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Índice
Observações Preliminares! 6

Aula 01 - Deus, a revelação e a resposta do homem! 7

Leituras Complementares da Aula 01! 9

1 - Creio em Deus! 9

2 - “A Ditadura do Relativismo”! 15

3 - A Transmissão da Revelação divina! 16

Aula 02 - Creio em Deus Pai, Criador do Céu e da Terra! 19

Leitura Complementar da Aula 02! 21

1 - A Queda! 21

Aula 03 - Creio em Jesus Cristo ! 28

Leitura Complementar da Aula 03! 29

1 - Reflexões sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo! 29

Aula 04 - O Espírito Santo e a Igreja ! 39

Leitura Complementar da Aula 04! 42

1 - O Espírito Santo - Grande Desconhecido! 42

2 - Os pecados da Igreja! 45

Aula 05 - A remissão dos pecados, ressurreição da carne e a vida


eterna! 50

Leituras Complementares da Aula 05! 52

1 - Os pecados contra o Espírito Santo! 52

2 - A morte! 53

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Aula 06 - A liturgia sacramental e o Batismo! 61

Leitura Complementar - Aula 06! 65

1 - A natureza da Sagrada Liturgia e sua importância na vida da


Igreja! 65

Aula 07 - A Confirmação, os Dons do Espírito Santo e a


Eucaristia! 69

Leituras Complementares - Aula 07! 73

1 - Os sete dons do Espírito Santo! 73

2 - O dom do Coração de Jesus, sobre a piedade eucarística! 81

Aula 08 - A Santa Missa e os sacramentos da Confissão e da Unção


dos Enfermos ! 83

Leitura Complementar - Aula 08! 88

1 - Confissão: alguns obstáculos! 88

Aula 09 - O sacramento da Ordem e do Matrimônio! 92

Leituras Complementares - Aula 09! 96

1 - "Sacerdócio: o Amor do Coração de Jesus#! 96

2 - Namoro e casamento! 98

3 - A ideologia homossexual e a redefinição do matrimônio! 101

Aula 10 - Fundamentos da Moral Cristã! 106

Leituras Complementares - Aula 10! 111

1 - O Cristianismo é uma vida! 111

2 - Seguindo os passos do Senhor! 114

Aula 11 - A Lei de Deus e os três primeiros mandamentos! 117

Leitura Complementar - Aula 11! 122

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1 - O Espiritismo e a Fé! 122

Aula 12 - Família, Castidade e Pureza: 4º, 6º e 9º mandamentos!131

Leituras Complementares - Aula 12! 138

1 - Sexo sem conseqüências, mundo sem compromisso! 138

Aula 13 - O Valor da Vida, da Verdade e o uso dos bens: 5º, 7º, 8º e


10º mandamentos ! 142

Aula 14 - A Oração Cristã! 148

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Observações Preliminares

- Esta apostila foi redigida por ocasião do Curso de Iniciação Cristã de Adultos da
Paróquia Nossa Senhora do Brasil. Sua estrutura em 14 aulas responde à demanda
desse curso.

- Após cada resumo de aula, consta a bibliografia básica:

- Catecismo da Igreja Católica (CIC): as citações do Catecismo se fazem


conforme divisão em parágrafos do total de 2865 em que está dividido;

- Compêndio do Catecismo da Igreja: contém o mesmo conteúdo do CIC,


mas em formato resumido e dividido segundo perguntas e respostas.

- Fé Explicada, Editora Quadrante, Autor: Leo Trese - 10a Edição.

- Ao final de cada resumo de aula há Leituras Complementares: são textos de autores


consagrados que aprofundam em algum aspecto do tema tratado na aula.

- Comentários, correções e sugestões sobre esta Apostila podem ser enviados para:
gustavojc@gmail.com

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PARTE I - A profissão de fé

Aula 01 - Deus, a revelação e a resposta do homem

! Vivemos numa época em que a busca pelas diversas formas de religiosidade


evidenciam a abertura de muitas pessoas ao transcendente. CIC 44: “O homem é, por
natureza e vocação, um ser religioso. Vindo de Deus e caminhando para Deus, o homem
não vive uma vida plenamente humana senão na medida em que livremente viver a sua
relação com Deus”.
! No entanto, o clima de relativismo em que estamos imersos não busca valorar
as diferentes formas de religiosidade e crenças segundo critérios de verdade, mas antes
faz pensar que são equivalentes, sendo apenas o querer e o "sentir-se bem# das pessoas
o critério de escolha entre uma crença ou outra.
! Diante desse problema, é preciso colocar o problema de Deus, do conhecimento
que podemos ter dEle, em bases firmes. O CIC mostra que temos acesso a "provas da
existência de Deus# no mundo e no homem (cfr. CIC 31-35). Esse é um movimento do
homem em direção a Deus, através da capacidade que o próprio Deus deu ao homem,
do qual o homem não pode se esquivar (cf. Leitura Complementar !Creio em Deus").
! A tradição judaico-cristã, no entanto, caracteriza-se por um conhecimento de Deus
que Se revelou ao homem. Esse movimento de Deus em direção ao homem permitiu ao
homem um conhecimento muito acima das suas capacidades sobre as verdades
fundamentais: sentido da vida, da morte, a busca da felicidade e a distinção entre o
moralmente certo e o errado.
! A Revelação de Deus começa em nossos primeiros pais e culmina na vinda do
Seu Filho Unigênito, Jesus Cristo e no envio do Espírito Santo. Nosso Senhor fez e
ensinou muitas coisas e com sua morte na Cruz, nos redimiu e nos ganhou todas as
graças. Para dar continuidade à sua obra redentora e aplicar seus méritos a todas as
pessoas que viriam ao longo da história, garantiu que a assistência do Espírito Santo na
Igreja estabelecida com os apóstolos, liderados por Pedro, seria uma realidade que os
guiaria "em toda a verdade# (cfr. Jo 16, 13). É interessante entender as etapas da
revelação (cfr. CIC 54-73) e como se transmitiu até nós, pela Tradição Apostólica e
pela Sagradas Escrituras (cfr. CIC 74-141). A Sagrada Escritura e a Tradição derivam
da mesma fonte e estão compenetradas. Ignorar a tradição, como o fazem certas igrejas
protestantes, é ignorar o próprio contexto em que nasceram os livros do Novo
Testamento e as promessas de continuidade que Cristo fez à Igreja nascente. Para um

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bom entendimento das Escrituras é importante diferenciar o contexto dos diferentes
períodos históricos em que surgem os livros, as intenções e estilos dos autores e a
linguagem empregada. O CIC explica isso nos pontos 101-141. A Constituição
Dogmática Dei Verbum explica que “A Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada
naquele Espírito em que foi escrita” (cfr. DV 12).
! O homem, diante da revelação, precisa prestar o consentimento da fé, que não
exclui igualmente o uso da razão. A fé se fundamenta nos motivos de credibilidade (a
sublimidade da doutrina, a história da Igreja e o testemunho dos mártires), mas
principalmente na autoridade de Deus, que não pode enganar-se nem nos enganar, e
nos milagres de Cristo (cfr. CIC 142-184). A razão, por sua vez, busca esclarecer os
mistérios da fé. São dois meios que não podem se contradizer, pois o Deus que nos criou
e nos fez racionais é o mesmo Deus de nossa fé. Como coloca o Papa João Paulo II no
começo da Encíclica Fides et Ratio: “A Fé a Razão constituem como que duas asas
pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”. A liberdade
humana como capacidade de autodeterminar-se segundo a verdade, não entra, portanto,
em contradição com a fé, pois aderir livremente à verdade revelada significa fazer um
uso autêntico da liberdade.

Principais Tópicos a serem abordados:


- Desejo de Deus no coração do homem;
- Relativismo atual e a pluralidade religiosa;
- Revelação como elemento central da tradição judaico-cristã;
- Revelação cristã: Tradição e Sagrada Escritura;
- Obediência da fé e liberdade do homem.

Bibliografia:
- CIC 26-184
- Compêndio do CIC - 1-32
- Fé Explicada - pg. 7 - 19
- Constituição Dogmática Dei Verbum, sobre a Revelação Divina.

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Leituras Complementares da Aula 01

1 - Creio em Deus

Trecho do livro !O Credo" de Ronald Knox, Editora Quadrante.


#
Quando Adão e Eva pecaram pela primeira vez, no Paraíso, fugiram instintivamente da
presença do Criador. Não é fácil, e aliás não julgo que tenha demasiada importância,
determinar até que ponto devemos tomar totalmente à letra os pormenores desse
episódio ou até que ponto podemos entendê-los como uma mera descrição poética do
que aconteceu.

Mas o que sabemos é que Adão e Eva ouviram a voz de Deus que passeava pelo jardim
do Éden na brisa da tarde, e tiveram medo. Por isso, esconderam-se entre as árvores.
Se, por um lado, nos parece difícil saber até que ponto devemos tomar à letra os
pormenores desse relato, nem por hipótese podemos duvidar de que o episódio em si
tenha sido verídico. Porque a história da queda dos nossos primeiros pais é uma história
que nós próprios vivemos, não uma vez, mas muitas ao longo das nossas vidas. É um
drama no qual nós próprios somos os atores, e a história repete-se.

Quando pecamos, o pensamento de Deus incomoda-nos e tentamos esquecê-lo. E a


raça humana, que continua sempre a pecar, continua também a tentar esquecer Deus. O
homem tenta fechar-se em si mesmo, esconder-se no bosque das coisas criadas, que
lhe foram dadas por Deus para seu deleite; tenta convencer-se a si próprio de que Deus
não existe. Mas, à medida que vai olhando através das longas alamedas arborizadas,
vislumbra, no fim de cada alameda, sempre a mesma visão: a face de Deus. Não pode
fugir de Deus, mesmo que o queira.

Aonde quero chegar? Ao seguinte: ainda que nenhuma revelação nos tivesse chegado
através de Jesus Cristo, se quiséssemos ser sinceros conosco próprios, teríamos que
admitir a existência de Deus, por mais indesejável que esse pensamento pudesse ser
para nós. As criaturas que nos rodeiam, bem como a nossa própria vida neste mundo de
criaturas, levam-nos ao conhecimento de que Deus existe. Basta tomarmos qualquer das
nossas linhas habituais de pensamento, segui-la o mais longe possível, como num
passeio pelos caminhos que cortam um bosque, para avistarmos no termo dela, ainda à
distância.

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É um hábito inveterado do homem perguntar: por quê? Muitos de nós fomos
repreendidos na infância por repetirmos demasiadamente essa pergunta, e talvez
tenhamos desistido de o fazer. Lembro-me de que, certa vez em que viajava de trem, ia
também um moleque, que apontou para o relógio da estação de Banbury e perguntou:
“Que horas são naquele relógio?” A mãe respondeu-lhe: “Faltam quinze para as duas”.
Disse o rapazinho: “Por que é que faltam quinze para as duas?” Uma criança como essa
virá a ser cientista e passará a vida inteira a perguntar: por quê?

Toda a nossa ciência provém do hábito humano de pesquisar a razão de tudo, da nossa
crença enraizada de que todo e qualquer acontecimento tem que ter uma causa. E
quando tivermos levado esse hábito às suas últimas conseqüências, tudo o que teremos
conseguido será um encadeamento de causas, em que cada uma dependerá da
seguinte. Por que é que você torceu o calcanhar? Porque fecharam o portão que dá para
o jardim. E por que o fecharam? Para evitar que os porquinhos entrassem. E por que os
porquinhos andavam à solta? Porque não havia alimento suficiente para eles no
chiqueiro. E por que não havia alimento suficiente para eles? Porque alguns navios
foram torpedeados no Atlântico. E por que os navios foram torpedeados no Atlântico?
Porque estamos em guerra com a Alemanha. E por que estamos em guerra com a
Alemanha*? E assim por diante.
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(*) Essa aula foi dada durante a Segunda Guerra Mundial.
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A série de causas prolonga-se cada vez mais e nunca alcançamos o seu termo. Mas
bem vemos que não pode ser de modo algum infinita. Porque uma série infinita de
causas, as quais dependessem sempre de outras, não daria uma explicação cabal de
nada. Em qualquer lado, no fim dessa cadeia, tem que existir uma primeira causa, que
não seja causada por nada que tenha existido antes dela. E essa primeira causa é Deus.
A sua face olha-nos, mesmo enquanto tentamos fugir dEle; e o seu olhar desce através
dessa longa avenida de causalidades e recorda-nos que foi Ele quem nos fez, que nós
não nos fizemos a nós próprios.

“Muito bem – afirmam os cientistas –, não falaremos de causas e efeitos, já que só nos
levam a conclusões que causam aborrecimentos. Contentar-nos-emos com a
observação da forma exterior das coisas, tal como se apresentam à nossa experiência: a

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maravilhosa ordem que existe na natureza e outras coisas mais”. Mas isso também não
os deixará mais satisfeitos. A ordem só pode ser a expressão de um espírito. Quem mais
poderia ter dado à natureza essa ordem que descobrimos com os nossos instrumentos
científicos? Se pegarmos uma lâmina de barbear e uma folha de relva, e as observarmos
sob o foco de um potente microscópio, verificaremos que o gume da lâmina é tudo
menos liso; é profundamente denteado e irregular, de tal modo que vocês nem podem
compreender como é que os seus pais não se ferem todos os dias ao barbear-se, em
vez de lhes acontecer isso só em algumas manhãs. Mas verificaremos também que a
folha de relva é toda absolutamente lisa, sem um único recorte. Então quem fez isso?
Nem vocês nem eu. Quanto mais tentarmos captar o modelo da natureza, mais seremos
levados a concluir que ela é a expressão do trabalho de um espírito superior a qualquer
espírito humano. E a esse espírito criador temos que chamar Deus.

Olhamos através de uma nova alameda da experiência, e continuamos ainda a ver a


face divina, debruçando-se sobre nós por entre as árvores.

Esta é a história que lemos no mundo que nos rodeia. Se, em vez disso, nos virarmos
agora para nós, seres humanos, e para o lugar que ocupamos no universo, acontecerá o
mesmo. O homem interroga-se a si próprio: “Por que estou aqui? A vaca existe para me
dar leite, o carneiro para me dar lã, as abelhas para me darem mel – e eu estou aqui
para dar o quê e a quem?” Cada uma de vocês já se perguntou a si própria: “Qual é a
minha razão de ser? Qual é o sentido da minha existência?” Talvez julguem que a
resposta é fácil: “Ora, eu existo para fazer a minha mãe feliz. Ela sentir-se-ia totalmente
desnorteada se me acontecesse algo de ruim”. De acordo, mas então por que é que ela
existe? Não me respondam: “Existe para me fazer feliz”. Isso nos levaria a um círculo
vicioso, como aquele jogo tolo, em que umas doze pessoas se sentam umas nos joelhos
das outras, a número 2 no joelho da número 1 e assim sucessivamente. Então uma joga-
se ao chão e caem todas. Creio que vocês conhecem o jogo, um jogo muito engraçado e
sossegado para o dormitório... Ora, se alguma de vocês disser que a sua mãe existe
para fazer o seu pai feliz, teremos então que perguntar para que é que o pai existe, e
assim até o infinito. Ao fim e ao cabo, tem que existir Alguém para quem tudo existe, que
é o fim de tudo, e esse Alguém tem que ser Deus. Mais uma vez a sua face nos olha
através desta nova alameda.

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Ou talvez o homem se pergunte a si mesmo qual é o verdadeiro sentido do bem e do
mal. Que quero dizer quando afirmo: é meu dever fazer isto ou aquilo? Coisa que, muitas
vezes, não coincide com o que queremos fazer; geralmente, falamos de dever
precisamente quando nos referimos a alguma coisa que não queremos fazer. O dever é
uma palavra abstrata. E nós, que somos seres humanos, teremos a nossa conduta
determinada por uma simples abstração? Ora, aquilo que não gostamos de fazer e que
não coincide com a nossa vontade tem que ser a vontade de alguém acerca de nós;
quem será então esse alguém? Numa longa sucessão, tem que existir Alguém cuja
vontade seja a única coisa que importa a qualquer ser humano no mundo. E esse
Alguém tem que ser Deus. Mais uma alameda, e a mesma face que continua a descer o
seu olhar sobre nós. Não há possibilidade alguma de lhe fugirmos, seja para onde for
que nos viremos.

Deus, como a primeira causa que está por detrás de todas as outras causas; Deus, como
o Espírito que se exprime na perfeição da criação; Deus, como causa final ou último fim
para o qual existe tudo quanto vive; Deus, como a vontade suprema que impõe deveres
morais à humanidade: na verdade, sempre que tentarmos afastar-nos de Deus, vê-lo-
emos assim, à distância, como um ser desagradável que está na base de tudo. Mas isso
só acontecerá se tentarmos fugir dEle... Se, pelo contrário, procurarmos a Deus, se
tentarmos encontrá-lo, então o processo será simplicíssimo e o encontraremos, não à
distância, mas bem junto de nós. Será, não uma realidade desagradável, mas um Amigo
agradável.

Somos feitos de matéria e espírito. O nosso corpo, aquilo que se move quando alguém
esbarra conosco nas escadas, é matéria. A nossa alma, aquilo que em nós pensa, que
em nós ama, é espírito. O que é que pertence a uma ordem superior – o nosso corpo ou
a nossa alma? É evidente que é a nossa alma. Dá-nos uma vida mais rica do que a dos
animais. Os nossos coelhos, por exemplo, não sabem multiplicar ou escrever como nós.
O espírito é, pois, de uma ordem superior à da matéria; ordena-a, é a sua explicação.
Mas o nosso espírito – mesmo o de um sábio – não ordena o universo, não é a
explicação do universo. Tem que existir, portanto, um Espírito que regule o universo da
matéria, e um Espírito não reduzido e limitado como o de vocês e o meu, e esse Espírito
é Deus

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Ainda que a nossa atenção esteja dirigida habitualmente para o exterior, para o mundo
da matéria, para o alimento, para a luz do sol e para os aviões que voam lá por cima,
voltemo-nos agora para o nosso interior, para a nossa própria alma. Aí está Deus. Está
presente na nossa alma tal como a luz do sol está presente no nosso corpo, só que
muito mais intimamente. Como poderia ser de outro modo? O espírito não está limitado
pelo espaço, e por isso não nos pode separar de Deus. Deus é ilimitado, e por isso está
em toda a parte. Não podemos viver separados de Deus. A única coisa que nos separa
dEle é o fato de não pensarmos suficientemente nEle, de não o amarmos como
devíamos. Não devemos pensar nEle como um ser distante que está no fim de uma
longa alameda. Ele está aqui

Não crer em Deus? Não há dúvida de que cremos. Senão, também não poderíamos crer
em nós mesmos, não poderíamos chamar à nossa alma nossa. E, como regra, as
pessoas que não crêem em Deus não crêem também em si próprias, não podem chamar
à sua alma sua. E é assim que acabam acreditando num homem totalmente perecível ou
em qualquer contra-senso desse gênero.

“Mas – poderíamos pôr agora o problema – se o fato da existência de Deus é tão


evidente, por que há necessidade de crer nEle? A fé só é necessária quando temos que
acreditar em alguma coisa que não podemos provar, e que aceitamos por confiarmos na
pessoa que o diz”. Ora, é absolutamente verdade que a Igreja não quer que acreditemos
em Deus unicamente porque Jesus Cristo no-lo revelou. E afirma-nos que temos de ser
capazes de chegar por nós próprios a acreditar na existência de Deus. O que Jesus
Cristo fez foi revelar-nos mais claramente o que é Deus: que é nosso Pai, por exemplo.

Entretanto, é importante termos sempre presente que cremos em Deus; não tanto por ser
difícil crer que Ele existe, mas por ser difícil compreender que Ele existe. Sem dúvida
alguma, os nossos espíritos tendem naturalmente a aproximar-se das criaturas e a
afastar-se de Deus. Desde a primeira queda, o espírito humano é parecido com essas
dobras dos cantos dos livros que, por mais que estejamos constantemente a alisá-las,
quando de novo abrimos o livro já estão outra vez enroladas. Desde a primeira queda,
fomos desviados para sempre do caminho certo, estamos constantemente a pensar nas
criaturas, no nosso bem-estar, nos nossos projetos, nos nossos amigos, e os nossos
espíritos só se voltam para Deus se por um ato deliberado lhes imprimirmos essa
direção. E por isso vamos continuar a ter presente esse “Creio em Deus”, pois do

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contrário ser-nos-á totalmente impossível lembrar-nos de que Deus está conosco. Já
passou tanto tempo desde a última vez em que pensamos nEle, e no entanto Ele
continua aí, serenamente, apesar de saber que o esquecemos.

Não pode existir nada de mais animador do que a notícia de que Deus existe. Ele é
quem endireita tudo, quem coloca tudo no seu lugar, quem equilibra a balança. O que
importa já não sou eu, mas Deus. Ele, e não eu, é o centro do universo; importa a sua
vontade, não a minha; a única coisa que importa é o que Ele pensa sobre as coisas, o
que Ele pensa sobre as pessoas, não o que eu penso sobre elas; a sua glória, e não a
minha, deve ser aquilo para que eu vivo. Daqui a cem anos, quando vocês e eu tivermos
deixado de existir, continuará ainda a interessar se a raça humana é livre ou escrava,
feliz ou miserável, unicamente porque nessa altura continuará a reinar um Deus no céu –
então como agora.

Perdoem-me, pois não podem compreender tudo isto. Não por serem estúpidos, mas por
serem jovens. Enquanto vocês são jovens, podem sempre encontrar companhia em si
próprios, a não ser que sejam melancólicos. Quando à noite vocês vão-se deitar, e
enquanto não conseguem adormecer, sentem-se completamente felizes pensando nos
seus projetos, nas suas amizades e nas suas ambições; podem continuar deitados e
divagar, contando a si próprios histórias sobre o que farão quando forem adultos, e com
que tipo de pessoa casarão. Mas, quando tiverem cinqüenta anos e portanto tiverem já
convivido mais tempo consigo próprios, essa companhia deixará de lhes ser tão
agradável e acabará mesmo por aborrecê-los. E isso origina uma terrível solidão na alma
humana – a não ser que esta tenha aprendido, tenha procurado não esquecer e continue
sempre acreditando que Deus existe.

Quando vocês tiverem cinqüenta anos, terão começado a considerar-se como uma
espécie de artigo de segunda categoria: os planos que traçaram para seguir este ou
aquele caminho já não lhes hão de parecer tão relevantes; o juízo que fizeram acerca
das pessoas e das coisas já não lhes há de importar tanto; e a configuração que a
Europa terá dentro de cem anos é um problema que não lhes há de interessar muito.
Nessa altura, crer que Deus existe significará que vocês têm alguma coisa, melhor, que
têm Alguém a quem recorrer. “Creio em Deus”: se daqui a quarenta anos vocês
mantiverem a fé que têm agora, darão graças a Deus – por Deus existir.
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2 - “A Ditadura do Relativismo”

Trecho da homilia do Cardeal Ratzinger na Missa de Eleição do novo Papa, do dia 18 de


Abril de 2005

“O primeiro é o caminho para a maturidade de Cristo – assim diz o texto italiano,


simplificando um pouco. Segundo o texto grego, devemos mais precisamente falar da
medida da plenitude de Cristo, à qual somos chamados a atingir para sermos realmente
adultos na fé. Não devemos permanecer crianças na fé, em estado de menoridade. E em
que é que consiste ser crianças na fé? Responde São Paulo: significa ser batidos pelas
ondas e levados ao sabor de qualquer vento de doutrina... (Ef 4, 14). Uma descrição
muito atual! Quantos ventos de doutrina conhecemos nestes últimos decênios, quantas
correntes ideológicas, quantos modos de pensamento... A pequena barca do
pensamento de muitos cristãos foi não raro agitada por estas ondas – lançada dum
extremo ao outro: do marxismo ao liberalismo, até ao ponto de chegar à libertinagem; do
coletivismo ao individualismo radical; do ateísmo a um vago misticismo religioso; do
agnosticismo ao sincretismo e por aí adiante.

Todos os dias nascem novas seitas e cumpre-se assim o que São Paulo disse sobre o
engano dos homens, sobre a astúcia que tende a induzir ao erro (cf. Ef 4, 14). Ter uma fé
clara, segundo o Credo da Igreja, é freqüentemente catalogado como fundamentalismo,
ao passo que o relativismo, isto é, o deixar-se levar ao sabor de qualquer vento de
doutrina, aparece como a única atitude à altura dos tempos atuais. Vai-se constituindo
uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que usa como
critério último apenas o próprio “eu” e os seus apetites.

Nós, pelo contrário, temos um outro critério: o Filho de Deus, o verdadeiro homem. É Ele
a medida do verdadeiro humanismo. Não é “adulta” uma fé que segue as ondas da moda
e a última novidade; adulta e madura é antes uma fé profundamente enraizada na
amizade com Cristo. É essa amizade que se abre a tudo aquilo que é bom e que nos dá
o critério para discernir entre o que é verdadeiro e o que é falso, entre engano e verdade”

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3 - A Transmissão da Revelação divina

Trecho da Constituição Dogmática Dei Verbum, sobre a Revelação Divina

“CAPÍTULO II - A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA

Os apóstolos e seus sucessores, transmissores do Evangelho

7. Deus dispôs amorosamente que permanecesse integro e fosse transmitido a todas as


gerações tudo quanto tinha revelado para salvação de todos os povos. Por isso, Cristo
Senhor, em quem toda a revelação do Deus altíssimo se consuma (cfr. 2 Cor. 1,20;
3,16-4,6), mandou aos Apóstolos que pregassem a todos, como fonte de toda a verdade
salutar e de toda a disciplina de costumes, o Evangelho prometido antes pelos profetas e
por Ele cumprido e promulgado pessoalmente (1), comunicando-lhes assim os dons
divinos. Isto foi realizado com fidelidade, tanto pelos Apóstolos que, na sua pregação
oral, exemplos e instituições, transmitiram aquilo que tinham recebido dos lábios, trato e
obras de Cristo, e o que tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo, como por
aqueles Apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo,
escreveram a mensagem da salvação (2).
Porém, para que o Evangelho fosse perenemente conservado integro e vivo na Igreja, os
Apóstolos deixaram os Bispos como seus sucessores, «entregando lhes o seu próprio
ofício de magistério». Portanto, esta sagrada Tradição e a Sagrada Escritura dos dois
Testamentos são como um espelho no qual a Igreja peregrina na terra contempla a Deus,
de quem tudo recebe, até ser conduzida a vê-lo face a face tal qual Ele é (cfr. 1 Jo. 3,2).

A sagrada Tradição

8. E assim, a pregação apostólica, que se exprime de modo especial nos livros


inspirados, devia conservar-se, por uma sucessão contínua, até à consumação dos
tempos. Por isso, os Apóstolos, transmitindo o que eles mesmos receberam, advertem os
fiéis a que observem as tradições que tinham aprendido quer por palavras quer por
escrito (cfr. 2 Tess. 2,15), e a que lutem pela fé recebida dama vez para sempre (cfr. Jud.
3)(4). Ora, o que foi transmitido pelos Apóstolos, abrange tudo quanto contribui para a
vida santa do Povo de Deus e para o aumento da sua fé; e assim a Igreja, na sua

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doutrina, vida e culto, perpetua e transmite a todas as gerações tudo aquilo que ela é e
tudo quanto acredita.
Esta tradição apostólica progride na Igreja sob a assistência do Espírito Santo (5). Com
efeito, progride a percepção tanto das coisas como das palavras transmitidas, quer
mercê da contemplação e estudo dos crentes, que as meditam no seu coração (cfr. Lc. 2,
19. 51), quer mercê da íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais, quer
mercê da pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma
da verdade. Isto é, a Igreja, no decurso dos séculos, tende continuamente para a
plenitude da verdade divina, até que nela se realizem as palavras de Deus.
Afirmações dos santos Padres testemunham a presença vivificadora desta Tradição,
cujas riquezas entram na prática e na vida da Igreja crente e orante. Mediante a mesma
Tradição, conhece a Igreja o cânon inteiro dos livros sagrados, e a própria Sagrada
Escritura entende-se nela mais profundamente e torna-se incessantemente operante; e
assim, Deus, que outrora falou, dialoga sem interrupção com a esposa do seu amado
Filho; e o Espírito Santo - por quem ressoa a voz do Evangelho na Igreja e, pela Igreja,
no mundo - introduz os crentes na verdade plena e faz com que a palavra de Cristo neles
habite em toda a sua riqueza (cfr. Col. 3,16).

Relação entre a sagrada Tradição e a Sagrada Escritura

9. A sagrada Tradição, portanto, e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e


compenetradas entre si. Com efeito, derivando ambas da mesma fonte divina, fazem
como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim. A Sagrada Escritura é a palavra de
Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito Santo; a sagrada Tradição, por sua
vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra de Deus confiada
por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, para que eles, com a luz do
Espírito de verdade, a conservem, a exponham e a difundam fielmente na sua pregação;
donde resulta assim que a Igreja não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a
respeito de todas as coisas reveladas. Por isso, ambas devem ser recebidas e
veneradas com igual espírito de piedade e reverência (6).

Relação de uma e outra com a Igreja e com o Magistério eclesiástico

10. A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da


palavra de Deus, confiado à Igreja; aderindo a este, todo o Povo santo persevera unido

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aos seus pastores na doutrina dos Apóstolos e na comunhão, na fração do pão e na
oração (cfr. Act. 2,42 gr.), de tal modo que, na conservação, atuação e profissão da fé
transmitida, haja uma especial concordância dos pastores e dos fiéis (7).
Porém, o encargo de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou contida na
Tradição (8), foi confiado só ao magistério vivo da Igreja (9), cuja autoridade é exercida
em nome de Jesus Cristo. Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim
ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e
com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a
expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como
divinamente revelado.
É claro, portanto, que a sagrada Tradição, a sagrada Escritura e o magistério da Igreja,
segundo o sapientíssimo desígnio de Deus, de tal maneira se unem e se associam que
um sem os outros não se mantém, e todos juntos, cada um a seu modo, sob a ação do
mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas.

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Aula 02 - Creio em Deus Pai, Criador do Céu e da Terra

! Passa-se à análise do Credo propriamente dito, com a apresentação dos dois


símbolos da fé (dos Apóstolos e de Niceia-Constantinopla). Essas fórmulas breves
recolhem o essencial da fé e quando as recitamos, entramos em comunhão com Deus
Pai, Filho e Espírito Santo e com toda a Igreja (cfr. CIC 185-197). São importantes
principalmente para quem se prepara para receber os sacramentos da iniciação cristã
(Batismo, Primeira Comunhão e Crisma), como referência sobre as verdades de fé,
devendo ser memorizados.
! O primeiro artigo, seguindo o Credo de Niceia-Constantinopla, reza o seguinte:
“Creio em um só Deus, Pai Todo-Poderoso, Criador do Céu e da terra, de todas as
coisas visíveis e invisíveis”.
! O conhecimento de Deus que podemos ter em termos filosóficos, tal como
alcançado pela filosofia grega antes de Cristo, chega a uma concepção de Deus como "o
Ser#: Único, Imutável, Imóvel, Eterno. Visto por Aristóteles como o Motor-Imóvel de todo o
universo. Uma concepção profunda em termos filosóficos, muito acima das concepções
politeístas que marcaram e ainda marcam algumas religiões, mas fria e distante. A
revelação judaico-cristã mostra um Deus próximo ao homem, interessado pela sua vida.
Cristo, ao levar a revelação a seu cume, nos apresenta Deus como Pai e nos revela a
Santíssima Trindade. Por si só, nunca seria possível ao homem chegar a tal
conhecimento de Deus. Como coloca o CIC 261: “O mistério da Santíssima Trindade é o
mistério central da fé e da vida cristã. Só Deus pode dar-nos o seu conhecimento,
revelando-Se como Pai, Filho e Espírito Santo”.
! A criação do homem e do mundo se inserem no contexto de um Deus que é Pai e
Todo-Poderoso, isto é, exerce sua onipotência na paternidade, adotando-nos como filhos
para participarmos de sua vida divina, cuidando de nossas necessidade e sendo
misericordioso, ao perdoar nossos pecados.
! A criação é o fundamento de todos os desígnios de Deus e o princípio da
revelação que culmina com Cristo (cfr. CIC 279). Deus criou o mundo para compartilhar
sua vida íntima de amor e comunhão entre as Pessoas da Trindade. O relato da criação
no livro do Gênesis, possuiu uma “linguagem de imagens”, ou seja, evidenciam
realidades reais, numa linguagem não-literal (cfr. CIC 390). As investigações científicas e
históricas sobre a criação (p. ex.: teoria do Big-Bang, da Evolução das Espécies) não
estão em contradição com a posição da Igreja sobre a Criação do mundo e mesmo com
o relato do Gênesis. O que a Igreja procura salvaguardar é que num momento concreto
da história do mundo (talvez depois de bilhões de anos de evolução), Deus criou o

19
homem, infundindo-lhe uma alma e fazendo participante da vida divina. Essa
"humanidade inicial#, conhecidos como Adão e Eva (ainda que alguns teólogos admitem a
possibilidade de mais de um casal), foi adornada com dons que estavam acima de sua
natureza e que os dava um domínio de si, um domínio da criação e um conhecimento e
intimidade com Deus muito maior ao que temos (cfr. CIC 374-379). No entanto,
permaneciam neles a liberdade, como sinal de dignidade, pelo qual podiam escolher a
servir a Deus ou a servir a si mesmos (o relato do Gênesis simboliza essa escolha
falando da árvore do bem e do mal, pela qual se comessem o fruto, poderiam ser como
Deus). Pois foi no exercício de sua liberdade, escolhendo ser donos do bem e do mal,
fundamentos da própria perfeição, que a humanidade inicial (Adão e Eva) escolheu
cortar a relação com Deus, fato esse chamado de pecado original (cfr. CIC 385-412) -
cfr. também Leitura Complementar !A Queda".
$ Com o pecado original, o homem cai na desgraça da separação em relação a
Deus, ficando sujeito às leis da natureza (sofrimento, suor pelo trabalho, morte). Entra
no mundo a realidade do pecado, que assalta toda natureza humana, que cada um de
nós é testemunha por conhecimento próprio. Deixado por si mesmo, o homem já não tem
acesso a Deus, ainda que encontra em si um "desejo de Deus# que o levou, ao longo da
história, a diferentes manifestações de religiosidade (como vimos na primeira aula). É
como se a partir daquele momento um novo ser humano nascesse, com a culpa do
pecado, ainda que não seja uma culpa moral, mas de natureza. Mas Deus não deixou o
homem só e a queda tornou-se uma "feliz culpa#, como canta a liturgia pascal, pois foi
motivo das alianças que culminaram na vinda de Cristo, próprio Deus feito homem, único
capaz de reconciliar o homem, a humanidade, com Deus. A centralidade da doutrina do
pecado original está que sem ela não se compreende a doutrina da redenção.
! Para um entendimento mais profundo da doutrina do pecado original, é relevante
falar das "criaturas invisíveis#, isto é, os anjos: sua criação por Deus e sua queda (origem
dos demônios). Criaturas espirituais, feitas à imagem de Deus, os anjos tiveram, como os
homens, um momento de decisão sobre servir a Deus ou a si mesmos, no exercício de
sua liberdade (cfr. CIC 328-336 e 391-395). Os anjos que decidiram-se por Deus, formam
sua corte, são enviados por Deus em missões específicas e cuidam dos homens (anjos
da guarda). Os que negaram a Deus são os demônios, encabeçados por Satanás. Este é
apenas uma criatura, de poder limitado, ainda que poderoso, por ser puro espírito.
Desempenha um papel importante no pecado original, ao aparecer como a serpente
tentadora. Exerce sua ação por ódio a Deus e ao reino de Cristo. Essa ação, que causa
grandes danos ao homem e a sociedade, é permitida pela Providência divina que dirige a

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história. O CIC coloca no ponto 395: “A permissão divina da atividade diabólica é um
grande mistério. Mas «nós sabemos que tudo concorre para o bem daqueles que amam
a Deus» (Rm 8, 28)”.

Principais Tópicos:
- O Credo: símbolo da fé
- Deus e a Santíssima Trindade;
- A criação do mundo;
- A criação do homem;
- O pecado original.
Bibliografia:
- CIC 185-421
- Compêndio do CIC - 33-78
- Fé Explicada - pg. 20-67

Leitura Complementar da Aula 02

1 - A Queda

Trecho do livro: !O Problema do Sofrimento", de C.S Lewis, onde o autor propõe uma
descrição do pecado original e suas implicações.

! “Na verdade, nossa natureza agora é tal que precisamos escapar; e o pecado, por
ser inevitável, pode ser venial. Mas não foi Deus que nos fez assim. A gravitação para
longe de Deus, "a jornada em direção ao ego habitual", deve ser, ao que pensamos, um
resultado da Queda. O que aconteceu exatamente quando o homem caiu, não sabemos;
mas se é legítimo fazer conjecturas, ofereço o seguinte quadro: um "mito" no sentido
socrático (isto é, um relato do que pode ter sido o fato histórico, uma narrativa plausível).
! Durante longos séculos Deus aperfeiçoou a forma animal que iria tomar-se o
veículo da humanidade e a imagem de Si mesmo. Ele deu-lhe mãos cujo polegar podia
ser aplicado a cada um dos dedos, e mandíbula, dentes e garganta articulados, assim
como um cérebro suficientemente complexo para executar todos os movimentos
materiais dando lugar ao pensamento racional. A criatura pode ter existido durante
séculos neste estado antes de tomar-se homem: pode ter sido até mesmo inteligente o
bastante para fazer coisas que o arqueólogo moderno aceitaria como prova de sua
humanidade. Mas não passava de um animal porque todos os seus processos físicos

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eram dirigidos a fins puramente materiais e naturais. Então, na plenitude do tempo, Deus
fez descer sobre este organismo, tanto na sua psicologia como fisiologia, uma nova
espécie de consciência que podia dizer "eu" e "mim", que podia olhar para si mesma
como um objeto, que conhecia Deus, que podia fazer juízos quanto à verdade, beleza e
bondade, e que estava tão acima do tempo que podia percebê-lo passar.
! Esta nova consciência governava e iluminava o organismo inteiro, enchendo de
luz cada uma de suas partes; não sendo, como o nosso, limitado a uma seleção dos
movimentos existentes numa parte dele, a saber, o cérebro. O homem era então todo
consciência. O iogue moderno alega - seja com verdade ou falsamente - ter sob controle
essas funções que para nós fazem praticamente parte do mundo exterior, como a
digestão e a circulação. O primeiro homem tinha eminentemente este poder. Seus
processos orgânicos obedecem à lei da sua própria vontade e não à da natureza. Seus
órgãos enviavam apetites ao tribunal da vontade, não porque fossem obrigados a isso,
mas porque assim o desejavam. O sono não era para ele o estupor em que caímos, mas
um repouso consciente e voluntário - permanecia acordado para gozar do prazer e
necessidade do sono. Desde que os processos de decadência e reparo de seus tecidos
eram da mesma forma conscientes e obedientes, não é fantasioso supor que a duração
de sua vida fosse um aspecto que ficava praticamente a seu critério.
! Pelo fato de comandar inteiramente a si mesmo, ele dominava todas as formas
inferiores de vida com as quais entrava em contato. Encontramos ainda hoje alguns raros
indivíduos que possuem um misterioso poder para domesticar feras. O “homem-
paradisíaco” gozava deste poder de maneira notável. O velho quadro dos animais
brincando diante de Adão e fazendo-lhe festas pode não ser inteiramente simbólico. Até
mesmo agora mais animais do que podemos supor estão prontos a adorar o homem se
lhes for dada uma oportunidade razoável: pois o homem foi feito para ser o sacerdote e
mesmo, num certo sentido, o Cristo, dos animais - o mediador através do qual eles
apreendem tanto do esplendor divino quanto sua natureza irracional permite. E Deus,
para tal homem, não representava um plano inclinado, escorregadio. A nova consciência
tinha sido feita para repousar em seu Criador, e assim fez.
! Por mais rica e variada que fosse a experiência do homem em relação a seus
semelhantes (ou semelhante) quanto à caridade e amizade, ao amor sexual, ou quanto
aos animais ou ao mundo que o rodeava, pela primeira vez reconhecido como belo e
terrível, Deus vinha em primeiro lugar no seu amor e pensamentos, e isso sem qualquer
esforço penoso. Num perfeito movimento cíclico, o ser, o poder e a alegria, desciam de
Deus para o homem na forma de amor obediente e adoração extática: e neste sentido,

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embora não em todos, o homem era então verdadeiramente o filho de Deus, o protótipo
de Cristo, representando perfeitamente na alegria e relaxamento de todas as faculdades
e sentidos aquela rendição filial que Nosso Senhor representou nas agonias da
crucificação.
! Julgado pelos seus artefatos e talvez até mesmo pela sua linguagem, esta criatura
abençoada era sem dúvida um selvagem. Tudo o que a experiência e a prática podem
ensinar estava ainda para ser aprendido: se cortava gravetos, com certeza era muito
desajeitado. Pode ter sido absolutamente incapaz de expressar de forma conceitual sua
experiência paradisíaca. Tudo isso é irrelevante. De nossa infância, podemos lembrar
que antes dos mais velhos nos considerarem capazes de "compreender" qualquer coisa,
já tínhamos experiências espirituais tão puras e momentosas como quaisquer outras que
tenhamos tido desde então, embora não fossem naturalmente tão ricas em seu contexto
real. Do próprio cristianismo podemos aprender que existe um nível - a longo prazo o
único nível de importância - em que os eruditos e os adultos não têm qualquer vantagem
sobre os simples e as crianças. Não tenho dúvidas de que se o homem paradisíaco
surgisse agora entre nós, iríamos considerá-lo um completo selvagem, uma criatura a ser
explorada ou, pelo menos, tratada com condescendência. Apenas um ou dois, e esses
estariam entre os mais santos dentre nós, iriam lançar um segundo olhar para essa
criatura nua, barbuda, de fala arrastada: mas eles, dentro de poucos minutos, cairiam a
seus pés.
! Não sabemos quantas dessas criaturas Deus fez, nem por quanto tempo
continuariam no estado paradisíaco. Mas, mais cedo ou mais tarde, elas caíram. Alguém
ou alguma coisa lhes sussurrou que poderiam tornar-se como deuses - que podiam
deixar de manter Suas vidas na direção do Criador e aceitar todos os seus prazeres
como dádivas não convencionais, como "acidentes" (no sentido lógico) surgidos no
decorrer de uma vida dirigida à adoração de Deus e não a esses prazeres.
! Da mesma forma que o jovem deseja uma mesada do pai, que possa considerar
como sua, com a qual faz seus próprios planos (e com justiça, pois o pai é afinal de
contas um semelhante) eles também desejavam agir por conta própria, cuidar de seu
futuro, planejar para o seu prazer e segurança, ter um "meu# do qual sem dúvida
pagariam um tributo razoável a Deus em termos de tempo, atenção, e amor, mas que em
todo caso era deles e não dEle. Eles queriam, como dizemos hoje, ser "seus próprios
donos". Mas isso significa viver uma mentira, porque na verdade não somos donos de
nós mesmos, nossa alma não é nossa. Eles queriam um lugar no universo de onde
pudessem dizer a Deus: "Este negócio é nosso e não seu." Mas não existe um canto

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assim. Eles queriam ser substantivos, mas eram, e serão eternamente, simples adjetivos.
Não temos idéia em que ato, ou série de atos, o desejo contraditório, impossível,
encontrou expressão. Por tudo o que sei, pode ter ligação com o ato de comer
literalmente uma fruta, mas a questão não é importante.
! Este ato de obstinação por parte da criatura, que constitui uma absoluta falsidade
em relação à sua posição de criatura, é o único pecado que pode ser concebido como a
Queda. A dificuldade com respeito ao primeiro pecado é que ele deve ser hediondo, caso
contrário suas conseqüências não seriam tão terríveis, embora seja ao mesmo tempo
algo que um ser, livre das tentações do homem decaído, possa ter possivelmente
praticado. O desvio de Deus para o "eu" cumpre ambas as condições. É um pecado
possível até mesmo ao homem paradisíaco, pois a simples existência de um "eu" – o
mero fato de o chamarmos "mim" - inclui, desde o princípio, o perigo da auto-idolatria.
Desde que eu sou eu, devo realizar um ato de auto-rendição, por menor ou mais fácil
que seja, vivendo para Deus em lugar de para mim mesmo.
! Este é o "ponto fraco" na própria natureza da criação, o risco que Deus
aparentemente julga valer a pena aceitar. Mas o pecado foi hediondo porque o "eu" que
o homem paradisíaco teve de render não continha uma resistência natural ao ato de
render-se. Seus dados, por assim dizer, eram um organismo psicofísico inteiramente
sujeito à vontade e uma vontade inteiramente disposta, embora não compelida, a voltar-
se para Deus. A auto- entrega que ele praticou antes da Queda não envolveu qualquer
esforço, mas apenas a agradável vitória sobre uma auto-aderência infinitesimal que
causou prazer ao ser vencida - no que vemos uma leve analogia na auto-entrega
extasiada dos amantes de hoje. Ele não tinha, portanto, qualquer tentação (no sentido
dado por nós) para escolher o "eu" – nenhuma paixão ou inclinação voltada
obstinadamente para esse lado – nada além do simples fato de que o ego era ele
mesmo.
! Até esse momento o espírito humano tinha estado em pleno controle do
organismo humano, e sem dúvida esperava que reteria esse controle quando deixou de
obedecer a Deus. Mas sua autoridade sobre o organismo não passava de uma
autoridade delegada que perdeu quando deixou de ser o delegado de Deus. Pelo fato de
ter-se afastado, na medida do possível, da fonte de seu ser, ele também rompeu sua
ligação com a fonte de poder. Quando dizemos quanto às coisas criadas que A domina
B, isto deve significar que Deus domina B através de A. Duvido que fosse
intrinsecamente possível para Deus continuar a ter domínio sobre o organismo através
do espírito humano quando este se rebela contra Ele. Pelo menos, não o fez. Passou a

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governar o organismo de maneira mais extrema, não mais pelas leis do espírito, mas
pelas da natureza. Assim sendo, os órgãos, não mais governados pela vontade do
homem, caíram sob o controle das leis bioquímicas comuns e sofreram as interações
que essas leis provocaram na forma de dor, senilidade e morte.
! Os desejos começaram a surgir na mente do homem, não de conformidade com a
escolha feita pela sua razão, mas como os fatos bioquímicos e ambientais os
provocavam. A própria mente sujeitou- se às leis psicológicas da associação e outras que
Deus tinha feito para governar a psicologia dos antropóides superiores. E a vontade,
apanhada na maré da simples natureza, não teve outro recurso senão restringir alguns
dos novos pensamentos e desejos pela força, e esses rebeldes inconformados se
tomaram o subconsciente como o conhecemos hoje. O processo, segundo penso, não foi
comparável à simples deterioração como pode ocorrer agora no indivíduo da espécie
humana; mas tratou-se de uma perda de posição como espécie. O que o homem perdeu
com a Queda foi sua natureza original específica. "Tu és pó e ao pó voltarás." O
organismo total que se elevara até sua vida espiritual voltou à condição simplesmente
natural de que, ao ser feito, tinha saído - assim como, muito antes na história da criação,
Deus elevara a vida vegetal para tomar-se o veículo da animalidade, e o processo
químico para tornar-se o veículo da vegetação, e o processo físico para tornar-se o
veículo do químico. O espírito humano, de senhor da natureza humana, passou a ser um
simples hóspede em sua própria casa, ou até mesmo um prisioneiro; a consciência
racional transformou-se no que agora é - um facho de luz vacilante repousando em uma
pequena parcela dos movimentos cerebrais. Mas esta limitação dos poderes do espírito
foi um mal menor do que a corrupção do espírito em si. Ele se afastara de Deus e se
tomara o seu próprio ídolo; e assim, embora pudesse ainda voltar a Deus, só podia fazê-
lo mediante um grande esforço, e sua indignação era dirigida ao "eu".
! Dessa forma o orgulho e a ambição, o desejo de ser belo a seus próprios olhos e
de oprimir e humilhar todos os rivais, a inveja e a busca incessante de mais e mais
segurança, eram agora as atitudes que tomava com maior facilidade. Ele não era apenas
um rei fraco sobre a sua natureza, mas um mau rei: enviando ao organismo psicofísico
desejos bem piores do que este os enviava a ele. Esta condição foi transmitida a todas
as gerações posteriores pela hereditariedade, pois não se tratava simplesmente do que
os biólogos chamam de uma variação adquirida; mas da emergência de um novo tipo de
homem - uma nova espécie, jamais feita por Deus, tinha passado a existir mediante o
pecado. A mudança pela qual o homem passara não era paralela ao desenvolvimento de
um novo órgão ou um novo hábito; tratava-se, entretanto, de uma alteração radical de

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sua constituição, um distúrbio da relação entre as suas partes componentes, e uma
perversão interna de uma delas.
! Deus poderia ter suspenso este processo através de um milagre: mas isto -
falando por metáfora algo irreverente - seria declinar o problema que Deus, Ele mesmo,
tinha estabelecido ao criar o total de um mundo contendo agentes livres, apesar de, e por
meio de, sua rebelião contra Ele. O símbolo de um drama, uma sinfonia, ou uma dança,
é útil aqui para corrigir um certo absurdo que pode surgir se falarmos demasiado a
respeito de Deus planejar e criar o processo do mundo para o bem e de esse bem ser
frustrado pelo livre-arbítrio das criaturas.
! Isto pode levantar a idéia ridícula de que a Queda tomou Deus de surpresa e
atrapalhou os seus planos, ou então - mais ridículo ainda - que Deus planejou tudo para
condições que, Ele bem sabia, jamais iriam ser cumpridas. De fato, como é natural, Deus
viu a crucifixão no ato de criar a primeira nebulosa. O mundo é uma dança em que o
bem, procedente de Deus, é perturbado pelo mal que sobe das criaturas, e o conflito
resultante é resolvido pela suposição do próprio Deus da natureza sofredora que o mal
produz. A doutrina da Queda voluntária afirma que o mal que produz assim o combustível
ou a matéria-prima para o segundo e mais complexo tipo de bem não é contribuição de
Deus mas do homem. Isto não quer dizer que se o homem tivesse permanecido
inocente, Deus não poderia então ter inventado um todo sinfônico igualmente esplêndido
- supondo que insistamos em fazer perguntas desse tipo. Mas deve ser sempre lembrado
que quando falamos do que poderia ter acontecido, de contingências fora de toda
realidade, não sabemos na verdade do que estamos falando. Não existem tempos nem
lugares fora do universo existente em que tudo isto "poderia acontecer" ou "poderia ter
acontecido". Penso que a maneira mais significativa de afirmar a verdadeira liberdade do
homem é dizer que se existirem outras espécies racionais além dele, em alguma outra
parte do universo atual, então não é necessário supor que elas também tenham decaído.
! Nossa condição presente é então explicada pelo fato de que somos membros de
uma espécie estragada. Não quero dizer que nossos sofrimentos sejam uma punição por
ser aquilo que agora não mais podemos deixar de ser, nem que sejamos moralmente
responsáveis pela rebelião de um ancestral remoto. Se, todavia, digo que nossa
condição presente é de pecado original, e não simplesmente de infortúnio original, isto se
deve ao fato de nossa experiência religiosa real não permitir que a consideremos de
qualquer outro modo. Em teoria, suponho que poderíamos dizer: "Sim, nós nos
comportamos como vermes, mas isso porque somos vermes. E, afinal de contas, isso
não é culpa nossa." Mas o fato de sermos vermes, longe de ser sentido como uma

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desculpa, é uma vergonha e um sofrimento para nós maior do que qualquer dos atos que
ele nos leva a cometer. A situação não é assim tão difícil de entender como alguns
pensam. Ela surge entre os seres humanos toda vez que um menino realmente mal
educado é introduzido no seio de uma família decente. Eles procuram lembrar-se de que
"não é culpa dele" ser um valentão, um covarde, um mexeriqueiro e um mentiroso. Mas,
de qualquer jeito, como quer que o tenha adquirido, seu caráter é detestável. Eles não só
o odeiam, como devem odiá-lo. Não podem amar o menino pelo que é, podem apenas
tentar transformá-lo naquilo que não é. Nesse meio tempo, embora o menino não tenha
tido sorte em ser criado desse modo, você não pode com justiça chamar o seu caráter de
uma "infelicidade" como se ele fosse uma coisa e o seu caráter outra. É ele - ele mesmo
- que aborrece, age covardemente e gosta disso. E se começar a emendar-se irá
inevitavelmente sentir vergonha e culpa daquilo que está começando a deixar de ser.
! Com isto eu disse tudo que pode ser dito no único nível em que sinto que posso
tratar do assunto da Queda.

