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DA NORMA PROCESSUAL

Restando claro, de acordo com o que fora visto anteriormente, que


visam às normas sociais a reger o comportamento dos indivíduos em
sociedade, verifica-se que as mesmas haverão de encontrar-se integradas
por normas de características diversas, quais sejam as normas morais,
religiosas, normas do trato social, e por fim, pelas normas jurídicas, as
quais se encontra associado o conceito de jurisdição como forma de
demonstrar claramente a possibilidade de intervenção do Estado, no sentido
de obter a pacificação social, em caso de conflito.
Cumpre destacar, que a existência do mencionado litígio, encontra-
se claramente associada à manifestação de interesses sobre o que haverá de
ser denominado como “bens da vida”, como sendo àqueles que postos além
do conceito de bem material, incluem todas as hipóteses de satisfação de
necessidades humanas.
Justamente, com relação aos referidos bens, verifica-se que o
surgimento do conceito de propriedade privada, anteriormente inexistente
junto das sociedades primitivas, importou no reconhecimento da
necessidade da existência do “poder”, ao qual denominamos Estado, no
sentido de assegura-la.
Sendo certo, que a sociedade na intenção de manter-se haverá de
exigir o estabelecimento de determinada ordem, verifica-se que se constitui
o Direito, num dos meios de que se vale o Estado moderno no sentido de
assegurar a ordem social vigente, mediante conjunto de normas de
valoração do comportamento em sociedade, sendo certo que nem todas as
formas de atuação social, se encontram atendidas pelo mesmo na medida
em que facultada a opção acerca da matéria a ser legislada, ao próprio
legislador.
Ao conjunto destas normas, editadas na intenção do reconhecimento
e garantia de direitos, denomina-se direito material ou substancial, cuja
aplicação encontra-se atribuída ao Estado, em última instância, haja vista
que facultado aos integrantes da sociedade o reconhecimento e
cumprimento voluntário daquilo que naquelas encontra-se previsto, por
conta do fato de que a atuação do Estado no sentido de impor o
cumprimento da norma, mostra-se como potencial.
Daí, conclui-se que o denominado direito material ou substancial,
constitui-se em um sistema normativo de valoração de condutas, que de
acordo com o conceito imposto pelo grupo social dominante, mostram-se
como significativas para a manutenção da ordem social vigente e que em
sendo observadas voluntariamente, evitam a atuação coercitiva do Estado
de maneira a impô-las, incidindo a norma material de forma direta no
sentido da solução dos litígios que venham a eclodir no meio social, diante
da constatação de que, em verdade, mostra-se como a única capaz de gerar
direitos.
Verifica-se, portanto, que a normatividade apresenta-se como
fundamental a existência de qualquer grupo social organizado, sem a qual
haveríamos de enfrentar o caos, na medida em que o comportamento
individualista e subjetivo dos indivíduos decerto prejudicaria o interesse da
sociedade.
Ao ignorarem os indivíduos as normas de direito substancial ou
material, surgem os conflitos os quais como visto anteriormente haverão de
se encontrar decididos preferencialmente a partir da jurisdição,
encontrando-se a mesma associada à existência do processo.
Daí, temos que as normas instrumentais ou processuais, contribuem
apenas, de forma indireta para a solução dos litígios, na medida em que
incapazes de gerar direitos além do processo, disciplinam a criação e
atuação das regras jurídicas a serem aplicadas ao caso concreto, com o
estabelecimento de critérios de modo a disciplinar os atos de vontade dos
órgãos jurisdicionais e partes.
No que se refere à adoção tanto das normas materiais quanto das
normas processuais, do ponto de vista da atividade jurisdicional, verifica-se
que eventual equívoco com relação as primeiras, constitui-se em “error in
judicando”, expressão que deriva do latim, significando “erro no
julgamento”, como no caso em que pretendida a anulação de determinado
negócio jurídico eivado por vício ou defeito, no caso dolo, de acordo com o
que dispõem os art.s 145/150, do Ncc, sendo este o emprego de artifício ou
sugestão de modo a induzir ou manter alguém em erro, deixa o julgador de
considera-lo para conferir validade ao mesmo, quanto as últimas em
havendo sido desconsideradas, ensejam o reconhecimento do “error in
procedendo”, como no caso em que em afronta ao princípio do
contraditório, havendo sido alegada qualquer das hipóteses do art. 301,
CPC, pelo réu em contestação, ignorar a necessidade de manifestação do
autor a respeito do fato, pelo que preceitua o teor do art. 327, do mesmo
estatuto.
