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Impacto no plano político

O primeiro impacto político positivo foi a instauração de um grau maior de paz e de


estabilidade na África. Como vimos, o século XIX foi o século do Mfecane, das atividades
dos mercadores swahili -árabes e nyamwezi, como Tippu Tip e Msiri nas Áfricas central e
meridional, das djihāds, da ascensão dos impérios Tukulor e Mandinga no Sudão ocidental,
da desintegração dos impérios Oyo e Ashanti na África ocidental, todos poderosos fatores de
instabilidade e de insegurança. Ora, nessa época, a situação na Europa não era muito melhor.

Foi a época das guerras napoleônicas, das revoluções “intelectuais”, das guerras de unificação
alemã e italiana, dos levantes da Polônia e da Hungria e das rivalidades imperiais que
desembocaram na Primeira Guerra Mundial. Na África, as duas ou três primeiras décadas da
era colonial (1880 -1910, mais ou menos) aumentaram esse estado de instabilidade, de
violência e de desordem e, conforme demonstrou J. C. Caldwell, provocaram vastas e
imperdoáveis destruições, bem como sensível queda da população: o número de habitantes do
Congo Belga reduziu -se à metade nos primeiros quarenta anos da dominação colonial, o dos
Herero diminuiu quatro quintos, o dos Namo 50% e o da Líbia caiu cerca de 750 mil11.

Mas nem as escolas marxistas e anticolonialistas ousariam negar o fato de que, após a
ocupação colonial e a implantação dos vários aparatos administrativos, as guerras de
expansão e de libertação acabaram e a maior parte das regiões da África, sobretudo após a
Primeira Guerra Mundial, pôde gozar de paz e de segurança.

As condições eram inteiramente positivas, já que facilitavam as atividades econômicas


normais, bem como a mobilidade social e física em cada colônia. E isso, por sua vez,
acelerou enormemente o ritmo da modernização, graças à difusão de ideias, de técnicas, de
modas e de gostos novos. Em vez das centenas de clãs, de grupos de linhagem, de cidades
-Estado, de reinos e de impérios, sem fronteiras nitidamente delimitadas, temos hoje cerca de
cinquenta novos Estados de traços geralmente fixos; é bastante significativo que as fronteiras
dos Estados, tais como foram estabelecidas durante o período colonial, não se tenham
modificado depois da independência.

Não há a menor dúvida de que, em quase todos os Estados independentes da Africa (exceto
os muçulmanos), as altas cortes de justiça introduzidas pelas autoridades coloniais foram
mantidas e, nas antigas colônias britânicas, não só na forma como também no conteúdo e na
ética.
As estruturas estabelecidas pouco a pouco (ainda que em muitos casos tardiamente) pela
administração das colônias provocaram o aparecimento de uma classe de funcionários cujo
número e influência só fizeram aumentar com os anos. A importância dessa herança varia de
um sistema colonial para outro. É certo que os britânicos legaram às suas colônias uma
burocracia mais bem formada, mais numerosa e mais experimentada do que os franceses; os
belgas e os portugueses foram os piores nesse aspecto.

O último impacto positivo do colonialismo foi o nascimento não só de um novo tipo de


nacionalismo africano, mas também do pan -africanismo. O primeiro, como vimos,
representou o desenvolvimento de certo grau de identidade e de consciência entre as classes
ou grupos étnicos que habitavam cada um dos novos Estados ou, tal como nas colônias da
África Ocidental Francesa, conjuntos de Estados; o segundo nos remete ao sentimento de
identidade dos negros como tais.

Para Uzoigwe, Estados foram criações artificiais e de que essa artificialidade colocou alguns
problemas para pesarem fortemente sobre o desenvolvimento futuro do continente. O
primeiro é o seguinte: certas fronteiras dividem grupos étnicos já existentes e retalham
Estados e reinos, o que provoca perturbações sociais e deslocamentos. Por exemplo, os
Bakongo estão divididos pelas fronteiras de Angola, Congo Belga (atual Zaire), Congo
francês (atual República Popular do Congo) e Gabão.

O enfraquecimento dos sistemas de governo indígenas a França, como já vimos, também


aboliram várias monarquias tradicionais, depuseram certas famílias reinantes e nomearam
para sobas pessoas que não tinham o menor direito à função, para delas fazer funcionários a
serviço das autoridades coloniais. Quanto aos britânicos e aos belgas, conservaram os
dirigentes tradicionais e suas instituições, Outro impacto negativo do colonialismo, do ponto
de vista político, foi a mentalidade que criou entre os africanos, segundo a qual a propriedade
pública não pertencia ao povo, mas às autoridades coloniais brancas, podendo e devendo
estas assim tirar proveito dela em todas as oportunidades. O último impacto negativo do
colonialismo, provavelmente o mais importante, foi a perda da soberania e da independência
e, com ela, do direito dos africanos a dirigir seu próprio destino ou a tratar diretamente com o
mundo exterior.

O impacto no econômico
O impacto no terreno político foi, portanto, importante, mesmo que sua positividade esteja
longe de ser total. De igual importância, e até maior, foi a herança econômica. O primeiro
efeito positivo do colonialismo – o mais evidente e o mais profundo – foi, como vimos em
muitos capítulos anteriores, a constituição de uma infra estrutura de estradas e vias férreas, a
instalação do telégrafo, do telefone e, às vezes, de aeroportos. Nada disso existia
evidentemente na África pré -colonial, onde, como disse J. C. Caldwell, “quase todos os
transportes terrestres – até a era colonial – se faziam às costas dos homens”

Essa revolução econômica teve consequências de grande alcance. A primeira foi a


comercialização da terra, o que a transformou em valor real. Antes da era colonial, é
incontestável que enormes extensões de terra, em muitas partes da África, estavam sub
povoadas e sub -exploradas. A introdução e a difusão das culturas de exportação, bem como
o desenvolvimento das indústrias mineiras, puseram termo a tal situação.

