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ALIENAÇÃO E SUAS FORMAS NA

SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA
– COMO ENTENDER ESTE DESEJO CONSTANTE
DAS GERAÇÕES ACTUAIS PERMANECEREM ALIENADAS –

« Divertimento – Não tendo os homens


conseguido acabar com a morte, a miséria
e a ignorância, tiveram a ideia de,
para se tornarem felizes,
não pensar nelas»
Pascal

Perante esta óbvia alienação ou escapismo em que se entregam


diariamente milhões de pessoas em todo o Ocidente, quase como uma
demonstração de ser essa a única forma de resistirem às suas vidas quotidianas,
parece pertinente debruçarmo-nos sobre o fenómeno. Este torna-se ainda mais
interessante quando surge uma conexão com o problema da indiferença religiosa
que tem varrido toda a Europa. A todos os que também julgam serem estes
problemas merecedores da nossa atenção, sugiro que possam gastar uns minutos
do vosso tempo na leitura deste artigo.

Após uma breve introdução, reflectiremos sobre:


- As origens europeias da alienação contemporânea.
- O fenómeno da indiferença religiosa na Europa e a sua possível explicação
- As principais formas de alienação do Ocidente:
- A obsessão pelo sexo e a sua omnipresença na sociedade
- O consumismo como a grande ideologia alienante do
nosso século
- O mundo virtual e a fuga do real

Introdução
Quando, na década de 60, foi declarada a morte de Deus por uma ala da
teologia norte-americana já a segunda modernidade (Pós-modernismo) tinha
rompido com todo o seu anelo pelo mundo espiritual. É interessante verificar que o
surgimento da teologia que encarnava a secularização, o cientismo e o neo-
positivismo da primeira metade do século XX – a teologia da morte de Deus –
tenha coincidido com o início do seu próprio fim, com o regresso do religioso, com
o relativismo que iria minar a ciência enquanto verdade absoluta e do Maio de 68
que gritava “Tomemos a revolução a sério, mas não nos tomemos a sério” ou “A
imaginação ao poder”.

Se é verdade que o ateísmo prático se instalou nas nossas sociedades, fruto


da secularização, também temos de reconhecer que este surge agora enxertado
de um sentimento religioso, numa nova procura pelo sobrenatural. E, todavia,
mesmo este retorno do sentimento religioso não é comum a todos e vem
acompanhado de uma indiferença cada vez mais acentuada a respeito de
temáticas cristãs ou religiosas em geral. Herdámos um secularismo que ainda hoje
dita as regras, mas o regresso de Deus, da ânsia pelo espiritual e por diferentes
formas de se experimentar o mundo do além também veio para ficar, assim como
essa indiferença que não só é repetidamente mencionada nos relatórios dos
missionários presentes na Europa como surge já como uma categoria religiosa ao
lado do ateísmo e do agnosticismo.

Vivemos, isso é certo, numa época de paradoxos, de antagonismos, de


antíteses, de esquizofrenia.

Como entender tudo isto? Como chegámos a este ponto, a esta


confluência de forças antagónicas que aparentemente caminham em
sentidos opostos mas que permanecem na nossa sociedade como se
fossem naturalmente conciliáveis?

E de que forma a compreensão do nosso actual estado psíquico-


social nos poderá ajudar a compreender melhor essa alienação, em que a
maior parte das nossas gerações recentes parecem estar absolutamente
submersas?
Na verdade, não podemos falar das consequências da alienação e das
formas que a sociedade hodierna encontrou para se alienar sem antes reflectirmos
sobre o que esta é e de que forma se instalou no Ocidente. Sem dúvida que a sua
origem está intimamente relacionada com esta confluência de opostos que
encontramos à nossa volta. Vamos ver como.

As origens europeias da alienação


contemporânea.

A modernidade concedeu ao Ocidente da primeira metade do século XX


uma confiança na razão humana e na possibilidade infinita do conhecimento
científico. As constantes descobertas e realizações técnicas do séc. XIX permitiram
criar um sentimento de euforia, acreditando que uma nova era gloriosa se
avizinhava. A ciência tornou-se positivista, acolhendo a si toda e qualquer
possibilidade de sentido e verdade: desde esse período e até meados da década
de 60, toda a verdade seria do domínio científico tal como todo o discurso
objectivo. A ciência passaria a englobar dentro dos seus limites não só a
possibilidade de maior veracidade mas toda e qualquer pretensão à verdade.
De igual modo, os valores herdados do cristianismo estavam agora
reduzidos à sua formulação racional, pretensamente universal. Desde o programa
racionalista de Kant (séc. XVIII), formalizando toda a moral e arrancando-a da sua
origem cristã, que se entendiam as verdades éticas como uma conquista da
capacidade autónoma do raciocinar humano. A moral era, então, uma questão de
absolutos apercebidos e abraçados por qualquer homem desde que conduzido
convenientemente no seu pensar. Haveriam absolutos morais partilhados por todo
o homem racional. O conceito de verdade universal ainda estava profundamente
enraizado.
Todavia, já desde o século XIX que se tinha assistido ao protesto de algumas
vozes isoladas, principalmente a voz tonitruante e incómoda do alemão Friedrich
Nietzsche, mas também à descoberta chocante do inconsciente por parte de
Freud.
Não seria a morte de Deus um acontecimento de proporções demasiado
drásticas para que tudo na moral continuasse exactamente na mesma? Não
seriam os absolutos morais dos humanistas do século XIX e primeira metade do
século XX apenas reformulações dos imperativos éticos cristãos? E seria possível
mantê-los quando se torna supérflua a hipótese de Deus, precisamente a hipótese
que valida e dá fundamento à moral cristã? E não teriam os processos conscientes
do ser humano, aparentemente bem intencionados, uma fundamentação
inconsciente motivada principalmente pela repressão sexual? Seria possível,
depois de Freud, continuar a confiar nos bons propósitos da nossa racionalidade?
O grito de Nietzsche foi aos poucos ouvido por alguns que estavam atentos.
Perceberam estes que esquecer Deus mantendo a sua moral não era consequente.
O problema estava em formar uma nova ética e uma nova sociedade que não se
apoiasse já em declarar absolutos os antigos absolutos cristãos apesar de não
haver absolutos alguns. Essa foi a tarefa que os existencialistas pretenderam
encetar (Heidegger, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, entre os principais),
compreendendo que seria necessário procurar outros alicerces éticos baseados
não em qualquer ideia preconcebida ou herdada histórica e culturalmente, mas
sim a partir do facto de não existir um mundo do além que nos oriente e que nos
dê um caminho de antemão. Sem Deus o homem estava entregue a si mesmo.
Sem Deus também a moral humanista não fazia sentido, humanismo esse que
apenas havia dado aos preceitos cristãos – meramente contingentes e
circunscritos a um período histórico-cultural – uma roupagem racional
pretensamente universal. Já não haveria um caminho a ser descoberto mas um
caminho a ser trilhado, entre tantos outros possíveis. Como dizia Heidegger, o
caminho é o caminhar. Ou como dizia Sartre, não há essência alguma que preceda
a existência. Mas os existencialistas apenas conseguiram denunciar a situação,
expor os problemas desse humanismo que mantinha os valores cristãos apesar de
ter eliminado o seu Deus. Principalmente através de Sartre e Camus e mediante os
seus romances onde escreviam filosofia de uma forma acessível a todos, a
problemática foi rapidamente disseminada pela Europa, passando-a das
Universidades para as ruas e mercados. Mas o problema mantinha-se. Que outra
moral seria possível? Ou melhor, que outros fundamentos tornariam possível a
universalidade e a objectividade da moralidade?
Por outro lado, por mais chocante que fossem as teses psicanalíticas, a
racionalidade e a sua pretensa imparcialidade pareciam ter sido feridas de morte.
Como continuar a confiar na razão humana como método e ferramentas únicas
para a discernibilidade moral se o inconsciente era a verdadeira plataforma das
nossas acções? Como confiar em algo que não só não nos está acessível (por isso
é inconsciente) como também é indefeso às pulsões humanas (deixando-se
formatar por elas)?
A primeira guerra mundial já tinha revelado os problemas de uma sociedade
tão confiante no seu progresso. A palavra de ordem era civilizar mediante a
educação de massas, como se o próprio conhecimento tivesse a capacidade de
educar e melhorar o ser humano em si. Mas a guerra veio demonstrar que por
detrás do progresso e da educação pode-se esconder um monstro. Este foi, sem
dúvida, o primeiro grande abalo na confiança da nova Europa. Mesmo em teologia
as perspectivas escatológicas pós-milenistas sofriam um rude golpe: não seria já
impossível acreditar-se numa sociedade que progressivamente se vai
cristianizando, civilizando e melhorando até que Cristo venha?
Mas os europeus não imaginavam o que havia de vir, nem sequer se
encontravam preparados para esse evento na história que acabaria por definir
todo o futuro até aos dias de hoje: a segunda guerra mundial fomentada pela
Alemanha nazi. Tem-se dado pouca importância e atenção a este período
incontornável que marcou a transição da primeira para a segunda metade do
século XX, principalmente nos seus efeitos naquilo que se viria a chamar o Pós-
modernismo. Apercebemo-nos da importância política e económica da segunda
guerra mas acabamos por olvidar os seus efeitos dramáticos na mudança da
cosmovisão europeia. Até esse momento a filosofia existencialista vinha minando o
humanismo europeu, colocando-o em causa, revelando a sua inconsistência,
expondo a sua falta de fundamentos, no fundo, mostrando que afinal o rei vai nu.
Quais as consequências do ateísmo prático? A necessidade incontornável de
reformular toda a moral despindo-se esta da sua matriz cristã, iniciando uma nova
construção de toda a validade das acções humanas. Mas é então que a ideologia
nazi, com toda a sua compreensão peculiar das antropologias darwinistas que
entretanto haviam emergido e da sua releitura nietzschiana do mundo (sim, o grito
de Nietzsche fez-se ouvir entre os nazis!), explode na Europa como uma bomba
mortífera e inescapável. Perante os ataques aos direitos do homem realizados pelo
nazismo, o existencialismo nada pôde fazer. O que dizer perante uma posição que
construía, de facto, uma nova sociedade, baseada numa nova moral e numa nova
compreensão das sociedades, liberta das suas raízes cristãs e apelando à
construção de um novo homem? Se não houvessem bases morais absolutas, se
não houvesse uma verdadeira essência humana, se não houvesse um caminho já
traçado antes do homem, por que razão não poderia o nazismo impor pela força a
sua visão do mundo?
Que poderia fazer o homem europeu se não retornar momentaneamente a
um humanismo balofo no qual já não acreditava, elaborar uma Declaração
Universal dos Direitos do Homem, e esperar que, a posteriori, conseguisse resolver
os problemas que o existencialismo levantou e encontrar bases absolutas para
uma moral internacional, apesar de já se terem destruído todos os referenciais
inamovíveis e de se ter compreendido a origem histórico-circunstancial da ética
humana? A Europa não mais se recompôs desde esta época.
Esta postura prática do pós-guerra teve várias consequências para a
sociedade e indivíduos do Ocidente. O homem europeu foi obrigado a aceitar a
perspectiva humanista no âmbito público, como se existissem normas morais de
cariz absoluto, mas, todavia, já não as podia aceitar no seu domínio privado, pois
sabia que tal pretensão não tem validade e que ele é o senhor da sua própria
existência. Assim, criou-se uma dicotomia que ainda hoje permanece na sociedade
hodierna: a separação entre a esfera pública e privada. Na esfera privada a
moral existencialista deu os seus frutos. A moralidade cristã perdeu terreno.
Entendeu-se que a moral é subjectiva e que, de certa forma, a felicidade do
homem depende da maneira como ele inventa a sua própria história pessoal, a sua
própria moral. Criou-se, também, a nova ética individual com três premissas
fundamentais: Tudo é lícito desde que 1º) seja possível concretizá-lo, 2º) seja eu
de livre vontade a desejá-lo 3º) apenas me diga respeito. Mas na esfera pública o
humanismo, com toda a sua matriz cristã, continuou a permanecer. Perante a falta
de uma ideologia que respondesse moralmente ao nazismo, os cidadãos europeus
retornaram ao humanismo com uma atitude totalmente pragmática. Apesar de não
se acreditar em ideais universais e absolutos era necessário retornar a eles para
responder ao nazismo. O cinismo, tão comum ao homem contemporâneo, teria
aqui o seu início. A cisão entre o domínio privado e público do homem, com regras,
premissas e valores diferentes, acabaria por atolá-lo em dúvidas, insegurança,
desconforto e, principalmente, desorientação. E foi exactamente esta
desorientação que esteve na base do retorno da religião a partir da década de 60.
Já não se acreditava que a ciência e o progresso seriam a resposta para os
problemas do homem. Como poderiam se, com a invenção da bomba atómica e a
sua demonstração de força no final da segunda guerra mundial, a tecnologia
revelava todos os seus ferozes dentes? Como poderiam se, após um século de fé
na civilização e racionalidade humanas, uma das sociedades mais cultas, educadas
e bem formadas da Europa tinha aceite, assimilado e proclamado os ideais nazis?

