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O MEDO DE AMAR:

O drama das adições e compulsões

1 Edição – 2010
Editora ITPOH
P436m - Pereira, Salézio Plácido - O Medo de Amar: O
drama das adições e compulsões / Salézio Plácido
Pereira - Santa Maria: Ed. ITPOH, 2010 181 p; 20cm.
ISBN 9788586991165
1. Psicologia 2. Psicanálise 3. Somatização 4. Emoções
5. Sintomas psicossomáticos I. Título.
CDU 159.964.2

Ficha catalográfica elaborada por:


Maristela Eckhardt
CRB-10/737

Produção Gráfica:
Jeferson Luis Zaremski

Revisão Ortográfica:
Silvania Rubert

Impressão:
Gráfica PP | Santa Maria - RS

Editora: Instituto de Psicanálise Humanista


Rua dos Miosótis, 225 | Bairro: Patronato
CEP: 90.800-020 | Santa Maria - RS.

Fone: (55) 3222.3238


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E-mail: saleziop@gmail.com

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SUMÁRIO

Introdução ........................................................................... 05

Parte I

1. A herança da pulsão sexual no homem primitivo............. 11

1.1 A influência cultural e histórica grego-judaica


sobre o desejo sexual.............................................................. 19

1.2. O sofrimento silencioso das compulsões e adições ...... 45

Parte II

2. Quando o fantasma da adição alia-se as fantasias


da compulsão.......................................................................... 65

2.1. O drama dos pacientes compulsivos .............................. 79

2.2. O sentido e significado das adições e compulsões.........117

2.3. A clínica na psicanálise com pacientes adictos


compulsivos ..........................................................................145

2.4. Quando a cura da compulsão torna-se uma


realidade .............................................................................. 163

Bibliografia..........................................................................179

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É melhor atirar-se à luta em busca de dias melhores,
mesmo correndo o risco de perder tudo, do que permanecer
estático como os pobres de espírito, que não lutam, mas
também não vencem; que não conhecem a dor da derrota,
mas não têm a glória de ressurgir dos escombros. Esses
pobres de espírito, ao final da jornada na terra, não
agradecem a Deus por terem vivido, mas desculpam-se ante
Ele por terem simplesmente passado pela vida.

Robert Nesta Marley

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INTRODUÇÃO

O desejo de escrever este livro é uma tentativa de


compreender as adições e sua relação com a etiologia da
patologia da compulsão a repetição. Descobri que essa
compulsão carrega, em seu desejo, duas partes da mesma
moeda. Uma educação que leva para a saúde e a outra para a
doença. Todas as dificuldades trazem consigo a capacidade de
aprendizado e também de recuperação diante dos traumas.
Quando a neurose consegue controlar a vida de uma pessoa
podemos considerar que está instalada a compulsão a repetição.
O trauma é uma vivência dolorosa que impede o
desenvolvimento das potencialidades do ser humano. O grande
problema a ser resolvido na análise é a questão do ódio contra
si mesmo.
Os educadores e profissionais da saúde devem ter
conhecimento do processo ou da dinâmica inconsciente da
obsessão ou compulsão sexual. A neurose sexual procura o
desejo compulsivo por uma prática sexual infantil. Esse
funcionamento é explicado graças à fixação e regressão ao
estado libidinal. Quando existe esta distorção em relação ao
desejo sexual aparece em seu lugar à ansiedade, a angústia e a
depressão.
No aspecto patológico, a força do desejo é de se realizar
no plano neurótico e fantasioso da compulsão. Todos, em
diferentes etapas da vida, passaram por alguma experiência
negativa onde não foram bem sucedidos. São experiências
amargas, arraigadas nas profundezas do inconsciente, que
escondem uma emoção que foi reprimida ou recalcada. O
sintoma da erotização é o completo abandono ou o afastamento
da expressão de amor.
Os educadores, pais e outros profissionais que
trabalhem com terapia ou na orientação sexual, devem passar

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informações corretas e saudáveis para o desenvolvimento
harmonioso, facilitando no futuro a vivência da saúde sexual.
O que vou descrever é uma tentativa de mostrar que a
análise tem condições de ajudar o paciente a superar o ódio,
raiva ou medo em relação à sexualidade. Às vezes alguns
comportamentos sexuais nos chocam, ou pelo menos se
confrontam com crenças e costumes acerca da sexualidade.
Ao fazer esse estudo, pretendi pensar sobre a
sexualidade incluindo nela as forças culturais, históricas,
religiosas e políticas. Diante da ignorância sobre o sexo,
começo a pensar que deve existir algum tipo de necessidade
social e política para que um desejo tão importante e
fundamental não seja incluído como disciplina de estudo na
escola e nas universidades.
Essa reflexão tem relação com as atrocidades e as
barbáries que acontecem dentro da esfera da sexualidade e da
temática da compulsão. Essa ignorância emocional produz
ações violentas e patologias agressivas, trazendo muito
sofrimento e conflitos individuais e sociais. A psicanálise
humanista leva em consideração a questão da cultura na
comunidade. Refletindo sobre diversas sociedades, pude
perceber que algumas pensam o sexo como pecado e outras o
vivenciam em plena liberdade. Na questão jurídica, o sistema
penal procura resolver as demandas patológicas com prisão,
perseguição, punição, aplicando em juízo a condenação como
uma maneira de resolver o problema, colocando o sujeito atrás
das grades.
Ainda falta muito para as autoridades começarem a
entender e compreender a história de vida de um sujeito que se
encontra sob o domínio de uma compulsão. São temas
específicos sobre a questão da preferência sexual ou a maneira
como cada um goza. Então, pensei em inserir a sexualidade
dentro de uma visão global e estudar um pouco de sua história
em civilizações passadas. A questão do sofrimento e dos

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traumas tem suas raízes nas crenças e costumes, bem como nas
regras morais que cada cultura impõe à sua comunidade. Nas
culturas machistas as mulheres sempre foram colocadas de
lado, e proibidas de ter acesso à informação e conhecimentos
sobre esse tema, aprisionadas em sua ignorância permaneciam
indiferentes ao seu sofrimento.
Existem algumas patologias oriundas dos segredos e
pactos inconscientes, que permanecem em sigilo absoluto. A
idéia dos homens de que o sexo deveria ser realizado entre
homens e mulheres e que a única penetração deveria ser pela
vagina, condenava qualquer tipo de desejo entre pessoas do
mesmo sexo. O lesbianismo, em algumas culturas, era
considerado crime. Então, a partir desses fatos pretendo estudar
a sexualidade como resultante da influência histórica, cultural,
social, educacional e política.
Por outro lado, podemos considerar, inclusive, que
existe a possibilidade do sujeito fazer uma escolha na questão
de sua opção sexual. Faço essa ressalva não com o desejo de
criar uma polêmica sobre o tema, nem cometer algum tipo de
injustiça com estigmas e preconceitos teóricos e conceituais.
Há mais de cem anos que não existe um progresso na
socialização e no debate aberto sobre as questões sexuais.
Existem algumas ideologias que colocam a culpa na mãe
protetora e/ou no pai ausente. São rótulos que de nada servem
para explicar a complexidade do tema aqui proposto. Tenho o
cuidado de não generalizar, através de uma teoria sexual,
diagnósticos e conceitos que mais parecem um julgamento,
uma condenação de uma prática sexual.
Devemos ter o máximo cuidado ao interpretar as
atitudes ou escolhas sexuais para não cometer algum tipo de
preconceito que possa prejudicar a escolha sexual do sujeito.
Devemos nos perguntar: Como a sexualidade é vivida em
diferentes culturas e sociedades Será que o comportamento
sexual é fortemente influenciado pela tradição jurídica,

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educacional e religiosa? A questão do casamento, a divisão dos
bens, a questão econômica, os princípios éticos, a maternidade,
e mesmo a educação sexual, estão protegidos por instituições
que têm o poder de impor uma ideologia.
A psicanálise humanista trabalha dentro dessas
hipóteses e suas considerações baseiam-se numa dialética em
progressão. Não é um sistema fechado, e não está atrelada a
nenhum sistema ideológico com o desejo de defender ou
condenar uma maneira de pensar sobre a sexualidade. Sem
dúvida a sociedade ainda não encontrou a receita ou a fórmula
para lidar com esse “instinto”, e muitos sabem de sua força e
poder, com medo de sua ação reprimem sua manifestação, por
isso precisam dominar e controlar o comportamento sexual.
Mas os primatas desenvolveram regras, normas,
atitudes e, de certa forma, souberam conviver com o desejo
sexual. Não foi a barbárie, a promiscuidade ou a troca de
parceiros que levou a decadência da civilização. Podemos
considerar que talvez vivessem com muito mais prazer o desejo
sexual do que a nossa sociedade tecnocrata e globalizada.
A quase totalidade das pessoas atribui à moral as
questões do sexo. Se a moral colocasse seu interesse na
tolerância, no respeito, na ética, na justiça, teríamos, com
certeza, uma sociedade mais humana e menos hipócrita. Existe
uma verdadeira fascinação sobre o tema do orgasmo, do que é
certo ou errado, do que é bom ou ruim, mas estas opiniões
escondem o preconceito e as ideologias de uma sociedade
moralista. Todas as sociedades foram influenciadas pela
religião, tradição, política e educação. São ideologias que
descrevem como as pessoas deveriam manter as suas relações
sexuais, como deveriam praticá-la no casamento, e como
deveriam tratar os desvios de comportamento sexual.
A maneira de pensar sobre a sexualidade sempre foi
carregada de preconceito, raiva e ódio. Basta observar as
atitudes dos heterossexuais em relação aos homossexuais, ao

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travestismo, ao fetichismo, etc. Ensinam as crianças a pensar a
partir de suas categorias de julgamento e condenação, fato que
demonstra uma atitude preconceituosa, que não ajuda em nada
a compreender as diversas manifestações sexuais, questão
imprescindível para que se aprenda a conviver com as
diferenças inerentes a essa área humana.

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Parte I

1.0. A herança da pulsão sexual no homem primitivo

Na pré-história os primatas realizaram seu processo de


evolução no sentido de aglutinar suas forças como uma tribo de
caçadores, cujo estilo de vida seguia os princípios da caça,
pesca e coleta de alimentos. Mesmo como seres primitivos que
viviam numa condição arcaica, beirando a barbárie, todos os
seus rituais, mitos e crenças, estavam preocupados com o valor
do amor. Nessa mesma época, as práticas sexuais podiam ser
realizadas entre pessoas do mesmo sexo, pois não existia
nenhum tipo de preconceito ou perseguição. A biologia e a
zoologia dizem que o instinto sexual é dominado pelo gene do
egoísmo, e que é uma pulsão que garante a sobrevivência das
espécies.
A necessidade da continuidade da espécie sempre foi
muito forte. Esse argumento defende que o ato sexual em si
mesmo não teria muita importância no relacionamento entre o
casal. A preocupação era com aqueles casais que não tinham
filhos, pois essa atitude poderia comprometer a continuidade da
espécie humana. Por isso mesmo, todos defendem a idéia de
que um casamento deve ter filhos, caso contrário, às pessoas
estariam agindo em interesse próprio, seriam pessoas
egocêntricas e narcisistas que não estariam colaborando com a
propagação biológica dos seus genes. Em outras palavras, sua
atitude se volta contra os desejos da natureza.
Na natureza animal, o ciclo do cio das fêmeas dos
mamíferos segue a orientação de permitir, no devido tempo, a
nutrição do filhote até a sua maturidade e independência. Os
macacos machos possuem uma disposição constante para a
realização do coito sexual. A sexualidade no mundo animal
depende do momento em que estão no cio. A atitude dos

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machos em relação às fêmeas depende muito da espécie de
cada animal, por exemplo, existem espécies, tais como veados,
zebras e antílopes, que acompanham a fêmea durante toda a sua
gestação e depois protegem e cuidam do seu filhote.
Existem fêmeas que não necessitam da ajuda do macho,
a não ser para a procriação. Os machos possuem diferentes
atribuições, dependendo das exigências impostas pelas fêmeas
e também das necessidades de cuidado dos filhos, a saber, a
vigilância, a provisão de alimentos. É sabido que as fêmeas
sempre vão fazer sua escolha em relação aos machos mais
fortes e capazes de cuidar da sua prole. No mundo da seleção
natural podemos verificar que somente os machos mais fortes e
vencedores terão a oportunidade de procriar com uma fêmea.
Nas lutas de demonstração de força e coragem, o macho
vencedor pode escolher e ter relações sexuais com quantas
fêmeas desejar.
Os macacos mais jovens possuem a virilidade e a beleza
para conquistar as fêmeas, porém existe um inconveniente.
Nesses grupos verifica-se uma hierarquia de liderança dos
machos reprodutores, que deve ser obedecida, caso contrário,
inicia-se uma luta sem trégua pelo domínio do território.
Ninguém escapa do papel de subordinação ao macho
dominante. Todo esse ritual e cuidado em relação ao desejo
sexual está presente no convívio dos macacos e no seu
processo de acasalamento.
Uma das questões estudadas em relação aos macacos
mais jovens foi descobrir a maneira como cada um fazia para
lidar com o excesso de energia sexual. Nas observações
realizadas, se constatou que existiam entre os macacos mais
imaturos, vários tipos de comportamento sexual, como a
homossexualidade, exibicionismo e masturbação. Um fato
interessante é como cada macho do grupo se comporta diante
do macho dominante, que possui todas as fêmeas. Alguns
machos mais jovens adotam uma postura afeminada, tornando-

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se submissos e obedientes aos machos adultos, para garantirem
sua sobrevivência aos ataques ferozes.
Os macacos bonobos iniciam com brincadeiras de
cócegas, que depois se convertem em jogos sexuais, incitando
uma verdadeira orgia sexual, com trocas de parceiros e carícias
nos órgãos genitais. Essas pequenas observações sobre o
estudo da etnologia dos macacos é importante por ser o animal
que possui os genes mais parecidos com o do ser humano. Esse
macaco, acima citado, é considerado o mais inteligente, e
também apresenta uma semelhança estética com os nossos
ancestrais símios. Dentre suas habilidades está o fato de
conseguirem caminhar com facilidade sobre as duas pernas. Na
escala evolutiva o Australopithecus foi o primeiro hominídeo, e
já era um primata capaz de nadar, caçar e pescar.
Nos estudos da pré-história os zoólogos, assim como os
antropólogos, realizaram pesquisas sobre o comportamento
sexual em algumas tribos, como na Nova Guiné com os
papuas. Essas tribos possuem populações entre quatrocentas e
seis mil pessoas. A única interferência ou influência externa se
deve a invasão cultural dos ocidentais, no século dezenove. São
tribos que cultuavam, em seus ritos, tradições e costumes por
milhares de anos, muitos dos quais ainda hoje permanecem
inalterados.
A vivência da sexualidade através da homossexualidade
e do travestismo, fazia parte da iniciação sexual sem nenhum
tipo de preconceito ou punição. Os estudos mostram que cada
tribo tinha muito bem definida o papel das mulheres, a questão
do machismo e da busca pelo poder do sexo masculino, que
tem relação direta com o mito de dominação. Cada cultura
atribui regras, normas, leis e regulamentos, sobre os quais se
define o que deve ou não ser aceito em relação às atitudes das
relações sexuais.
Essas tribos possuem rituais, mitos, celebrações, em
relação à sexualidade, muito diferente entre essas ideologias.

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Em algumas tribos o menino era retirado da mãe e da casa das
mulheres para viver com o pai na casa dos homens. Quando o
menino chegava à adolescência, o tio materno era encarregado
de realizar a iniciação sexual do menino com penetração anal,
costume que tinha a intenção de passar ao jovem o esperma,
para torná-lo sábio e forte.
Era uma vivência que acontecia por um tempo de três
anos, e não era permitida a presença de mulheres. Depois desse
tempo o feiticeiro levava o jovem numa caverna, no meio da
floresta, local onde existia um grande falo vermelho. Toda a
tribo dos homens esperava esse momento para receber o jovem
no mundo masculino. Após o ritual, iniciava-se uma cerimonial
de orgia, onde era permitida a relação sexual entre o mesmo
sexo.
Mas, devemos observar que essas práticas
homossexuais eram admitidas somente uma vez por ano. As
garotas dessas tribos também eram iniciadas e entregues a um
tio materno. A mãe e o tio estavam encarregados de cuidar e
ensinar tudo sobre a sexualidade, porém não estava permitido
qualquer envolvimento sexual.
As mulheres da tribo eram vistas como subordinadas ao
poder masculino, mas lhes era permitido, uma vez por ano, que
se vestissem de homens e que realizassem caça e pesca em
conjunto. Existia uma brincadeira na aldeia para atirar
excrementos uns nos outros, e no final desse ritual, uma mulher
era feita de excrementos dos animais e depois queimada. É
importante observar que durante os jogos e rituais era
permitida a agressão física, mas depois ficava terminantemente
proibida qualquer manifestação de agressividade.
Os homens reverenciavam as mulheres como um
segredo, um mistério a ser admirado, cultuado nos seus mitos.
Os valores das tribos estavam, também, presentes na
manifestação da sexualidade, e um dos seus maiores medos era
o poder da castração e da morte de sua virilidade. As

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manifestações da bissexualidade e homossexualidade eram
permitidas, mesmo após o casamento com uma mulher.
Num outro tipo de ritual, a noiva tinha que passar a
noite na casa dos homens e estava à disposição de todos eles.
Essa prática sexual tinha a intenção de coletar o sêmen e os
fluídos da vagina para depois misturar com as ervas
medicinais, pois acreditavam que o esperma tinha poderes
mágicos, inclusive de curar as feridas dos doentes.
Outro tipo de ritual acontecia quando os homens se
masturbavam e entregavam o alimento misturado ao sêmen. A
intenção da tribo era de perpetuar uma crença que esse ritual
aumentava a fertilidade das mulheres. Toda a preocupação
relacionava-se com a esterilidade das suas esposas. Outras
tribos, como os grandes Nambas da Ilha de Malekula,
concedem um valor inferior à sexualidade feminina, e no meio
do pátio da tribo existe um pênis ereto que pode ser usado por
qualquer homem da tribo para mostrar o poder e o tamanho do
seu pênis.
O chefe da tribo tem o poder sobre tudo e todos. Existia
uma submissão das mulheres e dos homens a sua pessoa, e os
melhores alimentos eram presenteados em primeiro lugar a si
mesmo, sendo que a única carne que podiam comer era a
humana. Nas guerras contra as outras tribos, decepavam a
cabeça do pênis dos guerreiros que encontravam-se mortos.
Nas suas cerimônias religiosas e nos festivas havia um ritual de
circuncisão, onde posteriormente o prepúcio era jogado no rio.
Os garotos ficavam em abstinência sexual durante trinta dias
para a cicatrização, mas ficava subentendido que quanto mais
se praticava a sexualidade maior era o poder e o tamanho do
seu pênis.
Nas tribos estudadas pelos etnólogos, algumas práticas
eram muito comuns, como por exemplo, a reverência extrema
ao poder do esperma. As mulheres eram responsáveis pelas
hortas e pela preparação dos alimentos, também estavam

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encarregadas de cuidar das crianças. Já os homens tinham que
prover a subsistência da tribo através da caça e pesca, e
deveriam estar preparados para a guerra. Toda a aldeia era
dividida entre a casa dos homens e a outra das mulheres.
Muitos homens tinham medo das mulheres porque elas
tinham o poder de castrá-los, e nenhum homem da tribo queria
perder o poder da força masculina do pênis. Em algumas tribos,
após o nascimento de uma criança, ficava terminantemente
proibido qualquer tipo de relação sexual por um período, não
menor, de oito anos. No devaneio de sua fantasia, acreditavam
que o sêmen deveria ser passado de uma geração a outra, não
tinham a compreensão de que o esperma era produzido
naturalmente.
As crianças eram retiradas da casa das mulheres aos
sete anos para poderem alcançar a sua virilidade, e durante esse
tempo era expressamente proibido, inclusive, olhar para as
mulheres. Nesse período aprendiam com os garotos mais
velhos a prática sexual, o momento mais importante era quando
engoliam o esperma. Quando se tornavam maduros saíam da
casa dos homens e começavam o aprendizado da caça, pesca e
da guerra. O poder desses homens se concentrava na
quantidade de produção do sêmen. Seus relacionamentos
sexuais eram afetivos e eróticos, toda sua conduta com o outro
se baseava numa intimidade e num respeito profundo pela
outra pessoa, sentimentos que permaneciam durante toda a
vida.
Nas sociedades mais antigas não existia a necessidade
de especificar os conceitos das suas práticas sexuais. A
preocupação de comparar o tipo de opção sexual começou no
século dezenove, quando surgiram, então, os conceitos de
heterossexual, bissexual, homossexual, travestis. O interesse
obsessivo diante do tema do estereótipo sexual tinha a intenção
de catalogar as pessoas dentro de uma visão estreita e
preconceituosa. A questão é como medir a qualidade do

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orgasmo de um heterossexual, do homossexual, ou de um
bissexual, como é complexo e muito difícil provar, ou mostrar
que um é melhor que o outro. Assim, iniciou-se um processo
de caça às bruxas, embasados em mitos e crenças.
Com o advento do patriarcado e sua influência social e
política, se estabeleceu, por uma convenção, que a atividade
sexual mais prazerosa era a praticada pelos heterossexuais,
logo depois se descobriu que os heterossexuais que estavam
casados tinham seus casos às escondidas. Na verdade vendiam
bem a imagem de homens machos, mascarados atrás de uma
família e filhos, mas muitos escondiam desejos e práticas
bissexuais. Logo após, por volta de mil e setecentos, surgiu a
descoberta de que todos os homens que gostavam de ter
relacionamento com o mesmo sexo, eram afeminados e
considerados pela medicina pessoas doentes, em alguns casos,
inclusive, catalogados como psicopatas.
Mudanças estavam acontecendo de maneira radical em
pleno século XVII. Quem não conhece a história da
sexualidade pode achar estranho, mas sem dúvida a
sexualidade é marcada pela influência cultural, social e
religiosa. Esse preconceito tem sua herança cultural, mas
felizmente, apesar de todas as perseguições, essas formas de
prazer não puderem ser extintas de uma vez por todas da face
da terra.
Nem mesmo o nazismo, com a ideologia da raça
inferior, e tampouco a Santa Inquisição, na Idade Média, foi
suficiente para erradicar a „doença‟ chamada
homossexualidade. Nem mesmo a perseguição com a morte na
fogueira conseguiu eliminar esta condição sexual. As pessoas
de bem devem estar conscientes de que não é com violência e
preconceito que vamos resolver a questão da sexualidade
humana.

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1.1 A influência cultural e históricagrego-judaica sobre o
desejo sexual

Na sua grande maioria, as mitologias tratam sempre dos


temas relacionados à sedução e ao amor no período da
iniciação sexual. Na cultura da Grécia Antiga existia uma
relação muito íntima entre o discípulo e seu mestre, geralmente
o professor era um filósofo com muito conhecimento e
sabedoria sobre temas relacionados à existência. Nos mitos
gregos, se realça a importância da sedução, um envolvimento
entre o discípulo e seu mestre é permeado de magia e encanto,
pois ambos partem para uma longa viagem em meio a uma
floresta desconhecida, este processo de conhecimento envolve
áreas ainda inexploradas para a revelação dos fenômenos sobre
a natureza da sexualidade.
Nesses mitos, geralmente o discípulo mostra sua
coragem e ousadia e infelizmente acaba morrendo, mas esta
morte é simbólica, pois sua morte existe para renascer para a
vida. A partir de suas experiências, revestido da armadura, está
preparado para tornar-se um guerreiro adulto, mas antes
precisou passar por muitas provas, problemas, dificuldades,
que ajudaram a despertar a sua inteligência, pela sua incrível
habilidade para defender-se diante dos seus inimigos. Todo o
objetivo da relação entre o discípulo e o mestre é o de vencer
as dificuldades e superá-las para chegar ao fim da disputa como
um vencedor.
Os jovens efebos eram raptados por Apolo. Naquela
cultura existia a compreensão social da importância do
processo de rito de iniciação. Nesses mitos não aparece a figura
da mulher, para o sexo feminino era compreensivo e
importante o processo de amadurecimento e de aprendizagem,
do conhecimento intelectual e da vida.

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Como pudemos perceber, na sociedade Grega era
permitido aos jovens estabelecer uma relação íntima e afetiva
com seus mestres, permeados por um ritual sagrado e de suma
importância na estrutura social, pois a continuidade da sua
civilização dependia da preparação dos novos líderes. As
mulheres aceitavam esta proposta de vida e acompanhavam
todo o processo sem interferir na experiência do seu filho.
Mas estudos e descobertas demonstram que há mais de
vinte e cinco mil anos existiam sociedades que se organizavam
em torno do matriarcado na Europa, em países como a Espanha
e a Rússia. Esculturas de mulheres gordas eram cultuadas como
uma espécie de deusas, demonstrando respeito e glorificação,
pois, todos admitiam que estas mulheres gerassem a vida e
ensinavam aos homens o afeto e o amor. Mas, ao mesmo
tempo, constatavam que a deusa tinha três aspectos que
acompanhavam o seu caráter: a doçura, a maternidade e a
feitiçaria.
Essas deusas tinham a capacidade de incorporar,
durante os rituais, um personagem, onde, em estado de transe,
o mundo sobrenatural descia até a terra por intermédio de um
espírito que estabelecia as ordens, orientações, conselhos, e
também a sexualidade. Naquela época, as mulheres tinham
uma percepção bastante clara sobre o ciclo menstrual, sendo
que naquelas tribos a cultura, a religião, a sexualidade, a
política e a economia, estavam ligadas entre si. A sacerdotisa,
depois de entrar em estado de transe, permitia a realização dos
rituais de sexo grupal, momento em que era permitido que
todas as pessoas da comunidade participassem desse momento
mágico de vivência da sexualidade.
Nesse culto religioso não existia uma preocupação com
os estereótipos ou sobre o tipo de prática sexual. De uma coisa
podemos ter certeza, os homens cumpriam o seu dever de
servir às deusas e tornar as mulheres felizes. A xamã estava
preocupada em preservar e cuidar dos mais fortes e

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inteligentes, para depois fecundar as mulheres mais jovens. A
sexualidade podia ser vivida sem nenhum tipo de repressão,
mas desde que essa vivência não prejudicasse a continuidade
de sua raça. Como podemos perceber muitas dessas sociedades
eram regidas sobre o poder do pensamento matrilinear. Em
alguns casos era permitido a alguns homens um relacionamento
mais íntimo com os filhos de suas irmãs, seus sobrinhos.
Na história do Egito, as quatro primeiras dinastias
foram governadas pela descendência das mães, e somente
depois ressurgiu o patriarcado. Do mesmo modo aconteceu
com a civilização dos Plebeus, e, como vimos anteriormente
que a herança do matriarcado surgiu através da mãe, somente
mais tarde os mitos mostram que o patriarcado ressurge na era
de Homero, na Grécia Antiga. Mas, podemos fazer uma análise
dessa mudança, por exemplo, as moradias eram localizadas na
beira dos rios, a população escolhia esses lugares porque tinha
água potável e podia utilizar esta mesma água para a irrigação
da agricultura.
Essa escolha era estratégica para produzir alimentos e
garantir a sobrevivência, mas ao mesmo tempo, tinha suas
desvantagens, como a questão da segurança das tribos e
povoados. Na beira do rio não é possível construir edificações,
surgiu, então, o tema da força física dos homens, pois as terras
férteis poderiam ser invadidas, roubadas e talvez outra tribo
pudesse se apoderar e dominar os territórios com o poder das
armas. Essas tribos precisam urgentemente dos defensores que
tivessem força física suficiente para se tornarem os guardiões
dos bens daquela comunidade de pessoas. Surgiu então, a
necessidade de criar o exército para protegerem-se e defender a
sua soberania.
As mulheres tinham a função de dar à luz aos seus
filhos e educá-los dentro dos valores culturais daquele povo.
Com o advento do exército surgiu a idéia de usá-lo, também,
para invadir outras áreas de terra, e dominar seus inimigos para

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ter mão de obra barata nos trabalhos das edificações e na
agricultura, enquanto os seus filhos eram preparados para
serem soldados e comandantes do exército. Esta invasão dos
domínios dos outros povos trazia bens materiais, alimentos e
mulheres escravas para servir como serviçais das classes
dominantes.
Sem dúvida com essa estratégia de dominação e
exploração de outros povos, os generais e líderes guerreiros
começaram a exercer o seu poder político e de dominação
sobre a sua comunidade. No mundo dos homens, ficava
estabelecido que o poder político e econômico, estabelecia os
diferentes tipos de classes sociais e seu nível de poder. O poder
estava agora nas mãos dos homens, as mulheres perdem o
matriarcado e surge então o patriarcado, a partir deste momento
a prioridade das lideranças do mundo dos homens é a riqueza,
dominação e exploração de outros povos. Surge a ambição e a
busca desenfreada da violência e dominação cultural imposta a
outras culturas.
Deste momento em diante as mulheres perdem o poder,
estão sujeitas as leis e a ordem do clã masculino, e aos homens
era permitido à liberdade total em relação a sua sexualidade,
enquanto a sexualidade das mulheres passou a ser vigiada e
controlada. Podemos chegar á seguinte conclusão: O olhar
sobre o desejo do poder político é pela sua dominação, realçam
como valor supremo, a riqueza material e a subordinação dos
mais fracos. Como as mulheres não tinham posses e nem
dinheiro, ficaram submissas e obrigadas a viver regidas pela
agressividade masculina.
Com a ascensão destes códigos de valores do mundo
dos homens, ficou estabelecido, por meio de leis e regras, que
as propriedades, dinheiro e poder aumentavam o prestígio e a
valorização do cidadão na sua sociedade. O valor supremo
destas sociedades que viviam há mais de dois mil e trezentos
anos antes de Cristo, estava pautada sobre a riqueza e o poder.

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Com a imposição do desejo de posse, surge então o direito a
herança dos bens materiais. No mundo masculino existia uma
preocupação com a propagação dos seus genes, e, de
preferência, que nascesse macho, pois os homens sabiam que
eram eles que herdariam sua riqueza e fortuna. Em nome desta
ambição estava garantida a continuidade do seu nome e
propriedades.
A inteligência e a ganância masculina não aceitam a
mulher como pessoa apta a receber e administrar os bens
materiais. Nas civilizações mais antigas, como na
Mesopotâmia, as normas, regras e regulamentos limitavam os
direitos sobre os bens as mulheres. A religião sempre esteve
presente na Mesopotâmia como organizadora da ética e da
moral, cujo espaço estava destinado às sacerdotisas que
prestavam seu culto ritualístico a deusa Ishtar. A função da
sacerdotisa obedecia às regras do mundo masculino, portanto,
sua relação sexual com o novo rei tinha como finalidade
assegurar a fertilidade e a continuidade do sucesso no seu
destino político e econômico.
Outras sacerdotisas estavam em uma hierarquia inferior,
onde exerciam as funções de cantoras e dançarinas, e sendo que
muitos homens homossexuais também participavam dos cultos
ritualísticos, destinados à veneração da sexualidade humana.
As sacerdotisas tinham uma ligação espiritual com a divindade
das deusas do prazer e da prosperidade, este espaço de
comunicação e reverência ao sagrado estava destinado ao
feminino, mas as decisões políticas e administrativas do
gerenciamento econômico estavam destinadas aos homens.
A sexualidade tinha como finalidade a procriação. O
casamento obedecia à ordem da fertilidade, e a vivência do
amor, do companheirismo, da cumplicidade e da intimidade,
estava em segundo lugar. As mulheres, naqueles tempos,
serviam a esse propósito, e sua função destinava-se a gerar
filhos e garantir a continuidade da espécie masculina. A mulher

23
era uma espécie de propriedade do homem a partir do momento
em que se casasse com ela.
Como indução ideológica as sacerdotisas eram
obrigadas a reverenciar os falos que eram feitos de argila, que
ficavam em um altar. Nesses templos religiosos, prevalecia a
lei ditada pelo rei, que dizia que qualquer mulher que
machucasse os órgãos masculinos deveria sofrer uma sansão
como punição por esse ato, que, no caso, seria de ter seus olhos
arrancados.
Às mulheres era imposto o dever de gerar e criar seus
filhos, e todas aquelas que cometessem a traição sexual ao
direito de propriedade do homem eram banidas e repudiadas
por toda a comunidade. Como podemos perceber, ha
sexualidade esteve sempre atrelada às condições culturais de
poder e dominação, principalmente no mundo antigo. O sexo
esteve ideologicamente ligado à condição do status social do
parceiro, como bem podemos ver nessas culturas milenares.
Também existia uma atmosfera de magia e misticismo em
torno da sexualidade, por exemplo, os babilônios adoravam
fazer profecias e adivinhar o futuro baseando-se em
determinados tipos de atos sexuais.
Algumas crenças eram internalizadas a partir dos tipos
de relações sexuais. Existia a fantasia que se um homem
praticasse uma relação homossexual poderia ter chances de ser
reverenciado pelos seus irmãos e amigos. Se alguém
conseguisse ter relações com uma cortesã durante certo tempo
estaria livre de todos os problemas que afligem o homem. Mas,
se tivesse relações sexuais com um escravo poderia encontrar-
se em sérias dificuldades, podem contar como certo que o mal
e o fracasso batessem à sua porta. Se alguma pessoa
conseguisse uma relação sexual com alguém de uma classe
superior ou mais culta poderia, com certeza, esperar a sorte, o
sucesso, e a proteção das divindades. Qualquer homem que

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praticasse a homossexualidade era condenado e julgado como
um ser inferior.
Depois de enxergar essa realidade começamos a pensar
que a sexualidade humana sempre esteve ligada a fertilidade.
Por isso, a religião cumpria seu papel de garantir a
continuidade da espécie com seus ritos sagrados, envolvendo o
sexo para agradar aos deuses, seu desejo era a garantia da
continuidade da fertilidade sobre a terra. Mas, as sacerdotisas
estavam proibidas de ter relações sexuais através da vagina,
para proteção contra uma possível gravidez, somente era
permitido o coito anal.
Da civilização egípcia se conhece muito pouco sobre
sua vivência sexual, mas alguns pesquisadores encontraram nas
tumbas dos faraós desenhos de imagens com várias posições
sexuais, como simbologias que utilizam o prazer sexual para
contar suas crenças, mitos, costumes, e desejos dos seus deuses
e deusas. O deus Min era reverenciado como um falo, no altar
do templo encontrava-se a exposição um pênis ereto. O
esperma era considerado um afrodisíaco. As lendas e mitos dos
egípcios sempre narravam a temática da tentativa de violência
sexual do deus Seth em relação a Horus.
Este e outros contos falam sobre a sexualidade no
antigo Egito, mas um fato chama a atenção para o orgasmo das
mulheres, pois os homens ficavam extremamente irritados e
enfurecidos quando elas conseguiam obter o prazer sexual.
Ésta emoção de raiva escondia uma insegurança do homem,
pois na sua fantasia, acreditavam que com essa descoberta
poderiam sair em busca de outros homens. Estes homens
tinham medo de que as mulheres não quisessem ficar mais em
casa e cuidar dos seus filhos, poderiam se rebelar e com o
poder deste orgasmo conseguir algum cargo mais importante
na sociedade.
Portanto, deveria existir uma lei que provocasse o temor
e reverência à obediência irrestrita ao poder dos homens.

