FACULDADE DE MEDICINA DO ABC

DEIVISON MENDES FAUSTINO

A PERCEPÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO DO ABC PAULISTA SOBRE A SAÚDE DA POPULAÇÃO NEGRA: AGENDAS, AÇÕES E PARCERIAS

Dissertação apresentada Medicina do

de

mestrado de a

à Faculdade ABC para

obtenção do título de Mestre em Ciências da Saúde Orientador: Marco Akerman Contato do autor: sdeivison@kilombagem.org http://kamugere.wordpress.com/

SANTO ANDRÉ

2010

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Dissertação departamento Coletividade

elaborada de da Saúde Faculdade

ao da de

Medicina do ABC, junto ao programa de pós-graduação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina do ABC – recomendado pelo Conselho Técnico Científico – CAPES Área de Concentração: Epidemiologia Orientador: Marco Akerman

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DEDICATÓRIA

Aos que me antecederam, lutando arduamente para que esta conquista fosse possível;

Aos que estão, e aos que virão!!

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AGRADECIMENTOS
Serei eternamente grato a todos aqueles em que cruzei na caminhada e acabaram por transformar a minha vida, em especial: À família nada “nuclear” Dona Maria e Seu Pipoca, Shirlei e Renata pela força;

À Tia Marilene pela inspiração;

Aos trutas de batalha: Fião, Aninho, Guto, Fávio, Geo, Shaw, Devil, Emerson, DJ Marques e Ny pelas noites de Rap e rebeldia;

Aos irmãos Carlos, L. Áfro, Elenira Onijá, Beto (Unegro), Andréia, Robson Dio, Preto Bá, Iara, Lian, Rogério e Helen pelo despertar da minha africanidade;

Às parceiras de trabalho e de luta Spiassi e Rebecca;

Aos Mestres Miltão, Deise Benedito, Regina, Donizete, Coquinho;

À Naiza pelas rigorosas contribuições;

À Professora Olinda, Professora Ana Voloscho e o Professor José Ricardo Ayres;

Ao Professor Marco pela atenção e paciência;

Ao Grupo KILOMBAGEM; Ao Kairú Nkosi e o Victor Mendes Messias – Continuidade!

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EPÍGRAFE

"Até que os leões contem suas histórias... os contos de caça glorificarão sempre o caçador."

Provérbio africano

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SUMARIO
DEDICATÓRIA ...........................................................................................................................................3 AGRADECIMENTOS ..................................................................................................................................4 EPÍGRAFE .................................................................................................................................................5 SUMARIO .................................................................................................................................................6 RESUMO...................................................................................................................................................8 ABSTRACT ................................................................................................................................................9 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................................................10 1.1 PREÂMBULO ................................................................................................................................ 10 1.2 RACISMO, SAÚDE E O MOVIMENTO NEGRO .................................................................................. 15 1.2.1 Raça e racismo no debate contemporâneo ...................................................................15
1.2.1.2 A atualidade do racismo brasileiro ................................................................................................ 23 1.2.1.3 A dimensão racial da situação de pobreza em São Paulo ....................................................... 30

1.2.2 Os impactos do racismo na saúde da população negra ...............................................32
1.2.3.1 A saúde da população negra ........................................................................................................ 35 1.2.2.2 Saúde mental e racismo .................................................................................................................. 36 1.2.2.3 Racismo institucional ....................................................................................................................... 38

1.2.3 O movimento negro ..........................................................................................................40
1.2.3.1 A atuação afirmativa do movimento negro .................................................................................. 40 1.2.3.2 A diversidade do movimento social negro ................................................................................... 43 1.2.3.3 O protesto negro e a cultura ........................................................................................................... 45 1.2.3.4 O movimento negro na África e na diáspora ............................................................................... 48 1.2.3.5 Breve histórico do movimento negro no Brasil ........................................................................... 51 Resistência no período escravista ......................................................................................................... 52 Entre a Abolição e o surgimento do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial - MNUCDR ..................................................................................................................................... 53 O feminismo negro.................................................................................................................................... 60 Religiosidade de Matriz Africana e Saúde ........................................................................................... 61 Dos Bailes Blacks ao Hip Hop................................................................................................................ 62

1.2.4 O movimento negro e a saúde da população negra ..................................................... 68 2 - OBJETIVOS E HIPÓTESES.........................................................................................................72 2.1. OBJETIVO GERAL ....................................................................................................................... 72 2.2. OBJETIVOS ESPECÍFICOS............................................................................................................72 2.3 HIPÓTESES ..................................................................................................................................72 3 METODOLOGIA ...................................................................................................................................73 3.1 O INSTRUMENTO DE COLETA .......................................................................................................75 3.1.1 Terminologias .................................................................................................................... 77 3.2 DEPURAÇÃO DOS DADOS .............................................................................................................77 3.3.ANÁLISE DO DISCURSO ................................................................................................................78 4 RESULTADOS E DISCUSSÃO......................................................................................................80 4.1 AGENDAS PRIORITÁRIAS DO MOVIMENTO NEGRO DO ABC PAULISTA...........................................80 4.2 A PERCEPÇÃO DO MOVIMENTO NEGRO EM RELAÇÃO À SAÚDE DA POPULAÇÃO NEGRA................84 4.2.1 A saúde na agenda do movimento negro ......................................................................84 4.2.2 O racismo como fator de vulnerabilidade .......................................................................89
A percepção de vulnerabilidade .................................................................................................................. 90 O Racismo institucional ................................................................................................................................. 91

4.3 AÇÕES DE PROMOÇÃO À SAÚDE ..................................................................................................93

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4.3.1 Afirmação da Identidade, auto-estima e saúde ............................................................. 93 4.3.2 Cultura negra e promoção à saúde.................................................................................95 4.4 O POTENCIAL DE ADESÃO ÁS AÇÕES E PARCERIAS COM O SETOR SAÚDE ...................................98 4.4.1 O movimento negro como interlocutor da população negra .........................................98
4.4.1.1 Atuação sobre os determinantes sociais da saúde ................................................................... 99 4.4.1.2 Atuar diretamente em ações de prevenção: ............................................................................. 100 4.4.1.3 Controle social e prevenção de DSTs/AIDS ............................................................................. 101 4.4.1.4 A cultura negra como facilitadora das ações de prevenção .................................................. 103

4.4.2 Condições necessárias para interlocução .................................................................... 105
4.4.2.1 Representatividade e poder político............................................................................................ 105 4.2.2.2 Qualificação técnica ....................................................................................................................... 107 4.4.2.3 Apoio financeiro............................................................................................................................... 108

4.5 INDICAÇÕES SOBRE POTENCIAIS POLÍTICAS PÚBLICAS BASEADAS NA AVALIAÇÃO REALIZADA PELAS ENTIDADES DO MOVIMENTO NEGRO: ..................................................................................... 110 CONCLUSÃO .................................................................................................................................... 113 BIBLIOGRAFIA CITADA ................................................................................................................. 116 BIBLIOGRAFIA DE APOIO ............................................................................................................. 130 ANEXOS ............................................................................................................................................. 133 CONSENTIMENTO LIVRE INFORMADO .................................................................................. 134 QUESTIONARIO: I RODADA DELPHICA .................................................................................. 140 QUESTIONÁRIO II RODADA DELPHICA .................................................................................. 142

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RESUMO
Esta dissertação discute as relações entre o movimento negro da Região do ABC Paulista e à saúde da população negra. A percepção do movimento negro sobre a saúde da população negra, as suas agendas prioritárias e o potencial de adesão das organizações deste movimento social às ações de saúde são analisadas sob a ótica de representantes do próprio movimento negro, entendido aqui como interlocutor privilegiado de diálogo entre as demandas de saúde da população negra e o setor saúde. A hipótese de que o movimento negro do ABC Paulista tem pouco ou nenhum acesso a literatura produzida referente à saúde da população negra foi confirmada, bem como a hipótese de que algumas entidades já realizavam ações voltadas à saúde, e outras não o fazem por dispor de outros temas prioritários em suas agendas. Ao relacionar a importância do movimento negro como importante sujeito de promoção á saúde da população negra, o autor discute algumas

especificidades deste movimento social, concluindo que o mesmo, apesar de sua diversidade programática, apresenta grande potencial de adesão a ações de parcerias com o setor saúde. A diversidade programática observada nas diferentes organizações do movimento negro se expressa em potencialidades diversas e complementares de abordagem em relação temática saúde, a saber: a atuação sobe os determinantes sociais; a atuação comunitária de sensibilização e multiplicação de informação e as ações voltadas ao controle social das políticas públicas de saúde. A concretização de possíveis parcerias entre o movimento negro e o setor saúde fica condicionada a dois fatores relevantes: o reconhecimento e enfrentamento do racismo e do racismo institucional presente no setor saúde; oferta por parte do setor saúde de formação e qualificação das organizações do movimento para atuarem nas ações de saúde.

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ABSTRACT
This dissertation aims to discuss the perception of the black movement from ABC Paulista regarding the health of black population. The perception of this movement about the health of black population, their primordial schedule, the potential support from the organizations in this social movement to the actions of health, are being analyzed under the representatives of the black movement‟s view, known here as a privileged speaker of the dialog between the health demands of black population and the health sector. The hypothesis that the black movement from ABC Paulista has little or none access to the produced literature concerning the health of black population has been confirmed, as well as the hypothesis that some institutions have already started actions in health area while other institutions aren‟t willing to arrange it‟s prior in their schedule. Relating the importance of the black movement as an important mean of promoting health to the black population, the author discusses

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1 INTRODUÇÃO
1.1 Preâmbulo
Este mestrado começou assim: aos 12 anos de idade, cursando a sexta série ginasial na escola Paulo Emílio Salles Gomes, na região do Sítio dos Vianas em Santo André, fui transferido para o período escolar noturno para trabalhar durante o dia. Foram noites de intensas descobertas. Entre elas: o Rap.

No intervalo das aulas e na hora da saída, o que ligava era encontrar alguns trutas (principalmente o meu amigo Fião) para cantar as musicas novas dos grupos de rap: Racionais MCs, Consciência Humana e Comando DMC‟s. Entre uma rima e outra, improvisávamos algumas músicas próprias. Este fato aparentemente inocente me chamava à atenção para um mundo desigual, cindido em raças e classes, ao mesmo tempo em que me despertava o interesse pelos estudos de história e geografia, graças ao teor crítico destas músicas.

O ápice deste despertar ocorreu no dia em que matamos aula para assistir ao show dos grupos Racionais MCs no Centro da Cidade. No caminho, tomamos mais uma geral (mais uma entre tantas), mas felizmente ou infelizmente, esta seria diferente. Estávamos num grupo de sete jovens, 3 brancos e 4 pretos; quando os policiais nos separaram; mandaram nossos amigos brancos seguirem o caminho enquanto nos revistavam e humilhavam... Nossos amigos brancos não foram revistados.

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Aquela teria sido apenas mais uma geral se em seguida, eu não tivesse escutado o discurso, ora cantado, ora falado do Mano Brown. Embora não recorde exatamente as palavras, lembro de ter ouvido algo como: “Aê, Mano! Nosso povo construiu este país com suor e sangue... e em troca o sistema nos deixa a pobreza, as drogas e a polícia; quem aqui já foi vitima de violência policial? Quem aqui já passou perreio pela falta do que comer?” ... “Porque é a nossa destruição que eles querem, física e mentalmente o mais que puderam” ... “mas o que eles não esperavam é que agora a juventude negra agora tem a voz ativa!!! (pode crê)”

Daí em diante a minha participação em um grupo de Rap e o envolvimento em trabalhos comunitários foi inevitável. Nestes espaços, pelo menos entre as pessoas que me acompanhavam, tornou-se ritual obrigatório a busca de uma explicação para a nossa realidade cotidiana através de letras de rap, graffites ou Breaks, e principalmente em estudo de livros como a Auto Biografia de Malconlm X, O Manifesto do Partido Comunista e a Sociologia do Negro Brasileiro. Apesar de indigesta a muitos de nós na época, a leitura destas obras era considerada ritual obrigatório de aceitação no grupo, ao qual me submeti convictamente.

Outro fator marcante em minha caminhada foi a criação da Assessoria da Juventude (Prefeitura de Santo André – 1997) e o empenho pessoal de Eloa Katia Coelho, que depois de intensas e calorosas discussões dado a minha resistência, conseguiu me convencer a prestar vestibular. Escolhi o Curso de Ciências Sociais na Fundação Santo André. Acertada decisão!

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Eu não teria conseguido enfrentar os primeiros anos de estudo sem a ajuda da Shirlei Mendes Faustino, minha irmã. Mas o fato é que daí em diante, um novo ciclo se abre (multiplicando-se ao anterior). Nesta época, a posse que eu freqüentava (o Núcleo ROTAÇÃO – Resistência Organizada de Trabalho e Ação) decidiu participar regularmente das reuniões do Fórum de Entidades Negras de Santo André – Seria a nossa inserção oficial no movimento negro.

O movimento negro de Santo André nos recebeu com muito respeito. Ao mesmo tempo em que trazíamos nosso “fôlego juvenil” (e alguma experiência acumulada com o hip hop) aprendíamos muitas coisas importantes, entre elas, a valorização da nossa ancestralidade.

Dois anos depois eu ingressava na área da saúde trabalhando como arteeducador num projeto de prevenção e promoção da saúde que integrava o Rap, Graffit, capoeira, teatro às discussões de sexualidade e prevenção às DST/Aids, o projeto Atitudes e Conscientização coordenado pela Junny Kraicshizck e Marcia Furquim (grandes professoras e parceiras), e desde então, sigo atuando nesta área.

Posteriormente passei a compor a equipe do núcleo de prevenção, do programa de Aids da Prefeitura de Santo André, onde desenvolvi e participei de ações e estudos em saúde que me possibilitaram grande amadurecimento.

Durante este percurso, com todas as dificuldades, inclusive a de conciliar as diversas atividades, mantive-me estudando, trabalhando, atuando no

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movimento negro (de quem sou fruto e também um dos seus sujeitos), e principalmente cantando RAP. Faltava juntar tudo isto.

E esta oportunidade surgiu com a minha participação na Pesquisa “Conhecer Para Incluir: Sensibilidade e potencialidades das organizações do movimento negro para a promoção da saúde e prevenção às DST/Aids” realizada pelo Centro de Estudos em Saúde Coletiva – CESCO-FMABC em 2006-2007.

Para além do amadurecimento intelectual que propiciou, esta pesquisa possibilitou a síntese de diversas trajetórias. Em primeiro lugar, dos diversos caminhos que transitei, e em segundo, e não menos importante, a troca intensa com outros pesquisadores e trabalhadores da saúde ao qual destaco a Ana Lúcia Spiassi, que muito me ensinou.

Outro sujeito importante nesta caminhada foi o Prof. Dr. Marco Akerman, que não poupou esforços ao incentivar meu ingresso no mestrado da Faculdade de Medicina do ABC, aceitando posteriormente a tarefa de orientar este trabalho.

Posso dizer que esta dissertação mistura um pouco de tudo isto: conquista pessoal, missão política e inserção no mundo acadêmico. Esta dissertação tem origem na pesquisa “Sensibilidade e potencialidades das organizações do movimento negro para a promoção da saúde e prevenção às DST/Aids” financiada pela Coordenação Nacional de DST/Aids durante a chamada para seleção de pesquisas nº 4/2005.

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Em 2005, o Ministério da Saúde, através da Coordenação Nacional de DST/AIDS, lançou os editais de pesquisa 02 e 04/2005, concretizando uma antiga reivindicação do Movimento Negro para que, rapidamente, se acumulassem informações sócio-epidemiológicas sobre as vivências

experimentadas pela população negra brasileira em relação às DST/AIDS.

Esta convocatória visava apoiar pesquisas que se referem à relação entre condições de vulnerabilidade à infecção pelo HIV e adoecimento por Aids na população negra. O Centro de Estudos em Saúde Coletiva, da Faculdade de Medicina do ABC juntamente com o Programa de Aids do Município de Santo André tomaram para si a tarefa de discutir junto ao movimento negro do ABC Paulista as possíveis intersecções entre a agenda do movimento e a prevenção das DST/AIDS. O projeto foi extensivo aos sete municípios da região do ABC paulista: Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e Mauá, que reúnem 655.886 habitantes pardos e pretos [1], os quais representam 32,8% do total da população da região.

A pesquisa foi realizada entre agosto de 2006 e dezembro 2007 quando contamos com a generosa contribuição lideranças e gestores da região, com as quais seremos eternamente gratos.

Esta dissertação discute estes resultados reunindo-os sob quatro temáticas que o movimento negro do ABC paulista debateu entre si e conosco: e que, esperamos, contribua para pensarmos entre todos, nos distintos espaços de reflexão, formulação de política e fornecimento de serviços, as alternativas que superem as iniqüidades em saúde vivenciadas pela população negra brasileira. 14

1.2 Racismo, saúde e o movimento negro
A trajetória deste trabalho exigiu uma reflexão sobre as desigualdades sociais vivenciadas pela população negra em relação à saúde, pois vários indicadores epidemiológicos indicam piores condições de acesso à prevenção e recuperação da saúde.

Ao constatarmos que os piores indicadores de saúde para a população negra mostram relação com os piores indicadores sócio-econômicos, como veremos abaixo, surgiu a necessidade de retomar alguns aspectos sóciohistóricos para fundamentar a noção estruturante deste trabalho: a pobreza neste caso não é o conceito fundamental para entendermos a correlação com a falta de saúde da população negra, mas sim o racismo entranhado no tecido social brasileiro.

O racismo será discutido como importante determinante social de saúde e fator de vulnerabilidade da população negra ao reproduzir os ciclos de pobreza e discriminação, para relacionar em seguida, a relevância do movimento negro em relação ao processo de saúde da população negra, na medida em que é expressão de sua auto-organização em busca da melhora das suas condições de vida.

1.2.1 Raça e racismo no debate contemporâneo

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A inexistência biológica de marcadores genéticos significativos entre grupos populacionais fenotipicamente distintos não evitou em nossa sociedade a constituição histórica de processos de reificação e dominação social pautados nas diferenças visuais mais evidentes, como cor da pele, tipo de cabelo, e formato do corpo.

Este processo de opressão é freqüentemente referido como fruto do moderno conceito de raça. Pelo contrário, como veremos com Moore [2] a existência do racismo como critério de classificação fenotípico em escala planetária, antecede a formulação moderna do conceito de raça e foi quem tornou possível na sociedade européia uma compreensão hierarquizada da diversidade humana. racializada e

O termo raça, embora não represente em sua origem uma demarcação biológica [3], só pôde ser utilizado como critério de classificação reificador e inferiorizador devido à pré-existência desse processo real de reificação.

O que importa ressaltar aqui é que para nós, a utilização do termo raça está vinculada ao reconhecimento, não de diferenças biológicas entre brancos e negros, mas da existência de um processo historicamente constituído de diferenciação fenotípica definidora de espaços e posições na ordem social. Estas diferenças sociais reais têm ignoráveis implicações no que tange o viver, adoecer e morrer das populações submetidas a esta lógica [4].

Outros autores num caminho semelhante indicam a origem histórico-social do termo raça destituída de um sentido biológico. Encontrado historicamente no latim medieval, o termo designava descendência ou linhagem [3-5].

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Nogueira [6] organiza esta discussão a partir de dois conceitos: marca e origem. O primeiro mais ligado à soma das condições sócio-econômicas que associadas à aparência, particularmente, a cor da pele, concretizam o potencial dos sujeitos definirem-se e serem definidos socialmente, em contraste com o conceito de origem, que, sendo inflexível, limita o potencial de trânsito social dos indivíduos, situação própria à sociedade norte-americana.

Wagley [7] usa o conceito de raça social, reafirmando a incompatibilidade da aplicação de conceitos biológicos à análise das relações sócio-raciais. Nogueira [6] utilizará o termo aparência social.

É nesta perspectiva que ao final do século XX o movimento negro brasileiro assume o conceito de raça fixando-o como conceito de contraposição e afirmação social. Desta forma o conceito:

...passou a constituir um traço identitário voluntariamente assumido e ativamente construído; no lugar de um conceito opressor e negativamente discriminatório, um conceito voltado para a emancipação e para a afirmação positiva de resistência à iniqüidade [8].

