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4

Economia

Economia Solidária
Solidária

Ministério
da Educação 4 Caderno Pedagógico Educandas e Educandos
ProJovem Campo - Saberes da Terra

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Coleção Cadernos Pedagógicos
ProJovem Campo - Saberes da Terra

Economia
Solidária

Caderno Pedagógico Educandas e Educandos

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Ministério da Educação/SECAD
Esplanada dos Ministérios
Bloco L - Edifício Sede
2o andar - sala 200
Ministério CEP 70.047-900
da Educação BRASÍLIA - DF

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Coleção Cadernos Pedagógicos
ProJovem Campo - Saberes da Terra

Economia
Solidária

Caderno Pedagógico Educandas e Educandos

Ministério
BRASÍLIA | DF | 2010 da Educação

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©2010. SECAD/MEC

Ministério da Educação
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade
Diretoria de Educação para a Diversidade
Coordenação Geral de Educação do Campo

Coordenação
Armênio Bello Schmidt
Sara de Oliveira Silva Lima
Wanessa Zavarese Sechim

Equipe Técnica Pedagógica – SECAD/MEC

Eduardo D’Albergaria de Freitas


Eduardo Góis de Oliveira
Gilson da Silva Costa
João Staub Neto
José Roberto Rodrigues de Oliveira
Lisânia de Giacometti
Michiele Morais de Medeiros Delamôra
Oscar Ferreira de Barros

Equipe Técnica Pedagógica - UFPE/NUPEP

João Francisco de Souza (In Memorian)


Zélia Granja Porto
Karla Tereza Amélia Fornari de Souza
Rigoberto Fúlvio Melo Arantes
Maria Fernanda Alencar
Almeri Freitas de Souza

Equipe Técnica Pedagógica - UFPA

Jaqueline Cunha da Serra Freire


Evandro Medeiros
Romier da Paixão Souza
Evanildo Estumano

Editoração de comunicação
Dirceu Tavares de Carvalho Lima Filho

Projeto gráfico
Adrianna Rabelo Coutinho | Celso Hartkopf | Rodrigo Santos

Ilustração
Henrique Koblitz Essinger

Revisão
Antônio Neto das Neves

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


Centro de Informação e Biblioteca em Educação (CIBEC)

Economia solidária: caderno pedagógico educandas e educandos / Coordenação: Armênio Bello Schmidt, Sara de Oliveira Silva Lima, Wanessa
Zavarese Sechim. – Brasília : Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2010.

128 p. il. - (Coleção Cadernos Pedagógicos do ProJovem Campo-Saberes da Terra).


ISBN 978-85-60731-70-1
1. Educação popular. 2. Agricultura familiar. 3. Educação de Jovens e Adultos. 4. Educação no Campo. I. Brasil. Ministério da Educação.
Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. II. Schmidt, Armênio Bello. III. Lima, Sara de Oliveira Silva. IV. Sechim,
Wanessa Zavarese.

CDU 37.014.2(81)

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Sumário

APRESENTAÇÃO 15

CARTA A EDUCANDA E AO EDUCANDO 19

TEXTOS:

(RE)CONHECENDO A ECONOMIA SOLIDÁRIA 23

1. Solidariedade 23
Secad - MEC

2. A vida verdadeira 24
Thiago de Mello

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3. Histórico da Economia Solidária 26


D. Barbosa
E. Casimiro
J. Paim
M. Serafim

4. Imagens 29

5. Conceitos de Economia Solidária 30


MTE /Senaes
1ª Conferência Nacional de Economia Solidária

6. Uma política de economia solidária 32


Paul Singer

7. Fóruns de Economia Solidária 35


Fórum Brasileiro de Economia Solidária

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8. Finanças Solidárias 37
Cartilha das Redes de Colaboração Solidária

9. Banco Palmas 45
Centro de Ação Comunitária -CEDAC

10. A Feira de Caruaru 49


Onildo Almeida

11. O Açúcar 51
Ferreira Gullar

12. Cidadão 52
Lúcio Barbosa

13. Dez Princípios da Economia Solidária 53


Cartilha da Campanha Nacional de Mobilização Social

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14 Algumas Condições Necessárias à Autogestão 55


Leny Sato
Egeu Esteves

15. Comércio Justo e Soberania Alimentar 58


Esther Vivas

16. Criação de uma Cooperativa 61


Administração e Finanças para o Desenvolvimento
Comunitário-Afinco

17. O Nhandú 66
Rosane Volpatto

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EXPERIÊNCIAS EM ECONOMIA SOLIDÁRIA 71

18. Banco Palmas 71


Associação de Moradores do Conjunto Palmeira

19. A Experiência da ASA 76


Articulação no Semi-Árido Brasileiro

20. Banco Comunitário dos Cocais – Piauí 79


André Miani

21. Banco Comunitário Quilombola 80


Deuszânia Almeida

22. Por uma Economia mais Solidária em Pernambuco 82


Renata Carneiro de Holanda

23. Catende-Harmonia: o resultado da união dos 84


trabalhadores
Cooperativa de Produção Agroindustrial Catente-Harmonia

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24. Mulheres, Soberania Alimentar e Convivência com 92


o Semi-Árido
Conceição Dantas

25. Declaração de Nyélény 94


Foro Mundial pela Soberania Alimentar

26. Projeto Criação de Abelhas 98


Centro de Pesquisa e Assessoria-ESPLAR

27. Programa Nossa Primeira Terra 100


Equipe Estadual do Projeto Crédito Fundiário-CE

28. Centro Sabiá: experiência do espaço agroecológico 102


Marileide Irineu
Paula Reis Melo
Sandra Rejane

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29. Experiência Estruturante da Cooperativa de Pro- 110


dução dos Jovens da Região do Sisal Cooperjovens –
Bahia
Cooperjovens do Sisal
Agência de Desenvolvimento Solidário-ADS/ CUT/ BA
Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares -ITCP/ UNEB

30. Cooperjovens - Projeto Referencial da Juventude 114


Rural

31. Juventude Sementes para o Futuro 117

32. Os Empreendimentos Econômicos Solidários no 120


Brasil

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 123

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Economia Solidária é um modelo


a igualdade social e o equilíbrio

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15

Apresentação do Caderno

econômico que defende


do meio ambiente.

E ste Caderno Pedagógico tem


por objetivo subsidiar as ações
pedagógicas que orientam o estudo
do Eixo Temático 4 – Economia
Solidária.

Vocês que estão realizando pesquisas,


aprendendo em grupo, superando
desafios e obstáculos na construção
do conhecimento, já produziram e
organizaram, até aqui, muitas informações
sobre a comunidade, o município e/ou a
região onde moram para poderem efetivar
transformações em prol de uma Agricultura
Familiar Sustentável.

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Esta etapa é a continuidade de um processo que vem sendo desenvolvido


no percurso dos eixos temáticos: ela consolida o eixo articulador e consi-
dera a vivência, a experiência e a leitura de mundo de todos os sujeitos
educativos na construção do conhecimento. Ao mesmo tempo que apre-
senta questões gerais, provoca a relação e o diálogo com as necessidades
e as diversidades que são próprias da sua comunidade ou grupo.

Estudar Economia Solidária é importante nesse processo formativo


porque ela é originária das lutas e bandeiras defendidas pela classe
trabalhadora organizada por meio dos seus movimentos sociais, a partir
de princípios e práticas que marcam e marcaram a história dos povoc do
campo no Brasil. Atualmente, a chamada Economia Solidária se apresen-
ta como uma alternativa ao modelo econômico vigente, ou seja, um outro
modo de vida, diferente do modelo capitalista que, em vez de distribuir
as riquezas produzidas, gera desigualdade para a maioria da população e
destruição do meio ambiente.

Ao iniciarmos o percurso formativo deste Eixo Temático, sugerimos que


vocês, em grupo e individualmente, elaborem hipóteses* sobre quais
seriam as contribuições e os desafios da Economia Solidária para a cons-
trução da sustentabilidade da Agricultura Familiar. Acreditamos que isso
fortalecerá o processo de construção do conhecimento na perspectiva da
pesquisa-ação participante, uma vez que, fazendo parte do cenário, as
hipóteses dos sujeitos educativos darão sentido às pesquisas, subsidiarão
a criação e o desenvolvimento de estratégias e também servirão como
elementos de confronto para os momentos avaliativos, nos quais poderão
confirmar, negar ou adequar suas hipóteses ao que foi construído.

• Hipótese é uma teoria provável, mas não


demonstrada, uma suposição admissível;

• Proposição ou conjunto de proposições aceitas


são pontos de partida para a dedução
de conseqüências lógicas.
(in.: http//pt.wikitionary.org)

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Neste Caderno, vocês encontrarão diversos elementos


sobre as raízes históricas e os diferentes conceitos de Eco-
nomia Solidária - passando pelas etapas dos processos de
produção, circulação e consumo nas suas relações huma-
nas, econômicas, políticas e culturais intrínsecas -, a serem
refletidos e relacionados a partir da compreensão-ação do
coletivo. A intenção é contribuir e provocar mudanças prá-
ticas nos hábitos pessoais e familiares, incentivar a cons-
trução de novos conceitos e a criação de novas práticas,
além de fortalecer as redes solidárias existentes e fomen-
tar outras formas de organização fundadas nos princípios
da Economia Solidária.

Assim, de acordo com o envolvimento e o


compromisso dos sujeitos educativos no
Programa e na comunidade, os resultados dos
estudos e das pesquisas deste Eixo Temático
tecerão as contribuições da juventude do
Campo na construção da sustentabilidade da
Agricultura Familiar.

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Fortalecer as redes sociais


para uma Agricultura

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Carta
À EDUCANDA E AO EDUCANDO
Olá, juventude do campo!!

da economia solidária,
Familiar Sustentável

Estamos avançando em nossa caminhada no Projovem


Campo - Saberes da Terra, muito instigadas e instigados a
contribuir para o empoderamento dos jovens e das jovens
do campo frente aos diversos desafios impostos pela atu-
alidade. Seguimos com o objetivo de refletir sobre nos-
sas realidades e diversidades, propondo a organização e
avaliação de ações coletivas, decididas e articuladas pelos/
as próprios/as jovens, de acordo com suas necessidades e
curiosidades.

É com grande satisfação que apresentamos um novo Ca-


derno, tratando agora da Economia Solidária e dos vários
elementos que a compõem, na perspectiva de contribuir
para a transformação das relações autoritárias e indi-
vidualistas impostas à Agricultura Familiar, resgatando,
fundamentando e fortalecendo a cultura camponesa da
solidariedade .

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Vemos, na discussão sobre a Economia Solidária, um es-


paço em potencial para a juventude do campo atuar em
busca de fortalecer e construir o sonho de mudanças signi-
ficativas no seu presente e futuro, em suas comunidades
de pertencimento e, conseqüentemente, no mundo em
que vivem! Como? Exercendo sua cidadania e protagoni-
zando sua própria história!

Para construir o futuro desejado é preciso conhecer a his-


tória e aprender com ela para atuar melhor no presente,
debatendo e participando de organizações e movimentos
sociais, apresentando de maneira propositiva as bandeiras
de lutas, mobilizando a sociedade e nos posicionando-se
diante das questões locais e nacionais.

Fonte: http://agricultura.gov.br/

A Economia Solidária é, também, um instrumento de mo-


bilização em favor da discussão, da organização e controle
de políticas públicas para Juventude, e um incentivo ao
fortalecimento das manifestações artístico-culturais das
quais fazem parte os sujeitos, na medida em que for reco-
nhecido o seu poder de atuação e de transformação.

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As práticas de cooperação e da Economia Solidária representam uma al-


ternativa de contraposição à sociedade capitalista. Tais práticas, baseadas
nos propósitos da gestão democrática, estruturam a base de uma nova
forma de convivência em que a dimensão humana não é subordinada a
critérios simplesmente financeiros. No campo, buscam viabilizar a organi-
zação da produção e construir uma proposta de comercialização coope-
rativista, cujo foco principal é o desenvolvimento econômico e social de
suas populações.

A existência de “cooperativas” que, ao longo do tempo, se desviaram dos


princípios do cooperativismo, apesar de manter o nome (personalidade
jurídica) não significa que se perderam os princípios. É possível, sim, cons-
tituir organizações cooperativas que se mantenham coerentes e firmes
na construção de relações sem exploração. Ao longo do texto, evita-se
a crítica ao modelo de cooperativas que se transformaram em grandes
complexos agroindustriais de exploração de seus associados, existentes,
principalmente no sul do Brasil. Ao contrário, busca-se apresentar iniciati-
vas que têm buscado trilhar o caminho da cooperação, da solidariedade e
da não-exploração entre os associados.

Para tal, discutiremos propostas de mercado solidário e de autogestão ou


administração participativa, procurando dar visibilidade às ações existen-
tes, inclusive na comunidade de pertença, de forma a fortalecer as inicia-
tivas locais e estimular a possível criação de novas idéias e estratégias.
Esse seja, talvez, um dos maiores desafios da Economia Solidária e da co-
operação: vencer os vícios e as tentações da sociedade capitalista, viven-
do dentro dela. Essa tarefa é missão de todos e de todos os dias. Como
nos ensinou Paulo Freire – um dos maiores desafios da educação popular
é contribuir com a classe oprimida para não permitir que sua cabeça seja
usada como hotel do opressor.

Desejamos, através dos Cadernos, estimular a participação, criação ou


fortalecimento de redes locais e municipais de economia popular e soli-
dária, como forma de fortalecimento da cultura solidária e construção da
sustentabilidade da Agricultura Familiar, que exige uma atitude vigilante
para que os princípios não se percam ante a sedução do poder e a ilusão
de que um ser humano sozinho pode ser mais que a coletividade.

Bom trabalho e muita produção


crítica e criativa!

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23

(Re)conhecendo
a economia solidária

Texto 1
SOLIDARIEDADE

Solidários, somos gente;


Solitários, somos peças.
De mãos dadas, somos força;
Desunida impotência.
Isolados, somos ilha;
Juntos, somos continente.
Reflexivos, somos grupo.
Organizados, somos pessoas;
Sem organização, somos objetos de lucro.
Em equipe, ganhamos, libertamo-nos;
Individualmente, perdemos, continuamos presos,
Participando, somos povo;
Marginalizando-nos, somos rebanho.
Inconscientes, somos massa;
Unidos somos soma;
Na massa, somos número.
Dispersos, somos vozes no deserto;
Agrupados fazemo-nos ouvir.
Amontoando palavras, perdemos tempo;
“Com ações concretas, construímos sempre”.

Cadernos de EJA – Economia Solidária e Trabalho/ SECAD-MEC.

PARA DEBATER

? O que você entende por solidariedade?


Como você a pratica?

? Qual o seu envolvimento com a Economia Solidária?

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24

TEXTO 2
A vida verdadeira
Thiago de Mello

Pois aqui está a minha vida. Carrego um grito que cresce


Pronta para ser usada. Cada vez mais na minha garganta,
cravando seu cravo triste
Vida que não se guarda na verdade do meu canto.
nem se esquiva, assustada.
Vida sempre a serviço Canto molhado e barrento
da vida. de menino do Amazonas
Para servir ao que vale que viu a vida crescer
a pena e o preço do amor. nos centros da terra firme.
Que sabe a vinda da chuva
Ainda que o gesto me doa, pelo estremecer dos verdes
não encolho a mão: avanço e sabe ler os recados
levando um ramo de sol. que chegam na asa do vento.
Mesmo enrolado de pó, Mas sabe também o tempo
dentro da noite mais fria, da febre e o gosto da fome.
a vida que vai comigo
é fogo: Nas águas da minha infância
está sempre acesa. perdi o medo entre os rebojos
Por isso avanço cantando.
Vem da terra dos barrancos
o jeito doce e violento Estou no meio do rio,
da minha vida: esse gosto estou no meio da praça.
da água negra transparente. Piso firme no meu chão,
sei que estou no meu lugar
A vida vai no meu peito, como a panela no fogoe a estrela na
mas é quem vai me levando: escuridão.
tição ardente velando,
girassol na escuridão.

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O que passou não conta? Feita à imagem do menino


indagarão as bocas desprovidas. mas à semelhança do homem:
com tudo que ele tem de primavera
Não deixa de valer nunca. de valente esperança e rebeldia.
O que passou ensina Vida, casa encantada,
com sua garra e seu mel. onde eu moro e mora em mim,
te quero assim verdadeira
Por isso é que agora vou assim cheirando a manga e jasmim.
no meu caminho. Publicamente Que me sejas deslumbrada
andando. como ternura de moça
rolando sobre o capim.
Não, não tenho caminho novo. Vida, toalha limpa,
O que tenho de novo vida posta na mesa
é o jeito de caminhar. vida brasa vigilante,
Aprendi vida pedra e espuma,
(o caminho me ensinou) alçapão de amapolas,
a caminhar cantando o sol dentro do mar,
como convém a mim estrume e rosa do amor:
e aos que vão comigo. a vida.
Pois já não vou mais sozinho. Mas é preciso merecer a vida.

Aqui tenho a minha vida:


feita à imagem do menino
que continua varando
os campos gerais
o que reparte o seu canto
como o seu avô
repartia o cacau Disponível em: http://leaoramos.blogspot.
com/2007/06/thiago-de-mello-canta-em-versos-
e fazia da colheita sua.html. acesso em 12/08/08
uma ilha de bom socorro.

Algumas Atividades

? Que fragmento/s do texto mais me identifico?

? Que/quais sentimento/s o autor revela?

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TEXTO 3
Origem da Economia
Solidária
Daiani Barboza3
Ediléia Casemiro
Janir de Quadra Paim
Juliano Giassi Goularti
Maurício Custódio Serafim

As experiências solidárias de autogestão foram alimentadas nos princípios do coo-


perativismo geradas em Rochdale, Inglaterra, por Robert Owen quando no início do
século XVIII adquiriu uma imensa empresa têxtil, e que ao invés de explorar seus tra-
balhadores ao máximo, tratava-os de modo a não se sentirem apenas como um fator
de produção. Isso resultou em uma maior produtividade do trabalho.

Com a crescente modernização e organização industrial fabril que a Inglaterra presen-


ciou no final do século XVII e XVIII, os artesãos camponeses proprietários do próprio
trabalho – no qual dispunham de uma vida razoavelmente modesta – foram simples-
mente forçados a deixarem suas terras para dar lugar ao cultivo de ovelhas. Aqueles
que se manifestavam resistente em não abandonar as terras eram retirados à força.

Diante do novo sistema organizacional voltado para a produção de manufaturas de


ovelhas – para a retirada da lã que seria destinada às indústrias têxteis –, os artesãos
camponeses teriam três opções para poderem manter sua sobrevivência: a primeira
seria de juntos modernizarem e se incorporarem a esse novo sistema, a “Revolução
Industrial”, o que seria praticamente impossível. A segunda seria a de abandonar a
vida de camponês artesão e ir trabalhar para a nova classe capitalista. E, por fim, seria
a de criar uma alternativa capaz de gerar uma renda adequada para poder manter a
sua sobrevivência e a de sua família. Se os artesãos camponeses não optassem por
uma das três alternativas, certamente ficariam desempregados.

Que legal a idéia de al- Tem cooperativa pra gente Deixa de gozação.
deias cooperativas. A ir lá para trocar nossos al- Saiba que existem
gente trocando produ- faces, por motocicleta, ce- cooperativas de con-
tos impede que o atra- lular e computador? sumo.
vessador ganhe nas
nossas costas.

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Foi devida a esta situação que em 1817, Robert Owen apresentou seu plano
de minimizar a pobreza mediante o emprego dos que não tinham proventos
e eram sustentados pela beneficência das paróquias. Seu plano era fundar o
que chamou de Aldeias Cooperativas, onde poderiam viver em comunidade
e produzir em comum, consumindo seus próprios produtos e trocando os
excedentes com outras Aldeias Cooperativas, sendo que algumas aldeias
deveriam ser agrícolas e outras indústrias. Nas palavras de Singer (2000,
p.23), “assim o estado e as paróquias, em vez de desperdiçar dinheiro com
a manutenção dos indigentes ociosos, deveria fornecer capital para que se
estabelecessem em Aldeias e pudessem prover o seu próprio sustento”.

Mas, os pioneiros no ramo foram os seguidores de Owen, pois, desenvolve-


ram várias outras cooperativas, como de habitação e de produção de vários
produtos e abriram várias filiais da cooperativa de consumo. A sociedade dos
pioneiros de Rochdale mostrou enorme capacidade de adaptação às oportu-
nidades e aos riscos de mercado, e fez tudo isso sem abrir mão dos princípios
cooperativistas. Foi a harmonização entre os aderentes da idéia de Rochdale
que possibilitou o crescimento do cooperativismo, tornando assim um mode-
lo e ao mesmo tempo um espelho para as gerações cooperativistas futuras.
Segundo Veiga e Fonseca (2002), hoje aproximadamente 1/6 da população
mundial está ligada de alguma maneira ao movimento cooperativista.

Ao longo do tempo, o cooperativismo foi aperfeiçoado e recriado nos dife-


rentes contextos socioculturais, ganhando assim múltiplas formas e maneiras
de se expressar, colocando o ser humano como sujeito e finalidade da ativi-
dade econômica, em vez
da busca pela acumulação infinita de capital.

Como de fato todos os que trabalham em cooperativas são seus próprios


patrões – exceto alguns poucos que são assalariados, quase sempre em
estágio probatório para serem depois admitidos como sócios – eles não têm
os direitos que a legislação do trabalho (CLT) assegura aos empregados. Este
fato deu oportunidade aos abusos por parte de certos empregadores que,
para não pagar os chamados “encargos trabalhistas”, criam falsas cooperati-
vas, obrigando seus trabalhadores a se associar, “contratando-os” enquanto
pretensos cooperados por valores bem menores que a antiga folha de paga-
mento. A prova de que estas cooperativas são falsas é que elas são dirigidas
pelo próprio contratante, “patrão” que impõem e obriga os trabalhadores a
aceitarem as novas relações de trabalho sob a ameaça de ficarem desempre-
gados.

BARBOSA, Daiana; CASEMIRO, Ediléia et al. Origem da economia solidária. In:


3

A economia solidária em Criciúma: análise de empreendimentos cooperativos e


associativos. Disponível em: http://www.rizoma.ufsc.br. Acesso em: 8 nov. 2008.

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28

Está claro que nenhuma cooperativa é autêntica se ela não for o resultado
da vontade livre e consciente de seus membros. É vital para as verdadeiras
cooperativas de serviços, de produção, de mineração, de crédito e outras
que as falsas sejam eliminadas ou então transformadas em autênticas, me-
diante a conquista de sua direção pelos associados. Na luta contra as “coo-
perfraudes” ou “coopergatos”, sindicatos e cooperativas são aliados naturais.