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Aula 03 - Creio em Jesus Cristo

! A catequese sobre Cristo deve sempre ocupar um papel de destaque na


exposição da fé católica, pois o objetivo de toda catequese é realizar um encontro
pessoal com Jesus Cristo. Como ensina o CIC: “No coração da catequese, encontramos
essencialmente uma Pessoa: Jesus de Nazaré, Filho único do Pai [...], que sofreu e
morreu por nós e que agora, ressuscitado, vive conosco para sempre [...]. Catequizar [...]
é revelar, na Pessoa de Cristo, todo o desígnio eterno de Deus [...]. É procurar
compreender o significado dos gestos e das palavras de Cristo e dos sinais por Ele
realizados». O fim da catequese é «pôr em comunhão com Jesus Cristo: somente Ele
pode levar ao amor do Pai, no Espírito, e fazer-nos participar na vida da Santíssima
Trindade” (cfr. CIC 426).
$ Entender a Pessoa de Jesus Cristo implica perceber a sociedade em que Ele
nasce: o povo judeu estava dominado pelos romanos e esperavam um messias,
salvador, que em alguns círculos judaicos tinha as características de um libertador
político. Mas o motivo da vinda de Jesus Cristo não é essa, pois como Ele mesmo coloca
“Meu reino não é deste mundo”. O Credo nos diz que Jesus veio ao mundo “por nós
homens, para a nossa salvação”. A libertação operada por Cristo é a da escravidão do
pecado, do afastamento de Deus. Ele veio nos revelar a grandeza do amor de Deus por
nós, ser nosso modelo de santidade e fazer-nos participantes da natureza divina (cfr. CIC
456-460).
! O poder e a autoridade de realizar essas obras vêm do próprio Deus. Jesus Cristo
é a "encarnação do Verbo eterno do Pai#, segunda Pessoa da Santíssima Trindade,
verdadeiro Deus e verdadeiro Homem. Para reconciliar os homens com Deus, foi preciso
que um Homem a realizasse, em nome de todos os homens, mas só Deus poderia fazer
essa redenção: daí o mistério do Homem-Deus.
! Cristo falou de sua divindade em vários momentos: “Eu o Pai somos Um”; “Antes
do que Abraão fosse, Eu sou”; “Quem vê a Mim, vê o Pai”; “Crede-me: Eu estou no Pai e
o Pai está em Mim” (Jo 14, 11) e comprovou o poder de suas palavras fazendo muitos
milagres, dos quais os Apóstolos e o povo da época são as testemunhas (cfr. Jo 20, 30).
! A vida de Cristo começa com a concepção virginal da Virgem Maria, passando
pelos episódios da sua vida de infância e oculta, sob o olhar e o carinho de Maria e José.
Sua vida pública, com o Batismo de João, dura aproximadamente três anos, culminando
com o julgamento e morte na Cruz. Depois a Ressurreição na Páscoa judaica, que
inaugura a Páscoa cristã, os momentos de aparição já ressuscitado e a Ascensão aos

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Céus. O CIC fala que “toda a vida de Cristo é mistério”, portanto, nos compete sempre ler
os Evangelhos para adentrar mais profundamente e na Catequese comentar os
principais episódios de Sua Vida, convidando a que cada pessoa faça o seu encontro
pessoal com Cristo.
! O Credo nos ensina que Jesus “subiu aos Céus e está sentado à direita de Deus
Pai Todo-Poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos”. Essa subida aos Céus
e o estar à direita do Pai anuncia a Glória de Cristo e a inauguração de um Reino
messiânico, profetizado por Daniel: “Foi-Lhe entregue o domínio, a majestade e a
realeza, e todos os povos, nações e línguas O serviram. O seu domínio é um domínio
eterno, que não passará jamais, e a sua realeza não será destruída” (Dn 7, 14).

Principais Tópicos:
- A vida de Cristo: concepção virginal, encarnação, vida oculta
- Vida pública, ensinamentos
- Morte na Cruz e Redenção
- Ressurreição e Ascensão aos Céus
- A Virgem Maria
- Volta de Cristo no fim dos tempos

Bibliografia:
CIC - 422-682
Compêndio do CIC - 79-135
Fé Explicada - pg. 68-85

Leitura Complementar da Aula 03

1 - Reflexões sobre a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo

Texto sobre o significado redentor da Paixão de Cristo, por Santo Afonso Maria de Ligório
(1696-1787), Doutor da Igreja, Padroeiro dos Moralistas e Confessores.

Quanto agrada a Jesus Cristo que nós nos lembremos continuamente de sua paixão e
da morte ignominiosa que por nós sofreu, muito bem se deduz de haver ele instituído o
Santíssimo Sacramento do altar com o fito de conservar sempre viva em nós a memória
do amor que nos patenteou, sacrificando-se na cruz por nossa salvação. Já sabemos
que na noite anterior à sua morte ele instituiu este sacramento de amor e depois de ter

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dado seu corpo aos discípulos, disse-lhes – e na pessoa deles a nós todos – que ao
receberem a santa comunhão se recordassem do quanto ele por nós padeceu: “Todas as
vezes que comerdes deste pão e beber de deste cálice, anunciareis a morte do
Senhor” (1 Cor 11, 26). Por isso a santa Igreja, na missa, depois da consagração, ordena
ao celebrante que diga em nome de Jesus Cristo: “Todas as vezes que fizerdes isto,
fazei-o em memória de mim”. E São Tomás escreve: “Para que permanecesse sempre
viva entre nós a memória de tão grande benefício, deixou seu corpo para ser tomado
como alimento” (Op. 57). E continua o santo a dizer que por meio de um tal sacramento
se conserva a memória do amor imenso que Jesus Cristo nos demonstrou na sua
paixão.

Se alguém padecesse por seu amigo injúrias e ferimentos e soubesse que o amigo,
quando se falava sobre tal acontecimento nem sequer nisso queria pensar e até
costumava dizer: falemos de outra coisa – que dor não sentiria vendo o
desconhecimento de um tal ingrato? Ao contrário, quanto se consolaria se soubesse que
o amigo reconhece dever-lhe uma eterna obrigação e que disso sempre se recorda e se
lhe refere sempre com ternura e lágrimas? Por isso é que todos os santos, sabendo a
satisfação que causa a Jesus Cristo quem se recorda continuamente de sua paixão,
estão quase sempre ocupados em meditar as dores e os desprezos que sofreu o
amantíssimo Redentor em toda a sua vida e particularmente na sua morte. Santo
Agostinho escreve que as almas não podem se ocupar com coisa mais salutar que
meditar cotidianamente na paixão do Senhor. Deus revelou a um santo anacoreta que
não há exercício mais próprio para inflamar os corações com o amor divino do que o
meditar na morte de Jesus Cristo. E a Santa Gertrudes foi revelado, segundo Blósio, que
todo aquele que contempla com devoção o crucifixo é tantas vezes olhado
amorosamente por Jesus quantas ele o contempla. Ajunta Blósio que o meditar ou ler
qualquer coisa sobre a paixão traz-nos maior bem que qualquer outro exercício de
piedade. Por isso escreve São Boaventura: “A paixão amável que diviniza quem a
medita” (Stim. div. amor, p. 1. c. 1). E falando das chagas do crucifixo, diz que são
chagas que ferem os mais duros corações e inflamam no amor divino as almas mais
geladas.

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O SALVADOR

Adão peca e se rebela contra Deus e sendo ele o primeiro homem, pai de todos os
homens, perdeu-se com todo o gênero humano. A injúria foi feita a Deus, motivo por que
nem Adão nem os outros homens, com todos os sacrifícios, mesmo oferecendo sua
própria vida, poderiam dar uma digna satisfação à Majestade divina; para aplacá-la
plenamente era necessário que uma pessoa divina satisfizesse a justiça divina. E eis que
o Filho de Deus, movido à compaixão pelos homens, arrastado pelos extremos de sua
misericórdia, se oferece a revestir-se da carne humana e a morrer pelos homens, para
assim dar a Deus uma completa satisfação por todos os seus pecados e obter-lhes a
graça divina que perderam.

Desce, pois, o amoroso Redentor a esta terra e fazendo-se homem quer curar os danos
que o pecado causara ao homem. Portanto, quer não só com seus ensinamentos, mas
também com os exemplos de sua santa vida, induzir os homens a observar os preceitos
divinos e por essa maneira conseguir a vida eterna. Para esse fim Jesus Cristo renunciou
a todas as honras, às delícias e riquezas de que podia gozar neste mundo e que lhe
eram devidas como ao Senhor do mundo, e escolhe uma vida humilde, pobre e
atribulada até morrer de dor sobre uma cruz. Foi um grande erro dos judeus pensar que
o Messias devia vir à terra para triunfar de todos os seus inimigos com o poder das
armas e, depois de os ter debelado e adquirido o domínio do mundo inteiro, deveria
tornar opulentos e gloriosos os seus sequazes. Mas se o Messias fosse qual os judeus o
desejavam, príncipe soberano e honrado de todos os homens como senhor de todo o
mundo, não seria o Redentor prometido por Deus e predito pelos profetas. É o que ele
mesmo declara quando responde a Pilatos: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18,
36). Por esse motivo repreende São Fulgêncio a Herodes por ter tão grande temor de ser
privado do seu reino pelo Salvador, quando ele não viera para vencer o rei pela guerra,
mas a conquistá-lo com sua morte (Serm. 5 de Epiph.).

Dois foram os erros dos judeus a respeito do Redentor esperado: o primeiro foi que,
quando os profetas falavam dos bens espirituais e eternos, eles o interpretavam dos
bens terrenos e temporais. “E a fé reinará nos teus tempos; a sabedoria e a ciência serão
as riquezas da salvação; o temor do Senhor esse é o teu tesouro” (Is 33, 6). Eis os bens
prometidos pelo Redentor, a fé, a ciência das virtudes, o santo temor, eis as riquezas da
prometida salvação. Além disso, promete que dará remédio aos penitentes, perdão aos

31
pecadores e liberdade aos cativos dos demônios: “Enviou-me para evangelizar os
mansos, para curar os contritos de coração e pregar remissão aos cativos e soltura aos
encarcerados” (Is 61, 1).

O outro erro dos judeus foi que pretenderam entender da primeira vinda do Salvador o
que fora predito pelos profetas da segunda vinda, para julgar o mundo no fim dos
séculos. Assim, escreve Davi do futuro Messias que ele deverá vencer os príncipes da
terra e abater a soberba de muitos e com a força da espada subjugar toda a terra (Sl
109,6). E o profeta Jeremias escreve: “A espada do Senhor devorará a terra de um
extremo a outro” (Lm 12, 12). Isso, porém, entende-se da segunda vinda, quando vier
como juiz a condenar os malvados. Falando, porém, da primeira vinda, na qual deveria
consumar a obra da redenção, mui claramente predisseram os profetas que o Redentor
levaria neste mundo uma vida pobre e desprezada. Eis o que escreve o profeta Zacarias,
falando da vida abjeta de Jesus Cristo: “Eis que o teu rei virá a ti, justo e salvador; ele é
pobre e vem montado sobre uma jumenta e sobre o potrinho da jumenta” (Zc 9, 9).

Esta profecia realizou-se plenamente quando Jesus entrou em Jerusalém, assentado


sobre um jumento, sendo recebido com todas as honras, como o Messias desejado,
segundo o testemunho de São João (Jo 12,14). Também sabemos que ele foi pobre
desde o seu nascimento, tendo vindo a este mundo em Belém, lugar desprezado, e
numa manjedoura: “E tu, Belém Efrata, tu és pequenina entre os milhares de Judá, mas
de ti é que há de sair aquele que há de reinar em Israel e cuja geração é desde o
princípio, desde os dias da eternidade” (Mq 5, 2). E essa profecia foi assinalada por São
Mateus (2,6) e São João (7, 42). Além disso, escreve o profeta Oséias: “Do Egito
chamarei o meu Filho” (11, 1), o que se realizou quando Jesus Cristo, como menino, foi
levado para o Egito, onde permaneceu sete anos como estranho no meio de gente
bárbara, dos parentes e dos amigos, devendo viver necessariamente mui pobremente.
Continuou, depois de voltar à Judéia, a levar uma vida pobre. Ele mesmo predisse pela
boca de Davi que pobre deveria ser durante toda a sua vida e atribulado pelas fadigas:
“Eu sou pobre e vivo em trabalhos desde a minha mocidade” (Sl 87,16).

A EXPIAÇÃO

Deus não podia ver plenamente satisfeita a sua justiça com os sacrifícios oferecidos
pelos homens, mesmo sacrificando-lhe suas vidas e, por isso, dispôs que seu próprio

32
Filho tomasse um corpo humano e fosse a digna vítima que o reconciliasse com os
homens e lhes obtivesse a salvação. “Não quiseste hóstia nem oblação, mas tu me
formaste um corpo” (Hb 10, 5). E o Filho unigênito se ofereceu voluntariamente a
sacrificar-se por nós e desceu à terra para completar o sacrifício com sua morte e assim
realizar a redenção do homem: “Eis, aqui venho para fazer, ó Deus, a tua vontade, como
está escrito de mim no princípio do livro” (Hb 10, 7).

Pergunta o Senhor, referindo-se ao pecador: “Que importará que eu vos fira de novo?” (Is
1, 5). Isso dizia Deus, para nos dar a entender que, por mais que punisse os seus
ofensores, suas penas não seriam suficientes para reparar a sua honra ultrajada, e por
isso enviou seu próprio Filho a satisfazer pelos pecados dos homens, visto que ele podia
dar uma digna reparação à justiça divina. Depois declarou por Isaías, falando de Jesus
feito vítima para expiar nossas culpas: “Eu o feri por causa dos crimes de meu povo” (53,
8), e não se contentou com uma pequena satisfação, mas quis vê-lo abatido pelos
tormentos: “E o Senhor quis quebrantá-lo na sua enfermidade” (Is 53, 10). Ó meu Jesus,
ó vítima de amor, consumida de dores na cruz para pagar os meus pecados, desejaria
morrer de dor, pensando quantas vezes vos tenho desprezado depois de tanto me
haverdes amado. Não permitais que eu continue a viver tão ingrato a tão grande
bondade. Atraí-me todo a vós: fazei-o pelos merecimentos desse sangue que
derramastes por mim!

Quando o Verbo divino se ofereceu para remir os homens, de duas maneiras se podia
fazer essa redenção: uma por meio do gozo e da glória, outra das penas e dos
vitupérios. Ele, porém, que com sua vinda não só pretendia livrar o homem da morte
eterna, mas também ganhar a si o amor de todos os corações humanos, repeliu o
caminho do gozo e da glória e escolheu o das penas e dos vitupérios (Hb 10, 34). A fim,
portanto, de satisfazer por nós a justiça divina e juntamente para inflamar-nos com seu
santo amor, quis qual criminoso sobrecarregar-se de todas as nossas culpas e, morrendo
sobre uma cruz, obter-nos a graça e a vida feliz. É justamente o que exprime Isaías
quando afirma: “Verdadeiramente ele foi o que tomou sobre si as nossas fraquezas e ele
mesmo carregou com as nossas dores” (Is 53, 4).

Disso encontram-se duas figuras claras no Antigo Testamento: a primeira era a cerimônia
usada todos os anos do “bode expiatório” sobre o qual o sumo pontífice entendia impor
todos os pecados do povo e por isso todos, cumulando-o de maldições, o enxotavam

33
para a floresta para servir aí de objeto à ira divina (Lv 16, 5). Esse bode figurava nosso
Redentor, que quis espontaneamente sobrecarregar-se com todas as maldições a nós
devidas por nossos pecados (Gl 3, 13), feito por nós maldição, para nos obter as
bênçãos divinas. E assim escreve o Apóstolo em outro lugar: “Aquele que desconhecia o
pecado, fê-lo por nós, para que nós fôssemos feitos justiça de Deus nele” (2 Cor 5, 21).
Como explicam Santo Ambrósio e Santo Anselmo, aquele que era a mesma inocência,
fê-lo pecado; revestiu-se com as vestes do pecador e quis tomar sobre si as penas
devidas a nós pecadores, para nos obter o perdão e nos tornar justos aos olhos de Deus.

A segunda figura do sacrifício que Jesus Cristo ofereceu por nós a seu eterno Pai na
cruz, foi a “serpente de bronze” suspensa em um poste, que curava os hebreus mordidos
pela serpente de fogo, quando para ela olhavam (Nm 21, 8). Assim escreve São João:
“Como Moisés suspendeu a serpente no deserto, assim importa que seja levantado o
Filho do homem, para que todo o que crê nele não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo
3, 14).

À LUZ DAS PROFECIAS

É preciso refletir que no capítulo 2.º da “Sabedoria” está predita a morte ignominiosa de
Jesus Cristo. Ainda que as palavras desse capítulo possam se referir à morte de
qualquer homem justo, contudo, afirma Tertuliano, São Cipriano, São Jerônimo e muitos
outros santos Padres, que de modo especial quadram à morte de Cristo: Aí se diz no
versículo 18: “Se realmente é o verdadeiro filho de Deus, ele o amparará e o livrará das
mãos dos contrários”. Essas palavras correspondem perfeitamente ao que diziam os
judeus, quando Jesus estava na cruz: “Confiou em Deus: livre-o agora, se o ama; pois
disse que era filho de Deus” (Mt 27, 43). Continua o sábio a dizer: “Façamos-lhe
perguntas por meio de ultrajes e tormentos... e provemos a sua paciência. Condenemo-lo
a uma morte a mais infame” (Sb 2, 19-20). Os judeus escolheram para Jesus Cristo a
morte da cruz, que era a mais ignominiosa, para que seu nome ficasse para sempre
aviltado e não fosse mais relembrado, segundo um outro testemunho de Jeremias:
“Ponhamos madeira no seu pão e exterminemo-lo da terra dos viventes e não haja mais
memória de seu nome” (Jr 11, 19). Ora, como podem dizer hoje em dia os judeus ser
falso que Jesus fosse o Messias prometido, por ter sido arrebatado deste mundo por
uma morte torpíssima, quando seus mesmos profetas haviam predito que ele deveria ter
uma morte tão vil?

34
Jesus aceitou, porém, semelhante morte porque morria para pagar os nossos pecados:
também por esse motivo quis qual pecador ser circuncidado, ser resgatado quando foi
apresentado ao templo, receber o batismo de penitência de São João. Na sua paixão,
finalmente quis ser pregado na cruz para pagar por nossos licenciosas liberdades, com a
sua nudez reparar a nossa avareza, com os opróbrios a nossa soberba, com a sujeição
aos carnífices a nossa ambição de dominar, com os espinhos os nossos maus
pensamentos, com o fel a nossa intemperança e com as dores do corpo os nossos
prazeres sensuais. Deveríamos por isso continuamente agradecer com lágrimas de
ternura ao eterno Pai por ter entregue seu Filho inocente à morte para livrar-nos da morte
eterna. “O qual não poupou seu próprio Filho, mas entregou-o por todos nós: como não
nos deu também com ele todas as coisas?” (Rom 8, 32). Assim fala São Paulo e o
próprio Jesus diz, segundo São João (3, 16): “Tanto Deus amou o mundo que lhe deu
seu Filho unigênito”. Daí exclamar a santa Igreja no sábado santo: “Ó admirável
dignação de vossa piedade para conosco! Ó inestimável excesso de vossa caridade!
Para resgatar o escravo, entregastes o vosso Filho”. Ó misericórdia infinita, ó amor
infinito de nosso Deus, ó santa fé! Quem isto crê e confessa, como poderá viver ser arder
em santo amor para com esse Deus tão amante e tão amável?

Ó Deus eterno, não olheis para mim, carregado de pecados, olhai para vosso Filho
inocente, pregado numa cruz, e que vos oferece tantas dores e suporta tantos ludíbrios
para que tenhais piedade de mim. Ó Deus amabilíssimo e meu verdadeiro amigo, por
amor, pois, desse Filho que vos é tão caro, tende piedade de mim. A piedade que desejo
é que me concedais o vosso santo amor. Ah, atraí-me inteiramente a vós do meio do lodo
de minhas torpezas. Consumi, ó fogo devorador, tudo o que vedes de impuro na minha
alma e a impede de ser toda vossa.

NOSSO FIADOR

Agradeçamos ao Pai e agradeçamos igualmente ao Filho que quis tomar a nossa carne e
juntamente os nossos pecados para dar a Deus com sua paixão e morte uma digna
satisfação. Diz o Apóstolo que Jesus Cristo se fez nosso fiador, obrigando-se a pagar as
nossas dívidas (Hb 7, 22). Como mediador entre Deus e os homens, estabeleceu um
pacto com Deus por meio do qual se obrigou a satisfazer por nós a divina justiça e em
compensação prometeu-nos da parte de Deus a vida eterna. Já com muita antecedência

35
o Eclesiástico nos advertia que não nos esquecêssemos do benefício deste divino fiador,
que, para obter a salvação, quis sacrificar a sua vida (Eclo 29, 20). E para mais nos
assegurar do perdão, diz São Paulo, foi que Jesus Cristo apagou com seu sangue o
decreto de nossa condenação, que continha a sentença da morte eterna contra nós, e a
afixou à cruz, na qual, morrendo, satisfez por nós a justiça divina (Col 2, 14). Ah, meu
Jesus, por aquele amor que vos obrigou a dar a vida e o sangue no Calvário por mim,
fazei-me morrer a todos os afetos deste mundo, fazei que eu me esqueça de tudo para
não pensar senão em vos amar e dar-vos gosto. Ó meu Deus, digno de infinito amor, vós
me amastes sem reserva e eu quero também amar-vos sem reserva. Eu vos amo, meu
sumo Bem, eu vos amo, meu amor, meu tudo.

Em suma, tudo o que nós podemos ter de bens, de salvação, de esperança, tudo
possuímos em Jesus Cristo e nos seus merecimentos, como disse São Pedro: “E não há
em outro nenhuma salvação, nem foi dado aos homens um outro nome debaixo dos céus
em que nós devemos ser salvos” (At 4, 12). Assim para nós não há esperança de
salvação senão nos merecimentos de Jesus Cristo. Donde São Tomás, com todos os
teólogos, conclui que depois da promulgação do Evangelho nós devemos crer
explicitamente, por necessidade não só de preceito, como também de meio, que
somente por meio de nosso Redentor nos é possível a salvação.

Todo o fundamento de nossa salvação está, portanto, na redenção humana do Verbo


divino, operado na terra. É preciso, pois, refletir que ainda que as ações de Jesus Cristo
feitas no mundo, sendo ações de uma pessoa divina, eram de um valor infinito, de
maneira que a mínima delas bastava para satisfazer a justiça divina por todos os
pecados dos homens, contudo só a morte de Jesus foi o grande sacrifício com o qual se
completou a nossa redenção, motivo pelo qual as Sagradas Escrituras se atribui a
redenção do homem principalmente à morte por ele sofrida na cruz: “Humilhou-se a si
mesmo, feito obediente até à morte e morte de cruz” (Fl 2, 8). Razão por que escreve o
Apóstolo que, quando tomamos a sagrada eucaristia, nos devemos recordar da morte do
Senhor: “Todas as vezes que comerdes deste pão e beberdes deste vinho, anunciareis a
morte do Senhor, até que ele venha” (1 Cor 11,26). Por que é que diz da morte e não da
encarnação, do nascimento, da ressurreição? Porque foi esse tormento, o mais doloroso
de Jesus Cristo, que completou a redenção.

Por isso dizia S. Paulo: “Não julgueis que eu sabia alguma coisa entre vós, senão a

36
Jesus Cristo e este crucificado” (1 Cor 2,2). Muito bem sabia o apóstolo que Jesus Cristo
nascera numa gruta, que habitara por trinta anos uma oficina que ressuscitara e subira
aos céus. Por que então escreve que não sabia outra coisa senão Jesus crucificado?
Porque a morte sofrida por Jesus na cruz era o que mais o movia a amá-lo e o induzia a
prestar obediência a Deus, a exercer a caridade para com o próximo, a paciência nas
adversidades, virtudes praticadas e ensinadas particularmente por Jesus Cristo na
cátedra da cruz. São Tomás escreve: “Em qualquer tentação encontra-se na cruz o
auxílio; aí a obediência para com Deus, aí a caridade para com o próximo, aí a paciência
nas adversidades, donde assevera Agostinho: A cruz não foi só o patíbulo do mártir,
como também a cátedra do mestre”. (In c. 12 ad Heb.).

À SOMBRA DA CRUZ

Almas devotas, procuremos ao menos imitar a esposa dos Cânticos, que dizia: “Eu
assentei-me à sombra daquele que tanto desejei” (Cânt 2, 3). Oh! que doce repouso as
almas que amam a Deus encontram nos tumultos deste mundo e nas tentações do
inferno e mesmo nos temores dos juízos de Deus, contemplando a sós em silêncio o
nosso amado Redentor agonizando na cruz, gotejando seu sangue divino de todos os
seus membros já feridos e rasgados pelos açoites, pelos espinhos e pelos cravos. Oh!
como a vista de Jesus crucificado afugenta de nossas mentes todos os desejos de
honras mundanas, das riquezas da terra e dos prazeres dos sentidos! Daquela cruz
emana uma vibração celeste, que docemente nos desprende dos objetos terrenos e
acende em nós um santo desejo de sofrer e morrer por amor daquele que quis sofrer
tanto e morrer por amor de nós.

Ó Deus, se Jesus Cristo não fosse o que ele é, Filho de Deus e verdadeiro Deus nosso
criador e supremo senhor, mas um simples homem, quem não sentiria compaixão vendo
um jovem de nobre linhagem, inocente e santo, morrer à força de tormentos sobre um
madeiro infame, para pagar, não os seus delitos, mas os de seus mesmos inimigos e
assim libertá-los da morte em perspectiva? E como é possível que não ganhe os afetos
de todos os corações um Deus que morre num mar de desprezos e de dores por amor
de suas criaturas? Como poderão essas criaturas amar outra coisa fora de Deus? Como
pensar em outra coisa que em ser gratos para com esse tão amante benfeitor? “Oh! se
conhecesses o mistério da cruz!”. disse Santo André ao tirano que queria induzi-lo a
renegar a Jesus Cristo, por ter Jesus se deixado crucificar como malfeitor. Oh! se

37
entendesses, tirano, o amor que Jesus Cristo te mostrou querendo morrer na cruz para
satisfazer por teus pecados e obter-te uma felicidade eterna, certamente não te
empenharias em persuadir-me a renegá-lo; pelo contrário, tu mesmo abandonarias tudo
o que possuis e esperas nesta terra para comprazeres e contentares um Deus que tanto
te amou. Assim já procederam tantos santos e tantos mártires que abandonaram tudo
por Jesus Cristo. Que vergonha para nós, quantas tenras virgenzinhas renunciaram a
casamentos principescos, riquezas reais e todas as delícias terrenas e voluntariamente
sacrificaram sua vida para testemunhar qualquer gratidão pelo amor que lhes
demonstrou este Deus crucificado.

Como explicar então que a muitos cristãos a paixão de Cristo faz tão pouca impressão?
Isso provém do pouco que consideram nos padecimentos sofridos por Jesus Cristo por
nosso amor. Ah, meu Redentor, também eu estive no número desses ingratos. Vós
sacrificastes vossa vida sobre uma cruz, para que não me perdesse, e eu tantas vezes
quis perder-vos, ó bem infinito, perdendo a vossa graça! Ora, o demônio, com a
recordação de meus pecados, pretenderia tornar-me dificílima a salvação, mas a vista de
vós crucificado, meu Jesus, me assegura que não me repelireis de vossa face se eu me
arrepender de vos haver ofendido e quiser vos amar. Oh! sim, eu me arrependo e quero
amar-vos com todo o meu coração. Detesto aqueles malditos prazeres que me fizeram
perder a vossa graça. Amo-vos, ó amabilidade infinita, e quero amar-vos sempre e a
recordação de meus pecados servirá para me inflamar ainda mais no vosso amor, que
viestes em busca de mim quando eu de vós fugia. Não, não quero mais separar-me de
vós, nem deixar mais de vos amar, ó meu Jesus. Maria, refúgio dos pecadores, vós que
tanto participastes das dores de vosso Filho na sua morte, suplicai-lhe que me perdoe e
me conceda a graça de o amar.

38
Aula 04 - O Espírito Santo e a Igreja

! O Espírito Santo é Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, que com o Pai e o


Filho é o um único e mesmo Deus. Se por um lado, o Espírito fica esquecido na mente
de muitos cristãos, por outro é a Pessoa da trindade mais intimamente unida a nós, pois
está em nossa alma, em graça: “Acaso não sabeis que sois templos de Deus e que o
Espírito Santo habita em vós” (1 Co 3, 16).
! O Filho, Jesus Cristo, e o Espírito Santo desempenham uma missão conjunta. Se
dizemos que Jesus é Cristo, significa dizer que é o "ungido# e essa "Unção# é o Espírito
Santo. Com Sua Morte e Ressurreição, Cristo é glorificado pelo Pai com o Espírito.
Participamos dessa glória ao receber o mesmo Espírito, que nos torna filhos adotivos do
Pai (cfr. CIC 689). Para quem se prepara para receber o Sacramento do Crisma, o
conhecimento e o relacionamento do Espírito Santo torna-se especialmente importante,
pois são seus sete Dons que o crismando receberá no sacramento (na aula 7 se falará
em detalhe sobre o Crisma e os dons do Espírito Santo).
! Como coloca o CIC 688, o lugar do conhecimento do Espírito Santo é:
— Nas Escrituras, que Ele inspirou:
— na Tradição, de que os Padres da Igreja são testemunhas sempre atuais;
— no Magistério da Igreja, que Ele assiste;
— na liturgia sacramental, através das suas palavras e dos seus símbolos, em que o
Espírito Santo nos põe em comunhão com Cristo;
—$ na oração, em que Ele intercede por nós;
—$ nos carismas e ministérios, pelos quais a Igreja é edificada;
— nos sinais de vida apostólica e missionária;
—$no testemunho dos santos, nos quais Ele manifesta a sua santidade e continua a obra
da salvação.
! O Espírito Santo é uma realidade espiritual que se apreende com a ajuda de
símbolos. Por isso, existem muitos símbolos ligados ao Espírito Santo: a água, o fogo, a
nuvem e a luz, o selo, a mão, o dedo, a pomba... (cfr. CIC 694-701). O dia por excelência
da manifestação do Espírito é o Pentencostes, em que os Apóstolos, juntos à Nossa
Senhora, receberam a efusão de graças que marca o início da Igreja. A missão de Cristo
e do Espírito Santo completa-se na Igreja (cfr. CIC 737).
! A Igreja é a Família de Deus, a convocação dos homens em Cristo, preparada
pela antiga aliança, instituída pelo próprio Cristo e assistida pelo Espírito Santo, é ao
mesmo tempo visível e espiritual, sociedade hierárquica e Corpo Místico de Cristo. A

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Igreja realiza o mistério da união dos homens com Deus e é o sacramento universal da
salvação. Nela vemos um templo visível, mas ornado com bens celestes: portadora da
continuidade da mensagem salvífica de Cristo e administradora das graças da redenção.
! O entendimento da Igreja como realidade espiritual nos permite ver com clareza a
santidade da Igreja, Esposa de Cristo, e sua permanência para sempre. Quando se diz
que "fora da Igreja não há salvação#, como repetiram muitos Padres da Igreja nos
primeiros séculos, entende-se que “toda salvação vem de Cristo-Cabeça pela Igreja, que
é seu Corpo”. Não se exclui, com essa afirmação, a possibilidade da salvação por
aqueles que sem culpa própria ignoram o evangelho de Cristo e a Igreja, mas procuram
a Deus com coração sincero e se esforçam para cumprir a vontade de Deus pelo que a
consciência os dita. O CIC 847 diz que esses também agem por influxo da graça e,
portanto, ao alcançarem a salvação, obtêm-na por meio da Igreja de Cristo, ainda que
não tenham conhecido essa Igreja e a próprio Cristo em sua vida.
! No Concílio Vaticano II, o documento Lumen Gentium disse a !Igreja de Cristo
subsiste na Igreja Católica". O documento Dominus Iesus, de Fevereiro de 2000,
assinado pelo então Cardeal Ratzinger, explica essa afirmação da seguinte forma: “Com
a expressão « subsistit in » (subsiste em), o Concílio Vaticano II quis harmonizar duas
afirmações doutrinais: por um lado, a de que a Igreja de Cristo, não obstante as divisões
dos cristãos, continua a existir plenamente só na Igreja Católica e, por outro, a de que
«existem numerosos elementos de santificação e de verdade fora da sua composição»,
isto é, nas Igrejas e Comunidades eclesiais que ainda não vivem em plena comunhão
com a Igreja Católica”. cfr. Dominus Iesus 16. $
! Esta explicação nos permite fazer o elo entre o aspecto espiritual da Igreja (a
Igreja de Cristo) e sua parte visível, instituída por Cristo na pessoa de São Pedro e do
colégio apostólico, que hoje conhecemos como a nossa Igreja Católica. Há uma
continuidade entre a Igreja primitiva fundada por Cristo e a Igreja Católica de hoje. Mas o
elemento humano, pode falhar, pode cometer pecados e ofuscar a santidade da Igreja de
Cristo (cfr. Leitura Complementar sobre !Os pecados da Igreja). Essas distinções tornam-
se importantes para compreender episódios obscuros da história da Igreja, em que o
pecado dos homens, como o pecado do povo eleito na antiga aliança, mancham a visão
que temos do que deveria ser a manifestação da Igreja de Cristo. Mas esses erros e mal
exemplos, não desviaram a Igreja de seu caminho a ponto de já não representar
plenamente a Igreja de Cristo, como aconteceu com as demais denominações cristãs. A
consciência de que somos filhos dessa Igreja deve ser motivo para intensificarmos nossa

40
oração pelos seus ministros e para que nós também, em nossa conduta, transmitamos a
verdadeira imagem da Igreja de Cristo.
! A Igreja como sociedade hierárquica coloca em evidência exatamente a estrutura
humana de como se organiza nossa Igreja Católica. O Papa como chefe, sucessor de
São Pedro, os Bispos como sucessores dos apóstolos e os presbíteros como seus
colaboradores, mostram como a graça da redenção depende do elemento humano em
cooperação com o divino, para chegar a todos. Essa cooperação, querido por Deus,
assistida pelo Espírito, torna real e eficaz a redenção, constituindo o mistério de Deus
confiando ao homem a santificação do próprio homem. Assim, nossa Paróquia pertence
a essa estrutura organizativa da Igreja, possui como função primordial administrar os
sacramentos e instruir o povo de Deus, sendo, portanto, "materialização# da Igreja de
Cristo para cada um de seus paroquianos. Não se pode esquecer, também, que nós os
leigos também somos Igreja, sendo responsáveis por “impregnar, com as exigências da
doutrina e da vida cristã, as realidades sociais, políticas e econômicas” - CIC 899. Os
leigos participam da função sacerdotal, profética e real de Cristo (cfr. 901-913) e junto
com a vida consagrada (cfr. CIC 914-933) são elementos essenciais da vida da Igreja.
$ Um outro modo de entender a Igreja é a Comunhão dos Santos, que significa a
comunhão presente na Igreja de coisas e pessoas santas. Fala da comunhão dos bens
espirituais: a fé, os sacramentos, principalmente a Eucaristia, bem como a comunhão de
todos os cristãos: os que estão na Terra, no purgatório e no Céu.

Principais Tópicos:
- O Espírito Santo e a fundação Igreja
- Principais elementos da história da Igreja
- Elemento visível e espiritual da Igreja
- Hierarquia da Igreja, leigos e vida consagrada
- Comunhão dos Santos

Bibliografia:!
- CIC 683-962
- Compêndio do CIC - 136-199
- Fé Explicada - pg. 86 - 157 (inclui, no entanto, uma discussão sobre a graça e os dons
do Espírito Santo que serão tratados na Aula 10).

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Leitura Complementar da Aula 04

1 - O Espírito Santo - Grande Desconhecido

Trecho da Homilia !O Grande Desconhecido", do livro !É Cristo que Passa" de São


Josemaría Escrivá.

Ao narrarem os acontecimentos daquele dia de Pentecostes, em que o Espírito Santo


desceu em forma de línguas de fogo sobre os discípulos de Nosso Senhor, os Atos dos
Apóstolos fazem-nos assistir à grande manifestação do poder de Deus com que a Igreja
iniciou a sua caminhada entre as nações. A vitória que Cristo - pela sua obediência, pela
sua imolação na Cruz e pela sua Ressurreição - havia obtido sobre a morte e o pecado,
revelou-se então em todo o seu divino esplendor.

Os discípulos, que já eram testemunhas da glória do Ressuscitado, experimentam agora


a força do Espírito Santo: suas inteligências e corações abrem-se a uma nova luz.
Tinham seguido Cristo e acolhido com fé os seus ensinamentos, mas nem sempre
haviam conseguido penetrar totalmente o seu sentido: era necessário que chegasse o
Espírito de Verdade, para lhes fazer compreender todas as coisas. Sabiam que só em
Jesus podiam encontrar palavras de vida eterna, e estavam dispostos a segui-lo e a dar
a vida por Ele; mas eram fracos e, quando chegou a hora da prova, fugiram, deixaram-no
só. No dia de Pentecostes, tudo isso passou: o Espírito Santo, que é espírito de
fortaleza, tornou-os firmes, seguros, audazes. A palavra dos Apóstolos ressoa agora com
energia e ímpeto pelas ruas e praças de Jerusalém.

Os homens e mulheres que tinham afluído das mais diversas regiões e povoavam
naqueles dias a cidade, escutam assombrados. Partos, medos e elamitas, e os que
habitam a Mesopotâmia, a Judéia e a Capadócia, o Ponto e a Ásia, a Frígia e a Panfília,
o Egito e a Líbia vizinha de Cirene, e os que vieram de Roma, tanto judeus como
prosélitos, cretenses e árabes, todos ouvimos falar das maravilhas de Deus em nossas
próprias línguas. Estes prodígios que se realizam diante dos seus olhos levam-nos a
prestar atenção à pregação apostólica. O mesmo Espírito Santo que atuava nos
discípulos do Senhor tocou-lhes também o coração e conduziu-os à fé.

Conta-nos São Lucas que, depois de São Pedro ter falado, proclamando a Ressurreição
de Cristo, muitos dos que o rodeavam se aproximaram perguntando: O que devemos

42
fazer, irmãos? O Apóstolo respondeu-lhes: Fazei penitência e seja batizado cada um de
vós em nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados; e recebereis o dom do
Espírito Santo. E o texto sagrado conclui dizendo que, naquele dia, ingressaram na Igreja
cerca de três mil pessoas.

A vinda solene do Espírito Santo no dia de Pentecostes não foi um acontecimento


isolado. Não há quase nenhuma página dos Atos dos Apóstolos em que não se fale dEle
e da ação com que guia, dirige e anima a vida e as obras da primitiva comunidade cristã:
é Ele quem inspira a pregação de São Pedro , quem confirma os discípulos na fé , quem
sela com a sua presença a chamada dirigida aos gentios , quem envia Saulo e Barnabé
a terras distantes para abrirem novos caminhos à doutrina de Jesus. Numa palavra, sua
presença e sua ação dominam tudo.

