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Noções básicas de Sociologia:

a Epistemologia e o Pensamento
dos Clássicos
Noções básicas de Sociologia:
a Epistemologia e o Pensamento dos
Clássicos

Almiro Petry

2014
Copyright © Editora CirKula LTDA, 2014.
1° edição - 2014

Revisão do Original: Virgílio Pedro Leichtweis


Editoração: Graziele Borguetto
Capa: Vitória Laís da Silveira
Impressão: COPIART
Editor: Mauro Meirelles

“A presente obra apresenta resultados da produção científica de pesquisadores,


colaboradores e estudantes vinculados ao Laboratório Virtual e Interativo de En-
sino de Ciências Sociais (LAVIECS-UFRGS), grupo de pesquisa interinstitucio-
nal cadastrado na base do Diretório dos Grupos de Pesquisa do CNPq.”

DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO-CIP

P498n Petry, Almiro


Noções básicas de sociologia : a epistemologia e o pensamento dos clássicos
/ Almiro Petry. – Porto Alegre : CirKula, 2014.
p. 442

ISBN: 978-85-67442-16-7

1.Sociologia. 2. Instituições sociais. 3. Estratificação social. 4. Marx, Karl.


5. Durkheim, Émile. 6. Weber, Max. I. Título.

CDU: 316.2
Bibliotecária responsável: Jacira Gil Bernardes - CRB 10/463

Todos os direitos reservados a Editora CirKula LTDA.


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em Los Angeles, Pesquisador do CONICET (Consejo Nacional de Investigaciones
Científicas y Técnicas) e Professor da Universidade Católica Argentina.
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Louvain e Professor de Ciência Política da Universidade de Quebec em Montreal (UQAM).
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Sorbonne, Pós-Doutor pela Ecole de Hautes Etudes en Sciences Sociales e Professor
Titular de Sociologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
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do Departamento de Sociologia da Universidade de Montreal.
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Adjunto da Universidade Federal de Tocantins (UFT).
Cíntia Inês Boll (Brasil) - Doutora em Educação e professora no Departamento de
Estudos Especializados na Faculdade de Educação da UFRGS.
Daniel Gustavo Mocelin (Brasil) - Doutor em Sociologia e Professor Adjunto da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Dirléia Fanfa Sarmento (Brasil) - Doutora em Educação, Pós-Doutora em Ciências da
Educação pela Universidade do Algarve (Portugal) e Professora do Centro Universitário
La Salle.
Dominique Maingueneau (França) - Doutor em Linguística e Professor na Universidade
de Paris IV Paris-Sorbonne.
Estela Maris Giordani (Brasil) - Doutora em Educação, Professora Associada da
Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e pesquisadora da Antonio Meneghetti
Faculdade (AMF).
Hilario Wynarczyk (Argentina) - Doutor em Sociologia e Professor Titular da
Universidade Nacional de San Martín (UNSAM).
José Rogério Lopes (Brasil) - Doutor em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade
Católica de São Paulo e Professor Titular II do PPG em Ciências Sociais da Universidade
do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).
Leandro Raizer (Brasil) - Doutor em Sociologia e Professor do Instituto Federal do Rio
Grande do Sul (IFRS).
Maria Regina Momesso (Brasil) - Doutora em Letras e Linguística e Professora da
Universidade do Estado de São Paulo (UNESP).
Marie Jane Soares Carvalho (Brasil) - Doutora em Educação, Pós-Doutora pela UNED/
Madrid e Professora Associada da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Mauro Meirelles (Brasil) - Doutor em Antropologia Social e Professor do Centro
Universitário La Salle (Unilasalle).
Stefania Capone (França) – Doutora em Etnologia pela Universidade de Paris X-Nanterre
e Professora da Universidade de Paris X-Nanterre.
Thiago Ingrassia Pereira (Brasil) - Doutor em Educação e Professor da Universidade
Federal da Fronteira Sul (UFFS/Erechim).
Valdir Pedde (Brasil) - Doutor em Antropologia Social e Professor da Universidade
Feevale (FEEVALE).
Zilá Bernd (Brasil) - Doutora em Letras e Professora do Mestrado em Memória Social e
Bens Culturais (UNILASALLE).
Sumário

Apresentação/Agradecimento do Autor............................................. 11

Apresentação de Daniel Mocelin........................................................... 13

I PARTE - Noções Básicas de Sociologia


Uma Introdução......................................................................................... 21
1. O que é sociologia?........................................................................ 24
2. O homem, como ser social........................................................... 43
3. A socialização................................................................................. 48
4. A cultura.......................................................................................... 56
5. A sociedade...................................................................................... 67
6. A estratificação social.................................................................108
7. As instituições sociais.................................................................140
8. A mudança social.........................................................................175
9. Considerações finais....................................................................212

II PARTE - A Epistemologia dos Clássicos


1 Introdução......................................................................................227
2 Epistemologia de Marx, Durkheim e Weber.........................234
2.1 Karl Marx (1818-1883)........................................................237
2.2 Émile Durkheim (1858-1917).............................................248
2.3 Max Weber (1864-1920)......................................................259
III PARTE - O Pensamento dos Clássicos
MARX....................................................................................................283
1 Introdução......................................................................................285
1.1 Dados biográficos..................................................................285
1.2. Marco social...........................................................................290
2. A Obra............................................................................................292
2.1. Alienação.................................................................................294
2.2. Proletariado............................................................................298
2.3. Socialismo...............................................................................301
2.4. Comunismo.............................................................................306
2.5. Produção e reprodução........................................................308
2.5.1. História.............................................................................308
2.5.2. Forças produtivas e relações sociais de produção...311
2.5.3. Infraestrutura e superestrutura..................................313
2.6. Classes sociais e luta de classes..........................................316
3. O Método: a dialética materialista...........................................320

WEBER..................................................................................................331
1 Introdução......................................................................................333
1.1. Dados biográficos.................................................................333
1.2. Marco social...........................................................................339
1.3. Posicionamento teórico........................................................341
1.4. Teoria da sociedade..............................................................343
2. Obra................................................................................................347
2.1. Conceitos sociológicos fundamentais...............................348
2.1.1. Ação Social.......................................................................348
2.2.2. Tipos de ação social.......................................................349
2.2.3. Relação Social..................................................................350
2.2.4. Legitimidade....................................................................351
2.2.5. Relação social como luta...............................................352
2.2.6. Relação social como relação comunitária..................353
2.2.7. Relação social como poder e dominação....................354
2.3. Estratificação social..............................................................355
2.4. Dominação..............................................................................356
2.4.1. Dominação legal.............................................................357
2.4.2. Dominação tradicional..................................................361
2.4.3. Dominação carismática.................................................362
2.5. Religião....................................................................................364
2.6. Método: a objetividade nas ciências sociais e os tipos
ideais................................................................................................373

DURKHEIM.........................................................................................385
1. Dados biográficos........................................................................387
1.1. Marco social...........................................................................389
2. Obra................................................................................................391
2.1. Objeto e método....................................................................394
2.1.1. O objeto............................................................................394
2.1.2 O Método..........................................................................400
2.2. Questão da ordem.................................................................411
2.3. Questão do suicídio...............................................................416
2.4 Interpretação social da religião .........................................426
2.5 Solidariedade social...............................................................430

Sobre o Autor...........................................................................................441
Almiro Petry 11

Apresentação

O livro Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o


Pensamento dos Clássicos que ora se apresenta aos alunos do Curso
de Ensino de Sociologia para Professores do Ensino Médio da UFRGS,
à comunidade acadêmica e ao público em geral, não é uma produção
emergida de um momento histórico. É o resultado de textos
escolares escritos em vários períodos que remontam à década de
1980, na disciplina Sociologia Geral da Universidade do Vale do Rio
dos Sinos – UNISINOS, e, posteriormente, na década de 1990, na
disciplina Introdução à Sociologia da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul – UFRGS. Ambas as disciplinas eram ofertadas a
vários cursos de Graduação, cursando os discentes a mesma ao
ingressar na universidade.
Este fato revelava uma série de lacunas metodológicas e de
conhecimentos dos noveis acadêmicos, fruto das sucessivas mudanças
implantadas no sistema escolar brasileiro. Era preciso suprir estas
limitações de caráter científico-metodológico e didático-pedagógico
no processo de aprendizagem.
Para mim, como o aprender e o compreender não se ensinam, as
aulas expositivas perderam seu espaço e relevância. Era necessário
encontrar uma alternativa. Foi aí que surgiu a ideia de preparar
esboços de aulas que denominei de roteiros de aula destinados
para atividades em sala de aula, mesclando preleção com diversas
modalidades de trabalho de grupo. Assim, passei ao aluno o papel
de ser protagonista de seu aprendizado. Em parte, esta atividade
didático-pedagógica revela minha trajetória de educador.
Os roteiros geraram textos preliminares (do tipo work paper),
que passaram a ser ampliados e atualizados de tempos em tempos,
identificados pela versão do ano. Inicialmente, estes roteiros eram
disponibilizados nas pastas das disciplinas em fotocópias e, com o
advento da internet, postados por e-mail aos alunos. A partir de
2012, na UFRGS, foram disponibilizados na Sala de Aula Virtual,
12 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

como plataforma de apoio às disciplinas presenciais, diferenciando-


as das ofertadas em Educação a Distância (EaD).
Do livro, uma parcela dos textos escritos é constituída pelas
versões 2014, que foram precedidas pelas de 2012 e anteriores. Nem
sempre houve a universalização das atualizações, mas sempre se
fazia quando necessário. Daí seu caráter compilatório. A diversidade
da interlocução com os discentes, oriundos de diversos cursos de
formação acadêmica, ensejou o direcionamento da linguagem, que
buscou ser a mais objetiva, direta e simples. Não se intenta afirmar
teses ou dissertar sobre detalhes das teorias sociais, nem adotar
a filiação de uma ou de outra escola, porém relatar o discurso de
pensadores, identificando prós e contras.
Na medida do possível se procura mostrar a transitoriedade da
teoria social, já que ela eclode da realidade social, que é dinâmica e
evolutiva. Admitindo o pressuposto de que o pensamento social se
elabora a partir da reflexão de uma sociedade sobre si mesma, suas
estruturas, seu contexto e sua formação histórica, o presente texto
pretende, sem ser exaustivo e nem conclusivo, abordar temáticas e
questões relevantes da vida social. É um itinerário de estudo e de
leitura.

O autor
Almiro Petry 13

Apresentação de Daniel Mocelin

Noções Básicas de Sociologia: a epistemologia e o pensamento


dos clássicos é o primeiro livro de uma coleção voltada à formação
continuada de professores de Sociologia no ensino médio. Esta coleção
está sendo produzida como material didático no âmbito do Curso de
Pós-graduação Lato Sensu “O Ensino da Sociologia para professores
do ensino médio: Contribuindo para a formação continuada dos
professores de Sociologia do ensino médio do Rio Grande do Sul”,
com recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação
(FNDE) e da Secretaria de Educação Básica (SEB) do Ministério da
Educação e Cultura (MEC).
Antes de expor o presente livro, faz necessário apresentar o
contexto de sua publicação, e tecer algumas palavras sobre o Curso de
Especialização “O Ensino da Sociologia para professores do Ensino
Médio”. O referido curso é uma promoção conjunta do Centro de
Formação de Professores (FORPROF), do Instituto de Filosofia
e Ciências Humana (IFCH), do Departamento de Sociologia e do
Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal
do Rio Grande do Sul; e foi planejado no âmbito do Laboratório
Virtual e Interativo de Ensino em Ciências Sociais (LAVIECS),
sediado também na referida Universidade.
A proposta do referido curso nasceu da ampla mobilização
de professores que atuam atualmente em cinco instituições de
ensino gaúchas, todos iniciados, graduados e pós-graduados na
UFRGS e que, em algum momento de suas trajetórias, escolheram
dedicar seus esforços na busca pela qualificação do Ensino da
Sociologia na educação básica. Além de Daniel Gustavo Mocelin,
professor da UFRGS e coordenador geral desse curso, devem ser
mencionados aqui o professor Leandro Raizer, do IFRS-Canoas,
o professor Mauro Meirelles, da Unilasalle, o professor Valdir
Pedde, da Feevale, e os professores Thiago Ingrassia Pereira e Luís
Fernando Santos Corrêa da Silva, da UFFS. Destaca-se ainda, e
especialmente, a decisiva contribuição da professora Luiza Helena
14 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Pereira, professora aposentada do Departamento de Sociologia da


UFRGS e referência nacional na área de Ensino da Sociologia. A
professora Luiza deu inestimável apoio ao desenvolvimento desse
projeto e sua experiência na condução do Curso de Extensão em
Ensino de Sociologia, promovido na UFRGS entre 2011 e 2013,
também com apoio do FORPROF, foi decisiva para encaminhar o
posterior projeto desse Curso de Especialização.
A proposta do Curso de Especialização “O Ensino da Sociologia
para professores do Ensino Médio” visa a qualificação e a formação
continuada de professores que ministram a disciplina de Sociologia
no Ensino Médio. Busca-se mobilizar os professores que atuam na
educação básica a um diálogo amplo sobre as perspectivas acerca do
ensino da sociologia na escola. Esse diálogo pretende promover a
reflexão sobre a importância de ensinar sociologia no ensino médio
(POR QUE ENSINAR?), considerando os avanços, percalços e
desafios colocados a esse ensino na atualidade, especialmente em
termos dos conteúdos programáticos (O QUE ENSINAR?), para
finalmente pensar a própria prática pedagógica apropriada a esse
ensino (COMO ENSINAR?).
Essa Especialização é um curso à distância, e em razão
disso é um curso que alia ensino de qualidade com tecnologias
informacionais. Sua logística organizacional permitirá qualificar, em
curto espaço de tempo, 300 professores de Sociologia que atuam no
Ensino Médio, em sua maior parte professores da rede pública de
ensino. Este curso abrangerá grande parte do Rio Grande do Sul,
tendo como parceiros os polos locais de São Francisco de Paula, São
Lourenço do Sul, São Sepé e Três de Maio. O Curso ainda envolve
um grupo amplo de professores do Departamento de Sociologia e
também estudantes de mestrado e doutorado do Programa de Pós-
graduação em Sociologia da UFRGS. O que foi dito até aqui dá uma
ideia do grande número de pessoas que se envolveram nesse projeto,
que agora se coloca em prática.
Tendo em vista que esse curso é uma experiência de educação
à distância, deve-se pensar a questão tecnológica articuladamente
com outros fatores, sociais e humanos. A simbiose entre a prática
educacional reflexiva, pessoas qualificadas e interessadas e o uso
Almiro Petry 15

das tecnologias da informação e comunicação, são os fundamentos


para e educação do futuro e para o futuro da educação, em todos
os níveis. Sobre o uso intensivo e democrático das tecnologias na
educação, devemos destacar que estamos cada vez mais próximos
de uma ampla revolução nas formas de educar, formar, ensinar,
pensar e mudar. Nenhuma sociedade vive sem seus instrumentos
tecnológicos. Devemos superar a ideia de que as tecnologias são
essencialmente formas de opressão social, isto porque a sociedade é a
tecnologia, e a tecnologia é um repertório fundamental de mudança
social, política e cultural.
No que se refere especificamente ao Ensino da Sociologia,
a proposta desse curso é levar aos professores de Sociologia
no Ensino Médio a reflexão sobre temas atuais tratados pela
Sociologia, dentre eles merece destaque a atenção dada: a cultura, a
cidadania, a diversidade, a diferença, aos direitos humanos e sociais,
a globalização, aos movimentos sociais, a juventude e a violência.
Outrossim, destaca-se que nossa intenção mais ampla é avançar sobre
o modelo tradicional de Ensino da Sociologia aplicado nas escolas
de educação básica, e para isso nos empenhamos em construir um
curso que prima pela troca de conhecimentos e experiências, onde o
professor da educação básica tenha papel relevante nesse processo. A
prática pedagógica do curso terá como base a interação e a promoção
conjunta de estratégias mais efetivas de Ensino da Sociologia,
vinculadas tanto à realidade da escola, do professor e do estudante
do Ensino Médio quanto às particularidades locais e regionais. Mais
do que uma formação, busca-se a troca de experiências. As pessoas
da Universidade têm profundo interesse em conhecer a realidade da
prática pedagógica do professor de sociologia que atua na educação
básica, e entendem que a Universidade pode e deve se empenhar na
melhoria da qualidade da educação básica.
Entre os recursos de ensino propostos pelo Curso de
Especialização em Ensino da Sociologia, uma coletânea de livros vai
compor um pequeno acervo bibliográfico que será disponibilizado
para todos os cursistas, professores de Sociologia atuantes nas escolas
de Ensino Médio do Rio Grande do Sul, que são alunos do curso.
A coletânea promete contribuir com a qualificação dos professores
16 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

de Sociologia no Ensino Médio, transitando pelas questões por que,


o que e como ensinar Sociologia. O primeiro livro original desta
coleção é este volume que você tem em mão agora, Noções Básicas
de Sociologia: a epistemologia e o pensamento dos clássicos.
Noções Básicas de Sociologia: a epistemologia e o pensamento
dos clássicos é de autoria do professor Almiro Petry, que atuou
no Departamento de Sociologia da UFRGS por três décadas,
ministrando disciplinas de Sociologia Geral e Sociologia Rural.
Mestre em Sociologia Rural (UFRGS) e Doutor em Ciências
Sociais (UNISINOS), o professor Petry tem larga experiência no
Ensino de Sociologia e nos fundamentos teóricos e conceituais
da Sociologia. A presente obra é uma tentativa de apresentar e
resgatar aspectos conceituais, metodológicos e epistemológicos
da Sociologia, na modalidade de compilação, que, nas palavras do
próprio autor, não busca “ser exaustivo e nem conclusivo”. A versão
atual do livro substitui uma versão originalmente produzida pelo
autor na forma de working paper, em 2011. Deve-se destacar que
a riqueza do material advém de um longo trabalho do autor como
professor de Sociologia. O texto começou a ser elaborado ainda na
década de 1980, inicialmente, na qualidade de “roteiro de aulas”,
periodicamente ampliado e atualizado até assumir a atual feição.
Em Noções Básicas de Sociologia: a epistemologia e o
pensamento dos clássicos, o leitor terá contato com um amplo
conjunto de temáticas fundamentais da Sociologia Geral, desde
a ideia sobre o que é Sociologia e a variedade de perspectivas e
vertentes interpretativas inerentes a essa ciência moderna, até
reflexões sobre o homem, considerando-o como um ser social; o
processo de socialização, que conduz os homens a vida em sociedades;
a cultura e suas nuances espaciais e sócio-temporais; a sociedade
em suas funções, dimensões e diferentes tipos; a estratificação social
e sua variabilidade histórica e geográfica; os fenômenos inerentes
à estratificação social, como a mobilidade social; os mecanismos
de ordem e organização social que configuram as instituições
sociais, como a família, o trabalho, a religião; a mudança social e
a própria dinâmica inerente a esse conceito, ou seja, a permanente
transformação social da vida humana.
Almiro Petry 17

Ao percorrer tamanho espectro dos temas sociológicos de


maneira clara e articulada, o livro constitui-se em rica contribuição
para a formação de professores de Sociologia e permitirá que
esses professores identifiquem alguns caminhos para enriquecer a
sua prática de Ensino da Sociologia na escola. Em conjunto com
os demais volumes que compõem a coleção, Noções Básicas de
Sociologia: a epistemologia e o pensamento dos clássicos, propiciará
aos professores que têm o Ensino da Sociologia como sua prática
diária vislumbrar no horizonte a própria qualificação do Ensino da
Sociologia na educação básica.

Daniel Gustavo Mocelin


Coordenador
Porto Alegre, Abril de 2014.
I
PARTE

Noções básicas de Sociologia


Almiro Petry 21

Introdução

Transcorrida a primeira década do século XXI, apesar das


contradições evidenciadas pelas diferentes mudanças, tensões e
divisões sociais, a sociologia continua sendo “o estudo da vida social
humana, dos grupos e das sociedades” (GIDDENS, 2005, p. 24),
objeto idealizado por seus fundadores e investigado por gerações de
pensadores. A sociologia oportuniza um olhar mais amplo sobre o
nosso cotidiano, ultrapassando os olhares particulares e nos ensina
por que “somos como somos e por que agimos como agimos” (idem,
p. 24), razão pela qual muitas vezes se afirma que somos um produto
do nosso meio. Mesmo que sejamos influenciados pelo contexto
social,

[...] nenhum de nós está simplesmente determinado em nosso


comportamento por aqueles contextos. Possuímos e criamos
nossa própria individualidade. É trabalho da sociologia
investigar as conexões entre o que a sociedade faz de nós e o
que fazemos de nós mesmos (GIDDENS, 2005, p. 26).

A sociologia se caracteriza pela diversidade de abordagens desde


seus fundadores, a partir dos fins do século XVIII, quando se iniciou o
estudo objetivo e sistemático dos comportamentos humanos. Aquela
época foi marcada pela revolução francesa, a industrial e a científica.
A francesa foi marcada pela prevalência das ideias de liberdade,
de igualdade e de fraternidade que se transformaram nos grandes
ideais humanitários da modernidade. Ela simboliza a trajetória da
substituição dos regimes aristocráticos, monárquicos e autocráticos
pelos democráticos. A industrial foi marcada pela transformação do
sistema produtivo, da qual resultaram significativas transformações
econômicas, políticas e sociais, sob a égide das inovações tecnológicas
e do capitalismo, bem como a reorganização dos espaços urbanos e
rurais, ocorrendo intensos fluxos migratórios do segundo para o
primeiro e entre países. A científica lança os fundamentos da radical
mudança da leitura que se fazia da vida e da natureza, passando
a prevalecer o conhecimento obtido através da lógica, de métodos
de investigação e da razão humana em substituição aos dogmas e
22 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

imposições teocráticas, um processo de descolonização das mentes


humanas.

A ruptura com os modos de vida tradicionais desafiou os


pensadores a desenvolverem uma nova compreensão tanto do
mundo social, como do natural. Os pioneiros da sociologia foram
apanhados pelos acontecimentos que cercaram essas revoluções
e tentaram compreender sua emergência e consequências
potenciais. Os tipos de questões que esses pensadores do século
XIX buscaram responder – O que é a natureza humana? Por que
a sociedade é estruturada da forma que é? Como e por que as
sociedades mudam? – são as mesmas questões que os sociólogos
tentam responder hoje em dia (GIDDENS, 2005, p. 28).

Nesta empreitada tiveram proeminência Augusto Comte


(1798-1857), Karl Marx (1818-1883), Émile Durkheim (1858-1917)
e Max Weber (1864-1920). Cada qual fez sua leitura do seu contexto
histórico, dando sua contribuição para a consolidação do estudo
lógico e sistemático da moderna sociedade industrial; dispuseram-
se a definir e demonstrar os princípios e métodos dessa nova ciência
da sociedade; identificaram as principais temáticas que envolvem a
vida em sociedade e suas mudanças; formularam as abordagens mais
abrangentes para a compreensão do mundo social, mesmo que disso
resultassem disputas teóricas bastante radicais; concentraram suas
atenções nos problemas específicos da estrutura e desenvolvimento
do capitalismo ocidental, “respondendo às profundas mudanças na
vida social que ele provocou, ao crescimento do movimento da classe
operária e à propagação das ideias socialistas” (BOTTOMORE,
1996, p. 733).

Todos os sociólogos concordam que a sociologia é uma


disciplina na qual deixamos de lado nossa visão pessoal do
mundo para olhar mais cuidadosamente para as influências
que moldam nossas vidas e as dos outros. A sociologia
surgiu como um empreendimento intelectual distinto com
o desenvolvimento das sociedades modernas, e o estudo de
tais sociedades permanece sua preocupação principal. Mas os
sociólogos também estão preocupados com uma gama ampla de
questões sobre a natureza da interação social e das sociedades
humanas em geral (GIDDENS, 2005, p. 36).
Almiro Petry 23

Assim como os fundadores fizeram a “leitura” de seu tempo


(num período que se estende, aproximadamente, de 1815 a 1920),
cabe aos viventes do século XXI fazê-lo da atualidade. A dinâmica do
sistema global produz novos desafios para a sociologia semelhantes
às mudanças provocadas pelas revoluções daquela época. Os
sociólogos e os pensadores sociais não podem mais “ler” os sinais
dos novos tempos com os paradigmas criados pelos fundadores e
gerações que se expressaram no decorrer do século XX. O século
XXI transita numa faixa temporal vista por alguns como da pós-
modernidade, por outros, como da pós-industrial e, por terceiros,
da pós-humana. Qual o foco que a sociologia adotará para iluminar
as novas realidades? Como pano de fundo visualiza-se convulsões
sociais, conflitos de várias ordens, mudanças políticas no mundo
muçulmano, rupturas da ordem social a tal ponto que se considera
uma mudança de época e não apenas uma época de mudanças.

Entretanto, muitos de seus temas centrais permanecem os


mesmos do início do século: a natureza do trabalho, o papel da
nação-estado, a relação entre indivíduo e sociedade, o efeito do
dinheiro sobre as relações sociais, o contraste entre Gemeinschaft
(comunidade) e Gesellschaft (sociedade, associação), estratificação
e igualdade, a tensão entre sectarismo e liberdade de valores nas
ciências sociais, e até mesmo alguns rótulos como o próprio fin
de siècle. As mais recentes análises sobre a pós-modernidade ou
sobre o pós-industrialismo, e a moderna futurologia, apesar da
disponibilidade dos modelos informatizados, não difere muito
das previsões dos pensadores sociais do século XX e do início
do atual (OUTHWAITE e BOTTOMORE, 1996, p. xi).

Estes temas, por sua vez, adquirem novas formas e conteúdos


promovidos pelas inovações tecnológicas e seus reflexos no mundo
do trabalho; pelos avanços da democracia1 e mudanças de regimes
políticos; pela complexidade da estratificação social; pelos debates

1
“Em meados dos anos de 1970, mais de dois terços de todas as sociedades do
mundo poderiam ser consideradas autoritárias. Desde aquela época, a situação
mudou visivelmente – agora, menos de um terço das sociedades é de natureza
autoritária. A democracia não está mais concentrada principalmente nos países
ocidentais, mas agora é defendida, ao menos em princípio, como a forma de
governo desejada em muitas regiões do mundo” (GIDDENS, 2005, p. 345).
24 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

sobre as desigualdades, o gênero, as etnias e a nacionalidade; pelos


novos movimentos sociais frente às novas demandas sociais, políticas
e econômicas; pela queda dos regimes autoritários e centralizados
de diversas sociedades, etc.
O presente texto pretende, sem ser exaustivo e nem conclusivo,
abordar algumas destas questões. É um itinerário de estudo e de
leitura.

1. O que é sociologia?

A Sociologia é uma ciência empírica, classificada no conjunto


das ciências sociais que integram o campo do conhecimento das
humanidades. Se é ciência, de imediato, indaga-se o que é ciência?
Aceita-se que ciência é todo o conhecimento humano, formulado a
partir de um conjunto de proposições e enunciados, correlacionados
de maneira ascendente ou descendente, construído com método
sobre um determinado objeto, passível de verificação (LAKATOS,
1978, p. 15).
O ser humano busca “verdades” que lhe apresentem alternativas
e lhe permitam viver e sobreviver com segurança. Cabe destacar
como “fontes” (HORTON, 1980, p. 3ss):

a) Intuição: o ser humano pode saber através da intuição, que é


qualquer lampejo de introvisão (certa ou errada; verificável
ou não), cuja fonte o receptor não pode identificar ou explicar
totalmente. A intuição humana pode levar à formulação de
hipóteses, o que pode ser de certa valia. No entanto, como fonte
de conhecimento não é satisfatória, por ser exclusivamente
subjetiva.
b) Autoridade: a autoridade (a clássica e antiga expressão magister
dixit) era inquestionável. A autoridade não descobre novas
“verdades”, entretanto, pode impedir que a nova verdade seja
descoberta ou aceita. A autoridade pode ser: sagrada (torá,
Almiro Petry 25

vedas, bíblia, alcorão, etc.) e seus representantes constituídos


(rabinos, monges, sacerdotes, pastores, talibãs...) que afirmam
“o conhecimento” de modo dogmático e absoluto; secular,
podendo ser científica secular e humanista secular, baseada na
crença de que há certas pessoas mais capazes do que a maioria.
O contrário da autoridade no assunto é o leigo, que não poderá
discordar da autoridade (expert). “O argumento de autoridade
predominava sobre a autoridade do argumento” (DEMO, 2002,
p. 13). No entanto, o conhecimento científico tornou-se o que
queria transpor, isto é, assumiu o papel dogmático.
c) Tradição: a tradição acumula o complexo de conhecimentos
de um povo, a sabedoria das idades, as experiências empíricas
daquilo que “funcionou” ou não. A tradição mantém a sabedoria,
as crenças, as superstições e outras formas de expressão. Cabe à
ciência resgatá-las, “purificá-las”, aceitá-las ou rejeitá-las.
d) Bom senso: o bom senso (ou senso comum) configura “a média” do
sentir, pensar e agir de um grupo humano, o que não significa
que seja “verdadeiro” (como poderá ser). Grande parte da vida
cotidiana se rege por estes procedimentos.
e) Ciência: nos últimos séculos as ciências constituíram-se na
principal fonte do conhecimento humano (em oposição ao
dogmático e religioso). A ciência difere das demais fontes,
porque: 1º - o fundamento da ciência é a evidência verificável,
o que conduz a selecionar questões com objetos desta
natureza. Além disso, as “verdades científicas” são provisórias,
contestáveis (mesmo que se apresentem como incontestes) e
reformuláveis; 2º - a questão ética: os cientistas devem ter ética
e cada ciência possui um sentido ético que é o seu compromisso
com a verdade.

Assim uma ciência tem, em primeiro lugar, um objeto próprio,


que pode ser visto sob duas óticas: a) material: aquilo que se verifica;
b) formal: o enfoque especial da verificação.
Em segundo lugar, um método (indução/dedução; ou seja,
conexão ascendente/conexão descendente) e técnicas. A técnica
26 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

fundamental da investigação científica é a observação, que deve ser


exata, sistemática, objetiva, documentada e feita por observadores
capacitados.
Os diversos estágios de um trabalho científico são (de modo
sintético): selecionar um tópico para a pesquisa e formular o problema
(muitas vezes parte de uma curiosidade, deverá ser do interesse do
pesquisador); revisar a literatura para se familiarizar com o estado
da arte; formular uma hipótese (o que se quer verificar ou testar?);
elaborar o plano da pesquisa com as devidas ferramentas; executar o
plano: coletar dados, registrar as informações; analisar e interpretar
os dados e tirar conclusões (ou considerações sobre possibilidades e
probabilidades); relatar as descobertas da pesquisa, mostrando sua
importância e a relação com o estado da arte; isto poderá ser discutido
na comunidade acadêmica, donde poderão emergir novas pesquisas.
Em terceiro lugar, leis e teorias próprias: as leis podem
ser normativas ou constatativas. A “lei” é formulada a partir
das regularidades e constâncias de características ou atributos
verificáveis em dado fenômeno. “A teoria é uma visão especulativa
global, na qual diversos fenômenos, coerentemente estruturados,
recebem uma explicação cabal” (ÁVILA, 1970, p. 23).

Se a sociologia é uma ciência, quais são seu objeto, seu método


e sua teoria?

1º - Qual é o objeto?

Inkeles (1971, p. 11ss) aponta três caminhos para a sua


identificação: o histórico, que responde à pergunta o que dizem
os fundadores; o empírico, que responde à pergunta o que fazem os
sociólogos; e o analítico, que responde à pergunta o que a razão sugere.
Almiro Petry 27

a) O que dizem os fundadores?

Sorokin (1889-1968), em sua obra Teorias Sociológicas


Contemporâneas, refere que há centenas de estudiosos do objeto
da sociologia. Podemos destacar os aceitos como clássicos, além de
muitos outros que poderiam ser citados:

I - Augusto Comte (1798-1857), que deu à sociologia o seu


nome atual (antes, ele a denominava de física social), dividiu a
mesma em estática social e dinâmica social. A estática social
consiste nas unidades básicas: as instituições sociais. A análise
sociológica é conhecida como o estudo das interrelações entre
tais instituições. A dinâmica social mostra como as sociedades
globais se desenvolveram e mudaram com o tempo. Acreditava
que a evolução da humanidade passaria, linearmente, pelos
três estados – como evolução universal: o teológico (domínio da
religião); o metafísico (domínio do abstrato); e, o positivo (domínio
da ciência positiva). Comte debruçou-se sobre os eventos
turbulentos de seu tempo, por isso tenta criar uma ciência
da sociedade humana, a partir do viés positivista. Acreditava
que a sociedade humana “se conforma com leis invariáveis da
mesma maneira que o mundo físico”, logo, conhecê-las ajudaria
a controlar e predizer eventos com a possibilidade de modelar
o futuro e melhorar o bem-estar da humanidade.
II - Karl Marx (1818-1883) busca explicar as mudanças
que advieram com a revolução industrial, mas em posição
contrária à de Comte e à de Durkheim (seguidor de Comte).
Marx testemunhou, pela sua presença ativa nos movimentos
operários e socialistas, o crescimento das fábricas e da
produção industrial, bem como das desigualdades sociais e
econômicas daí resultantes. Sua preocupação não era acadêmica
(no sentido de formular uma teoria com vistas ao pensamento
científico), mas de transformar a realidade social e econômica
para atingir a igualdade entre os cidadãos e cidadãs. Marx
concentrou seus escritos sobre a burguesia e o capitalismo
industrial, enfatizando, de um lado, o capital e os meios de
28 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

produção (os detentores do capital = capitalistas) do outro, a


mão-de-obra assalariada, trabalhadores que não possuem os
meios de sua sobrevivência (o proletariado). As relações entre
ambas as partes são de conflito (os interesses de classe são
antagônicos), configurando a histórica luta de classes. A leitura
da história humana que Marx e seu amigo F. Engels (1820-
1895) fazem é pela ótica da dialética materialista (ou concepção
materialista da história) e afirmam na abertura do Manifesto do
Partido Comunista (1848): “Toda a história humana até aqui
é a história das lutas de classe”. Marx confessa sua convicção
da inevitabilidade da revolução proletária que derrubaria o
sistema capitalista e implantaria uma nova sociedade na qual
não haveria classes.
III - Herbert Spencer (1820-1903) afirmou que a sociedade
assemelhava-se a um organismo biológico, sendo o crescimento
caracterizado pelo aumento da massa; o processo de
crescimento dá origem à complexidade da estrutura; aparece
nítida interdependência entre as partes constituintes do todo;
tanto a vida da sociedade como a do organismo biológico
são muito mais longas do que qualquer de suas partes ou
unidades. Admirador de Darwin (1809-1882), a expressão
“a sobrevivência do mais apto” lhe é atribuída (por isso, é
considerado o pai do darwinismo social). Este olhar legou um
pensamento organísmico que se referencia, analogamente, ao
ser biológico, com ênfase no ambiente, na função e no sistema.
Defendia a proeminência do indivíduo sobre a sociedade e o
estado.  
IV - Émile Durkheim (1858-1917) falava na sociologia como
a ciência das sociedades, enfatizou, porém, como objeto
da sociologia o fato social. Acreditava, como Comte, “que
precisava estudar a vida social com a mesma objetividade
com que os cientistas estudam o mundo natural. Seu famoso
primeiro princípio da sociologia era ‘Estude fatos sociais como
coisas!”’(GIDDENS, 2005, p. 29). Contudo, admitia que era
difícil estudar os fatos sociais por serem “invisíveis e inatingíveis”,
por não serem passíveis de observação direta. Deu relevância
Almiro Petry 29

a três temas: abordagem da sociologia como uma ciência


empírica; a ascensão do indivíduo e a formação de uma nova
ordem social (consciência coletiva x consciência individual;
solidariedade mecânica x solidariedade orgânica); as fontes e o
caráter da autoridade moral na sociedade (posicionou-se contra
a reforma do ensino na França que excluía o ensino religioso
das escolas – a Terceira República Francesa cria a “nova escola
republicana laica”).
V - Max Weber (1864-1920) definiu que a sociologia é uma ciência
que procura a compreensão interpretativa da ação social,
a fim de chegar a uma explicação causal de seu curso e suas
consequências. Assim, a ação social é o objeto da sociologia,
que inclui todo o comportamento humano quando e na medida
em que o indivíduo que age lhe atribui um sentido subjetivo.
Weber procurou entender as causas da mudança social e viu nas
ideias, nas crenças e nos valores o mesmo impacto dos fatores
econômicos, opondo-se à concepção materialista da história
formulada por Marx. Entendeu que o conflito de classes era
menos relevante do que Marx afiançava, pois acreditava que
as pessoas tinham a habilidade de agir com liberdade e fazer
suas escolhas de futuro. Assim, rejeita as convicções de Marx
e de Durkheim de que as estruturas externas moldavam as
ações dos indivíduos e que cabe à sociologia “compreender” o
significado que está por trás das ações humanas. Para tanto, cria
a metodologia do tipo ideal – modelos conceituais e analíticos
usados para compreender e interpretar o mundo real.

A sociologia ocupa-se, como ensinam os clássicos, em estudar


a sociedade humana, podendo ser considerada a ciência positiva
dos fatos sociais, ou ainda, a ciência das ações humanas. Em seus
primórdios, teve uma orientação predominantemente positivista
e evolucionista e, no final do século XIX, se estabeleceu como
disciplina acadêmica com as obras de Durkheim e Weber. Estes dois
pensadores, juntamente com Marx, são considerados os fundadores
da sociologia em sua concepção moderna. Apesar das diferentes
abordagens, eles têm em comum uma nova concepção da sociedade
30 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

como objeto de estudo, distinta da filosofia, da economia, da história


e da política.

Todas as ciências sociais sentiam-se no direito de reivindicar


precursores nos séculos XVIII e XIX, ou ainda mais remotos
no caso da ciência política e da história, e as ideias de alguns
desses pioneiros permaneceram influentes. No século XX,
contudo, as ciências sociais adquiriram maior consistência e
autonomia, exercendo maior impacto sobre o pensamento social
como um todo. As doutrinas políticas em geral e a crítica social
em particular tornaram-se as mais tributárias das teorias da
sociedade, e muitas ideias do século XIX vieram a encontrar
um substrato institucional (OUTHWAITE e BOTTOMORE,
1996, p. IX).

Apesar desta tradição já consolidada, o próprio estatuto


epistemológico da sociologia continua sendo alvo de questionamentos:
indaga-se se os fenômenos sociais são passíveis de serem submetidos
aos mesmos fins explicativos que os fenômenos físicos, químicos
e biológicos e se as especificidades metodológicas da sociologia
não lhe retiram a cientificidade. Assim, debate-se se as ciências
sociais são realmente verdadeiras ciências ou não, à semelhança das
denominadas “ciências duras”.

b) O que fazem os sociólogos?

Os sociólogos estudam aspectos relevantes e inusitados da in-


fluência que a sociedade humana tem nos comportamentos pessoais
e coletivos, assim como interagem entre si, publicando seus resul-
tados e suas interpretações, eles se associam em entidades científi-
cas, eles pesquisam, com critérios epistemológicos e metodológicos,
e apontam soluções para os problemas diagnosticados. Este “fazer
sociológico” permite enxergar melhor o objeto desta ciência. Os so-
ciólogos também se profissionalizam em campos conexos como no
da prática social, na política, na economia e, de modo particular, na
docência.
Almiro Petry 31

Para Berger (1978, p. 26), o sociólogo preocupa-se em


compreender a sociedade humana de uma maneira disciplinada. Isto
é feito dentro de certo quadro de referências de limites rigorosos
(método e teoria). Assim, o sociólogo tenta ser objetivo, controla
suas preferências e preconceitos pessoais, percebe ao invés de julgar.
Nesta perspectiva, não deixa de ser “um ponto de vista” a partir de
topos (tanto o social quanto o ideológico)2 em que está situado.
Segundo Bourdieu, “todas as proposições que essa ciência
enuncia podem e devem aplicar-se ao sujeito que faz a ciência”
(BOURDIEU, 2003, p. 4), portanto, desenvolver uma visão crítica
e objetiva é fundamental para o sociólogo, a fim de que ele não
dê razão “àqueles que o veem como uma espécie de inquisidor
terrorista disponível para toda e qualquer ação de policiamento
simbólico” (idem, p. 5). Isto significa que o sociólogo necessita
descolar-se de suas “aderências e adesões” a grupos e “abjurar as
crenças constitutivas dessa pertença e renegar todo e qualquer laço
de afiliação” (idem, p. 5). Esta postura permite ao sociólogo proceder
à crítica epistemológica que não se faz “sem uma crítica social” e
histórica.

Sem dúvida, o sociólogo não é mais o árbitro imparcial ou o


espectador divino, o único a dizer onde está a verdade – ou por
falar nos termos do senso comum, que tem razão -, e isso leva
a identificar a objetividade a uma distribuição ostensivamente
equitativa dos erros e das razões. Mas o sociólogo é aquele que
se esforça por dizer a verdade das lutas que têm como objeto
- entre outras coisas – a verdade. Por exemplo. Em lugar de
estabelecer uma divisão entre aqueles que afirmam e aqueles
que negam a existência de uma classe, de uma região ou de uma
nação, trabalha no sentido de estabelecer a lógica específica
dessa luta, e de determinar, através de uma análise do estado
da relação de forças e dos mecanismos de sua transformação, as
chances dos diferentes campos. Cabe-lhes construir um modelo
verdadeiro das lutas pela imposição da representação verdadeira
da realidade, que contribuem para fazer a realidade tal como se
apresenta no registro (BOURDIEU, 2003, p. 13-14).

2
Pierre Bourdieu (1930-2002) pensa que muitas vezes são pontos de vista sobre
outros pontos de vista... (favoráveis ou contrários).
32 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

c) O que a razão sugere?

A razão sugere que os objetos específicos da sociologia são


os estudos da sociedade humana em cada momento histórico
(na atualidade, a sociedade global e seus reflexos nas locais); das
instituições e suas relações estruturais; das relações sociais pessoais
e interpessoais etc.
Podemos dizer que

[...] a sociologia é o estudo da ordem social, o que significa


a regularidade subjacente do comportamento social humano.
O conceito de ordem inclui os esforços para atingi-la, bem
como os afastamentos com relação a ela. A sociologia procura
definir as unidades de ação social humana e descobrir o padrão
na relação de tais unidades – isto é,  saber como se organizam
em sistema de ação. Ao trabalhar com tais sistemas de ação, a
sociologia procura explicar a sua continuidade no tempo, bem
como compreender como e por que tais unidades e suas relações
mudam ou deixam de existir (INKELES, 1971, p.51).

2º - Qual é o método?

Como toda ciência3, a sociologia tem um processo de elaboração


bem definido (ÁVILA, 1971, 23 ss):

a) A sociologia parte da observação e descrição dos fatos com


objetividade e exatidão, estabelecidas pela metodologia
escolhida.

A objetividade e a exatidão consistem na não falsificação dos


fatos através de fatores de ordem subjetiva (o fato é assim...), sejam
de natureza preconceituosa ou ideológica. Contudo, cabe alertar

3
E ciência é “questão de método” (DEMO, 2002, p. 17). Nesta perspectiva,
Pierre Bourdieu insiste na necessária vigilância metodológica e na vigilância
epistemológica na construção do pensamento social.
Almiro Petry 33

sobre a peculiaridade da objetividade na sociologia. Não é a mesma


coisa observar um fato social e uma cobaia. No fato social o próprio
observador (sujeito) está de alguma forma implicado (por ser parte
do objeto); ou seja, é ao mesmo tempo ator e espectador (por isso,
segundo Durkheim, o sociólogo precisa controlar suas preferências
e preconceitos pessoais e colocar-se fora do fato social). “Embora
a realidade exista objetivamente fora de nós, sua percepção é
inevitavelmente subjetiva. Dessa maneira de ver, decorrem inúmeras
consequências metodológicas” (DEMO, 2002, p. 23). Para Demo,
as consequências são: a) o próprio pesquisador está implicado no
seu objeto, como aquilatar os dois “olhares”? b) não tem como
estabelecer a “objetividade” na sociologia, mas manter o discurso
científico subjetivamente controlado; c) é necessária a autocrítica da
crítica, mediante uma vigilância metodológica e epistemológica; d)
a indevassabilidade da semântica da linguagem por ser complexa e
não linear; e) a cientificidade não  escapa da politicidade, isto é, para
a aplicabilidade social, não basta que a assertiva seja lógica.

b) A sociologia privilegia na pesquisa social:

1) Estudos de corte transversal: limitado a um único ponto no


tempo (sincrônico); e, estudos de corte longitudinal: este se
estende através do tempo (diacrônico), isto é, lido com uma
conjuntura temporal pregressa (expressa as estruturas),
utilizando dados já documentados; ou prospectivos, isto é,
começa no presente e desenvolve as observações durante certo
período temporal.
2) Estudos por observação: observa-se algo que acontece
provocado pela dinâmica estrutural em que o observador é
simultaneamente sujeito e objeto.
3) Estudos impressionistas: são relatos descritivos informais
e analíticos fundamentados em observações, experiências e
impressões menos plenamente controladas (sem método) do
que nos estudos formais (com método).
4) Estudos estatísticos comparativos: consistem em examinar
fatos estatísticos documentados, compará-los e interpretá-los.
34 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

5) Estudos de questionários e entrevistas: os fatos de que


necessitamos não se encontram catalogados e registrados e só
podemos obtê-los consultando pessoas.
6) Estudos por observação participante: o observador participan-
te (sujeito/objeto identificados) procura a introvisão tomando
parte ativa no que está estudando.
7) estudos de caso: são relatos  descritivos completos de casos
(algum fenômeno), às vezes de caráter exploratório, na busca
de variáveis para sugerir hipóteses com vistas a estudos
posteriores.

Neste sentido, para Comte, fundador da sociologia e do


positivismo,

[...] o método não pode ser estudado separadamente das


pesquisas nas quais é utilizado; ou, pelo menos, não passa de um
estudo morto, incapaz de fecundar o espírito que se entrega a
ele. Tudo o que se pode dizer de real, quando o consideramos
abstratamente, reduz-se a generalidades de tal forma
imprecisas que estas não poderiam exercer qualquer influência
sobre o regime intelectual (COMTE, apud: BOURDIEU,
CHAMBOREDON e PASSERON, 2005, p. 9).

Desta vertente de pensamento nasce a metodologia quantitativa –


relacionada ao pensamento positivista, que predomina na sociologia
moderna durante grande parte do século XX, na medida em que
privilegia a tomada de dados numéricos para mensurar as dimensões
e magnitudes dos objetos pesquisados, baseado na crença de que há
leis universais que regem a sociedade humana. Em contraposição,
frente à complexidade da sociedade humana, emerge a metodologia
qualitativa – principalmente a partir do pensamento crítico, que não
pretende medir e enumerar eventos e, em geral, não utiliza dados
estatísticos para a análise da realidade, mas busca compreender e
interpretar – mediante técnicas de descrição e decodificação – o
complexo sistema social de valores, de normas, de condutas e de
símbolos.
Almiro Petry 35

Na atualidade há um consenso que ambas as metodologias não


se excluem e que não se pode mais manter paradigmas reducionistas
e paralelos, embora haja divergências e antagonismos quanto aos
procedimentos. Para Santos (2009), a tendência hodierna é articular
as duas metodologias e hibridá-las na construção de um novo
paradigma, ou seja, o paradigma quanti-qualitativo. Para tanto, a
superação das barreiras, historicamente construídas, parece ser um
grande desafio.

3º - A lei e a teoria sociológicas.

A sociologia, através da metodologia escolhida (método


quantitativo ou método qualitativo), identifica as expressões e
manifestações dos fatos; as relações que unem os fatos. Registra as
regularidades e as constâncias destas relações e interrelações. Então,
pode-se formular a lei sociológica que é meramente constatativa.
Como ciência, a sociologia reassume as leis sociológicas num
plano de generalização (conexão ascendente) para constituir uma
teoria. A teoria sociológica é uma visão global da realidade social
na qual diversos fenômenos recebem uma explicação cabal, a partir
da abordagem adotada. Na atualidade, as principais abordagens
teóricas são: o funcionalismo, conectado ao positivismo (que haure
seus conceitos e métodos de Comte e Durkheim, e de toda a escola
daí formada); as perspectivas de conflito (sob qualquer ordem social
há uma desordem, que se inspira na epistemologia e análise de Marx
e de Engels tendo a dialética materialista com condutor da história
e a diversidade das escolas que se formaram); e o interacionismo
simbólico (se sustenta a partir das ideias de George Mead [1863-
1931] e suas afinidades com a sociologia compreensiva weberiana).
Destarte, a teoria não se reduz: a uma descrição coerente da
realidade; a uma acumulação de dados factuais; a um resultado de
uma pura operação mental; a uma síntese; a um sistema de hipóteses.
Mas o conjunto destes fatores estruturados constitui uma teoria,
devendo, acima de tudo, resistir à testabilidade, à coerência, à logicidade
e à comparabilidade.
36 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Desta forma, uma teoria sociológica (hoje há uma preferência


pela denominação de teoria social4) pode referir-se não apenas a um
momento estático (corte transversal), mas também a um processo
dinâmico (corte longitudinal), dando ênfase ao esforço interpretativo
e prospectivo pelas grandes tendências históricas identificadas e que
sejam portadoras de futuro.
Pelo exposto, a sociologia é uma ciência com base empírica, isto
é, seu ponto de partida são os fatos particulares (método indutivo)
para atingir as generalidades, ou por vezes, o fenômeno global é
a atração (no primeiro caso, indução/conexão ascendente: fatos
particulares – generalizações; no segundo caso, dedução/conexão
descendente: generalização – particularização). Ela constitui um
conjunto de conceitos (com epistemologia própria), de métodos e
técnicas de investigação (com metodologia específica), produzidos
para interpretar e compreender a vida social. Em sua trajetória,
os fundadores e pensadores adeptos desenvolveram este projeto
intelectual tenso e contraditório. Para alguns, ela representa uma
poderosa arma a serviço dos interesses das classes dominantes; para
outros, ela é a expressão teórica dos movimentos emancipatórios e
libertários das classes subalternas.
A sociologia pode ser entendida como uma das manifestações
do pensamento moderno, quando a evolução do pensamento cientí-
fico passa a cobrir e incorporar o saber científico do mundo social.
Concorrem para a sua formação uma constelação de circunstâncias
históricas e intelectuais configuradas pela desagregação da socieda-
de feudal e da consolidação da civilização capitalista com suas ex-
pressões máximas da revolução francesa e da industrial. Entretanto,
na transição para a pós-modernidade, após o trânsito pelo século
XX, ela entra em crise por não ter sido capaz em superar seu para-
digma fundante.
Nesta perspectiva, Bourdieu, Chamboredon e Passeron (2005)
encontram em Bachelard5 a ideia de que a ciência não traz as “certezas

4
GIDDENS, A. e TURNER, J. Teoria social hoje. São Paulo: Editora UNESP, 1999.
5
Gaston BACHELARD (1884-1962), filósofo francês, que no contexto da
revolução científica se preocupa com a construção do objeto científico, a formação
do espírito científico e o estudo do significado epistemológico das ciências.
Almiro Petry 37

do saber definitivo” e lembram que “ela só poderá progredir ao


colocar perpetuamente em questão os princípios de suas próprias
construções”. Por isso afirmam:

A situação da sociologia não é, de modo algum, favorável a


essas façanhas teóricas que, levando a negação ao próprio
âmago de uma teoria científica aparentemente confirmada,
tornaram possíveis as geometrias não-euclidianas ou a física
não-newtoniana. Além disso, o sociólogo está condenado aos
esforços obscuros exigidos pelas rupturas sempre recomeçadas
com as solicitações do senso comum, ingênuo ou erudito: com
efeito, quando se volta para o passado teórico de sua disciplina,
encontra não uma teoria científica constituída, mas uma
tradição. Semelhante situação favorece a divisão do domínio
epistemológico em dois campos cuja oposição se manifesta nas
relações opostas que mantém com a mesma representação da
teoria: igualmente, incapazes de opor à imagem tradicional
da teoria uma teoria propriamente científica ou, pelo menos,
uma teoria científica da teoria científica, uns lançam-se
impulsivamente em uma prática que pretende encontrar em
si mesma seu próprio fundamento teórico, enquanto outros
continuam a manter com a tradição a relação tradicionalista
que as comunidades de letrados se acostumam a manter
com um corpus no qual os princípios declarados dissimulam
pressupostos tanto mais inconscientes pelo fato de serem
mais essenciais e no qual a coerência semântica ou lógica pode
ser simplesmente a expressão manifesta de escolhas últimas
baseadas em uma filosofia do homem e da história, e não em
uma axiomática construída de forma consciente (BOURDIEU,
CHAMBOREDON e PASSERON, 2005, p. 39).

Por essas razões, a sociologia se distingue de outras ciências


humanas, mormente: em primeiro lugar, das ciências elaboradas
por construções conceituais dedutivas (como a filosofia social);
em segundo lugar, das ciências normativas, como a ética social, o
direito, etc.; em terceiro lugar, das ciências históricas que se ocupam
mais dos fatos singulares, na sua concatenação cronológica. Apesar
das distinções e diferenciações, o século XXI demanda cada vez
mais um diálogo interdisciplinar na construção de um paradigma
transdisciplinar, entre os diferentes campos das ciências na busca da
compreensão da complexidade da sociedade humana.
38 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Nas considerações sobre a sociologia, aqui elencadas, convém


sinalizar que, na “evolução” das ciências sociais, três principais
modelos de pensamento se constroem num período que vai de 1815
a 1920, sendo que a sociologia, como ciência ou como disciplina
científica e acadêmica, consolida-se entre 1890 e 1914 (portanto,
mais que centenária) com as principais obras de Émile Durkheim
(1857-1917), Ferdinand Tönnies (1855-1936), Max Weber (1864-
1920) e Georg Simmel (1858-1918). Neste período, emerge um
conjunto de reflexões e pensamentos sociais, provocados pela
organização da sociedade moderna e suas sequelas, cujas ideias e
conceitos seminais brotam da revolução francesa, da revolução
industrial e da revolução científica (princípios baconianos – manter
a mente a salvo de enganos, o principal – e o método cartesiano
– principalmente o ceticismo metodológico, com toda a discussão
epistemológica envolvente), constituindo a forma de conhecimento
aceita como ciência moderna.
A primeira grande abordagem da sociedade humana, como
pensamento social científico é a que se formula com Augusto Comte
(1798-1857), o pai do Positivismo, propondo que se estude a sociedade
com o rigor da objetividade na busca de leis universais que regessem
os comportamentos da vida social. Inspira-se em Saint-Simon (1760-
1825) e influencia diretamente Émile Durkheim. A Física Social
comteana elabora-se na esteira da lógica do cálculo de probabilidades
pascalianas, da matemática social queteletiana (Adolphe Quételet,
1796-1874) e das emergentes teorias probabilísticas.
Paralelo ao pensamento positivista semeiam-se as ideias
evolucionista-organicistas a partir das pesquisas de Charles Darwin
(1809-1882) sobre a evolução das espécies, antecedidas pelos estudos
de Jean-Baptiste Lamarck (1744-1820) – a evolução dos seres vivos
está submissa às circunstâncias exteriores – e de Robert Malthus
(1766-1834) – a seleção e a sobrevivência pela disponibilização
de alimentos: a população cresce numa progressão geométrica
e a produção de alimentos numa progressão aritmética, cujas
consequências seriam a fome, a mortandade geral, as guerras de
extermínio, etc. No entanto, é o inglês Herbert Spencer (1820-1903)
que inicia a Biologia Social, elaborando um modelo organísmico de
Almiro Petry 39

compreensão da realidade social. Promove uma analogia entre um


organismo vivo e a sociedade humana, em que as partes desempenham
funções para o adequado funcionamento do todo. Provém daí a
utilização, nas ciências sociais, de uma terminologia e conceituação
biológica referente ao interior dos organismos: célula, tecido, órgão,
função, crescimento, desenvolvimento etc. e ao mundo exterior:
contato, cooperação, isolamento, luta, reprodução, competição,
sobrevivência, etc., na perspectiva de um sistema. Spencer entende,
entretanto, a sociedade humana como um superorganismo resultante
da evolução.
Este modelo sustenta o darwinismo social, doutrina que justifica,
segundo o filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas (1929-), as
recentes ações colonizadoras de alguns povos (de caráter cultural e
científico-tecnológico), fundamenta a formulação da psicologia das
multidões e a utilização das técnicas de dominação e de controle
decorrentes.
Entretanto, é Émile Durkheim que promove uma síntese
sistemática destas teorizações, elaborando um conhecimento
sociológico, preocupando-se com o objeto de investigação, com o
procedimento metodológico e a interpretação e explicação dos
fenômenos observados e analisados (teoria). Evidencia mais o
positivismo – considera os fatos sociais como coisas, num radicalismo
empírico – do que o evolucionismo. Mas revela sua adesão ao mesmo
na conceituação das sociedades primitivas e das sociedades complexas,
ou, à solidariedade mecânica e à solidariedade orgânica, ou ainda, à
divisão do trabalho social. Inaugura, assim, a sociologia funcionalista
(conhecida como a teoria da integração), cujo paradigma estabelece:
olhar a sociedade humana como um todo (visão holística), mas
suas partes constituintes são diferenciadas e estão interligadas e
interdependentes, formando este todo (o todo é maior do que a soma
das partes). Contudo, o estudo da sociedade deve ser realizado a
partir das partes (unidades) e de suas funções entre si e em relação
ao todo (método indutivo; construção da conexão ascendente).
A partir da década de 1920, a Sociologia deixa de ser
predominantemente europeia e se desenvolve nos EUA. Lá a
sociologia funcionalista vai ser o destaque, principalmente, com
40 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

os trabalhos de Talcott Parsons (1902-1976), na Universidade de


Harvard; Robert Merton (1910-2002) e Paul Lazarsfeld (1901-
1976), na Universidade de Columbia.
A segunda grande abordagem da sociedade humana origina-
se na dialética hegeliana (Georg Wilhelm Friedrich Hegel, 1770-
1831), retomada por Karl Marx (1818-1883) para a compreensão da
realidade social, confrontando Hegel com o evolucionismo biológico.
O pensamento dialético opera com os contrários e vê a vida social a
partir do pressuposto do conflito social. Marx sintetiza as diferentes
correntes do pensamento social de sua época. Do romantismo retém
o espírito revolucionário; no positivismo e no evolucionismo busca o
ethos científico e naturalista; no espírito burguês identifica as virtudes
do desenvolvimento tecnológico; a agitação operária francesa
inspira sua teoria da luta de classes. Desta forma, Marx compendia
toda uma atmosfera científico-cultural, reinterpretando-a com o
crivo da dialética materialista. O velho e o novo se entre mesclam
e emerge um novo corpus de proposições que tem a centralidade da
práxis. O materialismo opõe-se ao idealismo e a consciência social
brota da prática das atividades humanas sensoriais. Assim, a práxis
humana medeia o objetivo com o subjetivo; o determinismo com a
liberdade e as condições materiais históricas com a mudança. Por
isso ele afirma, juntamente com Engels, no texto A Ideologia Alemã:
as circunstâncias históricas fazem o homem na mesma medida em
que o homem cria as circunstâncias. E mais: a essência humana não
é algo abstrato e imanente a cada indivíduo, mas é o conjunto das
relações sociais (VI Tese ad Feuerbach). Eis aí o autêntico objeto
da obra de Marx: a concepção relacional da sociedade humana. Na
dialética, porém, esta relação inclui a tensão (evidente ou oculta)
entre os meios e os fins; entre a causa e o efeito; entre a burguesia e o
proletariado; entre o valor de troca e o dinheiro; entre a coisificação
da sociedade capitalista e o fetiche etc. Além da tensão, a dialética
contém interrelações ou mediações que desembocam em novas
realidades ou novos conceitos. Exemplifica-se com a história dos
modos de produção e com a própria humanidade. Ou seja, para
Marx toda a formação social é suficientemente contraditória para
ser historicamente superável.
Almiro Petry 41

Temos aí um modelo realmente próprio das ciências sociais,


porque o funcionalismo tomou muitos elementos emprestados da
física e da biologia. Essa abordagem, conhecida também como a teoria
do conflito, traz uma gama de novos termos: dominação, exploração,
alienação, ideologia, reificação, luta de classes, etc.
Dela fluem diversas perspectivas no campo da sociologia, da
economia, da filosofia, da política, da antropologia etc. No século
XX, assume destaque a Teoria crítica da Escola de Frankfurt; a
Teoria da dependência; a Teoria do imperialismo; a Teoria política de
Gramsci e a Escola de Budapest, etc.
Entre estas duas abordagens emerge o Estruturalismo, que
pode manifestar-se tanto como funcionalista, quanto marxista.
No primeiro caso, a expressão intelectual maior é o estrutural-
funcionalismo de Talcott Parsons, que desenvolveu seu pensamento a
partir de Émile Durkheim, de Bronislaw Malinowski (1884-1942) e
de Alfred Radcliffe-Brown (1881-1955). No segundo caso, destacam-
se Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e Louis Althusser (1918-1990).
A terceira grande abordagem da sociedade humana ocorre com a
fusão do pensamento social de Max Weber (1864-1920) e de Georg
Simmel (1858-1912). Weber é o fundador da Sociologia compreensiva,
porque formula o conceito da ação social a partir do sentido e signifi-
cado que o agente atribui à sua ação e a considera como o objeto da
sociologia; propõe uma concepção sociológica, baseada no sentido
que o agente atribui à ação (subjetivismo?), na busca da causalidade
da compreensão através do tipo ideal, como fruto de operações men-
tais lógicas (a-históricas) para contrastar com a realidade empírica
(histórica). Entende a sociedade humana como uma entidade espe-
cial, inenquadrável no campo do conhecimento científico-natural
(empírico-positivista). A construção da sociologia compreensiva, parte
da neutralidade valorativa, contrasta as diferentes racionalidades, lê
a realidade pelas tipologias (tipo-ideal) para, então, adotar um ethos.
Este modelo é criticado pelos funcionalistas (leva ao subjetivismo)
e pelos marxistas (a neutralidade é a ausência de uma moralidade).
Com Weber entra uma nova terminologia para a sociologia:
poder, dominação, legitimidade, carisma, racionalidade, burocracia,
etc.
42 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Simmel, por sua vez, propõe estudar as relações sociais a partir


das pequenas interações cotidianas da socialização (Vergesellschaf-
tung), dos interesses, das tendências originando um campo conhe-
cido por microssociologia. Ele procura enxergar no cotidiano o que
as ciências particulares – a história, a psicologia, o direito, etc. –
separaram artificialmente. Pretende que a sociologia expresse esta
unidade. Mas aí, sob a influência do racionalismo e do idealismo
alemão, ele incursiona pela sociologia formal (ou, sociologia pura),
inscrevendo-se numa perspectiva neokantiana.
A importância desse pensamento aparece nas pesquisas da Es-
cola de Chicago, com Robert Ezra Park (1864-1944) e William Tho-
mas (1863-1947) – a primeira geração dessa escola, que conduz ao
interacionismo. Eles convivem com John Dewey (1859-1952), difusor
do pragmatismo; com Charles Sanders Peirce (1839-1914) e William
James (1842-1910) da lógica e do utilitarismo; com George Mead
(1863-1931) da comunicação interpessoal; com Charles Cooley
(1869-1939) analista dos papéis sociais e das interações sociais, etc.
Park e Ernest Burgess (1886-1966) tomam a cidade de Chicago
(metrópole comercial e industrial) como laboratório social, adotando
o método de que os sujeitos não podem ser estudados fora de seu
ambiente. Estes trabalhos, a partir de uma perspectiva etnográfica,
resultam na ecologia social.
Nesta linha de pensamento social, o interacionismo simbólico,
como síntese entre a dimensão social micro e a atitude interpretativa
dos sujeitos, estabelece a relação personalidade-sociedade (a relação
entre I e o me; o self é a personalidade, então, o I e o me são as fases
dialéticas do self). George Mead é o precursor e Herbert Blumer
(1900-1987) é seu discípulo. Blumer estabelece três pressupostos:
(1) o comportamento humano fundamenta-se nos significados do
mundo; (2) a fonte dos significados é a interação social; (3) a utilização
dos significados ocorre por meio de um processo de interpretações.
Almiro Petry 43

2. O homem, como ser social

Como o principal interesse dos sociólogos é a sociedade huma-


na, o estudo do ser humano6 é mais específico dos filósofos, dos psi-
cólogos e dos antropólogos. Contudo, os sociólogos comungam uma
concepção sociológica do ser humano. Aqui, se destacam algumas
concepções não-sociológicas que têm sua origem na história, como
o naturalismo – que o reduz à natureza material; o culturalismo – que
separa o ser cultural do ser natural; ou simplesmente, uma divisão
histórica de períodos como a concepção grega (definida pela razão),
a cristã (definida pelo teocentrismo) e a moderna (definida pelo in-
divíduo como sujeito). Segundo Inkeles (1971, p. 83 ss):
1º - Entre humanistas a imagem mais aceita do ser humano é a
que acentua a sua singularidade, sua diversidade, a constante
mudança em sua disposição e em sua perspectiva. E, segundo
Montaigne (1533-1592), pensador renascentista – que haure
suas ideias das correntes do estoicismo, do epicurismo e do
ceticismo – “é um objeto maravilhoso, vazio, inconsistente e
instável, a respeito do qual é difícil formar qualquer julgamento
certo e uniforme”. Pascal (1623-1662) complementa: “O homem
ultrapassa infinitamente o homem”.
2º - A psicanálise vê o ser humano numa perspectiva extrema
como dominado por profundos impulsos biológicos, por
apetites instintivos vorazes (é fundamental distinguir instinto
de pulsão), que constantemente exigem satisfação. Essa
concepção (a psicanálise como teoria crítica) coloca o ser
humano contra a sociedade (o status quo vigente). Considera-se,
de modo preferencial, como um animal reprimido, cuja natureza
primitiva básica pode, a qualquer momento, manifestar-se em
comportamento socialmente perturbador.
3º - O ser humano é dominado por impulsos sociais centralizados
no seu eu (egocentrismo hobbesiano – “o primeiro dos bens
é a própria conservação”, que busca a garantia da satisfação

6
A palavra homem, quando ocorrer, é utilizada no sentido de ser humano, exceto
para diferenciar o gênero.
44 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

contínua dos desejos). O ser humano procura conseguir para si


mesmo, ou para o seu grupo, tanto poder, prestígio e riqueza
quanto possa, e não se importa com mais ninguém, a não ser
quando precisa dos outros como condição necessária ou como
fonte das satisfações pessoais que impulsionam todos os seres
humanos. Disso emerge uma imagem do ser humano dominada
por força e fraude, na qual cada ser humano é inimigo de
todos os outros (homo homini lupus). Conforme esta concepção,
somente o poder do Estado impede a guerra de cada um contra
todos e de todos contra cada um.

Assim, tem-se que a concepção sociológica do ser humano é a de


uma criatura cujos impulsos biológicos são dominados, controlados
e transformados pelo processo de socialização, com o fito de serem
socialmente aceitos na convivência humana.

De um lado, o ser humano não sobrevive sem trama de


dependências, nas quais precisa dos outros e do meio vitalmente.
Nasce entregue às mãos de outros, cresce com o auxílio dos
outros, desenvolve-se em contato com os outros e vive sempre
em contexto social compartilhado, mesmo que naturalmente
tenso e até conflituoso. Precisa comunicar-se. Vida solitária é
impensável, porque, para surgir, necessita de concurso de vários
fatores; para continuar vivendo, precisa colaborar e receber
colaboração; para desenvolver-se e amadurecer, carece deixar-se
influenciar e resistir à influência, e para firmar-se como sujeito
requer companhia e confronto com outros sujeitos. De outro
lado, porém, é capaz de gestar relativa autonomia, emancipando-
se como sujeito capaz de história própria. O móvel mais efetivo
da autonomia humana é a habilidade de conhecer e aprender
(DEMO, 2003, p. 21).

Por isso, os sociólogos (de modo geral) apontam para a


regularidade do comportamento humano, a repetição de algumas
ações socialmente significativas, bem como para a ordem e a
previsibilidade da vida social que daí resulta. O sociólogo salienta o
ser humano “como uma criatura do hábito social”.
Segundo Inkeles,
Almiro Petry 45

[...] os sociólogos admitem que o homem encontrado em


qualquer parte, mesmo nas tribos mais primitivas, teve sua
natureza original, bruta e animal, revestida por longo processo
de aprendizagem social. Isso dirige seus impulsos biológicos para
caminhos socialmente aceitáveis e na realidade, frequentemente
transforma as energias instintivas em impulsos sociais do tipo
mais elevado e menos egoísta (INKELES, 1971, p. 85).

Desta concepção, destacam-se três aspectos: o primeiro, que


a natureza do ser humano é vista com um olhar de neutralidade,
como sendo nem boa, nem má (envolve juízo de valor, elaborado
em cada espaço cultural); o segundo, que a socialização – processo
de aprendizagem da cultura e das condutas socialmente aceitas –
conduz à interiorização dos valores e dos objetivos da sociedade; o
terceiro, que em suas relações com seus semelhantes, o ser humano
é visto como um ser social.

Os cenários culturais em que nascemos e amadurecemos


influenciam nosso comportamento, mas isso não significa que
os humanos são privados da sua individualidade ou do seu livre-
arbítrio. Talvez pareçamos moldados em fôrmas que a sociedade
preparou previamente para nós. Alguns sociólogos realmente
tendem a escrever sobre a socialização como se fosse esse caso;
mas tal concepção é fundamentalmente falha. O fato de que, do
nascimento até a morte, estejamos em interação com outros
certamente condiciona nossas personalidades, os valores que
sustentamos e o comportamento em que nos engajamos. Além
disso, a socialização está também na origem da nossa própria
individualidade e liberdade. No decorrer da socialização, cada
um de nós desenvolve um sentido de identidade e a capacidade
para o pensamento e a ação independentes (GIDDENS, 2005,
p. 43).

Na perspectiva do “fazer sociológico”, o sociólogo procura


localizar o ser humano e sua conduta nas diversas instituições,
“jamais isolando o indivíduo ou as atividades de seu pensamento,
de seu ambiente social e histórico. Explica o caráter e a conduta
em termos dessas instituições e da estrutura social total que elas
formam” (GERTH e MILLS, 1973, p. 15). Assim,
46 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

[...] os agentes sociais que o sociólogo classifica são produtores


não apenas de atos classificáveis, mas também de atos de
classificação que são, eles mesmos, classificados. O conhecimento
do mundo social deve levar em consideração um conhecimento
prático desse mundo que lhe preexiste e que deve ser incluído em
seu objeto, apesar de que, em um primeiro momento, ele deva se
constituir contra as representações parciais e interesseiras que
esse conhecimento prático oferece (BOURDIEU, 2007, p. 434).