O homem aporético e o homo ebrius

Estas contradições em que o homem ainda vive não podem deixá-lo


confortável. Causam-lhe náuseas, vertigens. Julgo, efectivamente, que o
sentimento mais comum ao homem contemporâneo é o sentimento de confusão,
incómodo, uma espécie de tontura constante por nada ser aquilo que realmente
parece, por não se poder apoiar em coisa alguma, por não se sentir uno nas suas
acções e decisões, mas antes absolutamente incoerente e sem rumo.

Estamos já a falar de um novo tipo homem social que surge a partir da


segunda guerra mundial: o homem aporético.
O que é isto de homem aporético?
O homem aporético é aquele que não consegue sair da aporia (beco sem
saída) constante da sua vida, dessa incoerência entre os seus gestos e suas
palavras, das palavras entre si e dos gestos entre si. Ele não se sente confortável
com a situação (como poderia se continua a ser um ser racional?) mas já se
habituou a ela, como uma espécie de doença natural com a qual nascemos. É
alguém perdido mas sem angústia. Indisposto mas sem capacidade de raciocínio.
Podemos apontar a partir daqui o início da alienação contemporânea. A este
homem não resta outra solução que não alienar-se. Ele não se aliena porque
procura obsessivamente o prazer, pelo contrário, ele é obcecado pelo prazer
porque essa é a melhor forma de se alienar. O único caminho aberto a este
homem com vertigens é a alienação. Tal como um ébrio ou toxicodependente, ele
aliena-se para acalmar este desnorteamento, esta incoerência, esta nudez de
sentido onde parece estar mergulhado, como uma coisa que não se vê, de que
ninguém fala, mas que se sente. Assim, o homem aporético é apenas uma fase,
muito curta, apenas de transição para uma outra, a do homo ebrius.
O homo ebrius é o homem pós-moderno, o que constantemente se cruza
connosco ou está, até, dentro de nós. Aquele que procura constante alheamento, o
que anseia, pela sucessão de prazeres ou diversões sucessivas, ficar alienado ou
bêbado o mais tempo possível. Que usa ele como alienação? Reflectiremos sobre
essa questão mais adiante.
O homem aporético, fruto da 2ª grande guerra, dá, assim, origem ao homo
ebrius, ao homem do século XXI. Compreender as origens da cultura alienante das
gerações actuais é um passo de gigante para nos percebermos e entendermos os
que nos rodeiam.

O fenómeno da indiferença religiosa na Europa e


a sua possível explicação

É natural que já não haja angústia neste novo homem. Durante muito
tempo, ainda enquanto adolescente, desconfiava das inúmeras declarações que ia
ouvindo de cima do púlpito, aquelas que apontavam para um vazio interior do
homem que só podia ser preenchido por Jesus Cristo. O meu cepticismo não se
reportava ao facto de Cristo preencher todo e qualquer vazio da nossa existência,
mas sim se, de facto, as pessoas que estavam à minha volta sentiam esse vazio.
Com efeito, não era isso que eu testemunhava. De vez em quando lá encontrava
uma ou outra pessoa na qual o vazio, a angústia da falta de sentido, era evidente.
Mas essa descrição do estado psíquico dos indivíduos contemporâneos não
correspondia com a maioria dos casos. Durante algum tempo cheguei mesmo a
julgar que esse vazio não era sentido por todas as pessoas, o que na verdade
encaixava sem qualquer problema em muitas teologias da reforma. Mas, aos
poucos, fui percebendo que o vazio, com efeito, está lá, no interior do ser humano,
em qualquer ser humano, mas completamente adormecido pelo seu estado de
embriaguez contemporâneo, isto é, pela alienação constante em que o homem
procura estar.
A tão famosa indiferença, cara aos europeus e que tantas dores de
cabeça tem dado aos missionários espalhados pela Europa, é
simplesmente um produto da alienação. Aquela já passou a fazer parte do
senso comum dos movimentos missionários mundiais: a Europa é o cemitério dos
missionários.
Há uma apatia constante nas novas gerações, uma preocupação pelo
supérfluo excessiva e desproporcionada, como se nós tivéssemos medo de
assumir seja o que for, medo de fazer uma única asserção positiva da qual nos
possamos vir a arrepender, medo de assumir qualquer mentira. Como se para os
pós-modernos só pudesse vir sofrimento da verdade, já que a verdade ou não
existe ou é exactamente isso, sofrimento. Nada há que nos sirva de guia. Estamos
sozinhos e abandonados na existência. Dessa forma, temos de compreender que a
alienação não é algo em relação à qual se possa responsabilizar o alienado. Fazê-lo
é incorrer num grave erro. Ela não é uma procura positiva da parte das gerações
mais novas: é, antes sim, uma consequência. De facto, o jovem de hoje procura
activamente a alienação, faz por ser alienado, mas fá-lo por fugir da
angústia, por não suportar esse estado do homem aporético, nessa
confusão e desorientação constantes.
Por essa razão, a indiferença também não é mais do que um estado de
embriaguez que esconde um profundo vazio existencial, ou seja, uma profunda
mágoa por se julgar impossível alcançar a verdade. Se ao olharmos para um
europeu, ao invés de vermos indiferença passarmos a ver um total estado de
embriaguez, talvez comecemos a entender a nossa actualidade. A indiferença
esconde uma fome de significado. Na verdade, ao contrário do que se poderia
esperar, esta geração é uma geração ávida de sentido! A única dificuldade é
a de não ser possível transmitir seja o que for a um bêbado pois tem de se esperar
que cure a embriaguez. Da mesma forma como não se procura orientações
geográficas a quem não esteja na posse das suas correctas faculdades mentais,
também não se pode falar de Cristo a um alienado durante a sua alienação.
O problema é que as gerações actuais procuram, pelo estilo de vida que
professam, estar constantemente alienadas e muitas são as formas que têm
surgido para satisfazer esta pretensão.

