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DEBATE REVISTA DE SOCIOLOGIA E POLÍTICA Nº 23: 155-164 NOV.

2004

QUE É GUETO?
1
CONSTRUINDO UM CONCEITO SOCIOLÓGICO

Loïc Wacquant

RESUMO
Ao invés de produzirem um conceito analiticamente robusto de “gueto”, as Ciências Sociais utilizam o
termo de maneira descritiva, não raro lhes conferindo significados do senso comum emprestados das
sociedades em que o fenômeno é identificado. A partir da produção historiográfica sobre a diáspora judaica
na Europa renascentista, da Sociologia da experiência negra na metrópole fordista dos EUA e da
Antropologia da marginalidade étnica na Ásia Oriental, este artigo constrói um conceito relacional de
gueto como um instrumento bifacetado [Janus faced] de cercamento e controle etno-racial. Por meio desse
procedimento, o gueto revela-se como um dispositivo sócio-organizador composto de quatro elementos
(estigma, limite, confinamento espacial e encapsulamento institucional) que emprega o espaço para
reconciliar seus dois propósitos contraditórios: exploração econômica e ostracismo social. O gueto não é
uma “área natural”, produto da “história da migração” (como Louis Wirth defendia), mas sim uma forma
especial de violência coletiva concretizada no espaço urbano. A articulação do conceito de gueto possibilita
o desvelamento da relação entre “guetização”, pobreza urbana e segregação, assim como o esclarecimento
das diferenças estruturais e funcionais entre guetos e aglomerações étnicas. Esse proceder também possibilita
que realcemos o papel do gueto como matriz e incubador simbólico da produção de uma identidade maculada,
indicando que seu estudo seja feito por analogia a outras instituições voltadas para o confinamento forçado
de grupos despossuídos e desonrados como o campo de refugiados, a reserva e a prisão.
PALAVRAS-CHAVE: gueto; conceituação; cercamento etno-racial; controle social.

I. INTRODUÇÃO nhuma dessas linhas de pesquisa tomou para si o


ônus de especificar o que faz do gueto uma for-
Enquanto as Ciências Sociais fazem uso cor-
ma social, ou quais de suas características são
rente do termo “gueto” de maneira descritiva, elas
constitutivas e quais são derivativas; pelo contrá-
paradoxalmente não produziram uma definição
rio, as diferentes pesquisas têm, em suas épocas
analítica para o mesmo. Tanto na historiografia
respectivas, adotado a definição do senso comum
da diáspora judaica do começo da era moderna e
que prevalece na sociedade examinada – o que
durante o nazismo, como na Sociologia da expe-
explica o fato de o conceito, que parece óbvio,
riência negra na metrópole do século XX e na
não aparecer em grande parte dos dicionários de
Antropologia sobre a marginalidade étnica na Áfri-
Ciências Sociais, nem mesmo nas edições anteri-
ca e na Ásia Oriental, ou seja, nas três áreas em
ores desta enciclopédia.
que o termo é empregado, o “gueto” denota uma
área urbana restrita, uma rede de instituições liga- II. UM CONCEITO OPACO E MUTANTE
das a grupos específicos e uma constelação cul-
Dessa maneira, o campo semântico do con-
tural e cognitiva (valores, formas de pensar ou
ceito “gueto” na sociedade e nas Ciências Sociais
mentalidades) que implica tanto o isolamento só-
norte-americanas, cujo domínio da investigação
cio-moral de uma categoria estigmatizada quanto
sobre esse tópico tem sido tanto quantitativo quan-
o truncamento sistemático do espaço e das opor-
to temático, tem sucessivamente se expandido e
tunidades de vida de seus integrantes. Mas ne-
se contraído, acompanhando assim a maneira
como elites políticas e intelectuais conceituam o
nexo perverso entre etnia e pobreza no meio ur-
bano (WARD, 1989). Inicialmente, na última me-
1 Este artigo será publicado em Smelser e Baltes (2004). tade do século XIX, o termo era usado para refe-
Tradução de Zena Eisenberg e João Feres Júnior. rir-se a concentrações residenciais de judeus eu-

Recebido em 8 de novembro de 2003


Aprovado em 10 de junho de 2004
Rev. Sociol. Polít., Curitiba, 23, p. 155-164, nov. 2004
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QUE É GUETO?