Pelo estatuto epistemológico e metodológico, o sociólogo se


vale da experiência dos seres humanos como “pessoas sociais”, em
vez de considerar os seus fatos físicos e orgânicos como se fossem
meros organismos biológicos. Diante disso, ele procura interpretar,
explicar e compreender “o caráter e a conduta, como o cumprimento
de uma função social dentro de uma rede de relações sociais pré-
estabelecidas que, entretanto, é comumente ampla” (GERTH e
MILLS, 1973, p. 16).
Nestes termos, a concepção sociológica do ser humano acredita
que, para mudar o indivíduo, se precisa primeiro mudar as condições
sociais, e não o contrário. Tende também a duvidar de reformas que
prometem condições utópicas, sob as quais o ser humano estaria
livre e não sujeito a quaisquer coerções e controles sociais. A vida
social, ao que parece, deixa o ser humano muito mais livre para o
seu desenvolvimento e autoexpressão do que qualquer concebível
estado não-socializado da natureza.
Entretanto, há controvérsias que resistem ao tempo, aos con-
frontos e perpassam as diferentes abordagens. Bottomore (1996)
aponta três: a primeira diz respeito à relativa importância na vida
social da estrutura social e das ações conscientes, intencionais, de
indivíduos ou grupos de indivíduos. Conforme ele, “se, e em que
medida, a sociedade deve ser concebida como resultante dessas
ações ou se, pelo contrário, as intenções e possibilidades de ação
de indivíduos e grupos devem ser vistas como produto da socie-
dade” (BOTTOMORE, 1996, p. 736). A segunda “é a que se refere
à relação entre estrutura social e mudança histórica”. As versões
estruturalistas defendem uma visão não-histórica e se colocam “em
conflito com as teorias sociológicas da mudança e desenvolvimento
Almiro Petry 47

social, quer fossem weberianas, marxistas ou evolucionistas” (idem,


p.736). A terceira “diz respeito à natureza geral da explicação so-
ciológica e, em particular, à noção de causalidade na vida social”. A
linha divisória está entre, por um lado, os positivistas – adeptos da
explicação causal – e os funcionalistas – comprometidos com uma
explicação em termos de estados finais; do outro lado estão os que
rejeitam a explicação causal dos processos sociais por distinguirem
com nitidez as diferenças entre ciências naturais e ciências sociais em
prol de interpretações do significado da ação humana (BOTTOMO-
RE, 1996, p. 737).
Cabe ressaltar as contribuições do antropólogo, sociólogo
e filósofo francês Edgar Morin (1921-), idealizador da teoria da
complexidade, com a qual ele visa a superar o modelo de cientificidade
determinista, mecanicista e reducionista adotado pela sociologia
ao propor uma consciência epistemológica autocrítica e uma
metodologia mais “ensaísta” do que cientificamente acabada. Para
ele, “todo o sociólogo é parcialmente um científico, parcialmente
um ensaísta”, cabendo-lhe, por um lado, reconhecer as limitações e,
por outro lado, questionar os acontecimentos, “aventurar-se no seu
diagnóstico e no seu prognóstico” e, sobretudo, problematizar de
maneira crítica e reflexiva a realidade macro e micro do cotidiano dos
seres humanos. Para estimular a mudança do paradigma sociológico,
Morin sugere que seja feita pela compreensão da complexidade da
sociedade, pois

[...] já não se pode compreender a sociedade só do ponto


de vista social e histórico, seja na visão clássica de pendor
positivista reducionista, seja na apenas cultural. Vê três
trindades interconectadas no ser humano: indivíduo/sociedade/
espécie; cérebro/cultura/espírito; razão/afetividade/pulsão. Os
clássicos da sociologia dificilmente faziam alusão ao processo
evolucionário, porque lhes interessava entender a condição
histórico-estrutural, sem preocupar-se com os bilhões de anos
que precederam nosso estágio atual (DEMO, 2002, p. 52).

Para melhor entender o ser humano, Morin enfatiza a necessi-


dade da compreensão de três enraizamentos: o cósmico, o biológico e
48 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

o cultural. O cósmico significa a inserção na cosmogênese (surgimento


e evolução do Universo) dos, aproximadamente, quatro bilhões e
meio de anos de matérias físico-químicas em caos ou organizadas,
donde emerge a vida (biogênese). Portanto, o ser humano como “en-
tidade física composta de partículas, átomos e moléculas” deve ser
“enraizada” nesta gênese. O biológico significa “nossa implantação
terrena”. “A Terra se autoproduziu e autoorganizou na dependência
com o Sol, constituindo-se em biofísica complexa desde o momento
quando se desenvolveu a biosfera. Da Terra surgiu a vida, da vida
policelular surgiu a animalidade, e do mais recente desenvolvimento
de um ramo do mundo animal surgiu o homem” (DEMO, 2002, p.
54). Todavia, o ser humano emerge da biogênese, estruturando a
sua própria que é a antropogênese (surgimento e evolução da huma-
nidade). O cultural constituído pela própria “decolagem” humana,
construído nos milênios da história humana. Para Morin, somos
partícipes da “aventura cósmica, biológica e cultural”. Por isso, pa-
rece ser fundamental uma nova Weltanschauung (orientação cogniti-
va da visão de mundo) que reconheça os diferentes enraizamentos
e incorpore uma nova percepção do mundo social, construindo uma
nova centralidade em torno da vida (biocentrismo) em substituição à
tradicional visão civilizatória greco-latino-ocidental do ser humano
como centro do Universo (antropocentrismo). Este desafio também
está posto para a sociologia.

3. A socialização

Admite-se que a socialização configura os “processos pelos


quais os seres humanos são induzidos a adotar os padrões de
comportamento, normas, regras e valores do seu mundo social”
(JAHODA, 1996, p. 710). Inicia na infância e se estende por toda
a vida, percorrendo um “vir a ser” constante. No início do século
XX, os estudos sistemáticos se concentram na infância, cabendo aos
psicólogos enfatizar os processos de interação; aos antropólogos, a
concentração na transmissão da cultura em sociedades pequenas
e homogêneas; aos sociólogos, as instituições, os agentes de
Almiro Petry 49

socialização e as subculturas em sociedades complexas. Na segunda


metade do século, os estudos passam a abranger os processos da
idade adulta, guiados por teorias de múltiplas abordagens (não há
uma teoria unificadora). A socialização primária, que ocorre na
infância e está vinculada à família (ou na unidade social básica),
também está intrinsicamente unida à formação da personalidade.
No entanto, ambas se diferenciam, pois “a primeira está interessada
na aquisição de padrões comuns, a segunda, nas diferenças
individuais” (JAHODA, 1996, p. 711). A socialização secundária
tem lugar mais tarde após a infância e na maturidade, ocorrendo
através das principais agências de socialização que são: “a escola e
os grupos de pares, o ingresso na vida econômica, a exposição aos
veículos de comunicação de massa, o estabelecimento de uma família
e o casamento, a participação na vida comunitária organizada e,
finalmente, as condições de aposentadoria” (idem, p. 712).

A dificuldade em distinguir entre formação da personalidade


e socialização deixa sem resposta a questão seguinte: em
que medida os resultados da socialização primária podem
ser desfeitos ou revertidos? Nos casos em que as primeiras
influências resultaram em comportamento individual ou
socialmente destrutivo, as profissões assistenciais aplicaram
sua gama de métodos com resultados muito variáveis, em
esforços para reverte hábitos precocemente adquiridos. Não há
dúvida, porém, de que influências ulteriores podem aumentar o
repertório de comportamento social de uma pessoa (JAHODA,
1996, p. 711).

3.1. Conceito

Guy Rocher (1924-) entende que a socialização é o

[...] processo pelo qual ao longo da vida a pessoa humana


aprende e interioriza os elementos socioculturais do seu
meio, integrando-os na estrutura de sua personalidade sob a
influência de experiências de agentes sociais significativos, e
adaptando-se assim ao ambiente social em que vive (ROCHER,
apud: LAKATOS, 1978, p. 90).
50 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Como afirmam Horton e Hunt, a socialização é o “processo pelo


qual uma pessoa internaliza as normas dos grupos em que vive, de
modo que surja um eu distinto, único para dado indivíduo” (HOR-
TON e HUNT, 1980, p. 77). Em outros termos, é “o processo pelo
qual as crianças, ou outros novos membros da sociedade, aprendem
o modo de vida de sua sociedade” e a criança indefesa “gradualmente
se torna uma pessoa autoconsciente e instruída, hábil nos modos da
cultura na qual ela nasceu” (GIDDENS, 2005, p. 42).
Do conceito de socialização podem-se realçar três aspectos fun-
damentais. O primeiro é o da aquisição de uma cultura. Adquire-se a
maneira de pensar, de agir e de sentir do grupo; introjetam-se os va-
lores vigentes; forma-se o discernimento entre o certo/o errado, en-
tre o bom/o ruim; aprendem-se as tecnologias, as artes, etc. de uma
dada cultura. O segundo é o da formação da personalidade (o ego, o eu
consciente da personalidade), ou seja, cada ser humano interioriza,
introjeta em seu ego os elementos socioculturais (os assimila ou os
rejeita, nisto consiste a individualização) e os exterioriza através das
ações. O terceiro consiste na adaptação ao ambiente social, em que a
pessoa socializada compartilha das ideias, dos valores, das crenças,
dos sentimentos do grupo e assim se considera pertencente a ele
(elabora-se o sentimento de pertença ao grupo, ao território, à etnia,
à crença, etc.).

3.2. A socialização no panorama da sociedade e do indivíduo

Em consonância com Lenhard, esta distinção é possível para


fins didáticos, porque no cotidiano o processo é concomitante
(LENHARD, 1975, p. 31 ss). Assim:
Na perspectiva da sociedade – a sociedade sobrevive aos
indivíduos que a compõe, entretanto, os novos membros precisam
adquirir os modos de vida da mesma (são os modos de ser). Todavia,
a sociedade “garante” o ajustamento das pessoas entre si e de todos
ao ambiente social (algo utópico), através, em primeiro lugar, da
transmissão do patrimônio cultural que inclui o idioma, as técnicas
de produção e sobrevivência, os costumes, os símbolos, as tradições,
as crenças, as artes, a moral etc. Em segundo lugar, da aquisição
Almiro Petry 51

de conhecimentos, de hábitos e sentimentos próprios da sociedade,


a fim de realizar os objetivos da sociedade. Em terceiro lugar, a
capacitação e o exercício dos padrões comportamentais. Há os
universais, que todos observam; há os especiais que só uma parte
dos indivíduos adquire e pratica; há os alternativos para a prática
dos quais o indivíduo tem a liberdade de adesão.
Quem realiza este empreendimento societal? As agências de
socialização (acima mencionadas).
Na perspectiva do indivíduo – através das agências de socia-
lização o indivíduo recebe e é exposto aos elementos sociocultu-
rais da respectiva sociedade. Diante dos mecanismos da socialização
(educação, experiências sociais, participação em atividades coletivas,
etc.), o indivíduo aceita ou rejeita estes elementos socioculturais. Se
aceita: introjeta, assimila e exterioriza em ações, manifestações e
expressões os elementos introjetados. Se rejeita: introjeta, assimi-
la e exterioriza em ações, manifestações e expressões os elementos
rejeitados, bem como a própria rejeição (que pode ser na forma de
revolta, de indignação, etc.). Nisto consiste a individualização, pro-
cesso que resulta na formação e configuração da personalidade, cuja
expressão social máxima é o “eu consciente” (aqui temos elementos
para os modos de vir a ser).
Nesta perspectiva, o ser humano no processo da socialização,
em primeiro lugar, desenvolve a capacidade adaptativa ao meio so-
cial e ambiental pelo processo de condicionamento de reflexos (tan-
to mentais quanto psicomotores)7. Em segundo lugar, pelo processo

7
“O desenvolvimento dos hábitos exige a oportunidade de praticá-los. Os meninos
que vivem numa planície desértica não adquirem certos hábitos com a mesma
facilidade daqueles que crescem em regiões montanhosas, como a inclinação do
corpo e a agilidade das pernas exigidas para o ato de esquiar. E o que é válido para
a habilidade motora é aplicável aos traços psíquicos e à conduta social. Muitas
características, às vezes consideradas inatas, se devem ao fato de que houve
uma ampla e prolongada oportunidade de serem postas em prática” (GERTH e
MILLS, 1973, p. 151-152).
“As crianças de Samoa aprendem a sentar-se com as pernas cruzadas assim que
conseguem assumir essa postura. Os adultos fazem-nas bater acompanhando o >
> ritmo de dança e tão logo se equilibram, aprendendo alguns passos. Aos 10 anos,
essas crianças estão de tal forma adaptadas aos padrões de ritmo e postura de sua
sociedade, que me parece impossível ensiná-las a uma atividade tão simples como
dar saltos, e conservá-las sentadas numa cadeira por algum tempo, se torna uma
tortura para elas. Entretanto, as crianças de Manus, que aprendem habilidades
físicas e técnicas de agilidade antes de quaisquer posturas formais, conseguem
adaptar-se com facilidade a novas atividades físicas” (M. MEAD, apud: GERTH
e MILLS, 1973, p. 152).
52 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

de percepção forma a consciência de si mesmo, tendo como referên-


cia e ponto fixo o ego. Em terceiro lugar, pelo ego autoconsciente
organiza a consciência moral, o superego que também se expressa no
dever social. Por fim, acumula as novas experiências e aquisições,
sem apagar as anteriores, integrando-as no sistema psíquico pessoal
já elaborado. Em decorrência destes processos, é bastante difícil mu-
dar hábitos pessoais, sentimentos, emoções, percepções e substituir
conhecimentos, pois tudo o que a pessoa sabe, pode fazer, percebe e
sente está ancorado num conjunto de processos psíquicos e mentais
ajustados (ou desajustados).

Ao estudarmos a maneira pela qual os vários elementos da


estrutura psíquica estão enraizados no organismo, julgamos
necessário discutir também a pessoa e a sociedade em que ela
vive. As características orgânicas do homem – individuais ou
raciais em si mesmas – não nos permitem explicar os traços
psíquicos; de fato, não podemos definir de forma adequada os
traços psíquicos, sem referirmo-nos ao meio social e à educação
do indivíduo. Isso não quer dizer, contudo, que o organismo não
seja importante para o desenvolvimento dos traços psíquicos e
da própria pessoa. Afirmamos que o organismo tem importância
somente para o significado imputado aos papéis desenvolvidos
pelos homens.
Nossos impulsos indefinidos se definem através de objetivos
socialmente adquiridos. Nossa percepção é condicionada, de
forma decisiva, pela organização social das sensações orgânicas,
segundo o vocabulário e os símbolos aprovados. Nossas
sensações são transformadas, no âmbito social, nas emoções da
criança em crescimento. Reconhecemos essas emoções por meio
dos gestos sociais a elas associados. As diferentes sociedades e
unidades sociais possuem a sua própria expressão emocional –
verbal e gesticulatória – que define as sensações aprovadas: as
emoções que os indivíduos sentem em determinadas ocasiões
são, quase sempre, socialmente estereotipadas.
O desenvolvimento da estrutura psíquica – do impulso, da
percepção e da emoção – compreende, portanto, as funções
sociais que a pessoa adquire e realiza. Porém, para considerar
a organização da estrutura psíquica com um mínimo de
dificuldades sociais nós a examinamos na criança, nos
organismos em estado de grave privação, nas crises sociais e em
certas áreas do desenvolvimento individual. Entre outras coisas,
Almiro Petry 53

concluímos que nada que pudéssemos aprender da estrutura


psíquica em si mesma torna possível necessariamente, a
compreensão da conduta pessoal. De fato, devemos interpretar a
estrutura psíquica dentro do mais amplo quadro proporcionado
pela estrutura de caráter, como um todo (GERTH e MILLS,
1973, p. 93).

No olhar e na análise bourdieusiana o aspecto ativo do


conhecimento e do mundo social,

[...] é um ato de construção que utiliza esquemas de pensamento


e de expressão, além de que, entre as condições de existência
e as práticas ou as representações, se interpõe a atividade
estruturante dos agentes, que longe de reagir mecanicamente
a estímulos mecânicos, respondem aos apelos ou às ameaças de
um mundo, para cuja produção do sentido eles próprios haviam
contribuído. Todavia, o princípio dessa atividade estruturante
não é, de acordo com a pretensão do idealismo intelectualista
e antigenético, um sistema de formas e categorias universais,
mas um sistema de esquemas incorporados que, constituídos no
decorrer da história coletiva, são adquiridos no decorrer da
história individual e funcionam no estado prático e para a prática
(e não para fins de puro conhecimento) (BOURDIEU, 2007, p.
435).
Isto significa que cada indivíduo incorpora as estruturas so-
ciais através do processo socializador perene, construtor e consti-
tutor da gênese social. “Em grande parte o sistema educativo, desde
a família até a escola, é ‘cerco’ ao indivíduo, para que este se dei-
xe moldar pelas expectativas dominantes” (DEMO, 2002, p. 194).
Cabe às ciências sociais desvendar esta relação e sua dinâmica. Para
Bourdieu se torna inquestionável que os agentes são sujeitos e ob-
jeto na construção do mundo social e que a sociologia deve colo-
car isto como uma norma basilar para “descrever a gênese social dos
princípios de construção e que, no mundo social da maneira como
ela consegue apreende-lo, procura o fundamento de tais princípios”
(BOURDIEU, 2007, p. 435). Parece que o atual pensamento social
está imbuído da concepção de que a socialização é o meio certo de
caracterizar o que transita (e respectivas trocas) entre novos indiví-
duos e suas sociedades e vice-versa. Cabe aos sociólogos identificar
54 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

descrever e interpretar como e em que as diferentes sociedades so-


cializam seus novos membros, na medida em que toda a sociedade
desenvolve um conjunto próprio de normas, de valores, de símbolos,
de papéis como regulador do comportamento prevalente. Entretan-
to, cada sociedade enfrenta um problema crucial que é o “enquadra-
mento” de seus membros “desviantes”, tidos como desagregadores,
mas vistos como criativos por não se submeterem às rotinas insti-
tucionalizadas.

3.3. Processo de aprendizagem

Um questionamento que perpassa os séculos é como o ser humano


aprende? Esta preocupação aparece nos filósofos gregos, atravessa a
renascença, o iluminismo e chega até nós, tanto no que se refere às
crianças quanto aos jovens e adultos.
De acordo com Lakatos (1978, p. 91), podem ser apontados
os seguintes processos: primeiro, a repetição, quando os pais (ou
educadores) fazem os filhos (ou educandos) executarem uma série
de atividades necessárias para o convívio social. Por exemplo,
hábitos de higiene, condutas disciplinares (introjetam-se pela
repetição constante dos mesmos atos). No passado, a tradição oral
exigia esta prática e que dava sustentação à sociedade. Segundo, a
imitação, a criança, o jovem e mesmo o adulto tendem a reproduzir
o comportamento de outros (pais, professores, amigos, líderes,
etc.). Antes da escolarização universal, aprendia-se pela imitação
os mesmos hábitos sociais e as práticas do trabalho a partir das
experiências dos mais velhos. Hoje, nas culturas ainda não regidas
pelas modernas tecnologias, as atividades domésticas, manuais e
rurais seguem esta pedagogia. Terceiro, a aplicação de recompensas
e punições – as recompensas sejam por palavras, elogios, gestos,
presentes etc. e, no sistema escolar os conceitos ou notas; nas
empresas, as promoções – por resultados – etc., são proporcionadas
como incentivos pelos atos socialmente aceitos e considerados
corretos ou esperados. As punições (castigos físicos, o extremo
oposto das recompensas) ou repreensões por sua vez, são aplicadas
Almiro Petry 55

por atos e ações indesejáveis e socialmente considerados incorretos


e que ferem a normalidade social. Quarto, pelo acerto ou pelo erro –
consiste na aprendizagem através das tentativas de obter o sucesso
ou, quando ocorrer o insucesso, corrigir a trajetória trilhada. Este
processo implica ações volitivas e racionais. Tem como fundamento
as diferenças de compreensão, dos ritmos e das experiências pessoais.
O que se pretende é que o indivíduo acione seus mecanismos
perceptivos, emocionais, cognitivos e simbólicos para se tornar apto
a discernir e avaliar seus próprios atos sem depender de outrem,
confrontando-se com o meio ambiente sociocultural. É um processo
que conduz à autonomia do sujeito, quebrando a dependência e a
subalternidade. Cabe mencionar que na dinâmica das mudanças de
hoje – um constante modo de vir a ser – é complexo estabelecer o
critério do erro, na medida em que o certo exigiria um padrão de
constância.
Igualmente Chinoy considera (1972, p.124) que o processo
de socialização é complexo e multifacetado. O ser humano, na
medida em que cresce, dirige seus impulsos biológicos para canais
cultural e socialmente padronizados. Na primeira infância até são
impostos (horário de alimentação, por exemplo), mas aos poucos são
conduzidos para o quadro de referências sociais. A canalização destes
impulsos e a aquisição de hábitos aceitáveis (segundo Bourdieu, a
incorporação das estruturas sociais e símbolos) não são processos
mecânicos, mas estão ligados a juízos de valor “do que é certo e
do que é errado”, “do que é bom e do que é mau”. Não se aprende
somente a fazer algo de determinado modo, de agir, de pensar, etc.,
mas também que esta é a maneira correta de fazê-lo (segundo a
cultura em que se está inserido).
Desta maneira, o ser humano aprende hábitos, valores, atitudes,
crenças, símbolos, todos cultural e socialmente padronizados (com
alguma elasticidade ou não). Entretanto, o indivíduo, para além da
socialização (que visa à padronização), organiza estes elementos num
sistema psíquico particular, cuja expressão se manifesta no caráter
e na personalidade, e sua centralidade está no ego, a consciência, o
sentimento e a emoção da própria identidade pessoal e social.
56 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

4. A cultura

De acordo com Hall (1996), os seres humanos, comparados


com as demais espécies, produziram, no decorrer da história,
uma extraordinária diversidade de formas sociais, frente ao fato
de as outras espécies, em geral, somente terem uma forma e esta
ainda “embutida nos genes” (transmissão genética). A Cultura “é
sobretudo resultado da capacidade humana de aprender” (DEMO,
2002, p. 96), por isso os cientistas insistem na concepção de que a
cultura é “uma herança aprendida” e transmitida por símbolos. A
ciência social enfatiza dois papéis basilares da cultura, o primeiro,
é o seu significado social (ela proporciona um significado a tudo,
seja tanto dos elementos da natureza, quanto dos criados; sejam
tangíveis ou intangíveis). O segundo são as regras de ação social que
permitem aos seres humanos conviverem em sociedade. Às vezes
a cultura é discutida separadamente da sociedade como se ambas
fossem dissociadas. No entanto, elas estão estreitamente unidas e
indissociáveis.

4.1. Conceito

Para Edward Tylor (1832-1917), a cultura “é o todo complexo


que inclui conhecimento, crença, arte, moral, lei, costume e quais-
quer aptidões adquiridas pelo homem como membro da sociedade”
(TYLOR, apud: CHINOY, 1972, p. 56). Ashley Montagu (1905-
1999), por sua vez, considera a cultura como “o complexo de confi-
gurações mentais que, em forma de produtos do comportamento e
produção material, constitui o modo principal que tem o homem de
adaptar-se ao meio total, controlando-o, mudando-o, transmitindo e
perpetuando os modos acumulados de fazê-lo” (MONTAGU, apud:
LAKATOS, 1978, p. 142).
Giddens (2005), em suas ponderações, destaca as preocupações
dos sociólogos em enfatizar mais os aspectos da sociedade huma-
na que são aprendidos do que aqueles que são herdados. O com-
Almiro Petry 57

partilhar destes elementos abre a perspectiva da cooperação e da


comunicação. Por isso, considera que “a cultura de uma sociedade
compreende tanto aspectos intangíveis – as crenças, as ideias e os
valores que formam o conteúdo da cultura – como também aspectos
tangíveis – os objetos, os símbolos ou a tecnologia que representam
esse conteúdo” (GIDDENS, 2005, p. 38).
Nesta perspectiva, a sociologia considera que a cultura envolve
todos os “produtos”  da atividade humana, abrangendo os tangíveis e
intangíveis, encontráveis na diversidade e multiplicidade de grupos
e povos, que são os referenciais da identidade social e da identidade
individual.
Através da cultura o ser humano adquire conhecimentos e
técnicas necessários à sua sobrevivência física e social, podendo
interferir, controlar e dominar, na medida do possível, o seu meio
ambiente, ou conviver de modo simbiótico (a cultura define esta
relação humana-meio-ambiente), na medida em que é um dos seres
bióticos que habita a biosfera e o ecossistema do Planeta.

O homem é uma dentre todas as formas de vida que de


modo simbiótico coabitam no planeta. Inexiste uma relação
de superioridade e de hegemonia do humano em relação ao
conjunto da ordem natural cuja justificativa plena chegue ao
ponto de fundamentar a alteração do seu equilíbrio, tal como
assim tem sido tradicionalmente compreendido na filosofia
antropológica a partir da extrema (e, portanto inadequada)
valorização da capacidade racional humana (PROTANIA, 2001,
p. 231).

Consequentemente, pode-se aceitar a compreensão de que a


cultura é a resultante da criação humana, tanto do indivíduo quanto
da sociedade, numa relação de integração e reciprocidade com
o meio-ambiente planetário, na constante busca da satisfação de
necessidades. Acredita-se que não haja um ser humano desprovido
de cultura (exceto o recém-nascido e algum eventual homo ferus8).

8
HOMO FERUS. Animal humano que, devido ao isolamento total de outros
seres humanos, foi privado, durante os primeiros anos de vida, de interação com
eles, fator essencial para a sua socialização e que, por este motivo, não adquiriu,
58 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Nenhum  ser humano é capaz de conhecer a totalidade de sua cultura,


mas cada qual desempenha um papel ativo e criador na constituição
e continuidade de sua experiência cultural e social.
Comunga-se a tese de que todos os povos e sociedades são
portadores de uma cultura e que elas se diferenciam, por sua vez,
pelas peculiaridades e especificidades de interação e integração
com o meio-ambiente através de um sistema próprio de valores e
símbolos.

4.2. Origem

Cada povo ou grupo humano cria sua cultura como resposta


à satisfação de suas necessidades individuais e sociais. Parte-se do
princípio de que, por um lado, os seres humanos são portadores
de necessidades orgânicas (básicas e vitais) como fome, sede, frio
ou calor, etc. e psicoculturais (criadas) como estética, prestígio,
status, etc., todas demandam a plena satisfação. Por outro lado, o
espaço físico (geográfico) em que vivem (coabitam) é portador de
potencialidades como o solo, o subsolo, os rios, a flora, a fauna, etc.
e de adversidades como montanhas, desertos, geleiras, etc., sendo
alguns renováveis e outros não.
Entende-se que a lógica da satisfação do ser humano seja
de, primeiramente, atender às necessidades orgânicas, buscando
e criando as condições no e a partir do espaço físico (abundância
ou escassez de elementos) em que vive e secundariamente, às
necessidades psicoculturais de acordo com as normas e regras criadas
pelo grupo.
Do relacionamento com o meio-ambiente, na busca de
satisfazer necessidades individuais e coletivas, cada povo encontra
suas soluções como expressão de sua capacidade criadora. Desta
forma, a cultura se constitui no principal modo que o ser humano

ou o fez apenas de forma rudimentar, personalidade e cultura. Dicionário de


Sociologia Disponível: http://www.prof2000.pt/users/dicsoc/soc_h.html
Almiro Petry 59

tem de adaptar-se ao meio-ambiente “controlando-o, mudando-o,


transmitindo e perpetuando os modos acumulados de fazê-lo”,
como assevera Montagu, e ela expressa o modo de vida de um povo
exteriorizado pelos elementos materiais (tangíveis) e não-materiais
(intangíveis).
Sobre o relacionamento do ser humano com o meio-ambiente
e as influências do meio sobre o ser humano, distinguem-se três
posições (LAKATOS, 1978, p.72-3), a saber: os defensores do livre
arbítrio, do determinismo geográfico e do possibilismo.
O livre arbítrio propugna a tese de que o ser humano é abso-
lutamente livre, e pela sua racionalidade e vontade, independente
de quaisquer injunções externas sobre sua volição e escolhas. Se-
gundo esta doutrina, o modus vivendi do ser humano independe do
meio-ambiente e sustenta que a pessoa tem o poder de escolher suas
ações. No campo da política, o liberalismo representa a principal cor-
rente deste pensamento ao afirmar que os estados não devem impor
os seus projetos aos indivíduos que são seus membros, livremente
associados (pregam o “estado mínimo”). Seus seguidores defendem a
democracia liberal representativa e autodeterminação nacional. No
campo da economia, esta doutrina se materializa no capitalismo em
defesa da livre iniciativa, do livre mercado e da concorrência, sem
controle do estado. No entanto, na evolução doutrinária, passam a
enfatizar que o estado deveria ser responsável pelo suprimento  das
necessidades materiais dos pobres para que eles pudessem exercer
sua liberdade de escolhas e desfrutar das mesmas.
O determinismo geográfico defende a tese de que o ser humano é
um produto integral do meio-ambiente em que vive. Este conceito foi
expresso pelo geógrafo e etnólogo alemão Friedrich Ratzel (1844-
1904, considerado um dos fundadores da moderna ciência geográfica,
em especial da geografia humana, o ramo da antropogeografia), que
influenciado por Darwin, entendia que a luta entre os humanos se
dava pelo espaço vital (Lebensraum). Desta forma, a organização dos
seres humanos se dava na ocupação do espaço físico para garantir
a manutenção da vida. As relações dos seres humanos com o meio-
ambiente devem ser vistas a partir de dois ângulos: a mediação
econômica (trabalho e progresso) e a mediação política (o estado
60 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

como um organismo de unidade do ser humano e do espaço vital)


que determinam as condições sociais, econômicas e tecnológicas de
um povo. Em decorrência, a história da espécie humana retrata a
luta pela vida entre as diversas comunidades, frente às necessidades
da expansão de uma ou de outra e as limitações do espaço vital.
No século XX, emergem destas ideias dois campos científicos
relevantes: o da geopolítica e o da geoeconomia.
O possibilismo defende, em oposição ao livre arbítrio e ao
determinismo geográfico, que o ser humano e o meio-ambiente
agem e reagem um sobre o outro, permitindo as possibilidades
culturais diversas, porque inexiste uma relação de superioridade
tanto de um quanto de outro lado. As condições espaciais são
fornecedoras de possibilidades, tornando uma cultura viável, sejam
elas abundantes ou escassas (as potencialidades e adversidades).
O habitat é restritivo, mas permissivo, oferecendo alternativas,
armando problemas e oportunizando instrumentos para as soluções.
Desta maneira, o ser humano é o principal agente geográfico, porque
pode interferir, modificar e superar os presumidos obstáculos
oferecidos pelo meio-ambiente. Este movimento doutrinário surgiu
na França com Paul Vidal de La Blache (1845-1918), fundador da
escola francesa de geografia, que defende a tese de que qualquer
estado soberano possui as possibilidades de atingir certo nível de
desenvolvimento econômico, social e tecnológico para satisfazer as
necessidades de sua coletividade. Portanto, cabe ao Estado impor
seu poder sobre o espaço territorial de sua competência. No campo
das ciências sociais, o possibilismo se tornou uma ferramenta de
diagnóstico, de análise e de planejamento situacional, tendo por
fundamento pressupostos cognitivos, porque os obstáculos de
um cenário poderão ser as possibilidades de outro. Em termos de
desenvolvimento sustentável, não comunga “o caminho único”
das “abordagens universais”, mas o estímulo às potencialidades
endógenas presentes nos diferentes e diversificados espaços vitais,
bem como as complexas biodiversidades.
Almiro Petry 61

4.3. Conteúdo

A análise do conteúdo de uma cultura, para fins didáticos, pode


ser reduzida aos elementos materiais (tangíveis) e não-materiais
(intangíveis), em consonância com Lakatos (1978, p. 139), pois, na
realidade, são elementos interdependentes que formam a totalidade
cultural.
A cultura material consiste nos bens tangíveis criados pela
atividade humana como produtos de seu conhecimento e tecnologia
para a satisfação de alguma necessidade. Eles constituem bens de
capital que servem tanto para a troca (mercado) quanto para o uso
(sobrevivência e bem-estar). Parece que a chave de leitura da cultura
material está na identificação da necessidade que o bem satisfaz.
Estes bens tangíveis formam um amplo leque que vai desde os
primitivos artefatos do ser humano até as máquinas mais sofisticadas
da moderna tecnologia, portanto, são produtos concretos, técnicas,
construções etc. Entretanto, o uso e o destino de qualquer bem
material estão ligados à cultura não-material que lhe dá o real sentido
e significado. Talvez a indumentária seja a expressão mais plausível
e perceptível desta relação, pois o vestuário é o elemento material
mais visível da extensão corpórea do ser humano em que “o parecer”
prevalece sobre “o ser” na sociedade de classes, como assegura
Bourdieu (2007).
A cultura não-material abrange as ideias, os conhecimentos, as
crenças, os valores, os símbolos, etc. compartilhados, como reais e
verdadeiros, por um grupo ou uma coletividade maior. As pessoas
compartilham os valores e símbolos, porque acreditam que certos
princípios são importantes e convenientes, tanto para a constituição
da identidade social quanto da individual, por isso criam e seguem
normas que explicam determinados comportamentos. Os valores
e normas, por sua vez, variam muito de cultura para cultura. “Al-
gumas culturas valorizam altamente o individualismo, enquanto
outras podem colocar maior ênfase em necessidades em comum”
(GIDDENS, 2005, p. 38). No seio de uma sociedade, os valores e as
normas professadas também podem ser contraditórios, na medida
62 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

em que há uma multiculturalidade9, em contextos de mudanças so-


ciais. No entanto, a conduta social se orienta por ações interpessoais
que supõe a consciência de que o outro participante é portador de
um complexo cultural, movido por normas e valores, profundamen-
te incorporados.

A cultura tem um papel importante em perpetuar os valores e as


normas de uma sociedade, mas também oferece oportunidades
importantes para a criatividade e a mudança. Subculturas e
contraculturas – grupos que rejeitam em grande medida os
valores e as normas predominantes da sociedade – podem
promover idéias que mostrem alternativas à cultura dominante.
Movimentos sociais ou grupos de pessoas que dividem estilos
de vida comum são forças poderosas de mudança dentro das
sociedades. Desse modo, subculturas permitem a liberdade de
as pessoas se expressarem e agirem segundo suas opiniões,
expectativas e crenças (GIDDENS, 2005, p. 40).

No contexto cultural, as instituições sociais assumem uma


importância ímpar na medida em que concentram “uma grande
variedade de regulamentos formais e de códigos informais” (GERTH
e MILLS, 1973, p. 181) a serem observados por seus membros.
Além disso, as instituições selecionam as pessoas (por idade, sexo,
estado civil, etc.), as formam nas diversas esferas institucionais
e lhes aplicam as “ordens institucionais” através do complexo de
“controles sociais”. Sendo assim, as instituições sociais explicam e
mantêm grande parte da regularidade dos padrões comportamentais
individuais e coletivos.
Neste campo, com frequência, ocorre a prática de julgar as
outras culturas a partir do olhar da nossa, estabelecendo uma
comparação, tomando a nossa como a melhor. Isto se chama
etnocentrismo, que se opõe ao relativismo cultural. Aliás, as culturas
são extremamente difíceis a serem compreendidas “de fora”. Aí

9
“O multiculturalismo é definido como a percepção e valorização das diferenças, em
particular como a preocupação de atribuir a cada cultura sua condição de sujeito
histórico próprio. Por trás está contundente crítica ao colonialismo eurocêntrico
que sempre buscou colonizar outras culturas, destruindo sua maioria” (DEMO,
2002, p. 196).
Almiro Petry 63

reside uma das principais fontes dos preconceitos e estereótipos. Os


cientistas sociais concordam que a má compreensão e interpretação
dos valores e dos símbolos de diversas culturas causam uma série de
preconceitos, muitas vezes, insuperáveis (por exemplo, cristianismo
x islamismo).

O papel da cultura, por ser menos incisivo e geralmente não


material, costuma ser relegado na teoria sociológica, também
por conta do materialismo histórico, que apostou praticamente
tudo na base econômica. A ciência não tem – pelo menos
ainda – condições adequadas para desentranhar a profundeza
complexíssima das motivações humanas, razão pela qual
se contenta com indicações mais facilmente mensuráveis e
manipuláveis (DEMO, 2002, p. 193).

Em suma, a cultura não-material dá sentido e significado à cultura


material como essência da indissociabilidade destes componentes na
constituição da cultura total. Porque, por um lado, representa

[...] a criatividade histórica de um povo, a maneira como soube


fazer-se sujeito de história própria, sua marca insubstituível.
Indica referências materiais, quanto à gestão de bens e recursos,
interferência na natureza, produção pelo trabalho, legados
físicos de cidades, monumentos, objetos, bem como a marca da
presença no espaço, inclusive devastação da ambiente. Revela
igualmente referências imateriais, como são suas crenças,
histórias e estórias, valores, normas, língua própria. De outra
parte, indica não menos a identidade histórica, aquele modo de
ser que lhe é peculiar, burilado na trajetória passada e que se
constitui em recurso fundamental para fazer qualquer futuro.
Do ponto de vista da dinâmica não linear, a identidade flui, de
sorte que, para manter-se idêntica, tem que mudar (DEMO,
2002, p. 193).

4.4. Estrutura

Ao abordar-se a estrutura da cultura, pretende-se identificar o


suporte histórico mais estável da cultura, porque a própria dinâmica
64 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

tende a estruturar-se para proporcionar uma sobrevida aos novos


componentes incorporados. Neste horizonte, a própria ação
temporal produz a mudança, a tal ponto que a cultura e a história
são constantes modos de vir a ser. Sendo assim, para fins didático-
analíticos a estrutura da cultura pode ser entendida pelos traços,
pelos complexos, pelos padrões, pelas áreas e pela configuração cultural,
como ensina Lakatos (1978, p. 140).
Os traços culturais se referem aos menores componentes signi-
ficativos de uma cultura, que podem ser isolados estruturalmente e
que permitem a descrição da mesma. Pode ser um objeto (da cultura
material) ou uma conduta (da cultura não-material). São elementos
de caráter simples e unitário, considerados como átomos, mas que
caracterizam uma cultura. Atualmente, há a tendência de preferir o
termo elemento cultural.
Os complexos culturais são constituídos por um conjunto de tra-
ços ou um grupo de traços associados, formando um todo funcional.
Os cientistas sociais se referem aos complexos culturais como sendo
“instituições secundárias” e à medida que compõem padrões insti-
tucionalizados de comportamento – relações e papéis sociais – são
classificados como “instituições subsidiárias” (FICHTER, 1972, p.
324).

O complexo cultural é constituído, portanto, de um sistema


interligado, interdependente e harmônico, organizado em
torno de um foco de interesse central. Cada cultura engloba
um número grande e variável de complexos inter-relacionados.
Dessa maneira, o complexo cultural engloba todas as atividades
relacionadas com o traço cultural (MARCONI, 2001).

Os padrões culturais são constituídos por um conjunto


de complexos culturais. Algumas culturas dão mais valor a
determinadas concepções ou temas, que se refletem nos inúmeros
aspectos das atividades grupais, norteando suas instituições sociais
básicas: a família, a religião, a organização econômica, a política,
etc. Os interesses dominantes e objetivos mais permanentes dão
origem aos padrões culturais. A este nível há maior integração e
interrelação dos elementos, como unidades semiindependentes de
um todo.
Almiro Petry 65

Os indivíduos, através do processo de endoculturação, assimilam


os diferentes elementos da cultura e passam a agir de acordo
com os padrões estabelecidos pelo grupo ou sociedade. O
padrão cultural é, portanto, um comportamento generalizado,
estandardizado e regularizado; ele estabelece o que é aceitável ou
não na conduta de uma cultura. Nenhuma sociedade é totalmente
homogênea. Existem padrões de comportamento distintos para
homens e mulheres, para adultos e jovens. Quando os elementos
de uma sociedade pensam e agem como membros de um grupo,
expressam os padrões culturais do grupo. O comportamento do
indivíduo é influenciado pelos padrões da cultura em que vive.
Embora cada pessoa tenha caráter exclusivo, devido às próprias
experiências, os padrões culturais, de diferentes sociedades,
produzem tipos distintos de personalidades, característicos dos
membros dessas sociedades. O padrão forma-se pela repetição
contínua. Quando muitas pessoas, em dada sociedade, agem da
mesma forma ou modo, durante um largo período de tempo,
desenvolve-se um padrão (MARCONI, 2001).

As áreas culturais são espaços geográficos onde há semelhanças


em relação aos elementos, aos complexos e aos padrões culturais.
Portanto, em determinada região há uma relação com o espaço físico,
com a ocupação, a exploração econômica etc. que lhe dá a dominação
de certas características peculiares, distintas da cultura total.

A área cultural nem sempre corresponde às divisões geográfi-


cas, administrativas ou políticas. O conceito, que em princípio
referia-se mais à cultura material do que a outros aspectos, tor-
nou-se, com o passar do tempo, em face das pesquisas realiza-
das, mais abrangente. O estudo das áreas é importante para o
conhecimento de povos ágrafos ou para análise histórica das
tribos antigas, a fim de descobrir a origem e difusão de traços
culturais. É importante também para verificar as mudanças que
ocorrem na cultura (MARCONI, 2001).

As configurações culturais se definem pelos elementos


polarizadores que caracterizam cada parte da cultura; em suma, é
a integração de uma cultura com seus valores, seus símbolos e seus
objetivos permanentes que lhe dão a unidade.
66 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

A configuração cultural é uma qualidade específica que caracte-


riza uma cultura. Tem sua origem no inter-relacionamento de
suas partes. Desse modo, a cultura deve ser vista como um todo,
cujas partes estão de tal modo entrelaçados, que a mudança em
uma das partes afetará as demais. Ao estudar uma cultura, deve-
se ter visão conjunta de suas instituições, costumes, usos, meios
de transporte etc. que estejam influindo entre si (MARCONI,
2001).

4.5. Padrões comportamentais

Um padrão de comportamento pode ser conceituado como “a


uniformidade de agir e de pensar que se produz regularmente numa
pluralidade de pessoas” (FICHTER, 1972, p. 193). Por conseguinte,
para ser um padrão comportamental a ação deve se observável e
mensurável; ocorrer com frequência; ser compartilhado por muitos;
e ser portador de um significado social. Do padrão podem-se
destacar algumas características, alguns tipos e as variações.
As características medem-se pelos graus de significação e de
adesão: (a) pela universalidade: isto é, o maior ou menor grau de
conformidade e de adesão dos indivíduos daquela coletividade; (b)
pela pressão social: isto é, o grau em que a sociedade sanciona ou
não o comportamento em questão; (c) pela valorização social: isto
é, o grau de importância valorativa e simbólica que a sociedade lhe
atribui.
Os tipos definidos pelos cientistas sociais são três categorias
genéricas: mores, costumes e usos (folkways). (a) Os mores são catego-
rizados como comportamentos imperativos, isto é, obrigatórios e
considerados essenciais para a sociedade (são universais, de grande
importância social e implicam forte pressão social). São moralmente
sancionados e aprecem como normas reguladoras de toda a cultura.
Têm caráter ativo e seu controle pode ser consciente e inconsciente;
são sancionados pela tradição e sustentados pelas pressões da opi-
nião dos grupos, penetrando as relações sociais. A não conformida-
de com os mores provoca desaprovação moral. A reação do grupo é
violenta e séria, como no adultério, roubo, assassínio, incesto, aban-
Almiro Petry 67

dono do filho pela mãe etc. O desertor, o traidor e o estuprador são


repudiados pela sociedade e as sanções a eles aplicadas servem mais
como exemplo para os outros do que propriamente corrigenda para
eles (LAKATOS, 1978, p. 145). (b) Os costumes são muito difundidos,
no entanto, não são obrigatórios, mas tidos como desejáveis (podem
ser universais, mas o significado social é menor e a pressão social é
de menos importância). Eles estão amoldados em torno das tradi-
ções, reconhecidos e aceitos pela sociedade. Indicam o que é adequa-
do e socialmente correto. (c) Os usos são convenções que integram
as diferentes etiquetas da sociedade.
Entretanto, os diferentes padrões comportamentais podem
variar: (a) através dos tempos, acompanhando a dinamicidade
das mudanças que ocorrem na sociedade; (b) conforme o espaço
geográfico, integrando as especificidades das áreas culturais ou das
subculturas; (c) conforme as camadas sociais, pois cada camada, na
medida em que tiver consciência de seu prestígio e poder, estabelece
comportamentos para identificar a respectiva categoria social.
Assim sendo, os sociólogos constatam que os padrões
comportamentais estão estruturados nas instituições sociais e em
cada papel social; definem as diferentes relações sociais e estruturais
entre as pessoas e os papéis sociais; definem os principais processos
sociais e os tipos de interação social; configuram, no seu conjunto, a
estrutura social e a cultura de um povo.

5. A sociedade

As sociedades humanas são de uma extraordinária complexi-


dade e variedade. No entanto, apesar de haver componentes comuns
cada uma é única pelos padrões e regularidades do modus vivendi
criado e constituído historicamente em um sistema de símbolos pró-
prios. Caso fossem constituídas, unicamente, “pela herança genéti-
ca de seus membros” seriam menos diferenciadas, contudo, “como
combinam componentes biológicos, sociais, e culturais, são entida-
des incrivelmente complexas e variadas” (DEMO, 2002, p. 97).
68 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

As sociedades humanas portam alguns componentes básicos.


Demo (2002) aponta como sendo uma população; uma cultura
(sistema de símbolos e informação); os produtos materiais da
cultura; uma organização social; e um aparato de instituições sociais.
A integração e a interrelação dos mesmos dinamizam a sociedade
“pela polarização intrínseca de forças de continuidade (processos de
institucionalização) e de mudança (força evolucionária e histórica)”
(DEMO, 2002, p. 98).

5.1. Conceito

Donald Pierson (1900-1995) considera que a sociedade é “a


organização de pessoas ou grupo social autoconsciente, capazes de
agir, com referência a objetivos comuns, como se fossem uma só
pessoa” (PIERSON, apud: LAKATOS, 1978, p. 274). Para Joseph
Fichter (1908-1985) é uma “coletividade organizada de indivídu-
os que vivem juntos num território comum, cooperam em grupos
para satisfazer suas necessidades básicas, adotam uma cultura co-
mum e funcionam como uma unidade social distinta” (FICHTER,
1972, p. 167). Georg Simmel (1858-1918), por sua vez, pontifica,
nos primórdios da moderna criação sociológica, que “a sociedade é
um número de indivíduos ligados pela interação” (SIMMEL, apud:
CHINOY, 1972, p. 55). O antropólogo Ralf Linton (1893-1953)
considera que a sociedade “é qualquer grupo de pessoas que vive-
ram e trabalharam juntas o tempo suficiente para se organizarem e
pensarem em si mesmas como uma unidade social com limites bem
definidos” (LINTON, apud: CHINOY, 1972, p. 55).
Consequentemente, em sua acepção mais lata, a sociedade
refere-se ao fato básico da associação humana; e, no sentido restrito,
a sociedade inclui a relação social que se baseia no fato de que o
comportamento humano está orientado de inúmeras maneiras para
outras pessoas (a pessoa humana é um ser relacional).
Aceita-se que a relação social produz a interação, ação
modelada pela reciprocidade. Nesta perspectiva conceitual, pode-se
Almiro Petry 69

considerar que a sociedade humana é uma coletividade (pluralidade


de pessoas) na qual os seres humanos se relacionam, vivendo uma
vida em comum, em grupos interligados e justapostos com o intuito
da satisfação de suas necessidades.

5.2. Características

Na ótica formal de caracterizar a sociedade humana, Fichter


(1972, p. 166-7) apresenta, que: (a) os indivíduos constituem certa
unidade demográfica, podendo ser compreendidos como uma popu-
lação total; (b) ela se localiza em uma dada área geográfica que se
limita com outros espaços vitais, cujos limites físicos são as frontei-
ras de uma nação; (c) ela é constituída por grandes grupos que se
diferenciam entre si por sua função social – englobam as principais
instituições como também todos os grupos especializados que se
voltam à satisfação das necessidades dos componentes da sociedade
humana; (d) ela se compõe de grupos que têm uma cultura seme-
lhante – em geral há uma identidade de etnia, de língua ou de reli-
gião, no entanto, mesmo sem estes elementos, a semelhança cultural
pode residir no senso geral dos componentes da sociedade sobre os
“valores considerados supremos e últimos”; (e) ela deve ser possí-
vel de ser reconhecida como uma unidade interligada e funcionando
como um todo – mesmo que haja diferenciações internas, certo grau
de cooperação dará a visibilidade externa da configuração total; (f)
deve ser possível reconhecer a sociedade humana como uma unidade
social distinta e separada – podendo ser a separação física ou terri-
torial, com a preferência que esta distinção seja a sociocultural.

5.3. Funções

A sociedade humana desempenha certas funções que podem ser


categorizadas em gerais e específicas, como ensina Fichter (1972, p.
168).
70 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

As funções gerais são: (a) tornar possível as interações entre


os indivíduos e grupos – em virtude de ela reunir (e unir) seus
componentes no tempo e no espaço, condição e pré-requisito
necessários para o seu próprio funcionamento; (b) proporcionar
meios de comunicação – sistemáticos (e assistemáticos) e adequados
que se baseiam na linguagem e nos símbolos comuns; (c) desenvolver
padrões comuns de comportamento – que, compartilhados pelos
indivíduos, permitem um maior dinamismo nas relações sociais; (d)
proporcionar um sistema de estratificação (ou de igualdade) – no
que se refere ao status social (ou classes, ou estamentos, ou castas,
ou igualdade), possibilitando a cada indivíduo dispor de uma posição
relativamente estável, possível de ser reconhecida pelos demais na
estrutura da sociedade.
As funções específicas são: (a) renovar os membros (pela
reprodução) – isto é, dispor de uma forma ordenada de integrar
novos seres humanos na sociedade, através do sistema de parentesco
– por consanguinidade e afinidade (noivado, casamento, família
etc.); (b) socializar os novos membros – a sociedade cria um sistema
padronizado e organizado de desenvolver e instruir seus novos
componentes, através de um sistema educacional formal e informal;
(c) prover a economia – que engloba a produção, a distribuição e a
circulação de bens materiais e serviços necessários para a manutenção
e a sobrevivência dos indivíduos e da coletividade; (d) administrar
os bens públicos, englobando o campo político e o patrimônio da
coletividade – com vistas às necessidades fundamentais da ordem
interna e externa, como a segurança interna e externa, tanto dos
indivíduos quanto da coletividade; (e) proporcionar os espaços para
as expressões e manifestações religiosas – uma aparente necessidade
de adequação dos indivíduos a um nível transcendental e espiritual
através de grupos religiosos específicos; (f) proporcionar os tempos
e espaços de lazer e recreação – através de grupos e disposições
sistemáticas de oportunizar a satisfação das necessidades do
descanso, do lazer e da diversão dos componentes da sociedade.
Demo (2002) aborda esta perspectiva sob a ótica de modos de
ser acrescidos de modos de vir a ser da sociedade humana, na me-
dida em que ela é substancialmente dinâmica. Sob os modos de ser,
Almiro Petry 71

Demo coloca toda a institucionalização de processos sociais “por


meio dos quais o tempo é de certa forma, coagulado, retido, estendi-
do” (DEMO, 2002, p. 188); pelos modos de vir a ser o tempo se dilui
constantemente “em termos de evolução biológica e transformação
cultural” (idem, p. 188). Para tanto, argumenta que a sociedade hu-
mana é, em primeiro lugar, um “fenômeno dinâmico não linear” que
se move em “dois ritmos superpostos e intercalados: no ritmo evo-
lucionário, o tempo é mais lento e talvez mais profundo; no ritmo
cultural, o tempo é mais rápido, cada vez mais rápido e também
visível. É constante vir a ser” (idem, p. 188). Em segundo lugar, a so-
ciedade humana é um “fenômeno institucional, no qual se manifesta
como tempo de vida, não só como vida do tempo” (idem, p. 188) que
se expressa em regularidades e constâncias. Em terceiro lugar, há
uma “necessidade humana de segurança linear” que se concretiza na
rotina do cotidiano. Em decorrência, de modo geral, as pessoas “não
gostam de mudar”, apesar das constantes mudanças em processo.
“O novo sempre tem dupla face: pode ser oportunidade ou ameaça”
(idem, p. 190). Aderindo ou não, a sociedade muda de qualquer ma-
neira.

5.4. Estrutura social

O conceito de estrutura social que emergiu do pensamento soci-


al é o idealizado por Herbert Spencer de que a estrutura é “um corpo
organizado de partes mutuamente ligadas” e o social é configurado
pelas relações entre as pessoas. Assim, na estrutura social “as partes
são as relações entre as pessoas e o corpo organizado das partes
pode ser considerado coincidente com a sociedade como um todo”
(HEER, 1996, p. 276). Esta acepção traz como elemento importan-
te que a estrutura social tem certa permanência temporal e que ela
sobrevive, pelo consenso, aos indivíduos (estes nascem, crescem e
morrem; a sociedade continua). Karl Marx, por sua vez, opõe-se
diametralmente a esta visão ao doutrinar que cada forma de estru-
tura social é constituída pela coerção da classe dominante sobre as
subordinadas, residindo aí o conflito que necessariamente eclodiria
72 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

na luta de classes. No entanto, Marx acreditava que o conflito “de-


sapareceria depois da revolução proletária e do estabelecimento do
socialismo” (HEER, 1996, p. 277).
Há um consenso entre os teóricos sociais, tanto pelos defenso-
res do consenso – que têm como referência que há uma disposição
das partes e a interdependência das mesmas; quanto pelos defenso-
res da ótica do conflito – que visam à transformação da sociedade –,
de que, no decorrer do tempo, há mudanças na estrutura social, seja
pela evolução social ou pelos conflitos.
Para Octávio Ianni (1926-2004), a melhor maneira de compre-
ender a estrutura social é entender a “maneira pela qual os homens
se reproduzem socialmente. E a maneira pela qual os homens se
reproduzem socialmente está diretamente ligada ao modo pelo qual
eles organizam a produção econômica e o poder político” (IANNI,
1972, p. 11). Segundo este ponto de vista, a organização do modo
de produção econômica – e também a repartição do produto econô-
mico – é a base da estrutura social. A partir desta base, se organiza
a estrutura do poder político, que é “uma dimensão essencial da so-
ciedade”. Temos então como principal referência a organização das
estruturas de apropriação e de dominação da sociedade que agem e
reagem uma sobre a outra.
Nesta abordagem, se aceita em princípio, que a estrutura so-
cial é configurada pelas relações sociais mais estáveis dos indivíduos
entre si e dos indivíduos com as coisas materiais, relações interde-
pendentes e geradas historicamente na função social de produzir e
reproduzir as condições e os meios para a sobrevivência e bem-estar
dos indivíduos e da coletividade. Desta acepção, destacam-se: (a) o
relacionamento dos indivíduos com as coisas materiais, do qual re-
sulta uma forma histórica de produção, ou seja, um modo de pro-
dução e de repartição do produto econômico; os indivíduos, por sua
vez, diferenciam-se pela posse, em possuidores dos meios de pro-
dução e não possuidores com todas as relações e diferenciações daí
decorrentes; (b) o relacionamento dos indivíduos entre si, do qual
resulta uma forma histórica de estratificação social – que poderá ser
na forma de castas, estamentos ou classes (estruturação que depen-
de do exposto em [a]); (c) a criação da cultura não-material, impul-
Almiro Petry 73

sionada pelos valores e ideologia dominantes. Desta configuração


estrutural, flui uma ordem social – ou o conflito e a contestação – que
mantém coesas as partes constituintes desta estrutura – ou produz
a emancipação e a transformação.
Deste modo a estrutura social determina os níveis de vida social,
tanto dos indivíduos quanto da coletividade; o sistema econômico de
produção, distribuição e consumo; o regime político e a organização
do poder; as normas, leis e instituições necessárias à reprodução da
sociedade como um todo, ou à sua mudança.
No pensamento social do século XX, as duas posições perma-
neceram claras. O lado do consenso foi muito enfatizado por Émile
Durkheim, Alfred Radcliffe-Brown (1881-1995) e Talcott Parsons
(1902-1979) com a plêiade de seus seguidores. Já o lado do conflito,
defendido pelos seguidores do pensamento de Marx, com a expres-
são nas diferentes escolas, encontra, entretanto, o ponto de vista de
Ralf Dahrendorf (1929-2009), que enfatiza a presença do conflito
“tanto na sociedade capitalista quanto na socialista” (HEER, 1996,
p. 277), o que se confirmou com a queda do muro de Berlim e dos
regimes sustentados pelas doutrinas autoritárias, estatizantes e cen-
tralizadoras do poder.
Todavia, muitos teóricos sociais acreditam que a estrutura
social se baseia em parte no consenso e em parte na correção.
Neste paradigma se incluem, entre outros, Max Weber, Vilfredo
Pareto (1848-1923), Robert Merton (1910-2003) e uma plêiade de
adeptos. Merton introduz o conceito sociológico de disfunção (ou
função latente frente às manifestas) para expressar “que elementos da
estrutura social podem funcionar contra a manutenção dos outros”
(HEER, 1996, p. 277).
Gerth e Mills constroem sua concepção a partir das instituições
e consideram que elas formam a “armação básica” e a unidade
da estrutura social, na medida em que tentam compreender, por
um lado, a estrutura de caráter do indivíduo e, por outro lado, a
estrutura social que configura a sociedade humana. Eles entendem
que deste complexo de relações modela-se uma ordem institucional
que “consiste em todas aquelas instituições, dentro de uma estrutura
social, que têm consequências e fins similares, ou que servem a
74 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

funções objetivas semelhantes” (GERTH e MILLS, 1973, p. 39).


Assim, teríamos uma ordem familiar, uma ordem religiosa, uma
ordem econômica, uma ordem política e uma ordem militar.

Todas as ordens institucionais são caracterizadas por vários


aspectos da conduta social, sendo os mais importantes a
tecnologia, os símbolos, o status e a educação. Todas as ordens
podem ser caracterizadas pelos progressos tecnológicos, pelo
modo de falar, pelos seus símbolos peculiares, pela distribuição
do prestígio de seus membros e pela transmissão das
especializações e dos valores (GERTH e MILLS, 1973, p. 42).

Bourdieu enxerga nesta constituição um poder simbólico susten-


tado por um sistema de símbolos como estruturas estruturadas – ins-
trumentos de conhecimento e meios de comunicação – e estruturas
estruturantes – instrumentos de conhecimento e de construção do
mundo objetivo, que exercem “um poder estruturante porque são
estruturados. O poder simbólico é um poder de construção da rea-
lidade” como instrumento de dominação (BOURDIEU, 2000, p. 9).
Na perspectiva do paradigma funcionalista, os símbolos

[...] são os instrumentos por excelência da ‘integração social’:


enquanto instrumentos de conhecimento e de comunicação
[...], eles tornam possível o consensus acerca do mundo social
que contribui fundamentalmente para a reprodução da ordem
social: a integração ‘lógica’ é a condição da integração ‘moral’
(BOURDIEU, 2000, p. 10).

No paradigma marxista se “privilegia as funções políticas dos


‘sistemas simbólicos’ em detrimento da sua estrutura lógica e
da função gnoseológica” (BOURDIEU, 2000, p. 10). Sem dúvida,
o paradigma funcionalista “explica as produções simbólicas,
relacionando-as com os interesses da classe dominante”, que
contribuem com a “integração real da classe dominante” (idem, p. 10),
causando uma desmobilização das classes subalternas e uma falsa
consciência de integração, o que Weber chamou de “domesticação
dos dominados”, com vistas à legitimação da ordem estabelecida.
Almiro Petry 75

5.5. Tipos

Há várias maneiras de tipificar as sociedades humanas,


dependendo do critério classificatório escolhido, que poderá ser
pela escrita, pelo sistema de produção, pelo grupo dominante,
pela complexidade da organização social, etc. No entanto, há uma
convergência entre os sociólogos, apesar dos diferentes enfoques
teóricos, que a diferença mais importante, pela qual se distinguem
as sociedades humanas, é a cultura própria. Os traços culturais
próprios estão intimamente associados ao desenvolvimento da
sociedade. “O nível de cultura material atingido numa dada sociedade
influencia, embora não determine completamente, outros aspectos
do desenvolvimento cultural” (GIDDENS, 2005, p. 45), na medida
em que a cultura não-material dá sentido e significado à cultura
material.
Tentaremos apresentar dois modos classificatórios, com ênfase
em um ou outro critério, quais sejam: as tecnologias de subsistência
e a organização social.

5.5.1. Tecnologias de subsistência

Demo (2002) chama a atenção de que definir tipos de sociedades


humanas significa “descobrir padrões e regularidades no mundo que
habitamos” e ele os busca nas tecnologias de subsistência10, tendo como
referência a obra de Lenski e Lenski11.

Seguindo essa orientação reducionista, os autores divisam os


seguintes tipos de sociedades humanas: caçadores e coletores;
horticultura simples; horticultura avançada; agrárias simples;
agrárias avançadas; pescadores, pastoris; marítimas; pastoris
simples; pastoris avançadas; e industriais. As sociedades de

10
O próprio autor alerta sobre o risco de destacar um critério (reducionismo),
ainda mais este que na versão marxista recebe a denominação de modo de produção.
11
LENSKI, C. e LENSKI, J. Human societies: an introduction to macrosociol-
ogy. New York: McGraw-Hill, 1987.
76 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

pescadores, pastoris e marítimas ocupam lugar à parte, porque


estariam vinculadas a referências ambientalmente muito
especializadas. A relação com o meio é sempre marcante, e
chega a constar como condicionante tão fundamental quanto
as tecnologias de subsistência. De certo modo, o esquema
taxionômico se enriquece visivelmente: do ponto de vista
interno das sociedades, o critério distintivo são suas tecnologias
de subsistência; do ponto de vista externo, a pressão do meio
aparece como desafio maior (DEMO, 2002, p. 103).

Por conseguinte, em grande parte, a história da trajetória hu-


mana teve “relativa uniformidade cultural e social” nos últimos doze
mil anos. Entretanto, o homo sapiens emergiu por volta de cem mil
anos atrás e a organização das sociedades de caçadores e coletores
de quarenta mil a sete mil a.C. Para uma melhor compreensão, os
autores periodizam esta história em eras. Teríamos:

[...] era da caça e coleta, das origens até sete mil a.C.; era da
horticultura, de sete mil a três mil a.C.; era agrária, de três mil
a.C. até 1800 d.C.; era industrial, desde 1800 d.C. até hoje. Nesse
percurso, tornou-se patente o declínio das sociedades menos
avançadas, reforçando a expectativa analítica da capacidade de
inovação (DEMO, 2002, p. 103).

Demo (2002), por sua vez, classifica as sociedades humanas em


dois grandes momentos: as pré-industriais e as industriais. Giddens
(2005) recorre ao critério classificatório da modernidade, ou seja, as
sociedades pré-modernas (pré-industriais) e as modernas (industriais).
Um olhar breve sobre cada categoria.

5.5.1.1. Sociedades pré-industriais

A história da trajetória humana envolve a herança genética,


catalogada a partir da emergência do homo sapiens, e que com
a evolução do cérebro, ele desenvolveu a capacidade de estocar
informações para além dos genes, juntamente com a habilidade
de aprender, atributos exclusivamente humanos que criam
comportamentos, informações e conhecimentos.
Almiro Petry 77

5.5.1.1.1. Sociedades caçadoras e coletoras

Os seres humanos viveram por um período muito longo da


caça, da pesca e da coleta de plantas, frutas e raízes. Estas culturas
continuam a existir em algumas partes do Planeta12. No entanto,

[...] a maioria das culturas caçadoras e coletoras foi destruída


ou absorvida pela expansão da cultura ocidental e as culturas
que permanecem provavelmente não ficarão intactas por muito
tempo. Atualmente, menos de um quarto de um milhão de
pessoas no mundo sustenta-se da caça e da coleta – somente
0,001% da população mundial (GIDDENS, 2005, p. 45).

Nestas sociedades há, em geral, poucas desigualdades,


diferentemente das modernas sociedades industriais. Os caçadores
e coletores buscam suprir suas necessidades básicas, em vez de
acumular bens e riquezas materiais.

Normalmente, suas preocupações principais são com valores


religiosos e atividades cerimoniais e rituais. Os produtos
materiais que eles precisam são armas de caça, instrumentos
para escavar e construir, armadilhas e utensílios domésticos.
Assim, há pouca diferença entre os membros da sociedade
quanto ao número ou aos tipos de posses materiais – não há
divisão entre ricos e pobres. As diferenças de posição ou
categorias tendem a ser limitadas à idade e ao sexo; os homens
são quase sempre os caçadores, enquanto as mulheres coletam
os frutos silvestres, cozinham e criam os filhos. Essa divisão do
trabalho entre homens e mulheres, contudo, é muito importante:
os homens tendem a dominar as posições públicas e cerimoniais
(GIDDENS, 2005, p. 45).

Os caçadores e coletores apresentam traços culturais que


não podem ser atribuídos “à via genética”, como ritos, cerimônias,
proliferação e melhoria das armas, desenvolvimento de expressões
artísticas, etc., que são criações culturais de uma capacidade

12
Os bosquímanos (África do Sul, deserto de Kalahari) continuam sendo caçadores-
coletores e representam, atualmente, a mais antiga linhagem conhecida.
78 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

simbólica exclusiva da espécie humana. A eles acrescem os


valores de parentesco, como fator organizacional; a emergência da
organização política, como definição do poder, que cresce com o
avanço tecnológico; normas e valores que regulam a vida social. A
religião assume papel de relevância na busca “por explicações para
o mundo e a vida” (DEMO, 2002, p. 104).
Cabe acentuar que estas sociedades não podem ser vistas
como meramente primitivas, pois a ausência de determinadas
características negativas são “advertências instrutivas de que o
mundo criado pela civilização industrial moderna não deve ser
necessariamente igualado ao ‘progresso’” (GIDDENS, 2005, p. 45).

5.5.1.1.2. Sociedades pastoris e agrárias

Há vinte séculos, aproximadamente, grupos de caçadores


e coletores se desmembraram e iniciaram a criação de animais
domésticos e o cultivo da terra no desiderato de seu sustento,
ocorrendo também a organização mista de economias pastoris e
agrárias13.

Dependendo do ambiente em que vivem, os pastoralistas criam


e arrebanham animais como gado, ovelhas, cabras, camelos ou
cavalos. Muitas sociedades pastoris ainda existem no mundo
moderno [...]. Essas sociedades são normalmente encontradas
em regiões em que não há densas pastagens, nos desertos ou
nas montanhas. Essas regiões não são propícias à agricultura
produtiva, mas podem sustentar vários tipos de rebanhos. As
sociedades pastoris normalmente migram entre áreas diferentes
conforme as mudanças sazonais. Devido a seus hábitos nômades,
as pessoas, nas sociedades pastoris, normalmente não acumulam
muitas posses materiais, embora sua forma de vida seja mais
complexa em termos materiais do que a dos caçadores e dos
coletores (GIDDENS, 2005, p. 45).

13
O povo bantu (os bantos) da África do Sul mantém a tradição agrária mais
antiga conhecida.
Almiro Petry 79

Pela escassez natural de recursos para o pastoreio, inicia-se a


prática de cultivar a terra que conta com inovações tecnológicas
importantes. De uma etapa chamada de “horticultura” parte-se para
a intervenção no solo, para dele extrair o suprimento alimentar no
sustento das emergentes “comunidades urbanas”. Inventos como a
roda, o arado, a tração animal, o uso da força eólica para a navega-
ção, a escrita, a notação numérica, o calendário etc. foram vitais na
formação de um excedente econômico e uma forma mais complexa
de organização social. Ocorre um “entrelaçamento” entre religião e
economia; há uma emergência de religiões universais, supranacio-
nais e monoteístas. No campo político, cresce o Estado e a classe go-
vernante. A estratificação social se torna mais complexa (sendo as
classes governantes e as grandes massas as principais). Pelo avanço
tecnológico o ferro passa a ser o material das ferramentas de traba-
lho e das armas de guerra, etc.
Nesta era se desenvolveram grandes civilizações que utilizavam
a escrita, com grande florescimento das artes e da ciência.

As primeiras civilizações desenvolveram-se no Oriente Médio,


comumente em áreas fluviais férteis. O império chinês originou-
se cerca de 2000 anos a.C., quando estados poderosos foram
também fundados onde hoje são a Índia e o Paquistão. Um
número de grandes civilizações existia no México e na América
Latina, como os astecas do México, os maias da Península de
Yucatan e os incas do Peru.
A maioria das civilizações tradicionais também foram impérios;
atingiram sua grandeza por meio da conquista e da incorpora-
ção de outros povos. Isso foi verdadeiro, por exemplo, na China
e Roma tradicionais. No seu auge, no primeiro século da era
cristã, o Império Romano expandia-se da Grã-Bretanha, no no-
roeste da Europa, até o Oriente Médio. O império chinês, que
durou mais de 2 mil anos, até o limiar do século atual, cobriu a
maior parte da região massiva do leste da Ásia, hoje ocupada
pela China moderna (GIDDENS, 2005, p. 47).
80 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

5.5.1.2. Sociedades industriais

É provável que a revolução industrial tenha “destruído” as


tecnologias de subsistência vigentes, durante tantos milênios, nas
diferentes formas societárias, sobrevivendo algumas, precariamente.
Ela provoca uma rápida mudança social e cultural, tendo como ponto
de partida a transformação dos meios de produção, “a ponto de
multiplicar indefinidamente o excedente econômico e ampliar o espaço
de mercado. Este passava a regulador central da sociedade, ao mesmo
tempo em que valorizava as sociedades dedicadas ao trabalho
produtivo e o espoliava sob as formas mais vis” (DEMO,2002, p.
118).
 A forma industrial “refere-se ao surgimento da produção
mecânica, baseada no uso de fontes de energia inanimadas (como o
vapor e a eletricidade)” (GIDDENS, 2005, p. 47), que configurou uma
nova sociedade completamente diferente de qualquer ordem social
anterior. As prováveis causas desta grande transformação estão no
avanço tecnológico (acumulação de informação, de conhecimento e
de capital na sociedade agrária); nos avanços no transporte fluvial e
marítimo e a descoberta do Novo Mundo (navegação e indústria naval
crescem; a descoberta da bússola; metais preciosos, etc.); na imprensa
e dispersão da informação (Gutemberg e Lutero alargam o acesso à
informação, etc.); e os avanços na agricultura (DEMO, 2002, p.118-
120).
A revolução industrial passa pelo estoque crescente da informa-
ção tecnológica que encontrou sua alavancagem na introdução das
fontes energéticas inanimadas (em substituição às animadas – seres
humanos e animais), avançando por diversas fases.