Tem-se, por conseguinte, que o objeto da norma processual se
constitui no processo, tido como entidade complexa, integrada pelo
procedimento e pela relação jurídica processual, encontrando-se tanto o
processo como o procedimento previstos junto aos códigos de processo,
sejam estes o CPC, pelo que dispõem os art.s 270 e seg.s, CPP e CLT, no
que se refere a parte instrumental, constituindo-se o procedimento no
conjunto de normas que haverão de reger não só a atividade das partes,
como, também, a forma de atuação do julgador, dos serventuários e
auxiliares da Justiça.
No que se refere ao processo, verifica-se que além da definição no
sentido de que se constitui em atividade desenvolvida pelo Judiciário,
sendo, portanto, meramente um conceito o qual se vale dos preceitos ou
regras estabelecidas pelo procedimento, de forma a materializar-se,
encontra ainda, como forma de esclarece-lo a afirmação no sentido de que
trata-se de entidade complexa composta pelo procedimento e pela relação
jurídica processual, a qual integram autor, estado-juiz e réu, interligados na
forma do pedido imediato ou próximo, dirigido pelo autor ao Estado, no
sentido de que seja atendido pela aguardada prestação ou provimento
jurisdicional traduzida na forma de sentença, que haverá de corresponder a
definitiva ou meritória, sendo que a esta encontram-se associados 03 (três)
efeitos distintos, quais sejam, constitutivo, declaratório e condenatório,
assim como na forma do pedido mediato, que vem a ser aquilo que
pretende o autor obter diretamente do réu.
Assim, haverá de ser conceituado o direito processual, como sendo o
conjunto de normas que tem por objeto disciplinar os atos de vontade dos
órgãos jurisdicionais e das partes, de maneira a produzir o fim último do
processo, qual seja a solução dos litígios a partir da jurisdição, com a
aplicação do direito ao caso concreto.
No que se refere à competência para legislar acerca do direito
processual, da forma com visto anteriormente, encontra-se estabelecida
pelo que dispõe o art. 22, inciso I, da carta política de 1988, privativamente
com relação à União, na forma de processo legislativo a cargo do
Congresso Nacional, contemplando as espécies normativas previstas pelo
art. 59, da C.F/88, dentre as quais se destaca a lei ordinária estando a
mesma relacionada aos códigos de processo, no caso específico do CPC.
Ao afirmar o legislador constituinte originário, junto ao texto do
dispositivo em destaque acima referido, que compete em caráter privativo a
União, enquanto ente federativo, legislar acerca de direito processual, em
verdade, pretende traduzir não o sentido de exclusividade atribuído a tal
atuação, enquanto aquele que exclui qualquer outro, inclusive, pelo que
dispõe o parágrafo único do art. 22, da C.F/88, mas sim, em caráter
peculiar ou próprio, haja vista que estabelece a doutrina distinção entre
competência privativa e exclusiva, sendo àquela delegável enquanto que a
última, apresentando-se de maneira diversa, mostra-se como indelegável.
Ao mencionar-se a criação ou surgimento da norma processual,
haverá de ser abordada a questão da fonte da referida norma, havendo de
ser compreendida a expressão como ponto a partir do qual se origina ou se
vê reconhecida à existência do direito processual.
Com efeito, verifica-se que de acordo com a doutrina predominante,
reconhecida como fonte formal do direito processual, a lei, admitindo-se
em menor escala a influência dos usos e costumes ou costume jurídico,
também, reconhecidos como tal.
Ao tratar-se do negócio jurídico, conceituado como ato que decorre
da livre manifestação de vontade emanada de uma ou mais pessoas, que se
obrigam a determinada prestação jurídica, visando a um objetivo comum,
como fonte do direito processual, verifica-se que em hipóteses limitadas, a
exemplo do que ocorre com a eleição do foro ou Juízo, relacionada à
questão contratual, se comprova que o surgimento de condição nova a
incidir diretamente sobre as regras de competência, notadamente no que diz
respeito ao CPC, art. 111, caput e parágrafo 1º, que haverá de prevalecer
estritamente entre as partes contratantes.
