conseguiram sequer diferenciar ideias principais de ideias secundárias ao longo do texto. por exemplo. 622). extensão. (SILVA. papel fundamental. Isso significa que as professoras da pesquisa. Isso claramente dificulta a apropriação da teoria pelos professores e a adequada ressignificação didática do conceito.

tanto a responsabilidade do professor em sala de aula quanto a responsabilidade principalmente do poder público de garantir formação consistente aos profissionais CORPOS . p.. 2012). ao professor” (BRASIL. Ficam claras. Baseadas no psicólogo soviético. os artefatos não são capazes de mediar a ação humana. em última instância. mais ele se torna acessível aos alunos [. ibidem). o professor tem a obrigação de conhecê-la e os responsáveis por essa obrigação são os cursos de formação de professores: formação inicial.71). Essa didatização envolve “[. Ora. por descrever e explicar adequadamente esse objeto de ensino e aprendizagem. Paralelamente. Porém. ênfase em determinadas dimensões. e não mais que sejam apenas uma imposição como artefatos. ao menos parcial. Para que isso ocorra... observa-se ainda mais a necessidade de se promoverem espaços e tempos de qualidade para que o conceito de gêneros discursivos e suas implicações para o ensino da língua materna sejam discutidos.] uma transformação. Isso nos leva novamente à questão da formação dos professores e dos espaços e tempos envolvidos nessa formação. pela escolha de quais dimensões do gênero serão enfatizadas. 1997) afirmam que cabe ao professor a decisão de quais gêneros trabalhar em quais anos de quais ciclos e em quais contextos: “No entanto. leitura e escrita. é preciso que os conceitos sejam apropriados e transformados em construções psíquicas – então capazes de mediar as ações humanas. Por exemplo: não é a mera existência do conceito de gêneros discursivos que promove um ensino de língua mais contextualizado. por si sós. é preciso que os artefatos se tornem instrumentos. histórico e cultural é levado para dentro da escola e se torna um objeto de ensino e de aprendizagem – ainda que se deva buscar aproximar os alunos dos contextos reais de uso dos variados gêneros. como Vygotsky. Vale ressaltar ainda que as autoras afirmam: “Quanto mais claramente o objeto de trabalho é descrito e explicado. Koch e Elias (2010) apontam que a didatização dos gêneros acaba existindo. que todo aprendizado ocorre primeiramente em uma instância interpessoal para depois tornar-se intrapessoal (BATISTA-DE OLIVEIRA. os quais possibilitariam a construção desse tipo de práticas pedagógicas mencionadas acima. Isso nos leva à grande questão da formação: ainda que o aluno não precise conhecer a teoria por trás do conceito de gêneros discursivos para se inserir (e ser inserido) nas práticas sociais de fala. dessa forma.. para que depois sejam internalizados e efetivamente apropriados. ou seja. p.]” (idem. traduzindo-se em práticas pedagógicas mais consistentes e competentes no ensino da língua materna. continuada e em serviço. quando este fenômeno social. construído sócio-historicamente. o critério de seleção de quais textos podem ser abordados em quais situações didáticas cabe. 1997. etc” (KOCH e ELIAS. problematizados e construídos coletivamente pelos professores. 273 possa ser incorporado pelos professores como instrumentos. do gênero: simplificação. Considerando. pela decisão sobre as simplificações que o gênero poderá sofrer. Os próprios PCN (BRASIL. as autoras caracterizam o artefato como um “objeto”. o professor é o grande responsável por essa didatização: pela escolha de quais textos pertencentes a quais gêneros serão trabalhados em dado ano. seja material ou simbólico. 2010. 74).

continuada e em serviço dos professores. tenham. principalmente aqueles que atuam nos primeiros anos do Ensino Fundamental. se apropriado do discurso oficial. quando passou a ser estudada e a conflitar com outras perspectivas de ensino de língua. BRASIL. em geral. BRASIL. Trabalho de Conclusão de Curso. traduzindo-o em práticas pedagógicas consistentes e competentes envolvendo o conceito de gêneros do discurso. filósofo da linguagem soviético. Essa hipótese e os vários desdobramentos que dela decorrem apontam para uma necessidade cada vez mais inescapável e determinante: o investimento maciço do poder público em cursos de formação inicial. notadamente no que se refere à apropriação do conceito de gêneros discursivos pelos professores dos primeiros anos do Ensino Fundamental. BRASIL. dada a sua dilatada importância para o ensino e a aprendizagem da língua materna (e de como estar no mundo através da língua). Estética da criação verbal. Linguagens. Secretaria de Educação Fundamental. CORPOS . CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir das discussões apresentadas neste artigo. 2012. Gilka Fornazari. figurando como base para o trabalho com a Língua Portuguesa desde a Educação Infantil até o Ensino Médio. SP: [s. Campinas. códigos e suas tecnologias – Brasília. como as “tradicionais” e as ditas “construtivistas”. O conceito de gêneros discursivos. O trabalho com a escrita no contexto do ensino profissionalizante: a produção dos alunos e a mediação da professora. REFERÊNCIAS BAKHTIN. e seu Círculo sobre os estudos da linguagem e mais precisamente sobre o conceito de gêneros discursivos são fundamentais para o ensino de língua materna na escola. Tanto é assim que esse conceito aparece fortemente marcado no discurso oficial.n. Referencial curricular nacional para a Educação Infantil — Brasília. Orientações Curriculares para o Ensino Médio. 1998. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa – Brasília. 1997. de forma que consigam construir práticas pedagógicas mais competentes no ensino da língua. esse fato não garante que os professores. E uma das únicas vias de acesso a esse novo quadro é através da formação do professor. 274 da educação.]. 2006. BATISTA-DE OLIVEIRA. dificuldades no trabalho com os gêneros discursivos é porque essa categoria de análise teve uma entrada relativamente recente no país – a partir do fim da década de 1980. especialmente daqueles dos primeiros anos do Ensino Fundamental. Secretaria de Educação Básica. em sua maioria. Secretaria de Educação Fundamental. Porém. Mikhail Mikhailovich. A principal hipótese explicativa analisada para o fato de em sala de aula os professores terem. precisa ser apropriado e internalizado pelos professores. verifica-se que as contribuições de Mikhail Bakhtin. São Paulo: Martins Fontes. Ministério da Educação e do Desporto. 2010.