A primeira fase restringe-se aos 100 anos a partir da metade


do século XVIII, e tem como centro a Inglaterra, pois detinha
a maioria das inovações na indústria têxtil, e como resultado
máquinas que melhoraram a eficiência do trabalho humano e
uso de novas fontes de energia. [...]. A segunda fase começou nas
décadas intermediárias do século XIX, com a expansão rápida na
indústria têxtil, ferro e carvão, surgindo outras oportunidades,
com destaque para máquinas a vapor para transporte [...]
e a Inglaterra emergiu como mercado gigante. Proliferam
Almiro Petry 81

as estradas de ferro, enquanto novas indústrias aparecem,


ocasionando a empresa multidivisional com sua hierarquia de
managers  assalariados, até chegar à ‘corporação’. A terceira fase é
sinalizada por avanços na tecnologia de energia, na entrada do
século XX, e tem como signo central o automóvel, ao lado da
indústria elétrica. A quarta fase delineia-se depois da Segunda
Guerra Mundial, sobressaindo a indústria de novos materiais
como plástico, indústria nuclear e eletrônica, em particular o
computador. Começa o declínio da Inglaterra, e a passagem
da hegemonia para os Estados Unidos. Essa mudança, porém,
muda apenas de país, não de ‘cultura produtiva’, arraigamento
liberal capitalista. A situação é marcada por novas fontes de
energia, novas máquinas, novos materiais, e, não por último,
por empresas multinacionais, hoje globalizadas e mais fortes,
muitas vezes, que muitas nações (DEMO,2002, p. 120-121).

Assim, em suma, no plano tecnológico a rápida inovação au-


menta a produtividade em todos os setores. No plano ideológico,
avança o progresso científico e a cultura universitária, provocan-
do constantes questionamentos dos valores e crenças em especial
dos voltados para a intelecção da natureza e da sociedade, que afeta
as formas de governo, etc.; no plano econômico, as produções se
concentram nas cidades, a demanda por mão-de-obra qualificada é
constante, o mercado se globaliza sob a doutrina neoliberal, for-
mam-se os grandes aglomerados e o mercado se impõe “como a ra-
zão de ser da sociedade humana”. No plano político, cresce a tendên-
cia do modelo da democracia liberal representativa (em detrimento
da democracia social) que provocou a queda do socialismo e, sob o
domínio do “consenso de Washington”, retrai-se o welfare state, etc.;
no plano demográfico, o crescimento populacional se torna assus-
tador em função da melhoria das condições de saúde, aumentando
a longevidade e diminuindo as taxas de mortalidade. No plano da
estratificação social, as classes médias assumem cada vez mais o pa-
pel de destaque, ao menos nos países mais avançados e centrais, ape-
sar de nos periféricos as acentuadas desigualdades predominarem,
a pobreza e a miséria serem uma constante histórica. No plano do
parentesco, os papéis e as funções da família tradicional, bem como
suas instituições mantenentes, se transformaram radicalmente e no-
vos caminhos estão sendo trilhados (DEMO, 2002, p. 122-125).
82 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Em perspectiva teórica, o horizonte primeiro a ser destacado


é a ambiguidade do progresso tecnológico, que coloca dúvidas
sobre o crescimento econômico, o qual, ao acumular quantidades
extraordinárias de bens e recursos, continua divorciado de sua
redistribuição. É inegável o avanço tecnológico e seu impacto
sobre a sociedade e a economia, mas seu sentido predatório
salta aos olhos e ofusca suas potencialidades sociais. Em
segundo lugar, as sociedades industriais, ainda mais que
outras anteriores, movem-se pela via da inovação tecnológica,
cujo ritmo está tornando-se exponencial, em particular com
a era eletrônica. Preservam, assim mesmo, traços e tendência
anteriores, em particular o processo de complexificação e
queda na desigualdade, embora essa perspectiva seja demais
etnocêntrica. Pela primeira vez, o meio biofísico passa a correr
risco, tornando incerto o futuro das novas gerações, ainda que
o leque de opções ideológicas, em termos políticos, possa ter se
alargado (DEMO, 2002, p. 125).

Para se ter uma ideia do macro processo de mudanças ocorridas


na humanidade, Giddens (2005) apresenta a seguinte comparação:

[...] os seres humanos existem na Terra há mais ou menos meio


milhão de anos. A agricultura, base necessária para povoações
fixas, existe apenas há mais ou menos 12 mil anos. As civilizações
datam de não mais de 6 mil anos. Se toda a existência humana
tivesse a duração de um dia, a agricultura teria surgido às 23
horas e 56 minutos, e as civilizações, às 23 horas e 57 minutos.
O desenvolvimento das sociedades modernas iniciaria apenas
às 23 horas, 59 minutos e 30 segundos! Mas talvez nos últimos
30 segundos do dia da jornada humana tenham ocorrido tantas
mudanças quanto em todo o tempo decorrido até esse momento
(GIDDENS, 2005, p. 53).

Vivemos em sociedades radicalmente diferentes daquelas


que marcaram o passado da trajetória humana. A modernidade
demonstrou que todo dia é um novo dia, um novo instante, um
novo tempo. O nosso tempo histórico é caracterizado pela mudança
de uma época e não apenas uma época de mudanças, como ensina
Xavier Gorostiaga (1937-2003).
Almiro Petry 83

5.5.2. Organização social

Tendo as funções e as características da sociedade como


referências, Fichter (1972, p. 172-3) apresenta dois tipos, baseado na
tipologia de F. Tönnies: comunitária (gemeinschaftlich) e societária
(gesellschaftlich).
Os conceitos de Gemeinschaft e de Gesellschaft, apresentados
por Tönnies, são fundamentais. Para ele, Gesellschaft (gesellschaftlich
= societário), ou seja, sociedade é uma representação de “um tipo
especial de relação humana caracterizada por um alto grau de
individualismo, impessoalidade, contratualismo, procedentes do
desejo ou de puro interesse, mais do que dos complexos estados
afetivos, hábitos e tradições subjacentes na Gemeinschaft”.
A sociedade se caracteriza mais pela forma de união ou de
associação como expressão da moderna sociedade urbano-industrial.
É a construção artificial “de um agregado de seres humanos que
se parece superficialmente como a Gemeinschaft, na medida em que
as pessoas coabitam e vivam em paz”. As ações são individuais e
isoladas, em situação de tensão contra os outros, apesar dos fatores
unificadores.
Por outro lado, Gemeinschaft (gemeinschaftlich = comunitário),
ou seja, a comunidade se configura por um tipo de relação humana
“baseado no parentesco, na vizinhança e na amizade fundamentada
no trabalho comum e na crença comum”. As pessoas coabitam e
vivem em paz, permanecendo essencialmente unidas, apesar de
todos os fatores dissociantes.
Nesta perspectiva, Weber estabeleceu uma distinção
fundamental entre o relacionamento comunal e o de associação. O
relacionamento comunal é aquele que se baseia em sentimentos
subjetivos de pertença mútua, isto é, uma relação de solidariedade.
A relação associativa apoia-se no ajuste de interesses motivado
relacionalmente. Para Weber, ambos podem estar presentes em uma
estrutura social, podendo uma evoluir para a outra, dependendo da
duração da relação social.
84 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Também para Durkheim, o conceito de comunidade pode ser


entendido a partir da estrutura social na qual “a moralidade, a lei, o
contrato, a religião e a natureza da mente humana adquirem nova
dimensão”. Nessa relação social é que se gera a consciência coletiva,
formando um conjunto de “crenças e sentimentos comuns”.
Frente á evolução das sociedades humanas, Durkheim distingue
dois tipos de solidariedade: a mecânica e a orgânica. A mecânica está
baseada na homogeneidade moral e social que se assegura através
do processo da socialização. Nela há um domínio da tradição,
subordinação do indivíduo à consciência coletiva e a ausência do
individualismo. A orgânica baseia-se na divisão do trabalho que
aprece com as mudanças e inovações tecnológicas. A ordem social
apoia-se na articulação orgânica de indivíduos livres e empenhados
em funções diferentes. Na perspectiva sociológica e na visão clássica,
a comunidade era concebida em oposição à sociedade, com ênfase nos
contatos primários opostos aos secundários.
Para Tönnies/Fichter os seguintes elementos caracterizam
cada tipo.

5.5.2.1. Comunitária

(a) Há uma limitada divisão do trabalho o que exige pouca


especialização – é pré-industrial, sendo ocupações básicas:
caça, pesca, atividades extrativas, agricultura e criação de
gado. As funções remuneradas apresentam características de
homogeneidade, isto é, são pouco diversificadas e a família
constitui-se em uma unidade econômica em cujo seio se realiza
a maioria das funções subsidiárias de manutenção.
(b) A família é o centro de quase toda a atividade social – os laços
de parentesco são mais fortes nas relações organizativas.
(c) Ela é relativamente pouco estratificada – normalmente as
diferenciações são baseadas em idade, sexo e função na sociedade
e a maioria destas sociedades apresenta também autoridade e
direção, porém, além, desses elementos, poucos são os status
diferenciados.
Almiro Petry 85

(d) Há um baixo grau de mobilidade social – em geral, a sociedade


é considerada fechada: os status têm tendência a serem fixos e
relativamente permanentes, sendo distribuídos pelo sistema de
parentesco.
(e) A solidariedade social é relativamente acentuada (Durkheim a
classificou de mecânica) – devido à sua composição homogênea
e ao fato de as funções sociais não serem especializadas, os
componentes da sociedade cooperam com mais facilidade no
desempenho das mesmas.
(f) a mudança social é mínima – a sociedade tradicional opõe-
se à inovações e apega-se a valores tradicionais, passando os
padrões de comportamento de geração a geração e com pouca
variação.
(g) Os costumes não-formais predominam sobre as leis formais
– o que não significa, em absoluto, que o costume seja menos
severo do que a lei.
(h) Ela é relativamente pequena em número, tem pouco contato
com o mundo exterior e goza de grande estabilidade –
característica praticamente fundamental e que, em sim mesma,
origina as outras características.

5.5.2.2. Societária

(a) Há uma acentuada divisão do trabalho, o que exige constantes


especializações – é industrial, sendo as ocupações básicas no
setor industrial e no de serviços. As funções remuneradas
apresentam características de heterogeneidade, isto é, são
bastante diversificadas e a família nuclear constitui-se em
uma unidade econômica de consumo e de bem-estar de seus
membros.
(b) A família perde a centralidade das atividades sociais – os laços
de parentesco se fragilizam e se tornam pouco relevantes (
mesmo que sobrevivam formas de nepotismo).
(c) Ela é bastante estratificada – normalmente as diferenciações
são baseadas na ocupação, na riqueza e bens materiais, tendo
86 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

a idade e sexo pouca relevância e a maioria destas sociedades


apresentam a autoridade e direção em moldes democráticos.
(d) Há a possibilidade de uma constante mobilidade social – em
geral, a sociedade é considerada aberta, oportunizando aos
indivíduos ações de livre iniciativa: os status são conquistados e
o sistema de parentesco é irrelevante (mesmo que sobrevivam
formas de status atribuído).
(e) A solidariedade social é de menor intensidade, prevalecendo o
individualismo (Durkheim a classificou de orgânica) – devido
á sua composição heterogênea e ao fato de as funções sociais
serem especializadas, os componentes da sociedade cooperam
de forma complementar, pois acreditam que a “ajuda” compete
ao Estado.
(f) A mudança social é rápida e constante – a sociedade industrial
fomenta as inovações e suscita novos valores, substituindo os
tradicionais, os padrões de comportamento emergem de cada
geração, com acentuada variação.
(g) Os costumes formais predominam sobre os tradicionais – ela
se rege pela formalidade dos contratos e do espírito da lei. A
força da lei está nas penalidades previstas e na sua aplicação.
(h) Ela é numericamente grande (sociedades de massa), tem
constante contato com o mundo exterior o que lhe confere a
característica da mudança, a característica fundamental e que,
em si mesma, direciona as outras características.

5.6. Categorias, agregados e grupos

Na leitura a que se procede da sociedade humana pode-se


desenvolver vários olhares a partir de posicionamentos assumidos.
Em geral, uma ótica mais formal ajuda a identificar, caracterizar e
conceituar a terminologia, bem como paradigmatizar a metodologia
e a epistemologia. Estas, por sua vez, pressupõem escolhas teóricas,
como mostra Bachelard. Para ele
Almiro Petry 87

[...] a epistemologia distingue-se de uma metodologia abstrata


por se esforçar em apreender a lógica do erro para construir
a lógica da descoberta da verdade como polêmica contra o
erro e como esforço para submeter as verdades próximas da
ciência e os métodos que ela utiliza a uma retificação metódica e
permanente. [...] O sociólogo pode encontrar um instrumento
privilegiado da vigilância epistemológica na sociologia do
conhecimento, meio de aumentar e dar maior precisão ao
conhecimento do erro e das condições que o tornam possível
e, por vezes, inevitável (BACHELARD, apud: BOURDIEU,
CHAMBOREDON e PASSERON, 2005, p. 12).

Os recursos da epistemologia e da metodologia são, para não se


iludir com as aparências, risco constante ao qual o sociólogo poderá
incorrer.

5.6.1. Categorias sociais

Considera-se uma categoria toda e qualquer pluralidade de


indivíduos que tiver uma ou mais características comuns (ex.: sexo,
idade, estado civil, naturalidade, profissão, etc. – já padronizadas
e em geral, censitárias). A questão crítica reside na construção
da característica para que seja “reveladora”, em substituição às já
“padronizadas”, na medida em que a sociedade é dinâmica e em
contínua mudança. “Toda taxinomia implica uma teoria; opera-
se necessariamente uma divisão inconsciente de suas escolhas
em função de uma teoria inconsciente, isto é, quase sempre uma
ideologia” (BOURDIEU, CHAMBOREDON e PASSERON, 2005,
p. 61). Assim sendo, a(s) característica(s) transformada(s) em
variável (eis) analítica(s) necessita(m) relacionar-se com o sistema
social para revelar sua eficácia nos panoramas, tanto sincrônico
quanto diacrônico.
As principais categorias estudadas pela sociologia são as
que implicam valores sociais, econômicos, políticos, educacionais,
ocupacionais; incluem-se, ainda, as categorias de parentesco, de
religião, de fatores biológicos, etc. Ressalta-se que a escolha das
88 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

variáveis e sua relevância, dependem da construção do objeto e não


de categorias já constituídas e homogeneizadas.
Os indivíduos portadores da(s) mesma(s) característica(s), por
pertencerem à mesma categoria social, podem formar grupos ou
estarem em agregados. Talvez o exemplo das classes sociais seja o
mais apropriado, na medida em que elas podem ser classes em si ou
para si (pressupõem a consciência de classe).
Ao lado das categorias sociais, que são construções mentais ba-
seadas nos fatos, encontram-se os estereótipos, que são construções
mentais falsas; imagens e ideias de conteúdo alógico, que estabele-
cem critérios socialmente falsificados. A(s) característica(s) exis-
te(m), entretanto, as rotulações formuladas a partir da(s) caracterís-
tica(s) se apresentam como caricaturas. O relacionamento social “é
mediado por interpretações que se desenvolvem e interatuam, e que
ostentam as marcas dos participantes. [...] A vida está baseada em
rótulos rudimentares e pontos” (ROCK, 1996, p. 676).
O estereótipo é uma transgressão social baseada na intolerância
e a reação a ele configura uma “organização simbólica e identidade
pública”.

A maioria dos transgressores consegue escapar às atenções.


Contudo, mesmo quando passam despercebidos ou são tolera-
dos, ainda farão conjecturas acerca do significado de suas ações
e de si mesmos, recorrendo a tipificações públicas mais amplas
de conduta e formulando intenções em trocas com cúmplices,
amigos, parentes e vítimas. A transgressão foi comparada ao
comportamento cujo roteiro foi elaborado em interação (ROCK,
1996, p. 676).

O estereótipo, como estigma se pereniza na sociedade, tanto para
os indivíduos portadores da característica quanto para os grupos
a que pertencem e se estende para além dos ambientes em que tais
pessoas vivem. Em geral, ao estereótipo se associa o preconceito que
conduz à discriminação em formas sutis ou manifestas.
Almiro Petry 89

5.6.2. Agregados sociais

O agregado social é um aglomerado de pessoas, com


proximidade física, mas com o mínimo de comunicação e relação
social. A sociedade moderna é um exemplo de inúmeros agregados
e ela tende a se massificar ainda mais.
Para Fichter (1972), os agregados se caracterizam: pelo ano-
nimato – as pessoas que o integram não querem ser identificadas e
preferem não se relacionar com outros; não há uma organização for-
mal – a junção ou justaposição se mantém enquanto houver algum
foco de atração, mesmo que momentaneamente surja alguma lide-
rança (portador de cartaz, locutor com megafone, etc.); o contato
social entre os participantes é limitado, na medida em que prevalece
o anonimato, pois, a movimentação é por uma ação coletiva; a in-
serção em agregados acaba influenciando muito pouco o comporta-
mento das pessoas, a não ser que ocorra uma insistente recorrência,
o que poderá afetar a imagem que a pessoa constrói a seu respeito;
o agregado sempre está limitado territorialmente, é a ocupação de
um espaço físico no qual ocorre a respectiva manifestação e, termi-
nado o ato em si, ocorre a dissolução; os agregados são de reduzida
temporalidade, sendo alguns, mais estáveis como os residenciais e
os funcionais.
Os principais agregados são as manifestações públicas – passe-
atas de protesto e de apoio a uma causa, desfiles, etc.; os agregados
residenciais, nas modernas metrópoles, são cada vez mais verticais;
os agregados funcionais – escolas, igrejas, delegacias, locais de tra-
balho, etc.; e os diferentes tipos de multidão. As multidões podem
evoluir para movimentos de protesto e de reivindicação, como já
sinalizava Max Weber.
Michael Hardt e Antonio Negri (2005) apresentam a
multidão como a alternativa viva de um novo sujeito social que se
vem constituindo dentro do império – o “poder em rede”, a nova
soberania imperial, que “domina uma ordem global”. A multidão “é
múltipla” e se distingue de povo – uma concepção unitária; de massa
– não reduzível a uma unidade ou identidade, com a característica
90 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

fundamental da indiferença; e da classe operária – que se refere a todos


os trabalhadores assalariados.

A multidão, em contrapartida, é um conceito aberto e abrangen-


te que tenta apreender a importância das recentes mudanças na
economia global: por um lado, a classe operária industrial já não
desempenha um papel hegemônico na economia global, embora
quantitativamente não tenha diminuído em escala planetária;
por outro lado, hoje em dia, a produção já não pode ser concebi-
da apenas em termos econômicos, devendo ser encarada de ma-
neira mais ampla como produção social – não apenas a produção
de bens materiais, mas também a produção de comunicações,
relações e formas de vida. A multidão, assim, compõe-se po-
tencialmente de todas as diferentes configurações da produção
social. Mais uma vez, uma rede distributiva como a Internet
constitui uma boa imagem de base ou modelo para a multidão,
pois, em primeiro lugar, os vários pontos nodais se mantêm di-
ferentes, mas estão todos conectados na rede, e, além disso, as
fronteiras externas da rede são de tal forma abertas que novos
pontos nodais e novas relações podem estar sendo constante-
mente acrescentados. (HARDT e NEGRI, 2005, p. 13-14).

5.6.3. Grupos sociais

Para Bottomore, “um grupo social pode ser definido como um


agregado de seres humanos no qual (1) existem relações específicas
entre os indivíduos que o compreendem e (2) cada indivíduo tem
consciência do próprio grupo e de seus símbolos” (BOTTOMORE,
1996, p. 344). É um atributo do ser humano viver em grupos, na
medida em que é relacional. Já para Fichter (1972), o grupo social
é “uma coletividade identificável, estruturada, contínua, de pessoas
sociais que desempenham papéis recíprocos, segundo determinadas
normas, interesses e valores sociais para a consecução de objetivos
comuns” (FICHTER, 1972, p. 140). Bottomore ressalta que um
grupo, no mínimo, deve ter uma estrutura, uma organização e uma
base psicológica na consciência de seus membros.
Almiro Petry 91

Bottomore (1996) traz três tipos de agrupamentos: (1) os


mais amplos – uma tribo, uma nação, etc. – que os sociólogos
concebem como “sociedades inclusivas”; (2) os menores – os
diferentes agrupamentos que se formam dentro dos mais amplos; e,
(3) os “quase grupos” – categoria “caracterizada por relações mais
tênues entre os membros, menor consciência de grupo e talvez
uma existência fugaz, indicando, como exemplos desse fenômeno,
multidões ou turbas, agregados por idade ou sexo e classes sociais”
(BOTTOMORE, 1996, p. 344).
A formação dos grupos ocorre de várias maneiras: por aceita-
ção voluntária de participar; por indicação, nomeação ou designa-
ção; por eleição; por qualificação profissional do indivíduo ou por
contrato; por conscrição e coerção. Por conseguinte, os grupos so-
ciais apresentam uma diversidade entre si, tanto na forma de re-
crutamento quanto na organização, na finalidade e nos objetivos.
Acredita-se que a forma por adesão ou por inclusão definirá o nível
de envolvimento e participação do indivíduo no grupo.
De modo geral, os grupos sociais apresentam as seguintes ca-
racterísticas: há uma identidade social, há uma estrutura interna, os
participantes exercem papéis sociais, as relações são recíprocas, há
normas comportamentais (com alguns ritos), há valores e interesses
comuns, há uma finalidade grupal e a união é relativamente estável
e permanente.
Em sentido estrito, a concepção de Tönnies exerceu influência
considerável sobre o pensamento social e estabeleceu “uma ampla
distinção entre dois tipos de grupo, Gemeinschaft (comunidade) e
Gesellschaft (sociedade ou associação), em termos de natureza da
relação entre os membros” (BOTTOMORE, 1996, p. 345). Nesta
visão, Charles Cooley (1864-1929) formula a tipologia de grupos
primários e grupos secundários, numa aproximação sociopsicológica
na compreensão da sociedade.
Nos estudos posteriores aos de Tönnies, cabe destacar (1) os de
George Homans (1910-1989), sociólogo behaviorista que estabelece
um modelo clássico de análise da dinâmica das trocas em pequenos
grupos; (2) as pesquisas sociométricas (pelo sociodrama e psicotera-
pia de grupo) de Jacob Moreno (1889-1974), estudos voltados para
92 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

as relações interpessoais; (3) os estudos da “pequena comunidade”


de Robert Redfield (1897-1958) em que ele dá relevância às relações
que existem entre pequenos grupos e a sociedade mais ampla em
que estão inseridos; (4) a tipologia elaborada por Georges Gurvit-
ch (1894-1965) com a proposta de quinze critérios classificatórios:
conteúdo, tamanho, duração, ritmo, proximidade dos membros, base
de formação (voluntária ou não), acesso (aberto, fechado), grau de
organização, função, orientação, relação com a sociedade inclusiva,
relação com outros grupos, tipo de controle social, tipo de autori-
dade, grau de unidade. “Isso leva em conta todas as principais dife-
renças entre grupos e a diversidade de suas relações entre si e com
a sociedade inclusiva” (BOTTOMORE, 1996, p. 345).
Enfatiza-se mais a classificação de Cooley: grupos primários e
secundários.

5.6.3.1. Grupos primários

Fichter (1972) conceitua o grupo primário como “uma coletivi-


dade unida de pessoas que tem frequentes relações pessoais com um
sentimento de solidariedade e estreita adesão a determinadas valo-
rações sociais comuns” (p. 148). Assim sendo, para Lenhard (1975,
p. 107 ss) no grupo primário, as relações são pessoais e informais; os
contatos são “face a face”, de simpatia e diretos; o indivíduo participa
com toda a personalidade; encontra o necessário aconchego afetivo
para seu equilíbrio psíquico; neste ambiente está o fundamento da
socialização, processo de constituição da personalidade; a interação
segue certos padrões comportamentais sustentados pelos valores
dominantes; os valores e os símbolos sobrepujam as sanções for-
mais; as pessoas desenvolvem o espírito de pertença e elaboram a
consciência de uma unidade social, formulando o conceito do nós em
oposição ao eles.
Tönnies dá como exemplos a família, os parentes, os amigos, a
vizinhança.
Almiro Petry 93

5.6.3.2. Grupo secundário

Fichter (1972) conceitua o grupo secundário ou associação


como “uma coletividade de indivíduos que tem relações impessoais
mais formais, menos frequentes e frouxamente unidos, mas voltados
para interesses específicos” (p. 149). Lenhard (1975, p. 109 ss),
por sua vez, apresenta as seguintes características: a posição dos
membros define-se conforme os papéis que cada qual exerce; a
participação no grupo limita-se à contribuição que lhe cabe pelo
papel que exerce; os contatos são categóricos (“gente útil para
os nossos fins”), predominantemente indiretos; a socialização é
intensa na medida em que a sociedade está organizada em grupos
secundários nas diferentes atividades; os interesses são paralelos
ou convergentes, levando o indivíduo a pensar em si e nos outros
apenas enquanto lhe convier; o controle social é feito através de
normas, sanções organizadas e formais; a consciência do nós é frágil,
mas cada membro é companheiro do outro, baseado nos interesses
da união.
Exemplificam-se com as associações, os partidos políticos, as
empresas, etc.

A partir de variados pontos de vista, portanto, o estudo de


grupos pode lançar luz sobre algumas questões fundamentais
do pensamento social, com respeito à relação entre indivíduo
e sociedade, às fontes de solidariedade e estabilidade social e
aos pré-requisitos de uma ordem democrática (BOTTOMORE,
1996, p. 345).

5.7. Status e papel sociais

A inserção dos indivíduos em grupos, em comunidades e na


sociedade em geral delineia comportamentos inerentes às posições
ocupadas e aí estruturadas, que configuram uma situação social. A
partir da posição, fluem papéis que os indivíduos interpretam com
gestos, posturas e palavras em sintonia com as expectativas da
ambiência social.
94 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Os cientistas sociais têm debatido, nas várias tradições intelec-


tuais, a conceituação referente a esta capacidade comportamental de
o ser humano desempenhar distintos papéis sociais. Turner (1996),
assim sintetiza esta busca:

O retrato compósito que emerge produz uma imagem dos


indivíduos como (1) possuidores de capacidades calculadoras,
deliberativas e manipuladoras; (2) desejosos de recompensas
e evitando custos; (3) tentando ajustar-se e adaptar-se a
situações; (4) usando reservas implícitas de informação acerca
de pessoas e situações para assim proceder; e, (5) mantendo uma
concepção de si próprios como certas espécies de indivíduos.
Essas imagens apresentam-se em toda a teoria e pesquisa de
papéis, embora alguns elementos sejam mais enfatizados do que
outros por vários investigadores (TURNER, 1996, p. 551).

Cada grupo, comunidade e sociedade elabora seu espaço social


“construído na base de princípios de diferenciação ou de distribuição
constituídos pelo conjunto das propriedades que atuam no universo
social considerado” (BOURDIEU, 2000, p.133) para conferir “força
ou poder” aos agentes “pelas suas posições relativas” que ocupam.

5.7.1. Status social

Formalmente, a sociologia, a partir dos diversos olhares das


tradições intelectuais, considera o status social a expressão das
multidimensões do espaço social, ocupado por indivíduos. Os itens
em destaque estão descritos em Fichter (1972) e Lakatos (1978).

5.7.1.1. Conceito

Considera-se a posição que o indivíduo ocupa no espaço social


e assim é julgado pelos demais membros. Esta posição está em fun-
ção da escala de valores da sociedade (do mais dominante ao menos
significativo). Este conceito permite delinear:
Almiro Petry 95

(1) o status abrange características que não são determinadas


por leis e envolve comportamentos socialmente esperados e
aprovados;
(2) o espaço social, dimensionado horizontal e verticalmente,
possibilita n posições diferenciadas dos indivíduos que o
compõe; (
3) o status resulta em situações de interação social, pois a avalia-
ção dos demais é um pressuposto condicional;
(4) o julgamento é fundamental por retratar os valores que se
constituem em determinantes do status social.

5.7.1.2. Fatores sociais (determinantes?)

O status social é uma construção mental que define o grau


de estima que as pessoas expressam em relação às outras, o que
é definido por fatores extrínsecos (observáveis, quantificáveis e
verificáveis) aos próprios indivíduos, que sustentam os critérios
valorativos.
Em geral, estes critérios são encontráveis em maior ou menor
grau e combináveis de diversas maneiras, nas diferentes sociedades,
desde as mais simples às mais complexas. São:
(a) Parentesco: o parentesco por consanguinidade ou afinidade, em
todas as sociedades, confere uma determinada posição social
em decorrência da reputação, tradição e legitimidade do grupo
familiar;
(b) Riqueza: a riqueza expressa através das posses, fausto de vida,
poder de consumo, títulos honoríficos etc. (que têm importância
social); no entanto, questiona-se a origem da riqueza: por
herança, aquisição por meios socialmente aprovados etc.; há
uma atenção especial aos novos ricos – qual a procedência da
prosperidade?
(c) Ocupação: a ocupação é um critério que serve para classificar a
pessoa de acordo com o que ela faz na sociedade; a valorização
depende da projeção social e da lucratividade que a atividade
proporciona;
96 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

(d) Educação: o grau e o tipo de escolarização proporcionam status


em todas as sociedades modernas. O tipo de escolarização está
associado ao da atividade profissional (prestígio profissional,
atividade lucrativa, etc.);
(e) Características biofísicas: entre estas destacam-se o sexo, a idade
e a beleza física (é a valorização ou não do corpo).

Nenhum critério é isoladamente suficiente. Convém considerá-


los em conjunto e de modo associado, como expressão da
interdependência.

5.7.1.3. Status atribuído e adquirido

Os status atribuídos independem do esforço e qualidades do


indivíduo como sexo, idade, parentesco, herança, primogenitura,
etc. O parentesco é determinante nas castas e nos estamentos. Ele é
significativo no sistema de classes sociais. Associa-se ao parentesco
o critério da legitimidade.
Os status adquiridos dependem da vontade e capacidade dos
indivíduos. Esta conquista deriva da competição e concorrência
entre os indivíduos na sociedade (meritocracia), com realce aos sta-
tus políticos, econômicos e profissionais. As sociedades modernas e
mais complexas oferecem mais oportunidades e diversificações para
a conquista de novas posições sociais. Isto se evidencia mais nas
sociedades em constante mudança, que se desprendem de critérios
tradicionais, de oligarquias, do patrimonialismo etc. e abrem espa-
ços para as novas gerações. Os indivíduos que conquistam estas po-
sições são induzidos a novas escolhas de amigos, de organizações, de
local de residência, etc.
Nas sociedades de status atribuídos (estamentos e castas) não
se espera que os indivíduos melhorem suas posições, entretanto,
nas abertas fomenta-se expectativas de novas posições consoantes
às habilidades e capacidades individuais (é dinâmica da mobilidade
social).
Almiro Petry 97

5.7.1.4. Status chave

Cada pessoa é portadora de tantos status a quantos grupos per-


tencer, no entanto, um é o principal (o chave), que será o referencial
e se definirá a partir da escala de valores da sociedade (valores eco-
nômicos, políticos, educacionais, religiosos, etc.). O status chave é o
que mais identifica a personalidade social, é a janela maior que o
indivíduo abre para o mundo que o rodeia.
O status chave classifica o indivíduo não apenas no grupo em
que participa, mas na sociedade em geral. Ele influencia a inserção e
a participação do indivíduo em outros grupos; oportuniza vantagens
(vivemos em sociedades de privilegiamentos, mesmo que se declarem
democráticas) que o indivíduo pode usufruir em diversas atividades
e setores (residência, lazer, diversões, oportunidades educacionais,
oportunidades de negócios, etc.).

5.7.2. Papel social

O conceito de papel tem sua origem na literatura e no teatro


com o significado de que o indivíduo é visto como intérprete, cujo
público são os outros. Portanto, nesta interpretação temos atores e
espectadores. Os cientistas sociais perguntaram sobre a natureza dos
personagens interpretados no palco do “teatro social”. É provável que
esteja associada à coerção social. Para alguns, como entende Parsons
que “o indivíduo é visto como alguém que se comporta nos modos
apropriados à incumbência em uma posição de status em um sistema
de posições interligadas que constituem uma estrutura social”; para
outros, como Turner evidencia,

[...] os indivíduos são vistos como conduzindo-se ainda quando


ocupam uma clara posição de status , de forma a obter recom-
pensas, evitar custos e sustentar o próprio eu; e, por conseguin-
te, os indivíduos são conceituados mais como criadores ativos
de um personagem do que como tendo meramente assumido
um que lhes é atribuído em virtude de ocuparem determinada
posição (TURNER, 1996, p. 551).
98 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

O papel social é a interface entre a pessoa individual e o espaço


social e, por extensão, da estrutura social. Caso seja somente uma
incumbência, “então os seres humanos são menos espontâneos e
criativos, ao passo que o poder da estrutura social é proeminente”.
Em contrapartida, “se o papel é o comportamento expresso em
negociação com o eu, com as prescrições posicionais de outros,
então os indivíduos são ontologicamente mais significativos do que
a estrutura social” (TURNER, 1996, p. 552).
George Mead acentuou que o papel “é uma sequência de gestos
que denotam e realçam as disposições e ações de um indivíduo”
(TURNER, 1996, p. 552). Desse modo, os indivíduos não só adotam,
mas criam papéis, o que evidencia a reflexividade exercida pelos
atores no espaço social.

Em suma, o conceito de papel é, pois, um dos constructos mais


centrais na ciência social moderna. É considerado o ponto
onde as estruturas sociais mais abrangentes incidem sobre os
indivíduos e, reciprocamente, uma força central na construção
de comportamentos que produzem, reproduzem ou mudam as
estruturas sociais (TURNER, 1996, p. 553).

Os tópicos a seguir, numa ótica formal, estão contemplados em


Fichter (1972) e Lakatos (1978).

5.7.2.1. Conceito

O papel social configura a representação do indivíduo no


grupo e na sociedade. Por conseguinte, o papel é o comportamento
esperado de uma pessoa que detém uma determinada posição no
espaço social – trabalhador, pai, professor, estudante, etc. (é o que a
pessoa faz em sua ambiência social).

5.7.2.2. Papel atribuído e assumido

Cada indivíduo ao se ajustar ao exercício de papéis que


desempenhará, poderá fazê-lo através da atribuição – incumbência –
Almiro Petry 99

isto é: papéis atribuídos ao indivíduo, independente de sua vontade.


Podem ser automáticos: filho, irmãos; ou intencionais: pai por
adoção de um filho.
O papel assumido depende da vontade do indivíduo – por
escolha – isto é, por decisão pessoal, como pai, advogado, médico,
professor, etc.
Consequentemente, cada pessoa humana, no exercício de seus
papéis, corresponderá ou não, às expectativas do grupo, à situação
social e à função de desempenhar o papel já padronizado ou de criar
novos gestos e novas feições.

5.7.2.3. Nível de comportamento

Cada papel possui diversos níveis comportamentais estabeleci-


dos para o respectivo espaço social. Podem ser: (1) exigidos, quando
são obrigatórios e fundamentais para o “bom” desempenho do papel;
(2) permitidos, quando há uma permissividade – limites de tolerân-
cia – quanto ao comportamento, não havendo normas fixas, ficando
mais a critério do ator; (3) proibidos, ações e gestos não tolerados e
contra os quais o grupo e a sociedade reagem com sanções muito
fortes.
O grau de acomodação ao primeiro nível e o distanciamento do
terceiro denota a adequação no desempenho do papel social.
Aprender a desempenhar papéis sociais é uma parte importante
da socialização, que começa na infância e perpassa toda a existência
do ser humano. No processo de aprendizagem social, as crianças são
capacitadas (algumas ainda “treinadas”) para o exercício de seus fu-
turos papéis, como os sexuais (masculinos ou femininos) pelos brin-
quedos que lhe são ofertados, ou pelas sugestões de profissões que
lhes são apresentadas, etc. O desempenho, considerado adequado é
reforçado (pela recompensa) e o inadequado é desencorajado e re-
jeitado.
100 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

5.7.2.4. Expectativas

As expectativas de papéis estão baseadas nos níveis de


comportamentos socialmente aprovados e determinam a maneira
pela qual cada indivíduo deverá desempenhar seus papéis (tanto os
atribuídos quanto os escolhidos). No processo de socialização, que
é a preparação para o convívio social e o adequado desempenho dos
papéis, os níveis de comportamento são aprendidos (por repetição,
por imitação, etc.). O indivíduo é avaliado, em seu contexto social,
tendo por ponto de referência estes níveis de comportamento,
construídos com base na escala de valores e símbolos.

5.7.2.5. Conflito de papéis

Os conflitos de papéis – é a percepção da incompatibilidade –


podem ser de dois tipos: (1) o ator exerce dois papéis que impõem
condutas conflitosas; (2) um mesmo papel pode portar condutas
conflitantes. No primeiro caso, na sociedade moderna as mulheres
convivem com conflitos de esposa, mãe, professora, advogada (mé-
dica, assistente social, etc.). No segundo caso, pela multiplicidade
de papéis que a sociedade moderna oportuniza, o papel de professor
e pai, em relação a avaliação do filho, podem ser conflitantes. Aí o
indivíduo é exposto a pressões e demandas irreconciliáveis, em es-
pecial, quando há certa ambiguidade na ação.
Em situação de conflito, o indivíduo recorre à racionalização
que, como mecanismo psicológico, leva o ator a redefinir sua situ-
ação, buscando justificativas para o conflito ou para o insucesso.
Além da racionalização, outro artifício é o da compartimentação na
ação – separa os papéis para que seu comportamento em um dos
papéis não seja atrapalhado pelo papel conflitante.
O conflito de papéis se torna perturbador quando o indivíduo
estiver sob pressão na direção de duas ações opostas, numa mesma
situação. Isto gera ansiedade, tensão, angústia e baixa eficiência.
Neste caso pode ocorrer a tentativa de solucionar o conflito,
abandonando um dos papéis causador da incompatibilidade.
Almiro Petry 101

Em suma, a história humana tem revelado que o conflito mais


radical – dilema – reside nas escolhas entre (1) aquilo que o ser
humano realmente quer fazer, (2) entre aquilo que deve fazer, (3)
entre aquilo que consegue fazer.

5.8. Minorias sociais

Considera-se uma minoria social toda a categoria social que


compartilha uma combinação de desvantagens similares, sobretudo
as conotações sociais negativas. Para Bourdieu é o capital simbólico
negativo, ou seja, o conjunto de atributos estigmatizados – raça,
cor, etnia, estatura, religião, etc. – que estabelece um efeito de
destino no mercado escolar, no mercado de trabalho e no espaço
social, produzindo uma exclusão. As famílias, excluídas da
realidade econômica e social, não conseguem encontrar “razões de
viver” capazes de arrancá-las do sentimento de estarem sobrando
(BOURDIEU, 1998, p. 220-1). Por conseguinte, são consideradas
inferiores pelos detentores do capital simbólico positivo, que lhes
aplicam discriminações, preconceitos, estereótipos e são excluídas
dos principais processos sociais e mantidas diferenciações de
tratamento social.
Os grupos minoritários – formados por indivíduos portadores
de capital simbólico negativo – caracterizam-se pela distinção: (1) de
pertencerem a subgrupos nas sociedades complexas sob um apa-
rato legal de privilegiamentos; (2) de que são portadores de traços
biofísicos e culturais específicos pelos quais os segmentos dominan-
tes têm pouco apreço; (3) da elaboração de autoconsciência a seu
respeito de portadores de características comuns que “provocam
incapacidades” frente ao sistema social vigente; (4) da transmissão
social de pertencimento a um subgrupo excluído do sistema social.
Segundo o ponto de vista de Bourdieu, este capital simbólico negativo
é incorporado e é um estigma que se torna ser tanto como sujeito
individual quanto sujeito coletivo.
102 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Consequentemente, em decorrência dos desprivilegiamentos


um conjunto de atitudes – identificação com o grupo, percepção da
exclusão, etc. – e um conjunto de comportamentos – autosegrega-
ção, discriminação, etc. – são praticados pelos grupos minoritários
e, no outro extremo, de forma radical, pelas maiorias sociais – deten-
toras de capital simbólico positivo – se estruturam hostilidades per-
manentes.
Os principais grupos minoritários das sociedades complexas
são os raciais, os religiosos e os estrangeiros. Os raciais são aqueles
que se distinguem pelos critérios de parentesco, de etnias e de
diferenças biofísicas. Os traços biofísicos são herdados de geração
em geração, em especial pela prática de formas endogâmicas,
seja por razões culturais ou por razões étnicas. Sem dúvida, são
condutas de preservação do grupo. Os religiosos são aqueles grupos
que se diferenciam pelo seu credo, seus ritos, seus cultos, etc., frente
aos padrões aceitos pela maioria social. Estas diferenças também
representam o grau de inferioridade de seus status. A característica
religiosa ainda é associada ao econômico, ao educacional, ao político,
enfim, nos diferentes campos da construção social. Os estrangeiros
são aqueles grupos subdivididos conforme o país (ou cultura) de
origem. O principal critério é a origem étnica combinado com o
idioma, grau de escolarização, nível econômico, culto religioso e
traços biofísicos.
Por conseguinte, uma situação minoritária supõe a exclusão em
uma ou mais das áreas econômica, política, educacional, jurídica e
social. Quer dizer que os grupos minoritários encontram ocupações
profissionais de salários mais baixos; são impedidos em exercer
plenamente seus direitos políticos; a aplicação da justiça – e a
“explicação” das decisões – não é a mesma; as relações entre maioria
e minoria supõem conflitos que se manifestam em hostilidades
mútuas.
O grupo dominante (maioria social = privilegiados) hostiliza
as minorias, de modo geral, em três tipos de atitudes: primeira, a
manutenção do poder para explorar econômica e politicamente
as minorias e garantir, desta forma, o prestígio social (a distinção,
segundo Bourdieu); segunda, a atitude ideológica de crer ser o
Almiro Petry 103

detentor do monopólio da verdade; terceira, a hostilização é de


natureza racista, pois o grupo dominante crê-se biologicamente
superior às minorias.
Estas atitudes assumem formas concretas de estruturação so-
cial como: escravidão; racismo; sistema de castas; conflitos religio-
sos; conflitos ideológicos, etc.
O papel das minorias, numa sociedade complexa, é lutar para
influir nas transformações e modificar o quadro do status quo.

5.9. Burocracia

O termo burocracia é composto por duas palavras, uma


proveniente do francês bureau14, outra de origem do verbo grego
kratein (kratos15), e é utilizado em dois sentidos: o pejorativo e o técnico.
Entretanto, é uma das categorias centrais das modernas ciências
sociais por se referir a um tipo de administração “no qual o poder
de tomar decisões está concentrado em um gabinete ou função, mais
do que em um indivíduo em particular” (HEGEDÜS, 1996, p. 50).
Por isso,

[...] é um aspecto característico da burocracia que a


administração seja exercida não por leigos, mas por especialistas
que encaram esse trabalho como suas carreiras de vida, e
não como uma atividade temporária exercida durante certos
períodos. No sistema burocrático institucional, passa a existir
um conjunto padronizado de exigências, tais como exames para
os funcionários públicos chineses de antigamente, e os de todos
os estados modernos. Tais exames, a um só tempo, são uma das
bases da estabilidade do poder burocrático e envolvem alguma
exclusividade” (HEGEDÜS, 1996, p. 51).

14
Significa escrivaninha, mesa de trabalho ou o escritório (derivação da palavra
latina burrus que significa cor escura, triste, etc.).
15
O verbo kratein tem o significado de agarrar, segurar firme, sustentar, controlar,
dominar; e kratos = poder, norma (deus da guerra, na mitologia grega).
104 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Este despotismo burocrático leva Max Weber, em seus escri-


tos sobre a moderna sociedade industrial, a se preocupar mais com
a “ditadura do funcionário” (a nova servidão) do que com a “ditadura
do proletariado”, preocupação vigente entre a burguesia da época e
prevista por Marx e Engels.
No sentido pejorativo burocracia se refere aos caminhos
tortuosos e árduos das tramitações de processos, documentos,
decisões, etc., em nível governamental e empresarial (todos os níveis
de serviços do setor público; empresas privadas de serviços e de
produção). Nesta ótica, o termo burocracia exprime qualquer crítica
às organizações complexas incapazes de tomar decisões rápidas,
de assumir responsabilidades (o chefe manda; a lei é essa) e seus
procedimentos são lentos e irracionais. É o denominado burocratismo
de funcionários incompetentes cujo trabalho se caracteriza pelo
formalismo. Disso decorre o termo burocrata, aplicado aos agentes
públicos e privados que executam os procedimentos legais e que são
tidos como bons funcionários por seguirem ao pé da letra os trâmites
prescritos.
O horizonte pejorativo foi realçado pelas Leis de Parkinson
(1957)16 que ridicularizam a acumulação de cargos, a inércia
administrativa, o acúmulo de recursos, supondo que “o número de
funcionários cresce em razão inversa ao trabalho a realizar”17. Ou
ainda, “o tempo despendido na discussão de cada item da agenda
é inversamente proporcional ao valor monetário do assunto
discutido”. E mais, “quanto mais tempo se dispõe para realizar um
trabalho, mais este trabalho demandará tempo para se realizar”.
No sentido técnico burocracia significa, segundo Robert Mer-
ton, toda a estrutura social formal e racionalmente organizada, que
envolve padrões claramente definidos de atividades nos quais, de
uma forma ideal, toda a série de ações se relaciona funcionalmen-
te com os propósitos da organização. Esta conceituação sociológica

16
Cyril N. Parkinson (1909-1993), historiador e estudioso da administração
pública.
17
No Brasil, o Governo Figueiredo criou o Ministério Extraordinário da
Desburocratização. No entanto, criado para simplificar e agilizar os processos
administrativos, foi extinto “engolido” pelo próprio processo.
Almiro Petry 105

contrasta com a pejorativa. Fundamenta-se no tipo ideal, formulado


por Max Weber (1994, p. 142-3) que tem as seguintes característi-
cas essenciais:
(1) posições ou cargos claramente definidos, com atribuições e
competências;
(2) uma ordem hierárquica com limites nítidos de autoridade, de
competências e de responsabilidade;
(3) seleção do pessoal baseado nas qualificações técnicas e
profissionais (para eliminar o nepotismo, o apadrinhamento e
o jeitinho);
(4) regras e regulamentos que regem a ação oficial;
(5) estabilidade e possibilidade de carreira por promoção na hie-
rarquia.

Nesta estrutura se constitui um quadro administrativo que é


composto por funcionários que, segundo Weber (1994, p. 144):
(1) são pessoalmente livres (obedecem às obrigações objetivas de
seu cargo);
(2) são nomeados numa hierarquia rigorosa de cargos;
(3) têm competências funcionais fixas;
(4) passam por um processo seletivo;
(5) têm a qualificação profissional exigida (certificação e diplo-
mação);
(6) têm a remuneração com salários fixos (independente de pro-
dutividade) e direito à aposentadoria (o processo demissional é
complexo);
(7) têm no cargo sua profissão (única ou principal);
(8) têm a perspectiva de uma carreira (progressão por tempo de
serviço ou mérito);
(9) trabalham em separação absoluta dos meios administrativos e
sem apropriação do cargo; e,
(10) estão submetidos a um sistema rigoroso e homogêneo de
disciplina e controle do serviço.
106 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

A administração burocrática, como assevera Weber, se tornou


mais eficiente, rápida e competente do que outras formas históricas
de administração. “Isto explica por que nas sociedades modernas a
administração burocrática está se expandindo, não apenas em or-
ganizações estatais, mas em praticamente todos os campos da vida
social” (HEGEDÜS, 1996, p. 51).
As organizações formais, por sua vez, estão relacionadas à or-
ganização como as partes se relacionam ao todo. São criadas deli-
beradamente e operam de acordo com as regras definidas em busca
de uma ou mais metas específicas. Emergem quando um grupo se
torna muito grande e complexo para que seus assuntos sejam orga-
nizados informalmente. As organizações formais são associações de
pessoas, cujo ingresso é voluntário para a obtenção mais eficaz de
certas metas.
Para Talcott Parsons, as organizações formais ocorrem: (1) na
produção econômica; (2) no poder político; (3) na integração socie-
tária; (4) na manutenção de padrões culturais e comportamentais;
(5) no entretenimento e lazer; (6) nos serviços de saúde. As organi-
zações informais ocorrem nos grupos de amizade, na equipe de tra-
balho, na religião, na família, etc. Surgem casualmente e não operam
de acordo com qualquer conjunto de regras. Buscam metas, muitas
vezes vagamente definidas, como o companheirismo, a solidarieda-
de, a catarse etc. Podem ter líderes e seguidores, procedimentos e
tabus, mas não existem regulamentos escritos, títulos ou posições
eletivas.
As organizações formais incorrem em alguns dilemas: (1)
liberdade individual versus sujeição funcional; (2) competência
profissional versus submissão burocrática; (3) controle centralizado
versus iniciativa local.
Os defeitos “congênitos” da burocracia, como afirma Chinoy
(1972), podem ser personificados na seguinte tipologia: formalis-
ta, misterioso, impertinente e malandro. O formalista caracteriza-se
pelo exagero que empresta às regras, aos processos, à papelada, aos
carimbos, etc. O misterioso revela uma tendência em ocultar os pro-
cessos administrativos, acentuando as dificuldades de suas tarefas
e o cabedal de conhecimentos para executá-las. O impertinente é o
Almiro Petry 107

burocrata cujo poder e segurança lhe subiram à cabeça. O malandro


já não acha necessário trabalhar muito em virtude da estabilidade
que lhe assegura o emprego.
Na atual tendência, os cientistas sociais se referem a uma
burocratização da vida e nas organizações públicas e privadas se
implanta uma intricada tecnoestrutura, termo criado por J.K.Galbraith
(1908-2006), em sua obra clássica O novo estado industrial (1967).
No campo econômico, na era da globalização, a burocratização e as
tecnoestruturas ultrapassam as fronteiras territoriais e assumem
um caráter transnacional.

Em certos aspectos, isso torna a luta por independência que


caracteriza os estados nacionais uma coisa ilusória. [...]
Na prática atual, está bastante claro que a emancipação da
humanidade no mundo moderno exige mais antiburocratismo
do que anticapitalismo (HEGEDÜS, 1996, p. 52).

Entretanto, o mundo moderno não consegue se engrenar sem


as instituições burocráticas no campo econômico, financeiro, midi-
ático, jurídico e cultural. Até o campo religioso demanda esta ne-
cessidade na medida em que as religiões se midiatizam e transna-
cionalizam. Quem exercerá o controle deste poder despótico? No
panorama sistema-mundo o movimento antiburocrático deverá
emergir da sociedade civil com a promoção da reforma política com
vistas ao pluralismo partidário e a implantação de uma socialdemo-
cracia participativa e adequada ao século XXI.
Talvez, uma das questões fundamentais do atual século é a
conciliação entre o despotismo burocrático e o exercício do poder
pela sociedade civil, pois, “o mundo dos fenômenos burocráticos e
a luta contra ele estão entre os aspectos mais importantes da nossa
época” (HEGEDÜS, 1996, p. 53).
Para Weber, o progressivo avanço e a difusão da burocratização
na sociedade moderna estão intimamente associados ao processo da
crescente racionalização, da secularização e do desencantamento do
mundo.
108 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

6. A estratificação social

Partimos do pressuposto de que a estratificação social é um pro-


cesso histórico-estrutural da formação de camadas sociais (estra-
tos), superpostas hierarquicamente e inerentes ao sistema social,
que pode variar de sociedade para sociedade, desde a total rigidez
até a intensa mobilidade social. Entretanto, alguns aspectos são co-
muns, cuja identificação e descrição tem sido uma preocupação dos
cientistas sociais. Parece que em todas as sociedades complexas os
recursos de sobrevivência estão desigualmente distribuídos entre os
indivíduos, as famílias e os grupos, configurando privilégios de des-
frute desproporcional de propriedade, de bens de consumo, de po-
der e de prestígio. Sendo assim, as sociedades complexas podem ser
vistas como estruturadas em estratos, hierarquicamente sobrepostos,
onde os mais privilegiados estão no topo e os menos favorecidos na
base do sistema social.
Segundo Giddens (2005), historicamente existiram quatro
sistemas básicos de estratificação nas sociedades humanas: o da
escravidão, o de castas, o de estamentos e o de classes.

A escravidão é uma forma extrema de desigualdade, na qual


alguns indivíduos são literalmente propriedade de outros. [...]
A casta associa-se, sobretudo, às culturas do subcontinente
indiano e da crença hindu no renascimento. Acredita-se que
os indivíduos que não forem fiéis aos rituais e aos deveres
de sua casta renascerão em uma posição inferior na próxima
reencarnação. Os sistemas de castas estruturam o tipo de
contato que pode ocorrer entre membros de diferentes status
sociais. Os estamentos fizeram parte de muitas civilizações
tradicionais, incluindo o feudalismo europeu. Os estamentos
feudais consistiam em estratos que possuíam diferentes
obrigações e direitos entre si. Os sistemas de classes diferem em
muitos aspectos da escravidão, das castas e dos estamentos.
Podemos definir uma classe como um agrupamento, em larga
escala, de pessoas que compartilham recursos econômicos em
comum, os quais influenciam profundamente o tipo de estilo
de vida que podem levar. A posse de riquezas, juntamente com
a profissão, são as bases principais das diferenças de classe
(GIDDENS, 2005, p. 234).
Almiro Petry 109

Conforme Octávio Ianni, a maneira pela qual se estratifica


historicamente uma sociedade,

[...] depende da maneira pela qual os homens se reproduzem


socialmente. E a maneira pela qual os homens se reproduzem
socialmente está diretamente ligada ao modo pelo qual eles
organizam a produção econômica e o poder político. A forma
pela qual os homens organizam o modo de produção e, em
concomitância, a repartição do produto econômico, está
na base da estrutura social. Mas a estrutura social não se
organiza apenas ao nível econômico. Ela somente se organiza
(funciona e transforma), porque também se organiza (funciona
e transforma) a estrutura do poder. É que a estrutura do poder
também é uma dimensão da sociedade. Em síntese, pois, não se
pode compreender o processo de estratificação social enquanto
não se examina a maneira pela qual se organizam as estruturas
de apropriação (econômica) e dominação (política) (IANNI,
1972, p. 11).

Ianni exemplifica sua sugestão analítica com a formação de uma


sociedade de castas, uma sociedade de estamentos e uma sociedade
de classes sociais, destacando as categorias de classificação. Assim:

A sociedade de castas, por exemplo, pode ser tomada como uma


configuração histórico-estrutural particular. Mas a análise da
sociedade de castas mostra que categorias tais como religião,
raça, cor, hereditariedade e ocupação parecem predominar
no pensamento e na ação das pessoas. As próprias relações
econômicas se apresentam como conteúdos e ocorrências da
condição religiosa, racial, hereditária ou organizacional dos
membros da casta ou subcasta.
A sociedade estamental, por outro lado, pode ser tomada como
outra configuração histórico-estrutural particular. Mas ela não
se revela e explica apenas ao nível das estruturas de poder e
apropriação. Para compreender os estamentos (em si e em suas
relações recíprocas e hierárquicas) é indispensável compreender
o modo pelo qual categorias tais como tradição, linhagem,
vassalagem, honra e cavalheirismo parecem predominar no
pensamento e na ação das pessoas. Em verdade, os membros
dos estamentos se classificam e relacionam a partir dessas
categorias socioculturais. Tanto assim que as próprias relações
110 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

e estruturas econômicas e políticas aparecem como conteúdos


e decorrências das condições determinadas pela tradição,
linhagem, vassalagem, honra e cavalheirismo.
E a sociedade de classes sociais, por fim, também deve ser tomada
como uma configuração histórico-estrutural particular. Entre-
tanto, ela se revela muito diretamente ao nível das relações e es-
truturas de apropriação (econômica) e dominação (política). De-
vido a acentuada secularização da cultura e do comportamento,
produzida no âmbito da revolução industrial e urbana que se
dá com a formação do capitalismo, as categorias socioculturais
predominantes no pensamento e ação pré-capitalistas (religião,
raça, cor, ocupação, tradição, hereditariedade, linhagem etc.)
são colocadas em segundo plano. E adquire preeminência a
propriedade e o mercado (dos meios de produção e da força de
trabalho), como princípios fundamentais de classificação e mo-
bilidade sociais. É óbvio que a preeminência do econômico no
pensamento e na ação do homem do capitalismo não significa
que se destruíram os outros princípios classificatórios típicos
das sociedades pré-capitalistas (IANNI, 1972, p. 12).

As abordagens teóricas no campo da sociologia remetem aos


clássicos com o desenvolvimento do ponto de vista de Marx, de
Weber e do funcional-estruturalismo. Os teóricos contemporâneos
convencionaram estabelecer a diferenciação entre o sistema de
classes das sociedades modernas industriais e as estruturas sociais
anteriormente encontradas como o de castas e de estamentos
das sociedades agrícolas e feudais. Grusky entende que “[...] os
sistemas de estratificação das sociedades humanas são complexos
e multidimensionais, no mínimo porque as formas institucionais de
seu passado tendem a ‘sobreviver’ em conjunção com formas novas
emergentes” (GRUSKY, 1996, p. 270).
O quadro, a seguir, relaciona alguns princípios – vantagens,
estratos e processo de mobilidade – que configuram as três formas
de estratificação: castas, estamentos e classes, baseados em uma con-
cepção tipo ideal. Grusky (1996) informa que as castas são classi-
ficadas pelo critério da pureza étnica, num continuum da mais pura
(casta mais elevada) até a menos pura (casta inferior), com caráter
permanente de filiação. O sistema feudal também se baseia em uma
rigidez hereditária, tendo como referência o regime de posse da pro-
Almiro Petry 111

priedade da terra e o regime de trabalho a ele vinculado. Entremen-


tes, a sociedade moderna trouxe novos critérios estratificatórios, em
que os meios de produção e sua posse passam a ser preeminentes
estabelecendo a competição como fator de mobilidade social. Caem
os critérios dos sistemas anteriores, mesmo que alguns residuais
permaneçam na multidimensionalidade societal.

Quadro 1: Vantagens maiores, estratos principais e processos de


mobilidade para três formas de estratificação social.
Vantagens
Sistema de Estratos principais Processo de
maiores
estratificação (2) mobilidade (3)
(1)
1 Sistema de
Pureza étnica Castas Hereditário
castas
Terra e força de Reis, senhores e
2 Sistema feudal Hereditário
trabalho servos
3 Sistema de Capitalistas e
Meios de produção Competitivo
classes operários
Fonte: GRUSKY, David. In: OUTHWAITE, William e BOTTOMORE, Tom.
Dicionário do pensamento social do Século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar
Ed., 1996, p. 271.

A seguir, se destaca a visão de Marx, de Weber e um tracejado


da estratificação brasileira.

6.1. A visão de Karl Marx

A obra de Marx tem, como referencial analítico, a estratificação


social da sociedade moderna. Sua teoria está estruturada a partir
da base empírica da histórica luta de classes. Mesmo assim, não
conseguiu elaborar um conceito de classe, pois quando o queria fazer
foi surpreendido pelo fim de sua jornada de vida. Seu manuscrito
inconcluso apresenta a pergunta O que constitui uma classe? No
entanto, no capítulo As classes, de O Capital, que estava escrevendo,
pondera que
112 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

[...] Os proprietários de simples força de trabalho, os


proprietários de capital e os proprietários de terras, cujas
respectivas fontes de receitas são o salário, o lucro e a renda
do solo, ou seja, os operários assalariados, os capitalistas e os
latifundiários, formam as três grandes classes da sociedade
moderna, baseada no regime capitalista de produção (MARX,
apud: IANNI, 1996, p. 99).

Afirma que a Inglaterra era a sociedade moderna mais desen-


volvida, mas que nem ali se encontrava com evidências esta estru-
turação, na medida em que havia fases intermediárias de transição
que “obscurecem, em todas as partes, as linhas divisórias”. À sua
pergunta, o que constitui uma classe?, acrescenta: que é que converte os
operários assalariados, os capitalistas e os proprietários de terras, em fa-
tores das três grandes classes? À primeira vista, raciocina que é a iden-
tidade de suas rendas e fontes de renda. Entretanto, “é sempre a
relação direta entre os proprietários das condições de produção e os
produtores diretos que revela o segredo mais íntimo, o fundamen-
to oculto, de todo o edifício social” (MARX, apud: BOTTOMORE,
2001, p. 62). Nesta lógica explicita que

[...] Trata-se de três grandes grupos sociais, cujos componentes,


os indivíduos que os formam, vivem respectivamente de um
salário, do lucro e da renda do solo, ou seja, da exploração de
sua força de trabalho, de seu capital ou de sua propriedade
territorial (MARX, apud: IANNI, 1996, p. 100).

Em A Ideologia Alemã (1845-46) Marx e Engels criam a


expressão classe dominante.

As ideias da classe dominante são, em qualquer época, as ideias


dominantes, isto é, a classe que é a força material dominante na
sociedade é, ao mesmo tempo, sua força intelectual dominante. A
classe que dispõe dos meios da produção material tem controle
sobre os meios da produção intelectual (MARX e ENGELS,
apud: BOTTOMORE, 2001, p. 64).

Revisitando os escritos de Marx, fica evidenciado que grande


parte foi executada sob a concepção da teoria da luta de classes – a
Almiro Petry 113

força motriz da história. Isto está ressaltado, entre outras, em O


Manifesto do Partido Comunista (1848), em O 18 Brumário de Louis
Bonaparte (1852) e em O Capital.
No Manifesto Marx e Engels abrem o documento com a em-
blemática afirmação: “A história de toda sociedade até nossos dias é
a história da luta de classes” (MARX e ENGELS, 2001, p. 23). No
texto acentuam que a sociedade burguesa moderna “não suprimiu
a oposição de classes”, apenas a simplificou, porque “cada vez mais,
a sociedade inteira divide-se em dois grandes blocos inimigos, em
duas grandes classes que se enfrentam diretamente: a burguesia e
o proletariado” (idem, p. 24). Entrementes, a burguesia conquis-
tou para si, no moderno Estado representativo, o predomínio polí-
tico exclusivo. “A direção do Estado moderno é apenas um comitê
de administração dos interesses comuns de toda a burguesia” que,
em seu papel revolucionário, destruiu todas as formas produtivas e
substituiu “a exploração disfarçada sob ilusões religiosas e políticas
pela exploração aberta, cínica, direta e brutal” (MARX e ENGELS,
2001, p. 27-8).
No prefácio à segunda edição de O 18 Brumário (1869), Marx
afirma, contra Proudhon, que “eu, pelo contrário, demonstro como
a luta de classes na França criou circunstâncias e condições que
possibilitaram a um personagem medíocre e grotesco desempenhar
um papel de herói” (MARX, 1969, p.8). Na conclusão, faz uma
analogia entre a antiga Roma e a sociedade moderna, criticando a
adoção do termo cesarismo nos seguintes termos:

Nesta analogia histórica superficial esquece-se o mais impor-


tante, ou seja, que na antiga Roma a luta de classes desenvolveu-
se apenas no seio de uma minoria privilegiada entre os ricos
cidadãos livres e os pobres cidadãos livres, enquanto a grande
massa produtora, os escravos, formava o pedestal puramente
passivo para esses combatentes. Esquece-se a significativa fra-
se de Sismondi: “O proletariado romano vivia às expensas da
sociedade, enquanto a sociedade moderna vive às expensas do
proletariado”. Com uma diferença tão cabal entre as condições
materiais e econômicas das lutas de classe antigas e modernas,
as formas políticas produzidas por elas hão de ter tanta seme-
lhança entre si como o Arcebispo de Canterbury e o Pontífice
Samuel (MARX, 1969, p.9).
114 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Em 1885, F. Engels reconhecia o grande feito teórico de Marx,


ao conceber a teoria da luta de classes sob os auspícios da dialética
materialista e da razão que o conduziu por esta via de análise:

[...] Fora precisamente Marx quem primeiro descobrira a


grande lei da marcha da história, a lei segundo a qual todas
as lutas históricas, quer se processem no domínio político,
religioso, filosófico ou qualquer outro campo ideológico, são
na realidade apenas a expressão mais ou menos clara de lutas
entre classes sociais, e que a existência, e portanto também os
conflitos entre essas classes são, por seu turno, condicionados
pelo grau de desenvolvimento de sua situação econômica,
pelo seu modo de produção e pelo seu modo de troca, este
determinado pelo precedente. Essa lei – que tem para a história
a mesma importância que a lei da transformação da energia
tem para as ciências naturais – forneceu-lhe, aqui também, a
chave para a compreensão da história da Segunda República
Francesa. Marx aplicou sua lei a esta história, e mesmo depois
de decorridos trinta e três anos temos ainda que admitir que
ela resistiu brilhantemente à prova (ENGELS, apud: MARX,
1969, p.12-13).

Em carta a Joseph Weydemeyer (1818-1866)18, amigo e


colaborador, Marx escreve:

[...] No que a mim se refere, não me cabe o mérito de haver


descoberto a existência das classes na sociedade moderna nem
a luta entre elas. Muito antes de mim, alguns historiadores
burgueses já haviam exposto o desenvolvimento histórico dessa
luta de classes e alguns economistas burgueses a sua anatomia
econômica. O que eu trouxe de novo foi a demonstração de
que: (1) a existência das classes só se liga a determinadas
fases históricas de desenvolvimento da produção; (2) a luta de
classes conduz, necessariamente, à ditadura do proletariado; (3)
esta mesma ditadura não é por si mais que a transição para a
abolição de todas as classes e para uma sociedade sem classes.
[...] (MARX, apud: IANNI, 1996, p.99).

18
Londres, 5 de março de 1852. Joseph Weydemeyer era membro da Liga dos
Comunistas, atuante do movimento operário alemão e americano, participante da
revolução alemã de 1848-1849 e da guerra civil dos Estados Unidos – ao lado dos
nortistas – iniciou a divulgação das ideias de Marx nos Estados Unidos. Na data
da carta, era comandante militar do distrito de St. Louis.
Almiro Petry 115

O conceito de classe média é utilizado por Marx e Engels de


várias maneiras, talvez sob a influência do termo alemão Mittelklasse
que tem seu equivalente francês de bourgeoisie, como sendo os
segmentos proprietários distintos da aristocracia. Em outros textos,
aparece com o significado de “pequena burguesia”, como classe entre
a burguesia e o proletariado. Todavia, consideram o proletariado
como a única “classe realmente revolucionária”, porque as demais
degenerariam e tenderiam a desaparecer “com o desenvolvimento
da grande indústria”. No extremo inferior da pirâmide social, está
o Lumpenproletariat “essa putrefação passiva das camadas mais
baixas da velha sociedade”, que às vezes se empolga com a revolução
proletária “mas toda a sua situação o predispõe a vender-se para
maquinações reacionárias” (MARX e ENGELS, 2001, p. 42).
Outro segmento importante é o campesinato – conjunto
daqueles que trabalham na terra e possuem seus meios de produção:
ferramentas e a própria terra. Em O 18 Brumário, Marx se expressa
da seguinte forma:

Os pequenas camponeses constituem uma imensa massa, cujos


membros vivem em condições semelhantes mas sem estabele-
cerem relações multiformes entre si. Seu modo de produção os
isola uns dos outros, em vez de criar entre eles um intercâmbio
mútuo. Esse isolamento é agravado pelo mau sistema de comu-
nicações existente na França e pela pobreza dos camponeses.
Seu campo de produção, a pequena propriedade, não permite
qualquer divisão do trabalho para o cultivo, nenhuma aplica-
ção de métodos científicos e, portanto, nenhuma diversidade
de desenvolvimento, nenhuma variedade de talento, nenhuma
riqueza de relações sociais. Cada família camponesa é quase au-
tossuficiente; ela própria produz inteiramente a maior parte do
que consome, adquirindo assim os meios de subsistência mais
através de trocas com a natureza do que do intercâmbio com a
sociedade. Uma pequena propriedade, um camponês e sua famí-
lia; ao lado deles, outra pequena propriedade, outro camponês
e outra família. Algumas dezenas delas constituem uma aldeia,
e algumas dezenas de aldeias constituem um Departamento. A
grande massa da nação francesa é, assim, formada pela simples
adição de grandezas homólogas, da mesma maneira por que ba-
tatas em um saco constituem um saco de batatas. Na medida em
que milhões de famílias camponesas vivem em condições econô-
116 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

micas que as separam umas das outras, e opõem o seu modo de


vida, os seus interesses e sua cultura aos das outras classes da
sociedade, estes milhões constituem uma classe. Mas na medida
em que existe entre os pequenos camponeses apenas uma liga-
ção local e em que a similitude de seus interesses não cria entre
eles comunidade alguma, ligação nacional alguma, nem organi-
zação política, nessa exata medida não constituem uma classe.
São, consequentemente, incapazes de fazer valer seu interesse
de classe em seu próprio nome, quer através de um parlamento,
quer através de uma convenção. Não podem representar-se, têm
que ser representados. Seu representante tem, ao mesmo tem-
po, que aparecer como seu senhor, como autoridade sobre eles,
como um poder governamental ilimitado que os protege das
demais classes e que do alto lhes manda o sol ou a chuva. A in-
fluência política dos pequenos camponeses, portanto, encontra
sua expressão final no fato de que o poder executivo submete ao
seu domínio a sociedade (MARX, 1969, p.115-6).