Quanto à existência de fonte material do direito processual, verifica-
se que atenderá aos mesmos critérios aplicáveis ao direito substancial ou
material, sendo àquela as instituições ou entidades a partir das quais se
originam as normas instrumentais, quais sejam as casas legislativas no que
diz respeito à lei escrita e a própria sociedade no que tange ao costume
jurídico.
Pelo que se percebe do objeto do estudo desenvolvido, encontra-se
adstrita a matéria as fontes formais do direito processual, diante da escassez
de hipóteses associadas a incidência dos costumes sobre o direito
processual, sendo este aquele onde se poderão encontrar as regras
associadas ao assunto.
No que se refere à validade da norma instrumental, seja com relação
ao critério de espaço físico ou da eficácia temporal, encontra a mesma
limitações claramente estabelecidas pelo ordenamento processual.
Com relação à eficácia da lei processual no espaço ou no território
nacional, encontra correspondência justamente no princípio da
territorialidade acerca do qual dispõem os art.s 1º, dos códigos de processo
penal e civil, sendo certo que os efeitos daquela seja no que se refere ao
CPP, CPC e CLT, junto à parte instrumental desta, serão estendidos por
todo o país.
Cumpre destacar, que se trata em verdade, de conceito de
territorialidade moderada, contemplado pela LICC (Dec-Lei. 4.657/42), a
partir do art. 7º até o último, versando sobre direito internacional privado.
No que se refere à extra-territorialidade, trata-se de hipótese de
exceção a depender de acordo internacional ao qual venha o país a
subscrever, considerando a prática de atos que não venham a ofender a
soberania nacional, dos quais cita-se como exemplo o exequatur associado
ao cumprimento das formas de comunicação dos atos processuais, pelo que
dispõe o art. 12, § 2º, da LICC (Dec-Lei 4.657/42), assim como relacionado
a homologação de sentença estrangeira, pelo que prevê o art. 15, do mesmo
codex, no caso da facilitação do cumprimento dos atos de comunicação
processual ou da homologação de sentença estrangeira, no presente a cargo
do STJ, por força da EC nº 45/04.
Quanto ao que tange a validade da norma processual no tempo, tem-
se inicialmente que, de acordo com o art. 2º, da LICC, verifica-se que a
norma haverá de manter-se como parte do ordenamento até que outra a
modifique ou revogue, salvo no caso de tratar-se de lei de vigência
temporária.
Assim sendo, verifica-se que a norma haverá de ser substituída por
outra, parcial ou integralmente, produzindo a mesma efeitos adiante no
tempo, atendidos pela denominação de “ex nunc” (“...de agora em diante,
sem efeito retroativo”) não se admitindo a retroatividade, havendo ainda,
de encontrarem-se respeitados, por força do que dispõe o art. 5º, inciso
XXXVI, da C.F/88, a coisa julgada, o ato jurídico perfeito e o direito
adquirido.
Apenas, a título de informação, cabe frisar que se admite
excepcionalmente, com relação a norma material ou substancial penal, a
hipótese de retroatividade dos efeitos desta, efeitos “ex tunc” (“...desde
então, com efeito retroativo”), portanto, como no caso da lei penal mais
benéfica a figura do acusado, de acordo com os termos do art. 5º, inciso
XL, da C.F/88, “...a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o reú”
e art. 2º, do CP ,“ninguém será punido por fato que lei posterior, deixar de
considerar como crime” – “abolitio criminis”, dos quais cita-se como
exemplo o caso do adultério e da sedução, tratados respectivamente
anteriormente pelos art.s 240 e 217, revogados pelo advento da Lei
11.106/05.
Tem-se, portanto, que os efeitos da lei processual estando a mesma
relacionada ao direito processual penal, civil ou trabalhista, projetam-se
somente adiante, sem prejuízo do reconhecimento da validade dos atos
praticados sob a égide da lei anterior.
Considerando-se o fato de que os efeitos da norma processual,
haverão de encontrar-se reconhecidos a partir do início de sua vigência,
necessário o estabelecimento de diferenciação entre o uso das expressões
eficácia e vigência, também, conhecida por validade.
Com efeito, verifica-se que reconhecida a validade ou vigência da
norma processual a partir do momento de sua publicação junto a um dos
órgãos da imprensa oficial, até o momento em que outra venha a sucede-la
ou modifica-la, de acordo com o que prevê o art. 2º, da LICC, mantida a
mesma junto do ordenamento jurídico.