Apesar de estar em fase de organização e de estruturamento no âmbito


nacional e internacional, o cooperativismo está hoje num processo acentu-
ado de transformação e concretização, mostrando que há alternativas para
a geração de postos de trabalho. Em algumas palavras, [...] “Para muitos, o
cooperativismo e a autogestão é um projeto de sobrevivência. Para outros,
um projeto de vida. Para o país, um projeto de sociedade” (ANTEAG, 2000,
p. 143).

ALGUMAS ATIVIDADES

? Quais as “modalidades”
de cooperativas (consu-
mo, serviço, produção, cré-
dito, entre outras) existen-
tes no seu município?

? Escolha uma cooperativa


e produza um texto nar-
rando sua história.

Cooperativa agrícola fonte: arapiraca.al.gov.br

Para refletir e debater

? Que experiências de cooperativas você co-


nhece? Por que muitas organizações surgiram
como cooperativas e se transformaram, na prá-
tica, em empresas? Como evitar que isso ocorra
em novas iniciativas?

? Como você analisa a atuação das cooperati-


vas na vida das agricultoras e dos agricultores
familiares?

? Você concorda ou não com o fragmento: “Está


claro que nenhuma cooperativa é autêntica
se ela não for o resultado da vontade livre e cons-
ciente de seus membros”, justifique.

Cooperativa agrícola fonte: mg.gov

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29

Ninguém entende como o Não adiante a gente


Que mania de desconfiar ficar falando mal dos
presidente da cooperati-
dos outros ?!. Cuidado com outros. Vamos ao sin-
va ficou rico em tão pou-
o falso testemunho. Esse dicato e na central das
co tempo, não gosta de
presidente da cooperativa cooperativas para pedir
fazer reunião e só em-
sabe fazer umas festas de uma auditagem na nossa
prega os parentes dele.
arromba. cooperativa.

TEXTO 4
IMAGENS

PARA REFLETIR E DEBATER

? Que leitura você faz das imagens


acima?

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30

TEXTO 5
CONCEITOS DE ECONOMIA SOLIDÁRIA

MTE/ Senaes 4
I Conferência Nacional de Economia Solidária

TEXTO 1

A Economia Solidária é compreendida


como o conjunto de atividades econômi-
cas - de produção, distribuição, consumo,
poupança e crédito -, organizadas e rea-
lizadas solidariamente por trabalhadores
e trabalhadoras sob a forma coletiva e
autogestionária.

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31

TEXTO 2

A Economia Solidária se caracteriza por


concepções e práticas fundadas em rela-
ções de colaboração solidária, inspiradas
por valores culturais que colocam o ser
humano na sua integralidade ética e lúdica
e como sujeito e finalidade da atividade
econômica, ambientalmente sustentável e
socialmente justa, ao invés da acumulação
privada do capital. Essa prática de produ-
ção, comercialização, finanças e consumo
privilegia a autogestão, a cooperação, o
desenvolvimento comunitário e humano,
a satisfação das necessidades humanas, a
justiça social, a igualdade de gênero, raça,
etnia, acesso igualitário à informação, ao
conhecimento e a segurança alimentar,
preservação dos recursos naturais pelo
manejo sustentável e responsabilidade com
as gerações, presente e futuro, construindo
uma nova forma de inclusão social com a
participação de todos.

Para refletir e debater

? Os conceitos sobre Economia


Solidária acima se contrapõem
ou se complementam? Justifique.

ALGUMAS ATIVIDADES

? Elabore um conceito sobre Economia


Solidária

4
Fonte: Atlas da Economia Solidária no Brasil, 2005. Brasília. MTE/
SENAES. Disponível em http://www.mte.gov.br/ecosolidaria/sies_
ATLAS_PARTE_1.pdf . Acesso em: 1set. 2008. Anais da I Conferência
Nacional de Economia Solidária realizada em Brasília, em junho de
2006.

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32

TEXTO 6
UMA POLÍTICA DE ECONOMIA SOLIDÁRIA

Por Paul Singer*

A economia solidária se destaca por instaurar igualdade e


democracia no âmbito da empresa, assim como no rela-
cionamento entre empresas em rede e entre produtores e
consumidores. A igualdade e a democracia também carac-
terizam as relações políticas entre as entidades represen-
tativas da economia solidária. Em suma, em todas as suas
modalidades, rejeita o mando, preferindo, em seu lugar, a
discussão, o entendimento e o consenso - e, quando este
não pode ser alcançado, a decisão pelo voto.

Nos últimos anos, a economia solidária tem sido objeto


de políticas públicas por parte de governos municipais,
estaduais e, desde 2003, também do governo federal, que
criou então a Senaes (Secretaria Nacional de Economia
Solidária).

Essas políticas são formuladas e implementadas por órgãos


de governo que, por lei, são hierárquicos e baseados no
princípio da autoridade política do eleito pelo povo: prefei-
to, governador e presidente da República.

5
O autor é economista, professor titular da Faculdade de Economia e Administração da USP e secretário na-
cional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego. Artigo publicado no jornal Folha de São
Paulo, dia 27 de março de 2007. Disponível em:http://consolbrasil.com.br/index/index.php?option=com_co
ntent&task=view&id=15&Itemid=25. Acesso em 01.09.08

Paul Singer fonte: agenciabrasil.gov

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33

Na interface entre o gestor público, delegado da autorida-


de eleita, e o movimento da economia solidária se verifica
o encontro entre duas lógicas políticas diferentes, que, de
alguma forma, precisam ser conciliadas para que a política
pública possa se efetuar de modo adequado.

Na esfera federal, a necessidade dessa conciliação se ma-


nifestou desde o primeiro momento. A criação da Senaes
foi solicitada por um colégio de lideranças do movimento
a Lula, recém-eleito, em fins de 2002. O presidente acei-
tou. O movimento indicou o meu nome para ser o secre-
tário nacional de Economia Solidária, proposta também
aceita pelo então ministro do Trabalho Jaques Wagner e
pelo presidente.

Como conseqüência, a nova secretaria nasceu com dupla


obrigação: integrar o governo federal e tomar parte na
formulação e na execução de suas políticas, no âmbito de
suas atribuições, de um lado, e tomar parte na formulação
e na execução de programas e projetos em conjunto com
as entidades representativas do movimento da economia
solidária, de outro.

A política pública de economia solidária, no governo fe-


deral, começou a ser construída a partir da instalação da
Senaes, que rapidamente encontrou forte ressonância em
outros ministérios e bancos federais.

Grande número de parcerias entre a secretaria e ministé-


rios foram sendo estabelecidas, dos quais 13 integram o
CNES (Conselho Nacional de Economia Solidária), ao lado
de bancos públicos e de representações de gestores esta-
duais e municipais de programas de economia solidária.

A interação sem dificuldades, no CNES, desses órgãos do


poder público com representantes do Fórum Brasileiro de
Economia Solidária e de movimentos sociais e ONGs que
adotam a economia solidária mostra que a conciliação das
diferentes lógicas políticas pode se dar na prática.

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É importante notar que, hoje, a maioria dos movimentos


sociais que lutam contra a miséria e a exclusão social se
vale da economia solidária para alcançar seus fins. Por
isso, eles se apóiam cada vez mais na Senaes e estão re-
presentados no CNES. A possibilidade dessa interação sem
cooptação decorre da política que a Senaes, em conjunto
com o Fórum Brasileiro de Economia Solidária, vem desen-
volvendo.

A composição da equipe da Senaes obedeceu ao mesmo


propósito. Seus membros foram escolhidos para que as di-
versas modalidades de economia solidária e as diferentes
regiões do país estivessem representadas.

Embora a secretaria esteja organizada em vários níveis


hierárquicos, muitas das discussões de problemas e das
políticas para resolvê-los são feitas por toda a equipe ou,
quando isso não é possível, por um comitê gestor amplia-
do, que reúne quase um terço dos seus membros.

Na grande maioria das vezes, as discussões terminam


em consenso - que os membros da Senaes aprenderam a
construir ao longo desses últimos quase quatro anos. Só
quando o consenso não se mostra possível é que o prin-
cípio hierárquico prevalece na tomada da decisão. Isso se
torna necessário porque os que ocupam posições de mais
poder também são os que assumem maior responsabilida-
Paul Singer fonte: bcb.gov
de pelo que ficar resolvido.

ALGUMAS ATIVIDADES Como quase sempre as resoluções são fruto de elaboração


coletiva e decisão consensual, a equipe da Senaes se sente

? Quais políticas públicas responsável por elas, do que resulta uma política pública
de Economia Solidária bem melhor do que se ela tivesse sido decidida apenas
estão sendo implantadas pela cúpula. E o melhor de tudo é que o modo de elabora-
em seu município ou terri- ção faz com a política seja bem congruente com o espírito
tório? da economia solidária.

? Quem delas participa? Dessa maneira, o apoio material e político do poder públi-
co à economia solidária permite que ela se desenvolva de

? Como se deu o acesso às acordo com a sua natureza igualitária e democrática.”


mesmas?

? Como elas foram discu-


tidas/ divulgadas na co-
munidade?

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35

TEXTO 7
Fóruns de Economia Solidária
Fórum Brasileiro de Economia Solidária6

São instâncias de articulação, debates,


elaboração de estratégias e mobilização do
movimento de Economia Solidária no Brasil.
Garante a articulação entre três segmentos
do movimento: empreendimentos econô-
micos solidários, entidades de assessoria e
fomento, e gestores públicos. Além do Fó-
rum Brasileiro de Economia Solidária (FBES),
existem os fóruns estaduais, regionais e
municipais.

[...] Quanto à organização e funcionamento,


integram o FBES os três segmentos do cam-
po da Economia Solidária: empreendimentos
da economia solidária, entidades de assesso-
ria e/ou de fomento e gestores públicos.

• Empreendimentos Econômicos Solidários são organizações com as se-


guintes características: 1) Coletivas (organizações suprafamiliares, singu-
lares e complexas, tais como associações, cooperativas, empresas auto-
gestionárias, clubes de trocas, redes, grupos produtivos, etc.); 2) Seus
participantes ou sócias/os são trabalhadoras/ es dos meios urbano e/ou
rural que exercem coletivamente a gestão das atividades, assim como
a alocação dos resultados; 3) São organizações permanentes, incluindo
os empreendimentos que estão em funcionamento e as que estão em
processo de implantação, com o grupo de participantes constituído e as
atividades econômicas definidas; 4) Podem ter ou não um registro legal,
prevalecendo a existência real; 5) Realizam atividades econômicas que
podem ser de produção de bens, prestação de serviços, de crédito (ou
seja, de finanças solidárias), de comercialização e de consumo solidário;

6
Disponível em http://www.fbes.org.br Acesso em: 28 out. 2008.

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• Entidades de assessoria e/ou fomento são organizações que desen-


volvem ações nas várias modalidades de apoio direto junto aos empre-
endimentos solidários, tais como: capacitação, assessoria, incubação,
pesquisa, acompanhamento, fomento à crédito, assistência técnica e
organizativa;

• Gestores públicos são aqueles que elaboram, executam, implementam


e/ou coordenam políticas de economia solidária de prefeituras e gover-
nos estaduais.[...]

ALGUMAS ATIVIDADES

? Você já participou de algum Fórum sobre Economia Solidária?

? Quais são os espaços de articulação/mobilização em prol da Econo-


mia Solidária em sua comunidade? Quem deles faz parte?

? Quais articulações/ mobilizações estão voltadas para o apoio e forta-


lecimento da Economia Solidária? Como divulgam suas ações?

? Alguém realiza ou participa de feiras livres ou outra forma de comer-


cialização direta?

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37

TEXTO 8
Finanças Solidárias

Cartilha das Redes de Colaboração Solidária7

São novos tratamentos da temática da poupança, novas


finalidades para ela. São novos tratamentos das opções
de investimento, novos tratamentos para o problema
dos riscos do crédito, e, portanto para o desenvolvimen-
to de formas de garantir operações de financiamento,
que permitam aos pobres acessar os recursos disponí-
veis para alavancar novos padrões de desenvolvimento
humano.

Trata-se de resgatar a moeda como ferramenta de con-


vivência e não como mecanismo de espoliação. Tais são
alguns dos desafios para um sistema de finanças solidá-
rias.

Dentre os tipos das organizações de finanças solidárias,


deste modo, podemos citar:

a. Cooperativismo de crédito;

b. Organizações de microcrédito Fonte: mda.gov.com.br

e microfinanças;

c. Bancos comunais;

d. Fundos solidários;

e. Moedas sociais;

f. Bancos alternativos;

g. Sociedades de garantia;

Fonte: mda.gov.com.br

7
Disponível em: http://www.eudesxavier.org.br/economia/texto.
php?ID=52. Acesso em: 15 out. 2008. (Texto adaptado)

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38

Clubes de troca e moeda social

Clubes de Troca são espaços onde a gente leva coisas para


trocar e não precisa levar nenhum real, só o dinheiro do
clube. É uma pequena feira, um mercado de tipo diferen-
te. As pessoas levam para essa feira o que produzem e que
poderiam vender e também anunciam em cartazes o que
sabem fazer.

A grande descoberta desse sistema é que a gente pode


trocar as coisas que leva para a feira por outras coisas que
a gente precisa, sem usar nenhum real. Cada clube de tro-
cas cria sua própria moeda. Ela pode ter qualquer nome
que os participantes do clube escolham. No Rio de Janeiro
chama “Tupi”, no Ceará temos a experiência do “Palmas”,
no Rio Grande do Sul tem o “Pampa Vivo”, num bairro de
São Paulo chama “Lua”, em outro chama simplesmente
“Bônus”.

A
Todo gente pode criar
Vocês
mundo precisa de um Banco de crédito a
já viram que todo
um Banco para financiar juros baixos, que pague os
gerente de banco, em
um bom negócio. A gente se custos do banco e ofereça
geral, não gosta de financiar
arrisca, trabalha duro e fica o máximo de ganho para o
pouco recurso/ dinheiro?
com quase nada, por cau- associado.
sa dos juros altos do
Banco.

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39

Essa moeda só serve no clube. Lá dentro ela é usada como


se fosse dinheiro. Ela possibilita que todos troquem com to-
dos, coisas de diferentes valores. Ela vai permitir, por exem-
plo, que eu ofereça sabão e aulas de ginástica para obter de
várias pessoas arroz, feijão e a pintura da minha cozinha.

A moeda social não é um sistema alternativo e sim com-


plementar à economia. Ela é produzida, distribuída e con-
trolada por seus usuários. Por isso, o valor dela não está
nela própria, mas no trabalho que pode fazer para produzir
bens, serviços, saberes. Esta moeda não tem valor até que
se comece a trocar o produto pelo produto, o serviço pelo
serviço, o produto pelo serviço ou o serviço pelo produto. A
moeda começa a servir como mediadora destas trocas. Ela
é diferente também porque não está ligada nenhuma taxa
de juros, por isso não interessa a ninguém guardá-la, mas
trocá-la continuamente por bens e serviços que venham
responder às nossas necessidades.

Fonte: mda.gov.com.br

Fonte: mda.gov.com.br

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40

Redes de colaboração solidária -


Pró-consumidores

A Rede de Colaboração Solidária integra grupos de con-


sumidores, de produtores e de prestadores de serviço em
uma mesma organização. Todos se propõem a praticar o
consumo solidário, isto é, comprar produtos e serviços
da própria Rede para garantir trabalho e renda aos seus
membros e para preservar o meio ambiente. Por outro
lado, uma parte do excedente obtido pelos produtores e
prestadores de serviços com a venda de seus produtos e
serviços na rede é reinvestido na própria rede para gerar
mais cooperativas, grupos de produção e microempre-
sas, a fim de criar novos postos de trabalho e aumentar
a oferta solidária de produtos e serviços. Isso permite
incrementar o consumo de todos, ao mesmo tempo em
que diminui volume e o número de itens que a rede ainda
compra no mercado capitalista, evitando com isso que a
riqueza produzida na Rede seja acumulada pelos capitalis-
tas. O objetivo da Rede é produzir tudo o que as pessoas
necessitam para realizar o bem viver de cada um.

“O capital, esse porco “É a inveja deste capitalista “Usando o bom senso e


imundo, esse ídolo mons- Boitatá, Caipora, cobra Cainana cooperativismo nos nossos
truoso, empanturrado de que estimula a produção que pequenos projetos é que
carne humana”. temos pra dividir podemos fazer um
Émile Zola, no Germinal. no mundo”. mundo mais justo.”
Beto Gordão. Edu Negão.

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41

Quando os consumidores praticam o consumo solidário, consumindo os


produtos de uma empresa (uma padaria comunitária, por exemplo) que
não explora os trabalhadores e protege o meio ambiente, essa empresa
vende toda a sua produção e gera um excedente, que na lógica capitalista
seria lucro. Esse excedente, entretanto, na lógica da solidariedade é rein-
vestido na construção de novas empresas (granja, fábrica de macarrão,
produção de sabão, confecções, etc.) gerando novos postos de trabalho,
diversificando a produção e melhorando o padrão de consumo de todos
os que participam da Rede.

Objetivos de um banco comunitário

Promover o desenvolvimento de territórios de baixa renda, através do fomento


à criação de redes locais de produção e consumo, baseado no apoio às iniciati-
vas de economia solidária em seus diversos âmbitos como: empreendimentos
sócio-produtivos, de prestação de serviços, de apoio à comercialização (bodegas,
mercadinhos, lojas e feiras solidárias), organizações de consumidores.

Cartilha sobre produto organico.

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42

Características Produtos oferecidos

• É a própria comunidade quem decide • Moeda social circulante local;


criar o banco, tornando-se gestora e pro-
prietária do mesmo; • Crédito solidário através de concessão
delegada junto a agentes financeiros
• Atua sempre com duas linhas de crédi- como o Banco Popular do Brasil;
to: uma em reais e outra em moeda social
circulante; • Crédito para financiamento de empreen-
dimentos solidários;
• Suas linhas de crédito estimulam a cria-
ção de uma rede local de produção e con- • Crédito para consumo pessoal e familiar,
sumo, promovendo o desenvolvimento en- sem juros;
dógeno do território;
• Cartão de crédito popular solidário;
• Apóiam os empreendimentos em suas
estratégias de comercialização (feiras e lo- • Abertura e extrato de conta corrente;
jas solidárias, centrais de comercialização e
outros); • Depósito em conta corrente;

• Atuam em territórios caracterizados pelo • Saque avulso ou com cartão magnético;


alto grau de exclusão, vulnerabilidade e de-
sigualdade social; • Recebimento de títulos;

• Estão voltados, sobretudo, aos benefi- • Recebimento de títulos (água, luz, tele-
ciários de programas assistenciais gover- fone, etc.);
namentais e de políticas de distribuição de
renda; • Pagamento de subvenções e aposenta-
doria.
• Sua sustentabilidade, no curto prazo,
funda-se na obtenção de subsídios
justificados pela utilidade social de suas
práticas.

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Funcionamento do sistema de crédito dos bancos comunitários

1- Os juros praticados são abaixo dos juros de mercado.

2- O sistema de crédito é justo e trata os desiguais, desigualmente. Em


finanças solidárias isso significa, por exemplo, que quem tem menos
recursos, paga menos juros; quem tem mais recursos, paga mais juros.
Ou seja, os juros são escalonados para poder garantir a distribuição de
renda, fazendo com que os mais favorecidos subsidiem os mais vulnerá-
veis economicamente.

3- Essa dimensão solidária precisa ser compreendida pelos moradores/


tomadores de crédito. Não basta ter uma política de juros diferenciada
se a aplicação da mesma não gerar consciência crítica e sentimento de
solidariedade entre as pessoas. São esses valores que irão impactar a
médio e longo prazo no processo de transformação radical e estruturan-
te da sociedade.

4- A propriedade e o controle do sistema de crédito são da comunidade,


dos associados, dos próprios tomadores de crédito. Logo, os resultados
da operação de crédito, recursos devolvidos, juros e taxas têm que ficar
de alguma forma para a comunidade. Isso significa que os membros da
comunidade (os tomadores de crédito) são ao mesmo tempo “clientes”
e proprietários destes recursos. Isso é muito importante. É a auto-ges-
tão. Muitos sistemas de crédito que atuam na comunidade em determi-
nadas comunidades/municípios, simplesmente realizam a operação de
crédito, mas os resultados ficam todos na “matriz” (no banco ou institui-
ção que é proprietária do sistema) geralmente com suas sedes fora do
bairro ou do município. Os tomadores de crédito são apenas “clientes”
e contribuem para que a instituição financeira enriqueça, cada vez mais,
às custas da comunidade.

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5- O sistema de crédito alimenta cadeias produtivas, redes


locais de produção e consumo, arranjos produtivos e
outras formas de fomento a criação de redes de colabora-
ção solidária. O crédito pode ser disponibilizado para uma
pessoa física - ou individual – mas esta deve ser estimu-
lada a participar de uma rede local de produtores e con-
sumidores. Em outras palavras, é preciso que o tomador
de crédito (pessoa ou grupo) mantenha algum vínculo ou
relação com a rede social e produtiva local.

6- Para análise de crédito são utilizados outros instrumen-


tos de verificação da confiabilidade do cliente para além
dos tradicionais instrumentos do capitalismo (SPC, SERA-
SA, CADIM e outros). Uma ferramenta bastante utilizada é
o “aval de vizinhança” e o sistema de “apresentação”, ou
seja, o tomador de crédito precisa ser indicado (referenda-
do) por alguma organização local (associação, igreja, sindi-
cato, e outros). A confiança, portanto, deve ser depositada
na comunidade, que, em última instância é quem decide
sobre os rumos do sistema de crédito.

A gente não deve ganhar pelo tra-


balho que a gente sabe fazer e sim
pelo tamanho da fome que a gente
tem. Quem tem braço forte paga
mais imposto e quem tem uma bar-
riga grande como a minha recebe
mais! Você aceitam isso?

ALGUMAS ATIVIDADES

? O que você entende por


sistema?

? O que vem a ser um sis-


tema de finanças solidá-
rias?

? O que você compreende


por bancos comunitá-
rios?

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TEXTO 9
A História do Pequeno Agricultor
Centro de Ação Comunitária - CEDAC

Um pequeno agricultor vem à cidade para feira semanal e traz um saco de


milho para vender. A sua mercadoria tem um preço determinado na feira.
Digamos que ele consegue vendê-la logo que chega e recebe uma quan-
tidade de dinheiro como pagamento. Terá tempo então de dar uma volta
no mercado para ver o que pode comprar com o dinheiro que conseguiu
receber. Depois de algum tempo, descobre que já conseguiu se desfazer do
dinheiro que recebeu. Em lugar do dinheiro, ele tem outras mercadorias
(...). Na cabeça do pequeno agricultor, que não raciocina como um grande
industrial ou banqueiro, o único papel do dinheiro é facilitar troca do produ-
to de seu trabalho pelo produto do trabalho de outras pessoas.

