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Desiderata Xamãnica

            Nos primórdios dos tempos, há cerca de 10 mil anos, no Período Paleolítico,
quando os homens ainda moravam em cavernas cercadas de feras, eles viviam com medo
de tudo. Mas, ao observarem o ciclo da natureza e suas manifestações, refletiram sobre
sua relação com o Universo, e, sem saber, estabeleceram uma ponte com o macrocosmo,
traçando um fio que nunca mais iria se romper. Por um tempo adormecido, mas não
esquecidos, os rituais xamânicos voltam agora a despertar a atenção dos homens
modernos, independente de seu estágio cultural ou do fato de viverem na selva de pedra
urbana cercados de racionalidade, coisa que não existia quando os nossos antepassados
se reuniram pela primeira vez ao redor de uma fogueira.

            Anterior a todas as religiões, psicologias e filosofias conhecidas, o xamanismo em


si é o conjunto de práticas e técnicas arcaicas ligadas à natureza, com o propósito de
expandir a consciência para melhor. Sua principal característica é considerar que todas
as criaturas do Grande Espírito são irmãs. Os nossos antepassados respeitavam a
natureza, prestando atenção aos seus sinais, aplicando suas leis nas suas vidas e
atividades, vivendo em harmonia com o meio ambiente.

            Os xamãs preservam um notável conjunto de antigas técnicas desenvolvidas ao


longo dos séculos, usadas para obter e manter o bem-estar e a cura para eles próprios e
para os membros de suas comunidades, possibilitando aos indivíduos aprenderem
conscientemente a transpor o aparente abismo existente entre o mundo físico e as
esferas da imaginação e da visão. Esse conjunto de práticas e técnicas xamânicas
revelam-se de notável semelhança em todo o mundo, mesmo para os povos cujas
culturas e tradições são diferentes, e que, há milhares de anos, estão separados uns dos
outros por oceanos e continentes.

            Sem o nível de tecnologia médica atual, esses povos chamados primitivos tiveram
excelente razão para se sentirem motivados a desenvolver capacidades não tecnológicas
da mente humana para a saúde e para a cura. A uniformidade dos métodos xamânicos em
todas as partes do mundo, da Sibéria até a Patagônia, da China até as Américas, da
Escandinávia até a África e a Austrália, sugere que por meio de tentativas e erros os
povos chegam às mesmas conclusões.

            O xamã é escolhido a partir de um chamado divino, por herança ou por


aprendizado. Em qualquer um desses casos, ele teria que passar por experiências
iniciáticas e um árduo aprendizado, no qual o futuro xamã experimentava sua própria
morte e renascimento, penetrando nos outros mundos, aprendendo a linguagem dos
animais, das plantas, das pedras e encontrando os Guardiões e os Mestres das outras
dimensões. Abrindo as portas da sua percepção, o xamã recebia os conhecimentos e o
poder para ajudar e curar os outros. Ao final, seu corpo é refeito, porém, sempre faltará
um ossinho, perdido e jamais encontrado, para dar a ele a dimensão de sua imperfeição e,
portanto, de sua humanidade.

            Os xamãs não seguem nenhum dogma ou religião, todos acreditam na rede
universal de poder que sustenta toda vida. A origem de sua fé reside em sua própria
experiência com a natureza. Segundo o xamanismo, todos os elementos do meio
ambiente estão vivos e todos possuem sua fonte de poder no mundo espiritual. Pedras,
plantas e animais estão carregados de vida e devem receber o devido respeito para a
manutenção da harmonia e da saúde. Para os xamãs, todas as formas de vida estão
interligadas, e o equilíbrio mutuamente sustentador entre eles é fundamental para a
sobrevivência da humanidade. Nosso trabalho no Clã Lobos do Cerrado, em Brasília,
consiste em compreender este equilíbrio e viver em harmonia com ele, levando sempre a
natureza em consideração. A rede de poder da natureza é o doador da vida e a fonte de
toda atividade bem-sucedida.

            Com o advento da Revolução Industrial e, um pouco antes, no século 16, com a
fundação das igrejas, das empresas e do expansionismo branco, quando culturas nativas
foram massacradas, a humanidade distanciou-se da natureza, criando um mundo onde há
poluição, violência e desequilíbrios. Vendo a terra apenas como fonte de rendimento e os
minerais, vegetais e animais como meios para servir seus interesses, o homem cortou os
laços que o ligavam à Mãe Terra, tornando-se solitário, desvitalizado, desencantado e
desequilibrado. É, provavelmente, devido à perda desse sentido arcaico de ligação
estreita com o universo primitivo interno, que o homem contemporâneo desrespeita a
natureza, levando à catástrofe ecológica tanto externa quanto interna.

            Todavia, milhares de pessoas procuram resgatar esse elo perdido com a Mãe
Terra, restabelecendo seu próprio equilíbrio. Estas práticas xamânicas estão retornando
hoje como autêntica força viva, em meios sofisticados como o das terapias alternativas
contemporâneas. Tal penetração deve-se também ao interesse que o assunto despertou
em estudiosos de outras áreas, como é caso da antropologia, da etnologia, da história
das religiões.

            A partir da década de 60, o antropólogo americano Michael Harner, ao pesquisar a


civilização dos índios da Amazônia Peruana, submeteu-se voluntariamente a uma
iniciação xamãnica. Nesse processo, ele entrou em contato com o universo do xamã. A
partir daí, percebeu que as técnicas multimilenares dos xamãs poderiam ser trazidas ao
homem racional e utilizadas para o restabelecimento da energia vital e,
conseqüentemente, do equilíbrio psicológico e corporal.

