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O GÊNERO DA TATUAGEM

Continuidades e novos usos relativos à prática na cidade do Rio de Janeiro

Andréa Barbosa Osório

IFCS
Doutorado em Antropologia
PPGSA

Mirian Goldenberg
orientadora

Rio de Janeiro

março de 2006
ii

O GÊNERO DA TATUAGEM

Continuidades e novos usos relativos à prática na cidade do Rio de Janeiro

Andréa Barbosa Osório

Tese submetida ao corpo docente do Programa de Pó-Graduação em Sociologia e


Antropologia – PPGSA, Instituto de Filosofia e Ciências Sociais – IFCS, Universidade
Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos necessários à obtenção do
grau de Doutor em Antropologia.

Aprovado por:

___________________________________________________
Profa. Dra. Mirian Goldenberg - Orientadora

___________________________________________________
Profa. Dra. Yvonne Maggie

___________________________________________________
Prof. Dr. Michel Misse

___________________________________________________
Profa. Dra. Marta Perez

___________________________________________________
Prof. Dr. César Sabino

___________________________________________________
Prof. Dr. Everardo Rocha - Suplente

___________________________________________________
Profa. Dra. Rosilene Alvim - Suplente

Rio de Janeiro

2006
iii

Osório, Andréa Barbosa.

O Gênero da Tatuagem: continuidades e novos usos


relativos à prática na cidade do Rio de Janeiro / Andréa
Barbosa Osório. Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS/PPGSA, 2006.
xiv, 253pp.
Tese – Universidade Federal do Rio de Janeiro, IFCS.
1. Tatuagem. 2. Gênero. 3. Tese (Dout. –
UFRJ/IFCS/PPGSA). I. Título.
iv

RESUMO

OSÓRIO, Andréa Barbosa. O Gênero da Tatuagem: continuidades e novos usos


relativos à prática na cidade do Rio de Janeiro.

Orientadora: Profa. Dra. Mirian Goldenberg. Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS/PPGSA, 2006.


Tese.

A partir da observação de campo em dois estúdios de tatuagem na cidade do Rio de


Janeiro, entre 2003 e 2005, foi possível perceber alguns dos usos associados pelos tatuados
a este tipo de marcação corporal. Entre estes usos estão, principalmente, o embelezamento
corporal, a proteção mística, a mudança de status, a expressão dos sentimentos. Mas estão
associados à prática, também, outros fatores, como a percepção de uma maior ou menor
autonomia pessoal frente à família, ao Estado e ao mercado de trabalho. Formado por um
público majoritariamente feminino, o universo estudado apontou para construções de
gênero análogas às que se encontra na sociedade carioca mais ampla, que determinam ao
corpo locais apropriados para se dispor a tatuagem, bem como os desenhos apropriados a
este corpo feminino ou masculino. Observou-se, assim, uma continuidade dos usos
apontados por outros autores com relação ao passado da prática, salvo pela noção de
embelezamento, ao mesmo tempo em que se mostra que esta continuidade diz respeito
também ao status (posição) social do tatuado estruturalmente observado, antes de obter sua
tatuagem.
v

ABSTRACT

OSÓRIO, Andréa Barbosa. O Gênero da Tatuagem: continuidades e novos usos


relativos à prática na cidade do Rio de Janeiro.

Orientadora: Profa. Dra. Mirian Goldenberg. Rio de Janeiro: UFRJ/IFCS/PPGSA, 2006.


Tese.

From field work in two studios in the city of Rio de Janeiro, between 2003 and 2005, I
could observe some uses concernig tattoos. Between these uses are, specially, body
embelishment, mistic protection, expression of feelings. But also other factors, as the
perception of a higher or lower personal autonomy related to family, State and work
market. The studied universe, permed by a majority of feminine clients, has pointed to gder
eelations analogous to those seen in carioca society, which determine apropriated body
areas to de draws, as mucha as apropriated feminine and masculine draws. Thus, I observed
a continuity os uses pointed by authors about the past of the practice in Wertern world, seve
embelishment practices. At the same tme, this continuity is associated with the structural
status (position) of the tattooed before the tatto mark.
vi

“Um dos vieses através dos quais se exercem as censuras sociais é precisamente esta
hierarquia de objetos considerados como dignos ou indignos de serem estudados.”
Pierre Bourdieu
vii

Dedico este trabalho aos meus pais.


Também a Sieg, Dalila, Otto e Tristan, criancinhas levadas
que fizeram tudo ser diferente.
viii

AGRADECIMENTOS

À Professora Mirian Goldenberg, orientadora atenciosa e incansável, com quem aprendi o


ofício do antropólogo.

Ao CNPq pela dotação de bolsa de pesquisa, sem a qual o presente trabalho não seria
possível.

Ao PPGSA, na forma de seu corpo de docentes e funcionários, cujo apoio foi fundamental
no bom desenvolvimento desta pesquisa.

Às Professoras Elsje Lagrou, do PPGSA/IFCS/UFRJ, e Cláudia Rezende, do


PPGCIS/UERJ, cujas críticas e sugestões foram importantes para o delineamento do
presente trabalho. Agradeço, também, a atenção dos Professores Marco Antônio Gonçalves
e Yvonne Maggie, do PPGSA/IFCS/UFRJ.

A todos os estúdios visitados, em especial aos estúdios onde a observação de campo foi
realizada, ao seu apoio, à sua atenção e ao seu interesse. A todos os profissionais que me
abriram as portas, que dedicaram seu tempo a me prestar informações e que se interessaram
por este trabalho. A Lúcio, Rai, Lia, Alex, Marcus, Magathi, Marquinho, Leco, Dani,
Nilson, Wagner, Alda, Gi, Mariana, Emerson.

A Laura e Jane, que com suas presenças mágicas fizeram as portas dos estúdios se abrirem
para mim. A Dax e Ângelo que lembravam carinhosamente de mim toda vez que
conheciam uma pessoa tatuada ou um tatuador, fornecendo indicações ou me colocando em
contato com os mesmos.

A todos os amigos que puderam contribuir, de alguma forma, com o presente trabalho, com
seu apoio, atenção e carinho, em discussões antropológicas ou em caras palavras de
incentivo, que foram cruciais. Neste sentido, preciso agradecer especialmente a Márcia
ix

Anute e Christian Lynch, Rodrigo Rosistolato e César Sabino. A César agradeço também
pela constante troca de idéias, que se fez terreno fértil para que as análises florescessem.

A Dax agradeço, ainda, a dedicação das leituras e correções, das discussões intermináveis,
de toda a inspiração que seu próprio trabalho me ofereceu e de sua mera presença física,
que foi fundamental.

À minha família que acreditou em minha capacidade para viver de Ciências Sociais no
Brasil.
x

SUMÁRIO

Introdução 01

Capítulo I – Renascimento da tatuagem no Ocidente 16


1. Do Pacífico Sul à Europa 18
2. O corpo exposto no circo 20
3. Marinheiros, prostitutas e prisioneiros 22
4. Nobreza européia 26
5. Os jovens e a contracultura 27

Capítulo II - A metáfora da tatuagem 31


1. Tatuagem no Brasil 33
2. Punição, resistência, controle e autonomia 36
3. Dentro e fora 44
4. Reflexões preliminares 50

Capítulo III – Os estúdios pesquisados 53


1. Profilaxias e técnicas 54
2. Variações sazonais 58
3. Localização: Tijuca 59
4. Localização: Copacabana 60
5. O espaço físico 61
5.1. Tijuca 61
5.2. Copacabana 65
6. Concorrência e proliferação de estúdios na cidade: a ética do tatuador 66
7. Fazendo a propaganda de um estúdio 69
8. Ser proprietário de um estúdio, ser tatuador, ser recepcionista 72
8.1. Tijuca 73
8.2. Copacabana 77
9. Tatuagem como arte: diferenciação entre profissionais e amadores 81
10. A Resolução SMG “N” nº 690 de 30 de julho de 2004 86
11. Conseqüências do novo cenário: expansão e retração dos negócios em um
ambiente de concorrência 89

Capítulo IV – Perfil do público 92


1. Área de residência 93
2. A predominância feminina 97
3. Pele: classificações de tatuadores e perfil do público 99
4. Perfil etário 100
5. Adolescência e a sedução da tatuagem 105
6. Mudança de status 107
7. Conflitos geracionais 109
8. Quem são os tatuados? 112
xi

Capítulo V – Desenhos, Estilos, Regiões do Corpo: representações de gênero no


universo da tatuagem 115
1. Estilos de tatuagem 116
2. Os “desenhos femininos” 118
3. O ethos guerreiro 121
4. Os mais tatuados 126
4.1. Corpos celestes em outros corpos 129
4.2. Religiosas, indianas, egípcias e celtas 130
4.3. Oriente-se 132
4.4. Ameríndios de norte a sul 134
4.5. A febre tribal 134
4.6. Lendas, feitiços e mitologia 135
4.7. Símbolos e signos 136
4.8. Registrar, escrever, tatuar 137
4.9. Outros bichos 138
4.10. O jardim encantado 139
4.11. Som e fúria 140
4.12. Desenhos de criança 140
4.13. Os outros 141
4.14. Comparando desenhos em homens e mulheres 141
5. Desenhos e subjetividade 144
6. Originalidade e modismos: formas de distinção e pertencimento 148
7. Mapeando o corpo tatuado 151
7.1. O melhor lugar para um desenho 158
8. Revelar e esconder 159
9. O gênero da tatuagem 164

Capítulo VI – Experiências, Dilemas, Dor: tatuados nos estúdios 166


1. A experiência das mulheres 166
2. Esse corpo que não te pertence 170
3. Restrições no mercado de trabalho 173
4. Beleza e sedução 179
5. Lidando com a dor: o frouxo e o carniceiro 181
5.1. A pomada anestésica 186
5.2. Coragem 189
5.3. Dor e masculinidade 190
6. Pensando as diferenças de gênero nos estúdios 194

Capítulo VII - Sentimentos, Lembranças e Esquecimentos: a tatuagem como


expressão de um momento na história de vida 196
1. As tatuagens de amor: sentimento à flor da pele 197
2. Relações de gênero como relações de poder 200
3. Expressando sentimentos 205
4. No mundo das celebridades 206
xii

5. O que os tatuadores pensam sobre as tatuagens de amor 208


6. Prova de amor e compromisso 210
7. Só será eterno enquanto dure? 218
8. Obras de amor e de arte 224
9. Lembrar/esquecer/silenciar: formas de uma dermo-biografia 226

Considerações Finais 231

Referências Bibliográficas 240

Anexo 1 – Iconografia das tatuagens contemporâneas 246


xiii

LISTA DE TABELAS, GRÁFICOS E QUADROS

TABELAS:

Tabela n. 1 – Mulheres e homens na clientela do estúdio pesquisado na Tijuca 97

Tabela n. 2 – Faixa etária dos clientes do estúdio pesquisado na Tijuca 101

Tabela n. 3 – Desenhos tatuados, segundo o gênero 127

Tabela n. 4 – Regiões do corpo tatuadas, segundo o gênero 152

GRÁFICOS:

Gráfico n. 1 – Faixas de preço de gastos, em números absolutos, referentes ao mês de


setembro de 2003 no estúdio pesquisado na Tijuca 75

Gráfico n. 2 – Percentual dos bairros da Zona Norte onde mais freqüentemente residem os
clientes do estúdio pesquisado 94

Gráfico n. 3 - Percentual dos bairros da Zona Sul onde mais freqüentemente residem os
clientes do estúdio pesquisado 95

Gráfico n. 4 – Maiores percentuais de clientes encontrados no estúdio pesquisado, segundo


região de origem 96

Gráfico n. 5 – Homens e mulheres, em números absolutos, no estúdio pesquisado na Tijuca


98

Gráfico n. 6 – Faixa etária dos clientes do estúdio pesquisado na Tijuca, em números


absolutos, nos meses pesquisados 102

Gráfico n. 7 – Percentuais de clientes no estúdio pesquisado na Tijuca, nos meses citados,


agrupados em duas faixas etárias, com corte aos 25 anos 102

Gráfico n. 8 – Percentuais de clientes no estúdio pesquisado na Tijuca, nos meses citados,


agrupados em duas faixas etárias, com corte aos 29 anos 103

Gráfico n. 9 – Maiores percentuais de desenhos entre homens e mulheres 129


xiv

Gráfico n. 10 – Os desenhos masculinos em percentuais 133

Gráfico n. 11 – Tatuagens mais populares entre os homens, em percentuais 142

Gráfico n. 12 – Desenhos mais populares sem distinção por gênero, em percentuais 143

Gráfico n. 13 – Estilos/motivos de tatuagens mais populares, sem distinção de gênero, em


percentuais 143

Gráfico n. 14 – Regiões do corpo mais freqüentemente tatuadas por homens e mulheres,


em percentuais 152

QUADROS:

Quadro n. 1 - Mudança no perfil sócio-econômico do tatuado, durante o século XX, no


Brasil, nos Estados Unidos e na Europa 29

Quadro n. 2 – Oposição modismo/originalidade 150

Quadro n. 3 – Correlações na dinâmica revelar/esconder 160

Quadro n. 4 –Tatuagem como processo doloroso ou não-doloroso 184


1

INTRODUÇÃO

A presente tese está estruturada a partir de dois problemas centrais: o primeiro, a


mudança no público da tatuagem (de essencialmente masculino e jovem para
majoritariamente feminino e jovem, mas incorporando indivíduos adultos); o segundo, a
relação entre este público e a idéia de autonomia pessoal, através da marcação corporal com
tatuagens.
O atual público da tatuagem, majoritariamente feminino, foi uma constatação
empírica verificada nesta tese e em duas dissertações brasileiras recentes (LEITÃO, 2002;
FONSECA, 2003). Se há algumas décadas esta prática estava quase que circunscrita aos
homens, hoje a realidade é outra.
De fato, o primeiro problema formulado, ainda no início da presente pesquisa, não
se relacionava ao gênero, mas à idéia de que a tatuagem constituía uma prática
característica da juventude. A observação de campo permitiu enxergar um público mais
adulto, que está além do que é considerado como juventude. Até recentemente, como será
mostrado no decorrer do estudo, a tatuagem era uma prática masculina e da juventude; hoje,
é uma prática feminina que, embora majoritariamente jovem, atinge faixas etárias
superiores. O problema, então, se tornou o de compreender a mudança, suas possíveis
causas e suas conseqüências.
Entre estas causas, aponto como hipótese o papel da busca de autonomia pessoal a
partir de marcas corporais, com ênfase para as tatuagens. Compreender este processo se
tornou um segundo problema nesta tese. Adotar esta linha explicativa sem recair na
subjetividade dos tatuados, mas baseá-la em processos sociais, portanto coletivos, foi o
caminho encontrado para traçar um panorama social que levasse a uma explicação acerca
da mudança de público. As mulheres, neste sentido, e seu progressivo ganho de autonomia
nas sociedades ocidentais, se tornaram o público majoritário da prática porque esta é uma
prática relacionada à busca e ao exercício de autonomia pessoal.
Observou-se, ao longo da pesquisa, que esta autonomia é paralela a processos de
construção de individualidade, em que as tatuagens são relacionadas a um exercício da
autenticidade. O campo indicou que os tatuadores valorizam esta autenticidade, construindo
2

uma visão da prática como individual, vivida subjetivamente. Esta subjetividade não é, de
meu ponto de vista, o cerne da explicação do uso de tatuagens. As marcas não são fruto da
expressão de uma individualidade, simplesmente, mas de uma busca por se viver
plenamente esta individualidade frente a um contexto social que é experimentado pelo
sujeito como restritivo a sua autonomia pessoal.
A problemática da autonomia, que aqui é a hipótese para o crescimento do uso de
tatuagens entre mulheres, surgiu de estudos sobre o uso de tatuagens em meio prisional
(SCRADER, 2000). Esta idéia foi utilizada para explicar a atual popularidade da tatuagem
em todo o Ocidente, por meio do conceito de posse de si (BENSON, 2000; LE BRETON,
2002). A posse de si é a marca de uma individualidade, uma autonomia pessoal, na forma
de marca pessoal de propriedade sobre o próprio corpo. É o exercício, a tentativa de
exercício ou o enunciado/comunicado de que o sujeito, dentro do corpo marcado, é
soberano sobre si. Corpo e subjetividade fundem-se e foram separados aqui, segundo a
tradição ocidental (corpo versus mente), apenas por questões analíticas. A posse de si não é
a posse do corpo, mas a posse do indivíduo como um todo, corpo e mente.
Imbricados em uma sociedade que ainda não permite o mesmo grau de autonomia
para homens e mulheres, jovens e adultos, mulheres e jovens foram percebidos neste
trabalho como em busca justamente da posse de si. Mesmo os adultos aqui estudados vivem
mudanças na vida que parecem retirar deles o controle que talvez sentissem exercer sobre si
mesmos.
Devo mencionar, ainda, a forte influência da obra de Gell (1993) sobre a tatuagem
polinésia como fonte rica de inspiração para a abordagem da popularização da tatuagem e
sua mudança de público, não como assentada sobre uma subjetividade individual de cada
tatuado, mas em processos sociais mais amplos. A obra do autor, formulada a partir de
elementos constitutivos das sociedades polinésias e de sua comparação, permitiu uma
análise que tenta percorrer o mesmo objetivo: verificar o que há na sociedade atual que
permitiu a explosão (o autor diria “epidemia”) do uso de tatuagens.

* * *
3

O ponto de partida foi uma lembrança de adolescência, das tardes em que fui levada
a um dos estúdios pesquisados por uma amiga interessada em tatuagens, surfistas, rock na
Rádio Fluminense FM e namorados. 14 anos de idade e nenhuma idéia do que era ser
tatuada. Não adquiriu a marca, que eu saiba. Uma vida acadêmica depois, encontrei-me
discutindo com a então orientadora do mestrado, o que gostaria de estudar. Surgiu, então, a
idéia: “todo mundo se tatua hoje em dia. Eu gostaria de saber o por que”. Eu também
queria. Já havia pensado sobre o assunto sobre o viés das teorias da identidade do sujeito
moderno, abordagem que foi abandonada muito cedo em prol de uma mais antropológica.
Eu havia feito uma tatuagem anos antes, um processo extremamente doloroso,
sangrento, caro e cujo resultado final foi de gosto duvidoso. Saí da casa do tatuador com
um pedaço de papel de pão fixado na pele com fita crepe e sangrando tanto que não podia
tocar no encosto da poltrona do ônibus que tomei de volta para casa. Se a camiseta que usei
no dia não fosse negra, talvez tivesse uma dimensão mais justa do quanto sangrei. Minha
mãe, ao ser testemunha da marca da aventura, repetiu o que descobri mais tarde que tantas
mães repetem nestas horas: “ah, tá bom... mas é a última, né?”. Esperara anos para ser
tatuada e só tive o ímpeto às custas do exemplo de uma amiga e do desconto de 50% que o
tatuador me concedeu (um aprendiz). E ainda assim amava profundamente aquele rabisco
borrado na pele. Orgulhava-me dele e de mim. Por quê? Fazia sentido a pergunta.
Retornei ao estúdio das lembranças de adolescência, adquiri três novas tatuagens ao
longo destes outros tantos anos, acho que sei um pouco mais sobre como funciona esse
universo e talvez possa responder por que as pessoas se tatuam. Só não sei dizer porque me
tatuei, mas mantenho um firme amor pelo primeiro borrão na pele.
Mantendo minhas lembranças sobre o universo das tatuagens, parecia-me que se
tratava de um mundo essencialmente masculino. Minha segunda marca foi adquirida muitos
anos depois da primeira, mas antes de sequer pensar em doutorado. Fora, então, à casa de
um tatuador recomendado no boca-a-boca. Ele mantinha um cômodo da casa, próximo à
porta da rua, como estúdio. Havia sofá, mesa, espelho, muitos desenhos pelas paredes e
uma estufa para esterilizar o material. Os desenhos em questão representavam caubóis,
índios, mulheres seminuas, animais selvagens, surfistas. Nada ali presente retratava algo
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que eu julgasse parte do universo feminino. Não obstante, eu não era a única cliente
mulher. Apenas o local não estava voltado para as mulheres como público.
Duas tatuagens depois, eu ainda não tinha a menor idéia de como funcionava um
estúdio nem de quem eram os tatuados. Faço esta observação porque “os tatuados” não
formam um grupo social como “os funqueiros”, “os surfistas”, “os índios” e mesmo “as
mulheres”. Se nem todos os funqueiros são iguais, se “as mulheres” é uma terminologia que
encobre as diferenças de geração, cor, classe, orientação sexual, entre outros, mesmo essa
generalização não faz sentido quando se trata dos tatuados. Não são um grupo social porque
não apresentam uma cultura comum, relacionada à prática da tatuagem. Pode-se ter mais de
uma marca e ainda assim não saber como esse universo funciona, quais são seus valores,
suas crenças, suas hierarquias, etc. Os “donos” deste cosmo são os tatuadores, profissionais
desta arte de embelezar a pele. Juntam-se a eles apenas alguns poucos interessados,
normalmente extensamente marcados, com mais de 10 tatuagens pelo corpo. Estes
freqüentaram os estúdios por tempo suficiente para aprender algo da prática. Foi
freqüentando os estúdios, então, que aprendi muitas coisas também.
A memória de um mundo masculino norteou uma de minhas primeiras hipóteses, a
ser rejeitada pelo campo, em um primeiro aprendizado nos estúdios: o universo dos
tatuadores é masculino, mas a maior parte de sua clientela hoje é formada por mulheres.
Para elas, os estúdios passaram a oferecer maior privacidade. Para elas, foi desenhada toda
uma gama de representações da feminilidade. Elas movimentam financeiramente os
estúdios, mas são os desenhos maiores, habitualmente escolhidos pelos homens, aqueles
mais valorizados e considerados artísticos. Segunda lição do campo: ser a maioria não faz
de você um elemento valorizado.
Uma segunda hipótese era a de que o uso de tatuagens estava relacionado a grupos
jovens, as conhecidas tribos urbanas. Mais uma hipótese que o campo derrubou. Nada nos
estúdios pesquisados indicava que o público por excelência das tatuagens fosse formado
por roqueiros, surfistas, moderninhos, skatistas, ou quaisquer outras vertentes. Em um dos
estúdios pesquisados, a presença de surfistas era forte, mas nunca a maioria do público
local. As tribos urbanas utilizam tatuagens, é fato, mas não são elas que movimentam os
estúdios. O campo demonstrou, ainda, que uma boa parcela do público da tatuagem carioca
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nem ao menos pode ser considerado “jovem”. Há uma faixa acima dos 30 anos que se tatua
tanto quanto os “jovens”.
Rejeitadas as primeiras hipóteses, oriundas claramente de um senso comum sobre a
tatuagem, coube a tarefa de compreender quem era o público dos estúdios pesquisados, o
quanto a prática estava disseminada por diferentes classes sociais, gerações, gêneros.
Perguntava-me, ainda, quais os significados que os tatuados davam às suas marcas,
algumas vezes tão criteriosamente escolhidas, outras vezes oriundas de um ímpeto de
momento.
Observei, então, que o universo da tatuagem estava segmentado em função do
gênero. “Desenhos femininos” se contrapõem a toda uma gama de estilos de tatuagem,
normalmente pensados como “para os homens”, embora sejam minoria nos estúdios.
Desenhos menores, típicos das mulheres, não são valorizados, pois levam o estúdio a ser
escolhido pelo preço mais do que pela qualidade do profissional, uma vez que o tamanho
diminuto inviabiliza os detalhes que dão qualidade mais ou menos artística à tatuagem. Os
locais do corpo são criteriosamente escolhidos pelos clientes em função de sua associação
com o feminino e o masculino, raramente operando-se inversões. Assim, foi construída
uma visão de que braço é lugar de homem, por exemplo, enquanto lombar, pé e nuca são
lugares de mulher. Tatuagem grande é coisa de homem e pequena “de mulherzinha”.
Homem tatua dragão, tribal, pitbull. Mulher tatua flor, borboleta, estrela.
Na visão masculina reinante, a “mulherzinha”, que não quer sentir dor, faz uma
tatuagem pequena. Elas reclamam da dor nos estúdios, pedem pausas, fazem caretas. São
vistas como fracas, “frescas”, sem coragem. Ignoram estes homens que elas tatuam locais
dolorosos, como o pé. Ignoram ainda que a extensão dos desenhos tem uma correlação
direta como esta visão de que a mulher é sempre menos do que o homem. Mas não ignoram
que seu silêncio nos estúdios é parte de sua prova de virilidade, pois “homem de verdade”
se submete à dor calado, demonstrando força e coragem. E assim foi que percebi que tudo
em um estúdio de tatuagem se refere a uma estrita divisão entre os gêneros que reproduz,
como em nossa sociedade, valores e hierarquias entre homens e mulheres sobre o
masculino e o feminino. Esta hierarquia chega à própria atuação como tatuador, profissão
masculina. As mulheres dominam apenas as recepções e aplicações de piercings, atividade
que não é considerada artística, portanto de menor valor.
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A discussão de gênero se tornou, por força das evidências, o cerne do material de


campo. Algumas considerações sobre tatuagens em meios carcerários, onde o sujeito está
sob rígido controle corporal, se aplicavam perfeitamente àquilo que eu observava. Muitas
mulheres tinham que lutar contra maridos e família para realizarem o sonho de ter uma
tatuagem. Frente à pressão da família, tinham de dizer abertamente que seus corpos eram
seus corpos e de mais ninguém. Os jovens, de igual forma, ao se oporem às determinações
familiares, operavam a mesma ruptura em busca de autonomia, chegando a consistir muitas
vezes a tatuagem em marca de uma mudança de status para a maioridade.
Assim, construí uma visão da prática da tatuagem apartada da estética. Beleza e
moda não são pontos cruciais neste trabalho. Se a tatuagem é parte do escopo de práticas
corporais contemporâneas, este é quase um dado tomado a priori. Para além desta
afirmação, busquei uma visão que demonstrasse que a marca na pele leva o sujeito a (ou é
fruto de) uma busca por autonomia, pelo exercício de uma liberdade que, se não é total, é a
semente de um individualismo.
Na contramão da autonomia, observei que alguns preferem marcar seus corpos
como propriedade de outra pessoa, embalados por uma certa crença no amor eterno ou
amor romântico. Não por acaso, não são tatuagens bem vistas pelos tatuadores, cientes que
estão do quanto as relações amorosas são fugazes. Estão cientes, ainda, dos “modismos”,
do fenômeno da imitação prestigiosa (MAUSS, 1994). Para eles, a tatuagem é uma arte e
seu potencial artístico deve ser aproveitado, o que de fato é raro, dado que o procedimento é
caro e o gosto pessoal do cliente nem sempre combina com as aspirações artísticas do
profissional.
A abordagem optada para o estudo da tatuagem no Rio de Janeiro provém, portanto,
tanto de uma literatura sobre a prática – sobretudo a ocidental – da tatuagem ao longo do
tempo, quanto dos dados observados em campo, que são correlacionados a dados de outros
autores brasileiros que estudaram o tema recentemente.
Minha análise opera com classificações que envolvem, sobretudo, gênero e
geração. Em menor escala, abordo a idéia de cor da pele e as parcas distinções de classe
observadas. De fato, embora os estúdios pesquisados estivessem localizados nas Zonas Sul
e Norte carioca, de onde poder-se-ia aproveitar o material de campo para esta já clássica
comparação, pareceu-me mais rico, dada a realidade observada, efetuar outras
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comparações, centradas mais fortemente na forma organizacional-administrativa dos


mesmos, pois refletem diferentes maneiras de sobreviver à concorrência ao mesmo tempo
em que esta indica uma crescente popularização da prática em toda a cidade.
A escolha dos estúdios não foi determinada pela divisão clássica da cidade em Zona
Norte e Zona Sul – contrapontos de ethos e estilos de vida distintos, uma mais ligada a uma
visão tradicional e outra mais modernizada – mas sim pelas oportunidades que se abriram.
Uma primeira visita a alguns estúdios deixou claro que o ingresso no campo seria difícil.
Observei que os estúdios dispunham a sala de tatuar no fundo dos estabelecimentos, sempre
resguardadas dos olhares alheios e, muitas vezes, mesmo do ingresso de pessoas que não os
clientes. Assim, fui acompanhar uma amiga que seria tatuada em um famoso estúdio na
Zona Sul carioca, próximo ao Arpoador, região de surfistas localizada em uma ponta entre
o fim das praias de Copacabana e Ipanema, duas das mais conhecidas da cidade e
freqüentadas tanto por turistas quanto por nativos. O Arpoador é caracterizado, ainda, pela
freqüência de banhistas vindos dos subúrbios, pois é ponto final de linhas de ônibus que
fazem a ligação entre as duas regiões (Zona Sul e subúrbios). A amiga que eu acompanhava
já havia sido tatuada neste estúdio e pelo mesmo tatuador que a marcaria novamente. Havia
me alertado, contudo, que já tentara ser acompanhada por outra pessoa antes, mas não fora
permitido.
Uma vez no estúdio, pedi ao tatuador que me deixasse acompanhá-la durante o
processo de tatuagem. Ele não permitiu, alegando que se tratava de uma norma do
estabelecimento e que a única pessoa que poderia permitir meu ingresso na sala de tatuar –
localizada no segundo andar da loja – era o proprietário, que não se encontrava naquele
momento. Havia criado tal regra a partir da idéia de contágio e contaminação. Tentava, ao
impedir o ingresso de pessoas não envolvidas no ato de tatuar/ser-tatuado, resguardar a
higiene do ambiente
Após esta experiência, decidi que seria mais prudente ser apresentada a tatuadores
que trabalhassem em estúdios por pessoas amigas deles, que fizessem a intermediação. Em
um ambiente relacional, ser amigo dos amigos é sempre uma indicação de bons
antecedentes. Assim, optei por um estúdio na Tijuca ao qual eu poderia ser introduzida por
uma amiga e comecei o trabalho de campo ali. Apenas meses mais tarde consegui um
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contato que me apresentou a um tatuador proprietário de um estúdio em Copacabana,


curiosamente, distante apenas alguns quarteirões daquele que me fechara as portas.
O primeiro estúdio que visitei fica localizado na Tijuca, Zona Norte carioca. Minha
amiga Fátima1, que será citada novamente neste trabalho, levou-me até lá e apresentou-me
ao proprietário. É amiga da esposa dele e de um grupo de conhecidos comuns a ambos. A
esposa do proprietário trabalha atualmente como piercer, em loja-filial localizada a poucos
metros do estúdio. Tem várias tatuagens. Minha amiga, ao contrário, não possuía nenhuma
tatuagem nesta época.
O estúdio não foi, portanto, “escolhido”, mas sim uma possibilidade que se abriu à
pesquisa. Minha amiga explicou ao proprietário que eu era uma pessoa conhecida, que
estava estudando e pesquisando tatuagens e que gostaria de passar algum tempo no estúdio
tentando compreender como funcionava. Expliquei a ele que se tratava de uma pesquisa
acadêmica, que eu estava vinculada à UFRJ e que gostaria de passar algumas tardes no
estúdio apenas observando. Ele não colocou obstáculos. Apresentou-me à equipe, que me
recebeu muitíssimo bem, determinada a me explicar o que fosse necessário e jamais
demonstrando desconforto com minha presença.
É difícil para o não antropólogo, muitas vezes, compreender o que a “mera”
observação pode esclarecer em situações vividas no cotidiano. Aquele ambiente tão
familiar aos tatuadores do estúdio não era um sobre o qual eles refletissem, como é comum
não se fazer sobre as rotinas vividas. Em determinados momentos, a minha presença
causava alguma curiosidade, expressa em perguntas como: “mas você fica só olhando?”. O
olhar treinado revela muito e esclarece, mas sem as conversas mantidas com os tatuadores e
entre eles e seus clientes eu não teria recolhido as informações utilizadas aqui, tampouco
teria tido acesso a dilemas pessoais que se expressavam nestas conversas. Devo, portanto,
muito do sucesso desta pesquisa a eles e a sua generosidade.
Não creio que algum tatuador tenha me considerado como uma amiga, mas tornei-
me parte do cotidiano, algumas vezes atendendo os pedidos por água dos clientes ou
mesmo auxiliando a abrir e fechar uma maca. Não se furtavam a pedir a cadeira em que eu
me sentava para uso de algum cliente, da mesma forma que jamais me senti constrangida
por qualquer pedido desta natureza. Respeitaram minha iniciativa de pesquisadora tanto

1
Todos os nomes são fictícios, exceto o de seu Nelson.
9

quanto eu procurei respeitar seu espaço de trabalho, temerosa de perturbar a concentração


de um profissional ou de constranger um cliente. Felizmente, nunca recebi críticas diretas
que me impedissem de retornar e creio que não cheguei, até onde isto é possível, a alterar
significativamente a rotina do estúdio.
Quando acreditei que havia já bastante informação recolhida na observação e nas
conversas informais com profissionais e clientes, passei a tabular dados recolhidos de
fichas de cadastro de clientes, sem jamais identificar nomes ou endereços. Passei muitas
tardes copiando dados para o papel quadriculado, sentada em uma mesa no estúdio.
Novamente, despertei curiosidade entre os profissionais. Apenas o recepcionista, que me
fornecia as fichas, e o proprietário sabiam exatamente do que se tratava. O recepcionista me
dizia, rindo, que os tatuadores questionavam o que eu copiava. Rindo, também, ele
respondia aos colegas que o proprietário havia me contratado. Assim, furtava-se a dar
maiores explicações, pois colocava sobre o chefe a responsabilidade de minha presença ali.
As fichas de cadastro de clientes não são públicas, daí o constrangimento causado e
a curiosidade decorrente por parte dos tatuadores. Mais do que fornecer nomes e endereços
a princípio sigilosos, algumas fichas continham o valor do trabalho executado. Esse tipo de
informação, quando pesquisada, contribui para gerar um estado de alerta. Mas como não
havia um controle de minha parte, nem era intenção fazer nenhuma auditoria, tampouco
senti qualquer ato antipático da parte dos profissionais.
Minha amiga jamais retornou ao estúdio comigo, o que foi, para mim, a medida de
minha aceitação no ambiente. Passei um ano visitando o local, entre 2003 e 2004. Não
imprimi uma freqüência regular, nos mesmos dias e horários, pois buscava ver as alterações
de público. Eu trocava os dias da semana em que comparecia e também os horários. Às
vezes observava um tatuador de perto por semanas e depois escolhia outro. Queria, com
isso, abrir o panorama de visão, pois o estúdio opera com até cinco profissionais tatuando
concomitantemente.
Tornei-me mais próxima, é verdade, da única mulher tatuadora do estúdio. De fato,
foi a ela que o proprietário me encaminhou em primeiro lugar. Conquanto o gênero deva ter
sido um critério nesta aproximação, percebi aos poucos que ela era o braço-direito do
proprietário, trabalhando a seu lado há muitos anos, e que certas responsabilidades, no
tocante ao estúdio, ficavam a seu cargo.
10

Com um total de nove tatuadores atuando na loja, é compreensível que alguns


tenham se tornado mais próximos e outro mais distantes. Próximo, aqui, significa a
possibilidade de iniciar uma conversa, de minha parte ou não, de fazer perguntas e de
observar o ato de tatuar de perto. Distante significa apenas cumprimentar o profissional,
nunca ter mantido conversação com ele e observar seu trabalho a uma distância física
maior. Talvez o gênero tenha sido um fator determinante nesta distância, pois se descobri
que a maioria dos clientes é mulher, a maioria dos tatuadores é homem, e neste universo
masculino habitado por uma única mulher eu era uma estranha. Mas creio que,
fundamentalmente, a distância foi causada por outros fatores, como a timidez. Os
tatuadores deste estúdio são pessoas introspectivas, que evitam comentar suas vidas
pessoais e que procuram sempre saber mais de seus clientes do que falar sobre si. Foi esta
dinâmica que permitiu o recolhimento de uma série de informações sobre essa clientela,
mas prejudicou o mesmo procedimento a respeito dos profissionais.
Foi em contato com outro grupo de amizade que pude efetuar o trabalho de campo
no estúdio de Copacabana. Freqüentando constantemente o restaurante de um amigo, ele
passou a me indicar tatuadores que eram seus clientes. Infelizmente, nossas presenças não
coincidiam. Foi uma de suas garçonetes que me apresentou a um tatuador sobre o qual ela
falava muito. Estava combinando com ele uma nova tatuagem, que acabou não sendo
realizada. Em uma noite em que ambos estávamos no restaurante, fui apresentada a ele.
Muito simpático, dispôs-se a me receber em seu estúdio, mas com a condição de que
estivesse presente. Disse que passava temporadas tatuando fora do país, no Caribe, mas que
em alguns meses estaria retornando e que, então, eu poderia procurá-lo.
Assim o fiz. Jamais me apresentei no estúdio sem a sua presença e limitei a pesquisa
ao período em que se encontrava na cidade. Como conseqüência, o período de observação
neste estúdio de Copacabana foi menor. Freqüentei o estúdio por poucos dias em janeiro de
2005, pois o tatuador estava às vésperas de uma de suas freqüentes viagens, e retornei
posteriormente entre março e maio de 2005.
Dada as longas e freqüentes ausências do proprietário e uma forma de organização
distinta daquela encontrada no estúdio estudado na Tijuca, não pesquisei as fichas de
cadastro de clientes. Em primeiro lugar, é necessário dizer que o acesso às fichas não foi
negado, mas desestimulado em função de sua alegada “falta de organização”. Enquanto as
11

fichas eram material para que o contador fechasse as contas mensais do estúdio da Tijuca, o
mesmo não ocorria em Copacabana. Assim, as fichas se tornaram lá um procedimento
meramente formal, sem utilidade para o estúdio. Em segundo lugar, observei que não era
hábito fazer com que clientes antigos, que eram a maioria enquanto efetuei a observação de
campo, preenchessem tais fichas.
Concluí que a consulta a este cadastro não forneceria material que possibilitasse
formular um perfil fiel à clientela do estúdio. Abandonando, portanto, a idéia de compará-
los por meio das fichas, esta comparação restou limitada aos procedimentos observáveis em
campo, ou seja, à forma de se organizar o estúdio como negócio, o grau de amizade entre
tatuador e cliente, o custo dos trabalhos efetuados, entre outros pontos. O estúdio contava
com dois tatuadores e um piercer. Observei que a freqüência de clientes era menor do que
aquela no estúdio da Tijuca. O grau de amizade entre proprietário e clientes também era
distinto. A relação entre tatuador e proprietário também era significativamente outra.
Em Copacabana, o proprietário tatuava mais clientes do que o segundo tatuador
(COSTA, 2004), situação que não foi vista na Tijuca. O segundo tatuador usufruía de um
tempo livre maior. Assim, a quase totalidade das conversas entre tatuador e cliente
observadas no estúdio de Copacabana foram travadas entre o proprietário e clientes antigos
da loja. Com o segundo tatuador, conversei várias vezes, conversas de natureza mais
informal sobre a profissão, os sonhos do profissional, o início da carreira.
Tornei-me próxima dos profissionais deste estúdio de uma forma que não ocorreu
na Tijuca. Observei, portanto, que reproduziam comigo a relação que mantinham com os
clientes, menos introspectiva, mais falante e mais próxima a uma amizade. Mesmo a
esterilizadora do estúdio passava as tardes conversando comigo, tocando inclusive em
assuntos de sua vida pessoal, de conhecimento de todos no estúdio. O piercer, atendendo
também a poucos clientes, tirava minhas dúvidas sobre o funcionamento do estúdio e me
mostrava na Internet, empolgado, as novas possibilidades da técnica. Conheci toda uma
rede de amizades lá, que incluía relações de compadrio. Em um universo menor, habitado
por uma quantidade menor de clientes, muitos eram amigos entre si e quase todos amigos
do proprietário. Fui tratada igualmente como uma amiga.
Aproveitando-me da relação, pude questionar mais os clientes, intrometendo-me nas
conversas que mantinham com o tatuador e efetuando minhas próprias perguntas. Se as
12

fichas de clientes não puderam ser utilizadas, as conversas foram conduzidas de forma mais
pessoal. Não tinha receio de estar constrangendo ou sendo inconveniente, pois sentia os
clientes mais abertos a falarem de suas vidas pessoais, suas expectativas, suas idéias.
Todas estas diferenças entre os estúdios me pareceram menos assentadas na divisão
Zona Norte e Sul do que em formas distintas de organização de um negócio, que se
aproximariam do que Weber (1971) chamou de familiar e burocrático. Assim, este foi o
ponto privilegiado da comparação: um estúdio com filiais, fichas de clientes organizadas,
contador, advogados, clientes amigos e não amigos e nove profissionais atuando, de um
lado, e um estúdio com dois profissionais, sem filial, sem fichas de clientes sistematizadas,
sem contador, sem advogado e repleto de turistas e amigos do proprietário como clientela
majoritária, de outro.
Em Copacabana, o proprietário contava que viajava para trabalhar no Caribe a fim
de lucrar mais, pois no Brasil mal conseguia sanar as contas da loja. Na Tijuca, o
proprietário anexava a loja contígua e comprava mobília nova para o estúdio. O
crescimento do negócio, a tatuagem como empreendimento, era vivido na Tijuca, enquanto
em Copacabana o negócio era quase familiar, artesanal, sem grandes investimentos. Este
pareceu o lado mais rico da comparação, lado que se refere, na verdade, a distintas
estratégias de sobrevivência em um mercado em expansão, que tem gerado uma
concorrência que não existia.
Como os casos relatados são oriundos da observação de campo, e não de entrevistas
em profundidade ou mesmo de questionários aplicados, não há informações completas
sobre os sujeitos mencionados. Desta forma, forneço as informações que me foram
possíveis obter em campo. No estúdio pesquisado de Copacabana, eventualmente eu podia
complementar algumas delas fazendo perguntas ao tatuador, amigo de muitos de seus
clientes e, portanto, a par de suas vidas pessoais. Mas nem sempre este método se mostrou
eficiente, uma vez que as perguntas eram interrompidas pela dinâmica do cotidiano do
próprio estúdio e ficavam sem resposta.
Ao longo do presente trabalho, inseri, ainda, uma série extensa de tabelas e gráficos
oriundos das mesmas, de forma a dar visibilidade ao material quantitativo coletado. Embora
relativamente pequeno, pois construído a partir de apenas três meses e de apenas um dos
estúdios pesquisados, o da Tijuca, o material quantitativo permitiu indicar mais claramente
13

tendências que poderiam ser consideradas difusas quando apontadas com base apenas na
observação participante. É um material que esclareceu e enriqueceu este trabalho.
Há, também, quadros ilustrativos, que foram limitados à indicação de categorias e
classificações nativas, de forma a permitir uma análise mais profunda sobre as associações
entre determinadas crenças e valores dos sujeitos observados.
Em anexo, incluí uma série de exemplos de estilos de tatuagens, pois a mera
descrição textual não parece conveniente a um repertório imagético tão vasto quanto o da
tatuagem ocidental contemporânea.
No primeiro capítulo, apresento uma síntese sobre o desenvolvimento histórico da
tatuagem ocidental a partir do contato entre ingleses e nativos do Pacífico Sul. Este contato
incorporou a prática da tatuagem entre os marinheiros e deste grupo espalhou-se por outros
grupos europeus, e além da fronteira européia dando início ao processo de popularização
atual da prática. Neste sentido, minha visão da tatuagem contemporânea está permeada por
este desenvolvimento histórico. Creio que a atual popularidade da prática, conquanto se
inscreva em um determinado culto ao corpo belo, é um momento final de um processo
histórico que se inicia séculos antes. Neste processo, a tatuagem é utilizada por diversos
grupos, rompendo progressivamente as barreiras de classe, geração e gênero.
No capítulo II, apresentarei uma reflexão teórica a partir dos principais conceitos
utilizados ao longo da tese. Foram estes conceitos e idéias que possibilitaram o desenho da
presente linha de análise.
No capítulo III, começo a apresentar o material de campo, os próprios estúdios e
seus profissionais, indicando a escolha dos estúdios a serem pesquisados e a metodologia
adotada.. A forma como estão divididos espacialmente, a maneira como se organizam
administrativamente, sua localização na cidade e nos bairros onde se encontram, as
diferenças entre os profissionais e funcionários, a forma de remuneração e pagamento dos
trabalhos executados, a forma como a organização do próprio campo profissional da
tatuagem se apresentou a mim. Este capítulo visa, portanto, situar o leitor sobre os estúdios
pesquisados, de onde provém a maior parte do material qualitativo e todo o material
quantitativo analisados, mas também apresentar algumas regras deste universo, apontando
para uma supremacia do tatuador no processo de tatuagem e sua capacidade de influenciar
os clientes.
14

No capítulo IV, apresento o perfil do público dos estúdios pesquisados. Cor, faixa
etária, sexo e local de residência são os dados principais. Como este perfil foi construído
principalmente a partir de material quantitativo de um dos estúdios observados, tento
apontar que estes dados correspondem, em comparação com dados de outros autores, a um
perfil que parece ser, na verdade, brasileiro, e não apenas carioca ou do estúdio pesquisado.
Neste sentido, foi possível perceber uma predominância feminina e a presença de uma
clientela não jovem da prática.
No capítulo V, descrevo os desenhos mais freqüentemente tatuados a partir do
mesmo material quantitativo, identificando um corte de gênero tanto quanto aos desenhos
como quanto aos locais do corpo a serem tatuados. Apresento, as relações entre os desenhos
e significados expressos por alguns tatuados observados em campo e, ainda, a relação entre
a marca, que pode envolver o desenho escolhido ou não, e o grupo com o qual o tatuado se
identifica, consistindo, portanto, em espécie de marca de pertencimento ou de imitação
prestigiosa (MAUSS, 1994). Neste aspecto, identifico como a imitação é mal vista pelos
tatuadores, que pensam na tatuagem como expressão artística, portanto indigna de cópia,
mas também a relacionam à expressão de uma individualidade que deve ser original ou
autêntica. Aqui se percebe como noções de subjetividade, individualismo, expressão
pessoal e, ao contrário, cópia, imitação e pertencimento constituem uma dicotomia presente
na escolha pelos desenhos a serem tatuados, escolha esta que segue, ainda, uma
diferenciação entre os gêneros.
No capítulo VI, aprofundo esta diferenciação entre os gêneros, indicando situações
observadas nos estúdios em que as atitudes de homens e mulheres são distintas e como se
espera que seja esta distinção a partir do ponto de vista dos tatuadores e dos clientes.
Discuto a liberdade de opção pela marca, influenciada pela família e pelo mercado de
trabalho, o enfrentamento da dor causada pelo procedimento e a idéia de tatuagem
relacionada ao embelezamento do corpo e seu conseqüente uso como arma de sedução.
Neste capítulo, o material de campo permitiu que fosse mais claramente exemplificada a
dinâmica entre revelar e esconder uma tatuagem, conforme apresentada no capítulo
anterior, em função da localização dos desenhos no corpo.
No capítulo VII, descrevo as tatuagens de amor, conforme observadas nos estúdios.
Forma de expressão dos sentimentos, as tatuagens de amor estão amparadas na idéia de um
15

amor para sempre, o que é propício a se pensar a qualidade permanente da marca em


relação aos seus usos contemporâneos, embora esta reflexão seja progressivamente
indicada por todo o trabalho.
De fato, embora cada capítulo esteja estruturado a partir de alguns aspectos
privilegiados relativos ao universo da tatuagem, seguindo um desenho etnográfico mais do
que teórico, esta etnografia é utilizada tanto para revelar os procedimentos atuais com
relação à prática quanto para desvendar a mencionada continuidade da posição social do
sujeito que se tatua em função de uma abordagem teórica que foi confirmada pelos dados
do campo. Assim, espera-se que, ao final dos capítulos, não apenas parte do universo da
tatuagem contemporânea ocidental esteja mais claro ao leitor, quanto a sua dinâmica,
pensada a partir da abordagem teórica utilizada, privilegiando-se uma reflexão sobre a
autonomia do sujeito que opta pela tatuagem, o controle exercido sobre os corpos (tatuados)
e sobre os indivíduos, e o processo de tatuagem como uma metáfora desta luta entre
indivíduo e sociedade, mesmo ao nível microssociológico.
16

CAPÍTULO I - RENASCIMENTO DA TATUAGEM NO OCIDENTE

“Antigamente, tatuagem era tida como coisa de bandido, mas hoje nossos filhos fazem.”
Rubem Vasconcelos, presidente da empresa de construção civil Patrimóvel.

Uma história completa da tatuagem seria, por si só, um empreendimento louvável,


uma vez que as poucas obras que tomaram a si esta missão ficaram longe de alcançá-la.
Não é minha intenção, contudo, refazer o trabalho dos poucos que se aventuraram neste
sentido, embora seja necessário que algum pesquisador o faça de forma mais sistemática.
Não seria possível, tampouco, no presente trabalho, tratar exaustivamente da história da
tatuagem no mundo. Ao invés disto, gostaria de apresentar alguns dados sobre a história da
tatuagem no Ocidente, por algumas razões: primeiro, o atual uso da tatuagem no Ocidente é
fruto de um percurso histórico claro e bem definido que auxilia a compreensão sobre a
tatuagem contemporânea; neste percurso, alguns usos e alguns grupos foram demarcados de
forma tão forte, que a sua associação não se desfez até o presente momento; em segundo
lugar, como estou preocupada com os usos da tatuagem, creio que uma pequena história da
mesma redime a tradição antropológica, que muitas vezes trata seus objetos de estudo como
sujeitos a-históricos (CLIFFORD, 1998).
Esta apresentação está organizada da seguinte forma: primeiro, apresentarei os
marcos da tatuagem ocidental; em seguida, apresentarei os subgrupos relacionados à
tatuagem no Ocidente; por último, analisarei a relação entre estes grupos e o uso de
tatuagens. O primeiro marco é o contato entre europeus e habitantes do Pacífico Sul. O
segundo marco é a popularização da tatuagem a partir da contracultura, nas décadas de
1960 e 1970. Entre estes dois marcos, há caminhos diferentes para esta popularização em
diferentes sociedades ocidentais. Como o interesse do presente trabalho repousa nos usos
cariocas da tatuagem, utilizarei para efeito de comparação a trajetória americana da
tatuagem, a européia e a brasileira. Neste tópico, a diferença poderá ser melhor visualizada.
17

As fontes utilizadas para o levantamento destes dados são formadas pelos


tatuadores-historiadores e por historiadores não tatuadores. Por que a distinção? Porque os
tatuadores elaboram categorias nativas, enquanto os historiadores reificam ou não tais
categorias. Poucos pesquisadores acadêmicos se dedicaram ao estudo da tatuagem. Este
estudo integrou, sobretudo, etnografias. Os historiadores não se interessaram a não ser
recentemente pelo assunto (CAPLAN, 2000).
Parece-me que este esquecimento do papel da tatuagem em certas esferas da vida
social decorre da posição que o corpo ocupou na cultura ocidental a partir da modernidade.
A separação entre corpo e mente tornou os assuntos da mente muito mais interessantes aos
olhos dos acadêmicos do que os assuntos do corpo. Para Porter (1997), as tradições
interpretativas têm dado maior prioridade para questões relativas a significados mentais e
ideais do que às questões relativas ao puramente material e ao corporal. Segundo Revel e
Peter (1972), o corpo está ausente da história e da historiografia, aparecendo apenas sob o
discurso médico – principalmente nos episódios de epidemias – e as estatísticas
demográficas. E assim a tatuagem caiu em um esquecimento etnocêntrico, vista como uma
decoração sem importância, reabilitada apenas recentemente na obra de Gell (1993). Antes
dele, a tatuagem foi objeto de estudo da antropometria e gerou inúmeros estudos, inclusive
no Brasil, a partir das visões de Lacassagne e Lombroso, cujas obras também são
classificadas como antropologia criminal. Quando suas teorias caíram em desuso, os
estudos sobre tatuagem escassearam.
A decadência da tatuagem como tema de estudos antropológicos foi tão forte – e
talvez unido a este fato a decadência das teorias explicativas lombrosianas –, que muitos
pesquisadores da tatuagem não são acadêmicos, mas diletantes apaixonados pelo tema. Seu
discurso traz um teor altamente nativo, eivado de senso comum. Assim, não é de estranhar
que o cronista João do Rio (1997), no começo do século XX no Brasil, e Steve Gilbert
(2000), tatuador nas horas vagas no Canadá no final do século XX, apresentem ambos
como motivação para a tatuagem o ócio e a vaidade. Não por acaso, Samuel Steward
(1990), ex-professor universitário e tatuador, apresenta a tatuagem do meio do século XX
nos Estados Unidos da mesma forma que Do Rio (1997): como um elemento da cultura
marginal e de camadas baixas da sociedade, ambos os autores influenciados pelas teorias
antropométricas.
18

Estas visões perpassam, igualmente, o discurso dos tatuadores contemporâneos,


alguns preocupados em apresentar um mínimo de informações sobre sua profissão nas
homepages que mantém. Se os tatuadores estão interessados em construir a sua própria
história, Margot Mifflin decidiu contar a “história secreta das mulheres e da tatuagem”,
como afirma o subtítulo de sua obra, Bodies of Subversion, de 1997, com um discurso
feminista. No universo masculino da tatuagem, as mulheres muitas vezes passaram em
branco, embora colorissem as peles de outros e a sua própria.
Longe de apenas fornecerem dados, estes autores informam, por meio de seu
próprio ponto de vista, a visão de uma época, a apropriação que certos segmentos sociais
fizeram da tatuagem e a construção de um discurso elaborado a partir da posição que cada
autor ocupa neste universo.

1. Do Pacífico Sul à Europa

Antes de prosseguir, devo introduzir mais um problema metodológico da elaboração


deste texto. Como toda “história da tatuagem” revisada está centrada nos usos ocidentais
desta técnica, não é de estranhar que os fatos relatados sobre o Pacífico Sul, primeiro marco
histórico do renascimento da tatuagem (MIFFLIN, 1997), digam respeito muito mais ao
contato de seus habitantes com europeus do que ao significado mais profundo da tatuagem
para os próprios nativos, a não ser pela obra de Gell (1993). Os tatuadores têm sido os
principais historiadores da sua arte1. Nesta posição, eles têm apresentado uma visão
eurocêntrica, uma vez que o europeu é o centro de importância da tatuagem não européia. É
o contato, o conhecimento da técnica, seu uso e disseminação por europeus a chave central
destas “histórias”.
Embora a tatuagem exista no mundo desde a pré-história (Gilbert, 2000), seu
percurso no Ocidente tem alguns marcos que gostaria de apresentar. O primeiro deles é o
contato entre habitantes do Pacífico Sul que dominavam a técnica e marinheiros europeus.
Foi a partir das viagens do capitão Cook, no século XVIII, que a tatuagem ganhou tradução
inglesa na palavra tattoo. Gilbert (2000) afirma que foi a tripulação de Cook quem adotou o

1
Não raro os tatuadores apresentam a tatuagem sob a categoria de arte, sem indicar exatamente o que a faz
uma arte. É, desta forma, uma categoria nativa.
19

costume nativo primeiro, tornando-o uma espécie de moda entre os marinheiros a partir de
então. Foram tatuados por mãos nativas e aprenderam a técnica, que depois utilizaram a
bordo. Muitos tatuadores ocidentais dos séculos XIX e XX eram ex-marinheiros. Segundo
Gilbert (2000), já na metade do século XVIII os principais portos britânicos tinham pelo
menos um tatuador profissional2. Muitos marinheiros, ao se aposentarem, estabeleciam-se
nas cidades portuárias como tatuadores (BOREL, 1992; GILBERT, 2000). E assim a
tatuagem começou seu longo caminho de popularidade no Ocidente.
Diz-se recorrentemente nos estudos sobre tatuagem que foi a partir deste contato
que a tatuagem ressurgiu na Europa, após um período de quase desaparecimento durante a
Idade Média. Este desaparecimento tem sido contestado na medida em que fontes históricas
indicam determinados usos populares da tatuagem européia, sobretudo religiosa e
profissional, embora os historiadores ainda não tenham concluído qual a parcela de
influência estrangeira em tais costumes3. A pergunta mais importante para o antropólogo,
contudo, não é esta. Que a tatuagem foi observada como um costume importado é fato. Mas
antes do encontro entre europeus e nativos tatuados do Pacífico Sul, houve um encontro
similar que não resultou na importação de tal técnica: o encontro entre europeus e nativos
do continente americano. Torna-se necessário perguntar, então, porque um desses encontros
resultou na chamada tattoo craze4, e o anterior não. Note-se que alguns arquipélagos
colonizados a partir do século XVIII já haviam sido “descobertos” por espanhóis no século
XVI, como é o caso das ilhas Marquesas, mas não colonizados (GILBERT, 2000).
No encontro entre europeus e ameríndios é possível observar que não apenas a
tatuagem não foi importada como técnica como tampouco o foram os nativos americanos
tatuados. Quando os europeus desbravaram os mares do Pacífico e, sobretudo, os ingleses,
vários foram os nativos que ao longo das décadas foram levados à Europa como souvenirs
ou como espécimes de História Natural por serem tatuados. A percepção científica que
moveu alguns naturalistas no Pacífico não estava presente nas Grandes Navegações, e creio
que esta mudança de mentalidade explica em parte a diferente posição frente aos nativos.
Mas eu gostaria de sugerir que quando a tatuagem se tornou um elemento identificador do

2
Profissional é uma categoria nativa dos tatuadores que se opõe a amador. A construção desta diferença não
está bem clara, mas a narrativa escrita dos tatuadores indica que enquanto a tatuagem não é o único ofício, ela
é considerada amadora.
3
Para acompanhar de perto o debate, sugiro a leitura de CAPLAN (2000).
4
“Loucura pela tatuagem” ou “febre da tatuagem”, em tradução livre.
20

Outro e de seu exotismo5, ela foi apagada da memória nacional do Eu, embora existisse e
sua existência não fosse ignorada. Em outras palavras, um novo imaginário sobre a
tatuagem a associou ao exótico e ao selvagem, minimizando o uso europeu da técnica. Este
novo imaginário foi construído a partir de uma determinada percepção britânica sobre os
habitantes do Pacífico Sul, no século XVIII. É certo que nem a mudança de mentalidade
nem a construção de um imaginário moderno sobre a tatuagem explicam porque no século
XVI e depois ela não foi adotada no contato com os ameríndios, e a partir do século XVIII
ela foi adotada no contato com nativos do Pacífico Sul. De qualquer forma, a percepção da
tatuagem que se origina a partir do século XVIII é a raiz da atual visão ocidental da
tatuagem e, portanto, é sobre ela que devo me concentrar.
É preciso dizer, ainda, que a tatuagem na Europa não estava desaparecida quando
marinheiros trouxeram o costume do Pacífico. Havia, como indicam diversos autores
(BOREL, 1992; CAPLAN, 2000; GILBERT, 2000; ROSECRANS, 2000), uma tradição
religiosa da tatuagem européia, relacionada à peregrinação a locais sagrados, incluindo
Loreto, na Itália, e Jerusalém. O que os marinheiros fizeram, de fato, foi retirar o costume
deste universo religioso cristão e torná-lo um costume profano popular, no sentido de
camadas populares e no sentido de ter sido disseminado. O renascimento da tatuagem no
Ocidente é um fenômeno que diz respeito a sua disseminação entre camadas sociais
determinadas, a partir do contato entre marinheiros e nativos do Pacífico, fora de seu
escopo anterior de prática religiosa cristã.

2. O corpo exposto no circo

O circo e a exibição do corpo tatuado como entretenimento foi uma das


conseqüências do renascimento da tatuagem na Europa. Segundo Gilbert (2000), o primeiro
artista circense tatuado inglês foi John Rutherford, que começou carreira em 1828. O
pioneirismo de Rutherford refere-se mais à história que contava sobre si do que à data de
seu debut artístico, história que foi copiada e recontada por muitos artistas tatuados depois
dele. Dizia ter sido capturado pelos maori e aprisionado por 10 anos. Teria sido tatuado a

5
Para uma discussão maior sobre a ênfase no elemento exótico, a curiosidade e o papel do Outro da formação
de uma identidade nacional européia, ver GUEST (2000).
21

força logo após a captura. Foi promovido a chefe e os maori lhe ofereceram noivas. Casou-
se com duas filhas de um chefe. Participou das atividades nativas até ser resgatado em
1826, levado em um navio americano até o Havaí, onde se casou com outra princesa nativa.
Após um ano, retornou à Inglaterra, onde iniciou a carreira artística. Dizia que o fazia com
desgosto, a fim de conseguir dinheiro suficiente para retornar a Otaheite. A partir de 1830
não foi mais visto.
A descrição acima é de Gilbert (2000), que parece levar Rutherford a sério. A
história é falsa (OETTERMANN, 2000), mas lançou as bases de um imaginário sobre
europeus tatuados por nativos que envolvia, acima de tudo, o elemento do ordálio. Como
visto, em histórias verídicas sobre europeus vivendo tatuados entre nativos, a tatuagem não
era uma tortura aplicada após a captura, mas um sinal de pertencimento.
Em 1873, surge o Príncipe Constantino (GILBERT, 2000), o tatuado mais famoso
do século XIX (OETTERMANN, 2000). Apresentava a si mesmo como ladrão e dizia ser
admirado pelas mulheres. Este detalhe sugere o exercício de uma atração sexual pelo corpo
tatuado. Exibido seminu, ele atraía o olhar e a imaginação. Constantino era grego e foi
tatuado em Burma com a intenção de tornar-se artista. Fez muito sucesso, pois suas
tatuagens eram bastante elaboradas, inclusive cobrindo grande parte de seu rosto
(GILBERT, 2000). Segundo Oettermann (2000), ele dizia pertencer a uma raça selvagem
dos Bálcãs ou apresentar-se como “o homem tatuado de Burma”. Também dizia ser
contrabandista de armas e caçador de tesouros capturado na terra dos Mougongs e tatuado à
força.
La Belle Irene entrou para o circo em 1890. Embora suas tatuagens tenham sido
executadas por dois famosos tatuadores da época, seguia a tradição do circo e dizia ter sido
tatuada no Texas, um lugar selvagem onde as marcas serviam para afastar os índios
(GILBERT, 2000). O pai teria tido a idéia de tatuar as filhas para afastar o risco de rapto
pelas tribos sioux. Não foi a primeira mulher tatuada no circo americano, mas a primeira na
Europa (OETTERMANN, 2000).
A partir de La Belle Irene, as mulheres entram no negócio da tatuagem circense, um
mercado que podia ser extremamente lucrativo6 (OETTERMANN, 2000). A maior parte

6
Tão lucrativo que famílias inteiras se apresentavam tatuadas, até mesmo alguns animais como cachorros e
vacas.
22

das mulheres tatuadas, no entanto, mantinham ligação conjugal com os tatuadores ou outros
artistas circenses. No caso das esposas de tatuadores, serviam de propaganda para o
trabalho do marido. Desta forma, também puderam aprender o ofício de tatuadoras. Em um
universo masculino, a ligação conjugal facilitava a entrada na profissão. Apenas após os
anos 1960 e o movimento da contracultura7 as mulheres ocidentais conseguiram abrir
caminho como tatuadoras sem depender do apadrinhamento marital (MIFFLIN, 1997).
Embora Mifflin (1997) não fale sobre o escândalo da exposição do corpo feminino
entre os séculos XIX e XX, por mais suave que fosse esta exposição (apenas pernas, colo e
braços, estando os seios, barriga e nádegas cobertas) nem sempre era bem vista.
Oettermann (2000) afirma que as tatuadas passaram sutilmente à prostituição quando a
concorrência aumentou. A exposição dos corpos teria, sugere o autor, um elemento erótico,
enquanto a tatuagem se tornara um fetiche. Até a década de 1960, enquanto o circo
manteve tatuados, a exposição corporal feminina se tornou cada vez maior, assemelhando-
se ainda mais a um espetáculo erótico.
Great Omi é o último exemplo que eu gostaria de tratar aqui. Quando decidiu
tornar-se artista de circo, procurou um famoso tatuador da época e elaborou uma
padronagem de listras negras que cobriam todo o seu corpo, de modo a tornar-se o “homem
zebra”. Começou a carreira em 1927, com as tatuagens ainda incompletas (GILBERT,
2000; OETTERMANN, 2000). Este caso é interessante, pois marca o início de uma
modificação corporal explicitamente animal. A mulher tatuada com manchas bovinas
(GOLDENBERG & RAMOS, 2002) e a mulher-tigre (MIFFIN, 1997) contemporâneas
seguem o exemplo do Great Omi. A mulher-tigre apresenta-se dentro da tradição circense,
mas a mulher-vaca não. Esta pretende uma abordagem artística, em termos de body art, que
não estava presente nas reflexões circenses.

3. Marinheiros, prostitutas e prisioneiros

Além da entrada dos tatuados no universo do espetáculo por meio do circo, houve
outras conseqüências do primeiro marco histórico do renascimento da tatuagem no

7
Contracultura é o termo que Mifflin (1997) utiliza para demarcar o que classifica como um segundo
renascimento da tatuagem.
23

Ocidente. Alguns grupos foram fortemente associados à tatuagem e esta associação


prolongou-se até o presente momento. O primeiro grupo a ser tratado deve ser, obviamente,
o dos marinheiros, pois foram eles o motor deste renascimento. Não apenas adotaram o
adorno, como aprenderam a técnica da tatuagem, transformando-a em uma profissão. Em
um primeiro momento, os tatuadores se encontravam fundamentalmente em dois locais: o
porto e o circo.
A tatuagem se tornou, entre os marinheiros, parte de sua cultura, fossem
comandantes ou pesquisadores, mercenários ou membros da Marinha Real inglesa. Guest
(2000) argumenta que a tatuagem operava como sinal de masculinidade, em uma dinâmica
intrincada entre as percepções européias sobre si e sobre os nativos do Pacífico Sul.
Steward (1990), ex-tatuador que escreveu memórias sobre a profissão, que exerceu
no período de 1950 a 1965 nos Estados Unidos, afirma que mesmo na cidade não litorânea
de Chicago, onde viveu, os recrutas de uma base naval tatuavam-se como em uma espécie
de rito de passagem, geralmente seguido da iniciação sexual. Antes mesmo de ir ao mar,
muitos já haviam se tatuado.
Talvez tenha sido esta proximidade entre o universo naval e a prostituição que tenha
disseminado a prática entre meretrizes. Esta conexão não está clara e mereceria um estudo
histórico mais profundo. Não há dados sobre o início da prática entre prostitutas ocidentais,
embora haja menção sobre o contexto japonês, no qual a tatuagem marcava os votos de
amantes (BOREL, 1992). Há poucos relatos sobre o uso de tatuagens por prostitutas.
Parece-me que menos que os fatos, é um certo imaginário que as conecta.
Mifflin (1997) indica que até a contracultura, qualquer mulher tatuada nos Estados
Unidos era vista como prostituta. Quanto às mulheres tatuadas circenses, Oettermann
(2000) indica que a associação não era de todo fantasiosa. Steward (1990) descreve este
imaginário: para ele, mulheres “decentes” não se tatuavam, apenas prostitutas e lésbicas.
Mesmo as namoradas que seus clientes levavam para que ele fizesse tatuagens de amor
eram vistas com certa desconfiança, como o retrato do pensamento de uma época. Havia
exceções. Para certos maridos, amantes ou namorados, como Mifflin (1997) indica, a
tatuagem era um elemento erótico, não apenas na sua qualidade de jura de amor, mas como
um fetiche.
24

O grupo mais fortemente associado à tatuagem foi o dos criminosos, graças a


Lombroso (1991) e à escola de pensamento que ele criou. A partir de sua teoria, a tatuagem
começou a ser identificada como sinal de criminalidade, embora estudos realizados tenham
demonstrado, desde então, que a maior parte dos criminosos se tatua na prisão
(SCHRADER, 2000). Este dado leva a uma reflexão sobre o papel do corpo na resistência a
sistemas policiais e de exercício de autoridade. Steward (1990) notou a disseminação da
tatuagem, neste primeiro momento, de forma mais acentuada em populações cuja
característica é a predominância de um único sexo, como corporações militares,
presidiários e gangues juvenis.. Não creio que esta seja a questão, mas sim que a tatuagem
atingiu grupos cujo isolamento relativo é maior, grupos cujas redes de sociabilidade se
formam dentro do próprio grupo, e não em outras esferas da sociedade e,
fundamentalmente, grupos sob estreita vigilância social, sob um controle rígido –
exatamente o que une os exemplos que inspiraram o autor. Nestes casos, conforme será
desenvolvido posteriormente, a marcação voluntária do corpo é uma forma de expressar o
que Benson (2000) chamou de posse de si: o corpo se torna a única propriedade do sujeito e
seu bem mais precioso, estreitamente vinculado à própria noção de individualidade, ou à
noção de Eu. A marca elaborada sobre ele é uma forma de assinalar a posse deste bem, o
que significa assinalar a posse de si frente a uma instituição ou situação em que a
individualidade é posta em xeque por mecanismos de controle e/ou isolamento.
No caso de prisioneiros do sistema penitenciário, o isolamento forma redes internas
de sociabilidade e o afastamento do mundo exterior reforça estas redes. Ao mesmo tempo,
o controle exercido pelo aparato policial sob estes sujeitos é um controle sobre seus corpos,
como indica Foucault (1997). A expressão de uma resistência, questão que não é abordada
pelo autor, se dá, de igual maneira, por meio do corpo.
Em grupos como o das prostitutas e marinheiros, creio que a questão da posse de si
também está presente. A identidade da prostituta está estabelecida em função do uso que
faz de seu corpo, uso este negativamente valorizado e sujeito a uma série de sanções sociais
que a transporta, como ao criminoso, para as margens da sociedade. Desta forma, creio que
a idéia de tatuagem entre prostitutas se relaciona a uma afirmação da posse de seu próprio
corpo quando, na prática, este corpo está à venda, quase sempre sob o olhar vigilante e as
práticas controladoras de cafetões ou cafetinas.
25

Da mesma forma, o corpo do marinheiro está sob um rígido controle. Foucault


(1997) apresenta a mudança no controle dos corpos dentro da ordem militar européia. Em
grupos específicos, a tatuagem é uma resposta pessoal, na forma de uma resistência, a
situações de controle sobre o corpo e sobre a identidade, em grupos que ainda apresentam
uma característica de relativo isolamento social e fracos laços de solidariedade extragrupo.
Esta resistência é simbólica, como uma forma de assinalar à instância controladora que o
corpo é propriedade do sujeito e, portanto, controlado por ele – muito embora as situações
sociais exerçam todo tipo de controle e coerção cotidianamente na forma de regras pré-
estabelecidas de convivência, por exemplo. A falta de uma rede de solidariedade social
pode, conforme apontou Souza (1989), gerar uma situação de marginalização social. A
tatuagem não seria conseqüência desta marginalização, mas da estrutura de funcionamento
destes grupos, em termos de controle, corporalidade e identidade.
A noção de preconceito contra os tatuados ou a tatuagem se insere, desta forma,
como um discurso que encobre sua estrutura. Se Lombroso (1991) contribuiu para a
associação entre tatuagem e marginalidade, esta associação não reside na natureza da
tatuagem, em alguma essência desviante dela ou do tatuado. Esta associação encobre um
elemento anterior, que é a resistência de certos sujeitos ao controle sobre seus corpos. Este
preconceito associa a idéia de tatuagem como elemento do exotismo selvagem e a idéia da
tatuagem como elemento de marginalidade.
Outras marcas podem ter sido utilizadas por grupos específicos em épocas
determinadas. Esta resistência parece obedecer ao seguinte modelo dialético: o controle dos
sujeitos significa um controle dos corpos, conforme indicou Foucault (1997); a resistência a
este controle se dá, por sua vez, também por meio do corpo (observe-se que não se está
tratando aqui de formas abertas de resistência, como rebeliões); o sujeito cujo corpo é
controlado reivindica o controle de seu próprio corpo, como uma forma de reivindicar o
controle sobre sua própria vida/vontade/identidade (as variáveis podem variar de caso a
caso); a marcação do corpo é uma forma de reivindicação do controle sobre o mesmo e
sobre si; a tatuagem é a marca mais utilizada; esse controle do próprio corpo e de si pode
ser traduzido no conceito de posse de si (BENSON, 2000), que envolve a noção moderna
de que o corpo pertence ao sujeito, é uma propriedade individual e não coletiva.
26

Apesar de a bibliografia indicar diversos casos, que aqui serviram de exemplo, em


que a tatuagem é uma marca de resistência ao controle corporal, nenhum autor indica por
que a tatuagem. Outras marcas poderiam, a princípio, serem utilizadas, mas a tatuagem
aparece na bibliografia como uma constante. Conforme identificado por Gell (1993), a
tatuagem opera, ao contrário de outras marcações corporais, segundo a díade dentro/fora ou
externo/interno. Para grupos socialmente marginalizados ou isolados, de alguma forma
excluídos da sociedade, talvez a tatuagem traduza simbolicamente, por esta dinâmica, a
situação real experimentada por membros destes grupos. A tatuagem se apresentaria como
um tipo de incorporação (ALMEIDA, 1996), na medida em que se tornaria uma
experiência corporal que traduz uma situação que não é conscientemente traduzida a não
ser pela própria experiência física. O isolamento de certos grupos tatuados traduz, ele
também, uma determinada experiência física, além de mental. Haveria, então, dois planos
em ação nestes grupos tatuados: o primeiro diz respeito a uma forma de resistência; o
segundo, a um processo de incorporação (ALMEIDA, 1996), que não separa corpo e
mente, no qual a experiência simbólica da tatuagem como elemento que está dentro e fora
do corpo ao mesmo tempo traduz ou simboliza a experiência do tatuado, que está dentro e
fora da sociedade ao mesmo tempo.