Este paradigma analítico tem provocado intensos debates entre


marxistas e não-marxistas e parece que não pode ser universalizado,
mesmo que o desenvolvimento do modo de produção capitalista
tenha penetrado o modo de produção rural. O debate sobre esta
questão continua com validade, conquanto o campesinato não
perdeu seu importante papel econômico e político. Além disso, é
necessário respeitar as múltiplas condições históricas e formações
sociais concretas que caracterizam as diferenciações. Há casos
em que a proletarização do campesinato – isto é, o processo de
assalariamento dos trabalhadores jogando-os num nível de vida
inferior – está evidenciado na medida em que o agronegócio e as
grandes corporações passam a ser o modelo produtivo em vigor.
Parece que o processo de pauperização – segundo o qual a clas-
se operária fica cada vez mais pobre em relação à classe capitalista
– continua ocorrendo. “Mesmo que os trabalhadores fiquem mais
ricos em termos absolutos, a distância que os separa da classe capi-
talista continua avançando” (GIDDENS, 2005, p. 236). Isto revela
que não basta ao Estado aplicar políticas de crescimento econômico,
subsidiadas por políticas de distribuição de riqueza, mas são neces-
sárias políticas de redistribuição das forças produtivas, dos acessos
aos meios de produção e de geração de renda.
Almiro Petry 117

6.2. Visão de Max Weber

Weber considera que a sociedade caracteriza-se por conflitos


sobre o domínio do poder e dos recursos. Por isso, coloca a
explicação das diferenciações sociais como desafio à Sociologia.
Em sua concepção de sociedade, elas podem ter vários princípios
explicativos, dependendo da formação histórica de cada uma. Em
sua visão multidimensional – frente à polarização das relações
de classes defendida por Marx – a estratificação social não era
apenas uma questão de classe, mas também de status e de partido.
Na sociedade chinesa tradicional, por exemplo, as posições sociais
eram fixadas pelas qualificações para a ocupação dos cargos. Já na
moderna sociedade capitalista, a propriedade é um determinante
essencial para a definição da posição social. Por conseguinte, esta
multidimensionalidade produz um vasto número de posições
possíveis, ao contrário do rígido modelo bipolar proposto por Marx.
Weber entende que o status se refere às diferenças que existem
entre os indivíduos e grupos sociais quanto ao prestígio e à honra.
Nas sociedades tradicionais, isto era bastante evidente; entretanto,
a sociedade moderna criou tantas possibilidades que deixou de ser
linear e passou a ser complexa. Por esse motivo, ele define o status
como a expressão de estilos de vida. “Sinais e símbolos de status – como
a moradia, o vestir, o modo de falar e a ocupação – ajudam a moldar
a posição social do indivíduo aos olhos dos outros” (GIDDENS,
2005, p. 237).
Para Weber, na construção do conceito de sociedade, a esfera
econômica, a política, a social, a religiosa, a jurídica e a cultural são
autônomas, com suas próprias lógicas de funcionamento. Por isso,
ele define o indivíduo como a unidade da análise sociológica. Contu-
do, para além do indivíduo, há um plano coletivo, que é o partilhar
dos indivíduos da ação social, constituindo, conforme a formação
histórica, a classe, o estamento e o partido. À vista disso, entende
que a divisão em camadas sociais não depende apenas do controle ou
da falta dele dos meios de produção, mas em diferenças econômicas
que não possuem nenhuma relação direta com a propriedade. “Tais
recursos incluem especialmente as aptidões e as credenciais, ou qua-
118 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

lificações, que influenciam no tipo de emprego que as pessoas são


capazes de conseguir” (GIDDENS, 2005, p. 236).
Considera que as classes, os estamentos e os partidos são fenô-
menos da distribuição do poder dentro de uma comunidade. A partir
de seu conceito de poder, julga que cada comunidade determina uma
ordem social específica, resultante da ordem econômica, da ordem
jurídica e da ordem política. “A ordem social é, para nós, simples-
mente a forma pela qual os bens e serviços econômicos são distri-
buídos e usados. A ordem social é, de certo, condicionada em alto
grau pela ordem econômica, e, por sua vez, influi nela” (WEBER,
1971, p.212). Por outro lado, afirma que “a estrutura de toda ordem
jurídica influi diretamente na distribuição do poder, econômico ou
qualquer outro, dentro de sua respectiva comunidade. Isso é válido
para todas as ordens jurídicas e não apenas para a do Estado” (idem,
p.211).

6.2.1 Classes

Weber trabalha com os conceitos de classe e de situação de


classe. As classes representam “bases possíveis, e frequentes, de ação
comunal”, e a palavra classe refere-se a qualquer grupo de pessoas
que se encontra na mesma situação de classe. Essa, por sua vez,
manifesta-se

[...] quando: (1) certo número de pessoas tem em comum


um componente causal específico em suas oportunidades de
vida, e na medida em que (2) esse componente é representado
exclusivamente pelos interesses econômicos da posse de bens e
oportunidades de renda, e (3) é representado sob as condições
de mercado de produtos ou mercado de trabalho (WEBER,
1971, p.212).

Assim, para Weber, a situação de classe é configurada pelas


oportunidades – de trabalho, de mercado, de condições de vida, de
experiências pessoais, etc. – e pelo tipo de poder ou a ausência dele.
Almiro Petry 119

A base econômica da situação de classe é a propriedade ou a fal-


ta de propriedade. As oportunidades específicas de vida dependem
da “forma pela qual a propriedade material é distribuída entre várias
pessoas, que competem no mercado com a finalidade de troca” (idem,
p.212). A distribuição da propriedade permite distinguir categorias,
“de um lado, segundo o tipo de propriedade utilizável para o lucro;
de outro lado, segundo o tipo de serviços que podem ser oferecidos
no mercado” (idem, p.213).
Weber enumera três categorias de classe:

[...] (a) classe proprietária é aquela em que as diferenças de pro-


priedade determinam primeiramente a situação de classe; (b)
classe aquisitiva é a que apresenta oportunidades de valorização
de bens ou serviços que lhe determinam primeiramente a situ-
ação de classe; (c) classe social é a totalidade daquelas situações
de classe entre as quais uma mudança pessoal, na sucessão das
gerações, é facilmente possível e costuma ocorrer tipicamente
(WEBER, 1994, p.199).

1) As classes proprietárias

Weber define a classe proprietária como positivamente


privilegiada (monopólios no abastecimento, na venda, na formação
do patrimônio e na oportunidade da formação do capital e nos
privilégios estamentais) e negativamente privilegiadas (privação
dos monopólios dos positivamente privilegiados). Assim (a) Classes
proprietárias positivamente privilegiadas são tipicamente os
rentistas: de seres humanos (proprietários de escravos); de terras;
de minas; de instalações (de trabalho e aparelhos); de navios e de
valores; credores de gado; de cereais e de dinheiro. (b) Classes
proprietárias negativamente privilegiadas são tipicamente: objetos
de propriedade (escravos e dependentes); desclassificados (déclassés:
proletarii, no sentido dos antigos); endividados e “pobres”, (c) Entre
ambas estão as classes médias, que são constituídas pelas camadas
de toda espécie e que compreendem os que possuem propriedades
ou qualidades de educação e que tiram delas seus rendimentos
(WEBER, 1994, p.200).
120 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

[...] Algumas delas podem ser classes lucrativas (empresários


positivamente privilegiados, proletários negativamente privile-
giados). Mas nem todas o são (camponeses, artesãos, emprega-
dos).
A articulação das classes proprietárias puras não é dinâmica,
isto é, não conduz necessariamente à luta de classes e às
revoluções de classe. [...] Somente o antagonismo de classes
proprietárias entre (1) rentistas de terras e desclassificados, ou
(2) credores e devedores [...] pode levar a lutas revolucionárias,
as quais, no entanto, não necessariamente têm o fim de mudar a
constituição econômica, mas primariamente apenas o de obter
acesso à propriedade ou à distribuição desta (revoluções de
classes proprietárias) (WEBER, 1994, p. 200).

2) As classes aquisitivas

Weber define a classe aquisitiva como positivamente privilegia-


da (na monopolização da direção da produção de bens, no interesse
dos fins lucrativos dos membros de sua classe e no asseguramen-
to de suas possibilidades aquisitivas pela influência sobre a política
econômica das associações políticas e de outras) e negativamente
privilegiadas (privação dos privilégios lucrativos). Assim (a) Clas-
ses aquisitivas positivamente privilegiadas são tipicamente (1) em-
presários: comerciantes; armadores; industriais; empresários agrá-
rios; banqueiros e empresários financeiros; e, (2) em determinadas
circunstâncias profissionais liberais (com capacidade ou formação
especial – advogados, médicos, artistas) e trabalhadores com quali-
dades monopólicas (próprias ou adquiridas). (b) Classes aquisitivas
negativamente privilegiadas são tipicamente trabalhadores, em suas
diversas categorias qualitativamente diferenciadas: qualificados; se-
miqualificados (treinados para determinado serviço); não-qualifica-
dos ou braçais (WEBER, 1994, p.201).

Entre elas encontram-se também aqui, como classes médias, os


camponeses e artesãos autônomos. Além disso, frequentemente
funcionários (públicos e privados); a categoria dos profissionais
liberais e os trabalhadores com qualidades monopólicas
excepcionais (WEBER, 1994, p.201).
Almiro Petry 121

3) As classes sociais

São elas: (a) Os trabalhadores em seu conjunto, e isto tanto


mais quanto mais automatizado se torna o processo de trabalho;
(b) A pequena burguesia; (c) A intelligentsia (os intelectuais) sem
propriedade e os especialistas profissionais (técnicos, “empregados”
comerciais ou de outra classe, burocratas; eventualmente com
separação social muito rigorosa entre eles, segundo os custos da
educação); (d) As classes dos proprietários e dos privilegiados por
educação (WEBER, 1994, p.201).
Quanto à questão da unidade de classe do proletariado (tema
interrompido por K. Marx em O Capital), passa pela possibilidade
de uma conduta homogênea em determinadas condições. Para We-
ber,

[...] uma ação de classe com caráter de relação associativa cria-


se com maior facilidade: (a) contra os portadores imediatos de
interesses opostos (trabalhadores – proletários – contra empre-
sários, e não contra acionistas, os quais de fato obtêm renda sem
trabalhar; tampouco: camponeses contra proprietários de ter-
ras); (b) somente em situações de classe tipicamente semelhan-
tes para massa de pessoas; (c) em caso de possibilidade técnica
de fácil reunião, especialmente nas comunidades de trabalho lo-
calmente concentradas (comunidade de oficina); (d) somente em
caso de condução para fins evidentes, os quais regularmente são
impostos e interpretados por pessoas não pertencentes à classe
(os intelectuais) (WEBER, 1994, p.202).

6.2.2. Estamentos

Weber utiliza os conceitos de estamento e situação estamental.


Denomina estamento a “uma pluralidade de pessoas que, dentro de
uma associação” goza, efetivamente, de uma situação estamental. A
situação estamental, por sua vez,

[...] é um privilegiamento típico positivo ou negativo quanto


à consideração social, eficazmente reivindicado. Baseia-se (a)
122 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

no modo de vida e, por isso, (b) no modo formal de educação


e, nesse caso, em aprendizagem empírica ou racional, e nas
formas de vida correspondentes; (c) no prestígio derivado de
descendência ou profissão.
Na prática, a situação estamental manifesta-se, sobretudo, (a)
no connubium, (b) na comensalidade – eventualmente, e (c) com
frequência, na apropriação monopólica de oportunidades de
aquisição privilegiadas ou na estigmatização de determinados
modos de aquisição, (d) em convenções estamentais (“tradições”)
de outra espécie (WEBER, 1994, p.202).

Dessa forma, um estamento reclama de modo efetivo (1) uma


consideração estamental exclusiva – e, eventualmente, também
(2) um monopólio exclusivo de caráter estamental. Assim, os
estamentos podem se originar:

[...] (a) primariamente, de um modo de vida estamental


próprio e, dentro deste, particularmente, da natureza da
profissão (estamentos por modo de vida e por profissão); (b)
secundariamente, de modo carismático-hereditário, com base
em pretensões eficazes de prestígio, em virtude de descendência
estamental (estamentos por nascimento-hereditários);
(c) da apropriação estamental de poderes de mando políticos
ou hierocráticos, como monopólios (estamentos políticos e
hierocráticos) (WEBER, 1994, p.202).

Para Weber, a sociedade estamental é convencional em decor-


rência do regramento do estilo de vida. Ela cria condições de con-
sumo economicamente irracionais e impede a formação do mercado
livre através da apropriação monopolista e da eliminação da livre
disposição sobre a própria capacidade aquisitiva. Os estamentos
nascem e subsistem em economias tipo litúrgico-monopolista, feu-
dal ou patrimonial-estamental (as classes aquisitivas florescem no
terreno da economia de mercado).
Entre as classes, a mais próxima ao estamento é a social e a
mais afastada é a aquisitiva. Os estamentos, em termos de centro de
gravidade, se formam frequentemente por classes de propriedade
(WEBER, 1994, p. 202).
Almiro Petry 123

6.2.3. Partidos

Weber denomina partidos às formas de relações associativas


baseadas no recrutamento, formalmente livre, com o fim de propor-
cionar poder a seus dirigentes e, por meio disso, a seus membros ati-
vos, oportunidades ideais ou materiais (de realizar seus objetivos ou
de obter vantagens pessoais, ou ambas as coisas). As relações podem
ser efêmeras ou duradouras e as associações na forma de séquitos
carismáticos, servidores tradicionais e adeptos racionais (racionais
referentes a fins ou a valores, ou de cunho ideológico). Podem ser
dirigidos por um líder ou por quadros administrativos. Podem estar
orientados por interesses de estamentos ou classes (partido esta-
mental ou partido de classe), ou por fins objetivos concretos ou por
princípios abstratos (partido ideológico = Weltanschauung).
O partido é uma associação de pessoas importante na
constituição do poder, que pode influir na estratificação social,
independentemente da classe e do status. “O partido define um
conjunto de indivíduos que trabalham juntos por terem formações,
objetivos e interesses comuns” (GIDDENS, 2005, p. 237), acrescidos
de uma visão de mundo (Weltanschauung), ou seja, sua concepção
ideológica da sociedade humana.
Os partidos empregam todos os meios para chegar ao poder.
Quando um governo depende de eleições livres e as leis são feitas
por votação, os partidos constituem organizações para o recruta-
mento de votos. Sendo feito num quadro jurídico, eles são partidos
legais. A adesão voluntária configura uma situação de interesse po-
lítico (e não de interesse econômico).
Isso significa que as atividades políticas estão nas mãos (a) dos
dirigentes e de um quadro administrativo, ao lado dos quais (b) apa-
recem os membros ativos (na maioria das vezes como aclamantes ou
com instâncias de controle, de discussão, de contrapropostas e de
resolução), enquanto (c) as massas não ativamente associadas (elei-
tores e votantes) são apenas objeto de solicitação, em tempos de
eleição ou votação (são os simpatizantes passivos), cuja opinião só
interessa como meio de orientação para o trabalho de propaganda
do quadro do partido, em casos de luta efetiva pelo poder. Normal-
124 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

mente permanecem ocultos (d) os mecenas do partido (WEBER,


1994, p.188-9).
Além dos partidos, legal e formalmente organizados, podem
existir:
(a) partidos carismáticos (dissensão sobre as qualidades
carismáticas do chefe, o verdadeiro senhor carismático – forma:
cisma);
(b) partidos tradicionalistas (dissensão sobre o modo de exercício
do poder tradicional – forma: obstrução ou revolta aberta
contra as inovações);
(c) partidos doutrinários (dissensão sobre conteúdos de ideologias
ou doutrinas – forma: heresia, que também pode aparecer em
partidos racionais – socialismo); e,
(d) partidos de pura apropriação (dissensão com o senhor e seu
quadro administrativo sobre o modo de recrutamento dos
quadros administrativos – forma: obstrução ou revolta).

A sustentação econômica do partido é uma questão relevante


(pequenas contribuições das massas, ou do mecenato ideológico, ou
contribuições regradas a partir do quadro administrativo, ou venda
de bônus, etc.), porque essa origem financeira distribuirá a influên-
cia do poder e a direção que as ações tomarão (WEBER, 1994,
p.189).

[...] Enquanto as classes têm seu verdadeiro lar na ordem


econômica, e os estamentos na ordem social, isto é, na esfera
de distribuição da honra, exercendo a partir dali influência
uns sobre os outros e ambos sobre a ordem jurídica, além de
também serem influenciados por esta, os partidos têm seu lar
na esfera do poder. Sua ação dirige-se ao exercício de poder
social, e isto significa: influência sobre uma ação social, de
conteúdo qualquer: pode haver partidos, em princípio, tanto
num clube social quanto num Estado. A ação social típica dos
partidos, em oposição àquela das classes e dos estamentos que
não apresentam necessariamente este aspecto, implica sempre
a existência de uma relação associativa, pois pretende alcançar,
de maneira planejada, determinado fim – seja este de natureza
Almiro Petry 125

objetiva: imposição de um programa por motivos ideais ou


materiais, seja de natureza pessoal: prebendas, poder e, como
consequência deste, honra para seus líderes e partidários, ou,
o que é o normal, pretende conseguir tudo isto em conjunto.
Por isso, partidos somente são possíveis dentro de comunidades
que, por sua vez, constituem, de alguma forma, uma relação
associativa, isto é, que possuem alguma ordem racional e
um aparato de pessoas dispostas e pô-la em prática, pois o
objetivo dos partidos é influenciar precisamente este aparato
e, se possível, compô-lo com seus adeptos. No caso isolado,
podem defender interesses condicionados pela situação de
classe ou pela situação estamental e recrutar seus partidários
de acordo com isto. Mas não precisam ser nem meros partidos
de classe, nem estamentais, e muitas vezes somente o são em
certa proporção, ou em nenhuma. Podem constituir complexos
efêmeros ou perenes, e seus meios para alcançar o poder
podem ser de natureza mais diversa, desde a força bruta em
todas as suas formas até a propaganda eleitoral com meios
grosseiros ou refinados: dinheiro, influência social, poder
da palavra, sugestão ou engano grosseiro, e até a tática de
obstrução, mais tosca ou mais elaborada, dentro das assembleias
parlamentares. Sua estrutura sociológica é necessariamente
muito diversa, conforme a ação social, por cuja influência estão
lutando, consoante a comunidade esteja ou não diferenciada
por estamentos ou classes e, sobretudo, de acordo com a sua
estrutura da dominação, pois para seus líderes é disso que se
trata, em regra (WEBER, 1999, p.185-6).

6.2.4. Castas

Weber aborda essas camadas com os conceitos de casta e


situação de casta. Considera uma casta a pluralidade de indivíduos
que se identifica com as características da situação de casta. A
situação de casta é configurada por categorias tais como religião,
raça, cor, hereditariedade e ocupação. A sociedade de castas é uma
formação histórico-estrutural particular, na qual as categorias
constituintes predominam no pensamento e na conduta das pessoas.
Das categorias decorre a distribuição do poder econômico, político
e religioso.
126 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

As castas, de modo peculiar as da Índia, apresentam as seguintes


características genéricas:
(1) a qualidade de membro de uma casta é hereditária e vitalícia
(exceto quando há expulsão da casta);
(2) predomina a endogamia, sendo a hipergamia permitida (um
homem de status superior, pode casar com mulher de status
inferior. A recíproca implica a expulsão da mulher da casta);
(3) as relações entre membros das diversas castas são rigorosa-
mente regradas. Qualquer contato com os párias é tido como
maculador (exige ritos de purificação);
(4) a ocupação da casta é hereditária. As relações profissionais
entre as castas são detalhadamente estabelecidas, como se ritos
fossem;
(5) a transgressão das regras da casta implica a expulsão e a perda
do respectivo status;
(6) cada casta tem seu corpo de autoridades, que cria e impõe as
regras e normas; e,
(7) a mobilidade individual inexiste (exceto pelo ato de expulsão,
ou pelo casamento), podendo ocorrer uma mobilidade coletiva.

De modo geral, a sociedade hindu divide-se em quatro castas


inclusivas: os brâmanes (sacerdotes), os xátrias (guerreiros), os
vaicias (mercadores) e os sudras (camponeses e trabalhadores).
A exclusão concentra-se nos párias ou intocáveis, os expulsos de
sua casta. A estratificação em hindus superiores, hindus inferiores
e intocáveis ou hindus superiores, castas profissionais e castas
intocáveis, varia de região para região ou de província em província.
As castas individuais (com sua diversidade de subcastas) “criam
cultos e deuses bem distintos”. A casta exerce o papel natural de
socializar “as comunidades étnicas que creem no parentesco de
sangue”, cultivando “uma crença em sua comunidade étnica”. A
estrutura de casta “transforma as coexistências horizontais e
desconexas de grupos etnicamente segregados num sistema social
de supra e subordinação” (WEBER, 1971, p.221-3).
Almiro Petry 127

[...] A posição do brâmane, no hinduísmo clássico, bem como


hoje, só pode ser compreendida em relação à casta, sem cujo
entendimento é impossível compreender o hinduísmo. [...] A
casta, isto é, os direitos e deveres rituais que ela dá e impõe, e
a posição dos brâmanes, é a instituição fundamental do hindu-
ísmo. Antes de qualquer coisa, sem casta não há hindu. Mas a
posição do hindu em relação à autoridade do brâmane pode va-
riar extraordinariamente, desde a submissão incondicional até
o desafio de sua autoridade. Algumas castas contestam a auto-
ridade do brâmane, mas praticamente isto significa meramente
que o brâmane é desdenhosamente rejeitado como sacerdote,
que seu juízo nas questões controversas de ritual não é reco-
nhecida como autorizado, e que seu conselho jamais é buscado
(WEBER, 1971, p.449).

A doutrina de salvação do hinduísmo determina a posição


social das castas (superiores, inferiores, impuras,...) pelas distâncias
sociais em relação às outras, em última instância, do brâmane. Sua
posição é inegável.

Em primeiro lugar, vêm os brâmanes, e, em seguida, uma


série de castas que, certo ou errado, pretendem pertencer às
duas outras castas, duas vezes nascidas: xátrias e vaicias. Para
demonstrar isso, elas pretendem o direito de usar a cinta
sagrada. [...] Mas tão logo o direito de uma casta a usar a cinta
sagrada é reconhecido, essa casta é aceita, incondicionalmente,
como sendo absolutamente limpa, ritualmente (WEBER, 1971,
p.464).

As castas seriam, enfim, aqueles grupos de status hereditários


cujos privilégios e distinções estão desigualmente garantidos
por meio de leis, convenções e rituais. [...] Por sua estrutura, as
sociedades de castas implicam um tipo de subordinação entre
grupos com maiores ou menores privilégios. [...] Muitas ve-
zes, as castas vinculam-se a determinados ofícios e sustentem
uma ética profissional tradicional de caráter religioso, distante
de toda ideia de racionalização do modo de produção que se en-
contra na base de toda técnica racional moderna – sistematiza-
ção da exploração para convertê-la em uma economia lucrativa
racional – de todo Capitalismo moderno (QUINTANEIRO et
alii, 2000, p.118).
128 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

6.3. Estratificação social brasileira19

A formação histórica de camadas sociais opera-se sob a influ-


ência de múltiplos fatores – econômicos, políticos, religiosos, etc.
– sendo, na sociedade capitalista, o econômico o mais marcante. Ao
estudá-lo nos permite, de modo nítido, compreender a formação es-
trutural das classes sociais no Brasil. Isto se evidencia na estratifica-
ção social quando vinculamos a organização das atividades humanas
– as de produção, de distribuição e as de prestação de serviços – com
a estrutura ocupacional, expressão dos vínculos entre a economia e
a sociedade. É na organização das atividades humanas que se pro-
duzem e reproduzem as condições materiais de existência, o que im-
plica a necessária formação e transformação histórica das categorias
ocupacionais e, por conseguinte, as camadas sociais – seu número,
suas características, sua hierarquização e seus comportamentos.
Como vimos em Ianni (1972), a sociedade de classes é uma
configuração histórico-estrutural que se revela e constrói ao nível
das relações e estruturas de apropriação (econômica) e dominação
(política). É a revolução industrial e urbana capitalista que darão
preeminência à propriedade privada e ao mercado como categorias
predominantes no pensamento e na ação das pessoas, destacando
como princípios classificatórios, na constituição das classes, a posse
dos meios de produção e a ocupação laboral.
No Brasil, o sistema de estratificação social está intimamente
associado ao desenvolvimento econômico e social, tendo um passa-
do marcado pela tradição colonialista, dependente da metrópole, e
um presente de acelerado dinamismo na constituição de um novo
padrão de sociedade de classes. Alguns estudiosos, como L. A. Costa
Pinto (1920-2002), Florestan Fernandes (1920-1995) e Paul Singer
(1938-), entre outros, têm apresentado perfis de estratificação, desde
o tradicional ao moderno, apontando os fatores e suas transições nas
diversas configurações.

19
Parte deste item está baseada em PETRY, Almiro; LENZ, Matias M. e
SCHNEIDER, José O. Realidade Brasileira. 10ª edição, Porto Alegre: Editora
Sulina, 1990, capítulo 5, A evolução e a configuração das classes sociais no Brasil, p.
189-201.
Almiro Petry 129

6.3.1. O perfil tradicional

Costa Pinto (1970) descreve o perfil tradicional, que inicia com


a colonização e perpassa os ciclos econômicos, com os seguintes
critérios: (a) a sociedade brasileira emergiu de uma economia
primária (extração de madeira, agricultura, extração mineral, etc.)
com objetivos comerciais voltados para a metrópole e que tinha,
na feitoria e na fazenda, sua principal estrutura de organização
econômica, social e política; (b) de uma inicial fixação no litoral,
o colonizador sentiu a necessidade de se expandir para o interior
à procura de novas riquezas; aí surgem as entradas e bandeiras,
movimentos de clãs, como unidades sociais isoladas, mas poderosas,
politicamente autônomas, economicamente autárquicas, que
simbolizam a entidade colonizadora por excelência; (c) no processo
de expansão se estabiliza a agricultura sob a gestão da família
patriarcal, socialmente ampliada por uma heterogênea clientela
e criadagem, completada pela massa de escravos; (d) a escravidão
se torna a característica mestra da sociedade brasileira colonial,
proporcionando o estilo do padrão tradicional de estratificação
social.
Sendo assim, a sociedade brasileira era formada pelo estrato
dos senhores – senhores das fazendas, das feitorias, dos engenhos,
das minas, etc. – no vértice superior da pirâmide social – uma cama-
da impermeável –, no extremo oposto, o estrato dos escravos ocupa-
va a linha zero da pirâmide social. Era uma sociedade dicotomizada
que admitia limitados indivíduos intermediários, não identificáveis
com os dois extremos.
Nos diversos ciclos econômicos, que se sucederam, houve leves
mudanças até que um conjunto de fatores históricos provocou uma
transição para o padrão moderno de estratificação.

6.3.1.1. O ciclo da cana-de-açúcar (+/- 1550-1650)

Este, caracterizado por duas camadas (a) os proprietários


rurais, senhores de engenho, de feitoria, de escravos e oficiais
da administração da metrópole; (b) os trabalhadores servis –os
130 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

escravos – totalmente desprivilegiados. Entre estas duas camadas,


havia indivíduos livres, habitantes das vilas que não constituíam um
estrato social, apenas estavam na condição de não se identificarem
com os dois extremos.
Os senhores compunham a aristocracia e nobreza rural,
agraciados com títulos honoríficos pela metrópole e eram os
detentores do poder econômico. Eles, ou seus prepostos constituíam
as Câmaras que detinham o domínio inconteste do poder político e
jurídico, em que a ordem pública e a ordem privada se confundiam.
Eis aí uma raiz histórica que marca a formação das instituições
políticas do Brasil até os dias hodiernos.

6.3.1.2. O ciclo do ouro (+/- 1690-1760)

Este, não altera, significativamente, o perfil anterior, incluin-


do no estrato superior os senhores de minas e os administradores
de minas. Entretanto, a emergência de uma camada intermediária
chama a atenção por não se identificar com as duas extremas. São
segmentos com perspectivas políticas e econômicas diferentes da
dos senhores ou dos oficiais representantes do poder da metrópole.
São os moradores das vilas, dos povoados que exercem atividades
artesanais, pequenos comerciantes, funcionários públicos, capata-
zes, agregados, clero e outros assemelháveis.

6.3.1.3. As condições históricas da transição, que ocorrem no ciclo do café


(+/- 1825-1930)

Se revelam (a) pela abolição da escravatura – fator social, que


representa o fim do domínio senhor-escravo; (b) pela proclamação
da república – fator político, como fim do Império –, resultante das
novas ideias democráticas que já revolucionavam o mundo ociden-
tal, sem as devidas repercussões aqui; (c) pela crise agrária (crise de
braços, de preços, da própria estrutura fundiária) – fator econômico,
no ocaso do Império, que representa também o fim do modelo de
produção – grande propriedade, mão de obra escrava, etc.; (d) pelo
crescimento demográfico acelerado – contribui para a modificação
Almiro Petry 131

da composição social da sociedade brasileira; (e) pela secularização


dos mecanismos de controle social e individual – separação entre a
Igreja e o Estado, etc.
Desse conjunto de condições históricas, compõem-se os
fatores positivos que de fato marcaram a mudança do sistema de
estratificação social. São eles, o processo da industrialização, o
processo da urbanização, a expansão do sistema de ensino e a
racionalização dos procedimentos públicos e privados.
A industrialização modifica o sistema produtivo – chamado de
setor secundário, com novo perfil de empresários, novos locais de
trabalho, exigindo novo perfil de mão-de-obra, bem como de consu-
mo. Este processo teve a trajetória de uma industrialização voltada
para a substituição das importações, passando por inovações tec-
nológicas para, mais recentemente, entrar na etapa da automação.
Indubitavelmente, neste processo reside um dos principais fatores
da mudança do sistema de estratificação social no Brasil.
A urbanização, processo concomitante ao da industrialização,
muda o perfil da localização territorial da população brasileira. De
predominantemente rural passa para predominantemente urbana
no final do século XX. A população rural, ao migrar para a urbana,
uma parte passa a integrar o proletariado industrial. No entanto, a
urbanização expande outro setor de alta geração de empregos, que
é o terciário, o de serviços, que absorve elevado número de traba-
lhadores. Com este processo, novos segmentos sociais surgem na
sociedade brasileira. O censo de 2010 recenseou 84,35% da popula-
ção residente em áreas urbanas e 15,65% em áreas rurais. Quanto
ao gênero, está ocorrendo uma masculinização do campo (proporção
maior de homens rurais em relação ao total da população rural re-
sidente), já atingindo os 54% e uma consequente feminização da ci-
dade (proporção maior de mulheres urbanas em relação ao total da
população urbana).
A expansão do sistema escolar, no passado, limitado às classes
privilegiadas (no modelo patriarcal, a escola estava na casa grande),
e aos poucos se popularizou mais, passa a ser uma exigência
de preparação do cidadão e da cidadã para as atividades que se
manifestam no novo perfil societário. Mesmo que a expansão tenha
132 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

sido insuficiente e com características mais mercantilistas, com


acentuada omissão do Estado, constituiu-se em fator facilitador de
mobilidade social, com a crescente possibilidade de qualificação de
mão-de-obra.
A racionalização (burocratização) das atividades empresariais e
públicas proporciona novas ocupações no setor de serviços, intensi-
ficando a mobilidade social. O avanço da industrialização exige uma
atividade econômica cada vez mais racionalizada e a ampliação dos
serviços públicos proporciona uma nova demanda de mão-de-obra
especializada. A somatória destas atividades leva a uma inevitável
dilatação do sistema administrativo público e privado do país, carac-
terística cada vez mais evidente no início do século XXI.
Acompanham estes fatores positivos alguns negativos como os
processos de concentração de renda, de riquezas, de terra e de capital,
presentes e manifestos na industrialização, associados à inflação,
provocando efeitos econômicos e sociais relativamente constantes
de diferenciação social. Os efeitos negativos produzem um efeito
neutralizador sobre as conquistas dos segmentos intermediários,
ameaçando-os da proletarização e de pauperização.
Talvez se possa falar de um ou outro círculo virtuoso de cresci-
mento econômico, entremeado por círculos depressivos que afetaram
mais as classes já desprotegidas, em especial as assalariadas. Entre-
tanto, a evolução da estrutura ocupacional formal da mão-de-obra
passou por uma radical transformação. Em 1940, por exemplo, 67%
da mão-de-obra ativa estavam no setor primário e, em 1996, apenas
17% estavam aí empregados; o setor secundário absorvia tão-so-
mente 9,4%, em 1940, e 21,4%, em 1996; o setor serviços empregava
23,6%, passando para 61,6%, em 1996. Isto significa que a prestação
de serviços passou a ser o chamariz empregatício do país, setor que
apresenta remunerações bastante baixas.
Já nos fins do século XX e inícios do século XXI, sob os
efeitos do plano Real, processa-se uma profunda reestruturação das
camadas sociais a partir dos novos estratos econômicos emergentes.
Ocorrem deslocamentos verticais que se identificam com uma
respeitável mobilidade social, associada à mobilidade geográfica.
Almiro Petry 133

6.3.2. O perfil moderno

A configuração do perfil moderno de estratificação social


passa pelas modificações na distribuição setorial da mão-de-obra,
decorrentes das transformações produtivas ocorridas e dos acessos
aos meios de produção, de distribuição e de consumo.
Florestan Fernandes (1968) contribui para esta análise pro-
pondo, como ponto de partida, o critério de inserção da população
no processo produtivo. Então ele dicotomiza a população em dois
grandes grupos: o dos possuidores de bens de produção e o dos não
possuidores. No grupo dos possuidores, ele inclui a classe alta e a
classe média e no de não possuidores, a classe baixa. Contudo, ele
reconhece que não é fácil estabelecer o limite de definição entre uma
e outra classe. Tenta conciliar esta dificuldade pela descrição com-
positiva de cada classe.

6.3.2.1. O grupo dos possuidores de bens

É constituído pela classe alta e classe média.

(1) A classe alta é formada, aproximadamente, (a) pela classe alta


urbana – composta pelos grandes industriais, banqueiros, co-
merciantes, profissionais liberais de elevada qualificação, pro-
fissionais em serviços administrativos de elevada qualificação,
a minoria governante e altos funcionários públicos; (b) pela
classe alta rural – formada pelos grandes proprietários rurais
e arrendatários capitalistas [exploram a terra diretamente ou
através de administradores, com capital próprio e mão-de-o-
bra assalariada], os administradores do agronegócio. No plano
econômico, a classe alta vive assegurada de rendas e de capital,
detendo o poder econômico e os órgãos formadores de opinião
pública; no plano político, é reacionária e oportunista, apesar
dos conflitos internos entre os diferentes segmentos partidá-
rios que competem na conquista do poder, entretanto, sempre
visando aos interesses de classe; no plano social, revela consci-
134 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

ência de classe e procura exteriorizar, através de bens materiais,


a distinção social. Com as rápidas mudanças que se processam,
o segmento de administradores tende a crescer, como também
seu poder decisório, descaracterizando o critério de “ser pro-
prietário”, seja da terra, da indústria ou do capital e, contudo
auferir elevados rendimentos resultantes de “bons negócios”
concretizados na área financeira, nos investimentos, etc.
(2) A classe média é formada, aproximadamente, (a) pela classe mé-
dia urbana, que se constitui: de um estrato tradicional – funcioná-
rios públicos, profissionais liberais, jornalistas, assalariados de
colarinho e gravata, professores, profissionais de nível superior,
comerciantes, bancários, etc., entretanto, muitos estão ameaça-
dos pela propensão à perda de status e à proletarização; de um
estrato moderno – administradores, gerentes e supervisores das
novas atividades emergentes das transformações produtivas e
do setor serviços como elementos estratégicos das mudanças,
comerciantes das novas áreas de consumo, trabalhadores das
indústrias altamente qualificados, técnicos que atuam nas áreas
das tecnologias de informação, etc.; (b) pela classe média rural
– pequenos e médios proprietários rurais que trabalham em
regime de empresa familiar, administradores e gerentes de em-
presas rurais e cooperativas, comerciantes da área rural etc. No
plano econômico, a classe média vive de seu trabalho e de sua
profissão, dispondo de algumas reservas financeiras; no plano
político, é em geral conservadora, com receio das possíveis mu-
danças; no plano social, aspira a uma mobilidade social ascen-
sional, mesmo sob a pressão estrutural e sistêmica de pauperi-
zação.

Florestan Fernandes entende que os possuidores de bens de


um sistema econômico e social alimentam idênticos interesses de
classe e se incluem na mesma situação de classe. Eles se polarizam,
quando se trata de manter o poder decisório, mesmo havendo diver-
gências ideológicas e partidárias, em relação ao sistema econômico
em sua formação societária.
Almiro Petry 135

6.3.2.2. O grupo dos não possuidores de bens

É constituído pela classe baixa, portadora de vários estigmas


sociais e objeto de preconceitos e estereótipos, subdivide-se em
urbana e rural.

(1) A classe baixa urbana é o grande estrato composto pelos


assalariados das fábricas, dos escritórios, dos serviços do
comércio, que estão em processo de proletarização e de
pauperização. Entretanto, aceitam e valorizam os símbolos da
sociedade de consumo e assumem condutas reivindicatórias em
vez da negação do sistema. Nesta perspectiva, vivem em um
estágio de profunda alienação. A este estrato soma-se o setor
indigente, como produto da pauperização, caracteriza-se por
não ter emprego e de estar na exclusão social, vivendo em um
estágio de anomia social, sendo visto como um estrato urbano
dependente dos programas sociais públicos.
(2) A classe baixa rural, constituída pelos assalariados rurais de
baixa remuneração, os não assalariados [parceiros, meeiros,
diaristas, agregados, etc.], minifundistas, etc., que vivem em
precárias condições de vida. Às vezes, este segmento é descrito
pelo termo campesinato; no entanto, este pressupõe uma for-
mação social que conduz a uma consciência de classe, que não
é o caso da tradição rural brasileira. No plano econômico, a
classe baixa caracteriza-se pela sobrevivência do trabalho ou
dos benefícios obtidos pelos programas sociais. Não consegue
criar uma reserva para futuros imprevistos (ou algum investi-
mento). No plano político, apresenta-se como reformista, en-
trementes é uma massa eleitoral bem manipulável, seguindo as
promessas da possível ascensão econômica e social. No plano
social, alimenta um hedonismo imediatista para compensar a
contínua angústia pelo amanhã, vivem em um estágio de cultu-
ra rudimentar, com muitos analfabetos e nutrem uma religio-
sidade popular, às vezes, repleta de superstições e degeneração
do sentimento religioso.
136 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

No entender de Paul Singer (1981), fundamentado em dados do


IBGE20, é possível diferenciar, a partir dos níveis de renda, de posses
e de salários, quatro grandes estratos: o da burguesia, o da pequena
burguesia, o do proletariado e o do subproletariado. Vejamos:

(a) A burguesia corresponderia a 3,36% da população brasileira,


sendo 0,9% a burguesia empresarial (proprietários e dirigentes
das empresas urbanas e rurais) e 2,46% a burguesia gerencial
(administradores urbanos e rurais, burocratas, etc.). Este
estrato seria o equivalente à classe alta;
(b) A média e pequena burguesia, constituindo 20,84% da popula-
ção brasileira e composta pelo estrato de pequenos empregado-
res (1,77% da população); os autônomos (12,47% da população)
e os não-remunerados – membros das famílias de autônomos
e pequenos empregadores (6,6% da população). Este estrato
equivaleria ao da classe média;
(c) O proletariado, constituído pelos assalariados urbanos e rurais
sem poder decisório na faixa acima de um salário mínimo até
dez, correspondendo a 28,13% da população; e,
(d) O subproletariado urbano e rural, ao qual pertencem 47,64%
da população com um ou menos salários mínimos, sendo
30,94% assalariados, 10,65% autônomos e os demais, integram
os segmentos de dependentes. Vivem em certo estado anômico
e de alienação. Ambos – proletariado e subproletariado –
configuram a classe baixa.

6.3.2.3. A nova classe média

É assim categorizada por Marcelo Néri no texto A nova clas-


se média (2008)21, no qual o autor disserta sobre as categorias eco-
nômicas A, B, C, D e E, abordadas sob a denominação de classes,
apontando que a A e a B elevaram sua renda, de 2004 a 2008, na

20
Censos de 1960, 1970 e Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio (PNAD)
1976.
21
Os textos dos diferentes estudos estão disponíveis em: www.fgv.br/cps/ncm
Almiro Petry 137

ordem de 33,6%, enquanto a C aumentou sua renda em 22,8% e seus


membros passaram a ser consumidores simbólicos expressos nos
“indicadores substantivos” como “casa, carro, computador, crédito”,
etc. e a inclusão no mundo do trabalho, verificável pela “carteira de
trabalho, estão em níveis recordes históricos” (p.5). Para ele, “a clas-
se C é a classe central, abaixo da A e B e acima da D e E”.

A faixa C central está compreendida entre os R$ 1064 e os


4561 a preços de hoje na grande São Paulo. A nova classe C
está compreendida entre os imediatamente acima dos 50% mais
pobres e os 10% mais ricos na virada do século. Heuristicamente,
os limites da classe C seriam as fronteiras para o lado indiano e
para o lado belga da nossa Belíndia” (NÉRI, 2008, p. 5)22.

O autor é enfático ao afirmar que “a nossa classe C aufere em


média a renda média da sociedade” e, em relação ao resto do mundo,
“80% das pessoas no mundo vivem em países com renda per capita
menor que a brasileira”. Portanto, “a classe C é a imagem mais
próxima da sociedade brasileira” (p.5). Entretanto, suas aspirações
e seus valores ainda não estão claramente identificados. Ela soma
94,93 milhões de pessoas e, se fosse um país, ocuparia o 13º lugar no
ranking mundial (corresponderia às Filipinas). Entrementes, não se
pode olvidar que abaixo dela estão 38,94% da população brasileira
num total de 73,3 milhões de pessoas (como um país, seria o 17º no
ranking mundial, ou algo como toda a população da Turquia).
O autor argumenta que a desigualdade de renda diminui no
Brasil desde 2001. “Entre 2001 e 2009, a renda per capita dos
10% mais ricos aumentou 1,49% ao ano, enquanto a renda dos
mais pobres cresceu a uma notável taxa de 6,79% por ano” (NÉRI,
2010, p. 10). Com este processo, também se altera o Índice de

22
Como esclarecimento: a) Belíndia expressão criada, em 1974, pelo economista
Edmar Bacha (1943-) para caracterizar a má distribuição da riqueza nacional
em que poucos moravam e viviam em condições similares à Bélgica e muitos se
assemelhavam ao padrão de vida da Índia (daquela época).
b) Na virada do século (1999), os 10% mais ricos detinham 47,4% da renda
nacional e o Índice de Gini era 0,5957 (2001).
c) Os valores expressos em Reais correspondem a 2,56 e 10,99 salários mínimos
nacionais, respectivamente.
138 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Gini, pois em 1960 ele era de 0,5367 atingindo o pico de 0,6091,


em 1990, caindo para 0,5448, em 2009 (idem, p. 11). Mesmo assim,
passadas cinco décadas de crescimento econômico, associados à
concentração de renda nas primeiras décadas deste período e, após,
com algumas políticas públicas de distribuição de benefícios sociais,
o índice continua superior ao de 1960. Isto pode significar que a
industrialização acabou favorecendo os segmentos mais ricos da
sociedade brasileira. Parece evidente que no ano de 1960, com uma
população de 70,1 milhões, o perfil era predominantemente rural,
com 55,3%, contra 15,65% em 2010, dos quase 191 milhões de
brasileiros. A acelerada urbanização das décadas de 1970 e 1980 e o
crescimento urbano paulatino nas décadas posteriores, associada às
transformações econômicas, alteraram a estrutura ocupacional do
país mediante o novo mundo do trabalho e de renda que se expressa
em vários indicadores econômicos e sociais como é o caso da renda,
da escolarização, da formalidade do mercado de trabalho, etc. Neste
contexto, encontram-se algumas razões das mudanças encetadas, e
quiçá, a elevação do índice de escolarização seja o mais relevante.
A visível mobilidade social ascendente deste contingente humano,
frente à aguda desigualdade social estruturada, pode ser avaliada
de acordo com os bens acumulados, das chances e oportunidades
ocupacionais, das rendas usufruídas etc., segundo as valorizações a
elas vinculadas (como distinção e prestígio sociais).
Com estas mudanças, Néri (2010) avalia que 29 milhões de bra-
sileiros ingressaram entre 2003 a 2009, na “chamada nova classe
média” (idem, p. 12). Acima dela, as classes A e B incorporaram,
no mesmo período, um contingente de 6,6 milhões, “atingindo 20
milhões de brasileiros – cerca de 10,5% da população” (idem, p. 12).
Com tal característica, neste período, as classes ABC adicionaram
35,7 milhões às suas fileiras. Por outro lado, a base da pirâmide eco-
nômica, “formada pelas classes D e E foi reduzida de 96,2 milhões
em 2003 para 73,2 milhões em 2009” (idem, p. 13).

Os números acima ensejam duas reflexões, uma política e outra


econômica. Os 94,9 milhões de brasileiros que estão na nova
classe média correspondem a 50,5% da população. Isto significa
que a nova classe média brasileira não só inclui o eleitor
Almiro Petry 139

mediano tido como aquele que decide o segundo turno de uma


eleição, mas que ela poderia sozinha decidir um pleito eleitoral.
Complementarmente, esta também é a classe dominante do
ponto de vista econômico, pois concentra 46,24% do poder
de compra dos brasileiros em 2009 (era 45,66% em 2008),
superando as classes AB, estas com 44,12% do total do poder
de compra. As demais classes D e E têm hoje 9,65% do poder de
compra, caindo do nível de 19,79% logo antes do lançamento do
plano Real (NÉRI, 2010, p. 14).

O autor tenta homogeneizar politica e economicamente as clas-


ses, o que, do ponto de vista sociológico, é inviável na medida em
que a sociedade brasileira é pluricultural, multiétnica, ideologica-
mente complexa, social e politicamente diversificada. Na reflexão
política, a ilação feita de que a classe C sozinha poderia decidir um
pleito poder-se-ia estender às mulheres por serem a maioria absolu-
ta da população. Entretanto, o gênero não confere a homogeneidade
partidária e nem ideológica. Aqui temos tão-somente uma consta-
tação estatística que não permite fazer tal afirmação. No caso, há
uma explícita ausência de consciência de classe e se configura, no
dizer de Weber, uma massa “não ativamente associada”, que se ca-
racteriza pela heterogeneidade. Isto implica a mínima probabilidade
de uma ação política conjunta, a não ser que emerjam agentes pro-
motores desta meta. Na reflexão econômica, ocorre algo similar na
medida em que o consumo se torna predominantemente simbólico,
perpassando as necessidades básicas até as necessidades socialmen-
te criadas e que tendem a se concretizar, individualisticamente, por
imitação às classes superiores. O pensamento da distinção social
pela elitização se expressa nas condutas de consumo, aspiração dos
membros componentes dos estratos médios e inferiores. A domina-
ção se localiza nas classes superiores, por serem as detentoras dos
meios de produção, da distribuição dos bens e da formação do pen-
samento dominante, como já ensinava Marx.
É preciso destacar que, no período do plano Real, as classes
D e E perderam um significativo espaço no mercado consumidor
(caíram de uma participação de 19,79% para 9,65%), acompanhando
o declínio de membros dessas classes que em 2003 somavam 96,2
140 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

milhões, ou seja, 54,87% da população, caindo para 73,3 milhões


(38,94%) em 2009.
Convém mencionar que o autor apresenta a seguinte compo-
sição numérica das classes: a A abrange 9,6 milhões; a B 10,37 mi-
lhões23; a C 94,93 milhões; a D 44,45 milhões e a E 28,84 milhões
de pessoas (NÉRI, 2010, p. 32). Para definir estes estratos, o critério
aplicado é a renda total (salários, aluguéis, rendimentos financeiros,
etc. auferidos de maneira formal ou informal), isto é, seu potencial
de consumo, com os seguintes níveis, em Reais de 2009: Classe E,
de zero a 70524; Classe D, de 705 a 1.126; Classe C, de 1.126 a 4.854;
Classe B, de 4.854 a 6.329; Classe A, acima de 6.329 (idem, p. 30).
É importante chamar a atenção de que o estudo tem méritos
metodológicos e analíticos, a despeito de certo ufanismo que é por-
tador, merecendo a devida atenção dos pesquisadores e estudiosos
das classes sociais brasileiras.

7. As instituições sociais

Considera-se, de modo geral, que as instituições sociais


constituem a base da organização social encontrável nas sociedades
humanas e que se referem aos aspectos fundamentais da vida social
ordenada. Por conseguinte, as instituições sociais retratam, no
dizer de Demo (2002), o modo de ser da sociedade humana, com as
condutas individuais e coletivas já codificadas. É a “longue durée das
instituições” segundo Giddens (2003, p.70), frente ao ciclo vital,
a “durée da atividade”. Tradicionalmente, pela ótica funcionalista
e estruturalista, a família, a educação, a economia, a política, a
religião e a recreação são categorizadas como instituições sociais.
Por conseguinte, o funcionalismo “vê a sociedade como um conjunto
de instituições sociais que desempenha funções específicas para
assegurar continuidade e consenso” (GIDDENS, 2005, p. 152). O

23
Os estratos A e B formam a elite brasileira, segundo o autor.
24
Em 2009, o salário mínimo nacional era R$ 465,00 e, em 2010, R$ 510,00.
Almiro Petry 141

olhar do modo de ser retrata a faceta da estabilidade e da segurança


social, que redundam nas rotinas cotidianas do convívio social.
No entanto, a sociedade humana é prenhe e portadora do modo de
vir a ser, um futurível de mudanças, dinamizado pela evolução e
transformações. A sociedade, por congregar seres humanos vivos,
é portadora de energias criadoras do devir e emancipadoras do
passado e do presente, pois na realidade nada é tão estático e regido
pela imutabilidade que não possa vir a mudar.
Na abordagem desta temática, evidencia-se o dilema das esco-
lhas a serem feitas em desenvolver um olhar fixado no modo de ser
ou no modo de vir a ser. Inicialmente, teremos a cautela em chamar a
atenção à opção pelo olhar do modo de ser e aí cabe a conceituação
de Fichter (1972) de que a instituição social “é uma estrutura relati-
vamente permanente de padrões, papéis e relações que os indivídu-
os realizam segundo determinadas formas sancionadas e unificadas,
com o objetivo de satisfazer necessidades sociais básicas” (p. 296).
Fichter destaca que cada instituição social tem (a) uma finali-
dade, que é a satisfação de necessidades, sejam biológicas ou sociais,
individuais ou coletivas; (b) um conteúdo relativamente estável de
padrões, de papéis e relações entre os indivíduos da mesma cultura;
(c) uma estrutura, expressa na coesão entre as partes e suas combi-
nações evidenciadas por padrões comportamentais; (d) uma unida-
de, que permite certa autonomia, mesmo que não seja possível fun-
cionar separadamente das demais; (e) um conjunto de valores que se
expressam em códigos de condutas socialmente aceitos.
A partir desta concepção, Fichter acredita que cada instituição
social seja portadora de regras sociais que (1) se referem aos aspectos
mais perenes e essenciais do ser humano e da sociedade; (2) regem
a conduta dos seres humanos segundo modelos estabelecidos e
mantidos; (3) são legitimadas pelo modo de ser individual e coletivo.
Seguem algumas breves considerações sobre as diversas
instituições sociais.
142 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

7.1. A família

Formalmente, a família humana é considerada uma unidade


social básica e universal. É básica, porque as sociedades humanas
se organizam, em geral, a partir deste núcleo biológico e social; é
universal, porque é encontrável sob as variadas formas culturais e
dimensões, nas diferentes sociedades humanas.
Nas sociedades do tipo comunitárias, a família constitui a unida-
de social mais significativa e a vida dos indivíduos está intimamente
ligada a ela. Já nas societárias, os indivíduos estão mais vinculados às
associações do que à própria família. No primeiro modelo, grande
parte das organizações, seja na política, na economia, na religião,
etc., mantêm fortes liames com a família. No segundo modelo, a
divisão do trabalho, a estrutura ocupacional, o profissionalismo, o
exercício do poder, etc., distanciam os indivíduos de sua unidade
social básica, passando a prevalecer as formalidades das relações e
dos vínculos.
Na literatura sociológica (Fichter, Lakatos, Demo, Giddens e
outros), encontram-se várias conceituações de família, sendo algumas
mais usuais, como “uma unidade constituída por um homem e uma
mulher – ou um homem e várias mulheres; uma mulher e vários
homens – unidos por laço matrimonial, e pelos filhos nascidos dessa
união”; ou ainda, “pais e filhos, quer morem juntos ou quer não”;
“qualquer grupo de pessoas intimamente ligadas pelo sangue, como
pais, filhos, tios, tias e primos”; “o grupo de pessoas que formam um
lar sob as ordens de um chefe, incluindo pais, filhos, criados, etc.”
Giddens entende que a “família é um grupo de pessoas diretamente
unidas por conexões parentais, cujos membros adultos assumem a
responsabilidade pelo cuidado das crianças” (GIDDENS, 2005, p.
151).
Deduz-se desta conceituação o destaque de dois tipos de la-
ços que unem as pessoas, os de sangue – a consanguinidade – e
os conjugais – a afinidade. Estes vínculos remetem a família a um
sistema social maior que é o sistema de parentesco – uma complexa es-
trutura de papéis, de regras, de responsabilidades, de legitimidade,
Almiro Petry 143

etc. – que jungem os homens, as mulheres e as crianças, baseado na


consanguinidade e na afinidade. O sistema de parentesco abrange o
casamento, a paternidade, a maternidade, a legitimidade da descen-
dência, os vínculos ascensionais, descensionais e colaterais, o tabu
do incesto, etc. O casamento, como forma jurídica ou convencional,
estabelece “as regras que orientam as relações, os direitos e os deve-
res recíprocos dos cônjuges: continuidade, dissoluções e obrigações
de cada parte; a paternidade regulamenta o parentesco, que não se
limita a laços de sangue” (LAKATOS, 1978, p. 155). Por isso, segun-
do Malinowski25, é universal o princípio da legitimidade, ou seja, a
regra social de que nenhuma criança possa existir sem que alguém
assuma o papel de pai sociológico (mesmo que não seja o biológi-
co), pois o pai biológico (genitor) e o social (pater) não precisa ser a
mesma pessoa.
No panorama da estrutura social, a família exerce algumas
funções que estão intimamente ligadas à satisfação de necessidades
biológicas e sociais, como:
(1) A sexual-reprodutiva, que assegura a permanência, a conti-
nuidade e a eventual expansão do grupo, ou seja, a continuação
da espécie humana. A procriação é regulamentada com normas
e sanções que legitimam a reprodução. A procriação raramente
é aprovada fora do círculo da legitimação, mesmo que a satisfa-
ção sexual seja permitida fora do casamento. Cada vez mais, a
função reprodutiva cede espaço para o relacionamento sexual
de enaltecimento da sexualidade do par;
(2) A educativa-socializadora, que proporciona à prole a integra-
ção e a preparação ao convívio social, mediante os ensinamen-
tos da linguagem, a inculcação de hábitos, a transmissão da
cultura, etc.;
(3) A econômica, que proporciona a base material para a subsis-
tência, assegura o sustento e a proteção dos dependentes, vi-
sando o bem-estar de cada membro; e,

25
Bronislaw Malinowski (1884-1942) antropólogo polonês, considerado um dos
fundadores da antropologia social e um dos fundadores da escola funcionalista.
144 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

(4) A psicoemocional na formação da personalidade dos descen-


dentes, bem como dar o equilíbrio psíquico e emocional aos
membros adultos. Acredita-se que a família seja o “lugar natu-
ral” do encontro entre homem e mulher, estes com seus filhos,
em sua complementariedade sexual, emocional, psíquica, reli-
giosa e de suas múltiplas capacidades.

Parsons reduziu a duas as principais funções da família, quais


sejam: a socialização primária e a estabilização da personalidade. A so-
cialização primária “é o processo pelo qual as crianças aprendem as
normas culturais da sociedade em que nasceram”. A estabilização
da personalidade “refere-se ao papel desempenhado pela família ao
assistir emocionalmente seus membros adultos” (GIDDENS, 2005,
p. 152).
Entretanto, as funções manifestas, expressão de Merton, na
prática nem sempre se plenificam e trazem sequelas que marcam as
pessoas e as relações sociais, muitas sob a forma da perversidade.
Encontramos um autoritarismo explícito ou camuflado; a manuten-
ção de estruturas patriarcais; uma dominação masculina com cla-
ra subjugação da mulher; uma acentuada subalternidade dos filhos
em relação aos pais; um distanciamento de gerações, com intensos
conflitos; a repressão da expressão da sexualidade, em especial a da
mulher; a redução da mulher à procriação e submissão aos capri-
chos masculinos; o abandono dos filhos e o estímulo à prostituição;
o sexo como tabu, em especial quando se trata da busca do prazer
entre cônjuges. Giddens (2005), ao abordar as influências sociais no
comportamento sexual, apresenta a expressão de Freud de que os
seres humanos são “polimorfologicamente perversos”.
Entrementes, a tradicional estabilidade da família está sendo
cada vez mais contestada nas sociedades ocidentais. Durante as últi-
mas décadas emergiram padrões familiares inimagináveis em épocas
anteriores. “A grande diversidade de formas de famílias e de núcleos
domésticos tornou-se uma característica cotidiana de nossos tem-
pos” (GIDDENS, 2005, p. 151). Assim, a família contemporânea:
Almiro Petry 145

(a) tende a diminuir de tamanho, reduzindo-se aos cônjuges com


dois filhos, ou um filho, ou nenhum; isto significa que a família
extensa cede lugar para a família nuclear;
(b) perde cada vez mais a estabilidade e a continuidade (mantidas
artificialmente no passado) como consequência da emancipação
da mulher e sua inserção no mercado de trabalho e outras
atividades da sociedade;
(c) cada vez mais a mulher assume o papel de “cabeça da família”
com a responsabilidade de criar sozinha sua prole, saindo de
seu papel coadjuvante; são os chamados “lares monoparentais”,
fato que também atinge aos homens, como pais solteiros, quer
tenham sido casados ou não;
(d) usufrui dos avanços da medicina e da biotecnologia quando se
trata da reprodução;
(e) evidencia a vivência de relações mais fluidas entre pais e filhos;
(f) assume novas formas em decorrência da liberação sexual e da
aceitação do casamento homossexual, como consequência do
reconhecimento da homoafetividade; e,
(g) assume novas formas de composição na medida em que se
formam núcleos de segundas núpcias, em decorrência do
aumento das separações do modelo anterior heteromonogâmico.

Quanto à organização dos grupos familiares, Lakatos (1978, p.
156-9) apresenta os diversos modos constitutivos, como:

(1) Com relação ao número de cônjuges, a família pode ser


monogâmica – um homem e uma mulher; poligâmica –
poligínica [um homem com várias mulheres] ou poliândrica
[uma mulher com vários homens]; ou cenogâmica – um grupo
específico de mulheres mantêm relações sexuais com um grupo
específico de homens para garantir a continuidade do grupo;
(2) Em relação ao tamanho, a família pode ser nuclear (conjugal,
biológica, elementar), extensa, composta, patriarcal;
146 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

(3) Quanto aos laços conjugais, que retratam o sistema de


parentesco, podem ser de consanguinidade e de afinidade;
(4) Relativo à descendência poderá ser matrilinear, patrilinear ou
bilateral;
(5) Concernente à autoridade, poderá ser patriarcal, matriarcal ou
igualitária;
(6) No que diz respeito às restrições de casamento, a constituição
poderá ser de caráter endogâmico ou exogâmico, definido pelo
sistema de parentesco;
(7) Quanto à residência dos novos casais, poderá ser patrilocal,
matrilocal, neolocal, avunculolocal, madripatrilocal, bilocal;
(8) Relativamente aos laços de união oriundos do casamento, do
concubinato ou de uniões estáveis (sem a formalidade jurídica),
poderão ser temporários, frouxos, dissolúveis ou indissolúveis;
após a separação de vínculos um novo casamento pode ser proi-
bido, permitido ou obrigatório (caso do levirato – tradição ju-
daica, árabe e hindu – que obriga um homem a casar-se com a
viúva do irmão quando este não deixa descendência masculina;
o rebento será considerado filho do irmão);
(9) No que diz respeito à escolha do cônjuge, ela poderá ser livre,
controlada, determinada e a união poderá ser prematura ou
tardia; e,
(10) Em relação à herança, ela poderá ser de primogenitura (o
primeiro herda tudo), de ultimogenitura (o último herda tudo),
de limitação por sexo (ou os homens ou as mulheres herdam),
de participação igualitária.

Observa-se na atualidade que os filhos das classes sociais su-


periores, na infância, na adolescência e na juventude estão menos
tempo com os pais do que no passado, no entanto, como jovens
adultos permanecem mais sob o mesmo teto (geração canguru); já
os das classes menos aquinhoadas não têm estes novos privilégios,
premidos pela necessidade da sobrevivência são jogados no traba-
lho informal, quando não na perversidade do mundo das drogas e,
quase sempre, não conseguem cumprir os anos de escola prescritos.
Almiro Petry 147

Além destas categorias juvenis, emerge da realidade social pós-in-


dustrial um novo segmento classificado como os nem-nem, qual seja:
nem trabalham e nem estudam. Os estudiosos manifestam certas
preocupações sobre as perspectivas de futuro destes jovens.
Segundo Demo (2002), a desagregação familiar é apontada
como “fator importante na proliferação de crianças e adolescentes
em situação de rua, com realce para a condição de marginalização
socioeconômica”. Paralelamente, a ideologia da permissividade
mediante a maior liberdade concedida aos filhos, forma uma gera-
ção distante do ambiente familiar e dos regramentos sociais e que
tem dificuldades de convivência social e de respeito mútuo. Nes-
te contexto, as redes sociais e os contatos virtuais assumem papel
de proeminência. Consequentemente, os relacionamentos pessoais
e interpessoais, tanto os sociais quanto os sexuais se esvaziam da
emocionalidade. Para resgatar a emocionalidade dos relacionamen-
tos é preciso que haja uma colaboração comunicativa entre os parti-
cipantes e esta aflora na presencialidade. “A comunicação emocional
tornou-se central, não apenas para relacionamentos de amor sexu-
al, mas para amizades e interações entre pais e filhos” (GIDDENS,
2005, p. 151).
Os estudos sociológicos e antropológicos apontam que
todas as sociedades humanas – tanto nas tradicionais quanto
nas industrializadas, pós-industrializadas e urbanizadas – estão
enfrentando questões similares concernentes às mudanças na vida
familiar. Evidencia-se a denominada desagregação familiar presente
nos estudos acadêmicos e veículos da mídia globalizada. Para
Giddens, “a erosão das formas tradicionais de vida familiar”, sua
desintegração “é não só um reflexo, mas uma importante colaboração
para a globalização”.

Entretanto, resistindo ou não a tais mudanças, o fato de


hoje a maioria de nós pensarmos sobre elas é indicativo das
transformações básicas que afetam nossas vidas pessoais e
emocionais nas últimas décadas. Não há retorno. Melhor é
comprometer-se de modo ativo e criativo com esse mundo em
transformação e com seus efeitos em nossas vidas privadas
(GIDDENS, 2005, p. 151).
148 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

7.2. A educação

A instituição educacional lida com o processo sistematizado


da socialização, que tem lugar e espaço, pelo lado informal, na
vida doméstica e familiar, e pelo formal, no complexo sistema
organizacional da escola, numa conjunção de atividades pessoais e
colaborativas de grupos na presencialidade e hoje, grande parte já
na modalidade virtual.
No complexo sistema social as instituições educativas exercem
algumas funções manifestas, com destaque para:
(1) a preparação das pessoas (crianças, jovens, etc.) para o convívio
social, o desempenho de papéis ocupacionais, além da educação
geral e básica e da capacitação de habilidades específicas;
(2) a preservação da cultura, a transmissão da mesma e a criação
de novos elementos com vistas à identidade social;
(3) a participação na sociedade, fomentar o apoio às liberdades civis
e o exercício da cidadania, incrementar o interesse participativo
na política e aprender a viver com as minorias;
(4) a qualificação do ajustamento pessoal e social pela
interatividade, a subjetividade e o respeito aos demais;
(5) a melhoria de condutas e hábitos no campo da saúde física e
mental, visando à qualidade de vida; e,
(6) o estímulo da pesquisa científica, do desenvolvimento de
tecnologias e da proteção da propriedade intelectual.

Paralelamente a estas funções, há as latentes que podem ser
resumidas em:

(1) com a ampliação do sistema escolar e o aumento de anos de


frequência prescrita, se mantém parte da juventude e jovens
adultos fora do mercado de trabalho (que é restrito e incapaz
de absorver a todos);
(2) enfraquecer o controle dos pais e ampliar os controles de
outras agências institucionais; e,
Almiro Petry 149

(3) manter e acelerar o processo social de acomodação e de


alienação para evitar as mudanças (manter a dominação
estrutural).

Neste horizonte, as instituições educacionais proporcionam


condições para o desenvolvimento das capacidades intelectivas e
criativas, da capacitação profissional, do exercício da cidadania, da
qualidade de vida e saúde mental e biológica, da afetividade, da se-
xualidade, da ética, da moral e da religiosidade.
No passado, durante séculos, o acesso à educação formal estava
restrito às minorias ricas e privilegiadas, sendo inatingível à gran-
de maioria das populações, uma das causas do milenar obscurantis-
mo, do dogmatismo e do autoritarismo.

Antes da invenção da imprensa, em 1454, os livros eram


laboriosamente copiados a mão, sendo, portanto, escassos
e caros. A leitura não era uma atividade necessária e nem
mesmo útil na rotina diária de muitas pessoas. Para a vasta
maioria da população, crescer significava aprender, por meio da
imitação, os mesmos hábitos sociais e experiências práticas de
trabalho dos mais velhos. Desde muito pequenas, as crianças
começavam a trabalhar, auxiliando nas atividades domésticas,
rurais e manuais e, quando chegavam à metade da adolescência,
já haviam adquirido um alto nível de conhecimentos acerca da
terra ou da produção de um ofício. Os costumes locais eram
transmitidos através das gerações, enquanto a tradição oral da
narração de histórias assegurava a preservação das lendas e dos
contos épicos em uma forma dinâmica (GIDDENS, 2005, p.
396).

As revoluções científica e industrial provocaram a revolução


educacional na medida em que a alfabetização e a escolarização
passaram a ser uma exigência do mundo do trabalho, da sociedade
e da participação política, em especial com a emergência das de-
mocracias – a revolução política – após a revolução francesa. Estas
mudanças se impuseram e os atos de ler, de escrever e de calcular
se universalizaram cada vez mais, indo ao encontro da revolução
protestante, cuja pregação luterana era pela leitura da Bíblia para
150 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

se libertar das “verdades” imposta pela igreja. Consequentemente,


numa trajetória secular os mitos, as lendas, as crenças foram subs-
tituídas pelo conhecimento científico haurido das pesquisas e dos
livros, difundido pelas escolas, uma das características do mundo
moderno. Aos poucos, os cidadãos e cidadãs adquiriram a consciên-
cia de que pertenciam a uma sociedade e que eram partícipes de sua
história e construtores da história pessoal.

Após a infância, nossa vida passa a ser influenciada, em todas


as idades, pelas informações que captamos por meio de livros,
jornais, revistas e da televisão. Todos nós nos submetemos a
um processo de educação escolar formal. A palavra impressa
e a comunicação eletrônica, combinadas com o ensino formal
oferecido pelas escolas e faculdades, assumiram um papel
fundamental em nosso modo de vida (GIDDENS, 2005, p. 396).

No século XXI, as sociedades exigem cada vez mais de seus


cidadãos o desenvolvimento de suas capacidades além da educação
básica e que se envolvam com conhecimentos de seu ambiente físico,
social, político e econômico. Além do mais, hoje se insiste que se
saiba “como aprender”, para que cada qual esteja apto a apropriar-
se de novas modalidades de informações, das novas tecnologias e
elabore novos conhecimentos, na medida em que o jargão “sociedade
do conhecimento” está em elevada evidência.

Na era moderna, a educação e as qualificações transformaram-se


em um importante trampolim para oportunidades de emprego
e carreiras. As escolas e as universidades não apenas servem
para ampliar a mente e os horizontes das pessoas, como também
devem preparar novas gerações de cidadãos para participarem
da vida econômica. É difícil chegar a um ponto de equilíbrio
entre uma educação generalista e experiências de trabalho
específicas (GIDDENS, 2005, p. 396).

A criação e a difusão das novas tecnologias da informação estão


influenciando todo o sistema escolar e educacional. A “sociedade
do conhecimento” e, em especial, a “economia do conhecimento”
demandam um trabalhador familiarizado com a informática e
Almiro Petry 151

outros idiomas, cabendo ao sistema escolar redimensionar e


redirecionar suas ações pedagógicas e de ensino para atender às
novas necessidades. Ao longo das duas últimas décadas (a última do
século XX e a primeira do século XXI) houve, em todo o mundo,
significativas transformações no emprego das novas tecnologias
para a aprendizagem, mudando os tradicionais papéis dos docentes
(detentores e transmissores do conhecimento para o de orientadores)
e dos discentes (passivos, ouvintes e repetidores de conhecimentos
para o de atores ativos, sujeitos de sua aprendizagem). Os discentes
estão se capacitando para lidarem com as tecnologias on-line, que
lhes abrem as portas das bibliotecas e dos centros de pesquisa de
todo o planeta.
Por conseguinte, nas sociedades complexas o nível de escolari-
zação se tornou um determinante das oportunidades profissionais
e do prestígio social. O acesso às posições sociais mais elevadas na
pirâmide social está cada vez mais ligado à escolarização superior
como também à remuneração pelo trabalho, que exige o conheci-
mento como valor agregado. Isto se evidencia não só no macro sis-
tema social, mas em cada categoria ocupacional.
Sem dúvida, o acesso ao sistema escolar representa, nas
sociedades capitalistas, a oportunidade para a ascensão social e
econômica. Muitas vezes, as classes privilegiadas usufruem de
vantagens em detrimento das demais, acentuando as distâncias
sociais, convertendo as instituições educacionais em instrumentos
de manutenção e reprodução das desigualdades, em vez de serem
promotoras das mudanças e da mobilidade social. Esta distorção
histórica somente poderá ser corrigida com políticas públicas de
inclusão e de mobilidade, como cotas de vagas, bolsas, etc.
Em consonância com a liberdade de expressão e de comunica-
ção, o sistema escolar deverá ser um disseminador do conhecimen-
to, desvinculado de dogmas ou outras formas autoritárias que se
impunham no passado. Nesta perspectiva, a prevalência da liberda-
de de investigação intelectual causa, às vezes, perturbações aos que
estão comprometidos com a ideologia dominante. Mesmo assim,
é indispensável resguardar a liberdade acadêmica de pesquisar, de
publicar e de ensinar. Somente assim poderá haver transformação,
152 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

uma decorrência das transgressões, já que a educação é um proces-


so contínuo de socialização e ressocialização para as novas realida-
des criadas pela sociedade, sem distinção de classes e gerações.
Em derradeiro, a educação pode ser entendida como

[...] um instrumental dinâmico de técnicas e valores que a


sociedade elabora permanentemente, com a finalidade de
preparar as gerações jovens no duplo sentido de saber enfrentar
as condições essenciais de sua própria existência e, ao mesmo
tempo de saber elaborar um conjunto de respostas adequadas às
mudanças e ao desenvolvimento das relações entre os indivíduos
nos planos econômico, sócio-político e cultural, dentro de um
determinado contexto nacional (LEWIN, 1977, p. 163).

