Você está na página 1de 21

Aula do Laymert (02/03/11)

Foto: Anotações de Laymert sobre Du mode d’existence des objets techniques.

:::::::::: APRESENTAÇÃO :.
Em comum acordo com o Prof. Laymert Garcia dos Santos, publicarei neste blog
anotações feitas durante as aulas que ele dará neste semestre dentro do Programa
de Pós-Graduação em Sociologia do IFCH-UNICAMP.
O interesse em publicar isso aqui é duplo. Por um lado, a disciplina se concentrará
no estudo de conceitos simondonianos como “individuação” e “tecnicidade”, com os
quais Laymert trabalha há décadas e sobre os quais, portanto, ele tem muito a dizer.
Por outro lado, esta será a última disciplina que ele ministrará nesta pós-graduação
antes de se retirar para licenças e aposentadoria, de forma que se trata de um
semestre liminar em sua trajetória acadêmica. O nome oficial da disciplina
é: SO141 – Tópicos Especiais em Trabalho, Cultura e Ambiente II. A
primeira aula ocorreu no dia 2 de março de 2011, na sala 13-B do prédio da pós-
graduação do IFCH.

As anotações aqui publicadas são livres e editadas. A ordem das idéias não segue
necessariamente a ordem de ocorrência na aula, antes privilegiando uma certa
linearidade escrita. Erros de digitação ou de formatação serão o resultado da
urgência deste registro, mas não deveriam comprometer a apreensão dos temas
tratados.

:::::::::: ANOTAÇÕES :.
A disciplina se concentrará na obra de Gilbert Simondon. Mas será uma disciplina
de Filosofia ou de Sociologia? Ora, é preciso ir além desta questão disciplinar.
O pensamento de Simondon é absolutamente necessário para a Sociologia
contemporânea. A importância do pensamento de Simondon para as Ciências
Humanas e Sociais contemporâneas só cresce.

Laymert leu Simondon pela primeira vez durante seu Doutorado e, desde então,
nunca mais o abandonou. Para Laymert, Simondon ajuda a entender o mundo em
que vivemos e também como vivemos nele. Muitos filósofos importantes leram
Simondon (Laymert cita alguns nomes, dentre os quais só consigo anotar Deleuze e
Lyotard).

Os sociólogos pensam que vivemos em uma sociedade de humanos. Simondon, no


entanto, sabia que não vivemos numa sociedade de humanos, mas sim de humanos
com máquinas. Para entender a sociedade contemporânea é preciso, portanto,
pesquisar a relação humano-máquina (incluindo aí as relações humano-humano,
humano-máquina, máquina-humano e máquina-máquina). A importância de
pensar essa relação humano-máquina, para Simondon, reside no fato de que
humanos e máquinas têm diferentes modos de existência.

O que isso implica no deslocamento de nossa maneira de pensar? Nietzsche já havia


dito que Deus estava morto. Foucault, por sua vez, mostrou que o Homem (não o
“humano”, mas o “humano humanista”) também já está morto. O problema é que
esqueceram de enterrar o Homem, de forma que continuamos achando que
estamos em um mundo que não existe mais. As Ciências Humanas, voltando-se
para este Homem-já-morto-mas-ainda-não-enterrado, se mostra assim
ultrapassada e desatualizada com relação às transformações trazidas pela virada
cibernética.

No filme “Nosso século”, Artavazd Pelechian (1983-90) mostra que o último herói
humano (o cosmonauta) já não é mais humano pois já é uma espécie de ciborgue. O
humano “foi para o espaço”, em vários sentidos.

Como conceber então as Ciências Humanas após a morte do Homem? Seria preciso
pensar em conjunto os modos de existência da máquina e do homem. A disciplina
não se prenderá, portanto, aos moldes das Ciências Humanas, pois propõe pensar o
deslocamento do pensamento pós virada cibernética.

Vamos trabalhar sobretudo com as duas obras principais de Simondon: Du mode


d’existence des objets techniques e L’individuation à la lumière des notions de
forme et d’individuation. São obras fundamentais, pois abordam a individuação no
ser físico, no ser vivo e no ser humano, e pensam o modo de existência dos
humanos e das máquinas a partir de uma noção inovadora de informação. O fato de
que atualmente tudo é cibernetizado, digitalizado, destaca a centralidade
contemporânea da noção de informação.
Simondon queria construir uma filosofia não autocrática das máquinas. O filósofo
nota que temos uma relação utilitária-instrumental com as máquinas, segundo a
qual elas devem estar à nossa disposição. Esta é uma relação marcada pela
dominação, do tipo senhor-escravo, sendo a máquina ora senhor (quando algo dá
errado e ela nos domina), ora escravo (quando tudo dá certo e nós dominamos ela).
No entanto, Simondon mostra que encarar a máquina como escravo é o continuar a
escravidão por outros meios. O suposto problema das máquinas “out of control”
(muito comum nas análises sociológicas e filosóficas) acaba legitimando a idéia de
que precisamos dominá-las. Simondon diz que nossa relação com elas pode ser
diferente, e muito melhor. Para isso, é preciso construir uma filosofia não
autocrática das máquinas através do estudo dos modos de existência das máquinas
e dos humanos e de sua relação.
Isso influencia a todos nós cotidianamente. Nossa convivência cotidiana atual com
computadores, por exemplo, faz com que, dependendo do computador que temos,
possamos individuar mais ou menos. É preciso pensar esse modo de tornar-se do
humano e da máquina. A ênfase não deve recair no indivíduo, mas sim na
individuação dos humanos e das máquinas e na relação entre eles.

Donna Haraway constatou que hoje somos todos ciborgues. Ela disse (aqui Laymert
parece fazer de Haraway um personagem conceitual para dramatizar o
deslocamento do pensamento na virada cibernética): “Eu aprendi a ser descendente
do macaco e agora a ciência me diz que sou um organismo cibernético”. A biologia,
efetivamente, já é molecular… Haraway pergunta: “como é que eu fico? (No que se
refere ao meu processo de individuação-subjetivação). Fui estudar primatologia,
mas a primatologia já estava cibernetizada. Sou ciborque ou descendente de
macaco? Pânico total, não sei mais quem eu sou. Voltar pra trás? Não quero ser
deusa. Então o que será daqui pra frente? Como ocorre o discenso? Eu quero ser
ciborque, mas de oposição (processo de individuação).”

_______

Aula do Laymert (16/03/2011)

Foto: Laymert durante a aula. Na lousa, todas as inscrições feitas pelo professor
durante aula.
:::::::::: OBSERVAÇÕES :.
Este é o resultado de minhas anotações durante a segunda aula do professor
Laymert Garcia dos Santos na disciplina de pós-graduação SO141 – Tópicos
Especiais em Trabalho, Cultura e Ambiente II, ocorrida no dia 16 de maio de
2011, na sala 13-B do prédio da pós-graduação do IFCH/UNICAMP.
Nesta segunda aula houve bastante participação dos alunos. Como eu ainda não
havia elaborado um formato padrão para registrar essa participação, identifiquei
pelo primeiro nome apenas os alunos cujos nomes eu sabia. Os(as) demais foram
identificados como “Aluno(a)”. Devido às limitações do registro in loco (muita coisa
passa…) e às exigências da linguagem escrita (falar é muito diferente de escrever),
muitas intervenções foram editadas, resumidas ou elididas. Espero não ter deixado
passar muitos erros…

:::::::::: REGISTRO :.
Havíamos combinado ler a Introdução e o Primeiro Capítulo (“Gênese do objeto
técnico: o processo de concretização”) de Du mode d’existence des objets
techniques (MEOT), de Gilbert Simondon. Laymert diz que queria saber das
pessoas a recepção da leitura. Ele pergunta sobre dificuldades e pontos
importantes. Pergunta como a visão apresentada na introdução sobre a filosofia da
tecnologia do Simondon apareceu para a classe. Como a leitura aconteceu? Há
dificuldades?

Alguns segundos de silêncio na classe.