Anna Rachel. SC. São Paulo – 1876 /1994. MORTATTI. LOUSADA. set. 40. 627-640. SP: Mercado de Letras. São Paulo: Contexto. Leituras de alfabetizadoras. São Paulo: Cortez. HÉBRARD. Maria do Rosário Longo. O texto na sala de aula./dez. 2005. n. Presença Pedagógica. p. João Wanderley (org. Letramento e formação do professor: práticas discursivas. Eliane Gouvêa. MATENCIO. Simone Bueno B. representações e construção do saber. 2006. Palhoça. 2012. GERALDI. Campinas. v. SP: Editora da Universidade Estadual de Campinas. Angela B. LOUSADA. SP: Mercado de Letras. 275 BRONCKART. vol. nº 33. In KLEIMAN. p. v. Linguagem em (Dis)curso. 2010.). 2010. KOCH. 619-633. Maria de Lourdes Meirelles (orgs. 2005. KLEIMAN. São Paulo: EDUC. Eliane Gouvêa. Ingedore. Vanda Maria. 2000. MATENCIO. Siderlene. Letramento e formação do professor: práticas discursivas. CORPOS . Ermelinda. BARRICELLI. A criança na fase inicial da escrita: a alfabetização como processo discursivo. Maria de Lourdes Meirelles (orgs. da. Jean Paul. ELIAS. Belo Horizonte. 3.). 10. MACHADO. textos e discursos. São Paulo: Ática. MUNIZ-OLIVEIRA. Jean. 5-17. Angela B. 2011. Gêneros textuais em foco: instrumentos para o desenvolvimento de alunos e professores.). não a vida mesma. Atividade de linguagem. Os sentidos da alfabetização. p. São Paulo: Editora UNESP. 2000. SILVA. Ana Luiza Bustamante. 6. SMOLKA. 2008. A apropriação de gêneros textuais pelo professor: em direção ao desenvolvimento pessoal e à evolução do “métier”. representações e construção do saber. Ler e escrever: estratégias de produção textual. Campinas. Estudos Linguísticos. Campinas. O objetivo da escola é a cultura. Por um interacionismo sociodiscursivo...

pôr-se – ou ser posta – em jogo?” (AGAMBEN. biográfico e autobiográfico ou confessional (BAKHTIN. concretamente tangível e singular: o FORMAÇÃO ÉTICA: produções evento. Liana Arrais 106 um-a-um singular-a-singular. Este texto é trazido pelo professor/autor/narrador/personagem narrativas/materialidades dialógicas e das das de conhecimentos na convivência escolar reflexões propostas que convida uma leitora de seu grupo de estudos a concordar provisoriamente com duas visões de sujeitos que coexistem e se concretizam nas relações numa sala de aula. Fernando 105 abalada quando as experiências desses sujeitos são levadas em conta. conforme está em Volochínov ([1926] 2011.. num ato responsivo seu a esses outros participantes. o que nos leva a considerar que as narrativas pedagógicas têm um cunho. o autor. ao narrar reflexivamente faz da narrativa um instrumento de produção de conhecimento. RESUMO 276 Narrativas provocam o estudo do tema. Como parte da trama.156. como uma das personagens. porém. narrando.nosferatu@yahoo.com. que é também professor de história. 128-153). 2007.Professor-pesquisador do GRUBAKH-GEPEC-UNICAMP.. p. constituindo todos os sujeitos de A QUESTÃO EM QUESTÃO. não só contar o acontecimento. dentre os demais acontecimentos de sua vida de professor de história no cotidiano escolar: ele compartilha suas narrativas com uma das participantes de seu grupo de estudos daí surge este texto. para uma vida. Ética.br 106 Pesquisadora-colaboradora do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Continuada (GEPEC) da Faculdade de Educação na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e coordenadora do Grupo de Estudos Bakhtinianos (GRUBAKH). que nós vamos tratar da vida das personagens em uma narrativa. E-mail: laserodio@gmail. mas nas relações SERODIO. que possibilita pensar na formação ética na escola?. até certo ponto. p. o conhecimento e a compreensão comum da situação e a valoração compartilhada igualmente pelo autor e os leitores. p. com o acréscimo da participação do autor no acontecimento. 60). Todos os três elementos – um horizonte espacial comum aos falantes. responsivamente viáveis. Ato responsável.com CORPOS . Essa ciência do particular que gera e é gerada por procedimentos únicos coexiste e se concretiza nas relações. desta situação. constituindo todos os sujeitos de modo singular: como produto e como processo. [1929] 2003. 2013. C Heterociência. modo singular. cujo autor (participante da narrativa. Convivência escolar onsiderem. como um dos personagens entre os outros) englobou a partir de eventos contundentes para si e para o narrador (o próprio autor). na narrativa. 78) – estão presentes. mas questionar a si mesmo de suas posições valorativas no acontecido. leitores. de uma ciência outra. em que tanto o pensamento mais abstrato quanto a prática quase fisiológica fazem parte dos acontecimentos. não no coletivo. Mas narrativas são afigurações dos momentos de uma unidade viva. Serão esses procedimentos. uma “O que significa. p. O narrador é também o autor que engloba os personagens que narra e que busca. E-mail: fecasi. A formação desses sujeitos pressupõe uma visão de Ciência que fica CARDOSO. porém funcionam como a criação de um ponto extralocalizado (porquanto lhe 105 Professor de EF e EJA nas redes municipais de ensino de Taubaté e Campinas. figurando. Palavras-Chave: Narrativa.