Esta realidade profunda que o texto da Escritura Santa nos dá a conhecer não é uma
recordação do passado, uma idade de ouro da Igreja que tenha ficado para trás, na
história. Elevando-se acima das misérias e dos pecados de cada um de nós, é também a
realidade da Igreja de hoje e da Igreja de todos os tempos. Eu rogarei ao Pai - anunciou
o Senhor aos seus discípulos - e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco
eternamente. Jesus manteve as suas promessas: ressuscitou, subiu aos céus e, em
união com o Pai Eterno, envia-nos o Espírito Santo para que nos santifique e nos dê a
vida.

A força e o poder de Deus iluminam a face da terra. O Espírito Santo continua assistindo
a Igreja de Cristo, para que seja - sempre e em tudo - o sinal erguido diante das nações
para anunciar à humanidade a benevolência e o amor de Deus. Por maiores que sejam
as nossas limitações, nós, os homens, podemos olhar com confiança para os céus e
sentir-nos cheios de alegria: Deus nos ama e nos livra dos nossos pecados. A presença
e a ação do Espírito Santo na Igreja são o penhor e a antecipação da felicidade eterna,
dessa alegria e dessa paz que Deus nos proporciona.

Como aqueles primeiros que se aproximaram de São Pedro no dia de Pentecostes,


também nós fomos batizados. E através do Batismo, nosso Pai-Deus tomou posse das
nossas vidas, incorporou-nos à vida de Cristo e enviou-nos o Espírito Santo. O Senhor,
diz a Escritura Santa, salvou-nos fazendo-nos renascer pelo batismo, renovando-nos
pelo Espírito Santo, que Ele derramou copiosamente sobre nós por Jesus Cristo

43
Salvador nosso, para que, justificados pela graça, cheguemos a ser herdeiros da vida
eterna conforme a esperança que temos.

A experiência da nossa fragilidade e dos nossos erros, a desedificação que pode causar
o espetáculo doloroso da pequenez ou até da mesquinhez de alguns que se chamam
cristãos, o aparente fracasso ou a desorientação de alguns movimentos apostólicos, tudo
isso - que é comprovar a realidade do pecado e das limitações humanas - pode, no
entanto, constituir uma prova para a nossa fé e fazer com que se insinuem a tentação e a
dúvida: onde estão a força e o poder de Deus? É o momento de reagir, de pormos em
prática com mais pureza e energia a nossa esperança e, portanto, de procurarmos que
seja mais firme a nossa fidelidade.

Gostaria de relatar um episódio da minha vida pessoal, ocorrido há muitos anos. Um dia,
um amigo de bom coração, mas que não tinha fé, disse-me, apontando para um mapa-
mundi: Veja! De norte a sul e de leste a oeste! Que quer que veja?, perguntei-lhe.
Respondeu-me: O fracasso de Cristo. Tantos séculos procurando introduzir a sua
doutrina na vida dos homens, e veia os resultados. Num primeiro momento, enchi-me de
tristeza: é uma grande dor, com efeito, considerar que são muitos os que ainda não
conhecem o Senhor e que, dentre os que o conhecem, são muitos também os que vivem
como se não o conhecessem.

Mas essa sensação durou apenas um instante, para dar lugar ao amor e ao
agradecimento, porque Jesus quis fazer de cada homem um cooperador livre da sua
obra redentora. Não fracassou: a sua doutrina e a sua vida estão fecundando
continuamente o mundo. A redenção que Ele levou a cabo é suficiente e
superabundante.

Deus não quer escravos, mas filhos, e portanto respeita a nossa liberdade. A salvação
prossegue, e nós participamos dela: é vontade de Cristo que - segundo a expressão forte
de São Paulo - cumpramos na nossa carne, na nossa vida, aquilo que falta à sua paixão,
pro Corpore eius, quod est Ecclesia, em benefício do seu Corpo, que é a Igreja.

Vale a pena jogar a vida, entregar-se por inteiro, para corresponder ao amor e à
confiança que Deus deposita em nós. Vale a pena, acima de tudo, decidir-se a tomar a
sério a fé cristã. Quando recitamos o Credo, professamos crer em Deus Pai, Todo-

44
Poderoso; em seu Filho Jesus Cristo, que morreu e foi ressuscitado; no Espírito Santo,
Senhor e fonte da vida. Confessamos que a Igreja, una, santa, católica e apostólica, é o
Corpo de Cristo, animado pelo Espírito Santo. Alegramo-nos ante a remissão dos
pecados e a esperança da ressurreição futura. Mas essas verdades penetram até o
fundo do coração, ou ficam talvez nos lábios? A mensagem divina de vitória, de alegria e
de paz do Pentecostes deve ser o fundamento inquebrantável do modo de pensar, reagir
e viver de todo o cristão.

2 - Os pecados da Igreja

Trecho adaptado do artigo !The Church ask for Forgiveness", publicado por Alice von
Hildebrand em 2000.

Conta-se que Napoleão, o vencedor de tantas batalhas, após ter mantido o Papa Pio VII
prisioneiro em Fontainebleau por longo tempo, queria tomar a Igreja Católica sob a sua
tutela para assim alcançar a hegemonia total na Europa. Com isso em mente, redigiu
uma Concordata que entregou ao Secretário de Estado, o cardeal Consalvi. O imperador
disse ao cardeal que voltaria no dia seguinte e que queria o documento assinado.
$
Depois de ler a Concordata, Consalvi informou Sua Santidade de que assinar o
documento equivaleria a vender a Igreja ao Imperador da França e, por conseguinte,
implorou-lhe que não o assinasse. Quando Napoleão voltou, o cardeal informou-o de que
o documento não havia sido assinado. O imperador começou então a usar um dos seus
conhecidos estratagemas: a intimidação. Teve uma explosão de raiva e gritou: “Se este
documento não for assinado, eu destruirei a Igreja Católica Romana”. Ao que Consalvi
calmamente replicou: “Majestade, se os papas, cardeais, bispos e padres não
conseguiram destruir a Igreja em dezenove séculos, como Vossa Alteza espera
consegui-lo durante os anos da sua vida?”
$
Tenho um motivo concreto para relatar esse episódio. Consalvi deixa claro que embora
existam inumeráveis pecadores no seu seio, também em posições de governo, a Igreja
conseguiu subsistir por ser a Esposa Imaculada de Cristo, santa e protegida pelo Espírito
Santo. Como disse certa vez Hilaire Belloc, se a Igreja fosse uma instituição puramente
humana, não teria sobrevivido aos muitos prelados idiotas e incompetentes que já a
lideraram. Por que a Igreja sobrevive e continuará a sobreviver? A resposta é simples.
Cristo nunca disse que daria líderes perfeitos à Igreja. Nunca disse que todos os

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membros da Igreja seriam santos. Judas era um dos Apóstolos, e todos aqueles que
traem o Magistério da Esposa de Cristo tornam-se Judas. O que Nosso Senhor disse foi:
As portas do inferno não prevalecerão contra ela (Mt 16, 18).
$
A palavra “Igreja” tem dois sentidos: um sobrenatural e outro sociológico. Para todos os
não-católicos e, infelizmente, também para muitos católicos de hoje, a Igreja é uma
instituição meramente humana, constituída por pecadores, uma instituição cuja história
está carregada de crimes. É preocupante o fato de que o significado sobrenatural da
palavra “Igreja” – a saber, a santa e imaculada Esposa de Cristo –$ seja totalmente
desconhecido da esmagadora maioria das pessoas, e até de um alto percentual de
católicos cuja formação religiosa foi negligenciada desde o Vaticano II. Por isso, quando
o Papa ou algum membro da hierarquia pede perdão pelos pecados dos cristãos no
passado, muitas pessoas acabam pensando que a Igreja – $a instituição religiosa mais
poderosa da terra – está finalmente a admitir as suas culpas e que a sua própria
existência foi prejudicial à humanidade.
$
Na realidade, a Esposa de Cristo é a maior vítima dos pecados dos seus filhos; no
entanto, é ela que implora a Deus que perdoe os pecados daqueles que pertencem ao
seu corpo. É a Santa Igreja que implora a Deus que cure as feridas que esses filhos
pecadores infligiram a outros, muitas vezes em nome da mesma Igreja que traíram.
$
Somente Deus pode perdoar os pecados; é por isso que a liturgia católica é rica em
orações que invocam o perdão de Deus. As vítimas dos pecados podem (e devem)
perdoar o mal que sofreram, mas não podem de forma alguma perdoar o mal moral em
si, e, caso se recusem a perdoar, movidas pelo rancor e pelo ódio, Deus, que é
infinitamente misericordioso, nunca nega o seu perdão àqueles que o procuram de
coração contrito.
$
A Santa Igreja Católica não pode pecar; mas muitas vezes é a mãe dolorosa de filhos
díscolos e desobedientes. Ela dá-lhes os meios de salvação, dá-lhes o pão puro da
Verdade. Mas não pode forçá-los a viver os seus santos ensinamentos. Isto aplica-se
tanto a papas e bispos como aos demais membros da Igreja. Cristo foi traído por um dos
seus Apóstolos e negado por outro. O primeiro enforcou-se; o segundo arrependeu-se e
chorou amargamente.
$

46
A distinção entre os sentidos sobrenatural e sociológico da Igreja deve ser continuamente
enfatizada, pois fatalmente causa confusão quando não é explicitada com clareza.
$
Assim como os judeus que aderem ao ateísmo traem tragicamente o seu título de honra
– serem parte do povo escolhido de Deus –, assim os católicos romanos que pisoteiam o
ponto central da moralidade – amar a Deus e, por Ele, o próximo –, traem um princípio
sagrado da sua fé.
$
Por outro lado, em nome da justiça e da verdade, é imperioso mencionar que os católicos
verdadeiros (aqueles que vivem a fé e enxergam a Santa Igreja com os olhos da fé)
sempre ergueram a voz contra os pecados cometidos pelos membros da Igreja. São
Bernardo de Claraval condenou em termos duríssimos as perseguições que os judeus
sofreram na Alemanha do século XII (cf. Ratisbonne, Vida de São Bernardo). Os
missionários católicos no México e no Peru protestavam constantemente contra a
brutalidade dos conquistadores, geralmente movidos pela ganância. A Igreja deve ser
julgada com base naqueles que vivem os seus ensinamentos, não naqueles que os
traem. Recordo-me das palavras com que um amigo meu, judeu muito ortodoxo,
lamentava o fato de muitos judeus se tornarem ateus: “Se somente um judeu
permanecer fiel, esse judeu é Israel”. O mesmo pode ser dito com relação à Igreja
Católica; apenas as pessoas fiéis ao ensinamento de Cristo podem falar em seu nome.
Ela deve ser julgada de acordo com a santidade que alguns dos seus membros
alcançam, não de acordo com os pecados e crimes de inúmeros cristãos que julgam os
seus ensinamentos difíceis de praticar e que por isso traem a Deus na sua vida
cotidiana.
$
Os pecadores, aliás, estão igualmente distribuídos pelo mundo e não são uma triste
prerrogativa da religião católica. Se fosse assim, estaria justificada a afirmação de um
dos meus alunos judeus em Hunter, feita diante de uma sala lotada: “Teria sido melhor
para o mundo que o cristianismo nunca tivesse existido”. A história julgará se o conflito
atual entre judeus e muçulmanos é moralmente justificável.
$
Este modesto comentário foi motivado pelo que disse um rabino à televisão, um dia após
o pronunciamento histórico de João Paulo II na Basílica de São Pedro, a 12 de março de
2000, quando o Santo Padre pediu perdão pelos pecados dos cristãos no passado 1. O
rabino não apenas achou o pedido de desculpas de Sua Santidade “incompleto” por não

47
mencionar explicitamente o Holocausto (esquecendo-se de mencionar que os católicos
eram e são minoria na Alemanha, país basicamente protestante), como também disse
que os pecados cometidos pela Igreja foram freqüentemente endossados pelos seus
líderes, dando a entender que o anti-semitismo faria parte da própria natureza da Igreja.
---------------------------------------------
(1) É digno de nota que somente o Papa tenha pedido desculpas pelos pecados
cometidos pelos membros da Igreja. Não deveriam fazer o mesmo os hindus, por terem
praticamente erradicado o budismo da Índia e forçado os seus membros a fugir para o
Tibet, a China e o Japão? Não deveriam os anglicanos pedir desculpas por terem
assassinado São Thomas More, São John Fisher e São Edmund Campion, para
mencionar apenas três nomes? E quanto ao extermínio de um milhão de armênios pelos
turcos em 1914? Ninguém fala a respeito desse “holocausto”; ninguém parece saber
dele. E o extermínio de cristãos que acontece agora no Sudão?

Tal afirmação deixa claro que o rabino não fazia a menor idéia daquilo que os católicos
entendem por Esposa Imaculada de Cristo – uma realidade que não pode ser percebida
ou compreendida por aqueles que usam os óculos do secularismo. Pergunto-me quando
o “mundo” considerará que a Igreja já pediu desculpas suficientes. Por séculos a Igreja
tem sido o bode expiatório ideal. O que os seus acusadores fariam se ela deixasse de
existir?
$
Aqueles que a acusam de “silêncio” não estão apenas mal informados, mas pressupõem
que eles próprios seriam heróicos se estivessem na mesma situação. Como o Papa Pio
XII disse a meu marido numa entrevista privada, quando ainda era Secretário de Estado:
“Não se obriga ninguém a ser mártir”. Quantas pessoas se julgam heróicas sem nunca
terem sido realmente testadas! Quantos judeus arriscariam a vida para salvar católicos
perseguidos? Por que esquecem que milhões de católicos também pereceram nos
campos de concentração? Se a Gestapo tivesse apanhado o meu marido, considerado o
inimigo número um de Hitler em Viena, tê-lo-ia feito em pedaços. Ele lutava contra o
nazismo em nome da Igreja e perdeu tudo porque odiava a iniqüidade. Quantas pessoas
fariam o mesmo – não na sua imaginação, mas na realidade?
$
Também não devemos esquecer que inúmeros católicos foram (e são) perseguidos por
causa da sua fé. Mas um verdadeiro católico não espera desculpas dos seus
perseguidores. Perdoa os seus perseguidores, quer eles lhe peçam desculpas, quer não.

48
Reza por eles, ama-os em nome dAquele que padeceu e morreu pelos pecados de
todos. É sempre lamentável ouvir um católico dizer: “Fulano e beltrano devem-me
desculpas”.Somente a pessoa que enxerga a Santa Igreja Católica (chamada santa cada
vez que o Credo é recitado) com os olhos da fé, só essa pessoa compreende com
imensa gratidão que a Igreja é a Santa Esposa de Cristo, sem ruga nem mácula, por
causa da santidade do seu ensinamento, porque aponta o caminho para a Vida Eterna e
porque dispensa os meios da graça, ou seja, os sacramentos.
$
O pecado é uma realidade medonha e que os pecados cometidos por aqueles que se
dizem servos de Deus são especialmente repulsivos. Nunca serão excessivamente
lamentados, mas devemos ter presente que, apesar de muitos membros da Igreja serem
– infelizmente – cidadãos da Cidade dos Homens e não da Cidade de Deus, a Igreja
permanece santa.

49
Aula 05 - A remissão dos pecados, ressurreição da carne e a vida eterna

! A fé na remissão dos pecados, expressa no Credo, está ligada à fé no Espírito


Santo e na Igreja: “Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados,
ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (Jo 20,
22-23). Como na discussão da teologia sacramental, no sacramento do Batismo e da
Confissão principalmente, será tratado do perdão dos pecados, apenas as idéias gerais
precisam ser delineadas nesse ponto.
! Se é certo que o Batismo perdoa toda a culpa do pecado original (que não é uma
culpa moral, mas de natureza, como vimos anteriormente), perdoa também todos os
pecados cometidos por própria vontade, por ação ou omissão. Mas a inclinação da
natureza ao mal permanece, o que leva a uma luta continuada. A fé na remissão dos
pecados expressa a fé na contínua assistência de Deus à enfermidade de nossa
natureza. Quando Jesus entrega à Igreja nascente, na pessoa de São Pedro e dos
Apóstolos, "a chave do Reino dos Céus# (cfr. Mt 16, 18-19), confia à Igreja a capacidade
de perdoar todos os pecados, por mais graves que sejam. Nas palavras de Santo
Agostinho, citadas pelo CIC 982: “Nem há pessoa, por muito má e culpável que seja, a
quem não deva ser proposta a esperança certa do perdão, desde que se arrependa
verdadeiramente dos seus erros”. Esse dom da remissão dos pecados é fonte de
esperança e conforto para os cristãos. Surge a pergunta sobre o pecado contra o Espírito
Santo, pois em Mc 3, 28-29 lemos: “Aquele que pecar contra o Filho do homem será
perdoado, mas aquele que blasfemar contra o Espírito Santo será réu da Justiça Divina”.
Esse pecado não pode ser perdoado, não por falta de misericórdia divina, mas pelo
pecador não querer o perdão de Deus, ou mesmo se considerar pecador. Não é possível
confessar um pecado contra o Espírito Santo, pois o querer confessá-lo já denota que a
pessoa não o cometeu (ver em Leituras complementares a lista de pecados contra o
Espírito Santo).

! Fato certo para a vida de todos é de que vamos morrer. A morte entra na história
do homem como conseqüência do pecado, mas com a redenção torna-se participação da
morte de Cristo, para participarmos também de sua ressurreição. (cfr. CIC 1006-1009).
Pelo Batismo já morremos com Cristo e a morte física consuma essa morte e nos
incorpora a Ele, pela redenção. Durante a vida, o homem, no exercício de sua liberdade,
decide seu destino último: ou escolhe a Deus e o seu Amor, ou a si mesmo. A Igreja
ensina que após a morte, haverá um juízo particular em que cada um receberá a

50
conseqüência da escolha de ter vivido ou não em amizade com Deus, na graça divina.
Para quem cultivou a graça, esvaziou-se de si mesmo, receberá como prêmio o próprio
Deus: a isso chamamos Céu. A beatitude, o estado de estar no Céu, consiste em
contemplar a essência de Deus e ter todos os anseios da vontade preenchidos, numa
saciedade interminável, pois estaremos diante da grandeza de Deus (cfr. CIC
1023-1029).
! Já os que escolhem a si mesmos, com o desprezo de Deus, permanecerão após a
morte nesse estado de auto-exclusão da comunhão com Deus, chamado inferno (cfr. CIC
1033-1037). A principal pena é justamente o afastamento de Deus, único capaz de
colmar os desejos de felicidade do homem. Não há uma predestinação para a
condenação e o conhecimento a respeito do inferno deve levar ao sentido de
responsabilidade e um apelo à conversão: “Entrai pela porta estreita, pois larga é a porta
e espaçoso o caminho que levam à perdição e muitos são os que seguem por eles. Que
estreita é a porta e apertado o caminho que levam à vida e como são poucos aqueles
que os encontram!” (Mt 7, 13-14). É confortante lembrarmos que Deus previu a
necessidade de purificação para aqueles que sem rejeitar completamente a Deus, ainda
não estão completamente preparados para o encontro com Ele: essa purificação é o
purgatório. É uma "purificação dos eleitos#, pois pressupõe a amizade com Deus. Nas
Escrituras vemos o relato no 2 Mac 12, 46 que confirma nossa fé no purgatório e na
necessidade de oferecer orações e sacrifícios (a Missa, por excelência) pelos falecidos:
“Por isso, [Judas Macabeu] pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem
livres das suas faltas” (cfr. também CIC 1030-1032).
$ No fim dos tempos, que só compete saber a Deus quando será, teremos a
ressurreição da carne, em que nosso corpo, num estado glorioso, se juntará à nossa
alma, de modo a restabelecer a unidade humana e vivermos para sempre com Cristo.
Tanto justos e pecadores ressuscitarão, os justos para a felicidade com Deus e os
pecadores, para o inferno (cfr. CIC 998). A Igreja ensina que ressuscitaremos com nosso
próprio corpo: como será isso? Já não será um corpo mortal, mas glorioso e imortal.
Como ensina Tertuliano, "ou Deus nos criou do nada, ou de uma matéria preexistente. Se
após a nossa morte, nosso corpo volta ao nada, ou visto de outro modo, se decompõe
para se juntar ao todo das coisas criadas, não é difícil pensar que o mesmo Deus poderá
restabelecer nosso corpo após a sua decomposição e dotá-lo das características do
corpo glorioso#.
! Após a ressurreição dos mortos teremos o Juízo Universal, com o julgamento de
todo o mundo e a segunda vinda de Cristo: “É perante Cristo, que é a Verdade, que será

51
definitivamente posta a descoberto a verdade da relação de cada homem com Deus. O
Juízo final revelará, até às suas últimas conseqüências, o que cada um tiver feito ou
deixado de fazer de bem durante a sua vida terrena” CIC 1039. O Reino dos Céus
chegará então em sua plenitude, a Igreja alcançará a sua glória celeste: serão os "novos
céus e nova terra” prefigurados nas escrituras (cfr. 2 Pe 3, 13). O próprio universo se
renovará e então, como fala São Paulo em 1 Co 15, 28: “Deus será tudo em todos” (cfr.
CIC 1042-1060).
! O Amén no fim do Credo retoma e confirma a palavra Creio, com que começa.
Significa, na origem hebraica, crença na fidelidade de Deus e de sua verdade (cfr. CIC
1061-1065).

Principais Tópicos:
- Remissão dos pecados
- Ressurreição da Carne
- Vida eterna
- Céu, Purgatório e Inferno
- Juízo particular e juízo final

Bibliografia:
- CIC 963-1065
- Compêndio do CIC - 200-217
- Fé Explicada - pg. 158-163

Leituras Complementares da Aula 05

1 - Os pecados contra o Espírito Santo

A lista dos pecados contra o Espírito Santo são: !


! 1 - Desespero de salvação, quando a pessoa, como Judas, não pede perdão
porque considera que Deus é incapaz de perdoá-lo. E não pedindo perdão, não é
perdoado;
! 2 - Presunção de salvação sem merecimentos, quando a pessoa se julga já salva,
e, por isso, se recusa a pedir perdão a Deus;
! 3 - Negar a verdade conhecida como tal, quando o pecador de tal modo se
entrega conscientemente à mentira a ponto de acabar acreditando na mentira como
verdade, e, por isso, recusa até a evidência da verdade. Era o pecado dos fariseus que

52
viam Cristo fazer milagres, e os negavam, apesar de vê-los. Não havia então modo de
convertê-los;
! 4 - Ter inveja das mercês que Deus fez a outrem. Isto é, ter raiva de que Deus, por
amor, tenha dado alguma graça a outros, e não a nós. Desse modo se odeia a bondade
de Deus, que é o Espírito Santo;
! 5 - Impenitência final. Quando a pessoa recusa o perdão de Deus na hora da
morte, recusando os sacramentos impiamente.

2 - A morte

Por Eduard Clerc, monge beneditino da Abadia de Solesmes, França

PENSAR NA MORTE
$
É necessário pensar na morte, evitando, por outro lado, que se torne uma idéia fixa, pois
pensar nela o tempo todo é doentio ou, pelo menos, negativo. Positivo é desejar a Vida
Eterna como um fim que presida a toda a vida terrena. A morte será, assim, o meio de
alcançarmos a verdadeira vida, para a qual fomos criados.
$
Qualquer pessoa que creia firmemente na vida eterna deixa de ver a morte unicamente
como uma dolorosa separação entre a alma e o corpo, porque, “por trás das misteriosas
portas da morte, perfila-se uma eternidade de alegria em comunhão com Deus” (João
Paulo II). Deste ponto de vista, que aliás é o único verdadeiro, a vida não é tirada pela
morte, mas transformada, e, desfeita a nossa habitação terrena, é-nos dada uma
mansão eterna nos céus (Prefácio dos defuntos I).
$
A primeira conseqüência, para quem crê e espera nesta alegria sem fim, é o
desprendimento de tudo aquilo que não serve para adquiri-la. Tantos homens e mulheres
afadigam-se, lutam e sofrem para obter aquelas coisas que, segundo pensam, lhes
trarão a felicidade, mas, quando morrem, nada resta de tudo isso. Pura e simplesmente,
correram atrás de uma miragem. Nem o dinheiro, nem a vanglória, nem o poder, nem os
prazeres carnais, nenhuma dessas coisas que governam o mundo é capaz de
proporcionar uma felicidade duradoura. Portanto, é preciso fazer um esforço enérgico
para superar tudo isso, que, em si, para nada serve; pois, quer pensemos na morte, quer
não, os anos passam e a hora do nosso fim aproxima-se.

53
$
É preciso simplificar a vida. Quando se carrega um excesso de bagagem, estraga-se a
viagem: é penoso e cansativo carregar malas enormes, e a pessoa acaba por perguntar-
se a si própria: “Mas por que fui trazer tantas coisas?” Ainda é tempo de nos
desembaraçarmos de tudo o que é inútil, pois não é necessário ter dinheiro nem
condecorações para entrar no céu. O coração puro é um coração desprendido: Bem-
aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos céus (Mt 5, 3).
$
POSSÍVEIS ATITUDES DIANTE DA MORTE
$
O nosso grau de amor a Deus pode medir-se pela atitude que tivermos diante da morte:
podemos temê-la, resignar-nos diante dela ou aceitá-la ativamente.
$
Temer a morte é um sentimento natural no homem, porque morrer supõe geralmente um
duro combate, uma luta da nossa natureza contra o ato que a destrói: é a agonia, que
pode ser longa e é sempre penosa. Instintivamente, temos medo dela. Na ordem natural,
pois, é impossível contemplarmos com indiferença essa catástrofe que consiste na
separação dos dois elementos que compõem o nosso ser.
$
Se a morte destrói a ordem querida por Deus, ao decompor a criatura, por que
morremos? Porque a morte é conseqüência do pecado. Deus disse a Adão: Se
desobedeceres e comeres desse fruto, morrerás (cf. Gen 2, 17). Adão desobedeceu e
morreu, deixando-nos a morte em herança.
$
Podemos perguntar também: “Então, se Adão tivesse obedecido, não morreríamos?”
Com efeito, como a morte era o castigo da desobediência, o homem poderia ter-lhe
escapado se tivesse observado o mandamento divino. Nesse caso, a sua imortalidade
seria uma graça especial, pois o corpo humano é mortal, como todos os seres vivos
materiais; o homem passaria desta vida para a vida eterna sem sofrer a dor e a angústia
da morte. De qualquer modo, nas nossas condições atuais, a morte é um mal e, por isso,
não é de estranhar que lhe tenhamos medo.
$
A morte pode ser resignada quando, pela força do seu caráter ou pelo raciocínio, a
pessoa chega a aceitá-la sem revolta, como algo que não tem remédio, apesar de toda a
repugnância que sente diante dela. Quando se está gravemente doente, e se sabe que o

54
desenlace é inevitável, acaba-se por aceitar sem revolta o fim. Mesmo numa perspectiva
meramente humana, sem referência a Deus, é-nos necessário alcançar pelo menos essa
resignação humana para podermos superar o terror que a morte inspira.
$
Quando se avança em idade, torna-se cada vez mais necessário resignar-se com a
impossibilidade de fazer aquelas coisas que se costumavam fazer. Temos de deixar nas
mãos dos mais jovens as tarefas que nós próprios desempenhávamos, mesmo que eles
as levem a cabo de modo diverso do nosso. Temos de resignar-nos com a decadência
física, com o entorpecimento progressivo que vai tomando conta dos nossos olhos, dos
ouvidos, das pernas. Temos de resignar-nos diante da doença e do sofrimento, sinais da
nossa fragilidade. Temos de resignar-nos a ver o tempo passar cada vez mais depressa,
e compreender que o fim se aproxima.
$
Poderia dizer-se que esses diversos tipos de resignação constituem uma preparação
remota para a morte, uma vez que nos desprendem de muitas coisas terrenas. Mas a
resignação não basta, porque essa atitude só diz respeito aos velhos e aos doentes
crônicos, quando há também numerosos casos de morte súbita ou por acidente. É
necessária, portanto, uma outra disposição perante a morte: a aceitação.
$
A livre aceitação da morte não é um simples sentimento, que pode ou não estar
presente, mas implica a compreensão do plano de Deus, e por isso é importante para
todas as pessoas. Temos de chegar a considerar a morte como o meio previsto por Deus
para entrarmos na vida eterna, “o parto para a vida, que se realiza na dor”.
$
Semelhante aceitação não deve estar mesclada de amargura, mas unir-se à atitude de
Jesus que, na sua agonia no Horto das Oliveiras, dizia ao Pai: Não se faça a minha
vontade, e sim a tua (Lc 22, 42). Os nossos sofrimentos e a nossa morte são elevados e
transformados pela nossa união com Cristo, e assim a nossa aceitação tem de ser igual
à do Senhor: Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito (Lc 23, 46).
$
Com o dom da nossa vida, devemos, pois, fazer também o dom da nossa morte,
persuadidos de que, tanto na vida como na morte, pertencemos ao Senhor: Quer
vivamos, quer morramos, somos do Senhor. Pois foi com este fim que Cristo morreu e
ressuscitou: para ser Senhor dos mortos e dos vivos (Rm 14, 8-9).
$

55
Acostumemo-nos a oferecer a nossa morte a Deus a partir deste mesmo instante – pois
é coisa que não se improvisa –, a fim de que no último momento da nossa vida o ato de
caridade nos venha aos lábios com toda a espontaneidade. O derradeiro oferecimento da
nossa morte a Deus estará assim ligado a uma vida de permanente abandono e
confiança na Misericórdia infinita. E teremos verdadeiramente uma morte aceita, uma
morte no Senhor.
$
A MORTE ESPIRITUAL
$
Mas em que consiste morrer no Senhor? Antes de mais nada, em conduzir-nos de
acordo com a verdade que Deus nos deu a conhecer: Em verdade, em verdade vos digo
que quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não
incorre na sentença de condenação, mas passou da morte para a vida (Jo 5, 24). Escutar
e cumprir a palavra de Deus, fazer aquilo que Ele nos pede, implica evitar tudo o que é
contrário à sua Vontade, isto é, o pecado. Por ser livre, o homem pode escolher, e de
acordo com o que pensar e fizer, estará preservando a vida da graça ou pondo-a a
perder. E quando se perde essa vida, é a morte espiritual: a pessoa passa a estar em
estado de pecado mortal. Quem morre em pecado não morre no Senhor, pois, ao pecar,
expulsou-o da sua alma.
$
Esta vida é, portanto, combate espiritual permanente contra a morte da alma pelo
pecado; e é na arena da vida terrestre que se desenvolve este drama, cujas
conseqüências – a vida ou a morte – são eternas. Certamente, não será necessário
esclarecer que não são os pecados leves, mas os pecados graves, que provocam a
morte espiritual; e para distinguir entre uns e outros, dispomos da doutrina cristã,
ilustrada pelo Magistério da Igreja, e de um juiz interior, a consciência, cuja voz não
devemos afogar, mas escutar.
$
Assim como já não se quer falar do Inferno, também não se fala mais do pecado, que é a
sua causa, e conseqüentemente tampouco se fala da morte espiritual. No entanto, este é
o grande dilema da nossa vida cotidiana: ou se está em graça ou se está em pecado; ou
se está vivo ou se está morto. Aqui não há meios-termos possíveis. É assustador que se
possa viver sem pensar nisso, esquecendo ou deixando de compreender que a nossa
permanência nesta terra é uma prova, um combate que terminará por uma vitória ou uma
derrota *.

56
----------------------------------------------------
(*) O valor moral de toda uma vida não depende, portanto, de um balanço entre os
méritos e os deméritos, de um confronto entre os atos bons e os atos maus, mas está
ligado ao estado em que a alma se encontra no momento da morte. Se isto pode parecer
paradoxal, recordemos que a justiça humana também é administrada analogamente: o
juízo é pronunciado sobre um ponto, não sobre uma soma. Não esqueçamos, porém,
que Deus não espera o momento da queda para apanhar o homem em falta e condená-
lo: Terei eu prazer com a morte do malvado? Não desejo, antes, que mude de proceder e
viva? (Ez 18, 23). Até o pecador mais calejado pode receber a graça de converter-se
antes de morrer. Inversamente, pode acontecer a desgraça de que uma pessoa reta caia
no final em alguma infidelidade grave, mas isso acontece mais raramente quando se
procura manter ao longo da vida um coração humilde e se recorre com constância à
oração e ao auxílio de Deus (N. do T.).
----------------------------------------------------
$
OS SACRAMENTOS E A ORAÇÃO
$
Por mais corajoso que seja o nosso empenho nesta batalha que dura a vida inteira, a
nossa vontade por si só não basta para triunfar nela; felizmente, porém, contamos com
Deus que, na sua misericórdia, nos presta a ajuda eficaz da sua graça. Com ela, não
sucumbimos à tentação; e, se caímos, o Senhor encontra-se sempre disposto a perdoar,
por meio do Sacramento da Reconciliação, até mesmo as faltas mais graves, se nos
arrependemos delas.
$
Morrer em estado de graça, em paz com Deus, é morrer no Senhor. Quem se esforça por
guardar a pureza da sua alma, está sempre pronto para esse encontro que é a morte.
Uma reflexão deste gênero, sobre a morte espiritual, bem pode ser a ocasião de que
precisemos para nos convertermos, para regressarmos a Deus, se por acaso nos
afastamos dEle. Seja como for, todos nós encontraremos nela um acicate para nos
enfrentarmos lealmente conosco próprios e para formularmos sérios propósitos de
melhora.
$
A ajuda da graça chega-nos em primeiro lugar pelos Sacramentos, que nos dão ou
restituem a graça, como o Batismo e a Confissão, ou a fazem crescer, como a Eucaristia.
Não nos esqueçamos de que o principal alimento da vida sobrenatural em nós, o

57
alimento por excelência, é a Comunhão. Quem come a minha carne e bebe o meu
sangue, tem a vida eterna, diz o Senhor (Jo 6, 5). Ninguém se esquece do alimento
corporal, pura e simplesmente porque tem necessidade dele; da mesma forma,
deveríamos ter o desejo de comungar com freqüência, se possível diariamente, para
manter o nosso organismo espiritual “em forma”.
$
Além dos Sacramentos, a graça chega-nos também pela oração e pelo mérito das boas
obras. Se perdemos o costume de orar, expomo-nos a cair como um inválido que tivesse
esquecido as suas muletas. A oração consiste em elevarmos o coração a Deus, falando
com Ele e confiando-lhe tudo o que trazemos no coração; ela é, portanto, um sinal claro
de que procuramos estar na graça de Deus.
$
A oração mais perfeita é a Santa Missa, da qual todos os cristãos têm necessidade;
prescindir dela é correr um grande risco. E devemos também perseverar no costume de
rezar à Santíssima Virgem, pedindo-lhe que rogue “por nós, agora e na hora da nossa
morte”; podemos ter a certeza de que Ela estará presente nesse encontro e nos dará a
mão para passarmos por essa porta.

***

“Assistimos todos os dias à morte de muitos, celebramos os seus enterros e funerais, e


no entanto continuamos a prometer-nos longos anos de vida”. (Santo Agostinho)
$
“[As pessoas] temem muito a morte porque amam muito a vida deste mundo e pouco a
do outro. Mas a alma que ama a Deus vive mais na outra vida do que nesta, porque a
alma vive mais onde ama do que onde anima”. (São João da Cruz, Cântico espiritual)
$
“Não tenhas medo da morte. – Aceita-a desde agora, generosamente..., quando Deus
quiser..., como Deus quiser..., onde Deus quiser. Não duvides; virá no tempo, no lugar e
do modo que mais convier..., enviada por teu Pai-Deus. – Bem-vinda seja a nossa irmã, a
morte!” (Josemaría Escrivá, Caminho, n. 739)
$
“Não tem grande importância escapar à morte, pois é por pouco tempo, e depois é
preciso morrer; mas é coisa grande escapar definitivamente à morte, como acontece

58
conosco, por quem Cristo, nossa Páscoa, foi imolado”. (Orígenes, Hom. para o tempo
pascal)
$
“Que grande dignidade e segurança sair contente deste mundo, sair glorioso em meio à
aflição e à angústia, fechar por um momento estes olhos com que vemos os homens e o
mundo, para em seguida voltar a abri-los e contemplar a Deus! (São Cipriano, Trat. a
Fortunato, 13)”
$
“[...] Quando vier a morte, que virá inexoravelmente, espera-la-emos com júbilo, como
tenho visto que o souberam fazer tantas pessoas santas no meio da sua existência
diária. Com alegria, porque, se imitarmos Cristo em fazer o bem – em obedecer e levar a
Cruz, apesar das nossas misérias –, ressuscitaremos como Cristo: Surrexit Dominus
vere! (Lc 24, 34), que ressuscitou realmente”. (Josemaría Escrivá, É Cristo que passa, n.
21)
$
“Doutor em Direito e em Filosofia, preparava um concurso para professor catedrático na
Universidade de Madrid. Duas carreiras brilhantes, feitas com brilhantismo. Mandou-me
avisar: estava doente, e desejava que eu fosse visitá-lo. Cheguei à pensão onde estava
hospedado. – «Padre, estou morrendo», foi a saudação. Animei-o, com carinho. Quis
fazer uma confissão geral. Naquela noite, faleceu. Um arquiteto e um médico me
ajudaram a amortalhá-lo. – E, à vista daquele corpo jovem, que rapidamente começou a
decompor-se..., estivemos de acordo os três em que as duas carreiras universitárias não
valiam nada, comparadas com a carreira definitiva que, como bom cristão, acabava de
coroar”. (Josemaría Escrivá, Sulco, n. 877)
$
“Somente a virtude acompanha os defuntos; unicamente a caridade os segue”. (Santo
Ambrósio, em Catena Aurea, vol. VI, p. 86)
$
“Não temas a morte. É tua amiga!
$
“– Procura acostumar-te a essa realidade, assomando com freqüência à tua sepultura. E
ali, olha, cheira e apalpa o teu cadáver apodrecido, defunto há oito dias.
$
“– Lembra-te disto, especialmente, quando te perturbar o ímpeto da tua carne”.
(Josemaría Escrivá, Forja, n. 1035)

59
$
“Não faças da morte uma tragédia!, porque não o é. Só aos filhos desamorados é que
não entusiasma o encontro com seus pais”. (Josemaría Escrivá, Sulco, n. 885)
$
“Morrer?... Que comodismo!, repito.
$ “– Diz como aquele santo bispo, ancião e doente: “Non recuso laborem”: Senhor,
enquanto puder ser-te útil, não me recuso a viver e a trabalhar por Ti”. (Josemaría
Escrivá, Forja, n. 1040)

60
PARTE II - A Celebração do Mistério Cristão
Aula 06 - A liturgia sacramental e o Batismo

A liturgia
! O Mistério Pascal de Cristo, isto é, sua Paixão, Morte e Ressurreição, realiza
nossa redenção e, através das celebrações litúrgicas, é a fonte da força vital que anima a
Igreja. Todas as ações de Cristo revestem-se da eternidade de Deus e, portanto, não
estão relegadas ao passado, mas permanecem no presente. Compete à liturgia da Igreja
significar e realizar essa permanência, aplicando os méritos da redenção a todos os
homens por meio dos sacramentos e antecipando-nos a liturgia celeste, ou seja, o culto
que iremos prestar a Deus junto com os anjos e santos no Céu. (cfr. CIC 1085-1090)
! O próprio Cristo preside as celebrações litúrgicas e, pelo Espírito e a Igreja, nos
unimos a Cristo, cada qual participando segundo uma determinada função. Os ministros
ordenados, consagrados pelo sacramento da Ordem, estão aptos a agirem na pessoa de
Cristo ao serviço de todos os membros da Igreja, mas toda a comunidade, unida pelo
Espírito, toma parte na liturgia, segundo a natureza do rito e as leis litúrgicas (cfr. CIC
1136-1144).
! A principal função da liturgia é a celebração dos sacramentos. Santo Tomás de
Aquino explica que “sacramento é sinal de uma realidade sagrada que santifica o
homem”. Também nos explica que Deus, na sua sabedoria, provê a cada coisa segundo
a sua própria natureza. Assim como se chega ao conhecimento das coisas inteligíveis
através das sensíveis, a santificação espiritual operada pelos sacramentos nos chegam
através de coisas materiais. Depois do pecado original, o homem ficou mais dependente
das realidades sensíveis e submetido ao corpo, o que dificulta a assimilação direta de
realidades espirituais. Os sacramentos são tão propícios à nossa natureza justamente
por permitirem chegar às realidades espirituais por meio das materiais. O modo concreto
de como se realiza cada sacramento não é arbitrário. Como depende da potestade de
Deus a santificação do homem, não compete ao homem escolher como se santificar,
mas deve acolher às determinações de Deus.
! “Deus fala ao homem através da criação visível. O cosmos material apresenta-se
à inteligência do homem para que leia nele os traços do seu Criador. A luz e a noite, o
vento e o fogo, a água e a terra, a árvore e os frutos, tudo fala de Deus e simboliza, ao
mesmo tempo, a sua grandeza e a sua proximidade (...). As grandes religiões da
humanidade dão testemunho, muitas vezes de modo impressionante, deste sentido
cósmico e simbólico dos ritos religiosos. A liturgia da Igreja pressupõe, integra e santifica
elementos da criação e da cultura humana, conferindo-lhes a dignidade de sinais da
graça, da nova criação em Cristo Jesus” CIC 1147, 1149.

61
$ O povo eleito recebeu sinais e símbolos que marcaram a liturgia da Antiga Aliança.
Cristo na sua pregação utiliza-se de sinais para dar a conhecer o Reino e realiza curas
com gestos simbólicos. Todos esses elementos são prefigurações dos sinais
sacramentais da Nova Aliança, nos quais o Espírito Santo e a Igreja operam a nossa
santificação (cfr. CIC 1150-1152).
! Cada um dos sete sacramentos, portanto, nos transmitem a graça que nos
santifica por meio dos sinais, elementos materiais e palavras, que constituem o rito
específico. A matéria do sacramento é o sinal sensível pelo qual recebemos a graça. A
forma são as palavras que conferem um significado específico ao rito, realizando
efetivamente o que o sinal significa. Foram instituídos por Nosso Senhor Jesus Cristo e
são cerimônias eficazes em si mesmas, porque é o próprio Cristo que opera nelas. Essa
eficácia é garantida se os sacramentos forem celebrados conforme a intenção e
seguindo as indicações da Igreja, daí a importância de seguir as normas litúrgicas, pois
nenhuma parte do rito é trivial. Se por um lado o sacramento devidamente celebrado não
depende da santidade pessoal do ministro para sua eficácia, por outro seus frutos
dependem das nossas disposições pessoais (cfr. CIC 1128). Como a terra bem
preparada acolhe melhor a semente do que a terra seca e dá mais frutos, assim a
semente de cada um dos sacramentos dará muitos frutos em nossa alma se nos
encontrar devidamente preparados (cfr. Mt 13, 23).
!
! Dentre os sinais e símbolos que "realizam o que significam# nos sacramentos, tem
sempre um lugar especial a "palavra#. Tanto como forma dos sacramentos, mas também
como palavra anunciada (liturgia da palavra), esta exprime o diálogo entre Deus e seus
filhos. É preciso cuidar dos símbolos associados à palavra: o Livro Sagrado e sua
veneração, o lugar e o modo apropriado de fazer o anúncio, bem como a atenção e a
resposta dos fiéis (cfr. CIC 1153-1155). O canto e a música desempenham também um
significativo papel nas celebrações litúrgicas na medida em que evidenciam a beleza da
oração, a participação dos fiéis e caráter solene da celebração (cfr. CIC 1156-1158).
! Nossos sentidos ainda contam com a ajuda das imagens sagradas para estimular
a oração e viver mais intensamente o mistério celebrado. Quando Deus era ainda
invisível e incompreendido pelos homens, não se podia representá-lo por imagens. Com
a Encarnação do Verbo de Deus, Cristo-Jesus, “contemplamos a glória do Senhor com o
rosto descoberto”, ou seja, inaugura-se um novo tratamento das imagens sagradas.
Todos os sinais da celebração fazem referência a Cristo: isso vale para a imagens,
mesmo as de Nossa Senhora e dos santos. Nessas imagens vemos Cristo glorificado em
suas vidas. Portanto, nas imagens, não se adoram os santos em si, mas veneram-se
suas pessoas na medida em que participam da glória de Cristo (cfr. CIC 1159-1162).

62
! Ao longo do ano, revive-se pela liturgia, todos os mistérios de Cristo, constituindo-
se o que chamamos de Tempo Litúrgico. O Domingo, remontando à tradição dos
apóstolos, é o Dia do Senhor, comemora o primeiro dia da criação e a nova criação
operada por Cristo com sua Morte e Ressurreição. É, portanto, o dia por excelência da
assembléia litúrgica, cujo ápice é a participação na Ceia do Senhor, a Santa Missa. Todo
o Ano litúrgico (Advento, Natal, Quaresma, Tempo Pascal e Tempo Comum) se
determina com referência ao Domingo de Páscoa, solenidade das solenidades.
! Deve-se levar em consideração também o local das celebrações. Uma igreja, mais
do que um local de reunião, é a "casa de Deus#, onde toda a Igreja se manifesta na sua
vitalidade salvífica. Cada elemento de uma igreja cumpre um papel nas celebrações
litúrgicas: o altar, o sacrário (que deve estar num lugar de honra e destaque), os
confessionários, o batistério, o lugar da leitura da palavra, dentre outros. As igrejas
visíveis são também símbolos da casa paterna para a qual todos somos chamados no
fim de nossa vida.
! Os sete sacramentos instituídos por Cristo são os seguintes: o Batismo, a
Confirmação, a Eucaristia, a Penitência, a Unção dos Enfermos, a Ordem e o
Matrimônio. Eles tocam as etapas e momentos importantes da vida do cristão:
nascimento e crescimento, alimento e cura e a missão de cada um (cfr. CIC 1210).

