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3- A VISAO ROMANTICA

Benedito Nunes

1. As Categorias do Romantismo

O dualism o, a antítese é o princípio m otor, o


princípio passional, dialético e espirituoso .
( N apl11a a Se!/<'111hri11i) - TH OMAS MANN. A
Montanha Mágica.
011 n'a jamais bien jugé le rum antisme. Qui
l'aurait jugé? L es Critiques!! L es Romantiques?
qui provent si bien que la clwnson est si peu
.1om·e11t /'oeui•re, c'est-à-dire la pesée chantée
e/ comprise du cha11teu r. - Rt MBAUD.

Por uma questão de método, convém que se


reformule, como requisito prévio à abordagem da
visão romântica, a distinção das duas categorias
implícitas no conceito de Romantismo : a psicoló-
gica, que diz respeito a um modo de sensibili-
dade, e a histórica, referente a um movimento
literário e artístico datado.
A categoria psicológica do Romantismo 1 é o

1. Tomamos por base a distinção d.: Lacli~ta,, MtTTNtk,


S toria della Utteralura Tedesca ( Dai Pirtismo ai rom an liciJmo -
J 700-1820), Torino, Einaudi, 1964, pp. h9R-7ílJ .

A VISÃO ROM ÂNTICA 51


que selaria a fortuna teó~c~ ~esse termo, 0 qual
. d ça- interior do
sentimento como obJeto a ª 0 . t do assou desde então a s1gmficar um estado d
suJ·eito que excede a condição de simples es a . p
poesia e uma autu · de . em.
. - à literatura,ª
r~1açao
· · l'd
afetivo:' a intimidade, a espmtua 1 ade e a . asp1- resultou de uma ascendenci~ intelectual; pois que
ração do infinito, na interpre~ação tardia d: ligada ao classicismo de Weu~a~ _(Goethe e Schil-
Baudelaire 2• Sentimento do sentimento ou. ?e.se ler) , e parti~ula?Dente sensi?1h_za~a pela pro-
jo do desejo, a sensibilidade românti_ca, . .d1r_i~,d: blemática schillenana da poesia mgenua dos an-
pelo "amor da irresolução e da amb1valenc1a. , tigos e da ~~sia sentimental d?s mod~mo~ 4, a
que separa e une estados opostos - do entusias- escola germamca nasceu no chma universitário
mo à melancolia, da nostalgia ao fervor, da exal- estimulante de lena, de uma geração posterior ao
tação confiante ao desespero - , c~nté~ o ele- Sturm und Drang, ao mesmo tempo que o idea-
mento reflexivo de ilimitação, de mqu1etud~.. e lismo pós-kantiano.
de insatisfação permanentes de toda expe1:en-
As matrizes filosóficas da visão romântica
cia conflitiva aguda, que tende a reproduz1r~se
do mundo podem ser localizadas nas espécies
indefinidamente . à custa dos antagonismos in-
solúveis que a produziram. Pelo seu caráter co~- complementares desse idealismo - a metafísica do
flituoso interiorizado, trata-se, portanto, consi- Espírito de Fichte e a metafísica da Natureza de
derada assim, de uma categoria universal. Mas Schelling - , que derivaram do criticismo de
somente na época do Romantismo, esse modo de Kant. Não se deverá, contudo, identificar a visão
sentir concretizou-se no plano literário e artístico, romântica do mundo com a filosofia do Roman-
adquirindo a feição de um comportamento es- tismo, que designa o conjunto dos sistemas idea-
piritual definido, que implica uma forma de listas e das doutrinas posteriores a Kant, inclu-
visão ou de concepção do mundo. sive a teologia sentimental de Schleiermacher, o
No movimento romântico, que se desenvol- realismo mágico de Novalis, menos o idealismo
veu entre as duas últimas décadas do século de Hegel 5 •
XVIII e os fins da primeira metade do século Articulando-se em fins do ~éculo XVIII,
XIX, quando, num período de cronologia osci- em oposição ao pensamento iluminista, e per-
lante, verifificou-se a grande ruptura com os pa- durando até meados do século XIX, a visão
drões do gosto clássico, prolongados através do romântica do mundo, que se desenvolveu nos
neoclassiscismo iluminista, fundiram-se várias pródromos das mudanças .estruturais da socieda-
fontes filosóficas, estéticas e religiosas próximas, de européia, concomitantes ao surgimento do
e reabriram-se veios mágicos, míticos e religiosos capitalismo, é por certo uma visão de época,
remotos. Pela variedade de seus aspectos, exten- condicionada que foi a um contexto sócio-histó-
sivos, para além da literatura e da arte, a todas rico e cultural determinado, que possibilitou a
as dimensões da cultura, pela diversidade das ascendência da fonna conflitiva de sensibilida-
posições contrastantes que abrangeu, o Roman- de enquanto ·comportamento espiritual definido.
tismo foi, na verdade, uma confluência de ver- São largamente sintomáticas as idéias diretrizes,
tentes até certo ponto autônomas, vinculadas a a escala de valores e as tendências preponderan-
diferentes tradições nacionais. tes, que assinalam o teor idealista da visão ro-
A primazia da vertente alemã ( de 1796 em mântica, e que a distinguem da configuração
dia·nte), a primeira a empregar, numa conota-
ção crítica e histórica, a palavra romântico, e .. -1. :\ RTl' R _O . Lovi;:;_ov, " R o111a11tic'' i,~ car/.v, gcr,110 11
t, n .w1, l:s.<11 ys 111 tlic l/1st on · of Jdcas. ]\ uva '\ork, PP· 2
Ri°;.~;i,
Capricorn Book s. · . 204
2. Baudelaire - Salon de 1846 - II Q,' 5. W . WINDELBAND, Historia de la filosofia, 2 v~ .. P; His·
lt t' f C · • • h, . - 1 u•cr e ss., ll ut·nus Airrs. Editora Nova ; HAROL ll Hon u 1NG, A -1 n c AN Ii
."º"'º" tsmt
thequc de la Pléiadc.
unos,tcs cst ct1qucs. Otvv,-e, Com"iet
q11e
B'bl'
" t s. 1 10- lor_,. of .\lod.-r11 l' hiluso f>hy , M acmilla n . p . l b9; Nt COLA ~ 1 ~T~ vot'.
.I . :'ll t TT:O.r.R. l.a<lislao. Op. rit . 1'- r,99 . La Filosofia dei Idealismo Alrman, Editora Sudamcncan ·
p. 252.

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. lar de cada uma das espécies metafísicas
part!~u lismo pós-kantiano de que suas matri- transformando-as na instância privilegiada de
I uma só atividade poética, supra-ordenadora das
do eaontam. Outro tanto se pode dizer do
zes rer~amento espiritual, que produziu, tipifica- correlações significativas da cultura, concomi-
~m~ . d e ati-
. tantemente ligada à afirmação do indivíduo e ao
do na literatura e na . arte,, um
. conJunto
d conhecimento da Natureza; a essa concepção do
d intelectuais, mseparave1s e uma gestua-
t~ _esa dos sentimentos e de padrões retóricos mundü corresponde o Romantismo estritamente
hstlC considerado, que conjuga e solidariza as du~s
determinados. _ . categorias, a psicológica e a histórica, antes refen-
A grande ruptura dos padroes clássicos, que
das, do conceito respectivo. Mas assim deli-
rojetou o Romantismo c_omo fenômeno. da hi~-
i' ria literária e da evoluçao das artes, foi o efei-
to mais exterior e concentrado de um rompi-
mitada, a visão romântica, que se interrompe com
o advento da modernidade, não esgota o alcan-
ce do Romantismo.
;ento, interior e difuso, no âmago das correla-
ções significativas . da cultura: r~mpimento que Na acepção lata, ·que pertence à história da
se aprofundou. a tnJ a na pnme1ra metade do cultura, esse fenômeno determinou o nível da
~éculo XIX, com o desenvolvimento d a socieda- experiência incorporada à literatura, e trouxe
de industrial, e do qual a reação contra o siste- à luz, no conjunto da vida social, o estado da
ma das idéias do Iluminismo, desde as nascen- arte e a situação do poeta ( e do artista), que
tes do movimento romântico, já era a manifesta- nos são familiares até os dias de hoje. Para além
ção preliminar. Se .ª_visão, românti~a pode ser da conquista de uma forma mai~ livre ~ ?e um
considerada como v1sao de epoca, nao e no sen- conteúdo mais variado, que sena, no JUIW do
tido de uma Weltanschauung, configurada atra- Goethe amadurecido da fase de elaboração de
vés de uma forma artística, de um estilo histó- Segundo Fausto, a inevitável resultante dos ex-
ril.'.o determinado, e si m no de uma concepção tremos e exageros da época literária, por ele
do mundo relativa a um período de transição, comparada a um acesso de febre. intensa_ 6 ,. o
que se situa entre o A ncien Régime e o liberalis- urgent f eeling 7 da visão romântica fixou ? !muar
mo entre o modo de vida da sociedade pré- de acesso estético à literatura de valores lud_1cos e
ind~strial e o ethos nascente da civilização ur- festivos da cultura cômica popular do Medievo e
bana sob a economia de mercado, entre o mo- do Renascimento 8 , valores não-canônicos, neutra-
mento das · aspirações libertárias rei:iovadoras lizados pelo decoro clássic~,. como também a
transfusão sobretudo na hnca, de elementos
das minorias intelectuais, às vésperas do grand
mágicos ~ncantatórios e . divinatórios, ~a~aliza-
ébranlement de 1789, e o momento da con-
dos, quando não do ocultismo e da t~ad1çao. ~e-
versão ideológica do ideal de liberdade que e~s?s terodoxa do misticismo cristão, de veios religio-
minorias defenderam, no princípio de domm10
sos arcaicos. :e também por intermédi~ dela ,'!ue
real das novas maiorias dirigentes, firmadas com surgem, no momento em qu~ a atuaçao poht1ca
o Império Napoleônico e após a Restauração. da intelligentzia fora neutrahzada, essa autono-
A essa concepção do · mundo, prep~nderan-
temente idealista e metafísica, percomda por 6. Cont•ersatio,u de Goethe avec E.cke""ª""· Gallimard, p.
um afã de totalidade e de unidade, próprio da 507. W
sensibilidade conflitiva que a impulsionou, e po- 7. •· . . . urgent feeling ratber ~han a style". SYPHER ._ _ylie,
l<ororo to r 1thi.~•:n iu n rt 011d /Jtr rat11rc <Trani,;;f, 1rn1at1ut1?-- 111
larizada por sentimentos extremos e atitudes an- sty1e, m · a rt and litcrature from the 18th. to the 20th. cen-
tagônicas, comportando uma vivência da Nat~- tury), Vintage Book, P, 63. . .
8 Como O grotesco, que Victor Hugo ass~aou ~.º disforme e
reza física, um senso do tempo e um poder mi- h · t Vide a respeito do "grotesco ele camara d_n Roman·
ao
11 111 0orrve.;, lássico trah11lho ,1~ ?-l 11o:HA JL Tl AK H1T1:n: , L o ,· 11~·r, · dr
togênico; a essa concepção do mundo, que se- ~ ' '.' JR · is .et .la c-ulture populaire ou !.fo~·rn Â/11' tt son,
, acb•~la
Fran,011
parou do universo cultural a literatura e a arte, Ir N, •11ai.rso11 n . (,n ll 1111nnl.

A VISÃO ROMÂNTICA 53
Goethe, po r D elacroix. O Carna1·al, litografia de G avarn i, 1846.
. intelectual dilemática. d a. consciência artísti-
m1a da maioria dominante em relação às letras e às
ora cultivada em a 1tlvo 1so1amento, ora tra-
ca, . . d art~s - desde então confinadas ao plano da neu-
zida a púbhco, em ~u°!pnmento.. e um dever trah~ante respeitabilidade que constitui a cultura
apostólico, de uma m1ssao espontanea para com
est~tlca - e, por fim, a mecanização e a racio-
a arte; e é nela, finalmente, que. se condensam nahza~ào. da vida 12, posteriormente as relações
os nexos sociais e políticos, ideologicamente po- comumtánas dentro de uma civilização cada vez
larizados, daí por diante jamais desfeitos, que en- menos rural e cada vez mais urbana.
tramam a obra de arte e o estado do mundo, A estrutura social emergente dessas mudan-
colocando aquela num pennanente confronto ças não oferecerá ao processo de individualiza-
com o real. ção condutos abertos para a vida coletiva. Tor-
Na época transicional de efetiva vigência da nada menos móvel e mais estranha como um
visão romântica do mundo, quando começa a . '
mecamsmo alheio à consciência, atrofiando a
interferir, por força d as classes sociais existen- individualização à falta de reajustamentos inter-
tes, o efeito ideológico, distorsivo e encobridor nos, a vida coletiva contribuirá para " a aliena-
das po ições e dos interesses, a literatura, ao ção, a introjeção, a subjetividade e a introver-
me mo tempo que denuncia a insatisfação com o são das energias sublimadoras'' 13.
real, passa a oferecer, contra ele, o abrigo do Contudo, as diretrizes da visão romântica,
ideal decepcion ado, que se constitui em refúgio, que imediatamente assimilam, pela dinâmica dos
e que tran forma o refúgio em sucedâneo de aspi- eventos políticos, o entrechoque dos modos tra-
rações insatisfeitas 9• dicionais de vida com os novos padrões sociais,
O caráter sintoma! dos aspectos constitutivos não podem ser reduzidas a uma função ideológica
da visão romântica recobre o largo espectro dos reflexa. Elas traduziriam posições eminentemen-
fenômenos que indicam a mudança das estrutu- te reativas, nem sempre opostas, mas sempre
ras da sociedade pré-industrial : a separação da transversais à sociedade e à cultura, da intelli-
arte quer do artesanato quer do modo de produ- gentzia situada num período de transição.
ção industrial que se iniciava, o começo da de- A rebeldia contra a disciplina do gosto clás-
pendência dos produtos literários e artísticos às sico, que concentrou essas posições reativas, rea-
leis concorrenciais do mercado 10, a justificativa briu, de fato, na transição do século XVIII para
ideológica da religião como instrumento legitima- o século XIX, como pensa Max Scheler, a
dor do poder e da ordem - que denuncia o disputa entre os antigos e os modernos, que se
arrefecimento do sagrado - , o nivelamento dos declarara muito antes no âmbito do humanismo
valores morais à regra benthamiana do maior in- renascentista. Mas se, em virtude disso, pode o
teresse e da melhor utilidade, a marginalização Romantismo ser incluído, do ponto de vista so-
social de toda atividade improdutiva, o prin- ciológico na categoria dos movimentos juve-
cípio fiduciário da moralidade burguesa 11, as re- nis 1,, 0 ~erto é que o seu ímpeto rebelde, esten-
lações possessivas da moral doméstica e do casa- dido à sociedade e à cultura, ao sabor de uma
mento, a separação entre as esferas sexual e sen- sensibilidade conflitiva, nasceu enfermiço e en-
timental do amor, o /ilisteísmo como atitude velheceu depressa.
As idéias da visão romântica do mundo nas-
9 . Desse ponto de vista o romàntico é aquele cuja insat isfa· cem em oposição às do II~minismo, e agru-
ç~ com o real se tranamud~ em literatura ou em teoria estética. pam-se, como estas, de maneira ordenada, num
\ ide R ALPH Tv M M s Gama 11 Romout,c Litcrat 11 rc, Methuen, P· 25.
Hl. W ILL I AM S, ' R. C11lt11re 011 d Society /7!i0-/ 950. P enguin,
P. 52. 12 l\lta lFORD. A Co11diçâo dr H omem . Editora G~ubo, .P· 3 ~7.
1.1 · . Ethos captado por Marx como a universalização do valor 13 : ~l\ i. Ntt Ern . Karl. Sociologia Sistemát ,co. Livraria P ,o-
fiduciá rio: "O dinheiro avilta todos os deuses do homem .·· e os
transforma em mercadoria. O dinheiro é o valor universal de 4Edi~r:·E
neiral . • e !ÉR,12~iax. Soe,ologla dei Saber. Editora Losada.
todas as coiaas".

A VISÃO ROMÂNTICA 55
espécie. Também . d~or~eram ~ela o consensu.s
·
esquema de caráter s1stem áuco.
· As matrizes. fi-. gentium 1a, como mstanc1a coletiva da razão uni-
. . d á-las e que impn-
losóf1cas que pemutem enca e
mem ao esquema que e1as ~º!11Pº.
'
·em a um'dade_ forme, 0 cosmopolitisrr:zo ~bstrato, nivelador de
todas as diferenças nac1ona1s e de todas as parti-
de uma constelação de princ1p10s mte~dependen cularldades locais, e o igualitarismo intelectual
tes procedem de uma combinação das lm~as me;- que se completou por uma ~uriosa tendência an~
tra; das doutrinas idealistas pós-kantianas e tiintclcctualista, que defendia a posse pacífica
Fichte e de Schelling. . . pela simples apli~a~ão do b_om senso, _de verdade;
O cotejo dos pressupostos do Ilum1msmo e. do essenciais, acess1ve1s, em igual medida, aos ci-
Romantismo, dar-nos-á, pelo conhecimento dtf~-
vilizados europeus e aos selvagens de Bougain-
rencial, a possibilidade ~e ?bra~germos, a partir
de suas matrizes, as tendenc1as d1spers!s ~ hetero- ville verdades essenciais que tanto mais garan-
tida; seriam quanto menos metafísicas fossem e
gêneas que se constelam na visão romantica.
quanto mais próximo de suas origens os homens
estivessem. A concepção mecanicista do univer-
li. O Iluminismo e a Constelação Romântica so, que permitiu integrar o homem e a Nature-
za física exterior sob a regência de leis unifor-
Como últimos elos que e confundem, da mes, coroou a unida::ie desses princípios, que se
cadeia hermenêutica que sustentou as tendên- harmonizaram dentro do esquema racionalista
cias gerais do pensamento do Iluminismo, as do pensamento da Ilustração, e à luz dos quais
idéias de Razão e de Natureza, idéias regulado- recaem a idéia de causa suprema ordenadora
ras desde o século XVII, desempenharam, no das coisas, como substrato das crenças religio-
século XVIII , a função de conceitos limitantes sas da humanidade ( a religião natural "nos li-
acerca do homem e do mundo. Figuras com- mites da simples razão") admitida pelo deísmo,
plementares dentro dessa cadeia, o classicismo e a normatividade do bom gosto - esse cor-
e a religião natural - o deismo - do perío- relativo estético do bom senso, substrato comum
do 15, fizeram parte de uma constelação de ela fantasia artística ( a arte nos limites da bela
princípios. O primeiro deles é a uniformidade
natureza), adotado pelo classicismo.
da razão, que ligou entre si, numa só matriz
filosófica, essa mesma idéia de Razão - o bom O deísmo e o classicismo ratificam pois, em
senso cartesiano, igualmente compartilhado por dois diferentes planos, a regência de leis unifor-
todos os homens - e a idéia de Natureza - o mes e necessárias, que tiveram o seu modelo na
conjunto daquelas disposições que, acessíveis ao lei geral da gravitação, a grande mola da atra-
livre exame analítico, seriam sempre iguais em ção que tudo move, segundo Voltaire 17• Da
toda parte, escapando à força do hábito, ao mesmo forma que as leis físicas, as leis civis, ~
prestígio da autoridade, às tradições e aos capri- leis políticas e as normas do bom gosto, parti-
chos das circunstâncias históricas, bem como à cularizam, de acordo com a perspectiva d~ um
influência, considerada perturbadora, das pai- causalismo mecanicista, nos domínios contiguos
xões e dos hábitos. Foi a tal matriz que se vin- das coisas naturais, da sociedade e da cultura,
culou o individualismo racionalista da Ilustra- "as relações necessárias que derivam da na-
ção, que reconheceu o homem como sujeito uni- tureza das coisas" is - natureza imutável e eter·
versal de direitos naturais em nome da huma- na a que se referiu d'Alembert na Enciclopé-
nidade, e como sujeito universal de conheci-
mento em nome do progresso da fnteligência da 16 . . .
Acom panhamos os pnncipaos . 'd01 por Lovejo1 no
admita
enaaio 1upra citado. _ as Fih,só·
17 . VoLTAI U:. Sobrr o sist,ma da atroçoo. Cart
. 15 . !-,<>vr:JOY. "The pa rallel of deism a nd classicism" . Essays ficas (XV).
,,. tli, liutory of Idt ot, pp, 78-98.
18. M oNT!SQ un v. L'nprit drs lois.

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dia 1e, sujeita ~ds dmesmas tref~r.as, independente- . Linha mestra do idealismo de Fichte, o qual
e das entl a es me a 1s1cas, e a que se mter~retou num sentido metafísico a função ca-
rnent , d 1.
. stam1 pela trama
aJU •
continua
, ,
a inguagem, li- t~gonal que Kant emprestou ao Cogito carte-
ando os conceitos as coisas, as palavras aos s1.~no. 21 - à consciência de si, enquanto cons-
~bjetos, o sistema de rcpr.esentações do espírito c1encia. pura que se conjugando em todas as
humano e o sistema do universo. c!t~gonas, torna-se a instância formal, não em-
Haveria, portanto, entre o interior e o exte- p1~1~a , ~e nossa experiência - o Eu é a ação
rior entre o homem e o mundo, um prévio "cir- ongmana (Tarhandlung), que precede o sistema
cuit~ de comunicação" 20 da natureza das coisas das representações do espírito, e de que o mun-
e da natureza humana: circuito que caracterizou a do, com a sua aparência de realidade indepen-
direção epistemológica do pensamento da época dente, constitui o pólo opositivo (não-Eu). Co-
clássica, fundada num achatamento do sujeito, meço incondicionado, a autoconsciência, trama
encaixado como sujeito universal do conheci- formada na intuição intelectual de mim mesmo que
mento, a uma Natureza cuja ordem e cuja re- possibilita o princípio gerador do saber - intuição
gularidade se prolongaram na ordem e na regu- indistinta do ato que, instaurando o meu ser, ins-
laridade dos discursos científico, religioso, es- taura, ao pensá-lo, o próprio mundo 22 - tam-
tético, jurídico e político do século XVIII. bém serve de fundamento à realidade. Mas desse
Nivelando-o à Natureza física exterior, a modo, a ordem objetiva e necessária do sistema
que já se encontra ligado por um acordo tácito, do universo, que corresponde ao sistema das
esse achatamento do sujeito, que abstrai a singu- representações, ordem consubstanciada no prin-
laridade do indivíduo, refletiu-se na disciplina cípio de legalidade universal, já assente, para
canônica do gosto clássico e na disciplina intelec- Kant, na estrutura categorial do entendimento, é
tual da doutrina deísta, ambas refratárias à domi- produzida pelo espírito; ela não mais circunda e
nância da experiência singular individual subje- bloqueia o sujeito humano na continuidade natu-
tiva, transgressora da uniformidade da razão, e ral com as coisas, em que a universalidade do
ambas portanto avessas, em seus respectivos do- conhecimento humano se estribava para a Ilus-
mínios - o artístico e o religioso - à afirma- tração.
ção da originalidade pessoal e ao entusiasmo, es- O circuito de comunicação entre o interior
tados espiritualmente afins. e o exterior depende agora do sujeito, que trans-
As matrizes filosóficas da visão romântica, cende, assim avultado, a Natureza física, eis que
que legitimam, dentro de uma nova constelação somente exprimindo, nas palavras de Fichte,
de princípios, a originalidade e o entusiasmo, "cm toda parte relações de mim mesmo para
são o caráter transcendente do sujeito humano mim mesmo" 23, essa mesma Natureza, vista por
Schelling como um todo vivo, como individua-
e o caráter espiritual da realidade, que quebram
a uniformidade da razão e a conseqiientc forma de
21 . "0 f:u PNt,fO deve poder acompanhar todas as ml•
individualismo racionalista, ao mesmo tempo nh:i~ f<'Jlr<'•<·ntaçii<'~." Ulh - · l>a 1miJ,1<II.' originariamente aint~i·
que a concepção mecanicista da Natureza. A c:i ,la :irrrc<'p<;:'in.) "Tmho flOÍ< co n~ci .:ncia de um c-u idêntico
( d,·.r id,·ntiu h,· K srlh.,t) n ·btivanwntC' ;u, di n ~r so das rc-prctenta•
primeira matriz moldou-se pelo princípio da ç,ir~ cim• me ~ão ,b,I~~ numa intuic;ão , p<1rc1ue eu chamo de mi•
transcendência do Eu na filosofia de Fichte, e a nh:is 11111:i• ;,~ r<'rr,·•rnt:iç,i<'• •111<' niio formam ~enão uma ã6."
1, \ ,r. t.11/11 ·a d,1 /,'o=,io l'u10. 2 1.·1I. ~ l<1 l>;l unitl:-u.lt.· 11r hdna-
s_egunda pela idéia de Natureza como individua- ri :rnw11t(' •int,·tica cl:\ :Jf't'r~,·rc;iin. lk,luçãu dos concl'Ítus puros do
C'ntrnclimc-nt.,. S ri:un,b S r ~çiio, <'ar. li (Analítica dns Conceitos).
lidade orgânica na filosofia de Schelling. 2.? . · · Eu "'u ,onu·nh· pa ra n1i111 ; 111:i,-. 11:1.ra miin cu sou
nc-c~•~:irio (n:i m C'c li ,b ,·m ciu,• cli.:u p:\ra mim , j:', 1>onho o meu
,,., ,·· . Fu· 11TI-" ,;,.,,,,,11,,,,,· d,·r 11t· -tamt,· 11 lf" i<.f , ·11s,·lw/tslcl1rt•
l':1 . l?',\LF )tnt'RT. l :11rtrlo('.'1fi, ·• •\ ri . " l•:11l'y~lnp,·di,: · . ( l7'l ~l . f \ ·li..: ~!,·in<'r. 1911 . ·
211 · l·o1·r\l·1.T, ~l id1<·l / .,., 1/,,r., ,·/ /o ( ,,,,.,., 1;;,llim:\rol . .!3 . F1 c 11 n . /l,·.,ti,111111111,, d, ·, \/,·11,.-!11·11 (/811111. F,·lix Mei -
11 ., 21 nn, Jl. <>~.

