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Cientefico. Ano VII, v. II, p.314. Salvador, julho-dezembro 2007

A interpretAção dos sonhos

Análise prospectiva e retrospectiva

O desejo rejeitado pelas instâncias psíquicas superiores (desejo recalcado do sonho)

agita o submundo psíquico (o inconsciente) para se fazer escutar. (Freud )

O sonho é uma porta estreita, dissimulada no que tem a alma de mais obscuro e de

mais íntimo; abre-se sobre a noite original e cósmica que pré-formava a alma muito an- tes da existência da consciência do eu e que a perpetuará até muito além do que pos-

sa alcançar a consciência individual. (J ung)

Elicarlos Coutinho de Oliveira

Graduando do curso de Psicologia da Faculdade Ruy Barbosa

Resumo

Desde o princípio, a atividade onírica parece fascinar a humanidade. Antes ela estava associada à influência dos deuses ou demônios, logo após ela adentrará no mundo científico, merecendo estudos e sistematizações que preco- nizarão e fornecerão fundamentos à teoria psicanalítica. O presente trabalho visa estabelecer um ponto de discussão entre os arcabouços teóricos de Jung e Freud, demonstrando suas similaridades e pontos destoantes entre si.

PalavRas-chave

Sonho, Psiquismo, Análise prospectiva, Análise retrospectiva.

Etimologicamente a palavra sonho é originária do la- tim somnium, que significa: sonho, ilusão, sonhar com. Outra palavra latina que se refere a sonho é insomnium, que quer dizer: sonho ou visão em sonhos que, por sua vez, deriva do grego enýpnium (sonho, visão, aparição em sonhos).

* Este artigo foi produzido sob orientação do prof. Frederico Ricciard.

os sonhos são uma “seqüência de fenômenos psíquicos ‘ima- gens, representações, atos, idéias, etc.’ que, involuntariamen- te, ocorrem durante o sono; seqüência de pensamentos de idéias vagas, mais ou menos agradáveis, mais ou menos inco- erentes, às quais o espírito se entrega em estado de vigília, ge- ralmente para fugir à realidade.” (S ilva apud Ferreira , 1986) 1 .

Outra definição encontrada em dicionários técnicos nos diz:

onde os sonhos são considerados como "processo interno

que corresponde aos estados paradoxais do sono [

é equivalente, em nível psicológico, ao chamado sono rápido, produzindo-se em concomitância com os movimentos ocula-

res observados durante o sono [

] o sonho

]

2 .

parte de um mundo sobrenatural, sendo interpretados como mensagens divinas, tendo este povo, inclusive, escrito um li- vro sobre os símbolos dos sonhos (S ilva apud S chulze, 1997) 5 .

Mais tarde, no século v, a interpretação dos sonhos será recebida de modo diferenciado, com a hipótese de Herá- clito de que os sonhos eram criados pela mente daquele que sonhava. Mitologicamente os sonhos eram atribuí-

O sonho contém aparições e representações que ocor-

dos a Morfeu (filho de Hynos, deus do sono, que era filho de Nyx, deus da noite) como sendo obras suas (ibidem) 6 .

rem durante o sono e que independem do sonhador, não

O

interesse pelos sonhos para os gregos inicia-se no sécu-

estando o mesmo circunscrito temporo-espacialmente. Também é sinônimo de visão, devaneio e fantasia:

lo

tinham: os sonhos eram revelações divinas e eram utili- zados nas práticas médicas. Ainda na Grécia, atribui-se

viii a.C. com o mesmo entendimento que os egípcios

a

partir do século xviii, o termo designa também uma atividade

a Aristóteles a primazia no tocante à concepção racional

consciente em imaginar situações cujo desenrolar desconhece as limitações da realidade material e social. Nesse sentido, a palavra sonho é sinônima de visão, devaneio, idealização ou fantasia, em suas acepções mais corriqueiras durante o sonho ou atividades mentais e fenômenos neurofisiológicos 3 .

dos sonhos. O sonho tinha correlação com a saúde do corpo do sonhador, e os sonhos, tanto os proféticos (ti- dos como meras coincidências) como os demais sonhos, eram tidos como uma coletânea dos eventos diurnos. Ar- temidorus de Éfeso é um referencial da época na arte de interpretar os sonhos e escreveu a Oneirocritica, um ma- nual de sonhos do início da era cristã, revelando o inte-

BReve hIsTÓRIco

resse pelo significado dos sonhos (Hall, 1995) 7 . Ele con- cebia de modo diferente os sonhos:

Desde os tempos mais remotos, o homem utiliza seus sonhos para obter conselhos, resolver problemas e curar suas enfermidades. Antigas gravações sobre tá- buas de pedra revelam que os gregos, do século vi a.C.