Quando o agricultor troca a sua mercadoria por dinheiro, aprendemos com


ele algumas coisas interessantes sobre o funcionamento da sociedade capi-
talista. Nós vemos que não se troca mais trabalho contra trabalho, ou mer-
cadoria comum contra mercadoria comum, como acontecia nas sociedades
mais primitivas. Os produtos continuam sendo resultado de um trabalho
físico qualquer, mas as mercadorias não são medidas diretamente em tem-
po de trabalho, ou em relação à outra mercadoria comum. O preço de uma
mercadoria é o nome, em dinheiro, da quantidade de trabalho social que foi
necessário para sua produção.

É o próprio agricultor que vai descobrir para nós, que o regime de divisão
social do trabalho, que existe na sociedade capitalista e que faz dele um
produtor independente, orgulhoso de sua liberdade, é uma farsa. Na re-
alidade, o processo social de produção e as relações que se estabelecem
dentro deste processo dominam o homem.

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O agricultor pensa que é um indivíduo independente


porque mora em um sítio isolado, no meio do mato.
Mas ele é obrigado a vender o seu produto para o co-
merciante da cidade pelo preço que este ditar, se quiser
continuar vendendo. Ao mesmo tempo, cada vez que
vem à cidade, tem que comprar mercadorias, sem as
quais não pode viver. E levar para casa objetos produzi-
dos por outras pessoas e vendidos por um comerciante.
Para fazer isso o agricultor é obrigado a transformar sua
produção em dinheiro. Se ele quiser produzir mais e
melhorar suas condições de vida, terá que recorrer ao
financiamento do banco, reforçando ainda os laços que
o ligam à cadeia da divisão social do trabalho e fazem
dele um instrumento dos que dominam a sociedade.

Podemos supor que o pequeno agricultor só produz e


vende uma mesma mercadoria: o milho. Mas esse agri-
cultor tem muitas necessidades que precisa satisfazer.
Por isso, deve gastar o dinheiro que recebeu, compran-
do outros objetos: tecidos, ferramentas, açúcar, etc... Na
realidade, a venda que fez dá origem a várias operações
de compra. Este é o processo de Circulação, do qual o
dinheiro é instrumento, embora ele apareça na cabe-
ça do agricultor e dos comerciantes como verdadeiros
agentes do processo. A circulação parece um proces-
so sem fim... A mercadoria é trocada por dinheiro; o
dinheiro é trocado por outra mercadoria e assim por
diante, enquanto existir a sociedade de classes. A reno-
vação constante do mesmo processo é que é a essên-
cia da circulação. Existe nesse processo outro aspecto
interessante que é o da Mediação, que é a troca quando
o vendedor passa adiante a mercadoria que comprou
do agricultor. Compra e venda estão interligadas em um
mesmo processo, no qual o dinheiro só faz o papel de
mediador.

Com o desenvolvimento a sociedade chegou a uma situ-


ação em que a venda de uma mercadoria é realizada em
uma data e seu pagamento só é feito mais tarde. Esta si-
tuação é muito comum no comércio atacadista, em que

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os industriais vendem aos grossistas para receber com


prazo de 180 dias. O comerciante atacadista faz o mes-
mo tipo de operação com o comerciante varejista. Nos
dois casos, a simples assinatura de uma contrafatura
serve como reconhecimento de dívida. Quando o prazo
se esgotar, o industrial receberá um cheque do comer-
ciante na quantia correspondente à venda realizada. O
mesmo acontecerá com o comerciante atacadista que
receberá do varejista e assim por diante, pois as transa-
ções comerciais não param. Quando o prazo estabeleci-
do terminar, o meio de pagamento entra em circulação,
ou seja, o dinheiro passa das mãos do comprador para
as mãos do vendedor. O dinheiro não funciona aqui
como mediador entre produção e consumo como na
circulação simples. Aqui o dinheiro fecha o processo.

Quanto mais houver consumo de matérias-primas para


a indústria e menos consumo individual, mais a socie-
dade capitalista enriquece. É este o segredo da pou-
pança. E por isso mesmo é que a sociedade capitalista
é uma sociedade onde haverá sempre pobreza, mesmo
nos países desenvolvidos.

Como reserva de valor, o dinheiro deve ser retirado de


circulação, mas para que exista dinheiro para ser retira-
do da circulação é necessário que continue a circulação
de mercadorias. A poupança não tem limites, ela é
um processo interminável. Por isso é que dizemos que
como reserva de valor, o dinheiro dá origem à acumu-
lação. E o ciclo sem fim continua com outras formas: a
necessidade de acumular cereais transforma os paióis
em silos; a produção de silos cria outras tantas fábricas,
os cereais acumulados precisam ser moídos e assim
são construídos novos moinhos. A necessidade de ter
carne exige a acumulação de bovinos, a acumulação de
bovinos provoca a formação de rebanhos, o crescimen-
to dos rebanhos faz aparecer as grandes fazendas de
criação, os abatedouros se transformam em frigoríficos
e assim por diante...

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48

ALGUMAS ATIVIDADES

? Qual o sentido que as expressões abaixo são utilizadas no texto?

Necessidade; Trabalho; Produção; Transformação; Troca; Circulação;


Mercadoria; Preço; Valor; Consumo; Acumulação...

Para refletir e debater

? Que reflexão você faz do fragmento abaixo?

“Quanto mais houver consumo de matérias-pri-


mas para a indústria e menos para consumo in-
dividual, mais a sociedade capitalista enriquece.
É este o segredo da poupança. E por isso mesmo
é que a sociedade capitalista é uma sociedade
onde haverá sempre pobreza, mesmo nos países
desenvolvidos”.

Barracão de zinco
Sem telhado, sem pintura
Lá no morro
Barracão é bangalô
Lá não existe
Felicidade de arranha-céu
Pois quem mora lá no morro
Já vive pertinho do céu...

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49

TEXTO 10
A Feira de Caruaru
Onildo Almeida

A feira de Caruaru
Faz gosto da gente ver
De tudo que há no mundo
Nela tem pra vender
Na feira de Caruaru

Tem massa de mandioca


Batata assada
Tem ovo cru,
Banana, laranja e manga,
Batata doce, queijo e caju
Cenoura, jabuticaba,
Guiné, galinha,
Pato e peru
Tem bode, carneiro e porco
Se duvidar inté cururu

Tem cesto, balaio, corda


Tamanco, greia, tem boi tatu
Tem fumo, tem tabaqueiro
Tem tudo e chifre
De boi zebu

Caneco, arcoviteiro
Peneira, boi
Mel de urucu
Tem carça de arvorada
Qué pra matuto
Não andar nu

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50

Na feira de Caruaru
Tem coisa pra gente ver
De tudo que há no mundo
Nela tem pra vender
Na feira de Caruaru
Tem rede, tem baleeira,
Mó de menino
Caçar nhandu
Maxixe, cebola verde,
Tomate, coentro,
Côco e xuxu

Armoço feito na corda,


Pirão mexido
Que nem angu,
Mobília de tamborete
Feita de tronco de mulungu

Tem louça,
tem ferro véio,
Sorvete de raspa
Que faz jaú
Gelado, caldo de cana
Fruta de parma
E mandacaru

Boneco de Vitalino
Que são conhecido
Inté no Sul,
De tudo que há no mundo
Tem na feira de Caruaru

A feira de Caruaru...

ALGUMAS ATIVIDADES

? Quais as relações entre a


feira de sua comunidade
e a letra da música?

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51

TEXTO 11
O Açúcar

Ferreira Gullar

O branco açúcar que adoçará Em lugares distantes, onde


meu café não há hospital
Nesta manhã de Ipanema nem escola,
não foi produzido por mim homens que não sabem ler e
nem surgiu dentro do açuca- morrem de fome
reiro por milagre. aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
Vejo-o puro que viraria açúcar.
e afável ao paladar
como beijo de moça, água Em usinas escuras,
na pele em flor Homens de vida amarga
que se dissolve na boca. e dura
Mas este açúcar não foi feito produziram este açúcar
por mim. branco e puro
com que adoço meu café esta
Este açúcar veio manhã em Ipanema.
da mercearia da esquina e
tampouco o fez o Oliveira,
dono da mercearia.

Este açúcar veio


de uma usina de açúcar de ALGUMAS ATIVIDADES
Pernambuco

?
ou no Estado do Rio Qual a relação de poder
e tampouco o fez o dono da presente no poema?
usina.

Este açúcar era cana


e veio dos canaviais extensos
? Qual a sua compreensão
do fragmento: “Homens
de vida amarga e dura pro-
que não nascem por acaso duziram este açúcar”.
no regaço do vale.

? Você conhece a cadeia


produtiva do açúcar?
Que reflexões você faz?

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52

TEXTO 12
Cidadão
Lucio Barbosa

Tá vendo aquele edifício, moço? Tá vendo aquela igreja moço?


Ajudei a levantar Onde o padre diz amém
Foi um tempo de aflição Pus o sino e o badalo
Eram quatro condução Enchi minha mão de calo
Duas pra ir, duas pra voltar Lá eu trabalhei também
Hoje depois dele pronto Lá sim valeu a pena
Olho pra cima e fico tonto Tem quermesse, tem novena
Mas me chega um cidadão E o padre me deixa entrar
E me diz desconfiado, tu tá aí admi- Foi lá que cristo me disse
radoOu tá querendo roubar? Rapaz deixe de tolice
Meu domingo tá perdido Não se deixe amedrontar
Vou pra casa entristecido
Dá vontade de beber Fui eu quem criou a terra
E pra aumentar o meu tédio Enchi o rio fiz a serra
Eu nem posso olhar pro prédio Não deixei nada faltar
Que eu ajudei a fazer Hoje o homem criou asas
E na maioria das casas
Tá vendo aquele colégio moço? Eu também não posso entrar
Eu também trabalhei lá
Lá eu quase me arrebento Fui eu quem criou a terra
Pus a massa fiz cimento Enchi o rio fiz a serra
Ajudei a rebocar Não deixei nada faltar
Minha filha inocente
Vem pra mim toda contente Hoje o homem criou asas
Pai vou me matricular E na maioria das casas
Mas me diz um cidadão Eu também não posso entrar
Criança de pé no chão
Aqui não pode estudar
Esta dor doeu mais forte
Por que que eu deixei o norte? ALGUMAS ATIVIDADES
Eu me pus a me dizer
Lá a seca castigava, mas o pouco
que eu plantava ? Como o processo produtivo é apresentado na
música?
Tinha direito a comer

?
do?
Quais os valores e princípios que dão sustenta-
ção ao modelo de economia nela caracteriza-

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53

TEXTO 13
Dez Princípios da Economia Solidária

Cartilha da Campanha Nacional de Mobilização Social8

1. Autogestão
Os/as trabalhadores/as não estão mais subordinados a um patrão e to-
mam suas próprias decisões de forma coletiva e participativa.

2. Democracia
A Economia Solidária age como uma força de transformação estrutural
das relações econômicas, democratizando-as, pois o trabalho não fica
mais subordinado ao capital.

3. Cooperação
Em vez de forçar a competição. Convida-se o trabalhador/a se unir a
trabalhador/a, empresa a empresa, país a país, acabando com a “guerra
sem tréguas” em que todos são inimigos de todos e ganha quem seja
mais forte, mais rico e, freqüentemente, mais trapaceiro e corruptor ou
corrupto.

4. Centralidade do Ser Humano


As pessoas são o mais importante, não o lucro. A finalidade maior da ati-
vidade econômica é garantir a satisfação plena das necessidades de todos
e todas.

8
Economia Solidária, outra economia acontece: Cartilha da Cam-
panha Nacional de Mobilização Social- Brasília: MTE, SENAES,
FBES,2007. (Texto adaptado)

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54

5. Valorização da Diversidade
Reconhecimento do lugar fundamental da mulher e do feminino e a valori-
zação da diversidade, sem discriminação de crença, raça/etnia ou opção
sexual.

6. Emancipação
Contribuições para conquistas de bens materiais e simbólicos dos sujeitos,
os quais desenvolvendo estratégias à economia de mercado, emancipam-
se e libertam-se.

7. Valorização do Saber Local


Respeito aos saberes locais, considerados em sua totalidade e como inte-
grantes da cultura e da tecnologia popular.
8. Valorização da Aprendizagem
Respeito aos processos de construção das mudanças necessárias às práti-
cas solidárias através da formação continuada e permanente.

9. Justiça Social na Produção


Comercialização, consumo, financiamento e desenvolvimento tecnológico,
com vistas à promoção do bem-viver das coletividades e justa distribuição
da riqueza socialmente produzida, eliminando as desigualdades materiais
e difundindo os valores da solidariedade humana.

10. Cuidado com o Meio Ambiente


É responsabilidade com as gerações futuras. Os empreendimentos solidá-
rios, além de se preocuparem com que a eficiência econômica e os be-
nefícios materiais que produzem, buscam eficiência social estabelecendo
uma relação harmoniosa com a natureza em função da vida com quali-
dade, da felicidade das coletividades e do equilíbrio dos ecossistemas. O
desenvolvimento ecologicamente sustentável, socialmente justo e econo-
micamente dinâmico, estimula a criação de elos entre os que produzem,
os que financiam a produção, os que comercializam os produtos e os que
consomem (cadeias produtivas solidárias locais e regionais). Dessa for-
ma, afirmam a vocação local articulada com uma perspectiva mais ampla,
nacional e internacional.

ALGUMAS ATIVIDADES

? Você conhece alguma


experiência em que es-
ses princípios são vivencia-
dos? Comente o que mais
lhe chama a atenção.

? Quais as implicações na
organização e funciona-
mento desses empreendi-
mentos?

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55

TEXTO 14
Algumas Condições Necessárias à Autogestão
Leny Sato e Egeu Esteves9

As experiências autogestionárias que estão ao nosso alcance e sobre as quais pude-


mos aprender a problemática aqui desenvolvida, em que analisamos o processo coti-
diano de organização autogestionária da produção e da gestão de empreendimentos,
nos permitem afirmar algumas condições gerais necessárias a autogestão, sob risco
de algum erro devido ainda à pouca pesquisa na área. É importante ressaltar, tam-
bém, que não temos a pretensão de abordar aqui todas as condições necessárias ao
desenvolvimento de relações de trabalho autogestionárias.

A primeira condição refere-se à necessidade, para uma autogestão de fato, de que o


coletivo de trabalhadores seja um grupo, não apenas uma turma de trabalhadores
unidos formalmente. Uma autogestão sem grupo é como o trabalho sem trabalha-
dor: Falta seu sujeito. O sujeito da autogestão não é o trabalhador individual, mas
o grupo de trabalhadores. Uma pessoa que não se autogere nem se autodetermina
sozinha, ela necessita do outro como referência das suas atitudes. Ou seja, não existe
trabalhador autogerido solitário e autônomo, pois a autogestão é uma condição
coletiva. É um erro acreditar que qualquer coletivo possa tocar um empreendimen-
to, vindo a constituir ao longo do tempo um grupo. Quando um coletivo começa a
tocar um empreendimento é porque ele já se constituiu minimamente como grupo,
já se reconhece, se aceita, briga e negocia internamente sem se dissolver, condições
básicas de sua permanência.

A segunda condição diz respeito ao exercício do controle pelos trabalhadores. A auto-


gestão realmente existente é aquela que se fundamenta no controle, por parte dos
trabalhadores, de três itens necessários, sem os quais não há autogestão:

1. Controle sobre o processo produtivo. Só há autogestão quan-


do os trabalhadores conhecem o que fazem e o que ‘a fábrica’ faz
e podem intervir sobre o processo de sua produção, o que lhes dá
a condição de sujeitos do processo produtivo, e podem discutir
sobre a atividade produtiva da fábrica como um todo.

2. Controle sobre a gestão do empreendimento. Só permanece


autogestionária aquela empresa na qual os trabalhadores po-
dem ter acesso transparente à compreensão das informações
gerenciais (sejam contábeis, societárias, tributárias etc.), podem
questionar tais informações e as práticas adotadas pelos quadros
gerenciais e podem intervir, seja através de sugestões ou por par-
ticipação direta, na festão do empreendimento.

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56

3. Controle sobre o grupo. Só se mantém autogerida a organiza-


ção em que os trabalhadores podem ter um controle simbólico
sobre o grupo de que fazem parte, ou seja, conseguem reconhecer
o grupo e reconhecer-se nele, podem participar do coletivo sem
a inibição de quem não faz parte do grupo e são legítimos para
contestar e propor sobre qualquer dimensão da sociedade coope-
rativa.

Auto gestão precisa de Lá em casa não há auto-


transparência. Todo mun- gestão. Pai e mãe mandam
do com acesso as atas da Podendo contestar o o tempo todo, não sabe-
associação, do livro caixa, que achar que está mos quanto é o apurado,
pauta de reunião. errado! nem discutimos o que
vamos plantar na safra
seguinte.

A terceira condição trata de um tema geralmente espinhoso para as cooperativas auto-


geridas, o conflito. Não há autogestão que exista sem conflito. O conflito é a demons-
tração de que há possibilidade do debate público das questões que permanentemente
acometem o empreendimento. O conflito demonstra ainda que há política ativa no gru-
po; ou seja, de que ela não está instrumentalizada em blocos que se utilizam da esfera
pública da democracia de uma maneira contábil, contando votos para fazer vigorar o
que lhes é favorável. Além do mais, o conflito é a demonstração viva da autogestão em
ação no cotidiano, é a discussão permanente do empreendimento em suas dimensões
como grupo social e como empresa.

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57

A quarta condição refere-se à impossibilidade de convivência entre a autogestão e outros


vínculos de trabalho. Não há autogestão possível na convivência com formas mais bara-
tas e/ou efetivas (rápidas, ágeis etc.) de vínculo de trabalho. Se a opção pela autogestão
é apenas econômica, pode ser cogitada – numa fase promissora do empreendimento – a
contratação de empregados, o que pode baratear os custos e assegurar a sociedade em
momentos difíceis, em que necessitaria apenas demiti-los. Assim sendo, imperaria mais
uma vez o cálculo econômico que utiliza as pessoas ao serviço de outras, como se fossem
coisas a serem manipuladas”.

Fonte: mogidascruzes.sp.gov

ALGUMAS ATIVIDADES

? Quais as “considerações gerais” que são apresen-


tadas no texto?

? Você conhece alguma experiência autogestionária


em seu município ou região? Comente.

? Como você analisa o enunciado a seguir: “Uma au-


togestão sem grupo é como o trabalho sem traba-
lhador: falta seu sujeito”.

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58

TEXTO 15
Comércio Justo e Soberania Alimentar
Esther Vivas10

No dia de hoje, falar de comércio justo implica incorporar a perspectiva


da soberania alimentar. Ambos os conceitos estão estreitamente unidos
e o primeiro não é possível sem assumir as premissas do segundo.

Quando nos referimos ao comércio justo, consideramos uma série de


critérios de produção na origem: respeito ao meio ambiente, pagamen-
to de salário digno, igualdade de gênero, uma vez que reivindicamos
sua aplicação a todos os atores que integram a cadeia comercial. Que
sentido teria estabelecer critérios para o produtor e não para o ponto
de venda? Esses critérios, de justiça social e ambiental, que devem ser
levados em conta em todo o “percurso vital” de um produto, estão inti-
mamente ligados ao princípio da soberania alimentar.

A soberania alimentar é o direito dos povos de controlar suas políticas


agrícolas e alimentares; o direito de decidir o que cultivar, o que comer
e como comercializar; de produzir localmente respeitando o território;
de ter em nossas mãos o controle dos recursos naturais: a água, as
sementes, a terra...

Na atualidade, a produção agrícola responde ao afã do lucro capitalista


das empresas multinacionais e das elites políticas que as amparam; o
que comemos vem determinado por interesses econômicos que não
levam em conta nossas necessidades alimentícias nem os limites de
produção do planeta; os recursos naturais estão privatizados. Os ali-
Fonte: portaldoprofessor mec.gov

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59

mentos se converteram em uma mercadoria em que seu valor original, o


de nos alimentar, ficou em segundo plano.

Esses princípios da soberania alimentar aplicados ao comércio justo, nos


levam a falar de um comércio justo de proximidade excetuando aqueles
produtos que não são elaborados em nosso território; de um comércio
justo respeitoso ao meio ambiente e controlado pelas comunidades; de
um comércio justo que combate as políticas neoliberais e as multinacio-
nais.
Desse modo, podemos falar de um comércio justo local, seja no norte seja
no sul: comer fruta e verdura fresca de temporada produzida por cam-
poneses baseados em princípios de justiça social e ambiental, ter acesso
a esses produtos por meio dos mercados locais e da rede de economia
solidária.

Do mesmo modo, podemos falar de um comércio justo internacional, do


sul ao norte e vice-versa, para aqueles produtos que não são produzidos
localmente. Aqui, se adquirimos produtos como café, o açúcar, a quinua
(é uma proteína, esse grão, consumido pela população andina há mais de
500 anos, foi recentemente considerado pela ONU como o alimento mais
completo do planeta), devemos nos assegurar que respondem a esses
princípios de soberania alimentar, em que sua comercialização interna-
cional seja um complemento para sua distribuição local, uma vez que a
compra desses produtos em estabelecimentos solidários nos garante a
transparência e a justiça em todo o percurso do produto.

Delícia de quinua

10
Disponível em: http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=35290. Acesso em: 9 out. 2008.

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60

Visto o que está dito anteriormente, o que podemos dizer de um café


de comércio justo em uma estante de um supermercado? De um mel
que nos chega do Equador? Das bananas de uma grande plantação
latino-americana com sua certificação correspondente? Isso é comér-
cio justo? Se tomarmos como princípio a soberania alimentar, nenhu-
ma dessas práticas o é.

Uma grande superfície que baseia seu lucro na exploração de seus


trabalhadores; em extorquir os camponeses e provedores; em fomen-
tar um consumismo irresponsável nunca poderá realizar um comércio
justo. A importação de mel do Equador e seu conseguinte impacto am-
biental, por mais que tenha sido elaborada com critérios sustentáveis,
não está justificada na medida em que contamos com mel local produ-
zido com esses mesmos critérios. Plantações bananeiras em mãos
da indústria agroalimentar como Chiquita e Dole que produzem
bananas com selos de comércio justo, enquanto que em
outras propriedades exploram seus trabalhadores e acabam
com a produção local, tampouco é comércio justo.

A consecução da soberania alimentar e de um comércio


justo somente será possível com o trabalho conjunto de
organizações de base camponesas, de consumidores,
sindicalistas, ecologistas que apostem em outro modelo de
agricultura, de comércio e de consumo a serviço dos povos
do meio ambiente. Para consegui-lo, a aliança campo e
cidade, Sul e Norte é imprescindível.

ALGUMAS ATIVIDADES

?
cal?
Considerando os princípios da Soberania
Alimentar, como você analisa o comércio lo-

? Faça uma poesia ou música sobre as situa-


ções de exploração existentes nas relações
comerciais que envolvem a agricultura familiar
e como elas podem ser transformadas.

? Discutir a seguinte afirmação: “É um espan-


to ver nos supermercados da cidade o preço
dos alimentos orgânicos. Só rico pode comprar.
Será que a gente produzir alimentos agroecoló-
gicos, melhor ainda que os orgânicos e vender
com preços acessíveis, para que os assalariados
da cidade possam colocá-los em sua mesa?”

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61

TEXTO 16
Criação de uma Cooperativa
Administração e Finanças para o Desenvolvimento Comunitário-Afinco11

2.1 Definição:

• Cooperativa é uma associação de, no mínimo, 20 (vinte) pessoas


que se unem voluntariamente, com um interesse em comum, eco-
nomicamente organizada de forma própria e democrática, visam,
sem fins lucrativos , a satisfação das necessidades e aspirações
econômicas, sociais ou culturais dos seus associados.

• As Cooperativas são classificadas, pela Organização das Cooperati-


vas Brasileiras, nos seguintes segmentos:

trabalho Profissionais que prestam serviços a terceiros

Relativo a qualquer cultura ou a qualquer criação


agropecuário
rural

consumo Cooperativa de abastecimento

crédito Cooperativa de crédito rural e urbano

Além das informações apresentadas a seguir, no endereço http://www.mec.gov.br/secad, na aba “Publicações”, seção
11

“Educação da Jovens e Adultos”, está disponível o caderno “Economia Solidária e Trabalho”, da Coleção Cadernos de EJA, o
qual contém orientações de grande importância sobre cooperação e sobre como organizar uma cooperativa ou associação.

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62

Cooperativas de alunos de escola agrícola e coo-


Educacional perativas de pais de alunos

Pessoas relativamente incapazes ou de menores


de idade, portanto, não plenamente autogestio-
Especial
nadas, necessitando de um tutor para seu funcio-
namento

Construção, manutenção e administração de


Habitacional conjuntos habitacionais

Mineral Cooperativa de Mineradores

Cooperativa nas quais os meios de produção,


explorados pelo quadro social, pertencem à coo-
Produção
perativa e os cooperantes formam o seu quadro
diretivo, técnico e funcional

Cooperativas de médicos, odontólogos, psicólo-


Saúde gos e atividades afins

Cooperativa que tem como objetivo primordial


Serviço prestar coletivamente um serviço do qual o qua-
dro social necessite

Cooperativas que não se enquadram nos demais


Outras segmentos

2.2 Edital de Convocação :

• Uma vez constituída uma Comissão Organizadora da Cooperativa,


deverá ser publicado um Edital de Convocação para Constituição da
Cooperativa, no mínimo 10 dias de antecedência, em pelo menos
um jornal de maior circulação na cidade, convocando todos os inte-
ressados em criar a cooperativa, já definida, para a Assembléia de
sua Constituição.

Observação!

Esse Edital de Convocação deve ser assi-


nado por um representante da Comissão
de Constituição.

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63

2.3 Assembléia Geral de Constituição:

• Realizar Assembléia Geral de Constituição, para a aprovação do


Estatuto e eleição dos membros que ocuparão os cargos sociais
(Diretoria ou Conselho de Administração e Conselho Fiscal).Provi-
dências a serem tomadas antes da reunião:
Livro de Registro de Presença;
Livro de Registro de Atas;
Preparar minuta do Estatuto Social
Definir no mínimo uma chapa para eleição da Diretoria (com a
Declaração de Desimpedimento dos candidatos)
Todos os dados dos cooperados, como:
a. Nome completo;
b. Endereço residencial completo;
c. Fotocópia dos documentos (Identidade e CPF);
d. Nacionalidade;
e. Estado Civil;
f. Duas fotografias 3x4.

• Todos os fatos ocorridos durante a assembléia devem ser obrigato-


riamente registrados imediatamente ao término da reunião, deverá
ser redigida em livro próprio a Ata da Assembléia de Constituição
da Cooperativa.

• Principais passos para a realização da Assembléia Geral de Consti-


tuição:
Um representante da Comissão Organizadora inicia a Abertura
da reunião com a leitura do Edital de Convocação;
Os membros presentes escolhem um Presidente e um secretá
rio para a reunião;
O Presidente solicita que todos os presentes assinem o Livro de
Registro de Presença, sendo assim, todos considerados sócios
fundadores;
Leitura e aprovação do estatuto social da cooperativa;
Eleição da Diretoria, Conselho de Administração e Conselho
Fiscal;
Leitura e aprovação da Ata de Assembléia e assinatura de todos
os cooperantes fundadores da cooperativa.

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64

Observação!

O texto do estatuto so- 2.4 Estatuto Social :


cial pode ser redigido na
própria Ata de constitui- • Recomenda-se que o Estatuto Social trace todas as caracte-
ção da cooperativa, ou rísticas da organização jurídica e administrativa da Coope-
ser anexado na mesma, rativa, reflita o seu verdadeiro perfil social, evitando fazer
devidamente, rubricado e cópias, pura e simples, de estatutos de outras Cooperativas.
assinado pelo Presidente
e por todos os fundadores • Os Estatutos , antes de serem levados à Junta Comercial,
presentes, e com o visto deverão ser apreciados pela OCE - Organização das Coope-
do advogado. rativas do Estado, a fim de verificar se não conflitam com a
legislação cooperativista vigentes.

2.5 Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica - CNPJ :

• O Passo seguinte, após a Assembléia Geral de Constituição,


será efetuar o registro da Cooperativa na Junta Comercial do
Estado.

A Cooperativa deverá apresentar os seguintes documentos


na Junta Comercial:

Ata da Assembléia Geral de Constituição da Cooperativa;


Estatuto Social;
Requerimento preenchido, através de formulário próprio,
sob a forma de capa, adquirido em papelaria;
Ficha de Cadastro Nacional da Cooperativa (FCN 1 e 2),
formulário adquirido em papelaria;
Cópia autenticada da Carteira de Identidade e CPF dos
eleitos; Cooperativa de laticíneos no Acre
Fonte: mds.gov.br 2
Comprovante de pagamento do Guia de Recolhimento
Federal, (DARF) formulário a venda em papelarias;
Comprovante de pagamento da Guia de Recolhimento da
Junta Comercial, adquirido em papelaria o formulário;
Atenção!
Ficha de Inscrição do Estabelecimento - Sede, CNPJ, em
três vias (a venda em papelaria);
Em todas as páginas da
Nada Consta dos componentes do Conselho de Adminis-
Ata e do Estatuto devem
tração junto à Receita Federal;
constar as rubricas do ad-
Certidão de Desimpedimento do Presidente do Conselho
vogado e do presidente da
Administrativo, autenticada em cartório.
Cooperativa, e na última
página as assinaturas de
todos os associados.

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65

2.6 Registro na OCE

• Toda Cooperativa deverá registrar-se na Organização das Co-


operativas do seu Estado - OCE, para integrar-se ao Coope-
rativismo Estadual e fortificar-se no processo de autogestão
do sistema, de acordo com o art. nº 107 da Lei nº 5.764/71.

Documentação necessária para o registro junto à OCE:

2 Vias da Ata de Constituição da Cooperativa;


2 Vias do Estatuto Social;
2 Vias da Ficha Cadastral, fornecidas pela OCE, devida
mente preenchidas e assinadas;
2 Vias da certidão de arquivamento dos documentos de
sua constituição na Junta Comercial (autenticadas).

2.7 Registro no INSS e Ministério do Trabalho

• Conforme o Artigo 91 da Lei nº 5.764/71, se a coopera-


tiva contrata empregados, iguala-se às demais empresas
relativamente aos encargos sociais. Para isso será necessá-
rio efetuar o seu registro no Instituto Nacional do Seguro
Social e na Delegacia Regional do Trabalho.

2.8 Alvará de Localização e Funcionamento

• Deverá ser feita na Prefeitura Municipal de sua sede a solici-


tação do Alvará de licença para localização e funcionamento
para normalizar sua localização e atividade exercida..

Para obter o registro, a Cooperativa deverá apresentar os


seguintes documentos:

Requerimento padrão fornecido pelo órgão municipal;


Ata de Constituição da Cooperativa;
Estatuto Social;
Imposto Predial e Territorial Urbano - IPTU pago, do
local onde funcionará a Cooperativa;
Contrato de locação ou título de propriedade de sua
sede;

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66

2.9 Livros

A Cooperativa deverá possuir os seguintes livros:

De Matrícula
De Atas das Assembléias
De Atas dos Órgãos de Administração
De Atas do Conselho Fiscal
De Atas do Conselho de Ética
De Presença dos Cooperantes nas Assembléias
Gerais;
Outros, Fiscais e Contábeis

TEXTO 17
O Nhandú
Rosane Volpatto12

No Antigo Egito, a pena da avestruz era símbolo de justiça, equidade e


verdade. Uma de suas penas ornamentou a cabeça de Maat, deusa da
Justiça e da Verdade, que presidia à pesagem da alma, por ocasião do
julgamento dos mortos.

Entre os dogões da África, cujo sistema simbólico é lunar e aquático,


“a avestruz substitui às vezes as linhas onduladas ou as sucessões dos
bastões que simbolizam os caminhos da água”. Nestas representações,
o corpo da avestruz é pintado na forma de círculos concêntricos e de
bastões.

Já os árabes punham a avestruz em estreita relação com os demônios,


que ora tomam a sua forma, ora a usam como montaria.
Para os nossos índios, a ema, da família da avestruz, é o “nhandú” e o
vemos representado na cerâmica dos calchaquis, onde aparecem como
um dos mais belos ornamentos, em muitas variações.

12
Extraído do site: http://www.rosanevolpatto.trd.br/lendanhandu.html . Acesso em: 24 out. 2008.

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Quando o tempo está mudando, a ema, nervosa, abre


as asas, sacode as penas e corre ao encontro da primeira
rajada de vento. Quando já pelos primeiros trovões se
desenvolve a tempestade, começa a fugir vertiginosamen-
te de um lado para o outro, descrevendo grandes cur-
vas, movendo seu longo e flexível colo, abrindo o bico e
volteando pelo ar de sorte que, agitando diversamente a
plumagem e assumindo sucessivamente formas diversas,
aparece como um ente fantasmagórico, vagando a meio
vôo pelas planícies. Deste modo, é encontrada sua repre-
sentação na cerâmica calchaqui.

Os calchaquis, uma nação índia das mais inteligentes,


antigos senhores da grande parte da Argentina Ocidental,
parecem ter feito todas essas observações e tê-las re-
produzido engenhosamente nas suas urnas funerárias.
Pode-se dizer, que os desenhos são fiéis reproduções dos
costumes da ema, ora agitando as asas, ora enfunando a
plumagem, ora virando a cabeça, dançando, imitando um
grande novelo a correr, como se quisesse reproduzir uma
nuvem voando.

Os índios brasileiros bororós deram-lhe um lugar entre os


astros, pois o Cruzeiro do Sul, não é outro do que o nhan-
dú e as estrelas em redor são os cães que a perseguem.

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Os guaranis e outras tribos extintas, diz Lozano


(Conquista I, pág 428), adornavam seus sepul-
cros com plumas de ema. Fincavam no solo
compridas lanças revestidas de um círculo de
penas de ema para, pela rapidez do seu mo-
vimento, espantar os cavalos do inimigo. Ao
pé das lanças, assentavam-se seus respectivos
donos e encostadas às suas costas as índias.
À frente de todos apresentava-se o feiticeiro
com uma faca na mão, que movia com pressa,
à maneira de quem está picando carne. Ao mesmo tempo, entoava sua
monótona cantiga, acompanhada de todos os índios e índias.

Passada meia hora, começava o indivíduo a suspirar e a queixar-se alta-


mente, torcendo-se, fazendo esgares ao compasso do canto dos demais,
que não cessa até que, dando um sinal de formidável alarido, calam-se
todos e se levantam.

O morubixaba que está à direita do feiticeiro, sem olhar-lhe o rosto, per-


gunta o que precisa saber. O feiticeiro lhe responde e todos o acreditam,
persuadidos que é o anhangá gualicho em corpo e alma que, introduzido
na sua pessoa, fala com sua boca.

Feita a consultação, oferecem ao adivinho um ovo cru de ema e água. Ele


bebe a água e come o ovo. Oferecem-lhe em seguida, tabaco e ele o fuma.
É com tais presentes que regalam o anhangá.

O feiticeiro então, simula fortes vômitos, é o anhangá que depois de ter-se


regalado com o ovo de avestruz e o fumo do tabaco, desprende-se e sai
solenemente do corpo do feiticeiro, mo meio do regozijo e algazarra do
povo reunido que, a gritos e atirando fogo ao ar, o saúda.

Os índios tupinambás cingiam os rins com penas de ema, afim de imitá-la


na guerra contra seus inimigos. Pois a ema, quando se sente forte, volta-se
contra o seu perseguidor e, quando se sente fraca, levanta as penas e atira
com os pés areia e pedras contra o seu inimigo.
Os Abipones perfuravam em muitos lugares a pele para lá introduzir penas
de ema. Aos vê-los assim emplumados pelo corpo todo, dir-se-ia que pre-
tendiam elevar-se ao ar.

Ás festas que celebravam uns indígenas de Catamarca e outras regiões


vizinhas aos Andes, precedia uma grande caça, cujo resultado, como
lebres, guanacos, pumas e aves diversas sacrificavam em torno de uma
algarrobeira, árvore sagrada, apresentando-lhe as cabeças das vítimas. A
ema, que chamam também de “suri” (no quichua) era o único animal que
respeitavam, excetuando-se da caça e do sacrifício.
Um indício de ter sorte é achar um ovo “guacho” de ema. No rio grande,

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não se faz necessário explicar o que é um animal guacho. “Guacho”, diz-se de


um animal que não tem mãe, precisando-a ainda para o seu desenvolvimen-
to. Para designarem um ovo abandonado usam o mesmo nome.

A ema põe os primeiros ovos em qualquer lugar do campo, para depois for-
mar o ninho. O cavaleiro que encontra no campo um ovo guacho, apeia-se,
recolhe-o e o leva para casa, extrai o conteúdo e conserva-o em lugar seguro.
Ele terá muita sorte em casa.

Tem o nosso nhandú ainda um representante no mundo imaginário do


Paraguai e Missões, originalmente povoadas por guaranis. É roxo, de fogo.
Nos cerros e outros lugares levanta a cabeça sacudindo as asas. Chamam-
no nhandú-tatá (avestruz de fogo) ou nhandú puitá, guarda e ministro dos
tesouros naturais, ou se não estão escondidos, esconde-os no solo entre
penhascos.
Mito este em que se transforma a mente vulgar certa classe de fenômenos
ígneos, produzidos por processos químicos, que devem ser atribuídos a cau-
sas psíquicas acidentais próprias de certas paragens.

Parece quase que o nosso boitatá não é senão o nhandú-tatú dos argentinos.
O boitatá, para uns é só fogo factuo como para Anchieta, que o deriva do ter-
mo tupi mba-tatá, que significa coisa fogo. A outros o derivam de mboi-tatá,
é uma cobra de fogo e em algumas regiões do Brasil, aparece como gênio
protetor dos campos contra incendiários. Outros escritores opinam, que a
serpente de fogo é quem protege os bosques. Ao erudito autor de Granada
parece algo retórica a origem serpentina, não podendo compreender como
uma víbora, morta nas chamas de um bosque incendiado, pode ser precisa-
mente o poder vingativo das árvores destruídas, como querem alguns auto-
res mencionados.

ALGUMAS ATIVIDADES

Incluímos esta lenda no Caderno para esclarecer a história do Nhandú,


citado na letra da música Feira de Caruaru. Aproveitamos para conhecer a
sua opinião sobre a importância das lendas na comunidade:

? Existe uma tradição oral, de “contação” de histórias em sua comunida-


de? Há espaços para essas práticas?

? Como são transmitidas e conservadas essas histórias?

? Quem são seus “guardadores”?

? Quais são as lendas mais representativas de sua comunidade? De que


tratam essas histórias?

? Alguém conhece o filme “Narradores de Javé”, sobre a interpretação,


resgate e registro da história de uma comunidade?

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EXPERIÊNCIAS EM
ECONOMIA SOLIDÁRIA

Texto 18
Banco Palmas

Associação de Moradores do Conjunto


Palmeira

O BANCO PALMAS é uma prática de Socio-


economia Solidária da Associação de Mo-
radores do Conjunto Palmeira, um bairro
popular com 32 mil moradores situado na
periferia de Fortaleza-Ce.
O Banco Palmas desenvolveu um sistema
econômico comunitário que conta com
uma linha de microcrédito alternativo
(para produtores e consumidores), ins-
trumentos de consumo local (cartão de
crédito e moeda própria) e alternativas de
comercialização (feiras e lojas solidárias),
promovendo localmente geração de em-
prego e renda para os mais pobres.

Disponível em: http://www.bancopalmas.org.br,


Acesso em: 4set. 2008.

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Objetivo do FECOL

Promover o desenvolvimento econômico da comunidade a partir da or-


ganização local de líderes populares, de produtores e produtoras, comer-
ciantes, prestadores de serviço e consumidores, através de processos de
mobilização e lutas populares.

O que é a Rede?

A Rede Brasileira de Bancos Comunitários consiste na articulação de


todos os Bancos Comunitários do Brasil. Cadastram-se na Rede todos os
bancos que, após um rigoroso processo de formação, recebe o selo de
certificação da Rede de Bancos Comunitários. Todos os Bancos comuni-
tários têm obrigação de “prestar contas” de suas atividades, anualmente,
no Encontro Nacional da Rede de Bancos Comunitários. Atualmente são
33 Bancos Comunitários no Brasil.

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Moeda Social

Moeda Social Local Circulante, também chamada de circulante local, é


uma moeda complementar ao Real (moeda nacional - R$), criada pelo
Banco Comunitário. O circulante local objetiva fazer com que o “dinheiro”
circule na própria comunidade, ampliando o poder de comercialização
local, aumentando a riqueza circulante na comunidade, gerando trabalho
e renda. Desta forma a moeda social torna-se componente essencial
das estratégias dos bancos comunitários. Os créditos em “reais” podem
ajudar no crescimento econômico do bairro ou município gerando novas
riquezas. Mas são as moedas sociais que asseguram o desenvolvimento,
ao favorecerem que essa riqueza gerada circule na própria comunidade.

Moeda social do Banco Palmas

Características:

1. O circulante local tem lastro na moeda nacional, o Real (R$). Ou


seja, para cada moeda emitida, existe no banco comunitário, um corres-
pondente em Real;
2. As moedas são produzidas com componentes de segurança (papel
moeda, marca d’água, código de barra, números serial) para evitar falsifi-
cação;
3. A circulação é livre no comércio local e, geralmente, quem compra
com a moeda social, recebe um desconto promovido pelos comerciantes
e produtores, para incentivar o uso da moeda no município/bairro;
4. Qualquer produtor/comerciante cadastrado no Banco Comunitário
pode trocar moeda social por reais, caso necessite fazer uma compra ou
pagamento fora do município/bairro.
5. A exemplo do Banco Comunitário, o controle e as riquezas geradas
pela moeda ficam na comunidade.

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Acesso ao Circulante Local

As formas de um produtor ou morador conseguir acesso à


moeda social circulante local são:
1. Fazendo empréstimos em moeda social no Banco
Comunitário. Sem juros.
2. Prestando serviço para alguém da comunidade que
tenha o circulante local.
3. Trocando reais por circulante local, diretamente,
na sede do Banco Comunitário.
4. Sendo membro de algum empreendimento pro-
dutivo, percebendo seus resultados 90% em moeda real e
10% em moeda social, mediante o acordo com todos.

Algumas Atividades

? Na sua comunidade existe algum sistema


econômico comunitário?

? Existe linha de microcrédito alternativo?

? Você conhece algum Banco Comunitário?

? Qual o Banco Comunitário que você conhe-


ce? Como ele funciona?

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Texto 19
A Experiência da ASA
Articulação no Semi-Árido Brasileiro

O que é a ASA?

A ASA -Articulação no Semi-Árido Brasileiro Seu Inácio Tota Marinho, agricultor e membro
é um fórum de organizações da sociedade do Banco, conta que a partir dessa experiên-
civil, que vem lutando pelo desenvolvimento cia coletiva as famílias de Lagedo de Timbaú-
social, econômico, político e cultural do semi- ba passaram a ter sementes em quantidade
árido brasileiro, desde 1999. e na hora certa para plantar, não ficando
dependentes das sementes distribuídas pelo
Atualmente, mais de 700 entidades dos mais governo, que na maioria das vezes, chegam
diversos segmentos, como igrejas católicas fora do período de plantio. Além disso, o
e evangélicas, ONGs de desenvolvimento e Banco possibilitou que os agricultores res-
ambientalistas, associações de trabalhadores gatassem suas sementes locais e, com isso,
rurais e urbanos, associações comunitárias, contribuíssem também para a conservação
sindicatos e federações de trabalhadores da biodiversidade agrícola presente nos seus
rurais, fazem parte da ASA. sistemas de produção.

A experiência do Banco Comunitário


de Lagedo de Timbaúba – PB

Em 1990, o Nordeste foi alvo de uma forte


seca. Naquele ano, a precipitação chuvosa foi
28% abaixo da média, segundo informações
do Centro de Previsão do Tempo e Estudos
Climáticos (CPTEC). O Semi-Árido paraiba-
no foi umas das regiões mais atingidas. Em
decorrência dessa catástrofe, que provocou a
perda de muitas lavouras e a falta de semen-
tes para plantar na safra seguinte, algumas
famílias da região se organizaram, e com o
apoio de organizações não-governamentais,
formaram bancos comunitários de sementes.
Um deles foi o de Lagedo de Timbaúba, no
município de Soledade, região do Cariri da
Paraíba.
Disponível em http://www.asabrasil.org.br. Acesso em:
15out. 2008.

Disponível em: http://www.asabrasil.org.br/int_interfa-


ce/default_exibir_conteudo.asp?CO_TOPICO=1519zz

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“Começamos a acompanhar os programas da ASA [Articulação no Semi-


Árido Brasileiro], as discussões do Pólo [Pólo Sindical da Borborema]
sobre banco de semente e a gente achou que era uma necessidade muito
grande fazer esse banco para preservar as nossas sementes de origem
e não perder o controle delas”, disse Seu Inácio, que também integra a
Comissão Sementes do Coletivo Regional de Educação Solidária do Cariri
e Seridó paraibano - fórum que vem discutindo em toda a região, ações
referentes ao manejo dos recursos hídricos, à criação animal e à conser-
vação das sementes, plantas e frutas nativas.

