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Francisco de Assis - emillysimone@gmail.com - CPF: 705.174.

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A Gramática divide-se em três grandes partes:
Fonologia/Fonética, Morfologia e Sintaxe.

Resumindo (e simplificando) a história, o negócio da Fonologia/Fonética


é analisar o aspecto sonoro das palavras.

Como assim, sonoro? A Gramática não é aquele troço que estuda a língua
escrita? Que fica lá caçando pelo em ovo nas letrinhas dos livros?

Livro lá tem som?

Sozinho, até onde eu saiba, não. A não ser que estejamos falando de
audiobooks, a nova moda do verão; ou de um livro saído do Harry Potter.1

Por que as gramáticas começam falando de Fonética e Fonologia? A gente


abre o bendito calhamaço de 500 páginas e topa com uns desenhos
estranhos e nomes como palato duro, cavidade bucal, esôfago, epiglote,
abóboda palatina, cavidade nasal e outras simpatias.

Ora, as gramáticas começam já descrevendo o aparelho fonador (as várias


partes do corpo com as quais produzimos os sons da fala) por um motivo
muito simples: antes de tudo, a língua é som.

A língua escrita, alfabética, é uma tecnologia


posterior à língua falada. Foi inventada, tem
origem histórica mais ou menos exata e sofreu
ao longo dos séculos várias mudanças
explicáveis por influências culturais e
tecnológicas.2 Como nos bebês, a linguagem

1
Leia-se "do universo fantástico criado por J. K. Rowling, cujo personagem principal é um fedelho
com uma cicatriz de relâmpago na testa”. Em vez de escrever tudo isso, coisa que arruinaria a piada,
escrevi só Harry Potter para significá-lo inteiro. Parabéns, você acabou de aprender uma nova figura
de linguagem: a metonímia.
2
A leitura mental, por exemplo, em oposição à leitura em voz alta, não foi prática corrente durante
séculos. Só quando ela começou a ser mais praticada é que foram surgindo sinais de pontuação e
até mesmo os espaços entre as palavras. É isso aí: antes, não havia espaço entre as palavras, e
quase não havia sinais de pontuação. O leitor tinha de ler o texto em voz alta e adivinhar-lhe as
pausas, ênfases e sentido com o auxílio da voz. Quando os monges e pensadores cristãos
começaram a praticar a leitura mental, ao longo do tempo foram-se criando ferramentas de
pontuação para suprir a lacuna da voz.

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surge primeiro como sons. As gramáticas seguem essa lógica.

Afinal de contas, como é que se produz o diacho de um som?

Primeiro, expele-se ar pelos pulmões. O ar expelido só pode sair por um


lugar (pelo menos o ar que sai pelos pulmões, né… existem outros ares, mais
intestinais e gasosos) — a boca. Porém, antes de sair tem de passar por um
corredor polonês biológico. Pode ser achatado, espremido, cortado e até vir
a óbito, o coitado.

Em segundo lugar, vem a laringe. Tem ela nove músculos e várias


cartilagens, como a gente tem nas orelhas. As pregas vocais (ou cordas) são
cartilagens. O som transforma-se a depender de em qual posição estão as
pregas — se abertas, se espremidas, se fechadas (em cujo caso o som tem
de atravessá-las à força).

Depois, temos a boca inteira. Tente falar aí sem mover a língua ou com os
lábios trancados.

A Fonética estuda todos esses movimentos articulatórios. Estuda, portanto,


a criação física e corpórea dos fonemas.3

“Raul, que é um fonema, pelo amor de Deus?”

Os fonemas são as unidades sonoras significativas


mínimas da língua — ufa!

Que raios isso quer dizer? Quer dizer que se você fatiar uma palavra,
dividindo-a em partes até chegar àquelas partes mínimas que têm
significado, terá chegado aos fonemas.

Fonemas são sons, e não letras. As letras são a representação gráfica dos
fonemas. “Gráfica” porque são sinais que exprimem por escrito realidades
sonoras.4 Fonemas falam-se e escutam-se; letras escrevem-se e são lidas.

4
Aliás, nunca é demais lembrar que o princípio alfabético é precisamente este: que cada símbolo
gráfico (letra) representa um fonema. Um som.

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Ou seja: interessa-lhe saber como os diversos órgãos do nosso corpo
arranjam-se para produzir o “e" aberto de café ou o “e” fechado de vê. Em
que posição está a língua? Bate-se contra os dentes? Aponta para o céu da
boca? Fica alta, baixa? O som ressoa inteiro na cavidade bucal ou parte dele
ressoa na cavidade nasal? As cordas vocais estão fechadas ou abertas? E a
epiglote? E sei lá mais o quê?

