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Formação "Desformatada"
Práticas com Professores
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CEP) de Língua Inglesa
Jordão, Clarissa Menezes - Martinez, Juliana Zeggio - Halu, Regina Célia

Formação desformatada - práticas com professores de língua inglesa


Clarissa Menezes Jordão - Juliana Zeggio Martinez - Regina Célia Halo (Orgs )

Coleção: Novas Perspectivas em Linguística Aplicada Vol. 15


Campinas, SP: Pontes Editores, 2011.

Bibliografia.
ISBN 978-854113-3594

I Língua Inglesa - ensino e aprendizagem 2. Educação - formação de professores


3 Comunicação 4. Linguística I. Título

Índices para catálogo sistemático:


I. Língua Inglesa - ensino e aprendizagem - 420.7
2. Educação - formação de professores -407
3. Comunicação -410
4. Linguística - 370.7
CLARISSA MENEZES JORDAI)
JULIANA ZEGGIO MARTINEZ
REGINA CÈLIA HAL O
(ORGS.)

O PROFESSOR DE INGLÊS E OS
LETRAMENTOS NO SÉCULO XXI:
MÉTODOS OU ÉTICA?
Lynn Mario Trindade Menezes de Souza

Vocês podem ver pelo título do meu trabalho, que quando


eu falo em "métodos ou ética" me refiro ao aspecto interes-
sante em ser professor e principalmente professor de língua
estrangeira, porque mudou ao longo dos anos essencialmente
a nossa responsabilidade profissional. Cada vez nos tornamos
mais responsáveis sobre nossa atuação como educadores, e
é esse aspecto que eu quero enfatizar: o que nos toma mais
responsáveis como educadores no mundo de hoje? Refiro-me
a esse "mundo de hoje" como um mundo globalizado, um
mundo de complexidades, enfim um mundo que nos obriga
a atuar de uma maneira diferente na nossa sala de aula. Agir
e interagir com os nossos alunos e com os nossos materiais
de uma forma diferente. Então esse conceito que tínhamos de
métodos, de livros didáticos, muda ao longo dessa mudança
da nossa realidade na contemporaneidade hoje.
Nós vivemos hoje em dia nesse mundo complexo,
globalizado, múltiplo. E é um mundo marcado por fluxos
de todos os tipos, fluxos de pessoas, acima de tudo fluxos
de capital, fluxos de artigos, fluxos de informações e esses
fluxos acontecem com uma rapidez enorme. E isso tudo
parece acontecer fora da sala de aula, mas dentro da sala de
aula parece que ainda estamos naquele ritmo antigo, bem
devagar; no ensino de língua materna, por exemplo, existe
ainda o debate de como é que o professor deve lidar com os

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CLARISSA MENLZES JORDÃO
FORMAÇÃO 'DESFORMATADA"
JULIANA ZEGGIO MARONE:7.
PRÁTICAS COM PROFESSORES DE LÍNGUA INGLESA
RfIlliNA CÉLIA 114111
(0Ros.)

meios de comunicação que o aluno está acostumado a usar metáfora da educação bancária, dizendo que a relação profes-
fora de sala de aula, a intemet especialmente, vídeo games, sor aprendiz não é como a relação bancária, de fazer pequenos
jogos de computador. Qual a relação entre tudo isso e a sala depósitos e imaginar que alguma hora essa conta vai aumentar
de aula? Ainda há reclamações da parte dos professores de e gerar lucro. Não é assim que o processo educativo acontece,
que as_alunos..não leem e não escrevem direito. E o que é mas infelizmente lá se foram cinquenta anos e a metáfora do
essa preocupação de o aluno não ler e não escrever, se o que método ainda continua muito forte.
a gente vê quando um jovem está sentado na frente de um Nós pressupomos que nossa maneira de ensino tradi-
computador é que ele lê o tempo todo, ele está com os dedos cional é estruturada, linear — no sentido, "primeira etapa,
dele no teclado, portanto ele está escrevendo o tempo todo. segunda etapa, etc.". "Primeiro fazemos uma apresenta-
Então essa, reclamação de que o aluno não lê, o aluno não ção, depois vem a prática", "página 1 tem que vir antes de
escreve, é uma discrepância entre nossa sala de aula hoje e página 2"... O que quero dizer é que há várias maneiras
o mundo lá fora, e é uma situação intolerável que precisa de usar livros: eles não precisam ser usados simplesmente
ser repensada. Como é que nossas práticas de sala de aula seguindo a ordem numérica ou linear; podemos começar
devem mudar? Podem mudar e de fato mudam, só que se nós de acordo com o interesse dos nossos alunos, a atividade
continuarmos acreditando nesse conceito de método, de "eu que queremos, podemos começar na página 10 antes da
aprendi" no sentido de "eu aprendi a ensinar determinada página 3. Mas ainda estamos nessa lógica da completude
coisa de uma determinada forma e o conhecimento desta já predeterminada, e não conseguimos fazer isso. Estamos
minha matéria está no livro, o aluno deve seguir essa ordem num conceito de educação descontextualizada, seguindo
do livro", e todos esses conceitos relativos ao método, vamos a ideia de que um mesmo livro pode servir para qualquer
continuar tendo problemas, devemos repensar isso. Enfim, lugar, não só do mundo, mas do cosmos. O livro nos parece.
nós estamos lidando com novas formas de fazer sentido, ser tão garantido que serve pra qualquer coisa, qualquer
novas formas de vida nesse mundo globalizado e complexo. aluno, em qualquer situação e qualquer professor. Todos os
A nossa lógica tradicional educacional - tradicional não aprendizes de professor são vistos, então, como idênticos.
do século passado e sim daquilo que ainda vigora na maioria Ou seja, não interessa quem é o professor que vai usar o
das salas de aula ainda hoje - percebe o conceito de material livro, ou aquele método ou aquela metodologia, é nesse
didático, conhecido até aqui como "método", sob uma lógica sentido que é descontextualizado: não leva em conta as
de que tudo seria "self-contained", ou melhor, teria seu sig- informações do contexto. As necessidades e dificuldades
nificado contido nele mesmo, a nossa prática já significaria de aprendizagem são vistas como idênticas para o universo,
"por si só": esta é a lógica que temos, é algo completo, orga- ou para o cosmos. Então ensinar uma língua estrangeira em
nizado, predeterminado, previsível e garantido. Acreditamos Curitiba é a mesma coisa que ensinar língua estrangeira
que se continuarmos a ensinar dessa maneira vamos garantir numa aldeia no interior do Acre: esse é o pressuposto, na
resultados. África, ou na Ásia e até mesmo na Europa. Basta qualquer
Estranhamente é o que Paulo Freire, na década de 60, um seguir um método que aprenderá por si, essa é a ideia
avisou que não acontece desse jeito na educação: ele usou a de uma coisa ser "self contained".