Cabe ressalvar ao entendimento exposto que a educação (1) não


se esgota nas “gerações jovens”, mas perpassa toda a vida da pessoa,
desde a mais terna idade até o encerramento vital, num moto con-
tínuo de atualização, ou seja, a educação continuada e permanente;
(2) não pode ficar restrita ao “contexto nacional”, pois no mundo
globalizado não é mais possível limitar-se às fronteiras territoriais
de uma nação, de um povo, de uma cultura. A globalização exige
cada vez mais a cidadania planetária e a educação deverá encontrar
os caminhos e as respostas às profundas indagações pós-modernas
e, quiçá, pós-humanas. Desta forma, aumenta a complexidade deste
processo e parece que as dúvidas e indagações ficam cada vez mais
sem respostas, ou quando as há, são transitórias. A Comissão Inter-
nacional sobre a Educação para o Século XXI da UNESCO, coor-
denada por Jacques Delors, defende a tese da necessidade de quatro
pilares para a educação contemporânea: “aprender a ser, a fazer, a
viver juntos e a conhecer”.26

26
Em 1998, a UNESCO Brasil editou o livro: Educação: Um Tesouro a Descobrir.
Relatório da Comissão Internacional sobre a Educação para o Século XXI, coor-
denado por Jacques Delors. A Comissão defende quatro pilares para a educação
contemporânea: “aprender a ser, a fazer, a viver juntos e a conhecer”, aprendiza-
gem indispensável a ser perseguida de forma permanente pelas políticas educa-
cionais. Em continuidade deste texto, sugere-se a leitura e o debate do texto de
Edgar Morin: Os Sete Saberes necessários à Educação do Futuro (2001).
Almiro Petry 153

7.3. A economia

As instituições econômicas configuram o relacionamento dos


seres humanos com as coisas materiais para a produção de bens e
serviços com o desiderato da satisfação de necessidades. O conjunto
implica a produção, a distribuição, a troca e o consumo de bens e
a utilização de serviços, regidos pelo mercado. Estas instituições
comportam as secundárias como o sistema bancário, o creditício, o
monetário, as contas nacionais, etc. Neste complexo institucional
se concretiza a “vida econômica” dos indivíduos e, por extensão, da
sociedade. A principal relação dos indivíduos é a ocupacional, atra-
vés de sua “carreira profissional”, ou simplesmente, de seus afazeres
domésticos, muitas vezes reduzidos a uma mera complementarieda-
de, mas sem as quais as profissionais de alguns membros da família
seriam inviáveis.
Esta institucionalização abrange de modo especial:
(1) a divisão social do trabalho;
(2) a propriedade, seja a privada ou a coletiva;
(3) o mercado, mediante o comércio, seja na troca direta ou
indireta;
(4) o processo decisório sobre o que produzir, como produzir,
quando produzir e quanto produzir, seja na modalidade
centralizada ou descentralizada;
(5) os modos de produção e suas tecnologias pertinentes;
(6) as relações de produção que envolvem os indivíduos com os
meios de produção;
(7) o mercado de capitais mediante o sistema monetário e
financeiro; e,
(8) a presença do Estado como agente regulador ou interventor.

O mundo do trabalho é uma das instituições sociais mais cru-


ciais das sociedades humanas. Como categoria biológica, o traba-
lho é inerente à vida e o ser humano como ser vivo, se reconstrói
continuamente na dependência de energia, de movimentos e de re-
154 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

pouso. “Todo o ser vivo precisa desenvolver seu projeto de sobre-


vivência, já que esta [vida] não é propriamente dada, mas recons-
truída” (DEMO, 2002, p. 205). É um aprendizado que ultrapassa
os instintos e impulsos inatos. No entender de Marx e Engels, os
seres humanos se distinguem dos animais “assim que começam a
produzir os seus meios de vida, passo este que é condicionado pela
sua organização física” (MARX e ENGELS, 1984, p. 15). Esta rela-
ção exprime sua vida, ou seja, um “modo de vida” como as pessoas
são. “Aquilo que os indivíduos são, depende, portanto, das condições
materiais de sua produção” (idem, p. 15).
Como categoria cultural, acompanha os seres humanos
desde seus primórdios, como reprodutores e produtores de sua
sobrevivência, na ocupação dos espaços geográficos e na luta pelos
recursos materiais existentes, bem como a divisão das atividades
para garantir a sobrevida. Com o aumento populacional emerge
a divisão do trabalho, que separa o agrícola da coleta, da caça e do
pastoreio; o agrícola do industrial, e estes do comercial.

A divisão do trabalho é a expressão econômica do caráter social


do trabalho no interior da alienação. Ou então, uma vez que o
trabalho constitui apenas uma expressão da atividade humana
no seio da alienação, da manifestação da vida como alienação
da vida, a divisão do trabalho não passa do estabelecimento
alienado da atividade humana como uma atividade genérica real
ou como a atividade do homem enquanto ser genérico (MARX,
2002, p. 160).

Esta divisão repercute nas atividades ocupacionais por sexo


a tal ponto que se tornou convencional o entendimento que “para
os homens, o trabalho nobre da guerra, caça, liderança política,
econômica e religiosa; para as mulheres, o menos nobre: da cozinha,
cuidado com os filhos, transporte” (DEMO, 2002, p. 206).

O ser humano é basicamente trabalhador, a ponto de o trabalho


representar, muitas vezes, a categoria central de sua passagem
pela Terra. Mesmo assim, as culturas apreciam e estigmatizam
o trabalho, dependendo de suas estruturas de poder, geralmente
a elite prefere viver do trabalho alheio, e define como o trabalho
Almiro Petry 155

dela sobretudo o ócio, enquanto despacha para a população o


trabalho desgastante, penoso e mesmo desprezado. Para os
marginalizados, vida é trabalho, só trabalho (DEMO, 2002, p.
205).

Desta forma, para a maioria das pessoas das sociedades mo-


dernas, o trabalho ocupa a maior parte de suas vidas, superando
qualquer outra atividade e ter um trabalho mantém a autoestima
das pessoas. “Mesmo nos lugares em que as condições de trabalho
são relativamente desagradáveis, e as tarefas monótonas, o traba-
lho tende a representar um elemento estruturador na composição
psicológica das pessoas e no ciclo de suas atividades diárias” (GID-
DENS, 2005, p. 306). Neste horizonte, ao estudar o desenvolvimen-
to do capitalismo, Weber encontra na ética protestante o trabalho
como “sentido de vida”. Entretanto, o capitalismo, para progredir,
“precisa de gente ascética que só trabalha e poupa, cultiva interesses
individualistas e explora o trabalho alheio” (DEMO, 2002, p. 206).
É Marx que vai sinalizar que o capitalismo degradou o trabalho
humano ao transformá-lo em mercadoria, imprimindo-lhe um
caráter abstrato (o valor mercantil do produto) frente ao concreto
(valor de uso do produto) e um caráter alienante (o estranhamento
frente aos resultados ou aos produtos do trabalho).

A alienação do trabalhador no seu produto significa não só que


o trabalho se transforma em objeto, assume uma existência
externa, mas que existe independentemente, fora dele e a ele
estranho, e se torna um poder autônomo em oposição a ele; que
a vida que deu ao objeto se torna uma força hostil e antagônica
(MARX, 2002, p. 112).

Para além do estranhamento, o trabalhador se torna “uma mer-


cadoria tanto mais barata, quanto maior número de bens produz”;
“tanto mais pobre, quanto mais riqueza produz”; quanto mais o tra-
balhador se esgota, “mais poderoso se torna o mundo dos objetos
que ele cria diante de si, mais pobre ele fica na sua vida interior,
menos pertence a si próprio” (idem, p. 112). A lógica capitalista é
apropriar-se dos resultados do trabalho e acumular capital à custa
156 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

do trabalho, restando ao trabalhador somente o salário, sempre uma


pequena parcela do resultado produtivo.
Na entrada do século XXI, nos países industrializados e emer-
gentes, a concentração do trabalhador localiza-se no setor terciário
(serviços), graças aos avanços tecnológicos movidos pela informati-
zação e a globalização do sistema produtivo. Se no passado o sistema
de produção industrial gerava o “exército industrial de reserva” e o
Lumpenproletariat, o atual sistema informacional gera uma massa de
subempregados, resultante da precarização das relações de trabalho
e do excesso de trabalhadores disponíveis no mercado de trabalho,
em geral, com pouca qualificação profissional, causa da manutenção
dos baixos salários, a nova modalidade de mais-valia. Os de escolari-
zação superior ou de alta qualificação tecnológica conseguem postos
de trabalho de melhor remuneração, entretanto, para atingir topos
mais elevados nas corporações enfrentam uma acirrada concorrên-
cia, muitas vezes já globalizada. Além disso, todos os trabalhadores
formais enfrentam as novas regras do mercado em decorrência da
flexibilização das leis trabalhistas, que significa, em geral, perda de
direitos conquistados arduamente na histórica relação entre traba-
lho e capital.
Em muitos casos, a atividade profissional estressante, em
especial nos campos de intensa competição, e o sucesso profissional
não permitem tempos livres para o lazer, os devidos descansos e
a convivência familiar, o que impacta negativamente sobre a vida
social das pessoas, a saúde e os cuidados com o próprio corpo. Nesta
era pós-industrial, o desafio dos casais é encontrar o equilíbrio
entre a vida conjugal, familiar e a vida profissional. Os especialistas
sugerem aos pais que trabalham fora de casa que procurem reservar
tempos diários para si e para a família, a fim de reduzir os efeitos
perversos do estresse e estarem psicológica e emocionalmente
preparados para a convivência familiar.
O mercado é uma das instituições econômicas mais relevantes na
medida em que é o espaço onde ocorrem as chances de trocas entre
vendedores e compradores, regidas pela lei da oferta e da procura.
Sem uma autoridade central (exceto nos sistemas centralizados,
em que o Estado intervém) é lá que se forma a estrutura de preços
Almiro Petry 157

dos bens e serviços. Esta estrutura de preços pode influenciar a


produção, a distribuição dos produtos e a prestação de serviços. Uma
das questões básicas é superar o desafio da limitação de recursos
frente às necessidades ilimitadas dos consumidores e a ela se associa
a desigual distribuição dos recursos na natureza e nas sociedades.
Por isso, “mercado significa que recursos disponíveis ou a serem
criados são disputados em sociedade. Na permuta mais simples, a
disputa é menos perceptível; no capitalismo mais voraz, a disputa é
sangrenta” (DEMO, 2002, p. 204).
As distorções do mercado ocorrem quando, do lado da oferta,
se formam monopólios, oligopólios ou cartéis, em decorrência
os preços deixam de refletir a relativa abundância ou escassez
dos fatores de produção e se constitui em competição imperfeita.
Quando do lado da procura temos um comprador (monopsonista),
situação denominada de monopsônio e vários vendedores, é quando
o monopsonista detém o poder de mercado. Quando são poucos
compradores e muitos vendedores, chama-se de oligopsônio
situação em que a demanda depende das necessidades estabelecidas
para quem está do lado da procura.
O consumismo que impera atualmente traz um risco muito
grande para a sociedade de ela ser regida pelo mercado, em vez
de ela regular o mercado. A doutrina neoliberal prega as teses da
primazia do mercado sobre a sociedade; da primazia da política
econômica sobre a política social. Consequentemente, “o domínio do
mercado é das estratégias mais eficazes para dominar a sociedade”
(DEMO, 2002, p. 205).
As empresas e corporações, privadas e públicas, compõem um seg-
mento significativo das instituições econômicas, como empreendi-
mentos produtivos e prestadores de serviços. As empresas privadas
estão orientadas por fins – proeminência dos lucros – e se expõem
a riscos pelo fomento da concorrência. Weber, ao estudar o capita-
lismo, apontou a racionalização das atividades produtivas e de ges-
tão como um dos fatores que alavancaram o desenvolvimento deste
sistema. Na atualidade, isto está evidente nas empresas capitalistas
e cada vez mais penetrando nas públicas, através dos programas
de “qualidade total” e das normas da International Organization for
158 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Standardization (ISO) que fomentam corridas para as premiações


movidas pelas inovações, muitas delas obtidas mediante a exploração
dos trabalhadores, apesar de proferirem um discurso de valorização
do ser humano e do trabalho. Diante disso, os resultados de suas ati-
vidades ultrapassam, frequentes vezes, os estreitos limites econômi-
cos e se lhes passa a atribuir uma responsabilidade ética em seu agir,
em particular, em relação aos seus trabalhadores, consumidores e
usuários de seus serviços.
Na perspectiva da sociedade, crescem as exigências de que a
empresa, em especial as corporações, devem ser limitáveis em suas
atividades em relação a si mesmas e em relação ao mercado; que
não se reduzam à sua orientação finalística técnico-instrumental e
que assumam seu papel de responsabilidade social. Estas exigências
se evidenciam mais quando as empresas são consideradas um bem
público pelas atividades produtoras ou de serviços que exercem.
Entrementes, na era da globalização o capital tende a ser cada
vez mais transnacional, mediante fusões e incorporações de empre-
sas para a constituição de mega empreendimentos (monopólios, etc.)
e as relações da classe capitalista com o Estado nacional se direcio-
nam para estes interesses internacionais, como já previa Marx em
sua análise do capital. No passado, a classe capitalista pressionava
o Estado nacional com vistas aos seus interesses produtivos mais
locais e regionais. Desta forma, a internacionalização descaracteriza
a origem nacional do capital e os interesses deste capital se tornam
tão complexos que passam a ser incontíveis no espaço de domínio
do Estado nacional. Talvez o resultado deste processo seja a do-
minação do sistema-mundo pelo seu poder global, a nova forma de
império, na compreensão de Hardt e Negri.
Entende-se que o amplo processo de globalização em curso
vem na esteira da expansão do capitalismo, na forma de sistema-
mundo, através do qual, por um lado, se alimenta avidamente de
novas regiões, e por outro, se exaure cada vez mais, produzindo
um esgotamento bioambiental de espaços explorados. Observa-se
que, em muitas partes do Planeta Terra, ocorre uma expansão e
diversificação das forças produtivas, “compreendendo o capital,
a tecnologia, a força de trabalho, a divisão do trabalho social, o
Almiro Petry 159

mercado, o planejamento e outras” (IANNI, 1994, p.11). A dinâmica


produtiva move-se pelo critério de consumo e se direciona na busca
contínua de novos mercados, cada vez mais regidos por produtos
padronizados e impelidos pela publicidade em caráter mundial. O
mercado global se impõe aos locais e regionais – evidenciando o
conflito entre o local e o global 27 – fazendo com que, de um lado,
as empresas se transformem em corporações transnacionais,
estimulando associações ou fusões para a constituição de mega
aglomerados que operam, cada vez mais, em redes, tanto nos serviços
quanto na produção de bens; do outro lado, o consumidor ou usuário
de serviços sente-se incapaz em resistir a tamanha invasão cultural,
sucumbindo às pressões e aderindo por não ter mais alternativas
e outras possibilidades. Nesta perspectiva, o cidadão e a cidadã
cosmopolita cada vez mais se tornam unidimensionais, como já
denunciava Marcuse28 na década de 1960.
O grande jogo do mercado estabelece um referencial que
se expressa na concentração do capital – os rankings anuais de
bilionários29 sugerem isso – e na centralização das decisões sobre
o que produzir e quanto produzir para a obtenção das maiores
vantagens competitivas e de lucros. Cada vez mais, os referenciais
territoriais são abandonados e, sob a égide da concentração do
capital e da centralização das decisões, as atividades produtivas,
tanto industriais quanto primárias, descentralizam-se em relação
aos períodos anteriores de metropolitanização e predominância de
alguns países – nações metrópoles em relação às colônias – e se
estendem aos atuais países emergentes e, no futuro, aos hoje ainda
periferizados – grande parte do continente africano –, bem como
aos diferentes Continentes, constituindo novos blocos produtivos
e novos blocos geopolíticos. Desenha-se um novo mapa do poder
geopolítico e das áreas produtivas, em contraste ao antigo grupo

27
Uma das teses do antropólogo argentino Néstor García Canclini.
28
Herbert Marcuse (1898-1979), filósofo alemão, vinculado à Escola de Frankfurt.
Em 1964, publica One-Dimensional Man (Traduzido: A Ideologia da Sociedade
Industrial – o homem unidimensional. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1973).
29
Visite: http://www.forbes.com/billionaires/list/
160 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

trilateral do G730, inserido na Organização do Tratado do Atlântico


Norte (OTAN) para fazer frente ao Bloco Soviético gerenciado
pelo Pacto de Varsóvia – fonte da bipolaridade e da guerra fria
–, configurando uma nova “ordem mundial” (NEGRI e HARDT,
2001, p. 21), de caráter sistêmico e transnacional. Ela se sustenta
com uma constituição jurídica própria, em substituição aos antigos
tratados de paz e demais convenções internacionais, estabelecendo
um novo paradigma, cujo ícone ímpar é a Organização Mundial
do Comércio (OMC). O novo paradigma é definido pelo “declínio
definitivo dos Estados-nação soberanos, pela desregulamentação
dos mercados internacionais, pelo fim do conflito antagônico entre
entidades independentes” (idem, p. 31), para estabelecer o poder e
a hierarquia do sistema, sem que haja uma potência em evidência.
Assim, a “globalização da produção capitalista e seu mercado
mundial” constituem a nova ordem global.
A nova ordem mundial traz em seu bojo a materialização do
projeto capitalista da união entre o poder econômico e o poder
político31, por evidenciar que “os processos de globalização já não
são apenas um fato, mas também uma fonte de definições jurídicas
que tende a projetar uma configuração única supranacional de poder
político” (NEGRI e HARDT, 2001, p. 27). Temos aí o paradigma
imperial que se define “pelo reconhecimento de que só um poder
estabelecido, superdeterminado com relação aos Estados-nação e
relativamente autônomo é capaz de funcionar como centro da nova
ordem mundial, exercendo sobre ela uma norma efetiva e, caso
necessário, coerção” (idem, p. 32). Nesta perspectiva, o Império se
autolegitima, amplia o seu domínio, traça a sua futura trajetória,
constitui a sua base para resolver conflitos e busca consensos em
apoio ao seu próprio poder.

30
G7: Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, França, Alemanha, Itália e Japão.
Após a queda do muro de Berlim e da cortina de ferro, o G7 incorporou a Rússia,
passando para G8. Em 2012, a Rússia é admitida à OMC.
31
Segundo Fernand Braudel (1902-1985), “o capitalismo só tem êxito quando
começa a ser identificado com o Estado, quando é ele o próprio Estado” (apud:
NEGRI e HARDT, 2001, p. 21).
Almiro Petry 161

As corporações transnacionais – sustentáculo da ordem global


sistêmica – planejam e executam suas atividades produtivas e de
serviços para além das fronteiras territoriais e dos regimes políticos,
desconsiderando as diversidades culturais e os amplos processos
civilizatórios, com seu principal fito de lucro e de acumulação.
Para tanto, procedem a articulações entre as mais diversas formas
de organização social, de tecnologias de produção material e de
formação mental e espiritual.
A nova configuração produtiva mundial e a crescente
ampliação de serviços estabelecem uma nova divisão internacional
do trabalho, na qual os países centrais usufruem das mais avançadas
e sofisticadas tecnologias – que demandam uma mão-de-obra
altamente qualificada e melhor remunerada – e aos países periféricos
são destinados as tecnologias mais rudimentares e obsoletas, que
demandam trabalhadores menos qualificados e de mais baixa
remuneração, num constante processo de proletarização. Contudo,
em dadas situações este modelo de centralidade e periferia pode
ser concretizado dentro de um mesmo país, onde coexistem áreas
rurais atrasadas e modernas; setores industriais obsoletos, outros
modernos e, ainda, os de high tech (informática, microeletrônica,
robótica, cibernética, automação, etc.). Neste amplo processo, a
gestão científica e a produção em série, perfilada por Ford e Taylor32

32
Henry Ford (1863-1947), fundador da Ford Motor Company, mentor do conceito
de “produção em massa” e da “montagem em série”. Frederick Winslow Taylor
(1856-1915), engenheiro mecânico, considerado o “pai da administração científica”
por ter aplicado “métodos científicos cartesianos” na administração de empresas.
Fleury e Fleury (1997) citam as estatísticas da Ford daquela época, coligidas
por H. Braverman (1920-1976), de que na fábrica havia “7.882 espécies distintas
de operações, entre as quais 949 classificadas como trabalho que exigia homens
sãos e fortes, de perfeita saúde; 3.338 espécies exigiam o desenvolvimento físico
comum e força normal. Entre as 3.595 espécies restantes nenhuma exigia esforço
físico, de modo que podia efetuá-las o homem mais fraco e débil, mulheres ou
meninos. Os trabalhos mais fáceis foram, por sua vez, classificados, para verificar
quais deles exigiam o uso completo das faculdades; comprovou-se, então, que 670
trabalhos podiam ser confiados a homens sem ambas as pernas; 237 requeriam o
uso de uma só perna; em dois casos podia-se prescindir dos dois braços; em 715
casos de um braço, e em 10 casos o trabalho podia ser feito por cegos” (Fleury
e Fleury, 1997, p. 37-38). Ford criou princípios de padronização do trabalho e
do trabalhador, na visão mecanicista do trabalho (o trabalhador era visto como
peça de reposição – ajuste entre a demanda mecânica do posto de trabalho e do
trabalhador -, sendo a inteligência e a comunicação dispensáveis).
162 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

no início do século XX – autoritárias e hierárquicas, em que um


pequeno grupo pensava e a massa apenas executava –, é substituída
pela gestão matricial e a produção flexível, em que se combinam as
forças produtivas globais, mesmo que o resultado da acumulação
seja centralizado nos acionistas e investidores sob a liderança
da gestão transnacional. Para tal, o sistema financeiro mundial
necessita disponibilizar redes de captação de acesso rápido, seguro e
confiável para materializar tais transações.

Essa globalização deslancha novo surto de acumulação


originária, em ampla escala, o que explica uma parte do caráter
revolucionário dessa globalização. A globalização destrói e
recria, subordina e integra, subsumindo formal ou realmente
as mais diversas formas sociais e técnicas de organização do
trabalho. Revoluciona relações de produção e modos de vida em
todos os lugares, próximos e remotos. É claro que as sociedades,
tribos, comunidades, nações e nacionalidades da África, Ásia,
Oceania, América Latina e Caribe entram em novo surto de
transformações (IANNI, 1994, p. 12).

Sem dúvida, as transformações provocam crises em diversas


nações que provêm, de um lado, da globalização e, de outro lado,
de causas históricas internas. A globalização, por sua vez, altera
os mecanismos de mercado; muda as formas administrativas e
gerenciais – privadas e públicas; gera novas expectativas e hábitos
consumistas; fomenta um novo imaginário social, em contraste
com a cultura e valores sociais vigentes; tudo isto, para assimilar
as características inerentes ao capitalismo. “As próprias sociedades
dominantes, com economias organizadas em moldes capitalistas
avançados, também elas são desafiadas, modificadas ou mesmo
revolucionadas pelo novo surto de acumulação” (IANNI, 1994, p.
12), tendentes a mudar seu perfil no novo cenário global, seja pela
sua posição no quadro mundial da economia, seja pelo perfil político
e ideológico.
O cenário mundial da distribuição das forças produtivas (a) em
atividades do setor primário – agropecuária, mineração e extrati-
vismo; (b) em atividades industriais, tipicamente urbanas; e (c) em
Almiro Petry 163

atividades de serviços, aos poucos, perde esta caracterização movido


pela adoção de técnicas produtivas baseadas na eletrônica, na micro-
eletrônica e na automação que, de um lado, homogeneízam o mundo
do trabalho e, de outro, demandam um trabalhador altamente capa-
citado, descartando os não qualificados, universalizando “o exército
industrial de reserva”, como já previu Marx. No dizer de Ianni, ao
exército industrial de reserva “agrega-se um contingente dispen-
sável, uma espécie de subclasse, no sentido de situar-se abaixo das
classes sociais que parecem compor habitualmente a dinâmica da
sociedade” (IANNI, 1994, p.13).
Neste processo, a sociedade rural, que lida com as atividades do
setor primário da economia, perde espaços quanto a sua importância
quantitativa – tipos de produtos, seus valores e contribuição para a
riqueza nacional – e sua importância qualitativa – tradições e valores
culturais, “no jogo das forças sociais, na trama do poder nacional, na
formação das estruturas mundiais de poder” (IANNI, 1994, p. 13).
Isto não quer dizer que significa seu desaparecimento – em alguns
casos pode até ocorrer – mas a alteração da dinâmica das relações de
poder nas esferas local, regional, nacional e mundial.
Observa-se que a concepção da “fábrica urbana” se estende
de modo sofisticado sobre as propriedades rurais, transformando-
as em “fazendas industriais” pela adoção das técnicas produtivas,
de capital-intensivo e do trabalho altamente especializado, não
havendo mais lugar para a tradicional agricultura de subsistência,
nem para o trabalhador rural sem qualificação. Neste cenário, o
“mundo agrário” é envolvido pela atuação das grandes corporações
transnacionais do agronegócio, que o envolvem pelo grande capital
flutuante. As decisões para investimentos e produtos a serem
produzidos são tomadas a partir da dinâmica do mercado mundial e
não dos referenciais sobre as necessidades de nutrientes e alimentos
para a população humana.
As corporações transnacionais ditam as regras para a utiliza-
ção do solo, da adubação, das sementes – mesmo as geneticamente
modificadas –, enfim, há uma mudança radical na orientação das
atividades agrícolas e das pecuárias. “Em praticamente todos os se-
tores agropecuários, está ocorrendo a racionalização dos processos
164 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

produtivos, de organização social e técnica do trabalho, de modo a


acelerar a produtividade e ampliar as condições de produção de ex-
cedente, lucro ou mais-valia” (IANNI, 1994, p. 14).
Deste modo, a moderna fazenda não apresenta nenhuma seme-
lhança com as antigas pastagens extensivas; a produção não depen-
de dos ciclos da natureza; os animais bovinos são encurralados em
poucos metros quadrados e alimentados com rações programadas
por computadores – adicionadas com antibióticos e hormônios sin-
téticos; a produção avícola e suinícola se assemelham a uma orga-
nização fabril; da mesma forma se lida com os alimentos de origem
hortifrutigranjeira; métodos e técnicas que visam à grande produ-
ção, a produção em escala, para atender às demandas de um mercado
cada vez mais sofisticado e exigente quanto às certificações de ori-
gem, às manipulações, aos processos de industrialização, ao embala-
mento, aos meios de transporte e armazenamentos.
Apesar da avalanche destruidora do tradicional trazida pela
globalização, ainda subsiste a pequena produção na modalidade de
agricultura familiar, com vistas a uma geopolítica da sustentabilida-
de socioambiental. “Nos mais diversos países e continentes, assim
como nas diferentes atividades agrícolas, são numerosos ou mes-
mo inúmeros os pequenos produtores” (IANNI, 1994, p. 15) que
se sustentam com o trabalho familiar, de modo autônomo, dando
relevância à pequena produção, frente ao macro empreendimento do
agronegócio. Disso se pode depreender que as grandes corporações
não visam à produção para o consumo direto e, sim, para as ativi-
dades industriais de transformação, que fabricam o produto para o
consumo, sustentando uma cadeia de produção. Esta, por sua vez,
necessita de uma cadeia de armazenamento e de distribuição, onde
operam outras grandes corporações, quando não integram trustes
da origem do mesmo capital.
Acredita-se que a presença do Estado, como agente de políticas
públicas, tenha a tarefa de articular a dinâmica social e econômica
entre os consumidores, os trabalhadores e a grande empresa, para
atender à dinâmica e ao movimento dos mercados – local, regional,
nacional e mundial –, evitando as contradições entre os setores
produtivos e a articulação dos mercados.
Almiro Petry 165

7.4. A política

As instituições políticas são relevantes na sociedade por


atuarem na organização do poder, na administração geral, na ordem
pública, na resolução de conflitos e por fornecerem mecanismos
para a tomada de decisões. “Na verdade, a política abrange todas
essas coisas, uma vez que é o mecanismo através do qual uma
ação coletiva pode ser exercida em qualquer comunidade, na
medida em que nela não há unanimidade e enquanto a comunidade
continua a existir” (BLONDEL, 1996, p. 80). Muitas vezes, estas
instituições são reduzidas aos organismos públicos quando de
fato são reconhecidas como atividades essenciais no exercício da
cidadania. Neste campo, de modo genérico, se olha para o governo,
o Estado, a administração pública, os partidos políticos, o regime
político, as relações internacionais e as políticas públicas. Quando se
trata de governo, de poder, de Estado, etc., é fundamental verificar
a legitimidade que vai para além da legalidade, na medida em que
se trata da utilização do poder para atingir metas e interesses nas
atividades governamentais. Inquestionavelmente, o Poder e o Estado
são instituições reais que nos governam e regem a sociedade. Já
Durkheim sentenciava:

A estrutura política de uma sociedade não é mais do que o modo


pelo qual os diferentes segmentos que a compõem tomaram
o hábito de viver uns com os outros. Se suas relações são
tradicionalmente estreitas, os segmentos tendem a se confundir;
no caso contrário, tendem a se distinguir (DURKHEIM, 1971,
p. 10).

Na visão durkheimiana, o fato político aparece como fato co-


letivo e institucionalizado, mediante a convivência dos diferentes
grupos pela aproximação ou pelo afastamento; pela forma como
se aproximam ou afastam os governantes e governados. Portanto,
Durkheim entendia que as instituições políticas não se situavam so-
mente nas estruturas estatais e, sim, perpassavam toda a sociedade,
como maneiras de ser, de agir e de pensar consolidadas. Da mesma
forma, as causas das patologias políticas são as mesmas das patologias
sociais.
166 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Para uma compreensão mais aquilatada, Giddens (2005, p. 343)


sugere alguns conceitos mais usuais:
(a) o Governo entendido enquanto gestão dos assuntos e decisões
do Estado; nas democracias, por representantes eleitos; nas
monarquias, pelo rei/rainha; nas ditaduras, pelo ditador, etc.;
juntamente com um quadro estável de servidores públicos;
(b) o Estado é configurado por instituições como o congresso (ou
parlamento; ou assembleia nacional) e o governo, que controlam
determinado território e cuja autoridade está amparada num
sistema de leis e que dispõe da capacidade militar de sua defesa;
(c) o Poder “consiste na habilidade de os indivíduos ou grupos fa-
zerem valer os próprios interesses ou as próprias preocupações,
mesmo diante da resistência de outras pessoas”; (d) a autoridade
“é o emprego legítimo do poder”;
(e) a Legitimidade significa o consentimento dos cidadãos dado à
autoridade de quem exerce o governo, ou seja, é a justificação
social do poder;
(f) a Soberania é o nível de controle autônomo exercido pelo Esta-
do sobre determinado território definido por fronteiras;
(g) a Cidadania é definida pelos direitos e deveres comuns dos
cidadãos dentro dos limites de um sistema político, do qual
resulta a consciência de pertença a uma comunidade política;
(h) o Nacionalismo se define “como um conjunto de símbolos e
convicções responsáveis pelo sentimento de pertencer a uma
única comunidade política”;
(i) o Regime político é a forma como o poder é exercido, isto
é, abrange o processo decisório: monarquia, oligarquia,
gerontocracia, plutocracia, teocracia, ditadura, democracia;
(j) o Comportamento político revela as bases sobre as quais as
pessoas fazem suas escolhas políticas, de modo particular, nas
eleições de seus representantes;
(k) as Políticas públicas revelam o comportamento dos agentes po-
líticos no planejamento e execução das ênfases de políticas pú-
blicas que visam ao atendimento das necessidades e demandas
sociais da base do sistema;
Almiro Petry 167

(l) a Participação política consiste na intensidade e quantidade de


envolvimentos por parte dos cidadãos e grupos na tomada de
decisões; e,
(m) o Partido político é uma organização política que defende o
poder e impede que outros o tomem.

A vida política não se reduz ao “esquema ortodoxo dos partidos


políticos, da votação e da representação em organismos legislativos
e governamentais”. É comum “que alguns grupos percebem que esse
esquema impossibilita a concretização de seus objetivos, ou mesmo
os bloqueia efetivamente”. Em decorrência, ainda são mantidos
regimes autoritários e métodos não-ortodoxos como a derrubada
da ordem estabelecida através da violência. “As revoluções são
eventos tensos, instigantes e fascinantes; é de se compreender por
que elas atraem tanta atenção” (GIDDENS, 2005, p. 357). Talvez
os movimentos sociais, com abrangências internacionais, colocam-
se nesta perspectiva de provocar mudanças, movidos por seus
interesses, recorrendo a métodos não-ortodoxos. Em geral, geram
contramovimentos em defesa do establishment.

Muitas vezes, as leis ou as políticas sofrem alterações em


consequência da ação dos movimentos sociais. Essas mudanças
na legislação podem produzir efeitos de amplo alcance. [...]
Os movimentos sociais estão entre as mais poderosas formas
de ação coletiva. Campanhas bem-organizadas e persistentes
podem gerar resultados impressionantes (GIDDENS, 2005, p.
358-9).

Lamentavelmente, a realidade do cotidiano é marcada por uma


grita33 contra a burocracia pública, pelos maus serviços prestados
e pelo abuso do poder em todos os níveis das estruturas governa-
mentais, salvo honrosas exceções. É considerado um desrespeito

33
Cabe mencionar as múltiplas manifestações de rua ocorridas no Brasil, a partir
de junho de 2013. O estopim foram os aumentos, considerados abusivos, do
transporte coletivo em várias cidades do País. A este se somam a má qualidade
da saúde pública, do ensino, da justiça e tantos outros serviços e obras malfeitas.
168 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

institucionalizado à cidadania, mesmo nos regimes democráticos.


Disso resulta um desperdício de recursos públicos sobre os quais
ainda não há um controle democrático; entretanto, é preciso lutar
para manter estes espaços públicos de serviços para não cair em
processos gerais e amplos de privatização dos mesmos. De repente,
mantido o cenário histórico, os contribuintes se convencem de que
é impossível sustentar tamanha estrutura burocrática e passam a
apoiar irresponsáveis privatizações.

Como governo e Estado não são apenas necessários, mas


inevitáveis, é mister observar com outros olhos mais críticos:
a qualidade deles não é propriamente deles ou está neles, mas
da e na cidadania. Não podemos esperar Estados e governos
melhores do que a cidadania vigente. Essa percepção tem levado
a críticas frontais às democracias liberais, por terem perdido a
noção crucial do bem comum (DEMO, 2002, p. 207-8).

7.5. A religião

As instituições religiosas buscam satisfazer a necessidade


social de o ser humano estabelecer alguma relação com um ser
sobrenatural ou deidade. O fundamento está na religiosidade que é
esta preocupação com o transcendental. Manifesta-se por meio de
crenças, de ritos, de calendários (datas sagradas), de locais sagrados
e de cultos praticados na individualidade ou em comum. Incluem
normas de moralidade e de ética que indicam o que é “bom” e o que
é “mau” em termos de conduta e comportamentos sociais.
Mesmo que se propugnem as teses da “morte de Deus” e do
“fim das religiões”, frente aos avanços do racionalismo, do materia-
lismo, do evolucionismo e do niilismo, parece que se evidencia cada
vez mais que a espiritualidade e a religiosidade são necessidades
fundamentais do ser humano, o que surpreende cientistas e estudio-
sos da temática. Talvez seja importante recordar que “não somos
apenas máquina de pensar, somos igualmente máquina de crer, com
a qual não vemos o mundo só da óptica racional, mas igualmente
afetiva e subjetiva” (DEMO, 2002, p. 192).
Almiro Petry 169

Como elementos das instituições religiosas, podem ser


indicados:
(a) o contraste entre o sagrado e profano (seres, lugares, objetos
e forças sobrenaturais), como já Durkheim apontava em seus
estudos;
(b) a crença [é o aspecto cognitivo da religião que procura explicar
a natureza e a origem das coisas sagradas, feito pela teologia] e
o rito [é o lado ativo da religião que se expressa em liturgias];
(c) o mito [é uma tentativa de explicar acontecimentos naturais e
sobrenaturais que fogem ao entendimento humano] e a magia
[é a tentativa de manipular as forças ou seres sobrenaturais
para intervir no curso dos acontecimentos históricos]; e,
(d) as formas de religião: hinduísmo, budismo, judaísmo, cristia-
nismo, islamismo e outras, sejam na modalidade monoteísta ou
politeísta.

Na última fase de sua vida intelectual, Durkheim ocupou-se


com um conjunto de temas que deriva dos perfilados por ele até
então: o relacionado com a religião e os sistemas simbólicos. Em
síntese, uma teoria da cultura em relação ao sistema social. Na obra
As formas elementares da vida religiosa34, Durkheim aplica a análise
das forças coletivas, ou de grupo, ao estudo da religião em suas
manifestações elementares. Aí formula dois princípios:
(a) a distinção entre as atitudes perante o sagrado e o profano
é, basicamente, a mesma que entre obrigações morais e
conveniência; e,
(b) a qualidade do sagrado não se localiza nas propriedades
intrínsecas do objeto considerado como tal, mas nas
propriedades como símbolo.

Desta forma, relaciona os objetos sagrados, físicos e sociais,


com o mundo dos objetos culturais e os categoriza como represen-

34
DURKHEIM, Émile. As formas elementares da vida religiosa. São Paulo:
Martins Fontes, 2000.
170 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

tações. Durkheim se impressiona com a solidez da integração entre


o sistema religioso de representações e a estrutura da sociedade,
sendo a moral o principal nexo. Esta integração parece mais firme
nas religiões primitivas e, quanto mais primitivas são as sociedades,
menor é a diferença entre religião e cultura.
Com o advento da tese marxista sobre a religião, tinha-se a
convicção de que com a evolução sociocultural, defendida nas
ciências sociais, os fenômenos religiosos eram característicos das
fases mais elementares da sociedade humana, mas Durkheim coloca
claramente que também nas etapas avançadas do desenvolvimento
cultural, toda a sociedade requer o “equivalente funcional” de um
sistema religioso.
Por isso, defende as teses de que (a) a vida de grupo é a fonte
geradora ou causa eficiente da religião; (b) as ideias e práticas reli-
giosas referem-se ao grupo social ou o simbolizam; (c) a distinção
entre o sagrado e o profano é universalmente encontrada e tem con-
sequências importantes para a vida social como um todo.
O sagrado refere-se a coisas postas à parte pelo homem como
crenças, ritos, deidades e tudo aquilo que exige tratamento religioso
especial. Consequentemente, o sagrado é intocável pelo profano, ou
seja, o profano não deve e nem pode tocar o sagrado impunemente.
Aí Durkheim formula um conceito de religião nos seguintes termos:
“é um sistema solidário de crenças e de práticas relativas a coisas
sagradas, isto é, separadas, proibidas, crenças e práticas que se
reúnem numa mesma comunidade moral, chamada igreja, todos
aqueles que a elas aderem” (DURKHEIM, 2000, p. 32).
A fonte e o objeto da religião é a vida coletiva: o sagrado é,
no fundo, a sociedade personificada. O que permite defini a reli-
gião como um sistema unificado de crenças e práticas relativas às
coisas sagradas, unificando um povo em uma comunidade moral.
Durkheim conclui sua análise sociológica sobre a vida religiosa, com
a tese de que “a religião é uma coisa eminentemente social. As re-
presentações religiosas são representações coletivas que exprimem
realidades coletivas; os ritos são maneiras de agir que só surgem
no interior de grupos coordenados e se destinam a suscitar, man-
ter e refazer alguns estados mentais desses grupos” (DURKHEIM,
2000, p. XVI).
Almiro Petry 171

A temática da religião, Weber35 aborda na Sociologia da Reli-


gião. Está expressa, de modo particular, em Economia e Sociedade
(Wirtschaft und Gesellschaft: cap.V, da 2ª parte, Sociologia da Religião,
p.279-418), A ética protestante e o espírito do Capitalismo (Die pro-
testantische Ethik und der Geist des Kapitalismus) e Gesammelte Aufsätze
zur Religionssoziologie (Ensaios para a Sociologia da Religião).
Weber evita definir religião, mas constrói em sua sociologia a
categoria do domínio da ação religiosa, que é a regulação das relações
entre os poderes sobrenaturais e os humanos. Os mundos – sacro e
profano – se intercomunicam. A ação religiosa está orientada para
este mundo (o profano) através de profissionais específicos (mago,
sacerdote, pajé, etc., que manipulam as forças extraordinárias:
mana, orenda, maga, carisma, etc.), que são os mediadores. Esses
são carismaticamente qualificados, em oposição à pessoa comum, o
leigo.
O desenvolvimento do domínio da ação religiosa tem no
simbolismo o primeiro aspecto específico. A magia passa da atuação
direta de determinadas forças ao simbolismo. Os símbolos – pão,
cruz, estátua, carranca, árvore, animal, etc. – e sua manipulação,
visam obter efeitos reais. Das dominações da ação religiosa
naturalista e animista nasce o pensamento mitológico, ou seja, o
modo de pensar que constitui a base do círculo de representações
simbólicas. Desse modo de pensar brota o discurso da parábola,
com seu significado de analogia (no sentido da identidade de relação
entre seres de natureza diferente) de repercussão duradoura. O
pensamento simbólico-mitológico repercute para além das formas
de expressão religiosa, invadindo também o pensamento jurídico.
Entre os romanos, cria-se uma casuística sacro-jurídica (o impessoal
mantém uma afinidade interna com o racional-objetivo; o cotidiano
é envolvido pela religião: o culto dos númina). O direito sacro torna-
se a matriz do pensamento jurídico racional ocidental.
Além dos objetos simbólicos, os deuses ganham forma humana.
São seres antropomórficos ligados à natureza: nascimento, enfer-
midade, morte, fogo, seca, chuva, etc. (ou os seus antagônicos: os

35
Este tópico sobre a religião em Weber é extraído do Roteiro de aula Max Weber,
versão 2012, de minha autoria.
172 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

demônios), formando seu pantheon (cada um com sua especialização


e competências). Para seus estudos, Weber diz que tem pouco inte-
resse examinar os diversos tipos de deuses e demônios, mesmo que
tenham – pelas crenças e ritos – contribuições para as linguagens,
para a economia e para os destinos históricos de povos.
Um segundo aspecto específico do domínio da ação religiosa
é o compromisso, sob juramento, entre o deus e o povo, como no
caso de Javé e sua relação com o povo israelita. Javé é o deus de
uma confederação política (o deus da aliança) e de uma ordem sacro-
jurídica das relações sociais. Trata-se de uma relação contratual que
traz determinados deveres rituais, sacro-jurídicos e ético-sociais
(compromissos para os contratantes humanos e para o contratante
divino). O compromisso é bilateral: a fidelidade dos humanos é
recompensada pela vitória sobre os inimigos, pela fartura das
safras, etc. Essa concepção sacro-política tem na polis a base local
para a construção do conceito de Estado como instituição (o deus
doméstico grego, a associação dos patres romanos era exigência para
o exercício de um cargo público).
Nesse aspecto, no caso do hinduísmo, o deus Brama – o senhor
das orações – junto com seus sacerdotes (brâmanes) monopolizam
a faculdade da oração eficaz, mantendo o controle daquilo que mais
importa na ação religiosa. No caso, o imobilismo social, estratificação
social em castas, o domínio econômico, os benefícios da riqueza etc.
Os deuses locais nascem da crescente vida sedentária dos povos
– das novas atividades econômicas (agricultura) – que fazem da
associação local uma portadora de significados políticos.

Seu desenvolvimento pleno era alcançado, em regra, sobre o


fundamento da cidade, como associação política especial, com
direitos corporativos, existente independentemente da corte
e da pessoa do soberano. Por isso, ela não existe na Índia, na
Ásia oriental e no Irã, sendo verificada, em poucos casos, no
norte da Europa, com seus deuses tribais. (...) Das cidades-
estados, a divindade local propagou-se às confederações como
as dos israelitas, dos etólios, etc., orientados por esse modelo
(WEBER, 1994, p.289).
Almiro Petry 173

Demo afirma em seus comentários sobre as religiões, as


democracias, os avanços das novas tecnologias, em especial
da biotecnologia e da nanotecnologia, a dinâmica da cultura
contemporânea, inserida na mídia, etc., que a religiosidade continua
um anseio humano crucial.

Levando-se em conta que a produção de mitos religiosos é


fenômeno constatado desde os primórdios da humanidade,
parece aceitável que se trata não apenas de florações culturais
datadas, mas de expressões com base também evolucionária.
[...] Assim como o cérebro evoluiu também para corresponder
às preocupações com a sobrevivência, foi adaptado para dar
respostas às indagações que afligem o ser humano, como morte,
injustiça, sofrimento, finitude da vida, impossibilidade de
satisfazer aos desejos. Ser, de um lado, tão prepotente – pela via
do conhecimento gostaria de rivalizar com Deus – e, de outro,
tão frágil, carece de apoios, em particular quando vai percebendo
que está chegando ao fim. Esse tipo e preocupação vital pode
ser explorado pelas religiões e seus “donos”, bem como pelos
poderosos de cada sociedade, mas isto não elide a religiosidade
como necessidade humana fundamental (DEMO, 2002, p. 192).

Para Demo, as religiões atendem a duas funções básicas: “de


uma parte, oferecem anteparos para a soberba humana, denotando
que não podemos ser a referência última da vida e do sentido da
vida; de outra, oferecem apoios que compensam, mais ou menos,
nossa fragilidade flagrante diante dos mistérios e contradições da
vida” (DEMO, 2002, p. 193).

7.6 A recreação

As instituições destinadas à recreação, ao jogo, ao lazer, às fes-


tas e ao tempo livre, além de satisfazerem a necessidade biológica do
descanso físico, satisfazem a necessidade social do descanso mental
e da convivência humana. Nesta categoria, se incluem os criativos
no campo da estética, das artes como música, danças, pintura, teatro,
etc. As atividades recreativas aumentam de significado na medida
174 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

em que a sociedade contemporânea oportuniza mais tempo de la-


zer (tempo descompromissado, segundo Dumazedier36) e as diversões e
recreações passam a ocupar um lugar de destaque na vida dos indi-
víduos. Cada vez mais emergem tempos e espaços para a prática da
cultura do ócio37, na sociedade pós-industrial, com jogos eletrônicos
individuais e coletivos.
A teoria da libertação ou da relaxação enfatiza que a recrea-
ção proporciona uma descarga das tensões sociais, psicológicas e
emocionais e que o ser humano busca incessantemente uma catarse
através de esportes, jogos, gracejos, irreverências e, na ausência des-
tas oportunidades, no álcool, nos narcóticos, etc. Assim, contém ele-
mentos de rebeldia social. O lado perverso está na mercantilização e
na proliferação de organizações clandestinas, sejam as que atuam na
vida noturna ou as que atuam abertamente.
A recreação, em suas múltiplas atividades e modalidades –
hoje muitas eletrônicas e virtuais – visa ao relaxamento físico, à
liberação de energias biopsíquicas contidas e reprimidas, ao alívio
da monotonia das rotinas cotidianas, à sobrecarga das exigências
profissionais diárias, à gratificação dos sentidos e à satisfação do
intelecto.
As atividades de recreação podem ser executadas através de
campeonatos, de concursos, de esforço estético, etc., nos tempos
em que os indivíduos estão descompromissados, isto é, livres das
obrigações formais de um emprego ou compromissos que outra
ocupação impõe.
O tempo disponível e a intensidade com que a recreação é
desejada dependem de vários fatores como profissão, nível de
escolarização, remuneração, estado tecnológico e recursos da
comunidade. A recreação está sendo, cada vez mais, encarada como
fator favorável à saúde física e mental.

36
Joffre Dumazedier (1915-2002), sociólogo francês pioneiro nos estudos
empíricos do lazer.
37
Ver os estudos de Domenico De Masi (1938-), sociólogo italiano contemporâ-
neo, que se celebrizou com o conceito de ócio criativo, no contexto da sociedade
pós-industrial e a mudança do mundo do trabalho.
Almiro Petry 175

Ao mesmo tempo, apesar do racionalismo moderno, a festa


continua componente institucional, por vezes com tons rituais
e míticos inequívocos, como casamentos, bodas, aniversários,
idades específicas (quinze anos, por exemplo), comemorações
etc. Existe certamente o lado já clássico do “pão e circo”,
exacerbado pelo entretenimento da televisão (sobretudo novelas
no Brasil), mas não se pode deixar de ver nisso também o traço
biológico e cultural de um ser que tem uma necessidade básica
de brincar (DEMO, 2002, p. 208).

Sem dúvida, na sociedade contemporânea, a indústria do entre-


tenimento, que os intelectuais da Escola de Frankfurt denominaram
de “indústria cultural”, rivaliza com as horas de trabalho dos cida-
dãos. As novas formas trazidas pelas tecnologias da informação e
comunicação – vídeos, Internet, etc. – os ciberespaços e a realidade
virtual parece que vieram para contradizer a necessidade biológica
do movimentar-se. Pois, evidencia-se cada vez mais, que a vida se-
dentária está aumentando e associada aos novos cardápios de fast
foods, trazem sequelas negativas para a saúde humana, entre elas, a
obesidade. Então, o tempo descompromissado está se tornado ne-
fasto, em vez de ser benéfico.
São contradições da sociedade contemporânea pós-industrial.

8. A mudança social

A concepção de mudança social38 provém da abrangência teó-


rica dos pressupostos evolucionistas e funcionalistas pelos quais se
acredita que o transcurso histórico da humanidade garantiria a paz,
a prosperidade, a igualdade, a justiça e a difusão da racionalidade.
Observa-se que a segunda metade do século XX proporcionou sig-

38
Este tópico é a reescrita do Capítulo IV Ordem, Desvio e Mudança de PETRY,
Almiro. Sociologia Geral (Noções Básicas). São Leopoldo/RS: Unisinos, 1981,
p. 49-59. Para o item Controle social a principal referência é FICHTER, 1972,
p. 426-437.
176 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

nificativas mudanças, e que continuam no atual, que passaram a ser


objeto de investigação das ciências sociais, talvez tendo como pro-
tótipos as transformações econômicas, políticas, sociais e culturais
decorrentes das revoluções industrial, francesa e científica do século
anterior. Hodiernamente, chama a atenção o ritmo e a velocidade
em que elas ocorrem, como um “modo de vir a ser” constante sem
configurar um “modo de ser”, ou seja, “o modo de ser” presente é
o “modo de vir a ser” constante. O que permite entender que não é
uma época de mudanças, mas uma mudança de época.
Toda a sociedade humana cria e mantém um “modo de ser”,
que na literatura estrutural-funcionalista é denominada “ordem
social” – um estado de equilíbrio – como um ideal consciente ou
inconsciente – o produto de um consenso arraigado –, baseado nas
estruturas vigentes e que se manifestam nos indivíduos através de
suas atitudes, condutas e comportamentos. As estruturas remetem
à configuração cultural, social, política e econômica da sociedade,
como um sistema simbólico de “estruturas estruturadas” objetivas,
segundo a análise bourdieusiana. Estas, por serem “instrumentos
simbólicos” e “sistemas simbólicos”, exercem a função social de
“estruturas estruturantes” de reprodução do sistema social. “Os
‘sistemas simbólicos’, como instrumentos de conhecimento e de
comunicação, só podem exercer um poder estruturante porque são
estruturadas” (BOURDIEU, 2000, p. 9).
Na interpretação de Ogburn e Nimkoff (1976), os padrões
comportamentais são a expressão das ações e do funcionamento da
estrutura social. Em decorrência, as normas sociais, os valores e os
costumes estão ajustados, produzindo um visível equilíbrio, mesmo
que haja competições e conflitos internos, manifestos e latentes.
Isto não é automático, mas resultante de um processo histórico-
estrutural que mantém o status quo da sociedade. A eclosão de um
desequilíbrio depende da dinâmica de fatores externos e internos
para provocar uma mudança.
Para Hall, a mudança social é objeto em boa parte da moderna
investigação social e “a maioria dos trabalhos na área de mudança
social tem buscado explicar as causas, a natureza e o rumo da
mudança social” (HALL, 1996, p. 503).
Almiro Petry 177

8.1. Controle social

Fichter (1972) entende que o controle social é constituído por


um conjunto de mecanismos que visam o ajustamento do indivíduo à
normalidade das condutas do grupo, ou seja, assegurar a obediência
aos padrões comportamentais vigentes, daquilo que é permitido,
desejado ou proibido. Do ponto de vista de Bourdieu, nisto consistem
as “estruturas sociais incorporadas” sustentadoras da “ordem
social” (BOURDEIU, 2007, p. 435). E para Parsons (1974), estes
mecanismos funcionam como “defesas secundárias” na manutenção
do equilíbrio social. Estes mecanismos determinam a subordinação
e a conformidade ao poder dominante e à submissão da capacidade
persuasiva dos agentes do sistema social. No entanto, para Zedner,
o controle social não só se constitui em “uma força reativa ou
reparadora que entrava em jogo quando outros mecanismos
fracassavam, mas uma força que, ativamente, criava a transgressão”
(ZEDNER, 1996, p. 139). A transgressão é o trampolim para a
mudança, que pode ser por insurgência revolucionária ou de modo
lento e gradual, rompendo as relações já estruturadas através da
criação de novos símbolos e valores.
Durkheim, ao caracterizar o fato social, o descreve de modo nor-
mativo como uma série de mecanismos constitutivos da sociedade
humana e que não são objetos das “ciências da natureza”. Inicia com
a seguinte observação:

Quando desempenho meus deveres de irmão, de esposo ou


de cidadão, quando me desincumbo de encargos que contraí,
pratico deveres que estão definidos fora de mim e de meus
atos, no direito e nos costumes. Mesmo estando de acordo com
sentimentos que me são próprios, sentindo-lhes interiormente
a realidade, esta não deixa de ser objetiva; pois não fui eu quem
os criou, mas recebi-os através da educação. [...] Assim também
o devoto, ao nascer, encontra prontas as crenças e as práticas da
vida religiosa. [...] Estamos, pois, diante de maneiras de agir, de
pensar e de sentir que apresentam a propriedade marcante de
existir fora das consciências individuais (DURKHEIM, 1971,
p. 1-2).
178 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Sem dúvida, a vida social é regida por regras. O sistema de


normas, de valores e de instituições que regulam as condutas
humanas, são considerados por muitos o cerne da sociedade humana.
Mesmo assim, o “mundo social” mantém a aura do desconhecido,
frente ao observável e quantificável. Para Mannheim (1982), o
controle social se concretiza como uma “técnica de intervenção nos
assuntos humanos”.
Estes mecanismos “normativos” podem ser externos e internos.
Os externos são os que emanam da estrutura social, das instituições,
das leis, do poder político, etc. na forma de estatutos, regimentos e
demais regramentos, juntamente com as penalidades previstas, caso
haja transgressões. Portanto, é a coerção explícita que manifesta
o comportamento institucionalizado e que se exterioriza em
respostas do subconsciente dos indivíduos. Os internos resultam da
introjeção e da incorporação dos externos na personalidade e no
sistema psíquico individual. Os preceitos morais, costumes, crenças,
mitos, tabus, etc. que pela socialização se constituíram em diretrizes
da conduta pessoal, representam fatores de controle social e esta
coerção é sumamente eficaz, controlada pelo superego.

A formação e a manipulação da personalidade tendem


a obedecer a uma sequência regulamentada de níveis. A
progressiva formalização dos controles sociais parece assegurar
probabilidades mais efetivas de interferência em fases cruciais da
formação da personalidade. A gradação do processo socializador
de acordo com aspirações societárias básicas proporcionará
melhores condições de rendimento à atividade escolarizadora
e facilitará a elaboração do “nível de realidade”, sobre o qual
atuará a propaganda como força consolidadora (FORACCHI,
1982, p. 39).

Os tipos de controle nos remetem aos externos, que podem ser


positivos e negativos, formais e informais, grupais e institucionais.
Os positivos recorrem à sugestão, persuasão, instrução, bem como
à premiação quando as condutas são aprovadas socialmente. Os
negativos fluem pelas ameaças, as coações, as ordens e os castigos e
reprimendas são utilizadas para afastar os indivíduos de condutas e
ações tidas por antissociais ou desviantes.
Almiro Petry 179

Os formais são as medidas explícitas para levar à conformidade,


que são as leis, decretos, estatutos, regulamentos, etc. e suas res-
pectivas penalidades. Os informais reforçam os formais, como aplau-
sos, sorrisos, palmadinhas nas costas, etc. e pela desaprovação como
vaias, zombarias, ridicularização, etc., tanto nos grupos quanto nas
associações. Neste processo, as famílias e as igrejas perderam sua
hegemonia, à medida que deixaram de exercer o consenso em tor-
no do equilíbrio da sociedade. Entretanto, na informalidade ainda
transmitem seus mais arraigados valores.
Nesta perspectiva, estes mecanismos visam à conformidade,
um ajustamento à ordem social, aos limites do permitido, do
desejado e do proibido. O que se afastar dos limites do permitido
e do desejado, e ingressar na abrangência do proibido, é tido como
um desvio, portanto, uma conduta disfuncional em relação ao grupo
e à sociedade.
Ogburn e Nimkoff (1976) apontam os seguintes aspectos
relacionados com a conformidade e o desvio:
(a) a meta da pressão social é a obtenção de uma conformidade
manifesta;
(b) o grupo reprime as condutas extremas;
(c) os limites de tolerância variam de grupo para grupo;
(d) em épocas de crise, a tolerância varia (para maior vigor, ou de
relaxamento);
(e) as comunidades homogêneas são menos tolerantes do que as
heterogêneas; e,
(f) a família, a vizinhança e a igreja contemporâneas perderam
grande parte de seus mecanismos de controle, enquanto o
Estado e as empresas adquiriram mais forças.

Diante dos desvios, as sanções aplicadas têm a dupla função,


por um lado, de assegurar a conformidade das condutas, permitindo
a coesão e o funcionamento da coletividade; do outro lado, de
desencorajar a não-conformidade perante as normas estabelecidas.
No entanto, os desvios configuram a potencialidade da mudança.
180 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

A eficácia do controle social provém da socialização, na


medida em que as pessoas são persuadidas a cumprirem seus
papéis, amoldando seus desejos, seus interesses, seu imaginário,
seus sonhos e suas aspirações ao que é socialmente aprovado. O
desvio, entretanto, é a transgressão do conteúdo sociocultural
da socialização. Os desviantes culturais se afastam das formas
comportamentais esperadas e idealizadas. Os desviantes psíquicos se
apartam das normas sociais em sua integração da personalidade,
formando uma identidade distinta da identidade social vigente.
Socialmente, de um lado, algumas formas de desvio são apro-
vadas e reconhecidas como as lideranças empreendedoras, os heróis,
os gênios, os santos, etc., que nem sempre visam à transformação,
sendo inovações sistêmicas sem modificar a “ordem social”; por ou-
tro lado, outras modalidades de ruptura são reprovadas como a de-
vassidão, a criminalidade, o vandalismo, o terrorismo, etc.
A principal “fonte” de desvios está na própria socialização,
seja pelas falhas contidas em relação ao meio social (ignorância,
incapacidade, incompetência, etc.), seja pela inovação ocorrida no
meio familiar ou escolar de despertar para transgressões, rupturas e
emancipações (processos conscientes visando à mudança nas novas
gerações).
Quando um “desvio” se generaliza, de um lado, cria-se um
“padrão desviante”, ao qual sucedem “normas de evasão”; de outro
lado, tolera-se em certo grau o “desvio” como auxilio à manutenção
do próprio controle social, podendo ser a trajetória de mudança
para as próximas gerações, na medida em que também se busca a
integração de uma sociedade em mudança.

8.2. Mobilidade social

A mobilidade significa, em sentido amplo, o fenômeno do


deslocamento dos seres humanos no espaço físico e no espaço
Almiro Petry 181

social39, em um determinado tempo, impulsionados por fatores


externos e internos.

8.2.1. Mobilidade física

O deslocamento de povos de um lugar para outro é um fenôme-


no muito antigo e acompanha a humanidade desde seus primórdios,
a tal ponto que hoje é difícil encontrar povos (exceto indígenas au-
tóctones e tribos remanescentes em diversos continentes) que não
tenham sido formados pela integração e agregação de grupos mi-
grantes. No entanto, como objeto de estudos atrai cada vez mais a
atenção de observadores, de políticos, de administradores e estudio-
sos das populações contemporâneas, na medida em que o processo
de desfronteirização é cada vez mais intenso.
As migrações podem ser externas e internas. As externas
são as que ultrapassam as fronteiras geográficas de uma nação e
demandam outro país ou outro continente. As internas ocorrem
dentro da própria nação e podem ser da área rural para a cidade;
de área rural para outra área rural; de cidade para cidade; ou como
fenômeno mais recente, da cidade para a área rural.
Como fatores das migrações internas são apontados as razões
voluntárias e as forçadas. As migrações voluntárias podem ser
impulsionadas por fatores econômicos e sociais, como a busca de
melhores condições de vida, de trabalho, de remuneração, de acesso
à saúde e à educação, com o intuito de uma futura mobilidade social.
Atualmente, a mídia vende imagens positivas da vida da cidade
que alimentam o imaginário de muitas pessoas. Por um lado, a
industrialização e a urbanização se constituem em um chamariz
para as pessoas buscarem novas oportunidades e melhorias de vida
nas áreas urbanas; por outro lado, a mecanização e a modernização
das atividades agrícolas expulsam os trabalhadores rurais e os
pequenos proprietários são impulsionados a abandonarem as lides
do campo e migram para as periferias urbanas.

39
Para este item a principal referência é FICHTER, 1972, p. 373-386.
182 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Também são catalogadas como fatores de migração as fugas


das opressões políticas, da discriminação racial, das perseguições
religiosas; a superpopulação e as privações de recursos materiais
básicos; as catástrofes naturais e destruições resultantes de guerras
civis e fratricidas.
Os efeitos decorrentes das migrações podem ser positivos ou
negativos. Os positivos abrangem a difusão cultural; a miscigenação
étnica e cultural; a “urbanização” da cultura rural, hoje impelida pela
mídia; e, a mobilidade ascendente se não dos migrantes, ao menos
de seus descendentes. Os negativos se manifestam na marginalização
estrutural nos casos de anomia social; a deterioração da qualidade
de vida dos que permanecem na exclusão; a “inchação” urbana com
as carências infraestruturais e equipamentos urbanos; o desemprego
e o subemprego; e a mobilidade social descendente.
Segundo Dubet, este campo da sociologia tem como foco a
integração e a assimilação dos migrantes pela comunidade que os
recebe e se desenvolveu mais nos Estados Unidos. Os sociólogos da
escola de Chicago, em especial Park e Burgess, “trataram a imigração
em termos de integração urbana, de mudança do modo de vida
tradicional para o moderno” (DUBET, 1996, p. 467). Sem dúvida, a
ruptura de laços tradicionais frente às incertezas do presente e do
futuro e a perda dos referenciais normativos, “podem transformar
a imigração em uma experiência de desorganização social, levando
aos comportamentos de desvio e marginalidade em geral associados
à imigração” (idem, p. 467).
No final do século XX e inícios do XXI chama a atenção de que
a Europa, de antiga região de emigração, tornou-se uma terra de
imigração, motivado pelos acentuados desequilíbrios entre os países
europeus ricos e os pobres. Neste fenômeno, o aspecto positivo é que
estes países se tornam cada vez mais multiétnicos.

Em uma época em que a economia e a cultura transcendem


seus limites nacionais, os movimentos migratórios participam
de uma notável transformação do padrão europeu, no qual o
estado-nação definia uma cultura, um território e um quadro
político. Consequentemente, o “problema dos imigrantes” é em
geral um problema das sociedades que os recebem (DUBET,
1996, p. 468).
Almiro Petry 183

8.2.2. Mobilidade social

Em sentido amplo, mobilidade social significa o movimento de


pessoas que passam de um estrato social para outro, seja na forma
ascendente ou descendente, em geral como movimentos entre clas-
ses sociais; sendo raro entre estamentos e inviável entre castas. O
espaço social, por sua vez, é delimitado pelas relações dos indivídu-
os a partir de suas posições e é multidimensional (dimensão vertical
definida pelos privilégios e a dimensão horizontal, pela quantidade
de indivíduos no estrato). Foi Sorokin quem consagrou a expressão
mobilidade social, em 1927, para sociedades abertas, especificando as
dimensões da verticalidade e da horizontalidade, passando a ter daí
para frente, um tratamento conceitual sistemático.

O termo mobilidade social refere-se ao deslocamento de


indivíduos e grupos entre posições socioeconômicas diferentes.
A mobilidade vertical significa o movimento de subida ou descida
dentro da escala socioeconômica. Aqueles que apresentam
ganhos em propriedade, renda ou status são os que demonstram
mobilidade ascendente, enquanto os que se deslocam para a
direção oposta possuem mobilidade descendente. Nas sociedades
modernas, existe também bastante mobilidade lateral, a qual
refere-se ao deslocamento geográfico entre bairros, cidades
e regiões. As mobilidades vertical e lateral geralmente se
combinam (GIDDENS, 2005, p. 248).

O grau de “abertura” de uma sociedade pode ser medido


pelo volume de indivíduos, grupos, segmentos ocupacionais ou
minorias que se deslocam na escala socioeconômica. Os grandes
desafios de uma sociedade são, por um lado, manter uma mobilidade
intergeracional – é o deslocamento através de gerações e que pode
combinar com a vertical –, como trajetória histórica, e não apenas
intrageracional – é o deslocamento de subida ou descida na escala
social na vida do indivíduo –, expressão circunstancial de um boom de
crescimento econômico ou de migração, algo como está ocorrendo
hoje no Brasil com a denominada nova classe média. Por outro lado,
o desafio é incluir na mobilidade social vertical as minorias sociais
e os segmentos mais excluídos que estão na periferia do sistema
social.
184 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

A mobilidade descendente, incomum como movimento de massa,


pode estar associada às mudanças estruturais do sistema produtivo,
mediante a incorporação de novas tecnologias e a reestruturação
das empresas; a limitação e incapacidade adaptativa às inovações
tecnológicas; circunstâncias pessoais e familiares de perda de sta-
tus, como separações e divórcios; ou até mudanças no regime políti-
co e no regime de poder que alteram as regras do jogo de mercado
quanto ao mundo do trabalho. A reestruturação do Estado, as mu-
danças no emprego público e a perda da estabilidade são apontadas
como causas de perda de status e de nível socioeconômico.

Hoje em dia, a mobilidade descendente nos EUA é


particularmente comum entre as mulheres com filhos que
sejam divorciadas ou separadas. Mulheres que, quando
casadas, desfrutaram de um certo conforto em sua vida de
classe média, geralmente descobrem-se vivendo precariamente
após o divórcios. Em muitos casos, as pensões são escassas ou
inexistentes; e as mulheres que tentam fazer malabarismos com
o trabalho, os cuidados com os filhos e as responsabilidades
domésticas encontram dificuldades para pagar as contas
(GIDDENS, 2005, p. 249).

Na medida em que a ocupação é aceita como um indicador de


classe social, as vantagens e desvantagens sociais, políticas e culturais
acabam se vinculando a ela. As escolhas que os jovens fazem para
o seu futuro estão, provavelmente, mais vinculadas às vantagens
socioeconômicas de determinadas profissões que os levam a romper
com vínculos familiares das ocupações paternas e, sobretudo, das
maternas. Pretendem usufruir das vantagens e oportunidades que a
sociedade “aberta” lhes oferece.

Na maioria dos casos, a mobilidade social possui um alcance


limitado. Grande parte das pessoas permanece próxima do
nível das famílias de origem, embora a expansão de empregos
de colarinho-branco, nas últimas décadas, tenha oferecido a
oportunidade para um volume considerável de mobilidade
ascendente de curto alcance (GIDDENS, 2005, p. 252).
Almiro Petry 185

Para além dos fatores já mencionados para a mobilidade


ascendente, podem ser apontados outros que decorrem da política
de migração, da fecundidade diferencial das classes sociais, da
intensidade da competição e da concorrência, da disponibilidade de
oportunidades e das aspirações dos indivíduos, do regramento de
igualdade e desigualdade existente na sociedade. Para a mobilidade
descendente pode-se tomar em consideração o conservadorismo
frente às mudanças, a vinculação aos indivíduos de situação igual ou
similar, a racionalização e a justificativa atribuindo erros aos outros,
a acomodação e a crença de que os filhos podem recuperar o status
perdido.

8.2.3. Circulação de elites

O termo elite era empregado, no século XVII, para significar


bens e produtos de qualidade superior; em seguida, se aplica a
grupos sociais superiores; só no século XIX é guindado a uma
categoria analítica, integrando o pensamento social, como nos
refere Bottomore (1996).
Vilfredo Pareto (1848-1923) e Gaetano Mosca (1858-1941)
propõem uma análise da sociedade a partir das elites. Pareto en-
tendia a elite como os indivíduos que se diferenciam dos demais
pelas capacidades pessoais, obtendo sucesso e, consequentemente,
possuindo mais poder, mais riqueza e mais prestígio. Com esta cate-
goria analítica, focou sua análise no segmento que denominou elite
governante. Assim, qualquer sociedade tem um estrato superior – a
elite – e outro inferior – a não-elite. O estrato superior se subdivide em
elite governante – formada pelos segmentos que estão no governo, no
poder; e a elite não-governante – englobando todas as demais cama-
das mais ricas e influentes, afastadas do governo.
Mosca concebia a elite como uma minoria organizada, dotada
de poderosos meios econômicos, que detém o poder na sociedade e
desempenha as funções políticas, usufruindo as vantagens advindas
do poder. Pela lógica das relações de poder, a minoria se impõe à
maioria pelo fato de ser organizada.
186 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Gerth e Mills (1973) consideram que as diversas elites


econômicas, políticas e militares se associam para formar uma
unidade de poder para dominar a sociedade. Esta unidade, além dos
aspectos institucionais, psicológicos e sociais, concretiza uma união
de seus interesses, constituindo a unidade ideológica.
Para a questão da circulação das elites, Pareto se atém, em
sua análise, aos aspectos existenciais da natureza humana, que
denominou de resíduos e os catalogou em seis classes, que são:
instinto das combinações; persistência dos agregados; necessidade
de manifestar os sentimentos por meio de atos exteriores; os
relacionados com a sociabilidade; a integridade do indivíduo e dos
seus dependentes; os resíduos sexuais (ARON, 2000, p. 387).
Especificamente, para a circulação das elites as duas primeiras
são básicas, pois o instinto de combinação que se expressa na faculda-
de de associar as coisas e de adaptar-se de forma flexível às exigên-
cias ambientais e situacionais, ou seja, uma atitude progressiva; e a
persistência dos agregados que revela a inclinação dos grupos em man-
ter seus padrões tradicionais, ou seja, uma atitude conservadora.
Sua concepção é de que a sociedade é um sistema em equilíbrio
dinâmico, a circulação só ocorre no grupo das elites, pois a
composição das elites se altera ciclicamente conforme as influências
dos resíduos progressistas e conservadores. Para tanto, Pareto usa
a analogia das raposas (combinações – progressista) e dos leões
(persistência – conservadora). Acredita Pareto que os leões, quando
no poder, recorrem com facilidade à força e as raposas, quando no
poder, buscam o equilíbrio através da flexibilidade e adaptabilidade.
Desta forma, a circulação das elites proporciona épocas em que
as forças conservadoras-regressivas ou adaptadoras-inovadoras
dominam.
Para Rocher (apud LAKATOS, 1978), as elites podem ser:
tradicionais – seu poder e autoridade estão fundamentados na
tradição (aristocracia, hierarquia religiosa, chefes tribais, etc.);
tecnocráticas – seu poder e autoridade estão na racionalidade,
legalidade e burocracia (ver item sobre a burocracia); carismáticas –
seu poder flui de carismas, dons específicos de indivíduos que podem
ocorrer com grupos, como é o caso dos brâmanes (casta superior);
Almiro Petry 187

proprietárias – seu poder e autoridade decorrem da posse de terras,


de capitais, de meios de produção, que são fator de pressão sobre as
elites tecnocráticas ou tradicionais; ideológicas – formam a elite do
poder quando a ideologia que as representa é a oficial, constituindo
a hegemonia ideológica; por outro lado, quando se opõem à elite do
poder, formam as elites de pressão; simbólicas – são as elites que
subjazem ao poder, mas classificadas como símbolos dos status, dos
papéis sociais, de parentesco, etc., que não visam à conquista do
poder.