As principais formas de alienação do Ocidente:


A OBSESSÃO PELO SEXO E A SUA OMNIPRESENÇA NA
SOCIEDADE

Outrora o vazio existencial que perseguia o ser humano era substituído por
outras ideologias que o motivavam a seguir em frente. Sabemos que uma pessoa
motivada por uma boa causa consegue grandes feitos, principalmente um jovem.
Mas o que se passa na geração de hoje? O descrédito pelas metanarrativas leva-
nos a ficar sem pontos de referência. Como se a realidade fosse éter ao qual não
se pode agarrar. Tudo é fugidio e passageiro. Não há pontos de referência
estáveis, só existe o devir. Que saída poderia restar a este homem que não a
alienação, a fuga, a ocupação frenética que lhe permite desistir de procurar uma
resposta?
É, de facto, deveras impressionante verificar que foi o falhanço em
encontrar a verdade que lançou a sociedade nesta conjectura actual. A verdade
está assim nos dois extremos deste relativismo hodierno. O homem procura ser
alienado porque acredita seriamente que nada mais há a fazer. Ele rejeita até a
possibilidade de adquirir sentido para a sua vida muitas vezes por desconfiança,
por receio de ser enganado, por receio de ser desiludido como os seus pais o
foram. Mas o receio de desilusão, mais uma vez, só faz sentido se se acreditar na
verdade.
Como será possível ao homem de hoje apostar num valor ou num
significado se vê nas gerações mais velhas uma falência das suas opções de vida,
uma dedicação inglória a certas ideologias? Como pode ele não assumir um
cepticismo profundo se vê aqueles que procuravam a verdade perderem-se por
entre os inúmeros corredores da modernidade que acabaram por conduzir a becos
sem saída? Não suportando a vacuidade de sentido, esse constante lançar de um
gesto no vazio, a alienação revela-se como a única opção possível.
Quais são, então, os recursos alienantes utilizados?

O EROTISMO UBÍQUO E A SUA FRIEZA CÍNICA

Podemos começar pela primeira de todas, por aquela que cruza grande
parte da sociedade, que tem definido a nossa consciência e valores e aquilo que
hoje em dia parece ser o centro nevrálgico da actividade humana: o Sexo.
É óbvia a presente erotização da sociedade. O erotismo e o sensualismo
estão por todo o lado. A percentagem de metáforas ou incitações explícitas ao
sexo nos anúncios publicitários são cada vez mais frequentes e, em alguns dias,
chegam a ser maioritárias nos nossos ecrãs televisivos. Não interessa o produto,
uma simples água ou manteiga podem recorrer a imagens e a uma lógica da
sensualidade para captar a atenção dos consumidores.
Nas camadas mais jovens a temática da sexualidade está sempre presente.
Talvez tal fosse compreensível em adolescentes que assistem às suas mudanças
fisiológicas. Todavia, o fenómeno é transversal a todas as gerações e a cada ano
que passa parece cada vez mais central. O sexo enquanto estratégia publicitária
veio para ficar, não é uma moda passageira.
Antigamente (ainda me recordo perfeitamente) para se referir ao acto do
coito utilizava-se a expressão “fazer amor”. Em meados da década de 90 essa
expressão foi sendo preterida a favor de uma aparentemente mais madura, mais
séria, mais objectiva: relações sexuais. Actualmente, apesar de se usar ainda esta
última, basta somente a palavra “sexo” ou a expressão “fazer sexo”. É importante
analisar estas expressões pois representam posturas diferentes frente ao tema.
Sexo é agora a palavra fria, seca, directa, sem qualquer expressão sentimental
que representa efectivamente o paradigma dominante hoje em dia. O sexo é
apenas isso: já não é mais fazer amor, pois quem há ainda que acredita no amor?
Sem dúvida de que se trata de uma relação mas esta palavra parece ainda possuir
alguma centelha de emotividade da qual se quer expurgar todo o sexo.
Sexo. È exactamente isso, nada mais; é a procura do meu prazer; é a
procura do teu prazer. Apenas e só. Tudo o que se pode acrescentar a esta posição
é dúbio, arriscado, tendendo a expor-nos demasiado à possibilidade de
encontrarmos o engano e, consequentemente, a desilusão.

SEXO E VERDADE

As gerações mais velhas têm a tendência de apontar a libertinagem dos


jovens, a entrega lascívia aos sentidos e a procura voluntária da concupiscência da
carne como ou consequência da manipulação efectuada pelos media ou resultado
duma depravação intrínseca desta geração. Não acredito em nenhuma destas
opções. Normalmente os mais velhos tendem a interpretar as acções das gerações
seguintes como meras reacções à novidade entretanto surgida na sociedade, um
pouco como se apenas a nossa geração pudesse agir conscientemente,
criticamente, capaz de analisar o que a precedeu e o que lhe seguirá. Julgo
sinceramente que a razão para a obsessão desta geração pelo sexo encontra-se na
sua efectiva compreensão (terrivelmente objectiva) do que se passa à sua volta.
Ao contrário do que se poderia esperar esta não é uma geração de inconscientes.
Na verdade, penso que nunca houve uma tão perspicaz, capaz de uma análise
rápida, sucinta e fria das premissas e conclusões herdadas das gerações
anteriores. O que eles pressentem, perspectivam e compreendem é que o sexo
enquanto sexo é a única verdade objectiva que lhes resta. A outra verdade
incontornável – a da morte – foi-lhes vedada por uma geração que erigiu à sua
volta um autêntico muro inibidor, forjando um tabu que ainda hoje perdura,
ensinado aos seus sucessores a fugir da mesma, seja de modo físico, seja
psicológico. Assim, não tendo como pensar nesse dado objectivo, a sociedade
juvenil actual vira-se para a única outra certeza que tem: o sexo dá prazer e só
com isto pode contar, pois tudo o mais é neblina, fluidez, mar de incertezas,
inconstâncias, porto não seguro para o ser.
Afinal, o que há hoje de objectivo, seguro, firme, concreto, intemporal e
consistente? O amor não é de certeza objectivo. Os pais desta geração são pais
divorciados que mostraram aos seus filhos que apenas a morte é certa (apesar de
ser proibido pensar nela) e não as decisões que são tomadas em vida. A fidelidade
é apenas um valor do passado que cede terreno ao vício da novidade constante
presente no hedonismo hodierno. A moral presente na sociedade não tem
fundamentos e apenas se mantém pelo carácter repressivo da lei que a sustenta.
Os ensinos da escola mudam e os que não mudam apenas reafirmam a incrível
arbitrariedade de se estar vivo. Então, o que existe, o que é real, consistente,
sólido e universal? Apenas e só o prazer pessoal que pode ser retirado do sexo.
Esta geração sabe muito bem o que faz quando se atira de cabeça para uma vida
sexual desregrada. Apenas revela que, tal como em todos os séculos, as pessoas
necessitam de pontos de apoio absolutos para poderem viver. O sexo é esse ponto
de apoio absoluto hodierno, algo que proporciona uma razão para se continuar
vivo, razão essa que não se revelará utópica, incerta, irreal, etc. O prazer do sexo
é isso mesmo e nada mais, a única coisa não volátil dos tempos presentes.
Deste modo, podemos perceber que a sensualidade omnipresente
na sociedade, o sexo como um deus venerado, não é mais que a outra
face da procura, da ânsia, do anelo que todo o homem tem de verdade. O
homem pós-moderno entregou-se à única coisa sólida que lhe resta, àquilo que
não pode ser colocado em causa e que não mudará. Para obter algo deste género
o homem pós-moderno vende até a possibilidade do amor, recusa-se a aceitá-lo,
encara-o na perspectiva hedonista do jogo, do flirting, da aventura e emoção
presentes num novo olhar e rosto, com todo o mistério aí associado. A
possibilidade do amor é apenas uma possibilidade do romance. O novo homem
sabe disso, sabe desse jogo de palavras nas letras das músicas, sabe que se
pretender algo mais pode e vai sair magoado e que não é disso que precisa, mas
sim de algo compacto, consistente e seguro que não pode ser colocado em causa:
o meu prazer, a minha emoção, o meu acto sexual sem ilusões e pretensões
supérfluas.

A NOVA REALIDADE DO SEXO

As coisas mudaram de tal modo que aquilo que anteriormente era visto
como uma fórmula científica da psicologia humana entre adolescentes – o rapaz dá
amor em troca de sexo e a rapariga dá sexo em troca de amor – já não faz
qualquer sentido nas gerações mais novas. Quem é que está agora à procura de
amor quando faz sexo? As jovens adolescentes que participam em orgias cada vez
mais frequentes na alta/média alta sociedade? Que procuram activamente o sexo?
Que se enfadam quando têm o mesmo namorado mais do que uma semana? Que
se habituaram a falar de “experiências” com as colegas (e quando não as têm vão
à procura delas)? E aquelas que ainda não perceberam a mudança e procuram o
amor no sexo, rapidamente aprendem pela via mais dura que hoje, o que é certo é
o sexo e apenas o sexo, nada mais.
Alguns pais têm-se recusado a entender estas mudanças recentes, outros
nem sequer se apercebem do que se passa hoje em dia nas escolas e nas festas
entre amigos. Os jovens de hoje estão cada vez mais activos e mais cedo
relativamente à sua vida sexual, não porque procurem afecto mas porque
pretendem uma ilusão de sentido tal como é proporcionada pelo sexo. E este não
só se apresenta como indiscutível e certo (ao contrário de tudo o mais à nossa
volta) como permite obter sensações alienantes, capazes de apagarem a mente
durante alguns momentos, proporcionando uma incontornável impressão de
escape deste mundo com traços de irrealidade. A verdade e o prazer do sexo
permitem fugir da existência amórfica na qual se é obrigado a viver. Uma
realidade feita de lama que se desfaz por entre os dedos a qualquer tentativa de
apropriação e que nos atira para a instabilidade perpétua.
Tendo em conta as circunstâncias actuais, como pode o acto sexual não ser
apelativo? Poderá haver mistura mais explosiva para esta pós-modernidade
(possibilidade de escape baseada numa certeza inabalável)?
Para o homem aporético nada há de mais paliativo do que o sexo, o que,
como consequência, obsequiará o surgimento de um homo ebrius embriagado de
sexo. Qualquer tentativa de lho tirar produzirá uma reacção semelhante àquela
que tem um toxicodependente quando lhe tentam impedir de consumir
estupefacientes, com a diferença de que, no caso do jovem viciado em prazer
sexual, a opção passa pela ridicularização (de alguém que lhe transmita uma
perspectiva diferente) ou pela vida dupla (quando os seus condicionalismos sociais
o aconselham a ser discreto) e não, como no caso do toxicómano, pela recurso à
violência.
A vastidão de toda esta nova conjectura é difícil de imaginar. Agimos mal
quando, perante ela, apenas avançamos justificações hedonistas como causa.
Nesta sociedade que aparentemente abandonou a pretensão de alcançar a
verdade, a busca pela mesma ainda condiciona, mesmo que inconscientemente,
as nossas decisões e acções. Entre a procura obsessiva pela verdade no
Modernismo e a desilusão amarga pela falta dela no Pós-modernismo, o elemento
comum continua a ser o mesmo.
Todavia, o sexo como única verdade possível não pode trazer verdadeira
satisfação. Já Kierkegaard no século XIX havia apontado os problemas intrínsecos a
qualquer filosofia de vida baseada no prazer: o seu fim é o desespero. Desesperam
os homens em aflição constante pela procura incessante de novidade que nunca
trará completa satisfação. A procura de felicidade mediante o prazer é inglória: o
resultado é sempre o descontentamento, numa sede que aumenta à medida que
se experimentam novas formas de prazer e que nunca nos satisfazem. No homem
esteta, a verdadeira felicidade encontra-se sempre ao virar da esquina.
Assim é o retrato da sociedade contemporânea. A alienação momentânea
proporcionada pelo acto sexual não permanece e esvai-se com a facilidade com
que surgiu. A angústia retorna e o ciclo de euforia e angústia que este estilo de
vida fomenta leva ao desespero. Daí que ao homem que pretende estar
constantemente alienado a erotização da sociedade não chega. É preciso algo
mais que preencha esses tempos vazios (a maioria da vida) onde ele regressa a si
e é obrigado a conviver com este nonsense da existência, com a ausência de
referências, com o desconforto e náusea que pressente através de si mesmo e no
que o rodeia. E torna-se urgente outra forma de alienação que evite este retorno
ao estado aporético…