25
Então, começaram a legislar em causa própria, era preciso
impedir o gozo das mulheres, e acima de tudo convencê-las de
que sexo é algo sofrido, pecaminoso e sem graça. Nesse intuito
os homens promulgaram no Egito a seguinte lei: a traição
sexual deveria ser condenada com a morte na fogueira e daria
aos homens o direito de abandonar as mulheres sem nenhum
compromisso, mas a sexualidade masculina era permitida sem
nenhum tipo de restrição.
Por exemplo, se no casamento a mulher não
conseguisse ter filhos o homem tinha a autorização de procurar
outra mulher para ser a mãe, em nenhum momento se cogitava
a idéia de que a infertilidade seria do homem. Logo depois de
sua morte, estas crianças poderiam ser reconhecidas pelo
estado e tornavam-se cidadãos legítimos.
O casamento na sociedade egípcia acontecia por volta
dos doze ou treze anos de idade das mulheres e dos quinze ou
dezesseis anos dos garotos. Nas classes nobres e superiores, a
espera poderia se postergar até os vinte anos. A circuncisão era
realizada pelos sacerdotes em conjunto com um ritual coletivo.
O grande sinal de virilidade e força era quando se cortava o
prepúcio nenhum garoto chorava, todos deveriam agüentar com
firmeza a dor do corte. Hoje, essa tradição é realizada pelos
judeus. Alguns historiadores dizem que também as meninas
eram circuncidadas com a retirada do clitóris, ainda hoje este
ritual é realizado na Índia.
Na sociedade egípcia, o incesto entre irmã e irmão era
permitido, mas não era permitido o incesto entre pais e filhos.
Tudo o que faziam e realizavam estavam condicionados ao
desejo de possuírem a vida eterna, nesse anseio, os corpos eram
embalsamados com o desejo de preservar o corpo e a alma para
outra vida depois da morte. Além disso, todos deveriam tomar
cuidado com suas condutas, pois, no além, suas ações seriam
julgadas e condenadas, portanto todos deveriam ter um

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comportamento exemplar e decente para não incorrer depois da
morte nesse tipo de julgamento.
Os sacerdotes pregavam, na sua oratória, a importância
de procurar a verdade e a justiça, questão imprescindível para
que se conseguisse uma vida decente após a morte. No livro
dos mortos dos egípcios estava proibido roubar, matar, cobiçar,
mentir, cometer adultério, negar pai e mãe, mandamentos que
estão escritos na tábua da lei de Moisés. A cultura dessa
civilização possuía uma ética voltada para uma moral religiosa,
sem reprimir ou condenar qualquer tipo de prática sexual.
Interessante observar que nas guerras em que os
egípcios venciam. Cortavam o pênis daqueles que morriam, e
castravam os outros homens, ritual que tinha como objetivo
simbólico retirar o poder da fertilidade dos soldados que
perderam a guerra. Todo homem que estivesse castrado era
reconhecido imediatamente como alguém que foi vencido
numa guerra, portanto não tinha força e poder e, justamente por
isso, não deveria ter filhos. Essa marca era carregada por toda a
sua vida, como o preço pago pela derrota, e, mesmo assim, não
possuíam a liberdade, eram feitos escravos porque os faraós
precisam de mão de obra para trabalhar nas suas pirâmides.
O faraó Meneptah mandou escrever no templo de
Amon: Que seis mil trezentos e cinqüenta e nove homens do
derrotado exército líbio foram cortados, porque seus pênis não
estavam circuncidados. A prática da sodomia estava presente
na cultura dos soldados egípcios, pois acreditavam que um
homem adulto que tivesse praticado sexo anal perdia a sua
masculinidade. Naquela cultura, chamar um homem de mulher
era um grande insulto, porque somente os escravos tinham este
tipo de prática sexual e na verdade os nobres das dinastias não
queriam ver seus comportamentos sexuais comparados com o
comportamento sexual dos escravos.
É uma visão machista e preconceituosa da sexualidade,
que teve seu início nas culturas da Mesopotâmia e do Egito. No

27
mito egípcio, Seth penetra com o pênis ereto nas nádegas de
Horus, logo depois coloca a mão entre as nádegas, retira o
sêmen e sai correndo em busca da ajuda de sua mãe. Quando a
encontrou, diz: Veja só o que me aconteceu, e mostra o sêmen
na sua mão, a mãe imediatamente corta-a, e joga fora, depois a
coloca na água, como um milagre surge uma nova mão. Seth
era o único deus que nunca teve um filho, seu único prazer se
encontrava na masturbação e nas relações anais com outros
parceiros.
Podemos constatar que nessa cultura, assim como em
outras tantas civilizações, o tabu e os mitos, estavam
enraizados nos costumes, hábitos e crenças e faziam parte da
maneira de viver a sexualidade. Na sociedade egípcia os
homens dominavam as mulheres e os reis os seus súditos. A
bissexualidade era aceita como normal e a homossexualidade
condenada. Na cultura egípcia não existia ainda uma palavra
para classificar a sexualidade em categorias distintas, mas a
única idéia preponderante no meio social e religioso era o
poder da sexualidade masculina como fertilidade e questão da
maternidade feminina como provedora da continuidade da sua
raça.
Havia dois costumes que faziam parte da sexualidade, o
primeiro diz respeito ao casamento dos garotos aos quinze
anos, mas durante a sua vida matrimonial era permitido ter
relações sexuais com as escravas ou qualquer outra pessoa que
fizesse parte do seu desejo erótico. O sexo era apreciado por
todos, porque tinham a consciência de que é uma necessidade
fisiológica e biológica. Mas se alguém não gostasse da prática
sexual ou encontrasse alguma dificuldade para a realização dos
seus prazeres, poderia estudar para o sacerdócio numa vida
celibatária. A cultura egípcia não costumava incorporar outros
costumes de práticas sexuais ao seu povo.
Existiu uma civilização na China, há mais de mil cento
e vinte e dois anos antes de Cristo, chamada de dinastia de

28
Zhou, que estavam unidos pelo casamento do clã. Existem
relatos da inexistência de qualquer preconceito ou perseguição
sobre alguma prática sexual, a sexualidade era vista como a
expressão do amor, não existia uma preocupação para colocar
rótulos e nomenclaturas sobre o ato sexual. Todos tinham a
liberdade de expressar a emoção e, além disso, comentar, falar,
ao parceiro o quanto era nobre e prazeroso aquele orgasmo.
Qualquer expressão sexual era admirada, porque entendiam
que existiam diferentes formas de viver o prazer sexual.
Todos sabem que o conhecimento científico e literário
estava restrito a corte e a sua dinastia. Nesta cultura o
casamento acontecia dentro das exigências da classe social a
qual os noivos pertenciam, para garantir o controle dos bens
materiais e sua etnia. Mas, o amor e as experiências sexuais
aconteciam fora do casamento, independente se fosse com
homens ou mulheres. Tanto as mulheres e homens jovens
utilizavam-se do sexo para pertencer e fazer parte da corte da
elite. Por volta do século V a.C., uma cortesã soube que sua
mãe estava muito mal e fugiu da carruagem em direção a sua
casa. Mas, o código de leis para a transgressão de qualquer
norma era violento e agressivo, sendo que neste caso a punição
era cortar os seus pés.
Existia outra regra, os governantes não podiam receber
nenhum convite ou algum tipo de sedução sexual, pois a
punição para essa atitude constrangedora era a morte. Mas, os
serviçais e outras pessoas mais próximas do seu convívio não
conseguiam suportar tamanha admiração e desejo, mesmo
sabendo do risco de perder a vida, transgrediam a regra e
expressam o seu amor pelo seu senhor. Às vezes, a tentação
sexual era mais forte que a razão, mas, ao mesmo tempo, os
filósofos chineses advertiam que não era inteligente reprimir o
desejo sexual de alguém, pois não fazia sentido odiar e
repudiar o desejo de outra pessoa.

29
Em muitos casos, se alguma cortesã fosse desejada pelo
seu senhor poderia tirar vantagem desse desejo erótico, mas,
além do prazer sexual, era necessária a inteligência, a
sensibilidade, a dignidade, a ética, a disciplina, virtudes que
faziam parte da beleza estética do serviçal. Muitos usavam esse
poder de atração para ascender na hierarquia do poder da
dinastia. Quando os governantes amavam um subalterno, o
protegiam de todas as formas e concediam muitos favores
econômicos e pedidos de seu interesse. Em todas essas relações
amorosas sempre estava presente à sinceridade e a honestidade
emocional.
Nas referidas dinastias era muito comum os favores
sexuais em troca de cargos políticos, em alguns casos,
chegava-se a seguinte conclusão: um ser humano não precisava
de riqueza e poder, se a natureza o tornasse belo e afetuoso
poderia tirar vantagem através da atração sexual. Alguns
governantes enviavam uma jovem bonita e atraente para se
aproximar do seu inimigo, com o objetivo de conseguir
informações confidenciais sobre os pontos fracos dos seus
soldados, fato que era usado como estratégia de guerra. Em
alguns casos, uma nação saía derrotada de uma guerra por não
saber guardar os segredos do Estado.
Nessa cultura Chinesa, existem exemplos na literatura
sobre o poder do amor e do sexo, ou seja, a sexualidade era
usada como estratégia para ascender na posição social, ter
riqueza e poder. Para a elite chinesa, e suas relações na corte
das dinastias, o sexo era um tema recorrente quando imitavam
as práticas sexuais dos plebeus. Na cultura chinesa o sexo era
visto como algo honroso e prazeroso, e todas as manifestações
sexuais eram aceitas.
O que podemos constatar é que nas diversas
civilizações citadas, a sexualidade era aceita e vivida sem
maiores problemas. Outro fator interessante é que o sexo estava
atrelado à propriedade e herança de suas respectivas dinastias,

30
exercendo, assim, uma forma de poder. Estes homens e
mulheres souberam com sabedoria aceitar e viver, em toda a
sua dimensão, o prazer da sexualidade.
Para entender e compreender as psicopatologias e o
aspecto da repressão ou mesmo da promiscuidade sexual,
temos que nos voltar para a história e descrever as influências
que nossa cultura ocidental recebeu dessas duas culturas,
justamente porque a maior parte da compreensão da realidade
sexual foi herança delas. O fundamento da elaboração do
conceito de homem e de sociedade recebeu a incorporação
conceitual dos ensinamentos filosóficos dos gregos e da cultura
religiosa e moral descrita nos ensinamentos bíblicos do antigo
e do novo testamento dos hebreus sobre a sexualidade.
É preciso ter esta percepção para depois compreender o
conceito de “libido” de Freud. Parece-me que o conflito dessas
duas culturas demonstrava a proeminência do inconsciente
coletivo de Jung, porque uma cultura tinha uma visão sobre o
papel da mulher, da sexualidade, a iniciação sexual masculina,
a questão do prazer, e a idéia do desejo erótico totalmente livre
e sem preconceito. A cultura grega convivia de maneira
agradável e a sexualidade era vista como algo divino, e na
judaica o castigo, o pecado. O sexo era visto como instinto
animalesco que participava dos desejos orgásticos do demônio
e de satanás, diante disso, era preciso negar o corpo e fugir do
contato afetivo deste ser erótico.
Essas duas culturas realçam a sua contradição na
maneira de interpretar a sexualidade humana. Na cidade grega
de Creta, a prostituição era aceita e, portanto, fazia parte da
convenção social. Era muito comum o amante descrever em
detalhes todo o processo de sedução e conquista do seu amor,
as famílias não aceitavam perseguições, salvo uma condição
que esta pessoa tivesse uma boa posição social. Caso contrário,
o desejo do amante deveria amargar uma frustração por não ter
condições de enamorar-se pelo objeto de sua paixão. Mas, ao

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mesmo tempo, a sociedade exigia em contrapartida, que as
jovens adolescentes tivessem um amante, se ninguém se
aproximasse ou não sentisse qualquer tipo de desejo as pessoas
em geral se afastavam e repudiavam tal atitude.
A cultura grega reverenciava os valores presentes na
sua valentia, coragem e inteligência e não prestava atenção na
beleza estética do corpo. Quando o amante conseguia, enfim, o
amor, trazia presentes e afastavam-se por um tempo para as
montanhas. O homem mais experiente ensinava a caçar, a
pescar e defender-se dos perigos da natureza. Essa nova
aprendizagem incluía a presença dos seus amigos, parentes e
outras pessoas que pertencessem ao convívio de sua família.
Depois da árdua tarefa de enfrentar os desafios e superar as
adversidades, a realização culminava com a relação sexual.
Geralmente os presentes recebidos do seu amante eram
oferecidos a Zeus, e depois da procissão e do ritual do
sacrifício, as oferendas eram oferecidas como forma de
gratidão pela experiência do amor. Esse era o ritual de
passagem da adolescência para a vida adulta, uma celebração
festiva que tinha como finalidade mostrar à sociedade os novos
homens e mulheres da sua comunidade. Tudo o que acontecia
de bom e maravilhoso vinha de Zeus, daí vinha à necessidade
de agradecer pela experiência gratificante do convívio com o
seu amor e todas as aprendizagens adquiridas neste curto
espaço de tempo.
Nas ocasiões do ritual de passagem da adolescência
para a vida adulta, as famílias ofereceriam banquetes com farta
comida regada a vinho. Toda essa celebração tinha três
objetivos principais em relação ao adolescente. O primeiro era
a iniciação no amor e na sexualidade, o segundo, a permissão a
fazer parte do banquete e, a terceira, tornar-se um homem
inteligente com força e coragem para defender, se preciso, a
sua comunidade. Depois da procissão, as oferendas eram
entregues no templo, ao deus Zeus. Terminado esse momento

32
de reverência e agradecimento, seguia-se a permissão dos
jovens a fazer parte do banquete, somente nesses momentos
lhes era permito tomar alguns cálices de vinho.
A palavra “hedone”, do grego, significa hedonismo,
que, em outras palavras, é “o gozo da vida” e, mais
especificamente, o orgasmo do amor sexual. Como podemos
constatar nessa cultura, o sexo não era somente genital, ao
contrário, a sexualidade incorporava os valores éticos baseados
nos princípios de uma sociedade patriarcal. Em alguns rituais
era permitido o ritual de meninas e meninos totalmente nus,
que lutavam em competições festivas. A nudez do corpo era
cultuada como um valor, o corpo era apreciado, não existia
nenhum tipo de pudor ou tabu em mostrar o corpo.
O costume de valorizar a expressão da nudez data de
720 a.C., quando era permitida a completa nudez nas
competições dos jogos, mas como o pênis começava a balançar
muito durante as lutas, o atavam com um pedaço de pano. Os
gregos mostravam reverência ao pênis, tinham um grande
respeito e admiração, porque era através dele que existia a
condição de acontecer à continuidade da vida. Os gregos
reverenciavam os órgãos genitais com muito medo, esta díade é
muito parecida com as tribos da Melanésia e sua relação com o
esperma e pênis.
O falo era muito usado nas esculturas, e mesmo nas
cerimônias religiosas quando tinham que agradecer os deuses,
como por exemplo, o deus Dionísio. Na cultura grega, era
possível que um cidadão casado pudesse ter, ao mesmo tempo,
um relacionamento amoroso com um mancebo, ou uma cortesã
(amante), porque era um comportamento sexual aceito
socialmente. Porém, existiam algumas exigências para viver
esse amor, geralmente não era permitido ao garoto mostrar seus
desejos, porque podia perder o respeito dos adultos. Quando
existia uma relação bissexual ou homossexual, ambos tinham
que mostrar maturidade, ética, respeito e fidelidade, pois para

33
ambos era importante ter a mais absoluta certeza de que existia
um amor verdadeiro.
Todos os homens prostitutos e as prostitutas eram
obrigados a pagar seus impostos, aquele que violasse a lei era
banido e sofria uma série de condenações. Aristófanes, em seus
famosos discursos, dizia que o ser humano é constituído por
três tipos de homens diferentes. A primeira referência dizia
respeito aos duplamente masculinos ou femininos, ou seja, essa
pessoa tinha duas realidades em si mesmo: eram machos e
fêmeas ao mesmo tempo. Mas os deuses os separaram em dois,
e após este divisão, cada metade anda a procura de sua outra
metade. O amor e o desejo sexual dizem respeito àquela falta
que precisa ser satisfeita através da conquista de outra pessoa.
Plutarco afirma que em Atenas, todas as mulheres
amavam as meninas, e, na maioria de seus relacionamentos,
viviam muito bem a sua paixão sexual. Todas as mulheres
eram educadas para serem honradas, obedientes, para viver
bem com o seu marido, principalmente no cuidado afetivo e na
educação dos seus filhos. Como poderíamos imaginar que uma
civilização permitisse a essas mulheres casadas viverem ao
mesmo tempo a sua homossexualidade feminina. Os gregos
sabiam que as mulheres tinham um desejo muito forte pela
satisfação sexual, mas esse mesmo desejo era aceito por todos,
e por isso mesmo não precisa de punição, tão pouco de
repressão.
A esposa de um marido judeu tornava-se sua
propriedade, porém seu cuidado familiar é reverenciado com
citações bíblicas e rituais no sentido de enaltecer e glorificar a
boa ação da mulher judaica. A família judaica valoriza muito o
papel da mulher como mãe, o antigo testamento está cheio de
elogios a essas mulheres que seguem a sua obrigação para com
seus esposos. No velho testamento, Abraão, Isaac e Jacó,
tiveram muitas esposas, porque a preocupação em proliferar e
dar continuidade a sua prole era grande. Ou seja, a

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continuidade do povo judaico dependia do empenho de suas
mulheres para engravidar e cuidar dos seus filhos.
No judaísmo a poligamia foi proibida no século XI.
Desta maneira, a sociedade, em conjunto com as leis religiosas,
forçava e reverenciava, como um valor, o casamento. O
homem podia se casar aos dezoito anos e as meninas aos doze.
O homem bem sucedido e aceito socialmente era aquele que
trabalhava numa plantação de vinho, possuía uma casa e tinha
filhos. Depois dos vinte anos, os homens que não
conseguissem realizar esse objetivo eram criticados, banidos,
rejeitados, e a única maneira de consertar a situação era de
alistarem-se no exército, para lutar em nome do seu povo e
com isto conquistar a admiração e respeito.
Todas as mulheres devem sentir o orgasmo, pois
poderiam querer transar mais vezes. O casamento era uma
obrigação, todos observavam as atitudes dos homens solteiros
como imaturos e sem responsabilidade. O divórcio era aceito
pelo rabino se o homem se queixasse da imprudência e dos
defeitos de sua mulher. A mulher não tinha esse direito. Como
existia uma preocupação muito acentuada com a continuidade
de sua raça, a relação sexual no casamento e o nascimento dos
filhos, eram amplamente valorizados pela sociedade e também
pela religião. Porém, não estavam permitidas outras atividades
sexuais fora do casamento, era terminantemente proibida a
masturbação, em alguns casos poderiam ser condenados à
morte.
Tal como os gregos, os judeus vigiavam e puniam as
mulheres que tivessem relações sexuais fora do casamento,
portanto era proibida a convivência com qualquer tipo de
homem e muito menos o escravo, e para aquelas mulheres que
violassem tal lei, a pena era a morte. A única maneira de viver
o sexo era através da relação heterossexual, esta vigilância
sobre a atitude sexual fazia valer um código moral que deveria
ser devidamente observado. A religião tinha a incumbência de

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representar o pensamento dos homens da sociedade patriarcal,
e através da educação religiosa instituir o medo, a culpa e a
punição aqueles que desobedecessem as regras aceitas
socialmente diante de Deus.
No século VIII a.C., os etruscos copiaram o culto de
Astarte, que era a religião dos fenícios, e junto com isso
estabeleceu-se o culto a pederastia. Nessa civilização existiam
as relações com as mulheres, mas também era permitido
relações sexuais com meninos e meninas. Na civilização
romana, a virilidade era amplamente aceita e exigida, onde
todos os homens faziam questão de mostrar-se como sendo
fortes, dominadores e com muito poder. A sociedade romana
aceitava esse tipo de homem que buscava sua afirmação
masculina na agressão e dominação física e psicológica. O pai
de família tinha o poder absoluto, a educação sexual era
proibida, existia uma negação do corpo, como exemplo dessa
prática, os escultores eram obrigados a cobrir as genitálias das
obras de arte.
Toda educação dos meninos tinha como objetivo realçar
o valor de sua raça como sendo a melhor do mundo, para isso,
deveriam ter corpos e mentes sãs, a fim de serem superiores a
outras raças e povos, sem esquecer-se da importância do
conhecimento e principalmente da erudição nos seus discursos.
O Império Romano subsistia graças às invasões e dominações
de outros povos. Como prêmio aos soldados vencedores, as
mulheres poderiam ser estrupadas. Essa prática sexual
mostrava a humilhação e aceitação incondicional de sua
obediência diante da nova estrutura social. A pedofilia não era
aceita socialmente porque era uma prática sexual muito
estranha a natureza da virilidade masculina.
Mas às elites romanas era permito a pedofilia, somente
com meninos que fossem escravos. As mulheres romanas não
ficavam confinadas em suas casas, sempre participavam
ativamente da vida social e cultural de sua cidade. Elas

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estavam incumbidas da tarefa de educar as crianças dentro do
modelo patriarcal, reverenciar e obedecer aos valores da
sociedade romana. Mas, nenhuma mulher, por mais idônea e
correta que pudesse ser, poderia participar das atividades
políticas e, muito menos, em alguma função no judiciário. No
entanto, a história mostrou que essas mesmas mulheres sempre
influenciaram seus esposos nas decisões, só que de maneira
oculta, velada e sutil. Nenhuma mulher romana sentia-se
inferior ou manipulada pelos homens, porque todas as
honrarias de respeito e admiração estavam voltadas para
aquelas que tinham uma vida embasada na família e na
obediência a castidade.
As mulheres que cometiam adultério, de acordo com a
reclamação do marido, poderiam ser punidas com a morte.
Existia um grande medo da homossexualidade feminina, pois
na fantasia masculina as mulheres estariam ocupando o seu
lugar, e ainda mais, se fosse possível a uma mulher ser viril
com outra, então elas poderiam ocupar postos no exército, na
política e nos tribunais. No século II a.C. houve uma mudança
nos costumes sexuais, em relação à virilidade do homem
romano, da brutalidade, da violência física, e da sua
heterossexualidade. Com a influência da literatura grega, a
sociedade começou a permitir a existência da pedofilia com
garotos. Estavam no auge da paixão sexual, esta prática sexual
estava muito em moda.
As autoridades romanas começavam a se preocupar
com a liberdade de homens adultos com os jovens mancebos.
Seria possível que esses jovens que estavam se relacionando
com os homens adultos, pudessem, na sua vida adulta,
tornarem-se homossexuais. Se essa hipótese viesse a ser
confirmada, então a virilidade masculina estava sendo
depravada. Mas, o exemplo do Imperador Nero não ajudava em
nada na implementação dessa moral, pois suas atitudes
homossexuais e bissexuais não diminuíam seu poder político.

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Cezar tinha uma enorme força física, com uma habilidade
militar que fazia inveja a qualquer soldado. De certa forma,
parece que o imperador era bom na guerra e na cama com seus
súditos.
Era muito comum no Império Romano o amor por
escravos e soldados, fato que é verídico, pois o imperador
Adriano mandou construir uma cidade em homenagem ao seu
ex-escravo Antínuo. Na formação do caráter sexual do homem
romano, estava inscrito que a força e a submissão possuíam o
poder de dar prazer ao outro. Toda criança queria ser um adulto
forte, capaz de praticar a violência física com seu inimigo, pois
a maioridade era de quatorze anos de idade. No ano 342, o
imperador Constantino, estipulou pena de morte para todo
comportamento homossexual, mas não há registro de algum
caso que tivesse sofrido tal condenação.
Como todos sabem as sociedades possuem a tendência
de realizar mudanças, principalmente quando começa a existir
a necessidade de implementar leis, regras, normas, pois o
homem não consegue comandar sequer os seus desejos e
paixões. A sociedade como um todo busca aproximar os seus
cidadãos de uma possível justiça, com as vantagens para alguns
cidadãos e as injustiças para com outros. Como o homem é, por
natureza, vaidoso, procura no poder e na dominação o brilho de
sua imagem.
Com a ascensão da filosofia estoicista, ficou
estabelecido que as classes inferiores deveriam ser
manipuladas e vigiadas com regras rígidas para que soubessem
respeitar, como súditos, os seus superiores. Era preciso
dominar para estabelecer a submissão às ordens do sistema
vigente. Por isto, o estoicismo pregava que todos deveriam
reprimir as suas emoções e controlar os seus comportamentos.
A repressão da sexualidade deveria ser imposta a essas classes
inferiores, prevalecendo a relação heterossexual, a defesa do
casamento e dos valores e obrigações da família.

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Os estóicos defendiam a idéia que a energia sexual
deveria ser canalizada no casamento, e a qualquer custo as
pessoas deveriam saber reprimir as suas paixões sexuais. Logo
depois a castidade começou a ser defendida como um valor. A
escola dos estóicos pertencia a Plotino, Porfírio e Iamblico. Lá
ensinava, à população em geral, a importância do celibato e do
vegetarianismo como um método capaz de aumentar a
condição espiritual. Com o advento dos valores cristãos, ficou
proibido qualquer tipo de relação homossexual.
Como o tempo médio de vida da população não
passava dos cinqüenta anos, o Império Romano precisava de
novos soldados constantemente. Para suprir essa carência, era
necessária uma filosofia que convencesse as mulheres a ter
filhos. Sem falar nas catástrofes naturais, nas doenças que
quase exterminavam a vida nas cidades. Os terremotos, secas,
inundações, guerras, aumentavam cada vez mais as mortes. Por
isto mesmo havia a necessidade de incentivar a importância da
relação heterossexual, porque era a única maneira de garantir a
continuidade de sua raça.
Gostaria de comentar um pouco sobre o modo de viver
a sexualidade dos povos do oriente, onde existia uma maneira
de reverenciar o sexo como algo sagrado. Ao que tudo indica,
sempre existiram diversas maneiras de se obter prazer sexual,
pois, nas imagens e esculturas dos deuses e deusas da religião
hindu, encontram-se os hermafroditas, travestis, homossexuais,
e outras formas que podiam mudar o sexo do homem. Nessa
religião, os deuses possuem, ao mesmo tempo, os princípios do
sexo masculino e do feminino. Como muito bem observou Carl
Gustav Jung, em todo homem existem componentes femininos
e na mulher traços e características masculinas, a partir dessa
constatação, ele criou os conceitos de anima e animus, como
sendo duas tendências da sexualidade humana.
A cultura indiana remonta a 3000 a.C., e nas escavações
realizadas se encontrou esculturas com o desenho do falo e da

39
posição sexual do praticante da meditação. O deus da
fertilidade é um antecessor de Shiva, uma deusa que representa
o ascetismo, a virilidade e a destruição. Nesta cultura o sexo
não era restrito a procriação, ao contrário, era usado
prioritariamente com a finalidade de obter prazer e poder.
Muito mais preciosa que a cultura grega, a cultura da Índia
celebrava o prazer e, mais especificamente, o prazer sexual.
Porém, com uma observação: toda a literatura sobre o sexo está
ligada ao misticismo religioso. A cultura indiana entendia que
o sexo poderia ser um caminho de aproximação com os deuses,
gerando um estado de êxtase, que poderia criar a expansão da
consciência e, através dessa experiência, levar ao conhecimento
dos pensamentos de Deus.
Apesar dessa mudança, o sexo estava atrelado às idéias
masculinas, por exemplo, o ânus era considerado um dos
centros mais importantes da energia, e por isso a prática
homossexual poderia energizar e ampliar a inteligência
artística, poética e religiosa. Tanto isso é verdade que até 1948
existiam templos com mulheres e meninos prostitutos, outros
com travestis masculinos ou transexuais, onde todos prestavam
uma devoção especial à deusa Bachuchara Mata. Onde
realizavam-se rituais de adoração e gratidão, com danças,
cantos, e suas práticas sexuais, todas estas manifestações de
prazer eram permitidas sem nenhum tipo de condenação ou
julgamento.
Os historiadores mostram que por volta do século II, em
várias dinastias, os imperadores e suas cortes se viam
disputados pelo desejo dos discípulos de tornarem-se os
“favoritos” porque com esta gentileza podia apreciar o poder,
riqueza e muito prestigio. Na cultura chinesa o bissexualismo e
homossexualismo eram aceitos como comportamento
absolutamente normal, não havia nenhum tipo de punição, pois
as práticas sexuais estavam ligadas a estética, a literatura e não
a moral, social, jurídica ou religiosa. Os japoneses não

40
compartilham da idéia de pecado em relação à sexualidade,
entendem que o sexo é algo natural e prazeroso, portanto toda e
qualquer manifestação sexual é aceita sem nenhum tipo de
perseguição.
Há 2000 a.C., na costa do Mediterrâneo, existia uma
cidade chamada Israel que condenava a homossexualidade. Foi
através da cultura patriarcal e homofobica que ocorreu a
afirmação de uma moral conservadora e condenadora,
interessante que na mesma época, este fenômeno da afirmação
da heterossexualidade acontecia em Roma. É sabido que os
primeiros cristãos tiverem que lutar com muito empenho diante
das várias seitas religiosas que também eram seguidoras de
Jesus. Tais seitas religiosas pretendiam afirmar-se com uma
identidade espiritual e doutrinal, procuravam nos evangelhos os
escritos dos profetas, como o conhecimento da verdade
revelada de uma pessoa, que acontecia através de uma visão ou
nas suas meditações. Essas comunicações eram atribuídas
diretamente a um discípulo masculino, sem antes ter o
veredicto dos sacerdotes e das igrejas.
Algumas dessas seitas religiosas, além de aceitar o
homossexual, realizavam seus cultos de orgia sexual como um
meio de se aproximar de Deus, atividades muito parecidas com
as práticas sexuais dos Hindus. Um dos motivos que levou o
Cristianismo a condenar os rituais homossexuais, foi o medo de
que essa prática pudesse influenciar seus futuros discípulos.
Nas seitas primitivas existiam as mulheres sacerdotisas, como
eram muito liberais, atraíam adeptos das classes ricas de Roma,
e indiretamente exerciam um poder político e econômico sobre
o império, porque as viúvas e outros seguidores deixavam suas
fortunas para que essas seitas continuarem a propagar o seu
evangelho.
Muitos dos escritos do novo testamento estão
carregados de um preconceito religioso em relação aos
homossexuais. A orientação dos profetas era de recomendar a

41
prática sexual heterossexual e reprimir qualquer manifestação
homossexual. Os primeiros líderes cristãos, Clemente de
Alexandria e outros, colocavam a virgindade como um valor,
sendo que as relações sexuais só poderiam ser aprovadas no
casamento. Aos poucos os cristãos começaram a rejeitar e
enxergar o sexo como parte do pecado da luxúria e do prazer
carnal, sem falar nas culpas e fobias e da repulsa em relação ao
orgasmo sexual.
Como é de praxe, a cultura ocidental impregnou o
desejo sexual de medo, culpa e aversão, esta oposição ao
erotismo, à nudez, não conseguiu extinguir a adoração, a
paixão, o amor e o desejo. Os romanos diziam que sua prática
sexual possuía os genes da superioridade, como uma
civilização que aprendeu a praticar o sexo.
Os bárbaros eram vistos como pessoas primitivas que
deveriam ser julgadas de acordo com o código sexual romano.
Nas tribos germânicas, as mulheres infiéis eram punidas com a
raspagem da cabeça e humilhadas em público. Os homens não
tinham que cumprir nenhuma exigência, pois podiam ter
relações sexuais com várias mulheres, e aquelas que eram
escravas não tinham direito sobre os bens do seu homem.
Determinadas crenças medievais sobre a moral sexual
baseavam-se na literatura da antiguidade. Santo Agostinho
conseguiu esboçar os conceitos dos estóicos durante a ligação
do Cristianismo como sendo a religião estatal cristã. Logo
depois, a moral cristã determinou que o sexo fosse tratado
dentro das leis e regras sobre a visão da sexualidade pelos
tratados e doutrinas da Igreja Cristã. Esta moral cristã possuía
uma teoria sobre a conduta sexual dos cristãos. A tradição
sexual medieval criou muitos tabus e inverdades sobre a
sexualidade humana, que até nos dias de hoje influenciam a
cultura ocidental.
O Cristianismo optou por concentrar toda sua atenção
nos temas que envolviam a sexualidade, deixando de lado, os

42
temas relacionados com a justiça, a fome, a miséria, o
analfabetismo, a falta de moradia, a distribuição de renda, e a
socialização das propriedades e riquezas. A religião islâmica e
judaica nunca matou ou perseguiram com tanta crueldade
quanto o Cristianismo. Os hebreus tinham a idéia de que o sexo
era para a continuidade da raça humana, o erotismo e a
sensualidade estavam mais próximos do demônio e satanás, a
virgindade, a pureza, a negação dessas paixões estava ligado ao
divino e sagrado. Como o sexo era visto como algo mau,
pecaminoso, todos deveriam se confessar para ficarem limpos e
purificados.
Com certeza este processo de aculturação destas
civilizações influencia ainda hoje o modo de pensar, agir e das
praticas sexuais na sociedade atual. Isto significa que as
psicopatologias e as homofobias, como as legislações jurídicas,
estão impregnadas destes preconceitos. Para falar sobre
sexualidade temos de levar em consideração estes fatores
históricos e culturais que indiretamente fazem parte do
processo de formação conceitual sobre o que entendemos por
sexo e de suas práticas. As neuroses, psicoses e outras doenças
compulsivas sobre a sexualidade estão intrinsecamente
relacionadas com os estereótipos e verdade estabelecida pelas
crenças rituais e fantasias que dificultam as vivencia de outras
formas de prazer na nossa sociedade.

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44
1.2 O sofrimento silencioso das compulsões e adições

A neurose leva a pessoa a sofrer silenciosamente, os


pacientes têm medo do prazer sexual, suas dúvidas e traumas
emocionais aumentam cada vez mais a sua infelicidade. A
nossa sociedade divulga e promove imagens erotizadas sobre a
sexualidade, é uma espécie de apelo a desfrutar o prazer sexual,
mas, infelizmente muitas destas pessoas procuram o desejo
sexual projetando patologias inconscientes em seus parceiros.
O motivo de essas pessoas tornarem-se insensíveis, frias
e distantes é uma maneira de se protegerem contra algum tipo
de experiência traumática. Muitas vezes a religião usa da moral
sexual para oprimir e colocar culpa. A rejeição, o abandono, os
maus tratos físicos e psicológicos são os conteúdos latentes
presentes na inibição ou nas perversões e psicopatológicas
relacionadas à sexualidade, criando dificuldades no
relacionamento sexual.
Quando uma pessoa não consegue viver sua
sexualidade, experimenta um vazio existencial, uma raiva por
se encontrar impedida de vivenciar o prazer sexual. Esse
sofrimento destrói qualquer tipo de aproximação com o seu
parceiro. Quando a pessoa está sob o controle da obsessão e
compulsão, o seu estado emocional, psicológico e mental sofre
um dano irreversível, pois começa a se instalar de maneira
inconsciente todos os tipos de adições.
A inibição sexual é um estado de privação e fuga do
prazer, é a mesma sensação de privar-se de uma boa condição
econômica, pois o fato de sempre estar em dívidas é um desejo
de viver correndo atrás do dinheiro, existe um desejo de sofrer
mesmo tendo bens materiais. Isso explica os motivos pelos
quais uma pessoa se priva de uma vivência sexual para fugir do
encontro com suas feridas. Como em qualquer outro tipo de

45
compulsão, essa atitude inconsciente tem como motivação a
negação e a repressão do desejo sexual.
É uma situação muito parecida com a drogadição. Esta
sensação de alegria e felicidade superficial, proporcionada por
substâncias químicas é uma estratégia equivocada de resolver
seus problemas pessoais. Esta adição pode se tornar um
processo de fuga dos momentos em que o ser se encontra com
a ansiedade, a angústia ou a tristeza. A relação entre as
dificuldades existenciais e a narcotização da consciência é um
caminho sem volta. Todos sabem o preço de uma adição, o
prejuízo que a compulsão produz no âmbito econômico,
profissional, familiar e nas relações de amizade. A adição é um
inimigo que oferece um caminho de ilusão, de fantasia para
solucionar os problemas relacionados ao mundo da sexualidade
e do amor.
A negação do prazer pode estar relacionada ao
alimento, ao amor, ao sexo, é muito fácil de compreender este
processo inconsciente de fixação, pois existe um desejo
inconsciente de autodestruição, por isso mesmo a pessoa
justifica com desculpas, e foge de qualquer tipo de prazer na
vida. Seu desejo inconsciente é morrer de infelicidade, de
depressão. Em alguns casos, existe uma raiva que se
transforma em ódio ao seu corpo, a sua família, aos seus
amigos, porque essas pessoas exigem afeto e aproximam-se
para dar amor. As adições proporcionam um estado de morte
psíquica, uma negação ao amor ou mesmo ao sexo e outras
formas de prazer, possui um poder sobre as demais pessoas que
se encontram envolvido na sua adição.
Toda compulsão a repetição obedece a lei do princípio
do prazer primário, utilizam a patologia para poder controlar e
manipular os demais. Na verdade não conseguem se permitir
viver de maneira intensa e sincera a experiência do amor, o que
gera um afastamento da plena satisfação na existência e que
está ligada ao desejo de não assumir-se com responsabilidade

46
na existência. Muitas dessas pessoas encontram-se num
processo de alienação cultural e social, pois suas ideias e
critérios de investimento na sua vida estão pautados sobre os
atrativos da mídia.
Pode acontecer de uma compulsão estar presente em
outras formas de atuação reativa, como por exemplo, nos
medos inconscientes presentes nas fantasias delirantes,
escondidas atrás das atitudes inconsequentes e destrutivas. O
problema se acentua quando o investimento de tempo e
dinheiro realiza o fracasso e a inadimplência. O delírio
persecutório é uma realidade para quem vive no mundo da
compulsão, existe um medo da rejeição e abandono, onde essa
maneira de pensar, ser e agir é uma atuação inconsciente para
afastar-se cada vez mais de qualquer experiência de prazer.
A psicanálise humanista realiza a interpretação dos
transtornos afetivos e a fuga da sexualidade. Existem algumas
características para poder identificar a negação do prazer e o
processo crônico da adição. Para me explicar melhor, faço a
seguinte comparação, como aquelas pessoas que se privam de
uma qualidade de vida em meio a abundância econômica.
Nestes casos a pessoa encontra-se confusa e perdida em relação
ao seu próprio estado de embriaguez compulsiva. Essa
confusão retrata a dificuldade de organizar seus pensamentos
delirantes e, ao mesmo tempo, um desejo desenfreado de
consumir-se na adição. Essas pessoas apresentam duas
características: a primeira é seu estado de alienação cultural e
social, e a segunda é uma raiva transformada em ódio
destrutivo contra sua própria pessoa.
Todo compulsivo obedece ao desejo de negar a si
mesmo as dimensões do prazer na existência, no caso da
sexualidade, a inibição realça o medo obsessivo ao prazer. Para
realizar um diagnóstico mais preciso, vou enumerar alguns
sintomas presentes nas adições destrutivas:

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- muito medo de viver o sucesso amoroso e
profissional;
- um medo obsessivo e doentio do contato íntimo com
as pessoas de sua convivência;
- uma moral exagerada aliada a condenação e
julgamento quando se trata de assuntos íntimos e pessoais;
- uma necessidade compulsiva de fugir do encontro de
temas que digam respeito as suas neuroses;
- deformação e alteração das funções corporais e
críticas em relação à estética;
- cobrança, culpa, medo, dúvidas e muitas incertezas em
relação a sua competência afetiva, amorosa, sexual e
profissional;
- rigidez de caráter, críticas exaustivas e diminutivas em
relação à sexualidade;
- medo compulsivo e obsessivo pelos pensamentos
fantasiosos de delírio de perseguição;
- dificuldade de relacionar-se num plano mais profundo
com amigos e colegas;
- uma necessidade compulsiva de tratar de assuntos
externos e superficiais pelo medo de entrar em contato com a
sua intimidade afetiva e amorosa;
- comportamento autodestrutivo para provocar a perda,
o fracasso, e fugir de qualquer experiência de prazer.
São pessoas que se escondem por detrás de um discurso
de condenação e julgamento das atitudes e comportamentos
dos outros ou de pessoas de sua convivência e acabam se
acostumando a viver a miséria e a pobreza de amor, afeto,
conhecimento, e prazer em todas as instâncias da vida.
Esses sintomas existenciais podem estar presentes tanto
nos homens quanto nas mulheres. Quando o psicanalista realiza
a escuta da história pessoal do paciente, os mesmos começam a
relatar cenas de abuso sexual, esta experiência traumática
desencadeia um processo de negação e fuga do prazer. A

48
experiência de abuso sexual na infância é muito comum entre
pessoas que não conseguem ter uma vida de satisfação e prazer
sexual.
Outro tipo de sintoma muito comum entre as pessoas
que sofrem de inibição em relação à produtividade, é que as
mesmas também se sentem acompanhadas de desprezo,
abandono e violência psicológica e física. Como estas
vivências acontecem sob a coerção, ameaças, e castigos,
muitos se sentem obrigados a conservar a qualquer custo estes
segredos, ao mesmo tempo sentem-se bem porque conseguem
serem leais às práticas de pedofilia.
Toda pessoa que se encontra em sofrimento desconhece
as causas e motivos inconscientes das dinâmicas neuróticas
destrutivas. Existe, de fato, um medo muito grande de negar-se
e destruir-se, e assim procura de modo inconsciente, a dor e o
sofrimento, inclusive na escolha de seus parceiros. A repressão
da energia libidinal provoca no organismo outros tipos de
válvula de escape, por onde escoa todo o seu medo. Quando a
repressão e a negação do sexo chegam ao seu limite, inicia-se
um processo de atuação em excesso, mais conhecido como
promiscuidade. É muito parecido com o alcoólatra que trabalha
toda a semana para juntar algumas economias a fim de beber e
gastar tudo em sua festa de final de semana.
Em outros tipos de dependência psíquica ou química,
existem formas de compensação com atitudes extremadas da
busca deste prazer que estava recalcado, como por exemplo, a
adição a drogas, ou mesmo o fato de tornar-se um
ninfomaníaco. A atitude do exagero é dependente da privação,
existe uma vontade de viver o prazer com toda a sua
intensidade naquele momento. A força de vontade de reparação
pelos danos e prejuízos econômicos e afetivos está
acompanhada de um processo autodestrutivo de negação da
potencialidade humana, da dificuldade de projetar-se no futuro.