8.3. Mudança social

A sociologia considera, de modo geral, a mudança social como


a transformação das estruturas sociais, verificável no tempo e que
venha modificar o curso da história de uma sociedade. Isto significa
que “o modo de ser” de uma coletividade, de uma organização
ou de um grupo social, em um ambiente de condições favoráveis
e impulsionado por determinados fatores, passa por um processo
de um “modo de vir a ser”, na constituição de novas estruturas, de
uma nova organização, nas quais as pessoas também alteram as suas
posições.
No campo teórico e analítico da mudança social, vamos
encontrar profundas divergências debitadas às origens de cada
vertente explicativa. Tanto Giddens (2003) quanto Sztompka
(2005) sugerem que as abordagens podem ser vistas como a dos
evolucionistas, a dos deterministas, a dos estrutural-funcionalistas, a dos
do conflito, a dos defensores dos ciclos e a dos defensores dos processos
sociais (a sociedade em movimento). No entanto, acredita-se que seja
um fenômeno multidimensional que abrange as ideias de processo,
de evolução, de progresso, de sistema, de desenvolvimento e de
adaptação, entre outras.
Quando pretendemos diagnosticar uma mudança, parece que
cabem algumas interrogações, tais como: o que muda? Quais são os
fatores da mudança (são endógenos ou exógenos)? Qual é o ritmo
188 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

(dinâmica) da mudança? Como ele ocorre (contínua, descontínua,


regular, etc.)? Quais as condições (favoráveis, desfavoráveis)? Quais
os agentes (individuais, institucionais)? Qual a direção (o curso
histórico, os objetivos)? Qual o controle que existe? A mudança é
deliberada, planejada ou espontânea?
Fichter (1972), Horton & Hunt (1980) e Lakatos (1978)
apresentam uma série de condições e fatores para ocorrerem
mudanças sociais. Por condições entendem as circunstâncias em que
é provável a ocorrência de mudanças, como (a) as formas históricas
já institucionalizadas de satisfação das necessidades, no entanto que
já não atendem mais às novas necessidades criadas, as imaginárias
e as reais; (b) os indivíduos que aspiram a melhores condições de
vida frente ao que o status quo oferece, fomentam expectativas de
mudanças; (c) o nível e acervo de conhecimentos que os indivíduos
têm sobre as mudanças e outras modalidades de vida coletiva; (d)
os valores econômicos e sociais dominantes e as atitudes que as
pessoas têm frente aos mesmos não estão mais a contento com as
expectativas; (e) o grau de complexidade das estruturas sociais e
culturais, propícias ou não às mudanças. Cabe observar que estas
condicionalidades não atuam isoladamente, mas marcam presença
em contextos de mudança.
Por fatores entendem as causas que produzem a mudança, po-
dendo ser endógenos e exógenos. Os endógenos – causação imanente
ou intrínseca – “desdobram potencialidades inerentes, propensões
ou tendências contidas na realidade que se modifica” e os exógenos
– causação externa ou extrínseca – “são reativos, adaptativos: rea-
gem a pressões, estímulos e desafios vindos de fora” (SZTOMPKA,
2005, p. 50). Entretanto, o principal desafio é diferenciá-los, mas
parece ser óbvio que aquilo que provém da “natureza” é externo à
sociedade, ou seja, “os processos sociais de reação a estímulos natu-
rais ou ambientais devem ser tratados como exógenos” (idem, p. 50)
e os que emergem da própria sociedade, devem ser tratados como
endógenos. No entanto, nem sempre há esta clarividência, pois, com
o imbricamento dos fatores, a maioria dos processos se torna exó-
gena-endógena. Por isso, é recomendável que o tratamento na abor-
dagem dos fatores seja o mais relativizado.
Almiro Petry 189

Como possíveis fatores podem ser destacados (a) os geográfi-


cos, que se manifestam em cataclismos naturais (enchentes, inunda-
ções, secas, terremotos, etc.) e podem alterar, de forma provisória
ou perene, a organização ou estrutura do grupo, da comunidade ou
da sociedade (por migrações, extinção de comunidades, etc.); (b) os
biológicos, como o rápido crescimento populacional, as epidemias e
a mortandade, a miscigenação, etc., podem provocar transformações
sociais e mudar o curso histórico da sociedade; (c) os sociais, como
a luta de classes, os conflitos, as revoluções, as guerras, as invasões,
etc., que podem transformar o estilo de vida, destruir culturas e es-
cravizar povos; (d) os culturais, como atitudes e valores de aspiração
e de aceitação da mudança, sem os quais podem ocorrer resistências
e a aceitação seletiva. Os culturais também abrangem as descobertas
– a percepção e partilha de algo que já existe, mas ausente desta
ambiência social; as invenções – uma nova combinação ou uma nova
aplicação de conhecimentos já existentes; a difusão – a disseminação
de elementos culturais de um grupo para outro; a capacidade inte-
lectual – a criação de novas ideias, de novos valores que propiciam a
mudança.

À parte a questão formal de sua localização relativa no processo,


as causas da mudança podem ser qualitativa e substancialmente
diferentes: naturais, demográficas, políticas, econômicas,
tecnológicas, culturais, religiosas e de muitos outros tipos. Os
sociólogos sempre ambicionaram descobrir quais fatores são
os mais importantes a induzir à mudança, quais os “móveis
primários” dos processos sociais (SZTOMPKA, 2005, p. 51).

Ressalta-se que a vida social e a mudança não se regem


por causas únicas, apesar de algumas teorias o afirmarem. As
óticas monocausais projetam, com certeza, algumas importantes
luzes sobre os processos de mudança social. Entretanto, parece
fundamental desenvolver um olhar da convergência e da conjunção
de fatores que atuam na multidimensionalidade.
Superando as escolhas interpretativas por causas determinis-
tas, quer materiais – tecnológicas, econômicas, ambientais ou bioló-
gicas –, ou quer de ideias – ideológicas, religiosas ou éticas – preva-
190 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

lece na sociologia moderna, segundo Sztompka (2005), o conceito


de que as verdadeiras forças causais e propulsoras são as “ações
humanas”, portanto, o agente da mudança é o ser humano, que se
socializa na sociedade.
Nesta lógica, Sztompka (2005) acredita que esta procura das
“forças propulsoras dos fenômenos e processos responsáveis” pelo
destino é inerente ao despertar da “autorreflexão” humana. No pas-
sado distante, a explicação era atribuída ao sobrenatural, o qual,
como uma força exógena, interferia na história e no “mundo humano
e social”. Logo em seguida, passou-se a entender que os desdobra-
mentos da sociedade humana eram determinados por forças da na-
tureza, como produtos astronômicos, físicos, biológicos, climáticos
e geográficos. Entretanto, levou-se algum tempo para compreender
que a força transformadora era um atributo dos “seres humanos”,
não de todos, mas de “grandes homens”, como os profetas, os heróis,
os generais, os descobridores, os inventores, os gênios. “Eram os
transformadores da sociedade, embora suas capacidades carismáti-
cas não proviessem da sociedade; ao contrário, eram inatas, geneti-
camente herdadas e individualmente desenvolvidas” (idem, p. 328).
Com o advento da sociologia e os avanços da razão humana,
passou-se a entender que as “forças propulsoras” estavam
“localizadas” na sociedade humana, elemento que passou a compor
parte do “pensamento sociológico” e do pensamento social, em
especial a sua democratização “quando a ideia de agência foi
estendida para baixo, a todas as pessoas, a todos os papéis sociais
e não apenas às funções de poder” (idem, p. 329) ou a “uns poucos
eleitos”.

Reconhece-se, como era óbvio, que um indivíduo não tem mais


que um minúsculo poder de decisão na mudança social, mas,
ao mesmo tempo, que a mudança social deve ser tratada como
resultado combinado daquilo que fazem todos os indivíduos.
Distributivamente, cada indivíduo é portador de uma agência
ínfima, praticamente invisível, mas coletivamente os indivíduos
são todo-poderosos (SZTOMPKA, 2005, p. 329).
Almiro Petry 191

Por conseguinte, a mudança social pode ser espontânea, resul-


tante da agregação de tudo aquilo que os cidadãos e cidadãs – pro-
dutores, consumidores, compradores e vendedores – fazem movidos
pelos próprios interesses e “propósitos egoísticos”; de outro lado,
ela pode ser planejada através dos “agentes coletivos”, de cima para
baixo, mediante normas emitidas pelos “governos, corpos legislati-
vos e administrativos”, ou de baixo para cima, através de “associa-
ções, grupos de pressão, lobbies, movimentos sociais” (idem, p. 330);
ou ainda, pelas forças emanadas das energias da natureza expressas
em cataclismos, incontroláveis pelas forças e prevenções humanas.
No cenário da compreensão humana, várias abordagens
marcaram presença, podendo-se destacar algumas, como o
evolucionismo, o determinismo, e outras, sobre as primeiras se tecem
algumas considerações.

8.3.1. Evolucionismo sociológico

O evolucionismo sociológico, cuja crença e doutrina afirmam que a


sociedade humana processa uma transformação gradual e contínua
de estágios anteriores para posteriores mais avançados, teve em sua
origem uma concepção clássica e, após certo “eclipse do pensamento
evolucionista” (GIDDENS, 2003, p. 269), ele renasceu mais tarde,
em novos modelos explicativos – conhecido por neoevolucionismo.
Um dos conceitos fundantes e nuclear é o de crescimento que...

Supõe um processo que: (1) consiste no desdobramento de


certas potencialidades imanentes, presentes desde o início
no objeto em estudo [revelando gradualmente o que já veio
codificado na semente ou embrião]; (2) opera em uma única
direção e é irreversível [não há retorno da maturidade para a
juventude]; (3) é inexorável, não pode ser detido [não é possível
ser jovem para sempre]; (4) avança passo a passo, gradual e
incrementalmente; (5) passa por estágios ou fases discerníveis
[p. ex. juventude, maturidade, senilidade] (SZTOMKPA, 2005,
p. 180-1).
192 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

A concepção evolucionista da sociedade humana é atraente,


porque se volta para os importantes elos entre o passado, o presente
e o futuro, considerados os liames de sua história, seja como sistema
universal ou nos sistemas particulares.
a) Na ótica do evolucionismo clássico, os principais representantes
são Comte, Spencer, Morgan, Durkheim e Tönnies.

Augusto Comte (1798-1857) desenvolve uma concepção idea-


lista da evolução ao defender a ideia de que “a sociedade capitalista
urbano-industrial não é um acidente, mas o resultado natural e ne-
cessário dos processos precedentes” (SZTOMPKA, 2005, p. 182),
dentro de sua formulação da lei dos três estágios – como evolução
universal: o teológico (domínio da religião, das forças sobrenaturais,
passando do politeísmo ao monoteísmo); o metafísico (domínio do
abstrato, os deuses são substituídos pela razão que ilumina as men-
tes humanas); e, o positivo (domínio da ciência positiva, a era do po-
sitivismo e do individualismo, da ciência e do industrialismo). As-
sim, “a qualidade e quantidade de conhecimento sob o domínio da
sociedade crescem persistentemente. Essa característica central da
sociedade influencia ou determina todos os demais aspectos da vida
social: econômico, político, militar” (idem, p. 182). A visão comteana
afirma que a história é a história humana das mudanças da mente
e do espírito – para estágios superiores – no domínio da realidade
e no controle do mundo. Comte acreditava que a ciência destruiria
as falsas ideias incutidas pela religião, entretanto, as novas “crenças
positivas”, emanadas da ciência positiva, constituiriam a “religião da
humanidade”.
Herbert Spencer (1820-1903) desenvolve uma concepção
naturalista da evolução ao concebê-la como um princípio subjacente
à natureza e ao mundo social. “A evolução pode ser definida como
mudança da homogeneidade incoerente para a heterogeneidade
coerente, coexistente com a dissipação do movimento e a integração
da matéria” (SPENCER, apud: SZTOMPKA, 2005, p. 183),
pontificava ele, tendo o crescimento de um organismo vivo como
modelo e tomando da biologia a noção de mudança evolucionista,
Almiro Petry 193

argumentava que a sociedade humana era realmente um organismo.


Com esta noção, Spencer introduziu na teoria sociológica os
conceitos de estrutura social, de funções da sociedade e de equilíbrio
sistêmico.
Assim, como processo universal, “a evolução se dá por meio da
diferenciação estrutural e funcional:
(1) da simplicidade à complexidade;
(2) da amorfia à articulação das partes;
(3) da uniformidade e homogeneidade à especialização e
heterogeneidade; e,
(4) da fluidez à estabilidade” (SZTOMPKA, 2005, p. 184).

Na visão spenceriana, a sociedade humana evolui da mais


simples (isolada e membros idênticos) para uma mais complexa
(emerge a divisão do trabalho e a divisão das funções), atingindo
o estágio de duplamente complexa (regida por uma constituição e
sistema de leis) para culminar na civilização (totalidades complexas,
federações de estados, impérios, etc.). Julga que no ápice a oposição
seria entre a “sociedade militar e a sociedade industrial” (Quadro 2).
Como defensor da filosofia utilitarista, Spencer considerava
a felicidade como o fim último da moralidade e, na perspectiva
evolucionista, preservava os princípios da liberdade individual com
vistas aos “fins culminantes de uma humanidade progressista”,
delineando

[...] uma evolução a longo prazo do caráter humano, desde um


estágio primitivo marcado por instituições políticas repressivas
orientadas para a guerra, até um moderno estágio civilizado
em que indústria e comércio são exercidos por intermédio,
predominantemente, de associações voluntárias (LEVINE,
1997, p. 134).
194 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Quadro 2: Sociedade militar versus Sociedade industrial


Características Sociedade militar Sociedade industrial
Produção e troca pacífica
de bens
Defesa e conquista do
Cooperação voluntária,
Atividade dominante território
contratos
Princípio integrador Coerção, sanções rígidas
Estado a serviço das
Relação entre indivíduo Dominação do Estado,
liberdades individuais,
e Estado restrição da liberdade
liberdade
Centralização, autocracia
Descentralização, demo-
Estrutura política Adscrição, baixa mobili-
cracia
Estratificação dade, sociedade fechada
Realização, alta mobili-
Autarquia, protecionis-
dade, sociedade aberta
Atividade econômica mo, autossuficiência
Interdependência econô-
Coragem, disciplina,
mica, livre comércio
Valores dominantes obediência, lealdade,
Iniciativa, inventibili-
patriotismo
dade, independência,
honestidade
Fonte: Sztompka, 2005, p. 186.

Visto como um evolucionista linear, ele próprio se manifesta


discordante desta interpretação, quando assim se expressa:

[...] o processo cósmico ocasiona tanto um retrocesso quanto


um progresso (...). A evolução não subentende uma tendência
latente para melhorar, funcionando em toda a parte. Não há
uma ascensão uniforme do inferior para o superior, mas apenas
a produção ocasional de uma forma que, em virtude de maior
aptidão para condições mais complexas, trona-se capaz de uma
vida mais longa de uma espécie mais variada (SPENCER, apud:
LEVINE, 1997, p. 279).

Lewis Morgan (1818-1881), antropólogo norte-americano,


desenvolveu uma concepção materialista da evolução, com base nas
inovações tecnológicas, originadas da constante busca na satisfação
das necessidades naturais e materiais do ser humano. As crescen-
tes necessidades – alimentos, abrigos, conforto, segurança etc. – se
constituem em impulsos para criar novas tecnologias e, uma vez ob-
tidas, elas transformam o “modo de ser” da sociedade na vida social,
Almiro Petry 195

nos padrões econômicos e políticos, nos valores culturais e nas es-


truturas sociais. Neste paradigma, a história humana se desenvolveu
em três fases distintas: o selvagismo, o barbarismo e a civilização,
identificáveis pelas diversas “rupturas tecnológicas”. O selvagismo
e o barbarismo podem ser divididos em três estágios sucessivos, o
“baixo”, o “médio” e o “superior”, cada qual com seu determinan-
te tecnológico. Caracterizam-se o “baixo selvagismo” pela coleta; o
“médio selvagismo”, pela invenção do fogo; o “superior selvagismo”,
pela invenção do arco e da flecha; o “baixo barbarismo”, pela produ-
ção da cerâmica; o “médio barbarismo”, pela domesticação de ani-
mais e a irrigação; o “superior barbarismo”, pela produção de ferro,
utensílios e ferramentas daí decorrentes. A “civilização” nasce com
a “invenção do alfabeto fonético e da arte da escrita” (SZTOMPKA,
2005, p. 186). Esta ótica renasce, com vigor, no neoevolucionismo.

Émile Durkheim (1854-1917) incrementa um paradigma


sociológico da evolução. Ele vê na crescente divisão do trabalho e
na diferenciação das funções ocupacionais, na medida em que são
impulsionadas por “causas sociais” (os fatos sociais têm causas
sociais e são interdependentes, segundo ele), a “principal tendência
da evolução”.

Tal tendência está relacionada a fatores demográficos: popula-


ção crescente que resulta em densidade demográfica crescente
e produz “densidade moral” crescente, ou seja, intensidade das
interações e complexidade dos relacionamentos sociais acres-
cidos, em suma, elevação da qualidade dos vínculos sociais. Se-
guindo a estratégia spenceriana, Durkheim propõe uma outra
tipologia dicotômica das sociedades, com base na diferença qua-
litativa dos vínculos sociais: a “solidariedade mecânica” radica
na similaridade de funções e tarefas indiferenciadas; a “solida-
riedade orgânica” na complementariedade, cooperação e caráter
mutuamente indispensável de funções e ocupações altamente
diversificadas (SZTOMPKA, 2005, p. 187).

Discorda de Comte de que a solidariedade, nas modernas so-


ciedades industriais, deva estar baseada em extenso repertório de
crenças comuns e na supressão das liberdades individuais, argumen-
196 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

tando que “nas sociedades modernas, a diversidade funcional requer


diversidade moral, e o culto moderno do indivíduo fornece o único
sistema de crenças capaz de garantir a unidade moral de tal socieda-
de” (LEVINE, 1997, p. 155). A esta posição acrescenta a rejeição ao
modelo comteano de “uma única trajetória evolucionista para toda a
humanidade” e sugere “um modelo evolucionista semelhante a uma
árvore, com ramos que se projetam em diferentes direções, cada um
dos quais possui seu próprio padrão característico de moralidade”
(idem, p. 155). Caso não haja uma regulamentação social e moral,
“o lado biológico da natureza humana de desejos potencialmente
insaciáveis” conduzirá a extremos patológicos. Entretanto, certos
fenômenos sociais intuitivamente ruins e reprováveis, inerentes à
ordem social, podem ser benéficas à sociedade, enquanto não atingi-
rem o grau extremo de patologias. Aliás, o tema da insaciabilidade
dos apetites humanos é recorrente em Durkheim, pois “se não hou-
ver uma autoridade moral que limite os desejos, os homens ficarão
eternamente insatisfeitos, porque desejarão sempre algo mais, que
não poderão obter” (ARON, 2000, p. 340).
Na perspectiva durkheimiana, as insatisfações humanas
constituem “o motor do movimento histórico” da mudança, na
medida em que, o ser humano não aceita sua situação, qualquer que
seja. Neste sentido, a insatisfação não é patológica, no entanto, “se
cada geração pretende viver melhor do que a anterior, a insatisfação
permanente descrita por Durkheim será inevitável” (ARON, 2000,
p. 340).
Para Durkheim, a história humana é observável pela evolução
da “solidariedade mecânica” para a “solidariedade orgânica”, cujas
diferenças constam no Quadro 3, a seguir.
Almiro Petry 197

Quadro 3: Solidariedade mecânica versus Solidariedade orgânica


Solidariedade Solidariedade
Característica
mecânica orgânica
Altamente diferenciado
Similar, uniforme
Complementariedade e
consenso
dependência mútua
Moral e religioso
Caráter das atividades Individualismo,
Principal vínculo social ênfase em indivíduos
Coletivismo, ênfase no
autônomos
grupo, comunidade
Posição do indivíduo Divisão do trabalho,
Grupos isolados,
dependência mútua
autárquicos,
Estrutura econômica entre grupos,
autossuficientes
Controle social intercâmbio
Leis repressivas para
Leis restitutivas para
a punição de ofensas
a salvaguarda de
(direito criminal)
contratos (direito civil)
Fonte: SZTOMPKA, 2005, p. 188.

Ferdinand Tönnies (1855-1936) propõe um modelo evolu-


cionista “sem progresso”, baseado nos vínculos pessoais, íntimos
e primários da comunidade, língua e território (Gemeinschaft), que
se transformam em contatos impessoais, contratuais, secundários e
instrumentais da moderna sociedade (Gesellschaft). Tönnies prepa-
rou o terreno teórico para grande parte da sociologia alemã subse-
quente. Estes dois tipos são produtos da “vontade social”, sendo que
“o primeiro expressa uma vontade espontânea, irrefletida, que está
próxima das inclinações naturais. O segundo expressa uma espécie
deliberada, refletida e interesseira de vontade em que o volunta-
rismo humano atinge um grau muito elevado” (LEVINE, 1997, p.
183). Por outro lado, o autor manifesta uma nostalgia em relação à
“comunidade perdida” frente ao avanço da “sociedade moderna” e
considera que “a evolução se opõe às necessidades do homem, levan-
do não ao aperfeiçoamento, mas à deterioração da condição humana”
(SZTOMPKA, 2005, p. 188). Tönnies considera que a evolução não
é um sinônimo de progresso. As características diferenciais entre os
dois modelos constam no Quadro 4, abaixo.
198 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Quadro 4: Gemeinschaft versus Gesellschaft


Característica Gemeinschaft Gesellschaft
Relações sociais Parentesco Intercâmbio econômico
Instituições típicas Família Estado e economia
Imagem do indivíduo Eu Pessoa, cidadão
Forma da riqueza Terra Dinheiro
Tipo de direito Direito familiar Direito de contratos
Instituições centrais Aldeia Cidade
Controle social Cultura e costumes Lei e opinião pública
populares, religião
Fonte: SZTOMPKA, 2005, p. 188.

A concepção evolucionista provocou uma série de ressalvas


e críticas que perpassam uma gama de posições teóricas, desde o
criacionismo – seus propugnadores, baseados em argumentos
teológicos, são radicalmente contrários à concepção evolucionista –
até as variadas posições de cientistas sociais.
Lenski (1996) apresenta quatro razões que levam os cientistas
sociais a rejeitarem o evolucionismo. A primeira, ainda se presume
que a concepção “implique a crença em um progresso moral e em
uma inevitável melhoria da condição humana”, critério já superado
pelo avanço das recentes posições dos evolucionistas. Desta forma,
“o evolucionismo mais recente nega explicitamente tanto a inevita-
bilidade quanto a universalidade do progresso moral e da melhoria
da condição humana”, por se considerar a população humana como
um todo e não cada sociedade em particular (LENSKI, 1996, p. 291).
A segunda, porque se acredita que a ideia da evolução “implica cer-
ta forma de reducionismo biológico”, ideia já superada porque “o
evolucionismo mais recente rejeita explicitamente o determinismo
biológico, identificando a cultura como mecanismo dinâmico na mu-
dança social” (idem, p. 291). A terceira, os cientistas sociais de ver-
tentes humanistas “rejeitam qualquer explicação generalizante da
história humana e insistem na importância dos fatores contingentes
na formação das consequências de qualquer evento”. Este questio-
namento está superado pela recente posição dos evolucionistas em
formularem suas teorias em “termos de probabilidades, e não do
modo determinista a que os críticos humanistas se opõem”. A pos-
Almiro Petry 199

tura recente dos evolucionistas é descrever a natureza do campo das


forças “que influenciam as ações de indivíduos e sociedade sob con-
dições específicas” e, a partir disso, traçar “uma base para estimati-
vas da probabilidade de vários resultados” (idem, p. 291). A quarta,
porque o evolucionismo é associado ao darwinismo social. Esta as-
sociação, apesar das manifestações de contendores e adversários do
evolucionismo de uma objeção fortuita, parece ser insuperável pela
carga ideológica que é portadora.
Por outro lado, Giddens chama a atenção para um olhar mais
diferenciado e esclarecedor do que a proposta evolucionista e
sintetiza:

[...] Em vez de ver o mundo moderno como uma acentuação ul-


terior das condições existentes em sociedades de classes, é mui-
to mais esclarecedor vê-lo como tendo realizado uma cesura no
mundo tradicional, que ele parece corroer e destruir de forma
irremediável. O mundo moderno nasceu antes da descontinui-
dade do que da continuidade com o que aconteceu antes. A tare-
fa da sociologia é explicar da melhor forma possível a natureza
dessa descontinuidade – a especificidade do mundo introduzido
pelo advento do capitalismo industrial, originalmente localiza-
do e fundado no Ocidente (GIDDENS, 2003, p. 281).

b) O evolucionismo social, após um período de rejeição e abandono,


renasce na sociologia, na segunda metade do século XX, com
o viés de neoevolucionismo, afirmando novos alicerces para suas
teses e se mantém “como uma influente escola da teoria da
mudança” (SZTOMPKA, 2005, p. 201).

A trajetória da “renovação” inicia na antropologia cultural com


Leslie White (1900-1975), que “lança a imagem da cultura como
aparelho adaptativo, por meio do qual a espécie humana se acomoda
à natureza, principalmente através do domínio da energia livre e da
sua apropriação para a satisfação das necessidades humanas” (idem,
p. 203), tendo no “sistema tecnológico” o principal papel adaptativo.
Nas funções secundárias e derivadas, estariam “a organização
política, a estrutura normativa, os sistemas de conhecimento e as
200 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

ideologias”. O crescente domínio sobre a natureza “é a tendência


evolucionista fundamental”.
Na sociologia, esta corrente emerge como uma reação à
ortodoxia da abordagem estrutural-funcionalista, com duas
abordagens: a ecológico-evolucionária e a diferenciação ampliada.
A ecológico-evolucionária tem em Gerhard Lenski (1924-) e
Jean Lenski seus principais proponentes. Em relação às ciências
biológicas, assim se expressam:

[...] Ela compartilha com a abordagem evolucionária em bio-


logia um intenso interesse no processo de mudança – mudan-
ça básica, de longo prazo, desenvolvimentista e adaptativa – e
no correspondente processo de competição e conflito. Com a
abordagem ecológica em biologia, compartilha o interesse nos
laços de interdependência entre populações e no seio de cada
uma e ainda nas relações entre as populações e seus ambientes
(LENSKI e LENSKI, apud: SZTOMPKA, 2005, p. 208).

Em sua análise, Lenski e Lenski se atêm a dois cenários: o pri-


meiro, a relação das sociedades com seus ambientes e com suas par-
tes; e o segundo, a evolução das sociedades no tempo e a busca das
razões por que mudam e como mudam, bem como suas diferencia-
ções. Nesta relação, a “tendência mais significativa é o avanço tec-
nológico”, retrato da evolução sociocultural e a essência do avanço
tecnológico consiste na abrangência das “variáveis da informação
necessária ao controle do ambiente” (idem, p. 209), considerando a
tecnologia básica de subsistência “como motor crucial da inovação”.
As sociedades humanas se diferenciaram pela habilidade de criar e
usar símbolos e “sem símbolos, as sociedades humanas não teriam
seu traço mais distintivo: a cultura” (DEMO, 2002, p. 96) e care-
ceriam de inovações. Para Lenski e Lenski, os sistemas simbólicos
dotaram os seres humanos de um modo novo e radical de relaciona-
mento e adaptação ao mundo biofísico. “Os sistemas simbólicos são
o análogo funcional dos sistemas genéticos” (LENSKI e LENSKI,
apud: SZTOMPKA, 2005, p. 209).
Almiro Petry 201

[...] É provável que, no futuro, a quantidade e a qualidade da


informação disponível permita à espécie humana colocar a sua
própria evolução sob um controle consciente e intencional.
Será o coroamento do processo de “evolução da evolução”, o
avanço permanente dos próprios mecanismos evolucionários
(SZTOMPKA, 2005, p. 209).

Nesta abordagem, o avanço tecnológico define os contornos


básicos da história humana e passa a ser o principal critério da
periodização da formação das sociedades humanas40.
A abordagem da diferenciação ampliada tem em Talcott Par-
sons (1902-1976) o principal representante. Ele interpreta os con-
ceitos estrutural-funcionalistas na perspectiva das “transformações
evolucionárias da sociedade humana”. Para ele, em qualquer sistema
social encontram-se os processos de integração, de controle e os de
mudança estrutural, para restaurar o equilíbrio e garantir a “conti-
nuidade e a reprodução da sociedade”.

[...] As mudanças estruturais seguem o padrão evolucionista.


Toda fase subsequente em um processo se distingue por
um aumento de complexidade com crescimento do número
e diversidade de unidades especializadas no interior de um
sistema, e a consequente necessidade de novas formas de
cooperação, coordenação e organização (SZTOMPKA, 2005,
p. 211). ‘A evolução sociocultural, tal qual a evolução orgânica,
se deu por meio de variações e diferenciações progressivas,
das formas simples às mais complexas (PARSONS, apud:
SZTOMPKA, 2005, p.211).

Parsons aponta quatro mecanismos básicos da evolução:


a diferenciação, o aperfeiçoamento adaptativo, a inclusão e a
generalização de valores, que permitem discernir os estágios
evolutivos, quais sejam:
(1) o primitivo;
(2) o primitivo avançado;

40
Ver item 5.5.1, deste texto.
202 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

(3) o intermediário; e,
(4) o moderno.

Em sua trajetória intelectual, pouco a pouco, Parsons abando-


na a abordagem e a terminologia do estrutural-funcionalismo (que
ele prescreve de seu vocabulário, após 1960) e se inclina a adotar sua
teoria do funcionalismo sistêmico, numa perspectiva evolucionária.
Parsons desenvolve sua teoria da sociedade em The System of
Modern Societies (1971), obra sucessora de Societies: Evolutionary and
Comparative Perspectives (1966), cujo projeto era de ser uma obra em
dois volumes. O tempo não lhe permitiu concretizá-lo. Ali, conceitua
a sociedade “como o tipo de sistema social caracterizado pelo
nível mais elevado de autossuficiência com relação ao seu ambiente,
onde se incluem outros sistemas sociais”. A continuidade de uma
sociedade depende de um sistema de recepções que a atingem
através de intercâmbios com seus sistemas ambientais. Assim, a
autossuficiência significa estabilidade de intercâmbio e capacidade
para controlar os ambientes e transformá-los em benefício do
funcionamento societário. Ao calcar o conceito de sociedade na
questão da autossuficiência, enfatiza a autonomia sobre o controle
dos recursos econômicos através da organização de produção; a
autonomia no controle político sobre a área territorial; a autonomia
na manutenção do padrão; e, a autonomia na institucionalização de
padrões de valor e a legitimação das instituições.
Podemos considerar como processos evolucionários na socie-
dade humana as mudanças causadas “no interior da estrutura so-
cial por uma retenção seletiva de variações aleatórias desviantes”
(JUNGE, 1996, p. 610), a partir da abordagem transdisciplinar das
ciências modernas, superando as tradicionais óticas monocausais e
unilineares. Deste jeito, a maioria dos sociólogos se restringe, na
atualidade, “a sistemas de significado e à sua realização comunicati-
va”, sendo cautelosos em considerar uma “interação possível entre a
evolução biológica e a social” (idem, p. 610).
Almiro Petry 203

Para Luhmann (2001), a acelerada evolução da sociedade no


mundo moderno pode ser avaliada “considerando-se a crescente
diferenciação entre os mecanismos básicos da própria evolução, ou
seja, a separação de variação, seleção e retenção” (JUNGE, 1996, p.
611). A teoria da evolução concebia a evolução “como um processo
macro-histórico e causal” (LUHMANN, 2001, p. 101). Na medida
em que a evolução não é um processo, a concepção darwiniana
não resistiu às críticas, em especial, a descrição das funções
evolutivas: a variação, a seleção e a estabilização de características
hereditárias, resultantes de vários mecanismos. Na nova concepção,
a evolução significa “toda a transformação estrutural que resulta
da diferenciação e colaboração destes mecanismos” (LUHMANN,
2001, p.101); ou seja, os mecanismos para a variação, a seleção e
a estabilização são diferenciados e distribuídos por subsistemas
diferentes. A teoria da evolução social “é uma teoria autorreferencial
não só nas suas propostas sobre a origem, mas também no quadro
conceitual geral. É uma teoria sobre a evolução da evolução” (idem,
p.102). Portanto, o avanço da teoria dos sistemas sociais depende
do desenvolvimento de conceitos autorreferentes nos subsistemas
que se autonomizam cada vez mais no processo evolucionário.
Os “subsistemas no mundo moderno tornaram-se cada vez
mais autônomos e imprevisíveis”, por outro lado, “os processos
evolucionários em sociedade diferenciam-se e aceleram-se, e, com
essa evolução da evolução, a sociedade moderna perde um centro
e se torna cada vez menos conservadora” (JUNGE, 1996, p. 611).
Desta forma, a teoria da evolução social oportuniza “um melhor
entendimento desses processos evolucionários que formam a
sociedade do mundo moderno” (idem, p. 612).
A autorreferência aos próprios fundamentos passa a ser
estruturante frente à heterorreferência. Esta distinção identifica a
fronteira operacional construída no sistema, qual seja, a diferença
entre sistema e meio externo. Nesta perspectiva, (1) “o sistema
opera e dá continuidade às suas operações”, estando apto a viver
ou a comunicar. (2) O sistema usa internamente a diferença
produzida dessa forma como distinção (LUHMANN, 2005, p.27).
Neste patamar, ocorre para o observador a observação de segunda
204 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

ordem41, ou seja, “a observação do observador que possa diferenciar


a si mesmo daquilo que ele observa” (idem, p.27). O sistema gera seu
próprio tempo que se “consome na sequência de suas operações”, na
expectativa de que outras operações se sucederão.
O estado que o sistema alcançou é determinado pela autorre-
flexividade. Quando “o estado do sistema entra na comunicação se-
guinte como irritação, surpresa, novidade, sem que o mistério da
procedência, da origem da novidade do novo seja esclarecido pelas
operações do sistema” (idem, p. 30), isto é, o sistema pressupõe-se a
si mesmo “como irritação autoproduzida, sem ser atingível por meio
de suas próprias operações”. Então o sistema ocupa-se com a trans-
formação da irritação em informação que ele produz para si mesmo
e para a sociedade, ocorrendo a autopoiesis da transformação.

8.3.2. Determinismo sociológico

O determinismo sociológico pressupõe a tese de que para tudo


que existe e acontece existem fatores e, uma vez estabelecidos,
nada diferente poderá ocorrer, para além do previsto. Nesta
perspectiva, a mudança social ocorreria como resultante da atuação
de determinados fatores, que imprimiriam certa regularidade. Nada
seria incerto, tudo seria previsível; o futuro e o passado estariam
no presente. Segundo Bhaskar (2001), os avanços das reflexões

41
Na cibernética diferencia-se “máquinas triviais” de “máquinas não-triviais”.
Na cibernética “máquina” significa uma “regra de transformação”. As máquinas
triviais transformam inputs em outputs, através de um modo previsto e repetido.
Máquinas não-triviais são autorreferenciais (por exemplo, o sistema psíquico). Elas
se transformam a partir de suas operações. Elas são históricas e se transformam
em nova máquina a cada operação (portanto, são instáveis e inconfiáveis). Por isso
são de extrema complexidade. Na cibernética as não-triviais são categorizadas
de “segunda ordem” frente às formas cibernéticas reguladas, pela complexa
operação da circularidade (o termostato controla a temperatura do ambiente
e a temperatura do ambiente controla o termostato: é uma relação simétrica e
circular). A primeira ordem de observação é a relação termostato-ambiente; a
segunda ordem de observação é observar o observador, que pode alterar a relação
termostato-ambiente (causalidade). Aqui temos uma “revolução epistemológica”:
a da observação de segunda ordem, portadora de perspectivas diferenciadas
(LUHMANN, in: Neves e Samios, 1997).
Almiro Petry 205

filosóficas e científicas sugerem que as denominadas “leis da


regularidade” antes “impõem limites do que prescrevem resultados
fixos, únicos”. Por isso, devem ser analisadas “como tendências de
mecanismos e não como conjunções invariáveis de acontecimentos”.

O ‘determinismo’, como normalmente compreendido, pode


portanto ser considerado uma noção que repousa em uma
ontologia ingênua e fatalista de leis, e, em particular, no
erro de supor que um evento, porque foi levado a acontecer,
estava destinado a acontecer antes de ter sido causado – uma
confusão entre determinação (ontológica) e predeterminação
(epistemológica) (BHASKAR, 1996, p. 204).

O desenvolvimento de novas teorias como a da catástrofe de


Toba, a do caos, a da complexidade, a dos novos sistemas “representou
mais um golpe no determinismo de regularidade, ilustrando
que sistemas dinâmicos não-lineares podem produzir resultados
altamente irregulares (caóticos e imprevisíveis)” (BHASKAR, 1996,
p. 204), o que também se aplica ao campo sociocultural. Aí ocorre
a mediação humana que se rege pelo livre arbítrio – o exercício da
liberdade humana – das escolhas, das decisões e da assunção das
responsabilidades.
Os determinantes estariam estruturados, assim:

a) Na economia – muitas vezes Marx é apresentado como


proponente de um determinismo econômico quando sugere
que a economia é um fator fundamental da configuração da
estrutura social, do desenvolvimento da sociedade e de sua
reprodução.

Num contexto marxista, o debate sobre o determinismo


girou em torno da seguinte questão: os resultados futuros
determinados, ou talvez até mesmo datados (condições, estados
de coisas, acontecimentos, etc.), são (a) inevitáveis, (b) previsíveis,
ou (c) fatídicos (no sentido de terem de acontecer, quaisquer que
sejam os atos das pessoas)? (BHASKAR, 2001, p. 99).
206 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

No que se refere à inevitabilidade, Marx identifica as “leis da


economia capitalista” e reconhece as múltiplas causas que produ-
zem os resultados históricos. Em Grundrisse, ele próprio resume
sua ideia:

[...] para todos os estágios da produção há determinações


comuns que são fixadas pelo pensamento como determinações
universais; mas as assim chamadas condições universais de toda
produção nada mais são do que esses momentos abstratos, com
os quais nenhum estágio histórico efetivo da produção pode ser
compreendido (MARX, 2011, p.44).

Ao esboçar as relações entre a produção, o consumo, a circula-


ção e a troca, enuncia: “o resultado a que chegamos não é que produ-
ção, distribuição, troca e consumo são idênticos, mas que todos eles
são membros de uma totalidade, diferenças dentro de uma unidade”
(idem, p. 53). Portanto, “uma produção determinada determina um
consumo, uma troca e uma distribuição determinados, bem como
relações determinadas desses diferentes momentos entre si”. E fina-
liza: “as necessidades de consumo determinam a produção. Há uma
interação entre os diferentes momentos. Esse é o caso em qualquer
todo orgânico” (idem, p. 53).
A questão do determinismo econômico em Marx suscitou
divergências entre marxistas e não-marxistas. Convém destacar
a manifestação de Engels, na carta que endereça a Bloch (1890)42,
quando é enfático ao ensinar: “de acordo com a concepção
materialista da história, o elemento determinante final na história é a
produção e reprodução da vida real”. A isso acrescenta, entretanto,

42
Joseph Bloch (1871-1936). A carta de Engels é uma resposta à carta a ele
dirigida por Joseph Bloch, em 3 de setembro de 1890, foi publicada, pela primeira
vez, na revista “Der Sozialistische Akademiker (O Acadêmico Socialista)”, Nr. 19,
Ano 1, de 1° de outubro de 1891. Joseph Bloch foi estudante da Faculdade de
Matemática da Univerdade de Berlim, entre 1892 a 1897. De 1895 a 1897, atuou
como redator da revista “Der Sozialistische Akademiker (O Acadêmico Socialista)”
e, a partir de 1897, como redator dos “Sozialistische Monatshefte (Cadernos
Mensais Socialistas)”, passou a defender posições nitidamente revisionistas do
socialismo científico de Marx e Engels. Fonte: http://www.scientific-socialism.
de/FundamentosCartasMarxEngels210990.htm
Almiro Petry 207

que jamais ele e Marx afirmaram que “o fator econômico é o único


determinante”. E explica:

As condições econômicas são a infraestrutura, a base, mas vá-


rios outros vetores da superestrutura (formas políticas da luta
de classes e seus resultados, a saber, constituições estabeleci-
das pela classe vitoriosa após a batalha, etc., formas jurídicas
e mesmo os reflexos destas lutas nas cabeças dos participan-
tes, como teorias políticas, jurídicas ou filosóficas, concepções
religiosas e seus posteriores desenvolvimentos em sistemas de
dogmas) também exercitam sua influência no curso das lutas
históricas e, em muitos casos, preponderam na determinação de
sua forma. Há uma interação entre todos estes vetores entre os
quais há um sem número de acidentes (isto é, coisas e eventos
de conexão tão remota, ou mesmo impossível, de provar que
podemos tomá-los como não-existentes ou negligenciá-los em
nossa análise), mas que o movimento econômico se assenta fi-
nalmente como necessário. Do contrário, a aplicação da teoria
a qualquer período da história que seja selecionado seria mais
fácil do que uma simples equação de primeiro grau (ENGELS,
carta a Bloch, 1890).

Parece que Marx e Engels não professam uma monocausali-


dade por admitirem uma heterogeneidade de múltiplas causas nos
acontecimentos da história humana. Assim sendo, “o marxismo só
de maneira muito implausível poderá ser entendido como uma te-
oria determinista no sentido da inevitabilidade” (BHASKAR, 2001,
p. 100).
No que se refere à previsibilidade, Marx coloca as previsões
como condicionais e as enquadra na clássica restrição dos econo-
mistas de que os demais fatores permaneçam iguais (coeteris paribus),
para que os resultados previstos possam ocorrer. A complexidade
e a pluralidade de fatores atuantes na sociedade humana impedem
uma análise reducionista, logo, determinista.
No que se refere à fatalidade, Marx não se enquadra nesta
categoria, pois, para ele “os acontecimentos do futuro ocorrerão
por causa dos, ou pelo menos em virtude dos, e não a despeito dos,
atos dos homens e mulheres” (BHASKAR, 2001, p. 100). Engels
esclarece:
208 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Nós mesmos é que fazemos a história, mas o fazemos sob


condições e suposições definidas. Entre estas, os determinantes
econômicos são, ultimamente, decisivos. Mas mesmo as
condições políticas, etc., e mesmo tradições que assombram as
mentes humanas também desempenham o seu papel, embora
não sejam decisivos. [...] A história é feita de maneira que o
resultado final sempre surge da conflitante relação entre
muitas vontades individuais, cada qual destas vontades feita
em condições particulares de vida. Portanto, é a intersecção
de numerosas forças, uma série infinita de paralelogramos de
forças, que resulta em um dado evento histórico. (ENGELS,
carta a Bloch, 1890).

b) Na ideologia – na literatura sociológica, Weber é apresentado


como defensor do determinismo ideológico ao apontar a
liderança na religião como instituição prevalente e, de modo
particular, as ideias ético-religiosas como fatores da mudança.
Weber se ocupou com a questão típica da racionalidade do
capitalismo e seus reflexos nas condutas sociais. Em A Ética
protestante e o espírito do capitalismo, Weber sugere que a
ética racionalizada das doutrinas protestantes exerceu forte
alavancagem no desenvolvimento do capitalismo industrial.
A vida metódica, racionalizada, puritana e frugal teria
impulsionado o empreendedorismo das inovações tecnológicas
e do acúmulo de bens materiais, da geração de riqueza, como
expressão da escolha divina da salvação (a pobreza, a preguiça,
etc. seriam a expressão da condenação eterna). Seria a ação
intramundana da divindade professada, construindo uma nova
ordem social.

A ideologia como um sistema de pensamento social que carac-


teriza um grupo social ou uma classe social, gerando um modo de
pensar e de agir coletivo, pode determinar condutas individuais pre-
visíveis e regulares. Como força social, a ideologia configura ações
sociais e práticas de grupos e classes sociais, em determinada dire-
ção histórica de uma sociedade humana. Por isso, Marx e Engels
procuram mostrar a existência de um elo entre a “falsa consciência”,
que é a falsa representação da existência material dos seres huma-
Almiro Petry 209

nos, ou seja, de sua própria situação e a da sociedade em conjunto.


“É essa relação que o conceito de ideologia expressa, referindo-se a
uma distorção do pensamento que nasce das contradições sociais”
(LARRAIN, 2001, p. 184). No desdobramento do pensamento de
Marx e Engels, o conceito de ideologia recebe novos significados,
expressando duas tendências.

Os novos significados tomaram principalmente duas formas, ou


seja, uma concepção da ideologia como a totalidade das formas
de consciência social – que passou a ser expressa pelo conceito
de “superestrutura ideológica” – e a concepção da ideologia
como as ideias políticas reelaboradas com os interesses de
uma classe. Embora esses novos significados não fossem
resultado de uma reelaboração sistemática do conceito dentro
do marxismo, acabaram por substituir a conotação negativa
original (LARRAIN, 2001, p. 185).

Segundo Harvey, “mesmo que as concepções mentais não pos-


sam mudar o mundo, as ideias são, como observou o próprio Marx,
uma força material na história” (HARVEY, 2013, p. 326). Marx, no
Prefácio da obra Contribuição à Crítica da Economia Política, expõe
que o complexo da superestrutura – conjunto das relações jurídicas,
políticas, religiosas, artísticas e filosóficas – elevado sobre a estru-
tura econômica da sociedade, configura “as formas ideológicas” às
quais “correspondem formas sociais determinadas de consciência”.
No entanto, estas formas de consciência são formadas a partir das
ideias dominantes, pois “as ideias da classe dominante são, em todas
as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder ma-
terial dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espi-
ritual dominante” (MARX e ENGELS, 1984, p. 56). Marx explica
as maneiras de pensar, isto é, os sistemas intelectuais (que configura
uma ideologia) pelo contexto social. Aron assim se expressa:

A interpretação das ideias pela realidade social comporta


diversos métodos. É possível explicar as maneiras de pensar
pelo modo de produção ou pelo estilo tecnológico da sociedade.
Contudo, a explicação que até hoje teve maior êxito é a que
atribui determinadas ideias a uma certa classe social (ARON,
2000, p. 176).
210 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Para Bendix, no pensamento ocidental há uma tendência de


opor a concepção de ideologia ao pensamento marxista e em relação
aos seus pontos de vista. No entanto, o pressuposto básico de
ideologia é que as ideias não podem e...

[...] nem devem ser tomadas pelo seu significado manifesto,


mas analisadas em termos das “forças” que estão por trás delas.
Entre elas estão as lutas de classe de Marx, a vontade de poder
de Nietzsche, a constituição libidinal da natureza humana de
Freud ou uma preferência geral por explicações genéticas. Não
o que uma pessoa diz, mas o motivo por que ela o diz é que se
tornou o principal centro de atenção, de forma que um “fim da
ideologia” não se encontra à vista (BENDIX, 1996, p. 372).

Com estas ponderações, sugere-se que há alguma evidência nas


determinações ideológicas na prática social.

c) Na tecnologia – Thorstein Veblen (1857-1929) atribui à


tecnologia o fator determinante de hábitos, modo de agir, pensar
e produzir dos indivíduos. Desenvolve a teoria da classe ociosa43,
determinada pelo avanço das tecnologias de produção. Nesta
ótica, o progresso tecnológico contém as forças dinâmicas
para efetuar a mudança social e a estrutura social se adapta
às circunstâncias criadas pela tecnologia. Veblen enfatiza,
na análise da sociedade industrial, a importância do conflito
entre negócio (propriedade que busca um benefício) e indústria
(produção máxima de bens e serviços). O conflito surge porque,
através dos séculos, as “artes industriais” se desenvolveram
na comunidade e poucos indivíduos herdaram e controlam
os meios produtivos e visam a restringir a produção para
aumentar seus benefícios. O “espírito” da indústria é obter “o
máximo de produção com o mínimo de custos”, enquanto que o
do “negócio” é a arte de vender para ganhar o máximo possível.

43
Obra publicada em 1899 e traduzida: VEBLEN, Thorstein. A teoria da classe
ociosa – um estudo econômico das instituições. 3ª ed. São Paulo: Nova Cultural,
1988 (Série: Os Economistas).
Almiro Petry 211

Nesta perspectiva, o determinismo tecnológico sustenta,

[...] que o caráter da tecnologia dominante impõe (suscita) for-


mas específicas de organização social, vida política, padrões cul-
turais, conduta cotidiana e até de crenças e atitudes. Admitindo
que a tecnologia tem uma lógica imanente de desenvolvimento,
impelida pela sequência de descobertas e inovações, a ascen-
dência das modernas tecnologias irá provocar, cedo ou tarde, a
síndrome completa da modernidade, levando à similaridade, e
mesmo à uniformidade, entre as diversas sociedades e à elimina-
ção das diferenças locais (SZTOMPKA, 2005, p. 235).

Pelo processo da globalização, evidenciam-se áreas de conver-


gência tecnológica e tendências à uniformização como a estrutura
ocupacional e o mundo do trabalho, que se adaptam às necessida-
des da indústria; a estrutura demográfica com a redução das taxas
de natalidade e o aumento da expectativa de vida com a aplicação
das novas tecnologias de controle da saúde individual e coletiva; as
técnicas que a biotecnologia oferece no campo da reprodução hu-
mana; a mudança da estrutura familiar de extensa para nuclear e
as novas formas emergentes; a estrutura de mercado e de consumo
cada vez mais estandardizadas, etc. No entanto, cabe mencionar que
a convergência tecnológica está mais restrita ao cerne do sistema
industrial de produção e de serviços das tecnologias de informação,
havendo amplos espaços e áreas com a possibilidade de divergência.
A difusão e expansão sistêmica não se apresentam de forma homo-
gênea e universal. Verifica-se, muitas vezes, um descompasso entre
os avanços tecnológicos e a vida cotidiana, bem como, no campo
jurídico e institucional, ainda presos às vetustas normas do passado.
Contudo, há a expectativa de que o direito e o sistema jurídico ava-
lizem a transformação.

9. Considerações finais

Partimos do pressuposto de que o pensamento social se elabora


a partir da reflexão de uma sociedade sobre si mesma, suas estrutu-
212 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

ras, seu contexto e sua formação histórica. Na medida em que uma


sociedade está estruturada por determinadas formações sociais –
formações econômicas, políticas, culturais, etc. – e que são concomi-
tantemente estruturantes, o pensamento social expressa os projetos
de classes e grupos que lutam por sua hegemonia e sua dominação
no complexo societário. Não obstante, a perspicácia e a imagina-
ção sociológica dos formuladores do pensamento social devem estar
voltadas e atentas para as constantes mudanças que ocorrem nas
estruturas e nos contextos sociais.
Na perspectiva histórica, o pensamento social surge ao romper
a homogeneidade social justificada pela manutenção da ordem
social vigente, resultante da dominação que gera a submissão e a
conformidade. Ao se questionar o status quo, desencadeia-se uma
sequência de indagações e buscas de repostas. Tomando como
referência o cenário mundial, a revolução industrial – fundamento
tecnológico do modo de produção capitalista, antecedida pelas
revoluções científica e política, impulsionou a complexidade
do sistema mundial e de suas formações sociais, fomentando o
desenvolvimento do pensamento humano. Com a elaboração das
ciências sociais – economia, antropologia, ciência política, história,
sociologia – revelaram-se as divergências e conflitos internos,
expressos na luta de grupos por domínios hegemônicos ou de
classes.
A reflexão sociológica realiza-se sobre o contexto histórico-es-
trutural, que é a sua referência, como horizonte de conhecimento da
época presente e tendências portadoras de futuro. Este parece ser
o grande desafio atual da sociologia como ciência, de ser capaz em
captar a “mudança de época” e ultrapassar a concepção de “época de
mudanças”. Aparenta ser visível a emergência de novos paradigmas
– metodológica e epistemologicamente renovados – e o abandono
dos antigos.
Há algo novo a ser refletido e analisado. O novo está circuns-
crito ao final do século XX e o início do século XXI, época marcada
pela queda do socialismo real e, em consequência, um descrédito
pelas narrativas utópicas, formuladoras de esperanças, o que des-
norteia os movimentos sociais e populares latino-americanos; época
Almiro Petry 213

dos fins – fim do século, fim da modernidade, fim do mundo, fim


da história, etc.; perspectivas que geram múltiplas perplexidades e
incertezas. A isso se associam a transnacionalização do capital, a
reestruturação produtiva, o desemprego tecnológico-estrutural, a
globalização das tecnologias de informação e comunicação, o enfra-
quecimento do Estado nacional, a periferização de muitos países no
sistema-mundo, enfim, o “novo” é a expressão da crise civilizatória
na constante busca de respostas ao desenvolvimento social e huma-
no – que deve ser da pessoa humana, pela pessoa humana e para a
pessoa humana –, um objeto benquisto por esta ciência.
Estamos atualmente no mundo pós-industrial, que exige pes-
soas especiais, dotadas de capacidades adaptativas, que não são ad-
quiridas naturalmente, mas na convivência com as novas tecnolo-
gias e que projetam um novo mundo para o futuro, do qual não
temos a mínima noção de como será. Entretanto, sabemos que esse
novo mundo estará repleto de desafios, inimagináveis hoje, devendo,
portanto, as novas gerações ser educadas para a inovação, o empre-
endedorismo e a capacidade adaptativa, na perspectiva de manejar
a emergente realidade. Não se trata de adaptar os seres humanos a
um nível de desenvolvimento já existente, mas para estágios supe-
riores e mais avançados da mente e do espírito humanos. A tarefa
da educação não é formar pessoas “ajustadas” ao mundo atual, mas
capacitá-las para operarem como agentes de desenvolvimento social
num estágio mais avançado da sociedade.
Neste panorama está descortinado um cenário para o debate
na busca de uma explicação e compreensão das circunstâncias
históricas que reproduzem, por um lado, a pobreza, a exclusão
social e a desigualdade; por outro lado, a acumulação capitalista e a
constituição de classes sociais, horizonte histórico a ser iluminado
pela ciência, reflexão e compreensão sociológicas.
No dizer de Corcuff (2001), a sociologia precisa superar a aná-
lise baseada nas clássicas antinomias – material/ideal, objetivo/
subjetivo, coletivo/individual, macro/micro, etc. – “apesar de serem
constitutivos da sociologia, têm hoje um papel geralmente pouco
produtivo”. Na medida em que a realidade social é construída (con-
trário do que afirmam a doutrina do social “natural” ou da reali-
214 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

dade “dada”...), os clássicos precisam ser revisitados e relidos para


imergir nas novas realidades e emergir com novos paradigmas me-
todológicos e epistemológicos de interpretação e compreensão da
dinâmica social em contínua mudança44. Os eventos de rua, ocorri-
dos nos últimos tempos no Brasil e no mundo, abalaram o conforto
dos acadêmicos que se lançaram em interpretações contraditórias e
desconexas.
O itinerário sugerido por Corcuff é o do construtivismo social,
trilhando a critica social da linguagem, a desconstrução das diferen-
tes teorias sociais dominantes, a elaboração de uma epistemologia
da “verdade científica” e da realidade que se desenha (questionar a
epistemologia binária – verdadeiro/falso – e adotar uma epistemolo-
gia dos domínios de validade), para evidenciar a reflexividade sociológi-
ca, tão cara a Bourdieu.

No quadro destas perspectivas, pode-se identificar verdades


científicas de validade maior ou menor e construídas de maneira
mais ou menos rigorosa (não estamos diante de uma indistinção
relativista radical do tipo “vale tudo”). Mas se as verdades
sociológicas são plurais, é também para dar conta dos aspectos
plurais da realidade social, que também podem ser distinguidos
em função de sua solidez (CORCUFF, 2001, p. 188).

Nesta perspectiva, Bourdieu sugere que a construção do objeto


da ciência social deverá passar por uma ruptura “das representa-
ções que os agentes sociais fazem de seu estado” e buscar no “invi-
sível” conhecer e compreender “as verdadeiras causas do mal-estar
que só aparece com clareza através de sinais sociais difíceis de inter-
pretar, porque são aparentemente evidentes demais” (BOURDIEU,
1999, p. 735). O invisível está oculto nos determinantes econômicos
e socioculturais que geram a violência e a insegurança; que ferem

44
Pode-se registrar as evidentes dificuldades que os sociólogos e cientistas sociais
enfrentaram para compreender e interpretar as múltiplas manifestações de rua
ocorridas no Brasil, a partir de junho de 2013. Como não eram enquadráveis
nos tradicionais paradigmas, abriu-se uma lacuna na compreensão da sociedade
brasileira contemporânea. Um misto de insatisfação, de frustração e de protesto
convergiu no estopim que foram os aumentos do transporte coletivo, considerados
abusivos, em várias cidades do país. A isto se soma a má qualidade da saúde
pública, do ensino, da justiça e tantos outros serviços e obras malfeitas.
Almiro Petry 215

a liberdade das legítimas aspirações das pessoas à autonomia, ao


mercado de trabalho, à moradia, ao mercado escolar; que vitimizam
pela discriminação racial, religiosa, cultural e sexual, etc. Por isso,

[...] levar à consciência os mecanismos que tornam a vida dolo-


rosa, inviável até, não é neutralizá-las; explicar as contradições
não é resolvê-las. Mas por mais cético que se possa ser sobre
a eficácia social da mensagem sociológica, não se pode anular
o efeito que ela pode exercer ao permitir aos que sofrem que
descubram a possibilidade de atribuir seu sofrimento a causas
sociais e assim se sentirem desculpados; e fazendo conhecer am-
plamente a origem social, coletivamente oculta, da infelicidade
sob todas as suas formas, inclusive as mais íntimas e as mais
secretas (BOURDIEU, 1999, p. 735).

O futuro da sociologia e, pela lógica, das novas gerações de


sociólogos depende da coragem, iniciativa e empreendedorismo no
campo científico de desenhar este novo cenário e tracejar o novo
horizonte no desvelamento do invisível desta nova paisagem. É
preciso parar para avaliar, pensar, discernir e decidir para construir
um novo paradigma.

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II
PARTE

A Epistemologia dos Clássicos


Almiro Petry 227

1. Introdução45

A sociologia como ciência, “uma retardatária”, escreve Botto-


more, “entre as ciências sociais acadêmicas” (BOTTOMORE, 1996,
p. 732); segundo Merton “uma disciplina imperfeitamente consoli-
dada” (MERTON, 1968, p. 50); e, segundo Alexander “também a
sociologia é um campo discursivo46” (ALEXANDER, 1999, p. 38),
teve um percurso sui generis, desde seu nascedouro até a atualidade,
passando por diversas interpretações e superando obstáculos de or-
dem metodológica e epistemológica e criando outros. Muitas vezes,
fundiu “a teoria corrente com a sua própria história” (MERTON,
1968, p. 17). Não obstante, permanecem indagações sobre seu ob-
jeto, seu método e sua compreensão da realidade social. Para Fer-
nandes (1970)47, a maneira mais simples de enunciar seu objeto é
descrevê-lo como os “fenômenos sociais”, sendo, então, a sociologia
a ciência que estuda estes fenômenos. No entanto, os sociólogos não
olham indiscriminadamente “os fenômenos sociais”, mas somente,
e...

[...] na medida em que estes traduzem ou exprimem certo


estado de sociabilidade e de coordenação supra-individual de
reações ou de comportamentos de organismos coexistentes nas
mesmas unidades de vida. Por isso, seu ponto de referência,
na descrição dos fenômenos sociais, não é o organismo, sua
estrutura e mecanismos, mas, a própria teia de interações e de
relações sociais (FERNANDES, 1970, p. 20).

45
Agradeço ao Professor Virgílio Pedro Leichtweis pela criteriosa revisão da
redação final. Este texto é uma reescrita do artigo: Paradigmas epistemológicos
– os clássicos, publicado em: OPINIO – Revista de Ciências Empresariais,
Políticas e Sociais; Nº 29 - Jul./Dez. 2012, p. 80-110, de minha autoria. Há trechos
de reprodução idêntica e a estrutura foi mantida.
46
“Os discursos das ciências sociais procuram a verdade, ficando constantemente
sujeitos a estipulações racionais sobre como a verdade pode ser alcançada e o que
vem a ser essa verdade” (ALEXANDER, 1999, p. 39).
47
Florestan Fernandes (1920-1995), sociólogo e político brasileiro. De origem
pobre, estuda com dificuldade e destaca-se pela disciplina e esforço. Torna-se
professor da USP na década de 40, sendo afastado, em 1969, pelo regime militar
(reintegrado em 1986). A partir daí passa a lecionar em universidades do Canadá
e dos EUA.
228 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Quanto ao método, o sociólogo, diferentemente do biólogo


e do psicólogo, lida com a ordem social, na qual ele busca, pela
observação, um sistema de referências para a caracterização “dos
fenômenos sociais”. O biólogo olha os seres humanos na ótica da
anatomia e da fisiologia, como “organismos biológicos”, na inserção
organizativa da vida no meio ambiente. O psicólogo, por sua vez, se
ocupa, predominantemente, com a mente do ser humano e com seus
reflexos comportamentais.
Os fundadores da sociologia como disciplina acadêmica,
embora haja diferenças nas diversas abordagens, tinham em comum
uma nova concepção de sociedade, como “objeto” a ser investigado.
Consequentemente, “a sociologia contribui para alargar os
conhecimentos da ciência, estendendo-os aos recantos da vida mais
resistentes à capacidade de observação e de explicação do homem”
(idem, p. 26).
Quanto à explicação, segundo Bottomore (1996), em seus
primórdios, sob a égide do iluminismo, a sociologia tinha uma
orientação geralmente evolucionista e positivista, donde emergiram
pontos de vista darwinianos, bem como teorias do progresso e
projetos de reforma ou revolução social. No entanto, sua concepção
moderna como ciência se estabelece com Durkheim e Weber. Aos
dois acrescenta-se Marx, porque sua “obra deu origem a uma
característica sociologia marxista” (BOTTOMORE, 1996, p. 733).
Assim, há um consenso de que os três podem ser considerados os
fundadores desta disciplina científico-acadêmica.
Embora suas abordagens da sociedade humana fossem
diferentes, “dispuseram-se a definir e demonstrar os princípios
e métodos dessa nova ‘ciência da sociedade’” (idem, p. 733),
concentrando seu foco na ordem social, nas estruturas econômicas
e nos problemas sociais (a chamada questão social) decorrentes do
desenvolvimento do moderno capitalismo ocidental.
Nosso propósito, neste texto, é abordar os paradigmas
epistemológicos dos clássicos fundadores da sociologia. Para tanto,
sugere-se analisar os conceitos de paradigma, epistemologia e
clássico48.

48
Para os três conceitos, segue-se o texto de: PETRY, 2012, p. 80-81.
Almiro Petry 229

O primeiro é paradigma. Envolve complexa conceituação


que abrange desde um modelo, um padrão, um “exemplar” ou um
protótipo ao pensamento social focado na centralidade da vida
coletiva e individual. Para Touraine (2006), os valores e normas
sociais configuram o olhar e a compreensão que se desenvolvem
na constituição de um paradigma político, econômico e social. No
campo das ciências, configura uma “matriz disciplinar” constituído
de valores, crenças e técnicas compartilhados pelos membros de
uma comunidade científica, colocando-se, às vezes, em confronto
com outras comunidades. Para o sociólogo, o paradigma tem como
objetivo auxiliar na análise sociológica e orientar para o bom
desempenho no ofício, tanto no campo teórico como no prático.
Merton sugere as seguintes funções:
(a) os paradigmas proporcionam “uma ordenação compacta dos
conceitos centrais e suas inter-relações, que são utilizados para
a descrição e a análise”;
(b) os paradigmas “diminuem a probabilidade de inadvertidamen-
te introduzir suposições e conceitos” não derivados dos mes-
mos, pois eles são um guia para evitá-los;
(c) os paradigmas “fazem progredir a acumulação da interpre-
tação teórica”, por ser o alicerce sobre os quais “se constrói o
edifício das interpretações”;
(d) os paradigmas “estimulam a análise, ao invés de favorecer a
descrição de detalhes concretos”, pois portam os conceitos mais
significativos, estimulando a análise da relação entre empiria e
teoria; e,
(e) os paradigmas “favorecem a codificação de métodos de análise
qualitativa, de uma maneira que se aproxima do rigor lógico,
senão empírico, da análise quantitativa” (MERTON, 1968, p.
81-82).
A partir da publicação de A estrutura das revoluções científicas de
Thomas Kuhn, o conceito de paradigma é uma referência no campo
das ciências. Na primeira edição do livro, Kuhn teria conferido,
segundo Bhaskar, 21 sentidos diferentes ao termo. No Posfácio de
1969, Kuhn reconhece as inconsistências, em especial a referência
à comunidade científica, que aparece nas primeiras páginas do livro,
230 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

nos seguintes termos: “Um paradigma é aquilo que os membros


de uma comunidade partilham e, inversamente, uma comunidade
cientifica consiste em homens que partilham um paradigma”
(KUHN, 1998, p. 219). Em seguida ele afirma: “de acordo com essa
concepção, uma comunidade cientifica é formada pelos praticantes
de uma especialidade cientifica. Estes foram submetidos a uma
iniciação profissional e a uma educação similares, numa extensão
sem paralelos na maioria das outras disciplinas” (idem, p. 220). Na
comunidade, há compromissos grupais em torno dos objetos em
estudo, denominados por Kuhn de paradigma, partes de paradigma
ou paradigmáticos, que “constituem essa matriz disciplinar e, como
tais, formam um todo, funcionando em conjunto” (idem, p. 227).
No entanto, é uma temática em constante questionamento. Para
Merton, o conceito de paradigma em Kuhn “se refere ao conjunto
básico de pressupostos adotados por uma disciplina numa fase
histórica particular” (MERTON, 1968, p. 80, n. 52).
Nesta perspectiva, há tempos, se anuncia a crise na sociologia.
Conforme Ianni, “a crise da sociologia pode ser real ou imaginária,
mas não há dúvida de que tem sido proclamada por muitos. Em
diversas escolas de pensamento, em diferentes países, uns e outros
colocam-se o problema da crise de teorias, modelos ou paradigmas”
(IANNI, 1991, p. 195). O autor acredita que as crises da sociologia,
independentemente das crises sociais históricas, estão ligadas
ao problema da explicação sociológica que envolve a concepção
epistemológica vivida por cada geração de sociólogos.
O segundo é epistemologia. No campo da Filosofia, a
Epistemologia é considerada a “filosofia da ciência” que investiga
a abrangência dos objetos e métodos das ciências em geral,
identificando as diferentes correntes de pensamento que a elas
subjazem. A Epistemologia nasce da Teoria do Conhecimento. Nas
ciências sociais, a Epistemologia se preocupa com os problemas
ontológicos, metodológicos e conceituais em torno dos objetos
investigados. Por conseguinte, um “paradigma epistemológico”
envolve estas questões a partir de um olhar, de um ponto de vista
da sociedade humana, que se apresenta na compreensão, intelecção
e interpretação da mesma. Enfim, a Epistemologia constitui o
Almiro Petry 231

fundamento teórico do campo científico em questão. Configura-


se na filosofia do conjunto teórico formulado na compreensão do
objeto empírico na abrangência do mesmo campo.
Para Bourdieu,

[...] é na sociologia do conhecimento sociológico que o sociólo-


go pode encontrar o instrumento que permite dar sua força ple-
na e sua forma específica à crítica epistemológica, tratando-se
mais de colocar em evidência os pressupostos inconscientes e as
petições de princípio de uma tradição teórica, do que colocar em
questão os princípios de uma teoria constituída” (BOURDIEU
et al., 2005, p. 87).

Por fim, clássico, que é

[...] o resultado do primitivo esforço da exploração humana que


goza de status privilegiado em face da exploração contemporâ-
nea no mesmo campo. O conceito de status privilegiado signifi-
ca que os modernos cultores da disciplina em questão acreditam
poder aprender tanto com o estudo dessa obra antiga quanto
com o estudo da obra de seus contemporâneos. Além disso, tal
privilégio implica que, no trabalho diário do cientista médio,
essa deferência se faz sem prévia demonstração: é tacitamente
aceita porque, como clássica, a obra estabelece critérios básicos
em seu campo de especialidade (ALEXANDER, 1999, p. 24).

