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A RELIGIÃO E OS 500 ANOS DO BRASIL

Antonio César Perri de Carvalho

Os antecedentes religiosos e espirituais desde os momentos prévios à descoberta do Brasil até


nossos dias são analisados em função do papel a ser cumprido pelos espíritas, como cidadãos
diferenciados, no país do Cruzeiro do Sul.
Torna-se muito curiosa a história de Portugal nos séculos que antecederam as grandes
navegações e a descoberta do Brasil. Em obra lançada 1 no ano passado, focalizamos a
evolução da Ordem dos Cavaleiros Templários, que se tornou muito forte na França, Portugal,
Espanha, Inglaterra e Alemanha. Estes cavaleiros atuaram decisivamente nas cruzadas e nos
combates contra os mouros na Espanha e em Portugal, sendo responsáveis pela consolidação
dos territórios de Portugal.
Em conseqüência das perseguições e das determinações de extinção, os remanescentes dessa
Ordem foram transformados em Ordem de Cristo em Portugal, numa ação arguta e sábia do rei
d. Diniz. Vale o registro curioso de que o rei luso era casado com Isabel, a chamada "rainha
santa", exemplo de atuação caritativa e protagonista de fenômenos mediúnicos, como o caso
do aparecimento das rosas, num atendimento aos pobres no castelo de Leiria.
A Ordem de Cristo atingiu seu auge no período em que o Infante D. Henrique era o Governador
da Ordem. Entre Lagos e Tomar, o príncipe garantiu à sua Ordem a supremacia política em
matéria de descobrimentos dos mares. A Ordem passou a controlar a tecnologia das
navegações e o conhecimento das rotas marítimas. Entre os muitos cavaleiros iniciados na
Ordem destacam-se grandes navegadores e descobridores como Gil Eanes, Vasco da Gama e
Duarte Pacheco Pereira. Os dois últimos rastrearam a existência das terras a oeste da África.
O rei d. Manuel I, cumulativamente governador da Ordem de Cristo, escolheu o também
cavaleiro da Ordem Pedro Álvares Cabral para comandar a esquadra que iria à Índias e deveria
constatar a existência de novas terras à oeste. Ao desembarcar nas terras iluminadas pelo
Cruzeiro do Sul, Cabral fixou, por ocasião da primeira missa, a "bandeira de Cristo" que
recebera das mãos do rei luso. Mas, o verdadeiro processo de colonização das terras de Santa
Cruz, se inicia em 1532, com a fundação de São Vicente pelo donatário Martim Afonso de
Souza, outro cavaleiro da Ordem de Cristo. Poucos anos depois, d. João III passou o controle
religioso das novas terras para os jesuítas.
Hoje entendemos que, sem dúvida, ocorreram enganos e exageros nas atuações religiosas,
mas os fatos históricos devem ser analisados dentro dos contextos das épocas.
Em função da miscigenação de raças o Brasil conta com um sincretismo religioso muito rico,
com marcante presença de vários cultos mediúnicos oriundos dos indígenas e dos africanos. E
é considerado o maior país católico e também espírita do mundo.
Segundo o autor espiritual Irmão X, o notável Infante seria a entidade espiritual Helil que
aparece nos diálogos sobre as terras do Cruzeiro Sul na obra Brasil, coração do mundo, pátria
do Evangelho. Emmanuel, destaca no tema da "missão da América": "... o seu coração nas
extensões da terra farta e acolhedora onde floresce o Brasil, na América do Sul. - ... detém as
primícias dos poderes espirituais, destinadas à civilização planetária do futuro".
Ao lado das informações pela mediunidade de Francisco Cândido Xavier, é válida a analogia
com o pensamento do antropólogo Darcy Ribeiro, considerando que a nação brasileira é "mais
generosa, porque aberta à convivência com todas as raças e todas as culturas e porque
assentada na mais bela e luminosa província da Terra" e acrescenta: "Estamos abertos é para
o futuro" 2.
Os estudos bibliográficos, viagens a Portugal e observações espíritas, tornam clara a relação
entre fatos simbólicos e espirituais na descoberta e na evolução do Brasil. Porém qualquer
papel de destaque no concerto das nações não será alcançado com a repetição de frases e
chavões de efeito ou a postura mágica-salvacionista. Aí está o alerta para dirigentes e
expositores espíritas. O pretendido grande destino deverá ser conquistado. Os esforços de
cidadania, inclusive com a participação dos espíritas - iluminados por esclarecimentos
espirituais e que não podem permanecer afeitos a ações exclusivamente internas ao
movimento -, têm um papel a cumprir como cidadãos diferenciados, atuando decisivamente
como obreiros para a construção de uma nova ordem social.