A começar pelos egípcios, os sonhos eram considerados como

acreditava que os sonhos eram únicos para o sonhador, acre- ditando que a ocupação, status social e saúde da pessoa afe- tavam os símbolos de seus sonhos (S ilva apud S chulze, 1997) 8 .

ao século v d.C., realizavam nos santuários de Escu- lápio – deus da saúde – curas miraculosas através dos

 

No século xix, o médico francês Maury deu início

sonhos. Mas eles não foram os únicos: hebreus, egíp-

a

uma nova perspectiva sobre os sonhos. “Ele acredi-

cios, hindus, chineses, japoneses e muçulmanos tam- bém praticaram a cura através dos sonhos. Até mesmo Hipócrates – pai da medicina moderna – escreveu um “Tratado dos Sonhos”, onde indica a utilização terapêu- tica de certos símbolos oníricos. Os povos da Antiguidade Clássica acreditavam que os sonhos ocorriam mediante revelações de deuses ou de demônios. Assim, eles eram a chave do conheci- mento mágico e espiritual, onde seriam reveladas pas- sagens secretas para fatos do passado, presente e futuro. No Egito atribuía-se aos sonhos a intervenção dos deu- ses que predeterminavam a atividade humana. Pode-se citar como exemplo o registro bíblico, quando da in- terpretação do sonho do rei Faraó por José. O sonho foi entendido como aviso divino sobre a administração da produção do Egito, já que épocas de escassez viriam so- bre o mundo antigo (Silva apud Almeida, 2004) 4 .

tava que os estímulos externos tinham uma importân- cia primordial nos sonhos, inclusive que tais estímu- los eram quase simultâneos aos sonhos que produziam (Ibidem)” 9 . Dentre os pensadores modernos sobre os sonhos destaca-se Freud, com o seu método de inter- pretação dos sonhos, até então o mais difundido desde sua época. As modernas pesquisas na área de Neuroci- ências analisam a vida em vigília e o sono Rem (Rapid Eyes Movement), já que esta fase tem relação com os sonhos. Acredita-se que os sonhos façam parte do ciclo normal do sono, tendo em vista as inúmeras pesquisas realizadas sobre o seu período. O “status de cientificidade”, que será atribuído ao so- nho, talvez tenha sido preconizado de modo muito es- pecial por Aristóteles, na Grécia, onde, desde já, hou- ve a cisão entre o entendimento espiritual e o racional (psicológico) quanto ao sonhar. A proposta de interpre- tação do romano Artemidorus foi na antiguidade ou- tra referência fundamental para colocar o sonho como

1 « www.scielo.com.br». Novo Dicionário de Língua Portuguesa.

2 Abbagnano, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p.919-20.

3 Texto disponível em: «www.scielo.com».

4 Texto disponível em: «www.scielo.com».

5 Texto disponível em: «www.scielo.com».

6 Texto disponível em: «www.scielo.com».

7 Hall, James A. A experiência junguiana: análise e individuação. 10ed. São Paulo: Cultrix, 1995. p.119-135.

8 Texto disponível em: «www.scielo.com».

A interpretação dos sonhos

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protagonista, dando voz ao “submundo psíquico”. Mas é com Sigmund Freud, com seu método de interpreta- ção dos sonhos, que os sonhos terão tal posição histori- camente, engendrando uma possível harmonização en- tre a atividade inconsciente e a vida vígil do sujeito. Os sonhos então são cunhados por meio do seu novo “sta- tus” e terão uma ênfase mais psicológica e menos reli- giosa, onde seus símbolos, significados e interpretação estão entrelaçados à fenomenologia do sujeito mais do que a uma atribuição à ação divina e espiritual. Essa teoria de Freud foi muito discutida, e não pare- ce apta a explicar todas as espécies de sonhos ou todos os seus aspectos; apesar disso, foi a única a propor o problema da funcionalidade do sonho, vale dizer, da função que ele exerce na economia da vida psíquica 10 . Dessa maneira, o presente artigo visa promover o esta- belecimento de um ponto de discussão entre os teóricos Freud e Jung e demonstrar como a concepção dos sonhos, para eles, aproxima-se e diverge-se nas suas acepções teó- ricas e no modo analítico de interpretação destes.