De fato, o ritmo de desmatamento das florestas virgens foi tal que as autoridades coloniais se
viram obrigadas a constituir reservas um pouco por toda a parte da África para deter sua
exploração. Em segundo lugar, a revolução econômica provocou o aumento do poder
aquisitivo de alguns africanos e, portanto, da procura de bens de consumo. Em terceiro lugar,
o fato de os próprios africanos cultivarem safras exportáveis permitiu que as pessoas
enriquecessem, fosse qual fosse sua posição social, principalmente nas regiões rurais.

A infra-estrutura proporcionada pelo colonialismo não era tão útil nem tão adaptada como
poderia ser. As estradas e as ferrovias, em sua maioria, não haviam sido construídas para
abrir o país, mas apenas para ligar com o mar as zonas dotadas de jazidas minerais e de
potencial para a produção de safras comerciais A rede não se destinava a facilitar as
comunicações interafricanas. A infraestrutura fora de fato concebida para facilitar a
exploração dos recursos das colônias e conectá -los às metrópoles, não para promover o
desenvolvimento econômico global da África ou os contatos entre africanos. Segundo, o
crescimento econômico das colônias baseava -se nos recursos materiais das regiões, de modo
que as zonas desprovidas de tais recursos haviam sido negligenciadas por completo. Daí as
gritantes desigualdades econômicas dentro de uma mesma colônia, que acentuavam e
exacerbavam, por sua vez, as diferenças e os sentimentos regionais, o que representou grande
obstáculo à constituição das nações na África independente. Como disse um eminente
economista, “as diferenças tribais poderiam desaparecer facilmente no mundo moderno, se
todas as tribos vivessem em igualdade econômica.
Terceiro, uma das características da economia colonial consistia em negligenciar ou em
desencorajar deliberadamente a industrialização e a transformação das matérias -primas e dos
produtos agrícolas na maioria das colônias. Conforme destacou Fieldhouse, “é provável que
nenhum governo colonial possuísse um ministério da indústria antes de 1945”.

Quarto, não só a industrialização foi negligenciada como as indústrias e as atividades


artesanais existentes na época pré -colonial foram destruídos. Note -se que nessa época as
indústrias africanas produziam tudo de que o país necessitava, sobretudo materiais de
construção, sabão, miçangas, utensílios de ferro, cerâmica e, principalmente, roupas. Quinto,
embora a agricultura intensiva acabasse por se tornar a principal fonte de renda da maior
parte dos Estados africanos, nenhuma tentativa fora feita para diversificar a economia rural
das colônias. O colonialismo, não há dúvida, integrou as economias africanas na ordem
econômica mundial, mas de forma bastante desvantajosa e exploradora, e as coisas
praticamente não mudaram depois disso.

Portanto, foi obrigatório importar alimentos, e o povo tinha de os adquirir a preços


geralmente elevados. Assim ocorreu, por exemplo, em Gâmbia: os habitantes foram levados a
substituir a cultura do arroz pela de amendoim, passando o arroz a ser importado daí em
diante24. Na Guiné, os africanos de Futa Jallon foram obrigados a produzir borracha,
provocando em 1911 a falta de arroz, o qual passou a ser importado e pago com o dinheiro
proveniente da borracha. O Egito, que durante séculos havia exportado cereais e outros
alimentos, teve de importar milho e trigo desde o começo do século XX, devido à excessiva
concentração na cultura do algodão para o mercado externo. O mesmo se deu na Costa do
Ouro, onde a produção de cacau foi tão intensificada que houve necessidade de importar
alimentos.

Coquery –Vidrovitch salienta que Assim, no sistema colonial, os africanos estavam na maior
parte dos casos destinados a produzir aquilo que não consumiam e a consumir aquilo que não
produziam, o que mostra muito bem o caráter explorador, claudicante, da economia colonial.

Nas regiões em que a população africana não estava autorizada a se dedicar às culturas de
exportação, como no Quênia e na Rodésia do Sul (atual Zimbábue), Colin Leys demonstrou
que os africanos, “no espaço de uma geração, tinham efetivamente passado da condição de
camponeses independentes, que produziam culturas comerciais para os novos mercados, para
a de camponeses dependentes de trabalho agrícola assalariado.
Efeitos no plano social

O primeiro efeito benéfico importante foi o aumento geral da população africana, no decurso
do período, A expansão, segundo esse autor, deveu -se ao estabelecimento de sólidas bases
econômicas e ao desenvolvimento de malhas rodoviárias e ferroviárias, que permitiu
transportar mantimentos para as regiões onde reinava a fome, bem como lançar campanhas
contra doenças como a peste bubônica, a febre amarela e a doença do sono.

O segundo impacto social do colonialismo está estreitamente ligado ao primeiro: foi a


urbanização. Os reinos e impérios africanos possuíam capitais e centros políticos, como
Kumbi Saleh, Benin, Ile -Ife, Kumasi, Gao e Zimbábue, além de centros comerciais como
Kano, Jenne, Sofala e Melinde. Havia ainda centros educacionais como Tombuctu, Cairo e
Fez. Não há dúvida, porém, que o colonialismo acelerou enormemente o ritmo da
urbanização. Surgiram cidades inteiramente novas: Abidjan, na Costa do Marfim; Takoradi,
na Costa do Ouro; Port Harcourt e Enugu, na Nigéria; Nairóbi, no Quênia; Salisbury (atual
Harare), na Rodésia do Sul; Lusaka, na Rodésia do Norte (atual Zâmbia); Luluabourg, na
província de Kasai, do Congo Belga (atual Zaire).