A VISÃO ROMÂNTICA 57
tidade orgânica, devolutiva da ação originária da verdadeira vida, o recesso do ideal, de onde
do Eu, é justamente aquilo que parece ser, e que o sentimento religioso brota, onde a perfeição
a intuição intelectual apreende: a cobertura visí- moral se abriga e a arte começa. A dimensão
vel, objetiva e inconsciente, de um entendimento ética e religiosa, a par do alcance cognoscitivo
invisív~l,. análogo à imaginação poética, e que conquistado pela atividade artística ou poética,
produzma as coisas, de acordo com a decisiva que sintetiza a operação mais completa do es-
metáfora schellinguiana, por um processo ape- pírito, estaria subordinada a esse primado.
nas mais rudimentar do que aquele mediante o Chegando-se a este ponto, é preciso não es-
qual o artista produz as obras de arte 24, Paralela- quecer que as duas matrizes codeterminantes
mente, a intuição intelectual, identificada à cons- da visão romântica se relacionam entre si. A
~iê~c~a de si, tem como fundo a singularidade do vida interior, espiritual, livre e profunda, a que
md1v1duo, e desfaz a uniformidade da razão levam a capacidade expansiva e o poder irra-
teórica, trasladando-a, em decorrência da ili- diante do Eu, concretiza-se em tudo aquilo que
mitação e da infinitude da atividade do Eu, à exi- o indivíduo tem de singular e característico, e
gência de aperfeiçoamento ético progressivo im- por tudo quanto nele, dos sentimentos aos pen-
plícita à razão prática de Kant. Foi essa exigên- samentos, é capaz de, sob a tônica do entusias-
cia que Fichte explicitou na oposição polar entre mo, manifestar espontaneamente, aflorando ao
o Eu e o Não-Eu, que o marginal da Ilustra- exterior, pela riqueza superabudante de con-
ção, Jean-Jacques Rousseau unira, em seu Emí- teúdos que possuem força própria, a súmula dos
lio, à idéia de Natureza 25, elementos pessoais e intransferíveis que cons-
Precursor da hegemonia da subjetividade no tituem o índice de sua originalidade. Semelhante
Romantismo - da dominância da experiência in- espontaneísmo, que passará ao plano da arte, e
dividual subjetiva - , esse avultamento do su- que a estética do Romantismo refletiu na sua ter-
jeito, em que a direção epistemológica do pen- minologia, principalmente no metaforismo do
samento da época clássica se inverte, demitiu conceito de "expressão" significando, como "tra-
o individualismo racionalista da Ilustração, subs- dução" da personalidade, uma floração das vi-
tituindo-o por um individualismo egocêntrico, que vências reais, refletiu-se também no plano da in-
vinculou o lastro idealista e metafísico da visão dividualidade orgânica da natureza, com a qual
romântica à capacidade expansiva e à força irra- a individualidade singular do homem se entrosa-
diante do Eu. Ponto cêntrico da realidade e pas- ria.
sagem para o universo ("das lch ais zugang O Eu transcende a Na tu reza física - o ex-
zum dem Universum", disse-o Novalis), o Eu, terior mecânico disperso dos fenômenos - mas
assim configurado, assegurou um primado onto- para encontrar-se, dada a essência absoluta que
lógico à interioridade, à vida interior, que foi o Romantismo germânico da primeira fase lhe
sinônimo de profundeza, espiritualidade, elevação atribuiu, ao nível orgânico das coisas, com . o
e liberdade, no vocabulário do Romantismo, entendimento interno da Natureza viva e ani-
quando não signüicou também o "solo sagrado" 28 mada. "O que está fora de mim está justamen-
te em mim, é meu - e inversamente" 27 • O uni-
24 . SCHELLING. "Systeme de J'idealisme transcendental" verso a que se chega através do Eu, ainda é, con-
(1800) . Essais de Schelling. forme a doutrina de Novalis, em Os Discípulos
25 . " . . . t'idée de bonheur ou de perfection que la raisoo
oou, doane" está ligada às disposições primitivas (natureia), que de Sais, o próprio Eu, que se espelha nesse
IC alteram pela força do hábito e se desenvolvem pela educação. entendimento interno da Natureza ("einen innem
26 "Solo sagrado da liberdade", a vida interior, eterna,
não afetada pelo tempo, encerra em sua profundeza~ a ativida·
de criadora do espírito, de que o mundo e o homem sao as obras, 27. NoVALlS. EucycloNdir. Frag. 1753. Les (,tliti ons dr ~l i-
cf. ScnELEIERMACHER, Mo116/ogos. nuit.

58
Vcrstand der Natur''), que o homem pode alcan- da perfeição humana é nacional, secular, e estrita-
çar sob o efeito da poesia. mente considerada, individual" 29 •
Produzindo-~e nas m~is variadas formas, que
Ao cosmopolitismo abstrato do século XVIII,
diferem entre s1 pela maior ou menor espiritua- supressor das diferenças nacionais, o Romantis-
lidade, formas que compõem os múltiplos de- mo opôs um nacionalismo concreto, que foi pre-
graus de um entend;mento invisível - ora mais parado pela concepção herderiana da "unidade
distante, ora mais próximo do consciente e do orgânica de cada personalidade com a forma de
subjetivo - , e que já são indivíduos integrando vida que lhe corresponde" 30 : unidade expressi-
um grande organismo em crescimento evolutivo, va quando florescente, dando-se a manifestar em
a Natureza revela o mesmo espontaneísmo flores- tudo o que o homem faz. Mas é sobretudo nas
cente, a mesma expressividade das obras nas obras de arte que a ação comunicativa dos indi-
quais o homem verte os conteúdos originais e víduos se incorpora, ganhando o relevo simbó-
característicos de sua experiência subjetiva. Uma lico de uma nova escala da linguagem e da ex-
vez que o seu aspecto material significa o espíri- periência humana. Nessas condições, o espiritual
tual que as anima, as formas naturais, por um comporta diferenciações locais externas e mu-
lado produtivas e portanto criadoras, por outro tações temporais internas, que diversificam e
expressivas e portanto simbólicas, oscilam entre pluralizam a cultura em cada época e em cada
o estado de coisa e o estado de linguagem, achan- momento dentro de uma época. O consensus gen-
do-se comprometidas pela dualidade da expres- tium do racionalismo será, portanto, apenas o
são e da criação - conceitos românticos man- consenso de uma época, aplicado como medida
tidos com valência quase igual para a literatu- niveladora de todos os valores distintivos das per-
ra. O universo inteiro fala 28 e os corpos são os sonalidades históricas. Para apreender essas per-
signos de sua linguagem. sonalidades, para conhecer os valores distintivos
O entrosamento da individualidade orgânica que as singularizam, é necessário repetir pela
da Na tu reza com a individualidade singular do empatia ( a simpatia da imaginação), que nos
homem far-se-á através de formas de vida mais leva a sentir exteriorizando-nos nas coisas, a
complexas: as civilizações e os povos, que Her- ação comunicativa dos indivíduos.
der ensinou, ainda no período do Sturm und Defendendo, quanto mais próximo da · con-
Drang, a valorizar em seus elementos caracte- cepção de Herder, a equivalência no tempo desses
rísticos e originais, provenientes das condições valores distintivos, o nacionalismo romântico
de exist~ncia sempre particulares no espaço e ( que também derivou para um nacionalismo po-
sempre variáveis no tempo. Elementos físicos, lítico de fundo místico como o de Joseph Gor-
vitais e espirituais, conforme o clima, o tempo e res, da segunda geração - a de Heidelberg -
o momento, articulam-se na síntese coletiva e do Romantismo germânico) , esteve circunscrito
histórica que define uma nação. Unindo o ge- pela imagem do crescimento orgânico e da flo-
ral e o particular, a personalidade cultural e n~- ração espontânea: o que existe é "um produto
cional de cada povo (Nationalcharakter, Geist do clima, das circunstâncias temporais e, por-
des Volkes, Geist der Nation) se distingue por tanto, com virtudes próprias nacionais e seculares,
valores próprios e intransferíveis; é uma for- f fores que crescem sob determinado céu onde
ma de vida completa, auto-suficiente, da q~al a prosperam à custa de quase nada, mas que mor-
singularidade do indivíduo humano se toma inse- rem e murcham miseravelmente em outro lu-
parável. "Num certo sentido", diz Herder, . "to-
29. 11 t:RllER . Filosofia de la hi.rtoriu pa ra la rd11r arió11 dr la
28 . " O homem não é o único a falar - o univen~ tam,bém J1111na11idad. ( Trad. Elsa Tahernil() , E,!it. Kova, p. 55.
fa l,1 - tudo fa la - linl(ua s infinita ~" . N o vA1.1s. Op. nt · ~rag. ,IO . HF.KLI i'i. Isaiah . ffr rdr r, f i co. J\uchholz, Bogotá , dez.
479. 1965.

A VISÃO ROMÃNTICA 59
gar .. . " 31, Essa imagem carreou para a visão do belo como objeto dos juízes de gosto _ dos
romântica o sentido dramático do tempo histó- juízos de caráter contemplativo e desinteressa-
rico - tempo espesso, caudaloso, oceânico, que do, que permitem qualificar de estética a expe-
somente abrange as transformações incessantes riência relativa às coisas naturais e às obras de
dos sujeitos humanos de porte coletivo - os arte - foi Kant quem preparou a excepcional
povos e as nações - sobre que se espraia, sem autonomia da noção de gênio. Graças à satisfa-
que se possa divisar um desenho único ou uma ção desinteressada que provocam, as coisas na-
direção determinada no fluxo transindividual - turais que são belas, parecem livres produtos da
a história - a que dão origem e de que parti- Natureza; as obras artísticas são tanto mais
cipam. Em vez da razão, é um grande e cego belas quanto mais aparentam essa livre finalida-
destino que conduz a evolução dos povos '32. de atribuível à Natureza, quanto mais assumem
Na concepção historicista da realidade como o aspecto de uma formação espontânea, que
processo histórico (Geschichte), que se perfaz se sobrepõe aos artifícios da arte 34 . As artes do
por meio de mudanças, de manifestações indi- belo participam, como qualquer técnica ou es-
viduais múltiplas,. igualmente valiosas 33, perdu- pécie de artifício, de uma recta ratio formandi.
rou a sombra desse destino grande e cego, em Todavia, o aspecto espontaneísta que as apro-
lugar do progressivo aperfeiçoamento da inteli- xima do 1:lano da natureza, most~a-nos que,
gência da espécie que o Iluminismo postulou. modelos smgulares, as obras artísticas não se
A medida do individualismo egocêntrico e Oí- produzem mediante a aplicação de regras gerais
ganicista da visão romântica pode ser aquilatada ( do mesmo modo que o belo agrada sem concei-
pela idéia de gênio, que ocupou o centro da to) . Daí a proposição kantiana de que as artes
constelação das idéias na época do Romantismo. do belo o~ ~s ~elas-artes são as artes do gênio,
A estética clássica não desterrou completa- e que o gemo e o talento dando regras à arte 3S
mente a imaginação; valorizou, na arte, a re- - talento capaz de infundir a um artifício a
presentação de idéias ou de correlações que, aparência espontânea da Natureza. Não somen-
acessíveis ao gênio, enquanto capacidade de en- te a genialidade exerce uma função reguladora;
genho artístico, escapariam à pura aplicação dos como talento, . ela é um dom natural, e, como
conceitos e ao raciocínio analítico. Mas essas dom natural, é uma capacidade específica que
idéias ou correlações traduziriam apenas um de- pertence à Natu reza.
rivativo do conhecimento racional; ainda que Ultrapassando, por conseguinte, na estética
considerado um dom inato, o gênio não excede de Kant, a significação de um simples engenho,
o alcance da fantasia subordinado à razão, nem a noção de gênio começou a mudar de sentido,
autoriza o desvio das normas que fazem da desde a segunda metade do século XVIII, quan-
beleza, dentro do círculo da legalidade univer- do nela se introduziu um elemento de transgres-
sal, o eventual acompanhamento da verdade são permanente, indo da infringência dos pa-
soberana. drões clássicos entre os pré-românticos ingleses
Reinterpretando a mimese aristotélica, ou à infringência dos padrões sociais de compor-
seja o nexo entre arte e natureza, na perspectiva tamento entre os Stürmer. Mas além da rebel-
dia estética e do sentimento de revolta contra
31. HERDER. 0('. rit. p . 11 3. a sociedade que tal dupla inf ringência compor-
32. "Antes de tudo, tenho que afirmar, com respeito ao elo·
gio excessivo da razão humana, que é muito menos essa razão st
posso . assim dizê-lo, . do que um cego destino, aquilo que cond~ziu 34 . Cf. § 45 (Schõnc Kunst ist eine Kunst , sofern sie Zugleich
as coisas e que agiu nesta evolução geral do mundo" Huou Natur zu sein sc:heint), KAsT, Kritik drr Urtrilskraft, Reclam.
op. cit., p. 83. ' '
JS . " . . . Genie ist die angeborne Gemüstsanlage (ingeniu~-k
33 . l\h:vERH OFF, H ans. The 1-'lrilosof'/rv of Histor~: ili our durch welche die Natur der l{unst die Regei gibt." f46. Knfl
timr. Introclucion. Doubleday, p. JO. ·
dr , U rteilskraft, ed. c:it.

60
a reavaliação kantiana ainda apontou para
tava, , . d d . t . lismo de Schelling, de sua filosofia da Natureza,
a outra cspec1e e esv10, ransgress1va da
continuada pela doutrina enciclopédica de No-
º~em racional, e que, pondo em xeque a autori-
valis (indiferentemente denominada de idealis-
~rde da razão teórica sobre a fantasia, autori-
mo ou de realismo mágico), uma posição teórica
\ a a fazer-se do gênio, sem medida comum
2 e prática superior, de . porte ético, estético e
~m O talento para a investigação científica, um
metafísico, supra-sumo da originalidade do in-
~ipo de organização me~t~l e espiritual à parte. divíduo singular e do estado de entusiasmo.
Como ele produz sem 1m1tar, aprendendo a fa-
zer tão-so~ente o qu~ ~s de~e~inações interio- . Na imaginação poética a que Schelling trans-
es lhe ensinam, o gemo art1sttco conhece ape- ferira a intuição intelectual de ,fichte, é que se
~as quando produz, e assim ~onhece, apenas completaria a atividade produtiva do espírito, já
pela intuição, o que o conhecimento racional operante nas formas da Natureza. Assim, é na
obra de arte que o Eu alcança a intuição de si
jamais alcança. Para o pré-romântico inglês,
mesmo como Absoluto ( a intuição artística se-
Edward Young, o poeta genial estará, pela ma-
ria a verdadeira espécie de intuição intelectu.a),
neira de proceder, que o afasta do espírito ju-
porque cria o seu próprio objeto), e que a. m-
dicioso, mais próximo de um m~gic~ que de dividualidade orgânica da Natureza, regressiva-
um arquiteto 36 . Shaf·esbury, que mflum na es- mente esclarecida, se revela como operação ar-
tética de Kant, via no talento artístico a capaci- tística, produto do entendimento, do nous poi~-
dade de criação, equivalente à intuição das for- tikos que a penetra e anima. órgão do con~e_c1-
ças que mantem a um'dade do universo
A • 37 .
mento realizado, a arte solveria as contrad1çoes
Talento originário para a arte, faculdade e entre o subjetivo e o objetivo, o consciente e o
dom inato, intuição e predestinação, o gênio inconsciente, o real e o ideal, a liberdade e a
tomou-se, no Romantismo, o mediador entre o necessidade 39, que o artista genial supera e
Eu e a Natureza exteri0r. A faculdade de repre- reabre a cada passo. Representando o finito no
sentar artisticamente, isto é, de apres~ntar idéias infinito, a arte, que tem a força de uma revela-
. que Ka~t ~he atn'b u1ra
, 38'. co~~er te-se,
estéticas, ção eterna, também realiza a unidade entre ,.ª
para a visão ro~ant1ca, ~o _poder mtwt1vo cog- b~leza e a verdade, e descerra a unidade conge-
noscente (a Magie der Embtldungskraft de Jea~- nita da filosofia com a poesia, reconhecida por
-Paul) , ao mesmo te~ po cri~dor e express!- Schelling e proclamada por Friedrich Schle~el 40 •
vo, da imaginação poet1ca, acima. do, conhec~- Enquanto o gênio passa a ser a capacidade
mento empírico - poder ~orre~ahvo a .capac1: sintética que universaliza e transubstancia 41 , a
dade expansiva e à força urad1ante do Eu, a
originalidade e ao entusiasmo, : no qual. ~e r:- J 'l .
A intuição art ística, . que p res_i<le as operaçõe~ da filoso-
ac mesmo tempo intui ção ela hbe rda,lc e da Nat u r<'za . O
fletiriam a profundeza, ~ el~vaç~o, a espmtuah- f.
'ª·
·
e, • a' rt ístico soluciona
impulso ' a ·contrad'1çao
• m · t ema de que . nasce•
dade e a liberdade da vida mtenor. porque O gênio está para a estética ass~m . como o Eu esta para
a filosofia. O ca ráte r absoluto e a supen on <lad.e <la a rte ac~~m:se
O Romantismo alemão, particularmente, .con- fundados no gênio, que é estranho e incompati vt'l com a c1enc1a.
feriu ao gênio, que foi uma das bases do 1dea- \ 'u Sc 11 ELL1r.:,;, 0('. nt., pp. lhf- 1_711.
40 . A unidade ou a equivalenc1a d~ verd~dt" com a ~cleza,
anics proclama,la por Shaftcsbury, ,adquire cn~ao um sentido dd c
reprovaçao- a· ci·e·ncia e ao conhecimento rac ional. <l Trata-se
K . a
.. t
36. O a rquiteto "con st ro 1. le~ta~ ~n ~ .~
soe rgue- o nu m instante por me ios m vis aveas Á II
\·AK
eu edifí cio· o outro
T u:HC~ N. Paul.
e _ [ta/ir -
verdade intuitiva. à altura da beleza ?ºs ve rsos e eats , -
" Beauty is truth , truth ~~uty, - that 1s ali/ Ye know on earth,
Lc M o11vem ent R om antiqu e ( A n gle!e rre - t / "'tbra ire , ·uibert arnl ali ye n ee<l to know . .. . . f1
Fra11rr) , Tc.rtcs rhoisis, ro1w11c11tes c t ª""º
es. 1 ' ' F. Schlegel : " Toda arte <leve_ torna r-se c1e nc~a; . poe~1a e _1 ~;
p. 17. . 1·ra de Iu li ' ,strarioll • F, n<lo sofia devem u nir-se". "0 espírito ele toda c1enc1a e p~s!ª·
37. \' icle ERNST (ASSIRER, F ,loso E ssa compenetração ~ecai a . já ~o esforço comum dos roma nhco~
de Cultura, pp. 34.l -350 . . . • ( V orstcll,rn!I d r r E in· de l ena - a symph1losoph1e. \ er : Il t•c11, Raca rda. Lc~ _Roman
38 . ". . . repre!cn tação <la I magina çao e n o ent~nto algum fiques Allcmands. Ed. Granet ; FARIVELLI, EI R oman t1C'lsmo ett
b1ldungsk raft ) que dá muit o a pen sar, sem ~u lht" seja aclequa· A llema nia, Ed. Argos.
pensamento dete rminado, isto é. alf{um conc! ito. • 41 . NovA1.1s. E11r) clo('édic, p. 322.
0

do .. . '' KANT, K rit ik dl'r Urtt'ilk r aft, §49.

A VISÃO RO MÂNTICA 61
como o viu Lamartine, um lugar firm
arte se volve no modelo .da. atividade ,espiritual, em relação à humanidade : e e elevado
compartindo, em sua essenc1a, d~ carater supe-
rior profundo e íntimo da realidade eterna e A~sis su r lc base immuable/ de !'éter
abs~luta, de que é a única via de acesso. T~ , vais d'~n . ocil ínalterablc / Les phase~clle veritét
Mas em todo Romantismo europeu, a e~cep- nitc. (M ec/11a t w 11s. XX II . "Le Genie".) de l'hurna.
cional autonomia do gênio, resumindo a figura
da verdadeira humanidade - do homem tal Nessa tarefa ele não somente se def'
. .. 1 tnc co
como é e tal como deverá ser - do homem ca-
paz de ligar o ideal e o real - correu parala-
p.orta-voz e guia espmtua de seu povo (Sh rno
sa, b'10, h umarnsta,
· guia · para todos os elley) , ,
mente à excepcional relevância religiosa e ética, (Keats), mestre verdadeiro (Wordswonh~ornens
senão metafísica, da poesia ( quer no amplo sen- também como um mago, um mágico ' rnas
tido abrangente da literatura e da arte, quer no feta visionário. ' um pro.
sentido estrito da lírica) , como um novo reino Inseparáveis do tom confessional e
dos fins espirituais. pressuposto da inspiração, da tendênci; sob o
pontaneísmo, que sobredetenninaram a 1, ~o es-
Guardando as significações de espontaneida- A • f •_
f ase romantica, tais unçoes pedagógica
inca na
de criadora, de poder intuitivo, de manifestação
original de força da Natureza, que confluem pa- peutJCa, magica, d"1vmatona,
A • , • . , . encantatón', tera•
. d a, que
ra o entusiasmo, como exaltação platônica do in- o poeta,.d misto e cantor . e de. vate, assume, na
divíduo possuído ou inspirado, a idéia de gênio se med I a em que expnme a onginalidade d
pluralizou à época do Romantismo. O caráter de vt'd a ·mtenor, · acompan ham o fenômeno d e sua.
. - d • e um.
um povo é considerado a floração do seu gênio versa11zaçao e e autonomização da poesia
nacional ; o legislador que prevê, o filósofo que o Romantismo desencadeou. que
intui, o homem de Estado que modifica o des- Ora linguagem
. original
. e primitiva, ora 1m- .
tino colelivo, o homem de ação que arrosta a guagem mtercomuntcante dos domínios rei' · _
fortuna com a presciência do futuro, e o homem s?, et1co' · e r·1I oso' f'1co, a poesia,· superiorigio,
religioso de dons proféticos, são outras tantas ciência,_ análoga à filosofia, capaz de exerceª
encarnações do gênio individual. Mas o poeta uma açao moral e de purificar a religião, sus~
é o gênio por excelência; mediador entre o Eu t~nta~a por um processo apologético de digni-
e a Natureza exterior, o gênio nacional floresce ftcaçao, alça-se a um plano de universalidade
através e por força de suas obras, a cuja lingua- cultural e histórica, penetrando horizontalmen-
gem se vai conferir um alcance original forma- te em todo_s os domínios da cultura, e enlaçan-
tivo, à altura do trabalho do legislador e próxi- do-se verticalmente, desde os primórdios ao
mo do visionarismo místico e profético, quando desenvolvimento sócio-histórico. '
não de uma importância transcendente à espe- Na sua primeira conceituação, devida a
culação do filósofo, à atividade política e à Schlegel,
ciência, que ela possibilita, elucida e perpe-
tua 42 • ~ que, altivo, incompreendido e distan- a poesia romântica é a poesia universal progressiva.
Seu destino não é simplesmente unir de novo todos
~e, ? p~eta românti~~ impõe-se, intimado pela os setores separados da poesia e apresentar o entro·
msp1raçao que o v1s1ta, a tarefa universal de sarnento da poesia com a filosofia e com a retórica.
le~islador d? rein~ dos fins espirituais intangí- Ela . quer e deve misturar, fundir completamente .ª
v;1s,. on?e, 1m~ne. a lei da causalidade e às mu- poesia e a prosa, a genialidade e a crítica, a poesta
tave1s c1rcunstanc1as do mundo exterior, ocupa, da arte e a poesia da natureza tornar a poesia viva
e s~~iável, e poéticas a vida e ~ sociedade, poetizar 0
espmto e preencher as formas de arte com atraente
42 . Um <los principais temas de A deftnu of "oetry, de matéria e animar cada espécie com as oscilações do
Shelley. .,
humor (Frag. 116.)
62
Urnas, Ciprestes e Vasos Cinerdrios, Roma, Yilla Corsini.
por Giovanni Battista Piranesi.
,. · com Dan- vê-la, tornando-a dependente ou poética. (Blake
Ambito da comunidade dos gemo~ Lo da leria O Velho e o Novo Testamento como códi
te, Shakespeare, Cervantes, Calde!on, . Ptnico , . ) gos
art1st1cos.
Vega e Goethe por centro, no eixo s!ncr
1 A poetização da religião é, no
. entanto, pa ne
de sua penetração horizontal, a poesif • em~~
dura, no eixo diacrô~ico. de seu desen~o v:;:e~u- de um pr~cesso gera1 d_e P?etlza~ão da vida A

vertical o quadro sintético da evoluçao que O movimento ro~~nllco 1~p~ls1onou. Metá:


tora integrante da v1sao romantica, o floresc·-
ma nidade seguindo as etapas exempl~rmendte
configuradas' por Victor
· Hugo no "Pref acio
' " • .e mento do Espírito e da Natur:z~ - do Eu tran~-
Cromwell 43. Essa universalizaçã..o cultur~l .~
tórica penetrante, que se deve a perfectlbihd
!~; cendente e da Natureza orgamca - produz
na arte, sobre os ramos da metafórica árvore f
progresssiva da poesia, e logo ao seu senso. do vida, a imagem de _u~a plenitude originári:
infinito estabeleceu entre a poesia e as aspira- perdida e de uma p~rfe1~ao futura a conquistar_
ções r;ligiosas um nexo congenial atado _pela árvore que nasce mtenormente, e cujas raízes
consciência concentrada em si mesma, aspiran- espirituais se fixam no subsolo da imaginação:
te da infinitude, e que teve como fulcro! d~ acor- Art is the Tree of Life . ..
do com o consenso unânime dos romanticos, o Science is the Tree of Death ( W . Blake)
espírito de cristianismo.
Projetando a poesia como .re~li~ade hi!t~ri- 111. A vivência da Natureza e a realidade
ca e assim interrompendo a d1sc1plma canomca
evanescente
do' gosto clássico, uma tal universalização é .º
aspecto extensivo da concomitante aut?nonu-
zação do imaginário, que se destaca da vida es- Nos limites do individualismo egocêntrico
piritual enquanto princípio de desenvolvimento e organicista da visão romântica, a vivência da
independente, ao mesmo tempo que a arte se Natureza física e exterior, incorporou não ape-
destaca do universo cultural, mantendo com a nas o poder intuitivo da imaginação, mas tam-
moralidade, especialmente com o cristianismo, bém a disposição religiosa da "interioridade abso-
religião revelada do Ocidente, uma relação de luta" (lnnigheit) pela qual Hegel caracterizou o
dependência mútua e reversiva, mortal para o estado de espírito correspondente ao Romantis-
deísmo. mo 44.
Por esse mesmo princípio de autônomo de- E uma vivência que se enquadra num con-
senvolvimento da vida espiritual - o princípio fronto dramático do indivíduo com o mundo,
poético, ao qual se referiu Shelley - é que a possibilitada pelo avultamento do sujeito huma-
poesia, magic power ( Coleridge), "o fundo d'al- no, eixo da nova direção epistemológica a que
ma revelado - a individualidade ativa" (Nova- nos referimos, fora do relacionamento aderente
lis), ou "l'incarnation de ce que l'homme a de e passivo do prévio "circuito de comunicação"
plus intime dans le coeur et de plus divin dans com as coisas naturais da época clássica. Seguin-
la pensée" ( Lamartine), se ligará tão profun- do esse confronto, dialogicamente conduzido, a
damente à religião, que tanto dependerá dela, vivência da Na tu reza, espetáculo envolvente,
tomando-se religiosa, quanto tenderá a absor- objeto de contemplação ou lugar de refú~o pa-
ra o indivíduo solitário, provocando tonahdades
• \'ide e<l. lira~. \'rcTOR H t·co, n o í,rotr.rco r do S11blimr,
Trad. r,;Jia Berrrn ini . E<I. Perspectiva 1977, Elos 5. afetivas díspares, que vão do recolhimento r:·
43. Etapas que correspondem a três idades : a dos tempos ligioso à volúpia da auto-afirmação. da melanco-
primitivos, da juventude lírica (o livro da Gênese como ode) ; a
da vida civil e da cidade antiga (epopéia e tragédia) ; a do espiri-
tualismo cristão. "Le Cbristianismc amênc la poésia à la vé rit é." -l-l. lh'.C.F.1.. /:.< t li,"·ti,111,·. .\11hil' r. t nlll" 1. t•. lll7.
1ica sensação de desamparo ao entusiasmo, não é
uniforme. Do mesmo modo que se efetivou cm do homem repre t .
termos de bu~ca, de procura, para além da recep- dos senti~entos ~es~o~~aduom !de~dl de simlplicidade
• .
PI atonico a v1 a rura
tividade pas~1va aos e~cantos das cenas e paisa- f em
. se / · . ·
u ntimat,ons o/ lmmortality
eens naturais, ela osc1Iou, pendularmente entre ;:mt r~o~ectwns of early chi/dhood, a expensa~
~m sentimento de pro ximidade, de uni ã; dese-
Wordra içao a que se vinculou Shaftesbury
sworth está p roximo
· · d a expressão natu '
jável e prometida, de compenetração a realizar- r
-se. e um sentimemo de distância, de afastamen- ~a ista do_ panteísmo ( Deus sive Natura}, quan:
to irrecuperável ou de separação fatalmente con- o, em Tm tern A bhey, vê cm tudo
sumada. Ab. moiion anel a spirit. tha1 impeb / ali things, ali
Para o poeta romântico, as fonnas naturais o Jecb of ali lhought ,/ And roll~ thro ught ali thing~/ .
com que ele dialoga, e que falam à sua alma Movimento_ u~iversal penet rante, esse impulso ga-
falam-lhe de alguma outra coisa; falam-lhe d~ nhou, na v,~cncia da Ode to rhe W est Wind de
elemento espirit~al que .s~ t:aduz nas coisas, ao S~ell~y, ª dimensão de uma força cósmica, ener-
mesmo tempo signos V1s1ve1s e obras sensíveis gia hvrement: . desencadeada, que preserva tanto
atestando, de maneira eloqüente, a existênci~ quanto destrot ( Wild Spirit , which art-m oving
onipresente do invisível e do supra-sensível. A e\·erywhere;/ Destroyer end Preserve, , hear: oh
Natureza transforma-se numa teofania. Os bos- her:r / ).
ques. as florestas, o vento, os rios, o amanhecer Se ~onsideramos, além do idealismo subjeti-
e o anoitecer, os ruídos, os murmúrios, as som- vo de F1ch_te e do idealismo objetivo de Schelling
bras, as luzes - de tudo o que não é humano - os quais, de certo modo, panteisaram o cris-
e se constitui em espetáculo para o homem Cha- tianismo - os precedentes medievais e renas-
teaubriand extrai. em Le G énie du Chrisria,nisme centistas dessas filosofias (Eckardt, Cusa, Bruno,
o testemunho da imensidade de Deus •5, penha; J: Boehme) retomados por Novalis. em cujos
das harmonias terrestres, que atestavam, para hinos (Hymnen an die Nachr) a indiferenciação
Lamartine, a existência de um ser supremo ~oturna é celebrada como unidade primordial,
cuja glóri a compete ao poeta louvar : ' Juntamente com a mediação redentora de Cristo,
veremos que Heine foi tão sarcástico quanto
~ton ãme n·e,t point la~se encore / D 'admirer roeuvre du verdadeiro ao afirmar que o panteísmo era a
Seigneur 46. religião oculta da Alemanha 47 .
Mas o próprio senso do infinito, o afã de Foi numa combinação daqueles "sentimen-
integridade e de totalidade, que alentou a dis- tos religiosos cristãos" a que de certa feita Goethe
posição religiosa dos românticos, levou-os, por se referiu, como o espírito do romantismo ger-
vezes, a uma intuição da imanência, intuição do mânico 48, com certos veios mágicos, esotéricos
ser espiritual dinâmico, difuso, agindo nas coi- e místicos, que se esquematizou o realismo ( ou
sas e a elas incorporado, intuição panteísta que ide~lismo) mágico de Novalis, segundo o qual a
se pode colher, entre os ingleses, antes de Shelley, Natureza é o "plano enciclopédico, sistemático
no "lakista" Wordsworth, para quem a Nature- do nosso espírito", isto é, "o entendimento in-
terno", oculto na aparência mecânica das for-
z~.. na qual buscou a confirmação da origem mas naturais, e que se revelaria como o próprio
divin a. da inocência primeira e da imortalidade
47. H EINE. A Alemanha. Garnier, p. 85.
d' 45 ·., Enquanto os antigos "ne voyaient partout qu'une macbine 48 . "Entre nós; alemães, o romantismo foi introdu:r.ido por uma
di~rrtr .' para O poeta cristão "lei bois se sont rempli1 d'une formac;lo de sentimentos religiosos cristãos, . . . " Goethe, 1820.
"'e immcnse", Le Génic du Christianismc, Livre Quatricme. Citado por ERN ST ROBERT Cuuru s, em Literatura Ewrop& e
45 · "M on o·ieul dans ces deserts mon oeuil r ctrouvc et l;uit/
les m· Idade Mldia Latina, Rio de J aneiro, Instituto Nacional do Livro,
irac1cs de ta présence". "L'Hymnc de la Nuit" ( Harmonics). p. 275 .

A VISÃO ROMÂNTICA 65
mitado à busca do limite e da forma _ ao ab·
. D' , los de. Sais,
Eu ao peregnno de 0 s ,sc,pu
sob
, . do mo sem fundo ressaltado por Victor Hu 1s-
o ~éu encobridor dos segredos e m1steno~
universo quando ele o descerrasse. Essa on!P:e-
onde "le sans fin roule dans le sans fond"
nitudo Parvi") - e ao qual o romantismo
(~Mt&·-
' E realismo magico
scnça invisível do u, que49 O • afinal dio emprestou um cunho de estranheza e ~-
P rocurou tornar perceptível , e que sena! t d ' cega necessidade - que se refletiria no e
a presença do humano no nao- - humano , m ro u- , . de Heme · - , esse aspecto co sar-
casmo Imco .1 d . rres-
ziu, na religiosidade cristã novali~na! 0 ,, acen~~ pondeu à fac: hosll e n~turn a a v1~ência da Na.
moral de um "panteísmo evoluc1omsta ' po tureza ' atraves do sentimento de distância e de
quanto caberia ao homem ge_n!al, pela força da . .
separação. Enquanto,. :71v1da num sentimento de
imaginação poética que espmtuahza O mu~do proximidade e de umao, a Natureza benéfica
exterior converter ' a unidade
· d'1vma,
· estend1da
. , luminosa, c_on..sol~ndo o _h?mem ~as penas e fa~
ao uni~erso, de princípio originário em fmah-
digas da ex1stenc1a, propicia a qmetude e O silên-
dade intrínseca da Natureza. cio que permitem a alma voar "através de cam-
Deus não tem nada a ver com a Natureza - Ele é pos quietos/ como se voasse para casa" (Ei-
o fim da Natureza - aquilo com o que ela deve um chendorf, Mondnacht), a hostil, movimento em
dia harmonizar-se. A Natureza deve tornar-se mo- torvelinho e em espiral, impetuosa e oceânica
ral . .. 50,
que aniquila o indivíduo e a todas as coisas ar~
A teofania começa então pelo homem, a rebata, imprimiu à visão romântica um lastro
primeira floração autêntica d? ~spírito, posto imagético de fluência, de vertiginosidade que
que, para Novalis, a Natureza e a arvore da qual ultrapassando os limites da literatura, alcanço~
somos as flores em botão. Reaparece, novamen- o dinamismo colorístico das marinhas de um
te aqui, a metáfora essencial da árvore da vida; William Turner e d_a "pintura negra" de Goya.
plantada no solo teosófico da Aurora de Jac?b Qualquer que se1a a face a que se incline ...:..
Boehme de onde o autor de H einrich Of rerdm- noturna ou luminosa, maléfica ou benéfica _
gen a c~lheu, ela se esgalha ao mundo inferior e qualquer que seja o sentimento que a sustente
e ao mundo superior, do céu das estrelas ao céu da - de abandono, de desamparo, de melancolia,
consciência 51 . por um lado, levando ao pessimismo, e de exal-
Mas independentemente da diferença desses tação, de entusiasmo, por outro, levando ao oti-
acentos teísta ou panteísta, o aspecto dinâmico mismo - a vivência romântica da Natureza, sob
e impulsor da Natureza, como realidade cósmica, o pressuposto da animação e da organicidade,
que se depara à intuição imaginativa do poeta integra-se a um sistema de representação, con-
romântico, não é separável de seu investimento dicionado pelo relacionamento ativo do sujeito
expressivo e teofânico. Identificado à "inefável, com o objeto ( a coaktivitat de Novalis, a coales-
santa e misteriosa Noite" (Novalis, Hymnen I) , cence, de Coleridge), em que se fúndaram de-
mediadora do sonho e da morte, comparado a terminadas virtualidades distintivas da linguagem
uma "espiral sorvendo os Mundos e os Dias" literária.
(Gérard de Nerval, Le Christ aux Oliviers), ou Os objetos, qu.:. já condensam a per~epção
à potencialidade originária do caótico e do ili- sentimental e emotiva do sujeito neles pr?J~tado,
são, como abreviaturas dos estados de amm.0 .e
49 . .\ maitia ~e define cum u arte 1ia ra u,;ir ú vontade do
mundo ,emin·I. l:11,yclopéd i,. l(>h i .
das coisas, do interior e do exterior,.·d~ subJet,-
511 . .\ov.,LIS. l :11cy.-lo('édi,·. li .li•. vo e do objetivo, núcleos de correlaçoes cam·
5 1. '· Iler Cartcn <lieses Jh11mes hedcutet dic \Vclt, <lt-r
Achr die N;itur, da Stamm des Baumes die Sterne, die Aste biantes, ordenadas pelas afinidades e pelos con·
die Elemente, die Furchte so auf diesem Baum w;ichsen. be<leutt'n trastes da imagi,iação. E sendo dialogante 3
die Men,chen, <ler uft in ,ten lhum hcdeutrt <lir kl;ir 1,ottheit . ··
J ~knh llnrhnit". at;tude do poeta, para quem os objetos passam

66
. categoria de segunda pessoa - o tu diante do os conceitos e as coisas, as palavras e os objetos,
Êu 52 _ é o ne:co de simpatia que o ligará às preponderante na época clássica. Mas pondo-se
coisas, num mundo ~m que ~udo pode ser analogi- à parte esse aspecto geral, que mostra a f un-
amente compreendido. Feito de correspondên- ção liminar, para a nossa experiência da litera-
c_a afetivas entre elementos heterogêneos, de tura, do sistema de representação do Roman-
Cl . é.
harmonias rea !'1za das ent re termos antit ttcos, es- tismo, certos lineamentos de escrita, sobretudo
se mundo mágico, não apenas analógico, é um na lírica, ainda relacionados com o caráter ex-
mundo regido pelo princípio da analogia, sujeito pressivo das formas natu rais, enquanto objetos
às leis naturai que M111(' de Stael registrou: que já são signos, aderem medularmente à visão
La paix et _la dis~or~e. l'h armonie ct . la <li,ssonance romântica do mundo, no estrito sentido cm que
qu'u:, licn ~eaet rcun1 t, sont ks prcmu:rs lo1s de la a tomamos neste en aio.
nature: et soit qu' 7lle se _montre redo~table ou_ char-
mnnte, l'unité sublime qu1 la caracterise se fatt tou- O primeiro lineamento é o expressh -ism o do
jours reconnaitre 53 . texto, dirigido por uma in tencionalidade de ex-
pressão direta, imediata e espontânea, na qual
Desse ponto de vista, a Natureza, que não as imagens, funcionando como uma segunda
foi para o Romantismo apenas a mai abrangente pauta da linguagem, tentam reduplicar, de ma-
de suas tematizações, mas o foco precípuo sob neira sempre insuficiente, uma primeira pauta
0 qual a imaginação intuitiva se afirmou e se original, dada pelos próprios objetos naturais: a
exerceu 54 , voltou a ser contemplada pelos ro- linguagem dos sentimento~ e das próprias coi-
mânticos através da perspectiva de coesão má- sas, que excede a das palavras. O segundo li-
gica, de envolvimento _anal~gic? ~ntre palavras neamento é o transcendentalismo da expressão
e coisas, da compreensao pre-class1ca do mundo. verbal, criação do espírito, existindo como obra
dominante do Medievo à fase renascentista. Ex- sua. e em que as imagens dos objetos naturais
tremamente esclarecedor, como fato da história e terrestres. intencionando uma realidade outra,
interna da cultura, um tal parentesco tipológi- não-natural, não-terrestre, são como que os signos
co da visão romântica com uma compreensão do de um mundo superior ideal. longínquo, miste-
mundo que se arcaizara nos fins do século XVII, rioso, estranho e invisível 56 . Ambos esses sulcos
fase inicial do pensamento racionalista moderno, românticos da escrita pressupõem o rapto da
permite concluir que as virtualidades da lingua- inspiração, e ambos se conjugam a uma atitude
gem literária, fundadas no sistema analógico da de reconhecimento do caráter contingente e se-
representação, decorreram, em princípio, da li- cundário da linguagem verbal, que predispôs à
beração metafórica da linguagem . valorização estética da música. limite ideal de
Rede tecida de imagem a imagem, de pala- todas as artes.
vra a palavra. um outro continuum de lingua- A vivência do poeta. em diálogo com as
gem - o próprio fenômeno literário, na acepção form!is naturais. é. pois, a vivência de uma teofa-
. 55
plena do termo. e em sua recente autonomia nia. No entanto. por força do primado ontoló-
- se destacou da trama classificatória, ligando gico da vida interior. a sua escrita se investirá
<le um preliminar e inevitável caráter psicofàni-
52 . "No instante em que o poeta lhe fala, o rochedo nã? co, recondicionador de todos os conteúdos. Dia-
se torna um 'tu', dotado de personalidade?" - NovALIS, Dae
Ltltrling von Sais, Rowohl. logando com a coisas, que lhe falam à alma, é
53 . De /' Allt'magnl', Quatrieme Partie, Cap. IX. (De la de si mesmo que o poeta romântico sempre fala.
contemplation de la nature), Ga rnier, p. 600 . ,.
54 . Cf. PAUL ot MANN, Structurc intentionelle de 1 1mage
romantique, R evut [nternationale de Philosop"hit, 1960, Fase. 1, 56 . "La nostalgie de l'objet s'est transformé en nostalgie
º·º 5551.. Na acepc;io do aparecimento da "literatura" para du ciel ... " afirma Paul de Mann no artigo supracitado, que
inter pretamos nrste passo.
FoucAULT, em Lts Mots t t lt s Chosn.

A VISÃO ROMÂNTICA 67
Estaria aí o extremo limite do individuar1
Nas condições de sua sensibilidade conflitiva, o egocêntrico, que Hegel assinalou na sua ~~o
dinamismo da .mtenonzaçao
. . - Pcrmanentcmcnte à ironia de F. Schlegel, Novalis e Tieck. critica
reconduz a, d"ireçao- centnp , eta - para dentro ... Uma ironia mais profunda, uma ironia t
e para O Eu - a direção cent~ífuga da conscien- gica, ha~eria de marcar o Roma~tismo, na ac:á-
cia - para fora e para as coisas. . ção estrita do termo, e o sentido dos vai P-
. _ .. t' p d . . ores
O que, enfim, prepondera, como determm~n- da v1sao romanf ica. dor um 1~ o,. . o ~nattngível e o
tc do comportamento espiritual do poeta ro~ ~~- invisível, trans orma os na mstãnc1a poética d
tico dando o acento impulsivo de sua sensibih- realidad~ superior e ~erdadei~a, encerrou as re~
d:id~ conflitiva, é a aspiração do infinito, como giões privadas <lo artista, abrigado no ideal s-
anseio vago e indefinido - que a palavra as regiões do sonh o adorave . ao
' l ab ertas pela mús'
· · · - do
Sehnsuc/11 exprim~ -.. como md~ e_n~maçao a caso, regiões onde, habitante do mundo feéric~-
desejo, amor da mf1mtude pela mfmitude, .e d_ do mundc das fadas 6 1, como o Anselmo do cont '
procura pela procura, que transbordou na ,roma "O Vaso de Ouro", de Hoffmann, o poeta se abri~
da forma e da vida. ga do real, no jardins de Serpentina. Evasiva
"Est-cc ma faute, si se trouve partout des evanescente, a aspiração ao infinito se ·identificoe
bornes, si cc qui est fini n'a pour moi aucun.e com a infi nitude do d~sejo _insatisf,eito. Sequioso~
valeur?", exclama René. Obrigado a persegmr aspirante de un:1a plenitude impossivel com que a
o objeto diferido de seu desejo, "qui n'était nulle satisfação estética lhe acena, o artista românti-
part et qui était partout" 57 , assombrado pelo co, erótico e sonhador, é, na acepção kierkegaar-
fantasma de um ideal a realizar, fata Mor?ana diana do termo, o homem do desejo. Súmula de
que diante dele se distancia e se csvane~e ·'8, o um comportamento espiritual e de um modo de
romântico se fixa à inquietude que o dilacera, sensibilidade, o próprio elemento "romântico"
e amando o contraste pelo contraste, vive, em seria, na definição de Kierkegaard - o primeiro
meio de antíteses, uma existência dúplice e des- crítico do Romantismo depois de Hegel, _ "o
dobrada. perpétuo esforço para apreender aquilo que se
A ironia, de que os românticos alemães de desvanece" 62 •
lena fizeram um valor positivo da vida e da arte, Vista sob esse ângulo, a crítica de Hegel à
é a ilimitação da inquietude espiritual no que tem ironia revela a natureza sintoma} da visão român-
de alentadora e deceptiva. Como "consciência tica que, presa da "má infinitude", concretizava,
clara da eterna agilidade, do caos infinitamente em conflito com a realidade cultural da época, o
pleno", da definição de ironia por F. Schlegel, momento da "consciência infeliz", de que tra-
esse jogo ilimitado do espírito infinito, que ten- tou a Fenomenologia do Espírito.
de a ultrapassar tudo, inclusive qualquer espécie
de forma artística, inferior e efêmera em relação IV . O processo do Romantismo
aos sentimentos efusivos - cuja linguagem ori- Por trás da atração dos cenários naturais, da
ginal, a juízo de Wackenroder, é a música - , fruição voluptuosa da paisagem - "a varieda-
submete a vida ao capricho da subjetividade
evanescente, efeito da 60 . " . . . pois eu sei que tu também penetraste nestu r,gi6eJ
românticas que a magia celeste dos sons provoca". HorrKAMM,
concentração do eu no eu, pela qual todos os laços n on ]11011 . "E contudo, caro leitor, existe um reino feérico, eheio
de espantosas maravilhas, cuja potência sobre-humana prodlll
são rompidos, e que não pode viver senão na felici- , 11c· «n ;i ,•, !"111<' o ~xtase surremo e o espanto irlsondável." Horr·
dade que proporciona o gozo de si mesmo 59, MA NN , "O Vaso de Ouro".
61. "Somente a franqueza dos nossos órgãos e do nosso con·
facto conosco mesmo impede-nos de perceber que vivemos · num
57. (IIAHAIIBltlAND. R/'11('. mun rlo tle fadas.'' :--ovALIS. f: nryclopl-dir . 1678. A tXt l
58 . Cf. R ALPH Tnu1s, op. cit., p. 6. 62. Cf. J EAN WART, Études krierkgaardiennes, 1111 •
59. Esthétique, Aubier, vol. 1.0 , p. 92. Extraits du Journal (18) 4-1839), Aubier, p. 581.

68
grandeza e a beleza de mil espetáculos sur-
de Fichte da e
de, ªadentes", que Saint-Preux já descrevia a Jú-
pree á d d" ..
e de A p ~ artc;s sobre a Educação Estética
}ie 63; por tr sH .º .n ~m~f isn:i? espmtual desses oes,a lngenua e a Poesia Sentimental.
aprendizes, o demTn.c k . . ter lmgen, de Novalis, Incorporados a . ,
gestualística d u?la parte cons1deravel da
e O Sternbald, e iec , emu os de W. Meister zaram . os sentimentos que os interiori-
em diálogo com os q~atro elementos; por trá~ e até na literatura, o desencanto, a reprovação
do nomadismo geográfico, que vai de Chateau- perado ' como
d em Byron' o repu'd'10 a I.tivo e deses-'
briand a Gérard de Nerval, a busca do sublime , a cu1tura e da sociedade 65, que não fo-
ou do exótico, d~s recantos solitários que tran- ~a~ s_o a revo_lt! _dos dandys 66, já são, passada
qüilizam, das pa1sagen~ ,remotas que acendem d pida . fase m1c1al da juvenilidade entusiástica
0
desejo da terra paradisiaca, ou de lugares em . o movimento romântico, o fadário daquela
ruínas, abandonados pelo homem, que desper- Jeunesse soucieuse sentada num mundo em ruí-
tam a nostalgia da terra p~rdida - por trás des- ~as, da qual Musset foi um dos intérpretes 67. a
ses aspectos do culto da Natureza, enquadrados 1;v~ntude desarvorada, perplexa, que regrediu. ao
num confronto dramático com o mundo, está si- e tschmerz dos Stürmer, mitificando sob a fi-
Jhuetada a tácita insatisfação com o todo da gu~a do . mal ~u siecle, transformado' numa fa-
cultura, misto de afastamento desencantado e de talidade mexoravel, a realidade social e histórica
q_ue se problematizava, e que iria adquirir até o
reprovação à sociedade, depois do assomo liber-
final da primeira ~~cada do século XIX, e~quan-
tário do idealismo político de 1789.
to os modos tradicionais de vida principiavam a
O culto da Natureza, convém lembrá-lo, co- ser corroídos e esvaziados pelas novas estrutu-
meçou sem esse afasta";lento desencantado; li- r~s _nascentes, um caráter fugidio, exterior e me-
gou-se ao Contrato Social de Rousseau, e in- c~n,1co, cada vez mais alhda à vontade dos in-
div1duos e cada vez mais fechada e enrijecida.
cluía um princípio de esperança política. Ainda
quando se refugiava às margens do lago de . O dilaceramento da consciência individual, so-
Bienne, nos "charmes de la nature" que o com- e.?!mente bloqueada, que se introverte e se
pensaram das incompreensões e injustiças sofri- af1rma como a potência interior infrangível do Eu
das, a decep~ão misantrópica de Rousseau pelos negando o mundo que a nega, enxertou-se co~
homens mamfestou-se como afronta à sociedade. ? ~f~ de .totalidade e de integridade em que o
md1v1duahsmo egocêntrico se externou, no culto
Que maior afronta do que o exibicionismo do da Natureza.
ócio, do estado <le farniente, no Reveries d'un
Promeneur Solitaire, especialmente no relato da Na conformação da conduta espiritual dos
Cinquieme Promenade? A aspiração arcádica de românticos, que fez ascender a ilimitação, a in-
Rousseau, implícita nos dois Discursos, em A No- quietude e a insatisfação permanentes ao primei-
ro plano da sensibilidade literária e artística, o
va Heloísa e no Contrato Social, consumou, de
empenho de totalidade e de integridade, e o dila-
fato, a politização do conceito idílico da Natu-
ceramento da consciência individual que o acom-
reza 64 , que Schiller assimilou e transmitiu à
primeira geração dos românticos alemães, leito-
6S . ". . . Porém dos homens breve ser conhece/ O menos
res, sem excetuar Hoelderlin, da Teoria da Ciênéia próprio p'ra tratar com homens./ Com quem bem pouco de comum
tem ele ; . . . Soberbo cm seu enfado acha cm si vida./ p'ra rei-
pirar da espécie humana à parte." BvaoN, Chi/d Harold, Canto
63 · " , . . le plaisir de ne voir autour de soi que des objcts Terceiro, XII.
tout nouveaurx, des oiseaux ctranges , des plantes bizarres et incon• 66. Para CulUS, cm L'H<>mme Re11oltl, a figura mais oriei-
oucs, d'observer en quclque sorte une autrc naturc ct dê nal da revolta romântica é o dandy e não o revolucionário.
;x~\o;ver dans un nouveau monde" . La NoNvelle H é lolre, Lcttre 67. "Toutc la maladic du sieclc vient de deux causes : lc
pcuplc qui a passé par 93 ct par 1814 porte au cocur deux bkssurrs.
64 - Cf. A UERBAllC H M im esiss la realidad e11 la literat ure. T out cc qui était n'est plus; tout cc qui sera n'est pas enc:orc."
Fondo de Cultura, p, 439. MussET. La con/cssion d 'un rnfant du siêcle.

A VISÃO ROMÂNTICA 69
· - emi- -Mãe, que constitui o precedente mítico do YolJcs.
panha condicionaram, através da p~siçao d tum _ do gênio de um povo, de seu caráter na .
'
nentemente • 11·igent zia
reativa da mte · situada' e o . d · , Cto.
nal e de suas v1rtu es morais e mtelectuais
Pr . - da v1"da em torno
ocesso de poetizaçao . do qua1 além do ser feminino, celeste e transparente -
· ,. co 68,. ' mas
se convergiram não só o poder mitogem ,. . ao'ou
carnal e sub terraneo, mas sempre supenor s
, ·
também a par 'das projeções utop1cas, o fenomeno
' · oposto masculino, a quem pode salvar e rediJ
das duplicações, das misturas cu ltura1s
· e,.da su-
0 sonho, estado primitivo da alma humana '
plência de funções pela cumulação de ~apeis, co:
que se tentou contrabalançar o romp1men~o. d "segunda vida do espírito_" ( Gérard de Nerval):
correlações significativas da cultura tradicional foi . outro dos grandes m.ttos do Romantismo '12
em mudança 69 . Proveniente do mesmo empenho de totalida ·
de, 0 amor ao ~assado, qu~ se distendeu _às font~
Desenvolvida pari passu com uma teoria poéti- remotas e às ongens da umdade da espécie, mitifi.
ca da origem do mito e da linguagem na alma cou a Idade Médi~ e ? poder espiritual .da Igre.
de cada povo, a atividade mitogênica do Roma_n- ja nessa fase. Assim e . que o compromisso, que
tismo ligou o sentido dramático do tempo his- marcou a visão romântica, entre a simples espe-
tórico, caudal propulsivo transfor:nando ~s na- rança utópica e a confiante adesão ao papel so-
ções, ao crescimento orgânico e a flor~çao es- cial e político regenerador do cristianismo, re-
pontânea da natureza, que ci~:un_screvena, co~o fletiu-se no escrito de Novalis, Europa ou a Cris-
último limite de uma consc1enc1a retrospectiva
tandade ( 1799), que prenunciava o restabeleci-
dirigida a etapas remotas do passado, o estado
primigênio do homem, onde o natural e o cultu- mento da unidade das nações e dos Estados,
ral se transpassam e se confundem. graças ao domínio espiritual da Igreja Católica,
finalmente levando de vencida, pela virtude dos
Nesse estado, o homem é um sonâmbulo in- tempos novos, sequiosos de uma verdadeira reli-
consciente; abrigado no ventre maternal da N~- giosidade, o cisma protestante. Que sustentará,
tureza, que se revelaria depois nas i~agens om- pergunta Novalis, o esforço '!ue. revol~~ionou os
ricas e míticas, ele é, para Joseph Garres, como Estados, se não for uma potencia espintual, su-
o verbo e a palavra da terra 70• A mul.her q~e perior às potências terrestres? Chegando a bem
Gérard de Nerval lhe dará por companheira, mis- alto, a Revolução está condenada a trabalhos
to de mãe e de divindade, assimila as figuras das de Sísifo, "a menos que uma atração do céu man-
deusas ctônicas primordiais 71 • Além da Terra- tenha-a suspensa nos cumes a que se ergueu" 73.
A religião, que tem o poder de despertar e de
68. Sobre o estimulo que esse ~oder mit~lógico recebeu . da
filosofia de Schelling entre os romantJcos alemae.;, ver o notavel unificar a Europa, e, reunindo os Estados numa
trabalho "Aspectos do Romantismo Alemão", de ANATOL RosEN·
rELD, in Texto/Contexto, Editora Perspectiva, pp. 145·168.
sociedade supranacional, conferir-lhes um Eu po-
69 . Jost GUILHERME MERQUIOR fala-no~,. de acordo com lítico superior, é o cristianismo da antiga fé ca-
Mannheim no Romantismo como "uma estrateg1a de resgate das
atitudes e 'modos de vida de origem, cm última análise, religiosa, tólica, antes de Lutero:
reprimidos pela marcha do racionalismo c:ipitalista - mu uma Rebate-se sobre essa construção novaliana,
rememoração do 'irracional' levada a efeito no plano da refle-
rão." Saudade do Carnaval, Forense, pp. 146-147. .1".esse . sentido que ainda conserva o vigor do idealismo político
foi o Romantismo um cultivo de tradição: um lradmonalumo -
"contra o mundo desenfeitiçado, dessacralizado dos tempos mo-
dernos, abertamente exaltado pela Ilustração - o tradicional apc· gendo os elementos vegetais e luminosos da Naturcza. A.~ulhr .:~
lidado de irracional". Idem, p, 147.
A esse respeito, atente-se para a observação de Rume; "The
Romanticism ... and this is the best definition I can give of it, 1s
para Gérard de Nerva!, um ser primordial, figura mih~ ei
de opostos. "A l'imagc d'une femmc aericnnc et celeste • op=
la figure, identique et enncmie, d'une Íeff!me ch~rncllâ ºc;érard
spilt religion". "Romantícism and classicism", in : S peculations, terrainc". RICHARD, J ean-Pierre. "Géograph1c Magique e
Routledgc & Kegan Paul, p. l 18. . de Nerval". Polsie et Profondeur, Scuil, P· 6l .. t de rkt
70 . Ver, a respeito, ALFRED BAEUMLE'R, Der Mytluu vo" 72 Cf ALBERT BEcurn L'âme romanllque t . ) Jose'
Orient und Occident (Eine Metaphysik der alten Welt, aus de" (Essai ·su, le · romantisme allemand
' et la poine· f ra11,aut ,
Werke, von J. J. Bachofen), Munique, Einleitung, CI/CII.
71. Assim, em A 11relia, a amante do poeta confunde-se, nu- Corti. ntismc Alie·
73. NovAus. "Europe ou la chrétienté, Le Roma
ma de ~uas aparições, com o espírito de terra e dos ares, abran- man<l ." Cahic rs du S11d, pp, 413-434.

