PROCESSO PENAL
AULA 01
INQUÉRITO POLICIAL
O tema de Inquérito policial está previsto no Código de Processo Penal entre os artigos 4º ao 23.
A Polícia Judiciária trabalha com a ideia de que é preciso desvendar a autoria, a existência e as
circunstâncias em que o delito foi perpetrado. Sendo assim, o inquérito policial nada mais é que
um procedimento que materializa e instrumentaliza o trabalho da Polícia Judiciária, ou seja, é a
forma pelo qual se trabalha para chegar à autoria, a materialidade e as circunstâncias do delito.
- CONCEITO DE INQUÉRITO POLICIAL:
Cuida-se de um procedimento preparatório da ação penal, de caráter administrativo, conduzido
pela polícia judiciária e voltado à colheita preliminar de provas para apurar a prática de uma
infração penal e sua autoria.
O inquérito policial é precisamente o “procedimento administrativo de caráter inquisitório, cuja
finalidade é fornecer ao Ministério público, elementos de informação para a propositura de ação
penal” (AgRg no HC 665.195/SP, Rel. Ministro Jesuíno Rissato (Desembargador convocado do
TJDFT), Quinta Turma, julgado em 24/8/2021, Dje, 30/8;2021)
Todavia, o previsto acima, só não é totalmente adequado porque existem crimes cuja figura do
acusador reside no ofendido e não necessariamente no Ministério Público. Na maioria das vezes,
a figura do acusador reside no Parquet, entretanto, há alguns crimes que a vítima, por intermédio
do seu advogado, exerce a posição de polo ativo da relação processual. Sendo assim, o conceito
mais completo para Inquérito Policial seria “procedimento preparatório de natureza inquisitiva,
que reúne elementos de autoria e materialidade para subsidiar a propositura da ação penal” e
não necessariamente da ação penal proposta pelo Ministério Público, uma vez que a ação penal
pode ser proposta tanto pelo Ministério Público, quanto pelo ofendido por intermédio do seu
advogado.
Nos termos do artigo 4º do código de processo penal, a polícia judiciária será exercida pelas
autoridades policiais no território de suas respectivas circunscrições e terá por fim a apuração das
infrações penais e da sua autoria. Conforme disposição do parágrafo único deste mesmo artigo, a
competência definida neste artigo não excluirá a de autoridades administrativas, a quem por lei
seja cometida a mesma função.
Desta feita, não há dúvidas de que o principal método de investigação das práticas delitivas é o
Inquérito Policial, uma vez que este instrumentaliza a atividade da polícia judiciária que tem
exatamente a função constitucional de colher os elementos de autoria e de materialidade.
Contudo, é preciso destacar que existem outros métodos de investigação que não a do Inquérito
Policial, por exemplo, o Inquérito Policial Militar, ou as atividades desenvolvidas pelas Comissões
Parlamentares de Inquérito, ou as investigações que correm no seio do Ministério Público, ou
ainda as atividades exercidas pelas autoridades aduaneiras e alfandegárias. Todas essas
atividades podem resultar em atividade investigativa, entretanto, quando se fala em Inquérito
Policial este é o principal método investigativo o qual é presidido pelo Delegado de Polícia de
Carreira.
Nos termos do artigo 2º da Lei nº 12.830/2013, as funções de polícia judiciária e a apuração de
infrações penais exercidas pelo delegado de polícia são de natureza jurídica, essenciais e
exclusivas de Estado. Conforme disposição do parágrafo primeiro deste mesmo artigo, ao
delegado de polícia, na qualidade de autoridade policial, cabe a condução da investigação
criminal por meio de inquérito policial ou outro procedimento previsto em lei, que tem como
objetivo a apuração das circunstâncias, da materialidade e da autoria das infrações penais.
Sendo assim, a própria lei admitiu a possibilidade do delegado de polícia presidir outro
procedimento que não exclusivamente o inquérito policial. Existe outro método para uma primeira
abordagem em relação a delitos, notadamente, os delitos de menor potencial ofensivo, de forma
que, ao invés da lavratura, de instauração e condução de um inquérito policial, haverá a lavratura
de um Termo Circunstanciado de Ocorrência- TCO. Vale ressaltar que o Supremo Tribunal
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Federal já decidiu que o TCO não é privativo da Polícia Judiciária, sendo somente o Inquérito
Policial de presidência exclusiva do Delegado de Polícia de Carreira, podendo o TCO ser lavrado
pela Polícia Militar, sendo decisão tanto do STF quanto do CNJ neste sentido. Há decisões
também que especificamente no caso do artigo 28 da Lei nº 11.343/2006 a prioridade para
lavratura do TCO para o delito de detenção da droga para uso próprio é da lavratura pelo Juiz.
O Delegado de Polícia como presidente do Inquérito Policial, evidentemente, terá uma série de
providencias que poderão ser adotadas no curso da investigação. Nos termos do parágrafo
segundo do artigo 2º da Lei nº 12.830/2013 está previsto que durante a investigação criminal,
cabe ao delegado de polícia a requisição de perícia, informações, documentos e dados que
interessem à apuração dos fatos.
Conforme disposição do parágrafo quarto do artigo 2º da Lei supracitada, o inquérito policial ou
outro procedimento previsto em lei em curso somente poderá ser avocado ou redistribuído por
superior hierárquico mediante despacho fundamentado por motivo de interesse público ou nas
hipóteses de inobservância dos procedimentos previstos em regulamento da corporação que
prejudica a eficácia da investigação. Nos termos do parágrafo quinto, a remoção do delegado de
polícia dar-se-á somente por ato fundamentado. A ideia deste parágrafo é evitar que o delegado
de polícia seja retirado de uma delegacia e colocado em outra sem uma explicação, as vezes
como forma de retaliação.
O parágrafo sexto do artigo 2º da referia Lei, prevê que o indiciamento, privativo do delegado de
polícia, dar-se-á por ato fundamentado, mediante análise técnico-jurídica do fato, que deverá
indicar a autoria, materialidade e suas circunstâncias. O indiciamento ocorre quando na
análise técnico-jurídica do fato e colheita de todas as provas possíveis dentro do contexto tudo
indicar que o investigado é o autor do delito ou participou de alguma forma. Sendo assim,
repousa sobre a figura do investigado elementos que apontam para sua autoria ou participação
no delito. Via de regra, o indiciamento ocorre ao final do Inquérito Policial com a confecção do
relatório, pois é neste momento que o Delegado de Polícia contará como o inquérito “nasceu” e
indicará se tudo o que foi colhido e investigado aponta para a figura do investigado ou não.
Todavia, há situações em que o indiciamento surgirá no meio do Inquérito Policial, com a
prolação de um despacho por meio do Delegado de Polícia, ou até mesmo logo após a
instauração do Inquérito Policial, pois, às vezes, a instauração do Inquérito Policial se inicia de
uma apresentação espontânea da pessoa que praticou o delito, sendo apurado e investigado
neste caso as circunstâncias do delito e não mais a autoria.
Vale ressaltar que não obstante o inquérito policial ser o principal método de investigação não é o
único, sendo outras investigações criminais:
º Militares (inquérito militar);
º Os chefes de repartições públicas ou corregedores permanentes;
º Ministério público;
º Comissões parlamentares de inquérito;
º O inquérito no caso de infração cometida na sede ou dependência do Supremo Tribunal Federal
(RISTF, art. 43);
º Súmula 397: o poder de polícia da Câmara dos deputados e do Senado federal, em caso de
crime cometido nas suas dependências, compreende, consoante o regimento, a prisão em
flagrante do acusado e a realização do inquérito.
- INSTAURAÇÃO DO INQUÉRITO POLICIAL
O Delegado de Polícia não é onipresente e nem onisciente. Sendo assim, a notícia de que um
fato supostamente criminoso aconteceu precisa chegar ao seu conhecimento para que ele possa
tomar providências. O fato é supostamente criminoso, pois há casos em que, por exemplo, um
indivíduo atira em outro, pois tem alguém com uma arma em sua cabeça o mandando fazer isso,
sendo caracterizado neste caso a coação moral irresistível. Sendo assim, o fato supostamente
criminoso precisa da investigação, sendo esta feita pelo Inquérito Policial.
O elo entre o fato supostamente criminoso e a autoridade policial é chamado de Notitia Criminis,
sendo espécies desta:
a) Notitia criminis de cognição direta ou imediata: ocorre quando a própria autoridade policial tem
conhecimento direto da prática delitiva. Esta corte superior de justiça;
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b) Notitia criminis de cognição indireta ou mediata: ocorre quando alguém dá ciência a autoridade
policial;
c) Notitia criminis de cognição forçada: Suponha que a Polícia Militar deu voz de prisão a um
indivíduo, o deteve e o conduziu perante a autoridade policial. Neste caso, há a Notitia criminis de
cognição forçada, pois esta ocorre quando alguém é apresentado perante a autoridade da polícia
judiciária sob o argumento de que estava em situação flagrancial.
Vale ressaltar que apesar da denúncia anônima ser uma forma de Notitia Criminis, ela não tem
força para ensejar a imediata instauração de inquérito policial. Diante de uma denúncia anônima,
a autoridade policial primeiro deve averiguar se há, realmente, uma plausibilidade na Notitia
Criminis e a partir disto iniciar as investigações.
“A notícia anônima sobre eventual prática criminosa, por si só, não é idônea para a instauração
de Inquérito Policial ou deflagração da ação penal, devendo ser embasada por procedimentos
investigativos preliminares em busca de indícios que corroborem as informações” (RHC
107.194/SP, Rel. Ministro Feliz Fischer, Quinta Turma, julgado em 12/3/2019, DJe 19/3/2019).
“ Esta Corte Superior de Justiça com supedâneo em entendimento adotado por maioria pelo
Plenário do Pretório Excelso nos autos do inquérito n. 1957/PR, tem entendido que a notícia
anônima sobre eventual prática criminosa, por si só, não é idônea para instauração de inquérito
policial ou deflagração da ação penal, prestando-se, contudo, a embasar procedimentos
investigatórios preliminares em busca de indícios que corroborem as informações da fonte oculta,
os quais tornam legítima a persecução criminal estatal.” (RHC 72.854/SP, Rel. Ministro Jorge
Mussi, Quinta Turma, julgado em 19/09/2017, DJe 27/09/2017)
“Persecução penal e delação anônima – viabilidade, desde que a instauração formal do
procedimento investigatório e a produção probatória tenham sido precedidas de averiguação
sumária, “com prudência e discrição”, destinada a apurar a verossimilhança dos fatos delatados e
da respectiva autoria - apuração preliminar efetivada pela autoridade competente – doutrina -
precedentes do Supremo Tribunal Federal.” (HC 135969 AgR, Relator (a): Min. Celso de Mello,
Segunda Turma, julgado em 29/11/2016, Processo eletrônico, DJe-017 DIVULG 31-01-2017
PUBLIC 01-02-2017)
Suponha que houve uma Notitia criminis idônea ou uma denúncia anônima precedida de uma
averiguação preliminar. Neste caso, a Autoridade Policial determinará a abertura do inquérito
policial, podendo este ser instaurado, inclusive, de ofício. O Delegado de Polícia adota este
procedimento por intermédio de uma portaria.
O inquérito policial necessariamente se inicia por portaria ou auto de prisão em flagrante. O
inquérito policial se inicia por auto de prisão em flagrante nos casos em que alguém foi detido,
recebeu voz de prisão, foi conduzido perante a autoridade da polícia judiciária e o delegado
entender que é caso de lavrar o auto de prisão em flagrante, consoante o artigo 304 e seguintes
do Código de Processo Penal.
Quando não ocorrer a prisão em flagrante, o inquérito policial será aberto por portaria, sendo esta
um termo de abertura que registra que um indivíduo compareceu informando um acontecimento,
não necessitando de provocação para a abertura de inquérito por portaria. Entretanto, o Código
de Processo Penal prevê, para além da instauração da portaria de ofício, a possibilidade de que o
Ministério Público e a autoridade judicial possam requisitar a abertura de um inquérito. Além
disso, é possível também que compareça à Delegacia a vítima do delito, ou a vítima por
intermédio do seu representante legal, ou até mesmo os sucessores da vítima, noticiando o fato
criminoso e pedindo providencias.
É importante se atentar ao fato de que o Ministério Público e a autoridade judicial fazem a
requisição para a abertura do inquérito dirigido ao delegado, enquanto a vítima, ou quem tem
qualidade para representá-la, faz o requerimento, sendo este um pedido e, como tal, pode ser
indeferido. O parágrafo segundo do artigo 5º do CPP prevê que do despacho que indeferir o
requerimento de abertura de inquérito caberá recurso para o chefe de polícia.
É plenamente possível que o requerimento seja feito de modo verbal, sendo este reduzido a
termo. Nos termos do parágrafo primeiro do artigo 5º do CPP, o requerimento a que se refere o nº
II conterá sempre que possível: a narração do fato, com todas as circunstâncias; a
individualização do indiciado ou seus sinais característicos e as razões de convicção ou de
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presunção de ser ele o autor da infração, ou os motivos de impossibilidade de o fazer; a
nomeação das testemunhas, com indicação de sua profissão e residência.
O parágrafo terceiro do artigo 5º do CPP traz o conceito da Notitia Criminis ao prevê que qualquer
pessoa do povo que tiver conhecimento da existência de infração penal em que caiba ação
pública poderá, verbalmente ou por escrito, comunicá-la à autoridade policial, e esta, verificada a
procedência das informações, mandará instaurar inquérito.
Em alguns crimes, a atividade persecutória do Estado só pode ser desenvolvida se a vítima
concordar, por exemplo, o crime de estelionato. Com o Pacote Anticrime, a regra é que o
estelionato seja de ação pública condicionada à representação. Sendo assim, o Inquérito Policial
só pode ser instaurado se a vítima manifestar o seu direito de representação, conforme
disposição do parágrafo quarto do artigo 5º do CPP. O mesmo ocorre nos crimes de ações
privadas, em que a autoridade policial somente poderá proceder a inquérito a requerimento de
quem tenha qualidade para intentá-la, nos termos do parágrafo quinto do artigo 5º do CPP. Desta
feita, o Delegado de Polícia só pode instaurar inquérito de Polícia de ofício quando a ação penal
for pública incondicionada.
Como relatado anteriormente, existe outro procedimento que decorre de uma notitia criminis:
Termo Circunstanciado de Ocorrência – TCO. Vale ressaltar que o TCO não é privativo da polícia
judiciária, uma vez que pode ser lavrado pela polícia militar, ou pelo juiz como é o caso do artigo
28 da lei 11.343/2006. O TCO tem uma atividade mais registral que investigativa, em que será
registrada as declarações da vítima, do autor do fato, ou de quem testemunhou o fato e isto será
encaminhado ao juízo competente. O TCO, previsto na Lei nº 9.099/95, é feito para as infrações
de Menor Potencial Ofensivo, quais sejam as contravenções penais e os crimes cuja pena
máxima seja de até 02 (dois) anos.
O TCO está previsto na Lei dos Juizados Especiais, Lei nº 9.099/95, e a Lei Maria da Penha, Lei
nº 11.340/2006, tem previsão expressa em seu artigo 41 de vedação dos institutos da Lei
9099/95. Sendo assim, quando a contravenção ou o crime são cometidos no contexto da Lei
Maria da Penha, não é cabível lavratura de TCO, mas sim Inquérito Policial. Suponha que um
indivíduo ameaçou a sua esposa. Embora a pena máxima da ameaça seja de 6 meses, como
cometido no contexto da Lei Maria da Penha não é cabível fazer o TCO. Todavia, se fosse a
mulher quem tivesse ameaçado o esposo, seria lavrado o TCO normalmente, pois a vedação se
dá para situações de violência doméstica e familiar contra a mulher, sendo a jurisprudência
pacífica no entendimento de que o termo mulher está além da identidade biológica.
O artigo sexto do Código de Processo Penal prevê quais são as primeiras providências que
devem ser adotadas pelo Delegado de Polícia logo que tiver conhecimento da existência da
infração penal, por meio de um rol exemplificativo, em que o Delegado de polícia pode adotar a
diligência que for mais conveniente e oportuna, quais sejam:
- Dirigir-se ao local, providenciando para que não se alterem o estado de conservação das
coisas, até a chegada dos peritos criminais;
- Apreender os objetos que tiverem relação com o fato, após liberados pelos peritos criminais;
- Colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato e suas circunstâncias;
- Ouvir o ofendido;
- Ouvir o indiciado, com observância, no que for aplicável, do disposto no capítulo III do título VII,
deste livro, devendo o respectivo termo ser assinado por duas testemunhas que tenham ouvido a
leitura;
- Proceder a reconhecimento de pessoas e coisas e as acareações;
- Determinar, se for caso, que se proceda o exame de corpo de delito e quaisquer outras perícias;
- Ordenar a identificação do indiciado pelo processo datiloscópico, se possível, e fazer juntar aos
autos sua folha de antecedentes; contudo, nos termos do artigo 5º, LVIII da CF, o civilmente
identificado não será submetido a identificação criminal, salvo nas hipóteses previstas em lei.
Sendo assim, a regra é que se alguém se identifica civilmente, não há a necessidade de se fazer
a identificação criminal. É possível ser feita a dupla identificação, mas desde que se enquadre na
Lei nº 12.037/2009, por exemplo, quando o documento apresentado para fins de identificação civil
está em um péssimo estado;
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- Averiguar a vida pregressa do indiciado, sob o ponto de vista individual, familiar e social, sua
condição econômica, sua atitude e estado de ânimo antes e depois do crime e durante ele, e
quaisquer outros elementos que contribuírem para a apreciação do seu temperamento e caráter;
- Colher informações sobre a existência de filhos, respectivas idades e se possuem alguma
deficiência e o nome e o contato de eventual responsável pelos cuidados dos filhos, indicado pela
pessoa presa.
Nos termos do artigo 7º do CPP, para verificar a possibilidade da infração ter sido praticada de
determinado modo, a autoridade policial poderá proceder à reprodução simulada dos fatos, desde
que esta não contrarie a moralidade ou a ordem pública. Vale ressaltar que não se pode exigir a
autoincriminação forçada, por isso que não há a obrigação do investigado e do acusado de
participar da reprodução simulada dos fatos.
Todas as peças do inquérito policial serão, num só processo, reduzidas a escrito ou
datilografadas e, neste caso, rubricadas pela autoridade, conforme previsão do artigo 9º do CPP.
Sendo assim, não existe Inquérito Policial oral.
O procedimento que tem como escopo obter os elementos de autoria, de materialidade e das
circunstâncias em que o delito foi perpetrado, tem começo, meio e fim. O começo do Inquérito
Policial se dá por portaria ou por auto de prisão em flagrante; o seu desenvolvimento se dá por
uma série de diligências, sendo algumas delas descritas ao teor do artigo 6º e 7º do CPP, sem
prejuízo de outras, como, por exemplo, a interceptação telefônica, a quebra de dados telemáticos,
fiscais, geolocalização, bancários etc.; e, por fim, a peça que encerra o Inquérito Policial é
denominada de Relatório.
No Relatório, a autoridade policial primeiramente registra como a notitia criminis chegou;
segundo, registra o que foi e o que deixou de ser feito; e, por último, há a conclusão, no qual
haverá indiciamento ou não do investigado. A conclusão que é tomada pela Autoridade Policial
não vincula o titular da ação penal, pois o fato de alguém ser indiciado não significa que este será
denunciado.
Uma vez iniciadas as investigações, o juiz tem um prazo para concluí-las. Via de regra, haverá
dois prazos, os quais observam se o investigado está preso ou solto. Na esfera Estadual, se o
investigado estiver preso, o prazo de conclusão do inquérito policial será de 10 dias, sendo este
improrrogável. Se estiver solto, o prazo é de 30 dias, sendo este prazo prorrogável. Na esfera
Federal, o prazo é outro, pois, nos termos do artigo 66 da Lei nº 5.010/1966, o Inquérito Policial
de investigado preso tem duração de 15 dias podendo ser prorrogado por mais 15 dias. Nos
crimes contra a Economia Popular e Saúde Pública, o prazo de conclusão é de 10 dias
independente se solto ou preso. A conclusão do Inquérito Policial relacionado a Lei nº
11.343/2006 para o investigado preso é no prazo de 30 dias, e solto no prazo de 90 dias,
podendo haver duplicação desses prazos, conforme disposição do parágrafo único do artigo 51
desta Lei, de modo que, a pedido do Ministério Público, o juiz pode autorizar a conclusão do
Inquérito Policial no prazo de 60 a 180 dias, respectivamente.
Vale ressaltar que o prazo de 10 dias previsto no artigo 10 do CPP é um prazo previsto em uma
norma processual, mas é prazo de direito material, de modo que o dia da prisão já é contado para
fins de conclusão do Inquérito Policial.
Uma vez relatado o inquérito policial, ele será enviado ao juiz competente, nos termos do
parágrafo primeiro do artigo 10 do CPP. No entanto, há de se atentar para a possibilidade de
tramitação direta. O Conselho Nacional de Justiça já se posicionou acerca da possibilidade de
tramitação direta do Inquérito Policial entre o Ministério Público e a Polícia Judiciária sem a
intermediação meramente burocrática do Poder Judiciário (CNJ - PCA nº 599/07, Rel. Altino
Pedrozo - 45º Sessão – j 15/8/2007). O STJ também já firmou entendimento no sentido de não
haver nenhuma ilegalidade na tramitação direta de inquéritos entre a polícia judiciária e o
Ministério público, pois este procedimento atende a garantia da duração razoável do processo,
assim como os postulados da economia processual e da eficiência. (AgRg no REsp 1543205/SC,
Rel. Ministro Jorge Mussi, Quinta Turma, julgado em 04/ 5/2017, DJe 10/05/2017). No contexto
de Tramitação direta, a prorrogação do prazo não sofrerá interferência judiciária.
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INDICIAMENTO:
“O ato de indiciamento é ato administrativo com efeitos processuais em que o delegado de
polícia, com base nos elementos de informação reunidos no curso do inquérito policial, indica
formalmente o indiciado como provável autor de infração penal em investigação.” (AgRg no HC
603.357/MS, Rel. Ministro Felix Fischer, Corte Especial, julgado em 23/03/2021, DJe 30/3/2021).
É natural que o indiciamento nem sempre coincida com o ato de instauração do inquérito policial.
Quando se apreende bens, esses bens são encaminhados à justiça quando não restituídos logo
na delegacia, uma vez que os instrumentos do crime, bem como os objetos que interessarem à
prova, acompanharão os autos do inquérito, nos termos do artigo 11 do CPP. É preciso dizer que
quando a denúncia, petição inicial da ação penal pública, ou a queixa, petição inicial da ação
privada, tem suporte no inquérito policial, elas seguem conjuntamente, nos termos do artigo 12 do
CPP. O artigo 13 do CPP reforça a ideia de que há outras diligências que podem ser cumpridas
pela Autoridade Policial como, por exemplo, cumprir mandados de prisão, realizar diligências
requisitadas pelo juiz ou pelo Ministério Público etc.
Algumas diligências precisam da interferência direta do Poder Judiciário para a sua realização,
por exemplo, a Lei nº 12.037/2009 quando fala da identificação genética; para interceptação
telefônica ou telemática; busca e apreensão domiciliar. No entanto, há diligências que não
precisam da interferência judiciária para que o delegado conduza.
Nos termos do artigo 13-A do CPP, nos crimes previstos nos arts. 148, 149 e 149-A, no § 3º do
art. 158 e no art. 159 do Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal), e
no art. 239 da Lei no 8.069, de 13 de julho de 1990 (Estatuto da Criança e do Adolescente), o
membro do Ministério Público ou o delegado de polícia poderá requisitar, de quaisquer órgãos do
poder público ou de empresas da iniciativa privada, dados e informações cadastrais da vítima ou
de suspeitos. Conforme disposição do parágrafo único deste artigo, a requisição, que será
atendida no prazo de 24 (vinte e quatro) horas, conterá o nome da autoridade requisitante; o
número do inquérito policial; e a identificação da unidade de polícia judiciária responsável pela
investigação.
É preciso se atentar ao fato de que para dados e informações cadastrais da vítima ou de
suspeitos a Autoridade Policial não precisa de autorização judicial. No entanto, na hipótese de
geolocalização, prevista no artigo 13-B do CPP, é necessário que haja a autorização, de modo
que se necessário à prevenção e à repressão dos crimes relacionados ao tráfico de pessoas, o
membro do Ministério Público ou o delegado de polícia poderão requisitar, mediante autorização
judicial, às empresas prestadoras de serviço de telecomunicações e/ou telemática que
disponibilizem imediatamente os meios técnicos adequados – como sinais, informações e outros
– que permitam a localização da vítima ou dos suspeitos do delito em curso.