ropeus nos portos do Atlântico e era claramente e passou a referir-se aos enclaves compactos e
distinto de slum2 enquanto área de moradia pre- saturados a que os afro-americanos eram relega-
cária e de patologia social. O conceito expandiu- dos quando migravam para os centros industriais
se durante a Progressive Era e passou a incluir do Norte dos EUA. Havia então um forte contras-
todos os distritos urbanos degradados3 onde imi- te entre o crescimento de uma “metrópole negra
grantes exóticos juntavam-se – mais especifica- no seio de outra branca”, onde os negros desen-
mente, imigrantes pobres do Sudeste europeu e volviam instituições distintas e paralelas para com-
afro-americanos fugindo do regime Jim Crow de pensar e proteger-se do isolamento imposto pelos
submissão de castas no Sul dos EUA. Na medida brancos (DRAKE & CAYTON, 1945), e a disper-
em que o termo refletia preocupações da classe são residencial dos euro-americanos de descen-
dominante com relação à assimilação desses gru- dência estrangeira. Durante o ápice das revoltas
pos ao padrão anglo-saxão predominante no país, negras dos anos 1960, Kenneth Clark (1965, p.
o “gueto” referia-se, nesse contexto, à intersecção 11) escreveu sobre a relação de subordinação etno-
entre bairros étnicos e slums, em que a segrega- racial e fez dela o epicentro de sua análise do Gueto
ção juntava-se ao abandono físico e à superpo- escuro e seus infortúnios: “Os EUA adicionaram
pulação, exacerbando assim males urbanos como ao conceito de gueto a restrição das pessoas a
a criminalidade, a desintegração familiar, a pobre- uma área específica e a limitação de sua liberdade
za e a falta de participação na vida nacional. O de escolha com base na sua cor. As paredes invi-
conceito recebeu autoridade científica com o síveis do gueto escuro foram erigidas pela socie-
paradigma ecológico da Escola de Sociologia de dade branca, por aqueles que têm o poder”. Esse
Chicago. Em seu livro clássico, The Ghetto, Louis diagnóstico foi confirmado pela Comissão Kerner
Wirth (1928, p. 6) junta ao gueto judeu da Europa (1989 [1968], p. 2), uma força-tarefa supra-par-
medieval outros guetos: Pequenas Sicílias, Peque- tidária indicada pelo Presidente Johnson, cujo re-
nas Polônias4, Chinatowns e cinturões negros das latório oficial sobre a “desordem civil” que abalou
cidades grandes, assim como “áreas do vício”, a metrópole norte-americana ganhou fama por
pululando com tipos marginais tais como vaga- culpar a intransigência racial dos brancos pelo fato
bundos, boêmios e prostitutas – todas eles consi- de os EUA estarem “transformando-se em duas
deradas áreas criadas “naturalmente” a partir de sociedades, uma negra e outra branca – segregadas
um desejo universal de diferentes grupos de “pre- e desiguais”. Contudo, nas duas décadas seguin-
servar seus hábitos culturais peculiares”, e cada tes, o gueto escuro entrou em decadência devido
uma cumprindo sua “função” específica no gran- à desindustrialização e às políticas estaduais de
de organismo urbano. redução da previdência e compactação urbana,
tornando-se um território abandonado, foco de
O conceito foi modificado depois da II Guer-
terror e desintegração. Além disso, na medida em
ra, sob a pressão do movimento dos direitos civis
que a dominação racial tornava-se cada vez mais
difusa e difratada através do prisma de classe, o
2 Um slum é uma área de dilapidação imobiliária que, por
conceito foi substituído por uma díade maneirada
pelo eufemismo geográfico “centro urbano” e pelo
extensão, tende a designar uma vizinhança de má reputação
e indesejável para as classes baixas. Essa palavra descreve neologismo “underclass”5, este último referindo-
um tipo de ocupação urbana similar à das favelas brasilei- se a um substrato de residentes do gueto associa-
ras, mas que também pode ser aplicada para descrever algo dos a comportamentos anti-sociais, altas taxas de
similar aos cortiços (nota dos tradutores). desemprego e isolamento social (WILSON, 1987).
3 O termo no original é “inner city”, uma expressão que Nos anos 1990, a neutralização do termo “gueto”
nomeia os indesejados bairros centrais das cidades norte- na pesquisa orientada ao planejamento de políti-
americanas, ocupados primeiramente pelas indústrias e cas públicas culminou com o expurgo de qual-
depois pelas populações de classes baixas e que, a partir da quer traço de raça ou poder, redefinindo assim o
década de 1950, começaram a ser abandonados pela bran- termo como qualquer grupo de pobreza extrema,
cos (“white flight”), o que acarretou uma desvalorização
imobiliária drástica, e conseqüente deterioração do tecido
independente de sua composição populacional ou
urbano (N. T.). institucional. Dessa forma, o conceito de gueto
4 No original, “Little Sicilies, Little Polands”: uma referên-
cia aos nomes que alguns bairros étnicos receberam nos
Estados Unidos, em relação às regiões ou aos países de 5 Para uma exegese sociológica dessa noção, cf. Wacquant
onde vieram essas etnias (N. T.). (1997) (N. T.).