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Talvez essa maneira de agir tenha sido a melhor atitude que
encontrou para livrar-se de seus temores pessoais.
Toda forma de negação do potencial humano, seja ela
qual for, pode estar relacionada às dificuldades de sua família,
geralmente o filho mais sensível é aquele que toma as dores
para si mesmo, numa atitude inconsciente procura, de todas as
maneiras, resolver o sofrimento da família, sozinho e
discriminado por todos, continua sua trajetória de revolta e
agressão a sua pessoa e toda sua família. Enquanto os segredos
e os pactos inconscientes esconderem os temas dos quais todos
sabem, mas que ninguém fala, o sofrimento permanecerá,
geração após geração, como uma dolorosa herança.
Outra hipótese a ser investigada é a influência de
amigos ou do grupo cultural, social, religioso, que possa levar a
pessoa a viver a repressão do seu potencial criativo, alienado e
massificado pelas ideologias destes movimentos, permanece
improdutivo e infeliz. Portanto, o psicanalista deve procurar
entender a manifestação destas atitudes destrutivas. Por
exemplo, quando uma pessoa não consegue destacar-se em
nenhum tipo de trabalho, esta neurose sempre consegue criar
algum tipo de problema para ser demitido. A vítima de um
abuso sexual pode começar a comer compulsivamente para
esconder a sua dor e sofrimento. A sua obesidade tem como
objetivo evitar que qualquer pessoa se sinta atraída pela sua
pessoa, e, assim, foge do contato com o seu trauma sexual.
Isso é tão verdade que no caso dos dependentes
químicos, eles só conseguem viver sua sexualidade quando se
encontram sob o efeito das drogas. Sendo assim, a utilização
dos psicotrópicos ajuda a desinibir e levar a pessoa ao
relacionamento sexual. Todas as pessoas que viveram algum
tipo de trauma sexual priorizam a abstinência, às vezes esta
mesma repressão pode estar sendo direcionada para outro
modo de obter prazer. Os dependentes dos vícios não

50
conseguem viver em harmonia e equilíbrio, pois se encontram
sempre na abstinência completa ou no excesso de prazer.
Estas adições permanecem ocultas ou latentes no estado
de inconsciência na família. Nos casos de adição de um dos
membros da família, os outros acompanham a trajetória deste
sofrimento. De repente, um dos pais começa a agir de forma
responsável e excessiva, se afastando de qualquer tipo de vício.
Tal atitude pretende compensar os desmandes de algum de seus
filhos. Para dar o exemplo, os pais começam a reprimir e
pensarem que através de seu exemplo podem modificar o
comportamento do filho. É importante saber que estes focos de
adições não acontecem de maneira isolada.
Os transtornos de caráter procuram esconder ou negar
todo o seu potencial, a pessoa não consegue enxergar o que
está fazendo consigo mesma, necessita expandir sua
consciência para poder compreender o drama de sua adição e
de todo seu processo autodestrutivo. Existem diversos tipos de
adição, podemos citar como exemplo, a adição ao trabalho, ao
alcoolismo, as drogas, ao sexo, etc. Muitos recorrem ao uso dos
psicotrópicos para amenizar ou narcotizar as lembranças de
emoções dolorosas.
Existem, é claro, os mecanismos de defesa, e o mais
utilizado é o racionalismo. Nesse sentido, muitas frases são
utilizadas: “Ora essa! Ninguém morreu por viver desta
maneira”; “Conheci muitas pessoas que bebem mais que eu e
ainda assim vivem bem”. E desta maneira esconde a
dependência física e psicológica. Toda adição causa
dependência física e psicológica, esta estrutura neurótica tem
como objetivo a produção de atitudes destrutivas, que levam a
pessoa a viver constantemente angustiada, e com muito
sofrimento.
As adições, de fato, conseguem destruir a vida de uma
pessoa, além de produzir sintomas e doenças físicas e
psicológicas, muitos se sentem inseguros, desconfiados,

51
portanto, seu único objetivo é vender uma falsa imagem de si
mesmo e manter a qualquer custo a sua relação com a
dependência.
O alcoolismo, a drogadição, a compulsão alimentícia e
sexual, manipulam e convertem a vida da pessoa em dor e
sofrimento. Todas as adições alimentam-se das traições, dos
fracassos, da doença, da violência, e da mentira. O modo de
pensar do dependente tem implicações numa ideia fixa e
ignorante sobre a sua atitude, é um caminho sem volta, pois, a
satisfação, a realização e a felicidade são demandas
inalcançáveis, sendo que sua ação está baseada na ilusão e
ficção da realidade.
Os meios de comunicação social trazem notícias a
respeito dos escândalos sexuais, como a violação de crianças
pelos pedófilos, ou das traições amorosos, ou aventuras sexuais
de algum político importante. A notícia tem como finalidade
alcançar o maior número de pontos no Ibope para, em seguida,
vincular às suas propagandas de perfumes, automóveis,
eletrodomésticos, etc. Quando na verdade a mídia falha e não
leva as pessoas a compreenderem as verdadeiras causas deste
tipo de comportamento.
A grande maioria da população tem problemas em
relação às adições, existem dificuldades de toda ordem, e a
simples veiculação dessas notícias não ajuda em nada a solução
dos problemas, em alguns casos aumentam o preconceito e a
rejeição da pessoa que enfrenta a adição. A solução encontrada
é a punição, os comunicadores da mídia pedem a pena de
morte, a prisão perpétua, e, em nenhum momento, um projeto
de saúde psíquica preventiva às populações abandonadas e
marginalizadas do acesso a educação e informação.
A psicanálise é uma ciência que pode ajudar através de
algum tipo de programa de prevenção com as instituições do
poder público e escolas, demonstrando métodos de tratamento
e informação para desmistificar e romper com ciclos viciosos

52
de culpar, julgar e condenar as pessoas que estão sofrendo este
tipo de patologia. Talvez um esforço em conjunto, devidamente
planejado, pudesse esclarecer e mostrar outro caminho, mais
próximo de uma solução para estes problemas de ordem
aditiva, que mantém como reféns centenas de milhares de
pessoas.
Esse livro descreve esta proposta para que as pessoas
voltem sua atenção para a prevenção e o acesso a análise destes
traumas. É um esforço que deve ser de todas as pessoas,
levando o conhecimento sobre a origem e os mecanismos
destrutivos da compulsão. Quanto maior for a consciência
sobre as obsessões e compulsões, maior será a probabilidade da
pessoa sair desta condição doentia e dependente de viver.
Podemos confirmar a eficácia dos programas de prevenção,
porque muitas pessoas encontraram um lugar para poder
compreender a si mesmos sendo de muita utilidade a população
em geral.
O grau de recuperação depende muito de o paciente
seguir as exigências e prescrições de um profissional
devidamente preparado para saber lidar com os dependentes
afetivos. O objetivo do curso de prevenção é retirar a pessoa
desta obsessão, todos nós sabemos que não é uma tarefa muito
fácil, em primeiro lugar porque esses pacientes foram vítimas
de agressões íntimas, de uma confiança e autonomia que foi
negligenciada e violentada. A cura é um processo de tomada
de consciência, de sair de um caminho da doença para a saúde,
mas para que isso aconteça faz-se necessário recuperar a
capacidade de confiar em si mesmo e nos outros.
Além disso, é preciso uma rede de pessoas
comprometidas a ajudar neste processo de superação da adição,
isto inclui todos os profissionais das mais diversas profissões,
tais como analistas, psicólogos, terapeutas, médicos,
enfermeiros, psiquiatras, educadores, assistentes sociais,
amigos íntimos, familiares, padres, pastores e todas aquelas

53
pessoas que possam contribuir na solução do grave problema
das adições.
Este livro pretende contribuir para a diminuição do
sofrimento gerado por esta chaga social, mais conhecida como
adição. O objetivo é levar pais, amigos e profissionais a
lançarem-se neste grande objetivo, de um caminho que levará
anos para alcançar a saúde emocional. Para tanto, é essencial
sair do estado de isolamento para interpretar, confrontar e
esclarecer as crenças limitantes e os pactos inconscientes que
levam estas pessoas a viver na doença e no fracasso.
O conteúdo deste livro pode ser usado por educadores,
pais e profissionais da saúde em muitas circunstâncias,
inclusive para trabalhar os problemas da adição, principalmente
nas terapias de grupo. Também vamos incluir algum tipo de
esclarecimento sobre a terapia de casal e de família, porque
pode e muito ajudar na recuperação de casais adictos. Este
conteúdo da ciência psicanalítica pode ser utilizado como um
guia seguro aos analistas que tratam dessas pessoas. Todos nós
sabemos que os adictos são pessoas de bem, o bom combate
deve ser direcionado a sua neurose maligna. Temos que
acreditar na possibilidade da cura, da vivência prazerosa, que
liberta e leva estas pessoas a fazerem uma nova experiência em
suas vidas.
O que dizer sobre nosso passado. Se pararmos para
pensar sobre as regras, normas, crenças, costumes, tradições e
mitos que se constituíram nas verdades culturais e sociais que
nos tornaram homens e mulheres. Agora, podemos começar a
pensar sobre a influência que a educação emocional e cultural
teve sobre a identidade sexual. É muito interessante observar
que a história de cada pessoa reproduz de certa forma a história
transgeracional dos seus pais.
Podemos ainda levar em consideração o
desenvolvimento biológico e toda a força da pulsão presente na
filogênese e ontogênese. A herança dos genes formou, através

54
dos tempos e gerações, a constituição física e anatômica da
genitalidade da sexualidade. Cada ambiente cultural possui
maneiras diferentes de compreender e vivenciar a sexualidade,
mas, como vivemos em uma cultura ocidental, é muito
importante nos atermos à realidade antro-bio-psico-social da
cultura internalizada de modo inconsciente, em cada pessoa
humana.
O cérebro não está vazio, pois possui nas camadas
profundas do seu sistema límbico, o legado primitivo e arcaico
do instinto sexual. É uma herança que remonta aos ancestrais
primatas, onde o aprendizado da sobrevivência retrata, desde o
nascimento, a necessidade de algumas necessidades básicas.
A primeira diz respeito ao cuidado da alimentação e
higiene; a segunda, a necessidade de falar e se comunicar; a
terceira, sobre a importância do aprendizado de superar as
adversidades e andar com as próprias pernas, que significa a
necessidade de autonomia e independência. A quarta, a
educação dos valores e virtudes que fazem parte da formação
ética do caráter; a quinta aprender a dar e receber afeto e
vivenciar com os seus pais as primeiras experiências de
carinho, afeto e expressão do amor. A sexta, a importância de
compreender as regras sociais e o respeito ao outro, o que
inclui a alteridade, a compaixão, o respeito, o perdão, a
cooperação, a competição e os seus próprios limites de realizar
os seus sonhos. Além disso, existe toda uma atmosfera de
energia emocional em conjunto com pactos inconscientes que
podem esconder segredos e traumas, que na vida adulta
aparecem na forma de sintomas.
O ambiente familiar, social e cultural pode ajudar no
processo de aprendizagem em relação à sexualidade, são estas
informações fornecidas pela educação dos pais e professores
que depois se tornam crenças produtivas ou destrutivas. Além
disso, existe uma curiosidade inata na criança para perguntar e
buscar respostas para solucionar suas dúvidas. As dificuldades

55
começam a aparecer quando os pais não possuem as
informações necessárias para esclarecer sobre os temas
relacionados à sexualidade.
A complexidade da educação sexual aumenta com os
questionamentos e as vivências da idade escolar, momento em
que este processo toma dimensões repressivas ou de satisfação
e realização. As neuroses e psicopatologias começam a surgir,
ao mesmo tempo em que a sexualidade é tratada como um tabu
ou pecado. Cada criança pode desenvolver sua história sexual
baseada na verdade ou nas mitologias que escondem a
dificuldade dos adultos de tratar sobre o tema.
A dificuldade que muitos adultos sofrem de viver a
sexualidade têm suas raízes nos traumas e bloqueios, dos
abusos sexuais ou dos equívocos de uma educação repressora.
O sintoma neurótico da frigidez, da impotência, das fobias, das
adições e compulsões mostra uma história da negligência, de
abandono e rejeição. Esses preconceitos acompanham a pessoa
por toda a sua vida, e sua função é distorcer a realidade e levar
a pessoa a viver no sofrimento e na dor.
De toda maneira, esse livro procura esclarecer,
confrontar e interpretar a realidade subjetiva e suas estruturas
neuróticas ou psicóticas que levam muitas pessoas a
repudiarem ou mesmo a odiarem o tema da sexualidade,
porque se conseguirmos entender um pouco mais sobre a
natureza da sexualidade, isso sem dúvida, pode ajudar as
pessoas a viverem com mais liberdade e responsabilidade em
torno do tema complexo da sexualidade.
Um dos motivos é a quantidade de informações
veiculadas na mídia e principalmente na internet, não temos
mais como fugir da abordagem e dos questionamentos diante
de tanta transformação. A humanização depende muito da
educação, são conceitos, ideias e teorias que podem interferir
para o bem ou para o mal. A estrutura emocional da nossa
civilização remonta há mais de dois séculos, esta estrutura

56
patriarcal teve sérias dificuldades quando surgiu o movimento
social dos jovens e adolescentes questionando a estrutura social
e, principalmente, a sexualidade.
Todos nós sabemos que a sociedade ocidental
modificou e muito sua compreensão sobre o sexo. Mas, quando
começamos a fazer uma escuta na clínica psicanalítica
começamos a perceber que a mudança ainda está por acontecer,
pois esta revolução sexual não conseguiu atender e tampouco
modificar os costumes, valores e crenças arraigados nas
profundezas do inconsciente coletivo. Talvez os agentes de
contestação tenham conseguido trazer muitos temas para
discussão, mas a transformação íntima das crenças limitantes
ainda é muito pequena.
O que constatamos é uma mudança externa na maneira
de se vestir, de usar o corte do cabelo, as músicas, a
reivindicação da liberação do sexo e das drogas. Eu entendo
que a transformação pessoal exige uma consciência que esteja
além da transgressão das normas vigentes, de questionar a
moral, de fumar maconha ou cheirar cocaína e craque. Na
atualidade, voltamos aos padrões da sociedade conservadora, o
que nos mostra que toda mudança externa não consegue alterar
os padrões emocionais e bloqueios ou mesmo crenças e
costumes internos.
As mulheres começaram a trabalhar fora de casa, a
reinvidicar seu espaço na sociedade, esta mobilização social
feminina exigiu ainda mais sua dedicação no cuidado e na
educação de seus filhos. A história da vida masculina está
pautada sobre o patriarcado e o machismo. Muitos homens
tiveram grandes dificuldades de aceitar e conviver com essa
nova mulher. Mas, ambos tiveram sua participação na
formação emocional de seus filhos, em relação a vivência e
compreensão do mundo da sexualidade.
Sem dúvida a educação sexual inicia-se quando a mãe
convive e dialoga com o seu feto, é na vida intra-uterina que se

57
inicia o processo de aceitação ou rejeição, é sobre esse olhar
dos pais que a criança está sendo gerada. A reprodução sexual
é muito mais que a simples confirmação da virilidade
masculina ou a capacidade de ser mãe. Nas comunidades
agrárias e rurais, o nascimento de um filho seria motivo de
alegria e felicidade, pois acrescentaria mão-de-obra para
trabalhar no cultivo dos campos.
Quando nasce uma criança surge, ao mesmo tempo,
algumas preocupações, principalmente em relação a sua
educação e as condições econômicas para dar segurança ao seu
desenvolvimento. Mas, nem sempre os filhos são fonte de
preocupação ou despesas, quando estes pais planejam o seu
nascimento e estão maduros para recebê-lo torna-se uma
alegria e um momento de extrema satisfação e realização para
os pais. A dedicação, o carinho e a compreensão são atitudes
humanizadora dos princípios únicos do amor e da bondade,
presentes nas pessoas desses pais.
Pais preparados não colocam culpa e medo, ou muito
menos rejeitam a presença da criança na família, a retribuição
do carinho e amor é o resultado daquilo que aprendeu na
relação familiar. Temos muitos exemplos de filhos que amam e
cuidam dos pais como uma maneira de retribuir o amor que
recebeu na infância, como também existem casos em que os
filhos abandonam seus pais, pois sentem raiva e ódio. Esta
inversão de valores e dos conflitos familiares começou a surgir
quando a preocupação em sobreviver foi maior que o tempo
disponível para estar presente na vida do seu filho.
Os fundamentos da sociedade capitalista conseguiram
levar a família à procura da acumulação de bens materiais e de
um consumismo desenfreado, e os prejuízos somam com juros
e correção monetária quando os filhos tornam-se um problema,
distantes, agressivos, sem limites e desobedientes, transgridem
e ofendem a todos sem distinção. Esta revolta é uma
contestação sobre a filosofia de vida desta família, às vezes o

58
preço é tão alto que os jovens fazem uma opção pela sua
autodestruição pessoal.
E, sem dúvida, a falta de tempo para os filhos e a
família é sempre um mau negócio, pois sempre traz prejuízo e
infelicidade a todos os membros da família. Muitos jovens
iniciam cedo sua prática sexual e de um modo precoce, outros
procuram nas drogas o refúgio para a infelicidade e revolta,
presentes numa vida sem sentido. Outros pais procuram
compensar a falta de sua presença comprando com bens
materiais a atenção dos seus filhos. Procuram dar de tudo e não
ensinam nada por não terem tempo.
Como que uma criança, ou mesmo um jovem, consegue
viver sem carinho, atenção, amor e afeto, quando se encontra
sozinho para resolver seus dilemas pessoais. Como esses pais
podem exigir um retorno dos seus filhos, quando na verdade
negligenciaram a parte mais importante da sua vida afetiva.
Devido aos compromissos do seu trabalho profissional
entregam nas mãos das babás e empregadas o cuidado e
educação destas crianças, em muitos casos recebem muito mais
amor e cuidado da empregada do que dos seus pais. A questão
é como que esses jovens vão desenvolver a experiência da
intimidade e confiança quando se encontram sozinhos e
isolados, compensam a falta da presença humana através da
televisão e dos computadores.
Hoje em dia existem outros critérios e valores muito
mais importantes do que a educação emocional dos filhos,
muitos acreditam que o dinheiro consegue preencher as faltas.
Por que muitos jovens gostam de encontrar-se nas ruas e não
querem voltar para casa Por que muitos pais não querem
pensar e resolver os problemas com os seus filhos De onde
surgiu a ideia de que os filhos tiram a liberdade e roubam o
tempo dos adultos com suas queixas e necessidades Por que
muitos pais se enchem de tarefas quando chega o final de
semana De onde surgiu esta obsessão em torno de quem vai

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cuidar da criança Será que os avôs são as pessoas corretas
para cuidarem dos seus netos
Não se duvida que muitos filhos proporcionam alegria
aos seus pais. Qualquer criança é frágil e precisa dos cuidados
e atenção, mas, afirmar que elas tiram a privacidade e o
sossego é admitir que não entendesse nada sobre o amor.
Nenhum adulto pode dizer que se sente invadido pela presença
do seu filho quando está assistindo a um filme, ou conversando
com os seus amigos. Ninguém pode sentir ciúme ou inveja da
felicidade de uma mãe, quando esta se encontra com o seu
filho, pois esta relação tão íntima e verdadeira mostra a verdade
sobre a relação mãe-bebê.
Muitos pais experimentam a paternidade como uma
obrigação, uma carga, um fardo a ser carregado, e outros
homens decidem não ter filhos, esta é uma tendência muito
comum nos países do primeiro mundo. Ninguém pode
questionar o significado da importância da maternidade ou da
paternidade, às vezes a questão não está presente no desejo de
ter uma família, mas no despreparo emocional e na imaturidade
para assumir, com responsabilidade, a educação emocional dos
filhos.
Quando o processo inicia-se com uma gravidez
indesejada, que representa para a mãe a perda de sua atividade
profissional e de sua liberdade para estudar. Este conflito
reascende uma antiga discussão sobre o impacto dessa rejeição
na vida de uma criança. Ainda não existem pesquisas para
dizer sobre as sequelas que uma criança tem quando é separada
de sua mãe depois dos seis meses. Sem dúvida a condição
emocional e sua segurança emocional são quesitos
indispensáveis para compartilhar com o seu filho.
A maternidade torna as mulheres mais calmas,
tranquilas, elas experimentam um estado de realização diante
de sua grande disponibilidade de cuidar do seu bebê. O fato de
ser mãe é uma experiência de sentir-se plenamente útil e

60
importante diante da natureza, porque é através da maternidade
que a humanidade garante a continuidade da espécie humana
sobre a Terra. Quanto ao papel do homem nesse processo, faz-
se indispensável sua participação e cooperação para que possa
sentir-se realizado na função de cuidador.
Não é uma verdade absoluta que os homens sentem-se
rejeitados, ao contrário, alguns se sentem lisonjeados e
plenamente felizes em poder compartilhar e ajudar nos
cuidados do seu filho. Também não é verdade que o homem
sente inveja da maternidade da sua esposa, estes ainda são
resquícios do conceito equivocado do complexo de Édipo de
Freud. Será mesmo que o homem sente-se traído pelo seu
filho Ou vivencia uma emoção de amor e gratidão pelo
nascimento deste ser humano Sente ciúme de seu filho porque
rouba a atenção e carinho de sua esposa Não acredito, pois
caso exista tal emoção, ela é patológica. Na verdade é um
presente da natureza poder compartilhar, cuidar e
conjuntamente oferecer aos filhos uma experiência de afeto e
amor.
Na verdade eu não acredito nas rivalidades do chamado
Complexo de Édipo e muito menos que surjam depois de
alguns anos. Não vejo como uma disputa do filho em relação
ao pai na luta pelo amor da mãe. Esta compreensão nos diz que
toda criança é ciumenta e invejosa, fato que eu não acredito,
porque existem muitos adultos que são imaturos e apresentam
emoções negativas. E não vejo como uma verdade a questão da
afirmação sexual, o que percebo é um desejo muito ardente
dessa criança em dar e receber amor e isto não tem relação com
disputa sexual.
O homem não está excluído deste processo afetivo e
amoroso, a única diferença é que não pode engravidar
biologicamente, mas pode sentir, admirar e desejar a felicidade
dessa criança emocionalmente. Nem sempre a capacidade
reprodutiva é sinal de cuidado e amor, não basta ter um útero e

61
dar a luz a um filho, é preciso muito mais do que isso para
poder envolver-se e aceitar o milagre da vida. O homem nunca
se encontra excluído deste processo, pois a cada instante, vibra,
emociona-se, e celebra em conjunto com a sua companheira, o
nascimento do seu filho. Tal fato pode acontecer quando trata-
se de um homem com uma enorme imaturidade emocional,
mas neste caso estamos levando em consideração uma atitude
neurótica que não é a regra e, sim, a exceção.
É claro que seria muito interessante que durante a época
da gestação o homem e a mulher estejam em paz e harmonia,
pois, caso contrário, os conflitos de raiva, ódio, ciúmes, e
desavenças, podem repercutir na vida emocional do bebê em
gestação. Também não vejo o nascimento como uma “expulsão
do paraíso”, prefiro acreditar na experiência em direção à
autonomia e independência. O tratamento que ambos
dispensam em relação ao outro deve ser sempre de respeito e
consideração.
Um filho nunca é um rival para um pai, é o começo de
uma nova experiência de maturidade e responsabilidade na
educação de um ser humano. Quando a relação sexual existe
dentro de um ambiente de amor, nenhuma mulher deseja fazer
o aborto, mas quando falta segurança e comprometimento, esse
talvez seja o caminho escolhido. O casamento está acima do
aspecto reprodutivo, o nascimento dos filhos é somente uma
das alegrias que o matrimônio pode oferecer, pois a
cumplicidade e a intimidade do casal acrescentam, e muito, à
sua felicidade e realização.
Quando existe competição entre o casal, mágoa,
ressentimento, violência psicológica e física, estamos diante de
duas pessoas imaturas e que precisam de ajuda para poder
superar estas suas demandas que não conseguiram ainda
resolver. O medo do amor e da felicidade, as vivências
negativas do passado, podem destruir um casamento e afastar
os filhos do convívio familiar. Aquelas pessoas que sofreram

62
muito na infância, que foram maltratadas, ofendidas, agredidas,
rejeitadas, não conseguem aceitar a existência de um amor
verdadeiro. O medo é tão nefasto que este homem ou mulher
poderá desencadear ações destrutivas, com a finalidade de
afastar-se com todas as forças da experiência de ser amado.
Uma mulher grávida precisa de amparo, cuidado,
atenção, esta é uma manifestação madura de amor, quem
realiza tal atitude demonstra que é capaz de amar e dar suporte
para o nascimento de um novo tipo de amor. Uma mãe pode
sentir-se feliz, realizada e protegida na sua gravidez porque
experimenta a segurança do esposo e das pessoas amigas e
queridas da sua família. Por isso, podemos dizer que uma
pessoa que se conhece tem mais chances de lidar com as
adversidades e problemas que possam surgir durante este
período de gestação. Alguém que se encontra numa crise
existencial, afetiva e amorosa terá muita dificuldade de fazer
esta passagem sem futuros traumas.
Não existe esta questão de mãe e pai, somos um pouco
de pai, de mãe, de filho, de filha, etc. Não existe nenhum tipo
de prejuízo em ocupar por algum momento esse papel, pois
naquele precioso momento vivenciamos este espaço para dar
mais segurança à pessoa que amamos. Outra questão a ser
pensada é que o nascimento de um novo irmão vai tornar-se
um momento de uma forte competição e de rejeição. Não
podemos conhecer um caso particular e generalizar este tipo de
ambiente a todas as famílias. Podemos pensar que esta criança
sente-se alegre e contente por ter um irmão para brincar,
aprender e conviver em conjunto, na superação de suas
dificuldades.
Nem sempre é verdadeira a ideia de que o pai sempre
vai amar mais um filho do que uma filha, essa é uma atitude
preconceituosa e machista, independente da questão genital,
ambos são amados porque são seus filhos. Dizer que o filho
masculino é bem vindo porque pode tornar-se um grande

63
homem na vida e ajudar financeiramente a sua família é um
equívoco, porque existem mulheres muito bem sucedidas
profissionalmente, inclusive na questão da cultura e
inteligência.
Esse tipo de machismo é preconceituoso e equivocado,
porque em nossa sociedade o que define o caráter de uma
pessoa não é sua genitalidade. Ser pai também contempla uma
dimensão biológica e afetiva no desejo inconsciente de cuidar e
proteger o seu filho. A mulher começa a viver esse desejo
quando inicia a maternidade, da mesma maneira, o homem na
vivência da paternidade. Para classificar uma criança em sadia
e normal, muitos observam se não existe nenhum tipo de
comprometimento anatômico ou cerebral. A saúde psíquica da
criança depende, e muito, do estado emocional dos seus pais.

64
Parte II

2.0. Quando o fantasma da adição alia-se as fantasias da


compulsão

Quando o homem inicia o processo de sua curiosidade


infantil, ou mais precisamente, do seu desejo de conhecer
outras instâncias e lugares ainda desconhecidos pela sua
existência, existe um desejo de sair em busca de novas
descobertas, é o homem caminhando em direção aos segredos
da natureza humana, cósmica e material.
Ao fazer essa viagem percorre um caminho ainda
desconhecido, seu leme é sua inteligência, seu pensamento
busca explicações que estão muito além da sua compreensão
atual. Mas é necessário coragem, a ousadia de aventurar-se em
busca da novidade, e nem mesmo as piores tempestades podem
impedir a continuação de sua jornada.
Esse desejo de superação, de encontrar sentido e
também procurar respostas para as suas dúvidas, indagações e
questionamentos é uma necessidade de interar-se dos
fenômenos escondidos no mais íntimo da natureza. Ao navegar
sobre a existência é transportado de um mundo para outro, e
nestas movimentações de emoções aparecem a bravura e os
poderes de sua natureza.
Ao caminhar pela existência encontra muitos desafios e
dificuldades que precisam ser superados, mas nenhum é igual a
existir sem uma finalidade, viver sem sentido, não ter
consciência sobre os riscos de sua própria autodestruição.
Todos os homens estão atravessados pela humanidade presente
em todo o visual que se apresenta aos seus olhos, indiretamente
todos os objetos e coisas estão participando desse processo
evolutivo.

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No íntimo de cada homem existe o desejo de conhecer,
de descobrir, de assemelhar-se a um Deus, de beneficiar-se dos
presentes da natureza e tentar descobrir os seus segredos. É um
ser pensante que pretende pensar o seu existir e, ao mesmo
tempo, entender a sua desumanidade, e na infinitude de sua
fantasia, encontrar as respostas para as irracionalidades e
emoções de agressão, violência, e destruição inerentes ao ser
humano.
São estas tempestades que surpreendem os homens
menos avisados sobre os perigos dos ataques emocionais, das
traições, das inimizades, das ambições, das vaidades. O homem
é transportado para viagens, percorrendo rotas ainda
desconhecidas. Aprende a conviver com seus medos, suas
angústias e ansiedade, porque não tem certeza sobre o que o
espera no final de seu caminho. Mas, sabe que muitas
adversidades e perigos estão a sua espera, de nenhum modo é
ingênuo, tem a idéia de que nem sempre pode esperar pelo
melhor, às vezes encontra-se embriagado pelas falsas
interpretações que realiza a respeito de si mesmo e de sua
realidade.
Mas, ao homem de coragem não existe outro caminho
que não seja o de desbravar e enfrentar o mundo fantástico de
suas dúvidas e incertezas, precisa dar sentido a sua existência,
necessita dialogar com as divindades, e quando não tem outros
recursos para entender o seu destino, se apega as crendices,
superstições e mitos, como um modo natural de lidar com as
suas emoções. É toda uma natureza simbólica que possui a
condição de explicar e dar nomes aos seus instintos bárbaros e
sedentos.
Na imensa incerteza do seu grupo, percebe que nem
sempre a quantidade de pessoas garante a sobrevivência de
ambos, são os grandes males dos vírus, das moléstias, que
conseguem matar e terminar com a vida humana. Sem o
recurso adequado, as mutações e desvios das bactérias tornam-

66
se letais à vida, impotentes diante das monstruosidades,
procura descobrir os motivos da morte, no íntimo da natureza.
São doenças, catástrofes ambientais, maremotos,
ciclones, erupções vulcânicas, que mostram o lado obscuro e
sombrio das forças destrutivas da natureza mineral, vegetal e
cósmica. O homem procura compreender o poder de atuação
desta força destrutiva que o persegue desde a existência do
primeiro homem sobre o planeta Terra, e, no intuito de
trabalhar suas dúvidas, também encontrou respostas para as
curas nas próprias forças da natureza.
O fantasma do medo da morte sempre esteve presente
na vida do homem, como sendo parte de acontecimentos que
necessitam de uma explicação. Os desbravadores e cientistas
precisam desenvolver uma disciplina, perseverança, coragem,
ousadia e segurança para poderem enfrentar o lado obscuro da
sombra que acompanha o homem, a cada passo da sua
humanidade.
Imerso na sua própria cultura científica, o homem está
preso aos códigos simbólicos dos avanços científicos, ou
mesmo de seu legado histórico. Como não pode ficar se
lamentando, precisa, com certa urgência, desenvolver também
seus métodos de descoberta, e são nessas tentativas, que
incluem erros e acertos, que os cientistas conseguem verificar
os poderes ocultos dos fenômenos da natureza humana e
cósmica.
O homem valente está disciplinado para matar e morrer,
ou se for possível proteger-se da morte, mas existem situações
que nem mesmo a sua coragem consegue fazer frente ao poder
destrutivo. Em muitas ocasiões, o infortúnio da existência se
apresenta de surpresa, e sem permitir algum tipo de reação, o
homem se torna, então, uma presa fácil para o poder destrutivo
da morte.
As emoções são os movimentos sutis por onde escoa a
energia da vida, mas nem sempre o medo, a vingança e a raiva,

67
podem fazer mal algum ao poder devastador de uma peste, de
um naufrágio, de um incêndio ou de um homicídio. Os fatos
acontecem independentes de sua vontade, mas nos recônditos
profundos desta energia invisível encontra-se, também, a
solução.
Os elementos da antimateria trazem consigo um legado
de experiências do futuro e do passado, o presente anuncia o
seu desejo, impregnado pelo seu instinto de sobrevivência, e
procura com a ajuda de sua inteligência um modo de fugir da
morte e defender a vida. A morte pode apresentar-se com um
tom sádico, amedrontador e traiçoeiro. Sempre surge do nada e,
na falta de atenção, seu poder é devastador.
Mesmo aqueles que estão concentrados e esperançosos
procuram assustá-la com seus pacatos recursos, mas não
conseguem afastá-la da sua sede de vingança, sua busca é
traiçoeira. A ciência surge como antídoto para combater e
prevenir o homem perante os desastres naturais, ou mesmo
diante das intempéries de sua existência. Aqueles que
conseguem sobreviver às investidas da destruição precisam
começar a pensar numa maneira de continuar vivendo.
E mesmo estando seguro, às vezes a situação exige um
abandono, como única forma de salvar a si mesmo.
Encontrando-se numa encruzilhada, o instinto de
sobrevivência, tem como determinação procurar, de todas as
maneiras, manter-se vivo. O homem, nesses momentos,
começa a valorizar a presença do seu semelhante, para
enfrentar os dilemas da existência, sozinho e na solidão,
aproxima-se do devaneio e da loucura.
O medo aparece quando a realidade mostra a crueldade
da fome, da violência, da morte, esta situação assusta e
reacende o desejo de morrer mesmo antes de enfrentar a morte.
Muitos começam a imaginar o pior, arriscam-se a fazer
algumas previsões negativas e pessimistas sobre esses
acontecimentos. Ao homem cabem somente duas alternativas:

68
enfrentar o perigo e os desafios que a existência coloca em seu
caminho, ou arrisca fugir e esconder-se de tudo e de todos.
Imerso nos seus fantasmas pessoais, começa a convencer-se da
impossibilidade e da imprevisibilidade da força do seu inimigo,
que antes de qualquer coisa, depende muito dos seus medos.
Mas mesmo aqueles homens imersos no medo,
indiretamente estão preocupados em defender a permanência
da vida, e devido a isso acreditam que a fuga e seus
esconderijos, possam enganar e afastar a presença da destruição
e da morte. Com o tempo, descobrem algumas estratégias, seja
por intuição, pela sensibilidade ou pela inteligência, algumas
estratégias que possam ao menos enganar e fazer com que ele
se torne invisível aos olhos da morte. Na verdade, seus
pensamentos estão tomados pela ansiedade, pela angústia, pelo
pânico, de poder ver-se livre desses seus fantasmas. Na prática,
existe um desgaste enorme de tempo e energia psíquica, onde
todo o seu empenho é empregado na tentativa de fugir das
forças que o perseguem e que ele sabe que têm o poder de
destruí-lo.
Com suas forças físicas e psíquicas esgotadas, percebe
que suas obsessões e compulsões não conseguem apagar de sua
mente o fantasma da destruição. Perseguido e sentindo-se
oprimido na sua solidão, exige cada vez mais de si mesmo uma
atenção redobrada, para não ser pego de surpresa, por isso
mesmo, não pode se dar ao luxo de descansar e sentir-se em
paz. Este delírio persecutório é um fantasma que consome as
suas energias, é um monstro que suga a sua vitalidade.
Com medo e apavorado, precisa redobrar seu estado de
atenção, o esgotamento de suas forças físicas e psíquicas está
com os dias contados. Tem consciência que continua vivo, que
suas defesas conseguiram postergar a sua vida, mas seu estado
psicológico alerta no sentido de que estes fantasmas são
superiores as suas forças. Sozinho, confuso, com medo de tudo