TeoRIa FReuDIaNa

sejo normal de dormir à medida que consegue resguar- dar o sono contra distúrbios. (Ibidem)

A força motivadora para a formação dos sonhos não é

fornecida pelos pensamentos oníricos latentes ou resídu- os diurnos 12 , mas por um impulso inconsciente, reprimi- do durante o dia, com o qual os resíduos diurnos puderam estabelecer contato e imaginam efetuar uma realização de desejo para si próprio a partir do material dos pensamen-

tos latentes. Para Freud, o impulso inaceitável que poderia perturbar o sono é transformado numa forma dramática

e mais aceitável pelo trabalho do sonho, através de meca-

nismos como deslocamento e a condensação 13 . Quanto ao sonhar, dois aspectos importantes se des- tacam na versão freudiana: esta experiência humana universal e fascinante protegia o psiquismo de graves instabilidades e potenciais distúrbios, visto que ocor- riam de modo involuntário e não consciente, tendo conteúdos disfarçados, substituindo uma realidade que

na vida vígil era sôfrega e angustiante para o sujeito.

O método interpretativo do sonho foi proposto por ele

por meio da livre associação de idéias de como os moti- vos do sonho servem, segundo se supõe, para produzir o

retorno ao sonho latente original, não disfarçado, que se encontra subjacente ao sonho manifesto experimentado

Historicamente, Freud (1972) cita como primeiro traba- lho, em que os sonhos foram tratados como tema de es-

e

lembrado. Dessa forma, Hall (1995) diz que:

tudo psicológico, o elaborado por Aristóteles: Sobre os

[

]

procede que o sonho como um todo constitui um substituto

Sonhos e Sua Interpretação, onde a referida obra nos in-

os sonhos não são enviados pelos deu-

ses e não são de natureza divina, mas que são ‘demonía- cos’, visto que a natureza é ‘demoníaca’, e não divina” 11 . Freud (1937) relata que o grande valor que é atribuído ao sonho está relacionado com o problema em inter- pretá-lo. Os antigos esperavam grandes conseqüências dos sonhos. Entretanto, esbarravam com o grande pro- blema da compreensão dos mesmos, proporcionando o incentivo para se elaborar um método onde o conteúdo inteligível do sonho pudesse ser substituído por outro compreensível e significativo. A ênfase atribuída ao in- térprete como que contendo a chave para solucionar os diversos sonhos encontra em Freud uma contraparti- da, pois para ele é ao sonhador que se deverá delegar a incumbência quanto à interpretação e elaboração das simbologias do seu sonho. Os sonhos não são destituídos de sentido e nem são absurdos, mas sim fenômenos psíquicos com validade. Por um lado, eles são a expressão e a realização de um desejo do inconsciente, e, por outro, a realização do de-

forma que: “[

]

deformado de alguma coisa, algo inconsciente, e que a tarefa de interpretar um sonho é descobrir esse material inconsciente 14 .

Entende-se como conteúdo latente “o conjunto de significações a que chega a análise de uma produção do ”

inconsciente, particularmente de sonho che e Pontalis, 2001) 15 .

(Laplan-

A análise irá revelar de modo sucessivo esses conte-

údos. Ele tem como constituição os restos diurnos, as

recordações da infância, impressões corporais, alusões

à situação transferencial, etc. Se falarmos de um sen-

tido mais restrito, “o conteúdo latente designaria, por oposição ao conteúdo manifesto – lacunar e mentiroso

–, a tradução integral e verídica da palavra do sonhante,

a expressão adequada do seu desejo. O conteúdo mani-

festo é a versão mutilada, o conteúdo latente, descober- to pelo analista, é a versão correta.” (Ibidem) Assim, o sonho, quando relembrado, surge como o conteúdo manifesto, em contraste com os pensamen- tos oníricos latentes, descobertos pela interpretação. O processo que transformou os últimos no primeiro, isto

9 Texto disponível em: «www.scielo.com».

10 Roudinesco, Elisabeth; Plon. Michel. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p.722-24.

11 Freud, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. In:

Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v.4. Rio de Janeiro:

Imago, 1937/1996. p.225-270.

12 elemento do estado de vigília do dia anterior que encontramos no relato do sonho e nas associações livres da pessoa que sonha; estão em conexão mais ou menos longínqua com o desejo inconsciente que se realiza no sonho. (Laplanche e Pontalis, 2001).