Nos últimos anos algumas correntes políticas, muitas vezes à revelia de boas intenções, têm advogado no país uma pretensa “unidade nacional” pautada pela “inexistência de diferenças raciais”, retomando argumentos já derrubados pelo movimento negro brasileiro que remetem ao mito da igualdade racial brasileira. Para estas correntes, as reivindicações do movimento negro e as políticas públicas direcionadas à população negra poderiam ser

responsáveis pela “criação das raças no Brasil” [9-10]. Nesta perspectiva as reivindicações do movimento negro são apresentadas como ameaça à

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“unidade nacional” do “povo brasileiro”, como se as desigualdades raciais já não tivessem criado de fato as “raças” em nossa sociedade.

Estes autores defendem a abolição do conceito raça, dada a sua inexistência como fator biológico. Estas afirmações, que se embasam nas recentes pesquisas genômicas só ganharam eco nos últimos anos (não com a descoberta biológica da inexistência de marcadores genéticos relevantes entre os diferentes grupos humanos, mas sim) frente à pressão do movimento negro pela criação de políticas sociais de ações afirmativas direcionadas à população negra [2].

Num outro pólo, concordamos com o geneticista Sergio Pena quando deixa nítido que a insignificância da “raça” como fator biológico não se converte mecanicamente em relações sociais igualitárias:

Independente dos clamores da genética moderna de que a cor do indivíduo é estabelecida por apenas um punhado de genes totalmente desprovidos de influência sobre a inteligência, talento artístico ou habilidades sociais, a pigmentação da pele ainda parece ser um elemento predominante da avaliação social de um indivíduo e talvez a principal fonte de preconceito [11].

A afirmação discursiva em torno da inexistência da raça não significou o enfraquecimento do racismo na sociedade. Na verdade, as vozes mais preocupadas em declarar a extinção da idéia de raça atualmente estão, na maioria das vezes, consciente ou inconscientemente mais próximas, não da defesa da igualdade de direitos sociais entre os diferentes grupos populacionais que compõe a “raça humana”, mas próximos sim da defesa dos privilégios historicamente instituídos pelos grupos “racialmente” dominantes.

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Ou seja, no momento em que o protesto negro amplia os seus campos de atuação ameaçando mesmo que de forma insipiente alguns privilégios historicamente constituídos no país, é que se observa por parte de alguns políticos e acadêmicos a defesa da inexistência das diferenças raciais.

O que se constata na prática é que nem a miscigenação brasileira nem as recentes afirmações destes setores em torno de um “povo brasileiro homogêneo” puderam garantir a igualdade real de oportunidades entre os diversos grupos que compõe a nossa sociedade.

Nunca é demais recorrer a Marx quando diz que para se compreender o mundo real não se deve partir

... daquilo que os homens dizem, imaginam ou representam, e tampouco dos homens pensados, imaginados e representados para, a partir daí, chegar aos homens em carne e osso; parte-se dos homens realmente ativos e, a partir de seu processo de vida real, expõe-se também o desenvolvimento dos reflexos ideológicos e dos ecos desse processo de vida [12] .

Neste contexto, estas posições reducionistas contribuem - insistimos, mesmo que à revelia de boas intenções - por um lado, para a legitimação e consolidação das posições privilegiadas dos grupos racialmente dominantes em nossa sociedade, e por outro, para a deslegitimação das crescentes lutas reivindicatórias das populações alvo do racismo [2].

Divisões raciais, portanto, apesar de não disporem de base biológica efetiva, existem objetivamente na realidade social, construídas e amparadas por um

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processo histórico de diferenciação e inferiorização fenotípica dos seres humanos – o racismo.

Em extensa sistematização da existência do racismo ao longo da história da humanidade, Moore [2] traça alguns pontos que contribuem para compreender a formação e constituição das desigualdades raciais no planeta descrevendo três características dinâmicas que convergem de forma geral no processo de gênese do racismo:

Em todas as circunstancias nas quais podemos identificar o surgimento do racismo, encontramos três dinâmicas convergentes de um mesmo processo: a) a fenotipização de diferenças civilizatórias e culturais; b) a simbologização da ordem fenotipizada por meio da transferência do conflito concreto para a esfera do fantasmático (isso implica fenômenos como a demonização das características iconotípicas do vencido em detrimento da exaltação das características do segmento populacional vencedor); e c) o estabelecimento de uma ordem social baseada numa hierarquização raciológica, mediante a subordinação política e socioeconômica permanente do mundo populacional conquistado [2].

Este processo de reificação das características civilizatórias do grupo dominado: a demonização e mobilização de uma consciência grupal para a rejeição das construções simbólicas; e a elaboração de estruturas normativas que regulem a atuação ao mesmo tempo em que inculcam um sentimento de inferioridade no povo subalternizado, atuariam como barreiras imobilizadoras que organizam a sociedade de tal forma que garanta uma gestão monopolizada dos recursos por parte dos grupos racialmente dominantes [2].

Tais estruturas normativas foram apresentadas por Fanon [13] a partir de um recorte tempo-espacial mais específico – a colonização do continente africano pela Europa capitalista. Fanon associa estas estratégias de negação

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da dimensão humana do povo dominado como práticas sistemáticas da situação colonial. :

O racismo, vimo-lo, não é mais do que um elemento de um conjunto mais vasto: a opressão sistematizada de um povo. (...) Na realidade, as nações que empreendem uma guerra colonial, não se preocupam com o confronto das culturas. A guerra é um negócio comercial gigantesco e toda a perspectiva deve ter isto em conta. A primeira necessidade é a escravização, no sentido mais rigoroso, da população autóctone. Para isso, é preciso destruir os seus sistemas de referência. A expropriação, o despojamento, a razia, o assassínio objetivo, desdobram-se numa pilhagem dos esquemas culturais ou, pelo menos, condicionam essa pilhagem. O panorama social é desestruturado, os valores ridicularizados, esmagados, esvaziados. Desmoronadas, as linhas de força já não ordenam. Frente a elas, um novo conjunto, imposto, não proposto mas afirmado, com todo o seu peso de canhões e de sabres [13].

Em ambos, o racismo é tratado numa dimensão estrutural da sociedade, atrelado a interesses de classe e concentração do poder. O mundo “concreto é concreto

porque

é síntese

de

múltiplas

determinações” [14] e o racismo configura-se como um dos fatores objetivos constituintes de nossa realidade social. Embora a existência do racismo anteceda o advento da sociedade capitalista [2] foi apropriado socialmente como estratégia de dominação colonial mercantil de acumulação primitiva de capital no período da chamada acumulação primitiva de capital [15] e reorganizado durante o processo de formação do capital monopolista como elemento definidor das relações de produção e divisão internacional e racial do trabalho [16-17]. Contudo, permanece vivo como uma das determinações concretas da produção e reprodução capitalista contemporânea. Para Moore:

Na contemporaneidade, o racismo está arraigado em todas as instâncias de funcionamento do mundo, tanto na economia como na política cultural e na militar [2].

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Essas conseqüências podem ser facilmente observadas ao analisarmos a situação dos negros em qualquer parte do mundo, tanto nos países em que são maioria (e geralmente estes países amargam a parte mais fraca da divisão internacional do trabalho) quanto nos países em que são minoria (que mesmo sendo países centrais, são os negros destes países os mais oprimidos pelo sistema econômico/social).

Alguns exemplos deste árduo legado são as barragens migratórias à pessoas (principalmente trabalhadores) dos países de origem não branca, a marginalização dos imigrantes árabes e africanos nos países centrais (ao contrario da situação dos imigrantes e descendentes europeus nos países pobres), a pobreza na África (bombas, guerras, miséria, fome, doenças), fruto de uma sucessão quase milenar de saques e raptos de recursos minerais e vegetais, sobretudo pessoas, no que configura os maiores seqüestros coletivos da história.

O grupo racialmente dominante, não apenas se sente superior, mas vive na prática uma superioridade de condições e oportunidades [2].

Pode-se afirmar, portanto, que o racismo é um processo historicamente constituído de diferenciação fenotípica definidora de espaços e posições na ordem social. Neste sentido, não se abalaria apenas com repúdios morais ou rearranjos no âmbito das relações interpessoais, mas pelo contrario com a apropriação radical dos recursos produtivo pelos diferentes povos do planeta.

Nas palavras de Moore:

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O seu desmantelamento (o racismo) estrutural e sua erradicação nas consciências coletivas implicam a determinação de se proceder a uma desracialização completa da sociedade. Ora, esse objetivo está subordinado a uma precondição: a saber, que a sociedade proceda à gestão e a repartição dos recursos vitais de uma maneira racialmente equitativa [2].

1.2.1.2 A atualidade do racismo brasileiro
A particularidade constituinte do capitalismo brasileiro é caracterizada pela forma como a acumulação e os processos produtivos se deram sem serem antecedidos “... por uma época de ilusões humanistas e de tentativas, mesmo utópicas, de realizar na prática o „cidadão‟ e a comunidade democrática...” [18].

Longe de ser apenas uma imposição de valores, o racismo neste contexto era parte dinâmica de um processo de exploração apoiado no trabalho escravo, próprio da formação hiper-tardia do capitalismo no Brasil [18].

Há uma profunda relação entre a organização do trabalho do sistema colonial brasileiro baseado na escravidão e a atual sobre-representação da população negra brasileira nas camadas sociais mais pobres, mas como nos explica Hasenbalg [19] temos que qualificar essa relação que passou por transformações ao longo da história e não deve ser entendida de maneira linear.

À época da legislação finalizadora do regime escravista em 1888, 90% da população negra e mulata era composta por sujeitos livres e alforriados, temos, pois, que

...a tenacidade da estratificação racial e as novas fontes de discriminação após o fim do escravismo devem ser procurados nos

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variados interesses dos grupos brancos que obtêm vantagens da estratificação racial [19].

Com o fim do sistema escravista e posterior queda do Império, a burguesia brasileira (ou pelo menos das regiões dinamizadas pela economia cafeeira), financiado pelo capital internacional, inicia uma série de políticas e ações que visavam uma modernização do país, atrasado frente a outras economias mundiais.

A escravidão, identificada com o atraso, era posta de lado para dar lugar a uma economia moderna e mais dinâmica que a anterior. Neste período, o negro, diretamente associado à escravidão, é considerado portador de uma herança escravista que o impediria de contribuir aos novos interesses (modernos). Não estando apto, portanto, deveria ser substituído por uma força de trabalho mais qualificada e adaptada ao ritmo da indústria.

Neste período, importante para a compreensão deste problema, observa-se na Região Sul e Sudeste, a criação intencional de diversas barragens à inserção do negro na “sociedade de classes” brasileira [20]. Não existe exploração capitalista sem trabalhador e, portanto, estas barragens foram acompanhadas por uma intensa campanha de incentivo à imigração de trabalhadores europeus, sendo estes identificados ao moderno e dinâmico desenvolvimento dos centros capitalistas.

Observam-se aqui dois movimentos complementares: de um lado a identificação do negro (ex-escravo) com o atraso (escravidão) e o trabalhador imigrante (Branco) com a os desejos de modernização do país e do outro lado a criação de barragens reais a inserção do negro em postos de trabalhos tidos

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como modernizadores, tendo como conseqüência direta principalmente no Sul e Sudeste, uma organização (divisão) racial da força de trabalho neste período. Nas outras regiões, segundo Mora [21], mantiveram-se as antigas e complementares atividades econômicas, não demandando nova mão de obra, incorporando, portanto, a força de trabalho do ex-escravo (livre) como

mercadoria necessária a sua manutenção.

Moura [21] mostra ainda em seu estudo que apesar do preconceito associado ao ex-escravo, o mesmo já desempenhava funções de todas as especialidades na nascente indústria brasileira desde a segunda metade do século XIX. Por outro lado, o trabalhador imigrante europeu era em sua maioria oriundo de regiões agrárias, dispondo, portanto, de pouca habilidade e familiaridade com a maquinaria necessária, provocando muito

descontentamento em diversos empregadores [21].

A conseqüência deste processo foi a sua inserção precária na sociedade de classes [20], acompanhada e influenciada pelo estigma da escravidão. A herança escravista apontada pela elite da época (e ainda por muitos intelectuais atualmente) não estaria necessariamente presente no ex-escravo, mas nas próprias elites que impregnadas da tradição escravista, regada às teorias racistas européias do século XIX [22] desenvolvem ações econômicas e políticas para embranquecer o país, “elevando-o” de sua condição de inferioridade.

Segundo Buonicore [22] duas tendências racistas dominaram o país no período pós-abolicionista: uma que rejeitava totalmente a miscigenação racial e

25

outra que via nesta a possibilidade de resolver o “problema do negro”, através de um embranquecimento progressivo da população brasileira.

As elites nacionais, representadas neste debate por intelectuais, médicos e advogados, inspirados em autores como Goubineau (1816-1882), Ratzel (1844-1904) e Lombroso (1835-1909) aderiram às teses eugênicas européias de “aprimoramento” da raça brasileira. Este pensamento, difundido no Brasil através do médico Nina Rodrigues e do advogado Oliveira Viana [22] deixou marcas profundas na inteligentsia brasileira, influenciando o projeto de nação que se almejava.

A população liberta da escravidão era vista como sendo composta por negros “preguiçosos, indisciplinados, doentes, ébrios e em permanente vagabundagem” e mestiços oriundos de “cruzamentos promíscuos...” que produziram “...povos degenerados, instáveis, incapazes de desenvolvimento progressivo” [23].

Como exemplo de produto concreto desse posicionamento ideológico, manifesta-se nesta época a preocupação com a situação de saúde dos pobres sendo que “o grupo que mais inquietava os médicos, os especialistas em saneamento e os reformadores brasileiros eram, em sua maior parte, constituídos por negros e mulatos.” Estes profissionais presumiam “... que os pobres eram pobres porque eram anti-higiênicos, sujos, ignorantes e hereditariamente inadequados” [23].

Se encontrávamos em autores dos primeiros anos do século XX a idéia de inferioridade biológica dos negros, em Gilberto Freyre [24] que encontramos a

26

crença na mestiçagem e nas relações interpessoais entre brancos e negros (principalmente as mulheres negras) como amalgamento racial e cultural brasileiro:

Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam os nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que é expressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influencia negra. Da escrava ou sinhá que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela própria amolengando na mão o bolão de comida. Da negra velha que nos contou as primeiras historias de bicho e malassombrado. Da mulata que nos tirou o primeiro bicho-de-pé de uma coceira tão boa. De que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger de cama-de-vento, a primeira sensação completa de ser homem. Do moleque que foi nosso primeiro companheiro de brinquedo [25].

As relações inter-raciais brasileiras resumidas às suas expressões sexuais (sempre entre o senhor branco e a escrava negra) e interpessoais preservam naturalizadas as desigualdades de raça, classe e gênero.

Estas leituras contribuíram para a mistificação das relações raciais desenvolvidas no Brasil, francamente desvantajosas para os negros e pardos brasileiros, pois tendo defendida a existência de uma pretensa harmonia social, seria inútil buscar desvelamentos sobre os componentes racistas que permeiam a composição social brasileira [26].

A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha, a quadrarona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos, agiram poderosamente no sentido da democratização social no Brasil. Entre os filhos mestiços, legítimos e mesmo ilegítimos, havidos delas pelos senhores brancos, subdividiu-se parte considerável das grandes propriedades, quebrando-se assim a força das sesmarias feudais e dos latifúndios do tamanho de reinos [24].

Entretanto, por mais que se reconheça a presença africana na formação social brasileira, o negro não será considerado na mesma categoria humano27

social do branco, já que ainda é visto aos olhos do senhor da casa grande como objeto estranho e ao mesmo tempo desejado por suas características exóticas [27].

Para Bilden [28], Frazier [29], Herskovits [30], Park [31] essas contradições passavam ao largo em comparação com a segregação institucionalizada norteamericana e nosso país seria, portanto, um exemplo a ser seguido pelo mundo por resolver de forma harmônica os conflitos raciais. Assim, se articula uma das maiores bases de sustentação ideológica do racismo brasileiro a partir da segunda metade do século XX: o mito da democracia racial [32].

O fato é que essa afirmação discursiva não significou a existência e nem a pressuposição da igualdade real de condições, direitos e oportunidades entre brancos e negros, mas configurou-se como um dos maiores entraves a sua efetivação, pois com a negação (discursiva) do racismo ou mesmo das diferenças reais externadas nas condições de vida de brancos e negros, a luta contra o racismo ou pela igualdade perde seu sentido [20-22].

A dinâmica de transição do período colonial à república e a predominância da economia urbano-industrial sobre a agro-exportadora foi levada a cabo através de conciliações e concessões, que não alteraram estruturalmente o posicionamento e correlação de forças das classes em conflito nos dois períodos [18]. Para os brasileiros de ascendência africana essa conformação social significou um longo período de imobilidade social [21-33].

O resultado deste processo é a concentração de brasileiros negros e mulatos nas camadas mais pobres da população dentro dos setores menos

28

qualificados da classe operária e nas posições mais subalternas do sistema de estratificação social, fatores de identificação entre raça e classe [19-20-22-3435-].

Esta constatação é relevante se quisermos enfrentar seriamente os impactos do racismo na saúde da população negra brasileira.

Aqui chegamos a um ponto importante para o objetivo deste trabalho sobre a relação entre o movimento negro e a saúde da população negra: todo este arcabouço de institucionalização do racismo na sociedade brasileira não precisou basear-se num sistema jurídico que legalizasse a relação, ela se construiu no tempo e consolidou-se no cotidiano das relações sociais a partir da demanda do grupo branco dominante [19].

O racismo não existe no Direito, mas dá-se de fato, sem um conjunto prédefinido de ações e determinações legais, mas que deixam claro o lugar subalternizado do negro na sociedade brasileira, o que confundia e dissolvia a significado do protesto negro, pois,

... Após o fim da escravidão, o mito da democracia racial e as imagens vigentes de harmonia racial permitiram a substituição de medidas redistributivas em favor dos não-brancos por sanções ideológicas positivas e integração simbólica dos racialmente subordinados... [deixando] “os negros politicamente isolados...para lutarem pela redução das desigualdades raciais [19].

À guisa de síntese, Pinho e Figueiredo [36] propõem pensarmos o racismo brasileiro sob três aspectos:

1. o sócio-histórico, tendo a escravidão como base para o entendimento da constituição social brasileira;

29

2. o contradição em relação ao universalismo moderno, produzindo uma violência de origem e; 3. o conseqüente resultado de práticas e vivências de racismo no cotidiano.

1.2.1.3 A dimensão racial da situação de pobreza em São Paulo
Há uma forte dimensão racial na situação de pobreza no Brasil, dado que a representação de brasileiros negros entre os pobres é muito superior à sua proporção na população em geral. Entre os negros encontramos 47% de pobres e 22% em extrema pobreza e entre os brancos temos 22% e 8% nas mesmas condições [37].

Fixando os estudos para a Região Metropolitana de São Paulo com o recorte proposto pela Fundação de Seade. Pudemos contar com a inestimável fonte de informações obtidas através dos dados da Pesquisa Nacional por Amostragem Domiciliar [38] apresentados desagregados nos Indicadores de Desigualdade Racial - IDR 2004. Estes indicam que o mercado de trabalho reflete uma dimensão racial quando observamos o item desemprego: 9,7% para o total de brancos; 14,6% para o total de negros; 7,7% para os homens brancos; 11,6% para os homens negros; 12,4% para as mulheres brancas e 18,6% para as mulheres negras.

Na Região Metropolitana de São Paulo, os patamares das taxas de desemprego são mais altos (12,5%, 16,6%, 10,4%, 13,9, 15,1% e 19,9%, 30

respectivamente), mas as diferenças entre negros e brancos são menores, indicando que no interior do Estado há uma barreira maior para os negros obterem colocações.

Em relação à segmentação ocupacional por gênero e raça observamos um padrão persistente que continua confinando a grande maioria das

mulheres e dos negros de ambos os sexos em trabalhos e atividades econômicas mal remuneradas, eventuais e instáveis.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística [37] a proporção de negros (65,3%) é 29% superior à proporção de brancos em ocupações precárias e informais (50,4%). No caso das mulheres negras, a proporção é de 71%, sendo que 41% se concentram nas ocupações mais precárias e desprotegidas do mercado de trabalho: 18% são trabalhadoras familiares sem remuneração4 e 23% são trabalhadoras domésticas.

Negros e brancos com a mesma escolaridade têm rendimentos diferentes: os negros recebem sempre 30% a menos que os brancos por hora trabalhada. Na faixa superior de escolaridade (15 anos e mais), as mulheres negras recebem menos da metade (46%) do que recebem homens brancos por hora trabalhada [37-38].