69
e de todos, sente o peso da solidão, da sua limitação, para
enfrentar estas imagens que têm o poder de destruí-lo.
No grupo os fantasmas podem ser compartilhados, cada
um tem o direito de expressar os seus medos e também
apresentar as suas defesas. Mas, no fundo também sabem que o
grupo não pode oferecer a garantia de sua sobrevivência, mas
oferece a fantasia de que juntos podem ter mais força para
enfrentar os seus inimigos. O grupo não pode impedir a
presença dos fantasmas na imaginação dos seus membros, às
vezes é preciso um choque de realidade, para poder sair do
processo de divagação, ou ser devorado pelos fantasmas do
medo.
Como o caminho é longo, o grupo precisa de um líder,
alguém especial que possa ser a fonte de inspiração, de
coragem, de iniciativa, de procurar uma saída para enfrentar os
dilemas e problemas que a existência colocou no caminho de
cada ser humano. Ao dormir, ao alimentar-se, ao fazer sexo,
outros instintos também precisam ser atendidos nas suas
necessidades, incompletos e limitados por esta realidade,
precisam do cuidado de alguém, de uma vigília constante, de
um guarda, de segurança, para que possa dormir tranquilo sem
ser pego de surpresa.
Mas quem vigia e cuida do grupo também sente sua
limitação para poder enfrentar estes tipos de fantasmas, suas
armas são impotentes para fazer frente ao poder de destruição
do fenômeno que traz a morte e a destruição. Mas quem
observa, percebe que a morte oportuniza e oferece uma
segunda chance para aqueles corajosos, ou que ao menos tem a
bravura de lutar pela sua dignidade de ser humano.
A destruição, e mesmo a morte, olham de frente aquele
ser desprovido de armas, mas algo se produz no íntimo do
coração da morte, uma falta de coragem para poder matar, e
não é só isso, um respeito, um temor, um cuidado com este tipo
de ser humano. Estamos falando do líder que enxergou a morte,

70
mas conseguiu continuar vivo, é como experenciar um segundo
nascimento.
Mas existem muitos convites e seduções, enganos que o
cérebro não tem a capacidade de averiguar se são reais ou trata-
se de uma fantasia. Quanto mais difícil uma realidade, na
mesma proporção, a fantasia ocupa seu devido lugar na
existência do homem. A beleza da fantasia é quanto ela oferece
a proteção, os cuidados e, acima tudo, promete a garantia da
vida. Imerso nesta sedução acaba envolvido pelas falsas
promessas de uma responsabilidade que é delegada a um outro
desconhecido.
Sem exageros, ao oferecer a proteção, a fantasia,
também pede algo em troca. É a utilização de alguém para a
sobrevivência de sua própria imagem. A imagem sedutora
representa o que existe de mais belo, esta astúcia simboliza os
efeitos da ficção sob os olhos daquele que se encontra confuso
e perdido na sua luta pela sobrevivência. Aos homens menos
avisados, que estão dispostos a entregarem-se de braços abertos
às exigências da fantasia, desde que esta fantasia possa
eliminar de sua mente os fantasmas que assombram a sua
existência.
O fantasma precisa fazer um acordo para poder tirar
algum tipo de proveito para continuar também imune aos seus
objetivos. O olhar, seu sorriso, a beleza, a inteligência, o
fantasma conquista e coloca a seu serviço pessoas, coisas e
objetos para trabalhar a seu favor. Toda sua irradiante beleza
esconde, também, os seus medos, a morte, a destruição, e
também tem seus segredos, e necessita subsistir, eis a luta entre
a vida e a morte.
Ninguém sabe, mas a morte pode apresentar-se como
um fantasma que promete solução, felicidade, alegria, proteção,
aqueles que acreditam na sua fantasia, e a partir desse pacto
começa a fazer parte da existência dos seus fantasmas. Ao
interagir com o fantasma, é seduzido pelas soluções rápidas e

71
fáceis que são apresentadas para satisfazer seus desejos de
alimentação, moradia, prazer e cuidados afetivos.
Num total estado de inconsciência esses homens
permanecem sob a proteção do fantasma, é uma irrealidade que
torna possível a continuidade da vida, mas os segredos sempre
vêm à tona, quando menos se percebe, porque mesmo o
fantasma possui suas vaidades, o prazer de ser lembrado, sua
paixão ilimitada pela ambição. Sem perceber, nas entrelinhas, é
traído pelas suas próprias palavras, neste momento se dá a
conhecer, pois mesmo um fantasma que vive a centenas de
milhares de anos presente nos recônditos do inconsciente
coletivo, possui o desejo de resolver, também, a sua raiva, seu
ódio, sua ira, sua revolta, e, logo depois, começar a entender,
que o fantasma tem lá suas razões para continuar exercendo o
domínio do mal.
Mesmo os fantasmas devotados, a serviço da destruição
e morte, precisam, em alguns momentos de sua vida,
transformarem-se, ou pelo menos fazer de conta que vivem o
bem, mas permanecem no mal, pretendem conquistar pessoas
de bem para participar e serem cúmplices de suas maldades. O
fantasma carrega em seu íntimo uma revolta, e aprendeu com o
mal a buscar prazer no sadismo, sua maneira de existir é
dominar alguém pelo seu medo da morte, porque tendo o poder
sobre a vida, todos começam a temer e a respeitar a morte.
De alguma maneira, o fantasma da destruição consegue,
por alguns instantes, transformar-se no bem para poder atrair e
seduzir as pessoas de bem. Não sei se poderíamos chamar de
demônio ou satanás, mas talvez a pergunta mais sensata fosse:
Como uma pessoa, de uma elevada beleza, poderia ser
transformada em símbolo do mal? Que prazeres o desejo
sádico da destruição proporciona, que a alegria e felicidade não
possam oferecer também a este tipo de experiência emotiva?
A personificação do mal pode estabelecer-se através do
belo, da atração, do desejo, mas o externo nem sempre mostra

72
o que se encontra no íntimo, pobres criaturas dominadas pela
sedução da imagem, são presas fáceis da ilusão. Os fantasmas
continuam e não desistem facilmente do seu objetivo, destruir e
consumir tudo que tenha vida produtiva. O fantasma tem o
poder de hipnotizar e levar as pessoas a verem, sentirem e
enxergarem realidades que não existem, deixando-os imersos
no engano, e seguem seu caminho como ovelhas em direção ao
abatedouro.
O líder é sempre aquele que confia muito mais na sua
intuição, não se deixa seduzir pelas soluções fáceis, ao menos
tem consciência dos perigos que o fantasma pode representar a
si mesmo e aquelas pessoas que cuida. Sua inteligência está
além das suas dúvidas, consegue guardar em segredo sua
compreensão sobre determinadas realidades, dependendo da
situação, utiliza de sua sedução e do seu poder para mostrar sua
força aos seus fantasmas.
Os fantasmas procuram seduzir com todo tipo de prazer
e de realidades ficcionais, no intuito de atender às suas
necessidades inconscientes. O homem sábio pode aproximar-se
das fantasias, dialogar ou mesmo ceder em algum instante, mas
jamais permitir ser dominado por esse tipo de verdade. Mesmo
sobre a convivência das fantasias, permanece consciente de sua
responsabilidade de salvar a sua vida, não pretende adoecer e
ficar preso numa fantasia.
Em algum momento é preciso mostrar ao fantasma o
nível de consciência e segurança diante de todos os prazeres da
existência. A renúncia a essas falsas promessas devolve, na
mesma medida, a irrealidade da fantasia, criando um choque de
percepção da realidade no fantasma. Ninguém conseguiria
viver sem as fantasias, mas a realidade ensina sempre que
primeiro é prudente confiar no real e duvidar da fantasia. O
problema é saber separar o que é realidade do que é fantasia, ou
as fantasias poderiam ser uma pequena representação da sua
realidade.

73
Mas, quando o homem solitário encontra o afeto e
cuidado do grupo, os fantasmas começam a colocar dúvida
sobre os interesses de tal aproximação, ao não escutar as
descobertas do caminho feito por aquele homem, ambos
acabam dando poder e valor à fantasia. A inversão de valores,
inspirados pelo medo e protegidos pelos seus fantasmas, fazem
creditar que o outro é partícipe do processo destrutivo, diante
disso, é preciso abandoná-lo, e deixar que o mal o destrua
completamente.
Como são humanos, estão impelidos pelo desejo de
afeto, e correm em seu socorro, mas é tarde demais, pois a
vítima foi devorada pelo fantasma. Ambos percebem que
foram traídos e, sentindo-se culpados pela morte do outro,
procuram desesperadamente algum modo de expiar ou atenuar
aquela morte. Uma morte que se traiu na confiança do grupo, a
ingenuidade desse homem foi pensar na possibilidade de que
alguém pudesse dar valor às suas descobertas, que os simples
mortais estivessem abertos a aprender com a sua pessoa a
experiência de saber lidar, enfrentar e defender-se do fantasma
da morte.
Mas agora é tarde demais, toda e qualquer iniciativa de
justificativas e desculpas não trazem a vida de volta, até porque
não existe mais nenhum sopro de vida nesta alma. Não resta
outra solução, o grupo precisa abandonar o corpo aos abutres e
continuar a sua caminhada, alguns para se redimirem de sua
culpa, garantem que em seu nome estão dispostos, de fato, a
matar o fantasma.
Mas, em um sonho, o homem conversa com as forças
enigmáticas do mundo da natureza e, nesse momento, está
envolvido pelo estado alterado de consciência. Sua mente está
embebida e entorpecida pelas imagens que são transformadas
em arquétipos. O diálogo no sonho constitui um momento
muito especial para poder conhecer a natureza do fantasma, e
descobrir os seus pontos fracos.

74
O líder conversa com seus amigos e discípulos:
“Encontrei, num sonho, uma saída para podermos combater o
fantasma da morte”. Seu ponto fraco é o coração, e sua fonte de
prazer é o sangue de suas vítimas. Então podemos oferecer um
banquete de sangue, seu desejo obscurece a consciência e
deixa-lhe cego para nossa surpresa. Podemos estar preparados
para que no seu gozo, no momento do seu máximo prazer, nos
aproximemos e também possamos ferir o coração.
A empreitada foi um sucesso, o fantasma do mal foi
afastado de sua vida com um simples golpe de coragem. Esta
sua força dilacerou o seu coração. Mas, logo depois, o grupo
correu e escondeu-se muito assustado, pois conseguiram
eliminar um dos seus fantasmas, e agora como fariam para
enfrentar os outros, na sua fúria de violência e sadismo.
Todos sabiam de algo em comum, não podiam desistir
de sua tarefa de preservar o bem e destruir os seus fantasmas
do mal. Depois tiveram que parar e conversar, e enfrentar de
vez o poder deste fantasma. Todos concordaram, era preciso
acabar com este estado de faz de conta, estavam cientes que
deveriam desmascarar a essência do mal do fantasma, mesmo
sabendo que a perseguição e o medo estariam utilizando todos
os recursos para paralisá-los por completo.
Imersos no jogo de sua sobrevivência precisavam fugir
e encontrar um lugar seguro para não serem devorados pelos
seus fantasmas, mas quando se deram conta, perceberam que
estavam esgotados e pensaram em desistir. Nesse momento, o
líder os empurrou e exigiu obediência ao pacto que ambos
tinham realizado. Buscaram novas forças e conseguiram chegar
num lugar onde puderam descansar e pensar numa maneira de
enfrentar o poder do fantasma.
Neste momento, enquanto dormiam, o fantasma que
viaja a velocidade da luz, estava presente, em pé esperando o
despertar do seu sono. Com muito medo fugiram e esconderam
o quanto puderam, sabiam que a morte estava próxima, era

75
uma questão de ganhar tempo. No entanto, a sua coragem e a
determinação ofuscavam e confundiam, na névoa os olhos da
morte. O fantasma estava faminto por destruir e matar, mas não
estava imune a coragem e ousadia dos humanos.
Enquanto a morte se escondia sob o manto dos seus
fantasmas, no seu desejo compulsivo de poder e prazer, os
homens deste grupo faziam uma grande descoberta que mesmo
diante das piores atrocidades, era preciso sempre ter coragem
para enganar o fantasma. Uma das estratégias é fazer de conta
que estava se submetendo aos desejos da morte, mas, ao
mesmo tempo, esta fragilidade momentânea, era o meio de
aproximar-se e matar o fantasma que estava diante dos seus
olhos.
É preciso descobrir que a força não está no medo dos
fantasmas, mas na coragem de não ser submisso aos desejos
destrutivos da vingança e dos prazeres. A liberdade é fazer
justiça a favor do bem, é lutar com todas suas forças contra os
fantasmas que perseguem propondo à destruição, o engano, a
falsidade e a ilusão, fortalecidos pelos valores nobres da
confiança, no poder da coragem, entendem que a perseverança,
o silêncio e a amizade formam as bases para poderem combater
o poder dos seus fantasmas.
Quando alguém está livre desses fantasmas, consegue
viver em paz, tranquilo, pois, encontra-se com poder de
enxergar além do medo e preservar a sua sanidade vital. Cada
ser humano precisa escrever uma história, não qualquer
história, mas uma que possa torná-lo imortal. Estes
ensinamentos podem encurtar ou ajudar outros seres humanos a
aprenderem a lidar com mais facilidade com seus fantasmas.
Na jornada os homens devem estar revestidos da
condição de guerreiros, sabendo que as forças da natureza não
avisam e tampouco estão preocupadas com aquelas mortes que
serão ceifadas da existência. Cada homem carrega dentro de si
um itinerário, busca, através de seus pensamentos e ações,

76
alguma certeza para fazê-lo entender as perdas e as decepções.
As vivências emocionais são produtos das surpresas, dos
encantos e desencantos proporcionados pela natureza, mas sem
dúvida, encontrar-se diante das forças da sua natureza e das
atrocidades capazes de destruir a vida, pois a natureza possui o
desejo de evolução, de transformação, ambas estão possuídas
pela vida e pela morte.
Estar preparado para desistir ou insistir na vida,
depende muito da sua coragem, e das forças psíquicas capazes
de assegurar a continuidade de sua vida. A existência é incerta
e os descaminhos são impróprios para aqueles que dizem ter a
verdade e a certeza. A mente humana é um legado de
experiência milenar, pois cada civilização incorporou à sua
cultura uma preocupação sobre a natureza do homem. É
invisível aos olhos dos homens a essência desta energia
inteligente, porque ao mesmo tempo possui a capacidade de
solucionar problemas e posicionar-se a favor da vida. Em
outras circunstâncias, utilizar sua inteligência para dominar,
explorar, para em nome do poder sugar as últimas gotas de
sangue de suas vítimas.
O homem deve aprender a conviver com as seduções e
enganos, que muitas vezes não são percebidos pelos sentidos
humanos. Somente uma consciência capaz de enxergar e
desconfiar dos convites propostos por esses fantasmas, que
afastam e impedem o ser humano de usar a seu favor a sua
coragem, a determinação, a inteligência e criatividade, como
qualidades indispensáveis para poder sobreviver diante dos
seus fantasmas.
Estas imagens estão favorecidas pelo desejo, esta
mesma pulsão domina no seu desejo a busca de sua satisfação.
O fantasma da ilusão e da ficção produz no cérebro uma
realidade imagógica, tomada pela paixão desenfreada, a pulsão
obedece aos desejos do impulso irracional, o problema não está

77
na forma de atuar do desejo e, sim, no tipo de emoção que
produz para aquela pessoa envolvida na fantasia.
A fantasia produz seus monstros, quando utilizamos
esta metáfora podemos enxergar uma força psíquica capaz de
produzir a morte. O sadismo atrai para si o prazer da
destruição, e ao mesmo tempo escancara seu medo de ser
dominado e rejeitado. No fantasma do monstro está posto o
desejo de produzir sofrimento e dor, é desta insensibilidade, de
ética, de ternura, de compaixão e de amor, que o fantasma
transporta nos seus comportamentos atitudes antagônicas,
incongruentes e destrutivas.

78
2.1. O drama dos pacientes compulsivos

Gostaria de descrever alguns sintomas que podem nos


levar a conhecer o resultado da neurose benigna e maligna. A
intoxicação emocional passa pela absorção da falta de
sinceridade, as mentiras, a irresponsabilidade. Na terapia de
casal de dependentes emocionais, existem segredos e mágoas
que precisam ser verbalizadas. O psicanalista de casal precisa
desmistificar a ideia de que ambos se conhecem, e esclarecer
que existe uma competição velada, além disso, é preciso
conhecer a história de ambas as famílias de origem, e
especificar quais eram as dificuldades que perceberam na
história de suas relações.
Quando um paciente relata a história de seu abuso
sexual na infância começa o processo de libertação, pois
indiretamente escutar essas atitudes dos adultos nos faz sofrer
muito, mas, ao mesmo tempo quebra o ciclo dos segredos da
violência psicológica e física. É um tipo de dor que vem
carregado de uma forte carga emocional e, portanto, relatar
esse tipo de experiência torna-se bastante difícil para quem fala
e também para quem ouve. Muitas pessoas odeiam sua
sexualidade, na mesma proporção não têm prazer em vivenciá-
la. Muitos conseguem fingir um orgasmo e às vezes somente o
atingem através da masturbação, num estado de individualismo
e narcisismo.
A emoção de raiva ou ódio em relação à sexualidade
tem sua origem na infância, principalmente quando a pessoa
sofre um abuso sexual do seu pai. Gostaria de descrever o
trauma desta paciente. Quando criança adorava receber elogios
em relação a si e ao seu corpo, e, em troca, fazia tudo o que seu
pai pedia. Principalmente, quando saía do banho com seus
trajes provocantes, que eram muito inadequados para sua idade.
Na infância, os abusos começaram com as fotos tiradas no

79
chuveiro e na banheira, em várias posições eróticas. Já quando
adulto, ao ver as fotos, sentia repugnância e vergonha, aliadas a
uma emoção de abandono e raiva de si mesmo, por ter
permitido ser usada e manipulada por seu pai.
Geralmente essas pessoas sofreram muitos tipos de
privações na infância, fosse pela falta de dinheiro para comprar
algumas roupas ou mesmo o seu material escolar. Realizava
trabalhos de limpeza na casa dos seus vizinhos, como uma
forma de ganhar algum dinheiro para ajudar em casa. Mas,
mesmo assim, os irmãos ou mesmo os pais, se aproximam,
pedem emprestado e nunca mais devolvem suas economias. É
comum uma criança receber elogio dos pais quando começa a
trabalhar deste cedo, pois consegue o afeto tão desejado, sendo
a melhor da escola e trabalhando muito para ser bem vista e
aceita pelo mundo dos adultos.
Essa carência afetiva leva algumas crianças a um
comportamento exagerado na responsabilidade e um
perfeccionismo, que não se permitirem jamais errar.
Geralmente, pais que abusam de crianças, são adictos ou
dependentes químicos e, como se isso não bastasse, muitas
delas têm que conviver com a violência psicológica e física. A
regra fundamental é aguentar e não falar para ninguém o que
está acontecendo em casa.
Algumas frases como estas que são repassadas como
uma lei: “Roupa suja se lava em casa”; “Nunca cometa o erro
de nos desobedecer, pois os pais são sempre corretos e
verdadeiros”. Muitas vezes, aceitar é a única saída para
algumas crianças que vivem nesses ambientes hostis, pois, na
verdade, trata-se de assumir uma condição de vida para poder
sobreviver psicologicamente, ou mesmo para poder fugir de
novas violências. Muitas dessas crianças internalizam estas
atitudes inconsequentes e desagregadoras como um valor, e por
isso mesmo, na vida adulta acabam tornando-se um alcoólatra
ou dependente de drogas.

80
Para essa criança não existe saída. O único meio de
fugir dos castigos corporais, é seguir o que os adultos exigem,
sem nenhum tipo de questionamento, são exploradas sobre a
coerção do medo, das ameaças, pela pressão, pela culpa e pela
obrigação. Os adultos que assim agem são uns espertos em
chantagear as crianças, e dominar a sua personalidade para
colocá-la a serviço de sua patologia. O desvio de caráter é
inevitável, muitas crianças acabam tornando-se violentas e
agressivas na escola, e outras vão parar nos abrigos de menores
infratores. São atitudes que podem ser percebidas no ambiente
escolar, onde jovens ou crianças não têm limites, respeito ou
consideração para com os outros. Nesses casos, também é
muito comum a vivência precoce da sexualidade, e em geral
tornam-se promíscuas e não existe limite para as práticas
sexuais.
Muitos pais e adultos fingem não ver o problema e
entendem que tais comportamentos são normais, até chegam a
dizer: “eu vivi coisas piores que esse tipo de conduta”. Na
verdade essas atitudes são um pedido de ajuda das crianças e
adolescentes, que estão enfrentando sérios problemas pessoais
e familiares. O problema se acentua quando as crianças
desamparadas não encontram, nos adultos, os esclarecimentos
necessários sobre o desenvolvimento de sua sexualidade.
Muitas começam a conversar sobre o assunto com seus amigos
da mesma idade, as meninas fazem comentários sobre o
crescimento dos seios, e depois começam a fazer comparações,
e principalmente se alguém já tinha mostrado a alguém os seus
seios.
Muitos adultos repetem tudo que aprenderam de seus
pais, e acreditam com a mais absoluta sinceridade, que estão
educando seus filhos para viver bem a sua sexualidade. Muitas
destas doenças psíquicas têm relação com as disfunções
emocionais, e a violência psicológica e física experimentada na

81
infância. Algumas delas desenvolvem estratégias para lidar
com o medo e a vergonha.
Por exemplo, ser a melhor da escola e sempre obedecer
aos adultos é um meio de evitar represálias e violências de
humilhação e perseguição. Essas crianças percebem que no
futuro terão problemas em várias áreas de sua vida,
principalmente tratando-se de afeto e sexualidade. No caso de
uma criança que foi abusada pelo adulto, o reflexo disso se
percebe na relação do casal, quando alguém assume uma
atitude submissa e realiza todas as vontades do seu parceiro.
Porém, em nenhum momento tem prazer, o que significa viver
a sexualidade de forma vazia. É uma situação que aumenta seu
estado de sentimento de raiva, medo, ódio e vergonha. Mas,
muitos obedecem à estrutura complexual da neurose, pois foi a
única maneira que encontraram para poder sobreviver a um
ambiente de insegurança, violência e medo.
Quando alguém consegue revelar seu segredo, sente um
imenso alívio. A verdade sempre liberta, retira a pessoa da
posição de sustentar uma atitude de autodestruição e
sofrimento. Numa cultura como a nossa, que reprime qualquer
manifestação da verdade sobre os sentimentos e emoções, em
geral as pessoas escondem as vivências por vergonha. Na
verdade não existe forma de relacionamento sem, em algum
momento, sofrer algum tipo de decepção, engano ou traição.
Ninguém pode sustentar uma fantasia da perfeição no
relacionamento durante todo o tempo.
Como psicanalista, acompanhei várias situações de
casais, famílias e pessoas vivendo condição semelhante de
negação da sexualidade. A sexualidade é uma das áreas mais
sensíveis do ser humano, e muitos dos problemas afetivos e
amorosos podem, também, repercutir sobre a relação sexual.
Muito do estado de desânimo e apatia esconde uma
raiva sobre a própria sexualidade. A vivência das relações
íntimas é um peso, uma carga muito pesada a ser carregada por

82
uma pessoa que tenta, a todo instante, fugir do contato mais
íntimo e particular com a sua sexualidade. São defesas que,
com o tempo, acabam apagando a paixão e o desejo do casal, e
por isso é preciso entrar em contato com os traumas
emocionais, e tomar consciência para não repetir de maneira
compulsiva a sexualidade vivenciada na infância.
Muitas pessoas podem se esconder através do sexo,
outros se escondem do sexo, mas esta incongruência não pode
ser sustentada na relação. Muito da qualidade da vida sexual
está relacionada diretamente com a expressão do caráter, não
existe um milagre, e tampouco alguém vai modificar seu
caráter e suas crenças enquanto realiza o ato sexual. Os
problemas pessoais acabam interferindo na sexualidade,
portanto, não existe nenhum tipo de método mágico capaz de
modificar tal atitude, a não ser a análise pessoal, de casal ou de
família.
Muitos buscam uma explicação religiosa para entender
o que se passa consigo, mas, mesmo assim, as explicações e
conselhos não alteram a emoção, e principalmente o trauma
psíquico. A adição ao trabalho, os alcoólatras, os jogadores de
baralho, os praticantes de sexo com prostitutas, vivem, nessas
adições, uma tentativa de diminuir seu estado de angústia e
ansiedade. Existem pessoas que conseguem ter prazer mediante
uma experiência de perigo, ou de proibição. Essas pessoas
provavelmente devem ter algum tipo de história de abuso
infantil, e geralmente estão acompanhadas de outros tipos de
adições, em muitas ocasiões, gastam além do que podem
principalmente aqueles que se envolvem com garotas de
programa.
Quando os filhos são adictos de alguma forma, os pais
possuem também essa prática. Muitos casais destroem seus
relacionamentos pelas aventuras sexuais, ou mesmo por
possuírem uma amante. Esta sensação desagradável que
experimenta no momento da relação sexual, tem relação com

83
as vivências de sua infância, e especificamente com o sexo, até
porque a criança era apenas um objeto de prazer para o adulto,
a criança sentia a excitação sexual, mas estava impedida de
aceitá-la devido a culpa e ao medo desta simbiose doentia.
Na verdade muitas pessoas sentem esta emoção
somente pelo fato de pensar ou recordar-se da vivência, pois
não existe a necessidade de tocar a pessoa, às vezes somente o
olhar ou algumas palavras de violência pode caracterizar o
abuso. A análise leva a pessoa a tomar consciência do estado
de negação em que está. Outro fator importante é quando a
pessoa encontra-se num estado de medo e agonia pelo excesso
de desejo. Muitos buscam na religião o sentimento de culpa
necessário para modificar seus hábitos, de alimentar a culpa
diante do medo do inferno, e assim adquirir uma nova
disciplina e, além disso, oferecem todo esse sacrifício para
receber as benções de Deus. Mas, quando algum tipo de
experiência provoca o trauma adormecido, busca
compulsivamente um tipo de prazer para poder sentir-se segura
diante da falta de controle sobre seus impulsos.
Vejam bem que somente o ato sexual não consegue dar
conta da segurança emocional, e da liberdade de viver a
sexualidade sem culpa e medo. Muitos casais possuem sua
própria dinâmica inconsciente, vejamos um exemplo: quando a
atração se sustenta sobre a desenvoltura física e do poder do
dinheiro para garantir a qualidade do relacionamento. Em
geral, acreditam que a diversão poderia aproximá-los e resolver
as suas inibições afetivas.
No entanto, de algum modo, existe uma pequena
consciência sobre os seus problemas pessoais, e muitos
apostam que o casamento ou que a pessoa do companheiro
possa cooperar ou resolver as sequelas sexuais. Mas, torna-se
quase impossível alguém da relação apagar uma
autodepreciação de si mesmo, às vezes os dois apresentam
traços compulsivos e fogem da relação sexual, alegando a

84
necessidade de reuniões e tarefas que não permitem o encontro
de ambos.
O psicanalista deve ter presente a clareza das intenções
e das práticas sexuais, até porque muitas pessoas ou mesmo
casais possuem sua própria maneira de viver a sexualidade, e
na verdade, não existe nada de errado com essa prática.
Existem diferentes formas de viver a sexualidade, cada um
pode desenvolver sua criatividade para tornar o sexo mais
atraente e prazeroso. Não existe nada anormal na prática
sexual, quando ambos usufruem deste prazer. Muitas pessoas
possuem uma vasta experiência sexual, outras não. Já outras
estão impedidas de experimentar o orgasmo pelos traumas e
medos que carregam consigo. A sexualidade torna-se
patológica quando produz dor e sofrimento ao outro. Os
compulsivos, os adictos não conseguem ver a outra pessoa
como um ser humano dotado de sentimento, mas sim, como um
objeto que deve ser usado e depois menosprezado, e até
humilhado.
Agora vou descrever algumas características que podem
ser identificadas na relação a dois, dentro desse tipo de
patologia:
- essas pessoas possuem uma atitude compulsiva e
violenta em relação à sexualidade;
- não conseguem mudar o tipo de comportamento,
mesmo que estejam destruindo seu relacionamento;
- sempre estão em busca de aventuras perigosas, com as
quais sentem uma atração diante da situação de alto risco;
- vivem sua sexualidade sem nenhum tipo de emoção e
sentimento, procuram no outro somente o prazer genital;
- mesmo sofrendo as consequências de suas atitudes
destrutivas, continuam até sua completa destruição;
- seu comportamento sexual interfere no relacionamento
com os colegas do ambiente de trabalho, seus amigos e sua
família;

85
- utilizam o sexo para aumentar e fortalecer seu estado
de ânimo, ou para aumentar sua autoestima, como forma de
diminuir seu estado de “estresse” e “ansiedade”;
- vivem de maneira compulsiva o sexo, e todos os
momentos sua conversa gira em torno da sexualidade;
- de um momento para outro, tornam-se celibatários,
criticam aqueles que têm comportamentos sexuais,
desenvolvem um discurso contra o sexo e principalmente
contra as prostitutas e homossexuais.

Portanto é preciso entender o comportamento


inconsciente de uma pessoa atormentada pela compulsão.
Muitas terapias utilizam a moral e reforçam os valores de
caráter para ajudar a pessoa a sair da triste situação de
dependência, no entanto, como todos sabem, a adição tem a
intenção de aliviar, narcotizar, esconder, reprimir a sua dor
emocional. É um método equivocado de controlar e afastar-se
de sua ferida emocional. Muitos casos podem ter a influência
de algum problema orgânico, como no caso do diabetes e da
hipertensão, doenças que podem limitar a vivência da
sexualidade.

É sabido que os psicotrópicos, em sua maioria, como no


caso dos antidepressivos, têm efeitos colaterais que podem
afetar o desejo sexual. Vamos descrever alguns tipos de
sintomas que são comuns àquelas pessoas que negam a
vivência sexual.
- são muito resistentes a falar abertamente sobre a sua
sexualidade;
- não querem e não desejam modificar seu
comportamento compulsivo;
- procuram situações extremas para evitar e fugir de
qualquer tipo de contato sexual, por exemplo, a autoflagelação,

86
a aparência corporal, a maneira de vestir-se e seu discurso de
aversão sexual;
- são muito críticos em relação à sua sexualidade e a
dos demais;
- sua racionalização se esconde atrás da negação, da
repressão, porque envolvem os outros em assuntos triviais e
escondem, de maneira perfeita, sua ansiedade e o medo do
contato com o seu corpo.
Nenhuma pessoa que sofre dessa compulsão pediu para
viver neste tormento, portanto, não é um desvio de caráter.
Todos têm consciência de que sua satisfação e segurança
emocional se escondem atrás da compulsão ou obsessão. As
adições se alimentam dos sintomas destrutivos. Muitas pessoas
utilizam os alimentos para satisfazer-se e confortar-se no prazer
da comida, como uma forma de enfrentar a sua ansiedade, o
estresse, e suas feridas emocionais.
O resultado de tal atitude em relação a comida pode ser
a obesidade extrema, e em muitos casos a morte. Tudo o que
for usado de maneira exagerada e compulsiva pode ser
considerado uma adição. Os especialistas alertam no sentido de
que pessoas que têm distúrbios alimentares, e que vivem
constantemente preocupadas com o seu emagrecimento e
forma corporal, podem estar desenvolvendo uma anorexia
nervosa. A anorexia nervosa é uma doença que tem sintomas
muito semelhantes como as do drogadito.
A busca de gratificação na comida é uma saída para
viver algum tipo de prazer gustativo, e mais tarde, a culpa se
encarregara de expelir os alimentos com a utilização de
laxantes e diuréticos. Tanto a bulimia quanto a anorexia são
combinações destrutivas da compulsão. Eis a questão da culpa,
depois da compulsão existe a tristeza, a raiva e logo depois a
depressão. Este estado de inconsciência dificulta a tomada de
consciência para gerir as questões do limite, podemos verificar
nos comportamentos compulsivos que muitas pessoas levam na

87
sua vida privada, e desenvolve um mecanismo de compensação
diante da culpa por tais atitudes, quando participam e
defendem, na vida pública, totalmente o contrário.
Muitos moralistas vendem a imagem de pureza, de
virtude, de testemunho, de um discurso contrário ao sexo, e
depois de um tempo aparecem como personagens em um
grande escândalo sexual. Pode-se pensar, inclusive, na
possibilidade de que essas pessoas vendem uma imagem de
perfeição, como uma forma de apaziguar sua consciência, pois
na sua vida privada cometem os comportamentos que
condenam na vida pública. O interessante de tudo isto é que
para alguém ter uma vida espiritual bem desenvolvida,
primeiro deve resolver seus traumas sexuais e não esconder-se
atrás de dogmas e doutrinas religiosas.
Em verdade existe na adição uma família de transtornos
compulsivos reconhecida na atualidade pela psicanálise.
Podemos citar o alcoolismo, a drogadição, o jogo, a comida, a
internet, o sexo e o trabalho, que são consideradas adições que
pertencem ao mundo das compulsões. A questão é a seguinte:
muitas pessoas não conseguem o equilíbrio, alguns fazem a
opção pela abstinência e outros exageram na sua compulsão.
Em muitas clínicas encontram-se grupos de ajuda mútua,
coordenados por psicanalistas, para tratar dos adictos anônimos
do sexo, do amor e neuróticos compulsivos.
O estado de dependência psicológica e orgânica precisa
passar pela “síndrome de abstinência”. É preciso trabalhar com
a reeducação e levar o paciente a tomar consciência sobre a
prática da “privação” e dos “excessos”, na verdade ele tem que
ter em mente a sua falta de controle sobre essas substâncias.
Vejamos alguns sintomas das pessoas dependentes e de
condutas compulsivas:
- geralmente são muito competentes, realizam suas
tarefas com extrema responsabilidade, mas, ao mesmo tempo,

88
têm um medo muito grande de cometer erros e de serem
julgadas;
- procuram julgar os outros e a si mesmas quando não
conseguem preencher suas expectativas;
- possuem uma história de exploração sexual e de
negação da sexualidade;
- tem um medo muito grande, arraigado nas
profundezas do seu inconsciente, em relação ao abuso e
abandono;
- experimentam um ódio em relação a sua sexualidade;
- utilizam o orgulho e a teimosia como uma defesa para
afastar as pessoas de uma possível intimidade;
- muitos carregam consigo, segredos e pactos familiares
de negligência e violência sexual que não são conscientes;
- às vezes encontra-se em sérios apuros para manter, a
qualquer custo, os segredos de família e de sua lealdade
patológica;
- gostariam de ser criativos e produtivos, mas sentem-se
bloqueados e inibidos diante de muitas decisões que
precisariam tomar e não conseguem;
- estão envolvidos em ideologias perniciosas que só
aumentam seus problemas pessoais e familiares, e que
normalmente consideram a sexualidade como algo pejorativo e
sem significado.