O CONSUMISMO COMO A GRANDE IDEOLOGIA ALIENANTE


DO NOSSO SÉCULO

A sociedade Ocidental esta ainda mergulhada numa outra forma de evasão


mas que raramente é reconhecida enquanto tal. O problema é tão sério e
simultaneamente tão pouco falado que merecerá uma introdução mais longa. Com
efeito, não pode haver melhor alienação que aquela que se desconhece, a que
passa despercebida e que não é identificada como tal. Já não falamos somente de
uma entre as diversas formas alienantes mas de toda uma ideologia que veio
substituir a falência das metanarrativas da era moderna. Que nova ideologia é
essa? O consumismo.
Este é um monstro com cara de anjo ou até sem rosto algum. Um dos
grandes mitos contemporâneos é a inexistência de ideologias que governem a
nossa vida, da ausência de ideais que comandem as nossas acções. Nada poderia
estar mais longe da realidade. Somos todos adoradores do novo deus Mamon, o
deus do conforto e do consumismo a ele associado, ao qual tudo sacrificamos e
penhoramos incluindo a nossa alma. Esta “rotina do consumo”, (expressão
aparentemente paradoxal, já que se há coisa que um consumista pós-moderno não
suporta são hábitos instalados), introduz uma nova forma de viver, uma ideologia
com todo um conjunto de valores que lhe são inerentes. Se o consumo é o que não
podemos deixar de fazer para sobrevivermos, já o consumismo é algo diferente,
um ideal, um estilo de vida que assumimos e que orienta as nossas acções.
Consumir faz agora parte da nossa identidade Ocidental mas nem sempre
foi assim. A grande mudança surgiu na segunda metade do séc. XIX quando a
evolução tecnológica iniciada um século antes começou a gerar superproduções
em quase todos os sectores. A produção industrializada substituiu rapidamente a
doméstica, o número de fábricas quase triplicou e as novas máquinas permitiram
uma taxa de produtividade nunca antes vista. A solução para o problema foi a
invenção de uma economia de mercado baseada no consumismo. A partir de então
já não se produziria para satisfazer as necessidades mas antes criar-se-iam novas
para escoar os excessos de produção. Desenvolveu-se a publicidade e propaganda
e já em 1901 (enfatizo 1901) o Red Book on Adversiting afirmava “O alvo do
anúncio é ensinar o povo a desejar o que não desejava antes, e indicar onde tais
desejos podem ser atendidos”. O que era ainda o início de algo novo no início do
século XX transformou-se em ideologia logo após a segunda guerra mundial: o
americano Victor Lebow em 1955 considerava que “ a nossa economia
[americana] enormemente produtiva exige que tornemos o consumismo como
nossa maneira de viver, que convertamos em rituais a compra e o uso de bens de
consumo, que procuremos no consumo nossa satisfação espiritual e a satisfação
do ego. Precisamos que coisas sejam consumidas, queimadas, gastas, repostas e
descartadas em grau cada vez maior”. Não sentiu o presente leitor um arrepio ao
ler estas linhas? Não pressente que a sociedade hodierna concretiza estes anseios
de Lebow?
É necessário reconhecer que o consumismo, enquanto estilo de vida,
representa um perigo para o cristianismo muito superior àquele que o comunismo
alguma vez representou. O comunismo era um perigo visível para a fé cristã na
medida em detinha uma agenda religiosa pública: utilizar o poder do Estado para
ensinar a inexistência de Deus e a irrelevância de todo e qualquer sistema
religioso. Assim não acontece com o consumismo que é aparentemente inofensivo
para a fé cristã. Mas não é assim: este propaga uma série de valores contrários ao
cristianismo e que vão criando ruído aquando da proclamação da Palavra. Para o
homem consumista a razão de existir não está já em ser algo mas em ter e
consumir, existindo para ir tendo artigos de consumo. A alteração que se tem
processado na sociedade é de tal ordem que mesmo a proclamação do evangelho
já está enferma. Cristo é apresentado mais como uma ajuda do que uma salvação
o que não é, obviamente, a mesma coisa. Para compreender a salvação é
necessário saber-se do que se é salvo e entender que é necessário um
arrependimento. Ora, a forma como o evangelho de Cristo é apresentado hoje em
dia fá-lo soar aos ouvidos da contemporaneidade como uma espécie de manual de
auto-ajuda, talvez mais eficaz que todos os outros que proliferam nas estantes das
livrarias. O movimento do ser para o ter coloca cada vez mais dificuldade à
compreensão do Evangelho pelas gerações actuais. A prática consumista com a
divulgação dos seus valores anti-essencialistas tem criado autênticos autistas à
mensagem cristã inclusive dentro da própria igreja. Toda esta operação é
demasiado subtil para que se preste realmente atenção.
Sem uma compreensão prévia da importância do ser torna-se difícil
entender os evangelhos pois toda a sua mensagem está aí baseada. Uma matriz
obcecada pelo ter ou ir tendo distorce a Palavra, interpretando-a de acordo com os
seus padrões. Mas a acção destrutiva do consumismo não fica só por aqui.
Também o valor da abdicação, fundamental à mensagem de Cristo, é anulada por
uma vida obcecada pelo ter imediato. Não é só a anulação do ser como valor
essencial mas a da própria capacidade de abdicar e do reconhecimento desta
como um valor. De facto, segundo os padrões actuais, qualquer forma de
abdicação é vista como algo desprezível, a evitar, um verdadeiro mal. Como pode
uma sociedade que não vê virtude na abdicação entender quem é Cristo, o
arrependimento, ou até a necessidade de levarmos a nossa própria cruz?
O comunismo não conseguiu penetrar em todos os países do mundo. Esteve
até longe disso. Mas haverá alguma resistência ao consumismo? O que o impede
de invadir o mundo impondo os seus valores?

O MOTOR DA IDEOLOGIA CONSUMISTA

O consumismo é, por si só, um engano ou uma mentira. O motor da


ideologia e prática consumista é exactamente o oposto daquilo que se esperaria.
Tal como a obsessão pelo sexo tem raízes em estruturas – as da necessidade de
verdade e de significados fixos e não adulteráveis – aparentemente nas antípodas
do hedonismo, também o consumismo tem origens em estruturas radicalmente
opostas às apresentadas publicamente. O caso do consumismo é ainda mais grave
que o do sexo, pois este nada promete enquanto que aquele assegura o contrário
daquilo que realmente oferece. O verdadeiro motor do consumismo é a
insatisfação e não a produção (aparente) de satisfação.
Esta é a triste sina de todos nós, de todos os habitantes das capitais
mundiais rendidas às falsas promessas do consumo frenético. Somos por natureza
insatisfeitos e o consumismo aproveita-se desse facto para exacerbar essa
característica, potenciando-a e aumentando-a. Se porventura algum bem que
adquiríssemos nos trouxesse a satisfação procurada, deixaríamos de consumir,
isto é, comprar algo diferente, estando para sempre totalmente satisfeitos. Ora, se
os produtos vendidos nos facultassem satisfação completa a economia de mercado
baseada no consumismo entraria em colapso. Ela só funciona se os bens
comprados acabarem, mais cedo ou mais tarde, por já não proporcionar a
satisfação pretendida, obrigando-nos a adquirir um novo produto de modo a
readquirir a ilusão de satisfação. E o tempo em que o produto nos proporciona
satisfação necessita de ir diminuindo de modo a aumentar a procura. Esta é a roda
do consumismo: os produtos não têm o propósito de nos proporcionar satisfação
mas apenas a ilusão momentânea da mesma. Os hábitos de consumo publicitados
às crianças e adolescentes de hoje têm como propósito fazer nascer uma
insaciabilidade de objectos e serviços intrínseca ao pensar e raciocinar humano. Os
bens de consumo, ao contrário do que se diz, não podem ter como objectivo
satisfazer-nos plenamente mas apenas aquietar momentaneamente essa
insaciabilidade que se vai instalando em cada acção da nossa vida. O acto de
consumir ultrapassa hoje o âmbito da necessidade e já é da ordem do
comportamento compulsivo. A mudança foi tão subtil que artigos e serviços
perfeitamente supérfluos para a vida humana no tempo nos nossos avós e da
juventude adulta dos nossos pais são hoje considerados “bens de primeira
necessidade”. A quantidade de conforto a que os Ocidentais estão hoje habituados
é absurda e chega a ser imoral quando olhamos para os dois terços da
humanidade fora do Ocidente. Estamos viciados em conforto e nem o percebemos.
De qualquer modo, o que interessa reter aqui é que a actual economia de
mercado pretende educar cidadãos para a insatisfação e que é neste sentimento
que se baseia toda a força do consumismo, sendo, na verdade, a única realidade
que esta ideologia dos tempos modernos tem para nos oferecer.
O PAPEL DA TECNOLOGIA NA ALIENAÇÃO CONTEMPORÂNEA