De outro lado, apresenta-se o início da eficácia da norma
instrumental, imediatamente, quando assim o dispuser o legislador, ou em
caso de omissão, de acordo com o que estabelece o art. 1º e § 1º, da LICC,
45 (quarenta e cinco) dias após a publicação ou em território estrangeiro,
quando assim o admitirem os demais países, por força de tratado ou
convenção, 03 (três) meses após a publicação verificada.
Conclui-se, portanto, que no caso de admitir-se que o início da
vigência da norma instrumental, a qual não se confunde com a eficácia da
mesma, não ocorra de maneira imediata, haverá um período variando de 45
(quarenta e cinco) dias a 03 (três) meses, conforme o caso, podendo
estender-se até lapsos de tempo mais longos, como se dera com a Lei
11.232/05, que passara a vigorar 06 (seis) meses contados da data da
publicação, 23.12.2005, no qual apesar de reconhecer-se a norma nova a
validade decorrente da publicidade a qual lhe permitira ingressar no
ordenamento jurídico, os efeitos desta somente passaram a ocorrer após o
decurso do interregno estabelecido pelo legislador, ou ainda, em caso de
omissão atendendo aos critérios retro-mencionados.
Cumpre destacar, que a partir do advento da Lei Complementar
95/98, notadamente pelo que estabelece o art. 8º, desta, que resta obrigado
o legislador a informar expressamente o momento a partir do qual passara a
lei editada a produzir efeitos.
Desta maneira, ao período no qual ainda, que reconhecida a validade
ou vigência da norma processual, não passara a mesma a produzir efeitos,
denomina-se de “vacatio legis” (leia-se vocácio légis), entendido como
lapso no qual encontra-se dispensada ou isentada (vacância), a aplicação da
lei nova, estando ainda, regidos os casos sujeitos a incidência desta, a lei
anterior.
Considerando tratar-se o direito de uma “linguagem”, através da qual
na forma da norma jurídica, externado pelo legislador determinado
comando social de maneira a que os indivíduos se vejam adaptados as
expectativas da coletividade, impõe-se venha a mesma a ser “traduzida” de
modo a que se compreenda seu verdadeiro significado.
Conclui-se, portanto, ser a base de todo problema de natureza
jurídica, o entendimento divergente manifestado pelos operadores do
Direito, sejam estes o professor, o advogado, o promotor ou o juiz, enfim,
no sentido da interpretação, e por conseqüência, do estabelecimento do
significado de determinada norma jurídica.
Ao processo pelo qual se extrai o significado e/ou alcance da norma
jurídica, de modo geral e em especial da norma processual, denomina-se de
hermenêutica jurídica ou exegese, indo, portanto, além do conceito
dicionarizado da própria expressão “hermenêutica”, haja vista que se limita
a exploração minuciosa daquela, exclusivamente.
Assim, temos que haverá de ser definida interpretação como o
processo lógico de modo a estabelecer o sentido e a vontade da lei.
Considerando-se a necessidade da interpretação da norma jurídica, a
doutrina reconhece os processos de interpretação de acordo com critérios
variáveis, quais sejam quanto aos elementos, quanto aos resultados e
quanto aos sujeitos.
No que se refere à interpretação quanto aos elementos, verifica-se
encontrar-se a mesma classificada como gramatical, lógica e sistemática.
Quanto à interpretação gramatical, também, dita literal, trata-se do
ponto de partida a partir do qual se busca a compreensão do significado da
norma através da compreensão do sentido das palavras que a compõe,
citando-se à titulo de exemplo, a análise dos termos do art. 286, inciso II,
do CPC.
De acordo com o dispositivo indigitado, verifica-se que pelo que
dispõe o caput, todo pedido haverá de ser certo e determinado, haja vista
que a doutrina remansosa, indica que haverá por imperfeição técnica, de ser
substituída a conjunção alternativa “ou”, empregada pelo legislador, pela
aditiva “e”, salvo “...quando não for possível determinar, de modo
definitivo, as conseqüências do ato ou fato ilícitos”.
Buscando-se a exata compreensão das palavras que integram o
dispositivo, verifica-se que “determinar”, nos traz pelo próprio sentido
dicionarizado, o significado de “delimitar, fixar, estabelecer”, traduzindo
“...de modo definitivo”, como sendo “conclusivo, concludente,
categórico”.
No que se refere as “...conseqüências do ato ou fato ilícitos”,
verifica-se que o uso da expressão, faz referência a existência dos danos,
sua extensão e o valor correspondente.