Na verdade, a psicanálise surgiu com o estudo da


sexualidade vitoriana no século XIX, onde Sigmund Freud foi
o precursor do estudo profundo sobre a sexualidade humana. A
saúde mental exigiu uma nova maneira de interpretar os
fenômenos histéricos. O movimento feminista reivindicou
através da cultura uma nova maneira de viver a sexualidade. Os
meios de comunicação trazem a todo o momento novas
descobertas e informações sobre a sexualidade. Por exemplo, o
uso dos contraceptivos, muitas barreiras foram, aos poucos,

89
sendo vencidas, graças aos avanços da ciência. Mas, mesmo
assim, ainda estamos muito longe de alcançar a tal almejada
saúde sexual.
Podemos ainda citar os muitos problemas sociais e
culturais que envolvem o tema da sexualidade, o aumento
gradativo dos divórcios, a violência psicológica e física contra
as mulheres, os estrupos e abusos, a violência física doméstica,
o aumento da prostituição, dos psicopatas, dos pedófilos, a
violação da intimidade sexual. Mesmo diante das descobertas
científicas e do aumento gradativo de novas tecnologias, temos
que conviver com a barbárie e atitudes primitivas do homem na
modernidade.
A nossa cultura esqueceu-se de educar as crianças. Os
pais delegam essas tarefas às babás e aos professores, fato que
fez aumentar os problemas de inibição, raiva e medo em torno
da sexualidade. Um dos temas mais atuais em nossos dias é a
questão do abuso sexual de crianças, muitos especialistas
afirmam que existe um aumento da gravidade desses
diagnósticos. Existem muitas controvérsias acadêmicas e
clínicas em relação ao abuso sexual, estamos no início de uma
mudança de crenças e conceitos em relação à sexualidade. Um
exemplo bem clássico é quando os pais se unem para proibir a
educação sexual nas escolas, muitos não querem que seus
filhos recebam conhecimentos sobre a sexualidade, e outros
defendem que é a família quem deve educar seus filhos.
Mas, estes mesmos filhos dizem que suas famílias
proíbem ou mesmo impedem qualquer tipo de pergunta em
relação ao sexo. Existe ainda um pudor moral e um medo de
tratar temas relacionados à sexualidade. Constantes
publicações em revistas e jornais ensinam como ser mais
eficiente e obter o máximo de prazer sexual. As revistas
pornográficas são vendidas abertamente nas livrarias como, por
exemplo, a Playboy. Existem também livros de auto-ajuda que
dão conselhos como obter o máximo de prazer, na verdade

90
existe uma grande confusão em relação à sexualidade, e no
meio desta insegurança e ignorância surgem os aproveitadores
de plantão.
Nos filmes e nas novelas da televisão, a sexualidade é
vista como algo traumático e negativo, nas revistas
sensacionalistas se publicam títulos para chamar atenção e
colocar aversão e medo em relação ao sexo. Somos de uma
cultura negativa, que enxerga o sexo como uma dificuldade a
ser superada diante da exploração e violência do bicho papão.
Os telejornais mostram assassinatos em torno da traição sexual,
os padres e bispos se aproveitam dos jovens seminaristas, todas
as pessoas estão a espera de uma notícia ruim sobre o sexo,
algumas ficam torcendo para conhecer os procedimentos de um
assassino em série, mais conhecido como Hanibal Lechter, do
filme o Silêncio dos Inocentes.
Muitas pessoas não conseguem conviver muito bem
com a sua sexualidade, quando a oportunidade de viver uma
experiência sexual desencadeia uma reação fisiológica sobre o
organismo de tensão e rigidez muscular, esta reação emocional
inconsciente reprime e impedia qualquer tipo de vivência da
sua sexualidade. A educação transmite um mundo de segredos,
mentiras e violência sexual, faz do sexo, algo que precisava se
afastar, quando esta emoção surge, procura com extrema
ansiedade algum tipo de droga para anestesiar esta ferida
emocional.
Alguns pacientes sentem-se a vontade quando estão
distantes de qualquer abordagem sexual, o conflito neurótico
está presente na forma como fantasia seu orgasmo e a realidade
é uma fonte constante de conflito. Qualquer pessoa que sofreu
algum tipo de abuso sexual possui a tendência a buscar na
traição ou no afastamento do seu parceiro a solução para o seu
problema. Na sua fantasia tem a absoluta certeza de que a outra
pessoa amada vai abandoná-la, humilha-lha e explorá-la

91
sexualmente, e antes que isso aconteça procura ansiosamente
um motivo para separar-se de alguém que ama.
Para fugir da sua ferida emocional procura afastar-se de
qualquer tipo de intimidade e jamais misturar amor com sexo.
Porque na sua fantasia acredita que a única forma de fugir do
contato com esta dor emocional seria nunca tornar-se sensível e
amoroso para não viver de novamente outro trauma. A solução
é armar-se de defesas, tais como; negação, isolamento,
depreciação e racionalização, para manter o outro sempre à
distância. O trauma emocional possui a característica de
atribuir a algumas pessoas o desejo de sempre fazerem a
vontade dos outros, ou de tornarem-se perfeccionistas. Ambos
os comportamentos têm o objetivo de evitar qualquer surpresa.
O neurótico obsessivo tem o desejo de manter tudo sob
controle, e ao mesmo tempo exige de si uma perfeição, sua
estratégia consiste em esconder sua intimidade para que
ninguém perceba seus erros ou defeitos. Sofre por antecipação,
na sua fantasia existe alguém que poderá recriminá-lo,
humilhá-lo, criticá-lo. Outra estratégia é manter sempre o
controle sobre seu desejo sexual, porque ao não alcançar o
orgasmo se afasta do contato com a emoção da afetividade, e
assim tudo se torna frio, distante e calculado. O medo de
reviver o trauma sexual do abuso, o faz controlar a todo custo
qualquer tipo de emoção positiva sobre o prazer sexual.
A única defesa é proteger sua identidade sexual, estas
pessoas estão sempre recriminadas e fugindo da sexualidade,
no seu raciocínio neurótico, jamais podem ser vencidos pela
pulsão de um desejo, caso venha a se permitir viver o prazer,
encontra-se completamente perdido. O medo do sexo tem
relação com a repetição dos traumas do seu passado, o único
objetivo é nunca mais viver essa experiência, como uma forma
de defesa para fugir de qualquer tipo de violência.
A negação do prazer também pode funcionar como uma
atitude sádica, para fazer o outro sofrer por esta abstinência

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sexual, o conflito é projetado na pessoa do companheiro,
indiretamente é uma maneira de realizar sua catarse emocional.
A raiva e o ódio em relação ao sexo do outro reaparece sob a
forma mascarada de privação e sofrimento, em alguns casos
estão acompanhadas de extrema violência psicológica e física.
O neurótico compulsivo está sempre atento a manter o controle
de sua vítima e não percebe que ele mesmo é vítima de sua
repressão sexual.
Consegue, com sua prática masoquista ou sádica, o
controle sobre todas as pessoas envolvidas na questão de sua
sexualidade. O único poder que o neurótico compulsivo tem é
de negar o problema e fugir sempre que possível, de algum tipo
de terapia. Quando está sendo pressionado utiliza o seguinte
expediente: precisa de um tempo para pensar, com isso
desenvolve suas racionalizações para confundir e manipular os
demais com suas queixas de perseguição. Com o tempo torna-
se uma vítima, e com isso possui novamente o controle sobre
as pessoas de sua convivência.
Na psicanálise, nós chamamos essa atitude de “ganho
secundário”. É uma defesa muito comum naquelas pessoas que
possuem muito medo, e fogem do contato mais íntimo e
particular com as suas emoções. A adição ao sexo possui estes
dois padrões: fugir e negar qualquer contato sexual ou permitir-
se a relações sexuais de forma exagerada e promíscua. Como
uma pessoa pode tornar-se um ninfomaníaco ou viver na mais
completa abstinência sexual Todos nós sabemos a resposta,
quando esta pessoa esconde alguma ferida emocional que
acaba sendo mascarada e escondida, sob este tipo de atitude
secundária e manipuladora.
Em nossa sociedade, muitas pessoas acreditam que a
negação do sexo é uma virtude. É importante observar o
discurso de alguém que pretende converter o sexo em algo
desprazeiroso. Por detrás deste discurso, se esconde um
trauma, uma emoção que propicia uma aversão, mas que

93
depois pretende torná-la uma virtude. A fuga do encontro com
o orgasmo proporciona-lhe o controle de suas emoções, pois
entende que qualquer vulnerabilidade ou sensação em relação
ao sexo pode produzir tentação e confusão. Uma de suas
virtudes é a negação do corpo, e a crítica a qualquer
manifestação erótica, pois sua intenção é controlar e estar
atento a qualquer reação sexual.
Essa sua disciplina procura buscar o perfeccionismo,
pois a única maneira de controlar o seu desejo é punindo-se
com castigos corporais, pretende assim ensinar ao desejo
sexual que está disposto a fazer qualquer coisa para não mudar
sua maneira de pensar e agir. Mas no final dessa história,
começam a aparecer os sintomas psicossomáticos e outras
doenças crônicas em relação à sexualidade, quando a
inteligência do organismo começa a exigir mudanças de
atitudes em relação à pulsão sexual, o ser começa a sentir-se
deprimido e fracassado.
A depressão tem início neste estado de tristeza e
confusão neurótica, pois seu objetivo é fugir do contato com as
emoções do abuso, da exploração, da traição, da violência
física e psicológica. Quando não consegue controlar suas
emoções desenvolve uma autoestima e um conceito muito
pobre sobre si mesmo, pensando da seguinte maneira, como
por exemplo: Sou uma pessoa muito má e não mereço receber
afeto e amor; ninguém será capaz de me amar do jeito que sou;
tenho a absoluta certeza de que minhas necessidades afetivas e
sexuais nunca serão satisfeitas, pois sempre vou depender de
alguém.
Então, qual é a lógica do neurótico compulsivo É
simples. Quando uma pessoa chega à conclusão de que é
indigna do amor e do sexo, desenvolve uma imagem e uma
série de ações para nunca deixar que a intimidade e a
sexualidade aconteçam na sua vida. E depois acredita que todas
as pessoas de seus relacionamentos sociais chegaram à mesma

94
conclusão, de que não são dignos de ser amados e desejados
sexualmente. Devido a essa percepção equivocada da realidade,
resta somente contar consigo mesmo e jamais comentar
qualquer tema que possa falar da sua intimidade.
Estas são algumas das crenças neuróticas e limitantes
que escondem as motivações inconscientes das compulsões e
obsessões. É interessante descrever que todos os compulsivos,
em geral, compartilham das mesmas crenças baseadas na
negação e na vergonha de sentir-se desejado e amado. No
discurso racional são muito inteligentes e hábeis para proteger
a sua compulsão, mas no seu íntimo estão escondendo o medo,
o nojo, a vergonha e a timidez. Na sua fantasia, qualquer vacilo
em viver o prazer é o mesmo que abrir as portas da exploração
sexual, da violência, da humilhação, esta regressão demonstra a
emoção do medo escondido na sua expressão infantil.
Outro aspecto a ser levado em consideração é a culpa,
pois todo compulsivo desenvolve ações punitivas contra
qualquer forma de prazer. É um conflito emocional que
prejudica, e muito, o desenvolvimento de sua potencialidade. É
uma mágoa, ressentimento e vergonha que consome quase toda
sua energia psíquica, seus pensamentos estão envolvidos nestas
imagens de medo e aversão ao sexo.
O sentimento de impotência, de vulnerabilidade os
torna fracos diante de sua compulsão. Quando não conseguem
ser mais fortes do que a pulsão sexual, busca no prazer uma
compensação para diminuir sua ansiedade, a pessoa sente raiva
e ódio de si mesma, suas razões podem ser compreendidas da
seguinte maneira: o neurótico compulsivo sente-se ameaçado e
confuso diante das exigências e cobranças de seu parceiro.
Sente-se pressionado pela sociedade e outras pessoas, a viver
de qualquer forma o desejo sexual. Os filmes, a televisão, os
jornais, as escolas, as revistas, são alvo de sua crítica e aversão
porque valorizam e falam de sexo em público.

95
A emoção mais profunda é a raiva inconsciente que
sente em relação àquelas pessoas que lhe traíram a confiança e
que, de certa forma, cometeram o abuso sexual. A raiva pode
transformar-se em ódio e fúria, e ainda, infelizmente, pode ser
projetada numa outra pessoa que não tem relação com o seu
caso. Se o abusador foi um homem, todos os homens não
merecem a sua confiança, no caso, os maridos, os chefes, as
autoridades, o professor, e termina com a seguinte frase:
“Todos os homens são iguais”. Alguns neuróticos compulsivos
projetam essa raiva para sua família, na sua fantasia houve
negligência e abandono por parte dos seus pais que deixaram
que o abuso acontecesse.
Muitas famílias comportam-se no silêncio absoluto
sobre essas questões, porque geralmente os pais impõem o
pacto a todos os membros da família. Enquanto esses segredos
não forem revelados, o trauma e a raiva não serão elaborados e
compreendidos. A pessoa vai à procura de alguma droga lícita
ou ilícita para narcotizar a sua consciência sobre sua ferida
emocional. Como comentamos anteriormente, essa raiva pode
tornar-se a fonte sádica do seu sofrimento e dos outros. O não
querer mudar, ou investir na sua cura, é também um tipo de
raiva investida contra seus familiares. Neste caso, é
compreensível esta atitude, pois resolver a questão e voltar a
viver a sexualidade de maneira saudável, significa perdoar a
família, isso jamais pode acontecer, porque na sua maneira de
pensar, perde o poder de castigar com a sua infelicidade os seus
pais.
A emoção da raiva esconde as verdadeiras razões da
inibição sexual que é de afastar-se do seu parceiro. O
compulsivo sexual pensa assim: Se viver sua sexualidade estará
traindo o pacto de fazer sofrer indiretamente todos aqueles que
também fizeram parte da sua ferida emocional. Se, a pessoa
começar a viver de maneira prazerosa o sexo, admitirá a

96
possibilidade de solução de sua dor emocional, e isso é tudo
aquilo que a pessoa não deseja que aconteça.
A questão é como esta pessoa poderá livrar-se da raiva
imposta a si mesmo e às pessoas mais queridas de sua
convivência, uma das formas de castigar-se e fazer valer o
princípio da raiva é procurar atitudes destrutivas. Outra emoção
que surge de maneira inconsciente é quando a pessoa deseja
sair da relação de raiva e ódio. Primeiro, é preciso entender que
existe uma fobia terrível em relação a voltar a ter relações
sexuais e a outra é a possibilidade de voltar a viver, de algum
modo, o trauma sexual que viveu no passado.
Gostaria de falar um pouco sobre o medo, uma fobia
que aprisiona e adormece qualquer tipo de ação. Existe, na
realidade, um grande medo de fracassar, e a sua fantasia
defende a idéia de que poderá viver novamente a experiência
da vulnerabilidade e humilhação. A ansiedade e a angústia
estão sempre presentes na vida de um compulsivo, porque esta
sempre com medo de não atender as expectativas dos outros,
ou ao contrário, quando surge a raiva, começa o processo de
afastar-se das pessoas do seu convívio pessoal.
A principal meta do neurótico compulsivo é não
misturar sexo com intimidade, porque amar alguém é tornar
possível a repetição do abandono e da traição, por isto mesmo,
a única saída é afastar-se do amor e do sexo, porque esta
estratégia lhe dá segurança de nunca ser traído ou abusado. O
grande medo do compulsivo é reviver aquela experiência de
dor e sofrimento.
Gostaria de comentar sobre alguns aspectos que fazem
parte da neurose compulsiva. Em primeiro lugar, os traumas
emocionais relacionados à sexualidade estão ligados a famílias
rígidas e controladoras. As normas, regras, leis, costumes e
tradições são vivenciados na forma de imposição autoritária.
Se alguém desobedecer alguma dessas regras, ou se não
preencher as expectativas dos seus pais, o castigo é o abandono

97
e a indiferença. Essa é uma forma de praticar a violência e
abusar do poder hierárquico na família. Famílias tradicionais
não aceitam qualquer tipo de mudança ou de questionamento
sobre o seu modo de viver. Qualquer pessoa que cometa algum
tipo de atitude desastrosa é punido severamente com o
abandono e a humilhação. A rigidez de caráter acompanha
sempre as pessoas compulsivas, porque na realidade a busca
pela perfeição está sempre presente no seu caráter.
Não existe nenhum outro tipo de opção para essas
crianças. Tudo está pensado, decidido, e a única alternativa que
lhes resta é obedecer, sem questionar, adaptando-se a filosofia
de vida tradicional da sua família. Alguns preferem se tornar
rebeldes e questionam todos os valores e virtudes, fazendo
justamente o contrário daquilo que os pais exigem. Outros
desenvolvem uma dupla personalidade, na frente dos pais
aparentam aceitar todas as normas e valores, mas, em segredo,
fazem justamente o contrário para desafiar as regras de sua
família. Sem qualquer outra forma de viver, o preço a ser pago
é viver sempre com culpa, raiva e medo.
Em relação ao sexo essas famílias ortodoxas e
tradicionais são castradoras, o sexo é visto como fonte de
pecado, e sendo assim, deve ser condenado e vigiado para
depois se julgar e condenar a pessoa. Em algumas famílias
sequer se pode falar ou comentar sobre questões sexuais.
Infelizmente os retrógados e moralistas vendem uma boa
imagem de pessoas honestas, corretas, sentem-se no direito de
julgar e condenar com severas punições aqueles que ousam
desobedecer as suas regras. Às vezes, os filhos descobrem as
safadezas dos adultos, mas, como existe uma hierarquia de
poder, nada podem fazer. As atitudes secretas, feitas às
escondidas, colocam por terra as exigências moralistas dos
adultos.
Quando o sexo é tratado como tabu, as crianças
começam a desenvolver atitudes cheias de medo e culpa, e

98
algumas desenvolvem patologias sexuais secretas. Este é o
preço que essas crianças pagam por nascerem numa família
puritana, moralista e com medo do sexo. Outro sintoma do
compulsivo sexual é a vivência emocional da desunião, da
incongruência, da mentira e da falsidade em relação ao sexo.
Quando uma família é disfuncional existe uma competição
velada de traição, fofocas, manipulações, criando um ambiente
que propicia a vivência isolada das emoções e sentimentos.
A dor significativa é viver junto e encontrar-se só, é
cada um por si e deus por todos. Não existe a cooperação, a
solidariedade, o diálogo ou a mútua ajuda.
O resultado deste sintoma em uma família disfuncional
é que suas crianças nunca vão aprender a confiar nas outras
pessoas, e terão muitas dificuldades de se relacionar com
intimidade, e na idade adulta, com certeza, se tornarão
compulsivos ao amor e a sexualidade. Outro sintoma se trata da
família que não respeita a intimidade, ao contrário da
disfuncional, todos sabem e colocam em público as questões
íntimas e privadas para humilhar e desqualificar o outro. Não
existem limites para invadir a privacidade, a autonomia e a
liberdade. São crianças que provavelmente terão sérias
dificuldades para realizar as suas potencialidades.
Esta defesa reativa se dá porque o neurótico compulsivo
acredita que qualquer intimidade tem relação direta com
invasão, sufocamento, falta de limites e desrespeito à sua
privacidade. Nos ambientes onde vivem, seja numa família ou
no trabalho, estão sempre no meio de confusões, brigas,
discussões, criam situações que reforçam o afastamento da
intimidade e da afetividade. Quando uma família não consegue
ser funcional, os sintomas dessa confusão emocional e as
mágoas e ressentimentos, começam a tornar-se anestesiados
com compulsões, obsessões, drogas, e na repetição dos abusos
físicos e emocionais.

99
O dependente emocional procura relacionar-se com
pessoas que se identifiquem com a pessoa do seu abusador.
Algumas mulheres procuram justamente homens violentos e
controladores. É um vício que é internalizado e adquirido a
partir do comportamento dos adultos. Portanto, a pessoa do
outro, como dizia Sartre, “O outro é meu inimigo”, pois está
impossibilitado de confiar e amar. Existe, na verdade um
processo chamado identificação com o agressor, essa reação
aparece quando a vítima se defende de todos os modos.
Existem algumas atitudes importantes para realizar o
diagnóstico de um compulsivo sexual: A) Tudo que diz
respeito ao sexo é uma ameaça e desencadeia uma ansiedade.
B) Qualquer trabalho ou reflexão sobre sexualidade é
distorcido com falsas racionalizações. C) Qualquer pessoa que
fale bem do sexo é um imoral e quer se exibir perante os
outros. D) Qualquer tipo de sedução ou aproximação em
relação ao sexo é tomado como uma invasão e assédio sexual,
esta pessoa pretende explorá-la sexualmente. E) O desejo
sexual deve ser controlado e qualquer outro tipo de
manifestação é tido como perversão e promiscuidade.
Toda esta lógica obedece às aprendizagens adquiridas
na família e na escola, principalmente dentro de uma cultura
religiosa da negação do sexo. Por isto, todo neurótico
compulsivo possui a tendência de deformar e alterar com falsas
racionalizações, as atividades sexuais de qualquer pessoa. O
compulsivo sexual carrega consigo uma cultura puritana e
negativa sobre o sexo.
Vamos conhecer um pouco sobre a dimensão
psicopatológica inconsciente da compulsão sexual. A emoção
da raiva produz uma motivação inconsciente de um ciclo de
auto-sabotagens, que geralmente tem início com uma leve
preocupação diante dos temas da sexualidade, a fim de
descobrir o potencial negativo e destrutivo do sexo, argumento
utilizado como forma de afastar-se do contato com a pessoa

100
amada. Uma das obsessões é buscar desculpas e justificativas
para não propiciar um clima onde possa acontecer a relação
sexual.
Uma adição compulsiva leva a outra, sem saber, a
pessoa pode tornar-se um viciado em trabalho, mas a
verdadeira razão da compulsão não é ganhar mais dinheiro para
pagar as contas, mas se encher de compromissos e obrigações
para não propiciar um contato afetivo e sexual entre ambos.
Agora vou enumerar vários tipos de defesas que o
neurótico compulsivo viciado em trabalho utiliza, para fugir do
contato sexual:
- estar sempre desleixado e mal arrumado, de
preferência que exale um odor horrível para afastar as pessoas
do contato mais íntimo;
- procurar roupas que possam esconder bem o corpo e
principalmente as partes íntimas, esse seu estilo conservador
esconde o medo do contato afetivo e sexual;
- envolver-se sempre em dietas ou exercícios físicos
excessivos para reforçar seu domínio sobre o próprio corpo,
uma maneira disfarçada de impor um castigo e sofrimento
pelos desejos eróticos;
- o surgimento de sintomas ou doenças que possam
ajudá-lo a não ter qualquer atividade sexual;
- cortar ou mutilar o corpo, tornando-o pouco atrativo
como um lugar simbólico sem sensualidade e erotismo;
- fugir ou esconder-se de qualquer ambiente que possa
estimular ou favorecer a excitação sexual.

Estes são mecanismos de defesa que a pessoa utiliza


para proteger-se de qualquer tipo de agressão ou violência
sexual. É a única forma que encontrou para sentir-se no
controle e seguro em relação à sexualidade. Este domínio,
imposto sobre si mesmo, desenvolve uma espécie de
competição entre os desejos da pulsão e o controle repressivo

101
da pessoa. A meta principal é fechar-se para qualquer nova
experiência sexual, num estado de anulação da ansiedade, é
reduzida a negação e privação compulsiva do sexo.
Mas, quando o medo obsessivo é muito grande diante
da iminência da relação sexual, a solução é muito simples: a
fuga do contato sexual é igual ao desaparecimento da
ansiedade, esta sensação de sentir-se livre do desejo sexual é
seu objetivo principal. Acontece que a energia da libido
procura outros caminhos para alcançar o seu desejo. Sem
dúvida essa energia sexual escoa para outras formas de prazer
patológico. As novas experiências na fantasia aumentam o
vazio existencial, o desespero, a solidão e sua carência afetiva.
Mas esses mesmos sintomas levam a pessoa a pensar e
perguntar-se: Por que encontra-se tão infeliz Por que não
consegue viver e desfrutar da sua sensualidade e erotismo
Quando essas perguntas não encontram respostas, aumenta a
sensação de desespero e de agressão contra si mesmo. Neste
momento, surge a depressão e a ansiedade. Esse ciclo favorece
a repetição e sua vivência que desencadeia uma insatisfação,
ampliando o pessimismo, levando algumas pessoas a um
suicídio lento e gradativo. O bloqueio dessas emoções e
sentimentos é uma tentativa do compulsivo sexual para poder
fugir das ameaças e violências presentes nas suas fantasias
neuróticas. A renovação desse ciclo favorece a diminuição da
ansiedade para logo depois combatê-la novamente.
O ciclo da compulsão a repetição: preocupação
(fantasias, alucinações e imaginação negativa); utilização das
suas defesas (racionalização, negação, isolamento); emoção de
raiva e ódio (contra si mesmo e projetada nos outros); vivência
da angústia, ansiedade e desespero (perda do significado de
existir, desespero, depressão e produção dos sintomas
psicossomáticos).

102
A dinâmica inconsciente das emoções reprimidas e o
desenvolvimento da compulsão sexual

Gostaria de descrever, de maneira resumida, as defesas


utilizadas pelo compulsivo sexual para fugir do contato sexual.

- jamais misturar as emoções afetivas e amorosas com a


sexualidade;
- acredite, ninguém pode obrigá-lo a alcançar um
orgasmo;
- fugir de qualquer situação ou experiência que possa
expor sua insegurança sexual;
- recalque e racionalização das lembranças dolorosas de
abuso ou violência sexual, incluindo as de abandono e
humilhação;
- manter sempre o controle das emoções do seu
companheiro e de sua família. Fica proibido falar ou resolver
estas feridas emocionais;
- fazer de tudo para que os segredos e pactos
inconscientes nunca sejam verbalizados, independente do
sofrimento e dor que este sigilo imposto possa causar;
- todos da família fingem que não sabem do problema,
mas sempre alguém da família acaba denunciando, pelo seu
comportamento, o segredo imposto pelos pais;
- estar sempre no controle e colocar medo nas pessoas,
são estratégias que trazem o resultado da obediência e
submissão;
- o medo de expor e falar de sua intimidade fortalece a
expulsão da dor através dos sintomas psicossomáticos, porque
a doença é uma forma de punir-se pela traição de viver a sua
sexualidade.

103
As crenças inconscientes na formação de uma autoimagem
e estima desfavorável a si mesmo

- Eu sou uma pessoa muito má e indigna de receber


amor e afeto e nego a existência de qualquer desejo sexual;
- Ninguém será capaz de amar a minha pessoa, pois sou
indigno desse afeto;
- Tenho certeza de que minhas necessidades nunca
serão satisfeitas, porque as outras pessoas estão interessadas
em tirar proveito de minha sexualidade;
- Eu ainda não sei o porquê da existência deste desejo
sexual, se houvesse uma maneira de retirá-lo do meu corpo,
sem dúvida, não faria nenhuma diferença na minha vida.

A emoção da raiva e ódio que tem contra si mesmo e as


outras pessoas

- estou convencido de que realmente não sou digno e


merecedor do prazer sexual e, muito menos, do amor de
alguém;
- ao mesmo tempo sinto falta do afeto, do amor, esta
sensação desconfortável me leva a uma insatisfação pessoal
que é projetada nas outras pessoas do meu convívio;
- procuro esconder-me detrás da minha auto-suficiência
e autoritarismo, esta fachada impede qualquer manifestação de
intimidade afetiva e sexual;
- tenho muita raiva daquelas pessoas que vivem a
sexualidade e o amor, a maneira de me ver livre deles é
destruindo sua imagem com mentiras e fofocas;
- esta raiva me destrói por dentro, pois estas pessoas
não me cuidaram e me deixaram nas mãos dos abusadores
sexuais;

104
- projeção de sua raiva e ódio a toda pessoa que penetre
no seu passado de traição, abandono, humilhação e abusos;
- um afastamento gradativo do sexo e uma submissão
ao parceiro, aceitando e sofrendo todos os tipos de abusos;
- ab-reação do compulsivo sexual como um sintoma;
- se vivo minha sexualidade estou traindo a mim
mesmo;
- se não vivo minha sexualidade não estou traindo a
mim mesmo.

A fobia do sexo e da experiência do amor

- medo de tornar-se vulnerável;


- medo de viver o prazer o sexual;
- medo de ser abandonado, rejeitado, estuprado;
-medo de não conseguir satisfazer o parceiro
(sentimento de inferioridade);
- medo de reviver o trauma sexual;
- medo de entrar em contato com a ferida emocional do
passado;
- medo, aversão e nojo do desejo sexual.

A distorção da realidade, o equívoco de sua interpretação


diante de um trauma emocional

- Negação: “Não tenho nenhum problema em relação a


sexualidade”;
- Desqualificação: “O sexo não faz nenhuma falta em
minha vida”;
- Teimosia e orgulho: “Tenho completo controle sobre a
minha sexualidade”;

105
- Culpa: “Minha companheira é compulsiva, imatura,
retrógrada, rígida, indisciplinada”;
- Falsa interpretação: A) Qualquer atitude erótica é
interpretada como algo ameaçador, e por isso mesmo, merece o
ataque e a perseguição; B) Qualquer pessoa que viva sua
sexualidade é uma mentirosa e vive num mundo de
imoralidade e luxúria, o que a faz merecer ser julgada e
condenada; C) Toda iniciativa sexual ou sensual é vista como
sendo característica de uma pessoa exploradora que procura
arrumar vítimas para sua satisfação pessoal, mesmo frente ao
amor e intimidade; D) Qualquer desejo de meu parceiro deve
ser controlado e tenho que mostrar a minha pureza e controle
sobre este mundo de pecado.
Para o leitor entender: o compulsivo sexual ou mesmo a
pessoa que possua qualquer outro tipo de adição, realiza um
gasto enorme de energia psíquica, por isso mesmo, na sua
grande maioria, encontra-se num estado de exaustão e
depressão. Os adictos encontram-se sempre na defensiva e
recusam qualquer tipo de atividade que possa representar a
vivência da intimidade. São pessoas que tratam muito mal
aqueles com quem convivem, sejam familiares ou colegas do
ambiente de trabalho, mas, em seguida pedem desculpas, pois
no fundo não desejavam agir desta maneira.
A repressão da sexualidade, a raiva, o medo, a culpa e a
distorção da realidade têm seu preço. No mundo dos negócios
ou nas amizades, essas emoções podem afastar e comprometer
qualquer tipo de sucesso seja afetivo ou econômico. Com o
tempo, não conseguem sobreviver psicologicamente e,
infelizmente, são dominados pelos medos e compulsões
doentias. O neurótico compulsivo deixa um passado de
fracasso inimaginável, no final da história, todos os seus
amigos e as pessoas do seu ambiente familiar e profissional,
afastam-se devido às brigas, desentendimentos, perseguições e
mágoas. Por fim, a pessoa chega a resultados que confirmam a

106
sua crença principal de que não se pode realmente confiar em
ninguém.
Este ciclo é repetitivo, e se converte numa atividade
inconsciente, que gera crenças que são distorções de uma
realidade subjetiva que se converte no combustível de sua
neurose maligna, pois todas as suas atitudes têm como objetivo
fazer valer a intenção da emoção raivosa de sua rebeldia
neurótica. A neurose compulsiva pode ser caracterizada como
maligna porque sua única função é alimentar este ciclo
destrutivo. O consumo exagerado de energia psíquica retira do
seu organismo a sua vitalidade principalmente o seu estado de
ânimo e, no final das contas, esta pessoa fica presa nas malhas
da rede de alienação e massificação do poder da neurose
compulsiva. Qualquer um pode desencadear um estado
psicótico ou uma depressão profunda nestes casos.

A compreensão da neurose maligna (adição) e seu processo


destrutivo através da compulsão

A neurose maligna é diferente da benigna, porque


enquanto uma se estrutura no sintoma leve, a outra se esconde
no íntimo da doença crônica. Todas estas pessoas que estão sob
o domínio da neurose compulsiva maligna, sentem-se
impotentes, porque enquanto a neurose benigna vivencia uma
aversão e afastamento de sua sexualidade a compulsão maligna
procura sua satisfação na adição. São pessoas que fazem a
colheita desastrosa do desespero, da tristeza e da depressão,
não conseguem perceber que estão sob o controle de fantasias e
ilusões que distorcem a real compreensão de sua realidade.
Na sua solidão e isolamento, procuram conviver com os
seus segredos e aversões. Alguns estão envolvidos neste
processo compulsivo da adição, e outros no desejo de reprimir
e negar a existência do prazer sexual, porém ambos encontram-

107
se sob o domínio da neurose destrutiva. É muito difícil
compreender os motivos que levam uma pessoa a repudiar e se
voltar contra o desejo sexual. Como pode uma pessoa tornar
esse desejo uma espécie de seu inimigo número um,
transformando-o em uma fonte de tanta desgraça e
infelicidade.

108
Geralmente é um caminho cheio de frustrações, e sem
dúvida estas perdas desencadeiam uma depressão profunda,
porque o problema é saber lidar com o momento de negação e
aversão, com compulsão e promiscuidade. É um tipo de relação
sadomasoquista que possui a tendência de acabar com
violência psicológica e física, pois a conquista e a sedução não
estão baseadas no respeito e na ética, mas, sim, na perversão e
sadismo. Muitas vezes, as pessoas precisam cair no fundo do
poço para dar-se conta de sua adição.
Todos os adictos são compulsivos e buscam,
inconscientemente, se destruir. Partem da tese principal de que
não são dignos de receber amor, devido a culpa que sentem
sobre o seu passado. Esta forma descontrolada de buscar o
prazer compulsivamente justifica qualquer tipo de conduta ou
decisão, suas escolhas são equivocadas por estarem sob o
domínio de uma falsa interpretação de si mesmos. Tantos os
obsessivos quanto os compulsivos possuem um ritual para fugir
da dor e de sua carência afetiva. É um tipo de neurose
necrofila, que obedece ao ciclo repetitivo para chegar a um
nível de completo esgotamento das forças físicas e psíquicas.
Todos os adictos dizem que precisam de ajuda, mas o
seu desejo inconsciente fala mais alto, e acabam utilizando os
que tentam ajudar para tirar proveito e realizar seu prazer
mórbido e nefasto. Esta compulsão pode ter relação com a
anorexia e bulimia, que são outras formas de transtornos que
possuem muitos sintomas semelhantes aos de um compulsivo
sexual. É sempre o mesmo ritual do descontrole, pois carregam
sempre o medo do excesso e do controle. Tanto o bulímico
quanto o anoréxico, não conseguem estabelecer uma relação de
equilíbrio, e estão sempre a procura de uma saída nos seus
rituais de um extremo a outro.
Para fugir da sua dor, procuram, na obsessão, uma
forma de escapar desse sofrimento. Essa mesma compulsão
pode ser explicada na adição dos bulímicos que procuram no

109
exagero da alimentação o alívio para sua ansiedade. A
comparação que podemos fazer é que o compulsivo sexual
procura sempre o alivio de sua ansiedade nas compulsões
aditivas, a compensação para sua falta de segurança emocional,
afeto e amor. A adição da bulimia se encontra entre o
descontrole da comida e o controle exagerado.
Este estado de privação não tem nada de novo, pois na
Idade Média, os cristãos buscavam uma vida de abstinência
para alcançar um estado de pureza. O objetivo era afastar-se de
qualquer tentação que pudesse instigar o desejo da carne. Na
verdade era uma luta contra a pulsão sexual, um dos conselhos
mais sábios dos sacerdotes era não olhar para uma mulher e
jamais tocar ou se aproximar de uma pessoa, pois isso poderia
despertar os desejos da carne. Toda esta ascética tinha como
finalidade dominar os desejos pecaminosos do corpo, e de
preferência anular ou fazer desaparecer por completo o desejo
sexual.
Da mesma forma esta ascética estava relacionada aos
alimentos e ao bem estar, todos os monges, no seu monastério,
tinha uma vida de privação e de repressão diante dos possíveis
desejos dos alimentos. Mas, para que essa ideia fosse colocada
em prática, era preciso uma dose muito forte de culpa, medo,
obediência, castigos, ameaças, pressão e dependência. Para
criar esta emoção de sentir-se indigno de poder ter qualquer
tipo de prazer, era necessário vigiar e punir. Para os
psicanalistas, este método realça o resultado de uma ascética
baseada na privação e negação que desencadeia uma
compulsão sexual imatura e infantil, mais conhecida como
pedofilia.
O descontrole da compulsão acontecia quando esses
monges e sacerdotes abusavam dos coroinhas e seminaristas:
eis o excesso. É muito comum encontrar sentimentos e
emoções nas pessoas que possuem estes transtornos de
indignidade, de privação e muito medo do contato sexual com

110
pessoas mais maduras. É importante compreender este
processo inconsciente que acontece entre a privação e o
excesso e todo o sentimento de culpa surge a partir desta
experiência.
Gostaria de descrever o processo de atuação
inconsciente da estrutura neurótica da compulsão a repetição.
Às vezes começa com uma dieta para perder peso, mas de
repente acontece algo, um convite para uma festa de
aniversário e, durante aquele momento de descontração, se
inicia o processo de comer, beber, gastar tudo de maneira
exagerada. Uma vez que a pessoa começou, não para mais, e os
prejuízos dessa compulsão todos conhecem: tristeza, depressão,
culpa e depois a punição destrutiva. A constante repetição entre
perder peso, parar de beber, voltar a abstinência sexual, e, logo
depois, fazer tudo de forma compulsiva, produz uma raiva que
pode transformar-se em ódio contra si mesmo e também contra
as pessoas do seu convívio.
Por isto mesmo que este processo de controle pela
vontade não funciona, pois os fenômenos da adição, da
privação e do excesso desencadeiam um esgotamento físico e
emocional na pessoa compulsiva. E podemos, ainda,
acrescentar a vergonha, a humilhação, por não ter alcançado as
expectativas, o que cria uma descrença, diminui a autoestima, a
confiança para poder sair da adição. Este ciclo de vitórias e
derrotas tem relação direta com um conceito muito pobre sobre
si mesmo, não conseguem conviver com tanta pressão e críticas
dos seus familiares. A tendência destes adictos é assumirem-se
como pessoas incapazes e cheias de defeitos, esta imagem
concretiza seu desejo de nunca poderem amar alguém e jamais
se deixarem amar, pois são pessoas indignas de receber o amor.
As famílias que possuem sanidade psicológica e
emocional, ensinam as crianças a se sentirem bem consigo
mesmas, e que podem ser independentes e autônomas,
proporcionam um ambiente de aprendizado e centram seu olhar

111
nas qualidades e valores, e não nos seus defeitos, pois quando
repete e valoriza as atitudes negativas acentua a baixa
autoestima. Quando uma criança sente-se retraída e com
vergonha de manifestar seus desejos e emoções, será
imensamente prejudicada na sua autonomia, inclusive torna-se
um adulto muito vulnerável e dependente, desenvolve um falso
“self” assumindo as exigências descabidas de seus pais ou
autoridades.

Quando existe uma situação extrema de privação, esta


mesma repressão exige uma forma de alívio, e neste instante
surgem várias formas de compensação e atuação inconsciente.
Vamos citar alguns desses sintomas existenciais, frutos desta
compulsão destrutiva.

112
Esta atitude compensatória tem como objetivo produzir
um pouco de alívio, é de conhecimento geral que a repetição
compulsiva não resolve o seu problema, porque a solução é
momentânea, é um alívio imediato mediante a desobediência e
a consequência é um prejuízo pessoal. Cria-se, então, um ciclo
repetitivo, de atuação inconsciente, que pode ficar
despercebido por meses ou anos.
Vou utilizar o dinheiro para explicar os motivos
inconscientes que levam muitas pessoas a gastarem de maneira
compulsiva, demonstrando um descontrole financeiro, cujo
objetivo é de compensar, através das compras, um prazer
compulsivo. Porque a sobra de dinheiro pode proporcionar
muitas formas de prazer, como viagens, estudos, lazer, mas os
compulsivos são indignos de viver esta realidade, por isto
mesmo trapaceiam a sua consciência vivendo num inferno de
dividas e cobranças.

113
Existem pessoas que se sentem excitadas, porque se
distraem e acabam ficando hipnotizadas pelo afeto e atenção
dos vendedores. Quando a pessoa começa a entrar em
depressão, sente-se muito vulnerável e uma das formas de
evitar esta sensação desagradável é ir às compras. Vejamos o
que descrevo abaixo:

A convivência com a vergonha e a traição

Controle Compulsivo: dieta, negação do sexo, nojo do


álcool, economia financeira exagerada, fuga de riscos e
aventuras, torna-se ortodoxo e tradicional na religião.
Descontrole Compulsivo: alimentação exagerada,
ninfomaníaco, overdose de cocaína, gastos e falência
econômica, adora correr riscos e realizar aventuras, abandono
do trabalho.