Outra dimensão fundamental para percebermos o consumismo e a


alienação por ele proporcionada é a da evolução tecnológica. Toda a tecnologia
abre-nos uma nova dimensão da acção humana, explora horizontes antes vedados
à nossa natureza.
Para entendermos melhor este aspecto necessitamos de reflectir sobre a
conexão de que os antropólogos falam entre gestos (acção) e mente. Uma nova
acção permite uma nova adaptação da mente humana, no fundo o abrir de um
novo mundo, e assim por diante. A acção B vai potenciar o desenvolvimento
cognitivo B que, por sua vez, abrirá espaço ao desenvolvimento de uma acção C
que levará à capacitação mental C e assim sucessivamente. As mentes das
crianças de hoje estão aptas a trabalhar com tudo o que seja botões, mas já não
acontece com a mente das gerações mais velhas que necessitam de fazer um
esforço adicional para conseguirem efectuar as mesmas operações. Acção e mente
são companheiras na criação de um novo mundo de oportunidades. Se fosse
possível voarmos individualmente mediante uma pequena máquina que se
colocasse às costas, o nosso corpo adaptar-se-ia rapidamente às novas
possibilidades, contribuindo também para um desenvolvimento e capacitação
mental adaptado às novas possibilidades de acção. É interessante verificar que
basta proporcionar ao corpo humano um novo ambiente para que este procure
explorar capacidades adormecidas dos sentidos de modo a fazer face às novas
condições. Quando alguém faz paraquedismo, por exemplo, o ambiente
radicalmente diferente em que se coloca o corpo humano (no ar em plena queda)
permite uma ampliação do aparelho sensitivo. Perante a situação de risco
aparente os cinco sentidos passam a captar realidades nunca antes notadas
parecendo adquirir inéditas capacidades, ouvindo o que normalmente não se ouve,
detectando os odores mais ténues e subtis possíveis, tacteando o ar como se este
fosse um objecto sólido. Novas situações, novas oportunidades e novas acções que
o nosso corpo efectua abre-nos todo um mundo anteriormente vedado.
Assim é com a tecnologia. A cada novo invento abrem-se novas dimensões
pelas quais nos podemos mover pela primeira vez, acrescentando realidades à
realidade. A tecnologia não nos liberta (como por vezes se fala) mas simplesmente
adiciona novas possibilidades de acção, aumentando o espaço do nosso pequeno
universo pessoal. O homem alienado, principalmente na fase de homo aporético,
vê nas novas possibilidades tecnológicas uma esperança: a esperança de sair de
onde está, a esperança de, nessa experimentação da nova dimensão, encontrar
algo que lhe traga felicidade. É a tecnologia que permite a existência do
consumismo. A abertura e publicidade de diferentes nichos provoca no consumidor
a ilusão de poder encontrar algo diferente que lhe dê sentido ou resposta, para lá
aquilo que já possui, como se anelássemos constantemente por algo que ainda
não temos. A inovação tecnológica permite-nos, portanto, julgar possível escapar à
vida presente, bastando adquirir o novo produto anunciado.

ALIENAÇÃO E CONSUMISMO

Perante o que já ficou esclarecido relativamente ao consumismo não é difícil


entender de que maneira este se transformou numa das maiores formas de
alienação contemporânea. É nos adolescentes de hoje que podemos ver com mais
facilidade como todo este processo se transformou numa autêntica alienação. Os
adolescentes são consumidores compulsivos. O verdadeiro prazer não está na
posse do objecto mas, principalmente, na antecipação da compra, porque, após
esta, o sentimento de satisfação decresce proporcionalmente ao tempo de uso. E a
cada geração que passa esse período é encurtado cada vez mais. Hoje em dia um
adolescente pode em apenas uma semana aborrecer-se com aquilo que, em
perspectiva de o adquirir, o entusiasmou durante meses.
O consumismo é, a par do sexo, o maior alienador de massas existente em
todo o mundo. Digo em todo o mundo porque, com a globalização, o fenómeno
encontrou uma disseminação global penetrando, pelo menos, em todas as capitais
mundiais. Já não falamos somente do mundo dito “Ocidental” mas inclusive de
países de terceiro mundo onde a pobreza abunda e a fome é a realidade diária.
Numa sociedade sem valores de referência que dependam de normas válidas por
si mesmas, não há filtro suficiente para as promessas ilusórias do consumismo,
principalmente em países pobres.
Como se processa esta alienção? O homo torna-se ebrius pela sua obsessão
em obter bens e experiências diferentes. O sonho de ter a última novidade torna-
se o seu veículo de escape, aquilo que lhe permite enfrentar os minutos diários
que antecedem o sono, minutos perigosos onde enfrentamos o nosso pensamento
no silêncio que nos reenvia para nós mesmos. Nessas alturas o homem consumista
adormece pensando no novo carro que quer comprar, no novo ecrã plasma que
saiu no mercado, no iPhone que está na moda, num iPod com mais espaço porque
2 gigas já não são suficientes, etc, etc, etc. O consumismo permite-nos preencher
a cabeça com possibilidades de compra e sonhar acordados.
O estilo de vida consumista implementa também um certo ritmo
fundamental nas nossas relações sociais. Não é por acaso que a série de maior
sucesso em todo o mundo seja Friends. O homem pós-moderno é um homem
relacional (isso foi uma das mais valias que a pós-modernidade nos trouxe) tendo,
todavia, como objectivo da relação um puro preenchimento do vazio sentido, já
que a solidão e o silêncio são o terror da contemporaneidade. Reparamos nisto de
forma quase imediata quando analisamos os tempos livres da juventude (incluindo
os jovens adultos) de hoje. As discotecas estão cheias às sextas e sábados à noite
e as batidas frenéticas da música tecno, as luzes, o movimento dos corpos e o
imenso álcool consumido produzem todo um cenário de alienação. Grande parte
dos jovens que já ingressaram no mercado de trabalho, apenas aguentam as suas
tarefas ordinárias porque sabem que irão adquirir capital suficiente para o
esbanjar rapidamente nessas noites de fim-de-semana. Alguns deles não admitem
sequer a possibilidade de ter outro programa: retirarem-lhes essa dose semanal
seria obstruir a respiração que lhes permite viver. O consumo inquieto de saídas,
de música e de dança é das alienações mais eficazes actualmente. As discotecas
são, sem margem de dúvida, o veículo de alienação mais divulgado por todo o
mundo. Qualquer pessoa que viaje hoje pelas capitais mundiais perceberá que o
modo de viver juvenil reproduz uma realidade cada vez mais homogénea. Apesar
do Pós-modernismo se ter iniciado como uma recuperação da etnia e do seu valor
intrínseco (subjugado durante anos pela aculturação do Ocidente), as massas
juvenis mundiais estão cada vez mais similares nos modos de ser e estar. As
mesmas formas de diversão, os mesmos problemas, a mesma atitude, a mesma
alienação.

Consumir freneticamente está na ordem do dia. Já não somos só aquilo que


consumimos. Somos, existimos e vivemos porque consumimos, porque entramos
nesta roda viva que gira e gira sem parar, numa espiral de alienação que se
pretende contínuo. O consumismo é, pois, uma das melhores formas de o homo
ebrius se manter afastado da sua fase aporética. As palavras de Allinges Mafra na
revista Ultimato de Maio de 1997 fazem cada vez mais sentido: “Na verdade o
consumidor não busca possuir coisas, e sim consumir coisas. E o faz
incessantemente, sem nunca satisfazer-se. E quando de repente deixa de
consumir, entra em depressão, posto que, vazio, não tendo nada dentro de si para
consumir, escorrega para o próprio vácuo, a inércia, a abulia, consequentemente o
tédio e a solidão”.
Também experimentar está na ordem do dia e este homo ebrius é,
basicamente, um experimentador. Daí que os desportos radicais sejam tão
populares, principalmente no formato de pequenas feiras deambulantes que
proporcionam experiências a quem passa e a quem suporte com paciência as
imensas filas de curiosos. Saltar de, saltar para, saltar através, enfim, inúmeras
variantes com a mesma atracção: novidade e adrenalina.
Até mesmo as igrejas evangélicas já ficaram afectadas por este vírus: o
frenesim de actividades, de palestras de todos os géneros, de aprender mais, de
ouvir mais e, todavia, tão pouco tempo (ou nenhum) para parar, meditar e praticar
o que se ouviu. O horror aos tempos mortos e ao silêncio que possa acontecer,
porventura, no desenrolar do culto semanal ou do tempo de louvor e adoração, a
tudo o que aparentemente me possa reencaminhar para mim mesmo. O silêncio e
a solidão são, de facto, os maiores inimigos do homem moderno e é de lamentar
quando também o são para a igreja evangélica contemporânea. De facto, não nos
podemos esquecer que a alienação assume diversas formas, inclusive o consumo
de religião. Não interessa o quê exactamente que consumimos mas desde que isso
nos mantenha ocupados e afastados de algum pensamento que questione toda a
nossa existência. Muitas vezes ser-se religioso não é mais que outra forma de se
estar bêbado.