Rafael: É mais fluido ler a introdução de MEOT do que aquela de L’individuation


a la lumiere des notions de forme et d’information, pela concretude dos exemplos.
Laymert: Então, se é tranquilo, a filosofia da tecnologia dele é um pensamento
sem surpresa pra vocês?
Aluno: A relação homem-máquina é apresentada por Simondon de um ponto de
vista não apocalíptico. A tecnologia não é apresentada como simples ferramenta.
Do ponto de vista das artes isso traz implicações, como no caso de colocar a
tecnologia a serviço de uma poética. Eu não gostei do exemplo do maestro, por
causa da hierarquia. Achei mais legal pensar a tecnologia no sentido relacional de
uma troca do que numa relação vertical.
Laymert: Isso é um ponto forte, pois Simondon quebra a assimetria. O importante
é a relação. O pensamento de Simondon é relacional, e portanto processual (apesar
de falar em “essência”), e portanto desreifica o sujeito humano e o objeto
tecnológico. E é importante que o primeiro a falar venha das artes [o aluno com
quem Laymert dialoga faz pós-graduação em música], pois o pensamento de
Simondon está relacionando arte (estética), tecnologia e cultura. Podemos pensar
como essa relação aparece no texto. Por que a estética é importante para pensar o
que está faltando na tecnologia? E por que isso é importante?
Pois ocorre dominação. É um pensamento político. O ponto básico da filosofia do
Simondon é o fato de não ser uma filosofia autocrática da técnica. Isso supõe que o
humano pense a sua relação com a máquina fora dos termos da dominação, o que já
é algo bastante forte. Assim, já de cara, ele vai estabelecer que o modo como nos
relacionamos (e o modo como pensamos essa relação) com a técnica é o de uma
relação de servidão. O oposto de uma relação de servidão seria uma que pensasse a
especificidade do humano com relação à especificidade da máquina. Ou seja, todo o
pensamento dele gira em torno do problema do fantasma da dominação homem-
máquina (um dominando o outro). Golem, Frankenstein, Robocop, toda essa
linhagem de pensamento segundo a qual, ou somos dominados, ou devemos
dominar as máquinas. Esse é o nosso senso comum, Simondon não está
exagerando.
Rafael: Se o medo-fantasma do robô é infundado, se é uma projeção da sociedade
sobre as técnicas, o inverso também não ocorre? Atribuir aos humanos
características de máquinas? Mas quando o humano tenta imitar a máquina ele está
fadado ao fracasso.
Pedro: Vale notar que essa relação dualista homem-máquina na qual há
necessariamente um dominando o outro é, para Simondon, historicamente
circunscrita ao surgimento do indivíduo técnico, ligado à tecnologia termodinâmica
do século XIX. É o indivíduo técnico que ameaça o ser humano, que aparentemente
o torna supérfluo. Antes disso, no século XVIII, Simondon encontra ainda uma
relação homem-instrumento, característica do elemento técnico, quando o humano
ainda é parte integrante do indivíduo técnico (ou seja, quando este ainda não está
concretizado). A possibilidade de uma filosofia não autocrática das máquinas surge
apenas com os conjuntos técnicos, quando o humano já não é mais nem parte
integrante do indivíduo técnico e nem um indivíduo humano que possa ser
substituído por um indivíduo técnico, mas sim o coordenador humano de um
conjunto técnico. O papel central da filosofia nesse processo evidencia um certo
“Iluminismo” de Simondon. Assim como os filósofos iluministas fizeram a crítica da
escravidão humana, Simondon faz a crítica da escravidão técnica.
Rafael: Mas eu associo Iluminismo à racionalidade, e o Simondon valoriza a
indeterminação. Simondon deseja que o humano aprenda a linguagem das
máquinas, e não o que de fato ocorre, que é a máquina aprender a linguagem do
humano.
Laymert: O problema do maestro não é ele conhecer a linguagem dos
instrumentos (apesar disso ser geralmente esperado). A grande diferença entre o
maestro (entendido aqui como as figuras do mecanólogo, do sociólogo e do
psicólogo evocadas por Simondon) e qualquer outro membro da orquestra é que,
em lugar de tocar um instrumento, ele está nos entres, em meio aos que tocam,
coordenando esse movimento pelo porvir, pela tendência. Ele “puxa” a música.
Aluno: Os maestros barrocos coordenam mas são horizontais. O Simondon parece
ter um maestro barroco em mente.
Laymert: Acho que sim. Ele é uma pessoa que se deixa atravessar por todos os
músicos. Ele tem que se responsabilizar pelo diálogo. Ele está captando o que cada
um está fazendo. Ele tem que estar, como o mecanólogo, ouvindo-vendo essa
relação entre humanos e máquinas em todas as suas variantes humano-humano,
humano-máquina e máquina-máquina. Isso pode parecer banal, mas o que não me
parece de forma alguma banal é tirar o automatismo das nossas cabeças, condição
para uma filosofia não autocrática das máquinas. Pois podemos entender isso aqui-
agora, mas daqui a cinco minutos ter uma relação autocrática com o celular ou o
automóvel. Uma relação utilitária, como o antigo usava o escravo. Depois de usada,
a máquina deve sair de cena.
E como ser um mecanólogo? Não basta ter inteligência, é preciso ter sensibilidade.
É preciso ter um ouvido para ouvir essa diferença capaz de emitir alguma coisa,
para perceber o que está do lado de lá e o que está acontecendo. Essa relação não é
a que usualmente temos com as máquinas. Esperamos que elas respondam às
nossas expectativas. Nunca pensamos que devemos corresponder às expectativas
delas. O importante é esse pressuposto de uma projeção humana sobre as máquinas
(nós as dominamos) e, sua contrapartida, o temor de que haja essa projeção
contrária (elas nos dominam). É uma projeção nossa. Simondon quer tirar os
fantasmas da jogada. Eliminar o modo instrumental de nossa relação com as
máquinas. Algo que lembra, em certos aspectos, a crítica de Marcuse àquilo que ele
chamou de “homem unidimensional” e sua relação instrumental com as máquinas.
Simondon apresenta o que precisamos fazer para pensar outro tipo de relação com
as máquinas. Parece fácil, mas se fosse não continuaríamos no automatismo. O
problema do automatismo “mítico” das máquinas depende da superação de um
outro automatismo, que é o da nossa relação projetiva com as máquinas.

Se trata de pensar racionalmente nossa relação com as máquinas. O sentido do


termo “mítico” para Simondon é Iluminista, negativo. É preciso pensar a ontologia
da técnica, o modo de ser do objeto técnico, mistura de humano e natureza,
humano e não-humano. Temos que entender que os objetos técnicos também têm
uma evolução, e que ela é diferente da nossa, para que possamos nos entender com
eles. E precisamos nos entender com eles. Eu, por exemplo, não sei e nem quero
saber como consertar o meu carro. Mas isso é ruim, pois estimula o automatismo.
Esse era o conhecimento que a criança precisa saber.

Aluna: Essa perda de conhecimento sobre as máquinas não pode ser atribuída aos
imperativos econômicos e, portanto, extra-técnicos, de sua evolução? Somos
estimulados a ter uma relação utilitária com as máquinas e elas se tornam meros
objetos ou mitos-robôs. Simondon diz que a cultura “perdeu” essa consciência da
técnica. Mas ela alguma vez existiu?
Laymert: Lendo o texto todo, veremos que, quando ele for para trás, no começo
estava tudo junto. A cultura não estava separada da técnica no mundo mágico. É
isso que vai fazê-lo questionar se a evolução é um avanço. Nas sociedades
primitivas-mágicas, onde o primeiro tecnólogo é o xamã, arte, técnica e cultura não
estão separadas. Nós não estranhamos que, para podermos fruir o objeto estético,
precisemos saber do que se trata, conhecer. Se formos a uma exposição sem sermos
cultivados, não entenderemos nada e diremos: “isso aqui até meu filho faz”; ou
“qualquer criança faz isso”. Essa pessoa não tem julgamento estético nenhum, não
sabe o que está em jogo quando, por exemplo, Miró faz aquilo que parece um
desenhinho de criança. Mas o que é tornar-se criança depois de toda a história da
arte? O que é reconquistar a espontaneidade-liberdade da criança com um pincel,
sendo adulto e conhecendo toda a história da pintura? É fantástico que Miró tenha
conseguido chegar nesse ponto de novo.
No objeto estético, damos de barato que é preciso conhecer para fruir. Mas quando
se trata do objeto técnico, agimos como se só precisássemos usar o objeto, como se
não precisássemos conhecê-lo. Essa dimensão oculta (não pensada) do objeto
técnico é a sua ontologia, o seu ser, o seu movimento interno, a direção do seu
devir. Ele só pode atender às necessidades humanas (exteriorres a ele) se elas
corresponderem aos seus próprios movimentos internos. Só assim ele responde e
atende. É preciso atender às respostas do objeto técnico às nossas demandas. Essas
respostas são o resultado de uma história, de uma evolução. Há uma relação entre a
demanda humana externa e os movimentos internos do objeto técnico. Eu não
posso pedir para um telefone dos anos 1950 que faça o que eu posso pedir para
um iPhone. Ele não vai me responder. Isso não corresponde ao seu funcionamento
interno. O iPhone é muito mais do que um telefone. Ele é um objeto técnico
multifuncional do tipo que Bruce Sterling chamou de Gizmo, que, entre muitas
outras coisas, serve como telefone.
Léo: Esse agregamento de funções não corresponde necessariamente a uma
evolução do telefone. A satisfação de uma demanda econômica não corresponde a
uma evolução técnica.
Laymert: Mas nesse caso evoluiu ou não? O que aconteceu no caso do telefone não
foi o mesmo que quando, por exemplo, se adorna um automóvel.
Léo: Mas e os automatismos que a fábrica incorpora no automóvel, como o câmbio
automático? Não podemos confundir a evolução do objeto técnico com a evolução
do aparelho.
Pedro: Seria útil lembrar aqui da última seção do primeiro capítulo, quando
Simondon trata das origens absolutas de uma linhagem técnica. Ali, através do caso
da passagem do diodo para o triodo etc., ele chega a uma distinção clara entre o
objeto técnico que se concretiza (enquanto tendência) e os objetos técnicos
concretos que manifestam etapas dessa concretização. No caso do exemplo citado,
Simondon identifica a “condutância assimétrica” como o princípio funcional que
orienta a evolução de um objeto técnico através de suas sucessivas manifestações
mais ou menos concretizadas. Com isso, a comparação entre o telefone dos anos
1950 e o iPhone talvez possa revelar uma evolução do ponto de vista de alguns
princípios funcionais, mas não daquele que dá nome ao “telefone”, i.e., a
transmissão de som à distância.
Laymert: Mas “tele-fonia” é a mesma coisa hoje e nos anos 1970?
[Uma resposta negativa emana difusamente da classe.]