O sacramento do Batismo
$ “O Santo Batismo é o fundamento de toda vida cristã, o pórtico da vida no Espírito
e a porta que dá acesso aos outros sacramento. Pelo Batismo somos libertos do pecado
e regenerados como filhos de Deus: tornamo-nos membros de Cristo e somos
incorporados na Igreja e tornados participantes na sua missão” CIC 1213.
! Já na Antiga Aliança se prefigurava o Batismo com o simbolismo das águas (cfr.
CIC 1217-1222). Em Cristo se realiza essas prefigurações ao manifestar seu
aniquilamento e a vinda do Espírito no batismo de João, que recebeu no início da sua
vida pública, mas sobretudo com sua Páscoa, fonte da graça batismal. A Igreja desde
seus primórdios cumpriu o mandato do Senhor de ir e batizar a todos (cfr. Mt 28, 19-20).
! Batizar significa "mergulhar#, "imergir#. Isso porque a matéria desse sacramento é
uma imersão ou derramamento de água sobre a cabeça da pessoa que está sendo
batizada. A forma do sacramento são as seguintes palavras: "Eu te batizo em nome do
Pai e do Filho e do Espírito Santo#. Compara-se o batismo com a morte, pois a imersão
na água significa "morrer com Cristo# para poder "ressurgir com Ele#, sendo então uma
criatura nova, participante da natureza divina, templo do Espírito Santo (cfr. CIC 1265).
! Se pelo pecado original configura-se como que uma nova natureza humana,
marcada pelo afastamento de Deus e desligada da comunhão com a vida divina, a
redenção operada por Cristo, recebida por nós na graça sacramental do Batismo, nos

63
confere novamente o acesso a Deus e regenera nossa alma. Portanto, esse sacramento
perdoa o pecado original, que como vimos não é para nós um pecado de culpa, mas de
natureza, bem como todos os pecados cometidos e as penas devidas. Como coloca o
CIC 1263: “Com efeito, naqueles que foram regenerados, nada resta que os possa
impedir de entrar no Reino de Deus: nem o pecado de Adão, nem o pecado pessoal,
nem as consequências do pecado, das quais a mais grave é a separação de Deus”.
! A incorporação à Igreja que este sacramento realiza se dá na medida em que das
águas do Batismo nasce um único povo de Deus, membros do corpo de Cristo. O
batizado se compromete a servir na comunhão da Igreja e a viver a docilidade aos seus
chefes (cfr. CIC 1269). Mas também possui o direito de receber os sacramentos e a
ajuda espiritual da Igreja.
! Todo ser humano não batizado pode receber o batismo: se for adulto deve ser
iniciado na fé e na vida cristã com a devida catequese; se for criança pode receber o
batismo, sendo que os pais e os padrinhos professam a fé em nome dela, se
comprometendo em dar uma formação cristã para que essa possa, no uso pleno da sua
liberdade, acolher e crescer no dom que recebeu. Desde os tempos mais remotos a
Igreja batiza as crianças (cfr. CIC 1252).
! O batismo deve ser ministrado pelo bispo, presbítero ou diácono, mas em
necessidade especial, mesmo um não-cristão pode batizar, desde de que o faça
conforme a intenção da Igreja e usando a matéria e a forma do sacramento, conforme
indicado anteriormente. O batismos realizados em igrejas ou comunidades cristãs
desunidas à Igreja Católica precisam ser avaliados caso a caso, para se determinar ou
não sua validade.
! A Igreja afirma, seguindo os ensinamento do próprio Cristo (cf. Jo 3,5), que o
Batismo é necessário para a salvação. Deus, no entanto, “não está prisioneiro dos seus
sacramentos”, o que significa que pode encontrar outros meios de levar à salvação às
almas (cfr. CIC 1257). O Catecismo denomina batismo de desejo a associação ao
mistério pascal de Cristo àqueles que não receberam o sacramento em si, mas
receberam essa graça de Deus, seja porque morreram por causa da fé antes de se
batizarem (batismo de sangue), seja porque eram catecúmenos, ou seja, estavam em
preparação para receber o batismo e faleceram antes, ou mesmo porque não tendo
acesso à Igreja, procuravam a verdade e buscavam fazer a vontade de Deus conforme o
conhecimento que dela possuíam. Como coloca o CIC 1260: “Com efeito, já que Cristo
morreu por todos e a vocação última de todos os homens é realmente uma só, a saber, a
divina, devemos manter que o Espírito Santo a todos dá a possibilidade de se
associarem a este mistério pascal, por um modo só de Deus conhecido”.
! Por fim, o Batismo, juntamente com a Confirmação e a Ordem, é um sacramento
que "imprime caráter#, ou seja, marca o cristão com um selo indelével de pertença a

64
Cristo, estando apto a “servir a Deus mediante uma participação viva na santa liturgia da
Igreja, e a exercer o seu sacerdócio batismal pelo testemunho duma vida santa e duma
caridade eficaz” (cfr. CIC 1273).

Principais Tópicos a serem abordados:


- A celebração do mistério cristão na liturgia;
- Os sacramentos: elementos principais;
- O sacramento do Batismo;
!
Bibliografia:
- CIC 1066 - 1284
- Compêndio do CIC - questões 218 - 264
- Fé Explicada - pg. 259 - 288

Leitura Complementar - Aula 06

1 - A natureza da Sagrada Liturgia e sua importância na vida da Igreja

Trecho da Constituição Conciliar SACROSANCTUM CONCILIUM, sobre a Sagrada


Liturgia.

Jesus Cristo salvador do mundo


! 5. Deus, que «quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento
da verdade» (I Tim. 2,4), «tendo falado outrora muitas vezes e de muitos modos aos
nossos pais pelos profetas» (Hebr. 1,1), quando chegou a plenitude dos tempos, enviou
o Seu Filho, Verbo feito carne, ungido pelo Espírito Santo, a evangelizar os pobres, curar
os contritos de coração, como médico da carne e do espírito, mediador entre Deus e os
homens. A sua humanidade foi, na unidade da pessoa do Verbo, o instrumento da nossa
salvação. Por isso, em Cristo «se realizou plenamente a nossa reconciliação e se nos
deu a plenitude do culto divino».
! Esta obra da redenção dos homens e da glorificação perfeita de Deus, prefigurada
pelas suas grandes obras no povo da Antiga Aliança, realizou-a Cristo Senhor,
principalmente pelo mistério pascal da sua bem-aventurada Paixão, Ressurreição dos
mortos e gloriosa Ascensão, em que «morrendo destruiu a nossa morte e ressurgindo
restaurou a nossa vida». Foi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o
sacramento admirável de toda a Igreja.

65
pelo sacrifício e pelos sacramentos
! 6. Assim como Cristo foi enviado pelo Pai, assim também Ele enviou os Apóstolos,
cheios do Espírito Santo, não só para que, pregando o Evangelho a toda a criatura,
anunciassem que o Filho de Deus, pela sua morte e ressurreição, nos libertara do poder
de Satanás e da morte e nos introduzira no Reino do Pai, mas também para que
realizassem a obra de salvação que anunciavam, mediante o sacrifício e os
sacramentos, à volta dos quais gira toda a vida litúrgica. Pelo Batismo são os homens
enxertados no mistério pascal de Cristo: mortos com Ele, sepultados com Ele, com Ele
ressuscitados; recebem o espírito de adoção filial que «nos faz clamar: Abba, Pai» (Rom.
8,15), transformando-se assim nos verdadeiros adoradores que o Pai procura. E sempre
que comem a Ceia do Senhor, anunciam igualmente a sua morte até Ele vir. Por isso
foram batizados no próprio dia de Pentecostes, em que a Igreja se manifestou ao mundo,
os que receberam a palavra de Pedro. E «mantinham-se fiéis à doutrina dos Apóstolos, à
participação na fração do pão e nas orações... louvando a Deus e sendo bem vistos pelo
povo» (Act. 2, 41-47). Desde então, nunca mais a Igreja deixou de se reunir em
assembléia para celebrar o mistério pascal: lendo «o que se referia a Ele em todas as
Escrituras» (Lc. 24,27), celebrando a Eucaristia, na qual «se torna presente o triunfo e a
vitória da sua morte», e dando graças «a Deus pelo Seu dom inefável (2 Cor. 9,15) em
Cristo Jesus, «para louvor da sua glória» (Ef. 1,12), pela virtude do Espírito Santo.

presença de Cristo na Liturgia


! 7. Para realizar tão grande obra, Cristo está sempre presente na sua Igreja,
especialmente nas ações litúrgicas. Está presente no sacrifício da Missa, quer na pessoa
do ministro - «O que se oferece agora pelo ministério sacerdotal é o mesmo que se
ofereceu na Cruz»-quer e sobretudo sob as espécies eucarísticas. Está presente com o
seu dinamismo nos Sacramentos, de modo que, quando alguém batiza, é o próprio
Cristo que batiza. Está presente na sua palavra, pois é Ele que fala ao ser lida na Igreja a
Sagrada Escritura. Está presente, enfim, quando a Igreja reza e canta, Ele que prometeu:
«Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles» (Mt.
18,20).
! Em tão grande obra, que permite que Deus seja perfeitamente glorificado e que os
homens se santifiquem, Cristo associa sempre a si a Igreja, sua esposa muito amada, a
qual invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai. Com razão se
considera a Liturgia como o exercício da função sacerdotal de Cristo. Nela, os sinais
sensíveis significam e, cada um à sua maneira, realizam a santificação dos homens;
nela, o Corpo Místico de Jesus Cristo - cabeça e membros - presta a Deus o culto
público integral.

66
! Portanto, qualquer celebração litúrgica é, por ser obra de Cristo sacerdote e do
seu Corpo que é a Igreja, ação sagrada por excelência, cuja eficácia, com o mesmo título
e no mesmo grau, não é igualada por nenhuma outra ação da Igreja.

A Liturgia terrena, antecipação da Liturgia celeste


! 8. Pela Liturgia da terra participamos, saboreando-a já, na Liturgia celeste
celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e
onde Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do verdadeiro
tabernáculo; por meio dela cantamos ao Senhor um hino de glória com toda a milícia do
exército celestial, esperamos ter parte e comunhão com os Santos cuja memória
veneramos, e aguardamos o Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo, até Ele aparecer
como nossa vida e nós aparecermos com Ele na glória.

Lugar da Liturgia na vida da Igreja


! 9. A sagrada Liturgia não esgota toda a ação da Igreja, porque os homens, antes
de poderem participar na Liturgia, precisam de ouvir o apelo à fé e à conversão: «Como
hão de invocar aquele em quem não creram? Ou como hão de crer sem o terem ouvido?
Como poderão ouvir se não houver quem pregue? E como se há-de pregar se não
houver quem seja enviado?» (Rom. 10, 14-15).
! É por este motivo que a Igreja anuncia a mensagem de salvação aos que ainda
não têm fé, para que todos os homens venham a conhecer o único Deus verdadeiro e o
Seu enviado, Jesus Cristo, e se convertam dos seus caminhos pela penitência. Aos que
crêem, tem o dever de pregar constantemente a fé e a penitência, de dispo-los aos
Sacramentos, de ensiná-los a guardar tudo o que Cristo mandou, de estimulá-los a tudo
o que seja obra de caridade, de piedade e apostolado, onde os cristãos possam mostrar
que são a luz do mundo, embora não sejam deste mundo, e que glorificam o Pai diante
dos homens.
! 10. Contudo, a Liturgia é simultaneamente a meta para a qual se encaminha a
ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força. Na verdade, o trabalho
apostólico ordena-se a conseguir que todos os que se tornaram filhos de Deus pela fé e
pelo Batismo se reunam em assembléia para louvar a Deus no meio da Igreja, participem
no Sacrifício e comam a Ceia do Senhor.
! A Liturgia, por sua vez, impele os fiéis, saciados pelos «mistérios pascais», a
viverem «unidos no amor»; pede «que sejam fiéis na vida a quanto receberam pela fé»; e
pela renovação da aliança do Senhor com os homens na Eucaristia, e aquece os fiéis na
caridade urgente de Cristo. Da Liturgia, pois, em especial da Eucaristia, corre sobre nós,
como de sua fonte, a graça, e por meio dela conseguem os homens com total eficácia a

67
santificação em Cristo e a glorificação de Deus, a que se ordenam, como a seu fim,
todas as outras obras da Igreja.

A participação dos fiéis


! 11. Para assegurar esta eficácia plena, é necessário, porém, que os fiéis celebrem
a Liturgia com retidão de espírito, unam a sua mente às palavras que pronunciam,
cooperem com a graça de Deus, não aconteça de a receberem em vão. Por conseguinte,
devem os pastores de almas vigiar por que não só se observem, na ação litúrgica, as leis
que regulam a celebração válida e lícita, mas também que os fiéis participem nela
consciente, ativa e frutuosamente.

Vida espiritual extra-litúrgica


! 12. A participação na sagrada Liturgia não esgota, todavia, a vida espiritual. O
cristão, chamado a rezar em comum, deve entrar também no seu quarto para rezar a sós
ao Pai, segundo ensina o Apóstolo, deve rezar sem cessar. E o mesmo Apóstolo nos
ensina a trazer sempre no nosso corpo os sofrimentos da morte de Jesus, para que a
sua vida se revele na nossa carne mortal. É essa a razão por que no Sacrifício da Missa
pedimos ao Senhor que, tendo aceite a oblação da vítima espiritual, faça de nós uma
«oferta eterna» a si consagrada.
!

68
Aula 07 - A Confirmação, os Dons do Espírito Santo e a Eucaristia

O sacramento da Confirmação
! O sacramento do Crisma ou da Confirmação é o segundo na iniciação cristã. Com
ele se recebe uma nova força do Espírito Santo, levando à plenitude a graça batismal.
Como vimos anteriormente, todos os sacramentos têm sua eficácia de Cristo, que os
instituiu e atua neles. A peculiaridade da Confirmação é que Cristo a instituiu não
conferindo-a, mas fazendo uma promessa, quando disse em Jo 16, 7: “Convém a vós
que eu vá! Porque, se eu não for, o Paráclito não virá a vós; mas se eu for, vo-lo
enviarei”. Fez assim, pois este sacramento dá a plenitude do Espírito, que só poderia ser
conferida após a sua Ressurreição e Ascensão aos Céus. São João mesmo explica isso
em Jo 7, 37-39: “No último dia, que é o principal dia de festa, estava Jesus de pé e
clamava: Se alguém tiver sede, venha a mim e beba. Quem crê em mim, como diz a
Escritura: Do seu interior correrão rios de água viva. Dizia isso, referindo-se ao Espírito
que haviam de receber os que cressem nele, pois ainda não fora dado o Espírito, visto
que Jesus ainda não tinha sido glorificado”.
$ Os Apóstolos junto com Nossa Senhora receberam o Espírito Santo de um modo
extraordinário, sob formas de línguas de fogo, no dia de Pentecostes (cfr. At 2, 1-3). Essa
confirmação do Espírito capacitou os Apóstolos para a missão que Cristo os tinha
confiado de ir e pregar o Evangelho e administrar o Batismo a todas as nações (cfr. Mt
28, 19). Também os crismados hoje se capacitam para essa missão, estando mais
enraizados na filiação divina e unidos a Cristo e a Igreja, recebem a força do Espírito
para propagar e defender a fé, pela palavra e pela ação, sendo testemunhas de Cristo e
não se envergonhando da cruz (cfr. CIC 1303).
! Santo Tomás explica que nos começos da Igreja, os Apóstolos administravam o
dom do Espírito com a imposição das mãos que eram acompanhados de sinais sensíveis
milagrosos, como nos conta o livro dos Atos em At 11, 15: “Apenas comecei a falar,
quando desceu o Espírito Santo sobre eles, como no princípio descera também sobre
nós”. Mas uma antiga tradição mostra que quando esses sinais sensíveis não se
produziam, usava-se a unção com o óleo do crisma (óleo de oliva com bálsamo), na
administração desse sacramento. Se nos Apóstolos o fogo do Espírito desceu
diretamente, o óleo representa esse fogo de forma passiva, já que é matéria combustível
do fogo. O bálsamo tem o mesmo significado que as línguas que desceram sobre os
Apóstolos, com a diferença que das línguas se comunica através das palavras e o
bálsamo através do odor, pois como coloca São Paulo em 2 Co 2, 15: “Somos para Deus
o perfume de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem”. Como esse óleo
é uma matéria que não foi usada diretamente por Cristo, como foi a água para o Batismo
e o Pão e o Vinho para a Eucaristia, como veremos, a Igreja ensina que deve ser

69
abençoado pelo Bispo antes de ser usado para administrar o sacramento. Essa benção
se faz nas Quintas-feiras Santas, onde o Bispo com todo seu presbitério reza a Missa do
Crisma.
! A forma do sacramento são as palavras “Recebe por este sinal o Espírito Santo,
dom de Deus”, ditas durante a unção do crisma na fronte do batizado. Os ministros
ordinários desse sacramento são os Bispos, pois como eles possuem a plenitude do
sacramento da Ordem, como veremos, e são sucessores dos Apóstolos, possuem maior
dignidade e potestade para "fazer a coroação do sacramento do Batismo#. Em casos
especiais, o Bispo pode autorizar o presbítero a administrar a Confirmação.
! Com o sacramento do Crisma a Igreja ensina que se recebem os Dons do Espírito
Santo. A oração que o Bispo invoca sobre os crismandos durante o Rito do sacramento
faz menção a esses dons: “Deus todo-poderoso, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que,
pela água e pelo Espírito Santo, destes uma vida nova a estes vossos servos e os
libertastes do pecado, enviai sobre eles o Espírito Santo Paráclito; dai-lhes, Senhor, o
espírito de sabedoria e de inteligência, o espírito de conselho e de fortaleza, o espírito de
ciência e de piedade, e enchei-os do espírito do vosso temor. Por nosso Senhor Jesus
Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo” (cfr. Leitura
Complementar abaixo, sobre os Sete Dons do Espírito Santo).

A Eucaristia como sacramento


$ A iniciação cristã se completa com o sacramento da Eucaristia. O Catecismo
ensina que a Eucaristia é, ao mesmo tempo, sacrifício e sacramento. Nesta aula
veremos o aspecto de sacramento, para estudarmos na próxima o aspecto de sacrifício.
! Na Eucaristia se encontra o próprio Cristo, realmente presente, com seu Corpo,
Sangue, Alma e Divindade. Isso coloca este sacramento acima de todos os outros. Se
falávamos de "sinais que realizam o que significam#, para designar os sacramentos, aqui
essa definição não se aplica, pois já não é um sinal, mas a própria realidade. Entende-se
a força das palavras do Catecismo quando afirma: “A Eucaristia é «fonte e cume de toda
a vida cristã». Os restantes sacramentos, assim como todos os ministérios eclesiásticos
e obras de apostolado, estão vinculados com a sagrada Eucaristia e a ela se ordenam.
Com efeito, na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto
é, o próprio Cristo, nossa Páscoa” (CIC 1324).
! O aspecto sacrificial, do qual falaremos mais na próxima aula, está
inseparavelmente unido ao sacramento, pois é na Santa Missa que "se confecciona# a
Eucaristia.
$ Assim como a regeneração operada pelo Batismo significa um nascimento
espiritual e a Confirmação a maturidade da alma, a Eucaristia representa o alimento que
sustenta a vida dessa alma. A matéria do sacramento, efetivamente, são alimentos: o

70
pão e o vinho. A recepção do sacramento significa exteriormente comer desse pão e
beber do vinho, mas o que na verdade está acontecendo é que nos estamos alimentando
com a própria vida divina de Cristo, pois o pão se torna a sua Carne e o vinho o seu
Sangue.
! A escolha desses sinais sacramentais foi feita pelo próprio Cristo, prefigurados na
antiga aliança com o pão ázimo do Êxodo, o maná do deserto e o cálice da benção (cfr.
CIC 1334). Cristo, com o milagre da multiplicação dos pães, prefigurou a
superabundância do Pão da Eucaristia. Com a transformação da água em vinho nas
bodas de Caná, anunciou o banquete de núpcias do Reino, onde os fiéis beberão o vinho
novo, tornado Sangue de Cristo (cfr. CIC 1335).
! No Capítulo 6 do Evangelho de São João, Cristo revelou com clareza o valor
dessas prefigurações, mostrando como os elementos sacramentais fazem referência a
Seu Corpo e Sangue, bem como a importância de participar desse sacramento para ter a
vida de Cristo em nós. Suas palavras foram as seguintes:
! “Eu sou o pão da vida. Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram.
Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer. Eu
sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão,
que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo. A essas palavras, os
judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua
carne? Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a
carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós
mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o
ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu
sangue, verdadeiramente uma bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue
permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai,
assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim. Este é o pão que
desceu do céu. Não como o maná que vossos pais comeram e morreram. Quem come
deste pão viverá eternamente. Tal foi o ensinamento de Jesus na sinagoga de
Cafarnaum”.
! Em outras ocasiões, Jesus disse ser outras coisas. Por exemplo, em Jo 10, 9, Ele
disse: “Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo”. Em outra ocasião, Jo 15,1,
disse: “Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que não der fruto
em mim, ele o cortará”. Nessas ocasiões, as pessoas perceberam que Ele falava em
uma linguagem figurada e não se escandalizaram. Mas quando Jesus falou que era o
Pão da Vida e que tinham que comer sua Carne, não se entendeu da mesma forma,
como o próprio Evangelho de São João, no mesmo capítulo 6, nos mostra: “Muitos dos
seus discípulos, ouvindo-o, disseram: Isto é muito duro! Quem o pode admitir? (...).
Desde então, muitos dos seus discípulos se retiraram e já não andavam com ele”. Por

71
esse discurso Cristo perdeu muitos discípulos, pois não podia abrir mão da verdade. E
deixou inclusive aberto aos apóstolos aderir ou não às suas palavras: “Então Jesus
perguntou aos Doze: Quereis vós também retirar-vos? Respondeu-lhe Simão Pedro:
Senhor, a quem iríamos nós? Tu tens palavras de vida eterna. E nós cremos e sabemos
que tu és o Santo de Deus”. São Pedro, talvez também sem entender bem o que
significavam aquelas palavras, expressa sua incondicional confiança em Cristo e a fé na
sua divindade.
! No entanto, esse discurso foi apenas a preparação para o momento concreto da
Instituição desse sacramento, que aconteceu na Última Ceia, ou seja, no dia anterior à
Paixão do Senhor. No Evangelho de São Lucas lemos:
! “Veio o dia dos Ázimos, em que devia imolar-se a Páscoa. [Jesus] enviou então a
Pedro e a João, dizendo: "Ide preparar-nos a Páscoa, para que a possamos comer" [...].
Partiram pois, [...] e prepararam a Páscoa. Ao chegar a hora, Jesus tomou lugar à mesa,
e os Apóstolos com Ele. Disse-lhes então: "Tenho desejado ardentemente comer
convosco esta Páscoa, antes de padecer. Pois vos digo que não voltarei a comê-la, até
que ela se realize plenamente no Reino de Deus". [...] Depois, tomou o pão e, dando
graças, partiu-o, deu-lho e disse-lhes: "Isto é o Meu corpo, que vai ser entregue por vós.
Fazei isto em memória de Mim". No fim da ceia, fez o mesmo com o cálice e disse: "Este
cálice é a Nova Aliança no meu sangue, que vai ser derramado por vós”. (cfr. Lc 22, 7-20
e CIC 1137-1140).
$ Assim, Cristo deu o sentido definitivo à Páscoa judaica, pois aquela Ceia pascal
antecipava sacramentalmente a passagem de Cristo ao Pai pela sua Morte e
Ressurreição. O pedido de Cristo quando disse: "Fazei isto em memória de Mim", era o
convite para que a celebração litúrgica fosse realizada "até que Ele venha# (cfr. 1 Co 11,
26), ou seja, até o fim dos tempos, sendo o “memorial da Paixão e Ressurreição do
Senhor”, vivido dia a dia, celebração a celebração, alimentando os fiéis com esse
"tesouro espiritual# e os preparando para o "banquete celeste#, em que todos os eleitos se
sentarão à mesa do Reino (cfr. CIC 1344).
$ A fé na Presença Real de Cristo na Eucaristia significa acreditar que por trás das
aparências de Pão e de Vinho, estão as substâncias do Corpo e do Sangue de Cristo,
milagrosamente presentes. Chama-se transubstanciação essa mudança de substância
do pão no Corpo de Cristo e do vinho no seu Sangue. Enquanto duram as espécies
eucarísticas, nelas permanecem Cristo, em cada uma de suas partes, inteiramente, de
modo que a sua divisão não divide a Cristo. A fé na Realidade e na Presença de Cristo
na Eucaristia deve orientar nosso comportamento diante desse mistério, estimular a
oração diante do Sacrário e a Ação de Graças sobre o amor de Deus por nós, ao ficar
tão acessível nesse sacramento (cfr. Leitura Complementar sobre o Coração de Cristo).

72
! Nos começos da Igreja, com a impossibilidade de algumas pessoas participarem
da Missa, reservava-se o Corpo de Cristo Eucarístico para que fosse levado a tais
pessoas. Reservava-se em locais especiais esse Pão consagrado, de modo que
começou-se a rezar diante dele (cfr. CIC 1379). Com o tempo, nasceu toda uma liturgia
eucarística, que honra a Cristo Eucarístico de muitas formas: com Exposições Solenes e
Bênçãos, Cânticos e Adorações. A festa do Corpus Christi é um momento-chave na
liturgia eucarística, onde se reza uma Missa Solene e se faz uma Procissão com o
Santíssimo Sacramento, com a tradição dos tapetes decorativos por onde Jesus passa
ainda viva em muitas cidades. A festa do Corpus Christi começou em 1215 por ocasião
do reconhecimento de um milagre eucarístico, em que durante a consagração do Corpo
e do Sangue de Cristo, não mudaram apenas as substâncias, mas inclusive as
aparências de Pão e Vinho, que se transformaram em carne e sangue humanos. Ao
longo da história, existiram muitos milagres catalogados que instigam a ciência e
suscitam a fé de muitos incrédulos.

Principais Tópicos:
- O sacramento da Confirmação;
- Os dons do Espírito Santo;
- O aspecto sacramental da Eucaristia;
!
Bibliografia:
- CIC 1285 - 1344
- Compêndio do CIC - questões 265 - 276
- Fé Explicada - pg. 289 - 360

Leituras Complementares - Aula 07

1 - Os sete dons do Espírito Santo

Revista “PERGUNTE E RESPONDEREMOS”, D. Estevão Bettencourt, osb


Revista nº. 479, Ano 2002 (partes selecionadas).

! Em nossos dias a renovação da oração e da espiritualidade cristãs apela


frequentemente para a ação do Espírito Santo nos corações. Muitos fiéis se tornam
conscientes de que “ninguém pode dizer "Jesus Cristo é o Senhor# senão sob a moção
do Espírito Santo” (cf. 1 Cor 12, 3), sabem cada vez mais que “todos os que são movidos
pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus" (cf. Rm 8, 14). A consciência destas verdades
vem despertando cada vez mais a atenção para a teologia espiritual. É, pois, oportuno

73
procurarmos conhecer melhor as maneiras como o Espírito Santo age nos corações,
descrevendo os seus dons e o significado destes na vida dos filhos de Deus.
!
! Os dons do Espírito Santo são como “receptores” aptos a captar os impulsos do
Espírito mediante os quais o cristão se encaminha para a perfeição em estilo novo ou
com a eficácia que o próprio Deus lhe confere. Possibilitam ao cristão ter a intuição
profunda do significado das verdades reveladas por Deus assim como de cada criatura.
Proporcionam também tomadas de atitude que nem a razão natural nem as virtudes
humanas, sujeitas sempre a hesitações e falhas, conseguiriam indicar ou efetivar.
! Para ilustrar o que são os dons, pode-se recorrer à imagem de um barco que
navega: se é movido a remos, avança lenta e penosamente, com grande esforço para os
remadores. Caso, porém, estes desdobram as velas do barco para que capte o sopro
dos ventos favoráveis, os remadores descansam e o barco progride em estilo novo
segundo velocidade “sobre-humana”. - Ora o barco movido ao sopro do vento que bate
contra as velas, é imagem do cristão impelido pelo Espírito, segundo medidas divinas,
para a meta da sua santificação.
! Eis outra comparação: admitamos um pintor genial que se dispõe a realizar uma
obra-mestra. Para iniciar, ele confia aos discípulos mais adiantados o trabalho de
preparar a tela, combinar as cores e esquematizar o quadro. Quando tudo está
preparado e começa a parte mais importante da obra, o próprio mestre traça as linhas
finíssimas de sua obra, revelando o seu gênio e cristalizando a sua inspiração. De
maneira análoga, o Espírito traça no íntimo de cada cristão a imagem do Cristo Jesus.
Os inícios desta tarefa, Ele os realiza mediante a nossa colaboração, permitindo-nos agir
segundo os nossos moldes humanos (ou mediante as virtudes infusas). Quando, porém,
se trata dos traços mais típicos do Cristo na alma humana, o próprio Espírito assume a
tarefa de os delinear utilizando instrumentos especialmente finos a preciosos, que são
seus dons.

! Os dons do Espírito Santo são sete, segundo a habitual recensão dos teólogos:
sabedoria, entendimento, ciência, conselho, fortaleza, piedade, temor de Deus. Para se
beneficiar da ação do Espírito Santo, o cristão deve dispor-se de duas maneiras
principais: a) cultivando o amor, pois é o amor que propicia afinidade com Deus e, por
conseguinte, torna o cristão apto a ser movido pelo Espírito de Deus; b) procurando
jamais dizer um Não consciente e voluntário às inspirações do Espírito. Quem se
acostuma a viver assim, cresce mais velozmente na sua estatura definitiva e se configura
mais fielmente ao Cristo Jesus.
Passemos agora à análise de cada qual de per si.

74
Dom da Ciência

! A ciência humana perscruta o universo e seus fenômenos, procurando as causas


imediatas destes e concatenando-as entre si para ter uma explicação mais ou menos
clara da realidade. Ora o dom da ciência, embora não defina a natureza e as
propriedades físicas ou químicas de cada criatura, faz que o cristão penetre na realidade
deste mundo sob a luz de Deus, vê cada criatura como reflexo da sabedoria do Criador e
como aceno ao Supremo Bem. Mais: o dom da ciência leva o homem a compreender, de
um lado, o vestígio de Deus que há em cada ser criado, e, de outro lado, a exigüidade ou
insuficiência de cada qual.
! Vestígio de Deus... São Francisco de Assis soube ouvir e proclamar o canto das
criaturas ao Senhor. As flores, as aves, a água, o fogo, o sol... tudo lhe era ocasião de
contemplar e amar a Deus.
! Exigüidade... Toda criatura, por mais bela que seja, é sempre limitada e
insuficiente para o coração humano. Este foi feito para o Bem infinito e só neste pode
repousar. Percebendo isto após uma vida leviana, muitos homens e mulheres se
converterem radicalmente a Deus. Tal foi o caso de S. Francisco Borja (+ 1572), que ao
contemplar o cadáver da rainha Isabel, exclamou: "Não voltarei a servir a um senhor que
possa morrer!" Tal foi outrossim o caso de S. Silvestre (+ 1267)... Estes cometeram a
"loucura" de tudo deixar a fim de possuir mais plenamente uma só coisa: o Reino de
Deus ou a presença do próprio Deus.
! O dom da ciência ensina também a reconhecer melhor o significado do sofrimento
e das humilhações; estes “contra-valores”, no plano de Deus, têm o valor de escola que
liberta e purifica o homem. Configuram o cristão a Jesus Cristo, concedendo-lhe um
penhor de participação na glória do próprio Senhor Jesus. Se não fora o sofrimento,
muitos e muitos homens não sairiam de sua estatura anã e mesquinha e nunca
atingiriam a plenitude do seu desenvolvimento espiritual.

Dom do Entendimento ou da Inteligência

! A palavra “inteligência” é, segundo alguns, derivada de intellegere = intuslegere,


ler dentro, penetrar a fundo.
! Na ordem natural, entendemos (intelligimus) quando captamos o âmago de
alguma realidade. Na linha da fé, paralelamente entender é penetrar, ler no íntimo das
verdades reveladas por Deus, é ter a intuição do seu significado profundo. Pelo dom do
entendimento, o cristão contempla com mais lucidez o mistério da SS. Trindade, o amor
do Redentor para com os homens, o significado da S. Eucaristia na vida cristã...

75
! A penetração outorgada pelo dom da inteligência (ou do entendimento) difere
daquela que o teólogo obtém mediante o estudo; esta é relativamente penosa e lenta;
além do que, pode ser alcançada por quem tenha acume intelectual, mesmo que não
possua grande amor. Ao contrário, o dom da inteligência é eficaz mesmo sem estudo; é
dado aos pequeninos e ignorantes, desde que tenham grande amor a Deus.
! Na ordem natural, é compreensível que o amor brote do conhecimento. Na ordem
sobrenatural, porém, pode acontecer o inverso: é o amor que abre os olhos do
conhecimento. Os que mais amam a Deus, são os que mais profundamente dissertam
sobre Ele.
! Como frutos do dom do entendimento, podemos enunciar as intuições das
verdades da fé que são concedidas a muitos cristãos durante o seu retiro espiritual ou no
decurso de uma leitura inspirada pelo amor a Deus. O “renascer da água e do Espírito",
a imagem da videira e dos ramos, o “seguir a Cristo” tomam então clareza nova, apta a
transformar a vida do cristão.
! O dom do entendimento manifesta também o horror do pecado e a vastidão da
miséria humana. Por mais paradoxal que pareça, é preciso observar que os santos,
quanto mais se aproximaram de Deus (ou quanto mais foram santos), tanto mais tiveram
consciência do seu pecado ou da sua distância daquele que é três vezes santo.
! Em suma, o dom do entendimento faz ver melhor a santidade de Deus, a
infinidade do seu amor, o significado dos seus apelos e também... a pobreza, não raro
mesquinha, da criatura que se compraz em si mesma, em vez de aderir corajosamente
ao Criador.

Dom da Sabedoria

! Na ordem natural do conhecimento, a inteligência humana não se contenta com


noções isoladas, mas procura reunir suas concepções numa síntese sistemática, de
modo a concatená-las numa visão harmoniosa. A mente humana procura atingir os
primeiros princípios e as causas supremas de toda a realidade que ela conhece.
! Ora a mesma sistematização harmoniosa ocorre também na ordem sobrenatural.
O dom da ciência e o entendimento já proporcionam uma penetração profunda no
significado de cada criatura e de cada verdade revelada respectivamente; oferecem
também uma certa síntese dos objetos contemplados, relacionando-os com o Supremo
Senhor, que é Deus. Todavia o dom que, por excelência, efetua essa síntese harmoniosa
e unitária, é o da sabedoria. Esta abrange todos os conhecimentos do cristão e os põe
diretamente sob a luz de Deus, mostrando a grandeza do plano do Criador e a
insondabilidade da vida daquele que é o Alfa e o Ômega de toda a criação.

76
! Mais: o dom da sabedoria não realiza a síntese dos conhecimentos da fé em
termos meramente intelectuais. Ele oferece um conhecimento saboroso da verdade...
Saboroso ou deleitoso, porque se deriva da experiência do próprio Deus feita pelo cristão
ou da afinidade que o cristão adquire com o Senhor pelo fato de mais a mais amar a
Deus. Uma comparação ajudará a compreender tal proposição: para conhecer o sabor
de uma laranja, posso consultar, intelectual e cientificamente, os tratados de Botânica;
terei assim uma noção aproximada do que seja esse sabor. Mas a melhor via para
conseguir o objetivo será, sem dúvida, a experiência da própria laranja que se faz pelo
paladar. Os resultados do estudo meramente intelectual são frios e abstratos, ao passo
que as vantagens da experiência são concretas e saborosas.
! Ora, na verdade, os dons da ciência e do entendimento fazem-nos conhecer
principalmente por via de amor ou de afinidade com Deus. Todavia é o dom da sabedoria
que, por excelência, resulta dessa conaturalidade ou familiaridade com o Senhor. Ele se
exerce na proporção da íntima união que o cristão tenha com o Senhor Deus. “O dom da
sabedoria faz-nos ver com os olhos do Bem-amado”, dizia um grande místico; a partir da
excelsa atalaia que é o próprio Deus, contemplamos todas as coisas quando usamos o
dom da sabedoria.
! Estas verdades dão a ver quanto nesta vida importa o amor de Deus. É este que
propicia o conhecimento mais perspicaz e saboroso do mesmo Deus (o que não quer
dizer que se possa menosprezar o estudo, pois, se o Criador nos deu a inteligência, foi
para que a apliquemos à verdade por excelência, que é Deus). Aliás, observam muito a
propósito os teólogos: veremos a Deus face-a-face por toda a eternidade na proporção
do amor com que o tivermos amado nesta vida. O grau do nosso amor, na hora da morte,
será o grau da nossa visão de Deus na vida eterna ou por todo o sempre. É por isto que
se diz que o amor é o vínculo da perfeição (cf. Cl 3, 14). “No ocaso de sua vida, cada um
de nós será julgado na base do amor”, diz S. João da Cruz.

Dom de Conselho

! Afirmam os teólogos que Deus não deixa faltar às suas criaturas o que lhes é
necessário, nem é propenso a dons supérfluos, pois Deus tudo faz com número, peso e
medida (cf. Sb 11, 20). Em tudo resplandece a sua sabedoria. Por isto é que Deus é
providente, ou seja, Ele providencia os meios para que cada criatura chegue retamente
ao seu fim devido.
! Ora acontece que, para realizarmos determinada atividade, exercemos um
processo mental que tem por objetivo examinar cuidadosamente não só a conveniência
dessa atividade, mas também todas as circunstâncias em que ela se deve desenrolar.
Muitas vezes esse processo se efetua sem que dele tomemos plena consciência.

77
Quando, porém, nos vemos diante de uma tarefa rara ou mais exigente do que as de
rotina, o processo deliberativo é mais intenso e, por isto, se torna mais consciente; a
mente se esforça por ver claro e fazer a opção mais adequada, sem que, porém, o
consiga de imediato. Não raro é necessário recorrer ao conselho de outra pessoa mais
experimentada. É por efeito da virtude da prudência que cada cristão delibera sobre o
que deve e não deve fazer. É a prudência que avalia os meios em vista do respectivo fim.
! Pois bem. Em correspondência à virtude da prudência, existe um dom do Espírito
Santo, chamado “dom do conselho”. Este permite ao cristão tomar as decisões oportunas
sem a fadiga e a insegurança que muitas vezes caracterizam as deliberações da virtude
da prudência. Esta por si não basta para que o cristão se comporte à altura da sua
vocação de filho de Deus, vocação que exige simultaneamente grande cautela ou
circunspecção e extrema audácia e coragem. Nem sempre a virtude humana entrevê
nitidamente o modo de proceder entre pólos antitéticos. A criatura, limitada como é, nem
sempre consegue conhecer adequadamente o momento presente, menos ainda é apta a
prever o futuro e – ainda – sente dificuldade em aplicar os conhecimentos do passado à
compreensão do presente e ao planejamento do futuro. É preciso, pois, que o Espírito
Santo, em seu divino estilo, lhe inspire a reta maneira de agir no momento oportuno e
exatamente nos termos devidos.
! Assim o dom do conselho aparece como um regente de orquestra que coordena
divinamente todas as faculdades do cristão e as incita a uma atividade harmoniosa e
equilibrada. Imagine-se com que circunspecção (cautela e audácia) um maestro rege os
múltiplos instrumentos de sua orquestra: assinala a cada qual o momento preciso em
que deve entrar e os matizes que deve dar à sua melodia. Assim faz o Espírito mediante
o dom do conselho em cada cristão.
! Diz a Escritura que há um tempo exato para cada atividade; fora desse momento
preciso, o que é oportuno pode tornar-se inoportuno. Ora nem sempre é fácil discernir se
é oportuno falar ou calar, ficar ou partir, dizer Sim ou dizer Não. Nem as pessoas
prudentes, após muito refletir, conseguem definir com segurança o que convém fazer.
Ora é precisamente para superar tal dificuldade que o Espírito move o cristão mediante o
dom do conselho.

Dom da Piedade

! Todo homem é chamado a viver em sociedade, relacionando-se com Deus e com


os seus semelhantes. Requer-se que esse relacionamento seja reto ou justo. Por isto a
virtude da justiça rege as relações de cada ser humano, assumindo diversos nomes de
acordo com o tipo de relacionamento que ela deve orientar: é justiça propriamente dita,
sempre que nos relacionamos com aqueles a quem temos uma dívida rigorosa; a justiça

78
se torna religião desde que nos voltemos para Deus; é piedade, se nos relacionamos
com nossos pais, nossa família ou nossa pátria; é gratidão, em relação aos benfeitores.
! Ora há um dom do Espírito que orienta divinamente todas as relações que temos
com Deus e com o próximo, tornando-as mais profundas e perfeitas: é precisamente o
dom da piedade. São Paulo implicitamente alude a este dom quando escreve:
“Recebestes o espírito de adoção filial, pelo qual bradamos: “Abá, ó Pai” (Rm 8, 15). O
Espírito Santo, mediante o dom da piedade, nos faz, como filhos adotivos, reconhecer
Deus como Pai. E, pelo fato de reconhecermos Deus como Pai, consideramos as
criaturas com olhar novo, inspirado pelo mesmo dom da piedade.
! Frente a Deus ele nos leva a superar as relações de “dar e receber” que
caracterizam a religiosidade natural; leva a não considerar tanto os benefícios recebidos
da parte de Deus, mas, muito mais, o fato de que Deus é sumamente santo e sábio: “Nós
vos damos graças por vossa grande glória”, diz a Igreja no hino da Liturgia eucarística; é,
sim, próprio de um filho olhar a honra e a glória de seu pai, sem levar em conta os
benefícios que ele possa receber do mesmo. É o dom da piedade que leva os santos a
desejar, acima de tudo, a honra e a glória de Deus “... para que em tudo seja Deus
glorificado”, diz São Bento, ao passo que S. Inácio de Loiola exclama: “... para a maior
glória de Deus”. É também o dom da piedade que desperta no cristão viva e inabalável
confiança em Deus Pai,... confiança e entrega das quais dá testemunho S. Teresinha de
Lisieux na sua doutrina sobre a infância espiritual.
! O dom de piedade não incita os cristãos apenas a cumprir seus deveres para com
Deus de maneira filial, mas leva-os também a experimentar interesse fraterno para com
todos os seus semelhantes.
! O dom de piedade, tornando o cristão consciente de sua inserção na família dos
filhos de Deus, move-o a ultrapassar as categorias do direito e do dever, a fim de
testemunhar uma generosidade que não regateia nem mede esforços desde que sirva
aos irmãos. É o que manifesta o Apóstolo ao escrever: “Quanto a mim, de bom grado me
despenderei, e me despenderei todo inteiro, em vosso favor” (2Cor 12, 15).

Dom da Fortaleza

! A fidelidade à vocação cristã depara-se com obstáculos numerosos, alguns


provenientes de fora do cristão; outros, ao contrário, do seu íntimo ou das suas paixões.
Por isto diz o Senhor que “o Reino dos céus sofre violência dos que querem entrar, e
violentos se apoderam dele” (Mt 11, 12).
! Ora, em vista da necessidade de coragem e magnanimidade que incumbe ao
cristão, o Espírito lhe dá o dom da fortaleza. Esta nem sempre consiste em realizar
vultosas e admiradas pelo público, mas não raro implica paciência, perseverança,

79
tenacidade, magnanimidade silenciosas... Pelo dom da fortaleza, o Espírito impele o
cristão não apenas àquilo que as forças humanas podem alcançar, mas também àquilo
que a força de Deus atinge. É essa força de Deus que pode transformar os obstáculos
em meios; é ela que assegura tranqüilidade e paz mesmo nas horas mais tormentosas.
Foi ela que inspirou a S. Francisco de Assis palavras tão significativas quanto estas:
“Irmão Leão, a perfeita alegria consiste em padecer por Cristo, que tanto quis padecer
por nós”.

Dom do Temor de Deus

! Para entender o significado desde dom, distingamos diversos tipos de temor: a) o


temor covarde ou da covardia; b) o temor servil ou do castigo; c) o temor filial. Este
consiste na repugnância que o cristão experimenta diante da perspectiva de poder-se
afastar de Deus; brota das próprias entranhas do amor. Não se concebe o amor sem
este tipo de temor.
! Com outras palavras: as virtudes afastam, sim, o cristão do pecado, ajudando-o a
vencer as tentações. Isto, porém, acontece através de lutas, hesitações e, não raro,
deficiências. Ora pelo dom do temor de Deus a vitória é rápida e perfeita, pois então é o
Espírito que move o cristão a dizer Não à tentação.
! O dom do temor de Deus se prende inseparavelmente à virtude da humildade.
Esta nos faz conhecer nossa miséria; impede a presunção e a vã glória, e assim nos
torna conscientes de que podemos ofender a Deus; daí surge o santo temor de Deus. O
mesmo dom também se liga à virtude da temperança; esta modera a concupiscência e
os impulsos desordenados do coração; com ela converge o temor de Deus, que, por
impulso de ordem superior, modera os apetites que poderiam ofender a Deus.
!

80
2 - O dom do Coração de Jesus, sobre a piedade eucarística

Meditação de São Pedro Julião Eymard, Fundador de duas congregações dedicadas à


Adoração e conhecido como o Apóstolo da Eucaristia.