O MUNDO VIRTUAL E A FUGA DO REAL

Por último, uma das maiores formas de alienação hodierna é o mundo


virtual. Não se pode falar de alienação sem se mencionar este mundo em franco
desenvolvimento. Neste momento é uma das maiores alienações do nosso mundo
Ocidental e aquela que apresenta a maior capacidade de expansão, seja a nível da
diversidade proporcionada pelo constante progresso tecnológico, seja a nível das
faixas etárias afectadas.
A alienação oferecida pelo virtual abrange diversas áreas desde a Internet,
às redes sociais virtuais que aquela proporciona, até aos jogos de computador. É
por este último ramo da alienação virtual que iniciaremos a nossa análise.

OS JOGOS DE COMPUTADOR

Aqueles que ainda julgam que os videojogos têm como públicos alvo as
crianças encontram-se um pouco desfasados da realidade. Hoje em dia os
consumidores de consolas não são mais as crianças mas sim uma franja de
gerações que compreende os mais pequenos até aos adultos com 40 anos de
idade. Enquanto os jogos virtuais representavam uma dimensão no interior do
computador doméstico, jogado principalmente com um teclado, as crianças eram
os seus principais consumidores, mas no momento em que as consolas surgiram
como mais um apetrecho da sala de estar, esta forma de diversão generalizou-se e
passou também a fazer parte dos tempos livres de graúdos. O surgimento de um
aparelho que permitia interacções divertidas com a televisão da sala,
nomeadamente os jogos da PlayStation (a consola que mais contribuiu para este
vício das gerações de jovens adultos), fez com que filhos e pais se sentissem uma
vez mais a brincar juntos, sem que para isso fosse necessário sair de casa ou
permanecerem mudos diante de um programa televisivo. Os jogos de computador
conseguiram essa proeza de fornecer também aos adultos aquilo que lhes faltava
na televisão: uma interactividade onde o herói da trama já não era outro que não
eu mesmo e onde já não se tratava de receber passivamente os conteúdos mas
sim de participar neles. Pais e filhos poderiam quebrar o silêncio que se tinha
estabelecido diante da “caixa negra” e passarem, ao invés, a comunicar mediante
actividades lúdicas que se encontravam à distância de um polegar.
Por outro lado, existe já todo um conjunto de gerações que viveu jogando
este tipo de jogos, incorporando um estilo de vida e de ocupação de tempos livres
que não desaparecem só por se atingir a idade adulta. Pelo contrário: os novos
adultos (20 aos 35 anos) são aqueles que na adolescência já não sabiam divertir-
se sem incorporarem esta dimensão lúdica. Mesmo sem filhos, os jovens adultos
simplesmente estabelecem uma linha de continuidade entre a sua adolescência e
a sua maioridade.
Recordo-me de uma situação recente numa loja FNAC, onde à volta de um
novo jogo virtual de acção se encontravam a jogar e a assistir 7 adultos. Após o
gesto cada vez menos corajoso de um adulto ao pegar no comando, logo se
reuniram à sua volta, paulatinamente, um grupo atento de adultos com mais de 30
anos. Apesar deste ser apenas um episódio já não foi o primeiro assistido e
acredito que será cada vez mais frequente. Há alguns anos atrás seria impensável
um acontecimento como este pois nenhum adulto teria a coragem de se expor
publicamente a uma “actividade tão infantil”. Se hoje isto é possível é porque não
é mais considerado um exercício exclusivo das crianças. Vivemos numa era em
que o ideal de permanecer jovem é absolutamente incontornável. A necessidade
que os nossos pais e avós tinham de marcar a diferença entre a idade juvenil e
adulta já não existe, antes pelo contrário. Gastam-se esforços para que essa
distinção não apareça, ou pelo menos não seja muito visível. O tempo que se
passava em discotecas na adolescência é o mesmo tempo que se passa já com
emprego e, por vezes, com uma vida a dois. O que se pretende é permanecer
jovem não havendo qualquer complexo de revelar posturas, indumentária e acções
juvenis. O que se ambiciona é exactamente isso. A distinção que havia outrora é
agora evitada até onde a idade o permitir (o que será destas gerações quando
atingirem a terceira idade?).
Os telemóveis também vieram obsequiar a utilização de jogos de vídeo
entre os adultos. Apesar de arcaicos e graficamente pouco atraentes, os jogos que
os telemóveis disponibilizam têm permitido aos que viajam comummente em
transportes públicos, utilizar as diversões virtuais como forma de passar o tempo,
divertindo-se enquanto esperam e viajam. Desta feita, os telemóveis
transformaram-se numa divulgação em massa deste tipo de ocupação lúdica e no
futuro serão cada vez mais apelativos.
Mas para além das razões sociais que obsequiaram a incorporação dos jogos
de vídeo como uma actividade banal entre os jovens adultos é a própria natureza
do jogo virtual que oferece uma um estilo de alienação praticamente único.
Se repararmos com atenção, o jogo de computador responde a duas
necessidades fundamentalmente pós-modernas e que se encaixam perfeitamente
no perfil do homo ebrius:
Vivemos numa sociedade obcecada pelo sucesso. Lidamos mal com as
derrotas e fracassos e o alvo da nossa vida é apresentarmo-nos como pessoas
vitoriosas no que fazemos. Estes valores são tão hegemónicos que até penetraram
nas igrejas mediante a teologia da prosperidade: só conseguimos levantar a
cabeça se, de alguma forma, podemos apresentar o sucesso que nos circunscreve,
que emana das nossas acções, pois, viver é ter êxito, não interessa em quê. A
paranóia atingiu um tal grau que a sétima arte não se coíbe de apresentar vilões
ou heróis anti-heróis que nos fazem admirá-los não pelos valores que professam
mas por serem bem sucedidos. Aliás, a nova definição de herói que se encontram
nas películas é exactamente essa: aquele que, no final, consegue obter os seus
intentos, independentemente da natureza dos mesmos. Só dessa forma se
compreende que actualmente se consiga consumir séries e filmes onde a
personagem principal é um advogado que não olha a meios para atingir os seus
fins, ou ladrões de bancos e outras instituições abonadas de capital, ou assassinos
que escolhem matar aqueles que, de forma arbitrária, são consideradas más
pessoas ou ainda o fascínio que o bom vilão passa a ter sobre o bom polícia que o
capturou e vice-versa (pois só um polícia de sucesso poderia capturar um vilão de
sucesso).
Mas qual a relação desta obsessão da sociedade com o mundo dos jogos
virtuais? Não é um facto muito alardeado, mas uma das sensações que os jogos
proporcionam é a da vitória, esmagando um inimigo ou superando um obstáculo
físico (mas virtual) ou intelectual. Os jogos de computador permitem uma radical
sensação de superação de limites, a constante ilusão de ganhar um pedaço de
alguma coisa que, na verdade, nada é. Os que conhecem este tipo de jogos sabem
que os editores necessitam de produzi-los com um equilíbrio bastante difícil de
alcançar, onde a balança tem nos seus pratos por um lado o desafio que o jogo
lança e por outro a dificuldade em ultrapassá-lo. Um jogo demasiado fácil é
abandonado por ser ridículo, por não entusiasmar, por não ser um adversário à
altura. Por outro lado, um jogo bastante difícil que não permite uma superação
progressiva é também abandonado imediatamente: ao invés de proporcionar uma
sensação de vitória provoca no jogador uma desconfortável sensação de fracasso.
Esta é a razão que explica a dificuldade deste tipo de actividade lúdica atingir os
adultos acima dos 40 anos. O facto de não estarem habituados ao joystick nem à
dinâmica do teclado necessária aos jogos de computador faz com que tenham
mais dificuldade em saírem vitoriosos dos mesmos. Mas para aqueles que
experimentam a progressão num jogo, a probabilidade de incorporarem este
divertimento no seu dia-a-dia aumenta exponencialmente. Também não é por
acaso que todos os jogos de computador incluem a possibilidade de configurar
previamente a sua dificuldade, permitindo uma progressiva adaptação ao mesmo.
Trata-se de facilitar o equilíbrio.
A oportunidade de sucesso no mundo virtual pode ainda colmatar algum
fracasso da vida real, numa verdadeira lógica de substituição. Se no mundo real
não se tem êxito nas relações amorosas, profissionais, etc., tudo isso pode ser
alcançado virtualmente, obtendo assim as sensações que, de outra forma, estão
vedadas. Mas, é importante frisar, que a possibilidade de sucesso no mundo do
jogo de vídeo não atrai somente quem não o tem na vida real mas qualquer um
que a experimente: vencer uma inteligência artificial, superando os desafios
apresentados, é aliciante para qualquer um.