Um dado essencial para verificação das condições de saúde está ligado à moradia, que são classificadas pelo IBGE como adequadas ou não-adequadas, de acordo com alguns indicadores: presença ou não de rede de água e esgoto, uso de materiais não duráveis em paredes ou teto, adensamento de moradores e condição de posse. Nesta categoria verificamos que as moradias mais

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adequadas estão concentradas entre os responsáveis pela casa de raça/cor branca, seja do sexo masculino (80%) seja do feminino (82,3%) [37].

Entre os domicílios cujo chefe é de raça/cor negra, esses porcentuais mostram-se inferiores: 61,6% naqueles onde o responsável é homem e 60,5% entre aqueles com mulheres negras.

No município de Santo André, importante município da região circunscrita em nosso estudo, a população negra encontra-se concentrada “nas áreas mais periféricas, de extrema precariedade, seja do ponto de vista habitacional como social” [39].

1.2.2 Os impactos do racismo na saúde da população negra
O racismo, entendido em suas dimensões estruturais, atua como definidor de espaços sociais e oportunidades [2] influenciando diretamente no nascer, viver, adoecer e morrer das populações submetidas a seu crivo. [4]

Esta dimensão propriamente social do processo de saúde/doença acaba por escapar a diversos estudos epidemiológicos clássicos vinculados a modelos matemáticos e biomédicos de explicação científica [40]. A abordagem de risco, pautada “na explicação do processo saúde-doença, a partir de um conjunto de eventos estatísticos probabilísticos, atribuíveis ou relativos à base populacional e que geram modelos de intervenção preventiva de origem cognitiva com enfoque na percepção individual de risco” [41], tem encontrado limites. Neste cenário buscou-se um aprimoramento na reflexão e 32

na prática da saúde a partir da escolha de metodologias e construção de serviços mais aproximados das demandas sociais. Este é um ponto importante de nossa reflexão, pois “...a medida do risco...é uma abstração que não se alimenta de inúmeros elementos intrínsecos e fundamentais... do vital...”[42].

A história recente da epidemia de Aids é o exemplo paradigmático desta inflexão. O efeito prático produzido pela apropriação deslocada do conceito de risco teve uma reação direta sobre a homofobia e o conservadorismo enraizados no tecido social. Ao serem associados a grupos de risco, como os Gays e usuários de drogas injetáveis vivenciaram estigmas sociais que em nada contribuíram para o confronto da epidemia. Assistiu-se o confronto a estes grupos.

(...) É por isso que todas as tentativas de produzir sistemas de explicação histórica nitidamente fechados e encerrados em si, resultam... em alguma redução arbitrária da complexidade das ações humana...” [43]

Esta redução arbitrária, que assumiu um papel intensamente regulatório na vida cotidiana e que caracterizou os primeiros anos da Aids (quem vê cara, não vê Aids!) é uma referência para que não se repita com a população negra, em sua vulnerabilidade específica, a reprodução da noção de “grupo de risco” [44], potencialmente negativo no contexto da discussão sobre a racialização da epidemia [9] numa sociedade como a nossa, impregnada de diversas práticas discriminatórias.

Novos paradigmas têm sido buscados, particularmente no campo da saúde coletiva, exatamente para sugerir abordagens que abranjam situações em que 33

o conceito de risco e seus instrumentais explicativos precisem ser substituídos ou complementados. As discussões da promoção da saúde, os instrumentos da humanização da saúde e o referencial de Determinantes Sociais da Saúde 1 buscam ampliar nossos modos de abordar e vivenciar a saúde com os outros [45-46].

O que não é construído com as pessoas nos seus contextos, não atende à demanda de ser emancipador, para apoiarmo-nos nas lições inesquecíveis de Paulo Freire.

Entre as grandes contribuições do instrumental de reconhecimento dos processos de vulnerabilização de coletivos e dos sujeitos, está o estreitamento das “...relações entre saúde e direitos humanos em nossas estratégias de prevenção e cuidado...”[47].

Em um artigo publicado em 2005 na Revista de Saúde Pública, Lopes [48] chama a atenção para um fato relevante ao considerarmos os impactos das desigualdades raciais em saúde. O racismo, como processo histórico de hierarquização de definição de acesso, nem sempre pode ser apreendido de forma explícita e mensurável. As análises de diferença numéricas com significância estatística, embora fundamentais sejam insuficientes para compreender os impactos do racismo na saúde da população negra, quando ignoradas as experiências de vida, condições sociais e acesso a serviços e bens sociais etc.

1

Determinantes sociais da saúde (DSS) são, segundo a OMS, “circunstâncias sociais e econômicas desfavoráveis que afetam a saúde ao longo da vida.” (AKERMAN, 2005:79). Nessa condição, as pessoas pertencentes às classes sociais mais exploradas ou totalmente excluídas na ordem social produtiva capitalista têm o dobro de chances de adoecer gravemente e morrer prematuramente, pois “... seus efeitos se acumulam durante toda a vida” (idem).

34

1.2.3.1 A saúde da população negra
Encontramos uma importante bibliografia oriunda de pesquisas acadêmicas, em relatórios que apresentam dados desagregados utilizando o quesito raça ou etnia, produzidos pelas instituições responsáveis por sistemas de informação gerais ou em saúde, como o Ministério da Saúde, a Organização Panamericana da Saúde (OPAS), o IBGE, Fundação SEADE, bem como autores que reuniram estes dados e os apresentam sob a ótica da discussão da superação das desigualdades e da formulação de políticas públicas como em Lopes [48], Batista e Kalckmann [49] e Chor e Lima [50], para citarmos apenas algumas referências. O “Caderno de Textos Básicos” [51] do Seminário Nacional da População Negra, realizado em agosto de 2004, promovido em parceria entre a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e o Ministério da Saúde e o Seminário Saúde da População Negra, reunido no livro “Temas em Saúde Coletiva 3” [49] produzido pelo Instituto de Saúde da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo apresentam uma inestimável fonte de informações sobre as disparidades nas condições de acesso à saúde de negros e não-negros:

-68% dos negros atendidos em hospitais e 26% dos negros atendidos em unidades de saúde referem sentir-se discriminados [4].

-a expectativa de vida ao nascer dos brasileiros é de 73,99 anos para os brancos e 67,87 anos para os negros [4].

35

-a redução das taxas de mortalidade infantil vivenciada no país nas últimas décadas foi menor entre os negros (25%) do que entre os brancos (43%). Em vinte anos (1980 a 2000) a diferença relativa entre os níveis de mortalidade infantil dos dois grupos praticamente dobrou. [4]

- outro campo clássico da saúde pública, a saúde da gestante, apresenta importantes indicadores de disparidade: na cidade do Rio de Janeiro, no período de 1999 a 2000, 31,8% das gestantes negras relataram dificuldade de obter atendimento pré-natal, enquanto entre as brancas esta dificuldade se deu em 18,5% das vezes [4].

-as doenças infecciosas e parasitárias, doenças endócrinas e metabólicas, transtornos mentais, doenças do aparelho circulatório e causas externas são a maior causa de mortalidade entre os homens pretos [49] sendo que 69,5% dos óbitos dos homens negros ocorrem até 54 anos, para uma proporção de 45,1% entre homens brancos [52].

-destaca-se que os óbitos por doenças mentais e comportamentais entre os homens negros estão concentrados nas faixas mais pobres da população e afetam intensamente os trabalhadores desempregados e/ou subempregados [4].

-a taxa de mortalidade por Aids no Brasil, no ano 2000, foi de 10,61/100 mil para mulheres brancas, 21,49/100 mil para as pretas, 22,77/100 mil para os homens brancos e 41,75/100 mil para os homens negros [4].

1.2.2.2 Saúde mental e racismo

36

Ser negro é estar envolto em um conjunto de situações e vivências sutis ou deliberadamente hostis em que a acomodação ou reação envolvem conflitos com impactos diretos e indiretos sobre o processo saúde/doença. Nas palavras de Aimé Cesaire [53], conhecido como o poeta da negritude, ao se propor agir no sentido da transformação das condições que cercam o ser negro, há que se levar em conta esses determinantes: “falo de milhões de homens a quem sabiamente inculcaram o medo, o complexo de inferioridade, o temor, a genuflexão, o desespero, o servilismo.”

Fanon [13], ao analisar a situação dos africanos na França, ressalta a impossibilidade de uma vivência saudável dada às suas péssimas condições de vida causadas pelo racismo.

Para Eldridge Cleaver [54] o racismo tem reflexos inclusive na saúde sexual de homens e mulheres negras. O autor desenvolve uma análise profunda na abordagem de temas como sexualidade, feminilidade e masculinidade negra e miscigenação, apontando os complexos psíquicos inculcados no negro como principal desafio a ser enfrentado pelo mesmo na sua emancipação e autodeterminação.

Para ele o ser humano dotado de infinitas potencialidades criativas, mas cindido em arquétipos masculino/feminino nas sociedades de classe em que a racialização atua como definidora de espaços sociais, é também perpassado pela cisão preto/branco [54].

Esta reificação destina ao homem negro um estereótipo físico, destituído de capacidades intelectuais: “O vigor, a força bruta, a robustez, a virilidade e a

37

beleza física estão associadas ao corpo [...] às classes sociais mais baixas, aos criados supermasculinos” [54].

Às mulheres negras fica destinado o papel da trabalhadora doméstica, extensivo ao papel exótico de servidora sexual, como vemos em Freyre “...Da mulata que nos tirou o primeiro bicho de pé...e...que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-vento, a primeira sensação completa de ser homem...” [24].

Sobre a condição psíquica da mulher negra, encontramos em Firestone [55], Roland [56], Santos [57] a reflexão sobre os impactos na saúde mental produzidos pela epidermização do racismo, assim sintetizado por Carneiro[58]:

... para além da problemática da violência doméstica e sexual que atingem as mulheres de todos os grupos raciais e classes sociais, há uma forma específica de violência que constrange o direito à imagem ou a uma representação positiva, limita as possibilidades de encontro no mercado afetivo, inibe ou compromete o pleno exercício da sexualidade pelo peso dos estigmas seculares, cerceia o acesso ao trabalho, arrefece as aspirações e rebaixa a auto-estima.

As relações de vida, o meio, as ocupações e preocupações, a sexualidade, as tensões interiores, o sentimento de segurança e insegurança, a evolução e história de vida trazem sofrimentos e impactos diretos sobre a auto-estima dos que estão submetidos ao racismo [59-54-57-60-61] refletindo sobre sua saúde, principalmente a saúde mental, “por interiorização, ou melhor, epidermização dessa inferioridade” [62].

1.2.2.3 Racismo institucional
A operacionalização do conceito de vulnerabilidade veio possibilitar uma compreensão do processo saúde-doença relacionado com os aspectos 38

individuais, intrinsecamente ligados às condições materiais de existência, bem como a capacidade das instituições, especialmente da saúde de oferecer condições para a equidade [40].

Este último aspecto é importante quando se pensa a saúde da população negra no Brasil, pois seria ingenuidade acreditar que o racismo, impregnado em todos os poros do tecido social, estaria ausente nas reflexões e práticas de saúde

Lopes [48] fala da cegueira institucional produzida no contexto de invisibilização das desigualdades raciais. Num país em que se enraizou o mito da democracia racial, impera “o preconceito de ter preconceito” [33] onde os profissionais, mesmo quando repudiam moralmente qualquer forma de

discriminação contribuem para a sua manutenção ou reprodução quando não se posicionam abertamente no sentido de enfrentar as desigualdades:

Assim, embora não seja ético orientar sua ação de modo a discriminar, o profissional tende a não perceber as desigualdades ou a insistir em sua inexistência, contribuindo para a inércia do sistema frente às mesmas e, por conseqüência, para a sua manutenção [4].

Os dados acima descritos apontando as desigualdades raciais em saúde são frutos do racismo sobre o nascer, viver, adoecer e morrer da população negra, mas por outro lado, não faria sentido desconsiderar o setor saúde desta cadeia complexa de produção e reprodução social de desigualdades.

Para refletir e atuar sobre esta problemática, criou-se o conceito de racismo institucional:

O racismo institucional pode ser definido como o fracasso coletivo das organizações e instituições em promover um serviço profissional e

39

adequado às pessoas devido a sua cor, cultura, origem racial ou étnica(PNUD, 2005). Ancorada em um esquema interpretativo que reconhece a existência de fenômenos sociais irredutíveis ao indivíduo, e apontando a reprodução de práticas discriminatórias que se assentam não apenas em atitudes inspiradas em preconceitos individuais, mas na própria operação das instituições e do sistema social, o enfoque do racismo institucional oferece uma nova abordagem analítica e uma nova proposta de ação pública [ 63].

Estas práticas reproduzem ou intensificam as desvantagens no acesso aos benefícios gerados pelas instituições e organizações.

Uma sondagem de opinião sobre este tema realizada no segundo Seminário de Saúde da População Negra do Estado de São Paulo (2005) por Kalckmann, Santos e Batista [49] evidenciou a discriminação sofrida pela população negra nos serviços de saúde. De acordo com o estudo, a ampliação da vulnerabilidade da populaça negra é expressa quando:

existem restrições de acesso aos serviços e atendimentos de saúde; qualidade diferenciada no atendimento ao pré-natal e parto; qualidade ruim no atendimento à anemia falciforme; e na relação estigmatizada entre os profissionais de saúde de diferentes origens étnico raciais.

Estes aspectos são relevantes se quisermos reverter o presente quadro de iniqüidade que perpassa a saúde da população negra.

1.2.3 O movimento negro

1.2.3.1 A atuação afirmativa do movimento negro

40

Entendemos por Movimento Negro o conjunto de indivíduos, organizações e ou expressões culturais negras ou de matriz africana, que desempenham teleologicamente ações de preservação da identidade negra, dos diversos aspectos da sua cultura e/ou, principalmente, de enfrentamento ao racismo [21].

O movimento negro constituiu-se ao longo de sua história como a principal força social de contraposição ao racismo e busca de melhores condições de vida da população negra no Brasil. Este aspecto é de grande relevância para compreender a dinâmica das relações raciais na sociedade contemporânea e os seus reflexos na saúde da população negra.

Numa extensa sistematização da literatura, Gohn [64], identifica diversas teorias e concepções sobre a categoria movimento sociais, vinculando-as às principais correntes teóricas das ciências sociais. Neste debate os movimentos sociais são definidos por ela como:

... ações sociopolíticas construídas por atores sociais coletivos pertencentes a diferentes classes e camadas sociais, articuladas em certos cenários da conjuntura socioeconômica e política de um país, criando um campo político de força social na sociedade civil. As ações se estruturam a partir de repertórios criados sobre temas e problemas em conflitos, litígios e disputas vivenciadas pelo grupo na sociedade. As ações desenvolvem um processo social e político-cultural que cria uma identidade coletiva para o movimento, a partir dos interesses em comum. Esta identidade é amalgamada pela força do princípio da solidariedade e construída a partir da base referencial de valores culturais e políticos compartilhados pelo grupo, em espaços coletivos não-institucionalizado [64].

Seja na politização de conflitos reais existentes

ou no impulso à

transformações sociais, os movimentos sociais, exercem influência nos processos históricos, ao mesmo tempo em que são frutos destes mesmos processos. 41

O movimento negro, mesmo sobre escassas referências nos estudos e conceituações sobre movimentos sociais no Brasil, exerceu influência em diversos períodos e transições históricas do país [21].

Interessa aqui discutir a importância do movimento negro em relação à saúde da população negra, na medida em que é expressão de sua autoorganização, depositária da trajetória histórica destes brasileiros e interlocutor da variada gama de demandas humano-societárias que daí advém.

Biko [65], ao refletir sobre o enfrentamento do racismo elabora uma estratégia que articula dialeticamente cultura, política, auto-estima,

solidariedade grupal, afirmação da identidade étnica/racial à possibilidade de mobilização coletiva frente ao racismo.

Pode-se compreender esta dinâmica em três dimensões:

Construção de redes de solidariedade; Afirmação da identidade negra frente a um „universalismo‟ eurocêntrico inferiorizador e a preservação de conhecimento cultural ancestral; Transformações nas condições estruturais de vida, levado a cabo pelos próprios negros num processo que seria impossível sem as dimensões anteriores.

Estes tópicos, embora articulados na prática, evidenciam a importância do movimento negro no processo saúde-doença da população negra, seja pelos processos de transformação social que proporciona no âmbito estrutural das relações de produção, influenciando diretamente nos determinantes sociais da saúde, seja por propiciar espaços de sociabilidade pautados na valorização e 42

manifestação da identidade ancestral comum. Aspectos relevantes na melhoria da qualidade de vida desta população.

A inter-relação com o movimento negro para a ampliação da rede de sujeitos sociais envolvidos nas dimensões de cuidados com a saúde está calcada na condição que este possui de trazer em si “... os elementos de interação dialógica que complementam, no campo da saúde, o potencial da construção de consensos acerca dos fenômenos saúde/doença com os legítimos sujeitos dessas vivências” [47].

1.2.3.2 A diversidade do movimento social negro
A permanência do racismo atualizado por necessidades sociais que se renovam, trouxe para os negros a demanda de desenvolverem diversos processos de enfrentamento e auto-preservação [21]. Esta atuação vai se reconfigurando a partir das demandas históricas que se sucedem e são decisivas para entendermos sua conformação na atualidade.

Num processo consciente, disperso e complexo, dada sua heterogeneidade [66], estes agentes sociais interferem diretamente na dinâmica das relações raciais. Tendo sua gênese na necessidade de enfraquecer o sistema escravista através das diversas expressões de lutas, revoltas e insurreições quilombistas e permanecendo atuante através de formas de organizações políticas, culturais e religiosas que conflitam, enfrentam ou mesmo defendem-se da opressão racializada mantida e atualizada cotidianamente [21-67].

Para enfrentar as condições que está submetido, o negro procura:

43

“...organizar-se e elaborar uma sub ideologia capaz de manter a consciência e a coesão grupal em vários níveis. Numa sociedade em que os elementos do poder se julgam brancos e defendem um processo de branqueamento progressivo e ilusório, o negro somente poderá sobreviver social e culturalmente sem se marginalizar totalmente, agrupando-se como fez durante o tempo em que existiu a escravidão, para defender sua condição humana.” [21]

Partindo do conceito de Grupos Específicos e Diferenciados, Moura [21] propõe uma análise que compreenda o movimento negro em sua complexidade organizacional nos mais variados estágios de conscientização:

Essa dicotomização do conceito (em si e para si) vem possibilitar a análise da classe desde a sua formação e emergência, quando ela é apenas objeto na estrutura social, até a fase mais plena da sua afirmação na sociedade, quando adquire consciência de que existe e somente em confronto e fricção com outros que se comprimem no espaço social pode reconhecer-se como específica, isto é, com objetivos próprios e independentes [21]

Os sujeitos negros são diferenciados pela sociedade racista mediante as determinadas marcas que carregam [68]. Estas marcas não caracterizam uma diferenciação biológica, mas sim impressões socialmente determinadas que atuam como barreira real de inferiorização, negação e exclusão [21].

Somente quando este grupo, diferenciado pela sociedade de classes, adquire consciência dessa diferenciação pode perceber os motivos das barragens que vivencia, viabilizando, portanto, a elaboração de ações teleológicas de preservação da identidade negada ou mesmo o enfrentamento às condições que lhe são hostis, passando de objeto das estruturas sociais a agentes da dinâmica social.

(...) O grupo diferenciado tem suas diferenças aniquiladas pelos valores da sociedade de classe, enquanto o mesmo grupo passa a ser especifico na medida em que ele próprio sente essa diferença e, a partir daí, procura criar mecanismos de defesa capazes de conservá-lo específico, ou mecanismo de integração com a sociedade [21].

44

Para o autor um grupo será mais específico quanto mais desenvolvido forem os seus mecanismos de defesa, confronto e/ou integração com a sociedade. Há neste sentido entre as diversas organizações negras, níveis e graus variados de consciência de sua situação.

É notável a grande variação no formato de organizações negras, constituídas através da história e das condições vivenciadas e mesmo de acordo com as regiões do país e o tipo de trabalho desenvolvido [21-35].

Qualquer ação ou estudo sobre o movimento social negro deve levar este fator em consideração, desenvolvendo análises abrangentes o suficiente para captar formas de organização muitas vezes diversas do que se entende tradicionalmente por luta política ou movimento social. Esta preocupação é válida também nos casos em que este processo de especificidade sofre ações desagregadoras – como é o caso do Carnaval [21-69] e outras

expressões culturais como a Capoeira, o Tambor de Mina, Hip Hop etc.