do qual fazem parte seus círculos diretos – contemporâneos a ele – ou indiretos – contemporâneos a nós – formado por profissionais da escola de várias áreas. As narrativas que criamos são um ponto de extralocalização de um indivíduo não indiferente aos demais indivíduos envolvidos. leitores? Para este texto o professor/autor/narrador/personagem das narrativas e das reflexões propostas tendo nas narrativas sua materialidade. E também informada pelas discussões a respeito do ato ético como têm surgido no grupo de estudos bakhtinianos. como ato. A pergunta: “como é possível produzir conhecimentos éticos sobre a ética nas escolas?” parece encontrar respostas nas relações entre os estudantes e o professor. 2017) Em tempo: neste texto estamos trazendo um tema candente em tempos de transição paradigmática (SANTOS. resultando uma visão do indivíduo como algo estabilizado. possibilitam estabelecer uma unidade concreta entre o mundo da vida e o mundo da cultura. um produto – como um ser que se autodetermina. 2015). UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas). no eu-para-si-com-os-outros-para-si. 91) do autor que se torna narrador e personagem entre os demais personagens. Do jeito que ela surgiu numa conversa entre os estudantes e o professor e mesmo resultante de observações do professor acerca de comportamentos verificados junto aos alunos num momento de atividade em grupo proposta pelo docente. Formamos um grupo de estudos bakhtinianos da filosofia da linguagem. na Faculdade de Educação. A característica que queremos marcar aqui como separação (não que seja a única) entre a narrativa pedagógica e os textos literários confessionais ou autobiográficos elencados historiograficamente por Bakhtin no seu primeiro livro sobre Dostoievski está na diretriz axiológica. respondendo aos acontecimentos que lá têm seu lugar. [1929] 2003. No primeiro caso. funções e níveis de ensino. No segundo. Mas muito mais. não estando no eu-para-si (BAKHTIN. Ou ainda: essas duas visões de sujeitos coexistem e se concretizam nas relações. 1988. PRADO. [1929] p. Mas não só. que se reúne para buscar sentidos. 277 fornece um corpo exterior) e transgrediente no tempo e no espaço (BAKHTIN. a elas retornando nas interpretações metanarrativas (SERODIO. et all. o sujeito é visto como constituído por relações alteritárias intersubjetivas. historicamente constituídas na sua relação com uma cultura e a sociedade na qual se insere. sua própria condição de parte constituinte do todo social e das relações que o constituem tem um viés de precariedade e de não determinação sobre a totalidade por ele. cujas questões da pesquisa iluminam. numa sala de aula: o sujeito como produto e o sujeito como processo.138). o GRUBAKH/GEPEC 107 neste último ano (2017). 2015) elas são o centro do qual emanam e para o qual convergem as buscas. a visão que temos dele se pauta por um foco na identidade como algo ensimesmado e pertencente a ele essencialmente. O que dirão a vocês. CORPOS . Ou melhor. Além das narrativas assumirem o papel de “materialidade” da pesquisa na “metodologia narrativa de pesquisa em educação” (PRADO. É o que nos dizem as narrativas que aqui trazemos. PRADO. tempo e relações sociais concretizados em suas narrativas. 2003. duas visões dos sujeitos que convivem dentro de si mesmos. p. 2009): a ética. convida o leitor a concordar provisoriamente com uma noção de sujeito. 107 O GRUBAKH é um subgrupo do GEPEC (Grupo de Estudos e Pesquisas em Formação Continuada). as quais passam a ser ele próprio (as narrativas) um evento concreto. constituindo todos os sujeitos de modo singular. como escrita-evento (SERODIO.