70
·vado pela Revolução Francesa, de que O úni-
rnottl g'itimo herdeiro foi Hoelderlin, e em que ª:tis, ª? deslocamento dos valores que se produ-
zia socialmente.
.~.o assa,
e com a ondu1açao- do tempo histórico
perpgressivo e transformador, o sopro da confian- d O s7ntido histórico universalista da evolução
pro O porvir, que faltou a Le Genie du Christia- ri p_oe~1a e das artes em geral, coincidiu, para os
ça n b. d . .
nisme, de Chdate.au nan , - :nt~1ramente nos- r manticos, que interiorizaram o sagrado e sacra-
álgico e sau os1sta - a romantica adesão ao ~zaram a arte - num contexto em que se con-
t undo intangível do id~al, que serviu de escudo fiava ' 1· ·-
- a re igtao a guarda dos valores tradicionais
mo evasionismo, e de f 1xador da racionalização senao ª própria defesa da ordem instituída _'
~deológica, mundo intangível a que se atribui,
1 com O • sentido do desenvolvimento espiritual d~
uanto mais alto se acha colocado, uma eficá- humanidade. Sob esse aspecto, na medida em
~ia espontânea ir~~sistível, imune às interferên- que se manteve imune a essa interiorização do
cias do real empmco. sagrado, fazendo da poesia um meio de revelar-
Entrançado a linhas ideológicas bastante ní- -lhe a presença ausente no corpo de uma nature-
za plana, s~m desdobramentos supra-sensíveis, e
tidas, o utopism? r~mântic~ seguiu o sulco do sem. sacralizar a poesia, a obra de Hoelderlin
processo de poetizaçao da vida em sua totalida- continuará sendo uma pedra de escândalo den-
de à custa do qual se delinearam, como pers- tro do romantismo histórico.
pe~tiva promissora oculta da realidade, somente
descobertas pelo gênio, as duplicações e as mis- Fir~av.a-se, enfim, alçada a um plano ideal,
turas de domínios culturais distintos, das quais a supenondade da arte ou da poesia, como um
a Enciclopédi~ de Noval is ( verdadeiro modelo domínio privilegiado e transcendente, veículo de
antiiluminista de enciclopedismo fragmentário ) todos os valores e princípios da formação espiri-
pode ser considerada o principal repositório. tual do homem. Paralelamente ao alargamento
?ª forma romanesca - do romance, elaborado e
As duplicações começam ao nível da Na- interpretado como forma literária épico-lírico-
tureza física, que se desdobra num sistema espi- dramática, sinté:ica e inclusiva, capaz de conter
ritual; passam à individualidade humana, que se a variedade dos aspectos da existência individual
desdobra num organismo físico e metafísico; con- e a diversidade dos interesses humanos 75 - a li-
tinuam na arte, duplicada por uma "arte eterna" teratura, a que se delega uma função de síntese,
que o transcendentalista Emerson viu manifes- de unificação e de totalização, preserva a única
tar-se nas coisas; encontram-se na religião, possibilidade de ação pedagógica, de formação
abrangente de todo o domínio do supra-sensível (Bildung) humanística, possibilidade que Wag-
e do supraterrestre 74 - cindida porém nu- ner reivindicou para a arte, como instrumento
ma fonna natural e histórica e numa forma ar- revolucionário 76•
tística ou poética - e aparecem, ainda, na ética, A pedagogia, a Bildung romântica, foi, con-
polarizada entre o senso moral interno e a lei tudo, o confinamento subjetivo da antiga paideia
moral externa. As misturas se revelam nos com- humanística; sem aquela irradiação ética do ideal
postos híbridos - a ética poética, a poesia cien-
tífica, a física teológia, a filosofia poética - , 7S . "Arte do romance. A absolutização - a universalização -
que o. gênio elabora, e dos quais extrai um C?· a classificac;ão do elemento individual, da situação individual, etc.
é a essência própria <la romantizac;ão' ' . NovALJS. Op. cit . 1440 .
nhecimento de ordem superior. Mas tanto as mis- 75 . Como se vê do escrito de julho de 1849, A Artr r o
R evolução, de Richa rd Wagner, humanita.s é já a livre humani-
turas quanto as duplicações significavam o resu!- dade artística que a arte do futuro devera compreender e forma r .
sultado de uma reação transversal, sub specze A educac;ão "tornar-se-á sempre m ais art!stica, 11m dia_ seremo,
todos artistas ... " W AGNER, Richard. L'artc . ct la . R11·nl11·1~ 1'.c
( e altri scritti politici), 1848-185 1, a cura dt Mamo Mangin1,
Guaraldi.
74 . ~OVA LJS. fitQ'Cfo pédie . 1766.

A VISÃO ROMÂNTICA 71
0 meio do século, só à custa da vida boe~ .
schilleriano da educação estética conjunta do in- ·
poderá preservar o 6cio, o f armente
. nua
rousseauísta.
divíduo e da sociedade, esgotou-se no culto_ da
arte, de que o ritualismo da música. wagnenana Acionado por um processo de sublimaç~
foi a consumação, e preparou o cammho para o .. 1
0 comportamen~o ~spmtua , qu_ e, dele se tipific~ ªº
esteticismo, que se firmou na segund~ metade ~o
século XIX, já no âmbito do reahsmo. Muito
próximo da egolatria, esse culto, que adotou o
na literatura, cnstahzou-se no dialogo com a N
tureza, e teve como focos principais o amor
poder, tem_aticamente condensados no erotismo
e:
etlzos da rejeição religiosa do mundo do asce- e no satamsmo.
tismo cristão sacralizou a arte, que se toma, para De uma voluptuosidade narcisística, que se
adotarmos as' expressões de Max Weber, " um alimenta dos "langores da alma enternecida"
cosmo de valores independentes percebidos de que Julie conheceu diante de Saint-Preux 80, ex~
forma cada vez mais consciente, que existem por teriorizado por aqueles amaneiramentos da fina
si mesmos" 77 • Na visão romântica, o cosmo ar- observação de M.me de Stael 81 , o erotismo ro-
tístico é um meio soteriológico: a arte sagrada mântico esteve tão distante do amor-paixão quan-
exerce " a função de uma salvação neste mun- to o amor de Werther de Goethe por Carlota
do" 78 _
esteve distante do amor do Octave de Musset
Dentro desse quadro da condição soterio- por Brigitte.
lógica e transcendente da arte - transcendente
pela sua própria essência, e porque, órgão do O amor romântico não conhece mais a en-
Absoluto, dá acesso às regiões supra-sensíveis do trega absoluta do amor-paixão, que sacrifica to-
espírito - é que o poeta genial, recebendo as or- dos os valores à mulher divinizada. Tanto mais
dens sagradas quando a ele se transfere o caris- sensual ele é quanto menos sexual quer ser, e
ma religioso, assumirá papéis cumulativos, que o tanto mais sexual se torna, quanto mais, afetando
colocam numa posição eminente. "Le monde en- pureza e elevação do sentimentos, elevado à ca-
tier passe à son crible", dizia Victor Hugo. Mas tegoria de "lei celeste tão potente e tão incom-
na proporção em que fazia do poeta o suplente preensível quanto aquela que ergue o sol no fir-
'inerme de funções sociais neutralizadas, esse mamento" 82, ele envolve os amantes, parceiros
acúmulo de papéis marginalizou-o. desiguais, ou angélicos ou perversos, entre mo-
Excepcional e solitário, guia obscuro da hu- mentos de êxtase, num . antagonismo sadomaso-
manidade, tardio descendente da raça dos magos, quista. Angelical como Brigitte ou maligna, como
dos profetas e dos videntes, e sobretudo decifra- membro da estirpe de f emmes fatales - a que
dor da Natureza, que por ele se deixa ler como pertencem a Cecily de Eugene Sue ou a Carmen
um livro aberto 79, detentor de verdades inaces- Mérimée - , a mulher, sempre mitificada, con-
síveis à maioria de que se dessolidariza, sentin- serva uma auréola de pureza, de mistério e de
do-se mais próximo, pela atividade não-utilitária, plenitude inacessível ao homem.
não-produtiva, e pela sua dependência à imagi- O amor romântico oscila entre extremos de
nação, das crianças e dos loucos, o poeta român- abnegação e sacrifício, quando exaltado, e de li-
tico, já habitante das metrópoles ao aproximar-se ber:inagem e deboche suicida (Rol/a, de Musset),
· 77~ \ \' rnFR, ~bx . T: 11snios dr Snc inlnr,iu ( Ori::an i,acão e I n-
troduçao <le H. H . Ge rt h e C. W ri gh t Mills ) , Za ha r E d itores , 2.• 80 - " Que de delices inconnues tu fis eprouver à mon. cocur,\
cd., p . 39 1. O tri , k ssc cnchan tc rcsse ! ô langueu r d'une ã me attcnd~ie ! .. :
78 . " ~ roporciona u ma salvação d as roti nas da vida cot;dia- I.a .\'uui·cll<' llcloiu. Let t rc, XXX\'Ill de Saint-Prcux . ª Juht.
. Rl . " . . . ccs son s , 1e vo1x • m a 111c
• re•s , ccs reJ?ar ds qu1 vtultnt
/'Alie·
na , e csp ~c·~!mcntc das c rescentes pressões do racion alismo teóri -
co e pra i:cu . W E~ER, l\l a x .. Op. cit . p. .l'l t. etre vu s, t out cct appar eil enfin de la sensibilité . , ·" ~~ 0

111 ª~11.''. Q ua trit'.·111e l 'artit·. Ca p . X\"] 11 ( I h· la di,;),ositinn r
79 · II cst sa 1n de toui ou rs fru illct.-r la nat u rc/ Car c'cst
la i:: randc lett rc et la i::ra nde écc rit u rc". l l 1·ct1 \ 'ictnr " \ 1 ,f ·1 ... ma nt1q uc dans les affcctions du coeur) p. 521, ed. cit. . "' nit
VIII (Les Contemplations) . ' · · u n º ' • ~2 · i\l t 'SSET . La Co 11/cssio11 d',ra ~11 fa11 I d11 sii·rlc. Troisic
l'a rt 1L", C1p. \ ' J.

72
uando decepcionado. Mas sempre em íntima
ietação com o e_stado de fruiç~o estética, incor- c_aptou e sintetizou como trágico embate do des-
pcrando a antec1pa~a ?1elancoha que O envene. tmo humano.
a diante da d"trans1tonedade da beleza "Beau- (\_ ascensão e a descensão, a subida e a queda
tY that must ,e" - que Keats exprimiu na
n ~er:t~ginosas, verdadeiros padrões retóricos, que
sua Ode on Mela~cho/y, o ~?1º~ é, como dirá P1~1~am, na lírica e no romance 84, a conduta
Max Scheler, mais, a . consc1enc1a reflexiva do esp~nt~al ~os .ro~ânticos, acompanharam a "tur-
amor d_o q~e ? propno _ar_nor 83. Fantasma do bule_nc1a faustica em que se forjou "o escudo de
desejo msat1sfe1to e mdef1mdo, o amor será as- sublimação ou do ideal do eu" ss.
sim compreendid~, _um autêntico paradigm~ da A sublimação da conduta espiritual, voltada
sensibili~ade romantica, de que foi a motivação p~r_a as alJas_esferas, foi um processo inerente à
psico16gica fundamental e o tema prioritário. v1sao romantica, como visão de época. Limiar da
nos~a experiência literária e artística, essa visão
O pathos da ·rebeldia, implícito ao individua- se interrompeu sem perder a sua influência in-
lismo egocêntrico, desse desejo insatisfeito e in- cessante ( haverá sempre românticos entre nós),
definido, sublinhou-se no satanismo, transfor- . ~r _um processo inverso de dessublimação, cujos
mando a sede de conhecimento e de poder na sma1s precursores efetivos, mais do que no ro-
causa de um conflito dramático de proporções mance realista, foram as rupturas dos lineamen-
teológicas, pelo qual o homem não é o único tos expressivista e transcendentalista da escrita
agente responsável. Como potência espiritual ex- na lírica - patentes num Baudelaire e num
terna de atuação ambígua, maléfica e benéfica, Rimbaud, em que pesem as afinidades da poe-
de que o homem se aproxima, com quem pactua sia do primeiro com a idéia das correspondên-
por vontade própria, e contra quem se debate, cias mágicas, e do segundo com o visionaris-
Lúcifer, anjo caído e acólito de Deus, instiga a mo poético aa.
sede do poder e do conhecimento, a fim de tomar A des-romantização EntromanJsierung
a consciência, tal como no M anfredo de Byron, (Hugo Friedrich) - como tendência geral, que
presa da morte e da consciência de culpa. Adver- se implanta na lírica após Mallarmé, atingindo
sário e aliado, antagonista necessário que trans- no seu centro egológico e na sua abóbada supra-
figura a árvore do Bem e do Mal na árvore da -sensível e metafísica - nas suas matrizes ori-
vida, ao encorajar o homem a, infringindo as ginárias - a visão romântica, mostra-nos que a
interdições de Deus-Pai, defrontar-se com o seu arte e a literatura da modernidade se configura-
destino e com a morte, Satã, fonte do vigor do ram polarizadas pelo Romantismo. Tal fato, in-
espírito e da imaginação para William Blake, dicativo de uma irradiação extensiva e penetran-
"aquele que fala aos homens nos desejos do co- te, leva-nos a considerar a resistência da visão
ração e nos sonhos da alma" (Vigny), é o sím-
84 . Salicnt<'s na lírica de Victor Hugo, OI movimentos de
bolo maior da sequiosidade ambivalente da al- ascen são às a ltu r:u ( dl' Rou~seau a Child Harold), de onde se
ma romântica, de sua introversão, de seu desdo- flO{lt- contemplar o mundo livre e 1ul)l'riormente, emolduram o
p<'rfil do herói romântico <' de !e~ "titanismo". P ara o romance An·
bramento interno, do conflito entre as suas as- tonio Candido destacou a rctonca da ascensão em O Co,.de .tlt
Mm,t,· Cri.,to, de All'xa nclrl' Dumas. Ver " Da Vingança''. Tese e
pirações ideais e a sua impotência real: símbolo Antltrsr Companhia Editora Nacional.
de tudo isso que o Primeiro Fausto de Goethe, já 115 . ' Rú 11nM, Gé1.a. /'syc/10/onir ct H istoirc 0 11 "La tragédie
,k l'hnnun<···. /'.,yc/r111111 fisr cl 0111/rro('olonic. Gallimard, p. 538.
num plano que ladeia e supera o Romantismo; 86. Sobre as diferenças euenciais que separ!m as corrcsJ><?n·
dencias bauddairianas do sistem:1 de i:ep_resent~çao ~o Romantls•
1110 w j ·i-s,• de .\ NA l! ALA K IA N, /; / monm1c11to simbolista, Caps. li
e ili (".EI swedl'nborguismo y los rnmanticos" e "B_audelaire"')
8J . "Essa idéia faz do amor, e inclusive da mera con scien_da 1:ua,la rr:1111:1 <' ,k J os~: C 1: 1LJ1 F.R M F. l\) F._!IQll l OR . "Formalismo e nl'O•
do amor, quer dizer da reflexão sobre o amor, c,ompreen~ida romant i~mo". Jn : Formahs1110 e tradrçao moderna - O P roblema
como o próprio amor, uma l'Spécie de l'art pour l'art .' Esscnna Y da ,4,,,, no Cri11 do C11lt11ra, Editora Forense.
'º""ª IÚ la ,impolia, Lotada, p. 162.

A VISÃO ROMANTICA 73
romântica, em função do avultamento do sujeito
humano a que ela se entroncou, na transição da
época clássica, e assim a reinterpretar-lhe o cará-
ter sintomal, em função do primado da realida-
de humana, determinante da episteme moderna
desde Kant.
Condicionando a repartição de duas esferas
cognoscitivas di tintas - a das ciências humanas
e a das ciências da natureza - numa bifurcação
do racional entre a compreensão intuitiva do En-
tendimento e a explicação analítica da razão teóri-
ca, a realidade humana foi o fu lcro da reação mo-
derna, consumada sobretudo através das filoso-
fias intuicionistas e historicistas, contra a ascen-
dência do pensamento científico positivo, con-
tinuador do racionalismo iluminista. O avulta-
mento do sujeito instilou-se na tradição metafí-
sica do pensamento ocidental, que desembocou no
niilismo, isto é, no processo da desvalorização
dos valores, enquanto processo de crise das bases
da nossa experiência histórica-cultural.
A crítica desse processo - e da metafísica
- passa, inevitavelmente, pela crítica da visão
romântica e de sua equivocidade fundamental,
que Nietzsche caracterizou: como tardia justifica-
tiva da fé, como hipérbole de uma grande pai-
xão consumida, ela afirmou a carência sob uma
retórica da abundância. Perpetuando a fome de
que saiu, e de que nos fala o autor de A Genea-
logia da Moral, ela foi assim, para acompànhar-
mos de perto o famoso aforismo de Goethe,
muito mais o sintoma de uma doença do que
um estado eufórico de saúde.

74
12· ROMANTISMO E CLASSICISMO

Anatol Rosenfeld / J. Guinsburg

O Romantismo é, antes de tudo, um movi-


mento de oposição violenta ao Classicismo e à
época da Ilustração, ou seja, àquele período do
século XVIII que é tido, em geral, como o da
preponderância de um forte raci onalismo. E m-
bora o mesmo contexto temporal apresente ou-
tros aspectos não menos marcantes, está mais
ou menos estabelecido o consenso de que se tra-
ta de um século cuja característica maior é a da
"Iluminação"', do "Iluminismo'', como dizem al-
guns, ou ainda das " Luzes", por causa do vulto
que nele tomam as idéias racionalistas. Enfoca-
das e defendidas por uma plêiade de pensa-
dores brilhantes, como Voltaire, Diderot, os En-
ciclopedistas, Rousseau, traduzem, na sua luta
''esclarecedora" contra o "obscurantismo", a
"ignorância", o ''aLraso", a "irracionalidade", não
só o engenho e o espírito lúcidos de seus paladi-
nos, como as aspirações de uma classe e mes-
mo de uma sociedade emergente, constituindo-

ROMANTISMO E CLASSISMO 261


rivam de certa fase da arte grega e a tomam co.
-se num dos principais fermentos, no plano ideo-
mo padrão. Essa_ codificaçã? oc?rreu principal-
lógico, para a eclosão da Revolução Francesa.
mente no Renascimento. Foi entao que a redes-
O movímcnto romântico, entretanto, recusa
coberta da Antiguidade Greco-Latina ou. como
a cosmov1são racionalista e a e-,:ética neochhsi-
passou a chamar-se, ''Clássi~a", a revalorização
ca a ela ligada. Para precisarmos as linhas do
de suas produções intelectua1c; e artí~ticas, con-
choque que as~im se produziu, comém dizer
jugando-se com um extraordinário surto da cria-
al&o sobre o conceito de Classicismo. O termo
vem de cla.1siJ, "frota", cm latim, e refere-se aos tividade italiana e até européia, puseram nova-
c/a.,sicis, aos ricos que pagavam impostos pela mente na ordem do dia o pensamento e os pro-
frota. Um escritor "cla~-,,cus'' é pois um ho- blemas estéticos. Ne1;se campo, foi de particular
mem que escreve para esta categoria mais afor- importância o reencontro e a tradução direta do
tunada e mais elevaJa na sociedade. Tal foi o grego dos textos subsistentes da Poética de Aris-
sentido inicial, como aparece em Aulio Gélio, tóteles. bem como o trabalho crítico efetuado
.
entre outros. por Scaliger e Castelvetro. Com
'
fonte da primeira menção que se tem da palavra:
ela significa aí um autor de obras para as ca- base nas elaborações desses comentadores sur-
madas superiores. Depois o vocábulo sofreu vá- giu a idéia Je que os princípios fundamentais
rias transformações, passando a designar um va- depreendidos da prática e da teoria helênicas
lor. estético. ético. mas pnncipalnientc didático: cons1 ituíam um non plus ultra de todo o fazer
u':1 es~rit~. ''clássico" veio a ser uma composi- artístico, os cânones imutáveis das condições e
çao lllerana reconhecida como digna de ser procedimentos que geram a obra de arte. Na
e~tudada nas "classes" das escolas. Nesta acep- medida em que. a certa altura da história cul-
çao, o termo é muito usado para vários fins. tural de determinados países. sobretudo na Fran-
Por exemplo, a gente compra determinadas obras ça, tal concepção tornou-se doJT1inante e mesmo
porque são consideradas modelares e como tais normativa. em função de um surto criativo que
indispensáveis numa biblioteca. Eniretanto, d~ produziu trabalhos notáveis em vários campos
ponto de vista estilístico, é possível que seu au- da arte, ela deu origem ao período "clássico" do
t?r .seja romântico e não clássico. Um terceiro "cla~sicismo'' europeu. tendo a sua influência e
significado que se impôs, ligado ainda ao se- o poder de suas regras se espalhado no mundo
gundo, diz respeito ao período em que a lite- ociJental. inclusive sob a forma de um "neoclas-
ratura, ~s. artes, a cultura de uma nação ou de sicismo'' que prevaleceu durante o éculo XVIII
u_ma "c1v1lizaçào" alcançam um grande flores- e fez par com o racionalismo ilustrado. Nestas
c1men,10 ou então o seu apogeu. Assim. fala-se con~içõc . ,e ,e te, ar cm conta que ate o BJrroco
~o Securo, d_e ~uro na Espanha como de uma nutnu pelo mcn~,, intenções cla,~1cizante~. só com
época class1ca do gênio hilipânico ou de Sha- o Romnntisnio e cl..lruturou um mn\'imrnto que
~espeare como do "escritor clássico., da língua se atreveu a reptar abertamente e em seus fun-
mgJesa, embo~a do ponto de vista artístico se- damentos a perspectiva in'1aurada pela Renas-
m~lhante designação llào lhes caiba de ma- cença. Tudo o mais foi moldado e remoWado
neira nenhuma. segundo a visão clá1;sica .
. P_o r ti,:n, temos o nexo que nos incumbe
~ef~nir mais de perto, ou seja, o conceito esti-
O .. No~que e baseou tão cerrada pre a artü,tica?
ua,s sao os seus princípios? De acordo com
hst1co
· · ..do que vem a ser "clássico" ou " c1as- Crncc.' cm
. sua / mnnçao
· · - a· Estéurn , o Clas,1c1smo
s1,c1_smo . Sob este ângulo, a referência é a prin- se d1st1ncn•e fund
c1~10s e obras que correspondem a certos pre- e,.... . amenta1mente por elementos
ceitos modelares, os quais, por seu turno, de- c_o~dodo equihbno, a ordem, a harmonia a ob1·e-
t1v1 a e· a ponderaçao, - a proporção, a serenida-
'
282
de a disciplina, o desenho sapiente, o caráter entre os vários tipos de composição é tida como
a~Hneo, s~cular, lúcido e luminoso. 1: o do- um grave defeito. A obra deixa de ter o valor
mínio do diurno. Avesso ao elemento noturno, que poderia alcançar se se conformasse exata-
0 Classicismo quer ser transparente e claro, ra- mente às regras dos respectivos gêneros.
cional. E com tudo isso se exprime, evidente- Relevante também é a lei da tipificação: a
mente, uma fé profunda na harmonia universal. arte clássica não quer diferenciar e individuali-
A natureza é concebida essencialmente em ter- zar, seu propósito é sempre chegar ao geral e ao
mos de razão, regida por leis, e a obra de arte típico. Na pintura e na escultura, sua busca é
reflete tal harmonia. A obra de arte é imitação a do universal. Na literatura, esquiva-se de des-
da natureza e, imitando-a, imita seu concerto cer a distinções psicológicas, muito minuciosas.
harmônico. sua racionalidade profunda, as leis Em todas as suas formas de expressão, tenta fi-
do universo. xar o universalmente humano. Trata-se de um
Outro aspecto relevante é o disciplinamento princípio fundamental do Classicismo, já cs~a-
dos impulsos subjetivos. O escritor clássico do- belecido nitidamente na dramaturgia por Ans-
mina os ímpetos da interioridade e não lhes tóteles, mas com validade para todas as ou-
dá pleno curso expressivo. De certo modo, po- tras artes.
de-se considerar que ele se define precisamente Numa ordem similar de diferenciação, os
por esta contenção. ~ obra de Racine é_ ~m clássicos separam igualmente os estilos. Há um
exemplo de uma escntura em que as pa1xoes estilo alto, de que faz parte, na dramaturgia, por
veementes e as tremendas dissonâncias do Bar- exemplo, a tragédia. Esta espécie de peça não
roco foram, por assim dizer, no plano da ex- pode recorrer a palavra de extração inferior, de-
pressão, domadas por urna forma clássica. vendo ser plasmada e escrita segundo o elevado
Há evidentemente, nesse domínio, certa au- contexto estilístico que lhe é pertinente. A co-
tolimitação. O autor desaparece por trás da média, por seu turno, exige um padrão médio de
obra, não quer manifestar-se. Ou melhor, seu composição, enquanto a farsa há de ser escrita
desejo manifesto é o de ser objetivo. A obra é em estilo baixo. Os mesmos preceitos estilísticos,
que vale como tal e não pelo que ela diz de seu racionalizados e canonizados, imperam nas de-
criador. Ela é uma comporta fechada e não aber- mais formas da produção artística, uma vez que
ta. Tal fato exige uma maneira de formar rigi- o efeito visado é sobretudo o da clareza e regu-
damente ligada ao objeto ou à idéia que se tem laridade.
dele. Daí a importância dos procedimentos que Mais um aspecto, que deflui logicamente de
assumem um caráter de regras. Na medida em tudo quanto já foi dito, é que no Classicismo o
que se enquadra em tais leis, a obra é boa, "cJás- valor estético reside na obra, e somente nela.
sica". 1: o caso das "três unidades" na drama- Por trás da arte, deve desaparecer o artista. Sem
turgia. Julga-se que elas determinam a exem- ser um anônimo mestre ou oficial, este trabalha
plaridade de uma peça. quase como um artesão, seguindo as regras esta-
Ao mesmo tempo, vigora no Classicismo uma belecidas, às quais se conforma e se ajusta hu-
rígida separação das artes: elas não se confun- mildemente. Uma obra, por sua vez, sendo ba-
dem, cada uma obedece a seus próprios ditames. sicamente um autovalor, deve por si fazer-se
De igual modo, dentro da literatura, cada gênero valer esteticamente, perante o público. Mas não
tem suas leis específicas. A poesia lírica não para comunicar-lhe apenas a beleza. O efeito
deve valer-se do padrão épico e este não se da obra terá de ser "dulce et utile", como diz
confunde com a poesia dramática. A cada gênero Horácio. Isto é, além de suscitar reações apra-
correspondem preceitos especiais e a confusão zíveis, ela deve trazer proveitos de natureza prá-