A sociologia em sua aurora focaliza, como objeto de investiga-


ção, a chamada questão social, buscando suas causas e consequências
no cenário da sociedade moderna. Historicamente, os eventos da
revolução industrial e da francesa, cujo berço é a Europa, integram
este processo da mudança do sistema econômico e do sistema po-
lítico; da mudança do estilo de vida, dos costumes, da organização
social que se tornam cada vez mais universais. Giddens enaltece a
sociologia “como a disciplina mais integralmente envolvida com o
estudo da vida social moderna” (GIDDENS, 1991, p.13) e destaca
três concepções: a primeira se refere ao diagnóstico institucional da
modernidade; a segunda enfatiza a sociedade como foco principal
da análise; e a terceira ressalta as conexões entre o conhecimento
232 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

sociológico e a modernidade49.
Em primeiro lugar, o diagnóstico institucional da modernida-
de. Marx e Durkheim avaliam a era moderna como uma era turbu-
lenta, acreditando, porém, em sua superação. Marx via na luta de
classes – fonte de dissidências fundamentais na ordem capitalista
– a emergência de um sistema social mais humano, justo e igualitá-
rio. Durkheim acreditava que a expansão do industrialismo geraria
uma vida social harmoniosa e gratificante, no entanto, sua crença
acabou com a 1ª Guerra Mundial50. Weber, em contrapartida mais
pessimista, percebia o mundo moderno como paradoxal onde, por
um lado, o progresso material era obtido pela expansão racional da
burocracia, esmagando, por outro lado, a criatividade e a autonomia
dos indivíduos.
Para Marx, o que modela o mundo moderno é o capitalismo
industrial, regido pelo ciclo investimento-lucro-investimento-
acumulação, configurando a ordem social e as instituições, com
ênfase na competição e na concorrência.
Segundo Durkheim, o mundo moderno é arquitetado pelo in-
dustrialismo, que gera as rápidas transformações através da com-
plexa divisão do trabalho e sua crescente especialização, na explora-
ção industrial dos recursos naturais, utilizados para a produção de
bens para as ilimitadas necessidades humanas. A ordem, portanto, é
industrial, e não capitalista.
Conforme Weber, o que configura o mundo moderno é a
racionalização econômica, expressa na tecnologia e na organização
das atividades humanas, na forma da burocracia. A ordem, por
conseguinte, é o capitalismo racional. À racionalização se associa
a secularização e o desencantamento do mundo, configurando uma
nova Weltanschauung (visão de mundo).
Giddens, ao abordar a temática, considera que a modernidade
“é multidimensional no âmbito das instituições, e cada um dos

49
Para os três diagnósticos, segue-se o texto de: PETRY, 2012, p.81-83.
50
Em 1915, perdeu seu filho nos campos de batalha; a metade de seus colegas
docentes da École Normale sucumbiu na guerra. Estes fatos abalaram sua saúde
e vida que culminou com um fatal ataque cardíaco, aos 59 anos de idade.
Almiro Petry 233

elementos especificados por estas várias tradições representam


algum papel” (GIDDENS, 1991, p.21).
Em segundo lugar, o conceito de sociedade. Giddens chama a
atenção sobre a ambiguidade da noção, que pode referir-se “à asso-
ciação social de um modo genérico quanto a um sistema específico
de relações sociais” (idem, p. 21). Para o autor, na sociologia, o uso
do termo sociedade remete às relações sociais, como síntese, porém,
do contexto histórico em que surgiu, ou seja, da sociedade moderna.
Indubitavelmente, uma considerável diversidade de usos perpassa a
literatura, mesmo que prevaleça a concepção de que sociedade remete
à uma pluralidade de seres humanos, com sua cultura, instituições,
ideias, valores, etc., tendo por denominador comum o fato da asso-
ciação humana. Além deste entendimento, muitas vezes, se elabora o
conceito de opor o indivíduo à sociedade, como ente coletivo.
Em terceiro lugar, a compreensão da sociologia como geradora
de conhecimento sobre a vida social moderna, que está sendo
utilizada “no interesse da previsão e do controle” (GIDDENS, 1991,
p.23). Duas versões são proeminentes: uma, em que “a sociologia
proporciona informação sobre a vida social, que pode nos dar uma
espécie de controle sobre as instituições sociais semelhantes àquela
proporcionada pelas ciências físicas no domínio da natureza” (idem,
p. 23), isto é, o conhecimento sociológico mantém uma relação
instrumental com o mundo social, sendo um recurso tecnológico,
para intervir na vida social; outra, em que “as descobertas da ciência
social não podem apenas ser aplicadas a um objeto inerte, mas
devem ser filtradas através do autoatendimento aos agentes sociais”
(idem, p.23 a 24), ou seja, a chave é a ideia de usar a história para
fazer história.
Nesses questionamentos, Giddens levanta um dos problemas
cruciais, que é a relação entre a sociologia e seu objeto, associado ao
fato de o investigador ser parte integrante, portanto, um agente do
meio que é seu objeto.
O conhecimento gerado pela sociologia, na forma de teoria
social e seus conceitos e, de modo geral, as ciências sociais, está
constitutivamente envolvido com a modernidade. Com o seu fim
(ou com transição para a pós-modernidade), ocorre a ruptura
234 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

com essas concepções e emergem novas, cunhadas no processo da


globalização51. Esta emergência configura uma crise do paradigma
original e o debate volta a focar os fundamentos do objeto e sua
metodologia de investigação.
Em vista disso, revistar os clássicos é uma conduta científica
relevante e suas diferenças podem ser discernidas nos paradigmas
epistemológicos, bosquejados a seguir.

2 Epistemologia de Marx, Durkheim e Weber

Os três pensadores são considerados os fundadores da sociolo-


gia como ciência empírica, portanto, são clássicos. Cada qual deu sua
contribuição à epistemologia e à metodologia que se consolidaram
através dos tempos, em escolas, correntes ou movimentos, dando-
lhes este status privilegiado. Embora tenham ocorridos desvios, re-
visões, reformulações, etc., entre o século de suas concepções e o sé-
culo XXI, elas são atribuíveis às circunstâncias históricas, aos novos
tempos, às novas compreensões dos contextos históricos na busca
incessante das explicações causais e de seus efeitos, bem como, à
dinâmica evolutiva da própria ciência. Ademais, as novas gerações
de sociólogos fizeram suas releituras e reinterpretações, oportuni-
zando caminhos alternativos.
Se naquela época, a principal preocupação girava em torno
da definição do objeto, da formulação metodológica e de suas
explicações, com cada disciplina em seu campo; hodiernamente,
prevalece a preocupação dialogal entre as diferentes ciências,
tanto das da natureza física, quanto das humanas. Busca-se a
ruptura dos grilhões isolacionistas num movimento que passa pela
interdisciplinaridade para atingir a transdisciplinaridade, visando à
unidade do conhecimento científico entre os diferentes campos das

51
Termo que pretende sintetizar o fenômeno da pós-modernidade – nova ordem
social, em substituição à vigente na modernidade; da sociedade pós-industrial –
nova ordem que sucede à ordem estabelecida pelo capitalismo, o industrialismo, e
o poder militar como dimensões institucionais da modernidade.
Almiro Petry 235

ciências na busca da compreensão da complexidade da sociedade


humana.
Para o sociólogo contemporâneo, conhecer os clássicos envolve
o que Merton, há seis décadas, denominou de “alfabetização
sociológica”, pois o contato com os clássicos desempenha um
papel importante na leitura da sociedade e no desenvolvimento da
sociologia. Na medida em que há agregação de conhecimentos, a
tessitura da ciência permite conectar novos campos a partir de pontos
sugeridos pelos fundadores, que ainda não foram desdobrados,
ou para superar os abordados. Sobre este ponto de vista, Weber
é extremamente sensato ao afirmar, em seu texto A ciência como
vocação (1919), de que:

Na ciência, sabemos que as nossas realizações se tornarão


antiquadas em dez, vinte, cinquenta anos. É esse o destino a
que está condicionada a ciência: é o sentido mesmo do trabalho
científico, a que ela está dedicada numa acepção bem específica,
em comparação com outras esferas de cultura para as quais,
em geral, o mesmo se aplica. Toda a “realização” científica
suscita novas “perguntas”: pede para ser “ultrapassada” e
superada. Quem desejar servir à ciência tem de resignar-se a
tal fato. As obras científicas podem durar, sem dúvida, como
“satisfações”, devido à sua qualidade artística, ou podem
continuar importantes como meio de preparo. Não obstante,
serão ultrapassadas cientificamente – repetimos – pois é esse o
seu destino comum e, mais ainda, nosso objetivo comum. Não
podemos trabalhar sem a esperança de que outros avançarão
mais do que nós (WEBER, 1971, p. 164).

Weber entende que este processo se faz ad infinitum. No entan-


to, parece certa ironia que, transcorrido quase um século da morte
de Weber, seu pensamento sociológico ainda não esteja “ultrapas-
sado”. Quatro décadas após a ponderação de Weber, Merton reco-
nhece que os sociólogos se orientam pela contribuição dos clássicos,
entretanto, alguns “não aderem facilmente ao engajamento descrito
por Weber”; outros se adaptam, “desempenhando a fundo o papel
científico sugerido por Weber” (MERTON, 1968, p. 42).
236 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

No que se refere à acumulação de conhecimentos, as ciências


sociais se mantêm entre as ciências físicas e as humanidades,
o que é confirmado de modo impressionante pelos chamados
“estudos de citações”, que comparam a distribuição das datas
das publicações citadas nos diferentes campos (MERTON,
1968, p. 42).

Merton salienta que não há mistério no que concerne à


afinidade dos sociólogos com os seus antecessores. Entretanto, o
voltar-se aos clássicos tem originado tendências degenerativas, que
misturam sistemática com história.

A primeira tendência consiste em reverenciar indiscriminada-


mente qualquer afirmação feita pelos famosos ancestrais. Isso
tem sido observado com frequência nas exegeses dos comenta-
ristas, muito carinhosas, porém estéreis do ponto de vista da ci-
ência. [...] A segunda forma degenerativa é a banalização. Para
que uma verdade se transforme em lugar-comum, gasto e cada
vez mais duvidoso, basta que seja expressa com muita frequên-
cia, de preferência em imitação inconsciente, por gente que não
a entende. [...] Em resumo, o estudo das obras clássicas tanto
pode ser lamentavelmente inútil quanto maravilhosamente pro-
veitoso (MERTON, 1968, p. 43).

No entendimento da leitura dos clássicos e de suas citações,


Merton avalia que (a) é “um diálogo entre os mortos e os vivos”,
sendo similar ao diálogo entre cientistas contemporâneos e seus
referenciais; (b) os clássicos proporcionam “um modelo para o tra-
balho intelectual”, ajudando “a formar padrões de critério e julga-
mento para identificar um bom problema sociológico” e a “aprender
o que constitui uma solução teórica adequada ao problema”; (c) se
há um motivo para ler um clássico, ele “é digno de ser relido de
quando em quando”, porque “parte do que é transmitido pela página
impressa muda em consequência de uma interação entre o autor e o
leitor vivo” (MERTON, 1968, p. 49).
Sobre a importante avaliação da leitura e releitura dos
clássicos, apontada por Merton, Alexander acrescenta a ela que
está implícito na concepção mertoniana de que se trata “da noção de
Almiro Petry 237

que o significado de textos antigos e notáveis está aberto a todos”


(ALEXANDER, 1999, p. 30).
Prossegue-se com as ponderações a respeito dos paradigmas
constituídos por Marx, Durkheim e Weber.

2.1 Karl Marx (1818-1883)

Para abordar a epistemologia, é preciso reconhecer que o


pensamento de Marx envolve uma filosofia, uma ciência, isto é, uma
teoria do conhecimento, para comprovar o que o ‘marxismo’ é (ou,
o que pretende ser), explicando lógica e metodologicamente seu
objeto e a sua abrangência. Não pairam dúvidas de que o ‘marxismo’
envolve uma epistemologia e que seu principal objeto é a história.
No dizer de Bhaskar, estes elementos estão presentes em Marx, pois,
“de um lado, ele se diz empenhado na construção de uma ciência, o
que pressupõe uma posição epistemológica determinada; do outro,
considera toda ciência, inclusive a sua, como produto e como um
suposto agente causal da história” (BHASKAR, 2001, p. 58).
À vista disso, se aceita que a matriz epistemológica52 marxista
está contida no materialismo histórico, configurando o paradigma
dialético-materialista, amplamente descrito na obra A ideologia
alemã, escrita entre setembro de 1845 e maio de 1846, em dois
volumes. Nela, Marx e Engels abordam a concepção materialista da
história como base filosófica da teoria do socialismo científico e do
comunismo, trilhando o caminho da dialética materialista. Esta obra
está inserida na evolução histórico-social da época, condicionada
pela sociedade capitalista do século XIX, pelo movimento operário
de então que se manifesta na crescente consciência do proletariado
como classe frente à classe burguesa dominante. O conhecimento

52
Entende-se por matriz epistemológica o que gera; o que produz; o que alicerça;
o que dá origem aos fundamentos do campo científico a partir da empiria para a
formulação da teoria, no caso, a teoria social. É o caminho, o guia para se atingir
a compreensão e a interpretação do quadro histórico-social. Daí a necessidade
da vigilância metodológica e da vigilância epistemológica, como ensinava Pierre
Bourdieu (1930-2002).
238 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

do quadro histórico-social é indispensável para a compreensão do


pensamento de Marx e de Engels, pois dele emerge a concepção
do proletariado como classe revolucionária. Por meio do método da
dialética materialista não se pretende abarcar toda a realidade,

[...] mas apreender essa realidade mediante a categoria


metodológica da totalidade, pela qual infraestrutura e
superestrutura, pensamento e quadros sociais, teoria e prática,
“consciência” e “ser” não estão separados em compartimentos
estanques, petrificados em oposições abstratas, mas (ao mesmo
tempo reconhecendo plenamente sua autonomia relativa) estão
dialeticamente ligados uns aos outros e integrados no processo
histórico (LÖWY, 2002, p. 28).

No desenvolvimento do pensamento filosófico, Marx detém a


primazia de converter a teoria do conhecimento em teoria social,
pois a partir da realidade histórico-social, com seus condicionamen-
tos, limitações e práticas do cotidiano, muda a perspectiva do sujeito
e o objeto, estabelecendo uma relação dialética entre ambos. Segun-
do ele, a mente humana não reflete mais a realidade, mas sim, a
dominação existente na sociedade, conhecimento que é transmitido
de geração em geração. O cotidiano é determinado pela economia,
então, para Marx “as categorias econômicas aparecem como as ca-
tegorias de produção e reprodução da vida humana, tornando assim
possível uma descrição ontológica do ser social sobre bases materia-
listas” (LUKÁCS, 2003, p. 15).
Marx e Engels escreveram várias obras em conjunto, o que
impossibilita distinguir o pensamento de um do de outro. Em vista
disso, considera-se como o pensamento de Marx. O próprio Engels
afirma que no seu reencontro com Marx, em 184553,

[...] ele já havia construído completamente a sua teoria


materialista da história. Essa descoberta, que subverte a ciência
histórica e que é, como se vê, essencialmente obra de Marx e da
qual posso me atribuir apenas uma parte bastante frágil, era de
importância direta para o movimento operário (ENGELS, apud:
LÖWY, 2002, p. 174).

53
Quando escreveram A ideologia alemã.
Almiro Petry 239

Por conseguinte, Marx elabora sua autocrítica e se livra dos


antagonismos entre a visão do idealismo da filosofia alemã e da visão
materialista da história, e passa a compreender a sociedade humana,
desde os pressupostos da economia política, que em sua conclusão,
revelam “a anatomia da sociedade” que, grosso modo, é constituída
por uma base econômica (eine reale Basis = infraestrutura) sobre a
qual se eleva uma superestrutura (Überbau) jurídica e política. Em
síntese, Marx assim se expressa:

[...] Na produção social da própria existência, os homens


entram em relações determinadas, necessárias, independentes
de sua vontade; estas relações de produção correspondem
a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças
produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção
constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre
a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual
correspondem formas sociais determinadas de consciência.
O modo de produção da vida material condiciona o processo
de vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos
homens que determina a realidade; ao contrário, é a realidade
social que determina sua consciência. Em certa fase de seu
desenvolvimento, as forças produtivas da sociedade entram
em contradição com as relações de produção existentes ou, o
que não é mais que sua expressão jurídica, com as relações de
propriedade, no seio das quais elas se haviam desenvolvido até
então. De formas evolutivas das forças produtivas, que eram,
essas relações convertem-se em seus entraves. Abre-se, então,
uma era de revolução social (MARX, 1996, p. 82-3).

A estrutura econômica da sociedade condiciona a existência


e as formas do Estado; configura a divisão do trabalho, as forças
produtivas materiais, as relações de produção e a produção social da
própria existência. Aí se encontram os meios de produção, as forças
produtivas e a relação do ser humano com o meio ambiente (mundo
material) na luta pela sobrevivência. O ser humano se relaciona com
a natureza para garantir a sobrevivência através dos bens materiais
que lhe são oferecidos. Dessa relação resultam formas históricas
de produção, que caracterizam os períodos da história humana.
As relações de dominação tornam aquelas relações perturbadas e
destruidoras.
240 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

A superestrutura (Überbau) configura-se em dois níveis. O


primeiro, constituído pela estrutura jurídica e política, isto é, um
conjunto de normas, regras e leis que sistematizam as relações
existentes, tanto as sociais e políticas quanto as econômicas ditadas
pelo Estado; e o segundo, composto pela estrutura ideológica, isto
é, a filosofia, a arte, a religião, as ideias, os valores, os símbolos, que
justificam a vida real, concreta, do cotidiano, representando formas
sociais determinadas de consciência social.
Esta descoberta leva Marx e Engels a afirmarem:

As ideias da classe dominante são, em cada época, as ideias


dominantes; isto é, a classe que é a força material dominante da
sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante. A
classe que tem à sua disposição os meios de produção material
dispõe, ao mesmo tempo, dos meios de produção espiritual, o
que faz com que a ela sejam submetidas, ao mesmo tempo e em
média, as ideias daqueles aos quais faltam os meios de produção
espiritual (MARX e ENGELS, 1991, p.72).

A consciência social se consubstancia na visão de mundo que


tem por base os elementos materiais e sociais configurantes da clas-
se social: formas de propriedade, condições sociais de existência,
acessibilidade aos bens materiais e culturais, participação no poder
do Estado, etc.

[...] Isso significa que a superestrutura não é autônoma, que


não aparece por si mesma, mas tem um fundamento nas relações
de produção social. Em consequência disso, qualquer conjunto
particular de relações econômicas determina a existência de
formas específicas de Estado e de consciência social que são
adequadas ao seu funcionamento, e qualquer transformação na
base econômica de uma sociedade leva a uma transformação da
superestrutura (LARRAIN, 2001, p. 27).

No que se refere à filosofia da natureza, Marx rechaçou, de


modo cada vez mais decidido, a tradicional separação entre natureza
e sociedade, que se mantivera insuperada também em Feuerbach, e
considerou sempre os problemas da natureza predominantemente
Almiro Petry 241

do ponto de vista de sua interrelação com a sociedade. Isto ele


expressa na primeira tese Über Feuerbach54:

O defeito fundamental de todo o materialismo anterior –


inclusive o de Feuerbach – está em que só concebe o objeto,
a realidade, o ato sensorial, sob a forma do objeto [Objekt] ou
da percepção, mas não como atividade sensorial humana, como
prática, não de modo subjetivo. Daí decorre que o lado ativo fosse
desenvolvido pelo idealismo, por oposição ao materialismo, mas
só de um modo abstrato, já que o idealismo, naturalmente, não
conhece a atividade real, sensorial, como tal. Feuerbach quer
objetos sensíveis, realmente distintos dos objetos conceituais;
mas também não concebe a atividade humana como uma
atividade objetiva (MARX, 1996, p. 178-9).

E Marx conclui esta tese afirmando que Feuerbach só conside-


ra como autenticamente humana a atividade teórica, o que o impe-
de de compreender o significado da atividade revolucionária que é
prático-crítica. Na moderna sociedade capitalista, as classes sociais
se diferenciam mais e a consciência de classe se desenvolve mais,
impulsionando a luta de classes.

Neste sentido, a sociedade capitalista constitui, sob esses


aspectos, um ponto culminante na evolução histórica das
formas da sociedade dividida em classes. Nessa perspectiva,
as lutas de classes modernas têm importância fundamental na
teoria marxista, porque seu resultado final é concebido como
uma transição para o socialismo, isto é, para uma sociedade sem
classes (BOTTOMORE, 2001, p. 223).

Os hegelianos e neo-hegelinos propugnavam que o mundo das


ideias determinava o mundo da realidade, do cotidiano, do concreto,
do histórico. Por conseguinte, acreditavam que as categorias da
religião e teologia deveriam ser substituídas pelas categorias da
política, do direito e da moral (significando o progresso).

54
Ludwig Andreas Feuerbach (1804-1872), filósofo alemão e discípulo de Hegel;
transita do idealismo alemão ao materialismo, influencia a Marx.
242 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Marx e Engels chamam estas interpretações de “ilusões da


consciência e fantasias”. E contrapõem a elas pressupostos reais, de
“indivíduos reais, sua ação e suas condições de vida” como o mundo
concreto, ou seja, a história humana, dos indivíduos humanos em
suas múltiplas relações (MARX e ENGELS, 1991, p.26).
O pressuposto fundamental é “a existência de indivíduos
humanos vivos”, de seres históricos, que gera o primeiro fato: “a
organização corporal” e sua relação com a natureza. Com essa
relação, os seres humanos criam seus meios de vida, produzindo
“sua própria vida material”. Isto posto, o que diferencia os
seres humanos dos animais é “produzir seus meios de vida”, em
substituição às categorias abstratas (oriundas do idealismo ou do
racionalismo). Este é o alicerce da concepção materialista da história:
a história humana construída pela ação dos humanos na produção
dos meios próprios de vida e gerando sua própria vida material,
como “atividade humana sensível, como práxis”, ou seja, “a própria
atividade humana como atividade objetiva” (MARX e ENGELS,
1991, p.11). A manifestação da vida humana depende daquilo que
os seres humanos produzem, do modo como o produzem e para
quem o produzem. “O que os indivíduos são, portanto, depende das
condições materiais de sua produção” (idem, p.28). Isso permite a
Marx e Engels afirmarem:

A produção de ideias, de representação, da consciência, está,


de início, diretamente entrelaçada com a atividade material e
com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem
da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual
dos homens aparece aqui como emanação direta de seu
comportamento material (MARX e ENGELS, 1991, p.36).

Para Marx e Engels, a história humana é constituída assim:


“O primeiro ato histórico é, portanto, a produção dos meios que
permitam a satisfação destas necessidades (fome, sede, proteção...),
a produção da própria vida material” (idem, p.39). Na observação
histórica, a primeira condição é identificar a base material e como
isso acontece. A segunda é verificar as novas necessidades criadas.
A terceira é a reprodução humana: “é a relação entre homem e mu-
Almiro Petry 243

lher, entre pais e filhos, a família”. A quarta é o modo de produção,


isto é, uma “força produtiva”. Por isso, a “história da humanidade
deve sempre ser estudada e laborada em conexão com a história da
indústria e das trocas” (idem, p.41-42). A quinta é a consciência. “Os
homens têm história porque devem produzir sua vida, e devem fazê
-lo de determinado modo: isto está dado por sua organização física,
da mesma forma que a sua consciência” (idem, p.43, nota). De uma
consciência natural, gregária, das relações humanas, o ser humano
evolui para uma consciência de que ele “vive em sociedade”.
Nessa fase, desenvolve-se a divisão de trabalho que, originaria-
mente, era tão somente “a divisão do trabalho no ato sexual” (re-
produção). A divisão torna-se divisão de fato “a partir do momento
em que surge uma divisão entre o trabalho material e o espiritual”
(idem, p.45). As contradições geradas com a divisão do trabalho (nos
três momentos: a força de produção, o estado social e a consciên-
cia) são: a distribuição desigual (do trabalho, de seus produtos); a
propriedade; a escravidão; a dominação; a oposição entre interesse
do indivíduo e do coletivo. O Estado assume o papel do interesse
coletivo para equalizar as contradições, gerando, por sua vez, lutas
no seu interior (a luta entre democracia, aristocracia e monarquia;
a luta pelo direito do voto, etc.) (idem, p.48). A história da divisão
do trabalho no interior de uma nação, em geral, apresenta-se em
dois grandes blocos, identificados com a cidade e o campo, ou seja, a
separação “entre o trabalho industrial e comercial, de um lado, e o
trabalho agrícola, de outro” (idem, p.29).
O desenvolvimento dessas modalidades multiplica subdivisões
de atividades, levando os indivíduos a ocuparem essas posições. Às
diferentes fases do desenvolvimento da divisão do trabalho corres-
pondem formas de propriedade, ou seja, “cada nova fase da divisão
do trabalho determina igualmente as relações dos indivíduos entre
si, no que se refere ao material, ao instrumento e ao produto do tra-
balho” (idem, p.29).

Sobre as diferentes formas de propriedade, sobre as condições


sociais, maneiras de pensar e concepções de vida distintas e
peculiarmente constituídas, a classe inteira os cria e os forma
244 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

sobre a base de suas condições materiais e das relações sociais


correspondentes. O indivíduo isolado, que as adquire através
da tradição e da educação, poderá imaginar que constituem os
motivos reais e o ponto de partida de sua conduta (MARX,
1969, p. 45).

Na crítica a Proudhon, em sua segunda observação, Marx


afirma:

As categorias econômicas são apenas as expressões teóricas, as


abstrações das relações sociais da produção. O Sr. Proudhon,
como verdadeiro filósofo, tomando as coisas pelo avesso,
só vê nas relações reais as encarnações desses princípios,
dessas categorias que, diz-nos ainda o Sr. Proudhon filósofo,
dormitavam no seio da “razão impessoal da humanidade”. O Sr.
Proudhon economista compreendeu muito bem que os homens
fabricam os tecidos de lã, os tecidos de algodão e os de seda,
dentro de determinadas relações de produção. Mas o que ele
não compreendeu é que essas relações sociais determinadas
são também produzidas pelos homens, da mesma maneira
que os tecidos de algodão, de linho, etc. [...] Os mesmos
homens que estabelecem as relações sociais de acordo com a
sua produtividade material produzem também os princípios,
as ideias, as categorias, de acordo com as relações sociais. Por
isso, essas ideias, essas categorias, são tão pouco eternas como
as relações que exprimem. São produtos históricos e transitórios.
Existe um movimento contínuo de aumento nas forças
produtivas, de destruição nas relações sociais, de formação nas
ideias; de imutável só existe a abstração do movimento – mors
immortalis (MARX, 2003, p. 98).

Portanto, Marx identifica os novos sujeitos e novos perso-


nagens históricos emergentes que o poder vigente não reconhece
por estar cristalizado numa visão verticalizante, de cima para bai-
xo. Distinguir os novos personagens históricos somente é possível
pela ciência da história – o materialismo histórico – porque engloba
tanto a natureza – o biológico, o físico, o químico, etc. – quanto o
mundo dos humanos. Era preciso traçar a separação radical entre a
concepção materialista da natureza e da sociedade, da visão dogmá-
tica burguesa. A concepção burguesa e oportunista do movimento
Almiro Petry 245

proletário, supostamente objetivo, de fato estava desvinculada de


toda a práxis revolucionária. A crítica de Marx a Feuerbach reforça
este entendimento, pois, na segunda tese ele afirma: “a questão de
se saber se ao pensamento humano corresponde uma verdade obje-
tiva não é uma questão teórica, mas, sim, prática” (MARX, 1996, p.
179). Dessa forma, é da relação e do confronto entre o proletariado
e a burguesia que se concebe a autêntica consciência de classe, en-
gendrada na práxis social, determinada pela posição no processo de
produção.
Por conseguinte, a filosofia, através do materialismo histórico,
faz a crítica histórica para dissolver “o caráter fixo, natural e
não realizado das formações sociais; ela se desvela como surgida
historicamente e, como tal, submetida ao devir histórico em todos
os aspectos, portanto, como formações predeterminadas ao declínio
histórico” (LUKÁCS, 2003, p. 135). Sobre esse processo, Lukács
pondera:
[...] a história não ocorre somente dentro do domínio de
validade dessas formas, segundo o qual a história significaria
apenas a mudança de conteúdos, de homens, de situações, etc.,
com princípios sociais eternamente válidos. Essas formas
são ainda o objetivo ao qual aspira toda história e, depois, de
realizadas, a história chegaria a um fim, pois já teria cumprido
sua missão. Mas ele é, antes, justamente a história dessas formas,
sua transformação como formas da reunião dos homens em
sociedade, como formas que, iniciadas a partir de relações
econômicas objetivas, dominam todas as relações dos homens
entre si (LUKÁCS, 2003, p. 136).

No mundo do real, ainda se localizam as relações sociais de


produção – produzidas no processo histórico da humanidade –, que
assumem formas próprias e podem ser identificadas na sociedade
antiga, na sociedade feudal e na sociedade burguesa, que são estágios
de desenvolvimento na história da humanidade.
A divisão do trabalho gera a separação da atividade espiritual
da material, isto é, “a função e o trabalho, a produção e o consumo”
cabem a indivíduos diferentes, o que estabelece as contradições
entre “a força de produção, o estado social e a consciência” (MARX
246 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

e ENGELS, 1991, p.45). Como sempre ocorre em Marx, também


nesse caso o trabalho é a categoria central, na qual todas as outras
determinações já se apresentam.

[...] O trabalho, portanto, enquanto formador de valores-de-


uso, enquanto trabalho útil, é uma condição de existência do
homem, independente de todas as formas de sociedade; é uma
necessidade natural eterna, que tem a função de mediatizar o
intercâmbio orgânico entre o homem e a natureza, ou seja, a
vida dos homens. Através do trabalho, tem lugar uma dupla
transformação. Por um lado, o próprio homem que trabalha
é transformado pelo seu trabalho; ele atua sobre a natureza
exterior e modifica, ao mesmo tempo, a sua própria natureza;
“desenvolve as potências nela oculta” e subordina as forças da
natureza “ao seu próprio poder”. Por outro lado, os objetos e as
forças da natureza são transformados em meios, em objetos de
trabalho, em matérias-primas, etc. (LUKÁCS, 1979, p. 16).

Para Marx, o trabalho como práxis social é uma categoria pre-


cípua na análise do materialismo histórico. Ele é a forma de diferen-
ciação entre o executado pelo ser social frente ao executado pelo ser
natural. O último o realiza por instinto; o primeiro o realiza como
mediação na transformação da natureza. É uma relação dialética
entre o ser social e a natureza. Por meio do trabalho opera-se uma
dupla transformação. Por um lado, o próprio homem que trabalha é
transformado pelo seu trabalho; ele atua sobre a natureza exterior
e modifica, ao mesmo tempo, a sua própria natureza; “desenvolve
as potências nela ocultas” e subordina as forças da natureza “ao seu
próprio poder”; por outro lado, os objetos e as forças da natureza são
transformados em meios, em objetos de trabalho, em matérias-pri-
mas, etc. O homem que trabalha estabelece a relação dialética entre
o ser e o conhecer (idem, p. 16). “Marx criou uma nova forma tanto
de cientificidade geral quanto de ontologia, uma forma destinada,
no futuro, a superar a constituição profundamente problemática da
cientificidade moderna” (LUKÁCS, 1981, p.102).
No desenvolvimento da divisão do trabalho de uma fase intei-
ramente natural, a humanidade passa para outra, a da “separação
entre a produção e o comércio”. A esta acompanha a formação de
Almiro Petry 247

uma classe especial de comerciantes, o que gerou uma ação recípro-


ca entre “a produção e o comércio”.

As cidades entram em relação umas com outras, novas


ferramentas são levadas de uma cidade para outra e a separação
entre a produção e o comércio não tarda a suscitar uma nova
divisão da produção entre as diversas cidades, cada uma das
quais logo explorará predominantemente um ramo industrial
(MARX e ENGELS, 1991, p. 83).

Desse contexto, resultam novas invenções e nasce a manufa-


tura. “A tecelagem foi a primeira e continuou sendo a mais impor-
tante manufatura. A manufatura mobilizou uma massa de capital
(que surgiu naturalmente) e aumentou a massa de capital móvel”. A
manufatura mudou “as relações entre trabalhador e empregador”,
passando a serem “relações monetárias entre o trabalhador e o capi-
talista”. O aumento da produção ampliou o comércio entre cidades e
nações; a expansão “do comércio e da manufatura acelerou a acumu-
lação do capital móvel. O comércio e a manufatura criaram a grande
burguesia” (idem, p. 88-89)55.
Para Marx e Engels, no curso do desenvolvimento histórico, as
relações sociais adquirem, no interior da divisão social do trabalho,
uma existência autônoma, produzindo “uma divisão na vida de cada
indivíduo, na medida em que uma vida é pessoal e na medida em
que está subsumida a um ramo qualquer do trabalho e às condições
a ele correspondentes” (idem, p. 119), o que configura “a divisão
entre o indivíduo pessoal e o indivíduo de classe”, sendo a segunda
contingencial na vida “engendrada e desenvolvida pela concorrência
e pela luta dos indivíduos entre si” (idem, p. 119).
Aí entra a função ideológica, que leva os indivíduos a se julga-
rem “mais livres sob a dominação da burguesia do que antes, porque

55
Em O Capital, Marx descreve o modo capitalista de produção e lhe atribui
duas características. Primeiro, “ele produz os seus produtos como mercadorias”;
segundo, ele se caracteriza pela “produção da mais-valia”. No modo capitalista
de produção, “o capitalista e o operário assalariado, não são, como tais, senão
encarnações do capital e do trabalho assalariado, determinadas características
sociais que o processo social de produção imprime nas pessoas, produtos destas
relações determinadas de produção” (MARX, apud: IANNI, 1996, p. 9).
248 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

suas condições de vida parecem acidentais; mas, na realidade, não


são livres, pois estão mais submetidas ao poder das coisas” (idem,
p.120). A ideologia é um fenômeno objetivo produzido pelas con-
dições reais da existência dos indivíduos, que configura a vida ma-
terial. “Dela dependem as outras formas: a espiritual, a política, a
religiosa, etc.” (idem, p.111).

Para os proletários, ao contrário, a condição de sua existência,


o trabalho, e com ela, todas as condições de existência que go-
vernam a sociedade moderna, tornaram-se algo acidental, algo
que eles, como indivíduos isolados, não controlam e sobre o qual
nenhuma organização social pode dar-lhes o controle. A con-
tradição entre [...] a personalidade de cada proletário isolado
e a condição de vida a ele imposta, o trabalho, torna-se eviden-
te para ele mesmo, pois ele é sacrificado desde a juventude e
porque, no interior de sua própria classe, não tem chance de
alcançar as condições que o coloquem na outra classe (MARX e
ENGELS, 1991, p.121).

Por essa e outras razões, em 1848, Marx e Engels concluíam


o Manifesto do Partido Comunista, conclamando: “Proletärier aller
Länder, vereinigt euch!”56.

2.2 Émile Durkheim (1858-1917)

Durkheim, no esforço em consolidar a sociologia como ciência,


tem um zelo para com a academia – dominada pelo pensamento
positivista –, revelando uma de suas preocupações que é dar status
de disciplina ao corpus de seus estudos. Por isso, ele evidencia
uma constante atenção com a teoria do conhecimento e da
posição filosófica, mesmo lidando com um campo empírico. Nesta
perspectiva, Levine sintetiza o posicionamento de Durkheim:

56
“Proletários de todos os países, uni-vos!” (MARX e ENGELS, 2001, p. 84).
Para Aron, o Manifesto é, ao mesmo tempo, “o coroamento do esforço intelectual
que conduziu Marx da filosofia à sociologia e à economia e o ponto de partida das
pesquisas que o levaram à publicação de O Capital” (ARON, 2005, p. 24).
Almiro Petry 249

[...] alguns consideram-no um nominalista filosófico, outros


um realista, alguns um defensor, outros um inimigo do
individualismo moderno; uns viram nele um ardente secularista,
outros um homem cuja religiosidade se inclinava para o
misticismo. Foi variadamente rotulado como conservador,
liberal e socialista (LEVINE, 1997, p. 86).

Efetivamente, Durkheim formou uma escola que seus colabora-


dores e discípulos levaram avante, cujos frutos perduram no século
XXI. A presença marcante das obras de Durkheim no ensino su-
perior francês influenciou gerações e, igualmente, se espalhou pela
Europa e pelo mundo. Daí a importância dele na formação do pen-
samento sociológico moderno.
Desde então é fundamental ter presente, na leitura e releitura
de Durkheim, a sua preocupação em torno do objeto a ser
investigado, o método a ser seguido, e a explicação a ser dada dos
resultados obtidos. Em As regras do método sociológico, propõe que
a sociologia seja a ciência do fato social. Ele concebe a sociedade
como um conjunto de fatos possíveis de serem estudados como
coisas, e conceitua os fatos assim: “consistem em maneiras de agir,
de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo, dotadas de um poder
de coerção em virtude do qual se lhe impõem” (DURKHEIM,
1999b, p.48); antes já havia dito que os fastos “[...] apresentam a
propriedade marcante de existir fora das consciências individuais”
e “não são apenas exteriores ao indivíduo, são também dotadas de
um poder imperativo e coercitivo, em virtude do qual se lhe impõem,
quer queira, quer não” (idem, p.47). A coerção varia inversamente
à conformidade, ou seja, quanto maior a conformidade (de bom
grado) menor é a coerção (pois então se torna inútil). Os fatos são
sociais porque são fenômenos compartilhados que não se incluem
nos orgânicos ou nos psíquicos e, por isso, são do “domínio próprio
da Sociologia”.
O autor divide a Sociologia (como ciência) em três níveis:
Sociologia Geral – o estudo dos fatos sociais; a Fisiologia Social
– sociologia religiosa, moral, jurídica, econômica, linguística e
estética, cada qual estudando os fenômenos sociais que lhe são
pertinentes; e Morfologia Social – estudo da base geográfica dos
250 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

povos em suas relações com a organização social; e, estudo da


população, seu volume, densidade e distribuição geográfica (idem,
p.45). Essa divisão da nova ciência permite-lhe estabelecer campos
de investigação sem perder no horizonte a conceituação mais ampla
e complexa de fatos sociais (como morfológicos ao substrato social)
– “definição que compreenderá, pois, todo o definido”, assim,

[...] é fato social toda a maneira de agir fixa ou não, suscetível


de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou então
ainda, que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresen-
tando uma existência própria, independente das manifestações
individuais que possa ter (DURKHEIM, 1971, p.11).

Durkheim acredita que é inteligível e acessível intuir que


entre um organismo biológico e a sociedade humana não existem
diferenças de ordens, mas sim, diferenças de graus. Por isso, é fácil
para a sociologia estabelecer a estreita afinidade entre a vida e a
estrutura; entre o órgão e a função, como relações sociais.
Os fenômenos sociais são constituídos pelas crenças, as
tendências, e as práticas do grupo, tomados coletivamente, que
definem a ordem social. Os fatos, porém, “que nos fornecem a base
para ela são todos estes modos de agir; são de ordem fisiológica.
Ora, existem também maneiras de ser coletivas, isto é, fatos sociais
de ordem anatômica ou morfológica” (DURKHEIM, 1999b, p.50).
Essas afirmações nos apontam para a chave da leitura
durkheimiana do social: os fatos que asseguram a permanência e
a coesão do coletivo, através da coerção imposta aos indivíduos.
Desta forma, a sociedade é um conjunto de processos de controle,
socialmente legítimos, objetivos, com força normativa. Essa leitura
poderá induzir ao reducionismo de que a sociologia durkheimiana
seja a sociologia da ordem, do consenso. A conceituação dos fatos
sociais conduz Durkheim a definir o procedimento da investigação
sociológica que deverá ocorrer no reino social, para “dar ao espírito
uma direção que lhe permita conduzir julgamentos sólidos e
verdadeiros sobre tudo que se lhe apresente” (DURKHEIM, apud:
RODRIGUES, 1999, p.23). Julga que “as regras do método são
Almiro Petry 251

para a ciência o que as regras do direito são para o comportamento;


elas dirigem o pensamento do sábio como estas governam as
ações humanas” (idem, p.97). Ele propõe iniciar a classificação das
sociedades

[...] segundo o grau de composição que estas apresentam,


tomando por base a sociedade perfeitamente simples ou de
segmento único; no interior dessas classes se distinguirão
as diferentes variedades, conforme se produza ou não uma
coalescência completa dos segmentos iniciais (DURKHEIM,
apud: RODRIGUES, 1999, p. 24).

Durkheim busca evidenciar a autonomia do social sem precisar


tomar emprestada alguma explicação de outra ciência, pois “fize-
mos ver que um fato social não pode ser explicado senão por um
outro fato social”, isso é, explicar o social pelo social. Dessa forma,
a consciência coletiva, exterior ao indivíduo, integra o reino social,
e esse reino interessará a Durkheim para formular hipóteses, fazer
previsões e descobrir concatenações.
A moral, para Durkheim, integra o social e se incorpora na
consciência individual, pela consciência coletiva, e diferencia o
ser humano do animal, pois, no plano anatômico, fisiológico e
psicológico,

[...] há apenas diferenças de gradação; e, entretanto, o homem


tem uma eminente dignidade moral, o animal não tem nenhuma.
No que se refere a valores, existe, portanto, um abismo entre
eles. Os homens são desiguais tanto em força física como em
talento; apesar disso, tendemos a reconhecer em todos um
idêntico valor moral. [...]. Quando as consciências individuais,
em vez de ficarem separadas, entram em relação íntima, agindo
ativamente uma sobre as outras, origina-se de sua síntese uma
vida psíquica de um novo gênero (DURKHEIM, 1999c, p. 58).

Em sua obra As formas elementares da vida religiosa – seu


compêndio de sociologia da religião –, Durkheim identificou, com
notável habilidade, nos aborígenes australianos “o significado
cultural e o sentido psicológico do comportamento ritualístico”
252 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

(ALEXANDER, 1999, p. 49), como clara expressão e manifestação


do coletivo. É a fusão íntima das consciências individuais, em síntese
de uma vida psíquica, que se expressa no rito religioso da coesão
social e da integração social.
Na perspectiva da análise sociológica, ao abordar os julgamen-
tos de valor e os julgamentos de realidade, Durkheim afirma que
(a) os primeiros “têm por objetivo dizer não aquilo que as coisas
são, mas aquilo que elas valem em relação a um sujeito consciente,
o valor que este último a elas atribui” (DURKHEIM, 1999c, p.53).
Portanto, refletem a manifestação da consciência coletiva, a incor-
poração dos valores e normas; a moral e os costumes introjetados na
consciência individual. É no contexto social que se forma a escala de
valores, e o julgamento social é objetivo em relação aos julgamentos
individuais, que cedem a esta pressão. Por conseguinte, “sentimos
bem que não somos os senhores de nossas apreciações; que estamos
amarrados e contrafeitos” (idem, p. 55). (b) Os segundos simples-
mente “enunciam aquilo que existe e, por essa razão, nós os chama-
mos julgamentos de existência ou de realidade” (idem, p. 53); eles se
limitam a exprimir determinados fatos, observáveis empiricamente.
Neste entendimento, o julgamento de valor envolve uma
questão epistemológica fundamental em Durkheim, pois ele é um
retrato do entrelaçamento da sociedade57 com a moral58 e com o
direito59. Este todo complexo compreende a representação material
e não material do coletivo, da sociedade; esta vista por Durkheim
como o complexo integrado de fatos sociais, na medida em que os
fatos sociais têm causas e consequências sociais.
Para Durkheim, “a sociedade não é, de maneira alguma, o
ser ilógico ou alógico, incoerente e fantástico, que se quer ver

57
São maneiras de ser, de agir, de sentir, de pensar, enfim, dos costumes da
coletividade.
58
A moral se expressa no bem, no reto agir humano, no certo x o errado,
estabelecidos socialmente.
59
O Direito envolve os fenômenos jurídicos, as regras de conduta sancionadas
– direito penal: regras repressivas, ligadas a regras morais, podem ser difusas,
mas são organizadas; direito restitutivo: restabelecimento do estado de coisas
anteriores, compreendendo o direito civil, comercial, processual, administrativo
e constitucional.
Almiro Petry 253

nela muitas vezes. Ao contrário, a consciência coletiva é a forma


mais elevada da vida psíquica, visto que é uma consciência das
consciências” (DURKHEIM, 1999i, p.179), o que conduz a um
agir moral estendível à universalidade das vontades. Assim sendo,
o pensamento lógico tem origens sociais e se elabora no contexto
social histórico, contudo “tende cada vez mais a se desembaraçar
dos elementos subjetivos e pessoais que traz na sua origem”, pois
a sociedade “é universal com relação ao indivíduo”, mas ela própria
tem “uma individualidade [...], sua idiossincrasia; é um sujeito
particular e que, por consequência, particulariza o que pensa” (idem,
p.180).
Na prática social, a instituição que mais enfrenta conflitos daí
decorrentes é a educação. Nela se evidenciam os conflitos da homo-
geneização x diversificação; da coletivização x individualização; da
universalização x idiossincratização; enfim, uma série de antagonis-
mos. Para Durkheim, os primeiros prevalecem sobre os segundos,
porque a sociedade determina o modo de sentir, de pensar e de agir
dos indivíduos, com sua consciência individual, que tem “o poder de
perceber semelhanças entre as coisas particulares”. Para tanto, bas-
ta reconhecer que “a razão impessoal não é senão outro nome dado
ao pensamento coletivo” (idem, p. 181). Em outras palavras, “existe o
impessoal em nós porque existe aí o social e como a vida social com-
preende, por sua vez, representações e práticas, essa impersonalida-
de se estende naturalmente às ideias como aos atos” (idem, p. 181).
Durkheim acredita que a sociologia abre um novo caminho
para as ciências humanas, porque ela reconhece que “acima do
indivíduo existe a sociedade, e que esta não é um ser nominal e
de razão, mas um sistema de forças atuantes, uma nova maneira
de explicar o homem tornou-se possível” (idem, p. 182). Já que,
pela investigação, é possível verificar que aquilo que no indivíduo
ultrapassa o indivíduo origina-se da sociedade, a realidade supra-
individual. Ao aplicar este critério na análise da divisão do trabalho
social, na busca das funções e das consequências deste processo, ele
conclui: “os serviços econômicos que ela proporciona são de menor
monta ao lado do efeito moral que produz, e sua verdadeira função
é criar entre duas ou mais pessoas um sentimento de solidariedade”
254 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

(DURKHEIM, 1999c, p.61). Se em outras concepções doutrinárias


a divisão do trabalho social visa aos resultados econômicos, para
Durkheim ela exerce a função da solidariedade, da cooperação, da
ajuda mútua.
Durkheim ensina que a solidariedade – tanto a mecânica quan-
to a orgânica – gera a integração que, por sua vez, suscita a coesão
social, porque a ajuda mútua é um fenômeno social, no entanto e,
acima de tudo, ela é moral, vinculada à divisão do trabalho social.
Por isso,

[...] é preciso, sobretudo, determinar em que medida a


solidariedade por ela produzida contribui para a integração
geral da sociedade: somente então saberemos até que ponto
ela é necessária, se é um fator essencial da coesão social ou, ao
contrário, se não passa de uma condição acessória e secundária
(DURKHEIM, 1999d, p. 66-67).

Metodologicamente, sendo a solidariedade um fenômeno mo-


ral, sua verificação e medição são viáveis mediante uma mediação,
ou seja, uma presença visível e sensível que se dá com a aproximação
e a multiplicação dos relacionamentos entre as pessoas. Sendo as-
sim, a solidariedade aparece como fenômeno moral que,

[...] por si mesmo, não se presta à observação exata e principal-


mente a uma medição. Para proceder tanto a essa classificação
como a essa comparação, é preciso substituir ao fato interno que
nos escapar o fato exterior que o simboliza, e estudar o primeiro
através do segundo. Esse símbolo visível é o direito. Com efeito,
onde existe solidariedade social, apesar do seu caráter imate-
rial, ela não permanece no seu estado puro, mas manifesta sua
presença pelos seus efeitos sensíveis. [...] quando ela é forte,
aproxima os homens uns dos outros, coloca-os frequentemente
em contato, multiplica as oportunidades de seu relacionamento.
[...] quanto mais solidários sejam os membros de uma socieda-
de, mais eles mantêm relações diversas (DURKHEIM, 1999d,
p. 67).

O direito é a expressão da própria organização social e o refle-


xo da solidariedade social, sua visibilidade externa. Ele rege, por um
Almiro Petry 255

lado, todas as relações sociais essenciais “e são os únicos que temos


necessidade de conhecer”; por outro lado, os costumes regem re-
lações sociais “que só comportam aquela regulamentação confusa”
(idem, p. 68). Por isso, a solidariedade social pertence aos estudos da
sociologia por ser “um fato social que só se pode conhecer por meio
de seus efeitos sociais” (idem, p. 69), para não confundi-la com a so-
ciabilidade, que é a tendência geral e a mesma em todo lugar, de as
pessoas se ligarem umas às outras.
Nesta concepção, Durkheim categoriza a solidariedade social
em dois tipos fundamentais, a mecânica e a orgânica, caracterizadas
da seguinte forma:

(a) A solidariedade mecânica “é um produto das similitudes


sociais as mais essenciais, e tem por efeito manter a coesão
social que resulta dessas similitudes” (DURKHEIM, 1999e,
p.76) e caracteriza a sociedade simples. A expressão material
e visibilidade externa dessa solidariedade social é o direito
repressivo, que exerce um papel integrador, ligando os
indivíduos ao grupo, oportunizando, dessa forma, a coesão
social. Atinge seu maximum “quando a consciência coletiva
abrange exatamente nossa consciência total e coincide em
todos os pontos com ela” (idem, p.82), anulando, deste modo,
toda a individualidade, intensificando-se na razão inversa da
personalidade. Isso leva Durkheim a justificar a denominação
adotada: solidariedade mecânica, “por analogia com a coesão que
une os elementos dos corpos brutos, em oposição àquela que
faz a unidade dos corpos vivos” (idem, p.83), que é totalmente
diferente da produzida pela divisão do trabalho social, ou seja,
a solidariedade orgânica.
(b) A solidariedade orgânica é um produto da divisão do trabalho
social e se enquadra nas complementariedades sociais, porque
“é da natureza das tarefas especiais escapar à ação da consciên-
cia coletiva [...] e quanto mais elas se especializam, menos é o
número daqueles que têm consciência de cada uma delas” (idem,
p. 80). Isso individualiza e personaliza as pessoas, passando a
diferir mais umas das outras, autonomizando a personalidade.
256 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Durkheim recorre à analogia dos animais superiores, para de-


nominar essa solidariedade de orgânica. As formas exteriores
que a simbolizam são as regras jurídicas do direito restitutivo,
isto é, o direito cooperativo com as devidas sanções restitutivas.
O direito varia “com as relações sociais que regula” (idem, p.
84), ou seja, do direito repressivo (relações sociais mecânicas)
ao direito restitutivo (relações sociais orgânicas), como simples
corolário da evolução societal.

Por conseguinte, o sociólogo, em seu ofício de pesquisar a


solidariedade social, investigará os fatos jurídicos como retratos
das ações de ajuda mútua, tanto na modalidade mecânica quanto na
orgânica, que perpassam a evolução das sociedades humanas, desde
as mais simples às mais complexas. Para tanto, Durkheim construiu
as categorias analíticas da passagem da sociedade tradicional
(horda, clã, sociedades segmentares à base de clãs) para a sociedade
industrial, complexa e moderna, escolhendo como fio condutor a
coesão social, como expressão da solidariedade social. A trajetória
histórica da humanidade revela que a nova sociedade só progride
na medida em que a antiga regride. Esta transição provoca uma
crise que, no entender de Durkheim, será superada pela integração
e coesão social. Por outro lado, é na crise da transição que também
pode emergir o fenômeno da anomia social.
Na compreensão da sociedade como “um complexo integrado
de fatos sociais”, Durkheim inclui a consciência coletiva – “o con-
junto de crenças e de sentimentos comuns à média dos membros
de uma mesma sociedade forma um sistema determinado que tem
sua vida própria” – que está “difusa em toda extensão da sociedade”
e “independe das condições particulares em que se encontram os
indivíduos”, gera um “conjunto de similitudes sociais” (idem, p.74).
Frente a esta constatação, ele afirma que no indivíduo coexistem
duas consciências, a individual – que caracteriza a pessoa e a dife-
rencia das demais – e a coletiva – que são os “estados” comuns a toda
a sociedade. A solidariedade nascida desta relação une o indivíduo
diretamente ao coletivo.
Almiro Petry 257

No diagnóstico do mundo do trabalho dos tempos modernos,


Durkheim identifica que a grande indústria transforma as relações
de produção e as relações entre patrões e operários, pois,

[...] o trabalho da máquina substitui o do homem; o trabalho


da manufatura ao da pequena oficina; o operário é colocado sob
regulamentos, afastado o dia inteiro de sua família [...]. Estas
novas condições da vida industrial exigem naturalmente uma
nova organização [...]; a divisão do trabalho [...] foi muitas
vezes acusada de diminuir o indivíduo, reduzindo-o ao papel de
máquina. E, com efeito, se ele não sabe para onde tendem essas
operações que se lhe exigem, não as associa a qualquer fim e
só pode se contentar com a rotina. Todos os dias ele repete os
mesmos movimentos em uma regularidade monótona, mas sem
se interessar nem compreendê-los. Não é mais a célula viva de
um organismo vivo [...], não passa de uma engrenagem inerte
que uma força externa põe em funcionamento e que se move
sempre no mesmo sentido e do mesmo modo (DURKHEIM,
1999g, p.99-100).

Quando a ordem social é perturbada, pode irromper um estado
de anomia social, isto é, uma perda ou a ausência de regulamenta-
ções que afeta a moral e os costumes, configurando uma crise social.
O fato de o operário lidar todo o dia com a máquina acaba que ele
vai ser tratado como uma máquina, o que leva à monotonia e à vida
rotineira. O suicídio anômico se enquadra nesta categoria.
Para Durkheim, o suicídio não é uma enfermidade, nem resulta
de fatores genéticos ou climáticos e geográficos, nem é expressão
exclusiva de perturbações psicológicas, mas é um indicador
social, resultante do grau de coesão da sociedade. O suicídio,
como ato individual, interessa ao sociólogo, porque sua natureza
é eminentemente social. Ao longo do tempo, os suicídios podem
tornar-se crônicos, em decorrência da ruptura do equilíbrio social
e “a evolução do suicídio é assim composta de ondas de movimento,
distintas e sucessivas, que se dão por impulsos, desenvolvem-se
durante algum tempo e depois cessam, para recomeçar em seguida”
(DURKHEIM, 1999h, p. 104). Interessa, portanto, ao sociólogo
investigar as causas que agem sobre o grupo e “o conjunto da
258 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

sociedade”. E conclui: “o suicídio varia na razão inversa do grau de


integração dos grupos sociais de que o indivíduo faz parte” (idem,
p. 108).
Baseado nesta convicção, Durkheim classifica os suicídios em
egoísta, altruísta e anômico.
(a) O suicídio egoísta é gerado pelo egoísmo. As sociedades pouco
integradas ou em transição de uma determinada organização
para novos critérios integradores induzem os indivíduos a
afirmarem sua vontade própria, negando-se a colaborarem.
“Exprimem o estado de desagregação em que se encontra a
sociedade” (idem, p. 110). Isso significa que o indivíduo afrouxa
o laço que o liga à vida, como retrato do afrouxamento de seu
laço com a sociedade.
(b) O suicídio altruísta é gerado pela filantropia e é típico de
sociedades fortemente integradas, nas quais o indivíduo sente
sua própria vida e, paradoxalmente, por vontade própria, se
sente no dever de praticar o suicídio (homens que chegaram à
velhice ou são atingidos por doença; mulheres, por ocasião da
morte do marido; fiéis ou servidores, por ocasião da morte de
seus chefes). Poderá ser ainda obrigatório, facultativo ou agudo.
(c) O suicídio anômico é gerado pelo estado de anomia, isto é,
por uma situação de desorganização e ausência de consenso
em torno de valores integradores ou até a falta de normas.
Isso acontece em épocas de crise ou brusca desorganização
ou súbitas transformações. Desastres econômicos; inesperado
aumento de poder e de riqueza; decadência da prosperidade;
ambições superexcitadas são situações em que “o estado de
desregramento ou de anomia é reforçado pelo fato de que as
paixões são menos disciplinadas no momento mesmo em que
elas teriam precisão de uma disciplina mais forte” (idem, p.118).
Durkheim afirma que “a anomia é, pois, nas nossas sociedades
modernas, um fator regular e específico de suicídios”.
Em suma,

[...] o suicídio egoísta resulta de que os homens não veem mais


razão de ser na vida; o suicídio altruísta de que esta razão lhes
Almiro Petry 259

parece estar fora da própria vida; o suicídio anômico decorre do


fato de estar desregrada a atividade dos homens, e é disto que
eles sofrem (DURKHEIM, 1999h, p.121).

Para Durkheim, o suicídio egoísta e o anômico estão


relacionados, porque “os dois decorrem do fato de que a sociedade
não está suficientemente presente nos indivíduos. Mas a esfera da
qual ela está ausente não é a mesma nos dois casos” (idem, p.122).
A preocupação de Durkheim é formular uma teoria da integra-
ção e coesão social, dando proeminência ao coletivo em detrimento
do indivíduo, trabalhando as categorias como a coesão, a solidarie-
dade, a autoridade, as representações coletivas, com vistas à manu-
tenção da ordem social, atribuindo prioridade ao social na explica-
ção da realidade natural, física e mental em que vive o ser humano.
Desta forma, ele consolida os fundamentos da escola do funcionalis-
mo, pelos quais seus seguidores construirão certa hegemonia teóri-
ca, no campo das ciências sociais, durante um largo tempo.
Após a 2ª Guerra Mundial emerge um esforço para “combater
a hegemonia da teorização funcionalista” na busca de alternativas
teóricas e metodológicas. “Surgiram daí a teoria do conflito, a teoria
da troca, o interacionismo simbólico, a etnometodologia e uma
forma especificamente sociológica de teoria social humanista ou
radical” (ALEXANDER, 1999, p. 64), escolas que incorporaram o
antifuncionalismo.

2.3 Max Weber (1864-1920)

A partir dos escritos de Weber, tenta-se identificar as princi-


pais variáveis da matriz epistemológica e metodológica. Para ele, a
ordem da sociedade moderna é o capitalismo racional e industrial,
por isso ele “se debruça sobre os problemas da racionalização, da
secularização, da burocratização das estruturas e dos comporta-
mentos das pessoas como traços específicos da civilização ociden-
tal” (TRAGTENBERG, 1992, p. XII). Além da racionalização, da
burocratização e da secularização, Weber acrescenta a temática do
260 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

desencantamento do homem moderno na civilização ocidental. Em


consequência, para entender a modernidade racionalizada convém
retomar a obra dele e estudá-la em profundidade para captar suas
dimensões e abrangências, dando-lhe seu significado atual. Neste
horizonte, é fundamental resgatar a ênfase que Weber dava aos va-
lores sociais e culturais. De mais a mais, ele pertencia a uma geração
de intelectuais de preocupações universais, que expressava em suas
análises sociológicas, evidenciando uma notável erudição.
No campo das ciências sociais, em sua época, não havia uma
imediata exigência de produzir conhecimentos “práticos” e “úteis”,
condicionado por uma atmosfera científica humanista dominante.
Weber, como os demais docentes das universidades alemãs, viveu
um momento de grande impacto da presença do marxismo no
meio acadêmico, demandando estudos acurados de Marx60, o que
o conduziu aos estudos históricos do capitalismo. Neste confronto,
“as tradições intelectuais da Alemanha foram canalizadas para
os modos de pensar conservador, liberal e socialista” (GERTH e
MILLS, 1971, p. 63), ambiente em que Weber estava envolvido.
No entanto, cinzelado no racionalismo e no liberalismo, Weber
sempre lutou pela liberdade individual e, com imparcialidade
analítica, “caracterizou as ideias do nacionalismo e racismo como
ideologias justificantes, usadas pela classe dominante e seus
publicistas mercenários, para as suas imposições aos membros
mais fracos da organização política” (GERTH e MILLS, 1971, p.
40). Ao elaborar sua orientação intelectual, assimilou elementos
do pensamento conservador, liberal e socialista, “transformados e
integrados no complexo padrão de sua obra. Como liberal, lutando
contra o pensamento conservador e o marxista, Max Weber abriu-
se a certas influências de cada um de seus adversários” (idem, p. 63).
O texto A objetividade do conhecimento na ciência social e na ciência
política (1904) é uma profissão de fé, uma plataforma doutrinária, na

60
Na época de Weber, “[...] na Alemanha, o marxismo pôde estabelecer uma
tradição que tentou trazer para a sua órbita a história social e política de todas as
épocas, a interpretação da Literatura e Filosofia, bem como o desenvolvimento da
teoria econômica e social. Em 1848, os liberais haviam temido os trabalhadores
itinerantes barbados; com Bismarck, eles passaram a temer Bebel e Liebknecht”
(GERTH e MILLS, 1971, p. 62-63).
Almiro Petry 261

possibilidade da objetividade do conhecimento nas ciências sociais


e, ao mesmo tempo, uma definição de critérios – uma orientação
editorial – para o Archiv für Sozialwissenschaft und Sozialpolitik61(Re-
vista); por ser uma revista exclusivamente científica, não admitirá
sectarismos ou dogmatismos e, para assegurar a diversidade, res-
peitará certa convergência em torno do valor do conhecimento a
ser expresso. É preciso reconhecer que a objetividade nas ciências
humanas era seu pathos.
Weber coloca a Revista como um órgão de uma disciplina
empírica que atua no nível do que é, e não do que deve ser. Estará,
portanto, sempre em questionamento, em última instância, o
valor científico, seja na forma de juízo de valor, seja na questão
metodológica, ou naquilo que trata da ação humana, pois “queremos
algo em concreto ou em virtude de seu próprio valor” (WEBER, 1992,
p.109).
O juízo de valor nas ciências sociais é uma avaliação prática
sobre a “desejabilidade ou indesejabilidade, tendo em vista
determinados pontos de vista éticos, culturais ou de qualquer outro
tipo” (WEBER, 2001, p. 369), da realidade, das ações humanas ou
de resultados colhidos pelas investigações; é necessário evitar “uma
discussão terminológica totalmente estéril”.
Por conseguinte, Weber defende a posição de que uma
disciplina empírica não tem a tarefa de proporcionar normas e
ideais obrigatórios para a conduta humana que sejam, portanto,
receitas para a ação prática. Mas deve garantir a objetividade, o
rigor da explicação causal e certa neutralidade valorativa do objeto
investigado. A questão do valor define-se pela significação cultural
e, por ser assunto pessoal, pode induzir o pesquisador à escolha do
seu objeto, e não estar na ótica dos valores universais.

Entretanto, no que diz respeito a esta opção, podemos oferecer


algo mais: o conhecimento do significado daquilo que é o objeto
da aspiração. Podemos ensinar a alguém o conhecimento dos

61
Revista de ciências sociais e políticas, fundada em 1888 por Heinrich Braun. Em
1904, Max Weber, Edgar Jaffé e Werner Sombart assumiram a direção da mesma.
Em 1933, com a ascensão do nazismo ao poder, encerrou suas atividades.
262 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

fins que esse alguém procura, e entre os quais faz uma seleção,
num primeiro momento, por meio da indicação e conexão lógica
das ideias que talvez possam estar na base do fim concreto
(WEBER, 1992, p. 110).

Weber acredita que na realidade a discussão gira em torno


dos fins e não dos meios para alcançar os fins. Os juízos subjetivos
não pertencem aos objetos das ciências empíricas, porque a “ciência
empírica não pode ensinar a ninguém o que deve fazer; só lhe é
dado – em certas circunstâncias – o que quer fazer” (WEBER,
1992, p.111). Assim, a sociologia se move no mundo fatual, e não no
ideal; é sua função “transformar em problema o que é evidente por
convenção” (WEBER, 2001, p. 370).
O apelo à objetividade leva Weber a indagar sobre “a limitação
objetiva da nossa área de pesquisa”, com vistas à “validade objetiva
a que pretendemos chegar nesta nossa área de saber”. O problema
realmente existe...

[...] e é algo que não pode escapar a alguém que observa o com-
bate que se trava ao redor de métodos, de conceitos básicos e de
pressupostos, bem como a contínua mudança dos pontos de vista e
a constante redefinição dos conceitos utilizados [...]. O que signi-
fica, aqui, objetividade? (WEBER, 1992, p. 117).

Weber e os novos redatores afirmam que a Revista tem


por objetivo abordar todos os fenômenos que “designamos por
socioeconômicos”, vinculados ao fato básico da nossa existência
física. Entretanto,

[...] a ciência que pretendemos exercitar é uma ciência da


realidade. Procuramos entender na realidade que está ao nosso
redor, e na qual nos encontramos situados, aquilo que ela tem de
específico; por um lado, as conexões e a significação cultural das
nossas diversas manifestações na sua configuração atual e, por
outro, as causas pelas quais ela se desenvolveu historicamente de
uma forma e não de outra [...]. Assim, todo o conhecimento da
realidade infinita, realizado pelo espírito humano finito, baseia-
se na premissa tácita de que apenas um fragmento limitado
Almiro Petry 263

dessa realidade poderá constituir, de cada vez, o objetivo da


compreensão científica e de que só ele será essencial no sentido
de digno de ser conhecido (WEBER, 1992, p.124).

O desafio posto por Weber provoca o questionamento sobre os
princípios para escolher o fragmento da realidade, na medida em que
há uma multiplicidade de concepções e orientações doutrinárias,
para se atingir a compreensão científica da realidade. No entanto,
Weber aponta...

[...] que não há dúvida de que o ponto de partida do interesse


pelas ciências sociais reside na configuração real e, portanto,
individual da vida sociocultural que nos rodeia, quando quere-
mos apreendê-la no seu contexto universal, nem por isso menos
individual, e no seu desenvolvimento a partir de outros estudos
socioculturais, naturalmente individuais também. [...]. No se-
tor das ciências sociais, o que nos interessa é o aspecto qualita-
tivo dos fatos [...] cuja compreensão por revivência constitui uma
tarefa especificamente diferente da que poderiam, ou quereriam
resolver as fórmulas do conhecimento exato da natureza (WE-
BER, 1992, p.125-126).

Dessa forma, “todo o conhecimento da realidade cultural é


sempre um conhecimento subordinado a pontos de vista especifi-
camente particulares”. Para superar o presumível subjetivismo, do
ponto vista particular, Weber propõe um desafio metodológico: a
construção do tipo ideal para cada realidade particularizada a ser
investigada, como método a ser seguido, nessa ciência empírica...

A construção de tipos ideais abstratos não interessa como fim,


mas única e exclusivamente como meio de conhecimento. [...].
Ou será que o conteúdo de conceitos tais como individualismo,
imperialismo, feudalismo, mercantilismo, convencional, bem como as
inúmeras construções conceituais deste tipo, mediante as quais
procuramos dominar a realidade por meio da reflexão e da
compreensão, deverá ser determinado mediante a descrição, sem
pressupostos, de um fenômeno concreto [...] que, via de regra,
apenas pode ser determinado, de modo preciso e unívoco sob a
forma de tipos ideais (WEBER, 1992, p.139).
264 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

O tipo ideal é uma construção intelectual, mental “não da


realidade histórica, e muito menos da realidade autêntica, [...]; tem,
antes, o significado de um conceito limite, puramente ideal, em relação
ao qual se mede a realidade, [...]; o tipo ideal é, acima de tudo, uma
tentativa de apreender os indivíduos históricos (WEBER, 1992,
p.140).
É uma ferramenta heurística que se destina à medição da
realidade histórica em relação ao tipo ideal caracterizado62. Ela
permite identificar o quanto a realidade concreta se aproxima ou
se afasta das múltiplas características que descrevem o tipo ideal,
dando seus valores de significativos pela sua especificidade. Convém
não confundir o tipo ideal, uma caracterização a-histórica, com um
tipo idealizado, uma aspiração social ou ideológica.
Aceitando a conceituação de tipo ideal proposta, Weber lança
no acima citado texto, um olhar sobre conceitos genéricos tão
presentes na forma de enunciados históricos. Para ele

[...] trata-se de um dos modos práticos mais frequentes e


importantes de aplicar os conceitos de tipo ideal, pois cada tipo
ideal individual é composto de elementos conceituais que têm
um caráter genérico, e que foram elaborados à maneira de tipos
ideais. [...]. A finalidade de formação de conceitos de tipo ideal
consiste sempre em tomar rigorosamente consciência não do
que é genérico, mas, muito pelo contrário, do que é específico a
fenômenos culturais (WEBER, 1992, p.145).

Weber conclui esta discussão, afirmando:

[...] conceitos genéricos, tipo ideal, conceitos genéricos de


estrutura tipo-ideal, ideias no sentido de combinações de
pensamento que influem empiricamente nos homens históricos,
tipos ideais dessas ideias, ideais que dominam os homens, ideais
a que o historiador refere a História, construções teóricas com
utilização ilustrativa do empírico, investigação histórica com

62
Na formulação do tipo ideal, Weber dedica certa atenção às questões suscitadas
pelos marxistas e, grande parte de sua obra, está “enformada pela hábil aplicação
do método histórico de Marx. Weber, porém, usou tal método como um princípio
heurístico” (GERTH e MILLS, 1971, p. 64).
Almiro Petry 265

utilização de conceitos teóricos como casos-limite ideais, enfim,


as mais diversas complicações possíveis, que apenas pudemos
aqui assinalar – tudo são construções ideais cuja relação com
a realidade empírica do imediatamente dado é, em cada caso
particular, problemática (WEBER, 1992, p.147).

E prossegue em suas conclusões, mostrando que a discussão

[...] teve como único propósito destacar a linha quase


imperceptível que separa a ciência da crença, e pôr a descoberto
o sentido do esforço do conhecimento socioeconômico. A
validade objetiva de todo saber empírico baseia-se única e
exclusivamente na ordenação da realidade dada segundo
categorias que são subjetivas (WEBER, 1992, p.152).

Com esta proposta metodológica, Weber julga preservar a


objetividade do conhecimento na ciência social, pois o sociólogo que
procura o rigor conceitual deve construir tipos ideais, para ler e
interpretar a realidade e medir, qualitativa e quantitativamente, o
afastamento da ação empírica do ideal. Em suma, esta é uma robusta
contribuição metodológica e epistemológica à nova ciência empírica
no campo das humanidades.
Em Conceitos sociológicos fundamentais63, Weber expõe os concei-
tos básicos da sociologia empírica e inicia com o próprio conceito de
sociologia, e os demais estão em função deste. Entende que a socio-
logia é a ciência “voltada para a compreensão interpretativa da ação
social e, por essa via, para a explicação causal dela no seu transcurso
e nos seus efeitos”, que pretende compreender interpretativamente
a ação social e explicá-la causalmente em seu curso e em seus efeitos
(WEBER, 1994, p. 3).