! Jesus chegou ao fim de sua Vida mortal; o Céu está a reclamar seu Rei. Depois
de combater longamente, é chegada a hora do triunfo. Jesus, no entanto, não quer
abandonar sua nova família, os filhos que acaba de gerar. “Vou-me e venho a vós”, diz
aos Apóstolos.
! Senhor, partis e, partindo, permaneceis? E por que maravilha do vosso Poder? Ah!
é o segredo, a obra de seu Coração divino. Jesus terá dois tronos, um de glória no Céu,
outro de mansidão e de Bondade na terra. Duas cortes: a corte celeste, triunfante, e a
corte terrestre, composta daqueles que foram remidos por Ele. E, ousamos afirmá-lo, se
não lhe fosse possível permanecer simultaneamente lá e cá, havia de preferir ficar na
terra conosco, a voltar ao Céu sem nós. Não deu Ele sobejas provas de que o último de
seus pobres remidos lhe é mais caro do que toda a sua glória? E não pôs Ele suas
delícias em estar com os filhos dos homens?
! Como permanecerá Jesus conosco? Passageiramente, de vez em quando? Não;
permanecerá num estado perseverante e aqui ficará para sempre. E eis que surge na
Alma de Jesus Cristo uma luta admirável. A Justiça divina protesta. Não está consumada
a Redenção e fundada a Igreja? Não está o homem de posse da Graça e do Evangelho,
da Lei divina e dos socorros necessários para praticá-la?
! Responde o coração de Jesus: “Aquilo que basta à Redenção não satisfaz meu
Amor. A mãe não se contenta em dar à luz o filho, quer ainda amamentá-lo, educá-lo e
acompanhá-lo por toda a parte. E Eu amo os homens mais do que a mais tenra das
mães jamais amou ao filho. Com eles permanecerei”.
! Sob que forma?... Sob a forma velada do Sacramento. Quer ainda a Majestade
divina opor-se a semelhante humilhação - mais profunda que a Encarnação, que a
mesma Paixão. A salvação do homem não pede tais rebaixamentos.
! “Mas, replica o Sagrado Coração, quero velar-me, a Mim e à minha Glória, para
que o brilho de minha Pessoa, como outrora a glória de Moisés, não ofusque aos meus
pobres irmãos, impedindo-os de se chegarem a Mim. Quero velar minhas virtudes, que,
humilhando o homem, o levariam a desesperar de jamais atingir modelo tão perfeito. E
isto lhe permitirá chegar-se mais facilmente a Mim, e vendo-me descer até a raia do
nada, comigo descerá também e terei então o direito de lhe dizer com maior força:
aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”.
$ De que modo se perpetuará Jesus? Na Encarnação foi o Espírito Santo o digno
operador do mistério, e na Ceia Jesus agiu por sua própria virtude. Hoje quem merecerá

81
servir de intermediário num mistério dessa natureza? Quem? Um homem. O
Sacerdote!...
! Exclama a sabedoria divina: “Então um pobre mortal encarará seu Salvador e seu
Deus? Será o cooperador do Espírito Santo nesta nova encarnação do Verbo Divino?
Uma criatura dará ordens ao Rei imortal dos séculos e será obedecida?”
! “Sim, responde o Coração de Jesus, Eu amarei ao homem ao ponto de me
submeter a ele em tudo. Descerei dos Céus à chamada do Sacerdote, abandonarei o
Tabernáculo a pedido dos fiéis, e irei visitar meus filhos através das cidades, até o seu
leito de dor...”. Insiste a Santidade divina: “Pelo menos ficarei num templo digno de vossa
glória e tereis padres dignos de vossa realeza? Tudo na nova Lei deve sobrepujar a
beleza da Lei Antiga. Só vos receberão os cristãos puros, preparados com esmero para
tal ato?”.
! “Meu Amor não conhece nem limites, nem condições, diz Jesus. Eu obedeci aos
meus carrascos no Calvário. Se novos Judas vierem a Mim, Eu receberei ainda seu beijo
infernal e lhes obedecerei”.
! Que quadro neste momento surge aos olhos de Jesus. Seu Coração está reduzido
a combater suas próprias inclinações. As angústias do Jardim das Oliveiras se fazem
pressentir. É a tristeza mortal de Getsêmani ao ver as ignomínias da sua Paixão que o
esperam. Verte Lágrimas de Sangue ao pensar no seu povo, que, apesar do seu
Sacrifício, se perderá, enquanto a apostasia de grande número de seus filhos o fere
cruelmente.
! E neste ponto, que luta se trava no seu Coração! Que agonia! Quer dar-se todo
inteiro, sem reserva alguma. Mas estarão todos dispostos a crer em tanto Amor? E
aqueles que nele creram recebê-lo-ão com reconhecimento? E os que receberem, ser-
lhe-ão fiéis?
! O Coração de Jesus não está nem indeciso, nem hesitante - está torturado! Vê a
Paixão renovada diariamente no seu Sacramento de Amor, e renovada por corações
cristãos - corações que lhe eram consagrados! Traído pela apostasia, vendido pelo
interesse, crucificado pelo vício. E, desgraçadamente, o coração daqueles que o
receberam torna-lhes muita vezes um Calvário. Que sofrimento para o Coração divino!
Que fará Ele? Ele se dará, e se dará apesar de tudo.

82
Aula 08 - A Santa Missa e os sacramentos da Confissão e da Unção dos Enfermos

A Santa Missa
! A Santa Missa é a "renovação sacramental do Sacrifício de Cristo na Cruz#. Mais
do que uma simples representação, o sacrifício da Missa torna presente o único sacrifício
de Cristo, tornando-o sempre atual. O Concílio de Trento explica o sentido sacrificial da
Missa com as seguintes palavras:
! “Cristo nosso Deus e Senhor [...], ofereceu-Se a Si mesmo a Deus Pai uma vez
por todas, morrendo como intercessor sobre o altar da cruz, para realizar em favor deles
[homens] uma redenção eterna. No entanto, porque após a sua morte não se devia
extinguir o seu sacerdócio (Heb 7, 24-27), na última ceia, "na noite em que foi
entregue" (1 Cor 11, 13). [...] Ele [quis deixar] à Igreja, sua esposa bem-amada, um
sacrifício visível (como o exige a natureza humana), em que fosse representado o
sacrifício cruento que ia realizar uma vez por todas na cruz, perpetuando a sua memória
até ao fim dos séculos e aplicando a sua eficácia salvífica à remissão dos pecados que
nós cometemos cada dia” (cfr. CIC 1366).
! Comentamos anteriormente que é função da liturgia realizar a permanência do
Mistério Pascal de Cristo entre nós. Pois é na Santa Missa que mais perfeitamente se
vivem esses mistérios, pois como ensina o Catecismo, o sacrifício de Cristo e a
Eucaristia são um único sacrifício. Nosso Senhor encarregou à Sua Igreja, fundada na
pessoa de São Pedro e dos Apóstolos, a missão de renovar sacramentalmente seu
sacrifício na Cruz ao dizer, na Última Ceia: “Fazei isto em memória de Mim”. São os
bispos, sucessores diretos dos apóstolos, e os presbíteros encarregados por eles, que
presidem as celebrações eucarísticas. Para mostrar a união de toda a Igreja em cada
Missa, o Papa e o Bispo local são sempre nomeados nas celebrações.
! Desde os primórdios da humanidade percebe-se o desejo de oferecer ofertas a
Deus, de conseguir favores ou aplacar a "ira divina#. Na tradição judaica vemos vários
sacrifícios oferecidos que prefiguram a Santa Missa: p.ex. a oferta de Abel, o sacrifício de
Abraão, os dons de Melquisedeque. Eram sacrifícios que devolviam a Deus o que ele
mesmo nos tinha dado. A nova ordem instaurada por Cristo implica também em levar à
perfeição os sacrifícios da antiga aliança, oferecendo a Deus algo digno Dele: seu
próprio Filho. O profeta Malaquias, por volta de quatro séculos antes de Cristo, profetizou
esse novo sacrifício: “Do nascente ao poente, é grande minha fama nas nações, e em
todo lugar se oferecem ao meu nome incenso, sacrifícios e oblações puras. Sim, grande
é o meu nome entre as nações, diz o Senhor dos exércitos” (cfr. Mal 1, 11). Não era
comum para um judeu anunciar um sacrifício que fosse oferecido em nome do Senhor
"entre as nações#. Vemos, portanto, a perfeição e a universalidade do sacrifício da Missa.

83
! O rito da Missa, nos seus grandes traços e partes essenciais, remonta aos tempos
apostólicos. As mudanças litúrgicas que aconteceram ao longo da história são legítimas
na medida em que adaptam a celebração a uma determinada época e necessidades
pastorais, sem modificar sua essência.
! Estando os fiéis reunidos, o Bispo ou o presbítero, atuando na pessoa de Cristo,
preside à assembléia e inicia a celebração com o sinal próprio dos cristãos, o sinal da
Cruz, invocando as Três Pessoas da Santíssima Trindade. Depois dessa introdução,
segue-se o pedido de perdão dos pecados e, nos domingos e festas, a oração do Glória.
Termina-se os Ritos Iniciais com a Oração Coleta.
! A liturgia da palavra vem em seguida, composta por "escritos dos profetas#, ou
seja, leituras do Antigo Testamento e "memória dos apóstolos#, ou seja, suas epístolas e
evangelhos. Segue-se a homilia, que é uma exortação a acolher a Palavra como o que
ela é na realidade, Palavra de Deus, e pô-la em prática (cfr. CIC 1349). Conclui-se a
liturgia da palavra com a recitação do Credo e a Oração dos fiéis, que é uma intercessão
por todos os homens.
! A apresentação das oferendas introduz a liturgia eucarística. Apresenta-se ao altar
o pão e o vinho que serão consagrados e o sacerdote reza as orações do ofertório.
Desde os começos da Igreja os cristão na apresentação das oferendas, trazem também
suas ofertas para a partilha com os necessitados, chamada colecta (cfr. CIC 1351).
! Com a oração eucarística, a oração de ação de graças e a consagração,
chegamos ao coração e cume da celebração. São os momentos centrais da Missa em
que Nosso Senhor se torna realmente presente, com seu Corpo, Sangue, Alma e
Divindade. Cada gesto e cada palavra cumpre um papel, especialmente nesse momento
da celebração. Termina-se a liturgia eucarística com a oração "por Cristo, com Cristo e
em Cristo, a vós Deus-Pai Todo Poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda Honra e
Toda Glória, agora e para sempre#, que a assembléia deve responder com solenidade:
"Amém#.
! O Rito da Comunhão começa com a oração do Pai-Nosso e continua com a
oração pela paz e a fração do Pão. Os fiéis que estiverem preparados, podem se
aproximar do Senhor e receber o "Pão do Céu# e o "Cálice da Salvação#.
! Estar preparados para comungar significa já ter feito a Primeira Comunhão,
sabendo discernir o Corpo e o Sangue de Cristo. Não ter consciência de nenhum pecado
grave que não tenha sido confessado, ou seja, estar em graça de Deus. Deve observar
um jejum de ao menos uma hora, não ingerindo alimentos nesse período, com exceção
de água e remédios (doentes e idosos estão isentos dessa prescrição).
! A Oração depois da comunhão, juntamente com os avisos e a Benção final
constituem os ritos finais. Uma prática tradicional na Igreja e recomendada pelo
magistério é fazer um tempo de Ação de Graças após a Missa, em que se agradece a

84
Deus o dom recebido e faz uma oração muito íntima, dado que Cristo Eucarístico está
presente dentro daquele que O recebeu.

Sacramentos de Cura: a Penitência


! Vimos que pelos sacramentos da iniciação cristã, recebemos a vida nova de
Cristo. No entanto, como coloca São Paulo, trazemos essa vida em "vasos de barro# e,
portanto, estamos sujeitos a enfraquecer ou mesmo perder essa vida pelo pecado. Jesus
Cristo exerceu o ministério de cura e salvação e transmitiu aos apóstolos a graça de
continuar esse trabalho. Os sacramentos da Penitência e da Unção dos Enfermos tem
essa finalidade.
!
! O sacramento da Penitência ou da Confissão foi instituído por Nosso Senhor
Jesus Cristo quando Ele transmitiu aos apóstolos o poder de perdoar. Lemos em Jo 20,
22-23: “Na tarde da Páscoa, o Senhor Jesus apareceu aos seus Apóstolos e disse-lhes:
"Recebei o Espírito Santo: àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão
perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos”. Cristo declarou que
tinha o poder de perdoar e o comprovou com o milagre da cura de um paralítico (cfr. Mc
2, 12), imagem da cura da paralisia espiritual que é o pecado.
! Como coloca o Catecismo Romano, Nosso Senhor instituiu o sacramento da
penitência “para que tivéssemos a confiança de serem perdoados os nossos pecados,
pela absolvição do sacerdote; para que nossas consciências ficassem mais tranqüilas,
por causa da fé que justamente devemos ter na eficácia dos Sacramentos. Pois quando
o sacerdote nos perdoa os pecados, na forma sacramental, suas palavras têm o mesmo
sentido que as palavras de Cristo Nosso Senhor ao paralítico: !tem confiança, filho, teus
pecados te são perdoados" (Mt 9, 2). Depois, como ninguém pode conseguir a salvação
senão por Cristo, e na virtude de Sua Paixão, havia conveniência em si e muita utilidade
para nós, que fosse instituído um Sacramento, por cuja eficácia corresse sobre nós o
Sangue de Cristo, a fim de nos# purificar dos pecados cometidos depois do Batismo; e
assim reconhecemos que devemos unicamente a Nosso Salvador a graça da
reconciliação”.
! A realidade do pecado após o batismo se dá porque apesar dos efeitos de
regeneração da alma, adoção filial por Deus e incorporação à Igreja, permanece em nós
a concupiscência, ou seja, a inclinação para o egoísmo, ou seja, o “amor de si próprio até
o desprezo de Deus”, como coloca Santo Agostinho. Nas escrituras temos uma evidência
dessa fraqueza, por exemplo, quando São João nos escreve “se dissermos que não
temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e a verdade não está em nós” (1Jo 1,8), ou
quando Nosso Senhor nos ensina a pedir perdão dos nossos pecados, ao ensinar-nos a
oração do Pai-Nosso (cfr. Lc 11, 4).

85
! No sacramento da Penitência fala-se de "atos do penitente# e "atos do sacerdote#.
Estes são os "sinais sensíveis# que, como definidos anteriormente ao falar dos
sacramentos, "realizam o que significam#. Por parte do penitente esses atos são a
confissão dos próprios pecados, juntamente com a atitude interior de contrição por tê-los
cometido e o cumprimento da penitência, que significam a repulsa da pessoa pelos
próprios atos pecaminosos e o desejo de não voltar mais a pecar; por parte do sacerdote
são a audição atenta da confissão, os conselhos oportunos e, principalmente, a
absolvição dos pecados, com as palavras “eu te absolvo dos teus pecados, em nome do
Pai e do Filho e do Espírito Santo”, que significam a misericórdia de Deus e realizam o
perdão desses mesmos pecados.
! Para realizar uma boa confissão, o penitente precisa primeiramente examinar sua
consciência atentamente de modo a conhecer as próprias faltas e ter contrição, ou seja,
“uma dor de alma, uma detestação do pecado cometido, com o propósito de não mais
pecar no futuro” (cfr. CIC 1451). O segundo passo é a Confissão ao sacerdote, que
consiste em contar todos os pecados cometidos desde a última confissão. O ato de
confessar tem em si um efeito psicológico salutar de nos colocar diante das próprias
faltas, assumindo com responsabilidade os próprios atos e se abrindo ao perdão e à
reconciliação com a Igreja. Uma boa confissão deve ser "concisa, concreta, clara e
completa#. Concisa significa que deve conter as palavras justas, sem palavreado
desnecessário; concreta significa sem divagações, mas dizendo os pecados e suas
circunstâncias; clara para que nos entendam, colocando em evidência nossa miséria
com modéstia e delicadeza; completa para que não falte nenhum pecado, sem deixar de
dizer algo por uma falsa vergonha.
! O sacerdote que nos escuta é obrigado a guardar segredo absoluto sobre os
pecados que os penitentes lhe confessaram, sob penas severíssimas (cfr. CIC 1467).
Após a confissão, o sacerdote dá os conselhos oportunos e dá a absolvição, parte
essencial do sacramento. Para que seja válido, o sacerdote não apenas deve ter sido
ordenado presbítero, mas receber do Bispo o poder de jurisdição, isto é, a faculdade de
julgar. O sacerdote impõe ao penitente uma penitência (boa obra ou oração) que deve
ser satisfeita pelo penitente, em união a Cristo, que é o único que pode oferecer uma
justa satisfação pelos nossos pecados (cfr. CIC 1460).
! A reconciliação com Deus é o fim desse sacramento. Como coloca o Catecismo:
“Toda a eficácia da Penitência consiste em nos restituir à graça de Deus e em unir-nos a
Ele numa amizade perfeita” CIC 1468. Se o pecado grave realiza uma morte espiritual, a
confissão é uma verdadeira ressurreição. Além disso, nos reconciliamos também com a
Igreja e com nossos irmãos, sendo confirmados na Comunhão dos Santos e vencendo
as rupturas próprias do pecado.

86
A Unção dos Enfermos
! A Unção dos Enfermos é o sacramento pelo qual “a Igreja encomenda os doentes
ao Senhor, sofredor e glorificado, para que os alivie e os salve” CIC 1499. Este
sacramento está especialmente destinado a reconfortar os que se encontram sob a
provação da doença, dando-lhes um dom particular do Espírito Santo para vencer as
dificuldades, unindo-os à paixão de Cristo e preparando-os para a morte, se for a
vontade de Deus. Além disso, roga-se pela saúde física do doente, se for conveniente
para a salvação, e perdoa-se os pecados cometidos. (cfr. CIC 1520-1523).
! Nosso Senhor teve muita compaixão para com os doentes e realizou muitas
curas. A tal ponto Cristo ama os doentes que se identifica com eles, como lemos em Mt
25,36: “Estive doente e Me visitastes”. Cristo confiou esse sacramento aos apóstolos
quando disse (Mc 16, 17-18): “em Meu nome... hão de impor as mãos aos doentes, e
estes ficarão curados”. No entanto, as curas que fazia eram sinais do Reino de Deus e
anunciavam uma cura mais radical, sobre o pecado e a morte.
! A matéria deste sacramento é o óleo de oliveira, que é ungido na fronte e nas
mãos do doente. As palavras que conferem o significado aos sinais sacramentais, e
realizam a graça, são as seguintes: “Por esta santa unção e pela sua infinita misericórdia
o Senhor venha em teu auxílio com a graça do Espírito Santo, para que, liberto dos teus
pecados, Ele te salve e, na sua bondade, alivie os teus sofrimentos”.
$ Este sacramento é administrado pela Santa Igreja desde os tempos apostólicos.
Na Epístola de São Tiago, lemos: “Alguém de vós está doente? Chame os presbíteros da
Igreja para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo em nome do Senhor. A oração da fé
salvará o doente e o Senhor o aliviará; e, se tiver cometido pecados, ser-lhe-ão
perdoados” (Ts; 5, 14-15).
! O sacramento da Unção dos Enfermos não é apenas dos que estão prestes a
morrer, mas para aqueles que por doença ou velhice começam a estar em perigo de
morte (cfr. CIC 1514). Pode ser recebido mais de uma vez e deve ser administrado pelo
bispo ou pelo presbítero. A celebração do sacramento pode ser precedida pelo
sacramento da penitência e seguida pelo da Eucaristia. A comunhão eucarística recebida
no momento da passagem para o Pai tem um significado e importância especiais.
Conhecido como o viático, é o alimento do viajante, “semente de vida eterna e força de
ressurreição, segundo as palavras do Senhor: !Quem como a minha carne e bebe o meu
sangue tem a vida eterna: e Eu o ressuscitá-lo-ei no último dia"” (cfr. CIC 1525).

Principais Tópicos:
- O Sacrifício da Santa Missa;
- Sacramento da Penitência;

87
- A Unção dos Enfermos e o Viático;
!
Bibliografia:
- CIC 1345 - 1532
- Compêndio do CIC - questões 277 - 320
- Fé Explicada - pg. 361 - 411

Leitura Complementar - Aula 08

1 - Confissão: alguns obstáculos

Trecho do livro !Por que confessar-se?", do Pe. Rafael Stanziona de Morais, doutor em
Teologia Moral. Livro publicado pela Editora Quadrante.
!
CONFISSÃO E FÉ

! Objetava certo penitente às instâncias do sacerdote: “Eu estaria disposto a


confessar-me, mas não tenho fé. Tenho muitas dúvidas de fé. Precisaria primeiro
resolvê-las. Depois, sim, poderia confessar-me”. E o sacerdote, sabendo que essa
pessoa tinha apenas uma fé enferma, insistia no contrário: devia confessar-se primeiro
para depois resolver as suas dúvidas. Prevaleceu o sacerdote. O penitente confessou-
se, e Depois... já não tinha nenhuma dúvida.
! Ninguém vacile em confessar-se por pensar que perdeu o sentido vivo da fé.
Experimente fazê-lo, mesmo que lhe pareça estar representando uma comédia, pois
nessa “comédia” não há nenhuma hipocrisia. Verá que, na realidade, nunca tinha
deixado de ter fé.
! Com efeito, mesmo que nos tenhamos afastado muito de Deus, muitas vezes não
perdemos a fé, porque a fé é um dom dEle e não um triunfo nosso. Só é possível perdê-
la por um pecado grave cometido diretamente contra ela. A não ser em caso de
incredulidade formal, de apostasia ou de heresia, a maior parte das vezes conservamos
a fé. Se ela não influi na nossa vida, se não a “sentimos”, é simplesmente porque está
enterrada sob o monte de lixo que lhe jogamos em cima. Está lá, mas abafada pelos
nossos pecados. Quando os removemos..., ela aparece.
! Também não tem nenhuma importância que ainda não compreendamos
inteiramente a razão pela qual determinada conduta é pecaminosa. Basta que confiemos
na palavra de Deus, tal como a transmite o ensinamento oficial da Igreja, e que
estejamos dispostos a agir como Deus manda. Depois entenderemos de modo pleno. De
momento, isso não é possível pela falta de retidão da nossa vida, pois a falta de retidão
obscurece a luz da fé. Quem vive desordenadamente, não compreende a regra.

88
Compreendê-la-á quando se tiver corrigido. A Confissão, ao devolver-nos a retidão de
vida, devolve-nos também a clareza da fé e o sentido sobrenatural.
! Assim, quem se confessa, além de experimentar um grande alívio na consciência,
sente-se como se tivesse saído de um túnel escuro para abrir-se a um dia de sol
radiante. Abandona o ambiente sombrio e rarefeito do subjetivismo, da solidão, dos
ressentimentos, das perplexidades, da contradição, da falta de sentido e da tristeza. E
compreende “o esplendor e a segurança e o calor do sol da fé”. Percebe que, ao
contrário do que lhe sugeria o orgulho pessoal, não passa de uma pobre criatura, mas de
uma criatura protegida por Deus. Sente que o próprio Deus o ama, e abrasa-se nesse
amor.
! Além do mais, quem chega a adquirir o hábito de confessar-se periodicamente,
valendo-se das sucessivas avaliações feitas sobre o seu comportamento nas diferentes
confissões, e valendo-se sobretudo da graça, vai adquirindo a capacidade de julgar,
certeiramente, à luz da fé, as situações concretas da vida. Adquire a virtude sobrenatural
da prudência. Aprende a não se deixar influenciar sem discernimento pelas oscilações da
sua emotividade, pela pressão da opinião da maioria, pelo bombardeio de slogans dos
meios de comunicação ou pelos costumes do ambiente.

CONFISSÃO E MUDANÇA DE VIDA

! Para podermos confessar-nos validamente e receber o perdão de Deus, é


evidentemente necessário que estejamos dispostos a retificar o nosso comportamento.
Ou seja, é preciso que repudiemos o erro cometido, chegando a uma disposição da
vontade tal que, se voltássemos a encontrar-nos nas circunstâncias em que o
cometemos, não tornaríamos a cometê-lo. Também é preciso que estejamos decididos a
evitar todas as ocasiões de pecado: Se o teu olho direito te escandaliza, arranca-o e
lança-o longe de ti, manda Jesus explicitamente (Mt 5, 29). E no caso de termos
praticado uma injustiça contra alguém, há a obrigação de restituir ou reparar. Além disso,
muitas vezes, será necessário romper com situações de vida irregulares, que podem
chegar a ser bem complexas, quando não nos confessamos há muito tempo.
! Se não fosse assim, não haveria sinceridade no nosso arrependimento, pois o
propósito de não voltar a pecar é parte essencial da contrição. Não se trata de
sentimentos, mas de efetivas disposições da vontade. Ora, isso pode não ser nada fácil.
Talvez não nos sintamos com coragem para uma mudança que afetará a fundo o nosso
estilo de vida. É possível que ainda não nos sintamos preparados para quebrar os laços
do comodismo, da sensualidade, da avareza, etc. E, por mais que desejemos fazê-lo,
provavelmente não nos parecerá que sejamos capazes de evitar, para o futuro, todo e
qualquer tipo de reincidência no erro. Sentimo-nos fracos e prevemos que, ainda que nos

89
esforçássemos ao máximo, voltaríamos a cair.
! A esta dificuldade deve-se responder afirmando, em primeiro lugar, que não é
preciso esperar ter uma decisão de emenda absolutamente perfeita e segura para
procurar a confissão. Basta o desejo sincero de voltarmos a aproximar-nos de Deus e de
começarmos a retificar e a lutar de verdade. Ele nos ajudará a alcançar as disposições
indispensáveis.
! Por outro lado, convém não esquecer que a perfeita contrição é efeito da graça. A
firmeza nos nossos propósitos é, em certo sentido, mais dom de Deus do que conquista
nossa. Se chegamos a comprometer-nos com Deus a não mais pecar, fazemo-lo
contando humildemente com o auxílio das suas graças. Sozinhos, valendo-nos apenas
das nossas forças, evidentemente não o conseguiríamos, mas, com Ele, e mais
concretamente com as graças que nos confere através do sacramento, tudo podemos.
! E, finalmente, é preciso lembrarmo-nos de que, no caso de fraquejarmos e
voltarmos a cair, apesar da sinceridade do propósito e do esforço por evitar a queda,
podemos contar com a reiteração da confissão. Aliás, não é de estranhar que um doente
crônico precise de várias aplicações do remédio para curar-se por completo.
! Em resumo, quem vai confessar-se pela primeira vez, ou depois de muito tempo,
sente-se confuso, inseguro. Normalmente, embora tenha começado a arrepender-se,
ainda está vacilante, pouco convencido de que valha a pena mudar e sem coragem para
enfrentar as dificuldades que a conversão traz consigo. Não importa. Pouco a pouco,
com as sucessivas confissões, a sua boa vontade irá firmando-se. E passado algum
tempo, depois de ter conseguido retificar a fundo o seu comportamento, chegará a odiar
o pecado e a experimentar por ele uma repulsa que pode chegar a ser quase física.

NÃO É COMPLICADO

! Se alguém não se confessa há muito tempo e já esqueceu os ritos da Confissão,


ou se sente dificuldade para fazer o oportuno exame de consciência, não se preocupe.
! A cerimônia da Confissão é breve e simples. Não é preciso saber nenhuma
fórmula ou oração de cor. O próprio sacerdote nos vai indicando a seqüência das coisas
a fazer. E o exame de consciência também não é problema. Basta que, depois de termos
procurado fazê-lo bem, peçamos a ajuda do padre e ele nos irá orientando, ou
perguntando na hora a respeito dos diferentes tipos de pecado que possamos ter
cometido, explicando-nos, além disso, quaisquer dúvidas que possamos ter.
! Podemos estar tranqüilos. Ir confessar-se é como ir a um médico amigo e muito
experiente. Com um simples bater de olhos ele já intui as nossas queixas e faz as
perguntas necessárias. Nenhum sintoma o assusta. Faz os exames pertinentes, acerta o
diagnóstico e nos receita o remédio exato. Assim sendo, para nos confessarmos, basta

90
abordarmos um bom sacerdote, da nossa confiança, e dizer-lhe: “Quero confessar-me”.
Ele nos ajudará a firmar as nossas disposições, a ser sinceros, a fazer uma confissão
íntegra, e a ficar preparados para receber a absolvição.

! Será fácil. Em breve tempo estará resolvido. Restará uma penitência por cumprir,
que sempre estará dentro das nossas possibilidades, e que ficará muito aquém daquilo
que, por justiça, deveríamos pagar pelos nossos pecados. A diferença já foi saldada pelo
sangue de Cristo na Cruz.

91
Aula 09 - O sacramento da Ordem e do Matrimônio

Sacramentos ao serviço da comunhão: A Ordem

! O Catecismo se refere aos sacramentos da Ordem e do Matrimônio como


"sacramentos ao serviço da Comunhão#, pois é pelo serviço a outra pessoa que esses
sacramentos contribuem para a salvação pessoal (cfr. CIC 1534). São consagrações
particulares para serem pastores da Igreja, no caso da Ordem, e fortalecidos para
viverem dignamente os deveres de estado de esposos cristãos, no caso no Matrimônio.
Vamos estudar cada um deles detidamente.

! A Ordem é o "sacramento do ministério apostólico#, pois é por meio desse


sacramento que a missão confiada aos apóstolos continua a ser exercida na Igreja. A
palavra Ordem remonta à antigüidade romana, em que o corpo dos governantes era
designado como constituindo uma "ordem#. A tradição da Igreja incorporou essa
nomenclatura para se referir à "ordem dos bispos# (ordo episcoporum), bem como à
ordem dos presbíteros e dos diáconos, com o intuito de evidenciar que o dom do Espírito
Santo recebido pelos eleitos à esse sacramento os fazem partícipes do poder sagrado,
que vem de Cristo pela Igreja.
! Na Antiga Aliança, com o sacerdócio de Aarão, com o serviço dos levitas, bem
como na instituição dos "Setenta Anciãos#, a Igreja reconhece uma prefiguração do
ministério ordenado (cfr. CIC 1541-1543). É no "Sacerdócio Único de Cristo# que todas as
prefigurações se realizam, pois Cristo ofereceu um único sacrifício redentor, realizado
uma vez por todas.
! O sacerdócio ministerial é uma participação especial no sacerdócio de Cristo,
capacitando o eleito a agir na "Pessoa de Cristo# e "em nome da Igreja#. Essa ação
significa que o próprio Cristo perpetua sua ação no mundo, por meio do sacerdote. Mas
não significa que o ministro esteja isento de fraquezas e que não possa desonrar a
consagração que recebeu, dando mal exemplo e ofendendo a Deus. Por outro lado,
mesmo num ministro indigno, a eficácia do sacramento administrado por ele não diminui
com o seu pouco fervor. No entanto, Cristo como único Sacerdote deu o exemplo de
abnegação e solicitude pelo rebanho, que deve inspirar todos os ministros ordenados no
cumprimento de sua missão. Também contam com a oração de toda a Igreja e a ajuda
do Espírito Santo para trilharem o caminho da santidade.
! O ministério eclesiástico é exercido em três ordens diversas, sendo chamados de
bispos, presbíteros e diáconos seus representantes. O primeiro grau do sacramento é o

92
diaconato, o segundo o presbiterado e a plenitude se dá no episcopado, sendo que o
superior pressupõe o inferior.
! Os diáconos são ordenados em vista do serviço. Não podem ser chamados de
sacerdotes, pois não atuam na "Pessoa de Cristo Único Sacerdote#, mas participam da
missão de Cristo que veio ser "o servidor de todos#. O diácono ajuda o presbítero e o
bispo nas celebrações eucarísticas, abençoa os matrimônios, proclama o Evangelho e
prega, preside os funerais, realiza batismos e outros serviços à comunidade (cfr. CIC
1569-1571).
! O presbítero participa do sacerdócio de Cristo, mas não possui o pontificado
supremo, dependendo do bispo no exercício de seu poder. Sua identificação plena com
Cristo está no momento em que celebra a Santa Missa, renovando o sacrifício de Cristo
na Cruz. Também atua na Pessoa de Cristo quando administra o sacramento do Perdão
e colabora com o Bispo no governo da Igreja e no ministério da Palavra, devendo a ele
sua consideração e obediência (cfr. 1562-1568)
! Os bispos são os sucessores diretos dos apóstolos, sendo consagrados com a
plenitude do sacramento da Ordem. Recebem o encargo pastoral da Igreja particular,
atuando como vigário de Cristo. Com os demais bispos vivem também a "solicitude por
todas as Igrejas#. Eles tem a missão de santificar, ensinar e governar a Igreja. São os
bispos que administram o sacramento da ordem nos seus três graus (cfr. CIC
1555-1561).
! “O rito essencial do sacramento da Ordem é constituído, para os três graus, pela
imposição das mãos, por parte do bispo, sobre a cabeça do ordinando, bem como pela
oração consecratória específica, que pede a Deus a efusão do Espírito Santo e dos seus
dons apropriados ao ministério para que é ordenado o candidato” CIC 1573.
$ Como Cristo escolheu varões (homens) para formar o colégio dos Doze Apóstolos,
o mesmo fazendo os apóstolos a seus colaboradores, a Igreja entendeu sempre que
apenas os homens deveriam receber este sacramento. O entendimento mais profundo
desse mistério começa por perceber que na Carta aos Efésios (cfr. Ef 5, 22-33), São
Paulo fala da relação entre Cristo e a Igreja como a do Esposo com a Esposa. O Esposo
é Cristo, que oferece o sacrifício redentor à sua Igreja. O Papa João Paulo II na Carta
Apostólica Mulieres Dignitatem, explica que o fato de Cristo ter ligado ao serviço
sacerdotal dos apóstolos a celebração Eucarística, associou a eles o atuar, pela
renovação do sacrifício eucarístico, como o Esposo para a Igreja Esposa. Nesta mesma
Carta o Papa explica a vocação e a dignidade da mulher, explicando como sua
feminilidade, associada à vocação de esposa e mãe, à imagem da Virgem Maria, são
essenciais na Igreja.
! O sacramento da Ordem deixa uma marca indelével, não podendo ser repetido ou
recebido em caráter temporário. A graça do Espírito consiste numa configuração com

93
Cristo Sacerdote, Mestre e Pastor, de quem o ordenado é constituído ministro, segundo o
grau específico do sacramento que recebeu.

O sacramento do Matrimônio

$ “O matrimônio e a família constituem um dos bens mais preciosos da


humanidade” (João Paulo II). Nosso Senhor quis elevar à dignidade de sacramento o
pacto matrimonial pelo qual homem e mulher vivem uma comunhão íntima de vida, para
que se realizem mutuamente nessa vocação e possam acolher e educar os filhos que
Deus os enviar (cfr. CIC 1601).
! A vocação matrimonial para o homem e a mulher insere-se numa mais profunda
orientação da pessoa a realizar-se no amor. O Papa João Paulo II nos explica que: “Deus
é Amor” (1 Jo 4, 8) e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor.
Criando-a à sua imagem e conservando-a continuamente no ser, Deus inscreve na
humanidade do homem e da mulher a vocação, e, assim, a capacidade e a
responsabilidade do amor e da comunhão. O amor é, portanto, a fundamental e originária
vocação do ser humano” (Familiaris Consortio 11).
! Essa vocação à viver uma comunhão de vida fundada no amor evidencia-se na
própria complementaridade física e afetiva entre homem e mulher. Quando o casal se
ama, com um empenho de um para com o outro que seja total e até a morte,
compartilha-se a própria interioridade e exterioridade como um todo. Tudo o que a
pessoa é, inclusive seus valores sexuais, entram nessa comunhão, que se consuma no
ato conjugal. Dessa forma, a união sexual deixa de ser algo meramente biológico, mas
reflete uma união íntima das pessoas.
! Para que essa união seja plena e verdadeira, o pacto conjugal deve refletir uma
escolha consciente e livre. Essa união funda um novo lar e tem, portanto, uma implicação
social. A instituição matrimonial, com a exigência de que o compromisso assumido seja
público, existe justamente para garantir que o pacto seja único e exclusivo, plenamente
fiel ao desígnio de Deus (cfr. Familiaris Consortio 12). A elevação ao status de
sacramento ressalta ainda mais a dignidade dessa vocação e confere as graças
necessárias à sua vivência.
!
! Nosso Senhor realizou seu primeiro milagre, a pedido de Sua Mãe, numa festa de
casamento (cfr. Jo 2, 1-11). Na sua pregação afirmou a dignidade da vocação
matrimonial e seu caráter indissolúvel: “Não separe, pois, o homem o que Deus uniu” (Mt
19, 6). Junto com esta exigência, Cristo dá a graça e, com sua morte na Cruz, o exemplo
de como deve ser o amor dos esposos cristãos. São Paulo nos ensina que o amor entre
os esposos deve ser um reflexo do amor de Cristo pela Igreja (cfr. Ef 5, 25).

94
! A celebração do matrimônio se dá na Igreja, se possível durante a Santa Missa,
para ressaltar o vínculo com o mistério pascal de Cristo (cfr. CIC 1621). Os próprios
noivos são os ministros da graça, conferindo-se mutuamente o sacramento com o
consentimento mútuo. Para ser válido, no entanto, um ministro autorizado da Igreja deve
receber esse compromisso e abençoar a união. A forma eclesiástica da cerimônia se
justifica primeiramente porque é um ato litúrgico, fazendo parte da liturgia da Igreja.
Depois porque o matrimônio gera direitos e deveres diante da Igreja, entre os esposos e
os filhos, constituindo-se um verdadeiro estado de vida na Igreja. Na medida em que
implica a Igreja como um todo, exige-se a presença de testemunhas, para se ter certeza
desse estado de vida e ajudar-lhe a permanecer fiel (cfr. CIC 1631).
! O consentimento livre e responsável é algo essencial para que verdadeiramente
haja um matrimônio. Um constrangimento na liberdade ou um impedimento legal torna
inválido o matrimônio. Uma devida preparação para o casamento ajuda que essas
exigências sejam garantidas e que o "sim# seja autêntico. Essa preparação começa no
seio familiar, com o exemplo dos pais e o entendimento do valor da dignidade humana,
da vocação ao amor, do sentido do namoro e do noivado. (cfr. CIC 1632). Percebe-se
hoje uma imaturidade generalizada nas relações amorosas, em que desde a juventude
perde-se o verdadeiro sentido da sexualidade humana e, como conseqüência, cresce-se
o número de uniões livres, divórcios, lares desagregados e frustrações amorosas.
! Quando o matrimônio é legítimo, surge entre os esposos um vínculo "perpétuo e
exclusivo# em que o amor conjugal é assumido no amor divino. Além disso, os esposos
recebem a graça própria do sacramento para "chegarem à santidade pela vida conjugal e
pela procriação e educação dos filhos# (cfr. CIC 1641).
! O Papa João Paulo II na Exortação Familiaris Consortio, citada anteriormente, nos
ensina que : O amor conjugal comporta uma totalidade na qual entram todos os
componentes da pessoa - chamada do corpo e do instinto, força do sentimento e da
afetividade, aspiração do espírito e da vontade - ; o amor conjugal dirige-se a uma
unidade profundamente pessoal, aquela que, para além da união numa só carne, não
conduz senão a um só coração e a uma só alma; ele exige a indissolubilidade e a
fidelidade da doação recíproca definitiva e abre-se à fecundidade” (grifos nossos).
$ As três exigências destacadas acima são assumidas mutuamente na própria
cerimônia do casamento, diante das testemunhas. Elas protegem a união matrimonial
contra alguns desvios, que ferem sua dignidade, como a poligamia, o divórcio e o
egoísmo que evita voluntariamente os filhos.
! A devida abertura à fecundidade e o acolhimento dos filhos que Deus enviar
constitui o lar cristão numa verdadeira Igreja doméstica. O próprio Cristo quis nascer no
seio de uma família, a Sagrada Família de José e Maria. Da mesma forma, os casais
cristãos devem se esforçar para criar um ambiente propício para o aprendizado e a

95
vivência da religião, principalmente hoje em dia em que vivemos um "mundo estrando e
hostil à fé# (cfr. CIC 1655).

! Para os outros diversos assuntos relacionados ao sacramento do matrimônio,


como o casamento misto e em disparidade de culto, o impedimento ao casamento
homossexual, o problema do divórcio e o acolhimento dos divorciados na Igreja, ou ainda
os critérios de nulidade matrimonial, bem como outras dúvidas particulares que
possamos ter, podemos encontrar nos documentos da Igreja respostas a praticamente
todos os questionamentos, bem como consultar autoridades eclesiásticas pertinentes
para resolver problemas particulares (cfr. as Leituras Complementares sobre alguns
tópicos de interesse).

Principais Tópicos:
- O Sacramento da Ordem;
- O Sacramento do Matrimônio;
!
Bibliografia:
- CIC 1601 - 1666
- Compêndio do CIC - questões 321 - 350
- Fé Explicada - pg. 412 - 441

Leituras Complementares - Aula 09

1 - "Sacerdócio: o Amor do Coração de Jesus#

Trecho da Carta de Bento XVI para o Ano Sacerdotal, começado a 19 de junho de 2009,
solenidade do Sacratíssimo Coração de Jesus e que terminará na mesma solenidade em
2010, em comemoração pelos 150 anos da ida ao Céu do Santo Cura d"Ars, João Maria
Vianney, Patrono dos Párocos.

! "O sacerdócio é o amor do Coração de Jesus": costumava dizer o Santo Cura


d#Ars. Esta tocante afirmação nos permite, antes de mais nada, evocar com ternura e
gratidão o dom imenso que são os sacerdotes não só para a Igreja mas também para a
própria humanidade. Penso em todos os presbíteros que propõem, humilde e
cotidianamente, aos fiéis cristãos e ao mundo inteiro as palavras e os gestos de Cristo,
procurando aderir a Ele com os pensamentos, a vontade, os sentimentos e o estilo de
toda a sua existência. Como não sublinhar as suas fadigas apostólicas, o seu serviço
incansável e escondido, a sua caridade tendencialmente universal? E que dizer da
fidelidade corajosa de tantos sacerdotes que, não obstante dificuldades e

96
incompreensões, continuam fiéis à sua vocação: a de "amigos de Cristo", por Ele de
modo particular chamados, escolhidos e enviados?

! Eu mesmo guardo ainda no coração a recordação do primeiro pároco junto de


quem exerci o meu ministério de jovem sacerdote: me deixou o exemplo de uma
dedicação sem reservas ao próprio serviço sacerdotal, a ponto de encontrar a morte
durante o próprio ato de levar o viático a um doente grave. Depois, repasso na memória
os inumeráveis irmãos que encontrei e encontro, inclusive durante as minhas viagens
pastorais às diversas nações, generosamente empenhados no exercício diário do seu
ministério sacerdotal. Mas a expressão utilizada pelo Santo Cura d#Ars evoca também o
Coração traspassado de Cristo com a coroa de espinhos que O envolve. E isto leva o
pensamento a se deter nas inumeráveis situações de sofrimento em que se encontram
imersos muitos sacerdotes, ou porque participantes da experiência humana da dor na
multiplicidade das suas manifestações, ou porque incompreendidos pelos próprios
destinatários do seu ministério: como não recordar tantos sacerdotes ofendidos na sua
dignidade, impedidos na sua missão e, às vezes, mesmo perseguidos até ao supremo
testemunho do sangue?

! Infelizmente existem também situações, nunca suficientemente deploradas, em


que a própria Igreja a sofre pela infidelidade de alguns dos seus ministros. Daí advém,
então, para o mundo motivo de escândalo e de repulsa. O máximo que a Igreja pode
recavar de tais casos não é tanto a acintosa relevação das fraquezas dos seus ministros,
como sobretudo uma renovada e consoladora consciência da grandeza do dom de Deus,
concretizado em figuras esplêndidas de generosos pastores, de religiosos inflamados de
amor por Deus e pelas almas, de diretores espirituais esclarecidos e pacientes. A este
respeito, os ensinamentos e exemplos de São João Maria Vianney podem oferecer a
todos um significativo ponto de referência. O Cura d#Ars era humilíssimo, mas consciente
de ser, enquanto padre, um dom imenso para o seu povo: "Um bom pastor, um pastor
segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma
paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina". Falava do sacerdócio
como se não conseguisse alcançar plenamente a grandeza do dom e da tarefa confiados
a uma criatura humana: "Oh como é grande o padre! (…) Se lhe fosse dado
compreender-se a si mesmo, morreria. (…) Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas
palavras e, à sua voz, Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa pequena hóstia".
E, ao explicar aos seus fiéis a importância dos sacramentos, dizia: "Sem o sacramento
da Ordem, não teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote.
Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O sacerdote.
Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua peregrinação? O sacerdote.

97
Quem a há-de preparar para comparecer diante de Deus, lavando-a pela última vez no
sangue de Jesus Cristo? O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a
morrer [pelo pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a paz?
Ainda o sacerdote. (…) Depois de Deus, o sacerdote é tudo! (…) Ele próprio não se
entenderá bem a si mesmo, senão no céu". Estas afirmações, nascidas do coração
sacerdotal daquele santo pároco, podem parecer excessivas. Nelas, porém, revela-se a
sublime consideração em que ele tinha o sacramento do sacerdócio. Parecia subjugado
por uma sensação de responsabilidade sem fim: "Se compreendêssemos bem o que um
padre é sobre a terra, morreríamos, não de susto, mas de amor. (…) Sem o padre, a
morte e a paixão de Nosso Senhor não teria servido para nada. É o padre que continua a
obra da Redenção sobre a terra (…) Que aproveitaria termos uma casa cheia de ouro,
senão houvesse ninguém para nos abrir a porta? O padre possui a chave dos tesouros
celestes: é ele que abre a porta; é o ecônomo do bom Deus; o administrador dos seus
bens (…) Deixai uma paróquia durante vinte anos sem padre, e lá serão adoradas as
bestas. (…) O padre não é padre para si mesmo, é$para vós".