1.2.3.3 O protesto negro e a cultura
A constituição do movimento negro, em suas mais diversas manifestações, ocorre intimamente entrelaçada às dimensões culturais produzidas nos contextos em que os negros estavam inseridos, ao longo da história e das relações sociais em mutação que o Brasil vivenciou.

As heranças culturais dos diversos povos africanos seqüestrados (talvez a única herança possível no contexto da escravidão transatlântica) vão relacionar-se aqui com os novos processos de vida, particularmente no que diz

45

respeito à condição de libertos, configurando parte significativa do protesto negro.

No processo de produção da própria vida o ser humano edifica as condições pelo qual se reproduz. A percepção do mundo está diretamente relacionada às condições reais de existência:

A produção de idéias, de representações, da consciência, está, de inicio, diretamente entrelaçada com a atividade material e com o intercâmbio material dos homens, como a linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens, aparecem aqui como emanação direta do seu comportamento material. O mesmo ocorre com a produção espiritual, tal como aparece na linguagem da política, das leis, da moral, da religião, da metafísica etc. de um povo. Os homens são os produtores de suas representações, de suas idéias etc., mas os homens reais e ativos, tal como se acham condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e pelo intercâmbio que a ele corresponde, até chegar as suas formações sociais mais amplas. A consciência jamais pode ser outra coisa do que o ser consciente, e o ser dos homens é o seu processo de vida real. [12] .

As expressões culturais compõem o todo da vida numa síntese de múltiplas determinações dialéticas que explicam e conformam toda uma forma específica de pensar e fazer o mundo, material e espiritualmente condicionadas às possibilidades de produção e reprodução da vida. A religião, valores, indumentárias, artes, jeito de fazer e interpretar as necessidades e possibilidades colocadas pela realidade histórica e socialmente transformada são parte da identidade dinâmica de um determinado povo, sob determinadas condições de existência.

Durante o período escravista, o africano escravizado era estrategicamente inibido em manifestar suas expressões culturais ideológica, religião, língua e hábitos tradicionais uma vez que estes obstaculizavam o sistema de dominação e exploração. 46

O colonizado era intensivamente pressionado a abandonar seus sistemas de referência de explicação do mundo, num processo que de um lado respondia a necessidade escravista (onde o trabalhador era também meio de produção) de coisificação (reificação) do africano, apesar da persistência do negro em preservar sua cosmogonia a ponto de fazê-la penetrar no outro sistema de referência cultural. Partindo desta constatação, Moura [70] afirma que “as culturas africanas transformam-se no Brasil em uma cultura de resistência” na medida em que a sua conservação e re-significação conformam, num conjunto de ações de proteção e enfrentamento a sociedade racista.

Os negros ao buscar preservar-se da ordem escravista e seus mecanismos de contensão social elaboram estratégias defensivas. A criação de uma linguagem comum das senzalas e a preservação de suas religiões, ao possibilitar a comunicação e ao mesmo tempo a conservação da identidade étnica pela via do mundo religioso, seriam relevantes no processo de resistência à escravidão [70].

As expressões culturais de matriz africana constituem-se como elemento intrínseco à trajetória de luta dos negros no Brasil. A preservação dessas expressões culturais, bem como a sua importância nos dias atuais deve ser compreendida na dinâmica desse enfrentamento, pois desempenham desde a escravidão aos dias atuais o papel de resistência frente aos aparelhos ideológicos de dominação, bem como é elemento de proteção social [70].

47

Do Jazz ao Samba, das Congadas às Capoeiras, do Candomblé ao Hip Hop é possível notar a forte presença de traços africanos convertidos em expressão de resistência e luta contra as mazelas econômicas, culturais e ideológicas que permeiam a sociedade racista, bem como a sua importância como elemento de aglutinação, preservação e re-significação da identidade étnica [7-21-35-61-7071].

Biko [65] ao definir a consciência negra como estratégia de emancipação, faz uma relação semelhante que possibilita pensar a cultura negra como expressão política de resistência e enfrentamento e ao mesmo tempo elevação moral frente à reificação colonial.

Estas expressões culturais não estão congeladas, mas sim, vivas nas manifestações grupais e costumes que se reproduziram ao longo desses séculos, traduzindo a vida em seus vários momentos. Contexto sem o qual a luta política revolucionária não seria possível [61].

E Biko [61] citando o revolucionário Sékou Touré nos alerta, poeticamente, contrariando as aspirações culturalistas que:

“ para participar da revolução africana não basta escrever uma canção revolucionária, é preciso forjar a revolução junto com o povo. E se nós a forjarmos junto com o povo, as canções surgirão por si mesmas e delas mesmas” [61].

1.2.3.4 O movimento negro na África e na diáspora
Importantes autores relatam a manifestação do protesto negro no âmbito afro-diaspórico. O contexto da exploração colonial e o conseqüente tráfico 48

internacional de seres humanos foram confrontados nas diferentes regiões em que se instalaram. Estes confrontos, por vezes, traziam semelhança na forma de atuação ou mesmo articulação política e influencia estratégica entre os sujeitos nos diferentes países envolvidos [17-67-72-73].

As ações de auto-preservação e enfrentamento ao racismo desenvolvido pelos africanos (na África ou nas diásporas) são tão antigos quanto o próprio racismo, conformando um histórico de lutas muito anterior às modernas definições de movimento social. Um exemplo apontado por Moore [2] é a “Revolução de Zanj” (869-883 d.c) ocorrida na península arábica. O escravismo árabe, o primeiro a se utilizar de uma forma de escravidão exclusivamente negra, viu surgir durante o Califado Abássida (750-1258) a maior rebelião de negros escravos deste período.

A literatura se torna farta em exemplos de rebeliões e lutas anti-racistas quando analisamos as diversas reações empreendidas no continente africano e nas Américas durante o escravismo clássico.

Os Quilombos, surgidos no Brasil durante o período escravista também podem ser observados em diferentes países americanos com nomes distintos. Em Cuba e Colômbia são conhecidos como Palenques, no Mexico e Jamaica, Cimarrones, e na Venezuela Cumbes [74].

Outro exemplo é a revolução haitiana, notada em todo o continente por seus contemporâneos a ponto de ser comemorada pelos povos escravizados e temida pelos senhores escravistas brasileiros [21].

49

O próprio continente africano foi palco de revoltas anti-escravagistas das mais variadas que lembram muito algumas táticas de guerrilha utilizadas em nosso continente. O Quilombo conhecido por nós era uma confraria guerreira nômade do povo Ndongo (região da atual Angola) [74].

A permanência atualizada do racismo pós-escravista durante o século XX provoca mudanças nas diversas formas de luta. Nos Estados Unidos da América, devido ao contexto sócio político que incluía uma organização legal de diferença e hierarquia de direitos civis e políticos à negros e brancos, as formas de luta variavam entre protestos políticos à organizações de guerrilhas urbanas e rurais. Em alguns países da América Latina, nas primeiras décadas deste século surgiram organizações políticas organizadas com imprensa própria e grande mobilização social empreendida por partidos negros como foi o caso da Frente Negra Brasileira (FNB), o Partido Autóctone Negro no Uruguai e o Partido de los Independientes de Color em Cuba.

No continente africano, o colonialismo foi confrontado também por diversas insurreições, guerras e guerrilhas. Estas movimentações ganham força após a ocupação imperialista no continente impulsionada pelo tratado de Berlim (18945) quando explodem em todo o continente uma infinidade de reações através de guerras, guerrilhas e enfrentamentos políticos [72-74].

Estes movimentos se desdobraram a partir da década de 50, sob a orientação do Pan-africanismo2 em movimentos revolucionários de libertação nacional.

2

O pan africanismo é articulado como doutrina política a partir do início do século XX nos Estados Unidos e em seguida para os Movimentos de Libertação do continente africano. Para

50

As guerras de libertação do continente africano e seus teóricos influenciaram diversas lutas negras pelo mundo, principalmente nos EUA. Ambos os processos constituíram-se em fontes de inspiração teórica e política na reorganização do movimento negro Brasileiro da década de 70.

Muito mais amplo e complexo do que acima citado este processo de luta dos negros no continente foi o principal responsável por sua sobrevivência conformando a história do que convencionamos chamar de movimento negro.

1.2.3.5 Breve histórico do movimento negro no Brasil
Como já mencionado acima, as agendas apresentadas pelas diversas organizações e agremiações negras vão variar quanto à forma e conteúdo, mesmo tendo em comum o fato de serem expressões da luta do povo negro no Brasil. Ao estudarmos expressões culturais manifestas nos contextos religiosos, artísticos e políticos de matriz africana, há de se levar em conta o caráter complexo que estas organizações apresentam mesmo nos casos em que as organizações e ações não trazem explicitamente em suas agendas a temática de combate ao racismo.

Pinho [66] reproduz a visão do ordenamento dos movimentos negros em dois momentos:

A gênese dos modernos movimentos sociais negros pode ser descrita como pertencendo a duas frentes históricas. De um lado, podemos descrever uma tradição de organização social do meio negro que remonta ao período colonial como uma trajetória ocasionalmente vista como mais ou menos independente e com identidade própria. De Nascimento, a manifestação dos seus princípios antecedem a utilização do termo, estando presente, portanto, na solidariedade e consciência da situação comum por parte de africanos e seus descendentes no continente africano e na diáspora.. O pan africanismo, como corrente política-ideológica foi principal conceito de aglutinação de diferentes forças políticas e povos africanos durante as guerras de libertação.

51

outro lado, podemos ver que o movimento negro moderno, ou seja, aquele surgido no contexto do declínio do regime militar a partir dos anos 70, associa-se a um movimento mais amplo de reorganização dos movimentos sociais e de politização da sociedade e do cotidiano [66]

Resistência no período escravista

O período escravista é amplamente estudado por Moura [21-70-75] que entende a divisão do escravismo em dois grandes períodos - o escravismo pleno (1550-1850) e posteriormente o escravismo tardio (1840-1888) é determinante para compreender a dinâmica dos movimentos de resistência.

O escravismo pleno, marcado pelo tráfico intenso de escravos para suprir a estrutura de produção agrícola baseada na monocultura [18] fez surgir

manifestações radicais de contestação à ordem social vigente, sob a denominação de Quilombagem [21]. Esta constituiu-se de variados tipos de manifestação de rebeldia individuais e coletivas como guerrilhas, insurreições, bandoleirismo de escravos fugidos, sendo que a constituição dos Quilombos, como comunidades instaladas em territórios, tornou-se seu principal foco de resistência [21-70].

Importante ressaltar que para o autor o desenvolvimento de um sistema comum de comunicação e a preservação e reinvenção das religiões de matriz africana no contexto da escravidão refletem e são ao mesmo tempo reflexo de um processo articulado e multifacetado de reconstrução objetivo/subjetiva, solidariedade grupal e enfrentamento ao racismo.

O período posterior classificado por Moura como escravismo tardio foi marcado pela proibição do tráfico internacional de escravos e a ascensão da

52

indústria

cafeeira

provocou

mudanças

significativas

nas

formas

de

manifestação antiescravistas.

Neste momento observa-se uma maior movimentação em torno de lutas abolicionistas e de integração ou proteção social ao negro livre.

Os Quilombos, Irmandades Religiosas, Congadas, Confrarias, Cabanagem, Revolta dos Alfaiates, entre outras foram (e ainda são) parte ativa deste processo político, sendo que estas diversas lutas contribuíram para o desgaste do sistema escravista, sua flexibilização ao longo dos séculos representada pelas alforrias adquiridas e concedidas e a sua conseqüente substituição pelo trabalho livre [21-70-67].

Entre a Abolição e o surgimento do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial - MNUCDR

Domingues [76] ao sistematizar as manifestações do movimento negro pósabolicionista chama atenção para uma sub-exploração da presença ativa do movimento negro organizado durante este período. Para o autor “o movimento negro contemporâneo já acumula experiência de gerações, sendo herdeiro de uma tradição de luta que atravessa praticamente todo o período republicano”.

Visando uma sistematização mais detalhada do período distingue-se três fases históricas:

- o movimento negro da República Velha ao Estado Novo (1889-1937);

- o movimento negro da segunda republica à ditadura militar (1945-1964);

53

- o terceiro momento data da abertura política.(a partir de 1970)

Elisa Larkim Nascimento [77], numa sistematização mais detalhada evidencia a importância de se compreender a diversidade programática organizacional que o movimento negro se utilizou ao longo do séc. XX e início do XXI.

Na primeira fase apontada por Domingues já se observava uma grande diversidade organizacional:

...clubes, grêmios literários, centros cívicos, associações beneficentes, grupos “dramáticos”, jornais e entidades políticas, as quais desenvolviam atividades de caráter social, educacional, cultural e desportiva, por meio do jornalismo, teatro, música, dança e lazer ou mesmo empreendendo ações de assistência e beneficência [76]. Estas associações que chegaram a aglutinar um número considerável de membros culminaram no surgimento de uma imprensa alternativa voltada à população negra. A chamada imprensa negra com jornais de grande circulação e difusão de idéias de valorização do negro [76-77] possibilitou posteriormente a articulação da Frente Negra Brasileira (FNB), uma organização política de caráter nacional [70-77].

Com mais de vinte mil filiados a FNB transformou-se em partido político para concorrer às eleições e chegou a formar uma milícia negra paramilitar [76].

Com expressiva participação das mulheres negras a FNB espalhou-se por todo o país desenvolvendo atividades políticas, culturais, assistenciais e esportivas. Enfrentou algumas dissidências como a Legião Negra, que uniu-se 54

aos rebelados da chamada Revolução Constitucionalista (1932) e a Frente Negra Socialista (1933), e o Clube Negro de Cultura Social liderado pelo destacado militante José Correria Leite, ambos parte de uma vertente socialista de movimento negro [77]. Mas foi dissolvida pelo governo Getúlio Vargas no golpe militar de 1937 [70].

A segunda fase para Domingues, iniciada após a queda de Vargas (19451964) é marcada pela retomada do protesto negro. Baseando-se em Guimarães (2002:88) o autor afirma que apesar de não ter o mesmo poder de mobilização do momento anterior, o movimento negro se rearticula porque a discriminação se mantém tornando-se mais problemática com a consolidação da economia urbano-industrial14 convivendo com a marginalização da população negra. Esta visão é corroborada por Hanchard [69].

É neste momento que constituída de uma extensa estrutura organizativa surge no Rio Grande do Sul, em 1943, a União dos Homens de Cor:

Também intitulada Uagacê ou simplesmente UHC, foi fundada por João Cabral Alves, em Porto Alegre, em janeiro de 1943. Já no primeiro artigo do estatuto, a entidade declarava que sua finalidade central era “elevar o nível econômico, e intelectual das pessoas de cor em todo o território nacional, para torná-las aptas a ingressarem na vida social e administrativa do país, em todos os setores de suas atividades” [76]. Com o objetivo de atuar contra o preconceito de cor e pelo “levantamento moral e cultural do negro”, por via, principalmente, da assistência social [78] a partir da segunda metade da década de 1940 a organização já atingia mais de 10 estados da federação chegando, inclusive, a eleger por duas vezes um deputado federal no Rio de Janeiro. [78] 55

Estes grupos não eram os únicos existentes nesta época, pois o período vivenciou o surgimento de diversas organizações em todo o território nacional:

... articulou-se o Conselho Nacional das Mulheres Negras, em 1950. Em Minas Gerais, foi criado o Grêmio Literário Cruz e Souza, em 1943; e a Associação José do Patrocínio, em 1951.Em São Paulo, surgiram a Associação do Negro Brasileiro, em 1945, a Frente Negra Trabalhista e a Associação Cultural do Negro, em 1954, com inserção no meio negro mais tradicional. No Rio de Janeiro, em 1944, ainda veio a lume o Comitê Democrático Afro-Brasileiro – que defendeu a convocação da Assembléia Constituinte, a Anistia e o fim do preconceito racial –, entre dezenas de outros grupos dispersos pelo Brasil [76].

Ainda neste período, destaca-se o surgimento de diversas organizações como o Centro de Cultura Luíz Gama e a Cruzada Social e Cultural do Preto Brasileiro, em São Paulo; a Turma Auriverde em Minas Gerais e o Centro Literário de Estudos Afro-brasileiros em Porto Alegre. No Rio de Janeiro destacavam-se o Centro de Cultura Afro-Brasileira e o Teatro Experimental do Negro (TEN) dirigido por Abdias do Nascimento [77].

Criado em 1944, inicialmente com o objetivo de agregar atores negros em seu bojo, o TEN acabou por se transformar num importante movimento político cultural de orientação internacionalista.

Toda esta frutífera movimentação, produto de uma política de aliança de vários setores sociais será desarticulada com o golpe de estado protagonizado pelos militares em1964 [18].

Durante o golpe, algumas organizações permanecem atuando de maneira restrita. O TEN, por exemplo, seguiu desenvolvendo ações culturais de cunho político no país, ao mesmo tempo em que mantinha contatos de solidariedade com os movimentos de libertação em África [77]. 56

A retomada será feita nos anos 70 através do surgimento do Movimento Negro Contra a Discriminação Racial (MNCDR) – atual Movimento Negro Unificado (MNU). Para Domingues [76] este evento marca o início de um terceiro período.

Antecedendo a criação do MNU, o país vê surgir um grande número de organizações negras, ao relata Nascimento:

O Grupo Palmares, de Porto Alegre; o Instituto de Pesquisa da Cultura Negra (IPCN), o Gremio Recreativo de Arte Negra e a Escola de Samba Quilombo, do Rio de Janeiro; o Centro de Cultura e Arte Negra (Cecan), o Grupo Afro-Latino de São Paulo; o Grupo Teatro Evolução, de Campinas; o Grupo Rebu/Congada, de São Carlos; o Grupo Zumbi, de Santos; o Grupo Teatro e Cultura Palmares e o Grupo dos Malês, da Bahia, onde surgiram também os blocos carnavalescos Ilê-Ayê, Olodum e Orunmilá. Em 1975 e 1976, foram promovidos três Encontros Interstaduais de Entidades negras [77]

Esta intensa movimentação foi acrescida pelo calor dos acontecimentos internacionais vinculada e influenciada pelas lutas negras na África e na Diáspora (principalmente nos E.U.A) .

Os confrontos raciais nos Estados Unidos, assim como os radicais movimentos de libertação nacional em diversos países do continente africano influenciaram decisivamente essa nova configuração do movimento negro brasileiro [61-69- 32] e na percepção do negro brasileiro sobre si.

Toda esta movimentação possibilitou em 1978 a criação do MNCDR. O movimento, embora não tenha conseguido manter a estrutura organizativa que almejava, instala-se por todo o país.

Dentre as várias reivindicações expressas na carta de fundação do MNU, a questão da saúde já estava presente: 57

...CONVENCIDOS da existência de discriminação racial: (...) RESOLVEMOS juntar nossas forças por: defesa do povo negro em todos os aspectos políticos, econômicos, sociais e culturais através da conquista de maiores oportunidades de emprego; melhor assistência à saúde (grifo nosso), à educação e à habitação; reavaliação do papel do negro na história do Brasil; valorização da cultura negra e combate sistemático a sua comercialização, folclorização e distorção [...] (MOVIMENTO NEGRO UNIFICADO. Carta de princípios.)[32]

O movimento negro foi se ramificando ao diversificar suas formas de atuação, interagindo com outros movimentos e forças políticas, de forma que na década de 80 a discussão racial tomou novas proporções.

Um novo desafio se colocou naquele momento face à dualidade experimentada pela participação nas instâncias do Estado: conciliar a necessidade de posturas claras e definidas quanto aos questionamentos históricos e reivindicações dos negros brasileiros e as posturas esperadas para participação em instâncias como o Conselho de Participação e

Desenvolvimento da Comunidade Negra do governo do Estado de São Paulo (1984), o Conselho Municipal da Comunidade Negra da cidade de São Paulo (1988) e mesmo a participação no Congresso Nacional com Abdias do Nascimento (1983-1987) e posteriormente (1987-1991) com Benedita da Silva (PT-RJ), Paulo Paim (PT-RS) e Carlos Alberto de Oliveira/Caó (PDT-RJ); além da participação destes e outros na construção da Assembléia Nacional Constituinte de 1988 [69-77].