tende mesmo. aqui. sequencial e mecânica. A escola atua junto a ele. não indiferente (BAKHTIN. inacabada e incompleta em ambos – o sujeito singular e a sociedade – que se entrelaçam em suas constituições recíprocas. Isto aparece de acordo com uma visão do sujeito enquanto estabilizada como produto das temporalidades. então tenderá a ser sempre assim. por exemplo. os sujeitos em relação.faz isto hoje porque em sua formação teve tais aprendizagens. Tem a ver com o valor e sentido. não junto a seus atos. presente numa sociedade que é contraditória e em abertura. Explico- me: mesmo se formos olhar a história do sujeito para justificar ou entender seus atos. presentes que estão naquele momento e espaço em relação. por este mecanismo. o caráter de alguma coisa por se realizar. o ato dos outros também pertencem ao professor e os seus a eles. ato realizado) se abre em perguntas sobre o devir histórico. deveres e responsabilidades sobre as escolhas que são também do professor na relação com o outro e do outro para com ele. ao cindir o dado como produto pronto e acabado e revelá-lo processo que se questiona sobre o que virá. a relação entre os tempos aparece como cumulativa. mais precisamente. ele me é dado no CORPOS . imerso nas mesmas relações cotidianas entre os sujeitos? METANARRATIVA PEDAGÓGICA 2 DO PROFESSOR EM DIÁLOGO O sujeito como produto reside em seu ensimesmamento. vivências e formação numa relação entre as temporalidades que o formaram vista de maneira direta em sua causalidade. daí emergem algumas constatações possíveis: o ato dos outros deve ser pensado nele e para com ele numa teia de direitos. O presente então não existe senão como momento no qual o dado (passado. quando trata de atos “infracionários”. 278 Quais seriam as implicações possíveis destas definições para o professor quando ele lança seu olhar sobre a questão da ética. Quando o professor/narrador/pesquisador vai pensar no ato responsável bakhtiniano – responsivo e participante. ou. 2012) –. presente no ambiente escolar cotidiano no qual ele interfere como sujeito responsável e responsivo em sua função social (profissional). As relações entre os tempos presente. ele adquire. passado e futuro são assim dinâmicas e qualitativas/axiológicas. tal como. ele percebe a constituição singular do sujeito como uma expressão de relações intersubjetivas que abrem questões à sua constituição social e histórica. isto é dele e a ele pertence. a relação entre o hoje e o ontem aparece numa relação mecânica causal. O ato responsável se refere então a uma visão de temporalidade histórica posta no concreto das relações intersubjetivas na qual o sujeito age e interfere (escreve a história) – aliás. a condenar o sujeito num presentismo fatalista: ele é assim. Se as relações constituem o sujeito e ele interfere igualmente em sua construção (sendo parte dela). daí que cabe a todos a responsabilidade de intervenção e construção. No momento em que realmente vivo a experiência de um objeto-mesmo que apenas pense nele – o objeto se torna um momento dinâmico daquele evento em curso que é o meu pensá-lo-experimentá-lo. assim. já que ambos constroem o todo da relação ali posta. mesmo quando diz o contrário. posto que é processual.

o que é e o que deve ser. que nos constituem e para os quais as narrativas pedagógicas se tornam materialidade fixada (passado.” (BAKHTIN. de inacabamento. É ainda relacional esta perspectiva porque ela chama a mim e ao outro ao convite de se problematizar não apenas a ação do outro. 2010. NARRATIVAS DO ACONTECIMENTO Numa conversa com algumas alunas de EJA em Campinas. não como visão fenomênica e sim uma visão do sentido vivo da vivência na expressão. o posto) e poderoso instrumento (futuro. concretamente tangível e singular: o evento. bem como as nossas visões uns sobre os outros. e até mesmo metodológica da produção de metanarrativas bakhtinianas (SERODIO. estas reflexões do professor. uma visão do fenomênico internamente compreendido.122-123) Os atos são assim constantes aberturas questionando-nos sobre o nosso amanhã a partir do ontem construído. Este pensamento assim nos permite ser “sujeitos e objetos de reflexão” sobre os nós. algumas delas observaram a “desobediência dos filhos” como um traço das transformações históricas recentes presente na sociedade. 2015. p. afinal. quando vista de maneira dinâmica. mas também a minha. PRADO. a teoria. presente no ato (algo no qual devo interferir para vir a se realizar com a minha participação responsiva).396) Inversamente. 91-128). a reflexão que retroalimenta o agir) para o sujeito professor de história e seus interlocutores. dos sujeitos e consequentemente de seus atos. Todas estas categorias abstratas são aqui momentos de uma unidade viva. Trata-se de trazer as relações para esta reflexão (cognitiva) e mobilizar então a dimensão (ética) das relações intersubjetivas valorativas para a possibilidade de uma construção/reconstrução (co-constituição) coletiva horizontalizada (política) pela dialogia. o abstrato. o fato e o valor. instaurando então o dever de pensarmos sobre os sentidos socialmente constituídos como norteadores das relações. a prática participam de um constante abrir e fechar em suas conversas: de onde partiram. que são mães. já que as narrativas são um elo presente com o passado constantemente compreendido “por uma visão de sentido vivo da vivência na expressão”. e enxerga aquela ética como presente no outro. não me atravessando (não presente em mim). visto como dado (algo posto ou realizado) do sujeito. [1974-79] 2003. não de seu ato. dos quais são momentos inseparáveis o que é dado e o que está para se cumprir. na linha cronológica/histórica dos fatos. autocompreendido. por assim dizer. p. Bakhtin acaba mobilizando no professor/narrador/autor/personagem esta relação entre o agir e a temporalidade. O ensimesmamento não permite esta pergunta por que parece ser mais fatalista e estável. p. anulando a concepção de processo. as quais localizam nas éticas cotidianas vivenciadas e valoradas por elas CORPOS . sua ética. sendo capaz de produzir e se pensar sobre seus sentidos (o experienciado e o compreendido). remetemo-nos agora aos acontecimentos que mobilizaram estas reflexões num diálogo em que o concreto. (BAKHTIN. como diz Bakhtin ([1974-79] 2003): “[o] problema da compreensão. A compreensão como visão do sentido. 279 âmbito do evento na sua unidade.

