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Provedor de Justiça em Moçambique: Funções e Competências

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UNIVERSIDADE EDUARDO MONDLANE

Faculdade de Direito
Direitos Fundamentais

Discentes:
HUO, Nelson
MACOVELA, Plinio
MOIO, Tafadwza Docentes
NAIENE, Charmila Prof.Dr. Antonio
NHAVENE, Héldio Chipanga
PAULO, Joaquim Dra. Zaida Maria
PAULO, Rahema Sultanegy
PINTO, Carvalho Dr. Cuamba
ROMEU, Ana
RAÚL, Selma
SIQUE, Míchel
WADE, José
ZUNDI, Nossipho

Maputo
2023
INTRODUÇÃO

Um dos órgãos mais recentes em Moçambique, é sem dúvida, a figura do provedor de justiça
que surge no contexto do Estado de Direito Democrático. Pretende-se analisar a figura de
provedor de justiça, o seu papel, as suas competências e funções. Portanto, serão tomadas
como bases a constituição da República, texto de 2018, a lei n º 7/2006 de 16 de Agosto.
Origem/Surgimento do Provedor da Justiça

A figura do Provedor da Justiça, que tem a principal função de defender os direitos e


interesses legítimos do cidadão1, remonta a figura do Ombudsman que nasceu na Suécia em
1890 e com o passar do tempo foi se espalhando pelo mundo inteiro recebendo várias
designações, tendo em Espanha recebido o nome de «Defensor del Pueblo» ; em França
«Médiateur de la Republique» ; em Itália « Difensore Civico» ; em Inglaterra «

«Fiscal General». Esta designação também chegou à Israel, aos Paises Baixos, à Áustria, à
Zâmbia, à Índia, à Austrália, à Hong Kong ou ao Papua-Nova Guiné.2 Assim corresponde a
figura do Provedor da Justiça,

O órgão do Estado de titularidade singular, eleito pela Assembleia da


República, por maioria de dois terços dos votos, que tem como função
a garantia dos direitos, liberdades dos cidadãos, a defesa da legalidade
e da justiça dos cidadãos na atuação da Administração Publica.
(GOUVEIA, 2015, P.577).3

O surgimento desta figura em 1809 na Suécia sinalizou o término do regime absolutista,


dando lugar para o florescimento do constitucionalismo guiado pelo princípio da separação
de poderes e o princípio da legalidade.

1
MIRANDA, Jorge(1993), Manual de Direito Constitucional: Direitos Fundamentais, Tomo IV, 2ª Edição,
Coimbra Editora, Lisboa, p.254.
2
NAIFE, Helder Manuel. O Provedor de Justiça em Moçambique, In Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862,
Teresa, ano 27, n. 6839, 23 mar.2022. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/96908. Acesso em 21 set. 2023.
3
MIRANDA, Jorge(2000). Direitos Fundamentais. [s.n] 3ª ed. Coimbra Editora. [s.n]. P. 282
O princípio da legalidade do Estado de Direito é de extrema relevância visto que orienta a
existência, a organização e o funcionamento dos órgãos e instituições do Estado e de outras
pessoas colectivas do Direito Público, sem o qual, na perspectiva formal, a premissa do
Estado de Direito seria uma mera inutilidade.

Quer isto significar que, cada órgão com existência legal estrutura-se e funciona dentro de um
parâmetro pré-estabelecido por normas-comando, que informam os demais órgãos a não
exercerem simultaneamente as atribuições e competências incumbidas expressamente a um
determinado órgão “incompatibilidades”.

Conceito de Provedor de Justiça

Segundo o Professor Jorge Bacelar Gouveia, o Provedor de Justiça tem como


características fundamentais, nomeadamente, o facto de ser um órgão do estado, o facto de
ser um órgão constitucional e o facto de ser um órgão independente.4 Não obstante, a
Constituição da Republica de 2004, no seu artigo 255, estabelece que “o provedor de justiça
é um órgão que tem como função a garantia dos direitos dos cidadãos, a defesa da
legalidade e da justiça na actuação da administração pública.”5

Contextualização Histórica e analítica do surgimento do Provedor da Justiça no


Ordenamento Jurídico moçambicano

A Constituição da Republica de Moçambique de 2004, constitui a última revisão


constitucional ocorrida em Moçambique. Fora aprovada no dia 16 de Novembro de 2004.
Não se verifica com esta nova Constituição uma ruptura com o regime da CRM de 1990, mas
sim, disposições que procuram reforçar e solidificar o regime de Estado de Direito e
democrático trazido em 1990. A figura ou o órgão Provedor de Justiça não surgiu logo na 1ª
República (CRPM/75) e nem na transição Constitucional (CRM/90). Esta figura tomou vida
no nosso ordenamento jurídico com a consolidação constitucional na CRM de 2004 em que
houve um aprofundamento no texto constitucional, organizou-se todo o texto constitucional
numa nova sistemática, aprofundou-se os princípios constitucionais e aumentou se o leque de
direitos fundamentais. Desta feita integrou-se um novo órgão designado Provedor da Justiça
no Título XII: Administração Publica, polícia e provedor da Justiça, Capítulo III nos