A década de 90 vê ampliar a diversidade entre as organizações. A criação em 1984 do Congresso Nacional Afro-Brasileiro (CNAB); a criação da Revista Eparrei do Centro de Cultura da Mulher Negra de Santos, o boletim Ato-ire – religiões Afro-brasileiras e Saúde, do Maranhão, o Jornal Irohin, com sede em Brasília, a criação dos Pré-vestibulares para Negros e Carentes (PVNC), no 58

Rio de Janeiro e o Educação e Cidadania de Afrodescendentes (EDUCAFRO), o Centro de Cultura Negra (CECUNE) no Rio Grande do Sul, a Afrobras – organização responsável pela consolidação no início do século XXI da Universidade Zumbí dos Palmares (UniPalmares), assim como o Centro de Estudos das Relações do Trabalho e Desigualdades (Ceert), o Instituto Padre Batista e o Núcleo de Estudos Negros (NEM) de Florianópolis são apenas alguns exemplos da imensa diversidade organizacional composta pelas organizações surgidas na década de 90 no país [77].

Na presente década, destaca-se a atuação do movimento negro na III. Conferência das Nações Unidas contra o Racismo, a Discriminação Racial, a Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância (Durban, África do Sul- 2001). Este processo pressionou o Estado brasileiro a adotar algumas políticas públicas voltadas à população negra, entre elas a criação da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR).

Destacam-se também as atuais movimentações no ano de 2007, em torno do Encontro Nacional de Juventude Negra (ENJUNE) com a conseqüente articulação do Fórum Nacional de Juventude Negra (FONAJUNE) e a construção do Congresso Nacional de Negras e Negros do Brasil (CONNEB), que diante à diversidade política das organizações do movimento negro, iniciaram articulações unitárias de caráter nacional.

Relataremos mais adiante algumas tendências desta ramificação com o advento do feminismo negro e do surgimento expressivo de diversas organizações de mulheres negras na década de 1980 e suas contribuições para o campo da saúde da mulher negra (PIERUCCI, 1999), o surgimento no 59

final da década de 80 do movimento político cultural Hip Hop e a presença marcante das religiões de matriz africanas por todo este período.

O feminismo negro

O feminismo negro pode ser identificado no protagonismo das mulheres em todo o processo de resistência e luta contra a escravidão, assim como no período posterior a abolição, através de diversos mecanismos de autopreservacão e manutenção de suas expressões cosmogônicas, bem como no enfrentamento direto ao racismo.

A existência de organizações de mulheres negras e/ou a participação das mulheres na luta anti-racistas, embora pouco estudadas, remontam o histórico do movimento negro. Através das irmandades religiosas, as mulheres negras organizavam-se, oferecendo resistência aberta à escravidão à medida que levantavam fundos para a compra de alforrias ou acobertavam escravos foragidos. Ao mesmo tempo, elas tinham presença marcante em todas as lutas e insurreições negras contra a escravidão – nomes como Dandara, Aqualtume, Anastácia, Luiza Mahin, e tantas outras, remontam parte dessa história que também se explica pela própria dinâmica da cultura africana.

Sem condições de historiar, neste trabalho, todas as fases de atuação das mulheres negras no movimento social15, faremos apenas um pequeno recorte para situar a discussão, mas ressaltamos que sua presença foi decisiva em todos os momentos e fases do movimento [70], muitas vezes resistindo contra o sexismo dos militantes [79] .

60

Na década de 70, o movimento feminista se engaja por completo na luta pela redemocratização do país, com a participação decisiva de mulheres negras. Porém, a perspectiva universalista adotada pelo conjunto do movimento feminista não refletia as demandas específicas das mulheres negras [79]. Diversas incompatibilidades internas relacionadas a esses problemas

ocasionaram, a partir de 1985, a criação dos primeiros coletivos de mulheres negras e dos encontros nacionais de mulheres negras, pois, mesmo compartilhando da visão comum sobre o patriarcado, as mulheres negras afirmavam suas especificidades no bojo do feminismo [79].

A leitura de Roland [80] introduziu esta perspectiva na nossa pesquisa ao responder a um questionamento específico: Como a temática da saúde foi incorporada pelo movimento?

O campo da saúde reprodutiva, trazido para a cena sob o olhar da mulher negra assim como a participação incisiva em instâncias nacionais e internacionais como as conferencia de Beijing (1995) e Durban (2001) sobre as demandas da população negra, legitimaram a especificidade da „saúde da população negra‟ como prioridade [80-81].

Ao mesmo tempo, dada a sua dupla militância, as mulheres negras exerceram um papel importante no conjunto do movimento. O feminismo negro colocará na agenda o olhar sobre a temática da saúde, amplificando as tarefas de preservação ou obtenção de direitos da mulher negra.

Religiosidade de Matriz Africana e Saúde 61

Para Moura, os fatos culturais de resistência mais relevantes no período escravista foram a articulação das varias línguas africanas na elaboração de um dialeto das senzalas, assim como a conservação e re-configuração da identidade étnica africana via universo religioso. Assim, a partir da linguagem e das religiões de matriz africana, foi possível ao escravo articular a resistência e o enfrentamento aos aparelhos de repressão [70].

No que diz respeito à saúde da população negra, as religiões de matriz africana têm uma atuação importante, tanto no que diz respeito a promoção da saúde, por serem espaços de afirmação do negro, como na manutenção e adaptação de conhecimentos medicinais africanos e mesmo indígenas. Alicerçada a partir de uma perspectiva holística, a arte do curar é vinculada a uma harmonia física e espiritual [82].

Ocorre que, na fricção social com os aparelhos ideológicos de dominação escravista, as religiões de matriz africana, por oferecerem risco a essa ordem social, foram (e continuam sendo) sistematicamente repelidas e

estigmatizadas.

Para Oliveira, as ações de atenção à saúde da população negra devem levar em consideração o potencial positivo das religiões de matriz africanas, considerando-as como pólos de difusão de conhecimento sobre a saúde e sobre as práticas preventivas, pois,

Tanto as irmandades quanto os curandeiros(as), rezadores(as), raízeiros(as) e as comadres parteiras exercem a arte do cuidar, ou de partejar, ou de curar, ou todas, e na realidade são secular e naturalmente agentes de saúde do povo negro [82].

Dos Bailes Blacks ao Hip Hop. 62

Observamos relevante literatura discutindo a presença do Hip Hop17 no Brasil e sua importância para a juventude negra e de baixa renda das grandes cidades. Relacionam-se temas como o bem estar de seus agentes, a preservação e afirmação da identidade étnico-racial, práticas de educação nãoformais, representações sobre o tráfico e consumo de drogas, mercado de trabalho, padrões de masculinidade, transformação social, entre outros [71-8384-85]

Destes estudos, alguns analisam grupos de Hip Hop do ABC Paulista, em especial a Posse Hausa. Esta organização se destacou por ser uma das mais antigas e, além de preservar uma atuação explicitamente ligada ao movimento negro [72] tem presença substantiva no cenário atual da região.

Outras agremiações de hip hop, embora não apareçam nos estudos citados, desenvolvem importante atuação na região: Zulu Nation Brasil, Associação Cultural Negro Atividades, Grupo Kilombagem e os diversos grupos que compõem a Casa do Hip Hop em Diadema, entre outros. Estas organizações representam a parcela estruturada de um processo muito maior e ainda não mapeado de grupos de rap, break, graffiti, djs, ativistas e organizadores comunitários no Grande ABC.

Encontramos em Felix [71] e Rosa [84] uma historicização que ajuda a compreender o surgimento do Hip Hop vinculado a um processo anterior de enfrentamento aos padrões culturais hegemônicos na sociedade brasileira.

63

O Hip Hop chega ao Brasil através do Break e, logo em seguida, é assimilado pela juventude que vive em áreas de expansão das grandes cidades, popularizando, ao mesmo tempo, os outros elementos:

Entre os anos de 1982 e 1984 o Rap se populariza mundialmente. Os filmes Wild Style e Beat Street popularizam os elementos do Hip Hop o break dance, o grafiti, a expressão lingüística e a forma de se vestir dos b.boys – break-boys, temo que define o dançarino de break dance. Com tal filme (Wild Style) o Hip Hop chega ao Brasil onde o break dance vai se transformar em um fenômeno urbano presente em diversas capitais a partir do ano de 1984 [84] .

Essas expressões artísticas não assumem, inicialmente, uma postura política explicitamente contestadora, mas, posteriormente, vão incorporando um forte teor político de cunho étnico-racial, principalmente através do Rap com o lançamento de musicas que denunciavam a violência de grupos de extermínio contra jovens negros.

Esse momento mais engajado é marcado pela influência de algumas organizações políticas do movimento negro nos espaços onde o Hip Hop era praticado [71].

Nesta fase, muitos desses jovens passam a se organizar através de agremiações que desempenhariam importante função na historia do Hip Hop: as posses18. Estes coletivos têm presença marcante nos dias atuais, desenvolvendo trabalhos comunitários, políticos e por vezes assistenciais, em um momento em que as entidades mais conhecidas do movimento negro se encontram voltadas à conquista de espaços políticos no processo de institucionalização democrática.

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O Hip Hop, apesar das suas múltiplas ramificações artísticas, ideológicas e políticas, permanece, nos dias atuais, como uma das expressões culturais negras de maior importância e influência junto à juventude negra e de baixa renda.

A polêmica em torno da vinculação do Hip Hop ao conjunto do movimento negro é um ponto em aberto, no que diz respeito à presença de jovens brancos de baixa renda e o seu impacto na definição de um eixo central de atuação e a ausência de programa político mais geral de enfrentamento ao racismo [76].

Apesar desta polêmica, o Hip Hop está inserido no contexto maior do protesto negro. Desta maneira, concordamos com Rosa que:

O Rap brasileiro teve em seu início uma proximidade com o movimento negro propriamente dito, ou com o processo de revalorização da cultura e estética negra, ocorrido nos anos 1970 no Brasil. Thaíde e DJ Hum, Racionais MC’s, DMN, Rappin’ Hood e RZO de São Paulo; MV Bill e Nega Gizza do Rio de Janeiro; Câmbio Negro e Vera Verônika de Brasília; e Clã Nordestino do Maranhão representam alguns dos grupos que incorporam o discurso da militância anti-racista. O Rap que incorpora a discurso do ativismo negro é o que configura uma unidade mais nitidamente delineada no Brasil, mas, mesmo assim, possui um grande trânsito com os demais estilos. De uma forma geral, o Rap no país é visto como uma manifestação da cultura negra, e mesmo os grupos que não incorporam o discurso da militância negra encontram-se, em algum momento, com a temática do preconceito racial e/ou da “sonoridade negra” [84].

Para o autor, o Hip Hop dá continuidade à postura negra militante de ruptura com o discurso da democracia racial19, iniciada pelo movimento negro contemporâneo. Os mitos da miscigenação como solução aos problemas raciais, assim como a idéia de um brasileiro cordial, são confrontados na agressividade com que se manifesta:

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Com a recusa em identificar estes elementos como pertinentes para se pensar a realidade brasileira, o Rap propõe uma interpretação do Brasil a partir da explicitação das suas bases violentas, e focaliza os processos de discriminação racial e de exploração econômica [84].

Para muitos grupos de rap brasileiros, como é o caso dos grupos estudados pelo autor, a realidade nacional é encarada como imersa em uma guerra civil que, para além do conflito armado expresso na grande quantidade de assassinatos a jovens negros [71] muitas vezes é marcado pela

impossibilidade de diálogo entre os segmentos sociais em conflito [84].

Esta constatação não deve ser generalizada pois, atualmente, inúmeras vertentes político/ideológicas influenciam e são influenciadas pelos vários agentes do Hip Hop imersos em contextos diferenciados perpassados por diversas clivagens, compondo um imenso gradiente ideológico-políticoorganizacional que varia, desde grupos artísticos com intuitos estritamente comerciais, até organizações político-culturais de cunho militante (estas últimas, também, compostas pelas mais diversas correntes ideológicas) .

Vladmir Rosa, em sua dissertação de mestrado: Homem preto do gueto: um estudo sobre a masculinidade no Rap brasileiro, apresentada em 2006, faz uma análise inspiradora da genealogia do Hip Hop e aprofunda a discussão sobre o Rap e sua relação com padrões hegemônicos de masculinidade.

Ao diferenciar o Hip Hop brasileiro do modelo norte americano, o autor afirma que o crime e a violência urbana expressa nas letras de rap do nosso país estão associados a uma perspectiva de autodefesa, tanto contra grupos e gangues rivais, quanto contra a atuação opressiva do Estado (com seus aparatos repressivos) e das classes dominantes

66

Por isso, muitas vezes esse discurso pode assumir contornos de aclamação a um confronto armado para forçar uma mudança na sociedade. Nesses termos, a condição de gênero dos homens se expressa na disposição para esse conflito, a virilidade torna-se o valor desse conflito [84].

Assim como em Fanon [62] e Cleaver [54] o sistema escravista, bem como a renitência do racismo em nossa sociedade, através de seus violentos mecanismos de reprodução e contenção social, criam no homem negro um sentimento de emasculação que só seria superado no enfrentamento também violento à sociedade de classes. Este enfrentamento é violento, não apenas porque se deseja a violência como compensação vingativa, mas porque não restaria outra maneira de emancipação, já que as elites lançariam mão de seus meios para evitar qualquer mudança que as ameace [62].

O que queremos destacar, aqui, é que esta auto-afirmação se manifesta pela manifestação da masculinidade associada à virilidade como sua principal expressão. Baseado nas reflexões de Gilroy [86] Rosa [84] traz à baila o esquema da virilidade presente no contexto do protesto negro como um todo nas diversas diásporas. Para o autor, esta reflexão nos ajuda a entender o contexto em que a violência é expressa no rap:

Elas nos permitem compreender que tomar a virilidade como fator explicativo da masculinidade negra, implica considerar o efeito causado pelo sistema de supremacia branca patriarcal capitalista. A virilidade do homem negro não pode ser tida, nesse caso, como um valor masculino em si, mas sim como um efeito reativo a uma condição de subalternização racial inerente a sociedades ex-escravistas, onde o modelo hegemônico que deve ser alcançado é o do patriarcado, o poder viril exercido plenamente pelo homem branco. O rap não consegue fugir a essa proposta e, reativo a esse desafio, vê no exercício da virilidade e sua ostentação, o caminho para desafiar o homem branco, seu interlocutor e oponente [84].

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Para o autor, apesar de ser importante expressão de luta negra, o Rap brasileiro assume uma postura “reacionária”. Particularmente no que tange às relações de gênero, a afirmação da masculinidade, que se vê ameaçada pela sociedade racista, conserva expectativas patriarcais sobre a mulher. Dessa forma, sua figura estará oculta nas composições, ou então classificada segundo dois modelos possíveis: a mulher “que se deve respeitar”, geralmente vinculada à esfera doméstica, ou aquela que “não é digna de respeito”, geralmente vinculada à esfera pública e moral. Em suas palavras:

O Rap narra em suas letras uma percepção de que corresponder à expectativa racista é a pior estratégia de enfrentamento ao racismo, ao mesmo tempo em que obedece a expectativa sexista como estratégia de resistência ao sexismo. Desse complexo movimento emerge uma das ambigüidades do discurso do Rap de uma narrativa social de vanguarda anti-racista, ao mesmo tempo apresenta um discurso reacionário do ponto de vista anti-sexista [84].

1.2.4 O movimento negro e a saúde da população negra

O movimento social negro constituiu-se, ao longo de sua história, como a força social representativa da trajetória de homens e mulheres negros, tornando-se um elemento fundamental na busca por melhores condições de vida da população negra no Brasil, assumindo a interlocução da variada gama de demandas humano-societárias deste grupo populacional.

Este aspecto é de grande relevância para compreendermos a dinâmica das relações raciais na sociedade contemporânea e os seus reflexos na saúde da população negra, pois interessa-nos, aqui, refletir sobre a importância do 68

movimento negro em relação ao processo saúde/doença da população negra, na medida em que este é expressão da auto-organização deste grupo.

O longo historio de lutas sociais empreendidas pelos africanos e seus descendentes no contexto da America Colonial podem, portanto, ser classificadas como ações de ações de promoção à saúde, uma vez que influenciaram diretamente ou indiretamente sobre os determinantes sociais de saúde da população negra.

Desde as ações que visavam minimizar o sofrimento da insalubre travessia transatlântica à preservação e recriação do universo cultural africano no contexto do escravismo brasileiro, conservando e adaptando conhecimentos relacionados à arte da cura, o negro atuou decisivamente sobre as condições de produção da própria saúde. Ao mesmo tempo em que atuavam, a partir da luta coletiva ou individual, sobre estes determinantes (produtores de vulnerabilidade em saúde), utilizavam-se de seu conhecimento milenar sobre o poder medicinal do cuidado, das folhas e do equilíbrio físico, mental e espiritual para aliviar ou mesmo fortalece-se frente às situações impostas.

Este processo ganha novas proporções no período de existência da Imprensa Negra e da Frente Negra Brasileira onde se observam, além da denuncia do chamado preconceito de cor, tentativas de sensibilizar a “população de cor” para uma auto-organização voltada para a “elevação moral” e cuidados com a higiene e auto-imagem.

Da mesma forma, o Teatro Experimental do Negro, organizado por Abdias apresentava, via participação de atores negros nos palcos - coisa rara

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na época – uma preocupação com a auto-estima do negro brasileiro promovendo veiculação de uma imagem positiva da estética negra e do legado africano na humanidade.

Esta movimentação ganha mais corpo como surgimento do movimento negro contemporâneo. A partir das décadas de 70-80, com a criação do MNUDR e a sua posterior ramificação surgem setores no movimento que dedicarão atenção mais destacada ao tema Saúde como parte de sua agenda.

De uma maneira genérica, pode-se afirmar que quando o negro se rebela, ameaçando, tencionando e transformando, mesmo que simbolicamente a ordem estabelecida, realiza-se ações organizadas de promoção à saúde que influirão diretamente ou indiretamente sobre a qualidade de vida desta população. Em um artigo intitulado “se você me nega eu me assumo: o direito a saúde e a busca por equidade social” Lopes [87] esboça um histórico do debate e implementação das políticas de saúde da população negra no Brasil evidenciando a importância do movimento negro na pressão e articulação por políticas de saúde. É em resposta a atuação organizada deste movimento social (em especial o movimento de mulheres negras) nas conferências de saúde, participação em conselhos e outros espaços de controle social que o Estado absorve esta demanda social, ainda que timidamente.

No mesmo caminho a coletânea do projeto ATÓ-IRÊ: Centro de Cultura Negra do Maranhão [88] indica, a partir da experiência da Rede Nacional de religiões Afro-Brasileiras e Saúde, como o movimento negro pode contribuir para a

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promoção da saúde da população negra a partir dos conhecimentos e práticas que possuem, podendo inclusive, no caso das comunidades de terreiro servir de modelo de atenção e cuidado nas políticas de saúde.

Nesta dissertação buscou-se, portanto, relacionar os mecanismos de funcionamento e a percepção deste movimento social sobre a saúde da população negra com vistas à criação de estratégias conjuntas de enfrentamento às iniqüidades vivenciadas por esta população.

71

2 - OBJETIVOS E HIPÓTESES
2.1. Objetivo Geral
Conhecer a percepção do movimento negro do ABC Paulista em relação à saúde da população negra

2.2. Objetivos específicos
Conhecer as agendas prioritárias do movimento Negro Captar a percepção do movimento negro à saúde da população negra Identificar possíveis ações de promoção a saúde realizadas pelo movimento negro Captar o potencial de adesão às ações e parcerias com o setor saúde

2.3 Hipóteses
O movimento negro do ABC Paulista tem pouco ou nenhum acesso a literatura produzida referente à saúde da população negra

O movimento negro já população negra

realiza ações de promoção à saúde da

Algumas entidades não desenvolvem ações voltadas à saúde da população negra por terem outras temáticas prioritárias em suas agendas

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3 METODOLOGIA
Esta dissertação tem origem na pesquisa “Conhecer para Incluir: sensibilidade e potencialidades das organizações do movimento negro para a promoção da saúde e prevenção às DST/Aids” financiada pela Coordenação Nacional de DST/Aids durante a chamada para seleção de pesquisas nº 4/2005.3 Esta convocatória visava apoiar pesquisas que se referem à relação entre condições de vulnerabilidade à infecção pelo HIV e adoecimento por Aids na população negra. O objetivo da temática era o de “conhecer agendas e prioridades no enfrentamento do racismo de entidades do movimento negro e avaliar limites e possibilidades de inclusão da luta anti-Aids em suas agendas e atuações.” .