Diego: Sterling talvez ajude a pensar essa diferença, através de sua concepção de
ciberespaço.
Aluno: Como se coloca a questão da evolução nos casos distintos do acréscimo de
funcionalidades a um objeto e do aperfeiçoamento de funcionalidades já existentes
nele?
Laymert: Ambos os casos se misturam, ocorrem ao mesmo tempo. Não se opõe
aqui aperfeiçoamento e mutação de um ser. A mutação ocorre quando passamos de
um aperfeiçoamento contínuo para um aperfeiçoamento descontínuo. A mutação é
a evolução.
Aluno: O conhecimento do objeto técnico que o Simondon quer retomar é aquele
que me permite consertar o meu carro ou é algo mais complexo, ligado à figura do
maestro?
Laymert: Eu não veria essa oposição entre consertar o meu carro e a dimensão
maior. Saber consertar meu carro implicaria em conhecer a sua mecânica, mas
também ter a sensibilidade para saber o que eu tenho que fazer. No meu carro,
quando eu escuto um barulhinho estranho, eu tento ignorar, aumento o som para
não ouvi-lo, mesmo sabendo que mais para frente eu terei um problema ainda mais
grave. Mas o que significa esse recalcamento do som que a máquina está fazendo, e
portanto daquilo que ela está me dizendo? Eu não quero ouvi-la nunca, nem
quando está funcionando (pois deve ser silenciosa) e nem quando estraga (pois
finjo que o problema não existe). Eu nego a sua existência.
Rafael: Isso me lembra de quando eu trabalhava no setor de manutenção de uma
fábrica e montei cronogramas de manutenção das máquinas. Como os cronogramas
nunca eram usados, fui conversar com o técnico, que me disse: “eu escuto, e quando
precisa eu ponho óleo”. O operador antigo não precisa das tabelas que os novos
operadores precisam, pois conversava com as máquinas. Funcionários antigos
usavam sua sensibilidade para realizar intervenções que hoje são definidas por
máquinas.
Aluna: Se todos devem ser regentes, quem serão os músicos?
Laymert: Aquele que pensa “que socidade é essa hoje” é, em certa medida,
maestro. Primeiro existe uma analítica da máquina, quando ela é pensada. Depois
ela se concretiza, com sua evolução. Nesse processo, preciso ouvir a máquina tanto
na medida em que ela concretiza a abstração, quanto na medida em que ela me diz
coisas que não estavam previstas no esquema abstrato. Ela diz coisas que não
estavam previstas no meu plano, os materiais e as leis da natureza colocam para
mim obstáculos e dificuldades. O funcionamento da máquina é a cobinação entre
aquele que a gente previu e aquele que está acontecendo.
Emerson: É na concretização que começam a aparecer os problemas. Coisas que
não precisam ser pensadas racionalmente mas que passam pelo corpo.
Laymert: Primeiro a máquina é pensada. É primária. É função + função +
função… É uma organização das expectativas que eu tenho com relação a cada parte
dessa máquina, pensada separadamente. O problema aparece quando eu junto isso
tudo. Um acúmulo de funções não é uma sinergia de funções. A máquina sugere
modificações do plano para que este se concretize. É preciso escutá-la. É por isso
que está além do cronograma do Rafael. O velho técnico dialoga com a máquina e
não com um esquema abstrato.
Rafael: E, para o sistema, esse velho técnico deve ser demitido, pois não preencheu
nenhuma planília.
Laymert: E no entanto, se já existe planília, então a margem de indeterminação
não está mais aí. Ela migrou para os computadores, para os sistemas
informacionais. A questão é: foi a planília que automatizou a produção ou foi a
automatização que a tornou possível?
Rafael: Pensamos evolução técnica (do celular, por exemplo) como um
aperfeiçoamento funcional, mas Simondon mostra que objetos antigos podem
satisfazer melhor a certas funções do que os recentes. Ele permite questionarmos a
idéia de uma orientação única da evolução.
Pedro: E no entanto ele propõe justamente um método para encontrarmos
linhagens filogenéticas de objetos técnicos como quem traça a linhagem evolutiva
de espécies biológicas. Estudar o objeto técnico enquanto vir-a-ser, enquanto
processo evolutivo, implica em descobrir origens e traçar genealogias. No entanto,
essas genealogias não podem ser traçadas de qualquer jeito, é preciso um método.
Simondon vai atribuir à filosofia o papel de reunificar aquilo que foi separado na
fase mágica. O papel reconciliador da Filosofia me incomoda um pouco por
aparentemente “fechar” o sistema, sugerindo um certo conservadorismo.
Laymert: Discordo radicalmente dessa impressão. Há uma diferença importante
entre a evolução contínua (adaptação) e a evolução descontínua (individuação). É
preciso pensar na relação entre concretização e margem de indeterminação: o
importante na concretização do objeto técnico é transformar uma tensão negativa,
uma incompatibilidade, em resolução. Quando isso ocorre, há uma mutação. Algo
que era incompatível (forças virtuais, potenciais), encontra uma solução positiva. É
por aí que as máquinas avançam. É pela superação dos obstáculos que as máquinas
evoluem, e isso é mutação. Há uma linha evolutiva, mas o sentido dessa evolução
não é a adaptação darwiniana mas sim a invenção. O ato inventivo é fundamental
para o ser técnico, pois este não existe na natureza, não existe sem aquele ato.
Thiago: Podemos dizer que há, em Simondon, uma evolução paralela humano-
máquina?
Laymert: As máquinas concretizam potencias imantentes, elas se tornam cada vez
mais aquilo para o qual elas tendem, que não é uma simples projeção daquilo que
queremos que elas sejam, mas sim os potenciais que elas podem realizar, que nunca
vão se esgotar. Elas evoluem conosco, mas nós não determinamos o futuro delas.
Isso pode ser ilustrado com um exemplo contemporâneo. Usinas de energia nuclear
são projetadas para resistir a terremotos de até 7 pontos na escala Richter. Ora, o
terremoto que acaba de acontecer no Japão foi de 9 pontos. Termoreatores
nucleares estão derretendo e a contaminação por radioatividade já ameça fugir do
controle. Vemos que a natureza está respondendo, mas não do jeito esperado. Vai
ser necessária uma revisão de toda a questão da segurança nuclear, pois todos só se
protegiam até terremotos de 7 pontos. Na Califórnia, existem várias empresas de
energia nuclear que ficam sobre a falha tectônica. Se eu fosse californiano eu ficaria
preocupado.
Aluno: Estudos comprovam que o estilo de vida moderno provocou mudanças nos
padrões neurais humanos que podem ser responsáveis por diversas doenças. O
homem está sendo afetado pela máquina. O homem está virando ciborgue, como já
disse Donna Haraway. A máquina está se individuando, concretizando, mas o
homem está seguindo a individuação da máquina…
Laymert: Você diz: “a máquina está maquinando, mas nós estamos imitando a
maquinação da máquina”. Ora, esse é um problema nosso, não das máquinas. Mais
ainda, esse é “o” nosso problema. É por isso que precisamos de uma filosofia não-
autocrática das máquinas. Não estamos pensando nas maquinações extra-técnicas
dos humanos, que interagem com as maquinações técnicas das máquinas. Quem
tem pensado sobre isso é o pessoal que pesquisa a questão da relação arte-
tecnologia. Para um artista como Harun Farocki, por exemplo, a questão é a
individuação da câmera e (junto com) a nossa. No caso dos xamãs ianomami, por
exemplo, é toda uma tecnologia audiovisual que está em jogo. Eles podem ser
chamados de simondonianos, pois querem explorar-experimentar o virtual
enquanto tal, em lugar de sempre atualizar tudo aquilo do virtual a que eles tiverem
acesso. Simondon permite pensar isso, essa diferença entre nós e eles. Ver o xamã
como um puta tecnólogo que acessa coisas que a ciência nem desconfia que
existem. O Davi Yanomami diz que o tubo para cheirar yakoana é o computador
dele. Eu vou dizer que não? Só se eu for “unidimensional”. Daí vou achar que isso é
inveja dele. Mas se eu perceber que todas as questões de download eu posso
resolver aqui no peito, passo a concretizar de outro modo, e é isso que Simondon
me permite pensar.
Emerson: Sobre um comentário anterior do Pedro, gostaria de mencionar um
livro recente sobre a relação Simondon-Nietzsche. Mas também queria fazer um
comentário sobre a maneira como as escolas técnicas atuais desvalorizam cada vez
mais a sensibilidade, a dimensão estética da técnica. Simondon dizia que
precisamos ter uma educação tecnológica, mas isso é cada vez mais entendido
apenas como especialização.
Laymert: Simondon, na verdade, critica a especialização através da idéia de uma
nova cultura.
Rafael: Quando Simondon diz “engenheiro”, ele parece não estar falando daquilo
que hoje entendemos por engenheiro.
Laymert: Eu queria retomar a questão sobre neurociência, sobre se a máquina
está realmente limitando o humano. Philip K. Dick achava que sim, e basta ver seu
texto de não-ficção sobre a lógica dos andróides. Para Dick, o controle existe, mas
devemos resistir. Haraway está dizendo algo parecido, pois quer ser ciborgue, mas
de oposição. A questão da expansão dos limites neurológicos humanos é
importantíssima, e envolve também inúmeras drogas comportamentais e de
desempenho, como o Ritalin etc. [Laymert cita mais outros exemplos que eu não
consigo anotar]. Mas existem maneiras de lidar com isso. Um caso interessante é o
do ayahuasca, por exemplo. Gente do mundo inteiro vai ao Peru tomar ayahuasca.
Além de todo o simbolismo tradicional envolvido com o ritual, existe nesse
consumo uma possibilidade de expansão de atividades cerebrais e de obtenção de
conhecimentos que não passam pelos mesmos circuitos da nossa tecnologia, os
circuitos que nos programam. Seriam como programações alternativas, ampliações
de capacidades cerebrais. Existem inúmeras possibilidades. A individuação
ocidental é a da ciência autoritária.
Os problemas gerados pela tecnologia não são problemas da tecnologia, mas sim de
nossa relação com ela. Não devemos nos opor às máquinas. Esse ressentimento
com as máquinas é um ponto central, como prolegômeno à proposta de Simondon,
pois mostra como ela não é trivial, não é fácil, pois é anti-automática para nós.