ROMANTISMO E CLASSISMO 283


der sua conotação negativa. Uma lenta transfor.
l1c:1. sobretudo didática. Na verdade, ~egund? a
mação do gosto deixa de !avorecer ~s figuras
nsão cl.1ssicista, a obra será tanto ~ais reahza-
bem proporcionadas e as v1s!as _bucóhcas, para
J;i q11 an1,, mail,r o seu poder de ve1rnlar. atr~-
destacar, por exemplo, as sohtánas, selvagens e
\'és da hela e suave revelação da forma, . cns1-
melancólicas paisagens inglesas que recebem 0
namcnw-. e verdades que elevem o conhec1me~-
nome de "românticas", como que se contrapa0•
ll) e cnntrihuam para o aperfeiçoamento do gc-
do à paisagística serena e composta, de linha
ncro humano. "clássica" francesa.
Nesta conexão, recebe particular destaque
0 ef cito moral do produto artístico. Embora qua- Entre os antecedentes do movimento român-
se todos os grandes poetas e artistas - Dante e . de senti-
tico , também é digna de nota a onda
Shakespeare não menos do que Comeitle e Ra- mentalismo burguês que se espraia pelo século
cine - sejam de opinião que a obra de ~rte XVIII. Um tom intensamente emotivo, que ex-
tem uma fun ção importante, antes de tudo ética, travasa em especial dos romances ingleses de Ri-
pois deve enobrecer o homem, purga~o-o ?ª chardson, Sterne, Goldsmith, invade a literatu-
carga de paixões que ele acumula na vida social ra européia. O jovem Goethe, tal como ele pró-
e não consegue descarregar, o Classicismo lhe dá prio se descreve mais tarde em Dichtung und
um relevo específico, vinculando-o à boa "for- Wahrheit ("Poesia e Verdade"), chora sobre es-
ma", capaz de falar à razão. tes romances. E não só ele, pois na mesma obra
Estabelecido em termos gerais o modelo clás- que é um grande panorama da vida intelectu~
sico, pode-se vislumbrar melhor contra que tipo alemã na segunda metade do século XVIII, vê-se
de arte o Romantismo dirige suas armas. Tente- como todo mundo o acompanha nesse choro. O
mos agora discernir alguns dos elementos que pranto é geral. As lágrimas umedecem boa parte
irão caracterizar a nova corrente. A palavra da correspondência daquela época. Assim, quan-
designativa su rge em meados do século XVII, do Wieland, o poeta exponencial do rococó ale-
sobretudo na França e na Inglaterra, sendo-lhe mão, volta à cidade natal, após dez anos de au-
dado inicialmente um sentido pejorativo, pois, em sência, e encontra a namorada de sua juventude,
meio a um mundo clássico, destina-se a qualifi- os dois estacam à distância de uma dezena de
car um gênero de relato ficcional meio dispara- metros um do outro, estremecem e se entreo-
tado, absurdo, cheio de lances heróicos e fantás- lham longamente; depois, ela dá alguns passos à
ticos, onde há muitas peripécias de amor e aven- frente e ele retrocede, ela abre os braços, ele se
tura, que ainda hoje certamente chamaríamos precipita ao seu encontro e cai, ela o levanta,
de "romance". os dois enfim se beijam e choram abundante-
Numa época em que a atmosfera cultural, mente um nos braços do outro. Mas as lágri-
no que ela tem de melhor, é marcada pelos "es- mas têm vez outrossim na França da Ilustração,
píritos bem pensantes", não é de surpreender onde surge a comédie larmoyante, de Destouche
que haja pouquíssima compreensão e mesmo e Diderot. Aliás a tragédia burguesa, um gênero
condescendência para com tipos de arte consi- de peça que começa então a ser cultivado, é
derados inferio res e vulgares. ~ com escárnio também extremamente sentimental. 1:: o caso de
que se vê o romance cujo barroquismo, na sua Miss Sara Sampson, de Lessing, texto escrito em
mescla folhetinesca do pícaro e popular com o 1755 e que constituiu o primeiro êxito do au-
sentimental e lendário, já encerra numerosos ele- tor. Segundo as descrições da época, o público
mentos romantizantes. se comovia a tal ponto com o cruel destino da
Mas. pouco a pouco, aplicado sobretudo a pobre moça, raptada, seduzida e envenenada,
personagens, o termo começa a impor-se e a per- que se desfazia em lágrimas, horas a fio. Não
264
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1 w~ Je Siio Prrersbur,:o, 1H1~

L oKt,:IU Ju Pul,íc,o Dum/ Je l 'enr;:a, por John R u\ k,n.


também a propriedad~, fonte da desigualdade
menos lamentos terá provocado o romance de entre os homens, contnbuem para que O ser .
Goethe. Os Sofrimentos do Jovem Werther, uma , t
ginalmente puro e mocen e se perverta no e
on.
das mais lídimas expressões dessa corrente sen- texto da civilização e da sociedade. Por i~n.
timentalista. Rousseau exalta a si~~lic!dade ~a criação. ~
Outro fator que também pesa nas origens do voz da alma e da consc1enc1a, particularmente d
Romantismo é um surto de pietismo que, na Al:-
consciência rel_i~i~sa, _deve sobrelevar os ensi~
manhat de então, se coloca contra a . ortodoxia
namentos da c1v1hzaçao, que em geral nada va.
protestante oficial, extremamente_ rac1?n?L De )em, segundo o pensador genebrino. Daí ressalta
forte teor místico, recusa os padroes obJet1vos da
evidentemente, a imagem do bom selvagem d~
religião, pregando a experiência fervorosa. Im-
ser íntegro e primitivo, que _deve figurar c~mo
porta-lhe sobretudo a vivência religiosa que se
processa na intimidade subjetiva do indiví~uo e ideal para o homem corrompido pela sociedade.
Tal concepção rousseauniana irá gerar co-
que o conduz, pelo exercício intenso e sincero
da emoção e do sentimento devotos. ao êxtase
.
mo se sabe, o Interesse " .
romantlco '
pelo exotis-
e à contemplação beatíficas. mo e pelo indianismo. Pois, estando no encalço
J:: claro que no contexto desse misticismo do homem em estado "natural", o Romantismo
pietista o acento da religiosidade se desloca de se põe a procurá-lo na América e em outras re-
fora para dentro. À espera do momento de il~- giões que se distinguiam ainda pela presença do
minação que deverá revelar-lhe algo da graça di- assim chamado "selvagem" ou "indígena" ou
vina, o crente passa a vida observando-se, nu- pela diferença acentuada de seu modo de vida
ma auto-análise constante e minuciosa. Com "bárbaro" e "bizarro" em relação aos padrões
isso, vai psicologizando naturalmente a prática europeus e ocidentais.
religiosa, senão a própria religião. Mas a caça à pureza e à inocência não ~
Ora, além de cruzar-se no tempo com um uma aventura que se desenvolve apenas no âm-
movimento dessa natureza, o Romantismo privile- bito da geografia. Ela também se embrenha na
gia, ainda que por via antes artística e secular, vida social, trazendo uma nova luz sobre estra-
tendências e buscas similares cujo foco e âmbito tos até aí relegados a uma obscuridade quase
preferenciais também se situam no interior do total. t o caso da criança e do jovem que co-
sujeito, de seu ego e mundo psíquico, e que tam- meçam a ser valorizados a partir da idéia de
bém desembocam, com grande freqüência, em que se acham mais próximos da natureza virgi-
aspirações e indagações religiosas. Mais ainda, nal, porquanto, nos termos de Rousseau, "tudo
não há de ser mero acaso ou coincidência que o que sai das mãos do Criador das coisas é bom
um dos principais precursores da corrente ro- e tudo se perde nas mãos do homem".
mântica tenha sido Jean-Jacques Rousseau Nestas condições, compreende-se a exalta-
( 1712-1778 ), calvinista convertido ao cato- ção do mundo infantil e da mocidade. t preciso
licismo e depois reconvertido ao credo protes- deixá-los como são, evitar infetá-los com os ar-
tante. tifícios e os males da sociedade. A regra edu-
O que distingue Rousseau e o transforma cativa é, para o autor de ~mi/e ou De l'Eduia-
em fonte inspiradora da escola romântica é o tion, a ausência de regra. Trata-se de não cor-
seu profundo pessimismo no tocante à socieda- romper a jovem vida, deixar que se expanda à
de e à civilização. Ele não acredita nem em uma vontade, desabrida e selvagem, caprichosa. O
nem em outra, estabelecendo o postulado de uma homem deve realizar-se na criatividade e na sen-
natureza humana primitiva, que vai sendo cor- sibilidade. A inspiração instantânea, a cente-
rompida pela cultura. Mas não só ela, como lha intuitiva é o verdadeiro guia de ~eu apren-

266
diz.ado ou, para dizê-lo com as palavras de a sinc~dade. Em outras palavras, o elemento
Rousseau: ..O capricho do momento ~ que me de avahação estética não é estético.
ensina o que eu devo fazer", e não a razão. Vê-se que esse conceito de gênio original
Anseios análogos tam~m instigam, ao lado reúne, de certa maneira, tod~ os conceitos, to-
de outras mot1Vaçõcs, sem dúvida, o enonne in- das as idéias e aspirações do Romantismo. Em
teresse pelit canção popular que então se verifica seu âmbito fica compreendida particularmente a
em diferentes países, mas principalmente na Ale- revolta radical contra as regras tradicionais, ca-
manha e na Inglaterra. Todo um movimento nonizadas. do Classicismo, contra as "autoridades"
dt retomo à .. alma., do povo, às suas fontes de clássicas, contra os padrões consagrados, porque
criação, de onde proviria efetjvamcnte a beleza o gênio, evidentemente, não se deixa guiar por
autêntica e a grande arte significativa, suscita a modelo nenhum; ele cria livre e espontaneamen-
pesquisa que acabou constituindo as bases da te; ele não se atém a norma nenhuma, porque
ciência do folclore. nem sequer conhece as normas. O gênio cria a
obra com base numa explosão, num surto irra-
A nostalgia do primitivo e do elementar, que cional de sua emocionalidade profunda. E sua
é um dos traços fundamentais da romantik, liga- criação, por mais imperfeita que seja, na pers-
-se ainda a uma outra característica que ela traz pectiva das regras clássicas, será sempre a gran-
consigo: o culto do gênio original. A questão de obra, porque exprime o estado de exaltação
começa a colocar-se com Edward Young. em suas do criador com toda sinceridade, fato que cons-
Conjecturas sobre a Composição Original, e com titui o valor máximo nesse sentido.
Edward WO<Xl, nos Ensaios sobre o Gênio Ori- O grande modelo, porque os românticos de
ginal e os Escritos de Homero, cujas concepções certo mcxlo também têm um modelo, mas um
sobre Shakespeare e Homero causaram, segun- mcxlelo de irregularidade, por assim dizer, de
do E. R. Curtius, forte impressão no jovem desobediência e libertação em face do que vi-
Goethe e fizeram-se sentir na corrente do Sturm nha sendo preceituado e valorizado até então,
und Drang. Ka verdade, o emocionalismo pré- é Shakespeare. Este é concebido como um poeta
-romântico traz em seu bojo um novo modo de bárbaro, cujo estro estava em comunicação dire-
entender o poder de criação artística e o seu ta com a divindade ou as fontes profundas do
criador. Não se trata mais da habilidade e do "espírito". Poder da natureza, na sua interiori-
produto do homem de in-geniu, isto é, do "en- dade individual e grupal, pôde sobrepor-se a
genhoso" capaz de compor sabiamente uma quaisquer cânones ou peias tradicionais, criando
obra de arte, como quer a visão classicista. Ago- graças ao seu gênio uma dramaturgia totalmente
ra, trata-se de um verdadeiro demiurgo, de uma irregular. inusitada, "original... Shakespeare será
força cósmica, inata, independente da cultura, o grande inspirador da literatura romântica, cm
que decifra de maneira intuitiva e direta o "li- particular, mas também da pintura e da música
vro da natureza", criando titanicamente sob o do Romantismo. f: só pensar em Delacroix, Chas-
impacto da inspiração. A sua criação é fruto ~rieu ou em Mendelssohn e Berlioz, que tradu-
da pura espontaneidade. Não pode nem deve ziram em composições plásticas ou musicais sua
ser retocada, torneada e acabada, por critérios atração pela temática shakespeariana.
artesanais de perfectibilidade. Ela surge toda e Nesse sentido, o mestre inglês constituiu-se
inteira, na completude da expressão autêntica, realmente numa espécie de paradigma românti-
sincera. As~m. o valor da obra passa a re- co ou, pelo menos, no foco reconhecido dos
sidir em algo que não está nela objetiva e for- elementos de uma nova visão estética. Nela, a
malmente, e sim subjetivamente no seu autor - obra vale enquanto verdadeira e espontânea, ex-

ROMANTISMO E CLASSISMO 217


pressão imediata e não raciocinada da alma do A esta altura: é_ possível assinalar, cm opo..
poeta. O que prevalece agora não é propria- siçào ao c~tilo c la~~1co, a lguns componen 1 es fun-
mente o objeto criado, mas o ato de criação e damentais da criação romântica . Se num preva-
o sujeito criador. H á, pois, um deslocamento da lecia a serenidade. a o rde m , o equilíbrio, a har-
,;nfase valorativa, que passa da obra para o monia, a objetividade. a po nderação, a disciplina,
autor, a obra valida-se na medida em que ex- agora predomina, segundo Cror.e, a efusão vio-
prime o ser profundo do autor. O corre então uma lenta de efeitos e paixões, as dissonâncias, a de-
certa depreciação do valor objetivo do p roduto sa rmonia cm vez da h armonia . O subjetivismo
artístico, cuja importância se torna fun ção do gê- raJical derrama-se incont1do, como já c..c \'iu na
nio que deve revel ar-se como explosão subjetiva auto-expressão do artista. O ímpeto irracional,
e não como perfeição objetiva. o gênio or iginal e a exaltação dionisíaca sobre-
Então, esse gênio, um b ardo ou um vidente, põem-se à contenção, à discipl ina apolínca da
é porta-voz, por assim dizer. das mais altas es- época anterio r. Preponde ra o elemento noturno,
feras , o mensageiro divino, o herói mediado r do algo de selvagem e também de patológico, uma
infinito cm meio da finitude . Ele. na <;ua pequena inclinação profunda para o m órbido, a ponto de
obra de arte, de alguma forma expressa o cosmo G oethe ter defendido o Classicic;mo como aqui-
que está na sua alma. T ampouco imita a natu- lo que é sadio e ter visto no R o mantismo a en-
reza. como o fazem as regras do Cla..<;ici~mo. :É carnação do doentio.
criado r como se fosse em si a natureza, porque A atração, entretanto, pelo que se c0loca fo-
ele é uma força natural, é gênio. ra do " justo meio" não é apenas um traço esti-
T a l co ncepção determina, sem dúvida, uma lístico na literatura e n as arte5.. Vai muito além,
ruptura brutal com os câ nones eruditos, que po- invadindo todos os terre nos. Dá-se realmente
deriam converter-se em camisa-de-força da livre uma revo lução no sentimento de vida e na pró-
vazão do eu ciclópico, das inspirações emanadas pria cosmovisão. N ão só a sua forma como o
de suas profundezas. Isso vai tão longe que um seu sentido deixam de girar em tomo das co-
poeta romântico como Musset diz que as p ala- locações tradicionais. Ilustrativo, po r exemplo, é
vras co m as quais pretende exprimir-se o inco- o que acontece no campo da ciência histórica. Os
moda m . Melhor seria fazê-lo simplesmente atra- românticos têm um senso de história apurado. E
vés de lágrimas, que t raduzem de maneira mais pa rece bastante evidente que devam té-lo num
imediata e sincera os sentimentos, enquanto os grau bem maior do que a Ilustração, porque os
signos verbais sempre encerra m algo de artifí- racio nalistas buscam em geral na história o que
cioso, um lastro de estrutura adicional. t preciso há de comum em todos os seus eventos. O fenô-
romper com isso, dar azo à emoção. meno singular não lhes interessa, uma vez que,
Transladando-se o acento da obra para o concentrando tudo na racionalidade, tendem a
autor, salta para o primeiro plano, n aturalmente, ver no particular somente aquilo que seja pas-
tudo quanto se relaciona com o sujeito cri ador e sível de universalização, ou seja, aquilo que nele
sua vida. Daí o relevo que a "espécie biográfi- se pode conceituar. Ora, a história é justamente
ca" - como o disse Nietzsche - adquire no um domínio onde a sucessão fenomenal é alta-
R omantismo. A histó ria pessoal, as paixões e tra- mente individualizada. Em seu curso, nada se re-
ços de personalidade do artista passam a respon- pete, cada fato é novo e sempre diferente, quan-
der pela natureza e carátet da criação de arte. do tomado em si e não em contextos estruturais.
A obra tende a ser confundida com o autor, num Mas o senso do diferenciado, matizado e carac-
movimento inverso ao do Classicismo, que pro- terístico, que falta em boa parte ao racionalismo
cura obliterar o autor por trás da obra. ilustrado, o Romantismo o possui, e em alta do-

288
se. mesmo. Tanto assim que'-' inJi"iduahsmo num E esse individualismo que vai assim surgin-
e noutro são de nalurcza inteiramente distinta. do e que é muito importante, porque leva, de
PJrJ o homem Ja Ilustração, ele ~ ba eia nJ um lado, a uma psicologt2:.açào de tudo e. de
{!culdaJe radonal romum a todos o, seres hu- outro, a uma cani.ctenzac;ão e.ida ,er m:m por-
mlnt,s e que '-. ._" toma essencialmente iguais. menorizada, dc,~ando de ~uMmh3r o t1p1('0 n:t
Se n~m ttxfos os homens têm o mesmo mvel, arte para sahcnt:ir o elemento p~mculanuo-
nJtl é pür "erem un, mais úU out10s mcnt"S do- te, l:'itl, é, o que qualifica () ser dentro dei c0n-
tJJo~ d~,t,1 ~apa\:idadc, pdo men'-" entre o~ que tc\to Sl~ial e nacional - c,,c md1, 1dudltsmo
não estão afetaJús por deficiência orgânica, m:is con$L1tu1 por certo um.\ tremrmfa mudança de
ix1 r (.1u,.1 da educação, dos entra\'CS sociais e enfoque, apro"1mando de certú motfo o Rom~n-
outros fatores e~trinsecos. Abolidos tais impc- tismo da perspectiva realista. p(lrque o românti-
J,men.os, todos os homens de,erào apro~im:ir- co Ja e coloca numJ l)pl!ca ~u~ d,, i~ o mJ,-
-se da plena racionalidade. Sua~ potências ra- \tduo dentro de . eu hal'>itot socio-histonco. Po-
i:1l,na1~ tnrna-~e-ào atll. Temi,~ a1 um ideah~mo de-se dizer, por curioso que seja. que a sociolo-
que podemos chamar de abstrato. gia moderna t~m ,uJ, rn11e~ m,, pn"'Ce,so do Ro-
POls ~m. o idealismo romântico é de caráter m:int,,ml), assim coml, J propria e~ola positivis-
totalmente diverso. Aqui. começa-se a valorizar o ta de Comte :is tem aí. mdiscuth·clmente.
mdinduo naquilo que o distingue de outro. E O romântu..-o. portanto. ~l,m o dec.taquc que
o que o distingue é sua situaç-ão ocial, sua sen- ele dá ao característico. àquilo que distingue o
~1b1hJade específica desenvolvida num certo âm- individuo dentro do quadro d:i sC'cicd:idc, da
bito nacion3l e em outros elementos particulari- nação. da ela se cm que se encontra. ou que in-
1Jntes. Assim. na medida em que é salientado o dt\-iduahz.a e te~ .. meio~.. da "'ida coletiv~ atire
papel dos matizes particulares, o valor plssa caminho para a cicncia socinl, m..1s a !-Ua preo-
a recair no peculiar. naquilo que diferencia uma cupação básica não é de modo nenhum cientí-
pessoa de outra. uma nação de outra. ou seja, fica, pelo menos numa acepção estrita. O que ele
na ind1\ldualidade. No ca,o do grupos nacio- procura é configurar o homem dentro de um am-
nais. por exemplo, homens como Hcrder, Ha- biente. Dai o seu constante interesse pela "cor
mann. jmbos pre-romântiCt1s, , iam-no como sen- local".
do todos bons. mas diferentes. de, endo manter
tais cspccif,cidades. porque as~,m podiam entrar O característico, que "ai muitas vezes até
como um instrumento à p:irte no concerto geral da o cancato e inclusive afr l) grl)te~,,. é a c.1te-
humamdade. Es,a mJneira de , er com crteu-se goria e tética que se hga e peciatmcnte. ja por
sem du,·ida alguma no f undamcnto da concepção se contrapor frontalmente à tipicidade clássica,
propriamente romântica, que procura discernir à expre são arttstica do Rllmanti1;,mo. ~a ~uJ
as dessemelhanças entre os povos. destacando-as plasmaçào, entretanto. entra não npenas uma
mesmo como expressão de qualidades intrínsecas busca de singularidade, c(,mo também de t0tali-
e dctenninantes da fisionomia <lc cada conjunto, dadc. Com deito, quando a braços com fenôme-
sem que de um modo geral e direto isso implique nos e "ista!- de mJior amplitude. o romântico,
cm enfoque negativo, deformador ou preconcei- para caracterizá-los. não tenta retirar e ab. tratr
tuoso cm rt'lação a outros grupos, pois justa- seus elementos. ma empenha-se sempre cm cap-
mente a diferença singularizadora é que torna :i tá-los em sua Gan~heit, "inteireza", cm 1;,ua Ges-
e~istência e a contribuição de cada organismo talt, "configuração". Trata-se, na "erdade, de
nacional um componente único e complementar ver cada singularidade cm seu contexto geral,
no processo humano. cada ser humano na paisagem social que o cn-

ROMANTISMO E CLASSISMO 289


tünna e emoldura. relacionando-os por integra- gislação estética rígida, é um grito de J'b
1
ç:10 da parte no todo maior. anárquico no plano político e culturaJ. ertação

MJ1s uma vez. eviden~ia-se quão diverso é o Um eco particular desse brado enco
moJo nimà nt ico de mirar as coisas. em face do na peça de Schiller, Os Salteadores. Para ~~~se
rri,ma do racionalismo classicista. Um tira os ele- tender melhor o significado da peça, na , n-
mc:nto~ do contex!o para focalizá-los. enquanto tomcmos como ponto de referência O ~<>e~,
- . propno
o outro se esforça para ilum iná-los dentro de seu ~~tor, que tra ent~o um Jovem médico militar
quadro global. A partir desse ângulo. a recusa 1~fcomo e e. se traJavad. segundo uma descrição:
1fa r ec~1tua~·ào normati\ a do Cla,-.ici~mo. por um orme muito aperta o, de acordo com
. d 1 . d o
·
an-
e,rmr!o. vem a ser mais do que uma simples tigo mo e o prussiano; e ambos os lados d
rcbek.ha Pois o romântico vê-se quase obrigato- cabeça, dois rolinhas de 7abel?~ duros e enges~
ri ament~ le\ ado a pensar: se os cânones clássi- sados: um pequeno chapeu m1htar mal lhe e
.:-o;; fl1rJm estabelecidos na Grécia antiga (como cobre o vértice ~~ _crânio, de onde pende um:
e afirmava então) é porque serviam para o seu grossa trança art1f1c1al; um laço estreito de cri-
pc)\o naquele momento. mas o mesmo modelo na de cavalo_ lhe estrangula o pescoço extrema-
11úo pode adequar-se a outra nação. com uma mente compndo; as pernas, em feltro, metade
fisionomia coletiva diferente e em outra moldu- sob as polainas brancas, parecem dois cilindros
ra hi té>rica. Como pois aceitar como regras eter- de um diâmetro maior do que as coxas enfia-
n.i-. u-. ditame, artbticos do Classicismo? Uma das em calças extremamente justas; nessas polai-
no\ a época. um nm o contexto. uma nova Ges- nas - aliás manchadas de graxa - move-se 0
ralt e,igem uma ane. um estilo. um ritmo dis- poeta, sem poder flexionar os joelhos, andando
tintos. De, ·e ponto de vista historicista, Her- como as cegonhas. Nestas condições, não é de
Jer e cre\'eu um trabalho onde mostra como admirar que Schiller tenha aberto o colarinho
Shakespeare tinha forçosamente que produzir uma da camisa, usando o famoso "Schillerkragen", e
Jramaturgia totalmente diferente da helênica ao mesmo tempo que se libertava da sufoca-
.
porque provinha de um outro cepo nacional, de
' ção do traje, tenha composto o drama de exal-
uma sociedade muito mais complexa - achava tação ao bandido sublime, para aliviar a asfi-
Herder - e de um gênio cultural, de um espíri- xia do espírito.
to. de uma alma popular que nada tinha em co- Karl Moor, o herói-bandido-nobre, que tira
mum com os da nação em cujo seio medrara a dos ricos para dar aos pobres, é a encarnação do
tragédia grega. herói romântico. Em tudo é o oposto da existên-
\ f as. a essência do Romantismo. que rejeita cia restrita, acanhada e apertada do burguês e
o ideal harmônico da visão classicista, reside an- do cortesão. Livre, vigoroso, vive nas florestas
t~s. na contradição .. Se de uma parte, ele é pre- da Boêmia, em estreita ligação com a natureza,
s1d1do por um anseio radical de totalização e ili- expressão completa dos ideais rou seaunianos. é
tegraçào, numa comunidade quase utópica, de a projeção de todos os sonhos de liberdade
outra. opõe aos padrões de toda sociedade - e schillerianos, inclusive os de liberdade política.
11 :io apena'i a de Ilustração racionalista - a A peça de Schiller, apresentada em 1782, já
grnnde personalidade. o gênio fáustico, prome- é de fato un, ~ explosão libertária. O relato do
têico. que não pode ajustar-se a quaisquer li- efeito que causou na platéia de Mannheim, por
mitações e estruturas sociais. Sua irrupção na ocasião da estréia, fala eloqüentemente do espí-
arte. além de um protesto contra a tentativa de rito da época, pois: o teatro parecia um hospício
agrilhoar a força criativa do artista em uma le- - olhos esbugalhados, punhos cerrados, gritos

210
,


'
1

() T, 111rJ., d, \fu,, 1/fr. gra, ur,, Jc Pcrdou,.