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regrediu à sua condição anterior de slum. tigo grave caso não o fizessem. Essas medidas
eram desenhadas como alternativa à expulsão, pois
O significado do termo foi ainda mais dissol-
assim a cidade-Estado beneficiava-se economica-
vido ao ser aplicado ao estudo dos padrões sócio-
mente da presença dos judeus (incluindo aluguel,
culturais específicos dos homossexuais em cida-
impostos e coletas forçadas) enquanto protegia
des de sociedades avançadas “em resposta ao es-
seus residentes cristãos da contaminação por cor-
tigma e à libertação gay”, depois das revoltas de
pos concebidos como sujos e sensualmente peri-
Stonewall (LEVINE, 1979, p. 31); na Europa
gosos, que carregavam sífilis e eram vetores de
Ocidental, o conceito foi dissolvido por meio de
heresia, além de portar a mácula da usura e do
animados debates científicos e políticos sobre as
dinheiro, algo que a Igreja Católica igualava à pros-
ligações entre a imigração pós-colonial,
tituição (SENNETT, 1994, p. 224).
reestruturação econômica pós-industrial e a
dualização urbana (MINGIONE, 1996). Mesmo Esse modelo veneziano disseminou-se pelas
assim, pode-se extrair dessas diferentes literatu- cidades da Europa e pelas margens do Mediterrâ-
ras algumas semelhanças e propriedades recor- neo (JOHNSON, 1997, p. 235-245). Se por um
rentes na construção de um conceito relacional lado a fixação e a exclusão territorial acarretados
de gueto como um instrumento de cercamento e por esse processo trouxeram a superpopulação, a
controle, o que esclarece grande parte da confu- deterioração das condições de moradia, o empo-
são que o circunda e faz dele um instrumento brecimento e altas taxas de morbidade e mortali-
poderoso de análise social da dominação etno-ra- dade, por outro levaram também ao florescimento
cial e da desigualdade urbana. Para isso, basta que institucional e à consolidação cultural. À medida
retornemos às origens históricas da palavra e do que os judeus respondiam a restrições cívicas e
fenômeno que o termo descrevia, na Veneza da ocupacionais cada vez maiores, criavam uma teia
Renascença. extensa de organizações que serviam como ins-
trumentos de ajuda coletiva e de solidariedade:
III. UMA INSTITUIÇÃO BIFACETADA DE
mercados, associações empresariais, grupos de
CERCAMENTO E CONTROLE ÉTNICO
caridade e de ajuda e locais de adoração e de estu-
Cunhado por derivação do italiano giudecca, dos religiosos. O Judenstadt de Praga, o maior
borghetto ou gietto (ou do alemão gitter ou do gueto da Europa do século XVIII, tinha até sua
hebreu talmúdico get, de etimologia controversa), própria prefeitura, o Rathaus, que era emblema
a palavra “gueto” inicialmente se referia à consig- da autonomia relativa e força comunitária de seus
nação forçada de judeus a distritos especiais por residentes. Às suas sinagogas confiava-se não só
parte de autoridades políticas e religiosas da cida- a liderança espiritual, como também a supervisão
de. Na Europa medieval, os judeus comumente se administrativa e judicial da população. A vida so-
agrupavam em uma área urbana, onde adminis- cial do gueto judeu era voltada para dentro, quase
travam seus negócios e seguiam seus costumes. que “superorganizada” (WIRTH, 1928. p. 62), de
Essas áreas eram doadas ou vendidas como um maneira que reforçava tanto a integração interna
privilégio para atraí-los para as cidades e princi- como a exclusão do externo.
pados onde ocupavam cargos importantes de cre-
Podem ser detectados nesse momento inau-
dores, fiscais e comerciantes. No entanto, entre
gural os quatro elementos que constituem o gueto,
os séculos XIII e XVI, no início dos motins cau-
isto é, o estigma, o limite, o confinamento espa-
sados pelas Cruzadas, os favores aos poucos tor-
cial e o encapsulamento institucional. O gueto é
naram-se obrigações (STOW, 1982). Em 1516, o
um meio sócio-organizacional que usa o espaço
Senado de Veneza ordenou que todos os judeus
com o fim de conciliar dois objetivos antinômicos:
fossem relocados para o ghetto nuovo, uma fun-
maximizar os lucros materiais extraídos de um
dição abandonada em uma ilha isolada, cercada
grupo visto como pervertido e perversor e
por dois muros altos cujas janelas exteriores e
minimizar o contato íntimo com seus membros, a
portas eram vedadas. Vigias guardavam suas duas
fim de evitar a ameaça de corrosão simbólica e de
pontes e patrulhavam de barco os canais adjacen-
contágio. Esse mesmo raciocínio duplo de explo-
tes. Os judeus eram autorizados a sair durante o
ração econômica cum ostracismo social dominou
dia para suas ocupações, mas tinham que vestir
a gênese, a estrutura e o funcionamento do gueto
um traje distintivo e retornar para dentro dos
afro-americano na metrópole fordista durante a
portões antes do pôr do sol, sob pena de um cas-