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CLARISSA MINJRZFE JORDAU
FORMAÇÃO “DESFORMATADA”
JULIANA ZEGGIO MARTINh/
PRATICAS COM PROFESSORES DE LÍNGUA INGLESA
REGINA CRUA FRUI
(ORCA.)

O Mundo Rizomático meus alunos a aprender, ensinar e criar condições pra aprender.
Ensinar não é garantir uma aprendizagem igual àquilo que foi
O que temos, além disso? Primeiro temos que mudar essa ensinado. Ou seja, a aprendizagem não é um espelho daquilo
metáfora de educação bancária, essa ideia de algo já pronto, já que foi ensinado.
--garantidoçjá completo, e pra isso eu sugiro uma outra metá- Agora, nesse mundo rizomático, de complexidades, de
fora pra essa complexidade, uma metáfora que dois filósofos confusões, nessa não linearidade, há perigos: aí que existe
franceses, Deleuze e Guattari, chamaram de rizoma. O rizoma a necessidade de pensar numa ética, uma responsabilidade.
nada mais é que um tipo vegetal que não tem forma especifica, Porque se nós aceitarmos que tudo é complexo, podemos
é muito dificil dizer onde começa e onde termina, qual é a sua simplesmente, valorizando essa pluralidade, cair nessa pri-
estrutura... Então é um modelo, uma metáfora da complexida- meira armadilha do consumismo, que é o vale tudo, como se
de em que nós vivemos hoje. Só pra comparar as duas lógicas, tudo tivesse o mesmo valor; podemos entrar numa livraria e
as duas metáforas, a mais tradicional e a da complexidade, achar que todos livros didáticos têm o mesmo valor, basta eu
podemos pensar de um lado na metáfora da árvore, na qual escolher um que eu levo pra casa: o melhor é o com a capa
uma coisa vem antes da outra, as raizes são mais importantes mais bonita, e o preço mais convidativo. Ou seja, não me cons-
que o tronco, o tronco é mais importante que as folhas; essas cientizo da minha responsabilidade, e o processo de tomada de
metáforas lineares são a base do nosso conceito de método e decisões parece algo sem ética e sem responsabilidade. Isso é
metodologia. Por outro lado, podemos tomar a metáfora do um risco muito grande nesse mundo da complexidade de hoje.
rizoma, e estamos numa aparente confusão geral, sem forma Outro risco é rejeitar essa complexidade, a estratégia da
especifica. É ai que está a questão da nossa responsabilidade avestruz: vamos fingir que nada está acontecendo - e infeliz-
enquanto professores, a que me referi no início. mente isso acontece muito, principalmente com o ensino de
Quando nós seguimos a metáfora linear preestabelecida o língua materna - vamos esquecer que nossos alunos têm acesso
nosso papel já foi pré-identificado, nós só temos que seguir o à internet, que eles usam outras formas de comunicação que
"script" que alguém escreveu pra nós. Quando lidamos com a não a do texto papel. Assim caímos numa reação de busca de
metáfora do rizoma, da complexidade, da pluralidade, ou seja, autenticidade, agimos como se a leitura ou escrita no papel
da confusão, ai que surge nossa responsabilidade: onde que fosse melhor que a leitura ou escrita digital, por exemplo. E
eu estou? Que confusão é essa? Como que eu vou entender, vamos começar a dizer: esse texto é melhor do que aquele,
traduzir esta aparente confusão em algo que faz sentido? E caindo assim nesses riscos de fundamentalismo, sem diálogo,
essa interpretação dessa confusão vai ser responsabilidade sem ouvir o outro, sem refletir, sem crítica.
minha. E como é uma aparente confusão que não tem inicio, Perante essas duas possibilidades, esses dois riscos, qual
meio, nem fim, eu que vou tentar interpretá-la o tempo todo, é nossa responsabilidade enquanto educadores? Nós precisa-
vou dialogar com essa complexidade o tempo todo, e eu tenho mos abrir os olhos para o fato de que estamos perante novas
que assumir a responsabilidade por esse diálogo. Ai que entra formas de aprender e ensinar, perante uma forma diferente de
a questão ética, eu não posso garantir nada, a única coisa que se relacionar: hoje em dia as pessoas se relacionam sem se
posso garantir é que sou educador, eu estou aqui pra ajudar ver, através das várias formas de comunicação digital. Surgem