Para os efeitos do artigo 13-B do CPP, sinal significa posicionamento da estação de cobertura,
setorização e intensidade de radiofrequência. É possível que haja concomitantemente a ordem
para a geolocalização e para a interceptação telefônica e telemática, desde que observados os
requisitos da Lei nº 9.296/96. A interceptação telefônica e telemática é a diligência que é
autorizada para ser feita em 15 dias, podendo haver renovação de 15 em 15 dias; enquanto a
geolocalização tem o prazo de 30 dias podendo haver renovação por um período, nos termos do
parágrafo segundo, inciso II, do artigo 13-B do CPP, o qual prevê que na hipótese de que trata o
caput do artigo 13-B, o sinal deverá ser fornecido pela prestadora de telefonia móvel celular por
período não superior a 30 dias, renovável por uma única vez, por igual período. Para períodos
superiores a este, será necessária a apresentação de ordem judicial, conforme disposição do
inciso III do parágrafo único deste artigo.
Nos termos do parágrafo terceiro do artigo 13-B do CPP, na hipótese prevista neste artigo, o
inquérito policial deverá ser instaurado no prazo máximo de 72 horas, contado do registro da
respectiva ocorrência policial.
A partir do momento em que o Delegado de Polícia ou o membro do Ministério Público formula a
representação para o fornecimento dos dados de geolocalização, o juiz tem 12 horas para poder
apreciar. Caso ele não aprecie neste tempo, o Delegado de Polícia ou o Ministério Público poderá
requisitar direto e comunicar ao juiz posteriormente. Esta previsão é consoante ao que dispõe o
parágrafo quarto do artigo 13-B do CPP, ao estabelecer que não havendo manifestação judicial
no prazo de 12 (doze) horas, a autoridade competente requisitará às empresas prestadoras de
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serviço de telecomunicações e/ou telemática que disponibilizem imediatamente os meios técnicos
adequados – como sinais, informações e outros – que permitam a localização da vítima ou dos
suspeitos do delito em curso, com imediata comunicação ao juiz.
O ofendido, ou seu representante legal, e o indiciado poderão requerer qualquer diligência, que
será realizada, ou não, a juízo da autoridade, conforme disposição do artigo 14 do CPP. Vale
ressaltar que o contraditório e a ampla defesa não fazem parte do Inquérito Policial. Em se
tratando de instrumento destinado à formação da opinio delicti do órgão acusatório, o
procedimento administrativo de investigação criminal não demanda amplitude das garantias
constitucionais da ampla defesa e do contraditório, próprias da fase judicial. Eventual prejuízo
advindo do indeferimento de diligências no curso das apurações (nomeação de assistente técnico
e formulação de quesitos) é passível de questionamento na ação penal decorrente do respectivo
inquérito policial. (RHC 132062, Relator(a) Min. Marco Aurélio, Relator(a) p/ Acórdão: Min. Edson
Fachin, primeira Turma, julgado em 22/11/2016, processo eletrônico, DJe-243, DIVULG 23-10-
2017 PUBLIC 24-10-2017)
AULA 02
CARACTERÍSTICAS DO ARTIGO 14-A DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL:
O artigo 14-A do Código de Processo Penal foi incluído pela Lei nº 13.964 de 2019 e prevê que
nos casos em que servidores vinculados às instituições dispostas no art. 144 da Constituição
Federal figurarem como investigados em inquéritos policiais, inquéritos policiais militares e
demais procedimentos extrajudiciais, cujo objeto for a investigação de fatos relacionados ao uso
da força letal praticados no exercício profissional, de forma consumada ou tentada, incluindo as
situações dispostas no art. 23 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código
Penal), o indiciado poderá constituir defensor.
Suponha que a pessoa investigada pertence a uma das forças de segurança enumeradas no
artigo 144 da Constituição Federal: polícia federal; polícia Rodoviária federal; polícia ferroviária
federal; polícias civis; polícias militares e corpos de bombeiros militares; polícias penais federal,
estaduais e distrital; e que ela está sendo investigada por um fato supostamente criminoso que
tenha relação com o uso da força letal praticada no exercício da função. O parágrafo primeiro do
artigo 14-A do CPP, prevê que o investigado deverá ser citado da instauração do procedimento
investigatório, podendo constituir defensor no prazo de até 48 horas a contar do recebimento da
citação. Caso o investigado citado não constitua advogado no prazo, quem presidirá a
investigação, se for inquérito policial, será o delegado de polícia; se for um procedimento
investigatório que corra em âmbito do Ministério da Público, será o promotor de justiça; se for um
inquérito policial militar oficial, será preciso intimar a instituição pela qual o investigado estava
vinculado à época dos fatos para que a instituição promova a sua defesa técnica.
Sendo assim, nos termos do que dispõe o artigo 14-A, caput e seus parágrafos, o investigado
precisa estar vinculado a uma das forças dispostas no artigo 144 da Constituição Federal,
podendo figurar como investigado em inquérito policial, inquérito policial militar e demais
procedimentos extrajudiciais, cujo objeto for a investigação de fatos relacionados ao uso da força
letal praticados no exercício profissional, sendo o crime de forma consumada ou tentada,
podendo o indiciado constituir o defensor. O investigado será citado para constituir defensor em
até 48 horas a contar do recebimento da citação. Se em até 48 horas não constituir defensor, a
autoridade responsável pela investigação intimará a instituição a que estava vinculado o
investigado à época da ocorrência dos fatos, para que essa, no prazo de 48 horas, indique
defensor para a representação do investigado.
O parágrafo terceiro e quarto do artigo 14-A do CPP prevê que havendo necessidade de
indicação de defensor nos termos do § 2º deste artigo, a defesa caberá preferencialmente à
Defensoria Pública, e, nos locais em que ela não estiver instalada, a União ou a Unidade da
Federação correspondente à respectiva competência territorial do procedimento instaurado
deverá disponibilizar profissional para acompanhamento e realização de todos os atos
relacionados à defesa administrativa do investigado. A indicação do profissional a que se refere o
§ 3º deste artigo deverá ser precedida de manifestação de que não existe defensor público lotado
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na área territorial onde tramita o inquérito e com atribuição para nele atuar, hipótese em que
poderá ser indicado profissional que não integre os quadros próprios da Administração.
Nos termos do parágrafo quinto do artigo 14-A do CPP, na hipótese de não atuação da
Defensoria Pública, os custos com o patrocínio dos interesses dos investigados nos
procedimentos de que trata este artigo correrão por conta do orçamento próprio da instituição a
que este esteja vinculado à época da ocorrência dos fatos investigados.
O parágrafo sexto do artigo 14-A do CPP prevê que as disposições constantes deste artigo se
aplicam aos servidores militares vinculados às instituições dispostas no art. 142 da Constituição
Federal, desde que os fatos investigados digam respeito a missões para a Garantia da Lei e da
Ordem.
REVOGAÇÃO TÁCITA DO ARTIGO 15 DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL
Embora o Código de Processo Penal apresente a redação do artigo 15, este foi revogado
tacitamente, não sendo válido o que ele dispõe. Este artigo previa que se o indiciado for menor,
ser-lhe-á nomeado curador pela autoridade policial. Para o Código de Processo Penal, que é do
ano de 1941, réu menor, acusado e indiciado menor, é a pessoa que tem entre 18 e 21 anos, e,
quando este Código entrou em vigor, ele era penalmente imputável, mas civilmente incapaz, uma
vez que o Código Civil vigente quando do advento do CPP era o Código Civil de 1916. Contudo,
com a vigência do Código Civil de 2002, a maioridade civil foi igualada a maioridade penal. Sendo
assim, uma pessoa maior de 18 anos não precisa da nomeação de curador.
PROVIDÊNCIAS DO MINISTÉRIO PÚBLICO COM A CHEGADA DO INQUÉRITO
O Ministério Público, via de regra, é o titular da Ação Penal. Desta forma, normalmente quando o
inquérito é encerrado, ele tem como destinatário o Ministério Público, são denominados crimes
que se processam mediante ação pública, nos termos do artigo 129, I, da CF.
Na Esfera Estadual, o Promotor de Justiça; na Esfera Federal, o Procurador da República, com a
chegada do Inquérito, pode:
- Oferecer a denúncia, ou seja, oferecer a Petição Inicial da Ação Penal Pública quando identificar
que a investigação revela o que é essencial para disparar a persecução penal na fase
judicializada: indícios suficientes de autoria e da existência do crime. Nesta fase vigora o Indubio
Pro Societate;
- Pedir o arquivamento do Inquérito Policial e o juiz, se for o caso, homologa o pedido ou, se
discordar do pedido, diz o porquê discorda e na esfera Estadual, mandará ao Procurador Geral
de justiça, o qual pode oferecer a denúncia, designar um outro órgão do Ministério Público para
oferecê-la ou insistir no arquivamento, situação em que o juiz estará obrigado a homologar o
pedido.
Vale ressaltar que embora o artigo 28 do CPP diga que o Ministério Público pode arquivar o
Inquérito Policial, submetendo a sua decisão de arquivamento a um órgão superior na própria
estrutura do Ministério Público, comunicando à vítima, quando existente, ao investigado e à
autoridade policial, desta decisão, este artigo está suspenso. Foi proferida uma Medida Cautelar
na Ação Direta de Inconstitucionalidade 6299, que repercutiu nas ADIs 6298, 6300 e 6305 que
suspendeu a nova redação do artigo 28 do CPP.
O Inquérito Policial poderá ser arquivado quando não conseguiu identificar os elementos de
autoria e materialidade mínima para a propositura da Ação Penal; quando se concluiu pela
atipicidade da conduta; quando reconhecida a insignificância da conduta, em que o fato é
formalmente típico, mas materialmente atípico. Depois de ordenado o arquivamento do inquérito
pela autoridade judiciária, por falta de base para a denúncia, a autoridade policial poderá
proceder a novas pesquisas, se de outras provas tiver notícia, nos termos do artigo 18 do CPP.
Neste caso, não é preciso pedir ao juiz, nem ao Promotor de Justiça. Se for constatado que
houve o desarquivamento, mas não há novas provas, o prejudicado pode impetrar um Habeas
Corpus objetivando o trancamento deste inquérito policial em razão de ter sido desarquivado sem
o cumprimento da exigência legal. Além disso, o desarquivamento só poderá ocorrer quando a
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causa do arquivamento foi a ausência de elementos mínimos de indícios de autoria e
materialidade do fato.
Nos termos do artigo 16 do CPP, o Ministério Público não poderá requerer a devolução do
inquérito à autoridade policial, senão para novas diligências, imprescindíveis ao oferecimento da
denúncia.
Nos termos do artigo 17 do CPP, a autoridade policial não poderá mandar arquivar autos de
inquérito.
- Requisitar a devolução do Inquérito Policial para a autoridade policial de modo que ela produza
novas diligências para que pontos da investigação sejam melhor elucidados, quando com o que
se tem não é possível denunciar e nem arquivar.
- Promover o Acordo de não persecução penal – ANPP.
ACORDO DE NÃO PERSECUÇÃO PENAL:
No Acordo de não persecução penal, o Inquérito Policial é relatado, chega ao Ministério Público e
este opta por uma solução negociada da causa penal. Considerando que o fato apurado em
Inquérito Policial é de mediana complexidade, tenta-se um acordo para que a causa penal não se
transforme em uma ação penal. Se o fato investigado tiver relação com o crime cuja pena mínima
seja de até 04 (quatro) anos, não tenha violência ou grave ameaça, e que o indiciado confesse
formal e circunstanciadamente que praticou o crime (elementos objetivos), a ideia é que se
resolva com base em acordo, através de indenização à vítima, prestação de serviço à
comunidade, ou pagamento de pena pecuniária. Havendo o acordo, o indiciado não responderá a
uma ação penal e não terá antecedentes criminais, É certo para os fins previstos no inciso III do
parágrafo segundo do artigo 28-A, nos termos do parágrafo 11 deste mesmo artigo. O acordo de
não persecução penal tem que ser necessário e suficiente para prevenção e reprovação do crime
(elementos subjetivos).
Nos termos do artigo 28-A do CPP, não sendo caso de arquivamento e tendo o investigado
confessado formal e circunstancialmente a prática de infração penal sem violência ou grave
ameaça e com pena mínima inferior a 4 (quatro) anos, o Ministério Público poderá propor acordo
de não persecução penal, desde que necessário e suficiente para reprovação e prevenção do
crime, mediante as seguintes condições ajustadas cumulativa e alternativamente:
- Reparar o dano ou restituir a coisa à vítima, exceto na impossibilidade de fazê-lo;
- Renunciar voluntariamente a bens e direitos indicados pelo Ministério Público como
instrumentos, produto ou proveito do crime;
- Prestar serviço à comunidade ou a entidades públicas por período correspondente à pena
mínima cominada ao delito diminuída de um a dois terços, em local a ser indicado pelo juízo da
execução, na forma do art. 46 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código
Penal)
- Pagar prestação pecuniária, a ser estipulada nos termos do art. 45 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7
de dezembro de 1940 (Código Penal), a entidade pública ou de interesse social, a ser indicada
pelo juízo da execução, que tenha, preferencialmente, como função proteger bens jurídicos iguais
ou semelhantes aos aparentemente lesados pelo delito; ou
- Cumprir, por prazo determinado, outra condição indicada pelo Ministério Público, desde que
proporcional e compatível com a infração penal imputada.
O parágrafo segundo do artigo 28-A traz limitações para a realização do Acordo de Não
Persecução Penal, por exemplo:
- Se o caso permitir transação penal, não haverá acordo de não persecução penal;
- Se existem informações que o indiciado há habitualidade em condutas criminosas, não haverá
Acordo de Não Persecução Penal, salvo se for reconhecido a insignificância dessas condutas.
- Se o indiciado for reincidente, não haverá Acordo de Não Persecução Penal.
- Se o indiciado já gozou de uma transação penal, de uma suspensão condicional do processo ou
de um próprio acordo de não persecução penal nos últimos cinco anos, não haverá Acordo de
Não Persecução Penal.
- Se o delito tiver sido praticado no contexto de violência doméstica e familiar contra mulher, ou
praticado contra a mulher em razão do sexo feminino, não haverá Acordo de Não Persecução
Penal.
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Nos termos do parágrafo primeiro do artigo 28-A do CPP, para aferição da pena mínima
cominada ao delito a que se refere o caput deste artigo, serão consideradas as causas de
aumento e diminuição aplicáveis ao caso concreto.
Vale ressaltar que o juiz não participa do Acordo de Não Persecução Penal, sendo este subscrito
pelo representante do Ministério Público, pelo indiciado e seu advogado ou defensor público, nos
termos do parágrafo terceiro do artigo 28-A do CPP. O juiz no ANPP tem somente duas funções:
determinar a designação de uma audiência para colher a voluntariedade do indiciado; fazer o
controle de legalidade do acordo, conforme disposição do parágrafo quarto do artigo supracitado.
O parágrafo quinto do artigo 28-A prevê que se o juiz considerar inadequadas, insuficientes ou
abusivas as condições expostas no acordo de não persecução penal, devolverá os autos ao
Ministério público para que seja reformulado a proposta de acordo, com concordância do
investigado e seu defensor.
Nos termos do parágrafo sexto do artigo 28-A, homologado judicialmente o acordo de não
persecução penal, o juiz devolverá os autos ao Ministério público para que inicie sua execução
perante o juízo de execução penal. O juiz poderá se recusar a homologar a proposta que não
atender aos requisitos legais ou quando não for realizada a adequação a que se refere o
parágrafo quinto deste artigo. Recusada a homologação, o juiz devolverá os autos ao Ministério
público para análise da necessidade de complementação das investigações ou oferecimento da
denúncia. a vítima será intimada da homologação do acordo de não persecução penal e de seu
descumprimento, conforme previsão dos parágrafos sétimo, oitavo e nono do artigo 28-A.
Descumpridas quaisquer das condições estipuladas no acordo de não persecução penal, o
Ministério público deverá comunicar o juízo para fins de sua rescisão e posterior oferecimento de
denúncia. O descumprimento do acordo de não persecução penal pelo investigado também
poderá ser utilizado pelo Ministério público como justificativa para o eventual não oferecimento de
suspensão condicional do processo, nos termos do parágrafo 10 e 11 do artigo 28-A.
Suponha que há dois indiciados em situações idênticas, mas o Ministério Público somente
ofereça o acordo de não persecução penal para um e não para o outro. Neste caso, é possível
que o indiciado solicite ao juiz competente que a situação seja submetida a um órgão superior do
Ministério Público, nos termos do parágrafo 14 do artigo 28-A do CPP.
Quando cumprido integralmente o acordo de não persecução penal, o juízo competente decretará
extinção de punibilidade, conforme prevê o parágrafo 13 do artigo 28-A.
Nos termos da súmula 524 do STF, arquivado o inquérito policial, por despacho do juiz, a
requerimento do promotor de justiça, não pode a ação penal ser iniciada, sem novas provas.
Nas situações de crimes que não se processam mediante ação penal pública, ou seja, crimes que
se processam mediante ação penal privada, o inquérito policial será encaminhado ao juízo
competente e lá aguardará a iniciativa do ofendido ou do seu representante legal, ou o próprio
inquérito policial será entregue a estes, nos termos do artigo 19 do CPP.
Embora os crimes de ação penal privada dependam da vontade da vítima para a propositura da
queixa-crime, há um prazo para que esta manifeste este direito, sendo este decadencial de 6
meses a contar a partir do dia em que se sabe quem é o autor do fato. Vale ressaltar que o
inquérito policial não interrompe a fluência do prazo decadencial.
O inquérito policial, por ser uma atividade de investigação, precisa de estratégia, sobretudo, de
sigilo. É previsto no artigo 20 do código de processo penal que a autoridade assegurará no
inquérito o sigilo necessário à elucidação do fato ou exigido pelo interesse da sociedade. Nos
termos do parágrafo único deste artigo, nos atestados de antecedentes que lhe forem solicitados,
a autoridade policial não poderá mencionar quaisquer anotações referentes a instauração de
inquérito contra os requerentes. No entanto, a súmula vinculante nº 14, garante que é direito do
defensor, no interesse do representado, ter acesso amplo aos elementos de prova que já
documentados em procedimento investigatório realizado por órgão com competência de polícia
judiciária, digam respeito ao exercício do direito de defesa. Enquanto a súmula vinculante nº 14
prevê o acesso a procedimentos que tramitem junto a polícia judiciária, o artigo 7º, XIV do
Estatuto da OAB, prevê o acesso a qualquer método investigativo, em qualquer lugar que ele
esteja, desde que seja diligência já documentada, ao prevê que é direito do advogado examinar,
em qualquer instituição responsável por conduzir investigação, mesmo sem procuração, autos de
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flagrante e de investigações de qualquer natureza, findos ou em andamento, ainda que conclusos
à autoridade, podendo copiar peças e tomar apontamentos, em meio físico ou digital.
O artigo 21 do código de processo penal não foi recepcionado pela Constituição federal, uma vez
artigo 21 do CPP diz que o investigado pode ficar incomunicável até 3 dias, todavia, o artigo 136,
§3º, IV, da CF veda a incomunicabilidade do preso no Estado de Defesa. Em caso de crise
institucional, a Constituição Federal não deixa haver a incomunicabilidade do preso. Sendo
assim, também não é possível a incomunicabilidade do preso no Estado Democrático de Direito.
Nos termos do artigo 22 do CPP, no Distrito Federal e nas comarcas em que houver mais de uma
circunscrição policial, a autoridade com exercício em uma delas poderá, nos inquéritos a que
esteja procedendo, ordenar diligências em circunscrição de outra, independentemente de
precatórias ou requisições, e bem assim providenciará, até que compareça a autoridade
competente, sobre qualquer fato que ocorra em sua presença, noutra circunscrição.
Na fase judicial, os juízes dentro de um mesmo território nacional se comunicam pelo
instrumento denominado de carta precatória. Quando a comunicação é para o exterior, o
instrumento é a carta rogatória. No entanto, na fase investigativa, é possível que uma equipe de
policiais realize diligências em outra circunscrição independentemente de carta precatória e
prévia autorização.
Nos termos do artigo 23 do CPP, ao fazer a remessa dos autos do inquérito ao juiz competente, a
autoridade policial oficiará ao instituto de identificação e estatística, ou repartição congênere,
mencionando o juiz a quem tiverem sido distribuídos, e os dados relativos à infração penal e à
pessoa do indiciado. Vale ressaltar que esta norma tem uma finalidade mais registral, para saber
o quantitativo de inquéritos em determinada região, em determinada delegacia e região, bem
como o qualitativo para identificar o que mais se investiga.
AÇÃO PENAL
O Código de Processo Penal dispõe sobre a Ação Penal nos artigos 24 a 62. Quando se estuda o
tema do direito de Ação, ele está atrelado à Teoria Geral do Processo. Fala-se que o direito de
ação é abstrato, pois o direito de ação propicia o direito de obter o pronunciamento do Estado-
Juiz sobre um caso concreto, em que a sua pretensão é explicitada.
O fundamento do direito de ação é o da universalidade, inafastabilidade da jurisdição, em que a
Lei não pode excluir da apreciação do poder judiciário nenhuma lesão à direito ou ameaça de
lesão à direito. No âmbito penal, no direito de ação penal há o dever jurídico do Estado de dizer o
direito.
Para que o direito de ação seja exercido, há a necessidade do preenchimento de algumas
condições: condições genéricas da ação e específicas da ação penal. Para a corrente majoritária,
as condições genéricas da ação são as mesmas tratadas no CPC, ou seja, a legitimidade ativa e
passiva, e o interesse de agir, em que a ação de alguma forma tem que ser útil, necessária e
adequada; para a corrente minoritária, por sua vez, as condições genéricas da ação a prática de
fato aparentemente criminoso, punibilidade concreta, legitimidade e justa causa. As condições
específicas da ação consistem em situações de excepcionalidades, quais sejam os crimes em
que o Ministério Público só pode acusar se a vítima representar, e a requisição do Ministro da
Justiça.
Preenchidas as condições das ações é possível a análise do mérito da causa. Tudo o que
viabiliza o desenvolvimento válido e regular do processo é denominado de pressuposto
processual. Quando se estuda a ação penal, naturalmente é utilizado um critério de classificação,
que é o critério quanto à legitimidade para a promoção da ação. Entretanto, há outra forma de se
estudar a ação penal que é quanto ao provimento jurisdicional que se busca. Há o provimento
jurisdicional de cognição ou de conhecimento, provimento jurisdicional executória e provimento
cautelar.
Provimento de cognição ou de conhecimento: dentro do provimento jurisdicional de conhecimento
há três possibilidades:
1º uma ação de cognição que se busca a natureza de condenação, iniciada por denúncia ou
queixa;
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02º um procedimento de cognição cujo objetivo é uma tutela de declaração, denominado de
provimento declaratório, como é o caso do Habeas Corpus;
03º um procedimento de constituição ou de desconstituição de direito, como é o caso da ação
rescisória penal, denominada de revisão criminal.
Provimento jurisdicional executória: é possível classificar a ação penal quanto ao provimento
jurisdicional de execução. Quando se tratar de pena privativa de liberdade e pena restritiva de
direito, a sentença de conhecimento de provimento condenatório e autoexecutável, bastando a
expedição da carta de guia, entretanto, quando se condena à pena de multa, a regra é outra pois
ela não é autoexecutável. A ADI 3150 prevê que a prioridade da execução da pena de multa é do
Ministério Público e, se o MP não fizer isso em 90 dias, a Fazenda Pública pode executar
ADI 3150: O Tribunal, por maioria, julgou parcialmente procedente o pedido formulado na ação
direta para, conferindo interpretação conforme à Constituição ao art. 51 do Código Penal,
explicitar que a expressão "aplicando-se-lhes as normas da legislação relativa à dívida ativa da
Fazenda Pública, inclusive no que concerne às causas interruptivas e suspensivas da
prescrição", não exclui a legitimação prioritária do Ministério Público para a cobrança da multa na
Vara de Execução Penal, nos termos do voto do Ministro Roberto Barroso, Redator para o
acórdão, vencidos os Ministros Marco Aurélio (Relator) e Edson Fachin, que o julgavam
improcedente. Ausentes, justificadamente, os Ministros Celso de Mello e Gilmar Mendes.
Presidência do Ministro Dias Toffoli. Plenário, 13.12.2018.
ADI 3150: O Tribunal, por maioria, acolheu os embargos de declaração, modulando
temporalmente os efeitos da decisão, de modo a estabelecer a competência concorrente da
Procuradoria da Fazenda Pública quanto às execuções findas ou iniciadas até a data do trânsito
em julgado da presente ação direta de inconstitucionalidade, nos termos do voto do Relator,
vencido o Ministro Marco Aurélio. Não participou deste julgamento, por motivo de licença médica
no início da sessão, o Ministro Celso de Mello (art. 2º, § 5º, da Res. 642/2019). Plenário, Sessão
Virtual de 10.4.2020 a 17.4.2020.
Após o Trânsito em julgado, com o julgamento dos embargos, permaneceu a legitimidade
concorrente, sendo a prioridade do Ministério Público e, após 90 dias se não executar, da
Fazenda Pública.