Cü, ülo e FerrC'lro, po r G éri-:au lt.
atroz de unidade
,. . ,, e síntese, que tanto marcam a
loucos no auditório, desconhecidos ameaçando-
"alma romantica .
-se entre soluços, mulheres a desmaiar e pa~os
precoces; uma dissolução, um caos, em cuJaS Se o Romantismo se define, como qu
muitos, pe1o ane1o de .mtegraçao
. ercrn
- e completude
brumas nasce uma nova criação . . . e um novo
espírito, que é o da Revolução Francesa .. Com- compreende-se que os tenha procurado nas m .'
preende-se, pois, que na França, sob a égide re- variadas latitudes do humano. Assim, os ro,.,}lS
ticos tornaram-se uma espéc1e . de andorinhas4U4Q-
volucionária, o autor e o texto tenham gozado
de grande popularidade. Os Salteadores eram pirituais - se se pode •qualificá-los
. desta mane1-
~-
de certo modo a concrcção avant la lettre de ra _ em buse~ de pai.ses ex6ticos e épocas re-
seu clima e de suas aspirações. motas nas quais ~creditam . ~ncontrar a cultura
integrada e a sociedade umf1cada com que s
Mas a crítica romântica, já então, vai além nham. A Idade Média não lhes interessa em ~
do nÍ\ cl puramente político. A in,atbfação com mesma, mas .po~ lhes parecer u~a época sem
a sociedade desenvolve-se, desde cedo, em re~- fissuras, de mtelíeza total. De igual maneira
trição cultural, profunda e aguda. O própno vasculham as terras "selváticas" porque crêe~
Schiller já começa a colocar o problema, que descobrir aí um mundo primitivo e puro.
a partir de Hegel e Marx irá ocupar um lu~ar S_u~e:ar as ~is_sociações da cultu_ra, transpor
cada vez mais relevante no pensamento social as d1v1soes soc1a1s, saltar as particularizações
moderno. De fato, é com seus escritos que surge geo-históricas são, na perspectiva romântica,
o tema da alienação do homem. A essa luz, co- as vias de acesso ao estado natural do homem, à
meça a emergir a figura do ser hum~º?. co~ver- sua inocência edênica. Mas a aspiração român-
tido em peça da roda gigante da_ c1v1hzaçao e tica, na sua busca da unidad~ elementar, não
que por isso mesmo não pode mais desenvolv:r se detém nas projeções utópicas sobre o plano do
sua personalidade total. Ele é ape..na~ uma funçao processo sócio-cultural e mesmo antropológico.
mecânica, pervertido em sua essenc1a por no~sa No seu desenvolvimento, ela chega às alturas da
civilização. Nota-se aí, evidentemente, o lateJ~- comunhão cósmica. Unir-se e fundir-se mistica-
mento rousscauniano, mas com uma percepçao mente com o universo em sua infinitude é o senti-
muito mais precisa e uma análise muito mais a_gu-
do pleno da grande síntese. Numa das maiores
çada do fenômeno, a tal ponto que_ toca due-
obras poéticas da literatura alemã, Novalis eleva
tamente a colocação atual da questao.
os seus Hinos à Noite, porque, ao contrário da
Quer dizer então que os românticos vêem, luz do dia, que separa e distancia as coisas, dan-
e no sentido mais profundo, o homem como um do-lhes fonnas distintas, nas trevas da noite, tudo
ser cindido, fragmentado, dissociado. Em função se une e se alça na indistinção do supremo en-
disso, sentem-se criaturas infelizes e desajusta- levo e bem. E o conceito de noite se funde e
das, que não conseguem enquadrar-se no con- confunde com o conceito de amor, e a idéia de
texto social e que tampouco querem fazê-lo amor, com a de morte. :e a grande trindade ro-
porque a sociedade só iria cindi-las ainda mais. mântica - Noite, Amor e Morte - tal como
Entre consciente e inconsciente, deveres e inclina- ela surge, por exemplo, em Tristão e Isolda, de
ções, trabalho e recompensa a brecha só pode- Wagner, conduzindo o espírito peregrino do Ro-
ria crescer, como parte de um afastamento cada mantismo em sua procura da comunidade inefá-
vez maior entre natureza e espírito. Daí o sen- vel.
timento de inadequação social; daí a aflição e a Precisamente por aí se pode ver quão longe
dor que recebem o nome geral de "mal du siêcle"; está o romântico da esfera primitiva que ele tan~
daí a busca de evasão da realidade e o anseio to ama. No fim de contas, o que prevalece em

272
todas as suas manifestações .é o sentimento e a amalgamar como forma, mas somente ao .1ível da
consciência do paraíso perdido. mas irremedia- expressão, pelo que se depreende das seguintes
velrnente. O infinito toma-se uma presença e um palavras do mesmo autor: "Na arte e poesia
fan!asma que assombram e angustiam com sua gregas manifesta-se a unidade original incons·
falta de fundo, de termo. com sua abertura que ciente de forma e conteúdo; na nossa, procura-
S( estende para o nada. N a poesia. por trás do -se a interpenetração mais íntima de ambas; no
arbítrio, do criador, de sua absoluta liberdade, é entanto, ao mesmo tempo, elas permanecem
a infonrndadc básica do sem-fim que se apresen- opostas. Aquela - a poesia grega - seleciona
ta como e:Yprcssão essencial do Romantismo. Uma sua tarefa, pagando pela perfeição~ esta, a nossa
vez que o infinito não pode caber numa fonna, - a poesia romântica - só pela aproximação
a obra não pode fechar-se formalmente, isto é, infinita pode satisfazer seus anseios de infinito".
ser completa. Daí o freqüente caráter inacabado,
fracionário, da arte romântica. As formas meno- Pode-se, portanto, concluir que, embora en-
res. como o fragmento, o aíorisrno, o romance gajados na procura da unidade e da síntese, os
musical, tão cultivadas por ela, traduzem estilis- românticos têm uma percepção agudíssima da
ticamente essa captação fugaz de algo inapreen- cisão que os domina. Por outro lado, em fun-
sível na sua totalidade, que escapa infinitamente ção disso e certamente por imposição de suas
a toda plasmação fixadora. Assim, A. W. Schle- tendências, empenham-se em alcançar a reali-
gel diz: "a poesia dos Antigos era a de posse: zação sintética não pela harmonização clássica,
a nossa é a da saudade, de expressão de anseios. mas pela violência de movimentos polares, pelo
Aquela - a poesia antiga - se ergue firme no choque de contrastes, pela ênfase extrema das
chão da prosa~ esta, a nossa, a romântica, flo- contradições e dos antagonismos. Esperam che-
resce entre recordações e pressentimentos". Em gar à síntese, por assim dizer, oscilando entre os
outros termos. a arte romântica sonda o passa- elementos antitéticos e procurando então um
do ou o futuro - a idade de ouro primitiva ou ponto de aproximação infinita, para, num salto,
então a visão áurea do porvir - mas nunca a fundi-los, e a si também, dialeticamente. Não
atualidade prosaica. l:. uma evasão, um escapis- é à toa que Hegel e a dialética moderna surgem
mo radical para o mundo da imaginação. Mais do em seu contexto. Esse movimento, do ponto de
que isso, a realidade, para ela, reside no imagi- vista histórico, lógico e ideológico, é visceral no
nário, ou é, inclu~ive, seu produto, como quer Romantismo.
Fichte, com sua imaginação criadora. Seja como Nestas condições, não há motivo de surpre-
for, a elaboração imaginativa e sensitiva adqui- sa se os românticos, mesmo em seu quadro ca-
re um primado de tal ordem que é impossível racterológico, são assim contraditórios, se num
formalizá-lo em obras artísticas com os antigos momento se entregam a um ardor extasiado e,
moldes de redução clássica, cujos limites ela noutro, logo a seguir, se envolvem em tristeza
rompe e extravasa por sua própria natureza. "O mortal. Ess<f esquizotimia, por assim dizer, essa
ideário antigo - afirma ai nda A. W. Schlegel - dissociação, repete-se o suficiente para denunciar
era a concórdia e o equilíbrio perfeitos de todas um traço característico e talvez corresponda até
as forças; a harmonia natural~ os novos, porém a uma configuração biotípica. Em todo caso,
- nós, os românticos - adquirimos a consciên- dando vazão a violentas oscilações de tempera-
cia da fragmentação interna, que torna impossí- mento, a arte romântica derruba, com sua pai-
vel esse ideal. Por isso a poesia espera reconci- xão e exaltação, todos os cânones e padrões esti-
liar os dois mundos em que nos sentimos dividi- lísticos que cercavam o estro classicista, instau-
dos - o espiritual e o sensível - e com todas rando urna nova forma, descerrada, fundamen-
as pluralidades que isto implica". A questão é to da moderna estética do informe. E que tal

ROMANTISMO E CLASSISMO 27S


tura, isto é, uma inocência que não seria mai
v1sao começou com o Romantismo e é ineren- primitiva, a do jardim do ~den, mas uma i~ ~
te a ele, torna-se mais <lo que manifesto no cência sábia. I:: a famosa , criança irônica de No
famoso "Prefácio" de Cromwell. Aí, Victor Hugo o-
val is, um dos grandes s1mbolos do moviment
frisa precisamente que o período romântico cria ~ . o
ou procura revelar a consciência do discorde no romant1co.
homem e no próprio universo, justamente o con-
trário do Classidsmo, que se afaina cm captar a
harmonia universal. Por isso, a obra de arte que
a exprime, o drama, deve unir luz e sombra,
corpo e alma, o animalesco e o espiritual, A
Bela e a Fera, plasmando-os com as formas do
grotesco e do sublime, pois ºA poesia verda-
deira, a poesia completa está na harmonia dos
contrários".
Se a expressão da dissociação universal que
caracteriza o ser humano, particularmente em
nossa civilização, há de ser o signo da arte ver-
dadeiramente inspirada, compreende-se que a
simbologia romântica esteja povoada de figuras
desse esfacelamento e fragmentação: sósias, du-
plos, homens-espelhos, homens-máscaras, perso-
nagens duplicadas em contrafações e alienadas
em sua humanidade. Todos eles são outras tantas
concreções que realçam o caráter contraditório e
cindido do espírito artístico que as gerou. Na
verdade, o romântico, enquanto batia o espaço e
o tempo empós a unidade e a inocência, era per-
seguido por sua própria sombra desdobrada, pe-
la consciência de ser um homem dividido, estra-
nhado, social e culturalmente. Reencontrar a in-
teireza é a meta da dialética de sua fuga.
Neste sentido, é muito típico o ensaio de
Kleist sobre as marionetes, onde se diz que o ho-
mem, quando se mirou pela primeira vez no espe-
lho, reconhecendo a si mesmo, perdeu a ino-
cência. Agora, ele quer descobrir o caminho de
volta. Para tanto, precisa comer mais uma vez
da árvore do conhecimento, a fim de conquistar
um grau de conhecimento infinito e alcançar de
novo, pelo outro lado, o paraíso da inocência,
de uma segunda inocência.
O grande sonho dos românticos é a inocên-
cia, a segunda inocência que englobe ao mesmo
tempo todo o caminho percorrido através da cul-

274
13 . UM ENCERRAMENTO
Anatol Rosenfeld / J. Guinsburg

Encerrando este Curso sobre o Romantismo,


,·ou inicialmente recapitular algumas das idéias
aqui expostas, depois tentarei acrescentar aspec-
tos que porventura não tenham sido menciona-
dos e, por fim, procurarei salientar certas reper-
cussões do Romantismo sobre a arte atual.
Na palestra que foi pronunciada por Jacó
Guinsburg como ponto inicial desta série e na
que me coube a seguir, partimos da ruptura do
Romantismo com o Classicismo. O Romantismo
foi colocado, antes de tudo, como uma quebra
em relaçãci aos cânones. às regras, às normas e
às convenções clássicas. uma vez que desde a
sua irrupção como movimento evidenciou-se uma
espécie de decomposição da forma de arte até
então vigente, cujas leis dominaram durante
séculos o fazer artístico na Europa e que, em es-
,~ncia. constitu íam a canonização de aspectos
f undamcntais <la arte e da literatura da Antigui-
dade greco-latina. Em sua feição normativa, es-
tes cânones apresentaram-se como sendo prin-

UM ENCERRAMENTO 275
va, sem que a ~ubjetivid_ade s~ i~trometa, inter.
cipalmente os da proporção, da ~cio~alidade, da venha cm demasia. O_ artista class1co
objetividade, da unidade, d~ ~q~1líbno, da h~~ . d se conside ra
sobretudo um artesao a serviço . a obra, cuja
monia, da moderação, da d1sc1plma, d? desen
perfeição é sua meta. Este prop6~1to fundamen.
sapiente. São os elementos de uma hnha. apo-
línea, clara, lúcida, harmonios~, solar, , ~mm;,
que se pode definir como o estilo cspec1f~co o
tal do Classicismo liga-se a dois outros, não
menos importantes: a obra deve agradar e ser
Classicismo. Esse estilo, desde o Rena_sc1me_nto útil ao público. O primeiro a subordina a urn
pelo menos como busca deliberada, foi se 1!11· juízo de gosto e a um cons:nso coletivos ou
pondo à literatura e às artes, como uma prática daquilo que exerce esta funçao em seu nome
e um ideal. E mesmo o Barroco sempre teve, _no 0 segundo a um fim implícita ou explicitament~

mínimo como ponto de . mira, a . o_rdem clássica pragmático, do qual o mais usual é o didático.
ou, se se quiser, um proJeto class1c1z_ante, haven- Trata-se de exercer, através da arte, influência
do sempre, de sua parte, uma tentauva de ap~o- moralizante e ajustadora, quer el~ opere por
ximar-se do Classicismo, porque o Barroco, cuno- meio da catarse ou de um outro efeito de purifi-
samente, era barroco a despeito de si mesmo : cação emocional, quer pelo próprio caráter exem-
seus expoentes buscavam a expressão barroca en- plar da configuração artística, e isto de tal mo-
quanto homens, enquanto artistas seu ideal era do que o resultado será um aperfeiçoamento,
clássico. Na verdade, em essência, pensavam po- uma vivificação pessoal e, em última análise, um
der criar, a partir de si mesmos, uma arte real- ajustamento social. Vê-se, pois, que no âmbito
mente clássica. Exemplos desta arte barroca, da visão clássica a arte tem a seu cargo uma
mas ainda subclássica, são particulannente os função poderosa e de grande significação na so-
grandes dramaturgos franceses, como Racine, ciedade.
Corneille, Moliere e outros, que conjugam nas O Romantismo tampouco aceita essa concep-
suas obras a emoção barroca com a razão clás- ção. Para ele, o peso não está mais no produto; o
sica. E poder-se-ia dizer algo parecido em rela- que lhe importa é o artista e a sua auto-expres-
ção à dramaturgia e arte espanholas da l:poca de são. A objetividade da obra como valor por si
Ouro, consideradas exemplos de barroquismo, deixa de ser um elemento vital do fazer artístico.
sem que, todavia, jamais deixassem de visar ao A criação, como tal, serve apenas de recurso, de
Classicismo. O mesmo sucede em manifestações via de comunicação para a mensagem interior do
artísticas das mais variadas, inclusive as manei- criador. Quanto mais impregnada deste elemento,
ristas, que se estendem, através do neoclássico, melhor será, não importando se é bem acabada,
até o momento em que o Romantismo rompe concJuída, se constitui uma representação fiel e
radicalmente com esta perspectiva. agradável de seu objeto. Contanto que o artista
A revolução romântica altera e subverte qua- tenha conseguido exprimir-se, "confessar-se" por
se tudo o que era tido como consagrado para seu intermédio, ela está realizada. O que vale,
todo o sempre no Classicismo. Assim, na pro- portanto, é a subjetividade do autor, ao lado
posta classicista, o valor básico é situado na de um eventual efeito de fascinação, um mágico
própria obra. O artista apaga-se por trás de sua encanto emocional que poderá prender em suas
realização, não pretende exprimir em primeiro malhas a "alma" do receptor.
lugar, na obra, a si próprio e a seu mundo inte- Este papel do artista foi largamente ex-
rior. Este não desempenha papel relevante, pois posto em várias das palestras aqui proferidas.
o seu interesse é o de apresentar uma visão da Cabe ressaltar ainda que ele se vincula em parti-
natureza, do universo do homem e das coisas cular com o culto romântico do gênio. O gênio
como objetos de mimese e representação objeti- principal, o de maior evidência no Romantismo,
276
k sptare. Há ou!ros: Ossian, os bardos na-
passo que O art15 ·t b
é Shª. e assim por diante. Todos são inspirados
815 punha a . ª arroco, em essência, se pro-
eas divinas que falam através deles, isto é . s~r clássico. No Romantismo a questão é,
ciOll
pO r forÇndes personal'd d .
1 a es e artistas, os quais
Jas gra também receber o impulso criador do
' it~'. efetivamente destruir a fonna clássica e
de o~1ca para abrir o produto artístico do ponto
~ern ,· d e viSt a_est~tural. Em todas as conf~ências tal
rvo de seu espmto, e se~s . tema~ e produ-
P? 5 'peculiares. Destarte, o gemo esta, de algu- bopensao veio de um ou de outro modo à tona
çõe f rma em contato profundo com os poderes Prof. Laocisberg. por exemplo, falou das for~
tT13 t~ ais ; as fontes populares, exprimindo-os em ~as abertas em música. que na corrente român-
celCS 1• ~·c~ -se manifestam especialmente nas contínuas
essência. 1 .
nciso:5 praticada~ na grande forma clássica, que
Vê-se, pois, de onde ?f~~d!am as forças é_partida e repartida em composições fragmentá-
num golpe tremendo, Ja 1mciado por volta
que,1760 começaram na década seguinte a de- n_as, como . são os intermeui, interlúdios, irnpro-
de . a ,grande ordem c1'assica, . essa forma tetô- v!sos, capnchos. poemas sinfônicos, romans-mu-
rno 1r
l f . . ... s1caux etc. O mesmo fenômeno foi constatado na
. ou se se pre enr, arqu1tetomca, em que as
nica , f . f _ P~tura, onde o esboço, a gravura ( Goya, Do-
co1s. as são pensadas e e1tas em_ unçao do equi- r:), a arte do animalier (Barye ), tidos até en-
Iíbrio das partes, de sua elevaçao e postura com- tao, de um modo geral, como gêneros menores,
1 stas. Trata-se de um contexto estético onde a
começam a ganhar importância, ao mesmo tempo
~ra ~e coloca como um mundo autônomo, en- ~u~ o movimento psicológico, a impressão sub-
~errado em si, válido por si. Por princípio, ela Jehva, a expressão irônjco-grotesca invadem a
não procura ultrapassar seus próprios limites. B representação plástica com o intuito deliberado,
um quadro contido dentro da moldura, que gira ao contrário do que acontecia no Barroco, de
em torno de si mesmo, de um centro que lhe é violar passionalmente, pelo registro psicoplástico
interior, sem visar a nada que esteja fora. Por e sobretudo psicocromático, as serenas linhas e
isso a obra de arte clássica tem sido chamada contornos, a sapiente proporção e perspectiva da
também de "obra fechada". Ora, comparativa- mimese clássica. Na dramaturgia e no teatro,
mente, numa realização romântica o caráter "aber- Sábato Magaldi mostrou como as estruturas tra-
to", não "tetônico", mas "atetônico", se faz vi- dicionais da tragédia se rompem na peça român-
sível. O centro não mais parece situado nela tica, que é assaltada por formas como as do
mesma, porém em algum ponto externo, "além" chamado "drama de farrapos", feito de pequenas
de qualquer enquadramento, um centro direcional cenas, em pedaços sem travejamento cerrado,
e gravitacional para o qual a obra parece voltada sem uma ação continuada, sem que o enredo
desde sempre e atraída incessantemente. Uma realmente se feche ao fim. As peças acabam
conseqüência extrema desta "excentricidadeº em sem que haja propriamente um fecho, encerran-
relação a si mesma será, por exemplo, em nossos do-se com um sinal de interrogação, por assim
dias, o tachismo, que propõe uma pintura livre dizer. Sua forma é como que circular e a ação
de qualquer "moldura", que possa continuar in- poderia, parece, prosseguir indefinidamente. t
definidamente, para além da tela. o que acontece em Musset, em Büchner - que
Essas formas abertas cultivadas pelo Roman- já não é a ·bem dizer um romântico, mas que
tismo, naturalmente já encontram antecipação absorveu muita coisa do Romantismo. Em ambos
no Barroco. A diferença é que agora são apresen- é visível a fonna retalhada, de cenas e quadros
tadas de um modo deliberado, até com certo teor muito breves. Por exemplo, o Lorenz.accio. de
programático, ou seja, os românticos declaram Musset, é um drama onde algumas ações levam
que é seu propósito criar obras dessa natureza, ao apenas três, quatro ou cinco minutos, e acaba-se

UM ENCERRAMENTO 277
/', q11t'11u:, Aborrecimentos da F elicidaJc, litogr Jfia .\ 11l'io 110 M ar, por Washington Al h ton.
de! Ga,arni.
a cena, surgindo logo a seguir um novo local, num uma vez, caminhamos hoje senão na trilha pelo
outro momento. Algo semelhante ocorre com 0 menos com o impulso do movimento romântico.
desenvolvimento d~ Woyzeck _d e_ Büchner. São Nas exposições aqui realizadas foi apontado
construções dramáticas nas quais Já reponta uma como, no terreno da música, do teatro e das ar-
técnica que se poderia chamar de impressionista. tes plásticas, o Romantismo põe em relevo e ca-
Assim, a estrutura "esfarrapada" , fragmentada, racteriza a cor face à linha, se é lícito retomar
de certas obras românticas constitui nítida ante- neste contexto e em relação a artes tão diferen-
cipação das propostas do impressionismo, como o ciadas a proposta de Wõlfflin nos seus "concei~os
de Tchekhov, no fim do século XIX. fundamentais". Assim, se no Classicismo a sobne-
dade e calma do elemento linear se impõem, por
Ao mesmo tempo, com o abalo dos valores
exemplo, na composição plástica e musical, o co-
~lássicos, dá-se naturalmente a destruição de to-
lorismo, a violência da cor irrompe agora, na
dos os valores canonizados não só pela estética
época romântica, com o ímpeto de uma libera-
do Classicismo. Como J acó Guinsburg mostrou
ção subjetiva que procura ganhar a superfície
em sua palestra, nasce daí uma relativização ge- através da obra. E sta última é, como já se viu,
ral, que é tanto mais acentuada quanto o histo-
um meio e não um fim em si. Trata-se de abrir
ricismo, uma das manifestações características do por seu intermédio uma via de expressão da in-
movimento romântico - vê tudo em fluxo históri- terioridade do sujeito e não o de construir um
co. Não há pois nada que sobreleve, que dure, modo de representação da exterioridade do obje-
afora a história. T odas as coisas são historiciza- to. Um Delacroix, ainda que não toque na pro-
das e, com isso, relativizadas, sendo vistas co- porcionalidade, no modelado das figuras e em
mo fenômenos momentâneos de um certo ins- outros componentes da tradição pictórica clássi-
tante histórico. Enfoque típico do Romantismo, a ca, chega, na vibração tonal e no arrebatamento
tendência historicista lhe conferiu maior poder cromático, à beira de uma pintura impressionista.
destrutivo nos golpes que desfechou contra os Outro tanto sucede seja no plano do intimismo
cânones do Classicismo e sua pretensão ao status musical de um Schumann ou Chopin, seja no
de verdades racionais e absolutas, portanto eter- das explosões orquestrais de um Berlioz. Uma
nas. Daí por que, a partir da contestação român- estruturação mais aberta e pessoal, que dá maior
tica, surge uma seqüência cada vez mais rápida de vazão às forças íntimas, aos psiquismos e às
vanguardismos: nenhum valor mais se sustenta, paixões, põe portanto abaixo o domínio clássico
todos estão abalados em sua base. Esse fenôme- da contenção geométrica e típica, sobrepondo-
no, tão característico de nosso tempo, faz sua pri- -lhe o da incontinência de um cromatismo emo-
meira aparição sensível com o Romantismo. Por cional, propenso ao matiz particular e à nota
isso não é descabido dizer que o fenômeno do local, característica.
Romantismo já traz o selo de nossa atualidade, Verifica-se então que, com o Romantismo,
quando em face do esboroamento do que era se instaura um modo de ver as coisas, de um
tradicionalmente consagrado e válido, cada indi- cunho irracional e até cego , porque destempera-
víduo surgindo, estabelece um novo valor, um do, sem disciplina, seja no âmbito geral da cos-
novo vanguardismo, uma nova expressão. Os movisão, seja no âmbito específico da manifesta-
exemplos contemporâneos dessa mobilidade, des- ção artística ou política. Os românticos se colo-
sas marés montantes e vazantes no plano das cam contra todos os padrões da civilização ra-
tendências, são fatos de nossa vida e nosso teste- cionalista e, evidentemente, contra os padrões
munho. Os "ops" sucedem-se aos "pops" e os anteriores, do absolutismo. Hã uma verdadeira
"ismos" renovam-se em fluxo incessante. Mais explosão libertadora, mas de um libertação anár-