4. Nobreza européia

Em 1862, o Príncipe de Gales foi a Jerusalém, retornando de sua peregrinação,


conforme se fizera desde as Cruzadas, com a “cruz de Jerusalém” tatuada no braço
(GILBERT, 2000). O príncipe se tornaria o rei Eduardo VII do Reino Unido, que fez mais
tatuagens ao longo da vida. Seus filhos, o duque de Clarence e o duque de York, que se
tornaria o sucessor de seu pai como George V, visitaram o Japão em 1882, em meio a uma
viagem ao redor do mundo, fazendo suas primeiras tatuagens lá. Gilbert (2000) afirma que
o tutor dos rapazes fora instruído pelo rei a levá-los ao mestre tatuador Hori Chyo, que
desenhou dragões em seus braços. Do Japão, foram a Jerusalém, onde se tatuaram
novamente, pelo mesmo tatuador que o rei visitara em sua própria peregrinação.
As tatuagens da família real britânica deram início a um processo de imitação
prestigiosa (MAUSS, 1994). No corpo da realeza, as tatuagens ganharam novos
27

significados, tornando-se lembranças de países orientais. Foram imitadas por parte da


realeza européia. Segundo Borel (1992), eles foram os disseminadores de uma prática que
tinha raízes nos viajantes, que, a exemplo dos marinheiros, costumavam levar uma
tatuagem nativa de recordação. Assim, o conde Tolstoi se fez tatuar na Oceania. Na França,
a moda se espalhou pelo universo da política. Em Berlim, no fim do século XIX, as
mulheres elegantes passavam pelas mãos dos tatuadores birmaneses.
O tatuador japonês da elite européia no Japão foi Hori Chyo. Muitos tatuadores se
tornaram famosos entre os séculos XIX e XX, freqüentemente lembrados como artistas de
renome pelos tatuadores. MacDonald, considerado em seu tempo o “Rafael da tatuagem”,
serviu na Índia e encorajou os marajás a se tatuarem. Estes iam à Europa ou aos Estados
Unidos para tal. As mulheres britânicas da alta sociedade na Índia cobriam seus braços com
borboletas ou abelhas. MacDonald tatuava seus clientes com estampas japonesas ou pintura
clássica inglesa. Frederico VII da Dinamarca, o Tsar Nicolas II, Alexandre da Iugoslávia,
George II da Grécia e Henri da Suécia passaram por suas mãos. Políticos americanos
também tinham tatuagens, como Theodore e Franklin Roosevelt, Truman e Kennedy. No
Reino Unido, Churchill, o marechal Montgomery e o duque de Edinburgo foram tatuados.
Stalin e Tito representaram o costume no mundo soviético (BOREL, 1992).
Gilbert (2000) afirma que o exemplo da nobreza britânica influenciou os
comandantes de sua Marinha Real, bem como a elite de um modo geral, todos ávidos por
tatuagens japonesas. Observa-se que o papel da nobreza foi elaborar a tatuagem como um
sinal de bom gosto, elegância e distinção. Uma idéia de gosto que utilizava o elemento
exótico em tatuagens elaboradas pelos tatuadores mais famosos da época. Mesmo assim, a
tatuagem só ganhou a classe média ocidental no final do século XX.

5. A juventude e a contracultura

Embora haja um caminho de disseminação da tatuagem, entre os séculos XVIII e


XX que passa pela nobreza européia, os autores da área (MIFFLIN, 1997) têm tratado a
contracultura como o marco de um segundo renascimento da tatuagem no Ocidente.
Nos Estados Unidos, a tatuagem foi utilizada por marinheiros, criminosos, artistas
de circo e por alguns membros da elite econômica local (STEWARD, 1990; GILBERT,
28

2000). Quando a nobreza européia adotou a tatuagem, em parte por suas relações com os
corpos militares nacionais (e vice-versa), alguns milionários americanos passaram a adotá-
la também, aparentemente seguindo a moda londrina. Gilbert (2000) apresenta mais uma
vez o caso de Hori Chyo, o famoso tatuador japonês que, perseguido pelo governo de seu
país, teria se auto-exilado em Nova York sob a proteção de um milionário local, Max
Bandel.
Entre os criminosos, parece que a tatuagem fez sucesso entre os mais jovens, sob a
égide da delinqüência juvenil. Steward (1990) relata o interesse e a procura destes rapazes
por tatuagens. Sua loja ficava localizada, como a maior parte das lojas de tatuadores de
Chicago na década de 1950, em uma região freqüentada por gangues, onde a polícia
extorquia alguns bandos e procurava os tatuadores para saber o paradeiro de certos
fugitivos. Muitos dos clientes do autor eram ex-presidiários, a ponto de Steward ficar
conhecido na penitenciária local pelo volume de condenados que haviam se tatuado em sua
loja.
Na década seguinte, quando Steward (1990) se mudou para a Califórnia, seu
publicou se tornou outro. Era muito procurado pelos motociclistas Hells Angels, cujos
costumes envolviam a tatuagem como um elemento fortemente presente. Alguns dos
desenhos que se tornaram famosos entre os americanos têm sua origem neste grupo, como
o número 13 indicando o uso de maconha bem como o hábito das mulheres dos
motociclistas serem tatuadas com “propriedade de...”8, a lacuna sendo preenchida pelo
nome do grupo ou, mais freqüentemente, do companheiro. Neste momento, a tatuagem
americana parece estar no limite entre as gangues e a cultura jovem.
Mifflin (1997) indica que a contracultura americana e os hippies eram movimentos
formados por pessoas de camadas baixas da população. Mantém-se, desta forma, a prática
da tatuagem entre estas camadas. Foi apenas na década de 1980, segundo a autora, que a
classe média americana com curso superior passou a fazer uso da tatuagem como adorno
corporal. Interessante notar que esta é a década em que o culto ao corpo se dissemina no
Ocidente. A tatuagem pode ter se tornado um elemento a mais no emergente culto ao corpo
contemporâneo, surgido nas camadas médias-altas.

8
A expressão em inglês é “property of...”.
29

Pereira (1992) apresenta um retrato distinto sobre a contracultura, relacionando-a


com a juventude de camadas médias e altas, tanto norte-americanas quanto européias. Neste
caso, o percurso apresentado no quadro n. 1 abaixo não diferiria para Estados Unidos,
Brasil e Europa, todos apresentando o movimento contracultural centrado na juventude
universitária de camadas médias e altas.

Quadro n. 1 – Mudança no perfil sócio-econômico do tatuado, durante o século XX, no Brasil,


nos Estados Unidos e na Europa.

BRASIL ESTADOS UNIDOS EUROPA

Marginalidade (camadas baixas) Marginalidade (camadas Marinha e camadas baixas


⇓ baixas) e circo
⇓ ⇓
Elite econômica (Nobreza e elite)
⇓ ⇓
Contracultura (camadas médias Contracultura (hippies) Contracultura (hippies)
urbanas) ⇓ ⇓
⇓ Camadas médias Camadas médias
Demais camadas sociais universitárias urbanas universitárias urbanas
Fonte: A partir de BOREL (1992), MIFFLIN (1997), GILBERT (2000).

Para Pereira (1992), a contracultura engloba uma série de práticas distintas, tanto
políticas quanto religiosas, unidas pela idéia de uma crítica às instituições ocidentais,
sobretudo aquelas que são a base de reprodução do capitalismo e de seus valores
dominantes. Disseminada entre a juventude de camadas médias na década de 1960, a
contracultura teria alguns pontos de expressão nos festivais de música, como o de
Woodstock, e nas rebeliões estudantis como a de Maio de 1968, na França. Da forma como
é apresentada pelo autor, a contracultura é um movimento de crítica reflexiva sobre a
modernidade.
O percurso da tatuagem nos Estados Unidos é muito próximo ao percurso da
tatuagem na Europa, após o seu renascimento. É importante lembrar que a tatuagem nunca
chegou a desaparecer na Europa. Antes da adoção da prática por meio do encontro cultural
com o Pacífico Sul, a tatuagem européia era usada de forma religiosa, utilizada como marca
de peregrinações a lugares santos, um uso que não foi perdido. Gilbert (2000) recolheu
informações que indicam que pelo menos até a década de 1950 havia um tatuador que
marcava os peregrinos de Jerusalém, embora não indique se os europeus eram a maioria,
como após as Cruzadas. O hábito de tatuar a “cruz de Jerusalém” parece ter se
30

desenvolvido na Europa a partir destas expedições à Terra Santa. Em lugares santos


europeus, como Loreto, na Itália, a prática foi descrita no século XIX (CAPLAN, 2000).
A partir das expedições do capitão Cook ao Pacífico, os marinheiros adotaram a
prática, que se disseminou pelas camadas baixas da população. Segundo Gilbert (2000), a
tatuagem na França e na Itália9 nunca foi popular entre a elite como na Inglaterra. Nestes
países, os tatuados seriam marinheiros, presidiários e trabalhadores. Os presidiários adotam
tais técnicas muito mais fortemente dentro da prisão do que fora dela, onde se tatuam de
forma artesanal. Faz parte da cultura penitenciária, não necessariamente da cultura
criminosa como um todo. Fora da penitenciária, podem buscar um tatuador profissional
para refazer ou retocar o desenho artesanal.
No século XIX, os médicos franceses parecem ter se preocupado com as possíveis
complicações da tatuagem. Sua influência fez com que a tatuagem fosse proibida na
Marinha francesa e, posteriormente, no Exército. Devido à proibição, o grande público para
os tatuadores franceses foi formado pelos presidiários (GILBERT, 2000). Na França e nas
colônias inglesas no subcontinente indiano, a tatuagem servia como marca identificadora do
preso, constando das fichas de identificação destes (ANDERSON, 2000; GILBERT, 2000).
Embora Gilbert (2000) não faça menção às tatuagens que representam profissões, ele
reproduz desenhos de Lacassagne sobre o açougueiro, o alfaiate e o construtor de barris,
indicando, de certa forma, o uso da tatuagem entre classes populares.
Dos pobres aos ricos e dos ricos aos jovens: no século XX, a tatuagem européia
atingiu a cultura jovem, seguindo o percurso americano da contracultura e do movimento
hippie. Só atingiu a classe média urbana e profissionais liberais algumas décadas depois.
Este percurso demonstra que as camadas baixas possuem algum poder de influência sobre
as práticas corporais das elites, embora estas sejam automaticamente ressignificadas
quando atingem outros estratos sócio-culturais. Nos ricos, a tatuagem era sinal de uma
excentricidade de bom gosto. Nos jovens, ela flertava com o imaginário da marginalidade.

9
Lacassagne, na França, e Lombroso, na Itália, descreveram a tatuagem como elemento da criminalidade, no
sentido de que demonstrava quem estava mais propenso a cometer um crime. Esta teoria obteve um impacto
profundo na medicina legal da época, e pode ter sido responsável pelo afastamento das elites locais desta
prática corporal. Por outro lado, obras sobre tatuagem nestes dois países, à época em que a teoria lombrosiana
era dominante, podem ter apagado registros do uso de tatuagem em camadas superiores.
31

CAPÍTULO II – A METÁFORA DA TATUAGEM

A tatuagem é uma técnica utilizada desde a pré-História humana (GILBERT, 2000),


disseminada entre culturas diferentes de todos os continentes, com um uso bastante variado.
Como técnica corporal (MAUSS, 1994), a tatuagem traz um uso que é cultural e
socialmente delineado. A operação consiste na inserção de pigmentos – cuja receita varia
de cultura para cultura – em camadas profundas da pele. Este processo é permanente,
embora muitas receitas tenham sido tentadas para sua retirada (STEWARD, 1990;
GUSTAFSON, 2000; GILBERT, 2000), quase todas sem sucesso. O meio mais eficaz para
retirá-la atualmente é o raio laser.
A tatuagem é o procedimento pelo qual um pigmento é inserido abaixo da camada
superficial da pele. Este pigmento toma um caráter permanente. A forma como o pigmento
é inserido e a sua constituição química variam de cultura para cultura. De forma geral,
pode-se dizer que o pigmento deve ser mais escuro do que a pele marcada, para que seja
visível, e deve ser inserido com algum tipo de objeto pontiagudo, assemelhado a uma
agulha. Pode-se esfregar o pigmento na pele e depois perfurá-la, de modo a introduzí-lo no
corpo, mas pode-se também picar a pele com a agulha e depois esfregar o pigmento, ou
ainda molhar a agulha em pigmento e inserí-la na pele. Os pigmentos podem ter origem
vegetal, animal ou mineral. A quantidade de agulhas utilizadas e sua espessura também
variam de cultura para cultura.
Modernamente, no Ocidente, utiliza-se a máquina de tatuar elétrica. Seu mecanismo
movimenta a agulha para frente e para trás, como a máquina de costura. Várias agulhas
podem ser utilizadas ao mesmo tempo, soldadas pelo tatuador, de forma a cobrir uma
extensão maior de pele em menor tempo. Como toda técnica, há debates sobre o resultado
final da operação e como conseguir determinados efeitos gráficos (MIFFLIN, 1997). O
aparecimento da máquina elétrica não fez a tatuagem artesanal desaparecer. Ainda há
tatuadores que afirmam terem se iniciado na profissão praticando sobre o próprio corpo de
forma artesanal (MIFFLIN, 1997; COSTA, 2004).
32

Deve-se diferenciar a tatuagem de outras formas de modificação corporal que têm


surgido ou se disseminado nos últimos anos. Junto à tatuagem, a mais popular é o body
piercing, técnica que fura o corpo para a introdução de uma jóia, que toma formatos
diversos em função da área adornada. Outra técnica (bucal) rasga a língua ao meio, dando-
lhe um formato ofídico. O cutting é mais uma técnica em que a carne é cortada, de forma a
desenhar ou escrever sobre a pele com o resultado final de uma cicatriz. É próxima à
técnica do branding, que utiliza instrumentos incandescentes com a mesma finalidade – e
que não é nova. Estes são apenas alguns exemplos de outras formas atuais de modificação
corporal. Algumas delas têm inspiração em culturas tradicionais, embora os sujeitos que
delas fazem uso não queiram necessariamente aproximar-se da estética “primitiva”1.
Os desenhos tatuados em sociedades tradicionais mantêm-se dentro de padrões
culturais pré-estabelecidos. No Ocidente, percebe-se uma variedade de motivos, desde
alguns tradicionais adaptados ou não até desenhos com influência de filmes de ficção
científica, gibis e outras imagens do universo da cultura de massas. Os desenhos a serem
tatuados são agrupados segundo determinados estilos, identificados no capítulo 3.
Os usos atuais da técnica envolvem diversos fatores. Marca de pertencimento a um
determinado grupo social, adorno corporal com aspectos de fetichismo e usado para a
sedução, representação gráfica e imagética de crenças ou aspirações pessoais, amuleto
mágico ou marca de uma mudança de status. Muitas vezes os usos se confundem. Os usos
possíveis serão apresentados segundo foram surgindo no campo.
Outros aspectos relacionados à tatuagem dizem respeito a uma história dos grupos
que dela fizeram uso, desde o período conhecido como “renascimento da tatuagem” até o
presente momento. A importância de um resgate dos grupos historicamente relacionados à
tatuagem no Ocidente se relaciona a um imaginário sobre a prática que foi formulada no
senso comum a partir, fundamentalmente, das teorias de Lombroso (1991), que associou a
técnica à marginalidade e ao “primitivismo”. Embora creia que este imaginário é ainda
operante na sociedade carioca, ele só foi observado na classificação que os próprios
tatuadores operam, em seu campo profissional, entre profissionais e “de cadeia”, mas não
no sentido que o autor determinava e sim da qualidade da obra executada.

1
Os “modern primitives”, como LE BRETON (2002) menciona, relacionam estas técnicas a sociedades
tribais e as utilizam para transformar o corpo, tentando com isso uma crítica à sociedade ocidental
contemporânea.
33

1. Tatuagem no Brasil

A produção antropológica sobre a tatuagem no país é recente. Antes dela,


seguidores das teorias de Lombroso (1991) tentaram perceber o atavismo à brasileira no
uso de tatuagens, conforme algumas obras disponíveis2 na Biblioteca do Museu Nacional,
no Rio de Janeiro, fazem ver. Trata-se do retrato de uma época.
Não tão distante da escola lombrosiana, Do Rio (1997) descreve a indústria da
tatuagem na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Meninos em bandos,
munidos de agulhas de costura e tinta nanquim, circulavam pelas ruas do cais do porto
oferecendo os serviços a prostitutas, marinheiros e trabalhadores das camadas populares,
entre eles imigrantes portugueses. Cronista cujo principal objetivo era retratar o cotidiano
da cidade, Do Rio (1997) indica um perfil de usuário comum à tatuagem ocidental no
período.
Após o abandono das teorias lombrosianas, o tema caiu em esquecimento para os
analistas sociais. Emergiu, com um novo fôlego, a partir da crescente popularização da
prática entre camadas médias. Assim, Toni Marques (1997), jornalista ligado ao universo
da cultura de massas, publicou obra com perspectiva histórica sobre os usos da tatuagem no
Brasil, desde as marcas de escarificação dos negros até a abertura dos primeiros estúdios
profissionais na cidade do Rio de Janeiro, já nas últimas décadas do século XX.
Anos mais tarde, algumas pesquisas de Antropologia Urbana se dedicariam ao
estudo do fenômeno no sul do país e na cidade do Rio de Janeiro. Almeida (2001) analisa o
uso das tatuagens com a construção de identidades sociais. A marca permanente é vista
como um locus privilegiado na construção de identidades vistas pela autora como
igualmente permanentes. Sem discutir o fato de que as identidades pessoais são construídas
e reconstruídas na dinâmica social, em função dos diferentes papéis exercidos e posições
ocupadas, conclui que o erro é do objeto e não do pesquisador. Neste sentido, acusa os
tatuados de exercerem um consumo superficial de símbolos cujos significados não
consegue extrair dos mesmos, concluindo que não existem.

2
Como, por exemplo: ALENCAR NETO, Dr. Meton de; NAVA, Dr. José. Tatuagens e pseudo-desenhos
cicatriciais em menores – as modificações intencionais da pele. Rio de Janeiro: Imprensa nacional, 1944. esta
obra, ao modo de Lacassagne, apresenta fotos dos desenhos e comenta-os. Há também: LISBOA, Dr. Nuno de
34

Fonseca (2003), tomando a análise de Almeida (2001) como um de seus pontos de


partida, consegue desvendar os caminhos que pareciam misteriosos. Tenta identificar o uso
de tatuagens não com um processo de construção de identidades, mas de subjetividades,
observando também a construção de um projeto corporal – ser tatuado – e seus significados
pessoais e sociais. A autora demonstra, ainda, que há uma mudança no público da tatuagem
no país na década de 1990: as faixas etárias não jovens sofrem um incremento e os homens
deixam de ser o público majoritário em função do crescimento na clientela feminina.
Leitão (2002) já havia apontado a mudança no público segundo o gênero. O
objetivo de sua pesquisa foi justamente a observação das motivações para a tatuagem e seus
usos e costumes em mulheres. O recorte de gênero permitiu à autora efetuar uma relação
entre gênero, corpo e identidade feminina, demonstrando o papel do embelezamento e da
estética no processo, muitas vezes relacionado a outras intervenções de embelezamento.
Costa (2004), por sua vez, esteve atenta à mudança no universo dos tatuadores: de
amadores, tatuando na rua ou em suas casas, tornaram-se profissionais, levando adiante
empreendimentos comerciais sob a forma dos estúdios. A mudança no status do tatuador,
agora um profissional, levou à constituição de uma preocupação em diferenciar amadores e
profissionais, envolvendo noções de arte e biosegurança. Os profissionais passaram a se ver
como artistas e à sua profissão como arte, ao mesmo tempo em que foram levados a
executá-la segundo padrões médicos de profilaxia e higiene.
Não há uma linha única que una os estudos aqui apontados, mas há pontos comuns.
Entre eles, a idéia de que o perfil do consumidor de tatuagens hoje não é o mesmo daquele
apresentado por Do Rio (1997). Nenhum deles, contudo, se detém sobre esta mudança,
tomando-a como fato consumado e afastando-se de qualquer explicação sobre sua
dinâmica, origens, causas e efeitos.
Tomando Marques (1997) por base, muitos destes estudos apontam a mudança do
público como relacionada à figura-símbolo de Petit, que ganhou fama por inspirar Caetano
Veloso a compor a música “Menino do Rio”, gravada em 1979 por Baby Consuelo e
popularizada como música-tema da novela Água-Viva, da TV Globo (Marques, 1997). Petit

Souza Santos. Tatuagens. Rio de Janeiro: s/n, 1942. Ambas as obras são produzidas no contexto de uma
medicina-legal lombrosiana. Daí que os autores assinem como “doutores”.
35

foi tatuado em Santos (SP) por Lucky, um ex-marinheiro dinamarquês considerado o


primeiro tatuador profissional do país (Marques, 1997).
O trecho da letra de música escrita por Caetano Veloso que faz menção à tatuagem
segue abaixo:

“Menino do Rio
Calor que provoca arrepio
Dragão tatuado no braço
Calção, corpo aberto no espaço
Coração de eterno flerte
Adoro ver-te.”

A mudança no público é concomitante, ao que parece, à mudança na percepção do


tatuador e seu ofício. De sujeito marginal, oriundo de meios marginais e neles formando
sua clientela, o tatuador passa, paulatinamente, a ser oriundo do mesmo meio que seus
clientes, preocupado com a biosegurança e disposto a reformular o ambiente do estúdio, de
modo que ele se torne menos parecido com um salão de beleza e mais próximo a uma
clínica médica.
A mudança no perfil tanto do público da tatuagem quanto do tatuador enseja
comparações históricas inevitáveis. De fato, os estudos mencionados incorporam aos seus
objetivos a construção de uma perspectiva histórica sobre curtos períodos de tempo,
relacionados aos discursos de entrevistados que, freqüentemente, indicam um “antes” e um
“depois”, e, com isso, permitem o delineamento tanto da mudança quanto do passado da
prática.
Para não tornar exaustiva a perspectiva histórica, que também utilizo largamente,
apresentei-a segundo minha própria construção, a partir sobretudo de literatura estrangeira
sobre o tema. Meu objetivo, menos do que indicar uma ruptura no perfil do público tantas
vezes apontada, é indicar uma continuidade. Dentro de um escopo teórico que inclui a
conhecida discussão de Dumont (1992) sobre o modelo teórico da sociedade individualista
ocidental, tento relacionar o uso de tatuagens a sujeitos marginalizados até o presente
momento. Contemporaneamente, contudo, acredito que não se trata mais de uma
marginalização em termos de criminalidade, mas sim em termos de exclusão social. Esta
36

exclusão, em uma ordem individualista, atinge aqueles segmentos subordinados que não
atingiram uma plenitude em termos de individualização, como as mulheres e os jovens,
tutelados pelo Estado e pela família. Não se trata, tampouco, de uma exclusão em termos de
classes sociais.

2. Punição, resistência, controle e autonomia

Foi baseada nesta relação entre tatuagem e grupos marginais que formulei a
hipótese principal deste trabalho. Encontrei em artigo de Schrader (2000) sobre o uso da
marca no sistema penal imperial russo uma teoria sobre a tatuagem como forma de
resistência a processos de controle social do indivíduo. Foi a partir desta idéia que percebi
que se a marca pode ser uma forma de resistência então sujeitos tradicionalmente sob
controle seriam o público privilegiado da tatuagem. Os dados do campo pareciam
confirmar a hipótese. Mulheres estão sendo apontadas, em diversas fontes, como a maioria
do público dos estúdios (LEITÃO, 2002), e sabe-se que o controle dos corpos femininos é
exercido de uma forma que não se opera sobre os homens (BOURDIEU, 2003). Os jovens,
igualmente, um público privilegiado da prática, embora não necessariamente constituindo
uma maioria, têm sua autonomia regulada pela família e pelas instituições escolares. Entre
os grupos historicamente vinculados à tatuagem no Ocidente, marinheiros, militares,
presidiários, delinqüentes juvenis e prostitutas estão todos sob um controle social estrito,
uma vigilância e eventualmente sob algum estigma (GOFFMAN, 1975) ou regime
disciplinar. Enfim, são grupos excluídos, marginalizados e cujas redes de sociabilidade
muitas vezes se fecham em si mesmos.
A marca corporal punitiva existiu em diversas sociedades. Na Grécia clássica,
marcavam-se os criminosos com stigma, palavra utilizada simultaneamente para marcação
por ferro quente (branding) e tatuagem, mas que manteve o significado de marca negativa.
Jones (2000) afirma que na maior parte dos casos a palavra refere-se à tatuagem. A
marcação corporal do criminoso com uma tatuagem, cuja principal característica é a
permanência, indica que esta é uma condição permanente, e que não se imagina que possa
37

ser modificada. O stigma3 era efetuado em local visível do corpo, de modo a informar
visualmente a condição de seu portador bem como o tipo de delito cometido.
A prática grega foi assimilada pelos romanos, que marcavam certos tipos de
condenados com tatuagem (GUSTAFSON, 2000). Como entre os gregos, a tatuagem era
marca de degradação. Os escravos, sobretudo, eram marcados, o que leva Gustafson (2000)
a concluir que mais do que a natureza do crime era o status social que determinava a
marcação.
Em qualquer caso de marcação punitiva, o que está em jogo é o poder de controle da
autoridade sobre o indivíduo. A marcação é um meio de estigmatizar e identificar
(ANDERSON, 2000). Se ela é permanente, significa que a identidade atribuída por meio da
marca também é pensada como permanente por aquele que produz a marca. Gustafson
(2000) afirma que a marca é envolta em um processo pedagógico que visa alterar a
mentalidade, a noção de si e o poder pessoal.
Durante o Império, o sistema penal russo utilizou largamente a marcação corporal.
Segundo Schrader (2000), até o governo de Catarina, a Grande, punições corporais que
incluíam mutilações eram utilizadas em todas as camadas sociais. Embora estas práticas
tenham sido questionadas na virada do século XVIII para o XIX, a inscrição corporal era
fundamental no sistema penal russo, pois atribuía os indivíduos a grupos de status, com a
finalidade de um maior controle oficial. Impondo uma determinada identidade sobre os
prisioneiros, a marca feita com ferro quente (branding) era utilizada por estes como fator de
construção de sua subjetividade, segundo o autor. Estes grupos de status visavam não
apenas ao controle penitenciário, mas ao controle social. Como forma de resistência, certos
indivíduos optavam por uma vida nômade4, escondendo suas identidades, trocando de
nome, e escondendo o pertencimento a determinado grupo de status. Os fugitivos deviam
esconder também as marcas corporais que denunciavam sua condição. Para o autor, este
tipo de estratégia desafiava o poder classificatório estatal.
Uma das fontes da prática de marcação punitiva russa foi, segundo indica Schrader
(2000), a marcação de objetos para atestar sua propriedade pelos camponeses. O autor

3
Embora GOFFMAN (1975) tenha utilizado o termo com sentido próximo, deve-se observar que aqui aponto
para seu uso original. Surpreendentemente, o autor não menciona a tatuagem como fator de estigmatização.
4
O autor chama a atenção para a tradição do nomadismo na Rússia, especialmente na Sibéria, cujo
significado vai além da resistência ao controle estatal.
38

sugere que a marca corporal era apenas mais uma forma de o Estado russo marcar sua
propriedade, exercendo controle sobre ela e determinando seu status. Neste sentido, não
apenas criminosos eram marcados, mas recrutas e desertores também o foram. Desta forma,
aqueles que resistiam ao poder controlador do Estado foram os que receberam as
marcações.
No caso dos condenados, as identidades eram utilizadas também para a formulação
de uma hierarquia construída por eles, dando a certos criminosos maior status do que a
outros e formando corporações. Assim, novas marcações eram efetuadas pelos próprios
indivíduos, numa forma de resistência que, segundo o autor, “transformou uma prática que
marcava sua alienação social em uma fonte de orgulho e pertencimento corporativo”
(SCHRADER, 2000, p. 185). A maior parte das tatuagens em criminosos era realizada na
prisão, de forma voluntária.
A partir desta constatação, Schrader (2000) demonstra como os condenados deram
novo significado à lógica oficial de marcação e encarceramento, opondo marca punitiva à
marca de bravura, tornando o exílio na Sibéria um sinal de honra criminosa, formando
corporações próprias. Ao se apropriarem da lógica oficial de controle e transformá-la para
uso próprio, os condenados resistiam a este controle, demonstrando que a criatividade
social pode construir novos grupos e formas de pertencimento, mesmo em situações de
forte controle. A própria automarcação do corpo, nestas circunstâncias, indica que o
controle estatal não é total, e que o corpo é o derradeiro locus na luta entre controle externo
e autocontrole. Marcando a si mesmos, estes sujeitos indicavam que seu corpo não era uma
propriedade alienável.
Além de Schrader (2000), Benson (2000) também indicou como o corpo,
especialmente a pele, é o lugar da afirmação de uma posse de si5. Embora esta autora se
refira ao uso contemporâneo das tatuagens, o caso russo pode ser pensado a partir de sua
reflexão. Sobre a contemporaneidade, ela afirma:

“O que é distinto nas práticas contemporâneas de tatuagem e a ligação de


afirmações de permanências a idéias sobre o corpo como propriedade e posse –
‘uma afirmação de domínio sobre a carne’, como um indivíduo colocou – de fato,

5
BENSON (2000, p. 249) afirma que “(...) inscribed on the skin will be the marks of self-possession, not
defeat”.
39

como a única posse do Eu em um mundo caracterizado pela acelerada


mercantilização e imprevisibilidade (...)” (BENSON,2000, p. 251).6

Em todos os casos apresentados aqui, a marca serve de sinal de alteridade. No caso


russo, entre presidiários e oficiais. No caso grego e romano, a alteridade era construída na
falta da marca, vista como “bárbara”. No caso japonês, por exemplo, o surgimento da
tatuagem artística deu nova significação à marca, que passou a ser um elemento de
alteridade quando ganhou os corpos da Yakuza7, onde seu significado anterior de sinal de
criminalidade foi restabelecido (BOREL, 1992).
Há mais um caso que deve ser relatado, o das práticas coloniais penais inglesas na
Índia e Bengala, descritas por Anderson (2002). A tatuagem voluntária de certas
populações chamada godna, tatuagem apontada pelo autor como “decorativa”, era utilizada
para o seu reconhecimento pelas autoridades policiais, especialmente daquelas populações
que se acreditava serem especialmente inclinadas ao crime. Como conseqüência, estas
populações operavam uma estratégia de resistência ao controle que incluía a ocultação
destas marcas, fosse através da manutenção de cabelos longos que escondiam tatuagens
faciais, fosse através de turbantes com o mesmo fim. Mais tarde, a marcação corporal de
condenados com ferro quente (branding) ficou sendo conhecida igualmente como godna, e
a palavra passou a designar esta prática, que nunca foi efetivamente padronizada. Como
resistência à identidade pública de criminoso, os indivíduos tentavam suprimir tais marcas,
cobrindo, removendo ou sobrescrevendo-as8. As tatuagens eram trocadas por escarificações
e tentava-se removê-las com processos de corrosão da pele.
O processo de resistência envolvia a troca de identidade, fosse pela troca do nome,
fosse pela alteração das marcas que identificavam os criminosos. Em um caso relatado por
Anderson (2000), as autoridades tentavam identificar um homem como fugitivo, utilizando
suas marcas corporais como registro de identidade. Contudo, algumas das marcas
apresentadas (cor da pele, altura, cicatrizes) pelo homem quando encarcerado e quando

6
“What is distinctive in contemporary tattoo practices is the linking of such assertions of permanence
to ideas of the body as property and possession – ‘a statement of ownership over the flesh’, as one
individual put it – indeed as the only possession of the self in a world characterized by accelerating
commodification and unpredictability (...)”.
7
Máfia japonesa.
8
Onde a tatuagem é uma marca punitiva, sua remoção é tentada. JONES (2000) e GUSTAFSON (2000)
fazem menção a esta situação, bem como GILBERT (2000).
40

“descoberto” deixavam dúvidas sobre quem ele realmente era. Esta situação indica que por
mais que o Estado e o sistema penal tentem exercer um controle efetivo sobre os indivíduos
criando marcas em seus corpos ou identificando marcas já existentes, este controle pode ser
burlado.
Da mesma forma que identifiquei uma relação análoga entre a marca polinésia e a
marca ocidental contemporânea, aqui vista no contexto carioca, gostaria de efetuar esta
transposição a partir da marca punitiva. A tatuagem como marca punitiva fornece
elementos para se pensar que seu uso pode ser relacionado a contextos de resistência a um
controle exercido sobre os indivíduos.
É verdade que as marcas punitivas descritas foram impostas sobre os sujeitos, da
mesma forma que no contexto polinésio. Contudo, observei em campo o quanto as marcas
atuais são vistas por diversos tatuados como uma forma de afirmação da individualidade.
Benson (2000) teve a mesma sensação e forneceu, assim, uma espécie de elo de ligação
entre estes três escopos teóricos utilizados que, de meu ponto de vista, são facetas de uma
mesma realidade.
Gostaria, então, de aprofundar a noção de posse de si, que foi encontrada em dois
autores: a americana Susan Benson (2000) e o francês David Le Breton (2002). Ambos
utilizam a noção de posse de si correlacionando-a a um contexto de individualismo e
autonomia. Schrader (2000), conforme apresentado acima, é o autor que usa mais
fortemente a idéia, relacionando a marcação corporal diretamente à busca de uma
autonomia.
Benson (2000) situa sua argumentação em duas linhas mestras: de um lado, a
oposição interno/externo, conforme construída por Gell (1993); por outro, as idéias de
autonomia e individualismo características do contexto ocidental. Embora a autora perceba
que há uma ideologia culturalmente determinada operante nos significados que damos aos
processos corporais, ela não consegue fugir a esta determinação, e indica sistematicamente
que o processo privilegiado no Ocidente é aquele em que a tatuagem exprime o Eu interno,
operando segundo a oposição mente (alma, espírito)/corpo.
O Ocidente é visto como uma sociedade cujo significado atribuído ao indivíduo está
localizado nas idéias de autonomia pessoal e separação (em oposição a uma união no
sentido de um coletivismo). Neste contexto, as idéias de auto-realização e auto-domínio são
41

percebidas como centrais para o indivíduo, que é concebido em termos do que repousa
‘dentro’ mas não é ‘do’ corpo – como as noções de alma, espírito, mente – e onde,
historicamente, a relação entre superfície e profundidade foi formada como a relação entre
aparência e essência. Nestas culturas ocidentais, sugere a autora, a pele, zona de fronteira
entre o Eu e o mundo social, é pensada como envolvendo o Eu, como uma membrana que
protege – idéia formulada por Anzieu (1989 apud GELL, 1993) –, mas pode também lacrar,
no sentido de uma não-abertura ao mundo social e um fechamento do Eu em si mesmo.
Neste marco teórico, a marca na pele é vista pela autora como uma marca que tanto
protege quanto indica o que há “dentro” (a alma ou uma espécie de Eu essencializado) do
indivíduo, mas também como uma afirmação de que o corpo é uma propriedade do Eu
(que se refere, aponta ela, paradoxalmente, tanto para o próprio corpo quanto para a
alma/mente/espírito). Segundo ela, a tatuagem pode ser ligada tanto a uma
supervalorização de certos aspectos das idéias contemporâneas ocidentais do Eu –
sobretudo as idéias de autonomia e estilo próprio – quanto a sua transgressão. Em
comparação com o passado da prática, afirma que agora a tatuagem é vista como uma
afirmação de si, enquanto antes se dizia ter sido tatuado bêbado ou em um impulso, de
forma que se negasse a intencionalidade da marca mal vista.
O trecho em que Benson (2000) indica, claramente, a idéia de posse de si foi transcrito
acima. Ali, a autora aponta como esse contexto de individualismo pode ser posto em xeque
por uma ordem econômica em que o homo economicus se torna, ele mesmo, um bem, uma
mercadoria. Frente a esta objetificação do sujeito, o corpo pode se tornar o lugar de
resistência. Resistência apontada também por Schrader (2000). Envolta no dilema de um
Eu essencializado e corporificado, Benson (2000) não se permite ver aí um individualismo
talhado por instâncias de controle, como o mercado, embora as reconheça. A autora dá
indícios para que se saia deste falso dilema entre mente/corpo, que, como ela mesma
aponta, não passa de um paradoxo ocidental, uma vez que a mente não existe nem é visível
senão corporificada.
Benson (2000) sugere uma ligação entre um contexto de capitalismo tardio, onde as
identidades não são fixas, e a necessidade dessa fixidez, alcançada por uma marca do Eu
interno. Esta marca é, ao mesmo tempo, visível e permanente, dando ao sujeito algo ao
qual se agarrar, uma espécie de sentido, de ponto fixo, que é, de fato, ele mesmo. A partir
42

das idéias da autora, pode-se pensar em uma terceira reflexão que é a noção de posse de si,
não em seu sentido de marca identitária, mas sim de afirmação de um individualismo
acirrado, que diz ao mundo inconstante e objetificador que o corpo pertence a alguém. Em
última instância, pertence à alma que o habita. Se, como Schrader (2000) faz, troca-se o
mercado que objetifica por outra instância de controle dos sujeitos, compreende-se que a
noção de tatuagem como elemento de um processo de posse de si pode ser utilizada como
uma resposta, uma forma de resistência a este controle.
Benson (2000) trabalha com a noção tipicamente ocidental de que o Eu interno,
também referido na literatura antropológica sobre o corpo como mente/alma/espírito, é
dado em cada indivíduo, tornando-se assim uma essência pessoal. Prefiro as abordagens
que indicam que o Eu é uma construção social determinada pela posição social que se
ocupa e, portanto, não é uma essência, mas fruto de relações sociais (LEMMERT, 1994).
Assim, abordo este uso da tatuagem como posse de si a partir desta visão relacional,
determinada a partir da posição social ocupada e não de um Eu subjetivo fluido.
Especificamente no contexto brasileiro que, como mostra DaMatta (1991), é
relacional, um Eu essencializado não faz sentido. Portanto, no contexto brasileiro, a idéia
de que a tatuagem reflete o Eu interno só pode ser parcialmente aproveitada, na medida em
que esse Eu interno é, de fato, um Eu relacionalmente construído. Isto quer dizer que as
escolhas que parecem internas, conforme foi observado em campo, refletem noções
socialmente compartilhadas e foram observadas em mais de um sujeito, como idéias de
distinção de gênero, de pertencimento, de autenticidade, de mudança de status, de
expressão de sentimentos.
Le Breton (2002) indica como o corpo é locus de uma “bricolage identitária” que
serve para afirmar a existência do sujeito. Ao longo de sua obra, visões da tatuagem como
um elemento que aflora do Eu interno e visões da tatuagem como um elemento que pode
transformar este Eu se alternam, sem um desfecho final.
O autor afirma que a tatuagem é uma marca que serve para “tomar posse de si”,
situada em um contexto onde o conflito geracional entre adolescentes e pais opõe o desejo
pela marca à sua não aceitação. O autor afirma que, enquanto os pais percebem a busca de
autonomia dos filhos no desejo pela marca, ao mesmo tempo a associam a seu passado
relacionado à delinqüência. Aos filhos, contudo, resta a idéia de que “os corpos legados
43

pelos pais devem ser modificados para se fazerem definitivamente seus”9 (LE BRETON,
2002, p.172). Em Le Breton (2002), a idéia de posse de si se traduz, mais fielmente, na
forma de uma conquista individual de autonomia frente a instâncias sociais controladoras.
Diz ele, “a marca corporal assinala o pertencimento a si. Rito pessoal para se
transformar a si transformando a forma de seu corpo”10 (LE BRETON, 2002, p.175). Aqui
os dois processos são claros. Primeiro, a idéia de que a marca sobre o corpo indica um
pertencimento a si, uma forma de posse ou propriedade de si mesmo quando em um
contexto de controle. Ou seja, tanto uma busca quanto um processo de construção de
autonomia pessoal. Segundo, demonstra como o autor identifica alternadamente esta busca
dentro do sujeito e fora dele ao mesmo tempo, sem indicar uma origem ou concluir qual
deles é preponderante. É mudando a forma do corpo que se muda a si, mas é o desejo de
mudar a si, ao Eu, que leva à mudança do corpo. É da superfície que se chega à
profundidade.
Foi efetuando uma analogia entre a marca como resistência e a posição social
ocupada pelo sujeito, ou grupo, que observei – de dentro dos estúdios – que a questão do
controle e da autonomia é uma que se coloca para quem quer uma tatuagem, seja na
oposição da família à marca, seja nas preocupações com o mercado de trabalho, visto pelos
tatuados como instância na qual a marca se torna um estigma (GOFFMAN, 1975). O viés
teórico adotado fornece apenas uma visão, que não explica porque as pessoas se tatuam.
Creio, contudo, que a busca de autonomia e individualidade é uma das explicações da
popularidade da prática entre jovens e mulheres.
Como um contraponto da popularidade da tatuagem entre as mulheres, observei que,
entre os homens, a prática está revestida por um determinado ethos masculino que faz com
que a tatuagem seja uma marca de virilidade, obtida após uma espécie de rito em que a dor
desempenha o papel principal, em conjunto com a noção de coragem. Não se furta,
portanto, à idéia de autonomia pessoal.

9
“les corps legue par lês parents est à modifier pour lê faire définitivement sien”.
10
“la marque corporelle signe l’appartenance à soi. Rite personnel pour se changer soi em changeant la
forme de son corps”.
44

3. Dentro e fora

Gell (1993) apontou, sobre o contexto polinésio, que a tatuagem é uma marca que se
relaciona a processos de inclusão/exclusão sociais, conquanto eles estejam muita mais
vinculados à sacralidade do sujeito, o que poderia ser visto como uma forma de
estigmatização, embora a tatuagem sirva, de fato, para amenizar esta emanação contagiosa
e perigosa. A sua própria característica de estar dentro do corpo e ao mesmo tempo visível
é sui generis. Torna a tatuagem um procedimento que representa as situações em que se
está fora/dentro de determinadas posições sociais. Observei, na teoria de Gell (1993), uma
outra explicação para o uso da marca nos grupos historicamente relacionados a ela, todos
em situação ambígua, dentro e fora da sociedade ao mesmo tempo. Relacionando estes
grupos ao atual público da tatuagem, foi possível utilizar a reflexão do autor como um
ponto importante de análise e formulação tanto de um olhar sobre a tatuagem carioca atual,
quanto de uma tentativa de explicação dos fatores envolvidos nesta prática.
Foi o contato de europeus, na figura dos marinheiros, com nativos polinésios que
deu origem ao renascimento (MIFFLIN, 1997) da tatuagem no Ocidente. A análise de Gell
(1993) está centrada no cotidiano do Pacífico anterior a estas. Ao longo da apresentação de
instituições e contextos sócio-políticos, econômicos e religiosos, bem como da cosmologia
nativa relativa à prática da tatuagem, o autor passa de um arquipélago a outro na tentativa
de construir uma unicidade que relacione a extensão da prática, o modelo político e os
sistemas sociais.
O autor empreende uma abordagem que relaciona o surgimento, o uso e a
manutenção/reprodução da tatuagem ao contexto sócio-político de cada sociedade polinésia
analisada. Embora a tatuagem desempenhasse um papel integral na organização e no
funcionamento das instituições sociais mais importantes, ela é uma conseqüência destas
instituições, e não sua causa, não sendo independente destas, mas transformando-se com
elas.
O autor aponta que o uso de tatuagens exprimia hierarquias e dominações,
contribuindo ainda para a produção da noção de pessoa e do Eu, perfazendo uma espécie de
empoderamento, e, ainda, relacionada com o ciclo de vida. Fazia parte da produção de
sujeitos políticos. Seus significados não são universais nem mesmo entre os arquipélagos
45

que constituem o mundo polinésio, que foi classificado em tipos ideais para efeito de
comparação. Na qualidade de representações, o autor observa a tatuagem antes como uma
família de representações, um código corporal onde as forças sociais se fazem registrar
como parte da pessoa assim marcada.
O autor utiliza dois eixos centrais na compreensão da tatuagem polinésia: a) serve
como espécie de escudo de proteção; b) controla o tapu, a energia sagrada que é contagiosa
e perigosa. Para desenvolver a idéia de tatuagem como proteção, o autor utiliza
simultaneamente a cosmologia nativa, os significados de determinados desenhos tatuados e
a teoria de Anzieu (1989 apud GELL, 1993). Para desenvolver a idéia do controle de tapu,
o autor analisa a posição social dos tatuados, mas sobretudo a cosmologia, certas normas
quanto à manipulação de comida e a percepção polinésia do sangue.
Segundo Gell (1993), as percepções ocidentais sobre a pele envolvem a idéia de que
ela está no exterior do corpo, e o que está externo é sempre menos importante (ou
verdadeiro ou real) do que o que é interno. Desta forma, a pele no Ocidente é pensada como
não traduzindo o que a pessoa realmente é. Gell (1993) compara a visão ocidental sobre a
pele com a de sociedades melanésias descritas por Turner (1980 apud GELL, 1993) e
Strathern (1979 apud GELL, 1993 ). Nestas sociedades, a pele está no exterior do corpo:
este exterior é a parte pública e que mantém contato com outras pessoas. Uma percepção de
que as pessoas são a soma total de suas relações com outras pessoas induz à percepção de
que a pessoa é a pele. Pode-se concluir, a partir desta comparação, que a relação entre
sujeito e pele está determinada pela percepção social sobre o sujeito, pessoa, indivíduo ou
self.
Operando como mediadora entre o Eu interno e o Mundo externo, a pele é duplicada
pelo processo de tatuar, quando se produz uma pele artificial, fabricada, que opera como
uma camada protetora. Neste sentido, o autor parte da noção de skin ego formulada pelo
psicanalista Anzieu (1989 apud GELL, 1993) para constituir os usos relativos à tatuagem
em uma espécie de modelo universal que parte, na verdade, dos usos da pele em sua
dimensão psico-sociológica.
Para Anzieu (1989 apud GELL, 1993), a pele é, de várias formas, a pessoa social.
Esta afirmação é mais bem compreendida quando se toma a pessoa pela soma das relações
que mantém com outras pessoas, onde a mediação exercida pela pele nestas relações a
46

transforma na pessoa, ou vice-versa. Desta forma, é a pele social que corresponde à pessoa
social. Apresentando um “lado” externo e um interno, embora se trate de uma única
estrutura, além de mediadora na comunicação entre estas duas esferas, a pele protege o Eu
interno, é sensível ao Mundo externo e acumula marcas oriundas da relação do Eu com o
Mundo.
A partir desta posição privilegiada da pele, Anzieu desmembrou-a em nove funções,
indicadas a seguir, que Gell (1993) toma como um “esquema básico da tatuagem”.
Função 1 – Suporte: serve à criação de um envelope substituto envolvendo uma
persona social – que de outro modo estaria exposta – em uma espécie de abraço protetor.
Função 2 – Contenção: a tatuagem “segura”/contém o Eu interior. Ao mesmo tempo
em que comunica ao externo aquilo que vem do interno, sela aquilo que contém. Poder-se-
ia sugerir aqui novamente uma função protetora que, conforme será visto, é largamente
explorada por Gell (1993).
Função 3 – Proteção: a pele tatuada é reforçada por esta cobertura, ao mesmo tempo
em que se torna locus de poderes que impedem ferimentos. Tatuagens de proteção são
vistas por Gell (1993) como uma forma de controlar perigos, por imporem uma espécie de
pré-enfrentamento de uma tarefa árdua e violenta. A tatuagem é também encarada por ele
como uma armadura que defende a pessoa social e, simultaneamente, num nível mais
elevado, como um componente da pessoa social como um todo, na forma de uma estrutura
defensiva. Protege e constitui a pessoa.
Função 4 – Individuação: a tatuagem é capaz de criar a identidade pessoal, embora
Gell (1993) aponte que esta função é mais forte no Ocidente. Os desenhos testemunham a
singularidade do sujeito, suas relações pessoais únicas, suas aquisições e gosto pessoal. Ao
mesmo tempo em que se busca esta individuação, com um forte sentido de diferenciação
mais do que de individualismo, diz o autor, adota-se emblemas de filiação grupal que
indicam a identidade social em face de estranhos e inimigos.
Função 5 – Intersensorialidade – e Função 6 – Excitabilidade sexual: devem ser
observadas à luz do lugar onde o desenho é tatuado no corpo.
Função 7 – Recarga libidinal: a tatuagem possui propósitos eróticos e de expressão
da sexualidade, sobretudo na sua função de embelezamento do corpo.
47

Função 8 – Registro: a pele é vista como um tipo de memória biográfica externa.


Assim, eventos marcantes ou comemorações são freqüentemente motivos para se tatuar. O
autor adverte que a tatuagem é sempre o registro de um meio social, pois é em relação a
esse meio que ela ganha significado. Quando é compulsória, registra relações de
poder/autoridade. Quando é voluntária, registra um meio competitivo.
Função 9 – Auto-destruição: refere-se, no âmbito sociológico, à auto-
estigmatização, vista como espécie de auto-sabotagem que o indivíduo imprime a si
mesmo.
Assim, Gell (1993) percebe um movimento duplo em que aquilo que é interno
aflora por meio da pele, ao mesmo tempo em que aquilo que é externo, ou social, é
internalizado no sujeito. A partir deste esquema básico e empreendendo uma reflexão caso
a caso, o autor conclui que a tatuagem está relacionada a práticas inclusivas associadas à
maturação social, à formação da pessoa e à reprodução social.
Classificando as sociedades polinésias a partir de diferentes variáveis, como tipo de
sistema político (mistas, cônicas, devolved ou feudais), grau de intensidade do uso de
tatuagens (maior ou menor), ambiente físico/sistema social e ainda cosmologias, o autor faz
a seguinte síntese:

Esquema fundamental:

Muita ênfase Menor ênfase Nenhuma ênfase


na operação na cicatrização no produto final.

Aqui a tatuagem serve para o controle de tapu (energia sagrada, espécie de mana),
por uma dessacralização efetuada a partir do sangramento, que toma o contorno de uma
espécie de mutilação ritual. A tatuagem impõe uma barreira entre o Eu secular e a
divindade, tornando-se o emblema de humanização, que só é retirado na morte. Morto, o
tatuado tem sua pele removida e retorna ao divino, sem seus traços humanos.
48

Sociedades cônicas:

Nenhuma ênfase Muita ênfase Menor ênfase


na operação na cicatrização no produto final.

Neste tipo sócio-político, a tatuagem é utilizada para selar a pessoa, protegendo-a e


fortalecendo-a.

Sociedades devolved:

Nenhuma ênfase Menor ênfase Muita ênfase


na operação na cicatrização no produto final.

Apenas neste tipo de sociedade o rosto é tatuado, o que leva o autor a efetuar uma
comparação entre a tatuagem facial e a máscara, apontando para uma maior visibilidade e
maior requinte da tatuagem neste tipo sócio-político, ao mesmo tempo em que ela é mais
individual/biográfica, sem fases etárias pré-definidas para sua aquisição. Apresenta ambos
os usos de proteção e de remoção de tapu.

Sociedades feudais:

Nenhuma ênfase Nenhuma ênfase Toda ênfase


na operação na cicatrização no produto final

Neste tipo, visto pelo autor como o mais próximo do uso ocidental, a tatuagem é
incorporada como um significante flutuante-livre, em uso para a elaboração privada de um
Eu público. Este uso não está relacionado a rituais. É onde a tatuagem é mais fortemente
um artefato, uma mercadoria.
É preciso destacar que a classificação que o autor utiliza para as sociedades
polinésias não pode ser utilizada para as ocidentais, uma vez que reflete o contexto local
específico. Da mesma forma, os usos polinésios acima indicados não se relacionam aos
49

usos ocidentais, a não ser pelas sociedades polinésias feudais. De qualquer forma, estas
sociedades foram transformadas pela colonização européia, e transformaram algumas de
suas características conforme descritas pela etnografia utilizada pelo autor, referente
sobretudo aos séculos XVIII e XIX.
Importa mais nesta análise a relação entre tatuagem e instituições sócio-políticas.
Assim, o autor ensaia uma visão da tatuagem ocidental como uma na qual as instituições
sócio-políticas não apresentam nenhuma relação com a busca por tatuagens, mas o contexto
social sim. Conquanto o seu “esquema básico da tatuagem” seja desprovido de indicadores
sociológicos, os usos da tatuagem são explicados a partir das práticas sociais e não dos
significados subjetivos de cada tatuado, embora eles existam em maior ou menor grau.
Sobre o Ocidente, Gell (1993) limita-se a analisar grupos sociais como marinheiros,
criminosos e prostitutas (também nobres e alguns integrantes das forças armadas) como
aqueles nos quais a tatuagem ocidental foi mais popular, apontando ainda o impacto, nesse
sentido, das teorias de Lombroso.
A tatuagem é vista, então, como particular a dois universos distintos: aquele das
sociedades tribais e a das minorias reprimidas no Ocidente. Maertens (1978 apud GELL,
1993) afirma, neste sentido, que a tatuagem ocidental floresce em grupos marginais
confinados/excluídos. A tatuagem seria utilizada, entre eles, como uma forma de
compensação pela existência desgarrada, constituindo, ainda, uma aceitação fatalista da
exclusão social.
A observação de Maertens (1978 apud GELL, 1993), embora não permita maiores
considerações acerca do porque, efetivamente, de uma compensação, ou se esta é existente
de fato na mentalidade dos grupos tatuados, apresenta um ponto indicado em minha
argumentação, exposta no capítulo anterior, onde aponto elementos desta história do
desenvolvimento da tatuagem ocidental após o contato com o Pacífico, e também em toda a
tese, na medida em que creio que este sujeito ocidental excluído ainda é o sujeito
privilegiado da tatuagem. Antes, este sujeito foi constituído a partir de um corte de classe e
étnico-cultural (imigrantes), como bem aponta Do Rio (1997). Depois, constituiu-se um
corte geracional, como aponta Marques (1997), que era simultaneamente um corte de
gênero, com predominância masculina por todo o período. Hoje, segundo as pesquisas
realizadas (LEITÃO, 2002), o corte de gênero tem privilegiado as mulheres, o que acredito
50

inserir-se, ainda, nesta dinâmica entre a prática da tatuagem e o meio social, de maneiras
que serão apresentadas ao longo do trabalho.
O que Gell (1993) aponta serem duas das variáveis operantes na dinâmica da
tatuagem polinésia, isto é, gênero e geração, são variáveis presentes igualmente na
dinâmica ocidental: são marcadores de posições de inclusão ou exclusão social dentro de
uma determinada hierarquia. Observe-se, apenas, que a marcação corporal na Polinésia,
como em todas as sociedades tradicionais, não é uma opção do sujeito. Em contexto
ocidental, ao contrário, trata-se de uma escolha individual orientada por diversos fatores.
Em uma comparação entre os usos sociais da tatuagem em Fiji, Tonga e Samoa,
Gell (1993) conclui que o sujeito tatuado é aquele que está em uma posição ritual, ou
simbólica, de menor status. A posição ritual costuma não se sobrepor à posição política,
exceto para determinadas lideranças, que não são tatuadas. Neste caso, a mesma díade
dentro/fora pode ser utilizada para análise. O gênero que está fora das posições rituais mais
elevadas, ou seja, o gênero que é ritualmente de menor status, é o tatuado. Isto não significa
que a tatuagem seja uma forma de inclusão social pura e simples, pois outras marcações
poderiam ser utilizadas. Segundo o autor, o processo da tatuagem envolve crenças
polinésias a respeito do sangue e pode ser comparado a certos rituais onde o sangramento é
o ponto em questão. O caráter mais ou menos sagrado do sujeito também está em jogo
quanto ao gênero a ser tatuado.

4. Reflexões preliminares

A literatura sobre a tatuagem, portanto, trate ela de sociedades tradicionais ou


modernas, aponta sistematicamente para a importância do status social para a aquisição –
compulsória ou voluntária – da tatuagem. Este pode ser um status elevado, como aquele de
determinados chefes tribais polinésios ou daqueles indivíduos em que a concentração de
tapu deve ser decrescida com a tatuagem, ou um status marginal ou menor, como no caso
das marcas gregas e romanas de stigma, a marcação de prisioneiros e o uso de tatuagens por
prostitutas, marinheiros, criminosos e delinqüentes juvenis, grupos de trabalhadores de
camadas populares, membros das forças armadas, entre outros. No âmbito brasileiro,
somente Do Rio (1997) relacionou status social à marca.
51

A literatura indica, ainda, a importância do papel da tatuagem na formação de uma


autonomia pessoal, seja ela construída na forma de uma resistência ao Estado e/ou outras
instâncias controladoras do sujeito – em termos carcerários ou não – ou a um universo
social que objetifica o sujeito, tornando-o uma mercadoria e esvaziando o sentido de
individualidade e autonomia.
Neste ponto, pode-se remeter à clássica tensão entre indivíduo e sociedade, na
forma da coerção social observada por Durkheim (1995). Mas esta não parece ser a questão
aqui, na medida em que a tatuagem não parece ser uma revolta individual contra a
sociedade, mas uma forma de expressar uma autonomia pessoal, na forma da posse de si,
em um contexto onde esta autonomia – que é dada a outros mas não ao (pré)tatuado – é de
difícil acesso. Neste contexto, a tatuagem se torna um emblema de resistência. O corpo é o
lugar desta disputa, na medida em que é controlado e ao mesmo tempo espaço de
resistência pessoal a este controle.
A análise de Foucault (1997) aponta claramente para esta tensão inscrita no corpo,
pois ele é o limite entre o Eu (mental individual) e o Mundo (social)11. No corpo, a pele se
apresenta como o limite extremo, que toca a esfera interna (do indivíduo) e externa (do
mundo). Sendo o limite, pode-se sugerir que é sua região mais sensível, onde as lutas entre
controle e autonomia se dão mais fortemente e as marcas de um e de outro são dispostas
como troféus. Em certas circunstâncias, há que se observar atentamente o uso que se faz
destas marcas: o troféu de um pode ser convertido no troféu do outro, como no caso russo,
uma vez que o sujeito apresenta alguma autonomia sobre seu corpo para reificar ou
ressignificar as marcas aí presentes. Assim, os troféus podem mudar de mãos, isto é, seus
significados podem ser alterados por um ou outro lado, indivíduo ou sociedade, Eu ou
Mundo.
Desta forma, a partir de um recorte de gênero, a marca de virilidade masculina
atesta a dificuldade em “ser Homem”, para a qual a tatuagem serve como uma ferramenta
que atesta essa virilidade (e essa dificuldade). Nas mulheres, atesta a dificuldade em
exercer autonomia sobre o próprio corpo, controlado e vigiado pela dominação masculina
(BOURDIEU, 2003). Esta análise será desenvolvida nos capítulos seguintes, em conjunto

11
Basicamente em contexto moderno-individualista, pois, como apontam RODRIGUES (2001) e
FOUCAULT (1997), em contexto pré-moderno não há esta construção individualista do corpo e seus usos e
percepções são distintos.
52

com outros fatores intervenientes. Todos eles serão observados, em maior ou menor grau, a
partir desta idéia de resistência e controle, fundado também nas corporalidades e no status
social.
53

CAPÍTULO III – OS ESTÚDIOS PESQUISADOS

“Antigamente tinha um acordo de não abrir estúdio a menos de 500 metros um do outro.”
Proprietário do estúdio pesquisado na Tijuca

Este capítulo é dedicado à descrição e análise dos estúdios de tatuagem pesquisados:


seu espaço físico, a localização na cidade, a movimentação dos clientes na loja, a relação
dos tatuadores com os clientes e entre si, a diferença entre ser proprietário de um estúdio e
ser um dos profissionais contratados, formas de pagamento, entre outros. Estes elementos
são importantes para se compreender a dinâmica de funcionamento de um estúdio de
tatuagem – descrita por outros pesquisadores da área (LEITÃO, 2002; COSTA, 2004). No
estúdio observado na Tijuca, esta dinâmica é ligeiramente alterada pelo contingente elevado
de profissionais trabalhando ao mesmo tempo (cinco ou mais), enquanto muitos estúdios
contam com um ou dois tatuadores apenas, como é o caso do estúdio observado em
Copacabana.
Tatuar-se não é mistério: entra-se em um estúdio, escolhe-se um desenho, paga-se e
se é tatuado. Nas páginas seguintes as situações costumeiramente encontradas nos estúdios
com relação a este ritual serão igualmente apresentadas e analisadas. É neste processo que a
relação entre tatuador e cliente é estabelecida: relação de íntima amizade ou relação
profissional, de prestação de serviços. Neste sentido, os estúdios observados apresentaram
diferenças marcantes: enquanto o proprietário do estúdio de Copacabana praticamente só
tatuava amigos, estes eram poucos entre os clientes dos tatuadores na Tijuca. Esta variação
quanto à natureza da relação entre o público e o profissional da tatuagem espelha, conforme
será apontado, uma diferença na organização administrativa do estúdio. Observou-se que o
estúdio de Copacabana opera de uma forma próxima à familiar enquanto o estúdio da
Tijuca apresenta uma organização mais próxima à forma burocrática (WEBER, 1971).
54

1. Profilaxias e técnicas

A tatuagem como é praticada hoje nos estúdios é uma técnica que consiste na
perfuração da pele com agulhas apropriadas, acopladas a uma máquina elétrica, por meio
da qual pigmentos especiais são introduzidos na camada mais profunda da pele, de modo
que ali permanecem. O uso da máquina elétrica contrasta com procedimentos tradicionais
de tatuar, como utilizados por diversos povos ao redor do mundo. Nestes casos, não há
máquina, mas uma haste de sustentação da agulha, que pode apresentar diversos tamanhos
e espessuras. Os pigmentos utilizados variam segundo cada cultura (GILBERT, 2000).
As cores utilizadas hoje são diversas e as tintas para tatuagem, adquiridas prontas de
fornecedores especializados, podem ser misturadas entre si para se criar novas cores. As
agulhas, por sua vez, são soldadas pelo próprio tatuador, na forma de um pente. Para cobrir
áreas extensas do corpo com uma única cor, utiliza-se uma quantidade maior de agulhas, de
forma que a operação seja agilizada e, conseqüentemente, a dor seja reduzida. Para os
contornos dos desenhos, é comum utilizar-se um mínimo de três agulhas soldadas.
Para a segurança do cliente, os tatuadores seguem um processo de higienização e
esterilização dos materiais utilizados. Limpa-se a bancada onde ficarão os materiais
necessários com álcool hospitalar, que em seguida é coberta com filme plástico e papel-
toalha. Sobre o filme plástico, são colocados os botoques, presos por uma porção pequena
de vaselina, que também é utilizada sobre a pele do cliente. Os botoques são recipientes
descartáveis, de plástico, que contém algumas gotas da tinta necessária ao desenho. A
agulha é embebida na tinta desses recipientes, de modo que eles entram em contato com o
sangue do cliente. Os recipientes de álcool, os tubos de tinta e os recipientes de água com
sabão, usados constantemente para limpar a pele do excesso de tinta, são cobertos com
sacos plásticos, descartados a cada cliente. Se o local da tatuagem fica em contato com uma
almofada, num banco ou cadeira, a mesma também é embalada em filme ou saco plástico,
posteriormente descartado. O material que entra em contato com o sangue1 do cliente é
todo descartado.

1
A maior parte das tatuagens causa algum grau de sangramento, em algum ponto da pele, já que o processo
envolve a perfuração da mesma.
55

As agulhas esterilizadas são embaladas separadamente e as agulhas utilizadas são


destruídas na frente dos clientes2 e depositadas em caixas apropriadas, com alerta sobre
material infectante3. Os tatuadores utilizam luvas descartáveis, máscaras e aventais. Essa
preocupação com a profilaxia tem levado os estúdios a uma transformação não apenas nos
cuidados com o cliente, mas também em sua apresentação. Eles estão, cada vez mais, se
tornando parecidos com clínicas médicas: existem aparelhos de esterilização, como o
autoclave4, e alguns estúdios utilizam cadeiras de dentistas.
Embora os tatuadores não considerem a tatuagem como uma cirurgia, em conversa
com o tatuador proprietário do estúdio pesquisado na Tijuca, ele sugeriu que o processo de
tatuar assemelhava-se a uma micro-cirurgia, como as realizadas em consultórios
odontológicos. Muitas vezes presenciei clientes deste estúdio comparando o barulho da
máquina de tatuar com o do motor dos instrumentos odontológicos, ao que os tatuadores
sempre respondiam que o barulho era diferente, o do dentista sendo mais agudo. Se a
comparação é inevitável, o tatuador não se vê na mesma posição que um profissional da
saúde. Em certas ocasiões, observei clientes insistirem sobre a possibilidade de reduzir a
dor da operação, muitas vezes referida como ardência. Os tatuadores conhecem uma
pomada anestésica de uso tópico local, mas na Tijuca raramente a recomendam, baseando-
se na premissa de que não são médicos, portanto não devem prescrever medicação, como
ouvi uma tatuadora dizer.
Na Tijuca, antes de ser tatuado, o cliente preenche uma ficha de cadastro, onde
informa nome, endereço, profissão, além de dados sobre saúde: estado da pressão arterial
(alta ou baixa), se é anêmico, se está tomando medicamentos. Pago o valor do trabalho, o
cliente é tatuado. Assim que escolhe o desenho que quer tatuar, que pode ser aumentado ou
reduzido na fotocopiadora, ou modificado pelo tatuador na hora, tanto em termos de cores
quanto de outros elementos, ele é passado para o papel-manteiga com lápis cópia e então
decalcado sobre a pele. A pele deve ser preparada para a tatuagem: primeiro, limpa-se a
pele com álcool hospitalar; em seguida, raspa-se com aparelho descartável de barbear os
pêlos da região; depois, uma fina camada de desodorante stick5 é passada para que o

2
Procedimento observado no estúdio da Tijuca, mas não no de Copacabana.
3
Conhecidas como descarpacks.
4
Aparelho que esteriliza bicos de máquina e agulhas por altas temperaturas.
5
Desodorante em bastão.
56

decalque fixe o desenho na pele. Sobre o decalque, o tatuador passa pigmento preto, já com
a máquina de tatuar, no contorno. Por último, a tatuagem recebe outras cores, se for o caso.
Uma tatuagem pode ser realizada em uma ou várias sessões, segundo a resistência
do cliente à dor, sua disponibilidade financeira e o tamanho e/ou complexidade do desenho.
A dor faz parte da operação de tatuar, mas é tolerada e experimentada de formas diferentes
pelos clientes. Recomenda-se que uma sessão não ultrapasse três horas, de forma que, nesse
tempo, um cliente pode se submeter a uma ou várias tatuagens. Os desenhos maiores são
mais caros e é comum que os clientes paguem sessões mensais ou quinzenais até que a
tatuagem esteja completa, de forma que o gasto financeiro é diluído.
Finda a sessão de tatuagem, deixa-se a marca eliminar fluidos. Após cinco ou dez
minutos, ela é coberta por uma espécie de curativo. Há alguns anos, usava-se papel-toalha,
preso à pele por fita crepe. O papel colava sobre a tatuagem, em função da eliminação de
fluidos, e tinha que se retirado com o auxílio de água. Hoje, passou-se a utilizar o filme
plástico de cozinha, pois o mesmo não cola sobre a pele e é de mais fácil retirada. Contudo,
o filme plástico não permite a respiração da pele e não é considerado ideal.
O cliente é orientado sobre as precauções que deve tomar no período de
cicatrização. A cicatrização é um processo que demora de 5 a 10 dias, variando segundo
cada organismo. Neste momento, o corpo produz sobre a área tatuada uma cobertura que
eles chama de “casquinha”. Costuma ser uma “casquinha” fina, que os tatuadores orientam
não ser retirada em hipótese alguma, pois isto compromete a tatuagem. Ela deve soltar-se
naturalmente. Durante este processo, é normal o surgimento de coceira na área. Se a
“casquinha” é puxada ou retirada bruscamente, o desenho fica comprometido, os pigmentos
não permanecem na pele e ocorre o que chamam de “falha”. Nestes casos, a tatuagem deve
ser retocada. Orienta-se, ainda, manter a região seca, lavando-a apenas uma vez ao dia. Sol,
água do mar e de piscina, bem como atividades físicas, são desaconselhados até a total
cicatrização. Uma pomada cicatrizante também é recomendada.
Durante a observação de campo, pude perceber que os tatuadores têm opiniões
distintas sobre o melhor processo de cicatrização de uma tatuagem. Produtos diversos
podem ser utilizados ou recomendados para este fim. De um modo geral, todos os
tatuadores da casa recomendam a mesma pomada. Contudo, sei que há tatuadores que
57

recomendam o uso de vaselina sólida ou de um hidratante corporal comum. Alguns, ainda,


não recomendam o uso de nenhum produto.
Nos últimos tempos, o mercado de produtos voltados para o universo da tatuagem
tem crescido. Além da expansão dos próprios estúdios, há comerciantes de máquinas de
tatuar e tintas, tatuadores que vendem desenhos, feiras e eventos voltados para a tatuagem e
um mercado de produtos médicos utilizados atualmente pelos tatuadores. Além dos
elementos de higienização e esterilização, como luvas, máscaras, aventais e o autoclave, vi
tatuadores do estúdio pesquisado utilizarem um adesivo cicatrizante especial. Como o filme
plástico não é ideal para curativos, alguns profissionais têm experimentado o adesivo pós-
cirúrgico, material caro e que só é utilizado em desenhos pequenos. Ele deve ser mantido
sobre a pele durante uma semana, sem ser retirado. Contudo, observei reclamações de
clientes sobre os adesivos: em um caso, uma moça queixava-se de que havia desenvolvido
“bolinhas” na região próxima, o que foi interpretado pelo tatuador como uma possível
alergia à cola do adesivo; em outro, uma cliente descrevia como o adesivo reteve os fluidos
oriundos da tatuagem, formando uma bolsa de líquido, quando ela decidiu retirá-lo e lavar o
local com medo de uma possível infecção.
O que parece ocorrer é ainda uma certa precariedade de materiais e técnicas
concernentes aos processos orgânicos. Tintas, máquinas e agulhas podem ser compradas,
hoje, sem maiores problemas, mas os tatuadores ainda não contam com um mercado de
produtos médicos específicos para a tatuagem, e utilizam materiais precários como a
vaselina sólida, o desodorante stick e o filme plástico. Contudo, a preocupação em utilizar
materiais adequados e a preocupação com higiene são reflexos de um movimento social
maior, em que a medicina e as preocupações médicas têm invadido o cotidiano. Muitas
vezes, essa medicalização do cotidiano vem revestida pela idéia de risco: os riscos da má
alimentação, os riscos de uma tatuagem mal-feita, os riscos da obesidade, os riscos de
tratamentos de beleza, de cirurgias plásticas... a lista poderia ser quase infinita.
58

2. Variações sazonais

Segundo Leitão (2003), tatua-se mais no verão do que no inverno. Para os


tatuadores com quem conversei na Tijuca, tatua-se mais em dezembro e durante todo o
verão, mas também em julho, pois é época de férias. Os tatuadores pensam que o verão é o
momento privilegiado em função de dois aspectos: o pagamento de adicionais de férias e
13o salário e pela exposição corporal característica desta época na cidade. Para a própria
tatuagem, contudo, com respeito a seu aspecto técnico, o melhor momento para se tatuar
seria o inverno, pois a tatuagem recém-adquirida não pode ser exposta ao sol.
Se, por um lado, se está de férias em julho, por outro o clima pode não ser dos
melhores para a exibição do adorno recém-adquirido. Em Porto Alegre, cidade pesquisada
por Leitão (2003), o inverno é mais frio do que no Rio de Janeiro, onde mesmo nesta época
se praticam atividades ao ar livre, eventualmente nas praias. Se o inverno chega brando à
costa carioca, a praia é aproveitada em toda a sua plenitude. Talvez por isso a clientela seja
percebida como menor entre os gaúchos no inverno do que no verão, enquanto cariocas
mantém o movimento do estúdio mesmo na estação fria.
Ao longo dos meses de trabalho de campo observei que logo após o Carnaval de
2004 houve uma queda significativa de clientes na loja da Tijuca. De fato, havia dias em
que o estúdio não era visitado por um único cliente, nem mesmo para informações. Nestes
momentos, os profissionais saíam da loja e ocupavam o tempo ocioso conversando do lado
de fora. Aquele mês de março foi permeado por conversas sobre dinheiro que, desde
novembro de 2003, quando iniciei a pesquisa de campo, jamais ouvira. Cobrava-se
pagamento e perguntava-se sobre quando determinados cheques seriam descontados. A
aflição por dinheiro estava relacionada à escassez de clientes. Era pouco o que se tinha para
receber e esse pouco fazia falta.
No estúdio pesquisado em Copacabana, por sua vez, o movimento não parecia
pequeno nos meses pesquisados (março a maio de 2005), embora o segundo tatuador
(COSTA, 2004) e o piercer passassem muitas tardes em completa ociosidade. A agenda do
proprietário estava sempre cheia e raramente “ganhava” uma tarde de folga. O segundo
tatuador, contudo, contou-me que até o Carnaval o movimento era melhor. Nesta época do
ano, a clientela é formada, sobretudo, por turistas estrangeiros, fato que não se observa na
59

Tijuca. Contudo, o dinheiro vindo de fora (dos turistas) reafirma a idéia de que o público
local fica descapitalizado nos grandes feriados, poupando dinheiro para viagens.
É visível que existem variações sazonais na prática da tatuagem, embora não esteja
clara essa associação com o clima. Os tatuadores com quem conversei apresentaram o
dinheiro como fator relevante para as altas e baixas financeiras da profissão. Após longos
feriados, ou na véspera destes, o movimento cai. Se a lógica fosse a da mera exposição dos
corpos adornados, os feriados poderiam ser momentos de maior procura pela tatuagem,
mesmo levando-se em conta o tempo de cicatrização da mesma, o que não ocorre. Por outro
lado, se há variações em Porto Alegre em função exclusivamente do clima, esta é uma
variável a ser considerada. Optaria, então, por apontar um equilíbrio entre os dois fatores,
observando-se que a possibilidade de exposição corporal é fundamental, mas sem dinheiro
ela não passa de uma fantasia.