Provimento cautelar: são exemplos de ações que levam em consideração o provimento cautelar o
mandado de busca e apreensão, medida cautelar no contexto de uma representação pela prisão
preventiva ou temporária, por medida cautelar adversa da prisão, pela geolocalização, pela
interceptação telefônica e telemática, e a antecipação de provas.
Geralmente a classificação da ação leva em consideração a legitimidade ativa. Vale ressaltar que
a legitimidade passiva não dá ensejo à classificação, sendo a legitimidade passiva para ação
penal, via de regra, pessoa física maior de 18 anos. Se for menor de 18 anos, aplica-se as regras
do ECA, sendo o procedimento de apuração de ato infracional de natureza cível.
Na legitimidade ativa, há uma classificação em que se há uma ação pública ou privada. A ação
pública é intentada pelo Ministério Público, nos termos do artigo 129, I, da CF, enquanto a ação
privada é intentada pelo ofendido, ou pelo ofendido por intermédio do seu representante legal, ou
por seus sucessores. Quando se fala em ação privada, se fala no fenômeno da legitimação
extraordinária, da substituição processual, uma vez que, embora o direito de punir pertença ao
Estado, sendo, portanto, legitimado para promover a ação penal, na ação penal privada, a Lei em
alguns casos permite que ofendido acuse.
Na ação pública, a titularidade é do Ministério Público. No entanto, existe uma subdivisão: ação
penal pública incondicionada e condicionada à representação. O Ministério Público inaugura a
ação penal por intermédio da denúncia. Quando a ação pública é condicionada, a denúncia por si
só não basta, pois é preciso ter a denúncia mais a condição específica, como, por exemplo, o
direito de representação do ofendido, ou a requisição do Ministro da Justiça, de modo que
quando o crime se processa mediante ação pública condicionada, o Ministério Público só pode
denunciar se a condição específica estiver implementada.
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AÇÃO PENAL PÚBLICA CONDICIONADA:
Quando a lei não disser nada, o crime se processa mediante ação penal pública incondicionada.
Quando o crime se processar mediante ação penal pública condicionada à representação, a lei
dirá, como é o caso, por exemplo, dentre outros:
- Crime do perigo de contágio venéreo, nos termos do artigo 130, §2º do Código Penal;
- Crime de ameaça previsto ao teor do artigo 147, parágrafo único do Código Penal;
- Crime de violação de comunicação telegráfica, radioelétrica ou telefônica, nos termos do artigo
151, §4º do Código Penal.
- Crime de correspondência comercial, nos termos do artigo 152, parágrafo único, do Código
Penal.
- Crime de Divulgação de segredo, nos termos do artigo 153, §1º do Código Penal.
- Crime de Violação do segredo profissional, nos termos do artigo 154, parágrafo único do Código
Penal.
- Crime de Estelionato, nos termos do artigo 171, §5º do Código Penal.
AULA 03
• AÇÃO PENAL PÚBLICA CONDICIONADA À REQUISIÇÃO DO MINISTRO DA JUSTIÇA:
Na ação pública condicionada à requisição do Ministro da Justiça, além da denúncia, deve haver
requisição subscrita pelo Ministro da Justiça viabilizando e permitindo que o Ministério público
possa ajuizar a denúncia. São exemplos das situações que exigem requisição do Ministro da
Justiça:
a) Os crimes cometidos por estrangeiro contra brasileiro fora do Brasil (artigo 7º, parágrafo
terceiro, b, do Código Penal);
b) Os crimes contra o presidente da República, ou contra chefe de governo estrangeiro (artigo
141, I, c/c o parágrafo único do artigo 145 do Código Penal).
Há diferença básicas entre a representação e a requisição do Ministro da Justiça, tais como:
- A representação está sujeita a prazo decadencial, enquanto a requisição do Ministro da Justiça
não.
- A representação admite retratação, enquanto a requisição do Ministro da Justiça não.
• AÇÃO PENAL PRIVADA:
CLASSIFICAÇÃO DA AÇÃO PENAL PRIVADA:
Da mesma forma que a ação pública apresenta subdivisão, a ação privada também, sendo ela:
- Ação penal privada propriamente dita, também denominada de exclusiva;
- Ação penal privada personalíssima;
- Ação penal privada subsidiária da pública;
Vale ressaltar que todas estas se iniciam mediante a queixa-crime do ofendido, do ofendido por
intermédio do seu representante legal, ou por seus sucessores, no caso de morte ou ausência,
sendo o sucessor o cônjuge/companheiro, ascendente, descendente e irmãos.
A queixa-crime do mesmo modo que a denúncia apresenta requisitos, nos termos do artigo 41 do
CPP.
a) AÇÃO PENAL PRIVADA PERSONALÍSSIMA
Quando o crime se processa mediante ação penal privada personalíssima, somente o ofendido
pode oferecer a queixa-crime, sendo esta a diferença para a ação penal privada propriamente
dita ou exclusiva. Se o ofendido for menor de idade, os seus representantes não poderão
oferecer a queixa-crime. Se o ofendido for ausente ou falecer, os seus sucessores não podem dar
continuidade a ação penal. O único crime que se processa mediante ação penal privada
personalíssima é o crime de induzimento a erro essencial e ocultação de impedimento.
Nos termos do artigo 236 do código penal, o crime de induzimento a erro essencial e ocultação
de impedimento ocorre quando o indivíduo contrair casamento, induzindo em erro essencial o
outro contraente, ou ocultando-lhe impedimento que não seja casamento anterior. Conforme a
disposição do parágrafo único deste artigo, a ação penal depende de queixa do contraente
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enganado e não pode ser intentada senão depois de transitar em julgado a sentença que, por
motivo de erro ou impedimento, anule o casamento.
Exemplo de Ocultação de Impedimento: Suponha que João e Maria estão perdidamente
apaixonados e são noivos. No entanto, os dois são irmãos, mas Maria não sabe disto. Por força
de Lei, irmãos não podem se casar. Sendo assim, se Maria for enganada em razão de João
ocultar este impedimento, somente Maria pode ingressar com a queixa-crime. Caso os dois não
saibam da condição de serem irmão, evidentemente não haverá crime.
Exemplo de Induzimento a erro essencial: o erro é a falsa percepção da realidade, sendo o
induzimento a erro essencial quando uma pessoa usa de subterfúgio para que a outra perceba a
realidade de uma forma diversa do que ela de fato apresenta. Suponha que um dos noivos
engana o outro e mente, por exemplo, sobre a sua condição de saúde psíquica.
A queixa-crime que na ação penal privada personalíssima só pode ser oferecida pelo contraente
enganado, primeiro deve esperar a resolução na esfera cível, uma vez que primeiro deve-se
entrar com ação anulatória de casamento e, somente quando esta transitar em julgado, poderá
ser oferecida a queixa-crime.
Vale ressaltar que tanto na ação penal privada personalíssima quanto na propriamente dita, a lei
exigirá a queixa-crime e dirá quais são os crimes que dependem de queixa-crime, como, por
exemplo, dentre outros, os artigos 145, 345 do código penal.
b) AÇÃO PENAL PRIVADA SUBSIDIÁRIA DA PÚBLICA
Suponha que há um crime que se processa mediante ação penal pública, como é o caso do furto,
em que o inquérito policial é remetido ao Ministério público, mas este não faz nada. Neste caso, a
ação penal privada subsidiária da pública existe para impedir situações como estas de
impunidade, viabilizando que o ofendido, o qual não é legitimado originariamente para ingressar
com a ação penal, possa fazê-lo em razão da inércia do Ministério Público.
Sendo assim, diante da inércia do Ministério Público, a vítima poderá ingressar com a queixa-
crime subsidiária, sendo essa previsão disposta na Constituição Federal, em seu artigo 5º, LIX,
bem como no artigo 29 do Código de Processo Penal.
AÇÃO PENAL PÚBLICA SUBSIDIÁRIA DA PÚBLICA:
Alguns autores falam da ação penal pública subsidiária da pública, nas situações em que a ação
penal é pública, o Ministério Público está inerte, e um outro órgão do Ministério Público poderá
ajuizar a denúncia. Neste caso, seria possível a mudança do Ministério Público estadual para o
Ministério Público Federal, por exemplo:
a) Quando houver inércia do procurador-geral de justiça, poderá este ser substituído pelo
procurador-geral da República (artigo 2º, parágrafo segundo, do decreto-lei 201/67);
b) quando a denúncia não é intentada no prazo legal, cabe ao ofendido representar ao
procurador-geral da República a fim de que este é a oferta ou designar outro órgão do Ministério
público para ofertar ou mesmo que determine o arquivamento do feito (artigo 27 da lei 7.492/86-
Crimes Contra o Sistema Financeiro);
c) Nos casos de incidente de deslocamento de competência como aqueles que ocorrem quando
há “grave violação dos direitos humanos” e inércia dos órgãos estaduais, podendo então o caso,
mediante representação do procurador-geral da República, perante o STJ, ser deslocado para a
Justiça Federal; (artigo 109, §5º da CF)
d) Nos casos de incidente de deslocamento de competência para o tribunal penal Internacional
(TPI), no caso de inércia dos órgãos internos brasileiros envolvendo crimes contra a humanidade
(artigo 5º, parágrafo quarto da CF).
• AÇÃO PENAL PÚBLICA
Nos termos do artigo 24 do código de processo penal, nos crimes de ação pública, esta será
promovida por denúncia do Ministério público, mas dependerá, quando a lei o exigir, de
requisição do Ministro da Justiça, ou de representação do ofendido ou de quem tiver qualidade
para representá-lo.
Conforme a disposição do parágrafo primeiro, no caso de morte do ofendido ou quando declarado
ausente por decisão judicial, o direito de representação passará ao cônjuge, ascendente,
descendente ou irmão (CADI).
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Vale ressaltar que quando a lei nada diz, a ação é pública incondicionada; quando a lei diz que a
ação se processa mediante representação, a ação é pública condicionada; quando a lei diz que
se processa mediante queixa, a ação é privada. Sendo assim, para cada crime, há um tipo de
ação penal. Todavia, algumas situações permitem essa variação. Por exemplo, após o pacote
anticrime, o crime de estelionato tem hoje como regra ser de ação pública condicionada, mas se
for praticado em detrimento de idoso, criança ou administração pública direta ou indireta, passa a
ser de pública condicionada para pública incondicionada.
O parágrafo segundo prevê que seja qual for o crime, quando praticado em detrimento do
patrimônio ou interesse da União, Estado e Município, a ação penal será pública. Por exemplo, o
crime de dano em relação ao particular é de ação privada, mas em relação à viatura do Governo,
é de ação penal pública.
A súmula 714 do STF trata do crime contra a honra contra servidor público no exercício da função
ou em razão dela. Neste caso, há uma legitimidade concorrente, ou seja, tanto um servidor
público que foi vítima de crime contra a honra exercício da função pode contratar um advogado e
ingressar com a queixa crime, como ele pode procurar o Ministério público, ou autoridade policial,
para oferecer o direito de representação e aguardar que o Ministério público ofereça a denúncia.
Sendo assim, ou ação penal privada, ou ação penal pública condicionada, valerá a que chegar
primeiro.
Os crimes de lesão corporal de natureza leve e os crimes de lesão corporal culposa se
processam mediante ação pública condicionada, havendo a necessidade do direito de
representação. Todavia, o artigo 129 do código penal não traz a referência ao direito de
representação. A lei 9099/95, por sua vez, em seu artigo 98 previu a exigência do direito de
representação quando se tratar de lesão corporal de natureza leve ou culposa.
No contexto da lei Maria da Penha, a lesão corporal, mesmo que de natureza leve e culposa, é de
ação pública incondicionada. Entretanto, o crime ameaça, é de ação pública condicionada,
enquanto o dano simples é de ação privada.
ATENÇÃO: Observar o que dispõe a ADI 4.424.
DIREITO DE REPRESENTAÇÃO E A POSSIBILIDADE DE RETRATAÇÃO
É possível a retratação da representação, no entanto, desde que seja feita antes do oferecimento
da denúncia. Quando se tratar de retratação do direito de representação no contexto da lei Maria
da Penha, a retratação não poderá ser feita perante a autoridade policial, devendo ser feita
perante a autoridade judicial em uma audiência específica para isso, sendo até o recebimento da
denúncia.
Vale ressaltar que, na regra geral, a possibilidade de retratação do direito de representação é até
o oferecimento da denúncia, conforme disposição do artigo 25 do CPP, e pode ser feito perante a
autoridade policial, enquanto no contexto da lei Maria da Penha é até o recebimento da denúncia
podendo ser feito somente perante autoridade judicial em uma audiência específica, nos termos
do artigo 16 da Lei nº 11.340/06.
O artigo 26 do código de processo penal, apesar de previsto no CPP, não foi recepcionado pela
Constituição federal de 1988, uma vez que prevê que a ação penal, nas Contravenções, será
iniciada com o auto de prisão em flagrante ou por meio de portaria expedida pela autoridade
judiciária ou policial. Vale ressaltar que portaria e auto de prisão em flagrante não iniciam ação
penal, mas sim inquérito. Além disso, todas as Contravenções penais se processam mediante
ação penal pública e, nos termos do artigo 129, I, da Constituição Federal, compete ao Ministério
Público promover a ação penal pública na forma da lei.
Nos termos do artigo 27 do CPP, qualquer pessoa do povo poderá provocar a iniciativa do
Ministério público, nos casos em que caiba ação pública, fornecendo lhe, por escrito, informações
sobre o fato e a autoria e indicando o tempo, o lugar e elementos de convicção. Ou seja, esse
artigo nada mais é do que contemplar e consagrar a notitia criminis.
O artigo 28 do código de processo penal mudou a dinâmica do arquivamento do inquérito policial,
de modo que, o arquivamento do inquérito policial ocorre por decisão do Ministério público, sendo
retirado, por força deste artigo, a apreciação judicial. Antes do pacote anticrime, o Ministério
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público solicitava judicialmente o arquivamento do inquérito policial e o juiz ou homologava o
pedido, ou remetia para o procurador-geral de justiça na instância estadual, em segunda Câmara
de coordenação e revisão do MPF na esfera Federal. No entanto, a redação do artigo 28 do CPP,
está suspensa. Sendo válido, portanto, o que previa a antiga redação deste artigo.
REDAÇÃO SUSPENSA PELA MEDIDA CAUTELAR NA AÇÃO DIRETA DE
INCONSTITUCIONALIDADE 6.299 DISTRITO FEDERAL:
Art. 28. Ordenado o arquivamento do inquérito policial ou de quaisquer elementos informativos da
mesma natureza, o órgão do Ministério Público comunicará à vítima, ao investigado e à
autoridade policial e encaminhará os autos para a instância de revisão ministerial para fins de
homologação, na forma da lei. (Redação dada pela Lei nº 13.964, de
2019) (Vigência) (Vide ADI 6.298) (Vide ADI 6.300) (Vide ADI 6.305)
§ 1º Se a vítima, ou seu representante legal, não concordar com o arquivamento do inquérito
policial, poderá, no prazo de 30 (trinta) dias do recebimento da comunicação, submeter a matéria
à revisão da instância competente do órgão ministerial, conforme dispuser a respectiva lei
orgânica. (Incluído pela Lei nº 13.964, de 2019) (Vigência)
§ 2º Nas ações penais relativas a crimes praticados em detrimento da União, Estados e
Municípios, a revisão do arquivamento do inquérito policial poderá ser provocada pela chefia do
órgão a quem couber a sua representação judicial. (Incluído pela Lei nº 13.964, de
2019) (Vigência)
DECISÃO DO MINISTRO LUIZ FUX:
(b) concedo a medida cautelar requerida nos autos da ADI 6.305 e suspendo sine die a eficácia,
ad referendum do plenário,
(b1) da alteração do procedimento de arquivamento do inquérito policial (28, caput, código de
processo penal);
Tendo em vista que a nova redação do artigo 28 está suspensa, vale a antiga redação deste
artigo.
• AÇÃO PENAL PRIVADA SUBSIDIÁRIA DA PÚBLICA
A ação penal privada subsidiária da pública, além de estar prevista no artigo 29 do código de
processo penal, também tem assentamento constitucional no artigo 5º, LIX.
A ideia da ação penal privada subsidiária da pública é permitir que a vítima possa disparar a
persecução penal, ou seja, acionar a máquina estatal persecutória, mediante o ingresso da
queixa-crime, quando o legitimado para fazê-la está inerte. Sendo assim, só se pode falar em
ação penal privada subsidiária da pública, quando o Ministério público não faz nada.
Na ação penal privada subsidiária da pública o polo ativo passa a ser ocupado pela vítima,
participando o Ministério público como coadjuvante, no entanto, o MP participa de absolutamente
tudo nesta ação, podendo, inclusive, retomar a ação no caso de negligência do querelante.
Nos termos do artigo 29 do código de processo penal, será admitida ação privada nos crimes de
ação pública, se esta não for intentada no prazo legal, cabendo ao Ministério público aditar a
queixa, repudiá-la e oferecer denúncia substitutiva, intervir em todos os termos do processo,
fornecer elementos de prova, interpor recurso e, a todo o tempo, no caso de negligência do
querelante, retomar a ação como parte principal. Vale ressaltar que o prazo legal descrito neste
artigo, está previsto no artigo 46 do CPP.
Conforme disposição do artigo 33 do CPP, se o ofendido for menor de 18 anos, ou mentalmente
enfermo, ou retardado mental, e não tiver representante legal, ou colidirem os interesses deste
com os daquele, o direito de queixa poderá ser exercido por curador especial, nomeado, de ofício
ou a requerimento do Ministério Público, pelo juiz competente para o processo penal.
Se o ofendido tem menos de 18 anos, quem ingressará com queixa-crime é o seu representante
legal; se o indivíduo é maior de 18 anos, mas é interditado, ingressará com a queixa-crime o seu
curador. Todavia, quando não há representante legal ou os interesses são colidentes, o juiz
nomeará um curador para que este ingresse com a queixa-crime.
Vale ressaltar que o artigo 34 do código de processo penal foi revogado tacitamente pelo código
civil, uma vez que este previa que se o ofendido fosse menor de 21 anos e maior de 18 anos, o
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direito de queixa poderia ser exercido por ele ou por seu representante legal, no entanto, com a
vigência do Código Civil de 2002, os maiores de 18 anos e menores de 21 anos não têm mais
representante legal.
PRESCRIÇÃO E DECADÊNCIA
Tanto a decadência quanto a prescrição são causas extintivas de punibilidade, no entanto, são
institutos diversos.
Todas as vezes que o raciocínio for o tempo que o Estado tem para definir a pena ou até mesmo
executar a pena definida em relação ao condenado, está se falando em prescrição. O prazo
prescricional está previsto em lei, como regra geral, no artigo 109 do CPP. A prescrição da
pretensão punitiva leva em consideração a pena máxima em abstrato atribuída a cada situação. A
regra é que todos os crimes estejam sujeitos a um prazo prescricional, sendo a imprescritibilidade
uma exceção. Quando a pena é definida na sentença, após o trânsito em julgado para ambas as
partes, e há a necessidade de se executar a pena, a prescrição é calculada com base na pena
que foi tida como definitiva na sentença. A prescrição está prevista no código de processo penal a
partir do artigo 107.
A decadência, por sua vez, é o tempo que a vítima tem para oferecer o direito de representação,
quando o crime é de ação pública condicionada, ou de oferecer o direito de queixa, quando o
crime é de ação privada. Quando se fala em decadência, há referência as situações em que a
persecução penal só pode existir com a participação da vítima, do seu representante legal, ou
dos seus sucessores. Sendo assim, quando se fala em decadência, se fala nos crimes de ação
penal privada e nos crimes de ação penal pública condicionada. O instituto da decadência não se
aplica quando o crime se processa mediante ação penal pública incondicionada. A decadência se
verifica quando o direito de queixa ou de representação não é apresentado no prazo de 06 meses
a contar da data em que se sabe quem é o autor do fato.
Nos termos do artigo 38 do CPP, salvo disposição em contrário, o ofendido, ou seu representante
legal, decairá no direito de queixa ou de representação, se não o exercer dentro do prazo de seis
meses, contado do dia em que vier a saber quem é o autor do crime, ou, no caso do art. 29, do
dia em que se esgotar o prazo para o oferecimento da denúncia. Conforme disposição do
parágrafo único do artigo supracitado, verificar-se-á a decadência do direito de queixa ou
representação, dentro do mesmo prazo, nos casos dos arts. 24, parágrafo primeiro, e 31.
Há de se ter cuidado com a regra da ação penal privada personalíssima, em que os 06 meses
começam a contar do dia em que transita em julgado a ação que foi intentada no Cível para
anular o casamento, bem como quando se estiver diante de vítima menor de idade. Quando a
vítima for menor de idade, o direito de queixa ou de representação, deve ser exercido por seu
representante legal, no entanto, haverá prazo decadencial distinto para os representantes legais
e a vítima menor de idade. Para o representante legal, o prazo é de 06 meses a contar do dia em
que se sabe quem é o autor do fato, enquanto para vítima menor de idade, o prazo começa a ser
contato do dia em que cessa a sua menoridade.
O artigo 39 do CPP trata do direito de representação, condição de procedibilidade da ação penal
pública condicionada, ao estabelecer que o direito de representação poderá ser exercido,
pessoalmente ou por procurador com poderes especiais, mediante declaração, escrita ou oral,
feita ao juiz, ao órgão do Ministério Público, ou à autoridade policial. No processo penal, a
procuração com poderes especiais é uma procuração específica, em que no tópico dos poderes
há uma menção específica ao fato.
Nos termos dos parágrafos do artigo supracitado, a representação feita oralmente ou por escrito,
sem assinatura devidamente autenticada do ofendido, de seu representante legal ou procurador,
será reduzida a termo, perante o juiz ou autoridade policial, presente o órgão do Ministério
Público, quando a este houver sido dirigida; A representação conterá todas as informações que
possam servir à apuração do fato e da autoria; Oferecida ou reduzida a termo a representação, a
autoridade policial procederá a inquérito, ou, não sendo competente, remetê-lo-á à autoridade
que o for; A representação, quando feita ao juiz ou perante este reduzida a termo, será remetida
à autoridade policial para que esta proceda a inquérito; O órgão do Ministério Público dispensará
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o inquérito, se com a representação forem oferecidos elementos que o habilitem a promover a
ação penal, e, neste caso, oferecerá a denúncia no prazo de quinze dias.
Neste último caso, a vítima de um crime de ação penal pública condicionada, ao invés de ir à
delegacia, procurou um Promotor de Justiça, e, ao noticiar o fato e pedir providencias, apresentou
elementos mínimos que habilitam a ação penal, sendo a - denúncia oferecida no prazo de quinze
dias.
Nos termos do artigo 40 do CPP, quando, em autos ou papéis de que conhecerem, os juízes ou
tribunais verificarem a existência de crime de ação pública, remeterão ao Ministério Público as
cópias e os documentos necessários ao oferecimento da denúncia.
REQUISITOS DA DENÚNCIA E DA QUEIXA
A denúncia é a petição inicial da ação penal formulada pelo Ministério público, enquanto a queixa
é a petição inicial da ação penal privada formulada pelo ofendido, ou pelo ofendido por intermédio
do seu representante legal, ou por ser sucessores.
Nos termos do artigo 41 do CPP, a denúncia ou queixa conterá a exposição do fato criminoso,
com todas as suas circunstâncias, a qualificação do acusado ou esclarecimentos pelos quais se
possa identificá-lo, a classificação do crime e, quando necessário, o rol das testemunhas.
A denúncia e a queixa é o momento processual no qual a acusação oferece o rol de pessoas que
ela pretende ouvir. Caso não apresentem, a acusação perde o direito de pleitear a produção
deste tipo específico de prova.
Quando a denúncia ou a queixa preenchem os requisitos do artigo 41 do CPP, a depender do
procedimento previsto em Lei, o juiz, como regra, receberá a denúncia ou a queixa. Todavia,
pode haver a rejeição da denúncia ou da queixa, sendo estas hipóteses previstas, no artigo 395
do CPP.
Nos termos do artigo supracitado, a denúncia ou queixa será rejeitada quando for
manifestamente inepta; faltar pressuposto processual ou condição para o exercício da ação
penal; ou faltar justa causa para o exercício da ação penal.
A denúncia ou queixa será manifestamente inepta quando não preencher os requisitos do artigo
41 do CPP; bem como faltará pressuposto processual ou condição para o exercício da ação
penal quando faltar a legitimidade, ou interesse da ação, ou a capacidade postulatória; e, faltará
justa causa para o exercício da ação penal, quando o fato já tiver sido atingido pela prescrição ou
decadência.