63
Artigo publicado em 1913, na Revista Logos, sob o título: Sobre algumas
categorias da Sociologia Compreensiva. Passou a constituir o 1º Capítulo de
Economia e Sociedade, com o título: Conceitos sociológicos fundamentais
(p. 3-35, da edição brasileira, 1994), com algumas modificações e simplificações
feitas pelo próprio Weber.
266 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Por isso, Weber procura identificar as condutas humanas nas


seguintes categorias: racional, visando fins ou valores; as condutas
não racionais e as tradicionais. Qual delas predomina? Qual é a mais
intensa? Qual é a mais frequente? As respostas deverão ser buscadas
na realidade.
Essas ações podem ser construídas, operacionalmente, em uma
escala, indo da racionalidade à extrema não-racionalidade. Weber
enfatiza a ação racional de fins e meios como a mais compreensível
da conduta humana. Essa concepção estará presente quando Weber
utilizar os tipos básicos da estrutura social, associados aos tipos de
ação, como sendo a sociedade – racionalmente adequado –, associação
– ação afetiva –, e comunidade – ação tradicional.
O método da compreensão enfatiza o indivíduo como a unidade
final de explicação, posição que não é aceita pelos organicistas e nem
marxistas. O indivíduo é que dá significado às suas intenções. Essas
intenções Weber quer compreender e interpretar. Para atingir a
compreensão atual da ação é preciso recorrer à regressão histórica
ou causal.
O método weberiano coloca-se em posição oposta ao método
quantitativo, porque a singularidade histórica, ou seja, a ação social
é o objeto e o indivíduo, ao agir, tem em mente a cultura, a história,
ou seja, fatores gerais do seu contexto, dando significado à sua ação.
Weber não reduz a quantidade à qualidade, mas chama a atenção
à singularidade qualitativa da ação social. Para atingir sua meta
metodológica, sugere a construção do tipo ideal, como instrumento
heurístico e analítico para identificar as diferenças entre o ideal e o
real.
Ele propôs esse método para melhor compreender os conceitos
utilizados nas ciências sociais, como feudalismo, capitalismo, indivi-
dualismo, mercantilismo, burocracia, etc. e, dessa forma, evitar ambi-
guidades e atingir a univocidade conceitual. Assim sendo, no enten-
der de Weber, os casos puros, construídos abstratamente, permitem
compreender qualquer problema particular. O método comparativo
recorre tanto aos resultados alcançados pelo método quantitativo
quanto aos atingidos pelo qualitativo, pois é de sua essência con-
Almiro Petry 267

frontar alguma característica comum entre instituições ou organi-


zações, ou entre fatos históricos de culturas distintas.
Weber também se interessa pela construção de concepções
gerais para compreender a sociedade que é regida por leis ou
apresenta suas regularidades. Para sustentar a compreensão da ação
social, é necessário conhecer as causas que regem as manifestações
particulares. As causas, que podem ser uma sequência, são
encontráveis na história. Para compreender e validar o capitalismo
racional no Ocidente, Weber estudou e examinou outras civilizações
em que havia condições favoráveis para seu aparecimento e
desenvolvimento, mas outros fatores o bloquearam.

3. Considerações finais

Na atualidade64, para se apropriar de modo criativo dos


legados teóricos dos clássicos, é necessário ter presente os cenários
históricos dos quais emergiram. Isto envolve algumas ponderações.
Primeiramente, é preciso respeitar o espírito que orientou a
obra do pensador em sua contextualização, na medida em que as
circunstâncias históricas posteriores mudaram significativamente.
Além disso, cada qual modificava o significado de suas concepções
em sua trajetória intelectual. Um segundo aspecto a se considerar
é o fato da incompletude do projeto de suas obras (evidente em
Marx; em Durkheim e Weber, pela morte precoce), frente às
ponderações críticas da existência de contradições na totalidade de
suas obras. Por fim, pelos impactos das circunstâncias histórico-
estruturais, que redesenharam as fronteiras das pressuposições que
fundamentaram a concepção original, associados às leituras que as
gerações posteriores de pensadores fazem de seu momento, com a
chave das matrizes epistemológicas hauridas dos clássicos, se faz
necessário adaptar o pensamento original aos novos horizontes dos
cenários históricos. Em vista disto, é possível delinear:

64
Para as considerações finais, segue-se o texto de: PETRY, 2012, p. 103-108.
268 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Em primeiro lugar, o paradigma epistemológico e metodológico


herdado da concepção de Marx mantém uma meridiana atualidade,
apesar das novas configurações circunstanciais da recente história
humana. No centenário da morte de Marx (1983), Bottomore,
Harris, Kiernan e Miliband assim se expressaram:

As ideias que ele introduziu passaram a constituir uma das


correntes mais estimulantes e influentes do pensamento
moderno; seu conhecimento é indispensável para todos os
que trabalham nas ciências sociais ou estão engajados em
movimentos políticos. Entretanto, é igualmente claro que
essas ideias nada adquiriam da rigidez de um sistema fechado
e acabado: ainda estão evoluindo ativamente, tendo assumido,
no transcurso dos últimos cem anos, uma grande variedade
de formas. E isto não apenas porque se estenderam a novos
campos de investigação, mas também por efeito de processos
de diferenciação interna que se produziram em resposta, por
um lado, a novas críticas e a novos movimentos intelectuais, e,
por outro, à transformação de circunstâncias sociais e políticas
(BOTTOMORE et al., 2001, p. IX).

Passadas três décadas, estas ponderações continuam atuais,


em especial pelas profundas transformações que ocorreram nas
circunstâncias econômicas, políticas, sociais e científicas no final do
século XX e inícios do século XXI. Basta mencionar que

[...] Impérios vieram abaixo, as sociedades se transformaram,


as modas se alteraram: o modernismo foi substituído pelo
pós-modernismo, o estruturalismo pelo pós-estruturalismo,
o keynesianismo pelo neoliberalismo, o muro de Berlim pelo
muro do dinheiro. E Marx? (LÖWY, 2002, p. 16).

Após a queda do muro de Berlim (1989) e do desmembramento


da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (1991), se resgatou
uma frase, proferida pelo filósofo liberal italiano Benedetto Croce,
em 1907, “Marx está definitivamente morto para a humanidade”
para proclamar “em nome da História, do Mercado ou de Deus –
se não dos três – que ‘Marx está morto’” (LÖWY, 2002, p. 16). Ao
contrário desta corrente de pensamento, está ocorrendo um “retor-
Almiro Petry 269

no a Marx”, com uma postura de renovação crítica que perpassa as


diferentes formas avançadas de “marxismos”, seguindo o exemplo
do próprio Marx, que soube utilizar amplamente os trabalhos de
seus coetâneos, rejeitando qualquer postura monopolista de ciência.
Temos, consequentemente, no legado epistemológico e meto-
dológico de Marx um paradigma próprio das ciências sociais. Esta
abordagem da sociedade humana opera com os contrários, interpre-
tando e analisando as relações sociais, as instituições, as estruturas
a partir dos conflitos, sejam eles manifestos ou latentes, como um
processo histórico de lutas. Esta análise histórico-social-estrutural
é considerada um empreendimento científico consistente e respei-
tável. No entanto, a saída dos conflitos, em especial a “superação do
capitalismo numa forma de organização social comunista” (NASCI-
MENTO, 2002, p. 9) passa, historicamente, a ser vista como “apên-
dice arbitrário da teoria”, ou mera quimera. Consequentemente, este
paradigma ficou “reduzido a uma disciplina acadêmica tradicional,
desprovida de toda dimensão revolucionária” (idem, p. 9). Entre-
mentes, a linhagem revolucionária do pensamento de Marx se opõe
radicalmente a esta “aceitação histórica” e propugna, em defesa da
concepção, que a “dialética materialista é uma dialética revolucioná-
ria” como doutrinava Lukács.
O marxismo se configura, portanto, como um movimento
político prático,

[...] uma forma de socialismo que se distingue, no interior


das correntes de pensamento socialista, por sua combinação
de uma prática revolucionária com uma teoria social radical e
abrangente. Esta teoria pretende ser uma ciência social e não
uma filosofia” (EDGLEY, 2001, p. 152).

Em 1997, Löwy grifava no prefácio da reedição de seu livro


A teoria da revolução no jovem Marx, a desafiadora pergunta:
Marx está morto? Em seu texto, o autor demonstra a perene
atualidade deste legado, na medida em que permanecerem as
acentuadas desigualdades sociais, as dominações e explorações, etc.
e, a humanidade não concretizar a radical aspiração marxiana da
270 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

sociedade comunista – estágio superior da humanidade – na qual


não existiriam exploradores e explorados, formando o ser humano,
a sociedade e a natureza um todo harmônico.
Naquele momento histórico, Marx entendeu que a sociedade
industrial capitalista estava pronta para se transformar numa
sociedade “de iguais”, mediante uma reviravolta radical, uma vez
que “os homens devem mudar de cima abaixo as condições de sua
existência industrial e política, e consequentemente todo o seu
modo de ser” (MARX, apud: MÉZÁROS, 2002, p. 515). Entretanto,
como observa Adorno, já não é mais assim. Contudo, a humanidade,
no dizer de Bauman, está em contínua busca da “boa sociedade”, o
desafio está na construção de pontes visíveis para a passagem.
Em segundo lugar, o paradigma epistemológico e metodológi-
co herdado da concepção de Durkheim se evidencia de modo mais
vivo na abordagem positivista-funcionalista da sociedade humana,
nos diferentes campos das ciências humanas. Houve aperfeiçoa-
mentos e desdobramentos como o estrutural-funcionalismo e, mais
recentemente, o funcionalismo-sistêmico. Contudo, parece inade-
quado insistir em imitar os procedimentos dominantes nas ciências
naturais, como quis Durkheim com as “regras do método”, não di-
minuindo sua valiosa contribuição, na medida em que era uma exi-
gência histórica para a sociologia conquistar o status de ciência, que
foi efetivamente atingido. Deste procedimento, configurou-se o mé-
todo quantitativo, presença tão vigorosa nas ciências sociais.
Sem dúvida, o sucesso alcançado por Durkheim o colocou no
topo do ranking como um dos fundadores da sociologia moderna e
suas contribuições foram fundamentais para o desenvolvimento das
ciências sociais e da cultura acadêmica. Seus estudos sociológicos
tiveram como principal motivação, além do estudo dos fatos, a
própria comprovação da viabilidade da sociologia como ciência de
caráter empírico, analítico, interpretativo e explicativo.
Cabe ressaltar que Durkheim se concentra na especificidade
do social, dando particular atenção à epistemologia, sinalizando
com a perspectiva das teorias de médio alcance em vez das grandes
narrativas, porque a novel ciência padecia da escassez de vastas
pesquisas históricas.
Almiro Petry 271

No prefácio da obra O suicídio, Durkheim traça um perfil da


sociologia e do sociólogo, quase uma plataforma epistemológica e
metodológica, afirmando:

Uma ciência tão recente tem o direito de errar e de tatear, con-


tanto que tome consciência de seus erros para evitar que se re-
pitam. A sociologia, portanto, não deve renunciar a nenhuma de
suas ambições; por outro lado, se deseja responder às esperan-
ças que se colocaram nela, deve aspirar se tornar algo mais do
que uma forma original da literatura filosófica. Que o sociólogo,
em vez de se comprazer em meditações metafísicas a propósito
das coisas sociais, tome como objetos de suas pesquisas grupos
de fatos nitidamente circunscritos, que possam, de certo modo,
ser apontados com o dedo, dos quais se possa dizer onde come-
çam e onde terminam, e atenha-se firmemente a eles! Que ele te-
nha o cuidado de interrogar as disciplinas auxiliares – história,
etnografia e estatística –, sem as quais a sociologia nada pode
fazer! Se há algo que ele deve temer, é que, apesar de tudo, suas
informações não tenham relação com a matéria que ele tenta
abranger; pois, por maior que seja seu cuidado em delimitá-la,
ela é tão rica e tão diversa que contém como que reservas ines-
gotáveis de imprevisto. Mas não importa. Se o sociólogo pro-
ceder desse modo, mesmo que seus inventários de fatos sejam
incompletos e suas fórmulas muito restritas, ele pelo menos terá
feito um trabalho útil a que o futuro dará continuidade. Pois
concepções que têm alguma base objetiva não dependem estri-
tamente da personalidade de seu autor. Elas têm algo de impes-
soal que faz com que outros possam retomá-las e continuá-las;
elas são suscetíveis de transmissão. Assim, uma certa sequência
tornou-se possível no trabalho científico, e essa continuidade é
a condição do progresso (DURKHEIM, 2000, p. 2-3).

No mesmo prefácio ele reafirma que o “método sociológico


baseia-se inteiramente no princípio fundamental de que os fatos
sociais devem ser estudados como coisas, ou seja, realidades
exteriores ao indivíduo.” [...] “Por fim, para que a sociologia seja
possível, é preciso, antes de mais nada, que tenha um objeto, e que
este objeto seja só dela” (idem, p. 5).
Durante muito tempo o pensamento funcionalista foi a tradição
sociológica dominante. Entretanto, nas últimas décadas,
272 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

[...] a popularidade do funcionalismo começou a diminuir, à


medida que suas limitações começaram a se tornar aparentes.
Uma crítica comum ao funcionalismo é a de que ele enfatiza
desnecessariamente fatores que conduzem à coesão social, às
custas daqueles que produzem divisão e conflito. O enfoque na
estabilidade e na ordem significa que divisões ou desigualdades
na sociedade – baseadas em fatores como classe, raça e gênero
– estão minimizadas. Há igualmente menor ênfase no papel da
ação criativa social dentro da sociedade. Tem parecido a muitos
críticos que a análise funcional atribui às sociedades qualidades
sociais que elas não possuem. Os funcionalistas frequentemente
escreveram como se as sociedades tivessem “necessidades” e
“propósitos”, ainda que esses conceitos fizessem sentido somente
quando aplicados a seres humanos individuais (GIDDENS,
2005, p.35).

Em terceiro lugar, o paradigma epistemológico e metodológico


legado por Weber, expresso nas teorias da ação, enfatiza a atenção
na ação e na interação dos membros da sociedade, ao contrário dos
funcionalistas e defensores do conflito, que destacam as estruturas
da sociedade. Segundo os últimos65, são as estruturas que influen-
ciam os comportamentos dos indivíduos e Weber entende que as
ações e interações dos indivíduos formam aquelas estruturas. Para
Giddens, a perspectiva weberiana considera que “o papel da socio-
logia é abarcar o significado da ação social e da interação mais do
que explicar quais forças externas às pessoas induzem-nas a agir da
forma que agem” (GIDDENS, 2005, p. 35).
Uma das principais escolas que se formaram em torno deste
paradigma é o interacionismo simbólico, cujo elemento-chave é o
símbolo. Giddens afirma: “Visto que os seres humanos vivem num
universo ricamente simbólico, virtualmente todas as interações en-
tre indivíduos humanos envolvem uma troca de símbolos” (GID-
DENS, 2005, p. 36).

65
“A Sociologia de Weber está relacionada com o pensamento marxista na
tentativa comum de perceber as inter-relações em todas as ordens institucionais
que constituem a estrutura social. Na obra de Weber, os sistemas institucionais
militar, religioso, político e jurídico estão funcionalmente relacionados com a
ordem econômica de várias formas. Não obstante, os julgamentos e avaliações
políticos em questão diferem totalmente dos existentes em Marx” (GERTH e
MILLS, 1971, p. 66).
Almiro Petry 273

No início do século XXI, com toda a euforia da globalização


e da sociedade humana globalizada – o encanto da pós-moderni-
dade – sociólogos e pensadores sociais buscam resgatar o concei-
to weberiano do desencantamento, processo a se concretizar com
a ciclicidade das crises do capitalismo. Mesmo que a racionalidade
vinculada ao desenvolvimento do capitalismo, processo apontado
por Weber, tenha se transformado em razão técnica instrumental
em prol do capitalismo, viabiliza-se um processo civilizatório da
modernidade. O esforço weberiano em identificar as inter-relações
econômicas, religiosas e políticas nas antigas sociedades, no feuda-
lismo e no capitalismo revela a opção por uma metodologia orienta-
da pelo tipo ideal, o qual permite desvelar mais aspectos qualitativos
do que quantitativos do objeto empírico em foco. Cabe ressaltar que
a caracterização do tipo ideal é uma construção mental, existente
no plano das ideias sobre a realidade e não na própria realidade.
Por isso, segundo Weber, as características devem ser “exageradas”,
apoiado no pressuposto de que “a realidade social só pode ser conhe-
cida quando aqueles traços” interessam ao pesquisador, permitindo
a clara formulação das relevantes questões “sobre as relações entre
os fenômenos observados” (COHN, 1997, p. 8).
O tipo ideal é, portanto, um recurso metodológico heurístico de
análise histórico-social que orienta o cientista ao

[...] interior da inesgotável variedade de determinados traços


da realidade – por exemplo, aqueles que permitam caracterizar
a conduta do burocrata profissional e a organização em que ele
atua – até concebê-los na sua expressão mais pura e consequente,
que jamais se apresenta assim nas situações efetivamente
observáveis (COHN, 1997, p. 8).

Este recurso metodológico permite diferenciar a ordem histó-


rica da ordem social, construindo a perspectiva historiográfica e a
sociológica, ambas caras a Weber. Em seus estudos e análises da re-
alidade, Weber voltava sua atenção sobre a “configuração histórica
em que vivia”, tendo como referência concreta “o Estado nacional
e, mais especificamente, a Alemanha de sua época” (COHN, 1997, p.
16). A partir desta postura, sugere-se a validade e a confiabilidade
274 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

do método para as análises a serem procedidas dos contextos atuais,


sem se sujeitar à querela de oposição entre o método dito quantita-
tivo e o método dito qualitativo, como propõe Bourdieu.
Nesta perspectiva, está em construção um consenso de que am-
bas as metodologias não se excluem e que não se pode mais man-
ter paradigmas reducionistas e paralelos, embora haja divergências
e antagonismos quanto aos procedimentos. Para Santos (2009), a
tendência é articular as duas metodologias e hibridá-las na constru-
ção de um novo paradigma, ou seja, o paradigma quanti-qualitativo.
Para tanto, a superação das barreiras, historicamente construídas,
parece ser um grande desafio. Também Touraine (2006) entende
que deva ser construído um novo paradigma para compreender o
mundo e a sociedade globalizada.
Por fim, acredita-se que o objetivo proposto para este texto
– traçar algumas ponderações sobre o paradigma epistemológico
da reconhecida tríade de clássicos, tidos por fundadores da
sociologia – tenha sido relativamente atingido; por outro lado,
muitas das questões não abordadas, em especial dos pensadores que
desdobraram a concepção seminal dos clássicos durante o século
XX e na passagem para o século XXI, são temas em aberto.

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III
PARTE

O Pensamento dos Clássicos


282 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos
Almiro Petry 283

- KARL MARX: OBRA E MÉTODO -


Almiro Petry 285

1. Introdução

Pretende-se, nesta compilação, destacar aspectos relevantes da


contribuição de Karl Marx (1818-1883)66 na fundação e consolidação
da moderna sociologia como ciência da sociedade humana. O olhar
de Marx lança uma nova perspectiva de análise e interpretação,
emoldurada pela dialética materialista convergente para a
abordagem histórico-estrutural, frente ao idealismo e ao positivismo,
contribuindo de modo singular para o conjunto de conhecimentos
da teoria social. Daí emerge sua importância e relevância no campo
metodológico, epistemológico e conceitual como um dos fundadores
da sociologia, na análise e na interpretação da realidade social67.

1.1 Dados biográficos

Karl Marx nasce (05.05.1818) em Trier, Prússia renana,


segundo dos oito filhos do advogado Hirschel Marx e de Henrietta
Pressburg, ambos de famílias judaicas, pertencentes à burguesia
média. Em 1824, Hirschel converte a família ao cristianismo e
adota o nome germânico de Heinrich, para poder assumir uma
cadeira como Conselheiro da Justiça68. Karl realiza seus estudos
secundários no Liceu de Trier (1830-1835). Vai a Bonn e inicia, aos
17 anos, seus estudos de Direito, na Universidade de Bonn (1835-
1836). Descobre a vida boêmia e as farras dos estudantes. Celebra
seu noivado com Jenny von Westphalen (1814-1881), de família
recém-aristocratizada69.

66
Karl Heinrich Marx
67
Aron (2005) chama a atenção sobre três categorias etimológicas: a) marxólogo:
é o especialista no conhecimento e na interpretação científica do pensamento de
Marx; b) marxiano: é o indivíduo que se remete ao pensamento de Marx, sem
pertencer à interpretação ortodoxa do marxismo; c) marxista: é aquele indivíduo
que assim se declara por ter filiação a um partido comunista, ou por adesão a práxis
do ideário de Marx, ou por sua vinculação a um Estado ou república popular.
68
A ascensão à magistratura obrigara-o a submeter-se a imposições legais de
caráter antissemita.
69
Baronin Johanna Bertha “Jenny” von Westphalen.
286 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Em Berlim, continua os estudos em Direito na Universidade


de Berlim. Lá estuda Filosofia e História. Frequenta o Doktor Club
dos jovens hegelianos (1836-1841). Aos vinte anos (1838), perde o
pai, que lhe dera uma formação intelectual vigorosa, da qual guar-
daria gratas recordações. Em 1841, doutora-se pela Faculdade de
Filosofia de Jena70, com a tese Über die Differenz der demokritischen
und epikureischen Naturphilosophie. Sente-se atraído pelos filósofos
gregos materialistas Demócrito e Epicuro71, apesar da ambiência
intelectual ser do idealismo vigente. Torna-se um adepto da facção
de esquerda de Georg W. F. Hegel (1770-1831).
Em 1842, instala-se em Bonn e colabora com a Rheinische Zei-
tung de Colônia72. Logo ocupa o cargo de redator-chefe (1842-1843).
Em 1843, decepcionado com a atitude dos acionistas, de orientação
liberal, que impõem restrições a seus artigos, deixa o cargo. A cen-
sura prussiana fecha o jornal. Em 1843, casa com Jenny von Wes-
tphalen, que troca o ambiente familiar confortável por uma vida
atribulada com um líder revolucionário. Desse casamento, nascem
sete filhos, mas somente três chegam à vida adulta: Jenny, Laura e
Eleanor73.
Migra para Paris e colabora com o Deutsch-Französische Jahur-
bücher74, onde publica, em 1844, os ensaios: Introdução à crítica à fi-
losofia do direito de Hegel e A questão judaica. Inicia sua transição do
liberalismo ao comunismo, ou seja, do idealismo ao materialismo.
Conhece Friedrich Engels (1820-1895), filho de um industrial têx-

70
Seu orientador, Bruno Bauer, neo-hegeliano, perdera a cátedra em Bonn; não
quis submeter-se a condições adversas, buscando outra universidade. Hoje:
Friedrich-Schiller-Universität Jena, em Jena, Freistaat Thüringen.
71
Filósofos gregos: Demócrito de Abdera (cerca de 460 a.C. – 370 a.C.), defensor
do “atomismo” [tudo o que existe é constituído por partículas indivisíveis: os
átomos] e Epicuro de Samos (cerca de 341 a.C. – 271 ou 270 a.C.), seguidor do
ideário de Demócrito.
72
Gazeta Renana, financiada pela burguesia local.
73
Jenny Caroline (1844-1882), casada com Charles Longuet (1839-1903); Jenny
Laura (1845-1911), casada com Paul Lafargue (1842-1911); Edgar (1847-1855);
Henry Edward Guy (1849-1850); Jenny Eveline Frances “Franziska” (1851-
1852); Jenny Julia Eleanor (1855-1898), se suicidou ao descobrir que Edward
Aveling (1849-1898) se casara com outra jovem, ele é cotradutor de O Capital
para o inglês (1886); e o sétimo, sem nome, nasceu e morreu em julho de 1857.
74
Anais Franco-Alemães, de Arnold Ruge [1802-1880], da esquerda hegeliana.
Almiro Petry 287

til, que quis vê-lo na carreira dos negócios, afastando-o da univer-


sidade. Mas, dotado de rara inteligência e curiosidade intelectual,
adquire em cursos livres um saber enciclopédico. É um autodidata
incansável. Em contato com a esquerda hegeliana e do materialismo
feuerbachiano, aproxima-se do socialismo e da Economia Política.
Na estada em Paris (1844-1845), Marx mantém contatos
com Christian Johann Heinrich Heine (1797-1856), Pierre-Joseph
Proudhon (1809-1865) e Mikhail Alexandrovich Bakunin (1814-
1876). Principia, com Engels, os estudos em Economia Política.
Preenche vários cadernos com reflexões filosóficas sobre a economia
e a fenomenologia de Hegel. São os Manuscritos econômico-filosóficos
de 184475. Da amizade e estudos com Engels, resulta a primeira obra
conjunta: Die heilige Familie, escrita em 1844 e publicada em 184576.
Uma colaboração intelectual e política que se prolonga por quatro
décadas.
Ao pedido do governo prussiano, é expulso, em 1845, de
Paris. Refugia-se, provisoriamente, em Bruxelas. No mesmo ano,
acompanha Engels à Inglaterra. Escrevem Die deutsche Ideologie
(1845-1846)77. Esse texto é o corte epistemológico na trajetória do
pensamento de Marx e Engels e estabelece a matriz epistemológica
da dialética materialista, desenvolvendo o que foi denominado de
materialismo histórico. Do desentendimento com Proudhon nasce
Misérie de la Philosophie (1847), escrito em francês.
Em novembro de 1847, Marx e Engels vão a Londres partici-
par do II Congresso da Liga dos Comunistas, organização de emi-
grados alemães. Recebem a incumbência de redigir um manifesto
que apresentasse os objetivos socialistas dos trabalhadores, frente

75
Ou, simplesmente, Manuscritos de 1844, publicados em 1932, na União Soviética.
76
Die heilige Familie – oder Kritik der kritischen Kritik. Gegen Bruno Bauer &
Consorten. Os irmãos Bauer: Bruno Bauer (1809-1882), Edgar Bauer (1820-1886)
e Egbert Bauer. O texto assinala o rompimento com a esquerda hegeliana.
77
Não encontram editores e o manuscrito é entregue à ‘crítica roedora dos ratos’,
segundo Marx; publicado em 1932, na União Soviética. A Ideologia Alemã – crítica
da filosofia alemã de seu tempo, com seus principais representantes: Ludwig
Andreas Feuerbach (1804-1872), Bruno Bauer (1809-1882), Max Stirner (1806-
1856, pseudônimo de Johann Kaspar Schmidt) e do socialismo alemão com seus
diferentes profetas.
288 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

à eclosão de uma onda revolucionária no ocidente europeu. O re-


sultado é O manifesto do partido comunista (1848), que inicia com a
frase emblemática: “A história de toda sociedade até nossos dias é a
história da luta de classes”.
Em 1848, é expulso de Bruxelas. Instala-se brevemente em Pa-
ris, apoiando o proletariado na revolução de 1848. Com as revoltas
contra a monarquia prussiana, Marx e Engels voltam para a Ale-
manha. Marx torna-se redator-chefe da Neue Rheinische Zeitung e
desenvolve uma campanha ativa para radicalizar o movimento revo-
lucionário na Alemanha. Em 1849, publica Trabalho, salário e capital.
É expulso da Renânia. Volta para Paris. E, no mesmo ano, migra
para Londres, onde se fixa definitivamente.
Sobre o período revolucionário francês (1848-1851) publica Die
Klassenkämpfe in Frankreich 1848 bis 1850 (1850) e The Eighteenth
Brumaire of Louis Bonaparte (1852). Para garantir a sua sobrevivência
e a da família, contribui com o New York Tribune (1851-1862) e o Die
Presse de Viena (1861).
Isso o obriga a abandonar seus estudos econômicos (1852-
1857). Em 1852, a Liga dos Comunistas é dissolvida e os comunistas
perseguidos, de modo especial em Colônia. Retoma os estudos
econômicos (1857-1858) e delineia numerosos esboços e notas,
somente descobertas em 1923. É desse período: Grundrisse der Kritik
der politischen Ökonomie 1857-1858, publicado em 1939, e citado,
simplesmente como Grundrisse78. Em 1859, publica Zur Kritik
der politischen Ökonomie e, um ano depois, Herr Vogt79. Em 1861,
viaja para a Holanda e a Alemanha. Visita Lassalle80, em Berlim,
com o qual rompe em 1862. Sua situação financeira se agrava.
Em 1864, participa da formação da Associação Internacional dos
Trabalhadores (I Internacional), para a qual redige o estatuto e
profere o discurso inaugural. Em 1865, publica Salário, preço e mais-
valor e participa, em Londres, da reunião da I Internacional.

78
Publicado, em 2011, na íntegra em português pela BOITEMPO EDITORIAL.
79
Karl Christoph Vogt (1817-1895), filósofo, zoólogo, geólogo e opositor de Marx.
A obra contém a polêmica entre ambos e as respostas às calúnias proferidas por
Vogt contra Marx.
80
Ferdinand Johann Gottlieb Lassalle (1825-1864).
Almiro Petry 289

Engels fixara residência em Manchester, gerindo os interesses


da firma paterna, associada a uma indústria têxtil inglesa, e dá ajuda
financeira a Marx. Dessa circunstância, nasce uma copiosa corres-
pondência epistolar entre ambos. Deste modo, consegue publicar,
em 1867, Das Kapital: Kritik der politischen Ökonomie (Buch 1: Der
Produktionsprozess des Kapitals). Em 1868, inicia o estudo da língua
russa para melhor compreender a estrutura e a vida da comuna ru-
ral russa81. Seus estudos econômicos são interrompidos pela luta
com Bakunin, no seio da Internacional. A partir de 1869, Engels
garante uma renda anual a Marx e sua família. Engels sacrifica seus
estudos para favorecer o amigo, porque achava gratificante o ami-
go poder dedicar o máximo de tempo às investigações econômicas.
Marx já era frequentador do British Museum. Isso o tornou mais
assíduo, pelo acervo bibliográfico de incomparável riqueza aí guar-
dado. Em 1871, publica A guerra civil na França e, em 1875, Gotha
– comentários à margem do programa do Partido Operário Alemão
(ou Crítica ao programa de Gotha). Nesse ano, é publicada a tra-
dução francesa de O Capital. Em 1880, colabora com Jules Guesde
(1845-1922)82 nos considerandos do Partido Operário Francês e es-
creve o preâmbulo do programa. Em 1881, morre Jenny, o que abala
profundamente Marx. Ele viaja à França e à Suíça (1882) e tem
uma estada em Argel. No mesmo ano, morre sua filha Jenny (1844-
1882), inestimável colaboradora e secretária.
Karl Marx morre (14.03.1883) em Londres, deixando um lega-
do extraordinário no campo da investigação econômica, histórica,
jurídica, filosófica e sociológica.
São publicadas, como obras póstumas: em 1885, O Capital (Li-
vro II – The Process of Circulation of Capital, publicado por Engels);
em 1894, O Capital (Livro III – Der Gesamtprozess der kapitalistischen
Produktion, publicado por Engels. Escreveu por inteiro o capítulo IV,
assinado com as iniciais F.E.); entre 1905-1910, O Capital (Livro IV

81
A obschtschina (Dorfgemeinschaft); Marx passa a ser, quiçá, o único economista
europeu ocidental a conhecer o idioma russo.
82
Fundou o Partido Operário Francês, tendo por cofundador Paul Lafargue.
290 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

– Theorien über den Mehwert, publicado por K. Kautsky83); em 1932,


A ideologia alemã e Manuscritos econômico-filosóficos de 1844; entre
1939-1941, Princípios da crítica da economia política.

1.2. Marco social

O contexto histórico em que Marx vive é a época pós-revolu-


ção francesa e a primeira revolução industrial com a consolidação
do capitalismo industrial. Transcorre na Europa um período em que
as potências da Santa Aliança pretendiam erradicar os efeitos pós-
napoleônicos e os traços da Revolução Francesa. Ao mesmo tempo,
produzia-se na Alemanha um movimento liberal, cujos efeitos fa-
ziam-se sentir na economia, na política e na filosofia.
O aparecimento de uma nova classe na sociedade ocidental – o
proletariado – cria as condições para o surgimento de uma teoria
crítica da sociedade. Na nascente sociedade industrial, persistem as
relações de exploração entre as classes sociais, “gerando uma si-
tuação de miséria e de opressão”, o que desencadeia “levantes re-
volucionários por parte das classes exploradas” (MARTINS, 1982,
p.54). Marx encontra em Hegel uma das figuras mais expressivas da
filosofia alemã. Lá busca sua dialética, ressalta seu caráter revolucio-
nário e procura corrigir seu idealismo, recorrendo ao materialismo.
Cresce a ideia de que não basta interpretar o mundo. Mas trata-se
de transformá-lo (XI Tese ad Feuerbach). Formula-se a tese de que
as sociedades humanas encontram-se em contínua transformação “e
que o motor eram os conflitos e as oposições entre as classes sociais”
(MARTINS, 1982, p.57).
A revolução industrial – introduz a máquina a vapor e aper-
feiçoa os métodos produtivos – representa o triunfo da indústria
capitalista com seu processo concentrador de máquinas, de ferra-
mentas, de terras, de riquezas e de poder, gerando grandes massas
humanas em trabalhadores despossuídos. A Inglaterra, por exem-

83
Karl Johann Kautsky (1854-1938).
Almiro Petry 291

plo, no período entre 1780 e 1860, de uma população rural dispersa,


passa a ter enormes cidades em decorrência da industrialização e da
urbanização84. A rápida industrialização e urbanização geram um
“aumento assustador da prostituição, do suicídio, do alcoolismo, do
infanticídio, da criminalidade, da violência, de surtos de epidemia de
tifo e cólera que dizimaram parte da população, etc.” (MARTINS,
1982, p.13-14). Nessa época, era constante a utilização “intensiva do
trabalho barato de mulheres e crianças, uma desordenada migração
do campo para a cidade, gerando problemas de habitação, de higie-
ne, etc.” (MARTINS, 1982, p.25).
Os trabalhadores, jogados na pobreza e na miséria, revoltam-
se destruindo as máquinas85, ou com sabotagens, evoluindo
para a criação de associações livres e a fundação de sindicatos. A
burguesia utiliza o aparato estatal para reprimir com violência a
classe trabalhadora, em 1848, na França, que é abalada pela fome
generalizada (1847), pela cólera e pela revolução de 1848, que se
estende até 1851. Em 1848, a classe operária institui, em Paris, a
república social. Marx é envolto nesse clima. Vê nessas revoltas o
pródromo de uma revolução social: a passagem da revolução contra
a aristocracia para a revolução contra a burguesia, da subversão
contra o Estado monárquico para a subversão contra toda a ordem
social (ARON, 2000, p. 257).
Destacam-se, ainda, como marcos: a guerra austro-prussiana
(1866); a guerra franco-alemã (1870); a unidade alemã e italiana; o
proletariado parisiense, que estabelece a Comuna de Paris (1870,
derrotada em 1871), entre outros momentos marcantes na vida desse
pensador crítico. Imbuído do espírito moderno, Marx é o filósofo,
o sociólogo e o economista da moderna sociedade capitalista: tem
uma teoria sobre esse regime, como age sobre os homens e sobre o
devir. Está mergulhado nas promessas da modernidade e que é sua
esperança: liberdade, igualdade e fraternidade.

84
Manchester, em inícios do século XIX tinha setenta mil habitantes; cinquenta
anos depois, possuía trezentas mil pessoas.
85
Os luditas, nos quinze primeiros anos do século XIX, na Inglaterra; 1816-1817,
e entre 1825-1827, na França.
292 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

2. A Obra

Marx é, talvez, o primeiro pensador que haure suas ideias da


tradição alemã, da francesa e da inglesa. Sua trajetória é transnacio-
nal, pois se consolida através do itinerário geográfico: Trier – Bonn
– Berlim – Paris – Bruxelas – Londres. Encontra os postulados bri-
tânicos e franceses gravitando em torno das questões do individua-
lismo metodológico e normativo versus o realismo e a normatividade
sociais. Em oposição, a tradição alemã girava em torno da questão
do voluntarismo versus o naturalismo, em contraste com o individu-
alismo de Kant e as teorias de Volksgeist de Herder e Hegel (LEVI-
NE, 1997, p.197-8).
Em Bonn e Berlim, Marx adere ao liberalismo kantiano e ao
patriotismo nacional, sob a influência paterna. Do idealismo alemão
absorve “uma esfera de liberdade humana que transcende o mundo
de ocorrências meramente naturais” (LEVINE, 1997, p.193). O
contato com Hegel gera um conflito entre o que é e o que deve
ser. Troca Kant por Hegel, porque vê nele a real possibilidade de
realizar a “liberdade humana nas vicissitudes da história humana”
(LEVINE, 1997, p.193). Encontra os discípulos do mestre divididos
em conservadores e da esquerda, a partir do aforismo (máxima) o
que é racional é real; o que é real é racional. Os primeiros enfatizam
a segunda cláusula, e tentam mostrar o caráter racional do mundo.
Os segundos destacam a primeira cláusula, e sustentam que a
verdadeira racionalidade é a base para a crítica da sociedade.
Em Paris, ele toma contato com as ideias de Fourier86 e com os
socialistas – Proudhon, Dézamy87, Cabet88, Leroux89 – e os lê avi-
damente. Aproxima-se das ideias de Fourier, Bakunin e Proudhon.
Começa a reviravolta intelectual. Vê no proletariado francês a classe
revolucionária, como sucessora da burguesia, capaz de uma total
redenção da humanidade. Percebe o quanto a filosofia alemã era ide-

86
François Marie Charles Fourier (1772-1837).
87
Théodore Dézamy (1808-1850).
88
Étienne Cabet (1788-1856).
89
Pierre Leroux (1798-1871).
Almiro Petry 293

ológica. Os contatos com Engels lhe permitem familiarizar-se na


Economia Política inglesa. Suas reflexões são anotadas em cader-
nos, publicadas, em 1932, como os Manuscritos de 1844.
Marx integra as três tradições, aplicando o método de
progressiva substituição.

Sua síntese final combinou a noção de autodeterminação de


Kant, a noção de desenvolvimento histórico coletivo de Hegel,
as noções francesas de humanidade associada e classes sociais, e
a concepção britânica de esforço competitivo para a realização
de interesses individuais no mercado. Uma vez que recorreu
efetivamente a uma variedade de atraentes tradições filosóficas,
seu método de síntese produziu uma fórmula ideológica que
provou ser poderosamente sedutora para os intelectuais
(LEVINE, 1997, p.200).

Dessa forma, ele fundiu a teoria e a prática, o que expressa na


XI Tese ad Feuerbach. Nega, assim, a separação entre as atividades
intelectual e prática (ver Teses II, V, VII e VIII).
Costuma-se dividir a obra de Marx em Marx jovem, abrangendo
o período de 1835-1850 e Marx adulto, período em que O capital
constitui sua unidade de pensamento. A fase do Marx jovem
conclui com a consolidação da matriz epistemológica da dialética
materialista, o coroamento intelectual que o conduziu da filosofia
à sociologia e à economia. Os textos e escritos até a radicação
definitiva em Londres são dessa fase.
O Capital, um texto de Economia Política, é a obra principal
da fase adulta. No Posfácio da segunda edição alemã (1873) de O
Capital, frente aos elogios e críticas recebidas, Marx descreve a
fundamentação do método da dialética materialista por ele aplicado
(ver item 3 deste texto).
No mesmo Posfácio, considera que “a Economia Política só pode
permanecer como ciência enquanto a luta de classes permanecer
latente ou só se manifestar em episódios isolados”, porque a
burguesia não compreende “a ordem capitalista como um estágio
historicamente transitório da evolução”, mas a encara como “uma
configuração última e absoluta da produção social” (MARX, 2013,
p. 90).
294 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

A aceitação de O Capital foi tão grande que Engels, no Prefá-


cio da edição inglesa (1886), diz que, no continente europeu, a obra
é chamada frequentemente de ‘Bíblia da classe operária’. E que os
trabalhadores ingleses não poderiam permanecer privados desses
“princípios fundamentais do grande movimento da classe operária”,
bem como o movimento socialista inglês.
Marx e Engels se preocupam em explicar que a crítica da dialé-
tica hegeliana, do materialismo feuerbachiano, do socialismo utópico
francês e da economia política inglesa resulta da revolução científica
realizada por eles, ou seja, da produção simultânea do método e da
análise e interpretação do capitalismo. Em O Capital, Marx defende
a tese: “Toda a ciência seria supérflua, se a aparência exterior e a es-
sência das coisas coincidissem diretamente” (MARX, apud: IANNI,
1996, p.11). Por conseguinte, a análise dialética materialista é um
robusto instrumental para desmascarar as ideias, os conceitos, as
representações, os símbolos de dado contexto histórico e libertar
as pessoas e as classes sociais de suas consciências determinadas
pela superestrutura vigente. Porque “não é a consciência dos ho-
mens que determina a realidade; ao contrário, é a realidade social
que determina sua consciência” (MARX, apud: IANNI, 1996, p.83).

2.1. Alienação

A alienação é a manifestação inicial da consciência humana


em dado estado da existência. O estado de alienação (Entäusserung,
Veräusserung, Entfremdung) falseia a realidade ou oculta os processos
e ligações do contexto sócio-econômico-político. Em sentido lato,
o estado de alienação impede o indivíduo de ter uma visão política,
econômica e social da sociedade e do papel que nela desempenha.
Marx, em Trabalho alienado, ainda julga o proletariado como
classe alienada, porque a situação de fato é paradoxal, considerando
a posição dos operários perante os produtos de seu trabalho. Escre-
ve:
Almiro Petry 295

Partiremos de um fato econômico contemporâneo. O trabalha-


dor fica mais pobre à medida que produz mais riqueza e sua
produção cresce em força e extensão. O trabalhador torna-se
uma mercadoria ainda mais barata à medida que cria mais bens.
A desvalorização do mundo humano aumenta na razão direta
do aumento de valor do mundo dos objetos. O trabalho não cria
apenas objetos; ele também se produz a si mesmo e ao trabalha-
dor como uma mercadoria, e, deveras, na mesma proporção em
que produz bens (MARX, 1964, p. 94-5).

E sintetiza que o sistema de alienação: “propriedade privada,


ganância, separação entre trabalho, capital e terra, troca e competição,
valor e desvalorização do homem, monopólio e competição” (idem,
p.95) tem uma ligação real com o sistema do dinheiro. Com Marx,
pela primeira vez, “a alienação era vista enquanto processo da
vida econômica. O processo por meio do qual a essência humana
dos operários se objetivava nos produtos do seu trabalho e se
contrapunha a eles por serem produtos alienados e convertidos em
capital” (GORENDER, 2013, p. 19).
Dessa forma, o sistema de alienação assim é expresso:

[...] quanto mais o trabalhador produz, tanto menos tem para


consumir; quanto mais valor ele cria, tanto menos valioso se
torna; quanto mais aperfeiçoado o seu produto, tanto mais
grosseiro e informe o trabalhador; quanto mais civilizado o
produto, tão mais bárbaro o trabalhador; quanto mais poderoso o
trabalho, tão mais frágil o trabalhador; quanto mais inteligência
revela o trabalho, tanto mais o trabalhador decai em inteligência
e se torna um escravo da natureza (MARX, 1964, p.96).

Considerando que o trabalhador nada pode criar sem a nature-


za, que proporciona os meios de existência do trabalho, a produção
do trabalhador é o fenômeno da objetificação. Mas a perda do objeto
por ele produzido é a alienação. Por isso, para Marx, “quanto mais
o trabalhador apropria o mundo externo da natureza sensorial por
seu trabalho, tanto mais se despoja de meios de existência” (MARX,
1964, p.96). Nesse caso, o trabalhador se converte em escravo do
objeto. Num primeiro momento, ele se mantém como trabalhador
296 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

e depois, no apogeu da escravização, apenas como sujeito físico. Ou


seja, o processo de alienação do trabalho é a essência desse fenôme-
no. Na relação direta entre o trabalhador e a produção, o trabalho
humano...

[...] produz maravilhas para os ricos, mas produz privação


para o trabalhador. Ele produz palácios, porém choupanas é o
que toca para o trabalhador. Ele produz beleza, porém para o
trabalhador só fealdade. Ele substitui o trabalho humano por
máquinas, mas atira alguns dos trabalhadores a um gênero
bárbaro de trabalho e converte outros em máquina. Ele produz
inteligência, porém também estupidez e cretinice para os
trabalhadores (MARX, 1964, p.97).

Para Marx, o ato de alienação da atividade humana prática –


o trabalho – tem três características: (1) “a relação do trabalhador
com o produto do trabalho como um objeto estranho que o domina”
[...]; (2) “a relação do trabalho como o ato de produção dentro do
trabalho. Essa é a relação do trabalhador com sua própria atividade
humana como algo estranho e não pertencente a ele mesmo. Isso
é autoalienação” [...]; (3) “aliena a natureza do homem e aliena o
homem de si mesmo, de sua própria função ativa, de sua atividade
vital, assim também o aliena da espécie” (MARX, 1964, p. 98-100).
O ser humano, para Marx, é um ente-espécie90, que faz da
comunidade seu objeto e se trata a si mesmo como um ser universal
e, consequentemente, livre. Dessa forma, o homem é um ente-
espécie, um ser coletivo, um ser consciente, um ser que trabalha
– “o homem faz de sua atividade vital um objeto de sua vontade e
consciência” (MARX, 1964, p.100). O ser humano necessita de toda
a generalidade de sua espécie e natureza, e sua atividade vital se
volta, exclusivamente, para sua existência. Nessa condição, através
da atividade vital, exterioriza a sua subjetividade na matéria,
transformando-a e humanizando-a. Mas a condição alienada produz
uma falsa generalidade de homem, de trabalhador e de cidadão.

90
Conceito tomado de Feuerbach, a partir do “ser genérico”.
Almiro Petry 297

Em suma, as formas de alienação são: (a) alienação do objeto –


o trabalho é a atividade humana de exteriorizar-se na matéria. O
objeto do trabalho (o produto) passa a conter parte da vida do traba-
lhador (sua subjetividade), mas, ao usufrui-lo, o objeto é lhe retirado;
(b) alienação do trabalho – o trabalho é imposto, não é voluntário;
é trabalho forçado; ele não é a satisfação de uma necessidade, mas
meio para satisfazer outras necessidades, tornando-se um sacrifício,
uma mortificação; é a condição e não fim da existência; (c) alienação
do homem – a consciência que o homem tem de sua espécie é trans-
formada, “de sorte que a vida como espécie torna-se apenas um meio
para ele” (MARX, 1964, p.101). O ser humano se aliena dos outros
seres humanos. Torna-se um ser estranho. A privação do objeto tor-
na o objeto estranho. Ele pertence a outrem, que é “estranho, hostil,
poderoso e independente, é o dono de seu objeto” (MARX, 1964,
p.103). Então, Marx é enfático:

[...] graças ao trabalho alienado, por conseguinte, o homem não


só produz sua relação com o objeto e o processo da produção
como com homens estranhos e hostis; também produz a relação
de outros homens com a produção e o produto dele; e a relação
entre ele próprio e os demais homens (MARX, 1964, p.103).

Do estado de alienação, o proletariado como classe – passando


por diversas etapas de desenvolvimento – tem a possibilidade de
superá-lo pela consciência da práxis, porque “a consciência nunca
pode ser outra coisa senão o ser consciente, e o ser dos homens é o
seu processo real de vida [...]. A produção das ideias, representações
da consciência, está a princípio diretamente entrelaçada com a
atividade material” (MARX e ENGELS, 1984, p.22).
Desde esse instante, a consciência está em condições de eman-
cipar-se do estado alienado, porque os conflitos e as contradições
entre proprietários e não-proprietários aparecem. Configuram-se
os antagonismos entre as classes sociais, porque onde predomina a
propriedade privada não pode haver interesse social comum. O ser
humano se libertará desse domínio, dessa escravidão no mundo real,
com meios reais. “A libertação é um ato histórico, não um ato de pen-
samento, e é efetuada por relações históricas” (MARX e ENGELS,
298 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

1984, p. 25), em consequência de o ser humano ser eminentemente


histórico e social.

2.2. Proletariado

Para Marx, o trabalho alienado do trabalhador cria a relação de


outro ser humano que não trabalha. Essa é a origem do proletariado
e da burguesia – o capitalista, o comprador de mão-de-obra. A
propriedade privada é o produto do trabalho alienado. Da mesma
forma, os salários são consequência do trabalho alienado.
Com a experiência que teve com os operários de Paris e com a
revolta dos trabalhadores da Silésia (Schlesien), Marx chega à con-
clusão de que há excelente disposição do proletariado ao socialismo.
Escreve no artigo O rei da Prússia e a reforma social, por um Prussia-
no (Vorwärts, 1844): “É só no socialismo que um povo filosófico pode
encontrar sua prática (práxis) adequada; e, portanto, é só no prole-
tariado que ele pode encontrar o elemento ativo (tätige Element) de
sua libertação” (MARX, apud: LÖWY, 2002, p.151). Marx mostra
seu itinerário intelectual e revela sua autoemancipação teórica (do
hegelianismo, do feuerbachianismo, etc.) na construção da teoria re-
volucionária do proletariado. Por conseguinte, Marx defende (a) que
o povo e a filosofia não são mais representados como dois termos
separados (povo filosófico supera essa oposição); (b) que o socialis-
mo não é mais apresentado como uma teoria pura, mas como uma
práxis; (c) que o proletariado é o elemento ativo da emancipação
(LÖWY, 2002, p.151).
Em O manifesto do partido comunista (1848), Marx e Engels des-
crevem as etapas do desenvolvimento do proletariado na luta contra
a burguesia. O primeiro estágio é a dispersão da massa operária,
dividida pela concorrência. São lutas isoladas, na mesma fábrica, no
mesmo setor fabril; destroem máquinas e mercadorias, etc. O segun-
do estágio decorre da expansão da indústria e do próprio proletaria-
do. Os interesses no seio do proletariado homogeneizam-se. A con-
corrência entre a burguesia torna o salário dos operários, sempre
Almiro Petry 299

mais instável. Os conflitos se tornam conflitos entre duas classes.


Os operários formam coalizões contra os burgueses. Fundam asso-
ciações. A luta transforma-se em motins. O terceiro estágio é a luta
política, porque o caráter da luta é nacional e é uma luta de classes.
O que a burguesia levou séculos para sua união (a partir da Idade
Média), o proletariado moderno realizou em poucos anos (favoreci-
do pelas ferrovias) (MARX e ENGELS, 2001, p.37-40).
Marx e Engels afirmam enfaticamente:

De todas as classes que hoje enfrentam a burguesia, somente


o proletariado é uma classe realmente revolucionária. As
outras classes vão degenerando e tendem a desaparecer
com o desenvolvimento da grande indústria, ao passo que o
proletariado é o seu produto característico (MARX e ENGELS,
2001, p.41).

Eles acreditam que a condição essencial da existência e da


supremacia da classe burguesa

[...] é a acumulação da riqueza nas mãos privadas, a formação


e o incremento do capital. A condição de existência do capital
é o trabalho assalariado. Este repousa exclusivamente na
concorrência entre os operários. [...] A burguesia produz,
acima de tudo, seus próprios coveiros. Sua queda e a vitória do
proletariado são, igualmente, inelutáveis” (MARX e ENGELS,
2001, p.45).

Historicamente, foi preciso algum tempo e alguma experiência


“até que o trabalhador distinguisse entre a maquinaria e sua apli-
cação capitalista e, com isso, aprendesse a transferir seus ataques,
antes dirigidos contra o próprio meio material de produção, para
a forma social de exploração desse meio” (MARX, 2013, p. 501),
porque “o sistema inteiro da produção capitalista baseia-se no fato
de que o trabalhador vende sua força de trabalho como mercadoria”
(idem, p. 503).
Marx e Engels, em O manifesto, enfatizam duas contradições da
sociedade capitalista. A primeira é a contradição entre as forças e as
300 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

relações de produção. A burguesia cria incessantemente meios de


produção mais poderosos91, para aumentar o mais-valor (Mehrwert),
frente à fragilidade da força de trabalho. Por conseguinte, o regime
capitalista é capaz de produzir cada vez mais riqueza. A segunda
é a contradição entre o aumento da riqueza e a crescente miséria
da maioria. Dessa irromperá a crise revolucionária, liderada pelo
proletariado. Como classe social – com consciência de classe –
aspira à tomada do poder e à transformação das relações sociais.
“A revolução do proletariado será feita pela imensa maioria, em
benefício de todos. A revolução proletária marcará assim o fim das
classes e do caráter antagônico da sociedade capitalista” (ARON,
2000, p.131).
Historicamente, o proletariado sofre a experiência humana
radical: o desemprego, a fome, o frio e a morte. Como mercadoria, é
um produto de mercado (regido pela lei da oferta e da procura). O
trabalhador – como sujeito histórico – é um escravo do capitalista
e da máquina. Na medida em que percebe que o seu problema é o
problema da classe inteira (desalienação, ou seja, conscientização),
surge a consciência de classe (torna-se uma classe para si). Nessa
condição, o proletariado se organiza como classe, única capaz de
destruir a sociedade burguesa. Os comunistas

[...] são a fração mais decidida, mais mobilizadora dos partidos


operários de todos os países, [...] têm sobre o resto do
proletariado, a vantagem de ter uma visão clara das condições,
da marcha e dos resultados gerais do movimento proletário
[...]. O objetivo imediato dos comunistas é o mesmo de todos
os demais partidos proletários: formação do proletariado em
classe, derrubada da dominação burguesa, conquista do poder
político pelo proletariado (MARX e ENGELS, 2001, p.46-7).

No Manifesto, Marx e Engels profetizam:

O proletariado utilizará seu poder político para arrancar


pouco a pouco todo o capital da burguesia, para centralizar

91
Marx desenvolve esta temática no Capítulo 13 – Maquinaria e grande indústria
em O capital. Na edição Boitempo, 2013, p. 445-574.
Almiro Petry 301

todos os instrumentos de produção nas mãos do Estado, isto


é, do proletariado organizado como classe dominante, e para
aumentar, o mais rapidamente possível, o contingente das
forças de produção (MARX e ENGELS, 2001, p.59).

Então, o primeiro passo da revolução operária será “a ascensão


do proletariado à classe dominante e à luta pela democracia” (MARX
e ENGELS, 2001, p.59). Isso exigirá intervenções despóticas no
direito de propriedade e nas relações de produção burguesas.
O Estado – o poder político – é tido como “o poder organizado
de uma classe, para a opressão de outra” (MARX e ENGELS, 2001,
p.61). Desta forma, o proletariado, na luta revolucionária contra
a burguesia, se converterá em classe dominante e suprimirá, pela
violência, as antigas relações de produção, e, em decorrência, as
condições de existência da oposição de classe e as classes em geral
(MARX e ENGELS, 2001, p.61-2).
Para Marx, a luta de classes é uma luta política na medida em
que a “massa” trabalhadora se constitui “em classe para si mesma”,
em decorrência de a dominação do capital ter gerado “interesses
comuns”, configurando a “massa” como “uma classe diante do
capital”. Aí emerge a consciência da necessidade da “associação”
frente à opressão, início da consciência dos “interesses de classe”,
alicerce da luta de classes, na sociedade baseada “no antagonismo
das classes” (MARX, 2001, p. 151).

2.3. Socialismo

O itinerário intelectual de Marx é o do liberalismo burguês


para o comunismo (GORENDER, 2013, p. 15), expresso em vários
textos (artigos, ensaios e obras), culminando em O manifesto do
partido comunista.
O texto A ideologia alemã (escrito entre o outono de 1845 e a
primavera de 1846) é o ponto de chegada, na evolução da formu-
lação da teoria da revolução (1844-1846), que inicia com os Ma-
nuscritos econômico-filosóficos de 1844, passa pela A sagrada família e
302 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

explode com as Teses ad Feuerbach (1845). Em A ideologia alemã são


desenvolvidas as teses da concepção materialista da história e a crí-
tica ao pensamento de L. Feuerbach, B. Bauer, M. Stirner (filósofos
alemães neo-hegelianos). Nesse texto, Marx e Engels consolidam
sua nova Weltanschauung92, como matriz epistemológica: no campo
filosófico, no antropológico e no político. É a ruptura radical com
a posição tradicional, fazendo a trajetória do idealismo para o ma-
terialismo; do ser humano como ente abstrato para o ser humano
histórico concreto; do Estado burguês para o comunismo, passando,
concretamente pelo Estado proletário totalitário.
A nova Weltanschauung é a filosofia da práxis aprendida com
o movimento operário como atividade revolucionária, ou seja, a
luta contra o estado de coisas existentes93. Essa luta, essa prática,
historicamente decisiva e humanamente necessária, está em
contradição com o esquema feuerbachiano, constituído por duas
categorias: a da cabeça – atividade teórica, espiritual – e a da prática
egoísta – passiva, grosseira e judaica. “Em completa oposição à
filosofia alemã, a qual desce do céu à terra, aqui sobe-se da terra
ao céu [...]. Não é a consciência que determina a vida, é a vida que
determina a consciência” (MARX e ENGELS, 1984, p.22-3).
Em A ideologia alemã, Marx e Engels, ao descreverem a nova
“concepção da História” afirmam que ela tem como base...

[...] o desenvolvimento do processo real da produção, partindo


da produção material da vida imediata; concebe a forma das
relações humanas ligada a este modo de produção e gerada por
ela, quer dizer, a sociedade burguesa, em suas diferentes fases,
como sendo o fundamento de toda a História. [...] Ela não é
obrigada, como a concepção idealista da História, a procurar
uma categoria diferente para cada período, mas permanece,
constantemente, sobre o plano real da História; ela não explica
a prática a partir da ideia, mas a formação das ideias a partir

92
‘Visão de mundo’, ‘cosmovisão’; o modo como o indivíduo percebe e enxerga sua
sociedade nas relações de poder, nas relações de produção, etc.
93
‘Status quo’; ‘the establishment’ (o sistema das estruturas econômicas, políticas
e sociais, historicamente estabelecidas e inquestionáveis, imposto pela classe
dominante).
Almiro Petry 303

da prática material; chega, consequentemente, à conclusão


de que todas as formas e produtos da consciência podem ser
resolvidos, não por meio da crítica intelectual, pela redução à
‘consciência de si’ ou pela metamorfose em ‘aparições de almas
do outro mundo’, em ‘fantasmas’, em ‘loucas fantasias’ etc., mas
unicamente pelo desdobramento prático das relações sociais
concretas de onde nasceram as frivolidades idealistas. Não é a
crítica, mas é a revolução, a força motriz da História, da religião,
da Filosofia ou de toda e qualquer teoria (MARX e ENGELS,
1996, p. 146).

O ataque é frontal ao postulado fundamental do idealismo neo


-hegeliano: modificar a consciência, interpretar diferentemente o
que existe sem combater de maneira nenhuma o mundo real exis-
tente e atacar de maneira prática e modificar as coisas que encon-
trou. Por isso, Marx e Engels afirmam que o comunismo não é para
nós um estado que deve ser estabelecido, nem um ideal segundo
o qual a realidade deve se comportar. Chamamos de comunismo o
movimento real que suprime o atual estado de coisas. Assim, o co-
munismo é um movimento extremamente prático, que persegue fins
práticos com meios práticos (MARX e ENGELS, 1984, p.42).
Em defesa de sua tese, a argumentação é histórica, buscando
na vida humana o desenvolvimento da produção material como
forma de modificar a realidade concreta e, através dela, modificar
o modo de pensar e dos produtos do seu modo de pensar. Dessa
forma, Marx e Engels formulam a concepção da autoemancipação
revolucionária do proletariado com as seguintes ideias-chave: (1) O
proletariado só se torna uma classe, no sentindo pleno do termo,
por meio de sua luta contra a burguesia. (2) No decurso dessa luta,
o proletariado é forçado a empregar procedimentos revolucionários,
mesmo que sua ação, no início, não exija esse regime. (3) Mediante
essa prática revolucionária, nasce e se desenvolve, na massa operária,
a consciência comunista. E arrematam:

Tanto para a produção massiva desta consciência comunista


como para a realização da própria causa, é necessária uma
transformação massiva dos homens, que só pode processar-
se num movimento prático, numa revolução; que, portanto, a
304 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

revolução não é só necessária porque a classe dominante de


nenhum outro modo pode ser derrubada, mas também porque
a classe que a derruba só numa revolução consegue sacudir dos
ombros toda a velha porcaria e tornar-se capaz de uma nova
fundação da sociedade (MARX e ENGELS, 1984, p.47).

No terceiro capítulo de O manifesto do partido comunista, Marx e


Engels tratam da literatura socialista e comunista. Fazem a seguinte
divisão:

(1) O socialismo reacionário: o socialismo feudal – “metade la-


mento, metade panfleto, metade eco do passado, metade ameaça
do futuro” com total incapacidade de compreender a marcha
da História moderna (MARX e ENGELS, 2001, p.64); o so-
cialismo pequeno-burguês – “esse socialismo analisou com a
maior acuidade as contradições das relações de produção”, des-
mascarou os economistas, demonstrou os efeitos destrutivos do
maquinismo; o socialismo alemão ou “verdadeiro” – “[...] con-
sistiu exclusivamente em colocar as novas ideias no diapasão de
sua velha consciência filosófica, ou antes, em apropriar-se das
ideias francesas, partindo de seu próprio ponto de vista filosó-
fico” (idem, p.69).
(2) O socialismo conservador ou burguês: queria “remediar as
anomalias sociais, a fim de garantir a manutenção da sociedade
burguesa” (idem, p.73), como, por exemplo, Proudhon propõe.
(3) O socialismo e o comunismo crítico-utópicos: “Os sistemas
socialistas e comunistas propriamente ditos (Saint-Simon, Fou-
rier, Owen, etc.) surgem no período embrionário da luta entre
o proletariado e a burguesia” (idem, p.76). Veem o proletariado
como a classe mais sofredora. Não veem o potencial revolucio-
nário do proletariado. Pregam um igualitarismo a ser atingido
mediante vias pacíficas. Rejeitam toda ação política, principal-
mente toda ação revolucionária. Atacam os fundamentos da
sociedade estabelecida. Esses pensadores, em muitos aspectos,
foram revolucionários, no entanto, “seus discípulos constituem
sempre seitas reacionárias” (idem, p.79), como os proudhonia-
Almiro Petry 305

nos mutualistas franceses, os lassallianos alemães e a Aliança


da democracia socialista de Bakunin. Diante “da revolução his-
tórica do proletariado, obstinam-se em manter as velhas con-
cepções de seus mestres” (idem, p.79) e apelam “à filantropia dos
corações e dos cofres dos burgueses” (idem, p.80)94. Na disputa
com Lassalle95, o que está em jogo é, de um lado, a ajuda do
Estado, a intervenção da realeza prussiana; do outro, a ação
autônoma do movimento operário real e a transformação revo-
lucionária da sociedade (LÖWY, 2002, p.232).

No preâmbulo dos estatutos da Associação Internacional dos
Trabalhadores (1864), Marx faz constar que a emancipação dos
trabalhadores deve ser obra dos próprios trabalhadores. Participa
da fundação da Internacional para substituir as seitas socialistas
para a organização efetiva da classe operária para a luta. É no seio
da Internacional que Marx enfrenta as grandes resistências à sua
concepção materialista da história e sua concepção revolucionária
do proletariado (em especial, Bakunin e Lassalle).
Em 1875, nos “Comentários à margem do Programa do Parti-
do Operário Alemão” (Programa de Gotha), Marx escreve:

Entre a sociedade capitalista e a sociedade comunista, há


o período de transformação revolucionária da primeira na
segunda. A esse período corresponde também um período
de transição política em que o Estado não poderá ser outra
coisa que a ditadura revolucionária do proletariado (MARX e
ENGELS, 2001, p.123).

94
Falanstério é a designação das colônias socialistas ou palácios sociais imaginados
por Ch. Fourier; Icária é o nome dado por Cabet à sua utopia e à sua colônia co-
munista nos EUA; Home-colony é como Owen chama suas sociedades comunistas.
95
Entre as questões em disputa havia a do “Estado livre”, defendido pelo Partido
Operário Alemão, sob a orientação de Lassalle. Marx pergunta: “Estado livre – o
que é isso?” E comenta: “O objetivo dos trabalhadores que se liberaram da men-
talidade tacanha de indivíduos subjugados não é, de modo algum, tornar ‘livre o
Estado’. [...] A liberdade consiste em transformar o Estado, de órgão acima da
sociedade, em órgão inteiramente subordinada a ela” (MARX e ENGELS, 2001,
p. 121).
306 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Assim sendo, o socialismo autêntico (socialismo científico) é o


que emerge do movimento histórico, como criação das massas tra-
balhadoras, com o proletariado à frente, como classe portadora dos
interesses mais revolucionários da sociedade (GORENDER, 2013,
p. 20). A concepção materialista da história é a superação do so-
cialismo utópico. A questão ontológica fundamental da concepção
materialista da história é que a base dessa construção são as relações
materiais de vida. Dessa forma, Marx busca nos fundamentos da
Economia Política o caminho da elaboração do socialismo científico
sob a concepção materialista da história. Disso resulta a crítica à
Economia Política clássica (GORENDER, 2013, p. 20-23).

2.4. Comunismo

Para Marx, o proletariado tende para a totalidade, para a revo-


lução, e por fim, ao comunismo. Na perspectiva histórica, o modo de
produção capitalista – baseado no fato de que as condições materiais
de produção são atribuídas aos não-trabalhadores, sob a forma de
propriedade do capital e de propriedade fundiária, enquanto o pro-
letariado somente é proprietário de sua força de trabalho – foi uma
superação do feudalismo. Cabe, agora, superar o capitalismo para
construir a sociedade comunista.
Na sociedade comunista (sociedade coletiva),

[...] fundada na propriedade comum dos meios de produção, os


produtores não trocam seus produtos; da mesma forma, o tra-
balho incorporado em seus produtos já não aparece como valor
desses produtos, [...] ao contrário do que acontece na sociedade
capitalista, já não é por um desvio, mas sim diretamente, que os
trabalhos individuais se tornam parte integrante do trabalho
comum (MARX e ENGELS, 2001, p.104).

Para Marx, ninguém pode dar nada senão seu trabalho e, con-
sequentemente, nada pode tornar-se propriedade dos indivíduos,
exceto objetos de consumo individuais. Dessa forma, a partilha dos
Almiro Petry 307

bens produzidos é definida pela quantidade de trabalho participati-


vo, ou seja, “uma quantidade de trabalho sob uma forma é trocada
pela mesma quantidade de trabalho sob outra” (MARX e ENGELS,
2001, p.105). Portanto, a unidade de medida comum é o trabalho. As
diferenças individuais devem ser avaliadas pela duração ou intensi-
dade do trabalho.
Na primeira fase da sociedade comunista, “tal como acaba
de surgir da sociedade capitalista depois de um longo e doloroso
parto” (idem, p.107), há inconvenientes inevitáveis como a questão
do produto integral do trabalho, a questão da igualdade do direito e
a questão da distribuição equitativa.
Na fase superior da sociedade comunista,

[...] quando tiver desaparecido a subordinação escravizadora


dos indivíduos à divisão do trabalho e, assim, a oposição entre
trabalho intelectual e trabalho manual; quando o trabalho se
tiver tornado, não apenas um meio de vida, mas o requisito
precípuo da vida; quando, com o desenvolvimento diversificado
dos indivíduos, suas forças produtivas se tiverem incrementado
também, e todas as fontes da riqueza jorrarem com abundância
– só então o horizonte estreito do direito burguês poderá ser
totalmente suplantado, e a sociedade poderá inscrever em sua
bandeira: A cada um, de acordo com suas habilidades; a cada
um, de acordo com suas necessidades (MARX e ENGELS,
2001, p.108-9).

Isso significa que a sociedade comunista suprime as diferenças


entre as classes (e as próprias classes), e as desigualdades sociais e
políticas que delas emanam (na sociedade capitalista), desaparecem
por si mesmas.
Marx vê a sociedade comunista como o estágio da humanidade
em que não existiriam exploradores e explorados, formando o ser
humano, a sociedade e a natureza um todo harmônico. Acreditando
nesse futuro da sociedade humana, Marx luta para conseguir
acelerar o processo de passagem da sociedade capitalista para a
sociedade em que todos têm iguais possibilidades. A aceleração do
processo passa necessariamente pela luta de classes, conflito que faz
mover a História, ou, a luta de classes é o motor da História.
308 Noções básicas de Sociologia: a Epistemologia e o Pensamento dos Clássicos

Na sociedade comunista, o Estado iria desaparecer, porque, na


concepção marxiana de Estado, ele não passa de um instrumento de
dominação de uma classe social sobre outra. O Estado responde aos
interesses da classe mais forte para dominar a mais fraca. Em suma,
a sociedade comunista é o último estágio da humanidade na orga-
nização político-econômica. A sociedade viveria num coletivismo,
construiria sua abundância, a partir da contribuição de cada cidadão
conforme sua capacidade e, cada qual receberia segundo suas neces-
sidades. Seria a sociedade dos iguais, com liberdade e abundância.

2.5. Produção e reprodução

2.5.1. História

A premissa da concepção e análise marxiana da sociedade é a


existência do ser humano como ente concreto, histórico e social.
Esse ente histórico se relaciona com a natureza e com os outros
seres humanos para satisfazer suas necessidades. Ele se distingue
dos outros entes vivos porque produz os seus meios de vida, e não
porque pensa (cogito, ergo sum).
Em A ideologia alemã, Marx e Engels definem suas premissas
da concepção materialista da História, afirmando: “São os indiví-
duos reais, a sua ação e as suas condições materiais de vida, tanto
as que encontram como as que produziram pela sua própria ação”
(MARX e ENGELS, 1984, p.14). Dessa concepção, pode-se desta-
car:

(a) “a existência de indivíduos humanos vivos”, sua organização


física e a relação com a natureza constituem a sociedade huma-
na;
(b) os seres humanos se distinguem dos animais (não pela
consciência, pela razão, pela religião, etc.), mas porque
produzem os seus meios de vida (pela sua organização física);
Almiro Petry 309

(c) o modo de produzir os seus meios de vida depende das


condições da natureza. Disso resulta um modo de vida. Esse
é determinado por um modo de produção. Portanto, os seres
humanos coincidem “com o que produzem e também com o
como produzem” (MARX e ENGELS, 1984, p.15);
(d) cada povo (nação) desenvolve “as suas forças produtivas, a
divisão do trabalho e o intercâmbio (Verkehr) interno” (MARX
e ENGELS, 1984, p.16). Disso resulta sua capacidade de
intercâmbio externo;
(e) a divisão do trabalho aumenta com a extensão quantitativa
das forças produtivas. Ela separa o trabalho industrial do traba-
lho comercial e do trabalho agrícola; separa a cidade do campo.
“Cada uma das fases da divisão do trabalho determina também
as relações dos indivíduos entre si no que respeita ao material,
ao instrumento e ao produto do trabalho” (MARX e ENGELS,
1984, p.17); e,
(f) da divisão do trabalho resulta a forma de propriedade: a tribal,
a comunal e estatal antiga, a feudal e a propriedade privada
burguesa.

Dessa forma, os seres humanos, organizados socialmente, esta-


belecem relações sociais e intervêm conscientemente na natureza.
Buscam satisfazer suas necessidades naturais ou biológicas (pri-
márias); mas também criam novas exigências, que são produtos da
existência social, portanto históricos. Sobre isso, Marx se expressa
assim na Introdução à crítica da economia política: