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INTERPRETAÇÃO

DOS SONHOS

ITPH 12013
T Interpretação dos sonhos: Ana de Lima Camargo...&
outros [ et. al ]. – Santa Maria: Ed. ITPOH, 2013 – 492p. 21
cm

1. Psicologia 2. Psicanálise Humanista 3.


Interpretação dos sonhos I. Camargo, Ana
Maria Lima,
CDU 159.922
ISBN 9788586491363

Ficha catalográfica elaborada por Maristela Eckhardt CRB-


10/737

Produção gráfica:
Jeferson Luis Zaremski

Revisão ortográfica: Andréa Alves Borgert

Impressão:
Inov9 – Gráfica e Editora – Santa Maria – RS

Editora: Instituto de Psicanálise Humanista


Rua dos Miosótis, 225 – Bairro patronato
CEP: 90.8000-020 – Santa Maria – RS

Fone: (55) 3222.3238


www.itpoh.com.br
saleziop@gmail.com

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APRESENTAÇÃO

O livro A interpretação dos sonhos reúne dez


artigos desenvolvidos pelos alunos do curso de
Especialização em Psicanálise Clínica, membros da 12ª.
turma de Formação do Instituto de Terapia Psicanalítica
de Santa Maria (ITPH) em parceria com o Complexo de
Ensino Superior de Passo Fundo (IMED).
Esta turma apresentou uma superação teórica
pelo fato de publicar em conjunto três obras de
relevância científica durante dois anos de curso.
Atribuímos este fato ao comprometimento dos autores
em conciliar a parte teórico-clínica, uma vez que é
indispensável na qualificação profissional da área o
domínio teórico, a análise pessoal e a supervisão
referente aos atendimentos clínicos realizados.
Por considerar a importância dos sonhos e de sua
interpretação durante a análise pessoal é que esta obra
cresce em sua relevância. Pois, sabendo lidar com o
conteúdo latente presente na linguagem dos sonhos, o
analista poderá contribuir consideravelmente no
processo de autoconhecimento de seu analisando.

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Entre os diversos tipos de sonhos, podemos
inclusive classificá-los conforme o seu conteúdo, como
exemplo, os sonhos existenciais, fisiológicos, os ligados
à realização de desejos, os religiosos ou místicos, os
sonhos eróticos, os de angustia, premonitórios ou ainda
os sonhos ligados à resolução de problemas.
Quando analisamos a linguagem dos sonhos
durante o processo analítico estamos aumentando
consideravelmente o nível de compreensão psíquica,
uma vez que ganhamos em autoconhecimento e com
isto um aumento da nossa maturidade emocional.
Porém é importante ressaltar que este trabalho
deve ser construído a partir do vínculo terapêutico pois
os sonhos, assim como todos os símbolos contam com
uma linguagem universal e outra linguagem totalmente
individual, o que cai por terra a utilização de dicionários
ou manuais de interpretações que possuem a forte
tendência a generalizar alguns símbolos. Cada sonho diz
respeito exclusivo àquele que sonha. Contando com o
auxílio do analista, é possível aprofundar conteúdos
importantes a serem revelados e que estão disponíveis
para virem à tona no curso da análise pessoal.
Profa. Dra. Carla Cristine Mello Froner
4
SE APAGA?

Se apaga o amor no tempo?


Não, este sentimento persiste
E a repetir insiste
Que nada foi em vão, senão
Seria apenas um sonho maravilhoso
Sempre a se recordar, prazeroso,
Tão bom que nem real parece

Todo dia como o sol amanhece


À noite não se põe, dormita
E neste turno se renova e se agita

Às vezes correm chuvas,


Às vezes tempestades,
Mas sempre após vêm as bonanças
Mantidas por nosso amor sem falsidades.

Carlos Frederico Silveira Escobar

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ORGANIZADORES

Dr. Salézio Plácido Pereira – Psicanalista, Mestre em


Educação pela UFSM, Doutor em Psicologia Social. Diretor do
Instituto de Psicanálise Humanista. Presidente da Sociedade
Brasileira de Psicanálise Humanista, Membro Efetivo da
Sociedade Internacional de Erich Fromm.

Dra. Carla Cristine Melo Froner – Psicanalista, Doutoranda


em Psicologia Social, Doutora Honoris Causa em Psicologia,
Coordenadora e Supervisora Clínica do Instituto de Formação
em Psicanálise, Docente do Instituto, Presidente do Sinpers
(Gestão 2009 – 2012), Membro Efetivo da Sociedade
Internacional de Erich Fromm.

AUTORES

Ana Maria de Lima Camargo – Graduada em Ciências


Biológicas / Matemática pela Pontifícia Universidade Católica
do Rio Grande do Sul, Pós - graduada em Ciências Naturais
pela Universidade Federal de Santa Maria, em Educação
Profissional Integrada à Educação de Jovens e Adultos.
Professora da rede Municipal em Santa Maria. Estudante da
Especialização em Psicanálise Clínica. Psicanalista em
Formação e Membro aspirante da Sociedade Brasileira de
Psicanálise Humanista.

Andréa Alves Borgert – Graduada em Letras pela


Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pós-graduada
em Práticas Pedagógicas Multidisciplinares na Educação
Básica e Gestão Escolar pela (FEJ) Faculdade de Educação de
Joinville-S/C. Professora do Estado de Santa Catarina.
Estudante da Especialização em Psicanálise Clínica Humanista.
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Psicanalista em Formação e Membro Aspirante da Sociedade
Brasileira de Psicanálise Humanista.

Charles de Andrade Lins- Graduado em Direito pela


Universidade Católica de Pernambuco-PE, Pós – graduado em
Direito Processual Civil pela Universidade Federal de
Pernambuco-PE. Advogado militante nas áreas Cíveis,
Trabalhista e Previdenciário, Psicopedagogo, Professor
Universitário do Instituto Educar Brasil. Mestrando em Gestão
e Políticas em Educação. Doutorando em Epistemologia e
História das Ciências pela UNTREF- Universidade Três de
Febreiro – Buenos Aires- Argentina. Estudante da
Especialização em Psicanálise Clínica Humanista. Psicanalista
em Formação e Membro Aspirante da Sociedade Brasileira de
Psicanálise Humanista.

Eden Jorge Pereira Perez- Natural de Santiago (RS),


graduado em Direito, advogado com militância nas áreas civil e
comercial, integrante também da Assessoria Jurídica Regional
do Banco do Brasil em Porto Alegre (RS), psicanalista em
formação pelo Instituto de Psicanálise Humanista de Santa
Maria (RS). Membro aspirante ao Colégio Brasile.

Flávio Rodrigues – Formado em Capoeira pelo Grupo


Capoeira Mandinga – Federação Paulista de Capoeira – São
Paulo. Graduado em Educação Especial pela Universidade
Federal de Santa Maria, Professor de Atendimento Educacional
Especializado da rede Municipal de Uruguaiana. Estudante da
Especialização em Psicanálise Clínica. Psicanalista em
Formação e Membro Aspirante da Sociedade Brasileira de
Psicanálise Humanista.

Greice Rachel Lemes Michel - Graduada em Teologia na


Faculdade de Teologia e Filosofia-Seminário Maior da
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UNITHEO. Estudante da Especialização em Psicanálise
Clínica. Psicanalista em Formação e Membro aspirante da
Sociedade Brasileira de Psicanálise Humanista.

Joana Iara Ferrando Tavares – Graduada em Pedagogia


(FAFISB/São Borja), Especialização em Psicopedagogia
Institucional (Universo/Recife PE), Especialização em
Educação Especial Inclusiva (Unopar/Santiago), professora
municipal, aluna do Curso de Especialização em Psicanálise
Clínica e Psicanalista em Formação.

Maria Izabel Burin Cocco - Graduada em ciências -


UFSM/RS e Biologia - Faculdade de Filosofia Ciências e
Letras de Santa Cruz do Sul/RS. Formação em Psicanálise
Humanista pelo Instituto de Psicanálise Humanista de Santa
Maria/RS. Pós Graduação em Psicopedagogia Institucional -
FACISA. Pós Graduação em Teoria psicanalítica Faculdade
Redentor/RJ. Cursando Especialização em Psicanálise Clínica-
ITPH/IMED. Membro efetivo da Sociedade Brasileira de
Psicanálise e do SINPERS.

Odete Terezinha Bittencourt – Graduada em pedagogia pelo


Centro Universitário Franciscano (UNIFRA) de Santa Maria.
Funcionária Pública Municipal do Município de Agudo-R/S.
Estudante de especialização em Psicanálise Clínica.
Psicanalista em formação e Membro Aspirante da Sociedade
Brasileira de Psicanálise Humanista.

Suzana Pienis – Graduada em Pedagogia pelo Centro


Universitário Franciscano (UNIFRA) de Santa Maria. Aluna do
Curso de Especialização em Psicanálise Clínica (IMED) e
Psicanalista em Formação pelo Instituto de Psicanálise
Humanista de Santa Maria-R/S (ITPOH) e Membro Aspirante
da Sociedade Brasileira de Psicanálise Humanista.
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Sumário

Prefácio................................................................................... 11
Dr. Salézio Plácido Pereira

1.Uma introdução ao estudo dos sonhos..................................13


Eden Jorge Pereira Perez

2.Como interpretar os sonhos................................................. 76


Suzana Pienis

3.Os diversos modos de interpretar os sonhos.......................112


Odete Terezinha Bittencourt

4.Os sonhos: aliados no processo de evolução da


consciência..........................................................................166
Andréa Alves Borgert

5.A importância dos sonhos na psicanálise humanista......... 205


Ana Maria de Lima Camargo

6.Os passos de uma entrevista em relação aos sonhos...........245


Greice Rachel Lemes Michel

9
7.A importância da teoria humanista existencial psicanalítica e
a linguagem corporal dos sonhos...........................................297
Maria Izabel Burin Cocco

8.A interpretação na psicanálise humanista dos símbolos e


mitos nos sonhos................................................................... 339
Flávio Rodrigues

9.A influência da história e da cultura em relação aos


sonhos....................................................................................400
Joana Iara Ferrando Tavares

10.As principais teorias em relação à interpretação dos


sonhos....................................................................................452
Charles de Andrade Lins

10
PREFÁCIO

Este livro teve como objetivo descrever os conceitos da


teoria e técnica da interpretação dos sonhos, este é o terceiro
livro dos analistas em formação do Instituto de psicanálise
humanista, este volume descreve os principais métodos para
interpretar os sonhos na psicanalise. Estes artigos seguem uma
ordem para descrever os processos inconscientes dos símbolos
latentes e manifestos.
Esta pesquisa teve a participação dos futuros analistas
humanistas durante o seu processo de formação analítica. O
instituto de psicanálise humanista recebe destes autores e
futuros escritores mais esta obra para enaltecer a ciência
psicanalítica. Em geral o programa de formação analítica
humanista exige além da analise pessoal, supervisão,
atendimento a pacientes, uma base solida de conhecimento
cientifico para tornar-se um psicanalista.
Foi durante o segundo ano de formação que estes
analistas se debruçaram nesta pesquisa sobre os sonhos. Então,
este grupo de analistas resolveu estudar e aprofundar numa
analise cientifica em forma de artigos, este tema de
fundamental importância para a psicanalise humanista. Estes
analistas em formação são profissionais do direito, letras,
pedagogia, educação especial, teologia, biologia, matemática,
seguindo a orientação transdisciplinar para formar analistas que
não sejam da área das ciências medicas, valorizando e abrindo
um espaço para as ciências humanas, sociais e da educação.
Em consequência disto este libro recebeu a orientação
dos psicanalistas que orientaram a pesquisa sobre este tema dos
sonhos. Esta é mais uma obra inédita destes analistas que a
presentaram o melhor de si mesmo através destes artigos,
assumindo integralmente as exigências científicas de pesquisa
do processo de formação psicanalítica.

11
Estes futuros analistas deram o melhor de si mesmo e
realizaram este projeto graças a força de vontade e
determinação de pessoas que estão comprometidas com a
qualidade da formação profissional na psicanalise. Não
obstante esta obra teve o cuidado para tornar-se um texto
didático seguindo uma metodologia de fácil compreensão para
o publico que não tem acesso a este tipo de conhecimento.
Estes artigos se basearam em escritores psicanalistas que
procuraram determinar e esclarecer o método de interpretação
dos sonhos. Este livro serve de subsidio para os futuros
analistas ou de pessoas interessadas em conhecer os conceitos e
métodos utilizados na psicanalise para interpretar os sonhos.
Os títulos seguiram os desejos de seus autores, por isto mesmo
comtempla na essência deste escrito, uma originalidade e
criatividade que enaltece ainda mais esta pesquisa sobre a
interpretação dos sonhos.
Gostaria que este livro publicado pelo Instituto de
Psicanálise Humanista tivesse uma menção especial de
agradecimento a estes analistas em formação que não mediram
esforço e dedicação para que este sonho fosse realizado. Sem
duvida esta contribuição teórica destes futuros analistas ajudará
e muito o aperfeiçoamento da utilização da teoria e técnica
utilizados na clinica analítica humanista sobre como interpretar
os sonhos.
Este foi um sonho realizado em conjunto de tornar
acessível este método da interpretação dos sonhos, organizados
em artigos para facilitar de forma legível e simples este método
fundamental da clinica psicanalítica. Quero enfatizar que todos
voluntariamente não se esquivaram deste importante projeto,
indiretamente todos ajudarão com a riqueza deste material de
pesquisa a esclarecer com mais profundidade como interpretar
os símbolos e imagens através dos sonhos.

Prof. Dr. Salézio Plácido Pereira


12
UMA INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS SONHOS
Eden Jorge Pereira Perez
RESUMO: Com abrangência que se pretende genérica em
relação a cada um dos pontos vinculados à matéria dos sonhos,
com o presente artigo é buscado – em caráter apenas
introdutório – fazer abordagens sobre tópicos relacionados a
um mundo onde historicamente foi sempre muito intenso o
revolvimento e o envolvimento das emoções humanas. Dados
antropológicos revelam as expectativas circunscritas à crenças
místicas, que mantiveram o entendimento dos sonhos e sua
interpretação privativos de privilegiados, a quem o alardeado
saber sobre as mensagens oníricas acabava conferindo supostos
poderes sobrenaturais, e concretas faculdades de dominação, de
regra seguidos pela ocupação de postos de relevo nos meios
sociais – o que parece até natural, haja vista ter-se então
estabelecido uma compreensão que ligava tais mensagens aos
tabus e aos sortilégios situados além do alcance vulgar. Essas
crenças evoluíram, assim como evoluiu a humanidade, até que
os sonhos, sua natureza e funções acabaram adquirindo caráter
científico, vindo finalmente a constituir importante instrumento
para o trabalho da terapia analítica, sendo precioso meio de
acesso ao inconsciente, para a materialização de conteúdos
reprimidos e o equacionamento de questões vitais à sanidade
das pessoas, pela via do conhecimento. O objetivo aqui, como
referido, é o de dar um enfoque - apenas introdutório - ao
desenvolvimento do tema ligado ao material onírico, fazendo
ligação com assuntos conexos e buscando manter a temática
das abordagens sob a luz das diversas teorias psicanalíticas, as
quais – a partir dos estudos de Sigmund Freud – vieram
desmistificar esse tão importante ramo do conhecimento
humano e científico.
Palavras-chave: Sonhos. Sono. Teorias. Psicanálise.
Pesadelos.

13
1. GENERALIDADES

Como ocorre com qualquer tema de que se trate em


estudos de caráter científico sobre a Psicanálise, também a
matéria relativa aos sonhos tem seus limites bem demarcados
entre o período que antecede as investigações de Sigmund
Freud (1856 - 1939), e a evolução posterior experimentada na
área a partir de tudo quanto ficou delimitado nos ensaios e nas
qualificações determinadas pelo pai da Psicanálise.
Foi com a publicação, em 1900, do livro “A
Interpretação dos Sonhos” que “os sonhos não só ganharam
nova dimensão científica, como também o aprofundamento do
seu estudo abriu as portas para a consolidação da teoria da
psicanálise”. (ZIMERMAN, 2009, p. 392).
Anteriormente a isso e desde as mais remotas origens
da humanidade, o imaginário popular – e a fantasia, sempre
presente entre as realidades psicológicas do ser – entregava-se
a devaneios divinatórios, proporcionando manipulações e
charlatanismos que vinculavam as interpretações do cenário
onírico à modelagem de “demiurgos e charlatões em geral, que
procuravam extrair dos sonhos anúncios proféticos,
premonitórios, mensagens de espíritos ou interpretações
fantásticas”. (idem, ibidem).
Assim é que:

No passado os sonhos eram vistos como


sendo mensagens vindas de Deus, ou dos
anjos, ou dos deuses, com o objetivo de nos
trazer avisos, conselhos, profecias,
encorajamento ou ainda autoconhecimento.
Nesta época passada a interpretação dos
sonhos era muito importante porque
revelaria o que os seres mais elevados
teriam a transmitir para os295 seres
14
humanos da Terra. Por isso a arte de
interpretar os sonhos era feita por
sacerdotes ou sábios que conheceriam a
linguagem destes seres superiores.
(KEPPE, 2006, p. 27).

Era entendido, então, que o acesso às mensagens dos


sonhos só era dado a eleitos, a pessoas tidas como portadoras
de conhecimentos, dons e dotes especiais, predicados dos quais
auferiam poder e prestígio.
Nessas etapas mais arcaicas da humanidade, sob a
crença em forças e seres superiores que conduziam a existência
humana, a busca pelo conhecimento dos sonhos e sua
interpretação foi sendo movida pelo combustível da
espiritualidade, fundamentada na fé e no misticismo de que
acabou derivando o ocultismo, espécie de saber secreto
acessível apenas aos membros considerados mais elevados na
hierarquia social.
A mescla de espiritualidade, fé, misticismo e ocultismo,
resultaram do alto senso de religiosidade, e através da história
impregnou a cultura, decorrendo como consequência natural
que as indagações sobre a interpretação dos sonhos, como
subproduto cultural em cada época da evolução histórica,
tenham sofrido inegáveis influências segundo os conceitos
vigentes em cada período.
A temática sobre o significado dos sonhos “encerra uma
discussão que se vem arrastando pelo menos nos últimos três
mil anos”. (FROMM, 1966, p. 83).
Parece lógico, de conseguinte, entender que esse tema
dos sonhos e de sua interpretação veio sendo influenciado pelas
inclinações culturais – e pelos padrões de razão, moralidade e
religiosidade – os quais se foram modificando conforme
também se modificou a nossa inteligência ao longo desses
milênios, moldada como veio sendo a nossa capacidade de
15
intelecção e de percepção dos fenômenos da vida e da
existência, mediante as transformações experimentadas de
tempos a tempos em nossa capacidade intelectiva, porque os
paradigmas da associação humana foram sendo adaptados; por
exemplo, o que também é lógico, as regras e convenções
sociais que hoje vigoram já não são as mesmas da antiguidade.
Em outras palavras, foi constante o progresso evolutivo
experimentado pela inteligência do homem, moldagem na qual
os padrões religiosos, morais e culturais, os usos e costumes e
as interpretações fenomenológicas sofreram igual flutuação, e
disso é testemunho histórico a estreita relação que desde
sempre existiu entre as ideias da inteligência humana e o estado
social de cada povo, nesse contexto compreendendo-se a
cultura como um valor do espírito, ligando-se o
aperfeiçoamento espiritual ao do processo anímico de
conhecimento da natureza humana.
Nessa constante dinâmica social, portanto, é que se
insere a progressão evolutiva da história da interpretação dos
sonhos, desde os períodos mais remotos que a entendiam ligada
à experiências da alma, separada do corpo, ou como vozes de
espíritos ou fantasmas, até a fase científica iniciada com os
estudos e experimentos freudianos.

2. CONCEITOS BÁSICOS

Nada mais pertinente com uma “introdução ao estudo


dos sonhos” do que desde logo estabelecer como conceito o
que seja sonho, podendo isso ser feito nestes termos:

sonho é um processo interno que


corresponde aos estados paradoxais do
sono, isto é, àqueles momentos durante os

16
quais os registros eletroencefalográficos se
aproximam dos que caracterizam o estado
de vigília; o sonho é equivalente, em nível
psicológico, ao chamado sono rápido,
produzindo-se em concomitância com os
movimentos oculares observados durante o
sono. Representa, ainda, um encadeamento
tematizado de imagens visuais expressivo
de pressões motivacionais em atuação no
sujeito. (HEBB, p. 10588, verbete
“sonho”).

O sono rápido, concomitante aos movimentos oculares


verificados durante o sono, consiste no que os cientistas
denominaram estágios REM (rapid eye movement, ou
movimento rápido dos olhos), fenômeno observado pela
primeira vez em pesquisas sobre o sono de recém-nascidos,
quando tais movimentos foram anotados, ocorrendo em
intervalos enquanto os bebês dormiam.
Através de estudos realizados com adultos, os
pesquisadores sinalizaram que também com tais pessoas esses
estágios se repetiam ficando registrado, mais, que os
voluntários ao serem acordados em meio ao estágio REM,
diziam estar sonhando naquele exato momento, enquanto era
ínfimo o percentual dos que lembravam seus sonhos quando
despertados em outras etapas do sono.
Dessas experimentações, é válido concluir:

Como algumas pessoas despertam sempre


num período NREM, elas têm a impressão
de que não sonham. Esta impressão não é
verdadeira porque todas as pessoas sonham
todas as noites. O que acontece é que
algumas pessoas têm maior dificuldade de
17
se recordar de seus sonhos. (KEPPE, 2006,
p. 37).

A título de curiosidade, seria interessante anotar


observações já feitas no comportamento de animais,
principalmente aves e mamíferos, os quais enquanto dormem
também apresentam o movimento rápido dos olhos (o que seria
o equivalente nosso sono REM), constatação que permite
especular, por analogia, que esses animais também sonham.
Também é comprovado:

Uma pessoa privada de sono NREM


demonstra cansaço, descoordenação e
lentidão de movimentos. Mas quando a
pessoa é privada de sono REM, ela se torna
ultra-sensível, com dificuldade de
concentração e de evocar a memória, e
ainda, ocasionalmente, surgem alucinações
e até surtos psicóticos. Sabe-se também que
o sono REM é um importante agente para a
redução do estresse. Por isso as pessoas
que utilizam comprimidos para dormir
podem reduzir os períodos de sono REM e
quando despertam podem passar por uma
experiência REM de alucinações
temporárias. (ibidem, p. 38).

Com íntima ligação – como vemos – e com igual


derivação, a origem etimológica da palavra sonho é a mesma
da palavra sono; ambas derivam do latim, “somnus”.
Para que se estude o sonho, portanto, parece
fundamental que se entenda seu cognato, o sono, estado
fisiológico, integrado cuja compreensão – conceitualmente:
18
As células corticais apresentam dois tipos
de atividade: o que equivale aos estados de
excitação, caracterizado por grande despesa
de energia, e o que se define como
processamento inibitório, destinado,
basicamente, à reconstituição e reparação
da célula. A generalização dos processos
inibitórios responde pela instalação do
sono. (HEBB, p. 10590, verbete “sono”).

Com variações segundo a individualidade de cada um, o


sono é verificado em ciclos regulares, algumas pessoas
necessitando dormir por mais horas que outras, sendo uma
necessidade física irresistível, podendo sua privação levar à
graves perturbações de conduta.
Basicamente, há duas formas de patologia do sono: a
insônia e a hipersônia.
Nas hipóteses de insônia, quando o indivíduo tem
enormes dificuldades em conciliar o sono, a característica
específica decorrente é a presença da fadiga, da irritabilidade,
da incapacidade de atenção e de memória.
Pode ter suas causas em estados mórbidos do
organismo, como ocorre nos problemas circulatórios,
cardiorrespiratórios, ou até mesmo na degenerescência senil,
mas a causa principal parece ser a ansiedade, tão presente e
recorrente no modelo de vida dos dias atuais.
Façamos um corte, a propósito da ansiedade e apenas
para destacá-la como fator de insônia – e com estrito
significado e visão psicanalítica.
Analisemos – para isso – os usos e costumes da vida
moderna, onde a cada vez mais se intensifica e é predominante
a massificação, industriada por apelos midiáticos que
incentivam o consumismo imoderado, a competição
19
desmedida, a disputa por posições de aparente maior destaque e
suposta maior evidência, tudo descambando em um “modus
vivendi”, onde acaba por imperar a egolatria, o hedonismo, a
vaidade, o culto à beleza física, o narcisismo, a megalomania e
de conseguinte toda uma gama de emoções nocivas e
prejudiciais, como a raiva, o ciúme, a inveja, a cobiça,
sentimentos permeados por sensações de impotência e de
insegurança perante exigências que são socialmente auto-
internalizadas e que nem sempre estão ao alcance da
capacidade de realização de cada um, sujeitando assim, os
indivíduos a sucumbir a adições e compulsões perante culpas e
medos, separando o homem de seu próximo e fazendo de cada
um o prisioneiro de sua solidão básica, encarcerado na “ânsia
pela fama, pelo poder, posses, vingança, controle, paixões de
caráter patológico e prejudicial, capaz de qualificar estas
necessidades como prejudiciais, numa base igualmente teórica
e clínica”. (FROMM, 1992, p. 19).
Continuando, vejamos outra conclusão, a respeito de
dado que também pode eventualmente compor possíveis
origens psíquicas da patologia da insônia:

Hoje em nossa sociedade é fundamental


que o ser humano preste atenção aos
valores e virtudes, oferecidos pela nossa
cultura. É necessária uma análise crítica da
finalidade do ser na existência e das
possibilidades de desenvolvimento de sua
potencialidade. Existe, no entanto, um
estado de inconsciência, uma espécie de
alienação social e cultural. Diante deste
tipo de existência é fundamental refletir
sobre a condição do ser e dos possíveis
dilemas que encontrará no decorrer de sua
vida. São várias as exigências que a

20
existência apresenta ao ser humano.
(PEREIRA, 2007-a, contracapa).

Retornemos ao tema central. Em contraponto à insônia,


podem ocorrer casos de hipersônia, caracterizado por excessivo
prolongamento das horas de sono, e sua evidência mais
completa é a da letargia histérica, estado diferente do sono
normal porque resistente às excitações e causas comuns,
capazes de interromper o sono da pessoa.
Pode a hipersônia ser consequência de causas orgânicas,
de lesões cerebrais, como – psicologicamente – pode ser
sintoma de uma depressão grave, quem sabe uma forma de
evasão como defesa do ego.
Fazendo aqui também um corte, para conduzir – com
visão psicanalítica – nossa atenção aos modelos de vida
moderna, poderíamos citar Alvin Toffler - falando sobre o que
chama “A Terceira Onda” - segundo quem, em termos de
comunicação:

Hoje estamos vivendo um período


revolucionário, mas a revolução não é
apenas tecnológica. Embora computadores
e telecomunicações tenham um papel
importante nas mudanças revolucionárias
que estão acontecendo, é importante
reconhecer que as mudanças também são
econômicas, sociais, culturais, políticas,
religiosas, institucionais e até mesmo
filosóficas ou, mais precisamente,
epistemológicas. Uma nova civilização está
nascendo, que envolve uma nova maneira
de viver (“a new way of life”). (Congresso
Nacional de Informática da SUCESU em
24.8.93).

21
Nesse terreno e sob a ótica de nossos enfoques, no
concernente aos estados depressivos, capazes de dar origem à
hipersônia, a avaliação psicanalítica

favorece a observação da normalidade e da


patologia da comunicação, verbal ou não
verbal, lógica ou primitiva, que permeia a
vida de todos nós, a ponto de ser legítima a
afirmativa de que o grande mal da
humanidade é o problema do mal-
entendido na comunicação. (ZIMERMAN,
2009, p. 176).

Retomando o tema relativo diretamente ao sono


(cognato do sonho, objeto principal de nossa atenção), restaria
abordar como aparente anomalia o sonambulismo, que via de
regra não tem maior significado patológico, e que se verifica
(quando ocorre), porque mesmo durante o sono a atividade
cerebral não se interrompe, mas apenas se reduz, embora o faça
consideravelmente.
No sonambulismo, tudo parece indicar, o indivíduo vive
e representa o seu sonho, ao invés de simplesmente elaborá-lo
em nível de fantasia; em períodos assim, os registros
eletroencefalográficos demonstram que “as ondas emitidas são
longas e lentas como as do sono comum”. (HEBB, p. 10591,
verbete “sono”).
Basicamente, no ser humano, o sono exige
descontraimento total dos músculos, ao contrário de mamíferos
que dormem em pé, como o cavalo. Ao dormir, pode-se dizer,
o homem está em estado de harmonia, natural ou mesmo
induzida por meios farmacológicos.

22
Já na passagem do sono à vigília, podem ocorrer
processos particularmente tumultuados, como o da cataplexia,
onde ocorre algo como uma paralisia completa, a pessoa
desperta, recobra a consciência, mas não consegue realizar
nenhum movimento; outra situação singular que pode ocorrer é
quando o sujeito, ao acordar, não consegue situar-se
adequadamente no tempo e nem no espaço.
Há também singularidades nos processos de conciliar o
sono e o de acordar:

Uma delas, diz respeito ao tempo


necessário para que se concilie o sono. Na
verdade, custa-se mais a dormir do que a
acordar. O ato de retornar-se à vigília é
relativamente rápido. O sono já não se
alcança com a mesma rapidez, recorrendo-
se frequentemente a rituais ou cerimoniais
cuja função é favorecê-lo. Mas, às vezes,
antes que ele se instale, ocorrem
verdadeiras alucinações. São as chamadas
alucinações hipnagógicas. Caracterizam-se
pela visualização de imagens geométricas,
arabescos, rostos, paisagens etc. São, por
outro lado, controláveis. De fato, podem
ser desfeitas através de movimentos de
retorno à vigília. (idem, ibidem, p. 10592).

23
3. PESQUISAS HISTÓRICAS

Buscando um bom substrato ao enfrentamento do tema


proposto:

O homem foi sempre um pesquisador.


Gosta de desbravar florestas, mergulhar na
profundeza invisível do mar, escalar
montanhas e sondar cavernas, em cujos
recessos descobre relíquias de habitações
primitivas e em cujas camadas descobre
ossos de criaturas há muito desaparecidas
da superfície da terra. (HADFIELD, 1959,
prefácio).

Desse legado, em nossa estrutura ontofilogenética


trazemos internalizados “nas profundezas do inconsciente,
reinos misteriosos muito mais fascinantes do que se poderiam
encontrar nas cavernas” (idem, ibidem).
Esses reinos misteriosos que nos são revelados na
linguagem dos sonhos já nos estariam remetendo em direção a
questões mais adiante abordadas, ligadas aos arquétipos
junguianos e às interpretações de Freud e de Jung, o primeiro
compreendendo os sonhos “de forma etiológica e retrospectiva,
ou seja, investigando as causas dos conflitos internos e os fatos
passados que as motivaram” (KEPPE, 2006, p. 34), o segundo
pensando o material onírico “de forma teleológica e
prospectiva, isto é, a partir de sua finalidade e função para o
desenvolvimento da pessoa” (idem, ibidem), mas, em qualquer
hipótese, dando-nos uma trégua momentânea nas agruras da
vida, habilitando-nos a prosseguir nas tarefas diárias mais
alegremente e com boa saúde.

24
A propósito: se entendermos saúde como um estado de
bem estar físico, mental e social, implicando isso em estar o
indivíduo bem consigo mesmo, com o outro e com o meio onde
vive, mas também sabendo aceitar limitações, sofrimentos e
fracassos, estaremos muito próximos de também definirmos o
que seja felicidade, a eterna busca do homem na vida.
Associada essa realidade com a herança
ontofilogenética que faz do homem um incansável pesquisador,
que traz nas profundezas do inconsciente, reinos misteriosos.
Podemos verificar que o ser humano, desejoso de saúde e de
felicidade, pode encontrar nos sonhos, devidamente
interpretados, “um guia que auxilie a vencer dificuldades,
mesmo quando abandonadas por serem julgadas
intransponíveis”. (idem, ibidem).
Era uma crença do homem primitivo a de que sua alma
se destacava do corpo durante o sonho; a convicção da
realidade do que se experimenta no sonho era tão forte, que
nossos antepassados acreditavam nos sonhos mais até do que
na própria percepção: se, por exemplo, um índio americano
viesse a sonhar ser dono da terra de alguém, isso era tão
definitivo que o dono do imóvel, confrontado com tal sonho,
era capaz de pura e simplesmente fazer a entrega do bem, não
apenas aceitando, mas confirmando o material do sonho.
Eram crenças muito sólidas; se um indivíduo viesse a
ser acusado, em sonho alheio, da prática de ato ilícito, era certo
que acataria a responsabilidade pelo que outrem sonhara. Era
admitida a culpa e recebido o castigo sem maior contestação.
Entre esse período primitivo e o chamado clássico, pode
ser denominado médio aquele período como o do sonho do
faraó com as sete vacas gordas sendo devoradas por sete vacas
magras, o que foi interpretado por José como o anúncio de sete
anos de fartura seguidos por sete anos de fome. Como
prevenção foram construídos celeiros e armazenado trigo
durante os anos de fartura, e José foi alçado a posição de
25
grande relevo no país, era uma etapa em que os sonhos eram
considerados proféticos e premonitórios.
Já nos tempos clássicos, os sonhos eram o meio pelo
qual os deuses transmitiam suas mensagens aos homens; assim,
na Odisséia, quando Tróia estava sendo atacada pela peste,
Aquiles sugeriu que se procurasse uma orientação por meio dos
sonhos, porque esses viriam de Zeus.
Nos tempos modernos, muitas são as teorias, algumas
meramente populares, outras bizarras, outras realmente
científicas – embora estas, ente si, apresentem divergências
interpretativas.
Iniciemos pelas chamadas teorias populares.

3.1 Teoria fisiológica ou do “jantar pesado”

Identifica os sonhos com a má digestão e outros


distúrbios do corpo, destarte com caráter fisiológico, no que
pode até haver cunho de verdade.
Num processo digestivo mais pesado, poderá ser
afetada a circulação do sangue para o cérebro, o que até quiçá
explica porque sonhamos, sem esclarecer porque sonhamos
com determinada coisa ou situação; assim, pessoas que tenham
compartilhado a mesma refeição poderão ter sonhos díspares,
por hipótese, um sonhando com a namorada, outro que está
sendo perseguido, um terceiro sonha que está sendo
assassinado, outro que está falido (como nada existe na
composição química do alimento que possa justificar essas
diferenças, é mais razoável supor que os sonhadores tivessem
essas questões internalizadas em seu psiquismo, e que a
indigestão as tivesse precipitado na forma de sonho).
Outros sonhos são atribuídos a estímulos externos, mas
com provável significação mais profunda; assim um pesadelo
26
no qual se está atravessando um túnel estreito e comprido – e
que talvez se explique pela sensação subconsciente da
passagem do alimento pelos intestinos.
Há também aqueles que podem ser atribuídos a
estímulos internos, como os da teoria de Aristóteles de que os
sonhos chamam a atenção para condições mórbidas incipientes
no corpo, que escaparam à observação do indivíduo quando
desperto.
Essa teoria veio a ser mais recentemente desenvolvida
por Jung, e realmente, muitas doenças orgânicas podem ser
diagnosticadas através de tais sonhos, pois as sensações
resultantes de órgãos doentes podem ser inconscientemente
percebidas nos sonhos, embora não o sejam na consciência
desperta.

3.2 Teoria das reminiscências pessoais

Popular e comumente aceita, esta teoria entende que


sonhamos com acontecimentos de nosso passado, de que
seriam os sonhos simples reproduções.
É uma teoria também sem base científica e que merece
ressalvas, porque, mesmo reproduzindo coisas passadas, o
sonho raramente reproduzirá exatamente o sucedido, ao
contrário quase sempre diferindo quer nos detalhes, quer nos
tons do emocional.
Na verdade, quando baseados em reminiscências, os
sonhos poderão estar refletindo fatos ou situações que tenham
alguma significação especial em nossas vidas, seja
simbolicamente, seja por outros motivos.
Mesmo não reproduzindo simplesmente uma situação,
os sonhos poderão estar lembrando algo que nos remeta a um
problema não resolvido, a algum fato da vida pelo qual
27
estejamos nos sentindo responsáveis ou culpados, etc. Assim,
pessoas ou fatos aparentemente sem significação maior, e a que
nos tenhamos ligado há muitos anos passados surgem em nosso
espírito e podem aparecer nos sonhos, porque ferem algum
problema específico experimentado em nossas experiências
pretéritas.

3.3 Teoria das reminiscências raciais

Ainda no campo do empirismo, há explicações


vinculando os sonhos a reverberações de experiências de
ascendentes nossos, mesmo remotos, o que teria razões
atávicas ou raciais.
Um sonho de que estejamos caindo pode ter explicações
fisiológicas (uma queda da pressão arterial), ou estar vinculado,
por exemplo, à reminiscência de uma queda sofrida na infância
e que nos imprima o reflexo condicionado.
Quem, no entanto, sustentou a teoria das reminiscências
raciais, sugerindo explicações atávicas ligadas as nossas raízes
mais arcaicas, ecos do tempo em que nossos ancestrais viveram
em árvores, quando uma queda era um risco bastante comum.
Na linha científica, o que será visto mais adiante, a
vertente aqui apontada veio encontrar algumas analogias nas
teses de Jung, na teoria dos arquétipos.

3.4 Teoria premonitória

Crença do homem primitivo, que nela acreditava


absoluta e firmemente, foi sempre bem aceita a teoria de que os
sonhos predizem o futuro, antecipando algo que irá se realizar.

28
Ora, hoje sabemos, os sonhos revelam o trabalho de
nosso subconsciente, de modo que intuitiva ou
inconscientemente, poderíamos afirmar, há mesmo alguma
possível previsibilidade numa provável capacidade
premonitória em nossas atividades oníricas, como por exemplo,
antecipando atitudes desonestas de pessoa reputada idônea,
mas a respeito de quem tenhamos, inconscientemente e por
intuição, um suposto de inidoneidade. O sonho, assim, poderá
dar-nos a compreensão do caráter alheio, sinalizando uma
percepção inconsciente de coisas que depois acabem sendo
confirmadas e se concretizem.
De modo análogo, os sonhos podem também adquirir
natureza profética em relação a nós mesmos; figurativamente,
uma pessoa próspera e autossuficiente chega a um estado de
falência econômica, e relata ter sonhado com a hipótese antes
da derrocada, atribuindo isso a fantasias irrealizáveis, e então
não dando importância ao conteúdo sonhado.
Pode-se admitir o caráter admonitório do sonho, onde
seu inconsciente a estaria alertando sobre fraquezas pessoais
capazes de levá-la ao insucesso, como uma desmedida e
intuitivamente sem fundamento e com excessiva confiança em
suas próprias potencialidades no enfrentamento e gestão de
crises; o sonho, produto de seu trabalho subconsciente,
revelava sua verdadeira natureza, onde a confiança excessiva
seria defesa contra o sentido de inferioridade e a busca de
compensações afinal excessivas.
O sonho, em tal hipótese, seria premonitório como uma
advertência no sentido psíquico, mas não objetivo, ao sinalizar
o desastre.

29
3.5 Sonhos criativos

Pesquisas também confirmam a possibilidade de que os


sonhos podem não apenas ser programados para evitar
pesadelos, como também podem ser utilizados na produção de
experiências criativas e artísticas.
É sugerida como técnica inicial,

Formular claramente o desejo de um sonho


determinado. A partir desta formulação
devemos transformar este desejo numa
frase concisa, clara e positiva. Em seguida,
colocar o corpo em relaxamento e num
estado sonolento e descontraído repetir a
frase sobre o sonho desejado várias vezes.
Esta repetição pode ser apenas mental, não
havendo necessidade de falar a frase.
Mesmo que num primeiro momento o
resultado não seja alcançado, é importante
não desistir, porque o trabalho com esta
capacidade é uma técnica a ser aprendida,
que exige tempo e prática. (KEPPE, 2006,
p. 38).

Alguns sonhos criativos se tornaram históricos e podem


ser resenhados.
Entre outros:

Uma grande descoberta foi feita através


dos sonhos pelo professor de assírio
Hermann V. Hilprecht da Universidade da
Pensilvânia. Em 1893, ele permaneceu
acordado até tarde, tentando decifrar os
30
dizeres registrados em escrita cuneiforme
em dois pequenos fragmentos de ágata
descobertos nas ruínas de um templo. Por
volta de meia noite, ele deitou ainda repleto
de dúvidas e sonhou em seguida com um
sacerdote que lhe revelou a origem e todos
os detalhes referentes a esses fragmentos.
O sacerdote dizia ainda para este professor
juntar as peças de determinada forma,
sendo que assim ele confirmaria o
verdadeiro significado destas peças. Disse
ainda que havia uma terceira peça que não
poderia mais ser encontrada. Quando o
professor Hilprecht despertou deste sonho,
confirmou a história contada pelo
sacerdote, juntando as duas peças como o
sonho havia revelado. (KEPPE, 2006, p.
40).

O químico alemão Friedrich A. Kekulé, que pesquisava


a estrutura molecular do benzeno, sonhou com os átomos
agrupados em forma de serpentes que em determinado
momento formaram uma espécie de anel. “Este sonho fez
Kekulé descobrir que a estrutura do benzeno é cíclica e fechada
e esta descoberta revolucionou a química de sua época”. (idem,
pp. 40-41).
Assim com o físico alemão Otto Loewi “que recebeu
em um sonho a inspiração que lhe valeu o Prêmio Nobel de
Fisiologia e Medicina de 1936” (idem, p. 41) e com “o escritor
britânico Robert Louis Stevenson (1850-1894) que produziu a
obra o Estranho Caso do Dr. Jekill e Mr. Hyde (popularizada
em filmes e peças como “O Médico e o Monstro”) inspirado
num sonho”. (ibidem).

31
3.6 Os filósofos, os primeiros psicólogos, os analistas

No direcionamento ao caráter científico da


interpretação, os pensadores sistematizaram sua preocupação
em quatro principais tópicos: o material de que os sonhos são
feitos; as formas que assumem; suas causas excitantes ou
eficientes; sua função biológica ou psíquica, aspecto que só
veio a se tornar destacado nas teorias mais recentes.
Com relação ao “material”, foi afirmado que os sonhos
são compostos por imagens mentais, principalmente visuais,
embora haja forte tendência em acreditar que os sonhos têm um
núcleo sensório, isto é, certa sensação real originada nos órgãos
sensórios do sonhador.
No que diz respeito à “forma”, houve muitas dúvidas,
haja vista a aparente irracionalidade e incoerência dos sonhos.
Com efeito, antes de Freud, ninguém tentou descrever os
mecanismos pelos quais se produz a forma dos sonhos.
Sobre as “causas”, houve a tentativa de explicação
através do estímulo causal dos órgãos dos sentidos, com a
probabilidade da que foi chamada “lei das associações” (o
relâmpago associado a trovão; as feições de uma pessoa
lembrar alguém com quem ela se pareça). A ideia mais prática
era dizer que, no sonho, o indivíduo procura interpretar ou
compreender sensações pelas quais tenha passado, de certa
maneira, assim como ocorre em estado de vigília.
Foram na verdade os estudos de Freud que vieram
revolucionar esse campo de pesquisas, demonstrando que o
sonho tem realmente uma função ou finalidade.

32
4. SONHOS E REALIZAÇÃO DE DESEJOS

4.1 Freud: os desejos sexuais

É associada ao nome de Freud a corrente que adotou a


teoria segundo a qual os sonhos têm um forte conteúdo ligado à
expressão de nossos desejos; como linguagem do inconsciente
(a sede dos desejos reprimidos ou recalcados), essas repressões
e esses recalques é que estariam ligados ao conteúdo do
material sonhado.
Na concepção freudiana, com efeito, a maioria dos
sonhos tem conteúdo de natureza sexual, trabalhando em busca
da concretização de desejos eróticos.
Oriundos do inconsciente, e reprimidos, esses desejos
criam uma tensão que não encontra espaço para livre expressão
durante o dia ou em horas de vigília, o que resulta na descarga
através de uma satisfação em forma de sonho, enquanto o
indivíduo dorme.
Como explicação para o desencadeamento desse
processo, encontra-se o cotejo e o choque entre o princípio do
prazer e o princípio da realidade, visto que as necessidades,
conveniências e dificuldades da vida real nem sempre
permitem que se possa dar vazão à realização dos desejos.
Outra razão para a repressão pode ser o medo.
Esses desejos e esses medos, demasiadamente fortes,
não podem ser de todo reprimidos e acabam emergindo sob a
forma de sintomas (seja por neuroses, seja por atos de
obsessão), seja através dos sonhos, onde terminam se
manifestando em geral disfarçados para evitar a censura do pré-
consciente, vigilante para impedir que surjam na consciência.
Um dos meios de dissimulação para evitar a censura é o
emprego de símbolos e imagens – as quais podem adquirir
33
formas com duplo sentido – assumindo versões aparentemente
inofensivas para fugir a uma referência frontal e direta a tudo
aquilo que fosse vedado pela energia que seria uma espécie de
patrulhamento. Este processo de disfarce consistiria na
“elaboração secundária do sonho”, realizada perante a
vigilância do censor onírico.
A propósito disto, seria esclarecedor anotar o
entendimento segundo o qual a censura, aqui, trata-se da
“função que tende a interditar aos desejos inconscientes e às
formações que deles derivam o acesso ao sistema pré-
consciente-consciente” (LAPLANCHE E PONTALIS, 2012, p.
64), conceito que ainda pode ser aprofundado:

Tem-se notado muitas vezes que a noção


de censura prefigurava a de superego; o
caráter ‘antropomórfico’ desta última já
está bem demarcado por algumas
descrições que Freud fez da censura: entre
a ‘antecâmara’ onde se comprimem os
desejos inconscientes e o ‘salão’ onde
reside a consciência, vela um guardião
mais ou menos vigilante e perspicaz, o
censor. Quando a noção de superego se
delineia, Freud relaciona-a com aquilo que
tinha descrito inicialmente como censura:
‘[...] esta instância de auto-observação é
nossa conhecida, é o censor do ego, a
consciência moral; é exatamente a que à
noite exerce a censura dos sonhos, é dela
que partem os recalques de desejos
inadmissíveis’. (ibidem e p. 65).

Portanto, atuando nos sistemas oníricos uma espécie de


defesa organísmica tendente a burlar a vigilância do censor e
34
sua tesoura, vem exercer sua ação a elaboração secundária,
uma “remodelação do sonho destinada a apresentá-lo sob a
forma de uma história relativamente coerente e
compreensível”. (idem, idem, p. 145), então tendo como meta e
objetivo, melhor explicando,

Tirar a aparência de absurdo e de


incoerência do sonho, tapar os seus
buracos, remanejar parcial ou totalmente
seus elementos realizando uma escolha
entre eles e fazendo acréscimos, procurar
algo como um devaneio diurno, eis no que
consiste o essencial daquilo a que Freud
chamou elaboração secundária ou ainda
‘tomada em consideração da
inteligibilidade’. (idem, ibidem).

Freud também faz distinção entre o conteúdo manifesto


dos sonhos (que provê o material para os símbolos e imagens),
e o conteúdo latente, que é o verdadeiro sentido e significado
dos sonhos. É a separação entre o dito e o não dito.
Nessa linha:

Podemos, assim, explicar superficialmente


um sonho, dizendo simplesmente que
sonhamos com determinada coisa por causa
de um fato que se deu durante o dia; mas
há geralmente uma razão mais profunda
porque foi escolhido esse fato, de entre
muitos outros que se passaram, como
enredo do sonho, pois, em si mesmo, o
incidente poderá ser de pouca importância,
alguém que se tenha visto na rua, uma
ligeira referência no jornal. Mas, para o

35
indivíduo que sonhou, o incidente estaria
lembrando algo pessoal e de certa
importância. (HADFIELD, 1959, p. 29).

Um processo a que o sonho recorre é o deslocamento,


algo importante e cheio de valor, pode ser realmente de menor
importância, enquanto uma questão aparentemente sem valor
pode ter grande significado. Pode haver também o
deslocamento de pessoas, desviando da desaprovação do
censor.
Outro mecanismo é o da condensação, porque o sonho
costuma ser muito breve e a expressão das emoções, reprimidas
através dos símbolos e imagens, abrevia o longo tempo que
seria necessário para um relato completo das revelações
trazidas em forma condensada a ser interpretada:

Os sonhos, à semelhança dos sintomas, são


mais que determinados, de modo que um
sintoma ou símbolo pode representar uma
multiplicidade de ideias e emoções. Na
interpretação dos sonhos, precisamos
descobrir todos os fatos que os símbolos
representam. (idem, p. 33).

Freud, em sua teoria sobre os sonhos, “comungava com


o Talmude (livro da sabedoria judaica), ao sentenciar que ‘todo
sonho que não se interpreta é uma carta que fica sem ser
aberta’”. (ZIMERMAN, 2009, p. 393).

36
4.2 Adler: o impulso de dominar

Embora com outra roupagem, por não receber esta


denominação, a teoria de Adler (1870 - 1937) também tem a
ver com a realização de desejos, que seriam aqueles de
domínio e superioridade, como forma de compensar a sensação
de inferioridade; Adler foi quem criou a expressão “complexo
de inferioridade”.
O impulso de dominar está presente em toda a teoria de
Adler, impulso ligado ao indivíduo e muito comum no sonho
diurno: sonhamos com riqueza, poder, amor e sucesso
profissional.
Aqui, mesmo quando uma ascensão traga sucesso e
mitigue os extravagantes sonos diurnos, a inferioridade
orgânica (fraqueza do corpo ou qualquer outro defeito) faz
extrapolarem as fantasias e a ânsia de domínio, podendo
terminar em distúrbio, sendo essa a raiz dos problemas que
vem se apresentar com os sonhos.
Portanto, enquanto para Freud os sonhos estão
fundamentados em desejos e repressões sexuais, para Adler a
relação é com os problemas de inferioridade e superioridade.
Mesmo um sonho de caráter sexual exprime simbolicamente o
desejo de exercer o domínio sobre alguém.

4.3 Jung – Os sonhos como arquétipos

Enquanto para Freud a função do sonho é a de aliviar


tensões, proporcionando satisfazer desejos recalcados e
proibidos pelo indivíduo, Jung (1875-1931) – concordando
apenas parcialmente – entende que parte do inconsciente pode
estar composto pelas experiências pessoais recalcadas,
37
sustentando haver distinção entre o assim chamado
“inconsciente pessoal” e o “inconsciente coletivo”, composto
por resíduos das experiências de nossos ancestrais, portanto
com caráter universal. Esses resíduos nos sonhos vêm se
manifestar em imagens arcaicas.
Dito inconsciente coletivo, segundo Jung, contém tanto
as memórias das coisas grandiosas da humanidade, como
também dos atos vergonhosos e diabólicos de que foi capaz o
ser humano. Essas representações não são automaticamente
herdadas por todos, não são transmitidas por si mesmas, mas
tão só por suas potencialidades, podendo manifestar-se – ou
não – em determinados indivíduos.
De natureza diferente, essa potencialidade arcaica
diverge dos processos conscientes, sendo completamente
irracional, ilógica, e até por vezes amoral, sendo possível que
esse inconsciente coletivo invada nossa vida consciente,
chegando a condicionar nosso destino. São forças poderosas e
autônomas que podem ter sua emergência nos sonhos.
Assim, para Jung, os arquétipos são definidos como as
formas assumidas pelas potencialidades arcaicas no
inconsciente coletivo, consistindo a aparência ou o molde,
pelos quais essas imagens primitivas vêm a se manifestar.
Podem ser exemplos de arquétipos que aparecem nos
mitos e sonhos: o homem forte, o herói, o salvador, o messias,
o sábio; a mãe terrível, a feiticeira, a deusa vingadora, a
madrasta cruel, o bicho papão (entre outros).
Interessante anotar é que um arquétipo definido por
Jung como “sombra” é a representação de aspecto não
desenvolvido de nossa personalidade, um outro “eu”, o ser
humano historicamente mais antigo, que pode representar a
parte pueril, imatura, de nossa personalidade; às voltas com
circunstâncias demasiado difíceis, o indivíduo tende a regredir,
a ter reações infantis, consistindo isso na própria neurose.

38
Outra forma adotada pelos arquétipos é a da “persona”,
problema comum e causa frequente de neurose, que surge
constantemente nos sonhos e traduz o conflito entre o
verdadeiro “eu” a as máscaras que muitas vezes somos
obrigados a colocar como disfarce de nossa verdadeira
personalidade, para convivermos em nosso meio social. Assim
tentamos ocultar o medo, a indiferença, o ódio ou o desprezo.
Arquétipos bastante significativos são a “anima” – que
nos sonhos do homem aparece em forma feminina, e o
“animus” – que nos sonhos da mulher é representado como
homem.
Todo ser humano tem características masculinas e
femininas, tanto física quanto fisiologicamente. Homens
podem ter o rosto liso, delicado; mulheres podem ter buço, ser
masculinizadas e mandonas.
No indivíduo onde predominam as características do
“macho”, a ”fêmea” tende a ser suprimida no nível da
consciência, e vem aparecer nos sonhos representada pela
“anima”, como arquétipo; do mesmo modo na mulher cujas
características masculinas rudimentares sejam suprimidas
(também no nível da consciência), o “macho” então latente se
expressa pelo arquétipo do “animus”.
Como arquétipos, para Jung a “anima” e o “animus”
são a personificação das funções inferiores, que ligam o “ser”
ao inconsciente coletivo como um todo.
Segundo o psiquismo junguiano, essas funções quando
suprimidas acarretam que a personalidade fique incompleta,
pois as características femininas ou “anima”, no homem,
seriam necessárias ao complemento de sua personalidade,
enquanto o elemento masculino ou “animus” seria igualmente
necessário ao completo desenvolvimento na mulher.
Quando presentes nos sonhos estarão representando a
necessidade de complementos para o cumprimento de nossa
finalidade na vida.
39
Assim, enquanto para Freud o sonho da mulher com um
homem (e vice versa) refere-se apenas a desejos sexuais, para
Jung, indo além, sinaliza a representação, por arquétipo, de
uma parte não desenvolvida de nossa personalidade, parte
necessária ao cumprimento de nossa finalidade na vida,
consistindo esse material um valioso elemento do sonho, por
nos trazer um conhecimento indispensável a nossa realização
pessoal.
Todos nós, pela potencialidade do inconsciente
coletivo, trazemos uma carga do que se poderia chamar uma
“sabedoria antiga”, que pode agir como guia nas questões da
vida, indo além do popular “bom senso”. Pode aparecer isso
nos sonhos mediante o arquétipo do velho sábio, do patriarca,
do pai, indicando aí a presença de uma intuição que pode ser
superior à razão, como orientadora de nossos atos.
Profundamente enraizados no inconsciente coletivo, são
arquétipos que não encontram forma adequada para serem
expressados na linguagem da razão, e que por isso podem
adquirir formas nas histórias de fadas, nos mitos e nos sonhos.
Podem encontrar expressão também na música e nas artes.
Os sonhos nos revelam forças primitivas que jazem no
inconsciente, forças que precisam de manifestação para que
cumpram sua função e se integrem a nossa personalidade.
Pela representação e através dos arquétipos, exprimem
o que se acha reprimido e sufocado em nossa vida, deixando
claros nossos desejos, carências e necessidades.
Para Jung, os sonhos têm um significado teleológico,
apontando para onde nos conduz o espírito de nosso
inconsciente, mostrando o caminho a percorrer.
Os sonhos, portanto, merecem ser interpretados:

De forma teleológica e prospectiva, isto é,


a partir de sua finalidade e função para o

40
desenvolvimento da pessoa [...] Jung
entende que os sonhos possuem uma
função compensatória, em que se
equilibram as funções conscientes e
inconscientes [...] os sonhos acontecem a
partir de uma mitologia personalizada,
onde o sonho é o teatro, enquanto o
sonhador é o ator, a cena, o diretor, o autor
e o público que assiste. Essa mitologia
personalizada acontece porque o nosso
inconsciente estaria sempre produzindo
símbolos, mesmo sem a percepção de nossa
consciência [...] Jung considerava os
sonhos como sendo a auto-representação
espontânea e simbólica da situação atual do
inconsciente, além disso, os sonhos
também revelariam as nossas aspirações
mais profundas. (KEPPE, pp. 2006, 34-35).

4.4 Outras escolas

Melanie Klein (1882 - 1960), precursora da chamada


Escola Kleiniana, sustentou que “o sonho consiste em uma
dramatização de algum conflito, com as respectivas fantasias
inconscientes e angústias, da qual participariam todos os
elementos componentes do self”. (ZIMERMANN, 2009, p.
394).
Nessa linha, pode ser apontado D. Meltzer (1922 -
2004) como autor kleiniano que mais aprofundou estudos sobre
o tema dos sonhos:

Em sua obra Dream Life (1984) Meltzer


concebe que o sonho traduz, sobretudo, as
41
representações simbólicas dos estados da
mente daquele que sonha, além de a
atividade do inconsciente estar presente
indiretamente no dia-a-dia da vida de
vigília. Desse modo, transparece uma
atividade permanente que corresponde às
fantasias inconscientes. Ademais,
discordando radicalmente de Freud,
Meltzer acredita que o sonho é um
processo ativo, que tem uma capacidade
criativa e é gerador de símbolos. Em
resumo, para Meltzer, Dream Life significa
que o script do sonho é o mesmo da vida
consciente, de modo que, na verdade, a
pessoa vive nos sonhos. (idem, ibidem).

Autores que também se afastaram de Freud foram os


que integraram os chamados Psicólogos do Ego, alguns dos
quais chegavam a dizer que “a via régia de Freud já estava
gasta e algo inutilizada, de tanto ter sido transitada, e
enfocaram os sonhos do ponto de vista da estrutura da mente”.
(idem, idem).
Para esses, fatores psicossociais têm maior relevância
que motivações sexuais.
Winnicott (1896 - 1971) e seus seguidores formaram
escola onde destacaram

A noção de espaço-sonho, que corresponde


ao espaço transicional, isto é, o espaço que
existe no sonho pode representar uma
transição entre o mundo imaginário e o da
realidade, assim como também representa a
possibilidade de pensamentos e atos
criativos. (idem, idem).
42
Bion (1897 - 1979), juntamente com os mitos e
pensamentos oníricos, a partir do modelo continente-conteúdo,

Descreve três tipos de sonhos: o


elaborativo, nos moldes descritos por
Freud, o evacuativo (impressões
psíquicas não elaboradas, como
acontece com os psicóticos) e do tipo
misto, que reúne os dois anteriores.
(idem, idem).

Na prática clínica, modernamente, já não se faz a


análise, detalhe por detalhe de cada sonho;

O relato do sonho continua sendo muito


importante porque mostra que a mente do
paciente está tentando elaborar algo,
provavelmente ligado ao trabalho analítico.
Porém, no lugar de simplesmente o
paciente relatar o sonho, à espera de uma
interpretação, os analistas estimulam o
paciente a, conjuntamente com o terapeuta,
buscar um significado dentro de um
contexto mais geral (como seria o sujeito
narrar, desde a sua ótica, um filme, um
livro, um acontecimento, juntamente com
os sentimentos nele despertados). (ibidem,
p. 395).

43
4.5 A teoria da Psicanálise Humanista

Na teoria humanista de Erich Fromm (1900 - 1980), a


Psicanálise passa a ser entendida, segundo Rainer Funk, como:

Psicologia Social Analítica [...] que


substitui radicalmente o modelo freudiano
de homem e a teoria dos instintos
dependente dele por uma outra
metapsicologia: o homem é
originariamente entendido como um ser
social; o inconsciente interessa, em
primeiro lugar, como inconsciente social e
recalcado; a impulsividade do homem
surge pela sua condição humana
contraditória, específica, que se manifesta
nas estruturas de necessidade
características do ser humano, e, cujas
formas de satisfação são sempre
socialmente mediadas. (FROMM, 1990,
Prefácio, p.15).

Quando se trata da teoria humanista, tem-se em mente


que essa “coloca o desenvolvimento do inconsciente social em
primeiro plano na aplicação terapêutica da Psicanálise” (idem,
ibidem), atribuindo-se importância menor à biologia, enquanto
se confere valor maior ao impacto da história, da cultura e da
sociedade, o que significa dizer que – sem ignorar os fatores
biológicos – a personalidade humana é histórica e
culturalmente determinada.
O ser humano, no reino animal, tem a experiência única
de estar ciente de si mesmo e de sua própria finitude na
existência, e por isso paga o preço da ansiedade básica, da
solidão e da impotência, embora dotado da habilidade de

44
raciocinar, tornando-se então o homem capaz de desempenhar
um papel ativo em seu próprio destino.
Nesse contexto – aqui sintetizado para a compreensão
orgânica deste sistema teórico – “Fromm acreditava nas
reminiscências dos arquétipos dos antepassados, porque esta
experiência do passado ontogenético confirma o processo
humanista” (PEREIRA, 2009, p. 173) e, no que se refere ao
entendimento dos sonhos, “os símbolos da luz e da escuridão
tem uma intenção de mostrar os descaminhos da energia
emocional, apontar os desconfortos, as tensões nervosas, os
sintomas”. (ibidem, p. 179).
Portanto, em se tratando de Psicanálise Humanista, a
compreensão deve ser a de que:

Os símbolos do inconsciente são produções


que procuram nos mitos, tradições,
religiões, uma comunicação para designar
outros desejos mais profundos e
importantes para o desenvolvimento da
consciência humana. Os símbolos são
produções desta energia psíquica que são
transformadas em conteúdos imagísticos,
estas imagens explicam quais as emoções e
pulsões que estão reprimidas ou que
precisam de uma realização. (PEREIRA,
2012, p. 42).

Segundo a teoria de Erich Fromm, deve o processo


analítico considerar a cultura, a história, o social e as condições
políticas e econômicas, não se podendo perder de vista que
“saímos de uma categoria da libido sexual ou voltada para o
interior” (ibidem, p. 52), cabendo bem sopesar a ocorrência de
um intenso processo de evolução histórica e cultural
experimentado pela humanidade.
45
Supondo-se dotado, o analista, de formação adequada a
capacitá-lo para entender a natureza humana, sem nenhuma
sombra de dúvida espera-se dele sensibilidade e arte suficientes
para auxiliar o analisando a atingir o autoconhecimento,
superando barreiras e vencendo as neuroses que são poderosas,
e estabelecem defesas cuja superação é indispensável para que
o ser humano seja vencedor, e caminhe na direção de uma vida
onde suas potencialidades e capacidades produtivas possam ser
exercidas em sua integralidade, encontrando seu verdadeiro
sentido na existência e direcionando energias na busca de
realizar a verdadeira felicidade, meta final de todos nós.

5. AS EMOÇÕES NOS SONHOS

Fisiologicamente, durante o sono as inibições do córtex


cerebral ficam isoladas, o que dá ampla liberdade aos centros
emocionais. Com isso, explica-se a amplificação do tom
emocional nos sonhos, podendo mesmo as emoções chegarem
ao exagero.
Esses efeitos exagerados podem levar à dramatização
que conduza o sonhador a realmente viver e participar de
experiências extremas, reproduzindo nos sonhos problemas e
preocupações levadas ao exagero, provocando mesmo efeitos
desagradáveis, como renovar vivências traumáticas sofridas no
passado mesmo remoto e que podem se repetir, até
apavorantes, inclusive com características de ordem moral,
ética ou religiosa, envolvendo valores, mitos ou tabus que
sejam caros ao indivíduo.
A moldagem de nossa personalidade está ligada, muito
mais, a questões subjetivas do que a problemas objetivos, nela
preponderando aspectos ligados fundamentalmente ao nosso
46
psiquismo, as nossas emoções e paixões, como assim pode ser
resumido:

[...] neste olhar cheio de expectativas que o


ser vai moldando sua personalidade [...] É
neste processo de interação, repleto de
emoções tanto de competição, de raiva, de
ódio, de ciúme, de inveja, como também de
amor, de compreensão, de amizade, de
saudade, de proteção, que se forma o
conteúdo do psiquismo humano [...] o ser
traz em si uma síntese do infinito.
(PEREIRA, 2007-a, p. 13).

Nos sonhos, tudo isso é revivido, e, como o


inconsciente não tem outra forma de manifestação, esse caudal
de emoções vem à tona em linguagem própria, através dos
símbolos e imagens, onde “o presente é uma condensação do
passado e do futuro” (ibidem, p. 19), sendo aí que “a
psicanálise surge como uma ciência capaz de desvendar este
segredo”. (idem, p. 20).
Há que ter sensibilidade para abrir e bem interpretar a
carta (Talmude, citado acima), pois um sonho que seja
decifrado de modo correto, sem nenhuma dúvida é de grande
valor para o processo analítico, ao trazer para o nível da
consciência o material represado no inconsciente.
Os sonhos, portanto, através de imagens e simbolismos
próprios, desvendam emoções e revelam material do
inconsciente, expressando pela fantasia importantes soluções
para o equacionamento de problemas, angústias e aflições
humanas.
Conforme Hadfield (1959, p. 87):

47
A função dos sonhos é reproduzir
experiências não solucionadas na vida,
trabalhando para solucionar tais problemas
[...] ela se baseia em outras, populares e
científicas, mas dá aos sonhos um
significado biológico mais importante que
o das demais.

Reproduzindo situações causadoras de preocupação, os


sonhos podem adquirir a forma chamada “de perseverança”,
repetindo dificuldades ou problemas não resolvidos ou
obrigações não cumpridas, o que pode ocorrer também
relativamente à preocupações com o futuro; essas causas
podem ser afastadas do espírito durante o dia, mas no período
do sono, quando a vontade se acha temporariamente inativa,
perseverando no espírito aquilo que houve recusa em pensar
durante o dia, essa perseverança emerge na forma de sonhos,
como revivências de questões não solucionadas ou mal
resolvidas.
Nesse processo de perseverança pode-se identificar nos
sonhos a natureza de se repetir, e a função de auxiliar na
solução de problemas, procurando através das fantasias do
mundo onírico exercer influência sobre as condutas humanas.
Os sonhos são também “uma forma, provavelmente a
mais primitiva, de ideação; nele, as experiências e situações do
dia e da vida se reproduzem na tela do espírito durante o sono,
como imagens, geralmente em forma visual”. (HADFIELD,
1959, p. 93).
Conceitualmente, pode-se entender que “ideação é o
poder de formar imagens e ideias no espírito, à falta de
experiências reais” (ibidem, p. 92), processo que nos “capacita
a resolver problemas, sejam do passado ou do futuro, sem
necessidade de passarmos realmente por experiências”. (idem,
ibidem).

48
Retornando ao olhar da psicanálise humanista, acerca
das emoções e dos sonhos:

A energia psíquica tem sua inteligência


aprimorada por todas suas experiências
acumuladas de bilhões de anos, é através
de sua ontogenia, que todas estas imagens
ou cenas do seu passado podem explicar a
agonia do seu presente ou mesmo antecipar
e prevenir de futuros acontecimentos.
Muitas vezes, o canal por onde escorre a
energia da vida, encontra-se bloqueado e
impede de realizar o seu desejo. Pela
consciência e nas mudanças de atitudes é
possível realizar a metamorfose pessoal,
este mesmo diálogo com as imagens e
símbolos desenvolve uma nova
compreensão sobre o caminho obstruído
pela sua neurose maligna. (PEREIRA,
2009, p. 180).

É nesse emaranhado de imagens e símbolos, sonhos e


emoções a interpretar, que analista e paciente empregam
esforços e vencem resistências, utilizando de forma econômica
as energias da transferência e contratransferência, em busca de
conhecimento e de cura, cabendo salientar: “nada mais
precioso quando ambos, paciente e analista, entendem o
processo do desperdício de energia”. (idem, idem, p. 173).

49
6. PESADELOS

O sonho é espécie, o pesadelo (sonho de angústia) é


gênero.
É um pouco difícil definir diferentemente cada um
deles; poder-se-ia dizer que o pesadelo é um sonho assustador
acompanhado de medo intenso, até mesmo suscitando reações
fisiológicas como transpiração, palpitações, sufocação e
perturbações orgânicas afins.
A fonte dos pesadelos poderia ser encontrada em forças
primitivas de nosso inconsciente coletivo, personificadas em
símbolos e imagens com mensagens destruidoras e que nos
assustem.
Poderia essa fonte ser encontrada em estados
psicopatológicos, como no masoquismo, onde a pessoa é
levada a fazer o que lhe é nocivo:

A pessoa masoquista tem um desejo –


malgrado inconsciente – de sofrer um
acidente, de ficar doente, de ser humilhada.
Na perversão masoquista – onde esse
desejo é mesclado com o sexo e, por
conseguinte, menos perigoso para a pessoa
– o desejo masoquista chega a ser
consciente. Além disso, sabemos que o
suicídio pode ser o resultado de um
impulso avassalador de vingança e
destruição, dirigido contra a própria pessoa
ao invés de o ser contra outrem. (FROMM,
1966, pp. 135-136).

A necessidade de autopunição geradora dessa pulsão


destrutiva voltada contra o próprio indivíduo, não inibe o

50
desenvolvimento de angústia e medo, pela concomitante
atuação das pulsões de autoconservação, que Freud também
chamava pulsões do ego ou interesses do ego, porque “antes de
qualquer outra coisa, atingem exclusiva e diretamente a
sobrevivência do ego”. (ZIMERMAN, 2009, p. 44). E visam
fundamentalmente assegurar a vida, - e que foram por Freud
englobadas com as pulsões sexuais - sob o nome comum de
pulsão de vida.
Havendo então uma evidente dualidade entre a
demanda do desejo e o processo de angústia desencadeado pela
percepção de que a satisfação do desejo ofenderia interesses do
ego, estaria sendo configurada situação eficaz para criar
sensações conflituosas irresolvidas, capazes de suscitar a
ocorrência de pesadelos.
Aspecto inerente ao fisiologismo é que o sono tem
como origem e característica a satisfação de trazer um estado
de repouso a nosso organismo como um todo, isto é, os
indivíduos dormem para ter um alento em face aos problemas
do estado de vigília, numa espécie de fuga do estresse sofrido
enquanto despertos e em atividade, ao passo que nos pesadelos
as pessoas acordam exatamente para fugir aos problemas não
resolvidos no período de sono e aos terrores enfrentados
durante o intentado descanso.
Ernest Jones, referido por Hadfield, sustenta nos
pesadelos a ocorrência de

três características fundamentais: a) medo


apavorante; b) sensação de opressão ou de
peso sobre o peito que intervém, de modo
alarmante, na respiração; c) convicção de
uma paralisia irremediável, com outros
sintomas subsidiários, por exemplo,
palpitações” (op. cit., p. 227).

51
Há traços diferenciais bem marcantes entre um sonho
comum e um pesadelo ou outro sonho angustiante:

Sonhos angustiantes e pesadelos são


reprodução de problemas não resolvidos.
Mas a diferença está no seguinte: ao passo
que os sonhos comuns trabalham para
chegar a uma solução que nos permita
continuar a dormir, nos pesadelos o
conflito é tão sério e o terror tão grande
que, durante a reprodução do problema e
de suas causas horríveis, não é apresentada
solução alguma; disso resulta que a tensão
emocional causa tal aflição que
despertamos. [...] É por essa razão que os
pesadelos oferecem os meios mais diretos
para a descoberta do verdadeiro problema
que perturba a vida do indivíduo. (ibidem,
p. 230).

Nos sonhos comuns, portanto, a tendência é a de que o


problema trazido tende a mudar de forma quando se aproxima a
solução, enquanto o pesadelo tende a repetir-se, sendo corriqueiro
que isso aconteça durante muitos anos, na infância e na vida adulta,
ocorrendo isso quando haja relação com questões arcaicas
irresolvidas.

6.1 Tipos de pesadelos

Assim como ocorre com os sonhos, há teorias tentando


explicar a gênese dos pesadelos.
De um modo geral, são esses agrupados em três tipos
fundamentais, em uma classificação mais clínica do que lógica:
52
a) os derivados de experiências objetivas,
quer da infância, quer da vida adulta;
b) os derivados do medo dos próprios
impulsos, quer sexuais, quer agressivos,
quer do próprio medo, qualquer dos quais
pode ser representado por monstros
horríveis;
c) os que objetivam a sensação de
distúrbios orgânicos e emoções.
(HADFIELD, 1959, p. 231).

Os sonhos, já vimos, expressam uma tentativa de


reviver experiências e dar solução a questões irresolvidas, por
terem sido reprimidas, dissociadas, esquecidas ou até mesmo
recalcadas; quando frustra esse resultado, quando o indivíduo
não alcança suas respostas, as energias psíquicas recorrem aos
pesadelos, sonhos de angústia que se repetem e podem ser
apavorantes, assustadores.
Alguns, segundo as teorias expostas, são mera
reprodução de experiências pretéritas, revolvendo perigos e
situações a que não pudemos reagir e às quais não conseguimos
adaptação.
Podem ser vivências objetivas de temores da vida
adulta, podem ser de ocorrências da infância geradoras de
fobias as mais diversas, como a claustrofobia, a angústia da
separação etc.

A importância de conhecer a natureza de


tais sonhos está em darem eles uma
indicação valiosa para a descoberta da
razão das neuroses; descoberta e revivida a
experiência original, o paciente poderá
então readaptar-se à situação, o que não
53
pudera fazer na ocasião em que ocorrera. O
simples fato de restabelecer a experiência
basta para a cura, não só do pesadelo como,
também, de quaisquer sintomas neuróticos
que possam ter resultado da mesma
experiência, método de tratamento que
Freud denominou catarse ou purgação e ab-
reação. (HADFIELD, 1959, p. 232).

Adquire aqui a mais alta importância a atuação do


terapeuta no processo de análise, onde a correta e boa
interpretação é fundamental ao paciente em suas tentativas em
trazer o material dos sonhos ao nível da consciência.

Todo pesadelo é um sonho no qual a


angústia da morte escapou de seu cercado e
ameaça o sonhador. Pesadelos despertam o
adormecido e o retratam com a vida em
risco: fugindo de um assassino para salvar
a própria vida, caindo de uma altura
imensa, escondendo-se de uma ameaça de
morte ou de fato morrendo ou já morto.
(YALOM, 2008, p. 29).

Quando se trata de pesadelos produtos de experiências


objetivas, é até possível que se reproduzam,

sem que neles haja qualquer significado


sutil e simbólico; trazem seus próprios
problemas, que são bastante sérios e fazem
referência a fatos objetivos. Persistem
porque não pudemos, na ocasião, atender
aos problemas que ficaram reprimidos e
esquecidos; e perturbam-nos o sono, por
continuarem sem solução. (ibidem, p. 233).
54
Relativamente ao equipamento instintivo do animal,
ausente no homem que por isso precisa tomar ele mesmo suas
decisões e enfrentar o perigo do fracasso, “o preço que o
homem paga pela consciência é a insegurança” (FROMM,
1984, p. 75).
Por isso, “necessita de um sistema de orientação que lhe
permita compreender e estruturar o mundo que o rodeia”
(idem, p. 80), mas ainda haveria de sentir-se indefeso “se não
encontrasse laços emocionais que satisfizessem sua
necessidade de ser relacionado e unificado com o mundo
situado além da sua pessoa“ (idem, p. 80).
Sustentando ainda que a pessoa a quem faltam esses
laços raia à loucura, sendo incapaz de ligação emocional com
seu próximo, Fromm vai bem adiante: “a mais fácil e frequente
forma de ligação do homem são seus ‘laços básicos‘ com sua
origem – com o sangue, o solo, o clã, com a mãe e o pai ou
numa sociedade mais complexa, com sua nação, religião ou
classe”. (idem, ibidem).
A falta dessas condições, entendidas na teoria
humanista como básicas à sanidade mental, pode ocasionar
traumas, originados já nas memórias dos primeiros tempos da
infância. Uma vez reprimida a experiência original, a pessoa
não tem meios de adaptar-se à situação, e o sonho de angústia
pode ser a tentativa do espírito para reviver a experiência
original e dar-lhe solução; o medo recorre aos pesadelos
apavorantes que se repetem, podendo adotar forma de sonos
necrófilos (evocando morte e podridão).
Não é, todavia, absolutamente necessário que
experiências objetivas regressivas estejam na base etiológica
dos pesadelos por si sós.
As pessoas, em sua maioria, superam medos infantis
causados por doenças, sufocações, separações e nascimentos
difíceis, sem problemas de maior significação; de regra, o
55
temor tende a desaparecer, podendo persistir caso haja
experiências traumáticas cumulativas, capazes de aguçar a
sensação de insegurança e medo, inclusive se houver
associação com questões morais, como a violação ao tabu do
incesto, nos casos de abuso sexual praticados na esfera
parental, causa de recalques da mais acerba gravidade.
São hipóteses onde o paciente, durante a análise, revive
aterrorizado todo o processo, sofrendo o forte impacto de
emoções capazes de produzir reações fisiológicas como
taquicardias, palpitações e sudorese, o que nada deverá escapar
à observação atenta do analista, em sua atividade de interação
com o analisando e no uso habilidoso da atenção flutuante.
Outra formulação sugere ainda que possa haver, quanto
à motivação inconsciente, outro tipo, que seriam os pesadelos
derivados do medo dos próprios impulsos, categoria onde

já então passamos dos pesadelos que


representam meras reproduções de
horríveis experiências objetivas para
aqueles em que tememos nossos próprios
impulsos, especialmente de cólera, de
sensualidade e do próprio medo, qualquer
um dos quais os pode criar, por causa das
consequências reais ou ameaças que podem
advir, sendo tais “consequências” tomadas
de algum temor objetivo e verdadeiro. Mais
ainda, qualquer desses impulsos perigosos
e, por isso mesmo, reprimidos, pode vir a
ser projetado, objetivado e personificado na
figura de um monstro [...] de uma espécie
puramente imaginária e simbolizando, de
certo modo, a própria emoção.
(HADFIELD, 1959, p. 239).

56
Em tais casos, a figura monstruosa, assustadora,
consiste ela mesma a projeção e a imagem dos próprios
sentimentos represados; são impressões tão fortes que delas
também ocorrem perturbações fisiológicas, palpitações,
paralisia etc., consistindo forças espontâneas, ativas e potentes,
capaz de dominar a pessoa fazendo-a sentir medo. Indivíduo
sem fase infantil não tem sobre elas o mesmo domínio de que é
capaz um adulto e por isso, em crianças, ocorre que tais
sensações são capazes de surgir então como forças
esmagadoras, por vezes destruidoras.
Constituem experiências desagradáveis rejeitadas e
consideradas importunas, e, pela recusa do ser em acolhê-las
como suas, acabam reprimidas, consideradas externas,
separadas do ‘self’.
Uma última categoria é a dos pesadelos que objetivam a
sensação de distúrbios orgânicos e emoções, que parecem vir
da projeção de sensações orgânicas, envolvendo energias
organísmicas direcionadas a produzir mecanismos repressores
de paixões e impulsos – até mesmo autodestrutivos ou
masoquistas – podendo abranger sensações de erro, angústia e
culpas.
São tais pesadelos, considerados ligados de modo muito
prático com a vida do dia a dia, tendo afinidades com a geração
de neuroses ao reproduzirem experiências diárias, mas com
emoções mais vivas e mais intensas que as da vivência real
reproduzida, muitas vezes até exagerando na veemência das
emoções revolvidas, o que se explicaria pelo fato de ficarem
temporariamente inativas nossas inibições durante o sono,
situação que pode transformar temores diurnos em terrores
noturnos.

57
6.2 Sonhos, pesadelos e neuroses

As neuroses, a cada passo, vieram sendo abordadas


como fenômenos de íntima relação com nossos sonhos e
pesadelos, havendo conexões bem próximas entre a linguagem
críptica dos devaneios oníricos humanos e os sintomas
avaliados em psicanálise para o tratamento dos distúrbios
neuróticos, traumas, recalques e materiais dessa natureza.
Com causas psicogenéticas e não orgânicas, tais
manifestações – que até poderiam ser chamadas psiconeuroses
– têm uma amplitude verdadeiramente panorâmica, podendo
guardar associação aos sintomas como adições e compulsões,
histerias, fobias, perversões, obsessões e toda uma gama de
questões que acabam comprometendo a saúde do indivíduo, e
minando seu equilíbrio em face às exigências de uma vida
orientada ao pleno potencial de sua produtividade e à
felicidade.
A neurose e o sonho se originam inconscientemente,
resultam de questões mal equacionadas ou não resolvidas e
expressam o esforço organísmico para encontrar uma solução,
sendo então usual o emprego do material dos sonhos no
tratamento dos distúrbios neuróticos: derivam as neuroses, de
fontes do inconsciente, do qual os sonhos são um veículo ou
linguagem, constituindo sua interpretação um utilíssimo auxílio
na descoberta de lembranças perdidas, junto a outros métodos e
instrumentos utilizáveis pelo analista, como os atos falhos,
chistes, lapsos e a livre associação de ideias.
Embora muitas pessoas consigam manter um bom nível
de equilíbrio para enfrentar as questões diárias da vida humana,
é quase certo que ninguém se encontra inteiramente livre de
sintomas neuróticos.
Casos há em que o conflito fundamental entre os
impulsos naturais do “ego” irrompem e colidem em revolta
58
contra o “super ego”, representado pelas imposições morais da
sociedade ou dos próprios indivíduos. Quando são
demasiadamente fortes as forças repressoras, o embate é de tal
ordem que os impulsos irrompem através de uma neurose, que
é meio encontrado por nossas energias internas para acomodar
os nossos ímpetos deflagrados por emoções e desejos
represados e insatisfeitos.
Essas emoções e desejos sufocados e até recalcados
podem ser das mais diversas ordens, como a carência de amor e
proteção, assoberbados por medo e raiva, no caso de violência
e abusos sofridos na infância; podem ter a ver com instintos
sexuais reprimidos; podem estar relacionados a temas egóicos
de natureza narcísica ou simbiótica etc.
A característica de uma neurose é que ela sempre tem
como causa uma desarmonia entre o indivíduo e seu próprio
“self”, nunca um conflito entre o homem e seu meio ambiente,
conquanto até possa ser estimulado esse conflito por aspectos
morais da sociedade circundante, servindo como exemplo o
caso de uma criança que desenvolva a sensação de abandono e
desamor quando se sinta rejeitada ao nascer seu irmãozinho; “é
o que Freud chama conflito endopsíquico”. (HADFIELD,
1959, p. 266).
Os sonhos, como linguagem do inconsciente humano,
costumam evocar – em busca de solução – as experiências
causadoras de nossas aflições, experiências que ao serem
reprimidas produzem os sintomas que a neurose procura
também solucionar, mas desenvolvendo mecanismos utilizados
na defesa dela, neurose.
Tendo ambos – sonhos e neuroses – causas comuns pela
origem inconsciente e pela tentativa de resolver problemas não
solucionados, buscam ambos encontrar a estabilidade vital
através da homeostase, mas desde esse ponto divergem,
porquanto na neurose há uma busca de acomodação das
dificuldades por meio de defesas e represamento do segredo no
59
inconsciente, enquanto nos sonhos e durante o sono esses
temas e questões são projetados na consciência, mesmo que em
linguagem própria, de forma críptica através de símbolos e
imagens, burlando as forças repressoras cuja vigilância está
momentaneamente inativa, para desvendar e definitivamente
buscar solucionar os problemas que a neurose tenta acomodar.
Daí se explica a função terapêutica dos sonhos no
tratamento das neuroses, porque o material sonhado, libertando
emoções reprimidas, contribui para fazer conhecidas as causas
dos conflitos interiores dos indivíduos, concorrendo para o
restabelecimento da saúde mental e o encontro da felicidade,
verdadeira razão de viver para o ser humano, consistindo
mesmo na realização máxima da personalidade.
Em se tratando do ser humano, não se deve perder de
vista importante vetor de nosso psiquismo:

quanto maior o estado de consciência


maior a capacidade de refletir sobre sua
própria realidade e a dos outros, esta
flexibilidade viabiliza uma maior
aproximação com a realização de seus
objetivos. [...] O homem no seu estado pré-
histórico desenvolveu algumas habilidades
no seu processo de evolução humana, mas
ainda se encontra arraigado em algumas
ideologias, onde seus comportamentos e
atitudes manifestam o estado primitivo de
suas emoções básicas. [...] A grande
maioria das atitudes e respostas humanas
são oriundas de um estado de
inconsciência. (PEREIRA, 2006, pp. 259-
260).

É sobre esse estado de inconsciência que se debruça a


psicanálise, na pesquisa das pulsões que dão razão anímica a

60
nossos atos na existência, motivações que muitas vezes se
escondem soterradas por traumas e repressões, tudo encoberto
por neuroses cujas defesas é preciso desbravar e vencer,
trabalhando os sintomas.

6.3 A interação na clínica

Numa síntese de tudo quanto até agora examinamos,


poderíamos afirmar que “um sonho é a elucidação dos
confrontos possíveis entre a fantasia e a realidade”. (PEREIRA,
2009, p. 176).
No âmbito da psicanálise humanista, há o entendimento
de que o processo de análise também serve para o
desenvolvimento das potencialidades pessoais do homem,
consistindo “suporte imprescindível para compreender tudo
aquilo que tornou o homem um ser humano”. (idem, p. 172),
por isso que durante a análise deve haver um planejamento, “o
analista, num sentido mais amplo e geral, pode desenvolver
conjuntamente com o paciente um projeto mais audacioso e
realizador de seu potencial criativo”. (idem, ibidem).
Em sede humanista, ademais, tamanho é o relevo dessa
ordem de entendimento, que a exata compreensão do tema até
mesmo transcende, indo bastante além dos limites tracejados
para a psicoterapia clínica, bastante além daqueles relacionados
à atuação do analista em seu enquadre de trabalho.
Vejamos:

[...] a linguagem simbólica é uma língua


por direito próprio – de fato, a única língua
universal jamais criada pela raça humana –
então o de que se trata, deveras, é de

61
entendê-la, e não o de interpretá-la, como
seria o caso de um código secreto
elaborado artificialmente. Creio ser essa
compreensão importante para toda pessoa
que queira pôr-se em contato consigo
mesma, e não exclusivamente para o
psicoterapeuta que deseje curar distúrbios
mentais. (FROMM, 1966, p. 7).

Do cotejo entre todos esses valores substantivos de


ordem psíquica, desponta a imensa relevância do material dos
sonhos (e o confronto fantasia versus realidade), e sua riqueza
como diretriz capaz de conduzir ao pleno entendimento de
nossa humanidade e realização da potencialidade e criatividade
dos indivíduos, objetivo final da terapia na clínica humanista.
Para correta leitura desse material e boa compreensão
do significado do funcionamento inconsciente do ser, é
essencial o bom manejo da interpretação.
Fundamental compreender a essencialidade da
interpretação – como instrumento manejado pelo analista no
processo terapêutico – na busca da imagem do homem,
expressada pela fantasia dos sonhos através de símbolos, cujo
significado é imperioso conhecer:

Símbolo é, pois, a unidade perdida e


refeita, podendo essa junção de duas
metades ser entendida, se usarmos um
referencial lacaniano, como equivalente ao
jubiloso encontro da criança com a
totalidade de sua imagem refletida no
espelho. No referencial kleiniano, é
fundamental a passagem exitosa pela
posição depressiva para a aquisição da
capacidade de simbolizar. [...] É o
progressivo processo da capacidade
62
simbólica que vai possibilitar a formação
da linguagem verbal (a palavra é um
símbolo, talvez o mais nobre de todos), dos
jogos e brinquedos criativos, assim como a
formação de sonhos, em uma escalada
crescente, até atingir a capacidade do
pensamento abstrato. (ZIMERMAN, 2009,
pp. 387-388).

Na psicanálise, o significado das imagens tem


transcendental relevância, daí o entendimento de que na técnica
analítica

a interpretação dos sonhos, entre outros,


permite ao analisando trazer para o campo
da consciência algo que ele não entendia,
mas sentia o desconforto [...]. A
interpretação das imagens, o nível de
compreensão do porque elas estão
internalizadas, serão responsáveis pela
formação do EU. Tanto aquele que observa
como aquele que cria e materializa, só
estarão construindo algo positivo se
compreenderem a dinâmica que
inconscientemente comanda essas ações,
não deixando que a fantasia se apresente de
forma incontrolada. (MELO, 2010, pp.
282-283).

Os sonhos, cuja forma críptica e natureza efêmera e


fortemente dissimulada fazem deles um instigante desafio ao
trabalho do analista, podem contribuir de modo inestimável
para uma terapia eficaz, auxiliando a desvendar os mais
profundos meandros do inconsciente, colaborando para a

63
identificação, clarificação e solução de problemas. São
considerados bastante úteis pelos psicanalistas.
Ideia sem fundamento na prática psicoterápica, contudo,
seria a de que um sonho ou pesadelo possa ser interpretado de
maneira exaustiva, isto é, completa e precisa, sem margem a
nenhuma elasticidade ou variação, sem nenhuma variante de
explicação.

Freud fez uma tentativa heroica e celebrada


de uma interpretação total na sua obra
pioneira Interpretação de Sonhos (1900),
na qual ele analisou minuciosamente um de
seus sonhos referente a uma mulher
chamada Irma, a quem ele tinha
encaminhado a um amigo e colega para
uma cirurgia. Desde a publicação do sonho
de Irma, muitos teóricos e clínicos
propuseram novas interpretações e, mesmo
agora, cem anos depois, perspectivas
inéditas sobre aquele sonho continuam a
surgir na literatura psicanalítica. (YALOM,
2006, p. 200).

Para que tal possibilidade, a da pluralidade de


interpretações, bem seja entendida, resta conveniente acentuar
a ocorrência da sobre determinação, ou seja, “o fato de uma
formação do inconsciente – sintoma, sonho, etc. – remeter para
uma pluralidade de fatores determinantes” (LAPLANCHE E
PONTALIS, 2012, p. 488), o que pode acontecer quando “a
formação considerada é resultante de diversas causas [...] ou
remete para elementos inconscientes múltiplos que podem
organizar-se em sequências significativas diferentes”. (idem,
ibidem).

64
Sempre segundo a teoria freudiana (sonhos como
expressão de desejos), em havendo, a sobre determinação por
sua feita pode proporcionar a sobre-interpretação:

termo utilizado diversas vezes por Freud a


propósito do sonho para designar uma
interpretação que se apresenta
secundariamente, quando já foi fornecida
uma primeira interpretação, coerente e
aparentemente completa. A sobre-
interpretação encontra a sua razão de ser
essencial na sobre determinação. [...] Os
sonhos parecem ter frequentemente mais
do que uma significação. (LAPLANCHE E
PONTALIS, 2012, pp. 489-490).

As memórias de nossos sonhos tanto podem surgir


inspiradas em impressões e vivências recentes, quanto podem
também buscar motivação em experiências mais primitivas de
nossa infância, aí procurando detalhes que em nosso estado de
vigília jamais seriam lembrados.
Composto com base em princípios arraigados em nosso
inconsciente segundo processos psíquicos que tenhamos
internalizado em diferentes momentos da vida, portanto, com
significação diferenciada, o material onírico, ao aflorar, poderá
estar demandando diversas interpretações, cada qual
perquirindo sobre as diversas possibilidades que esse material
pode estar trazendo em sua mensagem, daí a perspectiva da
sobre-interpretação.
Quando surja essa sobreposição nas motivações de um
sonho, quando se depare o analista com um verdadeiro ponto
de sombra, um nó apertado que não se deixa desatar, quiçá
esteja aí o que Freud simbolizou como a imagem do “umbigo
do sonho” (LAPLANCHE E PONTALIS, 2012, p. 489), onde
65
os pensamentos do sonho se ramificam por todos os lados na
rede do universo mental do sonhador, para que o verdadeiro
desejo do sonho surja num ponto mais compacto desse
entrelaçamento.
Vejamos ainda outros ângulos da questão clínica.
No curso do processo da terapia, já está visto, aspectos
importantes do psiquismo do paciente costumam surgir através
de seus sonhos, sendo digno de nota que os devaneios oníricos
das noites mais recentes forneçam associações mais produtivas
que os mais antigos; atribui-se ao primeiro sonho do analisando
a qualidade de um documento ímpar e de valor inestimável,

porque o tecelão de sonhos no inconsciente


do paciente ainda é ingênuo e está com a
guarda baixa [...]. Mais tarde, na terapia,
quando a habilidade do terapeuta de
interpretar os sonhos se tornar evidente,
nossos sonhos tornam-se mais completos e
obscuros. (YALOM, 2006, p. 213).
Enriquece acrescentar lições da mais absoluta
pertinência, aduzindo ser verdadeiro que “na psicanálise
avaliaremos a interpretação simbólica sobre os devaneios da
sugestão pela emoção, enxerga-se o que não existe, as imagens
são invisíveis”. (PEREIRA, 2011, p. 7).
É no campo analítico que se estabelece o verdadeiro
contato com a inteligência da vida, ao efeito de estabelecer o
diálogo real com a racionalidade humana, cabendo nesse
espaço “analisar a relação entre as duas funções, emoção e
cognição, porque para entender a etiologia de uma neurose ou
da doença psíquica, devemos levar em consideração as
consequências destas influências”. (idem, p. 60).
Sobressai, no instrumental do analista, sua habilidade
na arte de compreender a linguagem dos sonhos:

66
A fantasia precisa das duas instâncias, a
emoção e a reflexão, ambas tem a mesma
origem, precisam distorcer a realidade para
viver aquela instância de prazer. Quem
possui dificuldade de encontrar a satisfação
na prática do cotidiano, busca na
compensação um meio de remediar sua
necessidade. Toda e qualquer atitude tem
como finalidade realizar algum tipo de
desejo, independente de ser consciente ou
inconsciente, e quando o bloqueio é
insuperável, procura na fantasia o
substituto daquilo que não é possível viver
na realidade. (ibidem, p. 61).

Abstraídas quaisquer questões pertinentes a recalques,


neuroses e todo tipo de conotações de natureza patológica ou
psicopatológica, o sonho se integra em nossa humanidade
como um fenômeno universal, tanto na realidade de pessoas
doentes como de indivíduos ditos sadios, compondo
importantes comunicações de nós para nós mesmos, expressivo
destarte o alerta de Erich Fromm já antes referido, ao asseverar
que, em se tratando da linguagem dos sonhos, “a compreensão
é importante para toda pessoa que queira pôr-se em contato
consigo mesma”. (FROMM, 1966, p. 7).
De tudo isso, sobressai a enorme valia do
autoconhecimento como suporte para a qualidade de vida e a
sanidade mental das pessoas, sobrelevando considerar o quanto
é expressivo o adequado manejo e o bom domínio da arte de
interpretar e compreender a linguagem simbólica dos sonhos,
que também deve compor o arsenal do analista, para – em
conjunto com os demais instrumentos terapêuticos utilizáveis –
atingir a finalidade humanista de prestar seu tributo não apenas
às questões de saúde, mas igualmente e em paralelo

67
contribuindo como instrumento educativo direcionado a uma
vivência mais saudável, prazerosa, amorosa e produtiva na
direção de encontrar a felicidade.
Buscando o ensinamento da experiência na clínica da
terapia analítica, podemos nesse campo encontrar registros
bastante didáticos, como por exemplo:

Sonhos – use-os, use-os, use-os. Por que


tantos jovens terapeutas evitam trabalhar
com sonhos? Meus supervisionados me dão
várias respostas. Muitos se sentem
intimidados pela natureza da literatura do
sonho – tão volumosa, complexa,
misteriosa, especulativa e controversa. Os
estudantes frequentemente ficam
inebriados pelos livros sobre símbolos em
sonhos, e pelos eflúvios dos debates
cáusticos entre freudianos, junguianos,
gestaltistas e visionários. (YALOM, 2006,
p. 199).

Tem-se como assentado que a prática da Psicanálise não


pode acontecer sem a presença do tripé composto pela teoria,
análise e supervisão, valores que sobressaem e ficam bem
salientes em importância quando se trate de exercitar a
verdadeira arte em que consiste a atividade analítica no campo
da interpretação dos sonhos, paradigmática no campo da
interpretação analítica.
Yalom, em seu alerta, sem nenhuma dúvida está
remetendo as atenções exatamente para esse tripé, alertando
para as falsas impressões que podem ser colhidas com base em
estudos não bem direcionados, como também salientando a
importância da supervisão adequada a que deve se submeter o
analista, parecendo óbvia nesse contexto a indispensabilidade
68
da análise pessoal que, não apenas ensina a tirar proveito do
trabalho com sonhos, mas que também por isso fundamenta a
ação do terapeuta eficiente, de quem não se espera sentimentos
como frustração ou desestímulo perante a natureza críptica,
extravagante e dissimulada dos sonhos.
Por isso:

Considero a desatenção aos sonhos uma


grande lástima e uma enorme perda para os
pacientes de amanhã. Os sonhos podem
oferecer uma ajuda inestimável numa
terapia eficaz. Representam uma
reformulação incisiva dos problemas mais
profundos do paciente, embora numa
linguagem diferente – uma linguagem de
imaginário visual. Terapeutas com grande
experiência sempre confiaram em sonhos.
(idem, ibidem).
Convém que se tenha em mente a ocorrência de muitas
e equivocadas concepções sobre a psicoterapia analítica, muitas
vezes permeadas pela fantasia, que até envolve conceitos
ligados ao misticismo e outros enganos, o que indica ser
necessário, habilidade e precisão científica para um adequado
enfrentamento do tema perante o analisando.

7. CONCLUSÕES

Prisioneiro de ansiedades básicas e – segundo a teoria


humanista – condenado à consciência de si mesmo e
assoberbado pelas dúvidas existenciais, e perplexidades
próprias de sua fragilidade decorrente de sua desfuncionalidade
perante as exigências da vida, o homem encontrou na vida em
69
sociedade, num regime de recíproca interdependência e de
mutualidade, o meio de sobreviver e realizar-se,
transformando-se a si mesmo enquanto também em seus
estágios evolutivos ao longo dos séculos e milênios, também
promoveu alterações e transformações em seu meio ambiente e
no ecossistema onde vive e interage.
Nessa constante perseguição ao ideal de aperfeiçoar-se
enquanto também imprimia aprimoramentos ao ambiente
natural, impelido por curiosidade inata, e desejoso de encontrar
respostas para seus dilemas existenciais, pode-se dizer que
praticamente desde o início da história da humanidade, houve
especulações acerca do inconsciente, tema que sempre
despertou o interesse tanto de místicos quanto de filósofos, e
até mesmo de médicos e escritores, curiosidade mais aguda na
medida exata da maior especialização intelectual do “homo
sapiens” ao longo da história.
Tais movimentos ficaram arcaicamente cingidos à área
do empirismo, sem ultrapassar os limites da experiência e da
simples observação dos fatos, portanto sem o rigor do caráter
científico, situação que perdurou até o século passado, a partir
do nascimento da Psicanálise, no final do século XIX, mais
precisamente desde os rudimentos de experiências clínicas
inicialmente realizadas a partir do tratamento e estudo das
histerias, de início sem muita precisão ou emprego de técnicas
bem definidas.
São estudos e experimentos que primeiro estiveram
focados no método catártico, progredindo para a hipnose até
que, com Freud, foi estudada, trabalhada e desenvolvida a
técnica ainda hoje conhecida como o método da livre
associação de ideias, modelo através do qual se obtém acesso
aos mecanismos anímicos inconscientes (processos que
também se revelam e se desnudam através de atos falhos,
lapsos e chistes).

70
Tudo isso, concluímos, é conexo com a temática
relacionada ao estudo dos sonhos, porque foi exatamente com o
nascimento da ciência da Psicanálise que também o tema
relativo aos estudos sobre os sonhos e sua interpretação por
igual saiu do terreno da indagação ou mera especulação e da
observação empírica, e do misticismo, para afinal adquirir os
reconhecidos contornos de uma metodologia sabidamente
capaz de – agora com foros de apurada técnica e arte primorosa
– desvelar o sentido oculto e o significado de nossas
divagações oníricas, constituindo valioso instrumento para a
compreensão dos enigmas e dos fenômenos do homem.
Pelo valor que sempre lhes foi reconhecido, mesmo em
sua evolução ao longo dos períodos de obscuridade,
despertando tantas indagações e variantes interpretativas como
as anotadas ao longo deste trabalho é que os sonhos,
desafiando a capacidade humana de entendimento, afinal
convergiram para o âmbito da verdadeira cientificidade,
caminhando, com a evolução enfim experimentada pela
Psicanálise, na direção – mesmo – de consolidar a teoria e
integrar os métodos da atuação analítica de que, pode-se dizer
com segurança, a interpretação dos sonhos é um capítulo
paradigmático.
Perante todos esses fundamentos em que veio assentado
o presente ensaio, podemos concluir que na área das expressões
oníricas e sua interpretação (hoje de base científica) – como de
resto em todas as demais esferas do conhecimento – o homem
da atualidade já não pensa como seu ancestral da antiguidade,
motivado como historicamente foi sendo ao longo dos séculos
a evoluir de modo permanente, muitas vezes até mesmo
confrontando e superando crenças, tabus, leis e regras de índole
social ou moral, instigando os estudiosos e pesquisadores à
busca e ao desbravamento do saber em suas mais variadas
modalidades, em moldes segundo os quais o ser humano – no
exercício de seus potenciais e criatividade – persiga objetivos,
71
e obtenha suprir seus anseios de exercer em toda plenitude as
condições de sua humanidade.
Por idênticas razões, podemos também concluir pela
essencialidade da psicoterapia analítica como ferramenta para o
efetivo encontro do homem com seus reais objetivos perante
realidades existenciais, para que enfim consiga romper as
barreiras de seus traumas, de suas frustrações e repressões,
identificando sintomas e então podendo utilizar o
autoconhecimento para com ele vivenciar a realidade do amor e
da integração com o outro, atendendo a suas necessidades
básicas e tornando concreto e efetivo o encontro da felicidade,
a verdadeira meta do ser humano na existência.
Ciência que guarda em si tamanha significação para a
qualidade da vida humana, transcendendo para muito além dos
aspectos ligados ao corpo físico ou atinentes a questões
orgânicas, detendo-se ao revés no aprimoramento cognitivo do
ser, no trabalho de suas emoções em busca de atingir sempre
maior produtividade e aprimoramento de potencialidades, a
Psicanálise em verdade, acima de continuar ocupando espaço e
reconhecimento no âmbito da saúde pública, haverá de ainda
apossar-se de merecido relevo e elevado destaque na esfera das
ciências ligadas à educação e à cultura, no seio de uma
sociedade cada vez mais competitiva, afastada dos padrões da
natureza e de conseguinte, cada vez mais estigmatizada pelas
angústias e pelas neuroses.
O método propositivo à realização deste ensaio prevê a
inserção dele num mais amplo conjunto de estudos
desenvolvidos sobre a mesma temática dos sonhos, prendendo-
se este a uma introdução apenas, realizada tanto quanto
possível com desejável abrangência, mas sem perder de vista a
economia no desenvolvimento da matéria, como afinal foi o
objetivo aqui visado.

72
BIBLIOGRAFIA

ETCHEGOYEN, R. Horacio. Fundamentos da Técnica


Psicanalítica. 2a. edição ampliada, reimpressão 2008, tradução
de Francisco Frank Settineri. São Paulo: Artmed Editora S. A.

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Tradução de Octávio Alves Velho, 3a. edição. Rio de Janeiro:
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_____________. Do Ter ao Ser. Obras Póstumas, tradução de


Lúcia Helena Siqueira Barbosa. São Paulo: Editora Manole
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Gontijo de Carvalho, IBRASA – Instituição Brasileira de
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KEPPE, Marc André R. Curso de Psicanálise. São Paulo:


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73
LAPLANCHE, Jean, e PONTALIS. Vocabulário da
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MELO, Ana Paula Batista de, “et all”. Psicanálise Humanista


Teoria e Clínica. Organizadores Carla Froner e Salézio P.
Pereira; Santa Maria: ITPOH, 2010.

PEREIRA, Salézio Plácido. Considerações sobre a


Psicanálise Humanista de Erich Fromm. Santa Maria:
ITPOH, 2006.
_______________________. O Dilema do Ser Humano na
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_______________________. O Significado Inconsciente das


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_______________________. A Teoria e a Prática Clínica de


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_______________________. Pulsão de Morte. Santa Maria:


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_______________________. A Interpretação dos Sonhos.


Santa Maria: ITPOH, 2012.

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de Informática da SUCESU em 24.8.1993, “in”
http://chaves.com.br/TEXTALIA/MISC/TOFFLER.htm,
consulta em 23.02.2012, 16,57 horas;

74
YALOM, IRVIN D. Os Desafios da Terapia. Tradução Vera
de Paula Assis, 1a. ed. Rio de Janeiro: Ediouro Publicações S.
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_______________. De Frente para o Sol – Como Enfrentar o


Medo e Superar o Terror da Morte, tradução de Daniel Lembo
Schiller. Rio de Janeiro: Agir Editora Ltda, 2008.

ZIMERMAN, David E. Vocabulário Contemporâneo de


Psicanálise. Porto Alegre: Artmed, ed. 2001, reimpressão
2009.

75
COMO INTERPRETAR OS SONHOS

Suzana Pienis.

RESUMO: Este artigo tem como propósito fazer uma pesquisa


bibliográfica qualitativa para sanar dúvidas e compreender
como o analista pode interpretar os sonhos de seus pacientes no
consultório psicanalítico. O sonho é importante para todos os
indivíduos, principalmente para aqueles que estão dispostos a
fazer análise, sem duvida o analista precisa de muito estudo e
pesquisa da mente inconsciente, pois os conteúdos simbólicos
são produtos desta linguagem organísmica. Os sonhos são
importantes tanto para analista quanto para paciente, pois o
mesmo proporciona uma maior compreensão e
autoconhecimento de ambos os envolvidos. Falar de sonho é
importante, mas penso que não posso deixar de abordar
questões como a fantasia, as emoções, os símbolos, as imagens
presentes nos sonhos, sendo assim tornam-se importante para
uma excelente interpretação na psicanálise. Considero de
inteira importância o trabalho dos sonhos visto que as
dificuldades podem ser analisadas durante o tratamento na
psicanálise, o sentido, significado das emoções e pulsões
latentes dos sonhos se torna fundamental para a recuperação
psíquica dos pacientes.

Palavras-chave: Sonho. Pacientes. Interpretação. Fantasias.


Emoções. Imagens.

76
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
Com a convicção que este tema seja de grande
relevância, visto que muitos pacientes não compreendem seus
sonhos, pretendo com esse artigo esclarecer um pouco mais as
questões de como interpretar um sonho.
Por intermédio de pesquisa bibliográfica qualitativa
utilizarei vários autores, entre eles Sigmund Freud, Fromm e
Jung, dentre outros; sendo que considero a importante
contribuição para o presente tema em pesquisa, trago estes
autores para fazer uma comparação de suas ideias e teorias, e
para o leitor ter conhecimento sobre as contribuições deixadas
por estes ícones da psicanálise no trato com o trabalho de
interpretação dos sonhos.
Trabalharei neste artigo questões como os conceitos, os
procedimentos, símbolos que cada paciente trás em seus
sonhos, bem como fantasias, emoções, técnicas utilizadas para
uma boa interpretação, elaboração secundária e manifesta, os
deslocamentos, as condensações, entre outros, visto que
considero de inteira relevância para saber interpretar os sonhos.
O sonho seria uma manifestação do nosso inconsciente,
através dos sonhos é possível revivermos fatos que tenham
ocorrido durante o nosso cotidiano, ou algo que desejamos
conscientemente. Através dos sonhos é possível trabalharmos
com as nossas emoções sentimentos e fantasias.

2. A ORIGEM DOS SONHOS

“A Interpretação dos Sonhos é a via real


que leva ao conhecimento das atividades
inconscientes da mente”.
(Feud., S. Obras
Completas, vol. V, cap. VII)
77
Segundo Júlia Parker (1932), em uma pesquisa
realizada em 1952, foi possível observar que em certos
momentos do período de sono, os olhos se movem sob as
pálpebras fechadas como se estivessem vendo figuram em
movimento. Este movimento rápido dos olhos foi denominado
REM em inglês (Rapid Eye Movement), durante o sono REM
ambas, temperatura do corpo e do fluxo sanguíneo no cérebro
aumentam.
Também foi descoberto que quando os indivíduos são
acordados nesta fase eles geralmente lembram-se do que
estavam sonhando. Já os da fase NREM (não REM) muitas
vezes não recordam o que estavam sonhando, pois nesta fase
eles ficam inconscientes, em repouso total.
Segundo Zimerman, apud, M. Klein, (1999, p. 178), “o
sonho consiste em uma dramatização de um conflito, com as
respectivas fantasias inconscientes e angústias, do qual
participariam todos os elementos componentes do self”.
Penso que o sonho não aparece sem ter um significado
inconsciente para o sonhador, ele mostra-se através de
fantasias, imagens, símbolos e de conteúdos reprimidos.
Ao longo de nossas vidas, usamos dos sonhos para
transmitir algo inconsciente para nossa mente consciente,
muitas vezes quando crianças, ou até mesmo adultos.
Muitas das experiências traumáticas da infância e nos
relacionamentos com os amigos e familiares a pessoa realiza
um processo de recalque, e aquelas memórias esquecidas
tornaram-se um empecilho para a vida do paciente, nos sonhos
ocorre a metamorfose da inteligência da vida que se transforma
em símbolos e imagens.
No entanto o sonho contribui para que possamos
descobrir o que inconscientemente este sonho tenta nos
transmitir, através de imagens, símbolos, fantasias, mas para
78
que possamos trabalhar com o nosso inconsciente, é necessário
estarmos em atendimento psicanalítico, pois através do sonho e
com ajuda de uma pessoa qualificada no assunto, o
psicanalista, com este profissional é possível trabalharmos o
nosso inconsciente, e assim descobrirmos o que está reprimido
em nossa memória inconsciente e retorna através dos sonhos.
Sendo que,

O inconsciente: é a zona da personalidade


desconhecida, fora do alcance da
consciência. Ela se manifesta por atos
voluntários. Manifesta-se muito nos
sonhos, na associação livre, ou no reflexo
espontâneo. Os conteúdos ao nível do ID
são importantes para determinar os tipos de
comportamentos da pessoa. (MILLETTE
apud FREUD, 1982, p. 88).

Penso que a autora citada foi feliz em sua colocação,


pois exemplifica com palavras de fácil compreensão, sendo que
o mesmo se manifesta através do sonho como havia
mencionado anteriormente, além do sonho se manifestar nas
associações livres, na conversa com o paciente o analista pode
perceber os atos falhos, lapsos de memória, as contradições, e
outros desejos que estão sendo comunicados pelos símbolos
nos sonhos.
Encontramos ainda em Pereira, apud, Erich Fromm
(2009, p.136) outra definição de inconsciente, em uma visão
psicanalítica humanista “o inconsciente não é só o que foi
reprimido, porque não é aceitável socialmente, o inconsciente é
mais bem a pessoa total com todas as suas abismais e
conhecidas possibilidades.”.
Diferente de Millette, Fromm diz que o inconsciente
não é só o que reprimimos, mas tudo que a pessoa faz e pensa,
79
Fromm pensa o homem em sua totalidade, levando em conta os
aspectos sociais, culturais, políticos, econômicos e religiosos.
Segundo a teoria Freudiana o nosso id nunca se tornará
adulto, ele não está em contato com a realidade, ele não
distingue entre o bem e o mal, ele busca o prazer sem se
preocupar com aquilo que é certo ou errado, entendo que ele
não possui sentido, como tempo e espaço, poderíamos fazer
uma comparação com a nossa infância, a qual sempre nos
acompanha, e assim através do id determinar o tipo de
comportamento que cada indivíduo possa vir a ter.
A repressão é uma ação, um resultado que impede as
manifestações de sentimentos e desejos. Feist contribui com o
tema repressão ligado à infância como havíamos comentado
anteriormente, para este autor:

[...] Quando as crianças têm


comportamentos hostis ou sexuais punidos,
ou de algum modo reprimidos, elas
aprendem a ficar ansiosas sempre que
experimentarem esses impulsos. [...] Os
impulsos reprimidos podem ser disfarçados
sob a forma de sintomas físicos, por
exemplo, a impotência em um homem
atormentado por culpa sexual. A
impotência o impede de lidar com a culpa e
a ansiedade resultantes de uma atividade
sexual agradável. Os impulsos reprimidos
também podem encontrar uma saída pelos
sonhos, lapsos de linguagem ou um dos
mecanismos de defesa. (FEIST, 2008, p.
35).

Feist nos colocou um exemplo riquíssimo de uma


repressão, com este exemplo é possível observarmos que para

80
ocorrer a repressão não importa a idade, pois a repressão pode
ocorrer na infância, adolescência ou vida adulta e através do
sonho a repressão se manifesta de forma inconsciente. Através
da observação de alguns mecanismos de defesa é possível
trabalharmos os sonhos.
O deslocamento é um dos mecanismos de defesa, este
mecanismo se dá através do processo psíquico onde
deslocamos algo que almejamos muito, talvez através de um
exemplo fique mais claro o entendimento.
Exemplo: Um empregado se estressa no trabalho com o
seu colega, ao chegar a sua casa desconta o seu estresse e a sua
raiva na sua família, este é um exemplo de um mecanismo de
defesa. Sobre o deslocamento comenta FEIST (2008, p. 36):

O deslocamento também está envolvido na


formação dos sonhos, quando , por
exemplo, o desejo de quem sonha, com
relação a um dos pais, são colocados em
um lobo ou em um cachorro. Neste caso,
um sonho sobre um cachorro que está
sendo atropelado por um carro pode refletir
o desejo inconsciente de quem sonha em
ver seus pais destruídos.

Este exemplo confirma como é possível ocorrer o


deslocamento em um sonho, o autor colocou de forma clara um
exemplo que não deixa dúvida sobre o deslocamento do sonho
e o seu desejo inconsciente.
Outro mecanismo de defesa presente nos sonhos é a
condensação, que seria um processo inconsciente na qual duas
ou mais imagens podem vir a se formar em uma só imagem. .
Para Laplanche, (2001, p. 87), a condensação é,

81
um dos modos essenciais do
funcionamento dos processos
inconscientes. Uma representação única
representada por si só várias cadeias
associativas, em cuja interseção ela se
encontra. Do ponto de vista econômico, é
então investida das energias que, ligadas a
estas diferentes cadeias, se adicionam nela.
[...] Vemos operar a condensação no
sistema e, de um modo geral, nas diversas
formações do inconsciente. Foi no sonho
que melhor se evidenciou. Traduz-se no
sonho pelo fato de o relato manifesto,
comparado com o conteúdo latente, ser
lacônico: constitui uma tradução resumida.

A condensação é inconsciente como relatei


anteriormente, foi através do sonho que se tornou melhor. No
sonho a condensação pode ser comparada com o conteúdo
latente, porém de forma mais resumida. Também temos a
dramatização e a simbolização.
A dramatização é tudo que está em contato conosco,
seja através de ideias, sentimentos ou pensamentos. Já o outro
mecanismo conhecido como simbolização, acontece através
das imagens que vêm à mente durante o sonho, essas imagens
podem ser de algo que o sonhador deseja muito ou que já
viveu.
O conteúdo manifesto e o latente são fenômenos
presentes na formação dos sonhos, além destes conteúdos,
Zimerman, apud Freud, (2001, p. 393), descreve outros
fenômenos que serão apresentados na sequência.
O conteúdo manifesto que “designa aquilo que aparece
no consciente daquele que sonhou, quase sempre sob a forma
de imagens visuais, que ele pode ou não recordar depois de
despertar”.
82
A elaboração onírica secundária “também conhecida
como atividade do sonho, e que consiste numa atividade
durante o sono do ego, que se encarrega de disfarçar e
dissimular o que está recalcado no inconsciente e proibido de
aparecer no consciente em estado bruto”.
O conteúdo latente “aquilo que, de fato, está recalcado
no aludido estado bruto”. Além do censor onírico “Freud
comparou essa parte onírica do ego inconsciente ao de um
censor de notícias com amplos poderes para suprir qualquer
trecho que ele julgue inconveniente”.
O mecanismo defensivo do ego, principalmente os de
deslocamento, condensação e simbolização, cuja tarefa maior é
a de disfarçar o conteúdo latente em manifesto.
Então o sonho manifesto é aquele que podemos ou não
recordar quando despertamos dos sonhos, já a elaboração
onírica, trabalha com o que foi reprimido, recalcado em nosso
inconsciente. O conteúdo latente também vai trabalhar com o
recalcamento no mecanismo defensivo e disfarçar um
conteúdo.
Nos sonhos também é possível trabalhar com o
superego que significa “super eu”, é um mecanismo
inconsciente, sendo assim ele é capaz de se impor ao id, através
das regras sociais, das leis e normas, da ética, moral, da
autoridade dos pais ou de qualquer outra figura que exerça a
função de autoridade, com isso acaba impedindo o id de
satisfazer seus desejos.
Para Feist (2008) o superego é movido pelos princípios
morais e ideais, ele se desenvolve a partir do ego, não possui
energia própria. O superego critica o ego, julgando assim as
suas ações e intenções. Ele busca a sua perfeição sem
preocupar-se com o bem estar do ego.
No sonho também é possível encontrarmos o processo
de representação, que são as ideias que se manifestam em

83
imagem no sonho, essas ideias podem se apresentar nos sonhos
orientando assim o deslocamento.
Pereira, (2012, p. 74) em seu livro Interpretação dos
sonhos diz que: “A condensação é uma colcha de retalhos que
procura naquele símbolo passar a imagem fidedigna de
confusões e alterações para esconder o medo ou a vergonha de
falar.”
Pereira compara a condensação como uma colcha de
retalhos, realmente no processo de condensação é possível
esconder fatos, conteúdos latentes nos sonhos, sejam conteúdos
em forma de emoções, como medo, ódio, raiva, tristeza,
felicidade entre tantas outras. Entendo que neste processo é
possível observar que através do sonho o paciente dá várias
características para uma mesma pessoa.
O Deslocamento nos sonhos se dá através de censuras,
no qual é capaz de substituir os conteúdos latentes de um
sonho. Nos sonhos o deslocamento ocorre de forma simples,
mas é necessário que tenhamos uma noção básica para assim
poder interpretar um sonho, um conteúdo latente.
Vou tentar exemplificar melhor como pode ocorrer um
deslocamento em um sonho. Durante um sonho o sonhador
pode sonhar que está brigando com algum colega de serviço,
mas na verdade o sonhador pode estar com algum problema em
casa com sua família, talvez o esposo, e com isso desloca o
desentendimento com o esposo para com seu colega.
Todos estes processos acontecem no inconsciente dos
pacientes, muitas vezes os mesmos não sabem que
inconscientemente pensamos, cabe ao analista explicar a
diferença entre consciência e inconsciente para que assim o
paciente possa compreender como se dá este processo na mente
humana.

84
3. A INTENÇÃO DAS EMOCÕES NOS SONHOS

É um sentimento que sentimos no nosso cotidiano,


existem vários tipos de emoções as boas e as ruins, emoções
como raiva, medo, ódio, carinho, afeto, amor entre outras, que
são exemplos de emoções que todos os seres humanos possuem
e sentem. Portanto a emoção é um sentimento bom ou ruim que
está internalizada no cérebro de cada indivíduo.
Um ótimo exemplo de quando sentimos emoção é
quando vamos ao supermercado, ao shopping e compramos
algo que gostaríamos de ter, sentimos uma emoção, e essa
emoção geralmente é boa quando vivemos a satisfação do
nosso desejo, já quando ocorre o contrário nos sentimos
péssimos, pois já é uma emoção de raiva, que não gostaríamos
de estar sentindo.
Ao sonharmos também fazemos uso de nossos
sentimentos, de nossas emoções. Quando o sonho é bom nos
sentimos calmos, tranquilos, já quando é um sonho ruim nos
acordamos assustados com uma sensação de medo.
Através dos sonhos é possível lidar com as emoções,
com isso precisamos compreender o verdadeiro significado
oculto de cada imagem e símbolos presentes nos sonhos, para
que assim possamos interpretá-los.
Pereira, (2007, p. 75), diz que “a finalidade das
emoções é despertar o desejo na alma, de procurar na natureza
os fenômenos que nos fazem sentir úteis e persistir neste
desejo”.
Através dos sonhos é possível que sonhemos, e para que
este sonho se torne realidade é necessário insistir no que
almejamos, pois se não houver dedicação, força de vontade,
não nos tornaremos úteis, e assim faremos uso de uma péssima
emoção.

85
Além de sonharmos quando estamos dormindo também
sonhamos acordados, e quando isso acontece o sonhador sonha
em realizar algo bom, que lhe faz bem, ao contrario do sonho
em que estamos dormindo, pois inconscientemente o sonho nos
mostra a realidade muitas vezes deformada e angustiante, cada
emoção é diferente para cada indivíduo, pois cada um tem um
sentimento e uma realidade.

O único meio de nos conhecermos em


verdade é através das ações de nossas
emoções, porque podemos ter noções e
compreensões racionais sobre os
acontecimentos externos, e ainda assim, os
sentidos podem nos enganar. Em relação às
emoções, podemos conhecê-las e
acompanhá-las através de uma percepção
profunda das comunicações inconscientes,
presentes no interior dos símbolos.
(PEREIRA, 2010, p. 8).

Infelizmente na maioria das vezes nos tornamos vítimas


de nossas próprias emoções, com isso ao sonharmos é possível
que revivamos fatos marcantes seja na nossa infância,
adolescência ou vida adulta. Através dos sonhos é possível
aparecerem emoções inconscientes, e para que percebamos que
isto está acontecendo é necessário um atendimento
psicanalítico, para que o paciente possa levar ao setting
analítico os seus sonhos, para que assim sejam interpretados;
na maioria das vezes, as emoções surgem através de imagens
ou símbolos. O sonho de todo o indivíduo necessita de
condições emocionais para que possa tornar-se realidade.
Muitas vezes nos sonhos é possível voltar-se ao
passado, lembrar-se de algo que foi esquecido, colocando o

86
sonhador em contato com o seu emocional que muitas vezes
sofreu bloqueios.

[...] Os sonhos podem ser analisados a


partir da interpretação dos deslocamentos e
transferências projetivas de uma imagem
em forma de símbolo. Esta história de
personagens retrata um tema e procura
trazer a consciência emoções e conflitos
recalcados, esta diferença entre realidade e
fantasia é fundamental para diagnosticar a
realidade psíquica. (PEREIRA, 2012, p.
24.).
.
Através dos deslocamentos é possível interpretarmos os
sonhos, quando um sonho nos causa emoções fortes,
possivelmente o conteúdo deste sonho pode ter sido reprimido,
e no momento em que o sonhador sentir-se muito emocionado
frente ao seu sonho é porque ele reprimiu, essa emoção
reprimida aparece através dos sonhos, das imagens.
Pereira (2010, p. 46), “as emoções pertencem a este
mundo de relações, no fundo de cada pensamento está presente
algum tipo de desejo inconsciente, escondido através de seu
comportamento algum tipo de carência pessoal”.
Na vida de todos os seres humanos deve haver um
desejo inconsciente presente, e através dos sonhos é possível
ver este desejos e que deve ser interpretados para que se possa
assim voltar a ter consciência de seus desejos.

87
4. A REPRESENTAÇÃO DOS SÍMBOLOS NOS
SONHOS

Quando sonhamos, é possível observarmos vários tipos


de símbolos, talvez quem nunca tenha feito análise não se
preocupa em interpretar seus sonhos, não saiba o que é um
símbolo.
Nos sonhos também encontramos o simbólico, através
da interpretação torna-se necessário que o analista identifique o
que é um símbolo. Jung (p. 21), contribui dizendo que “o
homem utiliza a palavra escrita ou falada para expressar o que
deseja transmitir. Sua linguagem é cheia de símbolos, mas ele
também, muitas vezes faz uso de sinais ou imagens não
estritamente descritivo”.
Realmente temos que concordar com Jung, pois quando
nos expressamos por palavras ou gestos é possível observarmos
vários símbolos, mas além dos símbolos, também fizemos o
uso de imagens, pois imaginamos muitas coisas através de
pensamentos e palavras.
O símbolo muitas vezes é consciente, mas ele também
pode ser inconsciente e Jung confirma esta afirmativa: “O
homem também produz símbolos inconscientes e
espontaneamente na forma de sonhos”. (p. 21).
Erich Fromm, psicanalista humanista também contribui
com reflexões acerca da linguagem simbólica expressa pelo
inconsciente:

[...] A linguagem simbólica é aquela por


meio da qual exprimimos experiências
interiores como se fossem experiências
sensoriais, como se fosse algo que
estivéssemos fazendo ou que fosse feito

88
com relação a nos no mundo dos objetos. A
linguagem simbólica é uma língua onde o
mundo exterior é um símbolo do mundo
interior, um símbolo de nossas almas e de
nossas mentes. (1966, p. 20).

Não podemos deixar de concordar com Fromm, um das


suas grandes contribuições da teoria psicanalítica humanista,
pois ele forneceu um excelente entendimento sobre a
linguagem simbólica, visto que é possível manifestar os
símbolos através de gestos, atitudes ou pronúncias.
De acordo com JUNG, (p. 55) “nos sonhos os símbolos
ocorrem espontaneamente, pois sonhos acontecem, não são
produtos da energia psíquica, eles constituem, assim, a fonte
principal de todo o nosso conhecimento a respeito do
simbolismo”.
Realmente os sonhos são espontâneos, e sendo assim,
não podemos escolher os sonhos que temos durante o sono, e
nem tão pouco inventarmos, pois o sonho acontece
naturalmente, assim como o simbolismo de cada sonho.
Pra JUNG (p. 55) “os símbolos não ocorrem apenas nos
sonhos; aparecem em todos os tipos de manifestações
psíquicas. Existem pensamentos e sentimentos simbólicos,
situações e atos simbólicos”.
Muitas vezes leigos no assunto pensam que o simbólico
só acontece quando sonhamos, mas infelizmente estão
enganados, pois o simbólico pode aparecer em várias situações,
como nos nossos pensamentos, ações ou sentimentos, claro que
muitas vezes não percebemos, mas ocorrem.
Porque “o significado particular de um símbolo em um
dado lugar só pode ser determinado levando-se em conta todo o
contexto em que o símbolo aparece, e em função das
experiências predominantes de quem emprega aquele
símbolo”. (FROMM, 1966, p. 25).

89
Cada símbolo tem seu significado, e sua emoção para
cada ser humano, o símbolo não é igual para todos, tudo
depende do contexto em que se encontra o símbolo e o estado
que se encontra a pessoa que está interpretando o mesmo.
Não poderia deixar de mencionar que o símbolo assim
como o sonho é diferente para cada indivíduo, poderia assim
exemplificar: Se duas pessoas tiveram o mesmo sonho, não
quer dizer que a interpretação, o significado seja a mesmo,
porque cada ser é único.
Para compreender melhor algumas questões
relacionadas aos símbolos farei um relato de um sonho descrito
por Jung (p. 66):

Sonho em que um grupo de jovens a cavalo


atravessava um extenso campo. O sonhador
é quem comanda o grupo e salta uma vala
cheia de água, vencendo o obstáculo. O
resto do grupo cai na água. O jovem que
primeiro me contou este sonho era um tipo
cauteloso e introvertido. Mas também ouvi
o mesmo sonho de um velho de
temperamento ousado, que tivera uma vida
ativa e arrojada, mas que na época do
sonho achava-se invalido e dava imenso
trabalho a seus médicos e a sua enfermeira.
Naquele momento, por desobedecer às
prescrições médicas, sua saúde se agravara.

Neste sonho os símbolos ajudam este jovem a tomar


coragem e fazer a travessia do valo, a transformação da vida
deste paciente descrito por Jung tem a ver com esta nova
imagem de si mesmo, a coragem, ser capaz de vencer os
desafios da existência, já o velho, talvez este sonho tivesse
servido para lhe mostrar que muitas vezes atravessamos

90
dificuldades, obstáculos em nossas vidas, e que a doença seria
este obstáculo que estaria lhe impedindo de atravessar o valo.
Como já mencionado anteriormente cada sonho é
diferente, mesmo que os símbolos sejam os mesmos, tudo
depende do estado de cada sonhador. Jung no exemplo acima
mostrou que um mesmo sonho, mas os sonhadores eram um
jovem e um velho ambos com idade, personalidade, desejos,
sentimentos e emoções diferentes, por isso a forma com que
cada um vai interpretar o sonho será de maneira original e
específica, levando em conta todas as suas angústias, medos,
enfim a interpretação do sonho vai depender do estado em que
se encontra o paciente.
Neste sonho procuro exemplificar os significados
latentes das imagens e alegorias, através da análise e
interpretação destes símbolos podemos compreender os desejos
latentes destas simbologias voltadas para ajudar o sonhador a
sair desta situação incômoda e prejudicial a sua vida.
Neste sonho talvez eu possa exemplificar símbolos que
se encontram no mesmo, sendo assim fica mais fácil uma
compreensão; cavalo, campo, valado cheio de água, cair na
água, jovem, velho, médicos, enfermeira são exemplos de
símbolos, imagens que podemos encontrar neste sonho.
O processo primário (id) ele é inconsciente, e busca
satisfazer os seus desejos, no sonho citado há um exemplo de
processo primário, seria o medo de vencer os obstáculos. O
processo primário ocorre através do processo de deslocamento,
das condensações e das emoções.
E para que o processo primário sobreviva torna-se
necessário o desenvolvimento do processo secundário o (ego),
este processo já é consciente, e se dá através do princípio da
realidade.
Para Laplanche (2001 p. 371) o processo primário e
processo secundário, os dois modos de funcionamento do

91
aparelho psíquico, tais como foram definidos por Freud.
Podemos distingui-los radicalmente:

a) Do ponto de vista tópico: O processo


primário caracteriza o sistema inconsciente
e o processo secundário caracteriza o
sistema pré-consciente - consciente;
b) Do ponto de vista econômico –
dinâmico: no caso do processo primário, a
energia psíquica escoa-se livremente,
passando sem barreiras de uma
representação para outra segundo os
mecanismos de deslocamento e de
condensação; tende a reinventar
plenamente as representações ligadas as
vivencias de satisfação constitutivas do
desejo (alucinação primitiva). No caso do
processo secundário, a energia começa por
estar “ligada” antes de se escoar de forma
controlada; as representações são
investidas de uma maneira mais estável, a
satisfação é adiada, permitindo assim
experiências mentais que põem a prova os
diferentes caminhos possíveis de
satisfação. A oposição entre processo
primário e o processo secundário é
correlativa da oposição entre o principio do
prazer e principio de realidade.

Para entendermos melhor o processo primário e


secundário trouxe a citação de Laplanche, no qual ele contribui
para um entendimento mais detalhado dos processos.
A Condensação é um processo inconsciente, através
deste processo é possível que duas ou mais imagens possam

92
combinar-se e assim formar-se em uma só imagem, sendo que
esta imagem pode estar investida de afetos e emoções. E,
Rachel Lemes Michel, Greice confirma esta afirmativa em seu
artigo publicado em 2012, “a condensação seria a combinação
de dois ou mais acontecimentos. (p. 152).
Além de todos estes processos, no sonho é possível
encontrarmos os deslocamentos afetivos, em um sonho, é
possível que ocorra este deslocamento talvez descolando seus
afetos seja de amor, ódio ou raiva para uma imagem ou
símbolo presente no sonho, este símbolo e esta imagem pode
ser de uma pessoa, objetos ou acontecimentos.
Na psicanálise humanista o método de interpretação é
dialético:
Explico:
Qual era o problema em tese deste jovem? Atravessar o
valo.
Quais as confusões e inseguranças que não deixavam
com que assumisse sua verdadeira identidade de pessoa capaz?
Que potencialidades estavam sendo recalcadas ou
reprimidas?
Quais as emoções que aparecem no sonho que precisam
de uma interpretação? O medo, a insegurança.
Qual é a pulsão que está sendo bloqueada pela sua
neurose? Medo, timidez.
Na psicanálise humanista todo sonho tem um propósito
de ajudar a pessoa a superar-se e tornar-se produtivo, mesmo
que os símbolos e imagens sejam negativos ou denotem um
aspecto assustador da personalidade do sonhador.
Na psicanálise humanista o analista não faz o uso de
dicionário dos símbolos, ele usa da associação livre com o seu
paciente, assim perguntando que significado o paciente dá para
os símbolos trazidos em seus sonhos.
De acordo com Pereira,

93
Ninguém poderá conseguir interpretar um
sonho a partir de um livro de autoajuda ou
de um manual explicativo de um
dicionário, esta aprendizagem deve
acontecer durante o seu tratamento, porque
um sonho interpretado fora de um contexto
social, cultural e histórico não faz nenhum
sentido. (2012, p. 18).

O Autor contribui com seus escritos no que mencionei


anteriormente sobre o uso de livros, dicionários. O analista
antes mesmo de interpretar um sonho deve conhecer seu
paciente, para assim não fazer uma interpretação precipitada do
mesmo, fora do seu contexto, pois o sonho de cada paciente
depende do estado, de suas emoções, angústias e desejos.
Os símbolos são e estão cheios de significados, muitas
vezes escondidos sobre máscaras no qual envolve o seu
estereótipo. Cada símbolo pode representar algo do seu mundo
emocional ou profissional de cada ser humano. Através dos
símbolos é possível identificar onde está investida a sua
energia psíquica.
As imagens conseguem traduzir os seus valores
simbólicos, e com isso identificando o seu potencial que é
representado por uma persona, ou seja, uma personalidade.

5. O SENTIDO E SIGNIFICADOS DAS IMAGENS

Além do símbolo no sonho também é possível


encontrarmos imagens, sejam representadas de forma visual ou
por objetos, pessoas ou acontecimentos. No sonho é possível
observarmos vários tipos de imagens, imagem é tudo aquilo
que vemos em nosso sonho.
94
As imagens produzidas no sonho são muito
mais vigorosas e pitorescas do que os
conceitos e experiências congêneres de
quando estamos acordados. E um dos
motivos é que, no sonho, tais conceitos
podem expressar o seu sentido
inconsciente. (JUNG, p. 43).

No sonho as imagens nos chamam mais a atenção seja


na sua forma ou no seu gênero, já quando estamos acordados as
imagens muitas vezes não nos chama atenção; talvez porque no
sonho essas imagens acontecem de forma inconsciente e assim
instigando a curiosidade para a compreensão da mesma.

A imagem é uma sucessão de eventos,


representada como uma máscara. Esta
persona precisa ser conhecida aos poucos,
dentro de seu habitat natural, descobrindo
com que parte desta máscara a pessoa se
identifica e assume, por assim dizer, uma
imagem, para poder expressar o seu lado
reprimido ou contagiar as pessoas de seu
convívio com expressões fantasmagóricas,
que tem a ver com a valorização e
reconhecimento de seus dotes pessoais.
(PEREIRA, 2007, p. 190).

Pereira compara a imagem com uma máscara, entendo


que ele quis dizer que quando sonhamos a imagem mostra-se,
seja ela boa ou ruim, mas que muitas vezes a reprimimos
inconscientemente. E assim a escondemos, para não recordar o

95
momento desagradável que se encontra associado à imagem,
digo dessa imagem que retorna através do sonho.
Penso que a melhor maneira de trabalhar essa imagem
reprimida seja através da análise, pois assim é possível
entender e compreender a mesma, só assim descobrir as
motivações inconscientes desta repressão, e o que essa imagem
deseja transmitir, seja de forma consciente ou inconsciente.
Segundo Pereira (2007, p. 10) “no cérebro, as imagens
são reais estão localizadas em alguma memória e simplesmente
precisam da imaginação, da fantasia ou do sonho para se
manifestarem”.
Todas as nossas imagens são reais, no entanto só
precisamos que elas venham à mente através dos sonhos, das
fantasias e ou imaginação. Muitas imagens ficam esquecidas
em nossa mente, por isso quando sonhamos aparece uma
grande demanda que precisa ser trabalhada em análise, além
dos sonhos a imagem se dá através das fantasias e da nossa
imaginação.
A nossa imagem ela é representada por signos, sinais,
cada imagem representada em nossa memória tem um
significado, e este significado pode e é real, pois muitas vezes
são representados por ansiedades, medos entre outras em
nossos sonhos.
Pereira exemplifica, (2007, p. 60) “o sonho, por
exemplo, busca imagens de contextos ambientais e históricos
para comunicar-se com o sujeito e sua relação com os objetos
de desejos. Toda imagem é um símbolo a ser decifrado”.
A pessoa que faz análise sabe da importância que um
sonho tem para cada indivíduo, no sonho a imagem se
comunica com o sonhador, esses desejos são reais e cada
imagem tem um significado para cada pessoa, e sendo assim
ele deve ser decifrando com a ajuda de seu analista.
A imagem é um conteúdo de energia psíquica que
procura comunicar-se com o consciente através de uma
96
linguagem metafórica e simbólica. Através das imagens é
possível traduzir um valor simbólico, e assim utilizar o seu
potencial na sua existência.
Os símbolos podem representar realidades diferentes.
Sendo assim cada imagem tem a finalidade de mostrar, ajudar
o nosso organismo a ser mais saudável e realizado frente a
estas questões. Porque conforme Pereira (2007, p. 13) “a
imagem é uma totalidade de signos e sinais”.
Penso que uma imagem é tudo o que vemos, pode ser
um objeto, ou algo que necessite de auxílio, de aparatos, pode
ser através de representações, de pessoas, quadro e ou
fotografias, e estas imagens estão presentes nos sonhos, mas
além das imagens podemos encontrar os símbolos que também
podem ser visuais, e ocorrem através de objetos pessoas ou
acontecimentos.

A imaginação não existe sem a imagem,


mas a imagem toma forma e assume alguns
contornos de modificação e alteração
simbólica. O símbolo imagem
personificado sofre a metamorfose, um
movimento lento e gradativo, traduzindo-se
numa imaginação corporificada, na qual o
homem pode transformar-se num animal.
(PEREIRA, 2007, p. 24).

Como vimos a imaginação e a imagem não podem se


separar, pois assumem uma só forma, mesmo que de forma
lenta, mas que é possível fazer com que estas imagens se
transformem em algo novo diferente.
Para Pereira (2007, p. 110) “o sonho é uma espécie de
imaginação, que realiza e dá sentido aos símbolos. Mesmo na
atuação inconsciente, as imagens personificadas em símbolos
imagógicos cumprem uma função de ação”.

97
Realmente imaginação e símbolos ambos precisam um
do outro para assim dar sentido aos símbolos presentes nos
sonhos, mesmo que seja inconscientes todos possuem a sua
função.

As redes neuronais no cérebro consistem


em uma infinidade de níveis de
comunicação. Estes neurônios estão ligados
por conexões ou sinapses de intensidade e
forças totalmente diferentes. Qualquer
informação tem de passar pelos neurônios
e, logo depois este signo será interpretado,
em seguida, envia um sinal a todos os
outros neurônios da rede, interligados pelo
cérebro humano. (PEREIRA, 2007, p.11).

O nosso cérebro possui vários níveis, através do cérebro


e dos neurônios é possível que as imagem e símbolos realizem
este caminho, os sonhos também fazem este trajeto até serem
elaborados, interpretados.
De acordo com Pereira (2012, p. 31) “os símbolos e
mitos nos sonhos têm o compromisso de elevar a consciência,
sua intenção é desenvolver todo potencial a disposição de
qualquer pessoa, muitos não utilizam porque desconhecem ou
não acreditam na sua eficácia”.
Tanto os mitos quanto símbolos, e os contos têm sua
função nos sonhos, esta função muitas vezes é deixada de lado
por falta de conhecimentos, função esta que permite que cada
indivíduo possa desenvolver a sua consciência e os seus
potenciais como seres humanos dignos de liberdade.

98
6. O DEVANEIO DAS FANTASIAS
A fantasia é o reino intermediário que se
inseriu entre a vida, segundo o princípio de
prazer e a vida segundo o princípio de
realidade.
Sigmund Freud.

Posso dizer que todos nós seres humanos possuímos a


fantasia, só que não nos damos conta, fantasia e realidade são
algo diferente, por isso temos que saber identificar uma
fantasia de uma realidade.
Fantasia, no entanto é um processo psíquico em que os
indivíduos compreendem uma determinada situação em sua
mente para fazer uma necessidade, ou seja, um desejo que não
pode ser satisfeito na vida real.
A fantasia nos persegue durante todos os dias de nossa
vida, e mesmo assim nós não percebemos. A realidade poderia
assim dizer que é algo que estou vivendo no presente
momento, como um sonho, quando este sonho é real, no livro
“A linguagem esquecida” de Erich Fromm, podemos
confirmar, “nossos sonhos são reais para nós enquanto os
sonhamos – tão reais como qualquer experiência das que temos
quando despertamos. No sonho não existe “como se”. O sonho
é uma experiência presente, tão real. (1966, p. 14).

Na fantasia nem sempre distinguimos uma


pessoa da outra. Assim como nos sonhos
uma pessoa pode ser num momento o pai,
no outro um professor ou um ex.
namorado, no outro o marido ou um filho,
usamos as fantasias motivadas por uma
pessoa para entender a seguinte. As
crianças podem, acidentalmente, chamar a
professora de “mãe” e a mãe de “tia”, o que
99
também possibilita a negação de
pensamentos ou sentimentos
desagradáveis. (SEGAL, 2005, p. 68).

Como mencionei anteriormente que não nos


percebemos quando estamos fantasiando uma realidade ou não,
Segal, contribui com exemplos riquíssimos, para que
entendamos um pouco mais sobre a fantasia. Em um sonho
também é possível projetarmos um sentimento em outra
pessoa, como Segal exemplificou, chamar a professora de mãe,
entre tantas outras trocas que podemos fazer no nosso dia a dia,
talvez usássemos da fantasia para conseguirmos dizer o que
realmente estamos sentindo.
A fantasia assim como sonho é realizada
inconscientemente por nossa mente, por isso não nos
percebemos quando estamos fantasiando algo tão comum em
nossa vida. E isto é confirmado com o pensamento de Segal,
(2005, p. 10):

O conceito de fantasia inconsciente ajuda a


entender como essas situações podem
acontecer; como atribuímos a uma
lembrança elementos emotivos intensos
deslocados e, assim, a transformamos em
uma coisa diferente: uma relutância em
entrar no assento traseiro de um carro; uma
raiva com o aparecimento de uma
publicidade entre as cartas; uma aversão
por determinados alimentos. [...] Mas
existem fantasias sem que tenhamos
consciência delas. Pode-se identificá-las de
várias maneiras. Uma música nos vem à
cabeça sem motivos aparente. É possível
que, refletindo , saibamos quais são as
fantasias por trás dela.

100
Quem diria que uma música teria algo a ver com a
nossa fantasia inconsciente, conscientemente seria só uma
música, aquela que gostamos e/ou está em alta nas rádios e ou
televisões. Por isso quando estamos em análise é mais provável
que junto com o analista possamos estar descobrindo nossas
fantasias inconscientes e ou até mesmo consciente.
Pois também conscientemente fantasiamos, só que
percebemos quando é uma fantasia consciente, pois, logo
percebemos a realidade, a interpretação dessa fantasia, e
quando é inconsciente não percebemos que estamos
fantasiando, levamos tempo para entender o porquê dessa
fantasia, e talvez só percebemos com a ajuda de um
profissional como o psicanalista.
A fantasia seria uma satisfação de um desejo, talvez de
um desejo reprimido, e que na realidade não pode ser satisfeito.
Um exemplo de uma fantasia talvez fosse à do Complexo de
Édipo, no qual um filho homem cria que está tendo um
relacionamento, com a mãe, ou a filha com um relacionamento
com o seu pai. É normal encontrarmos este tipo de fantasia nos
consultórios analíticos, este tipo de fantasia às vezes é bem
difícil de trabalhar, pois às vezes o paciente não admite ter
criado esta fantasia inconscientemente.
Nos sonhos também é possível observarmos as
resistências, transferência erótica, afetivas, de ódio, entre
outras, sendo assim estes desejos poderiam estar impedindo de
tornar a sessão analítica mais sincera e verdadeira, por isto o
analista pode interpretar a fantasia para entender e
compreender melhor este processo de emoções latentes que
podem estar por detrás de uma resistência ou de desculpas e
justificativas falsas e irracionais.
A Resistência se manifesta nos sonhos de forma
inconsciente, através dos atos falhos, esquecimentos de
compromissos entre outros. E, Rachel Lemes Michel, Greice
(2012, p. 152) confirma em seu artigo o que escrevi
101
anteriormente. “As resistências se manifestam através dos
sonhos de formas variadas: pelo esquecimento do conteúdo
sonhado, pelos sonhos que evidenciam fuga da análise como
não comparecendo as sessões, mudando de analista”.
Já a transferência é uma projeção, na qual o paciente
projeta em seu analista algo que almeja muito. A transferência
pode acontecer de paciente para analista, quando o analista
possui um “nó cego”, ou seja, algo não resolvido em si próprio,
então pode haver a contratransferência para o paciente, cabe a
analista saber identificar quando ele está contratransferindo
algo para o seu paciente e assim levar para o seu analista e seu
supervisor e trabalhar o conteúdo. Também cabe ao analista
identificar quando seu paciente está transferindo algo para ele,
e assim colocar para o mesmo esta questão.
Tanto os homens quanto as mulheres manifestam
sonhos eróticos, sonhos de amor, ódio, raiva, felicidade, entre
outros, e assim transfere para seu analista estas questões mal
resolvidas, talvez reprimidas na infância, mas que retornam
com o passar dos anos e nas análises.
O analista deve estar atento para identificar quando
estas fantasias ocorrem com o seu paciente e consigo mesmo, e
assim interpretá-las e trabalhar em análise.
Talvez estivesse sendo precipitada de mais, mas penso
que a transferência tanto erótica, quanto afetiva, seja algo
verdadeiro da nossa realidade inconsciente, desejos reprimidos
talvez.

102
7. O SIGNFICADO DOS SONHOS E DOS
PESADELOS NA TERAPIA ANALÍTICA

Pessoas de diversas áreas não compreendem qual o


trabalho da psicanálise nos dias de hoje, visto que é uma
ciência pouco conhecida, e que muitos confundem psicanálise
com psicologia e ou psiquiatria, digo que estão enganados, pois
a única ciência que possui um método de interpretação sobre os
sonhos é a psicanálise. Por ser um trabalho na área da
psicanálise falo sobre estes conteúdos simbólicos, pois é uma
ciência, e trabalha com as emoções e pulsões inconscientes,
atos falhos, fantasias, poesias, contos, alegorias e está presente
na arte e literatura.
O sonho na terapia psicanalítica trona-se de importância
para compreender o significado latente das imagens e
símbolos. Ao iniciarmos uma análise com um paciente, o
analista pode solicitar que seu paciente traga seus sonhos para
ser interpretados.
O analista interpreta os sonhos do paciente numa
relação dialógica, estes símbolos pertencem ao universo
existencial de seus desejos, portanto é necessário perguntar o
sentido ou o significado que a pessoa atribui àquele símbolo e
imagem, e através desta síntese em comum, ambos analistas e
pacientes possam elaborar o significado inconsciente de seus
desejos.
Cabe ao analista coordenar seu paciente para fazer uma
interpretação correta de seus sonhos, na maioria das vezes o
paciente traz para o setting analítico questões inconscientes, e
cabe ao analista fazer com que seu paciente perceba estes
conteúdos, assim o paciente com o auxílio do seu analista pode
chegar a um consenso, e com isto o analista pode interpretar o
sonho de seu paciente sem medo de errar.

103
Quem interpreta o sonho é o paciente e seu analista, o
analista faz intervenções para que seu paciente relacione com o
seu sonho, e assim consciente ou inconscientemente possa vir a
interpretá-lo com o auxílio de um analista. O analista irá
incentivar seu paciente a refletir, pensar, pesquisar o que este
sonho pode ter a ver com a sua vida, mesmo que seja e é
inconscientemente, visto que quando sonhamos não
conseguimos fazer uma interpretação porque conscientemente
este sonho não tem nada a ver com a nossa realidade, mas se o
sonho for bem interpretado por alguém especializado como o
psicanalista, ele tem a ver com a nossa vida atual.
Assim como o paciente sonha o analista também sonha,
só que o analista não pode é sonhar com o paciente, mas como
em sonho não se manda, se ele sonhar, devemos urgentemente
procurar o analista e trabalhar este sonho.
Na psicanálise também usamos da associação livre,
assim como Freud também podemos utilizar a técnica de dizer
ou escrever a primeira coisa que vem em mente, digo isto, pois
o analista na maioria das vezes não usa o mesmo método para a
interpretação de seus pacientes, pois cada paciente é diferente.
Depois que o paciente conta o seu sonho, o analista pode pegar
um símbolo, uma imagem do sonho e perguntar o que significa
para seu paciente, assim o paciente pode trabalhar com o seu
inconsciente e aos poucos interpretar o seu sonho.
Na psicanálise humanista é possível interpretarmos os
sonhos das seguintes formas:
Primeiramente o analista escuta atentamente o seu
paciente contar o seu sonho, logo em seguida inicia com as
seguintes intervenções com seu paciente:
Qual é o tema do sonho?
Com a intenção de fazer com que o paciente identifique
quais são os símbolos, as imagens que aparecem no sonho.
Ao realizar a associação livre sobre estas imagens
podemos trazer conteúdos latentes que possam explicar algum
104
tipo de sintoma ou doença, cabe ao analista juntamente com o
seu paciente identificar o conteúdo latente e interpretá-lo
mesmo que seja inconscientemente. Qual é o sentido oculto,
aquilo que os símbolos e imagens escondem da consciência do
sonhador.
A elaboração primária aponta as pulsões mais
primitivas e arcaicas da pessoa, é preciso saber identificar com
clareza onde esta energia aparece nos símbolos e assim
interpretá-las.
Os símbolos estão carregados de sentidos e significado
para esclarecer uma emoção que pode ser medo, culpa, ódio,
raiva, angústia, ansiedade. Cabe ao paciente juntamente com o
analista descobrir o significado, as emoções presentes no seu
sonho.
Toda esta interpretação deve levar em conta alguns
aspectos, pois muitas vezes através da associação livre dos
sonhos é possível fazer com que o paciente possa perceber
quais são os seus potenciais, o que está sendo reprimindo, ou o
que está sendo bloqueado. Quais emoções estão interferindo na
sua qualidade de vida, porque se tornou apático e desanimado.
Através da interpretação dos sonhos é possível conhecer
cada vez mais o paciente, pois ele nos remete a compreender
mais sobre os temas geradores dos sonhos, e com isso podemos
identificar se é um paciente explorador, mercantilista, erótico
ou que se coloca como vítima.
O pesadelo também é um tipo de sonho, mas não muito
bom, pois quando temos este tipo de sonho nos acordamos
assustados, com medo, angustiados.

Quando o sonho não consegue cumprir o se


papel de guardião protetor do sono, pode
acontecer o mesmo fenômeno conhecido
como terror noturno, que frequentemente
as crianças manifestam (no adulto,

105
corresponde, na linguagem psicanalítica,
aos sonhos de angústia, popularmente
machados de “pesadelo”). (ZIMERMAN,
apud FREUD, 1999, p. 177).

Creio que realmente algumas pessoas têm mais


propensão em ter pesadelos e psicanaliticamente falando, o
pesadelo mostra-se em forma de sentimentos ruins, deixando o
sonhador muito angustiado, com medo, no entanto torna-se
necessário que o sonhador leve para a análise este pesadelo que
está lhe incomodando, para que assim junto com o seu analista
possa interpretar e desvendar o porquê deste pesadelo que tanto
lhe aflige.
Vou citar um sonho descrito por Fromm (1966, p. 138):
“Tirei uma maça de uma árvore ao atravessar um pomar. Um
cachorro grande aparece e salta em cima de mim. Fico
apavorado e acordo gritando por socorro”.
Este sonho pode ser um desejo real de um pesadelo, no
qual podemos nos acordar gritando já que o cachorro está por
cima do indivíduo. Na psicanálise, o analista poderá perguntar
a seu paciente como ele estava dias antes do sonho?
Onde poderia ser esse pomar?
Quem seria o cachorro? Ele representaria alguém?
Quem?
Quando você acordou estava assustado, já sentiu antes
essa emoção? Quando se sentiu assim você lembra?
Este pesadelo poderia ser uma forma de abuso?
Antes mesmo de começar a interpretar o sonho no
paciente se faz necessário que o analista conheça seu paciente,
saiba das suas angustias e medos, para que só assim o analista
possa fazer as suas intervenções com êxito, e assim ajudando o
seu paciente a interpretar este grande pesadelo que lhe deixou
muito assustado.

106
Que todos nos sonhamos não é novidade, que o sonho é
único para cada ser humano. Para cada pessoa que sonha a
forma de interpretar é diferente, por exemplo, se duas pessoas
sonharem com um animal, este sonho pode ter um significado
para um e outro para a outra pessoa, digo isso, porque cada
pessoa é única, suas angústias, medos, alegrias, emoções,
sentimentos, não importa a idade, a classe social, ou raça, a
maneira de interpretar um sonho é deferente para cada pessoa.
É possível também ouvirmos pessoas que sonham e no
outro dia não se lembram, assim como também encontramos
aqueles que se recordam do sonho e ficam curiosos para fazer a
sua interpretação, se a pessoa faz analise, com certeza o
analista já lhe terá informado sobre a possibilidade de levar
para a análise seus sonhos, a analista irá instigar seu paciente a
interpretar o sonho que tanto lhe aflige.
Para quem não consegue lembrar-se de seu sonho no
dia seguinte pode tentar fazer a sua anotação logo em seguida
que sonhou, mas como fazer essa anotação? Muitos podem
considerar estranho este método, mas se tentar com calma, sem
se despertar muito do seu sono.
Para começar a pessoa deve deixar já a sua disposição
ao lado da cama seu caderninho de anotações, logo que
despertar do sonho, sem muitos movimentos bruscos, ascender
a luminária, pegar a caneta e anotar palavras-chave, ou se
preferir o sonho todo, no outro dia se esquecer do sonho é só
pegar a anotação em mão e trabalhar o sonho com seu analista.
Ao ler o “livro dos sonhos” de autoria de Júlia e Derek Parker,
considerei de importante contribuição a forma com que a
autora adotou, para que o indivíduo que não se lembra do seu
sonho no dia seguinte pode adotar para assim trabalhar o
mesmo.

O primeiro passo antes de começar um


diário é providenciar um caderno ou um

107
bloco de anotações e deixá-lo perto da
cama. Providencie também uma lanterna
para não precisar ascender à luz (lembre-se
de que muito movimento pode estimular o
esquecimento do sonho antes que você
consiga escrever qualquer coisa). Não tente
escrever o sonho todo- algumas palavras
são suficientes para garantir o esboço
principal. (PARKER, 1996, p. 28).

Já Zimerman, apud Freud (1999, p. 181) contribui


dizendo que “o sonho que foi esquecido é porque já cumpriu a
sua missão, ou porque foi secundariamente reprimido”.
Não posso deixar de concordar com o autor citado
acima, creio que quando esquecemos e reprimimos algo é
porque está incomodando, mexeu com o inconsciente, com as
emoções, com as dores, por isso reprimimos, para não tocar em
algo que nos machucou ou machuca muito ainda.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este trabalho me incentivou a fazer muitas leituras e


pesquisas, por ser um tema bem complexo, mas que ao seu
término me proporcionou um melhor entendimento sobre o
tema em estudo.
Neste trabalho final de conclusão de curso pesquisei e
escrevi sobre como interpretar os sonhos, no qual foi
necessário pesquisar sobre a origem dos sonhos, os períodos do
sono, as suas experiências, os processos conscientes e
inconscientes, seus mecanismos de defesa, deslocamento,
condensação e dramatização, a elaboração primária e
secundária, censor onírico e o superego.

108
Em seguida escrevi sobre as emoções, pois elas estão
presentes em todos os seres humanos, e ouso dizer que são elas
na verdade que comandam nossa vida. Pesquisei também os
símbolos e imagens presentes em cada emoção, bem como a
representação dos símbolos, sua interpretação, para assim
compreender os símbolos, imagens, e a linguagem simbólica.
Logo a seguir tratei de pesquisar sobre os significados
das imagens, também abordei questões como as imagens, a
repressão, os símbolos, mitos e contos, fantasias, resistências
transferências eróticas, afetivas; além deste também sobre o
significado dos sonhos na terapia, como interpretar os sonhos
na psicanálise humanista e os pesadelos o qual citei um sonho.
Ao escrever este trabalho de conclusão me deparei a
refletir sobre a importância que tem em um analista estar bem
preparado para assim interpretar um sonho, pois, não é nada
fácil, exige muita leitura e estudos. O analista deve ser um
eterno estudante, deve estar sempre lendo, pesquisando,
participando de jornadas, congressos entre outras.
Por isso torna-se fundamental que o psicanalista
entenda a formação dos sonhos seus mecanismos bem como a
sua interpretação.
BIBLIOGRAFIA

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Paulo, 2008.

FROMM, Erich. A linguagem esquecida. Rio de Janeiro:


Zahar Editores, 1966.

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Petrópolis: Editora Vozes.

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Psicanálise. 4. Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
109
MILLETTE, André. A entrevista psicológica na relação de
entre ajuda: psicologia, aconselhamento, counseling / André
Millette. São Paulo: Edições Paulinas, 1982.

PARKER, Júlia, (1932). O livro dos sonhos: guia completo


para você entender seus sonhos e aprender com eles. Júlia e
Derek Parker; tradução de texto e CIA. São Paulo: Publifolha,
1996.

PEREIRA, SALÉZIO PLÁCIDO. A natureza inconsciente


das Emoções. Santa Maria, RS: Ed. ITPOH, 2007.

__________________________. A clínica na psicanálise


humanista das emoções e pulsões. Santa Maria, RS: Ed
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__________________________. A interpretação dos sonhos.


Santa Maria, RS: Ed. ITPOH, 2012.

_________________________. Conheça as suas emoções.


Santa Maria RS: Ed. ITPOH, 2011.

_________________________. O Dilema do Ser Humano na


Existência. Santa Maria: ITPOH, 2007a.

________________________. A Teoria e a Prática Clínica


de Freud a Fromm. Santa Maria: ITPOH, 2009.

________________________. O Significado Inconsciente


das Imagens. Santa Maria: ITPOH, 2007.

SEGAL, JULIA. Fantasia / Julia Segal; tradução Carlos


Mendes Rosa. Rio de Janeiro: Relume Dumará: Ediouro; São
Paulo: 2005. (Conceitos de psicanálise; V.12).
110
TEORIA E TÉCNICA DA PSICANÁLISE HUMANISTA.
[Éden Jorge Pereira Perez... [ET AL]; organizador Salézio
Plácido Pereira. Santa Maria RS: Ed. ITPOH, 2012.

ZIMERMAN, DAVID E. Fundamentos Psicanalíticos: teoria,


técnica e clínica – uma abordagem didática / Porto Alegre:
Artmed, 1999.

__________________. Manual de Técnica Psicanalítica:


Uma revisão/ Porto Alegre: Artmed, 2004.

___________________. Vocabulário Contemporâneo de


Psicanálise. Porto Alegre: Artmed, 2001.

111
OS DIVERSOS MODOS DE INTERPRETAR OS
SONHOS

Odete Terezinha Bitencourt

RESUMO: Entre as tarefas da psicanálise a que se apresenta


em primeira ordem é decifrar e entender o simbolismo presente
no inconsciente, isto porque, é através de símbolos que o
inconsciente se manifesta. Sendo o sonho uma das formas mais
comum da manifestação do inconsciente, isto porque o sonho
ultrapassa a linguagem do discurso, e decifrar seus símbolos é
tomar conhecimento do conteúdo reprimido. Entretanto
interpretar o sonho pode não significar uma tarefa simples
devido às fortes resistências que se opõem. Por este motivo o
presente artigo usando um método de pesquisa bibliográfico,
apresenta o modo como o sonho é interpretado nas diversas
teorias da psicanálise, as diversas simbologias e os seus
significados.

Palavras-chave: Sonho. Fantasia. Símbolos. Inconsciente.

1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Um sonho não interpretado é como uma


carta não lida.
(Tamuldi)

Ao longo da história da humanidade o sonho tem sido


um enigma que muitos povos tentaram decifrar, havia muitas
crenças, mistérios e curiosidades envolvendo este fenômeno,

112
Na antiguidade clássica acreditava-se que
os deuses se comunicavam com os homens
durante os sonhos e que até anunciavam o
futuro por meio deles. Os antigos egípcios
chegavam a catalogar os sonhos, a fim de
fazer prognósticos sobre todas as esferas da
vida particular e social. Sonhos proféticos
são mencionados em numerosos textos
antigos do Oriente Médio e da Ásia,
inclusive na bíblia. (Enciclopédia Barsa, p.
357).

Com o desejo de saber o que realmente significava o


sonhar, a importância e a utilidade que o sonho poderia
representar na vida de uma pessoa, o sonho passou a ser objeto
de estudo científico. De acordo com registros da Enciclopédia
Barsa (2002, p. 357), “no século IV a. C., Aristóteles assinalou
a influência das impressões sensoriais e das emoções no
conteúdo dos sonhos. Não obstante, o estudo científico desse
fenômeno só começou a se desenvolver em meados do século
XIX”.
No processo do sonho, primeiramente, ocorre um
processo fisiológico, ou seja, quando o corpo está relaxado,
paralisado, algumas áreas do corpo ficam mais aceleradas do
que o normal, porém, de uma forma diferente, durante o estado
de vigília a parte do cérebro que mais trabalha e administra as
demais é o cortex pré- frontal, que é a parte de massa cinzenta
que se localiza logo atrás da testa e é responsável pelo
pensamento racional.
Durante o sonho acontece o contrário, essa parte se
apaga e todo resto funciona, só que sem o controle do racional
algumas áreas que não se comunicam durante a vigília passam
a trocar informações, desse modo é que memórias antigas

113
aparecem no córtex visual que é o responsável pelo
processamento das imagens.

Freud supõe que em nossa vida adormecida


o censor moral, presente dentro de nós,
também está semi- adormecido. Assim, tem
permissão de ingressar em nossa
consciência, durante o sono pensamento e
fantasias que do contrário ficam
completamente de fora. (FROMM, 1976 p.
58).

Entretanto, estando livre da censura do pensamento


racional e da força da gravidade, a memória de curto prazo que
depende diretamente do córtex pré- frontal também está
desligada, tudo isso permite os rostos mudarem o tempo todo,
pessoas e objetos voar, imagens misturadas, ou seja, tudo
parece ilógico. (SUPERINTERESSANTE, 2010).
Com o propósito de esclarecer como isso ocorre, o que
tudo isso significa, a contribuição de algumas teorias, bem
como a técnica aplicada para compreender esta linguagem é
que o presente artigo se propõe.

2. O MODO DE INTERPRETAR O SONHO NA


ABORDAGEM FREUDIANA

O fenômeno dos sonhos sempre despertou a curiosidade


das pessoas em geral que tentavam fazer a “interpretação”, bem
como compreender seu significado utilizando métodos
variados. Conforme Freud (1900) o primeiro método popular
utilizado chamado de “interpretação simbólica”, consistia em
substituir um conteúdo do sonho por outro semelhante, visto
114
que tal método considerava o conteúdo do sonho como um
todo. Não considerando, portanto, os “disfarces” usados no
conteúdo latente, bem como o significado individual de tal
representação.
O segundo é o método da “decifração”, no referido
método a técnica utilizada era uma espécie de criptografia, ou
seja, utilizando um código fixo, e cada signo correspondia a um
determinado significado. Este método ainda é usado nos dias
de hoje nos livros dos sonhos.
Mas foi somente a partir da descoberta da psicanálise e
do inconsciente, no ano de 1900 que Freud cria a Teoria
Psicanalítica do sonho.

A teoria mais conhecida sobre o


significado dos sonhos é a que se enquadra
dentro da concepção psicanalítica
formulada por Sigmund Freud. Seu livro
Die Traumdeutung (1900; A interpretação
dos sonhos) revolucionou os estudos sobre
o assunto, ao postular a tese segundo a qual
o sonho só pode ser explicado quando
referido a outra variável diferente da
sensação [...] Freud afirmou que o valor
interferente é a afetividade, e o sonho
portanto é um tema afetivo. (Enciclopédia
Barsa, p. 357).

Postulou-se desde então, que para interpretar um sonho


é necessário aplicar uma técnica, descrita em sua obra “A
interpretação dos sonhos” publicada no ano de 1900, a referida
obra constitui o ponto de partida para a interpretação do sonho.
No entanto de acordo com Abuchaem (1989) o que
motivava Freud a pesquisar sobre os sonhos se devia
especialmente aos relatos de seus pacientes na clínica sobre os
115
seus sonhos, e o que a eles estava associado. Sendo Freud um
médico neurologista, seu foco principal estava voltado para os
aspectos fisiológicos, por conta disso teve um segundo fator de
muita relevância que era um dos seus objetos de pesquisa, os
casos de histeria, como relata no livro a interpretação dos
sonhos o caso da sua paciente Irma, bem como, delírios
alucinatórios nos psicóticos.
Como relata Freud no livro “A interpretação dos
sonhos”: “Tenho-me empenhado há muitos anos (com um
objetivo terapêutico em vista) em deslindar certas estruturas
psicopatológicas – fobias histéricas, ideias obsessivas, assim
por diante (FREUD, 1996, p.135)”. O que Freud constatou
como sendo também uma das funções dos sonhos é a de
preservar o sono, por este motivo os desejos irracionais
precisam ser camuflados para que o sonhador não desperte,
sendo que, outra função do sonho é a realização dos desejos
reprimidos, desse modo satisfazer o que não é permitido, físico
ou moralmente para a pessoa que está sonhando, Segundo
Freud (1989, p. 128),

Um homem atormentado pelo sofrimento


físico e mental obtém dos sonhos o que a
realidade lhe nega: saúde e felicidade.
Também assim, na doença mental, existem
quadros brilhantes de felicidade,
grandiosidade, eminência e riqueza. A
suposta pose de propriedade e a realização
de desejos – a retenção ou destruição do
que realmente proporciona uma base
psicológica para a loucura – amiúde
constituem o principal conteúdo de um
delírio.

116
Isto porque segundo Freud apud Barsa (2002) a
finalidade dos sonhos é realização de desejos que estão
reprimidos no inconsciente, sendo estes impedidos de chegar à
consciência por uma censura interior. Assim sendo, o conteúdo
do sonho pode se manifestar de duas formas. Na forma de
conteúdo manifesto, de forma clara direta exatamente
conforme desejo explícito, isto é o modo como o sonhador se
recorda do sonho, como ele é.
E o conteúdo latente, sendo este o verdadeiro motivo
do sonho, visto que, o sonho é um sintoma que se manifesta do
inconsciente, considerando que, o inconsciente é composto de
energia que está constantemente tentando realizar seus
desejos, ou seja, aliviar a tensão, no entanto, no sonho latente,
esta energia se apresenta no processo primário. “Caracterizado
por uma descarga difusa, aleatória e incontrolada de excitação,
pressiona no sentido de descarga imediata e não tolera o menor
atraso”. (ALTMAN, 1971. p.180).
Quer dizer que se apresenta tal como foi reprimido,
ou seja, no modo como ficou registrado no inconsciente,
porém, mesmo que durante o sono a censura estando mais
relaxada estando mais relaxada, ela continua atuando. “A
censura, que é a expressão da ação repressora do ego ao serviço
do superego”. (TALLAFERRO, 1965, p.130, original em
espanhol, tradução feita pela escritora). Esta vai impedir que
algumas imagens se manifestem, especialmente aquelas que
possam trazer muita angústia para o sonhador, no entanto , para
poderem passar pela censura, é necessário camuflar, distorcer o
modo como vão se apresentar, isso é o que o referido autor
denomina de deformação do sonho ou deformação do conteúdo
latente. Que vai dar os disfarces, moldar o sonho da forma
como vamos recordar.
Segundo (Freud, 1996, p.131) “interpretar” um sonho
implica atribuir a ele um “sentido” – isto é, substituí-lo por

117
algo que se ajuste a cadeia de nossos atos mentais como um
elo adotado de validade e importância iguais ao restante.
Para tanto segundo a abordagem Freudiana, para
interpretar um sonho é preciso levar em consideração alguns
mecanismos de defesa presentes atuando como resistência,
evitando dessa forma que a pessoa tome conhecimento do
conteúdo latente, é importante observar estes mecanismos, pois
todas as abordagens psicanalíticas estão de comum acordo
quanto a estes. Isto porque, estes são mecanismos da teoria
estrutural de Freud.
De acordo com Tallaferro (1965) um dos mecanismos
presente na deformação do sonho é a dramatização ou
concretização segundo o autor citado, não há como representar
um pensamento abstrato, como amor, carinho, afeto, vida,
morte, ódio, ciúme, saudade. Para tanto é necessário que este
tenha uma imagem concreta, para representá-los, a forma como
aparece, mesmo que pareça incoerente, está de algum modo
relacionado com o pensamento, Tallaferro exemplifica,
considerando a própria vida, pelo processo de dramatização a
pessoa vai aparecer no conteúdo manifesto folheando a revista
Life.
Outro fator que também relevante para interpretar um
sonho é a condensação.

Na condensação são deixados de fora


alguns elementos, apenas um fragmento
das diversas partes componentes do sonho
latente emerge no sonho manifesto, os
elementos latentes que possuem traços
comuns se fundem num todo unitário.
(MULLAHY, 1965, p. 106).

118
Devido a este processo, o sonho tal como recordamos é
muito mais curto que o sonho latente, segundo (FROMM,
1976, p. 59). “Ele deixa de fora muitos elementos do sonho
latente, combina fragmentos de vários elementos, e condensa-
os no sonho manifesto”. A formação de uma imagem composta
de uma pessoa que combina com características de duas ou
mais pessoas, ou animais, em uma única como coloca Altman,
(1971) que no sonho a criação dessas figuras compósitas é
semelhante à criação da sereia, do centauro, da esfinge na
mitologia.
Entretanto, no sonho podem estar condensados, pessoas
na forma de imagens, como também palavras como nome de
pessoas, onde aparece um determinado nome, ele pode estar se
referindo as iniciais dos nomes de duas outras pessoas.
Podemos exemplificar a condensação, com a imagem
relacionada a uma figura repressora, especialmente se existiu
algum conflito com autoridade masculina, pode no sonho
manifesto se apresentar uma pessoa com os olhos iguais aos do
pai, o cabelo do professor, a roupa do chefe.

A intencionalidade está presente em


qualquer cena imagística, porém, estas
imagens estão interligadas umas às outras.
Para entendê-las, em seu pleno significado
oculto, é preciso suspendê-las e analisar o
seu conteúdo, sem deixar de relacioná-las
com a totalidade do ser. (PEREIRA, 2007,
p.156).

Desse modo é que sonhamos com alguma coisa


simples, mas ela pode estar contida de muitas informações.
Para ter conhecimento de uma representação compósita é
necessário usar a livre associação, para ir separando as imagens
que estão fundidas em uma só, pois estas imagens podem estar
119
atreladas formando uma longa cadeia, por esta razão que
muitas vezes quando se quer contar um sonho, temos
dificuldade em explicar algumas imagens.

Em alguns casos, esse tipo de mudança de


expressão ajuda a condensação onírica
ainda mais diretamente, descobrindo uma
forma de palavras que, devido a sua
ambigüidade, seja capaz de dar expressão a
mais de um dos pensamentos do sonho.
Dessa maneira, todo o campo do chiste
verbal é posto à disposição do trabalho do
sonho. “Não há por que nos
surpreendermos com o papel
desempenhado pelas palavras na formação
dos sonhos. (FREUD, 1996, p. 372).

Por esta razão que para interpretar um sonho se faz


necessário levar em consideração todo o contexto presente no
sonho bem como a história de vida da pessoa que sonhou, na
medida que alguma palavra ou símbolo presente no sonho
passa a ter um significado, vai se desmembrando o sonho,
fazendo associações e encontrando a significação dos demais.
Podemos exemplificar usando uma cédula de dinheiro, por
exemplo, numa nota estão condensados vários elementos, uma
pessoa, um numeral, uma marca, a combinação de cores.
Outro fator também indispensável para interpretar o
sonho, de acordo com Tallaferro (1965 p. 132), é o
Desdobramento ou multiplicação, este é, o oposto da
condensação, dessa forma, uma determinada pessoa, ou um
objeto, pode ser lembrada pela pessoa que sonhou a duas ou
mais, nesse caso é importante observar algum elemento que
tenha em comum, alguma qualidade ou característica.
Exemplificando de acordo com o autor, no sonho parece uma
120
pessoa roubando, e a outra pessoa recriminando a ação, neste
caso, na realidade, o ladrão e quem o repreende são a mesma
pessoa.
Este tipo de situação ocorre quando tem que se tomar
uma decisão, de um lado o desejo de fazer alguma coisa, que
pode não estar de acordo com os valores morais da pessoa,
onde se contrapõe desejo e moral. Não apenas isso, mas
também denunciando possíveis autossabotagens, como quando
uma pessoa, por exemplo, tem um desejo latente por escrever
um livro, no seu sonho ela está em frente à mesa pegando o
autógrafo do autor.
Mais uma forma de disfarce é o deslocamento, devido
sua natureza, este é considerado o mais importante dos
mecanismos de deformação do sonho, o referido mecanismo
resume-se na substituição de uma imagem que se apresenta de
modo oculto, não reconhecida, que é substituída por outra, ou
seja, se numa imagem está contida uma emoção, existe nela
uma energia, que ao se tornar consciente evoca uma emoção
mais intensa ou menos intensa. “[...] O deslocamento, o
segundo modo essencial de funcionamento onírico, é o
resultado da rápida transferência de uma ideia ou imagem para
outra, característica do processo primário” (ALTMAN, 1971,
p.21).
O deslocamento transfere a energia de uma emoção
para outra, nesse processo a imagem de significado mais
intenso pode permanecer oculta, porém a energia contida nela
será sentida em outra imagem representada, pois ela se junta a
outras imagens ou sons de uma lembrança diferente, ou vice
versa, aparece no sonho a imagem cujo registro emocional é
altamente catexado, e não provocar a emoção intensa no
sonhador.

121
Um elemento latente do sonho é
substituído por algo mais remoto, como
uma alusão. Verifica-se, também, uma
transferência de acentuação ou ênfase, de
algum elemento que é importante para
outro de menos importância.
(MULLAHY, 1965, p.107).

Neste caso, as imagens se apresentam, ocorre a


descarga de energia psíquica, mas a pessoa continua dormindo.
Que de acordo com Pereira (2012) a energia que está reprimida
é deslocada para os símbolos, e ao ter compreensão do
significado que tem este símbolo, pode-se chegar ao núcleo
neurótico, conhecer quais as forças que estão atuando no
inconsciente. Considerando que, para dar significado ao sonho
é necessário que a pessoa faça a livre associação dos fatos e
pessoas presentes no sonho de acordo com suas vivências,
entretanto quando alguma lembrança traumática se apresenta,
bem como algum desejo que por motivos de princípios a
pessoa não aceite ou julgue inadequado senti-lo, aparece a
censura que deforma ou modifica o significado original,
transfere o sentimento, ação ou fatos de um local para outro,
nessa situação coloca Freud

Em ambos os casos, há um deslocamento


ao longo de uma cadeia de associações;
mas um processo de tal natureza pode
ocorrer em várias esferas psíquicas, e o
resultado do deslocamento pode ser, num
caso, a substituição de um elemento por
outro, enquanto o resultado em outro caso
pode ser o de um elemento isolado ter sua
forma verbal substituída por outra.
(FREUD,1996, p.371).

122
Por esta razão, é natural num sonho aparecer situações
que ocorreram com determinada pessoa acontecer com outra,
muitas vezes pessoas que já morreram, ter um sentimento
afetivo por quem nunca vimos, seres inanimados falando. Pode
também ocorrer como coloca Tallaferro, (1965) que uma
imagem que desloca uma determinada emoção, seja substituída
tal emoção por outra oposta, o qual se chama projeção, nesta
situação, temos a imagem e pode ficar confuso, pois que no
conteúdo latente pode sentir desejo de agredir outra pessoa, no
sonho manifesto a pessoa vai recordar do sonho como sendo a
outra pessoa que quer lhe agredir.
Destaca também Tallaferro (1965) A representação
pelo nimio, esta se conceitua pela observação nos detalhes, isto
porque é através dos detalhes mais simples que o conteúdo se
manifesta, desse modo, exemplificando seguindo uma
abordagem humanista, se o sonho representa o desejo de
comprar a casa, no sonho aparece somente a chave da casa.
Outra forma de disfarce do sonho é, o denominado
inversão cronológica que de acordo com Tallaferro (1965, p.
133, original em espanhol, tradução da escritora) “quando isso
acontece o conteúdo manifesto representa como imagem do
sonho, a imagem imediata, posterior à que forma o conteúdo
latente”. O referido mecanismo consiste em que a cena, de
acordo como a recordamos, está sendo representada ao seu
inverso, usando como exemplo do mesmo autor, alguém está
sentado com sua namorada de repente se levanta e sai
caminhando com ela. No conteúdo latente seria um casal
andando no parque procurando um lugar onde os dois possam
sentar-se para beijar-se.
Outro disfarce que Tallaferro (1965) destaca é o que ele
apresenta como representação pelo oposto, em seu aspecto
semelhante ao anterior, entretanto diferencia-se quanto à
natureza, pois este inverte o sentimento, ou seja, uma pessoa
que tenha no conteúdo latente uma emoção de extrema revolta
123
e indignação, no sonho ela aparece totalmente calma, outro
exemplo é ter um intenso desejo de amor por uma pessoa e no
seu sonho sentir ódio e desprezo por ela.
Destacamos mais uma forma de disfarce apresentado
pelo autor já mencionado. É a representação simbólica, esta é
apontada por ele como uma forma diferenciada de
deslocamento, posto que, em diferentes sonhos sempre aparece
uma imagem da qual a pessoa se recorda, e esta imagem está
presente nos diversos sonhos, ela está simbolicamente
representando um elemento do conteúdo latente. Tallaferro
(1965 p. 134, original em espanhol, tradução da escritora) [...]
“É dizer que por representação simbólica, deve ser entendido
que um objeto ou um ato não aparecem no conteúdo manifesto
como tal, senão representados mediante o símbolo.”
Entretanto, para a psicanálise para que tal imagem seja
considerada como símbolo, é necessário que o simbolizado
esteja reprimido. Para Pereira (2012) os traumas criam muitos
disfarces para impossibilitar o reconhecimento das vivências
ou mesmo das fantasias indesejadas. Sendo os símbolos
denominados por Freud os elementos mudos dos sonhos.
Isto porque, mesmo que a pessoa não tenha consciência
da força que a motiva a tomar certas decisões, que muitas
vezes pode ser prejudicial para a pessoa. E o que está
simbolizado se manifesta em forma de imagens.

A imagem não tem condições de saber se


esta produção de sintoma, ou de alteração
fisiológica, é a mais conveniente para a
saúde da pessoa. Ela simplesmente aparece
e produz um estado emocional ou
psicossomático obedecendo a um desejo
oculto, que talvez a própria pessoa
desconheça. (PEREIRA, 2007, p.18).

124
Por esta razão, a função da representação simbólica é
transformar em imagens visuais uma ideia, um pensamento ou
um sentimento, dar uma expressão, comparando com a pintura
de um quadro, que tem uma comunicação e uma expressão
silenciosa.
Assim como uma imagem representada num quadro
evoca emoções diferentes em diferentes pessoas, do mesmo
modo a imagem onírica terá um significado diferente em cada
pessoa. Que para Altman (1971) interpretar um símbolo sem
levar em consideração suas circunstâncias, bem como um
conhecimento de que significado tenha para a pessoa, pode
parecer interessante intelectualmente, no entanto, não tem
validade nenhuma para efeito de análise individual.
Entretanto, mesmo o sonho tendo passado por todos os
disfarces e representação simbólica, poderá ainda não estar a
contento da censura do superego, para tanto tem um último
trabalho realizado com o sonho o qual foi denominado
Elaboração secundária ou Revisão secundária.

A revisão secundária, usando um processo


secundário de pensamento, tenta fornecer
ao sonho consistência e coerência,
preencher as lacunas, criar alguma ordem e
moldá-lo num todo inteligível. Sempre que
encontrarmos continuidade e lógica num
sonho manifesto, sabemos que a revisão
secundária é responsável. (ALTMANN,
1971, p. 35).

Conquanto, conclui-se que a elaboração secundária é a


remodelação do sonho, para que se transforme numa história
que tenha coerência, que tenha um significado, ou seja, tornar o
sonho perfeito para o ego. “Em termos gerais, pode-se dizer
que a elaboração secundária da os últimos retoques ao sonho
125
para fazê-lo mais preciso e compreensível em seu aspecto
exterior.” (TALLAFERRO, 1965, p.138, original em espanhol,
tradução da escritora).
São, portanto, estes fatores em especial, postulados por
Freud que devem ser observados quando se realiza a
interpretação de um sonho, isto porque o sonho é uma
experiência subjetiva, individual, e concernente a história de
vida de cada pessoa.
Entretanto como a teoria freudiana se fundamenta pelas
energias das libidos, especialmente desejos infantis reprimidos,
portanto, a interpretação nesta teoria investiga fatores ligados a
sexualidade, nessa ótica, todo conteúdo reprimido é de origem
sexual.

[...] aspectos da teoria freudiana dos


sonhos. Os sonhos devem ser entendidos
como a realização alucinatória de desejos
irracionais e particularmente de desejos
sexuais originais da primeira infância, que
não se transformaram em formação reativas
ou em sublimações. (FROMM, 1976,
p.57).

De acordo com a teoria freudiana encontramos alguns


símbolos determinados usados para interpretar por uma
interpretação de decifração o sonho como encontramos em
Freud.

(O interesse sexual estende-se muito além


da esfera da genitália externa.) Para esses
pacientes, os pilares e as colunas
representam as pernas (como nos Cânticos
de Salomão), todo portão representa um
126
dos orifícios corporais (um“buraco”), todo
encanamento de água é um lembrete do
aparelho urinário, e assim por diante.
(FREUD, 1996, p. 378).

Além destes significados de simbologia destaca-se


também outros como, subindo e descendo escada como o ato
sexual, dançar, ato de comer alimentos gulodices como prazer
sexual, Rei, príncipe, presidente, imperador representando o
pai de quem sonha, Rainha, princesa, mulheres ilustres estar
simbolicamente representando a mãe de quem sonha, os
órgãos genitais masculinos são representados por bengalas,
facas, guarda-chuva lápis, martelo. O órgão genital feminino é
representado por caixas, portas, estojos, porta jóias, jardim,
flores, queda de cabelo e dos dentes como castração, e muitos
outros.
Fromm (1976. p. 58) “A linguagem simbólica de Freud
não é uma linguagem capaz de exprimir quaisquer sentimentos,
sendo que esta só exprime desejos instintivos primitivos, a
vasta maioria dos símbolos é de origem sexual”.
No entanto, é importante observar que Freud tinha
interesse em tratar pacientes, sendo assim a psicanálise tinha
por finalidade a cura de doenças.
Entretanto como outras necessidades se apresentavam
na vida das pessoas, a teoria freudiana foi sendo estudada, e
novas teorias foram criadas a partir desta, para atender as novas
demandas que surgiam.

Todos os psicanalistas concordam sobre o


valor da e a importância da sexualidade na
vida humana. Mas existem outros instintos,
talvez muito mais importante que o sexual.
A dogmatização da pulsão sexual como
sendo centro da felicidade humana é um
erro, até porque a sociedade e a cultura
127
começam a mostrar outras pulsões, que
talvez em ordem de prioridade na
existência, esteja acima do sexo.
(PEREIRA, 2009, p.18).

Com o propósito de atender aos anseios aos quais esta


teoria não respondia, novas teorias foram surgindo, bem como
novas técnicas derivadas desta revisão teórica com um enfoque
diferenciado.

3. INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS NA TEORIA


PSICANALÍTICA JUNGUIANA

Especialmente o modo como é interpretado o sonho


nesta teoria se distancia significativamente da abordagem
freudiana, enquanto que para Freud, os sonhos simbolizam os
desejos libidinais da infância que foram reprimidos. Para Jung
o sonho revela sabedoria do inconsciente que transcende o
indivíduo, observamos as diferenças especialmente no que se
refere aos símbolos, sendo que, para a teoria freudiana os
símbolos são de conotação sexual e, para Jung a simbologia é
de cunho religioso e espiritual, fazendo concordância com
Freud pelos mecanismos de disfarces usados pelo aparelho
psíquico.

Enquanto Freud inclinava-se a depender


sobre tudo da livre associação e a encarar o
sonho como uma expressão dos desejos
irracionais infantis, Jung foi cada vez mais
dispensando a livre associação e, de forma
igualmente dogmática, tendeu a interpretar
o sonho como a manifestação da sabedoria
do inconsciente. (FROMM, 1976, p. 75).
128
Para Jung o inconsciente é formado de uma energia
muito forte que está a disposição como uma fonte inesgotável
para as pessoas produzirem, utilizar as visões presentes no
sonho para agir de acordo, objetivando a evolução tanto
intelectual como espiritualmente. Entretanto, isso só é possível
se houver a integração do inconsciente com o consciente, ou
seja, um equilíbrio entre as partes que é o chamado processo de
individuação, ou seja, uma complementação do indivíduo que
também pode ser denominada de alma (ou psique), que em
uma pessoa saudável há a necessidade de um equilíbrio da
alma com o corpo e destes com a natureza. Jung (1987, p. 23)
“no pé em que está a ciência atualmente, não vemos outra
possibilidade de fazê-lo, a não ser integrando amplamente os
conteúdos inconscientes a consciência, através da assimilação”.
Todavia, ainda assim não temos um modo de identificar
estas energias, assim como não temos um meio para contê-las,
apenas sentimos sua manifestação especialmente no modo de
viver, nas atitudes e nas escolhas. Para esta teoria, a energia
inconsciente usa uma linguagem especial em forma de
fantasias, sendo que estas aparecem especialmente nos sonhos.

O símbolo é um conteúdo energético capaz


de transformar a energia biológica presente
nos alimentos, mas também consegue
interagir com a realidade através da criação
de símbolos. A energia presente nos
instintos vitais pode ser traduzida através
de símbolos criados por culturas diferentes.
(PEREIRA, 2009. p. 60).

Nesta circunstância, o modo como se interpreta os


sonhos nesta abordagem, prioriza de um modo muito especial a
simbologia presente, sendo que esta simbologia não tenha uma
129
conotação exclusivamente de origem sexual. Jung enfatiza a
importância dos arquétipos ao decifrar a linguagem dos
símbolos, pois estes possuem a capacidade de reproduzir
valores, crenças, mitos etc.

[...] Os sonhos usam símbolos para revelar,


no reino do inconsciente, diferentes
espécies de energias que estão à nossa
disposição na vida em estado de vigília.
Jung deu a estas fontes de energia o nome
de arquétipos. Para Jung arquétipos são
feixes de energia, semelhante as miríades
de fios elétricos reunidos num cano de
força que transportam energia de lugar para
outro. (SAVARY, Org. KRIPPNER, 1990.
p. 21).

Por esta razão, pode-se dizer que a teoria junguiana é a


mais rica em símbolos, destes que de acordo com Von Franz
(1988), Jung salienta a importância de observar quatro dessas
figuras as quais ele denomina de sombra que é o nome usado
para pessoas do mesmo sexo do sonhador, pode esta
representar figuras inferiores ou opostas ao ego do sonhador, e
no sonho estar representado como inimigo.
Outro elemento que é necessário observar ao interpretar
um sonho é o que Jung denominou de anima ou animus, que
para a psicologia analítica o homem tem uma mulher interior e
vice-versa desse modo compreendida. “Anima é a
personificação de todas as tendências psicológicas femininas
na psique do homem – humores, sentimentos instáveis as
intuições proféticas”. (JUNG, 1964, p.176). Esses elementos
são importantes no momento de decifrar a presença de
mulheres no sonho de homens, bem como as emoções, a
sensibilidade, as premonições e as fantasias eróticas.
130
O mesmo equivalente se refere aos homens no sonho
das mulheres que se representa o animus.

Animus a personificação masculina no


inconsciente da mulher – o animus –
apresenta, tal como a anima no homem,
aspectos positivos e negativos. Mas o
animus não costuma se manifestar em
forma de fantasias ou inclinações eróticas
aparece mais comumente como uma
convicção secreta “sagrada”. Quando uma
mulher anuncia tal convicção com uma voz
forte. (JUNG, 1964. p.188).

Percebemos assim que já se apresenta uma diferença no


significado que é dado por Jung para interpretar a presença de
uma figura de sexo oposto no sonho, isto porque essa presença
pode estar relacionada com a própria pessoa e não alguém
externo, leia-se, o outro.
Completando as figuras simbólicas da referida teoria
com o que se denomina o self, ou seja, a figura que Jung (1964)
denominou a totalidade absoluta da psique, e está localizada no
centro da psique a qual se refere uma alusão ao centro divino
do qual se origina a ordem, o referido símbolo aparece nos
sonhos normalmente como centro, como exemplo, a mandala,
esta, normalmente representa o grande homem cósmico, o qual
de acordo com a civilização pode estar identificado como
Jesus Cristo, ou Krishna, ou Buda, Adão, Kadmon, destaca-se
ainda, o círculo, quadrado ou outra figura abstrata, a criança
salvadora, o velho sábio, também o self pode estar
representado por um animal, e estar se referindo a nossa
natureza instintiva e a relação com o nosso ambiente, com a
família, nosso grupo, a sociedade, ou seja, o self simboliza
alguém que guia nossa vida psíquica.
131
Toda realidade psíquica interior de cada
individuo é orientada, em última instância,
em direção a este símbolo arquetípico do
self. Em termos práticos significa que a
existência do ser humano nunca será
satisfatoriamente explicada por meio de
instintos isolados ou de mecanismos
intencionais como a fome, o poder, o sexo,
a sobrevivência a perpetuação da espécie.
(JUNG, 1964, p. 201).

Os símbolos se apresentam não apenas com o objetivo


de denunciar sintomas neuróticos, mas sim apontam uma
necessidade natural de evoluir espiritualmente, ou seja,
transcender a condição animal. Estes símbolos aparecem
especialmente como um caminho para planejar o futuro, em
que se possa reconhecer as possíveis autossabotagens, sendo
estes conhecidos como sonhos premonitórios.

Para Jung a imagem possui na sua natureza


intrínseca o poder de juntar o passado e o
futuro; sem dúvida, todo ser humano
carrega consigo vestígios dos seus
antepassados, mas, ao mesmo tempo
mostra na mesma imagem as linhas mestras
do futuro. Por exemplo, no estudo dos
símbolos é possível entender o que poderá
acontecer no futuro. (PEREIRA, 2009 p.
60).

Temos um exemplo dessa situação quando a pessoa vai


dormir pensando num determinado problema e acorda com a
intuição clara para a resolução do problema, ou seja, o
132
consciente não sabia como resolver, mas o inconsciente tinha a
resposta e apareceu através do sonho.
Colocado sob esta ótica, para interpretar um sonho
orientando-se por esta teoria, é necessário que seja levado em
consideração o modo de vida da pessoa, suas crenças, seus
projetos de vida, bem como suas realizações, o
desenvolvimento social, cultural, cognitivo e espiritual.

[...] É indispensável levar em conta a exata


situação consciente na interpretação dos
sonhos. Da mesma forma, é importante
considerar as convicções filosóficas,
religiosas e morais conscientes, para
trabalhar com a simbologia. (JUNG, 1987,
p. 27).

Por este motivo, é fundamental saber que significado


tem para a pessoa cada símbolo, pois eles estão relacionados às
circunstâncias internas de quem sonha, ainda que alguns
símbolos tenham significado fixo, se faz necessário observar
que emoção há entre os símbolos e sonhar com estas imagens,
especialmente, aqueles símbolos que são de crenças coletivas,
principalmente os de imagens religiosas, visto que esta imagem
para um crente pode possuir um significado de revelações
divinas, enquanto para um cético é apenas um objeto.
Para elucidar com melhor clareza a relação do sonho
com espiritualidade, sendo que esta, é que dá embasamento a
teoria de interpretação dos sonhos para Jung, tomamos nota de
algumas diretrizes dentre as quais relatamos algumas, como
escreve Krippner (1990).
Traz como primeira premissa que o sonho costuma ser
apresentado simbolicamente e/ou na linguagem da metáfora,
isso quer dizer que alguns sonhos são carregados de símbolos,
que possuem dados importantes para que se possa fazer a
133
melhor escolha na vida, entretanto normalmente estão numa
linguagem mais ampla e por esta razão parece não fazer
sentido.
Aponta também o sonho como um evento espiritual,
assim sendo, o sonho é uma espécie de mensageiro que aponta
as oportunidades que estão a disposição. Além disso, o sonho
pode proporcionar a cura e totalidade, pois este nos coloca em
sintonia com os nossos valores. Também o sonho liberta
energia e introvisão, logo, a pessoa pode trazer para o estado de
vigília a compreensão obtida a qual vai auxiliar nas escolhas
que fizer no nível consciente. Outra pressuposição é que o
sonho permite ao ego desperto estabelecer uma relação com o
eu mais profundo, visto que, o sonho sendo uma ponte que
estabelece e viabiliza a comunicação entre o eu consciente com
o interior mais profundo. “E quando começamos a fazer as
relações destes significados no complexo autônomo, somos
capazes de entender esta totalidade da energia psíquica e seu
processo de evolução e expansão”. (PEREIRA, 2012, p. 85).
Desse modo compreendemos que todas as formas de
convicções que estão presentes em uma pessoa têm um fator de
fundamental importância quanto suas atitudes diante da vida,
uma pessoa cética pode acreditar que os símbolos tenham sido
inventados, isso vai depender da crença de cada pessoa e que
para ela se torna uma realidade de possíveis bloqueios
emocionais, de potencialidade humana desperdiçada.
Contudo é importante observar também a função que
tem o símbolo, sendo que eles se dividem em naturais e
culturais.

Quando o psicanalista se interessa por


símbolos ocupa-se, em primeiro lugar, dos
símbolos NATURAIS, distintos dos
símbolos CULTURAIS. Os primeiros são
derivados dos conteúdos inconscientes da

134
psiquê, portanto, representam um numero
imenso de variações arquetípicas
essenciais. (JUNG, 1964, p. 92).

Assim sendo, os símbolos naturais representam


elementos da natureza registrados no inconsciente como
imagens arquetípicas. Os arquétipos dos antepassados são
herdados como crenças e valores, e estes têm força para criar a
realidade tanto construtiva como destrutiva. Estes símbolos
revelam nos sonhos a natureza humana original, porém o
significado deles vai depender do que significa
emocionalmente para a pessoa que sonha.
Por outro lado os símbolos culturais estão relacionados
com as crenças sejam religiosas ou populares, as superstições,
como número 13, gato preto, símbolos como a cruz, para
interpretar um sonho com estes símbolos é importante saber
quais são as crenças da pessoa, se estes símbolos representam
para ela alguma coisa além de um objeto ou um número ou um
animal, pois este é o valor de realidade psíquica para quem
sonha.
Nesse contexto é importante saber que emoção está
registrada e que se representa através destes símbolos, sejam
naturais ou culturais, bem como se a pessoa que sonha está
aproveitando sua energia psíquica para evoluir, ou se está
usando contra si própria com hábitos nocivos.

Nenhum símbolo onírico pode ser separado


da pessoa que sonhou, assim como não
existem interpretações definidas e
específicas para qualquer sonho. A
maneira pela qual o inconsciente completa
ou compensa o consciente varia tanto de
indivíduo para indivíduo que é impossível
saber até que ponto pode, na verdade haver

135
uma classificação dos sonhos e seus
símbolos (JUNG, 1964, p. 52).

Entretanto, mesmo não havendo uma interpretação


definida e específica do sonho, e que se faz necessário
interpretar o significado simbólico de acordo com a realidade
de quem sonha, a psicologia junguiana apresenta uma técnica,
assim definida:

Comparamos o sonho a um drama e o


examinamos sob três aspectos estruturais:
primeiro, a introdução ou exposição — o
cenário do sonho e a colocação do
problema; segundo, a peripécia — o
desenrolar da história; e finalmente, a lysis
— a solução final, ou talvez a catástrofe.
Quando não compreendo um sonho, uso
esse esquema e me coloco a questão:
“Muito bem, qual é a introdução”. (VON
FRANZ, 1988, p. 23).

Nesse contexto, a primeira consiste na ação e na definição dos


protagonistas, ou seja, a história em si e as pessoas, o local,
casa, móveis, paisagens, animais etc.
A partir do relato do sonho, vamos exemplificar, o
sonhador está em uma casa em um sítio, primeira intervenção a
fazer: Como era esta casa? O que mais tinha neste lugar?
Como você se sentia lá? Que lembranças este lugar lhe traz?
Quais as fantasias este lugar provoca? Tinha mais alguém lá
com você? Como era esta pessoa? Que emoção esta pessoa
provoca em você? Que outra lembrança esta pessoa e este lugar
trazem? Estas intervenções têm por objetivo levar o sonhador
a fazer associações, evocar emoções reprimidas levando a
pessoa a entrar em contato com estas emoções. É importante
sempre prestar atenção nos detalhes e o que a eles pode estar
136
associado. Observar as expressões do corpo o olhar, as mãos a
posição do corpo.
Num segundo momento se nomeia o problema, é ai que
vai aparecer a catarse, ou seja, reviver a emoção necessário
para reelaborar. Colocamos como exemplo fictício que a
pessoa que sonha era um menino, que estava na fazenda com o
avô e monta num cavalo, o cavalo dispara com o menino,
corre, pula, e o menino tentando se segurar, passa muito medo,
se segura firme, mesmo assim cai do cavalo e se machuca,
aparece aqui um desenvolvimento dramático que pode ser a
origem de muitos outros medos, de neuroses e traumas, é
importante neste momento relacionar em que situação ou
aspecto da vida a pessoa reage como aquele menino. Fazer um
contra ponto da criança com o adulto e em quais decisões que
toma hoje motivado por aquela emoção.
Finalmente a elaboração final do sonho, ou seja, o
“lysis” que é o objetivo, a solução, o modo como esta emoção
interfere na vida da pessoa. Observando também que o cavalo é
um arquétipo de força, ai é importante observar contra quais
forças esta pessoa está lutando, ou então de que forças estão
precisando para poder se realizar.
Esta é uma técnica que nesta teoria se aplica em sonhos
com representações simbólicas simples, concretas, a qual é
possível realizar associações pessoais, entretanto, os sonhos
com representações arquetípicas, com significado mitológico
não é possível fazer a associação,

São os assim chamados sonhos


arquetípicos, que têm um significado
mitológico e aos quais em geral as pessoas
não associam nada. Se perguntarmos: "O
que você pensa sobre Júpiter?", a resposta
será: "Ora, Júpiter é um planeta." Não se
sabe o que associar e nada de pessoal vêm
à mente. Nesse caso, recorre-se às
137
associações da humanidade. "Quais as
fantasias da humanidade a respeito de
Júpiter?" Coloca-se então a resposta a essa
pergunta no texto do sonho. (VON
FRANZ, 1988, p. 25).

Neste caso, as associações estarão relacionadas não


unicamente com a pessoa que sonha, mas também no modo
como as demais pessoas significam esta imagem, que segundo
Pereira (2007) a resposta para estas questões vai depender do
modo como assimilamos e compreendemos a existência desta
essência na natureza da imagem. Se elas são inatas, estão
presente nos genes e esta imagem dá informações de ordem
ontogênica e filogênica, ou seja, está gravada na humanidade
que passa de geração em geração. De acordo com (PEREIRA,
2012, p. 85) “O analista Junguiano elabora o sonho de seu
paciente em quatro níveis, o contextual, o pessoal, transpessoal
e a totalidade. Essa contextualização do símbolo que possibilita
levar a pessoa observar aspectos da sua vida que estão sendo
negligenciados”.
Entretanto, a sociedade vai evoluindo e novas
necessidades vão surgindo, para dar conta das novas demandas,
as teorias vão sendo aprimoradas e novas teorias se originam a
partir das já existentes, contemplamos agora a teoria humanista
seguida por Karen Horney e Erich Fromm, o modo como as
referidas teorias tratam a questão dos sonhos, bem como é feita
a interpretação dos sonhos, como se interpreta a simbologia e
sua representação.

A interpretação moderna dos sonhos é mais


complexa. Quem estuda a mente hoje olha
com atenção para os detalhes do sonho de
cada pessoa, sem correr atrás de
interpretações genéricas. Usar símbolos
universais, do tipo sonhar com água
138
significa x ou y, então nem pensar. Isso
seria subestimar o maior talento do cérebro
do sonhador: a capacidade de criar
metáforas surpreendentes.
(superinteressante, 2010, p. 62).

Desse modo, o sonho vai sendo interpretado, no


momento em que se vai interpretando as metáforas presentes, e
o significado, que sentido tem na vida da pessoa os elementos
que se apresentam, ou seja, é uma tarefa pessoal a qual pode
contar apenas com o auxílio do analista.

4. A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS NA


ABORDAGEM CULTURALISTA
REPRESENTADA POR KAREN HORNEY.

Seu método analítico pressupõe que a diferença entre os


papéis sociais ocorrem devido as influências culturais, posto
que esta é determinante no papel social que o ser humano
desempenha. Dentro dessa concepção também o conceito de
neurose é relativo. “Muitas vezes o que é considerado neurose
numa determinada sociedade é considerada um valor para
outra” (PEREIRA, 2009. p.105), nessa circunstância a pessoa
neurótica é a que apresenta um comportamento pouco ou nada
flexível, conduz sua vida e suas relações de modo austero,
assim como existe um desacordo entre as suas capacidades e
as realizações. Nesse contexto o neurótico apresenta suas
defesas faltando com sinceridades sobre si mesmo, não sendo
honesto consigo mesmo, com suas emoções.
Por esta razão, se faz necessário o autoconhecimento, e
para tanto esta abordagem alerta para o fato de que o método

139
freudiano leva sim ao inconsciente, mas é preciso estar atento a
tudo que ocorre em seu entorno, pois é perigoso se perder.

Qualquer um que tente interpretar sonhos,


sem certa compreensão dos fatores que
agem em seu próprio íntimo na ocasião,
estará atirando a esmo, num verdadeiro
jogo de azar. A interpretação pode, assim,
degenerar numa série de palpites
intelectuais, mesmo que o sonho seja
aparentemente translúcido. Até o sonho
mais simples pode permitir várias
interpretações. (HORNEY, 1978, p. 129).

Entretanto a partir desta colocação, constatamos que,


decodificar o código simbólico dos sonhos é importante
considerar a pessoa dentro do seu meio, as suas relações, as
condições sociais e culturais. Exemplificando uma mulher que
sonha com a morte da sua chefe, neste sonho, o símbolo
presente é a morte, a qual traz em si várias possibilidades.
Nessa situação, a primeira hipótese que se apresenta é um
sentimento de hostilidade em relação a sua chefe, mas também
é importante investigar se está ocorrendo um desejo de
promoção, ou de aumento salarial, bem como a pessoa pode ter
cometido uma falha no seu trabalho e está temendo a punição,
ou então o desejo de trocar de função ou de emprego, e se sente
incapaz de manifestar.
No entanto o que se apresenta de modo manifesto é um
sentimento negativo em relação a sua superior. Nesse caso
destaca-se o que é importante observar. “Na primeira questão
seria saber qual a razão do ódio, e de sua repressão, na
segunda, por que o sonhador não encontra uma solução mais
adequada; na terceira, seriam as circunstâncias que teria
ocorrido a provocação concreta”. (HORNEY, 1978, p. 130).
140
Além desses critérios, deve-se considerar também, o
meio em que a pessoa foi criada, quais eram as crenças da
família em relação ao trabalho feminino. Importante também se
a pessoa que sonhou está com filho ou algum familiar
necessitando.

Todo símbolo é arbitrário, mas tem dentro


de si um significado que depende da
história e do seu contexto social e cultural,
bem como de suas relações sociais e
econômicas. São estas ideias que podem
servir de inspiração a uma investigação do
seu significado, no íntimo de cada imagem
dos sonhos. (PEREIRA, 2007, p. 124).

Partindo do pressuposto que os símbolos serão


interpretados dentro da cultura, e a cultura também cria seus
símbolos, seus ritos, suas lendas, sendo assim, só logrará êxito
na interpretação dos símbolos imagísticos quem o fizer à luz da
existência, sem pré-conceitos estabelecidos, sem julgamento de
valores.
Nessa corrente considera, assim como as demais, os
sonhos como sendo fontes importantíssimas de informações da
vida de quem o sonhou, mas aponta para alguns princípios
necessários serem levados em consideração.
Que as imagens obtidas no sonho são apenas
tendências, não sendo portanto, uma imagem fotográfica real,
fidedigna ao verdadeiro sentimento.

É verdade que um sonho pode revelar-nos,


mais claramente que nossa vida sobre
estado de vigília, quais são nossos
verdadeiros sentimentos: amor, ódio,
desconfiança ou tristeza, que em outras
condições são reprimidos, podem ser

141
sentidos sem qualquer constrangimento
durante o sono. (HORNEY, 1978, p.131).

Dentro dessa realidade, o que se deve fazer para


elucidar um sonho? Se faz necessário observar que o desejo
está no conteúdo latente e não no sonho explícito, e que o
sonho está denunciando os anelos de necessidades, e tentando
resolver algum conflito que esteja causando desconforto. Desse
modo são forças emocionais buscando sua satisfação, e quando
anelos contraditórios se chocam, a pessoa tem um sonho com
muita ansiedade. Quando isso acontece, pode ocorrer de sonhar
com pessoas que nos são queridas e estimadas como uma
criatura desprezível, repugnante. Se isso ocorrer devemos
buscar qual seria a necessidade de naquela situação diminuir
esta pessoa, tomando o cuidado de não tirar conclusões
precipitadas de que aquele sentimento é que se tem de fato pela
pessoa.

No sonho os personagens e símbolos


traduzidos da realidade em forma de
fantasias retratam o lado menos conhecido
da subjetividade, todos sabemos dos
motivos inconscientes das resistências que
aparecem nos sonhos, pensar, refletir,
entrar em contato com o os medos sempre
desperta algum tipo de aversão, magoa,
raiva. São emoções e sentimentos
desconhecidos pela consciência, retratados
por algum símbolo. (DELANEY, 1998, p.
3).

Este é o típico sonho que não é levado a sério, na


maioria das vezes a pessoa até acha graça, pois mesmo que
tenha ocorrido alguma situação que tenha desencadeado uma
emoção desagradável, o mecanismo de defesa do ego encobre
142
tal sentimento, e se torna mais complicado reconhecer este
sentimento presente no sonho. Por este motivo que é
importante saber qual seria a necessidade que nos compele
diminuí-la.
Outro princípio desta corrente é que um sonho só será
compreendido quando puder ser ligado à situação real que lhe
serviu de estímulo. Para tanto é preciso sempre partir da
premissa que o sonho é um sintoma que está denunciando algo.
E nesse contexto a interpretação é algo muito mais complexo
que apenas desvendar os sentimentos hostis ou de vingança.
Entretanto, a interpretação só ocorre quando chegar no que
provocou determinados sonhos e tudo mais que a ele estiver
relacionado.

A memorização de uma imagem não


existiria sem um significante que realizasse
e desse sentido ao seu significado. Este ser
imbuído desde o simbólico, se
autodenomina por interpretação da
linguagem de sinais. De todas as metáforas
possíveis que são constituídas para
formação de nossa auto-imagem.
(PEREIRA, 2007, p. 22).

Nessa conjuntura, o significante é a causa principal, o


motivador, ou seja, o núcleo gerador dos símbolos oníricos que
são os significados, o qual devem ser interpretados, para que se
possa ter um autoconhecimento, sendo que, esta é uma
condição necessária e indispensável para saber o que realmente
gostamos de acordo com nossas emoções, de onde se originam
as ansiedades, o que nos causa frustrações, com nossas culpas
e o modo como assumimos nossa identidade enquanto pessoa
humana.

143
5. A INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS NA TEORIA
HUMANISTA REPRESENTADA POR ERICH
FROMM E POR SALÉZIO PLÁCIDO PEREIRA.

Para compreender a interpretação dos sonhos na clínica


humanista, é necessário ter compreensão de seu propósito.

Na teoria de Fromm, o valor da terapia


humanista não consiste em fazer o paciente
recordar do seu passado infantil ou tentar
acreditar no que enxergou ou ouviu de seus
pais através de uma interpretação.
(PEREIRA, 2009, p.160).

O método humanista considera que é relevante, se


necessário voltar à infância para ressignificá-la, visto que não
se nega a importância instintual e pulsional de Freud,
entretanto apenas isso não basta, pois segundo o autor
mencionado, a neurose deve ser compreendida dentro da sua
totalidade, e não apenas no modo biologista de Freud.
Para tanto se faz necessário saber qual é a sua função, o
modo como ela está atuando na atualidade. Que para Fromm
(1983) esta compreende o ser humano dentro do caráter social,
e que a aculturação interfere no modo como a pessoa lida com
seus instintos, se para o bem ou para o mal, construtivo ou
destrutivo, pois esta é uma clínica que está voltada para o novo
homem contemporâneo que vive num país globalizado.
Assim sendo, para interpretar um sonho nesta teoria,
não se deve ter nenhuma ideia a priori, isto porque para a teoria
humanista nós humanos temos muitos outros instintos com
desejo a satisfazer.

144
Se por instinto se entende uma necessidade
ou uma urgência fisiologicamente
determinada, como a fome, a sede, o sexo,
então não haverá lugar para discutir essa
noção, uma vez que, evidentemente, o
homem possui tais necessidades biológicas.
Contudo a forma de expressão e satisfação
dessas necessidades é culturalmente
determinada. (MULLAHY, 1965, pp. 266-
269).

Dentro deste contexto ocorre uma grande variação na


forma de expressão e satisfação destes desejos humanos, que
quando não compreendida pode gerar conflitos, neuroses que
interferem na vida da pessoa. Como já vimos no sonho aquilo
que está contido no inconsciente se manifesta.

O sonho não reflete somente o desfecho de


conflito entre os sistemas do aparelho
mental; também demonstra a presença de
objetivos antagônicos dentro de cada um
deles. O sonho expressa a modificação
mútua de forças opostas e a solução de
compromissos encontrada entre os
impulsos antagônicos, isto é, atividade e
passividade [...]. (ALTAMAN, 1971, p.
39).

Compreendendo o significado de atividade segundo


definição do dicionário Aurélio (2004) é uma qualidade ou
estado de quem exerce uma ação, age, funciona. E passivo que
sofre ou recebe uma ação ou impressão, que não atua; inerte. É
desse modo que a teoria humanista, entende o ser humano,
como um ser que está submetido às forças ativas, entretanto,
devido a algumas situações deixa a passividade dominá-lo. O

145
sonho revela em que situação se encontra a pessoa, se passiva
ou se ativa.
Sendo assim o modo como é interpretado o sonho nesta
teoria leva em conta a teoria estrutural de Freud, bem como as
demais teorias, especialmente os mecanismos de disfarce dos
sonhos da teoria freudiana, não nega nem reprime a
sexualidade, porém que não apenas a sexualidade seja motivo
de emoções reprimidas, mas que sendo o ser humano um ser
biopsicosocial, podem haver muitas outras formas de repressão
e de bloqueios, que podem se manifestar nos sonhos.
Para o psiquiatra J. Allan Hobson citado na revista
superinteressante (2010), podemos aprender sobre as emoções
que nos guiam na vida real, se prestarmos atenção nos sonhos,
tentar compreender as metáforas, especialmente observar quais
elementos da vida da pessoa estão por detrás delas, coloca
também que esta é uma tarefa profunda, que nenhum
dicionário dos sonhos poderá ajudar, pois ela é muito pessoal.
As metáforas são as simbologias presentes nos sonhos,
como já vimos, algumas devido ao seu conteúdo precisam de
disfarce, no entanto outras têm livre passagem, mesmo assim
todas elas de alguma forma têm um significado especial para
quem sonha.

A linguagem simbólica é uma língua em


que as experiências íntimas, os sentimentos
e pensamentos são expressos como se
fossem experiências sensoriais, fatos do
mundo exterior. É uma linguagem cuja
lógica difere da linguagem convencional
que falamos de dia [...] (FROMM, 1976, p.
16).

Essa é uma linguagem que pode exprimir todos os tipos


de sentimentos, é através dela que os sentimentos mais
profundos não encontram a palavra adequada para verbalizar,
146
são representados no mundo exterior. No entanto, para
interpretar o sonho é indispensável saber realizar a leitura do
simbolismo presente, não apenas os sexuais, nem apenas os
arquétipos, embora que sempre é observada a presença destes e
o que está representando.
Entretanto, analogamente aos símbolos já citados, a
teoria humanista interpreta-os com um modo de considerar ou
entender essa questão. “Se definirmos um símbolo como algo
que representa outra coisa, a pergunta crucial será: Qual a
conexão específica entre o símbolo e aquilo que ele simboliza”.
(FROMM, 1976, p. 20).
Para tornar claro, a função que está tendo determinado
símbolo num sonho, o autor acima mencionado faz uma
subdivisão dos símbolos em três espécies, assim definidos:
Convencional, universal e acidental.
O convencional obedece a uma convenção estabelecida
por um grupo de pessoas, e a partir daí passa a ser aceito como
verdadeiro, e seu significado ou sua representação, bem como a
utilização dos mesmos, por exemplo, nomes de objetos como
mesa, cama, maca, barco.

Quando crianças aprendemos essa ligação


pela experiência reiterada de ouvir a
palavra com referência ao objeto até
formar-se uma associação duradoura de
maneira a não termos de pensar para
encontrar o nome certo. (FROMM, 1976,
p. 20).

Por conta disso, para algumas pessoas estes objetos


podem significar alguma coisa, como trabalho, refeição,
família reunida, sono, descanso, e muito mais, como a emoção
que a estes está ligada, no entanto, para outras não significa
absolutamente nada, não existe representação alguma.
147
Diferentemente já por sua natureza, de acordo com
Fromm (1976) os símbolos universais estão intrinsecamente
relacionados ao que ele está simbolizando, quer dizer que, eles
causam alguma sensação apenas por sua existência, como fogo,
água, terra, sol, etc.
O que difere vai ser o significado que terá de uma
pessoa para a outra, isto está relacionado com as experiências
que cada um tem com estes símbolos.
Outra definição é a dos símbolos acidentais, para o
autor já citado, estes não podem ser compartilhados, pois estão
relacionados ao estado de espírito, ou seja, tem a ver com a
vivência que se teve com determinado objeto, podendo este ser
apenas uma peça de roupa, no entanto devido ao que ela está
relacionada pode significar muito mais do que isso.
Todavia podemos nos perguntar, que relação tem tudo
isso com o sonho, nessa situação destacamos.

A sutileza de cada símbolo reaparece sobre


diversos disfarces, cores, mutações e
transformações, esta natureza gerada sobre
a energia psíquica, expõe a lógica da
emoção para a proteção da vida. Os
símbolos estão permeados de realidades
desconhecidas e sem sentido para a
racionalidade do paciente. (PEREIRA,
2009, p.176).

Por estes motivos dentro das praxis da psicanálise


humanista, é importante saber além do significado de um
determinado símbolo para uma pessoa, saber também qual é a
natureza simbólica para a cultura, para a sociedade, se tem ou
não algum significado.
Isto porque, a existência humana para Fromm é pensada
e analisada a partir da relação que este ser estabelece com o
mundo, surgindo daí a necessidade de incluir as relações
148
sociais e a cultura na busca de compreensão dos fenômenos
psíquicos. Como já vimos o simbolismo nos sonhos é uma
representação disfarçada de uma ideia latente nessa situação,
um mesmo símbolo pode ter muitos significados diferentes, e
qualquer objeto ou ser humano, animal ou elemento da
natureza pode ser uma manifestação simbólica.

O símbolo traz, no desejo inconsciente,


imagens com conteúdos disfarçados pelo
processo de deslocamento e condensação, o
esperto em simbologia deve estar
preparado para descobrir o núcleo da
neurose encoberta pelos disfarces destas
imagens. (PEREIRA, 2009, p. 174).

Entretanto o que se prioriza ao decifrar um sonho que é


pertinente em todas as teorias, é em primeiro lugar a vida da
pessoa, que significado tem para a pessoa que sonhou.
Voltando nas subdivisões das espécies, pegamos a título de
exemplo um símbolo convencional, exemplificando com uma
televisão, inicialmente este objeto tem que fazer sentido para a
pessoa, se a pessoa vive numa aldeia que nunca viu, nunca
usou, não conseguirá fazer conexão com nada. Isto está em
primeira ordem.
A segunda ordem é, sendo esta um objeto conhecido,
de uso do sonhador, parte-se para a investigação, como que
tipo de emoção tal objeto causa, se de admiração, fascínio,
repulsa, tranquilidade, inquietação, prestar atenção nesta
emoção.
Terceira, a partir da emoção que suscitou investigar a
origem, isto é, o porquê que este objeto provoca tal sentimento,
e especialmente, de que modo em quais situações que no
momento atual isso pode estar se repetindo, desse modo a

149
pessoa vai descobrir qual é a motivação inconsciente que está
atuando.

Sonhar é antes de tudo um recurso


saudável, o inconsciente traz ao manifesto
as recordações latentes para descobrir,
neste processo de elaboração secundária, as
emoções e pulsões reprimidas e esquecidas
pela falta de interesse da pessoa em relação
a si mesma. (PEREIRA, 2009 p. 174).

Como já visto nos disfarces do sonho pode estar


sinalizando a falta de atenção que teve na infância ao ter que
dividir a atenção dos pais com a programação da TV, também
pode a TV representar a casa que se deseja comprar, a ascensão
profissional, o desejo de encontrar um amor e muito mais.
Destacamos também os símbolos universais, como já
vimos que para Fromm (1976) nestes existe uma relação mais
profunda entre o símbolo e o simbolizado, pois este se origina
da afinidade emoção e pensamento, e a relação que tenha com
alguma experiência sensorial. Se denomina universal por ser
universalmente conhecido por todos os humanos, por conta
disso, a linguagem dos símbolos universal é a única língua
comum elaborada pela raça humana.
Mesmo assim para interpretar um símbolo universal,
não se pode ter nenhuma ideia pré-formada, isto porque,
mesmo o símbolo sendo universal, o homem está inserido
numa cultura, numa sociedade, com um meio de sobrevivência.
Considerando essas diferenças, compreende-se que
também o significado simbólico tem interpretações diferentes.

Por exemplo a função do sol, e


consequentemente seu significado, é
diferente nos países nórdicos e nos países
tropicais. Nos primeiros onde a água é
150
abundante todo crescimento depende de
suficiente luz solar: o sol é a força cálida
propiciadora de vida protetora e amorosa.
No oriente próximo, onde o calor do sol é
bem possante, o sol é uma força perigosa e
até mesmo ameaçadora conta qual o
homem tem que se proteger [...].
(FROMM, 1976, p. 24).

Isto quer dizer que, estes símbolos universais, embora


estando registrados no inconsciente coletivo, o que eles
simbolizam pode ser temporal, regional, e às vezes individual,
por este motivo, a interpretação destes símbolos só pode ser
feita pela pessoa que sonhou. Porque existe uma afinidade
entre emoção e pensamento, quer dizer entre este símbolo e o
que ele representa, que emoção tem registrada neste símbolo,
por esta razão, um símbolo tem várias representações.
No símbolo acidental, Fromm (1976) aponta que, a
relação entre o símbolo e simbolizado não é intrínseca, no caso
deste símbolo, ele só vai existir a partir da experiência que a
pessoa teve com ele, sendo que é uma experiência individual,
única para aquela pessoa. Normalmente quando a pessoa conta
o sonho ela relata, estava em um lugar, era uma casa triste, não
me senti bem lá, no entanto nada tem a ver com o lugar, mas
sim com a experiência que se viveu neste lugar. “O sonho vive
destas recordações e acompanha as incoerências desta
consciência em conflito”. (PEREIRA, 2012, p. 98).
E foi a partir desta experiência que este lugar passou a
simbolizar alguma coisa, ou seja, está pelo estado emocional
fazendo uma conecção do estado de espírito da pessoa com o
lugar que aparece, a mesma situação pode acontecer com uma
rua, escola, quarto, rua. A imagem que aparece no sonho se faz
representar por este “estado de espírito”, isto é, a emoção que
ela provoca da sensação que uma vez teve-se nela. Que para

151
Fromm (1976) ai a ligação entre símbolo e a experiência
simbolizada é inteiramente acidental.
Como já foi colocado, não há como interpretar um
sonho sem saber sobre a vida de quem sonhou, isto porque, é
necessário que as associações sejam feitas pela própria pessoa,
pois só ela sabe o que sente, e nem sempre o sonhador sozinho
consegue interpretar um sonho, isso acontece porque, ainda que
a pessoa consiga decifrar os símbolos, o inconsciente apresenta
muitas defesas, que sem auxílio do terapeuta é difícil decifrar.
É naquele ponto onde embola, onde enrosca, onde a
pessoa não associa, muitas vezes acaba por desistir e pensa,
“isso nada tem a ver comigo”. É ai que entra o analista, que vai
ajudar a pessoa a fazer as associações, por este motivo que se
recomenda a pessoa que está em análise anotar o sonho tão
logo que sonhou.
Vamos pegar como exemplo um sonho analisado no
próprio livro de Fromm (1976):
Um advogado, com vinte e oito anos de idade, acorda e
lembra-se do sonho seguinte, que depois comunica ao analista.
“Vi a mim mesmo cavalgando um cavalo branco,
passando em revista uma grande massa de soldados. Todos eles
me aplaudiam entusiasticamente”.
A primeira pergunta que o analista faz é:
A- Que emoção você sentiu?
P-Nada – Responde o homem, sonho é tolice. Você
sabe que não gosto de guerra e de exército, que jamais desejei
ser um general – E mais não, também não quero ser centro de
atenções, sendo espiado por milhares de soldados. Você sabe
pelo que lhe contei de meus problemas profissionais, que é
difícil para mim a simples defesa de um caso no tribunal com
todos me olhando.
A- Sim, tudo isso é bem verdade; mas não tira o fato do
sonho ser seu, do seu enredo ter sido escrito por você e nele
você se atribui um papel.
152
Que associações você faz do conteúdo do sonho?
Concentre-se na imagem do sonho, você o cavalo branco e os
soldados aplaudindo - Diga-me o que vem a mente ao ver este
quadro?
P- Engraçado, agora vejo uma gravura de que eu
gostava muito quando tinha meus 14 para 15 anos. Era um
retrato de Napoleão, sim, ele mesmo, em um corcel branco,
passando em frente das tropas. E muito parecido com o que vi
nos sonhos, exceto que no retrato os soldados não aplaudiam.
A - Esta recordação é interessante, fale mais sobre a
gravura e de seu interesse por Napoleão.
P- Posso contar-lhe muita coisa, mas acho um tanto
constrangedor... Sim, quando eu tinha 14 ou 15 anos era
bastante tímido. Não muito bom em esportes e era um tanto e
não me entronava muito bem com os outros meninos. Ó sim,
lembro-me agora de um incidente daquela época de que me
esquecera completamente. Gostava muito de um dos garotos e
queria tornar-me amigo dele. Nem havíamos sequer
conversado um com o outro, mas eu esperava que ele também
gostasse de mim e nos conhecêssemos melhor. Um dia - eu
precisei de muita coragem para isso – Me aproximei dele e
perguntei se ele não gostaria de ir à minha casa, pois eu tinha
um microscópio e poderia mostrar-lhe muitas coisas
interessantes. Ele me encarou por um instante e depois, de
repente, pôs-se a rir sem parar. “Seu marica, porque não
convida uma das amiguinhas de sua irmã?” Dei as costas,
sufocado pelas lágrimas. Foi nessa época que li vorazmente a
respeito de Napoleão: Colecionei retratos dele, e entregue a
devaneios de me tornar igual a ele, um general famoso,
admirado pelo mundo inteiro. Ele também não era baixinho?
Ele também não fora um rapaz tímido como eu? Por que não
poderia ser igual a ele? Passava muitas horas em devaneios;
nunca exatamente sobre os meios de conseguir esse fim, mas
sempre o resultado. Eu era Napoleão admirado e invejado, e
153
magnânimo, pronto a perdoar meus detratores. Quando fui para
a faculdade, já havia superado minha adoração pelo herói e
meus devaneios sobre Napoleão. De fato, há muitos anos não
pensava nesse período e por certo não falei dele a ninguém.
Mesmo agora, sinto-me constrangido.
A- “Você” se esqueceu disso, mas o outro você, aquele
que determina muitas de suas ações e sentimento, bem
escondidos de sua consciência durante o dia, ainda está ansiado
por ser famoso, admirado, poderoso. Esse outro você falou no
sonho da noite passada. Conte-me os acontecimentos de ontem
que tenham sido de importância para você.
P-Nada demais; foi um dia como outro qualquer... Fui
ao escritório, trabalhei reunindo material jurídico para uma
súmula de razões, fui para casa e jantei, fui a um cinema e daí
para a cama. Só isso.
A - Isso não me parece explicar porque à noite você
andou num cavalo branco. Diga-me mais alguma coisa sobre o
que se passou no escritório.
P - Ah, agora me lembro... Mas isso nada apode ter a
ver com o sonho... Quando fui falar para o chefe – o sócio mais
importante da firma - para que eu reunisse o material jurídico,
ele descobriu um engano meu. Ele me olhou com um ar de
crítica e comentou: “Estou realmente surpreso – pensei que
você pudesse fazer melhor isso.” No momento fiquei bastante
chocado – e passou-me pela cabeça a ideia de ele não me
admitir como sócio da firma mais tarde, como eu esperava que
o fizesse. Porém, disse para mim mesmo que isso era bobagem,
pois qualquer pessoa pode se enganar, e apenas ele estava
irritado, e isso não prejudicaria meu futuro.
A - Como você estava se sentindo nesta ocasião? Estava
nervoso ou um pouco deprimido?
P - Não absolutamente. Pelo contrário, estava apenas
cansado e com sono. Foi difícil continuar trabalhando fiquei
contente na hora de sair do escritório.
154
A- A última coisa mais importante do sair foi ir ao
cinema. Diga-me qual foi o filme?
P- Sim, foi Juarez, de que gostei muito. Com efeito,
chorei bastante.
A- Em que ponto?
P- Primeiro na descrição da pobreza e sofrimento de
Juarez, e depois quando ele se tornou vencedor. Não me
recordo de outro filme que mais tenha me comovido tanto
assim...
A- Ai você deitou, adormeceu e viu-se no cavalo
branco, aplaudido pelos soldados.
Compreendendo o sonho, quando menino você se sentia
tímido, desajeitado e rejeitado. Sabemos de nosso trabalho
anterior, que isso tem a ver com seu pai, que se orgulhava tanto
do sucesso dele, mas era incapaz de tornar-se seu íntimo e
demonstrar afeto por você e dar estímulos. O incidente
ocorrido hoje, a rejeição pelo menino valentão foi a última
gota. Sua autoestima já havia sido danificada, e esse episódio
acrescentou mais um elemento que reafirma que nunca poderá
se tornar igual ao pai, nunca chegaria a ser alguém e que
sempre seria rejeitado pelas pessoas a quem admirasse. Neste
caso você foi para o mundo da fantasia onde realizava as coisas
as de que se sentia incapaz na vida real. Ali naquele mundo
você era Napoleão, o grande herói admirado por todos e
principalmente por você mesmo. Enquanto pudesse conservar
estas fantasias você estava protegido contras as dores
provocadas pelo sentimento de inferioridade, quando você
entrou em contato com a realidade você foi para a faculdade. Já
era menos dependente de seu pai, sentia alguma satisfação nos
estudos, julgava-se apto para ter um novo e melhor começo.
Além do mais, você sentia vergonha de seus devaneios infantis,
de modo que os pôs de lado, você sentiu estar a caminho de um
homem de verdade... Porém, como vimos essa nova confiança
foi um tanto ilusória. Você se sentia aterrorizado, antes dos
155
exames achava que nenhuma moça fosse se interessar por você,
caso houvesse qualquer outro rapaz disponível sempre receava
as críticas do chefe. Isso traz-nos ao dia do sonho. Aconteceu
algo que você tentara evitar a critica do chefe; você começou a
sentir a velha sensação se desajustamento, mas a pôs de lado;
sentiu-se cansado ao invés de angustiado e triste. Então viu um
filme que tocou nos seus antigos devaneios, o herói se tornou o
salvador admirado de uma nação após ter sido desprezado.
Você o visualizou tal como fizera na adolescência, como o
herói, admirado e aplaudido. Não percebe que você não
renunciou deveras ao antigo processo de ir para o mundo da
fantasia de glória, que não queimou as pontes que o levavam de
volta àquele país da fantasia, mas trata de voltar para lá sempre
que a realidade se mostra decepcionante e ameaçadora? Você
não vê que esse fato, no entanto, ajuda a criar exatamente o
perigo que você tanto receia, o de ser infantil e não um adulto,
de não ser levado a sério por gente crescida, e por você mesmo.
Concluímos assim que este sonho é rico em sua
simbologia. Observamos, primeiramente por meio desta
simbologia o processo de disfarce realizado por este sonho,
como o deslocamento, em que várias imagens foram
deslocadas para formar o cenário, como os cavalos, soldados.
O processo de condensação, por meio do qual juntou várias
imagens carregadas de significados estavam juntas num mesmo
quadro. Outro elemento presente é a representação pelo nímio,
por meio desta foi representada o herói Napoleão e todo seu
exército e suas influências apenas por um homem a cavalo e os
soldados. Também presente, temos a elaboração secundária
que teve a função de moldar, revisar o sonho para que se
apresentasse no sonho manifesto.
Este sonho tem em seu conteúdo latente a realização de
um desejo que o sonhador traz desde a infância de ser aceito,
de receber afeto, como foi negado isso a ele já desde criança,
na fantasia desenvolveu um desejo irracional de ter fama e
156
sucesso, e assim ser aceito pelas outras pessoas e por si
próprio. Visto que as energias que nas imagens contidas não
desaparecem embora que a pessoa tenha esquecido. “A imagem
é uma energia com poderes de ação, após muito tempo na vida
desta pessoa, independente da situação econômica, status,
inteligência, cultura, ideologia religiosa ou situação política e
familiar. (PEREIRA, 2007, p. 30).
O que também é importante observar neste sonho, ao
interpretá-lo, são as atividades do dia anterior ao sonho, isto
porque os fatos ocorridos no dia são uma espécie de gatilho
para trazer os anelos e ele relacionados. De acordo com
postulações de Pereira (2012), todos os sentimentos de
angústia, as emoções vividas, bem como as preocupações do
dia anterior, ficam registradas na memória, e são estas que
acionam o cérebro para começar a sonhar, assim sendo, elas se
manifestam em forma de imagens.
Em razão disso que, para decifrar o sonho, deve haver
um comprometimento com a saúde psíquica de quem sonha.
Por este motivo, o psicanalista que vai fazer a interpretação do
sonho precisa estar ciente que os símbolos presentes estão
retratando as vivências desta pessoa, seja em âmbito pessoa,
familiar, social, político e econômico.
É importante para o psicanalista ao interpretar o sonho
de uma pessoa, que a simbologia, as fantasias, bem como as
imagens presentes, também estão intrinsecamente relacionados
com a sua orientação de caráter, pois que, para Fromm (1983)
para uma pessoa de orientação receptiva, ela acredita que toda
a força de bem e do mal se encontra fora dela, existe nestas
pessoas uma necessidade de receber afeto, carinho, com isso,
tornam-se pessoas fáceis de seduzir, de manipular, pois se
tornam dependentes da opinião e da compaixão das outras
pessoas.

157
O analista humanista pode interpretar os
sonhos prestando atenção ao processo de
formação de caráter, estas imagens podem
sinalizar algo, que tenha a ver sobre seus
desejos mais significativos, suas
prioridades, e o modo como se relaciona
consigo mesmo e com a sociedade.
(PEREIRA, 2012, p.116).

Assim o analista poderá levar a pessoa a conhecer quais


são suas capacidades, onde pode estar sendo submissa,
permitindo que seja explorada.
Outra orientação apontada por Fromm (1983) a ser
observada é a de caráter explorador, para o autor uma pessoa
que apresenta este caráter sente-se improdutiva, e uma
necessidade de explorar as outras pessoas, tirar vantagem em
todas as relações que estabelecem, tanto no afetivo, quanto no
financeiro, como também no intelectual, não produzem ideias
próprias, se apropriam do conhecimento de outras pessoas.
“Estas ações psicopatológicas tornam as relações estéreis e
improdutivas, usam de sua liberdade para alienar e massificar,
explorar e dominar. (PEREIRA, 2012, p.116). Por esta razão o
analista precisa estar preparado para distinguir os símbolos
presentes de acordo com a orientação de caráter, pois que tanto
nesta quanto na anterior, espera-se receber as coisas do mundo
exterior, e ai, estão presente os desejos de quem sonha.
Na orientação acumulativa apontado por Fromm
(1983), observa-se que a pessoa não tem expectativas do
mundo exterior, desse modo tem necessidade de acumular,
poupar, sua preocupação é em manter seus bens protegidos,
bem como no sentido sentimental, o amor é visto como algo a
ser possuído, sem dar afeto, esperam recebê-lo, apresentam
também uma necessidade de organização, e uma certa rigidez
nas suas relações seja com dinheiro, objeto e pessoas, sendo
que para elas o mundo representa perigo. “Nos símbolos o
158
caráter acumulativo segue uma orientação de reter, economizar,
e encontra sua realização na segurança dos bens materiais”.
(PEREIRA, 2012, p. 117).
E desse modo estabelecem sua relação com o mundo e
com as outras pessoas, seu desejo é de possuir cada vez mais,
assim sendo, qualquer aproximação com outras pessoas pode
representar perigo, e buscam sempre uma forma de explorá-las.
Na pessoa que tem orientação de caráter mercantil, as
imagens, os símbolos que aparecem nos sonhos, estão
associados ao comércio, para estas pessoas, tudo tem um valor
comercial, seja um bem tangível ou intangível.
“Estes símbolos trazem no seu significado um desejo de
vender-se ou estar num processo de negociação, como estão
interessados em aumentar seu preço no mercado se submetem a
todos os requisitos de seu comprador”. (PEREIRA, 2012, p.
119).
Nesta situação, ressaltamos que é importante para o
analista ter conhecimento de que tipo de orientação se formou
na pessoa, isto porque, os símbolos presentes nos sonhos,
estarão impregnados de seu modo de ser e sentir. Desse modo,
deve-se considerar todas estas questões para compreender os
processos internos, pois entendemos que no ser humano existe
um sentido para a vida, e caso não os tenha está agindo com a
pulsão de morte.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo do presente trabalho foi realizar um estudo


teórico sobre os diversos modos de interpretar os sonhos, para
isso utilizou-se o método de pesquisa bibliográfica qualitativa.

159
Na primeira parte o artigo discorre sobre as mudanças
fisiológicas que ocorrem enquanto a pessoa dorme, que se faz
necessário para que as imagens do conteúdo latente, que são
nossos desejos e anseios, bem como os medos e traumas, nossa
necessidade humana de evoluir tanto social como
espiritualmente, que em condições de vigília permanecem
bloqueados, possam passar pela barreira e passar para uma
parte do cérebro onde possamos visualizar e recordar
posteriormente.
Acompanhamos também de modo sucinto as técnicas
utilizadas desde a antiguidade na tentativa de decifrar o sonho,
e que devido a importância que o sonho tem, trouxeram muitas
inquietações, curiosidade pela forma misteriosa como se
apresentam.
Entretanto só foi possível desvendar os mistérios dos
sonhos a partir dos estudos de Freud, por volta de 1 900,
proporcionando um avanço significativo na evolução da
humanidade. Foi a partir dos seus estudos que foi possível
tomar conhecimento das estruturas psíquicas, dos mecanismos
de defesa bem como os mecanismos de disfarce dos sonhos,
bem como da importância de utilizar os sonhos como
instrumento na clínica.
Porém, sua técnica de interpretação dos sonhos seguia
de acordo com o embasamento de sua teoria, fundamentada
pela energia da libido sexual, que em todo conteúdo reprimido
havia um desejo sexual proibido, o qual não foi dada uma
vazão adequada como a sublimação, e que este se manifesta em
forma de símbolos nos sonhos, e que estes símbolos se
originam de um conteúdo que esteja obrigatoriamente
reprimido.
Por conseguinte, o conteúdo sendo impedido pela
censura de passar para o consciente, é “deformado ou
trabalhado” para ter vazão, porém toda a simbologia presente
nesta teoria tem cunho sexual, e está sempre relacionada com
160
questões ligadas a sexualidade, mesmo que a sexualidade tenha
muita importância, existem outras necessidades no ser humano
de igual importância, dos quais não obtinham respostas.
Foi assim que surgiram novas teorias derivadas desta,
que considerando o homem não apenas como um ser
biopsicológico, mas um ser espiritual que tem alma, que traz
reminiscência dos seus antepassados e se encontra num
processo de evolução.
Considerando estas necessidades humanas, na teoria
junguiana, o modo como é interpretado os sonhos tem sua
práxis enfocando os símbolos de que forma está sendo
aproveitada a energia humana disponível para evoluir, ou se
esta por não ter meios saudáveis para evoluir, se volta contra a
própria pessoa .
Para interpretar os sonhos esta abordagem considera os
símbolos como os arquétipos, anima, animus, a sombra, sendo
que estes estão registrados no inconsciente coletivo, ou seja, já
trazemos desde o nascimento as memórias e valores dos
antepassados, sendo assim, é preciso ver o modo como estes se
apresentam, o que eles estão significando naquele momento, se
é o eu verdadeiro, leia-se self que trás os anseios, ou se é a
persona, ou seja, a máscara usada para fugir da realidade.
Conclui-se, portanto, que para esta orientação analítica,
os sonhos são manifestações de energia espiritual, cujo
objetivo é o equilíbrio das forças conscientes e inconscientes. E
o objetivo da simbologia é revelar o que Jung chama
complexos emocionais que são os núcleos afetivos que se
ligam.
Posteriormente foi contemplada a teoria culturalista de
Karen Horney, observou-se que para esta teoria, os símbolos
são variados, visto que, para esta orientação psicanalítica deve-
se levar em conta a cultura da pessoa que sonha, o que para ela
é permitido e o que é proibido, bem como quais são suas
dificuldades e anseios. Essas observações são necessárias, pois
161
que para a autora citada, a neurose tem origem em múltiplos
fatores, bem como as condições de vida da pessoa, e os
conflitos resultam das condições e do meio onde a pessoa vive.
Fundamentado nessa teoria para interpretar o sonho,
observa-se os elementos que se manifestam, usando a
associação livre a pessoa vai relacionando os anelos a ela
ligados chegando no núcleo neurótico.
Sendo que, a neurose é uma perturbação psíquica
causada por medos e incertezas, que pode não ter fundamento
real, também se origina devido a discordância entre a
capacidade da pessoa e o modo como ela aproveita.
Por este motivo, os sonhos servem como instrumento
clínico, para conhecer estas estruturas neuróticas, bem como o
que elas estão comunicando através dos sonhos.
A última parte do trabalho que destaca a clínica
humanista, apontando a mudança real na práxis clínica
derivada da Freudiana, especialmente no modo de interpretar
os sonhos, bem como a utilidade do sonho como meio para
auxiliar no autoconhecimento. Haja vista que cada ser humano
é singular e não importa a fachada que se apresenta, todo ser
humano, independente de condições financeiras, status social,
profissão, ninguém está imune de ter desenvolvido algum
conflito durante sua existência.
A clínica humanista tem esta singularidade, de auxiliar
o ser humano a se encontrar, em todas as suas relações, sejam
pessoais, interpessoais ou profissionais, bem como a saúde
física e psíquica. “Um sonho é a elucidação dos confrontos
possíveis entre a fantasia e a realidade.” (PEREIRA, 2009,
p.176).
Destacando também o quanto se faz importante estar
atento a da orientação de caráter que se desenvolveu na pessoa,
especialmente na clínica, para o analista interpretar os símbolos
presentes nos sonhos.

162
Em suma, para compreender o significado do sonho, se
faz necessário conhecer sua verdadeira simbologia, estar
interado dos fatores que agem no seu íntimo, caso contrário, a
interpretação pode significar apenas suposições. O processo
analítico tem essa finalidade, de levar o ser humano a tomar
conhecimento de seu ser, e ter a compreensão adequada dos
símbolos presentes nos sonhos e auxiliar na terapia.

BIBLIOGRAFIA

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163
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Ed. Imago.1996

___________.Obras psicológicas completas de Sigmund


Freud A interpretação dos sonhos volume V, (segunda parte)
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consulta em 10/07/2012

165
OS SONHOS: ALIADOS NO PROCESSO DE
EVOLUÇÃO DA CONSCIÊNCIA

Andréa Alves Borgert

RESUMO: O presente estudo intitulado “Os sonhos: aliados


no processo de evolução da consciência” é uma reflexão, em
maior parte, acerca dos aspectos positivos do trabalho com os
sonhos. A princípio pretende-se fazer uma apresentação e um
resgate histórico envolvendo de forma sucinta questões
filosóficas, psicológicas, antropológicas e religiosas até a
atualidade. Dando continuidade seguem reflexões sobre o
sentido e o significado dos símbolos e das imagens, enfim, a
linguagem simbólica utilizada nos sonhos. Com a mesma
importância pretende-se discorrer sobre a visão psicanalítica
humanista de nosso maior expoente Erich Fromm sobre os
sonhos. Esta mesma análise terá continuidade com uma visão
contemporânea na psicanálise humanista no trato com os
sonhos, sob a ótica do Dr. Salézio Plácido Pereira. Finalizando
com o pensamento que os sonhos são a expressão da energia
psíquica e podem servir metaforicamente falando como
combustível para despertar potencialidades, auxiliando o
homem no seu desenvolvimento e na solução de problemas
pessoais.

Palavras-chave: Sonho. Símbolo. Imagem. Psicanálise


humanista. Potencialidade.

166
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Os sonhos são uma pintura muda, em que a


imaginação a portas fechadas, e às escuras, retrata
a vida e a alma de cada um, com as cores de suas
ações, dos seus propósitos e dos seus desejos.
Padre Vieira, no Sermão de São Francisco Xavier
Dormindo.

Em sua ancestralidade o homem traz o desejo de viver


em harmonia com o mundo externo e com o seu mundo
interno, sendo assim, muitos estudiosos dedicaram-se ao estudo
dos sonhos e sua relação com o processo da atuação
inconsciente das emoções e pulsões. Entre eles o pioneiro
Sigmund Freud defendia ser o sonho a realização dos desejos
humanos recalcados e reprimidos, o humanista Erich Fromm
via em cada imagem e símbolo um potencial adormecido de
transformação, Carl Gustav Jung com sua teoria arquetípica
considerando que o sonho traz a questão do restabelecimento
da saúde, e o existencialista Medard Boss colocando que os
sonhos podem contribuir para uma melhor qualidade de vida na
existência, Boss “nega que um agente oculto e simbolizante
minta dentro de um sonhador” (KRIPPNER, 1998, p. 27);
todos com o intuito também de entender qual a influência dos
sonhos sobre a personalidade dos seres humanos.
Outro autor que trata da questão dos sonhos é
Krippner (1990), Segundo ele abordagens como a terapia
vivencial, a Gestalt e a terapia existencial, defendem que a
personalidade mais profunda se compõe mais de
possibilidades, capacidades e potenciais do que de impulsos e
conflitos negativos, reprimidos e inconscientes. Em seu livro
Decifrando a linguagem dos sonhos Krippner acredita que os
sonhos podem ser considerados como uma linguagem noturna,
167
reconhecendo, assim, a importância do registro e do trabalho
com os sonhos, sendo que neles a pessoa pode encontrar uma
fonte de significado, sabedoria e orientação.
O autor em questão vê o sonho como um meio para
externar os recursos interiores, ele revela metaforicamente o
que se passa na vida daquele que sonha. “Consiste em
estabelecer contato com os recursos mais profundos do nosso
eu a fim de trazer à luz potenciais ocultos e integrá-los na nossa
vida de vigília, isto é, trazê-los à consciência.” (p.20). Sendo
que para Krippner “consciência é percepção mais ação
apropriada”, ou seja, “uma introvisão nunca será realmente
consciente se não a pusermos em prática, de um modo ou de
outro, em nossa vida cotidiana”. (1990, p.20).
Stanley Krippner ao discorrer sobre a abordagem
junguiana no trabalho com os sonhos diz que,

Os sonhos são vistos como compensativos


das nossas atitudes conscientes, pois
ocorrem em ocasiões em que as defesas
que empregamos para enfrentar um mundo
problemático são postas de lado, e o sono
abre a porta para o outro mundo, onde tudo
o que a consciência não pode aceitar
aguarda a oportunidade de expressar-se.
(1990, p. 64).

Krippner também aborda uma questão relevante no


trato com os sonhos, quando afirma que mesmo durante o sono
um pequeno traço de consciência ainda subsiste, como se fosse
um guarda do portão por onde escapam os sonhos, e estão lá
para transformar “as mensagens vindas do lado do sonho em
códigos que precisam ser decifrados para podermos descobrir o
seu significado.” E ao despertar a pessoa poderá optar em “não
acordar os leões que dormem, ou assumir o risco de descobrir a
energia e a força do sonho.” (1990, p. 64).
168
Muitas especulações foram feitas sobre os sonhos,
referências são encontradas nos textos antigos de Aristóteles,
de Homero e a própria bíblia sagrada contém registros sobre
este assunto. O filósofo grego Aristóteles (384 – 322 a. C.) já
estudava os sonhos, e muito antes de Freud, o filósofo Platão
dizia que certos prazeres e desejos revolvem-se nos sonhos,
pois para ele quando a alma adormece e o controle exercido
pela razão cessa, o que o ser humano tem de mais íntimo
aparece durante o sono em busca de satisfação. Para este
filósofo é impossível pensar em qualquer sonho cuja motivação
original não tenha passado, de um modo ou de outro pelo
desejo ou anseio ou impulso através da mente desperta. Muitos
foram os filósofos que abordaram o tema dos sonhos, desde
Aristóteles, Platão, até Friedrich Nietzsche e Arthur
Schopenhauer.
Consta historicamente que Platão foi o primeiro
filósofo a mencionar o assunto sobre os desejos reprimidos e
que aparecem nos sonhos em forma de imagens e símbolos, a
fim de satisfazer as pulsões. Platão acreditava que o verdadeiro
conhecimento está num reino de entidades atemporais,
perfeitas e imateriais, de certa forma o filósofo já fazia menção
à parte inconsciente do homem, ao afirmar que uma parte
deste, também é atemporal e imaterial, enquanto que o corpo
físico está entre objetos materiais fugazes e decadentes do
mundo sensorial.
Não foram somente os intelectuais filósofos que se
ocuparam dos sonhos. Krippner (1990) é um autor que traz
inúmeras informações acerca de povos que valorizavam os
sonhos, sendo os xamãs, segundo ele, os primeiros tribais a
trabalharem com os sonhos. Havia por exemplo uma tribo, os
Naskapi que criavam formas para a manifestação dos sonhos,
como a dança, o canto, o jejum, tocar instrumentos e até ingerir
drogas, acreditando que quanto mais sonhos tivessem, maior

169
seria seu poder. Entre a tribo dos Mapuche os sonhos eram
vistos como viagens da alma.
Tribos de índios da Califórnia também acreditavam
nos espíritos guardiões que apareciam nos sonhos e conferiam
poderes ao sonhador como habilidade, força, coragem, sorte no
amor.
Muito comum na cultura africana e todo Mediterrâneo
o fato de quando uma pessoa que sonhou despertasse
indisposta com comportamento agressivo e negativo,
provavelmente tivesse sido possuída por algum demônio
durante o sono, a terapia então, consistia em expulsar ou
exorcizar o mal.
Para algumas tribos os sonhos eram mensagens do
grande Deus, para outras, desejos da alma. Na história papiros
Egípcios datados de 2 000 a. C. já continham instruções de
como a pessoa poderia obter mensagens através dos sonhos.
Também foram encontrados fragmentos de argila dos povos
babilônicos e assírios, de 3 000 a. C. que continham
interpretações de sonhos. Na Índia o sagrado Veda escrito entre
1 500 e 1 000 a. C. continha informações de como interpretar
os símbolos dos sonhos.
Na Idade Média acentuavam-se as ideias teológicas e
filosóficas, o sonho era considerado como uma etapa
intermediária entre o mundano e o revelador, com visões
divinas, um diálogo com Deus e com a Sabedoria. No
Renascimento o fenômeno onírico continuava tendo caráter
profético, contudo o pensamento era que o sonho revelava os
desejos e ambições dos homens. No Romantismo o sonho
passou a ser literário, algo propício aos devaneios e à
sensibilidade poética, revelando os pensamentos e sentimentos
do homem.
Dependendo da cultura e da crença de cada povo, os
sonhos podem ser considerados como experiências vividas por
nossos espíritos fora do corpo físico, ou inspirações proféticas
170
e divinas, a representação de nossos desejos e paixões, uma
porta de entrada também para os espíritos maléficos. Os povos
primitivos acreditavam que os sonhos traziam revelações
divinas ou demoníacas, esta era uma maneira de se obter uma
significação do sonho, atribuindo a este um caráter de
adivinhação. Já os antigos monarcas tinham os seus
oniromantes, intérpretes de sonhos, pessoas destinadas a fazer
este trabalho em especial.
No passado era cultural entre os povos interpretar os
sonhos, por serem eles considerados expressões do espírito do
sonhador. Em diversas tradições culturais e religiosas o sonho
aparece revestido de poderes premonitórios ou até mesmo de
uma expansão da consciência. As visões oníricas eram tomadas
como o contato do homem com a dimensão desconhecida da
existência.
Porém com o passar do tempo, com a dicotomia razão
e a emoção, por não ser o sonho considerado uma realidade que
se podia conquistar, foram considerados como fatos ilusórios,
uma invenção da mente. Afinal, é mais cômodo afirmar que os
sonhos são imagens sem sentido do que admitir a limitação do
entendimento humano. O homem passou a viver em meio ao
barulho, distraindo seus sentidos, seu foco, sua atenção com
máquinas, televisores, rádio, sons, músicas, imagens
constantes, esqueceu de escutar-se, isto o levou a um
embotamento espiritual.
Segundo Krippner o século XIX foi um processo de
transição, onde antes os sonhos eram vistos sob a ótica dos
períodos clássicos e bíblico para a transição interpretativa e
investigativa do século XX. Segundo o autor:

Nas tradições primitivas, os sonhos eram


vistos como mensagens que assumiam um
significado transpessoal. No decorrer do

171
século XIX, eram vistos como mensagens
interpessoais de uma pessoa a outra, ou
como epifenômenos extrapessoais de
processos fisiológicos destituídos de
significado profundo. Os teóricos do século
XX acrescentaram-lhes aspectos de
mensagens da pessoa para o self –
dimensão intrapessoal. (1990, p. 170).

A atenção do homem voltou-se novamente aos sonhos


com o estímulo das obras de Freud sobre a Interpretação dos
sonhos, a fim de ser o sonho um conteúdo auxiliar no
tratamento das doenças neuróticas, mais adiante estendendo
este assunto e compreendendo o sonho como um fenômeno
universal. O pai da psicanálise abriu caminhos para a
investigação científica dos sonhos e para que as imagens
oníricas fossem utilizadas de modo terapêutico; a humanidade
colhe os benefícios desta iniciativa pioneira.
Atualmente o sonho cada vez mais atrai interesse por
ser curioso, misterioso, intrigante, rico em emoções e imagens.
O que antes era interpretado somente pelo misticismo como
sendo premonições, na psicanálise ganha um caráter
investigatório e científico, sendo visto como expressão do
inconsciente. O homem enquanto desperto vivencia
diariamente uma série de acontecimentos e compromissos, e
durante o sono tenta desligar-se das tribulações do dia, do
cansaço e estímulos externos demasiados. E também é durante
o sono que ocorrem os sonhos e eles dão vazão aos conteúdos
inconscientes que procuram manifestar-se de diversas
maneiras, e desvendar este material oculto é entender a
constituição psíquica. Não há como esquivar-se das produções
imagísticas que tomam conta da consciência, estes símbolos e
imagens necessitam de acolhimento, aceitação e interpretação
para cumprirem com sua finalidade.

172
2. A NATUREZA DOS SONHOS: O SENTIDO E O
SIGNIFICADO DOS SÍMBOLOS E DAS IMAGENS

O sonho é uma pequena porta oculta nos recessos


mais íntimos e mais secretos da psique.
Carl Gustav Jung.

Os sonhos não são expressos em linguagem cotidiana


lógica e de fácil compreensão, expressam-se simbolicamente
através das imagens carregadas de um conteúdo emocional,
porque para Whitmont “o sonho é uma expressão de um
processo psíquico involuntário e inconsciente”. E mostra “a
verdade e a realidade interiores do paciente como realmente
são”. (1969, p. 34). As imagens e os símbolos não são meras
criações irresponsáveis da psique, elas representam as
necessidades do ser, além de possuírem uma função e um
significado.
Fazer uma apresentação sistemática sobre símbolos e
imagens é difícil porque “a psique não opera de acordo com as
linhas da nossa racionalização costumeira”. (WHITMONT,
1969, p. 09). O mundo das imagens e os conteúdos dos sonhos
desafiam os sistemas de referências racionalistas e positivistas,
porém compreende-se que no tocante ao estudo da energia
psíquica, do manifesto e do latente, o homem precisa ter
conhecimento sobre o mundo simbólico para fazer uso dos
domínios não-racionais do seu funcionamento.
Whitmont usa o termo “tradução” para o trabalho com
os sonhos na análise dos símbolos e das imagens:

Devemos traduzir as afirmações do sonho


para alguma forma de conceitualização que
nos seja pelo menos acessível, ainda que
esta tradução nunca possa ser
173
completamente adequada, porque uma
imagem onírica sempre aponta para muito
mais do que pode ser colocado dentro de
um conceito abstrato. A tradução é feita
colocando as associações e amplificações
da pessoa que sonha no contexto das
imagens. Associações são os conteúdos que
por acaso vêm à mente quando a imagem
de sonho é considerada, sejam eles
racionais ou irracionais. (1969, p. 35).

Isto porque a psique humana é “um padrão de


totalidade que só pode ser descrito simbolicamente.” (p. 15).
Através dos elementos oníricos podemos tentar entendê-la. A
realidade passa por um entrelaçamento com as dimensões do
simbólico e do imaginário, o que faz com que tenha contornos
próprios para cada sujeito, de acordo com sua história
particular. Porque “o significado se expressa no sonho, em
forma de trocadilhos, jogos de palavras, duplos sentidos e
imagens simbólicas”. (KRIPPNER, 1990, p. 119).
As imagens e símbolos são liberados à consciência
não para explicar, esconder ou racionalizar algo já conhecido
pelo homem, mas com o objetivo de conectá-lo com uma
dimensão de sua existência. Mesmo que estas sejam reprimidas
ou negligenciadas, continuam a atuar - consciente ou
inconsciente - podendo dar origem a dificuldades e patologias.
Toda imagem tem um significado, assim como os
símbolos não estão descontextualizados de emoções ou alguma
dificuldade apresentada pelo próprio sonhador. E para entender
um pouco mais o homem, precisa-se compreender como estas
imagens se formam, como elas comunicam-se, porque a psique
fala imagens.

No sonho estas imagens são retiradas da


realidade, com seu significado e substância,
174
para dar sentido a algum sentimento,
emoção ou dificuldade que a pessoa está
experimentando. No sonho, este processo
assume um caráter de deslocamento, para
congregar em seu ser uma profunda relação
simbólica com os dramas ou tragédias na
existência. (PEREIRA, 2007, p. 71).

Cabe então ressaltar mais detalhadamente o mundo


dos símbolos e das imagens. Este universo que possui uma
linguagem própria e uma significação muito particular e ao
mesmo tempo universal.

2.1. Os símbolos

Os símbolos do inconsciente são produções que


procuram nos mitos, nas tradições, religiões, uma
comunicação para designar outros desejos mais
profundos e importantes para o desenvolvimento
da consciência humana.
Salézio Plácido Pereira.

A palavra símbolo é derivada do grego symbballein,


que significa agregar. Ela carrega o sentido de unir para criar
algo maior do que a soma das partes, um símbolo geralmente
ativa uma série de percepções, crenças e respostas emocionais.
A grande muralha da China é um exemplo de como algo pode
ter diversos significados simbólicos, dependendo da
perspectiva cultural ou política da pessoa. A muralha é
diferentemente considerada como um símbolo de proteção,
poder e realização, ou de opressão, isolamento e divisão. Os
símbolos possuem uma dimensão individual e coletiva
universal.
175
Ao percorrer o universo do mundo simbólico um lírio
por exemplo pode muitas vezes ser um símbolo de pureza; uma
rosa pode simbolizar a beleza, a mulher; a cruz é o símbolo do
sofrimento e da ressurreição. A palavra pão surge ornada de
poesia e de simbolismo. O pão é simultaneamente banal e
sagrado; evoca outros símbolos importantes, como a terra, o
trigo, a fertilização dos campos. Para os cristãos, o corpo de
Cristo está contido numa hóstia de pão. Como símbolo, a
árvore pode ter muitos significados: pode representar
fertilidade e generosidade da natureza, resistência e
longevidade ou o entrelaçamento das relações familiares. Um
símbolo encerra – ou resume, representa – uma ideia ou um
conceito muito mais complexo. Determinados símbolos estão
fortemente carregado de emoções. E o homem também produz
símbolos, inconsciente e espontaneamente, em forma de
sonhos.
O simbolismo no decorrer histórico sempre foi usado
para denotar identidade e confirmar a participação em grupos
sociais, familiares, das unidades básicas da sociedade.
Baseados em crenças compartilhadas ou interesses e atividades
em comum, todos os grupos organizados possuem seus
próprios símbolos de identidade. Tais símbolos podem estar em
forma de totens, estandartes, bandeiras, padrões, imagens, ou
podem ser expressos através das vestimentas ou de
determinados rituais de comportamento.
O símbolo é designado para proporcionar um signo
instantaneamente reconhecido da identidade do grupo, um
modo de codificar e estruturar as relações sociais, de criar uma
distinção entre os que pertencem ao grupo e os que não fazem
parte deste grupo, e com o propósito também de estimular uma
resposta emocional que pode ser medo, respeito, orgulho.
Ao observar o mundo exterior, percebe-se que a
humanidade convive em meio à diversas formas de
significação simbólica, por exemplo, os objetos e fenômenos
176
naturais como pedras, plantas, animais os elementos fogo,
terra, água, vento. Até mesmo os fabricados pelo homem, as
casas, as obras de arte, as imagens de barro. Propagandas,
anúncios, imagens, cartazes, painéis, marcas de produtos. Um
símbolo também pode em determinada cultura trazer todo um
legado de crenças, costumes, valores e religiosidade. Montague
Ullman psiquiatra e psicoterapeuta, foi também um grande
estudioso dos sonhos e destaca a importante atuação da cultura
e dos acontecimentos mundiais nos sonhos.
Símbolos exteriores ao homem, porém que
demonstram o seu interior, objetos e formas com grande
importância e significado psicológico. No ambiente natural
encontramos várias expressões deixadas pelos antepassados,
símbolos que provavelmente tiveram uma significação
emocional. Porém cabe lembrar que “os símbolos possuem
interpretação com sentidos diferentes, dependendo das
demandas psíquicas de cada pessoa.” (PEREIRA, 2007, p.
106).
As pirâmides do Egito Antigo, por exemplo,
simbolizavam para seus arquitetos, o poder criativo do sol e a
imortalidade dos faraós que eram enterrados neste local. As
estátuas monolíticas localizadas na Ilha de Páscoa possuem
uma presença viva que simboliza a firmeza do espírito humano.
A flor de lótus, flor da Índia, é o símbolo do espírito puro
enraizado na realidade mundana. O símbolo yin/yang
representa a interação sem fim das qualidades opostas da
natureza. O martelo e a foice fazem parte do símbolo
comunista, representando a união dos trabalhadores industriais
e agricultores. Nas pinturas dos muros egípcios, os deuses
(particularmente Ísis) e os reis eram pintados segurando um
ankh para simbolizar seus poderes sobre a vida e a morte.
Uma vez que o sonho é uma expressão da vida
psíquica mais profunda, é fácil de compreender que deve
utilizar um meio igualmente profundo para comunicar-se. O
177
nosso inconsciente constitui a nossa vida mais íntima. Para
conhecer o simbolismo universal impregnado no inconsciente
coletivo das pessoas por gerações é interessante conhecer um
pouco da mitologia dos povos, das lendas gregas e germânicas,
dos contos europeus e asiáticos, dos mitos, ou o mundo mágico
dos povos primitivos, fazer uma leitura da vida dos santos
ocidentais e orientais, bem como das obras dos grandes poetas.
Estes são apenas alguns pequenos exemplos de representações
simbólicas. Um psicanalista que muito se ocupou da questão
dos símbolos é Carl Gustav Jung.
Stanley Krippner coloca que “segundo Carl Jung, os
sonhos usam os símbolos para revelar, no reino do
inconsciente, diferentes espécies de energias que estão à nossa
disposição na vida em estado de vigília. Jung deu a essas fontes
de energia o nome de arquétipos”. (1990, p. 21). Na análise
junguiana predomina o uso dos sonhos, então nada mais
coerente que fazer uma breve abordagem acerca dos
pensamentos deste autor.
Jung concebe símbolo como a melhor representação
possível para um conteúdo psíquico relativamente
desconhecido, e que aparece para poder ser compreendido e
integrado à consciência. O símbolo então adquire uma função,
fornecer esclarecimentos sobre a situação em que a pessoa se
encontra, bem como soluções através dos sonhos, fantasias e
imagens. Consequentemente adquire também uma finalidade
curativa e de ampliação de consciência. E sabiamente estes
símbolos costumam surgir em momentos conflituosos e de
tensão, quando a pessoa apresenta sentimentos confusos e
contraditórios por não estar conseguindo conduzir problemas
internos ou externos.
Para Jung o mundo inconsciente é tão real quanto o
mundo consciente, porém bem mais amplo e rico, porque a
linguagem utilizada pelo inconsciente é simbólica e muito
destes símbolos são expressos por meio dos sonhos. Por isso
178
estudar os símbolos é efetivamente estudar a relação do homem
com seu inconsciente. Os sonhos muitas vezes compensam os
desejos que não puderam ser satisfeitos enquanto despertos, os
dramas da vida diurna aparecem simbolicamente nos sonhos.
Os junguianos tratam o sonho como meio de
comunicação direto, muito pessoal e significativo para a pessoa
que sonha, com significado peculiar e próprio, exigindo
também interpretações individuais, pessoais. “Cada sonho é
um processo particular individual, e a forma definida que toma
é determinada pelas condições do sonhador.” (p. 123). Não se
pode então atribuir um sentido e um significado às imagens
simbólicas atribuindo-lhes significado universal e dogmático,
porque os sonhos têm significação própria. “Nenhum símbolo
onírico pode ser separado da pessoa que o sonhou, assim como
não existem interpretações definidas e específicas para
qualquer sonho”. (JUNG, 1964, p. 53).
Segundo o dicionário de psicanálise “o sonho é
predominantemente constituído por imagens e representações
cujo aparecimento e ordenação escapam ao controle consciente
do sonhador”. (ROUDINESCO, 1998, p. 722). E aquilo que
escapa à consciência é sempre registrado pelo inconsciente e os
símbolos oníricos expressam estes conteúdos. “Devemos
entender que os símbolos dos sonhos são, na sua maioria,
manifestações de uma parte da psique que escapa ao controle
do consciente [...]. E todo sonho é uma evidência deste
processo.” (p. 64). Porque “O homem também produz
símbolos, inconsciente e espontaneamente, na forma de
sonhos”. (JUNG, 1964, p. 21). Através dos sonhos aspectos da
mente inconsciente são revelados, “do ponto de vista histórico,
foi o estudo dos sonhos que permitiu, inicialmente, aos
psicólogos investigarem o aspecto inconsciente de ocorrências
psíquicas conscientes”. (p. 33).
Devemos levar em consideração também que o
homem é uma mistura de crenças, hábitos, costumes, valores e
179
contem um legado de milhares de anos de evolução, por isso o
conteúdo onírico, o resultado da união homem e símbolo, deve
ser tratado com extrema cautela. Os sonhos trazem “uma
espécie de reminiscência da pré-história e do mundo infantil,
ao nível dos nossos instintos mais primitivos.” (JUNG, 1964, p.
99). As mais diversas culturas tinham seu método de como
interpretar os sonhos e qual nível de importância era destinado
a estes.

2.2. As imagens

A linguagem simbólica é uma língua onde o


mundo exterior é um símbolo do mundo interior,
um símbolo de nossas almas e de nossas mentes.
Erich Fromm.

Comumente é possível ver pessoas invadindo o


território de outros indivíduos, violentando a individualidade
do ser que se não bastasse já se encontra em sofrimento.
Certamente para estes é bem mais fácil resolver o problema do
outro que os seus próprios, então aconselha para que tire férias,
que talvez deva separar-se ou passar mais tempo com a família,
praticar esportes. Porém segundo Jung há apenas uma atitude
que se deva ter a qual exige coragem, que seria “voltar-se para
as trevas que se aproximam, sem nenhum preconceito e com a
maior singeleza, e tentar descobrir qual o seu objetivo secreto e
o que vêm solicitar do indivíduo”. (1964, p. 167).
É oportuno abordar este tema quanto ao estudo dos
sonhos, porque muitas vezes estes conteúdos secretos, no qual
Jung trata de sombras ou trevas, manifestam-se nos sonhos,
estas imagens simbólicas têm a incumbência de denunciar, de

180
comunicar a mensagem inconsciente. Para na verdade, através
deste processo conhecer aspectos da personalidade, que por
algum motivo a pessoa ainda não tinha lançado um olhar mais
apurado sobre elas.
Pode-se afirmar que as imagens são mensageiras do
mundo dos sentimentos e emoções. E conhecê-las, ouvi-las,
pensá-las, interpretá-las, pode ser “uma tomada de consciência
do filme realizado por cada ser humano no decorrer de sua
existência.” (PEREIRA, 2007, p. 07). Porque ainda para
Pereira “é através do mundo imaginário que a energia traz ao
paciente imagens que precisam ser compreendidas e
interpretadas; e o profissional mais qualificado para esta função
é o psicanalista.” (p. 07).
Certamente deve-se levar em consideração a
dificuldade de se compreender os sonhos, porque o
inconsciente é atemporal e muitas imagens acumuladas criam
um cenário aparentemente contraditório e até mesmo ridículo,
visto que “as imagens do inconsciente não se apresentam,
habitualmente de maneira clara e o sonhador é obrigado a
decifrar o significado de uma sucessão de contrastes e
paradoxos”. (JUNG, 1964, p. 116). E este material, esta riqueza
de imagens produzidas nos sonhos, constituem-se na expressão
do mundo psíquico.
A linguagem dos sonhos é carregada de um
simbolismo tamanho, que seria um desperdício negligenciar
este conteúdo. Esta maneira de ver os sonhos como a expressão
do inconsciente é muito rica, e vêm de encontro ao trabalho
psicanalítico, pois assim os pacientes podem usar como meio
para manifestarem os problemas que os afligem e o analista
poderá investigar estas simbolizações.
Padrões de pensamento geram padrões de
comportamento, e estes denunciam a imagem que a pessoa tem
do mundo e de si mesma. Quando o ser humano tem atitudes e
pensamentos que impedem a realização dos seus objetivos na
181
vida, é porque ainda não percebeu o filmezinho que
inconscientemente se repete inúmeras vezes, não tomou
consciência dos seus pensamentos, sentimentos e emoções.
Apenas repete um padrão de comportamento muito bem
acompanhado de ideias fixas, experiências passadas, ciclos de
autossabotagem, crenças limitantes, valores arcaicos, medos
infundados, que podem muito bem manifestar-se através das
imagens.
Cabe pontuar novamente a necessidade de se
investigar a imagem que a pessoa tem de si mesma, pois se for
um conceito e uma imagem muito pobre e negativa, a
consequência pode ser um processo de autodestruição, derrota,
perda, fracasso, inconscientemente ela acaba negando a
felicidade. Este masoquismo pessoal foi criado ao longo de
uma história de vida, imagens carregadas de emoções que
foram internalizadas e fazem parte da estrutura de caráter da
pessoa. Dessa forma acaba tendo dificuldades em estabelecer
vínculos com pessoas saudáveis e estabelecer relacionamentos.

Uma imagem negativa de si mesmo só é


reforçada por perdas e acontecimentos
destrutivos. Se a própria pessoa não
acreditar em si mesma, na verdade, quem
irá acreditar nela [...]. O único remédio
eficaz contra a permanência e o domínio
destas imagens é levar o paciente a
encontrar-se consigo mesmo, ajudando-o a
utilizar o seu potencial, sempre a seu favor.
(PEREIRA, 2007, pp. 163/166).

O poder destas imagens, destes complexos de energia


é muito grande e elas atuam de modo alheio à vontade,
causando melancolia, estresse, depressão, tristeza, medo dentre
as mais diversas patologias. Para Whitmont “se não
182
acompanhamos a pressão interna para assimilá-las à vida
consciente, estas configurações podem tornar-se complexos
perturbadores.” (1969, p. 45).
Estas imagens podem ser analisadas, a psicanálise
quando trabalha as fantasias e os sonhos está sem dúvidas,
através de seu método auxiliando o paciente a decifrar e
interpretar o sentido dos conteúdos latentes nestas imagens, e
consequentemente relacionando-as com a existência. Ao relatar
a sua historicidade, o paciente apreende a realidade através das
imagens que internalizou ao longo do tempo, e que foram
consideradas como verídicas, mesmo nos momentos que
interpretou a realidade erroneamente e equivocadamente,
porém era a sua maneira, a única que dispunha no momento de
acordo com seu conhecimento, evolução e aprendizado. Para
Pereira “quanto mais rígida e inflexível for a crença numa
imagem, mais difícil será a transformação do significado
latente deste seu mundo imagístico”. (2007, p. 165).
O analista fica atento ao discurso do seu paciente, as
imagens denunciam seu caráter simbólico, algo que implica
muito mais que o conteúdo manifesto, porque estas imagens
têm um aspecto mais amplo e inconsciente, um conteúdo
latente que o paciente ainda não conseguiu fazer a conexão,
mas está ali para ser interpretado à luz da psicanálise. A
linguagem das imagens é por intermédio dos conteúdos
simbólicos, que seria o manifesto; que tem um sentido
profundo, o latente, passível de ser compreendido.
As imagens possuem um conteúdo psíquico e Carl
Gustav Jung, via na mitologia, nos arquétipos, e no
inconsciente coletivo os motivos que levam as pessoas a se
estruturarem na neurose. E a humanização acontece partindo do
mundo emocional, onde as imagens arquetípicas estão
aprisionadas pelas experiências dos antepassados.
Para Whitmont (1969), “as imagens realmente
transmitem um certo conhecimento, não através do intelecto
183
mas através do efeito da imagem sobre o sentimento e a
intuição, assim servido de intermédio a outro tipo, talvez mais
profundo, de conhecimento que o conhecimento intelectual”.
(p. 31). E acrescenta afirmando que “do mesmo modo que as
células do sangue são componentes básicos e normais do
funcionamento biológico, as imagens são também
componentes básicos do funcionamento psíquico.” (p. 26).
A psique fala imagens, “as camadas mais profundas
falam através de imagens. Estas imagens devem ser
consideradas como se nos apresentassem descrições de nós
mesmos, ou de nossas situações inconscientes, na forma de
analogias ou parábolas.” (WHITMONT, 1969, p. 35).

3. A VISÃO PSICANALÍTICA HUMANISTA DE


ERICH FROMM SOBRE OS SONHOS

Os sonhos são como um microscópio através do


qual olhamos para os acontecimentos ocultos da
nossa alma.
Erich Fromm

Freud via os sonhos como manifestações irracionais


do homem. Para Jung os sonhos são revelações inconscientes
de grande sabedoria. O sonho então é a manifestação do que o
homem tem de melhor ou de pior? Deveria ser entendido como
a manifestação do ‘eu superior’ ou do ‘eu inferior’? A opinião
de Fromm é que o sonho pode ser tanto a “expressão das mais
baixas e irracionais quanto das mais elevadas e mais valiosas
funções de nossas mentes”. (1973, p. 46).
Porém tanto para Freud como para Fromm, os sonhos
são simultaneamente significativos e importantes.

184
Significativos por conter conteúdos compreensíveis,
mensagens importantes, chaves de acesso para aspectos
importantes do ser humano quando se sabe como abrir, e agora
mais uma vez retoma-se a importância de dominar os segredos
da linguagem simbólica. São importantes porque não contêm
coisas banais, somente muitas vezes estes conteúdos oníricos
estão escondidos por trás de uma banalidade, algo trivial que
funciona como uma fachada.
Os sonhos são imagens repletas de intencionalidade, o
sonhador é o produtor, o roteirista, o autor e ator principal
deste filme, desta sucessão de imagens repletas de desejos e
que denunciam repressões e neuroses, bem como a expressão
dos desejos mais íntimos e a dificuldade para realizá-los. Erich
Fromm deixa claro sua opinião sobre os acontecimentos
enquanto acontece o sonho “na existência adormecida, não há
‘como se’: a pessoa está presente.” (1973, p. 33). A análise do
sonho se dará na junção das partes, de todas estas imagens, a
fim de que se possa dar sentido a esta história. Para Fromm
“qualquer que seja o papel que desempenhamos no sonho,
porém nós mesmos somos o autor, o sonho é nosso, nós
inventamos o enredo”. (1973, p. 14).
No decorrer do processo histórico o ser humano está
sempre tão preocupado com afazeres e problemas que ele
mesmo criou, e não tem mais tempo para prestar atenção em si
mesmo e nas manifestações das imagens ocorridas durante o
sono, todos sonham, mas compreendê-los, entendê-los
dificilmente isto ocorre. Dessa forma os sonhos passam a ser
considerados meros devaneios noturnos, uma sucessão de
imagens, um filmezinho, uma história sem sentido. Ou uma
frase muito bem empregada por Erich Fromm e título de uma
de suas obras, o sonho transformou-se em uma “Linguagem
Esquecida”.
Erich Fromm afirma que o sonho “é o único idioma
universal jamais criado pela raça humana, o mesmo para todas
185
as criaturas e para todo o curso da história. É uma língua com
gramática e sintaxe próprias”. (p. 16). Isto porque os sonhos
têm uma linguagem simbólica, e esta língua expressa os
sentimentos e as experiências mais íntimas das pessoas, eles
seguem “uma linguagem cuja lógica difere da linguagem
convencional que falamos de dia, uma lógica em que as
categorias dominantes não são o espaço e o tempo, mas sim a
intensidade e a associação.” (1973, p. 16).
Erich Fromm (1973) coloca que entender a linguagem
dos sonhos é uma arte, e que esta arte assim como muitas
outras, requer prática, talento, conhecimento e muita paciência.
É necessário compreender onde há uma ligação entre o passado
e o presente, o caráter da pessoa e o fato real formando assim
um todo e levando aos motivos, aos conteúdos que a pessoa
que sonhou precisa tomar ciência.
Sendo o inconsciente atemporal e também amoral, os
conteúdos oníricos estão repletos de emoções e sentimentos
sem a censura, representando o “eu” verdadeiro. Não
obedecendo à lógica do tempo, do espaço e da censura, “em
nossos sonhos somos os criadores de um mundo em que o
tempo e o espaço, que restringem todas as atividades de nosso
corpo, não possuem poder algum”. (FROMM, 1973, p. 14).
Erich Fromm inclui no estudo da simbologia a
antropologia, a biologia dentre outras ciências que podiam
colaborar consideravelmente na elucidação das simbologias.
Sendo ele um estudioso da sociedade, da história, da política e
economia, não poderia relegar estes seus conhecimentos em
sua teoria sobre a interpretação dos sonhos. Um psicanalista
que traz uma proposta voltada às relações sociais por entender
que o inconsciente não é apenas o recalcado e doloroso, mas
também é uma fonte de potencialidade, criatividade,
dinamismo e originalidade.
Sendo Fromm um grande psicanalista humanista sua
visão é pensar o homem em sua totalidade, como um ser
186
inserido em um contexto cultural, social, histórico e político.
Este ser humano possui seus valores, seus costumes, crenças,
desejos; precisa trabalhar, sobreviver, procurar seu espaço para
resolver suas demandas de afeto e reconhecimento. Precisa
atentar-se às questões familiares, econômicas, sexuais,
profissionais, além de ter que manter equilíbrio e destaque na
sociedade. Então os conteúdos oníricos não estão
desvinculados de toda esta realidade.
O psicanalista humanista irá analisar qual o dilema do
seu paciente e examinar as conexões com todos os conteúdos
citados anteriormente, a fim de encontrar o caminho para fazer
cessar o sintoma, a dor, o sofrimento. Os sonhos são de grande
valia nas sessões de terapia psicanalítica por retratarem
questões íntimas do que se passa com os pacientes. Um
trabalho realmente desafiador, porque quando um sonho é rico
em conteúdos e é bem esclarecido e interpretado e o paciente
consegue elaborar, certamente esta pessoa poderá alterar
significativamente algum tipo de comportamento.
Fromm ousou sair da interpretação voltada para a
libido sexual e atribuir à sua análise questões sociais,
históricas, culturais, políticas e econômicas. O homem é a
soma de todas as suas experiências, leva consigo uma
ancestralidade dos que o precederam, seus antepassados são
passado e presente nele mesmo, e toda esta realidade social
colocada por Fromm faz parte do processo de formação do
inconsciente. Porque muitas “verdades” são passadas de
geração para geração até serem incorporadas pela cultura e
sobreviverem no tempo.
Identificar a estrutura de caráter do paciente e qual sua
neurose é fundamental porque estes conteúdos podem
manifestar-se nas imagens e símbolos, cada dificuldade,
preocupação cria um cenário. Cada sonho possui uma temática
que retrata o drama vivido pela pessoa que sonha, o analista
procura interpretar juntamente com o paciente estes conteúdos
187
para se conquistar saúde psíquica e orgânica. Para Fromm os
sonhos retratam o drama existencial, social, político,
econômico, religioso, cultural, contemplam o integral do ser
humano; e trazem consigo as memórias da ancestralidade.
A psicanálise humanista de Erich Fromm compreende o
homem no seu meio social, este ser necessita compreender sua
relação com o mundo, com os outros, com a natureza e consigo
mesmo. E neste meio é um ser de ação, e através das relações
familiares e sociais e também através de suas ações, tende a
evoluir em inteligência, humanizando-se e superando-se, pois o
ser evolui em todos os aspectos, ou seja, físico, social, cultural,
econômico.
Fromm discorre sobre os diversos tipos de caráter com
orientação receptiva, exploradora, acumulativa e mercantil.
Conclui que o caráter das pessoas é comumente a mistura de
todas ou de algumas das orientações por ele descritas, em que
uma é dominante.
Na orientação receptiva a pessoa acredita que todo o
necessário, seja amor, conhecimento, prazer, algo material, está
fora de si. Sua orientação é receber e não produzir. São
dependentes e quando sozinhos sentem-se perdidos, porque se
acham incapazes de fazer alguma coisa sem auxílio.
O caráter explorador não espera receber as coisas dos
outros, mas tomá-las por meio da força ou da astúcia. No amor,
nas atitudes intelectuais bem como na aquisição de coisas
materiais, tendem a apossar-se e a roubar. Costumam usar e
explorar, além de fazer comentários sarcásticos, agindo com
hostilidade e manipulação, nestas pessoas encontra-se
desconfiança, cinismo, inveja e ciúme.
As pessoas com orientação de caráter acumulativa, a
sua segurança baseia-se na acumulação, possuem avareza e são
possessivos, sentimentalistas e saudosistas, metódicos e
pontuais. Seus valores são ordem e segurança, por isto sentem-
se ameaçados pelo exterior.
188
Na orientação mercantil cada pessoa possui um valor,
como uma mercadoria, uma espécie de mercado de
personalidades, o sucesso depende em grande parte de quão
bem a pessoa sabe vender-se no mercado, sem preocupar-se
com a felicidade. Atribui grande importância ao que os outros
pensam a seu respeito.
Na interpretação dos sonhos Fromm utiliza estas áreas
do conhecimento, porque pensava a simbologia dentro de uma
visão completa e ampla. E este homem que sonha possui uma
orientação de caráter que pode ser revelada na análise dos
sonhos, e é importante o analista conhecer o caráter
predominante do seu paciente para conseguir êxito no trabalho
analítico. Um determinado símbolo pode representar um
aspecto do seu caráter, porque para Fromm a formação do
caráter é própria das relações com a cultura, a educação e a
sociedade, e resultado da ancestralidade do homem.
Quando não está ocupado com o mundo exterior, o
indivíduo através dos sonhos recebe cartas com informações
destinadas ao próprio sonhador, ou seja, àquele que sonha,
porém será inútil esta comunicação se não se interpretar a
linguagem utilizada pela psique, mas ao entendê-la, entra-se
em contato com as camadas mais profundas de si mesmo. Para
Fromm esta linguagem simbólica é sensorial “é uma língua
onde o mundo exterior é um símbolo do mundo interior, um
símbolo de nossas almas e de nossas mentes”. (1973, p. 20).
Quando desperto o homem é um ser ativo, racional,
sempre pronto para o ataque ou a defesa, para manipular a
realidade. Acordado vê como dever maior a sobrevivência,
como dar conta das demandas colocadas pela existência em sua
vida, ele tem um desafio dominar o meio. Porém quando
adormecido há outra existência, em meio a tantas cenas e
imagens, muitas vezes ele é o chefe ou o empregado, pode ser
o herói e também o vilão, pode viver uma história de amor ou

189
de terror, medo e pânico, pode ver a luz e a escuridão, viver o
bem e o mal.
Tudo acontece porque agora não é a lógica que
governa como quando está acordado, então pode estar em
diferentes lugares num único sonho, ver pessoas que não via há
muito tempo, atravessar uma parede, flutuar, estar embaixo
d’água e não afogar-se. Para Fromm (1973) durante o sonho, o
homem parece dar vazão às recordações e experiências que
durante o dia nem sequer lembra.
Erich Fromm além de ter feito estudos e pesquisas
acerca dos sonhos acrescenta conhecimento com os mitos e
contos de fadas, para ele “o mito, como o sonho, apresenta uma
estória desenrolando-se no tempo e no espaço, estória essa que
exprime, em linguagem simbólica, ideias religiosas e
filosóficas, experiências da alma.” (1973, p. 144). Em seu livro
A linguagem esquecida, Fromm faz uma análise do Mito de
Édipo, O mito da criação, Chapeuzinho Vermelho, O ritual
sabático e o processo de Kafka.
Influenciado pela psicanálise humanista de Erich
Fromm, Dr. Salézio Plácido Pereira psicanalista da atualidade,
tem dedicado sua vida juntamente com sua esposa Carla
Cristine Mello Froner, dando continuidade ao processo de
formação de novos psicanalistas humanistas através do ITPH
Instituto de Psicanálise Humanista, localizado em Santa Maria
– Rio Grande do Sul. O próximo capítulo contém ideias
expressas em dois livros do Dr. Salézio: “O significado
inconsciente das imagens” e “A interpretação dos sonhos.”

190
4. PSICANÁLISE CONTEMPORÂNEA: UM
ESTUDO DOS SONHOS SOB A ÓTICA DO
PSICANALISTA HUMANISTA DR. SALÉZIO PLÁCIDO
PEREIRA

O objetivo dos sonhos é levar o paciente a um


nível mais elevado de consciência e tornar-se
mais ético e íntegro em suas escolhas.
Salézio Plácido Pereira.

A opinião de Pereira é que seu trabalho analítico


também quanto a interpretação dos sonhos não está atrelado à
teorias que tentam provar a veracidade de seus conceitos, pois
o dogmatismo e o fundamentalismo teórico podem engessar o
trabalho psicanalítico. O autor em questão sendo um grande
estudioso da psicanálise tem uma abordagem transdisciplinar, e
estuda o homem de maneira multidimensional, defende que os
sonhos apontam para a origem das neuroses, como também
fornecem caminhos para a resolução dos traumas emocionais.
A linguagem metafórica dos sonhos traduz-se em
imagens e estas podem ser investigadas nas artes, nas pinturas,
nos desenhos, na escrita, na literatura, na música, nas
esculturas. Estas realidades imagísticas e simbólicas
transformam-se em cenas, numa história, e estas ganham um
teor, uma importância.
Ao fazer relação do símbolo com a sua vida o paciente
aos poucos vai descobrindo-se, pois quem se conhece aprende
a desvelar caminhos para resolver os problemas pessoais e
descobre o seu potencial. Porque os símbolos dos sonhos
auxiliam na compreensão da dinâmica inconsciente das
emoções, consequentemente auxiliam a desenvolver ainda mais
o humano no homem.

191
Pereira também faz colocações sobre os sonhos
enquanto a pessoa está desperta, para ele não há diferença entre
os sonhos que acontecem enquanto se está dormindo e sonhos
enquanto se está acordado, um é símbolo e reflexo do outro,
durante o sono os símbolos dos sonhos são significados da
existência, é uma maneira do inconsciente tentar resolver e
realizar os sonhos que se tem na vida diurna. Por isso para
realizar os sonhos eles devem partir de um desejo profundo, a
pessoa tem que estar convicta e ter certeza que realizando seu
sonho será mais feliz, terá mais prazer na existência. O sonho
precisa de investimento e ter um fundamento, porque o sonho
que não dá mais alegria, saúde, satisfação não se concretiza, a
própria pessoa inconsciente acaba criando boicotes para que o
sonho não se realize.
Assim como Erich Fromm e Alfred Adler, Dr. Salézio
Plácido Pereira destaca o aspecto positivo do simbolismo
expresso nos sonhos, pois nestes, estão contidos também
valores, potencialidades e capacidades, uma leitura de como o
homem interpreta sua realidade existencial. E se cada um
encontra-se em seus sonhos, e estes manifestam aspectos
relevantes do que sonha, e cada sonho está ligado à
determinada pulsão, cabe ressaltar a necessidade de se manter a
originalidade do sonho porque não existe um sonho igual ao
outro, e o mesmo símbolo pode ter uma significação muito
distinta de uma pessoa para outra. A interpretação dos símbolos
tem a ver com a história de vida do paciente, tem relação com o
que ele necessita resolver na existência, por isso para cada um
o resultado desta interpretação é único, para cada um é de um
jeito.
Os sonhos além de buscar realizar um desejo, também
têm a pretensão de alcançar um objetivo, sendo então, a
interpretação do sonho tem grande importância, pois pode
beneficiar o paciente. Pereira, assim como Medarde Boss e
Biswanguer, concorda que as imagens e os símbolos estão
192
intrinsecamente relacionados à existência, são alternativas para
a resolução de dilemas existenciais. As pessoas que se dispõem
a analisar seus sonhos têm um ganho adicional de energia,
potencialidade e criatividade.
Psicanalistas renomados como Freud, Fromm, Jung,
dentre outros, sempre trabalharam com a interpretação dos
sonhos de modo responsável, baseado na relação do paciente
com a sua história de vida. Pereira coloca que a interpretação
dos sonhos deva seguir pelo caminho da ciência e não do
esoterismo e do misticismo. Estar livre das verdades pré-
estabelecidas e das crenças dogmáticas, porque a finalidade de
se trabalhar com os sonhos não é a alienação, mas a
autodescoberta de si mesmo. É utilizar os sonhos como
transcendência para realizar os seus sonhos, enquanto projetos
pessoais. Os sonhos são aliados no processo de evolução da
consciência.
Nas sessões de análise muitos conteúdos encobertos
pelas defesas apresentadas pelos pacientes podem aparecer
num sonho. Sendo assim, os sonhos permitem que emoções e
pulsões até então bloqueadas sejam liberadas, dando vazão
para que esta energia criativa circule livremente. Quanto maior
o conhecimento do homem sobre suas emoções e pulsões
maiores serão as perspectivas de realização pessoal, a coragem
e a ousadia para conhecer-se em profundidade tornando-se
transformação.
Ao passar por processos de superação dos seus limites,
por uma transformação, sabendo lidar com as frustrações, o
paciente consegue viver de modo mais saudável, viver o amor
e a felicidade. O sonho não deixa de ser uma oportunidade que
a pessoa tem de poder dialogar com o inconsciente, de
descobrir aspectos de seu caráter ainda desconhecidos, entrar
em contato com o mundo das emoções do amor, do ódio, da
culpa, da inveja.

193
Estas imagens possuem um poder de atuação
inconsciente e podem causar sintomas psicossomáticos e
dilemas existenciais. A psicanálise foca seu estudo para
descobrir os mistérios do inconsciente pessoal e coletivo e
percebe que este estudo perpassa por um processo de
aculturação que o homem vivencia ao longo do tempo. Nestes
símbolos encontra-se um misto de tradições, valores, crenças,
religiões e mitos.
Os sonhos possuem imagens que são metáforas, estas
imagens, símbolos e emoções podem revelar experiências
traumáticas, bem como realizadoras. Possuem um potencial de
comunicação, dialogam sobre temáticas marcantes na vida da
pessoa. A energia psíquica transforma-se em símbolos a fim de
levar ao consciente informações pessoais, driblando assim o
superego, por isso esta transformação revela o que há de mais
íntimo e verdadeiro no homem, por não passarem pelo crivo da
moralidade que censura, do medo, da culpa e da vergonha.
O psicanalista fará com que o enredo da história
contida nos sonhos tenha sentido na existência, poderá
identificar qual a emoção está obstruindo o fluxo da vida, a
evolução e a saúde. Interpretar os sonhos é conhecer a própria
subjetividade, estar atento às manifestações da psique, entender
o que se passa consigo mesmo, tornar-se mais sensível e
compreensivo, superar medos e viver em equilíbrio com a
inteligência organísmica, esta sabedoria da vida interessada na
evolução da espécie, autodescobrir o potencial adormecido,
bem como reconhecer processos autodestrutivos.
No sonho pode aparecer um enredo de símbolos e
personagens para mostrar a matriz da neurose, portanto a
importância de se estar consciente das emoções, evitando
assim, atitudes de falência destrutivas. Experiências de vida
ainda não elaboradas podem manifestar-se nos momentos de
sono.

194
Os fenômenos psíquicos estão presentes nas cenas
imagísticas, elas trazem uma realidade subjetiva que foge à
compreensão racional. Os símbolos e imagens também
demonstram o lado positivo do ser humano, as emoções de
amor, alegria, harmonia, solidariedade. Aspectos funcionais
que corroboram para os excelentes resultados na terapia
psicanalítica, para a expansão da consciência e da criatividade.
Neste diálogo com as pulsões através dos sonhos podem surgir
as respostas aos questionamentos da pessoa quando desperta.
A existência é feita de imagens e símbolos que
perfazem uma mensagem teatral, onde os atores representam as
máscaras do produtor deste texto. Os si bolos e as imagens
passam pela censura do superego, por isso sofrem
deformações, transformam-se em linguagem simbólica,
metaforicamente o símbolo é um pacote de presente
embrulhado e lá dentro tem um significado. Porém o sonho
deixa de ser um mistério na medida em que é interpretado. A
interpretação de um sonho é uma linguagem metafórica que
conversa com os símbolos e imagens.
A psicanálise humanista concebe que o inconsciente é
um manancial de potência, criatividade, produtividade e
autenticidade. Segundo Pereira a qualidade das imagens
interfere no funcionamento do organismo, e mesmo diante do
caos e da desordem das imagens existe a possibilidade de se
organizar, dar lógica e sentido à vida.
Há muito tempo os sonhos são utilizados na resolução
de problemas pessoais, profissionais e familiares. Os símbolos
e as imagens nos sonhos denunciam onde a energia psíquica
encontra-se bloqueada. Para Pereira a energia psíquica seria a
representação simbólica da inteligência organísmica, a
inteligência da vida interessada na evolução das espécies, ela
procura integrar e defender a saúde psíquica e orgânica, cabo
ao homem saber interpretar. E os conteúdos antes inconscientes
quando integrados à consciência, conseguiriam desenvolver
195
alteridade e maturidade psíquica. Porque o autor defende que o
objetivo dos sonhos é elevar o nível de consciência do
paciente, tornando-se assim um ser melhor.

5. O SONHO COMO POTENCIAL PARA O


DESENVOLVIMENTO E AUXILIAR NA SOLUÇÃO
DOS PROBLEMAS PESSOAIS

Somos feitos do mesmo material de que são feito


os sonhos.
Willian Shakespeare.

Os sonhos também são instrumentos importantes para


o desenvolvimento do potencial do ser humano e auxiliar na
solução dos seus problemas. Na história da humanidade eles já
renderam fantásticas descobertas na área da ciência, da arte, da
música, relatos de pessoas que se consagraram por descobertas
inspiradas em seus sonhos, eles servem como inspiração para
grandes descobertas. O cérebro humano possui memórias e
aprendizados, informações guardadas à longo prazo, e os
sonhos podem manifestar estas reminiscências do passado.
Alfred Adler foi um psicanalista que acreditou que os
sonhos realmente tinham a função de solucionar problemas,
tinham o propósito de reforçar a emoção das pessoas que
sonhavam, dessa forma motivando os sonhadores a alcançarem
seus objetivos.
O sonho pode ser visto também como uma
oportunidade da pessoa poder dialogar com as suas demandas
pessoais, seus conteúdos emocionais. O inconsciente é visto
pela psicanálise humanista como um manancial de energia que
está à disposição do sonhador para ser transformada em
196
potencialidade, porque na verdade a intenção é o
desenvolvimento do potencial de realização.
O ser humano possui a capacidade de poder superar-
se, resolver problemas e enfrentar situações adversas, o
importante e benéfico é a pessoa utilizar todo seu potencial e
criatividade para alcançar seus objetivos e realizar seus sonhos,
porque o prazer em viver depende da satisfação em poder
realizar-se na existência conseguindo satisfazer suas demandas
de afeto e reconhecimento. Cada conquista amplia mais a
confiança em si mesmo, a capacidade para enfrentar as
adversidades, internalizando uma boa imagem de sua pessoa,
elevando a autoestima. Assim o ser humano está utilizando sua
energia psíquica de modo positivo, a favor de sua promoção.
Em experimentos feitos constatou-se que os sonhos
facilitam a solução de problemas. Krippner exemplifica este
fato citando relatos do psicólogo Robert Davé, ele trabalhou
com um grupo de vinte e quatro pessoas, oito pessoas foram
hipnotizadas e descreveram seus sonhos, sendo que destas oito,
seis encontraram a solução para seus problemas analisando os
sonhos. Outro grupo submetido a analisar seus problemas por
intermédio de exercícios mentais racionais, apenas um
conseguiu alguma introvisão.
Para Krippner “as imagens podem assumir a forma de
símbolos e de metáforas, os quais podem promover soluções
práticas para crises desconcertantes de saúde, projetos
profissionais, ou problemas pessoais.” (1990, p. 90). Encontra-
se no decorrer da história várias pessoas que encontraram nos
sonhos um aliado.
Krippner enfatiza que os sonhos,

Abrirão nossos olhos a informações que


deixamos de apreciar ou de reconhecer
enquanto estávamos acordados, e essas

197
“novas” informações nos ajudarão a
resolver o problema se estivermos
desejando mudar nossa atitude ou nosso
ponto de vista. Isso nem sempre é fácil,
pois requer coragem em face da resistência
e da persistência diante da frustração. (p.
95).

A história está repleta de exemplos positivos, o


músico Paul McCartney no ano de 1964 diz ter tido um sonho e
acordado muito inspirado, foi quando compôs sua famosa
música Yesterday, sucesso imortal do inglês. O pintor
consagrado Salvador Dali (1904 – 1989) confessou que todas
as suas obras foram inspiradas nos seus sonhos. Louis Agassiz
atribuiu a um sonho a descoberta de um fóssil em perfeito
estado.
Dmitri Mendeleiev (1834 – 1907) químico russo que
organizou a Tabela Periódica sonhou com um diagrama em que
todos os componentes químicos encaixavam, sua criação
baseada em uma inspiração onírica beneficiou a ciência. Em
1865 o químico alemão Friedrich August Kekulé após dormir
um sono em frente à lareira, diz ter tido um sonho no qual foi a
inspiração para a sua descoberta o anel benzênico, que
conduziu ao desenvolvimento da química orgânica.
O físico dinamarquês Wiels Bohr no início do século
XX, em um de seus sonhos viu um núcleo com elétrons
girando em volta dele e pelo seu trabalho desenvolvido a partir
daí, recebeu o Prêmio Nobel de Física. Elias Howe em 1844,
por intermédio de um sonho obteve inspiração para aperfeiçoar
seus inventos e criar a máquina de costura de pesponto duplo.
Frederick Grant Banting descobriu num sonho como proceder
para produzir a insulina em massa.
W.B. Cannon, um dos maiores fisiologistas da
América, o primeiro a usar os raios-X em estudos fisiológicos,
escreveu que o fato de despertar no meio da noite lhe conduzia
198
a novas teorias e a novos planos de invenções. Beethoven e
Wagner estão entre os músicos mais conhecidos que utilizavam
os sonhos em seus trabalhos. Muitos escritores famosos
também empregam os sonhos como fonte de novas ideias em
suas obras.
Beethoven, Brahms, Stravinsky e Wagner estão entre
os músicos mais conhecidos que utilizaram os sonhos e os
devaneios no seu trabalho. Blake, Robert Louis, Stevenson e
muitos outros escritores empregaram os sonhos como
inspiração e, às vezes, para instruí-los em sua arte.
Todas estas pessoas conseguiram de alguma maneira
se superar, quanto a este assunto Pereira contribui:

Talvez este tema das potencialidades visto


com o uma força psíquica encarregada de
fazer frente aos desafios na existência seja
uma novidade para a psicanálise, porém
nunca foi para os grandes homens da
história e de tantos outros que souberam
utilizar este recurso poderoso na solução de
seus dilemas pessoais. (2012, p. 65).

Diante das adversidades da vida todo ser vivo tem


escolhas, deixar-se abater, desanimar, reclamar das tragédias e
fracassos; ou dar uma resposta inovadora e diferente, utilizar as
experiências dolorosas como aprendizado para ter mais força,
coragem e determinação para lutar por seus ideais, não ter
medo e resistir. As pessoas citadas anteriormente certamente
em algum momento podem ter pensado em desistir, em
desanimar, mas foram mais fortes e as respostas que
precisavam foram enviadas através da simbologia dos sonhos.
A parte melhor é que eles tiveram uma segurança emocional
que os levou a ter certeza que iriam conseguir, e ainda um

199
discernimento para fazer a conexão entre os seus estudos e os
sonhos que lhes ocorriam.
Os sonhos podem ajudar a solucionar problemas e
auxiliar no despertar da consciência, pode-se dizer que o sonho
é um caminho que o cérebro encontrou para externar os
conteúdos necessários à evolução da pessoa. Na terapia
analítica humanista o paciente terá a oportunidade de poder
esclarecer, confrontar, interpretar e elaborar os conteúdos
oníricos. Nesta alteridade e amorosidade, com proteção e
segurança, consegue força, coragem e ousadia para fazer frente
aos medos e inibições, às neuroses que insistem em destruir a
vida.
O importante do trabalho com os sonhos é que as
pessoas têm a oportunidade de conhecer-se, aprender a fazer
diferente, criar condições, encontrar recursos na existência para
suas dificuldades. É o seu momento de poder incorporar novas
aprendizagens e ver a realidade de modo diferente, ter
perspectiva de futuro, acreditar na possibilidade de viver com
qualidade de vida, bem estar e alegria; para prevenir e
promover a saúde psíquica é necessário conhecimento de si
mesmo.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Há quem diga que todas as noites são de sonhos.


Mas há também quem garanta que nem todas, só
as de verão. No fundo, isto não tem muita
importância.
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os
sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em
todos os lugares, em todas as épocas do ano,
dormindo ou acordado.
(Sonho de uma Noite de Verão)
William Shakespeare.
200
A análise é um processo de humanização, de
desconstruir e construir, de esvaziar e preencher. No decorrer
deste processo o paciente tem a oportunidade de identificar
suas carências, o gasto desnecessário de energia, os vínculos
doentios, o porquê de seu fracasso e porque nutria uma imagem
pobre de si mesmo. E quando este ser humano é capaz de
colocar em ação suas qualidades, consegue viver o amor, a
alegria, a generosidade, passa a proteger a vida.
A intenção primeira do ser humano é a realização, a
evolução, porque existe algo mais nas pessoas além dos títulos
e as posses. E para realizar os sonhos necessita-se de
competência emocional, aceitar-se nas suas limitações, porque
não existe sonho sem superação. A pessoa precisa se permitir,
abrir a porta para as imagens positivas entrarem.
A pessoa que se predispõe a analisar seu inconsciente
tem um ganho adicional em sua qualidade de vida, além de
aprender a ter um autocontrole, conseguir adaptar-se à
situações adversas, ganha organização, planejamento e
vivencia o afeto em profundidade. Não existe preço para
entender a intimidade, em cada símbolo encontra-se uma
possibilidade de compreender a realidade psíquica, os desejos
inconscientes tomam forma, há uma tentativa de integração
entre inconsciente e consciente.
Em cada história de vida é possível encontrar
exemplos de superação, por isso o trabalho psicanalítico
humanista com os sonhos tem o objetivo de resgatar os valores
e qualidades até então inconscientes ou alienados pela cultura.
Incluir na vida da pessoa sentimentos de amor, afeto, ternura,
segurança. O setting analítico torna-se um ambiente de resgate,
de desafios e soluções, de superação e motivação, de sonhar a
realidade e conquistar. Um caminho de possibilidades que

201
aliadas à práxis viabilizam alegria e satisfação, autorrealização,
valorização social e segurança emocional.
Muitos profissionais não acreditam no trabalho com os
sonhos, porém o profissional humilde, aberto e flexível em
algum momento pode rever seus paradigmas teóricos, suas
formas de intervenção, tratamento e prognóstico. O psicanalista
só conduzirá o paciente até onde ele próprio conseguiu ir.
Foi relevante e fundamental o estudo dos sonhos, pois
enquanto futura psicanalista poderei aplicar estas técnicas na
clínica. O estudo dos símbolos e das imagens trouxe-me
conhecimento, esclarecimento mais profundo do
funcionamento da psique. Preferi abordar o aspecto positivo do
trabalho com os sonhos porque realmente é isto que colhemos
na análise: benefícios.
Já muito comentado pelos filósofos e ganhando caráter
científico com Freud, o estudo dos sonhos ganhou destaque em
muitos trabalhos realizados por renomados psicanalistas.
Reservei um capítulo à visão psicanalítica humanista de Erich
Fromm que além de escrever sobre os sonhos realizou estudos
acerca dos mitos e contos de fadas. Reservei ainda um capítulo
a um psicanalista da atualidade, Dr. Salézio Plácido Pereira no
qual tenho grande estima, apreço e admiração por sua
dedicação e contribuição à psicanálise, além de muita gratidão.
O trabalho analítico realmente é encantador, porque o
psicanalista trabalha com a dinâmica inconsciente, o não dito, o
próprio analista faz o feedback da existência com o paciente,
ele se encontra no outro, se reconhece e também encontra força
e coragem para enfrentar suas limitações e dificuldades, e
realizar seus sonhos.
O estudo sobre os sonhos me levou ao conhecimento
da psique, do mundo imagógico e da linguagem simbólica, e
por incrível que pareça levou-me a um grande conhecimento da
realidade, por isso ao finalizar meu estudo escolhi o título Os
sonhos: aliados no processo de evolução da consciência. É
202
como mergulhar no imaginário, no mundo simbólico e
imagógico, a fim de retornar à realidade que está estreitamente
vinculada à fantasia, misturando o real e o imaginário, para
conseguir aliar, estreitar laços entre um e outro, caminhar
metaforicamente por esta corda bamba e ganhar equilíbrio para
caminhar na existência.

BIBLIOGRAFIA

FROMM, Erich. A linguagem esquecida. Rio de Janeiro:


Zahar editores, 1973.

JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Editora Nova


Fronteira, 1964.

KRIPPNER, Stanley. Decifrando a linguagem dos sonhos.


São Paulo: Editora Cultrix LTDA, 1990.

KRIPPNER, Stanley. CARVALHO, André Pércia. Sonhos


exóticos – Como utilizar o significado dos seus sonhos.
Summus Editorial, 1998.

PEREIRA, Salézio Plácido. Considerações Sobre a


Psicanálise Humanista de Erich Fromm. Santa Maria:
ITPOH, 2006.

_____________________. O Significado Inconsciente das


Imagens. Santa Maria: ITPOH, 2007.

203
_____________________. A Complexidade do Inconsciente
na Psicanálise Humanista. Santa Maria: ITPOH, 2008.

_____________________. Superação – Um caminho para a


realização pessoal. Santa Maria: ITPOH, 2012.

_____________________. A interpretação dos sonhos. Santa


Maria: ITPOH, 2012.

ROUDINESCO, Elisabeth. Dicionário de psicanálise. Rio de


Janeiro: Zahar, 1998.

WHITMONT, C. Edward. A busca do símbolo. São Paulo:


Cultrix, 1969.

http://www.betocolombo.com.br/artigos/ver/faz-me-casto-mas-
nao-ainda-351

204
A IMPORTÂNCIA DOS SONHOS NA PSICANÁLISE
HUMANISTA

Ana Maria de Lima Camargo

RESUMO: O presente artigo tem o propósito de instigar para


uma reflexiva compreensão ao contemplar a abordagem do
tema: “A importância dos sonhos na psicanálise humanista”. O
enfoque elucida a importância dos sonhos para o paciente e
para o analista, os resultados eficazes resultantes das
interpretações analíticas dos sonhos para o paciente. O sonho
pode ser comparado a um prisma que revela verdades
transparentes, cristalinas de nossas emoções reprimidas,
registradas no inconsciente, formatando imagens e símbolos.
As imagens nos sonhos representam mistérios. O sonho na
sessão de análise é o diálogo do inconsciente com o consciente.
O sonho é um dos métodos que a psicanálise utiliza para tornar
consciente o inconsciente. A interpretação dos sonhos requer
categorias de análise. Através dos sonhos decifrados
analiticamente, analista e analisando conseguem compreender
os conflitos psíquicos inconscientes e conscientizam-se do
quanto é importante saber interpretar os sonhos. A superação
na vida psíquica, a felicidade na existência é dignificante para
pessoas que assumem um propósito de comprometimento de
conhecer-se, descobrir sua autenticidade, fidelidade, tornando-
se humanista, contemplando com amor a própria existência,
através da Psicanálise Humanista de Erich Fromm.

Palavras-chave: Sonho. Interpretação. Psicanálise Humanista.


Analista. Paciente. Inconsciente. Consciência. Superação.
Existência.

205
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Na história da humanidade, desde os primordiais da


Antiguidade, o homem sempre manifestou fascinante
curiosidade pela busca de desvendar o entendimento do
significado dos sonhos e do ato de sonhar, envolvendo-se em
persistentes e polêmicas discussões sobre tal fenômeno.
As antigas civilizações da Grécia e do Egito apelavam
aos sonhos como premonição do futuro. Acreditavam fielmente
que seus sonhos eram proféticos, sonhavam, transcreviam e os
analisavam. Secularmente, imensa é a gama de pessoas que
consideram cognitivamente os sonhos como legítimos portais
do inconsciente, são conhecidos como imagens da alma e da
mente. Sendo que, muitas vezes as imagens dos nossos sonhos
são confusas, ambíguas e até mesmo, impossíveis de serem
lembradas.
Os sonhos emergem essencialmente quando dormimos,
durante o sono. Através dos sonhos, podemos mergulhar e
navegar nas imensuráveis profundezas de nossos reservados
segredos, carregados de mistérios.
Atribui-se que o vocábulo sonho tem seus significados:
o conjunto de imagens, de ideias, etc., surgidas durante o sono.
Significa fantasia, ilusão, utopia, uma aspiração; vivo desejo,
desejar muito concretizar algo na vida. (Dicionário Luft, p.
615).
Anteriormente até as descobertas de Freud, os sonhos
eram considerados meros símbolos, anúncios proféticos,
premonitórios, mensagens espirituais ou até mesmo, como
interpretações fantásticas.
A partir de então, essencialmente é necessário elucidar
para o leitor que, Sigmund Freud (o Pai da Psicanálise),
escreveu em sua famosa e brilhante obra: “A Interpretação dos
Sonhos (Die Traumdeutung - 1900) que o sonho é uma estrada
real que conduz ao inconsciente. Nessa obra, Freud edifica
206
crivadamente os proeminentes fundamentos teóricos da
Psicanálise, que servem como plataforma sólida, como
sustentáculo à evolução posterior da sua obra.
A magnífica obra de Freud dispõe em destaque a
importância da abrangência do incomensurável mundo
simbólico dos sonhos, com o objetivo de estabelecer a
compreensão dos mecanismos inconscientes, evidenciando
com prioridade a necessidade de visualizar os sonhos como
importante tema científico.
Entretanto, Freud através da análise dos sonhos, revela
para o mundo a existência do inconsciente, converte algo
considerado pela ciência como o lixo do pensamento,
transforma com sucesso, no caso os sonhos, considerando-os
como um instrumento revelador da personalidade dos
humanos.
Freud considera e afirma que, a essência do sonho é a
realização de um desejo infantil, o qual foi reprimido. Com
essa obra, os sonhos atingiram uma nova dimensão científica,
obtendo também com sucesso, um avanço na profundidade de
seu estudo. Embasado nesse princípio foi que Freud elaborou e
consolidou as bases do seu método psicanalítico.
Embora Freud tenha realizado algumas alterações
conceituais, todavia, jamais abriu espaço do seu princípio
básico de que os sonhos são, permanentemente, uma forma de
retratar satisfação dos desejos recalcados.
Freud, na prática analítica considerava o entendimento e
a importância do surgimento do sonho, atribuindo seus
clássicos e categóricos pensamentos, para ele a interpretação do
sonho foi uma descoberta tão grandiosa como que uma
intuição, o sonho então seria a via régia para o inconsciente, o
guardião do sono e a realização de algum desejo.
Assim sendo, o sonho é o fenômeno característico da
existência da vida psíquica normal dos seres humanos, que
possibilita revelações dos processos inconscientes da mente,
207
revelados com muita transparência, sendo muito acessível ao
estudo psicanalítico.
Os sonhos podem manifestar e revelar as mais
primitivas impressões emocionais, com detalhes, registradas,
carimbadas, recalcadas pelo nosso inconsciente, desde a mais
tenra infância. Geralmente na maioria dos relatos dos sonhos,
no discurso, os conteúdos são reprisados com cenários de
acontecimentos lavrados de emoções, desejos reprimidos na
infância, na adolescência e também na idade atual. Relevante
enfatizar que o sonho representa a genuína realidade psíquica,
afetiva e também a realidade existencial do analisando.
O relato estrutural do conteúdo imagístico e simbólico
do sonho, discursado pelo analisando, leva o analista a buscar
através da interpretação analítica do relato, a conhecer o
paciente e para tal, deve analisar cada etapa desse sonho.
Na Psicanálise para que o sonho do analisando seja
analiticamente interpretado, se faz necessário que o analista
procure entender não somente de uma única vez o conteúdo
total do sonho. Porque o sonho é constituído no inconsciente,
nele existem desafetos, afetos e porções fragmentadas da
realidade. Estas fragmentações podem ser comparadas a peças
desencaixadas de um jogo, como um quebra-cabeça. Sendo
que, no momento inicial o conteúdo do sonho pode ser ainda
muito desordenado, isto é, pouco claro.
Convém organizar em etapas conforme o conteúdo do
sonho, decifrar com cautela, garimpar, a fim de identificar em
cada etapa o significado do que está por detrás desse conteúdo.
O conteúdo analiticamente interpretado dos sonhos traz à
consciência do paciente, o despertar das potencialidades até
então engessadas inconscientemente antes das análises.
A interpretação dos sonhos nos viabiliza a termos um
novo olhar para focalizar os símbolos sob o aspecto concreto,
diluindo mitos, libertando-nos das superstições e do

208
enrijecimento mítico para optar por uma trajetória que nos
forneça maior discernimento com transparência.
Portanto, o sonho pode ser comparado a um prisma que
revela nossas emoções reprimidas, registradas no inconsciente,
formatando imagens e símbolos. As imagens nos sonhos
representam mistérios.
Através dos sonhos decifrados analiticamente, analista e
analisando conseguem compreender os conflitos psíquicos
inconscientes e conscientizam-se de quanto é importante saber
interpretar os sonhos. Para uma melhor compreensão reflexiva,
o presente artigo aborda o tema: “A Importância do Sonho na
Psicanálise Humanista”.

2. O SONHO: DIÁLOGO DO INCONSCIENTE COM


O CONSCIENTE

Convém elucidar que entre as mais diversas e


importantes teorias sobre os sonhos, destacam-se com
prioridade, as teorias do célebre psicanalista austríaco Sigmund
Freud (1856 – 1939), e também de seu parceiro, colaborador
suíço Carl Gustav Jung (1875 – 1961), o qual distanciou-se de
seu guia intelectual, após uma discordância entre ambos.
Conforme, Sigmund Freud declarou à humanidade, os
sonhos são resultantes de desejos reprimidos, enfatizou que são
desejos estranhos à natureza consciente, que mesmo nos
sonhos somente aparecem representados através de símbolos.
Acreditou que se os desejos reprimidos fossem revelados
livremente, com certeza causariam pânico e seriam
inaceitáveis. Para ele, o sonho significava a voz ou a fala do
inconsciente. Também afirmou que os sonhos têm um
conteúdo manifesto (é o que acontece no sonho) e um conteúdo
denominado latente, (é o que o sonho tenta nos dizer).

209
Afirma convictamente que muitos dos desejos
expressos em nossos sonhos são de natureza sexual. Na época
em que Freud viveu, imperava a expressão da sexualidade
excessivamente restrita, motivo pelo qual levou Freud a pensar
que a força de uma repressão tão exacerbada fosse capaz de
desencadear graves transtornos psicológicos nas pessoas. Para
Freud, embora o sonhador não tenha consciência do significado
de seus sonhos, estes cumprem sua missão, já que foi
devidamente expressa emoção representada nesse sonho,
mesmo que fosse deslocado.
Freud enfatiza que o inconsciente contém tudo o que é
herdado que está presente no nascimento, que é determinado
pela natureza – acima de tudo, portanto, os instintos. Esclarece
que no inconsciente os desejos expressados nos sonhos
permanecem rigidamente ocultos, encobertos, porém a voz do
inconsciente pode vir à tona, quando os sonhos forem
trabalhados com o auxílio das análises, no decorrer das
interpretações dos mesmos, nas sessões de Psicanálise.
O sonho é um dos instrumentos que a psicanálise utiliza
para tornar consciente o inconsciente, a interpretação, no caso
dos sonhos, instiga o analista ao exame do conteúdo manifesto
a fim de navegar ao conteúdo latente, compreendendo-se, que
um sonho, assim como um sintoma, deve ser interpretado pela
análise especificamente cada um dos fragmentos de seu
significado.
O conteúdo manifesto aparenta uma máscara que
disfarça falsamente o conteúdo latente. O conteúdo manifesto
trata-se do relato cênico do sonho, enquanto que o conteúdo
latente significa o histórico de desejos e pensamentos
inconscientes ocultos, que estão escondidos, acorrentados pelo
inconsciente. O conteúdo latente contém escondido, vendadas
as realizações dos desejos.

210
A tese básica da psicanálise humanista nos
sonhos é que esta humanidade de valores,
virtudes, moralidade, aparece nos traços de
caráter de cada personagem nos sonhos. A
natureza humana precisa encontrar um
caminho para realizar-se e evoluir, por isto,
é preciso identificar no contexto histórico e
cultural dos sonhos os conflitos que
dividem e oprimem o potencial de
criatividade e originalidade de cada pessoa.
(PEREIRA, 2012, p. 100).

O caminho iluminado para realizar, evoluir e superar-se


na existência, será encontrado somente quando a pessoa
determinar-se a adentrar pelo portal da clínica da psicanálise
humanista, e trilhar juntamente com o analista nas permanentes
sessões, refletir e identificar a tradução significativa dos
dilemas opressores da autenticidade, potencialidade criativa,
que estão internalizados no panorama contextual histórico e
cultural, revelados no discurso dos sonhos. É preciso opção,
determinação e perseverança para alcançar a superação.
A consciência do inconsciente no analisando é resultante
da ativação do cérebro que é oxigenado pelas novas
elaborações de energias mobilizadas pelo sistema
neuroquímico que os lubrifica, cabe ao cérebro, processar a
seleção dessas energias para organizar um perfeito equilíbrio
das mesmas. Sendo possível que o conteúdo das imagens
conduza, impeça ou auxilie a solucionar as diversas neuroses.
Proeminente também é conscientizar-se da importância
de trabalhar com os sonhos analiticamente, pois através dos
mesmos, é possível descobrir o sentido e significado no
universo das emoções e pulsões vivenciadas na existência do
paciente.

211
Através das análises pessoais consecutivas,
permanentes, faz com que o analisando consiga gradativamente
descobrir-se, então nesse estado de descoberta, uma nova
reestruturação psíquica é elaborada e assim, instaura-se
harmonioso processo de equilíbrio emocional, o paciente opta,
permitindo-se a viver em harmonia, com alegria, saúde e plena
felicidade. Por conta desse fator, ocorre a descoberta e nasce a
superação.
A Psicanálise preserva a importância do estudo dos
sonhos como uma ponte com um portal livre e iluminado, que
pode auxiliar no despertar do potencial da pessoa para
autoconhecer-se, transformar-se psiquicamente com
harmonioso equilíbrio e se tornar um novo ser superado com
plena felicidade.

3. INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS:


CATEGORIAS DE ANÁLISE

Sem entender o conteúdo de uma imagem dificilmente


poderemos chegar a compreender o surgimento das paixões.
É necessário decodificar estas imagens porque, deste
modo, compreenderemos em profundidade toda a manifestação
simbólica do inconsciente, escondida através das imagens.
Afirma, (PEREIRA, 2007, p. 11):

A psicanálise humanista é uma escola


alemã que utiliza com frequência a análise
dos sonhos e fantasias, e inclui-se neste
contexto cultural a existência e totalidade
da inteligência organísmica. O fato de a
pessoa sonhar em si é terapêutico, porque
ela acaba conseguindo regular, equilibrar,

212
integrar, harmonizar fatores da energia
psíquica.

“A psicanálise humanista segue a orientação teórica de


Fromm, são cinco as categorias de análise que devemos levar
em consideração: a cultura, a história, o social e as condições
políticas e econômicas”. (PEREIRA, 2012, p. 51).
O analista deve conhecer dados indicativos da
existência vivida pelo paciente, referenciais de cultura
tradicional familiar, hábitos, costumes, sua história de vida
pessoal. É importante que o analista elabore um mapeamento
da existência histórica vivida pelo paciente, que possibilite
efetuar a leitura das exigências, vivências afetivas, traumáticas
que formaram a estrutura psíquica da personalidade e caráter
desta pessoa.

O analista humanista pode interpretar os


sonhos prestando atenção ao processo de
formação do caráter, as imagens podem
sinalizar algo que tenha a ver com seus
desejos mais significativos, suas
prioridades, e o modo de como se relaciona
consigo mesmo e com a sociedade. São
qualidades adquiridas ou herdadas que
tornam o ser humano original, único e
capaz de aprender com a existência o
caminho da realização. (PEREIRA, 2012,
p. 111).

É possível investigar analiticamente como foi sua


infância, a socialização com familiares ou no coletivo da
sociedade.
O analista humanista ao elaborar o diagnóstico, deve
verificar minuciosamente a interpretação de cada símbolo que
se apresenta no conteúdo do sonho. Importante é observar que,
213
os símbolos podem apresentar uma imagem de carência
afetiva, de caráter explorador, insegurança. Nos símbolos
manifesta-se o caráter acumulativo de apego e segurança ao
patrimônio adquirido, de retenção, de insatisfação, caráter
compulsivo, que pode transportar a pessoa à fase de total
demência.
O psicanalista humanista deve tomar conhecimento
referente às condições humanas de vida, seus credos, classe
social, seu ambiente de convívio familiar. Tomar conhecimento
das condições econômicas, dificuldades no que tange ao poder
aquisitivo da pessoa e também da situação política na
atualidade.
Referente à categoria que analisa a natureza, deve ser
analisado os sintomas psicossomáticos e patológicos,
identificar se o paciente manifesta características emocionais
de inveja, egoísmo, falsidade, individualismo, competição,
coragem, medo, pessimismo, autenticidade, criatividade,
perseverança.
Todas estas categorias de análise são fundamentais para
esclarecer que a realidade pode interferir no processo da
formação inconsciente dos símbolos. Sendo que é
imprescindível entender que existe um interesse impressionante
da natureza de nossa humanidade em relacionar-se com a
totalidade da existência.
As imagens são usadas pelo sonho para exibir a maneira
como o paciente relaciona-se com seu patrimônio de bens
materiais, e qual o nível vincular que tem com as pessoas, pois
dependendo do tipo de relação a pessoa é ou não produtiva.
O sonho interpretado focaliza e revela o núcleo da
neurose, pode curar a dor, a ferida psíquica da alma, leva a
pessoa a tomar posse da superação na existência real, desde
que ela permita tomar consciência de conhecer-se
analiticamente. O sonho interpretado pela psicanálise
humanista é um especial convite à superação.
214
O conteúdo dos sonhos traduz a realidade social e
cultural do paciente. Conforme sua cultura aprende executar
suas políticas, de acordo com sua condição econômica e social.
Assim o analista consegue estabelecer um diálogo humano e
existencial, real com o paciente, compreende e valoriza o
significado, do que causa os tormentos.

4. SONHOS: REVELAM FRUSTRAÇÕES E


DESENCANTOS DA VIDA REAL

“O sono é uma pulsão restauradora das energias


psíquicas, e apesar de todo esgotamento físico e psicológico
este mundo transcende e compensa os desejos não satisfeitos
no mundo da realidade”. (PEREIRA, 2012, p. 78).
Nos sonhos, emergem simbolicamente revelações das
frustrações e decepções que a pessoa tem na sua vida real, estas
aparecem sob a forma de códigos, signos, sinais indicadores, e
para que a consciência possa entender os significados, estes
sonhos necessitam ser interpretados analiticamente.
Quando sonhamos, conectamos a energia psíquica do
consciente com o inconsciente. Consideremos como dois pólos
opostos, do sujeito e objeto, da vitória e derrota, da alegria e
tristeza, do belo e o feio, do mal e bem, necessitam ser
harmonizados e incorporados à consciência do analisando.
O sonho é a realização que compensa as carências, as
reais dificuldades do sonhador. No sonho as frustrações,
inibições, descontentamentos da real existência tornam-se
atendidas, reais satisfações no sonho. O analista deve ser
curioso para saber quais propósitos e entender como ocorre a
comunicação da mensagem do sonho com o analisando.

215
O interesse em desvelar e conhecer os
fenômenos do inconsciente precisa ser
analisado em suas partes, e assim pode
interpretar com sua limitada percepção, as
emoções, pensamentos, intuições de tudo
que aprendeu e esqueceu nos diversos
níveis de atuação da energia inconsciente.
(PEREIRA, 2012, p. 82).

Por isso, é necessária a conscientização da importância


de frequentar assiduamente as sessões analíticas, jamais
desistir, pois o desvelo, o conhecimento, a consciência dos
fenômenos do inconsciente é um processo de elaboração
gradativo. Tudo somente depende da opção determinante do
analisando.

A consciência inclui a totalidade do


passado, presente e futuro, e aproxima cada
vez mais de sua essência, quando somos
capazes de compreender a função de cada
emoção no sonho, a produção de símbolos
comunica os desejos que precisam de uma
atenção mais imediata e precisa.
(PEREIRA, 2012, p. 82).

Assim a consciência é capaz de relacionar os


significados na complexidade autônoma da pessoa,
capacitando-a, entender a totalidade de energia psíquica e o seu
processo de progresso evolutivo e de expansão, dando um salto
para transformar seu modo de viver e superar as frustrações.
A pessoa que faz análise na interpretação de seus sonhos
desenvolve a elasticidade neuronal - cerebral, capacitando a
tornar consciente o inconsciente. Mas para tal aprendizado é
preciso passar por um processo de conhecer, fazer a

216
ressignificação das imagens, dos símbolos, a fim de tornar
consciente, descobrir a latência das mesmas e dar um novo
significado. Esta reação faz com que, a rede neuronal, isto é, as
ramificações (dentritos dos neurônios), conectadas entre si e
lubrificadas de energia positiva, dilatem-se, ampliando a
consciência do paciente. Assim quanto mais consciência, maior
é a capacidade para transformar-se e superar-se na existência
cotidiana.
A conexão inconsciente entre o corpo humano e os
sonhos repara a história do universo dos humanos. Os sonhos
são a voz, o discurso do que acontece com o corpo. Sendo que
as emoções afetivas e as pulsões são o núcleo de mensagem,
tanto no rumo de revelar sua etiologia, como também o trajeto
da restauração da moléstia. Essa mensagem inconsciente busca
exibir onde estão os pontos fracos, as potencialidades olvidadas
e entorpecidas pelo tempo da existência vivida.

Os sonhos sempre retratam uma espécie de


pensamento alucinatório, experimentado
por realizações frustrantes ou de sucesso. A
importância desta fantasia irreal é que ela é
simbolizada e mostrada ao sonhador com
algo relacionado à sua personalidade. [...] É
neste discurso, representados por
determinadas imagens, que se pode
contextualizar todo um problema, no qual o
analista pode fazer ligações para
compreender onde está o núcleo
complexual de sua neurose, de fracasso e
perda. (PEREIRA, 2007b, p. 72).

O paciente pode reviver conscientemente o conteúdo do


sonho em outra experiência, isto é, as emoções e pulsões
desligadas, oriundas das repressões são possíveis de
manifestar-se sob a forma de sintoma físico.
217
No sonho as imagens representam a energia vinculada
com a neurose ou a manifestação da potencialidade que se
encontra inserida na substância da simbologia. O conteúdo dos
sonhos sendo rememorado ou representado no discurso do
paciente pode escoar as projeções, que necessitam ser
interpretadas e esclarecidas para tornarem-se conscientes e
realmente resolvidas, por conta unicamente da determinação
opcional do próprio analisando.
Naturalmente, o sonho é capaz de tecer uma teia
constituída por uma fabulosa trama, onde os personagens e
símbolos revelam a sede - núcleo, que origina a compulsão, os
prováveis perigos de destruição que a emoção ou pulsão está
levando, pode manifestar-se numa agressão contra o sucesso,
inclusive a ser próspero e ser feliz.
O objetivo da psicanálise humanista no sonho é
identificar onde se encontra a separação entre a natureza das
emoções e pulsões e as imposições da cultura e educação. Este
é o grande conflito a ser superado, porque a separação
desenvolve muitos tipos de patologias mentais e doenças
psicossomáticas, consequências de recalcadas frustrações e
desencantos não resolvidos.

Ao afastar – se de sua natureza humana,


desenvolve uma fuga da intimidade, ao
estar sozinho e isolado sente-se angustiado
e ansioso. Ao interpretar o sonho é preciso
levar em consideração as influências
culturais e históricas contidas na origem da
neurose. (PEREIRA, 2012, p. 101).

Portanto, o analista deve ter adequado cuidado ao


analisar e interpretar os sonhos, não ser preconceituoso ou
moralista, deve considerar, tolerar e compreender as bagagens
de influências culturais e historicidade enraizadas na origem
das neuroses, recalcadas no paciente.
218
Com muita destreza intuitiva deve compreender os
desejos das diversas pulsões, as quais limitam-se a ações
rudimentares e infantis. Os rompimentos e separações que
isolaram a pessoa de sua evolução emocional e humana devem
ser identificados no sonho pelo analista.
A atuação inconsciente da pulsão necrófila (pulsão de
morte), pode ser conscientizada e compreendida na leitura dos
desejos ocultos, sufocados pela opressão que revelam através
do ódio, da raiva, a carência fundamental de amar-se e ser
amado na vida.
Fundamental é compreender que a criatividade está
diretamente coligada aos sonhos, que capacita a pessoa a ser
tão criativa para inovar as figuras simbólicas, que pode durante
o período de sono tornar-se poderosa, configurando uma
triunfante mensagem.
Por isso, concordo plenamente com esta afirmação. “A
revelação do sonho deve estar comprometida com a saúde
psíquica e orgânica, não com interesses teóricos ou conceituais
de uma corrente teórica da psicanálise”. (PEREIRA, 2012, p.
87).
O mais importante de tudo é apresentar-se com a postura
ética, com a competente capacidade de escutar e manifestar o
respeito para si e para com os outros, sendo capaz de aprender
através do diálogo recíproco.
Ninguém impede que, qualquer categoria de
profissional estude os sonhos e domine a arte de interpretar os
sonhos. Todos são capazes de aprender a interpretar seus
próprios sonhos. Se por ventura ocorrer alguma dificuldade ou
eventuais dúvidas, é aconselhável à busca de ajuda de um
psicanalista para interpretar os sonhos.

219
5. A IMPORTÂNCIA DO SONHO PARA O
PACIENTE
A espécie humana e algumas espécies de animais
sonham. Existem pessoas que se acordadas durante o sono
“fases do sono, período do sonho no qual ocorre o movimento
ocular muito rápido, onde os olhos cerrados movimentam-se
aceleradamente para cima e para baixo, é o estágio REM”,
(“Rapid Eyes Movements”), trata-se do momento em que
acontece a maior quantidade do sonho, reclamam de jamais
sonhar, mas recordam-se de seus sonhos, existem as que
afirmam que não sonham, porém há pessoas que sonham, mas
são incapazes de lembrar-se de seus sonhos. (Vocabulário
Contemporâneo de Psicanálise, p. 394).
Interessante é compreender que sempre sonhamos ou no
estado de sono ou em estado de vigília. Sonhamos quando
dormimos, no período do sono e quando estamos acordados, no
estado de vigília diurna.
O sonho do paciente é uma espécie de energia
inconsciente que através do cenário de imagens e símbolos
relatados, é capaz de revelar e facilitar para o analista a
exploração dos conteúdos, seus significados, propiciando a
descoberta da tradução latente que será interpretada ao
analisando.
O mais importante na Psicanálise Humanista é que na
associação livre, permite ao paciente desvendar seus sonhos
através da verbalização oral, de desenhos, mapas, de hipnose e
da grafia em diários, que facilita a leitura e interpretação
analítica do conteúdo do sonho do paciente.
A associação livre possibilita total abertura e liberdade
ao analisando para que o mesmo sinta-se a vontade,
descontraído, manifeste sua autenticidade, verbalize seu
vocabulário natural, gesticule, expresse sua própria postura,
libere suas emoções sobre a forma de catarse, pois não há
censura.
220
Para tal, o sonho interpretado pelo analista ao
analisando é de expressiva importância para o paciente, pois
serve de fonte vertente de informações essenciais referentes à
saúde psíquica, orgânica, econômica, inclusive a afetiva.
Para o paciente a interpretação do sonho é muito
importante, após ser refletida gradativamente pode desenvolver
uma nova conscientização, levando à nova elaboração
organizada da personalidade, despertando o paciente para o
desenvolvimento evolutivo de novas soluções de criatividades
para resolver as incessantes neuroses e deficiências de ordem
pessoal, com equilibrada estrutura emocional.
Surgem no paciente, infinitos questionamentos após
refletir a respeito do mundo de suas emoções e pulsões, que
atribui significado espelhando claramente esta realidade de
energia psíquica descoberta, que tem expressiva relação total e
direta com a vida do sonhador.
No universo dos estudiosos analistas, muitos
consideram e afirmam que ao interpretar os sonhos, alguns
sonhos nem sempre são de relevante importância, porém
constatam que todo sonho tem um significado. Não existe
sonho sem significado. Afirmam, quando os sonhos são
facilmente esquecidos, é porque os fatos e pensamentos são
muito insignificantes no real cotidiano, por tal fator, não são
lembrados.
Contudo, é possível que nos sonhos outros
acontecimentos emocionais permaneçam durante longos anos,
trancafiados, impregnados na memória do paciente, então são
considerados mais importantes para o paciente.

O objetivo da psicanálise é de dar


segurança e não ser uma muleta, preparar a
pessoa para a autonomia e não torná-la
débil e fraca, reencontrar-se com suas
próprias verdades e não tornar-se cúmplice

221
da escravidão conceitual e teórica, levá-la a
desenvolver suas potencialidades e
criatividade e não manipulá-la com mitos e
falsas esperanças. (FROMM apud
PEREIRA, 2011, p. 2).

Enquanto a pessoa negligenciar a consciência de


conhecer-se, isto é, não mergulhar nos seus sentimentos
emocionais, permanecerá fora da realidade. Cada pessoa é livre
para optar viver a fuga de sua verdadeira realidade. As pessoas
podem viver no mundo da verdade ou no mundo da mentira.
Existe o livre arbítrio para optar viver na saúde ou na
doença psíquica. Através das análises interpretativas dos
sonhos, pode-se fazer reviver os sentimentos que levam a
pessoa a tomar consciência dos sentimentos emocionais e a
tomar defesas para lidar com eles na existência do mundo real,
com a verdadeira saúde psíquica e organísmica.
A partir do momento que o paciente aprende a
interpretar os significados latentes das cenas imagísticas, do
simbolismo analítico do conteúdo do sonho, com a ajuda do
analista, convictamente conseguirá a superação, libertando-se
do estado de decadência existencial e psíquica.
“O sonho é elaborado na alma – ‘psique’ – este é um
dos laboratórios mais originais do ser humano, no qual se
expressa a sabedoria e a ‘realidade pura’, capaz de conduzir o
individuo no processo de autoconhecimento, realização e
evolução”. (BRAUN, 2003, p. 223).
Assim, é importante compreender, quando ocorrer o
esquecimento dos sonhos significa um indício de resistências
do paciente para evitar desvendar os mistérios negativos
inconscientemente impregnados. Através dos sonhos são
manifestadas as resistências sob diversas formas: o paciente
esquece-se do conteúdo do sonho, o paciente pode evidenciar
através de sonhos a resistência de evitar suas análises,

222
abandonando as sessões, opta pela mudança de analista,
desistência total.
Na interpretação analítica dos conteúdos dos sonhos do
paciente são reveladas manifestações realizáveis dos desejos
não concretizados na existência real. Muitas das cenas no
sonho, o paciente realiza no sonho desejos heróicos, que não
aconteceram na realidade de sua existência.
Nessa interpretação as imagens, o cenário de
simbologia apresentados no sonho são interpretados
significativamente com a finalidade de colaborar para resolver
os problemas frustrantes, dilemas conflitantes, emoções que
foram reprimidas, as quais não foram superadas pelo paciente
na sua vida real.
Ao conhecer os significados interpretados de seus
sonhos, com o auxílio do analista, o analisando reflete, toma
consciência, inspira-se, reagindo, opta para lançar-se ou não
nas forças da natureza, abraçando ou a Pulsão de Vida (Eros)
ou a Pulsão de Morte (Tanathos).
Ao optar pela pulsão de vida (Eros), recorre e absorve
energias positivas para desenvolver a coragem, o desafio, a
perseverança, a determinação, a criatividade, a originalidade,
descobre as potencialidades ocultas até então adormecidas no
interior de sua alma. Importante é que o paciente aprenda como
relacionar-se com seus sonhos.

Cada pessoa é o artista de sua própria


existência, cada história é uma recriação da
vontade humana de poder superar-se diante
dos infortúnios e incertezas da existência.
Por isto, quando abordamos a atuação dos
mecanismos de defesa no contexto de vida
de uma pessoa, nos referimos ao poder que
esta tem de entender, manejar e elaborar
seus conflitos internos. Ser o artista de sua
existência é recriar oportunidades, ousar,
223
atender seus desejos e realizações. A
análise é a base para este processo de
buscar o novo, a ressignificação dos
traumas e descoberta das potencialidades
pessoais. (PEREIRA, 2011, p.15).

A importância do sonho torna-se reconhecida pelo


paciente, quando o mesmo compreende que deve trabalhar cada
símbolo no sonho de modo muito especial, e consegue
interpretar com eficácia. Os sonhos podem remeter ao paciente
uma nova visão de si mesmo, podem solucionar dilemas.
Quando o paciente consegue atingir o estado de
consciência é capaz de observar o que está latente no sonho, é
possível contatar-se com os símbolos e vivenciar lembranças,
então mais compenetrado vivencia o mecanismo e o propósito
das emoções e das pulsões de biofilia (vida - Eros) ou de
(necrofilia morte - Tanathos).
Portanto, a opção para viver e ser feliz ou se
autodestruir, depende unicamente do estado de ânimo da
pessoa. A pessoa sábia é aquela que usa da sabedoria para
usufruir a seu favor todos os potenciais o qual é dotado pela
natureza humana. O ser humano aprende pela percepção que
existe uma energia ativa, uma emoção em pleno movimento
quando consegue transcender a relação dialógica de consciente
e inconsciente.
Toda pessoa que desenvolve a capacidade de analisar
um sonho adiciona uma benéfica vantagem, pois desenvolve a
própria consciência. Assim quanto mais o paciente se
conscientizar sobre seu estado de inconsciência, maior a
vantagem de libertar-se do sofrido processo de alienação, então
começa a sentir-se mais alegre com prazer na vida, motivado
para viver com mais felicidade.

224
6. A IMPORTÂNCIA DOS SONHOS PARA O
PSICANALISTA HUMANISTA
O analista entende que o complexo de inferioridade é
um dos componentes lubrificante da neurose, é uma resistência
que gera no paciente o medo de assumir o novo, de sair da
condição do paradigma antigo, que é mais cômodo e mudar
para um novo estilo de vida.

O analista desta corrente teórica tem que


interpretar este fenômeno da inferioridade
como uma espécie de medo de tomar novas
decisões. [...] Esta resistência é
compreensível para o analista. Toda pessoa
tem medo do novo, até porque está
acostumado com velhos condicionamentos
e hábitos. (PEREIRA, 2009, pp. 69 -70).

Para que o analista obtenha êxito na sua atuação é


essencial na primeira sessão analítica, que seja estabelecida
com prioridade a empatia com o analisando, pois é o enlace de
total confiança, é uma aliança confidencial fixada entre ambos.
Também o analista deve ter a devida compreensão
sobre o estilo de vida do analisando, suas atividades no
cotidiano, quais as relações de convivência, que tipos de lazer
pratica no cotidiano. Isto porque é através deste meio que se
investigará a superação do analisando.
Na análise dos sonhos, o analista, considera cada sonho
uma mensagem do paciente, que expressa uma espécie de
código, o qual somente o analista é capaz de fazer a leitura,
compreender e interpretar para seu paciente.
O sonho do paciente pode ser um relato referente a
algum dilema ou determinado aspecto que causa sofrimento ao
paciente na sua existência real, necessita concentrar-se, trilhar
nas cenas de seu sonho, sedado pela escuta filtrante do analista.

225
No interior do “setting” analítico, o analista transporta o
analisando sonhador a mergulhar, a conectar-se com os
símbolos e mitos de seus sonhos, consegue descobrir nas
emoções que escondem a verdade de alguma atitude
disfuncional, uma nova relação legítima, com autenticidade,
determinando um novo tipo de convivência entra a consciência
e suas respectivas emoções. Importante é saber que o sonho
funciona como um termômetro mediador entre a consciência
racional e a inteligência da vida das pessoas.
No paciente ocorrem sensações que provavelmente
estejam relacionadas com algum fato que aconteceu
recentemente, pode ser uma influência remota que pode causar
um afastamento dos pensamentos, levando a um
questionamento saber o porquê a sensação não o deixa
totalmente em plena paz.
Convém que o analista humanista para realizar uma
interpretação devidamente adequada, necessite concentrar-se,
perceber o relato das emoções vivenciadas no sonho do
paciente. É fundamental e necessário que o analista
compreenda como é representado no aparelho psíquico, e como
se articula o combate conflitante entre o Id e o Superego do
paciente.
O Id representa a realização dos desejos. O superego
representa por sua vez a censura, o proibido e os julgamentos.
Relevante é o Ego, representa as resistências. O Ego não
permite que o conteúdo censurado, chegue até a consciência,
assim garante que o conteúdo não seja prejudicial para o
paciente.
Por conta desse fator, o sonho sofre alterações,
consequências dos mecanismos de defesa, do deslocamento e
da condensação. Convém esclarecer que no mecanismo de
defesa: condensação é constituída pela combinação de dois ou
inúmeros acontecimentos simultaneamente.

226
Porém o deslocamento caracteriza-se pela mudança de
determinado fato para outro local, defesa esta que atua como
forma de ativar consciência para descentralizar e amenizar o
efeito da frustração traumática. Esta defesa funciona como
apoio sustentável ao ego para elaboração do conteúdo
solidamente recalcado.
É de suma importância que ao analisar um sonho do
paciente, o resultado seja de alertar ou de instigar ou até
mesmo, o de levar o paciente a refletir com mais profundidade
a respeito da situação existencial, a qual o sonho em si, se
refere. É essencial que o paciente reconheça e compreenda os
símbolos presentes nos sonhos desvendados e também aprenda
a interpretá-los.
O analista deve estar suficientemente preparado para
deparar-se com a interpretação de conteúdos dos sonhos, pois
sua função é a associação ao relato da história de vida do
paciente. Cabe ao analista o papel de acolher o paciente, com
afeto, amor humanista, escutar e interpretar os sonhos e revelar
para o paciente o significado destas divergentes contradições,
buscando detectar a identificação dos limites e alcance deste
desejo.
Para uma boa compreensão do tema, é importante que se
tenha em mente ensinamentos básicos que nos conduzam,
como a afirmação de que “na psicanálise avaliaremos a
interpretação simbólica sobre os devaneios da sugestão pela
emoção, enxerga-se o que não existe, as imagens são
invisíveis”. (PEREIRA, 2011 a, p. 7).
É indispensável que o profissional analista descubra no
sonho, por onde se esvai a energia do paciente, quando está
sonhando, quando está relatando seus sonhos ao analista e
quando inicia o processo de elaboração da compreensão da
interpretação analítica do sonho, no momento que toma
consciência dos significados das origens de suas neuroses
reveladas nos sonhos.
227
É preciso compreender que na totalidade da espécie
humana, cada pessoa, desde o momento de sua concepção, ao
nascer e no decorrer de sua existência, é subjetivamente apta a
não ser atendida em alguma exigência a priori, de natureza
emocionalmente afetiva, que afeta registros, falhas na
estruturação psíquica, causando traumas, neuroses. Vários tipos
de transtornos psicopatológicos, que não analisados
clinicamente, tendem a comprometer a saúde da pessoa para
abraçar a deterioração total da vida.
Na existência real, muitas vezes certas questões de
natureza material, afetiva ou até mesmo certos objetivos que
almejamos concretizar, nem sempre são resolvidos. Mas nos
sonhos estes desejos são retratados, realizados. Esta realidade é
uma crise, um surto que contempla as crenças, os desejos não
resolvidos, não satisfeitos na vida real.
As insatisfações, frustrações dos desejos afetivos,
materiais que produzem emoções negativas, que causam um
imenso desgaste de energia psíquica, que se esvai afetando em
conexão com o desgaste da energia vital de cada célula que
compõem todo o organismo. Este desgaste de energia propicia
alterações descontrolando o compasso na função normal dos
órgãos, provocando a adição de doenças crônicas.
Portanto, o sonho representa a realidade psíquica,
afetiva, existencial do paciente, a qual é revelada para o
analista. Para que o analista conheça o paciente é só analisar e
interpretar o mundo vivido no sonho do paciente. O sonho
pode demonstrar evidências das potencialidades existenciais do
paciente, das quais deseja e não foram resolvidas na realidade,
mas com o auxílio do analista pode ser interpretado
analiticamente.
O sonho pode denunciar a existência das neuroses e
colocar imagens latentes, que sendo interpretadas, leva o
paciente a compreender-se, a bancar-se na existência. O
analista pode fazer a leitura e interpretar o sonho através do
228
cenário panorâmico das imagens do sonho desenhadas pelo
paciente.
No relato do sonho, cada símbolo ou imagens
produzidas são estampados sentidos e significados que
remetem a comunicação de uma linguagem que focaliza onde a
energia está bloqueada. Para tal, os símbolos e mitos assumem
o comprometimento de elevar à consciência, como objetivo de
desenvolver toda a potencialidade que jaz disponível de
qualquer pessoa, porém sabe-se que muitas pessoas não
utilizam, porque ignoram ou não acreditam na sua eficiência.
O relato do sonho é muito importante para o
psicanalista, porque mostra que a mente do paciente está
tentando elaborar algo, possivelmente relacionado ao trabalho
analítico. O profissional analista deve estar especificamente
familiarizado ao se deparar com a diversidade de símbolos nos
sonhos dos pacientes, deve dominar bem o manejo desse
enfoque.
A importância dos sonhos é fundamental tanto para o
analista como para o analisando no processo analítico,
contribui muito para o acesso ao inconsciente do paciente, pois
proporciona apoio, instigando ao paciente, conforme a
instância, utilizar métodos de registrar, gravar os relatos dos
sonhos, tornando assim mais prático para recordar facetas dos
sonhos, logo ao despertar.
O analista desvenda e descobre a etiologia da neurose
através da análise interpretativa dos sonhos. É possível também
descobrir o potencial criativo adormecido sob dois modos:
trazendo à consciência as potencialidades, as psicopatologias,
neuroses, psicoses, psicopatias. É necessário formular um
diagnóstico relacionado com os temas dos vários sonhos e após
fazer a avaliação do estado mental do paciente.
A ciência comprova que a espécie humana tem a
capacidade de controlar e até programar seus sonhos, sendo
capazes de elaborar desejos de sonhos criativos, através de
229
novas técnicas de relaxamento, com eficaz controle mental,
sendo competências capazes de contribuir na evolução das
potencialidades criativas, através da conexão entre consciente e
inconsciente do paciente.
7. A IMPORTÂNCIA DOS SONHOS À
PSICANÁLISE HUMANISTA

Segundo PEREIRA, (2012, p. 36) “a psicanálise


humanista é uma escola alemã que utiliza com frequência a
análise dos sonhos e fantasias, e inclui-se neste contexto
cultural a existência e totalidade da inteligência organísmica”.
No processo de análise, é de suma importância
evidenciar que o profissional analista domine com competência
do conhecimento teórico e científico, referente à importância
dos sonhos e da contribuição que este recurso possibilita
garantir estudos analíticos com eficiência, durante o processo
de análise oferecido ao paciente que busca a Psicanálise.
Na Psicanálise Humanista o principal objetivo na
interpretação dos sonhos é de elevar o paciente a um nível
extremamente elevado de consciência para tornar-se mais ético
e íntegro em suas determinadas e variadas opções, despertando
da dormência, ativando o potencial de criatividade com
segurança e prazer.
O paciente conscientizado acorda para elaborar um
novo planejamento com criativos objetivos, permitindo abraçar
o vínculo da riqueza das emoções e das pulsões positivas para
permear a vida com plena saúde e felicidade.
Na competente prática psicanalítica, os sonhos são
importantes recursos para os analistas, pois ocupam uma
posição nuclear no manejo da terapia, são canais reveladores e
refletores filtrantes de conteúdos oriundos do inconsciente do
paciente sonhador.