A rejeição da denúncia pela Criptoimputação é justamente a rejeição pela inépcia, quando a
denúncia ou a queixa apresenta narrativa confusa e não consegue se perceber o que de fato
pretende a acusação. O juiz também rejeita a denúncia ou a queixa pela inépcia quando estas
forem genéricas, em que não se tem a individualização da responsabilização dos corréus.
Habeas corpus. Penal. Processo penal. 2. Denúncia genérica. Crime societário. Art. 1º, inciso I,
da Lei 8.137/1990 (Crimes contra a ordem tributária, económica e contra as relações de
consumo). É fundamental que o mínimo de individualização da conduta esteja contido na
denúncia para permitir o recebimento. o caso que apresenta peculiaridades, que demonstram que
um esforço de identificação da contribuição dos envolvidos para o suposto crime seria
particularmente relevante. 3. Ordem concedida, para extinguir a ação penal, por inépcia da
denúncia. (HC 127415, Relator(a): Min. GILMAR MENDES, Segunda Turma, julgado em
13/09/2016, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-206 DIVULG 26-09-2016 PUBLIC 27-09-2016)
PRINCÍPIO DA INDISPONIBILIDADE PÚBLICA
Nos termos do artigo 42 do CPP, o Ministério público não pode desistir da ação penal. Todavia, o
Ministério público pode pedir a absolvição de alguém que tenha acusado. No pedido de
absolvição, haverá declaração do estado-juiz, bem como se terá sentença e um título absolutório.
Conforme disposição do artigo 44 do CPP, a queixa poderá ser dada por procurador com poderes
especiais, devendo constar do instrumento do mandato o nome do querelante e a menção do fato
criminoso, salvo quando tais esclarecimentos dependerem de diligências que devem ser
previamente requeridas no juízo criminal. Além do destaque para os poderes especiais, deve-se
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atentar a falha redacional do artigo supracitado que, ao invés de trazer o nome do querelante,
deveria ter trazido o nome do querelado, uma vez que não se outorga procuração para acusar a
si próprio.
Nos casos das ações penais privadas, o Ministério público participa como fiscal do ordenamento
jurídico e pode intervir no processo, inclusive para aditar a queixa. Nos termos do artigo 45 do
CPP, a queixa, ainda quando a ação penal for privativa do ofendido, poderá ser aditada pelo
Ministério Público, a quem caberá intervir em todos os termos subsequentes do processo. Essa
intervenção, em primeiro momento, em sede de aditamento, está previsto no artigo 46, parágrafo
segundo, do CPP. O prazo para aditar a queixa-crime é de 3 dias a partir do momento que o
Ministério Público tem o primeiro contato com processo.
O artigo 46 do código de processo penal prevê que o prazo para oferecimento da denúncia,
estando o réu preso, será de 5 dias, contado da data em que o órgão do Ministério Público
receber os autos do inquérito policial, e de 15 dias, se o réu estiver solto ou afiançado. No último
caso, se houver devolução do inquérito à autoridade policial (art. 16), contar-se-á o prazo da data
em que o órgão do Ministério Público receber novamente os autos.
Quando o Ministério Público dispensar o inquérito policial, o prazo para o oferecimento da
denúncia contar-se-á da data em que tiver recebido as peças de informações ou a representação,
é o que prevê o parágrafo primeiro do artigo 46 do CPP. Além disso, o prazo para o aditamento
da queixa será de 3 dias, contado da data em que o órgão do Ministério Público receber os autos,
e, se este não se pronunciar dentro do tríduo, entender-se-á que não tem o que aditar,
prosseguindo-se nos demais termos do processo, nos moldes do que dispõe o parágrafo
segundo do artigo anteriormente citado.
A autoridade policial pode requisitar perícias e documentos, conforme prevê a Lei nº 12.830/2013.
Além disso, nos termos do artigo 13-A do CPP, o Ministério pode requisitar diretamente, sem
intervenção judicial, dados cadastrais às empresas privadas e órgãos públicos, nas hipóteses de
crime de extorsão, extorsão mediante sequestro, tráfico de pessoas, condição análoga de
escravo, remessa irregular de criança e adolescente para o exterior.
Conforme disposição do artigo 47 do CPP, se o Ministério Público julgar necessários maiores
esclarecimentos e documentos complementares ou novos elementos de convicção, deverá
requisitá-los, diretamente, de quaisquer autoridades ou funcionários que devam ou possam
fornecê-los. Vale ressaltar que a interceptação telefônica precisa de autorização judicial, no
entanto, os dados do sigilo telefônico não, os quais podem ser requeridos, inclusive, por
comissão parlamentar de inquérito.
RE 1055941 – STF
DECISÃO: O Tribunal, por maioria, aderindo à proposta formulada pelo Ministro Alexandre de
Moraes, fixou a seguinte tese de repercussão geral: “1. É constitucional o compartilhamento dos
relatórios de inteligência financeira da UIF e da íntegra do procedimento fiscalizatório da Receita
Federal do Brasil, que define o lançamento do tributo, com os órgãos de persecução penal para
fins criminais, sem a obrigatoriedade de prévia autorização judicial, devendo ser resguardado o
sigilo das informações em procedimentos formalmente instaurados e sujeitos a posterior controle
jurisdicional.
Sendo assim, o compartilhamento das Unidades de Inteligência Financeira, sem passar pelo
judiciário, é possível, devendo ser guardado o sigilo das informações, devendo isso ficar sujeito a
possibilidade de um controle jurisdicional posteriormente.
RENÚNCIA E PERDÃO
Quando se fala em ação penal de iniciativa privada, não se pode esquecer do princípio da
oportunidade, o qual tem a ver com a Renúncia, nem do princípio da disponibilidade, que tem a
ver com o perdão, e há também a ideia de que não há como permitir um tratamento distinto
quando se estiver diante de coautores, que é a indivisibilidade. Sendo assim, a queixa que é dada
a um dos coautores, a todos se estende; bem como, o mesmo ocorre com a renúncia, nos termos
do artigo 48 e 49 do CPP.
PROFESSOR: LUIZ CARLOS DISCIPLINA: PROCESSO PENAL
A queixa contra qualquer dos autores do crime obrigará ao processo de todos, e o Ministério
Público velará pela sua indivisibilidade, conforme previsão do artigo 48 do CPP. A renúncia ao
exercício do direito de queixa, em relação a um dos autores do crime, a todos se estenderá, nos
termos do artigo 49 do CPP.
A Renúncia é um instituto que se aplica na ação penal privada e na ação penal pública
condicionada, e consiste na possibilidade de poder entrar com a queixa-crime ou representar,
mas não fazê-la, podendo ser tácita ou expressa. Sendo a decisão da renúncia unilateral, pois
cabe a vítima decidir não fazer nada.
Por força de jurisprudência, a indivisibilidade não se aplica nas ações penais públicas, pois há a
possibilidade de denunciar, por hora, um dos corréus entendendo que naquele momento não se
tem elementos mínimos necessários para denunciar o outro, viabilizando, se for o caso,
posteriormente um aditamento.
O perdão é um instituto da ação penal privada, e parte do entendimento que o indivíduo
ingressou com a queixa-crime, mas quer desistir. O perdão, diferente da Renúncia, é uma
decisão bilateral, uma vez que o querelante pode querer desistir da ação penal, mas o querelado
precisa anuir no prazo de três dias. Se o querelado for intimado e nada disser, significa que ele
anuiu. A regra da indivisibilidade também vale para o perdão. Sendo assim, se perdoar um, deve
perdoar todos. Entretanto, tendo em vista que o perdão é bilateral, ele só opera efeitos em
relação àquele que aceitar, nos termos do artigo 51 do CPP.
Suponha que Antônio promoveu uma queixa-crime contra Bruno, Celso e Davi, sendo estes os
querelados. No andamento do processo, Antônio resolve que vai perdoar somente Davi. Contudo,
ele não pode fazer isso, pois o perdão concedido a um dos querelados a todos aproveita. Sendo
assim, ao perdoar Davi, Bruno e Celso serão intimados para dizer se aceitam ser perdoados
também. Quem aceitar o perdão, sai da relação processual, mas para aquele que não aceitar, o
processo continuará.
Conforme disposição do artigo 58 do CPP, concedido o perdão, mediante declaração expressa
nos autos, o querelado será intimado a dizer, dentro de três dias, se o aceita, devendo, ao
mesmo tempo, ser cientificado de que o seu silêncio importará aceitação. Nos termos do
parágrafo púnico, aceito o perdão, o juiz julgará extinta a punibilidade.
Se o magistrado tomar conhecimento de forma inequívoca que o querelante e o querelado
fizeram as pazes e não comunicarão ao juízo, ele poderá declarar extinta a punibilidade
considerando que houve concessão tácita e uma aceitação tácita. Nos termos do artigo 59 do
CPP, a aceitação do perdão fora do processo constará de declaração assinada pelo querelado,
por seu representante legal ou procurador com poderes especiais.
PEREMPÇÃO
A perempção é uma causa extintiva de punibilidade, em que remete a uma ideia de negligência
que leva a extinção do processo. A perempção só existe nos crimes que se processam mediante
ação penal privada.
Conforme disposição do artigo 60, nos casos em que somente se procede mediante queixa,
considerar-se-á perempta a ação penal:
- Quando, iniciada esta, o querelante deixar de promover o andamento do processo durante 30
dias seguidos;
- Quando, falecendo o querelante, ou sobrevindo sua incapacidade, não comparecer em juízo,
para prosseguir no processo, dentro do prazo de 60 (sessenta) dias, qualquer das pessoas a
quem couber fazê-lo, ressalvado o disposto no art. 36;
- Quando o querelante deixar de comparecer, sem motivo justificado, a qualquer ato do processo
a que deva estar presente;
- Quando o querelante deixar de formular o pedido de condenação nas alegações finais;
- Quando, sendo o querelante pessoa jurídica, esta se extinguir sem deixar sucessor.
Em qualquer das causas extintivas de punibilidade, o juiz pode declarar de ofício, nos termos do
artigo 61 do CPP; no entanto, evidentemente, ele pode ser provocado, devendo, neste caso,
decidir dentro do prazo de 5 dias que vai deixar para decidir na sentença final, conforme
disposição do parágrafo único do artigo anteriormente citado.
PROFESSOR: LUIZ CARLOS DISCIPLINA: PROCESSO PENAL
Se a causa extintiva for a morte do acusado, o juiz somente à vista da certidão de óbito, e depois
de ouvido o Ministério Público, declarará extinta a punibilidade.
AULA 04
COMPETÊNCIA
A competência é o limite e a medida da jurisdição. Todo órgão jurisdicional tem jurisdição,
entretanto, a forma de prestar a jurisdição deve ser otimizada, uma vez que não é possível se
admitir que qualquer órgão jurisdicional decida sobre qualquer tema, qualquer matéria, em
qualquer lugar do país.
Existem diversas regras de competência, que levam em consideração, por exemplo, o lugar, a
matéria que está sendo tratada, e a pessoa que é parte no processo. Evidentemente, existem
regras distintas de competência na seara penal e extrapenal.
Na seara penal, as regras de competência penal podem ser encontradas na Constituição Federal,
nas Constituições Estaduais, no código de processo penal, a partir do artigo 69 ao artigo 91 do
CPP, na Lei de Organização Judiciária de cada estado-membro da federação, e no Regimento
Interno dos Tribunais.
Há 3 grupos de regras de competência: competência em razão da matéria, competência em
razão da pessoa, competência em razão do lugar da infração. As regras relativas à matéria e a
pessoa são de competência absoluta, enquanto as regras em relação ao lugar da infração são de
competência relativa. Neste último caso, existe a possibilidade da prorrogação da jurisdição.
Nos termos do artigo 69 do código de processo penal, a competência jurisdicional determinará:
a) o lugar da infração;
b) o domicílio ou residência do réu;
c) a natureza da infração;
d) a distribuição;
e) a conexão ou continência;
f)a prevenção;
g) a prerrogativa de função.
º Critério de competência em razão do lugar da infração:
No artigo 6º do código penal, é previsto que o lugar do crime é tanto o lugar que foi praticado a
ação ou omissão, bem como onde se deu o resultado ou onde deveria ocorrer o resultado. O
Código Penal adotou a Teoria da Ubiquidade. Entretanto, não se pode confundir uma teoria de
direito material, como uma teoria de direito processual. A Teoria da Ubiquidade serve para definir
se determinado fato delituoso será apurado de acordo com as leis brasileiras, de sorte que só há
sentido discutir a Teoria da Ubiquidade nas situações em que o crime tem repercussão no
estrangeiro, por exemplo, um crime que foi praticado no Brasil, mas produziu resultado na
Argentina. A teoria da ubiquidade, no entanto, não determina a base territorial em que o crime
será processado e julgado, mas apenas se a lei Brasileira será aplicada ao caso em concreto ou
não.
O artigo 70 do código de processo penal adotou a Teoria do Resultado. Para o código de
processo penal, o local onde o crime se consumou é aquele em que o juiz terá a competência
para processar e julgar aquele determinado feito, não importando o local da prática. No caso de
tentativa, é competente o local onde foi praticado o último ato de execução. Nos termos deste
artigo, a competência será, de regra, determinada pelo lugar em que se consumar a infração, ou,
no caso de tentativa, pelo lugar em que for praticado o último ato de execução.
Exceções:
01ª exceção: consiste nas situações que envolvem o crime de homicídio em que o local da
consumação é diverso do local da prática. Suponha que A efetuou disparos em praça pública
contra B e este foi atingido na cabeça, mas ainda permanece com vida. A comarca onde B foi
atingido é de pequeno porte hospitalar, sendo necessário que ele seja transferido para uma
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comarca vizinha há 300km de distância. Ao chegar no referido ao hospital, B não resiste à
cirurgia e morre. Se fosse aplicado a regra do artigo 70 do CPP, este feito tramitará nesta
segunda comarca localizada a 300 km de distância do local em que B foi atingido. Contudo,
nestes casos, a jurisprudência prevê que, nos casos em que o crime de homicídio se consumou
em local diferente do local da prática, o processo corre no local em que o crime foi praticado.
“(...) Nos termos do artigo 70 do CPP, a competência para processamento e julgamento da
causa, será, de regra, determinada pelo lugar em que se consumou a infração.
2. Todavia, a jurisprudência tem admitido exceções a essa regra, nas hipóteses em que o
resultado morte ocorrer em lugar diverso daquele onde se iniciaram os atos executórios,
determinando-se que a competência poderá ser do local onde os atos foram inicialmente
praticados.
3. tendo em vista a necessidade de se facilitar a apuração dos fatos e a produção de provas, bem
como garantir que o processo possa atingir a sua finalidade primordial, qual seja, a busca da
verdade real, a competência pode ser fixada no local de início dos atos executórios. (...)
(HC, 95.853/RJ, Rel. Min. Og Fernandes, Sexta Turma, julgado em 11/09/2012)”
02ª exceção: no Jecrim, a opção feita pelo legislador foi de que a competência para processar e
julgar a infração de menor potencial ofensivo é do local onde ela foi praticada e não onde se
consuma, previsto no artigo 63 da Lei nº 9.099/95. Sendo assim, no Jecrim se adotou a Teoria da
Atividade.
• No caso do crime que se praticou no Brasil, mas se consumou fora do território nacional, a
comarca competente será a do local onde se deu o último ato de execução no Brasil. (art. 70,
§1º, do CPP)
• No caso do crime que se praticou fora do Brasil, mas se consumou no território nacional, será
competente a comarca onde o crime se consumou. (art. 70, §2º, do CPP)
• Quando é incerto o limite territorial entre 2 ou mais jurisdições, ou quando incerta a jurisdição
por ter sido a infração consumada ou tentada nas divisas de 2 ou mais jurisdições, a competência
firmar-se-á pela prevenção. (art. 70, §3º, do CPP)
Para o processo penal, o juízo prevento para processar e julgar determinado crime está previsto
no artigo 83 do CPP, ao passo que este prevê que verificar-se-á a competência por prevenção
toda vez que, concorrendo dois ou mais juízes igualmente competentes ou com jurisdição
cumulativa, um deles tiver antecedido aos outros na prática de algum ato do processo ou de
medida a este relativa, ainda que anterior ao oferecimento da denúncia ou da queixa (arts. 70,
§ 3o, 71, 72, § 2o, e 78, II, c). Sendo assim, no processo penal, a prevenção pode restar
caracterizada ainda na fase do inquérito policial.
• Nos crimes previstos no art. 171 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código
Penal), quando praticados mediante depósito, mediante emissão de cheques sem suficiente
provisão de fundos em poder do sacado ou com o pagamento frustrado ou mediante
transferência de valores, a competência será definida pelo local do domicílio da vítima, e, em
caso de pluralidade de vítimas, a competência firmar-se-á pela prevenção. (art. 70, §4º, do CPP)
O parágrafo quarto do artigo 70 do código de processo penal é específico para o crime de
estelionato praticado num contexto, dentro de algumas modalidades. Quando isso ocorrer, o CPP
ao invés de tratar do local competente sendo aquele em que se consuma, optou por dizer que
será o domicílio ou a residência da vítima. Havendo várias vítimas: prevenção. Sendo assim, a
regra geral, é da competência do local onde o crime se consuma. No entanto, no estelionato no
contexto do parágrafo quarto, a competência será do local do domicílio da vítima.
Suponha que determinado grupo rendeu uma pessoa e a colocou dentro de um carro para levá-la
a um cativeiro na comarca A, ligam pra família da vítima para pedir dinheiro para poder soltá-la.
Quatro dias depois, trocam o cativeiro da comarca A para a comarca B. Dias depois, trocam o
cativeiro para comarca C e, por último, trocam para a comarca D, local em que a polícia liberta a
vítima. Neste caso, resta configurada a extorsão mediante sequestro, sendo competente qualquer
uma das comarcas, uma vez que, conforme disposição do artigo 71 do CPP, tratando-se de
infração continuada ou permanente, praticada em território de duas ou mais jurisdições, a
competência firmar-se-á pela prevenção.
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º Critério de competência em razão do domicílio ou residência do réu:
Suponha que foi encontrado um corpo amarrado em um saco plástico, com um tiro na cabeça,
em um terreno baldio. No local, não há evidências de luta corporal, nem manchas de sangue. A
única coisa que se sabe é que houve um homicídio, e que seguramente não ocorreu ali, mas
levaram o corpo para lá. Nestes casos, quando não for conhecido o local da consumação, a
competência se dará em razão do domicílio ou residência do réu, nos termos do artigo 72, do
CPP, Vale ressaltar que para o direito processual penal o domicílio e a residência são conceitos
que se equivalem.
O domicílio ou residência do réu é um foro supletivo nos crimes que se processam mediante ação
penal pública, sendo invocado quando não se sabe o local da consumação do crime.
No caso do réu ter mais de um domicílio, será competente qualquer um deles, havendo a
prevenção, conforme disposição do parágrafo primeiro do artigo 72, do CPP. Se, porventura, o
réu não possuir nenhum domicílio, será competente o local onde ele for encontrado, nos termos
do parágrafo segundo do artigo 72, do CPP.
Existe uma regra especial em relação aos crimes que se processam mediante ação penal
privada, prevista ao teor do artigo 73 do CPP. Este artigo prevê que nos casos de exclusiva ação
privada, o querelante poderá preferir o foro de domicílio ou da residência do réu, ainda quando
conhecido o lugar da infração.
Na ação pública: foro supletivo;
Na ação privada: foro alternativo.
º Critério de competência em razão da natureza da infração:
A competência em razão da natureza da infração, é uma regra de competência absoluta.
• Competência da Justiça Federal:
A competência da justiça federal em matéria criminal é especializada, de sorte que a competência
criminal da justiça estadual é residual.
Nos termos do artigo 109, da CF, aos juízes federais compete processar e julgar:
- Os crimes políticos e as infrações penais praticadas em detrimento de bens, serviços ou
interesse da união ou de suas entidades autárquicas ou empresas públicas, excluídas as
Contravenções e ressalvada a competência da justiça militar e da justiça eleitoral. (art. 109, IV, da
CF);
- Os crimes previstos em tratado ou convenção Internacional, quando, iniciada a execução no
país, o resultado tenha ou devesse ter ocorrido no estrangeiro, o reciprocamente. (art. 109, V, da
CF);
- As causas relativas a direitos humanos a que se refere o parágrafo quinto deste artigo. (art. 109,
V-A, da CF);
- Os crimes contra a organização do trabalho e, nos casos determinados por lei, contra o sistema
financeiro e a ordem econômico-financeira; (art. 109, VI, da CF);
- Os “habeas corpus”, em matéria criminal de sua competência ou quando o constrangimento
provier de autoridade cujos atos não estejam diretamente sujeitos a outra jurisdição. (art. 109, VII,
da CF);
- Os mandados de segurança e os “habeas-data” contra ato de autoridade federal, excetuados os
casos de competência dos tribunais federais. (art. 109, VIII, da CF);
- Os crimes cometidos a bordo de navios ou aeronaves, ressalvada a competência da Justiça
Militar. (art. 109, IX, da CF);
- Os crimes de ingresso ou permanência irregular de estrangeiro, a execução de carta rogatória,
após o “exequatur”, e de sentença estrangeira, após a homologação, as causas referentes à
nacionalidade, inclusive a respectiva opção e a naturalização. (art. 109, X, da CF);
- A disputa sobre direitos indígenas. (art. 109, XI, da CF).
O artigo 109, IV, da CF, se refere aos crimes políticos como sendo de competência da Justiça
Federal. Entretanto, a Lei nº 7.170/83 foi totalmente revogada pela Lei nº 14.197/21. A Lei nº
7.170/83 definia quais eram os crimes políticos. Porém, agora toda a matéria está tratada no título
XII do código penal. Considerar que todos os crimes do título XII do CP são crimes políticos
julgados pela Justiça Federal não é correto, pois, por exemplo, há os crimes contra o
funcionamento das instituições democráticas no processo eleitoral, nos termos do artigo 359-N,
do CP. Neste caso, há crime para ser julgado na justiça eleitoral.
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Sendo assim, os crimes que estiverem relacionados a atividade da justiça eleitoral, ao processo
eleitoral, e a justiça eleitoral, devem ser julgados pela justiça eleitoral; os demais serão julgados
pela justiça federal, por exemplo, o crime de atentado à soberania, previsto ao teor do artigo 359-I
do CP.
O artigo 109, IV, da CF, se refere também as infrações penais praticadas em detrimento de bens,
serviços ou interesse da União ou de suas entidades autárquicas ou empresas públicas. Caso o
crime seja praticado contra o Banco do Brasil, será processado e julgado pela Justiça Estadual,
uma vez que o Banco do Brasil é uma sociedade de economia mista. Entretanto, se o crime é
cometido contra os Correios ou contra a Caixa Econômica Federal, o crime será processado e
julgado pela justiça federal. O inciso IV do artigo 109 da Constituição federal também afasta as
Contravenções penais.
Súmula 42, do STJ: Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar as causas cíveis em
que é parte sociedade de economia mista e os crimes pratica- dos em seu detrimento.
Súmula 38, do STJ: compete a justiça estadual comum, na vigência da constituição de 1988, o
processo por contravenção penal, ainda que praticada em detrimento de bens, serviços ou
interesse da união ou de suas entidades.
OBS.: Existe uma possibilidade remota de uma contravenção ser julgada na justiça federal:
quando quem a praticou goza de prerrogativa de foro. Por exemplo, se um juiz federal ou
procurador da República forem processados pela prática de uma contravenção penal, eles serão
processados e julgados pelo TRF, para o qual estão vinculados.
Súmula 73, do STJ: A utilização de papel moeda grosseiramente falsificado configura, em tese, o
crime de estelionato, da competência da Justiça Estadual.
Súmula 147, do STJ: compete a justiça federal processar e julgar os crimes praticados contra
funcionário público federal, quando relacionados com o exercício da função.
Súmula 140, do STJ: Compete à Justiça Comum Estadual processar e julgar crime em que o
indígena figure como autor ou vítima.
Súmula 208, do STJ: Compete à Justiça Federal processar e julgar prefeito municipal por desvio
de verba sujeita a prestação de contas perante órgão federal.
Súmula 209, do STJ: Compete à Justiça Estadual processar e julgar prefeito por desvio de verba
transferida e incorporada ao patrimônio municipal.
Súmula 62, do STJ: compete a justiça estadual processar e julgar o crime de falsa anotação na
carteira de trabalho e previdência social, atribuído a empresa privada.
Súmula 522, do STF: Salvo ocorrência de tráfico para o exterior, quando, então, a competência
será da justiça federal, compete à justiça dos estados o processo e julgamento dos crimes
relativos a entorpecentes.
• Competência da Justiça Militar:
À justiça militar compete julgar os crimes militares definidos em lei (artigos 124 e 125, §4º, ambos
da Constituição da República.
Os crimes militares encontram definição no artigo nono do código penal militar.
A justiça militar da união analisa somente a natureza do crime cometido para definir a sua
competência, seja o acusado civil ou militar. Portanto, têm-se que a competência da justiça militar
da união, pode decorrer somente da matéria (crime militar), é ratione materiae.