não se envolvia muito com a atividade. não para ser o hierarquicamente submetido estabilizado como uma cópia do eu hierarquicamente dominador. observei/vivenciei o que segue. mexendo ele no celular durante boa parte do tempo . tal seria fuma visão rebaixada de liberdade e autonomia . O sujeito deve aprender a escolher desde cedo para aprender que seus atos têm consequências e assim vai desenvolvendo sua autonomia de ação/reflexão. tendo o eu ensimesmado direcionador como “exemplo”. não tende. em linhas gerais: Estabelecer a relação de formação ética da criança com base na surra e na pancada faz com que a criança não faça aquilo que é "errado" porque entende o sentido daquilo não poder ser feito. exercendo .resolvi não intervir. sua individuação. Quando nossas escolhas estão voltadas para ele. Um sujeito disciplinado não é aquele que tem uma regulação fora de si.em alguma medida . numa outra aula e em outra turma no dia seguinte. A autonomia é quando construímos a relação de formação para o e com o outro. possibilitada pelo professor. mas observar CORPOS . e deixei me levar pelo fluxo de pensamento suscitado por aquela conversa que acabamos de resgatar: Quando um professor chama a atenção de um aluno apressadamente sem praticar a observação e a tentativa de compreensão de alguns atos.. construída na relação com os outros. Esta anulação do outro é justamente o jogo da força e do "quem pode mais chora menos" do poder que estabiliza pela anulação e reproduz ( ao invés de ser criação). portanto. sendo externo e superficial pois que não modificou o sujeito em sua concepção de mundo que o orienta para a relação com o outro. Uma vida fundada no "não querer sofrer" é muito diferente de uma vida fundada no "quero ser feliz".mas interna a si mesmo. A lógica controladora. aqui aparecendo de modo mais formalizado do que foi. Isto não significa dizer que formar para a autonomia é formar para a ausência de respeito a regras ou formar um ser humano egoísta que tudo pode. Outra questão apontada pelas alunas-mães foi que seus filhos parecem “dar mais ouvidos” aos colegas do que a elas. este sujeito então aprende que ser livre não é sê-lo egoisticamente e pela anulação do outro. não ensimesmado. para se pensar esta questão. estabelece relações ético-políticas artificiais e estabilizadas porque os atos não são vistos como momentos de abertura para o diálogo e a reflexão do porquê dos agires para consigo e para com o outro. 280 negativamente. fato apontado por uma das alunas.o papel de um agente regulador externo. Com esta questão ainda presente em mim. a ser regra internalizada: “a questão é que ela tem medo de apanhar”. O agente regulador do sujeito está pois fora dele. não para mim.qual seja: de que ser livre é fazer o que se quiser a despeito do outro. sua construção autônoma. tendo feito parte dela enquanto os outros amigos seus fizeram a maior parte. A surra não permite o diálogo pela busca mais profunda de um sentido sobre a ação do sujeito e a consequente intervenção do outro. um adolescente. Notei justamente numa atividade em grupo que um dos alunos da noite.permanecendo assim sem sentido.. cai no automatismo que se aproxima da concepção subjetiva de produto. Eis que surgiu então uma reflexão entre nós. pois.

histórias. sua relação com os colegas e pensar depois a respeito antes de buscar uma interferência junto ao grupo. Não encontrar-se com o outro pela teia de sentidos é negar o que há de mais humano em nós. Assim. Uma escola que não se coloca como tarefa o zelo pela felicidade dos sujeitos que a compõe e a busca de sentidos pelo estar/agir/ interferir no mundo é. não como produtos estabilizados e externos a ele. mas com relação à horizontalidade do grupo na busca de sentidos do viver/conviver ali. entre viver e aprender. políticas e cognitivas. entre eu e o outro está dada. Sem mobilizar o relaciona presente nos atos.. sobre seu comportamento e ética ou a dos colegas de seu grupo de estudos? O que aconteceria se fosse antes um camarada seu que apontasse sua conduta como erro? Talvez funcionasse como uma regulação externa a princípio que teria mais potencialidade de internalização.construindo todos esta reflexão e ação sobre si mesmos e sobre os outros. A separação entre escola e vida. É nos perguntarmos: "Há quanto tempo eu não me encontro comigo mesmo?” As narrativas são um poderoso instrumento de resgate desta dinâmica e de nós na constituição dos circuitos sociais de ação e valoração éticas. dada a aproximação afetiva entre eles observada por mim durante aquela mesma atividade. ato cometido em relação ao outro e assim social externalizado) e ponto de chegada (ato refletido com o outro para a compreensão do mesmo nas relações sociais de onde se origina e interiorizada). posto minha configuração social e relacional. Daí talvez a importância da Assembleia de classe na qual os alunos criam as regras norteadas por certos valores construídos por nós.. É uma possibilidade de se pensar as éticas dos sujeitos como construção social nas relações. Anulados os sujeitos. saberes podemos pensar que este sujeito não aparece como ponto de partida (dado. à técnica. O eu está expulso e muito ou tudo do que o eu significa. um projeto de fracasso. Um sujeito disciplinado assim não é aquele que tem uma regulação fora de si. no mínimo e de antemão. podemos estar criando uma relação meramente formal do que seja aprender e formação do sujeito: falta sentido porque falta o "eu" neste lugar em sua condição de sujeito. suas identidades. mas em constante construção de pessoas mobilizadas em sua condição de sujeitos arquitetos da própria história. o cumprimento burocrático do fazer verticalmente instituído como aspecto do poder controlador. Quando a aprendizagem escolar ou a formação humana não considera os sujeitos. como figura de autoridade. Em suma: aprender a não querer sofrer é muito diferente de aprender a ser feliz… alteritariamente. E o pior: não percebemos que também está cindido o encontro do eu comigo mesmo por meio do outro. A "falta" do aluno não se daria como uma afronta em relação à figura de autoridade externa do professor e por uma ética imposta por ele ao todo dos alunos verticalmente a partir de meus valores estabilizados. O que vale mais para aquele aluno? A consideração do professor. emerge o ato mecânico. Sem os sentidos tudo tende à abstração. CORPOS . 281 ele. o desinteresse no conhecer/ser efetivo e envolvido. anula-se a vida e assim não se pergunta sobre os sentidos do que estamos fazendo. de onde se originam e para o qual retorna. mas interna a si mesmo. à uniformidade externa ao sujeito.