230
Conforme, Marc André R. Keppe, na sua obra Curso de
Psicanálise, dedicadamente nos remete um capítulo referente
aos “sonhos”, onde Freud reporta – se assim:

A primeira observação que Freud Sigmund


faz a respeito dos sonhos, é que eles têm
relação com os acontecimentos já vividos,
tanto externa quanto internamente, em
estado de vigília. Entretanto perceber esta
relação dos fatos vividos com as imagens
transmitidas nos sonhos, nem sempre é tão
fácil quanto pode parecer. Em alguns
sonhos pode surgir um material que não
identificamos como parte de nosso
conhecimento ou experiência passada, e, no
entanto este material pode estar apenas
além do alcance de nossa memória de
vigília, mas perfeitamente dentro do
alcance da nossa memória dos sonhos. Um
anúncio publicitário pelo qual passamos
todos os dias sem prestar muita atenção
pode ficar retido em nossa memória dos
sonhos, assim como lembranças da
infância, que a nossa memória de vigília
não reconhece mais. (KEPPE, 2006, p. 30-
31).

Sendo assim, pode-se constatar que todo material


vertente das profundezas do inconsciente torna-se material
primoroso, excelente para trazer à superfície da consciência a
revelação de conteúdos obscuros em cristalinamente
esclarecidos.
Na teoria psicanalítica dos sonhos a experiência do
sujeito que estampa-se na consciência durante o período de
sono do paciente e que, após despertar é denominada de sonho.
231
O analista deve estar sintonizado no conhecimento de que os
símbolos espelham simplesmente o trauma dramático
existencial, frustrante, financeiro, social e até no âmbito
político do paciente sonhador.
O sonho é resultante de uma função mental totalmente
inconsciente, que age no instante do processo fisiológico do
paciente, que dependendo pode ameaçar e intervir o sono.
Fundamental é compreender, dominar o conhecimento
sobre a teoria psicanalítica dos sonhos, saber que existe o
sonho manifesto que significa a experiência consciente, que
durante o sono, o paciente pode ou não recordar após despertar
do sono.
Sendo que existe o denominado conteúdo latente do
sonho, que são os pensamentos e desejos inconscientes, que
ameaçam acordar o sujeito. Entender que na elaboração do
sonho, as operações de natureza mentais inconscientes através
das quais, o conteúdo latente do sonho transforma-se em
conteúdo manifesto.
Portanto, a Psicanálise considera o sonho importante
recurso, que funciona como um mapa do psiquismo que auxilia
ao analista, para lidar com conteúdos reprimidos, que geram
recalcado complexo de culpa, desencadeando medo,
consequentemente causando bloqueios conflitantes que travam
a realização do potencial da inteligência criativa do paciente,
fecundando a pulsão de Morte (Tanathos).
É preciso que o analista saiba manejar analiticamente
esses conteúdos do sonho e que o analisando permita libertar-
se através de suas elaborações de uma nova conscientização
psíquica.
A Psicanálise humanista nasceu a serviço da
humanidade como ciência capaz de estudar com profundidade
analítica as motivações inconscientes possíveis de estruturar
algum tipo de emoção ou pulsão na existência do paciente.
Através da Psicanálise humanista é possível interpretar os
232
sonhos, estabelecendo analisar o paciente, as seguintes
categorias: a existência, a condição e a natureza humana.
Na clínica, com o auxílio do psicanalista, a pessoa vai
aos poucos desmontar as resistências, para encontrar o seu eu
real, entretanto não é uma tarefa fácil. “Na fantasia de quem
vive algum tipo de problema, mudar é o mesmo que buscar
mais problemas para resolver, por isto mesmo são resistentes a
qualquer tipo de mudança”. (PEREIRA, 2009, p. 109).
A psicanálise busca desvendar através da interpretação
dos sonhos, as feridas reveladas no sonho que ainda não
cicatrizaram na existência da vida real do paciente, o que tange
a cultura, as exigências, as vivências desde a infância, que
formaram o caráter do paciente, inclusive no estágio de adulto.
Portanto, os sonhos trazem soluções de natureza
criativa, contribuem para sanar determinados tipos de neuroses,
e até mesmo dificuldades de ordem pessoais. São capazes de
indicar a potencialidade latente de cada paciente.
Com referência à condição humana, a psicanálise
humanista resgata do inconsciente as emoções reprimidas,
recalcadas, trazendo à consciência o significado dos bloqueios
destrutivos, que podem causar interferências que prejudicam as
relações afetivas, amorosas e as suas potencialidades criativas
de sua inteligência.
A Psicanálise humanista sendo norteada pela teoria de
Erich Fromm opera procedimentos categoricamente na linha
humanista, leva o analista profissional a considerar
fundamental o legado de ensinamentos deixados ele.
É necessário que o analista humanista, na clínica
proceda com adequada sensibilidade para interpretar os sonhos,
estar atento no que se refere ao relato do sonho, pois é possível
que a narração seja alterada dependendo das diversas carências
de atenção, de fantasias ilusórias provindas do paciente,
relacionadas aos fatos motivados pela transferência e também

233
pela resistência. O analista deve concentradamente entender o
conteúdo de uma imagem.
Através da linguagem simbólica das imagens, os sonhos
transmitem muitas mensagens, sendo que é basicamente com o
auxílio da psicanálise humanista que possibilita uma visão de
aprender, compreender e decifrar interpretações com muita
profundidade.
Em cada relato histórico pessoal, encontram-se os
significados da linguagem latente. O significado da linguagem
simbólica das imagens dos sonhos para cada paciente pode ser
divergente.
Cada pessoa sonha com imagens semelhantes, porém os
significados da linguagem dessas imagens são diferentes. Cada
uma tem sua história existencial real e os sonhos diferentes,
portanto os significados da linguagem são diferentes
individualmente, para cada pessoa.
Para cada símbolo relatado no sonho existem diversos
significados. Convém que, o analista seja coerente em
compreender cada símbolo, jamais use a rigidez sobre
determinada imagem fornecida pelo paciente.
Por esta razão, é que o método científico que caracteriza
a Psicanálise humanista, estabelecido na teoria de Erich
Fromm, admite um flexível e aceitável sistema mesclado entre
as diversas de Freud e de Jung para interpretar os sonhos dos
pacientes.
Fromm não rejeita a importante investigação das causas
dos conflitos internos e os fatos passados que os motivaram,
também não nega a atenção cabível para o exame do material
onírico de acordo com sua finalidade e função à evolução do
paciente que deseja curar-se, libertar-se das neuroses
destrutivas.
A Psicanálise humanista é o caminho da superação. No
momento em que a pessoa toma consciência sobre o seu estado

234
emocional, torna-se possível constatar com clareza a percepção
de seus transtornos afetivos de personalidade.
Certas pessoas espontaneamente sentem-se com plena
abertura em expor comentários sobre suas próprias atitudes do
antes e do após o iniciar suas análises, superações emocionais
positivas, observadas por elas mesmas.
Por esse motivo é importante que, o analista humanista
torne bem transparente para o seu paciente a direção da energia
e mostre todas as benéficas qualidades e brilhantes talentos que
estão bloqueados, amarrados pelas neuroses destrutivas. Nesse
momento o paciente tomando consciência dessa negação vital,
percebe que os conteúdos simbólicos do inconsciente estão
transbordantes de potencialidades, de talentos, de criatividades
imensas para solucionar os traumas.

A Psicanálise humanista propõe um retorno


à essência mais difícil na arte der viver, o
resgate pleno das potencialidades do
homem, para gerar condições próprias em
sua totalidade. Essa condição é essência
para explorar, conviver, resgatar tudo
aquilo que o universo e a pessoa têm a
oferecer. (PEREIRA, 2008, p. 208).

O ser humanizado que frequenta suas sessões de análise


assiduamente, desenvolve a capacidade de ativar a canalização
de energia psíquica, capaz de potencializar essa energia em
prol da saúde e da tão desejada felicidade. Mas é preciso que o
paciente conheça seu modo de expressar, inserido no processo
de comunicação metafórica e simbólica.
O interessante é que, essa energia psíquica possui força
e dinamismo próprio, capaz de elaborar um efeito, de elaborar
um trabalho, uma atividade funcional. Por conta disso, há uma
divergência entre a energia de natureza espiritual, material,
física, psíquica identificável.
235
É fundamental um clima de confiança
irrestrita, para poder se criar uma aliança
de trabalho onde o ambiente seja cheio de
cortesia, respeito, consideração, [...] cada
sessão analítica seja tomada por um
esplendor de satisfação, liberdade,
autoconsciência, e paixão em estar
realizando o tratamento analítico.
(PEREIRA, 2006, p. 84).

O paciente que faz o enlace vincular com seu analista,


com plena confiança, sente-se com a sensação muito
confortável, agradável, no “setting “da clínica. É notoriamente
perceptível que o mesmo manifesta uma expressiva abertura
nas suas verbalizações, total impressão de liberdade, de
sinceridade e de respeitoso afeto recíproco para com o analista
que lhe acolhe com afeto humanista.
Portanto, é extremamente fundamental, o carinho e o
cuidado declarado pelo analista para com o paciente,
principalmente nos instantes os quais o mesmo começa a
revelar-se e desnuda sua alma, confidencia no interior do
“setting” da clínica.
Todos os conteúdos de fatos que afloram das
profundezas de seu inconsciente são considerados pelo analista,
atuante discípulo da Psicanálise humanista como fatores
importantes à percepção de seus atos falhos, recusas,
indefinições.
Na psicanálise humanista o vínculo entre o par analítico
é tão forte que o sofrimento psíquico vincula-se também ao
paciente, norteia-o com mais rapidez para conscientizar-se,
através do relato de conteúdos que jorram do inconsciente sob
a forma de cascatas, revelando cenários de imagens e símbolos.

236
O paciente é levado a mergulhar, a navegar no oceano
de sentimentos emocionais, convertendo, isto é, transformando
sob forma de linguagem e mais o que adiciona no seu corpo,
toda a elaboração desse processo faz com que o paciente tome
consciência da origem das caracterizadas e múltiplas
patologias, sem manifestar notório diagnóstico.
Na psicanálise humanista convêm elucidar que, os
sonhos focalizam trajetórias complexas, reveladoras de nossa
vida. Para tanto, descobrir os respectivos significados auxilia a
desfrutar da potencialidade exacerbada que existe no interior de
nossa alma, que muitas vezes é ignorado pelo domínio do
inconsciente, que bloqueia, trava a autoconfiança, imobilizado
pela inconsciência. Os conteúdos inconscientes são capazes de
vir à tona por intermédio dos sonhos e dos símbolos.
Nas sessões da psicanálise humanista, o paciente após
uma experiência de análise dos sonhos, está propenso e pode
ser levado a manifestar uma fantástica transformação em sua
vida real. Por isso, constata-se que os sonhos não são meras
imagens sem sentido, tem sentido sim, pois representam
memórias de nossos antecessores, que no cenário do sonho,
tomam a forma de imagem corporal, transcendendo o nosso
estado diurno de nossa existência.
Todo corpo comunica por meio da linguagem
sintomática ou através de crises frustrantes existenciais todo
tipo de dores e insatisfações, sendo que a totalidade das
experiências tende a inserir-se e circular no interior de cada
uma das células do corpo do analisando.
É necessário que esta codificação seja decifrada para
após, conscientizada e incorporada numa significativa
totalidade, possibilite entender com clareza os significados
latentes dos diversos sintomas ao analisar esses sonhos.
Os sonhos são analisados na psicanálise humanista com
o objetivo de descrever um diagnóstico centrado nas
experiências de acontecimentos que ocorreram na vida real do
237
analisando. Lowen e Reich destacam-se, pois ambos optaram,
nesta forma de trabalhar profissionalmente com os sonhos.
Na sábia explanação psicanalítica humanista de Erich
Fromm, o sonho é interpretado, tendo um olhar que segue a
trilhada experiência da vivência do analisando que relata o
sonho, afirma que é muito importante sempre observar que, por
detrás do sintoma psicossomático há um corpo acorrentado em
sofrimento.
Através da psicanálise humanista, a interpretação dos
sonhos, leva o paciente a ter um novo olhar, relacionados à
natureza humana e aos fatos emocionais vivenciados no
decorrer da infância, pode contribuir ao entendimento de onde
provém a origem da total falta de humanismo.

Na interpretação desta escola de psicanálise


humanista o significado simbólico de uma
imagem, ou de um personagem, ou mesmo
de objetos, plantas, flores, minerais,
encontra-se na essência do conteúdo. Entre
os vários símbolos, existem aqueles de
maior significado, ao identificar o núcleo
base da neurose pode descrever pelo
processo interpretativo os desejos.
(PEREIRA, 2012, p. 37).

O fundamento da interpretação dos sonhos é descobrir o


significado simbólico dos ícones que compõem o conteúdo do
sonho e selecionar um deles como núcleo germinador,
provedor da neurose existente, que vai espelhar os desejos
reprimidos, recalcados do paciente.

A psicanálise humanista é uma escola


alemã que utiliza com frequência a análise
dos sonhos e fantasias, e inclui-se neste
contexto cultural a existência e totalidade

238
da inteligência organísmica. O fato de a
pessoa sonhar em si é terapêutico, porque
ela acaba conseguindo regular, equilibrar,
integrar, harmonizar aspectos da energia
psíquica. (PEREIRA, 2012, p. 36).

Ao sonhar ocorre uma harmonização na energia


psíquica, funciona como terapia para o sonhador, durante o
sono, enquanto sonha, pois o sonho funciona como uma chave
reguladora de níveis da nossa energia psíquica.

A psicanálise humanista propõe um retorno


à essência mais difícil na arte de viver, o
resgate pleno das potencialidades do
homem, para gerar condições próprias em
sua totalidade. Essa condição é essência
para explorar, conviver, resgatar tudo
aquilo que o universo e a pessoa têm a
oferecer. (PEREIRA, 2008, p. 208).

A pessoa que acessa a psicanálise humanista torna-se


capaz de concentrar energia psíquica positiva, a qual pode ser
transformada sob forma de potência de atividades, gerando
saúde e plena felicidade. A energia psíquica dessa pessoa é tão
potente, capaz de produzir efeito extraordinário, ativando a
autoestima, levando a pessoa a ter ânimo para trabalhar, ser
produtiva, superar as adversidades na sua existência. Então,
constata-se que há divergências entre a energia material,
espiritual, física e psíquica, que compõe a natureza.

A finalidade da análise humanista é de


exercer um papel de um exercício diário de
autoconhecimento, tomando consciência
assim das realidades ocultas em estado

239
latente. O aqui e o agora se tornam
manifestos por meio das interpretações dos
símbolos, fantasias, imagens, sonhos,
mecanismos de defesa, produtos deste
inconsciente. (PEREIRA, 2008, p. 173).

A psicanálise humanista conduz o paciente a resolver –


se com consciência a criatividade própria, autenticidade,
consciência de assumir o conhecimento de si mesmo. Na
clínica humanista o paciente exercita a mente abastecendo,
recarregando a sua “psique” com energias positivas, a fim de
potencializar a força de vontade para amar a vida, realizar seus
objetivos, satisfazer e ser atendido afetivamente e
financeiramente.
O resultado que caracteriza a superação da saúde
psíquica do paciente, ocorre quando, após as interpretações
analíticas, relacionadas aos sonhos ou a outros temas, declara-
se no paciente, a retomada de novas decisões, como por
exemplo, o paciente retoma a capacidade de amar-se, amar a
vida, amar ao outro, permite ter um encontro confidencial
consigo mesmo, conhecendo-se; transcende os medos, busca
triunfar exitosamente, com prioridade a sua existência e a do
seu próximo. Todas essas transformações são efeitos
resultantes da consciência do inconsciente que despertou e
fragmentou os elos das correntes neuróticas que tornam
alienados e atrelados ao sofrimento desnecessário.
A psicanálise humanista busca presentear um convite
precioso ao paciente, para optar pela melhor qualidade de vida,
por conta disto, é importante a pessoa compreender, que além
da terapia é necessário evoluir no desenvolvimento de outras
potencialidades, capacidades referentes ao emocional, afetivo,
o intelectual cognitivo, ultrapassando os limites de credos e a
diversidade de medo. A psicanálise humanista atua na terapia

240
clínica como uma luneta de longo alcance que focaliza um
norte de progresso, de superação ao paciente para que o mesmo
liberte-se do foco das neuroses e transtornos psíquicos.
A superação na vida psíquica, a felicidade na existência
é dignificante para pessoas que assumem um propósito de
comprometimento, do desejo de ser feliz, da fidelidade,
autenticidade, buscando sempre a verdade, tornando-se
humanista com a própria existência, através da Psicanálise
Humanista de Erich Fromm.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A Psicanálise preserva a importância do estudo dos


sonhos como uma ponte com um portal livre e iluminado, que
pode auxiliar no despertar do potencial da pessoa para se
autoconhecer, transformar-se psiquicamente com harmonioso
equilíbrio com superação e plena felicidade. Na psicanálise
humanista convêm elucidar que, os sonhos focalizam
trajetórias complexas, reveladoras de nossa vida. Para tanto,
descobrir os respectivos significados auxilia a desfrutar da
potencialidade exacerbada que existe no interior de nossa alma.
A Psicanálise humanista é o caminho da superação, em
todos os sentidos da existência. No momento em que a pessoa
toma consciência sobre o seu estado emocional, torna-se
possível constatar com clareza a percepção de seus transtornos
de personalidade, afetivos. Essa consciência do inconsciente
devolve a cura psíquica ao paciente. O paciente conscientizado
analiticamente desperta do inconsciente letárgico, para elaborar
um novo planejamento com criativos objetivos, permitindo
abraçar o vínculo da riqueza das emoções e das pulsões
positivas para permear a vida com plena saúde e felicidade.
Os sonhos revelam as severas frustrações e
descontentamentos de fatos que trilhamos na trajetória de nossa
241
existência real. Através da interpretação analítica humanista
das simbologias, podem atingir as profundezas do inconsciente
e fazer vir à tona, tornando-o consciente. Na interpretação dos
símbolos é possível descobrir as potencialidades criativas. O
sonho interpretado focaliza e revela o núcleo da neurose, pode
curar a dor, a ferida psíquica da alma.
O presente artigo traz uma explanação, com o intuito de
irrigar ânimo nas pessoas, para refletir, conhecer e
compreender as respectivas informações, após ter navegado
nesta leitura, cujo tema enfocado é “A Importância dos sonhos
na psicanálise humanista”, tanto para o paciente, para o
psicanalista, como à Psicanálise humanista.
Esta abordagem objetiva ampliar a visão translúcida de
se apropriar do conhecimento da importância da proposta que a
psicanálise humanista oferece à sociedade, contribuindo com a
terapia em prol da saúde psíquica e organísmica, presenteando
a cura, a saúde, a superação e a felicidade na existência real.
O caminho iluminado para realizar, evoluir e superar-se
na existência, será encontrado somente quando a pessoa
determinar-se a adentrar pelo portal da clínica da psicanálise
humanista e trilhar juntamente com o analista, nas permanentes
sessões, refletir e identificar a tradução significativa dos
dilemas opressores da autenticidade, potencialidade e
criatividade, que estão cadastrados no panorama contextual
histórico e cultural, revelados no discurso dos sonhos.
É preciso opção, determinação, comprometimento e
perseverança para alcançar a superação. A superação na vida
psíquica, a felicidade na existência é dignificante para pessoas
que assumem um propósito de comprometimento, fidelidade,
tornando-se humanista com a própria existência, através da
Psicanálise Humanista de Erich Fromm.

242
BIBLIOGRAFIA

BRAUN, Mercedes. A Trajetória dos sonhos na história da


humanidade: do Gênesis aos sonhos lúcidos/ Mercedes Braun
– Santa Maria: Imprensa Universitária UFSM, 2003.

FREUD, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos, Edição C.


100 ANOS, Imago – RJ, 1999.

KEPPE, Marc André. Curso de Psicanálise: livro básico,


histórico, teorias e técnicas da Psicanálise. São Paulo,
Inteligentes, 2006.

LUFT, Celso Pedro. Dicionário da língua portuguesa Luft.


São Paulo, Ed. Ática, 2000.

PEREIRA, Salézio Plácido. Considerações sobre a


Psicanálise de Erich Fromm. Santa Maria: ITPOH, 2006.

______________________. A Complexidade do
Inconsciente na Psicanálise Humanista. 1º ed. Santa Maria:
ITPOH, 2008.

_______________________. A Teoria e a Prática Clínica de


Freud a Fromm. Santa Maria: ITPOH, 2009.

_______________________. Pulsão de Morte, Santa Maria:


ITPOH, 2011.

_______________________. A Interpretação dos Sonhos,


Santa Maria: ITPOH, 2012.

_______________________. O Significado Inconsciente das


Imagens. Santa Maria: 2007b.
243
_______________________. As interfaces da Clínica
Psicanalítica, Santa Maria: ITPOH, 2009b.

_______________________. Revista de Psicanálise


Humanista. 3 ed. Santa Maria: ITPOH, 2008.

ZIMERMANN, David E. Vocabulário Contemporâneo de


Psicanálise. Porto Alegre/ RS: ARTMED Editora, reimpressão
2001.

244
OS PASSOS DE UMA ENTREVISTA EM RELAÇÃO
AOS SONHOS

Greice Rachel Lemes Michel

RESUMO: O presente estudo intitulado “Os passos de uma


entrevista em relação aos sonhos”, tem por objetivo, de forma
dinâmica e simples, elucidar métodos e estratégias, passo a
passo, para o desenvolvimento de uma entrevista a respeito dos
sonhos. A intenção não é entrar no mérito das teorias propostas
pelas diversas correntes de estudos dos sonhos, nem criar um
manual que vá desvendar todos os mistérios que cercam o
tema, mas sim trazer recursos auxiliares para a prática clínica,
onde o entrevistador possa ter a liberdade de modelar suas
habilidades e estilo ao trabalhar nesta criação mais simbólica
que o ser humano realiza que é o sonho, pois seus significados
quando desvendados podem ser uma fonte de inspiração e
alento para as dificuldades experimentadas.

Palavras-chave: Sonho. Entrevista. Métodos de análise dos


sonhos. Estratégias de interpretação dos sonhos.

1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Os sonhos são uma pintura muda, em que a


imaginação a portas fechadas e às escuras, retrata
a vida e a alma de cada um, com as cores das suas
ações, dos seus propósitos e dos seus desejos.
Padre Vieira, no Sermão de São Francisco
Xavier Dormindo.

245
Os sonhos vêm fascinando o homem desde os tempos
primórdios. Trata-se de um assunto inesgotável onde a
curiosidade e os desafios são exaustivamente debatidos, e
estudiosos do assunto se lançam neste universo que admite
verdadeiras viagens para a imaginação dos leigos e formulação
de novas teorias para o mundo científico.
Foi Sigmund Freud quem, pela primeira vez deu caráter
científico aos sonhos através da publicação de sua obra A
Interpretação dos Sonhos (1900), onde descreveu com
minúcias a importância e utilização dos sonhos no processo
analítico como instrumento revelador da personalidade
humana. Sigmund Freud e Carl Gustav Jung com seus estudos
dedicados aos sonhos trouxeram a contribuição que propiciou a
melhor compreensão do assunto.
Dr. Salézio Plácido Pereira coloca como premissa que
“cada sonho deve ser interpretado na sua originalidade, não
existe um sonho igual ao outro”. (PEREIRA, 2012, p. 14), mas
como detectar e compreender estes conteúdos nem sempre
explícitos, conduzindo uma entrevista em proveito do sonhador
na clínica analítica? O sonho alerta, mas cabe ao entrevistador
a utilização dos meios para trazer estes conteúdos à consciência
do sonhador para os quais métodos, estratégias, passos e
sugestões de perguntas aqui explanadas possam auxiliar este
esclarecimento.

246
2. LEITURA DOS SONHOS ATRAVÉS DOS
TEMPOS

Quem olha para fora, sonha; quem olha para


dentro, acorda.
Carl Gustav Jung.

A história da interpretação dos sonhos definiu nossas


crenças, nossos conhecimentos e formação de opiniões em
relação aos sonhos. Por esta razão interessante conhecer o tema
em suas raízes históricas, para uma melhor compreensão das
tradições culturais e religiosas, que continuam a influenciar
nosso presente com as mais variadas representações.
De acordo com Keppe (2010), no passado os sonhos
apresentavam-se envoltos em mistérios de temática
premonitória e supersticiosa, cuja interpretação era realizada
por sábios e sacerdotes, pessoas com conhecimentos especiais,
tradutores de mensagens vindas dos deuses e seres superiores,
com a finalidade de transmitir avisos, profecias, conselhos ou
ainda autoconhecimento.
Tem-se que a interpretação dos sonhos data de época
anterior a Cristo como podemos certificar através do papiro
Chester Beatty escrito por volta de 1 350 a.C. e provavelmente
é o livro dos sonhos mais antigo existente.
Seguindo Keppe (2010), os sonhos ocuparam papel
importante nas crenças religiosas e nas práticas de magia na
sociedade antiga, como a ideia compartilhada por vários povos
e exercida pelos sacerdotes antigos egípcios que motivou
pesquisas e práticas atuais sobre projeciologia e sobre os
próprios sonhos lúdicos, conhecida como “viagem astral” ou
“projeção astral”: a possibilidade de desdobramento de uma
parte do ser enquanto a pessoa dorme, o espírito deixa o corpo
e viaja durante o sono.
247
Já o povo judeu antigo se dedicou a significação dos
sonhos baseando seus conhecimentos no seu livro sagrado
Talmude, que aconselhava os intérpretes (rabis ou profetas e os
sábios) a considerar a personalidade do sonhador e o que ele
estivesse vivendo no momento. O Antigo Testamento traz
decifrações de como este povo lidava com os sonhos, tendo a
prática da necromacia oficialmente rejeitada, com exceção de
dois intérpretes bíblicos, José e Daniel, cujas interpretações são
bastante conhecidas: José interpretando o sonho do faraó com
sete vacas gordas e sete vacas magras como sete anos de fartura
e sete anos de escassez no Egito, e do profeta Daniel com o
sonho de Nabucodonosor em que a árvore frondosa que seria
decepada significaria seu poder sendo interrompido por um
período de insanidade.
A tradição islâmica através do seu livro santo, o Corão
escrito por Maomé, também trabalhou muito o significado dos
sonhos atribuindo à inspiração dos deuses a escrita deste livro.
Assim, como na tradição judaica, a tradição islâmica era feita a
distinção entre sonhos divinos e sonhos com conteúdo do
próprio sonhador.
Os gregos também viam os sonhos como mensagens
divinas utilizando este material no processo de cura de doenças
orgânicas, executando verdadeiros rituais de purificação e
sacrifícios de animais para a obtenção da cura. Filósofos gregos
perpetuaram-se por suas reflexões acerca dos sonhos.
Mas foi no século II d.C. que surgiu na civilização
romana o mais abrangente intérprete de sonhos antes de Freud:
Artemidoro Daldiano, ele possuía uma forma prática de
interpretar os sonhos considerando os costumes e informações
importantes na vida do sonhador. Salientava que as imagens e
símbolos deveriam ser interpretados no contexto do sonho e
conforme o sonhador.
Como se pode observar, a análise dos sonhos foi
durante milhares de anos baseada em previsões do futuro,
248
diagnosticando doenças, influenciada por deuses, e só foi
reconhecida como ferramenta a ser utilizada em prol do
autoconhecimento a partir dos estudos de Freud.

3. MÉTODOS PARA EXPLORAR OS SONHOS

Um homem caminha por uma estrada e encontra dois outros homens.


O primeiro lhe pergunta de onde ele vem, o segundo para onde ele
vai. Esses dois homens são Freud e Jung.
(ditado conhecido no meio da psicanálise de autor desconhecido).

Quando entramos no campo da interpretação dos


sonhos, automaticamente nos transportamos às teorias
proporcionadas pelas correntes mais significativas do tema
recorrentes ao trabalho de Sigmund Freud, Carl Gustav Jung,
Erich Fromm, Medard Boss entre outros.
Fazendo uma síntese, tanto Freud quanto Jung, ambos
tinham suas interpretações baseadas na investigação do
histórico de vida do sonhador, e no entendimento da atuação
destas vivências na sua vida atual.
Uma análise sob a ótica freudiana tenderá a interpretar
as imagens do sonho como desejos sexuais reprimidos,
impulsos ocultos, inaceitáveis para o sonhador. Para interpretar
os sonhos Freud utilizou dois métodos: a associação livre e
substituição de símbolos, que produziriam interpretações que
dariam suporte às teorias de funcionamento da mente humana.
Ele acreditava que seriam as associações formuladas pelo
sonhador que dariam a sequência à história, mesmo que estas
associações se afastassem do sonho, pois induziriam a temas
mascarados pelos sonhos latentes no inconsciente.
Já Jung discordava de Freud acerca do funcionamento
da mente humana, e acreditava que o sonho era a ferramenta

249
que o inconsciente lançava mão no sentido de trazer à
consciência aqueles conteúdos de nosso self reprimidos,
rejeitados ou não suficientemente considerados. Na análise dos
sonhos seu interesse focava o sonho em sua totalidade e todas
as suas partes no conjunto da composição dramática do
sonhador. Suas associações se concentravam nas imagens e
emoções do sonho, e desestimulando as associações que se
afastassem do conteúdo do sonho.
Medard Boss em sua concepção desconsidera a historia
de vida, as associações e sua relação com a vida atual do
sonhador. Para ele, o sonho não é um conteúdo simbólico. Dois
passos definem sua abordagem fenomenológica:

Em primeiro lugar temos que de considerar


exatamente quais fenômenos a vida do
sonhador está tão aberta que eles podem ter
entrado e reluzido na luz de sua
compreensão. Isso por sua vez nos diz
quais fenômenos não estão ocultos. Como
segundo passo precisamos determinar
como o sonhador se conduz em relação a
tudo que lhe é revelado no espaço aberto
do seu mundo dos sonhos, particularmente
o estado de ânimo que determina seu
comportamento. Se essas coisas puderem
ser bem descritas, teremos chegado a uma
plena compreensão da vida do sonhador
durante o período do sonho. (DELANEY,
2010, p.121).

O que é manifesto na fenomenologia de Medard Boss é


a possibilidade de o fenômeno aparecer, sem distorção das
interpretações teóricas.
Erich Fromm (1966) por sua vez considera a linguagem
simbólica como uma linguagem universal. Postula sua

250
compreensão indispensável para uma melhor ciência da própria
personalidade.

A linguagem simbólica é uma língua em


que as experiências íntimas, os sentimentos
e pensamentos são expressos como se
fossem experiências sensoriais, fatos do
mundo exterior. É uma linguagem cuja
lógica difere da linguagem convencional
que falamos de dia, uma lógica em que as
categorias dominantes não são o espaço e o
tempo, mas sim a intensidade e a
associação. É o único idioma universal
jamais criado pela raça humana, o mesmo
para todas as culturas e para todo o curso
da história. (FROMM, 1966, p.14).

Não desprezando as teorias elaboradas por estes


homens considerados ícones nos estudos dos sonhos, para o
desenvolvimento do tema de uma entrevista passo a passo na
sessão analítica, levar-se-á em conta as proposições explanadas
por Gayle Delaney em sua obra “O Livro de Ouro dos Sonhos”
(2010), que propõe a exploração dos sonhos de acordo com os
referenciais do sonhador, abdicando de teorias e doutrinas
psicológicas. Para Delaney, (2010, p. 131) “todos os métodos
(o que você realmente faz para interpretar um sonho) baseiam-
se na teoria do intérprete”, e por sua vez, “essa teoria baseia-se
nas crenças ou teorias do intérprete a respeito de como a mente
humana trabalha e porque cria os sonhos”. Assim, é importante
na interpretação dos sonhos o discernimento entre teoria,
método e a influência que exerce na interpretação final.
Embora tanto Freud quanto Jung utilizasse teorias
diferentes, ambos se valiam da combinação de pedir as
associações do sonhador e fazer suas próprias associações e
interpretações baseadas em suas crenças, a respeito do que
251
determinados símbolos significavam. Exemplificando, para
Freud, objetos alongados eram símbolos fálicos e a respeito de
como a mente funcionava durante o sono. Jung utilizou este
mesmo processo de associações, porém de forma modificada e
de acordo com suas crenças e de como a mente do sonhador
funcionava.
Desta forma, tem-se que o conhecimento a respeito dos
métodos a serem utilizados na interpretação dos sonhos para
uma melhor compreensão e relevância deve ser considerado,
pois o profissional deverá ser capaz de reconhecer e avaliar
tanto as suposições teóricas quanto o método, a fim de evitar
atuações evasivas e interpretações demasiadamente teóricas, e
que fujam da real exploração do conteúdo onírico apresentado.
Partilha-se também do juízo que o entrevistador que determina
o seguimento “cego” de determinada teoria ou técnica
específica sem contestações, pode aludir em detrimento ao
sonhador, restringindo respostas para demandas importantes.
Delaney (2010, p. 135-150) descreve seis métodos que
podem ser auxiliares na interpretação dos sonhos. São eles:
1. Método de fórmula cultural;
2. Método de fórmula psicoteórica;
3. Método associativo;
4. Método de concentração nas emoções;
5. Método de projeção pessoal;
6. Método fenomenológico.

3.1. Método de fórmula cultural

É uma abordagem interpretativa antiga e familiar, exige


que o interpretador tenha conhecimento especializado de mitos
e outras tradições culturais. Para a interpretação são atribuídos
certos significados às imagens e temas do sonho, combinados
com o conteúdo do sonho de acordo com as lembranças do
sonhador dessas tradições, ou em um livro em que os sonhos
252
foram registrados. Este método é usado por terapeutas da nova
era e por analista junguianos. Foi introduzido por Jung (1912) e
denominado método de amplificação, pela necessidade de um
novo método de análise onde a objetividade imaginética da
psique fosse enquadrada.
Segundo Jung pelo fato da psique utilizar recursos
metafóricos deve-se ter cuidado na fixação literal de imagens.
O método de amplificação engloba os aspectos coletivos
através das experiências individuais, e recorre à compreensão
analógica de outras fontes: míticas, históricas e culturais, para
ampliar o conteúdo metafórico do simbolismo onírico.
É um método que pode ser enriquecedor como qualquer
método, porém suas interpretações podem derivar a parâmetros
absurdos, o que requer habilidade no seu uso.

3.2. Método de fórmula psicoteórica

É uma variação da abordagem da fórmula cultural em


que os conteúdos e imagens são analisados de acordo com
significados derivados de uma teoria psicológica específica.
Este método se faz bem exemplificado pela abordagem
freudiana clássica que imprime conotação fálica aos objetos
alongados, como cobras, gravatas, revólveres, simbolizando o
pênis; e buracos e cavernas simbolizando a genitália feminina.
Já na abordagem junguiana certas imagens são
interpretadas segundo a teoria do desenvolvimento psicológico
de Jung, analisa os sonhos como representações de
“arquétipos”. Jung desenvolveu um processo de crescimento
psicológico chamado de individuação, onde “atribuiu certas
características masculinas e femininas a imagens e
interpretações particulares, com base tanto em suas
formulações culturais mitológicas quanto em suas formulações
teóricas” (2010, p.137) interpretando os sonhos de acordo com
suas crenças.
253
Na clínica, embora não usual neste método, o analista
realiza a interpretação aliada à investigação superficial das
associações pessoais do sonhador, e este método exige do
profissional um sistema de símbolos definidos.
É imprescindível trazer à reflexão que nos tempos
atuais a investigação clássica freudiana se utilizada de maneira
rigorosa pode não somar contribuições ao desenvolvimento
emocional do sonhador.

3.3. Método associativo

No uso deste método, os sonhadores são incentivados a


descrever pensamentos e sentimentos que lhes ocorrerem em
relação aos sonhos.
Na versão freudiana desta abordagem, o sonhador
deveria relatar sem restrições todas as associações que lhe
surgissem, porém Freud priorizava o uso de sua fórmula
psicoteórica e crenças, desprezando muitas vezes conteúdos
que poderiam ser úteis à interpretação do sonho. Embora Freud
tenha tido o papel de inovador na decifração dos sonhos,
muitos terapeutas não o seguiram cegamente, modificando seus
métodos e utilizando as associações ligadas às experiências do
sonhador e mais relacionadas ao conteúdo do sonho. Se o
entrevistador não se detiver a uma análise limitadora, as
associações do sonhador poderão ser bem melhor aproveitadas
com o reconhecimento das metáforas.
Os analistas de sonhos da atualidade não partiriam a
análise de um sonho sem a investigação das associações do
sonhador.

254
3.4. Método de concentração nas emoções

Este método foi apresentado por Fritz Perls. É uma


abordagem gestáltica que pressupõe que todas as imagens de
um sonho são aspectos da personalidade do sonhador, e propõe
e incentiva que reviva o sonho colocando-se no lugar de cada
imagem onírica.
Na terapia de Gestalt é evitada a abordagem baseada
nas escolas psicotéoricas, o sonhador fica livre para entrar em
contato com seus sentimentos que podem ou não ter ligação
com o sonho; estes sentimentos são associados à vida desperta
do sonhador.
Analistas das mais variadas correntes, inclusive
freudianos e junguianos utilizam este método de concentração
de emoções com outros métodos de investigação, inclusive
associados às formulações teóricas ou culturais, pois se o
analista usar esta construção de modo amplo e sugestivo terá a
oportunidade de beneficiar o sonhador com dinâmicas e
descobertas até então desconhecidas para ele. Porém, se o
terapeuta tiver uma formação muito rígida e limitadora, o uso
deste método pode não ter a interpretação adequada quando o
sonhador entrar em contato com seus sentimentos.
É importante para o analista na utilização deste método,
estar preparado em relação aos sentimentos que serão
evocados, que podem ser tão intensos a ponto de causar
desorientação ao sonhador que não saberá como entender, nem
o que fazer com suas emoções. Cabe neste caso ao analista,
estimular emoções relevantes para o sonho, de significado
compreensível na conjunção de vida do sonhador e que ele
tenha estrutura de apresentar a si mesmo através do sonho.

Se seu objetivo é interpretar um sonho, vai


se desviar dele caso se concentre em
sentimentos tangenciais ao sonho. [...]

255
Certamente serão parte da experiência de
vida do sonhador e talvez valha a pena
explorá-los. Mas se não forem realmente
parte do sonho, o desviarão do objetivo de
sua interpretação. (DELANEY, 2010,
p.143).

Para uma melhor elucidação do discernimento que o


analista precisa ter, quando e como empregar este método que
pode eclodir como uma armadilha, exemplifico:
Delaney relata que em uma conferência sobre sonhos,
“Will contou um sonho em que saía do banho de chuveiro e
encontrava um homem agachado prestes a explodir sua
cabeça”. (DELANEY, 2010, p. 143).
O terapeuta que conduzia a demonstração procurou
associar a experiência a alguma vivência de Will com armas o
que Will confirmou, profundamente perturbado lembra, porém
não querendo relatar a experiência naquele momento. O
terapeuta o incentivou a continuar em contato com seus
sentimentos e após quinze minutos encerrou a demonstração.
Will, bastante sensibilizado com a experiência que lhe
despertou sofrimento perguntou ao terapeuta, se tivessem tido
mais tempo, se ele poderia tê-lo ajudado a desvendar a
importância do sonho para sua vida atual. A resposta vinda foi
que ele não poderia tê-lo ajudado, pois apenas o teria
incentivado a continuar a experimentar os sentimentos por
alguns dias para entrar em contato com seu eu interior.
Will então pediu ajuda a Gayle Delaney que o
entrevistou investigando as imagens em seu sonho e eis o que
ocorreu:

GAYLE: Como você se sentiu quando saiu


do chuveiro?

256
WILL: Eu me senti revigorado e realmente
limpo.
G: E como se sentiu quando viu o “homem
armado”?
W: Apavorado
G: Como era ele?
W: Era um latino, como um traficante que
eu conheço.
G: Em sua vida atual, de algum modo você
se sente revigorado e realmente limpo, mas
ameaçado por alguém ou algo que poderia
explodir sua cabeça como um traficante
latino?
W: Ah, sim! Esse é um sonho sobre eu me
livrar das drogas, e me sentir muito bem e
revigorado por isso. O homem armado é
como aquela parte de mim mesmo que está
sempre à espreita, pronta para me levar de
volta àquele mundo mortal de vício. Esse é
outro daqueles sonhos com avisos que me
ajudaram a ficar longe das drogas nos
últimos cinco anos. Eu os tenho e eles
afastam a tentação de mim. Isso não teve
nada a ver com o episódio que eu lembrei
no palco. Tem a ver com a minha vida
atual. (DELANEY, 2010, p.144).

Como é possível observar, uma sessão quando não bem


conduzida pode acionar construções que em nada beneficiam o
sonhador, pelo contrário só levam a divagações, pois o objetivo
é a compreensão dos mecanismos que o sonho está utilizando
para trazer sua mensagem.

257
3.5. Método de projeção pessoal

É definido como um método que “costuma conter


elementos de interpretações baseadas em formulações culturais
e às vezes psicoteóricas, somadas a interpretações baseadas nas
associações pessoais e reações emocionais do intérprete”.
(DELANEY, 2010, p.145).
Trata-se de um método de uso bem popular e
erroneamente classificado como um método intuitivo, pois
fazendo jus à designação, quando se interpreta um sonho com
base em valores e experiências pessoais, sem conhecimento de
detalhes do sonho e da história do sonhador, esta interpretação
estará fadada a “suposições”, sem embasamento teórico ou
cultural.
Delaney (2010) ilustra este método como bastante útil
para o estudo em grupo dos sonhos. Coloca que Montagne
Ullmann e Nan Zimmerman desenvolveram uma versão da
aplicação deste método “via projeção pessoal”, assim
procedendo:
O líder do grupo dá ao sonhador o domínio da
interpretação do seu sonho. Inicialmente o sonho é relatado e o
grupo tem a oportunidade de esclarecer detalhes do sonho sem
que o sonhador tenha contato visual com os membros do
grupo. Após, cada participante faz sua interpretação associada
às suas experiências pessoais, e de acordo com sua formação
teórica e cultural, pois não conhece as associações e vivências
do sonhador. Seguindo, o líder do grupo seleciona explanações
que julga mais pertinente e dá a oportunidade do sonhador se
manifestar, se tais interpretações o ajudaram na melhor
compreensão do seu sonho.

Essa abordagem é bastante livre de


suposições teóricas restritivas e permite
uma variedade infinita de interpretações

258
projetivas. O sonhador é incentivado a só
aceitar as interpretações que achar
convincentes, e nunca é conduzido em uma
determinada direção. (DELANEY, 2010,
p.147).

O risco na adoção deste método é que de certa forma


ele restringe o sonhador de buscar suas próprias interpretações,
pois assimilando os conteúdos pessoais projetados pelos
membros do grupo, pode evitar os conteúdos ditos como
ameaçadores, se abstendo de fazer suas descobertas e ligações
mais particulares.

3.6. Método fenomenológico

Foi Medard Boss o pioneiro a expor um método em


relação aos sonhos que “desestimulava a referência a teorias
psicológicas elaboradas e insistia em que o intérprete tivesse o
papel de um instrutor cuja função era ajudar o sonhador a se
concentrar nos fenômenos (as imagens e sentimentos) do
sonho”. (DELANEY, 2010, p.148).
Medard Boss assim expressa:

Assim, se desejamos enxergar a


composição essencial do sonhador, melhor
seria dispensar as ‘associações livres’.
Tampouco precisamos de qualquer
conhecimento a respeito da sua história de
vida anterior. Isto é verdade para todos os
sonhos e pressupõe apenas que o sonhador
desperto descreve o seu sonhar em detalhe
suficiente acerca do seu contexto e
significação. O contexto inclui material
biográfico para o qual os elementos
oníricos apontam, mas somente material

259
extraído da experiência real. (BOSS, 1979,
p. 48).

Com o intuito de evitar a influência de pressupostos


teóricos que poderiam se tornar restritivos à análise do sonho,
Boss trabalhava os sonhos em sua plenitude incentivando o
sonhador a reviver o sonho em minúcias e a expressar seus
sentimentos quando se encontrava naquela situação. Colocava
que desta forma, o sonhador ao reviver o sonho teria a
oportunidade de levar à consciência novos modos de ser e de
novas descobertas.
O Método de Entrevista a Respeito dos Sonhos
desenvolvido por Loma Flowers e Gayle Delaney foi
identificado como em grande harmonia com a abordagem
fenomenológica em 1984, por Erik Craig, diretor do Santa Fé
Center for the Study of Dreams.

4. A ENTREVISTA A RESPEITO DOS SONHOS

Sou dos que acreditam que a entrevista inicial funciona como uma
espécie de trailler de um filme, que posteriormente será exibido na
íntegra; isto é, ela permite observar, de forma extremamente
condensada, o essencial da biografia emocional do paciente e daquilo
que vai se desenrolar no campo analítico.
(ZIMERMAN, 2004, p. 60).

O primeiro encontro entre o paciente e o analista é de


vital importância para a análise, pois permite proposições
acerca do funcionamento psíquico do analisando e
possibilidades de traçar um plano de tratamento. Que o
analisando traga seus sonhos, independente do teor é
fundamental neste processo analítico, pois expressam o que a
fala não consegue, em códigos, como recados do inconsciente.

260
A título de ilustração trago a colocação de William C.
Dement, pesquisador do sono e sonhos e diz que sonhar
permite que cada um, e todos de nós, sejamos
loucos, silenciosamente e com segurança, cada noite de nossas
vidas.
Ao sonhar, estamos entramos em contato com nossas
realidades inconscientes que incluem símbolos, lendas, mitos,
desejos inconfessáveis que nos levam a pensar nos sonhos
como mecanismos de defesa e adaptação, cujo estado de
loucura se faz necessário para nossa preservação nos estados de
consciência. Assim, fica a pergunta: Como na clínica conduzir
a entrevista com foco nos sonhos e como desvendar este
mundo tão enigmático sem que isto manifeste uma ameaça
explícita ao sonhador?
Partilho do pensamento de Delaney (2010) que a
interpretação dos sonhos em análise pode ser uma tarefa
gratificante e compensadora capaz de abrir novas descobertas,
alegrias, insights, sem que haja a necessidade de transformar
esta tarefa “em uma doutrinação baseada em um guru
psicológico. Em vez disso, pode dar-lhe toda a satisfação de
aprender uma nova linguagem que abre novos mundos”.
(p.151)
Delaney explana o objetivo de ter desenvolvido o
Método de Entrevista a Respeito dos Sonhos:

Eu desenvolvi o Método de Entrevista a


Respeito dos Sonhos porque queria tirar a
interpretação dos sonhos do mundo vago e
às vezes obscuro de teorias antiquadas e
métodos mal definidos e prejudiciais.
Enquanto um sonho for interpretado
segundo uma determinada doutrina
psicológica, haverá quase tantas
interpretações quanto há intérpretes de

261
escola de pensamentos diferentes.
(DELANEY, 2010, p.151).

O Método de Entrevista a Respeito dos Sonhos


postulado propõe a investigação dos sonhos de acordo com os
referenciais do sonhador, deixando-o livre para a descoberta
das associações entre os elementos do sonho e de sua vida
(metáforas visuais, emocionais e insights), sem impor-lhe
teorias e interpretações pré-concebidas, principalmente no
tocante aos conceitos da natureza e dinâmica das psiques
masculina e feminina.
Tal proposição exige do interpretador uma grande dose
de controle para não oferecer ao sonhador suas ideias e
projeções, pois tal atitude incide no risco do sonhador sair da
liberdade de suas associações e manter as interpretações sob a
percepção do analista, perdendo assim esta grande
oportunidade de crescimento pessoal.
De todas as literaturas pesquisadas com orientações que
transportem a entrevista em relação aos sonhos e aos passos
para obtenção de um melhor rendimento na clínica
psicanalítica, apresenta-se como conteúdo mais abrangente, a
obra de Gayle Delaney, O livro de Ouro dos Sonhos – O Real
Significado dos Sonhos e Como interpretá-los, que oferece ao
pesquisador uma abordagem prática e objetiva, sob a ótica
onírica permite um aprendizado dentro de uma linha mais
ampla de interpretações, sem se ater às fórmulas pré-
estabelecidas das teorias que minimizam a percepção do que
verdadeiramente o sonho tem a informar. Dentro deste enfoque
basearam-se as exposições dos procedimentos práticos que
podem ser utilizados como norteadores da entrevista a respeito
dos sonhos.

262
4.1. Os passos de uma entrevista em relação aos
sonhos

Preparação da Entrevista:

Para Dellaney (2010) no tratamento analítico é


imprescindível o estabelecimento do vínculo e a empatia entre
paciente e analista e para iniciar as investigações no que tange
ao campo onírico, não é diferente. O “amor à verdade” é o
preceito básico de todo o tratamento. O sonhador necessita
trazer todo o seu conteúdo onírico, até o que julgar irrelevante,
pois sua interpretação sempre terá um significado que poderá
ser elucidado.
Delaney introduziu um método de entrevista com
características peculiares:

Para dar ao sonhador um fórum eficaz no


qual falar por si mesmo, meu método
envolve uma entrevista em que um amigo,
colega ou terapeuta que finge ser um
visitante de outro planeta faz perguntas. O
sonhador pode representar seu próprio
papel e o do entrevistador, e
frequentemente representa ambos,
aprendendo a fazer a si mesmo as
perguntas apropriadas. (DELANEY, 2010,
p.153).

É fundamental que o sonhador tenha a possibilidade de


descobrir sozinho o significado dos seus sonhos, por isto a
precisão do entrevistador não atuar com seus conhecimentos,
teorias e associações acerca da simbologia e imagens
enunciadas no sonho.
Inicialmente, Delaney (2010) sugere um relato
completo do sonho e a elaboração de um diagrama que
263
auxiliará o entrevistador a identificar o conjunto básico de
imagens e temas sobre os quais deverão ser formuladas as
perguntas, estas questões atuarão como uma orientação
bastante útil na sequência da entrevista. As perguntas exploram
as imagens dos sonhos e despontam semelhanças metafóricas
com pessoas e situações da vida do sonhador, fugindo das
imposições teóricas pré-estabelecidas.
O diagrama é composto por seis elementos que, se
assinalados muito contribuirão para o não esquecimento de
detalhes importantes do sonho. Define-se cenários, pessoas,
animais, objetos, sentimentos, ações/tramas e o analista poderá
utilizar o diagrama ou adaptá-lo da forma que melhor lhe
aprouver e que lhe possibilite um maior aproveitamento das
informações fornecidas pelo sonhador, pois a finalidade do
diagrama não é se deter em minúcias, mas permitir ao analista
boas descrições para elaboração de perguntas direcionadas e
associações relevantes.
Outra sugestão bastante proveitosa é inicialmente
resumir o sonho e fazer uma relação de suas ações principais,
para após ligá-las aos sentimentos associados a elas. Nesta
etapa, se estiver sendo realizada a investigação de um sonho
longo e complexo, quanto mais sucinto for o resumo mais
consciência se terá da estrutura do sonho, e poderá permitir ao
sonhador a identificação do conteúdo às situações de sua vida
desperta.
Ainda seguindo o pensamento e orientações de
Delaney, encontramos a sugestão de quatro passos para seguir
a entrevista exploratória a respeitos dos sonhos que são:

 Primeiro passo: obter uma boa descrição;


 Segundo passo: reafirmar ou recapitular a descrição;
 Terceiro passo: fazer a descrição com a vida quando
desperto;
 Quarto passo: resumir a exploração;
264
4.1.1. Obter uma boa descrição

O entrevistador solicita ao sonhador que apresente os


principais elementos do sonho e os encaixa nas seis categorias
já apresentadas: cenários, pessoas, animais, objetos,
sentimentos e ações/tramas. Partindo destes conteúdos serão
formuladas perguntas específicas que possibilitarão dar
andamento em cada passo da entrevista. Para que se atinja o
objetivo desejado é indicado que o entrevistador faça o “jejum
da palavra”, pois se sua atuação for ativa no sentido de auxiliar
o sonhador a descrever imagens, ajudá-lo na verbalização dos
pensamentos, pode comprometer o desenvolvimento de
importantes etapas de descobertas.
O amadurecimento deste processo fornece excelente
oportunidade de reflexão e autoconhecimento ao sonhador,
pois esta busca de converter algo subjetivo em objetivo o leva a
cogitação do que o paciente sente em relação ao conteúdo,
servindo como aprendizado num melhor expressar-se. Se
utilizado ao autoconhecimento, este processo pode ser usado
não apenas na elucidação de sonhos, mas na entrevista da
clínica em geral.
Partindo do princípio que a linguagem do sonho é a
reprodução da leitura do inconsciente, as perguntas específicas
do entrevistador contribuirão para que o sonhador não se afaste
do foco que neste primeiro momento é de fornecer a descrição
que retrate como ele pensa e se sente em relação a isto.
A abordagem proposta de fingir que o entrevistador é
visitante de outro planeta que nada sabe, e nada conhece a
respeito dos elementos trazidos, que não tem ideias
preconcebidas de algum objeto ou personalidade, pode oferecer
ao sonhador a oportunidade de fornecer respostas mais precisas
e se sentir mais a vontade em expor os sentimentos que o sonho
despertou.
265
Para obter boas descrições, a escritora traz a elaboração
de uma “carta de sugestões”, com perguntas elaboradas ao
longo de anos de estudo e que seus alunos utilizam como um
guia para uma boa entrevista. Como cada elemento do sonho
apresenta características próprias definindo cenários, pessoas,
animais, objetos, sentimentos, ações e tramas há um conjunto
de perguntas-chave que permitem dar os passos da entrevista:
descrição, reafirmação, conexão e resumo, o que pode ser
muito útil como ponto referencial ao entrevistador para adaptar
ao seu trabalho o que ajuizar mais producente.
Ainda seguindo as proposições de Delaney, também se
considera relevante durante este primeiro passo, obter detalhes
mais significativos em relação à descrição, investigando os
cenários, as pessoas, os animais e os objetos presentes no
sonho, bem como os sentimentos e ações presentes na trama.

 CENÁRIOS:

Leva o sonhador à vinculações metafóricas com o


aspecto de sua vida explorado no sonho. Quando o sonhador
conseguir identificar seus sentimentos e associações em relação
a um lugar conseguirá então esclarecer a conexão com uma
área de sua vida quando desperto.
Delaney orienta que quando o sonho refere-se a uma
casa é importante uma boa descrição sobre a pessoa a quem a
casa pertencia, em que época o sonhador a visitou e se os
estilos de vida observados são relevantes para a vida atual do
sonhador. Se o sonho é com uma casa em que morou na
infância investigar o período de habitação, pois existe a
probabilidade de que os temas trazidos no sonho tenham
ligação com vivências daquele período particular de sua vida.
O sonho, na maioria das vezes é a representação de uma
experiência ou conflitos recorrentes em nossa vida e “o modo
266
como um sonho modifica um cenário indica as qualidades
particulares do cenário a ser enfocadas” (DELANEY, 2010,
p.181), pois o cenário nunca é aleatório e com frequência
identifica a área da vida do sonhador com o qual se vai lidar.
Como desenvolver na entrevista um caminho para a
conexão destes conteúdos à vida do sonhador? Apresenta-se
aqui sugestões de perguntas básicas que podem auxiliar a
interpretação de sonhos que tragam conteúdos similares, as
ideias aqui apresentadas são de autoria de Delaney (2010, p.
261):

1. Descreva a primeiro (ou segundo) cenário do sonho


como se eu viesse de outro planeta e precisasse conhecer sua
natureza e função.
2. Como é esse lugar em seu sonho?
3. É diferente desse lugar na vida desperta?
4. Como é estar nesse cenário?
5. Então, esse cenário é (reafirme a descrição), certo?
6. Esse cenário que você descreve como (reafirme
novamente a descrição) o faz lembrar-se de alguma situação
ou área em sua vida desperta?
7. Como assim?

 PESSOAS:

O entrevistador deve pedir ao sonhador que descreva a


pessoa, como se transmitisse a informação a alguém de outro
planeta, que não conhece e nem tem ideias pré-concebidas a
respeito da imagem que é fornecida. Quando se interpreta
sonhos com pessoas é importante estar atento e anotar as
palavras utilizadas pelo sonhador, pois estas são os melhores
indicativos do que o sonho veio dizer.

267
Seguindo sugestões de perguntas formuladas por
Delaney (2010, pp. 185-188):
1. “Quem é ___________?”
Devem-se evitar perguntas como “o que fulano
significa para você?”, pois tal procedimento pode levar a uma
evasão do real significado do sonho, vez que interrompe seu
processo pessoal de identificação de sua metáfora, bem como
pode trazer uma interpretação imediata inexata.
2. “Como é _____________ na sua vida quando
desperto (ou em geral)?”
Normalmente esta é uma pergunta que esperta o
sonhador a explanar o que pensa e sente em relação ao Fulano,
mas pode desencadear associações imediatas e prematuras. O
objetivo é descobrir quais os reais sentimentos do sonhador em
relação a Fulano para conectá-lo a imagem de Fulano.
Delaney (2010, p. 186) enfatiza que “o entrevistador
deve procurar manter-se o mais próximo da imagem do sonho
original para evitar associações que tragam material
irrelevante”.
Pois, mesmo que nos detenhamos na interpretação de
“específico sonho”, e procuremos manter o foco em sua
originalidade, se a explanação trouxer associações que levem a
outros pontos investigativos, não podemos ignorar este
conteúdo. O entrevistador precisa ter a habilidade de discernir
as oportunidades que surgem e que possam ser utilizadas em
prol do sonhador.
3. “Como é _________ em seu sonho? E O que
_________está fazendo no sonho?”
Esta pergunta pode levar o entrevistador a descobrir
aspectos do Fulano destacados em uma determinada cena do
sonho. Se a pessoa que aparece é de relação próxima pode-se
abreviar a exposição pedindo que o sonhador fale sobre a parte
da pessoa semelhante a parte retratada no sonho. E, se for
alguém que o sonhador não conhece pode-se perguntar: Que
268
tipo de pessoa você imagina que Fulano poderia ser, baseado
em sua aparência e modo de agir no sonho?
Também é interessante solicitar três adjetivos que
delineariam o que Fulano faz e tem sua história ou aparência
no sonho.
4. “Então _________ é (reafirme a descrição),
certo?”
5. “_________, que você descreve como
(recapitule a descrição), o faz lembrar-se de alguma
coisa em sua vida?”
Quando o entrevistador recapitula a descrição usando os
mesmos adjetivos nomeados pelo sonhador, oferece a
possibilidade para que relacione a imagem a alguma parte de si
mesmo ou de alguém, ou algo em sua vida. Mesmo que o
entrevistador tenha feito a conexão com características de
Fulano no sonhador ou de alguém que lhe é próximo, é
importante a paciência para que ele proceda a associação
sozinho. Prescinde aqui também a habilidade do entrevistador
caso detecte que o sonhador descreveu alguém que não gosta
para contornar as resistências que poderão surgir.

 ANIMAIS:

A formulação de perguntas básicas serve de orientação


para se chegar ao significado que as imagens trazem,
independente do tipo de animal com que se sonha. É de grande
valia o sonhador trazer como imagina que seja a personalidade
do animal no sonho e como parece ser sua personalidade e
características no sonho. Obtenha uma descrição da aparência,
de como age e a identificação de seus sentimentos em relação à
imagem apresentada.
Sugestão de perguntas legisladas por Delaney (2010, p.
269-270):

269
1. Como é o animal? Finja que nunca o vi
2. Como você descreveria a personalidade de um
__________?
3. O que um _________está fazendo em seu
sonho?
4. Então esse animal é (reafirme a descrição
obtida), certo?
5. Há alguém em sua vida ou uma parte de si
mesmo que é como um ______,
6. Como assim?
Teste a conexão.

Motive respostas diretas sobre o que o sonhador pensa e


sente em relação à imagem e leve em consideração a relevância
de que uma descrição só está completa quando o sonhador
conseguir verbalizar seus sentimentos em relação à imagem do
sonho.

 OBJETOS:

O sonhador deverá descrever o objeto genericamente e


como ele aparece no contexto do sonho. O entrevistador deve
evitar as associações até o sonhador obter uma boa descrição,
quando então ele terá condições de uma melhor conexão
associativa. Se no sonho aparecer mais de um objeto, ou até
combinados solicitar a descrição de cada objeto
individualmente.

Sugestões de perguntas (DELANEY, 2010, pp. 190-


191):

1. O que é um _________? Finja que eu venho de


outro planeta e nunca vi algo assim.

270
É importante a definição e descrição do objeto num
contexto geral. O objetivo é a compreensão das funções do
referido objeto, sem a necessidade de exatidão científica.
2. Como é o _________ em seu sonho?
Com a formulação desta pergunta, o entrevistador está
saindo de um campo amplo e geral, partindo para uma
investigação mais específica, oportunizando ao sonhador
associações que talvez mereçam ser mais exploradas. Se, no
sonho a descrição apresentada for diferente do objeto
conhecido, a pergunta deve ser direcionada para esclarecer
estas diferenças, como perguntando de que forma (objeto do
sonho) seria ou funcionaria diferente de um (objeto) normal.
Motive o sonhador a revelar seus sentimentos com
relação ao objeto no sentido geral e ao objeto sonhado.
3. Então o _________ em seu sonho é (reafirme a
descrição), certo?
4. O _________em seu sonho, que você descreve
como (recapitule a descrição), o faz lembrar-se de
alguma coisa em sua vida?
O procedimento nesta entrevista é o mesmo de quando
são realizadas associações entre pessoas nos sonhos e na vida
desperta, onde é importante que se esclareça e confirme a
conexão.

 SENTIMENTOS:

Incentive o sonhador a descrever seus sentimentos em


relação ao sonho. Como se sente em expô-lo na entrevista e dê-
lhe liberdade de expressar o sonho mesmo que isto requeira
paciência.
O conteúdo dos sonhos de uma pessoa tem um
significado único e exclusivo para aquela pessoa, razão pelo
qual a investigação dos sentimentos requer especial atenção: é
o que vai levar o sonhador, no contexto geral do sonho, a se
271
expor mais, podendo originar resistências que podem disfarçar
a interpretação quando associada à vida atual.
Sugestões de perguntas que podem ser utilizadas:
(Delaney, 2010, p. 191).
1. Como você se sente nesse momento no sonho?
Esta é uma pergunta que pode ser considerada
“pergunta-chave” na entrevista. Pode ser efetuada a qualquer
momento, principalmente quando se suspeite da existência de
sentimentos não externalizados. O interessante é se valer desta
pergunta após o sonhador ter já relatado o sonho pela primeira
vez.
2. Fale-me mais sobre este sentimento.
3. Fale-me sobre uma ocasião (ou a última vez que
se sentiu assim).
Estas duas perguntas são úteis quando o sonhador
apresenta dificuldades na exploração de seus sentimentos.
4. Deixe-me ver se estou compreendendo. Você
está/estava se sentindo (recapitule a descrição do
sentimento), certo?
5. Esse sentimento de (recapitule a descrição) o
faz lembrar-se de alguma coisa em sua vida atual?
6. Como assim?
A ênfase à motivação exploratória de seus sentimentos
deve, após a formulação das perguntas sugeridas levar o
sonhador à associações do teor do sonho e sua vida desperta.

 AÇÕES/TRAMAS:

Estimule o sonhador a identificar e avaliar a ação


principal do sonho. Não esqueça que para alcançar um melhor
aproveitamento dos conteúdos trazidos, boas descrições das
informações dos elementos dos sonhos exigem disciplina e
experiência e o entrevistador está buscando o que o sonhador
sabe e não para mostrar o que ele sabe.
272
Delaney (2010, p. 193-194) sugere:
1. Descreva a principal ação ou acontecimento
nessa cena.
Normalmente quando foram realizadas tentativas de
conexões mal sucedidas o entrevistador pode ser surpreendido,
porque é nesta etapa que as pessoas e objetos encontram seu
contexto dramático na história do sonhador. Para que se tenha
êxito fazem-se imperativas perguntas de teor simples ao
sonhador.
2. Por que os seres humanos fazem essas coisas, e
como você se sente em relação a isso?
O objetivo desta pergunta é obter descrição da ação e a
opinião do sonhador
a respeito da ação.
3. _________ (recapitule a descrição da ação) o
faz lembrar-se de uma situação em sua vida?
4. Como você descreveria a trama central desse
sonho?
5. A trama (recapitule a descrição) o faz lembrar-
se de alguma situação em sua vida?

4.1.2. Reafirmar ou recapitular a descrição

Esta etapa implica na repetição rigorosa ou de forma


reduzida da descrição do sonhador, sendo de grande relevância
utilizar as palavras exatas do sonhador como uma forma de
acionar possíveis vivências e evitando as projeções que o
sonhador possa fazer.
Se o sonhador, nesta primeira recapitulação trouxe
conteúdos que possam refletir aspectos negativos de sua
personalidade ou de alguém que ama, deslocados para uma
descrição no sonho, o entrevistador pode pensar em omitir
alguns fatos até o sonhador assimilar a ideia. Nesta etapa faz
vital também observar se o sonhador transmitiu a carga
273
emocional à descrição. A recapitulação é parte integrante de
todo o processo de análise do sonho, podendo o entrevistador
adaptá-lo de acordo com seu senso de oportunidade.

4.1.3. Fazer a conexão com a vida quando desperto

Somente depois de uma boa descrição com o


aproveitamento das etapas anteriores é que o sonhador estará
apto a relacionar os conteúdos dos sonhos com a sua vida
quando desperto. Uma conexão adequada depende do
entrevistador para não acelerar ou retardar uma conexão, pois a
ligação do conteúdo do sonho com as vivências, coloca o
sonhador frente à metáfora de seu sonho e à possibilidade de
novas visões e atitudes relevantes em sua vida desperta. Esta
conexão esclarecedora seria a interpretação da imagem do
sonho, mas não é tão simples como parece, pois pode deflagrar
conexões inexatas se tanto o entrevistador ou o sonhador
mostrarem-se impacientes.
Uma boa alternativa para que não ocorra uma conexão
imatura ou imprópria seria testar a conexão. Exemplificando:

Se o sonhador afirmar que a imagem de um


sonho a faz lembrar-se de X, peça-lhe que
diga em que situação do sonho se parece
com uma situação na vida quando desperto,
caso ele não forneça espontaneamente essa
informação. [...] Testar dá ao sonhador e ao
entrevistador uma chance de verificar se a
descrição de uma parte da metáfora (a
imagem do sonho) se encaixa na outra
parte (a pessoa ou situação no estado
desperto). (DELANEY, 2010, p.165).

Por vezes o sonhador pode se sentir desorientado


quando incentivado a realizar uma conexão e, é frequente a
274
demora nas associações. Neste caso é interessante retornar as
imagens descritas, reafirmá-las e somente após voltar às
conexões interpretativas. Assim, o sonhador poderá acessar a
compreensão do seu sonho.
Importante reforçar que a interpretação adequada de um
sonho está diretamente ligada à desenvoltura do entrevistador,
quando identifica resistências: saber recuar e avançar no
momento oportuno, recusando-se a lançar mão de teorias e
ideias interpretativas próprias. Mesmo tendo boas descrições é
o teor valioso da interpretação do sonho, as ferramentas a
serem utilizadas no tratamento psicanalítico.

4.1.4. Resumir a exploração

Resumos totais: Com a descrição das imagens do


sonho, recapituladas e quando possível tiver sido realizadas as
conexões, o entrevistador ou sonhador reconta o sonho ligando
cada imagem a sua descrição ou associação se tiver já sido
feita. A partir daí, o entrevistador interpela se o sonhador
compreendeu o significado do sonho ou se tem conteúdos
ainda desconhecidos. Tal procedimento permite a verificação
das hipóteses formuladas se ajustarem ou não, se a hipótese
principal ainda encontra-se em fase de maturação. Neste caso é
melhor dar o tempo que o sonhador necessita para a
compreensão, sem pressões, pois quando se inicia um trabalho
prático como este, que envolve o aspecto emocional de
participação do sonhador, as defesas por surgir de forma
acentuada para não revelar conteúdos traumáticos ou
ameaçadores.
Também uma boa intervenção seria a utilização nesta
etapa dos resumos parciais. Depois das descrições,
reafirmações e conexões podem ser de grande valia à
elaboração de um resumo mais condensado, filtrando
cuidadosamente as características marcantes e relevantes do
275
sonho. Auxiliam na confirmação dos conteúdos descritivos, no
contexto dos sentimentos e ações do sonho, facilitando ao
sonhador lidar com as conexões mais delicadas e difíceis,
podendo inclusive reforçar novos insights.
Um bom resumo (total ou parcial) oferece tanto ao
entrevistador quanto ao sonhador a possibilidade de
amadurecimento, assimilação das descobertas obtidas, bem
como abrem caminhos para a exploração de novos conteúdos
que podem surgir a partir da escuta, imagens, associações,
emoções anteriormente esquecidas e que podem acionar novas
questões a serem elaboradas na análise.
Fator de relevância a ser observado é como proceder
quando o sonhador ao realizar seu próprio resumo, se deparar
com suas resistências e negações, oferecendo conclusões sem
relevância e banais. O entrevistador pode, até como teste da
força da conexão fazer intervenções como “O que o levou a
esta conclusão?” ou “Como vê isso?” para que juntos possam
rever e analisar o processo de compreensão oculto por detrás
destas conclusões.

5. ESTRATÉGIAS PARA ANÁLISE DOS SONHOS


SEGUNDO DELANEY

Os sonhos revelam o diálogo entre as emoções e a existência, a


energia inconsciente se comunica através das imagens e símbolos, ao
explorar os conteúdos e significados consegue descobrir a mensagem
oculta que pode ser interpretada ao paciente.
Salézio Plácido Pereira.

Quando se conduz uma entrevista a respeito dos sonhos,


mesmo seguindo os passos sugeridos, ter-se-á a consciência de

276
que não é uma tarefa tão simples como parece à primeira vista.
E, mesmo seguindo as sugestões de perguntas, o entrevistador,
por vezes pode se deparar com respostas não elucidativas
fornecidas pelo sonhador que apresenta fortes resistências. Para
melhor facilitar a condução destes casos, Delaney (2010)
sugere estratégias que utilizadas e compatibilizadas com as
perguntas da carta de sugestões pode ser de grande valia.

5.1. Primeira Estratégia: Amplificar Os Sentimentos

Se o sonhador apresentar dificuldades em revelar suas


emoções, de atuar de forma dinâmica na descrição de seus
sonhos transmitindo conteúdos inexpressivos que não
permitem uma maior investigação, o analista pode, com
cautela, provocar a ampliação destes sentimentos. Delaney
sugere que o paciente exagere mesmo que por poucos instantes
seus sentimentos e proposições como “Ora, vamos! Aposto
que você tem alguns sentimentos com relação a isso”, (2010,
p. 203), isto pode auxiliar o processo. Também se o paciente
demonstrar emoção frente a uma imagem ou parte do sonho
incentivar que expresse a emoção com perguntas como: “Qual
é a parte mais triste dessa cena [ou imagem?]?” ou “Se suas
lágrimas pudessem falar, o que diriam?” (2010, p. 203).

5.2. Segunda Estratégia: Imaginar o Absurdo ou o


Oposto

Quando o paciente não estiver encontrando palavras


adequadas para descrever uma imagem ou ação do sonho, o
analista pode auxiliar com uma descrição absurda ou oposta de
forma que o paciente reaja corrigindo.
Delaney (2010) exemplifica para uma melhor
compreensão desta estratégia que pode ser até divertida, o
sonho de uma paciente com nabos. A paciente só conseguia
277
descrevê-los como vegetais sem graça, até o momento em que
lhe foi perguntado, se esta era a sobremesa preferida entre os
seres humanos. A resposta veio imediata: “pelo amor de Deus,
é claro que não! Você só come nabos se sua mãe os enfia em
sua garganta. Eles têm um sabor desagradável.” (2010,
p.204).
No sonho, os nabos estavam sendo oferecidos por um
de seus possíveis empregadores, e trazia a mensagem de que
esta oportunidade poderia não ser tão compensadora quanto
imaginava.

5.3. Terceira Estratégia: “Em que isto difere de...”

Uma opção bastante interessante a ser utilizada é


quando o paciente descreve de maneira vaga uma imagem no
sonho: procure encaixar esta imagem em alguma categoria
como pessoas, animais, [...] e pergunte em que difere, no caso
de outras pessoas ou animais como forma de motivar o acesso
a descrição mais elucidativa. Exemplificando, se a imagem for
de um gato, pergunte em que este difere dos cães. (DELANEY,
2010, p. 205).

5.4. Quarta Estratégia: Encurralar o Sonhador

Quando o paciente direcionar suas descrições saindo do


foco da imagem ou parte do sonho, é interessante o analista
manter o controle do processo trazendo-o de volta ao sonho.
“Deixe-me levá-lo de volta ao sonho”, (2010, p.205) pode ser
uma alternativa para o sonhador direcionar seu foco ao material
do sonho.
Delaney coloca que tanto Freud como Jung, para o
trabalho com a interpretação dos sonhos buscavam a história
pessoal do sonhador e as ocorrências de sua vida atual; Freud
através das associações livres, e Jung através de associações
278
mais focalizadas. Expõe também compartilhar da posição de
Boss que valida a apresentação da história e a situação de vida
do sonhador, apresentada de forma espontânea ou que estas
informações sejam seletivamente obtidas na medida em que o
sonho é tratado.

O entrevistador faz perguntas muito


focalizadas e na maioria das vezes obtém a
informação relevante necessária no
contexto emocional e conceitual do sonho.
Isso pode economizar tempo e incentivar o
sonhador, em vez de o intérprete, a indicar
conexões ou paralelos relevantes entre as
realidades do estado desperto e do sonho.
(DELANEY, 2010, p. 205).

“Um bom entrevistador é como um cão de caça. Com


prática você aprenderá a seguir o cheiro do sonho e não deixar
nada o desviar desse caminho”. (DELANEY, 2010, p. 206).
Os riscos que se corre de se encurralar o sonhador pode
significar a interrupção de conteúdos úteis, mas se o
entrevistador não fizer este processo no tempo adequado,
perceberá que deve retornar e solicitar uma descrição mais
completa da imagem.

5.5. Quinta Estratégia: Bancar o Cão Pastor

O que faz de um entrevistador “um cão pastor” é a sua


persistência, sua agilidade e perspicácia em saber quando deve
seguir em frente e quando deve recuar. É investir no sonhador
no sentido de motivar suas associações, mas também saber usar
de subterfúgios para mudar a direção quando surgirem às
resistências. É saber usar várias estratégias que levem ao
objetivo almejado.

279
5.6. Sexta Estratégia: Reafirmação

É simplesmente reafirmar as ações e descrições


realizadas pelo sonhador de um elemento do sonho. “Então
(reafirmar a ação/descrição) aconteceu, certo? Espere, deixe-
me anotar isso... deixe-me ver se entendi direito. É
interessante que...”, (2010, p. 207) podem levar o sonhador a
comentários úteis.

6. ILUSTRAÇÕES CLÍNICAS

A interpretação dos sonhos não é uma atividade espiritual ou


supersticiosa, na psicanálise a análise dos sonhos tem como objetivo
o desenvolvimento do potencial de criatividade e dinamismo da
energia psíquica.
Dr. Salézio Plácido Pereira.

As ilustrações pretendem exemplificar o que sucede na


prática clínica, pois nem sempre o sonhador consegue
estabelecer ligações entre seus sonhos e os desafios de suas
vidas. Na maioria das vezes o simbólico advindo do sonho não
tem representação na visão do sonhador, porém quando
aclarados adquirem uma amplitude capaz de traduzir e
conduzir uma vida através das mudanças de comportamento,
conhecendo novos caminhos e revelando sua capacidade
criadora.

6.1. O Sonho de Renata:

Renata teve um sonho quando ela e o marido voltaram a


viver juntos após um ano de separação. Delaney o define como
um sonho que passou de imagens aparentemente não sexuais
para um tema sexual. Este relato de sonho encontra-se na
integra em Delaney, 2010, pp.167-168:

280
Eu tirei o esmalte vermelho das unhas dos pés e das mãos, e
depois coloquei um esmalte branco perolado. Sorrindo, mostrei
minhas mãos e pés ao meu marido, esperando satisfação e
aprovação. [...] Gayle: eu venho de outro planeta. Porque as
mulheres usam esmaltes nas unhas?
Renata: Para ficarem mais sensuais e atraírem o sexo oposto.
G: Qual a diferença entre usar esmalte vermelho e branco
perolado?
R: Ah, o vermelho é uma cor muito sensual e o branco não. O
branco é a cor da pureza e o vermelho, a da paixão. [...]
O sonho me mostra renunciando a minha paixão para
conquistar a aprovação e o amor do meu marido. Eu desisti de
um recém-descoberto interesse na sexualidade, que precipitou
nossa separação. Meu marido e eu não temos uma energia
sexual nos unindo. Agora estou usando esse horrível branco
que ficaria melhor com o uniforme antiquado de uma
enfermeira. Realmente sufoquei minha paixão sexual e estou
tentando ser boa e doce. Acho que levei isso longe demais.
O sonho de Renata retrata claramente a ação dos
conflitos internos não aceitos pelo consciente. Se o
entrevistador trouxer o sonhador, através deste processo de
maturação passo a passo, com calma e paciência, propiciará
não só a interpretação do sonho, como a conscientização ao
sonhador das negações com que está por vezes se punindo.
O sonho auxiliou Renata a verificar que suas tentativas
e esforços para salvar o relacionamento estavam tirando o
sabor de sua vida pela necessidade de um comportamento que
agradasse e tivesse a aprovação do marido. A cor vermelha
retratada nas unhas é o que podemos chamar do “verdadeiro
desejo”, oculto e latente, manifestado através do sonho. Renata,
mais tarde divorciou-se e casou com outra pessoa para quem
usava um esmalte muito vermelho.

281
Dentro das diversas variações que o elemento “cenário”
pode originar, exemplifico aqui um sonho para uma
compreensão mais facilitada.

6.2. O Sonho de David:

David sonhou que estava de volta à casa de


sua infância quando ouviu duas bombas
explodindo. Ele correu para o andar de
cima a fim de encontrar sua mulher, e então
ouviu uma terceira bomba explodir.
Acordou sobressaltado. (DELANEY, 2010,
p.264).

Com referência ao sonho de David, como elaborar as


perguntas para chegar à aclaração do sonho?
Tomando como parâmetro as sugestões de Delaney e
utilizando esta liberdade de acrescentar, modificar, inclusive se
abster de formular determinadas perguntas, a investigação não
necessariamente precisa ser questionada como a
exemplificação. O que se sugere é que o entrevistador dentro
de sua experiência capte a essência do conteúdo de perguntas
sugeridas, e tenha o livre arbítrio de acrescentar seu toque
pessoal.
No caso do sonho de David, a entrevista poderia assim
ser conduzida para se chegar ao conteúdo do sonho:

1. Descreva a casa do sonho.


2. Descreva a personalidade da pessoa que viveu
na casa
3. Em que época você morou ou frequentou esta
casa?
4. Você lembra-se de alguma experiência que
possa ter ocorrido com você naquela casa?

282
5. Há alguém na sua vida ou uma parte de si
mesmo que identifique semelhança com a pessoa da
dona da casa ou com o ocorrido no sonho?
6. Em sua vida atual existe alguma situação que se
assemelhe ao que ocorreu no sonho ou que ocorre
quando você age ou se sente como se sentiu no sonho?
7. Há alguma situação em sua vida atual
semelhante às coisas que ocorreram na época em que
viveu naquela casa?
8. Descreva as principais pessoas do sonho,
atitudes e emoções que surgiram durante o sonho e
pergunte-se em que situação da vida atual você
reviveria essas lembranças?
9. Você identifica padrões de comportamento
aprendidos na infância e que estão repetidos em sua
vida atual?

David na entrevista relatou que viveu com os pais até o


término da escola secundária num clima de brigas, gritos e
raiva constantes. No caso, fez a associação das bombas com as
brigas entre o pai e a mãe, e como esperava a próxima bomba
ser jogada para reiniciarem as brigas. No sonho, ele tinha a
idade que tem hoje e queria fugir de casa com a mulher.
Quando perguntado se o cenário descrito o fazia lembrar-se de
alguma situação ou área de sua vida desperta, David contou
que ele e a mulher estavam brigando um com o outro como
seus pais faziam e acreditava que o sonho era seu desejo de
tirar ele e a mulher daquela situação. Estava repetindo os
padrões vividos na infância e o sonho seria uma mensagem
para que fizesse algo por seu relacionamento enquanto ainda
era tempo.

283
6.3. O sonho de Cláudia:

Estava na casa de uma tia que costumava visitar com


frequência, e a aguardava para o café da manhã. Minha tia
apareceu e disse que eu preparasse o café, pois estava de saída
ao encontro de algumas amigas. Estava alegre e descontraída,
bem diferente do que normalmente era. Olhei a cozinha e
estava organizada, mas não como comumente minha tia
deixava. Ela sempre foi muito meticulosa com a organização.
Tinha tudo nos seus devidos lugares e não aceitava que algo
fosse mudado. Fiquei surpresa no primeiro momento, mas
depois me senti bem com a atitude de minha tia e acordei rindo
muito.

Entrevistador: Pode me descrever a casa de tua tia, mas


descreva como se eu não conhecesse uma casa.
Claudia: Uma casa é um lar. É um lugar onde nos protegemos
das intempéries.
E: O que é um lar?
C: é o lugar onde nos reunimos com a família, onde
descansamos, confraternizamos. Nosso ponto de referência.
E: O que é intempéries?
C: é o clima que às vezes é bom e às vezes ruim.
E: E como era a casa de tua tia? Tinha intempéries?
C: era uma casa de alvenaria antiga, de cores claras e bastante
conservada e extremamente limpa e as vezes tinha intempéries
sim.
E: Em que fase da sua vida você frequentou esta casa?
C: por volta dos 7 anos e até a adolescência, eu sempre ficava
vários dias de minhas férias de verão. Era quando meus pais
viajavam.
E: Sua tia morava só na casa?
S: Sim. Ela morava só desde que seus dois filhos se casaram e
foram morar no norte do país. Tenho poucas lembranças dos
284
meus primos. Eram mais velhos e minha tia não permitia muito
nossa aproximação. Lembro que eu queria chamar a atenção
deles. Queria que eles gostassem de mim, por isto fazia tudo
que minha tia mandava para que ela não me chamasse a
atenção, e eles me admirassem.
E: Como era a sua tia?
C: Extremamente controladora, de fisionomia fechada, mas
muitas vezes doce e afetiva. Ela era uma pessoa organizada,
metódica, aquelas pessoas em que tudo tem o seu lugar na casa
devidamente programado. Não permitia mudanças e tudo era
rigorosamente mantido sob seu controle, cada peça, cada
utensílio tinha lugar marcado e ela não permitia que se
mudasse a ordem do que quer que fosse dentro da casa e não
admitia que nada fugisse do que programava.
E: Você tem lembranças de experiências que tenha tido
naquela casa?
C: tem algo que nunca esqueci: certa vez em que passava férias
chegaram parentes de outra cidade para o almoço. Minha tia
havia se preparado para receber 8 pessoas e chegaram 14.
Lembro que ela ficou muito nervosa, angustiada, pois seus
preparativos não foram realizados para um número tão grande
de pessoas. Senti o desconforto e a ansiedade dela até os
convidados irem embora. Nunca esqueci. Sofri com ela
também naquele dia. Era como se a responsabilidade também
fosse minha de tudo transcorrer perfeitamente naquele almoço.
E: A casa da tua tia é diferente da tua casa?
C: Não. De certa forma é bem parecida. Trago tudo limpo e
organizado.
E: E como você se sentia naquela casa?
C: sempre atenta para não desagradá-la e preocupada que tudo
ficasse da maneira que ela gostava. Lembro que às vezes me
sentia angustiada, uma sensação de não estar fazendo as coisas
da maneira que deveria.