Antes de participar do Banco, Seu Inácio já tinha a tradição de guardar as


sementes em casa, uma herança que veio de pai para filho. Ele fazia a ca-
talogação das melhores sementes e as selecionava para o plantio. Porém,
a partir do Banco, ele conseguiu organizar melhor sua produção. “Se a
gente guarda em casa, corre o risco de na hora da necessidade a gente co-
locar as sementes no fogo. Já no banco comunitário de sementes temos a
estratégia de guardar com maior segurança. Lá, existe uma comissão. Na
hora de chover, já tem a semente preparada para o plantio”, defende.
Após 17 anos de fundação, o Banco de Lagedo de Timbaúba tem 20 asso-
ciados. Cada um deposita a quantidade de sementes de acordo com suas
condições e necessidades. O que tomar emprestado 10 quilos de feijão,
por exemplo, devolve a mesma quantia no plantio seguinte para o Banco
não ficar sem estoque. O armazenamento é feito em garrafas peti, silos
metálicos e latões. Para conservar as sementes, os agricultores usam, na
boca da garrafa, casca de laranja, pimenta do reino e cinza da fogueira de
São João. As famílias também já trazem suas sementes sequinhas e sele-
cionadas no ponto de armazenar no banco da comunidade.

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Cada garrafa de semente que entra no Banco é registrada com o nome do agricultor. Se-
gundo Seu Inácio, essa é uma forma de manter o controle e a qualidade das sementes de
cada pessoa. “Se elas estivessem guardadas num único local o risco de uma semente que
está com problema contaminar todas as outras seria maior (...), os agricultores trazem as
sementes separadas para eles, com o tipo e variedade que eles gostam de plantar, com a
qualidade que eles gostam. Na hora de levar para o cultivo, ele já leva a mesma semente
que é acostumado a plantar”, explica Seu Inácio.
Em 2006, o estoque do Banco foi de 844 kg de sementes, sendo 352 de milho, 382 de
feijão, 106 de fava, dois de melancia e dois de jerimum.

Este ano, os agricultores também passaram a guardar sementes de plantas nativas e de


outras localidades, a exemplo da gliricídea, uma planta forrageira que produz vagens
grandes, de onde é produzido um farelo que serve como alimento para os animais.

Sistema Integrado

O Banco de Semente de Lagedo de Timbaúba não é uma atividade isolada das demais
ações que são desenvolvidas na unidade produtiva familiar. A partir do estoque de se-
mentes de plantas nativas, os agricultores conseguem garantir uma reserva de mata
fundamental para a criação de abelhas, outra atividade importante para a economia e
alimentação das famílias do Semi-Árido brasileiro.

“Aqui na região do Cariri a gente conhece bem a abelha Jandaíra, que era uma abelha que
estava em extinção por conta do desmatamento. Através das barragens subterrâneas, a
gente começou a ter um suporte de terra molhada, durante o ano todo, e as plantas se

alimentam daquele pouco molha-


do que se mantém. A leucena e a Algumas Atividades
gliricídia floram fora de época. O
Imbuzeiro flora fora de época. Faz
tudo um consórcio de florada que ? Quais das experiências citadas no texto exis-
tem em sua comunidade, município?
as abelhas se adaptam muito bem a
elas” diz Seu Inácio.
O banco comunitário de sementes ? Produza um texto descrevendo-a/s.

de Lagedo de Timbaúba também


se tornou um laboratório de aula
prática para os alunos da comunida- ? Que análise você faz dos fragmentos abaixo:

de. Através da proposta de educa-


ção contextualizada, que trabalha “O banco comunitário de sementes de Lagedo
o aprendizado do aluno a partir do de Timbaúba também se tornou um laboratório
contexto em que ele vive, crianças, de aula prática para os alunos da comunidade.
adolescentes e jovens visitam o Através da proposta de educação contextualiza-
banco, entrevistam os agricultores da, que trabalha o aprendizado do aluno a partir
e constroem, junto com a professo- do contexto em que ele vive, crianças, adoles-
ra, uma história fundamental para centes e jovens visitam o Banco, entrevistam os
resgatar a tradição dos agriculto- agricultores e constroem, junto com a profes-
res e transmiti- lá para as futuras sora, uma história fundamental para resgatar a
gerações. tradição dos agricultores e transmiti-la para as
futuras gerações”.

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Texto 20
Banco Comunitário dos
Cocais - Piauí
André Miani

Em meio às comemorações dos 13 anos de emancipa-


ção do Município de São João do Arraial, no Piauí, no dia
12/12/2007, aconteceu a inauguração do Banco Comuni-
tário dos Cocais e lançamento da moeda Cocal.
Segundo a coordenadora do Banco, Kellen Barros, “O
Banco Comunitário dos Cocais vai promover a sustenta-
bilidade local, a geração de trabalho e renda, melhorar a
auto-estima das pessoas e possibilitar um local para os
pagamentos bancários, facilitando a vida da população,
visto que a agência bancária mais próxima de São João do
Arraial está localizada há 20 km da sede do município, na
cidade de Esperantina”.

O Banco dos Cocais foi lançado através de uma parceria


composta por um conselho de 11 entidades, incluindo o
Banco Palmas, Banco Popular do Brasil e a organização
não-governamental CARE Brasil. Inicialmente o Cocal, cir-
culará em São João do Arraial, cidade com cerca de 6.826
habitantes e onde a parcela da população que vive abaixo
da linha da pobreza chega a 70%, e, depois, nas cidades
de Matias Olímpio, Luzilândia, Morro do Chapéu, Joca
Marques, Madeiro, Campo Largo, Joaquim Pires, Barras,
Nossa Senhora dos Remédios, Porto, Batalha e Esperanti-
na onde os índices socioeconômicos da região são consi-
derados os mais baixos do Piauí.
A entidade gestora do Banco dos Cocais será o Conselho Banco Comunitário dos Cocais - Piauí

de Organização Comunitária de Apoio à Inclusão Social -


COCAIS.
Fonte: Bancos Comunitários André Miani - 25
Algumas Atividades
Dec 2007 11:50. Disponível em http://miani.
codigolibre.net/index.php/2007/12/25/banco-
comunitario-dos-cocais-piaui/#more-191.
Acesso em: 15 out. 2008.
? Qual a sua opinião a respeito do frag-
mento abaixo:

“O Banco Comunitário dos Cocais vai


promover a sustentabilidade local, a
geração de trabalho e renda, melhorar
a auto-estima das pessoas e possibilitar
um local para os pagamentos bancários,
facilitando a vida da população”.

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Texto 21
Banco Comunitário Quilombola

Fonte: ma.gov.br
Deuszânia Almeida

Na data em que se comemora o Dia da


Consciência Negra, 20 de novembro, o Banco
Popular do Brasil e o Instituto Palmas de
Desenvolvimento Socioeconômico inauguram
em Alcântara (MA) o Banco Comunitário
Quilombolas, primeira instituição desse
gênero em comunidade quilombola do País. A
iniciativa conta com a parceria da Secretaria
Nacional de Economia Solidária – SENAES/
MTE, do Governo do Estado do Maranhão e Alcântra, Maranhão.

do Projeto de Promoção do Desenvolvimento


lojas solidárias), promovendo localmente
Local e Economia Solidária do Governo geração de emprego e renda para diversas
Federal – PPDLES. pessoas.

Pela iniciativa, cabe ao Banco Popular do Deu-se o nome a este sistema econômico
Brasil disponibilizar tecnologia de alcance, local de Banco Comunitário, que conta
equipamentos e software; recursos financeiros com três características centrais: gestão
para linha de microcrédito produtivo orientado feita pela própria comunidade; gestão e
e produtos e serviços de microfinanças, tais administração dos recursos; e sistema inte-
como conta corrente simplificada, sem custo grado de desenvolvimento local, que cria
para abertura, sem CPMF e movimentada atra- um mercado solidário e alternativo entre as
vés de cartão de débito Visa Electron; Seguro famílias. Em Alcântara, a entidade gestora
de Vida Popular, recebimento de contas de do Banco Quilombola será a Associação de
água, de luz, de telefone, e boletos bancários, Moradores do Povoado de Arenhengaua.
dentre outros serviços. Na inauguração, será
formalizado contrato de abertura de crédito no Pela iniciativa, cabe ao Banco Popular do
valor de R$ 700 mil. Brasil disponibilizar tecnologia de alcance,
equipamentos e software; recursos finan-
O Instituto Palmas é uma Organização da ceiros para linha de microcrédito produtivo
Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) orientado e produtos e serviços de microfi-
com sede em Fortaleza (CE). Criada em junho nanças, tais como conta corrente simplifi-
de 2002, a organização desenvolveu tecnolo- cada, sem custo para abertura, sem CPMF
gia social voltada para geração de renda em e movimentada através de cartão de débito
comunidades empobrecidas que oferece linha Visa Electron; Seguro de Vida Popular,
de microcrédito produtivo orientado, instru- recebimento de contas de água, de luz, de
mentos de consumo local (cartão de crédito e telefone, e boletos bancários, dentre outros
moeda social circulante), capacitação social serviços. Na inauguração, será formalizado
e profissional para homens e mulheres que contrato de abertura de crédito no valor de
desejam criar ou expandir um pequeno empre- R$ 700 mil.
endimento produtivo de forma colaborativa,
Fonte: Revista Fator Brasil. Disponível em: http://
e alternativas de comercialização (feiras e
miani.codigolibre.net. Acesso em 15 out 2008.

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O Instituto Palmas é uma Organização da Sociedade


Algumas Atividades
Civil de Interesse Público (OSCIP) com sede em
Fortaleza (CE). Criada em junho de 2002, a orga-
nização desenvolveu tecnologia social voltada para ? Qual a sua opinião a respeito do fragmen-
to abaixo:
“Deu-se o nome a este sistema eco-
geração de renda em comunidades empobrecidas que
oferece linha de microcrédito produtivo orientado, nômico local de Banco Comunitário,
instrumentos de consumo local (cartão de crédito e que conta com três características
moeda social circulante), capacitação social e profis- centrais: gestão feita pela própria
sional para homens e mulheres que desejam criar ou comunidade; gestão e administração
expandir um pequeno empreendimento produtivo de dos recursos; e sistema integrado de
forma colaborativa, e alternativas de comercialização desenvolvimento local, que cria um
(feiras e lojas solidárias), promovendo localmente mercado solidário e alternativo entre
geração de emprego e renda para diversas pessoas. as famílias”.

Deu-se o nome a este sistema econômico local de


Banco Comunitário, que conta com três caracterís-
ticas centrais: gestão feita pela própria comunida-
? Quais as características dos Bancos Co-
munitários que você conhece?

de; gestão e administração dos recursos; e sistema


integrado de desenvolvimento local, que cria um
mercado solidário e alternativo entre as famílias. Em
Alcântara, a entidade gestora do Banco Quilombo-
la será a Associação de Moradores do Povoado de
Arenhengaua.

Fonte: stoa.usp.br

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Texto 22
Por uma Economia Mais
Solidária em Pernambuco

Renata Carneiro de Holanda

Na história da sociedade Combatendo a exclusão


Temos muito pra contar Na luta, criatividade
O caminho da Economia No trabalho, confiança
Solidária e Popular O valor da solidariedade
Baseado na idéia Formando aliança
Da reciprocidade Como círculo da sustentabilidade

Esta outra economia Garantindo a expressão


Seja no campo ou cidade Respeitando as diferenças
Acontece na família Em uma organização
E também na comunidade Não há indiferenças
Em Recife ou Brasília São todos em cooperação
Preservando a diversidade Cada um com suas vivências

Economia Solidária não é Os valores cooperativos


Somente compra e venda Tem a base a igualdade
É muita gente em união Liberdade, democracia
Gera trabalho e renda Participatividade
Em benefício da população Dando assim a garantia
Cria a chamada cooperação Para a social responsabilidade

As artes do popular Trabalhar e consumir


Tem produtor e produtoras Pelo comércio solidário
Sempre a se dedicar Cria redes a investir
Formando mutirões Em um processo diário
Tendo o tempo de plantar Repensar e construir
Isto há várias gerações Um mundo não utilitário

A solução do trabalho Comprar produtos solidários


Desenvolve uma comunidade É garantia de transformação
Pode ser Sertão, Mata Pois, modifica o pensamento
Agreste ou Centro da Cidade Dos que só tem uma opinião
Todo o trabalho na luta Certo é justiça, empreendimento
Contra o efeito da globalidade Todo o trabalho e comunhão

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Quando o povo se envolve ONG’s e Gestores Públicos


Surge a organização Dão a sua contribuição
Gera oportunidades Promovem o coletivo
Na produção de seu pão No processo de formação
E várias diversidades Orientam os princípios
Na costura e reparação Que fortalecem o cidadão

O alimento agroecológico Hoje há informação


Permite a articulação Produção educacional
Defende a terra desde já Nos canais de comunicação
Pela saúde da população Rádio, TV, livros e jornal
E das ervas, faz se o chá Os serviços em ação
Das sementes, coloração No caminho do social

Os produtos todos falados É por um outro Nordeste


Tem o preço muito justo Mais Justo e solidário
Roupa, comida, artesanato Cantam-se versos e repentes
Leva algo inspirado Viva o seu imaginário
Pois, feito com cuidado Leia este cordel de trás pra frente
Preservando a vida de fato E construa um mundo igualitário

Algumas Atividades

? O que mais lhe chamou a atenção no


cordel?

? Se você fosse dar continuidade ao


cordel, como faria?

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Texto 23
Catende-Harmonia:
O resultado da união
dos trabalhadores
Fonte: mg.gov.br Cooperativa de Produção Agroin-
dustrial Catende-Harmonia

Catende-Harmonia constitui uma das mais


importantes experiências em economia
solidária e autogestão do Brasil.

Iniciativas Importantes

Catende-Harmonia vem desenvolvendo


projetos em parceria com diversas orga-
nizações no sentido do estímulo a novas
atividades produtivas no âmbito da agri-
cultura familiar e da diversificação dos
Fonte: desafios2.ipea.gov.br
derivados da cana, combinando susten-
tabilidade ambiental e justiça social às
iniciativas.

A História

Uma Sociedade Baseada na Monocultura


da Cana

O cultivo da cana de açúcar na Zona da


Mata em Pernambuco remonta ao século
XVI, como marca da sociedade colonial,
com suas relações de trabalho tendo por
base a figura do senhor de engenho que,
detentor do poder, subordinava escravos,
empregados e moradores da região. Esta
sociedade, fundamentada na monocultu-
ra da cana, foi responsável por enormes
impactos ambientais e sociais, fruto de seu
modelo de desenvolvimento caracterizado
por grandes propriedades, mão-de-obra
escrava e negra presente até o século
XIX. Nas últimas décadas do século XX a
concorrência imposta por outras colônias
produtoras levou ao aperfeiçoamento téc-
nico dos antigos engenhos, transformados
em usinas. É neste contexto que surge em
Fonte: portaldoprofessor.mec.gov.br

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1892 a Usina Catende, localizada na Zona da Mata Sul de Pernambuco, constru-


ída no antigo engenho Milagre da Conceição, fundado em 1829. Neste momen-
to foi expressiva a expansão usineira no estado, atingindo, entre 1917 e 1918,
cerca de 46 usinas de açúcar, chegando a 54 em décadas posteriores. Após a
crise mundial de 1929 o governo criou o IAA – Instituto do açúcar e do álcool –
uma autarquia federal responsável por formular políticas públicas, pelos subsí-
dios, pela comercialização interna e pelas exportações. O IAA atuou por 60 anos
na regulamentação do setor sucro-alcooleiro, sendo extinto em 1990. Contando
com forte intervenção estatal, os usineiros da Zona da Mata pernambucana
eram responsáveis pela maior produção nacional desde o início da implantação
da lavoura até a década de 70, quando o governo brasileiro lançou o Pro- álco-
ol – Programa Nacional do Álcool, visando a redução no consumo de derivados
do petróleo e a busca de novas fontes energéticas. A partir de então a Região
Nordeste, tradicional produtora de açúcar, vem perdendo posição para São
Paulo. Melhores solos, áreas mecanizáveis e fortes investimentos em pesquisa
têm permitido a São Paulo uma produtividade muito superior, na produção
do açúcar e do álcool, a Pernambuco e Alagoas. A perda de competitividade
econômica é parte de uma realidade, onde a concentração fundiária, os índices
de analfabetismo alarmantes e um dos mais baixos IDHs do Brasil compõem um
cenário estreitamente relacionado a uma herança social do período colonial.
O entendimento desta estrutura ajuda a compreender a região e a repensar
perspectivas futuras.
Fonte: mg.gov.br

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A Constituição

O Surgimento da Companhia Agrícola Harmonia


As crises no setor sucro-alcooleiro a partir da década de 90 foram acom-
panhadas pelo aumento das reivindicações dos movimentos sociais no
campo. É nesse contexto que surge o projeto Catente-Harmonia em 1995,
como conseqüência dos enfrentamentos judiciais entre empresários e
sindicatos de trabalhadores rurais. Inicialmente concentrados nos direitos
às indenizações dos 2.300 trabalhadores demitidos, os sindicatos, dian-
te da possibilidade do fechamento da usina e da perda do patrimônio,
requereram a sua falência. Em uma experiência inédita, a organização dos
trabalhadores conseguiu a saída dos usineiros donos da empresa, impe-
dindo seu fechamento definitivo e a dilapidação do seu patrimônio, com a
manutenção de 2.800 empregos diretos. Além disso, a empresa foi recu-
perada nos moldes da diversificação industrial e agrícola das culturas, com
a construção da Companhia Agrícola Harmonia, uma empresa em proces-
so de autogestão, atualmente sendo administrada em regime de co-gestão
entre o poder judiciário e os trabalhadores, através de suas organizações.

Desta forma, os trabalhadores de


Catende-Harmonia conquistaram
o direito de administrar um patri-
mônio que envolve 48 engenhos,
uma área de 26.000 hectares, uma
hidrelétrica, várias casas-grandes
(antigas sedes de fazendas), 8 açu-
des, além de um parque industrial
para a produção de açúcar e ração
animal. Existe, ainda, uma cerâ-
mica industrial, uma metalúrgica
e uma frota de 38 unidades entre
caminhões e tratores.
Ao longo de seus oito anos de exis-
tência o projeto Catende-Harmonia
vem desenvolvendo parcerias com
várias organizações, implementan-
do ações com o intuito de diversi-
ficar a produção e gerar renda aos
trabalhadores envolvidos e suas
famílias. Estas iniciativas têm como
fundamento a alteração no quadro
social e ambiental herdado da mo-
nocultura canavieira, atuando na
construção de práticas sociais mais
democráticas, onde a autogestão
e a economia solidária constituem
as bases para se alcançar o ple- Fonte: mpt.gov.br
no desenvolvimento dos direitos
humanos.

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Os Direitos Humanos Os projetos

O Dossiê Catende-Harmonia Iniciativas Importantes

A elaboração do dossiê Catende-Harmonia Catende-Harmonia vem desenvolvendo


e sua disponibilização através deste site projetos em parceria com diversas orga-
são ações do Projeto Desc (Direitos Huma- nizações no sentido do estímulo a novas
nos, Econômicos, Sociais e Culturais), exe- atividades produtivas no âmbito da agri-
cutado pela FASE – Federação de Órgãos cultura familiar e da diversificação dos
para a Assistência Social e Educacional. derivados da cana, combinando susten-
Iniciado em 2000, com o apoio da União tabilidade ambiental e justiça social às
Européia, da organização Terre des Hom- iniciativas.
mes/ França e do Ministério das Relações Atualmente 4 mil trabalhadores utilizam
Exteriores da França, o Projeto Desc, atua produtivamente cerca de 5.100 hectares
na difusão dos direitos, tendo como uma em culturas agrícolas e animais em regi-
de suas plataformas a defesa do direito ao me de agricultura familiar. Esse mesmo
trabalho e o desenvolvimento de espaços contingente utiliza produtivamente cerca
de ações comunicativas na mídia tradicio- de 5.250 hectares em regime de produção
nal e na internet. assalariada no plantio da cana, do café e
do milho.
Cooperativa Catende-Harmonia:
autogestão, economia solidária e
respeito aos direitos humanos.

Caminhado Rumo a Diversificação da Pro-


dução

Catende-Harmonia vem implementando


parcerias com diversas organizações no
sentido da diversificação da produção e da
realização programas sociais e ambientais.

Fonte: desafios2.ipea.gov.br

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Combate ao Analfabetismo, Erradica-


ção do trabalhos Infantil e o Programa
Saúde da Mulher.

Educação Profissional Programa de Saúde da Mulher


A ênfase ao Programa de Educação Uma proposta inovadora!

Desde o processo de falência Catente-Harmo-


nia vem dando ênfase a realização de pro- Catende-Harmonia vem desenvolvendo
gramas de alfabetização de jovens e adultos, programas de saúde da mulher, beneficiando
reduzindo em cerca de 80% o índice de anal- aproximadamente cerca de 2.000 mulheres
fabetismo. Com o apoio da entidade Save the promovendo debates sobre temas como: do-
Childrem foram realizados cerca de 28 cursos enças sexualmente transmissíveis, orientação
profissionalizantes envolvendo adolescen- e prevenção do câncer de mama, violência
tes e jovens nas áreas de pintura; bordados; na família, entre outros. Para isso, reabriu a
fabricação de doces e conservas; fabricação policlínica da usina, através de convênio com
de pães; reciclagem de papel e fabricação de os Centros de Mulheres do Cabo, de Catende,
embalagens. Em parceria com o Senar, o pro- de Palmares e de Água Preta.
jeto desenvolveu cursos nas áreas de fabrica-
ção de telhas, pedreiro e manuseio de her-
bicidas. Com a equipe de Catende-Harmonia
foram realizados três cursos de administração
rural.

Erradicação do Trabalho Infantil


Um combate vitorioso a um problema que
atinge o campo.

A empresa foi contemplada com o prêmio


Abrinq Empresa Amiga da Criança por sua
atuação na erradicação do trabalho infantil
em seus canaviais. O desenvolvimento de
programas voltados para o resgate dos di-
reitos da criança e do adolescente foi funda-
mental para alcançar tal reconhecimento.
Fonte: iac.sp.gov.brp.