O projeto foi extensivo aos sete municípios da região do ABC paulista: Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Ribeirão Pires, Rio Grande da Serra e Mauá, que reúnem 655.886 habitantes pardos e pretos (IBGE, 2000), os quais representam 32,8% do total da população da região.

Foram cadastradas 135 organizações das sete cidades da região. As entidades foram inicialmente classificadas pelos pesquisadores a partir da sua atividade principal. Do primeiro painel participaram 41 entidades e do segundo 33.

3

Os resultados integrais desta pesquisa podem ser acessados em Spiassi e Col. pela publicação “Saúde da população negra no ABC: diálogos com o movimento social sobre a prevenção das DST/Aids”. (Coleção temas interdisciplinares; 8).[89]

73

Houve a necessidade de proceder à amostragem das entidades religiosas de matriz africana, pois estas estavam representadas em grande número: 78

Neste caso foram selecionadas 11 destas a partir dos seguintes critérios:

Disponibilidade de participação Distribuição geográfica para garantirmos a presença de todos os municípios Proporcionalidade por quantidade de entidades religiosas presentes no município

Sorteio por município, observados os critérios acima.

A técnica considerada mais adequada para promover o diálogo foi a Metodologia Delphi ou Painel Délfico [90].

As discussões apresentadas nesta dissertação recortam na Pesquisa: Conhecer para incluir os dados que auxiliam refletir sobre a percepção do movimento negro em relação à saúde da população negra.

Esta empreitada colocou desde o início um desafio, já que o instrumento de coleta foi elaborado com vistas às discussões referentes à vulnerabilidade às DST/Aids, não tratando diretamente de outros agravos a saúde. Acreditamos que este fator, embora relevante, possa ser minimizado pela profundidade dos depoimentos apresentados na pesquisa, ao discutir temas como o racismo, racismo institucional, vulnerabilidade, movimento negro, cultura, identidade racial e o controle social das políticas de saúde e a participação do movimento negro como sujeito de promoção à saúde da população negra..

74

3.1 O instrumento de coleta
A metodologia utilizada na pesquisa foi o método Delphi: instrumento de avaliação de opiniões para compreensão de tendências, é utilizada, em nosso trabalho, para estruturar a comunicação de um grupo de especialistas do movimento negro do ABC paulista, através de interações assíncronas, realizadas através da repetição de questionários, acompanhados de

devolutivas, mantendo-se o anonimato das respostas dos participantes na busca do resultado demandado no projeto de pesquisa: o potencial de adesão de entidades do movimento negro à atividades de prevenção de DST/Aids.

Esta metodologia foi desenvolvida nos EUA, inicialmente na área de tecnologia, mas foi ganhando espaço nas ciências humanas pela sua aplicabilidade em informantes com grande experiência no seu setor de atuação. Silveira [91] avalia que entre as vantagens da metodologia está a “interação com "feedback" controlado” - condução do experimento numa série de etapas ("rounds") e comunicando aos participantes um resumo da etapa precedente reduz o "ruído", ou seja, o pesquisador fornece ao grupo somente aquilo que se refere aos objetivos e metas de seu estudo, evitando que o painel se desvie dos pontos centrais do problema. (...) É uma maneira de reduzir a pressão do grupo na direção da conformidade, evitando, ao fim do exercício, uma dispersão significativa das respostas individuais. O produto final deverá ser uma previsão que contenha o ponto de vista da maioria. No entanto, pode haver um resultado também minoritário, se a minoria tiver convicção acerca do assunto.” 75

O painel teve duas rodadas de questões, pois avaliou-se que a quantidade de problematizações afeitas aos objetivos geral e específicos foram alcançadas a partir de uma avaliação do esgotamento de aproximações que o Movimento Negro nos trouxe e em face de toda a literatura que nos amparou para a análise do conteúdo dos discursos.

A objetividade foi buscada da seguinte maneira:

A partir da busca por organizações que se afirmam como movimento negro, numa perspectiva de consciência para si. Organizações apontadas na literatura como importantes na luta pela afirmação étnico/racial e no combate ao racismo que eventualmente não se denominam Movimento Negro: hip hop, terreiros, grupos culturais como capoeira, samba etc [1-66-78-83-88].

Os informantes-chaves, apesar de escolhidos pelas suas entidades, foram indicados por estas a partir de critérios pré–definidos e discutidos com as entidades, como apresentaremos abaixo.

Já a subjetividade foi intensamente buscada e testada na imanência das falas dos nossos parceiros, analisados tematicamente, não comparativamente, a partir de uma primeira rodada indutiva, com retorno das questões aos painelistas e no retorno das avaliações coletivas.

A aplicação do questionário foi dividida em duas fases:

76

1ª) exploratória, que compreende o primeiro questionário, e às vezes o segundo também, onde o objetivo é explorar completamente o assunto e prover informações adicionais;

2ª) de avaliação, é a fase de colher as visões dos especialistas, consenso ou oposição de idéias.

3.1.1 Terminologias
Cada etapa de aplicação de questões a serem analisadas pelos representantes consultados é denominada de Rodada (Round) e as discussões reunidas compõem o Painel Délfico [90].

Os informantes do Movimento Negro tornam-se assim Painelistas [90].

3.2 Depuração dos dados
Com vistas nos objetivos deste trabalho, o corte temático buscou no produto bruto da pesquisa as discussões e depoimentos que nos possibilitem refletir sobre a concepção de saúde da população negra apresentadas pelo conjunto do movimento negro do ABC Paulista.

Tendo em vista o objetivo definido para esta dissertação de conhecer a percepção do movimento negro do ABC Paulista em relação à saúde da população negra, organizamos o trabalho em duas etapas:

A primeira fase, definida por Minayo [92] como Trabalho de Campo consistiu-se na coleta de dados que auxiliassem atingir os objetivos propostos. Debruçando sobre o material produzido na pesquisa Conhecer Para incluir (...) 77

destacou-se os depoimentos e avaliações que nos auxiliassem a refletir sobre as agendas, percepções e potencialidades do movimento negro em relação à saúde da população negra. Por conta disto, nosso “critério de seleção não foi numérico já que do ponto de vista da metodologia qualitativa, a amostra ideal é aquela capaz de refletir a totalidade nas suas múltiplas dimensões” [92].

3.3.Análise do discurso

Nesta etapa buscou-se discutir o material coletado a partir do potencial de conhecimento em Saúde Coletiva que o conceito de vulnerabilidade apresenta.

O conceito de Vulnerabilidade, desenvolvido por Mann e Tarantola [92] é assim definido por Ayres, como: “o conjunto de aspectos individuais e coletivos relacionados ao grau e modo de exposição ao HIV ou adoecimento pelo mesmo e, de modo indissociável, ao maior ou menor acesso a recursos adequados para se proteger de ambos” [93]

O movimento negro, aqui entendido em sua diversidade como interlocutor privilegiado entre as demandas sociais referentes à população negra estabeleceu-se como “informante chave” no diálogo sobre a saúde da população negra e seu depoimento foi analisados pelas técnicas de análise de conteúdo. [92].

Maria Celeste Said Marquesao analisar os conceitos e categorias presentes em Baktin [94] oferece subsídios para afirmarmos que o depoimento contido na

78

linguagem dos informantes, longe de ser apenas um sistema abstrato, “é também criação coletiva, integrante de um diálogo cumulativo entre o „eu‟ e o „outro‟, entre muitos „eus‟ e muitos „outros‟” onde a palavras “são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios” [94].

Esta concepção é corroborada por SCHRAIBER aponta o discurso como reconstrução do vivido:
“...o pensamento individual não se reduz a uma impressão subjetiva. É produto de uma elaboração intelectual específica, porque é produto de um pensar que é trabalho... Por isso não é apenas sentimento, mas a reconstrução do vivido em nova objetivação...”[95].

Se por um lado, esta técnica privilegia a experiência concreta e a percepção subjetiva do vivido, por outro, ela revela dimensões coletivas uma vez que o pensamento do entrevistado sobre a experiência vivida é uma construção que se determina na vida em sociedade [95] condição própria da concepção e demanda do movimento social.

Na objetivação da prática social, principalmente quando compartilhamos esta análise com os sujeitos da vivência, podemos observar os efeitos da universalização e particularização [92].

79

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
4.1 agendas prioritárias do movimento negro do ABC Paulista
Neste estudo considerou-se movimento negro o conjunto indivíduos, organizações e/ou expressões culturais voluntárias negras, ou de matriz africana, que desempenhem ação de preservação do negro, da sua cultura e/ou, principalmente, de enfrentamento ao racismo.

A diversidade do movimento negro pode ser observada no Gráfico 2 quando verificamos as diferentes modalidades organizativas que as entidades participantes declararam exercer:

80

Ao

apresentarmos

separadamente

os

dados

de

auto-classificação

observamos que as atividades culturais e políticas foram referidas pela maioria das entidades, o que nos pareceu indicar uma imbricação entre essas duas atividades, o que foi confirmado com o andamento da pesquisa.

O conjunto das respostas das rodadas delphicas indica que este leque apresenta um grande potencial de capacidade analítica. Foi possível captar a participação de organizações do movimento negro em sua multiplicidade, abarcando o movimento hip-hop, as religiões de matriz africana, grupos islâmicos, pastorais, ou setoriais de combate ao racismo de partidos políticos, entre outros. Foram entrevistados representantes de dois salões de beleza 81

voltados à população negra, incluídos como parte do movimento negro, por se declararem como tal ao valorizar a estética afro como instrumento de ação afirmativa.

Objetivando aprofundar este diagnóstico, utilizamo-nos de questionário aberto que explorou na primeira rodada quais seriam as temáticas prioritárias atualmente na agenda do movimento negro da região. As entidades listaram livremente as temáticas prioritárias na agenda do movimento agrupadas no Quadro 1 por correlação:

Quadro 1 Distribuição das temáticas prioritárias agrupadas

Categoria Educação /cultura/ conscientização Desenvolvimento econômico e social Saúde Segmentos

Freqüência 53 9 13 5

Esta metodologia foi necessária, pois alguns temas, como, por exemplo, o reconhecimento e valorização da história negra, poderiam enquadrar-se tanto na categoria educação, quanto na categoria cultura, ou poderia, ao mesmo tempo, ser parte de uma ação teleologicamente orientada para o fortalecimento da auto-estima do indivíduo negro.

82

A correlação entre estas duas categorias baseou-se na definição de Biko [65] que compreende a importância de se construir um sentimento comum dos negros frente ao racismo, denominando-o de consciência negra. Para a concretização da consciência negra, seria necessária a valorização de todos os aspectos da cultura, incluindo a educação e a história afro-descendente, vistos como elementos centrais na reconstrução psíquica e estética rumo a uma unidade política emancipadora.

Do mesmo modo, no item Desenvolvimento econômico/social, a relação entre desenvolvimento econômico, emprego e segurança alimentar nos levou, neste caso, a agrupar as temáticas sob o mesmo guarda-chuva.

A temática da saúde, por sua vez, aparece, de forma geral, como a terceira mais citada na agenda do movimento. Dentro deste tema, três especificações foram citadas, além da Saúde de maneira geral (sete citações): anemia falciforme (duas citações); violência (três citações) e prevenção às DST/Aids.

Observa-se, portanto, que a freqüência de temáticas prioritárias na agenda do movimento apresenta consonância com a classificação das organizações (Gráficos 1 e 2) sobre a natureza da sua atuação. Este dado pode ser relevante para se pensar pontes possíveis entre o setor saúde e o movimento negro respeitando a sua diversidade programática.

Chama a atenção, como será discutido posteriormente que todos os temas citados como prioritários na agenda do movimento são importantes determinantes sociais de saúde20.

83

4.2 A percepção do movimento negro em relação à saúde da população negra
4.2.1 A saúde na agenda do movimento negro
Como visto, o item saúde aparece como o terceiro tema mais citado na agenda do movimento. Entre as poucas temáticas especificadas encontram-se a anemia falciforme (2 citações); violência (3 citações); prevenção às DST/Aids (1 citação) e saúde como tema geral (7 citações).

Como foi apontada na introdução, a saúde da população negra apresenta especificidades em relação aos não-negros quando comparando importantes morbidades como diabetes mellitus, câncer de cólo, óbitos por causas externas, mortes evitáveis, esperança de vida ao nascer, entre tantos.

A Anemia Falciforme, aqui citada duas vezes, aparece constantemente em exemplos e ilustrações feitas pelos painelistas durante as duas rodadas delphicas. Sua destacada presença na preocupação dos informantes evidencia a relevância desta temática para o movimento negro. Mas pode revelar ao mesmo tempo, um desconhecimento por parte dos informantes da existência de outros agravos mais freqüentes.

Na primeira rodada foi perguntado aos informantes se percebiam na agenda do movimento negro em geral a preocupação com temática saúde. Do total de informantes , 19 identificaram esta preocupação, exemplificando como áreas de concentração a anemia falciforme; DST/AIDS; hipertensão arterial, diabetes mellitus; câncer, saúde mental; entre outras:

84

Sim. DST/Aids; anemia falciforme; hipertensão arterial; melitus; câncer e saúde mental (I.1.5.2)

diabetes

Sim. Estudo específico da saúde do negro – anemia falciforme(I.4.6.2) Sim, existem alguns agravos específicos que o movimento pressiona para que o poder público ofereça atendimento. (I.4.1.2) Sim – saúde também é economicamente. (I.1.12.2) ter condições de sobreviver sócio-

Um segundo grupo com 9 informantes aprofunda sua avaliação pois, apesar de reconhecer a temática da saúde como uma preocupação do movimento negro, refere inconsistência do mesmo ao tratar o assunto. Entre os motivos referidos destacam-se o racismo institucional, o desconhecimento sobre a temática, e a dificuldade de articulação entre as organizações:

(...) O MN não atua como deveria e no poder publico há racismo institucional (I.4.5.2) (...) Não há agenda comum para nada nem para a saúde. (I.2.2.2)

Já um terceiro grupo, também com 9 informantes, relata não visualizar de forma alguma a presença desta discussão no conjunto do movimento negro e aqui também destacam-se como principais justificativas formuladas, o racismo institucional e a presença de outras temáticas prioritárias na agenda do movimento:
“O conjunto não tem essa preocupação, o governo não tem políticas públicas. (I.1.3.2) “A saúde nunca foi uma prioridade do movimento negro, ela está pontuada apenas. Há temas mais urgentes colocados e o movimento não dá conta”(I.2.5.2) (...) No movimento há vários grupos, mas não sei se há discussão sobre saúde. (I.2.1.2)

Este ponto nos parece essencial. A fragilidade do movimento negro na temática saúde associada à experiência de racismo institucional21 no setor saúde (I.4.5.2 e I.1.3.2) nos questiona sobre quais seriam as trocas possíveis para superar essa inconsistência, ao se tratar de uma fragilidade bilateral. 85

Ao perguntarmos a cada entidade se trabalhavam a temática da saúde, 28 informantes declararam que suas organizações desenvolvem ações na área da saúde, um número maior do que os 19 informantes que afirmaram perceber esta preocupação na agenda do conjunto do movimento negro.

Esta contradição expressa um paradoxo entre o olhar para si e um olhar para o outro (o conjunto do movimento). O confronto entre as respostas sugere uma dificuldade das organizações conhecerem ou perceberem ações realizadas por outras entidades.

Os exemplos citados pelas organizações que desenvolvem ações em saúde, apresentados no Quadro 2 permitem pensar esta atuação em dois campos: a atuação direta e a atação indireta sobre a saúde da população negra.
Quadro 2 Comparação entre as ações desenvolvidas entre as organizações individuais e todo o movimento

Desenvolvem ações de saúde

Diretamente

Modalidade

Indiretamente

Modalidade

28 entidades

15

-Atuação

em

13

-Coordenação

de

instâncias de controle social

Projetos e atividades voltadas ampliação para a da de vida,

-Desenvolvimento

de qualidade

ações de prevenção auto estima, cidadania, às DST/AIDS assistência -Pesquisas 86 e cultura. social,

levantamento produção

sobre de

conhecimento voltado a saúde da população negra

Fonte:Painel Delphi 1ª.rodada- Pesquisa CESCO, apoio financeiro CN-DST/AIDS, 2007.

Das 28 entidades que desenvolvem ações voltadas a saúde, 15 desenvolvem ações diretamente relacionadas à saúde como controle social, ações diretas de prevenção e produção de conhecimentos voltados à saúde da população negra. Por outro lado, 13 organizações desenvolvem ações indiretas, como projetos e atividades voltadas para a ampliação da qualidade de vida, auto-estima, cidadania, assistência social, cultura.

Foi considerado atuação direta aquelas ações que têm o recorte Saúde como objeto de trabalho e indiretas aquelas ações cujos foco dizem respeito aos Determinantes Sociais da Saúde.

Não há hierarquia entre estas categorias, somente as separamos para explicitar o potencial diverso de atuação das entidades.

Entre os depoimentos dos informantes representantes de organizações que desenvolvem ações diretamente relacionadas à saúde realizadas pelas entidades destacam-se:

Fazemos pesquisas sobre os agravos mais comuns a população negra. Busca base para discutir as políticas públicas (I.1.3.3) .

87

Seminário, palestra – participamos no conselho municipal de saúde (I.1.5.3). Prevenção de DST e Aids para jovens da comunidade (I.2.4.3). Oficinas, distribuição de camisinhas, grupos sobre agravos de álcool e cigarro (I.4.1.3) . Atividades culturais/artísticas divulgamos o uso do preservativo e gravidez na adolescência (I.4.8.3) .

As organizações que desenvolvem ações Indiretas o fazem das seguintes maneiras

O recorte é de condicionamento físico (I.1.7.3) . (Trabalhamos) saúde mental com auto estima fazendo-as belas, sentindo bem com sua aparência (I.1.6.3) . A beleza e as raízes negras estão associadas a saúde (I.7.2.3) . Com aulas sobre saúde e sobre cidadania (I.1.1.3) . Saúde é tema transversal dentro das ações de cultura. Valorização das pessoas produz saúde (I.4.3.3) .

Estes depoimentos revelam a existência de ações de saúde que já vem sendo realizadas por algumas entidades e possibilitam pensar pontes possíveis entre as ações de saúde e as temáticas já presentes na agenda das organizações.

Num outro campo, outras 11 organizações referem não trabalhar a temática saúde em sua agenda. Mas destacamos o interesse explicitado por algumas em realizar

Não trabalhamos, mas reconheço a importância ( I.2.5.3) . Não, mas existe intenção (I.5.7.3) .

88

Mais adiante discutiremos com os informantes as condições necessárias para ao estabelecimento de parcerias entre o movimento negro e o setor saúde.

Os dados apresentados revelam a presença da temática saúde na agenda de uma quantidade importante de entidades. Algumas organizações já desenvolvem ações diretas (controle social e multiplicação de informações) e indiretas (atuação orientada para os determinantes sociais) voltadas à saúde. Outras, apesar de reconhecer fragilidade do movimento ao tratar o assunto apontam a importância e se mostram propensas a discutirem o tema.

4.2.2 O racismo como fator de vulnerabilidade
Quando foi pedido para que os painelistas falassem e justificassem a preocupação de sua entidade com a temática da vulnerabilidade de homens e mulheres às DST/Aids, obteve-se um quadro que denota a intensiva capacidade de avaliar condições de existência da população negra, elencando os três níveis de inteligibilidade em relação à vulnerabilidade: trajetórias, interações e contextos [96].

O ponto de interação é o ser negro, sem dúvida, cujas trajetórias serão marcadas pela pobreza e discriminação e os contextos impregnados pelo racismo, inclusive o institucional.

Organizamos e discutimos os depoimentos sobre dois pontos centrais: a percepção da vulnerabilidade e o racismo institucional

89

A percepção de vulnerabilidade
Agrupou-se aqui, um conjunto de depoimentos que expressam em que medida a preocupação com a vulnerabilidade da população negra está ou não presente na agenda das organizações pesquisadas.

Um grupo apresentou questões para além daquelas que apontamos, aprofundando o entendimento sócio-histórico da vulnerabilidade da população negra, em relação não somente à prevenção de DSTs/Aids, mas da integralidade da saúde e da totalidade da vida:
“Em todos os lugares do mundo em que as desigualdades raciais são naturalizadas a epidemia da Aids atinge de forma mais severa os grupos historicamente excluídos da riqueza social”(II.1.3.1).