Thiago: Talvez pudéssemos pensar em outras velocidades tecnológicas. Talvez


numa redução da velocidade de nossa própria tecnologia. Lembrando do livro Zen e
a arte da manutenção de motocicletas, é importante não sermos alienados com
relação às máquinas, mas chega um ponto em que parece impossível ficar a par da
velocidade.
Laymert: Seria útil considerar o que Simondon diz sobre a oposição entre
artificialização e concretização. Artificialização é a desconstrução de uma
individuação para outros fins. É uma perversão. Isso é o caso da flor na estufa,
quando, em lugar de naturalizar (como no caso da concretização das máquinas),
você artificializa o organismo. É uma perversão para ganhar dinheiro. Condenar a
técnica pela artificialização não é condenar a técnica, mas sim a artificialização.
Diego: Mas e o caso das sementes geneticamente modificadas? Não poderia o
engenheiro (genético) ser considerado um maestro no sentido simondoniano?
Laymert: Mas esse engenheiro seria regente de que? Da semente? Ele abstraiu a
semente! É preciso assumir que existe aqui uma confusão sobre se a semente
geneticamente modificada é ainda uma “semente como antes” ou se ela é uma coisa
“totalmente nova”, que antes não existia. É semente ou é propriedade? Na hora de
usar é preciso pagar por aquilo que ela tem de diferente de todas as outras
sementes, algo que é considerado propriedade particular. Mas na hora de vender é
preciso convencer de que se trata de uma semente como qualquer outra, que a
operação é a mesma de sempre. A sociedade precisa decidir se quer eliminar o que
se entende por semente e aceitar a engenharia genética, ou não, mas é preciso
decidir, e não fingir que é semente como sempre. O caso da estufa apresentado por
Simondon é central aqui: a individuação da planta foi interrompida e tornada
dependente do humano. O problema desse processo de artificialização de um ser
natural é que a semente geneticamente modificada ameaça a existência da semente
natural, algo que não ocorre no processo de concretização dos objetos técnicos.
Aluno: Não poderíamos pensar no caso do artista Eduardo Kac?
Laymert: Eu não gosto do trabalho do Kac, pois é uma aplicação da tecnologia à
arte, uma relação utilitária. Para mim, isso não tem nenhum valor estético. Não é
criação. Vale perguntar: ele está realmente discutindo aquilo que ele diz que está?
Eu acho que não. Ele estaria fazendo alguma coisa pra valer se ele, além de usar a
tecnologia, fizesse uma discussão de fundo sobre a criação do objeto. Mas, no
momento, ele está mais interessado em colocar a assinatura dele de autor em um
objeto feito por um técnico de laboratório. E isso num contexto em que o próprio
autor já foi embora. Isso é regressivo. É claro que a indústria adora. Ele é
financiado pela Monsanto, está trabalhando para essas empresas.
Rafael: E o caso do exoesqueleto que está sendo desenvolvido para aumentar a
força e a destreza de trabalhadores? É artificialização ou concretização?
Laymert: Acho que é concretização. A máquina não percebe. Ela lê mas não vê. Ela
funciona de um modo diferente do humano. Aqui não há desconstrução do
humano, mas sim construção da máquina. Isso é muito diferente da semente
geneticamente modificada.
Rafael: Simondon não separa homem e máquina, mas parece que separa
claramente homem e natureza.
Laymert: Sim, há uma diferença clara entre natureza e cultura.
Pedro: Essa questão sempre me incomodou também. Como é possível o
Simondon, que tem um pensamento tão sofisticado, se apegar a uma oposição que,
na Antropologia pelo menos, já vem sendo questionada e retrabalhada há décadas?
Mas aos poucos fui me dando conta de que, para Simondon, o natural e o cultural
são muito mais tendências distintas de existência (à la Bergson) do que domínios
pré-existentes do mundo. O ser humano, por exemplo, é um misto de natureza e
cultura, mas nem por isso é impossível distinguir essas duas tendências nele. Daí o
papel do objeto técnico como mediador entre o ser humano e a natureza: mais do
que um mero conector entre dois seres já dados, o objeto técnico “se naturaliza” na
mesma medida em que o ser humano “se culturaliza”.
Laymert: Sim, existe um substrato comum entre o artificial e o natural, mas isso
não significa que são a mesma coisa. São diferentes modos de existência, como nos
casos do ser físico, do ser biológico ou do ser psicossocial. Em sua obra sobre os
diferentes modos de existência, Étienne Souriau considera ainda outros modos de
existência, como o dos fantasmas. É possível pensar ser físico, ser vivo, ser humano,
máquina, fantasmas… Ele pensa então o “entre”, para pensar o indivíduo.
Rafael: Mas a máquina abstrata então não é concreta?
Pedro: Acho que é melhor pensar que existem graus de concretização, nunca
concretização ou abstração absolutas.
Léo: A concretude também está ligada à consistência do sistema de causalidades
internas. Vale lembrar os casos do pentodo e da caldeira entrando no motor. A
individualização do objeto técnico seria a sua concretização.
Laymert: No processo de concretização, há uma passagem do modo analítico para
o concreto, na qual o objeto vai ganhando coerência. A diferença entre o artesanato
e a produção industrial é útil para a compreensão desse ponto. No artesanato,
estamos juntando elementos para ver como realizar um objetivo. Já na produção
industrial, tais elementos ganham uma integração na qual eles passam a existir, não
como uma soma de elementos, mas como um agenciamento sinergético. Assim, se
no artesanato havia um agregado de operações isoladas que poderia ser desfeito
sem comprometer essas mesmas operações, se tentarmos separar as operações que
compõem a produção industrial não as encontraremos mais. Essa consistência que
o ser técnico concreto ganhou é irreversível, ele é um agregado coerente cujos
elementos não existem mais independentemente.
Diego: Mas não poderíamos dizer que, se o objeto técnico vai se concretizando,
então ele vai se tornando menos compreensível, pois deixa de ser analítico?
Laymert: Não, pois o pensamento analítico não escuta mais o indivíduo técnico,
ele só era adequado ao nível do elemento. É essa dimensão adicional aos elementos
justapostos, esse n+1 (os elementos mais algo, que é a sinergia), que permite a
compreensão da máquina, do indivíduo técnico.
[Neste momento, o problema da concretização em sua relação com a abstração gera
uma grande discussão na classe.]