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Os produtos

Cristal Especial

É o açúcar com cristais grandes e transparen-


tes, difíceis de serem dissolvidos em água.
Depois do cozimento, ele passa apenas por
um refinamento, que retira 90% dos sais mi-
nerais. Por ser econômico e render bastante,
o açúcar cristal sempre aparece nas receitas
de bolos e doces.O produto é direcionado
para indústrias de bebidas, CONAB e distri-
buidores em Pernambuco e demais cidades
do país.

Demerara

Esse açúcar de nome estranho passa por


um refinamento leve e não recebe nenhum
aditivo químico para branqueamento e clarifi-
cação. Por isso, seus grãos são marrom-claros
e têm valores nutricionais altos. É levemente
mais úmido, pois conserva uma película de
“mel” em volta dos cristais de sacarose.

Melaço

O melaço é um caldo viscoso liberado após


a moagem da cana-de-açúcar, formando a
garapa. O melaço pode ser empregado tanto
na obtenção de açúcar como na de álcool.

Energia Elétrica

A Cooperativa Catende-Harmonia utiliza o


bagaço (resíduo proveniente da moagem) da
cana-de-açúcar para gerar energia elétrica.
A empresa consome internamente a energia
para alimentar as máquinas no período de
safra.

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Diversificação da Produção:
A Busca de Alternativas para a Agricultura Familiar.
Cana de Morador
Através
deste projeto o morador do engenho passa a plantar e colher a cana
para si em terras que pertencem à usina, fornecendo matéria-prima para
a indústria. O projeto, desenvolvido pela equipe de Catende-Harmonia e
do Centru (Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural), permite o
planejamento e a ampliação do acesso a terra, além da integração entre a
produção coletiva (empresa) e produção familiar.

Pecuária
Catende-Harmonia vem desenvolvendo a bovinocultura de leite, em parceria
com a FETAPE/RECAT (Rede de Cooperação Técnica). Cerca de 727 trabalha-
dores dedicam-se à pecuária bovina, caprina e ovina, totalizando um reba-
nho de 1.536 cabeças de gado e mais 932 unidades entre ovinos e caprinos,
utilizando 1.600 hectares para o pastoreio.

Piscicultura
Em parceria com Centro Josué de Castro, a empresa implantou 220 viveiros
de peixes, em 26 propriedades, para consumo próprio, mas, sobretudo, com
o objetivo de capacitar os trabalhadores e produzir em escala comercial. A
produção anual de alevinos/peixes fica em torno de torno de 43.512, benefi-
ciando 1.800 pessoas.

Fábrica de Ração
Como subproduto da produção do açúcar, a empresa produz ração animal
derivada do bagaço da cana, através do processo de hidrólise e enriqueci-
mento com cal, melaço e uréia. Desenvolvida com tecnologia cubana, a fábri-
ca de ração tem capacidade para alimentar 6.000 cabeças por dia.

Plantio Coletivo
Os moradores dos engenhos administram de forma assalariada 6.300 hec-
tares de cana, 30 hectares de café conilon, 120 hectares de milho e cerca de
mil cabeças de gado.

Agricultura Familiar
A empresa vem fortalecendo uma produção diversificada nos moldes da
agricultura familiar, amenizando os impactos do período entressafra e ten-
do como perspectiva a entrada no mercado de excedentes. Cerca de 1.560
trabalhadores plantam banana, mandioca, inhame, abacaxi, batata, e outras
culturas em mais de 1.500 hectares.

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CATENDE FAZ 1 MILHÃO DE SACAS DE AÇÚCAR.

Catende tem safra histórica

Hoje, 05 de março de 2008, Catende bate o recorde de 18


anos e alcança a produção de 1 MILHÃO de sacas de açúcar.
É um momento de alegria e de esperanças. É momento de
agradecer a Deus por tudo de bom que tem feito pelos traba-
lhadores e trabalhadoras de Catende, animando a cada um e
alimentando o espírito coletivo e solidário de todos. É mo-
mento de agradecer aos parceiros que sempre acreditaram e
apoiaram este projeto. Mas é especialmente aos trabalhado-
res do campo e da indústria a quem se pode atribuir e dedicar
esta grande vitória. É fruto do trabalho e da união de cada um
e do trabalho em equipe e em mutirão. Fonte: fetape.org

Catende faz a melhor safra dos últimos 18 anos. Vai moer cerca de 650 mil toneladas de cana, e produzir
1 milhão e 200 mil sacas de açúcar. Desta forma gera trabalho e renda para as famílias do campo e da
indústria, bem como para toda esta Região. Da parte dos trabalhadores e suas lideranças, todo esforço
foi feito para aumentar a produção e a qualidade do produto. Esta seria a grande safra de Catende, caso
os preços do açúcar e do melaço não tivessem caindo tanto. O que cabe ao projeto fazer, nós fizemos.
Quanto ao preço do açúcar, trata-se do mercado nacional e internacional.

Neste momento, queremos compartilhar esta alegria com as famílias e autoridades de Catende, Jaquei-
ra, Palmares, Água Preta e Xexéu.

Em nome da Cooperativa Catende Harmonia, dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais, das Associações e
da Comissão de Fábrica, agradecemos.
Catende, 05 de março de 2008.

Engenho Catende s/n° - Centro - CEP: 55400-000 -


Catende. Pernambuco
Tel: (81) 3673-1134 Fax: (81) 3673-1221.
Texto extraído de: http://www.catendeharmonia.
com.br/ - Acesso em: 22 set.2008.

Algumas Atividades

? Qual as diferenças entre a experiência Catende-


Harmonia e as empresas tradicionais?

? Que contribuições esta experiência oferece


para a agricultura familiar? O que a gente pode
aprender a partir dela?

? Que princípios e valores estão presentes?

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Texto 24
Mulheres, Soberania Alimentar
e Convivência com o Semi-Árido

Conceição Dantas

Nos anos 60, a problemática social da alimentação em nível internacional era discutida apenas em
situações extremas: em escassez de alimentação, em caso de guerra, catástrofe, fome. O conceito de
segurança alimentar assegurava alimentação das pessoas sem nenhuma preocupação com a cultura
alimentar dos povos e nações. Foi baseado neste conceito que, em 1960, com a premissa de ajudas ali-
mentares internacionais, impuseram-se hábitos alimentares, como é o caso do leite em pó e o trigo.
Hoje, vimos os exemplos dos alimentos transgênicos, e a população pobre, mais uma vez, serve de
cobaia para experiências das grandes corporações internacionais. Um exemplo é a distribuição de milho
geneticamente modificado com a argumentação de reduzir a fome no mundo.
Mesmo com uma evolução do conceito de segurança alimentar e sua utilização por órgãos governamen-
tais, é visível seu foco na compra de alimentos e no direito individual.

O conceito de segurança alimentar é visto como o direito de as pessoas alimentarem-se em todos os


momentos, ter uma alimentação que seja suficiente, segura, e que atenda a necessidades nutricionais e
preferências alimentares, de modo a propiciar vida ativa e saudável (FAO, 1997). Segundo a definição da
Política Nacional de Alimentação e Nutrição (PNAN), segurança alimentar é a garantia de que as famílias
tenham acesso regular e permanente a conjunto básico de alimentos em quantidade e qualidade signifi-
cantes para atender aos requerimentos nutricionais (Ministério da Saúde, 2003).
Em 1996, a via campesina propôs o princípio de soberania alimentar como alternativa às políticas neo-
liberais, as políticas do livre comércio que tratavam a agricultura como mercadoria para acumulação de
capital. A soberania alimentar é considerada pelas camponesas e pelo camponês uma ferramenta de
luta que considera a alimentação como um direito social.
Soberania alimentar é o direito dos povos de decidir sobre as suas políticas agrícolas e alimentares,
de defender sua cultura alimentar da hegemonia capitalista que tende a transformar a agricultura em
mercadoria. É o direito de produzir, trocar e consumir alimento de acordo com seus costumes, livre de
qualquer pressão seja política militar ou econômica (Biodiversidad, outubro de 2006).
O direito à alimentação não só tem dimensões sociais, mas também individuais. É no interior das famí-
lias que as desigualdades são cristalizadas, a comida existente não é dividida igualmente entre os mem-
bros da família. Os preconceitos de que as meninas e as mulheres não fazem trabalho pesado e são mais
frágeis é a justificativa para comerem as menores quantidades e as piores partes dos alimentos (Marcha
Mundial das Mulheres).
Garantir o princípio da soberania alimentar passa por produzir em consonância com as características
climáticas da região; priorizar a produção e o comércio local e a cultura de subsistência; passa por res-
gatar a cultura camponesa nas suas dimensões da diversidade e respeito à natureza. Passa também por
visibilizar o trabalho das mulheres na produção, preparação e distribuição dos alimentos deixando para
traz a divisão sexual do trabalho e recolocar a sustentabilidade da vida humana como centro da econo-
mia e da atividade das pessoas. A alimentação é parte fundamental desse processo.
As mulheres camponesas, quando falam das tarefas domésticas e do não-reconhecimento do seu tra-

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Fonte: fomezero.gov.br - Fundação Palmares

balho como camponesa, falam de muito trabalho no preparo dos alimentos, elas falam da necessidade
de mais pessoas nesse preparo. E citam como exemplo a preparação da pamonha e da canjica, comidas
típicas, principalmente nos festejos juninos, que necessita de muitas horas de trabalho, pois não tem
divisão das tarefas.
Dito isso, queremos reforçar a idéia de que a construção do princípio de soberania alimentar não é tão-
somente resgatar a cultura camponesa, é mais do que isso, é construir uma outra relação entre homens
e mulheres que não reine o autoritarismo masculino do passado e do presente; e que esse velho/novo
princípio não traga consigo o reforço na divisão sexual do trabalho que tanto oprime as mulheres do
campo e da cidade. Reafirmamos cotidianamente que não queremos comprar nem tampouco vender
o aprendizado do cuidado e da preparação dos alimentos, queremos compartilhar com os membros da
família e com a sociedade.

Algumas Atividades

? Há pessoas que passam fome, em sua comunidade, município ou território?

? O que você entende por segurança alimentar?

? Qual a contribuição que a agricultura familiar dá (ou pode dar) para a segurança alimentar e a
melhor distribuição dos alimentos?

? Qual sua opinião sobre os fragmentos:


a) “A soberania alimentar é considerada pelas camponesas e pelo camponês uma ferramenta
de luta que considera a alimentação como um direito social”.
b) “Os preconceitos de que as meninas e as mulheres não fazem trabalho pesado e são mais
frágeis é a justificativa para comerem as menores quantidades e as piores partes dos alimentos”.

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Fonte: undergrowth.org
Texto 25
Declaração de Nyélény
Foro Mundial pela Soberania Alimentar Disponível em: http://www.wrm.
org.uy/temas/mujer/Declara-
cion_Mujeres_Nyeleni_PR.html
Acesso em: 15 out. 2008.

Nyéléni, Selingue, Mali

Quarta-feira 28 de fevereiro de 2007


Nós, mais de 500 representantes de mais de 80 países, de organizações cam-
ponesas, agricultores familiares, pescadores tradicionais, povos indígenas,
povos sem terra, trabalhadores rurais, migrantes, pastores, comunidades
florestais, mulheres, jovens, crianças, consumidores, movimentos ecologis-
tas e urbanos, nos reunimos com o povo de Nyélény em Selingue, Mali, para
fortalecer o movimento global pela soberania alimentar. O fizemos, tijolo por
tijolo, vivendo em cabanas construídas à mão, segundo a tradição local e co-
mendo a alimentação produzida e preparada pela comunidade de Selingue...
Damos a nosso trabalho o nome de Nyeleni, como homenagem, inspirados
na legendária camponesa maliense que cultivou e alimentou sua gente.
Fonte: www.cadtm.org

A maioria de nós somos produtores e produtoras de alimentos e estamos


dispostos, somos capazes e temos a vontade de alimentar a todos os povos
do mundo. Nossa herança como produtores de alimentos é fundamental
para o futuro da humanidade. Este particularmente é o caso de mulheres e
povos indígenas que são criadores de conhecimento ancestrais sobre ali-
mentos e agricultura, e que são desvalorizados. Para esta herança e esta
capacidade de produzir alimentos nutritivos, de qualidade e em abundancia,
se veem ameaçadas pelo neoliberalismo e o capital global. Frente a isto, a
soberania alimentar nos aporta à esperança e ao poder para conservar, recu-
perar e desenvolver nossos conhecimentos e nossa capacidade de produzir
alimentos.

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A soberania alimentar é um direito dos povos a alimentos nutritivos e


culturalmente adequados, acessíveis, produzidos de forma sustentável
e ecológica, e seu direito de decidir seu próprio sistema alimentício e
produtivo. Isto coloca aqueles que produzem, distribuem e consomem
alimentos no coração dos sistemas e políticas alimentárias, por cima das
exigências dos mercados e das empresas. Defendendo os interesses das
futuras gerações. Nos oferece uma estratégia para resistir e desmantelar o
comércio livre e corporativo e o regime alimentício atual, e para encauzar
Encauzar -
os sistemas alimentários agrícolas, pastoris e de pesca para a prioridade
dar direção
das economias locais e os mercados locais e nacionais, e outorga o poder
a uma causa
aos camponeses e à agricultura familiar, a pesca artesanal e o pastoreio
ou corrente
tradicional, e coloca a produção alimentícia, a distribuição e o consumo
(Diccionario
sobre as bases da sustentabilidade meio ambiente, social e econômica.
de la lengua
A soberania alimentar promove o comércio transparente, que garante o
española ©
ingresso digno para todos os povos, e os direitos dos consumidores para
2005 España
controlarem sua própria alimentação e nutrição. Garante que os direitos
- Calpe S.A.,
de acesso e a gestão de nossa terra, de nossos territórios, nossas águas,
Madrid).
nossas sementes, nossos animais e a biodiversidade, estejam nas mãos
daqueles que produzimos os alimentos. A soberania alimentar supõe
novas relações sociais livres de opressão e desigualdades entre homens e
mulheres, grupos raciais, classes sociais e gerações.
Em Nyéléni, graças a muitos debates e à intensa interação, estivemos
aprofundando em nosso conceito de soberania alimentar, e temos inter-
cambiado acerca da realidade das lutas de nossos respectivos movimentos
para conservar a autonomia e recuperar nosso poder. Agora entendemos
melhor os instrumentos que necessitamos para criar um movimento e
promover nossa visão coletiva.

Em prol de quem lutamos?

Um mundo em que...

... todos os povos, nações e estados possam decidir seus próprios sistemas
alimentários e políticas que proporcionem a cada um de nós alimentos de
qualidade, adequados, acessíveis, nutritivos e culturalmente apropriados.

... se reconheçam e respeitem os direitos e o papel das mulheres na pro-


dução de alimentos e a representação das mulheres em todas as instân-
cias de tomada de decisões.

... todos os povos de cada um de nossos países possam viver com a dig-
nidade de seu trabalho, e possam ter a oportunidade de viver em seus
locais de origem;

... a soberania alimentar seja considerada um direito humano básico,


reconhecido e respeitado pelas comunidades, os povos, os estados e as
instituições internacionais;

... possamos conservar e habilitar as comunidades locais, zonas pesquei-


ras, paisagens e os alimentos tradicionais, baseando-se em uma gestão
sustentável da terra, do solo, da água, das sementes, dos animais e da

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biodiversidade;

... valoremos, reconheçamos e respeitemos a diversidade de nosso conhecimento, alimenta-


ção, línguas e nossas culturas tradicionais, e o modo em que nos organizamos e nos expres-
samos;

... exista uma verdadeira reforma agrária integral, que garanta aos camponeses pleno direito
sobre a terra, defendam e recuperem os territórios indígenas, garanta às comunidades pes-
queiras o acesso e o controle das zonas de pesca e ecossistemas, que reconheça o acesso e
o controle das terras e das rotas de migração de pastoreio, garanta empregos dignos com
salários justos e direitos trabalhistas para todos os trabalhadores, e um futuro para os jo-
vens do campo, onde as reformas agrárias revitalizem a interdependência entre produtores
e consumidores, garantam a sobrevivência da comunidade, a justiça econômica e social, a
sustentabilidade ecológica e o respeito pela autonomia local e a governança com igualda-
de de direitos para as mulheres e os homens... onde se garanta o direito aos territórios e a
autodeterminação de nossos povos;

... compartilhamos nossos territórios em paz e de maneira justa entre nossos povos, seja-
mos nós camponeses, comunidades indígenas, pescadores artesanais, pastores nômades e
outros;

... em se vivendo catástrofes naturais e provocadas pelas pessoas, e situações posteriores


aos conflitos, a soberania alimentar atue como uma autêntica garantia que fortaleza os
esforços de recuperação local e diminua o impacto negativo. Em que se tenha presente que
as comunidades afetadas desamparadas não são incapazes, e onde uma sólida organização
local para a recuperação por meios próprios constitua a chave para a recuperação;

... se defenda o poder dos povos para decidir sobre suas heranças materiais, naturais e espi-
rituais.

Contra o que lutamos?

O imperialismo, o neoliberalismo, o neocolonialismo e o patriarcado, e todo sistema que


empobreça a vida, os recursos, os ecossistemas e os agentes que os promovem, como as
instituições financeiras internacionais, a Organização Mundial do Comércio, os acordos de
livre comércio, as corporações multinacionais, os governos quer que prejudicam a seus
povos;
O dumping de alimentos a preços abaixo do custo de produção na economia global;
O controle de nossos alimentos e de nossos sistemas agrícolas nas mãos de empresas que
privilegiam os ganhos em detrimento das pessoas, da sua saúde e do meio ambiente;
Tecnologias e práticas que desgastam nossa capacidade de produção alimentária no futuro,
danificam o meio ambiente e põem em perigo nossa saúde. Estas últimas incluem os cul-
tivos e animais transgênicos, tecnologia terminator, aquicultura industrial e práticas pes-
queiras destrutivas, a chamada “revolução branca” e as práticas industriais no setor lácteo
[leiteiro], as chamadas “novas e velhas revoluções verdes”, e os “desertos verdes” dos
monocultivos e agrocombustíveis industriais e outras plantações;
A privatização e a mercantilização dos alimentos, serviços básicos públicos, conhecimentos,
terras, águas, sementes, animais e nosso patrimônio natural;
Projetos/modelos de desenvolvimento e indústrias de extração que despejam, expulsam a
população e destroem nosso meio ambiente e nossa herança natural;
Guerras, conflitos, ocupações, bloqueios econômicos, fome, despejos forçados e confisca-

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ção de suas terras, e todas as forças e governos que os provocam e os apóiam; e os pro-
gramas de reconstrução após conflitos e catástrofes que destroem nosso meio ambiente
e capacidades;
A criminalização de todos aqueles que lutam por proteger e defender nossos direitos;
A ajuda alimentícia que encobre o dumping, introduz OGMs nas comunidades locais e os
sistemas alimentários e cria novos padrões de colonialismo;
A internacionalização e a globalização dos valores paternalistas e patriarcais que margina-
lizam as mulheres e as diversas comunidades agrícolas, indígenas, pastoris e pesqueiras
no mundo.

É hora de Soberania Alimentar!!

Barragem Selingue

O Selingue é uma cidade localizada no interior


do Mali. O Mali é um país africano limitado
a oeste e norte pela Mauritânia, a norte pela
Argélia, a leste pelo Níger, a sul pelo Burkina
Faso, pela Costa do Marfim e pela Guiné e a
oeste pelo Senegal. A capital é Bamako.

Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Mali.
Acesso em: 13 out. 2008.
Fonte: www.schoolnation.org

Algumas Atividades

? Pesquisar no mapa, ou globo, a localização e as características da vida na


região de Mali e no continente africano. Pesquisar, também, se entre os
africanos que vieram para a América Latina, alguns são provenientes dessa
região.

? O que você compreende pelo enunciado: “Nossa herança como produtores


de alimentos é fundamental para o futuro da humanidade. Este particular-
mente é o caso de mulheres e povos indígenas que são criadores de conheci-
mento ancestrais sobre alimentos e agricultura, e que são desvalorizados”.

? Enquanto jovem do campo em prol de que e contra o que você luta?

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98

Texto 26
Projeto Criação de Abelhas
Disponível
Centro de Pesquisa e Assessoria-ESPLAR em: http://
www.esplar.
org.br/proje-
tos/abelhas.
O Projeto Criação de Abelhas tem como obje- htm, Acesso
tivo incentivar e desenvolver a criação de abe- em: 4 set.
lhas por agricultores, agricultoras e familiares 2008.
como uma atividade de produção de alimento,
remédio, fonte de renda e preservação am-
biental.

Fonte Embrapa

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99

A ESPLAR é uma organização não governamental, sem fins lucrativos fun-


dada em 1974, que atua no semi-árido cearense, desenvolvendo ativida-
des voltadas para a agroecologia, a serviço da Agricultura Familiar, e está
trabalhando com pequenos grupos de apicultores(as) a criação de abelhas
africanizadas, através do acompanhamento e do apoio na comercialização
do mel.
Em escala experimental está sendo desenvolvida a criação de abelhas
nativas. Essa atividade está na fase de mapeamento de criadores(as) e de
organização de grupos de mulheres com os quais trabalharemos a criação
de abelhas sem ferrão.
O Projeto articula 23 grupos de agricultores/a, familiares através da Rede
Abelha Ceará. A Rede Abelha Ceará é integrada à Rede Abelha Nordeste
que já existe há 14 anos, e tem contato direto com grupos de apicultores.
A Rede Abelha têm o principal objetivo de criar espaços para a troca de
experiências, discussões sobre comercialização e produção do mel.

Fonte Embrapa

Algumas Atividades

? O que são abelhas africanizadas?

? A apicultura é desenvolvida em seu estabelecimento familiar ou em sua


comunidade? Com quais espécies de abelhas se trabalha?

? Como a apicultura chegou à comunidade? Como ela é realizada? Ela acon-


tece de forma isolada ou em grupal?

? Quem são os consumidores dessa produção?

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100

Texto 27
Programa Nossa Primeira Terra
Equipe Estadual do Projeto Crédito Fundiário-CE

Área de Atuação do Projeto

A área de atuação do Projeto abrange todo o Estado do Ceará,


com exceção dos municípios de Fortaleza, Maracanaú e Eusébio
por contarem com população rural insignificante e possuírem
uma vocação econômica com potencial para o desenvolvimento
industrial.