13 Freud, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. In:

Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v.4. Rio de Janeiro:

Imago, 1937/1996. p.225-270.

14 Freud, S. Interpretação dos sonhos. Cap. VII 'Psicologia dos Processos Oníricos'. p.545. Esb. Volume V, Segunda Parte (1900-1901).

15 Dicionário da Psicanálise Laplanche e Pontalis. p.99-100; 145.

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é, no sonho, e que é desfeito pelo trabalho da interpre- tação, pode ser chamado de elaboração onírica 16 .

remodelação do sonho destinada a apresentá-lo sob a for-

ma de uma história relativamente coerente e compreensível tal como o disfarce de eventos e pessoas reais, é usada para colocar as imagens resultantes numa forma mais aceitável an- tes de elas serem experimentadas como sonho. ( l aplanche e pontali S, 2001) 17 .

] [

quanto se dorme. Porém, no seu desenrolar, ele contém

o mesmo senso de verossimilhança que é associada à

vida vígil. Desse modo, o que parece acontecer no mundo “real”, só por meio do retrospecto, é compreen- dido como o mundo onírico. Jung conceitua os sonhos como sendo processos psíqui- cos naturais, análogos aos mecanismos compensatórios

do funcionamento corporal 18 . Os sonhos, na sua função compensatória, funcionariam de três modos possíveis:

 

O

sonho pode compensar distorções temporárias da

A lembrança do sonho ao se acordar é o material que

estrutura do ego.

ele conta, pois é o conteúdo que é acessível ao sujeito

O sonho pode atuar como auto-representação da

contendo informações que não são as reais informações que o conteúdo onírico pode revelar, segundo Freud. Os achados reais que advêm do sonhar serão fornecidos pela

psique, colocando a estrutura do ego em funciona- mento com a necessidade de adaptação ao processo de individuação.

análise, através da interpretação e associação feitas pelo

conteúdo manifesto é, pois, “o sonho antes de ser

submetido à investigação analítica, tal como aparece ao

O

O

sonho é uma tentativa para alterar diretamente a

analista e analisando respectivamente em conjunto.

sonhante que o relata. Por extensão, fala-se do conteúdo

estrutura dos complexos 19 sobre os quais o ego ar- quetípico se apóia para a identidade no nível mais consciente.

manifesto de qualquer produção verbalizada – desde a

A

compensação das visões distorcidas ou incompletas do ego

fantasia à obra literária – que se pretende interpretar se- gundo o método analítico.” Para Freud, o conteúdo mani- festo é o produto do relato do sonho, e o conteúdo latente, o do trabalho inverso, o da interpretação. (Ibidem)

O método interpretativo freudiano para os sonhos

pode ser classificado como etiológico e retrospectivo, isto é, o sentido do sonho é procurado na causa do so- nho, no que o precede; e seu enfoque é no objeto so- nho, decompondo seu conteúdo através de sua trama complexa de reminiscências, de lembranças que são o eco de condições exteriores. Segundo Freud, o sonha- dor tinha responsabilidade direta quanto à interpreta- ção do seu sonho pelas livres associações que este deve fazer, diferentemente da Antiguidade. Jung irá concor- dar inicialmente com a compreensão freudiana antes de romper com ele. Depois, ele apresentará divergên- cias singulares com relação aos sonhos. Desse modo, seu aporte teórico privilegia o retrocesso ao conteúdo original, ligado a alguma vivência passada do sujeito, ocorrida dias ou momentos antes do sonhar, na sua vida em vigília. Nesse aspecto, há uma divergên- cia notória entre a concepção junguiana e a freudiana, já que este concebe o desenrolar deste fenômeno e sua interpretação de outro modo, como veremos.

TeoRIa JuNGuIaNa

Hall (2000) cita que, em sentido fenomenológico, o so- nho é uma experiência retrospectiva, pois ocorre en-

vígil é, de acordo com a teoria junguiana, o propósito dos so- nhos. Nossa forma vígil de encarar as coisas sempre é incom- pleta, razão pela qual sempre há espaço para a compensação.

A origem teórica dos sonhos é o Si-mesmo, o centro regulador

da psiquê. (Grifo nosso: ego seja entendido como o centro da consciência pessoal) 20 .