A justiça militar estadual analisa a natureza do crime e a condição pessoal do acusado, na
medida em que julga somente os militares (art. 125, §4º, da CF). Portanto, a competência da
justiça militar estadual é definida em razão da matéria e em razão da pessoa (ratione materiae e
ratione personae).
Nos termos do artigo 9º do Código Penal Militar, consideram-se crimes militares, em tempos de
paz:
- Os crimes de que trata este código, quando definidos de modo diverso na lei penal comum, ou
nela não previstos, qualquer que seja o agente, salvo disposição especial;
- Os crimes previstos neste código e os previstos na legislação penal, quando praticados:
a) por militar em situação de atividade ou assemelhado, contra militar na mesma situação ou
assemelhado;
b) por militar em situação de atividade ou assemelhado, em lugar sujeito a administração militar,
contra militar da reserva, o reformado, ou assemelhado, ou civil;
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c) for militar em serviço ou atuando em razão da função, em comissão de natureza militar, ou em
formatura, ainda Que Fora do lugar sujeito a administração militar contra militar da reserva, ou
reformado, ou civil;
d) por militar durante o período de manobras ou exercício, contra militar da reserva, ou
reformado, ou assemelhado, ou se viu;
e) por militar em situação de atividade, ou assemelhado, contra o patrimônio sob a administração
militar, ou a ordem administrativa militar;
Os crimes praticados por militar da reserva, ou reformado, ou por civil, contra as instituições
militares, considerando-se como tais não só os compreendidos no inciso I, como os do inciso II,
nos seguintes casos:
a) contra o patrimônio sob a administração militar, ou contra a ordem administrativa militar;
b) em lugar sujeito à administração militar contra militar em situação de atividade ou
assemelhado, ou contra funcionário de Ministério militar ou da Justiça Militar, no exercício de
função inerente ao seu cargo;
c) contra militar em formatura, ou durante o período de prontidão, vigilância, observação,
exploração, exercício, acampamento, acantonamento ou manobras;
d) ainda que fora do lugar sujeito à administração militar, contra militar em função de natureza
militar, ou no desempenho de serviço de vigilância, garantia e preservação da ordem pública,
administrativa ou judiciária, quando legalmente requisitado para aquele fim, ou em obediência a
determinação legal superior.
Nos termos do §1º deste artigo, os crimes de que trata este artigo, quando dolosos contra a vida
e cometidos por militares contra civil, serão de competência do tribunal do júri.
Conforme disposição do §2º deste artigo, os crimes de que trata este artigo, quando dolosos
contra a vida e cometidos por militares das Forças Armadas contra civil, serão da competência da
Justiça Militar da União, se praticados no contexto:
- Do cumprimento de atribuições que lhes forem estabelecidas pelo Presidente da República ou
pelo Ministro de Estado da Defesa;
- De ação que envolva a segurança de instituição militar ou de missão militar, mesmo que não
beligerante; ou
- De atividade de natureza militar, de operação de paz, de garantia da lei e da ordem ou de
atribuição subsidiária, realizadas em conformidade com o disposto no art. 142 da Constituição
Federal e na forma dos seguintes diplomas legais:
a) Lei no 7.565, de 19 de dezembro de 1986 - Código Brasileiro de Aeronáutica;
b) Lei Complementar no 97, de 9 de junho de 1999;
c) Decreto-Lei no 1.002, de 21 de outubro de 1969 - Código de Processo Penal Militar; e
d) Lei no 4.737, de 15 de julho de 1965 - Código Eleitoral.
• Competência da Justiça Eleitoral:
Na justiça eleitoral são julgados os crimes eleitorais definidos em lei. Vale ressaltar que não são
todos os crimes cometidos no dia da eleição que serão julgados pela Justiça Eleitoral. Por
exemplo, um crime de homicídio não será julgado pela Justiça eleitoral.
• Competência do Tribunal do Júri:
O tribunal do júri processa e julga os crimes dolosos contra a vida, consumados ou tentados, bem
como os crimes conexos.
São crimes dolosos contra a vida:
- Homicídio doloso;
- Infanticídio;
- Aborto;
- Induzimento, auxílio e instigação ao suicídio.
OBS.: Induzimento, auxílio e instigação a automutilação não é crime doloso contra a vida, mas
sim contra a integridade física.
OBS.: Os crimes “seguidos de morte” não são de competência do Tribunal do Júri, uma vez que
estes são preterdolosos, em que a morte é decorrente de culpa.
OBS.: o crime de latrocínio não é de competência do tribunal do júri, uma vez que o dolo neste
crime é o de subtrair coisa alheia móvel, mediante violência ou grave ameaça.
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Tendo em vista que o tribunal do júri é bifásico, na fase do sumário de culpa, o juiz faz o filtro
para identificar se o crime é doloso contra a vida. Caso não seja, remete o processo para o juízo
competente. Entretanto, há causas de desclassificação, em que o juiz no plenário desclassificará
o crime por não ser doloso contra a vida e ele mesmo proferirá o julgamento, nos termos do §3º
do artigo 74, do CPP.
• Incidente de deslocamento de competência:
Nos termos do §5º, do artigo 109 da Constituição federal, nas hipóteses de grave violação de
direitos humanos, o Procurador-Geral da República, com a finalidade de assegurar o
cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de direitos humanos dos quais
o Brasil seja parte, poderá suscitar, perante o Superior Tribunal de Justiça, em qualquer fase do
inquérito ou processo, incidente de deslocamento de competência para a Justiça Federal.
No incidente de deslocamento de competência, o procurador-geral da República pede ao STJ,
devendo demonstrar 3 requisitos, sendo 02 deles explícitos e 01 implícito:
01º requisito: grave violação de direitos humanos;
02º requisito: assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais de
direitos humanos dos quais o Brasil seja parte;
03º requisito: demonstrar que as instâncias estaduais não estão dando conta do caso. (requisito
implícito)
“A terceira seção deste superior tribunal explicitou que os requisitos do incidente de
deslocamento de competência são três: a) grave violação de direitos humanos; b) necessidade
de assegurar o cumprimento de obrigações decorrentes de tratados internacionais; c)
incapacidade - oriunda de inércia, omissão, ineficácia, negligência, falta de vontade política, de
condições pessoais e/ou materiais etc. – de o Estado-membro, por suas instituições e
autoridades, levar a cabo, em toda a sua extensão, a persecução penal.” (IDC n. 1/PA, Relator
Ministro Arnaldo Esteves Lima, julgado em 8.6.2055, DJ 10.10.2005).
º Competência em razão da distribuição:
Este critério é invocado quando dentro de uma mesma base territorial tiver juízes igualmente
competentes. Por exemplo, na Comarca A há 03 varas criminais e, diante de um crime de Tráfico
de drogas que não tem repercussão internacional e se consumou na Comarca A, qualquer uma
dessas varas será competente para processar e julgar esse crime. Sendo assim, quando houver
juízes igualmente competentes, o critério é a distribuição aleatória.
Evidentemente, o critério da distribuição não valerá como primeiro critério se houver prevenção,
uma vez que nos termos do artigo 83 do CPP, a prevenção poderá estar caracterizada antes
mesmo da existência da ação penal.
Suponha que em um caso, ainda na fase do inquérito policial, houve pedido de prisão preventiva,
em que o pedido caiu para o juiz da segunda Vara criminal de determinada comarca por
distribuição aleatória. Neste caso, se este inquérito policial virar ação penal, terá que ir para o juiz
que já decidiu sobre a prisão preventiva, devido à prevenção.
Quando se tratar de competência relativa, e competência em razão da prevenção é relativa
também, significa dizer que um juiz que é originariamente incompetente, pode se tornar
competente porque ninguém se insurgiu contra.
Termos do artigo 75, do código de processo penal, a precedência da distribuição fixará a
competência quando, na mesma circunscrição judiciária, houver mais de um juiz igualmente
competente. conforme disposição do parágrafo único deste artigo, a distribuição realizada para o
efeito da concessão de fiança ou da decretação de prisão preventiva ou de qualquer diligência
anterior à denúncia ou queixa prevenirá a da ação penal.
º Competência em razão da conexão ou continência:
Quando se alega conexão ou continência, o que se quer é que uma causa que tramita em uma
Vara, vá para outra. A ideia da conexão ou continência é evitar julgamentos conflitantes quando
existe alguma relação de pertencimento, que permita que o julgador trate as situações de
maneira uniforme. No processo penal, a conexão e continência possuem a mesma razão de ser.
Entretanto, possuem definições distintas.
Conexão: Nos termos do artigo 76 do código de processo penal, a competência será determinada
pela conexão:
PROFESSOR: LUIZ CARLOS DISCIPLINA: PROCESSO PENAL
- Se ocorrendo duas ou mais infrações, houverem sido praticadas, ao mesmo tempo, por várias
pessoas reunidas, ou por várias pessoas em concurso, embora diverso o tempo e o lugar, ou por
várias pessoas, umas contra as outras; (conexão subjetiva)
Suponha que um grupo de nove pessoas planejaram a explosão de um caixa eletrônico em uma
cidade pequena, 03 vão ao banco, 03 vão “dar tiro” em delegacia e 03 vão bloquear o principal
acesso da cidade. Cada um dos 3 grupos, compostos cada um por 3 pessoas, dentro de um
plano original com suas tarefas, havendo ações distintas, mas com uniformidade de ação. Neste
caso, há similitude na forma de agir, havendo conexão subjetiva concursal.
Suponha que um caminhão tombou e várias pessoas se reuniram para saquear o caminhão.
Embora não houvesse um prévio ajuste de conduta, todos serão julgados juntos, havendo
conexão subjetiva por simultaneidade.
- Se no mesmo caso houverem sido umas praticadas para facilitar ou ocultar as outras, ou para
conseguir impunidade ou vantagem em relação a qualquer delas. (conexão objetiva ou
teleológica); Por exemplo, matar e ocultar o cadáver.
- Quando a prova de uma infração ou de qualquer de suas circunstâncias elementares influir na
prova de outra infração. (conexão probatória ou instrumental); Por exemplo, um indivíduo praticou
um roubo majorado com emprego de arma de fogo com a arma que tinha sido furtada de um
policial. Neste caso, há uma relação de conexão entre esses crimes.
Continência: Nos termos do artigo 77 do código de processo penal, a competência será
determinada pela continência quando:
- Duas ou mais pessoas forem acusadas pela mesma infração;
- O caso de infração cometida nas condições previstas nos arts. 70, 73 e 74 do Código Penal. Por
exemplo, uma mãe com seu filho colo, é atropelada por um carro que vinha em velocidade
incompatível com a via, e é arremessada para um lado e o seu filho para o outro. Neste caso,
houve uma ação com dois resultados.
Seja pela regra da conexão ou continência, as causas serão reunidas para evitar julgamentos
conflitantes.
ATENÇÃO: se houver um crime de competência do tribunal do júri conexo com crime que não
seja desta competência, tudo irá para o tribunal do júri.
OBS.: se os crimes que forem conexos forem da Vara criminal, deverá ser analisado onde foi
praticada a infração mais grave; se a gravidade for igual, deverá ser analisado o maior número de
infração; se o número de infração for a mesma, deverá ser analisada a prevenção.
Nos termos do artigo 78, do CPP, na determinação da competência por conexão ou continência,
serão observadas as seguintes regras:
- No concurso entre a competência do júri e a de outro órgão da jurisdição comum, prevalecerá a
competência do júri;
- No concurso de jurisdições da mesma categoria:
a) preponderará a do lugar da infração, à qual for cominada a pena mais grave;
b) prevalecerá a do lugar em que houver ocorrido o maior número de infrações, se as respectivas
penas forem de igual gravidade;
c) firmar-se-á a competência pela prevenção, nos outros casos;
- No concurso de jurisdições de diversas categorias, predominará a de maior graduação;
- No concurso entre a jurisdição comum e a especial, prevalecerá esta.
AULA 05
Suponha que um juiz que tem prerrogativa de foro comete um crime de peculato com um servidor
da Vara. O juiz é julgado no Tribunal de Justiça e, como a jurisdição do juiz é mais graduada que
a do servidor, este também será julgado no Tribunal de Justiça.
Súmula 122 do STJ - compete a justiça federal o processo e julgamento unificado dos crimes
conexos de competência federal e estadual, não se aplicando a regra do art. 78, II, "a", do código
de processo penal.
PROFESSOR: LUIZ CARLOS DISCIPLINA: PROCESSO PENAL
Suponha que o indivíduo está dirigindo bêbado por uma BR, ou seja, numa rodovia Federal. Esse
crime é afeto a justiça Estadual. A PRF faz sinal para que ele pare, mas ele propositalmente joga
o carro contra o carro da polícia Rodoviária federal. Neste caso, há o crime de dirigir embriagado
conexo com o crime foi praticado contra o servidor público da polícia Rodoviária federal no
exercício da função. Sendo assim, há um crime da justiça estadual + um crime da justiça federal,
sendo ambos julgados na justiça federal.
ATENÇÃO: apesar do crime de competência da justiça estadual quando conexo com crime de
competência da justiça federal, por esta ser julgado, o mesmo não ocorre com as Contravenções
penais. Quando um crime da justiça federal tiver conexão com a contravenção penal, que de
algum modo atinja bens, serviços ou interesse da união ou de suas entidades, será preciso
separar, pois a contravenção é sempre julgado na Justiça Estadual, conforme a súmula 38 do
STJ.
Súmula 38 do STJ - Compete a Justiça Estadual comum, na vigência da constituição de 1988, o
processo por contravenção penal, ainda que praticada em detrimento de bens, serviços ou
interesse da união ou de suas entidades.
Nos temos o artigo 79 do código de processo penal, haverá separação obrigatória dos processos
quando:
a) no concurso entre a jurisdição comum e a militar;
b) no concurso entre a jurisdição comum e a do juízo de menores.
Nos temos o artigo 80 do código de processo penal, será facultativa a separação dos processos
quando as infrações tiverem sido praticadas em circunstâncias de tempo ou de lugar diferentes,
ou, quando pelo excessivo número de acusados e para não Ihes prolongar a prisão provisória, ou
por outro motivo relevante, o juiz reputar conveniente a separação.
Avocatória: Nos termos do artigo 82, do CPP, se, não obstante a conexão ou continência, forem
instaurados processos diferentes, a autoridade de jurisdição prevalente deverá avocar os
processos que corram perante os outros juízes, salvo se já estiverem com sentença definitiva.
Neste caso, a unidade dos processos só se dará, ulteriormente, para o efeito de soma ou de
unificação das penas.
DA COMPETÊNCIA PELA PRERROGATIVA DE FUNÇÃO:
A regra da prerrogativa de foro serve para assegurar a Independência do juiz.
- Critérios do STF:
O Supremo Tribunal Federal decidiu que esses parâmetros se aplicam para os deputados e
senadores, não se aplicam a todas as pessoas que têm prerrogativa de foro. O STJ terminou
replicando para os governadores e para os membros dos tribunais de contas estaduais. O STF
decidiu o seguinte:
Para que o deputado federal ou senador seja processado e julgado por crime comum no STF não
é por qualquer crime, é crime relacionado ao exercício de sua função parlamentar e praticado no
curso do mandato. Se for um estupro, por exemplo, não será julgado no STF. Se porventura, no
tramitar do processo no STF, o ministro relator do processo já tenha despachado para que as
partes apresentem as suas alegações finais, mesmo que o parlamentar perca o cargo, não se
reeleja, renuncie como estratégia ou manobra de querer se livrar do julgamento, a jurisdição vai
perpetuar se o despacho que determina a apresentação de alegações finais já tiver sido
publicado.
º o foro por prerrogativa de função aplica se apenas aos crimes cometidos durante o exercício do
cargo e relacionados às funções desempenhadas;
º após o final da instrução processual, com a publicação do despacho de intimação para
apresentação de alegações finais, a competência para processar e julgar ações penais não será
mais afetada em razão de o agente público vir a ocupar outro cargo ou deixar o cargo que
ocupava, qualquer que seja o motivo;
º terminado definitivamente o julgamento, o entendimento aplicar-se-á a todos os processos
pendentes no Supremo Tribunal Federal, por se tratar de uma regra fixadora da competência.
A regra da prerrogativa de função é a regra que ganha de todas as outras regras. Então, se um
prefeito é acusado de matar um desafeto, a prerrogativa de função ganha do tribunal do júri.
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ATENÇÃO: com relação aos magistrados e aos membros do Ministério público, eles serão
sempre processados e julgados pelo tribunal o qual estão vinculados. Sendo assim, se o juiz de
direito do estado de Pernambuco cometer um crime na Bahia, ele será julgado no TJPE.
DISPOSIÇÕES ESPECIAIS
Art. 88. No processo por crimes praticados fora do território brasileiro, será competente o juízo da
Capital do Estado onde houver por último residido o acusado. Se este nunca tiver residido no
Brasil, será competente o juízo da Capital da República.
Art. 89. Os crimes cometidos em qualquer embarcação nas águas territoriais da República, ou
nos rios e lagos fronteiriços, bem como a bordo de embarcações nacionais, em alto-mar, serão
processados e julgados pela justiça do primeiro porto brasileiro em que tocar a embarcação, após
o crime, ou, quando se afastar do País, pela do último em que houver tocado.
Art. 90. Os crimes praticados a bordo de aeronave nacional, dentro do espaço aéreo
correspondente ao território brasileiro, ou ao alto-mar, ou a bordo de aeronave estrangeira, dentro
do espaço aéreo correspondente ao território nacional, serão processados e julgados pela justiça
da comarca em cujo território se verificar o pouso após o crime, ou pela da comarca de onde
houver partido a aeronave.
Art. 91. Quando incerta e não se determinar de acordo com as normas estabelecidas nos arts. 89
e 90, a competência se firmará pela prevenção
MEDIDAS CAUTELARES DIVERSAS DA PRISÃO
O contexto é o de permitir que o investigado e o acusado esteja livre no curso da persecução
penal, no curso da investigação, no curso do processo criminal. Entretanto, livre sem gozar deste
direito de forma plena e irrestrita. Ele estará é verdade com algumas amarras, que podem
consistir na proibição de frequentar determinados locais, na proibição de se aproximar de
determinada pessoa, e podem consistir, por exemplo, no rastreio, uma monitoração eletrônica,
num afastamento do cargo público, no pagamento de uma fiança, não comparecimento periódico
em juízo para justificar as suas atividades, mas que continuará em liberdade. A ideia é que o juiz
sempre opte por aplicar uma medida cautelar diversa da prisão ao invés de prender. Na verdade,
a regra é nem medida cautelar diversa da prisão ter, porque a regra é a Liberdade plena e
irrestrita, mas que se tiver que colocar uma restrição, que coloque sem ser a prisão como
primeira medida.
Quando se fala em medida cautelar diversa da prisão, apesar de não ser prisão, é uma restrição
da Liberdade. Quando se aplica uma medida cautelar diversa da prisão, há de se observar a
necessidade e adequação da medida.
Nos termos do artigo 282, do CPP, as medidas cautelares previstas neste Título deverão ser
aplicadas observando-se a:
º necessidade para aplicação da lei penal, para a investigação ou a instrução criminal e, nos
casos expressamente previstos, para evitar a prática de infrações penais;
º adequação da medida à gravidade do crime, circunstâncias do fato e condições pessoais do
indiciado ou acusado.
As medidas cautelares poderão ser aplicadas isolada ou cumulativamente, nos termos do
parágrafo primeiro.
Este tema sofreu alteração com o pacote anticrime. Antes dessa alteração, a lei permitia que o
juiz aplicasse uma medida cautelar diversa da prisão de ofício na fase judicializada. O juiz não
poderia aplicar uma medida cautelar diversa da prisão de ofício na fase do inquérito, ou seja, na
fase investigativa havia necessidade de pedido, de provocação; o juiz só podia aplicar se fosse
provocado, mas na fase judicial ele poderia aplicar de ofício. Com o advento do Pacote Anticrime
isto mudou. O juiz só pode aplicar uma medida cautelar diversa da prisão se houver provocação.
As medidas cautelares serão decretadas pelo juiz a requerimento das partes ou, quando no curso
da investigação criminal, por representação da autoridade policial ou mediante requerimento do
Ministério Público, conforme parágrafo segundo, do artigo 282, do CPP.
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Supondo que houve o pedido de medida cautelar diversa da prisão, a regra é que o juiz antes de
decidir se vai aplicar ou não deve ouvir o destinatário da medida, obedecendo o contraditório
prévio. Evidentemente que se houver um caso de urgência, se o juiz perceber que há um risco de
ineficácia da medida, ele concede liminarmente, justificando o porquê fez isso, e depois dá vistas,
intimando o destinatário da medida cautelar diversa da prisão para pode r contestar a medida.
O parágrafo terceiro prevê que ressalvados os casos de urgência ou de perigo de ineficácia da
medida, o juiz, ao receber o pedido de medida cautelar, determinará a intimação da parte
contrária, para se manifestar no prazo de 5 (cinco) dias, acompanhada de cópia do requerimento
e das peças necessárias, permanecendo os autos em juízo, e os casos de urgência ou de perigo
deverão ser justificados e fundamentados em decisão que contenha elementos do caso concreto
que justifiquem essa medida excepcional.
A consequência jurídica do descumprimento de uma medida cautelar diversa da prisão não gera
prisão imediata. A primeira medida que o juiz deve buscar é a de substituir por outra medida; se
não funcionar, cumular medidas cautelares diversas da prisão; no último caso, decretar a prisão
preventiva. Por exemplo, o indivíduo foi preso, na audiência de custódia o seu flagrante foi
homologado e foi concedida liberdade provisória com a cautelar de proibição de se aproximar de
determinada pessoa, mas ele se aproximou descumprindo a medida.
O parágrafo quarto prevê que no caso de descumprimento de qualquer das obrigações impostas,
o juiz, mediante requerimento do Ministério Público, de seu assistente ou do querelante, poderá
substituir a medida, impor outra em cumulação, ou, em último caso, decretar a prisão preventiva,
nos termos do parágrafo único do art. 312 deste Código.
OBS.: o pacote anticrime alterou o parágrafo único do artigo 312 para parágrafo primeiro e
parágrafo segundo, mas esqueceram de alterar no disposto acima. sendo assim, o correto seria
nos termos do parágrafo primeiro e parágrafo segundo do artigo 312 deste código.
O juiz poderá, de ofício ou a pedido das partes, revogar a medida cautelar ou substituí-la quando
verificar a falta de motivo para que subsista, bem como voltar a decretá-la, se sobrevierem razões
que a justifiquem, conforme previsão do parágrafo quinto, do artigo 282, do CPP.
A prisão preventiva somente será determinada quando não for cabível a sua substituição por
outra medida cautelar, observado o art. 319 deste Código, e o não cabimento da substituição por
outra medida cautelar deverá ser justificado de forma fundamentada nos elementos presentes do
caso concreto, de forma individualizada, nos termos do parágrafo sexto, do artigo 282, do CPP.
Sendo assim, a medida cautelar diversa da prisão deve ser sempre medida alternativa prioritária
frente à prisão.
O entendimento que prevalece na doutrina é que não existe poder geral de cautela no processo
penal, as medidas cautelares diversas da prisão são somente aquelas listadas no artigo 319 do
CPP. Em alguns julgados do STJ e STF se vê julgados invocando o poder geral de cautela,
fixando medidas cautelares inominadas.
REGRAS GERAIS DA PRISÃO PROCESSUAL
O artigo 283 traz a divisão da prisão criminal mostrando que existe a prisão para cumprir pena e
existe uma prisão processual. A prisão para cumprir pena decorre de uma sentença ou de um
acórdão condenatórios que aplicou uma pena privativa de liberdade transitados em julgado, ou
seja, não pende mais recursos. Mas, existe também a possibilidade da prisão preventiva e
temporária. Lembrando que em prisão em flagrante a sua prisão é bastante efêmera, porque o
indivíduo é apresentado à audiência de custódia, e aquele que, uma vez preso em flagrante, só
continua preso se houver a conversão deste flagrante em prisão em preventiva. É por isso que
alguns doutrinadores chamam a prisão em flagrante de prisão pré-cautelar.
Conforme o artigo 283, ninguém poderá ser preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita
e fundamentada da autoridade judiciária competente, em decorrência de prisão cautelar ou em
virtude de condenação criminal transitada em julgado. As medidas cautelares previstas neste
Título não se aplicam à infração a que não for isolada, cumulativa ou alternativamente cominada
pena privativa de liberdade, conforme o parágrafo primeiro. A prisão poderá ser efetuada em
qualquer dia e a qualquer hora, respeitadas as restrições relativas à inviolabilidade do domicílio,
nos termos do parágrafo segundo.