Quanto ao que tange a interpretação lógica, em sendo a lei a
manifestação da vontade traduzida através de palavras, haverá de buscar a
vontade ou espírito da lei ou mens legis, e não a vontade do legislador ou
mens legislatoris, da qual se destaca a mesma após a edição do texto,
alcançando autonomia.
Cabe ainda, ao processo lógico de interpretação buscar a adequação
da norma jurídica a ser interpretada, a partir da dedução do significado ou
sentido da lei, concluindo pela compatibilidade desta com o ordenamento
ao qual integrará.
A título de exemplo, cita-se o caso da lei 11.232/05, cujo texto
informa da intenção manifestada pelo dispositivo no sentido de facilitar, a
partir de “ponte” estabelecida entre o processo de conhecimento e o
processo de execução, com relação dos títulos executivos judiciais, a
adoção das medidas oportunizadas ao credor de modo a que venha o
mesmo a obter a satisfação do crédito assegurado por conta de título
executivo judicial, inserindo-se no contexto já anteriormente estabelecido
pelo CPC visando à convivência harmoniosa dentro do sistema jurídico.
Menciona-se ainda, a interpretação do texto do art. 21, do CPC, a
partir do qual se depreende que o ônus da sucumbência recíproca, haverá
de ser rateado entre os litigantes, no caso do julgamento da procedência
parcial do pedido.
Já no que se refere à interpretação sistemática, decorre claramente da
necessidade de adequação das normas que integram o mesmo ordenamento
jurídico, de maneira a estabelecer-lhes o conteúdo, de modo a que estejam
as mesmas coadunadas com as demais, com o intuito de harmonizar a dita
norma com os princípios informativos e constitucionais do processo, com o
escopo de obter Justiça, a exemplo do que ocorrera com a interpretação do
parágrafo único do art. 14, parágrafo único, do CPC, ao asseverar o STF, a
partir da propositura de Adin nº 2652-6, pela ANAPE – Associação
Nacional dos Procuradores de Estado, que não apenas, os causídicos
particulares, como também, àqueles do setor público que além de
sujeitarem-se ao estatuto da Ordem dos Advogados, são regidos por
legislação própria estabelecida por cada ente da federação como ocorre
com os procuradores dos estados, encontram-se, outrossim, afastados da
incidência da norma em comento.
Quanto aos resultados, a interpretação haverá de ser restritiva ou
extensiva, conforme se pretenda limitar ou estender a aplicação do texto
legal.
Daí, temos que como exemplo de interpretação restritiva apresenta-
se a necessária análise do teor do art. 312, do CPP, a partir do qual se
permite concluir que, tão-somente aos casos em que risco considerável a
ordem pública, haverá de ser decretada a custódia cautelar, estando
afastadas as demais hipóteses, tais como clamor social, gravidade do delito,
exemplaridade, periculosidade do agente, desassossego, temor geral,
espanto, perplexidade, abalo ou inquietação social etc.
Ao falar-se em interpretação extensiva, verifica-se que há a
necessidade de alargar-se o texto legal de maneira a que sejam
contempladas outras situações não-previstas claramente pelo legislador,
citando-se como exemplo, o caso da interpretação do art. 254, do CPP,
apresentando-se o rol das circunstâncias a partir das quais reconhecida a
suspeição do órgão jurisdicional, como meramente exemplificativo.
Com efeito, verifica-se que pelo rol previsto de acordo com o
referido dispositivo, ao falar-se nas causas de suspeição do juiz, que se
encontra o mesmo sujeito ao reconhecimento espontâneo das condições ali
descritas a exemplo do que ocorre com àquele julgador que mantiver
amizade íntima ou inimizade capital com qualquer das partes, a
comprometer a imparcialidade do julgamento, ou em caso contrário, que
venha a ser recusado pelas partes.
Ocorre, que pelo que dispõe o art. 5º, inciso XXXVIII, da C.F/88,
alínea “d”, estabelecido que reconhecido aos jurados que compõe o
Conselho de Sentença que integra o Tribunal do Júri, o status de julgadores,
estarão também àqueles sujeitos as mesmas causas de suspeição que
atingiriam o juiz togado, ainda, que diante da inexistência de previsão
legal.
Quanto aos sujeitos, ou seja, com relação àqueles que haverão de
estar procedendo a interpretação da norma processual no sentido de
permitir a definição exata do alcance desta no sentido de aplica-la,
apresentam-se a interpretação legislativa, judicial ou doutrinária.