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FORMAÇÃO “DESFORMATADA" ARIFSA tvir NFLf S JORDAO
PRATICAS COM PROFESSORES DE LÍNGUA INGLESA JIII 'ANA ZEOGIO PVIAR1INIW
REDIMA CI.LIA UAuj
(0Ros.)
novas formas de relacionamento, como Facebook, Orkut, de se relacionar Resultado: todos nós somos vários. E é isso
MSN... São novas formas de construção de comunicação,
que precisamos compreender: a complexidade desse mundo
de novos textos. Precisamos abrir os olhos para isso que nos de hoje não esta lá fora, está aqui dentro de cada um de nós.
traz novas formas de aprender, ensinar e formular, comunicar, Só que continuamos com a ilusão de que "eu sou eu", de que
registrar conhecimentos e saberes. Como a Wikipedia, onde é preciso ser coerente comigo mesmoraqueisso•significa?
a autoria não é importante. O nosso conceito de enciclopédia Esse "migo" comigo, que "migo" é? É o do "eu" como pai
tradicional é que o conhecimento já foi escrito pelos peritos, de alguém, "eu" como filho de alguém, "eu" como empre-
não tem nada a ver comigo, com você ou com ele, pensamos gado de alguém, "eu" como professor de alguém, qual "eu"
que o conhecimento veio "lá de cima", é um conhecimento
monumento ,diante do qual temos que nos ajoelhar e não sou "eu"? Se conseguirmos entender essas complexidades e
como elas nos constituem, poderemos compreender como elas
interagir com ele. Hoje em dia o conhecimento é formulado constituem nossas comunidades, as comunidades de nossos
de uma maneira muito mais rápida e dinâmica, mas que gera aprendizes, as comunidades que produzem novas formas de
riscos, riscos sociais importantes, problemas na sala de aula saber, e ai sim poderemos pensar em como essa relação vai
como plágio, alunos copiando trabalhos da Internet. Como afetar nossa sala de aula, como isso tudo reflete no processo
podemos lidar com tudo isso? Primeiro precisamos entender de ensinar e aprender.
essa complexidade do mundo das informações, com a qual Como já frisei, cada individuo é membro de múltiplas
nos deparamos hoje em dia, senão taxamos algo de plágio sem comunidades e nós chegamos a esse conceito de interconec-
compreender o fenômeno. tividade social, que é a justaposição dessas múltiplas teias
Os Novos Letramentos de comunicação. Então, quando temos a relação entre duas
pessoas, podem ser usadas várias linguagens: a linguagem
Estamos perante um mundo de interconectividade de seu gênero, da sua classe social, da área especifica de seus
através da informática, comunidades interconectadas. Qual interesses pessoais, enfim, a comunicação não é mais só vamos
a relação entre indivíduos interconectados e comunidades falar, escrever, ouvir.., é muito mais complexa. Depende do
interconectadas? Primeiro vamos tentar entender esse concei- que nós estamos falando. Essa é a complexidade que o mundo
rizomático de interconectividade nos traz.
to de comunidade. Cada comunidade é formada por grupos
múltiplos, ou seja, heterogêneos: todos nós pertencemos ao Pois bem, como vamos lidar com isso? Nós estamos usan-
mesmo tempo a várias comunidades. Há uma comunidade do o termo "letramentos", no plural, com o prefixo "novos",
de classe social, de gênero, de faixa etária, de origem geo- porque o conceito antigo de alfabetização era ensinar a ler e
gráfica, de profissão, etc. Ao mesmo tempo em que você é a escrever. Havia o pressuposto de que bastava ensinar o alfa-
aquela pessoa cujo nome esta registrado em seu R.G., que diz beto que a pessoa saia escrevendo e lendo: sabemos que não é
que você é uma pessoa no singular, você ao mesmo tempo é verdade. Então, na década de 70 surgiu o termo "letramento",
membro dessas várias comunidades, e cada comunidade tem para se contrapor ao conceito de "alfabetização". Letramento
sua forma de pensar, de agir, de falar, de se comunicar, enfim, era aprender como usar a escrita em determinados contextos
diferentes. Escrever uma carta era diferente de escrever um

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CLARISSA MCNEZÉS JORDÀ0
FORMAÇÃO 1:3ESFORMAFADA”
JULIANA ZEGGIO MARTINEZ
PRATICAS COM PROFESSORES DE LINGUA INGLESA
RI:UNA CÉLIA HALO

conto, um currículo, um contrato, uma bula de remédio, eram de aula não pode ser desligada dessas décadas de violência
fonnas diferentes de escrita que exigiam habilidades de leitura pedagógica. Não estou culpando o professor, nós somos parte
diferentes. Não é todo mundo que pode escrever esses vários de um sistema que não nos ajudou a refletir sobre isso, e por-
textos de forma igual, não basta saber o alfabeto pra saber ler tanto não nos permitiu respostas ou soluções adequadas pra
contrato e compreender tudo da nossa língua materna. Assim tentar modificar essa situaçãõT"Elibjë, uando percebemos a
surgiu o conceito de que a escrita e a leitura eram práticas complexidade no mundo, nós temos a obrigação de pensar em
sociais manifestadas de formas diferentes em comunidades novas formas de atuação.
diferentes e em contextos diferentes. E como ensinamos conscientes dessa complexidade?
Primeiro precisamos lembrar que o valor ou o significado de
Responsabilidade Ética um conhecimento de um texto, de uma língua estrangeira,
de um aprendiz ou professor, não é algo abstrato. Há uma
Agora, como podemos fazer, nós como educadores, ensi- diferença, por exemplo, entre a língua inglesa, espanhola,
nando pessoas a ler e a escrever dentro desse mundo complexo, francesa, chinesa, italiana, japonesa, dentro do nosso contex-
em que dentro da mesma sala de aula podemos nos deparar to aqui do Brasil. Não é simplesmente como os governantes
com valores com os quais nós não concordamos, com dife- gostariam de pensar: são todas "línguas estrangeiras". Não
renças? Aí é que surge a nossa responsabilidade ética: como são. Aqui no Paraná vocês têm outras línguas que em São
é que nós vamos ensinar os nossos aprendizes a lidar com Paulo não temos, qual a diferença disso? O caso das comuni-
essas diferenças sociais que permeiam essa complexidade do dades e histórias de imigração que existem aqui e não existem
mundo de hoje, sem levar os nossos aprendizes a quererem em São Paulo: são valores diferentes, e estamos falando de
eliminar as pessoas que são diferentes, o que acaba gerando uma distância de 400 quilômetros, num país de milhares de
violência? E essa violência, que tem sido estudada em São quilômetros. Pra vocês entenderem a complexidade! Não
Paulo, que aparece em sala de aula, e à primeira vista o que podemos afirmar que todas as línguas estrangeiras têm um
parece acontecer é uma resposta traduzida em violência física, peso, uma importância igual: esta importância depende do
resposta violenta a uma violência discursiva de décadas. Nós contexto em que estão sendo ensinadas. O mesmo acontece
professores tratávamos os alunos das escolas públicas das com um texto de um livro didático: um determinado livro
áreas periféricas, de São Paulo, como se não soubessem, como pode funcionar muito bem numa turma e mal em outra. Um
se não falassem português direito, não soubessem escrever ou texto pode ter um determinado significado pra um grupo de
ler. Tudo aquilo que era diferente que o aluno trazia pra sala leitores e não pra outros. É essa percepção da importância
de aula era motivo para exclui-lo, e isso era uma violência da contextualização do saber e da comunicação que preci-
discursiva. Coloque-se no lugar desse aluno, que passou anos samos recuperar. As perguntas que precisamos levantar pra
recebendo essas informações, de que ele "não tinha", "não nós mesmos: A quem ensinamos língua estrangeira? Porque
era". Alguma hora isso volta, essa violência, essa frustração ensinamos esta língua estrangeira? Quem é nosso aprendiz?
vai se manifestar de forma física, e é isso que está acontecen- O que o aprendiz já sabe da língua estrangeira? Quanto tempo
do. Então essa violência de alunos contra professores na sala eu tenho? Que cursos eu tenho?