Quem Pode Participar

O projeto Crédito Fundiário tem como público-meta os traba-


lhadores rurais sem terra e os que possuem pouca terra.
Já o Projeto Nossa Primeira Terra, foi criado para atender a de-
manda de jovens sem terra, filhos de agricultores, que desejam
permanecer no meio rural e investir em uma propriedade, e te-
nham idade entre 18 anos (maioridade civil) e 28 anos, podendo
ter até 30% de membros com idade de até 32 anos. Podem ser
beneficiadas pelo projeto as associações de jovens que, além
das condições de elegibilidade previstas no Manual de Opera-
ções, atendam os seguintes requisitos:

Requisitos para Participação

• Ser sócio de associação legalmente constituída;


• Ser trabalhador rural sem terra (assalariado permanente ou
temporário, diarista, etc);
• Pequenos produtores rurais com acesso precário a terra (ar-
rendatários, parceiros, meeiros, agregados, posseiros, etc) ou
proprietário de terra caracterizada como minifúndio;
• Ter tradição na atividade agropecuária, sendo esta sua princi-
pal atividade;
• Dedicar pelo menos 80% do tempo de trabalho nas atividades
agropecuárias no imóvel;
• Ter renda bruta familiar anual inferior a R$ 5.800,00 e patri-
mônio familiar inferior a R$ 10.000,00;
• Não sejam funcionários em órgãos públicos, autarquias, ór-
gãos paraestatais federais, estaduais, municipais, ou não este-
jam investidos de funções parafiscais;
• Não tenham sido beneficiários de quaisquer outros programas
de reforma agrária (federal, estadual, municipal), bem como seu
cônjuge;

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101

• Não seja promitente comprador ou possuidor de direito de


ação e herança em imóvel rural com área superior à de uma
propriedade familiar;
• Estejam dispostos a assumir o compromisso do financiamen-
to e posteriormente pagar, o empréstimo para a aquisição de
terras e de contribuir com 10% dos custos dos investimentos co-
munitários complementares (ver condições de financiamento);
• Possa apresentar um ou mais proprietários dispostos a ven-
der-lhe o imóvel que deseja adquirir;
• Manifestar a intenção de adquirir por compra, via sua Asso-
ciação, um imóvel rural que lhe permita desenvolver atividades
produtivas;
• Os jovens e as mulheres estão incluídos em todas estas ca-
tegorias, bem como os idosos, exceto os funcionários públicos
inativos e os trabalhadores de mais de 65 anos.
• Será vedado o financiamento para agricultores que já tenham
sido beneficiados pela Reforma Agrária Solidária – Cédula da
Terra, ou por qualquer outro Programa Governamental com ob-
jetivos e características semelhantes, mesmo que seus débitos
tenham sido liquidados.

Importante! - Como esse


é um dos programas do
Governo Federal, havendo
possibilidade de acesso à
internet, pode-se consul-
tar a seção “crédito fundi-
ário” na página do Minis-
tério do Desenvolvimento
Agrário (http://www.
mda.gov.br/portal/), para
obter informações com-
plementares e atualizadas,
incluindo orientações e
prazos para apresentação
de projetos.
Fonte: www.maracanau.ce.gov.br

Algumas Atividades

? Qual o projeto de Crédito Fundiário existente em seu estado destinado


a jovens agricultoras e agricultores?

? Como está organizado?

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102

Texto 28
Centro Sabiá: Experiência do Espaço Agroecológico
Marleide lrineu IRINEU, M.Assessora da Equipe
Técnica do Centro de Desenvol-
Paula Reis Melo vimento Agroecológico Sabiá;
Sandra Rejane MELO, P. Jornalista do Centro de
Desenvolvimento Agroecológico
Sabiá; REJANE, S. Agricultora de
Santa Cruz da Baixa Verde/ (PE),
difusora da agricultura agroflo-
restal e membro do Movimento
das Mulheres Trabalhadoras
Rurais - MMTR.

O Centro de Desenvolvimento Agroecológico Sabiá é uma


Organização Não-Governamental (ONG) que existe há
sete anos. Sua sede fica no Recife/PE. Trabalha em expe-
riências agroflorestais com agricultores dos Estados de
Pernambuco, Paraíba e Alagoas. Em Pernambuco, atua
nos municípios de Abreu e Lima, Bom Jardim, Santa Cruz
da Baixa Verde, Triunfo e São José do Belmonte. Na Para-
íba, microrregião de Catolé do Rocha. Em Alagoas, atua
no município de União dos Palmares em parceria com a
Central Estadual das Associações dos Assentados e dos
Pequenos Agricultores do Estado de Alagoas (CEAPA).
Fonte: centrosabia.org.com.br

Todas as áreas acompanhadas são de propriedades dos


agricultores familiares, que possuem de 2 a 5 hectares.
As experiências de agroecologia são desenvolvidas nas
propriedades desses agricultores. Ao todo são cerca de
300 a 350 propriedades. Através de um levantamento, foi
detectado que existem 1000 agricultores trabalhando in-
diretamente com agrofloresta. Eles tomam conhecimento
do trabalho através do vizinho que está sendo assessora-
do ou de leitura das cartilhas elaboradas pelo Sabiá.

Fonte: centrosabia.org.com.br

Na agrofloresta, não se têm elementos de fora, adubo,


entre outros. São as próprias plantas do roçado que
sustentam a produção. Existe um processo na cobertura
orgânica, onde as próprias árvores, quando são podadas,
dão proteção ao solo.

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103

Sabemos que a maioria das terras está descoberta, então


há um processo de recuperação através das plantas. Tam-
bém não adianta importar plantas que não sejam da região,
porque elas não se adaptam. Elas não terão forças para sair
do solo e ir em frente. Trabalhamos o sistema agroflorestal
conforme a realidade de cada região. Se em determinada re-
gião é o guandu que serve para melhorar o solo, então ele é
plantado. Não adianta pôr veneno químico, porque ele mata
a formiga, mas ela volta. Tem que ser cultura que se adapte.

A agroecologia é um processo de mudança cultural. Ao visitar


os sítios, percebe-se como ela mudou a vida dos agricultores,
que antes produziam utilizando o agrotóxico. Quando se usa
agrotóxico no primeiro e segundo ano, tudo caminha bem
com a produção. No terceiro, a produção já cai um pouco, até
o momento em que a terra não mais produz. São histórias
que se repetem nesse sentido, não só isso, mas a vivência de
Fonte: centrosabia.org.com.br
cada pessoa com a natureza, onde deixa de ver a terra como
um bem de exploração do ser vivo, para se integrar à natu-
reza e não apenas destruí-la. Sente-se até mais valorizado
como agricultor, pois não está destruindo.

A agroecologia é também um indicador de mudança social,


pois, muitos filhos de agricultores que sonhavam em fazer
medicina ou outros cursos, optaram por fazer a Escola Técni-
ca Agrícola, vendo que é um caminho viável.
O Centro Sabiá trabalha em parceria com associações, movi-
mentos sociais, sindicatos ou entidades, com a metodologia
participativa. Existe todo um diagnóstico local, com a par-
ticipação local. Então, os agricultores são atores para diag-
nosticar sua realidade, levantando seus objetivos para com a
agrofloresta.
Fonte: centrosabia.org.com.br

Trabalhamos com agricultores que estejam motivados em re-


alizar a experiência agroecológica. Recebemos cartas e mar-
camos uma visita aos agricultores, até mesmo para procurar
uma parceria e implantar uma agrofloresta, vai depender do
objetivo da entidade que procura o Centro Sabiá.
O Sabiá é composto por 12 membros, que além de acom-
panharem o trabalho da produção agrícola, preparam os
formadores, entre os agricultores que começam a fazer as
experiências e a perceber qual é a proposta agroflorestal,
desenvolvendo na prática e adotando o sistema agroflorestal.
Assim, passam a ser difusores - tem-se os agricultores difu-
sores nos municípios para acompanhar determinado número
de famílias. Essa é a proposta, o paradigma que queremos
atingir.

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104

Estrutura do Espaço Agroecológico

A estrutura do Espaço Agroecológico é formada por uma coordenação, que se


reúne semanalmente, logo após a feira. Mensalmente, existe uma reunião só
com esse grupo de coordenação, e bimestralmente, uma assembléia geral, onde
todos os agricultores se reúnem. As assembléias são realizadas rotativamente
nos sítios dos agricultores, em Bom Jardim, Abreu e Lima, Chã Grande e em
Gravatá. Essa é uma forma para que todos possam conhecer as experiências
mútuas, integrando as informações e sabendo da procedência do produto que
comercializam.

A definição dos preços é feita através de uma pesquisa nos supermercados e em


feiras livres. O levantamento é repassado para o agricultor poder definir o preço
dentro do limite sugerido: preço mínimo e preço máximo. Permite, inclusive,
que entre eles haja talvez uma pequena diferença, para que cada um analise na
realidade o preço que pode colocar em seus produtos. Em geral, eles têm a pre-
ocupação de colocar preços, no máximo, igual aos supermercados que vendem
produtos convencionais (com agrotóxicos), porque os orgânicos, nos supermer-
cados, são três ou quatro vezes mais caros.

Turma do Saberes da Terra em atividade na área coletiva de experimentação em agroecologia

Existe uma razão para isso: é que as indústrias agrícolas fazem um lobby muito
grande para que esse modelo de agricultura não se torne um paradigma mais
forte. Não há interesse em produzir orgânicos ou agroecológicos como mode-
lo de agricultura familiar. Há a defesa, sempre, da produção com agrotóxicos.
Inclusive é uma filosofia do Espaço Agroecológico desmistificar que o produto
agroecológico tem que ser três ou quatro vezes mais caro, porque na verdade, a
estratégia das empresas é a defesa dos supermercados (os grandes comercian-
tes). Os preços da feira agroecológica, normalmente, são iguais ou mais baixos.
Mas, tem-se sempre essa preocupação de não ser absurdo ou caro.

É realizado freqüentemente o intercâmbio entre os agricultores: o grupo de


Bom Jardim compra a produção de Chã Grande e vice-versa. Também trazem

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105

outros produtos de outros roçados, exemplo: Bom Jardim traz produtos de lá


mesmo para vender. Entre eles sempre existe a compra. Não há o privilégio de
se reservar produtos para pessoas. Quem chega cedo, compra, não há essa cul-
tura de dar privilégio a outros.

A luta hoje é que haja mais produção, garantindo, inclusive, mais espaço e mais
mercado para toda a população. O grande desafio é que não existe produção
suficiente para atender a todos. Por exemplo, no informativo do Espaço Agro-
ecológico, tem um recado que pede aos agricultores para se prepararem para
atender à demanda. Por exemplo, a feira estava tendo muita procura por bró-
colis e cenoura, produtos que acabavam muito cedo. Então, esse informativo é
para dar uma justificativa. É este o aprendizado, é a experiência prática que dá
a eles a condição de planejar e organizar sua produção. Têm ocorrido cursos de
treinamento, de capacitação, tanto de planejamento da propriedade para aten-
der à demanda, como atendimento ao cliente, tendo em vista a preocupação
de uma comunicação verbal ou não-verbal. Busca-se, também, a valorização da
produção da agricultura familiar através do visual.
Fonte: centrosabia.org.com.br

Quanto aos produtos, que são os mesmos da feira tradicional, no folheto fala-
se do tipo de produto que é levado. Há mudas, plantas ornamentais, produtos
limpos que nas feiras tradicionais levam agrotóxicos. O abacaxi é menor, mas
é doce, você percebe a diferença quando parte um abacaxi com veneno e um
orgânico.
Fonte: centrosabia.org.com.br

O feijão de corda vai ser sempre feijão, mas olhando o de determinada região,
é completamente envenenado, pois sabemos que, em determinada Região do
Sertão, só se produz com bastante veneno. Nossos produtos merecem destaque
porque são produzidos sem veneno. O tomate que é produzido com veneno é
enorme, o produzido no nosso roçado é menor, o sabor é diferente. Quanto à

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106

rapadura da feira tradicional, tem uma cor mais clara porque são usados produ-
tos químicos. A rapadura orgânica tem a cor mais escura, o seu sabor é diferen-
te. Já se manifesta até uma certa perseguição, pois isso incomoda. Dizem que os
produtos agroecológicos são mais caros, isso deve incomodar, pois eles sabem
que os produtos agroecológicos são bons.

Os produtos do Espaço oferecem uma forma sustentável de agricultura e de


respeito. É uma forma de respeito à agricultura familiar. As empresas percebem
que o capital está passando através da comercialização de produtos orgânicos e
começam a fazer também. Questionamos se realmente é um produto agroeco-
lógico do ponto de vista da sustentabilidade, pois se uma empresa oferece uma
galinha como caipira e ela come ração, até que ponto é agroecológico? Então, há
a dimensão mesmo de princípio. Será que essas empresas estão sendo sustentá-
veis para produzir orgânico? O Espaço Agroecológico, junto com as entidades
organizadoras, está oferecendo produtos orgânicos. Está oferecendo também,
uma opção individual para cada consumidor valorizar e contribuir para tornar
aquele modelo de agricultura familiar num paradigma.
Foto Dirceu Tavares

No supermercado temos o preço do orgânico mais caro, é justamente para in-


viabilizar a questão do nosso produto. Então, diante disso, qual a perspectiva da
criação? Existe um direcionamento, uma cadeia produtiva que tem que criar do
gado à galinha para se fazer isso. Nessas regiões, quais são as coisas que esta-
mos produzindo? A pergunta que eu estou fazendo é: qual a questão da recu-
peração do solo pela compostagem orgânica que está levando? Porque quando
criamos o gado com herbicida, esse solo vai se contaminar do mesmo jeito.

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107

Fonte: centrosabia.org.br

O Espaço Agroecológico proporcionou, principalmente, para os produtores de


Bom Jardim, sua própria organização, fundando em 1999, a AGROFLOR. É uma
associação de agricultores agroflorestais de Bom Jardim, constituída em torno
de doze famílias.
Existe a capacitação, oficina de atendimento ao cliente, planejamento da produ-
ção, cursos de culinária e encontros de intercâmbio. Tudo isso acontece na feira,
existe também, uma integração na relação cliente/agricultor que é um vínculo
de amizade, na qual a informação do cliente é muito importante para melhorar
a apresentação do espaço criando uma necessidade de capacitação do próprio
agricultor.

As mulheres envolvidas no Espaço Agroecológico buscam mais capacitação na


área de beneficiamento, para trazer os produtos beneficiados de suas proprie-
dades.

Em 1998, a imprensa já estava procurando momentos de conhecer e divulgar o


Espaço. Então, nesse ano, o pessoal sentiu a necessidade de criar uma logomar-
ca para o Espaço, porque achava importante ter uma identificação.
Em 1999 o Espaço teve uma experiência interessante:as barracas iniciais surgi-
ram com o incentivo do Centro Sabiá, através de um fundo rotativo. Os agricul-
tores adquiriram essas barracas, em princípio, com a ajuda desse fundo. Criou-
se então, outro fundo rotativo da Coordenação. Nesse, semanalmente, cada um
contribuía com quanto pudesse. Exemplo: R$ 1,00 a R$ 5,00 dependendo do
faturamento do dia, para custear as barracas. Ou seja, pagar ao Centro Sabiá as
barracas que eles adquiriram. Com o passar do tempo, foi visto que precisavam
de um espaço para eles, pois, já estavam trazendo mais produtos e uma barraca
estava sendo dividida para dois agricultores, assim foi criado o crédito solidário.

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108

O Crédito Solidário vale R$ 5,00 (cinco reais). O consumidor


adquire esse crédito antecipando o pagamento de suas com-
pras futuras, tendo também, uma data de validade. O crédito
solidário foi muito positivo, pois incentivou não só uma questão
econômica simplesmente, mas a questão da solidariedade entre
o cliente e o agricultor. Alguns agricultores conseguiram em um
dia arrecadar R$ 90,00 (noventa reais), o que facilitou adquirir
suas próprias barracas.

O Espaço Agroecológico estimulou mais a produção. Ou seja, os


agricultores queriam produzir e investir mais nas suas proprie-
dades, trazendo mais produtos para a feira. Também contribuiu
para melhorar a auto-estima. Hoje, alguns agricultores estão
sentindo orgulho em dizer: eu sou agricultor!

Não existe a necessidade de se ter o atravessador: a produção é


vendida diretamente ao consumidor. Outro aspecto positivo é a
participação da família tanto na comercialização como no bene-
ficiamento com a participação das mulheres e dos jovens. Exis-
tem grupos onde toda a família participa aos sábados da feira. O
estímulo dessa experiência no Recife proporcionou outras idéias
de experiências em outros lugares, como é o caso do Sertão.

A feira do Sertão surgiu através da experiência dos agricultores


de Bom Jardim e Abreu e Lima. Mas, foi a partir do trabalho
agroecológico que estão fazendo na região e também dos pro-
dutos que eles tinham em suas áreas que estavam excedendo. O
que sobrava da produção deixavam ao sol ou mesmo o vizinho
levar, produtos que terminavam não tendo um retorno econô-
mico.

A primeira feira surgiu na Semana do Meio Ambiente, no dia 9


julho de 2000, em Serra Talhada. Essa feira conta com o apoio
de um conjunto de entidades parceiras, juntamente com os agri-
cultores na realização desse trabalho, entre elas estão: CECOR,
UFPR de Serra Talhada e o Centro Sabiá. Lá, há produtos que
são oferecidos aos consumidores como doce de laranja da serra
que muitas pessoas conhecem e que antes na região se perdiam
100%, pois achavam que não tinha utilidade.

Durante um seminário que aconteceu, aprenderam a fazer doce


de laranja, se aperfeiçoaram no doce de leite, na geléia de cajá,
em licores das várias frutas que se tem na região, que antes
eram perdidas. Exemplo: jatobá, a própria cajá que antes se jo-
gava fora, pois, as pessoas não gostam muito de as consumir in
natura, agora com o beneficiamento vão utilizá-las melhor.

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109

O desafio do Espaço Agroecológico é não ter espaço próprio


onde se possa afirmar que a feira pode funcionar por um bom
tempo. Hoje, funciona no Bairro das Graças, que é um bairro
de classe média alta. Seria interessante que toda a população
tivesse acesso a essa feira, a esse alimento saudável e com uma
qualidade de vida melhor.

O outro desafio é o aumento da diversidade dos produtos para


suprir a grande demanda. Existe também o problema da siste-
matização da experiência do Espaço que não está pronta e já
existe material bruto produzido. Todos os agricultores preen-
chem fichas da produção que trazem para feira, o quanto ga-
nhou com aquilo, o quanto vendeu e qual seu lucro.
In: Escola Sindical da
Cut no Nordeste. DSS
e Economia Solidária:
debate conceitual e
relato de experiên-
cias. Recife: Bagaço,
2000, p. 57-66.

Algumas Atividades

? Como está a discussão-ação sobre Agroecologia em seu estabeleci-


mento familiar, comunidade, município?

? Que tal fazer um croqui da propriedade indicando o que há de práticas


agroecológicas, que potenciais existem e, das práticas convencionais
adotadas, quais precisam e podem ser corrigidas/modificadas?

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110

Texto 29
Experiência Estruturante da Cooperativa
de Produção dos Jovens da Região do Sisal
Cooperjovens - Ba Este texto foi elaborado pela
Cooperativa dos Jovens do Sisal,
Agência de Desenvolvimento
Solidário- ADS-BA e Incubadora
Caracterização da Região Nordeste da Bahia
Tecnológica de Cooperativas
Populares da Universidade do
Uma boa parte do território baiano está contida na região semi-árida. A
Estado da Bahia, a partir da
região econômica Nordeste da Bahia, conhecida como “região sisaleira”,
transcrição da fala de Antônio
está inserida totalmente no semi-árido. Nesta área, as chuvas são mal
Marcos, diretor administrativo
distribuídas ao longo do ano, fato que ocasiona o fenômeno climático das
da Cooperjovens, quando de sua
secas. A vegetação de caatinga predomina nessa parte do Estado, que
participação no Seminário de DSS
tem uma extensão de 17 mil km² e uma população que fica em torno de
da Escola Sindical Nordeste, em
500 mil habitantes. Mais de 60% da população aufere renda de até um
novembro de 2000. In: ESCOLA
salário mínimo.
SINDICAL DA CUT NO NORDESTE.
A grande concentração desta população é na zona rural, onde vivem 70%
DSS e Economia Solidária:debate
dos habitantes. A maior parte deles possui baixo grau de escolaridade,
conceitual e relato de experi-
com o analfabetismo chegando a 67% da população total. Esta região
ências. Recife: Bagaço, 2000, p.
apresenta, portanto, indicadores sociais e econômicos incompatíveis com
87-94.
os níveis de desenvolvimento humano minimamente desejáveis.

O Nordeste da Bahia é conhecido como “região sisaleira” devido ao


destaque como uma das principais produtoras de sisal no Estado, que é
o maior produtor nacional, e o Brasil, o maior produtor mundial. Deve-se
ressaltar que o sisal é uma das poucas culturas que se adequam ao clima
e solo locais, sendo um produto que tem longa tradição de cultivo no
Estado.
Na Bahia, o cultivo do sisal é desenvolvido em pequenas propriedades. O
seu beneficiamento é feito de modo artesanal, com grandes riscos para
a saúde dos trabalhadores e trabalhadoras em tal atividade. Freqüentes
são os acidentes do trabalho nesse tipo, que, historicamente, essa ativi-
dade tem gerado um verdadeiro exército de mutilados adultos e envolvi-
do um grande número de crianças, institucionalizando na região o traba-
lho infantil.

A região sofreu forte impacto na década de 60 com a crise da cultura do


sisal, quando surgiram, no mercado internacional, sucedâneos sintéticos
para as fibras vegetais. Essa crise intensificou ainda mais o êxodo rural
na região, principalmente, entre a geração jovem e adulta, motivada a
buscar alternativas de sobrevivência nos grandes centros.
É importante compreender a estrutura política da região, de um lado
grandes propriedades de terras - latifúndios; e do outro, pequenas parce-
las de terras - minifúndios. A cultura do sisal está inserida em uma es-
trutura agrária desigual, dentro de um modelo de desenvolvimento que
não atende às particularidades locais e de desenvolvimento endógeno,
promovidos a partir das potencialidades de recursos ambientais sustentá-

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111

veis e dos atores sociais envolvidos no processo.


A realidade contraditória da região se explicita em um grande parado-
xo: por um lado, um grande potencial de riquezas naturais e, de outro, a
estrutura socioeconômica desigual, fortalecida pelo discurso político da
elite regional, das limitações provocadas pelo fenômeno climático das
secas. Entretanto, a região é conhecida nacionalmente pela força dos seus
trabalhadores e trabalhadoras, não apenas nas suas respectivas ativida-
des produtivas (sisal, caprinocultura, artesanato, pedreiras, culturas de
subsistência, entre outras), mas pelo processo organizativo das associa-
ções comunitárias e dos sindicatos dos trabalhadores nos respectivos
municípios.
A luta desses trabalhadores e trabalhadoras está voltada para uma visão
de desenvolvimento local sustentável. O norte é a construção da cidada-
nia e da organização social, democratização do poder local e pelo desen-
volvimento do potencial e da capacidade de reter e reinvestir a riqueza
produzida com os recursos locais, de forma a respeitar os valores huma-
nos e ambientais.