Além de descrever exatamente o que faz nosso corpitcho para produzir


cada um dos sons da língua, a Fonética também ocupa-se das diversas
pronúncias de um mesmo fonema — ou som. Quantas são as maneiras de
se pronunciar um “t” sem fazê-lo perder o seu sentido e transformá-lo em
outro fonema? É um “t” que soa como “x” ou o “t" nordestino, límpido, criado
pelo estalar da língua entre os dentes?

No geral, a Fonética não nos interessa.

Fonética é uma parte importantíssima dos estudos linguísticos — mas não


para nós. Não cai em provas; sabê-la de cor e salteado não fará você
escrever ou falar melhor. Sua leitura não ficará mais rápida ou profunda ou
exata se souber que a vogal “a" está na zona de articulação média, porque é
criada "com a boca ligeiramente aberta e a língua quase na posição de
repouso."

Com a Fonologia, a coisa já fica mais interessante.

A Fonologia estuda os sons que são distintivos de significados entre as


palavras. Ou seja: entre a vogal fechada de “avô” e a aberta de “avó" não
existe simples diferença de pronúncia. Existe diferença de significado.
A Fonologia quer saber dos fonemas enquanto unidades significativas. Isto
é, está pouco se lixando se o p de pato produz-se na parte de trás da boca,
ou se o g de gato tem de fazer força contra as cordas vocais para produzir-

Antes, o que tínhamos eram ou pictogramas, desenhos que se assemelhavam às formas por eles
designados (como o desenho de um boi, ou o desenho de ondas para representar água); ou
ideogramas, imagens conceituais de ideias abstratas.

As letras do alfabeto, não. Cada uma representa um som diferente.

Isso não quer dizer que cada fonema corresponda perfeitamente a uma letra, e vice-versa. Há
incongruências, sim. O “h” de “homem”, por exemplo: é escrito, mas não pronunciado. Inversamente,
o ditongo no final de cantavam é pronunciado, mas não escrito.

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se. Quer saber do seguinte: gato e pato têm sentidos completamente
diferentes só porque um fonema foi trocado.
Faz parte da Fonologia, também, o estudo da construção dos fonemas
vocálicos, semivocálicos e consonantais — as famosas vogais,
semivogais e consoantes.

O critério classificatório de vogais e consoantes é sonoro e silábico.

Sonoramente, as vogais são os fonemas que se produzem sem qualquer


obstrução à passagem do ar por alguma das partes da cavidade bucal.5 6
Silabicamente, as vogais são a base indispensável de uma sílaba. Não
existem sílabas sem vogais.

Sonoramente, as consoantes, por sua vez, invariavelmente são produzidas


à força de algum obstáculo na cavidade bucal. O “t”, por exemplo, que é
criado com o estalo da língua que recua dos lábios. Silabicamente, as
consoantes precisam do apoio das vogais para que possam ser ditos. São
fonemas maria-vai-com-as-outras — sendo “as outras” alguma vogal.

Já as semivogais são os fonemas que não cortam nem pra lá, nem pra cá.
Nem são vogais completas, se bem tenham som vocálico, nem são
consoantes completas, se bem precisem do apoio de outra vogal “cheia”
para que existam. São o meio-termo entre vogais e consoantes. Têm
características de ambas. Semivogais são as vogais i e u quando
acompanham alguma das outras três vogais numa só sílaba (calma, já
falaremos sobre isso).

Se os fonemas são as menores unidades sonoras significativas, a próxima


etapa da análise é partir para uma unidade maior de constituição da palavra.
São as sílabas. Sílabas são as junções de fonemas que produzimos com
uma só emissão de ar.

5
Aliás: não temos 5 vogais, e sim 12. Por quê? Porque temos 12 sons diferentes. Temos sete vogais
orais (a, e, é, i, ô, ó, u) e cinco nasais (an, en, in, on, un).
6
Importante: às vezes, alguns professores dizem que as vogais são os fonemas que se produzem
"sem qualquer obstrução à passagem do ar”. Isso é falso. Tanto as vogais quanto as consoantes são
fonemas sonoros — isto é, fonemas que são produzidos com as cordas vocais mais ou menos
fechadas, causando-lhes vibrações. E mesmo os fonemas surdos (/s/, /f/, /x/, /t/, /k/, etc.), que
são produzidos sem roçar nas cordas vocais, têm de vencer alguma obstrução criada na boca.