2 - Namoro e casamento

Artigo de Leda Galli Fiorillo, professora de biologia e especialista em Bioética

A IMPORTÂNCIA DO NAMORO
$
! O período preparatório para o casamento tem o objetivo imprescindível de
construir o entendimento espiritual necessário que será a base para uma relação sólida e
duradoura. Mas não é só isso.
! Se é verdade que amar significa querer o bem do outro, e se também é verdade
que querer o bem significar ajudar o outro a realizar-se como ser humano – isto é, como
indivíduo livre e responsável – na harmonia de todas as suas faculdades, é lógico pensar
que, no período do namoro, cada um dos dois aprende a encarregar-se do outro, do
verdadeiro bem do outro, para além dos impulsos instintivos e do desejo de uma
satisfação imediata. Em outras palavras, cada um deles aprende a ser responsável pelo
autêntico crescimento do outro. Daí as delicadas atenções recíprocas e os amáveis
carinhos, típicos de quem sabe que tem nas mãos algo precioso.
! E, de fato, o namoro é um período verdadeiramente de ouro, que deve ser
valorizado ao máximo. Ainda não há as responsabilidades da vida quotidiana a dois e,
portanto, toda a atenção se concentra na alegria da contínua descoberta recíproca. É um
tempo de espera ansiosa por algo que ambos sabem que um dia experimentarão
plenamente, mas que já percebem como sagrado e inviolável, porque tem a ver com um

98
mistério que fascina, mas que também incute respeito. É o tempo das emoções tanto
mais intensas quanto mais delicadas: em que basta a doçura de um olhar para ruborizar-
se, o roçar de uma mão para fazer o coração bater loucamente... Sensações
maravilhosas, puríssimas, comovedoras, das quais só pode desfrutar quem não se
abandona ao turbilhão dos sentidos antes do tempo.
! É também nesta época que se começa a notar que uma renúncia feita a dois torna
a relação muito mais profunda. Enfim, o namoro constitui uma autêntica escola de vida.
! Mas o namoro também é um tempo de projetos, do planejamento concreto da
futura vida familiar, da escolha de critérios comuns e da convergência para os mesmos
objetivos.
! Então, é evidente que aqui entra em jogo não só a esfera da afetividade, mas
também a esfera da racionalidade; e é necessária toda a racionalidade para que os
sentidos fiquem serenos!
! Só um percurso desse tipo conduzirá de forma natural os dois jovens, dia após
dia, a amadurecer o irresistível desejo – mais ainda: a irrefreável necessidade – de
assumirem finalmente um compromisso recíproco forte, definitivo e feito diante do mundo
todo, no qual vão oferecer-se um ao outro numa doação de amor total.
! Compreende-se que haja quem chame este compromisso de casamento!
$
O CASAMENTO, SELO DO AMOR
$
! Já sinto nos ouvidos um clamor de protesto: “Que necessidade temos de nos
casar?! Não basta morarmos juntos e conviver?!” E a resposta é imediata: “Um
momento: somos, por acaso, puros espíritos?” Se fôssemos puros espíritos, então sim;
bastaria um simples ato da vontade, expresso pelos dois, e a decisão seria incontestável,
definitiva e irrevogável.
! Acontece que não somos puros espíritos. Somos também um corpo, que, como
tal, se submete às leis da matéria. Portanto, situado no espaço, o corpo está sujeito à
força da gravidade que o puxa para baixo, e, situado no tempo, está sujeito à
deterioração, que o faz decair progressivamente. Por isso, a livre decisão tomada pelos
dois tem necessidade de um apoio adequado, isto é, exige que seja firmada e ratificada
por um ato material; e, além disso, são necessárias testemunhas que confirmem que
esse pacto foi realmente celebrado.
! Precisamente por ser matéria, o corpo exige sinais materiais, tangíveis: não basta
a intenção. Por acaso o primeiro conhecimento da realidade não vem através dos
sentidos corpóreos (a camada mais externa...)? Quem, aliás, se comprometeria numa
relação de trabalho sem exigir que se estipulasse e se assinasse um contrato regular?
Ficaria contente apenas com promessas verbais?

99
! É claro que o contrato compromete, vincula. Mas é justamente este o seu sentido:
recordar às duas partes a decisão tomada em conjunto, com plena consciência e
liberdade – sob pena de nulidade do próprio contrato – e, por isso, com plena
responsabilidade por parte de ambos (o binômio liberdade-responsabilidade...), com tudo
o que a responsabilidade comporta.
! Talvez haja quem se aborreça de ouvir falar de um contrato a propósito do amor,
que é o que de mais livre pode existir no mundo, tanto que, se não for livre, nem sequer
é amor! Mas, vale a pena recordar que a liberdade – a verdadeira – não é ausência de
qualquer vínculo –seria uma liberdade absoluta, que não é própria do ser humano! –,
mas é sempre um saber vincular-se à coisa certa, chegando assim à realização de um
bem (a verdadeira liberdade...). E que bem maior pode existir para o amor senão o da
sua própria perpetuação?!
! Mas, e as testemunhas, para quê? Explica-se. O amor é um fato privado, mas os
seus efeitos são um fato público, social. Fica constituída uma nova célula da sociedade,
que passa a interagir com as outras. A sociedade, tal como a humanidade, não é um ente
abstrato: tanto uma como a outra são fruto da somatória de muitas unidades
elementares. Uma nova unidade – uma nova família – enriquece a sociedade e diz
respeito a todos os seus membros. Esta é a função das testemunhas, quer sejam amigas
dos noivos ou não, embora a amizade as torne idôneas para apoiar o casal nos
inevitáveis momentos de crise... A função delas é, precisamente, atestar perante a
sociedade inteira o nascimento de uma nova célula no seu seio.
! Não há dúvida de que paramos de falar de amor quando reivindicamos o direito à
união livre – porque então não há a vontade de comprometer-se de verdade, mas sim de
deixar aberta uma fácil via de fuga (sob o pretexto que também o casamento pode
dissolver-se).
! O amor, por natureza, não conhece limites temporais. Quem ousaria dizer à
pessoa amada: “Vou amá-la até 19 de fevereiro de 2008...”? E quem quereria ser amado
dessa maneira? Pelo contrário, ressoa imperioso o “Vou amá-la para sempre!”. É a
exigência de eternidade própria do amor. Acaso não continuamos a amar os nossos
amigos e parentes falecidos, mesmo que a ausência do contato físico faça os
sentimentos desaparecerem com o tempo? (O amor não é só um sentimento...). Aliás, o
fato de deixarmos lembranças nos corações daqueles que amamos não exprime esse
desejo, essa tentativa de eternização, para além da morte? Por fim, não é verdade que
todos os problemas da humanidade são, no fundo – como já vimos no início –,
problemas de amor, de amor satisfeito em todas as suas exigências?
! Pois bem: é realmente necessário ensinar aos jovens que o amor é exigente. Ou
não é amor.
! É necessário educar os jovens para o amor.

100
3 - A ideologia homossexual e a redefinição do matrimônio

Artigo de Dale O"Leary, historiadora e mãe de família. Escreve regularmente no Boston


Pilot.

! Está em curso uma campanha internacional para redefinir o matrimônio,


estendendo-o à união de pessoas do mesmo sexo. Quem não concorda com essa
proposta, é considerado pela mídia e até por aqueles que o cercam um “insensível” e um
“retrógrado”. No entanto, há fortes razões contrárias ao casamento dos homossexuais,
sobretudo tendo o conta o bem deles mesmos.
! Antes de mais nada, é necessário distinguir os argumentos utilizados pelas
pessoas com atração pelo mesmo sexo (SSA: same sex atracttion, na sigla em inglês)
das razões pelas quais as pessoas em geral apóiam a redefinição do matrimônio. Não
parece provável que se consiga mudar a cabeça dos ativistas gays; mas é possível
atingir os que simpatizam com as suas propostas, fazendo-lhes ver que redefinir o
matrimônio:
– causa um dano real às famílias e às crianças;
– não resolve o problema das pessoas com SSA.
! Uma maneira de fazer isso é examinar os motivos dos que desejam redefinir o
matrimônio. É preciso ter em conta que muitas vezes se trata de pessoas que têm
profundas feridas interiores, sofrimentos acumulados por anos e anos, e que procuram
mudar a sociedade porque é mais fácil do que mudarem-se a si mesmas, uma vez que
têm medo de encarar os próprios problemas.
$
A VERDADEIRA COMPAIXÃO
! $
! Na maioria dos casos, um adolescente ou adulto chega a experimentar a SSA
porque, desde a primeira infância, sentia-se “diferente” do seu progenitor ou dos seus
companheiros de mesmo sexo. Sentiu-se então inferiorizado e rejeitado, mas ocultou o
seu aborrecimento. Essa atitude levou-o a distanciar-se dos companheiros do mesmo
sexo, o que por sua vez levou estes a rejeitá-lo. Essa pessoa normalmente cresceu
sentindo rancor pelos colegas e companheiros, mas também, e especialmente, pela
figura dos pais. No caso dos ativistas gays, essa sensação de inferioridade e esse rancor
canalizaram-se numa atitude de reivindicação, que pretende exigir agora de maneira
violenta, nos termos deles, a aceitação que lhes foi negada na infância e adolescência.
Não querem perdoar. Projetam a sua raiva nos outros.
! As pessoas com SSA têm uma propensão significativamente maior do que o resto
da população para desenvolver desordens psíquicas e vício em drogas e sexo. Os seus

101
amigos e conhecidos percebem claramente os seus problemas, e o fato de notarem a
fragilidade dessas pessoas pode levá-los a simpatizar com a idéia de “achar uma
solução” para eles. Esta é, provavelmente, a razão porque muitos simpatizam com idéia
de “ampliar o conceito” do matrimônio.
! Essa boa vontade, porém, é desastrosa, pois a redefinição do matrimônio não
resolve os conflitos internos das pessoas com SSA, antes as leva a bloquear-se em
atitudes rígidas. Além disso, faz com que a autoridade pública, os médicos e a sociedade
em geral “dêem o problema por resolvido” e neguem a ajuda e o tratamento necessários
a pessoas com SSA que sofrem com a sua condição e a crianças que correm o risco de
desenvolver SSA. A simpatia para com a fragilidade dessas pessoas deve, pois, dirigir-se
para a prevenção e o tratamento, não para uma aparente “acomodação”.
! Se você encontrasse um homem faminto, sedento e nu acorrentado a uma árvore,
que faria? Você lhe daria comida, bebida e roupas, mas deixando-o acorrentado? Ou
você o libertaria primeiro, para só depois ajudá-lo nas suas outras necessidades? Essa é
a opção que nos é apresentada. Parece-me evidente que a única solução razoável é a
segunda.
$
FALSIDADES... E AS SUAS CONSEQÜÊNCIAS
$
! Os meios de comunicação ocultam constantemente a verdade sobre a SSA. A
maior parte das pessoas, incluindo muitas que se opõem à redefinição do matrimônio,
acredita em pelo menos uma das mentiras divulgadas sobre a SSA, e isso pesa muito na
hora de argumentar. É necessário divulgar constantemente a verdade sobre esse tema:
– Não existe um “gene gay”. A SSA é uma desordem de caráter psicológico originada nas
experiências da primeira infância. Um dos primeiros e mais comuns sintomas é o sentir-
se “diferente” do progenitor e dos companheiros do mesmo sexo.
– As crianças com GID (Gender Identity Disorder, “desordem na identidade sexual”)
apresentam alto risco de apresentar SSA ainda durante a infância e na adolescência.
– As pessoas não escolhem ter ou não ter SSA.
– A SSA pode ser prevenida e tratada.
– Crianças que se sentem “diferentes” ou rejeitadas são mais propensas a se
converterem em vítimas de abusos sexuais.
– As pessoas com SSA, especialmente os homens, freqüentemente são viciadas em
sexo. Além disso, essas pessoas apresentam maior tendência ao uso de drogas e ao
suicídio.
$
! A defesa do matrimônio deve ser acompanhada de um esforço sincero para tornar
disponíveis os meios de prevenção e tratamento dos que sofrem de SSA. Esta é a

102
verdadeira resposta ao pedido de redefinição da idéia de casamento. Aqueles que
afirmam que a compaixão consiste em eliminar a “discriminação” não estão oferecendo
liberdade, mas apenas uma escravidão mais confortável.
! É preciso admitir que houve graves erros por parte da sociedade diante do
problema da GID e da SSA. No começo da década de 60, a comunidade psiquiátrica
revelou muitos fatores que conduzem à SSA e elaboraram programas de tratamento.
Pediram que essa informação chegasse a pais, professores, pediatras e pastores de
almas, a fim de que as crianças com GID pudessem receber a ajuda necessária,
evitando-se assim a SSA. Acontece que não se fez o suficiente; e, em conseqüência, as
crianças que não receberam tratamento nos anos 60 fizeram parte da primeira onda de
atingidos pela epidemia inicial da AIDS, nos anos 80.
$
NÃO É TÃO FÁCIL ASSIM
$
! Com freqüência, a crítica mais dura a esse enfoque vem dos que aceitam a
afirmação do ativismo gay de que os “homossexuais simplesmente fizeram uma opção
sexual”, mas não concordam com a redefinição do matrimônio: “Pois bem – perguntam-
nos –, e se simplesmente não pudermos corrigir as pessoas com SSA? Por que temos
de compadecer-nos delas? Não foram elas que escolheram a sua condição?”
! Precisamos compreender, e ajudar os outros a compreender, por que as pessoas
com SSA têm tanta dificuldade para resistirem à tentação de agir segundo as suas
tendências.
! Elisabeth Moberly, no seu livro Homosexuality (“Homossexualidade”), explica que
todo o ser humano nasce com a necessidade de ser amado e aceito pelo progenitor do
mesmo sexo. Quando faltam esse amor e essa aceitação, ocorre uma distorção da
afetividade que retém a pessoa em estados de desenvolvimento infantis. A SSA “é
essencialmente um estado de desenvolvimento incompleto”. É essa imaturidade afetiva
que se opõe ao desenvolvimento harmônico da personalidade dos que dela sofrem: “A
expressão sexual não é adequada para as relações anteriores à idade adulta, de modo
que o impulso erótico direcionado a pessoas do mesmo sexo equivale a uma tentativa de
reparar o déficit na identidade sexual”.
! A resposta não consiste em suprimir a necessidade saudável de sentir-se amado
pelos companheiros do mesmo sexo – com amor de amizade, amor entre iguais –, mas
em satisfazer essa necessidade sem a mediação de um relacionamento sexual.
! Por que isso é tão difícil? Porque a criança que não experimenta amor e aceitação
por parte dos pais provavelmente sentirá um certo ódio por eles, mas não o expressará
abertamente. Esse ódio reprimido converter-se-á em um ressentimento e rancor

103
complexos, misturados à admiração que sente naturalmente pelo genitor de mesmo
sexo.
! A criança fica, assim, incapacitada a admirar as características próprias do seu
sexo e a identificar-se plenamente com ele: sofre de GID. Não poderá socializar-se
normalmente, porque essa falta de identificação a afasta dos colegas e amigos do
mesmo sexo, o que por sua vez abre as portas à autopiedade, às condutas de auto-
satisfação e, finalmente, ao orgulho. E torna-se incapaz de experimentar atração sexual
pelo sexo oposto, com o qual se identifica de maneira não-sexual.
! Ressentimentos, inveja, autopiedade, autocomplacência e orgulho são hábitos
que já normalmente, se não foram corrigidos nas crianças, só com muita dificuldade se
conseguem vencer nos adultos. E o problema torna-se duas vezes pior em pessoas que
têm um relacionamento negativo com os pais, pois eles deveriam ser para ela o modelo
da disciplina necessária para adquirir as virtudes. Tudo isso fica mais complicado pelo
fato de os homens homossexuais terem tido, na maioria das vezes, mães
excessivamente protetoras que, sem tomarem consciência disso, alimentavam neles o
ressentimento, a autopiedade e o orgulho. E a recuperação torna-se ainda mais difícil
quando a pessoa com SSA sofreu abuso sexual na infância ou é viciada em sexo.
! Os ativistas gays costumam contestar a classificação da SSA como uma
desordem psicológica, afirmando que as organizações de saúde já não consideram a
homossexualidade uma doença. Contudo, infelizmente, a homossexualidade perdeu o
status de patologia devido a pressões políticas – por parte desses mesmos ativistas gays
–, e não a provas cientificas. Pelo contrário, todos os psiquiatras sérios – e que não
sofrem de SSA – consideram-na uma alteração psíquica.
! Uma das razões que leva alguns leigos a não considerarem a SSA como
problema psíquico é a idéia equivocada que fazem da doença mental. Uma pessoa pode
viver em sociedade, ter um emprego, travar relações sociais e, ainda assim, carecer da
liberdade associada à saúde psíquica em outros aspectos da sua vida. Por exemplo,
uma pessoa que sofre de compulsão aquisitiva não é capaz de renunciar ao excesso de
bens materiais, por mais inúteis que sejam; os produtos acumulam-se na sua casa a
ponto de inutilizar alguns cômodos. Essa pessoa, no entanto, pode sair-se muito bem no
seu trabalho e os amigos que não a forem visitar podem jamais perceber o distúrbio.
Esta síndrome é extremamente difícil de tratar, e os que sofrem dela insistem em que
não precisam de ajuda e lutam contra as tentativas que os outros fazem para corrigi-los.
! Como dissemos, a SSA é uma desordem no desenvolvimento psicológico, porque,
quando na primeira infância não se desenvolve a autoconfiança e não ocorre a aceitação
por parte dos companheiros do mesmo sexo, a pessoa não madurece nesses aspectos,
embora continue a amadurecer em outros. Na adolescência, a necessidade de aceitação
torna-se tão intensa que acaba por ser interpretada como ansiedade sexual. As

104
autobiografias de pessoas com SSA revelam a natureza essencialmente não-sexual
dessa atração, que freqüentemente acabou por ser sexualizada através de um abuso
sexual por parte de um adulto.$
! Em resumo: livrar-se da conduta homossexual não é fácil. As necessidades
legítimas devem ser satisfeitas sem recurso ao sexo, os traumas devem ser sanados e
os hábitos negativos devem ser vencidos; e tudo isso acompanhado pelo abandono de
qualquer tipo de vício.
$
! Devido ao seu histórico, é compreensível que as pessoas com SSA pensem que a
redefinição do conceito de matrimônio proporcionar-lhes-á a aceitação que não tiveram.
Compreendendo esse histórico, devemos explicar por que isso não vai acontecer.
$***
Sobre este tema, ler a obra de Gerard van den Aaardweg, Homossexualidade e
esperança, DIEL, Lisboa, 2002. O autor é psiquiatra, especializado no tratamento de
pessoas com SSA, e tem obtido a cifra-record de 60% de curas.

105
PARTE III - A Vida em Cristo e a Oração Cristã
Aula 10 - Fundamentos da Moral Cristã

Introdução!
! Vimos na primeira parte de nosso curso a grandeza dos dons de Deus que foram
derramados em nós por meio da criação e, mais ainda, pela redenção e santificação. O
que a fé professa, os sacramentos celebram, como vimos na segunda parte. Com os
sacramentos fomos feitos filhos de Deus e participantes da natureza divina, o que exige
de nós uma vida em conformidade com tal dignidade. Essa vida digna de um cristão é o
objeto de estudo da terceira parte. Começaremos estudando os fundamentos da moral
cristã para depois analisarmos cada um dos Mandamentos de Deus e perceber como
todas nossas ações devem ser iluminadas pelo desejo de identificarmo-nos com Cristo e
cumprir a Vontade do Pai (cfr. CIC 1691-1698).

Percepção da moral católica na atualidade


! Os ensinamentos morais da Igreja são motivo de muitas críticas pela opinião
pública e, muitas vezes, pelos próprios católicos. Encara-se a Igreja como uma
instituição que parece querer a infelicidade da pessoa ao impor proibições, falar de
pecado e de culpa e não "atualizar# o seu posicionamento moral de acordo com as
"tendências do momento#. Podemos apontar dois fatores principais por trás desse
posicionamento preconceituoso e negativo com relação à moral cristã: a apresentação
legalista da moral, muitas vezes pela própria Igreja e uma mentalidade relativista que
defende a subjetividade por cima de qualquer ordenamento ético.
! Em todo aprendizado, a pedagogia de ensino influi na compreensão e na
assimilação do conteúdo por parte dos que estão sendo ensinados. A moral cristã não
foge a esta constatação: seu aprendizado será tanto mais efetivo, quanto mais se
conseguir traduzir os conceitos teóricos em uma prática correspondente, uma vez que a
moral ensina como devemos viver e orienta nossa tomada de decisões. No entanto, a
pedagogia que informou muitos dos esforços educativos com relação à moral cristã nos
últimos séculos, ainda presente hoje, é uma pedagogia legalista, focada no "pode# e no
"não pode#, nas leis e nas suas sanções. Uma moral legalista é opressora, pouco
convidativa à sua prática. É vivida mais por medo das penalidades do que por amor ao
correto. Os manuais de moral com uma lista interminável de proibições para cada um
dos dez mandamentos, bem como o gosto pela casuística, ou seja, até onde se pode ir
sem cometer um pecado grave em determinada ação, são reflexos desse legalismo
moral (cf. Leitura Complementar 1 para uma análise mais aprofundada sobre este tema).

106
! A mentalidade relativista, por sua vez, tem raízes mais complexas e influi mais
decisivamente na percepção do posicionamento moral da Igreja. Já comentamos como o
Papa Bento XVI definiu a "ditadura do relativismo# como uma das grandes ameaças à fé
nos tempos atuais (cfr. Leitura Complementar da Aula 01). Em termos morais, o
relativismo defende a subjetividade do "eu# de cada pessoa como critério de verdade,
negando a legitimidade de qualquer barreira ao comportamento humano, imposto por
uma ética que se fundamente fora do homem. Já não é contestação de um determinado
ponto da moral cristã, ou do rigor de um aspecto específico, mas da própria legitimidade
de qualquer tipo de moral. Como qualquer posicionamento que exalte o egocentrismo
tem uma grande probabilidade de se tornar popular, juntado ao fato de que no Ocidente
perdeu-se a confiança nos valores que informaram nossa sociedade, principalmente
devido às tragédias humanitárias do século XX, não é de se estranhar a relativização dos
valores e da moral na atualidade.
! Estes dois fatores, portanto, forjaram uma visão limitada e preconceituosa da
moral cristã católica. Felizmente, muitos filósofos e o próprio magistério da Igreja se
preocuparam em apresentar o ensinamento perene da moral cristã numa ótica positiva,
convidativa, que remonta à moral clássica de Santo Tomás de Aquino. Pode-se encontrar
na Encíclica Veritatis Splendor, do Papa João Paulo II, um apanhado profundo dessa
perspectiva moral fundada na dignidade da pessoa humana e na sua orientação para
Deus. O próprio Catecismo da Igreja Católica adota essa perspectiva e, como já viemos
fazendo, iremos acompanhar as grandes linhas apresentadas no Catecismo também no
âmbito da moral.

A perspectiva da moral cristã


! A ética estuda os atos humanos deliberados. São os atos humanos
voluntariamente realizados, frutos de uma escolha, do uso da liberdade. Quando o
homem atua dessa forma, busca com seu atuar alcançar um fim, ou seja, por trás de
uma escolha, sempre há um objetivo que se quer obter. Muitos podem ser os objetivos
imediatos, que apontam para outros mais genéricos. No fim das contas, a finalidade
buscada é a felicidade, a plena realização de si mesmo.
! O desejo de felicidade no coração humano é de origem divina: Deus o colocou em
nossos corações para nos atrair a Si, único capaz de nos satisfazer (cfr. CIC 1718). O
Papa João Paulo II nos explica que: “O agir é moralmente bom quando as escolhas da
liberdade são conformes ao verdadeiro bem do homem e exprimem, desta forma, a
ordenação voluntária da pessoa para o seu fim último, isto é, o próprio Deus: o bem
supremo, no Qual o homem encontra a sua felicidade plena e perfeita” ( Veritatis
Splendor, 72). Ter claro esse fim para o qual tendemos, onde de fato nos realizamos,
permite discernir qual o caminho a trilhar para chegarmos a essa meta. A moral cristã

107
justamente orienta o caminhar do homem para que em cada circunstância de sua vida
faça a escolha mais acertada, aquela que o fará felizes e o aproximará da bem-
aventurança do Céu.
!
A metáfora do caminho
! A analogia com o "caminho# e o "caminhar# pode ser interessante para
compreendermos alguns importantes conceitos da moral cristã. O verbo "ir#, como bem
sabemos, é um verbo transitivo: quem vai, vai a algum lugar, ou seja, antes de começar a
caminhar, precisa saber para onde está indo. Depois, precisa pensar em qual o melhor
caminho a seguir, que caminhos evitar para não se perder. Por fim, precisa avaliar os
meios que possui para empreender a viagem, se precisará de alguma ajuda ou consegue
chegar sozinho.
! Nossa vida é esse caminhar. Muitas pessoas se encontram perdidas, caminham
sem direção, pois não sabem para onde ir. Buscam a felicidade em muitas coisas:
riquezas, poder, prazeres..., mas acabam percebendo a limitação dessas coisas e se
frustram. O relativismo moral que comentávamos anteriormente reflete essa generalizada
desorientação: sem uma meta clara, sem a orientação da verdade sobre o homem,
qualquer caminho torna-se válido, ou melhor, todos os caminhos são indiferentes.
! A possibilidade de escolher entre diversos caminhos é o nosso livre-arbítrio. O
Catecismo nos diz que “pelo livre-arbítrio cada qual dispõe de si”. No entanto, apenas um
caminho, aquele que nos conduz à Deus, é o verdadeiro, ainda que haja muitas formas
de o percorrer. O cristão sabe que esse caminho passa por Jesus Cristo. Ele mesmo nos
diz: “Eu Sou o Caminho, a Verdade e a Vida, ninguém vem ao Pai senão por Mim” Jo 14,
6. Em Cristo, de fato, o problema moral humano se resolve. Sendo Ele a Verdade, nos
revela a nossa bem-aventurança e nos mostra, com seu exemplo e suas palavras, o
caminho que devemos seguir. Além disso, nos envia o Espírito e funda a Igreja, que nos
auxiliam a percorrer esse caminho, segundo nossa vocação particular.
! Se o livre-arbítrio é uma possibilidade de escolha, a liberdade cristã é a
capacidade de percorrer o caminho verdadeiro. A pessoa livre conhece a Vontade de
Deus para sua vida e é capaz de seguir essa Vontade. Muito se fala de liberdade hoje,
mas não no sentido que estamos apresentando. Fala-se de uma liberdade que é "fazer o
que quiser#, seguindo os impulsos pessoais, as paixões momentâneas, os gostos, muitas
vezes balizado pelo desejo de prazer e fuga da dor. Para a moral cristã isso não é
liberdade, mas libertinagem. A liberdade está em ser capaz de viver uma vida digna,
pautada por valores e orientada para Deus e para o bem do próximo. Cristo nos disse:
“Conhecereis a verdade e a verdade vos tornará livres” Jo 8, 32. De fato, a liberdade
cristã está intimamente ligada à verdade. É conhecendo a nossa vocação diante de
Deus, a verdade sobre nós mesmos, e cumprindo essa vontade que somos realmente

108
livres. A liberdade, portanto, não é algo dado, como o livre-arbítrio, mas algo conquistado
e essa conquista exige uma luta, como veremos a seguir.

O caminho da Cruz
! Como comentamos, a vida de Cristo é um exemplo para nós e, assim como Ele
teve que passar pela Cruz, devemos nós também trilhar esse caminho. Isso significa que
o caminhar do cristão em direção à bem-aventurança não está isento de dificuldades.
! Com a natureza ferida pelo pecado original, o homem encontra-se dividido em si
mesmo: conserva o desejo do bem, mas possui uma inclinação para o mal e está sujeito
ao erro (cfr. CIC 1707). São Paulo expressou essa divisão interna de forma emblemática:
“Vejo o bem que quero e faço o mal que não quero: infeliz de mim, quem me livrará
desse corpo de morte?” Rm 7, 19; 24. A plena realização moral constitui-se, portanto,
numa luta. O caminho a seguir é um caminho íngreme, que exige esforço. Também
Jesus nos falou dessa exigência: “Entrei pela porta estreita, pois larga é a porta e
espaçoso o caminho que leva à perdição e numerosos são os que aí entram. Estreita,
porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que a encontram” Mt 7,
13-14. (cfr. Leitura complementar 2 sobre como a vida moral se identifica com o
seguimento de Jesus Cristo).

Virtudes, pecado e graça


! Impulsionado pelo amor, uma pessoa é capaz de percorrer longos caminhos,
ultrapassar muitos obstáculos, para estar com a pessoa amada. Também o cristão no
seu caminho em direção à casa do Pai, que é a metáfora da nossa vida, precisa andar
muito e vencer dificuldades, mas só será capaz se tiver uma firme determinação
interior, estiver bem treinado no caminho e, principalmente, se estiver aberto às
ajudas de Deus.
! A determinação interior é imagem da fé, da esperança e da caridade que deve
nos animar. Crer e esperar em Deus, na sua providência, além de devotar-lhe nosso
sincero amor será o impulso que nos manterá no caminho, que nos ajudará a tirar
sempre novas forças diante das dificuldades. A vida de oração, como veremos na
penúltima aula, nos ajuda a aprofundar essas convicções interiores e a amar mais a
Deus, de modo a mantermo-nos firmes no caminho da santidade.
! "Estar bem treinado# é uma imagem das virtudes humanas. Virtudes são hábitos
adquiridos que permitem realizar com perfeição os atos bons, que nos realizam e nos
aproximam de Deus. É na virtude que está o cumprimento da nossa liberdade, no sentido
que falávamos acima. Treinar-se na virtude significa insistir em querer e praticar o bem,
buscar vencer os próprios defeitos e más inclinações, abrir-se para o outro, vencendo o
egoísmo com o amor. Uma pessoa virtuosa atrai: é sincera, trabalhadora, gentil,

109
decidida, confiável..., e tantas outras possíveis qualidades. O contrário da virtude é o
vício, algo que paralisa o caminhar, pois fecha a pessoa em si mesma. Leva em última
análise à tristeza, à frustração, à busca de compensações para a mediocridade das
próprias escolhas pessoais. Os atos próprios do vício são as faltas e os pecados.
! Quando nossa vontade se dirige para algo que vai contra nossa consciência,
temos que a ação é um pecado. É pelo juízo da consciência que avaliamos se um ato
concreto é bom ou mal. Contrariar o que nos dita a consciência significa agir contra a
própria dignidade e, por conseqüência, contra a Imagem e Vontade de Deus em nós. De
fato, o Catecismo nos ensina: “No mais profundo da consciência, o homem descobre
uma lei que não se deu a si mesmo, mas à qual deve obedecer e cuja voz ressoa,
quando necessário, aos ouvidos do seu coração, chamando-o sempre a amar e fazer o
bem e a evitar o mal [...]. De fato, o homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio
Deus [...]. A consciência é o núcleo mais secreto e o sacrário do homem, no qual ele se
encontra a sós com Deus, cuja voz ressoa na intimidade do seu ser”. CIC 1776. O
pecado, nesse contexto, ergue-se contra o amor de Deus por nós e desvia dEle os
nossos corações: configura-se, portanto, numa ofensa, uma desobediência. O pecador
despreza a Deus e Seu querer para ele, querendo se colocar como "um deus#,
conhecedor do bem e do mal (cfr. CIC 1849). Santo Agostinho define o pecado como:
"amor de si mesmo até o desprezo de Deus#.
! Diante da realidade do pecado, devemo-nos "abrir à ajuda de Deus#, ou seja,
acolher a Igreja como Mãe educadora e buscar na graça dos sacramentos a força para
não abandonar o caminho. Como afirma São Paulo: "onde abundou o pecado,
superabundou a graça" Rm 5, 21. “A nossa justificação vem da graça de Deus. A graça é
o favor, o socorro gratuito que Deus nos dá a fim de respondermos ao seu chamamento
para nos tornarmos filhos de Deus, filhos adotivos participantes da natureza divina e da
vida eterna” CIC 1996. A graça é um dom do Espírito Santo que nos justifica e santifica e
nos é concedida principalmente nos sacramentos. Essa ajuda de Deus nos é
indispensável, tanto para evitar o pecado, como para viver uma vida de santidade. Os
atos de virtudes feitos por amor à Deus nos fazem crescer na sua graça e merecer o
Céu. “A caridade constitui em nós a fonte principal do mérito diante de Deus” CIC 2026.

Concluindo
! Tendo, pois, delineado os elementos fundamentais da moral cristã, iremos nas
próximas aulas explicar o que são e quais são as implicações de cada um dos Dez
Mandamentos para nossa vida. A idéia central dessa primeira aula é que a moral cristã
nos ensina a viver a plena liberdade na verdade, sendo felizes na terra e encaminhando-
nos para a plena felicidade em Deus, no Céu.

110
Principais Tópicos:
- O legalismo e o relativismo na percepção da moral cristã;
- O fim último do homem e a felicidade humana;
- A consciência moral;
- As virtudes e o pecado;
- A graça e o papel educador da Igreja;

Bibliografia:
- CIC - 1691-2051;
- Compêndio do Catecismo - 357-400; 415-433;
- Encíclica Veritatis Splendor.

Leituras Complementares - Aula 10

1 - O Cristianismo é uma vida

Artigo do Professor Massimo Borghesi, da Universidade de Perugia, publicado em 2006


em !Eco di Bergamo".

! Falando no encontro da diocese de Roma, em São João de Latrão, Bento XVI


disse: "A fé e a ética cristãs não querem sufocar, mas tornar sadio, forte e
verdadeiramente livre o amor: é esse justamente o sentido dos Dez Mandamentos, que
não são uma série de nãos, mas um grande sim ao amor e à vida".
! Eis uma afirmação não meramente edificante, mas que vai ao ponto focal,
controverso, da relação entre cristianismo e modernidade. No curso dos últimos 150
anos, a acusação que a cultura moderna faz ao cristianismo é do tipo "psicológico". A fé
cristã é rejeitada não enquanto doutrina falsa, mas como posição que torna doente,
enfermo, o espírito humano. O cristianismo seria uma doença espiritual, patologia que
ataca um organismo originalmente sadio, uma debilitação das energias, privadas de toda
força.
! Nietzsche, como se sabe, é o principal construtor dessa crítica, ao fazer dela o
eixo de toda a sua incansável demolição do cristianismo. A revolução cristã abateu os
poderosos e ergueu os humildes. Isso significa, na vulgata nietzschiana, que ele
enfraqueceu os melhores, nivelou o homem pelo degrau mais baixo, tirou o vigor das
virtudes heróicas e viris dos pagãos. Ao inverter os valores antigos, a doença triunfa
sobre a saúde. "O cristianismo – escreve Nietzsche – tem a necessidade da doença,
mais ou menos como para os gregos era necessária uma saúde de ferro; fabricar
doentes é a verdadeira intenção de todo o sistema salvífico próprio da Igreja. [...] O

111
cristianismo se contrapõe também a toda bem resolvida estruturação intelectual – ele
pode utilizar somente a razão doentia, enquanto razão cristã; toma posição em prol de
tudo o que é idiota, pronuncia a sua maldição contra o "espírito#, contra a soberba do
espírito sadio" (O Anticristo, par. 51 e 52).

Complexo de inferioridade
! O cristão, tal como o príncipe Myskin, protagonista do romance de Dostoevski, é
um "idiota". Alguém que renuncia à vida, que chama de bom aquilo que nos torna
doentes, e de mau o que nos torna saudáveis. O cristianismo é uma posição inatural,
contra a natureza, em antítese ao naturalismo antigo, pagão e solar.
! A acusação de Nietzsche, que se inscreve no filão do neoclassicismo alemão, de
Goethe a Walter Otto, não mereceria ser levada em conta se não evidenciasse o
preconceito que há por trás de grande parte da cultura "laica". O laicismo baseia-se, em
larga medida, não tanto em sólidas razões teóricas, e sim na convicção psicológica da
não-adequação "humana" do cristianismo. A posição cristã é percebida, por uma parte da
cultura moderna, como "restritiva", opressiva. Ser cristão não é um complemento de
humanidade, mas uma sua diminuição. É essa convicção que impede muitos jovens de
se aproximarem da Igreja.
! Podemos observar que convicção semelhante existe também, com certa
freqüência, até dentro da Igreja. Para muitos cristãos, a impressão decepcionante de não
estar adequado à modernidade, de estar fora do leito das oportunidades, das modas, das
ideologias correntes, se traduz num "complexo de inferioridade" que prenuncia um
desejo de legitimação: não ser diferente dos outros, ser como os demais. Desejo que
confirma, a seu modo, a interpretação de Nietzsche.

Cristianismo moralista
! Se os próprios cristãos se vêem como não plenamente realizados no plano
humano, então a acusação do ateu moderno está justificada: o cristianismo não é a
plenitude do homem, mas a sua humilhação.
! A afirmação de Bento XVI corrige essa perspectiva: a fé torna saudável, forte e
livre o humano. É uma afirmação que responde conscientemente a Nietzsche e ao
ateísmo moderno. Ela também responde àquelas posições que, presentes na Igreja, de
certo modo tornam, se não justificadas pelo menos compreensíveis, as reações laicas.
Posições segundo as quais o cristianismo acolhe essencialmente asserções negativas,
numa ascese sem alegria, num sobrenatural visto como inimigo da natureza. O
cristianismo moralista dos últimos séculos é um cristianismo "naturalista", reduzido à
observância das "regras".

112
! Por isso, escrevia Emmanuel Mounier em A Aventura Cristã: "o jovem cristão, em
vez de ser levado a mergulhar, desde o início, nas perspectivas completas do amor,
recebe – em 80% dos casos – uma injeção maciça de "moralina#, e a primeira palavra
dessa tática moralista é a desconfiança, a repressão: a desconfiança contra o instinto e a
luta contra as paixões. O primeiro sentimento que é inculcado naquele que deveria se
tornar um exemplo de saúde moral e um apaixonado pelo infinito é o medo da força que
deve servir de fundamento para o seu impulso individual".
O resultado está aí: uma série de religiosos modernos que, em meio a significativas
exceções – como Filipe Néri e João Bosco –, são marcados não pela alegria, mas pela
tristeza. Assim, fica faltando alguma coisa.

A experiência da mudança
! A vida cristã, desprovida de atrativo, torna-se um lugar de resistência, de
"reatividade". É determinada pelo negativo, não pela positividade. O cristianismo resvala
assim para o declive do ressentimento, da insatisfação. Torna-se solução para o ancião.
! Para o jovem, fica a sensação de que, com o passar dos anos, desperdiçou
oportunidades, usufruiu menos da vida. No plano de um cristianismo moralista, não há
outra alternativa. Nem se pode pensar que a saída esteja numa religiosidade "hedonista",
estética, pós-moderna. A redução teatral da fé é simplesmente patética.
O que torna verdadeiras as palavras do Papa é a educação a um "afirmativo" que vem
antes de tudo. Este afirmativo, Jesus Cristo, quando reconhecido, é Aquele que permite
valorizar a integralidade da existência, do espaço e do tempo. Aquele que permite dar
sentido aos fragmentos perdidos da vida, ao absurdo da morte. O cristianismo torna-se a
introdução na realidade total, princípio de uma experiência de comprovação da
correspondência entre o Mistério, encontrado em seu aspecto humano, e as exigências
mais profundas do próprio espírito. Nessa comprovação o homem pode medir o
incremento de humanidade, alegria, paciência, ternura, força, que lhe é dado. Um
incremento pelo qual o atrativo cristão é mais forte do que o do mundo, que motiva a
afeição por Aquele que é fonte da alegria. O amor cristão nasce da gratidão, não do
dever. É um amor que surge da experiência de mudança. Um cristianismo que parte do
"não" não pode responder à provocação moderna. Só a experiência do sobrenatural
pode fazê-lo.

113
2 - Seguindo os passos do Senhor

Trecho da homilia de São Josemaría Escrivá publicado no livro !Amigos de Deus" pela
Editora Quadrante. Também disponível no site: HYPERLINK "http://
www.escrivaworks.org.br" www.escrivaworks.org.br

! Ego sum via, veritas et vita, Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Com estas
palavras inequívocas, mostrou-nos o Senhor qual é a vereda autêntica que conduz à
felicidade eterna. Ego sum via: Ele é a única senda que liga o Céu à terra. Declara-o a
todos os homens, mas recorda-o especialmente àqueles que, como tu e como eu, lhe
disseram que estão decididos a tomar a sério a sua vocação de cristãos, de modo que
Deus se ache sempre presente em seus pensamentos, em seus lábios e em todas as
suas ações, mesmo nas mais comuns e correntes.
! Jesus é o caminho. Ele deixou sobre este mundo as pegadas límpidas dos seus
passos, sinais indeléveis que nem o desgaste dos anos nem a perfídia do inimigo
conseguiram apagar. Iesus Christus heri et hodie; ipse et in saecula. Quanto gosto de
recordá-lo: Jesus Cristo, o mesmo que foi ontem para os Apóstolos e para as multidões
que o procuravam, vive hoje para nós e viverá pelos séculos. Somos nós, os homens,
quem às vezes não consegue descobrir o seu rosto, perenemente atual, porque olhamos
com olhos cansados ou turvos. Agora, ao começarmos estes minutos de oração junto do
Sacrário, pede-lhe como aquele cego do Evangelho: Domine, ut videam!, Senhor, que eu
veja!, que a minha inteligência se encha de luz e a palavra de Cristo penetre na minha
mente; que arraigue em minha alma a sua Vida, para que eu me transforme, de olhos
postos na Glória eterna.
! Que transparentes são os ensinamentos de Cristo! Como de costume, abramos o
Novo Testamento, agora no capítulo XI de São Mateus: Aprendei de mim, que sou manso
e humilde de coração. Estamos vendo? Temos que aprender dEle, de Jesus, o nosso
único modelo. Se queres ir em frente, prevenindo tropeços e extravios, basta-te andar
por onde Ele andou, pousar as plantas dos pés na marca das suas pegadas, adentrar-te
em seu Coração humilde e paciente, beber do manancial dos seus preceitos e afetos;
numa palavra, hás de identificar-te com Jesus Cristo, hás de procurar converter-te de
verdade em outro Cristo entre os teus irmãos, os homens.
! Para que ninguém se iluda, vamos ler outra citação de São Mateus. No capítulo
XVI, o Senhor precisa ainda mais a sua doutrina: Se alguém quiser vir após mim, negue-
se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. O caminho de Deus é de renúncia, de
mortificação, de entrega, mas não de tristeza ou de apoucamento.

114
! Repassa o exemplo de Cristo, desde o berço de Belém até o trono do Calvário.
Considera a sua abnegação, as suas privações: fome, sede, fadiga, calor, sono, maus
tratos, incompreensões, lágrimas...; e a sua alegria em salvar a humanidade inteira.
Gostaria de gravar agora profundamente na tua cabeça e no teu coração - para que o
medites muitas vezes e o traduzas em conseqüências práticas - as palavras com que
São Paulo convidava os de Éfeso a seguir sem hesitações os passos do Senhor: Sede
imitadores de Deus, como filhos muito amados, e andai no amor, como também Cristo
nos amou e se entregou a si mesmo por nós a Deus, em oferenda e hóstia de
suavíssimo odor.
! Jesus entregou-se a si mesmo, feito holocausto por amor. E tu, discípulo de
Cristo; tu, filho predileto de Deus; tu, que foste comprado a preço de Cruz; tu também
deves estar disposto a negar-te a ti mesmo. Portanto, sejam quais forem as
circunstâncias concretas por que passemos, nem tu nem eu podemos ter uma conduta
egoísta, aburguesada, comodista, dissipada... - perdoa-me a minha sinceridade -, néscia!
Se ambicionas a estima dos homens, e tens ânsias de ser considerado ou apreciado, e
não procuras senão uma vida confortável, saíste do caminho... Na cidade dos santos, só
se permite a entrada - e que se descanse e se reine com o Rei pelos séculos eternos -
àqueles que passam pela via áspera, apertada e estreita das tribulações.
! É necessário que te decidas voluntariamente a carregar a cruz. Senão, dirás com
a língua que imitas Cristo, mas as tuas obras o desmentirão; assim não conseguirás ter
intimidade com o Mestre nem o amarás de verdade. Urge que os cristãos se convençam
bem desta realidade: não caminhamos junto do Senhor quando não sabemos privar-nos
espontaneamente de tantas coisas que o capricho, a vaidade, a vida regalada, o
interesse nos reclamam... Não deve passar um só dia sem que o tenhas condimentado
com a graça e o sal da mortificação. E rejeita a idéia de que, nesse caso, estás
condenado a ser um infeliz. Pobre felicidade será a tua se não aprendes a vencer-te a ti
mesmo, se te deixas esmagar e dominar pelas tuas paixões e veleidades, em vez de
tomares a cruz galhardamente.
! Lembro-me agora - certamente algum de vós me terá ouvido este mesmo
comentário em outras meditações - daquele sonho de um escritor do século de ouro
castelhano. Diante dele, abrem-se dois caminhos. Um apresenta-se bem largo e
transitável, fácil, pródigo em vendas e pousadas e em outros lugares amenos e
regalados. Por ali avança a gente a cavalo ou em carruagens, entre músicas e risos:
gargalhadas loucas; contempla-se uma multidão embriagada num deleite aparente,
efêmero, porque essa rota acaba num precipício sem fundo. É a senda dos mundanos,
dos eternos aburguesados: ostentam uma alegria que na realidade não têm; procuram
insaciavelmente toda a espécie de comodidades e prazeres...; horroriza-os a dor, a
renúncia, o sacrifício. Não querem saber nada da Cruz de Cristo; pensam que é coisa de

115
malucos. Mas são eles os dementes. Escravos da inveja, da gula, da sensualidade,
acabam sofrendo mais, e tarde caem na conta de que, por uma bagatela insípida,
malbaratam a sua felicidade terrena e a eterna. Assim o faz notar o Senhor: Quem quiser
salvar a sua vida, perdê-la-á; mas quem perder a sua vida por amor de mim, encontrá-la-
á. Porque, de que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?
! Por direção diferente discorre nesse sonho o outro caminho: tão estreito e
empinado que não é possível percorrê-lo a lombo de cavalgadura. Todos os que o
empreendem avançam pelos seus próprios pés, talvez em zigue-zague, de rosto sereno,
pisando sobre abrolhos e ladeando penhascos. Em determinados pontos, deixam em
farrapos as suas vestes e até a sua carne. Mas, no fim, espera-os um vergel, a felicidade
para sempre, o Céu. É o caminho das almas santas que se humilham, que por amor de
Jesus Cristo se sacrificam com gosto pelos outros; a rota dos que não temem subir
encostas, carregando amorosamente a sua cruz, por muito que pese, porque sabem que,
se o peso os afunda, poderão levantar-se e continuar a ascensão: Cristo é a força
desses caminhantes.
! Que importância tem tropeçar, se na dor da queda encontramos a energia que nos
reergue e nos impele a prosseguir com alento renovado? Não nos esqueçamos de que
santo não é o que não cai, mas o que se levanta sempre, com humildade e com santa
teimosia. Se no livro dos Provérbios se comenta que o justo cai sete vezes por dia, tu e
eu - pobres criaturas - não devemos admirar-nos nem desanimar com as nossas
misérias pessoais, com os nossos tropeços, porque continuaremos avante se
procurarmos a fortaleza nAquele que nos prometeu: Vinde a mim todos os que andais
fatigados com trabalhos e cargas, e eu vos aliviarei. Obrigado, Senhor, quia tu es, Deus,
fortitudo mea, porque foste sempre Tu, e só Tu, meu Deus, a minha fortaleza, o meu
refúgio e o meu apoio.
! Se desejas verdadeiramente progredir na vida interior, sê humilde. Recorre com
constância, confiadamente, à ajuda do Senhor e de sua Mãe bendita, que é também tua
Mãe. Com serenidade, tranqüilo, por muito que doa a ferida ainda não cicatrizada do teu
último resvalo, abraça de novo a cruz e diz: Senhor, com o teu auxílio, lutarei para não
me deter, responderei fielmente aos teus apelos, sem temor às encostas empinadas,
nem à aparente monotonia do trabalho habitual, nem aos cardos e aos seixos do
caminho. Sei que sou assistido pela tua misericórdia e que, no fim, acharei a felicidade
eterna, a alegria e o amor pelos séculos infinitos.