BRASIL: O FUTURO SÓ A NÓS PERTENCE?
Dr. Ricardo Di Bernardi

Ao divisarmos, em horizonte próximo, o alvorecer do terceiro milênio temos consciência de que


estamos nos despedindo da noite escura do religiosismo cego e dogmático. De fato, ansiamos
por contemplar, sob a luz de um sol amoroso e racional, o céu azul do bom senso livre das
obscuras nuvens do fanatismo.
Enfim se avizinha o milênio no qual não mais erigiremos totens aos deuses ou espíritos mas
sentiremos o "Deus em Nós" como disse o grande mestre Jesus. A grande procura da Verdade
Externa deverá ser substituída pela percepção da Luz que pulsa no inconsciente puro de todos
nós.
A visão estreita do criacionismo cederá à compreensão do evolucionismo espiritualista ou neo-
evolucionismo.
O destino e a responsabilidade dos seres deixará de ser atribuída a Deus para ser assumida
pelos próprios indivíduos. A concepção medieval do religiosismo institucionalizado, que grassa
qual erva daninha nos canteiros da nossa morada planetária, cederá lugar a religiosidade sem
cultos externos mas expressa no amor universal.
Na história do nosso planeta, muitos emissários do alto renasceram em períodos críticos, ou
momentos especialmente favoráveis, com o fito de impulsionar a evolução do nosso orbe.
Comunidades inteiras também foram deslocadas para o nosso globo vindas de outro astros e
até de outras constelações, procurando acelerar o processo evolutivo terráqueo. Vieram
conviver conosco, contribuindo, para que pudéssemos galgar novos degraus na escada do
progresso. Anjos espirituais, ou simplesmente amigos mais sábios e bondosos, tais como
Emmanuel, assim se referem a civilização egípcia primitiva e a judaica bem como aos arianos e
hindus de épocas remotas.
Os povos citados apesar de estarem aqui renascendo como degredados planetários, ou
"expulsos de um paraíso", cumpriram em nosso meio aspecto missionário qual seja o de
sacudir os terráqueos da sonolenta caminhada na estrada do progresso.
Sob a orientação sábia e amorosa do Cristo, entidade responsável pelo nosso planeta,
continuaram a aportar na Terra, periodicamente ao longo da história, grupos de espíritos que se
localizaram em determinadas regiões ( ou países), formando bases sólidas em terrenos
propícios para edificar a construção de sociedades mais justas e sábias no contexto de nossa
humanidade terrestre.
O projeto "celestial" do crescimento rumo a sabedoria e a felicidade é amplo, visa atingir todas
as criaturas. Não há "povo eleito" (ou nação privilegiada), todos que assim se consideraram
ruíram fragorosa e vergonhosamente. O grande mestre, quando aqui esteve vestindo a roupa
física do filho de José e Maria já nos dizia: "Nenhuma das ovelhas se perderá".
Cidades populosas do globo receberam, então, pelas vias da reencarnação, inúmeros homens
cultos e generosos. Filósofos, artistas e outros iluminados procuraram despertar a sensibilidade
humana em todos os recantos de nossa morada terrestre.
Brilhantes mestres do cérebro e do coração criaram assim, diversas escolas na Grécia antiga
assumindo o leme intelectual do barco terreno. A Verdade Universal, que não tem conotação
religiosa sectária, foi pregada às multidões. A partir das terras helênicas foi novamente
despertada a cultura, a democracia e os diversos valores da vida harmoniosa e fraterna foram
cantados em prosa e verso. A Grécia antiga era, na época, a esperança de renovação da
consciência planetária. Inúmeras verdades foram semeadas por Sócrates e outros plantadores
do verbo divino do amor e da sabedoria.
No entanto, faltaram braços para as colheita sucessivas e os frutos luminosos acabaram por se
perder.
Séculos mais tarde...
A família romana ergue-se cheia de tradições belas, como o respeito a figura da mulher e a
compreensão dos deveres do homem. Aprimoram-se os vínculos familiares e os conceitos de
virtude em relação a própria Grécia.
Institui-se a liberdade religiosa sendo o Panteão o exemplo clássico da tolerância; no seu
templo chegam a existir estátuas de trinta mil deuses diferentes.
Patrícios e plebeus após agitadas desavenças conseguem equilibrar-se no respeito mútuo em
leis que expressavam avanço na área dos direitos humanos. A Lei Canuléia passa a permitir
casamentos entre patrícios e plebeus. A harmonia se desenvolve chegando até a Lei Ogúlnia
que possibilitaria aos plebeus, também, exercerem funções sacerdotais.