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A regra é não empregar a força no momento da prisão, mas se o indivíduo reage à prisão, se
oferece resistência ou tenta fugir, emprega-se a força necessária. Basicamente o mesmo
raciocínio é utilizado para o emprego das algemas. Se o indivíduo representa um perigo à
integridade física própria ou de terceiros, se existe a possibilidade dele resistir, se existe a
possibilidade dele fugir, tem que algemar. Evidentemente isto tem que ser consignado, sob pena
de responsabilidade civil, criminal e administrativa do executor da prisão, e a possibilidade de
nulidade da prisão e do ato processual. Então, o que há é a necessidade de justificativa de
registro.
Conforme disposição do artigo 284, do CPP, não será permitido o emprego de força, salvo a
indispensável no caso de resistência ou de tentativa de fuga do preso.
Súmula vinculante nº 11: Só é lícito o uso de algemas em casos de resistência e de fundado
receio de fuga ou de perigo à integridade física própria ou alheia, por parte do preso ou de
terceiros, justificada a excepcionalidade por escrito, sob pena de responsabilidade disciplinar, civil
e penal do agente ou da autoridade e de nulidade da prisão ou do ato processual a que se refere,
sem prejuízo da responsabilidade civil do Estado.
Uma prisão cautelar, como é a preventiva é a temporária, ou até mesmo para cumprir pena,
demanda a existência de um mandado, e o artigo 285 diz quais são os requisitos deste mandado.
Conforme o artigo 285, do CPP, a autoridade que ordenar a prisão fará expedir o respectivo
mandado.
Conforme parágrafo único, o mandado de prisão:
º será lavrado pelo escrivão e assinado pela autoridade;
º designará a pessoa, que tiver de ser presa, por seu nome, alcunha ou sinais característicos;
º mencionará a infração penal que motivar a prisão;
º declarará o valor da fiança arbitrada, quando afiançável a infração;
º será dirigido a quem tiver qualidade para dar-lhe execução.
O mandado será passado em duplicata, e o executor entregará ao preso, logo depois da prisão,
um dos exemplares com declaração do dia, hora e lugar da diligência. Da entrega deverá o preso
passar recibo no outro exemplar; se recusar, não souber ou não puder escrever, o fato será
mencionado em declaração, assinada por duas testemunhas, nos termos do artigo 286, do CPP.
Enquanto o artigo 285 traz os requisitos intrínsecos do mandado de prisão, o artigo 286 traz os
requisitos extrínsecos, ou seja, o que deve ser observado no cumprimento do mandado. Sendo a
infração inafiançável, é possível que o indivíduo seja detido e preso sem que o mandado seja
exibido, sendo imediatamente apresentado ao juiz que tiver expedido o mandado para a
realização da audiência de Custódia, conforme o artigo 287, do CPP. A ideia da audiência de
Custódia para o preso do mandado serve para verificar a legalidade do mandado e se os
responsáveis pelo cumprimento do mandado agiram dentro da lei.
Se a infração for inafiançável, a falta de exibição do mandado não obstará a prisão, e o preso, em
tal caso, será imediatamente apresentado ao juiz que tiver expedido o mandado, para a
realização de audiência de custódia. (Art. 287, CPP)
Ninguém será recolhido à prisão, sem que seja exibido o mandado ao respectivo diretor ou
carcereiro, a quem será entregue cópia assinada pelo executor ou apresentada a guia expedida
pela autoridade competente, devendo ser passado recibo da entrega do preso, com declaração
de dia e hora, conforme disposição do artigo 288, do CPP.
Quando o acusado estiver no território nacional, fora da jurisdição do juiz processante, será
deprecada a sua prisão, devendo constar da precatória o inteiro teor do mandado, nos termos do
artigo 289, do CPP. Havendo urgência, o juiz poderá requisitar a prisão por qualquer meio de
comunicação, do qual deverá constar o motivo da prisão, bem como o valor da fiança se
arbitrada, conforme o parágrafo primeiro deste artigo.
A autoridade a quem se fizer a requisição tomará as precauções necessárias para averiguar a
autenticidade da comunicação, nos termos do parágrafo segundo.
O juiz processante deverá providenciar a remoção do preso no prazo máximo de 30 (trinta) dias,
contados da efetivação da medida, nos termos do parágrafo terceiro.
Embora o artigo 289 esteja plenamente válido, do ponto de vista prático, não há muito que se
exigir de precação de prisão, porque esta prisão é inserida no Banco Nacional de Mandado de
Prisão (BNMP) independentemente de se pedir o cumprimento do mandado de prisão em outra
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jurisdição dentro país, fazendo inserir esse mandado de prisão dentro do BNMP, não vai ser
necessário deprecar a prisão, pois qualquer agente pode puxar o mandado, fazer a consulta e
cumprir o mandado. Sendo assim, embora válido, está em desuso.
O artigo 289-A prevê o Banco Nacional de Mandado de prisão, ao dispor que o juiz competente
providenciará o imediato registro do mandado de prisão em banco de dados mantido pelo
Conselho Nacional de Justiça para essa finalidade.
º Qualquer agente policial poderá efetuar a prisão determinada no mandado de prisão registrado
no Conselho Nacional de Justiça, ainda que fora da competência territorial do juiz que o expediu.
(parágrafo primeiro do artigo 289-A)
º Qualquer agente policial poderá efetuar a prisão decretada, ainda que sem registro no Conselho
Nacional de Justiça, adotando as precauções necessárias para averiguar a autenticidade do
mandado e comunicando ao juiz que a decretou, devendo este providenciar, em seguida, o
registro do mandado na forma do caput deste artigo. (parágrafo segundo do artigo 289-A)
º A prisão será imediatamente comunicada ao juiz do local de cumprimento da medida o qual
providenciará a certidão extraída do registro do Conselho Nacional de Justiça e informará ao juízo
que a decretou. (parágrafo terceiro do artigo 289-A)
º O preso será informado de seus direitos, nos termos do inciso LXIII do art. 5o da Constituição
Federal e, caso o autuado não informe o nome de seu advogado, será comunicado à Defensoria
Pública. (parágrafo quarto do artigo 289-A)
º Havendo dúvidas das autoridades locais sobre a legitimidade da pessoa do executor ou sobre a
identidade do preso, aplica-se o disposto no § 2o do art. 290 deste Código. (parágrafo quinto do
artigo 289-A)
º O Conselho Nacional de Justiça regulamentará o registro do mandado de prisão a que se refere
o caput deste artigo. (parágrafo sexto do artigo 289-A)
Se o réu, sendo perseguido, passar ao território de outro município ou comarca, o executor
poderá efetuar-lhe a prisão no lugar onde o alcançar, apresentando-o imediatamente à autoridade
local, que, depois de lavrado, se for o caso, o auto de flagrante, providenciará para a remoção do
preso, nos termos do artigo 290, do CPP.
Nos termos do parágrafo primeiro, entender-se-á que o executor vai em perseguição do réu,
quando:
º tendo-o avistado, for perseguindo-o sem interrupção, embora depois o tenha perdido de vista;
º sabendo, por indícios ou informações fidedignas, que o réu tenha passado, há pouco tempo, em
tal ou qual direção, pelo lugar em que o procure, for no seu encalço.
Quando as autoridades locais tiverem fundadas razões para duvidar da legitimidade da pessoa
do executor ou da legalidade do mandado que apresentar, poderão pôr em custódia o réu, até
que fique esclarecida a dúvida, conforme previsão do parágrafo segundo do artigo 290, do CPP.
OBS.: Perseguição não tem limite temporal.
O art. 291 prevê que a prisão em virtude de mandado entender-se-á feita desde que o executor,
fazendo-se conhecer do réu, Ihe apresente o mandado e o intime a acompanhá-lo.
Se houver, ainda que por parte de terceiros, resistência à prisão em flagrante ou à determinada
por autoridade competente, o executor e as pessoas que o auxiliarem poderão usar dos meios
necessários para defender-se ou para vencer a resistência, do que tudo se lavrará auto subscrito
também por duas testemunhas, nos termos do artigo 292.
O Parágrafo único diz que é vedado o uso de algemas em mulheres grávidas durante os atos
médico-hospitalares preparatórios para a realização do parto e durante o trabalho de parto, bem
como em mulheres durante o período de puerpério imediato.
Se o executor do mandado verificar, com segurança, que o réu entrou ou se encontra em alguma
casa, o morador será intimado a entregá-lo, à vista da ordem de prisão. Se não for obedecido
imediatamente, o executor convocará duas testemunhas e, sendo dia, entrará à força na casa,
arrombando as portas, se preciso; sendo noite, o executor, depois da intimação ao morador, se
não for atendido, fará guardar todas as saídas, tornando a casa incomunicável, e, logo que
amanheça, arrombará as portas e efetuará a prisão, conforme artigo 293. O morador que se
recusar a entregar o réu oculto em sua casa será levado à presença da autoridade, para que se
proceda contra ele como for de direito, nos termos do parágrafo único.
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OBS.: O morador pode estar cometendo o crime de favorecimento pessoal. Pode, porque o réu
pode estar com uma arma apontada pra o filho dele, por exemplo, dizendo que se ele abrir a
porta, vai atirar no seu filho. Sendo assim, tem que se averiguar se ele não abriu de propósito ou
se estava sob coação moral irresistível.
No caso de prisão em flagrante, o artigo 294 prevê que observar-se-á o disposto no artigo
anterior, no que for aplicável.
O artigo 295 fala da prisão especial. Evidentemente que só se pode falar da prisão especial a
prisão antes da condenação definitiva, ou seja, da prisão processual, não vamos falar disso da
prisão para cumprir pena. Conforme este artigo, Serão recolhidos a quartéis ou a prisão especial,
à disposição da autoridade competente, quando sujeitos a prisão antes de condenação definitiva:
º Os ministros de Estado;
º Os governadores ou interventores de Estados ou Territórios, o prefeito do Distrito Federal, seus
respectivos secretários, os prefeitos municipais, os vereadores e os chefes de Polícia;
º Os membros do Parlamento Nacional, do Conselho de Economia Nacional e das Assembleias
Legislativas dos Estados;
º Os cidadãos inscritos no "Livro de Mérito";
º Os oficiais das Forças Armadas e os militares dos Estados, do Distrito Federal e dos Territórios;
º Os magistrados;
º Os diplomados por qualquer das faculdades superiores da República;
º Os ministros de confissão religiosa;
º Os ministros do Tribunal de Contas;
º Os cidadãos que já tiverem exercido efetivamente a função de jurado, salvo quando excluídos
da lista por motivo de incapacidade para o exercício daquela função;
º Os delegados de polícia e os guardas-civis dos Estados e Territórios, ativos e inativos.
Nos termos da lei, prisão especial é simplesmente um local de detenção diferente do local
tradicional, do local comum, do local em que se vai reunir os outros detentos. Se não houver um
local distinto, será uma cela distinta. Pode ser inclusive em alojamento coletivo, evidentemente
que atendido os requisitos de insalubridade, areação, insolação, condicionamento térmico.
A prisão especial, prevista neste Código ou em outras leis, consiste exclusivamente no
recolhimento em local distinto da prisão comum. (parágrafo primeiro do artigo 295, do CPP)
Não havendo estabelecimento específico para o preso especial, este será recolhido em cela
distinta do mesmo estabelecimento. (parágrafo segundo do artigo 295, do CPP)
A cela especial poderá consistir em alojamento coletivo, atendidos os requisitos de salubridade
do ambiente, pela concorrência dos fatores de aeração, insolação e condicionamento térmico
adequados à existência humana. (parágrafo terceiro do artigo 295, do CPP)
O preso especial não será transportado juntamente com o preso comum. (parágrafo quarto do
artigo 295, do CPP)
Os demais direitos e deveres do preso especial serão os mesmos do preso comum. (parágrafo
quinto do artigo 295, do CPP)
OBS.: Penitenciária é para cumprir pena e presídio para prisão processual.
PRISÃO EM FLAGRANTE
Com o advento da audiência de custódia, que no Brasil começou a ser realizada em 2015, a
duração da prisão em flagrante é bastante efêmera, porque uma vez detido, conduzido e autuado
em flagrante, esse indivíduo será apresentado em audiência de custódia e para ele ficar preso o
juiz terá que ter transformado a prisão em flagrante em prisão preventiva.
ATENÇÃO: a obrigatoriedade do juiz analisar o flagrante e ver se é o caso de manter a prisão
transformando o flagrante em prisão preventiva ocorre desde 2011, com o advento da Lei nº
12.403/11. Porém, com o pacote anticrime, além do juiz fazer isso, ee tem que ouvir o preso, por
isso que se faz audiência de custódia.
A prisão em flagrante trata se de hipótese de prisão cautelar, isto é, espécie que antecede o
trânsito em julgado da sentença penal condenatória, prevista no artigo 302 do código de processo
penal, que, segundo a doutrina, é considerada de natureza precária. Isto porque, ninguém poderá
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ser mantido preso em flagrante por período superior a 24 horas. Exatamente por isso é que para
a manutenção da segregação do autor do fato é necessária uma decisão judicial fundamentada,
convertendo a prisão em flagrante em prisão preventiva.
Existe o flagrante obrigatório e o flagrante facultativo. Qualquer do povo, quando estiver diante de
uma pessoa que esteja em situação flagrancial, PODE dar voz de prisão (flagrante facultativo,
que age no exercício regular do direito). A autoridade policial DEVE dar voz de prisão. (flagrante
obrigatório, que age no estrito cumprimento do dever legal)
O artigo 301 do código de processo penal diz que qualquer do povo poderá e as autoridades
policiais e seus agentes deverão prender quem quer que seja encontrado em flagrante delito.
Nos termos do artigo 302, do CPP, considera-se em flagrante delito quem:
º está cometendo a infração penal; (flagrante próprio)
º acaba de cometê-la; (flagrante próprio)
º é perseguido, logo após, pela autoridade, pelo ofendido ou por qualquer pessoa, em situação
que faça presumir ser autor da infração; (flagrante impróprio). Aplica-se o conceito do artigo 290,
§1º, a e b, do CPP.
º é encontrado, logo depois, com instrumentos, armas, objetos ou papéis que façam presumir ser
ele autor da infração. (flagrante ficto ou presumido)
Conforme o artigo 303, nas infrações permanentes, entende-se o agente em flagrante delito
enquanto não cessar a permanência. Nos termos do artigo quinto, XI, da CF, que a casa é o asilo
inviolável do indivíduo, e que só se pode nela ingressar sem o consentimento do morador em
situação de flagrante, desastre, prestar Socorro, e durante o dia no cumprimento de ordem
judicial. O tema que tem sido muito debatido na jurisprudência eu de, por exemplo, o indivíduo
está como uma quantidade superior de droga absolutamente incompatível com a detenção de
uso próprio da droga, a droga está na casa dele mesmo para o tráfico, a polícia entra sem
mandado, apreende a droga, e depois vem uma decisão judicial anulando a diligência dizendo
que deveria ter mandado judicial. No entanto, a Constituição é clara que a casa é asilo inviolável
mas quem situação flagrancial pode se ingressar nela sem o consentimento do morador e que o
mandado seria durante o dia para cumprimento de ordem judicial. Sendo assim, para flagrantes
não precisa de mandado judicial. Porém, a jurisprudência, em situações envolvendo droga está
sendo extremamente rigorosa, dizendo que situações de tráfico de droga, modalidades de
guardar, ter em depósito, realmente constitui um crime permanente, mas mesmo assim vem
exigindo o mandado de prisão quando não houver fundadas razões. O grande problema é que no
STJ a decisão para tudo que é lado. Por exemplo, o indivíduo foi visto na frente de casa
traficando drogas, quando percebeu a polícia, entrou para casa e não se pode entrar porque não
tem mandado; mas tem outras decisões validando porque os policiais sentiram o cheiro da
maconha e entraram. Então ver não pode sentir pode? E se for uma droga sintética que não tem
cheiro? o Tribunal de Justiça de São Paulo não tem a validade dessas diligências dizendo que se
está em flagrante não precisa de mandado. Acontece que quando chega no STJ tudo é
derrubado, porque não basta a notícia que o indivíduo é traficante. Tem decisões do STJ
anulando até com cão farejador.
ATENÇÃO: para questões na hora da prova você terá que procurar na questão alguma
informação que diga que haviam fundadas razões do cometimento do crime, ou seja,
investigação prévia, uma campana, uma coisa muito mais forte que tão somente uma informação.
TJSP: “Em se tratando de delito de tráfico ilícito de entorpecentes, enquanto o agente possuir
entorpecentes, a pessoa pode ser presa em flagrante pois se trata de crime permanente,
podendo, inclusive, ocorrer a violabilidade de domicílio, haja vista configurar uma das hipóteses
constitucionalmente previstas, qual seja, a ocorrência de flagrante delito dentro da residência, nos
termos previstos no artigo 5º, XI, da Constituição Federal”
“excepcionada está a garantia constitucional da inviolabilidade de domicílio, devendo ser,
portanto, afastada a alegação de irregularidade da diligência policial.”
Processo 2275261-55.2020.8.26.0000
O STJ tem vasta jurisprudência oposta à da Corte Paulista.
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As turmas do STJ já decidiram, por exemplo, que é ilegal invadir domicílio sem mandado mesmo
quando a venda de drogas na frente de casa; após a abordagem no quintal; se a vítima tem fama
de traficante; com base em informação de vizinho; se o acusado fugiu após denúncia anônima; se
correu do portão ao ver uma viatura; se um cão farejador levou os policiais ao local; ou se o
suspeito tentou fugir, só para ficar nos precedentes mais recentes.
Por outro lado, ele cita quando a autorização do morador ou em situações já julgadas como
quando o ninguém mora no local, se a denúncia de disparo de arma de fogo na residência ou se
o policial, de fora da casa, sente cheiro de maconha, por exemplo.
Ainda em março de 2021, o STJ decidiu que a autorização do morador para entrar na residência
deve ser gravada pelos policiais.
O que o STF decidiu sobre esse tema foi quanto à obrigação dos estados-membros terem que
adquirir os equipamentos para que os policiais filmassem.
STJ: o fato de o tráfico de drogas ser realizado na frente ou nas proximidades da moradia do
suspeito não autoriza o ingresso de policiais na residência sem autorização judicial. a presunção
de que a entorpecentes armazenados no local não basta para justificar a violação do domicílio.
(HC 611.918, REsp 1.886.985)
STJ: sem investigações prévias ou elementos concretos que confirmem suspeita de prática de
tráfico de drogas, é ilícita a invasão de domicílio sem mandado judicial motivada pela abordagem
a dois suspeitos feita no quintal do imóvel, ainda que com eles tenha sido encontrado
entorpecentes. (HC 586.474)
STJ: a informação de que o suspeito é conhecido dos meios policiais como traficante de drogas
não justifica que a polícia invada domicílio e local de trabalho sem autorização judicial. tal
situação só seria possível pela existência de fundadas razões. (RHC 126.092)
HABEAS CORPUS nº 598051- STJ – 6ª TURMA:
Ao firmar o precedente, a sexta turma estabeleceu 5 teses centrais:
1) na hipótese de suspeita de crime em flagrante, exige-se, em termos de standard probatório
para ingresso no domicílio do suspeito sem mandado judicial, a existência de fundadas razões
(justa causa), a feridas de modo objetivo e devidamente justificadas, de maneira a indicar que
dentro da casa ocorre situação de flagrante delito.
2) o tráfico ilícito de entorpecentes, em que pese ser classificado como crime de natureza
permanente, nem sempre autoriza a entrada sem mandado no domicílio onde supostamente se
encontra a droga, apenas será permitido o ingresso em situações de urgência, quando se concluir
que do a prazo decorrente da obtenção de mandado judicial se possa, objetivo é e
concretamente, inferir que a prova do crime (ou a própria droga) será destruída ou ocultada.
3) O consentimento do morador, para validar o ingresso de agentes estatais em sua casa e a
busca e apreensão de objetos relacionados ao crime, precisa ser voluntário e livre de qualquer
tipo de constrangimento ou coação.
4) a prova da legalidade e da voluntariedade do consentimento para o ingresso na residência do
suspeito incumbe, em caso de dúvida, ao estado, e deve ser feita com declaração assinada pela
pessoa que autorizou o ingresso domiciliar, indicando se, sempre que possível, testemunhas do
ato. em todo o caso, a operação deve ser registrada em áudio vídeo, e preservada a tal prova
enquanto durar o processo.
5) a violação a essas regras e condições legais e constitucionais para o ingresso no domicílio
alheio resulta na ilicitude das provas obtidas em decorrência da medida, bem como das demais
provas que dela decorrerem em relação de causalidade, sem prejuízo de eventual responsabilizo
ação penal dos agentes públicos que tenham realizado diligência.
Supondo que o indivíduo está em situação flagrância e recebeu voz de prisão, foi detido e
conduzido à autoridade da polícia judiciária; o delegado de polícia deve cumprir algumas
formalidades para que o indivíduo seja autuado em flagrante. Ele vai ouvir o depoimento do
indivíduo que foi preso, ouvir o depoimento dos policiais que conduziram a prisão, ouvir as
testemunhas. Se o delegado acreditar que de fato é uma situação que reclame situação em
flagrante, lavrará o respectivo auto; se não houver testemunhas, que se nomeiem testemunhas.
São as chamadas testemunhas instrumentais ou quirografárias. São aquelas pessoas que se
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ninguém viu a infração, elas não dirão que viram o que não viram, mas elas serão nomeadas
apenas para garantir a fidedignidade dos procedimentos que estão sendo adotados perante a
autoridade da polícia judiciária. Isto porque, depois o indivíduo pode dizer que confessou porque
foi torturado ou outra coisa do tipo.
Nem todo mundo que está em situação Flagrancial, vai ter contra si lavrado um auto de prisão em
flagrante. O artigo 304 do código de processo penal prevê que apresentado o preso à autoridade
competente, ouvirá esta o condutor e colherá, desde logo, sua assinatura, entregando a este
cópia do termo e recibo de entrega do preso. Em seguida, procederá à oitiva das testemunhas
que o acompanharem e ao interrogatório do acusado sobre a imputação que lhe é feita, colhendo,
após cada oitiva suas respectivas assinaturas, lavrando, a autoridade, afinal, o auto.
Resultando das respostas fundada a suspeita contra o conduzido, a autoridade mandará recolhê-
lo à prisão, exceto no caso de livrar-se solto ou de prestar fiança, e prosseguirá nos atos do
inquérito ou processo, se para isso for competente; se não o for, enviará os autos à autoridade
que o seja. (§1º)
A falta de testemunhas da infração não impedirá o auto de prisão em flagrante; mas, nesse caso,
com o condutor, deverão assiná-lo pelo menos duas pessoas que hajam testemunhado a
apresentação do preso à autoridade. (§2º)
Quando o acusado se recusar a assinar, não souber ou não puder fazê-lo, o auto de prisão em
flagrante será assinado por duas testemunhas, que tenham ouvido sua leitura na presença deste.
(§3º)
Da lavratura do auto de prisão em flagrante deverá constar a informação sobre a existência de
filhos, respectivas idades e se possuem alguma deficiência e o nome e o contato de eventual
responsável pelos cuidados dos filhos, indicado pela pessoa presa. (§4º)
O presidente da República goza de imunidade, ou seja, não está sujeito a qualquer tipo de prisão;
pessoas que gozam de imunidade diplomática, a convenção de Viena diz que não podem ser
presas em flagrante; os menores de 18 anos, possuem uma disciplina própria que é o estatuto da
criança e do adolescente, é lavrado um auto de apresentação e apreensão do adolescente
infrator; as pessoas que se apresentam espontaneamente não podem ser autuadas em flagrante;
magistrados, membros do Ministério público, deputados federais, e senadores só podem ser
presos em flagrante se o crime for inafiançável (art. 326, do CPP: tráfico, tortura, terrorismo,
racismo, crimes hediondos, ações de grupos armados civis ou militares contra a ordem
constitucional e estado democrático); a lei 9099/95 diz que não se lavrará auto de prisão em
flagrante quando o autor do fato for conduzido imediatamente ao Juizado competente ou
assinado o termo de compromisso de que lá comparecerá quando for intimado; nos crimes
culposos de trânsito, o indivíduo que preste imediato Socorro também não está sujeito a lavratura
de auto de prisão em flagrante.
Na falta ou no impedimento do escrivão, qualquer pessoa designada pela autoridade lavrará o
auto, depois de prestado o compromisso legal, nos termos do artigo 305, do CPP.
FORMALIDADES DO ARTIGO 306 DO CPP
A prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontre serão comunicados imediatamente ao
juiz competente, ao Ministério Público e à família do preso ou à pessoa por ele indicada, nos
termos do artigo 306.
O parágrafo primeiro prevê que em até 24 (vinte e quatro) horas após a realização da prisão, será
encaminhado ao juiz competente o auto de prisão em flagrante e, caso o autuado não informe o
nome de seu advogado, cópia integral para a Defensoria Pública.
ATENÇÃO: a comunicação a Defensoria pública não é obrigatória. Comunica à Defensoria
quando ele não indica advogado no prazo de 24 horas.