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FORMAÇÃO .‘DESFORMATADA” CLARISSA MENIJES JORDÃO
PRA nem COM PROFESSORES OF: LiNGIJA INGLESA JIM IANA ZEGGIO MARTJNrZ
Rrorte, CUIA HAIA/
(OROs.)

Essas são perguntas que vão nos ajudar a focalizar no con- dição cultural. Um brasileiro ao ler Shakespeare está lendo
texto imediato, no local que nós temos. E a partir dai tomar as
um autor inglês, estrangeiro que não tem nada a ver com sua
decisões sobre o que nós vamos fazer. O Freire e o Brian Street,
tradição cultural, então o mesmo texto tem valores e contextos
um antropólogo inglês, propuseram o conceito de letramento
diferentes. Vejam, a palavrafrijão aqui, dentro do Brasil: que
em oposição ao conceito de código, ao conceito de escrita
como um código abstrato e desconteirualiila-ao7 é. o Freire tipo de feijão imaginamos quando ouvimos essa palavra? Vai
especificamente introduziu o conceito de palavra mundo, que depender de onde você está nesse pais e nós estamos falando
de uma mesma nação! Esse é o conceito de palavra mundo:
traz de forma concentrada essa relação entre a linguagem e
dentro da palavra "feijão" está um mundo de uma determi-
seu contexto. O que ele está querendo dizer é que o mundo
nada comunidade; a nossa leitura vai depender de quem nós
está contido em determinadas palavras de uma determinada
somos, de onde nossa comunidade se localiza, quais são os
comunidade, ou de forma contrária, cada comunidade constrói nossos valores, as nossas linguagens.
o seu mundo através das palavras que ela usa, ou seja, não
podemos conceber a linguagem sem conceber o seu uso por Novas Formas de Aprendizagem
determinadas comunidades. Conclusão: a linguagem é social
e cultural, a linguagem nunca é abstrata, descontextualizada, Trazendo isso pra nossa área didática: como podemos
a linguagem nunca é a mesma pra toda uma nação, todo um trazer essa multiplicidade, essa diversidade pra sala de aula?
mundo, todo um cosmos. A escrita pra Freire, ao representar Kalantzis & Cope (2008) falam de "new leaming", novas for-
palavras, representa mundos e esses mundos são sociais, mas de aprendizagem nesse mundo de complexidade. O que
culturais, múltiplos. A escrita é uma atividade de construção se enfatiza aqui é a produção e busca de conhecimento. Não
social de significados. Nesse mundo atual que já chamei de é mais o consumo de conhecimento preestabelecido; o que se
rizomático, a escrita se toma múltipla-plural, vários mundos valoriza mais é a capacidade de buscar conhecimento. Imagi-
interconectados construidos por várias palavras, textos, formas nem qual é o nosso papel como professores hoje em dia: não
e meios de escrever; dai essa ideia do mundo estar chegando é mais transmitir conhecimento, mas ensinar maneiras novas
mais perto pra nós professores de língua estrangeira na sala de buscar conhecimento. Então nós não somos mais donos
de aula através da disponibilidade dessa profusão de textos e do conhecimento, nós somos as pessoas que vão ensinar pra
linguagens diferentes. Várias formas de ler e escrever existem, outras pessoas como buscar conhecimentos diferentes, como
a escrita rizomática é uma prática social múltipla e complexa. avaliar a relevância desses conhecimentos diferentes para
É importante lembrar desse conceito do Freire de pa- seus interesses, as suas necessidades. Portanto temos um des-
lavra mundo não porque temos uma multiplicidade em que locamento de aprendizagem, de escolas para o mundo afora.
tudo teria o mesmo valor, mas porque cada elemento dessa Está na hora de nós aprendermos com os nossos aprendizes.
complexidade tem um valor x num contexto y. Shakespeare, Precisamos de novos instrumentos, novos meios, novas for-
por exemplo, pra um leitor inglês tem um valor x já pra um mas de aprendizagem. Os novos resultados de aprendizagem
leitor brasileiro tem um valor y, por quê? Porque os ingleses surgem dessas novas formas. Não são mais conteúdos que são
ao lerem Shakespeare eles estão lendo um autor da sua tra- valorizados, mas a capacidade de buscar novas informações,

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CLARISSA tvIENEEts JORDÃO
FORMAÇÃO ''DESFORMATÁDC
JULIANA ZEP010 MARTINEZ
PRÁTICAS COM PROFESSORES PE LINGUA INGLESA
REGINA CÉLIA I lAtu
(0Eus.)