A compensação será a forma complementar com a

qual o sonho funcionará permitindo ao sujeito um me- lhor entendimento de suas ações e atitudes, visto que conscientemente muita coisa fica fora da percepção que

o ego se orienta, sendo provido de uma visão parcial dos

fatos, ficando muita coisa fora da sua esfera. Dessa ma- neira, para Jung, o sonho, no seu aspecto compensató- rio, é uma espécie de “mensagem” para o ego e, por fim, auto-representa a psique, sendo ambas as características fundamentais da compensação por meio do sonho. Hall (2000) nos diz que a modificação que o sonho pode permitir é a identidade do ego, de um personagem

para o outro. Talvez seja esta a maneira mais radical com que o sonho terá como efeito sobre a experiência do su- jeito. Ainda pode se dá por meio da modificação para nenhum personagem, como se o ego onírico observasse os acontecimentos de modo onisciente e flutuante. Para Jung há três etapas principais para que se possa interpretar um sonho, são elas:

■ uma compreensão clara dos detalhes exatos do sonho;

■ a reunião de associações em ordem progressiva, em um ou mais de três níveis: pessoal, cultural, arquetípico;

■ a colocação do sonho ampliado no contexto da situ-

16 Freud, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. In:

Imago, 1937/1996. p.225-270.

Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. v.4. Rio de Janeiro:

17 Dicionário da Psicanálise Laplanche e Pontalis, p.99-100; 145.

18 Hall, J. A. Jung e a Interpretação dos sonhos: Manual e Prática. 12ed. São Paulo: Cultrix, 2000. p.9-36.

19 Os complexos são grupamentos de imagens afins que se conservam juntas por meio de um tom emocional comum. Os complexos são o conteúdo básico do inconsciente pessoal (Hall, 2000).

20 Hall, J. A. Jung e a Interpretação dos sonhos: Manual e Prática. 12ed. São Paulo: Cultrix, 2000. p.9-36.

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ação vital e do processo de individuação 21 da pessoa que teve o sonho. Assim, para Jung, o sonho deve ser interpretado no contexto da vida corrente da pessoa que o tem. A acei- tação do sonho como confirmação da atual posição consciente da pessoa pode fornecer informações sobre

o caráter compensatório dos sonhos. No processo interpretativo, Jung adverte para o pe- rigo do reducionismo arquetípico a que o analista pode se remeter visto que os complexos são construídos a partir de núcleos arquetípicos e pode-se ampliar o mo- tivo onírico a um sentido de um significado arquetípi- co (Hall, 2000). Finalmente, para Jung, o sonho é a auto-represen- tação, espontânea e simbólica, da situação atual do in- consciente, isto é, ele é uma autodescrição do processo da vida psíquica do indivíduo. O método junguiano é

teleológico e prospectivo, ou seja, o sentido do sonho é procurado no futuro imediato do sujeito, na intenção realizadora do sonho. Como se pode ver, seu enfoque

é no sujeito, quer dizer, estabelece-se uma relação de

cada elemento do sonho com o sujeito. Segundo Jung, a pedagogia dos sonhos é evolutiva, estruturante, integradora e totalizante, estimulando o indivíduo a evoluir, a ir mais longe e mais profunda- mente no conhecimento de si mesmo.

Jung se afasta da visão freudiana dos sonhos, que os consi- dera meros guardiões do sono; a abordagem junguiana vê o sonho como parte da própria textura da vida, ligado à indivi- duação e não simplesmente à solução de problemas que pre- ocupam o ego vígil 22 .

FReuD veRsus JuNG

Para Freud, o conteúdo visível do sonho é a história que se desenrola, mas o que mais interessa é o que está por trás da história, os impulsos inconscientes que a origina- ram. Ele estava consciente da significação oculta das ima- gens do subconsciente e havia distinguido duas funções inerentes ao processo onírico: a identificação e o displace- ment (deslocação ou transferência). Os sonhos, portanto, têm fatores que não são totalmente desvendados. O elemento ímpar na concepção junguiana consiste no fato de ele evitar a consideração do sonho como uma mensagem inconsciente disfarçada. Jung relata que o que é chamado por Freud de “fachada” do sonho é “a sua não-transparência que, na realidade, não passa de uma projeção de quem não compreende; só se fala em fachada do sonho, porque não se consegue apreender-

lhe o sentido” 23 . Não havendo para ele o sonho latente ou oculto. O sonho é considerado uma representação simbólica do estado da psique e mostra os conteúdos da psique pessoal (os complexos) sob uma forma per- sonificada ou representacional, como pessoas, objetos