UM ENCERRAMENTO 279
quica e, como todos os estouros deste gênero, o Ora, no Romantismo emerge exatamente
Romantismo mostrou-se, ao menos em seu pri- oposto. O desajustado é basicamente uma figu~
meiro momento, também liberticida como forma ra trágica e não mais cômica. Os verdadeiros va.
de pensamento político. :É sem dúvida libertário, lares estão de seu lado. O ajustado deve ser de-
mas liberticida, ao mesmo tempo, por ser uma sajustado. Ele é que tem razão e não a sociedade
busca desenfreada de liberdade. Há nisso, não apenas uma afirmação do eu e~
Mais urna vez, o Romantismo se situa nas face de seu contexto, como um protesto e uma
antípodas da visão clássica. Neste sentido, sob o profunda crítica cultural, uma insatisfação com a
ângulo social, urna comparação com o teatro de sociedade e, como já foi salientado, com as con.
Moliêre poderá ser bastante ilustrativa. Na obra dições nela reinantes na época. 1:: certo que Schil-
do comediógrafo francês um dos temas funda- ler já havia lancetado de maneira genial a pro-
mentais é o do ajustamento à sociedade, em que blemática, mostrando a estatização, a burocrati-
termos ele deve ocorrer. O meio e o critério bá- zação, a engrenagem social e a alienação do in-
sicos são o bom senso, o equilíbrio das paixões e divíduo dentro dessa engrenagem. Trata-se de
propensões que desregram a conduta social das uma incisão magnífica, que precede Marx e que
personagens, colocando-as em situação cômica se apresenta hoje, muito transformada, sem dú-
pela inadequação aos marcos ''comuns,, da nor- vida, nas obras de Kafka. Assim, ainda que num
malidade. Por isso os conselheiros molierescos período e num ambiente em que o processo não
procuram essencialmente reconduzi-las a atitu- tem a amplitude nem a virulência que revela em
des socialmente ··razoáveis", admissíveis, segun- nossos dias, ele já é diagnosticado com precisão
do as normas então vigentes. À luz de Bergson, por Schiller, cuja crítica, naturalmente inspirada
poder-se-ia dizer que se empenham em flexibi- também por Rousseau, é retomada e radicaliza-
lizar-lhes os enrijecimentos de "caráter", os au- da pelos românticos. Sentindo-se à margem da
tomatismos e cacoetes anti ou a-sociais que sociedade, como alguém dissociado dela por seu
as revestem de caricata excentricidade aos olhos qiráter superior mas não reconhecido ( a media-
dos "sensatos", isto é, dos que se comportam nia "filistéia" impera) , fragmentado intima-
com "juízo" e "regra" da sociedade. O desajus- mente por esse "estranhamento", sofrem com a
tado é, pois, uma figura cômica para Moliêre. :e situação a que se julgam reduzidos. Daí provém
o indivíduo reto demais para poder conviver com a sua We/tschmerz, "dor-do-mundo", que no as-
as fraquezas e vaidades humanas que, no entan- pecto social, cultural e até existencial traduz o
~o, faze~ parte ~a realidade dos homens e, por profundo desconforto, a angústia, o sentimento
isso, do J~go social, devendo ser, senão perdoa- de desterro do homem romântico em sua relação
dos, acolhidos. e .tolerados "com-medida,, com o contexto onde lhe é dado viver. Incapaz
. , a não de superar esta cisão por uma de-cisão, vê-se
ser que se queira incorrer em misantropia e come-
t~r o pecado do "anti-social", como parece in- permanentemente cindido, o que determina, de
sinuar o conselho amigo. :É também o caso do um lado, u_ma passividade no agir, muito típica
indivíduo velho demais para amar uma mocinha do Romantismo, pelo menos em sua primeira fa-
t?rnando-se ridículo no seu despropósito, tão ní~ se; de outro lado, a mesma divisão o coloca nu-
tido aos olhos da sociedade, de modo que a fun- ma relação não só irônica em face de si mes-
ção do amigo é corno que dizer-lhe : "Não, não mo, como crítica em face do mundo.
pode ser assim. Você precisa ajustar-se ... " Em Então, a arte romântica, na sua forma aber-
outras palavras : "Seja racional, modere-se, evi- ta, desproporcionada, atetônica, desintegrada, é
te todos os excessos" - tal é a sugestão subja- em essência uma expressão dessa fragmentação
cente à comédia molieresca. cultural, e ela pretende sê-lo deliberadamente. Os

280
rornântic~s ~ucr~m, a~ravés de sua criação artís- ~o, na . procura do pnm1ttvamente elementar e
tica, expnm1r pnmordtalmente esta cultura disso- 1~c~nsc1ente, porque nele não existiria ainda a
ciada, estilhaçada, alienada. Ao mesmo tempo, c1sao, o fracionamento que os românticos encon-
p0rém, procuram s_u ~erar. o qu~dro de sua inde- tram (desencontrando-se) na cultura do seu tem-
cisão e das contrad1çoes d1scem1das, por uma bus- po.
ca ansiosa de síntese integrativa. Como O Prof.
_ Com o espírito romântico começa, portanto,
Landsberg frisou na última preleção, ao dis- nao apenas como interesse histórico, arqueológi-
correr sobre Wagner, há neles uma genuína vo- co ou etnográfico, essa busca do "primevo" e do
lúpia de síntese, todo um erotismo, que vai do "original", que ainda é a nossa e que nos coloca,
abraço amoroso até a síntese universal, que en- uma vez mais, na sua esfera de irradiação - se
volve tudo cm seu amplexo. Isto é, a síntese co- se quer adiantar de novo uma conclusão do
meça .!'°r ~m desejo de ªf!lºr completo, que tal- e:ame . ora em curso. Mas a preocupação, para
ve~ nao ~eJa poss1vel em t~rmos humanos, pois nao dizer o fascínio , do R omantismo pelo ele-
dms continuam sempre dois, não podendo tor- mentar e arcaico, que se liga naturalmente ao
nar-se um só por mais que se abracem e se en- se~ sonho de reintegração numa nova e grande
lacem. Em conseqüência, o desejo de união amo- unidade . sinté!ica, implica sem dúvida, e quase
rosa leva imediatamente, nos românticos, a uma necessanamente, numa revalorização do mito.
visão do amor quase impossível, místico embora Mai~ do que uma afinidade de pensamento, e
tudo seja concebido ao nível dos sere; carnais ela e grande, ou de um cuidado de conhecimento,
ainda que idealizados. Basicamente, há nes~ também acentuado, trata-se 1 rincipalmente de
eros um forte componente sadomasoquista, uma um meio de expressão capaz de polarizar o tur-
vez que só se poderia atingir a almejada união bilhão emocional e imaginativo, contraditório e
total, a fusão dos amantes, anulando-se ou su- anárquico, do que se convencionou chamar de
primindo-se de algu m modo um dos elemen- " alma romântica". t no mito, pois, que ela tenta
tos do _Pª~ - o abraço que o destruísse, ou 0 condensar-se, achar a síntese, como se verifica,
a~to-~mqu1lamento, romperia a dualidade, cin- por exemplo, na música de Wagner, com O Anel
g1-la-1a no um. De uma ou de outra maneira 0 dos Nibelungos, Tristão e Isolda, Parsifal, obras
suicídio e a morte amorosa passam a ser cult~a- que se propõem como fim precípuo criar, em ter-
dos como "vias" d a unio, da elevação à unidade mos de uma nova arte, grandes sínteses míticas.
suprema, alvo constante das buscas românticas Entre!anto, se a proposta wagneriana foi a mais
Mas . não é apenas .n o enfoque do amor que s~ abrangente, não foi a única nem a primeira a
mamfest_a e~te anseio de , integração. Sua pre- enveredar por esse caminho. T ipicamente român-
sença .nao e men?s sens1vel no interesse quase ticas, como são, as veredas ( Grande Sertão . .. )
º?sess1vo pe_Ia , u_m dade das grandes épocas reli- do mito já haviam atraído desde o princípio No-
giosas da H1stona, como a Idade Média ou da valis, cujo idealismo mágico considera o mundo
vida contemplativa e mística no Oriente, 'ou ain- tão-somente "um tropus universal do espírito,
da do mu~~o primitivo, na sua pureza e integri- uma imagem simbólica deste". Mas o daimon
dade selvattcas e autóctones. No colorido exóti- não é apenas alemão, apesar do Doutor Fausto
co ~o . índio americano, por exemplo, o olhar . , . '
pois seu espmto reaparece, de várias maneiras,
romant1co enxerga o viço e a completude da
nos expoentes franceses do Ro mantismo. Assim,
natureza. Aí situa-se um verdadeiro Eldorado
Vigny configura em Eloá o mito do mal e em
para. o Romantismo, que se lança, sobretudo pela
Moisés o mito do gênio solitário, tão cultivado
1magmação, à aventura geográfica e histórica, ex-
pelo repertório da época. Poder-se-ia multiplicar
plorando estas terras do maravilhoso e do igno-
UM ENCERRAMENTO 281
a exemplificação que evidencia a importância da uma comunidade de sangue ou de um profund0
questão para os românticos. parentesco etno-cultural, e não de uma sociedad
Na verdade, o mito toma-se, para eles, um racion~lmente ordenada. Mai~ uma ~ez, percebe:
elemento fundamental de sua visão, uma das cha- -se, o intento é o de reconqmstar a mteireza Ori-
ves que lhes parece dar acesso ao reino do sim- ginal do homem.
ples e do uno, onde não existem as fissuras e as Mas se os românticos amam tão apaixonada.
complicações alienantes de uma consciência re- mente o que se lhes afigura primitivo, fazem-no
flexa e fragmentária, de uma civilização que tudo é claro, por já não ser esta a sua condição. E~
dissocia e faz de tudo raciocínio. Por isso, como geral, anseia-se por aquilo que não se é. Como
é marcante nas criações de Wagner e outros ar- disse Hoelderlin, "Wer das Dichtgedacht denkt
tistas de tendência análoga, a recuperação das liebt das Lebedig", ou seja, numa tradução mui-
formas de expressão mística e, por conseqüência, to tosca, "Quem pensa o pensamento mais pro-
a remitização de um seu medium por excelência, fundo, ama a vida mais viva". ~ o que acontece
a arte, converte-se numa tarefa vital. Por seu in- aproximadamente com os românticos. Eles não
termédio, seria possível não só chegar a uma são de modo algum primitivos, pelo menos os da
nova grande forma integradora, como, o que é segunda geração, pois os da primeira, com a
principal para a alma penada do romântico, al- qual o movimento eclode, apresentam ainda cer-
cançar de novo, para além da <li-visão, uma visão tos traços desta natureza. Mas o grupo princi-
unificada, senão beatífica ao menos edênica. pal, que aparece na Alemanha por volta de
Entrementes, essa busca de unidade quase 1800, não contém elemento primitivosta, ocorren-
mística, ou mística mesmo, muitas vezes, também do o mesmo com os românticos ingleses ou, pos-
se exprime na política, com algumas conseqüên- teriormente, com os franceses. Trata-se de inte-
cias, a longo prazo, assaz negativas. Porque os lectuais citadinos, em muitos casos metropolita-
românticos querem superar a sociedade que eles nos, vivendo uma existência muito distante da
chamam de "mecânica", isto é, mecanizada, atra- natural, muito dissociada deste ponto de vista e
vés de um novo tipo de comunhão, orgânica. Esta até extremamente marginalizada, que os traz à
idéia de uma polis homogênea, uma comunidade beira da neurose. Sem entrar nos fatores so-
na acepção literal da palavra, que seria a base ciais que condicionam o fenômeno, fatores que
de importantes desenvolvimentos na sociologia, em parte foram aqui abordados e que suscitaram
como a da famosa obra de Tõnnies, Comunidade em geral uma vasta literatura sociológica, pode-
e Sociedade, foi outrossim a raiz de um movi- -se considerar de maneira conjunta que o fenô-
mento de integração organicista etno-nacional meno do romantismo é um produto típico da
que, por diversos canais e em diferentes concre- vida e cultura urbana de uma Europa sob o
ções, percorreu os séculos XIX e XX europeus, impacto da revolução burguesa. Seja como for,
sendo a comunhão racista do hitlerismo uma de o primitivismo romântico não é o fruto agreste de
suas deletérias florações recentes, e não a últi- um viver na natureza, nem sequer de uma cultu-
ma. O Romantismo evidentemente não tem culpa ra tribal ou mesmo aldeã, mas sim o florão apu-
nenhuma disso, mas não se deve tampouco es- rado de formas de existência material civilizadíssi-
quecer que, por imprevisível e indireto que se mas e de um espírito requintado, sofisticado.
tenha de considerar o efeito, ele deriva do irra- Um exemplo expressivo disso é a chamada
cionalismo social dos românticos, sua focaliza- "ironia romântica". Trata-se de uma forma de
ção mística, mítica, de uma organicidade cole- pensar muito sutil e específica que, no seu cará-
tiva, de onde resultou a proposta de uma nova ter oblíquo e cindido, reflete as complexas cii-
unidade nacional, porém ao nível mais étnico de cunvoluções mentais de gente extremamente crí-

282
·ca, sensível e refinad~, individualista e anárqui- de anulá-lo no sono eterno o u pelo menos es-
~a afeita ao trato diuturno d o espírito e das quecê-lo na sonolência constante. Quebrar os
~ ' • d e pessoa que n a Alemanha
letras. um genero relógios é uma de suas metáforas fundamentais.
é chamada de Asfa~tliterat, 'literato de asfalto". Não lhe interessa marcar e saber as horas, não
São criaturas essencialmente urbanas, que vivem pretende plantar nada na temporalidade. Não
como plantas algo emurchecidas e lânguidas na lhe parece que e1a possa frutificar. Quando mui-
atmosfera assaz sufocante da grande cidade. Em to, poderia dar alguns frutos malsãos, como o
seu meio sempre surge aquele tedium vitae 0 tempo normado, burguês, e suas horas vigilantes,
enjôo de viver tão característico do ho~em se cabe a expressão. Num bonito ensaio, Frie-
blasé, uma criatura que já experimentou dé tudo drich Schlegel acha que, neste particular, os ale-
e não mais_ sente prazer em. nada, que precisa- mães são um povo particularmente desgraçado,
mente por isso procura a satisfação do mais rús- porque a pontualidade é um de seus traços distin-
tico e elementar, porque isto poderia represen- tivos. Sua noção de tempo é de quem não sabe
tar uma fonte de restauração de seus sentidos es- nem sentar-se bem, nem deitar-se bem. Os ita-
tiolados, um b anho de juventude, por assim di- lianos sabem sentar-se; e os orientais, estes, sim,
zer. E. preciso pensar nos românticos nestes ter- sabem deitar-se. Vê-se nestes símbolos do repouso
mos, como gente altamente cultivada e sofistica- e do ócio que o ideal é rcfestelar-se no tempo
da, e não como primitivos. a fim de esvaziá-lo de qualquer visgo objetivo e
Não é, pois, de admirar que flores inusitadas convertê-lo em lânguido leito da inaçio. Assim,
tenham brotado neste ambiente. A palavra "nii- ao discorrer Sobre a Preguiça, exaltando-a, Schle·
lismo" é uma delas. O primeiro a usá-la, ao que- gel põe à mostra um aspecto típico do Roman-
sr saiba, foi Novalis. E na verdade a negação tismo e de seu requinte, a fadiga de uma gente
radical que o termo implica, não só na esfera dos que já nasceu cansada ...
valores, é profundamente afim ao sentimento e Sem insistir no fato de haver também aqui
ao clima em que vivem os românticos. Outra um valor subjacente, cumpre realçar no indivi-
planta deste. vergel é o cansaço, o torpor que pa- dualismo romântico outras idéias ligadas ao seu
rece envolve-los e que se traduz de muitas ma- extremado teor subjetivista. Na Alemanha pelo
neiras, além d~ metafísica aspiração ao repouso menos, mas isto também se filtrou para a França
eterno e ao mrvana. Os românticos, por exem- e a Inglaterra, esie subjetivismo e individualismo
plo, exaltam a ociosidade e a preguiça, no que deflui, do ponto de vista filosófico, principal-
se opõem frontalmente à concepção dos clás- mente do idealismo de Kant-Fichte. Este último
sicos. Estes querem aproveitar utilmente o tempo. estabeleceu toda uma filosofia do "eu", onde sus-
O tempo é para eles produtivo, quantitativamente tenta, em termos radicalmente idealistas, que o
importante. :E: preciso contar os minutos, é pre- "eu" é o construtor do mundo, ele o cria. Não
ciso ser pontual. Goethe, cuja face classicista é se trata naturalmente de nosso "eu" pessoal, mas
tida como a mais significativa para a crítica ale- no íntimo de cada um de nós, de nosso "cu"
mã, observa que a hora tem sessenta minutos, psíquico, dinâmico, mais ou ru'!nos biográfico, há
cada minuto sessenta segundos e o dia tantas uma força espiritual, por assim dizer, comum a
e tantas horas, acrescentando: eis um campo em todos, que produz o mundo. Desta maneira, em
que posso trabalhar, posso plantar nele. De todos nós está o núcleo criativo, o qual, diriam os
fato, para o clássico o tempo é um terreno fértil, românticos, por certo se expande com um vigor
onde lhe é dado semear com proveito. Já o român- incrível no gênio. Ainda que esta formulação
tico não encontra nada de bom no tempo nem e outras de natureza mais especificamente român-
vê sentido em cultivá-lo. Na realidade, gostaria ticas, não se devam diretamente a Fichte, é claro

UM ENCERRAMENTO 213
-l r ,,,,, de Sciv Lourt11ço, Roterdã, e. 1845, por Janw,
Ho ll and.
se acham de algum modo implícitas no seu O arranhão, quando feito em estado de
~e \ismo e no papel absoluto que atribuía ao loucura, na infância, no sonho, é especialmente
e\to e ao seu poder de criação. Tudo provém eficaz, levando ao contato direto com esses re-

r: _
:p~spiritualidade, através da imaginação produto-
a nossa realidade e a dos seres cm, ~cral.
Essencialmente, portanto, o real é cspmto e
cônditos da espiritualidade, a partir da qual se
tem uma visão mais íntima e mais essencial da
realidade. Mas os românticos também se sentem
quilo que se nos apresenta, que nos cerca, nada atraídos por essa região profunda de nosso ser,
~ais é senão aparência plasmada pelas catego- porque aí não reinam as dissociações e frag-
rias de nossa mente, por assim dizer, filistéia ou mentações que o cindem e desintegram. Nela,
burguesa. Por, trãs desse quad~o. corriqueiro e somos ainda unos, formamos uma unidade com-
epidénnico, ha um mundo espmtual profundo, pleta. O inconsciente é a esfera daquela inteireza
que pode~_os captar _em estados que . não sejam que tanto os seduz, seja na expressão poética
os da vig1ha. A poesia se presta particularmente seja na especulação filosófica. A penetração nes-
para no-~o rev~larA , a.través da força mãgica da te domínio encantado, onde não vigem as leis do
imaginaçao. A mfanc1a, também. Nessa primeira cotidiano e do racional, é sua tentação permanente.
idade, quando não estamos ainda condicionados Ora, o pensamento fichtiano é particularmente
pelos hábitos do dia-a-dia a pensar segundo os adequado para servir-lhe de porta de acesso, pois
estereótipos da vida burguesa, é mais fácil e nele o sujeito pode considerar que : "Se sou es-
imediato o contato com a espiritualidade funda- sencialmente o criador da realidade aparente,
mental. Inocentes, podemos ver a realidade como externa, me é dado também aboli-la e ir ao en-
de fato ela é, em sua pureza, sem as deforma- contro da realidade verdadeira, conhecida pelo
ções de uma óptica filistéia. À criança senão ao 'eu' profundo, inconsciente". Mais ainda, falan-
jovem são dados os verdadeiros tesouros da "vi- do com Schelling, "No fundo, eu e a natureza
são", do conhecimento autêntico, não dos objetos somos idênticos"; ou, como diz Novalis: "Re-
do intelecto, mas das essências do espírito. encontro-me no universo, assim como encontro
o universo em mim", uma vez que, ainda em
Daí a exaltação romântica dos estados em que seus termos: "Para dentro o caminho vai ao in-
a nossa imaginação, o nosso mais profundo finito. Preciso apenas penetrar no imo de meu
"eu", a força espiritual existente em nós, se desen- ser, na centelha de minha alma, por assim di-
cadeia, rompendo o esquema superficial das ca- zer, na alma de minha alma, para chegar àque-
tegorias para penetrar no âmago da realidade. la força espiritual que está dentro de mim,
E isto também sucede com e em nossa própria que é ao mesmo tempo o universo". Assim, para
consciência, cuja sondagem profunda surge, an- o idealismo romântico, por trás das afinidades
tes de Freud, com os românticos, que já a reco- eletivas, e gerando-as, há uma identidade essencial
nhecem como uma camada externa, à flor de entre espírito e natureza. Dentro de si, o eu se
uma interioridade desoonhecida. Para eles, é descobre como natureza e esta, no seu íntimo, se
afetivamente no inconsciente que se encontra o revela como pura espiritualidade, de sorte que,
nosso ser mais profundo, ou seja, este lado no- como em Os Discípulos de Sais, de Novalis, o
turno que nos habita e faz parte orgânica de véu de um apenas encobre a imagem do outro.
nossa psique. Dinamismo espiritual, força quase
mística, o inconsciente é como que uma floresta A este subjetivismo idealista - tão similar
selvagem em nosso íntimo, do qual a consciência ao da mística, que sempre desemboca em algo
é o cromo - arranhando-o um pouco, chega-se parecido, e ao do expressionismo, porque nunca
ao cerne primitivo. temos em essência a mesma visão - associa-se,

UM ENCERRAMENTO 285
curiosamente, a chamada ironia romântica, se é realismo mais cru, o da imitação verossímil d
lícito voltar mais uma vez ao tema. Brandida face externa da realidade. Ora, por natureza, ª
por um homem marginalizado, como o romântico gênio, o "eu" genial é livre para desfai.er ~
se sente e até certo ponto o é, converte-se de próprias fonnas ~as coisas, através da obra ar-
início em arma para ferir o~ va!ores oficiai s do tística. Não precisa ater-se a regras, pode ata-
mundo burguês. Trata-se, para o Romantismo, lhar categorias e leis, como a causalidade ou as
de abalar os padrões filisteus e toda esta reali- formas do tempo e do espaço. Não é obrigado a
dadeJ aparentemente factícia em que o burguês prender-se a tais cadeias, é-lhe permitido saltar
se acha em casa. Mostrar que tudo isto é falso livremente sobre tais imposições, desconhecer as
e ilusório, constituiu-se numa importante meta norma~ da verossimilhança, superá-las, ou me-
da sua ironia. E ao contrário do que afinna r,erta lhor, se lhes sobrepor. Se quiser pode pintar de
crítica moderna, sobretudo a que se fixa dogma- maneira abstrata, nada o força a imitar o espa-
ticamente na crítica de tradição hegeliana ou nos ço tridimensional, que é um espaço ilusório. No
preceitos de um realismo radical, ela desempe- drama, não precisa observar a ordem causal, da
nhou a tarefa com incrível ferocidade, colocando motivação psicológica. Ele pode abandonar a seu
o movimento romântico, apesar de sua freqüente talante tais elementos e manipular seu material
tendência para posições retrógradas, entre os com o fito de desmistificar, de ultrapassar a visão
principais demolidores da ordem de valores até superficial de uma realidade aparente. Se lhe
então estabelecidos. aprouver, lhe é dado jogar com todas essas cate-
Mas o recurso irônico não é utilizado tão- gorias simultaneamente num mundo de elfos,
-somente no plano social e mundano. Pois na anões, gigantes, ninfas, ondinas, duendes, revo-
medida em que procuram desfazer as aparências gando a gravidade, pondo os humanos a andar
do mundo filisteu, os românticos exaltam o infi- pelos ares, fazendo science-fiction e dando ré-
nito de uma esfera mais essencial, o verdadeiro deas ao fantástico com a ousadia que sua imagi-
universo poético. Neste sentido, sua ironia se nação criativa lhe permitir.
reveste de um caráter quase religioso, tanto mais Tais são as alturas a que o "gênio" românti-
quanto não se limitam a condenar os padrões da co, a partir da incisão irônica, é capaz de guin-
sociedade como tais, aqueles que radicam o dar-se, suspendendo todas as leis e rejeitando to-
homem burguês num certo modo de vida, mas dos os valores da mundanidade bem comportada.
também a sua grosseira natureza terrena, mate- Em fu nção disto, naturalmente, pôde o Roman-
rial, propondo-se a substituí-los por outros, que tismo suscitar, como que do toque encantado de
se lhes afiguram sublimes e ideais. Por isso Kie- sua fantasia, um universo maravilhoso de contos
kegaard pôde dizer que "A ironia romântica é da carochinha. Ainda que, também aqui, seja
devoção porque ela acabou com esses valores discernível a presença shakespeariana e de sua
para alçar-se a outros superiores". luxuriante imagística barroca em Sonho de uma
Outro emprego da ironia romântica é o de Noite de Verão e A Tempestade, os românticos
cortar a ilusão criada pela própria obra de arte. têm uma originalidade inteiramente própria neste
Sob esse aspecto, antecipam-se a Brecht, que campo. São magistrais suas produções no gênero,
se vale do mesmo procedimento, com maior coe- de todos os pontos de vista. Mas particularmen-
rência, sem dúvida, para obter efeitos similares e te significativas ela~ se tornam como expres-
que se tomaram o selo de sua obra. Na verdade, são da ironia romântica, no seu trabalho de
os românticos são precursores de muita coisa abolir a coerência, abalar as regras da lógica,
que se desenvolveu marcadamente na arte mo- contestar o domínio do racional. Tais obras
derna. De todo modo, já para eles, a ilusão é o coroam a seu modo, pelas comportas que abri-

286
m à livre criação, um princípio que o Roman- fundezas do ser. A língua emblemática-adârnica
r.amo proclama .incessantemente, e segund o
0 constitui-se em verbo, mágico e misterioso, cujos
us al a imagmaçao
· - d o art1s . t a e' suprema. El a
sinais exprimem e revelam a essência do mundo,
q~a a verdade através de suas elaborações, esta- plasmando com palavras, corno que com formas
~lece correspondência entre as coisas mais dis- metafísicas, um mundo de estruturas ideais, que
aradas e desencontradas. Concepções demiúr- representam a essência da realidade. T ais formu-
~cas do que se pode chamar substantivamente de lações de Novalis quadram-se extraordinaria-
"o ·romântico", estão presentes em quase todos mente com o pensamento e as criações de muitos
os que marchara~ sob essa ~~ndeira. Contidas já poetas de hoje, assim como a sua afirmação de
na filosofia de F1chte, ~x~hc1tadas na de Schel- que ". . . em cada poesia deve transparecer o
ling, mais tarde c?nstitum~o-se no fulcro da caos". Aí, naturalmente, cristaliza-se toda uma
estética de Baudelaire, manifestam-se com ple- poética de vanguarda, anticlássica, pois, para os
nitude em Novalis. clássicos, a arte é, antes de tudo, a ordem no caos,
Diz o poeta da "flor azul": "Posso mostrar enquanto Novalis exige, na obra artística, a pre-
todas as imagens, posso conjurar com a mágica sença transparente do entrópico.
da fantasia a afinidade química das coisas mais Mas a ironia romântica não se manifesta ape-
díspares", o que em si já coloca o princípio do nas em Novalis. Ela é comum ao R omantismo
surrealismo, na sua proposta de reunir onirica- como um todo e sobretudo à geração que iniciou
mente coisas das mais desencontradas. "O poeta o movimento, sendo um dos fatores de m1ior peso
é um mago que constrói com o verbo, como o na excepcional agilidade de espírito que homens
matemático, relações essenciais. A poesia é uma como Friedrich Schlegel e August Wilhelm Schle-
álgebra mística." Ou seja: é urna disposição de gel demonstraram na sua investida contra o pen-
signos que permite ao eu penetrar as relações bá- samento classicista, estático, carregado. m::tciço.
sicas das coisas e contemplá-las em sua sigfica- Friedrich Schlegel, por exemplo, afirma: "A iro-
ções essenciais; mais ainda, é uma operação "má- nia é a consciência clara da eterna agilidade do
gica" que, pela alquimia verbopoética, converte caos infinitamente pleno. Na mudança eterna de
um contexto caótico, entrópico no dizer de hoje, entusiasmo e ironia expressa-se uma simetria
num objeto significativo, sendo portanto urna atraente de contradições". Já está aí a dialética
forma de criar o mundo como sentido e de cap- hegeliana, o que se realça ainda mais nesta outra
tá·lo, para "além" dos limites do intelecto, na passagem, onde Schlegel diz : "Uma idéia é um
amplitude e profundidade de suas idéias gerado- conceito aperfeiçoado até a ironia. Uma síntese
ras. Assim, em roupagem puramente romântico- de antíteses absoluta se constata na mudança
idealista, com as estranhas comb inações que ela ·autoproduzida de dois pensamentos em cho-
faz entre o extático e o matemático, o místico e o que". Novalis, de seu lado, requer do poeta uma
metafísico, já é um claro prenúncio de simbolis- maleabilidade, uma flexibilidade e um requinte
mo que se apresenta em Novalis, e mesmo de ten- incríveis: "Exijo, declara ele, uma versatilidade
dências bem mais modernas, se se quiser pensar infinita do intelecto culto que pode retirar-se de
em Valéry e outros desenvolvimentos da poesia tudo, virar e inverter tudo, confonne queira" . A
pós-mallarmaica. Por isso não é de admirar que, mesma exigência, leva Friedrich Schlegel a es-
a seu ver, " A poesia também já não tem mais crever: "Um homem muito livre e culto deveria
a tarefa de comunicar-se, a não ser com os inicia- poder afinar-se à vontade, de um modo filosófi-
dos", palavras que proclamam pela primeira vez co ou filológico, crítico ou poético, histórico ou
os direitos do hermetismo na poesia, pois esta retórico, antigo ou moderno, bem arbitrariamente,
tem de ser hieroglífica para poder sondar as pro- da mesma forma como se afinam instrumentos, a