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maior parte do século XX. Negros eram recruta- coleira amarela e a andar descalços, a ficar de
dos nas cidades norte-americanas depois da I quatro quando falassem com pessoas de outras
Guerra Mundial pelo seu trabalho não qualificado, castas e a casar somente com pessoas da mesma
que era indispensável nas indústrias que forma- casta. Apesar de oficialmente emancipados em
vam o centro da crescente economia industrial. 1871, ao migrarem para cidades foram forçados
Ao mesmo tempo, não havia perigo de eles mistu- a restringir-se a bairros próximos aos depósitos
rarem-se ou confraternizarem com os brancos, de lixo, crematórios, prisões e açougues, lugares
que os consideravam vis, naturalmente inferiores vistos como ninhos de criminalidade e imoralida-
e com orgulho étnico maculado pela escravidão. de. Excluídos de empregos na indústria, sobrava-
À medida que os negros migravam do Sul aos lhes apenas os empregos mal pagos e de baixo
milhões, a hostilidade branca aumentava e os pa- prestígio. Os burakumins eram mandados para
drões de discriminação e segregação, que até en- escolas separadas e compelidos à endogamia de-
tão eram inconsistentes e limitavam-se à esfera vido à pecha perene em seu sangue, prática feita
informal, não só se tornaram mais rígidos na possível por meio dos “registros de família”
moradia, escola e nas acomodações públicas, como (DEVOS & WAGATSUMA, 1966). No fim dos
também se estenderam à economia e à política anos 1970, de acordo com a Liga de Defesa dos
(SPEAR, 1968; OSOFSKY, 1971). Os afro-ame- Burakumins [Burakumin Defense League], esti-
ricanos então não tiveram escolha, a não ser fugir mava-se que eles já eram 3 milhões, todos confi-
para dentro do perímetro do Cinturão Negro nados em 6 000 guetos espalhados por aproxima-
[Black Belt] e tentar desenvolver uma rede de ins- damente 1 000 cidades da ilha.
tituições próprias que cuidassem das necessida-
Espalhados por três continentes e cinco paí-
des básicas da comunidade refugiada. Surgiu as-
ses, casos como os dos judeus, afro-americanos
sim uma cidade paralela fundamentada em igrejas
e burakumins demonstram que o gueto não é, a
e jornais para negros, clubes negros, pensões para
despeito de Wirth (1928, p. 284-285), uma “área
negros, escolas e empresas para negros e associ-
natural” que surge pela adaptação ambiental go-
ações políticas e civis negras. Essa cidade parale-
vernada por uma lógica biótica “parecida com a
la ficava no centro da metrópole branca, ainda
cooperação competitiva em que se baseia a co-
que isolada por uma cerca construída por costu-
munidade vegetal”. O erro da primeira Escola de
mes, dissuasão legal, discriminação econômica
Chicago consiste em “converter história em his-
(por bancos, corretores e pelo Estado) e, tam-
tória natural” e considerar a “guetização” uma
bém, da violência manifesta dos açoites, bombas
“manifestação da natureza humana” que seria parte
incendiárias e motins que intimidavam aqueles que
da “história das migrações” (idem, p. 285), quan-
ousassem atravessar a linha racial.
do na verdade é uma forma muito peculiar de ur-
Esse paralelismo institucional imposto, que se banização modificada por relações assimétricas de
predicava no isolamento espacial inflexível – e não poder entre grupos etnoraciais: uma forma espe-
na pobreza extrema, condições subumanas de cial de violência coletiva concretizada no espaço
moradia, diferença cultural ou no simples isola- urbano. Essa “guetização” não é um processo
mento residencial –, é o que tem diferenciado os “descontrolado e sem concepção”, como Robert
afro-americanos de outros grupos na história dos E. Park defendeu em seu prefácio para O gueto
EUA, como já sugeriram importantes estudiosos (idem, p. viii). Isso ficou claro a partir da II Guerra
da experiência urbana negra, de W. E. B. Du Bois quando o gueto negro foi reconstruído de cima
e E. Franklin Frazier a Drake e Cayton, Kenneth para baixo por meio de políticas públicas de habi-
Clark e Oliver Cox (WACQUANT, 1998). Esse tação, renovação urbana e desenvolvimento eco-
fenômeno também pode ser observado na trajetó- nômico das periferias, ações que visavam reme-
ria dos burakumins na cidade japonesa após o fim diar a separação rígida entre os negros e brancos
da era Tokugawa (HANE, 1982). Na condição de (HIRSCH, 1983). A “guetização” é ainda mais agu-
descendentes do eta, a casta mais baixa das qua- da no contexto das “cidades de casta” construídas
tro que compõem o sistema feudal japonês, os pelo poder colonial para demarcar o espaço da
burakumins eram intocáveis aos olhos das religi- organização étnica hierárquica de suas posses
ões budista e xintoísta e ficavam confinados por transoceânicas, como Rabá sob o domínio fran-
lei, desde o pôr do sol até o levantar, a pequenos cês no Marrocos ou a Cidade do Cabo depois da
vilarejos (buraku). Lá eram obrigados a vestir uma passagem do Group Areas Acts [Leis de Áreas de