As falanges de luz, em todas as épocas da história, exerceram intenso trabalho junto a
comunidades e povos visando implantar, em inúmeros projetos, núcleos de paz, harmonia,
justiça e sabedoria.
Voltemos os olhos para o Egito atual. Há neste respeitável país muito pouco do brilho
proveniente da luz intelectual e moral do seu passado que assombrou a humanidade.
A saudosa Grécia de Péricles, que teve em Sócrates seu expoente maior, hoje se nivela a
inúmeros países do nosso globo terrestre.
Nossa querida Roma de tempos remotos, também, desviou-se do planejamento elevado que os
espíritos de luz lhe oportunizaram. Da administração enérgica, plena de sabedoria e justiça, a
antiga água cristalina esvaiu-se na sede do poder e poluiu-se na corrupção mais vil. O Panteão
democrático cedeu lugar a Inquisição de triste memória.
"Brasil, coração do mundo e pátria do evangelho", mais uma das tentativas em se estabelecer
um núcleo de fraternidade, tolerância, amor e sabedoria. Diz o adágio popular: "O destino só a
Deus pertence". Pobre ilusão! Se o destino só a Deus pertencesse, com certeza não haveria
estupros, torturas, crimes hediondos ou suicídios.
É preciso que acordemos do sono medieval no qual ainda vemos Deus como um ser emocional
passível de ser agradado ou desagradado por atos humanos. Deus é imutável!. A Força
Universal ou o Amor Onipresente não se entristece nem se alegra, não pune nem premia. Seus
atributos de onipresença e imutabilidade não interferem nos atos humanos.
O destino só a nós pertence. Faremos do Brasil, aquilo que nosso livre arbítrio quiser. Já se faz
hora de não transferirmos para Deus nem para os espíritos o destino nem do país nem de nós
mesmos individualmente.
Naturalmente, as emanações de luz sobre todos nós são contínuas. São inúmeros os
mensageiros do amor e da sabedoria que renascem em nossas terras propagando a paz e
estimulando o exercício saudável da razão.
Tomemos cuidado para não infantilizarmos conceitos maiores nos acreditando melhores do que
nossos vizinhos de fronteira ou de outros continentes. Qualquer olhadela mais lúcida e atenta
aos jornais demonstra que por aqui não são raros desvios graves em todos os sentidos do bom
senso e da ética universal.
Projetos são projetos não são ainda fatos.
Abandonemos qualquer idéia que nos recorde, mesmo que de longe, a concepção absurda de
povo eleito ou terra santa.
Na matemática do destino é preciso somar trabalho e bom senso sem subtrair as percepções
da realidade, evitando divisões desnecessárias para multiplicar os resultados na tabuada do
amor.
TEMPO DE EDIFICAÇÃO
Vera Meira Bestene

“Eu vos digo, em verdade, que são chegados os tempos em que todas as coisas devem ser
restabelecidas no seu verdadeiro sentido, para dissipar as trevas, confundir os orgulhosos e
glorificar os justos. “ (Espírito da Verdade prefaciando o Evangelho Segundo o Espiritismo)
O Evangelho é um código moral e neste sentido deve ser encarado pelos espíritas. Escrito e
organizado sob a orientação do Espírito da Verdade, seu conteúdo moral sustentam-se através
de verdadeiras vozes que vem esclarecer os homens e convidá-los à sua prática.. Com Allan
Kardec e a codificação do espiritismo, raiou a “Era do Espírito”, Somente o espiritismo bem
compreendido, bem interpretado pode servir de grande alavanca à transformação da
humanidade. Todos os sofismas existentes quebrar-se-ão quando de encontro com a razão,
pois esta nada lhe tem a opor. Embasada nas Leis da Natureza, corresponde às legítimas
aspirações do homem, posto que é esclarecedor e induz à prática moral. A fraternidade é o laço
de união da família espírita, mantida através da unidade fundamental em torno do Evangelho de
Jesus.
A missão dos espíritas, embasada firmemente no bem , transforma-se na estrada das reflexões
para compreendermos melhor os esforços à consolidação do espiritismo.
O Brasil, cujas Leis são compatíveis com as Leis do Criador, tem uma missão, assim como a
cada tempo os diferentes povos também a tiveram, como foi o caso de Atenas e Roma que
desempenharam papel importante, a seu turno, na formação do Estado e com profundas
reformulações nos caminhos históricos da Humanidade. . Nossa Pátria, hoje, está em seu
momento de “servir de farol “ aos outros povos. Emmanuel, em seu prefácio no livro de autoria
espiritual de Humberto de Campos, “Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho” esclarece:
“O Brasil não está somente destinado a suprir as necessidades materiais dos povos mais
pobres do planeta, mas, também, a facultar ao mundo inteiro uma expressão consoladora de
crença e de fé raciocinada e a ser o maior celeiro de claridades espirituais do orbe inteiro”...