No que se refere à interpretação legislativa, verifica-se que, também,
denominada de autêntica, haverá de partir do próprio legislador ao qual
coube a edição da norma, no sentido de julga-la compatível, ou não, com o
ordenamento.
Pelo que tange a interpretação judicial, caberá aos juízes no exercício
da atividade jurisdicional.
Por fim, a interpretação doutrinária haverá de caber aos
jurisconsultos.
Fora dos limites estabelecidos pelos critérios de interpretação acima
mencionados, figura a interpretação teleológica, ou seja, aquela que associa
um argumento ao seu resultado final, a ser empregada no sentido de
identificar o fim social da lei, compatibilizando-a obrigatoriamente com os
termos do art. 3º e incisos da C.F/88, ao tratar dos objetivos fundamentais
do Estado, dentre os quais se destaca a necessidade de construir uma
sociedade livre, justa e solidária, assim como estando a mesma associada
aos termos do art. 5°, da LICC, no sentido de que o juiz na aplicação da lei
haverá de atentar aos fins sociais do direito, assim como as exigências do
bem comum de modo a pesquisar o fim social da lei, elegendo
interpretação mais adequada da decisão judicial a realidade social,
conforme ocorre com a análise dos termos do art. 84, da Lei 10.741/03
(Estatuto do Idoso), ao concluir que tanto as multas de cunho civil,
estabelecidas em sede de ação civil pública, como as cunho penal, em
decorrência de infrações cometidas em desfavor dos idosos, haverão de
reverter ao fundo estabelecido para tanto.
Considerando-se o Direito como reflexo do ordenamento jurídico do
qual se serve, verifica-se que deverão existir normas em número suficiente
de maneira a atender a necessidade social.
De outro lado, no que se refere à lei conclui-se que não atende a
mesma a todas as situações sociais, diante da inviabilidade da imposição do
cumprimento de um número exagerado de dispositivos legais.
Considerando-se o fato, verifica-se que determinadas situações do
cotidiano estariam legadas ao desamparo, não fosse à necessidade de que
pelo que dispõe o art. 126, do CPC, estivesse a proceder o julgador a
prolação de decisões independentemente da eventual existência de lacuna
ou obscuridade da lei.
Assim, diante da necessidade do preenchimento das eventuais
lacunas no texto legal, impõe-se a adoção dos critérios de integração da
norma, quais sejam a analogia e os princípios gerais do direito.
No que se refere ao primeiro, verifica-se que a utilização de regra
jurídica relativa à hipótese semelhante decorre da coerência na formulação
da norma, a exemplo do que ocorre quando pretender a parte a recusa do
julgador valendo-se para tanto da exceção de impedimento ou de suspeição
conforme o caso, apresentando prova documental ou do rol de testemunhas,
nos termos do art. 98, do CPP.
Mostrando-se silente o estatuto processual penal a respeito do
número de testemunhas a que se refere o dispositivo indigitado, ou seja
diante da inexistência de norma jurídica a tratar da matéria, em face da
impossibilidade de deixar de pronunciar-se o juízo proferindo decisão a
respeito, pelo que prevê o art. 126, do CPC, aplica-se por analogia o que
dispõe o art. 407, parágrafo único, deste último, com o número de 03 (três)
testemunhas para cada fato que se pretenda comprovar.
Cumpre frisar, que se estabelece como forma de distinção entre a
interpretação extensiva e a analogia, como forma de integração, haja vista
as semelhanças existentes entre ambos institutos, o fato de que no que se
refere a primeira existe texto legal redigido utilizando-se de linguagem que
limita a exata compreensão do alcance do mesmo, enquanto no que se
refere ao último não há norma específica aplicável a espécie.
Destaca-se ainda, a existência da denominada interpretação
analógica, através da qual por expressa determinação do legislador, a
exemplo do que ocorre com o art. 254, II, do CPP, busca-se o entendimento
necessário a partir da identificação de semelhança entre a questão a ser
decidida e outro fato análogo.
Quanto aos princípios gerais do direito, compreendem não somente
os preceitos atuais aplicáveis ao ordenamento jurídico de modo geral,
como, também, àqueles referentes ao ordenamento anterior, ou ainda, os
preceitos relativos ao direito natural, sendo, outrossim, forma de integração
da norma processual.