3. Localização: Tijuca

É importante dizer que descrever a localização deste estúdio foi um exercício de


estranhamento do familiar. Nascida e criada na Tijuca, residindo na Zona Norte por toda a
vida, não sei dizer quando tomei conhecimento do estúdio pesquisado. Ele faz parte da vida
do bairro, do cotidiano da juventude da região, ao menos daquela interessada em tatuagens.
Sei que fui levada lá por amigos e retornei muitas vezes para “olhar os desenhos”, sem
intenção imediata de ser tatuada. Percorri os corredores da galeria onde se localiza o
estúdio por vários anos. Tudo naquele ambiente me é familiar, ao contrário do outro estúdio
pesquisado, inserido em ambiente para mim menos familiar, como a Zona Sul. Na
qualidade de moradora da Tijuca, contudo, pude oferecer uma visão do bairro que apenas o
olhar formado pelos anos passados naquela vizinhança permitiria.
O estúdio pesquisado da Tijuca está localizado no terceiro andar de uma galeria
comercial, no coração comercial do bairro: a Praça Saens Pena. Esta área é caracterizada
pela presença do metrô, de um forte comércio de rua, em galerias e shopping centers6, bem
como de diversos consultórios médicos, odontológicos e laboratórios de exames em geral.

6
Na própria Praça Saens Pena há um shopping center. Há dois quarteirões desta existem outros dois
shoppings.
60

Há um fluxo constante de pedestres nas redondezas em busca de atendimento médico e do


farto comércio local. Linhas de ônibus, além do metrô, fazem a ligação entre a região, a
Zona Sul, a Zona Oeste e demais bairros da Zona Norte.
A galeria em questão não é um ponto privilegiado de comércio. Muitas de suas lojas
estão fechadas, provavelmente em função dos novos centros comerciais – shopping centers
– abertos há alguns anos. Nesta galeria existe um salão de beleza, um restaurante, agências
de viagens, lojas de quadros, lojas de discos, lojas de roupas e de aluguel de roupas de
festa, lojas de bijuterias, lojas que vendem material hospitalar, entre outros. Chama a
atenção a existência de três lojas de discos voltadas para a música rock e suas variações
mais pesadas, como o heavy metal. Freqüentadas quase que exclusivamente por um público
adolescente do sexo masculino, vendem, além de CDs, camisetas e acessórios. As três
localizam-se no segundo andar da galeria, em frente à escada rolante: ponto de passagem
obrigatório para se ir ao estúdio pesquisado. A princípio, imaginei que o público destas
lojas e do estúdio seria o mesmo, não existindo uma coincidência na localização, mas sim
um interesse comercial. Contudo, ao longo da pesquisa de campo, percebi que tal não
ocorria. Adolescentes raramente se tatuam no estúdio observado e quando se tatuam trata-
se, sobretudo, de meninas.

4. Localização: Copacabana

O estúdio pesquisado em Copacabana encontra-se, também, em uma galeria. Ao


contrário daquela da Tijuca, composta por três andares ligados por escadas rolantes, esta
galeria apresenta apenas um pavimento. Entre as lojas vizinhas ao estúdio, estão duas
alfaiatarias de conserto de roupas, uma loja de bijuterias, uma de serviços de informática,
uma loja de produtos para a casa, uma loja de discos e uma voltada para produtos de hip-
hop, como tintas para grafite, roupas e acessórios e dois salões de beleza. Segundo
observei, a movimentação de pessoas na galeria é formada, em maior parte, pelos clientes
das lojas de reparo de roupas e dos salões de beleza, clientes que não são os mesmos do
estúdio. O estúdio compartilha alguns clientes com a loja de discos.
Este estúdio pertencia, originalmente, a um famoso tatuador carioca, que o passou a
um dos tatuadores que trabalhava junto com ele, pois decidira mudar de cidade. Muitos dos
61

clientes ainda perguntam pelo proprietário anterior e alguns trazem notícias dele. O atual
proprietário reformou o estúdio, que ocupava duas lojas, e reduziu-o para o espaço de uma
loja. Funcionam no estúdio, além do serviço de tatuagem, também serviços de piercing e
alargamento de lóbulo auricular, ambos executados pelo piercer.
Este estúdio está localizado no limite entre os bairros de Copacabana e Ipanema, a
poucos metros das duas praias mais famosas da cidade. Em frente à galeria, encontra-se um
hotel. Há um movimentado comércio na região, embora se trate de área residencial. Nas
proximidades há também bares e restaurantes. Devido a esta localização, há um diferencial
quanto ao público: muitos clientes saem da praia e vão ao estúdio, outros são surfistas e há,
ainda, uma freqüência de turistas estrangeiros, sobretudo europeus, em busca tanto de
tatuagens quanto de piercings, uma vez que estes são mais baratos no Brasil do que no
exterior.

5. O espaço físico

Os dois estúdios apresentam uma configuração e um aproveitamento do espaço


físico semelhantes. Conforme outros estúdios (LEITÃO, 2002; COSTA 2004), há uma sala
de espera e a sala de tatuar. No caso dos estúdios observados, há ainda o uso da parte
externa da loja, onde um banco serve de espaço de sociabilidade, freqüentemente utilizado
pelos fumantes.

5.1. Tijuca

O estúdio pesquisado apresenta dois momentos distintos em seu espaço físico, pois
durante a pesquisa houve uma obra de expansão. A loja contígua ao estúdio foi comprada, o
que gerou a necessidade da obra, que na verdade operou uma reformulação estética total no
estúdio, incluindo novas cores, novo layout externo, novos móveis, bem como espaços
internos antes inexistentes.
Ao começar a pesquisa de campo, em novembro de 2003, o estúdio ocupava o
espaço de uma loja na galeria. A frente, toda em vidro, permitia ver de fora o que ocorria na
62

recepção. Neste espaço, havia duas prateleiras à direita com muitos álbuns de desenhos7;
um balcão de recepção à esquerda, onde o recepcionista atendia os clientes; um sofá de dois
lugares em frente às prateleiras dos álbuns; vários desenhos emoldurados e pendurados na
parede. Atrás do balcão da recepção, uma porta levava à área onde a tatuagem era
executada. Do sofá, na sala de espera, era possível ouvir o barulho das máquinas de
tatuagem funcionando.
Na frente da loja, no corredor da galeria, há um banco sem encosto que funciona
como sua extensão. Nesse banco, os clientes olham desenhos quando o estúdio está cheio,
os tatuadores conversam e os amigos ou parentes de clientes aguardam. Toda a
movimentação daquele pequeno espaço se dá em função do estúdio. O banco era, de fato,
sua extensão, uma área de sociabilidade tanto de clientes quanto de tatuadores. O estúdio
parecia dividido em três: o banco no corredor, a sala de espera e a sala de tatuar.
Na sala de tatuar, a parte interna do estúdio, havia bancadas de madeira e armários
em três paredes, com espelhos em todas elas. Uma pia servia de lavatório e, ao lado desta,
ficava um aparelho para destruir agulhas usadas e o descarpack, caixa para materiais
infecciosos. Na entrada da sala, encontrava-se um cabideiro na parede, um bebedouro de
garrafão e uma estante com livros e CDs, com um aparelho de som. Nesta parte interna
havia, ainda, um banheiro.
Com esta disposição, o estúdio podia atender até quatro clientes ao mesmo tempo, o
que significa dizer que até quatro tatuadores podiam trabalhar simultaneamente. Os
tatuadores utilizavam o espaço nas bancadas de madeira para organizar o material
necessário à tatuagem: água pura ou com sabão, tintas, papel-toalha, vaselina. Cada cliente
sentava-se em uma cadeira ou banco (algumas vezes era necessário deitar o cliente numa
maca) mais apropriado ao trabalho, enquanto o tatuador sentava-se em outra cadeira.
Embora muitos estúdios utilizem uma cadeira reclinável como a dos dentistas, esse não era
o caso do estúdio pesquisado. Espelhos nas paredes, dispostos acima das bancadas,
permitiam uma visão em vários ângulos, enquanto a tatuagem estava sendo executada e
depois de pronta.

7
Os álbuns são pastas com folhas plásticas onde são guardadas as folhas com desenhos para que os clientes
escolham o que será tatuado.
63

Após a obra de reforma, a recepção ganhou novos móveis, mas sua disposição
permaneceu a mesma. Acima das prateleiras de álbuns foi colocado um espelho. A frente
da recepção permaneceu em vidro, mas a frente externa da loja anexada foi coberta com um
painel em que várias fotos de tatuagens executadas no estúdio formam uma espécie de
mosaico. Ouvi tatuadores reclamando que de longe não é possível discernir nem os
desenhos nem a qualidade dos trabalhos no painel, o que, nas suas opiniões, deveria ser o
objetivo de tal recurso: uma espécie de portfolio gigante.
A divisão interna do estúdio foi alterada e mais clientes puderam ser atendidos ao
mesmo tempo. À direita, no espaço referente à loja anexada, localiza-se a sala de tatuar,
dividida em quatro bancadas diferentes, em granito, com armários embaixo, que formam
espécie de baias. Há também uma sala íntima, chamada de box, com porta, em que se
atendem preferivelmente clientes cujas tatuagens serão localizadas em partes íntimas do
corpo, como seio ou virilha, mas que é utilizada regularmente quando não há esta demanda.
Seu espaço interno é maior que o das baias. Acima de cada bancada, há um espelho, e há
outro, ainda, em uma parede em que não há bancada. Desta forma, como na disposição
antiga, o cliente pode ver sua tatuagem de vários ângulos diferentes.
À esquerda da entrada, no espaço que correspondia à loja antiga, o proprietário do
estúdio reformou o banheiro, e construiu dois novos ambientes: uma sala de televisão, com
aparelhos de videocassete e DVD e um sofá para que os tatuadores tenham um lugar
quando não estão tatuando e, eventualmente, para que algum cliente espere. Atrás do
aparelho de televisão, uma parede divide o espaço em outro ambiente, com armários,
prateleiras e uma bancada em madeira, onde são guardados materiais diversos do estúdio,
incluindo documentos e adesivos de propaganda.
A cor predominante, após a reforma, passou a ser o branco. As cadeiras e sofás são
da cor laranja. Porta-papéis, também na cor laranja, foram afixados às paredes, próximo a
cada baia de tatuar. Na recepção, uma das paredes também foi pintada em laranja.
Comentei com o proprietário que, após a reforma, o estúdio ganhou um ar de hospital,
lembrando uma clínica médica. Ele me disse que sua intenção fora essa: queria dar uma
impressão de limpeza e assepsia para tranqüilizar os clientes quanto aos procedimentos
envolvidos.
64

A limpeza interna do estúdio aumentou consideravelmente após a reforma. Os


procedimentos dos tatuadores mantiveram-se os mesmos, mas o cuidado com o ambiente
físico do estúdio aumentou, muito em função, é verdade, da necessidade de conservação
dos novos móveis. A tinta da tatuagem, que muitas vezes mancha as roupas dos tatuadores,
pode manchar também os móveis. Cadeiras manchadas de tinta dão um aspecto de má
conservação, sujeira e desgaste. Não raro, ouvi comentários dos tatuadores sobre a
necessidade de cuidados ao se lidar com as cadeiras, para que não se estragassem.
O chão do estúdio, um xadrez em preto e branco, manteve-se o mesmo. Interessante
notar que vários estúdios da cidade que visitei tinham o mesmo tipo de piso, embora nem
todos utilizem a cor branca na profusão em que o estúdio pesquisado a utiliza. De fato, a
decoração de cada estúdio depende do gosto do proprietário. O estúdio pesquisado contava,
antes da reforma, com uma série de máscaras decorativas balinesas. Após a mesma, as
máscaras foram penduradas nas paredes da sala de TV, enquanto a sala de tatuar foi
decorada com objetos chineses e pinturas de inspiração japonesa, pois o estúdio tem um
nome em japonês8.
A reforma serviu, em vários aspectos, para uma adequação do estúdio às novas
regras para funcionamento de estúdios de tatuagem e piercing formuladas pelo município.
Entre as necessidades atendidas estavam a de que as bancadas fossem de material lavável e
resistente a produtos de limpeza, o que não é o caso da madeira, e os toalheiros de papel
fossem fixados à parede.
A quantidade de espelhos, após a reforma, permaneceu praticamente a mesma. No
entanto, chama a atenção sua profusão na sala de tatuar. Em visita a outros três estúdios da
cidade, não observei nenhum caso semelhante. Embora haja uma idéia entre tatuados de
que não olhar para a execução da tatuagem alivia a sensação de dor (Leitão, 2003), o que os
espelhos fazem crer é que se quer dar ao cliente a oportunidade de acompanhar todo o
processo de tatuar. Conforme será visto em outro capítulo, a maior parte das tatuagens do
estúdio é executada na região das costas, onde os clientes só podem visualizar o desenho
por meio do espelho.

8
O Japão apresenta uma técnica e padrões de tatuagem considerados sofisticados em relação à tradição
ocidental, que incorporou largamente sua influência.
65

O espelho dá origem a situações peculiares. Certa vez, enquanto a namorada era


tatuada, o rapaz olhava-se continuamente no espelho, como se o mundo externo houvesse
se apagado: fazia caretas, verificava a pele do rosto, olhava os músculos do braço e
ignorava a moça a quem deveria dar apoio. O espelho se tornou elemento de narcisismo.
Será o mesmo para os tatuados? Acredito que sim. Na tatuagem, o olhar é fundamental.
Deixar-se ver, deixar que vejam a marca na pele, ou não deixar, escondendo-a, são formas
de transparecer a ligação que a marca apresenta com o olhar. O espelho é o instrumento que
permite o olhar a si, olhar a própria marca, olhar-se como um Outro refletido em plena
transformação.

5.2. Copacabana

Embora o proprietário indicasse constantemente em seu discurso a necessidade e a


intenção de reformar o estúdio, esta reforma não foi observada. O que houve, de fato, foi a
modificação do sistema de refrigeração e outras modificações meramente decorativas. O
estúdio é composto por uma sala de espera, uma sala de tatuagem e piercing, banheiro,
centro de esterilização e uma segunda sala de tatuar, construída como um mezanino. A
fachada da loja, toda em vidro, permite a visualização de seu interior a partir da galeria. Em
frente à loja, disposto de costas para o estúdio, um móvel de três cadeiras, característico das
salas de espera, serve como uma extensão. Nestas cadeiras, os funcionários conversam com
clientes e funcionários de outras lojas da galeria e, principalmente, fumam. Não se fuma
dentro do estúdio, embora os dois tatuadores, o piercer e a recepcionista sejam fumantes.
Isto provoca um constante entra-e-sai.
Na sala de espera encontram-se duas prateleiras com álbuns de desenhos, revistas de
tatuagens e algumas fotos de trabalhos executados pelos artistas. Nas paredes, quadros de
desenhos de tatuagens. O balcão de recepção é, também, uma vitrine para as jóias de
piercing. Sobre ele está um computador onde se escuta música, agenda-se os clientes e
procuram-se desenhos e fotografias de trabalhos executados. O piercer, costumeiramente
com poucos clientes, e a recepcionista utilizam ainda o computador para conversarem on-
line com amigos. Três cadeiras servem aos clientes. A sala de espera conta, ainda, com
quatro quadros de uma antiga campanha publicitária de um conhecido shopping da Zona
66

Sul carioca, em que as modelos aparecem com os próprios rostos tatuados. Na verdade,
trata-se de um desenho executado pelo proprietário do estúdio, que foi posteriormente
sobreposto às modelos em computador.
A recepção dá caminho para um corredor, pelo qual se chega à sala de tatuagem e
piercing, à escada para o mezanino, ao banheiro e ao centro de esterilização. A sala de
tatuagem e piercing é composta por dois lavatórios, duas cadeiras reclináveis elétricas,
como aquelas de consultórios odontológicos, e dois espelhos redondos. Uma persiana
garante a visibilidade ou privacidade do que ocorre dentro dela. Já a sala de tatuar
localizada no mezanino não tem lavatório. Há apenas a cadeira reclinável, mesas de apoio
para o tatuador e um espelho retangular, maior do que os encontrados na sala de baixo.
Embora todas as salas tenham recipientes para sabão líquido e porta-papel-toalha afixados à
parede, os mesmos não estão em uso. O papel-toalha é cortado, dobrado e acondicionado
em outros recipientes. Não observei, nas salas de tatuar, nem o descarpack, nem o aparelho
de destruição de agulhas.
O centro de esterilização é uma sala separada, ao final do corredor, ao lado do
banheiro, onde se encontra o autoclave e todo o material necessário ao procedimento de
esterilização, bem como o estoque de material descartável utilizado no estúdio.
O estúdio foi decorado em preto, branco e vermelho. Como em outros estúdios que
visitei na cidade, há a presença de ladrilhos em xadrez preto e branco, mas não no piso
como é costume e sim na parede. O piso do estúdio é composto por três materiais
diferentes, com marcas de rodapés não mais existentes.

6. Concorrência e proliferação de estúdios na cidade: a ética do tatuador

Três meses depois de iniciada a pesquisa de campo, foi aberto outro estúdio na
Praça Saens Pena, a menos de um quarteirão de distância do estúdio observado, uma filial
de um famoso estúdio de Copacabana. Nos últimos anos, o Rio de Janeiro tem sido palco
de uma expansão de estúdios de tatuagem e piercing. Estúdios de renome na cidade têm
aumentado sua área de atuação em busca de novos clientes, o que sugere uma alta procura
pelos seus serviços. O primeiro local desta expansão foi a Barra da Tijuca, bairro da Zona
Oeste da cidade. O próprio estúdio pesquisado abriu, anos atrás, sua filial na Barra, onde
67

trabalham os mesmos tatuadores que atendem na Tijuca. O estúdio concorrente também


possui uma filial na Barra.
Em agosto de 2004, um outro estúdio abriu suas portas na região da Praça Saens
Pena. Na verdade, mudou-se de uma rua pouco movimentada, sem comércio e com baixo
fluxo de pedestres, entre a Tijuca e Vila Isabel, bairro adjacente, para um dos shopping
centers próximos à Praça Saens Pena, de frente para outro shopping center, a dois
quarteirões de distância do estúdio pesquisado. Visitei-o assim que abriu suas portas, nos
seus primeiros dias de funcionamento e percebi um fluxo grande de clientes antigos e
novos, interessados em serem tatuados.
Embora a concorrência seja parte do mercado, no ramo dos estúdios de tatuagem
existe um discurso sobre uma ética que deve ser respeitada. Segundo o proprietário do
estúdio pesquisado, há uma espécie de acordo entre cavalheiros quanto à localização dos
estúdios: não se deve abrir um a menos de um quarteirão de distância de outro. Quando
percebi a presença do novo estúdio tão próximo, na própria Saens Pena, perguntei-lhe se a
concorrência seria dura. “É uma falta de ética”, protestou. “Antigamente tinha um acordo
de não abrir estúdio a menos de 500 metros um do outro.”. Disse que faltava registro a
muitos estúdios, bem como reconhecimento profissional e ética aos tatuadores, que,
segundo ele, “são cobrados do governo e não se ajudam”. Meses mais tarde, em agosto de
2004, essa “cobrança do governo” tomou corpo numa Resolução Municipal
regulamentando o funcionamento de estúdios no Rio de Janeiro.
O proprietário protestou, ainda, sobre a quantidade de impostos necessários à
manutenção de seu estúdio. Disse-lhe que havia notado uma proliferação de estúdios pela
cidade. Ele reiterou que faltava ética, dizendo escolher seus profissionais a dedo para servir
a um público diferenciado. Neste ponto, não via o concorrente como um obstáculo aos
negócios, pois a “proposta” dos estúdios é diferente. O problema, contou, é que o
concorrente abrira suas portas com preços baixos para atrair clientela. “Talvez perca
pequenos trabalhos, uma estrelinha, porque as pessoas procuram preço também”. Contudo,
acreditava que havia público para os dois. Ele sugeriu que eu fosse ao concorrente para ver
a diferença entre os dois estúdios e perceber como o público é distinto.
De fato, fui ao estúdio concorrente e percebi que o funcionamento era distinto.
Faltava público: apesar dos preços mais baixos, estava vazio. Enquanto o estúdio observado
68

atendia com ou sem hora marcada, o concorrente só atendia com hora marcada mediante
pagamento antecipado de R$50. Havia apenas um tatuador trabalhando na casa e os álbuns
de desenhos disponíveis eram xeroxes em preto e branco de outros desenhos, de modo que
mal se podia identificar certas figuras e, sem as cores, não se podia ter idéia de como a
tatuagem ficaria na pele.
O discurso do proprietário do estúdio pesquisado traz algumas informações
relevantes para se compreender o universo dos estúdios de tatuagem. Primeiro, embora haja
um Sindicato dos Tatuadores na cidade, ele não foi mencionado em nenhum momento, e
parece não servir como agente regulador em causas que ele considerou como éticas.
Segundo, a qualidade do trabalho dos tatuadores é o grande diferencial de um estúdio. Há
tatuadores especializados em tipos de desenhos diferentes. Idealmente, o cliente deve optar
por um estúdio e um tatuador que seja especialista no desenho que ele deseja tatuar. Como
exemplo, há um tatuador no estúdio pesquisado especialista em motivos orientais, como
dragões, e em retratos. Nem todos estes trabalhos são executados por ele, mas ele é
normalmente indicado tanto pelo recepcionista quanto por seus colegas para executar tais
trabalhos quando há demanda por parte de um cliente. A qualidade do trabalho do tatuador
traz inúmeras reflexões que serão vistas adiante, pois constrói a idéia de ser um
profissional, bem como a idéia de que a tatuagem é uma forma de arte.
O proprietário indica, ainda, como os estúdios têm lidado com a expansão da
demanda por tatuagens na cidade. A procura acentuada pelos serviços dos tatuadores é o
que possibilita a expansão dos estúdios, uma vez que a tatuagem é um serviço caro. A
concorrência não é vista com maus olhos, a não ser que seja desleal, como na cobrança de
preços abaixo do mercado. Há uma grande variação de preços entre os estúdios, e entre
estes e tatuadores que atendem em suas residências.
Além do preço, o cliente de tatuagem também se preocupa em buscar um local
limpo, tatuadores qualificados e um repertório de imagens que lhe agradem. De fato, nem
todos têm essa preocupação: desenhos podem ser obtidos fora do estúdio, em revistas,
livros e na Internet; a qualificação do tatuador é difícil de ser medida, e normalmente
constrói-se uma reputação a partir do boca-a-boca, da indicação de ex-clientes ou por
trabalhar em um estúdio famoso; a limpeza e profilaxia utilizadas, apesar de todas as
possibilidades de contágio, nem sempre é uma preocupação, visto que há ainda tatuadores
69

que trabalham nas ruas, onde nada indica que o material utilizado esteja devidamente
esterilizado.
Há que se observar, ainda, que o proprietário fala em propostas diferentes dos
estúdios. O estúdio pesquisado pareceu-me, ao longo de um ano de observação, sem um
público definido em termos de uma tribo urbana, ou alguma cultura juvenil. O proprietário
do estúdio parece procurar um público ligado ao rock. Como observei acima, o estúdio está
localizado em uma galeria em que funcionam três lojas de discos voltadas a este gênero
musical. O rock é a música preponderantemente ouvida pelos tatuadores dentro do estúdio e
percebi em campo que freqüentam também shows de rock. Por este perfil, o proprietário
escolheu uma rádio FM de rock para veicular anúncio do estúdio de tatuagem e da loja de
piercing, que funciona no mesmo andar na galeria.

7. Fazendo a propaganda de um estúdio

Além da propaganda em rádio, o proprietário optou pela propaganda em busdoor9,


já utilizada por outros estúdios da cidade. Um conhecido estúdio da Zona Sul carioca, o
mesmo que abriu filial a menos de um quarteirão do estúdio pesquisado, optou por esta
forma de propaganda. Indicava sua localização por diversos bairros da cidade: Copacabana,
na Zona Sul; Barra da Tijuca, na Zona Oeste; e Tijuca, na Zona Norte da cidade.
Analisando as fichas de cadastro10 do estúdio pesquisado referentes aos meses de
setembro de 2003 e janeiro de 2004, observei que o proprietário teve a preocupação de
medir a eficiência da propaganda com a seguinte pergunta: “como tomou conhecimento do
estúdio?”. Apesar da propaganda em uma rádio FM e dos anúncios em busdoor, a maior
parte do público chega até lá encaminhado pelo “boca-a-boca” de amigos: em setembro,
apenas três clientes foram atraídos pelos anúncios, e em janeiro foram 15 clientes. O
anúncio em busdoor foi veiculado por dois anos e nove meses, até março de 2004, segundo
o recepcionista do estúdio, e retornou em dezembro de 2004. O anúncio em rádio tem sido
veiculado sem pausas desde, aproximadamente, abril de 2002 até o momento da pesquisa
de campo, em 2004.

9
Trata-se de um painel anexado ao vidro traseiro dos ônibus que circulam pela cidade.
10
As fichas são dadas aos clientes para que preencham campos como nome, endereço, telefone, profissão,
data de nascimento, estado de saúde, tatuador, desenho e sua localização no corpo.
70

Uma vez perguntei ao recepcionista se os anúncios haviam aumentado a clientela da


loja. Ele confirmou. No entanto, os números não demonstram esse crescimento. A
propaganda mais forte no universo da tatuagem, mesmo na França, conforme aponta Le
Breton (2002), é o “boca-a-boca”. Ter uma indicação de um amigo é como ter um atestado
de que o local é limpo e seguro – mais confiável que o da Vigilância Sanitária, por assim
dizer, muito embora os critérios sejam outros – e de que o tatuador indicado apresenta
qualidades artísticas. Preço, ao que parece, nem sempre é a questão fundamental num
“boca-a-boca”.
Se os anúncios não aumentam a clientela da loja, por que veiculá-los? Sugiro que,
menos do que trazer novos clientes, o valor do anúncio é fazer com que o estúdio se torne
conhecido, se torne um estúdio de renome, entrando definitivamente entre os estúdios mais
tradicionais da cidade. Afirmei, anteriormente, que este estúdio é tradicional no bairro onde
está sediado há mais de 20 anos. Essa afirmação foi baseada nas respostas que clientes
apresentaram nos referidos cadastros, quando alguns responderam conhecer o estúdio pelo
simples fato de morarem no bairro. Será visto adiante que o público da casa é formado
majoritariamente por habitantes do bairro e, em segundo lugar, por habitantes de demais
bairros da Zona Norte. Os anúncios permitem ao estúdio tornar-se conhecido fora das
fronteiras da Zona Norte.
Outras formas de propaganda empregadas são a camiseta promocional e os
adesivos. O estúdio tinha algumas camisetas de malha preta, com sua logomarca na frente,
em tamanho grande, bem como adesivos para carros, redondos, com a mesma logomarca.
Um modelo mais antigo de adesivo apresentava o slogan Tatuagens tão perfeitas que até
sua mãe vai querer uma. No entanto, nunca presenciei a distribuição de tais itens a clientes,
de nenhuma forma, gratuita ou não.
Outro conhecido estúdio da Zona Sul carioca, cujo tatuador proprietário encontra-se
hoje, segundo fui informada, aposentado e fora da cidade, costumava distribuir adesivos de
propaganda. Em uma de suas versões, o material trazia a seguinte frase, além do nome do
estúdio: “Keep hell beautiful: get tattooed”. Em português: Mantenha o inferno bonito:
tatue-se. Chamo a atenção para as propagandas deste estúdio porque, como no caso do
estúdio pesquisado, ela faz uso de um determinado imaginário sobre a tatuagem. Por que
71

manter o inferno bonito? Tatuados são religiosos? São cristãos que acreditam no inferno?
São pessoas más que vão para o inferno?
Acredito que a utilização da idéia de inferno remete não à expressão de uma
religiosidade do tatuado, mas é uma referência à religiosidade preponderante no Brasil, que
é de viés cristão. Dentro desta referência, o slogan trata da associação entre tatuagem e
desvio, com a idéia de que tatuados são desviantes. Talvez mais do que desviantes,
marginais. Em suma, o tatuado, que aparece aqui como um tipo de rebelde, estaria passível
das punições infernais. Trata-se de um slogan que faz uso de um determinado imaginário
sobre a tatuagem que ainda a vincula ao mundo do crime e do desvio, quando hoje o
público dessa prática é mais heterogêneo. Neste sentido, convém observar que o slogan
fazia propaganda de um estúdio de tatuagem, e não de um tatuador de cadeia. Esta
oposição estúdio/cadeia é, na verdade, uma oposição entre o profissional e o amador,
efetuada pelos próprios tatuadores conforme será visto adiante.
O tatuado, no slogan em questão, é percebido pelo próprio tatuador como um
desviante, mas eu sugeriria que se trata de um desvio na forma de uma vanguarda, dado o
público do estúdio em questão, conforme será indicado a seguir. Desde a contracultura,
pelo menos, não estar de acordo com algumas normas socialmente estabelecidas pode ser
visto como um dado positivo, quando estas são vistas como burguesas, caretas,
conservadoras. Uma tatuagem pode ser, neste sentido, uma espécie de rebeldia, de não
aceitação das normas vigentes quanto à estética corporal preponderante. O que desejo
demonstrar no presente trabalho, contudo, é que essa associação já não é tão forte, uma vez
que a tatuagem parece estar fazendo parte da estética corporal dominante na sociedade
carioca. Observe-se, neste sentido, que a tatuagem já é explicitamente tratada como uma
forma de embelezamento do corpo no outro slogan.
Por que o slogan está em inglês? É necessário indicar que este antigo estúdio, hoje
de portas fechadas, vendido a outro tatuador e reformado dando origem a um novo estúdio
que foi pesquisado e analisado neste trabalho, localizava-se entre Copacabana e Ipanema,
região bastante valorizada da cidade, contando com uma população de alto poder
aquisitivo. Uma população que possivelmente dava origem a um público capaz de entender
a língua inglesa. Ao mesmo tempo, utilizar o inglês torna-se uma forma de distinção de
72

classe, provavelmente trazendo um público selecionado de classes superiores e médias


altas.

8. Ser proprietário de um estúdio, ser tatuador, ser recepcionista

Nem todo estúdio de tatuagem, conforme a visita a diferentes estúdios demonstrou,


apresenta estes três elementos: proprietário, tatuador e recepcionista. Alguns estúdios não
contratam recepcionistas. Quando estes existem são, em geral, mulheres. O proprietário do
estúdio é, normalmente, um tatuador. Ele pode convidar outro profissional a trabalhar em
seu estúdio ou atuar sozinho. Estas disposições variam de estúdio para estúdio revelando,
na verdade, o tipo de organização aplicado. As diferentes posições no processo organizativo
mostram, por outro lado, distintos papéis e funções.
Há um padrão nos estúdios de tatuagem em que a casa fica com metade do valor do
trabalho executado e o tatuador com a outra metade. Os tatuadores que chamo de
“contratados” não apresentam, de fato, vínculo empregatício formal, mas trabalham por
esta forma de comissionamento. Assim, não recebem direitos trabalhistas como 13o salário
nem têm direito a férias. Na qualidade de autônomo, espécie de profissional liberal, o
tatuador só ganha o que produz. Ser um proprietário de estúdio e contratar outros
profissionais, então, passa a ser uma forma de aumentar o ganho pessoal. Mas, se não
houver clientes suficientes, a loja se torna custosa e não consegue arcar com os próprios
gastos. Como a maioria dos comerciantes, não vêem feriados longos com bons olhos, pois
são dias de trabalho a menos e, conseqüentemente, de menor ganho.
Dentro desta autonomia do tatuador, há situações difíceis. Uma doença que impeça
o trabalho faz com que a renda caia, pois sem trabalho não há ganho. Preocupado com isto,
o proprietário do estúdio de Copacabana confidenciou, em certa ocasião, que deixara de
lado atividades que poderiam lhe trazer uma incapacidade física para o trabalho, como
andar de motocicleta. Trocou a motocicleta por um carro e fez um seguro de invalidez
porque “se eu quebrar o braço, faço o quê? Fico sem comer? Se eu perder os movimentos
do braço direito, não como mais?”. Também passou a contribuir para uma previdência
privada.
73

8.1. Tijuca

Os tatuadores não são empregados do estúdio pesquisado, mas comissionados. O


comissionamento atinge, também, o recepcionista. Além de ser uma espécie de gerente do
estúdio, ele é a linha de frente da venda de tatuagens. O tipo de remuneração dos tatuadores
faz com que tenham que atuar como vendedores de seus serviços, convencendo os clientes
a se tatuar, de preferência na hora, ou a agendar o serviço. O agendamento é uma forma de
prender o cliente que não quer ou não pode se tatuar no momento em que vai ao estúdio,
garantindo o trabalho futuro. Ao pagar o adiantamento, o cliente fica preso ao
compromisso, caso contrário o dinheiro é perdido.
Foi o recepcionista quem me esclareceu a organização dos comissionamentos: ele
próprio tem direito, além de um salário fixo, a 5% do valor da tatuagem. O restante é
dividido meio a meio entre o tatuador e o proprietário do estúdio. Ao proprietário cabe a
compra de material para higiene e assepsia, como filme plástico e papel-toalha, embalagens
para agulhas esterilizadas e as tintas utilizadas, normalmente importadas. Aos tatuadores
cabe a confecção das agulhas, de diferentes tamanhos e espessuras, e a aquisição de parte
do material descartável, como luvas e máscaras.
Certa vez, observei um dos tatuadores tirar dúvidas de uma cliente na recepção do
estúdio. A moça queria tatuar uma Betty Boop, personagem de desenhos, e procurava uma
nos álbuns do estúdio. Encontrando o que queria, conversou com o tatuador sobre o local a
ser tatuado e o tamanho ideal para o desenho. Queria uma tatuagem menor, mas o
profissional orientava sobre a proporção do desenho, já que a personagem é caracterizada
por uma cabeça enorme e um corpo esguio. Contudo, o tatuador disse que poderia fazer as
modificações necessárias para que o desenho agradasse à cliente. Ela, insegura, decidiu
procurar por conta própria mais desenhos da personagem e, então, retornar ao estúdio.
Quando saiu, o tatuador comentou comigo, em tom de frustração: “gastei minha saliva a
toa”. Este episódio resume a preocupação dos tatuadores em vender seus serviços. Perder
um cliente é, muitas vezes, perder R$100 ou mais. Dependendo da época do ano, pois há
uma variação sazonal na busca por tatuagens, a perda de um cliente pode ser a perda do
ganho do dia. Em função do tipo de comissionamento e da variação da demanda pelos
serviços, o ganho dos tatuadores é flutuante, aumentando e diminuindo ao longo do ano.
74

O preço da tatuagem é dado pelo tatuador e eventualmente barganhado. No estúdio


pesquisado, observei ser comum um tatuador perguntar a outro qual preço cobraria pelo
desenho. Os desenhos não são tabelados e seu preço pode variar em função do local a ser
tatuado, pois há regiões do corpo mais difíceis de tatuar, como a costela onde a elasticidade
da pele pode levar a um erro no desenho. Os preços variam, ainda, em função das cores, do
tamanho e da técnica utilizada. Se o pagamento é feito à vista, em dinheiro, o cliente recebe
um desconto de 10%. Os pagamentos podem ser efetuados também em cheque ou cartão de
débito ou crédito.
Eventualmente, o cliente consegue barganhar com o tatuador e negociar um preço
ou forma de pagamento mais conveniente. Em época de escassez de clientes, a barganha se
torna mais fácil. Uma tarde no estúdio observei tatuadora e cliente negociando o trabalho.
O rapaz estava querendo um cover-up11, tatuagem nem sempre fácil de ser executada.
Decidiu-se por uma índia norte-americana, com cocar de penas longas. “Vai tatuar hoje?”, a
tatuadora perguntou. “Não, não é assim não... tem que ter uma preparação psicológica. E a
gente tem que conversar preço”, respondeu o cliente. O trabalho foi orçado entre R$600 e
R$700, sem um valor exato. O rapaz achou absurdo. “Mas esse trabalho é difícil, por isso é
caro mesmo”, dizia a tatuadora, enquanto os outros profissionais da casa concordavam.
“Você pode fazer em duas sessões e pagar em duas vezes”, sugeriu. “Ah... já está
melhorando... mas não precisa duas sessões, né?”, disse ele. “Não...”, ela respondeu, “...vou
fazer por R$600 e, se você pagar à vista, tem desconto”. Ela abaixou o preço para R$500,
dizendo: “com 10% [de desconto] seria R$540, então faço R$500”. O rapaz resolveu
marcar a sessão. Quando os dois saíram, a tatuadora parecia feliz e comentava que havia
conseguido R$500.
O preço mínimo de uma tatuagem varia de estúdio para estúdio e é raramente
inferior a R$60, sendo normalmente superior. Levantamento efetuado nas fichas de
cadastro dos clientes do mês de setembro de 200312 indicou uma concentração de trabalhos
entre R$90 e R$330, da seguinte forma: 65 trabalhos entre R$90 e R$150, 34 entre R$160 e
R$220, e 33 entre R$220 e R$300, em um total de 159 respostas em 162 fichas. Trabalhos
de R$80, preço mínimo da tatuagem no estúdio pesquisado, somaram 13 clientes e, acima

11
Tatuagem que cobre um desenho anterior.
12
Entre os meses selecionados para o levantamento, setembro era o único em que constavam os valores pagos
pelos clientes.
75

de R$330, 14 clientes. Muitas vezes este valor é parcelado no cartão de crédito ou ao longo
de duas ou três sessões. Há um equilíbrio entre as faixas de valores: o preço mínimo e a
faixa de valores mais altos apresentam praticamente a mesma quantidade de clientes, assim
como a faixa de R$90 a R$150 apresenta praticamente a mesma quantidade de clientes que
as duas sucessivas somadas, de R$160 a R$300.

Gráfico n. 1 – Faixas de preço de gastos, em números absolutos, referentes ao mês de


setembro de 2003 no estúdio pesquisado na Tijuca .

acima de R$330

R$221 a R$330

R$160 a R$220

R$90 a R$150

R$80

0 15 30 45 60 75

Embora o proprietário do estúdio seja também um tatuador, raramente ele atende


aos clientes. Há aqueles que querem ser tatuados apenas por ele, que chegam ao estúdio por
indicação de amigos e conhecidos, mas nem todos conseguem. Apenas clientes mais
antigos são atendidos por ele. Um dos motivos desta ausência é que o proprietário é, antes
de tudo, um empresário. Sua função no estúdio é administrativa. Embora esteja sempre
presente, raramente atende aos clientes. Resolve questões relativas ao contrato de
propaganda com a rádio, fala com o gerente do banco quando é necessário, toma decisões
relacionadas a obras, lida com um contador e um advogado, orienta o recepcionista no
pagamento aos tatuadores e na aquisição de materiais para tatuar, entre outros.
76

Devo observar aqui uma distinção entre gerência e administração, segundo utilizo
os termos: o recepcionista do estúdio é, também, uma espécie de gerente, enquanto o
proprietário é um administrador. O recepcionista orienta os clientes quanto à técnica de
tatuar, os melhores locais do corpo para certos desenhos, a possibilidade de mudanças nos
desenhos, o preço dos mesmos, a duração da operação e os cuidados com a tatuagem, e
marca os horários para aqueles que querem agendar o serviço de um tatuador. Além disso,
ele gerencia o estoque de material, repassando ao proprietário as necessidades indicadas
pelos tatuadores. É o recepcionista, ainda, quem recebe e repassa os pagamentos relativos
aos trabalhos executados. O estúdio conta, também, com o serviço de um office boy, que
sob orientação do proprietário e do recepcionista efetua pagamentos e eventualmente
compra materiais necessários.
O proprietário do estúdio aparece, então, como um empresário do ramo,
administrando dois estúdios de tatuagem e uma loja de piercing, onde trabalhavam sua
esposa e sua cunhada. É ele quem decide sobre a expansão do estúdio, preços, formas de
pagamento, bem como atendimento a menores de idade. Em nenhum momento, contudo, eu
o vi supervisionar o trabalho dos tatuadores. Pelo contrário, os profissionais têm liberdade
para atuar, embora estejam submetidos às regras de funcionamento do estúdio, referentes,
sobretudo, a formas de pagamento, horário de funcionamento, cuidado com a manutenção
do espaço físico, higiene do material, entre outros. Os tatuadores são menos empregados do
que amigos do proprietário. Por isso, na obra de expansão da loja da Tijuca, ele teve o
cuidado de mandar construir um espaço de espera e descanso para os tatuadores, com um
sofá, televisor e aparelhos de videocassete e DVD.
Este não é o seu primeiro estúdio. Antes de comprá-lo, foi proprietário de um outro
em Ramos13, bairro da Zona Norte carioca. Alguns tatuadores que trabalharam com ele em
Ramos foram convidados a trabalhar na Tijuca. O sonho de muitos profissionais da área é
ter seu próprio estúdio, conforme aponta Costa (2004). Ter um estúdio é uma maneira de
ter renome. É por isso que muitos estúdios levam o nome de tatuadores. Um dos
profissionais da casa saiu, durante a pesquisa, para abrir seu próprio estúdio, em uma outra

13
Em conversas com o proprietário do estúdio e outros tatuadores fui informada de que o estúdio pesquisado
era de propriedade de dois irmãos, ambos tatuadores, cujo gerenciamento do negócio era precário: não sabiam
administrar as contas, deixavam clientes esperando e abriam a loja quando queriam, sem ter horário fixo e
77

galeria comercial, vários quarteirões de distância, mas ainda no mesmo bairro, numa região
já com um outro estúdio de tatuagem. O proprietário não parece ter se aborrecido, mas
ficado contente com a ascensão profissional do amigo.
Ser proprietário de um estúdio é, portanto, parte do imaginário e das aspirações de
muitos tatuadores. O que torna distinta a posição do proprietário do estúdio pesquisado é
que, ao expandir os negócios, ele se tornou muito mais um administrador do que um
tatuador. São outros os profissionais que fazem nome em seu estúdio, ao mesmo tempo em
que a qualidade desses profissionais dá renome ao estúdio. Neste sentido, há uma troca
constante.
Os tatuadores consideram sua técnica, na maior parte das vezes, como uma arte: a
arte de desenhar sobre a pele. O domínio da arte de desenhar é, no universo dos tatuadores,
um valor positivo, invejado e almejado. Aparentemente uma contradição, nem todo
tatuador é bom desenhista. Desenhistas normalmente criam novos desenhos em papel, que
são vendidos a outros tatuadores e estúdios, ou sobre a pele diretamente.
O tatuador profissional considera-se um artista. O termo profissional, aqui
empregado, deve ser compreendido não apenas no sentido da profissão de tatuar, mas,
sobretudo, no sentido da qualidade da obra tatuada. O profissional é um bom tatuador,
como observa Costa (2004). Em oposição a ele, estaria o tatuador de cadeia, considerado
uma espécie de amador, cuja obra não tem valor artístico. De cadeia é um termo utilizado
no universo da tatuagem com o sentido de obra mal realizada, sem técnica, de baixa
qualidade, amadora, como demonstra Leitão (2003). As tatuagens realizadas ainda hoje nas
prisões, sem tintas ou material adequados, com agulhas ou máquinas improvisadas, não têm
valor artístico para eles. Falta-lhes uma técnica, que o tatuador aprende e domina ao longo
da carreira, tornando-se conhecido por sua experiência e bons resultados.

8.2. Copacabana

A organização deste estúdio é diferente do anterior. Existem apenas dois tatuadores


trabalhando: o proprietário, que atende à maior parte da clientela, e o segundo tatuador

uma rotina pré-estabelecida. Durante três anos o atual proprietário sanou problemas financeiros, até tornar-se
dono da loja.
78

(COSTA, 2004), que atende prioritariamente àquela parte da clientela que não é formada
pelos amigos do proprietário, que são tatuados exclusivamente por ele. Esta divisão entre
amigos e não-amigos orienta boa parte dos procedimentos do estúdio. Como o estúdio
trabalha principalmente com o sistema de hora marcada, pede-se aos clientes novos que
paguem um adiantamento de R$50,00 pela reserva do horário. Aos amigos, contudo, não se
faz tal pedido. De fato, os amigos-clientes não costumam faltar às sessões de tatuagem e
estão sempre em contato com o estúdio, por telefone ou pessoalmente, para confirmar
horários e desmarcar sessões caso haja necessidade. O estúdio, por sua vez, se torna mais
flexível, desmarcando sessões quando necessário pois se trata de um negócio entre amigos,
em que boa parte da clientela é conhecida entre si. Normalmente as sessões são marcadas
com uma semana de antecedência, segundo a disponibilidade de agenda do proprietário.
O segundo tatuador, atendendo a clientes novos, tem poucos agendados. Fica,
portanto, restrito àqueles que vão ao estúdio sem uma indicação precisa de qual dos dois
profissionais requisitar. Dificilmente ele recebe clientes indicados por outros clientes ou
profissionais, como ocorre com o proprietário. O “boca-a-boca”, tão fundamental no
universo da tatuagem, não funciona para o segundo tatuador. Para ele, a clientela vem do
fato de estar trabalhando em estúdio, ao invés de em sua residência ou sem local fixo.
Durante a observação de campo, notei que o segundo tatuador passa muito mais tempo
ocioso do que ocupado e tem mais tempo ocioso do que o proprietário. No sábado, contudo,
o segundo tatuador trabalha sozinho. Segundo o proprietário do estúdio de Copacabana,
costumava trabalhar no sábado, abrindo o estúdio ao meio-dia, como durante a semana. Os
clientes, porém, só apareciam após as 17 horas, vindos diretamente da praia, o que o levava
a fechar a loja tarde da noite, depois das 22 horas. Cansado, desistiu de trabalhar aos
sábados.
Sábado é, no estúdio pesquisado na Tijuca (e, segundo o proprietário, também em
sua filial na Barra da Tijuca, na Zona Oeste), o dia mais lucrativo. É tão movimentado, que
me pediu que jamais fosse pesquisar aos sábados, pois eu seria um transtorno, dada a
quantidade de clientes.
Como todo profissional da área, o segundo tatuador deseja ter seu próprio estúdio.
Certa vez, contou-me que desejava abrir um em Vila Isabel, onde eu residia na época, na
Zona Norte carioca. Bairro com forte comércio de rua e desprovido de estúdios, parecia-lhe
79

um bom empreendimento. Permanecia na Zona Sul, contudo, pois queria ganhar mais
experiência e renome. Conforme apontei anteriormente, o atual proprietário deste estúdio
fora segundo tatuador até conseguir o ponto comercial para si. Trabalhando no mesmo
local, ele manteve a mesma clientela do estúdio anterior. Ao contrário do proprietário do
estúdio da Tijuca, portanto, este não é um administrador, mas um profissional atendendo a
uma clientela formada em anos de trabalho.
Como a maior parte dos clientes é formada por amigos do proprietário, não existe
uma atitude de “venda” de tatuagens, pois isto não é necessário para garantir o ganho
mensal. O segundo tatuador recebe 50% do preço de uma sessão e a recepcionista não é
comissionada. O proprietário, contudo, disse-me que também recebe apenas 50%,
separando o que considera “o dinheiro da loja” para os custos de manutenção desta. Como
o proprietário tem mais clientes do que o segundo tatuador, seus ganhos são maiores.
O proprietário deste estúdio costuma passar vários meses do ano viajando. É
convidado para trabalhar no Caribe, onde conhece tatuadores. Disse várias vezes que ganha
mais trabalhando fora do país. Embora seja, para ele, um prazer sair da cidade por alguns
meses, encara o trabalho no exterior também como uma necessidade, pois disse que teve
que enviar dinheiro de fora para arcar com o custo de funcionamento do estúdio. A
recepcionista, sua namorada, viaja com ele. Enquanto está fora, o segundo tatuador trabalha
sozinho. Os clientes-amigos do proprietário não procuram os serviços do segundo tatuador,
mas esperam até que retorne de viagem.
O preço mínimo da tatuagem é R$100,00. Ao contrário do que observei na Tijuca, a
barganha por um preço menor não é comum. Os clientes-amigos muitas vezes não
perguntam o preço da tatuagem. Muitos chegam ao estúdio sem sequer ter escolhido o
desenho e mesmo sem nenhum preferência. Muitas vezes o desenho é elaborado na hora e
tatuado antes que se discuta o preço. Neste sentido, estar na Zona Sul, área mais rica da
cidade, faz diferença.
Ao longo da observação, verifiquei que a maior parte dos trabalhos executados nos
amigos-clientes é considerada de tamanho grande, o que significa dizer que são também
caros. Quando há mais de uma sessão, cada uma custa em média R$300,00. Muitas vezes
são realizadas duas ou três sessões por mês no mesmo cliente. Mesmo desenhos
80

considerados menores saem por R$300,00, e os considerados médios custam de R$500 a


R$600.
Comparando-se os valores observados entre os clientes dos dois estúdios, gasta-se
mais em uma tatuagem em Copacabana do que na Tijuca, por indivíduo. Contudo, o estúdio
da Tijuca apresenta uma clientela maior, embora não seja uma clientela fixa. As variações
sazonais são relevantes no fluxo de clientes e, conseqüentemente, de dinheiro nos estúdios.
O trabalho na recepção também difere daquele observado na Tijuca. A recepcionista
é a namorada do proprietário. Atriz interessada em produção de filmes, conjuga o trabalho
no estúdio com cursos de sua área profissional. Ser recepcionista neste ambiente familiar
proporciona a ela uma flexibilidade ímpar: vai ao salão de beleza durante o expediente e
duas vezes por semana sai mais cedo para seu curso. Difere, também, na aparência: ao
contrário de recepcionistas extensamente tatuados, conforme observei em outros estúdios,
apresenta apenas uma tatuagem, em função do desejo de atuar nos palcos.
Recebendo um salário fixo, sem comissões, ela não atua como uma vendedora. Ao
contrário, todas as explicações mais técnicas sobre o processo da tatuagem, a possibilidade
de tatuar determinados desenhos, as regiões do corpo mais indicadas são dados diretamente
pelo tatuador. Seu trabalho limita-se ao gerenciamento da agenda e ao recebimento do
pagamento dos clientes. Quando o cliente é novo, ela pede que preencha uma ficha de
cadastro, mas clientes-amigos não costumam passar pelo procedimento. Se há necessidade
de compra de algum material, ela também providencia por telefone, requisitando entrega
direta na loja.
Na convivência com o namorado tatuador, a recepcionista aprendeu a tatuar.
Quando o namorado requisita, ela faz o estêncil das tatuagens, isto é, passa o desenho para
uma forma de decalque, mas esta não costuma ser tarefa sua. Embora tenha aprendido o
ofício, o que permite que dê sugestões nos desenhos que o proprietário cria para seus
clientes, disse-me que não deseja exercer a profissão.
Muitas vezes, a recepção fica a cargo do piercer, que passa a maior parte do tempo
ocioso. A procura por piercings é baixa. Novos furos são raros e a maior parte dos
interessados entra na loja em busca apenas das jóias. Não sendo efetivamente um
recepcionista nem tampouco um vendedor, o atendimento que presta aos clientes é mínimo,
81

limitando-se a buscar figuras no computador e encaminhar o mais rápido possível o cliente


ao tatuador, para que este forneça as informações desejadas.
Há, ainda, uma profissional de esterilização. Formada em instrumentação cirúrgica,
contou-me que já trabalhou em um necrotério e tinha vontade de trabalhar no Instituto
Médico-Legal, porque “perder paciente na mesa de cirurgia é muito triste. No necrotério já
estão mortos, a gente não passa por isso”. Antes trabalhando todos os dias, seu expediente
foi reduzido pela metade por que, segundo me disse o piercer, “ficava muito tempo
ociosa”. De fato, passava a maior parte do tempo nas cadeiras do corredor conversando
com funcionários de outras lojas. Seu trabalho se limita à esterilização das agulhas e dos
bicos da máquina de tatuar e à limpeza da sala de tatuar após uma sessão. Esta limpeza
consiste em retirar o material descartável utilizado, limpar as mesas de apoio com álcool,
limpar o chão com produtos desinfetantes e cobrir as cadeiras com material descartável.
Também costuma preparar o ambiente antes de uma nova sessão, dispondo papel-toalha em
profusão à mão do tatuador. Quando não está presente, os tatuadores têm de efetuar estas
funções sozinhos. Diferente do estúdio da Tijuca, aqui o material descartável é todo
comprado pela loja. Não há material pessoal, apenas a máquina de tatuar e seus
componentes.

9. Tatuagem como arte: profissionais e amadores

Sobre a idéia da tatuagem como arte e do tatuador como um artista, gostaria de fazer
uma comparação. Price (2002), estudando a percepção ocidental sobre a arte primitiva,
indica que esta é uma classificação que envolve certos critérios, entre eles, a falta de um
autor. Em outras palavras, a arte primitiva não é “assinada” por um artista, mas é vista
como a arte de um povo, de uma cultura. A tatuagem ocidental era tratada da mesma forma
até o século XIX: não havia nomes conhecidos de tatuadores, apenas a idéia genérica de
tatuagem, quando alguns tatuadores, considerados de elevada técnica, fizeram não apenas
seu nome, mas se tornaram uma espécie de mito, principalmente aqueles que tatuaram a
nobreza européia da época, de onde advém este renome. Em contato com camadas
superiores, eles ascenderam e o mundo da tatuagem ascendeu com eles.
82

Fazer um nome, parece, portanto, também uma forma de assegurar que se é um


artista da tatuagem. Algumas vezes ouvi clientes no estúdio sugerirem aos tatuadores que
assinassem suas obras. Os tatuadores normalmente não aceitam tais sugestões, pois a
tatuagem é a reprodução ou a produção de um desenho sobre a pele, e apenas o desenho
deve estar tatuado. Não funciona, de forma alguma, como uma pintura, em que o artista
assina a obra.
Os tatuadores constróem uma diferenciação interna ao grupo a partir desta noção de
que são artistas. Costa (2004) observou o processo em estúdios de Florianópolis e Leitão
(2003) em Porto Alegre. O tatuador de estúdio considera-se um profissional e um artista e
se coloca em oposição ao amador, normalmente referido como “tatuador de cadeia”. A
tatuagem de cadeia, uma das marcas da tatuagem no Ocidente, se tornou parte do
imaginário sobre a tatuagem ocidental a partir do sucesso das teorias de Lombroso (2001) e
sua antropometria criminal que tomava a tatuagem como característica de um homem
menos evoluído, mais próximo à mentalidade primitiva.
No universo contemporâneo da tatuagem, e ao que tudo indica em todo o país, o
termo “de cadeia” não se refere às teorias lombrosianas, mas a uma percepção de tatuagem
mal-feita. O ponto de comparação, portanto, entre o profissional e o amador é a qualidade
do trabalho executado, o primeiro sendo considerado como um artista. O profissional é um
bom tatuador e a idéia de arte na tatuagem se refere, sobretudo, à habilidade no desenho,
conforme indica Costa (2004). Para Le Breton (2002),o tatuador é um artista do corpo
alheio, cuja obra não é livre, mas está subordinada à demanda dos clientes, cujos gostos são
variados.
A aprendizagem da técnica de tatuar se faz, conforme Costa (2004) e Le Breton
(2002) apontam, sob a égide do processo de aprendizagem, em que o aprendiz observa o
tatuador mais experiente e constrói a partir daí o seu conhecimento. Neste sentido, minha
presença nos estúdios pesquisados levava muitos clientes a me perguntarem se eu era uma
aprendiz.
Para o aprendizado da tatuagem, é necessária uma desenvoltura anterior na prática
do desenho. Sem uma escola de formação, o tatuador se torna uma espécie de autodidata,
contando apenas com a boa vontade de um colega para aprender a profissão. Formar um
novo tatuador implica, conforme ambos os autores demonstram, formar um concorrente.
83

Portanto, não é fácil encontrar quem queira aprendizes. Controlando a dinâmica de


formação de novos profissionais, os tatuadores constroem um campo fechado, controlado,
corporativista. Este corporativismo, no Rio de Janeiro, se tornou aparente quando da
publicação de uma Resolução Municipal regulamentando o funcionamento de
estabelecimentos de tatuagem e piercing. Antes de apresentar a Resolução, gostaria de
aprofundar a reflexão sobre a dicotomia profissional/amador, a partir de uma narrativa dos
próprios tatuadores.
Knud Harald Lykke Gregersen é considerado14 o primeiro tatuador e pioneiro da
tatuagem no país (MARQUES, 1997). Dinamarquês, filho de tatuador, chegou à cidade de
Santos/SP em 1959, e ficou conhecido como Lucky. Já havia trabalhado em grandes cidades
européias e norte-americanas, tanto em terra firme quanto embarcado, seguindo a tradição
naval da tatuagem, tendo sido ele próprio marinheiro. Segundo Marques (1997), abriu dois
estúdios em duas localizações diferentes da cidade, o segundo em um bairro que o autor
compara à Lapa carioca. Trabalhou em Santos por 18 anos, mudando-se para Itanhaém/SP,
onde permaneceu por cinco anos, até chegar a Arraial do Cabo/RJ, onde permaneceu por
um ano até falecer, aos 55 anos de idade, em 1983.
Embora Do Rio (1997) descreva a indústria da tatuagem no Rio de Janeiro, Lucky é
considerado o primeiro profissional do ramo. A origem da tatuagem no país é traçada a um
ponto único, que é Lucky, ignorando-se qualquer referência outra. A identidade de
profissional fica, desta forma, resguardada e é baseada em uma linhagem ancestral clara e
definida, oriunda dos centros ocidentais da tatuagem (Europa e Estados Unidos) e muito
mais próxima à realidade contemporânea, na medida em que Lucky tornou-se famoso
tatuando um ícone da nova juventude surgida num país urbano em crescimento econômico:
Petit, o “menino do Rio” que teve um dragão tatuado por ele em seu braço.
Em outras cidades do Brasil, além de Santos, tatuadores também trabalhavam, mas
aparentemente sem o equipamento e a experiência de Lucky, o que parece ser o critério
utilizado para classificar profissionais e não-profissionais. Marques (1997, p.176) indica
que o jornal O Globo considerou Lucky “o único tatuador profissional da América Latina”,

14
Como exemplos pesquisados, cito http://www.neoarte.net/historia.htm, em 25/07/2002, e
http://www.terra.com.br/jovem/especiais/tatuagem/historia.htm, em 25/07/2002. A primeira é produzida por tatuadores,
a segunda constitui matéria especial do provedor Terra, direcionada ao público jovem.
84

em 1975. O universo dos tatuadores é competitivo. Acusar algum tatuador de não ser
profissional é uma maneira de colocá-lo à margem. Marques (1997, p.219) afirma que

“tatuadores mais ou menos bem-sucedidos se queixam da facilidade com que os novatos


proliferam e agem clandestinamente, favorecidos pela disponibilidade de tudo quanto é
tipo de equipamento. Dizem que bastará um clandestino fazer besteira, para destruir a
imagem sadia de uma arte historicamente suspeita”. (MARQUES, 1997, p.219)

Muitos pontos poderiam ser analisados na passagem acima, mas gostaria de me


concentrar na idéia de profissionalismo. O que o autor diz, em outras palavras, é que a “arte
historicamente suspeita” se tornou “sadia” na medida em que os profissionais dominaram o
campo. Seu domínio foi posto em xeque porque não há uma corporação que regulamente a
ação de novatos, que podem tatuar uma vez munidos dos recursos técnicos necessários.
Expulsar os amadores, deixar claro quem é “clandestino”, é uma forma de regulamentar o
campo. A Resolução carioca trata exatamente disto, e será vista adiante.
Quero indicar, ainda, que as categorias amador e profissional não se referem apenas
à qualidade do trabalho executado. O profissional/artista não está em oposição ao
amador/de cadeia apenas na qualidade da obra, mas sobretudo no domínio de um campo
competitivo. Acusar um amador de colocar a imagem da tatuagem em risco de suspeita, por
um trabalho mal-executado e mesmo sem a higiene devida, é uma forma de expulsar
qualquer novato do campo ou, antes, de impedir o seu ingresso ou pertencimento.
Utilizo a noção de campo, aqui, conforme a definição de Bourdieu (1992). Segundo
ele, um campo pode ser visto como uma rede, uma configuração de relações objetivas entre
posições. Essas posições são definidas em suas existências e nas determinações que
impõem a seus ocupantes – agentes ou instituições – pela situação atual ou potencial na
estrutura de distribuição de diferentes espécies de poder (ou de capital), onde a sua posse
comanda o acesso aos lucros específicos que estão em jogo no campo, e pelas relações
objetivas com as outras posições.
Assim, não é que os amadores não façam parte do campo, mas, antes, que estão
relegados às posições dominadas, nas hierarquias inferiores. Eles fazem parte do campo
como elementos que jamais ascenderão a patamares de maior renome e prestígio.
85

Observando esta relação por outro viés teórico, amadores e profissionais constituem
categorias de alteridade. Ser um profissional é não ser um amador, e vice-versa.
Para a presente análise, é interessante observar o campo da tatuagem, ou dos
tatuadores, como uma espécie de campo artístico. Para Bourdieu (1992), o campo artístico é
constituído na e pela recusa, ou inversão, da lei do ganho material. Por isso, eu sugeriria,
tatuagens para concursos são, muitas vezes, realizadas de graça em “modelos” que as
aceitam em troca da exposição da obra em convenções de tatuagens. São, normalmente,
desenhos grandes, sobretudo painéis, cujo preço ultrapassa mil reais. A escassez de clientes
dispostos a desembolsar tais quantias dificulta a exposição deste tipo de trabalho. No
estúdio pesquisado na Tijuca, observei um caso desses, um rapaz que era tatuado de graça
por um dos profissionais da casa para ser exposto na convenção de São Paulo, a principal
do país. Nos concursos, o que se avalia é justamente a qualidade artística da tatuagem e,
portanto, a qualidade artística do tatuador.
A idéia de tatuagem como uma forma de arte engendra, ainda, conseqüências para
as relações de gênero na profissão. Tenho indicado que se trata de uma profissão
eminentemente masculina, um tipo de ocupação onde se encontram mais homens do que
mulheres. Estas são mais visíveis nas recepções dos estúdios ou trabalhando como piercers.
Na medida em que a tatuagem é um processo que pode ser visto como arte, enquanto
desconheço debates sobre a prática do piercing como um processo artístico, aquela se torna
uma ocupação (ser tatuador) mais valorizada do que esta (ser piercer). Assim, os piercers
costumam trabalhar nos estúdios de tatuagens, e não em lojas dedicadas exclusivamente ao
piercing, por se tratar de uma forma de modificação corporal menos valorizada e que,
portanto, entende-se que não exista sozinha. Ser praticado em estúdios de tatuagem coloca
o piercing em uma posição não apenas inferior, mais baixa, mas submetida. Com tantas
características femininas (BOURDIEU, 2003), não é por acaso que tenha se tornado um
terreno de mais fácil ingresso para mulheres.
86

10. A Resolução SMG “N” nº 690 de 30 de julho de 200415

Em 2 de agosto de 2004, a Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro tornou de


conhecimento público Resolução sobre o funcionamento de estúdios de piercing e
tatuagem. Embora a maior preocupação da Resolução seja quanto aos processos de
esterilização nas duas práticas, o seu maior impacto foi restringir oficialmente a idade em
que se pode ser submetido a elas. Contudo, como menores entre 16 e 17 anos são
considerados “relativamente incapazes”, enquanto abaixo de 16 são “absolutamente
incapazes”, segundo o Código Civil, há a possibilidade de execução de ambas as técnicas
nesta faixa etária. Como as regras focalizam questões relativas à higiene, sua fiscalização
está sob responsabilidade da Vigilância Sanitária.
Além de processos de esterilização e higienização que, até onde observei em campo,
já são largamente utilizados pelos profissionais há alguns anos, os estúdios devem manter
um cadastro de clientes – o que também já fazem – e um livro com registros de ocorrência
de incidentes de saúde, como reações alérgicas. O profissional que atende ao cliente se
torna o responsável técnico pela operação, podendo responder administrativamente por seus
atos, o que se refere a punições como multas e perda de alvará para o estabelecimento onde
atua, por exemplo. Todo cliente, ou responsável por menor de idade, em contrapartida, deve
assinar um termo de responsabilidade, indicando que está ciente das dificuldades de
remoção de cada prática bem como dos riscos de execução. Estes riscos, como se refere o
texto da Resolução, devem estar igualmente sinalizados em local visível nos
estabelecimentos.
Tatuagens e piercings só podem, doravante, ser executados em locais de construção
sólida e em ambientes individuais, o que torna proibida a sua execução ao ar livre. Neste
caso, é interessante observar que se faz uma ruptura com o que antes era a prática da
tatuagem no Brasil, marcada pelos amadores e pela falta de estrutura para tatuar, conforme
aponta Costa (2004). Esta mudança é, segunda a autora, indício de preocupações com
questões relativas à saúde, da parte dos próprios tatuadores, mas também um reflexo destas
preocupações na própria sociedade.

