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Educação Clássica e Educação Domiciliar - Douglas

Wilson (Resenhas #2)


Salatiel Bairros
Mar 2, 2019

Nos últimos meses, educação tem sido um tema que tenho me interessado em saber um
pouco mais. Comecei minhas pesquisas lendo algumas coisas sobre/de Paulo Freire e o
forte influenciador de seus pressupostos: Antônio Gramsci. O que encontrei foi
deprimente e me auxiliou no entendimento da decadência da educação brasileira, o que
me levou a escrever um estudo sobre o que li, que ainda não publiquei em lugar nenhum,
mas muitas pessoas já me auxiliaram lendo, comentando e opinando sobre. Depois disso,
decidi que compraria alguns livros sobre educação a partir de uma cosmovisão cristã, pois
havia visto muito sobre os problemas de uma cosmovisão marxista, mas pouco sobre as
soluções propostas por educadores cristãos.

O livro Educação clássica e Educação Domiciliar de Douglas Wilson, junto com Wesley
Callihan e Douglas Jones, foi minha primeira leitura sobre o tema. O livro é curto,
podendo mais ser considerado um breve ensaio, com 60 páginas. Tem por propósito
instigar os pais a aceitarem o desafio de cumprirem o seu papel de educador na vida dos
seus filhos, entendendo que isso exigirá grande esforço. O livro não entra em termos de
educação apenas em casa, mas sim de os pais se preocuparem em participar da educação
formal dos filhos. Para isso, o autor mostra que será necessário que antes os pais estudem
e se tornem leitores assíduos, tanto pelo exemplo quanto pela qualidade de ensino que
eles darão aos seus filhos.

O método proposto pelo autor é o Trivium, aplicando-o a partir de uma cosmovisão cristã.
Este método é composto por três estágios: gramática, lógica e retórica. Durante minhas
pesquisas iniciais sobre educação, encontrei algumas informações sobre este método e
resolvi perguntar para alguns pedagogos que conheço se eles já tinham ouvido falar sobre.
Surpreendentemente a resposta foi negativa na maior parte das vezes, principalmente
dentre os recém-formados ou em formação, o que mostra que a educação clássica tem
sido simplesmente ignorada diante dos métodos desconstrucionistas.

O autor traz vários exemplos da utilização deste método e como ele era visto nas primeiras
universidades. Após isso, ele dedica 4 capítulos para lidar com estes três estágios da
educação. Tentarei resumir um pouco sobre cada um.

O primeiro estágio, a gramática, é definido pelo autor não como apenas o estudo da
linguagem e das regras de seu uso. Este estágio envolve também literatura, história e
matemática básica. Wilson busca mostrar que o entendimento dessas disciplinas é o
básico para todo o resto do desenvolvimento, são a base de tudo e não podem ser deixadas
para que a criança descubra tudo por si só. É necessária uma condução mais aproximada.
Contudo, ele indica a leitura de ficções tanto para os pais quanto para as crianças, pois
este tipo de leitura incentiva a exploração da criança no entendimento das estruturas da
realidade e que os pais cristãos não devem se sentir intimidados em darem e lerem livros
ficcionais com medo que a criança tenha contato com coisas “seculares”. Este tipo de
“protecionismo” pode trazer mais males que benefícios.

O autor também faz uma defesa do ensino de línguas clássicas, como latim e grego, pois
boa parte dos idiomas modernos derivam destas línguas. Contudo, considerei a ênfase do
autor neste tipo de ensino um pouco exagerada e os benefícios não tão claros como ele
tenta mostrar.

O segundo estágio é a lógica, que também pode ser chamada de dialética. Neste estágio a
criança é apresentada aos silogismos, a ordem da realidade e a necessidade de entender
as coisas baseado na lógica. Para tanto, os pais podem ensiná-la a identificar as falácias
lógicas mais comuns, sendo capazes de negar um raciocínio falacioso mesmo que elas não
entendam sobre o tema apresentado, apenas por ele violar leis lógicas. Ele denota que na
cultura em que estamos, onde a verdade, a coerência e a lógica não são mais levadas tão a
sério como deveriam, haverão muitos confrontos com a sociedade por causa deste ensino,
mas ao mesmo tempo, toda a cosmovisão cristã clama por ele e, portanto, é parte da tarefa
dos pais ensiná-lo.

Trabalho com programação, o que pode ser considerada uma ciência exata, e a lógica de
pensamento é um requisito básico para esta profissão. Conforme conheço pessoas da área,
principalmente estudantes, vejo que a maior dificuldade deles é o pensamento lógico: a
capacidade de estruturar premissas e organizar uma sequência de pensamento,
encontrando incoerências e falhas nos seus próprios sistemas. Cito minha profissão como
exemplo, mas claramente este não é um problema apenas profissional. Vemos cada vez
mais a falta de pensamento coerente e lógico e a conformidade da sociedade de viver com
pressupostos opostos e seguir ideias contraditórias sem se preocuparem com isso.

O terceiro e último estágio é o da retórica. Muitos veem a retórica como algo ruim, como
a “habilidade de enganar as pessoas com palavras bonitas”. Contudo, ainda que ela possa
ser usada para tal, a retórica é a capacidade de expressar com a linguagem um
pensamento lógico de forma que seja simples para o ouvinte entende-lo. Isso exige
capacidade de organizar seus pensamentos e pensar antes de falar. É através desta
habilidade, por exemplo, que nos tornamos capazes de encarar a batalha pela cosmovisão
cristã ante cosmovisões opostas. Quando negligenciamos o estudo e ensino desta
habilidade, estamos enfraquecendo a intelectualidade cristã.

A batalha se desdobra, matando e mutilando, esmagando e rugindo, mas parte do


cristianismo contemporâneo com adesivos de para-choques e seminários de autoestima.
O inimigo sorri e planeja aniquilar nossos filhos e destruir nossas igrejas, mas tentamos
minimizar nossas diferenças com quem nos ataca e usamos as instruções deles como
modelos para as nossas. Eles zombam de Cristo na nossa cara, mas aprendemos a
relaxar, fazer uma piada e criar uma atmosfera de adoração mais divertida. A única
coisa pior que ser esquartejado no meio de uma guerra é nem perceber a ação. (P. 49)

O trecho acima foi retirado do capítulo “O básico da cosmovisão cristã”, sucessor do


capítulo sobre a retórica. Porém, os dois estão bastante ligados. Quando negamos aos
nossos estudantes a habilidade do confronto e do estudo e aplicação do conhecimento e
da lógica através de um bom uso da linguagem, enfraquecemos toda a nossa forma de
lidar com a oposição ao cristianismo e nos excluímos dos debates centrais da sociedade.

Por fim, o livro auxilia o leitor a montar um currículo, através de dicas e de indicações de
leitura, das quais várias marquei para eu mesmo ler. Mesmo com suas limitações e talvez
a pouca flexibilidade no método proposto, o livro mostra uma alternativa de educação
muito mais benéfica e organizada, preocupada tanto com o conhecimento quanto com a
vida da criança. Creio que este livro me ajudou a expandir os horizontes e facilitou meu
entendimento dos próximos livros sobre educação que estão na fila de leitura para este
ano.

Original: http://sbairros.blogspot.com/2018/02/educacao-classica-e-educacao-
domiciliar.html