é a lógica da alteridade. Essa CORPOS . 2017. e as quais constituímos. 2015. E nos leva a ver e a enfatizar aqui que desde o momento em que o evento vivido constitutivamente de modo alteritário/dialógico se torna uma materialidade narrativa porque antes foi uma experiência importante para o/a professor/a. nos processos sociais que valoram suas ações. imposta pelos detentores de prestígio social no ambiente escolar ao pensar e impor a ética de todos ali. que pode ser vista com mais gravidade ainda quando essa personagem é alguém tão real quanto o/a narrador/a. reduzido. neste sentido. essencialmente. para uma leitora privilegiada da (meta)narrativa e com a qual seus pensamentos tomam outra forma. algo que lhe pertence. em acabamento constante. provisório. O comportamento. o-outro-para-mim. as ações são construídas/desconstruídas/reconstruídas a partir dos conjuntos de relações que nos constituem. Posto que o narrador acredita na perspectiva de se pensar a ética dos seus alunos e a sua em relações e questionamentos constantes. sua identidade. 282 ESCUTAS RESPONSIVAS DAS NARRATIVAS E METANARRATIVAS NA PRODUÇÃO DE UM CONHECIMENTO ÉTICO NA CONVIVÊNCIA A avaliação das ações dos sujeitos no ambiente escolar pode se dar na consideração dos sujeitos como produtos ou processos em suaS éticaS observadaS. internalizadas e exteriorizadas por cada um. o dado é. resulta daí uma adoção do sujeito como processo e uma crítica da visão do mesmo como produto: o autor/narrador conta aquilo que o mobilizou a pensar mais e com mais profundidade. justamente a perspectiva comumente adotada pela escola ao olharmos para os alunos numa ética formal e vertical. 9-22) e as metanarrativas bakhtinianas (SERODIO et al. p. convidando a participar dessa reflexão. desta forma. As tensões ou estabilidades que aí emergem por concordâncias ou conflitos geram um movimento e uma instabilidade processual. pontualmente as “pipocas pedagógicas” (PRADO et al. 129-151) é diverso. pois. O comportamento do sujeito é um fragmento da realidade cujo relacional com o todo fica extremamente precarizado. a forma de um texto a ser compartilhado num Encontro de Estudos Bakhtinianos. A visão sobre o sujeito como produto é aquela que comumente encontramos na escola: trata-se de se ver o comportamento como constituinte de seu ser. não é encarado como constituído em seus fundamentos. que emerge como pertencente aos sujeitos em sua maneira de ser e estar em suas ações no mundo. Um deles é o aqui citado anseio por um devir histórico. 2010) nos tem ajudado a ver as personagens dos textos narrados como “outros” que me constituem na relação – eu-para-mim. eu-para-o-outro (BAKHTIN. p. a fim de se pensar a questão para além de si mesmo (ou a partir de si mesmo com os outros) numa expansão do refletir numa lógica relacional e social. A referência à Agamben (2007) é feita a guisa de expor a possível posição passiva da personagem. O modo como temos interpretado na metodologia narrativa de pesquisa por meio do gênero narrativa pedagógica (PRADO. A visão do sujeito como processo se dá numa outra lógica: seu eu e ações estão em conexão com uma realidade social contraditória que o gestou. A arquitetônica concreta bakhtiniana (BAKHTIN. postas num dado momento histórico. 2010). 2013) e suas variantes. desde a produção orientada.