15
Agradeço as considerações e esclarecimentos de ordem jurídica prestados por Christian Edward Cyril
Lynch e Dax Moraes.
87

Ficou proibida, ainda, a administração de anestésicos por via intravenosa. Eu


desconheço este procedimento na cidade do Rio de Janeiro, mas Costa (2004) menciona um
anúncio publicado em revista sobre tatuagem em que um estúdio de São Paulo fazia
utilização de anestésicos do gênero. No Rio de Janeiro, observei apenas a utilização de
anestésicos tópicos, na qualidade de pomadas, e mesmo assim pouco recomendados pelos
tatuadores. Proíbe-se, também, a tatuagem em áreas cartilaginosas do corpo, mas não o
piercing.
A Resolução apresenta três “Considerandos”, ou seja, motivações para sua
existência: a competência da direção municipal do Sistema Único de Saúde quanto à
normatização complementar das ações de saúde; o Código de Proteção e Defesa do
Consumidor, “que estabelece ser um dos direitos básicos do consumidor a proteção da
saúde e segurança contra os riscos provocados por práticas no fornecimento de serviços”
(RIO DE JANEIRO, 2004); e “que a execução dos procedimentos inerentes à prática de
aplicação de piercing e tatuagem, expõe o usuário e o executor ao risco de contaminação
pelos agentes infecciosos veiculados pelo sangue” (RIO DE JANEIRO, 2004).
As motivações da Resolução são, portanto, de saúde pública, versando sobre as
competências estatais para regulamentar procedimentos que envolvam riscos para a saúde.
Ao mesmo tempo, apresenta-se a atividade como sendo um serviço prestado, determinando
uma relação entre fornecedor e consumidor, por assim dizer, em que este deve ter seus
direitos resguardados. Por último, estabelece-se que a prática envolve riscos à saúde, sob a
forma de possíveis infecções. Ambos, tatuagem e piercing, são definidos como “práticas
invasivas” e “procedimentos de embelezamento”. Outras formas de modificação corporal,
como implantes subcutâneos, não são mencionadas.
Durante a pesquisa de campo, no período anterior à Resolução citada, o dono do
estúdio pesquisado na Tijuca disse em várias ocasiões que não se sentia à vontade para
tatuar menores, a não ser que estes se apresentassem na companhia dos pais. O termo de
responsabilidade para menores, segundo Costa (2004) também utilizado em Florianópolis,
não havia no Rio de Janeiro até então. Os estúdios cariocas, de um modo geral, já
limitavam, mesmo que de modo não sistemático, a tatuagem em menores. No estúdio
pesquisado em Copacabana, os menores não são nem tatuados nem submetidos ao piercing,
88

mesmo em companhia dos pais, como pude presenciar. Penso que, na verdade, esta
Resolução torna oficiais procedimentos que os tatuadores já adotavam antes dela.
Conforme reportagem de Magalhães (2004) para O Globo, o Sindicato dos
Tatuadores assessorou a Prefeitura na formulação de tais normas, o que é provavelmente
responsável pela adequação da maior parte dos estúdios a priori. Contudo, creio que a
oficialização de tais procedimentos, com as punições cabíveis pelos órgãos estatais, é mais
uma parte do processo de diferenciação observado no universo da tatuagem entre os
profissionais e os amadores. Forma-se, a partir desta Resolução, um campo oficial da
prática da tatuagem e do piercing na cidade, que passa pela intervenção do Sindicato dos
Tatuadores, que com isto ganha prestígio e se lança como intermediário e porta-voz dos
profissionais da área, adensando a separação entre estes e os amadores, que são excluídos
do campo de atuação.
A Resolução cumpre, portanto, várias funções. Ao mesmo tempo em que torna o
Estado uma instância efetivamente reguladora de questões de saúde relativas a estas duas
práticas na cidade do Rio de Janeiro, torna instância reguladora igualmente o Sindicato dos
Tatuadores. Associados na forma de um sindicato, fenômeno que não é visto em todo o
Brasil16, os tatuadores cariocas estão operando uma forma de distinção em seu campo de
atuação profissional e construindo uma instância reguladora própria, com legitimidade
suficiente para ser consultora do próprio Estado. O Estado, na verdade, tornou oficiais
práticas já adotadas pelos tatuadores profissionais, que agora contam com o aparato da
Vigilância Sanitária para afastar de seu campo os amadores, ou seja, aqueles sem
infraestrutura adequada para a execução do trabalho: sem autoclave, sem alvará, sem
construção sólida, entre outras requisições. Isto não quer dizer que os tatuadores de estúdio
estejam sendo privilegiados, pois os tatuadores e piercers que trabalham em suas próprias
residências podem igualmente manter-se dentro das requisições e recomendações da
Resolução municipal.
A regulamentação da prática por instância governamental traz novas reflexões sobre
a tatuagem. Primeiro, há uma preocupação da ordem de saúde pública, o que implica um
certo discurso médico sobre a prática. Por outro lado, limita-se a idade a ser tatuado, o que
por sua vez implica uma certa concepção sobre o bem-estar e a autonomia de crianças e

16
COSTA (2004) se refere a uma Associação dos Tatuadores em Florianópolis, e não a um sindicato.
89

adolescentes. Apresentarei, mais oportunamente, o discurso médico sobre a prática, visto


que os estúdios de tatuagem são diretamente atingidos pelas regulamentações práticas
quanto a profilaxias. A influência do discurso médico atinge as restrições quanto à faixa
etária de submissão à prática da tatuagem. No capítulo seguinte, concernente ao público do
estúdio, voltarei à questão do uso de tatuagens entre adolescentes.

11. Conseqüências do novo cenário: expansão e retração dos negócios em um


ambiente de concorrência

Os estúdios pesquisados, embora se localizem espacialmente pela cidade entre as


Zonas Norte e Sul, não foram “escolhidos” por esta característica, mas foram oportunidades
abertas por amigos para que o trabalho de campo fosse realizado. Conquanto a comparação
baseada nesta localização espacial pudesse ser feita, uma vez iniciado o trabalho de campo
no segundo estúdio, aquele localizado em Copacabana, a comparação mais rica pareceu ser
aquela quanto às distintas formas de organização do estúdio, compreendido como
empreendimento comercial.
Estas distintas formas de organização estão relacionadas ao momento de expansão
da prática da tatuagem na cidade do Rio de Janeiro. Com o aumento do público, novos
estúdios abriram suas portas e estúdios tradicionais, de renome, abriram filiais. Este se
tornou, então, um comércio permeado pela concorrência, que era muito menor antes desta
expansão e deste crescimento de público em busca dos serviços de tatuagem e piercing.
A abertura de filiais não apenas é uma resposta ao aumento do público como
também consolida o nome de estúdios tradicionais, que passam a atuar e serem conhecidos
fora das fronteiras dos bairros onde originalmente atuavam. Assim, o próprio tatuador
proprietário, cujo renome é bastante forte para garantir uma determinada clientela, aumenta
sua fama, garantindo com isto maiores lucros. É importante lembrar que o estúdio sempre
ganhava cerca de 50% do valor de uma tatuagem executada, logo, quanto mais
profissionais atuando, maior será o lucro.
Observei, neste capítulo, que os estúdios pesquisados, além de apresentarem uma
distinção quanto à sua organização administrativa, apresentam também uma distinção
quanto ao seu público. O estúdio pesquisado em Copacabana, pela sua própria localização
90

na área turística da cidade, recebe um constante fluxo de turistas estrangeiros, o que não
ocorre na Tijuca. Por outro lado, seu público majoritário é formado por amigos do
proprietário. Isto ocorre porque há 12 anos o profissional atende no mesmo ponto
comercial, antes como segundo tatuador e depois, comprando o estúdio onde trabalhava,
como proprietário. Trabalhando quase metade do ano no exterior, sua presença na cidade
concentra os clientes fiéis, já considerados amigos.
Na Tijuca, a profusão de profissionais na casa não permite a freqüência exclusiva de
amigos. O sucesso e o crescimento do negócio – o estúdio abriu loja específica para
piercing na Tijuca e filial na Barra da Tijuca – tornaram o proprietário um administrador,
que gerencia as lojas, faz propaganda dos estúdios e raramente tatua. A própria organização
dos dois estúdios pesquisados, neste sentido, mostrou-se distinta: o estúdio de Copacabana
apresenta uma característica mais familiar, enquanto o da Tijuca assemelha-se mais a um
modelo burocrático (WEBER, 1971).
Essa diferenciação na organização administrativa dos estúdios é reflexo do
crescimento na clientela de tatuagens na cidade. A expansão para outros bairros do que
ainda é um negócio estritamente regionalizado, que atende fundamentalmente a um público
do bairro, demonstra este crescimento. Embora o estúdio pesquisado em Copacabana
sofresse quedas de receita, sanadas pela freqüência de turistas estrangeiros ou pela remessa
de dinheiro pelo proprietário quando trabalhando no exterior, creio que isto se deve menos
a uma retração da clientela de Copacabana, que como visto gasta em média mais do que
aquela observada na Tijuca, do que a uma administração que não tem tido sucesso em
aumentar a clientela.
Em outras palavras, se o proprietário do estúdio de Copacabana sente necessidade
de trabalhar fora do país para recuperar um lucro que não tem aqui, isto se deve menos à
retração de uma clientela para as tatuagens na cidade do que ao gerenciamento de seu
próprio negócio. Na medida em que ele atrela sua clientela a uma relação de amizade, faz
com que o estúdio seja mais freqüentado quando está presente, o que produz seu
esvaziamento quando está ausente, levando a uma queda de receita. Trata-se, portanto, de
uma forma de gerenciamento que não está permitindo a sobrevivência do estúdio em um
cenário novo para este negócio na cidade, um cenário de expansão e concorrência.
91

Estar na Zona Sul ou na Zona Norte carioca não é o fator principal da resposta dada
por cada estúdio para o novo cenário de concorrência. Parece, antes, haver um ethos
diferente de administração, uma opção efetuada pelo proprietário por quem será o público e
qual será a estratégia para alcançá-lo. É a conjugação destes dois fatores que parece
influenciar o sucesso ou fracasso do estúdio como empreendimento, em termos de
lucratividade, medido aqui na abertura de filiais e, conseqüentemente, aumento no número
de tatuadores trabalhando no estúdio.
No estúdio pesquisado em Copacabana, ao mesmo tempo em que os amigos são a
clientela majoritária, sua presença está concentrada nos períodos do ano em que o
proprietário está no país. Estes clientes-amigos dão ao estúdio um ethos relacional, de
empreendimento familiar executado entre pessoas conhecidas. Na Tijuca, ao contrário, a
impessoalidade e a grande quantidade de profissionais deram ao proprietário um ethos de
administrador, quase burocratizado, o que se mostrou estratégia mais exitosa de sobreviver
à concorrência.
92

CAPÍTULO IV - O PERFIL DO PÚBLICO

“Quem pinta o corpo é índio.”


Pai de cliente do estúdio pesquisado em Copacabana

Há um imaginário ocidental sobre a tatuagem que se remete ao período em que


apenas adornava os corpos de criminosos, marginais, prostitutas e marinheiros. Neste
imaginário, a tatuagem era um elemento de subculturas fundamentalmente masculinas,
como a de presidiários e marinheiros. Hoje, como alguns estudos vêm demonstrando
(LEITÃO, 2002; FONSECA, 2003), o público da tatuagem é majoritariamente feminino.
Além da transformação nas camadas ocupacionais, a prática da tatuagem apresenta uma
transformação em seu público em termos de gênero.
Dentro das transformações do público da tatuagem ocidental desde o período em
que estava reservada àqueles grupos socialmente marginalizados, surgiu um novo
imaginário que associou a prática a tribos urbanas e determinados grupos jovens. Quando
Petit, o “Menino do Rio” que Caetano Veloso cantou em versos, fez sua aparição na Praia
de Ipanema com o célebre “dragão tatuado no braço”, ele não era o primeiro de sua geração
a associar surf e juventude ao uso de tatuagens (MARQUES, 1997). Contudo, foi um
pioneiro e serviu de ícone na difusão da prática tanto entre jovens quanto entre as camadas
médias cariocas. A partir de Petit, construiu-se um imaginário ligando a tatuagem à
juventude no país. Além dos surfistas, outras “tribos urbanas”, como os punks do ABC
paulista, faziam uso da marca (MARQUES, 1997). A juventude se tornou, desta forma,
uma das características do público da tatuagem.
Em observação de campo nos dois estúdios de tatuagem na cidade do Rio de
Janeiro, percebi que os grupos de cultura jovem, ou “tribos urbanas”, não formam a maioria
da clientela. Em um dos estúdios pesquisados, próximo às praias de Copacabana e Ipanema,
os surfistas são um grupo visível entre os clientes, mas não constituem o público
majoritário. Por outro lado, o mesmo imaginário que associa a prática a estes grupos,
normalmente a associa a um universo masculino e os próprios grupos jovens são pensados
93

como fundamentalmente masculinos. Em campo, identifiquei um público majoritariamente


feminino, que não podia ser associado a nenhuma tribo urbana.
Analisando fichas de cadastro de clientes de um dos estúdios pesquisado, localizado
no bairro da Tijuca, observei que as mulheres formam a maioria da clientela. As fichas de
cadastro do estúdio pesquisado na Tijuca apontaram, ainda, para faixas etárias outras que
não aquelas consideradas “jovens”. Estes dados indicaram a necessidade de se repensar a
tatuagem não mais como uma prática de juventude, mas como um processo de marcação
corporal que tem atingido extratos populacionais que não estão relacionados às culturas
jovens.
Por outro lado, há ainda muitos jovens que buscam a tatuagem. Entre os casos
observados em campo, os recém-completos 18 anos podem ser “comemorados” ou, melhor
dizendo, marcados pela aquisição da tatuagem. Os 18 anos têm sido uma idade limite, na
medida em que uma Resolução Municipal impediu a prática em menores de 16 anos, e
entre os 16 e 17 anos apenas com termo de responsabilidade assinado pelo responsável.
Ainda assim, os estúdios pesquisados implementaram regras próprias, ainda mais rígidas:
naquele pesquisado em Copacabana, menores não são tatuados, enquanto no estúdio
pesquisado na Tijuca o termo deve ser apresentado pelo próprio responsável.
Esta situação indica uma tutela por parte da família que é vista por alguns como
incômoda. Parece ser a necessidade de romper com este status de menoridade, não no
sentido jurídico mas valorativo, que leva alguns a serem tatuados assim que os 18 anos
chegam. A marca parece ser um indicativo de liberdade – aqui uma liberdade sobre o
próprio corpo que se conjuga a uma liberdade por escolhas. Trata-se de processo análogo
ao que se observou entre algumas mulheres de diferentes faixas etárias em que a resistência
da família, sobretudo nas figuras do pai e do marido, teve que ser rompida com afirmações
do tipo “esse corpo é meu”, indicando não apenas a necessidade de uma autonomia
individual, mas a dificuldade de se adquirir esta autonomia.

1. Área de residência

A partir das fichas de cadastro, foi possível determinar a região de residência dos
clientes do estúdio pesquisado na Tijuca. 70% dos clientes é oriunda da própria Zona Norte.
94

A Tijuca, onde o estúdio está localizado, responde por 42.2% da clientela desta região, e
forma entre 25% e 30% do público total do estúdio. Nenhum outro bairro da Zona Norte
apresenta um contingente tão grande de clientes. Os outros bairros mais freqüentemente
citados são: Grajaú (8.9%) e Vila Isabel (6.3%), bairros contíguos à Tijuca. Como a Zona
Norte é uma região extensa que abrange diversos bairros, muitos deles apresentam apenas
um cliente, o que representa menos de 1% do público.

Gráfico n. 2 – Percentual dos bairros da Zona Norte onde mais freqüentemente


residem os clientes do estúdio pesquisado.

45,00%
40,00%
35,00%
30,00%
25,00%
20,00%
15,00%
10,00%
5,00%
0,00%
Tijuca Grajaú Vila Isabel

A Zona Sul representa 12% a 15% do público mensal do estúdio. Botafogo (21%),
Flamengo (17.5%) e Copacabana (14%) são os bairros mais citados, representando 52.5%
da clientela residente na Zona Sul. A Zona Oeste representa 7% do público do estúdio,
incluindo-se a Barra da Tijuca, onde o estúdio mantém uma filial. A região do Centro foi a
que apresentou a maior variação entre os meses pesquisados. Em setembro de 2003,
formava quase 7% dos clientes. Em dezembro de 2003, a percentagem caiu para 3%,
embora em números absolutos a freqüência de residentes da área seja apenas ligeiramente
menor (uma queda de 11 para 8 indivíduos). Em janeiro de 2004, apenas um cliente
residente na região procurou o estúdio, o que representa 0.6% da clientela.
95

Gráfico n. 3 - Percentual dos bairros da Zona Sul onde mais freqüentemente residem
os clientes do estúdio pesquisado

25%

20%

15%

10%

5%

0%
Botafogo Flamengo Copacabana

O estúdio recebe, ainda, clientes de outras cidades. Alguns são provenientes de


outros estados, mas a maioria desse contingente é formada por residentes de municípios
próximos ao Rio de Janeiro, como municípios da Baixada Fluminense, Niterói e sua região
metropolitana. Estes clientes representam de 4% a 6% do público mensal. Foi observado
um alto índice de residentes em Niterói e em Duque de Caxias, mas as variações de mês a
mês são altas o que não permite concluir que a maior parte dos clientes oriundos de fora da
cidade do Rio de Janeiro proceda destes municípios.
Observa-se que o público do estúdio é formado preponderantemente pelos
moradores do bairro onde está localizado e por outros moradores da Zona Norte. Há,
portanto, um caráter de serviço de bairro. É interessante observar, neste sentido, que as
fichas de cadastro apresentavam a indicação de amigos e parentes como a forma principal
como os clientes tomaram conhecimento do estúdio, o que pode indicar uma rede de
sociabilidade entre os clientes formada no próprio bairro e na Zona Norte de um modo
geral.
96

Gráfico n. 4 – Maiores percentuais de clientes encontrados no estúdio pesquisado,


segundo região de origem.

Outros Municípios

Centro

Zona Oeste

Zona Sul

Zona Norte

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70%

No estúdio de Copacabana, as fichas não são constantemente atualizadas. Como a


maioria da clientela é formada por amigos do proprietário, não se requisita que preencham
ficha. Apenas os novos clientes passam pelo procedimento. O proprietário afirmou que todo
trabalho executado deveria ser registrado em ficha, mesmo o dos clientes conhecidos.
Segundo ele, “é que isso não virou um hábito ainda”. Como as fichas de cadastro deste
estúdio não correspondem à realidade da clientela, restou apenas a observação para
verificar onde residem os amigos-clientes. Verificou-se, então, fenômeno análogo ao do
estúdio anterior, em que a clientela reside em bairros próximos ao estúdio. Este dado só foi
alcançado devido à proximidade entre proprietário e clientes. Ao reencontrar amigos no
estúdio, o tatuador freqüentemente pergunta se ainda moram no mesmo lugar, o que
permitiu identificar o público como caracteristicamente da Zona Sul, à exceção dos turistas
estrangeiros. Área turística por excelência, é compreensível que os turistas busquem este
tipo de serviço na Zona Sul. A freqüência de turistas no estúdio é constante. No Carnaval e
próximo a ele, conforme informou o piercer, a quantidade de turistas no estúdio aumenta,
já que aumenta também na cidade. Os estrangeiros procuram tatuagens no Brasil porque
são baratas em comparação com os preços praticados no exterior.
97

2. A predominância feminina

Encontrei, nos estúdios pesquisados, um público da tatuagem que é


majoritariamente feminino. O que antes era parte da cultura masculina parece ser hoje parte
da cultura feminina de cuidado com o corpo. A tatuagem, conforme Leitão (2003)
demonstra, é utilizada pelas mulheres como uma forma de embelezamento e cuidado de si,
traduzido no cuidado com o corpo, com o sentido contemporâneo de embelezá-lo. Contudo,
não creio que processos relacionados à beleza sejam a causa única do incremento das
mulheres como público da tatuagem. Pelo contrário, creio que o processo encerra antes uma
característica de posse de si (BENSON, 2000; LE BRETON, 2002) que, a meu ver, se torna
responsável pela preeminência feminina na clientela dos estúdios. Os homens, por outro
lado, parecem conseguir na tatuagem um espaço de manifestação do ethos guerreiro.
Na tabela abaixo, apresento o número de clientes cadastrados por mês e a indicação
percentual de homens e mulheres a cada mês. Pelos percentuais, é possível observar um
progressivo incremento do número de homens a cada mês, em uma variação que chega aos
15%. Embora a variação não seja pequena, creio que a amostra não é suficiente para se
concluir que o número de homens que procuram a tatuagem vem aumentando nos últimos
tempos. Para tal afirmação, seria necessária uma amostra maior.

Tabela n. 1 – Mulheres e homens na clientela do estúdio pesquisado na Tijuca.


MÊS/ANO MULHERES HOMENS TOTAL
Setembro/2003 130 (80.2%) 32 (19.8%) 162 (100%)
Dezembro/2004 183 (70%) 79 (30%) 262 (100%)
Janeiro/2004 118 (65.5%) 62 (34.4%) 180 (100%)

Observe-se que as mulheres formam cerca de 70% dos clientes, número observado
por outros tatuadores em outros estúdios, como Emerson, tatuador da Rocinha1, que
afirmou ao site Beleza Pura2 que 70% de seus clientes são mulheres (LEAL, 2005).

1
Antiga “maior favela da América Latina”, hoje com status de bairro, encravada no morro entre os bairros da
Gávea e São Conrado, Zona Sul carioca, áreas extremamente valorizadas da cidade.
2
Ligado ao site do projeto Viva Favela do Viva Rio, ONG carioca. O projeto privilegia as comunidades de
favelas e assim o faz também o Beleza Pura, mas voltado ao universo da estética.
98

Gráfico n. 5 – Homens e mulheres, em números absolutos, no estúdio pesquisado na


Tijuca.

jan/04
Mulheres dez/03
set/03

Homens

0 20 40 60 80 100 120 140 160 180 200

Embora haja uma predominância feminina entre os clientes, a profissão de tatuador


continua sendo preponderantemente masculina. Há poucas tatuadoras trabalhando na
cidade. No estúdio pesquisado na Tijuca, havia uma única mulher tatuando em meio a 8
homens, embora apenas mulheres apliquem o piercing na filial dedicada a esta prática. Isto
indica que embora o público seja feminino, a técnica ainda é dominada pelos homens. O
domínio da técnica nas mãos masculinas representa o passado da prática, que estava
vinculada sobretudo a grupos masculinos3. Pouco a pouco as mulheres têm se inserido na
profissão, embora tenham se dirigido mais à atividade de piercer do que de tatuadora4.
No estúdio de Copacabana, a observação indicou um quadro distinto. A maioria dos
clientes-amigos do proprietário tatuador é formada por homens. A observação foi
contrastada com a opinião do proprietário, que concordou. O segundo tatuador, contudo,
informou que a sua clientela é formada preponderantemente por mulheres, acrescentando
que “[é formada por] mulher, sapatão e viado. No Carnaval [de 2005] então... só sapatão e
viado. Teve um dia que ficou cheio isso aqui”. Durante o período, o proprietário
encontrava-se tatuando fora do país.

3
Ver Capítulo 1.
99

3. Pele: classificações de tatuadores e perfil do público

A grande maioria do público da tatuagem é branca. Esta cor de pele permite o uso
de qualquer tipo de traço e cor, como uma tela de pintura para o artista. Quanto mais escura
a pele, maiores são as limitações no uso de cores. A pele negra não é propícia à tatuagem.
As peles mulatas só permitem o uso de tinta negra. Para peles bronzeadas prefere-se a
utilização de cores quentes, como vermelhos e laranjas. Desta forma, não é de se estranhar
que o público seja majoritariamente branco. Quando utilizo a categoria “branco”, estou
fazendo menção a características que, no Brasil, são associadas a este grupo. Os tatuadores,
no entanto, parecem utilizar uma outra classificação para a cor da pele, que não envolve
características raciais, mas apenas a cor.
No início do trabalho de campo, enquanto realizava as observações a partir da sala
de espera do estúdio da Tijuca, observando o ir-e-vir de clientes e curiosos em geral, pude
presenciar a classificação de cor da pele elaborada pelos tatuadores em ação. Um casal foi
ao estúdio querendo tatuar-se. Eram brancos, jovens, aparentando idade não muito superior
aos vinte anos. Estavam bronzeados, apresentando a pele queimada e avermelhada pelo sol.
Conversavam com o tatuador sobre o desenho desejado e o local do corpo escolhido para
ser marcado. O rapaz perguntou ao tatuador se deveriam optar por uma tatuagem colorida
ou apenas em preto, ao que o profissional lhe respondeu que “vocês não são brancos” e que
nesse caso não era recomendável uma tatuagem colorida, pois as cores não “apareceriam”.
“A pele morena não pega cor muito bem”, disse ao casal.
O casal em questão era loiro e de cabelos lisos, longe do que o senso comum
brasileiro considera como “moreno”. No universo da tatuagem não é a concepção racial que
é utilizada, mas uma outra categoria definida exclusivamente pela cor da pele em função
das possibilidades da própria prática de tatuar. Trata-se de classificar a cor de pele apenas
pela cor visualmente percebida, independente das classificações raciais, de status ou de
posição social.
Em outra ocasião, quando passei a observar os clientes sendo tatuados, presenciei
situação semelhante. Uma moça de 25 anos, cabelos alisados e olhos claros, foi ao estúdio

4
MARQUES (1997) afirma que o primeiro estúdio profissional de tatuagem do Rio de Janeiro foi aberto em
Ipanema por uma tatuadora, Ana Velho.
100

acompanhada da mãe para fazer sua primeira tatuagem, um presente de aniversário que
conquistou junto à família. Tatuava um personagem de desenho animado, colorido em azul
e branco, na região lombar. O tatuador, classificando-a como “morena”, sugeriu que não
utilizasse o branco no desenho, pois a pele não seria capaz de absorver pigmento tão claro.
No momento em que foi classificada como “morena”, a cliente respondeu ao tatuador que
era branca e dizendo que apenas estava bronzeada de praia. Uma de suas principais
preocupações ao ser tatuada era justamente a extensão do período em que teria de ficar
afastada da praia e do sol. O sol é um dos grandes “inimigos” da tatuagem, pois queima não
apenas a pele, mas os próprios pigmentos utilizados, alterando o tom e o brilho das cores.
Para se tomar sol, é necessário cobrir a tatuagem com uma camada espessa de filtro solar.
No estúdio pesquisado em Copacabana a classificação em ação é a mesma. Para
peles negras, mais ou menos escuras, diz-se que são “morenas”, e informa-se que a
utilização de cores não é ideal. Para aqueles bronzeados de praia, da mesma forma, sugere-
se pouca cor, ou tons mais escuros.

4. Perfil etário

Embora se costume associar o uso da tatuagem à juventude, a pesquisa de campo na


Tijuca apontou para um público que ultrapassa o que se costuma considerar como
juventude, sem seguir aqui pelas discussões dos limites etários desta categoria. Segundo os
tatuadores com quem conversei, a maior parte de seus clientes está dentro de uma faixa
etária que vai dos 25 aos 45 anos.
O levantamento efetuado no cadastro de clientes do estúdio pesquisado, referente
aos meses de setembro e dezembro de 2003, demonstrou uma variação interessante quanto
à faixa etária da clientela. Dezembro é considerado um mês de alto movimento. Os meses
do verão, os que o antecedem e o mês de julho são considerados mais proveitosos
financeiramente pelos tatuadores. O total do mês de setembro é de 159 respostas sobre
idade em 162 fichas, enquanto o de dezembro é de 254 em um total de 262 fichas. O de
janeiro é de 166 respostas em 180 fichas.
A construção de faixas etárias é, até certo ponto, arbitrária. A busca por um critério
que permitisse a organização de tais dados levou em consideração a preponderância
101

numérica de casos em determinadas idades, que foram agrupadas. Entre os 16 e 17 anos é


possível ser tatuado com a apresentação de uma autorização dos responsáveis. A partir dos
18 anos, construí faixas que possibilitassem uma diferenciação numérica visível ao leitor
quanto a que público é realmente majoritário, em que faixa etária.
O que se torna mais relevante, ao meu ver, é saber em que medida a tatuagem é hoje
um elemento da cultura jovem, esteja ela vinculada à idéia de tribos urbanas ou não, e em
que medida ela tem sido buscada por sujeitos mais velhos. O contrário de juventude, aqui,
não é velhice. Não se está trabalhando com categorias como adolescente versus adulto ou
jovem versus velho. Desta forma, creio que os resultados finais podem ser agrupados em
dois blocos: um que vai dos 16 aos 25 anos e outro que vai dos 26 em diante.

Tabela n. 2 – Faixa etária dos clientes do estúdio pesquisado na Tijuca.


MÊS /ANO
FAIXA SETEMBRO/ DEZEMBRO/ JANEIRO/ TOTAL
ETÁRIA 2003 2003 2004
16-17 4 (2.5%) 6 (2.4%) 1 (0.6%) 11 (2%)
18-19 16 (10%) 10 (4%) 12 (7.2%) 38 (6.6%)
20-25 57 (35.8%) 78 (30.7%) 46 (27.7%) 181 (31.3%)
26-29 20 (12.6%) 49 (19.3%) 29 (17.5%) 98 (17%)
30-39 36 (22.6%) 87 (34.2%) 52 (31.3%) 175 (30.2%)
40-49 19 (12%) 17 (6.7%) 22 (13.2%) 58 (10%)
50-59 6 (3.8%) 4 (1.6%) 3 (1.8%) 13 (2.2%)
60 ou mais 1 (0.6%) 3 (1.2%) - 4 (0.7%)
TOTAL 159 (100%) 254 (100%) 166 (100%) 579 (100%)

Dos 16 aos 25 anos, tem-se um total de 230 casos (39.9%). Acima desta faixa, ou
seja, dos 26 em diante, há um total de 349 casos (60.1%), conforme o Gráfico n. 7 acima.
Se o cálculo fosse efetuado com um grupo de 16 aos 29 anos, este total se alteraria para 338
casos (56.9%), contra 250 casos (43.1%) a partir dos 30 anos, conforme o Gráfico n. 8
abaixo. A faixa entre 26 e 29 anos, portanto, é o diferencial para se definir se a tatuagem é
hoje procurada por jovens ou não jovens. Fugindo à possível polêmica sobre o que é, afinal,
a juventude, o que é ser jovem, pode-se observar no quadro acima que o público
preponderante está entre os 20 e os 39 anos, com uma ligeira vantagem para as faixas entre
102

20 e 25 anos e entre 30 e 39 anos. Esta última faixa é, a meu ver, aquela que causa alguma
surpresa, pois os trinta anos não costumam ser considerados no escopo de possibilidade de
definição do que seja juventude. Para outros, contudo, mais surpreendente pode ser a
existência de casos de tatuagem em indivíduos acima dos 60 anos.

Gráfico n. 6 – Faixa etária dos clientes do estúdio pesquisado na Tijuca, em números


absolutos, nos meses pesquisados.

90
80
70
60
50 set/03
40
dez/03
30
20 jan/04
10
0
16- 18-19 20-25 26-29 30-39 40-49 50-59 60 ou
17anos anos anos anos anos anos anos mais

Gráfico n. 7 - Percentuais de clientes no estúdio pesquisado na Tijuca, nos meses


citados, agrupados em duas faixas etárias, com corte aos 25 anos.

26 anos e acima

16-25 anos

0,00% 10,00% 20,00% 30,00% 40,00% 50,00% 60,00% 70,00%


103

Gráfico n. 8 – Percentuais de clientes no estúdio pesquisado na Tijuca, nos meses


citados, agrupados em duas faixas etárias, com corte aos 29 anos.

30 anos e acima

16-29 anos

0,00% 10,00% 20,00% 30,00% 40,00% 50,00% 60,00%

Em seu estudo sobre as práticas da tatuagem na França, Le Breton (2002, p.137-8)


observou entre seus entrevistados uma percepção de que a juventude terminaria em torno
dos 30 anos.

“’Como estou me aproximando dos 30, tenho a tendência a me sentir um pouco mal
porque eu me digo que não é mais a minha geração. É um pouco como ver uma senhora
de salto agulha.’ (Maryse, 27 anos, estudante)
‘Eu escolhi uma tatuagem discreta na parte de baixo das costas porque a pele não pára de
envelhecer e eu poderei escondê-la mais tarde, quando eu tiver filhos.’ (vendedora, 22
anos)”5

Com relação ao público dos estúdios pesquisados, não observei a mesma percepção.
É certo que, como o autor aponta, a preocupação com a velhice se expressa também no Rio
de Janeiro mais entre as mulheres do que entre os homens, mas se trata aqui de uma velhice
avançada, percebida esteticamente (a pele flácida) e não em termos de compromissos
sociais (ter filhos), como na França. A tatuagem é vista, entre o público observado, como
estranha para um corpo enrugado e flácido, e não para uma pessoa idosa. A juventude,
portanto, é pensada na França como um momento de menos compromissos sociais,
enquanto no Brasil ela é percebida com um aguçado senso estético, em função do viço da
pele e da beleza do corpo.

5
“’Comme j’approche de la trentaine, j’ai tendence à me sentir um peu mal à l’aise parce que je me dis que
ce n’est plus ma generation. C’est um peu comme de voir um vieille à talons aiguilles.’ (Maryse, 27 ans,
étudiante); ‘J’ai choisi um tatouage discret e dans lê bas du dos car la peau ne se détendra pas em
vieillissant et je pourrais le cacher plus tard quand j’aurai des enfants.’ (vendeuse, 22 ans).”
104

Como exemplo, posso citar uma tarde no estúdio da Tijuca em que observei duas
irmãs, acompanhadas da mãe, que iriam ser tatuadas. As filhas aparentavam vinte anos,
talvez com uma diferença pequena de idade entre elas. A mãe aparentava cinqüenta ou
mais. A mãe consertava eventuais erros de proporção nos desenhos escolhidos pelas filhas,
dava palpites na localização das tatuagens e dizia estar lá para dar apoio moral às moças.
Dizia não ser contra tatuagens e pensava em um dia fazer uma, mas sentia-se “muito velha”
para tal. Sabia, inclusive, qual desenho gostaria de ter tatuado e em que parte do corpo:
queria um “olho de Hórus” na nuca (Figura 15, p. 236). “Se eu fosse mais nova”, disse,
“faria uma cobra de alto a baixo da coluna. Mas agora que estou velha, as pelancas caindo,
não sei”. Uma das filhas se manifestou: “a minha aqui também vai cair um dia.”
A concepção de velhice da mãe era a mesma da filha, referindo-se à estética
corporal. Para a filha, contudo, a velhice, pensada em termos da “queda” da pele, ou como
a mãe definiu, a “pelanca”, a pele flácida e mole, não era um problema na decisão de
adquirir uma tatuagem. A filha não pensava em uma realidade ainda distante, mas
demonstrava que a reflexão não lhe escapou. A mãe, por outro lado, sentindo-se já velha,
observando seu corpo sem o mesmo viço da juventude, demonstrava preocupação com uma
realidade imediata e não vindoura.
Na França (LE BRETON, 2002), os 30 anos marcam o começo do envelhecimento,
porque marcam também a idéia da formação da família, sobretudo entre as mulheres. Não é
apenas com a estética envelhecida que a marca não combina, mas com as responsabilidades
de um sujeito adulto. A juventude emerge, ao contrário do caso carioca, como a antítese do
mundo adulto.
No estúdio da Tijuca, observei muitos clientes acima dos 30 anos fazendo tatuagens,
e muitas vezes a primeira. O envelhecimento não era, para eles, uma preocupação. O
elevado número de clientes de 30 anos ou mais (43.1%) parece se dever, portanto, também
a uma percepção em que a tatuagem não é vista como uma prática apenas da juventude,
mas como uma prática corporal disponível a quem dela queira fazer uso. Além dessa
dissociação, creio que a existência de um público acima dos 30 anos envolve questões tanto
financeiras, porque a tatuagem é uma prática cara, quanto questões estruturais que defino
no conceito posse de si (BENSON, 2000; LE BRETON, 2002). Segundo esta idéia, os
tatuados marcam seu corpo como uma forma de afirmação de propriedade sobre ele. Como
105

será visto na discussão sobre gênero, para as mulheres é difícil e parece necessário declarar
essa posse de seu próprio corpo, regulado constantemente pela família, sobretudo por
maridos e pais.
Sem as fichas de clientes, tornou-se difícil elaborar um padrão etário para o estúdio
de Copacabana. A maior parte da clientela parece estar abaixo dos 30 anos, embora haja
clientes assíduos acima desta faixa etária. Certa vez, um senhor aposentado chegou ao local
para sua primeira tatuagem, influenciado pelo filho, cliente do estúdio. Descrevo este
cliente em outro capítulo, pois sua concepção mística das tatuagens gerou uma análise
sobre os desenhos e suas significações pessoais para os tatuados.

5. Adolescência e a sedução da tatuagem

Embora o consumidor desta prática corporal não seja essencialmente adolescente,


estúdios e poder público desenvolveram uma série de restrições para o seu atendimento,
conforme apontado no capítulo anterior. A partir de agosto de 2004, a Prefeitura do
Município do Rio de Janeiro determinou que menores de 16 e 17 anos podem ser tatuados
desde que os responsáveis assinem um termo de responsabilidade.
Apesar das restrições e do baixo número de clientes nesta faixa etária (2%), pode-se
encontrar nos próprios estúdios quem tenha feito a primeira tatuagem em idade inferior aos
16 anos. Em uma tarde de observação na Tijuca, ouvi a história de Márcia, uma moça de 28
anos, casada, mãe de dois filhos, micro-empresária. Era de estatura mediana, branca, magra
e tinha os cabelos aloirados por tintura. Estava fazendo sua terceira tatuagem. A primeira,
contou, fizera aos 13 anos (não deixou claro se em estúdio ou não). Já estava desgastada e
ela pensava em retirá-la com laser. Não queria retocá-la nem cobrí-la com outro desenho,
pois achava a região tatuada exposta, à mostra com certos tipos de roupa. A tatuagem
localizava-se nas costas, perto do ombro. Segundo disse, esteve em um evento com clientes
de sua empresa e, sentindo calor, retirou o casaco. O vestido que usava deixava a tatuagem
à mostra, o que foi observado por algumas pessoas e automaticamente se transformou em
assunto entre elas. O comentário que recebeu e reproduziu para mim foi o seguinte: “Nossa,
você tem tatuagem? Mas nem parece!”.
106

A tatuagem executada sobre a adolescente de 13 anos passou a ser vista como um


transtorno quinze anos depois, em função das exigências do mercado de trabalho. O ato de
tatuar-se, contudo, não causou nenhum arrependimento, visto que Márcia fez mais duas
tatuagens. A diferença era, apenas, na escolha da região do corpo: tatuava-se em regiões em
que pudesse esconder a marca. O desejo de escondê-la não é particularidade sua, mas uma
preocupação de vários tatuados, sempre em função do mercado de trabalho.
O comentário recebido por Márcia deixa transparecer que a tatuagem não é tão bem
aceita quanto se imagina atualmente: não apenas há situações em que ela deve ser
escondida, como o fato de ter de sê-lo envolve uma percepção real, factual, e não
imaginária, de que a tatuagem pode causar transtornos, pois ainda está associada ao seu
passado de marginalidade. Os problemas enfrentados pelos tatuados no mercado de
trabalho serão analisados posteriormente.
Em outra ocasião, antes de serem tornadas públicas as novas determinações
municipais sobre o funcionamento dos estúdios, observei um caso correlato na Tijuca. Uma
menina de 16 anos, acompanhada pela mãe, queria ser tatuada. Era alta, branca, magra, o
rosto marcado pelas espinhas e os cabelos aloirados por tintura. O recepcionista
encaminhou mãe e filha para que conversassem com o proprietário do estúdio. Este não se
recusou a tatuar a menina, argumentando para mim que se ele se negasse a atendê-la, ela
procuraria um outro estúdio ou outro profissional. Em seu estúdio, disse-me, tinha a certeza
de que ela seria bem atendida, com profissionais capacitados e material esterilizado. Ao
mesmo tempo em que não queria perder a cliente, ele preocupava-se com o que um
entrevistado de Costa (2004) chamou de biosegurança, isto é, a preocupação com a higiene
e o corrente processo de medicalização observado no universo da tatuagem.
Durante a conversa com a menina, alertou-a que pensasse bem sobre qual desenho
gostaria de tatuar e em que parte do corpo. O ingresso no mercado de trabalho foi o alvo
dos alertas sobre o local escolhido. Segundo ele, ela deveria optar por uma região que não
lhe causasse transtornos futuros. Sobre o desenho, disse-lhe que aquela tatuagem seria
carregada pelo resto da vida, que escolhesse algo de que não se arrependesse, pois os gostos
da adolescência nem sempre são os mesmos da idade adulta. Neste ponto, a mãe da menina
concordou com ele e disse à filha que a mentalidade da adolescência e os interesses deste
período nem sempre acompanham as mudanças da vida. Apenas depois de tantos alertas,
107

perguntou-se à menina o que ela desejava tatuar: “uma estrela”, ela disse. O dono do
estúdio relaxou, pois concordou que era um desenho difícil de causar arrependimento.
Há uma representação social sobre a adolescência presente nas histórias acima que
parece ser um dos fatores de preocupação quanto à tatuagem em menores. O adolescente é
visto como uma força transformadora, mas também como um elemento desordenado e
caótico: não pensa no futuro, não pensa em seu ingresso no mercado de trabalho, e por isso
pode se arrepender de se tatuar em locais visíveis, ou mesmo de se tatuar; sua mentalidade
e interesses podem mudar, pois é um ser incompleto e inexperiente, que viveu poucos anos.
Enquanto ele muda e a juventude passa, a tatuagem permanece. Por isso deve-se pensar
bem, escolher com cautela e refletir. Mas, como indica Almeida (2001), mesmo para pós-
adolescentes nem sempre a tatuagem é o resultado de um processo reflexivo.

6. Mudança de status

Em outras ocasiões, vi meninas com os recém-completos 18 anos irem ao estúdio


para serem tatuadas. No estúdio pesquisado em Copacabana, observei uma moça recém-
casada adquirir tatuagens em função da saída da casa materna e da mudança de seu status
de solteira para casada. Em outra ocasião, conheci um senhor recentemente aposentado que
fazia sua primeira tatuagem com o significado de um recomeço em sua vida, portanto
marcando igualmente uma mudança de status.
Entre as jovens observadas, Mônica foi ao estúdio para dar-se de presente de
aniversário, como me contou, sua primeira tatuagem. Havia completado a maioridade três
dias antes. Era uma moça de cabelos compridos lisos castanhos. O namorado foi
acompanhá-la. Escolhera tatuar um leão por ser o seu signo astrológico. O tatuador
escolheu um leão filhote como modelo e teve a preocupação de torná-lo “um desenho
feminino”, conforme disse a Mônica. A moça escolheu a panturrilha como local a ser
marcado, na parte lateral, um pouco acima do tornozelo.
Marcela, por sua vez, era uma moça de 18 anos recém-completos, branca, cabelos
compridos lisos castanhos. Fora até lá para sua primeira tatuagem, acompanhada de uma
amiga de cerca de 35 anos, que já possuía algumas. O desenho era um presente de
aniversário, cujo valor seria dividido entre as duas. Escolheu um gnomo sentado em um
108

cogumelo, mas pediu ao tatuador que diminuísse o desenho. Escolheu as costas (por trás do
ombro) para tatuá-lo.
A panturrilha que Mônica escolheu tatuar é um local tão visível quanto as costas
(por trás do ombro) onde Márcia e Marcela fizeram suas primeiras tatuagens. Sendo a
tatuagem um adorno corporal, que o tatuado entende como uma espécie de embelezamento
de seu corpo, convém perguntar se a primeira marca não é escolhida justamente em algum
lugar de fácil visibilidade, para que esteja à mostra, identificando o antes não tatuado a um
agora-tatuado.
A idéia de ser tatuado pode envolver idéias de autenticidade, de que o tatuado é uma
pessoa alheia às imposições sociais, que tem personalidade para ir contra elas, o que de fato
nem sempre ocorre, dada a preocupação em se poder esconder os desenhos. Ao mesmo
tempo em que a panturrilha de Mônica e as costas de Márcia e Marcela podem ser
facilmente deixadas à mostra, também podem ser escondidas pelas roupas.
Para Marcela e Mônica, os 18 anos foram marcados pela idéia de liberdade: a
liberdade de se tatuarem, a autonomia sobre seus corpos, a liberdade de fazerem dele o que
quisessem, sem a presença de nenhum responsável, mas com o apoio de uma amiga ou um
namorado. Ou seja, liberdade e autonomia, mas não um isolamento. As duas pareciam
igualmente realizadas por passarem por aquele processo, como se ele fosse a prova que
mostrava ao mundo o novo status recém-adquirido. Tatuadas, estavam informando, por
meio de seus corpos, que eram pessoas “maiores”, com um grau de autonomia antes não
existente.
A fim de aprofundar a idéia de autonomia relacionado ao uso jovem da tatuagem, é
interessante retomar a forma como Le Breton (2002) utiliza a noção de posse de si quando
analisa o uso de tatuagens entre os jovens franceses, apontando para uma tensão entre
diferentes gerações: os pais tentando controlar seus filhos e estes tentando fugir a tal
controle. A partir desta visão, torna-se mais clara a relação entre tatuagem, juventude e
autonomia.
Por outro lado, o uso jovem da tatuagem parece envolver a idéia de autenticidade,
que pode estar vinculada a noções de autonomia, individualidade e originalidade. É
necessário apontar aqui que estas idéias parecem caminhar juntas no uso atual das
tatuagens, até certo ponto tornando-se indissociáveis. A noção de originalidade, quase
109

sinônimo de autenticidade, envolve, como será visto, a idéia do exercício individual do


gosto pessoal, reforçando um individualismo baseado numa concepção essencialista do Eu,
como inerente ao sujeito e não como construído nas relações sociais mantidas e nas
posições sociais ocupadas6.
Assim, o que chamei de “uso jovem” na verdade nada tem de jovem, mas se
confunde com toda a gama de usos identificados em campo, os quais apontam
constantemente para uma leitura em termos de autenticidade, individualidade, autonomia,
controle social e originalidade.

7. Conflitos geracionais

Durante o campo no estúdio da Tijuca, não percebi nenhum conflito geracional na


escolha pela tatuagem. Nunca ouvi nenhum cliente comentar sobre posições contrárias
oriundas da família, a não ser no caso de mulheres com relação a seus maridos. Entre os
clientes mais jovens, contudo, a família não era mencionada. Diversas vezes, na verdade,
observei as jovens comparecerem ao estúdio acompanhadas pelas mães. Em alguns casos, a
mãe se torna conselheira, observando o processo de tatuar. Na maior parte das vezes, vi as
mães aguardarem as filhas na sala de espera. No caso de menores de 18 anos, a companhia
de um dos responsáveis é condição sine qua non para a tatuagem. No estúdio de
Copacabana, os menores não são nem tatuados nem se aplica piercings, mesmo com o
acompanhamento de um dos responsáveis.
Neste estúdio, observei um caso em que a mãe era contra a tatuagem, mas observei
também clientes sendo acompanhadas pelas mães. Joyce fez sua primeira tatuagem em
janeiro de 2005: o nome de São Judas Tadeu na nuca. Devota do santo, esperava para tatuar
sua imagem em outra ocasião, o que realmente ocorreu. Na época de sua primeira tatuagem
morava com a mãe, contrária aos desenhos permanentes no corpo, e afligia-se em ter que
esconder a marca. O irmão era cliente do estúdio e a levou lá, em companhia de sua noiva,
que também seria tatuada. Joyce havia escolhido a nuca propositalmente, pois os longos
cabelos serviriam para esconder a marca do olhar cuidadoso e vigilante da mãe. Embora o

6
Para um aprofundamento da discussão, ver LEMMERT (1994).
110

irmão fosse tatuado, a mãe de ambos não poupava críticas à escolha do filho e Joyce
pretendia fugir às críticas maternas ocultando a marca.
De dentro do estúdio, de fato, é mais difícil observar posições familiares contrárias à
prática da tatuagem. Na sociedade, o conflito pode se tornar mais evidente, mas, como esse
conflito se desenrola na esfera privada, ele se mantém ainda invisível.
Em reportagem de capa para a revista Vida de agosto de 2004, veiculada no Jornal
do Brasil, sobre a Resolução municipal carioca, o conflito geracional se torna mais
evidente, mesmo que se trate do uso do piercing e não da tatuagem. Apresentados na
reportagem como grupos geracionais em conflito, creio antes que se está diante de um
embate entre a percepção médica do corpo e os usos que os sujeitos fazem dele.
Ao longo da reportagem, percebe-se que os pais entrevistados, embora apelem para
questões de “risco à saúde”, nem sempre estão preocupados com os malefícios físicos que
tal prática pode vir a trazer, mas sim com as suas implicações morais, nunca mencionadas
diretamente. Apenas o risco à saúde é caracterizado, conquanto os pais se refiram a
“problemas”, nunca especificados, o que leva a uma idéia de que ou não há argumentos
substanciais e a noção de risco está vinculada a um medo não especificado, ou se trata de
uma alusão a possíveis estigmas (GOFFMAN, 1975) tampouco determinados.
Na revista, apenas adolescentes do sexo feminino são entrevistadas. Um único rapaz
é mencionado, primo de uma das entrevistadas, todas menores de 18 anos. Ao final da
reportagem, as opiniões de um médico e de um psicólogo dão pistas sobre as diferentes
visões: de um lado os pais e o discurso médico se alinham em uma voz quase uníssona; de
outro, os filhos e o psicólogo apresentam as modificações corporais como fruto da
sociedade e da cultura.
A professora Maristella Almeida Cunha, mãe de uma adolescente que fez um
piercing aos 13 anos, contou à revista Vida como se preocupou com o que considerou
“despreparo para algum imprevisto. Não havia kit de primeiros socorros, nem um
profissional de saúde (...)” (p. 17), apesar de ter considerado o local bastante asséptico.
Logo após, ela conclui: “Não considero o piercing um adorno bonito. Ao contrário, acho
vulgar” (p. 17).
O designer gráfico Cláudio Novaes, pai de uma adolescente de 14 anos que teve a
jóia colocada em seu umbigo, tinha como argumentos contra a prática “perigos [não
111

especificados] à saúde”, o peso de ser uma marca definitiva no corpo e a imaturidade da


filha para cuidar do local perfurado. A solução para as aflições do pai zeloso foi procurar
um cirurgião que colocasse a jóia na menina. A preocupação de Cláudio foi reforçada,
segundo a reportagem, por um evento familiar. O primo de sua filha, Daniel Viana, colocou
um piercing na língua, aos 17 anos, sem o conhecimento dos responsáveis. Segundo
Daniel, o profissional “esterilizou os instrumentos e me mostrou que a agulha era
descartável (...)” (p. 19), o que lhe fez confiar no processo. Contudo, segundo a repórter, ele
teve “uma leve inflamação no local” (p. 19), o que fez a mãe do rapaz, médica, determinar
a retirada da jóia, alegando, segundo Daniel, que ele estava propenso a desenvolver um
câncer na língua. O rapaz argumentou que, sendo fumante, a mãe corria mais riscos de ter a
doença do que ele.
Vânia Maria de Oliveira, dona-de-casa, negou às filhas de 13 e 16 anos permissão
para se submeterem ao piercing. Segundo ela, “isso é só um modismo. Vai passar como
todas as modas. Além disso, existem riscos à saúde delas. (...) Se permitisse que elas
colocassem o piercing, estaria trazendo problemas para todos nós” (p.18). A filha de 16
anos argumentou que o piercing pode ser retirado, diferentemente da tatuagem, que é
permanente: “Tatuagem, não. É uma marca para sempre” (p. 18). Neste caso, o piercing
está em oposição à tatuagem na percepção adolescente, mas não na materna. Esta diferença
é utilizada como argumento para uma prática vista pelos pais não apenas como perigosa,
mas como de mau-gosto, vulgar, fruto de uma moda que, como todas as modas, há de
passar um dia.
Sobre esta categoria moda, é interessante observar que a palavra traz em si a idéia
de algo passageiro, compartilhada pela filha. Ao mesmo tempo, moda ganha um tom
pejorativo, de algo que influencia os sujeitos para além de sua capacidade reflexiva e
crítica, o que é indicado pela noção de que um piercing poderia trazer problemas para toda
a família, e não apenas para as meninas. Sendo algo passageiro para Vânia, ela não lhe dá
valor, prevendo que o tempo eliminará os desejos das filhas. A adolescente, contudo, utiliza
o mesmo argumento para convencer a mãe de que os eventuais problemas também seriam
passageiros, pois a jóia pode ser retirada. Não creio, contudo, que se tratem dos mesmos
problemas. Quando a adolescente compara tatuagem e piercing, trazendo à tona a diferente
natureza das práticas quanto à sua permanência, o que faz é elaborar uma reflexão sobre
112

elas. Ela se coloca em posição desprivilegiada para decidir sobre algo que pode marcá-la
por toda a vida, como a tatuagem, mas não para decidir sobre o piercing, por sua qualidade
não-permanente.
No conflito de gerações, noções de gosto parecem exprimir os prós e contras para
piercings e tatuagens – e possivelmente outras práticas de modificação corporal. Quando o
gosto adolescente e o gosto paterno entram em conflito, lança-se mão dos “riscos à saúde”
para coibir as intenções dos mais jovens. Em sujeitos acima desta faixa etária, não há como
proibir a prática, mas a atuação repressiva da família opera mais diretamente com a noção
de gosto, conforme será visto adiante.
Um cliente do estúdio pesquisado de Copacabana indicou como viveu processo
familiar contrário à tatuagem. Morando sozinho desde seus 19 anos, tatuou-se sem o
conhecimento de seus pais. O desenho gravado no braço era escondido pelas mangas de
camisa. Quando se tornou mais confiante de seu desejo por novas marcas, o cliente tornou-
se, ao mesmo tempo, mais relaxado no encobrimento da tatuagem. A mãe, ao perceber a
marca, disse-lhe que era bonita, mas que esperava que fosse a única. A cada nova tatuagem,
contou o cliente, a mãe reforça o desejo de que não se tatue mais. Seu pai, por outro lado,
foi mais enfático na crítica ao filho: disse-lhe que “quem pinta o corpo é índio”, indicando a
velha diferenciação entre hábitos civilizados, de bom gosto, e hábitos selvagens, que devem
ser evitados.

8. Quem são os tatuados?

Não se pode dizer a quais grupos urbanos, jovens ou não, pertencem os tatuados
cariocas. Para tanto, seria necessário pesquisar cada um deles, tarefa exaustiva e impossível
no presente estudo. Observando-se os dados levantados, contudo, pode-se traçar um perfil
mais geral dos tatuados cariocas. Hoje esse público tem sido formado prioritariamente por
mulheres, não necessariamente nos estratos etários considerados como juventude. Essa
constatação quebra com um imaginário da tatuagem que a relacionava ao universo
masculino e à juventude.
O que um dia foi, de fato, uma prática masculina já não é mais. Essa mudança
reflete não apenas novos caminhos do feminino e do corpo em nossa sociedade, mas
possibilita uma visão analítica da marca que busca um ponto comum entre a atual
113

predominância feminina, a sua expansão entre camadas além do que se considera


vulgarmente como juventude, e o antigo público marginal da prática. Esse ponto comum
parece residir na idéia da marca como um manifesto da autonomia individual, referida no
conceito de posse de si (BENSON, 2000; LE BRETON, 2002).
Por outro lado, o perfil do público da tatuagem, predominantemente branco, aponta
para uma classificação de cor entre os tatuadores diferente daquela comumente encontrada
em nossa sociedade. A pele, pensada como uma tela, ganha classificações baseadas na
apresentação momentânea de bronzeado ou não, utilizando-se a categoria moreno para
situações tanto raciais referentes aos pardos quanto de exposição ao sol.
O perfil do público indica, ainda, que os estúdios mantêm uma clientela
essencialmente de bairro, mas também oriunda de bairros próximos, mantendo-se a
repartição costumeira entre as Zonas Norte e Sul da cidade. Se a fama de um estúdio, o seu
renome, atravessa os túneis que fazem a comunicação entre estas duas áreas da cidade, mais
raramente atravessam-nos os clientes, pois as zonas correspondem a distintos estilos de
vida que refletem diferentes concepções do carioca sobre estes espaços sociais.
Creio que o ponto mais importante aqui, contudo, é desfazer uma associação
comum entre a tatuagem e a cultura jovem, como se a prática estivesse intrinsecamente
relacionada a uma juvenilização do usuário. Muitas vezes ouvi de colegas, quando expunha
este estudo em comunicações orais, que o valor atribuído atualmente a uma aparência
jovem, conforme vários autores demonstram (TURNER, 1996), poderia servir para se
compreender a atual disseminação do uso de tatuagens entre indivíduos tão diferentes
(homens, mulheres, jovens, adultos, velhos, de distintas camadas sociais, profissões etc.).
Minha argumentação visou, justamente, criticar esta abordagem, uma vez que relaciono o
uso de tatuagens a outros valores/motivações que não a aparência jovem.
Entre estes valores/motivações, estão a autonomia pessoal, a idéias de autenticidade
vinculada ao exercício da individualidade e de mudança de status social. Assim, desejei
demonstrar que os adultos que fazem uso de tatuagens parecem fazê-lo pelos mesmos
motivos dos jovens, conforme apontado. A mudança de status observada é uma na qual
ganha-se autonomia pessoal, usufrui-se de uma liberdade maior do que a anterior. A
tatuagem constitui uma forma de marcar um espaço pessoal, espaço exercido e marcado no
próprio corpo, mas cujas conseqüências vão além de um desenho na pele. Lutando contra a
114

família pelo desejo de ser marcado, mulheres e jovens constróem aí este espaço de
autonomia pessoal. Eu sugeriria, embora os dados de campo não me permitam afirmar, que
esta busca por autonomia é anterior à marca.
115

CAPÍTULO V – DESENHOS, ESTILOS, REGIÕES DO CORPO: representações


de gênero no universo da tatuagem.

“Tatuagem pequena é coisa de mulher, sabe? De mulherzinha.”


Cliente do estúdio pesquisado na Tijuca

Este capítulo trata dos desenhos mais freqüentemente procurados pelo público e
regiões do corpo a serem tatuadas. Os desenhos são classificados em estilos, o que
envolve tanto uma noção estética quanto de técnica a ser empregada. Os estilos aqui
apresentados foram compilados do que foi observado em campo e na literatura da área.
Para uma análise dos desenhos, contudo, apliquei uma classificação minha que destaca
o elemento central que desejo analisar. Os dados sobre desenhos mais procurados e
locais do corpo mais freqüentemente tatuados são oriundos de fichas de clientes
pesquisadas no estúdio observado na Tijuca.
Após o levantamento destes dados, observou-se que a região a ser escolhida e o
desenho a ser tatuado estão intrinsecamente relacionados às diferenças de gênero. Os
desenhos preferidos pelos homens se mostraram aqueles relacionados ao que
classifiquei como um ethos guerreiro, pois evocam elementos associados à morte, à
agressividade e à destruição. Os desenhos preferidos por elas, ao contrário, são aqueles
considerados delicados: são pequenos, coloridos e representam a idéia de fragilidade,
como as flores e as borboletas. Os locais tatuados raramente se confundem. Os homens
tatuam sobretudo os braços, ressaltando a força muscular como característica masculina
e componente deste ethos guerreiro. As mulheres, por outro lado, buscam áreas menores
e por vezes escondidas, como a nuca, o pé e as costas.
A escolha por um desenho envolve uma gama variada de motivações. Nem
sempre a escolha está claramente disposta de forma lógica como “quem tatua o Cristo é
religioso” ou “quem tatua gnomos acredita neles”. O processo de escolha de um
desenho pode ser longo, durando anos e envolvendo uma pesquisa por parte do tatuado
sobre a imagem e o seu significado, ou pode ser curta, quase instantânea, a partir dos
desenhos disponíveis em um estúdio.
Entre os aspectos desta escolha, estão as noções de distinção e pertencimento.
Muitas vezes, uma tatuagem é realizada em função da imitação e do pertencimento a um
116

determinado grupo social. Em outros casos, é a necessidade de distinção, de ter um


desenho único, que move a escolha. A distinção está relacionada a uma singularidade, a
uma concepção de individualismo. Assim, mesmo os desenhos de catálogo são
normalmente modificados pelos tatuadores, de forma que se tornem únicos.
Outro processo presente na escolha de desenhos e locais do corpo a serem
tatuados é a dinâmica revelar/esconder, que traduz um cálculo por parte do tatuado
sobre o quão interessante pode ser mostrar sua marca em público, ou não, e em quais
situações. Esta dinâmica está relacionada ao mercado de trabalho e à tatuagem como um
elemento de sedução.

1. Estilos de tatuagem

O desenho a ser tatuado pode estar dentro do repertório fornecido pelo estúdio,
pode ser levado por quem quer ser tatuado ou pode ser desenhado na hora pelo tatuador,
em papel ou direto na pele do cliente1. Existem, em qualquer estúdio, vários álbuns de
desenhos, que o cliente pode consultar. Os álbuns costumam ser classificados em
diferentes categorias, ou ao menos os desenhos costumam ser divididos segundo algum
critério. As categorias mais comumente encontradas são: tribais, caveiras, guerreiros,
animais selvagens, flores, desenhos femininos, dragões e desenhos orientais.
A classificação que os tatuadores fazem do repertório iconográfico de seu
universo é, contudo, maior. Na homepage de um estúdio carioca2, encontrei a seguinte
classificação: tradicionais, new school, tribal, cartoon, femininas, realismo e cover up.
Tentarei delinear os principais traços de cada estilo, embora não tenha percebido, em
campo, uma homogeneidade do uso de tais classificações. Na própria homepage citada,
algumas tatuagens poderiam estar em mais de uma categoria.
O que é chamado de tradicional, envolve um repertório de imagens bastante
populares nas décadas de 1940 e 1950, mas também imagens populares nas décadas
seguintes. Parece-me que a idéia de uma iconografia tradicional contrasta, na verdade,
com uma nova forma de desenhar tatuagens, mais contemporânea, chamada de new
school. Em revistas estrangeiras de tatuagem, o que é chamado aqui de tradicional

1
Técnica conhecida como free hand, a mais valorizada no universo da tatuagem. Utiliza-se lápis cópia para
marcar o desenho na pele, ao invés do papel, segundo as curvas do corpo do cliente. Para esta técnica, o
domínio de desenho é fundamental. Segundo COSTA (2004) e conforme pude também observar em campo, o
domínio da arte de desenhar é uma das habilidades mais valorizadas pelos tatuadores.
2
SUPERNOVA TATTO, <http://www.supernova.com.br>, acessado em 14 set. 2002.
117

aparece sob a categoria old school, explicitando a oposição. Trata-se, na tatuagem


tradicional ou old school, de desenhos de animais selvagens, como panteras e leões,
dragões e outros motivos orientais, sereias e mulheres nuas ou seminuas, referências a
jogos de azar, corações de Cristo ou com cupidos, caveiras e navios, por exemplo.
A categoria new school refere-se a uma forma de desenhar que tem mais
movimento e utiliza cores mais fortes e brilhantes. O repertório pode brincar com
elementos tradicionais, como o coração de Cristo, que é redesenhado utilizando-se
novos elementos e, muitas vezes, novas cores. Este estilo de tatuagem lembra o tipo de
desenho dos grafiteiros, observando-se que o grafite é um dos elementos da cultura hip-
hop.
O estilo tribal (ver Figura 2), segundo Gilbert (2000), teria se originado em uma
apropriação livre de tatuagens nativas do Bornéu, caracterizadas por traços espiralados e
pontas como espinhos, coloridas em negro. No Ocidente, a releitura tomou formas as
mais distintas, misturando-se as tribais com quaisquer elementos, como símbolos de
diversas procedências ou flores coloridas. Na homepage citada, entravam na categoria
tribal uma série de tatuagens sem estas características, mas influenciadas por culturas
“exóticas”, como desenhos celtas e astecas. A tribal foi um dos estilos de tatuagem mais
populares no Rio de Janeiro da década de 1990. Hoje em dia, a sua procura ainda é
grande.
O estilo cartoon refere-se a um repertório iconográfico formado por elementos
de desenhos animados e gibis. A palavra inglesa se refere, exatamente, a estas duas
formas de desenho (ver Figura 3 e Figura 5).
O realismo (ver Figura 4) é uma técnica em que se reproduz sobre a pele um
retrato, como se fosse uma fotografia, que pode ser de uma pessoa amada ou admirada,
como um parente ou uma celebridade, ou ainda um animal de estimação, um animal
selvagem ou uma paisagem. No caso do retrato de parentes e pessoas amadas, a técnica
realista se inscreve em uma outra categoria, observada no estúdio pesquisado: a
homenagem. Esta se refere a esposas/maridos e mais comumente a filhos pequenos ou
pais já falecidos.
O cover-up (ver Figuras 5 e 6), da mesma forma, é mais uma técnica do que um
estilo de tatuagem. Trata-se de cobrir ou retocar tatuagens antigas, desgastadas pela
ação do tempo. O sol, sobretudo, envelhece a tatuagem, desbotando as cores. Com o
tempo, o contorno em negro também fica desbotado, com o traço descontínuo. Além do
sol, o próprio organismo é responsável pelo envelhecimento da tatuagem, pois vai
118

digerindo os pigmentos lentamente, que se infiltram até camadas cada vez mais
profundas da pele, conforme um tatuador me informou, e podendo mesmo chegar aos
ossos (GILBERT, 2000).
Para se cobrir uma tatuagem que não se quer mais com uma nova, é aconselhado
optar por desenhos “carregados na sombra”, conforme ouvi uma tatuadora dizer, ou
seja, de cores escuras. Durante a observação de campo, vi muitos clientes em busca
dessa técnica. Eles eram aconselhados a tatuarem cabeças de cachorro ou tatuagens
orientais, pois as mesmas utilizam bastante a cor negra.
Existem outros estilos que não foram mencionados na citada homepage, como
celta, azteca (ver Figura 7), biomecânico, oriental. Os dois primeiros são inspirados nas
referidas culturas, o último é inspirado em elementos orientais em geral, sobretudo
japoneses. Inclui-se nesta categoria as “letras” japonesas e chinesas, mas também
carpas, samurais, dragões e toda sorte de iconografia oriunda da tatuagem tradicional
japonesa (ver Figura 9). Esta apresenta características próprias, normalmente tomando
uma vasta região do corpo e muitas vezes aproximando-se da forma de uma roupa, já
que foi criada como uma espécie de imitação do tecido (BOREL, 1992).
O estilo biomecânico envolve a reprodução, sobre a pele, de seres cibernéticos,
metade orgânicos, metade máquinas. É um estilo que flerta com elementos da ficção
científica.

2. Os “desenhos femininos”

Existem desenhos que são criados especialmente para mulheres, chamados


“desenhos femininos” (ver Figuras 5, 10, 11, 12). Eles se diferenciam pela temática,
envolvendo fadas, anjos, estrelas, luas, flores e desenhos com um certo tom infantil.
Não existem “desenhos masculinos”. Percebi, em campo, que os desenhos podem ser
classificados em três colunas, segundo o gênero, que é um elemento que atravessa todo
o universo da tatuagem: aqueles usados apenas por mulheres, os preferidos pelos
homens e os que são escolhidos por ambos. A região do corpo a ser tatuada também
pode diferir bastante entre homens e mulheres, havendo regiões que são preferidas por
elas e outras por eles, e ainda algumas tatuadas por ambos.
Os “desenhos femininos”, muitas vezes, apresentam um aspecto infantil, de
desenhos feitos por crianças ou para crianças, como bonecas e querubins. Os animais
escolhidos por elas são domésticos ou vistos como inofensivos, como gatos, beija-flores
119

e golfinhos. Há uma procura muito grande, nos últimos tempos, por flores, borboletas e
estrelas. Fadas, unicórnios e outros elementos mitológicos também são procurados.
Não ter um desenho que remeta ao repertório masculino, nem localizá-lo numa
região do corpo considerada masculina, parece ser uma preocupação das mulheres que
buscam tatuagens. Como exemplo, posso citar o caso de uma cliente do estúdio da
Tijuca que, aos 26 anos, fez sua primeira tatuagem. Bronzeada de praia e apaixonada
pelo mar, queria tatuar um tubarão, mas fora desaconselhada por parentes e amigos
porque o desenho seria agressivo e masculino. Optou então pela sua versão comics, e
tatuou o personagem Tutubarão na região lombar.
Segundo Bourdieu (2003), as diferenças culturais entre os gêneros estão inscritas
em seus corpos, segundo a noção de habitus. O habitus é uma disposição corporal
construída pela sociedade e pela cultura, ou seja, uma lei social incorporada. Desta
forma, pode-se observar o corpo como locus de diferença sexual, não por suas
disposições biológicas, mas socialmente construídas. A força simbólica que a sociedade
exerce sobre o indivíduo, diz ele, exerce também e, sobretudo, sobre os corpos. Assim,
os corpos femininos e masculinos se diferenciam quanto a uma série de movimentos,
posições e posturas que traduzem as diferenças pensadas e construídas sobre os gêneros,
ou pelo menos se observa os corpos como tendo estas diferenças.
As sociedades são, para Bourdieu (2003), organizadas segundo uma
diferenciação entre os gêneros que dispõe o masculino como preponderante, o que
chama de dominação masculina. Esta dominação impõe uma visão androcêntrica de
mundo, onde o que é masculino é visto como neutro, sem necessidade de ser enunciado
em discursos que visem legitimar esta visão. A dominação masculina cria estruturas
práticas de diferenciação entre os sexos tanto quanto estruturas mentais.
É a partir desta forma de conhecimento sobre o mundo, que se pode perceber a
experiência feminina do corpo como diferente da experiência masculina. O corpo
feminino, diz o autor, é, sobretudo, um corpo-para-o-outro, um corpo objetificado pelo
olhar e pelo discurso de outros. Sendo objeto de olhares, a mulher é tomada pela lógica
da dominação e passa a exercer, sobre este olhar, uma contrapartida, na idéia de atrair a
atenção e agradar, traduzidas na coqueteria feminina. Contudo, o olhar dos outros cria
uma distância entre o corpo real e o corpo ideal.
A partir desta idéia de Bourdieu (2003), é possível perceber porque existem
“desenhos femininos”, enquanto seu análogo “desenhos masculinos” jamais foi
encontrado em campo. Sendo neutro, o masculino não precisa ser diferenciado. Da
120

mesma forma, observa-se porque clientes e tatuadores preocupam-se em tornar


femininos certos desenhos que trazem a idéia de agressividade, como o leão ou o
tubarão, porque a agressividade é considerada uma característica masculina e o
feminino é construído na negação destas características. As áreas tatuadas, da mesma
forma, seguem esta lógica de diferenciação, e busca-se jamais tomar para si regiões que
sejam destinadas, por tradição, ao sexo oposto. As distinções entre os gêneros explicam,
ainda, porque as tatuagens dos homens costumam ser maiores que as tatuagens das
mulheres, relacionadas à idéia de agressividade e afirmação de virilidade, enquanto as
tatuagens femininas são pequenas e se referem a desenhos que sugerem fragilidade,
doçura e mesmo infantilidade.
A partir das entrevistas apresentadas por Leitão (2002), contudo, pode-se
observar a emergência de mais de um modelo de feminilidade quando se trata de
tatuagens: mulherzinha e mulher fatal/puta. A mulherzinha expressa uma feminilidade
exageradamente frágil. A mulher fatal apresenta um forte componente de sedução, o que
muitas vezes a transporta para o lado da puta. É uma sedução exagerada e, segundo os
discursos, permeada de vulgaridade. Tatuagens nos seios e nádegas são muitas vezes
vistos como chamando a atenção para os locais mais valorizados do corpo feminino,
locais que não precisam dessa marca de sedução pois já atraem os olhares. Desta forma,
se tornam signo da mulher oferecida, a mulher sem pudor, a puta. No ponto de
equilíbrio entre a extrema fragilidade e a falta de pudor, está a mulher sem classificação,
um modelo de feminilidade que não ganhou nome, mas que é visto como o mais
adequado.
Observe-se que a puta é sempre um modelo mal comportado, malvisto, e
freqüentemente associado a mulheres que expressam uma maior autonomia individual
do que a permitida para as mulheres de um modo geral. A “mulherzinha” demonstra que
a autonomia feminina ainda não deve ser a mesma que a masculina, medida aqui
sobretudo na liberdade sexual, mas que tampouco deve corresponder à fragilidade
extrema. A oposição a “homem” não é “mulher”, mas sim formas distintas de
feminilidade. Entre elas, a puta parece estar mais próxima à conduta sexualmente livre
dos homens. A “mulherzinha”, ao contrário, parece estar associada a uma visão de
feminino cuja fragilidade está associada a um universo infantilizado, a um sujeito não-
autônomo, fraco, submisso, controlado, incapaz de tomar as próprias decisões. A
“mulherzinha” é um simulacro de mulher: tão pequena na sua autonomia que foi
denominada pelo diminutivo.
121

O que emerge nos estúdios de tatuagem, contudo, ainda é uma visão de mulher
segundo o modelo “mulherzinha”. Os “desenhos femininos” são aqueles que expressam
delicadeza e fragilidade. Sem adentrar, aqui, em discussões mais profundas sobre a
identidade feminina atual, pode-se indicar diferentes modelos operando no imaginário
feminino.
Lipovetsky (2000) aponta a construção de três modelos de mulher no imaginário
ocidental que podem ser úteis para a presente análise. A “primeira mulher” é aquela que
constitui o estereótipo da bruxa, diabolizada e desprezada. A “segunda mulher”, ao
contrário, relaciona-se à idéia de uma maternidade ou virgindade idealizadas e
sacralizadas. A “terceira mulher”, contemporânea, é autônoma e livre para escolher seu
próprio destino, sem as amarras destas construções tradicionais.
Estas visões do feminino se confundem com visões da beleza feminina: por um
lado destruidora e por outro virginal. A antítese se resolve, segundo o autor, numa
relação dialética que cria a pin up, cujas expressões principais são Brigitte Bardot e
Marilyn Monroe. Na pin up, a beleza adolescente e juvenil é erotizada, mas não se torna
destruidora.
Estes modelos descritos por Lipovetsky (2000) parecem os mesmos modelos em
uso no universo da tatuagem. A puta/mulher vulgar confunde-se com a “primeira
mulher”, possuindo um tipo de beleza vamp, conforme terminologia do autor. A
tatuagem da mulher vamp é aquela que atrai atenção para os atributos femininos
corporais de beleza e erotismo, supervalorizando aquilo que já é foco de atenção
normalmente e, por isso, criando a idéia de vulgaridade. A tatuagem da “segunda
mulher”, se é que se pode imaginá-la tatuada, é a tatuagem da “mulherzinha”, infantil,
pequena, doce e sem erotismo. A “terceira mulher”, a que não tem nome mas constitui o
modelo de equilíbrio, tatua-se buscando a beleza dialética da pin up, erótica sem jamais
se considerar vulgar, abusando do jogo de olhares que é utilizado na dinâmica entre
revelar e esconder a marca.