O jogo de computador permite ainda alimentar uma necessidade do homem


contemporâneo: a necessidade de experiências novas e de mudança. Existem
jogos para todos os gostos desde acção, estratégia, simuladores de todos os
géneros até da própria vida humana em sociedade. Os ambientes representados
também tendem para o infinito e a evolução tecnológica consegue-os cada vez
mais realistas. Os testes de criatividade têm revelado que as crianças possuem
cada vez menos capacidade imagética. Será uma realidade dos tempos modernos
onde já não se sabe brincar ao faz-de-conta? O mundo virtual transporta-nos para
paisagens de países nunca visitados, veículos nunca conduzidos, ambientes longe
do alcance do homem, até planetas e lugares inexistentes na vida real mas
atractivos à mente humana. As acções disponibilizadas permitem-nos passar de
conquistadores romanos a presidentes de câmara, de jogadores de futebol a
magos com poderes sobrenaturais, de condutores de automóveis de fórmula 1 a
líderes de gangs. As ofertas são quase inesgotáveis podendo abarcar qualquer
realidade que venha à mente não existindo limites para a imaginação dos
programadores informáticos.
Não é de admirar que num anúncio da playstation já de há largos anos se
fizesse uso desta imensidão de recursos virtuais disponibilizados. O anúncio
utilizava um narrador que ia contando as suas experiências de vida, desde general
comandado exércitos, a tenista campeão, terminando com uma frase
verdadeiramente apelativa: “Já vivi!” Ora, nada pode estar mais longe da
realidade, mas, com efeito, para o mundo virtual isso não é um defeito, antes uma
virtude. Como já dizia alguém “para que quero eu a realidade?”. A dinâmica dos
jogos virtuais que permitem experimentar “existências” aparentemente
inacessíveis pode, de facto, fazer com que o jogador se sinta a viver mais do que a
realidade o permite.
Quem ainda não ouviu falar do famoso Second Life? Um “jogo” on-line onde o
que se oferece é a simulação de uma pessoa e personalidade diferentes. As
restantes personagens do jogo têm igualmente pessoas reais por detrás
conectadas mundialmente. Comunicam em Inglês descrevendo as suas acções e
reacções ao que lhes vai acontecendo, alterando, dessa forma, a vida dos que os
cicunvizinham. As situações vão-se sucedendo às vezes tal como na vida real. A
ideia é simplesmente ser outra pessoa, passar por situações diferentes e
experimentar aquilo que a realidade não permite ou não permitiu. E para quem
está entediado com o mundo concreto e verdadeiro é possível inventar uma
personagem dentro de universos fantásticos com dragões, princesas e magos,
seres de outro mundo ou até, para as almas mais negras, sociedades vampirescas.
Os enredos conseguem ser tão atractivos que alguns jogadores deixam
simplesmente de viver a sua vida real, apenas comendo e dormindo (pouco),
normalmente estudantes que vão faltando aos seus compromissos académicos
sem que os pais o imaginem, e tudo isto apesar de Second Life não ser
propriamente um jogo, considerando a inexistência de objectivos e desafios a
superar. Apenas um ciclo de acções, envolvimentos, conversas. A loucura é tanta
que existe uma paridade entre a moeda virtual do Second e a moeda real para que
se possam comprar terrenos, apartamentos, vestuário, enfim, o que for necessário.
O capital real que se investe no jogo vai dependendo da carteira (também real) do
jogador.
A mudança facultada nestas “aparências de realidade” é, de facto, a melhor
forma de alienação sendo um dos maiores atractivos destes jogos. Todo o mundo
virtual é um mundo feito à nossa medida preparado para o dominarmos e, de certa
forma, escaparmos da nossa vida quotidiana e banal. Um mundo onde o que
podemos alcançar é bem mais interessante do que comparado com o real, pois os
“objectivos” do jogo suplantam os reais. Durante o tempo em que se joga nada
mais existe e tudo se concentra na superação das dificuldades que vão surgindo: é
a alienação absoluta incorporada numa viagem para um outro mundo, uma outra
personalidade. Num artigo de 18 de Novembro do jornal Sol, encontramos a notícia
de um adolescente de 15 anos que entrou em estado de convulsão após jogar um
jogo de vídeo durante 24 horas. A falta de descanso, a alimentação inadequada e a
concentração elevada durante esse dia inteiro fizeram com que o rapaz sueco
sofresse uma convulsão semelhante a um ataque de epilepsia. As consequências,
para efeitos deste artigo, são irrelevantes. O que interessa aqui realçar é a
capacidade que o jogo revelou, neste caso o famoso World of Warcraft (já fonte de
negócio para alguns, desenvolvendo as personagens a custo zero e depois
vendendo-as aos impacientes que queiram progredir mais depressa) em suplantar-
se às necessidades mais básicas do ser humano. Nem a fome, nem o sono, nem a
protecção automática contra o stress foram mais fortes que as possibilidades
oferecidas pelo mundo virtual. Segundo o psicólogo Owe Sandberg citado pelo
mesmo jornal “entre 30 mil e 40 mil adolescentes na Suécia estão actualmente
sob o risco de se tornarem dependentes de videojogos”. Com certeza não será só
na Suécia. Seria necessário fazer um estudo à escala global incluindo adolescentes
mas também adultos. Os resultados iriam sem dúvida surpreender-nos.
Se estivermos atentos à nossa vizinhança e amigos/conhecidos talvez não
seja difícil encontrar casos mais ou menos semelhantes ao desse infeliz sueco (não
tão graves a nível de saúde) ou outros em que se percebe que a vida é orientada
ao redor de jogos de computador. Em certo tipo de pessoas não é difícil
reconhecer que os objectivos diários se resumem em trabalhar para sobreviver e
comprar videojogos. Mais uma vez, quem quer a realidade quando a virtual é
bastante mais aliciante e diversificada? Para quem, talvez por questões de
dificuldade de relacionamento ou aversão a multidões, não consiga optar pela
alienação mor dos tempos modernos – as discotecas – a possibilidade de
submergir em mundos surpreendentes e inéditos é, provavelmente, demasiado
sedutora para ser recusada.
Não é este o espaço indicado para aprofundar o tema, mas não é possível
deixar passar a oportunidade de apontar para um futuro onde os jogos de
computador proporcionarão a alienação máxima da sociedade. Nenhum
divertimento poderá rivalizar com o que os jogos oferecerão nem mesmo o sexo. O
filme Matrix já mostrou o caminho que será percorrido e, acredito, que não
demorará muitos séculos. Quando os neurocirurgiões conseguirem aceder
directamente aos nossos centros nervosos e ligá-los a um computador as
possibilidades de alienação não conhecerão limites. Para quem possuir capital
suficiente, as relações sociais reais serão substituídas pelas virtuais, em todos os
domínios. A terceira idade passará o resto dos seus dias ligada a computadores de
modo a readquirirem as experiências de um corpo saudável e jovem e tudo isto se
fará em nome de um certo humanismo. Os que vivem de rendimentos talvez até
preferirão confinar-se às vielas virtuais na maior parte do seu tempo diário
disponível. Quem sabe se, como destino de férias durante um mês, oferecer-se-á a
estadia em mundos virtuais, evitando assim os desconfortos, os perigos e a
pobreza dos mundos reais? O cenário poderá parecer ao presente leitor um pouco
catastrofista mas a verdade é que, considerando os efeitos que actualmente os
jogos de computador têm, não é difícil entendê-los numa relação proporcional aos
futuros desenvolvimentos tecnológicos. Sendo hoje apenas um entre outros meios
de alienação contemporânea – sem sequer conseguir rivalizar com o consumismo
e o sexo – será, num futuro ao qual o presente autor não assistirá, a maior fonte
de alienação de todo o mundo. Não será difícil perceber que a comunicação do
evangelho também terá de ser efectuada nesses universos paralelos tal como
acontece actualmente no Second Life.
O primeiro passo para esta realidade já foi dado com a consola Wii. Apesar
de ainda não ser uma ligação directa ao cérebro, os jogos passaram, com a nova
Nintendo, a ser uma extensão de todo o movimento do corpo. O mundo virtual já
não está na ponta dos dedos, mas em todo o nosso corpo. Num futuro próximo os
lares de terceira idade começarão a incorporar estas novas tecnologias para
poderem proporcionar actividade física aos residentes, abrindo portas para
conquistar a última geração de resistentes aos jogos de computador. É de
assinalar que a publicidade efectuada a esta consola raramente inclui crianças e
adolescentes preferindo mostrar jovens adultos e até mesmo idosos em pleno
divertimento. O futuro de um mundo de alienação hipervirtual e transgeracional
chegou!
A NOVA TECNOLOGIA E AS REDES VIRTUAIS