O surgimento da Cooperjovens

Em dezembro de 1997, durante o primeiro Congresso Estadual dos Jovens


Rurais, ocorrido em Salvador, uma das questões mais debatidas foi o índi-
ce de desemprego naquele segmento. Mobilizados na busca de perspecti-
vas que segurassem os jovens nas suas regiões de origem, realizou-se, em
1999, o Congresso Regional, sediado em Monte Santo. Lá, deliberou-se
pela estruturação de uma experiência que viesse a gerar trabalho e renda
para os jovens do sisal.
Paralelo a isso estava sendo estruturada na Universidade do Estado da
Bahia (UNEB), a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares (ITCP).
A Incubadora tem como uma de suas ações, fomentar a organização de
pequenos agricultores da região para a produção de forma autogestioná-
ria, buscando novos usos para o sisal. E, a partir da demanda da Central
Única dos Trabalhadores - CUT /Bahia, a ITCP/UNEB integra a parceria
objetivando, no futuro, alcançar a pretensão inicial de trabalhar com os
pequenos agricultores com a participação ativa de seus filhos como um
grupo mobilizador para a busca de novas perspectivas na região.
A CUT-BA, a ITCP/IUNEB e o Pólo Sindical Rural da região se aliam e dão
início ao processo de construção da Cooperativa dos Jovens do Sisal (Co-
operjovens). Sua fundação aconteceu no dia 2 de setembro de 2000, em
solenidade festiva na cidade de Retirolândia - BA.
A fase inicial da construção da cooperativa requereu várias oficinas. O
objetivo era a constituição do grupo e a criação do vínculo entre os seus
integrantes. Simultaneamente levantava-se, sempre em conjunto, as po-
tencialidades da região, o que norteariam a vocação do empreendimento.

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112

O processo de mobilização exigiu vários encontros e seminários, recorren-


do a uma metodologia fundamentada na valorização do saber dos jovens
e na participação efetiva e sistemática dos futuros cooperantes.
A partir das matérias-primas detectadas em abundância na região, optou-
se, a curto e médio prazos, pela produção de artesanatos de sisal, pedra
e barro, apontando, numa perspectiva futura, para a estruturação de um
pólo agroindustrial que viesse a contemplar também os pequenos agricul-
tores.

A organização do empreendimento solidário

O cooperativismo, baseado nos princípios dos precursores de Rochedalle,


apresentou-se como a forma de organização para o trabalho. Uma organi-
zação capaz de responder aos anseios dos jovens por uma sociedade mais
justa e igualitária, valorizando a cultura regional e o saber individual.
O processo de Incubação perpassa fundamentalmente pela educação/
formação dos cooperantes. As atividades visam fomentar a participação e
a análise crítica da realidade, através de uma metodologia que possibilita
o despertar da criatividade e da responsabilidade de todos na transforma-
ção social. Seus princípios: o respeito às diferenças, a preocupação com a
educação e a formação, o despertar para o trabalho com a comunidade,
a constituição e manutenção da autonomia e da independência do grupo,
sem perder de vista a busca de parceiros.
A Cooperjovens surge como agregador de forças para o alcance de um ob-
jetivo maior, que ultrapassa a geração de renda, que é a busca da susten-
tação da região. Para isso, torna-se necessária a articulação com outros
atores sociais preocupados com as transformações no mundo produtivo
que refletem diretamente na organização da sociedade como um todo.
Neste intuito, entidades vêm contribuindo com as ações da Cooperativa-
STRs, Pólo Sindical da Região Sisaleira, ADS-CUT e ITCP/UNEB.
A Cooperativa abrange 13 municípios: Serrinha, Araci, Conceição do
Coité, Tucano, Quinjigue, Valente, Retirolândia, Monte Santo, Santa Luz,
Queimadas, Cansanção, Nordestina e São Domingos. Hoje conta com 49
cooperantes distribuídos proporcionalmente entre homens e mulheres.

Quanto à faixa etária o grupo é bem diversificado. A maior concentração


está entre 22 e 30 anos, com 43%.

O grau de escolaridade dos cooperantes não reflete a realidade da re-


gião. Vale salientar que os cooperantes, apesar de possuírem um nível
de escolaridade que se destaca na região, cerca de 90% ainda moram
com a família e que 41% dos cooperantes não estudam mais. Estes dados
refletem a importância da constituição e do funcionamento da Coopera-
tiva como uma alternativa concreta de geração de trabalho e renda para
uma boa parte dos cooperantes no presente, e para a outra parte, em um
futuro breve.

Assumindo a verdadeira condição de empreendimento solidário, a Coo-


perjovens busca, através da sua atuação, transformar a vida não apenas
dos jovens da região, mas também, das comunidades nas quais se insere.
Esta perspectiva está dentro da concepção do Desenvolvimento Sustentá-

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113

vel Local e Solidário articulado com um conjunto de atores sociais da re-


gião, voltado para a construção de um projeto estratégico que gere ações
promotoras da melhoria e do bem estar da população local.
O Projeto de Desenvolvimento Sustentável e Solidário parte da necessida-
de de contraposição à lógica de funcionamento da economia de mercado
baseada na competitividade destrutiva e excludente. A partir deste prin-
cípio, é possível gerar alternativas de trabalho e renda, direta e indireta-
mente, na região. Para tanto, estão sendo formuladas estratégias de orga-
nização da produção e de atuação no mercado local e políticas adequadas
de desenvolvimento tecnológico. Tal desenvolvimento está voltado para
a necessidade de inovações enquanto instrumento de fortalecimento das
potencialidades locais.
Contudo, não é somente o aspecto econômico que impulsiona os empre-
endimentos de natureza solidária. A perspectiva de combater as desi-
gualdades existentes deve permear todo o processo. No caso específico,
objetiva-se oferecer aos jovens e à comunidade da região sisaleira, uma
alternativa de trabalho local, que lhes permitam sobreviver e preservar os
elementos componentes da cultura de suas respectivas comunidades.

Algumas Atividades

? Existe alguma cooperativa organizada por jovens na sua comunidade


ou município?

? Em sua organização e atuação, em que se aproxima ou se distancia do


cooperativismo tradicional?

? Que tal elaborar algumas tabelas e gráficos com as informações apre-


sentadas no texto e, em grupo, fazer sua interpretação?

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114

Texto 30
Cooperjovens - Projeto Referencial
da Juventude Rural Disponível em:
http://pepsic.bvs-
psi.org.br Acesso
em: 22 out. 2008.

Em 1999, jovens da região do sisal da Bahia, engajados nos movimentos


sindicais e populares, organizaram um conjunto de debates e seminários
para discutir e formular propostas voltadas ao segmento juvenil, com o
apoio dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais - STRs, da Fundação de
Apoio aos Trabalhadores Rurais da Região do Sisal - FATRES, Movimento
de Organização Comunitária - MOC e Central Única dos Trabalhadores –
CUT.
No segundo Seminário O jovem e a geração de emprego e renda, rumo
ao novo milênio, realizado em outubro do mesmo ano, no município
de Monte Santo, foram discutidas alternativas perante os desafios e as
possibilidades da inserção social e econômica dos jovens na realidade
semi-árida. Dentre os encaminhamentos, surge a proposta de criação de
Cooperativa de Produção, com o objetivo de congregar jovens desempre-
gados da região como alternativa de geração de trabalho e renda, voltada
para o desenvolvimento sustentável e solidário.
Ainda em novembro, no Município de Conceição do Coité-BA, uma comis-
são de jovens apresentou e discutiu um projeto referencial de cooperativa
de produção, negociando apoio para a proposta com a CUT, a FATRES,
os STRs e a Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares – ITCP/
UNEB. Desta forma, surge a Cooperjovens – Cooperativa de Produção dos
Jovens da Região do Sisal, fundada em setembro de 2000, com sede no
Município de Retirolândia, composta por 49 jovens da agricultura familiar,
abrangendo os municípios de Quijingue, Queimadas, Tucano, Araci, Serri-
nha, Conceição do Coité, Retirolândia, Valente, São Domingos, Santa Luz,
Nordestina, Monte Santo e Cansanção.
Pelas matérias-primas disponíveis na região, optou-se, em curto prazo,
pela produção de reciclagem e artefatos de papel de fibras, considerando
a potencialidade local e a necessidade de um trabalho voltado para a con-
servação e a preservação do meio ambiente. Nessa mesma perspectiva,
em longo prazo, a Cooperjovens vem estruturando um pólo agroindustrial
para a produção de componentes de edificações em argamassa reforçada
com fibras de sisal, como uma alternativa aos materiais produzidos com
o amianto. É um projeto de transferência de tecnologia resultante do
projeto de pesquisa “Desenvolvimento de Componentes de Edificações
em Fibra de Sisal – Argamassa a ser produzida de forma autogestionária
– PROSISAL”, na UNEB, por intermédio da ITCP, com apoio da FINEP – Fi-
nanciadora de Estudos e Projetos, Programa HABITARE, tendo a Cooperjo-
vens como interveniente/co-financiador, e o Banco do Nordeste - ETENE/
FUNDECI, cujos resultados parciais já permitem a produção de telhas não
estruturais, lavanderias e coxos, dentre os produtos identificados na pes-
quisa de demanda realizada durante o projeto, na região.

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115

O processo de consolidação da Cooperjovens

A juventude rural organizada em torno da Cooperjovens mobilizou-se


para a implantação de um projeto de desenvolvimento e sustentabilida-
de da região, em que se alcançasse o objetivo de gerar trabalho e renda,
na perspectiva de fortalecer a participação da juventude na agricultura
familiar.
Verificou-se a necessidade de otimizar as potencialidades locais e valorizar
a cultura da região, bem como, conseqüentemente, preservar/conservar o
meio ambiente, pela geração de trabalho e renda de forma solidária. Den-
tre todas as atividades potenciais estudadas durante o período de Capaci-
tação em Gestão de Empreendimentos Solidários e Estudo de Viabilidade
de Empreendimentos Associativos, com base na metodologia da CAPINA
– Cooperação e Apoio a Projetos de Inspiração Alternativa, avaliou-se um
potencial para produção de artesanato e artefatos de papel reciclado de
fibras, com matéria-prima de fácil obtenção, custos iniciais acessíveis,
existência de parcerias e perspectivas de mercado.
A experiência fez perceber que as atividades executadas convergiram para
a construção e a consolidação da cooperativa, por meio dos princípios de
autogestão, fortalecendo a formação de sujeitos no processo de decisão;
de construção coletiva dos conhecimentos, respeitando as diferenças de
gênero, de geração, de etnias e de raças; da preservação e conservação
do meio ambiente pelas potencialidades e pelos limites regionais; do
fortalecimento da cultura local e regional; bem como da valorização das
matérias-primas regionais.
O processo formação contemplou cursos sobre cooperativismo, gestão de
empreendimentos solidários, cooperativismo de crédito, políticas públi-
cas, convivência com o meio ambiente e semi-árido, formação integral em
economia solidária, desenvolvimento territorial sustentável e solidário,
capacitação em reciclagem de papel e artefatos, e constituiu a estrutura
formativa para a consolidação deste empreendimento solidário. Nesse
percurso formativo, cerca de 21 jovens da cooperativa foram inseridos no
mercado formal e nos movimentos sociais e sindicais da região, nas coo-
perativas de crédito rurais, bem como ingresso de jovens no Campus

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116

Universitário da UNEB em Serrinha e Conceição do Coité. Em avaliação,


esses jovens associados atribuem essa inserção à formação vivenciada na
cooperativa.
Nessas atividades, a cooperativa contou com a parceria dos STRs, da FA-
TRES, da Agência de Desenvolvimento Solidário - ADS/CUT, da ITCP/UNEB,
do MOC e do SEBRAE. Para a estruturação física, outros parceiros foram
essenciais, como a CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviços, a CERIS
– Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais e a FASE - Federa-
ção de Órgãos para Assistência Social e Educacional.
No transcurso, foi consolidado o núcleo de Retirada - Araci e, em con-
solidação, o núcleo de Gregório - Queimadas, abrangendo oito jovens
na produção. Esses núcleos foram determinados por conta de existirem
associados disponíveis e com aptidão para o exercício dessa atividade. Os
outros 20 jovens estão sendo preparados para a produção de componen-
tes de edificações em argamassa reforçada com fibra de sisal.
Existem outras experiências que surgiram após a constituição da Coo-
perjovens na região e que esses jovens estão integrados na rede da Arco
Sertão, no CODES2 - Conselho Regional de Desenvolvimento Rural Susten-
tável da Região Sisaleira e no PJPS - Projeto de Juventude de Participação
Social do MOC, como os jovens apicultores no município de Serrinha, as
jovens artesãs em Ichú e em Retirolândia, os jovens com hortas comunitá-
rias, laticínio e artesanato em Araci, entre outros.
É importante enfatizar, nesse processo, o acesso da Cooperjovens, en-
quanto um empreendimento solidário à inovação tecnológica, envolvendo
o processo de transferência de tecnologia de produção de componentes
de edificações em argamassa reforçada com fibras de sisal, de forma
processual e com a unidade de produção de artefatos de sisal-cimento,
situada em Retirolândia, em parceria com a ITCP/UNEB, com a aquisição
de infra-estrutura do CODES e do Ministério do Desenvolvimento Agrário
- MDA.

Algumas Atividades

? Construa um quadro destacando os desafios e as possibilidades da


inserção social e econômica dos jovens da sua comunidade (“respei-
tando as matérias-primas existente em sua região”).

? Apresente, discuta e eleja uma ação a ser desenvolvida coletivamente.

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117

Texto 31
Juventude Sementes para o Futuro
Revista Raízes da Terra Disponível
em: http://
www.credito-
Consciência cidadã fundiario.org.
br/materiais/
O Governo conta com a revista/juven-
experiência das ONGs rurais tude_rural
para ampliar o alcance do Acesso em: 6
programa e o número de be- nov. 2008.
neficiados. Ao mesmo tempo,
procura elevar a consciência
cidadã da juventude rural para
que os jovens se organizem e
busquem por seus direitos.

Foto Dirceu Tavares

“Queremos que a qualificação profissio-


nal para o jovem rural se transforme em
uma política permanente do Estado. Além
disso, estamos trabalhando para formar
uma nova geração de lideranças rurais de
que hoje o Brasil tanto carece”, justifica
Kempfer.
O objetivo é trabalhar ações que estimu-
lem o empreendedorismo, a formação de
cooperativas e incubadoras.
Além de estimular o empreendedorismo
e promover a qualificação profissional dos
jovens do meio rural para inserção no mer-
cado de trabalho, bem como em ocupa-
ções produtivas no campo, os consórcios
poderão facilitar o acesso aos programas e
políticas públicas do Governo Federal vol-
tados para esse segmento, como o Progra-
ma Nacional do Primeiro Emprego. Fonte: seag.es.gov.br

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118

O primeiro consórcio começou a funcionar em maio. Para cumprir as 400


horas de aula, os jovens alunos recebem bolsas de estudo no valor de R$
150 por mês, mais a alimentação e o deslocamento. Em contrapartida,
têm que contribuir com 24 horas mensais de serviço voluntário na comuni-
dade onde vivem, em tarefas como plantação de árvores ou elaboração de
projetos agrícolas que beneficiem outros jovens e suas famílias.
“É claro que apenas o projeto dos consórcios não resolve o problema dos
jovens no campo, mas dá os elementos para que eles tenham uma pers-
pectiva concreta no meio onde vivem e onde estão identificados”, analisa
a coordenadora do Instituto Aliança.

O EXEMPLO DE CATENDE

Na região da Zona da Mata, em Pernambuco, a


capacitação de jovens agricultores já é realidade.
Os Consórcios Sociais da Juventude Rural, em-
bora ainda em fase final de montagem, partem
da experiência vitoriosa realizada com filhos de
agricultores da Zona da Mata, sul de Pernambu-
co, nos 26 mil hectares da Usina do Catende, que
reúne a produção de 48 engenhos de açúcar de
cinco municípios do Estado.
O projeto piloto em execução na região está
formando 55 jovens, filhos dos trabalhadores
da Usina, e já está mudando o horizonte da
juventude que tinha apenas na força dos braços
as chances de sobrevivência. Os cerca de 2 mil
jovens cortadores de cana que não tinham outra
alternativa a não ser migrar para as grandes
cidades, em busca de emprego, já podem sonhar
com uma vida melhor no campo.
Os jovens estão aprendendo técnicas de ovi-
nocaprinocultura de corte com especialistas da
Embrapa e investindo na produção do milho
crioulo, uma espécie tradicional de melhor quali-
dade e de cultivo mais difícil. A idéia é que, após
o aprendizado do processo mais complicado, os
jovens estejam aptos a plantar qualquer grão,
como feijão, ervilha e lentilha.

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119

“Estamos diversificando a cultura da cana-de-


açúcar que predomina na região e, o que é mais
importante, os jovens serão os donos do saber
que está sendo repassado a eles, com tecnolo-
gia e inovação de primeira linha. Poderão, em
contrapartida, multiplicar essa experiência pelo
País afora, ajudando a montar outras associa-
ções e distribuindo sementes. Esperamos que o
exemplo de Catende sirva para todas as regiões
de monocultura”, anima-se Kempfer.
Já são cinco campos de sementeira preparados
para o início do plantio e a expectativa é que em
pouco tempo o milho produzido comece a gerar
renda para os jovens da Usina de Catende. A co-
mercialização está praticamente garantida, uma
vez que o milho é um dos produtos mais consu-
midos na região.
Outro aspecto favorável é a qualidade do produ-
to. Ele leva o selo da Embrapa, o que agrega ao
milho maior valor de mercado, graças à tecnolo-
gia e experiência empregadas. Enquanto a saca
de semente comum é vendida a R$ 60, a saca
com o selo Embrapa sai a R$ 150, o que deve
render entre R$ 1 mil a R$ 1.200 mensais brutos
para cada jovem produtor.
“Estamos dando ao jovem uma alternativa que
hoje ele não tem. É uma renda que permite man-
tê-lo no campo. Ele só sai se quiser, se não tiver
vocação para trabalhar na terra”, avalia Kempfer.
O modelo de sucesso da Usina de Catende terá
sua escala ampliada com o início da implantação
dos Consórcios Sociais da Juventude Rural na
própria região, que pretende formar mais 230
jovens a partir de maio, com a distribuição de
bolsas e todas as vantagens do programa.
A meta é capacitar pelo menos 50 por cento dos
2 mil jovens rurais de Catende, até 2006.

Algumas Atividades

? Quais as ações desenvolvidas pelo Consórcio Social da Juventude Rural


em seu município?

? Você participa de alguma, descreva-a.

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120

Texto 32
Os Empreendimentos Econômicos Solidários no Brasil
Atlas da Economia Solidária no Brasil

Foram identificados 14.954 Empreendimentos Econômicos


Solidários em 2.274 municípios do Brasil (o que corres-
ponde a 41% dos municípios brasileiros) . Considerando
a distribuição territorial, há uma maior concentração dos
EES na região Nordeste, com 44%. Os restantes 56% estão
distribuídos nas demais regiões: 13% na Região Norte,
14% na Região Sudeste, 12% na Região Centro-Oeste e
17% na Região Sul.

Foto Dirceu Tavares

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121

UF Nº de EES % EES Nº de % Municípios/Total


Municípios de municípios
RO 240 1,6% 40 75%
AC 403 2,7% 20 87%
AM 304 2,0% 32 51%
RR 73 0,5% 14 88%
PA 361 2,4% 51 35%
AP 103 0,7% 13 76%
TO 400 2,7% 84 60%
NORTE 1.884 13% 254 56%
MA 567 3,8% 73 33%
PI 1.066 7,1% 83 37%
CE 1.249 8,4% 134 72%
RN 549 3,7% 77 46%
PB 446 3,0% 101 45%
PE 1.004 6,7% 129 69%
AL 205 1,4% 48 47%
SE 367 2,5% 63 83%
BA 1.096 7,3% 153 37%
NORDESTE 6.549 44% 861 48%
MG 521 3,5% 101 12%
ES 259 1,7% 59 75%
RJ 723 4,8% 82 88%
SP 641 4,3% 147 23%
SUDESTE 2.144 14% 389 23%
PR 527 3,5% 109 27%
SC 431 2,9% 133 45%
RS 1.634 10,9% 270 54%
SUL 2.592 17% 512 43%
MS 234 1,6% 25 32%
MT 543 3,6% 91 65%
GO 667 4,5% 127 51%
DF 341 2,3% 15 83%
CENTRO- 1.785 12% 258 53%
OESTE

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122

Formas de organização

Quanto à forma de organização, os empreendimentos econômicos soli-


dários estão distribuídos em: cooperativas, associações, grupos informais
e outros (sociedades mercantis etc.). No Brasil, a maior parte dos empre-
endimentos está organizada sob a forma de associação (54%), seguida
dos grupos informais (33%) e organizações cooperativas (11%) e outras
formas de organização (2%). Esta distribuição é diferenciada de acordo
com as regiões. Nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, predomina
o perfil nacional, diferentemente das regiões Sul e Sudeste, onde há uma
menor participação das associações e maior participação dos grupos
informais.

Área de atuação

Metade (50%) dos EES atua exclusivamente na área rural, 33% atuam ex-
clusivamente na área urbana e 17% têm atuação tanto na área rural como
na área urbana. Considerando as regiões, cabe destacar que na Região
Sudeste a maioria dos EES (60%) atua na área urbana e nas regiões Norte
e Nordeste, a participação dos EES que atuam exclusivamente na área
rural está acima da média nacional (57% e 63% respectivamente).

Dificuldades

Quanto às dificuldades enfrentadas, constata-se que 61% dos EES afir-


maram ter dificuldades na comercialização, 49% para acesso a crédito
e 27% não tiveram acesso a acompanhamento, apoio ou assistência
técnica. A Região Norte está acima da média nacional em todos os itens
(68% comercialização, 54% crédito e 34% apoio ou assistência). A Região
Nordeste destaca-se pela dificuldade de crédito (58% dos EES), e a Região
Centro-Oeste, pelo não acesso a apoio ou assistência técnica (35%).

Algumas Atividades

? Que tal aproveitar os dados estatísticos e tabelas deste texto para


produzir gráficos, análises comparativas e textos sobre a situação e a
distribuição das iniciativas de economia solidária no Brasil?

? Que tal fazer um levantamento de iniciativas (experiências) existen-


tes no município e/ou região e, a partir dos dados, construir tabelas,
gráficos e textos sobre o assunto? (Com o resultado, que tal, produzir um
folheto ou jornal para distribuir à comunidade, provocando uma reflexão
e debate sobre o tema?)

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123

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