3. O ethos guerreiro

Se a classificação “desenhos masculinos” não existe, isto não significa que não
haja desenhos elaborados para os homens. Estes desenhos encerram uma idéia de
agressividade e destruição. Estas características estão de acordo com o que chamo aqui
de ethos guerreiro, um aspecto de um determinado modelo de masculinidade que
122

valoriza a força física, a tolerância à dor, a agressividade (física ou simbólica3), a


mulher como objeto, o descontrole.
Cecchetto (2004), em estudo sobre modelos de masculinidade e sua relação com
a violência na cidade do Rio de Janeiro, observou tais características em grupos de
funqueiros e de lutadores de jiu-jitsu, com ligeiras alterações ente um e outro. Entre os
charmeiros, também estudados pela autora, o modelo de masculinidade era distinto. Há,
portanto, diferentes modelos de masculinidade em ação. Para o presente estudo, agrupei
as características encontradas entre ambos funqueiros e lutadores como se formassem
um conjunto único, pois são semelhantes. Os desenhos tatuados pelos homens que
pesquisei podem envolver um ou mais dos aspectos de que a autora trata como
características de um ethos guerreiro (ELIAS, 1996).
Utilizo a idéia de um ethos guerreiro, e unifico as características observadas em
diferentes grupos num único bloco, porque ele pode permear mais de um modelo de
masculinidade e não foi possível no universo da tatuagem determinar quais modelos
estavam em ação, visto que os tatuados não compõem um grupo social da mesma forma
que lutadores ou funqueiros. Pode ser encontrado, é certo, mais de um modelo de
masculinidade entre os clientes do estúdio, mas esse não era o objetivo da pesquisa.
Chamo a atenção, aqui, para a freqüência em que o ethos guerreiro pode ser observado
naquilo que é considerado masculino no mundo da tatuagem. Como existem formas
múltiplas de masculinidade que remetem a este ethos, existem também clientes que não
remetem a ele. Neste sentido, Cecchetto (2004) demonstra, a partir do estudo de bailes
charme do subúrbio carioca, que existem modelos de masculinidade que se referem a
outros tipos de ethos.
Creio que o modelo mais característico do ethos guerreiro que encontrei em
campo foi João, cliente do estúdio da Tijuca, um dos raros homens com quem consegui
conversar, pois via de regra são menos abertos do que as mulheres. João, de 46 anos, é
policial civil, está em seu segundo casamento (com uma colega de profissão) e é pai de
uma moça de 19 anos, com sua primeira esposa. Branco, alto, musculoso, cabelos
brancos, praticante de capoeira e jiu-jitsu4, ficou amigo do proprietário do estúdio após
ter sido tatuado lá. Durante a conversa com o amigo, em minha presença, na sala de
espera, João contou um pouco de sua vida. Para meu espanto, confidenciou que naquele

3
Sobretudo no caso da tatuagem, onde os desenhos comunicam mensagens, há que se ver tais desenhos
como simbolicamente agressivos.
123

exato momento portava uma submetralhadora escondida nas roupas – o que comprovou
levantando ligeiramente a camisa – e dizia se tratar de uma necessidade para sua
segurança.
Havia ido ao estúdio para uma nova tatuagem. Possuía cinco e a última havia
sido executada quinze dias antes, naquele mesmo estúdio. O novo desenho seria uma
rosa em negro, com um motivo tribal ao fundo, acima de dois fuzis cruzados e uma
flâmula com os dizeres: “o prêmio da guerra é morrer como homem”. Ao longo da
tarde, contudo, desistira de tatuar os fuzis. Folheava os álbuns de desenho em busca da
rosa negra que havia gostado.
João demonstra um tipo de masculinidade relacionado intrinsecamente à idéia de
guerra e combate. Uma identidade de gênero tão forte que havia sido desenhada pelo
corpo e constantemente reforçada por novos desenhos. O epíteto dessa masculinidade
seria inscrito em sua pele, evocando a guerra, a morte e a virilidade. Embora a guerra
não traga prêmios materiais – e no caso de João menos ainda, pois sua guerra é ao
crime, sobretudo ao narcotráfico, conforme relatou –, ela traz um prêmio que não pode
ser medido materialmente: ser um verdadeiro homem, traduzido na noção de “morrer
como homem”. Não há aí nenhuma apologia à guerra em si, mas à atividade guerreira
como uma atividade eminentemente masculina.
Os outros desenhos que tinha pelo corpo estavam todos dentro de seu ethos
guerreiro. A primeira tatuagem de sua vida, adquirida dez anos antes e localizada no
peito, era um cavalo junto a um berimbau, pois praticava capoeira e fora apelidado de
“cavalo”, animal forte e ágil, sempre associado aos homens e raramente às mulheres,
pois encerra características relacionadas tradicionalmente ao masculino. Além desta,
possuía outras nos braços: um ideograma chinês e abaixo deste um samurai em preto,
tatuagem que pretendia aumentar, desenhando uma paisagem de fundo para o guerreiro.
No outro braço, apresentava um esqueleto vestido com um capuz e manta negros,
segurando uma foice. Era acima desta que pretendia localizar o novo desenho. Nas
costas, a última tatuagem: um anjo com capuz, sentado em uma ruína, com braços
abertos e asas semi-abertas. Contou que queria tatuar um anjo, mas não encontrava um
desenho que lhe agradasse, até que se deparou com este em uma camiseta exposta numa
loja de rock. Tratava-se da reprodução da capa de um CD de uma banda de heavy metal.

4
Como CECCHETTO (2004) aponta, os jogos, especialmente os jogos de combate, são espaços regrados
para o ethos guerreiro, onde a disputa e a destruição tomam lugar de forma civilizada.
124

João comprou o CD e foi ao estúdio ser tatuado. Segundo ele, “os anjos simbolizam
força e garra”.
A princípio, achei que o anjo e a rosa destoavam dos outros desenhos, tão bem
arranjados sobre um único tema: o da força e da capacidade de destruição. Contudo,
quando João falou sobre o que os anjos representavam, percebi que o desenho não
estava fora das idéias representadas na iconografia sobre sua pele. Se o anjo é força,
pois representa a figura de um guerreiro celeste, então está plenamente de acordo com
toda a iconografia de João. A rosa, por sua vez, negra e lúgubre, diferente das rosas
vermelhas que as mulheres costumam tatuar, posicionada acima de uma flâmula
representando o pensamento do guerreiro, parecia uma espécie de homenagem aos
mortos, como as flores que se depositam nas lápides.
Sobre a postura masculina com relação à tatuagem, gostaria de apresentar um
outro caso. Um rapaz de 28 anos, com o escudo do Flamengo tatuado na parte interna de
um dos braços, queria tatuar um índio norte-americano na parte interna do outro braço.
O trabalho custou R$450,00. O rapaz foi deitado na maca para facilitar ao tatuador o
acesso à região a ser marcada. Perguntei porque tatuava um índio. “Sei lá, eu me
identifico, tem a ver comigo, acho maneiro” e, mostrando o escudo do Flamengo,
completou: “essa aqui nem precisa perguntar por que, né?”. “Já está pronta?”, perguntei
sobre o índio. “Não”, parecia ofendido, “falta toda essa parte de cima aqui, esse preto
vai até aqui”, falou, apontando para o cocar. “Tatuagem nessa região tem que ser
grande, sei lá, tem que tomar o espaço inteiro. Se for pequena...”, o silêncio durou cerca
de três segundos, “...pequena é coisa de mulher, sabe? De mulherzinha”, concluiu.
Mesmo que não haja dados sobre a atividades deste cliente, a iconografia
escolhida por ele está de acordo com aquele que relaciono ao ethos guerreiro. O
pertencimento a torcidas organizadas de futebol, embora não esteja claro se o cliente
fazia parte de uma delas ou não, é uma das formas em que a masculinidade guerreira
emerge (CECCHETTO, 2004), onde a briga aberta entre torcidas de times diferentes ou
de um mesmo time fornece espaço para a realização do ato fundante desse tipo de
masculinidade: o exercício da guerra. O índio, por sua vez, se apresenta como um
guerreiro, da mesma forma que o samurai. Seja ele um jovem a cavalo ou um ancião
com cocar de chefe, há aí uma qualidade de exercício de poder típica do masculino.
O tatuador havia dado uma pausa que, uma vez cessada, ganhou reclamações do
cliente. Não gostava da posição em que tinha de permanecer para ser tatuado. Ficava
torto na maca, com um dos braços esticados. Perguntei-lhe se estava doendo. “Não, aqui
125

não dói muito não. É a posição que me incomoda”. Reforcei a pergunta: “Aí não dói
não?”. “Não é que não dói, toda tatuagem dói, mas é suportável”. Conforme será visto
adiante, a idéia de suportar a dor é crucial no processo de ser tatuado entre os homens.
As mulheres demonstram abertamente quando a operação é dolorosa, pois nem sempre
o é, enquanto eles silenciam o que sentem.
O encobrimento da sensação de dor é mais uma característica da masculinidade
guerreira. Os embates físicos dos quais os homens afinados com esse tipo de modelo
participam envolvem, muitas vezes, danos físicos bem maiores do que o de uma
tatuagem, como cortes profundos, fraturas e hematomas. Esta é uma forma de
masculinidade em que a insensibilidade à dor e ao sofrimento deve ser demonstrada
tanto com relação ao outro quanto com relação a si mesmo. Cecchetto (2004) demonstra
como, entre os lutadores de jiu-jitsu, a tolerância à dor é parte do próprio treinamento da
arte marcial. Entre os funqueiros, por sua vez, os corredores onde Lado A e Lado B se
enfrentam nos bailes são o espaço de demonstração tanto de força física quanto de
resistência aos ataques das galeras inimigas. Quando machucados, os funqueiros apelam
para as improvisadas enfermarias dos bailes, apenas para tomar fôlego e retornar ao
embate.
Ainda sobre representações masculinas da tatuagem, um terceiro caso revela que
as cores utilizadas podem ser um problema. Um dos tatuadores da casa retocava uma
fênix que fizera na parte superior da coxa de um rapaz branco, magro, aparentando 22
anos, acompanhado da namorada, aparentando a mesma idade. A tatuagem fora colorida
em rosa, azul e amarelo. O cliente confessou que não havia gostado da idéia do rosa na
tatuagem, mas convencido pelo tatuador e pela namorada, aceitara, estando satisfeito
com o resultado final. O proprietário do estúdio elogiou o trabalho e brincou com o
tatuador dizendo que ele adorava colorir de rosa as tatuagens que executava. A
namorada do cliente não deixou a brincadeira passar em branco e disse ao tatuador que
lhe faria uma bolsa rosa de tricô, como a que usava na ocasião. “Me traz mesmo! Você
vai ver como a sua tatuagem vai sair barata e sem dor”, respondeu rindo, pois a moça
desejava retocar uma tatuagem nas costas. Como em outros âmbitos de nossa sociedade,
no universo da tatuagem o rosa não é cor para homens.
Sabino (2004), descrevendo tatuagens em freqüentadores assíduos de academias
de ginástica e musculação localizadas nas Zonas Norte e Sul da cidade do Rio de
Janeiro, aponta para uma construção de masculinidade semelhante. Entre estes
marombeiros, cuja finalidade última do exercício físico é a obtenção de tônus muscular,
126

entendido como boa forma, as tatuagens são uma maneira de chamar a atenção para o
corpo exercitado, já compreendido aqui como um corpo construído, também, para o
olhar alheio.
Entre 310 entrevistados (200 homens e 110 mulheres), em faixa etária de 16 a 55
anos, o autor aponta a existência de tatuagens em um terço destes, em proporção similar
à observada no estúdio pesquisado na Tijuca: 70% em mulheres e 30% em homens. Nos
homens, os desenhos mais encontrados foram os animais selvagens, enquanto entre
mulheres foram borboletas, anjos, fadas, beija-flores, rosas, lua, localizados nas mesmas
regiões observadas no estúdio pesquisado, conforme será indicado abaixo. Entre os
homens, o cachorro da raça pitbull emergiu, especialmente, como símbolo de
agressividade e violência, espécie de emblema do ethos guerreiro. Segundo um dos
entrevistados (SABINO, 2004, p. 268-9 ):

“A tattoo dessa fera aqui, no braço..., nesse braço aqui, é do meu pitbull...eu me
identifico com essa raça de cachorro, tem um movimento aí que quer acabar com eles,
já ouviu falar, né? Dizem que o bicho é violento e coisa e tal... mas não vão conseguir, a
gente que luta, que malha, que gosta de esporte radical, a gente se amarra nesse bicho...
vamos continuar criando... ele é nosso símbolo... forte. A mordida dele tem mais de uma
tonelada de pressão, é isso aí, quero que meu soco também fique com uma tonelada de
pressão...” (João. 28 anos. Comerciante).

A fera, animal violento e agressivo, torna-se símbolo de uma masculinidade que


deseja se impor desta mesma forma: agressiva e violenta, através da força física, do
soco de uma tonelada, da submissão do mais fraco. A prevalência deste tipo de desenho
tanto entre marombeiros quanto entre os clientes masculinos em geral do estúdio
pesquisado na Tijuca denota um determinado modelo de masculinidade que perpassa
toda a sociedade carioca, talvez mesmo a brasileira, onde o masculino é sinônimo de
força física, agressividade, violência, descontrole e destruição.

4. Os desenhos mais tatuados

A partir da análise das fichas de cadastro dos clientes da Tijuca, foi possível
construir uma tabela com os desenhos mais procurados, segundo o gênero, conforme
pode ser visto abaixo. Os meses analisados foram setembro e dezembro de 2003 e
127

janeiro de 2004. A tabela não traz a discriminação dos desenhos mais procurados a cada
mês, pois não há variações relevantes.

Tabela n. 3 – Desenhos tatuados, segundo o gênero.

Motivos/ Desenhos Homens Mulheres Total


estilos

Estrela 3 (2.3%) 45 (12.9%) 48 (10%)


Sol 3 (2.3%) 12 (3.4%) 15 (3.1%)
Corpos celestes Lua 1 (0.75%) 1 (0.3%) 2 (0.4%)
Estrela e sol 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Sol e lua 1 (0.75%) 5 (1.4%) 6 (1.2%)
Lua e estrela 5 (1.4%) 5 (1%)
S. Jorge 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Buda 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Religiosas Pergaminho 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Anjo 10 (2.9%) 10 (2%)
Crucifixo 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Jesus Cristo 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Japonesas/ Letra japonesa 19 (14.4%) 20 (5.7%) 39 (8.1%)
Orientais Dragão 11 (8.3%) 8 (2.3%) 19 (3.95%)
Samurai 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Indiano 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Indianas Mandala 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Om 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Egípcias Ankh 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Olho de Hórus 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Índio 1 (0.75%) 1 (0.3%) 2 (0.4%)
Indígenas Índia 2 (1.5%) 2 (0.4%)
Totem 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Pena de índio 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Tribal 15 (11.4%) 17 (4.9%) 32 (6.6%)
Tribais Lagarto tribal 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Rosa ou flor tribal 1 (0.75%) 6 (1.7%) 7 (1.4%)
Étnicas Celta 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Bruxa 2 (0.6%) 2 (0.4%)
Mago 2 (1.5%) 2 (0.4%)
Sereia 2 (0.6%) 2 (0.4%)
Mitológicas Fada 7 (2%) 7 (1.4%)
Fênix 1 (0.75%) 2 (0.6%) 3 (0.6%)
Centauro 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Duende 2 (0.6%) 2 (0.4%)
Cupido 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Sorte Trevo de 4 folhas 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Letra 14 (10.6%) 8 (2.3%) 22 (4.6%)
Alfabeto Escrita/frase 12 (3.4%) 12 (2.5%)
Nome 3 (2.3%) 2 (0.6%) 5 (1%)
Realistas Fotografias 4 (3%) 4 (0.8%)
Homenagem 1 (0.3%) 1 (0.2%)
128

Paz e amor 1 (0.3%) 1 (0.2%)


Símbolo 3 (2.3%) 4 (1.1%) 7 (1.4%)
(inespecífico)
Símbolos Escudo do Flamengo 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Escudo do 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Fluminense
Signo de Virgem 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Pentagrama 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Golfinho 2 (1.5%) 12 (3.4%) 14 (2.9%)
Peixe 2 (1.5%) 3 (0.8%) 5 (1%)
Animais Cavalo-marinho 1 (0.3%) 1 (0.2%)
marinhos Tubarão 6 (4.5%) 6 (1.2%)
Boto 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Peixe-espada 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Beija-flor 9 (2.6%) 9 (1.9%)
Pássaros Pomba 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Águia 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Animais Cachorro 1 (0.75%) 1 (0.3%) 2 (0.4%)
domésticos ou Cavalo 1 (0.3%) 1 (0.2%)
domesticados
Tigre 5 (3.8%) 5 (1%)
Onça 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Animais Leão 2 (1.5%) 2 (0.4%)
selvagens Urso panda 2 (0.6%) 2 (0.4%)
Tartaruga 2 (0.6%) 2 (0.4%)
Lagarto 1 (0.75%) 1 (0.3%) 2 (0.4%)
Escorpião 3 (2.3%) 5 (1.4%) 8 (1.6%)
Insetos ou Borboleta 48 (13.7%) 48 (10%)
animais Salamandra 1 (0.3%) 1 (0.2%)
peçonhentos Grilo 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Aranha 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Abelha 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Flor 1 (0.75%) 40 (11.5%) 41 (8.5%)
Flores Rosa 15 (4.3%) 15 (3.1%)
Orquídea 2 (0.6%) 2 (0.4%)
Ramo 2 (0.6%) 2 (0.4%)
Notas musicais 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Música Clave de sol 2 (0.6%) 2 (0.4%)
Iron Maiden 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Mangá 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Cartoon Hello Kitty 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Betty Boop 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Infantis Boneca 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Roupa de papel 1 (0.3%) 1 (0.2%)
Coração 12 (3.4%) 12 (2.5%)
Asa com fogo 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Outros Bracelete 2 (1.5%) 2 (0.4%)
Língua 1 (0.75%) 1 (0.2%)
Espiral 1 (0.3%) 1 (0.2%)
TOTAL 88 categorias de 132 349 481
desenhos (100%) (100%) (100%)
Dados referentes à análise dos cadastros de clientes dos meses de setembro e dezembro de 2003 e janeiro
de 2004. A coluna “desenho” refere-se a categorias dos próprios clientes, organizadas por mim em
categorias mais amplas na coluna “motivos/estilos”.
129

A tabela acima foi construída a partir da análise das fichas preenchidas pelos
clientes do estúdio. Embora cada ficha represente um cliente, nem sempre representa
apenas uma tatuagem. Presume-se que todos os clientes tenham preenchido a ficha.
O número de mulheres é sensivelmente superior ao de homens, conforme
amplamente observado em campo e por outros pesquisadores (LEITÃO, 2002). Nos três
meses analisados, há um total de 431 mulheres para 173 homens, ou seja, mais que o
dobro. Como nem todos os clientes especificam o desenho tatuado, as respostas
contabilizadas na tabela acima somam 349 mulheres e 132 homens, em um total de 481
respostas.

Gráfico n. 9 – Maiores percentuais de desenhos entre homens e mulheres.

16 13,7 14,4
14 12,9
11,5 11,4
12 10,6
Homens
10 Mulheres
8 5,7
6 4,9
4 2,3 2,3
2 0,75
0
0
Estrela Borboleta Flores Letra Tribal Letra
japonesa

As categorias de desenhos especificadas acima foram construídas pelos próprios


clientes. Eu as agrupei em categorias mais amplas (na coluna “motivos/estilos”) que não
necessariamente correspondem às categorias utilizadas no universo da tatuagem,
conforme indicado anteriormente.

4.1. Corpos celestes em outros corpos

Estrelas, sol e lua, bem como suas possíveis combinações, foram agrupadas sob
a categoria “corpos celestes” (ver Figura 11 e Figura 13) . Planetas, estrelas cadentes,
cometas ou quaisquer outros elementos espaciais não foram encontrados entre o
repertório de desenhos tatuados. Estes motivos são mais populares entre mulheres do
que entre homens, compondo parte do que se designa como “desenhos femininos”. Le
Breton (2002) indica que o que chamei de “corpos celestes” é um motivo iconográfico
tipicamente feminino.
130

Nos anos recentes, a estrela tem sido um desenho favorito das mulheres,
agrupada em conjuntos de três ou mais, com cinco pontas e coloridas por dentro em tons
como azul, vermelho, laranja ou amarelo, normalmente cada uma apresentando uma cor
diferente. As “estrelinhas”, como são chamadas, se tornaram mais populares, em
processo chamado por Mauss (2003) de imitação prestigiosa, depois que a atriz Mel
Lisboa, em début na televisão, deixou aparentes suas estrelas tatuadas por trás da orelha.
Associado a uma pessoa considerada modelo a ser seguido, o desenho foi copiado,
embora a parte do corpo tatuada não, podendo-se observar as “estrelinhas” em várias
regiões distintas como nuca, costas, pulso, barriga ou pé.
O sol, por outro lado, parece gozar também de alguma popularidade, embora não
tão grande quanto a das estrelas. Sol e lua, bem como lua e estrela, aparecem também
como desenhos tipicamente femininos, embora menos procurados. Normalmente são
desenhos que envolvem uma aura mística, possivelmente escolhidos por indivíduos
envolvidos neste universo ou interessados nele. Em várias vertentes da Nova Era, os
corpos celestes desempenham papel crucial, como na astrologia, por exemplo, mas
também em suas vertentes religiosas, como cultos neopagãos.
Enquanto 19.4% de mulheres buscam este motivo, apenas 6.85% de homens se
interessam por ele, sendo três vezes mais popular entre elas do que eles, graças às
estrelas. Em termos gerais, computando-se ambos homens e mulheres, este motivo
apresenta 15.9% da preferência do público. É interessante notar que, entre os corpos
celestes, o sol é o único desenho procurado na mesma proporção (2.3%) por homens e
mulheres (3.4%). Apresentando popularmente características masculinas (fogo, vigor,
força, luz, razão), enquanto a lua apresentaria características femininas (sonho, magia,
loucura, emoção) o sol é visto pelos homens como o mais apropriado dos corpos
celestes para seus corpos humanos.

4.2. Religiosas, indianas, egípcias e celtas

As tatuagens que classifiquei como “religiosas” envolvem elementos de


religiosidades distintas. 3.75% dos homens e 2.9% das mulheres escolheram este
motivo. Não se pode dizer, pela pequena diferença, que eles sejam mais religiosos ou
mais interessados em expressar sua religiosidade por meio de tatuagens do que elas.
Indianas, egípcias e étnicas (celtas) apresentam apenas 0.6%, 0.4% e 0.2% da
preferência do público, respectivamente.
131

De fato, as tatuagens religiosas nem sempre exprimem a espiritualidade de seus


portadores. No estúdio de Copacabana, observei um cliente cuja maioria das tatuagens
relacionava-s ao tema. Tinha um coração de Cristo em estilo new school, rodeado por
duas estrelas, em preto, na parte interna do braço esquerdo. No mesmo braço, na parte
externa, portava uma cruz em preto. No braço direito, tatuava uma Virgem Maria. Nas
costas, uma mulher com asas e uma coroa abaixo dela, também em preto, lembrava um
anjo. Apenas uma tatuagem, no tornozelo, não se relacionava a este universo: um
esqueleto fumando e bebendo, logomarca de uma banda de rock. Perguntei ao rapaz
porque a preferência e respondeu que era “uma questão de estilo”, não representando
nenhum processo de espiritualidade.
Do escopo de influência do cristianismo, observa-se o anjo, o crucifixo e o
próprio Cristo. O anjo, como os dados indicam, é uma tatuagem tipicamente feminina,
embora no estúdio eu tenha observado alguns homens tatuarem anjos. Os anjos
masculinos, por assim dizer, apresentam uma característica que chamarei bíblica,
referindo-se visivelmente à religião cristão, por portarem trombetas ou estarem junto a
elementos cristãos como a cruz. Os anjos femininos, por outro lado, costumam
apresentar aspecto infantil, não apenas no traço e paisagem do desenho, mas o próprio
anjo muitas vezes é uma criança, confundindo-se com a figura do Cupido, outra
tatuagem tipicamente feminina. Conforme visto, os “desenhos femininos” se
caracterizam, também, por traços infantis.
O pergaminho é um desenho difícil de ser analisado, pois pode se referir a uma
série distinta de expressões religiosas. O São Jorge, de igual maneira, pode estar ligado
à religiosidade cristã católica bem como aos cultos afro-brasileiros. Um dos santos mais
populares do país, tão popular na cidade do Rio de Janeiro que sua data consiste em
feriado municipal, seria estranho não encontrá-lo entre os desenhos tatuados. Na
primeira visita que fiz a um estúdio de Copacabana, observei outro São Jorge ser
tatuado nas costas de um cliente.
Do Oriente, perpassando ainda a influência da Nova Era sobre camadas urbanas
brasileiras, observa-se o Buda, símbolos indianos, egípcios e celtas. A cultura celta tem
sido base para uma série de religiosidades estrangeiras, que chegaram ao país dentro do
escopo da Nova Era, como o druidismo e a wicca, por exemplo, dentro do que se
considera como neopaganismo. Best-sellers sobre o lendário rei Artur, incluindo a
famosa obra de Marion Zimmer Bradley, As Brumas de Avalon, ajudaram a popularizar
a cultura celta entre determinadas camadas médias urbanas. Elementos egípcios, por
132

outro lado, podem ser encontrados em outras vertentes da Nova Era, como ordens
maçônicas e a ordem Rosa-Cruz. Misticismos diversos são, ainda, popularmente ligados
ao Egito e constantemente explorados em filmes de cinema, por exemplo. Nesse
sentido, o ankh e o olho de Hórus são os símbolos egípcios mais populares.
Os motivos indianos, por sua vez, apareceram apenas recentemente na tatuagem,
na última década. Consistem em desenhos com divindades indianas, ou símbolos
vinculados a fragmentos da cultura indiana, como a prática da ioga. O om, som nasal,
corresponde a uma palavra em sânscrito. Poderia estar sob a categoria “alfabeto”, mas
não creio que seja pensada como uma palavra mais do que como um símbolo. A
mandala, por outro lado, parece ter conquistado vida própria na Nova Era, sendo
utilizada em diversos tipos de práticas terapêuticas, embora seja um elemento da cultura
indiana.
Creio que a aparição de todos estes elementos deve-se à influência da Nova Era
no cotidiano urbano. Não é possível afirmar que estes desenhos signifiquem o
alinhamento do tatuado a tais práticas, mas esta parece a alternativa mais provável.
Estes elementos estão disseminados por um âmbito grande de manifestações culturais,
religiosas ou terapêuticas, impossibilitando uma generalização, pois são elementos de
fácil acesso, não estando restritos a grupos específicos.

4.3. Oriente-se

As tatuagens orientais, sobretudo de inspiração japonesa, são comuns e mesmo


tradicionais no universo ocidental da tatuagem. Desde o século XIX, o Ocidente tem
contato com motivos iconográficos japoneses (GILBERT, 2000), que são popularmente
chamados de orientais, às vezes envolvendo iconografia chinesa. Contudo, só um
especialista saberia diferenciar o que é chinês do que é japonês, sendo utilizada a
categoria mais genérica oriental para designar ambos.
Entre as tatuagens orientais procuradas nos meses pesquisados estão o samurai,
o dragão e o kanji, conhecido como letra japonesa, embora não se trate de letra, mas de
ideograma. Nos estúdios de tatuagem, é comum haver uma seleção de ideogramas,
japoneses e/ou chineses, concernentes a idéias como “amor”, “força”, “beleza”,
“riqueza”, entre outros. Infelizmente, as fichas analisadas não trazem o significado o
ideograma tatuado. Alguns estúdios, ainda, escrevem o nome do cliente em ideogramas
orientais.
133

Entre as mulheres, são o quarto tipo de desenho mais popular, perdendo apenas
para as flores, borboletas e estrelas. Entre os homens, é o desenho mais procurado.
Neste sentido, é necessária uma reflexão maior. 23.45% dos homens optaram por este
motivo contra 8% das mulheres. Observe-se que é um dos motivos mais populares,
contabilizando, entre homens e mulheres, 12.25% da preferência do público. Creio que
este motivo é mais procurado pelos homens porque enseja relações com atividades
guerreiras, como as artes marciais, constituindo-se uma marca do ethos guerreiro, como
ele é observado no universo da tatuagem.

Gráfico n. 10 – Os desenhos masculinos em percentuais.

35,00%
30,00%
25,00%
20,00%
15,00%
10,00%
5,00%
0,00%
Ideograma Tribal Letra desenhos
associados a
agressividade

A maior parte dos desenhos “masculinos” envolve algum tipo de elemento de


agressividade, seja na escolha por animais selvagens ou por desenhos associados a um
imaginário guerreiro, como caveiras – que não aparecem nos dados levantados, mas
foram observadas em campo –, samurais, índios e o próprio dragão. O significativo
número de ideogramas poderia sugerir a expressão de uma masculinidade menos
agressiva, menos pautada em símbolos de violência. Contudo, se somados, os desenhos
relacionados a alguma forma de agressividade são a maioria, pois estão disseminados
em categorias e elementos distintos. Poder-se-ia incluir neste grupo: dragão, samurai,
índio, centauro, escudos de time de futebol, tubarão, águia, cachorro, tigre, onça, leão,
escorpião, aranha e asa com fogo. Somados estes desenhos apresentam um total de 37
indivíduos em 132 homens, ou seja, 28%.
O dragão, raramente especificado como chinês ou japonês, pode apresentar
outras fontes de inspiração, como a Europa medieval. O dragão mais comumente
tatuado é oriental. Muitas vezes, contudo, tatua-se o dragão em estilo tribal, ou seja,
todo em negro, sem utilização de outras cores. O dragão oriental costuma ser colorido
em verde com vermelho ou vermelho com amarelo e azul. Pode apresentar um fundo
134

tipicamente japonês ou não. Como é uma tatuagem tradicional, encontra-se em quase


igual quantidade entre homens e mulheres, com uma ligeira predominância deles. Para
alguns, o dragão é um símbolo de força.

4.4. Ameríndios de norte a sul

Os desenhos de inspiração indígena são buscados, sobretudo, por homens. São


apenas 1.2% da preferência do público total. Também parte do escopo iconográfico
tradicional da tatuagem ocidental, envolve normalmente a representação de índios
norte-americanos, a cavalo, com armas na mão, ou de chefes indígenas, mais velhos,
portando vistosos cocares. As índias, por sua vez, são representadas com tranças,
tatuando-se somente seu rosto. O totem e a pena, da mesma forma, fazem menção a
culturas indígenas não-brasileiras. Nos últimos tempos, contudo, têm surgido
representações de índios brasileiros.
Tatuar um índio norte-americano é, sem dúvida, um traço da influência cultural
norte-americana tanto na tatuagem brasileira, quanto na cultura brasileira
contemporânea, dada a magnitude do escopo de influência norte-americana em todo o
mundo, sobretudo de sua indústria cultural. Pode-se tratar, também, neste aspecto, de
uma influência dos filmes de cinema do tipo faroeste. O movimento Nova Era, por sua
vez, trouxe a religiosidade destes indígenas a um público mais diversificado, por meio
da divulgação de práticas de xamanismo. Neste contexto, tatuar um índio brasileiro
pode ser uma mensagem política, de crítica à influência norte-americana tanto quanto de
exaltação da cultura brasileira.
As índias, por outro lado, são apenas mais uma variação de um antigo tema da
tatuagem ocidental: as mulheres. Na tatuagem tradicional, elas aparecem como um dos
vícios do homem (junto à bebida e aos jogos de azar), como amantes ou como objetos
de desejo (formas abundantes, muitas vezes nuas), algumas vezes beirando ao
fetichismo (vestidas de enfermeiras ou de marinheiras, por exemplo).

4.5. A febre tribal

A tatuagem tribal foi muito popular na década de 1990, e parece manter sua
popularidade, embora não seja a mais procurada atualmente. Atinge um público tanto
feminino quanto masculino, mas proporcionalmente tem havido uma preferência maior
135

masculina. São 12.9% das escolhas masculinas e 6.6% das femininas, quase a metade.
Agrupando-se ambos os gêneros, são 8.2% da escolha do público. Menos procuradas,
portanto, que japonesas/orientais, insetos e os corpos celestes.
A preferência masculina por essa tatuagem se deve, a meu ver, à preponderância
de traços negros, com espirais e retas pontiagudas. As retas, na forma de espinhos, dão
ao desenho uma agressividade buscada pelos homens na tatuagem. Como a coloração é
neutra e as formas são abstratas, pode ser utilizada igualmente pelos dois sexos.
As tribais se tornaram tão populares que foram misturadas a diversos outros
desenhos. No estúdio pesquisado, há muitas flores, devidamente coloridas, com traços
tribais em negro perpassando o fundo do desenho. Em alguns casos, a mistura se dá com
elementos celtas, chineses ou de quaisquer outras origens. A criatividade levou os
tatuadores a desenvolverem também desenhos menos abstratos com traços tribais, como
rosas negras com traços pontiagudos.
O sucesso da tribal não foi apenas carioca. Le Breton (2002) indica que na
França o motivo foi também popular e sugere que as revistas americanas de tatuagem,
como a pioneira Tattootime, lançaram a moda em todo o mundo. Na França, o autor
associa a popularidade das tribais, bem como a disseminação de certas práticas de
modificação corporal, como a tatuagem e o piercing, entre outras, à emergência do que
chama de “primitivos modernos”. Estes são indivíduos que criticam a sociedade
ocidental, incorporando formas de adorno corporal e mesmo estilos de vida que julgam
contrários a esta sociedade, tomando culturas tradicionais longínquas, que classificam
como “primitivas”, como fonte de inspiração. Estas culturas são vistas como mais
espiritualizadas, mais conectadas com os corpos. Apesar da crítica, diz o autor, os
“primitivos modernos” não têm a intenção de abandonar o Ocidente e desfrutam de
todas as comodidades que este pode produzir.
Creio que o sucesso da tribal aqui se deve ao seu uso em países modernos. Trata-
se de mais uma forma de importação cultural, copiando-se o que se faz fora do país, em
sociedades que se tornam de alguma forma modelos para o país, inclusive em nossas
manifestações culturais, mesmo no universo da tatuagem.

4.6. Lendas, feitiços e mitologia

O grupo de desenhos que denominei “mitológico” envolve elementos lendários,


como a sereia, a fada, a fênix, o centauro, o duende e o cupido, ou vinculados à idéia de
136

magia, como a bruxa e o mago. São tatuagens sobretudo femininas, à exceção do mago
e do centauro. Contudo, durante a observação de campo, pude perceber que o centauro é
igualmente procurado por mulheres. As sereias, que compõem parte do repertório
tradicional, e antes adornavam corpos masculinos, são hoje procuradas também por
mulheres. Os desenhos “mitológicos” são 3% das escolhas masculinas e 4.7% das
femininas, uma diferença devida à popularidade das fadas entre elas. A fênix é o único
desenho que apresenta uma mesma procura por homens (0.75%) e mulheres (0.6%). No
total, os “mitológicos” são escolhidas por 4% do público.
Como os desenhos sob a categoria “corpos celestes”, os “mitológicos” envolvem
uma idéia de misticismo ou magia, de seres encantados como fadas e duendes, seres que
podem atuar sobre a vontade alheia, como magos, bruxas e o cupido, ou ainda de seres
fantásticos, como a fênix, a sereia e o centauro. É um universo lúdico, onde o sonho
predomina sobre a realidade. Torna-se, desta forma, um universo infantil, o que
caracteriza muitos dos “desenhos femininos”.
Quando adornam corpos masculinos, sãos os atributos masculinos aqueles
visados pelos clientes nestes desenhos: a força da fênix, que jamais morre; o aspecto
guerreiro do centauro, metade humano, metade animal; a sedução feminina da sereia,
outra forma tradicional de representação das mulheres como tema na tatuagem.

4.7. Símbolos e signos

Sob a categoria “símbolos” agrupei uma série de desenhos de significados


distintos. Apresentam 3.8% da preferência masculina e 2% da feminina. São 2.4% da
preferência do público total.
Escudos de time de futebol indicam não apenas um pertencimento a tal grupo
mas uma paixão tão grande a ponto de ser tatuada. Escudos ou insígnias de grandes
times de futebol podem ser comumente encontrados no repertório iconográfico da
tatuagem. Podem estar adornados por águias ou outros elementos.
O signo zodiacal de Virgem e o pentagrama, por sua vez, entram dentro do que
tenho chamado de escopo de influência da Nova Era. Signos do zodíaco ou seus animais
correspondentes, como o leão e o escorpião, principalmente, são freqüentemente
tatuados pelas mulheres. O pentagrama, por outro lado, pode estar vinculado a uma série
de religiosidades diversas.
137

O conhecido símbolo hippie do “paz e amor”, muitos anos após o auge do


movimento, parece ainda encontrar espaço entre os corpos contemporâneos.
O trevo de quatro folhas, símbolo de boa sorte, também pode ser encontrado,
talvez como uma espécie de talismã. Como outros desenhos populares analisados aqui,
não é possível estabelecer uma relação direta entre o trevo e a decisão reflexiva de
tatuá-lo em busca de boa sorte, pois muitos desenhos populares sofrem um
esvaziamento de significado.

4.8. Registrar, escrever, tatuar

Escrever na pele, ao invés de desenhar, não é fenômeno recente (GILBERT,


2000). Nomes de amantes, de lugares visitados, de eventos considerados importantes, de
lemas pessoais faziam parte do universo da tatuagem ocidental entre os séculos XIX e
XX, e marcavam, sobretudo, prisioneiros. Hoje, a escrita sobre a pele toma uma
conotação ligeiramente diferente. Se o século XIX produziu tatuagens como fatalité,
pas de chance, sans patrie, vaincu non dompté, vengeance, entre outros, o que se
escreve sobre a pele hoje é muito diferente. Não há registro, nas fichas levantadas, de
quais palavras foram tatuadas. Em campo, percebeu-se que palavras em inglês e
português são as mais utilizadas, como no caso de uma cliente que tatuou love no pulso
ou no caso do fã de música reggae que tatuou positive vibrations nas costas. As frases,
ao que tudo indica, são hoje de cunho mais pessoal, não havendo uma expressão
freqüentemente observada.
Entre as formas de tatuagem escrita mais populares, encontra-se, ainda, o nome
ou iniciais da pessoa amada. Letras dizem respeito, normalmente, a iniciais de nomes.
Eu chamo essas tatuagens de tatuagens de amor. Elas serão mais profundamente
analisadas adiante. Letras e nomes também podem se referir a filhos. Considero como
tatuagem de amor apenas aquelas que dizem respeito a relacionamentos afetivo-sexuais.
Homenagens a pais ou filhos são freqüentemente encontradas, também, na forma de
fotografias, no estilo realista de tatuar. Essa é uma forma mais cara de se prestar
homenagens, e costuma envolver pais já falecidos ou filhos pequenos.
A título de comparação, observe-se que as letras somam 22 casos, enquanto
nomes são apenas 5, e homenagens realistas contam igualmente 5 casos. São preferidas
por 12.9% dos homens e 6.3% das mulheres, metade do público masculino. No total,
138

8.1% dos clientes opta pelo motivo escrito, número próximo ao de clientes que optam
pelas tribais.

4.9. Outros bichos

Separei os animais que são tatuados em grupos distintos: domésticos ou


domesticados, selvagens, marinhos, pássaros e insetos ou animais peçonhentos. Os
animais considerados mais dóceis e menos agressivos são, via de regra, preferidos por
mulheres, enquanto os demais são preferidos pelos homens. O tubarão e o tigre
apareceram como preferidos dos homens, enquanto a borboleta tem sido a última moda
entre as mulheres.
Animais marinhos contam com a preferência de 7.5% dos homens e 5.1% das
mulheres. No total, 5.7% dos clientes optam por este tipo de desenho. Os pássaros
representam apenas 0.75% das escolhas masculinas, enquanto são 2.9% das femininas.
No total, 2.3% dos clientes optam por este tipo de desenho. Os animais domésticos ou
domesticados são 0.75% da escolha deles e 0.6% da escolha delas. No total, apenas
0.6% dos clientes optam por este tipo de desenho. Os animais selvagens contam a
preferência de 6.8% dos homens e 1.5% das mulheres. Representa 2.8% das escolhas
totais. Os insetos ou animais peçonhentos formam 3.05% da preferência masculina
contra 16% da feminina, devido à popularidade das borboletas entre elas. No total,
forma 12.4% da preferência dos clientes, consistindo no segundo motivo mais popular,
juntamente com as flores, atrás apenas dos corpos celestes.
Durante a pesquisa de campo, observei diferentes tipos de borboleta serem
tatuados: daquelas com traços infantis e cores claras àquelas de traço realista, imitando
uma borboleta real pousada sobre a pele. Aparentemente, não há uma explicação para
tamanha popularidade do inseto, que de fato vem povoando o repertório de “desenhos
femininos” há muitos anos. É o desenho mais procurado entre as mulheres. A borboleta,
como as flores e o beija-flor, remete à idéia de delicadeza e fragilidade, que vinculamos,
em nossa sociedade, às mulheres.
Os insetos parecem, de um modo geral, agradar mais às mulheres do que aos
homens. Insetos como o escorpião, contudo, vistos em nossa cultura como agressivos,
são mais procurados por eles. A popularidade do escorpião tem, a meu ver, certas
motivações: primeiro, é um signo do zodíaco; segundo, em função da interpretação
astrológica, foi associado à sexualidade; terceiro, foi uma tatuagem popularizada pelo
139

filme Assassinos por Natureza (Natural Born Killers), de Oliver Stone, de 1994, em que
a protagonista apresentava um escorpião tatuado na barriga. Na época, lembro que uma
amiga tatuou um escorpião no mesmo lugar em função do filme. Não creio que hoje ele
seja motivação para tanto, pois se passaram dez anos, mas o escorpião entrou para o
escopo de tatuagens femininas.
O beija-flor e o golfinho são os animais mais populares após a borboleta.
Segundo Marques (1997), o beija-flor viveu o auge de sua popularidade na década de
1980. O golfinho teve, também nesta época, o seu momento. De fato, os “bichos” são
parte da moda, que trabalha principalmente com as peles animais e o grafismo natural
de onças, tigres e zebras. Nas tatuagens, os bichos são outros, mas a idéia de moda, em
que um sucede ao outro, está presente.
Entre os animais domésticos, segundo observação de campo, o cachorro é o mais
popular, embora gatos sejam também procurados. O cachorro é utilizado na forma de
tatuagem chamada cover-up, devido à possibilidade de utilização de cores escuras. Nem
sempre o bicho tatuado é uma reprodução do animal de estimação.

4.10. O jardim encantado

Enquanto apenas 0.75% dos homens optam por tatuar flores, este motivo
representa 11.5% das escolhas femininas. No total, representam 8.5% das escolhas dos
clientes. Embora a borboleta seja o desenho mais procurado (13.7% das mulheres), se
somarmos todos os elementos vegetais que agrupei sob a categoria “flores”, como
“motivo/estilo”, tem-se um total de 17% das escolhas femininas, superando, portanto, a
popularidade das borboletas. Se nos encontros amorosos o imaginário apresenta as
mulheres como aquelas que gostam de ser presenteadas com rosas vermelhas, no
universo da tatuagem elas parecem preferir outras flores, que elas mesmas escolhem e
que carregam para sempre em seus corpos. A orquídea, flor frágil e sofisticada,
apresenta apenas dois casos: não é uma flor popular.
A flor é um tema considerado tão feminino, que a minoria masculina que opta
por este tipo de desenho pode ser alvo de chacotas. Durante observação no estúdio
pesquisado em Copacabana, um cliente confidenciou que foi alvo das brincadeiras dos
amigos por conta das suas duas sakuras5 tatuadas no braço, abaixo de seu dragão

5
Sakura é uma palavra japonesa que designa um tipo de flor utilizada nas tatuagens japonesas.
140

vermelho, apenas um dos três que têm tatuados no corpo. As tatuagens orientais
costumam fazer largo uso de flores, como crisântemos, peônias e as sakuras. Mesmo se
tratando de um elemento constituinte de um desenho maior, envolvendo um tema
tipicamente masculino (o dragão oriental), a presença de flores foi suficiente para
permitir a dúvida sobre a masculinidade do cliente, mesmo que apenas em tom jocoso
em seu círculo de amizade. Este é mais um exemplo da estrita repartição entre temas
femininos e masculinos no universo da tatuagem.

4.11. Som e fúria

Se o universo musical é peça chave em muitas culturas jovens, como o punk, o


funk e o hip-hop, seria de se esperar que referências à música estivessem presentes no
repertório da tatuagem. Contudo, estas têm sido bastante escassas. Apresentando apenas
4 casos, o grupo que denominei “música” envolve notas musicais e claves de sol,
elementos constituintes da teoria musical, utilizados para se escrever música. Trata-se,
portanto, de escrever a paixão pela música na pele. Da mesma forma, Iron Maiden,
conforme foi escrito em uma ficha de cadastro de clientes, refere-se a uma banda
popular de heavy metal. O fã decidiu imortalizar sua admiração no próprio corpo.
É um estilo escolhido por 0.75% dos homens e 0.9% das mulheres. Representa
apenas 0.8% da escolha do público.

4.12. Desenhos de criança

A categoria cartoon, também conhecida no universo da tatuagem como comics,


refere-se a desenhos animados ou de quadrinhos. Muitos são os personagens que podem
ser encontrados tatuados nos corpos cariocas: o Coyote, o Papa-léguas, as Meninas
Superpoderosas, entre outros. No levantamento efetuado, foram registrados Betty Boop,
Hello Kitty e a noção genérica de mangá, que se refere aos gibis japoneses, mas pode-se
referir também aos desenhos animados, conhecidos como anime. Escolhido por 0.9%
das mulheres, sem nenhuma incidência masculina. Representa apenas 0.6% da escolha
do público.
Os cartoons são um tipo de tatuagem em que a variação quanto ao que ser
tatuado é grande. Cada novo desenho de sucesso pode levar clientes aos estúdios, como
uma extensão do fenômeno de consumo. No estúdio pesquisado em Copacabana, um
141

rapaz contava que o amigo havia tatuado o personagem Geléia, fantasma verde do filme
Os Caça-Fantasmas, que posteriormente se tornou desenho animado. Tatuagem que
depois foi devidamente coberta por outra porque, segundo o rapaz, tratava-se de um
“modismo”. O tatuador concordou: “Ih, essas meninas moderninhas aí, tudo tatuando
Meninas Superpoderosas e Hello Kitty. Daqui a 10 anos ninguém sabe o que é isso!”. O
problema dos “modismo” é a relação contraditória entre a fugacidade do sucesso de um
produto de consumo de massa e a permanência da tatuagem.
Os desenhos que classifiquei como infantis apresentam elementos desse universo
de crianças. São, portanto, elementos do universo feminino, como a Hello Kitty,
personagem infantil, ao contrário de Betty Boop, mais adulta e que pode ser encontrada
em novas versões que não a original, vestida de forma mais contemporânea, conforme
iconografia apresentada por Mifflin (1997). Escolhido por 0.6% das mulheres, sem
nenhuma incidência masculina, representa apenas 0.4% da escolha do público.

4.13. Os outros

Desenhos que não pude dispor em nenhuma outra categoria foram agrupados sob
a noção genérica de “outros”. Formam 3% das escolhas deles e 3.7% delas. Representa
3.5% da escolha do público. Aqui, o coração é o desenho mais popular, registrando-se
12 casos, todos entre mulheres. Presumo tratar-se, portanto, de corações apaixonados,
embora o coração de Cristo seja uma tatuagem religiosa encontrada em revistas
específicas da área, mas freqüentemente vista em homens.
Ainda na anatomia humana, há o registro de uma língua. Em alguns casos,
refere-se à boca vermelha com a língua de fora, símbolo ligado à banda de rock Rolling
Stones. Se for este o caso, a tatuagem deve ser classificada no grupo “música”.
O bracelete é um tipo de tatuagem que envolve a parte superior do braço, como a
jóia que lhe dá nome. É uma tatuagem caracteristicamente masculina. Como será visto
adiante, o braço é uma região tipicamente masculina em se tratando de tatuagens.

4.14. Comparando desenhos em homens e mulheres

As tatuagens mais populares entre as mulheres são a borboleta (13.7%), a


estrela (12.9%) e a flor (11.5%). Nenhum outro desenho aproxima-se da casa dos 10%.
Os desenhos mais populares somados formam um contingente de 38.1%, quase a
142

metade dos desenhos escolhidos por elas. Estes são desenhos que evocam idéias de
feminilidade: frágeis, delicadas, pequenas. As flores, agrupadas em todos os desenhos
encontrados, representam 17% das escolhas femininas, enquanto os insetos agrupados
representam 16%. Desta forma, as flores se tornam mais populares do que as borboletas.
As tatuagens mais populares entre os homens são os ideogramas japoneses
(14.4%), as tribais (11.4%) e as letras (10.6%). Os desenhos orientais agrupados
formam 23.45% das escolhas. Os desenhos tribais agrupados e as letras, frases e escritas
formam 12.9% das escolhas cada um. Isto torna as tatuagens orientais as mais
procuradas pelos homens.
As letras, normalmente, referem-se a iniciais de nomes, mas como a
classificação utilizada foi a dos próprios tatuados, pode-se tratar de frases cujo conteúdo
é desconhecido. Os ideogramas, por sua vez, só podem ser decodificados com o auxílio
do próprio tatuado. Sua mensagem fica, para nós, também desconhecida. As tribais, por
outro lado, têm sido uma tatuagem popular desde a década de 1990, quando surgiram.
Suas linhas “farpadas”, protuberantes em “espinhos”, podem ser associadas a elementos
simbólicos de agressividade. Os ideogramas, por sua vez, podem ser associados ao
universo das artes marciais. Nestes dois casos, mantém-se a predominância de
elementos de um ethos guerreiro como os mais procurados entre os homens. É
interessante observar que ambos os motivos são tatuados predominantemente em preto,
cor sóbria.

Gráfico n. 11 – Tatuagens mais populares entre os homens, em percentuais.

0%
36%
44% Orientais
Letras, frases e escrita
ethos guerreiro

20%

Os desenhos mais diretamente associados ao ethos guerreiro – aqueles


relacionados a animais selvagens/agressivos e guerreiros: dragão, samurai, índio, índia,
143

totem, centauro, brasões de clubes de futebol, tubarão, cachorro, tigre, onça, leão,
escorpião, aranha – formam 28.65% dos desenhos escolhidos por homens. Ou seja, os
desenhos relacionados a temas de agressividade, morte e destruição são os mais
procurados por eles.
Contabilizando-se o total de homens e mulheres juntos, as tatuagens mais
populares, sem distinção entre os gêneros, são: a estrela (10%) e a borboleta (10%),
graças à sua popularidade entre as mulheres; a flor (8.5%), também mais popular entre
as mulheres; e os ideogramas japoneses (8.1%), quase três vezes mais populares entre
homens (14.4%) do que mulheres (5.7%).
Agrupados os desenhos em motivos/estilos, conforme disposto na coluna 1 da
tabela, observa-se que os corpos celestes são os mais populares, contabilizando 15.9%
da preferência do público, seguidos pelos insetos e flores, cada um com 12.4%. Logo
atrás estão as japonesas/orientais, com 12.25% da preferência.

Gráfico n. 12 – Desenhos mais populares sem distinção por gênero, em percentuais.

22% 28%
Estrela
Borboleta
Flor
Ideogramas
23%
27%

Gráfico n. 13 – Estilos/motivos de tatuagens mais populares, sem distinção de


gênero, em percentuais.

23%
31%
Corpos celestes
Insetos
Flores
Orientais
23%
23%
144

5. Desenhos e subjetividade

Todo tatuado ou aspirante a tatuado enfrenta alguns dilemas ao optar pela marca:
qual desenho tatuar e em que parte do corpo? Esconder ou mostrar a tatuagem? Para
alguns, a escolha do desenho pode ser muitíssimo criteriosa, envolvendo anos de
pesquisa e busca por algo que se considere ideal. Para outros, a escolha é rápida, como
se a marca fosse mais importante do que o desenho. Em outros casos, ainda, o fascínio e
a sedução que a tatuagem exerce é grande o bastante para que o “tema” seja escolhido
anteriormente e o desenho em si decidido de forma rápida. Para cada uma destas
opções, apresentarei um caso.
Em janeiro de 2005, fui convidada por uma amiga, Fátima, para acompanhá-la a
um estúdio. Faria sua primeira tatuagem. Enquanto um dos tatuadores preparava-se para
tatuar, eu conversava com o outro, proprietário do estúdio, localizado também na
Tijuca. Ele contou-me dois casos opostos. Abriu seu portfolio e me mostrou uma
tatuagem de um pássaro em negro, dizendo:

“Esse sujeito aqui demorou seis anos para encontrar esse desenho. Ele procurou
até encontrar exatamente o que ele queria. Agora você vê, teve uma moça que veio
aqui se tatuar e ela já tinha um escorpião na barriga. Eu perguntei se era o signo
dela, mas ela disse que era Áries. Contou que fez a tatuagem com 14 anos e o pai
dela estava com pressa, então disse para ela escolher logo qualquer desenho e ela
escolheu um escorpião.” (Tatuador de estúdio visitado na Tijuca)

Entrar em um estúdio e escolher rapidamente um desenho é um fato bastante


comum. Há alguns anos, observei colegas indo à residência de um tatuador, onde
trabalhava. Uma das moças escolheu rapidamente seu desenho, uma forma abstrata em
negro, como um desenho tribal. Durante pesquisa no estúdio de Copacabana, observei
um caso análogo, em conversa de uma cliente com o proprietário, em que ela descrevia
como havia escolhido sua primeira tatuagem, um sol tribal abaixo da nuca. O tatuador
comentava que o desenho precisava de um retoque, ao que a cliente informou que o
havia tatuado há sete anos:

“Eu entrei no estúdio, folheei os álbuns e vi esse [desenho]. Pensei ‘ah, esse é
bonitinho’, e escolhi assim, rápido”. (Cliente do estúdio pesquisado em Copacabana)
145

A primeira citação apresenta dois casos opostos. Fátima, por sua vez, constitui o
terceiro caso. Jamais havia me dito que desejava se tatuar. Enquanto caminhávamos
pela rua em direção ao estúdio, eu questionava sua fascinação repentina pela marca.

“É, eu nunca quis... mas é engraçado, quase todo mundo que eu conheço está fazendo
ou querendo fazer uma. Impressionante!” (Fátima)

Ela me listou o nome de quem havia se tatuado há pouco tempo ou havia lhe
confidenciado o desejo por uma tatuagem. A lista envolvia cinco pessoas, pelo menos.
Uma delas havia lhe indicado o estúdio, em função principalmente do preço. Fátima
pensava em tatuar uma cobra ou uma fada, na nuca, no pé ou na lombar, mas queria um
desenho pequeno.
Quando chegamos ao estúdio, o tatuador desenhava uma fada para ela. Não
havia nenhuma nos álbuns de desenhos, mas as revistas de tatuagem disponíveis no
estúdio apresentavam pelo menos uma cada. Ela ficou encantada com o “desenho
personalizado”, conforme suas próprias palavras, e nem folheou as revistas para saber se
desejava algo diferente. Escolheu a cor do cabelo e perguntou minha opinião sobre a cor
do vestido. Queria que as asas fossem bem coloridas e sugeri algumas cores. Não pediu
nenhuma alteração e ficou satisfeitíssima de chegar ao estúdio e encontrar o tatuador
desenhando sua fada (uma amiga havia dito ao profissional que ela desejava tatuar uma
fada). Queria levar o desenho consigo para que ninguém mais o tatuasse, pensando que
seria só seu, mas, cedendo aos pedidos do proprietário, permitiu que uma foto do
trabalho já concluído fosse disponibilizada na Internet, na homepage do estúdio.

“Eu me sinto uma fada. Eu não quero uma borboleta, beija-flor, nada disso. Eu acho
que eu sou uma fada, sabe? É um desenho comum, muita gente tem. Eu penso nisso.
Mas essa [fada] aqui expressa o que eu estou sentindo agora. Ela está voando, em
movimento, e eu estou também. Eu quero coisas melhores, eu quero mudar. Esse ano
[2005] vai ser muito bom.” (Fátima)

A fada, portanto, representava um momento de vida pelo qual estava passando.


Esse momento de vida necessitava, do seu ponto de vista, de uma marca que fosse
visível externamente. Em nenhum momento, ela se referiu à vontade de embelezar seu
corpo, embora suas preocupações com o tamanho e a localização do desenho
146

expressassem, além das representações costumeiras sobre o que uma mulher pode ou
deve tatuar, uma preocupação estética que estava em grande parte, é verdade, permeada
por essas representações de gênero. Ao contrário de tantos casos que presenciei nos
estúdios pesquisados, Fátima não estava preocupada em esconder a marca. Como
professora de dança, seu corpo está normalmente à mostra. Seguia a lógica de
localização dos desenhos nos corpos femininos, onde nuca, pé e lombar são áreas
bastante procuradas.
Como minha amiga, Fábio, um senhor aposentado, cabelos brancos, projetava no
desenho tatuado uma íntima relação com seu momento de vida. O próprio desenho foi
escolhido em função de sua significação mística. Morador de Brasília, estava no Rio de
Janeiro para visitar o filho, um integrante de uma banda de rock de sucesso e cliente do
estúdio de Copacabana. Sob a influência do filho, Fábio decidiu se tatuar. Contou-me
que seu filho costumava fazer uma nova tatuagem para representar cada novo momento
de vida. Quando o proprietário do estúdio tatuou uma estrela no rapaz, a banda começou
a fazer sucesso. Fábio disse que a tatuagem não apenas marcava a nova etapa de vida,
como aposentado, como lhe traria felicidade nessa nova etapa. Para tanto, escolheu uma
cobra, cuja cor foi discutida com o tatuador, que a desenhou na hora. Foi feita sobre o
braço, como um bracelete, em verde e coral.

“A cobra simboliza a vida, os recomeços. Por isso ela está naquele emblema da
medicina. Eu pesquisei isso, porque eu queria um símbolo para essa minha nova
vida.” (Fábio)

Não há como imaginar que os desenhos escolhidos por cada sujeito não
representem, de alguma forma, valores individuais, preferências, aspirações, como no
caso de Fátima e Fábio, ou marcos de vida, como no caso de Fábio e, segundo ele,
também de seu filho. Para a moça que escolheu o escorpião com pressa, talvez apenas a
marca fosse importante e não o desenho, no sentido de que não necessitava de uma
reflexão longa e uma busca pelo desenho ideal, como o cliente que procurou por seis
anos o pássaro negro que gostaria de tatuar. Contudo, creio que em muitos casos a
tatuagem não está relacionada diretamente às características mais evidentes de uma
pessoa. Fátima, professora de dança, não tatuou nada que lembrasse seu ofício. Neste
sentido, gostaria de apresentar o caso de seu Nelson.
147

Conheci uma dupla de videomakers que tinha realizado um documentário sobre


tatuagem no estúdio pesquisado em Copacabana. Eles me chamaram a atenção para seu
Nelson, 62 anos, pai-de-santo, presente não apenas no documentário mas também no
seu pôster promocional. Seu Nelson, segundo as fotografias disponíveis na homepage
do documentário, tem algumas tatuagens relacionadas ao seu ofício, como o nome de
um orixá, palavras em nagô e búzios. As palavras em nagô, no entanto, foram escritas
em letras góticas, ou seja, oriundas de uma esfera cultural outra. Em suas costas, há um
painel japonês, em preto, com elementos como a carpa, água e flores.
O que Fátima, Fábio e seu Nelson têm em comum? Eles demonstram que aquilo
que a tatuagem representa é um interesse estritamente pessoal, influenciado por uma
gama quase ilimitada de fatores, expressando não apenas o que se pensa que é, o que se
faz (ofício, profissão, hobby), um momento de vida, mas também o apreço estético, a
preferência por um determinado tipo ou estilo de tatuagem.
Francisco, cliente do estúdio de Copacabana, procurava manter um mesmo estilo
de tatuagem, preocupado com a estética corporal. Ao mesmo tempo, como prefere o
estilo oriental e, dentro dele, os dragões, disse:

“Eu pesquisei muito, sabe? Eu fui saber que têm vários tipos de dragões, como se
fossem raças diferentes: do ar, do fogo, e tal. E eu só faço dragão oriental. Eu não
quero cobrir, sabe? Meus amigos, eu vejo, se arrependem e têm que cobrir. Tem
um camarada meu que tatuou um Geléia dos Caça-Fantasmas no peito, assim todo
verde! Pô cara... Geléia!? Qual o sentido disso? Agora quer cobrir!” (Francisco)

É interessante notar aqui o julgamento sobre o que é apropriado e o que não é


em termos de tatuagem. Francisco pensa a tatuagem como algo que representa algum
gosto pessoal, de preferência vinculado a algum significado conhecido, como demonstra
ao contar que pesquisou sobre os dragões antes de se tatuar. Ele também contou que
gosta de fazer suas tatuagens aos poucos, acrescentando novos elementos ou
aumentando os elementos de fundo, de forma a torná-la maior, mas apenas após um
processo de reflexão. Para Francisco, trata-se de um processo de constante
racionalização, calculando-se – muitas vezes contra a sugestão do tatuador – o quão
grande um desenho pode ser, em que região tatuar, quais cores, quais significados os
desenhos têm, quais desenhos combinam entre si, quais regiões do corpo quer deixar
livres. Francisco sabia que sua tatuagem do braço só poderia ir até onde a manga de
148

camisa a escondesse. Escolhe cores quentes, especialmente o vermelho, porque gosta


mais delas. Só tatua dragões também em função de uma preferência pessoal. O novo
dragão que fazia fora deixado só no traço, sem cores, para que ele pudesse refletir sem
pressa sobre os tons mais apropriados. Ao mesmo tempo, dizia gostar de ver a nova
tatuagem no espelho e assim pensar em como torná-la mais bonita.
Ao contrário da grande maioria dos tatuados que optam por mais de uma sessão
em função da extensão do desenho e da dor implicada no processo, ou do preço a ser
parcelado, Francisco marcava suas sessões para que houvesse tempo tanto para a
apreciação do desenho quanto para uma reflexão sobre como torná-lo exatamente o que
ele desejava. Descobrir o que se deseja pode ser um processo demorado. A busca e a
pesquisa pelo desenho ideal são o reflexo da dificuldade muitas vezes encontrada em
traduzir sentimentos em um desenho ou simplesmente encontrar algo que agrade
esteticamente.

6. Originalidade e modismos: formas de distinção e pertencimento

O discurso de Francisco apresenta uma preocupação constante no universo da


tatuagem: a originalidade. Na linguagem dos estúdios, existem os desenhos de catálogo
e aqueles “individualizados”. Estes são feitos especificamente para um cliente, como no
caso de Fátima e sua fada, a partir de um desenho de catálogo servindo como base, mas
não igual. Esta diferenciação apresenta, a meu ver, um sentido dado pelos tatuados à
marca: ela se torna sinônimo não apenas de distinção, mas também de autonomia.
Para ilustrar esta preocupação, apresento alguns casos. Em uma tarde no estúdio
de Copacabana, observei um surfista à procura de uma tatuagem de onda. Foi sugerido a
ele que procurasse algo que o agradasse na Internet e então levasse ao tatuador para que
fosse feito um desenho individualizado para ele. O rapaz reclamava que não encontrava
nada que gostasse na Internet e queria ver alguns desenhos no estúdio. Viu, então, um
desenho de Netuno em um quadro na parede e comentou:

“Uma coisa assim, podia ser, um Netuno. Mas esse aqui mó galera tem. Eu não
quero, vou ficar igual a todo mundo.” (Cliente do estúdio pesquisado em
Copacabana)
149

No mesmo estúdio, presenciei uma conversa entre Francisco e o tatuador, em


que este questionava tatuagens ligadas a desenhos animados da moda. Produtos de um
consumo efêmero, a seu ver não serviam como temas para serem tatuados, como as
Meninas Superpoderosas ou a Hello Kitty.
Aqui, não se trata de ter o mesmo desenho que outros, mas de ter tatuado algo
cujo significado individual é questionável, pois está vinculado a um fenômeno de
consumo de massa, que, imagina-se, dará lugar a outro. É o mesmo tipo de pensamento
de uma das mães entrevistadas pela Revista Vida, em que o piercing aparecia como uma
moda, um consumo fadado a se extinguir em pouco tempo, cujo significado pessoal é
nulo e que se dissemina em um processo de imitação que é pensado como o oposto da
originalidade e da individualidade.
Muitos tatuadores, quando copiam desenhos dos álbuns à disposição dos clientes
nos estúdios, tentam modificar ligeiramente os desenhos para que não fiquem
exatamente iguais. Outros, frente à disponibilidade dos clientes em ter tatuagens já
popularizadas, como a tribal na lombar entre as mulheres, tentam demovê-los da idéia e
fazer com que busquem outros desenhos. O segundo tatuador do estúdio de Copacabana
disse agir desta forma. A procura por um tipo popular de desenho é, para ele, um
“modismo”, onde o papel de amigos e conhecidos é fundamental na escolha pelo
desenho, que é “copiado”, ou seja, influenciado por tatuagens que eles têm.
Quando o tatuador fala em modismo, constrói uma oposição entre
originalidade/individualidade e cópia, estabelecendo, inclusive, uma hierarquia em que
a cópia é de menor valor. O sentido da palavra modismo aqui é o de algo uniforme, é a
cópia de outro, a imitação, que revela um sujeito incapaz de pensar por si e ter opiniões
e gostos próprios. Esta associação entre a tatuagem e a individualidade, em seu sentido
de originalidade, sugere que a marca não tem apenas um uso estético, mas é também um
signo de aceitação, uniformizando a aparência, ou de distinção, criando uma hierarquia
onde quem tem tatuagem é “mais” do que quem não tem, porque é uma pessoa mais
individualizada, que expressa sua autonomia na própria pele, na aparência, instância
imediata de comunicação de si ao mundo. A tatuagem serve, na sua qualidade de signo
de distinção, como signo de individualidade. Estabelece-se, novamente, uma hierarquia
entre a uniformização e a individualização em que a última emerge como mais
valorizada.
A idéia do tatuador em nada difere da noção da tatuagem como instrumento de
posse de si (Benson, 2000; Le Breton, 2002), ferramenta que demonstra ao mundo a
150

autonomia do sujeito tatuado. Isso se expressa tanto nas preferências da juventude


quanto no recorte de gênero e agora na própria escolha por locais e desenhos a serem
tatuados. Talvez por isso também a tatuagem de amor seja mal-vista pelos tatuadores,
que ainda assim não tentam convencer os clientes a deixarem de fazê-la.

Quadro n. 2 - Oposição modismo/ originalidade


Modismo Originalidade
• Imita outras pessoas • Tem gosto próprio
• Exibir-se (para o olhar alheio) • Para si mesmo
• Pertencimento • Autonomia
• Processo de influência da sociedade no • Individualismo (resistência ao
indivíduo processo de influência do coletivo)
• Uniformidade • Distinção
⇓ ⇓
menor valor maior valor

Esta associação da tatuagem com uma postura individualista, da marca com um


processo de distinção, pode explicar por que, em alguns casos, o desenho não é tão
relevante quanto a própria marca. Portá-la é, por si só, um sinal de distinção, que se
converte numa afirmação de individualidade e autonomia, uma afirmação de si.
Conforme pode ser visto no quadro acima, uma das formas que a oposição
originalidade/modismo toma é a oposição pertencimento/distinção. A primeira citação,
do rapaz em busca de um desenho de onda, representa este tipo de pertencimento.
Surfista, todos os colegas de praia ostentavam tatuagens relacionadas ao mar e ele
buscava a sua também. Contudo, muitos deles tatuaram Netuno, desenho que o rapaz
rechaçou imediatamente, pois até o pertencimento deve manter algum grau de distinção.
Sabino (2004, p. 265-7) apresenta alguns exemplos entre seus entrevistados:

“Mandei esse dragão porque todo o pessoal que conheço tem tatuagem na academia,
e no tatame, os caras mais ‘feras’ têm as mais ‘iradas’, as mais ‘maneras’... aí mandei
esse dragão no braço... agora quero fazer um Pitbull aqui nas costas.” (Carlos. 23
anos. Estudante, fisiculturista amador e lutador de jiu-jitsu)
“Esse duende no meu braço direito tá ‘carburando’ [fumando maconha], tá vendo? E
aqui no esquerdo eu tenho a planta [vira mostrando um desenho de uma folha de
cannabis], fiz as duas quando tinha dezoito anos porque desde moleque eu gosto de
punk e rock pesado, tenho uma banda e todo mundo lá da banda fuma de vez em
quando, eu não podia ser diferente...” (Rafael. 28 anos. Economista)
“Ah, fiz a borboleta na nuca ano passado... a galera toda lá do curso tinha, aqui na
academia as garotas todas têm tattoo e piercing, cê sabe, né? É moda, sei lá... aí eu
151

mandei essa aí na nuca e depois botei o piercing no umbigo... minha mãe reclamou
muito, não me deu o dinheiro p’ra fazer, aí eu comecei a vender uns colares e
pulseiras que eu mesma fazia e juntei dinheiro e fiz.” (Tatiana. 18 anos. Estudante)
“Eu tava a fim de fazer porque sempre achei bacana; aí, minhas amigas todas fizeram
e os namorados acharam ‘manero’; aí juntei dinheiro e fui na Banzai e fiz essa flor
aqui na virilha [vira abaixando um pouco a bermuda de lycra e mostrando a
tatuagem]. Doeu muito, cara, uma dor horrível, mas valeu a pena.” (Carol. 24 anos.
Advogada)

O pertencimento toma a forma, como observa o autor, da identificação com um


grupo determinado em que as tatuagens são parte do repertório corporal. Não se busca
apenas a marca, mas também desenhos associados ao grupo ao qual se quer estar
identificado: a onda para os surfistas, o dragão e o pitbull para os lutadores, por
exemplo. Entre as mulheres, contudo, estes símbolos parecem menos associados a
grupos urbanos, aqui definidos pela prática de um esporte (surfistas e lutadores) ou pela
preferência por um estilo de música, do que a uma rede de amizades que fornece as
bases de uma sociabilidade cotidiana: o curso, a academia de ginástica, as amigas, os
namorados das amigas.
A idéia presente nos relatos acima é a de identificação, de indistinção frente ao
grupo de pertencimento. Não se pode e não se deseja ser diferente. Pelo contrário, a
tatuagem tornou-se um meio de identificar visualmente, entre outros elementos, quem
pertence e quem não pertence ao grupo, um pertencimento tão forte e ativo no cotidiano
destes sujeitos que pode ser inscrito a sangue no corpo.
Este é um processo oposto àquele de Fátima, por exemplo, em que a fada
tatuada, embora desenho comum entre mulheres, ganhou um significado pessoal.
Processo também distinto foi o de Fábio, em busca de um desenho que representasse
suas aspirações pessoais para a nova fase de vida que ele via se descortinar. O oposto do
pertencimento não é apenas a distinção, vista aqui como parte da individualização, mas
também o significado pessoal que é dado à marca e ao desenho na pele.