A Internet democratizou a informação e o contacto entre os povos. As


limitações são cada vez mais reduzidas, desde que haja tecnologia disponível
(acaba por ser ainda um privilégio muito específico das nações menos). A
expressão “aldeia global” encaixa com perfeição num futuro próximo. Entretanto,
entre os países onde a Internet é já uma ferramenta comum o futuro já chegou e
facilmente falamos em tempo real com alguém que está do outro lado do planeta
a custos reduzidos. Não só é fácil como rápido e eficiente (se exceptuarmos a
transmissão de voz e imagem), mas acima de tudo muito personalizado. Qualquer
contacto pode ser obtido pela própria Internet, não sendo necessário um
conhecimento prévio dos dois inter dialogantes. Enfim, um verdadeiro paraíso da
comunicação, talvez impensável a algumas décadas atrás.
Pela facilidade com que a sua comunicação se processa, a Internet
desenvolve comunidades absolutamente virtuais. Podem-se ter mil e umas
conversas sobre os mais variados temas com quem nunca se viu e provavelmente
nunca se irá ver, partilham-se vídeos e músicas com grupos de interesse
constituídos por elementos espalhados pelos continentes, acedem-se a realidades
que teriam ficado no esquecimento para quem não pode viajar, partilham-se e
divulgam-se problemáticas com características regionais mas discutidas à escala
global, assumem-se posturas e formas de estar na vida (tribos urbanas) que estão
do outro lado do atlântico e sem qualquer representação em outros locais, fazem-
se amigos desconhecidos por causa de um único interesse comum ou, por vezes,
fica-se mais informado e em tempo real sobre acontecimentos em nações e povos
que nos são estranhos do que do sucedido nos nossos bairros de residência.
Ora, para tudo isto é preciso despender tempo. A Internet, sendo um fluxo
de informações, facilita e cativa a sua utilização, não sendo de forma alguma um
processo penoso participar de todas as acções acima indicadas. O tempo que ali
despendemos é um prazer. Hoje em dia é possível ficar conectado na Internet 24h
e mesmo assim descobrir novos interesses que nos façam prolongar a visita. Entre
os adolescentes já nem se trata de visita mas de “viver” na Internet, donde apenas
se sai para ir à escola ou outro lugar qualquer. Existe um fenómeno recente que
tem admirado os pais destas novas gerações e que consiste em chegar a casa e
continuar a falar com os colegas dos quais se tinha despedido ainda há bem pouco
tempo à saída da escola. Tem-se verificado até que os assuntos mais íntimos são
agora conversados com um computador como mediador e não presencialmente.
Começa a não ser raro ver estabelecidas conversas íntimas através de msn. Em
muitos casos é já possível afirmar que os diálogos mais profundos entre amigos
ocorreram através do computador e não de forma presencial. Mesmo alguns pais
têm verificado que é mais fácil falar de assuntos privados com os filhos no
messenger do que cara a cara. Sinais dos novos tempos? È provável que se esteja
a fomentar uma timidez latente que se reflectirá no futuro, mas o que nos
interessa realmente evidenciar para efeitos da temática aqui abordada são as
novas possibilidades que a mediação – o computador – fornece para efeitos de
alienação. As oportunidades de comunicar com tanta facilidade mas sempre
através de um mecanismo que impede a visualização directa (se exceptuarmos as
câmaras) permitem uma máscara do eu. Este tipo de comunicação bloqueia, em
primeiro lugar, a transmissão de emoções vocais e faciais. A comunicação, só
ainda neste primeiro nível, permite um resguardo considerável do que somos ou
estamos a ser nesse momento. Em segundo lugar, e quando falamos para pessoas
desconhecidas, a liberdade é total, podendo até assumir uma nova personalidade,
até um género diferente. Em terceiro, se falamos com pessoas conhecidas na
Internet e que moram em países diferentes, sabemos que dificilmente possa haver
oportunidade para um contacto directo, ou seja, não há qualquer responsabilidade
envolvida na relação. Os amigos podem mudar consoante o nosso estado de
ânimo e podemos partilhar os problemas à vontade modificando a sua origem e
natureza de acordo com a forma como nos sentimos mais confortáveis. De igual
modo, podemos receber os problemas de outros e dizermo-nos “amigos” já que a
responsabilidade dessa amizade nunca poderá ser testada (só em casos muito
raros, mas, existe sempre o botão de off).
Estas redes sociais que se formam na Internet são, assim, uma excelente
oportunidade para fugir ao dia-a-dia e esquecer a vida real, embrenhando-se em
mundos distintos com possibilidades de manipulação e de encobrimento da
realidade quase infinitas.
Ora, com os novos desenvolvimentos tecnológicos é possível aceder ao msn
através do telemóvel. Esta confluência entre Internet (msn) e telemóvel permitirá
um acréscimo considerável do estado de alienação juvenil. Até este momento era
necessário desligar o computador (conjuntamente com a conversa) para cumprir
com os deveres sociais, mas a partir de agora já não existirá esse obstáculo. As
possibilidades serão imensas. Acima de tudo, o adolescente (e também o adulto no
seu local de trabalho) poderá desligar-se do ambiente que o envolve e permanecer
ligado a um mundo ou pessoa que pode até não existir, atingindo o objectivo que
todos perseguem: a eliminação absoluta da solidão. Com msn no telemóvel (desde
que a preços atractivos, podendo demorar ainda uns anos) o ideal absoluto de
nunca se sentir sozinho e de fugir do silêncio que nos reenvia a nós próprios,
poderá ser alcançado. O sempre contactável disponibilizado actualmente pelo
telemóvel passa a sempre acompanhado com esta fusão. As redes sociais virtuais
serão procuradas assiduamente pelas gerações actuais e futuras. Ser diferente do
que se é, não assumir responsabilidades, ocultar defeitos visíveis, apresentar-se a
outros a partir do zero como se a vida pudesse recomeçar sem passado e sem
história a qualquer momento, evitando relações presenciais e mudando
constantemente de pares dialógicos. Actualmente a diferença não é muita,
considerando o tempo que se passa em Internet nos nossos computadores
pessoais, mas a mobilidade ainda não é aquela que uma conexão entre telemóvel
e Internet sem restrições permitirá.
Outro dos serviços recentemente disponibilizados para os telemóveis de
terceira geração é a recepção de canais televisivos para o telemóvel. Inventou-se a
televisão portátil. A partir de agora a magia da “caixa negra” pode continuar a
exercer a influência que detinha nos lares e transportar-se para as ruas, pois,
enquanto se espera pelo autocarro, os péssimos conteúdos televisivos já podem
alimentar a nossa alma. Aquela que foi a primeira grande fonte de alienação
tecnológica estará em todo o tempo e em todo o lugar. O único limite será a
capacidade da bateria.
Assim, os telemóveis deixaram de ser um prestador de serviços bastante
limitado para ser o arauto do novo paraíso. Mesmo no local de trabalho já não será
possível monitorizar o empregado através do seu próprio computador. O
telemóvel, esse brinquedo maravilhoso que cabe no bolso, permitirá a fuga sem
sair do sítio. Mas não só, permitirá a fuga de qualquer local, inclusive em
andamento. Como será poder iniciar uma conversa e só a terminar 12 ou 16 horas
depois, apesar de se poder deslocar durante esse tempo? Como será tentar resistir
à tentação de ver o seu programa favorito a qualquer hora do dia e em qualquer
local? Ver-se-á ainda alguém a ler um livro nos transportes públicos, agora que
também a televisão passa a ser ubíqua? Passaremos a ser, definitivamente, seres
viciados em imagens e/ou comunicação?

Em jeito de conclusão

Se existe elemento caracterizador da sociedade pós-moderna e pós-cristã é


esta ânsia pela alienação. A famosa expressão marxista “A religião é o ópio do
povo” não faz mais sentido, a não ser se incluída num sentido mais amplo onde a
religião não surge sozinha mas acompanhada de uma imensidão de outros
interesses que se reflectem como a manifestação de um padecimento global. O
ópio do povo é agora o sexo e a erotização ubíqua, o consumismo e as
potencialidades do mundo virtual.
O Evangelho, enquanto palavra de salvação, terá de se adaptar às novas
realidades. A Boa Nova tem de se apresentar, em primeiro lugar, como má nova,
aquilo que nos arranca a esta embriaguez constante, como um duche frio
incómodo e do qual se quer sair. A outra alternativa é esperar os momentos
(poucos) de transição entre alienações, tarefa complexa pois as camadas
sucessivas que se sobrepõem permitem alterar as formas alienantes enquanto
ainda se permanecem noutras. Apenas nos momentos de crise se poderá esperar
um ouvido atento ao que Cristo tem para nos dizer. Esta segunda opção é,
provavelmente a mais confortável. Um certo humanismo secularizado e relativista
que se instalou diz-nos que não é prudente, talvez até pouco ético, retirar os
paliativos que a outros servem de consolo. Mas esta posição só pode resultar de
uma compreensão não essencialista da vida. A visão cristã aponta para conclusões
radicalmente opostas: há uma ontologia existencial por detrás das nossas vidas e
isso deve-nos coagir a provocar a libertação da alienação, em primeiro lugar em
nós mesmos – lutando para que não sejamos nós igualmente alienados – e, em
segundo, nos outros. As opções conformistas são sempre relativistas e não
devemos esperar que as coisas se resolvam por si mesmas. Somos chamados à
provocação, tal como nos é revelado pela vida d’Aquele que é o máximo exemplo
para todos nós. Jesus contornava as alienações do seu tempo indo ao encontro
delas, em aberta oposição. Os seus três anos de ministério são anos de
provocação, não só nas palavras como nos actos. A alienação pode ser combatida
de diversas formas, mas esta, parece-me, a mais eficaz. Sem confrontação o
estado de alienação apenas irá aumentar, pois alienados produzem mais alienados
numa espiral sem fim à vista. Alguém dúvida que a melhor forma de se perceber
que os valores da ganância e do lucro desmedido, da centralização no ter ou ir
tendo e não no ser, do mercado como deus absoluto, etc, são, de alguma forma,
erróneos a não ser através de uma crise deste mesmo sistema? Não, não existe
outra forma de o compreender, a não ser passando pelo seu próprio colapso e pela
necessidade de regeneração. Assim é com as nossas vidas pessoais. A alienação
dos nossos gestos e pensamentos facultam-nos a ilusão da tábua de salvação e a
melhor forma de compreendermos o quanto ilusória tem sido a nossa existência
diária é darmos um passo em falso e tombarmos no vazio que sempre evitámos a
todo o custo. Quando Cristo disse que os sãos não precisavam de médico mas sim
os doentes de modo algum considerou que existiam justos no mundo. Todos
precisam de remição. A diferença está em que alguns apercebem-se do seu estado
lastimável e outros não. Só aos que se descobrem enfermos é possível a cura. Só o
homem aporético pode salvar-se de si mesmo mediante a acção de Jesus. Todo e
qualquer disfarce da sua situação de crise constitui obstáculo à compreensão da
mensagem de Deus.
Como disse anteriormente, a angústia típica do existencialista não existe
mais. A sociedade aguentou o quanto possível essa etapa onde o homem aporético
olhou para si e se compreendeu como tal. O superhomem de Nietzsche, esse
construtor de valores emancipado, era, pelos vistos, uma ilusão, tal como o
comunismo de Marx e Engels o foi. Pelo que podemos observar hoje da nossa
história Ocidental, só a alienação poderá seguir-se a uma profunda compreensão
da nossa solidão no universo. Neste momento, o ser humano precisa de observar a
aporia da sociedade que criou e sentir a necessidade de redenção.

Novembro de 2008
Manuel Rainho