No mesmo prazo, será entregue ao preso, mediante recibo, a nota de culpa, assinada pela
autoridade, com o motivo da prisão, o nome do condutor e os das testemunhas, conforme
parágrafo segundo.
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AULA 06
FLAGRANTE ESPERADO
O flagrante esperado é plenamente válido. No contexto do flagrante esperado, a autoridade se
coloca numa posição de inteligência, de estratégia, não há qualquer tipo de interferência na
realização da conduta criminosa. Por exemplo, o policial aguarda, observa, identifica que a
conduta criminosa acontecerá, se coloca numa posição estratégica e quando acontece a prática
delitiva há a interferência. Evidentemente que, a depender do contexto e da situação, o policial
não vai esperar que aconteça o mal maior.
FLAGRANTE PREPARADO
No flagrante preparado há uma interferência na ação livre, há uma indução. Por exemplo, o
policial se passa por um comprador de drogas, e lá chegando no local, pede a droga, oferece o
dinheiro e dá em seguida a voz de prisão.
Súmula 145, STF: Não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível
a sua consumação.
Sendo assim, no contexto do flagrante preparado, não só a prisão é nula, como o crime não
aconteceu, pois o crime é impossível.
ATENÇÃO: o flagrante esperado é válido, mas o flagrante preparado não.
Há um posicionamento interessante no STJ em relação a flagrante preparado e especificamente
o tráfico de drogas, que é o seguinte: suponha que aconteceu uma situação de preparação de
flagrante, em que o policial se passou por usuário para adquirir aquela determinada quantidade
de droga. Assim o faz e, no momento do ato, dá a voz de prisão. Evidentemente que aí houve um
vício, uma indução na venda da droga. Mas, na captura da droga, se observa que o vendedor
tinha uma quantidade absurda de droga, absolutamente incompatível com a figura do artigo 28 da
lei de drogas; ele tinha em depósito uma quantidade expressiva de droga, balança de precisão,
sacos plásticos, caderno de anotação. A jurisprudência, indubitavelmente, entende que houve
preparação para o “vender”, mas já havia uma conduta antecedente. Mesmo antes da venda, já
existia a figura do guardar, manter em depósito, de sorte que é possível reconhecer a
regularidade no flagrante, não pelo ato da venda, não para negociação, mas pela conduta
antecedente do guardar e ter em depósito.
FLAGRANTE FORJADO
Acontece o flagrante forjado quando há uma criação artificiosa da cena delitiva. É a situação em
que o custodiado diz que a droga foi colocada no bolso dele; que a coisa supostamente furtada
foi colocada nos seus pertences para incriminar ele; que foi colocado de propósito uma arma no
porta-luvas do seu carro. Essa é uma tese difícil da defesa técnica conseguir comprovar, porque
no final das contas vai ser a palavra do autuado contra a dos policiais, e a jurisprudência do
superior tribunal de justiça é tranquila no sentido de dar credibilidade às palavras dos policiais.
Evidentemente que isto vai depender do contexto. Porém, o flagrante forjado também é nulo.
FLAGRANTE DIFERIDO/CONTIDO/PRORROGADO/RETARDADO
Também é chamado de ação controlada. Esse é o Mecanismo utilizado para o combate da
macrocriminalidade. Evidentemente que não se combate a macrocriminalidade com os mesmos
expedientes investigativos que se combate a microcriminalidade e vice e versa. Na
macrocriminalidade, existem vários meios de obtenção de prova, como quebra de sigilo bancário,
fiscal, interceptação telefônica, telemática, infiltração de agentes, etc.
O flagrante prorrogado é parecido com o flagrante esperado, mas não é a mesma coisa. O
flagrante esperado, a autoridade policial tem uma prévia informação de que uma conduta delitiva
acontecerá, se coloca em uma posição estratégica, que lhe permita acompanhar o desenrolar da
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empreitada criminosa de modo a não interferir, de ter uma boa visão, e de ter um bom plano de
ação em relação àquela conduta. Na hora que a conduta acontece, ele dá a voz de prisão.
No flagrante prorrogado ele se coloca nesta mesma posição, mas o crime acontece e ele deixa, e
vai deixando porque seguramente haverá um momento em que a ação da polícia pode se tornar
mais efetiva apreendendo mais bens, prendendo mais pessoas. Por exemplo, a autoridade
policial obteve a informação de que uma barraca que vende coco verde na verdade é um ponto
de drogas. Então, os policiais se colocam em posição estratégica, e observam as pessoas
comprando a droga. Se fosse no flagrante esperado, no momento do primeiro comprador, eles já
dariam voz de prisão. No entanto, no flagrante prorrogado, eles esperam, pois sabem que a
droga uma hora vai acabar e, com isso, conseguem descobrir até onde fica a boca de fumo.
A regra geral está na Lei nº 12.850 de 2013, em seu artigo 8º, que é a lei das organizações
criminosas. Nos termos deste artigo, consiste a ação controlada em retardar a intervenção policial
ou administrativa relativa à ação praticada por organização criminosa ou a ela vinculada, desde
que mantida sob observação e acompanhamento para que a medida legal se concretize no
momento mais eficaz à formação de provas e a obtenção de informações.
Para a polícia assim agir, em regra, há a necessidade de uma prévia comunicação ao juiz. Nos
termos do parágrafo primeiro, do artigo 8º, da lei supracitada, o retardamento da intervenção
policial ou administrativa será previamente comunicada ao juiz competente que, se for o caso,
estabelecerá os seus limites e comunicará ao Ministério público.
O parágrafo segundo prevê que a comunicação será sigilosamente distribuída de forma a não
conter informações que possam indicar a operação a ser efetuada. Até o encerramento da
diligência, o acesso aos autos será restrito ao juiz, ao Ministério público e ao delegado de polícia,
como forma de garantir o êxito das investigações, é o que prevê o parágrafo terceiro. Ao término
da diligência, elaborar-se-á auto circunstanciado acerca da ação controlada, nos termos do
parágrafo quarto.
ATENÇÃO: A lei de drogas, Lei nº 11.343/2006, em seu artigo 53, diz que a ação controlada, o
flagrante prorrogado exige prévia autorização judicial. Sendo assim, a regra é que ação
controlada exige prévia comunicação ao juiz. No entanto, no contexto da lei de drogas, exige-se a
prévia autorização do juiz.
Nos termos do artigo 53 da lei supracitada, em qualquer fase da persecução criminal relativa aos
crimes previstos nesta lei, são permitidos, além dos previstos em lei, mediante autorização
judicial e ouvido o Ministério público, os seguintes procedimentos investigatórios:
º a infiltração por agentes de polícia, em tarefas de investigação, constituída pelos órgãos
especializados pertinentes;
º a não-atuação policial sobre os portadores de drogas, seus precursores químicos ou outros
produtos utilizados em sua produção, que se encontrem no território brasileiro, com a finalidade
de identificar e responsabilizar maior número de integrantes de operações de tráfico e
distribuição, Sem prejuízo da ação penal cabível.
O parágrafo único prevê que na hipótese do inciso II deste artigo, a autorização será concedida
desde que sejam conhecidos o itinerário provável e a identificação dos agentes do delito ou de
colaboradores.
AUDIÊNCIA DE CUSTÓDIA
A audiência de Custódia passa a integrar o código de processo penal com o pacote anticrime; ela
começa a ser realizada no Brasil em 2015 com um projeto do CNJ. O primeiro estado da
federação que realizou audiência de Custódia foi São Paulo, com o provimento conjunto da
corregedoria geral de justiça do tribunal de justiça de São Paulo e da presidência do tribunal de
justiça daquele estado; em seguida, isso tomou proporção para todo o Brasil.
Houve ajuizamento de ADIN contra este ato normativo; depois a ADPF 347 determinou a
realização de audiência de Custódia por todos os juízos e tribunais; foram editados vários
instrumentos normativos de cada tribunal; foi editada uma resolução do CNJ 213 e, finalmente,
com o advento do pacote anticrime a audiência de Custódia passa a integrar a nossa legislação.
Antes disso, tirava fundamento de validade de decisão judicial e de atos normativos, como
instruções e resoluções, etc.
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A audiência de Custódia tem a finalidade precípua de avaliar se a pessoa que foi presa em
flagrante precisa continuar presa; Se há necessidade de fato de manter a pessoa em cárcere, ou
se é possível que essa pessoa responda a persecução penal em Liberdade. Uma segunda
finalidade é identificar se no momento que se deu a prisão houve algum excesso por parte de
quem realizou a prisão, por exemplo, ou se houve o desvirtuamento dos procedimentos legais da
polícia judiciária. Nos termos do artigo 310, audiência de Custódia deve ser realizado em até 24
horas da prisão. A ideia é permitir que o autuado conte como se deu a sua prisão, que se ouça a
manifestação do Ministério público, e da sua defesa técnica para em seguida o juiz decidir se
aquela pessoa será colocada em Liberdade pelo fato de ter reconhecido alguma ilegalidade na
sua prisão; ou por conhecer a legalidade da prisão mas a desnecessidade de mantê-lo preso; ou
da necessidade de transformar a prisão em flagrante de fato em prisão preventiva.
O artigo 310 prevê que após receber o auto de prisão em flagrante, no prazo máximo de até 24
(vinte e quatro) horas após a realização da prisão, o juiz deverá promover audiência de custódia
com a presença do acusado, seu advogado constituído ou membro da Defensoria Pública e o
membro do Ministério Público, e, nessa audiência, o juiz deverá, fundamentadamente:
º relaxar a prisão ilegal; ou
º converter a prisão em flagrante em preventiva, quando presentes os requisitos constantes
do art. 312 deste Código, e se revelarem inadequadas ou insuficientes as medidas cautelares
diversas da prisão; ou
º conceder liberdade provisória, com ou sem fiança.
Quando se fala em relaxar à prisão é porque o juiz entendeu que a prisão foi ilegal. Ilegalidade
tanto de cunho formal quanto material. suponha que um indivíduo recebeu voz de prisão e foi
autuado em flagrante, mas não se encontrava em nenhuma das situações do artigo 302; imagine
que nós estamos diante de um flagrante provocado, preparado; imagine que nós estamos diante
de um flagrante forjado; imagine que a pessoa que recebeu voz de prisão não poderia ser presa,
como é o caso do menor de 18 anos, ou da pessoa que se apresenta espontaneamente. Imagine
que a autoridade da polícia judiciária não cumpriu com as formalidades do artigo 304 e 306 do
CPP. A prisão, portanto, será relaxada.
Se o juiz entende que o proceder da autoridade da polícia judiciária e de quem deu a voz de
prisão, ou seja qualquer um do povo ou polícia militar, foi legal e regular, que o indivíduo estava
em situação flagrancial mesmo, que as formalidades foram todas cumpridas, mas não há
necessidade de manter esta pessoa presa, seja porque isto é um fato isolado na vida da pessoa,
o juiz vai homologar a prisão, mas vai conceder a liberdade provisória. Quando o juiz concede a
Liberdade provisória ele está argumentando que a prisão foi legal, mas não há a necessidade de
transformar essa prisão em flagrante em prisão preventiva.
Se o juiz verificar, pelo auto de prisão em flagrante, que o agente praticou o fato em qualquer das
condições constantes dos incisos I, II ou III do caput do art. 23 do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de
dezembro de 1940 (Código Penal), poderá, fundamentadamente, conceder ao acusado liberdade
provisória, mediante termo de comparecimento obrigatório a todos os atos processuais, sob pena
de revogação. (parágrafo primeiro)
Se o juiz verificar que o agente é reincidente ou que integra organização criminosa armada ou
milícia, ou que porta arma de fogo de uso restrito, deverá denegar a liberdade provisória, com ou
sem medidas cautelares. (parágrafo segundo)
A autoridade que deu causa, sem motivação idônea, à não realização da audiência de custódia
no prazo estabelecido no caput deste artigo responderá administrativa, civil e penalmente pela
omissão. (parágrafo terceiro)
Transcorridas 24 (vinte e quatro) horas após o decurso do prazo estabelecido no caput deste
artigo, a não realização de audiência de custódia sem motivação idônea ensejará também a
ilegalidade da prisão, a ser relaxada pela autoridade competente, sem prejuízo da possibilidade
de imediata decretação de prisão preventiva. (parágrafo quarto) ATENÇÃO: o dispositivo do
parágrafo quarto está com eficácia suspensa pela decisão do ministro Luiz Fux que suspendeu o
juízo das garantias, a nova redação do artigo 28, o parágrafo quinto do artigo 157.
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TESES DO STJ
1) Não há crime, quando a preparação do flagrante pela polícia torna impossível a sua
consumação. (Súmula n. 145/STF)
2) o tipo penal descrito no artigo 33 da lei11.343/2006 é de ação múltipla e de natureza
permanente, razão pela qual a prática criminosa se consuma, por exemplo, a depender do caso
concreto, nas condutas de “ter em depósito”, “guardar”, “transportar” e “trazer consigo”, antes
mesmo da atuação provocadora da polícia, o que afasta a tese defensiva de flagrante preparado.
3) No flagrante esperado, a polícia tem notícias de que uma infração penal será cometida e
passa a monitorar a atividade do agente de forma a aguardar o melhor momento para executar a
prisão, não havendo que se falar em ilegalidade do flagrante.
4) No tocante é o flagrante retardado ou à ação controlada, a ausência de autorização judicial
não tem o condão de tornar ilegal a prisão em flagrante postergado, vez que o instituto Visa a
proteger o trabalho investigativo, afastando a eventual responsabilidade criminal ou administrativa
por parte do agente policial. (OBS.: a regra é a prévia comunicação)
5) Para a lavratura do auto de prisão em flagrante é despicienda a elaboração do laudo
toxicológico definitivo, o que se depreende da leitura do artigo 50, §1º, da lei N. 11.343/2006,
segundo o qual é suficiente para tanto a confecção do laudo de constatação da natureza e da
quantidade da droga.
6) Eventual nulidade no auto de prisão em flagrante devido à ausência de assistência por
advogado somente se verifica caso não seja oportunizado ao conduzido o direito de ser assistido
por defensor técnico, sendo suficiente a lembrança, pela autoridade policial, dos direitos do preço
previstos no artigo 5º, LXIII, da Constituição federal.
7) Uma vez decretada a prisão preventiva, fica superada a tese de excesso de prazo na
comunicação do flagrante.
A tese 8 e 10 foram superadas.
11) com a superveniência de decretação da prisão preventiva ficam prejudicadas as alegações de
ilegalidade da segregação em flagrante, tendo em vista a formação de novo título ensejador da
Custódia cautelar.
PRISÃO PREVENTIVA
A prisão preventiva está tratada entre os artigos 311 a 316 do código de processo penal. A prisão
preventiva é a prisão cautelar por excelência. Na prisão preventiva o indivíduo pode ser preso em
flagrante e ter o flagrante convertido em prisão preventiva, passar o inquérito todo recolhido, bem
como toda a ação penal, ser condenado e o direito de recorrer em Liberdade negado, aguardar o
julgamento do recurso recolhido e emendar com a pena. Lógico que o tempo que ele aguarda
processualmente preso será abatido no tempo final da reprimenda, e o nome disso é detração
penal. O que se quer dizer com isso é que não há um tempo objetivo de duração da prisão
preventiva.
Nesta modalidade de prisão a lógica é a seguinte: se os seus fundamentos estão presentes, o
indivíduo fica preso. Se os seus indivíduos não estão mais presentes, o indivíduo será solto. Se
os fundamentos ficarem presentes de novo, prende-se novamente. Sendo assim, mudando a
situação de fato, muda-se a de direito.
Evidentemente que por situações reflexas como, por exemplo, excesso de prazo, que será
avaliado sempre caso a caso; um excesso de prazo para oferecimento da denúncia; um excesso
na formação da culpa; na conclusão da instrução; no julgamento da causa; no julgamento do
recurso; pode fazer com que aquela prisão seja considerada ilegal, em virtude do
constrangimento provocada por um excesso de prazo. No entanto, prazo objetivo não tem.
A prisão preventiva deve ser decretada por ordem escrita e fundamentada da autoridade judicial.
Para o magistrado decretar prisão preventiva, há a necessidade de provocação. Antes do
advento do pacote anticrime, o juiz até poderia decretar uma prisão preventiva de ofício se
estivesse na fase da ação penal. A legislação permitia decreto de prisão de ofício na fase
judicializada. No entanto, pós pacote anticrime, é defeso, ou seja, proibido ao magistrado decretar
prisão preventiva de ofício, seja na fase do inquérito, seja na fase da ação penal.
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Nos termos do artigo 311, do CPP, em qualquer fase da investigação policial ou do processo
penal, caberá a prisão preventiva decretada pelo juiz, a requerimento do Ministério Público, do
querelante ou do assistente, ou por representação da autoridade policial.
O perigo gerado pelo estado de Liberdade do indivíduo foi acrescido na redação no artigo 312
com o advento do pacote anticrime, mas ela é decorrência natural de todo e qualquer concessão
de medida cautelar pessoal, seja ela prisional ou não. Para a decretação de prisão preventiva
deve-se demonstrar os pressupostos: a primeira delas é a prova da existência do crime. Deve-se
ter a certeza de que uma conduta delitiva foi praticada. Quando é o tipo de conduta que deixa
vestígio e que foi realizado o corpo de delito direto ou indireto, fica fácil pois tem um laudo. O
problema é quando se tem uma infração que não deixou vestígios, ou se deixou e sumiu. Não se
pode esquecer que toda infração que deixa vestígios reclama exame de corpo de delito direto ou
indireto, não pode suprir esta ausência com a confissão, mas muitas vezes a solução é buscar a
prova testemunhal como forma de substituir a ausência de exame de corpo de delito, seja ele
direto ou indireto, nos termos do artigo 167 do código de processo penal.
O outro pressuposto que tem que ter de todo jeito os indícios suficientes de autoria. Percebam
que para se decretar a prisão preventiva não se faz necessário a certeza da autoria, mas sim
indícios suficientes da autoria ou da participação. se presente os pressupostos, que devem ser
cumulativos, há agora a necessidade de se avaliar os fundamentos da prisão preventiva, porque
só com os pressupostos não basta. O primeiro dos fundamentos é a garantia da ordem pública;
não se tem um conceito legal do que seria a garantia da ordem pública, ficou a cargo da doutrina
e da jurisprudência tentar delinear a necessidade da prisão para garantia da ordem pública; o
exemplo seria para evitar a reiteração criminosa; perigo concreto. A garantia da ordem econômica
vai pelo mesmo caminho, mas levando em consideração crimes que tenham relações com somas
vultuosas de dinheiro, como crimes licitatórios, crimes de lavagem de dinheiro, crimes contra o
sistema financeiro, crimes previdenciários, crimes contra a ordem tributária. A conveniência da
instrução é outro fundamento, e possui a ideia de que se o indivíduo se mantiver solto ele vai
prejudicar o acervo probatório, prejudicando testemunhas, comprando testemunhas, ameaçando
vítima, destruindo ou forjando provas. o outro fundamento é assegurar a aplicação da lei penal,
ou seja, se o indivíduo permanecer em liberdade ele fugirá.
O artigo 312 prevê que a prisão preventiva poderá ser decretada como garantia da ordem
pública, da ordem econômica, por conveniência da instrução criminal ou para assegurar a
aplicação da lei penal, quando houver prova da existência do crime e indício suficiente de autoria
e de perigo gerado pelo estado de liberdade do imputado.
Nos termos do parágrafo primeiro, a prisão preventiva também poderá ser decretada em caso de
descumprimento de qualquer das obrigações impostas por força de outras medidas cautelares
(art. 282, § 4o). É a prisão preventiva decorrente do descumprimento de medidas cautelares
diversas da prisão, sendo a última alternativa, pois a primeira alternativa deve ser substituir
medidas, e depois cumular.
A decisão que decretar a prisão preventiva deve ser motivada e fundamentada em receio de
perigo e existência concreta de fatos novos ou contemporâneos que justifiquem a aplicação da
medida adotada, conforme parágrafo segundo. A ideia da contemporaneidade como requisito de
prisão preventiva está atrelada não ao crime que está sendo apurado, mas ao fundamento da
própria prisão preventiva. por exemplo, suponha que há 10 anos atrás foi instaurado inquérito
policial para apurar determinado homicídio na zona rural, e que apesar deste período todo o
inquérito continua em aberto, mas resolvem dar andamento e chega uma pessoa na delegacia
dizendo que determinada pessoa está ameaçando de morte os outros para não contar nada
relativo a este caso. Neste caso, apesar do crime ter acontecido há 10 anos atrás, a notícia de
que a prova pode ser comprometida está surgindo agora, é contemporâneo, então o fundamento
na prisão preventiva surgiu agora. Desta forma, a contemporaneidade não é para o crime, mas
para o fundamento pelo qual ela é decretada.
A prisão preventiva além de reunir para ser decretada todos os elementos o artigo 312, todos os
dois pressupostos e fundamentos não precisam ser todos, e ainda uma das situações do artigo
313 do código de processo penal.
O artigo 313 prevê que nos termos do artigo 312 deste código, será admitida a decretação da
prisão preventiva:
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º nos crimes dolosos punidos com pena privativa de liberdade máxima superior a 4 (quatro)
anos;
º se tiver sido condenado por outro crime doloso, em sentença transitada em julgado, ressalvado
o disposto no inciso I do caput do art. 64 do Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 -
Código Penal;
º se o crime envolver violência doméstica e familiar contra a mulher, criança, adolescente, idoso,
enfermo ou pessoa com deficiência, para garantir a execução das medidas protetivas de
urgência;
A segundo a possibilidade de prisão preventiva é a da modalidade de descumprimento de medida
cautelar diversa da prisão, nos termos do artigo 312, §1º, do CPP, o qual prevê que a prisão
preventiva também poderá ser decretada em caso de descumprimento de qualquer das
obrigações impostas por força de outras medidas cautelares (art. 282, § 4o).
A terceira possibilidade de prisão preventiva é a de identificação, nos termos do artigo 313, §1º,
do CPP, o qual prevê que também será admitida a prisão preventiva quando houver dúvida sobre
a identidade civil da pessoa ou quando esta não fornecer elementos suficientes para esclarecê-la,
devendo o preso ser colocado imediatamente em liberdade após a identificação, salvo se outra
hipótese recomendar a manutenção da medida.
O parágrafo segundo do artigo 313 prevê que não será admitida a decretação da prisão
preventiva com a finalidade de antecipação de cumprimento de pena ou como decorrência
imediata de investigação criminal ou da apresentação ou recebimento de denúncia.
Prisão preventiva, decretação: art. 312 + um dos incisos do artigo 313, do CPP.
Prisão preventiva, descumprimento de medida cautelar diversa da prisão: art. 312, §1º, do CPP.
Prisão preventiva, identificação: art. 313, §1º, do CPP. Identificou, coloca na rua; salvo se existir
no outro motivo para deixar o indivíduo preso. Qual outro motivo? os elencados no artigo 312 do
código de processo penal.
Há quem fale também em prisão preventiva conversão, que está fundamentada no artigo 310, II,
do CPP. Há uma corrente da doutrina e da jurisprudência que defende que no caso da prisão
preventiva conversão não haveria necessidade de se respeitar o artigo 313, bastaria o artigo 312,
pois as exigências do artigo 313 seriam para prisão preventiva decretação; E a diferença seria
que na prisão preventiva conversão o indivíduo já estaria preso pela prisão em flagrante, e
decretação ele estaria solto. Sendo assim, na prisão preventiva a conversão bastaria o artigo 312,
nos termos do artigo 310, II, do CPP.
Suponha que o indivíduo foi preso em flagrante, ao chegar na audiência de Custódia, o Ministério
público opina pela concessão da Liberdade provisória cumulada com medidas cautelares
diversas da prisão, a defesa concorda, mas o juiz homologa o flagrante e o converte em prisão
preventiva. A sexta turma do STJ, no informativo 725 do STJ, seria o que quando o Ministério
público pede Liberdade provisória cumulada com medidas cautelares diversas da prisão, o juiz
pode decretar a prisão pois não estaria agindo de ofício, pois foi pedido medida cautelar, e, neste
caso, o juiz estaria analisando qual seria a medida cautelar mais adequada: prisional ou não
prisional. No entanto, há decisão monocrática do STF no sentido de que se não houve pedido de
prisão, o juiz não pode decretar a prisão preventiva.
O código de processo penal no artigo 314 prisão preventiva quando o juiz perceber que existe
uma grande chance da incidência de um excludente de ilicitude, de excludente de antijuridicidade;
evidentemente que isso não é um juízo de certeza, mas de probabilidade, porque a decisão que
vai reconhecer a presença de um excludente de ilicitude ou é na absolvição sumária do artigo 397
ou na absolvição sumária do artigo 415 do Júri ou na sentença absolutória do artigo 386, VI, do
CPP. Fora disso, no decorrer da persecução o artigo 314 terá uma aplicação quando o juiz
perceber uma excludente de ilicitude.