7. Mapeando o corpo tatuado

As regiões do corpo tatuadas diferem segundo o gênero. Conforme foi dito em


campo por uma tatuadora, as mulheres preocupam-se em não apresentar tatuagens que
considerem masculinas, tanto em relação aos desenhos tatuados quanto à sua
152

localização no corpo. Elas consideram o braço como uma região masculina. Creio que
os homens operam esta distinção da mesma forma que elas, fugindo de desenhos
considerados femininos e localizando as tatuagens em regiões que não sejam igualmente
consideradas típicas das mulheres.
A partir da análise das fichas de cadastro de clientes do estúdio pesquisado na
Tijuca, referentes aos meses de setembro e dezembro de 2003 e janeiro de 2004, foi
possível elaborar a tabela abaixo, que apresenta as regiões do corpo escolhidas para
serem tatuadas, divididas segundo o gênero.

Gráfico n. 14 – Regiões do corpo mais freqüentemente tatuadas por homens e


mulheres, em termos percentuais.

0,7
61,70%
0,6
0,5
Homem
0,4 Mulher
0,3 26,40%
23,60%
0,2
14,10%
0,1 9,50%
0 2% 2,20%
0
pé/calcanhar pecoço/nuca costas braço

Tabela n. 4 – Regiões do corpo tatuadas, segundo gênero.


REGIÕES HOMENS MULHERES TOTAL
TATUADAS
Costas 21 (14.1%) 97 (26.4%) 118
Braço 92 (61.7%) 8 (2.2%) 100
Pescoço/nuca 3 (2%) 87 (23.6%) 90
Lombar/cóccix - 22 (6%) 22
Tornozelo - 15 (4%) 15
Calcanhar/pé - 35 (9.5%) 35
Punho/pulso - 6 (1.6%) 6
Virilha 4 (2.7%) 11 (3%) 15
Perna 10 (6.7%) 20 (5.4%) 30
Abdome/barriga 3 (2%) 26 (7%) 29
Ombro 6 (4%) 23 (6.2%) 29
153

Dedo 2 (1.3%) 2 (0.5%) 4


Peito 4 (2.7%) 2 (0.5%) 6
Quadril/pelve - 4 (1%) 4
Costela 4 (2.7%) 3 (0.8%) 7
Cintura - 4 (1%) 4
Orelha/ - 3 (0.8%) 3
Atrás da orelha
TOTAL 149 (100%) 368 (100%)

A região mais tatuada pelas mulheres é a das costas (26.4%), seguida pelo
pescoço/nuca (23.6%), e pelo calcanhar/pé (9.5%). Observe-se que as costas e o
pescoço/nuca correspondem à metade das tatuagens femininas (50%). As costas são a
segunda região corporal mais procurada pelos homens para a tatuagem (14.1%).
Constitui-se, assim, em uma das regiões prediletas para tatuar, contabilizando um total
de 118 ocorrências. É importante observar, neste aspecto, que é a região corporal mais
extensa, onde se pode executar tatuagens maiores, como os painéis, típicos da tatuagem
japonesa, que tomam toda a extensão das costas. No entanto, os painéis são raramente
procurados, pois o investimento financeiro necessário é muito alto e a tatuagem é
demorada, necessitando-se de várias sessões.
Apesar das costas serem mais procuradas por mulheres (26.4%) do que homens
(14.1%), não creio que se trate de uma região feminina, na medida em que os homens a
tatuam em larga escala. A região preferida por eles, no entanto, é o braço. As costas
ficam em segundo lugar na preferência deles. O braço é o local masculino por
excelência (61.7%), apresentando uma porcentagem de incidências superior à das costas
e pescoço/nuca juntas nas mulheres (50%). Contudo, algumas mulheres optaram por tal
região a ser tatuada. Essa incidência pequena de mulheres que tatuaram o braço é, não
obstante, superior à incidência de mulheres que tatuaram outras regiões do corpo, sem
incidência de tatuagens em homens, como a cintura, a orelha ou o quadril. O total de
casos de tatuagem no braço, tanto masculinos quanto femininos, é de 100,
apresentando-se, assim, como o segundo lugar preferencial para se tatuar o corpo.
A região denominada aqui como braço envolve, ainda, o antebraço, mas não o
pulso. O antebraço é mais raramente tatuado, uma vez que as camisas de mangas curtas
o deixam à mostra. O braço, por sua vez, enseja uma idéia de força. Sabino (2000)
observa que, entre praticantes de musculação em academias de ginástica na cidade do
Rio de Janeiro, o braço musculoso, torneado em aparelhos e séries de exercícios físicos,
154

é muitas vezes adornado com tatuagens, especialmente aquelas que tragam alguma idéia
de agressividade, como animais selvagens.
A região do pescoço/nuca está em segundo lugar na preferência das mulheres
(23.6%), apresentando uma incidência baixa de casos masculinos (2%). Outros autores,
como Almeida (2001), já haviam apontado a região como tipicamente feminina.
Segundo a autora, as mulheres optam pela região pela facilidade em usar os cabelos
longos como uma forma de esconder a marca – creio que como um véu que revela ou
esconde o desenho, segundo as necessidades e intenções do sujeito. Conforme observei
muitas vezes em campo, os tatuados em geral apresentam uma forte preocupação em
esconder a marca, devido à crença de que o mercado de trabalho não está apto a lidar
com a tatuagem, ainda vista como sinal de marginalidade e má conduta, como um
estigma (GOFFMAN, 1975). Os homens, sem a predominância dos cabelos longos, não
têm a mesma facilidade de esconder a marca nesta região. O pescoço ou a nuca tatuados
em um homem ficam, se os cabelos são curtos, sempre visíveis.
Eu sugeriria que a nuca e o pescoço se tornaram áreas femininas por outras
razões, além da possibilidade de se esconder a marca. Por um lado, como a região é
pouco extensa, permite tatuagens menores, tipicamente femininas, muito embora as
costas sejam uma região extensa e bastante procurada por elas. Por outro lado, a
possibilidade de revelar/esconder a marca utilizando o véu formado pelos cabelos
longos faz com que apenas poucas pessoas tenham acesso à visão da tatuagem, o que a
torna um elemento mais valorizado, de difícil acesso.
Sendo, normalmente, pequena a marca nessa região, a visão só é permitida – ou,
melhor dizendo, o desenho só é identificado – de perto. Isto significa que, para ter
contato visual com marca, o indivíduo deve estar fisicamente próximo à região do
pescoço, ou seja, ao rosto da pessoa, o que, por sua vez, indica que está próximo à
pessoa em si, e não apenas ao seu corpo, numa interação mais íntima. Não se trata,
portanto, de chamar a atenção para a região tatuada, mas de revelar, num possível jogo
de sedução e na abertura da intimidade a um outro sujeito, elementos sobre si que ficam,
de outro modo, resguardados. A marca no pescoço é um elemento de sedução
secundário, pois só é realmente percebido depois de uma aproximação, e só é revelado
se for intenção da tatuada.
A feminilidade é, ainda hoje no Ocidente, resguardada, protegida de toques e
olhares. Conforme Sabino (2000) aponta, as tatuagens femininas não apenas são
pequenas em tamanho, mas se localizam em regiões do corpo onde podem ser
155

escondidas, operando como uma metáfora da própria feminilidade. Neste sentido, o


pescoço e a nuca são regiões privilegiadas para esta metáfora.
A região do calcanhar/pé é a terceira mais procurada pelas mulheres (9.5%).
Durante a observação de campo, tive a impressão de que esta era uma das áreas mais
procuradas, pois sempre havia alguma cliente para tatuar o pé. De fato, jamais observei
um homem tatuando tal região. Devidos às sandálias abertas, muito usadas por elas, os
pés femininos ficam mais à mostra do que os masculinos, embora possam ser
cobertos/escondidos quando convier. Conversei com uma cliente do estúdio, advogada,
casada, mãe de dois filhos, aparentando ter mais de quarenta anos, cujos dois pés eram
extensamente tatuados. Perguntei se não dificultava seu exercício profissional, ao que
me respondeu que cobria os pés com sapatos fechados e calças compridas. Contudo, no
momento de nossa conversa, as tatuagens de seus pés estavam aparentes, apesar dos
sapatos fechados – que não cobriam inteiramente os pés – e das calças compridas.
A partir desta observação, creio que é menos questão de esconder os pés, do que
de mostrá-los, o que inverte a situação anteriormente apresentada a respeito da nuca.
Isto pode explicar porque o pescoço/nuca, bem como as costas, apresentam mais que o
dobro de casos do que as tatuagens nos pés. Existem mais mulheres interessadas na
possibilidade de esconder suas tatuagens, e mostrá-las em situações sob seu controle, do
que de revelá-las sempre.
Por outro lado, os pés são parte das regiões corporais fetichizadas. Revistas
masculinas, que apresentam mulheres nuas, normalmente incluem entre as fotografias
publicadas alguma que apresente apenas os pés das modelos. Tatuar os pés é chamar a
atenção para a área tatuada, suscitando, eventualmente, o desejo de algum fetichista.
Abdome/barriga (7%), ombro (6.2%), lombar/cóccix (6%) e perna (5.4%)
apresentam também números relevantes em se tratando das mulheres. A barriga é uma
área que tem ficado exposta devido às roupas de cintura baixa, que deixam o umbigo à
mostra. A região das costas denominada lombar, no extremo inferior da coluna, também
designada pelos tatuados como cóccix, é análoga à barriga, e fica igualmente à mostra.
Contudo, esta última região é predominantemente feminina, enquanto a barriga
apresenta alguma incidência como local tatuado pelos homens.
Conforme Seeger (1980) indica, qualquer adorno corporal chama a atenção para
as áreas adornadas. No caso destas duas regiões, tatuagens na barriga, se abaixo do
umbigo, chamam a atenção para os genitais, enquanto tatuagens na lombar chamam a
atenção para as nádegas. Em nossa cultura, são as nádegas femininas, mais do que as
156

masculinas, as valorizadas. Entende-se, assim, que a região seja predominantemente


feminina. Mesmo as nádegas apresentando-se como uma zona altamente erotizada na
cultura brasileira, a barriga apresenta uma incidência de tatuagens maior entre as
mulheres.
A perna apresenta um número duas vezes maior de casos entre mulheres do que
entre homens, contudo, esta incidência não é proporcional ao reduzido número de
homens que têm buscado a tatuagem contemporaneamente. Trata-se, a meu ver, de uma
região neutra em termos de gênero, como as costas: não é nem masculina nem
feminina. A diferenciação se deve mais, na perna, ao desenho tatuado e à sua extensão:
os desenhos tatuados por mulheres costumam ser menores e estar dentro daquilo que é
considerado feminino.
A categoria perna envolve a coxa e a canela, ou panturrilha. Algumas fichas de
cadastro traziam a diferenciação entre ambas as áreas, outras indicam apenas a categoria
genérica “perna”, de forma que englobei todas as respostas em uma única categoria.
Creio que a região mais comumente tatuada é a da panturrilha, especialmente nas
laterais externas, onde a marca se torna mais visível. A parte frontal da canela, por se
tratar de região sem musculatura, é uma região dolorosa e poucas vezes tatuada. A coxa,
por outro lado, é uma área menos à mostra do que a panturrilha. Observe-se aqui que há
uma relação entre revelar e esconder na escolha da tatuagem que envolve, muitas vezes,
uma espécie de cálculo: nem tão escondida, nem tão à mostra.
O tornozelo, entre o pé e a perna, apresenta 4% das tatuagens, menos do que as
regiões circunvizinhas. É um local sem casos de tatuagem masculina. O tornozelo é
mais uma região que apresenta uma relativa flexibilidade do processo de
revelar/esconder. Calças compridas cobrem facilmente a marca, ao passo que outras
vestimentas a deixam à mostra. A tatuagem no tornozelo apresenta, ainda, a qualidade
de chamar a atenção para pernas e pés, pois está entre as duas regiões.
A virilha apresenta uma procura quase igual entre mulheres (3%) e homens
(2.7%). Visível apenas em encontros de maior intimidade ou em roupas de banho, a
marca posicionada nesta região chama a atenção para os genitais, cumprindo o papel de
erotizá-la ainda mais. Embora não haja incidência de tatuagens nos órgãos genitais, esse
tipo de tatuagem existiu (ou existe) sobretudo entre os homens, conforme aponta Gilbert
(2000). Creio que os piercings, atualmente, têm sido mais utilizados nesta região genital
do que a tatuagem. A virilha cumpre hoje, de certa forma, o papel de adornar a genitália,
que já foi ela própria, no passado, tatuada.
157

O pulso, algumas vezes designado pelos tatuados como punho, é outra região
tipicamente feminina. A tatuagem no pulso requer bastante habilidade da parte do
tatuador, devido à quantidade de vasos sanguíneos na região. A agulha não pode
perfurar a pele em profundidade. Nesta região, a marca fica constantemente visível e
funciona, em sua qualidade de adorno, como uma espécie de jóia, da mesma forma
como se utilizam pulseiras ou relógios para adornar a região. Não estou dizendo, com
isso, que o pulso seja tatuado em sua parte interna e externa. Existem tatuagens nesta
região que circundam todo o punho, tomando efetivamente a forma de uma pulseira,
mas há outras que tomam apenas a parte interna. Conforme uma cliente do estúdio me
contou, tentava esconder o pequeno pássaro tatuado em seu punho com pulseiras
grandes e relógios. A tentativa era feita em função de sua atuação profissional.
Tatuagens nos dedos são raras. Nestes casos podem tomar também a forma de
uma jóia, como um anel. Algumas vezes letras são tatuadas nos dedos, para que se leiam
palavras de quatro ou cinco letras. Em outros casos, pequenos desenhos dão a impressão
de que seu portador usa um anel. Neste caso específico, a marca fica apenas
parcialmente visível, pois é necessário um olhar mais atento para se distinguir a
tatuagem da jóia. Como no caso das tatuagens no pulso, um anel verdadeiro pode ser
utilizado para encobrir a marca.
Embora a mão não tenha aparecido no escopo de regiões tatuadas entre os meses
analisados, é possível encontrar pessoas com tatuagens nas mãos, normalmente na sua
parte superior, próximo ao polegar. Em visita a um outro estúdio da Tijuca, vi a
fotografia de uma tatuagem executada na palma da mão. Constitui uma parcela pequena
das regiões tatuadas por estar demasiadamente à mostra.
A orelha e a extensão de pele que fica atrás da mesma, recobrindo o crânio
abaixo dos cabelos, são áreas que apenas as mulheres tatuam. Como a tatuagem na nuca
ou pescoço, sua visibilidade fica a critério do sujeito, que encobrir a marca com os
cabelos. Opera-se a mesma metáfora de feminilidade em jogo no pescoço/nuca,
observando que os cabelos curtos dos homens deixariam a tatuagem à mostra. Esta é
uma tatuagem quase invisível, ainda mais escondida que a da nuca.
Tatuagens no peito, quadril, cintura e costela referem-se a porções do tórax
outras que a barriga. Quadril e cintura são áreas análogas à barriga e à lombar,
tipicamente femininas, pois as roupas de cintura baixa as deixam à mostra. Barriga,
cintura e quadris associam-se, ainda, à região do ventre. São elementos femininos por
excelência, que ressaltam o ventre, hoje à mostra devido à moda. A cintura fina, os
158

quadris largos e a barriga reta são, no Brasil, parte do modelo de beleza atual. Tatuar
uma dessas regiões é chamar a atenção para a mesma, valorizando o portador da marca
se as formas corporais estiverem de acordo com os padrões de beleza vigentes. De outra
forma, a marca funcionaria de modo negativo, chamando a atenção para o desvio do
modelo de beleza.
Costela e peito, embora com alguma incidência em mulheres, aparecem no
levantamento como zonas preferencialmente masculinas. A costela é uma região
dolorosa para se tatuar, pois não há músculo ou carne, apenas pele e osso, onde o
tatuador deve ter uma grande habilidade, pois, conforme fui informada em campo, é
uma região de pele elástica. Deve-se fazer um cálculo visual sobre o tamanho desejado
para o desenho. A tatuagem é executada com o cliente mantendo seu braço erguido, o
que torna o desenho aparentemente maior. Contudo, quando o braço é abaixado, o
desenho “encolhe”, pois a pele estava esticada. Torna-se uma tatuagem cara, também,
em função destas dificuldades. Os desenhos masculinos nas costelas, como é regra
geral, costumam ser maiores do que os femininos.
O peito, por sua vez, pode abranger a área dos seios tanto quanto o colo, região
superior a estes. É, igualmente, uma área onde a sensibilidade é maior, causando mais
desconforto ao ser tatuada. O seio já foi, conforme Marques (1997) aponta, um local
preferencial para a tatuagem em mulheres. Nos homens, o tórax musculoso pode ser
adornado com uma tatuagem no peito. Esta região, normalmente coberta por roupas, se
torna mais visível nos homens do que nas mulheres, dada a convenção social que
permite a eles a nudez desta parte superior do corpo, enquanto veta a mesma às
mulheres.

7.1. O melhor lugar para um desenho

Conforme mencionado anteriormente, a técnica do desenho é bastante valorizada


entre tatuadores. Um desenho para tatuagem, contudo, tem suas peculiaridades: deve ser
proporcional como qualquer desenho, mas não há uma total liberdade de cores, em
função dos diferentes tons de pele. Outra particularidade do desenho na pele é a
adequação ao local do corpo escolhido. No universo da tatuagem, não é qualquer
desenho que pode ser tatuado em qualquer lugar, como muitas vezes o domínio da
técnica pode sugerir. Aconselha-se ao cliente o melhor lugar para um desenho ou o
melhor desenho para um lugar. O corpo é visto como uma tela, cuja proporção deve ser
159

levada em consideração ao se escolher o local a ser tatuado e o desenho. Esta


preocupação é mais visível nos profissionais do que nos clientes: estes pensam em
termos de região do corpo, aqueles visualizam o corpo inteiro do cliente.
Quando visitava estúdios em busca de um local para a pesquisa de campo,
observei que os critérios são, muitas vezes, rígidos. Entrei em um outro estúdio na Zona
Norte carioca, passei-me por cliente e escolhi um desenho qualquer, arredondado e
colorido. Perguntei à recepcionista o valor. Antes de dar o preço, era necessário saber
em que local seria feita a tatuagem. “Nas costas”, respondi, “sobre a coluna,
centralizado”. A moça orientou-me que um desenho arredondado como aquele não
deveria ser tatuado nesta região, mas nas laterais, pois era mais apropriado.
Durante a observação de campo, contudo, perguntei-me se estas regras não
seriam simplesmente percepções estéticas pessoais e distintas. Como exemplo, posso
citar o caso de uma cliente que queria tatuar uma fada, desenho grande, da parte inferior
das costas até o meio. Queria centralizada, enquanto o tatuador lhe dizia que o melhor
seria dispor o desenho ao lado e não em cima do osso da coluna. Como a cliente e a
amiga que a acompanhava preferiam a tatuagem centralizada, o tatuador não insistiu,
deixando a ela a liberdade de decidir onde colocaria o desenho.
Em outra ocasião, observei um cliente querendo tatuar um dragão nas costas.
Pedia um orçamento. O proprietário o atendeu. Em virtude do preço, pensava já em um
desenho menor, mais barato. O tatuador foi enfático: “Nas costas não pode ser
pequeno”. O cliente pensara em um desenho de um palmo, que foi considerado
inadequado, visto a extensão das costas e a riqueza de detalhes de um dragão.

8. Revelar e esconder

A princípio, imagina-se que, dada sua qualidade estética, o portador da marca –


o tatuado – queira, ou tenha a intenção, de mostrá-la. Neste caso, deveria estar
localizada em regiões visíveis do corpo. Se a intenção fosse escondê-la, tornando-a
visível apenas no desnudamento, deveria estar localizada em regiões do corpo que estão
constantemente cobertas. No entanto, a pesquisa de campo demonstra que a tatuagem
contemporânea tem feito uso de um processo diferente, que chamo de dinâmica de
revelar/esconder. Dificil é o caso, entre os tatuados, de esconder ou mostrar
sistematicamente as marcas. Procuram-se, ao contrário, regiões do corpo em que se
possa tanto mostrá-las quanto escondê-las.
160

A díade revelar/esconder pode ser correlacionada a outros pares binários de


oposição, cujos sentidos, em se tratando de tatuagens, assemelham-se. Assim, revelar a
marca é torná-la visível para o mundo e para outros sujeitos, é colocá-la para fora, na
parte externa. Ao contrário, esconder a marca é torná-la apenas do próprio sujeito, do
Eu, como uma faceta interna do indivíduo que é invisível aos demais.

Quadro n. 3 – Correlações na dinâmica revelar/esconder


• Revelar • Esconder
• Externo • Interno
• Fora • Dentro
• Visível • Invisível
• Mundo/Outro • Eu/sujeito

O processo de revelar/esconder, a meu ver, envolve o próprio aspecto técnico da


tatuagem, se observado a partir da díade interno/externo, que pode ser também utilizada
com o sentido dentro/fora. A tatuagem é uma marca aparente no exterior do corpo,
embora o pigmento que forma o desenho tenha sido inserido dentro do corpo, nas
camadas profundas da pele. Os locais do corpo escolhidos para serem tatuados parecem
seguir, igualmente, um jogo entre revelar/esconder. As partes mais visíveis do corpo são
as extremidades: rosto, pescoço, pés, mãos, antebraços. Estas são áreas raramente
tatuadas, à exceção dos pés e da parte posterior do pescoço – a nuca – nas mulheres.
Ainda assim, observe-se que são áreas nas quais o encobrimento da marca não é difícil.
O rosto, cujo encobrimento em nossa sociedade é inviável, é um local raramente
tatuado, mais raramente do que qualquer outra região do corpo.
O rosto e as mãos são, segundo Steward (1990), áreas tabus para tatuadores. Os
próprios tatuadores apenas muito raramente apresentam os rostos tatuados. No estúdio
pesquisado em Copacabana, o proprietário comentou, certa vez, que pensava em tatuar
o rosto com uma tinta branca fluorescente especial, que brilha apenas quando exposta à
luz negra e se torna invisível em quaisquer outras situações. Segundo ele, em conversa
com um cliente sobre o assunto, “tatuar o rosto é coisa de gente que não trabalha”, ao
que o cliente concordou, dizendo que “não pode trabalhar. Vai trabalhar aonde?”. O
mercado de trabalho, conforme será visto, é um dos principais mecanismos de controle
das áreas tatuadas e sua exposição.
Tatuagens nas mãos, ao que pude verificar, são raras. Os pés recebem desenhos
pequenos. Zona de fetiche sexual, está constantemente recoberto por calçados que
161

permitem este jogo entre revelar/esconder. O pescoço é tatuado mais freqüentemente


por mulheres, na região da nuca, onde os cabelos compridos e as roupas escondem a
marca e os cabelos presos ou curtos revelam. Quanto aos antebraços, raramente são
tatuados, uma vez que as mangas de camisa do clima tropical brasileiro não escondem
esta parte do corpo.
Na última década, as mulheres passaram a vestir as chamadas calças de cintura
baixa, onde o umbigo fica à mostra, bem como parte do quadril, junto com blusas mais
curtas, que deixam a barriga à mostra. Automaticamente, a tatuagem desceu até a região
lombar, nas costas, agora incluída neste jogo de revelar/esconder. A barriga feminina
entrou no mapa da tatuagem, sobretudo abaixo do umbigo, freqüentemente adornado
com um body piercing.
Note-se que a exposição do corpo é acompanhada do adorno e não o contrário,
adorno este que chama a atenção do olhar para as áreas descobertas. Como qualquer
adorno corporal, a tatuagem nestas regiões específicas parece seguir uma lógica de
valorização da área tatuada. No caso da lombar e da barriga abaixo do umbigo,
tipicamente femininas, são as áreas genital e anal que estão em questão, ainda dentro do
jogo revelar/esconder. Este tipo de tatuagem não chama a atenção do olhar apenas para
a área tatuada, mas mostra a existência da zona erógena e sexual situada logo abaixo
dela, e devidamente coberta.
Se o desenho tatuado apresenta alguma significação para o sujeito, então a díade
interno/externo está em operação novamente. O desenho representa, neste caso, um
processo subjetivo interno do indivíduo. Mas está gravado na parte externa de seu
corpo, possivelmente em região passível de exposição. Assim, o que é interno, subjetivo
e individual se torna aparente, externo, comunicacional. Se o desenho tatuado apresentar
alguma ligação com questões de identidade para o tatuado, então a pele, a tatuagem e o
externo estarão traduzindo o que a pessoa é (pensa ser ou sente ser). Sobre esta ligação
entre aparência e identidade, a sociologia do corpo tem-na observado a partir da ligação
entre corpo e consumo (FEATHERSTONE, 1991) em função da idéia de que a
aparência cria identidades (GOFFMANN, 1975; 1999).
Sobre a qualidade comunicacional da tatuagem, posso mencionar um dos
entrevistados de Sabino (2004, p. 273).

“Mandei escrever Culturismo no antebraço para todas as pessoas verem que a


musculação e o fisiculturismo são a minha vida, a razão do meu viver; tudo que tenho
162

consegui por intermédio do que faço... então mandei escrever isso aí, p’ra todo
mundo ver... ainda quero mandar escrever o nome da minha mãe nas costas, ela p’ra
mim é mulher mais importante da minha vida.” (Pedro, 30 anos. Instrutor de
musculação)

Neste caso específico, a tatuagem tem a exata função de comunicar uma


mensagem ao mundo. É a mesma função que os desenhos masculinos, em sua maioria
exalando agressividade, têm: eles são símbolos a serem comunicados ao mundo,
indicando o que seu portador é ou deseja ser.
Em situações de uso da tatuagem por grupos bem definidos, tais como gangues
juvenis, grupos de sociabilidade/amigos ou tribos urbanas, a marca serve como
indicação do pertencimento ao grupo, de que se está dentro de um conjunto maior. Em
grupos socialmente marginalizados, a tatuagem serve como indicação de exclusão
social, de que se está fora do conjunto da sociedade e dentro de um grupo de exclusão
específico. Esta é uma outra forma de apresentação da díade dentro/fora.
O revelar/esconder incide, ainda, sobre um imaginário da tatuagem: os desenhos
expressam aquilo que a pessoa é. Conforme apontei, nem sempre essa expressão é tão
direta quanto se costuma imaginar. Ter desenhos religiosos não significa ser fiel àquela
determinada religião. Pode ser uma questão de estilo, pois há, claramente, um elemento
estético em se fazer tatuar. De fato, há uma gama variada de motivações que
dificilmente poderiam ser elencadas.
Estando dentro da pele, a tatuagem é vista como algo interno, como a expressão
do interior subjetivo que aflora à superfície. A famosa pergunta: “porque você tatuou
isto?”, ou sua variação, “qual o significado disto para você?” indicam que o interlocutor
imagina que há um significado oculto no desenho escolhido. É pensado como oculto
porque é pensado como a expressão do interior do sujeito, limite inalcançável,
governado por leis psicológicas. De fato, há uma relação entre o desenho escolhido e as
aspirações ou gostos pessoais, mas esta relação não é tão direta e simples como se
costuma imaginar.
Assim, a dinâmica revelar/esconder toma a forma de revelar/esconder o próprio
sujeito. Quando a família e o mercado de trabalho impõem ao indivíduo, tantas vezes,
que esconda a marca, é o próprio indivíduo que está sendo induzido a esconder-se, pois
não será aceito como tatuado. Assim, o tatuado é um sujeito marcado, que deve ocultar-
se, disfarçar-se e maquiar-se para que a sua identidade não seja revelada.
163

Em contraposição a este processo, a técnica da tatuagem, a injeção de pigmentos


na pele, pode ser interpretada pelo viés oposto. Pode-se observá-la como a injeção de
elementos externos ao sujeito em seu interior. Pode funcionar como um amuleto mágico
ou amuleto protetor, uso descrito por diversos autores (DO RIO, 1997; GILBERT,
2000). Neste uso, o sujeito marcado ganha uma qualidade que não possuía antes, que
lhe é externa, e que só é alcançada por esse processo. O contato com o sangue é, nesse
caso, um forte marcador simbólico do aspecto interno e de internalização de símbolos
por meio da tatuagem.
É neste sentido que penso que a tatuagem mantém uma associação estreita com
processos de memória. A memória é uma característica interna, no sentido de que os
marcos de lembrança e esquecimento são normalmente vistos como individuais, por
vezes mesmo psicológicos. Esses marcos são oriundos do exterior e alocados no interior
do sujeito. Este é um processo para o qual a tatuagem é mais uma vez a metáfora. Pode-
se percebê-la, assim, duplamente, tanto como instrumento que torna o momento
inesquecível quanto como fruto de um momento inesquecível. Ela é tanto a memória
que se externaliza, quanto o evento marcante que gera a memória. A memória, oculta
no interior do sujeito, floresce também pela marca, comunicando ao mundo elementos
do Eu.
Em Sabino (2004, p. 273) há um caso exemplar. Uma de suas entrevistadas,
veterana de uma academia de musculação pesquisada na cidade do Rio de Janeiro,
afirma:

“Eu tatuei na minha pele o que tenho na minha mente: a palavra Deus em inglês...
tatuei porque acho que tenho que lembrar a todo instante dele, agradecer o que tenho,
saúde p’ra correr atrás do que preciso, por isso tatuei no pulso... também p’ra todo
mundo ver que me protejo, sei lá é meio amuleto também... um poder superior que
você carrega no seu corpo.” (Carol. 18 anos. Estudante)

A visibilidade, neste caso, se tornou peça fundamental, pois não apenas a


tatuagem apresenta uma função mnemônica como uma função mágica de amuleto
protetor. Quanto à função mnemônica da tatuagem, ela emerge de várias formas. Uma
delas é esta descrita acima, em que a tatuagem serve para lembrar algo que não pode ser
esquecido, algo externo ao sujeito, como a própria divindade, inscrita na pele e no corpo
para ser inscrita no próprio sujeito, de forma a fazer parte dele.
164

No ato de tatuar-se, portanto, está agrupada uma série de elementos que se


confundem, de tão estreitamente relacionados. Junto às noções de memória, interno,
externo, revelar e esconder, gostaria de acrescentar a idéia de expressão de sentimentos.
Estes, tipicamente vistos como da alçado do interno, também tomam a superfície pela
tatuagem. A marca é, portanto, uma forma de comunicação, uma passagem aberta entre
o Eu e o Mundo, uma porta em que se entra e se sai, continua e incessantemente. Alguns
processos relacionados a sentimentos e memória serão tratados no último capítulo.

9. O gênero da tatuagem

Conforme já foi observado, o consumo de tatuagens no Rio de Janeiro está


veiculado a um público feminino. A princípio, pode-se tentar ver neste processo um
caminho similar ao do consumo de moda, voltado sobretudo às mulheres. Não creio que
este seja o caso. Enquanto a moda tem sido a alguns séculos um elemento constituinte
do universo de consumo feminino, e vendido como tal, a tatuagem não tem esta
tradição. É uma novidade que o público atual da prática seja composto por mulheres.
Pode-se, também, ver neste consumo feminino uma das facetas do atual culto ao
corpo, que atinge tanto homens quanto mulheres. Cuidado do corpo e cuidado de si se
confundem nesta visão, um levando ao outro. Neste âmbito, cirurgias plásticas e muita
malhação têm prefigurado o caminho da beleza e da saúde. A tatuagem, adorno corporal
que chama a atenção para as formas esculpidas, torna-se, nesse escopo, um elemento de
valorização do corpo belo. Não por acaso Sabino (2004) observou o vasto uso de
tatuagens entre marombeiros, os veteranos das academias de musculação e na mesma
proporção que observei em campo, com uma predominância deste uso entre mulheres.
O autor indica, ainda, como as tatuagens masculinas estão relacionadas à constituição de
um determinado modelo de masculinidade agressiva, que foi observado por ele em
campo.
Se as tatuagens masculinas, conforme indiquei, estão relacionadas a um
determinado tipo de masculinidade, as femininas parecem estar igualmente relacionadas
a uma identidade feminina inversa à masculina. Nesta oposição, o masculino emerge
como: agressivo, grande, forte, corajoso, mortal. O feminino, seu oposto, aparece como:
delicado, frágil, pequeno, infantil. O que é considerado masculino, portanto, não deve
ser utilizado por mulheres e vice-versa. Os desenhos e os locais do corpo tatuados estão,
ambos, presos nesta lógica intrincada de diferenciação de gênero.
165

Mesmo quando as mulheres buscam desenhos normalmente utilizados pelos


homens, estes são redesenhados de forma a se extirpar suas características
masculinizantes. O desenho, junto ao local tatuado, indica, assim, o grau de
feminilidade/masculinidade presentes nos sujeitos. Uma mulher com um dragão tatuado
no braço é vista como uma mulher masculina. Um homem com uma flor tatuada na
nuca não é visto como homem. São elementos femilizantes ou masculinizantes em si,
que têm o poder de tornar feminino ou masculino quem os porta e, portanto, afirmar ou
negar identidades sexualmente constituídas. A tatuagem é, portanto, uma forma de
operar esta afirmação, ou construção, das identidades de gênero.
No próximo capítulo, pretendo expor outros elementos relacionados ao universo
da tatuagem que contribuem, tanto quanto os desenhos e locais do corpo escolhidos,
para operar esta afirmação das identidades de gênero. A dor é, neste âmbito, elemento
fundamental, pois homens e mulheres reagem diferencialmente a ela.
Se a tatuagem em mulheres está relacionada a um cuidado de si, ou cuidado com
o corpo, de forma a tornar-se mais bela e atraente, gostaria de empreender a partir desta
idéia uma análise em busca de elementos não tão visíveis. Conforme Bourdieu (2003)
aponta, a beleza feminina é apenas uma faceta da objetificação de seu ser e de seu
corpo. Por trás das diferenças de superfície, visíveis à flor da pele, como locais tatuados
e desenhos distintos, se escondem, em camadas mais profundas, diferenciações quanto
às expectativas de comportamento para homens e mulheres e reações a estas
expectativas. Por trás da busca pelo corpo belo esconde-se, portanto, um corpo-objeto,
um corpo para o outro, um corpo sem autonomia que se quer dar ao olhar para ser
desejado, para ser tomado e ganhar sentido.
Paradoxalmente, o processo de ser tatuado, conforme observado entre as
mulheres, apontou para a emergência de um caminho distinto. Na construção do que
parecia ser um corpo para o outro, descobri a construção de um corpo para si. A
resistência da família à marca, conforme será visto no próximo capítulo, tanto quanto a
liberdade em revelar e esconder a mesma segundo seu desejo, excetuando-se o ambiente
de trabalho, demonstram a emergência de uma consciência do corpo, de suas partes,
divididas entre marcadas/escondidas e não-marcadas/à mostra. A tatuagem imprime ao
corpo uma realidade diferente, operando uma verdadeira política quanto ao limite da
autonomia sobre si, sobre os próprios desejos, sobre a convivência em sociedade, sobre
o grau de liberdade possível.
166

CAPÍTULO VI - EXPERIÊNCIAS, DILEMAS, DOR: tatuados nos estúdios

“O corpo é meu, o dinheiro é meu e ninguém tem nada a ver com isso.”
Clientes mulheres do estúdio pesquisado na Tijuca.

As experiências que os tatuados vivem dentro dos estúdios também podem


diferir segundo o gênero. A forma de se lidar com a dor, por exemplo, é diferente entre
homens e mulheres: eles calados, numa forma de prova de virilidade (LE BRETON,
2002); elas falando, reclamando, se apoiando mutuamente. A dor, ou o medo da dor, faz
com que algumas delas peçam a namorados, mães ou amigas que as acompanhem ao
estúdio, fato raramente observado entre eles. Para eles, a dor emerge como parte de um
ritual de masculinidade. Para elas, expressar a dor é uma forma de construir uma rede de
solidariedade no próprio momento em que estão sendo tatuadas. Entre elas, ainda, a
liberdade de tatuar o próprio corpo muitas vezes se vê restringida pela pressão contrária
de familiares, situação que jamais observei entre os homens.
É comum que, ao se escolher o lugar a ser tatuado, o sujeito opere um cálculo
segundo a lógica do revelar/esconder. Imagina-se que o mercado de trabalho não vê
com bons olhos o indivíduo tatuado, que deve, portanto, esconder as marcas. O mercado
de trabalho, junto com a família, demonstraram ser as principais instâncias contrárias ao
uso de tatuagens, quando se observa os estúdios.

1. A experiência das mulheres

Durante a observação de campo pude perceber que a predominância das


mulheres como público da tatuagem gera situações que são vividas apenas por elas,
nunca observadas entre os homens. Entre estas situações, estão o desnudamento, a
companhia da mãe e o controle do cônjuge.
Após o estúdio pesquisado na Tijuca ter sofrido uma reforma, criou-se uma sala
reservada para tatuar, diferente das baias abertas. A idéia que norteou a criação do que
chamavam de box foi a de ter um espaço para tatuagens em locais mais íntimos do
corpo. No cotidiano do estúdio, percebi que nem sempre a sala era utilizada para estes
fins. Primeiro, porque a grande quantidade de tatuadores e a procura pelos seus serviços
167

levava a uma falta de espaço, que era solucionada com o uso do espaço normalmente
vago do box, que estava aparelhado com o necessário para o exercício de tatuar.
Segundo, nem sempre o cliente considerava que o local escolhido para tatuar deveria ser
escondido dos olhares curiosos.
Neste sentido, é preciso lembrar que a sala de tatuar é constantemente invadida
por amigos ou antigos clientes dos tatuadores, havendo uma circulação de pessoas que
não apenas aquelas que estão sendo tatuadas. Esta é uma dinâmica do estúdio
pesquisado, que pode não estar presente em outros estúdios. Restringir o acesso de
outras pessoas à sala de tatuar, ou tatuar um cliente de cada vez, é a solução mais
comum para se resguardar de olhares indesejados durante a operação. Esta solução não
poderia ser utilizada no estúdio pesquisado, pois lá trabalham cinco ou mais tatuadores
simultaneamente. A criação de uma sala isolada foi a solução mais fácil para o
problema.
O que é considerado um local íntimo ou de exposição indesejada do corpo a
olhares que não o de amigos, parentes ou do próprio profissional é bastante subjetivo.
Por três vezes, quando estava observando os clientes serem tatuados, vi casos parecidos
em que a sala poderia ser utilizada e não foi. Na primeira vez, uma jovem submetia-se a
uma tatuagem nas costas, do alto da coluna a sua parte inferior, com o intuito de cobrir a
cicatriz de uma cirurgia. Para que a tatuagem fosse desenhada1, as costas tinham que
estar livres. A moça tinha que segurar a blusa na parte da frente de seu corpo para cobrir
os seios. Estava despida, mas coberta. Em outra situação, outra jovem cliente tatuava
um dragão tribal na região superior à dos seios, entre o pescoço e o seio esquerdo. Havia
ido ao estúdio com uma blusa de mangas, que deixava a região coberta. Por não ter
vestido uma roupa adequada, como uma blusa ou bustiê tomara-que-caia, teve de torcer
a blusa, abaixando uma das mangas, para não ficar vestida apenas com o sutiã.
Um terceiro caso que presenciei foi mais interessante. Uma moça foi ao estúdio
tatuar a virilha. É costume, nesses casos, conforme presenciei algumas vezes, que se
vista um biquíni e uma saia que possa ser suspensa ou abaixada. Mesmo usando o
biquíni, reparei que é comum que os clientes homens presentes observem uma tatuagem
na virilha ser executada com uma atenção maior que outras tatuagens em mulheres ou
homens. Neste caso, o tatuador ofereceu à moça uma sala no estúdio de piercing, onde
praticamente só há mulheres, pois o box estava sendo utilizado. A moça disse-lhe que

1
Optou-se pelo free hand, para que a cicatriz fosse devidamente coberta.
168

não tinha “essas frescuras” e que não se incomodava em ser tatuada entre as baias. O
tatuador abriu a maca e ela se deitou. Normalmente, este tipo de tatuagem é feito com a
cliente recostada em um banco alto, quase de pé. Ao deitar-se na maca, a moça
suspendeu a saia e pude notar que usava uma calcinha preta transparente que permitia a
qualquer um ver sua genitália.
Este último caso representa o quanto noções de pudor podem ser subjetivas, ao
menos dentro do estúdio. O tatuador é como um médico: profissional que, presume-se,
não olha o corpo com intenções sexuais. Contudo, se a sala de tatuar não está ocupada
apenas pelo cliente e pelo tatuador, não há garantias de que outros clientes ou mesmo
outros tatuadores não lancem olhares ao corpo exposto. Neste sentido, paqueras e flertes
podem ocorrer. Enquanto a cliente que queria cobrir suas cicatrizes era tatuada, um
antigo cliente da casa, que voltara para retocar as tatuagens nos braços, flertava com ela,
conversando e trazendo revistas para distraí-la (ou chamar sua atenção), que folheava
sentado a seu lado. Ao perceber o possível incômodo que o rapaz poderia estar
causando à moça, os tatuadores começaram uma brincadeira, pedindo a ele, em tom
jocoso, que parasse de flertar com ela e sugerindo que era um sedutor.
A linha que separa a exposição controlada dos corpos da exposição que suscita o
olhar sexualizado é tênue. São os tatuadores que exercem esse controle sobre possíveis
situações de flerte mais aberto, que vão além de um olhar. O controle do olhar, contudo,
não é possível neste estúdio, uma vez que pode haver mais de oito pessoas na sala e que
esta é decorada com espelhos em várias paredes, o que permite a observação de vários
ângulos a partir de um mesmo ponto fixo.
O controle e a exposição dos corpos femininos nas sociedades de dominação
masculina foram analisados por Bourdieu (2003). Uma das formas de controlar os
corpos femininos que pode ser observada de dentro do estúdio de tatuagem é a
companhia materna no momento de se tatuar. Enquanto observava os clientes e
interessados na recepção do estúdio, não raro vi moças irem acompanhadas de suas
mães. Observando o estúdio apenas na sala de tatuar, é mais difícil perceber quem está
acompanhada e quem não está, uma vez que as mães são constantemente deixadas
esperando na recepção. Segundo fui informada pelo recepcionista, alguns pais também
acompanham filhos e filhas desejosos de adquirirem uma tatuagem. A moça que tatuava
o dragão tribal, por exemplo, fora ao estúdio acompanhada da mãe e da irmã, que
também se tatuava.
169

Desde o primeiro dia de trabalho de campo fiquei impressionada com a


quantidade de mães acompanhando as filhas, lançando a hipótese de que a tatuagem está
se tornando parte do aparato de embelezamento feminino, como uma ida ao salão de
cabeleireiros. Leitão (2003) apresenta diversos relatos de entrevistadas em que a
tatuagem aparece como mais um elemento de embelezamento do corpo, tendo em vista
que embelezá-lo é uma preocupação constante de suas entrevistadas, quase uma
obrigação. Não há como negar que há, na tatuagem, um forte apelo estético, mas
pretendo apontar razões para seu uso que se distanciam do simples embelezamento
corporal, embora esteja claro que beleza é um fator em jogo.
Espécie de ritual de feminilidade, as moças mais jovens são acompanhadas pelas
mães, que emitem opiniões, reforçando a idéia de uma mulher mais velha aconselhando
os rituais de beleza de uma mulher mais nova. No segundo dia de observação, perguntei
a um dos tatuadores da casa sobre o fenômeno: “Vêm muitas mulheres com as mães
aqui?”. “Mãe e pai”, respondeu, explicando que, mesmo não sendo menores de idade,
gostavam de ser acompanhados (ou os pais gostavam de acompanhá-los), pois menores
não são tatuados sem a companhia dos pais.
A companhia materna serve de apoio emocional. Muitas vezes esta companhia e
este apoio podem vir do namorado, de uma amiga ou da própria filha, conforme foi
observado em campo. Em todas estas situações, os clientes eram mulheres. Os homens
raramente buscam este tipo de apoio, mas podem ir ao estúdio acompanhados de
amigos, que não entram na sala de tatuar, ou esposas. Em duas ocasiões, vi clientes
acompanhados da esposa ou namorada, mas em uma destas a moça também iria ser
tatuada.
A menor incidência de uma companhia durante a tatuagem entre os homens
parece estar relacionada a ideais de masculinidade que envolvem, sobretudo, a idéia de
suportar a dor sozinho. A solidão dos homens sendo tatuados no estúdio só é quebrada
na relação com o próprio tatuador. As mulheres reclamam da dor e conversam sobre sua
vida com tatuadores e outros clientes – e graças a isto pude recolher muito mais
informações sobre as mulheres clientes do estúdio do que sobre os homens – ao passo
que os homens raramente conversam entre si, apenas com os tatuadores ou com pessoas
conhecidas que estejam no estúdio, sem jamais iniciar uma conversa com outros clientes
durante o processo. É como se a intimidade masculina fosse, de fato, mais resguardada
do que a feminina. O que ocorre, no entanto, analisando-se a situação à luz do
pensamento de Bourdieu (2003), é que a constante prova de masculinidade que os
170

homens devem dar a si mesmos e ao mundo de um modo geral requer esta auto-
conservação da intimidade em situações em que ela está sendo posta à prova, como no
momento de suportar a dor física ao ser tatuado.
O controle sobre os corpos femininos se torna visível a partir do universo da
tatuagem ainda de uma outra forma: nas censuras de maridos sobre o desejo de suas
mulheres pela tatuagem.

2. Esse corpo que não te pertence

Leitão (2002) chama a atenção para a idéia de autonomia e liberdade de ação


sobre o próprio corpo presente nas falas de algumas de suas entrevistadas: “o corpo é
meu e faço com ele o que quero” e “cada um tem liberdade de escolher o que faz com
seu corpo”. Ouvi palavras semelhantes no estúdio pesquisado. Em minhas observações
de campo, ouvi relatos de mulheres cujos maridos não gostavam de tatuagens, ou que
estavam no estúdio para a primeira tatuagem sem terem avisado seus maridos. O
argumento apresentado foi sempre o mesmo: “o corpo é meu”. Jamais ouvi algum
homem falar que a esposa não gostava de tatuagens, como jamais vi algum explicar a
sua esposa que o corpo é dele e que pode fazer com o seu corpo o que quiser. Esta
diferença quanto à autonomia individual e de ação sobre o próprio corpo está
relacionada às diferenças de gênero.
Célia, cliente do estúdio da Tijuca, contou-me sobre uma amiga que havia feito
sua primeira tatuagem há poucas semanas. O marido da amiga não gostou e desejava
que ela retirasse o desenho. A amiga se dividia entre fazer uma nova tatuagem e retirar a
primeira com laser. Perguntei qual a profissão do marido da amiga de Célia. Ela disse
que era um empresário que costumava viajar. Cátia, outra cliente, protestou dizendo que
era um absurdo a amiga de Célia tirar a tatuagem por causa do marido. Célia contou que
o marido da amiga dissera à esposa, na frente da própria Célia, que uma mulher com
tatuagem era uma mulher à toa. Célia não gostou e passou a influenciar a amiga no
sentido de que um homem que não está em casa deve ter outras mulheres. Célia
concluiu:
171

“Meu marido também não gosta de tatuagem. Eu disse para ele ‘vou fazer outra’. Ele
não é contra, mas sempre me diz que, por ele, eu não faria nenhuma. Mas eu faço. O
corpo é meu, o dinheiro é meu e ninguém tem nada a ver com isso”. (Célia, 28 anos,
cliente do estúdio pesquisado na Tijuca)

Em outra ocasião, no mesmo estúdio, escutei conflito semelhante se desenrolar


por telefone. O marido de Cândida ligou para o seu celular enquanto ela aguardava
dentro do estúdio. “Estou fazendo uma tatuagem”, avisou. O marido não gostou e a
ligação foi interrompida. “Ele desligou na minha cara!”, disse. Ela ligou de volta
perguntando se havia desligado, mas ele negou. Ela questionou porque não aprovava
sua tatuagem e argumentou que era algo que ela gostava, da mesma forma que havia
coisas que ele gostava. Depois de falar com o marido, Cândida recebeu um telefonema
do pai, tentando desencorajá-la. “Seu marido não gostou?”, perguntei-lhe. Respondeu
que

“Não, mas eu não quero nem saber. O corpo é meu, o dinheiro é meu, ninguém tem
nada a ver com isso. Agora você vê... eu tenho 38 anos e não posso tomar minhas
próprias decisões.” (Cândida, 38 anos, cliente do estúdio pesquisado na Tijuca)

Cândida não havia avisado ao marido que havia tomado a decisão e que iria ser
tatuada naquele dia. Ele tomou conhecimento da situação pelo telefone.
Nas situações acima, o marido aparece como alguém que pode gerar conflitos na
opção de se tatuar. A família é a instância que critica ou apóia uma decisão individual:
ao que tudo indica, os maridos criticando e as mães apoiando, o que sugere uma relação
mais profunda da tatuagem com o universo feminino, como se ela já fizesse parte de
uma cultura feminina, em que as mulheres se apóiam mutuamente. Mas porque os
maridos são contrários à tatuagem em suas esposas? Segundo Bourdieu (2003), sendo as
mulheres e seus corpos objetificados pela dominação masculina, tornados objetos de
uma economia de bens simbólicos, seu principal local de troca diz respeito ao mercado
matrimonial. A intervenção da família na vida das mulheres opera não apenas quanto à
salvaguarda de um objeto valioso para a reprodução da própria família como quanto à
idéia de que as mulheres devem ser dirigidas por seus homens (pai, irmão, marido).
No caso de Célia, ela informou ao marido sua decisão, mas não levou em
consideração suas críticas ou gosto pessoal, argumentando que o gosto a ser levado em
consideração era o dela, uma vez que o corpo a ser adornado era o dela. O fato de seu
172

marido não gostar de tatuagens não apenas não a incomodava, como não a inibia de
fazer mais algumas (fazia sua terceira marca). Só pensava em retirar a mais antiga, pois
aquela incomodava a ela mesma. Incômodo que não se originava no fato de estar
envelhecida, feia e desbotada, mas no fato de lhe causar transtornos no mundo do
trabalho. A tatuagem nova que adquiria na nuca não lhe causaria transtornos, pois
poderia escondê-la com os cabelos, conforme contou. Já Cândida não parecia
preocupada em revelar ou esconder sua tatuagem. Antes disso, precisou lidar com a
insatisfação de sua família. Mas há uma diferença entre Cândida e Célia: uma avisou ao
marido o que estava pretendendo fazer, e a outra não.
Em observação no estúdio de Copacabana, uma cliente, Carla, desistiu da
tatuagem que desejava fazer em função da proibição do namorado. Havia marcado hora
para tatuar uma tulipa na virilha, mas aproveitou a sessão para retocar um sol em preto
que havia tatuado há algumas semanas nas costas. Mantivemos o seguinte diálogo:

Carla - Meu namorado não quer de jeito nenhum [que eu tatue a virilha]. Como é
início de namoro, a gente finge que obedece.
Pesquisadora – Ele acha vulgar?
C - Não, ele fica perguntando aonde o tatuador vai se apoiar!
P - Então você deveria ter dito que era uma mulher que iria te tatuar.
C - Minhas amigas me disseram a mesma coisa, que eu deveria ter dito que era uma
mulher, mas eu não sei mentir, eu ia rir e estragar tudo!

A proibição não fora gerada pela tatuagem em si, mas pela localização escolhida.
O receio do rapaz era a exposição do corpo da namorada ao toque de outro homem,
mais do que ao olhar. Carla se submetia às restrições geradas pelo ciúme do namorado
pensando em fortalecer o namoro. Pensava que enfrentá-lo naquele momento poderia
abalar a relação. Esperava que estivesse fortalecida para fazer valer suas opiniões e
desejos sobre o próprio corpo. Nem cogitou mentir para o namorado, tão preocupada
estava com o relacionamento.
Quando se trata das tatuagens de amor, a reflexão sobre a quem, de fato,
pertence o corpo feminino – se à própria mulher ou ao seu marido ou namorado – se
torna mais evidente. Pretendo desenvolver este tema em outro capítulo, mas é
importante mencionar, aqui, que há situações contrárias, em que o marido ou namorado
pede para que seu nome ou as iniciais de seu nome sejam tatuados. Trata-se de uma
tatuagem de amor na forma de uma marca de propriedade sobre o outro.
173

Cláudia entrou no estúdio da Tijuca logo após Cândida viver seu episódio
familiar. Pareciam ter a mesma idade. O tatuador desenhou uma série de três querubins
segurando um coração.

“Eu sofri uma parada cardíaca há três semanas. Morri e voltei. Eu quero marcar
isso.” (Cláudia, cliente do estúdio pesquisado na Tijuca)

Pensava em tatuá-los no tornozelo, mas não queria que ficassem expostos, pois
no trabalho tinha “mais ou menos” problema. Depois chegou à conclusão de que, se
alguém visse o desenho, não se importava. Cláudia trabalhava como curadora de
exposições. Esta iria ser sua primeira tatuagem, mas também faria uma pomba na nuca
naquele mesmo dia.
Cláudia me confidenciara que ninguém em sua família sabia que estava para se
tatuar. A experiência de doença que levara ao desejo de se tatuar havia sido tão forte
que não quisera compartilhar a decisão. Tatuava-se, segundo ela, apenas em função da
experiência ocorrida, marcando na pele algo que a alma não seria capaz de apagar. Não
se preocupava com a reação ou o conhecimento prévio da família. Queria apenas se
tatuar em regiões do corpo que pudessem ser escondidas no mundo do trabalho.
Gostaria de tomar estes casos como ponto de partida para uma reflexão. A
família, especialmente o marido e também o namorado, aparece em todos como uma
instância controladora. Sendo membro de uma família, o corpo do indivíduo fica sujeito
às pressões familiares. Não levando em consideração a opinião da família, o que o
indivíduo demonstra é que seu corpo é propriedade e responsabilidade exclusivamente
suas e qualquer decisão por ele tomada, nesse sentido, é expressão de seu desejo
pessoal.
Há, na relação do indivíduo com a família, algo que permite a manifestação
dessas vontades individuais. No universo do trabalho, contudo, a pressão exercida é
sentida de forma muito maior.

3. Restrições no mercado de trabalho

É parte do imaginário dos tatuados a idéia de que o mundo do trabalho é hostil à


tatuagem. Neste sentido, sentem que são potenciais alvos de represálias e restrições.
Para não se tornarem vítimas do que costumam designar como “preconceito contra o
174

tatuado”, ou contra a tatuagem, a solução é optar por áreas do corpo que são pensadas
como menos expostas ao olhar. Nem sempre, contudo, a tatuagem está totalmente
escondida. Observa-se, então, o aparecimento de uma espécie de jogo entre a tatuagem
percebida pelo tatuado como um potencial problema em sua vida, o desejo de ser
tatuado ou fazer novas tatuagens, e a solução para esse conflito, que é manter os
desenhos escondidos na esfera profissional.
Em uma tarde de observação na Tijuca, ouvi a história de Célia, 28 anos, casada,
mãe de dois filhos, micro-empresária. Estava fazendo sua terceira tatuagem. A primeira,
contou, fizera aos 13 anos. Já estava desgastada e pensava em retirá-la com laser. Não
queria retocá-la nem cobrí-la com outro desenho, pois achava a região tatuada exposta,
à mostra com certos tipos de roupa. A tatuagem localizava-se nas costas, perto do
ombro. Segundo disse, esteve em um evento com clientes de sua empresa e, sentindo
calor, retirou o casaco. O vestido que usava deixava a tatuagem à mostra, o que foi
observado por algumas pessoas e automaticamente se transformou em assunto entre
elas. O comentário que recebeu e reproduziu para mim foi o seguinte: “Nossa, você tem
tatuagem? Mas nem parece!”.
A tatuagem executada sobre a adolescente de 13 anos passou a ser vista como um
transtorno quinze anos depois, em função das exigências do mercado de trabalho. O ato
de tatuar-se, contudo, não causou nenhum arrependimento, visto que Célia fez mais
duas tatuagens. A diferença era, apenas, na escolha da região do corpo: tatuava-se em
regiões em que pudesse esconder a marca.
Cláudia, que se tatuava em função da experiência de quase-morte provocada por
uma para cardíaca, fora ao estúdio da Tijuca sem o conhecimento de sua família.
Preocupava-a menos a reação desta do que a do mercado de trabalho. Queria se tatuar
em regiões do corpo que pudessem ser escondidas. Optou, então, pela nuca e pelo
tornozelo, ainda pensando se o último não era exposto demais. Na dúvida, exclamou:
“ah, se não gostarem também que se dane”. No universo do trabalho, a pressão é sentida
de forma muito maior do que no âmbito familiar. Há um cálculo, como demonstra
Cláudia, sobre o quanto este universo aceitará ou não o desejo individual.
Em outro dia, conversei com Cora, cliente assídua do estúdio da Tijuca. Já a
havia visto por lá em outras ocasiões. Cora tem 45 anos, é advogada, casada, mãe de
dois filhos. Segundo contou, tem oito tatuagens pelo corpo e inúmeros piercings nas
duas orelhas. Perguntei se as tatuagens e piercings não lhe atrapalhavam em questões
profissionais. A orelha, contou, cobria com o cabelo. As tatuagens dos pés se tornavam
175

invisíveis com calçados fechados, bem como as do corpo, cobertas pelas roupas. A
tatuagem do pulso era escondida com o relógio. Enquanto conversávamos, a tatuadora
formava opinião distinta daquela de Cora, dizendo que “no trabalho não pega tanto
assim”, mas Cora discordou e disse que “pegava sim”. Havia sido tatuada recentemente:
um desenho estilo comics de um homem com duas crianças, que ela dizia ser o marido e
os filhos, localizado nas costas, logo abaixo da nuca. Seu marido também é tatuado e
gostou da homenagem, bem como os filhos. Ela estava no estúdio naquele dia para
colorir um dragão que tatuou subindo do pé até o meio da canela direita.
Embora Cora diga que utiliza o vestuário para esconder suas tatuagens, muitas
permaneciam visíveis. Os sapatos não encobriam os desenhos dos pés tampouco as
pulseiras e relógios o do pulso. Esta observação me levou a questionar o quanto o medo
de preconceito e retaliações no mundo profissional é real e o quanto ele é parte do
imaginário sobre a tatuagem em nossa sociedade. Se o preconceito fosse tão forte
quanto é pensado pelos tatuados, eles provavelmente não alimentariam a atual
proliferação e profissionalização dos estúdios e seus tatuadores. Parece que o medo
quanto ao mercado de trabalho é alimentado por uma associação ainda presente no
senso-comum, conforme visto sobre os piercings, entre marginalidade e tatuagem.
Em outra ocasião, observei duas irmãs sendo tatuadas no mesmo dia,
acompanhadas pela mãe. Carmem, de 20 anos, tatuou um dragão pequeno, em preto,
estilo tribal, entre o ombro e o pescoço, um pouco acima do seio. Pensei que esta seria
considerada uma região bem aparente, mas Carmem havia escolhido o local segundo a
lógica do revelar/esconder.

“Aqui eu mostro quando eu quiser. Se não quiser, não mostro, ninguém vê. Eu me
preocupo com o meu trabalho, que é uma coisa que eu quero fazer também”.
(Carmem, 20 anos, cliente do estúdio pesquisado na Tijuca)

Não era a sua primeira tatuagem, que foi retocada no mesmo dia: uma minúscula
meia-lua com uma estrela atrás da orelha esquerda.
O grau de preocupação com os transtornos que uma tatuagem pode oferecer no
mundo do trabalho parece ser mais subjetivo do que objetivo. A nuca, escondida pelo
cabelo de Célia e Cláudia, não é um problema. A orelha de Cora, cheia de piercings, e a
orelha tatuada de Carmem tampouco as preocupavam. Cora, de fato, não parecia
preocupada em absoluto, embora pensasse que o universo do trabalho não a aceitaria
176

como advogada sendo uma mulher tatuada. O universo policial onde Carmem queria
ingressar, segundo ela, tampouco a aceitaria se as tatuagens fossem aparentes.
É no mundo do trabalho que se deve sempre esconder as tatuagens. Logo, o local
escolhido para as mesmas deve permitir que, nestes ambientes, elas sejam ocultadas,
enquanto em outros elas possam ser reveladas. O mundo do trabalho é visto como lócus
de controle sobre os sujeitos e seus corpos. Possuindo tal qualidade, é um universo onde
a expressão do Eu só é possível de forma limitada. Neste campo, o sujeito deve
esconder sinais que indiquem que ele não é o que se espera que seja. A tatuagem é vista
como uma forma de estigma (GOFFMAN, 1975) que deve ser encoberta, pois pode
alterar a percepção sobre os sujeitos que possuem a marca.
Em reportagem para o caderno Boa Chance do jornal O Globo de 1o de maio de
2005, Calaza (2005) ouviu a opinião de certos segmentos do mercado para entender até
que ponto ter uma tatuagem e um piercing podem ser prejudiciais à carreira ou ao
emprego. De fato, áreas mais tradicionais como o setor de saúde e o comércio são
contra a visibilidade de tatuagens para funcionários, em grande parte por receio da
reação do público. Em áreas mais inovadoras, como a publicidade, ambos os adornos
não são mal-vistos.
Reproduzo, a seguir, os comentários publicados na reportagem. Estes foram
divididos por áreas de atuação: comércio, saúde, construção civil, administração estatal
e propaganda. O primeiro deles é de João Carlos de Oliveira, presidente da Associação
Brasileira de Supermercados (ABRAS):

“Funcionários que lidam com o consumidor têm de ter apresentação adequada. A


tatuagem se enquadra aí: se for visível, pode agredir algumas pessoas. Quem quer
trabalhar no comércio tem de se enquadrar. Se quiser ter tatuagem ou piercing, que
o faça num local em que não apareça.” (João Carlos de Oliveira, presidente da
Associação Brasileira de Supermercados - ABRAS)

Para o presidente da ABRAS, a grande restrição recai sobre aqueles que lidam
com o público. A tatuagem é vista como um estigma: ela “pode agredir” quem a vê.
Para evitar essa agressão, deve ser escondida. Não julga, ainda, que tatuagem e boa
apresentação, boa aparência, caminhem juntas. Fica claro, na fala acima, que o mercado
de trabalho tem o poder de “enquadrar”, controlar, dissuadir e punir aqueles que não
correspondem às expectativas de perfil para preenchimento de funções e cargos.
177

O comentário mais forte, contudo, foi o de João Pantoja, coordenador do


Hospital Copa D’Or. Ele não apenas associa a tatuagem a um estigma como incorpora
na marca uma preocupação de saúde pública: tatuados podem ser pessoas doentes:

“A tatuagem exagerada ou aparente denota padrões de comportamento sujeitos a


riscos de doenças, como hepatite B e C. Além disso, o piercing e a tatuagem
exagerada podem afetar a confiança do paciente.” (João Pantoja, coordenador do
Hospital Copa D’Or)

Além de possivelmente doente, inapto ao trabalho, o tatuado é identificado como


alguém sobre quem recai uma eterna desconfiança: não da parte dos colegas
profissionais, mas da parte dos pacientes. É também pessoa cujo comportamento pode
ser moralmente reprovado. É comum que o discurso médico esteja eivado, no caso da
tatuagem, de um discurso moral. Entra em cena aqui, ainda, a idéia de exagero, que não
é definida, mas que está em íntima relação com a aparência, na forma “tatuagem
exagerada ou aparente”, como se um termo pudesse ser substituído pelo outro.
Como na citação anterior, deve-se esconder as marcas, pois assim cessam os
possíveis problemas gerados no trabalho. A questão é perguntar quem se sente agredido
ou desconfiado, pois há sempre um sujeito sem-nome, um grupo ou pessoa sem rosto ou
identidade, para quem a tatuagem é signo de má apresentação, trabalho mal feito e
doença.
Na área da construção civil, pontos comuns emergem nas falas dos atores
entrevistados. O primeiro é Sérgio Goldberg, construtor do projeto da Vila do Pan,
destinada aos atletas dos Jogos Pan-Americanos de 2007, a serem realizados na cidade
do Rio de Janeiro. O segundo é Rubem Vasconcelos, presidente da empresa de
construção civil Patrimóvel.

“O importante é a capacidade profissional. Mas pessoas que lidam com o público,


tatuadas, podem gerar preconceito.” (Sérgio Goldberg, construtor do projeto da
Vila do Pan, destinada aos atletas dos Jogos Pan-Americanos de 2007)

“Acho normal. Antigamente, tatuagem era tida como coisa de bandido, mas hoje
nossos filhos fazem. Não choca mais. Desde que não seja agressiva, no corpo
inteiro.” (Rubem Vasconcelos, presidente da empresa de construção civil
Patrimóvel)
178

Na primeira fala, o mérito emerge como fator mais importante para a contratação
ou manutenção de um profissional. Contudo, o público, novamente, ente difuso e sem-
rosto, é o grande vilão. O público não aceita ser atendido por pessoas tatuadas. Na
segunda fala, a tatuagem é vista como normal em comparação com seu status no
passado. Sendo normal, ela não choca mais. Mas normal significa restrita. A tatuagem
de corpo inteiro é vista como agressiva, mesmo termo utilizado na fala de João Carlos
de Oliveira, da ABRAS.
Aponta-se, ainda, para o novo status da marca, o de normal, como o produto da
apropriação que uma nova geração fez dela: “nossos filhos”. De fato, ver o filho
tatuado, saber que a tatuagem não alterou seu bom caráter, pode ser um dos caminhos
para a transformação desse difuso e nada preciso “preconceito”. A popularização da
tatuagem torna-se, então, um meio de extinguir as restrições a quem utiliza o adorno.
As falas mais liberais quanto aos tatuados vêm das áreas da propaganda e da
administração estatal que, a princípio, poderia ser um campo restritivo, dada a
formalidade da burocracia. Contudo, como esta é baseada no mérito e no
comprometimento com a execução de funções (WEBER, 1971), diluindo o ocupante do
cargo em uma impessoalidade, inverte-se o esperado, e a administração estatal se
apresenta como um ambiente mais liberal.
Washington Olivetto, diretor da agência publicitária W/Brasil, uma das mais
famosas do país, afirmou que:

“Tanto para a W/Brasil como para mim, o que importa numa pessoa é sua cabeça e
não o que ela tem no seu corpo. Um funcionário talentoso, de bom caráter e com
muita vontade de trabalhar pode usar o que quiser. Até entendo que existam
restrições para alguns setores. Mas nosso ambiente é de pura informalidade.”
(Washington Olivetto, diretor da agência publicitária W/Brasil)

O campo da publicidade, campo de criação, beneficia o mérito. Neste sentido, a


criatividade é qualidade mais importante no profissional da propaganda do que a
aparência. O ambiente da propaganda é informal: ele requer liberdade para criar. Mas,
alerta o publicitário, em outros ambientes profissionais as restrições são reais e mesmo
compreensíveis. Cai-se novamente na idéia de que há funções que não devem ser
exercidas por tatuados.
Ivan Moreira, presidente da Câmara dos Vereadores do Município do Rio de
Janeiro, disse que:
179

“Não vejo problema em servidor usar tatuagem ou piercing, mesmo em partes


visíveis. Não interfere no desempenho profissional.” (Ivan Moreira, presidente da
Câmara dos Vereadores do Município do Rio de Janeiro)

Falando apenas pelos servidores municipais, seu discurso é o mais liberal de


todos. Aqui o mérito é o único critério de avaliação do profissional, sem restrição
alguma àqueles que trabalham no atendimento ao público, como em outros setores do
mercado. O discurso do vereador está plenamente de acordo, é importante notar, com a
prática estatal do concurso público como forma de avaliação do mérito. Não importa a
aparência, como em outros setores do mercado de trabalho, mas apenas a competência
para o desempenho da função.
A partir destas opiniões de contratantes, é possível observar que há, de fato,
restrições ao uso de tatuagens em diversas áreas do mercado de trabalho. Contudo, a
maior parte das restrições diz respeito à visibilidade das tatuagens. Desta forma,
conclui-se que a estratégia de esconder as tatuagens, localizando-as em zonas do corpo
que possam ser cobertas pelo vestuário, é uma forma de sobrevivência. Por outro lado, o
que emerge em todas as falas é a idéia de que a tatuagem constrói um visual
estigmatizado, associado à desconfiança, à doença, à má aparência e, como
conseqüência, ao trabalho mal feito.
Poderia concluir, ainda, apontando para um imaginário que pensa sempre em
uma reação negativa ao encontro visual de uma tatuagem. A visibilidade da marca gera
um processo de estigmatização: ela não combina com trabalho, competência, confiança,
mérito. Mas para quem? Os empregadores jamais assumem a responsabilidade, jamais
apontam os tatuados como inadequados. Ao contrário, eles dizem estar lidando com
uma reação do público, cujo perfil nunca é definido. Sem saber quem impõe a restrição
aos empregadores, só resta aos tatuados imputar a estes as restrições que encontram para
modificar o próprio corpo, criando estratégias para manter a soberania sobre os próprios
desejos sem ter de se afastar do mercado.

4. Beleza e sedução

Leitão (2002) chama a atenção para a tatuagem feminina em sua função de


elemento de sedução. Não apenas a marca se torna mais uma do repertório de
180

embelezamento feminino e masculino, como este embelezamento é pensado em termos


de sedução do outro. Neste sentido, a coqueteria feminina segundo Bourdieu (2004) é
uma forma de atrair o olhar, reificando a posição de um corpo dominado, um corpo para
o outro.
Dois trechos me parecem interessantes para pensar a questão (LEITÃO, 2002, p.
114 e p.115):

“Pra homem eu acho que no braço é o mais bonito, porque essa parte do braço é uma
coisa tão masculina sabe... musculosa, bonita, forte, se ele tem uma tatuagem bonita
assim... só acrescenta.” (Carla)
“Pra mulher eu acho lindo no peito...Ai no seio é lindo, tu usa um decote e fica coisa
mais linda, super sensual, bem mulher fatal... e no pescoço... Aí prende o cabelo,
deixa cair aqueles fiapinhos... ai, e aquela tatuagem linda...” (Carla)

Sabino (2004) tem reflexão semelhante, não apenas com relação à tatuagem
feminina, mas a toda a construção física dos marombeiros. O vigor muscular, adornado
ou não por tatuagens, visa também a sedução. A localização das tatuagens é, neste
sentido, uma forma de valorizar determinadas regiões do corpo. Conforme uma das
entrevistadas de Sabino (2004, p. 270 ):

“...a gente faz tatuagem na nuca, na virilha, perto do bumbum... é claro, né? São
lugares de mulher fazer tattoo... por quê? Porque dá um tchan, um destaque naquela
parte que você acha que você tem de legal, que atrai os caras e deixa as mulheres
com inveja, que te dá aquele charme... entende? Se a mulher tem uma cintura bonita,
fininha, um quadril largo, ela manda logo uma tribal no cóccix, se ela tem um peitão
bacana manda uma no peito, e aí vai... sacou? Muita mina diz que faz na nuca, no
cóccix que é p’ra não enjoar da tattoo, porque ali ela não fica vendo o desenho o
tempo todo, tudo bem, pode até ser, mas é muito mais p’ra dar um destaque naquela
parte do corpo que ela acha legal.” (Juliana. 20 anos. Estudante).