UM ENCERRAMENTO 287
qualquer hora, em qualquer grau". Trata-se de verdade, a introspecção pietista, ao buscar 0 1
uma ductibilidade capaz de apurar-se não impor- fundamentos da fé na interioridade do sujeitos
ta em relação a quê e cujo portador "deve sen- torna-se também, ine~itavelmente, uma maneir~
tir-se, portanto, em disponibilidade ilimitada para deste perscrutar-se a s1 mesmo como subjetivida-
com as mais diversas tendências. Para alguém de. O eu se coloca diante de um espelho, que é
caracterizar alguém, alguma pessoa, precisa ser ele próprio; desdobra-se. Ora, perdidos os fins
ele mesmo, isto é, a mesma pessoa e, apesar e o objeto superiores desta busca, restam os
disso, outra". Isto significa que não é possível meios, entre os quais se incluem o próprio objeto
configurar outrem, sem se identificar com ele, imediato e ponto de partida, ou seja, o homem
pois do contrário não existirá objetividade para como indivíduo. 1=:· nele que se concentra a ironia
a caracterização. "Ou então", prossegue Schlegel, romântica, sobretudo sob a fonna de auto-ironia.
"para entender alguém que, não obstante, só en- Neste processo de auto-análise, o desdobramento
tende pela metade, é preciso entendê-lo primei- multiplica-se, na medida em que gira em tomo de
ro totalmente e melhor que ele a si próprio, para, si próprio. Assim, uma parte do eu converte-se
em seguida, só entendê-lo pela metade, exata- em objeto, enquanto a outra se mantém como 0
tamente como a metade de si mesmo". sujeito que ironiza. Mas . .no trabalho de análise,
~
o eu, no intento de obJettvar-se, e forçado a um
Como se verifica, pelos textos citados, nesta · movimento constante de retrocesso sobre si mes-
demanda de uma disponibilidade infinita, de mo, isto é, vai se esfoliando a fim de desdobrar-
uma leveza absoluta, de uma capacidade de -se na parcela que está sendo objetivada espe-
integrar-se em tudo, de afinar-se por todos os cularmente diante da outra parcela, que tem de ser
modos, isto é, nesta espécie de gratuidade total, há a do sujeito ironizante. 1=: evidente que, sem um
sem dúvida muita agilidade, muita ligeireza, mas centro efetivo de reintegração, praticado com in-
antes de tudo, talvez, uma certa leviandade, uma tensidade, de fato levado ao extremo por um
certa perda de substância. O homem que sabe subjetivismo radical, tal exame teria que produ-
identificar-se a tudo, em última análise não pode zir não só uma verdadeira autodilaceração, uma
identificar-se a nada. Essa ironia que pretende autofragmentação contínua, como uma ironia
pairar acima do que quer que seja, que se pro- niilista, cuja expressão contundente se encontra
põe a ter um vigor que supera qualquer coisa, essa nas novelas de E. T. A. Hoffmann ou Achim von
ironia acaba sendo nada mais do que expressão Arnim, mas também em Gérard de Nerval, na
máxima do niilismo, cujo surgimento no contex- França, e em outros românticos. Todos eles têm
to do Romantismo não é, pois, um subproduto em comum um certo modo de posicionar-se em
acidental, mas uma conseqüência natural, radi- face de si próprios que os leva a verem-se como
cada no próprio espírito deste movimento. reflexos especulares. Tal relação gera simbolis-
Mas a máxima ironia dos românticos é ou- mos típicos, como os das imagens que podem
trossim expressão típica de um grupo de jovens ser retiradas do espelho como entidades à parte
que vivia diante do espelho de sua consciência. ou as projeções sombrosas que são separadas do
Há neles um autêntico dandismo intelectual, mui- corpo projetante. Não é fortuito que uma das
to característico de Byron, por exemplo, mas grandes expressões do Romantismo venha a ser
também dos demais românticos. 1=: uma intros- a figura de Peter Schlemihl, a personagem que
pecção bastante intensa que deriva igualmente, vendeu a própria sombra.
em boa parte, de fontes religiosas, do pietismo Essa representação do homem essencialmen-
em particular, cujo papel foi ressaltado na te dividido, porque alienou uma parcela intrínsec_a
palestra sobre "Romantismo e Classicismo". Na de si mesmo, reponta no temário romântico em di-

288
ferentes encarnações. L'ma das mais freqüenta, immcdia,.clmcntc como um ser objetivo cm f a-
mesmo parque incorpo~ um mito extremamente cedo cu.
d&f uodado no mundo cristão, ~ a do pacto com Após um largo círculo, cm que se procurou
{orças anti-humanas. satânicas, personalizadas distinguir a profunda mudança de enfoquc pro-
00 não no diabo. O f aw-to. de Goethe, ~ um mo\·ida pela ironia romântica e os efeitos dilace-
cie-rnplo. o Conde dt ,\ lonit Cristo, de Dumas radores que produziu na Vlsão do homem. en-
IW• outro. ~las a cisão que se revela na alma contramo-nos de novo diante daquele ponto para
ou na sombra alienada também assume a forma o qual a dialética da fragmentação fez con\'crgir o
do sósia e do duplo, da criatura que se desdobra Romantismo. imprimindo-lhe um de ~eu, traços
e se depara consigo mesma como réplica. e marcantes : o da angústia e ao mesmo tempo vo-
0 que acontece muitas vcz.c-s nos contos de Hoff- lúpia da síntese. T rata-se, pelos fatores que dis-
mann. Fenômeno semelhante se dá com o retra- cernimos em parte. de um escapismo que busca
to que se toma independente do modelo e que as idades sintéticas. a esfera do uno, que almeja
se modific~ como no Dorian Gray de Oscar atingir a grande sintesc em todos os planos. mas
Wilde, um autor que retoma em âmbito simbolis- principalmente na criação artística. Aí. seu ideal
ta esse moti\"O romàntico. !",;o Romancismo. pois, é a obra de arte torai, integradora de todas as
emerge com maior nitidez a figura do homem- obras, que reúna todos os g~neros e todos os
-joguete, o indi•.íduo cujo inconsciente, uma for- ramos da cultura, fundind~ e exprimindo-os
ça misteriosa em seu íntimo, se projeta para fora na arte. Para ela. segundo Fncdrich Schlegcl.
como espectro, ou algo análogo, que o assombra devem confluir filosofia, retonca. gramática.
e o converte em seu joguete. 1:. a metáfora da ciência. Tudo is.so é enfonnado na produção de
marionete, tão fundamental na ficção de Hoff- arte não apenas por moldagem externa. mas
mann, e que é em geral função da auto-ironia igualmente por corre~pondênc1as íntimas que nela
romântica, que divide e esfacela o homem, que revelam suas afinidades. Dai a preocupação cons-
emana do eu e no entanto mostra o indivíduo tante em misturar e ligar os ~entidos entre si,
como fantoche, enquanto títere de forças inson- o interesse quase obsessivo dos românticos pelas
dáveis. que ele mesmo não consegue dominar e sinestesias. Muito antes de Baudelaire proclamar
das quais não sabe dar conta. Até cm Büchner, que "Lcs parfums. ks couleurs ct lcs sons se
que a bem dizer não faz parte do Romantismo - repondent" ('"Correspondences"), di21a Lud-
embora seja muito influenciado por ele - a ma- wig Tieck: ..Como'? Não seria permitido pen-
rionete é uma forma essencialmente "desrealiza- sar através de sons e fazer música através de
dora" de uma visão integrada do ser humano, palavras e idéias? Não pensais por vezes idéias
que neste caso surge como joguete de forças his- tão requintadas, tão espirituais que elas por de-
tóricas e sociais, não menos insondáveis. Na sespero se refugiam no domínio da música? Só
verdade, o que se coloca aí, com plenitude, é para encontrar repouso? Ah! minha boa gente. A
um dos temas cruciais do mundo moderno, o da maioria das coisas se toca mais de perto do que
alienação. Embora o termo seja usado hoje de supondes". A seguir. fala em flautas que soa-
uma maneira um tanto ampliada e borrada, o riam em tons azuis. de um espírito azul a tocá-las
seu princípio, com suas implicações psíquicas., como solista e de música nelas executada que
sociais, humanas, já se apresenta nestas simboli- nos levaria. quando a ou\·imos, a distância azuis.
zações românticas. Nelas, é drasticamente confi- A. \\'. Schlegel. um dos chefes do movimento
gurada a condição de um ser que se desdobra cm romf&ntico na A lemanha, escrevendo a Carolina
outro, que é ele mesmo mas que não consegue Schlegel, observou: ''Dever-se-ia aproximar to-
reconhecer-se em si próprio e que se lhe antepõe das as artes, buscando transições de uma para

UM ENCERRAMENTO 289
et je. J'entend~ qui chante/ Dans lcs clocbes . . ,,.
outra. Estátuas talvez se convertam, e!11 q~adrpoo:~ ou ainda, mais modernamente, um cxpre . : ,
mas poemas em musica. .e. ..A · . . SSIOntst..
quadros em poc ' , . sacra se erga um como Georg T ra kl : mma1s azuis que '41
. , Ih ressoa
sível que uma fonnosa musica " Um en- debaixo das arvores, o os repletos do . ni
dia no ar transfonnada em templo . p ti noturno", .. Vermelho e Verde soando r~p•car
d.a mesma ordem induz outros roman - · 1a " (" D.1e B auern ") , " D oçura de i •ante
sarnento . M"chclângelo teria pintado d a Jane
c
os a considerar que 1
ltor Rafael como um arquiteto,
. , d
no purpureo vento a noite
. ,, ( '
'Helianº) . nccnso
como um escu ' od rte o Se as sinestesias ajudaram a abrir as
Correggio como um músico. Em t a pa '
Romantismo ressalta e valoriza est~s t~anspo- portas da imaginação romântica, permitind:lmh-
siçõcs e integrações das artes. Or~, nao sao pre-
.
eni:19uecer co~s1'der_ave l ment_e . a sua expressãoe
cisamente elas que têm caractenzad? as preo- poet1ca, esta nao fo1 a sua umca função no R
cupações modernas no domínio artístico? O q_ue mantismo. Pois, num plano mais profundo o-
se vê nas manifestações de vanguard_a, na ~es1a; medida que se trata de captar por via poé~ic"ª
no teatro, no cinema ou nas produçoes . plás~1cas. -criativa um saber íntimo das coisas e dos ~
Não são quadros buscando a t~idimension~hdade res, servi ram elas para verificar ou estabe1~-
da escultura. massas esculturais . confundmd_o-se suas corre·spondências e afinidades. Na realida~
com superfícies pictóricas, música assu~mdo de, sob a influência não só do idealismo, como
concreçõcs plásticas, poesia querendo dommar o ainda do pensamento oriental e particularmente
espaço e falar a linguagem visual, est~tura e _mo- do misticismo de Swedenborg, cujo impacto se
vimento em incessante procura de mtegraçao e estendeu desde Blake, Balzac e Nerval até os
conversibilidade? Na arte cênica, uma divisa no- simbolistas e Strindberg, os românticos se en-
tória de suas tendências mais atuais não é a do tregam em sua cosmovisão a uma verdadeira
"teatro total"? Aliás, não foi este movimento de teosofia.
totalização que constituiu o fulcro dos esforços Em todos os níveis do universo, dizem por
de Appia e Craig, lançados nesta direção J?Clo exemplo Fried. Schlegel e Novalis, o poeta magus,
Santo Graal wagneriano da obra de arte conjun- encontram-se relações simpáticas, afinidades al-
ta (Gesamtkurstwerk)? Do cinema, nem é pre- químicas. eletivas, corno se chama o famoso ro-
ciso dizer que, explorando suas possibilidades no mance de Goethe. Tais correspondências, tanto
campo das conjugações artísticas, uma de suas in- para Novalis quanto para Baudelaire, se revelam
dagações, senão tentações, tem sido a da síntese sob o toque da varinha mágica da analogia. Não
integral. é por invocação casual que Baudelaire, leitor de
Mas não há dúvida que para os românticos o Hoffmann. cita no Sa/o n , urna passagem dos re-
principal campo de pesquisa das confluências latos sobre Kreisler, onde se diz: "Não é apenas
sintéticas foi a das sinestesias. Aí, foram pionei- em sonho e no ligeiro delírio que precede o sono,
ros, tendo-as usado e teorizado de tal modo que é ainda desperto, quando ouço música, que en-
prepararam efetivamente o caminho para o sim- contro um a analogia e uma reunião íntima entre
bolismo. Assim, é em suas pegadas que um as cores. os sons e os perfurnes". As obras de
Rimbaud pôde dizer: "J'inventai la couleur des Hoffmann e Novalis, em especial. estão repletas
voyelles! - A noir, E blanc, / rouge. O bleu. V destas relações que, exaltadas por sinestesias con-
vert. - Já réglai la forme et le mouvement de vertidas cm leitmotiv, se constituem em temas
chaque consonne. et. avcc des rhythme~ in~tinctifs. constantes das novelas e poesias de ambos os au-
je me flattai d'inventer un verbe poétique acessi- tores. Assim. por exemplo, o leitmotiv da "flor
ble, un jour ou l'autre, à tous les sens". ("Alchi- -azul". que é o símbolo da nostalgia ou saudade
mie du Verbe"); ou Mallarrné : "l'azur triomphe, romântica. esse motivo condutor é variado nas

290
sp0ndên..:ias ~01n luzes azuis, rochas azuis, Sma, entretanto, injusto pretender que o
i:ortt,...3s audim isua1s, como a flauta e o seu tom Romantismo só se evadiu do mundo prosaico, cin-
reme;,., . e . 1
l, e as~im p0r diante. . om isso, natura ~ ente, zento, da realidade A seu modo ele também o
azu ura-sc significar a unidade real do umvcrso, enfrentou Pelo menos procurou dar conta de
pfOCd.
a cSr neito Je ,ua aparência multi(ária, porque
, . t'- , •
sua desordem e de sua mi~éna at ra,és do grotesco.
• e,~êncla e espmto. e o mesmo espinto Mobilizando tudo o que, na existéncia humana,
cudl) 1: 01 • - f .
fe\tando--:,c cm , anaçoe enomen:ns aparen- lhe causava aversão, o espetáculo do contraditó-
rnantnte dl~paratada,. Ma, todos ec;c;,ec;, fenômenos rio e absurdo, articulou estes elementos num re-
temevem de c,cult.i, e m1,tenoc;as relaçocs- s1mp. á-
trato contundente quando não monstruoso, gra-
P~
(11.:3
e;, que ,e traduzem nas sinestesias. segundo a
• • •
ças a um meio estilístico que se não era novo,
. ·c1ha 0 u telhOÍla romantica. não era muito explorado até então, já por seu
1
flos
Para ~(\\alis. ~omo f 01. d',to antenormentc,
.
caráter chocante e perturbador. De fato, o gro-
..0 mundo nada mais é senão um tropus univer- tesco, tão congenial à arte contemporânea, foi
sal do e,pinto. uma imagem simbolica d~~tc", ou efetivamcnte promovido pelos românticos, que
ão pas,a Je uma roumure metafonca, um mais uma vez se mostram os al-·ant-couritrs de
seJa, nlt' Ja e,pintuahdad e que ne le rcs1'd e, vive
. nossa época. Goya é um exemplo frisante. Em
simbo . • . .
e rcpüusa. Temos aqu1 em essenc1a a transpos1- obras como Os Caprichos, Os Desastres da
- em outros termos da sentença do Fausto on- Guerra, o disforme, o desarmônico e o desequi-
~:o Goethe d,z : "Alies verg.ingliches ist nur ein librado compõem a imagem mutilada do homem
g1eichnt\\ergle1ch". tudo o _que é per~cível ~ ape- e de sua cxislência dilacerada. t a estética do feio,
nas um:i imagem comparativa, uma f1gu raçao da- cujo papel irá avultando cada vez mais na criação
quilo que e,ta por tra . do espirita que se e~c.on- arti~tica a partir do Romantismo e de Baudelai-
tra alem do cransuono. f: um pensamento mttda- re, que começa a aflorar como manifestação es-
mente neoplatônico. tilistica não só da estranheza e desajustamento,
da indignação e do protesto do artista cm face
Numa \;<;ão dessa natureza. o mito retoma o do espetáculo do mundo e da sociedade, como
cetro e o conto de fadas tom a-se o ápice da poe- também de sua exigência de uma arte menos
sia. "Num conto de fadas. escreve Novalis, tudo epidérmica, mais consentânea com as regiões
de\'e <;er maravilhoso e desconexo. E tudo deve profundas do ser e com a variedade contraditória
ser animado", isto é. tudo deve estar repleto de do universo. Os anúncios desta tendência se en-
vida. de , ida e,piritual. "O conto de fadas é, no contram não apenas no mestre espanhol, pois
fundo. imagem onirica - sem nexo - ensemble eles não são menos palpáveis em William Blakc.
de coi<;ac; e e\entos maravilhosos. T ais contos Assim. o grande mÍ!)tico e precursor do Roman-
são sonhos daquele torrão pátrio que se situa em tismo inglês apresenta num de seus trabalhos
toda a parte e cm parte nenhuma ... " - ~cres- um menino que é a inocência personificada, mas
centa o poeta, deixando transparecer ate que de cujo nariz saem vennes: na própria pureza se
ponto o anseio de remitizar o universo é t~~bém infiltra a corrupção, parece dizer esta composi-
o desejo. a expectativa, a saudade do que Jª per- ção terrivelmente grotesca.
tence a outra esfera, entrevista somente através
Verifica-se de pronto que o grotesco é uma
do sonho. Porque o mundo real, infelizmente, é expressão de desordem ou, ~orno propõe Wolf-
contraditório e disparatado como tal. Carece da- gang Kaiser, no seu conhecido estudo sobre ?
quela unidade que constitui o anelo permanent,e assunto: o grotesco nasce da desordem dos m-
dos românticos, que a buscaram no plano do ~1- veis do ser, isto é, sempre que se produz u~a
tico. do onírico, do fantástico, como expressoes perturbação na ordem das coisas em seus vãnos
sensíveis da pura espiritualidade.
UM ENCERRAMENTO 291
expostas ao apolíneo, é outro. A tentação d
homem se vê incapacitado de exer- . d . 1 . .. estas
estratos e O - orre o regiões escuras, os 1mpu sos pnm1t1vos, das f
cer qualquer ação restauradora, ent~~ ~c as que vêm do inconsciente, é uma const or.
fenômeno estrutural cujo efeito est1hst1co ~ o
Ç . Deb ruçan do- e qu ase mo h:d ante
no Romantismo.
, ·
grotesco as camadas onto 1og1cas se mesclam · fe. o mente sobre o patológico, excêntrico e extr~ a.
que suc~de se o ente humano aparece lfª?s or- gante, seus te~ as p_redilet~s giram em torno ~a~
mado em marionete, isto é, um ser orgamco se mesmerismo, h1pnot1smo, incesto, adultério e e .
converte cm objeto mecânico: ou no caso de . urna me, bem como da homossexualidade. Ora. 0 g n-
planta a transmutar-se repentinamente em an~mal, ·1- . r0-
tesco é um recurso esu 1st1co particularment
0
animal em figura humana - o homem se ,eduz ad:quac.lo pa ra tal univcr~o e ~c u ríct u-,_ '-Jllc é e- ue
a traste ; ou ainda quando o homem é metamorfo- face satânica e tétrica do "anjo maldito", fazen~
seado em bicho, mas guarda o rosto humano. No do-os saltar à superfície expressiva da obra ar.
Ubu Roi, de Jarry, que inicia o teatro do abs~r-
títica justamente por compulsão das oposições
do, a personagem que dá o título à peça é descnta radicais que seus traços envolvem.
com feições de porco.
A visão grotesca se instala amplamente na Temos aí aquilo que Hugo chamou "Le grand
arte, com os românticos. Fried. Schlegel, . Jean rire infernal", isto é, a mistura do cômico com 0
Paul e Victor Hugo já são seus teonzadores. trágico na gargalhada impessoal que parece bro-
Baudelaire utiliza-o, em "Une Charogne" por tar dos árcanos do demoníaco. Algo semelhante
exemplo, um poema extraordinário, sobre um também aparece em Hoffmann. Assim, em cena
cadáver em putrefação, para criar um novo efei- passagem, diz ele de uma personagem : "Curiosa-
to estético, que ele chama de f risson. J;: um "'arre- mente, o rosto do major tinha algo de choroso.
pio", um choque a nascer da união formal, na tinha algo de choroso quando ria". De outro
obra de arte, de elementos basicamente diferen- lado, parecia que estava rindo quando era toma-
ciados ou antitéticos nos respectivos planos de do de fúria, da raiva mais selvagem. Mas preci-
conteúdo e expressão. De sua combinação e no samente esta feição grotesca imprimia-lhe no
entanto embate, que é, por exemplo, a do cari- semblante um aspecto choroso que causava
cato, mecânico, rígido com o proporcionado, pavor nos mais corajosos, segundo a caracteriza-
orgânico, flexível, resulta, sobretudo na compo- ção de Hoffmann.
sição tragicômica - tão cultivada pelo Roman-
tismo nas várias artes - um quadro violenta- O grotesco também faz parte de urna outra
mente conflituoso e dramático mas abrangente descoberta ou redescoberta romântica, que adqui-
da condição humana e da relação homem-mun- riu grande importância na arte de hoje: o dioni-
do. síaco. Graças a ela, Dionysos, o deus irracional,
Mas certamente não é a amplitude nem a ínfero, telúrico, ressuscitou mais uma vez para
riqueza objetivas da apreensão ou da represen- a celebração de seu mistério. E uma de suas
tação da "realidade" que atraem especialmente primeiras aparições, no contexto do Romantismo,
a sensibilidade romântica para o grotesco. Muito foi num drama de Kleist, Pentesiléia. Numa cena
mais importante neste sentido é o seu interesse com forte acento patológico, Pentesiléia, depois
por tudo o que se processa acima ou abaixo do de ter morto seu amadíssimo Aquiles, começa a
"justo meio", além da linha do normal. A esfe- comê-lo. Este prato de antropofagia amorosa não
ra do sublime, do heróico, do incontido para o soube bem ao paladar de Goethe. Seu classicismo
alto, é um desses aspectos. Mas a de baixo, prin- enojado revoltou-se: "Mas que coisa horripi-
cipalmente lá onde o dionisíaco reina em suas lante, como é que ela pode fazer uma coisa des-
manifestações mais ínferas e subterrâneas, menos sas? O Romantismo é uma doença desta época··.

292
Ainda que a definição de Goethe seja justa
ate certo pnnto. o Romantismo não foi só isto.
Ele significou também uma tremenda ampliação
dos meios artísticos. Sua heterodoxia estética foi
0 ponta de 1ança que, buscando o original e 0
inusitado, o individu al e o local, abriu novos
conteúdos. hori10ntes inteiramente inexplorados
até então e que iluminaram a vida humana em
aspectos senão insuspeitados pelo menos evita-
dos em sua profundeza. Abordando-os, lutando
pelo direito de abordá-los, mesmo quando repe-
lentes, ele pavimentou não s6 o caminho logu
trilhado pelo realismo e naturalismo, como o da
arte de hoje. no seu anseio de ir aos últimos ex-
trcmn-;. nn uni,·erso do humano. muito humano ...

Cu,11hat1' c11trc o G iaour ,. o l'ar,í. O ela croíx, 1827. J/0111/et <' 1/orâcio junto à Sepultura. D elacroíx. Pa ris,
C htl'.t!,!u. Art l n,11111 11.'. Louvre.

UM ENCERRAMENTO 293
H,,lpl, li ,dtlo f.111t rwu I uto JC' 1 11101 e I rcy I onJr..:, f ro11çu1J ffr nt' dr ( hu11•(11./>r,a,I(( 1 atogrJ fa..a de Hclh;m.J

Curl Jc11u1 Lo," ,-.l111q11111 PanlltrJ Jc \L11cr Thu111aJ ( urhl<- P antur.1 de J.,mc, \\ h l\tkr
CRONOLOGIA DO ROMANTISMO

J. Guinsburg / Esther PrisHulnik

1: extremamente difícil enquadrar o movimen-


to romântico em termos de datas, pelo m,enos as
iniciais e finais. Isto porque. nos principais cen-
tros de sua manifestação, ele se liga e se sobrepõe
no mínimo ao que é chamado de Pré-Romantismo
·' e, em alguns casos, à Ilustração, a qual também
1
' apresenta, às vezes. traços romantizantes ou ex-
~ 11
pressões pré-românticas. Cabe ainda considerar
que, no continente americano, em função de sua
dependência cultural da Europa e ao mesmo
tempo na medida em que começa a libertar-se
dela, sua aparição é tardia, coincidindo em cer-
tos casos com seus derradeiros momentos no
mundo europeu, onde, entretanto, seus prolon-
gamentos avançam pela segunda metade do
século XIX, não só através de seus representantes
diretos. como daqueles que se convencionou cha-
mar de ultra-românticos. enlaçando-se mesmo
com o Simbolismo e o "Decadentismo" do fin-
-de-siecle. Assim sendo, para dar uma idéia dos
parâmetros temporais e históricos do Romantis-

CRONOLOG IA DO ROMANTISMO 295


nw. a maneira mais razoavel calvez ~cja a lk tra-
çar um quadro cronologico das obra~ de algum
modo significativas que. nos vário~ dom111io~. a,,i-
nalam a presença do espirito romântico. ou Clllll
ek coe,bciram . entre a decada de 17(10 e a Je
1860 - datas evidentemente arbitrárias mas que
não dci\am de indicar l) àmbito do fluxo e rdlu xo
da corrente.

C1ucm11u Lc·opt1rd1 , Pintura lk D . \ Jurt:11,

296