Pedro: Eu tenho uma pergunta: existe concretização de elementos, de indivíduos e


de conjuntos, ou apenas de indivíduos?
Laymert: É apenas uma concretização, que no nível dos elementos não gera
problemas, no nível dos indivíduos gera problemas, e no nível dos conjuntos
permite uma possibilidade de resolução.
Léo: Mas uma evolução do motor não é necessariamente uma evolução do carro e
vice-versa.
Laymert: Mas podemos falar claramente da diferença entre um carro inteligente e
outro não. Existe mais potência num carro inteligente do que num velho Fusca.
[Expressão de surpresa na classe.]

Augusto: Eu sou mais o meu Fusca.


[Risos.]

Laymert: O carro inteligente é mais potente pois é resultado da concretização-


resolução de potências da mecânica e da eletrônica (gerando a mecatrônica), que
permite ao motorista fazer mais do que sem esse encontro. A nova máquina pode
fazer mais (em termos internos, não de acordo com exigências que lhe são
exteriores) do que a antiga. Ela ganhou mais coerência interna, fazendo mais coisas
do que antes. Se esse ser é mais complexo, é porque ele já incorporou muito mais
funções, potências, forças, do que o anterior. Mas é preciso perguntar: quando ele
incorporou isso tudo, ele detonou o meio com o qual ele realiza trocas? Se ele
detonou o ambiente, então ele não é consistente. A consistência de um ser está
ligada à positividade que ele estabelece com o seu meio. Não é adaptação, mas
troca. Buckminster-Fuller mostrou muito bem que, se detonarmos com o planeta,
então vamos ser extintos. Nossa individuação perderá sua consistência. É preciso
pensar o meio como meio técnico.
Uma pesquisa japonesa dos anos 1990 mostrou que, quando há essa mutação-fusão
como na mecatrônica (mecânica + eletrônica), ocorre algo do tipo 1 + 1 = 3. Além
dos potenciais anteriormente existentes da mecânica e da eletrônica, surgem
potenciais antes inexistentes, próprios da mecatrônica. Com isso, a capacidade
industrial de planejamento estratégico e identificação de concorrentes se complica,
exigindo novas estratégias de espionagem industrial. Um bom exemplo disso é o
caso da manteiga de cacau. Antes, o cacau era a matéria prima para este produto, de
forma que a indústria sabia o universo com o qual tinha que se preocupar. No
entanto, com a descoberta de diversos outros materiais (derivados de petróleo, por
exemplo) que poderiam desempenhar a mesma função do cacau na produção do
produto, esse universo se complicou. Se eu sou produtor de manteiga de cacau,
antes eu conhecia o mercado, sabia quais os setores que me influenciavam, meus
fornecedores, concorrentes etc., mas agora tenho novos problemas, pois a
concorrência e a inovação vêm de lugares imprevistos. O tempo inteiro tudo está
em jogo. Não é mais possível esperar o retorno econômico de uma nova tecnologia
antes de lançar a próxima. E isso já no começo dos anos 1990. É o princípio do surf:
surfar ou morrer. Hoje não é mais possível fazer como antes, e esperar o retorno
financeiro de uma inovação para lançar a próxima. Agora eu preciso sempre lançar
o último modelo, e é a propriedade intelectual que vem tornando possível a
acumulação econômica nesse novo contexto. Podemos dizer que existem duas
velocidades, a econômica e a tecnológica, que ultimamente começaram a entrar em
conflito: a propriedade intelectual vem forçando uma redução da velocidade
tecnológica em benefício da econômica.

Augusto: Atualmente, o conhecimento científico se aproxima do conhecimento


tradicional para se apropriar dele.
Laymert: A ciência descobriu que é mais fácil achar os princípios ativos de plantas
já conhecidas por populações tradicionais do que começar do zero no laboratório.
[Devido ao horário avançado, Laymert se encaminha então para considerações
finais.]

Laymert: É importante lembrar que Simondon escreveu nos anos 1950. Desde
então, o processo se complexificou infinitamente. Quando Simondon escreveu, a
eletrônica ainda estava restrita ao laboratório, não estava na vida cotidiana. Isso
torna seu pensamento desatualizado? É interessante que a resposta a esta pergunta
seja negativa. Como ainda podemos nos interessar pelo que ele escreveu? Ora, o
fato é que ele ajuda a pensar inclusive aquilo que veio depois dele. Por um lado,
existe uma enorme questão política em jogo (escravização). Por outro lado, estamos
atualmente num mundo da informação, e Simondon pensou justamente o mundo
da informação (e não o mundo da forma), esse substrato comum ao ser físico, ao ser
vivo, ao ser psicossocial e ao ser técnico. Eu nunca mais tirei Simondon da minha
cabeça desde 1977, pois ele pensou sobre os problemas que são os nossos. O papel
da informação na individuação de todos esses tipos de seres. É uma grande
capacidade de compreensão.
Para a próxima aula, proponho lermos o segundo capítulo da primeira parte
(“Evolução da realidade técnica; elementos, indivíduo, conjunto”) e o primeiro
capítulo da segunda parte (“Os dois modos fundamentais da relação do homem ao
dado técnico”). Simondon fala rigorosamente sobre uma coisa nova e muito sutil,
que vai se concretizando com a leitura. Espero que todos se apaixonem pelo
pensamento simondoniano.
Redator: Pedro P. Ferreira

_______

Aula do Laymert (30/03/2011)

Imagem: Imagem de tecido Jalq’a obtida na Internet. Na aula, Laymert usou este tipo de tecido como exemplo de técnica
artesanal, apontando sua especificidade frente à tecnologia industrial do tear de Jacquard.
:::::::::: OBS :.
Este é o resultado de minhas anotações durante a terceira aula do professor
Laymert Garcia dos Santos na disciplina de pós-graduação SO141 – Tópicos
Especiais em Trabalho, Cultura e Ambiente II, ocorrida no dia 30 de maio
de 2011, na sala 13-B do prédio da pós-graduação do IFCH/UNICAMP.

Desta vez, além das limitações de sempre, foi a intensidade da discussão, da qual eu
mesmo tentava participar, que muitas vezes me obrigou a deixar a digitação de
lado. Com isso, muitas idéias discutidas em sala não foram registradas aqui, e
alguns lapsos acabaram ficando.