Percebe-se que os locais a serem valorizados no corpo feminino são locais


erotizados, por isto sedutores: a cintura (fina) e o quadril (largo), tanto quanto as
nádegas (firmes) e os seios (fartos), mas também a nuca (exposta). Esta valorização se
dá por meio da atração do olhar para a região do corpo. Neste sentido, a marca é
utilizada com uma função muito própria e determinada: ela é um mecanismo de atração
181

do olhar para aquelas regiões do corpo que, em nossa cultura, se tornaram a própria
definição do corpo feminino, sobretudo a sua parte inferior.
Se o corpo feminino foi reduzido a seios e nádegas, o corpo masculino parece ter
sido reduzido a braços. Quero indicar aqui relação análoga à feminina, pois não são
apenas as mulheres a fazerem uso de tatuagens para atrair o olhar. No caso dos homens,
a região preferencial para ser tatuada é o braço. Não necessariamente um braço
musculoso. O braço masculino se tornou epíteto da própria masculinidade, pois é um
símbolo de força, que por sua vez se tornou a definição do masculino conforme
observado no presente trabalho.

5. Lidando com a dor: o frouxo e o carniceiro

A forma como o tatuado lida com a dor causada pelo processo da tatuagem pode
ser bem diferente segundo o gênero. Como aponta Le Breton (1995), os meninos são
criados, tanto na família quanto na escola, para se fecharem à dor, negando-a ou não a
demonstrando, enquanto as meninas são encorajadas a demonstrarem seus sentimentos.
Para eles, esse é parte do aprendizado de “ser um verdadeiro homem”.
Embora eu tenha recolhido relatos de tatuados, em conversas informais, que me
garantiam que o ato não é doloroso, outros afirmam que o processo envolve sua porção
de sacrifício. Os que negam a dor afirmam que existe uma sensação de queimação ou
ardido enquanto a agulha deposita os pigmentos abaixo da pele. Importa menos medir o
grau de resistência à dor de cada indivíduo do que os discursos relativos a ela: porque é
negada e porque é reificada.
Entre povos que se tatuam ou se tatuaram, a dor parece ter servido como
elemento que demonstra a coragem daquele que se submete ao processo. Esteja o
tatuado em silêncio ou aos berros (Gilbert, 2000), a sua atitude demonstra que ele é
corajoso o suficiente para submeter-se a um processo doloroso. A dor não é negada,
nestes casos, mas sim parte do ritual. Há que se esclarecer, contudo, que a técnica
contemporânea tem sido recorrentemente descrita (Gilbert, 2000; Schiffmacher, 2001)
como menos dolorosa do que a tradicional. A tatuagem tradicional, ou artesanal, é
realizada com instrumentos de poucas agulhas. A partir da invenção da máquina de
tatuar elétrica no final do século XIX, o processo se tornou mais rápido e por isso
menos doloroso. As agulhas são soldadas juntas e acopladas à máquina. Desta forma,
182

uma extensão de pele pode ser coberta de pigmento de forma mais rápida, pela
velocidade da máquina e pela quantidade de agulhas utilizadas.
A mão do tatuador pode oferecer sensações distintas de dor. Vulgarmente
descrita como mão leve ou mão pesada, a técnica do tatuador pode fazer o tatuado sentir
mais ou menos dor. A diferença está na pressão exercida sobre a máquina, a
profundidade em que as agulhas perfuram a pele. Quanto mais profundo, mais doloroso.
A técnica tradicional japonesa envolvia, segundo Gilbert (2000), três posições de mão.
A posição considerada melhor era aquela que provocava a menor dor, mas apenas os
tatuadores mais experientes conseguiam mantê-la.
Como a tatuagem é um processo que envolve algum desconforto físico – se não
a dor, ao menos o ardido –, poder-se-ia supor que masoquistas e adeptos de
sadomasoquismo se interessassem pela prática. Na literatura da área, apenas um autor
mencionou o fato. Steward (1990), que foi tatuador, menciona poucos sadomasoquistas
que foram seus clientes. Aparentemente, o prazer na dor de ser tatuado não lhes atrai,
uma vez que não há uma interação sexual ou erótica com o tatuador. Entre os
entrevistados por Leitão (2003), há mesmo os que dizem que querem uma tatuagem mas
não querem sentir dor. De fato, a tatuagem como é praticada contemporaneamente, pode
ser dissociada, na visão de alguns tatuados, da dor. Uma não tem que ser,
necessariamente, sinônimo da outra.
Mais recentemente, outras práticas de modificação corporal têm procurado
diretamente a experiência da dor. Em reportagem disponível em março de 2003, o site
IG (Jordão, 2003) mostra o exercício da “suspensão”, quando o indivíduo é erguido do
chão por ganchos colocados diretamente na carne, em perfurações mais profundas que
as utilizadas na técnica do piercing. A prática é descrita juntamente com outras práticas
de modificação corporal por corte ou queimadura, incluindo a tatuagem. Segundo uma
entrevistada, a dor não é uma busca, mas uma conseqüência da necessidade de
expressão pessoal através do corpo. A autora da reportagem afirma que para outros
praticantes a dor é um desafio a ser superado.
Buscada ou não, a dor é um elemento de inúmeras práticas corporais atuais.
Parece-me que ela é negada em certas situações e supervalorizada em outras. O esforço
físico da musculação pode resultar em uma dor que se prolonga por horas. A dor da
tatuagem é sentida apenas no momento da operação. A dor do piercing pode se manter
por alguns dias. Em qualquer caso, a dor é uma experiência pessoal subjetiva que não
pode ser medida, mas seus significados sociais podem ser analisados.
183

Entre os tatuados e os candidatos à tatuagem, percebi que a dor é sempre um


ponto de preocupação, surgindo ao longo das conversas que presenciei nos estúdios.
Durante o trabalho de campo, ouvi a pergunta “dói?” diversas vezes. A resposta
depende da região do corpo a ser tatuada. Os tatuadores que observei jamais negaram
que a tatuagem causasse pelo menos algum desconforto. Respostas como “é
suportável”, “não muito” ou “aí dói” são as mais comuns. Não se diz simplesmente
“sim” ou “não”, mas prepara-se o cliente, seja na forma de um incentivo ao minimizar a
possibilidade de dor, seja na forma de um alerta quanto à região escolhida. Algumas
regiões do corpo são consideradas (mais) dolorosas, como pescoço, coluna, pés,
cotovelos, canelas, peito e costelas. Como regra geral, pode-se dizer que as regiões
“ossudas” ou “sem carne” são as mais dolorosas.
Como exemplo da sensação de ardido, há o caso de uma cliente do estúdio, de
18 anos prestes a fazer sua primeira tatuagem, que perguntou ao tatuador já na sala de
tatuar, antes de iniciada a tatuagem, se era um processo doloroso. Ele respondeu que
não e que faria a tatuagem bem leve para que ela não sentisse nada. Quando começou o
contorno, feito com pigmento preto, perguntou a ela se “estava tudo bem”, como é
costume fazer. Ela informou que sim. O namorado, que a acompanhava, perguntou se
ela sentia dor. “É mais um choquinho... não é dor”, respondeu. Quando o tatuador
trocou as agulhas para colorir o desenho, ela perguntou se colorir doía mais. “É a
mesma coisa”, ele respondeu. Depois de algum tempo, ela sentiu dor. Não pediu para
parar o processo nem reclamou, mas mordia o dedo e curvava o corpo para frente.
Perguntei-lhe se doía, e ela disse que sim.
Uma outra cliente, também de 18 anos, fora até lá para sua primeira tatuagem,
acompanhada de uma amiga que já possuía algumas. Escolheu as costas, por trás do
ombro, para tatuá-lo. Estava preocupada com a dor que sentiria, mas a amiga lhe
incentivava, dizendo que doía, mas que se ela queria a marca teria de passar por isto e
que valia a pena. A moça fez caretas e reclamou da dor que sentia, mas seguiu em frente
com a tatuagem.
No quadro abaixo, apresento as reações e possíveis conseqüências destas quando
o tatuado vivencia e/ou representa o processo da tatuagem como doloroso ou não-
doloroso. Os processos de não-dor não significam, de forma alguma, insensibilidade
ante às agulhas da máquina de tatuar, mas sensações que são descritas com palavras
outras que “dor”, como ardência, queimação, cosquinha e choque. Todas são
consideradas sensações desagradáveis. Contudo, as quatro últimas seriam consideradas
184

como sensações não tão ruins quanto a dor. Trata-se, portanto, de uma forma de
minimizar a sensação desagradável vivida no ato de ser tatuado.

Quadro n. 4 – Tatuagem como processo doloroso ou não-doloroso


Choque/Ardência/Queimação/Cosquinha Dor
• Minimiza a sensação desagradável. • Maximiza a sensação desagradável.
• Não demonstra desagrado fisicamente • Demonstra desagrado fisicamente (faz
(conversa, canta, assobia, lê revista, etc). caretas, faz reclamações, pede pausas).
• Suportável. • Sacrifício.

Quando os tatuados dizem “não dói”, o que querem dizer, de fato, é que não se
trata de dor, mas de outras sensações. Neste sentido, retomo o relato de um cliente do
estúdio pesquisado na Tijuca, discurso colhido enquanto tinha a parte interna do braço
tatuada:

Pesquisadora – Aí dói?
Cliente - Não, aqui não dói muito não. É a posição que me incomoda.
P – Aí não dói não?
C - Não é que não dói, toda tatuagem dói, mas é suportável.

No relato acima, a dor existe, mas ela é minimizada e tratada como suportável.
Quando se utilizam termos como ardência, choquinho, cosquinha e queimação o que se
está fazendo, de fato, é minimizar a dor e representar o processo como de um incômodo
físico suportável.
Le Breton (1995), em livro sobre a dor, distingue a “dor aguda” da “dor
crônica”. Esta, incessante, sobrevivendo às medicações e tratamentos, é aquela que
perturba o sujeito a ponto de lhe roubar a própria identidade, jogando-o em um
rodamoinho existencial que envolve estados de depressão e sofrimento. Não é o caso da
dor como observada na tatuagem. Para alguns tatuados, ela nem mesmo poderia ser
considerada dor. Decorre disto que a postura esperada no estúdio, seja de homens ou de
mulheres, é o silêncio. Dá-se às mulheres, contudo, o privilégio de uma demonstração
pública da sensação de dor, enquanto esta é negada aos homens. É possível observar que
este silêncio é, muitas vezes, acompanhado de posturas corporais, indicando algum grau
de tensão em função do desconforto do procedimento. Entre a dor e a não-dor teríamos,
portanto, o silêncio.
185

Em alguns casos, os clientes parecem não sentir absolutamente nada. Em uma


tarde de observação, a tatuadora da casa recebeu um cliente para completar um desenho
no peito. Colocou o fundo azul num tubarão em preto e cinza e um pouco de sangue na
boca do animal. Ela e o cliente também conversaram sobre dor. O rapaz mostrou outro
lugar do corpo que pretendia tatuar ainda e ela respondeu: “ai dói, mas onde você fez
dói também”. “É, parece que eu só escolho mal”, ele respondeu. Mas de todos ali era o
único que não demonstrava nada.
Este caso indica que não há necessariamente um cálculo da parte do tatuado
sobre a dor, o que poderia levar alguns a não optarem pelas regiões reconhecidas como
mais dolorosas. Em alguns casos esse cálculo é possível, mas uma vez que a maioria
dos clientes que observei escolhia o desenho e o local a ser tatuado antes de perguntar
se o processo de tatuar ou a região a ser marcada eram dolorosos, penso que o principal
cálculo, se pode ser chamado assim, é de fundo estético, escolhendo-se um local no
corpo onde o desenho e o próprio corpo fiquem bonitos.
Não é raro o tatuador informar ao cliente que o local escolhido é doloroso e, no
início do processo, o cliente avisar que não está sentindo dor. Além do caso acima
relatado, observei, em outra ocasião, uma moça que queria tatuar o desenho de um gato
abaixo do rim esquerdo. A primeira coisa que perguntou foi se o local era doloroso. “Aí
dói um pouquinho”, a tatuadora respondeu. Começou a tatuar e perguntou se doía
muito. “Nada... é como uma cosquinha”, disse. E, de fato, não parecia sentir dor: sorria
e até cantava.
Interessante notar que não era sua primeira tatuagem, mas a terceira, e a idéia de
dor ainda a afligia de certo modo, caso contrário não teria perguntado a esse respeito. O
que pesa neste caso parece ser a localização e não o processo em si. Pode-se supor que
após a primeira tatuagem, a intensidade da dor causada no processo se torna conhecida,
temendo-se menos a agulhas e restando a idéia de dor relacionada a áreas específicas do
corpo. Neste caso, seria de se supor que os indivíduos calculassem, sob um processo
reflexivo, as áreas a serem tatuadas. Tal não parece acontecer, visto os exemplos
anteriores. A tatuagem é escolhida para determinadas regiões do corpo por processos
outros que não a fuga da dor.
Nos estúdios de tatuagem, a dor pode fazer um elo momentâneo entre os
tatuados. Sentir dor e expressá-la é uma maneira de conseguir apoio moral e verbal, mas
apenas entre mulheres. Uma cliente, em conversa informal, disse ter sentido muita dor
em sua segunda tatuagem (tatuava o terceiro desenho), localizada no pé. Recordava-se
186

de que, na época, um outro cliente a incentivava. Ele fazia um desenho grande em outra
região do corpo, enquanto ela escolhera um desenho pequeno, e supunha-se que a
comparação na extensão e no tempo da tatuagem fizesse com que ela se sentisse mais
confortável. Mesmo assim, disse-me que sentiu muita dor. Observei uma outra cliente
sendo tatuada no pé e toda a expressão corporal da moça demonstrava o quanto a
tatuagem era dolorosa. Ela segurava a mão do namorado com tanta força que ele
reclamou. Contorcia o rosto em inúmeras caretas, mas não pediu nenhuma pausa ao
tatuador, nem tampouco reclamou.
As pessoas que sentem dor e a expressam pedem mais pausas ao tatuador do que
ele gostaria de lhes dar, pois isto alonga o tempo do processo. Estas pessoas, em sua
maioria mulheres, também costumam dizer o quanto a tatuagem está sendo dolorosa.
Eventualmente, alguns homens expressam dor, mas jamais com a mesma intensidade
que as mulheres, que fazem caretas, torcem o corpo e pedem pausas. Em uma tarde no
estúdio pesquisado na Tijuca, observei um rapaz de menos de 30 anos que chegava para
colorir uma tatuagem na parte da frente da canela, região considerada dolorosa. Ele
havia tatuado um elefante em preto, com sombras em cinza, e voltara para que o
tatuador colorisse o animal com um tom de rosa envelhecido e colorisse a água do lago
em que ele estava de pé. Em determinado momento, o rapaz reclamou que “isso não
doía assim”. O tatuador fez uma pausa por conta própria, para fumar um cigarro,
embora o rapaz quisesse continuar.

5.1. A pomada anestésica

A dor pode ser minimizada com o uso de uma pomada anestésica, raramente
indicada pelos tatuadores no estúdio da Tijuca mas freqüentemente utilizada no estúdio
de Copacabana. Clientes aparentemente apavorados quanto à possibilidade de dor,
utilizam a pomada. Testemunhei um caso destes quando surgiu no estúdio da Tijuca
uma moça que queria tatuar uma estrela de cinco pontas abaixo do pescoço. Estava bem
nervosa e o tatuador parecia irritado com seu nervosismo2. Disse-me que sempre quis
uma tatuagem, mas não tinha coragem. Depois que a irmã mais nova fez a sua segunda

2
LEITÃO (2003) descreve a mesma reação em um tatuador de Porto Alegre, que se referiu à
sensibilidade de uma cliente como “frescura” e se referia à sensibilidade à dor da tatuagem, de um modo
geral, como “coisa de mulherzinha”.
187

tatuagem naquele mesmo estúdio, na semana anterior, ela se decidiu. Ao iniciar o


processo, a moça se acalmou, comentando que não estava sentido dor alguma.
Em apenas uma ocasião no estúdio pesquisado na Tijuca vi um tatuador
prescrever a pomada anestésica (normalmente é o cliente que pergunta sobre ela): o
cliente queria tatuar a região da costela, considerada dolorosa, com um dragão de cerca
de um palmo. Este é um desenho demorado, cheio de detalhes, e extenso. Quando o
cliente retornou à loja para ser tatuado, não havia aplicado a pomada. Em casos como
este, creio que a dor é pensada como condição do processo de tatuagem: aqui,
especificamente, relacionada à idéia do ethos guerreiro. Não há porque não utilizar a
pomada anestésica quando o próprio tatuador recomenda seu uso (baseado,
provavelmente, na idéia de que se a dor for por demais intensa, o trabalho terá de ser
pausado e reiniciado em uma nova sessão). Levando-se em consideração que os
tatuadores só prescrevem a pomada em casos específicos, se o conselho não é seguido,
então a dor é elemento crucial, constituindo-se o processo em algo muito maior do que
simplesmente um desenho encravado na pele.
A pomada é receitada porque o conforto do cliente é fundamental, pois implica a
continuidade do trabalho. A dor é um impedimento à execução mais rápida, pois faz
com que os tatuados queiram pausas na operação. Certa tarde chegou ao estúdio da
Tijuca uma moça branca, bronzeada, cabelos compridos. Queria cobrir um desenho
antigo de flores nas costas, feito há 10 anos, próximo ao ombro esquerdo. Optou por um
beija-flor e novas flores foram aplicadas em free hand. Ela se olhava muitas vezes no
espelho, acompanhando o processo. Sentia muita dor. No início, enquanto o profissional
fazia o contorno do desenho em negro, reclamou e pediu para parar. Chamou o tatuador
para fumar fora do estúdio e ele foi. Fizeram isso duas vezes. “Eu sou chata... eu sinto
muita dor”, falou para ele. Fazia muitas caretas e pediu mais duas pausas, mesmo
quando o trabalho estava praticamente pronto, num total de quatro pausas para um
desenho considerado de tamanho pequeno. Em se tratando de uma mulher, não houve
comentários sobre covardia. Pareceu-me que o tatuador se incomodava em não concluir
o trabalho logo, mas não fez comentários, nem mesmo depois que ela saiu.
Mesmo os tatuadores sentem dor no processo, pois não existe uma técnica para
suportá-la melhor. Tive a oportunidade de observar um dos tatuadores da Tijuca sendo
tatuado por um de seus colegas. Cobria desenhos antigos no antebraço esquerdo com
uma tatuagem oriental. Estes desenhos costumam ser ricos em detalhes, dificultando sua
execução e tomando um tempo maior. Perguntei-lhe porque cobria os antigos. Ele disse
188

que estavam velhos, desbotados e feios. Perguntou-me se eu iria tatuar. Neguei,


explicando que estava lá para uma pesquisa. Perguntou:

“Você escreveu aí que essa porra dói para caralho?3 Quando chega no osso, dói para
caralho.” (Tatuador do estúdio pesquisado na Tijuca)

Foi impressionante ver um tatuador reclamar de dor. Ao longo da tarde,


enquanto o desenho era colorido em vermelho, ele falou sobre isso várias vezes. Outro
tatuador perguntou se não estava inchando o braço. “Está inchado já... daqui a pouco
vou ter que parar”, respondeu. “Mas foda mesmo foi aqui” e mostrou o cotovelo
colorido de preto.
Pode-se questionar por que o tatuador não fez uso da pomada anestésica. Parece
que tal recurso não funciona bem em áreas ossudas. Uma cliente que estava colorindo
um dragão, que ia de seu pé até a metade de sua canela, reclamava, em certa tarde neste
mesmo estúdio, que passara a pomada, mas que não estava sentindo nenhum alívio.
Fazia muitas caretas e falava sobre a dor que sentia. Quando as agulhas atingiram a pele
que cobre o osso do tornozelo, ela parou de falar, alegando que sentia tamanha dor que
não conseguia falar.
O proprietário do estúdio pesquisado em Copacabana, contudo, não apenas já fez
uso da pomada como acha que ela serve justamente para as regiões mais dolorosas.

“Já usei sim... vou sentir dor à toa? Eu não! Mas é mais para região dolorosa mesmo,
tipo coluna e canela. Braço assim por fora, não tem necessidade. Não é que não
dói... cara, tatuagem dói, entende? Não tem o que fazer. Mas têm regiões em que é
tranqüilo, você vai.” (proprietário do estúdio pesquisado em Copacabana)

Segundo ele, a pomada é utilizada há menos de 10 anos. Ela não retira


totalmente a sensação dolorosa das áreas mais sensíveis, mas alivia. Utilizando a
pomada, a dor some ou é minimizada. Mas o que o tatuador indica é que essa
dissociação não é possível, pois o procedimento é doloroso. A questão posta, então, é
não sentir dor “a toa”, sem necessidade, dissociando a tatuagem e a dor decorrente de
sua aplicação de um eventual significado para a dor. Não obstante, tenho indicado que

3
Um cliente de Copacabana, um senhor aposentado fazendo sua primeira tatuagem, localizada no braço,
teve a mesmo reação que o tatuador ao saber que eu estava no estúdio realizando uma pesquisa. Disse:
“escreve que isso dói, viu?”.
189

se a dor não tem significado em si, ela ganha sentido na postura adotada para se lidar
com ela. Em outras palavras, não se busca a tatuagem para sentir dor, mas lidar com a
dor é peça fundamental no processo, especialmente para os homens. No lidar com a dor
a masculinidade se torna alvo de observação e teste.
A pomada anestésica faz parte da gama de novos medicamentos criados para o
combate à dor. Conforme aponta Le Breton (1995), uma das principais preocupações
médicas é a diminuição da dor dos enfermos. A utilização de anestésicos cresceu,
também, em função da diminuição na tolerância individual à dor. Observa-se a dor hoje,
segundo o autor, como algo sem sentido, uma espécie de tortura. O mesmo ocorre nos
estúdios de tatuagem. Contudo, é necessário observar que a resistência à dor apresenta
um elemento de classe. Entre as camadas mais baixas da população, ela é mais bem
tolerada do que entre as camadas altas. O uso extensivo da pomada no estúdio de
Copacabana, ainda que muitos dos clientes desconhecessem totalmente o medicamento,
ao contrário de seu uso pouco existente no estúdio da Tijuca, indicam um componente
de classe operando no universo dos estúdios de tatuagem.

5.2. Coragem

“Coragem” é um termo comumente utilizado por clientes que fazem a primeira


tatuagem. Dizem que não tinham tido coragem antes ou não querem esperar quando o
estúdio está movimentado para não perderem a coragem. Em certa ocasião, observei
uma cliente da loja ansiosa em vencer o medo. Ela e a amiga queriam tatuagens e
escolhiam entre os desenhos menores. A amiga queria um “sol tribal” com a primeira
letra de seu nome no meio do círculo, para ser tatuado nas costas. O profissional que as
atendia perguntou se esperaria uma outra cliente ser tatuada, pois ela havia se decidido
antes. Respondeu:

“Ah não, se não for hoje eu perco a coragem.” (Cliente do estúdio pesquisado na
Tijuca)

Em outra ocasião, uma cliente de 45 anos, tatuava no pé uma homenagem à


filha, moça de 17 anos que a acompanhava no estúdio: “amor eterno, Andrezza...”. Era
sua primeira tatuagem. Ao comentar que sempre desejara ter uma, perguntei-lhe porque
demorou tanto tempo para satisfazer seu desejo. Respondeu:
190

“Me faltou coragem. Se não doesse, faria uma outra.” (Cliente do estúdio pesquisado
na Tijuca)

Mas sentia muita dor, o que a desencorajava. Ainda assim, disse que talvez
fizesse outra no ano seguinte.
É interessante que os relatos sobre ter ou não ter coragem são sempre de
mulheres. Está implícito aqui uma variável de gênero que seria constitutiva da própria
masculinidade: a coragem é um atributo masculino. Ela pode faltar às mulheres, mas
jamais aos homens. Mesmo quando o tatuador alerta que a região do corpo é dolorosa –
como observei no estúdio quando um rapaz desejava tatuar a costela e foi recomendado
que utilizasse uma pomada anestésica –, jamais um homem remete à sua falta de
coragem. A pomada, conforme visto, não é receitada normalmente na Tijuca, ao
contrário do que observei em Copacabana. O rapaz em questão, ao retornar ao estúdio
para a tatuagem, não havia feito uso da pomada. Conforme será visto a seguir,
reclamações masculinas sobre a dor do procedimento, quando consideradas pelo
tatuador como excessivas, são sinônimos de covardia, de fraqueza, de falta de
masculinidade.
Entre povos que se tatuam ou se tatuaram, a dor parece ter servido como
elemento que demonstra a coragem daquele que se submete à operação. Esteja o tatuado
em silêncio ou aos berros (GILBERT, 2000), a sua atitude demonstra que ele é corajoso
o suficiente para submeter-se a um processo doloroso. A dor não é negada, nestes casos,
mas sim parte do ritual. Há que se esclarecer, contudo, que a técnica contemporânea tem
sido recorrentemente descrita (GILBERT, 2000; SCHIFFMACHER, 2001) como
menos dolorosa do que a tradicional. Como será visto adiante, essa ritualística parece ter
sido mantida pelos homens tatuados nos estúdios observados.

5.3. Dor e masculinidade

Se a dor for muito intensa, é comum que se opte por várias sessões. Contudo, o
cliente pode deixar a tatuagem inacabada ou demorar anos para terminá-la. Conheci um
cliente que queria finalizar um desenho feito naquele mesmo estúdio há anos atrás: uma
onça mordendo o cabo de uma guitarra. O tatuador proprietário do estúdio comentou
que o desenho estava ruim, com os traços de contorno se tornando mais grossos por não
191

ter sido finalizado e que teria de refazer certas partes. Achou melhor não colorir o
desenho e o cliente também.
Ele não havia terminado a tatuagem em função da dor. Disse-me que na época
estava em jejum e a dor fez com que sua pressão arterial abaixasse. Disse, ainda, que
por ser gordinho sentia mais dor e que quando a agulha picava a gordura doía muito.
Dessa vez, comentou, havia passado a pomada anestésica. O desenho localizava-se no
bíceps direito, local que não é considerado doloroso. Este cliente, um homem moreno,
gordo, alto, cerca de 40 anos, é músico profissional. Em sua banda, contou, todos são
tatuados e ele, dizendo-se vaidoso, resolveu fazer a sua. Como não terminou, foi motivo
de piada.
A chacota quanto à dor é comum entre os clientes homens. Vale ainda a máxima
de que “homem não chora”, traduzida no mundo da tatuagem para a idéia de que os
homens não devem reclamar da dor. Comentários masculinos sobre a dor são comuns,
mas reclamações em excesso geram impaciência nos tatuadores. Pude presenciar a
reação dos tatuadores às diferentes condutas numa mesma tarde de observação na
Tijuca. Um dos tatuadores da casa atendeu um cliente: um rapaz magro e alto, branco.
Tinha um painel nas costas, que começara há dois anos: uma mulher lutando contra um
dragão, imagem retirada da capa de um livro. Havia passado a pomada anestésica e
falou que não suportava a dor. Havia tatuado um Demônio da Tasmânia, personagem de
desenho animado, na parte interna do braço esquerdo há 10 anos e não sentira dor. O
diálogo entre cliente e tatuador tomou a seguinte forma:

Tatuador - Você é um frouxo! O cara mais frouxo que eu já vi!


Cliente - Você que é um carniceiro! Eu não quero sentir dor. Sou capaz de desmaiar
aqui. Minhas mãos estão molhadas. Eu estou suando frio!
T - Se você desmaiar, aí eu termino [a tatuagem]!

Normalmente os tatuadores são cuidadosos quanto à dor e perguntam aos


clientes se “está tudo bem” várias vezes, como vi outros tatuadores fazerem naquela
mesma tarde. A intimidade foi o que permitiu a brincadeira. Embora realizada entre
velhos conhecidos, ficou clara a expectativa que se tem quanto à dor: ela deve ser
suportada pelos clientes para que o tatuador possa exercer seu trabalho. Nos homens, é
uma demonstração de masculinidade.
192

No universo masculino, a brincadeira parece ser a forma de atenuar tensões de


modo não-violento. Quando se diz a um homem que ele é frouxo, o que se está
apontando, de fato, é a sua precária masculinidade. Em outras palavras, diz-se que não é
homem. O cliente, para defender-se de tal acusação, rebate a pilhéria chamando o
tatuador de carniceiro, o que na profissão é ofensa.
Um segundo cliente interveio na conversa. Havia se tatuado mais cedo,
retocando um desenho antigo e fazendo um novo. Ao ser tatuado, reclamava
eventualmente da dor e mexia constantemente os pés, demonstrando o desconforto.

“Se me perguntarem se dói, eu falo ‘dói’. Não vou dizer outra coisa. Tem gente que
diz que não... Eu reclamo, faço cara feia mesmo... não vai sair daqui! Não tem
problema, ninguém vai ficar sabendo mesmo!”. (Cliente do estúdio pesquisado na
Tijuca)

Enquanto isto, o rapaz que tatuava as costas se contorcia, alegando que a


pomada havia perdido o efeito. De fato, parece que o efeito anestésico passa duas a três
horas após sua aplicação. Segurava-se na cadeira, mordia o encosto e pedia uma pausa a
todo o momento.
Pode-se observar como a dor é encarada de formas diferentes. Cuida-se de que
não seja insuportável, mas não se gosta de clientes sensíveis. Estes são “frouxos”. A
idéia não é fazer sentir dor, mas ela existe e tem que ser tolerada para que o trabalho
seja finalizado. Suportar a dor é “macheza”, mas, desde que ninguém saiba, não é
fraqueza demonstrá-la. Contudo, observe-se o que o segundo cliente disse. Ele
declarava sua dor para pessoas que não o viram ser tatuado, embora dissesse que o
importante era que não soubessem de sua “fraqueza”, que ele também não tolerava a
dor. Mas ele mesmo contava a respeito, de onde se pode concluir que seu discurso sobre
a dor é do tipo que a afirma para demonstrar força.
Houve um episódio interessante no mesmo dia. Este último cliente contou aos
presentes que seu amigo, prestes a ser tatuado, estudava fisioterapia.

Cliente 1 - Você [referindo-se ao cliente 2] vai ter clientes aqui. Tendinite é doença
de tatuador
Tatuador - [Um dos profissionais mostrou os pulsos para o rapaz] O que eu tenho
aqui?
Cliente 2 – É um calo ósseo. Você sente dor?
193

T – Não.
C2 - Mas é melhor tirar
T - E isso dói?
C2 - Menos que uma tatuagem!

O comentário fez todos gargalharem: primeiro, porque o cliente deste tatuador


era o que mais reclamava; segundo, porque se observava ali uma inversão de posições.
O não uso de pomadas anestésicas por parte dos homens, incorre, a meu ver, na
idéia do ethos guerreiro, da mesma forma que silenciar sobre a dor é uma forma de
demonstrar força e coragem, sinônimos de virilidade. Para Le Breton (2002), a dor
envolvida no processo já foi parte, em determinados grupos (marinheiros, oficiais,
criminosos), de uma forma de prova de virilidade. Embora o autor pense que esta
característica da tatuagem não existe mais contemporaneamente, eu sugeriria que a
prova de virilidade não se extinguiu enquanto tal. O processo parece ser decodificado
como uma prova não apenas entre os tatuados mas também entre os tatuadores, que
observam a intolerância à dor como uma forma de fraqueza, como se o tatuado não
houvesse passado em sua prova de virilidade e, portanto, não merecesse respeito. Esta é
uma prova levada a cabo dentro de um universo masculino, onde só a outros homens
cabe demonstrar que se é macho. O cerne da prova é o silêncio quanto à dor. Sacrifica-
se a própria carne em uma espécie de rito de sangue que só vale como rito de
masculinidade na medida em que o tatuado mantém suas emoções sob controle e
consegue finalizar o processo. Caso contrário, ele será motivo de riso dentro e fora do
estúdio.
Le Breton (2000) evoca, no lugar da prova de virilidade, um imaginário dos
tatuados sobre a tatuagem como um universo de força interior e indiferença quanto ao
julgamento exterior, relacionado à idéia de um certo preconceito contra os tatuados, um
universo onde se prova a si mesmo coragem e resistência. Eu não creio que esta seja a
realidade da tatuagem carioca. Não me parece que a escolha pela marca seja oriunda de
uma vontade de provar a si mesmo coragem, resistência ou força interior, mas
eventualmente a outros. Nem todos os casos, contudo, comportam este tipo de prova. As
idéias de força, coragem e resistência são, como mencionado, vinculadas a uma
identidade masculina. Para as mulheres, maioria nos estúdios, não faz sentido essa
prova a si mesma. Ao contrário, elas parecem querer demonstrar aos outros a sua
194

autonomia, sua auto-gestão do próprio corpo e da própria vida, conforme observado


anteriormente.
É fato, como observa o autor, que a dor acompanha muitos processos de
embelezamento, sobretudo os femininos. Desta forma, a dor da tatuagem está, para elas,
relacionada a uma gama de incômodos que permeia vários outros processos de
embelezamento, como a depilação, por exemplo. No caso dos homens, ao contrário, não
é a beleza que está em voga quando se lida com a dor. Para eles, a dor não é apenas
parte do processo de tatuagem, mas parte do próprio processo de fabricação da
virilidade.

6. Pensando as diferenças de gênero nos estúdios

A partir dos dados levantados, foi possível observar que os desenhos tatuados e
as regiões do corpo que apresentam tais desenhos seguem uma lógica de diferenciação
de gênero análoga àquela encontrada na sociedade brasileira de um modo geral. Os
desenhos femininos remetem a noções de fragilidade e delicadeza, enquanto os
desenhos mais procurados pelos homens, ao contrário, remetem a noções de violência e
força. Esta distinção presente no universo da tatuagem carioca corresponde a
representações de gênero da própria sociedade onde o masculino é sinônimo de força e
o feminino de fraqueza, reificando uma ordem masculina em que o feminino é
submetido e subjugado.
Estas diferenças são percebidas conscientemente pelos clientes dos estúdios,
tanto quanto pelos tatuadores, que buscam manter tais distinções. Assim, animais
agressivos e potencialmente vistos como masculinos, como o leão e o tubarão, adornam
os corpos femininos após passar por uma transformação em que são retirados os traços
de agressividade. As mulheres, zelosas de sua feminilidade tanto quanto os homens de
sua masculinidade, não gostam de desenhos considerados masculinos e fogem, via de
regra, de regiões do corpo consideradas como típicas dos homens.
As regiões do corpo tatuadas, também classificadas como femininas e
masculinas, apontam para esta mesma noção do masculino como sinônimo de força e do
feminino como sinônimo de fragilidade e delicadeza. Assim, eles tatuam os braços com
desenhos considerados grandes, “coisa de homem”, enquanto elas escondem desenhos
pequenos em regiões discretas como a nuca, por exemplo. Esta discrição não encobre,
contudo, uma determinada visão do feminino como algo menor, encolhido, que não
195

deve estar à mostra ou à vista, a não ser quando da sua função de sedução, de elemento
que embeleza e agrega valor ao corpo feminino. Se uma tatuagem pode transformar o
homem, agregando-lhe masculinidade, os desenhos femininos agregam beleza e
capacidade de sedução, direcionando o olhar para áreas estratégicas do corpo. Torna-se
mais homem no estúdio, isto é, adquire-se mais masculinidade, pois, como indicado,
submeter-se à tatuagem é submeter-se a um ato de sacrifício em que a dor deve ser
suportada de forma a servir como prova de virilidade.
Por outro lado, se às mulheres não se impõem a prática como prova de coragem
e força, não deixa de ser necessária alguma determinação, não apenas no enfrentamento
da dor, mas sobretudo no enfrentamento de posições contrárias à marca da parte do
marido e da família. Emerge, assim, o ato de ser tatuado, para elas, como espaço de
decisão individual sobre o próprio corpo e o próprio destino, ambos submetidos à
opinião e desejos de terceiros, a todo momento dispostos a cercear suas preferências
pessoais. O corpo controlado da mulher é seu destino controlado. Neste sentido, tomar a
decisão de tatuar-se é tomar as rédeas de seu próprio destino, expresso no símbolo de
autonomia em que se transforma a própria tatuagem.
196

CAPÍTULO VII - SENTIMENTOS, LEMBRANÇAS E ESQUECIMENTOS: a


tatuagem como expressão de um momento na história de vida

“Não só quem nos odeia ou nos inveja


Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita”
Ricardo Reis [Fernando Pessoa]

Tenho utilizado como argumentos as noções de dentro/fora, exclusão/inclusão e


controle/autonomia, vistas a partir de um pano de fundo teórico da tensão entre indivíduo e
sociedade. As tatuagens de amor formam mais um caso desta tensão, onde as díades
conceituais acima emergem. A singularidade das tatuagens de amor, que fez com que eu as
dispusesse em capítulo próprio, repousa na sua qualidade explícita de marca de
propriedade, não como posse de si (BENSON, 2000; LE BRETON, 2002), mas como uma
doação de si ao outro, ou uma requisição de posse sobre o outro. Assim, estas marcas de
amor indicam que a dinâmica das relações amorosas está perpassada por uma disputa de
poder, onde as relações de gênero mais uma vez são elemento crucial.
Enquanto apresento a tatuagem em todo o presente estudo como uma forma de
construção de um determinado modelo de individualismo, onde o papel da distinção é
fundamental, relacionando-se ainda à percepção de uma falta de autonomia dos sujeitos em
nossa sociedade, as tatuagens de amor, na contramão desta construção de autonomia sobre
si e resistência ao controle, apresentam um discurso da desistência da autonomia em prol de
uma unidade vista no casal. Em outras palavras, e fugindo às possíveis polêmicas sobre o
interesse pessoal nas relações amorosas, a marca de amor se torna um laço que ao mesmo
tempo em que submete quem o porta, retira a autonomia também do outro, daquele a quem
a marca é dada como espécie de prova de amor.
Novamente aqui parece se tratar de trazer para dentro de si algo do mundo exterior,
injetando junto com as tintas uma relação amorosa na própria carne, eternizada na marca
sobre a pele. A dinâmica interno/externo, ou dentro/fora, opera aqui em seu ápice, uma vez
que se trata de expressar sentimentos e, ao mesmo tempo, uma relação social. As
motivações da tatuagem de amor não diferem, a meu ver, das motivações para qualquer
197

outra tatuagem, apenas ela toma uma forma que parece direcionar-se para longe da
construção de uma autonomia ou resistência. Nesse sentido, a experiência da tatuagem de
amor não é a da construção ou percepção de um espaço de autonomia pessoal, mas sim da
sua falta, na forma de uma recusa a esta autonomia em prol de uma relação que é pensada
como mais importante do que a unidade individual, e portanto mais valorizada. Enquanto a
tatuagem parece operar a partir de um processo de ganho de autonomia pessoal, as
tatuagens de amor funcionam ao contrário: o apaixonado exprime a perda de autonomia
pessoal na marca de propriedade sobre seu corpo.

1. As tatuagens de amor: sentimento à flor da pele

As tatuagens de amor são um caso paradigmático para a discussão que levanto no


presente trabalho. Trata-se de uma situação em que a idéia de pertencimento é levada ao
extremo e não está associada a um grupo social, mas a um outro indivíduo, relacionando-se,
ainda, à idéia de indistinção. Contudo, não é o caso de tomar o pertencimento como oposto
ao significado pessoal que se dá à marca. Nas tatuagens de amor, todas as conclusões
anteriores parecem ser postas em xeque, apenas porque a dinâmica que orienta esse tipo de
marca é totalmente sui generis no universo da tatuagem, quando em comparação com
outros tipos de tatuagens.
Existem vários estilos de tatuagens, determinados pelas técnicas empregadas, cores,
tipos de desenhos. Entre os mais conhecidos estão: tribais (curvas e espinhos em negro),
orientais (japonesas), old school (desenhos tradicionais), new school (cores vibrantes com
influência do grafite), realistas (reprodução de retratos), entre outros. Além dos estilos, o
universo da tatuagem opera outras classificações, muitas vezes transversais. A
“homenagem”, por exemplo, não é um estilo gráfico, mas constitui uma forma de tatuagem
que, como o nome diz, presta homenagem a entes queridos. Pode tomar a forma de escrita
(nome, iniciais, frases) ou de fotografia (retrato).
Destaquei, dentro do que seria considerado como “homenagem”, um tipo especial
de tatuagem que chamo “tatuagem de amor” (Figura 16). Ao contrário das “homenagens”,
que são prestadas mais freqüentemente a pais e filhos, mas eventualmente também a
animais de estimação, as tatuagens de amor são direcionadas exclusivamente ao
namorado(a), marido/esposa, companheiro(a).
198

As tatuagens de amor não são a forma mais popular de tatuagem, nem entre homens
nem entre mulheres. Não foi possível, nos estúdios, obter dados quantitativos sobre a
freqüência de tal prática. Como as tatuagens de amor referem-se tanto a fotografias (estilo
realista) quanto a iniciais e nomes, torna-se difícil a análise dos dados, uma vez que jamais
é indicado que o tipo de tatuagem executado foi “de amor”. As fotografias e tatuagens
realistas podem se referir a uma gama variada de temas, enquanto as “escritas” ou “letras”,
como são classificados os nomes e iniciais, podem se referir ainda a frases ou palavras que
nada tenham a ver com provas de amor. Por outro lado, o nome da pessoa amada pode não
ser escrito em nosso alfabeto, mas em ideogramas chineses ou japoneses.
Pretendo discutir aqui como este tipo de tatuagem se relaciona a concepções sobre
as relações amorosas como sendo eternas e como, muitas vezes, a marca de amor toma a
forma de uma marca de propriedade. Para tanto, serão analisados casos observados durante
a pesquisa de campo. Em um deles, duas mulheres se submetiam à marca de amor: uma a
pedido do namorado, a outra como um presente a seu marido. No outro estúdio, um casal
recém-casado decidira tatuar o nome um do outro, enquanto um rapaz tatuava o rosto da
companheira a seu pedido.
A permanência do procedimento, em conjugação com a idéia de um amor para
sempre, parece ser uma das razões que levam a este tipo de tatuagem. Por outro lado,
parece estar em jogo também uma noção de que a relação afetiva é composta por dois
sujeitos, mas baseada em uma unidade indivisível entre eles, o que permite que o nome ou
retrato do Outro seja marcado no Eu.
Quando a relação termina, o estúdio é novamente buscado para que se cubra a
tatuagem de amor com outro desenho. No estúdio de Copacabana, observei alguns casos:
um rapaz desejava desenhar sobre o nome da ex-namorada o animal que era o seu apelido
(Rato); uma mulher separada pensava em cobrir o nome do ex-marido; um homem tatuava
o nome da atual namorada, mas recusava-se a apagar o de sua ex, por quem ainda nutria
fortes sentimentos; uma viúva que fora obrigada a ser tatuada pelo marido, após descobrir
que ele tivera duas amantes durante o casamento, esperava um novo amor que lhe pedisse
para retirar a marca. Um outro caso surgiu, ainda, em conversa com um tatuador do estúdio:
um cliente que decidiu não cobrir os nomes das ex-namoradas, mas riscá-los com uma linha
horizontal, mantendo-os visíveis porém indicando o final das relações.
199

No grupo que optou pela tatuagem de amor estão: Jorge, Joaquim, José, Joana, Júlia
e Joyce. Destes, três estavam casados: Jorge, Joana e Joyce. Nenhum deles obteve prova de
amor igual de seus cônjuges, ou seja, uma tatuagem de amor, enquanto fiz a observação nos
estúdios. Joaquim mantinha relação clandestina com Roberta, ao passo que José e Júlia
estavam namorando quando fizeram as tatuagens de amor. José possuía já o nome de uma
antiga companheira tatuado no mesmo braço em que dispôs o nome de sua atual namorada.
Joaquim e Júlia, por sua vez, tatuavam-se a pedido de seus parceiros. Enquanto Júlia se
questionava sobre a validade da prova de amor, Joaquim teve a tatuagem paga pela
parceira, Roberta.
Foram nomeados com a letra R os parceiros presentes nos estúdios, mas que não
optaram, em contrapartida, por submeterem-se a tatuagens de amor. São eles: Roberta, que
mantinha relacionamento com Joaquim; e Rosa, esposa de Jorge.
Entre aqueles que pensavam em cobrir a marca estão Paula, Pedro e Patrícia. Paula
estava separada de seu marido, mas morava na mesma casa com ele e as filhas. Pedro
estava separado de sua namorada. Patrícia era viúva e descobrira, após a morte do marido,
que ele tinha duas amantes, as quais também fez tatuar com as iniciais de seu nome. As
motivações para cobrir a marca foram as mesmas: o fim da relação. O grau de decisão e
indecisão quanto à nova tatuagem, contudo, é diferente para cada um deles. As mulheres
pareciam mais indecisas do que Pedro, mas não creio que esteja em jogo aqui uma questão
de gênero, e sim a natureza da relação, pois Pedro era o único não casado.
Quando a relação termina, pode-se optar, ainda, por não apagar a marca. Foi o caso
de José. Ele tatuava o nome da atual parceira, mas não pretendia apagar o nome de sua
antiga companheira. Apagar a marca, portanto, não é inevitável. A partir desta constatação,
torna-se um pouco mais clara a indecisão que rondava Paula e Patrícia. Resgatar a relação,
de igual modo, nem sempre é a melhor explicação para esta indecisão, uma vez que o
parceiro de Patrícia estava morto. Há, nesta decisão, uma complexa relação entre a
memória do que foi vivido, o tipo de relação que foi mantida, com diferentes graus de
compromisso, o sentimento nutrido pelo ex-parceiro e as aspirações para os futuros
relacionamentos.
Pode-se observar, então, preliminarmente, que existem algumas motivações para a
prova de amor: dominar/conquistar, aqui quase sinônimos, o parceiro, o que tornam claras
200

as relações de poder em jogo na relação afetiva, mas, por outro lado, pode haver uma
resistência a este poder exercido, conforme será observado no caso de Joaquim. Outras
motivações são, conforme apresentarei, a vontade de doação de si, que é parte da
compreensão sobre a própria dinâmica da relação afetiva.

2. Relações de gênero como relações de poder

Antes de apresentar os casos observados, é importante, ainda, reconhecer que a


tatuagem de amor é uma espécie de marca de propriedade, fruto de uma concepção sobre a
própria relação afetiva observada como permeada por relações de poder. Estas relações de
poder estão associadas, por sua vez, às relações de gênero. Em nossa sociedade, as posições
de maior poder têm sido, desde há muito, ocupadas pelos homens. Bourdieu (2003) refere-
se a esta situação como dominação masculina. Como o autor aponta, o corpo feminino é
objetificado pela visão androcêntrica e pela dominação masculina, tornando-se objeto na
economia de trocas simbólicas, sobretudo no mercado matrimonial. Entende-se, a partir daí,
como o corpo feminino pode ser marcado como propriedade de outro.
Steward (1990), que tatuou entre a década de 1950 e 1960 nos Estados Unidos,
quando o público da tatuagem estava ainda restrito fundamentalmente a marinheiros,
criminosos e prostitutas, narra casos em que a tatuagem era um voto de amor. Entre seus
clientes, os rapazes costumavam levar suas namoradas para que seu nome fosse gravado em
algum lugar escondido do corpo, como o seio ou a coxa. Mifflin (1997) e Steward (1990)
afirmam que entre os motoqueiros Hell’s Angels a tatuagem de amor tomava uma forma
especial: as mulheres eram tatuadas com a expressão “propriedade de...”, completada pelo
nome do companheiro e mais raramente pelo nome da gangue.
Em ambos os casos, namorados e motoqueiros tatuando seu nome no corpo de suas
parceiras/namoradas, observa-se que a relação afetiva está permeada por relações de poder.
Estas relações de poder se apresentam na dominação exercida por estes homens sobre o
corpo de suas mulheres, marcados com os seus nomes como se a tatuagem fosse uma
etiqueta indicativa de posse ou propriedade sobre um indivíduo tornado objeto. De um
modo geral, observa-se que grande parte da dominação masculina é exercida justamente na
regulação e no controle do corpo feminino, como aponta Bourdieu (2003). Segundo ele, as
201

mulheres, por sua vez, submetem-se a estas práticas pois também operam dentro da lógica
da dominação masculina, tratando seus corpos, muitas vezes, como objetos frente aos
homens, sobretudo nas práticas de embelezamento, quando o olhar alheio é fundamental.
O local escolhido, aparente ou não, revela outros aspectos da dominação masculina.
Quando a marca está aparente, então a relação é posta em público, ganha visibilidade. Seja
ela socialmente aceita ou não, para as duas partes da relação esta é legítima e vivida desta
forma. Se o local tatuado está próximo de zonas erotizadas do corpo, como é o caso dos
seios e coxas, ou ainda quadris e nádegas, entre outros, então a marca de amor indica não
apenas uma relação de poder mas esta relação ganha um cunho de privilégio sexual, pois
marca regiões sexualizadas do corpo com o nome do parceiro.
Steward (1990) aponta como, algumas vezes, o rapaz ou a moça apresentava-se
sozinho ao tatuador para ter o nome da pessoa amada tatuado, havendo uma relação já
estabelecida ou não. Nestes casos, a prova de amor é utilizada como uma estratégia de
conquista, pois exprime no corpo uma relação desejada e ainda não obtida. Observe-se que
o nome tatuado inicia a relação, associando o casal, mesmo que não haja envolvimento
amoroso a princípio. No caso das relações afetivas já estabelecidas, apresentar-se sozinho
no estúdio pode apontar tanto para a surpresa, a tatuagem de amor como uma prenda dada
ao ser amado, quanto para a doação de si. No caso em que os casais comparecem juntos, a
marca de amor pode ser vista como uma estratégia de manutenção da relação.
No material iconográfico apresentado por Mifflin (1997), há tatuagens de amor
entre lésbicas. Estas são compostas pelo nome de uma no corpo da outra e vice-versa.
Como ambas são tatuadas, ao contrário dos casais observados em campo, sugere-se a
hipótese de que as relações entre mulheres sejam permeadas por uma situação maior de
igualdade, por um equilíbrio das relações de poder. Não se pode concluir que as relações
lésbicas não contenham dominação ou exercício de poder, mas a marca conjunta exprime,
ao seu modo, que o poder está sendo compartilhado, sem o seu exercício unilateral, em que
há dominação/submissão, aqui visto na forma da marca de propriedade.
Bourdieu (2003) apresenta duas formas de amor: um amor fati, entendido como
amar aquilo que se apresenta como o destino socialmente demarcado para o sujeito, onde a
dominação é aceita e não é percebida como tal; e um “amor puro”, onde haveria uma
suspensão da luta simbólica, o reconhecimento de si no outro e vice-versa e uma noção de
202

fusão ou comunhão entre as partes envolvidas. Segundo ele, o amor pode romper a ordem
comum instaurada, mas não de uma só vez e sim por um esforço contínuo, onde os
seguintes “milagres” podem ser operados: não-violência, reciprocidade, abandono e
retomada de si mesmo, reconhecimento mútuo, justificação do próprio existir, desinteresse.
Estas características são o oposto das relações de dominação, o que leva o autor a
falar em “milagres” suscitados pelo amor. No que se refere às tatuagens de amor, os dados
levantados em campo têm indicado justamente o contrário. Marcar o corpo para um outro,
ou por um outro, tem sido, muitas vezes, um ato interessado, que quer a marca de
propriedade sobre o outro ou a marca de uma relação. Quando esta marca é imposta ou
requisitada, a dominação fica explícita.
Ainda sobre o amor, Costa (1998) alerta que sua versão romântica, um ideal vivido
até o presente no mundo ocidental, em que pese a sua realidade para os apaixonados, é uma
criação histórica. “O amor é uma crença emocional e, como toda crença, pode ser mantida,
alterada, dispensada, trocada, melhorada, piorada ou abolida. O amor foi inventado”,
conclui o autor (COSTA, 1998, p. 12). É a partir desta noção de que o amor romântico é
uma crença, ou uma ideologia, que apresento a análise dos casos em que ele parece estar
por trás da tatuagem de amor como forma de prova de amor, dada ou requisitada.
Costa (1998) oferece uma visão do amor como marcada pelo amor fati,
principalmente quando aponta a presença de uma racionalidade constituída no meio social a
determinar estas relações, enquanto relega o “amor puro” a uma idealização. Não cabe
aqui, contudo, discutir a natureza do amor, mas tomar as características do amor romântico
e da crença no “amor puro” como fundantes para explicar a prática das tatuagens de amor.
A tatuagem de amor apresenta, ainda, uma faceta que não está diretamente
relacionada à marca de propriedade, mas à memória como fundamental à manutenção da
relação e a incorporação de uma das partes da relação pela outra, mas não no sentido de
uma dominação/submissão. Bradley (2000, p. 150), sobre tatuagens de iniciais de membros
da família entre condenados transportados do Reino Unido para a Austrália, diz:

“(...) tatuagens representam um laço entre o corpo do indivíduo e o objeto pelo qual as
emoções do indivíduo estão expressas. (...) Isto mais comumente envolvia outras pessoas.
Aqui as tatuagens agem simbolicamente como significantes emocionais, indicando a
força da união [relacionamento] e um símbolo contra a ausência. Estes significantes
203

produziram, por sua vez, dois diferentes efeitos. Em primeira instância, a tatuagem era às
vezes uma demonstração pública de união, outras vezes uma demonstração encoberta,
apontando, sob um sacrifício de sangue, que a relação penetrou sob a pele – o limite
corporal com o mundo mais amplo. Em uma segunda instância, era como se o indivíduo
tatuado estivesse se protegendo contra a separação: se esta ocorresse, então a tatuagem
agiria como uma presença física falsificada do outro ausente”1. [grifo meu]

Embora o contexto seja diferente, creio que a idéia permanece a mesma. Observe-
se, contudo, que a separação da qual o autor fala não é voluntária, mas ocasionada pelo
encarceramento prisional. No caso de separações voluntárias de casais, o mais comum é
que se cubra a tatuagem de amor com outra tatuagem, apagando a marca.
O autor aponta a tatuagem como um significante emocional, que simboliza a força
de uma união. Um casamento de muitos anos, como o que será visto no caso de Joana,
consagrado pelo nascimento de três crianças, foi a força motriz da “homenagem” ao
marido. Em outros casos, contudo, conforme relato de Steward (1990), nem sempre a união
estável é pré-requisito para a tatuagem de amor. Ao contrário, o autor pode observar como
esta era utilizada com fins de assegurar esta própria relação, no processo de conquista e
sedução do amado, sobretudo entre mulheres.
Bradley (2000) aponta, ainda, como a tatuagem se torna, neste contexto, uma
espécie de sacrifício de sangue que se faz em prol deste relacionamento já constituído. O
local do sacrifício, a pele, como vários autores recordam (GELL, 1990; BOREL, 1992), é a
camada mais externa do corpo, representando simbolicamente as relações mantidas entre o
interior (o Eu) e o exterior (o mundo). Desta forma, marcar a pele com insígnias de amor
significa comunicar ao mundo um sentimento individual. O relacionamento que penetra
“sob a pele” é, na verdade, a marca de um Outro que penetra tão fundo que pode ser
indelevelmente exposta na própria carne. Em outras palavras, se trata de trazer em si
simbolicamente um Outro, de pensar neste relacionamento como formado por duas partes

1
“(...) the tattoos represent a bond between the body of the individual and the object towards which the
individual’s emotions were expressed. (...) it most commonly involved other people. Here tattoos acted as
symbolically as emotional signifiers implying a strength of attachmnt and a token against absence. These
signifiers produced in turn two different effects. In the first instance, the tattoo was a sometimes public,
cometimes covert, display of connection, demonstrating through a blood sacrifice that a relationship
penetrated beneath the skin – the body’s boundary with the wider world. In the second instance, it was as if
the tattooed individual was protecting him- or herself against a separation: should separation occur the
tattoo then acted as a vicarious physical presence for the absent other.”
204

que jamais devem estar separadas, o Eu e o Outro, devendo-se, portanto, marcar o Outro
em si, ou seja, no Eu. O casal, os dois elementos em relação, é pensado como uma
totalidade.
O autor indica também que “as tatuagens providenciavam um substituto para as
jóias ou outras posses materiais: um meio de articular a emoção, operando ligações entre o
corpo, o Eu e os outros” (BRADLEY, 2000, p. 151). Na qualidade de prova de amor, a
tatuagem de amor não poderia ser substituída por uma jóia ou qualquer outro objeto porque
o vínculo entre os sujeitos, elaborado sob a mediação do corpo, não seria completo. Jóias
ou outros objetos podem ser perdidos ou abandonados, enquanto a tatuagem não. Esta
possibilita ainda uma marca no próprio Eu, o que um objeto não possibilita.
Gostaria de chamar a atenção para a questão da permanência da tatuagem no corpo,
como um elemento mnemônico, e para a fragilidade das relações que ela representa. Os
próprios tatuadores sabem, conforme observado em campo, que os relacionamentos
representados pela tatuagem são fugazes e terminam. Uma tatuadora do estúdio pesquisado
na Tijuca disse que muitas pessoas procuram por tatuagens de amor. “Mas esses
relacionamentos não vão durar para sempre”, comentei. “Às vezes duram”, ela respondeu.
Todos querem que seus relacionamentos durem e que se tornem permanentes, mesmo em
um tempo em que um relacionamento dá lugar a outro e assim sucessivamente. A questão
não é se eles duram ou não, mas o desejo que durem.
Depreende-se daí uma dinâmica entre transitoriedade e permanência2 que permeia a
própria prática da tatuagem, tanto na oposição modismo/originalidade, conforme será
analisado a seguir, quanto na tatuagem de amor, pois os amores, ou os relacionamentos,
têm se mostrado muitas vezes transitórios. Uma pergunta, então, pode ser formulada:
quanto mais nossa sociedade permite relações sucessivas, embora monogâmicas, mais
fugazes têm sido estas relações? Esta pergunta desenrola-se em outra: em que medida a
sensação de fugacidade nas relações está relacionada ao atual uso das tatuagens de amor?
Embora casamentos e namoros possam ter fim, a tatuagem permanece, indicando a
propriedade do corpo por alguém que não está mais, de fato, de posse do indivíduo tatuado.
Nestes casos, a tatuagem ou é removida ou é coberta por outra, na técnica chamada cover

2
Agradeço à Professora Mirian Goldenberg pela indicação deste caminho na análise sobre os usos
contemporâneos da tatuagem.
205

up. O mito do amor romântico parece estar presente nos relacionamentos atuais, levando
ainda os casais aos tatuadores, como se uma tatuagem os pudesse manter unidos, quando
nem os ritos religiosos, nem os documentos civis nem os filhos conseguem. Em um
momento em que o divórcio, o concubinato e a coabitação são a realidade dos
relacionamentos ocidentais, permanece o ideal do “amor eterno”. Surge então uma
hipótese: quanto mais a realidade dos relacionamentos ocidentais é a de não permanência,
mais surge seu contraponto, isto é, a necessidade de permanência.

3. Expressando sentimentos

A tatuagem do nome do(a) amante (marido/namorado, esposa/namorada) é vista


como um ato de expressão dos sentimentos: paixão ou amor. As tatuagens de vingança,
como Do Rio (1997) descreve entre as prostitutas cariocas – em que o nome do ex-amante
era tatuado no calcanhar para ser pisado e enlameado – , ou tatuagens que consistem de
palavras como “ódio” ou “vingança” retratam, da mesma forma, a expressão de
determinados sentimentos.
Os sentimentos são vistos, tradicionalmente, como da alçada do interior, da
subjetividade, do Eu. A pele, camada intermediária entre o Eu e o mundo, entendido como
o exterior ou externo é, tanto quanto o próprio corpo e a aparência, local de comunicação
entre o Eu e o mundo. As tatuagens de amor funcionam, assim, como forma de expressar os
sentimentos, não apenas para si próprio, mas para o mundo e, dentro dele, para o ser
amado.
No caso específico das tatuagens de amor, pode-se compreendê-las, ainda, sob a
idéia de habitus (BOURDIEU, 1992). Este conceito refere-se a um sistema socialmente
constituído de disposições estruturadas e estruturantes que é obtido pela prática e
constantemente orientado para as funções práticas. O habitus, conceito correlato (mas não
sinônimo, como alerta o próprio autor) aos de ethos ou hexis, toma o indivíduo como
produto do meio social também em sua subjetividade. Trata-se de um sistema durável de
esquemas de percepções, de apreciações e ações resultantes da instituição do social no
corpo. O habitus é o produto de um processo de incorporação, é o social que toma corpo.
206

Trata-se, portanto, de analisar o uso de tatuagens de amor como um reflexo, sobre o


corpo, de uma estrutura social que ensina e reproduz a crença no amor romântico, uma
crença que é tornada corpo, entre outras formas, na marca de amor, no nome do Outro
encravado na carne do Eu, na idéia de posse e, também, nas relações de poder que
permeiam as relações de gênero e as relações afetivas. Como apontou Mauss (1994), o
corpo é fruto de um constante trabalho de ensino e aprendizagem do social. O corpo emerge
como um depositário da sociedade e suas regras, devendo adequar-se e sendo adequado por
elas.
Desta forma, pode-se observar as tatuagens de amor como fruto da crença no amor
romântico que, como aponta Costa (1998), mantém um ideário o qual nem sempre está de
acordo com a experiência prática das pessoas, sobretudo na duração das relações afetivas.
Esta ideologia é incorporada, tornada parte do corpo, na idéia de habitus. Nas tatuagens de
amor, é a crença no amor romântico, no amor para sempre, verdadeiro e eterno, que está
sendo tornado corpo na forma da marca sobre a pele.

4. No mundo das celebridades

Nas últimas décadas do século XX e início do XXI, a tatuagem de amor parece ter
atingido um grupo específico que popularizou o seu uso: estrelas populares, como cantores
e atores. O ator Johnny Depp, por exemplo, quando namorava a atriz Winona Rider, tatuou
o primeiro nome dela em seu braço. Quando a relação terminou, a tatuagem foi modificada.
A atriz Melanie Griffith, esposa do ator espanhol Antonio Banderas, tatuou o primeiro
nome dele dentro de um coração, na parte superior do braço. A atriz Angelina Jolie tatuou o
nome do então marido, Billy Bob Tornton, também ator, no braço, tatuagem posteriormente
retirada quando da separação do casal.
No Brasil, a cantora Kelly Key se tornou alvo de polêmica quando, em meio a uma
briga com o ex-marido e cantor Latino, descobriu-se que o rosto dele tatuado em sua perna
estava sendo removido a laser. Kelly Key e seu novo namorado, agora marido, tatuaram-se
em conjunto: no pescoço dele está escrito “vou te beijar...”, frase que é completada no
pescoço dela com “... então beija”. Embora a jura de amor tenha se tornado menos pessoal
207

do que o rosto do ex-marido, a cantora ainda tatuou um pequeno símbolo no pulso, que
afirmou na imprensa se tratar do nome do atual marido.
A tatuagem de Latino em Kelly Key se tornou alvo de polêmica porque, na época,
se publicava na imprensa uma briga entre o casal. Com uma filha em comum, a briga de
casal se tornou matéria de revistas e cadernos de jornais dedicados à vida das celebridades.
Ao apagar o rosto do ex-companheiro, e mostrar o processo frente aos flashes e câmeras de
televisão, a cantora deu provas públicas do fim definitivo da relação. Acreditando ainda no
amor eterno, verdadeiro ou romântico, aqui utilizados como sinônimos, Kelly Key mais
uma vez submeteu-se à prova de amor, marcando no corpo as juras trocadas com o então
namorado.
De fato, não é possível medir, pelos relatos de imprensa, o grau de compromisso
presente em uma relação amorosa. O surpreendente em Kelly Key não foi apagar a marca
da relação passada, mas jogar-se novamente na aventura da prova de amor, mesmo
sabendo, por experiência própria, que as relações não duram para sempre. Como será visto
em um caso observado em estúdio, a cantora não é a única a agir desta forma.
A atriz Débora Secco teve o pé tatuado com a frase “Falcão, amor verdadeiro amor
eterno”, em homenagem ao namorado, cantor da banda O Rappa. A frase escolhida pela
atriz retrata o sentimento que parece mover os apaixonados a realizarem tal prova de amor:
a noção de que o amor verdadeiro é eterno.
Débora Secco esteve envolvida, durante anos, na imprensa, em polêmicas cercando
sua vida afetivo-sexual. Era constantemente criticada pela fugacidade de suas relações, às
quais tratava sempre como suscitadas pelo amor e com profundo grau de compromisso. As
críticas se iniciaram logo após a sua separação do ex-marido para o início de uma relação
amorosa com o então colega de trabalho e ator Maurício Mattar. As críticas à atriz cessaram
a partir da demonstração de uma certa estabilidade em sua relação com o atual namorado. A
marca de amor, contudo, suscitou nova crítica, uma vez que suas relações pareciam
fugazes.
Em um estúdio visitado na Tijuca, observei fotografias de cinco clientes que
optaram por copiar a tatuagem de Débora Secco, mudando apenas o nome do
homenageado. Destas cinco, duas foram executadas sobre o pé, mesmo local tatuado pela
atriz, duas nos antebraços e uma nas costas. A tatuagem de Débora Secco não foi a única
208

copiada. As celebridades são propagandas-vivas de modismos e estilos de vida, entre eles


as tatuagens. Trata-se do processo que Mauss (1994) chamou de imitação prestigiosa.
Mais recentemente, foi a relação que resultou no chamado “casamento-relâmpago”
entre o jogador de futebol Ronaldo e a modelo e apresentadora de televisão Daniela
Cicarelli que agitou a imprensa interessada nas celebridades. Ronaldo havia tatuado as
iniciais dos nomes de ambos no pulso, junto a um coração. A tatuagem serviu, inclusive,
como parte da campanha publicitária de uma grande empresa de telefonia celular. Após a
separação, restou a dúvida do público: Ronaldo apagará a tatuagem ou não?
Sem desviar para as fofocas criadas em torno da relação, é interessante observar que
antes do namoro, Ronaldo tornara-se conhecido como mulherengo, enquanto após o início
da relação, Daniela esteve sempre sob a suspeita de estar interessada no dinheiro do
jogador. A tatuagem de Ronaldo emerge, então, potencialmente como uma resposta às
suspeitas e dúvidas: de um lado, sobre seu comprometimento, e de outro, sobre a
idoneidade da moça. Embora as suspeitas mais fortemente recaíssem sobre um virtual
interesse financeiro de Daniela, é em Ronaldo que está a resposta, encravada na carne,
exposta aos olhos de todos, vendida em comerciais e publicidade, demonstrando que a
relação valia o sacrifício de sangue.
Apagar a marca tem se mostrado constantemente o caminho seguido após o fim das
relações que dão origem a ela. Note-se que, como no caso de Kelly Key, uma relação que
deu origem a um casamento impulsionou, antes dos laços matrimoniais, a busca pela prova
de amor. Também como no caso da cantora, Ronaldo já havia passado pelo fim de um
casamento, o que deveria demonstrar o quanto os amores são difíceis de serem mantidos,
tanto quanto as relações a que dão origem.

5. O que os tatuadores pensam sobre as tatuagens de amor

Há que se observar que existe uma cultura da tatuagem que é comum aos
profissionais do ramo. A tatuagem constitui um universo, ou um campo, como diria
Bourdieu (1992), cujas regras aproximam-se das do campo da arte, uma vez que os
tatuadores consideram-se artistas. Neste sentido, organizam regras de inclusão/exclusão de
membros ao campo, operando uma distinção entre profissionais e amadores. As regras do
209

campo são regras de pertencimento, por isso compartilhadas por aqueles que desejam
adquirir ou manter status de profissionais.
No estúdio de tatuagem, o tatuador é uma espécie de juiz-sacerdote. Embora esteja
prestando um serviço remunerado, é ele quem determina o encaminhamento dos
procedimentos. Por exemplo, é a opinião do tatuador que normalmente prevalece quanto às
melhores regiões do corpo para o desenho escolhido, o seu tamanho e as cores adequadas
segundo a cor da pele. O seu conhecimento, embora técnico, contém elementos desta
cultura comum. Faz parte desta cultura dos tatuadores uma certa visão da prática que,
muitas vezes, é contrária às marcas de amor.
Steward (1990) indica como tentou demover os clientes das tatuagens de amor. Os
romances normalmente fugazes que davam origem a estas tatuagens terminavam por levar
os mesmos clientes a ele para que o nome tatuado fosse coberto por outro desenho. Entre os
exemplos que o autor fornece contra a tatuagem de amor está o de uma moça que não
namorava o rapaz cujo nome tatuou, mas que pretendia conquistá-lo com o gesto. Há o caso
de uma mulher casada que tatuou o nome do amante em meio a uma bebedeira, e cujo
marido foi à loja de Steward pedir-lhe satisfações.
Em um dos estúdios pesquisados, ficou claro como o tatuador e proprietário é contra
tais marcas. Com o corpo repleto de tatuagens, mantendo relação de coabitação com a
namorada, que trabalha como recepcionista do estúdio, nenhum de seus desenhos, contudo,
é uma prova de amor. Tampouco sua companheira apresentava tal tipo de marca. Embora
não tente demover seus clientes da opção, quando algum pedia a alteração da marca, pontos
de vista contrários à prática surgiam. Assim, quando Pedro entrou no estúdio para cobrir o
nome da namorada, o proprietário perguntou:

“Mas por que vocês fazem isso? Nome de filho ainda vai. Faz um filho! É mais barato!”
(Tatuador proprietário do estúdio pesquisado em Copacabana)

A sugestão era de que o rapaz desse à filha o nome de sua ex-namorada. Sem
perceber a contradição, pois manter o nome da moça e ainda dá-lo a uma futura prole
fortaleceria os laços rompidos ao invés de apagá-los, o que o tatuador desejava indicar era
que a única relação afetiva duradoura e eterna, digna de ser tatuada sem posterior
arrependimento e retorno ao estúdio para modificações, é a relação entre pais e filhos.
210

Um outro ponto que auxilia a compreensão deste mal-estar dos tatuadores com
relação às tatuagens de amor baseia-se na oposição originalidade/moda, compreendida
como imitação. Observe-se que atualmente a tatuagem de amor vem se tornando, para
utilizar o termo dele, um “modismo”, na medida em que várias celebridades adotaram a
prática.