Há, portanto, nesta parcela do movimento negro, uma noção ampliada do processo saúde e doença associando-o às diversas condições de produção e reprodução da vida:
“A história do negro é de desumanização, negação da condição de ser humano, que expõe os negros a qualquer doença. A informação fica sem credibilidade vinda dessa maneira. O negro precisa ser visto como ser pleno” (II.1.10.1).

Para estes, o prélio às iniqüidades raciais em saúde, por sua vez, só tem sentido, quando ancorado em ações mais amplas que atuem diretamente nos condicionantes sociais da saúde da população negra: “enquanto não rompermos com os fatores discriminatórios continuaremos vulneráveis” (II.6.2.1) .

Num outro pólo, outro grupo de informantes relata não tratar estas questões em suas agendas. Entre os motivos apontados, destaca-se o acesso restrito

90

à produção de conhecimentos disponíveis sobre a temática e a existência de outras temáticas prioritárias que esgotam a agenda destas organizações
Não temos [preocupação com a vulnerabilidade ao HIV/aids] – desconhecemos dados (II.7.4.4). Não temos esta preocupação, por que a aids não é só entre os negros – inclui outros segmentos (II.5.4.4).

O último depoimento (II.5.4.4) pode ser interpretado, por um lado, como uma preocupação do informante em não se “racializar” a epidemia [8] agregando mais estigmas à população negra. Por outro lado, pode refletir um desconhecimento das desigualdades raciais em saúde, em especial sobre a vulnerabilidade da população negra às DST/Aids.

Evidencia-se, portanto, a necessidade de capacitação, sensibilização e divulgação de conhecimentos científicos referentes à saúde da população negra principalmente entre os integrantes do movimento negro.

O Racismo institucional
Os informantes apresentaram uma leitura reveladora sobre como vêem a relação do setor saúde com a população negra. Para o movimento negro há: a). Ausência de ações específicas de saúde voltadas à população “na pratica não é executado e poder publico não tem ação específica para a população negra.” (5.7.2); “a ação governamental que chega (até a população negra) e da anemia falciforme (2.4.2)

91

b). Atendimento desigual e diagnósticos tardios “sim é notório o descaso de profissionais da área da saúde – diagnósticos tardios – mal atendimento a população negra” (5.1.2).

c) Escassez de profissionais de saúde em regiões de expansão das cidades, locais onde se concentram as moradias da população negra: “...falta os profissionais da saúde chegarem na periferia” (4.2.3).

d) Falta de profissionais de saúde afrodescendentes com escolarização superior: “... que os negros possam ser profissionais de nível superior e não só para trabalhos manuais” (7.2.3).

O direito a saúde, para estes informantes fica ameaçado pela invisibilidade do racismo e o acesso desigual aos serviços.

É a partir desta constatação que a construção de políticas públicas voltadas à população organizações negra do torna-se uma “A bandeira negra presente ocupa na uma maioria posição das de

MN:

população

vulnerabilidade e necessita política pública específica.”(2.2.1).

O combate às desigualdades raciais em saúde, portanto, estaria diretamente relacionado ao reconhecimento da existência e influência do racismo na saúde e o desenvolvimento de políticas específicas de saúde para a

população negra:

Essas questões de vulnerabilidades já são denunciadas pelo Movimento negro, mas quando se transformam em dados podem gerar políticas públicas (2.4.1).

92

A partir deste diagnóstico, os painelistas concluíram que há necessidade de qualificação do setor saúde, preparando-o para lidar com as especificidades da população negra, Dois direcionamentos foram apontados:

a) Parte desta qualificação passa por identificar o racismo institucional impregnado nos profissionais da saúde e que o reconhecimento deste problema é um caminho para a busca de soluções para esta situação, pois isto afetaria positivamente a saúde dos negros:

Somente com a superação do racismo dos profissionais da saúde que iremos promover a eqüidade na saúde, contribuindo para elaboração e implementação de políticas de ações afirmativas e subsidiar a sociedade sobre o tema (1.3.3).

b) O outro aspecto levantado diz respeito à formação dos profissionais de saúde, para que estes saibam tratar das questões específicas de saúde da população negra:

Que as organizações da saúde ou não, percebam as especificidades da saúde negra e identifiquem as desigualdades em saúde, mapeando-as. Com esse material será possível fazer promoção à saúde de verdade (1.2.3).

4.3 Ações de promoção à saúde
4.3.1 Afirmação da Identidade, auto-estima e saúde
Nas duas rodadas de conversa realizadas pela pesquisa, a auto-estima foi amplamente referida como fator de proteção da saúde. O movimento negro por sua vez apresentado como sujeito de promoção da saúde da população negra

93

quando desenvolve ações de valorização da identidade e elevação da autoestima. Os painelistas entendem que numa sociedade em que “... o racismo está estampado no rosto, quanto mais escura a pele mais sofre.”(7.2.2). A baixa auto-estima atua como inibidor da qualidade de vida e principalmente como agente imobilizador do protesto negro:

O descaso na saúde com a população negra é parte de uma ação sistemática de exclusão. A falta de consciência racial associada à baixa auto-estima não criam mecanismos individuais e coletivos para a luta ou reivindicação de seus direitos na saúde (1.2.2). Há tempos o movimento de mulheres vem chamando a atenção na população negra, mormente entre as mulheres. Ter consciência daquilo que nos aprisiona equivale a deixarmos de ser perigosos para nós mesmos (1.3.2).

Para estes informantes, portanto, o fortalecimento da auto estima configurase como importante instrumento de preservação da saúde física e mental:

Com auto-estima a pessoa cuida de seu bem estar (4.6.2); Quando gostamos do nosso corpo cuidamos... (1.9.2); Consciência racial e auto-estima como facilitador na luta contra infortúnios da saúde (1.13.2); O negro é mais negro quando é tratado de igual para igual (7.3.2).

Mais uma vez aqui, podemos observar a perspectiva política da consciência negra que compreende a percepção da negritude associada a um sentimento de amor próprio, como etapa sine qua non para a mobilização dos negros por sua autodeterminação [65].

Outro aspecto apontado refere-se à contribuição da identidade étnico-racial na obtenção de parâmetros para o enfrentamento das desigualdades raciais em saúde, já que possibilitam mensurar em que instâncias da oferta em saúde 94

encontram-se ou não as influencias do racismo. Uma alusão direta a implantação do quesito raça/cor nos instrumentos de coleta dos serviços e pesquisas de saúde:
A consciência racial leva ao conhecimento e enfrentamento dos índices negativos de saúde da população negra (4.6.2).

Os depoimentos escolhidos sugerem que a saúde da população negra está relacionada à vivência do racismo, e neste sentido, o movimento negro teria uma atuação privilegiada na promoção da saúde da população negra, pois além de atuar no combate ao racismo, desenvolve ações de valorização da identidade racial e fortalecimento da auto estima contribuindo para a qualidade de vida da população negra:

o movimento negro trabalha consciência racial, entendendo autoestima como fator preponderante na preservação da saúde (1.4.2); A ação do Movimento reflete sobre os determinantes sociais da saúde (7.3.2).

Porém, a pesar das contribuições do movimento influenciar diretamente sobre os determinantes sociais da saúde, reconhece-se que algumas questões relacionadas à saúde da população negra não são preocupações recorrente no conjunto do movimento neste campo:

...Acho que o movimento negro em geral ainda não leva tão a sério esta discussão, sinto que ela está enfraquecida nos espaços (4.2.2).

Reconhece-se uma fragilidade do tema saúde na agenda das organizações:

4.3.2 Cultura negra e promoção à saúde
Destaca-se a seguir dois aspectos relevantes da relação entre a cultura negra e saúde: a cultura negra como espaço de promoção da saúde e

95

qualidade de vida da população negra e a preservação de um saber ancestral de origem africana na arte da cura e do cuidado em saúde.

Para os informantes a temática saúde já está presente, implícito ou explicitamente em algumas manifestações culturais negras como capoeira, candomblés, hip hop entre outros.

Os informantes que trataram do primeiro ponto avaliam que a cultura negra contém em si aspectos de promoção da saúde:

... capoeira não é apenas esporte, mas educação, saúde e cultura; nossos terreiros de umbanda e candomblé são templos de educação saúde resgate cultural e alimentação. A cultura negra é uma forma de enfrentarmos esse problema (1.7.5).

A cultura negra aqui é entendida como espaço multidimensional e abrangente, possibilitando um reencontro com a identidade negra e vivência de práticas saudáveis para o corpo e mente através de suas expressões: dança, música, rituais, confraternizações comunitárias etc.:

...Em encontros deste tipo existe uma unificação em se auto expressar, aí esta uma abertura espontânea que pode ser aproveitada para questionar tamanha lacuna de desconhecimento e afirmar o potencial individual a ser ativado em prol de uma grande mudança social (1.8.5).

O caráter afirmativo da cultura no processo saúde/doença podendo também ser entendida como espaço de qualidade de vida ao possibilitar momentos de descontração e auto-afirmação:

Apontamos na primeira entrevista a valorização da cultura como fator da auto-estima, a valorização da auto-estima como fator de saúde. [Pois] a auto estima elevada pode facilitar as práticas de prevenção – a auto-estima elevada faz com que inexista um comportamento destrutivo (4.1.2);

96

O potencial é significativo: [...] A cultura negra pode revitalizar a autoestima em função dos ancestrais – no hip hop, temos a proximidade com os códigos facilita a comunicação – a cultura negra é a mais rica e complexa (de zumbi a hip hop), isso é plenamente possível (4.1.5); Muitos negros vêem na cultura uma forma de mostrar que são úteis a sociedade. Temos que mostrar aos negros e negras que para mostrar sua cultura a pessoa tem que ter saúde (4.5.5); Saúde e tema transversal dentro das ações de cultura. Valorização das pessoas produz saúde (4.3.3); A beleza e as raízes negras são entendidas como associadas à saúde (7.2.3).

Outra importante questão levantada pelos informantes versa sobre o conhecimento de recuperação da saúde presente na cultura de matriz africana, conhecimento este, desvalorizado frente à medicina e valores ocidentais modernos, ainda que o Seminário Nacional de Saúde da População Negra e a Conferência Nacional de Assistência Farmacêutica, realizados em 2004 tenham referendado as práticas tradicionais:
A contribuição da cultura africana permeia todos os setores da vida social. Na arte de curar são inúmeros os exemplos: remédios, saberes africanos e indígena formam um emaranhado complexo. Ocorre que a desvalorização do saber popular médico de origem africana torna invisível a enorme contribuição africana. A medicina familiar e de vizinhança, a arte do parto, saberes relativos a fertilidade e infertilidade das sábias pretas velhas (1.3.5).

Encontramos esta frase em um artigo de Fátima Oliveira [82] discutindo a importância das comunidades tradicionais de terreiros na promoção da saúde da população negra. Embora esta constatação não possa ser generalizada nos chama atenção, já que contraria a hipótese inicial de que o movimento não teria acesso à literatura produzida sobre saúde da população negra.

O que importa afirmar é que esta reflexão apresenta concordância com os principais estudos sobre o tema. Marmo [88] um dos fundadores da Rede 97

Brasileira de Religiões Afro-brasileiras e Saúde ajuda a compreender a importância desses espaços, principalmente as religiões de matriz africanas, ao afirmar que os terreiros de candomblé são espaços tradicionais de cuidado e promoção da saúde por desenvolverem historicamente ações de inclusão, acolhimento e aconselhamento aos seus participantes:

As práticas rituais e as relações interpessoais que são estabelecidas nestes espaços possibilitam as trocas afetivas, a produção de conhecimento, o acolhimento, a promoção à saúde e a prevenção de doenças e agravos, bem como a renovação de tradições milenares, sobretudo por meio do uso das plantas medicinais [88]

4.4 O potencial de adesão ás ações e parcerias com o setor saúde
4.4.1 O movimento negro como interlocutor da população negra
Na primeira rodada da pesquisa, foi perguntado aos painelistas se o Movimento Negro poderia integrar-se às ações de prevenção ás DST/Aids.

A resposta foi unânime: 100% dos painelistas apontam o potencial de integração às ações de prevenção. Esta adesão fica, porém condicionada a alguns aspectos destacados a seguir: a necessidade de qualificação dobre o tema, socialização de informações e a legitimidade do movimento como interlocutor da população negra no controle social:

[precisamos]...de preparo e aprofundamento no assunto (1.11.6); Sim, devido maior vulnerabilidade da população negra. O movimento tem que acompanhar ações de prevenção para qualificá-las e adequálas a pop negra (1.9.6);

98

Sim - Lutamos para integrar o MN em todas as temáticas, mas esbarramos na falta de informação e aceitação das necessidades do movimento (5.2.6).

A maioria dos informantes referenda o movimento como interlocutor legítimo da população negra: “O movimento negro discute, entre outras questões, a qualidade de vida e saúde da população negra (...) faz o recorte da vulnerabilidade em que a população negra se encontra”, portanto, “ está apto a fazer a interlocução.”(6.2.4), desde que se respeite a diversidade programática, política institucional presente entre as organizações: “Não se pode falar do movimento negro como interlocutor da população negra sem levar em conta que o mesmo é dispare e plural”(II.2.2.4).

A fim de aprofundar o entendimento sobre este potencial diverso de adesão das organizações pesquisadas às ações de prevenção aos IST/Aids, questionou-se na segunda rodada como o movimento negro poderia ser interlocutor da população negra neste processo e quais as condições para que esta interlocução se concretize.

Aprofundamos a seguir as tendências de interlocução do movimento negro e as possíveis prioridades entre elas:

4.4.1.1 Atuação sobre os determinantes sociais da saúde
A atuação histórica deste movimento social é vital na construção de redes identitárias de solidariedade e mobilização social, visibilização das iniqüidades, e manutenção e/ou ressignificação da cultura ancestral.

99

“O movimento negro discute, entre outras questões, a qualidade de vida e saúde da população negra(...) faz o recorte da vulnerabilidade em que a população negra se encontra” (6.4.2)

Esta atuação em si já é importante fator de promoção da saúde por atuar diretamente sobre seus determinantes sociais [97] e nos indica um dos caminhos possíveis para a interlocução do movimento negro.

Este dado possibilita pensar que mesmo nos casos em que a temática saúde seja prioridade de agenda das organizações, o diálogo se faz possível (e necessário) entre o setor saúde e o movimento social

4.4.1.2 Atuar diretamente em ações de prevenção:
A ação direta de saúde realizada pelo movimento negro junto a população negra possibilitaria uma atuação específica e qualificada e ao mesmo tempo, daria subsídios fortalecedores para o movimento na conquista por espaços de controle efetivo das políticas de saúde: “A prioridade é: ações diretas de prevenção (...) O engajamento é que trará a apropriação dos espaços” (4.1.6.).

Essa tendência se remete à possibilidade do movimento negro desenvolver ações de prevenção junto à população negra como campanhas educativas, multiplicação de informação sobre DST/Aids: “Cada entidade tem seu público e sua forma de agir, nós podemos criar peças teatrais, letras de rap , palestras, debates etc”(4.4.4).

100

A proximidade do movimento negro junto à população negra é vista como um facilitador do processo de identificação e assimilação das mensagens de prevenção:

os membros do movimento dominam os códigos de linguagem e expressão que podem gerar confiança, segurança e empatia junto a população negra. Possuem um diagnóstico mais preciso que um técnico qualquer... (4.1.4); ...as posses23 e as entidades de atendimento exercem esse papel de multiplicadores junto a população...(2.4.4); ...multiplicar as informações e ações eficazmente entre as populações vulneráveis. (2.1.4).

Essa avaliação aponta a preocupação e crítica do movimento com relação à eficiência das ações de prevenção. Ao mesmo tempo, evidenciam a preocupação com a eqüidade nessas ações no que tange ao alcance: “o trabalho de prevenção está cada vez mais distante da população negra” ( 4.2.4).

4.4.1.3 Controle social e prevenção de DSTs/AIDS
Este grupo refere como prioridade de atuação do movimento negro a apropriação dos espaços de controle social entendido como espaços de disputa decisivos à concretização de políticas de saúde vuoltadas à população negra. Para estes: “O movimento negro não pode esperar que o sistema acabe com as desigualdades, deve apropriar-se dos espaços de controle social...” e a partir daí “... lutar por ações diretas enquanto política de Estado” (1.3.6).

A efetivação do controle social, para estes informantes concretizara-se com a participação direta dos membros do movimento negro nos espaços de poder: 101

Já fazemos essa interlocução, porém de baixo calibre. O que é necessário é termos o poder em nossas mãos para controlar políticas públicas... precisamos ter gestor político negro para qualificar o debate dentro do Executivo. Caso contrário não seremos prioridade (1.7.4). Só teremos controle social efetivo se estivermos no poder: gestor público negro para qualificar o debate dentro do executivo (1.7.6.).

Vê-se nos depoimentos acima o debate sobre limitação dos espaços formais de controle social. As especificidades em saúde apresentadas pela população negra seriam plenamente contempladas apenas em contextos em que os sujeitos negros dispusessem de poder político institucional.

Alguns informantes porém, ressaltam a necessidade de reflexão mais crítica sobre a legitimidade dos representantes negros nesses espaços: “... as experiências nos apontam que parte dos que ocupam ou ocupavam era interlocutores do racismo, dizem não para um irmão negro em nome dos brancos” (5.6.6).

Para a maioria dos informantes

deste grupo porém, a referência ao

Controle social como possibilidade de atuação do movimento não exclui outras possibilidades. Alguns visualizam convergência entre a atuação direta junto a população negra associada à participação nos espaços de controle social: “As duas são prioridades: por um lado luta e por outro reivindica; informa a comunidade e por outro cobra o governo.” (1.6.6.). As duas tendências se fortalecem na medida em que o controle social qualifica a atuação direta: “... As ações diretas se qualificarão com a apropriação dos espaços de controle.” (6.2.6).

102

Porém, as dificuldades encontradas para essa interlocução são evidenciadas no depoimento que se segue: “Todas as tendências são primordiais. Todos os espaços estão com dificuldades de efetivação” (2.1.6.).

4.4.1.4 A cultura negra como facilitadora das ações de prevenção
Outra questão apontada na pesquisa em relação à interlocução refere-se às expressões culturais negras.

Alguns informantes afirmam que expressões culturais trazem em seu bojo um potencial multidimensional e abrangente que engloba desde a utilização de linguagens artísticas como facilitadora das ações diretas de prevenção até a importância da cultura negra como espaço de promoção à saúde.

Para estes informantes as informações relacionadas à saúde e prevenção chegariam à população negra com mais eficiência se estivessem associadas com a realidade do público a ser direcionado:

Avaliamos como uma forma diferenciada de chamar atenção e de facilitar entendimento da questão, buscando relacionar a realidade cultural das pessoas com o tema (2.1.5); ou seja... A partir desses elementos podemos sensibilizar a população com mais eficiência (5.4.5).

Os elementos da cultura negra são amplamente evidenciados em suas possibilidades de atuação conjunta com as ações de prevenção, através da difusão de informação ou sensibilização a respeito do tema saúde ou prevenção às DSTs/Aids. 103

Expressões como o Hip Hop, a dança, o teatro, a confecção de tranças-afro, a música (do rap ao samba) foram referendados como possíveis espaços de multiplicação de informação:

É possível falar de prevenção durante a confecção da trança (1.6.5); (...) do teatro a letra de rap a informação pode ser repassada com precisão; linguagem acessível a determinados grupos, por exemplo: jovens (1.2.5);

Algumas organizações já realizam essa interlocução através de suas expressões:

(...) o hip hop na nossa cidade já realizou trabalhos de prevenção de dst e aids por intermédio de seus elementos (4.4.5); a partir de atividades culturais/artísticas divulgamos o uso do preservativo e gravidez na adolescência (4.8.3); Sim, já foram feitas palestras e programações culturais (espetáculos que abordam o tema) (4.3.4).

Outro informante revela a propensão de atuação do movimento nas ações de saúde a partir dessas linguagens, mas chama a atenção para a necessidade de formação e qualificação destes sujeitos para tal empreitada:

O hip hop pode ajudar, mas é necessário mais ferramentas...(4.2.4).

Neste sentido, cultura negra pode contribuir para “...Colocar os conteúdos mais próximos da realidade dos alunos” e ao mesmo tempo,

... revitalizar a auto estima em função dos ancestrais. No hip hop, temos a proximidade com o códigos, facilita a comunicação. A cultura negra é a mais rica e complexa. De zumbi a hip hop, isso é plenamente possível. (4.1.5).