a capacidade de autoatualização, de perceber quando uma quer que você compreenda esse texto de um determinado
informação já não tem mais o mesmo valor e procurar outro jeito, mas na verdade esse texto é outro, você precisa ler esse
pra atualizar, capacidades de atualização, de colaboração. Os texto de uma forma verdadeira". Essa era a conscientização
nossos aprendizes já estão fazendo isso naquilo que chamamos crítica. As perguntas que eram feitas em sala de aula para o
de plágio: foram buscar informações;interagiram com outros ensino de leitura eram essas. Pra ensinar a conscientização
autores. ..Mas como nós não ensinamos como fazer, quais são crítica, falando de língua estrangeira, a gente teria que fazer
os riscos, o que deve e o que não deve ser feito dentro dessa as seguintes perguntas ao texto:
atividade, eles estão fazendo de uma forma sem orientação,
intuitivamente. Precisamos enfatizar aqui a agência do apren- • To whom is the text addressed?
diz: ele não é mais somente aquele ser que recebe - os nossos • What does the text claim?
aprendizes são agentes, fazedores. E como isso nos afeta na • How does the text try to convince the reader?
sala de aula, na construção do conhecimento? O aprendiz é • What claims are not substantiated?
independente, ele busca, seleciona, aprende, interage. Isso • What attention-getting devices are used?
são coisas que devem permear as nossas maneiras de agir na • What words or ideas are used to create a particular im-
sala de aula. pression?
What does the text show/tell us about its context?
Letramento Critico e Pedagogia Critica
(Cervetti, Pardales, Damico 2001)
Agora gostaria de diferenciar duas coisas, o que se cha-
ma de letramento crítico, do que se chama pedagogia crítica, Como vocês podem ver o texto é sempre lido em termos
porque parece que há uma confusão entre esses termos. Come- de seu contexto de produção, como se o contexto de produ-
çando pela pedagogia crítica: essa veio de uma tradição mar- ção definisse o significado e o valor do texto e como se o
xista, porque sua preocupação principal é introduzir a justiça papel do leitor fosse descobrir o que o autor quis colocar no
social, a igualdade, em contextos onde não havia igualdade texto. O objetivo é ver as responsabilidades sociais e éticas
ou justiça social. Neste contexto ser "crítico" consiste em dessa maneira de ensinar, mostrando pro aluno que haveria
perceber a verdade por trás da ilusão. Freire, em 1970, chama uma verdade que estaria no texto. Dividiam o mundo entre
de "conscientização crítica", que na área da pedagogia foi uma o certo e o errado, só havia uma maneira certa de ler, aquela
das maiores exportações brasileiras para o mundo: o ato de maneira que o contexto do texto ditava; outras maneiras de
ensinar a verdade que está em um texto, por trás das ilusões, ler eram erradas. Isso responsabilizava o outro pelas mazelas
ensinar as maneiras pelas quais o autor pode querer desviar do mundo, o mundo era dividido então entre os justos e os
sua atenção da verdade. Esse era o típico valor do ensino não justos, não ensinando a entender o processo de produção
marxista, sempre ensinar "a verdade". O enfoque é sempre das próprias interpretações. E ao ensinar os nossos alunos,
nas condições de produção do texto, quem escreveu o texto, ao longo de anos, que o significado estava no texto, a gente
em que condições... e em mostrar: "veja como essa pessoa responsabilizava o autor, mas não assumíamos a responsabili-
dade pela nossa interpretação, não víamos que nós, enquanto

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PORMAÇÂO "DESFORMATADA'' CLARISSA MENU 21S Jommo
PRÁTICAS COM PROFESSORES DE LINGUA INGLESA JULIANA ZFOCIO MARTTNEZ
REGINA alta !FALO
(ORGS )
leitores, ao identificarmos o significado de determinado texto,
rizomático, de interculturalidades, de justaposições, de
nós estamos contribuindo e assumindo a responsabilidade pela diferentes complexidades.
nossa interpretação. Cada texto tem interpretações diferentes.
Então, se vamos ensinar que cada texto tem uma única forma Agora, em contraposição a isso, vamos ver o que é
de ler, um único significado certo, nós não estamos tratando letramento crítico. Não mais uma "pedagogia crítica", mas
um letramento critico. É a redefinição do processo de cons-
da complexidade dessa maneira de construir significados, que
é a relação do leitor com o texto. Ao fazermos isso nós não cientização crítica. Primeiro ponto: o enfoque sobre con-
estamos ensinando os nossos aprendizes enquanto leitores a dições de leitura. Aqui, no letramento critico, precisamos
assumir responsabilidade pela sua leitura. Você tem de assumir assumir a responsabilidade das nossas leituras e não culpar
a responsabilidade pela sua leitura, porque a sua leitura vai o autor de texto pela sua escritura; precisamos perceber
ter consequências sociais. que o significado de um texto é uma inter-relação entre a
É essa a diferença entre a pedagogia crítica que ensi- escrita e a leitura. Nós estamos nos conscientizando sobre
nava "o certo e o errado" sem fazer questionamentos, e o como nós interpretamos o texto. Fazer o aluno perceber e
letramento crítico. O "errado" era apenas "o errado" e não enfocar o que Freire chamava de saber "ingênuo", fruto do
era "errado" porque eu, no papel de leitor ou professor, senso comum, visto pelo aluno como pessoal e individual.
não concordava com ele. Isso preparava alunos para um Enfocar aquilo que o aluno acha que é "natural" fazer,
mundo de revoluções dicotômicas, onde se poderia alcançar levar o aluno a repensar o que é natural para ele e refletir
a liberdade e a justiça social pela limitação do contrário, sobre isso. Perceber como aquilo que é natural para ele
do inimigo, do outro; esse era o conceito de justiça social: pode conter preconceitos que podem afetar o outro, gerar
acabar com os obstáculos da justiça. Isso preparou o aluno preconceito contra pessoas diferentes. E portanto levar o
para um mundo de homogeneidade, o conceito de que o aluno, o aprendiz, a reformular o seu saber ingênuo. Então
mundo de justiça social é um mundo onde todos são iguais, letramento crítico é ir além do senso comum, fazer o aluno
onde todo mundo é idêntico: então precisamos eliminar o ir além da aparência da verdade; fazer o aluno refletir sobre
diferente, acabamos com a injustiça eliminando pessoas aquilo que ele pensa que é natural e verdadeiro. Levar o
diferentes de nós. Então isso estava baseado na ideia que aluno e refletir sobre a história, sobre o contexto de seus
ninguém pode ser diferente, mesmo eu nas diferenças que saberes, seu senso comum. Levar o aluno a perceber que
me constituem eu não aceito essa diferença. E eu, ao não para alguém que vive em outro contexto a verdade pode
ser diferente.
aceitar essas diferenças dentro de mim, eu não posso aceitar
as diferenças no mundo. É levar o aprendiz a perceber que os saberes do eu,
que o meu saber ingênuo, se origina não de mim, mas da
Ensinávamos assim durante muito tempo e a respon- coletividade; levá-lo a perceber como ilusão essa aparência
sabilidade social desse tipo de ensino que acabamos con-
tribuindo, mesmo que indiretamente, para guerras, para de que todos somos indivíduos.., porque a gente pensa que
violências, para preconceitos, para exclusões, foi grande. cada um de nós tem uma opinião pessoal, mas as nossas
Essa perspectiva não apresenta preparo para o mundo opiniões pessoais têm história nas comunidades nas quais
pertencemos. Esses são termos de Paulo Freire, década