6. Prova de amor e compromisso

Nos estúdios de tatuagem não é raro encontrar-se fotografias de trabalhos


executados pelos tatuadores que consistem na reprodução do rosto da namorada/esposa ou
namorado/marido, embora tenha percebido, a princípio, maior quantidade destas tatuagens
em homens. Se as mulheres tatuam o nome de seus parceiros, parece que eles preferem o
rosto de suas mulheres. Este tipo de tatuagem, classificada pelos tatuadores como realista,
pois reproduz na pele uma fotografia, também é encontrada homenageando pais, mães e
filhos. Observei um caso destes no estúdio pesquisado na Tijuca.
Jorge, 35 anos, havia tatuado o rosto da esposa, Rosa, 30 anos, mãe de sua filha de 3
anos, no peito à esquerda. A localização dispõe a fotografia sobre o coração, indicando um
aspecto duplo na prova de amor: a própria marca, mas também a sua localização. Naquele
momento, a tatuagem estava em processo de cicatrização. Tinha outras tatuagens no corpo.
Jorge contou que mostrara o desenho à criança, quando sozinho com ela, que respondeu: “é
a minha mãe”. O tatuador comentou, como uma forma de valorizar o próprio trabalho: “se
ela reconheceu, significa que está bom, né?”.
Naquele dia, Jorge levara sua esposa para ser tatuada. Ela já possuía uma tatuagem,
um pequeno unicórnio nas costas, e faria uma fada, desenhos tipicamente femininos – não
uma tatuagem de amor. O casal foi ao estúdio acompanhado por uma amiga, que também
apresentava uma tatuagem nas costas. Como a filha havia ficado em casa sem nenhum dos
pais presentes, Rosa estava aflita quanto à segurança da menina e Jorge foi vê-la enquanto a
amiga fez companhia a Rosa no estúdio. A menina era, claramente, a prioridade do casal, e
não o processo de tatuagem. Ainda assim, a tatuagem de fada não foi realizada sem uma
troca de idéias entre Rosa, o marido e a amiga. Tinham que decidir o desenho e a
localização: se centralizado nas costas ou na lateral. O tatuador tentava eximir-se de dar
211

opiniões, preocupado em não influenciar a escolha de Rosa, para que a tatuagem resultasse
naquilo que ela realmente desejava. Ao final, Jorge alertou a esposa que a parte central das
costas, sobre a coluna, é uma parte dolorosa: “mas não é nada que você não agüente”, disse,
encorajando-a. Rosa optou por esta localização para sua fada. A amiga também achava que
centralizado o desenho ficaria mais bonito. Quando o processo de tatuar foi iniciado, Jorge
não estava mais lá.
Observe-se que, quanto a Rosa e Jorge, a prova de amor dele não demandou a
mesma atitude da parte dela. Neste sentido, Jorge provava seu amor pela esposa não apenas
na tatuagem, mas no cuidado com a filha, cuidado pelo qual Rosa abriu mão da companhia
do marido no momento de ser efetivamente tatuada, embora ele tenha participado do
processo de escolha e encorajamento, que muitas vezes é crucial. Assim, pode-se observar
que a tatuagem de amor apresenta uma característica de doação. Ela é um presente que se
dá ao outro, embora marcado no próprio corpo. Outra cliente deste mesmo estúdio
apresentou-se com um caso similar.
Joana desejava tatuar o nome do marido nas costas, abaixo da nuca, acompanhado
de uma borboleta, tatuagem caracteristicamente feminina, bastante popular no momento da
pesquisa de campo. “A borboleta faz assim [gesticulou], dá leveza ao desenho. Uma flor ia
ficar muito achatado, sem movimento”, disse. Tinha uma tribal na barriga, que parecia
cobrir uma cicatriz de cesariana, e outra borboleta no tornozelo. Mesmo assim, não pensara
em ser tatuada naquele dia, pois estava receosa de que o local escolhido fosse doloroso.
Isaura, cliente assídua que visitava o estúdio no momento, ofereceu-lhe palavras de apoio:
“Faz logo! Aí não dói nada”. Quando descobriu que a moça tinha outros desenhos tatuados
pelo corpo, exclamou: “Você toda tatuada e está aí com medo? Fala sério!”. Joana tomou
coragem e decidiu ser tatuada. Disse que seria uma surpresa para o marido, que não sabia
que ela planejava a homenagem. “É alguma data especial?”, perguntei. Respondeu que

“Não, a pessoa é especial. Ele é pai dos meus filhos.” (Joana)

Tinha uma filha de 12 anos, um garoto de 2 anos e um bebê. Desejava ainda mais
um filho.
212

Joana parece relacionar a qualidade de ser especial do marido não com os anos de
casamento, como poderia sugerir a hipótese apresentada aqui sobre a dinâmica da
transitoriedade e da permanência inerente à prática da tatuagem, mas ao fato de ser pai de
seus filhos, fato corroborado pela afirmação de seu desejo de ter ainda uma quarta criança
com o mesmo homem. O compromisso do casamento não é o ponto-chave, o que indica
que não é esta noção de compromisso como um remédio à fugacidade das relações que
move a tatuagem de amor. Em outros termos, sugiro que as tatuagens de amor são
executadas por pessoas casadas ou não-casadas em função do sentimento e da necessidade
de expressão deste sentimento, e não em função do grau de compromisso mantido na
relação, que não está sendo medido aqui pela oficialização/legitimidade da união em
casamento ou mesmo coabitação. O que moveu Joana não foi o casamento, a relação
afetiva, mas o sentimento de que seu marido era uma pessoa especial em função da
importância que tem em sua vida: esta importância é, para ela, medida no fato de ser pai de
seus filhos.
É comum que as mulheres optem por se tatuarem sem comentar a decisão com seus
maridos, conforme observado em campo. No caso de Joana, o silêncio quanto à marca era
fruto do desejo de surpreender o marido com o que considerava um presente: o nome dele
em seu corpo. Desta forma, a mensagem implícita ao ato era a doação de si. Observe-se
ainda que, mesmo tatuada, hesitou em realizar a marca naquele momento. Embora o ato
não possa ser considerado impulsivo, pois fora pensado, não havia marcado hora, como a
maior parte dos clientes. A decisão foi rápida, mas não sem alguma dúvida, gerada pelo
medo da dor. A coragem veio do apoio recebido de Isaura, do desejo pela marca e da
reflexão sobre um processo já conhecido, visto que não seria sua primeira tatuagem.
Para além da idéia de objetificação do corpo, quando Joana pensa na tatuagem como
um presente, estão em jogo várias questões: o auto-sacrifício em nome de um amor/relação
afetiva; o próprio corpo como um presente, doado a quem se ama; a idéia de
relacionamento como a posse de um indivíduo pelo outro; a idéia de que a tatuagem é um
presente valioso a ser dado a quem se ama. O presente, de fato, é símbolo de uma doação
maior, uma doação voluntária de si ao Outro. Essa doação passa pelo sacrifício e pela visão
de si mesmo e de seu corpo como valores grandes o suficiente para serem doados numa
prova de amor. O sacrifício de sangue, como aponta Bradley (2000), traduz a interiorização
213

da relação para um limite profundo no Eu, indicando ainda o quão forte a relação está
sendo vista por aquele que opta pela prova de amor. A idéia de força aqui, é preciso alertar,
nada tem a ver com compromisso, mas com o sentimento e a percepção de sua intensidade.
Esta intensidade do sentimento é uma das características do amor romântico, pensado como
mais forte do que qualquer outro, por isto eterno e verdadeiro (COSTA, 1998).
Ao observar outra cliente, Júlia, sendo tatuada com as iniciais de seu namorado e
um pequeno coração, pode-se perceber a contradição entre a fugacidade do amor e a
permanência da marca. Era uma mulher de 45 anos, o físico torneado pelas academias de
ginástica, bronzeada, mãe de um rapaz de 15 anos fruto de seu casamento. Havia ido ao
estúdio acompanhada de uma amiga, que a incentivava a seguir com os planos de se tatuar,
ao mesmo tempo em que a aconselhava sobre a melhor posição para o desenho. Tatuava
duas letras na virilha, correspondentes ao nome do namorado, porque ele havia lhe pedido.
A amiga conhecia o namorado de Júlia e parecia entender que a marca era importante para
ele. Mas a própria Júlia questionava a validade de tal ato, comentando que

“Depois vou ter que cobrir as letras com outro desenho mesmo, quando [a relação]
acabar.” (Júlia)

Uma outra cliente, presente no estúdio, comentou que não deveria cobrir a
tatuagem, pois ter se relacionado com tal homem fazia parte de sua história.
Júlia e a cliente aparecem com pontos de vista opostos. Em ambos os discursos,
contudo, percebe-se que a permanência emerge como algo valorizado, mesmo sabendo-se
que só é eterna enquanto dura. Após o fim do relacionamento, Júlia pensa que a marca deve
ser substituída ou apagada. A cliente, por sua vez, discorda. Se a relação terminou, a
memória desta não terminará jamais, pois o passado não pode ser apagado. Apagar a
tatuagem é apagar a própria relação, a marca servindo como uma lembrança, a memória do
que se viveu. O passado, para Júlia, deve ser apagado, deixando espaço para o presente e o
futuro, na forma de outras relações que virão. Para a cliente, o passado deve ser guardado,
como se fosse um tesouro precioso, pois não se joga fora a própria estória de vida, a própria
estória vivida, por uma relação que terminou. São concepções diferentes sobre como lidar
com as relações que terminam e que permitem compreender melhor porque se mantém ou
se apaga uma tatuagem de amor.
214

Gostaria, agora, de efetuar uma comparação entre Joana e Júlia, pois elas
apresentam posturas diferentes, quase opostas, frente à marca de amor. Júlia, mais velha,
mãe de um filho cujo pai não é seu atual namorado, sendo tatuada por um pedido deste
namorado, faz o que ele lhe pede, dá a prova de amor, marcada a sangue, mas a prova é
para ele. Ela mesma tem dúvidas de que seu relacionamento engendre uma relação mais
duradoura, de um compromisso mais profundo. Não está dando ao namorado um presente,
mas cumprindo o papel feminino tradicional de se subjugar às determinações de seu
companheiro. Ela não espera reciprocidade.
Joana, por outro lado, casada e mãe de três filhos de seu marido, desejando ainda
mais um filho, em comparação com Júlia, percebe sua relação afetiva como duradoura,
construída sobre um compromisso profundo, que tornou seu marido “uma pessoa especial”.
Essa especificidade de seu marido foi o que a levou a marcar voluntariamente o corpo,
como uma maneira de dizer a ele o quanto é especial e o quanto ela também é, pois não são
todos os casais, mesmo aqueles que compartilham o gosto pelas tatuagens, que
desenvolvem esta preferência pelas marcas de amor.
São perfis diferentes de relacionamentos que levam a atitudes distintas por parte das
duas clientes. Uma crê no futuro da relação (há tempo e amor para mais um filho), a outra
sabe que a marca em seu corpo nada mais é do que a propriedade exercida por um homem.
Talvez por isso, os locais escolhidos tenham sido tão diferentes. Júlia tatuava a virilha,
onde as pequenas iniciais ficariam escondidas a maior parte do tempo. Próxima à região
genital, sua tatuagem atesta o privilégio sexual do namorado. Joana, por outro lado, tatuava
as costas, abaixo da nuca, local de mais fácil exposição, dada a estabilidade de seu
relacionamento.
Durante a observação no estúdio pesquisado em Copacabana, um terceiro caso
apareceu. Joyce, mencionada em outro capítulo, que havia feito sua primeira tatuagem
neste mesmo estúdio em janeiro de 2005, retornou para mais duas: o nome de seu marido
no pé e uma representação de São Judas Tadeu. Devota do santo, Joyce havia tatuado seu
nome na nuca, esperando para tatuar sua imagem em outra ocasião. Na época de sua
primeira tatuagem, ainda não estava casada. Morava com a mãe, contrária aos desenhos
permanentes no corpo, e afligia-se em ter que esconder a marca. Uma vez fora da casa da
mãe, Joyce não via mais porque se preocupar. A tatuagem fora localizada na nuca devido à
215

flexibilidade do local em ser encoberto pelos longos cabelos da moça, de modo que a mãe
não tomasse ciência da marca. A representação do santo foi localizada nas costas, abaixo da
nuca, em região mais visível uma vez que Joyce não se sentia mais constrangida pela crítica
materna. O pé, talvez a área mais visível de todas as três tatuadas por ela, indica como
Joyce estava alheia à opinião da mãe. A esse respeito, o tatuador perguntou-lhe: “E a sua
mãe? Ela vai ver”. Ao que Joyce respondeu:

“Agora não importa mais. Eu não estou mais morando com ela.” (Joyce)

A respeito deste ponto, o conflito de gostos entre mãe e filha, é necessária uma
observação. Enquanto estava na casa materna, Joyce se via em uma posição onde não
desejava deixar de obter a marca em seu corpo, ao mesmo tempo em que não desejava
sofrer críticas da mãe. O respeito ou o medo da mãe não a impediram de exercer sobre seu
corpo uma certa autonomia, embora não completa, pois não pôde escolher livremente o
local de sua tatuagem, temendo o constrangimento materno. Mas, uma vez casada, ou
melhor, uma vez fora da casa de sua mãe, Joyce se viu munida de uma autonomia mais
completa, sem se preocupar com as opiniões maternas. Os locais escolhidos para as novas
tatuagens, embora mais visíveis do que a nuca, podem ser convenientemente encobertos
caso ache necessário. Há um cálculo, ainda, por parte de Joyce, mas o que chama a atenção
é a mudança de status que ela apresenta após o casamento. Joyce deixou de ser filha para se
tornar esposa. Em termos de ganho de autonomia, deixou de estar subordinada à mãe para
exercer mais livremente seu direito de escolha sobre o próprio corpo.
Retornando ao estúdio, Joyce esperava que seu marido também tatuasse seu nome
no pé, mas o rapaz não teve coragem de se submeter ao processo. O tatuador que os
atendeu contou que, como um teste, passou a máquina de tatuar, sem tinta, no pé do rapaz,
para que ele sentisse a intensidade do processo. Achando doloroso, desistiu. O tatuador,
contudo, levantou uma outra hipótese, que não apenas a covardia, para a resistência do
marido:

“Medrou. Não quis fazer não. Ou então não tava a fim de se comprometer, né.” (Tatuador
proprietário do estúdio de Copacabana)
216

Neste episódio, o marido medroso pode ter usado a covardia como uma forma de
escapar da prova de amor pela qual sua mulher prestara-se a passar, e que esperava que ele
passasse também. Observe-se que foi apenas depois do casamento e da saída da casa
materna que decidiu pela tatuagem de amor, como se a mudança de status (o casamento)
devesse ser marcada não apenas nas festividades e mudança de moradia, mas no próprio
corpo. Joyce deixou de pertencer à mãe para pertencer ao marido, gravando na pele o nome
dele. Ao mesmo tempo, o casamento parece ter providenciado o compromisso necessário a
ela para a marca permanente.
Como no caso de Jorge, Joyce demonstra que a prova de amor não demanda
contrapartida. Não desistiu da marca em função da desistência do marido em fazê-la. A
tatuagem de amor não consiste numa troca explícita, mas numa espécie de doação que
encobre relações mais complexas entre as partes envolvidas. Entre estas relações, estão a
necessidade de estar associado a alguém, a objetificação de si e de outro, a necessidade de
uma marca de propriedade que ateste a associação.
Também no estúdio de Copacabana, Joaquim tatuava nas costas o rosto da moça
que o acompanhava, Roberta, a pedido dela. O que parecia uma tatuagem de amor revelou-
se, ao longo da tarde, uma trama envolvendo interesse financeiro e uma relação clandestina.
Embora o casal visivelmente mantivesse uma relação amorosa, pois se abraçavam e se
beijavam, alguns indícios apontavam para uma relação extra-oficial, uma espécie de caso
oculto. Entre os indícios, estava a fotografia na qual a tatuagem foi baseada, que trazia
Roberta vestida de noiva ao lado de um rapaz que não era Joaquim. Ao final da sessão, ela
lhe pediu que não mostrasse a tatuagem para qualquer pessoa. Ele, residente em
Governador Valadares, Minas Gerais, estava no Rio para vê-la. Ela, residente na cidade,
passava temporadas em Londres, na Inglaterra.
Quem pagou pela tatuagem foi ela. De fato, tratou-se de um acordo entre os dois:
ela desejava que ele não apenas tatuasse seu rosto como também seu nome junto à
expressão “amor eterno”. Além de pagar pelo serviço do tatuador, havia se disposto a dar
presentes ao rapaz em troca da “prova de amor”. Pela fotografia tatuada, prometeu um
videogame do tipo play station. Pelo nome, a ser tatuado no antebraço, área extremamente
visível, havia prometido uma motocicleta. Não por acaso, a segunda tatuagem seria
comprada por um valor mais alto: seria mais visível e mais pessoal, pois o rosto pode ser
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modificado, enquanto um nome só pode ser apagado. Ao final da sessão, depois de pagar
pela tatuagem o valor de R$450, deu a Joaquim R$250 em dinheiro, dizendo “isso aqui é
para você”.
Foi interessante observar como este episódio deixou os tatuadores do estúdio em
questão constrangidos. O proprietário comentou longe do casal: “Pois é, é um ‘faz a foto
que eu te dou uma moto’”. Ocorre que, mesmo não sendo exatamente favoráveis às
tatuagens de amor, o mito do amor romântico não escapa aos tatuadores, como será visto
adiante em um comentário de um deles. Uma tatuagem de amor que não é movida pelo
amor causa um constrangimento profundo que não pode ser silenciado. Explicitamente,
trata-se de uma atitude que foi vista como reprovável. A natureza da relação entre Joaquim
e Roberta despertou constrangimentos não por sua aparente clandestinidade, mas pela
dificuldade em identificar ali traços do amor romântico que leva clientes aos estúdios para
as marcas de amor.
Não era a primeira tatuagem dele. Possuía mais duas no braço e duas nas costas. O
tatuador, em conversa com o rapaz durante uma pausa para o cigarro, descobriu que já
pensava em converter a tatuagem de amor em um desenho menos íntimo. Segundo contou,
o rapaz planejava transformar o retrato em uma índia, acrescentando-lhe um cocar.
Nesta situação, a tatuagem de amor emerge como marca de propriedade. Da parte
dela, o dinheiro servia como fator de exercício de um controle sobre ele, marcando a
sangue no corpo do rapaz o seu domínio, um domínio ao qual ele escapava, pois não
pensava no retrato sobre a pele como um ato de amor e sim como um ato de interesse.
Pensar em transformar a tatuagem recém-adquirida em outro desenho – e mais além,
comentar sua intenção com o próprio tatuador quando ainda nem havia terminado a sessão
– significa, nesta situação, fugir ao controle exercido pela moça sobre ele. É como dizer ao
mundo que ele não está sob o jugo dela, ainda que se submeta aos seus desejos em troca de
retorno financeiro.
Por outro lado, esta também pode consistir em uma estratégia de Joaquim para
conservar a idéia de que quem manda na relação é ele, isto é, manter a lógica da dominação
masculina, que opera também a partir do poder econômico. Longe de tentar subverter este
tipo de dominação de gênero, a atitude de Roberta demonstra a fragilidade da relação entre
os dois, em que a tão sonhada prova de amor tem que ser comprada. Enquanto um homem é
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capaz de “obrigar” em atos e palavras sua esposa a ser tatuada com seu nome, conforme
será visto a seguir, ela teve que recorrer ao poder econômico como força para fazer valer
seu desejo de controle sobre o corpo alheio.
Marcar o corpo de um amante, além de apresentar um claro desejo de domínio e
posse, indica também um desejo de permanência, de tornar mais palpável e permanente
uma relação que pode ter fim a qualquer momento e que é vivida a distância.

7. Só será eterno enquanto dure?

Se os casos acima indicam possíveis motivações para as tatuagens de amor, os casos


abaixo poderiam servir como outros exemplos. Trata-se de quatro indivíduos que tatuaram
os nomes de seus parceiros, mas seus relacionamentos não foram tão duradouros quanto
suas tatuagens. Um deles optou por cobrir a marca com outro desenho, outro ainda pensava
em cobrí-la, o terceiro decidiu não cobrir. Um quarto indivíduo encontrou uma solução
original, riscando os nomes tatuados e levando aqueles que conhecem sua história a uma
reflexão mais profunda sobre as tatuagens de amor. Estes casos mostram a crença no ideal
do “amor eterno” e indicam, ainda, o que ocorre quando a relação marcada na pele não
existe mais no cotidiano. Todos foram observados no estúdio de Copacabana.
Paula, funcionária do estabelecimento, 33 anos, separada, mãe de duas filhas,
comentava que pensava em apagar o nome do ex-marido, tatuado em sua virilha, com uma
nova tatuagem: queria uma orquídea. Primeiro, havia pensado em tatuar a flor na costela,
mas teve medo da região conhecida como extremamente dolorosa e passou a cogitar em
unir o útil ao agradável: ter uma tatuagem nova que cobrisse a velha marca.
Separada há mais de um ano, foi casada por 14 anos. A separação parece não ter
sido tranqüila. Ao longo do trabalho de campo, ela me contava fragmentos de sua história.
Foi o marido quem quis a separação, enquanto Paula ainda nutria esperanças de manter seu
casamento. Quando suas esperanças se esgotaram, a situação se inverteu: hoje é ele quem
tenta reconquistá-la. Apesar de se dizer separada, Paula mora na mesma casa que o ex-
marido, apenas não divide com ele o quarto de dormir. Casou-se aos 17 anos. Sua filha
mais velha tem hoje 15 anos.
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Diversas vezes ouvi Paula dizer que jamais se casaria de novo, que o casamento é
uma relação difícil de ser sustentada e que havia se separado porque ela e seu ex-marido
tinham “pensamentos” distintos – para ela, visões de mundo irreconciliáveis. “Apesar do
quê”, disse certa vez, “eu me casei para ser para sempre, né”. Um dos tatuadores da casa,
também separado, compartilhando de sua idéia de não se casar novamente, respondeu a ela:

“Todo mundo se casa para sempre. Eu também. Ninguém se casa para acabar.” (Segundo
tatuador do estúdio pesquisado de Copacabana)

O tatuador mantém hoje um namoro, mas Paula não. Sempre expressando uma
amargura profunda devido à separação e especialmente ao tratamento que recebeu do
marido quando lhe comunicou o desejo de se separar, Paula não tem namorado, não fala
sobre o assunto nem expressa o desejo de conhecer uma outra pessoa e iniciar uma nova
relação. Dorme no quarto das filhas e deixou o ex-marido no quarto que um dia foi de
ambos. Dizia que ele não tinha condições, ainda, de sair da casa, referindo-se a questões
financeiras. Por outro lado, o marido não parecia esforçar-se em fazê-lo uma vez que
tentava reconquistar Paula, chegando a mandar-lhe flores no estúdio. Quando ligou para
saber se ela as havia recebido e se havia gostado da surpresa, Paula lhe disse friamente que
não, pois não desejava participar das estratégias de reconquista traçadas por ele. Sentira-se
humilhada pelo marido quando se separaram, e por isto parecia nunca tê-lo perdoado.
Se “todo mundo casa para sempre”, Paula parecia mais disposta do que outros a
manter esta idéia. O casamento estava acabado, a vida conjugal, no entanto, havia apenas se
modificado. A permanência do marido na casa de Paula expressa a permanência de um laço
entre eles, mesmo que atualmente baseado no ressentimento e na dor. Não buscar alguém
novo demonstra o quanto ela ainda está presa à relação. Dormir no quarto das filhas
inviabiliza a intimidade com o ex-marido, mas de igual forma inviabiliza a intimidade com
qualquer outro homem em sua casa.
A idéia do “casamento para sempre” revela a idéia de casamento por amor,
conjugados na idéia do amor romântico como um amor para sempre, único e verdadeiro.
Neste sentido, Paula parece padecer dos males do amor romântico, ou melhor, das dores
pelo fracasso de uma relação pensada como eterna. Quando o amor pensado como eterno
acaba, o que fazer? Esta é a pergunta que a própria Paula não consegue responder. Talvez
220

como conseqüência desta falta de resposta, e não como causa, ela se permita viver sob o
mesmo teto que o marido. Que outra referência existiria para a menina que se casou aos 17
anos acreditando que seria para sempre?
O diálogo entre Paula e o tatuador foi suscitado no estúdio pela presença de Pedro,
rapaz de cerca de 25 anos, que desejava cobrir o nome da ex-namorada tatuado em seu
quadril. A decisão de apagar a tatuagem de amor é, na verdade, a decisão de retirar do
corpo a marca de uma relação que não existe mais. Paula demorou mais de um ano para
decidir cobrir o nome do ex-marido com outra tatuagem. Pedro demorou poucos meses. Ele
decidiu cobrir o nome da moça com a figura de um rato, segundo contou, seu apelido entre
os amigos de praia. O tatuador gostou da idéia e lhe mostrou fotografias de tatuagens
japonesas do animal.
Quando Pedro optou por cobrir o nome da ex-namorada com um rato, o que fez de
fato foi cobrir o nome dela com seu próprio apelido. Mais do apagar uma lembrança, a
marca de uma pessoa em seu corpo e sua vida, o que Pedro fez foi demonstrar que o que
antes era pensado como um todo composto por dois elementos (ele e a namorada) quase
inseparáveis, a ponto de este outro elemento ser inserido simbolicamente no próprio Pedro
por meio da tatuagem, se tornara agora um todo composto por um único elemento
individualizado: Pedro, ou Rato.
A idéia da relação amorosa como composta por duas metades, ou seja, dois
indivíduos que formam um só, pode explicar, em parte, a utilização de tatuagens de amor.
Para além das questões relativas à dominação e à posse, Pedro/Rato demonstra que a
tatuagem de amor também simboliza a crença de uma totalidade entre os membros da
relação. Totalidade que é pensada como eterna, por isso pode ser disposta de modo
permanente – na tatuagem – em Pedro, como foi em Paula. Ocorre que, da mesma forma
que os amores são transitórios, a tatuagem de amor tem se tornado não permanente,
suscetível de modificações. Nenhuma tatuagem é hoje para sempre, como nenhuma relação
parece estar sendo tanto quanto as partes gostariam que fosse, embora seja necessário
salientar que relações afetivas duradouras existem e não são de todo raras.
Sobre o local da tatuagem de Pedro, não creio que expresse o mesmo sentido que
tais locais quando tatuados em mulheres. Em Jorge, como foi visto, a localização da
tatuagem no lado esquerdo do peito reflete uma necessidade de dupla expressão dos
221

sentimentos. Entre as mulheres, a maior parte das tatuagens localiza-se próxima às regiões
erógenas, sobretudo às genitais, atestando um privilégio sexual. No que se refere a Pedro,
contudo, creio que a localização escolhida servia menos de marca de privilégio sexual de
sua namorada sobre ele do que em um cálculo sobre a possibilidade de esconder a marca. É
inegável que há um fator sexual presente no local, mas entre os homens, segundo a lógica
da dominação masculina, isto não é impedimento para a manutenção de outras relações
simultâneas. Quando Pedro foi a estúdio, saído diretamente da praia, usava um bermudão
típico dos surfistas, que cobria a maior parte da tatuagem. Mesmo as atuais sungas, que
deixam as pernas à mostra, não revelariam a lateral tatuada do corpo do rapaz. Desta forma,
Pedro calculou a escolha do local de forma que, mesmo com o corpo à mostra, a marca
estivesse resguardada. Cabe perguntar, contudo, se a resguardava de olhares alheios ou do
sol, que destrói a tinta e desbota a tatuagem.
José, outro cliente do estúdio, ao contrário de Paula e Pedro, decidiu não apagar sua
tatuagem de amor. Estava no estúdio para colorir uma tatuagem de dragão, junto à qual
tatuou as duas primeiras letras do nome de sua atual namorada. Quando o tatuador
perguntou-lhe se não apagaria o nome de uma antiga namorada, José respondeu que

“Não adianta. Eu apago daqui [do braço] mas fica em outro lugar. Melhor deixar assim.”
(José)

A sua decisão, portanto, está intimamente relacionada aos seus sentimentos. Se José
tem esperanças de retomar a relação ou não, isto não é relevante, na medida em que seu
atual namoro se mostra forte o suficiente para que o nome de sua atual namorada seja
tatuado em seu corpo. Mas a relação antiga também se mostra forte e presente para ele, pois
José deu indícios de que ainda é apaixonado pela antiga namorada, e é por isso que optou
por não cobrir o seu nome. A lembrança do antigo amor é tão vívida que apagar a marca no
corpo não apagaria a marca na alma. Situação inversa a daqueles que optaram por apagar
tatuagens de amor, demonstra que a marca só é apagada quando o sentimento termina,
levando ao fim da relação. Expressão de um sentimento inexistente, a marca perde sua
razão de ser.
Talvez por isso também Paula tenha demorado tanto a pensar em cobrir o nome de
seu ex-marido. Habitando a mesma casa, mesmo que levando uma vida não-marital, ele se
222

faz presente e apagar a tatuagem não retiraria sua presença. Contudo, em seu caso, cobrir a
marca pode servir como um aviso a ele, que tenta reconquistá-la, de que não há volta. Para
Paula, não é exatamente o passado a ser apagado, mas o presente e, especialmente, o futuro
sonhado com seu (ex-)marido. Livre da marca no corpo, Paula estaria simbolicamente
liberta do marido, dos sonhos e planos, das dores e fracassos oriundos de uma relação que
terminou.
Patrícia, cujo falecido marido trabalhava com José, também pensava em cobrir a
marca de amor. Quando a conheci, fora ao estúdio encontrar um outro amigo que estava
sendo tatuado. Aproveitou a oportunidade para conversar com o tatuador sobre a nova
tatuagem. Pensava em apagar o nome do marido localizado na lombar, mas parecia
indecisa. Fantasiava com o futuro e dizia que queria que este fosse um pedido de seu
próximo namorado:

“Eu quero apagar, mas ao mesmo tempo me dá uma peninha... Acho que vou esperar eu
me apaixonar de novo e meu namorado me pedir para tirar.” (Patrícia)

Aparentemente, tomava o pedido como uma “prova de amor”, movida pelo interesse
nela e pelo ciúme decorrente deste. Patrícia imaginava uma cena entre os dois:

“Eu vou primeiro deixar ele ver. Se ele falar alguma coisa, eu vou dizer ‘não olha’ e vou
colocar um esparadrapo. Como não vai segurar, ele vai reclamar e pedir para eu tirar. Aí
eu tiro. Dá para fazer uma tribal por cima? E eu queria aquele azul turquesa.” (Patrícia)

Como a tatuagem de Paula, a de Patrícia localiza-se próxima à região genital.


Conforme indiquei sobre a tatuagem na virilha de Júlia, este tipo de marca serve, também,
para atestar o privilégio sexual de determinado homem sobre o corpo feminino. No caso de
Patrícia, ela mesma compreendia o teor sexualizado da marca, uma vez que imaginava uma
cena em que um hipotético namorado ciumento criticaria a tatuagem, querendo retirar a
marca deixada por outro homem, mesmo que falecido. Em um fantasiado jogo de relações
de dominação, Patrícia desejava ceder à vontade de seu novo companheiro, mas não sem
antes negá-lo apenas para demonstrar submissão ao final do processo. De fato, Patrícia
223

exprime relações de dominação masculina, nas quais ela se submete de bom grado,
compreendendo que estes são os papéis masculino e feminino.
A tatuagem havia sido feita a pedido do marido falecido. Patrícia disse que fora
praticamente obrigada por ele a ser tatuada, que chegara ao estúdio chorando e pedia ao
tatuador para não marcá-la. O nome do marido, rodeado por duas borboletas, foi
posicionado na lombar. Em troca, o marido havia tatuado o nome dela em ideogramas
japoneses. Foi no velório que Patrícia diz ter descoberto que o marido mantinha duas
amantes, fato notório entre todos os amigos dele, mas desconhecido para ela. Descobriu
ainda que as duas haviam sido tatuadas com as iniciais dele. Depois da revelação, passou a
duvidar que fosse seu o nome tatuado em japonês e imaginava que ele dizia para as amantes
tratar-se do nome delas.
O controle que o marido exercia sobre Patrícia era tamanho, que não apenas a
obrigou a fazer a tatuagem que ela não desejava como a proibiu de se submeter à cirurgia
de implante de silicone nos seios. Patrícia contou que desejava profundamente aumentar o
tamanho dos seios, mas o marido não permitia. Como não bastasse sua morte e a descoberta
de suas amantes, ainda observou que ambas apresentavam seios fartos, o que a levou a
concluir que ele permitira a operação nas amantes, mas não nela e, por outro lado, que
mentia quando lhe dizia que gostava de seios pequenos. Um mês após o seu falecimento, e
após a descoberta de sua vida dupla, decidiu enfrentar a cirurgia.
Mais uma vez, a tatuagem de amor se torna marca de propriedade. O falecido
marido e amante havia imposto seu nome e iniciais em todas as suas mulheres. Patrícia,
submissa ao marido, não teve força suficiente para negar o pedido, embora não desejasse a
tatuagem. Contudo, a ligação com o marido era ainda forte, pois embora desejasse apagar a
marca, também “sentia pena”. Para livrar-se da lembrança desse amor passado, imaginava
um amor futuro, como se apesar da morte do marido, a relação permanecesse e só perdesse
seu significado, ou sua presença, a partir do início de outro relacionamento.
Alguns pontos emergem aqui. Primeiro, Patrícia se posiciona como parte submissa
em uma relação de dominação com seus companheiros, e explicitamente com o marido.
Refletia esta mesma posição na sonhada relação ainda inexistente. Segundo, se Patrícia se
submetia, era também submetida. O marido, exercendo poder de dominação sobre ela, não
apenas a marcou como uma de suas mulheres, juntamente com as duas amantes, como
224

determinou um estrito controle sobre seu corpo, que a seu ver não era tão rígido sobre o
corpo das amantes.
De fato, a esposa tem sempre um status privilegiado. Como constitui a relação
oficial, onde a honra de um homem pode ser ganha ou perdida, o controle de seu corpo é
mais intenso. Talvez por isto o falecido marido de Patrícia tenha marcado o corpo de suas
amantes com tatuagens: menos que provas de amor, as marcas expressavam a necessidade
de manter uma permanência em meio a instabilidade, que se conjuga também com a idéia
de propriedade. A questão que emerge aqui é que a estabilidade parece se relacionar, em
meio às relações de dominação, com uma faceta de posse ou propriedade sobre o outro,
como se esta fosse a única garantia de continuidade e permanência, senão também de
fidelidade, amor, cumplicidade, compromisso, entre outros.
É importante observar que Patrícia não foi traída apenas pelo marido, mas também
por todos os amigos dele que eram vistos por ela como seus amigos também. Todos
conheciam as amantes do falecido, mas ninguém jamais disse a Patrícia nada que colocasse
sua confiança no marido em risco. Humilhada em pleno velório por vivos e morto, ainda
assim mantinha uma certa indecisão quanto a apagar ou não a marca, ou seja, o passado
vivido com o marido. Por isto pensava no futuro, em alguém que lhe requisitasse a saída
dessa relação passada em prol de uma nova estória de amor.

8. Obras de amor e de arte

No mesmo dia em que Pedro foi ao estúdio, o tatuador que o atendeu lembrou-se de
uma história que julgava curiosa envolvendo nomes de ex-namoradas tatuados no corpo.
Contou que havia um cliente seu que fora ao estúdio para ter o nome de sua parceira
tatuado. Ao fim da relação, retornou para ter o nome coberto por outra tatuagem. Algum
tempo depois, estava o cliente no estúdio para tatuar o nome de sua nova parceira. Ao fim
deste segundo relacionamento, decidiu adotar nova estratégia para lidar com a situação:
pediu ao tatuador que riscasse o nome com uma única linha horizontal. E assim passou a,
sucessivamente, namorada após namorada, tatuar nomes e riscá-los em seu braço.
Este episódio lembrou aos presentes no estúdio uma obra de arte em que um
marinheiro tem mais um nome de mulher, da extensa lista em seu braço, riscado. O que a
225

história narra, de fato, não é apenas uma nova estratégia de se lidar com o desejo por
relações duradouras e a frustração pelo seu fim, mas também a idéia de que a história de
vida, marcada na pele, quase uma biografia amorosa, pode se tornar mais que uma lista de
nomes e amores passados, pode tornar o seu portador a cópia de uma obra de arte.
Riscar os nomes é, sem dúvida, diferente de cobri-los. Mesmo riscados, eles ainda
são visíveis. A lista extensa indica uma vida amorosa intensa, o que para um homem se
converte numa espécie de prova de virilidade. Mas creio que não se trata apenas de uma
questão de gênero. Tornar-se uma obra de arte (imagino, aqui, que o herói da história
também tivesse conhecimento da pintura em questão) é converter a necessidade de apagar
nomes de ex-amores, o que não é bem visto pelos tatuadores (de fato, embora tatuem este
tipo de trabalho, muitos são contra), em algo valorizado. Da mesma forma, transforma-se o
valor negativo do fim da relação em algo positivo: a modificação artística do corpo.
Esta história apresenta um caminho único para se lidar com os ganhos e as perdas
amorosas. Conserva-se a lembrança dos ex-amores, cujos nomes são visíveis, mas indica-se
que são parte do passado pelo risco tatuado por cima deles. Torna-se a pele uma espécie de
testemunho da vida amorosa, local da biografia. Da mesma forma que o passado não pode
ser apagado, as tatuagens de amor são apenas riscadas e não cobertas por outros desenhos.
Longe das discussões sobre o corpo como obra de arte e da função embelezadora e
de sedução da tatuagem, gostaria aqui apenas de apontar como a memória das experiências
passadas não precisa estar, necessariamente, encerrada no dilema apresentado sobre as
tatuagens de amor entre apagar ou não a marca e, antes disto, fazê-la ou não. A marca de
amor pode tomar outros significados, assim como a memória do passado pode ser mantida,
resignificada sem ter que se entrar no plano do esquecimento.
O que faz esses sentimentos serem marcados na forma de uma tatuagem, no próprio
corpo, e carregados de maneira permanente? Como foi observado, a tatuagem marca a pele,
camada de mediação entre o Eu e o mundo. É local para comunicar ao mundo sentimentos
importantes, da esfera do privado ou interno, na relação do sujeito (Eu) com Outros, vistos
como da esfera do social ou externo. Marcar na pele seus sentimentos é comunicar ao
mundo que eles existem e quais são.
No caso das tatuagens de amor, elas se tornam provas não apenas dos sentimentos
como da relação existente. Para Joana e Joyce, o nome de seus maridos marcava o
226

casamento, o compromisso profundo entre eles. Para José, o nome da atual namorada e o da
anterior conviviam na pele da mesma forma que os sentimentos por ambas. Se a relação
anterior não existia mais, a lembrança jamais fora apagada da memória, e por isso também
jamais apagada da pele. Se nem a relação nem o sentimento existem mais, então a marca de
amor deve ser apagada. É o caso de Paula, Pedro e Patrícia, embora as mulheres
apresentassem alguma insegurança quanto à decisão.
Atender a um pedido para fazer uma marca de amor quando não se acredita no
futuro da relação, ao contrário, é comunicar ao mundo que se está numa posição de
subjugação. Júlia estava nesta situação tanto quanto Patrícia e Joaquim. Joaquim, contudo,
soube transformar o exercício de poder de Roberta sobre ele aproveitando-se
financeiramente da situação. Patrícia, por outro lado, mesmo tendo sido obrigada a ser
tatuada por um marido infiel que tatuara também as amantes, ainda esperava por um outro
homem que lhe pedisse a retirada da marca. Nesses três casos, a relação amorosa é uma
espécie de jogo de dominar/ser dominado, possuir/ser possuído, em que as mulheres
parecem, a princípio, aceitarem mais facilmente a posição de submissão.
Retomo, então, a citação inicial, retirada de um poema de Ricardo Reis, heterônimo
de Fernando Pessoa: o amor, sobretudo o amor romântico, que é pensado tantas vezes como
uma forma de libertação, pode encobrir relações opostas, de submissão, opressão e
limitação. Aqui estas relações foram vistas sob a ótica das relações de gênero. Mas é
preciso ter em mente que a própria crença no amor romântico pode se tornar, por si só, uma
forma de limitação.

9. Lembrar/esquecer/silenciar: formas de uma dermo-biografia

Sant’anna (2001), escrevendo sobre a visão que as sociedades contemporâneas têm


da pele, ressalta o valor dado ao liso. Os pêlos, as manchas, as rugas, as marcas, tudo deve
ser removido em virtude do valor altamente positivo da pele lisa. Como ressalta a autora,
uma pele lisa é uma pele sem história, uma pele que não “fala” sobre o Eu que recobre. Mas
como mesmo o silêncio “diz” algo, a pele lisa fala sobre o valor da juventude, ideal a ser
alcançado, e sobre o encobrimento das histórias pessoais, como se a vida devesse ser um
227

eterno presente, sem passado e conseqüentemente sem futuro. Na pele lisa, é o momento
que transparece e reina absoluto.
A argumentação da autora torna a questão da tatuagem mais complexa. A tatuagem
é uma espécie de mancha que marca a pele, tirando dela o liso original. Embora a técnica
tenha sido utilizada para encobrir cicatrizes (GILBERT, 2000; MIFFLIN, 1997), este não é
seu uso preponderante no Ocidente. Pode-se sugerir, então, que a pele marcada com a
tatuagem é uma pele marcada com uma história pessoal, que longe do desejo de ser
apagada demonstra o desejo de permanência. Como em uma reação à vida baseada em
momentos, a tatuagem fixa a história do sujeito na própria pele.
Algumas observações devem ser feitas para que esta idéia não tome conseqüências
demasiado amplas. Primeiro, a noção de que a tatuagem marca a pessoa leva à reflexão de
que toda marca nos situa em algum momento de vida. Isto não quer dizer que o desenho
tatuado provenha de uma reflexão profunda sobre este momento vivido ou que o momento
de vida em que se faz a tatuagem seja escolhido por meio de reflexão.
Almeida (2001) apresenta casos em que a tatuagem é efetuada por um desejo3
momentâneo, em oposição à idéia de um processo reflexivo. Se isso for verdadeiro, pode-se
supor que é a tatuagem que marca o momento, tornando-o parte da história de vida da
pessoa, momento este tornado importante no ato da tatuagem, pois, não fosse a
permanência da marca, ele expiraria. Em outras palavras, o momento de se tatuar pode ser
escolhido aleatoriamente, mas a tatuagem marca este momento para sempre. A fugacidade
da vida contemporânea atingiu a permanência da tatuagem, transformando uma marca que
é para sempre em um meio de marcar um momento que poderia ser perdido. Luta-se contra
a fugacidade marcando-se o momento e luta-se contra a falta de história marcando a pele,
mesmo que estas não sejam sempre escolhas reflexivas.
Se a tatuagem pode expressar sentimentos, também expressa valores, gostos e
aspirações pessoais. Neste sentido, além de comunicar aspectos da subjetividade, exprime
também o que chamo aqui de dermo-biografia, uma parte da vida e das crenças pessoais
que é marcada sobre a pele. Parto da idéia de que várias tatuagens, vistas em conjunto,
podem ser tomadas como uma forma de biografia inscrita na pele. O caso de Fátima, cuja
fada voando em suas costas representava, para ela, a idéia de colocar a própria vida em

3
Alguns entrevistados da autora utilizam a idéia de “fissura”.
228

movimento, demonstra como o sujeito correlaciona elementos interiores, do Eu, ao desenho


escolhido. Seriam como marcos de momentos de vida que fazem recordar ou, ainda,
expressam sentimentos, valores, gostos, pertencimentos e aspirações, entre outros.
Sobre o corpo repousam inúmeras marcas, inscritas nele, que contam a história de
uma pessoa: rugas, cicatrizes, sinais, entre tantos outros. A tatuagem é mais uma destas
marcas, de escolha do sujeito, e que contam parte de sua história. Se o painel de seu Nelson
não explicita sua opção religiosa, as menções aos orixás o fazem. Na canela direita, seu
Nelson tem escrito “Safra 1943”, indicando o ano de seu nascimento. São marcas
construídas pelo sujeito que comunicam ao mundo elementos considerados importantes
para ele.
Durante a observação de campo no estúdio pesquisado na Tijuca, conheci uma
cliente que tatuava um coração e três querubins. Segundo ela, marcava na pele a parada
cardíaca que quase a matara menos de um mês antes. Era importante para ela que o registro
do evento não ficasse apenas na subjetividade e na memória do ocorrido. Era preciso
expressá-lo por meio de um desenho que jamais se apagasse.
Observa-se, assim, que os marcos de vida se tornam marcas na pele: não apenas as
marcas do tempo vivido, como rugas ou cicatrizes, mas as marcas voluntariamente
dispostas sobre o corpo, na forma de tatuagens. Estas marcas corporais, escolhidas pelo
sujeito, expressam marcos de eventos vividos, marcos da subjetividade que devem ser
tornados visíveis por intermédio das marcas corporais. O sentimento, o evento, a situação
vivida não podem repousar apenas na lembrança imaterial, mas são dispostos sob a forma
visível da tatuagem e material do próprio corpo, como se aflorassem à visão de todos.
Trata-se de um processo no qual o que é subjetivo vêm à tona, à flor da pele,
transpirando para o mundo exterior o que seria, de outro modo, conhecido apenas pelo
próprio indivíduo. O liso do eterno presente sem história, conforme Sant’anna (2001), dá
lugar à mancha marcada na pele, ao desenho – criteriosamente escolhido ou não – que
expressa que há um passado vivido e, muitas vezes, como no caso de Fátima, também um
futuro a se viver. São marcas que expressam momentos da história de vida dos indivíduos.
Outras vezes, contudo, a marca involuntária é a expressão de uma dor, de uma
tristeza relacionada a uma difícil situação vivida. Nestes casos, a sua permanência não é
desejada pelo sujeito e a tatuagem é utilizada para cobrir as cicatrizes do corpo e da alma.
229

Outra cliente que conheci no estúdio da Tijuca fazia uma série de tatuagens para cobrir as
cicatrizes de uma operação delicada na coluna, realizada aos 13 anos de idade. Esconder as
cicatrizes era crucial para ela. Quando a tatuadora exprimiu a dificuldade de encontrar um
desenho adequado, no mesmo ângulo da cicatriz, a cliente caiu em prantos, frustrada. A
dificuldade foi contornada e a tatuagem realizada em três sessões, mas a expressão de sua
angústia diante da impossibilidade de cobrir a marca da operação na coluna demonstra o
quanto a memória expressa na cicatriz sobre a pele a incomodava, possivelmente não
apenas quanto a sua estética. Cobrir uma cicatriz com uma tatuagem demonstra que há uma
motivação estética, mas creio que se deseja também esquecer ou silenciar um evento do
qual não se deseja que outros tomem conhecimento.
Quando trato da tatuagem como um elemento que pode comunicar sentimentos,
grupos de pertencimento, eventos pessoais marcantes, estou observando aspectos deste
adorno corporal que vão além da relação entre aparência e identidade. Não é apenas a
identidade pessoal ou social que a tatuagem pode expressar ou ajudar a compor. Ela tem
uma gama de usos que podem ser criados e/ou ressignificados pelos sujeitos, como marca
pessoal de mudança de status ou como parte de processos pessoais de “cura” emocional.
No que diz respeito às tatuagens de amor, imagine-se uma pessoa que tenha tatuado
as iniciais ou o nome de todos os namorados(as), amantes ou cônjuges: parte de sua vida
amorosa estaria registrada sobre a pele. Pode-se cogitar, então, que certos relacionamentos,
por diversos motivos, sejam mais marcantes, levando o indivíduo a optar pela tatuagem de
amor. Apagar ou cobrir uma tatuagem de amor seria, então, apagar a memória de uma
relação que chegou ao seu fim. De certa forma, é marcar também o fim do sentimento de
estar apaixonado por determinada pessoa. A memória da relação amorosa é vista como algo
que não deve permanecer no corpo desta forma, embora talvez jamais seja apagada da
memória em termos abstratos.
As tatuagens de amor, porém, não são as únicas a serem cobertas ou apagadas.
Desenhos desbotados, envelhecidos, mal-feitos, em suma, desenhos considerados feios ou
inapropriados são cobertos por outros. O desgaste pode ser contornado, ainda, com o
retoque. Cobrir ou apagar a tatuagem com procedimentos a laser indicam que algo que era
importante em um determinado momento de vida não é mais. A perda de importância de
elementos cruciais o bastante para serem tatuados é mais visível quando se trata de
230

tatuagens em adolescentes. Como ouvi o proprietário do estúdio pesquisado na Tijuca dizer


certa vez a uma menina de 16 anos: “Pensa bem no que você vai tatuar, algo do qual você
não se arrependa depois. A cabeça muda com o tempo”.
Apagar uma tatuagem, visto aqui como um ato de esquecimento ou silenciamento,
faz emergir a reflexão sobre a permanência da tatuagem no corpo. Embora os
procedimentos a laser sejam caros e demorados, nem sempre alcançando bons resultados,
há um mercado para se apagar tatuagens. As cover-ups, por outro lado, formam parte do
contingente de clientes dos tatuadores, demonstrando que a permanência de um desenho na
pele, mesmo tatuado, é questão de opção, seguindo os ritmos de mudança dos sujeitos em
questão.
231

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo pretendeu apresentar alguns dos usos contemporâneos relativos à


tatuagem na cidade do Rio de Janeiro, a partir de situações observadas em campo. A
observação participante em dois estúdios de tatuagem na cidade visava, nesse sentido, um
contato maior com tatuados e tatuadores, compreendidos como atores principais do
universo da tatuagem. Pude construir um perfil de tatuados e contrastá-lo com o imaginário
corrente sobre eles. Ao mesmo tempo, pude perceber, de dentro dos estúdios, uma série de
valores que tatuados e tatuadores constróem, e muitas vezes compartilham, acerca da
tatuagem. A partir do perfil dos tatuados e destes valores, formulei uma interpretação sobre
a prática que aponta para um uso relacionado às construções de gênero, de mudança de
status, de expressão da subjetividade e de sentimentos, e da vivência da necessidade de
autonomia, muitas vezes relacionada a idéias de originalidade e autenticidade, como
contraponto a uma idéia de controle e dominação por parte de instâncias maiores que o
indivíduo, como o Estado, a família ou o mercado de trabalho.
A popularização da prática na cidade do Rio de Janeiro, medida em termos de uma
nova dinâmica em que estúdios profissionais passaram a abrir filiais em outros bairros da
cidade, chamou a atenção tanto para este crescimento do público quanto para a expansão
desse tipo de empreendimento comercial. Dinâmica recente, a concorrência entre estúdios
conhecidos do público em bairros onde antes não atuavam parece ter levado alguns estúdios
a empreenderem estratégias de sobrevivência que incluem a prática de baixos preços, a
proximidade física com outros estúdios e a propaganda em meios de comunicação. Embora
não se possa dizer que o universo profissional da tatuagem foi alterado pela popularização
da prática, a concorrência entre estúdios tem gerado efeitos como a necessidade de uma
administração mais burocratizada. Em termos de público, tampouco creio que a
concorrência tenha alterado seu perfil, marcado por outras variáveis.
Quando o trabalho de campo foi iniciado, paralelamente a uma revisão sobre temas
relacionados ao universo da tatuagem, imaginei um público masculino e jovem. Ao longo
da pesquisa, esta visão foi alterada. Os dados quantitativos e qualitativos apontaram para
232

uma dificuldade em estabelecer o corte geracional, pois várias faixas etárias se faziam
presentes nos estúdios, enquanto apontavam para uma maioria de mulheres entre os
clientes. Havia uma questão: por que o público havia se alterado de uma clientela
majoritariamente jovem e masculina para esta diversidade de faixas etárias
majoritariamente femininas?
A minha visão inicial de que o público seria jovem e masculino era originária, em
grande parte, de leituras relativas ao passado da prática. A bibliografia específica sobre
tatuagem recorrentemente mencionava um passado relacionado a homens e jovens.
Contudo, estes homens e jovens que constituíam essa clientela do passado estavam
normalmente em uma posição social de menor status ou sob impacto de fatores
estigmatizantes. Prática tão antiga que suas origens foram perdidas no tempo, sua
popularização inicia uma espiral ascendente em que diversos grupos são incorporados aos
consumidores de tatuagens, em momentos históricos distintos e sob distintas influências.
De um modo geral, os usuários de tatuagens no Ocidente têm em comum uma
posição social de menor status. Exceção feita à nobreza européia. Mas, o uso de tatuagens
entre os nobres não estava relacionado ao sangue azul e sim ao pertencimento às
corporações militares. Além da posição de menor status, os usuários de tatuagens no
Ocidente estão freqüentemente sob algum tipo de controle corporal, como militares,
marinheiros e presidiários.
A partir desta percepção de que as tatuagens estão relacionadas ao baixo status e/ou
ao controle corporal, coube entender o por que de seu uso nestas situações. A marca auto-
infligida – conquanto tatuada por outro indivíduo e não por si mesmo, mas por escolha
própria – representa a marca de autopropriedade do próprio corpo, em um contexto de
controle e dominação. É uma marca de resistência ao controle, que comunica – sobretudo
ao controlador – que há um limite para este controle e que, mesmo sob dominação, há
espaço para o exercício de uma autonomia. Esta autonomia é exercida nestas situações de
controle sobre o corpo. Trata-se de uma relação dialética entre controle, resistência e
autonomia, na qual o corpo se torna palco das representações sociais sobre o sujeito.
Em termos de classe, portanto, é compreensível que a tatuagem tenha feito sucesso
primeiro entre as camadas populares. Para uma análise do contexto contemporâneo,
233

contudo, e de acordo com o material de campo, utilizei outras categorias de usuários e


outras classificações, sobretudo gênero e geração.
Pensando-se analogamente a dialética do controle-resistência-autonomia relacionada
à tatuagem em termos de geração, compreende-se que os jovens são o grupo sob controle.
Este controle não é simplesmente exercido pelo que se poderia chamar de “mundo adulto”,
mas está localizado particularmente na família. A família exerce controle sobre seus
membros, expresso também na forma de um controle sobre seus corpos. Nega-se o piercing
e a tatuagem aos menores de idade, àqueles a quem a lei permite as duas práticas desde que
permitidas também pelo responsável. Tenta-se dissuadir o membro da família a fazê-los
entre os maiores de idade Desestimula-se ambas as práticas, desencoraja-se, diz-se que é
“vulgar”, de mau gosto, “feio”, que “gera problemas” (de saúde e no mercado de trabalho).
A família desestimula os jovens e as mulheres, ambos com status inferior, ambos
subjugados por uma ordem dominante que ainda dá aos adultos, particularmente aos
homens, o direito do exercício de dominação sobre os membros da família e,
conseqüentemente, sobre seus corpos.
Os jovens, quando completam 18 anos, exercem o poder adquirido sobre si, a
liberdade ganha, e vão aos estúdios marcarem os corpos com este signo de autonomia.
Marcam a mudança de status. Se deixam a marca para mais tarde, é porque a censura
familiar fez com que refletissem, se tornassem inseguros quanto ao desejo, e não tomassem
de fato sua decisão, esboçada normalmente na tenra juventude.
As mulheres vivenciam toda uma série de censuras na busca pelo exercício dessa
livre modificação de seu corpo. Neste exercício, algumas são vencidas pela opinião
contrária à tatuagem de familiares, cônjuges ou namorados. Desistem da marca. Outras
resistem. É nesta situação de controle e resistência que percebem o quanto são tuteladas
pela família e pelo cônjuge, ambos tentando diminuir sua liberdade, cercear sua autonomia,
exercer uma dominação sobre as escolhas efetuadas por elas.
A maior procura por tatuagens entre as mulheres parece correlacionar-se a este
momento histórico em que se avançou a igualdade entre homens e mulheres, dando a elas a
possibilidade de exercício de autonomia e liberdade individuais, tornando-as indivíduos, no
sentido moderno da palavra. Conquanto o exercício dessa igualdade não seja pleno, é a
234

possibilidade desse exercício, a meu ver, a possibilidade de ser um indivíduo (livre) que fez
subir o número de mulheres entre o público da tatuagem.
Pensar que o aumento do público feminino está relacionado a uma estetização do
cotidiano e a um culto ao corpo me parece inadequado. Na medida em que o feminino
ainda é inferiorizado, que aquilo que é considerado feminino ainda é visto como de menor
valor, tratar o que agora aparece como uma prática feminina apenas como um ritual de
embelezamento entre tantos outros rituais femininos deste tipo é reproduzir esta ideologia
que inferioriza o feminino, roubando-lhe a possibilidade de agência.
Nos estúdios, permeados pela mesma lógica de diferenciação de gênero encontrada
na sociedade brasileira, o que é feminino é inferior: são desenhos pequenos, infantis, com
classificação própria, raramente considerados artísticos, executados por profissionais que
são em sua maioria homens, em regiões pouco extensas do corpo (pé, nuca, pequenas áreas
das costas), e a dor feminina é aceita porque é vista como sinal de sua fragilidade. Os
desenhos masculinos, por outro lado, são grandes, tomam extensas áreas do corpo
proporcionando a possibilidade de maior sofisticação artística, representando elementos
agressivos que constituem o cerne da masculinidade guerreira, executados por outros
homens a quem a performance frente à dor serve de medida do grau de virilidade.
Se as mulheres são vistas no estúdio, pelo senso comum, como em um ritual fútil de
embelezamento, os homens, em contrapartida, fazem do estúdio de tatuagem local de um
ritual de virilidade, onde esta é posta a prova, construída e reconstruída em um universo
ainda visto por eles como masculino. O tatuador, o sacerdote deste ritual, humilha os que
não toleram a dor – a prova suprema da masculinidade – com piadas e chacotas. Coloca em
xeque o caráter masculino daquele que é fraco, seja em frente ao cliente ou após sua saída
do estúdio. Faz o mesmo com aqueles que não escolhem estes desenhos “de macho”, os que
retratam a agressividade que parte da sociedade brasileira associa ao “ser homem”.
Há, portanto, uma lógica que permite compreender quem é e quem não é tatuado:
aqueles de menor status, aqueles em que um evento de vida os fez sentir em menor status,
aqueles sob controle corporal – estes serão grupos propícios a se tatuarem.
Os homens usam o autocontrole da dor, um controle corporal exercido pela
sociedade sobre eles, como sinal de masculinidade. Não se libertam desse controle nem
235

tampouco de uma determinada visão de masculinidade. Ao contrário, apropriam-se do


controle para competir entre si, provando quem é “macho” e quem não é.
Assim também age a tatuagem de amor. Longe de promover uma autonomia ou ser
o indicativo de uma resistência, ela é o abandono de si frente ao amor. Marca-se no corpo o
“ser propriedade de outro”, o doar-se ao ser amado. A tatuagem de amor demonstra que
nem sempre a tatuagem atua como uma forma de resistência. No amor romântico que
embala essa prova de amor, o casal é visto como um todo, os dois sujeitos formando uma
totalidade. O doar-se ao outro é, de um outro ângulo, o doar-se a esta nova constituição não
mais como indivíduos autônomos, mas como um todo: o casal.
A tatuagem de amor permite uma reflexão sobre a metáfora da tatuagem,
constantemente presente: estar dentro e estar fora do corpo ao mesmo tempo. Ter a
tatuagem do nome da pessoa amada é tê-la em si, em seu corpo. Ao mesmo tempo, é
“colocar para fora” o amor por essa pessoa, externalizar o sentimento, que no Ocidente é
visto como algo interno ao sujeito.
A metáfora da tatuagem, esta relação dentro/fora, permeia vários de seus usos e
permite explicar muitos deles. A própria relação entre status social e tatuagem associa-se a
esta metáfora dentro/fora, uma vez que os de menor status, aqueles fora das posições de
dominação, formam o maior contingente de tatuados.
Esta metáfora, no Ocidente, toma um caráter interessante na medida em que se
conjuga com crenças sobre a subjetividade como sendo algo interno e o corpo como sendo
algo externo. Assim, a tatuagem tanto injeta elementos para dentro do sujeito quanto utiliza
o mesmo veículo para externalizá-los. As idéias de tatuagem como indicativo de
autenticidade e originalidade, de se representar o que se é em contraposição à idéia de
moda, artigo de consumo externo ao sujeito, estão situadas no âmbito desta metáfora.
Por exemplo, pensa-se usualmente que os desenhos têm significados próprios, quase
que ocultos dado que são da esfera da subjetividade. Estes significados existem, e de fato
nunca são tão óbvios quanto possam parecer. Mas nem sempre estão presentes. Há casos
em que o desenho tatuado não tem significado algum para o sujeito, é apenas uma escolha
esteticamente orientada. Quando esta estética é seguida por muitos, torna-se uma moda (ou
modismo). Isto é malvisto no universo dos tatuadores uma vez que compartilham a idéia de
que os desenhos devem ser individualizados, distintos para cada cliente: se não únicos, pois
236

nem sempre é possível, ao menos ligeiramente modificados daqueles que lhes servem de
inspiração. O tatuado que segue modismos é visto como pessoa fraca, sem opinião própria.
O tatuado que busca sempre desenhos originais e únicos é visto como autêntico e estes
desenhos são correlacionados à sua subjetividade, como se fossem expressão desta.
Observa-se, então, uma hierarquia entre originalidade e modismo, em termos do
desenho tatuado, que representa, na verdade, uma hierarquia entre o sujeitos que têm
opinião própria e a expressam ao mundo, o que é mais valorizado, e aqueles que não têm
opinião própria ou não fazem valer suas opiniões, considerados fracos. Esta hierarquização
é análoga à determinação de status do tatuado, da seguinte forma: se aquele que busca a
tatuagem está, conforme indiquei, normalmente numa posição de menor status social, a
tatuagem não apenas funciona como marcador de uma busca de autonomia como também
constrói um status superior, ao menos no universo da tatuagem. Frente a outros tatuados,
aquele que tem desenhos originais e únicos sobressai-se, elevando seu status.
Instâncias sociais como a família e o mercado de trabalho exercem diferentes
controles sobre os sujeitos e seus corpos, tentando cercear sua autonomia. Tatuando-se,
sinônimo do exercício de autonomia e opinião própria, o sujeito resiste a esse controle,
fortalecendo em maior ou menor grau o exercício de sua individualidade, de sua liberdade.
Ele resiste a este controle e, nesta resistência, eleva seu status. Quando a tatuagem é
socialmente malvista, então, é porque indica que o sujeito que a porta não está aceitando as
regras sociais de dominação e controle como deveria. Não é mais, hoje, um desviante, dada
a popularização da prática, mas é alguém em busca de autonomia. Esta popularização,
contudo, é fruto de uma ordem social em mudança, na qual aqueles com status inferiores
buscam formas de inclusão social.
O corpo extensamente tatuado é visto no mercado de trabalho como agressivo e
grotesco.
Há, é claro, outros usos que não coincidem com este eixo analítico. A tatuagem
como amuleto, vinculada a idéias de proteção mística, por exemplo, existe hoje, mesmo que
em pequena escala. Este uso foi observado no recém-aposentado Fábio, que escolhera um
sinal de recomeço para ser tatuado e acreditava na propriedade de boa sorte da tatuagem.
Além do aspecto místico, há também um aspecto subjetivo na tatuagem, em que se
apreciam os desenhos não apenas em termos estéticos, mas também como signos capazes
237

de comunicar preferências ao mundo e exprimir estados de espírito do tatuado, como, mais


uma vez, no caso de Fábio e sua aspiração por um recomeço, ou Fátima e sua aspiração por
mudanças positivas, entendidas como um estado de “manter-se em movimento”, como a
fada voando em suas costas.
Os eventos marcantes do passado e do presente, tanto quanto as aspirações para o
futuro, se tornam marcos pessoais que levam alguns sujeitos aos estúdios. Afastando-me
aqui da idéia de autonomia e status social, identifiquei usos da tatuagem que não se
relacionam a esta tensão entre indivíduo e sociedade, mas que estão, de outro modo,
localizados na história de vida de cada um. A marca na pele como expressão de um marco
de vida se associa a um determinado tipo de memória que se quer ver materializada, visível,
para a qual o corpo serve como suporte.
Enseja, ainda, reflexões sobre a permanência como qualidade intrínseca da
tatuagem. Marca indelével, os procedimentos para sua retirada são tão custosos e dolorosos
quanto para sua realização. Mas sabendo-se que é eterna, e uma vez feita, por que retirá-la?
Entre as respostas possíveis, a idéia de que a motivação para a marca não existe mais é
sempre a mais tentadora, embora nem sempre a mais correta. De fato, apagam-se desenhos
desbotados e borrados, feios, mas apagam-se também desenhos considerados como estando
em locais inapropriados do corpo, visíveis. Quando um desenho é apagado, ele não
apresenta mais a importância que tinha quando foi tatuado. Os desenhos desbotados podem
ser retocados, e muitas vezes o são. Se esta não foi a opção, é porque expirou sua validade.
As tatuagens de amor e as tatuagens em jovens foram casos privilegiados para se
pensar a tensão provocada pela permanência da marca. O amor percebido como eterno, e
assim marcado no corpo, muitas vezes termina, levando o tatuado a cobrir a prova de amor.
A juventude, por sua vez, pensada como caótica e desregrada, sobretudo a adolescência,
época de transição em que nada é pensado como fixo, provoca uma tensão com a tatuagem
como marca permanente, sobretudo nos pais. A idéia de arrependimento, contudo, não
emerge nos casos observados. Viveu-se o que se tinha para viver. Uma vez acabada a
história, apaga-se a prova de amor. E, uma vez fora da juventude, apaga-se igualmente uma
marca considerada feia ou imprópria, com o laser ou com outra tatuagem. Apagar se torna,
então, sinônimo de esquecer, enquanto manter se torna sinônimo de lembrar, emergindo aí
parte da qualidade mnemônica da tatuagem.
238

A permanência da marca se torna sinônimo de fixação. Marcar a mudança de status


é, então, marcar o ingresso em outra posição. Tatuar eventos de vida marcantes é fixar na
pele aquilo que a alma jamais esquecerá. É, também, injetar em si aquilo que se aspira que
venha e jamais vá embora, tanto quanto externalizar a relação amorosa pensada como
eterna. Em todas as situações analisadas, a qualidade de permanência da tatuagem é um
elemento em jogo na escolha ou na dúvida frente a ter ou não a marca.
Embora certos aspectos da tatuagem contemporânea analisados não sejam inéditos,
tentei, nesta tese, construir um novo ângulo de visão que pudesse, sobre os temas já
abordados, oferecer novas contribuições. Estas contribuições se assentam nesta visão de
continuidade entre os grupos tatuados a partir da análise de seu status social e/ou das
situações de controle corporal vivenciados por eles. Assenta-se, ainda, em análises sobre
aspectos até então negligenciados no processo de tatuar e ser tatuado, como a dor e a
importância da originalidade dos desenhos. Acrescentaria, ainda, como contribuição, a
análise sobre as tatuagens de amor, terreno fértil para uma reflexão sobre diversos
elementos que permeiam a cultura da tatuagem atual.
Assim, espero não apenas ter apresentado um panorama sobre a prática da tatuagem
contemporânea no país, a partir do Rio de Janeiro, mas construído uma análise que permita
novas reflexões sobre gênero, geração, corporalidade, sentimentos, memória e tatuagens em
meio urbano no Brasil. Os estudos antropológicos sobre o corpo têm crescido nos últimos
anos, assim como os estudos sobre a tatuagem têm se diversificado. Analisar esta prática e
compreender seus significados é uma forma de compreender como o corpo é marcado por
classificações sociais, repletas de representações de gênero, geração e status. É também
compreender como se dá a relação ocidental entre mente e corpo. No caso da tatuagem,
uma relação marcada por fatores como tempo e permanência, que se tornam, face ao corpo
e à memória, elementos com os quais os sujeitos têm que lidar em seu cotidiano, muitas
vezes marcando assim sua história de vida.
Se corpo e mente ainda são pensados como separados, o estudo antropológico da
tatuagem permite refletir sobre a relação que mantém entre si: o corpo muitas vezes
servindo como o mero suporte de signos da subjetividade; outras vezes determinando, por
meio de suas curvas e cores, o que pode ou não ser tatuado; outras, ainda, construindo um
diálogo com a história de vida pessoal. Mas creio que o diálogo mais interessante entre
239

mente e corpo, na tatuagem, é a percepção de como o processo técnico é permeado com


estas representações hierarquizadas sobre corpo e mente: algumas vezes o desenho
injetando qualidades no sujeito via corpo, outras deixando apenas transparecer o que vai
pela mente inacessível.
A pele é o limite entre essa mente intangível no interior do próprio corpo e o mundo
externo ao sujeito. Ela se torna deslocada do sujeito e de seu corpo. Ganha vida própria,
tornando-se uma intermediária, servindo de elemento de mediação. Assim, a tatuagem na
pele não está nem no corpo, nem no sujeito, mas nesta zona intermediária entre o sujeito em
seu corpo e o mundo exterior. É uma zona de passagem. Por isso é marcada quando uma
“passagem” é efetuada: lacrando, abrindo ou simplesmente identificando o sujeito. Fixa,
mas com múltiplos significados, pode ser recriada e re-significada a qualquer tempo. O
próprio tempo passa, enquanto a tatuagem ali permanece, naquela falsa superfície que
guarda, de fato, as marcas profundas de uma vida.
240

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245
246

ANEXO 1

ICONOGRAFIA DAS TATUAGENS CONTEMPORÂNEAS

Figura 1 – Exemplo de estilo old school.

Fonte: < http://www.originaltattoostudio.com.br/paulo_tattoo.htm em 10 dez 2005.

Figura 2 – Tribal feminina na lombar/cóccix.

Fonte: MARQUES, 1997.


247

Figura 3 – Exemplo do estilo comics.

Fonte: MARQUES, 1997.

Figura 4 – Exemplo do estilo realista.

Fonte: MARQUES, 1997.


248

Figura 5 – Exemplo de cover up com estilo comics feminino (Betty Boop), nas costas
(por trás do ombro).

Fonte: <http://www.leonardonovaes.com.br/pages-tattoos/cover-1_03.htm> em 10 dez 2005.

Figura 6– Exemplo de cover up com desenho old school, por cima de ideograma.

Fonte: < http://www.leonardonovaes.com.br/pages-tattoos/cover-1_01.htm > em 10 dez 2005.


249

Figura 7 – Exemplo de estilo étnico.

Fonte: < http://www.leonardonovaes.com.br/pages-tattoos/tattoo-3_14.htm> em 10 dez 2005.

Figura 8 – Exemplo de estilo oriental: o guerreiro a cavalo e os ideogramas no peito,


braço e costelas.

Fonte: MARQUES, 1997.


250

Figura 9 – Exemplo de estilo oriental: o painel de costas.

Fonte: MARQUES, 1997.

Figura 10 – Exemplo de “desenho feminino” com tendência infantil, no tornozelo.

Fonte: <http://www.leonardonovaes.com.br/pages-tattoos/tattoo-3_07.htm > em 10 dez 2005.


251

Figura 11 – Exemplo de “desenho feminino”, por trás da orelha: as três estrelinhas


coloridas.

Fonte: < http://www.leonardonovaes.com.br/pages-tattoos/tattoo-2_13.htm> em 10 dez 2005.

Figura 12 – Exemplo de “desenho feminino, na canela: a borboleta.

Fonte: < http://www.leonardonovaes.com.br/pages-tattoos/tattoo-2_06.htm> em 10 dez 2005.


252

Figura 13 – Exemplo de tatuagem de sol e lua, na panturrilha.

Fonte: http://www.leonardonovaes.com.br/pages-tattoos/tattoo-4_03.htm > em 10 dez 2005.

Figura 14 – Exemplo de tatuagem de “olho de Hórus”, na nuca.

Fonte : < http://www.leonardonovaes.com.br/pages-tattoos/tattoo-4_05.htm> em 10 dez 2005.


253

Figura 15 – Exemplo de “tatuagem de amor”: iniciais na lombar/cóccix.

Fonte: < http://www.leonardonovaes.com.br/pages-tattoos/tattoo-4_10.htm > em 10 dez 2005.