116
Aula 11 - A Lei de Deus e os três primeiros mandamentos

O Decálogo e a Nova Lei


! Deus em sua infinita misericórdia inscreveu no coração humano uma lei que
enuncia os preceitos primários e essenciais que regem a vida moral. Essa lei se
manifesta na pessoa por meio de sua razão, que a leva a fazer o bem e evitar o mal.
“Obra excelente do Criador, a lei natural fornece os fundamentos sólidos sobre os quais o
homem pode construir o edifício das regras morais que hão de orientar as suas opções”
CIC 1959. No entanto, nem todos são capazes de cumprir essa "lei divina# de modo
perfeito, principalmente devido à realidade do pecado no homem. Deste modo, Deus
vem novamente em nosso auxilio por meio da lei revelada e da graça.
! A lei revelada expressa muitas verdades acessíveis à razão. Essa revelação da
Lei de Deus começa com a Lei Antiga, compendiada nos Dez Mandamentos, e culmina
com a nova Lei ou a Lei Evangélica.
! A revelação do Decálogo (literalmente significa "as dez palavras# e se usa para
falar dos mandamentos) está associada à libertação do povo da escravidão do Egito,
sendo parte essencial da Antiga Aliança. Deus revela a Si mesmo ao revelar sua Vontade
ao povo e, ao mesmo tempo, ensina-nos a verdadeira humanidade do homem (cfr. CIC
2060-2070). Santo Agostinho explica que Deus revelou nos mandamentos aquilo que os
homens não viam nos seus corações. O Decálogo é, portanto, uma luz à consciência de
modo a discernir o verdadeiro bem do homem. Ela mostra o que devemos fazer, mas não
nos dá a força de o realizar, sendo de caráter pedagógico e denunciativo: manifesta o
pecado em nós. É, portanto, ainda imperfeita e serve como preparação para a Nova Lei:
o Evangelho (cfr. CIC 1961-1964).
! “A Lei nova ou Lei evangélica é a perfeição, na terra, da Lei divina, natural e
revelada. É obra de Cristo e tem a sua expressão, de modo particular, no sermão da
montanha. É também obra do Espírito Santo e, por Ele, torna-se a lei interior da
caridade” CIC 1965. É Lei do Amor, pois nos faz agir mais pelo amor infundido pelo
Espírito, do que pelo temor; Lei da graça: pois confere a força da graça para agir pela fé
e pelos sacramentos; Lei da liberdade: pois nos liberta das prescrições rituais e jurídicas
da lei antiga, sendo impulsionados a agir pela caridade (cfr. CIC 1972).
! Tradicionalmente a catequese da Igreja apresenta a moral cristã sob a ótica do
Decálogo. O Catecismo explica: “Os Dez Mandamentos enunciam as exigências do amor
de Deus e do próximo. Os três primeiros referem-se mais ao amor de Deus: os outros
sete, ao amor do próximo:«Como a caridade abrange dois preceitos, nos quais o Senhor
resume toda a Lei e os Profetas, [...] assim também os Dez Mandamentos estão
divididos em duas tábuas. Três foram escritos numa tábua e sete na outra» .

117
A primeira tábua da Lei
! Nesta aula iremos estudar os primeiros três mandamentos que são os seguintes,
seguindo a fórmula da Catequese apresentada no Compêndio do Catecismo:
1º - Adorar a Deus e amá-lo sobre todas as coisas; 2º - Não invocarás o santo nome de
Deus em vão; 3º - Santificar os Domingos e festas de guarda.
$ Estes três primeiros mandamentos se referem diretamente a Deus e ao amor e
honra que devemos prestar-Lhe. “Deus foi o primeiro a amar. O amor do Deus único é
lembrado na primeira das «dez palavras». Em seguida, os mandamentos explicitam a
resposta de amor que o homem é chamado a dar ao seu Deus” CIC 2083.

O Amor de Deus sobre todas as coisas


$ O primeiro mandamento, como o próprio Cristo o ensinou, resume os deveres do
homem para com Deus: “Amarás o Senhor, teu Deus, com todo teu coração, com toda a
tua alma e com todo o teu entendimento. Esse é o maior e primeiro mandamento”. Mt 22,
37-38. No antigo testamento o primeiro preceito da Lei também implicava em "adorar e
servir somente a Deus#, "prestando-lhe o culto devido# e "não ter outros deuses perante o
único Deus#.
! Reconhecer o papel central de Deus em nossa vida e no mundo significa, antes
de mais nada, viver as três virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade. Sendo
Deus fiel aos seus desígnios para conosco, perfeitamente justo e fonte de todo o bem
que temos e somos, devemos aceitar suas palavras e ter n#Ele uma fé e confiança
plenas. A nossa resposta de gratidão deve ser uma tentativa de amar a Deus como
somos amados. A incredulidade é um pecado contra a fé, pois significa o desprezo da
revelação ou a recusa de prestar-lhe assentimento (cfr. CIC 2089). A heresia e a
apostasia são formas mais graves de falta de fé, pois implicam negação pertinaz da fé
por um batizado e repúdio total à fé cristã. Contra a esperança, os pecados do desespero
e da presunção são os mais notórios. Peca o homem que deixa de esperar em Deus a
sua salvação pessoal e diante das contrariedades e dificuldades da vida virá as costas à
Deus, negando Sua bondade, justiça e misericórdia. Por fim, pode-se pecar contra o
amor de Deus por indiferença (descuido ou recusa da caridade divina), ingratidão (ignora
o auxílio divino e não retribui "amor com amor#), tibieza (não quer corresponder a Deus e
trata com negligências as coisas de Deus) e mesmo o ódio contra Deus (culpar e
amaldiçoar a Deus, combatendo-o ou associando-se às forças do mal e do demônio).
! O primeiro mandamento nos convida a prestar a Deus o culto que Lhe é devido,
com nossa oração, adoração e sacrifício. Mesmo essa atitude, dirigida diretamente a
Deus, nos faz bem: “A adoração do Deus único liberta o homem de se fechar sobre si
próprio, da escravidão do pecado e da idolatria do mundo” CIC 2097. O Sacrifício da
Santa Missa é o modo mais pleno de prestarmos a Deus o culto devido, unindo-nos ao

118
único sacrifício perfeito que Cristo ofereceu na Cruz. O dever de prestar culto a Deus
leva-nos a reflexão sobre a liberdade religiosa. Faz parte da natureza humana esse
desejo de buscar a verdade e a Igreja respeita a liberdade de cada pessoa nessa busca,
sem deixar de esforçar-se por dar a conhecer a todos “a única e verdadeira religião que
subsiste na Igreja Católica e Apostólica” CIC 2105.
! O primeiro mandamento nos manda também "não ter outros deuses diante de
Deus#, o que significa repudiar todas as formas de superstição, idolatria, magia e
irreligião. A superstição é a crença em forças fora do poder de Deus, ou mesmo no
âmbito das coisas de Deus, como os sacramentos, crer que a materialidade do ato terá
eficácia independentemente das disposições interiores, como se fosse uma mágica. A
idolatria consiste em divinizar o que não é Deus, seja "deuses e demônios# (satanismo),
bem como o politeísmo e a atual "divinização# do dinheiro, do poder e das coisas do
mundo. Qualquer tentativa de querer "domesticar# poderes ocultos para ter influência
sobre si ou sobre outros, ofende a Deus. O Catecismo é bem concreto nesse ponto:
“Todas as formas de adivinhação devem ser rejeitadas: recurso aos demônios, evocação
dos mortos ou outras práticas supostamente !reveladoras" do futuro. A consulta dos
horóscopos, a astrologia, a quiromancia, a interpretação de presságios e de sortes, os
fenômenos de vidência, o recurso aos "médiuns", tudo isso encerra uma vontade de
dominar o tempo, a história e, finalmente, os homens, ao mesmo tempo que é um desejo
de conluio com os poderes ocultos. Todas essas práticas estão em contradição com a
honra e o respeito, penetrados de temor amoroso, que devemos a Deus e só a Ele” CIC
2116.
! Por irreligião se entende as atitudes de tentar a Deus, duvidando de sua bondade.
Também o sacrilégio, que consiste em profanar as coisas, pessoas ou lugares sagrados:
é um pecado grave, principalmente quando cometido contra a Eucaristia. A simonia, que
é a compra ou venda das realidades espirituais, também é um ato de irreligião, o que não
deve ser confundido com a nossa obrigação de sustentar a Igreja em suas necessidades
materiais. Por fim, as atitudes de ateísmo e agnosticismo, que abrangem muitas formas,
mas implicam em geral numa rejeição e indiferença com relação a Deus, são pecados
contra o primeiro mandamento. A gravidade desses pecados dependerá de muitos
fatores, atendendo às intenções e circunstâncias pessoais, pois vivemos numa cultura
em que a educação na fé é negligenciada, exposições falaciosas da doutrina são
comuns e são notórios as deficiências da vida religiosa, social e moral de muitos cristãos,
o que contribui para a difusão dessas atitudes para com Deus. Nós que queremos ser
bons católicos, devemos assumir “parte não pequena”, como diz o Catecismo, por muitos
não terem acesso ao “autêntico rosto de Deus” (cfr. CIC 2125).

119
O segundo mandamento
! Este mandamento protege a santidade do Nome de Deus. Intimamente
relacionado ao primeiro mandamento, regula o uso das palavras nas coisas santas. O
nome é revelador da pessoa, do seu valor, da sua dignidade. Muito já se lutou pela honra
do nome de uma família e, como coloca o livro "Falar com Deus#: “Um nome é a
representação de quem o usa, e a nossa atitude para com esse nome é um reflexo dos
sentimentos que nutrimos pela pessoa”.
$ O amor a Deus implica, portanto, em respeitar o seu Nome e tudo aquilo que Ele
representa. Poder falar em Deus e de Deus, é uma graça e o conhecimento que temos
dEle faz parte da revelação. Este mandamento “proíbe o abuso do nome de Deus, isto é,
todo o uso inconveniente do nome de Deus, de Jesus Cristo, da Virgem Maria e de todos
os santos” CIC 2146.
! Na prática, implica em cumprir as promessas feitas em nome de Deus. Jurar em
falso, colocando o nome de Deus como testemunha e depois não ser fiel ao juramento,
bem como o perjúrio, que é fazer uma promessa sob juramento sem a intenção de a
cumprir, são pecados contra o segundo mandamento. Também é pecado a blasfêmia,
que consiste em proferir contra Deus palavras de ódio e irreverência. Estende-se
também a tais atitudes contra a Igreja, os santos ou coisas sagradas. Todo uso fútil ou
leviano do nome de Deus, para proveito próprio ou como respaldo das próprias intenções
distorcidas ferem a dignidade desse mesmo Nome e são pecados contra o segundo
mandamento.
! No Catecismo, ainda no tema do nome, fala da sacralidade do nome de cada um
dos cristãos. O Nome santo de Deus nos santifica, ao sermos batizados em nome do
Pai, do Filho e do Espírito Santo e, no batismo, recebemos um nome na Igreja. A Igreja
incentiva que os pais escolham nomes cristãos para seus filhos, de modo a terem o
patrocínio e o exemplo de um santo para seguir e se inspirar. No entanto, Deus tem
reservado para nós um nome particular, que denota nossa vocação e nosso destino. Lê-
se no livro do Apocalipse: “Ao vencedor [...] dar-lhe-ei uma pedra na qual estará escrito
um novo nome, que ninguém conhece, a não ser aquele que a recebe” Ap 2, 17.

O terceiro mandamento
! Na lei antiga dada ao povo de Israel, este mandamento mandava guardar o
sábado como dia do Senhor, pois é um memorial da criação, da libertação do Egito e
sinal da Aliança. Com a vinda de Cristo e o Mistério Pascal da Sua Morte e Ressurreição,
o sábado deu lugar ao Domingo. Para os cristãos, o domingo é sinal da nova criação,
inaugurada com a Ressurreição de Cristo; também representa a verdadeira libertação,
pois nos livra do poder do pecado e da morte, sendo, portanto, sinal da nova aliança
instaurada por Cristo.

120
! O domingo comemora a Páscoa de Cristo e passa ser uma obrigação moral para
o cristão guardar esse dia para “prestar a Deus um culto exterior, visível, público e
regular”, participando da Eucaristia Dominical. Assim o culto dominical cumpre o preceito
da Antiga Aliança, celebrando o Deus Criador e Redentor.
$ Uma antiga tradição, que remonta ao séc. V, fala do hábito de um cristão daquele
tempo: “Vir cedo à igreja, aproximar-se do Senhor e confessar os próprios pecados,
arrepender-se deles na oração [...], assistir à santa e divina liturgia, acabar a sua oração
e não sair antes da despedida [...]. Muitas vezes o temos dito: este dia é-vos dado para a
oração e o descanso. É o dia que o Senhor fez: nele exultemos e cantemos de
alegria” (cfr. CIC 2178).
$ O mandamento da Igreja nos diz que: “No domingo e nos outros dias festivos de
preceito, os fiéis têm obrigação de participar na missa”. No Brasil, muitos dos dias de
preceito são transferidos para o domingo, com exceção do dia de Nossa Senhora Mãe
de Deus (1 de Janeiro), o Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo (quinta-feira após a
oitava de Pentecostes), a Imaculada Conceição de Maria (8 de Dezembro) e o Natal do
Senhor (25 de Dezembro). Cumprir o preceito significa assistir a Missa de Rito Católico,
seja no domingo ou na tarde do dia anterior. Os católicos que deliberadamente não
cumprem esse preceito, cometem um pecado grave. Também neste caso, a obrigação é
para o nosso bem: quem participa da Missa renova a sua aliança com Deus, revive o
Mistério Pascal de Cristo e, estando preparado, pode comungar o Corpo e o Sangue de
Nosso Senhor, ganhando muitas graças para si e para toda a Igreja. Sabendo tudo isso,
tendo a possibilidade de assistir a Missa e decidir fazer outra coisa é uma negação da
aliança com Deus e da gratidão que Lhe devemos.
! "Ter a possibilidade de assistir a Missa# é algo conquistado colocando esse
preceito como o principal de nosso domingo. Faltar à Missa por motivo de lazer ou uma
impossibilidade que se poderia evitar não exime de culpa. A obrigação de descanso
ligada ao preceito de "guardar o Dia do Senhor# não significa que não se possa trabalhar,
mas que o trabalho não impeça a pessoa de assistir à Missa e dedicar-se um pouco à
oração. Temos que cuidar também de não impor aos outros algo que lhes impeça de
cumprir o preceito dominical.

Principais Tópicos:
- Os Dez Mandamento. Lei Antiga e Nova Lei;
- Os três primeiros mandamentos
Bibliografia:
- CIC - 2052-2195;
- Compêndio do Catecismo - 434-454;
- Falar com Deus: págs. 186-219

121
Leitura Complementar - Aula 11

1 - O Espiritismo e a Fé

Trecho do livro !Espiritismo e Fé" de Frei Boaventura Kloppenburg, sobre as


discrepâncias entre a doutrina espírita e a doutrina de Cristo.

COMO SURGIU O ESPIRITISMO


! A prática da evocação dos falecidos para deles receber conhecimentos, chamada
também “necromancia” (do grego nekrós=falecido e manteia=adivinhação), é antiga. Mas
o seu aproveitamento sistemático, denominado “espiritismo”, vem do século passado.
! Surgiu primeiro nos Estados Unidos, em torno dos estranhos acontecimentos de
Hydesville com as irmãs Fox, a partir de 1848 (1). Mas já um ano antes, em 1847,
aparecia nos Estados Unidos uma obra mediúnica de Andrew Jackson Davis e outra na
França, de Louis Alphonse Cahagnet, do grupo dos “magnetizadores” de Paris, que se
serviam de “sonâmbulos” (assim eram então denominados os médiuns) para receber
revelações do além-túmulo. Em 1856, o mesmo Cahagnet publicava em Paris
Révélations d´outre-tombe, com mensagens ditadas, segundo pretendia, pelos falecidos
Galileu, Hipócrates, Franklin e outros.
------------------------------------------------
(1) Certa noite, o pastor protestante John Fox, sua esposa e as duas filhas, Margaret e
Katie, estavam a conversar sobre estranhos fenômenos de assombração. Catarina,
então, produziu estalos com os dedos; notaram todos que alguém os repetia. Por sua
vez, Margarida produziu estalos e encontrou eco. Apavorada, a sra. Fox perguntou: “É
homem ou mulher que está batendo?”, mas não obteve resposta. Insistiu então: “É
espírito? Se é espírito, bata duas vezes”. Produziram-se duas breves pancadas.
Concluiu, assim, que um espírito “desencarnado” estava em comunicação com a família,
e as “sessões” de comunicação por esse método continuaram. Mais tarde, os adeptos
das irmãs Fox encontraram em Andrew Jackson (1826-1910) um organizador, que
estruturou as clássicas sessões com médiuns, a evocação em torno de uma mesa etc. ...
No entanto, em 1888 Margaret e Katie retrataram-se de maneira repetida, pública e
solene, confessando que tinham recorrido a truques e fraudes para produzir as pancadas
(veja-se New York Herald de 27.05.1888 e 10.09.1888, e The World de 22.10.1888). As
notas deste artigo não aparecem no livro impresso (N. do E.).
------------------------------------------------

! Foi neste ambiente interessado no “magnetismo animal” imaginado pelo médico


austríaco Franz Anton Mesmer (1733-1815), instalado em Paris desde 1778, que nasceu

122
o “espiritismo”. Esta palavra foi proposta por Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869),
mais conhecido pelo seu pseudônimo de Allan Kardec, o codificador sistemático de um
tipo especial de espiritismo conhecido também como “kardecismo”.
! Este é o espiritismo dominante no Brasil.

! Allan Kardec (isto é, Denizard Rivail) era de família católica. Com a idade de 10
anos foi enviado a Yverdun, Suíça, ao Instituto de Educação dirigido pelo conhecido
pedagogo Pestalozzi, protestante calvinista e liberal, que identificava religião com
moralidade. Lá esteve o jovem Rivail até 1822, quando foi a Paris, onde se dedicou
então ao ensino e publicou vários livros pedagógicos e didáticos. De boa formação geral
e cultural, era metódico, lógico e claro na exposição das suas idéias. Conhecia também o
alemão e o inglês e trabalhava como tradutor. Bom matemático, atuou ainda como
contabilista. Casou-se em 1826 com Amélie Gabrielle Boudet, nove anos mais velha e de
boa situação financeira. Não teve filhos.
! Mas Alan Kardec não era particularmente versado em religião e muito menos em
teologia. Em maio de 1855, começou a interessar-se pelo fenômeno das “mesas girantes
e falantes”, nascido nos Estados Unidos, e aceitou a teoria da presença e atuação de
“espíritos” ou almas dos falecidos nos movimentos de mesas, cestas e outros objetos
usados pelos “sonâmbulos” dos “magnetizadores”. E já dois anos depois, no dia 18 de
abril de 1857, publicou O Livro dos Espíritos. Este dia 18 de abril de 1857 é considerado
pelos espíritas como o dia da fundação do espiritismo.
! O Livro dos Espíritos é a obra fundamental da codificação da doutrina espírita,
com o seguinte subtítulo: “Princípios da doutrina espírita sobre a imortalidade da alma, a
natureza dos espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente, a
vida futura e o porvir da Humanidade – segundo os ensinos dados por espíritos
superiores com o concurso de diversos médiuns – recebidos e coordenados por Allan
Kardec”.
! Outra obra básica de Allan Kardec para a prática do espiritismo foi publicada em
1861: O Livro dos Médiuns, com o subtítulo “Guia dos médiuns e dos evocadores”. Note-
se aqui a palavra “evocadores”, indicando assim a função determinante da “evocação”
para o espiritismo.
! Além destes dois livros básicos, Allan Kardec ainda escreveu e publicou O
Evangelho segundo o Espiritismo (em 1864), que é a sua obra mais difundida no Brasil,
já com cerca de dois milhões de exemplares. Publicou também O Céu e o Inferno (em
1865) e A Gênese (em 1868). Depois da sua morte, em 1869, mais alguns textos inéditos
foram publicados como Obras Póstumas. Em 1858, Allan Kardec começou a publicar a
sua Revue Spirite (“revista espírita”), que deixou de aparecer com este título em 1976.

123
! O espiritismo codificado por Allan Kardec foi introduzido no Brasil ainda em vida
do codificador, a partir de 1865. Em 1884, foi fundada a Federação Espírita Brasileira
(FEB), tendo desde então como órgão oficial a revista Reformador, palavra que revela
um programa.

CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS
! Há muitas coisas em comum entre catolicismo e espiritismo. Católicos e espíritas
concordam em professar que o mundo não é só matéria; que Deus existe e é eterno,
imutável, imaterial, único, onipotente, soberanamente justo e bom; que Deus criou o
universo, que abrange todos os seres animados e inanimados, materiais e imateriais;
que os seres materiais constituem o mundo visível ou corpóreo e os seres imateriais o
mundo invisível dos espíritos; que os valores do espírito são superiores aos da matéria;
que o ser humano não é só matéria; que temos uma alma de natureza espiritual; que
esta alma não morre quando se separa do corpo no momento do desenlace; que depois
da morte a nossa alma continua viva e consciente; que a vida depois da morte depende
do modo como aproveitamos a vida agora no corpo (2).
------------------------------------------------
(2) O homem se comporia, de acordo com a doutrina espírita, de alma ou espírito,
perispírito e corpo. O espírito seria a sede da inteligência, da vontade e da consciência
moral. A alma se acharia encarnada num corpo, que viria a ser “o alambique no qual o
espírito tem que entrar para se purificar”. E o perispírito seria um “envoltório” fluido, leve
e imponderável para a alma, que serviria de intermediário entre o espírito e o corpo. É
preciso comentar, a este respeito, que o corpo e a alma formam uma unidade, e que o
conceito do corpo como uma espécie de roupagem temporária, embora difundido, é
profundamente contrário ao bom senso. A doutrina do perispírito, essencial para a
interpretação espírita dos fenômenos mediúnicos (como os “ectoplasmas”, isto é, as
representações espaciais de pessoas ou objetos ausentes; a “telecinese”, movimentação
de objetos materiais à distância; a “escotografia”, fotografia de imagens de supostos
mortos etc.), carece de confirmação seja por parte das grandes tradições filosófica, seja
da ciência moderna, e mais vale considerá-la com certa reserva. Mesmo a parapsicologia
ainda parece estar em seus primeiros passos, e não parece resolver satisfatoriamente
essas questões (N. do E.).
------------------------------------------------
!
! Católicos e espíritas estão de acordo também em afirmar que os falecidos não
rompem seus laços com os que ainda vivem nesta terra; que no mundo do além nem
todos são iguais; que há espíritos perfeitos que vivem com Deus; que estes espíritos nos

124
podem socorrer e ajudar; que há espíritos imperfeitos e até maus que assim se fizeram
por próprio arbítrio; que estes nos podem perturbar e prejudicar.
! Católicos e espíritas proclamam e reconhecem a extraordinária figura de Jesus
Cristo (3); que Jesus nos ensinou o caminho do bem e da salvação; que as leis morais
do Evangelho são excelentes; que Jesus insistiu principalmente na caridade; que fora da
caridade não há salvação; que devemos fazer o bem e fugir do mal; que há pecados e
vícios que devem ser evitados; que os pecados devem ser expiados; que a virtude será
premiada depois da morte.
------------------------------------------------
(3) Para Kardec, porém, Jesus Cristo não passaria de um espírito muito evoluído através
das suas sucessivas reencarnações (ver abaixo). Deus teria enviado o espírito de Jesus
à terra não já para purificar-se, mas para ensinar aos homens deste planeta pouco
evoluído o caminho do bem e do amor. Jesus teria sido “o maior dos enviados de Deus”,
e somente nesse sentido poderia ser chamado Deus. Ter-se-ia tornado pela sua missão
o “governador espiritual deste planeta”. Os espíritas não podem ser chamados de
cristãos, uma vez que não reconhecem a divindade de Cristo (N. do E.).
------------------------------------------------

! Católicos e espíritas aceitam outrossim que os espíritos do além podem


manifestar-se ou comunicar-se perceptivelmente conosco. Ambos admitem dois tipos de
manifestação dos espíritos: as espontâneas e as provocadas. Por manifestações
espontâneas entendem as que têm a sua origem ou iniciativa no além, como foi, por
exemplo, o caso que nos é narrado pelo Evangelho de São Lucas (1, 26-38): o anjo
Gabriel foi enviado por Deus a Maria de Nazaré para comunicar-lhe que ela seria a mãe
de Jesus. Por manifestações provocadas entendem as que têm a sua iniciativa no
aquém, como foi, por exemplo, o caso que nos é relatado pelo primeiro livro de Samuel
(28, 3-25): a pedido do rei Saul, a necromante de Endor evoca a alma do falecido
Samuel, que então comunica ao rei os castigos divinos.
! Mas é neste ponto que começa uma primeira divergência fundamental entre
católicos e espíritas: os católicos admitem de bom grado as manifestações espontâneas
que nos são oferecidas por iniciativa da bondade de Deus, mas consideram divinamente
proibidas as manifestações provocadas pelo homem mediante o processo da evocação;
e os espíritas transformam precisamente esta evocação dos falecidos em meio principal
para as suas novas revelações do além.
! O espiritismo se especifica, caracteriza e define por sua prática das manifestações
provocadas das almas ou espíritos dos falecidos, para deles receber mensagens ou
algum tipo de ajuda. A evocação dos falecidos constitui a essência do espiritismo. Sem a

125
evocação não há espiritismo. E a evocação é a fonte principal de seus conhecimentos
específicos ou da sua doutrina.
! Há ainda uma segunda discordância fundamental entre católicos e espíritas: a
questão da reencarnação. Os católicos crêem na unicidade da vida terrestre; e os
espíritas anunciam a pluralidade das reencarnações. Este desacordo tem em si tantas
conseqüências lógicas, sobretudo no modo de conceber a salvação eterna, que conduz
de fato a dois corpos doutrinários frontalmente discrepantes e opostos entre si de modo
irreconciliável.
! Em resumo: apesar das numerosas convergências entre católicos e espíritas, há
duas palavras que marcam a separação e caracterizam o espiritismo: evocação e
reencarnação.

A PROIBIÇÃO DIVINA DA EVOCAÇÃO


! Vimos que a evocação ou a manifestação provocada das almas dos falecidos, que
são os “espíritos” do espiritismo, especifica, caracteriza e define o movimento suscitado
por Allan Kardec. Sem evocação não há espiritismo. A evocação é a base da doutrina
codificada por Allan Kardec.
! Entretanto, a evocação não foi inventada por Allan Kardec. A sua prática já era
conhecida nos tempos do Antigo Testamento. As gentes no meio das quais vivia o povo
judeu a conheciam e praticavam abundamentemente. Mas o próprio Deus proibiu então
severamente a evocação. Os textos são abundantes. Basta ler Êxodo 22, 17; Levítico 19,
31; Levítico 20, 6; Levítico 20, 27; Deuteronômio 18, 10-14; 2 Reis 17, 17; 2 Reis 21, 6;
Isaías 8, 19-20 e, de maneira particular, 1 Samuel 28, 3-25.
! Vejamos Deuteronômio 18, 10-14: Que em teu meio não se encontre alguém que
faça presságios, oráculos, adivinhações ou magia, ou que pratique encantamentos,
interrogue espíritos ou adivinhos, ou evoque os mortos; pois quem pratica essas coisas é
abominável a Iahweh, e é por causa dessas abominações que Iahweh teu Deus os
desalojará em teu favor. Tu serás íntegro para com lahweh teu Deus. Eis que as nações
que vais conquistar ouvem os oráculos e adivinhos. Quanto a ti, isso não te é permitido
por Iahweh teu Deus.
! A proibição divina é clara, repetida, enérgica e severíssima.
! Este mandamento divino não foi revogado na Nova Aliança. Basta ler Atos dos
Apóstolos 13, 612; 16, 16-18; 19, 11-20. Neste último texto, descreve-se a atividade e a
pregação de Paulo em Éfeso, com um resultado surpreendente: Muitos daqueles que
haviam crido vinham-se confessar e revelar as suas práticas. Grande número dos que se
haviam dado à magia amontoavam os seus livros e os queimavam na presença de todos.
E estimaram o valor deles em cinqüenta mil peças de prata. Deviam ser muitos os livros

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de magia! O fato de eles terem queimado esses livros só se explica se admitirmos que o
Apóstolo falou fortemente contra tais práticas.
! Na carta aos Gálatas (5, 20-21), declara o mesmo Apóstolo que os que se
entregam à magia não herdarão o Reino de Deus. E São João, no Apocalipse, revela que
a parte dos magos se encontra no lago de fogo e enxofre (21, 8); e que, na hora do
julgamento, eles ficarão de fora da Cidade Eterna (22, 15).
! Posteriormente, a Igreja sempre se manteve fiel a esta rigorosa interdição divina
de evocar os falecidos. No último Concílio, o Vaticano II, na Constituição Lumen Gentium
(1964), temendo que a doutrina sobre a nossa comunicação espiritual com os falecidos
pudesse dar azo a interpretações do tipo espiritista, acrescentou ao texto a nota no. 2
“contra qualquer forma de evocação dos espíritos”, coisa que, segundo esclareceu a
Comissão teológica responsável pela redação do texto, nada tem a ver com a
“sobrenatural comunhão dos santos”.
! A Comissão definia então mais claramente o que se proíbe: “A evocação pela qual
se pretende provocar, por meios humanos, uma comunicação perceptível com os
espíritos ou almas separadas, com o fim de obter mensagens ou outros tipos de auxílio”.
! É exatamente isso o que o espiritismo pretende fazer.
! O Concílio Vaticano II remete-nos então a vários documentos anteriores da Santa
Sé, principalmente à declaração de 4 de setembro de 1856 e à resposta de 24 de abril de
1917. Na declaração de 4 de agosto de 1856, precisamente quando o católico Allan
Kardec se iniciava na arte da evocação, era repetida a interdição de “evocar as almas
dos mortos e pretender receber as suas respostas”.
! No documento de 24 de abril de 1917 também se declarava ilícito “assistir a
sessões ou manifestações espiritistas, sejam elas realizadas ou não com o auxílio de um
médium, com ou sem hipnotismo, sejam quais forem estas sessões ou manifestações,
mesmo que aparentemente simulem honestidade ou piedade; quer interrogando almas
ou espíritos, ou ouvindo-lhes as respostas, quer assistindo a elas com o protesto tácito
ou expresso de não querer ter qualquer relação com espíritos malignos”.!
! Esta é a orientação da Igreja.
! Mas a Igreja, por seu magistério oficial, nunca se pronunciou nem sobre a verdade
histórica ou autenticidade, nem sobre a natureza, nem sobre a causa dos fenômenos
mediúnicos ou próprios do espiritismo. Por isso:
a) nenhuma das várias interpretações propostas sobre a natureza ou a causa dos
fenômenos mediúnicos – nem mesmo a interpretação espírita – foi censurada, rejeitada
ou condenada oficialmente pela Igreja;
b) não corresponde à verdade dizer que a Igreja endossa oficialmente a interpretação
que vê nos fenômenos mediúnicos uma intervenção preternatural do diabo;

127
c) jamais a Igreja proibiu o estudo ou a investigação científica dos fenômenos
mediúnicos. O católico não está absolutamente proibido de estudar a metapsíquica ou a
parapsicologia.
! O que a Igreja faz, fez e continuará a fazer, por ser esta a sua missão específica,
é recordar o mandamento divino que proíbe evocar os falecidos ou outros espíritos
quaisquer. Esta proibição vem de Deus, não da Igreja, que não tem nem autoridade nem
competência para modificar ou revogar uma lei, determinação ou proibição divina.
! Para resolver a questão moral da prática do Espiritismo, pouco importa saber se
os espíritas de fato conseguem ou não evocar espíritos em suas sessões; pois se o
conseguem, não há dúvida a respeito da evocação e, por conseguinte, da
desobediência; se não o conseguem, é certo que eles têm ao menos a intenção, o
propósito ou a vontade deliberada de evocar e, portanto, de transgredir um mandamento
divino. E isto basta para um pecado formal.
! É necesário observar também a diferença fundamental entre invocação e
evocação: esta última sempre pretende uma comunicação perceptível provocada por
iniciativa do homem; aquela é apenas uma forma de prece ou súplica. E é evidente que a
invocação é um ato bom e cristão, expressão da comunhão dos santos.

A HERESIA DA REENCARNAÇAO
! A suposição da reencarnação ou da pluralidade das existências, chamada
também palingenesia, é certamente o ponto central de toda a doutrina espírita. Allan
Kardec chega a dizer que é um “dogma” (O Livro dos Espíritos, 171 e 222).
! Todo o seu pensamento gira em torno das vidas sucessivas . O progresso
contínuo através da reencarnação, da “metensomatose”, como diria Platão, é o seu
postulado básico. Se riscarmos de suas obras a reencarnação, sobrarão apenas cacos
sem valor. Depois da sua morte, em 1870, seus amigos fizeram gravar no monumental
dólmen do cemitério Père-Lachaise, em Paris, o apotema que resume a sua doutrina:
“Nascer, morrer, renascer de novo e progredir sem cessar: esta é a lei”.
! A palavra “reencarnação”, composta do prefixo re (designativo de repetição) e do
verbo encarnar (tomar corpo), significa etimologicamente: tornar a tomar corpo. Designa
a ação do ser espiritual (espírito ou alma) que, tendo já animado um corpo no passado,
foi posteriormente dele separado pela morte e agora torna a informar ou vivificar um
corpo novo.
! Escreve Allan Kardec que “o princípio da reencarnação ressalta de muitas
passagens das Escrituras, achando-se especialmente formulado, de modo explícito, no
Evangelho” (O Livro dos Espíritos, n. 222). Opina mesmo que “sem o princípio da pré-
existência da alma e da pluralidade das existências, são ininteligíveis, em sua maioria, as

128
máximas do Evangelho” (O Evangelho segundo o Espiritismo, 39ª ed., p. 72). Contudo, o
vocábulo “reencarnação” não ocorre nos Evangelhos.
! A doutrina de Kardec acerca da reencarnação, que pode ser compendiada nestas
quatro proposições:
1ª) Pluralidade das existências: a nossa vida atual não é a primeira nem será a última
existência corporal; já vivemos e ainda teremos que viver inúmeras vezes em corpos
materiais sempre novos.
2ª) Progresso contínuo para a perfeição: a lei do progresso impele a alma para sempre
novas vidas e não permite não só nenhum regresso, mas nem mesmo um
estacionamento definitivo a meio caminho, e muito menos comporta um estado definitivo
de condenação sem fim (inferno): mais século, menos século, todos chegarão à
perfeição final de espírito puro.
3ª) Conquista da meta final por méritos próprios: em cada nova existência, a alma
avança e progride na proporção dos seus esforços; todo o mal cometido será reparado
com expiações pessoais, sofridas pelo próprio espírito em novas e difíceis encarnações
(lei do carma).
4ª) Definitiva independência do corpo: na proporção em que avança na incessante
conquista para a perfeição final, a alma, em suas novas encarnações, assumirá um
corpo sempre menos material, até chegar ao estado definitivo, em que viverá; para
sempre, livre do corpo e independente da matéria (4).
------------------------------------------------
(4) A salvação decorreria, portanto, não da graça de Deus nem dos méritos obtidos por
Cristo, mas do esforço pessoal de cada indivíduo que procure purificar-se do “pecado
original”, ou seja, dos pecados cometidos em encarnações anteriores. Uma vez livre das
reencarnações, o espírito do indivíduo passará a gozar de felicidade no Reino dos Céus.
Os espíritas rejeitam peremptoriamente o conceito bíblico de inferno. (N. do E.).
! Sem estes quatro princípios, não há reencarnação. Quem proclama a
reencarnação também afirma a pluralidade das existências terrestres, sustenta o
progresso contínuo para a perfeição, garante a conquista da meta final por méritos
próprios e defende uma vida definitiva independente da matéria.
! Mas quem nega estes pontos, quem contesta as vidas sucessivas do homem
sobre a terra, a marcha irreprimível e certa para o fim supremo, a necessidade de
adquirir a perfeição final só por esforços pessoais e a definitiva independência da
matéria, recusará também a idéia da reencarnação (5).
------------------------------------------------
(5) A teoria da reencarnação contraria o senso comum, uma vez que não
experimentamos o corpo como algo que “temos”, mas algo que “somos”; não
conservamos o menor vestígio de lembrança quer da preexistência no mundo dos

129
espíritos, quer das vidas passadas. Ninguém pode dizer que pecados cometeu numa
encarnação anterior, e muito menos que deve expiá-los na vida presente; portanto,
estaríamos pagando por faltas que ignoramos, o que não é pedagógico. Histórica e
logicamente, a teoria da transmigração das almas nasce de uma visão excessivamente
materialista e imaginativa do que seja o espírito; e sobretudo é um recurso que permite
eludir, ao menos aparentemente, a dura verdade de um castigo eterno para quem se
empenha em contrariar a sua consciência. O inferno parece, assim, confortavelmente
suprimido por decreto. Mas, sobretudo, o reencarnacionismo contraria a Revelação: todo
o Evangelho presume que só há uma vida, e que receberemos o prêmio ou o castigo
eternos, na alma e no corpo, pelo que tivermos feito nesta vida. E a Epístola aos
Hebreus o afirma expressamente: Está estabelecido que os homens morrem uma só vez,
e depois disso vem o juízo (9, 27).
$

130
Aula 12 - Família, Castidade e Pureza: 4º, 6º e 9º mandamentos

Introdução
! “Deus é amor e vive em Si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Ao
criar a humanidade do homem e da mulher à sua imagem, Deus inscreveu nela a
vocação para o amor e para a comunhão” CIC 2331. Homem e mulher são, com igual
dignidade, cada um a seu modo, imagem do poder e da ternura de Deus. A diferença e a
complementaridade físicas, morais e espirituais que existem entre o homem e a mulher
refletem uma identidade sexual que convida à comunhão. A sexualidade humana diz
respeito a essa aptidão para criar laços de comunhão, integrando a afetividade, a
capacidade de amar e procriar. (cfr. CIC 2332-2335).
! A união do homem e da mulher no matrimônio é uma maneira de viver a vocação
à comunhão e funda a família cristã. Esta é uma célula originária da vida social,
fundamento da liberdade, da segurança e da fraternidade no seio da sociedade. A
relação dos esposos entre si e com seus filhos é para todos uma escola de valores, um
exercício do amor de doação e fonte de muitas alegrias, além de ser o ponto de
referência para as demais relações sociais da pessoa.
! Na atualidade, a moral sexual reveste-se de importância singular justamente na
medida em que protege a família e a vocação ao amor contra a tentação do egoísmo e a
perversão da dignidade pessoal. A perde do valor da identidade sexual, a banalização do
sexo e a dissociação do aspecto procriativo e unitivo no ato conjugal, têm gerado
inúmeros males para a sociedade e para a verdadeira realização da pessoa. O
entendimento da moral sexual passa pela compreensão de três aspectos inter-
relacionados: a integridade da pessoa, a integridade do dom de si e o valor da família.

A integridade da pessoa
! A sexualidade vivida segundo a dignidade da pessoa, expressa a unidade no
interior do homem do seu ser corporal e espiritual. A virtude que representa essa
integridade é a castidade. Ela implica a aprendizagem do domínio de si de modo a viver
as escolhas na liberdade. Vimos que um efeito do pecado original em nós é a
concupiscência, que desregra nossas faculdades morais, inclinando-nos ao pecado (cfr.
CIC 2516). A vocação à comunhão, pervertida pela concupiscência, transforma-se em
desejo de exploração e dominação. A pessoa torna-se objeto de prazer e a faculdade de
amar através da sexualidade veículo de auto-satisfação. A realidade do pecado toma o
lugar do amor e da doação, instaurando a escravidão do vício e o gosto amargo da
frustração. “A alternativa é clara: ou o homem comanda as suas paixões e alcança a paz,
ou se deixa dominar por elas e torna-se infeliz” CIC 2339.

131
! “O domínio de si é uma obra de grande fôlego. Nunca poderá considerar-se
totalmente adquirido”. CIC 2342. No entanto, a luta pessoal e a ajuda da graça faz com
que cada um passe por um processo de amadurecimento. “A castidade conhece leis de
crescimento e passa por fases marcadas pela imperfeição, muitas vezes até pelo
pecado” CIC 2343.
! A luta começa pela purificação do coração. “A pureza do coração (...) permite-
nos ver segundo Deus, aceitar o outro como um !próximo" e compreender o corpo
humano, o nosso e o do próximo, como um templo do Espírito Santo, uma manifestação
da beleza divina” CIC 2519. A disciplina dos sentidos e da imaginação, a pureza do olhar
e a luta por viver o pudor são meios importantes para viver a castidade. Existe também
um aspecto cultural na luta por esta virtude, pois o desenvolvimento da pessoa e da
sociedade estão relacionados.
!
A integralidade do dom de si
! “O domínio de si ordena-se para o dom de si. A castidade leva quem a pratica a
tornar-se, junto do próximo, testemunha da fidelidade e da ternura de Deus” CIC 2347. A
amizade é uma vivência desse dom e tem como referência a amizade de Cristo por nós.
Uma grande amizade conduz à comunhão espiritual.
! A orientação da afetividade na castidade configura também a vocação ao dom de
si. A afetividade orientada à pessoa do sexo oposto, com o desejo de fundir ambas vidas
numa comunhão de amor através do matrimônio, implica na vivência da castidade
conjugal. A afetividade orientada diretamente a Deus, com o desejo de se entregar com
um coração indiviso e viver já na terra a vocação de amor a que todos estamos
chamados a viver no Céu, implica na vivência da virgindade ou celibato.
! As pessoas solteiras, estejam elas se preparando para o matrimônio ou num
estado de vida estável na Igreja, estão todas convidadas a viverem a castidade na
continência. Se são noivos, como ensina o Catecismo: “farão, neste tempo de prova, a
descoberta do respeito mútuo, a aprendizagem da fidelidade e da esperança de se
receberem um ao outro de Deus. Reservarão para o tempo do matrimônio as
manifestações de ternura específicas do amor conjugal. Ajudar-se-ão mutuamente a
crescer na castidade” CIC 2350.

A moralidade do prazer sexual


! De tudo o que foi comentado até agora, fica evidente o valor sublime da
sexualidade humana, intimamente ligada à vocação sobrenatural da pessoa. As
desordem e ofensas nesse âmbito surgem quando se rompe a integridade da pessoa e o
paradigma do dom de si é substituído pelo da auto-satisfação, em que a busca do prazer
se erige como fim e norteador da tomada de decisões. Mas como entender o papel do

132
prazer na moral sexual cristã? Quando é moralmente lícito? Antes de respondermos
temos que entender alguns conceitos importantes, seguindo o ensinamento do Papa
João Paulo II no livro Amor e Responsabilidade.
!
! A afetividade e a sensualidade na pessoa são veículos para o amor. Na relação
inter-pessoal, "amar# significa o oposto a "usar#. Usa-se um objeto, em geral, como meio
para se chegar a um fim. Poderia uma pessoa ser um objeto, um meio, para outra chegar
a um determinado fim? Isso implicaria uma ofensa à dignidade da pessoa, que sendo
sujeito livre, ao ser tratado como objeto, fica reduzido ao objeto. Ora, nas relações de
natureza sexual, parece que a mulher é o "meio# pelo qual o homem satisfaz sua
concupiscência e vice-versa. Mas reduzido a isso, a sexualidade instrumentalizaria o ser
humano, sendo ofensiva à sua própria dignidade. Quando os valores sexuais da pessoa
são buscados em detrimento do valor da pessoa como um todo, perde-se o sentido de
comunhão da sexualidade.
! Existe verdadeira comunhão quando duas pessoas se unem em busca de um
mesmo bem, que se constitui em finalidade para ambas. A atuação de ambas fica
subordinada a esse bem, não existindo mais a utilização de uma pessoa por parte da
outra. “O matrimônio é o campo preferido deste princípio, porque no matrimônio duas
pessoas, homem e mulher, unem-se de tal modo que se tornam um !só corpo", segundo
a expressão do Livro do Gênesis, !um só sujeito de vida sexual". Como evitar que uma
delas se torne então para a outra - a mulher para o homem e o homem para a mulher -
um objeto de que se serve para atingir os próprios fins? Para o conseguir, é preciso que
ambas tenham um fim comum. No matrimônio será a procriação, a descendência, a
família e, ao mesmo tempo, a crescente maturidade nas relações de duas pessoas em
todos os planos da comunidade conjugal” (Amor e Responsabilidade). !
! Somente no matrimônio, portanto, é possível viver a experiência do prazer sexual
e preservar o valor da pessoa e o sentido da sexualidade humana como uma vocação ao
amor. Vivido assim, o prazer é uma dádiva de Deus que orienta a tendência sexual para
o bem da pessoa. Buscado fora desse contexto, o prazer desvia a pessoa da sua
realização pessoal, pois o paradigma da auto-satisfação supera o da doação de si,
frustrando a vocação ao amor e vencendo o apelo do egoísmo. O prazer em si mesmo
não é bom ou mal, mas as ações humanas do qual deriva podem ser objeto de
julgamento moral. A idéia de que o prazer é condenado pela moral sexual cristã e que o
sexo serve apenas para a procriação não condiz com a doutrina católica. Por outro lado,
a atitude hedonista que justifica a busca do prazer em si mesma, sem qualquer
referência moral sobre o bem da pessoa, tampouco faz parte da moral sexual católica.
! “A sexualidade é fonte de alegria e de prazer:# «Foi o próprio Criador Quem [...]
estabeleceu que, nesta função [da geração], os esposos experimentassem prazer e

133
satisfação do corpo e do espírito. Portanto, os esposos não fazem nada de mal ao
procurar este prazer e gozar dele. Aceitam o que o Criador lhes destinou. No entanto,
devem saber manter-se dentro dos limites duma justa moderação" CIC 2362.
!
As ofensas à castidade
! O prazer buscado em detrimento do valor da pessoa, desvinculado do sentido da
sexualidade no matrimônio ou desfigurando a essência do ato conjugal é a fonte dos
pecados contra o sexto mandamento. Esse desejo desordenado de prazer venéreo
chama-se luxúria, um dos sete pecados capitais.