A concepção de que o Brasil tem uma missão especial relativamente à Doutrina Espírita,
registra-se quase que ao tempo do início do espiritismo entre nós. O Espírito Ismael, falando de
sua própria missão como condutor do espiritismo no Brasil, através do médium Albino
Gonçalves Teixeira, transcrito no Reformador de primeiro de abril de 1920, com clareza
inigualável afirma: “ A árvore do Evangelho, semeada há dois mil anos na Palestina, eu a
transplantei para o rincão de Santa Cruz, onde o meu olhar se fixa, nutrindo o meu espírito a
esperança de que breve florescerá, estendendo a sua fronde por toda parte e dando frutos
sazonados de amor e perdão”.
A “árvore do Evangelho”, entre nós, ainda está em pequeno porte mas em nenhum outro país
trabalha-se mais pela renascença do cristianismo. No Brasil ela cresce, ergue-se e projeta-se,
espalhando-se e ramificando-se, alimentando cada dia mais a unidade de raças e ideologias,
através de uma única estrutura, firmemente amparada pela humildade, amor fraternal e paz
construtiva, preparando e engrandecendo a fé e a moral Cristã, à luz do Consolador.
As falanges revezar-se-ão. A tarefa é vagarosa, mas é a única forma sensata de transformação.
Agora é chegado o tempo. O nosso tempo de reconhecer a vivência do Evangelho de Jesus
Cristo objetivando conhecê-lo e difundi-lo pela humanidade.
É chegado o tempo de promover a unidade fundamental do Movimento Espírita que sempre
deve trilhar o entendimento, a confraternização, a harmonia das próprias atividades em face à
promoção da união que deve reinar nos Centros Espíritas.
É tempo de promover evangelização em vistas ao aprimoramento íntimo; é tempo de incentivar
e orientar jovens às tarefas no Centro; é tempo de promover a divulgação da Doutrina Espírita
através da difusão do livro espírita, periódicos, rádios e televisão, estudo da mediunidade,
assistência espiritual e a efetiva realização do Evangelho no Lar.
Aproxima-se o tempo da real transformação da Humanidade o que faz necessário colocar ao
alcance e a serviço de todos a mensagem consoladora que a Doutrina Espírita oferece.
”Recordemos, na palavra de Jesus, que ‘a casa dividida rui’ , todavia ninguém pode arrebentar
um feixe de varas que se agregam numa união de forças”. (Bezerra de Menezes, psicografado
por Divaldo P.Franco, Unificação paulatina, união imediata, trabalho incessante....-‘Reformador’
fev/76)
MENSAGEM PARA O BRASIL
Doris Madeira Gandres

Já há alguns anos gozamos a felicidade de uma situação política democrática - ainda que tão
conturbada e nem sempre respeitada - em que podemos nos servir do voto, do protesto, de
manifestações, de reivindicações, de greves, na busca de melhoria das condições sociais, num
país em que as desigualdades são absurdamente gritantes, atingindo atualmente um nível que
eu classificaria de praticamente insustentável.
É por isso que hoje, apesar de tantas arbitrariedades inerentes a esse neoliberalismo
desenfreado que campeia na maior parte dos centros decisórios do país, causa profundo
espanto encontrar publicada por um jornal espírita da atualidade uma mensagem de um espírito
que se assina “Emmanuel”, psicografada em 1971, em plena ditadura, autoritária a ponto de
decretar um AI5 fechando o Congresso Nacional, capaz de fazer calar e desaparecer vozes de
ilustres cidadãos que ainda bradavam pelo respeito aos direitos civis e humanos dos brasileiros,
mensagem que, naquele tempo, dentro daquele contexto, expressava as seguintes idéias:
(...) “Se o Brasil puder conservar- se na ordem e na dignidade, na justiça e no devotamento ao
progresso que lhe caracterizam os dirigentes, mantendo o trabalho e a fraternidade, a cultura e
a compreensão de sempre, para resolver os problemas da comunidade e, com o devido
respeito a personalidade humana... (...) E vai aí afora, dissertando sobre seus altos desígnios
de Pátria do Evangelho, como se, mais uma vez, pudéssemos aceitar a idéia de povo eleito.
