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A música é tocada num filme a preto e branco

curta-metragem de Mike Mills

1Os vocais cantam


Cantam uma dor palpável

O poético filme acompanha a personagem principal, interpretada do início ao fim por


Alicia Vikander (de ‘A Garota Dinamarquesa’), desde o nascimento até a morte em cenas
embaladas por faixas do novo disco.

A infância, a puberdade, o primeiro amor, as amizades, os conflitos familiares, as


alegrias, as perdas e outras experiências tão comuns na vida de qualquer ser humano são
protagonizadas pela atriz ao mesmo tempo que se ouvem temas como Quiet Light, The
Pull Of You ou Light Years.

I Am Easy to Find é o nome do filme que acompanha e é acompanhado pelo álbum I


Am Easy to Find da tão querida banda The National. Este filme, de 24 minutos, com
Alicia Vikander, não deve ser visto como um vídeo de promoção do novo álbum, mas
como uma obra de arte de pleno direito que o realizador de 20th Century Women (2016)
dirigiu em colaboração com a banda e uma série de pessoas na sua órbita, como Carin
Besser.

Tudo começou com a ideia de Mike Mills de acompanhar a banda no processo criativo
deste longa duração, dando o seu contributo ao alterar o esboço das canções e ao
transmitir ideias através de uma história. E assim foi feito. A curta-metragem é
composta por fragmentos de versões diferentes de 7 canções e ainda 9 novas canções e
está tão longe de constituir um videoclipe do álbum quanto o álbum de ser uma banda
sonora para o filme. Segundo um comunicado de imprensa, “o filme foi composto como
uma peça musical; a música editada como um filme, por um cineasta”. Ainda assim, as
linhas centrais de uma e outra obra de arte viajam juntas, o que explica Matt Berninger
ter cedido o seu lugar de foco natural da música dos National a uma variedade de
vocalistas femininas, entre as quais Gail Ann Dorsey, Lisa Hannigan, Mina Tindle, Kate
Stables e Sharon Van Etten. Bom, isso e o ego do vocalista.

A cenografia é escassa, consistindo acima de tudo numa cadeira, uma cama, um tapete e
um sofá, usados vezes sem conta no filme. A cinematografia esteve a cargo de Daniel
Voldheim e a montagem, que durou cerca de oito meses, foi da responsabilidade de
Aaron Beckum.

A história desenrola-se em torno de uma vida desde o nascimento até à morte. A


estranheza aqui está talvez em ser a atriz Alicia Vikander, na imutabilidade do seu
presente, a representar o papel de uma existência desde o seu início até ao seu término.
Esta escolha artística sublinha a unidade humana da infância à morte. Os desejos que a
criança tem, os problemas por que passa sendo mãe e o confronto com a morte que a
devasta como filha e mulher, todas estas situações passam pela mesma pessoa, com o
seu corpo sempre visivelmente o mesmo.
Outro fator a ter em conta é o filme ser a preto e branco, salvo a mudança de tempo
indicada pela cor amarela. A ausência de cores, aliada a cenas minimalistas, despidas de
adereços desnecessários, para além da expressão da ideia principal, dá-nos espaço para
ouvir a música que não serve de fundo, mas antes de guia através desta vida.

A vida apresentada parece ser cíclica, no enredo desta mulher: as discussões dos pais, a
incompreensão que sente, as histórias contadas e relembradas. No entanto, apesar da
periodicidade dos eventos e das mesmas músicas, a mulher desenvolve as suas ideias.
Por exemplo, a criança que passava muito tempo a sentir a energia à sua volta, deitada
sobre a erva, percebe-se uma mulher já adulta, que sempre teve medo da natureza.

https://www.magazine-hd.com/apps/wp/i-am-easy-to-find-mike-mills-the-national/

The National num pedestal de refinamento e classicismo algo exuberante e cada vez
mais distante dos primeiros trabalhos do grupo nova-iorquino, que eram eminentemente
crus, enérgicos e imediatos, quando comparados com estas últimas propostas mais
contemporâneas.

com destaque para a interpretação de dança, protagonizada pela israelita Sharon Eyal
em Hairpin Turns e que, de acordo com Mills, acaba por funcionar neste video como
uma espécie de alter ego da personagem interpretada pela atriz sueca Alicia Vikander
no filme.

conjunto de vozes femininas que ajudam a ampliar toda a aúrea de sentimentalismo,


sensibilidade e até de uma certa pureza e requinte, sensações que exalam facilmente do
âmago deste disco.

força dos sentimentos, confissões românticas e poemas embriagados de Matt Berninger.

Fragmentos visuais, melódicos e poéticos que se entrelaçam em uma tentativa clara do


grupo norte-americano em se reinventar conceitualmente.

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