:::::::::: REGISTRO :.
Na última aula havíamos combiando de ler, de Du mode d’existence des objets
techniques (MEOT), o segundo capítulo da primeira parte (“Evolução da realidade
técnica; elementos, indivíduo, conjunto”) e o primeiro capítulo da segunda parte
(“Os dois modos fundamentais da relação do homem ao dado técnico”). Laymert
começa a discussão perguntando se houve dificuldade na leitura, comentando que
ele próprio teve dificuldades na leitura do segundo capítulo da primeira parte.
Laymert: Houve dificuldades? Eu tive dificuldades para reler ontem. Mais
dificuldades com o primeiro (“Evolução da realidade técnica; elementos, indivíduo,
conjunto”) do que com o segundo, que trata de coisas mais próximas, do campo da
cultura. Inclusive por isso, acho que deveríamos começar colocando este capítulo
em cima da mesa hoje, pois são as categorias fundamentais: elemento, indivíduo e
conjunto. É inclusive significativo que o próprio Simondon nos mostre que
evolução técnica é superação de obstáculos. É a superação de obstáculos,
transformação do negativo em positivo, que está no coração da operação técnica.
Então, começo meio brincando, dizendo que a discussão aqui será “técnica” pois
começaremos com as dificuldades para entender esses dois capítulos,
principalmente o primeiro (“Evolução da realidade técnica; elementos, indivíduo,
conjunto”).
Pedro: É curioso, eu tive a impressão oposta. Tive mais facilidade com o primeiro
do que com o segundo. Acho que principalmente pois o conceito de cultura com o
qual ele trabalha me é estranho, ligado à literatura e à erudição, talvez muito
“francês”. Em outros lugares, nos Estados Unidos por exemplo, é diferente.
Laymert: Mas nós aqui temos essa cultura bacharelesca. Essa é a cultura de muita
gente. Aqui na sala mesmo deve ser. Além disso, a permeabilidade da técnica na
sociedade já era grande nos anos 1950, mas ainda não tinha adquirido a dimensão
que teria posteriormente. Estranho um pouco o seu comentário, pois a cultura é tão
dissociada da técnica que são dois ministérios separados no governo brasileiro. Gil
foi gênio por tentar aproximar os ministérios da cultura e da tecnologia. Depois que
Gil e Juca saíram do ministério tudo se separou novamente. Simondon percebe
como a concepção francesa de cultura separa técnica de cultura e é importante
notar como ele volta para a enciclopédia e faz uma leitura muito especial dela,
mostrando o seu papel e o seu valor político e social. É um corte com o Antigo
Regime.
Rodolfo: É, meu conceito é de fato mais velho (literário). No primeiro capítulo
(“Evolução da realidade técnica; elementos, indivíduo, conjunto”) os exemplos são
mais difíceis. Exigem já uma “cultura técnica”.
Léo: Simondon é físico e filósofo, por isso ele pode dar esses exemplos. Tem partes
do texto que eu não tenho a menor idéia do que ele está falando, nem uma imagem
mental do que ele está falando. Por exemplo, “diodo”, “triodo”, eu tive que ir na
internet ver o que é isso que ele está falando. Daí eu vi que era uma válvula que tem
em amplificadores etc. Peguei um manual de eletrônica e comecei a entender o que
ele está falando. Mas tem coisas que eu não consigo encontrar e aí eu não entendo.
A primeira vez que eu li eu passava batido por essas partes. Mas tem certos
exemplos que ajudam muito a entender o argumento, como o exemplo do motor
para falar da relação do objeto técnico com o meio ambiente.
Laymert: Ou seja, quando você consegue entender o exemplo, fica muito claro o
argumento. Quando você não conhece o mecanismo e passa batido, aí tem um
problema. Eu passo batido, não tenho o menor saco para ler esse pedaço. Eu não
tenho cultura técnica. Eu precisaria prestar atenção nisso. Colocar o motor em cima
da mesa e ver isso direito. Os exemplos são centrais.
Guilherme: Eu tive a mesma impressão. Os exemplos me são opacos. Não tenho
como avaliar todo o raciocínio baseado nessa realidade. Pensei até em perguntar a
um técnico ou fazer um curso de mecatrônica.
Léo: Não temos uma cultura técnica e portanto não conseguimos entender a
relação entre cultura e técnica. Daí a idéia simondoniana de que precisamos de uma
educação técnica desde criança.
Laymert: Além disso, ele extrai pensamento do objeto técnico. É porque ele
conhece bem o modo de funcioanmento e as transformações nesse modo de
funcionamento que ele pode passar de um mecanismo “x” para um “y” e dizer se
tem ruptura ou continuidade, e enumerar toda uma série de nuanças e
singularidades sobre essa passagem. É uma questão de falta de culturade nossa
parte, mas é também um efeito do aparente absurdo que é extrair pensamento do
funcionamento. Isso, do ponto de vista metodológico, é fantástico. Apesar de ser
chato para nós que assumimos o ponto de vista humanístico e não enfrentamos o
obstáculo, é preciso atentar para o fato de que é só por se interessar pelo
funcionamento que Simondon extrai dele um pensamento. Esse pensamento não é,
em termos simondonianos, a priori. O pensamento é construído junto. Não existe
nada dado previamente. É da relação, do agenciamento (no sentido de Deleuze e
Guattari), da articulação, que ele tira o pensamento. Para fazer isso, ele precisa ter
um olhar retrospectivo sobre a técnica anterior, olhando para trás, e perceber o que
é continuidade e o que é ruptura, quais são as categorias com as quais pensar o
objeto técnico. Ele extrai isso do próprio modo de existência, do funcionamento do
objeto.
Seria interessante compararmos a metodologia do Simondon para pensar a
evolução dos objetos técnicos com a do Buckminster-Fuller no livro Critical path,
livro este fundamental para pensar sobre tecnologia. Não poderemos explorar esse
paralelo aqui, mas é bom indicar que os dois estão olhando a questão da evolução,
só que de maneiras diferentes. Os dois estão interessados em ver essa evolução a
partir da questão da informação, e Buckminster-Fuller também vai se interessar
profundamente pela cibernética. Mas Simondon é um pensador, um filósofo,
enquanto Buckminster-Fuller é um inventor. Ele fez muitas invenções, algumas que
só estão sendo concretizadas agora. Ele sabia que cada ramo de tecnologia
(linhagem tecnológica) tem um tempo de gestação e que havia um hiato entre a
invenção e o seu “nascimento social”. Ele se interessou por monitorar esse hiato, e
percebeu que, na década de 70, tudo dispara. Não deve ser por acaso que
Buckminster-Fuller e Simondon são dessa mesma época, quando tudo dispara,
quando a informação se torna mais uma dimensão da matéria, quando a
informação dispara a tecnologia. O pensamento de Buckminster-Fuller é diferente,
paralelo ao do Simondon. Acho que Simondon vai pensar de um jeito mais rigoroso,
cartesiano, do que o Buckminster-Fuller. É legal ver como dois grandes pensadores
da tecnologia pensam esse movimento.
Quem tem 30 anos de idade hoje deveria ler esses dois caras para adquirir um
arsenal teórico para pensar as questões atuais sobre tecnologia. Eu não conheço
outro pensamento mais potente e valioso sobre tecnologia do que o de
Buckminster-Fuller e o de Simondon. Buckminster-Fuller tem ainda um lado
artista que é fundamental. Critical path era livro de cabeceira de John Cage.
Buckminster-Fuller teve uma crise aos 20 anos de idade, tentou se matar, ficou dois
anos isolado estudando Einstein e Leonardo da Vinci, para depois influenciar toda a
ciência contemporânea, como no caso das “Bucky balls” em nanotecnologia.
Pedro: Fico pensando se Buckminster-Fuller e Simondon experimentaram as
drogas típicas da contra-cultura dos anos 1960-70, e se isso teve alguma influência
no seu pensamento.
Laymert: Buckminster-Fuller logo percebeu que, para mudar as pessoas, é mais
fácil mudar o ambiente no qual elas estão do que a consciência delas. Você muda a
cabeça das pessoas mudando o ambiente, a transformação do ambiente transforma
o homem. Quando ele descobriu isso, ele deixou de lado a política e focou na
tecnologia. Não sei se Simondon experimentou drogas, mas nos anos 1960-70 havia
um consenso sobre o valor da alteração da consciência para pensar questões ligadas
às tecnologias da informação. O exemplo mais famoso é o Thimothy Leary.
Podemos também lembrar do papel da cocaína para Freud e Jung pensarem o
inconsciente e do ópio para Baudelaire pensar a modernidade. O Sloterkjik
atualmente fala sobre como o primado da ciência hoje desqualifica outros modos de
conhecimento.
Léo: Acho que o uso de Ritalina como droga acadêmica para aumentar a
produtividade tem a ver com isso. A droga começa a mudar de função quando fica
careta. Aqui não se trata de ampliar a visão da realidade e sim de acompanhar a
pressão da produção.
Laymert: Isso é um efeito de um tipo de relação ciência-mercado. O Pedro falou
sobre o uso de drogas para pensar novas realidades, alcançar novos conhecimentos.
Mas, fazendo ainda outras relações, pensei no caso do delírio do presidente
Schreber, analisado por Freud, e que até muito recentemente era visto como um
exemplo de um grande delírio psicótico cujo interesse principal era a patologia. Mas
há poucos dias fiquei sabendo que as memórias de Schreber começaram a ser lidas
como altíssima poesia, e quando isso acontece ele é tirado da dimensaõ patológica e
passa a ser lido como uma percepção cósmica absolutamente fantástica. O interesse
vai se voltar para o uso da linguagem, para o tipo de percepção está sendo
desenvolvido ali. Mudou o registro. Puxo este exemplo pela questão da ampliação
dos estados alterados.
Rafael: O Deleuze não fazia experimentos com álcool?
Laymert: Deleuze fazia muitas experiências com estados alterados de consciência.
Sartre tomou anfetaminas para escrever O ser e o nada. Há toda uma linhagem de
filósofos que só pensavam o que pensavam por conta dessas experiências. É comum
também que surja um interesse pelo selvagem, pelo primitivo, como no caso do
Artaud, que foi tomar peyote com índios mexicanos. O interesse pela Arte Bruta
(art brut), que voltou a crescer, também está ligado a isso.
Emerson: O uso de drogas não pode ser uma tecnologia?
Laymert: Esses agenciamentos aberrantes dizem alguma coisa sobre um plano da
realidade que escapa à percepção habitual. Existem artistas que trabalham apenas
com o desvio de função de máquinas. Elas funcionam, mas de um jeito outro. As
máquinas fazem coisas absurdas. Tingely fez isso. Pegou seu grande conhecimento
de mecânica para fazer dele a não-produção. Ele produz não-produção. O
interessante é o barato das maquinações. É como se ele pegasse todos esses
agenciamentos e os enlouquecesse. Isso não é contrário ao que estamos estudando
aqui. Desvio de função é justamente a invenção, descontinuidade, reconfiguração
do conjunto, um salto.
Rodolfo: O Simondon vai pensar o funcionamento imanente da máquina para
depois chegar à descrição filosófica. Como passar disso para o simbólico? Como a
técnica vai entrar na cultura?
Laymert: Acordei essa noite com isso na cabeça, pensando sobre a aula. O objeto
técnico tem uma existência real, mas esta existência é ao mesmo tempo concreta e
pensada. É um pensamento concretizado. A técnica é a interface entre o abstrato e o
concreto. O pensamento está dos dois lados. Minha sensação ao ler Simondon é de
ser, ao mesmo tempo, uma coisa muito concreta e muito abstrata. Como? Ora a
própria máquina é abstrata e concreta, simultânea e sucessiva, existe dentro de
mim (na minha cabeça) e fora de mim (no mundo). O que existe objetivamente lá
fora só existe pois foi pensado. Para pensar toda a complexidade objetiva da técnica
é preciso pensar sobre esse pensamento. É completamente objetivo, mas é meta-
objetivo. É preciso pensar sobre o modo de pensar sobre o objeto. Então, é comum
na leitura de Simondon, você começar a ler a frase, mas depois precisar recomeçar
por não ter ficado concreto para você. Aí está o obstáculo.
Emerson: É a falta de cultura técnica. Se já é difícil pensar no caso da
termodinâmica, quando pelo menos podemos colocar um motor em cima da mesa,
fica mais difícil ainda pensar no contexto da informática. Considerando o estágio de
desenvolvimento da informática na época do livro, é impressionante a capacidade
de Simondon de, como Marx, pensar sobre aquilo que ainda estava se gestando.
Laymert: Ele percebeu que havia uma nova revolução em andamento. Ele pensou
o que hoje é banal quando ainda não existia.
Pedro: Eu tenho uma pergunta específica. Queria saber porque no MEOT ele fala
de “individualização” do objeto técnico enquanto em L’individuation à la lumière
des notions de forme et d’individuation (ILNFI) ele usa o termo “individuação”. É a
mesma coisa ou são coisas diferentes?
Laymert: Até onde sei é a mesma coisa. Entendo que Simondon usa o termo
“individualização” quando adota a perspectiva da relação com o indivíduo humano,
e “individuação” quando adota a perspectiva da relação com a informação. São dois
recortes específicos, mas o processo é o mesmo.
[Tenho a impressão de ter perdido alguma coisa aqui na continuidade da fala do
professor]