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Grupos] durante o regime do apartheid na África gares de miséria endêmica e não raro aguda, devi-
do Sul (AUB-LUGHOD, 1980; WESTERN, 1982). do à carência de espaço, densidade demográfica e
da exploração econômica e do maltrato generali-
O reconhecimento de que o gueto é um pro-
zado de seus residentes, não implica que o gueto
duto e um instrumento de poder de um grupo per-
necessariamente seja um lugar de destituição ou
mite-nos a apreciação de que na sua forma com-
um lugar uniformemente desprovido. O
pleta ele é uma instituição de duas faces, na medi-
Judengasse de Frankfurt, instituído em 1490 e
da em que serve a funções opostas para dois co-
abolido em 1811, passou tanto por períodos de
letivos aos quais une em uma relação assimétrica
prosperidade como de penúria e continha áreas
de dependência. Para a categoria dominante, sua
de opulência acentuada, na medida em que judeus
função é circunscrever e controlar, o que se tra-
da corte ajudavam a cidade a tornar-se um centro
duz no que Max Weber chamou de “cercamento
atrativo de troca e finanças – parte de seu encanto
excludente” da categoria dominada. Para esta úl-
até hoje vem de ter sido o lar da dinastia dos
tima, no entanto, trata-se de um recurso integrador
Rothschild (WIRTH, 1928, cap. 4). James Weldon
e protetor na medida em que livra seus membros
Johnson (1937, p. 4) afirmou que o Harlem nos
de um contato constante com os dominantes e
anos 1930 não era um slum ou periferia, mas a
permite colaboração e formação de uma comuni-
“capital cultural” dos negros dos EUA, onde “as
dade dentro da esfera restrita de relações criada.
vantagens e oportunidades dos negros eram mai-
O isolamento imposto pelo exterior leva a uma
ores do que em qualquer outro lugar do país”. Da
intensificação do intercâmbio social e cultural den-
mesma forma o “Bronzeville” de Chicago era muito
tro do gueto. O gueto é o produto de uma dialética
mais próspero em meados do século do que as
móvel e tensa entre a hostilidade externa e a afini-
comunidades negras do Sul e continha também a
dade interna que se expressa como uma
burguesia afro-americana mais afluente da época
ambivalência no nível do consciente coletivo. Por
(DRAKE & CAYTON, 1945). O fato de um gueto
exemplo, mesmo que os judeus europeus protes-
ser pobre depende de fatores externos como a
tassem contra sua relegação a distritos isolados,
demografia, ecologia, políticas públicas e o esta-
eles também tornaram-se profundamente ligados
do da economia que o circunda.
a esses lugares, apreciando a relativa segurança e
as formas especiais de vida coletiva por eles pro- Por outro lado, nem todos os distritos
porcionadas. O gueto de Frankfurt do século XVIII despossuídos e dilapidados são necessariamente
não era “apenas um cenário de confinamento e guetos. Por exemplo, os bairros brancos deca-
perseguição, mas um lugar onde os judeus esta- dentes das cidades desindustrializadas do Centro-
vam completamente em casa” (GAY, 1992, p. 67). Oeste norte-americano, as Midlands na Inglater-
Assim também os negros tinham orgulho de ter ra, os vilarejos rurais deprimidos na Alemanha
“construído uma comunidade à sua própria ima- Oriental e Sul da Itália e as villa miserias da gran-
gem”, mesmo ressentindo o fato de tê-lo feito sob de Buenos Aires no fim do século XX são todos
coerção, resultado da intransigente exclusão bran- territórios de decadência e decomposição da clas-
ca, cujo objetivo era espantar o fantasma da “igual- se trabalhadora, mas não cápsulas étnicas
dade social” representado pela miscigenação dedicadas a manter um grupo excluído numa re-
(DRAKE & CAYTON, 1945, p. 115). lação de subordinação separatista. Independente-
mente de sua pobreza, eles não são guetos, a não
IV. DISTINGUINDO POBREZA, SEGREGAÇÃO
ser no sentido metafórico. Se índices extremos
E AGLOMERAÇÃO ÉTNICA
de pobreza fossem suficientes para constituir um
Articular o conceito de gueto permite-nos dis- gueto, então grande parte da União Soviética e a
tinguir a relação entre “guetização”, pobreza ur- maioria das cidades do Terceiro Mundo seriam
bana e segregação e, assim, esclarecer as diferen- guetos gargantuanos. As favelas das metrópoles
ças estruturais e funcionais entre os guetos e os brasileiras, que são freqüentemente retratadas
bairros étnicos. Também nos permite salientar o como refúgios de abandono e desorganização, nada
papel do gueto como um incubador social e ma- mais são do que bairros da classe trabalhadora
triz na produção de uma identidade maculada. com laços bem definidos tanto com a indústria
como com os bairros afluentes, aos quais forne-
1. A pobreza é uma característica freqüente, po-
cem serviços caseiros. Assim também ocorre nos
rém derivativa e variável, dos guetos: o fato de a
ranchos da Venezuela e nas poblaciones do Chile,
maioria dos guetos historicamente terem sido lu-