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Para dizer “ba" ou “por" ou “que" você produz uma só corrente de ar, não é?
Sai tudo numa só tacada; de uma vez. Eis as sílabas.
A estrutura de uma sílaba é simples: primeiro, como já vimos, não
existe sílaba sem vogal. Por quê? Porque algum gramático desocupado e
puto de raiva por ter levado um chifre da mulher resolveu criar uma regra
aleatória?

Não, ué. Não existem sílabas sem vogais porque não existe emissão sonora
sem vogal, lembra-se? As consoantes e semivogais têm de se escorar nas
vogais para que possam ser ditas. Sozinhas, são fraquinhas. Tênues. Quase
uns fantasmas. Precisam do som encorpado das vogais.

Tente dizer um “b" e prolongá-lo sem transformá-lo em “bê”. É impossível.


Portanto, diz Cegalla que a vogal é “o elemento básico, suficiente e
indispensável para a formação da sílaba”.7

Uma sílaba pode ser uma só vogal, por exemplo: aí, com acento agudo no
“i”, tem duas sílabas. 8 Não acontece o mesmo com o “ai” interjeição,
palavrinha que as moças de família dizem quanto metem o dedão na quina
do móvel (homens soltam outra interjeição, menos amigável). Por quê? Não
saberemos hoje. Ainda não chegamos aos acentos.

Voltemos às sílabas.

Uma sílaba pode ser a junção de uma consoante + uma vogal. É a estrutura
silábica mais frequente em português. ca.sa.co, por exemplo. Pode também
ser invertida, e a vogal anteceder a consoante: ar, por exemplo.

Pode também ser a junção de uma consoante + uma vogal + outra


consoante. Como em fe.liz, por exemplo.

Além disso, existem as sílabas com encontros vocálicos. Como assim,


encontro vocálico? É simples. São duas ou mais vogais em uma só sílaba.
Ou, melhor dizendo: vogais e semivogais. Explico-me:

Lembra-se de que eu lhe disse que uma semivogal tem som vocálico, mas
como as consoantes precisa do apoio de uma outra vogal para ser dita? Isso

7
Novíssima Gramática da Língua Portuguesa, pág. 24.
8
Tecnicamente, um hiato. Mas já vamos chegar lá.

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quer dizer o seguinte: quando duas ou mais vogais caem na mesma sílaba,
uma delas toma para si o palco. Uma delas será inevitavelmente dita com
maior ênfase, e as que restarem só lhe acompanharão os passos.

Se forem duas vogais numa mesma sílaba, teremos os ditongos. Isto é:


vogal + semivogal.

Podem ser crescentes, quando a vogal com maior ênfase é a segunda, e,


portanto, o som cresce ou aumenta: quadro, tranquilo, aquoso.

Ou decrescentes, quando, inversamente, a vogal mais empoderada vem à


frente: caixa, leite, Paula.

Se tivermos três vogais numa só sílaba, teremos os tritongos. Não existem


tritongos crescentes ou decrescentes. A disposição será sempre semivogal
+ vogal + semivogal. Como num sanduíche que as semivogais são o pão, e a
vogal o ovo frito.

Em último lugar, temos os hiatos.

— Que são hiatos? - você me pergunta. E eu lhe respondo: os hiatos são os


únicos encontros vocálicos reais. Porque não se trata de vogais com
semivogais, e sim de vogais com vogais. Porém, nos hiatos existe uma
diferença fundamental: estão sempre, sempre em sílabas separadas.

Lembra-se do “aí" com acento agudo? Pois é. Eis um hiato. Repare que, para
dizê-lo, são precisas duas emissões de ar. Já o “ai” sem o acento é uma sílaba
só; portanto, um ditongo decrescente.
Para terminar a história: todas as palavras9 têm uma sílaba tônica. Em todas
as palavras, uma das sílabas sai mais forte e proeminente do que as outras.
Só entendemos uma palavra quando captamos qual é sua sílaba tônica.10

9
Isto sem contar, claro, as monossilábicas, que têm uma só sílaba: oi, sim, réu, pó, sul, etc.
10
A intelecção que têm as crianças, por exemplo, de suas primeiras palavras dá-se por meio do
reconhecimento da SÍLABA TÔNICA. É a diferença entre repetir a-ba-ca-te, dando a todas as
sílabas igual peso e importância, e dizer abacate com plena e exata carga semântica.

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