a produção das narrativas por um professor de história que participa das histórias que narra importa para ampliar os diálogos sobre as ciências humanas. 2015). 2007. ciência dos pequenos atos do cotidiano que. (BAKHTIN. A refiguração dos acontecimentos vividos e reconhecidos como uma experiência tal que se tornam motivo para escrita tem uma força reversiva – cognitiva. como dizemos. No entanto sabemos que uma e outra são as duas faces de uma folha de papel em branco. seja espacial ou temporal. Boaventura Santos (1988. Reafirmamos com Bakhtin (2010): Não é nossa intenção fornecer um sistema ou um inventário sistemático de valores. aproveitando-se da estabilidade dos subentendidos ideológicos que formam os argumentos. mas a que aceita. nos possibilitem tirar lições.122-123). ao tempo em que essa expressão é orientada para um auditório social que constitui e é constituído numa cultura relativamente bem formada. Fazemos questão de dizer que. p. comportamentos. 283 diversidade/singularidade tornam as narrativas e as metodologias. 2015). podem vir a se tornarem conhecimentos dominantes (VOLÓCHINOV. conteúdos. E. O que pretendemos fornecer é uma refiguração. a escola (seus profissionais e estudantes) apresenta em potência uma ciência outra. 61) CORPOS . temporais e emotivo-volitivo concretos). irrevogavelmente e sem reservas. 2017. de valorações reais. pôr-se em jogo nos seus gestos. paradoxalmente singulares. de afirmações. quando socialmente válidos. em primeiro lugar nas narrativas pedagógicas. como diz Agamben na nossa epígrafe. que se completa assim: Ética não é a vida que simplesmente se submete à lei moral. práticas. p. (AGAMBEN. Ou seja. 2009) diz algo que se pode colocar em diálogo: que a ciência aspira ser senso comum. 213). Mesmo correndo o risco de que. estética e ética – na expressão sobre a vivência e passa a ser colocada de um outro modo: epistemologicamente. no qual conceitos puros (idênticos a si mesmos em conteúdo) sejam ligados entre si à base de uma correlação lógica. e cujos participantes sejam objetos efetivamente reais. mesmo que aos poucos essas singularidades possibilitem uma generalização particular ou. pondo-se e pondo as vidas com ele em jogo. não somente pelo conteúdo do acontecimento mas porque participava junto com seus estudantes deles. de ações. ao tratar de ética na escola. entramos numa questão candente em tempos de escatologia política: é possível uma formação ética na escola? (SERODIO. Refiguração essa em que apostamos cada vez mais alto. venham a ser decididas. unidos por relações concretas de eventos no evento singular do existir (aqui as relações lógicas não são mais que um momento ao lado dos momentos espaciais. como ponto de partida do segundo lugar na cronologia que temos apontado: as metodologias narrativas de pesquisa em educação (PRADO et al. 2010. p. uma descrição da arquitetônica real concreta do mundo dos valores realmente concretos. de uma vez por todas. a sua felicidade e a sua infelicidade. relações. para que se legitime um modo aliás legitimado nos próprios acontecimentos narrados sobre os quais e nos quais esse professor tem refletido. dessa maneira.

quando tornada um material que se dê com mais ou menos resistência aos sentidos (fisiológicos e semióticos) do/a professor/a em sua constituição social/cultural e formação profissional. esculpir. Mais ou menos aprofundadamente. enquanto criador de tal pensamento. a reflexão. UM ARREMATE MEIO CAPRICHOSO. Tanto quanto dizer que o pensamento abstrato seja desligado das experiências concretas. p.. para amarrar. pintar. uma compreensão dos comportamentos individuais mobilizados pela narrativa na perspectiva aqui defendida e. autoritária. em maior ou menor medida. Esta dialogia é também marcada por uma concepção de historicidade como constituinte dos sujeitos e que permite. mesmo quando ele adentra uma visão relacional alteritária. como crítica à visão predominante na escola sobre as éticas dos humanos do professor. a crítica. 284 A partir do momento em que as narrativas se tornam a verdade do acontecimento (pravda) ao mesmo tempo em que são o ato/pensamento desse indivíduo na relação com o outro. gestos.) em que e com os quais dialogam e que o leva a “observar as relações”. juntamente com suas impressões estéticas. Seja ensinando uma ética formal. idiomas. emergindo metanarrativas como se as narrativas é que as justificassem.. filosofias.. emoções-volições. uma formação ética na escola. nesse caso. Estamos sempre defendendo que a narrativa proporciona a metanarrativa ou reflexões que levam à produção de conhecimentos. ou. só quando se materializa por meio de uma expressão orientada por e para um auditório social do qual toma muito das formas e conteúdos mobilizados por ele/a. E. antes ou misturado com a narrativa. E nos permite ver como a área de formação do professor lhe possibilita uma produção de sentidos das relações éticas entre os estudantes pautadas na relação causal do tempo histórico. etc. estão participando ativamente do diálogo enunciados culturais de sistemas ideológicos cotidianos e dos sistemas ideológicos mais bem formados (VOLÓCHINOV. dizendo que essas metanarrativas nascem enquanto constitutivas e participantes. já durante o acontecimento convivido por um/a professor/a com seus estudantes. teórica. 214-215) que permeiam o ato responsável do professor. Uma obscenidade. no entanto. seja para proferir. mas inevitável. escrever. como ato responsivo aos acontecimentos nas relações entre os estudantes. artes. Desse modo. inverter a lógica da metanarrativa como exercício de formação no diálogo amplo. junto dos fatos e vivências narrados.. tocar. palpável e dialógica. desenhar. nos antecipamos a alguma crítica bem vinda. Mas é possível. é uma falácia dizer que a teoria na prática é outra. risos. A “arquitetônica real concreta do mundo dos valores realmente concretos” só pode se expor a alguém para o reconhecimento. a neutralidade científica e verdade universal (istina) se tornam obscenas. de trocas desiguais ou pelos atos éticos que são CORPOS . como este texto traz. constitutiva e constituinte das linguagens (campos disciplinares. quando esse alguém faz parte do auditório social do/a narrador/a. bakhtinianamente “participar” delas.. ao contar a metanarrativa para alguém. Como sabemos. 2017. é não só possível. consequentemente.