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onde as famílias que vivem nesses acampamen- trado no fim que levaram os banlieues franceses
tos irregulares variam muito de cor e têm laços depois dos anos 1980. Apesar de serem extensa-
genealógicos fortes com famílias de maior poder mente deplorados como guetos pelo discurso pú-
aquisitivo. Elas não são “social ou culturalmente blico e de seus componentes compartilharem a
marginalizadas, mas sim estigmatizadas e excluí- percepção da exclusão em um “espaço penaliza-
das de um sistema de classes fechado” do”, pleno de tédio, angústia e desespero
(PERLMAN 1976, p. 195; também QUIJANO, (PÉTONNET, 1982), a relegação de seus habi-
1968). Dado que nem todos os guetos são pobres tantes a essas concentrações deprimidas de mo-
e que nem todas as áreas pobres são guetos, não radia popular na periferia urbana é baseada em
se pode simplificar e confundir a análise da classe e não em etnia. Como resultado, as con-
“guetização” com o estudo de slums e outros dis- centrações são culturalmente heterogêneas, tipi-
tritos de classe baixa da cidade. camente contendo tanto famílias francesas nati-
vas como imigrantes de dezenas de outras nacio-
2. Assim, todos os guetos são segregados mas nem
nalidades. Seus habitantes sofrem não de duplica-
todas as áreas segregadas são guetos. Os bairros
ção institucional, mas, pelo contrário, de uma fal-
seletos do Oeste de Paris, os subúrbios exclusi-
ta de estrutura organizacional que seja capaz de
vos da classe alta de Boston ou de Berlim, as “co-
sustentá-los na ausência de um emprego rentável
munidades cercadas” que cresceram muito em
e de serviços públicos adequados. Assim como as
cidades globais como São Paulo, Toronto e Miami,
cidades britânicas e holandesas e os conglomera-
são todos iguais em termos de riqueza, renda,
dos de imigrantes da Alemanha urbana ou da Itá-
ocupação e em muitos casos etnia, mas nem por
lia, os banlieues franceses são, sociologicamen-
isso são guetos. A segregação neles é inteiramente
te, antiguetos (WACQUANT, 2001).
voluntária e eletiva e por isso não são inclusivos
ou perpétuos. Enclaves fortificados de luxo pro- 3. Guetos e bairros étnicos têm estruturas diferen-
porcionam “segurança, exclusão, homogeneidade tes e funções opostas: se movermos a análise para
social, amenidades e serviços”, que permitem que além da perspectiva gradativa e focarmos o pa-
famílias burguesas escapem do que consideram drão peculiar das relações sociais dentro do gueto,
“o caos, sujeira e o perigo da cidade” (CALDEI- ou entre o gueto e a cidade que o circunda, vere-
RA 2000, p. 264-265). Essas ilhas de privilégio mos uma diferença grande entre gueto e os con-
servem para aumentar, e não deprimir, as oportu- glomerados étnicos e bairros de imigrantes que se
nidades de seus residentes, assim como para pro- formaram nas metrópoles de diversos países. As
teger seus modos de vida. Elas irradiam uma aura “colônias” de estrangeiros da Chicago do entre-
positiva de superioridade e não uma sensação de guerras, que Robert Park, Ernest Burgess e Louis
infâmia ou de pavor. Wirth e, mais tarde, a tradição liberal da Sociolo-
gia e historiografia assimilacionistas confundiram
Isso sugere que a segregação residencial é uma
com guetos brancos, eram na verdade constela-
condição necessária mas não suficiente para a
ções móveis e dispersas, advindas da afinidade
“guetização”. Para que um gueto surja, o
cultural e concentração ocupacional. A segrega-
confinamento espacial deve ser primeiramente
ção nessas constelações era parcial e porosa, um
imposto e abrangente e, em segundo lugar, deve
produto da solidariedade dos imigrantes e da atra-
revestir-se de uma série de instituições bem defi-
ção étnica, e não imposta por um grupo hostil
nidas e duplicativas que permitam ao grupo que
externo a elas. Assim, a separação residencial não
se isola reproduzir-se dentro do perímetro esta-
era uniforme ou rígida entre esses grupos: em
belecido. Se os negros são o único grupo étnico a
1930, quando o bairro negro de Bronzeville con-
ser “hipersegregado” na sociedade norte-ameri-
tinha 92% da população afro-americana da cida-
cana (MASSEY & DENTON, 1992), isso ocorre
de, a “Pequena Irlanda” de Chicago continha uma
porque eles são a única comunidade a combinar
mistura étnica de 25 nacionalidades compostas
segregação involuntária com paralelismo
apenas por um terço de irlandeses e apenas 3% da
organizacional, o que os prenderam dentro de um
descendência irlandesa da cidade (PHILPOTT,
cosmos social separado e inferior, o que por sua
1978, p. 141-145).
vez acentuou o seu isolamento físico. Mas até a
segregação involuntária na base da ordem urbana Além disso, as instituições características dos
não produz guetos eo ipso – e isso está demons- enclaves de imigrantes europeus viravam-se para

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fora: elas operavam de maneira a facilitar a adap- de as diferenças de classe e corrói as diferenças
tação de seus habitantes ao novo meio da metró- culturais dentro da categoria etno-racial. Assim, o
pole norte-americana. As instituições não repro- ostracismo cristão fundiu os judeus asquenazes
duziam as organizações do país de origem e com os sefarditas sob uma identidade judia que
tampouco perpetuavam o isolamento social e a evoluiu em um “tipo social” e em uma “forma de
distinção cultural, que tipicamente desapareciam pensar” comum aos diversos guetos da Europa
após duas gerações, conforme as pessoas aumen- (WIRTH, 1928, p. 71-88; 1964). O gueto escuro
tavam seu contato com os norte-americanos e dos EUA também acelerou a amalgamação sócio-
subiam de classe social ou mudavam-se para bair- simbólica de mulatos e negros transformando-os
ros melhores (NELLI, 1970; um processo similar em uma “raça” única e também transformou a
de difusão espacial por meio da incorporação de consciência racial em um fenômeno de massa,
classe de belgas, italianos, poloneses e imigrantes motivando a mobilização da comunidade contra a
ibéricos na cidade industrial francesa é analisado contínua exclusão de classe (DRAKE &
por NOIRIEL, 1989). Tudo isso contrasta forte- CAYTON, 1945, p. 390).
mente com a exclusividade racial imutável e a
Ainda assim, essa identidade unificada acaba
alteridade institucional perene do Cinturão Negro
sendo marcada pela ambivalência, já que continua
norte-americano. Esse exemplo de Chicago de-
maculada pelo fato de a “guetização” proclamar o
monstra o fato de o bairro de imigrantes e de o
que Weber chama de “avaliação negativa da hon-
gueto terem funções diametralmente opostas: o
ra” do grupo confinado. Dessa maneira, ela pro-
primeiro serve de apoio para a assimilação por
move em seus membros sentimentos de dúvida e
meio do aprendizado cultural e da mobilidade só-
ódio em relação a si mesmos, dissimulação de sua
cio-cum-espacial, enquanto o segundo é uma ilha
origem, desvalorização perniciosa de si mesmos e
de isolamento material e simbólico direcionada à
até a identificação fantasiosa com o dominador
desassimilação. O primeiro é melhor representa-
(CLARK, 1965, p. 63-67). Porque a “guetização”
do pela figura de uma “ponte” e o segundo por
é tipicamente ligada a etnia, segregação e pobre-
uma “parede”.
za, fica difícil discernir empiricamente quais das
V. UMA MÁQUINA DE IDENTIDADE MACU- propriedades exibidas pelos habitantes do gueto
LADA são “traços culturais específicos ao gueto”, em
oposição às propriedades expressivas de classe,
O gueto não só é o meio concreto de
comunidade ou masculinidade (HANNERZ, 1968,
materialização da dominação etno-racial por meio
p. 79). Assim também formas culturais que são
de uma segmentação espacial da cidade, como
fabricadas no gueto atravessam as fronteiras e
também é uma máquina de identidade coletiva
circulam pela sociedade que o circunda, onde
potente, pois ajuda a incrustar e a elaborar justa-
freqüentemente se transformam em sinais mani-
mente a divisão da qual é expressão de duas for-
festos de rebelião cultural e excentricidade social
mas complementares e associadas. Primeiramen-
– como se vê na fascinação de adolescentes bur-
te, o gueto reafirma o limite entre a categoria
gueses mundo afora pelo “gangster rap” afro-
marginalizada e a população que a circunda, uma
americano. Isso dificulta a distinção entre formas
vez que intensifica o abismo sócio-cultural entre
culturais efetivamente usadas pelos residentes de
elas: ele faz que seus residentes sejam objetiva e
guetos e a imagem pública delas que é difundida
subjetivamente diferentes de outros residentes
na sociedade como um todo, inclusive por meio
urbanos ao submetê-los a condições únicas, de
de escritos acadêmicos.
maneira que os padrões de cognição e conduta
sejam compreendidos como singulares, exóticos É útil pensar o gueto e o conglomerado étnico
ou até aberrantes (WILSON, 1987, p. 7-8; como duas configurações ideal-típicas situadas
SENNETT, 1994, p. 244). Isso só serve para ali- em extremidades opostas, em um contínuo em que
mentar as crenças preconceituosas já existentes. diferentes grupos situam-se ou pelo qual transi-
Em segundo lugar, o gueto é um motor de com- tam, dependendo da intensidade com que as for-
bustão cultural que derrete as divisões dentro do ças do estigma, do limite, do confinamento espa-
grupo confinado e alimenta o orgulho coletivo ao cial e da duplicação e completude institucional
mesmo tempo em que fortifica o estigma que o coalescem-se mutuamente e impõem-se sobre
assola. A armadilha espacial e institucional escon- eles. A “guetização” torna-se então uma variável

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QUE É GUETO?

de níveis múltiplos para a análise comparativa e etno-racial pode aumentar a ponto de o gueto ser-
especificação empírica. Ela pode ficar atenuada a vir como um aparato que simplesmente aloja o
ponto de, por meio da erosão gradativa de seus grupo ou prepara-o para a pior forma de ostracis-
limites espaciais, sociais e mentais, involuir e tor- mo, i. e., sua destruição física. O primeiro cená-
nar-se uma concentração étnica eletiva, operando rio ilustra a evolução do “hipergueto” afro-ameri-
como propulsora na integração estrutural e/ou cano na era pós-direitos civis: tendo perdido sua
assimilação cultural dentro da formação social função de reservatório para o poder do emprego
geral. Isso descreve bem a trajetória das China- desqualificado, ele ligou-se de maneira simbiótica
towns dos Estados Unidos do começo do século ao sistema carcerário hipertrofiado dos Estados
XX (ZHOU, 1994) e o status do enclave imigran- Unidos, por meio de uma relação de homologia
te cubano em Miami, que promoveu a integração estrutural, substituição funcional e fusão cultural
por meio do biculturalismo depois do êxodo de (WACQUANT, 2004). O segundo cenário foi
Mariel em 1980 (PORTES & STEPICK, 1993). implementado pela Alemanha nazista, que reavivou
Isto também caracteriza as “Kimchee cities”, para o Judenghetto entre 1939 e 1944, primeiramente
as quais os coreanos convergiram das áreas me- para empobrecer e concentrar os judeus por meio
tropolitanas do Japão, e que têm uma mistura de do processo de relocação; depois, quando a de-
qualidades que as tornam um híbrido de gueto e portação maciça tornou-se um incômodo, para
aglomeração étnica (DEVOS & CHUNG, 1981): direcioná-los aos campos de extermínio
são lugares de infâmia que surgiram a partir da (FRIEDMAN, 1980; BROWNING, 1986).
inimizade e do confinamento, mas cujas popula-
A intensificação de sua natureza exclusivista
ções tornaram-se um misto étnico por meio dos
sugere que o gueto talvez seja melhor estudado
anos e permitiram aos coreanos socializar e casar
não em analogia às favelas, aos bairros de classe
com seus vizinhos japoneses, assim como obter
baixa ou aos enclaves de imigrantes, mas às re-
cidadania japonesa por meio da naturalização. Este
servas, aos campos de refugiados e à prisão, per-
esquema também se encaixa no “gueto gay”, que
tencendo assim a uma categoria maior de institui-
é mais bem caracterizado como uma “comunida-
ções de confinamento forçado de grupos
de quase-étnica” já que “a maior parte das pesso-
despossuídos e desonrados. Não é por acaso que
as gay podem ‘passar’ e não precisam ficar res-
Bridewell de Londres (1555), o Zuchthaus de
tritas à interação com os ‘seus’” e ninguém é for-
Amsterdam (1654) e o Hospital général de Paris
çado a residir em áreas de concentração de insti-
(1656), cuja finalidade era ensinar a disciplina do
tuições gay (MURRAY, 1979, p. 169).
trabalho assalariado a vagabundos, pedintes e cri-
A dupla face do gueto como arma e escudo minosos por meio do encarceramento, foram in-
implica que, na medida em que sua completude ventados na mesma época que o gueto judeu. Tam-
institucional e autonomia minguam, seu papel pro- bém não é por acaso que o aumento de campos
tetor para o grupo subordinado diminui, restando de refugiados em Ruanda, Sri Lanka e nos territó-
somente a força de sua função exclusivista. Nos rios ocupados da Palestina assemelham-se cada
casos em que residentes deixam de ter valor eco- vez mais a uma mistura entre os guetos do final
nômico para o grupo dominante, o encapsulamento da Europa medieval e gulagui gigantescos.

Loïc Wacquant (loic@uclink4.berkeley.edu) é Professor de Sociologia na Universidade da Califórnia


(Berkeley) e é Pesquisador do Centre de sociologie européenne do Collège de France.

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