Esse texto, reproduzido atualmente, quando já se conhece um pouco melhor o que ocorreu
naqueles tristes anos no que se refere particularmente à justiça, à fraternidade, ao respeito às
criaturas e à sua liberdade de pensar, de ir e vir, direitos esses garantidos não só pela lei
natural mas também pelas leis humanas, leva a inúmeras reflexões, nenhuma delas,
lamentavelmente, favorável.
Kardec foi muito claro quando recomendou, na Introdução do Evangelho Segundo o
Espiritismo, ítem II, que toda teoria em contradição com o bom senso, com uma lógica rigorosa
e com dados positivos que possuímos por mais respeitável que seja o nome que a assine, deve
ser rejeitada: assim como foi Emmanuel quando recomendou a Chico Xavier que, se em algum
momento ele se afastasse dos princípios espíritas, que Chico o abandonasse e ficasse com
Kardec. Nós, porém, não só aceitamos conceitos contraditórios com a doutrina que
espontaneamente escolhemos, como ainda os divulgamos envoltos num clima de dogmatismo
que não admite nenhuma análise, nenhuma crítica, nenhuma contestação, ainda que bem
intencionada e, sobretudo, indicando claramente o equívoco.
Ainda nessa mesma mensagem, em determinado trecho, esse “Novo” Emmanuel afirma:
“Embora nos reconheçamos necessitados da fé raciocinada com o discernimento da Doutrina
Espírita, é forçoso observar que não é a queda dos símbolos religiosos aquilo que mais
carecemos (...) mas sim de uma nova versão deles (...)” E então nos lembramos que a Doutrina
Espírita não se serve de símbolos religiosos de espécie alguma, como também deles não se
serviu o querido mestre galileu, modelo de absoluta simplicidade, e que portanto uma nova
versão deles seria absolutamente inútil para nós, espíritas - desde que esclarecidos e
verdadeiramente adeptos da codificação kardequiana...
O que me leva a externar essas reflexões acerca dessa mensagem é o medo, medo sim,
queridos companheiros de ideal, medo de ver repetir- se o que já vimos acontecer tantas vezes
devido à nossa passividade, à nossa covardia, ao nosso comodismo - o que fez de nós, no
decorrer de tantos séculos, no mínimo, cúmplices omissos de deturpações engendradas fria e
calculadamente por um restrito grupo de mentes altamente inteligentes, intelectualizadas e
ambiciosas, que não hesitavam em enganar os ingênuos, os crédulos, em servir-se de métodos
excusos e da hipocrisia mascarada de bondade, de complacência, de compreensão, de
caridade...
A maioria de nossas publicações parece ter sido realizada e impressa no Vaticano, tal a
quantidade de matérias de cunho fortemente místico - aliás, temos até uma Casa Mater e
nossos centros espíritas vêem-se designados templos de oração; nos eventos, “participantes de
cadeira cativa”, sempre os mesmos, são designados pelos termos tão apreciados pelos
manipuladores de outrora e de hoje: tribuno, excelso, confrade, confreira etc; as reuniões,
seminários, encontros, congressos, parecem concílios e conclaves católicos, acompanhados de
cantos que apelam para o sentimentalismo das pessoas presentes, de preces recitadas em voz
alta e em conjunto, de palanques transformados em verdadeiros altares com toalhas brancas,
rendadas, e flores (só nos faltam, por enquanto, as velas...) - uma cópia do que vem
acontecendo em outras filosofias evangélicas, recentemente, dirigentes “espíritas” reuniram-se
em um encontro estadual para definir, hierarquizar e assumir a coordenação de projetos. Mais
uma vez estamos presenciando impassíveis uma determinada classe pretender impor seus
conceitos pessoais à massa de adeptos, falando até mesmo em hierarquizar...
Observando tantas distorções e manipulações que hoje vem sendo consumadas no meio
espírita e vendo quão poucas vozes se levantam para soar o alarme, ainda o medo torna-me
audaciosa, embora não tanto quanto os que se atrevem a manusear de forma tão inadequada
os preceitos claros e transparentes da nossa Doutrina Espírita. E para refrescar a nossa
memória, transcrevo o início da mensagem do Espírito Erasto, a respeito dos “falsos profetas
da erraticidade” (ESE, Cap.XXI, item 10):
“Os falsos profetas não existem apenas entre os encarnados, mas também, e muito mais
numerosos, entre os Espíritos orgulhosos que, fingindo amor e caridade, semeiam a desunião e
retardam o trabalho de emancipação da Humanidade, impingindo-lhe sistemas absurdos,
através dos médiuns que os servem. Esses falsos profetas, para melhor fascinar os que
desejam enganar, e para dar maior importância à suas teorias, disfarçam-se
inescrupulosamente com nomes que os homens só pronunciam com respeito.”