! A masturbação uma vez que desvincula a faculdade sexual das normais relações
conjugais, é intrínseca e gravemente desordenada. No entanto, para formular um juízo
sobre a responsabilidade moral dos sujeitos, o Catecismo ensina que: “deverá ter-se em
conta a imaturidade afetiva, a força de hábitos contraídos, o estado de angústia e outros
fatores psíquicos ou sociais que podem atenuar, ou até reduzir ao mínimo, a
culpabilidade moral” CIC 2352.
$ A união sexual fora do casamento entre um homem e uma mulher livres é
gravemente contrária à castidade, pois os elementos essenciais de união estável dos
esposos e abertura à fecundidade no âmbito da família não estão presentes. Se envolve
corrupção de jovens, torna-se mais grave. Muito se argumenta que o "amor# justifica tais
uniões, mas é um conceito de "amor# sentimental e superficial, que responde mais aos
estímulos da sensibilidade do que aos ditames da razão e da vontade.
! A pornografia desnatura o ato conjugal e atenta contra a dignidade das pessoas
intervenientes (atores, comerciantes, público), tornando-se objeto de prazer vulgar e
lucro ilícito. “As autoridades civis devem impedir a produção e distribuição de material
pornográfico” CIC 2354.
$ A prostituição reduz a pessoa a objeto de prazer, ofendendo sua dignidade.
Também aquele que paga, ofende a dignidade do próprio corpo, que está chamado a ser
templo do Espírito Santo (cfr. 1 Co 6, 15-20). Também é um flagelo social que deve ser
combatido com seriedade pelas autoridades civis.
! O estupro ofende profundamente o direito de cada um ao respeito, à liberdade e à
integridade física e moral. É sempre intrinsecamente mal, tanto mais grave quando
envolve parentes (caso de incesto) ou exploração de menores (cfr. CIC 2356).
! A homossexualidade entendida como a prática de relações entre pessoas do
mesmo sexo, são “contrárias à lei natural, fecham o ato sexual ao dom da vida, não
procedem de uma verdadeira complementariedade afetiva sexual”, não podendo,
portanto, de modo algum, ser aprovados do ponto de vista moral. No entanto, as
tendências homessexuais, profundamente radicadas em algumas pessoas e ainda em

134
grande parte por explicar em sua gênese psíquica, constutiu para essas pessoas uma
provação. Como ensina o Catecismo, tais pessoas: “Devem ser acolhidos com respeito,
compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação
injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se
forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar
devido à sua condição. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas
virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio duma
amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem
aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã” CIC 2358-2359.
$
! As principais ofensas à dignidade do matrimônio são: o adultério, o divórcio e a
união livre.
$ A infidelidade conjugal ou adultério é uma injustiça, viola o vínculo matrimonial,
lesa o direito do outro cônjuge e atenta contra a instituição do matrimônio. Compromete
também o bem da geração dos filhos que tem necessidade da união estável dos pais.
(cfr. CIC 2380-2381).
! O divórcio ao pretender romper o contrato assumido livremente pelos esposos até
a morte, é uma ofensa à lei natural. Além disso, é uma injúria à aliança da salvação do
qual o matrimônio sacramental é sinal. A separação, permanecendo o vínculo
matrimonial, pode ser legítima em caso específicos, mesmo com divórcio civil. No
entanto, se um dos cônjuges estabelece uma nova união estável, encontra-se em estado
de adultério público e permanente (cfr. CIC 2384). “O caráter imoral do divórcio advém-
lhe também da desordem que introduz na célula familiar e na sociedade. Esta desordem
traz consigo prejuízos graves: para o cônjuge que fica abandonado; para os filhos,
traumatizados pela separação dos pais e, muitas vezes, objeto de contenda entre eles; e
pelo seu efeito de contágio, que faz dele uma verdadeira praga social. Pode acontecer
que um dos cônjuges seja a vítima inocente do divórcio declarado pela lei civil; esse,
então, não viola o preceito moral. Há uma grande diferença entre o cônjuge que
sinceramente se esforçou por ser fiel ao sacramento do matrimônio e se vê injustamente
abandonado, e aquele que, por uma falta grave da sua parte, destrói um matrimônio
canonicamente válido”. CIC 2385-2386.
! O Catecismo explica a união livre da seguinte forma: “Há união livre quando
homem e mulher recusam dar forma jurídica e pública a uma ligação que implica
intimidade sexual. A expressão é falaciosa: que pode significar uma união em que as
pessoas não se comprometem uma para com a outra, testemunhando assim uma falta
de confiança na outra, em si mesmas, ou no futuro? A expressão tenta camuflar
situações diferentes: concubinato, recusado matrimônio como tal, incapacidade de se
ligar por compromissos a longo prazo. Todas estas situações ofendem a dignidade do

135
matrimônio; destroem a própria ideia de família; enfraquecem o sentido da fidelidade.
$ “Hoje em dia, há muitos que reclamam uma espécie de «direito à experiência»,
quando há intenção de contrair matrimônio. Seja qual for a firmeza do propósito daqueles
que enveredam por relações sexuais prematuras, «estas não permitem assegurar que a
sinceridade e a fidelidade da relação interpessoal dum homem e duma mulher fiquem a
salvo nem, sobretudo, que esta relação fique protegida de volubilidade dos desejos e dos
caprichos». A união carnal só é legítima quando se tiver instaurado uma definitiva
comunidade de vida entre o homem e a mulher. O amor humano não tolera o «ensaio».
Exige o dom total e definitivo das pessoas entre si” CIC 2390-2391.
! Sobre a moralidade da contracepção, bem como uma análise do impacto dos
anticoncepcionais na vivência da sexualidade, veja a Leitura Complementar abaixo.

A família e os deveres de filhos para pais e pais para filhos


! Vimos que a importância da sexualidade e do matrimônio está na sua orientação
para a família. A espelho da Igreja, a família deve ser uma comunidade de fé, esperança
e caridade. “É ela a sociedade natural em que o homem e a mulher são chamados ao
dom de si no amor e no dom da vida (...), sendo verdadeiro reflexo da obra criadora do
Pai” CIC 2205,2207. Como célula originária da vida social, deve ser protegida,
juntamente com o matrimônio, pelas medidas sociais adequadas.
$ Os filhos tem o dever de honrar e respeitar seus pais. Toda paternidade humana
tem sua fonte na paternidade de Deus (cfr. CIC 2214). Além do respeito, os filhos devem
obedecer seus pais em tudo aquilo que em consciência perceberem ser justo. Essa
obediência devemos também aos educadores indicados pelos nossos pais e sobre
aqueles que exerçam alguma autoridade legítima sobre nós. Os filhos adultos tem o
dever moral de amparar seus pais na velhice. O livro do Eclesiático nos diz: “Filho,
ampara o teu pai na velhice, não o desgostes durante a sua vida. Mesmo se ele vier a
perder a razão, sê indulgente, não o desprezes, tu que estás na plenitude das tuas
forças. Como é infame, quem desampara seu pai, e é amaldiçoado por Deus, quem
exaspera sua mãe”. Eclo 3, 12-16.
$ O papel dos pais, por sua vez, não se restringe à procriação, mas à educação
moral e formação humana e espiritual. “O papel dos pais na educação é tal que é
impossível substituí-los” CIC 2221. O lar cristão deve ser uma escola de virtudes, âmbito
de vivência e aprendizado da caridade e solidariedade, preparando os filhos para as
decisões adultos que um dia vão ter que fazer. Os vínculos familiares são importantes,
mas não absolutos: o discípulo de Cristo vive na família de Deus, pois “todo aquele que
fizer a vontade do meu Pai que está nos Céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha
mãe” (Mt 12, 50), nos disse Jesus. Os pais devem respeitar e estimular a vocação dos
filhos.

136
! O quarto mandamento também nos fala do papel das autoridades públicas:
$ “A autoridade pública tem a obrigação de respeitar os direitos fundamentais da
pessoa humana e as condições do exercício da sua liberdade. É dever dos cidadãos
colaborar com os poderes civis na edificação da sociedade, num espírito de verdade,
justiça, solidariedade e liberdade. O cidadão está obrigado em consciência a não seguir
as prescrições das autoridades civis quando tais prescrições forem contrárias às
exigências da ordem moral. «Deve obedecer-se antes a Deus do que aos homens» (Act
5, 29). Toda a sociedade refere os seus juízos e a sua conduta a uma visão do homem e
do seu destino. Fora das luzes do Evangelho sobre Deus e sobre o homem, as
sociedades facilmente resvalam para o totalitarismo”. CIC 2254-2256.

Principais tópicos:
- Mandamentos quarto, sexto e nono;
- A sexualidade humana, vocação para o amor e os pecados contra a castidade;
- A virtude da castidade nos atos e na guarda da imaginação e dos desejos;
- Matrimônio e família e a honra aos pais;

Bibliografia
- CIC 2196-2257; 2331-2400; 2514-2533;
- Compêndio do Catecismo 455-465; 487-502; 527-530;
- Fé Explicada 220-225; 231-239.

137
Leituras Complementares - Aula 12

1 - Sexo sem conseqüências, mundo sem compromisso

Entrevista de Christopher Tollefsen, professor de filosofia da Universidade da Carolina do


Sul (EUA) e co-autor do livro !Embryo: a defense of human life" (Doubleday, 2008).

! A 25 de julho de 1968, o Papa Paulo VI publicou um documento, Humanae Vitae,


em que se declarava que a pílula era incompatível com a moral católica. Teria esse fato
conduzido a sua Igreja a décadas de irrelevância moral ou feito da Igreja um farol de
clareza moral? Nesta entrevista, publicada originalmente no site MercatorNet, o filósofo
norte-americano Christopher Tollefsen disseca do ponto de vista moral o movimento em
favor dos anticoncepcionais.
$
MercatorNet: Recentemente, você escreveu sobre a fertilização in vitro (FIV) e outras
técnicas similares que separam o sexo da reprodução, sobre os problemas éticos e as
profundas implicações para o homem que elas têm. Mas gostaria que voltássemos um
pouco no tempo para tratar da primeira tecnologia a separar o sexo da reprodução – os
contraceptivos, especialmente a pílula, um produto eficaz e produzido em massa. Esses
dois desenvolvimentos tecnológicos do século XX estão relacionados? Podemos dizer
que um levou ao outro?
$
Christopher Tollefsen: São como os dois lados da mesma moeda. A sexualidade e a
procriação, quando unidas no casamento, são as duas facetas de um bem grande e
realizador, e ambas aperfeiçoam a vida dos cônjuges. Ao mesmo tempo, trazem consigo
responsabilidades significativas, como todos os bens: não nos é fácil para praticar a
virtude da castidade, dentro e fora do matrimônio, nem estar abertos ao dom de uma
nova vida como fruto natural do amor entre os esposos.
$
A pílula permite que nos livremos da carga que supõe a conexão da sexualidade tanto
com o matrimônio como com os filhos. Teremos$ as crianças de acordo com as nossas
regras agora – talvez num casamento, talvez não. E a conseqüência lógica disso é que a
FIV nos permite controlar mais e melhor a procriação. Em alguns casos, a FIV constitui
uma reposta compreensível, embora eu a julgue errada, à incapacidade de conceber de
alguns casais. Acontece que cada vez mais tem sido usada para garantir que teremos os
tipos de filhos que quisermos, filhos livres de alguma doença, por exemplo, ou dotados
de certos atributos que outros não têm.
$

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Infelizmente, tanto a contracepção como a reprodução assistida são hoje vistas não
apenas como coisas aceitáveis, mas como obrigações morais. Em última análise, penso
que o assunto tem a ver com a nossa recusa em aceitar qualquer coisa que escape
totalmente ao nosso controle – não é atrativo encarar a vida humana e a sexualidade
como dons, porque isso revelaria que não somos os autores integrais da nossa própria
existência. E, tristemente, a nossa resposta ao sofrimento, mesmo o sofrimento da
esterilidade, segue essa mesma linha. O sofrimento é inteiramente um mal e deve ser
rejeitado precisamente por estar fora do nosso controle, por ser uma ameaça à nossa
“divindade” (a nossa descrição do sofrimento como algo “gratuito” também traz o caráter
de algo que não escolhemos). Mas o cristianismo sempre ofereceu uma resposta
redentora para os nossos sofrimentos ao ligá-los com os sofrimentos de Alguém que,
sendo Deus, assumiu a forma de escravo.
$
MercatorNet: Houve uma reação negativa generalizada, entre os católicos inclusive,
quando o Papa Paulo VI publicou a sua encíclica sobre a vida humana – Humanae Vitae
– em que explicava por que a contracepção (diferentemente da abstinência periódica)
era inaceitável do ponto de vista teológico e mesmo do ponto de vista meramente
humano. A reação foi surpreendente, pois havia então apenas uns dez anos que a pílula
estava disponível. Evidentemente, já devia estar em curso há algum tempo uma
mudança de atitudes. Quais foram os antecedentes filosóficos dessa típica “revolta de
1968”?
$
Tollefsen: Com certeza, a aceitação geral de uma mentalidade utilitarista ou
conseqüencialista, tanto na filosofia como na cultura política, contribuiu muito para essa
revolta. A visão de que conseqüências boas podem tornar corretas ou mesmo
obrigatórias algumas ações serviu de desculpa para muitos teólogos que afirmavam não
existirem absolutos morais e que a moral sexual e reprodutiva precisava levar em conta o
bem integral dos casais, unidos ou não pelo matrimônio. Só que essa é uma visão das
coisas pelo avesso. Como disse o Papa João Paulo II na Encíclica Veritatis Splendor, os
mandamentos estão para proteger os bens e o desenvolvimento do homem, e isso vale
também para o ensinamento da Igreja acerca da contracepção.
$
MercatorNet: Sexo antes do casamento, uniões livres em vez de matrimônio,
infidelidade conjugal, aumento nas taxas de divórcio: esses e outros males foram todos
atribuídos à contracepção. Não seria simplificar demais as coisas? Seria a chamada
mentalidade contraceptiva assim tão fundamental na determinação das tendências da
sociedade contemporânea?
$

139
Tollefsen: É difícil menosprezar o profundo impacto que a contracepção teve na
sociedade, embora não se possa dizer que há sempre uma relação direta de causa e
efeito; não queremos dizer, por exemplo, que os casamentos vão fracassar porque as
pessoas tomam anticoncepcionais. Mas a contracepção possibilita um mundo em que a
castidade pré-conjugal deixa de ser necessária, o que por sua vez cria um mundo em
que a castidade conjugal também é mais difícil. Cria-se um mundo em que há uma
tremenda pressão em ambos os esposos para que se dediquem ao trabalho e adiem os
filhos, o que faz surgir mais tensões na família. Além disso, parece bem plausível que a
idéia de que temos o direito de satisfazer irrestritamente os nossos desejos sexuais teve
um papel considerável no crescimento da indústria pornográfica, que causou sérios
danos à família. Assim, o resultado final de um mundo amplamente moldado pela
contracepção é um mundo bem pouco amistoso para com o casamento e a família.
$
MercatorNet: O conceito de “planejamento familiar” já se tornou popular na sociedade.
Você acha esse termo problemático? O termo “paternidade responsável”, que é o
empregado pela Igreja Católica, é melhor? Por quê?
$
Tollefsen: Bem, um dos problemas é que “planejamento familiar” quase sempre é um
eufemismo para aborto sob demanda. E sem dúvida a idéia de “planejamento” pode
parecer demasiado técnica, como é patente em diversas formas de reprodução assistida.
Mas acho que também seria um erro deixar de lado a idéia acima mencionada, que a
sexualidade e a procriação implicam responsabilidades; os casais podem ter motivos de
peso para espaçar os filhos ou evitar a concepção por um certo tempo. Assim, o termo
“paternidade responsável” parece dar uma boa noção daquilo a que um casal está
chamado a viver.
$
MercatorNet: Uma das afirmações mais controversas acerca da contracepção é que ela
conduz à difusão do aborto. Muitas pessoas conscienciosas ficam zangadas e
estarrecidas diante de tal afirmação, mas será que não se estão enganando a si
próprias?
$
Tollefsen: Receio que sim. A contracepção possibilitou algo que muitos seres humanos
sempre desejaram: sexo sem conseqüências. Antes do século XX, as conseqüências do
sexo fora do casamento eram geralmente a gravidez, de vez em quando alguma doença
e quase sempre uma reputação bastante rebaixada. Mas a tecnologia contraceptiva
diminui a ocorrência da primeira e da terceira conseqüências... até certo ponto, claro.
Não elimina completamente a possibilidade de gravidez; assim, o sexo sem
conseqüências, mesmo com o uso generalizado de contraceptivos, permanece

140
inatingível se não se tem acesso ao aborto. Por isso, parece-me natural que uma pessoa
pró-vida que se opõe ao aborto passe a ser uma pessoa pró-vida que propõe a castidade
dentro e fora do casamento.
$
MercatorNet: Algumas pessoas não vêem diferença entre a contracepção e as técnicas
naturais para o controle da fertilidade – o chamado planejamento familiar natural –, uma
vez que a finalidade desejada é a mesma: “nada de bebês desta vez”. Há diferença
moral ou filosófica entre essas duas coisas?
$
Tollefsen: Contracepção significa: não querer bebês e garantir que a concepção não vai
acontecer. Essa decisão de prevenir um eventual bebê parece-me contrária à vida
humana. Por outro lado, os esposos claramente não têm a obrigação de ter relações em
todas as ocasiões possíveis, e têm vários bons motivos para se absterem algumas
vezes. Durante o período fértil, o efeito da abstinência é às vezes desejável, de maneira
que a abstinência é permissível. Isso é bem diferente de optar por evitar absolutamente a
concepção de um bebê.
$
MercatorNet: Afirmar que o uso da pílula é antiético é ir contracorrente. Você teria umas
palavras bem redondas para fazer as pessoas pensarem no assunto?
$
Tollefsen: Acho que as pessoas deveriam perguntar-se se o mundo tornado possível
pela pílula – um mundo em que as relações sexuais não implicam compromisso numa
união permanente e exclusiva com a esperança de filhos, e em que o casamento é
quase sempre visto como uma parceria para o aumento do patrimônio e do status, sendo
as crianças um item opcional –, se esse mundo as fez mais felizes, ou fez mais felizes os
seus amigos e parentes. Uma resposta honesta a essa pergunta provavelmente as
deixaria surpresas.

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Aula 13 - O Valor da Vida, da Verdade e o uso dos bens: 5º, 7º, 8º e 10º
mandamentos

O Valor da Vida: 5º mandamento


! “A vida humana é sagrada porque, desde a sua origem, postula a ação criadora de
Deus e mantém-se para sempre numa relação especial com o Criador, seu único fim. Só
Deus é senhor da vida, desde o seu começo até ao seu termo: ninguém, em
circunstância alguma, pode reivindicar o direito de dar a morte diretamente a um ser
humano inocente” CIC 2258.
$ A Lei Antiga proibiu todo e qualquer atentado contra a vida humana, mas vemos
que desde o pecado original a cólera e a inveja levaram a crimes contra a vida, como a
morte de Abel por seu irmão Caim (cfr. Gn 4). Nosso Senhor Jesus Cristo, ao levar a Lei
antiga à perfeição, condena não apenas a morte, mas qualquer sentimento de inimizade
para com o próximo: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: "Não matarás. Aquele que
matar terá de responder em juízo". Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu
irmão, será réu perante o tribunal” (Mt 5, 21-22).
! Para um cristão, portanto, viver o quinto mandamento significa mais do que
simplesmente "não matar#, mas promover a vida desde sua concepção até sua morte
natural, respeitar a dignidade das pessoas e evitar todo tipo de escândalo, que é como
que uma morte da alma.
!
! A legítima defesa não entra em contradição com o preceito de não matar. O
preceito de guardar a própria vida no devido amor de si mesmo é um princípio moral
fundamental. Quando o ato de "defender a própria vida# acarretar necessariamente a
morte do agressor, não se pode considerar como homicídio. No entanto, deve sempre
utilizar meios proporcionais à ameaça. A autoridade civil tem a obrigação de defender a
comunidade, mesmo com o uso de armas caso seja necessário (cfr. CIC 2266).
! O homicídio voluntário é um pecado gravíssimo que "brada aos céus#. Quando se
trata de parentes, tanto mais grave é pelo laço que os une. Todos aqueles que
indiretamente provocam a morte de outros, seja por tráfico de drogas, fomento de
injustiças, exposição ao perigo, são imputáveis do homicídio indireto que causam.
! O aborto é um tipo de homicídio especialmente hediondo, pois atenta contra a
vida de uma pessoa indefesa. A vida humana começa no momento da concepção e a
partir de então deve ser respeitada como tal. A prática indiscriminada do aborto levou a
se cunhar o termo "holocausto silencioso#, pois muitos milhões de crianças não nascidas
tiveram suas vidas prematuramente tiradas por tal prática.
! A Igreja para ressaltar a gravidade deste pecado pune os católicos envolvidos em
um aborto com a pena de excomunhão latae sententiae, que significa uma exclusão da

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comunhão da Igreja pelo próprio fato de cometer o delito. Agindo assim a Igreja não quer
fechar as portas da misericórdia, mas convidar à reflexão e ao arrependimento (cfr. CIC
2272). Fazer diágnóstico pré-natal e outras intervenções no útero durante a gravidez não
são ilícitas, desde que não atentem contra a vida da criança. A manipulação genética é
contrária à dignidade humana, ferindo sua integridade única e irrepetível (cfr. CIC 2275).
! A eutanásia também é um tipo de homicídio, pois tira a vida daqueles que pela
sua situação delicada (deficientes, doentes ou moribundos), deveriam segundo a
caridade cristã, receber especial atenção e carinho. Diferente disso é fornecer a cada um
o tratamento proporcionado: “A cessação de tratamentos médicos onerosos, perigosos,
extraordinários ou desproporcionados aos resultados esperados, pode ser legítima. É a
rejeição da «obstinação terapêutica». Não que assim se pretenda dar a morte;
simplesmente se aceita o fato de a não poder impedir. As decisões devem ser tomadas
pelo paciente se para isso tiver competência e capacidade; de contrário, por quem para
tal tenha direitos legais, respeitando sempre a vontade razoável e os interesses legítimos
do paciente” CIC 2278.
$ O suicídio constitui um pecado grave, pois cada um é responável pela vida que
Deus lhe deu, devendo agir como administrador dos dons divinos, não podendo dispor
dela. Cometido para servir de exemplo para outros, torna-se mais grave. Os que ajudam
direta ou indiretamente também são imputáveis. A Igreja sempre confia todos os
falecidos à misericórdia de Deus e reza pela salvação de suas almas, mesmo daqueles
que causaram a própria morte (cfr. CIC 2283).
! Se somos chamados a respeitar e cuidar da integridade física das pessoal, tanto
mais temos a obrigação de cuidar de suas almas. O escândalo é uma atitude,
comportamente ou palavra que leva outra pessoa a fazer o mal. Um torna-se o tentador
do outro, arrastando-o para a morte espiritual. Reveste-se de uma particular gravidade
dependendo da autoridade de quem o comete e da fraqueza dos que são vítimas. Nosso
Senhor falou com voz forte sobre os escândalos: “Mas se alguém escandalizar um
destes pequeninos que crêem em Mim, seria preferível que lhe suspendessem do
pescoço a mó de um moinho e o lançassem nas profundezas do mar” Mt 18,6. O
escândalo pode surgir também por leis ou estruturas sociais que degradam os bons
costumes e corrompem a vida moral e religiosa. Os que são responsáveis por tais
estruturas tornam-se culpados (cfr. CIC 2286).
! O quinto mandamento também nos fala do cuidade pela saúde, que também
devem ser encarada como dom de Deus. As condições mínimas de dignidade e
sobrevivência para todos deve ser uma preocupação da sociedade como um todo. A
preocupação pela saúde não pode se converter em culto do corpo, em que a vaidade
transforma a aparência num fim e ídolo. Os excessos no comer e beber e do tabaco,
bem como o uso de drogas devem ser evitados quando se busca viver a temperança. Se

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esses abusos colocam a pessoa numa situação de perigo para si ou para outros, como
dirigir embriagado, é culpado das possíveis consequências e mesmo a ocasião de
colocar os outros em perigo já é um pecado (cfr. CIC 2290).

! Por fim, o quinto mandamento fala sobre a salvaguarda da paz e o direito à guerra
justa. A Igreja sempre pregou que o nosso esforço deve ser sempre de tentar evitar as
guerras, esgotando os meios humanamente possíveis que a possam prevenir. As
próprias atitudes de ódio e vingança ofendem a Deus que nos fez para a paz, pois Jesus
mesmo foi chamado o "Príncipe da Paz# e declarou felizes os que constrõem a paz (cfr.
Mt 5,9). No entanto, a legítima defesa pelo força das armas pode ser a única alternativa
diante da ameaça do inimigo, mas terá legitimidade moral em circunstâncias muito
particulares (cfr. CIC 2309 para um detalhamento dessas circunstâncias). Uma vez
começada a guerra, nem por isso os princípios morais devem ser esquecidos, devendo
ser tratados com humanidade os soldados e não-combatentes feridos e prisioneiros. É
importante colocar os meios que previnam os conflitos: “As injustiças, as excessivas
desigualdades de ordem econômica ou social, a inveja, a desconfiança e o orgulho que
grassam entre os homens e as nações, são uma constante ameaça à paz e provocam as
guerras. Tudo o que se fizer para superar estas desordens contribui para edificar a paz e
evitar a guerra” CIC 2317.

O devido uso dos bens materiais: 7º e 10º mandamentos


! “O sétimo mandamento proíbe tomar ou reter injustamente o bem do próximo e
prejudicá-lo nos seus bens, seja como for. Prescreve a justiça e a caridade na gestão dos
bens terrenos e do fruto do trabalho dos homens. Exige, em vista do bem comum, o
respeito pelo destino universal dos bens e pelo direito à propriedade privada. A vida cristã
esforça-se por ordenar para Deus e para a caridade fraterna os bens deste mundo” CIC
2401.
$ Os bens da criação foram criados para toda a humanidade. O Catecismo fala de
uma ordenação universal dos bens, que deve nortear nossa atitude diante deles. Para
garantir as necessidades de cada um, a terra foi repartida entre o homens para que a
utilizassem no uso de sua liberdade. A propriedade privada é legítima e não anula a
ordenação universal dos bens, devendo suscitar uma atitude de gratidão pelo que se
possui, solidariedade para com o próximo e busca do bem comum (cfr. CIC 2403).
! Três virtudes devem nortear nossa atitude para com os bens terrenos: a
temperança que modera nosso apego, a justiça que nos ajuda a dar ao próximo o que
lhe é devido e a solidariedade que nos faz imitar a Jesus que “sendo rico, Se fez pobre
para nos enriquecer com sua pobreza” (cfr. CIC 2407).

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! O sétimo mandamento nos faz respeitar os bens alheios. O roubo acontece
quando se usurpa o bem alheio sem a vontade razoável do seu dono. Quando há
necessidade urgente e não outro meio de dispor de bens essenciais (abrigo,
alimentação, vestuário), então é lícito dispor de bens alheios (cfr. CIC 2408). No entanto,
hoje faz necessário definir outros tipos de roubos mais sofisticados. O Catecismo
enumera-os: “reter deliberadamente bens emprestados ou objetos perdidos; cometer
fraude no comércio; pagar salários injustos; a especulação pela qual se manobra no
sentido de fazer variar artificialmente a avaliação dos bens, com vista a daí tirar
vantagem em detrimento de outrem; a corrupção, pela qual se desvia o juízo daqueles
que devem tomar decisões segundo o direito; a apropriação e o uso privado de bens
sociais duma empresa; os trabalhos mal executados, a fraude fiscal, a falsificação de
cheques e faturas, as despesas excessivas, o desperdício. Causar voluntariamente um
prejuízo em propriedades privadas ou públicas é contra a lei moral e exige reparação”
CIC 2409.
$ Viver a justiça também significa honrar promessas e contratos, bem como a
reparação de eventuais injustiças que se tenha cometido.
! Os jogos de azar e apostas em si não são contrários à justiça, mas podem se
tornar se se usurpa os bens de uma família no vício dos jogos, ou mesmo quando se
coloca em risco o bem estar de muitos arriscando-se irresponsavelmente.
$ Viver adequadamene o uso dos bens começa controlando a cobiça, tema do
décimo mandamento, que nos manda !não cobiçar as coisas alheias": “O décimo
mandamento condena a avidez e o desejo duma apropriação desmesurada dos bens
terrenos; e proíbe a cupidez desregrada, nascida da paixão imoderada das riquezas e do
seu poder. Interdita também o desejo de cometer uma injustiça pela qual se prejudicaria
o próximo nos seus bens temporais” CIC 2536.
$ $
! O sétimo mandamento nos fala também sobre o respeito que temos que ter pela
integridade da criação, onde o respeito pelos animais e o problema ecológico é colocado.
Os animais como criaturas de Deus, Lhe dão glória apenas pelo fato de existirem. O
homem, criado a semelhança de Deus, tem o direito de dispor dos animais para
alimentação, vestuário, transporte e domesticá-los para realizarem trabalhos e lazer. Mas
esse uso não autoriza nenhum tipo de crueldade ou experiências que ultrapassem o
limite do razoável (cfr. CIC 2415-2418).
! Com relação à atitude cristã com relacão ao meio-ambiente, lemos na Encíclica
Caritas in veritate, do Papa Bento XVI: “ Este [o meio-ambiente] foi dado por Deus a
todos, constituindo o seu uso uma responsabilidade que temos para com os pobres, as
gerações futuras e a humanidade inteira. Quando a natureza, a começar pelo ser
humano, é considerada como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo, a noção da

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referida responsabilidade debilita-se nas consciências. Na natureza, o crente reconhece
o resultado maravilhoso da intervenção criadora de Deus, de que o homem se pode
responsavelmente servir para satisfazer as suas legítimas exigências — materiais e
imateriais — no respeito dos equilíbrios intrínsecos da própria criação. Se falta esta
perspectiva, o homem acaba por considerar a natureza um tabu intocável ou, ao
contrário, por abusar dela. Nem uma nem outra destas atitudes corresponde à visão
cristã da natureza, fruto da criação de Deus” (Caritas in veritate, 48).
$ Por fim, o tema da justiça social também é comumente tratado quando se fala do
sétimo mandamento. Todo o tema do desenvolvimento econômico, dos meios de
alcançar o bem comum, vêm sendo tratado na Igreja desde o séc. XIX no que costuma
chamar a Doutrina Social da Igreja. O documento citado acima, Caritas in veritate, é a
última publicação do ensinemento social da Igreja, feita pelo Papa Bento XVI. Neste
documento o Papa delineia as linhas mestras do que deve ser o desenvolvimento
integral do homem na atualidade, diante de tantos desafios que os mercados
internacionais e a globalização impõem. Segundo o Papa, “A caridade na verdade (...) é
a força propulsora principal para o desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade
inteira”. O esforço de diversas instâncias do poder público e privado em promover o
desenvolvimento, somente encontrará eficácia real se estiver norteado pela verdade. Por
isso a Igreja desempenha um papel importante com a sua Doutrina Social: “A Igreja (...)
tem uma missão ao serviço da verdade para cumprir, em todo o tempo e contingência, a
favor de uma sociedade à medida do homem, da sua dignidade, da sua vocação. Sem
verdade, cai-se numa visão empirista e cética da vida, incapaz de se elevar acima da
ação porque não está interessada em identificar os valores — às vezes nem sequer os
significados — pelos quais julgá-la e orientá-la. A fidelidade ao homem exige a fidelidade
à verdade, a única que é garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum
desenvolvimento humano integral” (Caritas in veritate, 9).

O valor da Verdade: 8º mandamento


! “O oitavo mandamento proíbe falsificar a verdade nas relações com outrem. Esta
prescrição moral decorre da vocação do povo santo para ser testemunha do seu Deus,
que é e que quer a verdade. As ofensas à verdade exprimem, por palavras ou por actos,
a recusa em empenhar-se na rectidão moral: são infidelidades graves para com Deus e,
nesse sentido, minam os alicerces da Aliança” CIC 2464.
$ O homem por sua própria natureza tende à verdade. A confiança mútua é base
das relações humanas e ninguém aceita ser enganado. Honrar e testemunhar a verdade
é, portanto, um dever moral. O cristão deve estar disposto a buscar e testemunhar a
verdade. Diante da mentalidade relativista que vivemos, torna-se mais necessário

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pessoas dispostas a comprometer a vida em defesa da verdade de Cristo. O testemunho
máximo desse amor à verdade da fé é o martírio.
$ Podemos faltar com a verdade de muitas formas. O desrespeito pela reputação
dos outros, o juízo temerário, a maledicência e a calúnia, são faltas contra a verdade e
contra a caridade. A mentira, dizer algo falso com a intenção de enganar, é a ofensa mais
direta à verdade. Sua gravidade mede-se pela natureza da verdade que deforma, pela
circunstâncias e pessoas envolvidas (cfr. CIC 2484). “A mentira (...) é uma autêntica
violência feita a outrem. Este é atingido na sua capacidade de conhecer, a qual é
condição de todo o juízo e de toda a decisão. A mentira contém em gérmen a divisão dos
espíritos e todos os males que a mesma suscita. É funesta para toda a sociedade:
destrói pela base a confiança entre os homens e retalha o tecido das relações sociais”
CIC 2486.
$ O direito a comunicar a verdade não é absoluto. Existem ocasiões em que é lícito
negar-se a um pedido de informação, principalmente quando se está em jogo a
segurança e a intimidade de si mesmo ou de outra pessoa, bem como quando se
percebe a intenção distorcida daquele quer saber (cfr. CIC 2488-2489). O sigilo
profissional é legítimo, não devendo ser divulgadas informações de outros obtidas em
circustâncias profissionais sem uma razão grave e proporcionada. O segredo da
confissão é sagrado, não podendo ser revelado sob pretexto algum (cfr. CIC 2490).
! O cristão que luta pela verdade deve procurar que os meios de comunicação
sejam veículos fundados na verdade, pois assim podem cumprir um importante papel de
integração social e disseminação de conhecimento e informações relevantes (cfr. CIC
2493-2499).

Principais tópicos:
- Mandamentos quinto, sétimo,oitavo e décimo;
- O valor da vida: aborto, eutanásia e outros atentados à vida
- O devido uso dos bens e o problema da cobiça;
- O valor da verdade, as ofensas à verdade, os sigilos legítimos e a verdade nos meios
de comunicação.

Bibliografia:
- CIC 2258-2330; 2401-2513; 2534-2557;
- Compêndio do Catecismo 466-486; 503-526; 531-533;
- Fé Explicada 225-233; 240-258.

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Aula 14 - A Oração Cristã

A revelação da Oração
$ “Mistério admirável da nossa fé! A Igreja professa-o no Símbolo dos Apóstolos
(primeira parte) e celebra-o na liturgia sacramental (segunda parte), para que a vida dos
fiéis seja configurada com Cristo no Espírito Santo para glória de Deus Pai (terceira
parte). Este mistério exige, portanto, que os fiéis nele creiam, o celebrem e dele vivam,
numa relação viva e pessoal com o Deus vivo e verdadeiro. Esta relação é a oração”.
CIC 2558.
$ A oração é um dom de Deus, elevação da alma a Ele para entrar em comunhão,
pedir o que necessitamos e renovar nossa Aliança. A humildade é o fundamento da vida
de oração: é a disposição para receber o que Deus nos tem preparado.
$ “Muito embora o homem se esqueça do seu Criador ou se esconda da sua face,
corra atrás dos ídolos ou acuse a divindade de o ter abandonado, o Deus vivo e
verdadeiro chama incansavelmente cada pessoa ao misterioso encontro da oração. Na
oração, é sempre o amor do Deus fiel a dar o primeiro passo; o passo do homem é
sempre uma resposta” CIC 2567. $
$ Se no Antigo Testamento temos muitos exemplos de homens de oração (Abraão,
Moisés, David, Elias), foi em Cristo que o “drama da oração foi-nos plenamente
revelado”. A própria possibilidade da oração existe pelo mediação de Cristo. Os filósofos
antigos defendiam a idéia de que entre Deus eterno e nós, criaturas submetidas ao
tempo, não poderia haver uma relação pessoal. De fato, somente no mistério da
Trindade, onde Deus se nos mostra como uma "Comunhão de Pessoas#, podemos falar
de uma possível comunhão nossa com Deus. A pessoa de Cristo está em constante
diálogo com a Pessoa da Pai e, portanto, entrando em comunhão com Cristo,
relacionamo-nos efetivamente com Deus Pai.
! Jesus aprendeu a rezar com Maria, orando no ritmo e nas palavras de seu povo.
No entanto, Jesus ensinou-nos um modo de oração próprio de sua condição de Filho
Unigênito de Deus: a oração filial (cfr. CIC 2599). Seu exemplo de tantas vezes se retirar
na solidão para orar ao Pai levou os discípulos a pedirem: “Senhor, ensina-nos a orar” Lc
11, 1. De todas as orações de Cristo, a mais dramática acontece nas vésperas de sua
Paixão, no Monte das Oliveiras. O Catecismo nos ensina:
! “Quando chegou a Hora em que cumpriu o desígnio de amor do Pai, Jesus deixa
entrever a profundidade insondável da sua oração filial, não só antes de livremente Se
entregar («Abbá... não se faça a minha vontade, mas a tua»: Lc 23, 42), mas até nas
suas últimas palavras já na cruz, onde orar e dar-Se coincidem: «Perdoa-lhes, ó Pai, pois
não sabem o que fazem» (Lc 23, 34); «em verdade te digo: hoje estarás comigo no
paraíso» (Lc 23, 43); «Mulher, eis aí o teu filho» [...] «eis aí a tua mãe» (Jo 19, 26-27);

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«tenho sede!» (Jo 19, 28); «meu Deus, por que Me abandonaste?» (Mc 15, 34) (56);
«tudo está consumado» (Jo 19, 30); «Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito» (Lc 23,
46), até ao «grande brado» com que expira, entregando o espírito.
$ “Todas as desolações da humanidade de todos os tempos, escrava do pecado e
da morte, todas as súplicas e intercessões da história da salvação estão reunidas neste
brado do Verbo encarnado. E eis que o Pai as acolhe e as atende, para além de toda a
esperança, ao ressuscitar o seu Filho. Assim se cumpre e se consuma o drama da
oração na economia da criação e da salvação. Dele nos dá o Saltério a chave em Cristo.
É no «hoje» da ressurreição que o Pai diz: «Tu és meu Filho, Eu hoje Te gerei. Pede-Me,
e Te darei as nações por herança e os confins da terra para teu domínio!» (Sl 2, 7-8)
$ A Epístola aos Hebreus exprime em termos dramáticos como é que a oração de
Jesus realiza a vitória da salvação: «Nos dias da sua vida mortal, Cristo dirigiu preces e
súplicas, com um forte brado e com lágrimas, Aquele que O podia livrar da morte e, por
causa da sua piedade, foi atendido. Apesar de ser Filho, aprendeu, de quanto sofreu, o
que é obedecer. E quando atingiu a sua plenitude, tornou-Se, para todos aqueles que
Lhe obedecem, causa de salvação eterna» (Heb 5, 7-9)”. CIC 2605-2606.
$ A Igreja nasce com os apóstolos reunidos em oração e o Espírito a guiará para
que também se desenvolva na vida de oração. Seja pela leitura das Escrituras e a
recitação dos Salmos, seja pelas bençãos e adorações, a vida de oração das primeiras
comunidades cristãs eram muito ricas (cfr. CIC 2623-2649). Compete-nos hoje seguir e
aprofundar essa tradição fazendo de nossas família e comunidade verdadeiros lugares
de oração.
!
A prática da oração
! “A oração não se reduz ao brotar espontâneo dum impulso interior: para orar, é
preciso querer. Tão-pouco basta saber o que a Escritura revela sobre a oração: é preciso
também aprender a rezar” CIC 2650.
$ A tradição da Igreja nos ensina que encontramos as fontes da oração na palavra
de Deus, na liturgia e das virtudes da fé, da esperança e da caridade. O nosso próprio
"hoje# deve se converter em fonte de oração, transformando cada pequeno
acontecimento em ocasião de diálogo com Deus.
! O caminho da oração começa com a invocação do nome de Jesus, movido pelo
Espírito Santo: “Ninguém pode dizer !Jesus é o Senhor" se não for pela ação do Espírito
Santo” (1Cor 12,3). Devido à sua especial docilidade ao Espírito Santo, a Virgem Maria é
mestra de oração e desde os começos da Igreja se invoca a cooperação de Maria para
fazer frutificar nossa oração. Temos a "Ave-Maria# uma das orações vocais mais
repetidas na Igreja que nos permite se dirigir à Nossa Senhora para louva-la e ao mesmo
tempo pedir-Lhe as coisas mais fundamentais de nossa vida.

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! Muitas são as escolas para aprender a rezar. A família é a primeira delas. Como
vimos, a família fundada no matrimônio cristão deve ser uma Igreja doméstica, uma
escola de fé. As catequeses, os grupos de oração e a direção espiritual são outros meios
de fazer o aprendizado da oração. O lugar propício da oração são: “o oratório pessoal ou
familiar, os mosteiros, os santuários de peregrinação e, sobretudo, a igreja, que é o lugar
próprio da oração litúrgica para a comunidade paroquial e o lugar privilegiado da
adoração eucarística” CIC 2696.
$
A vida de oração
! Muitas são as formas de rezar. A oração vocal é a repetição de fórmulas
consagradas de oração, como o Pai-Nosso e a Ave-Maria, fazendo com que através das
palavras proferidas ou mentalizadas, todo nosso ser se oriente e mergulhe no sentido da
súplica que realizamos. Ter o hábito de regularmente rezar essas orações vocais nos
ajuda a transformar todo nosso dia em oração: ao acordar, no meio do dia, antes do
trabalho, em agradecimento, louvando Nossa Senhora com o Santo Rosário e na hora de
dormir.
! Outro meio de rezar é pela meditação. “A meditação é sobretudo uma busca. O
espírito procura compreender o porquê e o como da vida cristã, para aderir e
corresponder ao que o Senhor lhe pede” CIC 2705. Aqui já não são fórmulas, mas um
diálogo pessoal com Deus, que exige disciplina interior e uma ajuda de um livro que
estimule a conversa (a Sagrada Escritura ou outro livro de espiritualidade). “A meditação
põe em ação o pensamento, a imaginação, a emoção e o desejo. Esta mobilização é
necessária para aprofundar as convicções da fé, suscitar a conversão do coração e
fortalecer a vontade de seguir a Cristo” CIC 2708. A prática da meditação conduz a alma
à contemplação, ou seja, a uma comunhão de amor íntima com Cristo. “A contemplação
é a expressão simples do mistério da oração. É um olhar de fé fixo em Jesus, uma
escuta da Palavra de Deus, um amor silencioso. Realiza a união com a oração de Cristo,
na medida em que nos faz participar no seu mistério” CIC 2724.
! Viver uma vida de oração exige um esforço pessoal, chamado na tradição da
Igreja de o combate da oração. Primeiramente temos que superar as diversas
mentalidades que rejeitam o sobrenatural e apresentam a oração como uma ação sem
significado. Depois, os nossos próprios fracassos em ter uma vida de oração não nos
podem desencorajar: as distrações, a aridez interior, as faltas de fé ou mesmo a preguiça
mental de se dedicar interiormente a meditar os mistérios de Cristo e estabelecer um
diálogo, todas essas coisas afastam muita gente da oração quando mal tinham
começado a trilhar esse caminho.
“«Orai sem cessar» (1 Ts 5, 17), «dai sempre graças por tudo a Deus Pai, em nome de
nosso Senhor Jesus Cristo» (Ef 5, 20), «servindo-vos de toda a espécie de orações e

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preces, orai em todo o tempo no Espírito Santo; e, para isso, vigiai com toda a
perseverança e com preces por todos os santos» (Ef 6, 18). «Não nos foi mandado que
trabalhemos, velemos e jejuemos constantemente, mas temos a lei de orar sem cessar».
Este fervor incansável só pode vir do amor. Contra a nossa lentidão e preguiça, o
combate da oração é o do amor humilde, confiante e perseverante”.

Principais tópicos:
- A oração cristã;
- A possibilidade e a prática da oração;
- Lugares da oração e como rezar: oração vocal e meditação;
- As dificuldades na oração.

Bibliografia:
- CIC 2558-2758;
- Compêndio do Catecismo 534-577;
- Fé Explicada 447-461.

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