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Cl MOSSA MENEZES Joarbko
FORMAÇÃO "DESFORMATADA”
Jui LANA Zersozo MAIMNEZ
PRÁTICAS COM PROFESSORES DE LÍNGUA INGLESA
REGINA CEVA HAL()
(Os.)

de 80, não mais aquele Paulo Freire da década de 70; este dade do mundo de hoje. Precisamos trazer isso para nossa
Freire mais recente diz que "o não eu é múltiplo", ou seja, atuação na sala de aula.
que as comunidades que me formulam e me constituem são 'Ir Resumindo a consciência crítica ressignificada: ir além
múltiplas. O que parece "eu" consiste na atividade de várias do pensamento ingênuo e do senso comum. Quando o sujei-
coletividades. to percebe a origem de seus saberes de é capaz de aceitar a
Eu estou retomando uma lógica de que já falei alguns responsabilidade que cai sobre ele. Essa é a dimensão ética
minutos atrás: se o não eu, aquilo que me formula, que disso. Freire diz: "ensinar significa provocar a curiosidade
me constitui, aquele aspecto coletivo que me constitui, se do educando a tal ponto que ele se transforme em sujeito
esse não-eu é múltiplo, e se o eu se origina e se destaca da produção do conhecimento que lhe é ensinado "(2005:
do "não-eu",, então cada eu é múltiplo e complexo, uma p.152). Como ensinamos nossos aprendizes a produzir e
heterogeneidade em si. Cada eu ao mesmo tempo que se a buscar conhecimento? Mudando a percepção das nossas
apresenta ingenuamente como indivíduo, independente, relações.
completo, na verdade está conectado às coletividades das Um passo importante: escutar, muito enfatizado por
quais se originou. E aqui eu cito Freire quando ele diz: "foi Freire. Escutar é perceber o outro, perceber a diferença, per-
exatamente o mundo, como contrário de mim, que disse a ceber o limite do eu. "Como você pode falar se não escuta?
mim: você é você' (2005: p.149). Freire tem essas frases Não é falando que eu aprendo a falar, mas escutando que eu
assim que são usadas, que os acadêmicos odeiam, mas ele aprendo a falar, e falando que eu reforço a capacidade de
está falando linguagem de professor. Ele continua: "a partir falar. Há um momento em que o educando precisa escutar
da descoberta de você como não-eu meu, que eu me volto o educador, mas há um momento que o educador precisa
sobre mim e me percebo como eu e, ao mesmo tempo, escutar o educando e há momentos que os dois se escutam
enquanto eu de mim, eu vivo o tu de você. É exatamente entre si"(Freire, 2005: p.157). Parece óbvio, mas quanto
quando o meu eu vira um tu dele, que ele descobre o eu tempo a gente dedica a essa reflexão?
dele É uma coisa formidável." (2005: p.149) Enfim, agora para resumir o que disse sobre pedagogia
O que isso tem a ver com o mundo rizomático? O critica e letramento crítico - coloquei lado a lado para vocês
mundo globalizado e complexo? Freire está apontando perceberem as ligações e as diferenças:
como essa complexidade rizomática está dentro de cada
um de nós, está dentro da relação entre eu e os que estão à
minha volta. Entre o "eu" e as minhas comunidades que me
constituem. Não é uma complexidade do séc XXI, é uma
complexidade que está em nós desde que os seres humanos
se tomaram seres pensantes. Se nós conseguirmos entender
essa interconectividade entre o nosso pensamento e pen-
samento dos que estão a nossa volta já podemos perceber
a importância dessa inter-relacionalidade e interconectivi-

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CLARISSA MENEZES JORDÃO
FORMAÇÃO "DESEORMATADC
1011ANA ZEGGIO MARITNE2
PRATICAS COM PROFESSORES DE LÍNGUA INGLESA
REUNA CÉLIA Hm 11
(ORCE.)

Consciência critica tradicional: Consciência critica redefinida: leitura, em como o eu produz a significação; as leituras e as
Pedagogia Critica. Letramento Critico
escritas só serão iguais se forem produzidas por escritores e
Enfoque na escritura do texto: Enfoque na leitura do texto: leitores de sociedades e coletividades iguais, ou seja, se você
Como o Outro produziu a sig- como o Eu produz a significação.
1 lê um texto do seu amigo brasileiro, escrito em língua por-
nificação?
tuguesa, vai ser muito mais fácil do que ler um texto escrito
As leituras/escrituras só serão
Todas as leituras são homogêne- iguais se forem produzidas por lei- por um desconhecido estrangeiro de uma outra língua, porque
as, iguais. tores/escritores de coletividades so- o leitor e escritor compartilham da mesma língua, mesmo
ciais iguais. Senão serão desiguais. contexto, etc.
Poder dividido entre dominante Poder distribuído entre todos, po-
Então, o processo de construção de significação tem a
e oprimido. • rem de formas desiguais (Foucault). ver não com o texto, mas com a relação entre os contextos
de leitura e os contextos de produção de texto. O poder é
Leitura como consenso. Leitura como dissenso, confinante. distribuído entre todos, porém de formas desiguais: isso é o
Por que o outro escreveu assim? Por que eu entendi/ele entendeu
conceito do pensador francês Michael Foucault.
Por que o outro diz X e quer assim? Por que eu acho/ele acha
dizer Y? isso natural/óbvio/inaceitável? O Dissenso