285
E: Então, a tua tia era uma pessoa muito organizada,
metódica, aquelas pessoas que trazem tudo rigorosamente
controlado: cada peça, cada utensílio tinha lugar marcado e
ela não permitia mudanças na casa, certo? (reafirmação da
descrição).
C: sim. Ela era exatamente assim.
E: Há na sua vida atual alguma situação que lembre ou repita
o sonho?
C: Agora você trazendo esta pergunta me vem à cabeça que em
qualquer comemoração ou atividade que eu me sinta
responsável pelo desenvolvimento fico aflita, sempre pensando
que não sairá como desejo.
E: Na sua vida atual, você identifica na sua personalidade
alguma semelhança no seu modo de pensar ou agir ou de
alguém de suas relações que lembre sua tia?
C: Sim. Sou uma pessoa extremamente exigente comigo, com
minha família e com meu trabalho.
E: Agora se pergunte em que situação da vida atual você de
certa forma revive o sonho?
C: No sonho, eu sabia que minha tia já tinha morrido e a
princípio fiquei surpresa com a atitude dela que considerei no
momento, como descaso comigo. Depois me senti aliviada e
feliz por minha tia estar indo se divertir e pela casa não estar
como normalmente estaria. Foi como se eu pudesse finalmente
relaxar.
(Observe que Claudia está elaborando o sonho por etapas,
externa o sentimento que sentiu no sonho, mas ainda não
consegue relacioná-los com a vida atual).
E: Em que este sonho reflete os comportamentos aprendidos
quando criança e estão se reproduzindo em sua vida atual?
C: Minha preocupação é tão acentuada que quando tenho
algum projeto, chego a cancelar passeios ou compromissos de
menor importância para me dedicar integralmente a ele.

286
Agora estou relacionando minhas atitudes com a minha tia:
surpresas, situações de imprevisto sempre me deixam muito
angustiada. E, nos últimos tempos parece que meu senso crítico
e minhas exigências em relação a minha família estão deixando
todos desestabilizados, inclusive eu.
E: E, trazendo o que sentia quando estava na casa de sua tia
para a sua vida atual, você se sente bem tomando as atitudes
dela como modelo? E como acha que os seus se sentem
convivendo com você?
C: está na hora de mudar...

Aprofundando e trabalhando o teor do sonho de Claudia


foram explorados vários elementos, segundo as orientações de
Delaney (2010):
1. cenário: a casa cujos detalhes foram preservados
em sua memória significou o ponto de partida para as
associações metafóricas que levaram a percepção de conflitos
atuais que necessitavam ser elaborados.
2. Pessoas: a tia. Foi obtida uma boa descrição da
pessoa que morava na casa, sua personalidade, seu
comportamento, época em que o sonhador vivenciou a
experiência na casa e suas relações com a pessoa que morava
na casa.
Primos: Claudia conseguiu encontrar um elo entre seus
sentimentos atuais e os primos fazendo a referência ao desejo
de ser admirada pelos primos quando atende as expectativas da
tia
3. Sentimentos: quando Claudia consegue
identificar suas emoções, consegue relacionar aspectos de sua
personalidade e comportamento que se assemelhavam à tia
avaliando seus sentimentos e fazendo o espelho de como as
pessoas (sua família) deve se sentir com sua conduta.
O sonho trouxe a compreensão à Claudia que eram as
regras que ditavam a sua rotina diária, assimilando um
287
comportamento onde as falhas eram inadmissíveis. Entendeu o
sonho como um alerta, uma oportunidade de viver melhor se
aprendesse a não exigir de si e dos outros tanto em todos os
momentos. Sintomas físicos percebidos, como por exemplo,
sentir-se sufocada e com taquicardia quando na iminência de
realizar tarefas pelo temor de não realizá-las a contento foram
amenizados e com o tempo desapareceram.
Este sonho retrata a repetição de padrões assimilados
na infância e o desejo real de Claudia de mudar um
comportamento que lhe causava sofrimento. Foi estabelecida
uma ligação metafórica da conduta da tia, quando esta age no
sonho, de maneira inversa ao que Claudia habitualmente
esperaria, com seu desejo de mudar, de agir com mais
tolerância e espontaneidade, sem tantas autocobranças e
também interpretado como um pedido de socorro de seu
organismo por uma melhor qualidade de vida.

6.4. O sonho de Carolina:

Eu estava dirigindo em uma estrada muito longa, em


um carro veloz e de cor brilhante. Eu me sentia feliz e muito
leve. De repente a estrada se divide em duas estradas: uma
asfaltada, linda e tenho a sensação de conhecê-la bem e outra
de paralelepípedo que parece mais difícil de trafegar, mas que
me aguça a seguir. Paro o carro para tirar os sapatos que
estavam apertados. A seguir meu chefe assume a direção do
carro. Acordo com a preocupação de que o carro vá enguiçar e
eu não consiga chegar ao destino, mesmo tendo meu chefe na
direção.

Entrevistador: Descreva-me como é um carro. Para que ele


serve?
Carolina: É algo que serve para me levar a qualquer lugar que
eu queira com maior rapidez.
288
E: Como é este carro no teu sonho?
C: veloz, de cor brilhante. É um carro novo. É o carro dos meus
sonhos.
E: O que é uma cor brilhante?
C: é algo que reluz. Que aparece até no escuro.
E: O que é um carro enguiçado?
C: é um carro que apresenta defeito.
E: E o que acontece quando um carro fica com defeito e pára?
C: precisa ser consertado senão não me levará a lugar nenhum.
E: Pode me descrever as duas estradas?E para que servem?
C: Uma, a mais longa é muito tranquila, plana e sem
movimento. A outra parece difícil de trafegar, mas é arborizada
e bonita também e as duas servem para me levar onde eu
quiser.
E: Você menciona sapatos apertados. Que é um sapato
apertado?
C: sapato é algo que se usa para proteger os pés do piso e
funciona como acessório para deixar uma mulher elegante.
Mas quando apertados incomodam e as dores só aliviam
quando se tira eles.
E: E tem algo em sua vida atual que poderia estar te
incomodando como os sapatos apertados e que gostaria de
tirar?
C: Talvez. (não deu sequência à resposta)
E: Me descreva como é o seu chefe.
C: uma pessoa de decisões. Com ele não tem meio termo,
embora sempre suas decisões sejam equilibradas. Ele motiva a
todos no trabalho. É exigente, paciencioso, justo e de bom
coração.
E: Como você se sente no sonho? Sabe para onde está indo?
C: Não sei.
E: Como você se sente no sonho? (repetindo a pergunta não
respondida)
C: Não sei
289
(observa-se o surgimento de resistências na dificuldade de
expressar de forma geral os sentimentos que sente no sonho.
Uma alternativa neste momento é tornar as perguntas mais
específicas dos elementos identificados no sonho. É uma
maneira de facilitar ao sonhador, para que ele consiga uma
conexão do que sente no sonho com sua vida atual)
E: Como você se sente dirigindo um carro veloz e brilhante?
C: com vida. Vencendo desafios.
E: E em relação às duas estradas, poderia me descrever o que
sente?
C: A estrada mais longa me parece conhecida. Como se eu já
tivesse a percorrido e soubesse qual o destino e vejo que tenho
uma visão longa dela. Já a outra, me surge como desconhecida
e minha visão dela é curta, como se terminasse logo adiante.
Sinto certo receio embora tenha vontade de ver onde ela vai
dar.
E: E quanto aos sapatos apertados, como se sente?
C: tenho vontade de ficar descalça.
E: Como se sente quando seu chefe assume a direção do
carro?
C: muito bem. Sinto-me mais segura.
E: Deixe-me ver se estou entendendo: no seu sonho, você
dirige um carro brilhante, veloz que seria o carro dos teus
sonhos. Para o carro entre duas estradas nas quais uma é
conhecida e tranquila e outra desconhecida, mas que tem
vontade de conhecer. Sente-se incomoda com os sapatos e os
tira e sente-se segura quando seu chefe assume o “controle”
do carro, certo?
(neste momento o entrevistador está recapitulando e resumindo
a descrição do sonho em sua totalidade para propiciar à
Carolina a visão conjunta do sonho que havia sido detalhada
em elementos. A palavra “controle” foi usada propositalmente
para ativar as conexões que se encontravam confusas.
C: sim, é isto mesmo.
290
E: Como você descreveria a trama central deste sonho?
C: Eu em dúvida de qual estrada seguir.
E: O carro, as duas estradas, o sapato apertado, o seu chefe
fazem que você lembre-se de alguma coisa que esteja
acontecendo em sua vida?
C: A minha transferência de emprego para outra cidade.

Carolina trabalhava em uma empresa há muitos anos e


usufruía de uma situação profissional estabilizada ocupando
papel de destaque no quadro funcional. Diante da abertura de
uma filial da empresa em outra cidade e da necessidade de uma
pessoa altamente qualificada para ocupar a direção, Carolina
foi convidada para ocupar o cargo. Pelo fato de sua rotina
profissional não sofrer alterações, o novo cargo representaria
novos desafios e a tiraria da situação confortável em que se
mantivera durante todo este tempo. A aceitação da proposta
não só significaria um melhor ganho financeiro, maiores
responsabilidades, mas também lidar com o desconhecido.
Carolina aceitou a proposta incentivada pelo chefe e na mesma
noite teve o sonho.
Acompanhando o método de entrevista de Delaney
como interpretaríamos este sonho?
1. Objetos:
O Carro estaria representando o aspecto financeiro que
lhe daria suporte para a conquista do “carro dos seus sonhos” e
como bem definiu - veloz, pela velocidade com que estava
definindo esta mudança de vida, sem o amadurecimento
necessário para a tomada de decisão.
O “brilhante” também foi interpretado como o
reconhecimento do seu valor profissional.
Os sapatos apertados: para Freud seria fálico, mas
acompanhado à história de Carolina traz a leitura de “ponha os
pés no chão”, uma conexão com a realidade: a existência de
algo que a perturbava na representação dos sapatos apertados.
291
O receio de o carro estragar e não levá-la ao destino:
decifrando a metáfora o receio de enfrentar o desafio e sua vida
parar, como um carro pára quando com defeito.
Como os sonhos têm linguagem própria, a estrada
trouxe o dilema de Carolina nas suas escolhas: manter sua
situação consolidada na empresa - o caminho conhecido e a
estrada mais difícil de percorrer e que a aguçava - o desafio de
percorrer o novo.
A mensagem expressa no sonho trouxe todos os
elementos do conflito e a consciência de estar tomando uma
decisão motivada e ainda não suficientemente amadurecida. A
figura do chefe tomando a direção do carro é muito simbólica:
Carolina dirige o carro de seus sonhos, (a direção é o simbólico
de ter o controle de sua vida até aquele momento) quando se
depara com as duas estradas (a escolha a fazer); sente o sapato
apertado (a tomada de decisão a incomoda como o sapato) e o
chefe assume a direção (decisão motivada por ele para que ela
assuma o novo cargo e que a deixa mais segura).
Entendendo a mensagem simbólica, Carolina teve o
domínio para rever seu verdadeiro desejo, e sua resolução pode
ser amplamente examinada, o que a levou a aceitar o novo
cargo.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma


alma humana, seja apenas outra alma humana.
Carl Gustav Jung.

A entrevista é a arte de buscar a pessoa, de descobri-la e


também aprender com ela e, neste trabalho procurei destacar a
importância e influência dos sonhos quando trazidos à luz na
292
sessão analítica, com sugestões de como conduzir uma
entrevista de forma a se aproximar da compreensão e
significação das imagens oníricas através da história de vida do
paciente e seus símbolos pessoais.
Assim, com base nos estudos que realizei e diante da
subjetividade que os sonhos nos trazem, permito-me concluir
que embora existam teorias diversas amparando diferentes
enfoques técnicos, cabe ao analista assumir o manejo que
melhor se integre a sua bagagem de conhecimentos e seus
traços pessoais.
Compartilho três proposições para o embasamento e
formulação de boas perguntas em uma entrevista a respeito dos
sonhos, que permitam a investigação, avaliação e o
acompanhamento da evolução do tratamento: conhecimentos
teóricos, sensibilidade e flexibilidade do analista.
Concluo desta forma que o extremismo do analista que
se detém em específica teoria e ao fechamento das
interpretações, sem se permitir a ampliação de seu campo de
atuação, pouco contribuirá em prol da saúde psíquica de seu
paciente, pois teorias, métodos, estratégias, questionamentos
podem funcionar como ferramentas importantes auxiliares na
prática clínica, porém, independente das fórmulas que por
ventura se venha a utilizar, o analista necessita desenvolver
novas formas de pensar e atuar ao se aproximar dos
significados metafóricos do paciente.
Atribuir a cada símbolo onírico um significado fixo
seria o mesmo que não reconhecer as particularidades de cada
um, não se levar em conta o contexto de vida do paciente e
aprisioná-lo a uma não interpretação de sua existência. Cada
símbolo trazido no sonho tem um significado rico e diferente a
cada sonhador, e a oportunidade de compreensão e aplicação
destas mensagens à sua vida desperta pode significar um
crescimento em todas as áreas de sua vida, pois a análise

293
também se faz através da interpretação dos sonhos se
soubermos utilizá-los de maneira eficaz.
Assim, quando trago sugestões a serem utilizadas na
sessão analítica, não trago um manual preconcebido para ser
usado sem contestações, trago a possibilidade de enriquecer
este universo que acontece dentro da sessão analítica com
orientações para uma entrevista bem sucedida que, se usadas
com habilidade, coerência e flexibilidade, poderão oportunizar
ao paciente, instrumentos que o motivem a romper as barreiras
desconhecidas.
Muitas vezes nos condicionamos a situações por
desconhecermos nossas potencialidades, nossas habilidades, do
quanto somos capazes. Decifrar os enigmas de nossas
mensagens mais profundas, nossa essência, nossas emoções,
nossos sonhos, pode ser o resgate de quem realmente somos.

BIBLIOGRAFIA

BOSS, Medard. Na noite passada eu sonhei. São Paulo:


Summus, 1979.

DELANEY, Gayle M.V. O livro de ouro dos sonhos.


Tradução Clara Fernandes. Rio de Janeiro: Pocket Ouro, 2010.

FORRESTER, John. A interpretação dos sonhos. Tradução


Vera Ribeiro – Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.

FREUD, Sigmund. A interpretação dos sonhos. Tradução de


Walderedo Ismael de Oliveira, Rio de Janeiro: Imago Ed.,
2001.

FROMM, Erich. A Linguagem Esquecida, uma introdução


ao entendimento dos sonhos, contos de fadas e mitos. Rio de
Janeiro, Zahar, 1966.
294
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de Maria Lúcia Pinho. – 2. ed. especial.- Rio de Janeiro: Nova
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histórico, teorias e técnicas da psicanálise. São Paulo: EI-
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Prefácio: Françoise Dolto; tradução Roberto Cortes de Lacerda
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PEREIRA, Salézio Plácido. A Interpretação dos sonhos.


Santa Maria: Ed. ITPOH, 2012.

______________________. A Teoria e a Prática Clínica de


Freud a Fromm. Santa Maria: Ed. ITPOH, 2009 a.

______________________. As Interfaces da Clínica


Psicanalítica. Santa Maria: ITPOH, 2009 b.

______________________. Transformação através da


Psicanálise Humanista. Santa Maria: Ed. ITPOH, 2011.

______________________. & FRONER, Carla; e Outros.


Psicanálise Humanista: Teoria e Clínica. Santa Maria: Ed.
ITPOH, 2010.

______________________. Teoria e Técnica da Psicanálise


Humanista. Santa Maria: Ed. ITPOH, 2012.
295
______________________. A complexidade do Inconsciente
na Psicanálise Humanista. Santa Maria: Ed. ITPOH, 2008.

_______________________. A clínica das emoções e pulsões


na psicanálise humanista. Santa Maria: Ed. ITPOH, 2011.

SHARPE, Ella Freeman. Análise dos Sonhos Um Manual


Prático Para Psicanalistas. Coleção Psicologica Psicanalitica
- Direção de Jayme Salomão- Tradução de Christiano Monteiro
Oiticica. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda, 1971.

ZIMERMANN, David E. Manual de técnica psicanalítica:


uma re-visão. Porto Alegre: Artmed, 2004.

Sites pesquisados:
http://www.brasilmedicina.com.br/noticias/_check_printnot.asp
?Area=3&Cod=40 pesquisa em 16.09.2012

296
A IMPORTÂNCIA DA TEORIA HUMANISTA
EXISTENCIAL PSICANALÍTICA E A LINGUAGEM
CORPORAL DOS SONHOS

Maria Izabel Burin Cocco

Resumo: O presente artigo tem a intenção de elucidar a


importância da teoria existencial psicanalítica e a linguagem
corporal. A abordagem existencial é chamada fenomenológica,
e estuda os fenômenos tais como se apresentam em nossa
experiência consciente, ou seja, a revelação daquilo que mostra
a si mesmo. O real como ele é, e não a partir de nossas ideias
ou suposições a respeito dele. Já a abordagem do trabalho com
os sonhos quando orientada para o corpo, tem por base a
linguagem corporal. Durante o sono os sonhos não são apenas
histórias, são também padrões míticos que se misturam com
nossas experiências corpóreas, e podem causar dor de cabeça,
dor de estômago, nervosismo, excitação e despertar sexual,
assim como, doenças graves como o câncer, doenças do
coração e outras. O trabalho com os sonhos orientado para o
corpo nos permite integrar nossos sonhos às experiências
corporais, e compreender o que está por detrás de nossos
sintomas físicos.

Palavras-chave: Existencial. Corporal. Fenomenologia.


Sonhos. Doença.
.

297
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Muitos filósofos e psicanalistas europeus conhecidos


como existencialistas adotaram a prática fenomenológica de
investigação, por ser aberta, objetiva, isenta de preconceitos e
ter uma maneira cuidadosa de abordar a compreensão dos
fenômenos. Quando sonhamos estamos abertos a três
possibilidades da existência. Primeira, quando estamos
despertos reconhecemos a possibilidade da existência do que
sonhamos. Segunda, quando desperto decidimos desprezar
aquelas possibilidades existenciais que estão relacionadas e
reconhecemos em nossa vida em vigília. Terceiro, enquanto
sonhamos estamos preocupados coma nossa própria visão
confusa, incerta e pequena, que ao despertar, deixamos de ver,
não reconhecemos.
Aristóteles já tinha a ideia de que os sonhos e os
processos corporais estavam relacionados entre si, e que o seu
intérprete poderia predizer a doença e descobrir curas por meio
deles.
Para entender melhor vamos dividir os métodos de
trabalho com os sonhos baseados no corpo em quatro
categorias, tomando por base teórica o livro Decifrando a
Linguagem dos Sonhos de Krippner, (pp. 80-85.).
São elas:
1. Base filosófica;
2. Sistemas analíticos;
3. Sistema processual;
4. Sistemas empíricos;
Na Base filosófica a interpretação dos sonhos e feita
baseada em crenças filosóficas, religiosas ou cosmológicas.
Sacerdotes babilônicos, assírios e egípcios, como antigos
médicos chineses e indianos, por exemplo, interpretavam
sonhos dizendo que, se pessoas mortas, se achassem presentes
298
significava doença ou morte próxima para o sonhador. A
cultura clássica chinesa utilizava o sistema cosmológico, a
interpretação dos sonhos era como um dos muitos métodos de
diagnóstico; acreditavam que sonhos onde apareciam lágrimas
e tristeza indicavam doença nos pulmões. Vimos que nos
exemplos acima, a interpretação a respeito do corpo baseia-se
em no sistema filosófico, não considerando a experiência física
real do sonhador.
Nos Sistemas Analíticos o sonho é dividido em partes, e
criam uma nova interpretação recíproca entre elas. Esta prática
era muito utilizada por C.G. Jung. Freud e Adler aplicavam, em
algum momento, a análise dos sonhos às condições físicas do
paciente. Já Reich e Lowen costumavam utilizar
constantemente as experiências corporais dos seus pacientes,
porem não utilizavam seus métodos de focalização, e a terapia
Junguiana da Dança-Movimento.
O Sistema processual inicia-se com as experiências
psicológicas e físicas do sonhador, para a partir deste fato, ver
de que forma interferem na vida diária dele.
Os Sistemas empíricos estão baseados no corpo, e o
trabalho com os sonhos incluindo as teorias e métodos levam a
uma interpretação e compreensão do mesmo pelas experiências
físicas do sonhador e da expressão do conteúdo do sonho. O
sonhador revive conscientemente o sonho na experiência e no
comportamento presente.

2. A COMPREENSÃO DO ESTUDO DOS SONHOS A


PARTIR DO EXISTENCIALISMO

Muitos estudiosos como analistas, psicólogos e


psiquiatras estão envolvidos nesta tarefa de escutar e interpretar
os sonhos. O valor desta escuta se refere sobre o conteúdo e
seus significados dos símbolos e imagens, mas ao mesmo
299
tempo muitos leigos ou pessoas interessadas procuram
entender e compreender o significado destas simbologias nos
sonhos. Atualmente o primeiro psicanalista a estudar o sonho
de maneira cientifica foi Sigmund Freud, então este gênio
conseguiu elaborar um método para interpretar as imagens e
seus significados.
Para Freud, tanto nos sonhos quanto nas fantasias os
símbolos ali produzidos tinham a ver com um desejo sexual. A
interpretação nos permite conhecer o símbolo e em seu
conteúdo encontramos a mensagem que deve ser explicada.
Alfred Adler falava do lado positivo dos símbolos nos
sonhos, realçava os valores, potencialidades, talentos,
capacidades do ser humano. “Freud, Jung, Fromm, Reich,
Adler sempre interpretavam os seus sonhos e dos pacientes
baseados na sua relação intrínseca com o problema pessoal,
espiritual, humano, sexual, existencial, familiar”. (PEREIRA,
2012, p.17).
Jung desenvolveu o conceito de individuação para
atender a exigência da natureza humana, que só consegue
evoluir quando está seguro de que suas necessidades básicas de
sobrevivência estão atendidas, então surge o desejo da
realização pessoal.
Jung apesar de ter sido discípulo de Freud, discordou da
natureza sexual ou libido, também questionou o complexo de
Édipo. Freud sustentava sua teoria da psicossexualidade através
dos sonhos. Jung queria saber o que continha nestes símbolos,
quais as mensagens que poderiam estar ocultas, e quais seus
objetivos de estarem ali. Ele estava interessado em levar o
paciente a um estado de consciência, e quanto maior fosse essa
consciência mais condições teria de assumir sua identidade e as
“sombras”. Freud dizia que o processo de maturidade psíquica
passava por vários estágios do desenvolvimento sexual, fase
oral, anal, fálica, latência e terminava com a superação do
complexo de Édipo.
300
Para Jung no inconsciente está os instintos reprimidos,
desejos sexuais e também uma sabedoria milenar que são os
Arquétipos, uma inteligência capaz de trabalhar para equilibrar
as forças psíquicas, a fim de tornar conscientes as motivações
inconscientes, e utilizá-las a favor de seu desenvolvimento
pessoal. As imagens que apareciam nos sonhos e fantasias
eram representantes destes “arquétipos”, e após sua
interpretação era possível ver se o paciente estava no caminho
de sua cura.
Vamos considerar os dois caminhos apontados pelos
psicanalistas existencialistas e freudianos, seus
questionamentos e formas de interpretação. Os existencialistas
dizem que nenhuma teoria é importante e deixam de fora
qualquer conceito sobre os símbolos nos sonhos.
Dependendo da forma como o analista realiza a
interpretação, pode aparecer nas palavras um ato de fé, o que
caracterizaria uma religião. Por isso o ato de interpretar o
sonho deve ser feito por pessoas muito bem preparadas, com
formação específica, seguir o caminho científico, deixar de
lado todos os tipos de esoterismos, misticismos, porque ao
invés de resolver a ignorância da pessoa, acaba alimentando
ainda mais o seu fanatismo pela forma como interpreta a sua
existência.
Os sonhos apontam para o ser humano o início de um
processo de autodescoberta pessoal, viver corajosamente e de
forma produtiva, superando os medos silenciosos e realizar
grandes projetos na vida. “O sonho é o raio x do espírito
humano, não existe modo de alterar ou modificar a verdadeira
compreensão sobre a forma como pensamos e nos
emocionamos”. (PEREIRA, 2012, p. 23).
Estudiosos da Psicanálise aprofundam-se nesta
linguagem simbólica e imagística dos sonhos, é através dos
mitos e símbolos que conhecemos as imagens e podemos
entender o significado inconsciente de seus desejos. Os mitos
301
podem ser de origem cultural, étnico, institucional, familiar e
pessoal. O conteúdo do mito é simbólico e não pode sofrer
nenhum julgamento ou preconceito. Ao analista não interessa
se é real ou falso, e sim compreender como ele funciona em
relação aos objetivos e realização do paciente. Os mitos
pessoais estão emaranhados nas neuroses gerando um conflito
emocional entre a privação e compulsão, o sucesso e o
fracasso, e nos permite compreender que este processo
interpreta a criação ou a destruição.
A intenção dos sonhos não é de tomar nenhuma decisão
e sim é revelar segredos que após a sua interpretação podem
ajudar o paciente a fazer escolhas de seus valores e virtudes,
como: justiça, verdade, igualdade, ternura, amorosidade,
honestidade, sinceridade permitindo-lhe elaborar nova filosofia
para sua vida.

3. ERICH FROMM E A EXISTÊNCIA

Erich Fromm não concordou em alguns pontos na teoria


de Freud, mas passou a valorizar aqueles descobrimentos, ele
não concordava que fosse substituída a filosofia humanista por
uma filosofia material mecanicista. A tese central da
psicanálise humanista diz que o ser humano em sua condição
humana existencial deve ser analisado em sua totalidade
subjetiva e objetiva.

A finalidade da psicanálise humanista de


orientação social consiste em explicar as
atitudes psíquicas e as ideologias
socialmente pertinentes e em especial suas
raízes inconscientes em termos de sua
influencia das condições econômicas sobre
as ânsias da libido. (FROMM, 1971,
p.182).

302
Erich Fromm fazia grande crítica à psicanálise
Freudiana, principalmente quando Freud se referia à concepção
de homem como uma ideologia, dizendo que o mesmo produto
de certos desejos, pulsões, impulsos, instintos, interesses e
necessidades e que encontravam expressões nas
racionalizações.
A psicanálise hoje deve dar-se conta de que o homem
em sua totalidade é constituído de fatores que influenciam
direta ou indiretamente suas atitudes e comportamentos
conscientes ou inconscientes.

Um homem quando está na existência não


traz consigo somente uma carga hereditária
ou um corpo físico, no seu íntimo está
presente uma existência subjetiva
incorporada por representações,
internalizações, identificações, vivencias,
injustiças, alegrias, fracassos,
etc.(PEREIRA, 2007, p. 121).

O ser humano ao iniciar sua trajetória na existência


encontrará muitas incertezas em suas escolhas. A primeira
decisão será sair do isolamento, do individualismo, e procurar
no meio social e cultural relacionar-se com pessoas para refazer
e alcançar sua realização pessoal. Na medida em que faz
escolhas, inicia-se um processo de reflexão, onde junto com o
racional surgem as emoções de raiva, ódio, amor, aversão,
medo. São emoções resgatadas de seu passado e incorporadas
ao ser como representação subjetiva. Neste “ser” encontra-se
duas forças, uma é de propagar o amor e a vida, chamada por
Erich Fromm de “biofilia”, a outra é de propagara vingança,
uma tendência a destruição, uma espécie de desejo de morte,
chamada “necrofilia”.
A biofilia carrega uma sensação de bem estar, um
sentimento de satisfação, alegria, um caráter de bondade,
303
colaboração, cooperação, solidariedade, sua determinação é
sempre semear e transportar a paz, a justiça a toda a
humanidade. Enquanto que a necrofilia é uma força emocional
que quer destruir, transforma o ser num indivíduo amargurado,
revoltado, indignado, que busca a sua realização na destruição
do outro, tem a missão de extravasar o seu ódio, raiva, inveja,
não consegue admitir a existência do bem, do afeto e do amor,
ao contrário sua missão é propagar a destruição.
Na necrofilia existe um grande prazer no “desejo de
morte”, é uma possessão de raiva e ódio. Esta compulsão é
inconsciente e tem sua origem numa forte rejeição e sentimento
de injustiça sofrido quando estava sobre os cuidados de seus
pais, familiares ou cuidadores. Esta experiência de abandono,
de sofrimento de solidão de negligencia é até o momento a
única verdade que experimentou.

Esta experiência na existência desenvolve


aversão, negação, pessimismo, revolta,
descrença, deste modo seu ser fecha-se
para o mundo afetivo, ao amor e para as
relações. Isolado das relações afetivas
acaba se tornando frio, distante, racional,
calculista, não consegue demonstrar
nenhuma reação afetiva, no fundo do seu
inconsciente paira o medo do abandono e
da rejeição. (PEREIRA, 2007, p. 123).

Pelo que tudo indica, as opções tomadas pelo ser


humano em sua existência sejam elas conscientes ou
inconscientes, influenciam em seu estado de saúde. “A
existência mostra que ‘todas as paixões’ e desejos do homem
normal, neurótico, psicótico, são tentativas de resolver este
conflito essencial”. (FROMM, 1990, p. 41).
E é por isso que todo o conflito facilita seu
esclarecimento na convivência com outras pessoas, todo seu
304
conhecimento emocional e cultural vai se confrontar com
momentos de bondade, maldade, ternura, agressão,
desencadeando uma série de emoções que dependendo do seu
estado emocional, poderão ser incorporadas a partir daí em sua
representação de mundo.
O ser humano vive num contexto social, cultural,
educacional, religioso, político, econômico, e estes fatores
acabam influenciando a formação do caráter social do “ser”,

São estas vivências de maus tratos, de


violência, de agressão, de sofrimento, de
traição, de injustiça, de alienação, de
ignorância, de fracassos, de decepções, ou
ao contrário, de amor, de cuidado, de
justiça, de conhecimento, do ambiente
familiar, do carinho, do afeto, da boa
alimentação, dos valores vivenciados, do
exemplo dos adultos, sem dúvida será
decisivo na formação do tipo de caráter.
Este caráter tem seu processo de formação
na existência juntamente com todos os
outros fatores vivenciados e assimilados
pelo “ser” na luta pela sua sobrevivência
psíquica e física. (PEREIRA, 2007, p. 124).

As condições dignas ou não que a sociedade oferece é


que vão determinar o caráter do ser humano e sua saúde
emocional. Uma pessoa de caráter bom pode transformar-se
numa pessoa muito má, e outra de caráter mau, criminoso,
violento pode tornar-se bom, isto vai depender das opções, das
escolhas e das experiências que vai receber do seu meio social.
O ser humano encontra-se neste grande dilema e precisa
fazer sua escolha ou para o bem ou o mal, a justiça ou injustiça,
o amor ou o ódio. Aqueles que optam pela perversidade, a
mentira, o crime, o que vivenciou no seu meio social, terá
305
marcado em seu rosto a tensão, angústia, distanciamento,
insatisfação, desconfiança, são marcas do peso sobre seu
espírito. Para suportar precisa dos psicotrópicos, do álcool, das
brigas, fantasias, ou desenvolve compulsões ligadas ao sexo,
drogas, etc, para acalmar o vazio na existência e impedir que
este estado de sofrimento chegue ao nível da consciência.
O tratamento psicanalítico tem confirmado em
pacientes o desaparecimento por completo de muitos sintomas.
Outros fazem a experiência de conhecer-se profundamente e a
partir dai tornaram-se mais sensíveis, honestos consigo mesmo,
com condições de aproximar-se mais da realidade e afastar-se
das fantasias que viviam.

A análise exige disciplina, disposição,


decisão, esforço, dedicação, coragem,
porque sem estas condições motivacionais
da parte do paciente nada se tornará
possível, não basta somente fugir de si
mesmo, propondo o autoengano, antes
disso necessita um grande esforço para
superar as frustrações, as decepções, os
sofrimentos, porque caso contrário nunca
alcançará nada na existência. (PEREIRA,
2007, p. 128).

Para Fromm (1985) a análise é um lugar onde se


vivencia as emoções. Se a análise segue as racionalizações
intelectuais, os significados e as interpretações podem explicar
tudo, mas se não entrar nas emoções nada vai ser transformado.
A análise é um trabalho exigente, para pessoas corajosas e
determinadas, e aqueles analistas que tentam facilitar o
processo estão indiretamente também se enganando.

306
4. A NATUREZA SIMBÓLICA DOS SONHOS NA
PSICANÁLISE

Hoje, mais que nunca, ficamos perplexos diante de um


sonho, aqueles que estão petrificados no racionalismo,
desprezam e criticam a elaboração secundária destes símbolos.
Mas alguns intelectuais desconhecem o verdadeiro sentido e
significado destes sonhos na vida do sonhador, porque quem
não conhece o método de interpretação, e por isto pode
cometer o equivoco de criticar sem antes conhecer a ciência
psicanalítica.
Todos os sonhos têm algo em comum, a linguagem
simbólica. Que é uma língua que expressa as experiências
íntimas, os sentimentos e pensamentos são mostrados como se
fossem experiências sensoriais vindos do mundo exterior.
Cada sonho é uma história em particular, não interessa
quem está no sonho porque a pessoa que sonha é o autor,
diretor e ator desta história. A missão do analista é recuperar o
paciente, e isto é possível através da associação livre destes
símbolos com a sua vida, qual a mensagem a ser decifrada que
poderá mostrar o recalque ou o processo de dissociação.
Tamanha será a satisfação para ambos, paciente e analista,
quando através da interpretação, descobrirem o núcleo por
onde passa e se perde essa energia que é a neurose.
Nos símbolos podem estar imagens disfarçadas pelo
processo de deslocamento e condensação, por isto o analista
deve estar preparado para perceber o núcleo da neurose
escondido e disfarçado nestas imagens. Nem sempre o sonho é
a manifestação de um desejo sexual, pode ser que esteja
fazendo referencias a realização profissional, econômica,
afetiva, amorosa, mas o que sempre aparecem são os núcleos
dos complexos do medo.
307
Sonhar é um recurso saudável porque através dele o
inconsciente nos permite tornar consciente das recordações
latentes, e que neste processo de elaboração secundária vamos
descobrir as emoções e pulsões reprimidas, e que estavam
esquecidas pelo pouco interesse da pessoa na busca de seu
autoconhecimento.

Um sonho é capaz de produzir mensagens


com diversos significados latentes,
independente dos símbolos, todos os
sonhos têm uma mensagem ao produtor do
sonho. O sonho é como a elaboração de
uma obra teatral, primeiro a energia
psíquica produz os personagens,
desenvolve um texto, escolhe a temática,
esconde um segredo atrás das máscaras
destas “personas”, e depois assume
atitudes contraditórias e incoerentes
misturadas nas suas condensações.
(PEREIRA, 2009, p. 174).

O que um sonho busca é um caminho para encontrar-se


com sua natureza. Esta inteligência da vida percorre as
memórias que guardaram as angústias, o desespero, a
ansiedade de experiências desumanas e segredos guardados a
sete chaves. O sonho é o esclarecimento destes conteúdos entre
fantasia e realidade. As imagens surgem para esclarecer onde a
energia emocional que está camuflada, através dos mecanismos
de defesa e por isso impossibilita o potencial criativo para
utilizar a favor de si mesmo.

308
5. A IMAGEM QUE ESTÁ NOS SONHOS NUTRE
OS SENTIMENTOS E EMOÇÕES QUE DEPOIS SERÃO
SOMATIZADOS

O sonho informa o paciente o que se passa no seu


íntimo, avisa que há um parasita sugando sua energia psíquica
para se alimentar e se manter como um sangue suga que se
nutre da energia alheia. Esse é o superego que acha uma forma
de refazer e conduzir as gratificações infantis e doentias que se
formaram através da educação e se organizaram nesse vínculo
simbiótico doentio.
É através do sonho que as doenças e situações perversas
do paciente, assim como seus vínculos patológicos se revelam.
O analista deve interpretar essa simbologia ligada ao ser,
indicando a causa externa que origina as doenças imaginárias.
Essas imagens inconscientes possuem informações precisas e
seguras do psiquismo, mas somente poderão ser diagnosticadas
através de uma análise científica, madura, com muito
conhecimento e domínio da teoria e técnica psicanalítica.
As informações que o sonho traz são em forma de
símbolos que após sua interpretação de acordo com as imagens
que se apresentaram, deve mostrar o complexo operador do
problema que pode ser sobre o próprio paciente, como de
pessoas com quem ele convive. Estes símbolos servem para
ajudar o paciente a tomar consciência de sua sombra, ou seja, o
seu “outro eu” internalizado, e que a pessoa reconhece como o
oculto, o estranho, que está lhe conduzindo para a
autodestruição ou ao contrário, aparecem qualidades que ele
não conhecia e que nunca foram exploradas.
Não existe o mágico ou o extraordinário, e sim uma
inteligência emocional capaz de buscar em nossas heranças

309
hereditárias o que já existe e foi criado pelo ambiente social,
pela educação familiar e pela escola.

O autoconhecimento é a medida certa para


o doente tomar consciência de seus
defeitos, para que na vida as decisões
sejam acertadas. A pessoa deve construir-
se em autonomia e liberdade de decisão,
possibilitando uma vida psicoemocional
harmoniosa, que não gire em torno da
doença. (PEREIRA, 1998, p. 58).

Quando o psicanalista faz a interpretação do sonho,


utilizando as imagens e aparências falsas, para facilitar ao
paciente se enxergar, ele pode resistir, negando “não sou
assim”, mas isto é porque este conteúdo não vem de nenhuma
outra pessoa e sim dele próprio. Não é de seu eu exterior, que
até pode fingir não ter defeitos e sim do seu eu interior, que é
capaz de ver todos os erros e problemas que o paciente não
admite. Vimos, então que não existe a possibilidade de
manipular os sonhos, porque estão dentro de nós, eles são a voz
da natureza humana.
Precisa-se exatamente que os psicanalistas façam uma
interpretação correta das imagens que os sonhos usam para se
expressar, não pode ser fortalecidos por racionalismos, mas
pela informação correta da natureza de sua simbologia.
(PEREIRA, 1988, p. 58).

6. DOENÇAS PSICOSSOMÁTICAS E SUA


FENOMENOLOGIA NOS SONHOS

A psicanálise estuda as motivações, pactos e


compromissos que estão inconscientes e carregados pela
emoção ou pulsão de vida ou de morte. As defesas do
organismo ficam ineficientes, perante a existência de um
310
trauma, uma energia esta contida em forma de raiva, mágoa,
ódio, dor, pois possui o poder de alterar a fisiologia de um ou
mais órgãos do organismo, portanto, entende-se que a doença
não está separada do mundo dos afetos e das emoções. Esta
realidade que comentei acima pode ser encontrada no sentido
latente das imagens nos sonhos, em toda história o cenário é
feito de personagens que assumem um tipo de emoção.

O ser humano é um complexo de energia


emocional que interage através da sua
linguagem não verbal e simbólica, os seus
conteúdos inconscientes. Esta realidade do
psicossoma é uma complexidade unitária,
integrativa e indivisível. Então começamos
a entender que o psíquico é corpo e que o
corpo é psíquico, não existe divisão entre o
psíquico e somático. (PEREIRA, 2010, p.
120).

A psicanálise humanista interpreta a doença como um


fenômeno que interfere no estado de equilíbrio do ser humano,
modificando o estado fisiológico e causando mal estar. Por isto
é preciso compreender essas dinâmicas inconscientes que estão
atuando no mundo de suas emoções e que colaboraram para o
rompimento de seu equilíbrio vital. Nos sonhos podemos
constatar histórias que são verbalizadas e que trazem como
tema central a doença psicossomática, neste sentido aquele
órgão que está sendo agredido e violentado na sua
funcionalidade, está ligado a algum tipo de emoção ou pulsão,
que podem estar sendo bloqueadas ou reprimidas pela
insegurança e medos que acabam impedindo a pessoa de viver
com saúde.
A doença é um erro de comportamento, um desrespeito
à natureza. Através dos sonhos o inconsciente indica como o
indivíduo está relacionando-se consigo mesmo e se o mesmo
311
está feliz e realizado na vida ou não. A atitude de negar, omitir,
deturpar a realidade, indica uma neurose. Negar algo que o
paciente já sabe, mas não quer aceitar.
Uma das definições que se usa para neurose é que a
neurose é fazer a mesma coisa inúmeras vezes, repetidamente
esperando ter um resultado diferente. (CHOPRA, 2001, p. 19).
A doença é uma somatização dos problemas psíquicos. O
paciente quando nega suas atitudes, não quer tomar
consciência, cria uma problemática, esconde-se na doença,
torna-se vítima para atrair a atenção dos outros. Ficamos
doentes quando agimos contra nossa essência de vida. Adoecer
significa negar o Amor, a beleza e a bondade.
Expressões fisiológicas como nervosismo, angústia,
ansiedade, dores de cabeça, de estômago, na coluna vertebral e
muitas outras, é uma linguagem sintomática de frustração
existencial, estas experiências de dores e descontentamentos
podem atravessar as células do corpo. É por isto que o analista
deve decifrar esses códigos, ter uma visão clara dos símbolos
que estão baseados no corpo, porque cada imagem que aparece
representa suas crenças pessoais e mitos, só assim poderá
ajudar o paciente a entender o significado oculto destes
sintomas.
Para curar uma doença precisamos mudar a sua
memória celular – e isso é feito quando transcendemos todas as
emoções e pensamentos, e nos tornamos a testemunha
silenciosa do processo. (CHOPRA, 1999, p. 120).
Françoise Dolto em seu livro A imagem inconsciente do
corpo fala das doenças psicossomáticas também em crianças, e
diz que as crianças não podem falar diretamente sobre seus
sonhos e fantasmas como fazem os adultos nas associações
livres. O analista pede que a criança faça esta representação
através de desenhos e modelagens, são as associações da
criança que trazem a chave. É ela mesma que chega aperceber-

312
se como o lugar de contradições inibidoras para o poder
mental, afetivo, social e sexual de sua idade.

A imagem do corpo não é a imagem que é


desenhada ali, ou representada na
modelagem; ela está por ser revelada pelo
diálogo analítico com a criança. É por isso
que ao contrário do que se acredita em
geral, o analista não poderia interpretar de
imediato o material gráfico, plástico, que
lhe é trazido pela criança; é esta que,
associando sobre seu trabalho, acaba por
fornecer os elementos de uma interpretação
psicanalítica de seus sintomas. Ainda aí,
não diretamente, mas associado sobre as
palavras que diz. Levando-se em conta que
falar da imagem, da imagem do corpo, não
quer dizer que esta seja só da ordem do
imaginário, já que também é da ordem do
simbólico, sendo signo de um certo nível
da estrutura libidinal como alvo de um
conflito, que deve ter seu nó desfeito
através da palavra da criança. É preciso
ainda que ela seja recebida por quem a
escuta através dos acontecimentos da
história pessoal da criança. (DOLTO, 1992,
p. 9).

Conhecer-se em profundidade não é nenhum exagero


ou contradição, porque a finalidade principal é sair deste estado
de alienação e superficialidade que foi o que gerou e
estabeleceu a doença. Segundo Dr. Salézio Pereira em seu livro
sobre a interpretação dos sintomas psicossomáticos, diz que: A
pessoa que consegue sair das aparências, dos relacionamentos
doentios, da superficialidade das relações, indiretamente está
fugindo da hipocrisia e procurando sua saúde emocional,
313
porque está indo em direção a sua autenticidade e
originalidade. Nenhuma pessoa pode enxergar a saúde, o amor,
o sucesso, a felicidade como um fruto proibido. Portanto todos
os tipos de doenças psicossomáticas podem ser esclarecidas
quando temos consciência dos momentos de infelicidade ou de
outros acontecimentos que fizeram parte da formação de nosso
caráter.

7. LINGUAGEM CORPORAL NOS SONHOSDAS


MULHERES

Pesquisadores têm relatado que os sonhos de mulheres


grávidas são diferentes de mulheres não grávidas, as mulheres
grávidas sonham muito. A pesquisa mais antiga sobre esse
assunto foi em 1968 por Robert Van de Castle e por Peggy
Kinder, muitas outras se sucederam e todas apontam alguns
pontos em comum explicando porque os sonhos durante a
gravidez são diferentes, como: grandes alterações hormonais
presentes no corpo durante o sonho; lembram mais dos sonhos
porque dormem mais e acordam com mais frequência; refletem
a confusão emocional típicas de mudanças da vida.
As elevações hormonais durante a gravidez podem
causar acessos de depressão, de euforia, crises de choro, e
muitas mudanças no estado de espírito principalmente no
primeiro trimestre. Cada trimestre é acompanhado pelas
diferentes mudanças físicas tanto para o feto como para o corpo
da mãe, todas essas mudanças e preocupações irão se refletir
em sonhos consistentemente semelhantes.
Os temas dos sonhos na gravidez fazem referência à
água, a animais, à arquitetura, e a acontecimentos passados.
Talvez as sonhadoras estejam imaginando o feto, a forma, a
aparência. Outro tema é sonhar com suas mães, isto pode ser
um símbolo delas mesmas como mães, ou uma informação
314
para a sonhadora que deve ter conflitos não resolvidos com sua
própria mãe, e de que deve fazê-lo antes que aconteça a
transição para a maternidade. Estas imagens mudam de
tamanho e de aparência medida que a gravidez evolui, talvez
seja a forma do sonho descrever o crescimento e o
desenvolvimento tanto do feto como do corpo da sonhadora.
Estudos mostram que pelos 40 por cento dos sonhos de
mulheres grávidas são mais carregados de ansiedade e medo do
que de outros grupos. São pesadelos, ao acordar elas estão
aterrorizadas e perturbadas. Outros sonhos apresentam
angústia, aparecem elementos hostis ou ameaçadores, desastres
ambientais, tempestades, incêndios, terremotos, catástrofes
incluindo mortes e enterros.
Os sonhos têm por natureza dramatizar, uma mulher
que não esteja grávida pode ver nos sonhos a imagem de seu
corpo como uma deformação ou como um objeto ou como um
animal onírico, roupas, estruturas arquitetônicas, comida,
máquinas ou elementos da natureza, que o simbolizam. Por
exemplo, sonhar com um prédio em chamas e este prédio é
assimilado pela sonhadora como sendo seu corpo, pode ser
uma metáfora no sonho, “estar quente”, ela experimenta uma
paixão corporal que a consome.
Durante o desenvolvimento normal, o corpo da mulher
se transforma passando pelas várias fases, infância,
adolescência, ciclo menstrual, virgindade, atividade sexual, da
concepção ao parto, amamentação, velhice, estas mudanças
corporais também se refletem nos sonhos. Todos os traumas
sofridos pelo corpo sejam por acidentes ou doenças são
também retratados nos sonhos. Todas as transformações que o
corpo da mulher passa, seja no tamanho, nas formas, na
sensação, nas emoções em função destas mudanças, são
reveladas pelas imagens que a mulher cria em seus sonhos.
Também podem aparecer nos sonhos das adolescentes
sensações corporais como: serem altas demais, baixas demais,
315
magras demais ou gordas demais, esporadicamente este sonhos
podem se repetir durante toda a vida. A experiência sexual de
uma jovem é rapidamente retratada em seus sonhos. Quando
muito precoce pode acarretar dor física, conflito e culpa. Em
geral são sentimentos a respeito do corpo que muda e cresce
que se refletem nas imagens dos sonhos adolescentes. Uma
mulher mais experiente sexualmente pode sonhar com
encontros sexuais, passa por um despertar fisiológico durante o
sonho e até experimentar orgasmos.
Os sonhos numa idade mais avançada diminuem porque
o tempo de sono da mulher mais velha é muito menor do que
quando tinha 20 anos, mais ou menos pela metade. O corpo da
mulher mais velha vai se fragilizando, aumenta a probabilidade
de fraturas, doenças e morte. Essas transformações físicas
também passam a ser assuntos de seus sonhos. Mesmo que ela
ainda tenha sonhos românticos, eróticos e agradáveis, muitas
imagens de perdas estão presentes. Sonhos de viagens e
cenários paradisíacos expressam esperanças de futuro além da
morte física.
Mulheres que fazem dietas restritivas para perder peso,
respondem a isso nos sonhos. Podem sonhar estar comendo
seus pratos preferidos e se sentindo culpadas por isso. Uma
senhora que estava a uma semana fazendo sua dieta sonhou que
suas calças lhe caiam do corpo por estar tão magra, parecia no
sonho que já estava tão magra como na realidade queria ficar.
Este sonho a encorajava a ir em frente com sua dieta. Outra
senhora ao contrário estava ganhando peso e após comer
diversos pratos muito substanciosos sonhou que via dúzias de
porcos, o que interpretava a voracidade, e seu mau
comportamento. Este sonho lhe ajudava como uma
advertência.
Mulheres que fazem abortos ou por necessidade
médicas, podem sonhar durante anos com o filho perdido,

316
podem ainda ter sonhos que tendem para a violência e a
destruição. Aparecem imagens de edifícios desmoronando.
Geralmente mulheres que sofrem abusos sexuais ou
estupros sonham com o seu molestador, as imagens envolvem
danos graves ao corpo da sonhadora, o tema mais comum é de
estar sendo atacada e resultar na sua morte.

Uma mulher estuprada por uma gangue


tinha sete anos de idade e contou que
sonhara naquela noite estar sendo sufocada
com cola branca. A infeliz criança tido sido
submetida a força, à cópula oral; a cola
branca no sonho simbolizava o sêmen.
Todas as sensações físicas experimentadas
durante o abuso – a incapacidade de
respirar ou a sensação de esmagamento –
repete-se, não raro nas imagens do sonho.
São típicos os sentimentos de impotência e
de terror. (GARFIELD apud, KRIPPNER,
1998, p.151).

As imagens que ocorrem nos sonhos durante uma


moléstia ou ferimento variam muito de acordo com a região do
corpo afetada. Mulheres que estão feridas costumam ver-se nos
sonhos com vestes esfarrapadas ou com pouca roupa, sonham
com objetos que não funcionam ou se quebram com facilidade.
À medida que seu corpo vai se restaurando, se curando, as
imagens dos sonhos vão se modificando, agora aparecem
comprando roupas novas e atraentes, o que para elas significa a
reintegração da sua imagem do corpo.
Para o analista curar uma mulher traumatizada significa
orientá-la no sentido de fazê-la deslocar-se de imagens
restritivas e destrutivas para o pólo aposto, onde encontrará a
expansão e a construção. Quando as imagens dos sonhos
exibirem figuras saudáveis, o analista deve ajudá-la a
317
reconhecer, enfatizar e honrar essas imagens de seu
crescimento interior.

8. SONHOS ERÓTICOS

Os sonhos eróticos podem apontar conflitos ou


advertências. Por outro lado esses sonhos podem ser uma
forma altamente prazerosa do sexo mais seguro. Quando uma
pessoa está tentando dormir, uma simples fantasia de satisfação
do desejo pode afastar o impulso libidinoso que aflora durante
o sonho. E certo é que o desejo sexual existe, quer queiramos
ou não que se manifeste em nossa vida. Aqueles que não
praticam sexo podem ter sonhos sexuais poderosos como
compensação da sua privação na vida em vigília. O cérebro que
dorme tem a capacidade de levar a efeito “sonhos secos” ou
orgasmos mentais, alucinações parecidas com orgasmos reais,
sem ejaculação. Os sonhos sexuais têm como meta a prevenção
do ato sexual na vida real. Podem ser pré-cognitivos no sentido
de prevenir uma tentação eminente em estado de vigília.
Os sonhos eróticos estão sempre adiante de nossos
pensamentos diários, eles podem nos dar acesso às percepções
internas mais claras, e de meses ou anos adiante do que apenas
as experiências do que vivemos acordados.
As imagens que estão nos sonhos eróticos são
metáforas de percepção e expressão menos defensivo, abertos e
mais sintéticos que nos levam à novas interpretações de coisas
importantes em nossa vida diária quando acordados.
Podemos aprender a explorar nossos sonhos sexuais
para corrigir concepções erradas, medos, inseguranças que
limitam a liberdade de viver uma vida sexual compartilhada e
criativa. É possível aprender a perceber o insight e tirar
vantagens dessas novas ideias que surgem enquanto se está
dormindo.
318
Os sonhos sexuais às vezes fascinam, nos deliciam, mas
também outras vezes nos embaraçam e até podem se tornar
assustadores, mas eles não surgem do nada e podem nos ajudar
muito se soubermos compreendê-los.
Os sonhos sexuais costumam ser diferentes das
fantasias sexuais. As fantasias são em geral eroticamente
excitantes, enquanto que nos sonhos sexuais às vezes nada têm
de erótico e podem nos causar surpresas, reviravoltas e suas
histórias podem ser muito complexas, podendo identificar
conflitos sexuais ou emocionais.
Quando estamos sonhando as imagens que aparecem
nos sonhos contam a história de como estamos nos sentindo a
respeito de nossa sexualidade e de nossas relações sexuais. É
muito mais que fantasias, os sonhos mostram como os
problemas surgiram, e nos dão a compreensão de como sair das
dificuldades.
Os benefícios em superar a timidez para explorar os
sonhos sexuais nos trazem recompensas imensas. Se nos
recusamos a ser abertos para assuntos sexuais, perdemos
oportunidades de revelar medos ocultos, entendimentos errados
e estamos ajudando a criar uma atmosfera social de segredo e
vergonha que pode ser do incesto ou estupro, e que além de
limitar o prazer, encoraja o desenvolvimento de um
comportamento sexual destrutivo.
Muitas pessoas não sabem falar sobre o que querem e
precisam, por isso acabam vivendo uma vida sexual restrita e
não aprendem a se comunicar com seus amantes. Pessoas
saudáveis podem agir de modo perturbador quando o assunto é
sexo. Outras pessoas mais sábias, corajosas, quando o assunto é
prevenção de doenças ou riscos emocionais relacionados ao
sexo, agem de forma muito frágil e tímida. Pessoas honestas se
contradizem, mentem com relação a sua saúde e
comportamento sexual. Pode acontecer ainda que pessoas
realmente muito boas, mas que têm uma insatisfação em
319
relação a suas questões sexuais, podem acabar destruindo
casamentos e famílias.
Os sonhos sexuais nos trazem a estrutura das vivências
passadas, das crenças, atitudes e emoções, e que está aparente
na pessoa através de sua autoestima, da forma como vive e
escolhe seus parceiros sexuais.
A doutora Gayle Delaney em seu livro sobre sonhos
eróticos relata muitos sonhos de paciente e também de
estudantes da Universidade da Califórnia, como por exemplo:
“Sonhos sexuais são maravilhosos. São livres, fáceis e criam
sensações maravilhosas. Não há riscos de gravidez, nenhuma
culpa em enganar alguém, nenhuma doença pode ser
transmitida, e de certo modo, satisfazem”. (DELANEY, 1994,
p. 25). Estes sonhos sexuais prazerosos podem levar a pessoa a
libertar-se de seus medos, vergonhas e ansiedades
desnecessárias.
Para as mulheres os sonhos eróticos quase sempre estão
relacionados ao grande amor de sua vida, ou amante, ou antigo
namorado. Sempre é destacado o romance, o elo emocional
mais do que o ato sexual. Relatam uma profunda sensação de
estarem sendo compreendidas, aceitas ou amadas de modo e
intensidade nunca experimentada na vida real desperta. Estes
sonhos podem ajudar as mulheres perceberem algo que em
suas relações estava faltando e não sabiam, como fazer isto
acontecer em suas vidas. Esta inspiração pode levá-las a
alcançar uma vida mais plena e feliz.
Para as mulheres os sonhos sexuais têm ênfase no
romance mais que no ato sexual. Descrevem uma entusiástica a
doce intimidade ou uma sensação de ser compreendida, aceita
ou amada, de modo e intensidade nunca experimentada na vida
desperta. Estes sonhos podem ajudar a identificar algo que
poderia estar lhe faltando e não estava sabendo como dar ou
receber em suas relações podendo ser inspiradores no sentido
de ter uma vida mais plena. Quando no sonho a mulher toma
320
iniciativa, isso vai ajudá-la a tomar mais consciência de seu
desejo sexual e ampliar sua sexualidade.
O tempo é um elemento importante nos sonhos
prazerosos das mulheres, ajuda a quem sonha ver que precisa
libertar-se do que impôs para si mesma de ser rápida, de
agradar, e aprender a seguir sua própria velocidade, podendo
até através do sonho criar uma fantasia que usará na vida
prática, imaginando que tem todo o tempo do mundo para
chegar ao orgasmo.
Sonhar com amantes famosos e desconhecidos está na
lista dos sonhos sexuais prediletos de muitas mulheres,
funciona como um massageador noturno do ego, estas
mulheres podem vivenciar o desejo de serem admiradas e
consideradas atraentes por um homem incrível.
Os homens precisam saber que com os sonhos sexuais
femininos eles podem resolver o problema de uma má
comunicação, aprender como satisfazer os desejos sexuais da
parceira, as necessidades dela, conhecer as dificuldades que ela
tem em expressar os seus desejos e ansiedades. Os homens que
estudarem os sonhos sexuais de suas mulheres poderão se
tornar um tipo de amante sintonizado física e emocionalmente
que é tudo o que elas querem.
As mulheres precisam saber que os sonhos eróticos
masculinos são um contraste do que elas desejam. Os homens
em sua maioria sonham com mulheres rapidamente acessíveis,
desinibidas, facilmente excitáveis e topam fazer tudo. Em geral
os homens dão menos importância aos sonhos do que as
mulheres, eles são mais resistentes em compartilhar suas
experiências intimas.
As mulheres podem aprender com os sonhos
masculinos, terem novas ideias, inspirações, serem mais
liberadas e entusiásticas depois de conhecer os sonhos quentes
dos parceiros. Os homens também podem ser tímidos quando o
tema é sexo. Escutar os sonhos sexuais do parceiro além de
321
abrir a mente se aprende a ouvir sem julgar. A demonstração de
que está interessada em conhecer e compreender o que ele
sente, quer, e a certeza de que não vai rejeitá-lo, terá um
amante mais feliz, espontâneo, intimo e com certeza irão ser
mais felizes.
Pesadelos sexuais ou abuso da família são tragédias que
carregam dores dilacerantes, por isso muitos adultos que foram
abusados na infância ainda se sentem envergonhados e têm
dificuldade de enfrentar isso na análise pessoal. Um dos
recursos são os sonhos que podem ajudá-los a florescer.
Os sobreviventes do abuso sexual são deprimidos,
ansiosos, com medo e vergonha, mais ligados a dissociação, a
somatização, disfunção sexual, distúrbios de sono, pesadelos
repetitivos, podem confundir sexo com agressão nos sonhos. É
importante lembrar registrar os sonhos assim que acordar para
evitar que se percam, e depois poderá aproveitá-los e explorá-
los para descobrir as causa e tratamento para sair deste
aprisionamento.

9. XAMÃS TRIBAIS

Os xamãs eram indivíduos dos povos da Ásia Central,


dotados de poderes sobrenaturais, eles tinham comunicação
com seus deuses, praticavam a religião e a magia, surgiram nas
sociedades tribais de caça, pesca e da colheita. Quando as
tribos desenvolveram a agricultura esse papel foi assumido por
outros membros do grupo, sacerdotes, feiticeiros, adivinhos e
curandeiros. Ainda hoje algumas influências xamânicas se
encontram na medicina nativa tradicional. Os xamãs são
homens e mulheres capazes de controlar muitas funções
corporais e atingir um grau de concentração superior a outros
membros da tribo. O trabalho com os sonhos faz parte das
tradições xamânicas e utilizado para curar membros de sua
sociedade. Muitos xamãs tornaram-se os primeiros mágicos,
322
curandeiros, intérpretes de sonhos, previsões do tempo, atores e
contadores de história.
Os xamãs recebem seu chamado de várias formas: pela
hereditariedade, por marcas de nascimento incomuns, por
terem se curado de alguma doença, por chamado de algum
espírito, compra ou furto do poder Xamânico, ou por sonho.
Muitas tradições xamânicas acreditam que a recusa do
chamado resultará em acidente grave, doença, ou insanidade.
Os sonhos dos iniciáticos são o desmembramento, a morte e o
renascimento.

Entre várias tribos norte-americanas, os


sonhos iniciáticos contem pássaros e
animais, com ursos, veados, águias e
corujas. A criatura do sonho ( que muitas
vezes se torna o animal de poder ou totem
do xamã) permite ao sonhador incorporar a
ele a sabedoria dessa criatura e iniciar o
treinamento xamânico. Entre os esquimós
Inuit, o xamã é chamado pelo fato de
sonhar com um espírito animal, que possui
o sonhador. Após despertar, este retira-se
da sociedade e começa a andar nu pela
região. Finalmente, o iniciado consegue
obter o controle sobre esse espírito e
celebra sua vitória fazendo um tambor Diz-
se que os sonhos com parentes mortos
marcam o chamado do sonhador entre as
tribos Wintu e Shasta da Califórnia. Entre
os Wirdadthuri australianos, o chamado
para curar vem amiúde através de sonhos
com o pai ou com o avô do neófito.
(KRIPPNER, 1998, p. 176).

Em um determinado grupo de índios algonquianos do


Labrador, através de seus rituais de dança, jejum, canto, toque
323
do tambor, do chocalhar, ingestão de drogas, transpirar,
procuram ativamente para encontrar os sonhos. Para outras
tribos quanto mais sonhos tiverem maior será o poder que
adquirirão.

10. PESADELOS

Para Freud, o pesadelo era um atrapalho para a sua


teoria dos sonhos. Primeiro ele sugeriu que era satisfação dos
desejos do superego, punição. Mais tarde disse que
representavam uma compulsão de repetição. Theodore Lidz
concordou com Freud e acrescentou que esses sonhos também
poderiam ser um “desejo ambivalente de morte”, seria o desejo
de buscar a morte ou fugir dela.
Freud quando tinha sete ou oito anos teve um sonho
onde o medo da morte figurou destacadamente. Este foi o
único sonho da infância que Freud relatou em suas obras e
cartas publicadas. “Um verdadeiro sonho de angústia”, que diz
o seguinte:

Foi um sonho muito vivido, e nele vi minha


querida mãe, com uma expressão
peculiarmente pacífica no rosto, expressão
de quem está dormindo, sendo levada para
o quarto por duas (ou três) pessoas com
bico de passarinho e colocada sobre a
cama. Acordei chorando e gritando,
interrompendo o sono de meus pais [...]
Lembro-me de que me acalmei de repente,
quando vi o rosto de minha mãe, como se
me tivesse sido preciso assegurar-me de
que ela não estava morta. Não me sentia
angustiado por haver sonhado que minha
mãe estava morrendo. A angústia pode ser
rastreada em direção a sua origem, quando

324
se leva em conta a repressão, a um anseio
obscuro e evidentemente sexual, que
encontrara expressão apropriada no
conteúdo visual do sonho. (GALVIN e
HARTMANN, apud KRIPPNER, 1998, p.
215).

Freud submeteu-se a interpretação deste seu sonho


trinta anos depois, e pelas associações apareceram desejos
incestuosos com sua mãe e também o medo de castração por
ter se excitado sexualmente ao assistir senas de relações
sexuais de seus pais, e ainda ter tido medo que sua mãe viesse a
sangrar e morrer em virtude disto. A origem deste sonho foi o
próprio complexo de Édipo de Freud. Este fato deu origem a
uma nova e surpreendente teoria psicológica.
Carl Gustav Jung também relata o primeiro sonho de
sua infância que ele conseguia lembrar, entre três e quatro anos
de idade, assim descrito no livro decifrando a linguagem dos
sonhos:

Um sonho que haveria de preocupar-me


durante toda a vida. No sonho, ele “ficou
paralisado de terror” e “acordou
transpirando e mortalmente assustado”. Era
um sonho no qual encontrou um falo
imenso, colocado sobre um trono
magnífico, numa câmera subterrânea
talhada na pedra, em que ouvia a voz da
mãe chamando: “Sim, olhe para ele. Esse é
o devorador do homem!” (GALVIN e
HARTMANN apud KRIPPNER, 1998, p.
216).

A diferença entre pesadelos e terrores noturnos: o terror


noturno é um despertar inesperado, entre as duas primeiras

325
horas de sono, e vem acompanhado de suores, um grito ou
pedido de socorro, movimentos corporais, e a pessoa acorda
aterrorizada. Em crianças pode desencadear o sonambulismo.
No pesadelo ou ataque de angústia do sono é um sonho
assustador, a sua manifestação se dá nas três últimas horas do
sono, não apresenta movimentos bruscos, nem sonambulismo,
os membros superiores e inferiores e o tronco ficam
paralisados temporariamente.

11. INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS ATRAVÉS DA


PSICANÁLISE HUMANISTA

Sigmund Freud (1856 – 1939), Carl Gustav Jung (1875


– 1961), Erich Fromm (1900 – 1980), foram os principais
estudiosos que desenvolveram o método de interpretação dos
sonhos da modernidade, descreveram o processo de atuação
inconsciente do mundo das emoções e pulsões. Freud utilizou o
método da interpretação simbólica focado na teoria da libido
sexual. Jung acrescenta os arquétipos, personas, sombras,
animus e anima, Erich Fromm introduz os mitos, os contos de
fadas e fantasias populares.
A descoberta do inconsciente foi no século IX e
também marcante a interpretação dos sonhos. Freud iniciou
pelo método de catarse utilizando a hipnose, para trazer à
consciência as emoções traumáticas que estavam reprimidas ou
recalcadas no inconsciente, e que perturbavam o corpo com
sintomas e doenças. A terapia da Hipnose trazia muitos
benefícios, porém Freud percebeu que direcionava para o que
o paciente deveria pensar e buscar. Então Freud decidiu
respeitar a liberdade do paciente e abandonou o método da
catarse e começou a escuta da história de vida, queixas,
sintomas e com isto introduziu a livre associação. O paciente
passou a ter mais liberdade e autonomia buscando nos sonhos
326
as verdades, repressões, segredos mantidos através de pactos
familiares. Quando consegui a liberação destas energias, o
resultado foi a cura dos sintomas e a solução de muitos
conflitos emocionais.
Freud prestava muita atenção às associações dos
pacientes, relacionava estes símbolos com os pensamentos e
emoções, ele percebia também que as transferências e
resistências estavam presentes na interpretação analítica. Dizia
que através dos sonhos eram reveladas as atividades
inconscientes, e que seus desejos teriam origem na infância.
Afirmava que o inconsciente é formado de emoções e
pulsões primárias ou secundárias, que sofriam um processo de
repressão e recalque por interferência de forças morais
implicadas no proibido e pecaminoso. As emoções e pulsões
reprimidas podem se tornar traumáticas porque a criança não
entende o que está acontecendo consigo mesma, desenvolve
muitas sintomatologias, e a única forma mais segura para
analisar e entender a transformação desta energia reprimida é
através dos símbolos e imagens do sonho. Os traumas
desenvolvem muitos tipos de disfarces para distorcer o
reconhecimento e significado do trauma ou fantasia.

As memórias são catalizadores destas


recordações de imagens que transformadas
em símbolos podem denunciar a existência
de uma neurose, graças a este processo de
deslocamento, condensação e elaboração
secundária, é possível perceber que aquelas
palavras, emoções, pulsões, podem
denunciar os segredos que permaneciam
soterradas pelo medo de aparecer à
consciência. (PEREIRA, 2012, p. 74).

Os sonhos sempre tiveram grande importância para


Freud, pois os mesmos apontavam soluções de problemas,
327
avisos, síntese e ainda outras informações que ajudavam a
entender os conteúdos simbólicos do inconsciente.
Quando o paciente vai relatar o seu sonho ele pode
esquecer ao acrescentar algumas informações, o analista
trabalha em cima do discurso apresentado pelo paciente, mas
precisa ter o senso crítico para perceber quais os desejos estão
escondidos neste discurso que pode ser de vitimização ou de
racionalização. Deve questionar se o discurso está sendo
coerente com seus desejos. Pode ser uma fantasia onde está por
trás a transferência do medo e resistências a mudanças.
Na teoria Freudiana a neurose se estrutura quando o
desejo sexual está frustrado. Esta pulsão procura satisfação
através da sexualidade. Como nossa cultura é monogâmica,
surgem as traições sexuais, envolvendo grande consumo de
energia psíquica, e aumentando as fantasias com relação a
traição, porque de um lado está aquele que busca a satisfação
pela raiva e pelo ódio, e do outro aquele que precisa ter
certeza de que não está sendo traído.
Na clínica Junguiana a neurose é uma compensação dos
desejos frustrados, em uma sociedade de difícil relacionamento
onde é preciso muito esforço e inteligência para realizar os seus
objetivos. Esses desejos não realizados acabam sendo
compensados nas figuras imaginárias dos sonhos.

O significado do sonho começa a partir do


seu tema central, e depois na interpretação
dos textos e seus contextos, desta
subjetividade de cada autor que está
envolvido nesta peça teatral. Ao ser capaz
de entender que todas estas “personas”
projetam suas “sombras” de um
inconsciente coletivo que precisa resgatar
aquela pulsão que está impedida de
realizar-se. (PEREIRA, 2012, p. 82).

328
O analista Junguiano interpreta o sonho de seu paciente
em quatro níveis, o contextual, pessoal, transpessoal e a
totalidade. Na contextualização dos símbolos e imagens, as
motivações inconscientes acrescentam diferentes “personas” e
suas “sombras”, e ai descobre a complexidade de interesses e
desejos que estão nesta rede e que obedecem ao princípio do
prazer, da realização e da satisfação.
No nível pessoal é quando todo o estado de euforia e
também de felicidade, ambas propagam-se para o coletivo. Em
essência possui uma linda energia e sua sensualidade faz com
que “anima” e animus”, motivem uma reação visceral e afetiva
àquelas relações que realmente encontram-se com a
totalidade de seu ser.
No nível transpessoal nada passa despercebido, a
consciência procura com mais profundidade conhecer os
fenômenos psíquicos que estão interagindo com o todo. O
Nível da totalidade nos surpreende porque essa pequena parte
que o sonho representa na existência está interrelacionado com
a totalidade da experiência.
A Escola de Psicanálise de Erich Fromm, procura
interpretar os sonhos com a ajuda da filosofia e de outras
ciências humanas, uma forma interdisciplinar para decifrar e
traduzir a realidade do inconsciente, Fromm estudava as
questões, históricas, sociais, culturais, econômico e político.
Parece ser a única escola de psicanálise que apresenta nova
proposta de interpretação dos sonhos e que está sustentada nas
relações sociais e políticas do homem moderno.
A Teoria Humanista estuda o ser humano na sua
totalidade, incluindo-o no contexto social, cultural, político e
econômico, seu simbolismo inconsciente é fruto de uma
sociedade que interfere na formação do caráter deste homem
que está envolto por um emaranhado de costumes, tradições,
mitos, desejos, consumo, que acaba direcionando ações e
329
crenças doentias e agressivas que acabam afetando seu
organismo.
Para este ser humano é imprescindível trabalhar e
sobreviver tanto fisicamente quanto emocionalmente, mas
muitas vezes sem que ele perceba se deixa corromper por suas
compulsões e interesses pessoais e egoístas, tornando-o um
homem egocêntrico e narcisista, com alto índice de stress para
se manter nesta sociedade capitalista e individualista.
Analisar os sonhos na psicanálise humanista é levar o
paciente a uma grande transformação, os sonhos são as
memórias de nossos ancestrais que estão presentes além do
estado diurno. Esta ligação inconsciente entre corpo e sonhos
remonta a história da humanidade.
Podemos através de uma nova experiência reviver o
conteúdo do sonho, pela criatividade e inovação das figuras
simbólicas, através da compreensão dos desejos destas
emoções, canalizar para a realização de seus objetivos.
O Cérebro encontrou através dos sonhos um caminho
para trazer a consciência às soluções dos bloqueios emocionais.
Porém os sonhos não resolvem o problema do sonhador, e sim
alertam para novos erros no futuro e respeitam a decisão do
sonhador, mesmo sendo contra a sua evolução e humanização.
O sonho está interessado e comprometido com o
desenvolvimento das potencialidades do ser humano, não tem
compromisso com sua cultura, moral, status, ideologia, ele sabe
avaliar corretamente os desejos da racionalidade humana e
sabe o que é saudável e imprescindível para o desenvolvimento
de sua humanidade.
O sonho possui uma sinceridade, coerência e defende a
vida e sua evolução, não interessa se os desejos pessoais, da
razão ou da natureza se chocam, ele busca a saúde e a
realização dos potenciais que estão na linguagem simbólica.
Quando a incoerência da consciência em conflito começa a se
repetir numa atitude destrutiva, as imagens latentes
330
transformam-se num estado de pânico para assustar e despertar
o sonhador deste estado de destruição e alienação. O sonhador
precisa de um psicanalista para ajudá-lo a dar sentido na
existência e saber que estes significados fazem parte da energia
da psique.
As pessoas que estão conscientes de suas emoções
podem evitar ações que as levem ao fracasso ou a falência, as
emoções manifestam-se em forma de raiva e ódio, com
personagens que não conseguimos resolver durante o sonho. A
psicanálise humanista mostra que nos sonhos é que está a
humanidade dos valores, virtudes, moralidade e que aparece
nos traços de caráter do sonhador.
Como os sonhos estão interessados na evolução
humana, trazem em seus símbolos as ideias de superação, do
potencial, da imaginação, da criatividade, do planejamento e, é
através desta riqueza de informações que estão nas emoções e
pulsões que desperta para viver com saúde e alegria.
Muitos sonhos trazem nas imagens os conflitos afetivos,
emocionais, econômicos pulsionais e mostram através de seus
personagens as ações erradas que podem ser a causa desses
sofrimentos, isolamento e impotência. O ser humano que está
insatisfeito, improdutivo torna-se insuportável porque esta
infelicidade o contagia e o deixa dependente de suas neuroses.
O sonho é uma inteligência que nos mostra a direção da
autonomia, do trabalho produtivo e do amor.

Com esta nova visão sobre a interpretação


dos sonhos na psicanálise humanista sobre
a natureza humana e das experiências
emocionais que viveu na infância, pode nos
ajudar a entender a origem de toda a
desumanidade. O aspecto mórbido e
necrófilo da atuação inconsciente das
pulsões podem ser compreendidos naqueles
desejos latentes e reprimidos, que
331
denunciam através de sua raiva e ódio a
necessidade básica de viver a experiência
do amor. (PEREIRA, 2012, p. 105).

Nos sonhos é possível a percepção dos núcleos


neuróticos que mostram a instabilidade emocional, as
depressões e outros estados delirantes e alucinatórios do
sonhador. Se o ser humano está dividido manifesta-se uma
tensão e revolta, ele precisa dar-se conta de desenvolver a
consciência e a criatividade para encontrar a forma de viver em
equilíbrio e em paz.
A história que se apresenta no sonho traz informações
precisas para saber se o sonhador está conseguindo resolver
seus problemas na existência. O analista precisa ver nos sonhos
se estão bem resolvidas as necessidades humanas de
relacionamento, transcendência, identidade pessoal e social,
caso não estejam o analista deve fazer a análise e interpretação
para o paciente.
Acreditamos que se estas necessidades estão
solucionadas, o paciente terá condições de criar vínculos
saudáveis e afetivos com as pessoas de sua convivência. Caso
contrário podemos observar nesta relação a submissão que é
uma forma patológica e a outra é a dominação, o poder a
qualquer custo.
Nos sonhos os símbolos mostram uma relação
sadomasoquista, este tipo de relacionamento que é uma
simbiose doentia, procura satisfazer o prazer sádico. Estas
pessoas fecham-se em si mesmas, procuram satisfazer seus
desejos de afeto, amor e sexo na dor e sofrimento. Eles
acreditam na normalidade desta relação, não conseguem
perceber que inconscientemente estão matando a vivência do
amor, porque renunciam outras amizades, sua autonomia,
liberdade e independência. Com o tempo isto termina em

332
violência e abandono, e ainda culpam os outros pela sua
infelicidade.
Erich Fromm chamava atenção para alguns pontos ao se
interpretar um sonho. O analista deve perceber as necessidades
existenciais que estão nos significados ocultos das imagens. Os
símbolos denunciam ações que impedem a evolução da
consciência humana. O desejo dos sonhos é evitar a alienação
que pode adormecer e neutralizar ações que ainda estão
inconscientes, mas que levariam à solução dos problemas
existenciais.
Os sonhos mostram que para desenvolver saúde e
felicidade é preciso conhecer-se profundamente e cuidar de seu
“espírito”. É preciso encontrar nestes símbolos os meios para
reconciliar-se consigo mesmo, buscar a sabedoria para
encontrar sentido em sua existência, mas primeiro é preciso
perdoar-se pelos seus equívocos, superar suas limitações, ser
verdadeiro, autentico e capaz de amar.
Quando na existência uma pessoa relaciona-se de forma
submissa, autoritária ou amorosa, em seus sonhos podem
aparecer símbolos que despertem o interesse nesta pessoa de
resolver sua dificuldade pessoal de relacionar-se consigo
mesmo, com os outros e com a sociedade. Muitos mesmo
percebendo este traço de seu caráter preferem permanecer
escondidos por detrás de uma seita, organizações, optam por
não responsabilizar-se pelas suas atitudes e submetem-se a um
poder autoritário.
Este é mais um exemplo de relacionamento sádico-
masoquista, onde a pessoa abre mão de sua autonomia e a
liberdade do ser, submetendo-se ao vínculo simbiótico com a
outra pessoa autoritária. Pode pensar que viver assim é
vantagem, não está percebendo que a gratificação na dor acaba
com sua potencialidade, autonomia e coragem. É um caminho
equivocado porque nunca pode satisfazer por completo sua

333
necessidade de amor, afeto, carinho, pode despertar a violência,
agressividade, frustração que é o resultado da falta de amor.
Quem vive neste estado de submissão torna-se inseguro,
com raiva de si mesmo, sente a necessidade de violentar-se,
procura no caminho da autodestruição a forma que acha mais
fácil, o suicídio. Para casos assim o antídoto é o amor, uma
emoção que oportuniza a experiência da comunhão, parceria,
intimidade, é possível viver com autonomia, liberdade e
integridade.
O analista humanista pode através da interpretação dos
sonhos, identificar e interpretar personagens que aparecem nos
símbolos como sendo os tipos de caráter do sonhador. Caráter
receptivo está sempre disposto a receber, ele é a vítima por isso
não oferece nada em troca, tornam-se cada vez mais
dependentes de outros, sentem-se perdidos quando sós, porque
se acham incapazes de fazer qualquer coisa sem auxílio.

Esse tipo receptivo aprecia muito a comida


e a bebida, tendendo a superar a ansiedade
e a depressão por meio delas. A boca é um
aspecto especialmente proeminente,
frequentemente o mais expressivo; os
lábios costumam ser entreabertos, como se
constantemente à espera de ser
alimentados. Em seus sonhos, ser
alimentado é um símbolo frequente de ser
amado; estar faminto, uma expressão de
frustração ou desapontamento. (FROMM,
1947, p. 66).

No caráter explorador os símbolos mostram uma pessoa


preocupada e desconfiada de si mesma, acredita que tudo pode
comprar com o dinheiro, amor, afeto, explorar é seu maior
objetivo, seu prazer está no engano, mentira e vitimização. O
tipo explorador não espera receber coisas dos outros como
334
presentes, ao contrário, toma por meio da força e da astúcia,
tendem a apossar-se e a roubar. Amam aquelas pessoas que
explicita ou implicitamente podem ser objetos promissores de
exploração, e ficam cheios daqueles que já extirparam a última
gota.

Não é mero jogo de palavras dizer que elas


amiúde fazem comentários “sarcásticos”
sobre outros. Sua atitude é matizada por
uma mescla de hostilidade e manipulação.
Todos são objeto de exploração e julgados
de acordo com seu grau de utilidade. Ao
invés da confiança e do otimismo que
caracterizam o tipo receptivo, aqui
encontramos desconfiança e cinismo,
inveja e ciúme. (FROMM, 1947, p. 67).

O caráter acumulativo aparece nos símbolos a


necessidade de reter, economizar, sempre ter, possuir mais, não
se preocupa e não investe em si mesmo a não ser em alimentar
o seu vicio e a sua adição. Considera seus familiares ou as
pessoas de sua convivência suas propriedades; devido seu
caráter rígido, teimoso e orgulhoso não permite que ninguém
evolua como pessoa, e todos lhe devem obediência. São
pessoas mesquinhas e avarentas, apegado às coisas materiais,
compra tudo com o poder de seu dinheiro, afeto, amor, sexo.
Sua segurança está baseada na acumulação e na poupança, para
ele gastar é visto como uma ameaça. O acumulativo mostra-se
inclinado à desconfiança e tem um senso particular de justiça
que virtualmente afirma: “O que é meu é meu e o que é seu lhe
pertence”. (FROMM, p. 69).
O Caráter mercantil é representado nos sonhos como
um grande comércio. No significado do símbolo aparece o
desejo de vender-se e pelo maior preço do mercado, com esta

335
sua ação desenvolve em si um vazio na existencial, raiva contra
si mesmo por não possuir uma identidade própria.
O analista deve procurar nos símbolos uma atividade
produtiva, inconsciente, e que esteja querendo tornar-se mais
humana e saudável. Ao sair deste senso comum a pessoa
consegue fazer do seu trabalho, um lugar de prazer, alegria,
realização, será capaz de viver com liberdade, conhecimento.
Os sonhos trazem esta possibilidade de que o amor pode ser
conquistado.

12. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O Estado de sonho tem seu alcance existencial limitado


comparado ao estar desperto, porém tem uma grande
importância através de suas associações, interpretações e
utilização no tratamento e cura do paciente.
Nos sonhos tendem a aparecer aquelas significações
que até agora não foram confrontadas na vida desperta, e essas
significações impressionam o sonhador. É no processo onírico
que os conteúdos vividos em vigília afloram com uma nova
roupagem, numa linguagem fantasiosa, e que exige muita
habilidade e auxílio do analista para interpretá-los.
O psicanalista humanista experiente interpreta os
sonhos através das imagens e símbolos, de modo a alertar o
sonhador de que em seu estado desperto, ele pode estar
vivendo de modo a não realizar seus desejos na existência.
Desta forma ajuda o paciente a se entender, a perceber, a tomar
consciência do modo que está vivendo, da relação consigo
próprio e com o mundo que o cerca.
A psicanálise humanista valoriza a abordagem
fenomenológica do sonhar humano por ser mais ampla e
objetiva, mas o sucesso deste empreendimento dependerá dos
analistas e pacientes levarem a sério o sonhar, como uma
336
metodologia mais ampla e integrativa da realidade humana na
existência.

BIBLIOGRAFIA

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interpretação dos sonhos, volume IV, Rio de Janeiro, Imago
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Santa Maria: Ed. ITPOH, 1998.

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338
A INTERPRETAÇÃO NA PSICANÁLISE HUMANISTA
DOS SÍMBOLOS E MITOS NOS SONHOS

Flávio Rodrigues

RESUMO: As instâncias mentais são invadidas pelas mais


variadas experiências oníricas quando estamos em estado de
sonolência, vindas das mais profundas camadas da mente. Ao
sonhar com um cão, um sonhador, poderá manifestar sensações
ambíguas sobre este animal. O processo central é o resultado
do afeto contido na imagem em que a percepção do sentido se
apoia para significar, fazendo das camadas profundas uma
fusão de sensações apoiadas em imagens. Para Sigmund Freud
(1932) os sonhos seriam a realização de um desejo. Já para
Jung (1995), nos sonhos poderíamos reviver nossa identidade
humana filo e ontogenética. Já para outros autores como Joseph
Campbel (2004), os sonhos estariam a serviço das energias do
corpo (A Libido). O inconsciente, para Erich Fromm (1960),
não é o lugar da falta de impulso ou de sentimento, mas sim a
ausência desta percepção. Desta forma, se objetiva, buscar
respostas na leitura dos símbolos e dos mitos. Interpretar as
imagens produzidas por sensações inconscientes (oníricas)
presentes na vigília causadora de sublimações, como também
de psicopatologias. Seja na interpretação das fantasias, das
artes plásticas, dos contos de fadas, sejam nas obsessões
maníacas, nos traços persecutórios, nos casos de ansiedade e
como também nos casos de compulsões. A psicanálise dos
mitos e dos símbolos pode ajudar na interpretação dos sonhos,
e nas variadas gerações fantasmáticas oriunda destas ficções.
Com isso pretende-se trazer o enfoque da Psicanálise
Humanista sobre as diversas formas, símbolos e mitos
individuais e coletivos da nossa sociedade, compreendida nesta

339
leitura como desterritorializada, de exposição, de consumo e de
capital.

Palavras-chave: Psicanálise Humanista. Símbolos. Mitos.


Sonhos. Psicopatologia.