Este é o problema do adicto que luta entre a extrema


economia de tudo e depois gasta o que economizou de forma
indiscriminada. O adicto ao trabalho defende sua tese na
quantidade de bens e dinheiro que consegue acumular, pois
existe um medo muito grande de ficar pobre ou de ser roubado.
Estes são dois extremos dos transtornos dos adictos
compulsivos, que depois acabam por envolver toda a família no
seu tratamento, muitas vezes para trabalhar o tema da adição ao
dinheiro, porque por um lado existe uma economia forçada e
de outro ninguém usufrui deste trabalho.
Quando a pessoa está envolvida nesta compulsão, não
tem tempo para nada, e, ao mesmo tempo, tem todo o tempo
para a sua adição. Quando se inicia a terapia de família, os
segredos são revelados, porque pela primeira vez existe um
espaço para relatar a situação de maneira franca e sincera. A
questão de não conseguir usufruir de tudo aquilo que a

114
existência oferece e mesmo de todo seu trabalho e economia,
tem relação com duas crenças básicas. Uma, é a de que tem
consciência de sua indignidade e, devido a isso, acredita que
não é merecedora do prazer e do bem estar. A outra, é que
necessita dissipar suas energias para poder diminuir sua
ansiedade, ao privar-se do prazer e do conforto sente-se
aliviada e menos culpada.
A neurose compulsiva maligna possui a capacidade de
gerar repugnância ao desejo sexual, incluindo também as
disfunções orgânicas, como a interrupção da menstruação e
vaginismo. Outra forma de castigar-se para sentir-se menos
culpado, é privar-se da intimidade emocional e social. Vou
descrever alguns dos sintomas desse tipo de adição.
- um distanciamento gradativo das atividades sociais;
- aprende a conviver com o sentimento de abandono e
solidão;
- enclausura-se no seu apartamento e não participa de
nenhum grupo social;
- carrega consigo a paranóia de existirem pessoas que
têm a intenção de prejudicá-lo e denunciá-lo;
- as relações com os colegas de trabalho são sempre
distantes e desconfiadas;
- entra em pânico quando alguém tem intenções de
conhecê-lo em profundidade;
- sente-se incomodado quando alguém pretende dar-lhe
afeto e carinho;
- sente uma forte atração por pessoas que não estão
disponíveis e não tem interesse sexual;
- tem muita dificuldade para fazer novas amizades;
- existe um medo compulsivo de que as outras pessoas
descubram seus desejos fantasiosos;
- não consegue sentir-se a vontade com os outros, pois
carrega consigo a inferioridade e um mal-estar;

115
- sente raiva e ódio daqueles que são ativos e realizam
suas atividades com sucesso.

Quanto mais a pessoa se isola de relacionamentos


sociais, aumentam, na mesma proporção, os prejuízos na sua
vida profissional e familiar. O medo é a mola propulsora da
neurose benigna, que se não for tratada no seu devido tempo,
pode transformar-se em uma neurose maligna. Fogem de todo
tipo de investimento e mudança, por sentirem-se confortáveis
na posição de anulação e comodismo. É uma situação que
demonstra a motivação inconsciente de fugir e proteger-se
daquela dor emocional, sua única saída e fugir para não ferir-se
novamente.

116
2.2 O sentido e o significado das adições e compulsões

Os adictos compulsivos não gostam de sofrer nenhum


tipo de frustração e muito menos perder o poder de domínio
sobre as pessoas, existe sempre um interesse em ganhar. Não
existe um interesse em preservar os valores e virtudes, a partir
de uma dimensão ética, sua existência é uma via de mão única.
Individualista, egocêntrico, coloca toda sua atenção no prazer
que a adição proporciona. Sua mente está voltada para viver o
prazer a qualquer custo, mesmo que seja usando as pessoas que
mais ama.
Existe um único objetivo em sua vida, utilizar todo seu
potencial de inteligência para satisfazer o desejo monstruoso
das experiências que as drogas proporcionam. Toda vez que o
adicto ouvir um não, o interpreta como um atentado contra a
sua pessoa. Todos sabem que utilizamos de nossa astúcia e
sedução para tirar alguma vantagem num negócio, às vezes está
correto conseguir baixar o preço de uma mercadoria, mas,
quando alguém nos diz, cheguei ao limite, não posso mais
baixar o preço, temos que ter a capacidade de aceitar o não.
Não é fácil para ninguém receber esta assertiva
negativa, às vezes podemos ficar tristes, com raiva,
descontentes por algum tempo, mas a nossa relação não fica
prejudicada, porque depois da tempestade surge um sol que
brilha, e começamos um novo dia. As pessoas que estão sob o
domínio da compulsão a repetição, não aceitam o não, então
partem para as agressões, pressões e ameaças. É como se não
soubessem viver sem beber a aguardente da compulsão, ou sem
fumar um baseado, cheirar uma carreira de cocaína, ou mesmo
trabalhar dezesseis horas por dia.
Pessoa saudável sabe a importância de alcançar seus
objetivos na vida, mesmo que esteja desapontada, mas começa
a elaborar novos planos para conseguir alcançar suas metas. Já

117
os adictos compulsivos não conseguem tolerar este tipo de
frustração. Talvez, na sua insanidade, perceba o “limite” como
um desapontamento, um abandono, uma rejeição. Não podem
juntar suas forças e seguir em frente, pois estes “limites”
reativam os seus medos profundos de abandono, perda e
privação, por isso, partem para o ataque como uma forma de
amenizar a experiência intolerável.
A emoção de perda, reativa pensamentos pessimistas e
derrotistas, como por exemplo, eu não vou conseguir realizar o
meu sonho, acredito que não seja possível eu viver esta
experiência de amor. Com esta forma de pensar, a inferioridade
toma conta da pessoa. Sua única saída é enganar, dar um golpe,
não pagar as contas, envolver terceiros no seu prejuízo, enfim,
procura meios de tirar vantagem para satisfazer seus interesses
pessoais e com isto afastar as pessoas de sua convivência ou
perder o seu amor.
Uma pessoa que esteja convicta de sua missão de salvar
estas pessoas, de punir-se caso não consiga, estará sempre
insegura, ou seja, encontra-se na contramão da saúde e
provavelmente conseguirá tornar a sua vida um inferno. Sem
dúvida, esta insegurança de que não tem capacidade de prover
sua própria subsistência, ou da angústia para lidar com os
acontecimentos do futuro, pode desencadear um estado de
extrema ansiedade. Pessoas que passaram por muitas
dificuldades e privações afetivas na sua infância tornam-se
muito carentes e dependentes, e como não querem ser
rejeitadas, abandonadas, ou exploradas, procuram fazer a
vontade de todos.
O medo de amar tem suas raízes nas emoções de
privação. Para não encontrar-se com esta dor emocional,
agarra-se com todas as suas forças, a amigos, parentes ou
amantes, mas a insegurança continua, porque sente que em
algum momento essas pessoas seriam retiradas de sua
convivência. Não consegue sentir o prazer do relacionamento,

118
pois as fantasias o perseguem a todo instante, e para poder ver-
se livre deste tormento é melhor terminar seu relacionamento,
que já nasce carregado de cargas negativas.
Existem várias maneiras de afastar alguém do seu
convívio pessoal, uma das condições é começar a exigir um
relatório sobre suas idas e vindas. Questionar e colocar dúvida
sobre sua vida íntima, começar a fazer cobranças infundadas,
ficar indiferente e não expressar suas emoções. Para os adictos
compulsivos é melhor sentir-se livre de um relacionamento do
que correr o risco de ser abandonado novamente, a não ser que
esta pessoa possa compensar de certa forma a sua adição.
É inquestionável a importância dos primeiros vínculos,
porque a forma como foi cuidado e amado, vai interferir
diretamente na qualidade de vida e dos seus relacionamentos.
A questão da imagem, do conceito e da estima são condições
básicas para poder formar uma opinião sobre si mesmo.
Crianças que foram superprotegidas, e que não sofreram
frustrações, podem desenvolver a tendência de repetir estas
atitudes na vida adulta.
Geralmente, quando uma criança não é atendida no seu
desejo, começa a chorar e tem ataques de fúria, momento em
que algumas chegam a atirar objetos e agredir quem está por
perto. Alguém deve intervir e explicar ou tomar as devidas
providências para que esta sua atitude não seja incorporada a
cultura do seu caráter, se não, teremos que conviver com um
adulto emocionalmente infantil. Com este caráter agressivo e
dominador pode sofrer crises de raiva durante toda a
existência, como um recurso para ver suas reivindicações
atendidas.
As crianças precisam do limite, alguém deve
pronunciar-se sobre suas atitudes descabidas, pois toda omissão
ou indiferença pode ser interpretada como uma atitude correta.
Em parte, os pais e professores são responsáveis pelo tipo de
adulto que pretende educar. As experiências da adolescência,

119
da juventude, e mesmo da vida adulta podem estruturar novas
crenças, que somente aparecem quando estamos enfrentando
algum tipo de conflito. Por isto, é preciso modificar antigas
crenças e tomar consciência que algumas atitudes podem
causar muita dor. É preciso sair deste ciclo repetitivo de
sofrimento, fracasso e punição.
A adição é o indício claro de que a pessoa tem
dificuldades para lidar com situações de conflito, diante das
incertezas e pressões da sociedade começa a adoecer e ampliar
sua patologia, principalmente nos casos que envolvem o
divórcio, perda de emprego, aposentadoria ou doenças graves.
A vivência dos limites da existência, mostra sua
vulnerabilidade, por isto a imagem do super-homem vem
abaixo, neste instante todos os seus medos e fantasmas
começam a acompanhá-lo no seu cotidiano.
Ao conviver com o “limite”, o compulsivo fica com
raiva, magoado, sente-se traído, pois as crianças que foram
superprotegidas e mimadas, não tiveram o ambiente e a
oportunidade de adquirir confiança, coragem e determinação
para buscar respostas para seus dilemas pessoais. Quando
enfrentam algum tipo de perda, e sentem que estão sendo
privados de alguma conquista, ficam inseguras, entram em
pânico e inicia-se um processo de pressão, cobranças e
punições às instituições ou pessoas que estejam ligadas a sua
frustração.
Toda criança que foi superprotegida possuía a tendência
a criar expectativas da realidade fantasiosas, e, assim,
acreditam que seus objetivos e a realização dos seus sonhos
seriam, no seu devido tempo, presenteados por Deus, por um
guru, ou que iriam cair do céu. Infelizmente, não foram
preparadas para os “nãos” da existência, e desta forma, vivem
reivindicando e incomodando os outros para resolverem seus
problemas afetivos e econômicos. Este é um tipo de pessoa
deficiente emocionalmente, que deve ser incluída nos

120
programas de inclusão social. Talvez esta seja a pior
deficiência e não a falta de pés ou mãos.
As adições se estabelecem na vida das pessoas para
criar dependência orgânica e psicológica, da mesma forma, os
agentes desse vício procuram tornar as pessoas dependentes de
sua doença, ao acusar alguém, ameaçar, humilhar ou
desqualificar. Começamos a perceber o lado sombrio e nefasto
do resultado da adição. Os adictos tornam-se egocêntricos,
dominadores, exploradores, procurando sempre que possível
algum benefício pessoal, mas, com uma ressalva, que não
precise exigir nada mais daquilo que é obvio.
A formação do caráter dos adictos está focada nas suas
necessidades pessoais e na realização do desejo mascarado das
suas compulsões. O seu desejo é de ser atendido em todas as
suas reinvidicações, o que demonstra um narcisismo, que é um
componente devorador das energias do outro. Estes demônios
estão atentos para qualquer iniciativa de autonomia e liberdade,
porque entendem que suas ações podem ajudar a pessoa a
abandoná-lo.
Qualquer tipo de mudança assusta os compulsivos, e
esse medo dificulta qualquer tipo de interação e diálogo, ou
mesmo da evolução do seu potencial profissional de
inteligência, desencadeando uma sensação de abandono e
independência. Todos têm muito medo de serem deixados de
lado. Muitos dependentes emocionais têm vergonha da sua
carência afetiva, econômica, de amor, de iniciativa, de
criatividade, de coragem, e sua única alternativa, nesse caso, é
alcançar seus desejos pelo caminho da perversão e das
psicopatologias da pressão, da falsidade, da mentira e do
engano.
Todo adicto compulsivo, como no caso dos jogadores,
convivem em um dia com a riqueza e no outro com a pobreza.
Seus filhos também estão vulneráveis a essa insegurança
econômica e afetiva. Como pode uma criança desenvolver

121
confiança e amor em um ambiente desprovido de
responsabilidade, segurança e cuidados? Esse é mais um
exemplo dos prejuízos que a compulsão pode trazer à vida de
uma criança.
O poder de atuação do adicto sofre o impacto das
resistências e transferências inconscientes, sem a mínima
consciência dos desejos que estão sendo projetados, existe a
tendência da solidificação de um tipo de pacto. Esta
participação inclui as emoções latentes. Toda vez que uma
situação existencial traz à tona esta angústia, surge no seu lugar
a compulsão. Este tipo de relação não proporciona o
desenvolvimento das potencialidades. Sobrecarregados pelos
compromissos assumidos, estão sempre com raiva e culpa.
Esta realidade emocional passa despercebida, e
consegue fazer com que as pessoas tornem-se passivas e
acomodadas, ao enfrentar os problemas recorrem sempre ao
velho método de proteger a sua neurose necrófila. Esta
insegurança aparece de repente cobrando uma atitude de
realizar a sua missão de salvador e naqueles casos que não
consegue tal objetivo, precisa desencadear uma série de ações
punitivas contra sua negligência.
No processo de formação do caráter compulsivo estão
presentes algumas defesas que pretendem evitar, o encontro
com a sua dor emocional. Os adictos compulsivos possuem a
necessidade excessiva de aprovação, não conseguem expressar
suas emoções de raiva, medo ou de ódio. Ao mesmo tempo,
correm desesperadamente atrás da paz e da tranquilidade, pois
não suportam mais tanta desarmonia em suas vidas. Sentem
que receberam uma grande missão que é resolver os problemas
dos outros, inclusive retirando recursos do próprio bolso, ou
utilizando de sua profissão para amenizar as cobranças do seu
superego.
A questão da necessidade de aprovação e aceitação é
própria de pessoas inseguras, este tipo de droga vicia qualquer

122
pessoa, pois esta sempre correndo atrás da química como forma
de amenizar a sua ansiedade. Para poder sentir algum tipo de
valor e reconhecimento, necessitam da apreciação, julgamento
e avaliação de outras pessoas. A sua segurança emocional
depende sempre de algum tipo de droga, o lema desse tipo de
vício é o seguinte: “Se eu não conseguir esta dose de aprovação
não conseguirei alcançar os meus objetivos”. E quando vem
acompanhado do sentimento de inferioridade é ainda pior, e,
em consequência disso, vem o pensamento. “Se as pessoas não
estão aprovando minhas atividades é porque eu sou um
imprestável”.
As crianças precisam da aprovação dos adultos para
tudo, e aqueles que não conseguiram cuidar de si mesmos
começam a conviver com estes seus fantasmas. Muitas das
atitudes dessas crianças estão baseadas no princípio do
estímulo e resposta, e o grande prêmio é mais conhecido como
recompensa. Este tipo de relação sustenta a dependência e
insegurança, é uma compulsão por reconhecimento e
valorização. É uma pessoa que está sempre precisando de
aplausos e afeto.
Como uma criança pode aprender a expressar sua raiva
quando sua mãe é autoritária e dominadora? Pois qualquer
reação pode aumentar a fúria do agressor, então é preciso saber
lidar com esse tipo de pessoa, que utiliza a agressão e a
violência psicológica para poder dominar. Outros pais fazem o
contrário, ficam furiosos, no seu silencio, ninguém sabe
realmente o que está acontecendo ou do que se trata. Não sei
qual é a pior das atitudes, porque quando um adulto é
indiferente e mantém distância dos seus filhos, cria um espaço
de isolamento e solidão, e muitas pessoas não sabem como
lidar com líderes frios, distantes, racionais e gelados. Rollo
May afirma que este tipo de pessoa é um esquizóide.
O problema é que a vítima tem sempre que manter o
bem estar de sua família, não sabe os motivos dessa atitude,

123
mas sente uma necessidade, uma missão que deve ser
cumprida. Esta responsabilidade inclui todos os cuidados de
sua mãe, pai e irmãos e, em troca disso, recebe elogios e
algumas recompensas afetivas. Ao carregar todos os problemas
da família nas costas, têm o compromisso de torná-los felizes e
realizados. Para receber o afeto de sua mãe ou de outra pessoa,
sabe que precisa ser boa, dar presentes, pagar contas, comprar
remédios, resolver problemas, atitudes que são muito nobres e
todos da família reconhecem suas qualidades.
Mas esta sua compaixão, a sua ternura e o seu
compromisso, aumentam suas dívidas na conta do cheque
especial, os telefonemas começam a aparecer, para cobrar
algumas contas atrasadas. Neste momento, começa a dar-se
conta que está renunciando a sua honestidade, para resolver os
problemas da sua família ou de amigos. E, mesmo assim,
procura nas reminiscências de sua neurose compulsiva as
justificativas para continuar auxiliando os outros. Se alguém
pergunta quais os motivos para tal comportamento destrutivo,
responde imediatamente: “eu não posso deixá-los, porque
tenho muita pena e dó deles”, ou mesmo diz: “minha mãe me
olha com lágrimas escorrendo pelo seu rosto, então faço tudo o
que ela quer”.
Os missionários dos dependentes emocionais sempre
têm um coração bondoso, um amor fraternal, e dinheiro para
emprestar e dar para qualquer alma que esteja sofrendo. A
missão de resgatar e retirar das profundezas do sofrimento um
ser que estava perdido é uma atitude muito nobre, gera uma
sensação de caridade plena e confirma a aceitação e o
reconhecimento de Deus. Essa crença do desejo de ser
prestativa, da síndrome da missão de salvador de pessoas,
acaba por conviver com um grande conflito, pois, ao mesmo
tempo, gostaria de ter sucesso e dinheiro e, por outro lado,
sente-se culpada por existir uma imensidão de pessoas
necessitando de sua ajuda. Usa as outras pessoas para contrair

124
dividas e com isto fugir de qualquer contato com o prazer de
umas boas férias.
A síndrome de menos valia é quando o outro sabe tudo
e eu não sei nada. Aquela ideia que tinha quando criança, de
que seus pais sabiam tudo, o faz, inconscientemente, estar à
procura de pessoas idealizadas com sabedoria e inteligência.
Em muitas ocasiões percebe que está sendo enganada,
explorada, mas, como não confia em si mesma, permite que o
outro se satisfaça às suas custas e depois coloca tudo nas mãos
de Deus. Em muitas famílias e instituições, o conhecimento é
sempre um perigo, porque quando a pessoa começa a conhecer
realmente as dinâmicas inconscientes de sua família, pode
tornar as dinâmicas inconscientes conscientes. Toda criança
sempre procura chamar a atenção dos seus pais, mas existem
aqueles que não dão importância, ou já escolheram seu filho
predileto.
Geralmente o filho mais velho é o predileto. É uma
dinâmica que propicia a competição pelo afeto, em alguns
casos, os outros filhos percebem, de maneira escancarada, a
escolha dos pais. Por exemplo, tudo que o mais velho faz está
correto, os outros sempre estão errados. Acredita no outro,
menos nos seus filhos menores. Então, começa uma corrida
compulsiva em busca do amor e do afeto dos seus pais, por
acreditar que deve provar a todo custo suas qualidades numa
competição compulsiva.
Em algumas famílias existe a escolha do patinho feio,
ou aquele que recebe todas as críticas, mais conhecido como o
bode expiatório. Todos os equívocos e infelicidades recaem
sobre o pobre coitado, o pára-raios da família, e as ações
positivas são direcionadas para os filhos prediletos, que
seguiram as regras e não foram desobedientes às suas
expectativas. Algum filho problemático assume a carga da
ansiedade, dos medos, das culpas, da tensão, para que a
dinâmica possa continuar inalterada.

125
As cumplicidades da adição estão relacionadas às
dinâmicas conscientes ou inconscientes da família. A
dominação psicológica acontece quando alguém permite a sua
atuação, e, em decorrência disso, podemos concluir que existe
também um ganho secundário em fazer o papel submisso e
sofredor, pois muitos aprenderam a ter prazer através da dor e
da humilhação. Tais pactos, infelizmente, somente funcionam
quando existe um adicto que é capaz de saborear e sugar toda a
energia psíquica de sua vítima.
Muitas famílias fazem questão de rotular seus filhos
como vagabundos e desonestos. São rótulos que roubam a
dignidade e retiram qualquer desejo de superação de suas
dificuldades, são aquelas crianças que precisam de um castigo
para aprender uma lição. Esta imagem desfavorável confirma
que a criança não é merecedora de amor e sucesso, mas, sim,
de castigos e fracassos. Esse é preço que deve ser pago pelos
seus erros. Os prejuízos gerados pelo caráter maligno dessas
patologias são enormes, geram emoções que podem destruir a
vida de uma pessoa.
Qualquer pessoa precisa de valores e virtudes para
poder se orientar diante de suas escolhas e tomada de decisões.
Esta cultura ética pode dizer o certo e o errado, o bom e o ruim,
enfim, ajuda a pessoa a ser íntegra, justa e honesta. Faz-se
necessário um código de valores, capaz de proporcionar a
vivência de uma integridade, de uma identidade, de uma
filosofia de vida. É preciso acreditar e confiar em si mesmo e
saber onde está o seu limite.
Nem sempre se ganha, às vezes se perde, e temos que
saber ceder e negociar, a melhor saída diante de um conflito.
Mas, quando a pessoa começa a afastar-se das coisas boas da
vida, e boicota qualquer experiência de prazer, devemos estar
atentos para a presença de um trauma ou bloqueio, que
impedem a expressão dos seus potenciais de alegria e
felicidade. Essa atenção deve estar focada em relação à forma

126
de pensar, ser e emocionar-se diante dos desafios que a
existência coloca diante de cada ser humano.
Devemos buscar relações que possam nos ajudar a
superar as limitações, e não o contrário, nos aproximar de
pessoas viciadas em exploração e dominação. Se existe esta
atração por este tipo de pessoa, deve-se procurar ajuda.
A solução para qualquer tipo de dificuldade encontra-se
nas mudanças, que implica sair de uma situação confortável e
apática, para o enfrentamento, confrontação e esclarecimento.
Primeiro é preciso tomar consciência sobre este processo de
dominação inconsciente, e depois coragem e ousadia para
tomar as decisões. A maioria regride e desiste de continuar a
sua jornada de libertação das amarras destas neuroses, por
medo de falhar, de perder a amizade ou amor das pessoas.
Qualquer pessoa possui o potencial para fazer a diferença, mas
a felicidade exige a elaboração das neuroses malignas e
destrutivas, e uma maior aproximação com a saúde psíquica.
Cada pessoa deve procurar seu próprio método de
solução para as suas neuroses. Existem respostas que somente a
pessoa envolvida na adição poderá dar. Muitas vezes acredita
que não conseguira mudar, mas se persiste essa sensação de
pessimismo, é porque ainda esteja presente a insegurança. Este
medo da mudança esconde o processo de autopunição, esta
atuação inconsciente alimenta a missão de continuar preso às
dependências da sua adição.
A cura definitiva precisa da mudança de atitude em
várias áreas da existência, sair do controle das velhas crenças e
conceitos ortodoxos que sustentam a vulnerabilidade e a
insegurança. Sem coragem, determinação, investimento e
autoconhecimento, é quase impossível sair desta situação de
aprisionamento emocional. Toda tomada de consciência é uma
nova aprendizagem, sobre como lidar com as suas emoções,
pois cada um tem seu tempo para adquirir a coragem necessária
para tomar as suas decisões mais corretas.

127
A psicanálise é uma ciência que tem um compromisso a
favor da vida, e com especial atenção à saúde psíquica, e,
posteriormente, pode auxiliar na criação dos meios para se
viver de modo diferente. Durante o tratamento analítico, o
paciente começa a observar o seu modo de atuação
inconsciente, momento em que é preciso de uma tomada de
consciência. Procurar saídas que possam ajudar na solução de
seus problemas. Este momento de silêncio e de reflexão acerca
de todas as exigências dos adictos compulsivos é
imprescindível, mesmo diante da pressão e das cobranças;
culpas, medos e obrigações, que fazem com que a vítima sinta-
se inadequada e depressiva.
Ao não fazer nada e ficar em silêncio, ganhou tempo
necessário para poder pensar distante deste ambiente
patológico e perverso. O tempo é importante para poder tomar
as decisões mais acertadas, quando existe a pressão devemos
levar em consideração que a compulsão tem sua própria força
de impor seus desejos e controlar o ambiente.
As estratégias de dominação e manipulação do viciado
em adições compulsivas se explicam porque esta emoção está
entrelaçada pela defesa e na manutenção de sua compulsão,
isto significa proteger e manter, a qualquer custo, esta
experiência de prazer. Esta emoção de satisfação substitui as
outras formas de desejo, na verdade este autoengano concentra
seu prazer na exploração química do seu cérebro. Para a pessoa
que está envolvida neste processo de dependência, não existe
interesse de analisar os prós e contras dessa sua atitude.
O cérebro é um receptáculo das experiências positivas e
negativas, extraídas do seu meio social e cultural. Quando a
pessoa descobre que, através das adições, é possível acelerar o
estado emocional de euforia, indiretamente termina seu
interesse em alocar forças e interesses em outras formas de
prazer. A realidade dos adictos é um caminho de
autodestruição pessoal, primeiro porque as reações

128
neurofisiológicas dos neurotransmissores necessitam das
imagens e experiências baseadas na realidade, e não
simplesmente pela provocação de uma descarga química.
Este vício modifica a intenção da natureza do cérebro,
esta intervenção compulsiva ou química, altera e modifica o
sistema neuronal do córtex cerebral a um funcionamento
fisiológico desprovido da interação e das vivências emocionais,
que são indispensáveis para provocar a descarga dos
hormônios. Esta condição desencadeia uma sensação de bem
estar e satisfação. Este tipo de conduta pode levar o cérebro a
acostumar-se a receber doses químicas cada vez mais altas do
produto de suas adições. Podemos começar a considerar o
início de um processo mais conhecido como dependência
orgânica e psíquica, neste momento o cérebro entende que o
“prazer” não precisa ser extraído da existência, mas, sim, da
droga. Esta intervenção proporciona um estado de intenso
prazer destituído de um real significado.
A adição é um modo repetitivo de ensinar o cérebro a
produzir uma reação química de prazer intenso, mas,
infelizmente a pessoa fica presa a este estado de emoções que
são provocadas pela sua compulsão. Dominado por essa
experiência, não tem consciência dos prejuízos dessa forma de
viver o desejo do prazer. Distanciando-se, cada vez mais, da
realidade existencial, vive uma procura obsessiva para viver
novamente a experiência intensa que as adições proporcionam
à sua pessoa. Ao mesmo tempo, seu estado de inconsciência e
tão nefasto que não consegue enxergar outras dimensões de sua
vida, e sua prioridade é aumentar e não diminuir o estado de
intenso prazer.
O cérebro aprendeu a conseguir este estado de euforia e
satisfação sem o esforço necessário que a vida exige, pois
distante dos desafios e frustrações não consegue aprender e
enriquecer sua vida com novas descobertas que possam
satisfazê-lo e também proporcionar um estado de intenso

129
prazer. Desse momento em diante, começamos a entender os
descaminhos e prejuízos que a atitude compulsiva provoca na
qualidade de vida. Imerso nas profundezas da dependência, não
consegue buscar outras formas de prazer, esta aprendizagem
inclui o mundo das fantasias, de um gozo baseado na
imaturidade. A fantasia é uma imagem sedutora que esconde as
verdadeiras razões de sua compulsão, ao mesmo tempo em que
realiza a experiência do prazer, esconde a maior de todas as
verdades: o seu medo de viver o amor.
A anestesia da consciência é provocada pelos medos,
embasados nas suas fantasias inconscientes, de forma indireta,
aparece um comportamento infantil, uma emoção de
retraimento e esquecimento das feridas emocionais, que produz
um estado de alienação mental. A negação do amor baseia-se
na desconfiança da existência verdadeira da intimidade,
aprendeu a sedar a consciência de suas mazelas existenciais. Os
problemas de ordem afetiva não dependem simplesmente dos
recursos financeiros ou intelectuais. Sua forma de expressão
aparece na vida desta pessoa como um vazio, uma infelicidade,
uma confusão, sente-se perdido no encontro de seu próprio
caminho, começa a fazer suas experiências compulsivas como
uma forma de encontrar solução para este estado de angústia e
ansiedade.
A realidade social e cultural não proporciona as
condições de ajuda necessárias para poderem alcançar esse
objetivo. Perdido nas próprias divagações precisa acreditar em
alguma coisa que possa dar sentido à sua vida. Nesses
momentos é muito comum que este processo de início de uma
busca compulsiva na direção do transcendental. A falta do pai e
da família, muitas vezes é substituída pelas projeções de seu
desejo, nas figuras divinas e maravilhosas, o auxiliar mágico
funciona como uma âncora para retomar o sentido de sua
existência.

130
Confuso e perdido na sua busca quase que compulsiva
pela solução de suas carências, busca ajuda e compreensão nas
imagens religiosas. De toda maneira, precisa convencer a si
mesmo da existência dessa realidade sobrenatural, até porque é
a última saída que existe para que possa acreditar na vida.
Existe uma diferença muito grande na convivência real com o
pai ou com a mãe, da desta relação afetiva com o mundo das
imagens, mas, ao substituir uma realidade concreta por outra
transcendental consegue reabilitar-se para poder dar sentido à
existência.
Todo fanatismo exagerado também funciona como uma
droga alienante, pois, ao envolver-se de corpo e alma nas
questões das figuras parentais, entrega-se a um devaneio
projetivo da vivência do amor sobrenatural. A religião realiza o
papel de substituir ou, ao menos proporcionar, uma segunda
chance, dizendo que existe uma família divina e perfeita. Como
é muito difícil conviver e aceitar as injustiças e os traumas
oriundos da família terrena, busca no transcendental, a solução
para a sua compulsão e a possibilidade de conviver com uma
família diferente da sua. Nestas comunidades, as pessoas estão
voltadas para a sua religiosidade, e a comunhão de interesses
em torno do mesmo objetivo, eleva sua condição de respeito e
admiração dos membros que compartilham destas ideias.
As amizades, a confiança, o desenvolvimento de suas
capacidades, as aprendizagens dos valores e virtudes,
enaltecem e valorizam a condição humana. Como existem
várias pessoas de condições sociais, culturais e econômicas
diferentes, propicia um ambiente de troca de experiências e
uma vivência verdadeira da amizade. Mas, essa experiência
consegue viabilizar um ambiente de novas aprendizagens, o
problema é que a solução das demandas afetivas e emocionais
continua pedindo uma solução diferente das relações baseadas
no princípio de sua comunidade, em parte esta vivência

131
soluciona as faltas afetivas, através do reconhecimento das
experiências do seu grupo.
Outras dimensões, como do mundo do trabalho, dos
estudos, do amor e da sua realização, aparecem na sua vida
pedindo também uma solução. Volto a comentar sobre a
compulsão ao trabalho, como válvula de escape para fugir das
exigências do mundo do amor e da afetividade. Como existem
faltas, a pessoa ainda não encontrou um caminho que
contemplasse esta sua realidade subjetiva. A falta de carinho,
de amor, afeto, dinheiro, valorização e amor pode também ser a
provocação que a existência coloca, para que a pessoa faça suas
escolhas e, mesmo no seu estado de inconsciência, comece a
utilizar o seu potencial para alcançar e resolver as suas
demandas.
Cada pessoa vai interpretar de uma maneira muito
particular sua própria realidade. Talvez, ao utilizar sua
inteligência, consiga resolver algumas de suas faltas, porém, no
íntimo do seu ser despertem as forças psíquicas necessárias
para sobreviver psiquicamente, esta realidade social e cultural
pressiona e, em alguns casos, impõe valores e maneiras de ser,
agir e pensar. As compulsões aparecem primeiramente na vida
dos adultos. Os pais sem perceberem escancaram aos seus
filhos as suas dependências, criando um ambiente que
proporciona as primeiras experiências de abuso emocional e
um processo de identificação mais conhecido como vício. Para
essa criança, as atitudes compulsivas presentes nas adições
reforçam uma identificação de valor entorno deste prazer.
Todas as crianças e mesmo os jovens precisam de um
modelo de valores e virtudes, ou de vícios e compulsões. O
ambiente familiar, social e escolar pode colaborar na saída e no
resgate de atitudes que são destrutivas. Para essas crianças e
adolescentes não existe uma saída plausível diante de tantas
dificuldades, esta pressão psicológica, econômica e afetiva,
pode desencadear uma série de compulsões, como por

132
exemplo, o álcool, as drogas e o cigarro, como uma saída para
atenuar ou resolver, de maneira mascarada, a sua ansiedade.
A existência está inserida em uma sociedade que
prioriza a justiça, e a oportunidade de desenvolvimento cultural
e educacional, a todas as pessoas que se encontram perdidas e
confusas dentro do processo de formação de sua personalidade.
Mas, nem tudo está perdido, porque na falha estruturante do
modelo dos pais, podem aparecer pessoas do seu convívio
social, que venham a servir-lhe de um novo tipo de atitude
frente à vida. No final de tudo, a inteligência precisa desta
sabedoria existencial, para fazer suas escolhas a favor da vida,
mas, nem sempre é assim, existem casos em que o nível de
angústia e desespero é tamanho que o único modo de controlar
essas emoções é anestesiando sua consciência.
O vício estrutura a compulsão, o efeito químico no
cérebro desperta a alegria, a coragem, o entusiasmo, a euforia,
absolutamente necessários para se conseguir viver um pouco de
prazer. Na descoberta deste caminho, a repetição aumenta o
domínio do vício sobre seus desejos. Existe um vazio de amor
e de afeto que precisa ser preenchido. É uma lacuna da inibição
que precisa ser atendida, e muitas vezes a realidade é dolorida,
a solidão e os compromissos precoces elevam o nível de
exigência para poder sobreviver organicamente, e muitas vezes
a realidade psíquica é colocada em segundo plano. Todo este
legado de aprendizagens constitui, no íntimo de cada célula,
um desejo de alcançar aquilo que é mais nobre na existência,
uma experiência verdadeira de amor.
São estas interpretações sobre as necessidades
inconscientes e conscientes que estimulam qualquer pessoa a
continuar suas buscas. Mas, quando o medo e a inibição
aparecem, a única maneira de resolvê-lo rapidamente é recorrer
às adições. Na dificuldade de expressar as suas emoções e falar
sobre seus sentimentos, continua sendo consumido pela
tristeza, o corpo humano reclama a falta de afeto, carinho e

133
amor, condições indispensáveis para harmonizar o espírito,
trazer paz e alegria à vida.
Atravessado pelas exigências consome-se no prazer
fantasioso, mas, infelizmente esta realidade virtual esconde as
verdadeiras razões de sua inferioridade, a totalidade de sua vida
fica prejudicada quando falta o vínculo da confiança.
As compensações aparecem de maneira disfarçada nas
faltas escondidas de suas compulsões. Essa mesma adição
procura, na irrealidade de sua imaginação, a saída para sua
necessidade afetiva ou mesmo econômica. A fragilidade da
constituição de sua identidade humana o leva a buscar, de
forma desesperada, algum tipo de prazer para aliviar a dor de
sua tristeza. Na falta de confiança para alcançar esse prazer,
antecipa-se na produção do estado de alegria e satisfação na
utilização das compulsões aditivas. Ao mesmo tempo, o tipo de
compulsão de uma determinada adição demonstra a sua
dificuldade em alguma área específica de sua vida, e demonstra
onde se encontra a emoção que está sendo reprimida.
A repressão da emoção é uma inferioridade escondida
na falta de confiança, para solucionar algum tipo de problema
e, por isto mesmo, as adições nunca desapareceram de suas
vidas, mas, eles também têm a chance de resolvê-las. Este
desejo de auto-afirmação, de ser visto e lembrado, procura,
através de sua fantasia aditiva, um recurso para sustentar o seu
prazer. O deslocamento de uma inferioridade para sustentar o
autoengano de sua superioridade, em parte, mostra aquela
emoção que esconde este sentimento de timidez, fazendo a
catarse de sua revolta e indignação pessoal. Em muitos casos, a
pessoa não está interessada em preservar a sua vida, ao
contrário, utiliza de sua compulsão de prazer destrutivo para
mostrar a sua raiva, ódio, aversão. É um recurso que encontrou
para lidar com a sua indignação pessoal.
A compulsão a repetição obedece às leis e princípios do
prazer, e gera uma satisfação que é o meio adequado que

134
encontrou para lidar com os seus medos, e alterar a realidade
de suas emoções. Para poder enfrentar a vida é preciso estar
seguro da confiança que cada um deposita em si mesmo, mas,
na falta desse olhar de crédito, procura, através de sua atitude
compulsiva, a convalidação de sua superioridade. A compulsão
representa uma forma, criada na imaginação de quem a cria,
uma solução para enfrentar as suas rejeições, ao mesmo tempo
em que ofende e agride, pede admiração e reconhecimento.
Mas, é através do olhar do outro e de suas reações diante de sua
adição, que aumenta ou diminui sua prática compulsiva.
Temos de entender que a compulsão aditiva responde,
através do prazer e da satisfação uma atitude imatura e infantil.
Esta mesma imaturidade levanta a hipótese da vivência, no
momento da compulsão, de uma culpa que precisa ser expiada
e punida. Toda compulsão escancara as suas carências, e
dependendo do tipo de adição, podemos interpretar onde se
encontra a origem de suas reais necessidades, mas, todas
procuram sempre o resgate da valorização, da admiração, do
reconhecimento, procura chamar a atenção através de sua
autodestruição, como algum valor idealizado neste tipo de
prazer. É o caminho mais curto que soube encontrar, para lidar
com as suas emoções. Não é nada agradável alguém ter que
conviver com uma inferioridade, emoção que produz um mal-
estar, uma falta de confiança, uma crença de menos valia, esta
sensação paralisa e obstruiu a pessoa de utilizar todo o seu
potencial para a vida.
A euforia e a alegria artificial são prazeres que podem
ser proporcionados pelas drogas e bebidas alcoólicas,
ocasionando um estado alterado de consciência de bem estar e
satisfação. É uma reação química produzida através de outra
reação química. Essa atitude repetida várias vezes torna-se um
vício compulsivo, e muitas vezes a neurose não tem relação
com isso, mas a necessidade orgânica pede e exige a sua dose
de alívio para as dores. Seria ridículo pensar que alguém vive