A metáfora para a leitura é a do dissenso, do conflito. Lei-


Letramento crítico consiste em não apenas ler, mas ler tura nunca tem um único significado, a gente precisa perceber
se lendo, ou seja, ficar consciente o tempo inteiro de como
que, dependendo de onde estamos lendo, nós vamos entender
eu estou lendo, como eu estbu construindo o significado... e X. Outra pessoa em outro contexto pode ler a mesma imagem,
não achar que leitura é um processo transparente, o que eu o mesmo texto, de outra forma. Portanto haverá sempre um
leio é aquilo que está escrito... Pensar sempre: por que entendi conflito de interpretações. Por que eu entendi assim e ele não?
assim? Por que acho isso? De onde vieram as minhas ideias, Por que eu acho isso e ele não?
as minhas interpretações? Só para terminar, precisamos repensar essas ideias de
Do lado esquerdo eu tenho a consciência crítica tradicio- consenso e dissenso para ensinar dentro desse mundo com-
nal da pedagogia crítica: o enfoque na estrutura do texto, em plexo e rizomático de hoje. Precisamos Preparar os nossos
como "o outro" produziu a significação; aqui todas as leituras aprendizes e nós mesmos a lidar com o complexo, com o
são homogêneas, são iguais, o poder é dividido entre o do- dissenso. No mundo rizomático e descentralizado globalizado
minante e o oprimido, a leitura é consenso. Por que o outro surgem, em contrapartida, o fenômeno das normas e códigos
escreveu assim? O que o outro quis dizer? Por que o outro universalistas. Nós vivemos nesse mundo de normas, e das
está te enganando e não te dizendo a verdade? Eu, o professor, leis, dos direitos humanos, das leis das Nações Unidas. Como
posso te ajudar a encontrar a verdade. se essas leis fossem "conteúdos"... Nós precisamos lembrar
Agora, letramento crítico é um outro conceito de cons- sempre que alguém produz uma norma para o mundo inteiro
cientização crítica, é outro Freire, é outro Freire com o mesmo - precisamos lembrar: quem escreveu aquela norma? Em que
nome do Freire. O Freire da década de 90. O enfoque é na

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CuuussA MEAI zcs JoitnAo
FORMAÇÃO "DISFORMATADC J1 ir 'ANA ZEOGiO MARIINTz
PRATICAS COM PROFESSORES DE LÍNGUA INGLESA Rronvn CÉLIA IIALII
(ORGS

contexto? Aquela norma tem o mesmo valor para aquele que a a nossa implicação, a nossa responsabilidade perante o outro
escreveu naquele contexto e para nós? Essa é a discussão que e vice-versa.
está por trás da internacionalização da Amazônia: por que se Precisamos ensinar a entender e tomar a responsabilidade
eles usam discurso por exemplo globalizante (o mundo está por nossas respostas e ações, e interpretações. Precisamos
em perigo e precisamos conservar as áreas de pureza-que-ft aprender que ao aprender direitos humanos e sustentabil idade
temos), então o mundo industrial tem direito a preservar a não se tratam de conteúdos a serem memorizados e reproduzi-
Amazônia, mas precisamos repensar isso, pensar em quem está dos, e sim questões a desempenhar e exercitar constantemente
falando que a Amazônia é importante para o mundo e para a na sala de aula. Essas são as perguntas, só para terminar, desse
humanidade. Se a gente for analisar o contexto de produção novo letramento critico:
desses discursos, desses textos, é um contexto de pessoas que
destruíram a natureza. Através da industrialização, da utili- • What is the context in which the text was produced?
zação da natureza como recurso, do desrespeito à natureza. • What lcind of reader was the text written for?
Então precisamos repensar, rever esse textos: é isso que lidar • Is the context of production of the text the same as the
com consenso e dissenso significa. context in which YOU are reading the text?
Numa perspectiva de letramento crítico, que valoriza • Are you the reader that the writer of the text had in mind?
a diferença de história, de origem, de lugar de cada intér- • How do the differences in contexts of production and
prete social, teria como serviço ao educando apresentar e reading of the text affect your understanding?
falar nessas normas como pontos de chegada, e envolver o • Is there a "real", "correct", "original" meaning of the text?
participante no processo conflitante e doloroso do confronto • How do you feel in relation to these differences?
entre interpretações e valores diferentes. Precisamos educar • Should we eliminate them?
para a diferença, preparar para o conflito, se não a gente vai • What do we do with them?
entender que toda vez que surge uma diferença ela precisa ser
eliminada. O educando deve perceber as consequências que Não é mais quem escreveu, qual é a intenção do autor.
seus interpretações e valores podem ter sobre o outro, que ele A ética do letramento crítico é que ele deve ser desem-
e o outro possuem interpretações e valores diferentes: essa é penhado e exercitado constantemente em todas as atividades
a dimensão ética. pedagógicas e curriculares. Os processos são de análise, de
Sharon Todd (2007) diz que devemos promover uma ação, de construção e reconstrução, adaptação constante. Essa
"pedagogia da implicação", que precisamos perceber que é a ética da responsabilidade sobre a qual eu estava falando,
estamos "implicados" um no outro. O que significa isso? O desde o início, em relação à complexidade do mundo rizoma-
importante é perceber como cada eu está implicado no outro, tico de hoje. Obrigado.
coisas que eu já falei antes, conectado com o outro, estar atento
ao fato de que as necessidades e valores do outro se conec- A esta palestra seguiu-se um debate com perguntas e
tam às nossas e vice-versa; nossas interpretações dos outros respostas, que segue abaixo, também adaptado.
têm consequências sobre a vida do outro, e vice e versa, daí

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CLARISSA MENEZES JORDÃO
FORMAÇÃO tESFORMATADA”
JULIANA 7.1.C.G10 MARTNL:G
PRATICAS COM PROFESSORES DE LÍNGUA INGLESA
RFOINA Ckin HALu
(ORos.)