Os gêneros do discurso.129- 151. Guilherme do Val Toledo. ________. SANTOS. In: BAKHTIN. In: PRADO. Metodologia Narrativa de Pesquisa em Educação: uma perspectiva bakhtiniana.GEGE/UFSCar. SERODIO.br/scielo. São Paulo: Editora Martins Fontes. T. O autor como gesto. p. p. Liana Arrais. In: Profanações. Metodologia das ciências humanas. Acesso em 09-09-2017. Metodologia narrativa de pesquisa em educação: uma perspectiva bakhtiniana. proporcionando-lhes didática.33. Estética da Criação Verbal. p. 285 compostos pelos conhecimentos técnicos especializados ou culturais. 2017. p. In: BAKHTIN. 2013. Tradução e apresentação de Selvino J. REFERÊNCIAS AGAMBEN.br/eventos/7falaoutraescola/arquivos/ebook. Um discurso sobre as Ciências na transição para uma ciência pós-moderna. São Paulo: Boitempo. Disponível em: https://www. PRADO. Coimbra: Edições Almedina. Tradução Paulo Bezerra. H. [online]. buscar sentidos para a existência junto com os outros a eles não indiferentes. G. Estética da Criação Verbal. 9-22. BAKHTIN. em atos responsivos aos estudantes. 2015. In: PRADO et all. ______________. 2003. V.55-63. SERODIO. Liana Arrais. pelas impressões estéticas do/a professor/a na convivência. Mikhail. p. 261-306.. São Carlos: Pedro & João Editores: 2017. Giorgio. [1952- 53] 2003. 2009. L. Guilherme do Val Toledo. Pipocas pedagógicas: uma possibilidade de narrar o vivido na escola. Metanarrativas bakhtinianas: uma etapa dos estudos do GRUBAKH. 1988. V. Estética da Criação Verbal. Guilherme do Val Toledo. passarão a ser. A. http://dx. H.. afetiva e responsivamente momentos de perguntar e procurar respostas. Mikhail.doi. Disponível em: <http://www. Al. 2007. O autor e a personagem na atividade estética. São Carlos: Pedro e João Editores. Guilherme do Val Toledo. Tradução de Valdemir Miotello e Carlos Alberto Faraco. p. 3-193. Boaventura de Sousa. Guilherme do Val Toledo. Liana Arrais. Narrativas Pedagógicas: indícios de conhecimentos docentes e desenvolvimento pessoal e profissional. 394-410. In: Estudos avançados.1590/0102-4698150044 CORPOS . 2015. Interfaces da Educ.2 São Paulo maio/ago. vol. p. SERODIO. et.unicamp. Estética da Criação Verbal. Pipocas Pedagógicas IV: narrativas outras da escola. Teu olhar transforma o meu? Campinas. por meio dessa oportunidade. n. 46-64 .10. PRADO. SP: FE/UNICAMP. PRADO. BAKHTIN. Mikhail M. Acesso em 01/09/2017. Organizado por Augusto Ponzio e Grupo de Estudos dos Gêneros do Discurso . Pensar na formação ética por um desvio estético bakhtiniano. Para uma filosofia do ato responsável. Maria Paula.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40141988000200007&lng=pt&nrm=iso&tlng=pt> SANTOS. et al. [1974-79] 2003.149-165. Tradução Paulo Bezerra. PROENÇA. [1920-1924] 2010. MENESES. D. 150044. 4.2 n. Mikhail M. ________. v. Educação em revista. Mikhail. São Carlos: Pedro&João. M. Assmann.scielo. São Paulo: Martins Fontes. In: BAKHTIN. Tradução Paulo Bezerra.fe. 2015. In: PRADO. São Paulo: Martins Fontes. [1929] 2003. et al. Paranaíba..pdf SERODIO. PRADO. Epistemologias do Sul.org/10. et al. São Paulo: Martins Fontes. p. ou que. Escrita-evento na radicalidade da pesquisa narrativa. Boaventura de Sousa. São Carlos: Pedro & João Editores.

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2012. RESUMO 287 EM BUSCA DE UMA Este texto apresenta a visão dos integrantes do GEPELID – Grupo de estudos e pesquisas sobre linguagem e diferenças sobre a pesquisa em HETEROCIÊNCIA: ética. Metodologia de Pesquisa Bakhtiniana. Flávia Miller Naethe INTRODUÇÃO . 12) implica abandonar a posição epistemológica que somente admite como científico ( e verdadeiro dentro de cada categoria) o enunciado relativo àquilo que se repete. estética e ciências humanas numa perspectiva bakhtiniana de heterociência. De início destacamos duas implicações da adoção do pensamento do filósofo da linguagem Mikhail Bakhtin para as especificidades da produção do conhecimento na área das ciências humanas que merecem especial atenção: a abordagem dos sujeitos da pesquisa pelo pesquisador compreendida como ato dialógico e a apresentação das compreensões obtidas a partir da pesquisa submetida ao gênero texto acadêmico pensado de forma “alargada” para comportar aspectos relativos à autoria... Carlos Roberto de MOTTA. P..] deve reconhecer a infinidade do processo dialógico em que todo dizer e todo dito dialogam com o passado e o futuro e paradoxalmente deve reconhecer a unicidade e irrepetibilidade dos enunciados produzidos em cada diálogo. àquilo que é produto de abstrações deduzidas todas as particularidades como ‘desvios’ não significativos da realidade concreta. pois acreditamos estar diante da perspectiva de adotar de fato.. SERIOT. P. mas nenhum isolado (grifo do autor. com as incertezas que essa adoção acarreta. estéticas e epistemológicas. 2009. uma maneira heterocientífica de tratar nossas questões éticas. 20) Este texto apresenta a base que fundamenta a pesquisa ora inicial do GEPELID – Grupo de estudos e pesquisas sobre linguagens e diferenças. seriam seus CORPOS . das ciências humanas Palavras-Chave: Heterociência. Já há tempo que a metodologia de pesquisa em ciências humanas vem sendo questionada em busca de uma melhor aproximação da pesquisa aos seus objetos. àquilo que é imutável. Aborda ainda as consequências da adoção deste modelo tanto na metodologia de