Em MEOT, Simondon fala de recalque, que é diferente de repressão. Na repressão


você sabe que está sendo afetado e sabe quem está afetando. No recalque não. É da
natureza do recalque que este seja ligado a algo desconhecido, obliterado, mas
existente – existente mas inconsciente. O retorno do recalcado é o retorno de algo
que existia, que estava maquinando (no sentido de Deleuze e Guattari), produzindo
efeitos, mas que estava oculto. Simondon está falando do retorno do recalcado. A
importância da distinção elemento-indivíduo-conjunto é trazer à tona o recalcado.
Temos uma relação mal resolvida com a técnica. Há um iluminismo-
enciclopedismo no Simondon, mas também há no Freud. Retorno do recalcado,
iluminismo.

ALUNA: Tenho uma dúvida sobre a distinção entre conhecimento prático e


conhecimento teórico, que Simondon liga, respectivamente, à criança e ao adulto. O
conhecimento prático não é também reflexivo? Como no caso do computador
yanomami que você mencionou na última aula?
Laymert: É um bom exemplo. Aquele canudo funciona como um agenciamento
técnico. O xamã incorpora imagens, que ele aprendeu a sintonizar. Ele percebe as
imagens passando e consegue descrevê-las, narrá-las. Eles vêem como nós vemos
TV – uma TV fantástica, não a “Grôbs” [risos]. É uma questão de resolução. O
conhecimento que existe aí é aprendido. O xamã sabe acessar o virtual. Eles
compartilham essas imagens captadas. E há perigo nessa captação.
Se os Yanomami são “crianças” na terminologia de Simondon, isso não é um
julgamento de valor, e sim uma distinção conceitual. É de uma passagem do
conhecimento operatório para um conhecimento teórico que se trata. O que veio
antes não é pior do que o que veio depois. Tudo é fundamental.

Sabemos que a história da computação começa com Jacquard, que inventou um


sistema de tecer. É programação digital. O tear é praticamente um computador.
Pois bem, vejamos o caso do povo Tarabu da Bolívia. Quando veio a colonização
espanhola, eles se dividiram em Tarabuco e Jalq’a, tornando-se aquele o povo do
dia e este o povo da noite. Esses povos são conhecidos pelo tecido que eles
produzem. Os Tarabuco, que ficaram com o dia, tramam a vida cotidiana. Suas
estampas seguem um padrão fixo, que pode ser lido como uma estória em
quadrinhos. Eles usam isso na roupa, que assim os identifica a um dos dois povos.
Já o povo da noite só usa preto e vermelho e tece o invisível. É o mundo das
sombras, monstros desenhados em todas as direções, uns dentro dos outros, de
forma que não se sabe o que é figura e o que é fundo. Quando você vê a mulher
Jalq’a tecendo, nota que ela decide na hora o que vai tecer. A figura sai do fundo e
volta. É altíssima computação. É como se ela tivesse um software fabuloso na
cabeça dela. Como o cartão perfurado do Jacquard, só que mais complexo, porque
no Jacquard a imagem é parada, figura e fundo são destacados. Quando não há essa
distinção, há um vai-vem constante. A passagem da imagem está acontecendo na
mão, na cabeça e no tecido, tudo junto no momento em que ela está sendo feita. Há
aqui uma complexidade operatória. Isso estava em desaparecimento e uma
antropóloga chilena viabilizou um atelier para manter a prática, no qual pessoas
podem comprar esses tecidos. A iniciativa foi bem sucedida, e é interessante notar
que, diante da maior independência econômica das mulheres (tradicionalmente,
apenas as mulheres se dedicam a essa atividade), os homens começaram a tentar
produzir estampas também, mas eles não conseguem juntar figura e fundo. Fica
tudo separado.

Emerson: Aproveito para lembrar que a primeira programadora era mulher.