Pergunta: qual a fonte das perguntas a partir da fonte de um Há várias maneiras de escrever, mas, dependendo do
texto no novo letramento crítico? Onde encontramos essas contexto de comunicação nós não temos escolha, em cada
perguntas? contexto vale uma maneira. É possível fazer analogia com as
vestimentas usadas: quando a gente se veste aparentemente
Resposta: não tem uma fonte. Se você está querendo ver de onde temos a impressão que é uma decisão individual, mas não é -
eu tirei as perguntas que mostrei acima, foi de vários lugares, a gente se veste de acordo com o contexto, você não vai para
não tem um específico, porque aqui nós estamos falando de uma uma sala de aula de biquíni; a mesma forma no seu dia de
postura pós-método: não há um lugar onde vão existir todas as casamento, vai vestida de noiva e não como você vai vestida
perguntas, porque essas perguntas não servem de forma igual. para a sala de aula... Cada contexto tem a sua maneira de vestir
e a gente aprende isso, então não é uma a escolha individual
Pergunta: como estabelecer um equilíbrio entre liberdade como a gente vai se vestir, mas sim a gente toma a decisão de
discursiva e norma culta da língua, já que hoje nossos alunos como a gente se veste de acordo com os contextos. A mesma
cidadãos escrevem sobre tudo, mas como analfabetos funcio- coisa com linguagem, há várias formas de linguagem, de usar
nais da sua língua-mãe? a escrita, temos de ver o contexto de escrita, esse conceito de
relevância de contexto em que precisamos usar a escrita: aque-
Resposta: esse conceito "analfabeto funcional" é muito peri- le contexto permite uma ou duas formas de uso — precisamos
goso, ao mesmo tempo em que é útil: é útil porque nos aponta usar esse conceito de relevância contextuai ... O conceito de
o fato de que não basta aprender a ler e escrever, não basta "norma culta" eu pessoalmente não aceito, porque "norma
aprender o código; ao mesmo tempo é politicamente perigoso culta" é aquela usada por quem e em qual contexto? "Norma
usar o termo "analfabeto funcional" porque aí a gente acaba culta" pressupõe que as outras formas não são cultas. "Norma
homogeneizando tudo de novo. O que precisamos perceber culta" homogeneíza, não faz a distinção entre a escrita de
é que, quando o professor tradicional rejeita a comunicação um contrato social, e a escrita de uma carta pessoal. "Norma
que o aluno traz para a sala de aula, rejeita a forma de escrita culta" não. Pedagogicamente, a meu ver, não é um conceito
que ele usa - mandando torpedos, no MSN, usando as formas muito útil; mais útil é o de contextualização, heterogeneidade
abreviadas - o professor conclui que trata-se de um analfabeto e diversidade e contextualização. O importante é ensinar que
funcional, por que ele não está escrevendo na norma culta, tudo não é heterogêneo e sim múltiplo. Então nós temos várias
na norma padrão. Não se trata disso, não é assim: o que nós possibilidades, em cada contexto as nossas possibilidades se
precisamos ensinar é o que está no mundo, nós que estamos limitam a uma ou duas; é isso que precisamos ensinar aos
ensinando língua, linguagem, que a língua é composta por nossos alunos: qual é o universo de possibilidades que nós
várias variantes, a maneira de escrever literatura, a maneira de temos e em cada contexto como fazemos a escolha.
escrever cartas informais, a maneira de escrever um currículo
formal para um emprego, um contrato social. Há várias manei- Pergunta: como trabalhar na sala de aula com letramento
ras de escrever quando a gente se comunica pelo computador: crítico, uma vez que posso ter alunos que têm pensamentos
e-mail, MSN, são os gêneros de comunicação. diferentes?

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CL mussA MEN' ihs JORDA0
FORMAÇÃO MESCORMATADA"
iSIl IANA ZA Golo MARm*2
PRÁTICAS COM PROFESSORES DE LINGUA INGLESA
PG,INA us Hm I)
(Duos.)

Resposta: uma vez que sempre, não conheço nenhuma sala de do assunto, como você busca? Google provavelmente. Todo
aula que não há divergência de pensamento, como lidamos com mundo usa Google, mas sabem como diferenciar entre uma in-
isso? Usando a mesma ética que eu estou usando aqui, quando formação e outra? Alguns sabem. Portanto fazê-los refletirem
falo sobre como lidar com a escrita e o contexto. E eu sugiro a sobre isso, como eles sabem? Hoje em dia é difícil encontrar
mesma coisa: não use a estratégia da "norma culta", pois ela alguém que não saiba buscaran"stiarpróprias informações,
nos leva a algo horrível que fizemos nas décadas de 80 e 90, mas é importante promover essa reflexão. Sobre a importân-
que nós chamávamos de "politicamente correto". O que era cia, porque não é tudo que tem o mesmo valor. Precisa ficar
"politicamente correto"? Acreditar que havia a neutralidade. atento a que significado você está dando àquele texto. Você
Ninguém é neutro. Nós pertencemos a comunidades, cada um está interpretando aquele texto de uma forma, mas ele pode
de nós contribui com valores e opiniões específicas. Não existe ter sido escrito com outra intenção. O contexto em que você
o "politicamente correto". Como vamos lidar com isso na sala vai usá-lo pode ser diferente daquele para o qual aquele texto
de aula? Usando isso, a contextualidade, essa relevância. Temos foi produzido. Atentar, levantar as atenções do aprendiz para
uma diversidade de opiniões, mas qual é o contexto da discussão9 todas essas dificuldades e essas complexidades.
Por que nós estamos discutindo isso? Se nós nos orientamos pela
responsabilidade e pela ética social, temos de saber primeiro por Pergunta: como praticar tudo isso, seja pensamento crítico,
que estamos discutindo determinados assuntos, onde queremos seja estratégias numa sala de aula com alunos indisciplinados
chegar e quando surgem opiniões diferentes, perguntar para e sem famílias que amparem os filhos? Hoje os pais são muito
cada pessoa: sua opinião diferente, como vai se refletir nesse negligentes, sobretudo em uma comunidade de classe baixa...
contexto? Quais são as nossas estratégias de intenção quando
nos deparamos com alguém que tem pensamentos divergentes Resposta: não posso dar sugestões, depois de ter falado que
dos nossos? O que o Freire sugeriu: escutar, depois refletir. Não nada serve para todos, não posso ficar dando palpites sem
precisamos concordar ou discordar. Voltar a perguntar: é inte- conhecer os recursos disponíveis. Sempre que possível, espe-
ressante a sua opinião, de onde vem ela? Fa7er a pessoa refletir cialmente com adolescentes indisciplinados, trabalhar de uma
sobre isso da mesma forma que a gente tem que refletir sobre as forma pós método, porque é justamente com uma forma não
nossas opiniões e não julgar, ouvir sempre, mas ouvir não signi- linear de trabalhar que eles se identificam muito.
fica necessariamente concordar É como lidar com adolescente.
Não é uma questão de concordar ou discordar mas ouvir, fazer Adolescentes indisciplinados que não param no lugar
refletir, não há uma solução perfeita. são aqueles que não conseguem trabalhar focalizando linear-
mente. Então se você dividir as tarefas e organizar os alunos
Pergunta: de que maneiras posso incentivar os alunos a pra- em grupos, em busca de problemas, para depois procurarem
ticarem a busca e produção de conhecimentos? formas de juntar vários grupos e promover debates, conflitos,
procuras de respostas a esses vários conflitos, você consegue
Resposta: são coisas que não costumamos fazer, perguntar utilizar essa frustração, essa indisciplina de forma bastante
para os alunos: quando você precisa saber sobre determina- construtiva.

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