135
com um tipo de vício para o seu prazer. É claro que todos
justificam e defendem a manutenção de suas compulsões,
porque na verdade ninguém quer ficar sem este tipo de prazer
compensatório.
A cura torna-se possível através de uma luta incansável,
onde se usam todas as forças intelectuais e afetivas para
encontrar outra forma de prazer, que possa se igualar ou
mesmo ultrapassar aquele tipo de satisfação. Esta associação
entre o medo presente na ansiedade e as inseguranças com
relação ao futuro, pode desencadear a busca de algum tipo de
compulsão, para diminuir a ação nefasta do estado de medo. A
reação é inconsciente, porque a emoção vem antes do
raciocínio, pois a questão mais urgente é ver-se livre deste
estado alterado de consciência. A solução para resolver a
compulsão passa por saber lidar com os dilemas e dificuldades
enfrentados na existência, são essas exigências e cobranças que
acabam minando o seu autocontrole, sem falar nas culpas e na
necessidade de punição para poder lidar com as comparações
do seu superego.
A compulsão é uma realidade capaz de produzir prazer
e alterar o estado emocional do viciado. Esse poder encontra-se
pronto para agir a qualquer momento, desde que a pessoa
necessite de sua participação para atenuar ou mesmo fugir da
sua própria realidade. Sempre está disposta a colaborar com
suas doses de prazer e, ao mesmo tempo, garantir a fuga do
confronto dos seus medos. De alguma forma consegue lidar
com a sua ansiedade e desespero, porque estas descargas de
serotonina e dopamina nas veias do seu sangue desencadeia um
estado de alegria e bem estar.
Porém existe uma desvantagem, ao mesmo tempo que a
compulsão resolve, em parte, a ansiedade, provoca uma
tristeza. Geralmente os adictos estão sempre se cobrando e
punindo-se por essas atitudes que acabam prejudicando e
tornando a vida dos outros infelizes. A compulsão atenua o

136
problema e acentua a continuidade da infelicidade, pois quando
existe a compulsão, o interesse da emoção é afastar-se e não
encontrar-se com o seu amor. O amor engloba as várias facetas
do ser humano, desde o cuidado, do afeto, a tolerância, a
ternura e a confiança. Na falta da confirmação dessa
experiência de amor, inicia-se uma série de tentativas e erros
para ver se consegue encontrar o amor.
A pior desgraça é quando a pessoa aprendeu a conviver
com a expressão do amor através da dor, pois no seu
funcionamento inconsciente, internalizou que amar significa
sofrer. Mas, independente do modo como cada um descobriu o
amor, estas obstruções da raiva e do ódio conseguem impedir e
diminuir o valor do amor. Para alguém acreditar no amor é
preciso, antes, vivenciá-lo em toda sua extensão, e, por incrível
que pareça, o amor é antes de tudo a confirmação da confiança
em si mesmo. Quando o amor não existe surge no seu lugar a
revolta e a indignação, e uma das formas de destruição é
justamente porque existe insuficiência de amorosidade.
São as expectativas das crianças, relacionadas com suas
atitudes, que representam a necessidade de atenção, valorização
e admiração. Para entender a manifestação do amor, antes é
preciso que a criança viva a experiência concreta deste amor
positivo. Amar também é fruto da identificação com o outro,
que no fundo significa que a pessoa aprendeu a amar-se e
querer-se bem, porque viveu a importância do amor. Mesmo
nos ambientes de pobreza material, às vezes as pessoas não são
pobres no sentido de dar amor e a reação contrária também é
verdadeira. As palavras e as avaliações dos adultos são o
substrato que sedimenta a compulsão, quando um dos pais
acentua que seu filho é um vagabundo, um imprestável, a
criança escuta com o seu coração e vivencia, nas suas atitudes,
o seu desejo inconsciente projetado nas suas palavras.
Neste caso, a adição também é uma gratificação aos
pais para receber amor. O trauma é sempre a viga de

137
sustentação da compulsão, a tentativa de fugir deste tipo de
prazer tem relação com alguma experiência dolorosa. Quando
uma criança sente que não é amada, ou que não seja digna de
receber amor, inicia-se o processo de autodestruição. As
atitudes inconscientes obedecem à lei do desejo, não temos
como camuflar ou esconder nossa aversão a uma pessoa, não
precisamos de palavras para sentir o quanto não somos
desejados.
É interessante saber que muitas destas adições surgem
pela falta de amor e a cura delas é o reencontro com o amor.
Como existem diversos tipos de amor - o amor erótico, o amor
de intimidade, o amor do afeto, são sempre mais difíceis de
viver. Eu explico: as pessoas precisam da expressão do amor,
mas, como não tiveram essa experiência, procura repetir na sua
vida, através das compulsões, uma compreensão equivocada
sobre o valor da adição para receber doses de atenção, cuidado
e amor. Nesse caso, a adição funciona como um ganho
secundário.
Temos que fazer uma reflexão sobre o início de um
comportamento aprendido. Estas atitudes destrutivas
apresentadas através das adições são cópias reproduzidas de
algum tipo de experiência na infância. Toda a questão das
adições nos remete a pensar sobre como cada pessoa interpreta
as atitudes inconsequentes e equivocadas dos outros. Depois de
internalizada e sedimentada, a dependência à compulsão
começa a ocupar um lugar estratégico de fuga das suas
realidades mais íntimas. É pelo olhar do coração e pela
esperança de solução que a compulsão se instala na vida de
uma pessoa. Esta imagem retrata uma realidade das tentativas
que cada um utiliza para resolver seus problemas pessoais, na
imitação pode produzir-se o erro, um equívoco que pode
comprometer a sua vida.
A compulsão é estruturada naquelas imagens que
escondem o segredo de seu prazer, são esses exemplos

138
negativos que acabam fazendo parte da vida das crianças ou
mesmo jovens. Uma atitude equivocada pode ser utilizada para
solucionar problemas pessoais, uma delas é a compulsão, que
pode desencadear uma atitude incorporada ao seu caráter. A
compulsão a repetição segue o caminho mais curto e fácil,
coloca sua fantasia a produzir este estado de prazer, onde,
infelizmente, não existe a consciência de que a fantasia é
sempre irreal e mentirosa. Este autoengano abre as portas para
a precocidade, começando a acreditar nas suas próprias
mentiras. Estas distorções da realidade podem, em algum nível,
desencadear alucinações e delírios, a compulsão em algum
momento pode ocupar o lugar da realidade.
A fantasia propicia, através dos diversos tipos de prazer,
um engano sobre a realidade, para poder enxergar e dar-se
conta da prisão que está construindo para si mesmo. Somente
um analista experiente e competente pode fazer este tipo de
confrontação. Sem dúvida alguém que se encontra preso a estas
fantasias acaba fortalecendo seu narcisismo, começa a acreditar
que não precisa de mais ninguém, desenvolve uma
autosuficiência muito prejudicial às suas relações de amizade.
Faz parte de sua fantasia, acredita que é capaz de suprir todas
as suas necessidades sem a ajuda de ninguém.
É uma espécie de Deus na terra, aos poucos percebe que
sua forma de pensar começa a desmoronar o seu castelo de
sonhos. A realidade da existência e a necessidade do seu
organismo apresentam dados que confirmam a sua limitação.
Se não conseguir aceitar a sua condição humana, cheia de
incapacidades e carências e de que a solução delas passa pela
presença do outro, não irá conseguir sair de sua compulsão. É
na relação dialógica e afetiva que a realidade começa a mostrar
outras formas de prazer, trata-se de um gozo baseado na
presença humana. Esta verdade consegue retirar da fantasia
alucinante alguém que acredita na sua onipotência narcísica.

139
As divagações fantasiosas servem somente para aplacar
e diminuir o poder destrutivo das emoções de inferioridade,
produzindo uma autoimagem que é assumida como uma
verdade. Não existe nenhuma possibilidade de mudança, pois
existe o medo da retaliação, da perseguição, do abandono, da
rejeição, da humilhação, do cala a boca que tu não sabes nada.
A inferioridade é partícipe da real intenção de que alguém não
é capaz de acreditar em si mesmo, esta falta de confiança, é
produto de uma imagem desqualificada que acabou sendo
assumida inconscientemente.
Qualquer atitude de aproximação desencadeia uma
sensação nefasta de pânico e ansiedade, o sintoma anuncia a
presença da compulsão. Às vezes essas adições precisam dar
continuidade a uma série de ações contraditórias e
improdutivas para a sua vida, como uma forma de alimentar a
compulsão. Ao não sentir-se merecedor do amor, do sucesso,
de uma vida econômica estável, permanece sempre num
endividamento patológico. O trabalho, muitas vezes, serve
como o auxílio necessário para comprar ou adquirir as
condições necessárias para a vivência desta adição.
O seu esforço físico e mental é direcionado para
compensar as suas carências, e para dar conta disso, aprendeu a
comprar com o dinheiro a atenção, o afeto, o sexo, o amor, etc.
Adquirir coisas e pessoas ou, num termo mais coloquial,
comprá-las com presentes e empréstimos pessoais. A
compulsão não desaparece da vida de uma pessoa porque
existe uma compreensão racional do que é certo ou errado, em
algum nível de consciência sabe que está no caminho da
destruição, mas a força da adição é mais forte, o prazer
ilimitado da satisfação é um convite à repetição. Adições,
coisas e pessoas estão sempre juntas, todas estão sob o desejo
inconsciente da satisfação das suas necessidades básicas e mais
elevadas.

140
Porque algumas pessoas que viveram no meio da
atrocidade, da violência, dos abusos, procuram justamente este
tipo de pessoa para dar continuidade ao seu sofrimento. A
realidade psíquica não conhece outra realidade a não ser esta,
como explicamos anteriormente, alguém pode identificar-se
com uma prática de violência psíquica, de desqualificação e
desmerecimento. Esta atração é inconsciente e não obedecem
as leis da racionalidade humana, mas estes ambientes de
pessoas sádicas sempre precisam do masoquista, pois alguém
tem que realizar este papel. A vivência do amor pela forma do
abuso emocional é uma das condições mais comuns que
encontramos no nosso cotidiano, as relações sadomasoquistas.
O continuísmo da realidade familiar de sua infância
pode estar sendo reproduzido no seu meio de trabalho, ou com
as pessoas do seu convívio, até o momento em que alguém
deixa de ser vítima desse tipo de violência e começa a
desobedecer às ordens do sadismo autoritário. Alguns chegam
a um nível de infelicidade que precisam decidir, pois caso
contrário, sabem que a morte física está muito próxima, ainda
existe uma consciência de que a morte afetiva, de amor, de
afeto, de carinho e de realização sumiram de sua vida. Não
existe uma saída racional para explicar o seu processo
destrutivo, a única saída é sair da condição de vítima e deixar
de ser masoquista.
Toda e qualquer iniciativa produtiva é um passo
gigantesco para acabar de vez com a compulsão. As ações de
realização produzem, no íntimo da pessoa, uma confiança
inabalável em seu poder pessoal para resolver problemas. Cada
pessoa precisa confrontar-se e sair deste estado de penúria e
mortificação de suas forças psíquicas e afetivas. Ao resgatar a
coragem consegue provar a si mesmo o poder de sua
competência pessoal, este é um remédio que não tem efeito
colateral, talvez seja outra fantasia querer resolver sua adição
com outro tipo de química. Mas, o elixir verdadeiro da

141
recuperação é a comprovação na existência, da inteligência
aplicada a favor de sua vida. Conseguir fazer este processo de
transcendência é saber evoluir com consciência na solução de
suas compulsões.
Porque temos a certeza de que o prazer verdadeiro
surge da manifestação da vitória e do sucesso pessoal ou de um
grupo, produzindo uma sensação de bem estar e alegria,
encontra-se no fundamento das estratégias da realização
profissional, familiar, afetiva, econômica, etc. Cada evento
realizado confirma o aumento de sua autoestima. Esta vivência
também é admirada e reconhecida pelas pessoas do seu
convívio, os problemas e dificuldades surgem na sua vida
como um convite para realizar novos empreendimentos de
descobertas, este exercício da criatividade é indispensável para
a solução definitiva da adição, sinto muito em dizer que esse
tipo de competência não se encontra nas farmácias.
Toda e qualquer iniciativa nova é uma abertura para
experimentar a novidade, a incorporação destes erros e acertos
confirma ou não a validade da sua maneira de pensar e agir.
Mas, gostaria de dizer que mesmo diante dessas iniciativas é
preciso a presença de valores, como da honestidade, da
simplicidade, da perseverança, da esperança, que funcionam
como um tônico rejuvenescedor. São estes confrontos diários
que fortalecem o poder para fazer frente às frustrações e
decepções da existência. Esta talvez seja a vacina para
combater o vírus da compulsão, porque quando existe a
dependência química ou financeira, a pessoa encontra-se
sempre em desvantagem na vida. Ao não saber solucionar e
resolver os problemas recai sempre na atitude perversa de usar
as outras pessoas para resolver seus dilemas, além de não ser
ético é um contra-senso utilizar de tal artimanha para poder
sobreviver.
De fato aqueles que estiverem livres das culpas e de
suas culpas, podem exigir dos adictos um novo projeto de vida.

142
Ao pagar suas contas, ao fingir que não esta sendo explorado,
confirma e aceita sua condição de vítima do seu processo de
adição. Quando somos partícipes desta neurose perversa
compactuamos com a sua compulsão e, indiretamente
ajudamos a repetir seu estado de destruição. Inconscientemente
somos utilizados para beber e fazer parte de sua adição,
intoxicados pela sua doença, acabamos vivendo também a
raiva, o ódio, a revolta, da indignação, emoções negativas e
destrutivas que fazem parte do adicto.
A compulsão a repetição tem o desejo de repetir a dose
letal de satisfação, independente que seja através da dor ou do
amor, em muitas ocasiões estes sucessos não conseguem
diminuir o poder nefasto da inferioridade, esta emoção não
permite o contato com as partes boas da sua personalidade.
Mesmo que exista uma experiência verdadeira de amor, a
sensação de mal-estar que produz o amor, acaba por afastar e
criar situações para fugir desta satisfação. Como tudo que é
novo produz ansiedade e medo, também existe a tendência de
fugir do encontro do amor, pois é algo novo em sua vida, e o
ser constrói, na sua fantasia, o desejo de repudiar e negar a
existência desta realidade em sua vida.

143
144
2.3 A clínica na psicanálise com pacientes adictos e
compulsivos

Ao escrever o presente capítulo sobre as estratégias de


dominação, gostaria de descrever o processo de atuação das
retaliações e da prática da raiva, que é transferida para as
pessoas que se encontram envolvidas nesta relação. A primeira
atitude do adicto, quando contrariado nos seus pedidos, é de
desencadear uma projeção de sua raiva. Como não sabe lidar
com as frustrações, sua primeira tentativa é incomodar e
mostrar que está furioso.
Existem muitas maneiras de expressar a raiva. Ela pode
ser comunicada através de ameaças, agressões verbais e físicas.
Esta sua atitude tem como objetivo mostrar o quanto se
encontra insatisfeito e revoltado porque seus pedidos e desejos
não estão sendo atendidos. Alguns dependentes químicos ou
emocionais direcionam esta raiva contra si mesmo, e
desenvolvem uma série de sintomas psicossomáticos como
uma forma de castigar-se. Independente de qualquer estratégia
de dominação, os adictos querem sempre o poder total sobre as
pessoas do seu relacionamento.
Os adictos têm uma única preocupação: atender os seus
vícios e adições, não se importando com os prejuízos ou as
dificuldades das pessoas envolvidas nesta relação. Em alguns
casos, consegue inclusive anular qualquer expressão de
iniciativa ou de diálogo. Este tipo de dominação psicológica
inclui declarações que colocam medo, que assustam, é claro,
tudo isto se os seus pedidos não forem atendidos. Por isto
mesmo é muito importante se prevenir e tomar todo o cuidado
para não cair nas armadilhas dos dependentes, porque as
pessoas que estão envolvidas emocionalmente e afetivamente
não conseguem ter consciência da vida miserável, das

145
explorações, dos fracassos e prejuízos que esta pessoa está
produzindo nas suas vidas.
Os adictos desenvolvem uma esperteza para saber
desaprovar e aprovar nossas decisões, mas fazem questão de
mostrar o seu poder de dominação, conseguindo diminuir a
autoestima, depreciando nossas qualidades, enfim tornar a sua
presa vulnerável e sem poder de reação. Muitas pessoas
encontram-se numa situação delicada, quando decidem não
realizar as vontades do adicto. Em alguns casos podem existir a
possibilidade de colocar em prática suas ameaças. Sempre
procuram ganhar algum tempo, enquanto isto tem de conviver
com a sua raiva, e, em algumas pessoas, essa mesma raiva pode
voltar-se contra si mesma, por considerar-se culpada ou
impotente para solucionar este tipo de problema.
Esta aprendizagem geralmente começa na infância,
quando os pais exigem dos seus filhos uma opção clara do seu
amor. É uma situação que deixa a criança diante de um
conflito, e com um sentimento de que está traindo um dos seus
pais. Muitos filhos apostam nesta fantasia, de que a única saída
é fazer uma escolha para que o amor lhe seja restituído. Outras
crianças procuram se adaptar a essas condições para diminuir a
raiva e o ódio dos seus pais, e a forma mais adequada é
começar a mentir, guardar segredos, tudo com a intenção de
estar obedecendo aos pais. Estas crianças começam a ficar
rebeldes, pois não conseguem atender as expectativas de seus
pais e, com este tipo de culpa, inicia-se o processo de
autopunição, de violência contra os outros e a si mesmo.
As crianças inibidas precisam calar-se mesmo diante
das injustiças, pois se desobedecerem às regras impostas serão
castigadas, ao invés de amor e confiança, surge o medo e a
raiva. Às vezes, existem crianças que gostariam de nunca mais
voltar para a sua casa. Estes pais estão desprovidos de
sentimentos e emoções, e suas ações incluem a indiferença,
estão sempre calados, se emburram e não falam nada. Estes

146
pais estão ausentes e escondem-se através do seu olhar de
desaprovação, são pessoas de difícil comunicação, ninguém
consegue saber quais são realmente seus desejos, e quando
questionado sobre suas atitudes, colocam a culpa na sua família
por encontrar-se nesta situação. Este tipo de relação não
proporciona a confiança e provoca raiva, tensão, medo, e como
não existe saída, estas crianças acabam sempre fazendo a
vontade do seu superego.
Esta aprendizagem inconsciente acontece entorno deste
ambiente vulnerável e inseguro, que pode desencadear um
prazer na dor, simplesmente porque não deseja afastar-se das
pessoas que ama. As crianças, para receber o amor dos seus
pais, sempre fazem todas as suas vontades, são poucas as
ocasiões em que a criança pode expressar suas emoções de
raiva, mágoa, ou descontentamento. Depois essa emoção é
atirada no fundo do esquecimento do seu inconsciente, os
castigos e os ressentimentos são racionalizados e recalcados,
pois existe a necessidade de manter uma imagem positiva dos
pais.
Muitos pais não têm consciência sobre suas atitudes, e
as justificam dizendo que sempre estão fazendo o melhor pelos
seus filhos. O caminho que os pais percorrem para educar os
filhos é o do castigo, tais como o abandono, isolamento,
negação de afeto, sem falar naqueles que praticam maus tratos
físicos, como surras, deixar sem comer. São práticas ditas
educativas que se transformam em abuso emocional, porque a
criança começa a sentir os seus primeiros sinais da dificuldade,
de relacionar-se com seus colegas de escola e com seus irmãos,
em outras palavras, sua intimidade está sendo enormemente
prejudicada.
Os pais que realizam este tipo de educação, na maioria
das vezes, também receberam as mazelas de todos os tipos de
sofrimentos psíquicos, tais como, ameaças, punições,
intimidação, castigos, agressões emocionais e físicas, como

147
ações para conseguir um determinado comportamento.
Geralmente são pessoas muitos carentes, isto porque não
sabem como viver sua afetividade. Diante destas pessoas as
emoções e sentimentos não possuem qualquer tipo de valor,
estão numa cegueira completa, e não querem aprofundar ou
relembrar do seu passado, e muito menos refletir sobre suas
ações educativas.
Quando se encontram envolvidos pela sua neurose
maligna, não conseguem enxergar os estragos que estão
fazendo na vida de outra pessoa, e mais, acreditam e defendem,
com absoluta certeza, esse tipo de educação. Todos nós
sabemos o quanto é desgastante lidar com este tipo de pessoa,
mas, se soubermos utilizar o nosso potencial de inteligência
emocional podemos, com certeza, aprender a lidar com
situações de dominação e exploração emocional. O primeiro
passo é a recuperação da confiança em si mesmo.
Muitas destas crianças estão repletas de culpa e medo,
que podem desencadear uma série de sintomas psíquicos e
somáticos. Algumas delas começam, também, a fazer suas
exigências aos pais, tais como, mamãe se você não me deixar ir
brincar no vizinho eu não vou mais almoçar. As crianças
possuem a tendência de repetir as aprendizagens que
receberam. Existem muitas maneiras de perturbar, incomodar,
e dominar as pessoas, duas são as ações que mexem com
qualquer um, a questão da saúde e da felicidade.
Quando os pais dizem aos seus filhos: “se você discutir
comigo desta maneira, eu vou acabar ficando doente, com
depressão”; ou mesmo: “Eu quero que você me ajude a ser
feliz, a viver bem, por isto eu peço que, por favor, não me
incomode, me deixe viver em paz e com alegria”. Estes pais
procuram, através desta atitude, impor um estado de culpa e
punir as crianças pelos seus comportamentos indesejáveis.
Com o decorrer do tempo, essas crianças podem ficar inseguras
e com muito medo de enfrentar a vida, querem estar sempre na

148
dependência de alguém, procuram sempre fazer as atividades
erradas para receberem ajuda e serem cuidadas. Estão a procura
de uma pessoa para instalar a simbiose, pois,
inconscientemente, não se julgam capazes e em condições de
serem responsáveis pela sua própria vida.
Outras crianças atribuem seus fracassos escolares e na
vida aos seus professores e pais, aprenderam a desenvolver
uma inteligência para saber culpar os outros pelos seus
insucessos pessoais. Ao punirem-se e boicotarem seu potencial,
também acreditam que estão resolvendo seus problemas
pessoais. Existem crianças que possuem atitudes dominadoras,
como por exemplo, começar a chorar para ver os adultos
correrem no seu socorro, ou para fazer suas vontades quando
estão tristes. Utilizam esta chantagem ajudá-los a resolver seus
problemas quando se encontram em apuros, envolver os outros
nas suas artimanhas de controle e manipulação, usando seus
irmãos, por exemplo.
É um tipo de relação que leva estas crianças a tornarem-
se inseguras e com muito medo de relacionar-se com outras
pessoas. Quando o prazer de viver num ambiente de alegria,
satisfação e cuidado não acontece, surge no seu lugar, um
prazer de destruir-se, de agredir-se, de procurar sanar as suas
culpas através de punições. Infelizmente, as crianças podem
descobrir um jeito de afastar-se por completo da convivência
com estes ambientes ríspidos e sem amor. Algumas crianças
descobrem que ficar com seus pais não é uma garantia de sua
transformação. O processo de autodestruição se pode perceber
de diversas formas, e muitas vezes nem os recursos mais
eficientes da área médica ou terapêutica conseguem modificar
essa situação.
Outra questão muito séria é quando a criança começa a
ver pessoas do seu convívio mais íntimo desesperadas. Ficam
sentadas olhando para um horizonte perdido, seus olhos
mostram a tristeza, a melancolia, a falta de sorte, de amor, de

149
carência, este estado emocional não verbal pede ajuda a
alguém, e quando recebe ajuda, começa a descrição de um
rosário de queixas, tudo com a intenção de mostrar o quanto é
vítima desta situação. Fazem questão de mostrar aos seus
filhos o quanto se encontra infeliz e triste, às vezes doentes, ou
injustiçadas pelo abandono, e assim estas crianças não
entendem os motivos reais de tanto sofrimento e quando
perguntam os adultos, respondem que não sabem os motivos.
Como ninguém sabe a origem deste quadro
melancólico, a vítima possui a tendência de utilizar desta
situação para culpar os outros pelo seu estado de sofrimento e
dor. Começa a apresentar alguma melhora quando as suas
exigências são atendidas, porque com medo de enfrentar a
vida, escondem-se atrás da vitimização.
A vítima da existência sempre está descontente e
infeliz, e aguardam que seus filhos adivinhem o que estão
passando ou pedindo, e quando isso não acontece, a
justificativa é de que não existe amor nesta família. Quase
sempre estão deprimidos e em silêncio, choram e suas lágrimas
escorrem pelos seus rostos, quando não são atendidos e
contrariados nos seus desejos. Depois de muita insistência e
preocupações acabam, então, por dizer o que querem ou
precisam.
Quando adultos podem desenvolver algum tipo de
compulsão. Essa adição sempre envolve promessas de
mudanças, da busca de um emprego, de um grande amor em
suas vidas, caso os pais comportem-se de acordo com as suas
exigências. Então inicia o processo de aproximação e
cumprimento das suas promessas, os adultos estão sempre
correndo atrás dessas recompensas oferecidas pelos adictos.
Estes presentes e promessas estão atrelados a uma série
de exigências, como por exemplo, eu vou deixar finalmente das
drogas se vocês comprarem um carro. E assim, quando a
exigência é cumprida, aparecem outras exigências

150
complementares para que realmente a mudança aconteça. Os
dependentes químicos ou emocionais não oferecem nada de
maneira gratuita, cada atitude é amplamente negociada com as
exigências de favores.
Aquilo que os drogaditos aprendem com os traficantes
colocam em prática da seguinte maneira: muitos querem
resultados sem fazer nenhum tipo de esforço, porque gostariam
de ser amados, aceitos, correspondidos, compreendidos,
utilizando uma rede de pessoas para favorecer e defender os
seus interesses. Como percebe os pontos fracos, começa a
oferecer sua atenção, seu amor, seu afeto, seu cuidado, com o
interesse de que seu desejo seja cumprido a risca. Alguns
chegam a desempenhar um papel teatral, por algum tempo
tornam-se submissos, obedientes, tudo com a intenção de
alcançar objetivos na vida, através do esforço e dedicação dos
outros.
Muitas pessoas não conseguem dar-se conta desta
complexidade de emoções que possuem o poder de impedir a
reflexão, diante de tamanha confusão, surge à insegurança, as
obrigações e, por último, a culpa. Quando a pessoa começa a
perceber este tipo de emoção na sua vida, que recria a
desorientação, a exploração, o sofrimento, e a infelicidade,
pode estar certa de que está sendo alvo de algum tipo de
adição. Este contágio emocional não leva as pessoas a
pensarem, ao contrário, as deixa confusas, desorientadas, não
possuem a consciência de como chegaram a este estado e
tampouco o caminho para sair de um quadro de relações tão
difíceis.
São emoções que produzem uma energia negativa, por
gerarem muito medo e raiva. Todas as pessoas estão
relacionando-se, direta ou indiretamente, com algumas
situações parecidas com este tipo de emoção, porque se sentem
obrigados e responsáveis pela vida das outras pessoas. Por isto,
existe muita culpa e insegurança na tomada de decisão,

151
comprometidos com os desejos dos outros, passam a querer as
mudanças mesmo quando os outros não querem, ou fazem de
conta que querem.
Não tem como livrar-se destas emoções, mas pode
aprender a lidar e dialogar com elas. De certa forma, é sempre
bom ter consciência sobre o poder das atuações das emoções
inconscientes que impõe atitudes inconsequentes. Nem tudo é
um mar de rosas! Pessoas têm atitudes diferentes, dependendo
do tipo de adição que sofrem. Alguns são muito espertos em
fazer pressão, como estamos com medo e confusos, nos
sentimos obrigados a atender suas solicitações. Existe,
inclusive, o risco de sermos dominados psicologicamente, e
comandados a agir, pensar e emocionar diante destas pressões,
todos querem livrar-se da sensação de mal-estar, de agressão,
de tristeza, e acabam cedendo às exigências dos adictos.
É bom frisar que toda esta situação permanece oculta,
velada, uma obscuridade toma conta deste estado de
inconsciência de ambos na relação. O único modo de poder sair
desta situação é a análise. Tomar consciência e compreender a
complexa rede de ações e procedimentos dos adictos,
principalmente no que se referem a sua insegurança, as
obrigações e culpas adquiridas no decorrer deste
relacionamento. Três emoções caminham lado a lado na função
de amarrar, prender, paralisar e dominar psicologicamente a
sua vítima.
A insegurança permanece atuante num estado latente.
A maneira como interpreta a realidade de suas relações baseia-
se no valor e na importância que cada um coloca em cada
acontecimento. Existe uma capacidade de observação dos
adictos compulsivos, percebem quando estas pessoas ficam
nervosas, tensas, preocupadas, e muito desta linguagem não
verbal pode ser utilizada mais tarde contra as suas vítimas. Esta
insegurança também aparece nos adictos, pois eles não têm
certeza que conseguirão aquilo que fantasiam.

152
Durante o relacionamento estão sendo estudados os
pontos fracos de sua vítima, ambos sabem que a relação
sustenta-se sob algumas condições: se você me obedecer e
seguir as minhas regras, nunca o abandonarei, jamais
desaprovarei seus projetos, com certeza o meu amor vai
aumentar, nunca mais gritarei com você, farei de tudo para
torná-lo feliz, prometo que ficarei contigo pelo resto da vida,
estes tipos de promessas são transmitidas com a intenção de
diminuir a insegurança. Infelizmente, as experiências com
pessoas envolvidas nesse tipo de compulsão são de mentira,
falta de confiança e superficialidade.
Estas inseguranças têm sua origem na infância.
Podemos explicar o motivo de tal constatação. Primeiro que
toda criança é dependente das ações, desejos e cuidados dos
adultos. A sobrevivência da criança depende da boa vontade
daquelas pessoas envolvidas no seu cuidado. Experiências que
envolvem abandono e rejeição tornam estas crianças
vulneráveis e inseguras para estabelecer vínculos de confiança
e intimidade. Como tem uma pulsão social, e precisa do amor e
afeto das pessoas que ama, para muitos é insuportável a ideia
de perder o amor e afeto. A principal angústia que prejudica as
relações é a ação da insegurança de voltar a ser abandonado.
Essa mesma insegurança torna a pessoa improdutiva
nos seus relacionamentos, por isso mesmo pode desencadear
uma raiva contra si mesmo. A emoção da raiva tem como
finalidade reativar a sua insegurança, desencadeando uma ação
de enfrentamento ou de compensação. É uma emoção muito
difícil de observar, porque aparece justamente quando existe o
conflito emocional, perdas, fracassos e até atos de violência.
Um fato bastante esclarecedor é quando uma pessoa levanta a
voz, e inconscientemente traz a tona seus medos da rejeição,
punição, desaprovação, humilhação e, às vezes, com imagens
das cenas de violência física e psicológica.

153
De certa forma, temos consciência de que estes
acontecimentos aconteceram há muitos anos, mas a vivência
atual dos fatos é tão verdadeira e real, que é como se estivesse
vivendo de novo a experiência. Estas imagens fazem com que
as emoções façam ter atitudes inseguras, mesmo quando a
realidade não apresente situações para a presença desta
emoção.
As inseguranças estão sempre acompanhadas da
fantasia, pois nossa imaginação tem a capacidade de reviver
estas emoções do passado, o cérebro aprendeu a lição, toda vez
que estiver diante de um conflito, a tendência é fugir, todos
querem estar bem longe das suas feridas emocionais. Na sua
fantasia, esta atitude ajuda a continuar sua vida psicológica,
este é o funcionamento da neurose maligna, porque a atitude
mais saudável é enfrentar e dar respostas para os desafios que a
vida apresenta.
A missão de servir é outro tema para refletir sobre as
ações inconscientes. Essa crença é internalizada na infância,
muitos se encontram sempre em dívida com todos, porque
acredita que sua atitude deve ser sempre de obediência,
lealdade, altruísmo e bastante sacrifício. Estas crenças estão
profundamente enraizadas no inconsciente, às vezes chegando
ao cúmulo de acreditarem que estas verdades são suas e não
aceitam que foram influenciados pelos pais, pela sociedade ou
pela cultura. Por mais que façam a outra pessoa, acreditam
sempre estarem em dívida, e que devem favores e têm a
obrigação de solucionar os problemas dos outros.
Os adictos fazem questão de mostrar a sua
vulnerabilidade para poderem ser cuidados, e depois fazem
questão de realçar que suas mudanças estão atreladas a
realização dos seus desejos. Mostram, de forma enfática, o
quanto a vítima é devedora pelas suas transformações, alguns
usam a religião e tradições para estabelecer o seu controle.
Todos os compulsivos conhecem os pontos fracos de sua

154
vítima, quando a situação encontra-se insuportável, utilizam do
senso de dever e de sua missão de servir, e caso não realize sua
obrigação, são catalogadas como pessoas egoístas, narcisistas e
individualistas.
Muitas pessoas passam uma vida com este tipo de
missão de salvar os outros, e se esquecem de salvar a si
mesmo. Pensam em tudo e em todos, resolvem o problemas de
muitas pessoas, mas sempre deixam os seus problemas em
último lugar, possuem uma dificuldade para saber o momento
de ajudar e como ajudar, e não fazer as tarefas no lugar do
outro. Sem perceber, passam a ser usadas em nome de sua
missão de servir aos outros. Quando estas crenças são maiores
que o amor que sente por si mesmo, detonamos com a
autoestima, o autoconceito se empobrece, e a imagem de si
mesmo fica fragmentada e dividida. Os adictos compulsivos
sabem tirar vantagem e sugam de sua vítima até a última gota
de sangue.
Os viciados desenvolvem a capacidade de convencer a
sua vítima a se endividar, fazem questão de lembrar-se de
eventos, para mostrar os compromissos com a sua missão de
resgatá-lo, de cuidá-los, de pagar as suas contas, de pagar seus
estudos, de fazer suas vontades. Todas as ações dos adictos
estão voltadas para enfatizar o valor do sacrifício, dos
investimentos de tempo e dinheiro sem resultado e, portanto,
quando realizam algum tipo de ação importante supervalorizam
e a utilizam para cobrar mais confiança. O problema desse tipo
de relacionamento é que os papéis podem se inverter e, de
vítima, passa agora a cobrar, desta forma se alternam para
poderem sentir-se no controle.
Outra atitude perniciosa é a autopunição. Pessoas
muitos responsáveis e conscientes de seus deveres
desenvolvem um superego muito rígido e castrador. Essas
pessoas são vítimas de suas cobranças, do nosso código de
valores e virtudes, que geralmente vem acompanhado de uma

155
forte carga moral. Esta emoção de tristeza, mal-estar e
depressão se torna insuportável, levando a pessoa a fazer
alguma coisa para sentir-se punida e, assim, aliviada, sempre
com o interesse de não prejudicar os outros.
Esta é a regra fundamental do superego: estar atento, e
redobrar a atenção para nunca ser agressivo, materialista,
egoísta, desonesto e individualista. Estas punições surgem
pelos sentimentos de culpa, e, infelizmente, muitas pessoas não
têm consciência da leitura equivocada sobre determinadas
atitudes em relação às pessoas do seu convívio pessoal. Neste
tipo de autopunição, a vítima não precisa criar situações de
sofrimentos para poder expiar os seus pecados. A culpa vem
sempre acompanhada de censura, críticas e humilhações, que
fazem com que a pessoa se volte contra si.
Nas relações com os adictos, a situação acontece da
seguinte maneira: quando falo sobre seus erros, sempre fica
triste e depressivo, devido a esta situação, me sinto culpado por
criar este tipo de emoção na outra pessoa. Sinto que tenho o
dever de ajudá-lo a voltar a sorrir, e para tal, sou capaz de
cancelar todos os meus compromissos, até que essa pessoa
melhore. Inclusive é capaz de abandonar seu projeto de vida
para colocá-la em função de um adicto.
Os adictos fazem questão de passar a responsabilidade
de suas vidas para estas pessoas carentes e que têm necessidade
de punir-se pelos flagelos dos outros. As queixas de
infelicidade, de falta de amor e de dinheiro, ampliam a
necessidade de punir-se quando não conseguem atender todas
as demandas do viciado em consumir aquilo que o outro
produziu. Ao sentir-se culpado, precisa restabelecer a paz com
o seu superego, ao castigar-se faz a paz com as suas crenças e
exigências. Quando a vítima assume o problema do outro,
então está encarregado de carregá-lo nos ombros, realizando
qualquer tipo de ação para poder salvá-lo, tudo isto porque se
sente indigno e injusto por não conseguir recuperar a pessoa de