1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Como interpretar as imagens que surgem em nossa


mente ao sonharmos? Como compreender as imagens e as
deformações da realidade experienciadas por nossa mente
sonhadora? É o que nos perguntamos ao acordar após um
sonho, que foi extremamente real na noite anterior.
As instâncias mentais são invadidas pelas mais variadas
experiências oníricas quando estamos em estado de sonolência,
vindas das mais profundas camadas da mente. Destas camadas
as imagens surgidas nos falam diretamente um discurso lógico,
e compreendido logicamente na mente consciente por mais
distorcido que possa se apresentar. O conteúdo manifesto traz
em si uma interpretação linear, embora fora de ordem, ou
poderíamos dizer em uma ordem onírica, percebida pela
racionalidade lógica como absurda.
Por outro lado, simbolizada pela experiência conhecida
e vivenciada. Seja esta, o conteúdo experiencial do dia anterior,
ou de tempos remotos da mente infantil que nos habita. Esta
interpretação não será refutada, já que de fato, a interpretação
terá como base a experiência imaginária construída a partir de
uma realidade ficcional produzida na mente do interprete.
Deste conteúdo manifesto, que faz todo sentido, pode-se ainda
construir diferentes metáforas, analogias e produções.
Hipóteses, que ainda assim seriam produções da consciência
manifesta no resultado objetivo da interpretação racional. Este
entendimento lógico da vida onírica nos dá uma representação
340
do que é capaz de produzir objetivamente o sonho, e quais
realizações pragmáticas poderão produzir dentro de uma
realidade social manifesta. Em que, as produções absurdas e
não explicáveis são simbolizadas.
Ao sonhar com um cão um sonhador poderá manifestar
sensações ambíguas sobre este animal. Por ter vivenciado uma
experiência negativa anteriormente com um cão de grande
porte, poderá reviver o medo evocado nesta imagem. Mas, por
nutrir afeição por seu cão doméstico e pela construção social de
cão-amigo e leal, poderá também evocar o sentimento de
carinho pelo fato de ter experiências positivas com este outro
cão. O manifesto deste sonho seria imagem do cão, as
sensações ambíguas, ambivalentes de carinho e aversão pelo
medo, como também, a questão social de cão-amigo e cão de
briga.
A lógica racional não deixará a imagem subverter os
limites das sensações entendidas como reais e projetará na
consciência, não o recalcado da sensação experiencial, mas sim
o símbolo criado para ratificar o possível entendimento. Sendo
assim, a própria interpretação partirá do conhecido pela
linguagem, mesmo que as deformações, as fusões e as
ambiguidades estejam presentes, pois a base pulsional do
sonho estaria, ainda, inconsciente para o próprio sonhador.
Até este momento estamos perseguindo algo que é
conhecido na vida de vigília. A vida contida nas imagens
oníricas é perfeitamente simbolizada, a partir de nossa
experiência, que embora contenha uma simbolização social, é
individual e experiencial. Porém, a completude das sensações
primárias que embasam tal simbolização, fica impedida de
torna-se clara e explicável, já que todo o conteúdo está em
composição e não poderá ser conscientemente significado.
O processo central é o resultado do afeto contido na
imagem em que a percepção do sentido se apoia para
significar, fazendo das camadas profundas uma fusão de
341
sensações apoiadas em imagens. O resultado é que aquilo, que
não pode ser compreendido pela percepção, não poderá ser
tornado consciente e desta forma será revertido em símbolo,
que por resistência e ou persistência se tornará mito.
Para Sigmund Freud (1932) os sonhos seriam a
realização de um desejo, e que este desejo estaria a serviço de
um núcleo de representações pessoais. Já para Jung (1995), nos
sonhos poderíamos reviver nossa identidade humana filo e
ontogenética, que dão vazão aos mais variados Arquétipos,
simbolizados através de uma leitura pessoal do inconsciente
coletivo. Já para outros autores como Joseph Campbel (2004),
os sonhos estariam a serviço das energias do corpo (A Libido)
e demonstrariam certa desarmonia, e a inconsciência desta falta
de harmonia psíquica transformaria tais conteúdos em mito
pessoal.
Estas imagens fantasmáticas estariam presentes tanto na
sublimação de uma obra de arte, como em traços esquizoides,
ou de qualquer outra personalidade. Podendo apresentar-se na
vida psíquica tanto de um neurótico, quanto de um psicótico,
ou de um perverso, que busca na imagem projetiva a
libidinalização e a saciedade que nunca poderá ser encontrada
na mente patológica.
Este estudo poderá trazer outro enfoque sobre as
diversas formas de mitos individuais e coletivos, da nossa
sociedade da exposição, do consumo e do capital. Buscando a
explicação dos símbolos e a problematização das variadas
interpretações arbitrárias, que produzem o inconsciente social e
coletivo. Podendo teorizar as significações primárias, as
regressões e as idolatrias encontradas na clínica, que levam os
pacientes a tornar-se personagens centrais de suas próprias
ficções. E, assim, ao levar o analisando a elucidação dos
símbolos e mitos pessoais, poderá entrar em contato com o
recalcado dos traumas e por fim sublimar tais catexias.

342
Neste sentido, a Psicanálise Humanista - a partir de
Erich Fromm - tem procurado compreender, que inconsciente é
aquilo que não está percebido pela consciência. Ou seja, toda a
vida de vigília estaria envolvida por imagens, sensações e
sentidos, que não podem no momento tornar-se consciente.
Desta forma, se objetiva, buscar respostas na leitura dos
símbolos e dos mitos. Interpretar as imagens produzidas por
sensações inconscientes (oníricas) presentes na vigília
causadora de sublimações, como também de psicopatologias.
Seja na interpretação das fantasias, das artes plásticas, dos
contos de fadas, sejam nas obsessões maníacas, nos traços
persecutórios, nos casos de ansiedade e como também nos
casos de compulsões.
A variação de composições entre sensações e imagens,
experiências e reações são os pressupostos psicanalíticos, que
dão vazão a vida psíquica e ao entendimento clínico de um
evento. O que se pode perceber é que nos casos de sublimação
torna-se arte, e nos casos de supervalorização fixa o sujeito em
um quadro patológico. Levando a desreflexão das
composições, deformações e imagens presente na psique.
Como dito anteriormente, não devemos esquecer que o
inconsciente, para Erich Fromm (1960), não é o lugar da falta
de impulso ou de sentimento, mas sim a ausência desta
percepção. Isso indica que a parte consciente da psique está
percebendo o caráter funcional e pragmático dos
acontecimentos. O pré-consciente está processando todos os
estímulos experienciais. O inconsciente sendo a todo o
momento invadido por sensações e distorções, internas e
externas, que movimentam a vida psíquica.
O caráter ficcional é que entendemos nossas abstrações
como realidade concreta, o que para Fromm, não passam de
criações ilusórias e representações. O que temos em nossa
mente consciente seriam resquícios de nossas reminiscências

343
individuais, culturais, sociais e filo/ontogenética, já que
teríamos papéis específicos a cumprir em nossa sociedade.
Os efeitos destas ficções são visto na sociedade atual, e
vários autores explicam tais acontecimentos fenomenológicos.
Porém, ainda cabe uma leitura das atualizações, entre o que se
vive e o que se sente, ou seja, o inconsciente. O movimento
interno das sensações variadas sentidas no corpo, não
compreendidas pelo consciente, atualizadas na reversão em
símbolos e mitos. A psicanálise dos mitos e dos símbolos pode
ajudar na interpretação dos sonhos, e nas variadas gerações
fantasmáticas oriunda destas ficções. Tendo como objetivo
compreender as atualizações dos símbolos e mitos, com isso,
trazer o enfoque da Psicanálise Humanista sobre as diversas
formas símbolos e mitos individuais e coletivos da nossa
sociedade compreendida nesta leitura como desterritorializada,
de exposição, de consumo e de capital.

2. DA REALIZAÇÃO DE DESEJOS À CRIAÇÃO DE


SÍMBOLOS E MITOS QUE INFLUENCIAM A
VIDA

Neste trabalho de revisão de literatura as discussões


partirão de autores, que embora sejam controversos entre si,
ainda assim, convergem em determinados momentos. A
pesquisa bibliográfica permite que novas possibilidades
interpretativas possam ser buscadas e discutir os parâmetros
arbitrários das interpretações. Problematizando o universal e o
particular, nas intervenções psíquicas, buscando na simbologia
social o achado, que possa desmistificar tais interpretações do
inconsciente como sendo plenamente essencialista.
Podemos perceber sem muita dificuldade que a
realidade psíquica humana tem raízes profundas em uma
predeterminação biológica, porém, esta predeterminação da
physis, não responde por completo a complexidade do animal
344
humano. A leitura do sono e a interpretação dos sonhos são
coisas binárias, se por um lado temos a realidade biológica no
sono, temos por outro a realidade psíquica do sonho. Para que
se possam entender os entrelaçamentos entre corpo e psique, se
buscará em Erich Fromm, ler os fenômenos sociais que
influenciam a inconsciência no fazer humano.
A escuta clínica permite desmistificar as mais variadas
criações inconscientes. Interpretando um sonho estamos
interpretando os resíduos do conteúdo reprimido, do recalcado,
e também, desvelando a cada análise uma forma diferenciada
de leitura de mundo físico, apoiada nas ideias construídas ao
longo do desenvolvimento da cultura.
Ao reler na atualidade tais acontecimentos (símbolo e
mito), poderemos ter a leitura contemporânea da realidade
psíquica. Nas Ciências Naturais temos uma leitura biológica de
tais acontecimentos, já na leitura das Ciências humanas temos a
subjetividade da construção biológica. Os lugares, os dizeres e
os fazeres, são particulares, tanto no entendimento da
Neurociência quanto na Psicanálise.
Quando se delimita um estudo como o estudo da
interpretação dos sonhos, estamos vinculando um interesse às
significações que possam resolver nossa problematização. Os
interesses globais dão lugar a interesses particularizados de
cada ciência, esta visão particular de cada método de pesquisa é
que irá determinar a escolha de paradigma analítico do
problema. Neste estudo qualitativo da interpretação dos sonhos
e suas consequências na vida de vigília, o importante é
problematizar as arbitrariedades que induzem à respostas
unilaterais.
O estudo dos sonhos está diretamente vinculado ao
estudo da memória, à produção de significado, assim como, à
aprendizagem. Também, está relacionado à cognição inquirida,
já que a cognição é uma realidade na vida onírica.
Reformulando e adequando determinadas experiências, da vida
345
de vigília no processo onírico de formação e deformação de
imagens e experiências.
O interesse da Psicanálise Humanista está no
entendimento do Total-Humano, e não somente em parte
simples separadas no ato de rememoração e recriação ficcional
onírica por parte do analisando, que é uma articulação de toda a
vida psíquica, uma interpretação pessoal de sua realidade
experiencial. Desta forma, entendemos este processo como
elaboração, que toma como base os acontecimentos,
aprendidos e buscados na memória. Em que, o ato cognitivo
recria todo o cenário, e através da linguagem tenta tornar
compreensível tal história. Além disto, pinta o quadro e usa
formas harmônicas para que produza significação.
Para a Neurociência o sonho é uma atividade
neuroquímica fisiológica, ou biológica, compreendendo que “é
fundamental para uma boa saúde mental e emocional, além de
apresentar importância essencial na manutenção saudável do
organismo” (LENT, 2008, p. 272). Seus estudos explicam o
processo biológico, neurofisiológico ou neuroquímico da vida
onírica, dando respostas objetivas à problemas patológicos do
sono.
A interpretação física do sonho pode ser encontrada
também na revisão de Freud, que em seu estudo encontrou
várias teorias para a formação onírica, como também várias
fontes, que tentavam dar explicações variadas para as
projeções: “(1) excitação sensoriais externas (objetivas); (2)
excitações sensoriais internas (subjetivas); (3) estímulos
somáticos internos (orgânicos); e (4) fontes de estimulação
puramente psíquicas” (1930, p. 26).
Os estudos de Freud, embora tenham ocorrido sem a
ajuda das técnicas de alta tecnologia que hoje temos,
produziram achados significativos, pois suas bases não estavam
procurando algo que pudesse ser visto pelo olho, ou
compreendido por imagens. Antes de Freud, os sonhos eram
346
estudados por uma ou outra abordagem teórica, que variavam
do misticismo ao cientificismo. Tendo limitações já que a
perspectiva, ou mística, ou psíquica, ou orgânica, em si, não
resolveriam, nem resolveram o problema dos sonhos.
O fato é que sem experiência não existe significado, e,
sem significado não existe sonho, mesmo na consciência mais
arcaica como a de animais. Como comentam os
neurocientistas, “distúrbios orgânicos podem influir no teor dos
sonhos” (LENT, 2008 p. 280), porém não podem influenciar
nas imagens, já que estas têm outras bases, e uma banana pode
ser apenas uma banana.
Para Freud,

[...] as teorias científicas dos sonhos não


dão margem a nenhum problema com a
interpretação dos mesmos, visto que,
segundo o seu ponto de vista, dessas
teorias, o sonho não é absolutamente um
ato mental, mas um processo somático que
assinala sua ocorrência por indicações
registradas no aparelho mental. (1930, p.
79).

Freud pode confirmar sua teoria de que a fonte dos


sonhos são na realidade, gerações, que tem base no princípio
do prazer. Pois “Quando o trabalho de interpretação se conclui,
percebemos que o sonho é a realização de um desejo.” (1930,
p. 31). Mesmo que estes estejam, trazendo informações
manifestas de traumas e fixações objetivas, que produzem no
sonhador estado de sofrimento psíquico, ao reviver as cenas
episódicas.

O estudo dos sonhos pode ser considerado


o método mais digno de confiança na
investigação dos processos mentais
347
profundos. Ora, os sonhos que ocorrem nas
neuroses traumáticas possuem a
característica de repetidamente trazer o
paciente de volta à situação de seu
acidente, numa situação da qual acorda em
outro susto. Isso espanta bem pouco as
pessoas. Pensam que o fato de a
experiência traumática estar-se
continuamente impondo ao paciente,
mesmo no sono, se encontra, conforme se
poderia dizer, fixado em seu trauma. As
fixações na experiência que iniciou a
doença há muito tempo, nos são familiares
na histeria. (FREUD, 1950, p. 8).

A interpretação das imagens não poderá nunca ser


constituída de formações orgânicas simples, ou das derivações
da complexidade maior, que é o trabalho inconsciente do
sistema nervoso em relação ao próprio funcionamento. Tais
ajustes são para a manutenção da physis, para isso continua
inconsciente à influência nas gerações de imagens. Por sua vez,
a preservação do núcleo patológico, pretende modificar as
experiências de forma que preserve o estado doentio, sendo
ambos dialéticos.
As categorias teóricas são limitadas e explicam o que é
ocorrência lida pela linguagem que utiliza em determinada
formulação teórica. A desmistificação dos conteúdos dos mitos
produzidos nos símbolos usados para leitura da realidade, seja
da realidade psíquica, seja da realidade social, é de interesse da
Psicanálise Humanista. Porque tais influências produzem no
psiquismo reformulações que por fim poderão somatizar no
órgão.
Nos sonhos utilizados por Freud para a ilustração de sua
interpretação, ele indica como devemos proceder
psiquicamente na verbalização das imagens oníricas.
348
Recomenda que, “se alguém se vir tentado a expressar uma
condenação apressada de minha reticência, recomendo-lhe que
faça a experiência de ser mais franco do que eu.” (FREUD,
1930, p. 91), (pressuposto de amor a verdade).
O exemplo usado por Tufik, Andersen e Pinto Jr, para
interpretação da neurociência e para interpretação analítica,
deles, é que, “uma paciente de 60 anos de idade relatava
pesadelos noturnos em que se engasgava com uma banana”
(LENT, 2008 p. 280). Na interpretação neurocientífica, a
“polissonografia mostrava grande número de apneias
obstrutivas durante o sono REM”, que segundo estes seriam
“fase importante na gênese dos sonhos” (Idem p. 280). Já para
a psicanálise feita por estes pesquisadores, “a banana que
aparece no sonho é interpretada como objeto fálico”. (idem p.
280).
Simplificadamente, de todo modo, pode-se
compreender desta análise de que se trata num primeiro
momento de um problema orgânico objetivo e com
consequência objetiva. Já na análise da composição banana-
falo, existem algumas interrogações: qual a relação da história
de vida e das construções autobiográficas feita por esta
paciente, que levam a esta conclusão ou hipótese de banana-
falo? Qual significação que embasa tal compreensão de
símbolo, para concepção de falo, desta senhora? O que os
levam a crer que a banana referida por esta senhora é um falo?
Seria um problema de contratransferência?
De acordo com a análise do conteúdo deste sonho nada
nos leva a acreditar que seria um falo. Seria forçoso, num
primeiro momento, afirmar que a origem da falta de ar estaria
relacionada aos problemas em sua sexualidade. Pois, temos
neste sonho, poucas ou nenhuma, relação que leve a tal
conclusão. Desta forma, a leitura orgânica e funcional é campo
da Neurociência, já todos os conteúdos, significados e
simbologias, pertencem ao campo da Psicanálise.
349
Porém, um simples sonho episódico, não determinaria
uma interpretação tão ampla e uma resposta tão complexa, a
partir de uma simples falta de ar, da agonia, ou do
sufocamento. Entre outros conteúdos não explicáveis sem o
conhecimento mais amplo desta senhora de 60 anos.
Somente teremos condições de construir possibilidades
de ‘hipóteses’, e, não de afirmações conclusivas. No momento,
em que embasarmos a análise, na história e nas formulações
conduzidas, a partir dos conteúdos da paciente. O manifesto de
um sonho é algo concreto e palpável pela consciência, mas não
é possível e explicável pela racionalidade.
Podemos em sonho voar, porém, nossa razão de vigília
nos demonstra concretamente que não é tão simples tal
possibilidade. Por outro lado, os processos mentais dão vazão
às inúmeras possibilidades para tal voo, em vigília, como por
exemplo: avião, helicóptero, jato, etc. Processo este que na
vida onírica, ganha exponencial força. Cadeias de
significações, em rede, produzem alternativas inimagináveis e
em fração de segundos, um conjunto completo poderá tornar-se
consciente pelo sonho. Este sistema complexo pode compor-se
em milésimos de segundos, contendo redes multireferenciais de
significações, que levaria horas em vida de vigília.
Exemplo disto seria o fragmento apresentado por Freud,

Um sonho de Maury (1878, 161) tornou-se


famoso. Estava doente e de cama em seu
quarto, com a mãe sentada ao seu lado, e
sonhou que estava no Reinado do Terror.
Após testemunhar diversas cenas pavorosas
de assassinato, foi finalmente levado
perante o tribunal revolucionário. Lá viu
Robespierre, Marat, Fouquier-Tinville e o
resto dos soturnos heróis daqueles dias
terríveis. Foi interrogado por eles, e depois
350
de alguns incidentes que não guardou na
memória, foi condenado e conduzido ao
local de execução, cercado por uma
multidão enorme. Subiu ao cadafalso e foi
amarrado à prancha pelo carrasco. A
guilhotina estava preparada e a lâmina
desceu. Ele sentiu a cabeça sendo separada
do corpo, acordou em extrema angústia – e
viu que a cabeceira da cama caíra e lhe
atingira as vértebras cervicais, tal como a
lâmina da guilhotina as teria realmente
atingido. (FREUD, 1930, p. 59).

Neste exemplo clássico se pode perceber que as


condensações são motivadas por fontes independentes das
ocorrências reais. O apelo, desta forma, pode fomentar
construções, que poderão tomar como base um acontecimento
fatídico sinestésico, porém, fenômeno onírico aparece como
leitura interna do si-mesmo, ou do eu, da pessoalidade, da
individualidade em detrimento a ocorrência da história. O
centro onírico passa a ser o eu, ou a perspectiva do sonhador.
Neste caso, Maury passa a ser a fonte do próprio sonho, é
centro e agente, testemunha principal, conduzido a um
julgamento, sendo condenado e morto.
O fenômeno real-concreto aqui neste caso é a cabeceira
da cama caindo sobre ele, é constatado tanto pelo sonhador
como por qualquer um que estivesse em sua presença. Por
outro lado a linguagem não pode de pronto compreender o que
está ocorrendo, as relações aí já estão constituídas, porém ainda
não estão conscientes. Pois, a ocorrência levou, entre a
percepção pela pele, milésimo de segundo, porém, na mente de
Maury, levou um tempo indeterminado.
Para que possa ser explicada e inteligível, teve que
compor com as emoções e as problematizações do si-mesmo,
do eu em crise, pelo estado mental e o estado físico. A
351
composição foi a condenação pela passividade ao deparar-se
com os heróis da grande revolução francesa. Enquanto a
barbárie dizimava os filhos da mãe França, Maury estava
passivo, assistindo as mortes, os massacres e assim os heróis o
condenaram. O que ocupa várias linhas na narrativa de tal
fragmento, feita por Freud, que para o sonhador tratou-se de
um fato imediato, que pode ser composto com as sensações
inconscientes do sonhador. O espaço-tempo psíquico,
diametralmente compactado, ou seja, instantâneo. Pode compor
um significante fantástico, embasado na sensação, em que
“pescoço” é igual a crime-julgamento-condenação-carrasco-
cadafalso-guilhotina-pescoso-cabeça-separação-corpo-morte.
Isso nos leva a considerar a história como sendo
concebida não apenas pela percepção do ato, mas por toda a
construção social da época, como também o estado de doença
do sonhador. A experiência onírica neste caso procurou
responder aquilo que o doente em seu estado de vigília estava
sentido. Possivelmente, um grande sentimento de culpa, por
estar aos cuidados de sua mãe. A separação corpo e mente, está
pautada pelo estado atual do corpo doente, em detrimento a
mente, inquisidora e condenadora, que ao mesmo tempo sente-
se impotente.
Embora, sendo apenas uma especulação, já que não
temos os dados que o comprovem. Os símbolos e as imagens
dão vazão a uma explosão de sentimentos, emoções e sentidos
que já estavam reprimidos. O que podemos inferir é que caso
não houvesse ocorrido este incidente com a cabeceira, tamanha
catexia teria desvelado outro tipo de sonho que revelaria tal
conteúdo. Ou seja, o sentimento de culpa, e de impotência
latente ao sonho, tendo em vista, o papel representado na cena,
ao ter presenciado os acontecimentos sem poder manifestar-se
abertamente.
Outro dado importante é o espaço-tempo, em que
ocorre cenário do sonho, já que a revolução Francesa é de
352
extrema riqueza de representação, e seu si-mesmo está situado
de forma importante na narrativa onírica. Embora o ganho
secundário, seja a atenção, em caso de doenças, o estado de
paciente demonstra a ambivalência que é constatada no sonho.
Assim, como doente que nada pode fazer a respeito de sua
moléstia, também encontrou-se como paciente, passivo aos
acontecimentos que presenciou, e desta forma o conflito foi
resolvido com a condenação.
O que parece neste caso é que o símbolo maior a
revolução Francesa é condensada na figura da mãe zelosa, que
acolhe, que cuida, que vela etc. E Maury, aparece como um
traidor, que deixa a mãe esvair-se pelo sofrimento de ver “seus
filhos” serem terrivelmente sacrificados. A impotência, e a
vinculação entre o seio da mãe França e a mãe cuidadora do
doente está demonstrada em tal relato.
A história percebida no sonho demonstra que o desejo
de liberdade está de certa forma, sendo impossibilitado, e a
liberdade é sentida apenas na mente e não no corpo. A doença
prende o doente, e a única forma de libertação seria a separação
cabeça e corpo, ou a morte. A culpa poderia ser redimida, por
fim o reprimido da situação, aquilo que não foi dito, que é o
sentimento interno, a culpa, pode se manifestar no sonho do
doente.
Por fim, toda a simbologia revive o mito da expulsão,
em que a culpa, torna os sujeitos merecedores da expulsão do
paraíso. Somente os heróis e mártires poderão ser dignos,
sendo Maury a oposição. Esta hipótese, embora mera
abstração, permite perceber o inconsciente pessoal de Maury.
Demonstrado no sonho, que não se pode ser passivo, pois
haverá uma condenação, pois a passividade seria entendida
também como doença.
A manifestação de um sonho, não aparece, neste caso,
como uma simples manutenção psíquica ou física, trata-se sim,
de uma resolução de conteúdos e materiais primários
353
reprimidos. Quanto ao princípio do prazer e princípio de
preservação, podemos intuir que um está relacionado ao outro.
Os conteúdos não podem de pronto serem compreendidos
como derivados apenas de pulsões sexuais. Sempre serão
motivados por relações complexas, em que a sexualidade seria
uma das facetas possíveis para uma interpretação.
No sonho relatado por Jung e descrito abaixo o
conteúdo demonstra claramente a conotação sexual.

Ela vê o arco do triunfo de Constantino.


Diante dele está um canhão, à direita deste,
um pássaro, à esquerda um homem.
Alguém dispara um tiro de canhão, o
projétil a atinge, entra na sua bolsa, na
carteira. Aí fica imóvel, e ela segura a
carteira como se contivesse algo muito
precioso. A imagem então desaparece e ela
só vê o cano do canhão, e acima dele a
frase predileta de Constantino: “In hoc
signo vinces” (1995, p. 8).

O tema sexualidade, por tratar-se de um Tabu, aparece


sempre a supervalorização, ao ponto da crítica focar sempre
nos mesmos conteúdos. Para Jung, “um tema ou um sonho
inteiro se repete porque nunca foi bem compreendido, mas para
orientação consciente seria importante que a compensação por
ele expressa fosse reconhecida”. (1995, p. 9). Isso quer dizer,
que mesmo que um sonho com conotações sexuais persista, sua
interpretação não será apenas sexual.
A interpretação que pretenda compreender o conteúdo
latente, como sendo meramente conteúdo sexual, só poderia ser
interpretada, “quando a sonhadora se tiver tornado tão
consciente que possa admitir para si mesma a existência de um
conflito erótico”. (idem p. 9). Somente um relato, ainda que
evidente não tem o poder de nortear uma interpretação. O que
354
demonstrará o teor da narrativa será, além do conteúdo, a
biografia e o transcorrer da análise, que poderá demonstrar o
perfil de funcionamento psíquico.
Neste sonho, o “simbolismo sexual [...] é
suficientemente claro para justificar a surpresa indignada do
ingênuo” (JUNG, 1995, p. 8). O que torna a interpretação uma
questão de identificar o valor da proposição sexual, que é
evidenciada no sonho. O que de qualquer forma poderá estar
encobrindo outras dificuldades latentes, ou seja, o “ato de
pensar trata-se de uma “percepção antecipada, que compreende
um círculo maior ou menor de reproduções individuais, e se
distingue de reproduções casuais apenas pela coerência com
que retém ou reprime tudo o que é alheio a este círculo”.
(KÜLPE apud JUNG, 1995, p. 9).
Mesmo que os conteúdos se modifiquem, o principal
elemento onírico é a localização dos conteúdos, ou o aspecto
repressivo dos conteúdos. A produção estaria sendo construída
entorno do núcleo reprimido, este núcleo tendo como base a
função egoica da psique. Na vida de vigília nossa preocupação
é o outro e a significação que o outro tem de meu “eu” em sua
totalidade. Para isso, os mecanismos de defesa ajustarão o
discurso para que nada escape.

Enquanto pensamos de modo dirigido,


pensamos para os outros. A linguagem1
originalmente é um sistema de sons
emotivos e imitativos que exprimem susto,
medo, raiva, amor, etc., que imitam os
ruídos dos elementos, o borbulhar e
mergulhar da água, o rolar do trovão, o

1
Linguagem é um sistema mais complexo e variável, mais que a
representação de sons, o que Jung entende por linguagem poderíamos fazer
a leitura de língua (ou sistemas idiomáticos de sons a fim de comunicar
algo), para maior compreensão.
355
farfalhar e sussurrar do vento, as vozes dos
animais, etc., e finalmente, os que resultam
da combinação de percepção e reação
afetiva. (JUNG, 1995, p. 10).

Portanto, quando comunicamos algo, estamos


comunicando um conteúdo separado, porém, com ramificações
internas com outros conteúdos. Esse esforço trata-se de uma
escolha, com a finalidade de personificar e individualizar, sem
que nos separemos do coletivo. O animal humano procura ser
aceito, e essa aceitação está ajustando todo momento nossa
fala. Nossas emoções embora óbvias são reprimidas, e com
elas boa parte do conteúdo psíquico. A construção da persona
fica a serviço de um núcleo patógeno, o que pretende é
preservar a neurose, perversão ou psicose.
Num evento qualquer tem-se a possibilidade de
escolher entre as várias possibilidades de simbolização, ou
aquela que melhor atender as intenções
conscientes/inconscientes. Entre todas as possibilidades apenas
uma preenche o critério de preservação, apenas uma pode ser a
que melhor gratifica o sujeito falante. Embora estejamos
comunicando ao outro, é a nossa preservação patógena é que
está em jogo. Daí é que a articulação entre memória, cognição,
aprendizagem, percepção sensorial etc., se movimentam para
melhor adaptar a realidade interna do sujeito, a realidade
externa, e por fim sobreviver. Neste ponto, as criações de
símbolos embasarão os processos mentais, que permitirão, ou a
compreensão do evento ou a dissimulação.
O conteúdo reprimido de tal fenômeno embora não
possa ser acessado de forma consciente, ainda assim, será
registrado pelo sujeito. As imagens armazenadas neste
processo, mesmo que reprimidas, estarão repletas de energias
inconscientes. Este sendo o fundamento principal, dos
mecanismos de defesas em relacionar e escolher. Cada palavra

356
trará consigo uma complexa rede de significação e o conjunto
desta rede de significação depende das experiências
vivenciadas, que poderão retornar deformadas.
O esquecimento neste caso seria a preservação e a
deformação, sendo estas, formas suportáveis de assimilação e
de experiência. Este esquecimento proposital seria a conjunção
do evento traumático, ou a denúncia do reprimido, que de
algum modo permanece preso no conteúdo destas relações de
representação. Espécie de proteção, que impede a
materialização de qualquer conteúdo, que por ventura, possa
escapar, na composição das imagens, emoções, afetos,
experiências, e assim gerando algum conflito.

O desconhecimento tem um compromisso


com a verdade, isto é, com o conhecimento
e é constituído a partir deste último. A
própria situação analítica, ao engajar o
sujeito na procura de uma verdade
escondida do desejo, constitui este sujeito
como sujeito do desconhecimento. O
desconhecimento é, pois, produzido pelo
conhecimento. (GRACIA-ROZA, 2003, p.
172).

Os sonhos seriam, desta forma, da ordem da pulsão e da


percepção da pulsão pelo organismo. Assim, um movimento
complexo de energia psíquica em articulação com a linguagem,
poderia explicar, que a “reanimação de percepções antigas, no
entanto, é apenas um lado da regressão; o outro lado é a
regressão para recordações infantis, o que de fato também pode
ser considerado como regressão à percepção primitiva”.
(JUNG, 1995, p. 19). Esta percepção escapa a linguagem, já
que para o sujeito, ainda se trata de um conteúdo desconhecido.
Portanto,

357
Ao nos aproximarmos de nossas pulsões
arquetípicas, percebemos o poder humano
em sua forma original. Esta forma de
pulsão original depende da formação
arquetípica, como também, dos estímulos
que as equilibram internamente. Estes
conteúdos imagéticos estão imanados por
forças pulsionais, sociais e historicamente
significados, através das experiências
pessoais e coletivas. (RODRIGUES, 2010,
p. 131).

É importante ficar claro que os sonhos não são de forma


alguma alucinações, pois são composições que reproduzem
imagens, sons, afetos, etc., composições essas, que podem ser
percebidas, também, no pensamento de vigília.
O pensamento, portanto é movimentado por todas as
memórias, que estão consolidadas e evocadas, estando ou não,
relacionadas a uma motivação importante, porém em uma
direção. As redes e conexões complexas estão firmemente
relacionadas entre si. O que vai fazer este significante evoluir e
tornar-se uma lembrança é o caráter experiencial, sendo assim
uma mobilização, que revive tal evento fenomenológico, dando
formas aos arquétipos.
Os arquétipos seriam para Jung uma construção
filogenética, sendo da mesma fonte que as pulsões, estariam no
ser humano, sem que este pudesse ter consciência imediata de
tal. O seio materno e os primeiros cuidados do animal humano
não é somente importante no aspecto de nutrição física. É
importante, também como nutrição simbólica, é o princípio da
formação dos objetos, dos sentidos e dos significados. Não se
modificam em essência de uma cultura para outra, o que
modifica é o formato do cuidado. O sentimento em relação ao

358
desconforto da fome e da cessação de desconforto internamente
identificado é de origem estrutural simbólica.
Esta estrutura poderá ser identificada como sendo, fonte
de processos psíquicos, que dão origem a muitos significados
simbólicos na vida adulta.

Enquanto o pensamento dirigido é um


fenômeno inteiramente consciente, não
podemos dizer o mesmo em relação ao
pensamento-fantasia. Grande parte de seus
conteúdos ainda está na área consciente,
mas pelo menos outro tanto já ocorre na
penumbra ou totalmente no inconsciente e
por isso só pode ser desvendado
indiretamente. Pelo pensamento-fantasia se
faz a ligação do pensamento dirigido com
as “camadas” mais antigas do espírito
humano, que há muito se encontram abaixo
do limiar do consciente. (JUNG, 1995, p.
25).

A filogenia e a biologia são ambas inegáveis, e todas as


questões fisiológicas são eventos e fenômenos que constituem
o funcionamento do cérebro. Os arquétipos e os modelos sócio-
antropológicos, assim como as pulsões, também são por sua
vez uma realidade. Porém, parte biológica e parte sócio-
antropológica, não podem ser isoladas arbitrariamente na
interpretação de um sonho. O externo influi e organiza o
interno, e o interno influir e reorganiza o externo, ação
contínua e dialética. O início e o fim não podem ser concebidos
ou simplesmente inventados. Desta forma, não existe um
princípio próprio da natureza, existe uma articulação entre a
causação e eventos fenomenológicos e resultados que são
derivativos destes.

359
A evolução da mente reptiliana, não foi por simples
evolução do externo para o interno ou do interno para o
externo, mas uma complexa articulação entre estes. Não foi
também, uma escolha entre os mais adaptáveis, ou como o
senso comum consegue compreender, (o mais forte e mais
adaptado sobrevive. Se isso fosse verdade, o que seria do ser
humano?). Antes das disciplinas filosóficas, científicas,
linguísticas, etc. As habilidades de autopreservação,
reconhecimento e alteridade tiveram que se desenvolver. As
capacidades de aprimoramento das técnicas tiveram que sofrer
uma evolução. O desenvolvimento das técnicas de agricultura e
pastoreio, da caça e da pesca, com a finalidade de proteção do
bando, armazenagem de comida e a fixação dos animais
humanos a nichos específicos, foram alternativas encontradas
para a sobrevivência ao mundo hostil.
A capacidade simbólica não é algo inato pura e
simplesmente, mas sim um desenvolvimento, com base sólida
na reformulação da capacidade de simbolização das variadas
técnicas, das construções teóricas, das evoluções e da
capacidade superior de pensamentos. É a partir destas
características, que foi possível conduzir sons sem significado,
para as formas complexas de comunicação.
A radicação, o sedentarismo possibilitou inúmeras
vantagens, que seriam a preservação e a continuidade. Destas
habilidades superiores, derivou a linguagem e as línguas dando
nome ao mundo das coisas. As relações entre objetos tornaram-
se conexões internas, formando as organizações psíquicas. Sem
a experiência não existiria a linguagem, sem a articulação da
linguagem não existiria pensamento. Para tornar mais eficaz a
comunicação foi necessário a criação de signos com a função
de fixar e orientar o pensamento a algo concreto.
Porém, somente isso não foi suficiente para o
desenvolvimento da psique, ao perder o caráter nômade, outras
problematizações foram incorporadas. A insegurança do
360
mundo externo foi introjetada à psique, com o passar do tempo
transformada. As necessidades básicas foram dando lugar às
necessidades mais evoluídas, a falta e os desejos não
elaborados tornaram-se arquétipos que sustentam ainda hoje a
psique.
Necessitou transformar a falta do seio materno, em algo
que o transcendesse. Este processo teve como fonte os próprios
sentidos afetados pelos objetos.

Os deuses são personificações das energias


que formam a vida – as próprias energias
que criam as árvores e fazem com que os
animais se movam e com que as ondas do
oceano se agitem. As próprias energias que
existem em seu corpo são personificadas
pelos deuses. Elas estão vivas e existem na
vida de cada pessoa. (CAMPBEL, 2004, p.
20).

A resolução de problemas imediatos passou a ser uma


função complexa e aos poucos nos diferenciando dos demais
animais. Esta capacidade fez com que compreendêssemos o
externo como algo desprendido. Ao ficar esclarecido, tal
diferenciação e a dificuldade da consciência de compreender a
falta, ou o vácuo psíquico, passa a criar símbolos para os
mesmos.

O vazio ou o Vácuo Psíquico continuou e


ainda continua. O estar só agora é uma
constatação que causa desconforto, e a
busca pela segurança psíquica, transfere
para entes externos o poder superior [...] O
indivíduo depois de tudo sente-se possuído
pelo Vácuo Psíquico, porém não tem
condições de entendê-lo como

361
característica filogenética. (RODRIGUES,
2010, p. 133).

O que por algum tempo fora natural, passou a ser


regulado, com isso, as simples necessidades fisiológicas,
passaram a sofrer restrições graves.

Sabemos que o princípio de prazer é


próprio de um método primário de
funcionamento por parte do aparelho
mental, mas que, do ponto de vista da
autopreservação do organismo entre as
dificuldades do mundo externo, ele é,
desde o início, ineficaz e até mesmo
altamente perigoso. Sob a influência dos
instintos de autopreservação do ego, o
princípio de prazer é substituído pelo
princípio de realidade. (FREUD, 1950, p.
6).

Estas adequações com o passar do tempo, deixou


marcas indeléveis na psique. A capacidade analógica e
metafórica produziu os objetos simples em objetos complexos
o que é visto ao longo da história.
Todavia, não podemos tomar a nomeação de um
determinado objeto como sendo algo, pronto e imediato. Para
que o objeto seja nomeado ele deverá antes tornar-se
consciente, desta forma, aquela coisa, aos poucos tornasse um
signo concreto, árvore, pedra, folha, água, etc. Este processo de
tomada de conhecimento tem a ver com a afetação pelo objeto
e as relações que este tem com o ambiente interno ou externo.
Antes disto, poderá estar ali, e apenas evocar uma sensação,
uma mudança de rota, um deslocamento, mas não ainda uma
tomada de consciência. É pela relação e afetação que a
experiência tornasse algo concreto, assim poderá ser nomeada.
362
Os idiomas mais modernos ou menos
reproduzem muitos ruídos sonoros
onomatopoéticos. Por exemplo, o que
exprimem o movimento da agua: rauschen
(murmurar), riesein (marulhar), rüschen
(fluir), rinnen (correr), rennen (correr), to
rush (impelir), ruscello (regato), ruisseau
(riacho), river (rio), Rhein (reno) – Wasser
(água), wissen (saber), wissern (saber),
pissen (urinar), Piscis (peixe), fisch (peixe).
(JUNG, 1995, p. 10).

Então deduz-se que a simbolização é a tomada de


consciência dos objetos, sensações, afetações e situações, que
impelem o ser humano a dar uma resposta. Os arquétipos e as
pulsões assemelham-se a este fenômeno, a diferença é que tem-
se, que nomear sensações, emoções e sentimentos
inconscientes, e a isso, a resposta é mais complexa. Tendo em
vista, que a pessoa possui idioma formado e a ele tem que
enquadrar suas percepções dos mundos internos e externos.
Esta, difícil nomeação das pulsões, só podem manifestar-se de
forma simbólica, por sua vez, emprestam dos arquétipos tais
significações.
Segundo Jung,

[...] Amenhotep IV realizou uma obra


valiosa sob o ponto de vista psicológico.
Ele reuniu no disco solar todos os deuses
representados pelo Touro, Carneiro,
Crocodilo, Estaca, etc., declarou assim os
atributos especiais de cada um deles como
inerentes aos atributos do sol. Destino
semelhante teve o politeísmo grego e
363
romano com as tendências sincretistas dos
séculos subsequentes. Temos um excelente
exemplo na bela oração de Lucio à Rainha
do Céu (Lua). (1995, p. 86).

A consciência não se trata de uma capacidade apenas


humana, é uma capacidade encontrada nos animais, porém a
capacidade desenvolvida de autoconsciência como ente,
entidade individual, pertencente a uma natureza em separado,
livre e independente é legada apenas aos humanos. Disso pode-
se compreender a transformação daquilo que a pessoa sente e
que não tem como nomear.

O racionalismo moderno é explicativo e até


se orgulha moralmente de suas tendências
iconoclastas. De um modo geral, as pessoas
se contentam com o conceito pouco
inteligente de que o enunciado do dogma
visa uma Impossibilidade concreta. Poucos
se dão conta de que poderia ser a expressão
simbólica de determinado conjunto de
ideias. Não é tão fácil dizer em que
consistiria esta ideia. E aquilo que “eu” não
sei, simplesmente não existe. (JUNG, 1995,
p. 67).

Para Erich Fromm esta realidade psíquica conduz à


liberdade e ao poder criativo. Porém a idolatria e a regressão ao
infantil e primitivo mascara o potencial latente de criação,
causando apatia, passividade, fixações e desvios no
desenvolvimento pleno do psiquismo.
A isso Erich Fromm afirma que,

364
Me refiero al concepto según el cual la
libertad caracteriza la existencia humana
como tal, y al hecho de que, además, su
significado varía de acuerdo con el grado
de autoconciencia (awareness) del hombre
y su concepción de sí mismo como ser
separado e independiente(FROMM, 1941,
p. 49).

A condição infantil e a condição primitiva não são


sinônimas, são entendimentos próprios. O entendimento
infantil ainda não possui a capacidade desenvolvida de
simbolizar por falta de signos, que serão em pouco tempo
nutridos simbolicamente. O entendimento primitivo possui a
capacidade de simbolização desenvolvida, entretanto os signos
que utiliza têm limitações de sua época. A elaboração
complexa do homem primitivo tem todas as funções
estabelecidas, a diferença está na utilização dos signos e da
produção de novos signos. Já no caso do entendimento infantil,
esta capacidade se desenvolverá rapidamente sem a
necessidade de criação de novos objetos ou signos. Assim
sendo, para a criança alcançar a capacidade adulta de
entendimento, dependerá da maturação e da nutrição simbólica
adequada entre outras influências.
A criação dos mitos segue estes processos complexos
de simbolização, não estão ligados ao concreto e sim às
produções originárias do inconsciente. Os eventos concretos
ligam a capacidade simbólica à pulsão, esta pulsão segundo
Jung (1995) terá um arquétipo, derivado das energias psíquicas.
Portanto, “os símbolos da mitologia não são fabricados; não
podem ser ordenados, inventados ou permanentemente
suprimidos. Esses símbolos são produções espontâneas da
psique e cada um deles traz em si, intacto, o poder criador de
sua fonte.” (CAMPBEL, 1997, p. 6). A derivação do símbolo
acaba sendo o conteúdo principal dos mitos.
365
Os símbolos resolveriam questões inconscientes, porém
práticas, que de certa forma, a capacidade humana de
nomeação ainda não tinha alcançado seu estado superior. A
composição de um mito poderia, desta forma, ser composta por
sensações imaginárias sem nomeação, simbolizações
inconscientes de materiais físicos e concretos, das
multirrelações entre os materiais concretos e a experiência sem
nomeação do objeto, projeções fantasmáticas do inconsciente
social e coletivo, e pôr fim a estabilização homeostática do
inconsciente coletivo (ou seja, equilíbrio dos conteúdos
inconscientes que estão em estado de pulsão gerando catexia).
Este estado inconsciente nem de longe seria
ingenuidade infantil, mas sim um processo, que ainda não
alcançou seu limiar. Observando, que as possibilidades
significativas que se apresentam ainda estão empobrecidas. O
processo de produção na criação do mito segue uma lógica, que
podemos comparar as ciências atuais, em termos de abstração
empírica, oriunda de sensações inconscientes e imaginárias. O
processo consciente tem estas mesmas pulsões norteando a
experiência, que derivam das cenas originárias ou primitivas.
A explicação de um evento que tem repercussão social
ou coletiva e que ainda não se tem conhecimento dos fatos será
sempre uma construção ficcional.

Focalizando as sagas arcaicas sob esse


prisma, a análise estrutural produz um
efeito desmistificador em relação à crença
na existência de uma diferença entre o
pensamento primitivo e o civilizado. “A
lógica do pensamento mítico nos pareceu
tão exigente quanto aquela na qual repousa
o pensamento positivo, e, no fundo, pouco
diferente. Pois a diferença se deve menos à
qualidade das operações do que à natureza

366
das coisas sobre as quais se dirigem essas
operações”. (GOLDGRUB, 1995, p. 85).

Portanto, os símbolos e os mitos, na verdade são


abstrações, que explicam o mundo ao nosso redor.

[...] esta concepção coincide com o


conceito de vontade em
SCHOPENHAUER, no sentido de que um
movimento visto de fora pode ser por nós
compreendidos internamente apenas como
vontade, desejo ou anseio. Esta projeção de
conteúdos psicológicos para dentro do
objeto filosoficamente se chama
“introjeção”. Pela introjeção a noção de
mundo é subjetivada. (JUNG, 1995, p.
123).

Deste ponto, podemos perceber que as explicações que


embasam nossas perspectivas são sempre criações imaginárias,
quando não estão em processo reflexivo. O automatismo é
sempre uma forma de lidar com os conteúdos percebidos e não
analisados, mas até que ponto é necessário a análise profunda
dos sentidos?
Esta dúvida pode ser respondida pela a afirmação de
Yalom quando diz, que, “nossa liberdade corre mais fundo que
nosso projeto de vida individual. Mais de dois séculos atrás,
Kant nos ensinou que somos responsáveis por dar forma e
significado não somente ao mundo interno, mas também ao
externo.” (2006, p. 130). Com isso podemos entender que
podemos nem sempre escolher o que sentimos, porém temos a
liberdade de guiar nossos pensamentos, condutas e atitudes
perante a vida. Até porque seria uma prática impossível manter
a consciência dos fatos e a reflexão permanente todo momento.
Para isso uma quantidade suficiente para manter o
367
funcionamento autômato conduz o sujeito entre os Símbolos e
os Mitos gerados pelo inconsciente individual, social e
coletivo.

3. PROCESSOS INCONSCIENTES: LEITURA


HUMANISTA DE NARCISO E ÉDIPO

3.1 Processos de individuação: pequeno preâmbulo de


Narciso a Édipo

O prodígio reside no fato de a eficácia


característica, no sentido de tocar e inspirar
profundos centros criativos, estar manifesta
no mais despretensioso conto de fadas
narrado para fazer a criança dormir — da
mesma forma como o sabor do oceano se
manifesta numa gota ou todo o mistério da
vida num ovo de pulga. (CAMPBEL, 1997,
p. 06).

Imaginemos um hominídeo sozinho, que tem o nível de


consciência ainda com funções básicas de manutenção da vida.
Sua consciência vê o outro, ainda como espécie, não como
indivíduo, é conjunto não identidade. Sua própria noção de
entidade até este momento não está formada agindo como
espécime e funcionando como espécime. O sistema em que
vive ainda não é social, não há uma cultura formada, e a noção
de si-mesmo é uma noção arcaica que atende apenas os
instintos básicos da fisiologia animal.
Este hominídeo, entre os outros animais é apenas mais
uma espécime totalmente incluída na natureza. A consciência
funciona para a autopreservação concreta, o aqui e agora, a

368
função futuro e passado não significa nada. O jogo simbólico
não é mais que a dança do acasalamento bem definida.

No seu universo elementar sua alma é


apenas um “companheiro interior”, a que
chama “meu amigo” ou Mista’peo,
significando “Grande Homem”. Mista’peo
habita o coração do homem e é um ser
imortal. No momento da morte, ou pouco
antes, deixa o indivíduo para, mais tarde,
reencarnar-se em outro. (JUNG, 1964, p.
161).

Este animal necessita alimentar-se saciar a sede um


poço d'água é o suficiente. Usando uma de suas funções mais
básicas da fisiologia animal faz uma pequena descoberta, o
reflexo. Num primeiro momento este reflexo o acompanha
apenas nas horas de sede, é percebido, mas não é significado.
Não há crença, apenas cuidado, pois acredita que este Ser é
uma criatura que o acompanhava no ato de beber água.
Como sempre estava ali nunca havia bebido água
sozinho, sempre esteve acompanhado por esse ser que o
observava no ato de beber água. Não era algo definido, e
desaparecia toda vez que sua sede era saciada.

Tudo acontece como se o ego não tivesse


sido produzido pela natureza para seguir
ilimitadamente os seus próprios impulsos
arbitrários, e sim para ajudar a realizar,
verdadeiramente, a totalidade da psique. É
o ego que ilumina o sistema inteiro,
permitindo que ganhe consciência e,
portanto, que se torne realizado. [...] A
totalidade inata, mas escondida, da psique
não é a mesma coisa que uma totalidade

369
plenamente realizada e vivida. (JUNG,
1964, p. 162).

Agora imaginemos que num determinado momento, ao


agachar para beber água vê esta mesma imagem. Pouco tempo
depois, surge na cena junto daquela entidade aquática, outra
entidade, mas que é diferente da primeira.
A criatura se espanta nunca havia percebido que havia
outras, e, neste instante percebe ao seu lado outro hominídeo
idêntico àquela criatura aquática. O espanto aumenta, a
descoberta é algo desconcertante. Neste dia, além da imagem
corriqueira, surge outra. O susto dá lugar à descoberta, que
inicia um processo, que não pode mais ser parado.
Os sentidos entram em colapso, já não percebe mais
como antes, vê que aquela presença não é apenas uma entidade
aquática, está também ao seu lado. A percepção do si-mesmo é
imediata, pois o outro desperta todos os tipos e revelações.

No entanto, em seu sentido estrito o


processo de individuação só é real se o
indivíduo estiver consciente dele e,
consequentemente, com ele mantendo viva
a ligação. Não sabemos se o pinheiro tem
consciência do seu processo de
crescimento, se aprecia ou sofre as
diferentes alterações que o modelam. Mas
o homem, certamente, é capaz de participar
de maneira consciente do seu
desenvolvimento. (JUNG, 1964, p. 162).

O espanto faz com que o hominídeo retorne o olhar para


água, ao tentar tocar a imagem, a mesma desaparece, ao tocar
novamente, desaparece mais uma vez. A imagem refletida está
também ao seu lado e é real e podendo tocá-la, volta-se a água
descobre o outro e ao mesmo tempo vai desvelando-se,
370
descobrindo-se. O conflito é inimaginável, indizível, surgem
apenas urros, sons guturais que serviam para expressar a
angústia da nova revelação.
A descoberta, ao mesmo tempo, que o inclui à natureza
e aos demais de sua espécime, o torna um ser separado,
sozinho, ao beber a água, o que via era a si-mesmo. Essa
estonteante revelação o torna louco, diferente, pois já não era
mais uma sensação conhecida. Aquilo que via não era uma
entidade que vivia nas águas era seu reflexo o acompanhando,
a desolação e a angústia são intensas. Ao tocar o outro se
descobre, ao descobrir-se como indivíduo percebe-se como
sujeito desprendido. Novamente toca e olha o reflexo, as
incríveis descobertas não terminam.
Ao tocar-se e ao tocar no outro, descobre que somente
sua imagem não é o suficiente, já que ao tentar tocá-la
desaparece. Necessita do toque no outro, tocar e ser tocado,
necessita daquela imagem. Agora, não é apenas atraído pelas
funções biológicas, existe algo a mais, a presença do outro.
Este acontecimento passa a explicar a realidade, afirmando a
sua existência e a deste Outro.
Somente com a chegada deste outro é que pode romper
a simbiose com a natureza. Fazendo desaparecer a imagem
refletida, entidade aquática. Somente com a chegada do outro é
que pode enfim descobrir-se como indivíduo.

O verdadeiro processo de individuação –


isto é, a harmonização do consciente com o
nosso próprio centro interior (o núcleo
psíquico) ou self – em geral começa
infligindo uma lesão à personalidade,
acompanhada do consequente sofrimento.
Este choque inicial é uma espécie de
“apelo”, apesar de nem sempre ser
reconhecido como tal. (JUNG, 1964, p.
166).
371
O hominídeo é o primeiro, o si-mesmo. O reflexo é
aquele que desconhece, mas que sempre esteve ali, um aliem.
A natureza ao seu redor é seu segundo, em que vivia em
prefeita simbiose sem perceber-se como algo separado.
Somente com a chegada do terceiro é que sua significação pode
ser completa. Este terceiro ao mesmo tempo, que o identifica, o
coloca em dúvida.
Neste desespero não faz outra coisa, a não ser, matar
aquele que agora o ameaça. Ao tornar-se um separado da
natureza, rompe para sempre com o caráter meramente natural
dos instintos. Agora possui uma imagem, o outro não é um
mero reflexo. Na significação deste outro, o eu, pode enfim ser
constituído, a morte do grande outro, não é apenas externa,
existe também a morte interna do reflexo deste grande outro.
Houve a descoberta de que não havia oposição e a necessidade
destes outros é que será o surgimento do animal simbólico, o
Humano.
Como na tragédia anunciada, “después de haberse
negado desesperadamente a ver la verdade, cuando se ve
obligado a verla se salta los ojos” (FROMM, 1971, p. 150).
Com a morte dos entes percebe-se como desejante, que precisa
daquela imagem que era real.
O Narcisismo primitivo, não sucumbiu pela imagem.
Percebeu que este outro não era apenas virtual, mas a reflexão
dele mesmo e do terceiro. Narciso é então libertado
descobrindo que a água era apenas um receptáculo produtor do
reflexo do humano virtual, que contido nele e que estava preste
a surgir.
Num primeiro momento teve que perceber a imagem
construída como algo externo, não como algo permanente que
sempre esteve ali. Desconstruir internamente aquilo que ainda
não fazia sentido e que na realidade era uma construção parcial
da realidade, ou o ser das águas.

372
Agora em fim, percebia, que quem o acompanhava
todas as vezes ao beber água, não era uma entidade separada,
ou uma entidade das águas, era sim um reflexo, um eu virtual.
O desvelamento de tal imagem virtual, que nele habitava até
esse momento, foi a descoberta do outro real e concreto,
também, a descoberta do si-mesmo que o influenciou.
Desta evolução reflexiva é que foi percebendo a
natureza como sendo algo externo ao animal-simbólico. As
construções puderam estruturar-se, desenvolvendo a percepção
aprendida, superando permanentemente as funções meramente
fisiológicas. Ao construir-se como símbolo, o animal-humano
passa a transformar o real da natureza em produções,
produzindo assim, a história, a tradição e a cultura.
Ao refinar a percepção do externo, pode iniciar a
individuação do interno. A sociedade construída deste primeiro
momento evoluiu para uma sociedade complexa, percebendo-
se como totalidade desprendida da natureza, que para
sobreviver a modifica e modificando-a, modifica-se ao mesmo
tempo.

3.2 A psicanálise humanista dos símbolos e mitos

Este pequeno preâmbulo nos dá noção de como um


mito pode explicar forças internas que nos habitam, forças que
nos ajudaram a evoluir de um simples hominídeo até
chegarmos ao grandioso animal-simbólico de alta
complexidade, com capacidades superiores de pensamento e
linguagem.
Um sonho, uma alucinação, uma miragem, um
pensamento e também a percepção da realidade estão
embasadas em tais princípios de criação. Uma neurose
obsessiva, uma psicose, uma perversão, estão regidas, também,
por semelhantes mecanismos. Já que a fonte libidinal é uma

373
sensação formadora de imagem, ou seja, uma percepção do
externo com base em mecanismos internos.
Na neurose obsessiva, observamos que as imagens estão
influenciadas por uma base pulsional, que permanecem e
persistem, pulsionando os movimentos repetitivos e
compulsivos da psique. Este processo tem nas ficções, ou
criações imaginárias, a base da libidinização recalcada ou
reprimida, que fomentam a ação repetitiva.
De acordo com Laplanche e Pontalis,

Na forma mais típica, o conflito psíquico


exprime-se por sintomas chamados
compulsivos (ideias obsedantes, compulsão
a realizar atos indesejáveis, luta contra
estes pensamentos e estas tendências, ritos
conjuratórios, etc.) e por um modo de
pensar caracterizado particularmente por
ruminação mental, dúvidas, escrúpulos, e
que leva a inibição do pensamento e da
ação. (2008, p. 313).

Uma psicose usa as imagens como fonte de


deslocamento da pulsão original, com a finalidade de suportar
tamanha carga de energia catequixada. Na perversão a imagem
objetal, traz para o indivíduo a sensação perdida, o objeto passa
a ser a fonte libidinal, somente através da imagem pode
constituir a fonte de prazer.
Em todos os casos a pulsão é transformada em sensação
ou a sensação desencadeia uma pulsão ao ligar-se a imagem
representada, “O Isso” (o que sinto e não consigo explicar).

Estes fenômenos mostram que as fases


antigas da libido podem ser reavivadas
regressivamente. Este caminho não só
parece viável, como também frequentado

374
de muitos modos: Poderíamos esperar
assim – se esta hipótese for verdadeira –
que, em fases mais antigas do
desenvolvimento da humanidade, esta
transformação não era um sintoma
patológico e sim um processo frequente e
normal. Seria interessante, por isso, saber
se sinais deste fenômeno se conservaram
na história. (JUNG, 1995, p. 132).

Numa fobia tais interpretações das imagens com base


nas sensações, produzem novas combinações que fazem do
evento peculiar um grande mobilizador de medo. Não se trata
de algo conhecido pela consciência, mas sim de uma sensação
de desamparo, que coincide com o medo concreto de
acontecimentos eminentes. O diálogo interno das entre a
sensação e as emoções promovem o aparecimento da angústia,
que incide sobre a consciência do externo. Ao não ter algo
concreto para depositar a fobia, inicia o processo de criação de
imagens que apoiem tais sensações. O fator desencadeante do
processo de medo, pode não vir a ser significado, e assim
conhecido, mas é um recalcado, que não pode ser catequixado.

Os pacientes com características fóbicas


experimentam um temor – quase sempre
irracional – excessivo e persistente de
objetos, pessoas e situações especificas, o
que lhes causa sofrimento e daí decorre a
manifestação mais típica das fobias, que é
o uso de uma “técnica de evitação” das
situações fobígena, por meio de
dissimulações e condutas evasivas, com
sucessivas fugas, racionalizadas, de tudo
que, por antecipação, ou angustia.
(ZIMERMAN, 2004, p. 306).

375
Em todos os casos o que se percebe é que a criação de
um mito pessoal é caracterizada para melhor compreender a
própria situação. As histórias são possivelmente percebidas na
realidade o que dão maior força para a criação simbólica. O
mito de Narciso, explica a ideia de perdermo-nos em nós
mesmos, e com isso constituirmos uma característica estrutural,
imersa em uma possível psicose.
Ao tratarmos de um mito pessoal podemos por
insistência e repetição, consolidar o mito como um ente, que se
apodera de nossa totalidade humana. O Ego sucumbido torna-
se refém das leituras internas do mito pessoal, ao
mergulharmos em nosso Narciso, ao sermos imersos em nossa
dor, as representações de beleza e feiura são baseadas neste
mito. Mito esse que sofre pela desventura, que necessita ser
resgatado, mas que ao estar intensamente ligado ao seu reflexo
não consegue ver o outro.
Podemos relacionar as depressões nestes casos em que
o externo é tão forte que o aparelho psíquico sofre uma
clivagem, fundindo-se ao mito. Narciso não morre pela
imagem morre pela imersão. Enquanto a imagem fantástica
ainda está presente, permite que Narciso sobreviva. Porém, ao
mergulhar no vazio de seu inconsciente, morre engolido pela
imagem virtual, sufocando pela ingestão de si-mesmo.

Do mesmo modo Plotino (Enneades, I. 6.


8) olhava para Narciso como o mais
perfeito exemplo do herói que havia
ignorado que o seu corpo (o que vira
reflectido) não era ele próprio mais do que
um reflexo (imperfeito e limitado) da sua
alma, e que, desejando o que não merecia
ser desejado, com isso se afundara nas
águas, metáfora para a negra noite do
Hades. (JESUS, 2005, p. 16).
376
Ao perceber-se como objeto e fonte de desejo, percebe-
se como algo imperfeito para si-mesmo, quebra (cisão). Ao
cindir-se imerge em si-mesmo não consegue deixar de fundir-
se completamente em uma imagem que nunca conhecera.

O sonho a que se alude pode muito bem ser


entendido como a ilusão (da beleza) que foi
toda a vida de Narciso, algo que agora se
lamenta amargamente, contemplada que foi
a verdade (a fealdade) nas águas do lago.
Esta hipótese parece confirmar-se no verso
13: a beleza chorada seria, no fundo, uma
beleza que não há, e que, em boa verdade,
se percebe no fim nunca ter existido de
facto. Talvez consequência dessa amarga
descoberta, o acto de dar a morte (v. 14) é
extremamente violento e imediato. Se
aceitarmos, como parece credível, que o
sujeito de dw=ke é o próprio Narciso, e que
o objecto é o sangue, então estamos a falar
de um suicídio consciente e cruel. As
coordenadas do final do mito estão então, e
tendo como referência Ovídio,
completamente subvertidas. Narciso ter-se-
á suicidado ao perceber ser uma ilusão a
beleza que sempre julgou possuir. (JESUS,
2005, p.15).

Pois, de qualquer forma a imersão de Narciso em si


mesmo, fez dele vítima das fundamentações externas
aprendidas, que elegiam como herói e como um ser igualável a
beleza dos Deuses.
O nosso Ego nos conduz para o centro de qualquer
história, e ao contarmos, esta história não há outro protagonista
377
a não ser nós mesmos. A construção do mito Universal se pauta
pela explicação simbólica da alma humana, em que os
processos psíquicos se embasam. Esta ocorrência de forma
direta e individual, força nossa atuação para o centro do palco
onírico.

Além disso, há aspectos inconscientes de


nossa percepção da realidade. O primeiro
deles é o fato que, mesmo quando os
nossos sentidos reagem a fenômenos reais,
a sensações visuais e auditivas, tudo isso,
de certo modo, é desconhecida (pois a
psique não pode reconhecer sua própria
substância). Assim, toda realidade concreta
sempre tem alguns aspectos que ignoramos
desde que não conhecemos a natureza
extrema da matéria em si. (JUNG, 1964 p.
23).

Se Narciso ao descobrir sua beleza morre ao contemplá-


la, ou se suicida ao descobrir que não era tão belo quanto os
Deuses, o fato é que em uma ou em outra análise do mito,
Narciso não se conhecia de fato. Como é o caso de Édipo em
sua fuga as terras distantes a fim de não sucumbir no parricídio
e no incesto.
O complexo de Édipo em uma leitura literal deixa
dúvidas sobre sua real eficácia na leitura do desenvolvimento
psíquico. Porém, ao lermos não o mito, mas o processo
psíquico o qual é ilustrado pelo mito, algumas relevâncias
devem ser levadas em consideração.
O processo, mitológico da jornada do Rei Édipo, nos
demonstra alguns fatores importante que ligam Édipo a
Narciso, que é a aprendizagem de si pelo determinismo e a
alienação pela educação, religião e cultura. Ambos, Édipo e

378
Narciso, vivendo a inconsciência de suas existências, em que
sucumbiram pela predeterminação de um oráculo.
Como um bebê que nada conhece, sai em busca de uma
alternativa a sua predeterminação, porém no meio do caminho
encontra com o Rei Laio e seus guardas, e num ataque de fúria
acaba matando a todos. E a jornada continua, ao ler o enigma
da esfinge, completa seu destino de matar o pai e esposar a
mãe, “o desafortunado pai é a primeira intrusão radical de outra
ordem de realidade na beatitude dessa reafirmação terrena da
excelência da situação no interior do útero; assim sendo, o pai é
vivenciado primariamente como um inimigo”. (CAMPBEL,
1997, p. 07).
Lendo o mito e encaixando-o diretamente no
desenvolvimento psíquico, num primeiro momento temos a
certeza que se trata de criação forçada. O porém é que
inicialmente como no preâmbulo, não há nada além, que a
inscrição inicial dos primeiros afetos. Esta inscrição está
envolta de ambivalência, e ainda sem significado. Existindo
tanto a dor e o desconforto, quanto o alívio e a saciedade. A
simbiose não é apenas uma construção, mas uma evidência, o
amor, uma construção simbólica, ainda não é uma realidade
psíquica. O que existe, entre mãe e filho, é a troca saudável de
afeto mútuo, assim como a mãe afeta psiquicamente o bebê,
também é afeta psiquicamente.

Ao que parece as mais permanentes


disposições da psique humana são aquelas
geradas pelo fato de permanecermos, no
âmbito do reino animal, a espécie que fica
mais tempo junto ao seio materno. Os seres
humanos nascem cedo demais; quando o
fazem, estão inacabados e ainda não estão
preparados para o mundo. Em
consequência, toda a defesa que têm contra
um universo de perigos é a mãe, sob cuja
379
proteção ocorre um prolongamento do
período intrauterino. Daí decorre o fato de
a criança dependente e sua mãe, formarem
ao longo de meses após a catástrofe do
nascimento, uma unidade dual, não apenas
do ponto de vista físico, como também no
plano psicológico. (CAMPBEL, 1997, p.
7).

O processo amoroso, e os processos de ira, num


primeiro momento não têm formação. Esta significação será
introjetada, junto com a mãe e os demais objetos. As projeções
e significações estão a serviço da fisiologia, ou da biologia do
animal-humano, que por definição está ocupando-se apenas da
manutenção da vida. Portanto, não é algo consciente ou que
tenha necessariamente a conotação edípica no psiquismo do
bebê.
Contudo, o fator preponderante é que existe uma
inscrição inicial, que é a simbiose, mãe-bebê, e esta inscrição,
num primeiro momento é fato consumado em favor da
fisiologia e da biologia. Já que não há no bebê a capacidade
linguística de simbolização, com a introjeção dos objetos cada
qual será posto em seu devido lugar psíquico, representando
cada qual seu papel na formação do psiquismo, e dependendo
da qualidade do afeto será a qualidade das significações e do
desenvolvimento. Porém, e, este é o fato mais importante, nesta
leitura dos mitos, é que a inscrição primal terá na mãe a
simbiose psíquica perfeita. Não podemos negar que tais
constituintes estão gravados como inscrição inicial, gravada
nas profundezas do aparelho psíquico.
O sequestro, ou a chegada do outro, é uma evidência
das formações dos primeiros interditos, como também, as
primeiras inscrições da separação. A chegada do outro é uma
inscrição que se dá através dos sentidos, com imediata (a
priori) significação. Não podemos deixar de lado que este
380
outro tem uma constituição corporal, e que existe como fonte
produtora de registro. O cheiro, o tônus do toque, a voz, a
imagem e a forma do afeto em sua totalidade é diferente,
singular e idiossincrática.
Este registro será convertido em formações simbólicas
interna, que poderão significar os aspectos identários dos
objetos e das relações entre objetos. O interdito não é um
entendimento real, entre pai e filho, mas incide de forma real-
concreta na psique do infante como sendo um lugar em
separado, ou o contraditório. Se o papel da mãe nesta tríade é
da promoção de segurança e da introjeção e projeção dos
objetos, o papel do pai é o de relacionar e inter-relacionar
psiquicamente tais objetos.
A formação primária paterna é em primeiro o da
oposição dos objetos, o da diferenciação dos objetos e da
relação entre objetos. Esta representação inicial imprime a
separação, entre o corpo materno e o corpo do bebê, infligindo
uma tríade perfeita. Um par e um oposto sistematicamente
definido pelos papéis que cada um representa na tríade. É com
a entrada do terceiro, ou o suposto sequestro, que o registro da
distinção interna (pelo sentido da intervenção do outro) e
externa (pela identificação da totalidade externa do outro).
A forma e a essência somente terão significação quando
a sentido for ligado ao formato, tendo assim a relação e inter-
relação do objeto e dos objetos, denotando uma função
psíquica relacional, mais que é apenas objetal. Neste momento,
que dependendo da qualidade do afeto que o oposto poderá
romper com o Narcisismo maligno, constituindo uma função
egoica primária, decisiva para o fim da simbiose.

Sin embargo, el porvenir pertence sin duda


a la connotacíon, pues a partir del sistema
primário del lenguage humano, la
sociedade desarrolla sin cesar sentidos

381
secundários, y esta elaboraciona ora
manifesta, ora enmascarada racionalizada
se encuentra muy cerca de uma verdadeira
antropologia histórica. (BARTHES apud
ZECCHETTO, 2008, p. 114).

O mito em si é uma construção ideológica, que tem a


finalidade de explicar aquilo que seria impossível pelo registro
psíquico e linguístico de determinada época.

3.3 De Narciso a Édipo: a busca pela imagem perdida


no vácuo desejante

Estreitamente relacionado com o problema


que emerge nessa discussão da sexualidade
está a necessidade de preencher a lacuna
que tem sido deixada completamente
intacta na teoria clássica – o entendimento
do corpo como um caminho para o
entendimento do inconsciente (FROMM,
1992, p. 94).

Com o tempo a capacidade de simbolização pode


desenvolver a sociedade de forma permanente, não havendo
como retornar. A libido, energia psíquica, pode ser convertida
em inúmeras sublimações, e com isso houve a explosão
evolutiva da técnica. Este avanço tecnológico produziu
inúmeras melhorias na qualidade de vida nos reservando,
teoricamente, maior tempo para estarmos conosco.
Partindo deste ponto de vista, o tempo passou a ser
vivido de forma controversa, se temos um avanço tecnológico
temos maior velocidade de resolução de problemas. Com isso,
o tempo sentido estaria maior e a sensação tempo-espaço,
elástica e relativa ao aumento da técnica. Porém com o avanço
382
da técnica, o fluxo informativo também aumentou, as
distâncias não são mais marcadas pelo tempo-espaço, mas pelo
virtual das informações. Distanciando-nos do real concreto,
transformando o tempo-espaço real em tempo-espaço virtual.
O excesso de informação tornou superficial a
necessidade da compreensão do tempo-espaço atual. Os
deslocamentos do que é necessário para o que é virtual é da
mesma rapidez em que o mercado produz novos signos, índices
e símbolos. Sendo aos pouco e cada vez mais, transfigurados o
orgânico em material e o psíquico em virtual. O objetivo está
em tornar nosso tempo mais produtivo, ou mais qualificado,
entendendo que o humano deva ser pensado como máquina, ou
evolua da mesma forma que a tecnologia. Porém, esta evolução
não se trata de uma evolução da capacidade de sentir o tempo-
espaço, como tempo-espaço de vida, e sim da virtualização da
existência.
Tudo é transformado em signo e todos os signos juntos
indicam a possibilidade a ser vivida – vivendo num mundo de
eterno processo - simbolizando uma pseudotransformação – em
que o processo não é vivido plenamente apenas de forma
virtual, deslocado por vários outros entendimentos de
processos. Em que, não se vive nem a experiência atual, nem se
consegue acompanhar os avanços tecnológicos.
Não há como negar, que de certa forma, ao mesmo
tempo em que a corrida pela informação aumenta pela neurose
obsessiva do mercado, aumenta tempo-espaço para os sentidos
do corpo. A busca pelo uso completo do corpo empaca na falta
de tempo para isso, a sexualidade é deformada e o amor passa a
ser uma condição de receber sem ofertar. O medo de amar não
nos deixa viver plenamente as relações afetivas, seja ela
erótica, seja ela fraternal, já a qualquer momento poderemos
perder o afeto do outro.

383
[...] o consumo moderno é ser uma atitude
ou, para colocar mais corretamente, um
traço de caráter. Não importa o que se
consome; pode ser alimento, bebida, TV,
livros, cigarros, pintura, música ou sexo. O
mundo, na sua opulência, é transformado
em um objeto de consumo. No ato de
consumir, sugasse passiva e ferozmente o
objeto de seu consumo, embora, ao mesmo
tempo, esteja sendo sugado por ele. Os
objetos de consumo perdem suas
qualidades concretas porque não são
procurados pelas faculdades humanas
específicas e reais, mas, por um esforço
poderoso: a voracidade de ter e de usar.
(FROMM, 1992 p.111).

Em um dado momento estamos ligados pelo êxtase


narcotizante de alguma substância, do consumo, da idolatria,
ou da idiotização. A falta sentida não pode ser simbolizada, por
não ter a inscrição desejante, não tendo sido desejado, tende
procurar o desejo, e seu desejo passa a ser desejar.
O retorno do desejante não é uma realidade, e sim uma
sensação não simbolizada, criando o espaço vazio que imprime
um desejo que não tem objeto, tornando a existência
contemporânea vazia e sem um objetivo.
O consumo tem como meta anular a sensação de vazio,
os amigos anulam a falta do afeto, a narcotização anula a dor, a
consciência desvia para a informação. O processo de
deslocamento do si-mesmo torna o sujeito perseguidor de um
prisma de possibilidade, o objetivo como meta sempre é
deslocado. O viver o presente é superficial, já que o viver
alienado dos próprios sentimentos e emoções seria viver preso
ao passado remoto, em que não havia condições de
compreender o que se passava.

384
Desse reprimido é retirado o impulso que faz no
presente a atualização da sensação perdida no tempo-espaço,
que não pode ser compreendida, pulsão geradora de novas
regressões. A repetição se torna uma espiral que faz com que o
sujeito permanentemente reviva as sensações e experiências
inconscientemente.

[...] processo incoercível e de origem


inconsciente, pelo qual o sujeito se coloca
ativamente em situações penosas, repetindo
assim experiências antigas sem se recordar
do protótipo e tendo, pelo contrário a
impressão muito viva de que se trata de
algo plenamente motivado na atualidade.
[...] fator autônomo, irredutível, em última
análise, a uma dinâmica conflitual onde só
entrasse o jogo conjugado do princípio do
prazer e do princípio da realidade.
(LAPLANCHE e PONTALIS, 2008, p.
83).

Podemos observar ao lermos o mito do Herói da


atualidade, que a jornada inicia na extrema pobreza indo ao
reconhecimento, ao luxo e a riqueza. Onde o herói se torna se
próprio refém, sem ter alternativa a não se mergulhar em si-
mesmo, morrendo pelo sufocamento. Não há encontro com o
si-mesmo, mas há um mergulho, uma imersão, não uma
conversão, acarretando uma cisão, pois o que buscava na
realidade se tratava de um falso-self. Assim sendo,

O desespero assim o determina. A beleza


de Narciso era, no fundo, resultado da
ausência de visão. Conhecida a realidade,
pela sua representação, ela não é mais
agradável à vista. E o herói tomba, para o
lago, ou para o fundo de si. Só a morte é
385
lenitivo para a desilusão decorrente da
visão do eu, do esforço de
autoconhecimento, um esforço que seguiu
o caminho da aparência e não da essência,
e que por isso se revelou trágico. (JESUS,
2005, p. 01).

As emoções do herói atual pulsionam apenas a busca


pelo olhar perdido e da significação que não encontra (o afeto
que não pode concebido). O herói por falta de
autoconhecimento, por ter compreendido que era como os
deuses, e que sua figura era tão sublime, tende a perder-se nas
fantasias erguidas pela falta de constituição do desejo. A figura
narcísica é ferida, ao reconhecer-se como humano, ou pior ao
não reconhecer-se como tal, humano que é, sucumbe na
escuridão trágica da jornada final.

[...] vimos repetidamente a mesma história


do herói de nascimento humilde mas
milagroso, provas de sua força sobre-
humana precoce, sua ascensão rápida ao
poder e a notoriedade, sua luta triunfante
contra as forças do mal, sua falibilidade
ante a tentação do orgulho (hibris) e seu
declínio, por motivo de traição ou por
sacrifício “heroico”, onde sempre morre.
(JUNG, 1964, p. 110).

A jornada do Herói atual é vencer a desigualdade


fomentada por uma sociedade desterritorializada, de exposição
e de consumo. O consumo que não é apenas local, mas está
influenciando a totalidade social.
A tecnologia neste sentido ajuda projetar novas formas,
novas configurações de heróis, que no fundo tem a função de
simbolizar o consumo. O herói atual só é reconhecido pelo

386
status que acende, pelas marcas que usa, pela tecnologia que
vende, pela exuberância que transmite, pelas revistas que
aparecem ou programas da mídia em geral que participa. O
herói atual, não busca evoluir, mas busca o símbolo da vitória,
mais que isto, pretende ostentar os símbolos, mesmo que custe
a própria vida ou a condição humana, que é a mediania.
Neste percurso da extrema pobreza à extrema
opulência, os deslocamentos são inúmeros. Não podendo, desta
forma, constituir um Senso de Identidade e a Necessidade de
Enraizamento. Já que a diáspora não se trata em tempos atuais
apenas de deslocamentos territoriais, denotando um sentido
mais amplo e abrangente aos meios de difusão de comunicação
e informação. Sem uma produção do afeto desejante, não pode
constituir uma identidade fixa e tende a ter uma identidade
virtual, possível em muitos locais. Por sua vez, sem ser objeto
de desejo, ou constituído por afeto virtual, não pode enraizar-se
profundamente, vivendo a virtualidade dos territórios em que
se inscreve.
Os movimentos territoriais, desta forma, já não podem
ser percebidos como entrada e saída dos viajantes, mas pela
movimentação dos conteúdos virtuais. A produção do
inconsciente social não é mais apenas local, e os limites
territoriais não são mais um problema. O herói atual é
convertido em consumo, que neste momento, tende a ser uma
produção enraizada na produção do virtual, o que alimenta uma
cadeia industrial de larga escala.
Sendo assim, a tecnologia e o consumo retroalimentam-
se sistematicamente, com o desenvolvimento tecnológico,
maior variedade de consumo e a superação momentânea do
consumo, pelo consumo do mais atual. Porém, o fato de ser um
sistema retroalimentar, não quer dizer, que seja
necessariamente consciente, mas tornasse quando o uso é
comum e apresenta resultados fiduciários. O herói neste jogo
necessita também superar seu feito homérico por outro, para
387
que possa continuar com seus ganhos secundários (afeto e
desejo). Mesmo que isso faça do herói atual uma marca, um
símbolo, vazio de sentido, já que está em busca do símbolo
social que é o dinheiro, um fim sem objeto, mas com um
símbolo. O regressivo desta ideia é que não compreende que a
sua existência é um fim si-mesmo, ou a busca da liberdade,
produtividade e da integração e não a busca inconsciente pelo
afeto e o desejo.
O herói atual, receptáculo vazio, tornasse líder, líder
este que se torna um ícone, uma imagem fundida em si-mesmo.
Seu feito maior foi a notoriedade, esta notoriedade, trouxe o
lucro do ganho secundário, mas que entendida pelo seu objeto
que é o dinheiro. O pensamento médio se identifica e projeta
suas expectativas neste ser imortal, e, este último acaba por se
pensar assim. Com isso, a busca pelo líder explica a
transferência que é produzida pela identificação. Se num
primeiro momento transfiro conteúdos, que pode conter uma
composição com base nas imagos, materna ou paterna. Num
segundo momento me identifico pela humanidade que
apresenta tal figura. O aspecto humano de identificação é que
todos nós temos nossas jornadas e que nelas somos o centro da
história.

O senso de impotência gera a necessidade


de ídolos, daí esta ser menos intensa quanto
mais a pessoa for bem-sucedida na sua
existência em virtude de seu próprio
esforço ativo; quanto mais desenvolver a
razão e seus poderes de amar; quanto mais
tiver um senso de identidade, não mediado
pelo seu papel social, mas enraizado na
autenticidade de seu ser; quanto mais puder
dar e puder se relacionar com os outros,
sem perder sua liberdade e integridade;
quanto mais ela se tornar ciente do seu
388
inconsciente, então nada humano dentro de
si e nos outros será alheio a ela. (FROMM,
1992, p. 75).

Para Erich Fromm, não é em todos os casos que a


identificação projetiva tem bases na imago materna e paterna.
Todavia estas são as primeiras relações de uma tríade ideal, daí
no exemplo acima ter como base referencial estes imagos,
mesmo profundamente recalcada.
Na contemporaneidade, as configurações familiares não
têm mais o feminino e o masculino como fundamento inicial.
Porém, tais papéis desempenhados atualmente nas
configurações homoparentais, multiparentais ou
monoparentais, deixam os limites tradicionais deslocados. O
problema não é o deslocamento em si, mas a busca pela
identidade tradicional da tríade, que causam uma forçosa
comparação entre as configurações contemporâneas e as
configurações tradicionais.
O deslocamento não acarreta contradições adicionais na
psique, já que a tríade será formada, pelos pares cuidador (a)
primário e bebê, mais cuidador (a) secundário e bebê. Em que,
a referência inicial será a inscrição analógica do papel psíquico
da maternagem inicial (cuidador (a) primário e da inscrição
analógica do papel psíquico da paternagem inicial (cuidador (a)
secundário). A evolução e a imposição de uma inscrição na
sexualidade se colocam neste sentido, com a mesma
constituição dos fatores da tríade ideal, em que não é definida a
sexualidade pela tipologia parental.
Nos casos multiparentais, não há propriamente uma
desvinculação na inscrição psíquica primária. Já que não
haverá sempre aquele que ocupe o lugar da inscrição do
cuidador secundário, ou um terceiro da relação. Mesmo caso é
o lugar da inscrição do cuidador secundário na relação

389
monoparental, em que haverá de qualquer forma, aquele que
ocupe o papel do terceiro da relação.

Mesmo depois de nascer, a criança quase


não difere do que era antes do nascimento;
não pode reconhecer objetos, não tem ainda
ciência de si, nem do mundo como
entidade que lhe é exterior. Apenas sente o
estímulo positivo do calor e do alimento e
não diferencia ainda calor e alimento de
sua fonte: a mãe. A mãe é calor, a mãe é
alimento, a mãe é o estado eufórico de
satisfação e segurança. Esse estado é o de
narcisismo, para usar o termo de Freud.
(FROMM, 1995, p. 35).

No contexto da desterritorialização o Complexo de


Édipo lido de forma tradicional e superficialmente não denota
relação com a realidade psíquica. Porém, internamente haverá
uma oposição, que talvez ou não necessariamente, possa ser
entendida como rivalidade e sim como oposição. A rivalidade
poderá ser uma questão linguística, em que a interpretação
compreende a oposição ao par primário - mãe-bebê ou cuidador
(a) primário e bebê - como sendo rivalização a entrada do
terceiro. Neste ponto de vista não se trata de rivalização, mas
sim de oposição ao par simbiótico, que na psique do bebê será
a inscrição no mundo das coisas, objetos e relações,
constituindo a característica simbólica do animal-humano. Que
para a mãe poderá ter outra concepção, que será conforme sua
constituição psíquica.

O nascimento muda a situação sob certos


aspectos, mas não tanto quanto pareceria.
A criança, se agora vive fora do ventre,
ainda depende completamente da mãe. Dia

390
a dia, porém, torna-se mais independente:
aprende a andar, a falar, a explorar o
mundo por si; a relação com a mãe perde
algo de sua significação vital e, em lugar
disso, a relação com o pai torna-se cada vez
mais importante. (FROMM, 1995, p. 55).

A desterritorialização é um fato importante para o


entendimento da transformação do herói atual tanto em
consumo quanto em exposição. Acarretando a identificação e
projeção nestes aspectos transferindo do Herói atual, para o
objeto de consumo. Se por um lado, temos o consumo, que
subverte o afeto temos a exposição que contribui para a
virtualização do afeto. Estes fenômenos aprofundam o
problema dos limites territoriais, virtualizando as fronteiras em
todos os planos. Se o corpo é a uma totalidade sensitiva, suas
significações só poderão tornar-se conscientes quanto às
sensações sejam experienciadas de forma concreta e não
virtual. Pois, a inscrição do virtual é uma exacerbação da
capacidade simbólica, tornando o viver de fato, em desejo de
experienciar os objetos de forma extrema, absorvendo o
máximo do prazer pelo prazer.
O desejo não afetado pela pessoalidade, não constituído
na pessoalidade, não forma decisivamente um objeto concreto
e sim uma possibilidade, que não pode ser alcançada. Neste
sentido, as idolatrias e adições tomam caráter compulsivo e
obsessivo, que demandarão um hedonismo permanente
esvaziando aos poucos a possibilidade de biofilia ligada à
existência. Uma jornada sem fim em que aos poucos com a
identificação projetiva me transporto para dentro de uma
ficção. Um Mito pessoal transfigurado pela imagem ideal,
simbolizada no Herói atual, que aos poucos vai cegando a
consciência perdido na fantasia ideal.

391
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
a) E por falar em sonhos... Um pequeno conto
para concluir.

Era uma escola muito bonita, que eu adoro


tanto. Minha casa também era muito
bonita. Um dia elas se casaram e tiveram
dois castelos, que se chamaram Linda e
Lindo. Um dia os filhos das lindas casas
tiveram filhos que viraram rei e tudo que as
pessoas pediam os Castelos deixavam. Ai
um dia eles viraram macacos, que viraram
rei das selvas. E todos os animais viveram
felizes para sempre. (ESCRITO POR M. G.
R. 11 ANOS).