            Por outro lado, de forma análoga ao que busca a moderna psicoterapia, a cura
xamãnica também objetiva o estabelecimento de uma ponte entre o consciente e os
conteúdos do inconsciente profundo. Não há, praticamente, diferenças substanciais entre
uma postura e a outra. As psicoterapias seriam sistemas formais de pesquisa e cura do
inconsciente. No xamanismo, isso ocorre de uma forma natural e empírica, nos moldes
consagrados de uma sabedoria multimilenar que a pesquisa moderna vem resgatando.

            Na base da técnica xamãnica de cura está a retomada do contato com as fontes de
energia primordiais: animais, vegetais, minerais e a energia dos quatro elementos, fogo,
ar, água e terra. Todas essas energias existem no mundo natural e, em estado latente, no
interior de nossa psique. As técnicas tradicionais xamânicas preconizam o uso de
substância alucinógenas para produzir o estado alterado de consciente, que será a ponte
de ligação entre consciente e inconsciente. Para o homem civilizado, em geral prisioneiro
de um sistema neurótico de vida e não habituado cultural e organicamente à ingestão de
tais substâncias, a experiência quase sempre produz resultados que põe em risco a
saúde.

            A grande contribuição de Michael Harner foi criar um método de entrar em estado
alterado de consciência sem o uso da droga alucinógena. Harner afirma que o que
consideramos realidade subjetiva no estado comum de consciência é realidade objetiva,
naquilo que ele batizou de estado xamânico de consciência. Assim, se numa experiência
xamãnica encontrarmos um dragão, ele terá, para o xamã, realidade plenamente objetiva e
não mítica. A partir daí, Harner concluiu que, para se conseguir um efeito objetivo no
estado xamânico de consciência, bastaria um estímulo subjetivo no estado comum de
consciência. Esse estímulo é o som produzido por batidas rítmicas de tambores e
chocalhos, instrumentos tradicionais do xamã.

            O primeiro passo que deve ser dado logo após a entrada no estado xamânico de
consciência é a descoberta do túnel xamânico. Esse túnel, que corresponde à ponte de
ligação entre o consciente e o inconsciente, levará ao mundo xamânico, onde, a nível
simbólico, toda a experiência xamãnica se desenvolve. A viagem através desse túnel é
feita sempre sob o estímulo do som de tambores, e é geralmente precedida por uma
dança similar àquela praticada pelos índios.

            Ao começar a viajar entre os mundos o xamã deve buscar seus aliados espirituais:
guias, mestres, auxiliares e animais de poder. No mundo superior é onde encontramos os
nossos mestres e ancestrais, que nos dão conhecimentos, poder, equilíbrio e saúde,
visando a nossa evolução como Ser. No mundo inferior encontraremos nosso animal de
poder e os animais auxiliares. O primeiro, em termos simbólicos, corresponde à nossa
parte animal preponderante. Como todos os símbolos, esse também apresenta uma
bipolaridade. Tem um aspecto de energia vital curativa - que, como todo bom anjo da
guarda, está sempre disponível para nos ajudar e proteger - e também a sua igual e
contrária parte destrutiva.

            O animal de poder não é nada mais que um parente de outro reino ou nível
energético, confirmando, assim, que todos nós somos irmãos e filhos do Grande Espírito.
Neste momento do despertar de uma nova consciência ecológica, é importante lembrar-
nos deste parentesco, para evitar a destruição e poluição desses outros planos da
existência. Várias outras etapas se sucedem, numa seqüência gradativa que obedece a
uma metodologia perfeitamente estruturada. Segue-se, por exemplo, a etapa da busca do
animal de cura, que servirá para a autocura e a cura dos outros, a cura à distância, a
restauração do poder animal e, entre outros, a busca da parte perdida da alma, numa clara
analogia com o trabalho dos psicoterapeutas. A cura xamãnica é simplesmente uma
ampliação da consciência buscando a mobilização do fator de autocura. Todo arquétipo
pressupõe uma contraparte. O curador contém o doente e vice-versa.

            Com a prática do xamanismo nós nos tornamos co-criador na vontade coletiva da
natureza. Nos tornamos agente da mudança no drama da evolução. Mas do que isso, nos
libertamos da ilusão de isolamento e adentramos na realidade da inter-relação de toda
vida. O xamanismo é uma jornada mental e emocional, onde tanto o paciente quanto o
xamã ficam envolvidos. Através de sua heróica viagem e de seus esforços, o xamã ajuda
seus pacientes a transcender a noção normal e comum que têm acerca da realidade,
inclusive a noção de si próprios como doentes. Faz sentir aos seus pacientes que eles
não estão emocionalmente e espiritualmente sozinhos em suas lutas contra a doença e a
morte. Faz com que eles partilhem de seus poderes especiais, convencendo-os, em
profundo nível de consciência, de que há outro ser humano desejoso de oferecer seu
próprio Eu para ajudá-los. A abnegação do xamã provoca no paciente um compromisso
emotivo correspondente, um senso de obrigação de lutar ao lado do xamã para se salvar.
Zelo e cura caminham juntos. Finalmente, a prática do xamanismo leva-o,
conseqüentemente, a alinhar-se com as forças de cura da natureza. Encontra-se equilíbrio
e integração. Sabemos quem somos e para onde estamos indo.

            "Lobo do Cerrado" (Xamã, membro-fundador do Clã Lobos do Cerrado) - www.xamanismo.com