156
sua adição. Assume a adição do outro como se fosse sua, quem
ajuda quer a cura, mas quem esta no processo da compulsão
utiliza-se da ingenuidade e da boa vontade destas pessoas.
As pessoas que estão envolvidas nas adições procuram
culpar os outros pela sua infelicidade ou pelos problemas que
atormentam a sua vida. Principalmente quando esta perversão
procura acusar os outros de seu estado de autodestruição. Em
muitos casos não existe nenhuma ligação entre a acusação e a
realidade, mas, como a vítima está dominada pela insegurança,
aceita a culpa e começa todo o processo de punição pessoal. A
frase é sempre a mesma: “A culpa é toda sua por me encontrar
neste tipo de vício”. Quanto maior for a consciência sobre as
imposições de insegurança, menor será a missão de servir e de
punir-se.
Quem desobedece às crenças de sua missão de servir,
sente-se muito culpado, e como forma de atenuar o seu mal-
estar, precisa de uma punição. A culpa também aumenta os
seus ressentimentos e o autodesprezo, e, sendo assim, jamais
podem sentir-se a vontade para amar e deixar-se amar.
Precisam de algum tipo de sofrimento para sentirem-se
aliviadas das exigências do seu superego. Para o adicto,
nenhuma culpa pode ser realmente reparada, porque esta
transgressão aprisiona o ser e torna-o uma presa fácil para o
dominador e explorador das energias psíquicas.
Muitos acreditam que devem pagar pelo resto de sua
vida por algum tipo de erro que cometeram no passado. Os
erros nunca podem servir de exemplo ou aprendizagem para
modificar futuros comportamentos, porque o adicto sempre faz
questão de lembrar aquele acontecimento como forma de fazê-
lo sofrer, e aumentar ainda mais a sua culpa. O adicto coloca a
culpa nos que estão à sua volta, e depois exige um
compromisso de reparação dos danos, com uma ressalva de que
esta dívida é impagável. Colocar a culpa no outro é uma

157
maneira de controlá-lo, de manipular suas atitudes e fazê-lo
pagar pelos seus próprios erros.
Estas três situações específicas de insegurança, da
missão de salvador e de autopunição são os alicerces da sua
fraqueza psíquica. Toda pessoa que se encontra nesta situação
emocional vive angustiada, triste, confusa. A análise pode
ajudar o paciente em tratamento a tomar consciência do modo
como se relaciona com suas emoções. As pessoas devem estar
sempre alertas para o fato de deixarem de investir em si
mesmas, para fazer a vontade de filhos, maridos, parentes e
amigos. Quando a pessoa encontra-se sob este estado
emocional de insegurança, de um compromisso de salvar os
outros, já está vivendo uma patologia. Quando não consegue,
precisa arrumar um modo de boicotar ou punir-se por não
conseguir mudar os comportamentos e desejos dos que escolhe
para salvar.
Cria-se um estado emocional de insegurança, de estar a
serviço dos outros e numa necessidade compulsiva de punir-se
pela sua ineficiência. Todos esses fatores podem aumentar o
nível de ansiedade, e até colocar a pessoa num estado
depressivo.
Todo dependente emocional ou químico é um esperto
em ter justificativas e desculpas para seus comportamentos
destrutivos. Em determinado estágio da adição começam os
delírios persecutórios, as distorções da realidade e alucinações.
Assumem uma personalidade de pessoas bem intencionadas e
que sua situação é fruto da injustiça e do abandono de seus
familiares e amigos.
Esta distorção da realidade também faz parte dos
prejuízos de sua adição, estão sempre prontos para mentir,
fantasiar em proveito próprio e desqualificar, culpar e colocar
dúvidas sobre o caráter daquelas pessoas que inclusive
estiveram presentes nos momentos mais difíceis de sua vida.
Esta situação é tão complicada que são raras as pessoas que

158
não ficam depressivas e confusas sobre o modo de como tem
que agir.
No seu discurso fantasioso precisam convencer os
outros a ajudá-los nesta difícil tarefa de recuperação, acham-se
no direito de usufruir dos conhecimentos, do dinheiro, do
sucesso, sem retribuição nenhuma. Caso se confirme a
negação, então são chamados de egoístas, arrogantes e
ingratos. Diante de qualquer tentativa de negar o seu pedido,
fazem os demais pagarem o preço, com a sua perseguição e
mentiras, que vão denegrir aos poucos a imagem dos demais.
Às vezes procuram rotular com estereótipos ou
comparações, para fazer valer a sua posição diante dos fatos.
Esta psicopatia perversa assume proporções assustadoras, pois
aos poucos, as pessoas do ambiente do trabalho ou da família
começam a acreditar e enxergar a pessoa, a partir do rótulo. O
rótulo serve somente para um objetivo: tornar as pessoas mais
envergonhadas e fazê-las sentirem-se inadequadas. Às vezes, a
pessoa não tem saída, e começa a fazer as vontades do
psicopata. É neste instante que o problema se agrava, porque
inconscientemente, sem ter a mínima consciência, está se
tornando, mediante essa pressão, alguém envolvido nesta
patologia.
Também pode ocorrer a inversão do diagnóstico: são os
outros que estão doentes. A patologia inscreve-se num
determinado tipo de doença mental, e deste modo, passamos a
assumir esse quadro no imaginário dos dependentes
emocionais e químicos. Quando começamos a fazer a denúncia
sobre quem ele é de fato, então se iniciam as classificações de
neurótico, psicótico ou esquizofrênico. Ao conviver com estas
pessoas, que não possuem nenhum tipo de limite, estas
acusações acabam confundindo e deteriorando a imagem e a
autoestima dos envolvidos.
Um exemplo bem significativo deste tipo de relação é a
exigência do amor. Sempre que uma pessoa quer mais que a

159
outra, ou que se encontra descontente e quer mais amor, mais
atenção, e mesmo que o parceiro realize ou tente, ao máximo,
preencher esta falta, o outro sempre ridiculariza e exige cada
vez mais. Poderíamos chamá-la também de compulsão
amorosa, e este tipo de patologia esconde a maldade da
dominação e do sadismo de levar o outro a experimentar o
sofrimento e o abandono.
No compulsivo amoroso existe a necessidade de
dominar a pessoa, tê-la somente para si mesmo. As pressões,
cobranças, ciúmes e comportamentos de controle têm como
finalidade demonstrar a quantidade de amor disponível, e
sempre que o outro questiona sobre esta avassaladora
compulsão de poder, saem em sua defesa, dizendo que tudo
não passa de um grande amor e um cuidado excessivo pela sua
pessoa. Justificam as ações patológicas dizendo que é o seu
jeito de amar. Mas, na verdade escondem a sua insegurança e o
medo de perder o seu objeto de dominação.
Existem casos em que o parceiro(a) confia a sua
intimidade e o seu passado a um tipo de pessoa neurótica. A
vítima pensa que será tratada com sinceridade e respeito, por
tudo aquilo que contou ao seu companheiro, no entanto,
utilizam das suas confissões para mostrar o seu lado doentio.
Alguns tipos de adições desviam o caráter da pessoa que, sem
perceber, começa a estruturar um tipo de patologia neurótica
nas suas relações, fazendo uso maléfico de seus segredos.
Toda família tem seus segredos, seus pactos que não
podem ser digeridos e muito menos verbalizados, como, por
exemplo, o abuso sexual, o alcoolismo, o suicídio, as falências
econômicas e traições. Todos têm o compromisso de esconder
e jamais falar desses segredos. Quando alguém ousa falar
abertamente e realizar estas denúncias, os membros da família
se unem para afastá-la de sua convivência, castigá-la, chamá-la
de louca, destruidora de lares. É o preço que muitos pagam por

160
ousar revelar suas histórias de família, que se encontram em
sigilo.
Esta patologia realmente está protegida pela família, e
aqueles que procuram falar sobre esses abusos emocionais ou
sexuais, são taxados de traidores e banidos para sempre de sua
convivência. Geralmente a reconciliação necessita do pedido
de desculpas e da negação de todas as acusações, ditas
infundadas, como a única condição para voltar a receber o
amor, o afeto, e admiração de sua família.
Existem famílias que se autoprotegem na manutenção
de suas patologias. Não interessa o sofrimento e a dor da vítima
que foi abusada sexual ou emocionalmente, a única forma de
conviver neste meio familiar é através do silêncio. A situação
ainda se complica quando todos da família voltam-se contra
aquele que resolve quebrar o pacto de silêncio, dizem que suas
afirmações são falsas, fantasias, ficção, ou mesmo que sempre
foi exagerada e imaginativa, que tudo não passa da imaginação
de sua mente doentia.
Alguém que esteja disposto a quebrar o sigilo deve estar
muito bem preparado para enfrentar os possíveis castigos, o
abandono, o exílio e o desprezo que podem surgir como
retaliação da família. Sendo assim, é preciso ter muita
segurança, determinação, coragem e apoio para enfrentar e
acabar com este tipo de abuso emocional na família. Um
silêncio que muitas vezes está sendo repassado há várias
gerações. Quem procura resolver seus problemas com
sinceridade, corre o risco de ser taxado de louco varrido, e
todos fazem questão de colocar a sanidade desta pessoa em
dúvida.
Aquelas pessoas que vivem sob o tormento da neurose
necrófila, buscam ajuda e envolvem outras pessoas nos seus
problemas de relacionamento, e geralmente querem que
alguém os defenda ou o absolva de suas adições compulsivas.
Os alvos são geralmente os pais, analistas e professores. Como

161
são extremamente inteligentes procuram pessoas do seu
convívio social para deixá-los confusos e, com isso, receber de
vez o perdão, tão necessário.
Muitos adictos utilizam a religião e a bíblia, para ajudar
a vender sua imagem de pessoa correta. Procuram projetar nos
outros os seus problemas, e a tentativa é simples, conseguir
pelo menos colocar em dúvida suas ideias, já é um bom
começo. O viciado sempre esconde sua real condição e
procura, nas comparações ou nos modelos de pai e mãe, algo
que seja quase impossível de alcançar.
No local de trabalho ou mesmo na família as
comparações alimentam a competição, o ciúme e a inveja entre
os irmãos, que disputam a primazia do poder. Assim, algumas
pessoas acabam assumindo este tipo de filosofia da
comparação, e se atiram de corpo e alma no mundo do trabalho
compulsivo, com o objetivo de ter mais dinheiro e poder.
Muitas vezes, o preço a ser pago é maior que os resultados
econômicos, como doenças psicossomáticas, estresse agudo,
falta de tempo para os filhos. Enfim o objetivo principal é
sempre ultrapassar aquele modelo, se alguém consegue seus
objetivos, recebe admiração e reconhecimento, caso contrário é
chamado de incompetente.
Este tipo de dinâmica da competição reativa as emoções
de raiva, ódio, aversão, que foram vivenciadas na família, e que
agora está presente no seu modo de trabalhar na empresa. Aí
surgem os problemas de competição, rivalidade, inveja,
ciúmes, traições e boicotes, com a intenção de agradar o seu
patrão. Todos estão interessados em ultrapassar o limite ou
conseguir as metas apresentados pelo seu chefe, mas, as
condições e as situações eram bem diferentes, às vezes sem
perceber estas adições compulsivas ao mundo do trabalho
prejudicam ou sacrificam as famílias, a saúde pessoal e a
convivência com os filhos.

162
2.4 Quando a cura da compulsão torna-se uma
possibilidade

A primeira decisão é admitir que existe um problema,


porque quando a pessoa nega o que todos enxergam é o
primeiro indício de que esta pessoa distorce a realidade dos
fatos. Todos sabem da dificuldade de lidar com o fenômeno da
adição, a função do analista é ajudar o paciente a enxergar a
realidade de um modo diferente, pois existe uma infinidade de
emoções e problemas que são desconhecidos. Por exemplo,
como viver numa cultura que condena e transforma o sexo num
tabu.
É preciso um bom profissional para enfrentar essa triste
situação da compulsão à repetição. Para tal empreendimento, o
psicanalista precisa de conhecimento teórico e domínio das
emoções destrutivas, como elaborar e resolver os traumas do
passado, das intervenções e interpretações sobre as compulsões
e, também, um trabalho terapêutico com a família de origem.
Muitas vezes as instituições podem ser de grande ajuda quando
a pessoa necessita de uma desintoxicação química, e nesse
caso, a síndrome de abstinência é o primeiro passo para poder
começar a pensar na sua vida novamente.
A primeira atitude do dependente a compulsão é admitir
que é impotente para poder sair dessa situação sozinho, e que
sua vida terminou num completo fracasso. A análise procura
levar o paciente a um processo de autoconhecimento, e uma
busca em conjunto para superar esta compulsão à repetição.
Este é primeiro passo para dar início a sua cura. Agora é
importante realizar um diagnóstico e uma possível avaliação
sobre os sintomas que estão presentes na adição.
É preciso estar atento à queixa em relação ao seu medo
do prazer e principalmente suas estratégias de fuga, para evitar
qualquer contato sexual. Às vezes, o paciente esconde-se sob

163
um discurso de moralidade, com a intenção de afastar qualquer
possibilidade de intimidade. O seu pensamento está sempre em
vigia e controla as atitudes sexuais de todas as pessoas do seu
convívio, e se isto não bastasse, existe uma verdadeira
obsessão em descobrir a vida sexual dos demais.
A linguagem não verbal do seu corpo demonstra um
descuido com o desejo de não tornar-se atrativo a ninguém.
Não se sente confortável em relação ao seu corpo, vive
criticando e desmerecendo-se a si mesmo, adora colocar
defeitos em todas as partes do seu corpo. Experimenta um
sentimento de inferioridade nas suas práticas sexuais, sua
sensação é de fracasso e impotência, até porque acredita que é
indigno de viver o prazer sexual. Tem uma verdadeira fobia
das doenças venéreas e da AIDS, condena veementemente as
prostitutas e os homossexuais, ou toda prática sexual que não
seja a heterossexual.
Não consegue sentir-se a vontade durante a relação
sexual, devido a seu estado de ansiedade e medo de fracassar,
ou ser criticado, humilhado ou rejeitado. As imagens do
passado passam a fazer parte de sua fantasia no presente,
porque entende que qualquer tipo de afeto pode levá-lo a
relação sexual. Num total estado de inconsciência procura a
abstinência e privação, passando longos períodos distante de
todas as pessoas e principalmente dos amigos, evitando
contatos afetivos e amorosos. Começam a curtir uma emoção
de abandono e solidão, e cada vez mais se tornam distantes e
desconfiados dos seus colegas de trabalho.
A impotência emocional significa a incapacidade de
conter os efeitos da aversão sexual, mesmo que a pessoa esteja
sofrendo com este estado de rejeição e afastamento em relação
à sua compulsão. Agora é importante tomar consciência das
ações inconscientes que levam alguém a afastar-se do prazer.
Como esta emoção de negação e aversão aparece de maneira
involuntária, consegue despertar o desejo de repúdio e raiva ao

164
prazer. Esta falsa emoção não retrata a verdade sobre a pulsão
sexual, a aversão e a negação foram culturalmente
internalizadas como sendo algo negativo, ruim, pecaminoso,
animalesco, e outras crenças que distorcem a verdadeira função
do desejo sexual.
Quais são as consequências da emoção de impotência e
da dificuldade de ter prazer no sexo? Quando a pessoa
encontra-se envolvida em algum tipo de adição compulsiva,
nem sempre tem consciência deste desgaste de energia
psíquica.
Vou descrever este processo emocional de destruição.
Quando se inicia uma série de pensamentos e sentimentos
sobre o suicídio, ou mesmo um desejo de morrer, de matar
alguém, sensação de desamparo, abandono, rejeição e
desespero. Surge um medo muito grande de estar
enlouquecendo, e uma sensação de estar dividido ou de ter
duas vidas, uma pública e a outra secreta.
Perda do contato com a realidade, perda da autoestima,
dos sonhos, objetivos e valores éticos são conseqüências que
não tardam a aparecer. Da mesma forma, surgem na pessoa que
vive a compulsão emoções de culpa, vergonha, medo do futuro,
incongruência, isolamento, solidão, esgotamento físico e
mental, perda de peso, somatização de úlcera, hipertensão
arterial, violência física, insônia, vazio existencial. É muito
comum sentir-se perdido e confuso, desacreditar de tudo e de
todos, perda do amor, brigas e discussões, depressão,
dificuldade de educar os filhos.
Esses são alguns sintomas existenciais e somáticos que
podem ser resolvidos em algum grupo de terapia analítica. É
muito importante encontrar um psicanalista qualificado, para
dar o apoio e o manejo necessários a estas adições, com o
objetivo de recuperar a autoestima, o autoconceito e a
autoimagem em relação a si mesmo.

165
Existem algumas regras e normas importantes que
devem ser seguidas pelas pessoas que procuram ajuda em todos
os tipos de adições, sejam elas de ordem sexual, alcoólatra, de
drogadição, jogos, trabalho, dinheiro, etc. E, desde maneira,
pode formar-se um grupo de casais com co-dependência a
compulsão sexual, ou mesmo dentro de grupos de terapia onde
participem casais que têm adição ou aversão ao sexo, ou com
grupos de pessoas em estado de recuperação da adição ao
álcool, etc.
São vários os temas que serão aprofundados,
esclarecidos, confrontados e interpretados, em relação à
infância, como traumas emocionais, violência familiar,
segredos e pactos inconscientes, o desejo de superar o ódio e
aversão a própria sexualidade. Acreditamos que este grupo
terapêutico pode ser de grande ajuda na recuperação e na saída
deste estado de dependência emocional e química. Antes de
qualquer iniciativa, estas pessoas têm que de participar de um
grupo de recuperação a adição compulsiva destrutiva. Deverá
ser realizada uma entrevista para avaliar as condições psíquicas
e mentais, com vista a frequentar este grupo e conseguir
adequar-se às normas e regras estabelecidas pelos membros do
grupo de adição.

A descrição das defesas psicopatológicas na


manutenção da adição necrófila

Como acontece esta mudança Na verdade para


acontecer algum tipo de mudança é preciso que o ambiente
também modifique sua compreensão sobre a doença destrutiva.
Esta psicodinâmica familiar é fundamental para entender o
lugar que o adicto compulsivo ocupa na família. Cada pessoa
inconscientemente pode ser o paciente identificado, mais
conhecido como o bode expiatório.

166
Existe convivência que proporciona uma estabilidade
emocional pode tornar-se produtivo e saudável. Muitas vezes o
lugar que alguém ocupa na família é o de guardar todos os
segredos e sofrimentos para proteger alguém importante. Todo
e qualquer esforço são validos para sair desta dinâmica
inconsciente, pois esta compulsão leva ao desgaste e a rebeldia,
em alguns casos com agressões e violências de toda ordem. A
única maneira de sair desta condição de vítima é tomar
consciência sobre o seu papel na constituição desta patologia.
Vamos pensar um pouco: como pode uma mulher casar-
se duas vezes consecutivas com homens viciados em jogo ou
álcool Esta mulher resolveu o seu problema Tudo indica que
não, pois desfez seu casamento e inconscientemente mudou de
marido, mas o problema permanece o mesmo. Enquanto não
tomar consciência sobre seus desejos mórbidos e destrutivos,
sua vida será uma repetição do passado. É interessante que a
pessoa gostaria de viver melhor e ser feliz, mas o desejo de
destruição é maior que o da realização. Nem sempre consegue
fazer suas escolhas de modo consciente e racional, mais uma
vez se comprova que o coração tem razões que a razão
desconhece.
Quando existe investimento de tempo e dinheiro em
ações inconscientes que não trazem bons resultados, a
tendência é o aumento da frustração e o desencanto, podendo
desencadear uma depressão que depois se torna uma doença
fatal. Quanto mais a pessoa procura melhorar a sua vida, tanto
pior experimenta a dor e o sofrimento. Estas mudanças
tomadas inconscientemente, sem a devida análise, podem
alcançar piores resultados que antes. Por exemplo, uma pessoa
pode descobrir, na análise, que o afeto, a valorização e o
reconhecimento, podem ser vivenciados num grupo de amigos
ou mesmo com uma amiga muito especial, e não
especificamente um homem.

167
Toda experiência tem um valor enorme, desde que seja
acrescida de uma tomada de consciência. A necessidade de
companhia, afeto, cuidado, intimidade, cumplicidade, pode ser
encontrada em pessoas equilibradas e saudáveis. Ao descobrir
que sua família de origem tem um vício chamado adição. Estas
adições compulsivas ao álcool, sexo, trabalho, jogo, dinheiro,
estão presentes também na sua vida. Este processo de
identificação com o opressor aparece nas formas de assimilar o
afeto e o amor através da atração por homens violentos e
agressivos. Com a ajuda do analista, a pessoa consegue
conscientizar-se da importância de relacionar-se com alguma
pessoa que não possua adições. No momento que toma
consciência do que está fazendo consigo mesma, pode tomar a
decisão de continuar na mesma situação ou mudar
radicalmente, saindo fora deste concluo patológico.
Parece simples, mas o desligamento de alguém que está
tomado pela adição, segue algumas diretrizes de dominação, o
que faz com que seja muito difícil livrar-se destas neuroses fora
de uma terapia analítica. Vou descrever as estratégias de
dominação emocional das pessoas envolvidas nesta intoxicação
da privação e compulsão da neurose necrófila. Toda pessoa que
está envolvida por alguma forma de adição é dependente das
emoções que proporcionam aquele estado de prazer sádico ou
masoquista.
O adicto compulsivo desenvolve atitudes poderosas de
manipulação, no sentido de ameaçar e de fazer sofrer, caso
alguém não faça a sua vontade. No íntimo da neurose necrófila
existe a ameaça de afrontamento e domínio sobre a outra
pessoa. Por exemplo: se você não se fizer as minhas vontades,
você vai me perder. Eu posso preservar os teus segredos desde
que você contribua com algum tipo de ajuda financeira. Esse
tipo de dominação emocional aprende-se dentro de casa, pois é
nas relações familiares que se estabelece o valor que cada ser

168
tem para as pessoas do seu convívio. O adicto compulsivo ou
obsessivo conhece, também, os pontos fracos dos seus pais.
Muitos deles fazem uso dos pactos inconscientes e dos
segredos para ter mais poder sobre as pessoas. Afirmam, em
bom tom, que nos amam, que desejam a mudança, mas no
fundo cedem, para depois dominar ainda mais. Todos os
adictos sabem o que os pais esperam dele, por exemplo, parar
de mentir, voltar a trabalhar, não envergonhar a família,
respeitar e ter consideração por seus pais, etc. A dominação
parte sempre de uma negação, da retaliação, existe uma
inteligência a favor do mal e da psicopatia. Por um tempo
modificam o comportamento doentio, para logo depois voltar
ao que era antes, tudo como uma forma de punição aos pais,
pois não fora generoso o bastante, e não deram tudo que
desejava. É sempre o desejo de alcançar o seu objetivo em
cima do suor e do trabalho dos outros.
Este parasitismo precisa da anuência da vitimização, do
não posso, do estar doente, do não ter dinheiro, do ser pobre,
do não ter estudo, de ser infeliz, de não ter amor, enfim, de
uma série de queixas que justificam a sua preguiça mental, e
uma teimosia, em não querer sair daquela situação confortável.
Prefere pagar o preço da doença a ter que trabalhar e tomar
uma decisão na vida.
As suas defesas baseiam-se no desejo do outro. Quando
descobre que alguém deseja sua mudança, seja no amor, no
trabalho, no abandono das adições, ou nos estudos, utiliza
desse expediente para mostrar uma imagem de coitado e
miserável, sua intenção é convencer os outros da sua extrema
dificuldade. Mas, no final da história, recai sempre no mesmo
pedido, assumir suas dívidas, pagar seus estudos, porque
conseguiu vender uma imagem de inválido. Quando recebe um
não, sua defesa é sempre colocar a culpa e chamar aquela
pessoa de egoísta e materialista, e ainda acentua o abandono e a
falta de consideração que não tem por sua pessoa.

169
Para receber o amor e o carinho do adicto compulsivo
somente dando dinheiro e segurança material. Sua intenção é
muito clara, sua energia psíquica está investida de um desejo
de colocar e explorar a outra pessoa, ou seja, como dominar e
ter poder sobre as suas decisões. Existem centenas, milhares de
métodos e estratégias de dominação para alcançar o poder
sobre a sua vítima. Faz o papel de vítima com a intenção de
tornar a outra pessoa vítima de sua adição compulsiva. Por que
será que a maioria das pessoas tem dificuldade de entender e
compreender esta dinâmica disfuncional nas relações
familiares
O adicto compulsivo desenvolve defesas no sentido de
fazer de tudo, como seduzir, dizer o que as pessoas querem
ouvir, descobrir seus pontos fracos, suas carências, etc. Em
posse dessas confidências, inicia-se todo o processo de
dominação. É a busca do poder sobre o outro, utilizando o
fracasso, a doença, a adição como meios de conquista. Para
colocar o outro a serviço da patologia, muito se deixam
seduzir, e depois envolvidos numa rede de ameaças, de culpa e
de medo.
Na verdade o adicto compulsivo desenvolve uma
habilidade de sobrevivência psíquica na proteção e no
atendimento das demandas de sua compulsão. Para isto, tem
tempo e inteligência para desenvolver uma série de discursos, e
estratégias de confusão e ameaças de sempre colocar nos
outros uma obediência fóbica, um dever moral e ético e, por
fim, a culpa. Seu desejo é fazer com que todos os seus
relacionamentos possibilitem a garantia de que jamais serão
traídos. A incumbência dos pais ou amigos, de jamais recusar
um pedido seu e depois forçar a culpa como uma forma de
sofrimento e dor, por não cooperar com a sua adição.
O analista, os pais, os líderes e professores devem estar
atentos para saber reconhecer as estratégias inconscientes que
têm como finalidade o poder total sobre as ações e decisões.

170
Agora, pretendo descrever algumas das estratégias do adicto
com a finalidade de dominar psicologicamente e
emocionalmente suas vítimas:
- procuram ameaçar você, caso não queira atender as
suas reivindicações;
- colocam o outro na parede com a finalidade de fazê-lo
ceder. Por exemplo: sair de casa, procurar outra pessoa mais
legal, um amigo que possa entendê-lo, etc;
- caso você não queira atender ao seu pedido, dizem que
vão se suicidar, tudo para forçar que as pessoas cedam às suas
solicitações;
- o seu desejo de pedinte é infinito, sempre querem
mais, e acreditam que receberam pouco;
- não desistem, são teimosos, orgulhosos, emburrados,
se fecham e não falam mais, até fazer com que você ceda e
mude de ideia;
- não estão interessados nas suas preocupações e
necessidades, o que importa, no momento, é o atendimento da
sua adição;
- a todo momento estão renovando as suas promessas,
mas na verdade nunca cumprem com nenhuma delas;
- o outro é sempre o culpado de sua desgraça, e caso
você tenha e não queira dar, será tachado de egoísta, insensível,
arrogante, capitalista, principalmente com relação aos
empréstimos de dinheiro;
- quando os pais, professores, amigos ou mesmo
esposo(a) cedem aos seus elogios e reconhecimento, são
sempre exagerados, para mais tarde fazerem uma nova
solicitação, e, caso não seja positiva, retiram tudo o que
disseram e colocar no lugar palavras que diminuem a
autoestima e aumentam sua culpa;
- como estamos numa sociedade capitalista que
incentiva o consumo, o dinheiro é uma arma poderosa para ter
poder sobre os outros e atender as suas adições.

171
Caro leitor se você está envolvido, nem que seja numa
dessas estratégias de manipulação, é bom começar a tomar
consciência de que esta relação não está sendo produtiva, no
sentido de saber intervir e sair desta situação de dominação,
para um lugar de esclarecimento e interpretação sobre as
defesas inconscientes.
Como a análise pode ajudá-lo a sair desta situação e
realizar as mudanças em você mesmo, e no outro que sofre
desta adição Vamos esclarecer como acontece toda esta
dinâmica inconsciente de dominação e exploração.
A análise leva a pessoa a tomar consciência, e o
primeiro passo é procurar ajuda terapêutica para ter forças e
coragem, no enfrentamento das estratégias de dominação,
porque quem convive com um adicto compulsivo encontra-se
contaminado e intoxicado emocionalmente nesta relação. É
preciso ter conhecimento sobre o funcionamento da nossa
mente inconsciente e de seus desejos, pois muitas vezes as
motivações pulsionais estão sendo negadas, reprimidas e
relegadas a um segundo plano. Quando alguém realiza, no seu
lugar o seu sonho, indiretamente você deixou ou abdicou de
desenvolver o seu potencial de coragem e criatividade.
O estado de inconsciência do adicto o faz procurar o
caminho mais fácil, desenvolve todas as patologias psíquicas
de queixa, de vitimização, de fracasso e doença. Como todos se
encontram envolvidos nesta atmosfera de afeto, e da pulsão
instintiva da maternidade e paternidade, não conseguem livrar-
se do domínio do adicto compulsivo. O adicto compulsivo é
um mestre da representação mascarada de um personagem.
Esta sua máscara esconde seu falso “self”, fazendo com que
passe despercebido o seu estado de pressão, que muitas vezes
fazem assumir projetos e ideias que não são nossos.
No seu discurso, suas ações são benéficas, seu desejo é
fazer o melhor para si mesmo e para as pessoas das quais ama.
Quem entra neste jogo é seduzido pelos personagens, que

172
aparecem mascarados, não revelam sua identidade, são sutis,
sensíveis, companheiros, amorosos, quando precisam alcançar
seus objetivos. Mas, quando a vítima descobre o jogo fica
magoada, triste, confusa e às vezes desorientada. Esta triste
realidade é mais presente do que nós podemos imaginar,
infelizmente acontece no ambiente de trabalho, nas relações
familiares e em todo lugar onde existam pessoas.
Iniciar a análise, é enfrentar esta intoxicação emocional
da adição, é o primeiro passo para poder viver em liberdade,
sem a opressão dos parasitas sociais. O tratamento analítico
leva a pessoa a confrontar-se com esta triste realidade, que gera
sofrimento, perda, mágoa, ódio, raiva e todas as emoções
negativas. O que pretendemos é mostrar a possibilidade de
viver de modo produtivo e livre dos enredos compulsivos das
adições. Ninguém é culpado de cair nas malhas da adição
compulsiva, na verdade pode aprender a lidar com elas, mas,
faz-se necessário uma decisão muito pessoal para poder sair do
estado de intoxicação, que provavelmente passará pelo
processo de desintoxicação da síndrome de abstinência.
Gostaria de mostrar, com ajuda da teoria psicanalítica,
como as pessoas são envolvidas neste processo de exploração e
abuso emocional, desenvolvido pelos adictos compulsivos.
Primeiro, temos que conhecer a psicopatologia e a formação do
caráter do compulsivo a adição. É um objetivo difícil, pois
existem inúmeras estratégias e defesas utilizadas neste
processo de formação do caráter manipulador e explorador.
Existe o caráter explorador passivo e o agressivo, uns não
dissimulam, são objetivos e diretos, e outros mentem
demasiadamente para conseguir o que querem.
O caráter explorador agressivo é direto, e mostram
quais serão as consequências caso não obedeça a sua ordem. O
passivo se faz de vítima, e diz o quanto estamos fazendo-o
sofrer. Independe de sua ação inconsciente, ambos possuem
traços de um caráter necrófilo e destruidor. Na psicanálise

173
temos que entender as motivações inconscientes que geram e
sustentam esta atitude destrutiva. Por trás dessa atitude
perniciosa e prejudicial esconde-se um medo muito grande do
adito de perder o seu lugar ao sol, de não ser capaz de realizar
uma mudança, de não ser compreendido, de não ser amado e
desejado, de ficar sozinho e sem nenhum tipo de poder.
Na teoria psicanalítica podemos descrever o processo
de atuação e projeção inconsciente sobre o mundo das adições
e compulsões. Na verdade, qual é a motivação principal que
mobiliza a busca das adições? Sem dúvida, muitas emoções
ligadas a compulsão e a adição têm sua origem numa longa
história de abusos de toda ordem, e, principalmente, no
complexo de inferioridade. A sensação de sentir-se indigno de
ser amado ou de amar alguém, esconde abusos emocionais de
todo tipo e estilo.
Muitos adultos ainda funcionam com as sensações e
sentimentos de criança. O mundo das emoções infantis
permanece num estado latente, esperando o momento para se
manifestar, geralmente quando surge algum momento difícil ou
delicado, como tomadas de decisões. Quando uma criança não
teve a oportunidade de receber segurança emocional, sente-se
incompetente diante das pressões e cobranças do mundo dos
adultos, acaba desenvolvendo um complexo de inferioridade.
Toda repressão da autonomia, da coragem, da ousadia,
da originalidade, da criatividade ou da confiança impedem a
manifestação do potencial da inteligência cognitiva e
emocional. Quando não existe um ambiente saudável para o
desenvolvimento dessas competências, surgem, no seu lugar, a
perversidade e a marginalidade. A mentira, a falsidade e a
superficialidade demonstram um grande vazio, ocasionado pela
falta de uma identidade pessoal. Ao viver sobre o esforço do
outro, a pessoa não desenvolve habilidades para o trabalho no
sentido de exigir-se e aprender novos meios de subsistência.

174
Estas atitudes da adição são destrutivas, porque
produzem o surgimento de emoções negativas, como por
exemplo, a raiva, o ódio, a inveja, o ciúme, a insegurança, a
falta de confiança. Enfim, é um ambiente que detona com o
amor e a afetividade, às vezes amargando sérios prejuízos,
como a perda do emprego, a expulsão da escola, o pedido do
divórcio, a dor de uma doença, a perda de prestígio. Todos ao
seu redor percebem o caminho da falência e da destruição,
exceto a pessoa que está envolvida nesse ambiente de
dominação.
Esta prática demonstra um desejo sádico de produzir
sofrimento e sugar tudo aquilo de bom do outro. Alguns o
chamam de vampiro, não sei se poderíamos chamá-lo assim,
mas, na verdade a outra pessoa envolvida na relação fica
exausta, sem forças, energia, vontade, dinheiro e amor, é uma
perda total de seu desejo de amar.
Mas, por existir algumas pessoas que não se deixam
explorar, nem manipular, e outras que são facilmente
convencidas a ceder e viver neste inferno de exploração É
preciso conhecer a demanda das emoções inconscientes na
relação doentia, bem como cada pessoa envolvida na adição.
Vamos viajar por dentro da mente do adicto, principalmente
quando enfrentam situações de frustração, rejeição ou mesmo
de crítica, que são emoções que fazem emergir toda sua repulsa
a verdade, a compaixão, a ternura e ao amor.
Não é uma experiência agradável conviver com
qualquer tipo de adição, pois, independente do seu desejo,
todas têm como interesse, tirar vantagem e explorar
financeiramente e emocionalmente o outro. Os adictos
possuem esta distorção de caráter, querem sempre levar
vantagem em tudo, porque entendem que estão seguros e que
possuem pleno poder sobre as pessoas e instituições. Mas todo
este investimento produz um desgaste de energia que pode ser
presenciado na ansiedade e na angústia. Quem consegue

175
idiotizar o outro, tem uma sensação de poder, e, ao mesmo
tempo, utiliza deste expediente para neutralizar, narcotizar,
reprimir, e esconder emoções que lhe causam medo.
Impotentes e inseguros, buscam nas defesas e compulsões uma
proteção para compensar a sua deficiência nas adições.
A ajuda do psicanalista é indispensável para se construir
a libertação deste processo de manipulação. Não existe
dominação e poder, exploração emocional ou financeira, sem a
anuência do outro. Para que esta condição exista, precisa-se de
uma família ou do relacionamento de um casal. A vítima é
aquela que aprende a ter prazer e gozo na exploração do outro,
este masoquismo também é um vício, ou seja, adição. Este tipo
de relação sempre acaba muito mal, com violência, separação,
agressão física, inimizade, e diversas formas de destruição e
sofrimento que podem acometer a vida de uma pessoa.
Quando uma pessoa se aproxima de alguém para
realizar um sonho de amor, esquece que carrega consigo
emoções e vivências traumáticas de abusos emocionais, que
geraram mágoas, raivas, medos, fobias, obsessões,
inseguranças, ódio. Emoções destrutivas que desencadeiam a
necrofilia e que são as bases da adição. Estas feridas
emocionais são protegidas pelas defesas e compulsões. Todos
desenvolvem estratégias e adições para neutralizar e fugir do
contato com estas emoções, ninguém quer vivenciar novamente
suas experiências de dor.
O poder do sofrimento e das neuroses de caráter existe
quando não temos consciência sobre sua força de atuação em
nossas vidas. Existem atuações e projeções emocionais que
escondem feridas e dores. A grande contribuição da psicanálise
é ajudar o paciente ou o casal, a assumir a responsabilidade de
buscar com todas as suas forças a saúde e a felicidade. Sendo
assim, qualquer tratamento precisa retirar a pessoa do papel de
vítima, condição básica para a libertação do ser. Quem acolhe e

176
se deixa manipular, esta contribuindo para a continuidade da
patologia.
Cada pessoa deve escolher o caminho que deseja seguir,
ninguém é obrigado a nada, todos somos livres, inclusive para
viver em sofrimento, porque qualquer mudança depende da
escolha, de uma decisão muito pessoal, e deve ser sincera e
consciente, estar disposto a investir seu tempo em estudos,
conhecimento, dinheiro, na solução de suas dificuldades é uma
decisão inteligente. Cada um deve estar compromissado
consigo mesmo, e buscar a saúde e a felicidade, até porque
ninguém pode fazê-lo no seu lugar e, muito menos, o
psicanalista. Precisa dar um salto qualitativo em sua vida, sair
do medo e começar a ter coragem para enfrentar os problemas.
A vítima sempre está inconsciente de suas ações, sem se
dar conta ensina os outros a maneira como deve explorar e
manipular. Toda vez que alguém cede, recompensa e valoriza o
poder de atuação da adição compulsiva, de viver sem produzir
nada, esta colaborando com a permanência da adição, esta é a
dura verdade, sem ter consciência do prejuízo desta relação
esta favorecendo para que continue a exploração. Todos pagam
um preço, alguns com a completa falência econômica, familiar,
empresarial. É uma erva daninha que se prolifera como um
câncer nas vidas e nas relações das pessoas. Por isto mesmo as
adições compulsivas tornou-se um problema de saúde publica.

177
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