4
GOUVEIA, Jorge Bacelar(2015), Direito Constitucional de Moçambique, 1 ª edição, Lisboa/Maputo, p. 577-
5778.
5
CF., artigo 255 da CRM de 2004, BR nº 51, Série I, 22 de Dezembro de 2004.
Artigos 255, 257, 258, 259, e 260 da CRM de 2004.6 Mais tarde foi disposta a LJP (Lei do
Provedor da Justiça) com a Lei n. 7/2006 de 16 de Agosto7 onde conseguimos ver o seu
estatuto, procedimentos, organização e funções, num diploma com 39 artigos, repartidos,
sequencialmente, em: Capitulo I– Disposições Gerais; Capitulo II– Estatuto; Capitulo III–
Competências; Capitulo IV– Processo; e Capitulo V– Gabinete do Provedor da Justiça.

Funções do Provedor da Justiça

A Constituição da Republica, concebe o Provedor da Justiça como órgão cuja função é de


garantir os direitos, liberdades dos cidadãos, bem como a função de garantir a defesa da
legalidade e da justiça na actuação da administração pública.8

Âmbito da actuação do Provedor de Justiça

De acordo com o artigo 2 da LPJ de 2006 estabelece que “as funções de justiça exercem-se
no âmbito da actividade da administração pública a nível central, provincial, distrital e
local, bem como municipal, das forças de defesa e segurança, institutos, das empresas
públicas e concessionárias de serviços públicos, das sociedades de exploração de bens e de
domínio público”.

Competências do Provedor da Justiça

No contexto jurídico moçambicano, conforme estabelecido pela constituição, o Provedor da


Justiça no exercício das suas funções goza da independência, imparcialidade, estando apenas
alienado a constituição e as leis que vinculam o Estado Moçambicano.

Objecto do legislador ordinário pela lei n. 7/2006 de 16 de Agosto e com assento


constitucional nos artigos 255 a 260, ambos da CRM 2004, o provedor de justiça em
Moçambique possui as seguintes competências:

1. Endereçar recomendações aos órgãos competentes, com vista a correcção dos actos
ilegais ou injustos dos poderes públicos ou melhoria dos procedimentos;

6
Cfr. Os artigos acima da CRM de 2004, BR nº 51, série I, 22 de Dezembro de 2004.
7
Cfr. Lei n 7/2006 de 16 de Agosto (LPJ).
8
Cfr., artigo 255 da CRM de 2004, BR nº 51, série I, 22 de Dezembro de 2004 e art.1 da Lei n 7/ 2006 de 16 de
Agosto (LPJ)
2. Assinalar as deficiências da lei, emitindo recomendações para alteração ou revogação,
assim como sugestões para elaboração de uma nova constituição, ao Presidente da
República, Assembleia da República e ao Governo;
3. Emitir pareceres a pedido da Assembleia da República, sobre quaisquer matérias
relacionada com a sua actividade;
4. Requerer ao Conselho Constitucional a declaração de inconstitucionalidade ou
ilegalidade de normas, ao abrigo da alínea f) do nº 2 do artigo 255 da CRM;
5. Promover a divulgação da legislação relativa aos Direitos, Deveres, liberdades
fundamentais dos cidadãos, bem como, intervir, nos termos da lei aplicável, na tutela
dos interesses difusos, quando estiver em causa as autoridades públicas;

Valor das recomendações do Provedor de justiça

O regime adoptado pelo legislador moçambicano em matérias das competências do Provedor


de Justiça exclui a obrigatoriedade de acatamento de recomendações deste órgão, resultando
por conseguinte, nas recomendações emitidas pelo Provedor de justiça não imporem
vinculações, tratando-se de meras recomendações de cumprimento facultativo, distintamente
com o que ocorre com as decisões judiciais.