Nos termos do artigo 314, do CPP, a prisão preventiva em nenhum caso será decretada se o juiz
verificar pelas provas constantes dos autos ter o agente praticado o fato nas condições previstas
nos incisos I, II e III do caput do art. 23 do Decreto-Lei no 2.848, de 7 de dezembro de 1940 -
Código Penal. Isto é lógico, pois havendo excludente de ilicitude, o caminho é o da absolvição.
O parágrafo segundo do artigo 315, do código de processo penal, é uma norma que
topograficamente está na parte de prisão preventiva, mas se aplica para todo o sistema jurídico
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de direito criminal. Nos termos deste artigo, a decisão que decretar, substituir ou denegar a prisão
preventiva será sempre motivada e fundamentada.
O parágrafo primeiro prevê que na motivação da decretação da prisão preventiva ou de qualquer
outra cautelar, o juiz deverá indicar concretamente a existência de fatos novos ou
contemporâneos que justifiquem a aplicação da medida adotada.
Nos termos do parágrafo segundo, não se considera fundamentada qualquer decisão judicial,
seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que:
º limitar-se à indicação, à reprodução ou à paráfrase de ato normativo, sem explicar sua relação
com a causa ou a questão decidida;
º empregar conceitos jurídicos indeterminados, sem explicar o motivo concreto de sua incidência
no caso;
º invocar motivos que se prestariam a justificar qualquer outra decisão;
º não enfrentar todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a
conclusão adotada pelo julgador;
º limitar-se a invocar precedente ou enunciado de súmula, sem identificar seus fundamentos
determinantes nem demonstrar que o caso sob julgamento se ajusta àqueles fundamentos;
º deixar de seguir enunciado de súmula, jurisprudência ou precedente invocado pela parte, sem
demonstrar a existência de distinção no caso em julgamento ou a superação do entendimento.
O parágrafo único do artigo 316 traz uma novidade legislativa que é a revisão nonagesimal. O
pacote anticrime criou obrigação do juiz que emite o decreto prisional de 90 em 90 dias revisitar o
decreto da preventiva. Os 90 dias começam a ser contados do momento em que o indivíduo é
preso. O parágrafo único do artigo 316 diz literalmente que o juiz tem um dever de revisitar,
inclusive, de ofício essa decisão sob pena de ilegalidade da prisão. No entanto, já há precedentes
do próprio STF dizendo que a falta de revisitação por si só não gera a ilegalidade da prisão, deve
ser analisada as particularidades do caso.
Nos termos do artigo 316, o juiz poderá, de ofício ou a pedido das partes, revogar a prisão
preventiva se, no correr da investigação ou do processo, verificar a falta de motivo para que ela
subsista, bem como novamente decretá-la, se sobrevierem razões que a justifiquem. Decretada a
prisão preventiva, deverá o órgão emissor da decisão revisar a necessidade de sua manutenção
a cada 90 (noventa) dias, mediante decisão fundamentada, de ofício, sob pena de tornar a prisão
ilegal, conforme previsão do parágrafo único.
Nos termos do artigo 318, poderá o juiz substituir a prisão preventiva pela domiciliar quando o
agente for:
º maior de 80 (oitenta) anos;
º extremamente debilitado por motivo de doença grave;
º imprescindível aos cuidados especiais de pessoa menor de 6 (seis) anos de idade ou com
deficiência;
º gestante;
º mulher com filho de até 12 (doze) anos de idade incompletos;
º homem, caso seja o único responsável pelos cuidados do filho de até 12 (doze) anos de idade
incompletos.
Para a substituição, o juiz exigirá prova idônea dos requisitos estabelecidos neste artigo,
conforme parágrafo único.
Atenção: o retratado acima diz respeito à prisão domiciliar que substitui a prisão preventiva, e não
à prisão domiciliar da execução penal.
O HC 143.641 foi a situação envolvendo mulheres que estavam no sistema prisional, mulheres
que eram grávidas, que tinham filhos de até 12 anos ou mães com filhos de alguma forma com
alguma deficiência, e aí foi impetrado um habeas corpus coletivo pleiteando a concessão da
ordem para transferência dessas presas para a prisão domiciliar. No final das contas, houve
concessão da ordem para colocar presas gestantes, lactantes, filhos com até 12 anos, filhos com
alguma deficiência, esta decisão abrangeu, inclusive, até as adolescentes infratoras internadas
dentro deste padrão para colocá-las em prisão domiciliar. Entretanto, o acórdão fez 3 ressalvas:
1) As situações de cometimento de crime com violência ou grave ameaça não seriam
beneficiadas;
2) Também não seriam beneficiadas aquelas em que a vítima foi o próprio filho ou dependente;
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3) Casos excepcionalmente justificados pelo juiz; por exemplo, o marido foi preso e a mulher
assumiu a boca de fumo e vendia a droga dentro de casa.
HC 143.641
Em face de todo o exposto, concedo a ordem para determinar a substituição da prisão preventiva
pela domiciliar - sem prejuízo da aplicação concomitante das medidas alternativas previstas no
artigo 319 do CPP, de todas as mulheres presas, gestantes, puérperas ou mães de crianças e
deficientes, nos termos do art. 2º do ECA e da Convenção Sobre Direitos das Pessoas com
Deficiências (Decreto Legislativo 186/2008 e lei 13.146/2015), relacionadas neste processo pelo
DEPEN e outras autoridades estaduais, enquanto perdurar tal condição, essa atuados os casos
de crimes praticados por elas mediante violência ou grave ameaça, contra seus descendentes ou,
ainda, em situações excepcionalíssimas, as quais deverão ser devidamente fundamentadas pelos
juízes que denegarem o benefício.
No final de 2018, houve o acréscimo dos artigos 318-A e 318-B, falando especificamente da
prisão domiciliada para a mulher que é gestante que for mãe de criança ou pessoa com
deficiência, pela lei 13.769/2018. Quando a lei disciplinou a prisão domiciliar ela criou 2 ressalvas:
1) Não conceder quando o crime for de violência ou grave ameaça;
2) Não conceder quando a vítima do crime for filho ou dependente;
No entanto, muito embora a lei tenha estabelecido apenas 2 ressalvas, a terceira ressalva tira
fundamento de validade do próprio acórdão. Sendo assim, o juiz pode continuar negando prisão
domiciliar nas situações excepcionalmente justificadas.
Nos termos do artigo 318-A, do CPP, a prisão preventiva imposta à mulher gestante ou que for
mãe ou responsável por crianças ou pessoas com deficiência será substituída por prisão
domiciliar, desde que:
º não tenha cometido crime com violência ou grave ameaça a pessoa;
º não tenha cometido o crime contra seu filho ou dependente.
Nos termos do artigo 318-B, do CPP, a substituição de que tratam os arts. 318 e 318-A poderá
ser efetuada sem prejuízo da aplicação concomitante das medidas alternativas previstas no art.
319 deste Código.
Nos termos do artigo 319, são medidas cautelares diversas da prisão:
º comparecimento periódico em juízo, no prazo e nas condições fixadas pelo juiz, para informar e
justificar atividades;
º proibição de acesso ou frequência a determinados lugares quando, por circunstâncias
relacionadas ao fato, deva o indiciado ou acusado permanecer distante desses locais para evitar
o risco de novas infrações;
º proibição de manter contato com pessoa determinada quando, por circunstâncias relacionadas
ao fato, deva o indiciado ou acusado dela permanecer distante;
º proibição de ausentar-se da Comarca quando a permanência seja conveniente ou necessária
para a investigação ou instrução;
º recolhimento domiciliar no período noturno e nos dias de folga quando o investigado ou acusado
tenha residência e trabalho fixos;
º suspensão do exercício de função pública ou de atividade de natureza econômica ou financeira
quando houver justo receio de sua utilização para a prática de infrações penais;
º internação provisória do acusado nas hipóteses de crimes praticados com violência ou grave
ameaça, quando os peritos concluírem ser inimputável ou semi-imputável (art. 26 do Código
Penal) e houver risco de reiteração; (para instaurar o incidente de insanidade mental, o CPP diz
que se o indivíduo estiver preso, transfere para o hospital de Custódia psiquiátrica; se ele estiver
solto, pode até fazer o exame solto, mas se os peritos disserem que tem que internar devem
internar. A medida cautelar deste inciso não é neste momento, mas no pós, quando os peritos já
apresentaram o laudo, disseram que o indivíduo é inimputável ou semi-imputável, que o fato foi
praticado com violência ou grave ameaça e que existe um risco muito grande de que se ele ficar
solto pode voltar a praticar fatos típicos.
º fiança, nas infrações que a admitem, para assegurar o comparecimento a atos do processo,
evitar a obstrução do seu andamento ou em caso de resistência injustificada à ordem judicial;
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º monitoração eletrônica.
ATENÇÃO: Existe a possibilidade de descumprimento da medida cautelar diversa da prisão e
cominar com a prisão sem antes avaliar a possibilidade de substituição ou de cumular as tais
medidas. Também temos que lembrar que quando se fala das medidas de urgência, a legislação
pode explicitar um tratamento particularizado como é o caso da lei Maria da Penha, que é além
das medidas cautelares diversas da prisão, ainda existem as medidas protetivas, que são
aplicadas tanto às vítimas, como medidas que são aplicadas aos agressores; quando se fala em
medida protetiva em relação à mulher vítima de violência doméstica e familiar, o seu
descumprimento gerará a incidência de um novo tipo penal, artigo 24-A da Lei Maria da Penha,
pois descumprir medida protetiva de urgência é crime.
PRISÃO TEMPORÁRIA
A prisão temporária não está prevista no código de processo penal, mas na Lei nº 7.960/89.
O Supremo Tribunal Federal no julgamento de 2 ADPF, respectivamente 395 e 444, estabeleceu
novos parâmetros para a decretação da prisão temporária. Há elementos da prisão preventiva
que foram trazidos para a decretação da prisão temporária.
A prisão temporária só pode ser decretada no curso das investigações. Não existe prisão
temporária na fase da ação penal.
Nos termos do artigo 1º, da Lei nº 7.960/89, caberá a prisão temporária:
º quando imprescindível para as investigações do inquérito policial;
º quando o indicado não tiver residência fixa ou não fornecer elementos necessários ao
esclarecimento de sua identidade;
º quando houver fundadas razões, de acordo com qualquer prova admitida na legislação penal,
de autoria ou participação do indiciado nos seguintes crimes:
a) homicídio doloso (art. 121, caput, e seu § 2°);
b) sequestro ou cárcere privado (art. 148, caput, e seus §§ 1° e 2°);
c) roubo (art. 157, caput, e seus §§ 1°, 2° e 3°);
d) extorsão (art. 158, caput, e seus §§ 1° e 2°);
e) extorsão mediante sequestro (art. 159, caput, e seus §§ 1°, 2° e 3°);
f) estupro (art. 213, caput, e sua combinação com o art. 223, caput, e parágrafo único);
i) epidemia com resultado de morte (art. 267, § 1°);
j) envenenamento de água potável ou substância alimentícia ou medicinal qualificado pela morte
(art. 270, caput, combinado com art. 285);
l) quadrilha ou bando (art. 288), todos do Código Penal;
m) genocídio (arts. 1°, 2° e 3° da Lei n° 2.889, de 1° de outubro de 1956), em qualquer de sua
formas típicas;
n) tráfico de drogas (art. 12 da Lei n° 6.368, de 21 de outubro de 1976);
o) crimes contra o sistema financeiro (Lei n° 7.492, de 16 de junho de 1986).
p) crimes previstos na Lei de Terrorismo.
Para além destes, também os chamados crimes hediondos:
º homicídio, quando praticado em atividade típica de grupo de extermínio, ainda que cometido por
um só agente, e homicídio qualificado (art. 121, §2º, incisos I a VII;
º lesão corporal dolosa de natureza gravíssima e lesão corporal seguida de morte quando
praticadas contra autoridades ou agentes descritos no artigo 142 144 da Constituição federal,
integrantes do sistema prisional e da força nacional de segurança pública, no exercício da função
ou em decorrência dela, ou contra seu cônjuge, companheiro ou parente consanguíneo até
terceiro grau, em razão dessa condição;
º roubo circunstanciado pela restrição de Liberdade da vítima; circunstanciado pelo emprego de
arma de fogo ou pelo emprego de arma de fogo de uso proibido restrito; qualificado pelo
resultado lesão corporal grave ou morte.
º extorsão qualificada pela restrição da Liberdade da vítima, ocorrência de lesão corporal ou
morte;
º extorsão mediante sequestro e na forma qualificada.
º estupro;
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º estupro de vulnerável;
º epidemia com resultado morte;
º falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado a fins terapêuticos ou
medicinais;
º favorecimento da prostituição ou de outra forma de exploração sexual de criança ou
adolescente ou de vulnerável;
º furto qualificado pelo emprego de explosivo ou de artefato análogo que cause perigo comum.
º genocídio, previsto nos artigos 1º, 2º e 3º da lei nº 2.889, de 1º de outubro de 1956;
º crime de Posse ou porte ilegal de arma de fogo de uso proibido, previsto no artigo 16 da lei nº
10.826, de 22 de dezembro de 2003;
º o crime de comércio ilegal de armas de fogo, previsto no artigo 17 da lei nº 10.826, de 22 de
dezembro de 2003;
º o crime de tráfico Internacional de arma de fogo, acessório ou munição, previsto no artigo 18 da
lei número 10.826, de 22 de dezembro de 2003.
º o crime de organização criminosa, quando direcionada a prática de crime hediondo ou
equiparado.
Os delitos que admitem a prisão temporária o rol é taxativo: ou aqueles da Lei de Crimes
Hediondos ou da própria lei da prisão temporária. Há uma diferença quanto ao prazo na prisão
temporária: regra geral o prazo da prisão temporária são 5 dias, mas em caso de Extrema e
comprovada necessidade é possível decretar a prisão temporária por mais 5 dias; em se tratando
de delitos hediondos ou equiparados são 30 dias podendo ser prorrogado por mais 30.
A prisão Temporária não pode ser decretada de ofício, tem que haver pedido do delegado ou da
autoridade policial. Se o pedido partir do delegado, o Ministério público tem que ser ouvido
previamente, nos termos o parágrafo primeiro do artigo 2º da Lei 7.960/89. No entanto, se o
pedido partir do Ministério público, não precisa ouvir o delegado. Tudo o que vale para decretar
vale para prorrogar. Sendo assim, se não pode decretar de ofício também não pode prorrogar de
ofício
Nos termos da ADPF 395 e 444 não se pode ter prisão temporária para uma mera averiguação, e
sem o Lastro mínimo probatório da prática de alguns dos crimes listados no inciso III do artigo
supracitado. Se é o caso da aplicação de uma medida cautelar diversa da prisão, deve preferir
esta medida cautelar diversa da prisão. Sendo assim, a regra do parágrafo sexto do artigo 282
vale também para a prisão temporária. A regra da contemporaneidade dos fundamentos da
prisão preventiva também são exigidos para a prisão temporária.
O artigo 2º, §4º, da lei 8.072/90 prevê que a prisão temporária sobre a qual disponha a lei nº
7960, de 21 de dezembro de 1989, nos crimes previstos neste artigo, terá o prazo de 30 (trinta)
dias, prorrogável por igual período em caso de Extrema e comprovada necessidade.
LIBERDADE PROVISÓRIA
Se a prisão preventiva, prisão temporária, prisão em flagrante são prisões cautelares, a Liberdade
provisória é a contracautela; Liberdade provisória é assegurar que o indivíduo que está sendo
investigado pela prática de um delito continue em Liberdade enquanto não sobrevier sentença
condenatória transitada em julgado impondo pena privativa de Liberdade.
o instituto da Liberdade provisória está intimamente ligado a ideia de que o indivíduo foi preso em
flagrante e não há necessidade de transformar essa prisão em flagrante em prisão preventiva. Se
o juiz já transformou a prisão em flagrante em prisão preventiva, se já decretou a prisão
temporária, se fala em pedido de revogação de prisão preventiva ou pedido de revogação de
prisão temporária. Então, a Liberdade provisória é para evitar que é uma prisão em flagrante legal
se torne prisão preventiva. Por isso que tem que partir dessa premissa: para falar em Liberdade
provisória o indivíduo tem que estar preso em flagrante e esta prisão tem que ser legal, pois se
for ilegal o pedido de relaxamento de prisão.
A regra é sempre optar pela Liberdade do indivíduo, podendo aplicar a medida cautelar diversa
da prisão, evidentemente se presentes os elementos de necessidade e adequação do artigo 282.
Nos termos do artigo 321 do código de processo penal, ausentes os requisitos que autorizam a
decretação da prisão preventiva, o juiz deverá conceder Liberdade provisória, impondo, se for o
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caso, as medidas cautelares previstas no artigo 319 deste código e observados os critérios
constantes do artigo 282 deste código.
O delegado e o juiz podem conceder Liberdade provisória, mas o delegado tem um limite de
quantidade de pena para a possibilidade de concessão de Liberdade provisória, pois o crime tem
que ter pena máxima em abstrato de até 4 anos, e o delegado só pode conceder Liberdade
provisória mediante o arbitramento de fiança. Se a pena máxima do delito extrapola 4 anos, só
quem pode avaliar a Liberdade provisória é o juiz.
Apesar do parágrafo único do artigo 322 prevê que o juiz decidirá em 48 horas, é sabido que com
o advento da audiência de Custódia esse prazo é de 24 horas.
O artigo 24-A da lei Maria da Penha estabelece o crime de descumprimento de medida protetiva
de urgência. O interessante é que a pena máxima deste delito é de 2 anos. No entanto, muito
embora tenha pena de até 2 anos, fala na possibilidade de lavratura de flagrante, e, nesses
casos, só quem pode decidir sobre a Liberdade provisória é o juiz.
Nos termos do artigo 24-A da lei Maria da Penha, descumprir decisão judicial que defere medidas
protetivas de urgência previstas nesta lei tem pena de detenção de 3 meses a 2 anos. O
parágrafo primeiro prevê que a configuração do crime independe da competência civil ou criminal
do juiz que deferiu as medidas. O parágrafo segundo prevê que na hipótese de prisão em
flagrante, apenas a autoridade judicial poderá conceder fiança. Segundo o parágrafo terceiro, o
disposto neste artigo não exclui a aplicação de outras sanções cabíveis.
Sendo assim, mesmo não estourando o teto de 4 anos vai impedir que o delegado aprecie a
fiança. Delegado não pode conceder Liberdade provisória sem o arbitramento de fiança. Logo,
em se tratando de delito inafiançável, o delegado não pode colocar em Liberdade.
São crimes inafiançáveis, ao teor do artigo 323, os crimes de racismo; tortura, tráfico ilícito de
entorpecentes e drogas afins, terrorismo e os definidos como crimes hediondos; crimes
cometidos por grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado
Democrático.
O artigo 324 também diz que não será concedido fiança aos que, no mesmo processo, tiverem
quebrado fiança anteriormente concedida ou infringido, sem motivo justo, qualquer das
obrigações a que se referem os artigos 327 e 328 deste código; em caso de prisão civil ou militar;
quando presentes os motivos que autorizam a decretação da prisão preventiva (art. 312).
Se a pena máxima do crime for de até 4 anos, a fiança é arbitrada entre um a 100 salários
mínimos; se a pena máxima do crime extrapola 4 anos, entre 10 a 200 salários mínimos. O juiz
constatando miserabilidade do preso pode isentar este do pagamento da fiança, nos termos do
artigo 350, §1º, inciso I; pode reduzir em até 2/3 o valor da fiança, ou seja, tirar até 66%. Tanto da
legado quanto o juiz podem fazer essa redução, mas a isenção somente o juiz. No caso do preço
ser muito rico, o valor da fiança pode ser multiplicado por até 1000 vezes.
Artigo 325 prevê que o valor da fiança será fixado pela autoridade que a conceder nos seguintes
limites:
º de 1 a 100 salários mínimos, quando se tratar de infração cuja pena privativa de Liberdade, no
grau máximo, não for superior a 4 anos;
º de 10 a 200 salários mínimos, quando o máximo da pena privativa de Liberdade cominada for
superior a 4 anos.
se assim recomendar a situação econômica do preço, o parágrafo primeiro prevê que a fiança
poderá ser:
º dispensada, na forma do artigo 350 deste código;
º reduzida até o máximo de 2/3;
º aumentada em até 1.000 vezes.
Para determinar o valor da fiança, a autoridade terá em consideração a natureza da infração, as
condições pessoais de Fortuna e vida pregressa do acusado, as circunstâncias indicativas de sua
periculosidade, bem como a importância provável das custas do processo, até final julgamento,
conforme previsão do artigo 326. O dinheiro ou objetos dados como fiança servirão ao
pagamento das custas, da indenização do dano, da prestação pecuniária e da multa, se o réu for
condenado, nos termos do artigo 336.
Quando se diz que o delito é inafiançável, esqueça a possibilidade de pagar e ser solto, porque
não vai ter. Mas, aí o juiz terá que ser convencido que os requisitos da prisão preventiva estão
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ausentes. A Liberdade provisória sem fiança é um trabalho argumentativo, pois terá que provar
que os requisitos da prisão preventiva estão ausentes. Na Liberdade provisória com fiança basta
pagar o que foi arbitrado.
A fiança tomada por termo obrigará o afiançado a comparecer perante a autoridade, todas as
vezes que for intimado para atos do inquérito e da instrução criminal e para o julgamento. Quando
o réu não comparecer, a fiança será havida como quebrada, nos termos do artigo 327 do CPP.
O réu afiançado não poderá, sob pena de quebramento da fiança, mudar de residência, sem
prévia permissão da autoridade processante, ou ausentar-se por mais de 8 (oito) dias de sua
residência, sem comunicar àquela autoridade o lugar onde será encontrado, nos termos do artigo
328 do CPP.
O artigo 330 prevê que a fiança, que será sempre definitiva, consistirá em depósito de dinheiro,
pedras, objetos ou metais preciosos, títulos da dívida pública, federal, estadual ou municipal, ou
em hipoteca inscrita em primeiro lugar. A avaliação de imóvel, ou de pedras, objetos ou metais
preciosos será feita imediatamente por perito nomeado pela autoridade, nos termos do parágrafo
primeiro. O parágrafo segundo prevê que quando a fiança consistir em caução de títulos da dívida
pública, o valor será determinado pela sua cotação em Bolsa, e, sendo nominativos, exigir-se-á
prova de que se acham livres de ônus.
O valor em que consistir a fiança será recolhido à repartição arrecadadora federal ou estadual, ou
entregue ao depositário público, juntando-se aos autos os respectivos conhecimentos, nos termos
do artigo 331. O parágrafo único prevê que nos lugares em que o depósito não se puder fazer de
pronto, o valor será entregue ao escrivão ou pessoa abonada, a critério da autoridade, e dentro
de três dias dar-se-á ao valor o destino que Ihe assina este artigo, o que tudo constará do termo
de fiança.
Em caso de prisão em flagrante, será competente para conceder a fiança a autoridade que
presidir ao respectivo auto, e, em caso de prisão por mandado, o juiz que o houver expedido, ou
a autoridade judiciária ou policial a quem tiver sido requisitada a prisão, nos termos do artigo 332.
Depois de prestada a fiança, que será concedida independentemente de audiência do Ministério
Público, este terá vista do processo a fim de requerer o que julgar conveniente., nos termos do
artigo 333. Existe a possibilidade de reforço da fiança, por exemplo, de mudança de classificação
da conduta necessidade de se reforçar a fiança, ou de fixar erroneamente a fiança para um delito
que não cabe fiança pode fixar em valor insuficiente.
Se o indivíduo for absolvido ou se tiver uma sentença instintiva de punibilidade o valor da fiança
volta. O juiz ao tempo em que absolve determina a expedição de alvará para um indivíduo
levantar o dinheiro, corrigido monetariamente.
Nos termos do artigo 340, será exigido o reforço da fiança:
º quando a autoridade tomar, por engano, fiança insuficiente;
º quando houver depreciação material ou perecimento dos bens hipotecados ou caucionados, ou
depreciação dos metais ou pedras preciosas;
º quando for inovada a classificação do delito.
Nos termos do parágrafo único, a fiança ficará sem efeito e o réu será recolhido à prisão, quando,
na conformidade deste artigo, não for reforçada.
Julgar-se-á quebrada a fiança quando o acusado, nos termos do artigo 341:
º regularmente intimado para o ato do processo, deixar de comparecer, sem motivo justo;
º deliberadamente praticar ato de obstrução ao andamento do processo;
º descumprir medida cautelar imposta cumulativamente com a fiança;
º resistir injustificadamente a ordem judicial;
º praticar nova infração penal dolosa.
Se vier a ser reformado o julgamento em que declarou quebrada a fiança, esta subsistirá em
todos os seus efeitos, conforme previsão do artigo 342.
PROFESSOR: LUIZ CARLOS DISCIPLINA: PROCESSO PENAL