104

As religiões de matriz africana são apresentadas pelos painelistas como espaços significativos para o povo negro, e também um importante espaço no enfrentamento das DST/Aids:

Possível e necessário se trabalhar esse tema junto as casas de matriz africana, já que a religião é um dos principais pilares da cultura de um povo (4.6.5.).

Ao mesmo tempo, outras vertentes da cultura negra são referidas como espaços potenciais de promoção da saúde e difusão de informações sobre prevenção. Mas para efetivação desse potencial é apontado uma necessária re-apropriação do negro a estas expressões:

Um dos primeiros passos é o carnaval que tem retornar as mãos do negro; outro ponto são as matrizes africanas...( para que a partir daí seja possível afirmar que)... nosso povo se dispõe a desenvolver ações de prevenção nas atividades culturais (3.1.5).

4.4.2 Condições necessárias para interlocução
Neste bloco analisamos algumas questões apontadas no painel referente à consolidação do movimento negro como interlocutor da população negra nas ações de prevenção e no controle social. Estas dizem respeito à articulação, sensibilização e capacitação e do movimento no tocante à saúde da população negra e acessibilidade aos mecanismos de financiamento.

4.4.2.1 Representatividade e poder político
A participação do movimento negro nos espaços de controle social é entendida por muitos informantes como estratégia de interlocução. No entanto, para o movimento negro existem barreiras historicamente construídas para a

105

representação

da

população

negra

nestes

espaços.

Estas

barreiras

configuram-se como importantes obstáculos a serem superados:

(o movimento negro deve) Estar nos espaços: em especial o conselho de saúde, diga-se de passagem, deve ser travado uma guerra para estar lá, talvez devamos pensar em cotas (1.11.6.) .

Neste sentido a consolidação do movimento nos espaços de poder deve ser conquistada através da luta levada a cabo pelo próprio movimento:

O movimento negro primeiro tem que organizar as diversas entidades que atendem a população negra para intervir de forma qualificada na mudança da realidade que essa população negra está inserida ( 2.4.6); Enquanto grupo pequeno não dá para agir, há necessidade de consolidar forças e experiências entre o movimento negro e pensar em um projeto em conjunto. Ações como dança, palestras, teatro.... (1.9.6.); É necessário: organização, mobilização e conexão movimentos para a consolidação dos espaços (4.1.6). entre os

A parceria com outros movimentos sociais é ressaltada como estratégia relevante nesta consolidação: “...articulação com outras lutas. Contato, articulação e mobilização com a base, garantiria uma consolidação” (1.2.6).

Para outros informantes, entre as condições necessárias para a consolidação do movimento como interlocutor nas ações de saúde está a presença de negros comprometidos com a luta nos espaços de poder governamental. Seria necessário, portanto, “Deixar de ser coadjuvante e ser gestor.” (1.7.6.), ou nas palavras de outro informante: “... tomar o poder através das urnas” 4.5.6.

Refletindo sobre a questão proposta um informante refere como condição de interlocução a articulação de diversas instâncias de luta por transformação social: 106

Continuar lutando contra o sistema capitalista – lutar para ser sujeito histórico e não objeto de pesquisa – ter poder de atuação política fazer campanhas gerais contra o racismo na saúde (1.3.6).

4.2.2.2 Qualificação técnica
Houve quase unanimidade no painel em apontar a necessidade de qualificação em relação ao tema: Prevenção às DST/Aids na população negra.

A qualificação é identificada como obtenção de base de informações e de dados para apreensão da realidade da saúde da população negra:

Formação, qualificação especifica na área da saúde da população negra (5.7.6). Poder de forma definitiva obter dados concretos para, a partir daí, pensar em formas de atuação e políticas especificas para esse problema (2.5.3).

Um painelista evidencia a importância de intercâmbio dessa temática entre as organizações do movimento: “As lideranças precisam de fato se qualificar, em vários temas e intercambiar essas habilidades no movimento negro.” (1.7.3)

Temos aqui listadas demandas relacionadas com o papel de interlocução do movimento negro com a população negra, passando por dois pontos muito importantes:

1) Desenvolvimento de instrumentos científicos para balizar e validar o trabalho das próprias entidades do movimento negro:

Maior incentivo à pesquisa, instrução científica, pedagógica, vínculo comunitário como forma de base de apoio efetiva. Envolver o cotidiano das pessoas para desenvolver alternativas de conscientização coletiva (1.8.3).

2) Formação de multiplicadores a partir dos próprios membros da comunidade:

107

Seria interessante pegar multiplicadores no movimento e capacitá-los. A comunicação pode ser facilitada pela identificação, a interação do movimento e população negra gera um código de expressão (4.1.3).

4.4.2.3 Apoio financeiro
O item apoio financeiro foi o menos citado entre as modalidades apresentadas no painel. Na segunda rodada, questionamos deste fator tão relevante ser pouco citado. Os painelistas apontaram que o principal problema residia na falta de conhecimento dos mecanismos vigentes, como aparece no Quadro 3:
Quadro 3 Conhecimento sobre os mecanismos de financiamento

Conhecimento sobre os mecanismos de financiamento Sim, conhece-os Conhece-os parcialmente Não conhece-os Não opinaram sobre a questão Total 33

N. de entidades

03 05 20 05 participantes da

segunda rodada

Uma porção minoritária (3 informantes) refere dispor de conhecimentos relativos aos mecanismos de financiamento para ações de prevenção. Sendo que os demais detêm pouco ou nenhum conhecimento acerca desse mecanismo:

108

Talvez (o apoio financeiro) tenha sido o menos citado exatamente pela falta de conhecimento sobre o os mecanismos de financiamento (6.2.6)

Frente

ao

predominante

desconhecimento

(total

ou

parcial)

das

organizações do movimento negro dos mecanismos de financiamento, 13 informantes refletiram criticamente sobre os motivos causadores dos empecilhos correntes a esse acesso. A burocracia, a centralização de

informações, a existência de critérios excludentes de habilitação, práticas de controle político governamental sobre as organizações do movimento via apoio financeiro, associado a uma despreocupação com investimento em pesquisas que contribuam para o enfrentamento das desigualdades raciais em saúde foram referidas como fatores limitadores em relação ao acesso aos mecanismos de financiamento:
(...) é claro que o apoio financeiro é fundamental, mas é lamentável porque ele está associado a controle e cooptação dos movimentos e as políticas desse tipo são de Estado e não de Governo. Temos conhecimento relativo porque há pouca ou nenhuma transparência sobre esse mecanismos, normalmente as informações são apropriadas e monopolizados por pequenos grupos que não tem nenhum compromisso com a população negra ( 2.2.6). As doenças próprias da população negra e demais oportunistas de condições sociais não são tratadas. Por descaso do governo, raramente se investe em pesquisa ou se direciona tratamento (1.3.6).

Um grupo de painelistas ressalta a necessidade de qualificação para o movimento negro acessar os mecanismos de financiamento:

Para o financiamento de projeto as organizações precisam estar preparadas intelectualmente, documentação e articulação nos conselhos de saúde ou de empresas privadas de onde virá o dinheiro. (1.7.6.)

109

4.5 Indicações sobre potenciais políticas públicas baseadas na avaliação realizada pelas entidades do movimento negro:
O diálogo empreendido possibilitou refletir sobre diversos aspectos das relações possíveis entre o movimento negro e o setor saúde. Na ocasião da confecção do relatório final desta pesquisa, nos foi requerido pelo Ministério da Saúde algumas sugestões políticas públicas pensadas a partir deste diálogo. Baseado em Akerman [97] Quadro 4 sintetiza esta discussão:
Quadro 4 Sugestões de políticas públicas

Questões apresentadas pelo Painel délfico

Sugestões de políticas públicas

Racismo institucional

Ampliação das capacidades institucionais para reconhecer e Identificar o racismo institucional e propor políticas de superação

Formação e qualificação dos profissionais da área da saúde para superação do racismo institucional Qualificação dos Formatação de estratégias de educação permanente para

profissionais de saúde formação e atualização dos profissionais de saúde nas demandas específicas da população negra.

Formatação de estratégias de favorecimento da ampliação da representação negra entre profissionais e gestores da saúde Transversalização ações de Planejamento das ações de saúde que atendam a população negra, baseado no conceito de integralidade.

110

Ampliação das capacidades institucionais no reconhecimento das iniqüidades raciais para o desenvolvimento de políticas de enfrentamento de maneira intersetorial.

.Ampliação da capacidade de articulação entre o governo, organizações da sociedade civil, lideranças comunitárias e legislativo para o planejamento e efetivação de ações intersetoriais e representativas dos interesses e demandas da comunidade negra. Ampliação da eqüidade -Introdução da temática da eqüidade racial nos espaços de em saúde pactuação da saúde.

-Organização

de

ações

de

prevenção,

promoção

e

recuperação da saúde especificas para a população negra Controle social Desenvolvimento da capacidade dos governos, OSCs, lideranças comunitárias e o setor legislativo na ampliação da presença da temática étnico-racial no planejamento

estratégico dos espaços de participação e controle social.

Formatação de estratégias de favorecimento da ampliação da representação negra entre profissionais e gestores da saúde Conhecimento informação e Ampliação da divulgação de pesquisas e dados científicos voltados ao tema da saúde da população negra para as entidades do movimento negro e para os serviços de saúde

Ampliação das capacidades de co-gestão e co-decisão das

111

entidades do movimento negro através do conhecimento dos mecanismos de financiamento das ações da saúde.

Produção de materiais informativos voltados para população negra abrangendo o incentivo à testagem para HIV,

divulgação de locais de tratamento, incentivo ao uso de preservativos, divulgação de locais de distribuição gratuitos.

112

CONCLUSÃO
Este trabalho teve como objetivo conhecer a percepção do movimento negro do ABC Paulista em relação à saúde da população negra. Foram

sondadas as suas agendas prioritárias e relacionadas à temática saúde. Desta forma foi possível captar a percepção do movimento negro à saúde da população negra, identificar possíveis ações de promoção à saúde realizada pelo movimento, e observar o potencial de adesão às ações e parcerias com o setor saúde

O movimento social negro é apresentado pelos informantes como depositário da trajetória histórica empreendida pelos negros brasileiros em suas estratégias de resistência e sobrevivência, ocupado um importante papel como sujeito na promoção da saúde da população negra.

A diversidade

do

movimento

negro aqui

é expressa entre as

organizações ligadas ao movimento hip-hop, às religiões de matriz africana, grupos islâmicos, pastorais, organizações de mulheres negras, setoriais de combate ao racismo de partidos políticos, salões de beleza voltados à população negra, entre outros.

Esta constituição permite uma agenda diversa com enfoques diferenciados de atuação junto ao conjunto da população negra em que se destacam ações voltadas à educação/cultura/conscientização, o desenvolvimento econômico e social e a saúde que aparece como a terceira temática mais citada na agenda.

113

O painel sugere que os informantes têm pouco acesso à literatura produzida sobre saúde da população negra, embora expressem em seus depoimentos a apreensão de importantes categorias analíticas da saúde como vulnerabilidade, determinantes sociais da saúde e racismo institucional.

A hipótese de que algumas organizações não desenvolveriam ações voltadas à saúde por terem outras temáticas prioritárias em sua agenda foi confirmada, porém, algumas entidades, afirmam atuar sobre a saúde a partir de temáticas ligadas aos determinantes sociais da saúde.

Os informantes afirmam que o racismo impregnado no tecido social constitui um fator de vulnerabilidade acrescida pelo racismo institucional presente sobre múltiplas formas no conjunto do setor saúde.

Há, portanto, uma evidente potencialidade de adesão das entidades do movimento negro do ABC Paulista às ações de saúde. 100% das entidades colocam-se nessa posição. Esta adesão, relacionada à constituição diversa do movimento negro, foi apresentada sobre três aspectos complementares: a atuação sobe os determinantes sociais; a atuação comunitária de

sensibilização e multiplicação de informação e as ações voltadas ao controle social.

A concretização desta parceria fica condicionada a dois fatores relevante: em primeiro lugar o reconhecimento e enfrentamento do racismo na sociedade brasileira e do racismo institucional presente no setor saúde; e em segundo lugar a oferta por parte do setor saúde de formação e qualificação das organizações do movimento para atuarem nas tendências acima referidas.

114

Outro fator a ser considerado nesta multiplicidade é o respeito às diferentes formas de atuação e prioridades de cada organização. Um diagnóstico que de conta de captar esta diversidade pode oferecer múltiplos caminhos de interlocução que respeitem a característica e prioridade de cada entidade numa possível parceria.

115

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Se

você

me

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132

ANEXOS

133

ANEXO I

CONSENTIMENTO LIVRE INFORMADO

Título:

Conhecer para incluir: sensibilidade e potencialidades das organizações do movimento negro para a promoção da saúde e prevenção às DST/Aids.

Objetivo geral:

Conhecer a percepção movimento negro do ABC paulista em relação à vulnerabilidade vivida por homens e mulheres negros para as DST/AIDS.

Objetivos específicos:

Mapear as entidades do movimento negro atuantes na região. Conhecer a agenda da saúde do movimento negro do ABC paulista. Captar a percepção do movimento sobre a vulnerabilidade às DST/Aids da população negra.

134

Justificativa:

Nosso objeto de estudo é a receptividade do movimento negro do ABC paulista à temática de DST/AIDS, principalmente no que tange à percepção do seu papel em relação às ações e atividades de prevenção.

Todas as leituras empreendidas a partir dessa temática apresentaram-nos uma ampla bibliografia que fundamenta a leitura sobre as condições de desigualdade social historicamente construída em relação aos brasileiros negros, afro-descendentes, que gerou um contingente enorme de cidadãos que vivem à margem dos sistemas sociais amplos: educação, justiça e saúde.

Procedimentos:

Vsa. foi indicado pela sua instituição para responder à dois tipos de questionários:

1. Instrumento fechado para recolhimento de dados institucionais, tempo de atuação no movimento, experiências de militância etc.

2. Instrumento aberto- prospectivo a ser aplicado em três passagens (rounds):

135

* Primeira passagem - instrumento prospectivo que visa resgatar a historia de mobilização da entidade na área da saúde, conhecimentos sobre DST/AIDS, relação de vulnerabilidade e população negra. Duração: aproximadamente 60 minutos * Segunda e terceira passagens – formuladas a partir das informações obtidas na primeira passagem, aprofundando e integrando temas obtidos nas passagens anteriores. Duração: aproximadamente 60 minutos.

Riscos e desconforto

Não haverá nenhum risco em sua participação neste estudo. Se alguma questão provocar-lhe desconforto sugerimos:

1. Imediato esclarecimento junto ao pesquisador

2. Suspensão da aplicação do instrumento para esclarecimento junto à coordenação da pesquisa.

Confidencialidade:

1. O responsável pelas informações não será citado nominalmente em nenhum momento na publicação desse trabalho 136

2.Sua entidade não será citada isoladamente em nenhum momento na publicação desse trabalho. Ex: A entidade X citou que a saúde da população negra ...

3. A relação das entidades do movimento negro que participaram da pesquisa serão listadas no início do trabalho para divulgação das suas atividades, constando: Nome da entidade, endereço, telefones, missão.

Benefícios:

A participação de sua entidade nessa pesquisa não implicará em benefícios diretos, porém as informações obtidas serão relevantes para ampliarmos as ações de prevenção às DSTs/Aids voltadas à população negra do ABC paulista.

Custos:

A participação de sua entidade nessa pesquisa é totalmente isenta de custos.

Publicação: 137

A explicitação quanto aos procedimentos de divulgação dos resultados está de acordo com as regras descritas no edital Unesco/Ministério da Saúde do processo licitatório 643/2005. ítem 10, que Vsa. está recebendo neste momento.

Consentimento:

Eu

e o pesquisador________________________________, lemos esse

consentimento, foram tiradas todas as dúvidas que apresentei e me disponho a participar voluntariamente da pesquisa.

Data:

Nome do entrevistado:

Nome da instituição:

____________________________________________________________

138

Assinatura do entrevistado/entrevistada

Eu, abaixo assinado, expliquei ao participante indicado o procedimento a ser utilizado nesse estudo e seus objetivos .

Data:

_____________________________________________________________

Assinatura do entrevistador/entrevistadora

139

ANEXO II

QUESTIONARIO: I RODADA DELPHICA

1. Quais são os temas prioritários do movimento negro na atualidade?

2. As entidades do movimento negro do ABC paulista têm em sua agenda a preocupação com a temática da saúde ? Justifique.

3. Sua entidade trabalha com essa temática? De que maneira?

4. Sua entidade tem preocupação com a temática da vulnerabilidade de homens e mulheres negros em relação à aids? Por quê?

5. Para o movimento negro integrar-se às ações de prevenção às IST/Aids o que seria preciso?

( )apoio técnico do setor saúde (Municipal,estadual e federal)

( )apoio financeiro ídem

( ) atualização nesse tema

( ) materiais informativos

( ) participação nos espaços de controle social da saúde

( ) outros

Justifique:

140

6. De que maneira o movimento negro poderia integrar-se à prevenção de ISTs/Aids?

141

ANEXO III

QUESTIONÁRIO II RODADA DELPHICA

Projeto Conhecer para incluir: sensibilidade e potencialidades das organizações do movimento negro para a promoção da saúde e prevenção às DST/Aids.

QUESTÕES PARA SEGUNDA RODADA DE DELPHI 1 A discriminação, pobreza, racismo institucional, machismo, falta de informação e baixa auto estima foram apontadas na primeira rodada como fatores de vulnerabilidade da população negra em relação às DST/Aids.

Qual a avaliação sua entidade faz a partir desta analise?

__________________________________________________________________ __ 2 Alguns participantes do painel afirmam que a consciência racial e a auto estima são fatores de preservação da saúde.

a) Como o conjunto do Movimento Negro faz essa análise?

b) Como sua entidade avalia essa reflexão?

___________________________________________________

142

3 Houve quase unanimidade no painel em apontar a necessidade de qualificação em relação ao tema: Prevenção a DST/Aids na população negra.

Qual a expectativa de sua entidade quanto a essa qualificação?

_________________________________________________________________ 4 Uma questão relevante, destacada na primeira rodada, é a importância do Movimento Negro como interlocutor da população negra e que essa interlocução pode ser facilitadora nas ações de prevenção. Em que sentido isso acontece?

_________________________________________________________________ 5 Uma posição minoritária aponta ser possível trabalhar a Saúde e a Prevenção às DST/Aids associadas à elementos da cultura negra. Como sua entidade avalia essa potencialidade?

__________________________________________________________________ __ 6 Sobre as modalidades de apoio para efetivação desse trabalho o quadro obtido foi o seguinte: Apoio técnico do setor saúde 30 Justificado pela necessidade de fortalecimento (conquista de poder) do Movimento Negro (MN) na efetivação do controle social Atualização no tema 25 Também evidenciando o fortalecimento do MN no controle social e a proximidade dos profissionais da saúde com MN

143

Participação nos espaços de controle social 25 Já existem organizações nesses espaços, mas evidencia-se a necessidade de poder político do MN na construção de ações concretas, assim como a legitimidade do mesmo como interlocutor da pop negra nesses espaços Materiais informativos 24 Foi citada a necessidade de materiais informativos específicos para a população negra Apoio financeiro 24 O apoio financeiro foi apontado como facilitador da participação (locomoção) da população negra nos espaços de controle social, assim como, maior investimento na temática para se objetivar ações.

Baseado nessas avaliações iniciais aprofunde suas reflexões enquanto especialista nas seguintes questões:

a) O apoio técnico do setor saúde foi indicado como relevante para ampliação dos espaços de poder do movimento negro. Qual a expectativa de sua entidade com relação a esse apoio técnico?

_______________________________________________________________

b) Um grupo importante de painelistas apontou a relevância do Movimento Negro apropriar-se dos espaços de controle social, outro grupo, relata a participação

144

do Movimento em ações diretas de prevenção (campanhas, oficinas etc.)

Como sua entidade relaciona estas tendências? Existem prioridades entre elas?

________________________________________________________________

c) O que seria necessário para que o Movimento Negro consolide sua participação em um desses espaços?

________________________________________________________________

d) O item apoio financeiro do setor saúde foi o menos citado entre as modalidades de apoio previstas. Quais as expectativas da sua entidade com relação a esse apoio? Sua entidade tem conhecimento sobre os mecanismos de financiamento para ações de prevenção?

145

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