Esta história foi escrita M. G. R., este paciente tem


diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção por
Hiperatividade, quadros de convulsão e Epilepsia. A mãe ao
ser entrevistada comentou que o médico havia dito que
“poderia se tratar de um possível Transtorno Invasivo do
desenvolvimento sem Outras especificações”, nada conclusivo.
O M. G. R., apresentou quadro de hiperinvestimento linguístico
e hiperfasia, movimentos rápidos dos olhos, evasão e
deslocamento de pensamento.
Este analisando escreveu a história baseado em um
desenho que havia feito previamente. Não foi uma descrição e
sim uma criação independente, usando as imagens que havia
desenhado, embora as relações no desenho não deixavam
perceber a relação da história criada com o desenho concebido.
Fazendo sentido somente após entrevistar a mãe e conhecer a
outra parte da história.
A história por detrás deste desenho, é que o menino,
antes de chegar à escola atual passou por outras duas escolas.
392
Com as recorrentes mudanças de professores, criou-se um
conflito entre escola e a família. Por fim, quando chegou à
última escola teve mais uma mudança, a entrada de um
estagiário no lugar da professora titular. A mãe e o aluno
sentiram-se acolhidos e permaneceram nesta última escola,
embora houvesse uma vaga em outra, a cinquenta metros de
sua casa.
A casa bonita é a mãe, parte feminina, a escola é
entendida como a parte masculina da história. Isto se dá por ter
como professores dois homens tanto em sala de aula quanto em
sala de recursos. O conflito entre a casa e a escola foi
demonstrado no desenho através dos céus, o da casa, em que o
da casa era azul forte (na narrativa do aluno presença lugar de
aprendizagem). O céu azul fraco é o da escola (falta de
presença, ou lugar em que pouco esteve). O céu da casa se
sobrepõe ao céu da escola demonstrando mais uma vez a
presença marcante da casa.
O amor simbiótico neste caso é confirmado, quando o
menino afirma “nunca vou deixar minha casa”, a casa
simbolizando a mãe. O casamento entre a casa e a escola foi
constatado pela mãe, relatando que: “foi o único lugar que fui
bem recebida”. A narrativa continua com a metamorfose, ou
seja, a jornada que o menino e sua mãe passaram até chegar a
este momento, ou o lugar de acolhimento. Os filhos Linda e
Lindo, que eram filhos de duas construções (prédios), escola e
casa, só poderiam ser prédios, ou melhor castelos. Os castelos
tiveram filhos que eram casas e as casas filhas de castelos
tornaram-se reis. Com o passar do tempo viraram macacos e os
macacos, reis da selva.
A expectativa em relação à nova escola parece ser
muito boa por esta história. A importância também se mostra
outro fato importante da narrativa. Sendo assim, podemos
perceber dois eixos interpretativos, um viés sociológico da
interpretação dos mitos e símbolos. Outro o viés coletivo das
393
imagens mitológicas e simbólicas. Entre outras formas de
interpretação, as que mais ficaram em evidência são estes dois
eixos de análise. Porém, o mais perto do relato da mãe e do
filho, se liga diretamente ao aspecto social-histórico da
Simbiose desenvolvida neste caso.
A casa aparece como a mãe de forma explicita na
narrativa, no latente da mãe, o luto do desejante, ainda não foi
elaborado, pois aparece de forma manifesta a conformidade, o
deslocamento do afeto na busca da cura e o discurso da doença.
Quando a mãe afirma, que “sempre estou lendo tudo sobre o
assunto!”. Quanto ao lado afetivo a formação reativa aparece
de forma manifesta, quando a mãe afirma, “ele é o que mais me
ajuda no meu trabalho”.
É importante entender, que não há juízo de valores
nesta interpretação, os fatos narrados, são de uma mãe lutando
com todas as forças, conscientes e inconscientes, para
encontrar uma saída. O que gostaria de demonstrar neste
pequeno relato é o fato dos conteúdos psíquicos estarem a
serviço da realização da vida, e não apenas dos desejos.
Podemos concluir que nos sonhos estão manifestos não
somente o Princípio do Prazer, mas também, o da realidade.
A história M. G. R. deixa claro as formas simbólicas,
que os conteúdos se apresentam. Poderíamos comparar este
relato com os arquétipos das metamorfoses, da jornada do
Herói, com o complexo de Narciso e de Édipo. Porém, a
simbologia retirada do relato está pautada não por um
arquétipo e sim pelo Princípio onírico da deformação
simbólica. O símbolo casa é transposto para a significação da
mãe, o que pode nos demonstrar o estágio psíquico do menino,
narcísico, ilustrando o aspecto da Simbiose. Não se tratando de
uma fantasia arquetípica, mas sim a ligação onírica com o
Princípio da Realidade.
O inconsciente neste caso se manifesta de forma clara, o
uso das imagens tem ligação interna. No caso do casamento, o
394
masculino do colégio (como é frequente ser chamado a escola
no município de origem do menino), está embasado, na
realidade de o aluno ter professores homens, sendo estes bem
vistos. Outro detalhe importante é o da aceitação da escola e do
acolhimento na imagem do diretor da escola, como homem
acolhedor. Já que as experiências com o masculino
demonstravam o contrário, ligado ao desafeto e abandono,
nesta escola está relacionado ao acolhimento e afeto.
Podemos perceber, que a leitura do Mito pessoal e dos
Símbolos pessoais, tem bases solidas com a realidade. Um
Mito pessoal pode explicar como uma situação se formou e
como esta situação é atualizada através dos símbolos
originários da situação. O aspecto metamórfico, embora possa
ser explicado pelos princípios junguianos, analisando pelo viés
Humanista de Erich Fromm, podemos interpretar de outra
forma.
Após, anos de jornada a família enfim conseguiu
encontrar o acolhimento das suas dores nesta escola. O
casamento, já demonstrou este fato, o outro são os filhos deste
casamento, que se tornam rei. A Biofilia está presente aí neste
fato, outras interpretações são possíveis, no entanto, a narrativa
da mãe exprime a expectativa criada tanto nela, quanto no
menino.
Na história as criaturas tornam-se reis e rainhas, no final
transformaram-se em “macacos, que viraram rei das selvas”.
Este fato nos demonstra qual é a expectativa no sentido das
orientações de caráter produtivo e a possibilidade da libertação.
Com isso, podendo superar o sintoma simbiótico e elaborando
o narcisismo patológico.
Outro simbolismo marcante desta metamorfose é o
aspecto da transformação de objeto em animal. Talvez este seja
um arquétipo encontrado em muitos mitos, porém o social está
encravado na narrativa, que não deixa escapar, a orientação de
caráter mercantil. Quando a mãe afirma que “ele é o que mais
395
me ajuda!”, a mãe necessita do olhar dos filhos em suas
produções já que trabalha com festas infantis. Não se trata de
um problema já que este pode ser o princípio e o fim criativo
das pulsões agressivas.
O social-histórico incide radicalmente na percepção da
realidade. Tendo em vista que uma sociedade tecnológica e de
informação, necessita de informação e conhecimento, que é
adquirido somente no universo acadêmico. Esta questão está
presente na problemática, pela busca da mãe por um local que
supra as necessidades, que ela como provedora não conseguirá.
As necessidades Humanas de enraizamento e de identidade
poderão inverter teoricamente, os aspectos destrutivos da
necrofilia apresentada pela pulsão destrutiva de morte. Porém,
é neste momento que o acolher a totalidade humana e não o da
patologia, que torna concreto o casamento simbólico entre
família e escola.
Assim sendo, sabemos que não nascemos Humanos em
sua completude simbólica, nascemos animais com potência
Humana. O afeto, a liberdade e o amor são coisas a serem
constituídas e alcançadas. O potencial Humano produtivo-
criativo é algo a ser desenvolvido para que enfim possamos dar
vazão às pulsões biofílicas, que possuímos. Assim, a
“transcendência estaria ligada ao aspecto de que o humano
possui instintivamente, uma pulsão que o movimenta em
direção da vida produtiva e criativa”. (RODRIGUES, 2012, p.
209). O que neste caso, seria o “felizes para sempre”, almejado
em qualquer conto de fadas, como também, encontrado em
qualquer realidade psíquica e social na clínica, que se apresenta
como totalidade Humana.

396
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399
A INFLUÊNCIA DA HISTÓRIA E DA CULTURA EM
RELAÇÃO AOS SONHOS

Joana Iara Ferrando Tavares

RESUMONa concepção do presente estudo e dentro de linhas


apropriadas a uma apreciação acadêmica, pretendi, nos limites
da cultura e da história da humanidade, demonstrar as
influências exercidas na temática dos sonhos pelos
condicionamentos filosóficos, morais e religiosos, que ao longo
dos tempos, foram sendo modificados de acordo com a
variação dos conceitos e valores internalizados no ser humano.
Variação esta produto da natural inconstância, inerente ao
avanço evolutivo experimentado pelo homem desde que
adquiriu consciência de si e do uso da razão. Como material
que entendo indispensável a uma visão panorâmica das
questões abordadas, apresento considerações de ordem
filosófica sobre a cultura e valores que ela envolve, e, ademais,
procuro ainda estabelecer as necessárias interligações de todo o
material compreendido no estudo dos sonhos com os conceitos
psicanalíticos que me pareceram convenientes, tudo com o
objetivo de buscar uma consistência orgânica na exposição.

Palavras-chave: Sonhos. Evolução. Civilização. História.


Cultura.

400
1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A vida é um conjunto de vários


estados. Um deles é o sonho.
Representa o subsolo de nossa vida,
é a massa de fermentação de todos
os nossos desejos, planos, projetos.
Ninguém aguenta a vida sem sonho.
Sem sonho não há esperança, não há
humanidade.
Christoph Türcke.

Na área do conhecimento humano, a Psicanálise, como


ciência social, pode ser classificada também como uma ciência
cultural, isto é, faz parte daquele conjunto de ações humanas,
seja no plano material, seja no plano espiritual, conjunto em
que o homem intervém sobre as bases da natureza,
modificando-a, ou modificando-se também a si mesmo, sempre
na busca de aperfeiçoamento, a eterna meta do ser perante a
existência.
Nesse conceito, como elemento que bem ilustra a
interferência criadora do homem, poderia ser lembrado o
cultivo dos campos, a agricultura, onde a sequência natural do
processo envolve o entendimento sobre a semeadura, a
germinação e frutificação, a colheita, e enfim a recompensa
pelo proveito dos frutos em prol da sobrevivência e satisfação
de nossas necessidades básicas e mais fundamentais.
Em suma, tudo que foi produzido pelo trabalho humano
faz parte da “cultura”.
Paralelamente, a “história” consiste na investigação do
passado, na busca de melhor compreender o presente. Ambos
esses valores, de íntima ligação – cultura e história – não
poderiam ter deixado de exercer a intensa influência que

401
sempre tiveram nos assuntos envolvidos por nosso tema
central, a estrutura dos sonhos e de sua interpretação ao longo
dos séculos.
Assim, ao lado disso e bem ilustrado por isso, desde a
antiguidade mais remota foi sendo dado realce ao que pode ser
chamado o cultivo do espírito, o aperfeiçoamento espiritual
baseado no conhecimento da natureza humana, processo
cultural que teve por aliado o conhecimento dos fatos do
passado (a história como ciência), fundado nas experiências
pretéritas não apenas para a mera compreensão do presente,
segundo a definição clássica, mas também como ferramenta
utilizada no aprimoramento das vivências quer no plano
individual, quer no âmbito comunitário, posto foi decisão do
ser humano viver em sociedade, em grupos.
Impelido por seus eternos dilemas existenciais, o
homem, cuja existência “é talvez o fato mais profundo e
misterioso que vivenciamos durante a vida” (PEREIRA, 2007-
a, p. 5, prefácio de Jorge G. Garzarelli), evoluiu ao longo dos
tempos, sempre em luta na busca da felicidade,

não por uma felicidade mítica, mas sim por


uma felicidade terrestre e ao alcance de
todos. Trata-se de tirar o homem da tirania
e da miséria. O homem não pode ser feliz
quando não assume toda sua potencialidade
de homem, quer dizer quando não vive a
liberdade e o bem estar. O fanatismo, a
imbecilidade, a pobreza produzem a
ignorância, a escravidão, a guerra. A
felicidade é fruto da inteligência e da
coragem, a felicidade é fruto da civilização,
da sua nobreza, e da grandeza do homem
livre [...]. Em nossa sociedade é
fundamental que o ser humano preste
atenção aos valores e virtudes oferecidos
402
pela nossa cultura. (idem, p. 3, citação de
terceiro, e contracapa).

É nesse milenar embate entre o homem e seus dilemas


que se estabelecem duas espécies de realidades, uma que se
poderia chamar a realidade natural, outra a realidade humana,
cultural ou histórica, ou seja, há coisas no universo cujo
nascimento independe de nossa vontade ou diligência, ao lado
das quais (postas originariamente pela natureza), outras há
sobre as quais o homem exerce sua inteligência e vontade,
adaptando a natureza a seus fins existenciais, utilizando-se de
experiências históricas do passado para a compreensão do
presente.
Há um encontro entre mundos que se complementam e
que se completam, aquele que nos é dado, que recebemos da
natureza independentemente de qualquer participação
intencional, e aquele que por nós é construído, aquele que
acrescentamos ao mundo natural pelo emprego de nosso
trabalho e de nossa inteligência.
O homem saiu da natureza, evoluiu adquirindo
autoconsciência, razão e imaginação, mas em termos
biológicos o ser humano é uma criatura desamparada,
carecendo de adaptação, criatura desprovida de vigor físico,
com necessidade de proteção, carinho e amor.
Consoante a teoria humanista e nessa que é chamada a
situação humana, identificamos “as mais poderosas forças
motivadoras do comportamento do homem, resultam da
condição de sua existência, a ‘situação humana’”. (FROMM,
1955, p. 36).
Dotado de razão e consciência, ciente de sua própria
fragilidade e fraqueza, a criatura humana nutriu historicamente
o anseio de estabelecer laços substitutos dos que antes da
evolução tinha regulado pelos instintos, por isso,

403
a necessidade de unir-se a outros seres
vivos, relacionar-se com eles, é uma
necessidade imperativa da qual depende a
saúde mental do homem. Essa necessidade
está por trás de todos os fenômenos que
constituem toda a gama de relações
humanas íntimas, de todas as paixões
chamadas ‘amor’. (FROMM, 1955, p. 38).
Para o ser humano dotado de razão viver consiste em
uma realização de fins, em uma constante procura de valores,
valores perante os quais é preciso fazer uma opção quase que
diária, uma escolha entre pólos que muitas vezes se
contrapõem, que aparentemente são opostos entre si:

[...] o que escolher? O peso ou a leveza?


Foi a pergunta que Parmênides fez a si
mesmo no século VI antes de Cristo.
Segundo ele, o universo está dividido em
duplas de contrários: a luz e a obscuridade,
o grosso e o fino, o quente e o frio, o ser e
o não-ser. Ele considerava que um dos
pólos da contradição é positivo (o claro, o
quente, o fino, o ser), o outro, negativo.
Essa divisão em pólos positivo e negativo
pode nos parecer de uma facilidade pueril.
Menos em um dos casos: o que é positivo,
o peso ou a leveza? Parmênides respondia:
o leve é positivo, o pesado negativo. Teria
ou não razão? Essa é a questão. Uma coisa
é certa. A contradição pesado-leve é a mais
misteriosa e a mais ambígua de todas as
contradições. (KUNDERA, 1985, p. 11).

O certo e verdadeiro é que o mais humilde dos homens


tem seus próprios objetivos a atingir, e de regra os realiza,

404
mesmo sem ter uma exata percepção de que possa haver algo
determinante, e que o condiciona em seus atos, ainda que, face
às ambiguidades e contradições da existência haja, mesmo
inconscientemente, a noção de que o fardo mais pesado muitas
vezes reflete a imagem da mais intensa realização vital, quanto
mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e
mais ela é real e verdadeira, mais humana, mais proximamente
nos conduz à realização de nossa meta, que é vivenciar o amor
e encontrar a felicidade.
Nesse processo, na busca da realização de seus fins
diante da existência, é que o homem produz a “cultura”,
alterando aquilo que lhe é “dado” pela natureza, ao mesmo
tempo em que se altera a si próprio, em processo no qual, por
ciclos ou estágios, evoluiu a chamada “civilização”,
prendendo-se a evolução cultural a uma adequação dos meios
aos fins, sem perder de vista considerações de ordem
axiológica (teoria de valores) e teleológica (teoria dos fins).
A sociedade em que vivemos é também uma realidade
cultural, não um mero fato natural. A convivência do homem
consigo mesmo e com seus semelhantes é algo que se modifica
através do espaço e do tempo, sofrendo variada ordem de
influências, e sendo alterada de lugar para lugar e de época
para época.
Nessa ambiência, como dado antropológico, os sonhos
também estão sujeitos à variação de influências (tanto no
tempo como no espaço), e sua interpretação está vinculada ao
entendimento de uma linguagem simbólica segundo as mesmas
oscilações que acompanham o homem em sua história
evolutiva, sem que se perca de vista que “a linguagem
simbólica é uma língua por direito próprio – de fato, a única
língua universal jamais criada pela raça humana”. (FROMM,
1966, p. 7).
Sob a perspectiva dessa evolução experimentada pela
humanidade, a história, como ciência que registra e interpreta
405
as ações do ser humano ao longo dos tempos, registra em
seus assentamentos as modificações ocorridas em cada
momento ao longo do processo evolutivo, apontando, em cada
uma das etapas, as influências que se foram verificando na
temática dos sonhos e de sua interpretação, presentes desde
tempos imemoriais na imaginação e na fantasia do homem,
fazendo-se necessário fazer uma breve resenha da obra de
Fromm (1996, pp. 83/86).
A história da interpretação dos sonhos principia por
tentativas para entender o significado dos sonhos, não como
fenômeno psicológico, porém como experiências concretas da
alma separada do corpo ou como vozes de espírito ou
fantasmas. Outra modalidade da crença dos acontecimentos dos
sonhos serem reais é a ideia de que os espíritos de pessoas
mortas aparecem em nossos sonhos para nos exortarem,
avisarem ou darem outras espécies de mensagens. Outro
conceito do significado dos sonhos, próximo do também
encontrado entre as grandes culturas do Oriente, é esposado por
outros povos primitivos.
Segundo ele, o sonho é interpretado numa determinada
estrutura de referência religiosa e moral. A primitiva
interpretação oriental dos sonhos também não se baseava em
uma teoria psicológica dos sonhos, mas na suposição do sonho
ser uma mensagem enviada aos homens por potências divinas.
A narrativa bíblica conta que o sonho era encarado como uma
visão mostrada por Deus ao homem. Os sonhos eram
imaginados possuindo outro gênero de função profética,
particularmente na interpretação de sonhos pelos hindus e
gregos: a de diagnosticar doenças. Símbolos prefixados eram
empregados para denotar certos sintomas somáticos.
Desta rápida resenha, já se extrai uma breve
compreensão a respeito das dinâmicas sociais e suas variáveis,
que de acordo com os condicionamentos de cada povo em um
determinado momento histórico e, consoante cada etapa da
406
evolução cultural, tiveram profunda influência no tema dos
sonhos e de sua interpretação, assim ligeira e resumidamente
comentados, desde as épocas mais regressivas da história
universal.
Os sonhos, na verdade, foram vistos como via de acesso
a outros mundos desde os tempos da antiguidade.
O sonho revela a verdade atrás da qual se
encontra o pensamento. Desde a
antiguidade, o gênero sempre desfrutou do
indiscutível prestígio da adivinhação,
quando o vaticínio sobre a boa ou má
ventura podia ser lido nas vísceras ou no
voo das aves. Uma técnica de decifração
que criava e derrubava reinos; de César a
Macbeth e sua lady, ninguém estava salvo
de sua influência. (KAFKA, 2003,
[prefácio de Luis Gusmán], pp. 7/9).

Nessas antigas concepções, para os gregos a alma


vagava durante o sonho e o despertar antes de seu retorno
poderia desencadear até mesmo a loucura.
Os egípcios, em sua cultura, pensavam que os sonhos
eram mensagens dos deuses contendo advertências ou
conselhos, por isso se ocupavam com a decifração dos
mistérios oníricos.
Registros de material de sonhos foram encontrados em
forma de placas de argila na biblioteca do rei Assurbanipal
pertencente ao império Assírio, na antiga Mesopotâmia no
quinto ou sexto milênio a. C., demonstrando interesse pelos
sonhos e sua decifração, bem como revelando que tais placas
continham uma espécie de guia de interpretação de sonhos. Em
tais épocas remotas, a atividade de intérprete era considerada
honrosa.

407
Os sonhos através das épocas, juntamente
com suas interpretações têm sido
registrados em muros de cavernas e em
tabuletas de pedra, sendo fácil imaginar,
assim, que pessoas que sonhavam
comparavam suas notas sobre os
acontecimentos que se seguiam aos sonhos.
Desse modo algum hirsuto morador das
cavernas, de mente científica, deve ter
começado a estudar os presságios,
profecias e advertências contidas nos
sonhos; e desde então eles passaram a fazer
parte do próprio tecido da vida,
participando da arte, da literatura, da
religião, e igualmente da ciência. [...] Os
antigos assírios, babilônios, egípcios e
outros muito fizeram para disseminar o
folclore dos sonhos de seu tempo e séculos
depois quando Artemidorus compilou sua
crítica onírica sobre o assunto, ele se
revelou tão popular que mil e seiscentos
anos mais tarde, sua primeira tradução
inglesa havia completado no ano de 1800,
trinta e duas impressões. (ROBINSON e
CORBETTE, 1974, pp. 8/9).

Foi com Sigmund Freud que surgiram estudos


considerados como as primeiras pesquisas científicas sobre a
matéria, publicadas no livro “A Interpretação dos Sonhos” e
em um texto chamado “Sobre os Sonhos”.
Dos estudos de Freud a consequência da interpretação
científica, interpretação decisiva e com significado de real
importância, não apenas no tratamento, como no processo de
autoconhecimento do indivíduo:

408
A interpretação de sonhos desvela,
sobretudo, os conteúdos mentais
reprimidos ou excluídos da consciência
pelas atividades de defesa do ego e justifica
inquestionavelmente sua posição dentro da
psicanálise, já que a parte do id cujo acesso
à consciência foi impedido é exatamente a
que se encontra envolvida na origem das
neuroses. Portanto, o interesse de Freud
pelos sonhos teve origem no fato de
constituírem eles processos normais, com
os quais todos estão familiarizados, mas
que exemplificam processos atuantes na
formação dos sintomas neuróticos.
(FREUD, 2011, nota de capa por Jayme
Salomão).

Dos dados sociológicos abrangidos ao longo dos


processos históricos e culturais da humanidade, extrai-se o
quanto é de relevo um constante progresso interpretativo,
mantendo-se alerta o espírito do intérprete para o fato de que
na atualidade “estamos em novo momento histórico e
civilizatório da produção tecnológica virtual” (PEREIRA,
2007-b, p. 6), imperativa como continua sendo a exata noção
segundo a qual, também no mundo das divagações oníricas,
“tanto o passado quanto o presente atuam na existência de
qualquer pessoa através de imagens latentes, precursoras de
uma intenção que é capaz de levar o ser a um contato profundo
consigo mesmo”. (idem, ibidem).
Do ponto de vista filosófico, os sonhos por vezes foram
tomados como uma revelação da inexpressividade da vida
individual, perante a imensidão do cosmos.

Temos inúmeros exemplos de sonhos tanto


na psicanálise como na literatura. Inúmeros

409
autores influenciaram Freud na sua
construção da teoria dos sonhos.
Artemidoro de Daldis, citado
anteriormente, faz uma extensa
interpretação simbólica do sonho de
Clitemnestra, baseado na peça de Ésquilo,
As Coéforas. Em seu sonho a rainha dá à
luz uma serpente que lhe morde o seio ao
nascer. Giuseppe Tartini, encantado com a
música que o diabo lhe toca em sonho, cria
uma de suas obras mais conhecidas, mas
mesmo assim sente-se extremamente
frustrado com o que lhe escapa no sonho.
Arthur Schnitzler, em seu Breve Romance
de Sonho, cria na personagem de Albertine
um sonho extenso e elaborado que aos
olhos de Fridolin revela quem realmente
era a sua mulher. Todo o romance se passa
como se os personagens estivessem
mergulhados em uma atmosfera onírica. Os
sonhos do próprio Freud, assim como os
sonhos de suas pacientes, também foram
cruciais para o enriquecimento e a
descoberta da teoria psicanalítica.
(GONTIJO, 2006).

As contribuições freudianas em muito beneficiaram a


própria pintura, com notável influência no movimento
surrealista, em que os respectivos pintores (influenciados pela
obra de Freud) foram os primeiros a pesquisar os sonhos e os
processos inconscientes, buscando transcender a realidade e o
pensamento consciente por meio da fidedignidade às imagens
oníricas, utilizando elementos comuns aos sonhos e ao mesmo
tempo fornecendo aos objetos simbolizados outras
significações simbólicas, pelas distorções e justaposições dadas
a esses objetos na expressão artística. Nenhum dos surrealistas,
410
porém, parece ter sentido com tanto fervor as influências das
teorias de Freud sobre os sonhos e o inconsciente como o
espanhol Salvador Dalí. A obra A Interpretação dos Sonhos
pareceu uma revelação a Dalí, para quem representava uma
explicação científica a seus tormentos e fantasias eróticas, que
dizia ter experimentado desde a mais tenra infância.
A fascinação do pintor pela psicanálise afetou
profundamente sua relação com a própria arte, em cuja
manifestação Dali ficou fascinado pela ideia da imagem dupla,
aquela que sugere ou se transforma em uma segunda imagem -
um acontecimento comum nos sonhos. Entendia que o sonho
constituía um paradoxo, um monstro, “porque em sonhos, o
homem é livre para cometer os crimes mais hediondos; o sonho
é embrionário, porque dá ao homem o abrigo trépido e a
imunidade do útero”. (idem, idem).
Assim, as muletas da pintura simbolizavam o que ele
chamava de “equilíbrio psíquico”, o qual torna o sono possível.
Se apenas uma delas for retirada, segundo a enigmática
explicação de Dalí, o resultado será a insônia.

Os sonhos têm desempenhado um papel


importante nas artes visuais desde que a
humanidade começou a representar o
mundo. As imagens admiráveis e
surpreendentes da noite sempre inspiraram
os artistas. Aves pré-históricas e outros
elementos fantásticos, que provavelmente
expressam os sonhos dessa era, aparecem
nas paredes das cavernas em Lascaux, na
França. Os conhecimentos mais antigos
sobre a arte produzidos entre os anos 40000
e 10000 a. C., fizeram com que Pablo
Picasso exclamasse: “Nós não inventamos
nada”! (BARRET, 2002, p. 14).

411
2. A LINGUAGEM SIMBÓLICA

Desde sempre, desde tempos imemoriais, a linguagem


dos sonhos constituiu-se em objeto da indagação e das mais
variadas especulações e de diversificada ordem de
entendimento e, conforme as flutuações culturais de cada
período, sempre inserido no contexto da inesgotável ânsia pelo
entendimento das razões de nossa existência, esse linguajar de
nossas manifestações oníricas veio sendo interpretado para
aplicação em múltiplas funções na vida humana, caracterizado
ora como forma de conhecimento, ora como recurso
divinatório para prever o futuro, ora como veículo de
comunicação com os deuses – sempre, em eras remotas,
presente a compreensão de que no sonho a alma era separada
do corpo.
Essas concepções vieram sofrendo (parece natural que
simplesmente assim se constate) a inevitável influência das
variações culturais que se foram verificando em cada etapa de
nossa história e de nossa evolução e, ao longo de largos
períodos da história da humanidade a interpretação dos sonhos
permanece no terreno do empirismo, vindo somente a merecer
com a Psicanálise, já em tempos modernos, a sua atual
formatação, e galgando merecidamente uma bem conquistada
posição de privilégio, uma vez reconhecido seu alto valor como
veículo de acesso ao inconsciente e trabalho com as emoções.
Num certo sentido, pode-se afirmar (já em visão mais
atual e com amparo na teoria junguiana do inconsciente
coletivo e dos arquétipos), que ainda em reminiscências o
homem pré-histórico continua nosso contemporâneo, presente
não só em nossa herança ontofilogenética, conquanto formas
412
simbólicas dentre as mais arcaicas “podem ser encontradas,
sem sofrer qualquer mudança, nos ritos ou nos mitos de
pequenas sociedades tribais ainda existentes nas fronteiras da
nossa civilização”. (JUNG, et al, 2008, p. 136).
Todavia, deve ser dito apesar dessas excepcionalidades,
não é de esperar que os usos, costumes e padrões morais de
tribos da antiguidade fossem moldados por critérios que se
adequassem a valores internalizados em usos e costumes
atuais; tais padrões culturais são dinâmicos e tendem a se
amoldar às modificações introduzidas de acordo com os
estágios de evolução social ao longo da história da
humanidade.
Esse é conjunto de ideias onde o exame psicanalítico
dos seres humanos depende diretamente de que sejam
conhecidos os impulsos mentais ocultos que direcionam as
diversas opções motivacionais que a vida oferece ao homem e,
em se tratando da interpretação de material onírico, é
fundamental o discernimento sobre os diversos significados
possíveis da linguagem simbólica, determinando-se desde logo
que “a linguagem do símbolo universal é a única língua comum
elaborada pela raça humana, uma língua esquecida por esta
antes de lograr criar uma linguagem convencional universal”.
(FROMM, 1966, p. 22).
Em outro ângulo de visão, “símbolo é um termo, um
nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na
vida cotidiana, embora possua conotações especiais além do
seu significado evidente e convencional”. (JUNG et al, 2008, p.
18). Muitas vezes, implica alguma coisa vaga, desconhecida ou
oculta para nosso conhecimento consciente, daí que o processo
de elaboração dos sonhos se vale da linguagem críptica que lhe
é própria, em busca da elucidação para realização de desejos
(Freud).
Ampliando:

413
O que é um símbolo? Costuma-se definir
símbolo como ’algo que representa outra
coisa’. Esta definição parece um tanto
decepcionante. Torna-se mais interessante,
entretanto, caso nos interessemos pelos
símbolos que são expressões sensoriais da
visão, audição, olfato e tato como
representando ‘outra coisa’ que é uma
experiência anterior, um sentimento ou
pensamento. Um símbolo desta espécie é
algo exterior a nós mesmos; o que ele
simboliza é algo dentro de nós. A
linguagem simbólica é aquela por meio da
qual exprimimos experiências anteriores
como se fossem experiências sensoriais,
como se fosse algo que estivéssemos
fazendo ou que fosse feito com relação a
nós no mundo dos objetos. A linguagem
simbólica é uma língua onde o mundo
exterior é um símbolo do mundo interior,
um símbolo de nossas almas e de nossas
mentes. (idem, ibidem).

Através dos sonhos, com a linguagem simbólica, os


conteúdos interiores existentes em nosso psiquismo são
expressados; emergindo até o exterior onde pode ser
encontrada a energia psíquica necessária, para fazer com que
uma pessoa venha a tornar-se amadurecida e, na exata medida
das funções organísmicas dessa expressão e dessa busca, reside
talvez a mais poderosa função do simbolismo de nossos
sonhos.
No desvelamento desses símbolos, na indagação sobre o
conteúdo da mensagem a ser decifrada é que reside a ciência, e
onde se expande a arte do analista, que deve trabalhar em
conjunto com o paciente, procurando conduzir o analisando no

414
caminho de uma tomada de consciência autêntica e sincera,
sempre tendo atenção para que “o sonho é uma alucinação
traduzida em símbolo, os símbolos nos quais trabalha o analista
sempre tem a ver com a sua missão de recuperar o paciente”.
(PEREIRA, 2009, p. 173).

Antes de o analista poder explorar


eficientemente o significado dos símbolos
com o paciente, ele precisa adquirir um
conhecimento mais amplo das suas origens
e do seu sentido, pois as analogias entre os
mitos antigos e as histórias que surgem nos
sonhos dos pacientes de agora não são
analogias triviais nem acidentais. Existem
porque a mente inconsciente do homem
moderno conserva a faculdade de construir
símbolos, antes expressos através das
crenças e dos rituais do homem primitivo.
E essa capacidade ainda continua a ter uma
importância psíquica vital. Dependemos,
muito mais do que imaginamos, das
mensagens trazidas por esse símbolos, e
tanto as nossas atitudes quanto o nosso
comportamento são profundamente
influenciados por eles. (JUNG et al, 2008,
p. 138).

É, pois, na comunicação com os significados ocultos do


simbolismo que podemos desbravar os caminhos da energia
emocional, cuja dinâmica por várias razões é estranha à
consciência, muitas vezes posta em crise pela deflagração

415
mesma dos sintomas gerados pelos conflitos desencadeados
por essa energia.
De crucial importância a existência de harmonia no
âmbito do campo analítico, uma verdadeira interação e empatia
entre analista e analisando, para que seja produtivo e trabalho
analítico-interpretativo.

O sonho parece sem sentido e sem lógica,


enquanto a pessoa não der importância aos
valores que se encontram latentes dentro de
si mesma. Ao voltar a consciência para os
problemas de sua vida e do seu organismo,
decide buscar nas profundezas do seu
inconsciente um diálogo com essa força
psíquica, e esta comunicação proporciona
um estado de valorização dessa inteligência
da vida. Quanto mais os músculos do rosto,
das pernas, as alterações da respiração, a
rigidez da couraça de seu caráter, estiver
agindo em sua vida, sem sua consciência,
este mesmo estado de inconsciência
impede a pessoa de entrar em contato
consigo mesma. (PEREIRA, 2009, p. 179).

Consistindo a cura psíquica num “reencontro com o


espírito animado” (ibidem), a psicoterapia analítica sem
nenhuma dúvida deve dedicar-se a fazer com que o ser aprenda
a contemplar as condições mínimas de sobrevivência humana,
desimpedido de alimentar o espírito com afeto, amor, carinho,
nutrido com as condições básicas de sobrevivência.
Na psicanálise clínica e na busca incessante por essa
cura – o que em última análise é a razão do campo analítico – é
416
substancial sabermos que “é através do mundo imagógico que
a energia traz ao consciente, imagens que precisam ser
compreendidas e interpretadas; e o profissional mais
qualificado para esta função é o psicanalista”. (PEREIRA,
2007-b, p. 7).

3. A IMAGEM NOS SONHOS

Produção do inconsciente, os sonhos constituem um


verdadeiro reino da imaginação, habitando o território das
fantasias e divagações e suas imagens, tal como no caso dos
símbolos, desde épocas bem remotas consistiram um
verdadeiro desafio ao entendimento consciente do homem, cuja
inata curiosidade o conduziu à pesquisa, à indagação e à
formulação de teorias e hipóteses através das quais procurou
elucidar os enigmas da linguagem onírica, atribuindo-lhe uma
grande diversidade de significados, variada – já se disse isso
acima – segundo as oscilações e influências da história e da
cultura ao longo dos séculos.
Muitas foram as teorias que se vieram constituindo.
Em tempos bem mais remotos, quando os estágios
culturais eram primários e o ser humano vivia basicamente sob
o regime do medo, assombrado por mitos fantasmáticos em um
mundo ocupado pelo mistério, o homem primitivo nutria a
crença da separação entre o corpo e a alma, isto é, considerava
que no sono a alma se destacava do corpo, de modo a crer
piamente que se no sonho estivesse em uma aldeia inimiga,
teria de fato estado nessa aldeia.

417
Era então uma crença tão arraigada, que esses nossos
antepassados confiavam tanto na fantasia onírica quanto na
própria percepção real e consciente.
Progredindo pelos tempos clássicos, quando a
convicção era a de que os sonhos eram o meio pelo qual os
deuses transmitiam suas mensagens aos homens, a história nos
revela que o tema evoluiu já em tempos mais modernos para
teorias ditas populares, algumas até bizarras, até chegar, em
épocas bem recentes, às teorias científicas, inauguradas pelos
estudos e experimentos do Pai da Psicanálise, Sigmund Freud,
e pelos cientistas e pesquisadores que o seguiram e sucederam.
Freud, após abandonar o método hipnótico, passou a
desenvolver sua investigação psicanalítica também a respeito
do mundo dos sonhos, evoluindo daí até solicitar que seus
pacientes falassem de forma livre sobre tudo e sobre todos os
pensamentos que lhes viessem à mente inclusive com relação
aos sonhos, criando o método da associação livre, ainda
atualmente um sustentáculo da ciência da Psicanálise.
Freud, que atribuía fundo sexual à maioria dos símbolos
e das imagens encontradas nos sonhos, afirmava que a
realização de nossos desejos era a real finalidade dos sonhos,
que teriam ainda um conteúdo manifesto (ou aparente)
disfarçando um conteúdo latente (parte oculta), e que neste
latente é que estaria a realização do desejo. Destacou, ainda,
nos sonhos, a ocorrência de recordações da infância e
mensagens de nosso corpo.
Segundo a teoria freudiana, acontece ainda o processo
de condensação, o qual consiste no fato de vários conteúdos
poderem estar resumidos numa só imagem; além do processo
do deslocamento, quando um conteúdo do sonho é substituído
por outro, o que ocorre pela repressão a desejos ou
características de nossa personalidade que não queremos
admitir, repressão pela qual através do sonho esses conteúdos
reveladores são trocados por outros mais disfarçados.
418
Para Freud, que dedicou um interesse especial pela
interpretação, na verdade o sonho chegou a ser considerado “a
via régia de acesso ao inconsciente”. (ZIMERMAN, 2009, p.
213). Tendo a interpretação surgido em seus trabalhos em
forma ainda embrionária, para adquirir e manter, “até a
atualidade, a condição de estar no centro da doutrina e da
técnica psicanalítica” (idem, p. 221), mesmo que se reconheça
a realidade de que também “existem inúmeras outras vias que
conduzem ao inconsciente”. (ZIMERMAN, 2008, p. 422).
Discípulo de Freud e mais tarde seu dissidente, Carl
Gustav Jung, psiquiatra suíço que estudou e trabalhou com a
psicanálise, desenvolveu o método chamado Psicologia
Analítica, desenvolvendo sua própria teoria a respeito dos
sonhos e de sua interpretação.
Divergindo de Freud, Jung não aceitava que os sonhos
significassem apenas satisfação dos desejos, e também
discordava da ênfase dada à sexualidade, encontrando outras
motivações, como ainda acreditava que não sonhamos apenas
durante o sono, sendo “mais do que provável que sonhemos de
modo contínuo, mas a consciência produz tal barulho que não
conseguimos escutar”. (KEPPE, 2006, p. 33).
Sustentando que nos sonhos pode ser encontrada uma
mitologia personalizada, introduzindo o modelo dos arquétipos
“valores, aspirações e metas que representam um atavismo de
nossos ancestrais”. (ZIMERMAN, 2009, p. 38).

Jung também acreditava que os sonhos


traziam mensagens diretas e sem disfarces
e que precisaríamos apenas nos familiarizar
com a linguagem dos sonhos para entendê-
los. Segundo ele, muitas situações
encontradas em sonhos ou em meditações
não viriam das próprias experiências do
indivíduo, mas do inconsciente coletivo,

419
que conteria as experiências comuns a toda
humanidade. Os sonhos viriam, então,
tanto do inconsciente individual como do
inconsciente coletivo e poderiam servir ao
propósito de individuação da pessoa. Este
propósito de individuação seria, segundo
Jung, o desenvolvimento da pessoa
enquanto unidade indivisível,
harmonizando o consciente com o
inconsciente. Entender os sonhos e integrá-
los na vida seria, portanto, uma
oportunidade de se conseguir um
crescimento individual mais completo.
(KEPPE, 2006, pp. 33/34).

Em contraponto ao inconsciente pessoal, parcela de


nosso psiquismo que se compõe de experiências pessoais
recalcadas, Jung estudou o que veio a chamar inconsciente
coletivo ou da raça, “composto pelos resíduos de todas as
experiências de nossos ancestrais, que se manifestam em
imagens primordiais, são potencialidades da imaginação
humana que foram herdadas”. (HADFIELD, 1959, p. 52).
Com efeito, imagens arcaicas de nossa remota
ascendência podem ser encontradas em nosso próprio corpo,
onde nosso plasma sanguíneo tem praticamente a mesma
proporção dos mesmos elementos que são os constituintes da
água do mar (sódio, potássio e cálcio); daí, inferir-se que o que
se dá com o corpo dá-se também com o espírito, o que se pode
comprovar com impulsos irracionais que muitas vezes afloram
involuntária ou inconscientemente em nossa vontade.
Esse inconsciente coletivo, independentemente de nossa
consciência, afeta ou por vezes até condiciona nossos atos,
sendo o constituinte de nossas experiências arcaicas. Essas
potencialidades diferem por natureza dos processos de
pensamento no espírito consciente, estando sujeitas a distintos
420
regramentos, sendo completamente irracionais, ilógicas e quase
sempre amorais. Podem produzir sonhos, fantasias irracionais e
aparecer na forma de imagens e emoções primitivas e até
grotescas, como criaturas, monstros ou serpentes assustadoras,
constituindo forças primitivas poderosas e autônomas.
De acordo com a teoria junguiana, são definidos como
arquétipos as formas assumidas por essas imagens arcaicas e
por suas potencialidades no inconsciente coletivo, ideias e
imagens que constantemente surgem nos sonhos e nos mitos,
representando experiências históricas da raça, profundamente
arraigadas e internalizadas em nosso psiquismo.
Os sonhos, por exemplo, em que apareçam ideias de
sacrifício traduzem a imagem de arquétipos, podendo ser o
sacrifício identificado, na vida humana, como um objeto,
enquanto o significante seria o abandono de coisas velhas por
coisas novas, o sacrifício de um bem por um bem maior.
Veja-se, na mitologia, a Fênix, cujo corpo é queimado
para dar origem a um novo ser. Nas religiões, o sacrifício
figura como prescrição à expiação de culpas, o que também
demonstra o quanto se acha arraigada na natureza humana a
ideia da culpa e a da necessidade de expiação, temas bem
psicanalíticos.
Para a compreensão dos sonhos Jung através da
interpretação de sua linguagem, é preciso que se possa entender
os símbolos ou imagens que nem sempre guardam sintonia
com seu significado imediato ou conteúdo manifesto, sem
esquecer a forma inconsciente e espontânea, ou conteúdo
latente, com que essa linguagem é gerada.
Relacionadas a sensações e ideias profundamente
enraizadas no inconsciente coletivo, mas que não podem ser
verbalizadas pela linguagem, essas energias psíquicas acabam
traduzidas em imagens oníricas, no processo de elaboração
secundária dos sonhos, cabendo que assim sejam interpretadas.

421
Já em sede da Psicanálise Humanista Erich Fromm,
entre outros valores do ser humano que se procura trazer à
consciência pelo autoconhecimento, reside aquele que pode ser
designado como a potencialidade do ser, termo que expressa
“força de criatividade, de dinamismo, de ousadia, de coragem,
de determinação, de confiança” (PEREIRA, 2007, p. 202),
valores muitas vezes presos a núcleos neuróticos ou
emocionais que impedem sua manifestação.
No que se refere aos sonhos, instrumento valioso para a
identificação desses núcleos neuróticos ou emocionais, “a
interpretação dos significados latentes do seu funcionamento
inconsciente deve ser autêntica e sincera” (PEREIRA, 2009, p.
173), atendendo-se ao conteúdo simbólico onde se encontra a
mensagem que procuramos decifrar.
Quando se trabalha na linha humanista, é preciso ter em
consideração o que é fundamental:

Fromm acreditava nas reminiscências dos


arquétipos dos antepassados, porque esta
experiência do passado ontogenético
confirma o processo humanista. Passam
civilizações e a condição da natureza
humana é sempre a mesma, esta divisão
entre mente e espírito, condição biológica e
cultural, estas duas realidades precisam de
um equilíbrio entre seus desejos e
aspirações. No sonho, não se deve dar
importância a quem está no sonho, porque
no fundo é ela mesma a dama de honra,
cada sonho é um drama em particular e
breve, o sonhante é o seu diretor, ator e
autor deste drama. (idem, ibidem).

422
Num resumo do método interpretativo de base
científica, o tema pode ser sintetizado em termos segundo os
quais,

de um lado, podemos considerar que o


sonho é interpretado por Freud
principalmente de forma etiológica e
retrospectiva, ou seja, investigando as
causas dos conflitos interiores e os fatos
passados que os motivaram. De outro lado,
o material onírico é interpretado por Jung,
na maior parte das vezes de forma
teleológica e prospectiva, isto é, a partir de
sua finalidade e função para o
desenvolvimento da pessoa. Se Freud vê
nos sonhos a realização de desejos
reprimidos, Jung entende que os sonhos
possuem uma função compensatória, em
que se equilibram as funções conscientes e
inconscientes. Enquanto podemos
considerar que Freud faz uma investigação
arqueológica dos sonhos, Jung realiza uma
investigação simbólica, onde considera os
arquétipos e o inconsciente coletivo.
(KEPPE, 2006, p. 34).

Conclui-se, que o método científico da Psicanálise


Humanista (teoria de Erich Fromm), expressando uma notável
evolução no processo cultural interpretativo, utiliza para a
interpretação dos sonhos um sistema misto entre as teorias de
Freud e de Jung, pois não despreza a investigação das causas
dos conflitos interiores e os fatos que os motivaram, como
também não deixa de ter a atenção devida para o exame do
material onírico de acordo com sua finalidade e função para o
pleno desenvolvimento da pessoa.

423
Evoluímos culturalmente, aqui, desde a Psicologia
Analítica de Jung, para o método que se pode chamar
Psicologia Analítica Social, onde se trabalha “buscando uma
integração dos fatores socioeconômicos com a explicação das
neuroses”. (ZIMERMAN, 2009, p. 160).
Nesta linha, o suposto é o de que “a imagem vista no
sonho é um símbolo de algo que você sentiu” (FROMM, 1966,
p. 18), isto é, num sonho os impulsos mentais ocultos estão
simbolizados e desafiam a inteligência do intérprete.
Esse processo todo de ampliação dos horizontes
culturais ao longo da história da humanidade tem raízes que
remontam aos primeiros filósofos, como Platão, que em seus
aforismos já sustentava que “a imagem tem composições de
sensações, deve ter alguma função cognitiva e um sustentáculo
de esperança”. (PEREIRA, 2007-b, p. 10). Enquanto
Aristóteles “defendia a ideia de que a imagem é um ato, é a
persistência de muitos movimentos, que acompanham uma
sensação, consistindo na passagem de um ato a uma potência,
através da capacidade imaginativa”. (idem, p. 11).

4. HOMEM NA PRÉ-HISTÓRIA

Abstraídas quaisquer polêmicas sobre a real origem da


vida, observamos que pesquisas arqueológicas encontraram
vestígios da existência humana ainda em forma selvagem,
feroz e bruta, com o traço distintivo de que esses seres
andavam já sobre dois pés, isso nos remete aos nossos
antepassados da Idade da Pedra.
Esses humanoides eram peludos como lobos e cruéis
como todas as feras; recostavam-se em cavernas onde
buscavam abrigo contra os rigores do tempo e da sanha dos
outros animais. Dessa etapa, a grande evolução foi a descoberta
do fogo.
424
Superado esse período chamado Idade da Pedra,
sobreveio uma era mais curta, chamada Idade do Bronze, metal
usado durante muitos séculos para a produção de armas, até o
advento da chamada Idade do Ferro.

No decorrer de vários milhões de anos, os


humanos foram tornando-se mais
adaptáveis, mais habilidosos. Seu cérebro
crescia em volume. Enquanto ocupava
cerca de 500 centímetros cúbicos nos
primeiros humanos, chegou a 900 na
espécie chamada Homo Erectus, que levou
a cabo a longa migração. Em algum
momento entre os últimos 500 mil e 200
mil anos, o cérebro sofreu outro aumento
significativo, o que constitui um dos
grandes acontecimentos na história das
mudanças biológicas. (BLAINEY, 2011, p.
11).

Esse aumento em volume é significativo e a partir dele


é permitido afirmar que a estrutura do cérebro também
mudava, enquanto o que se poderia chamar uma área motora da
fala tomava forma. O cérebro maior, tudo indica, mostraria
estar associado ao lento surgimento de uma linguagem falada,
bem como a uma crescente habilidade no uso das mãos e dos
braços, sendo notável acrescentar que um aumento tão
substancial no tamanho do cérebro de qualquer espécie é um
acontecimento importantíssimo.
Como isso ocorreu, porém, é um grande mistério e uma
das possíveis causas seria o consumo cada vez maior de carne
(desde a descoberta do fogo e ao cozimento dos alimentos).
Na aparência dissociado do tema central, o recorte
histórico é trazido porque em algum momento, ao longo de

425
período evolutivo, o homem adquiriu consciência de si próprio
e o uso da razão, para então apartar-se à mãe natureza.
Com o recorte, uma indagação: Esse hominídeo, então,
sonhava?
Apenas como curiosidade acadêmica:

Não apenas as pessoas sonham todas as


noites, mas tudo indica que os animais
também sonham, pelo menos no caso das
aves e dos mamíferos. Isto porque estes
animais foram observados enquanto
dormiam e eles também apresentaram
movimento rápido dos olhos durante o
sono. Como o ser humano apresenta o
fenômeno REM e afirma estar sonhando
durante o período REM, por analogia
podemos concluir que o mesmo se sucede
com os animais, uma vez que não podemos
perguntar aos animais a respeito dos seus
sonhos. (KEPPE, 2006, p. 37).

Ora então, se embora apenas por dedução é viável


concluir que mesmo os animais ditos irracionais também
sonham, parece evidente que desde aqueles primórdios os
nossos tão remotos antepassados também sonhavam.
Não há como, se não por mera especulação, investigar
sobre os conteúdos oníricos de então.

Saber as respostas certas parece ser o


principal; em comparação, considera-se
insignificante o saber fazer as perguntas
certas. Quiçá seja esta atitude uma razão
por que um dos mais enigmáticos
fenômenos de nossa vida, os nossos
sonhos, dê margem a pouco espanto e
426
suscite tão poucas perguntas. Todos
sonhamos. (FROMM, 1966, p. 11).

Persistindo embora a indagação sobre os conteúdos,


supõe-se que simultaneamente à aquisição de consciência e
inteligência, o homem tenha tentado entender os sonhos e seu
significado enigmático.
Estudos propõem a possibilidade de todos os humanos
terem se originado da África há cerca de 200 mil anos atrás; dai
seriam originários os aborígines, cultura mais antiga do mundo,
que vivem na Austrália desde algum momento há cerca de 40 a
60 mil anos passados. Sua história refere um “tempo dos
sonhos”, o início dos tempos, quando os espíritos teriam criado
o mundo, segundo acreditavam (os aborígines, seus mitos e
crenças, hábitos culturais e costumes, foram pesquisados por
Freud, em Totem e Tabu).
Para a cultura aborígine, durante o “tempo dos sonhos”
os espíritos emergiram da terra e se transformaram em todos os
elementos naturais como rios, lagos, montanhas, florestas,
colinas e cavernas. Seriam esses espíritos os criadores do
mundo, e os aborígines acreditam que eles estão vivos e
habitam as terras da Austrália, devido a que, nessa cultura, a
terra é vista como um local sagrado, como sagrados são os
sonhos, mantidos em segredo perante o mundo exterior.
Por isso, as histórias do “tempo dos sonhos” são
desenhadas pelos anciãos através de símbolos, ou rastros de
sonho, que são passados aos mais jovens para que aprendam o
significado desses símbolos, guardando a história para as
próximas gerações. Para os aborígines, os sonhos constituem
verdade absoluta, um registro inquestionável da história.

427
5. AS CIVILIZAÇÕES ANTIGAS

Estudar sonhos de uma determinada cultura leva


inescapavelmente à caracterização do universo cultural que
gerou aqueles sonhos. Há que se reconhecer a historicidade do
sonho, ou melhor, das imagens oníricas, surgidas do arsenal
imagético de cada sonhante, na linha mesmo do que se poderia
chamar uma história do imaginário.

Desde a mais remota antiguidade, os


sonhos foram objetos da sabedoria
sacerdotal. Na Mesopotâmia, a ciência dos
magos constituiu-se em fundamento de
toda a oniromancia na Ásia. Os judeus,
segundo o depoimento da Bíblia, deram
provas de seu conhecimento dos mistérios
dos sonhos, sendo um exemplo clássico
deste conhecimento a interpretação dada
por José, ao Faraó, do sonho das sete vacas
magras e das sete vacas gordas. [...] No
Egito e na Grécia, os templos dispunham
de áreas reservadas aos visitantes que
desejassem obter, enquanto dormiam,
sonhos a respeito de seus problemas, os
quais eram posteriormente interpretados
pelos sacerdotes. O mesmo ocorria na
Pérsia, na Índia e na China. Pouco antes do
início da Era Cristã, os Evangelhos referem
sonhos proféticos, como os do sacerdote
Zacarias, de São José e até mesmo da
esposa de Pilatos, que advertiu o marido de
um sonho que tivera a respeito de Jesus.
(AMENÓFIS, 2006, p. 7).

428
Por volta do século IV a. C., Hipócrates, o pai da
medicina, escreveu um livro chamado “Tratado Sobre os
Sonhos”, afirmando que alguns sonhos são de inspiração
divina, enquanto outros seriam resultados do corpo físico.
Acreditava que dos sonhos poderiam ser extraídas pistas sobre
as condições físicas das pessoas, sustentando que sonhar com a
cor preta simbolizaria doença, sonhar com vôo significaria
perturbação mental. Dizia também que os sonhos teriam o
efeito de revelar uma doença antes de sua manifestação.
Mas foi já na Era Cristã (século II d. C.), em Éfeso, que
surgiu na civilização romana o mais importante intérprete dos
sonhos antes de Freud, que foi o sábio chamado Artemidoro
Daldiano, que “escreveu tratado em cinco volumes chamado
“A Interpretação dos Sonhos”, classificando os sonhos em
cinco tipos diferentes: 1) os Simbólicos; 2) os Proféticos; 3) os
de Fantasia; 4) os de Pesadelo e 5) os de Visão Diurna”.
(KEPPE, 2006, p. 30).
Entendia que os sonhos, suas imagens e símbolos,
precisavam ser interpretados conforme o sonhador e o contexto
do momento; percebeu que determinado símbolo poderia ter
um significado diferente para cada pessoa, por isso considerava
que os costumes e dados da vida de cada sonhador eram
fundamentais para cada interpretação.
Para ele, o mesmo símbolo ou o mesmo animal teriam
significados diferentes no sonho de uma pessoa jovem ou no de
uma pessoa idosa; símbolos iguais teriam interpretações
diversas em momentos diferentes da vida.
Para Daldiano, “há cinco tipos de sonhos com
diferentes qualidades: o primeiro é um Sonho; o segundo uma
Visão; o terceiro um Oráculo; o quarto uma Fantasia ou vã
Imaginação; o quinto uma Aparição”. (FROMM, 1966, p. 93).
O naturalismo de Aristóteles e a retórica de Cícero não
impediram a interpretação profética dos sonhos.

429
A popularidade desta abordagem foi
coroada pelos cinco volumes do erudito
grego Artemidoro Daldiano no século II.
Esses volumes examinaram exaustivamente
as interpretações dos sonhos no mundo
clássico em combinação com as próprias
interpretações de Artemidoro de mais de
3.000 sonhos. Embora fornecesse índices
prototípicos de determinados sonhos e seus
significados, Artemidoro enfatizou o sonho
individual e o contexto de seu tempo. Esses
volumes foram republicados em 1518 sob o
título de Onirocrítica e publicados em
inglês em 1606. (KRIPPNER, 1990, p.
169).

São textos que resumem e sintetizam várias outros


escritos congêneres da antiguidade, o que teria levado o próprio
Freud a afirmar que a obra exaustiva desse grande pensador
nos estaria compensando pela perda de outros trabalhos sobre o
mesmo assunto, já perdidos na poeira dos tempos.
Em que, então, consiste a Onirocrítica de Artemidoro?
Na antiguidade, o onirocrítico teve a função de determinar,
analisando as produções oníricas, se os acontecimentos que
ocorreriam seriam favoráveis ou não, aqui implícita está a
compreensão do conteúdo premonitório dos sonhos.
Artemidoro tece reflexões interessantíssimas sobre os
sonhos, e sua obra apresenta, além do literário, interesse
antropológico, sociológico, histórico, sendo fundamental para o
estudo da história das mentalidades.
Já então atribuía a decodificação dos símbolos dos
sonhos à situação do sonhante, variando na medida em que
variasse o perfil social do sonhante. O entendimento era de que
um mesmo símbolo pode ser diferentemente interpretado
conforme varia aquele que sonha: se é homem ou mulher; se é

430
escravo ou livre; se é casado ou solteiro, governante ou
dominado, se é forasteiro ou está na sua pátria. “uma gama
infindável de situações humanas é contemplada na sua arte de
decodificar símbolos oníricos, levando em consideração a
subjetividade do sonhante”. (MENEZES, 2012, pp. 187/209).
Poderia ser não somente útil, mas necessário a quem
sonhou e ao intérprete levar em conta quem é o sonhador, sua
profissão, seu nascimento, sua fortuna e idade, por exemplo, a
partir daí examinando o sonho e seu conteúdo. Artemidoro dá
exemplos de como um mesmo símbolo pode ser diferentemente
interpretado conforme varia o perfil social daquele que sonha,
revelando extrema acuidade e pertinácia.
São conceitos pertinentes com aqueles hoje adotados
pela ciência da Psicanálise, onde se tem como verdade que o
sonho é um dos mensageiros do inconsciente, um processo
organísmico próprio a excitar e colocar em movimento a
psique.
É a esse propósito, famosa a interpretação sobre o
sonho de Alexandre da Macedônia, quando se preparava para
fazer um cerco à cidade de Tiro e sonhou que viu no seu
escudo um sátiro dançando, sonho que foi interpretado com um
prognóstico de sucesso na conquista da cidade.
Tal interpretação, atenta à força da materialidade da
ambiência e à situação subjetiva do rei prestes a entrar em
combate, além de mostrar o alcance da Onirocrítica antiga
também estampa um exemplo de sonho como realização de
desejo.

Na Onirocrítica, de Artemidoro de Daldis


(Le Clef des Songes: Onirocriticon)
compara seu "método" com a técnica
divinatória dos sacrificadores, com a
técnica dos adivinhos que fazem suas
previsões do futuro a partir do estudo das
431
entranhas dos animais sacrificados. Vamos
tentar entender essa aproximação, que tem
tudo a ver com a analogia e com a escrita
(enquanto inscrição). Trata-se de uma
prática antiquíssima, de origem
mesopotâmica. Aqui também, os gregos
são tributários dos mesopotâmicos. (idem,
ibidem).

Outro dado histórico e cultural importante:

Os sonhos são mencionados em


muitíssimos textos e escritos antigos.
Encontram-se lâminas de argila, datadas de
3000 a. C., que continham material
interpretativo a respeito dos sonhos de
sonhadores assírios e babilônios. O
conteúdo negativo dos sonhos era atribuído
a espíritos dos mortos e a demônios
malévolos. Os sonhos de voar indicavam
desastre e os de beber vinho prediziam vida
curta, mas os de beber água profetizavam
vida longa. Essa abordagem de
“dicionário” do conteúdo do sonho
proporcionava os mesmos significados para
todos, independentemente do conteúdo e
das circunstâncias do sonho. (KRIPPNER,
1990, p. 164).

Escritores cristãos chegaram a convergir, no início, com


as concepções de gregos e de romanos antigos, atribuindo aos
sonhos a origem divina.
432
Bispo de Cartago em 250 d. C., Cipriano afirmava que
os próprios concílios da igreja eram guiados por Deus através
dos sonhos e das visões.
Santo Agostinho chegou mesmo a descrever os sonhos
com pessoas mortas com “dádivas” de Deus. “Os sonhos, mais
do que qualquer outra coisa, nos atraem para a esperança,
escreveu Sinésio de Cirene, bispo de Ptolemais no século V”
(KRIPPNER, 1990, p. 169).
Relacionando sonhos e teologia, estudos e exames dos
sonhos na Bíblia, citam os extensos escritos dos primeiros
fundadores da Igreja cristã.
Assim, ao preparar uma tradução latina da Bíblia, no
século V, São Jerônimo teria traduzido erradamente, de
maneira sistemática, uma palavra hebraica, a fim de introduzir
proibições contra o trabalho com os sonhos no texto sagrado;
“em decorrência disso, os sonhos foram incluídos na categoria
de feitiçaria por mais de um milênio. Kelsey observa que a
atual ausência de considerações teológicas a respeito dos
sonhos é um desenvolvimento relativamente recente”. (idem,
idem, p. 170).
Importante marco divisório na história dos sonhos, que
entrou no contexto da filosofia, no século XVII e continua até
hoje, a reverberar dentro dele, é o questionamento envolvendo
René Descartes e suas experiências oníricas, por ele encaradas
como uma fonte central de ceticismo relativo aos sentidos,
raciocinando ele no sentido de que, enquanto realizava tarefas
diárias, precisava lembrar sua condição humana e que, como
homem, era imperativo lembrar que, por consequência, estava
marcado pelo hábito de dormir e, em sonhos, de representar
para si mesmo as coisas.
O contínuo enigma do status dos sonhos como dado
sensorial contribuiu claramente para o tema central da dúvida
de Descartes; contraditoriamente, “esse enigma continuou a ser
uma questão viva em todas as indagações filosóficas
433
subsequentes. Entretanto Descartes atribuiu desenvolvimento
de sua filosofia e da sua vida a três ‘sonhos reveladores’.
(Ibidem, p. 169).
Antes de prosseguir, já parece que seja adequado
acentuar que não implica nenhuma distorção relativamente à
temática proposta a abordagem aqui apreciada, abrangendo
enfoques relacionados à história das gentes e à antropologia, já
que nos fenômenos humanos se acresce à explicação a
compreensão, isto é, procura-se reproduzir intuitivamente o
sentido dos fenômenos, ao valorá-los.
Ademais, “como a civilização e a cultura são frutos da
mente humana, elas também podem ser estudadas pela
Psicanálise”. (KEPPE, 2006, p. 401).
A tal respeito e relativamente à Gradiva, de Jensen:

Como Freud possuía um grande interesse


por Arqueologia e outras pesquisas
referentes a civilizações antigas, ele
encontrou neste texto, que se refere a
cidade de Pompéia, um material muito rico
para ser analisado. Freud encontrou uma
correlação muito interessante entre o
destino histórico desta cidade e os
processos mentais. Pompéia foi soterrada
pela lava incandescente, provinda do
vulcão Vesúvio, sendo posteriormente
descoberta através de escavações. Para
Freud o mesmo aconteceria com os
processos mentais, que teriam sido
‘soterrados’ pela repressão e teriam a
possibilidade de serem descobertos através
do método psicanalítico. (idem, p. 402).

434
Ainda e na mesma direção da linha de pesquisa e
investigações:

Totem e Tabu: Como Freud tinha um


profundo interesse pela Antropologia, ele
desenvolveu neste estudo a sua concepção
a respeito do desenvolvimento humano,
desde a sua mais remota origem. Ele
descreve neste texto a sua hipótese sobre o
caminho percorrido pela civilização, com
as concessões e restrições que foram
impostas para conciliar as exigências da
culpa e da sobrevivência. (idem, ibidem, p.
403).

Talvez nesta obra Freud tenha assentado alguns dos


principais elementos de sua contribuição à antropologia social,
elaborando hipóteses a partir de observações sobre os
aborígenes australianos, em cuja cultura já estabelecia leis e
regras morais que coibiam com o máximo rigor as relações
sexuais incestuosas.
Totem, segundo tais estudos, constitui um elo comum a
todo o clã, de quem funciona como uma espécie de espírito
guardião, sendo por isso sacralizado e ensejando que a partir
disso se tenha estabelecido uma proibição totêmica ao
relacionamento sexual e de conseguinte a vedação do
casamento entre os membros submetidos a esse elo comum, ao
mesmo totem. A violação a esses preceitos totêmicos era
penalizada com a condenação à morte, tamanho era o horror ao
incesto no seio dessas comunidades.
Desses códigos morais, depreendeu Freud, os
agrupamentos humanos criaram leis repressivas e punitivas que
em última análise tinham como meta evitar, para além apenas
dessa totemização às práticas sexuais incestuosas, também o
435
predomínio dos mais jovens e mais fortes, inibindo sua
possível dominação sobre os mais velhos e mais fracos.
Sacralizado o totem e estabelecido espírito de
misticismo capaz de internalizar medos mágicos, sem perde de
vista a busca humana de segurança e de amor, aí pode ser
identificado, segundo a teoria freudiana, o desenvolvimento
dos sentimentos de culpa, a combinação desses com os
instintos e o processo de angústia, amalgamando pulsões que
teriam presidido a evolução das civilizações e influindo
culturalmente nas concepções que foram vigorando sobre as
teorias dos sonhos.
Importante também acentuar que nesta obra Freud
discorre sobre o complexo de Édipo, surgido desde os
primórdios da civilização pelo mesmo motivo do horror ao
incesto.
Mais:

O Futuro de uma Ilusão – Neste texto,


Freud continua as suas pesquisas a respeito
da cultura humana e conforme revelou em
1935 no seu estudo autobiográfico: ‘Meu
interesse após ter feito um longo detour
pelas ciências naturais, medicina e
psicoterapia, retornou aos problemas
culturais que me haviam fascinado muito
tempo antes, quando eu não passava de um
jovem com idade apenas suficiente para
pensar.’ (Nota do editor inglês de O Futuro
de uma Ilusão). ”Neste texto Freud aplica à
religião os conceitos de Complexo de
Édipo, Repressão, Pulsões e Libido. Chega
à conclusão, que despertou na época muita
polêmica, que a religião seria a ‘neurose
obsessiva universal da humanidade’,

436
diretamente vinculada ao Complexo de
Édipo. (ibidem e p. 404).

Em O Mal-Estar na Civilização, “Freud realiza uma


crítica ao processo civilizatório, destacando os fatores de
repressão no surgimento e no desenvolvimento da civilização”.
(ibidem, p. 404).
Também:

Moisés e o Monoteísmo – Em sua hipótese


de que Moisés teria sido egípcio e que teria
transmitido para o povo hebreu a religião
monoteísta que aprendeu naquela cultura,
Freud despertou um antagonismo
pronunciado tanto dos religiosos judeus,
como dos cristãos. (idem, ibidem).

Nesse particular, Freud acabou gerando polêmica nos


meios culturais e no seio da própria psicanálise, embora tenha
também aqui contribuído para expandir o campo de pesquisa
analítico, inclusive pelos destaques sempre dados ao complexo
de Édipo na história e na cultura da humanidade.
Importa salientar que tais incursões desde os primórdios
da civilização, investigando cada um dos processos das
diversas etapas civilizatórias é aspecto integrante e inerente aos
fins do estudo que se pretende aqui desenvolver. É o que
confirma a autoridade dos exemplos referidos.
Vejamos, então, outras significativas vertentes de
interpretação dos sonhos que se foram desenvolvendo ao longo
dos períodos mais remotos da antiguidade.

Os Vedas sagrados da Índia contêm listas


de sonhos favoráveis e desfavoráveis. Essa
literatura, escrita provavelmente entre 1

437
500 a 1 000 a. C., contém interpretações
específicas de imagens de sonhos. Davam-
se interpretações diferentes aos sonhos
tidos em diferentes períodos da noite, e
levava-se em consideração o temperamento
do sonhador antes de se proceder à
interpretação. No entender dos primeiros
filósofos da Índia, eram quatro os estados
da “alma”: vigília, sono sem sonhos, sonho
e unidade mística. (KRIPPNER, 1990, p.
164).

Nessas etapas de nossa história, na base da premissa de


que os sonhos se originariam fora do sonhador, havia uma
generalidade de crenças. Entre essas, a de que haveria uma
predestinação em nosso futuro, além da crença de que a vida
humana seria regida por ordem divina, mais elevada e que dela
proviriam as fatalidades de nossa existência; “acreditava-se que
era possível ter acesso imediato ao futuro durante o sono, e que
isso era tipicamente mediato pela intervenção divina”.
(KRIPPNER, 1990, p. 166).
Exemplos do papel substantivo e primordial dos sonhos
na vida das pessoas, nessa antiguidade repleta de mitos são
ricos e abundantes: os sonhos dos faraós e das principais
personagens da Ilíada e da Odisséia; as divagações oníricas de
Jacó e de Davi no Velho Testamento, os anais dos sonhos de
Ciro; as respostas de Aníbal aos sonhos; os sonhos divinatórios
de Sófocles e de Sócrates; de José, no Novo Testamento.
“Talvez a mais clara evidência concreta dessa ideia de sonho
encontra-se nas centenas de ‘templos do sono’ espalhados pela
Grécia”. (idem, idem, p. 167).

Para os gregos do período homérico, os


sonhos que passavam pelos Portões de

438
Marfim eram “verdadeiros” ao contrário
dos “falsos” que passavam pelos portões de
Chifre. Os sonhos verídicos eram muitas
vezes associados pelos gregos a um sentido
de clareza. Em compensação, os sonhos
confusos ou desconjuntados passavam
pelos Portões de Chifre – o reino dos
mortais e não o das divindades – e não
eram dignos de confiança. O
reconhecimento dos sonhos verídicos
dependia das faculdades especiais: pureza
da alma, segunda visão e outras avenidas
do discernimento. Entretanto sonhos que
continham mensagens, como os que
encontramos na Mesopotâmia e na Grécia
antigas, dependiam principalmente da
posição social do sonhador; somente os
xamãs, os chefes, os profetas e os membros
da realeza e do clero podiam obter
comunicação direta vinda das divindades.
Os humanos comuns não conseguiam obter
esses emblemas do poder político e
religioso. (KRIPPNER, 1990, p. 188).

6. A CIVILIZAÇÃO GRECO-ROMANA

Embora possa parecer uma dúvida sem fundamento, em


alguma medida nosso psiquismo pode ser assolado por um
questionamento, qual seja, saber como os historiadores sabem
que alguma coisa realmente aconteceu, como podem os
pesquisadores obter informações a respeito do passado. Neste
particular, primariamente são buscadas as fontes escritas.
Na antiguidade, as civilizações escreveram seus anais e
suas memórias em paredes de cavernas, gravaram em rochas ou
pedras, em peles de animais, em pergaminhos, placas de barro,
439
fontes onde os estudiosos fazem a leitura e interpretação
(muitas vezes decifrando códigos e símbolos), buscando aí o
entendimento sobre como funcionava uma determinada
sociedade em um período histórico, e como eram os
pensamentos predominantes, usos e costumes, hábitos
religiosos, padrões estéticos e morais, pesquisando enfim sobre
os padrões culturais dominantes.
Dessas fontes, aprende-se que, conhecida desde a
antiguidade, a interpretação dos sonhos é prática tão antiga,
que é mesmo anterior à época de Cristo, sendo encontrados
papiros do Egito datados de 2 000 a. C.
Os sonhos, segundo as crenças antigas, eram
considerados mensagens divinas, que tinham o objetivo de
enviar avisos, profecias ou conselhos, razão da importância
dada à interpretação, arte então reservada ao conhecimento
exclusivo de sacerdotes ou sábios capazes de conhecer a
linguagem de seres superiores, vedada às pessoas comuns.
Originada no Egito a crença de que o espírito sairia do
corpo enquanto o sonhador dormia, conceito conhecido como
“viagem astral” ou também como “projeção astral”, conceito
que ainda hoje é compartilhado e que gerou pesquisas e
práticas atuais a respeito da projeciologia, ou ainda sobre os
chamados sonhos lúcidos.
A civilização egípcia é muito antiga, constando que há
cerca de cinco mil anos as aldeias se uniram sob o governo de
um único rei, o faraó, enquanto eram politeístas, cultuando
vários deuses, com aparência humana, embora alguns tendo
cabeças de animais.
Cultores do politeísmo, os egípcios não tinham
preocupações com a demonologia e interpretavam os sonhos
como mensagem dos deuses. Consta que o Papiro de Deral-
Madineh, de cerca de 2 000 a. C., continha instruções sobre o
modo de obter de uma divindade a mensagem de um sonho.

440
Serápis era o deus egípcio dos sonhos e havia dúzias de
serapins – os templos dos sonhos – espalhados por todo o
território. Nesses templos é que era amplamente praticada a
incubação, que era aquela tentativa deliberada de induzir
sonhos curativos enquanto se dormia nesses templos, havendo
até mesmo sonhadores substitutos a um serapim, com a
finalidade de incubar um sonho para alguém que não podia
fazer a viagem onírica desejada. “Dava-se especial atenção aos
sonhos dos personagens reais; um sonho de Tutmósis IV foi
gravado numa estela (pilar de pedra) diante da Esfinge”.
(KRIPPNER, 1990, p. 164).
O declínio egípcio aconteceu após a morte do faraó
Ramsés II, quando a disputa de poder entre os nobres
enfraqueceu o império, que acabou invadido pelos assírios, de
quem logo se libertaram para cair nas malhas dos persas, a
partir de quando os dominadores estrangeiros se revezaram no
domínio sobre o Egito; depois dos persas vieram os gregos,
com Alexandre da Macedônia, e depois os romanos, com Júlio
César e os invasores árabes.
Nossos estudos psicanalíticos de hoje têm muito a ver
com os gregos antigos, com seus mitos e com seu panteão
politeísta, composto por deuses e semideuses, cultura da qual,
muitas metáforas foram sendo aproveitadas.
Entre esses mitos, o oráculo de Delfos, uma fenda na
rocha de onde subia um vapor que transmitia mensagens dos
deuses, cifrada e composta por símbolos, como a linguagem
dos sonhos, cabendo então a uma sacerdotisa a exclusividade
da interpretação.
Dessa cultura, a obra mais célebre entre as tragédias
gregas é o Édipo Rei, de Sófocles, historiando a vida de Édipo,
filho de Laio e Jocasta, reis de Tebas; logo que o menino
nasceu, o deus Apolo predisse que um dia, quando adulto, o
filho mataria o próprio pai e que viria a casar com a mãe.

441
Laio, querendo livrar-se do cumprimento da profecia,
abandonou a criança numa montanha, de onde o menino foi
salvo por um humilde pastor, cresceu e foi educado sem saber
que era filho de pais adotivos; mais tarde, em duelo, abateu
Laio (desconhecendo que se tratava de seu próprio pai) e, após
decifrar o enigma da Esfinge e se tornar o herói salvador de
Tebas, livrando-a daquele flagelo, veio a casar-se com a rainha
viúva Jocasta (ignorando que se tratava de sua própria mãe),
cumprindo assim a profecia.
Após peripécias, quando a fome e a peste se abateram
sobre Tebas, e depois de Tirésias (cego capaz de enxergar o
passado e o futuro) ter anunciado que o culpado pela desgraça
coletiva era o matador do rei Laio, o infeliz Édipo finalmente
tomou consciência de suas verdadeiras origens, da profecia e
do cumprimento do vaticínio.
Jocasta suicidou-se e Édipo, desesperado com a
revelação, arrancou seus próprios olhos e, cego e amaldiçoado
partiu de Tebas para morrer bem longe de lá.
Dessa tragédia, Freud, inspirado no mito que trata da
relação de triunfo do filho sobre o pai, formulou o complexo de
Édipo, elaborando ainda suas teorias sobre o incesto como um
verdadeiro tabu o qual desde sempre foi execrado pela
humanidade, sendo responsável por culpas, medos e
autopunição, como a do filho que no mito mata o pai e logo
fura seus olhos e fica cego, imolando-se pelo peso da culpa.
Consta que o próprio Friedrich Nietzsche teria afirmado
que enquanto outros povos antigos legaram santos à
humanidade, os gregos teriam nos dado verdadeiros sábios,
como são Sócrates, Platão e Aristóteles, entre tantos outros.
No curso da história, alterações nas visões de mundo
influenciaram nossas culturas, especialmente a ocidental,
quadro onde as perspectivas sobre os sonhos refletem essas
mudanças.

442
Sintomaticamente, para os gregos, a fórmula canônica
de alguém contar que teve um sonho é: "Eu vi um sonho."
Aliás, sonhos e visões noturnas são praticamente sinônimos em
todas as línguas.
Aristóteles e Cícero viveram e escreveram sobre sonhos
a um intervalo aproximado de 300 anos um do outro (cerca de
340 a. C. e 40 d. C.), espaço de tempo onde subsistiu uma ideia
difusa a respeito dos sonhos.

A ideia de que os sonhos eram mensagens


dos deuses ou de outras fontes
extraordinárias estendeu-se temporalmente
desde os fragmentos dos escritos primitivos
dos egípcio e sumerianos ao longo da
literatura exemplificada por Homero, pelo
Antigo Testamento, pelas peças de teatro
gregas e pelas histórias de Heródoto na
coleção de Artemidoro, no final do período
romano II d.C. (KRIPPNER, 1990, p. 166).

Ao rejeitar fontes extraordinárias para os sonhos,


Aristóteles refletia uma mudança entre os intelectuais da sua
era. Os sistemas de crença literal nos deuses estavam
desmoronando e os filósofos explicavam o mundo por
caminhos mais naturais do que sobrenaturais.
Cícero argumenta que sejam elas quais forem, nossas
teorias sobre os sonhos são “fantasmas e aparições”.
Depositamos fé em nossas ilusões e em nossas alucinações em
estado de vigília, mas certamente não a depositamos nas
ilusões e nas alucinações dos loucos ou dos bêbados. Por que
então darmos valor ao poder profético dos sonhos?
Diferentemente de Aristóteles, Cícero acabou não
achando o tempo do sono propício à sabedoria ou à
adivinhação, pois quando a alma é sustentada pelos membros

443
do corpo e pelos cinco sentidos, seus poderes de percepção,
pensamento e apreensão são mais dignos de confiança.
Extremamente significativo é que para os gregos os
sonhos chegaram a ser considerados uma dádiva de Prometeu,
o deus civilizador e humanizador, titã afeiçoado aos homens.
Na versão esquiliana da lenda de Prometeu, o titã doa aos
homens não apenas o fogo roubado dos deuses (e com o fogo,
tesouro sem preço, a civilização e a técnica), mas também as
formas das artes divinatórias, a esperança e os sonhos. Dá
mesmo o que pensar o fato de esses dois dons (o fogo e os
sonhos), sejam absolutamente fundamentais para o ser humano,
e nos tenham sido legados exatamente pelo deus civilizador,
Prometeu, que nos mesmos mitos também teria dado aos
homens a esperança.
Apesar de os sonhos no mundo grego, como vimos com
Prometeu, estarem profundamente ligados às artes divinatórias,
havia a percepção de que muitas vezes eles de nada valiam em
termos de eficácia oracular.
Assim parece que se pode observar desde a formulação
presente na Ilíada, de Homero, segundo a qual os sonhos
provem de Deus, até a Orestíade, de Ésquilo, quando a rainha
Clitemnestra se refere depreciativamente aos sonhos como
quimeras de uma mente adormecida, figurando isso como um
bom exemplo do mecanismo de negação, em sendo ela a
personagem que mais sonha e cujos sonhos se realizam na
própria tragédia onde são versados.
A condição feminina na Grécia antiga variou bastante,
dependendo da época, da cidade-estado e da classe social. Na
Odisséia, de Homero, aparecem mulheres nobres que falavam e
agiam com bastante independência, como por exemplo,
Penélope, esposa de Ulisses.
De diálogo entre Penélope e Ulisses, a propósito de
conteúdo de sonho:

444
Senhora replicou o agudo Ulisses, ninguém
certamente pode dar outro sentido a este
sonho; a senhora aprendeu do próprio
Ulisses a traduzi-lo em fatos. Os
pretendentes claro estão condenados todos
eles. Nenhum sairá com vida.- Os sonhos
senhor, disse a prudente Penélope, são
coisas sem nexo, confusas e nem tudo o
que vemos neles se realiza. Pois existem
dois portais por onde essas visões
substanciais devem passar para chegar até
nós: um deles é de chifre, o outro de
marfim. Os sonhos que nos chegam pelo
portal de marfim nos iludem com
promessas vazias e jamais cumpridas,
enquanto so que saem no portal de chifre
brunindo informam a quem sonha sobre os
atos que realmente acontecerão. (INGLIS,
1987, p. 9).

Em passagem também significativa, enquanto está


apreensiva entre a opção ou por continuar esperando a volta do
esposo, ou por atender à reivindicação de casar com um de seus
pretendentes, Penélope tem um sonho onde vê uma águia que
pende do céu e abate vinte gansos enquanto esses se
alimentavam em seu quintal.
No sonho, Penélope chora e se lamenta inconsolável; a
águia no entanto pede a ela que tome coragem, pois aqueles
gansos representavam seus pretendentes e a águia – ela própria
– representava seu marido que retornava à casa.
Junto com os gregos, os romanos foram o povo antigo
que mais influenciou o mundo ocidental contemporâneo. Os
romanos foram tão influenciados pelos gregos que até seus
deuses eram iguais aos do Olimpo.

445
O Zeus grego era o Júpiter romano, a divindade maior;
Afrodite virou Vênus,a deusa do amor e da beleza; Ares virou
Marte, o senhor da guerra; Hermes virou Mercurio, o senhor do
comércio; Hades virou Plutão, o deus do mundo interior;
Poseidon virou Netuno, o rei dos mares; Dionisio virou Baco, o
deus do vinho e das festas; Hefesto virou Vulcano, o deus do
fogo; Artemis virou Diana, a deusa dos animais selvagens e da
caça; Atena virou Mineva, a senhora da sabedoria e das artes;
Hera virou Juno, a rainha dos deuses (representada pelo pavão,
sua ave favorita); Cronios tornou-se Saturno, o senhor do
tempo; Demeter virou Ceres, a deusa da fertilidade; Apolo,
uma das principais divindades da mitologia greco-romana, teve
em ambas as civilizações o mesmo nome.
Roma, inicialmente, era uma aldeia no centro da Itália,
até que por volta do século V a. C. os romanos iniciaram a
conquista de toda a Península Itálica, o que foi apenas o
começo da construção de um grande império.
O exército romano foi se tornando fundamental para
definir quem tinha prestígio em Roma, tornado o estado
belicoso e conquistador que se expandiu até a ruína.
Grandioso e imponente, o Império Romano tinha suas
contradições. Foi mergulhando em crises cada vez maiores, até
que finalmente sucumbiu diante do poderio militar e do avanço
dos povos bárbaros (século V d. C.).
Em 79 d. C., o vulcão Vesúvio entrou em erupção e
suas cinzas quentíssimas cobriram essa cidade romana,
matando seus habitantes. Os destroços foram descobertos em
escavações que já no século XVIII desenterraram o que restou
das ruínas, sendo significativa a esse propósito a reflexão de
Freud a partir de um baixo relevo, a Gradiva, de Jensen.
Freud, que atribuía à arte a qualidade de ser uma
espécie de testemunha do inconsciente, encontrou analogia
entre o soterramento de Pompéia e a posterior escavação, com
os eventos mentais decorrentes do soterramento pelos
446
processos de recalque, e a verdadeira escavação inerente ao
processo de análise.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cultura caminha, flui, evolui passo a passo, assim


como progride a humanidade, em cuja evolução os processos
culturais são também dinâmicos, adaptando-se aos moldes dos
padrões vigentes em cada época; à história, caminhando em
paralelo, cabe registrar as ocorrências, incidentes e percalços
do conjunto do processo evolutivo humano.
Fazer uma incursão pelos caminhos da história e da
cultura implica em uma verdadeira viagem, que pode nos levar
desde períodos pré-históricos até o atual estágio de
desenvolvimento da humanidade, hoje em plena era digital.
Quando assim nos aventuramos, como penso ter sido
demonstrado ao longo deste trabalho de pesquisa, essa é uma
viagem que pode nos conduzir, a partir daquelas épocas mais
regressivas do homem na terra, aos submundos da consciência
humana, ao cenário completamente iluminado dos escritórios,
em pleno mundo da informática. Esses processos históricos e
culturais abrangem estruturas básicas dos pensamentos e
sentimentos do ser.
Compreende-se aí a própria história humana do sonho e
da vigília, abordando aspectos ligados à filosofia, à
antropologia, à psicologia e à sociologia.
Sem os sonhos, arrisco afirmar, o ser humano não teria
se tornado aquilo que ele é; e apesar da grande possibilidade de
que animais irracionais também sonhem, é no trabalho
empreendedor realizado pela espécie humana através de suas
estruturas neuronais e de seu psiquismo, que está armazenado
todo o plano da história de sua civilização.

447
A força da imaginação e consequentemente também a
linguagem, são esforços neurológicos que impulsionaram a
civilização e aprimoraram o homem, desde a barbárie até os
tempos atuais.
A cultura, como processo dinâmico e evolutivo, recebeu
através dos séculos e milênios o impulso dos desejos,
começando a história do espírito desde a sensibilização humana
para a realidade da dor, da angústia do medo e da culpa, dos
traumas e das repressões, numa realidade histórica da qual
ficam evidenciadas as agruras que ao longo dos tempos afligiu
o homem, e da ânsia em entender – desde que adquiriu razão e
consciência – o dilema existencial frente ao qual nos
debatemos, sobrevivendo apesar de toda a carga de carências
básicas que nos são inatas.
Nesse longo percurso enfrentado pelas civilizações, os
dados históricos e culturais compulsados dão o testemunho da
enorme importância que tem a compreensão dos processos
oníricos como via de acesso ao inconsciente, para também
permitir a decifração de nossas neuroses em busca da melhoria
de nossa qualidade de vida, através do pleno equilíbrio
assegurado pela integridade da saúde mental dos indivíduos,
única forma de superar nossos fracassos, medos, culpas e
incertezas, facilitando a vivência do amor e do encontro com o
outro, para que enfim seja também encontrada a felicidade,
meta de todo ser humano nesta vivência terrestre.
Os mesmos dados históricos e culturais afirmam a
relevância da psicanálise, que também evoluiu, assim como os
métodos de entendimento e interpretação dos sonhos, desde
aquelas fases empíricas impregnadas pelo misticismo, até o
momento atual, em que está assentada em bases culturais
capazes até mesmo de lhe assegurar que figure no rol das
ciências humanas.

448
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__________________. Manual de Técnica Psicanalítica.


Porto Alegre: Artmed, reimpressão 2008.

451
AS PRINCIPAIS TEORIAS EM RELAÇÃO À
INTERPRETAÇÃO DOS SONHOS

Charles de Andrade Lins

RESUMO: Este artigo delimitará as principais teorias


concernentes a interpretação dos sonhos. Iniciando com uma
breve revisão bibliográfica sobre a teoria freudiana da
interpretação dos sonhos e a partir deste eixo principal,
analisaremos as principais teorias dos sonhos, discorridas em
outras correntes psicanalíticas, como a teria junguiana por
exemplo. O artigo também enfocará o aspecto da psicanálise
humanista que será de suma importância a aplicação desta
abordagem. A importância das teorias de Erich Fromm a
respeito da interpretação dos sonhos baseado em alguns
conceitos da teoria Freudiana, como fundamentação para
ilustrar o método de interpretação de Freud e Erich Fromm.
Palavras-chave: Interpretação dos sonhos. Freud. Fromm.
Psicanálise humanista.

1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS

Segundo o Prof. Dr. Salézio Plácido a interpretação dos


significados latentes e do funcionamento do inconsciente deve
ser autêntico e sincero, porém o analista deve estar atento para
lidar com os mecanismos de defesa que atuam nos símbolos e
imagens com a intenção de mascarar e esconder do sonhador a
verdadeira origem de seu sofrimento psíquico ou orgânico.
Ao paciente cabe o direito de refletir ou questionar se a
interpretação tem relação direta com a solução de seus
problemas existenciais e afetivos. Para Freud, todos os
símbolos produzidos nas fantasias e sonhos estão diretamente
ligados à realização de um desejo sexual. Para Erich Fromm os
452
símbolos nos sonhos retratam o tema das angústias e
ansiedades de uma sociedade globalizada e consumista. “Toda
a interpretação nos remete a um desvelamento do símbolo, no
seu conteúdo encontra-se a mensagem a ser decifrada.”
(PEREIRA, 2009, p. 173).
Freud em suas importantes descobertas entendeu que
nos sonhos havia conteúdos psicológicos que revolucionariam
o estudo da mente. Por que no cérebro encontram-se as
imagens de recordações que são transformadas em realidade
pelos conteúdos simbólicos, que aconteceu através da
interpretação dos seus sentidos.
No plano psíquico teria suas diversas nuances e
interpretações, e que estes demonstrariam a realização de
fantasias, desejos disfarçados de uma experiência emocional
que foi recalcada e não consegue surgir na consciência deste
paciente, esta é uma forma de comunicação inconsciente que
utiliza os símbolos como mensagens a serem decifradas pelo
consciente.
Sintetizando, os sonhos são experiências subjetivas que
na consciência surgem no sono, como um meio de revelar o
inconsciente, porque ao dormimos nosso consciente está
desprevenido, e que a noção dos nossos sonhos quando são
interpretadas corretamente dão uma clara interpretação dos
desejos reprimidos e ansiedades alojadas em nosso
inconsciente.
Freud em uma de suas elaborações lançou várias
orientações a respeito dos sonhos, a teoria dos sonhos como
realizações dos desejos recalcados (muito voltado para o
erótico), as diferenças entre o conteúdo manifesto do sonho e
os pensamentos oníricos latentes, levam a esta tão importante
teoria para a psicanálise.
No ano de 1911, Freud no trabalho O manejo da
interpretação dos sonhos na psicanálise, ensina-nos que não
devemos tornar a interpretação dos sonhos como algo de suma
453
importância, porém devemos também nos ater ao método da
livre associação das ideias, tornando assim o entendimento que
a interpretação dos sonhos é um dos métodos que o analista
tem em suas mãos. Para Dr. Salézio Plácido “o sonho parece
sem sentido e sem lógica, enquanto a pessoa não der
importância aos valores que se encontram latentes dentro de si
mesmos.” (PEREIRA, 2009, p. 179).
Os sonhos retratam diversas situações culturais,
denunciam as crenças, costumes, porque a “inteligência
organísmica” transforma-se em símbolos e imagens para
prevenir, repreender, fornecer diversos conteúdos para