PROCEDIMENTOS

De acordo com o articulado da lei nº7/2006, de 16 de Agosto, o processo da submissão da


queixa ao provedor de justiça, observa as seguintes fases:

I. Iniciativa: na qual advém do cidadão queixoso ou do Provedor de justiça;


II. Apreciação preliminar: traduz se na avaliação das queixas que devem prosseguir ou
que devem logo ser indeferidas;
III. A instrução: fase em que os serviços do Provedor de justiça pedem os elementos que
consideram necessários para a decisão, estendendo se até a outros procedimentos
como visitas inspeções ou perquirições, havendo sempre o dever de cooperação por
parte de todas entidades públicas, militares e civis;
IV. Audiência Previa: antes de omitir a sua recomendação, o provedor de justiça ouve o
ponto de vista de entidade objecto da queixa;
V. Decisão: se houver motivo, o Provedor de justiça formula uma recomendação no
sentido de ser evitada ou reparada a injustiça ou a ilegalidade. Mas também, o
procedimento da queixa pode ter o seu termino com o arquivamento, ou pelo
encaminhamento para mecanismos da tutela apropriado, ou por uma mera advertência
nos casos de pouca gravidade;
No decurso do procedimento de queixa, estabelece-se um dever geral de colaboração
com o Provedor de justiça, como ficou evidenciado pelo artigo 259 da CRM
conjugado com o artigo 26 da lei nº 7/2006, de 16 de Agosto. No caso de se verificar
o contrário, “devendo o não acatamento da recomendação ser fundamentado, no qual
resultara em duas respostas por parte do Provedor de justiça”. (NAIFE, 2022, p.3)9

— dirigir se ao superior hierárquico do órgão visado, podendo chegar a própria Assembleia


da República.

— Ou, publicar o conteúdo da recomendação.

Procedimento relativo a informação do Provedor de Justiça

O Provedor de justiça presta uma informação anual sobre as suas actividades a Assembleia da
República, devendo deposita-la até dia 30 de marco de cada ano.

Quanto ao conteúdo, a informação anual do Provedor de justiça deve abordar ainda que for
numa sumária, o estado geral da aplicação do direito de petição, baseado nas seguintes
matérias (nº 3 do artigo 27 do Regimento da Assembleia da Republica).

 Aspectos específicos sobre petições, queixas e reclamações bem como


diligências e recomendações feitas;
 Organização interna e evolução da actividade do Provedor de justiça;
 Evolução das condições do acesso ao Direito de petições e reclamações ao
Provedor de justiça em todo o país;
 Perspectivas para melhor desenvolvimento das actividades do Provedor de
justiça;
 Formulação de propostas e recomendação relativas às matérias tratadas nas
petições, queixas e reclamações.

9
NAIFE, Helder Manuel (2022). O Provedor de justiça em Moçambique. Maputo. P.3
CONCLUSÃO

Existem na Republica de Moçambique diversos órgãos com funções e atribuições específicas.


Presentemente, o Provedor de justiça é um órgão do estado ainda em processo de
consolidação. O provedor de justiça concretiza o seu dever constitucional de garantir os
Direitos e Deveres dos cidadãos, a defesa da legalidade de justiça na actuação da
administração pública, através da recessão de queixas, obtenções dos cidadãos quando estes
se sentem lesados por acção ou omissão da administração pública. Ademais, ajuda a construir
uma administração pública assertiva, sensível aos problemas dos cidadãos, Contribui para
uma actuação mais eficaz e eficiente na prossecução do interesse público e reforça o princípio
de separação de poderes, quando intervê na fiscalização sucessiva da constitucionalidade das
leis e dos atos normativos do governo, servindo assim de um contra peso.

Em suma, o provedor de justiça previne a violação, repara os direito dos cidadãos violados
pela administração pública e como também fiscaliza-a.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

OBRAS DE REFERÊNCIA

 GOUVEIA, Jorge Bacelar (2015), Direito Constitucional de Moçambique, 1ª Edição,


Lisboa/Maputo.
 MIRANDA, Jorge (1993), Manual de Direito Constitucional: Direitos
Fundamentais, Tomo IV 2 ª Edição, Coimbra Editora, Lisboa.
 MACIE, Albano, Direito do Processo Parlamentar Moçambicano, páginas 131, 132,
editora escolar.
 MACIE, Albano, lições de Direito Administrativo, paginas 314-315

LEGISLAÇÃO

 CRM, 1ª Edição, Colecção Legislação 2, Plural Editores, 2004, Maputo.


 Lei n. 7/2006 de 16 de Agosto: Lei do Provedor de Justiça.

PUBLICAÇÕES PERÍODICAS

 NAIFE, Helder Manuel. O Provedor de justiça em Moçambique, In Revista Jus


Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 27, n. 6839, 23 mar.2022.

SITES DE INTERNET

 https/jus.com.br/artigos/96908. Acesso em 21 set. 2023.

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