Laymert: O tecido Jalq’a é considerado artesanato. Ninguém considera isso arte
elaborada. Ademais, a tecelã terá que usar as mãos se quiser explicar o que faz. Ela
é uma artesã, no sentido simondoniano. No entanto, a questão da oposição entre
um saber já teorizado e o saber do artesão (ligado diretamente ao conhecimento da
matéria, operatório) é equivocada. Não é oposição, mas sim modos de relação com
a técnica. Se estamos na terceira revolução industrial, precisamos pensar as
relações entre técnicas e tecnologias. A sistematização abstrata dos conhecimentos
e das técnicas agenciados hoje já fundam uma tecnologia que precisa ser pensada.
Thiago: Eu gostaria de fazer uma pergunta sobre o tema da imprescindibilidade ou
não do humano. Na última frase do último capítulo discutido na última aula
(“Gênese do objeto técnico: o processo de concretização”), Simondon diz: “Sem a
finalidade pensada e realizada pelo ser vivo, a causalidade física não poderia,
sozinha, produzir uma concretização positiva e eficaz.” (p.49) Isso para mim
complica a idéia de que a máquina possa substituir o humano e existir
independentemente dele.
Laymert: O humano nunca será supérfluo, mas ele muda de função, de papel. O
humano não é da mesma natureza do técnico. A evolução vital é paralela à técnica,
mas não há analogia. A confusão entre essas duas evoluções foi justamente o erro
da cibernética.
Pedro: Mesmo assim, a idéia de uma diferença radical entre o ser vivo (natural) e o
ser técnico (artificial tendendo à naturalização) parece não ter permitido que
Simondon pensasse toda a artificialização do humano que vem ocorrendo cada vez
mais. Por exemplo, quando Simondon compara os órgãos no indivíduo vivo aos
elementos no indivíduo técnico, ele faz questão de acrescentar a ressalva de que,
enquanto podemos usar livremente elementos de um conjunto dado na composição
de novos indivíduos, não podemos transplantar órgãos entre indivíduos de espécies
diferentes. Ora, atualmente isso é comum, e junto com outras diversas práticas, vai
na direção de uma artificialização do humano com a qual Simondon parece não ter
se preocupado.
Thiago: Sim, me parece que o problema maior não é a humanização das máquinas,
mas sim a mecanização do humano.

Laymert: Mas essa é a mesma questão invertida, coisa sobre a qual já falamos na
última aula.
Thiago: Mas precisamos pensar sobre a questão.
Laymert: Certamente, o problema é a concepção da natureza humana. Simondon
realmente não previu a crescente artificialização. Mas também está havendo uma
extrema concretização. Estamos indo para ambos os lados. Talvez isso implique
numa implosão do enciclopedismo ao qual se refere Simondon. Mas isso não torna
Simondon ultrapassado, inclusive pois, na minha opinião, sua obra maior (ILNFI)
supre essas possíveis limitações de MEOT quando pensa a individuação a partir da
informação.
Rafael: A meu ver, o capitalismo exige a artificialização.
Laymert: De fato, se eu posso fazer uma transformação genética (somática ou
generativa) que me permita melhorar meu desempenho em alguma área na qual eu
possa me destacar, eu faço. Um filme que tratou dessas questões é GATTACA.
Aluno: Existem também casos [ele cita alguns exemplos, entre eles o marcapasso]
em que há hibridismo homem-máquina, quando não se pode saber se o que ocorre
é uma artificialização do humano ou uma naturalização da técnica.
Laymert: Simondon permite entender o que é exclusivo do ser vivo, o que é
exclusivo do ser técnico, e o que é comum a ambos. O que ambos compartilham é a
informação. Esse compartilhado pode ser orientado rumo à concretização ou rumo
à artificialização. O importante é ver a tecnicidade e o papel da informação na
concretização dessa tecnicidade, e isso do ponto de vista humano e não-humano. O
problema não é a artificialização, mas sim as implicações não pensadas dessa
artificialização. Se é o capital que está mandando no processo, então não se trata
mais de concretização técnica. Se a melhoria genética tem uma finalidade exterior,
então não se trata de uma questão de coerência interna. A finalidade precisa ser
interna ao objeto técnico, e não externa. A crítica não deve ser dirigida à técnica,
mas sim à relação entre as acelerações tecnológica e econômica capitalista, ao fato
de que esta está comprometendo aquela. É o feitiço-fetiche da mercadoria.
Diego: Então, em lugar de pensar a diferença entre o vivo e o técnico, temos que
pensar o que eles têm em comum.
Thiago: Mas isso é possível dentro do capital? O capital permite essa nova relação
com as máquinas?
Laymert: O capital tende a orientar a nossa percepção. Mas isso não quer dizer
que nada escape dele. Na verdade, escapa para todo lado. Esse é o problema do
capital. Não se trata de perguntar o que o capital permite ou não permite. O capital
quer controlar para apropriar. É preciso encontrar uma maneira de tirar o corpo
fora. Para isso, precisamos alcançar uma compreensão de nosso lugar nessa trama.
Não devemos esperar nada do capital, exceto a lógica da valorização. Walter
Benjamin já dizia que o capitalismo é “a liquidação de todos os valores”, exceto do
valor abstrato, do “valor + valor”. O caráter incontornável do Marx é ter revelado
que o fetiche da mercadoria rege a sociedade capitalista. Não existe outro valor
além do econômico.
Pedro: Aproveitando o assunto, queria comentar que a relação entre técnica e
economia não parece ter merecido a atenção de Simondon. Ele faz algumas
menções a Marx em MEOT, mas ele geralmente coloca de lado qualquer
problemática econômica dizendo que ela é extra-técnica e, portanto, inessencial ao
seu objeto.
Laymert: Simondon trata da problemática econômica quando diferencia trabalho
de invenção. Podemos dizer que existem dois movimentos imanentes: o do capital e
o da técnica. Parece-me que Simondon trata apenas do movimento imanente da
técnica, ao passo que Marx reificou o trabalho pois não se interessou pela invenção.
Se quisermos encontrar esses dois movimentos imanentes sendo bem trabalhados
em conjunto, teremos que ler o “Tratado de nomadologia” de Deleuze e Guattari
(em Mil Platôs).
Emerson: É possível dizer quem surge antes, se é o objeto técnico ou o conjunto
técnico?
Laymert: Essa é uma pergunta do tipo “o ovo ou a galinha”. Mas o problema da
invenção embaralha as causalidades pois o objeto concretizado é a condição de sua
própria concretização. Todas as condições para uma concretização do movimento
imanente da técnica só estarão presentes quando surgir uma configuração que
permita essa concretização. É uma conjunção. O problema da técnica não é técnico,
é social (num sentido amplo). As condições objetivas de concretização técnica são
extratécnicas.
Diego: Estou pensando sobre o problema da porção humana e da porção técnica
do objeto técnico. No caso do motor parece mais fácil fazer essa distinção do que no
caso das redes informacionais. Qual é o papel do humano numa rede
informacional?
Laymert: É preciso olhar não para os humanos e os hão-humanos, mas para as
maquinações que passam de um para o outro. O fato de que podemos pensar em
maquinações diferentes para humanos e não-humanos não significa que não
possamos pensar ao mesmo tempo num nível comum a ambos.
Aluno: Um software também pode ser pensado em seu processo de concretização.
Laymert: Sim, evidentemente, e aí está o interesse dos movimentos de software
livre nas suas diversas variantes mais ou menos radicais. O software livre busca o
movimento da tecnicidade, em oposição à lógica do capital.
Aluna: Mas Simondon supõe uma filosofia não-autocrática das máquinas dentro
do capitalismo?
Laymert: Sim, pois o capitalismo não será superado sem uma conscientização dos
modos de existência dos objetos técnicos. As máquinas não podem ser tratadas
como escravas, o que foi feito tanto pelo capitaliso quanto pelo comunismo.
Emerson: É importante notar que Simondon nunca fala de “inovação”, que é o
termo privilegiado pelo capitalismo contemporâneo, ele fala apenas de “invenção”.
Laymert: Sim, o inventor é aquele que olha para um incompatível, vê a articulação
de forças, e imagina uma alternativa, outra configuração, que promova consistência
e coerência interna.
[Após mais alguns comentários que infelizmente escaparam ao redator, Laymert
encaminha o encerramento da aula e combina a leitura para a próxima aula]

Laymert: Buckminster-Fuller percebeu muito cedo que teria que escolher entre
fazer dinheiro ou fazer sentido. Ele escolheu fazer sentido. Se você quiser se
revoltar contra uma ordem social, primeiro precisa saber como funciona esta
ordem. Daí a importância contemporânea de Simondon para nós que vivemos em
um mundo cada vez mais controlado por meio das tecnologias da infornação. Para a
próxima aula, proponho discutirmos o segundo capítulo da segunda parte (“Função
reguladora da cultura na relação entre o homem e o mundo dos objetos técnicos:
problemas atuais”).
Redator: Pedro P. Ferreira