e situações que refletem os padrões mentais. Jung criticou Freud quanto a sua teoria sobre os so- nhos pelo fato dele não ter percebido que muitos sonhos significam exatamente aquilo que dizem. “O ponto de vista de que os sonhos são meras realizações de dese- jos reprimidos já está superado há muito tempo” (Jung, 1999) 24 . A consideração do sonho como uma versão dis- farçada do que seria um pensamento na situação de vi- gília parece desnecessária para muitos sonhos que são claros, sem nenhuma interpretação. Interpretar, na teoria freudiana, tem um sentido etio- lógico pela busca da causa e há um retrocesso ao mate- rial e experiências anteriores do paciente. Porém, Jung diverge mais uma vez quando diz que interpretar não

deve ser um fim último, já que o território onírico pode demonstrar-se traiçoeiro ao intérprete e que toda in- terpretação não passa de mera hipótese, precisando-se de uma seqüência de sonhos para que se adquira uma relativa segurança quanto ao seu significado (Ibidem). Se o sonhos não passassem de informações sobre suas causas (sentido etiológico), só ao médico era delegada

a incumbência de interpretar os sonhos. Contudo, os

fins últimos a que se destinam os sonhos são o que im- porta, demonstrando questões dinâmicas e prospecti- vas da vida do sujeito.

As associações livres nos fazem descobrir os complexos, mas, raramente, o sentido de um sonho. Para compreender o senti- do dos sonhos, tenho que me ater fielmente, quanto possível, à imagem onírica 25 .

O propósito dos sonhos, na teoria junguiana, é com- pensar as distorções unilaterais do ego vígil;os sonhos estão a serviço do processo de individuação, auxilian- do o ego vígil a encarar- se a si mesmo de forma mais objetiva e consciente. Concluindo, pode-se dizer que os sonhos são fenô- menos do humano e por isso são universais e impor- tantes para a manutenção salutar do psiquismo, quer seja Freud ou Jung, ou quer se entenda o sonho pela via da realização do desejo (tendo uma análise retrospecti- va), ou pela busca de um entendimento mais amplo da realidade da vida pela consideração do sonho apenas como ele é (análise prospectiva). Os efeitos gerados pe- los sonhos na vida do homem independem dele estar consciente ou não. Entretanto, quanto mais conscien-

21 Individuação é um conceito central na teoria junguiana. Refere-se ao processo em que uma pessoa na vida real tenta consciente e deliberadamente com- preender e desenvolver as potencialidades individuais inatas de sua psique. A individuação é um processo dinâmico; envolve uma mudança constante e finalmente leva à aceitação da finitude da vida e inevitabilidade da morte.

22 Hall, J. A. Jung e a interpretação dos sonhos: manual e prática. 12ed. São Paulo: Cultrix, 2000. p.9-36.

23 Jung, C. G. Ab-reação, Análise dos Sonhos, Transferência. 4ed. Petrópolis: Vozes, 1999. p.11-32.

24 Jung, C. G. Ab-reação, Análise dos Sonhos, Transferência. 4ed. Petrópolis: Vozes, 1999. p.11-32.

25 Jung, C. G. Ab-reação, Análise dos Sonhos, Transferência. 4ed. Petrópolis: Vozes, 1999. p.11-32.

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te dos significados dos sonhos ele estiver maior é esse efeito, ampliando proporcionalmente a compreensão que dele pode advir.

ReFeRÊNcIas

Melo e Silva, Francynete. Uma Análise Behaviorista Radical dos Sonhos. v.13, n.3. Porto Alegre, 2000. Tex- to disponível em: «www.scielo.com». Laplanche & Pontalis. Dicionário da Psicanálise.

p.99-145.

Abbagnano, Nicola. Dicionário de Filosofia. 4ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p.919-20. Freud, Sigmund. A Interpretação dos Sonhos. v.4. In:

Edição Standard Brasileira das Obras Psicoló- gicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro:

Imago, 1937/1996. p.225-270. A Interpretação dos Sonhos. cap. vii. Psicologia dos Pro- cessos Oníricos. Esb. Segunda Parte (1900-1901). p.545. Hall, J. A. A Experiência Junguiana: Análise e Indivi- duação. 10.ed. São Paulo: Cultrix, 1995. p.119-135. Jung e a interpretação dos sonhos: manual e prática. 2.ed. São Paulo: Cultrix. 2000. p.9-36. Jung, C.G. Ab-reação, Análise dos Sonhos, Transferên- cia. 4.ed. Petrópolis: Vozes. 1999. p.11-32. Roudinesco, Elisabeth; Plon, Michel. Dicionário de Psi- canálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. p.722-24.

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